Você está na página 1de 26

UNIVERSIDADE FEDERAL RUAL DO RIO DE JANEIRO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E SOCIEDADE

OS “RURAIS” E AS “NOVAS” RURALIDADES


problematizando questões1

Cleyton H. Gerhardt2

Grupo de trabalho: 21
Ruralidade contemporânea: desafios e perspectivas

Resumo:
Nas ciência sociais, as interpretações/ações sobre um “rural” têm sido marcadas pela
fecundidade de explicações, descrições e intervenções. Contudo, tais delimitações
cristalizam, também modos de pensamento/agir; e é aqui que um exame crítico sobre
“novas ruralidades” pode ajudar na desnaturalização de visões de mundo já consolidadas.
Isto tem relação com um movimento global de ressignificação do que se entende por
“rural”, isto é, de reinvenção de representações e práticas sociais até então ou socialmente
ausentes ou reconhecidamente não-hegemônicas. Porém, o debate gerado não pode deixar
de lado premissas aceitas a priori. Mesmo invertendo-se sinais valorativos (o que era
positivado passa a ser negativado, o atrasado vira moderno) ou, ainda, deslocando-se o foco
analítico (para a agricultura, desenvolvimento rural, multifuncionalidade), o que é visto
como “novas ruralidades” refere-se a um espaço de coerências interpretativas
historicamente herdadas. Afinal, não é preciso qualificar o que é “novo”? Portanto, tais
ressignificações não se darão em um vazio histórico-ideológico, mas sim a partir de
interesses e posições assimetricamente distribuídas. Problematizar as implicações mais
salientes deste processo é a pretensão central deste trabalho.

1
Este texto resulta do trabalho final realizado para a disciplina “Rural e Ruralidades na Sociedade
Contemporânea”, sob responsabilidade da Prof. Maria José Carneiro e oferecida dentro do Curso de Pós-
Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade – CPDA / UFRRJ. Fevereiro de 2004.
2
Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento
Rural – PGDR / UFRGS e Doutorando do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e
Sociedade – CPDA / UFRRJ. E-mail: Cleyton@vortex.ufrgs.br. Telefone: (21) 22526643. Rua Joaquim
Murtinho, 786/302 – Santa Tereza, Rio de Janeiro/RJ.
UNIVERSIDADE FEDERAL RUAL DO RIO DE JANEIRO
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO, AGRICULTURA E SOCIEDADE
Área Sociedade e Agricultura

OS “RURAIS” E AS “NOVAS” RURALIDADES


problematizando questões3

Cleyton H. Gerhardt4

No princípio, havia a comunidade. Mas tarde, ela foi


substituída pela sociedade. É essa transição que interessa
sobremaneira ao pensamento europeu, tanto moral e
emocionalmente quanto intelectualmente. Isso teria sido uma
bênção, uma libertação ou uma catástrofe?

Ernest Gellner, 1997.

Pretensões e pressupostos
Parece ser já lugar comum, nas instâncias de discussão operadas dentro das áreas de
produção de conhecimentos da sociologia rural, se dizer que o uso da categoria “rural”
(bem como de suas derivações, tais como “campo”, “mundo rural”, “populações rurais” ou,
ainda, “ruralidade”) tem sido, ao longo do tempo, uma questão sempre controversa,
delicada e que traz em si um certo desconforto para aqueles que, fazendo parte desta
disciplina, dela se utilizam para explicar ou interpretar processos sociais. Como se sabe, por
trás das areias movediças que envolvem a problemática invocada pela delimitação de
“questões rurais” ou, ainda, que dizem respeito ao tipo de uso que porventura se possa fazer
da categoria "rural" – uso este, muitas vezes, feito de maneira indiscriminada e sem
nenhum exercício de relativização ou, no mínimo, de explicitação do alcance heurístico
pretendido - encontra-se o próprio surgimento e desenvolvimento da sociologia rural em
meio às intensas transformações sociais, econômicas e culturais processadas nestes últimos
150 anos5. Esta última, embora tenha se consolidado enquanto área do conhecimento

3
Este texto resulta do trabalho final realizado para a disciplina “Rural e Ruralidades na Sociedade
Contemporânea”, sob responsabilidade da Prof. Maria José Carneiro e oferecida dentro do Curso de Pós-
Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade – CPDA / UFRRJ. Fevereiro de 2004.
4
Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento
Rural – PGDR / UFRGS e Doutorando do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e
Sociedade – CPDA / UFRRJ. E-mail: Cleyton@vortex.ufrgs.br. Telefone: (21) 22457925. Rua Andrade
Pertence, 50/502 – Rio de Janeiro/RJ.
5
Já em 1968, um dos principais e mais renomados sociólogos rurais latino-americanos da época reconhecia
que “a sociologia rural, ainda que seja parte de uma ciência, não constitui uma disciplina meramente
destinada a analisar fenômenos sociais específicos que, em diferentes momentos históricos,
terminaram por ser, de uma forma ou de outra, associados a uma suposta peculiaridade
“rural” (a uma "ruralidade") das sociedades contemporâneas, viu-se, durante toda a sua
existência, ligada a uma certa interferência normativa e instrumental que, em síntese, visava
intervir explicitamente sobre aquilo que seus integrantes julgavam ser o “universo rural”.
Neste sentido, nunca é demais lembrar que este tipo de postura resultou, não poucas vezes,
em conseqüências extremamente perversas para certos grupos sociais. Como lembrava José
de Sousa em uma polêmica conferência sua realizada em 2000, no Rio de Janeiro, durante o
X Congresso Internacional de Sociologia Rural, esta última, “a pretexto de se tornar uma
força auxiliar da modernização e da remoção das resistências sociais à mudança, contribuiu
abertamente para a violação de modos de vida e visões de mundo e de culturas tradicionais
em que a pobreza, ao menos, revestia-se de padrões sociais de dignidade toleráveis”
(Martins, 2000, p.8).
Embora se concorde que este tipo de abordagem encontra-se já bastante relativizado
no seio desta disciplina, não se pode negar que ela permanece viva na prática de muitos
sociólogos rurais. E, com base nestas constatações, parte-se do pressuposto de que uma
análise que tome como objeto de reflexão os processos de construção de representações e
práticas sociais acerca do “rural” no seio das ciências sociais e, particularmente, levadas a
cabo através da sociologia rural pode contribuir no sentido de explicitar alguns elementos
que estariam subjacentes a certos discursos intelectualizados que, dependendo da época e
do contexto, retrataram (e continuam, de certo modo, a retratar) realidades, populações e
processos qualificados como “rurais".
Neste sentido, um leitor mais afoito poderia sair, já de cara, indagando: existiriam,
concretamente, diferenças entre estes dois "mundos"? Tais dessemelhanças seriam "reais"
e, portanto, poderiam ser observadas, descritas e quantificadas? Seriam os dados coletados
fatos objetivos? Visando abordar tais questões a partir de um ponto de vista ao qual
Guivant (199??) chamou de “um olhar construtivista fraco”6, entende-se, neste trabalho,

acadêmica, mas ao contrário nasceu e se desenvolveu sob a pressão das necessidades e problemas suscitados
pelo desenvolvimento da própria sociedade” (Solari, 1968, p.4). Para uma análise críticas sobre as
“contradições” existentes em muitas das proposições deste autor, ver Martins (1981).
6
Esta expressão foi extraída de trabalho original realizado por Guivant (2002) e será aqui adotada no sentido
de tentar equilibrar o debate entre formulações mais “realistas” (“substancialistas”) e mais “idealistas”
(“relativistas”) sobre questões e problemas sociais de um modo geral.
que a despeito de se poder afirmar que sim, tais diferenças seriam, de fato, eventos e fatos
empiricamente observáveis, ocorre que, em boa parte dos casos, não se percebe, não se leva
em conta ou, ainda, não se coloca em questão o fato de que estas mesmas diferenças não
surgiram do nada, mas precisaram ser socialmente construídas. Ora, se se levar em conta a
afirmação de De Santis (2004) de que, “para cada palavra que fica, muitas outras
desaparecem”, poder-se-ia dizer, da mesma forma, que para cada aspecto tido como
delimitador entre um “rural” e um “urbano”7, muitos outros foram esquecidos ou, o que é
mais provável, nem sequer puderam ser imaginados, pensados e vistos como elementos
diferenciadores. Além disso, para cada elemento que, eventualmente, algum cientista social
pudesse apontar como constituindo uma diferença essencial entre “rural” e “urbano”, seria
possível, da mesma forma, para um outro pesquisador, relativizar tal diferença
apresentando muitas outras particularidades e similitudes compartilhadas por ambas as
categorias.
Com base nestas constatações, este ensaio parte também da premissa correlata de
que a dualidade construída a partir da distinção entre algo (sendo que este algo pode vir a
ser pessoas, grupos sociais, espaços físicos, tipos de atividades, modos de vida, processos,
símbolos e, até mesmo, representações sociais) que deveria ser classificado como “rural”
em oposição aquilo que deveria ser visto como “urbano” possui um caráter ao mesmo
tempo analítico e operatório (Mormont, 1989 e Rémy, 1989) 8. Neste sentido, partilha-se das
considerações, feitas recentemente por Carneiro (2005) a partir de um diálogo com estes
últimos dois antropólogos, sobre o fato de que estas categorias:

“são termos que servem tanto aos pesquisadores e à academia, como definidores de objeto de estudo
e especialidades disciplinares, quanto às agências elaboradoras de estatísticas, que recortam a

7
Optou-se por não adotar, no texto, o artigo “o” quando se for referir a estas duas categorias, e, sim, o artigo
indefinido “um” ou o artigo “o” no seu plural (ou seja, “os”). Isto, porque aquele tende a deixar implícito -
isto é, tende a sugerir ao imaginário do leitor - a idéia de que seria possível se definir, de uma vez por todas,
“O rural” e “O urbano”. Já quando se uso os outros dois termos, estes remetem ou a idéia de que haveria, no
mínimo, uma certa indefinição acerca do sentido a ser conferido ou a idéia de pluralidade de significados
sobre o par “rural-urbano”.
8
Sobre esta peculiaridade, Remy é taxativo ao afirmar: “la ville et la champagne, le rural et l’urbain, sont
pour nous d’abord des catégories operatoirès, c’est-à-dire des catégories régissant dês identifications et des
revendications das la vie quotidienne. Des gens se mobilisent et constituent des enjeux autour d’une certaine
image du rural (...). Pour passer de ces catégories opératoires à des catégories d’analyse, la question première
n’est pás de dégager la spécificité du rural, encore moins de construire une ‘essence du rural’ qui révélerait lê
rural ‘authentique’. Il faut pouvoir observer ce fait social à partir de questions pemrettant une interprétacion
sociologique” (Remy, 1989, p.265).
realidade a partir de uma apreensão de dados sustentada no princípio da dualidade, como também
serve ao senso-comum. Dessa ampla possibilidade de emprego resulta a confusão de significados e
de estatuto de categorias que ora designam um tipo de espaço, tal como aparecem no discurso do
senso-comum, ora qualificam as relações sociais no interior desses espaços” (Carneiro, 2005, p.9).

O etnocentrismo das “urbanidades”


Via-de-regra, nas áreas da economia rural e da sociologia rural, trabalhos comparativos ou
classificatórios e que utilizam ou que tendem a adotar variáveis ditas objetivas – sendo estas, normalmente,
associadas a idéia de dados quantificáveis e de viabilidade quanto a sua verificação estatística - foram e, de
certo modo, continuam sendo levadas a cabo tendo como ponto de partida, como centro referencial, como
padrão comparativo, algo que, teoricamente, estaria “fora” de um “rural”. Neste caso, a descrição deste último
acaba sendo feita segundo elementos que poderiam ser encontrados no seu par complementar, ou seja, em um
“urbano”. E, apesar de tal característica não ser novidade, ela se faz, ainda hoje, muito presente. Um exemplo
emblemático disso pode ser ilustrado através de afirmações contidas em um livro, lançado no final da década
de 1990, já bastante conhecido e divulgado nos meios acadêmicos e que, por sua vez, tem servido, para
muitos, como referência obrigatória no estudo do “novo rural brasileiro”. Neste estudo, lê-se:

está cada vez mais difícil delimitar o que é rural e o que é urbano. Mas o tema que aparentemente
poderia ser relevante, não o é: a diferença entre o rural e o urbano é cada vez menos importante.
Pode-se dizer que o rural hoje só pode ser entendido como um continnum do urbano, do ponto de
vista espacial; e do ponto de vista da organização da atividade econômica, as cidades não podem
mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, nem os campos com a agricultura e a
pecuária. Em poucas palavras, pode-se dizer que o meio rural brasileiro se urbanizou nas duas
últimas décadas, como resultado do processo de industrialização da agricultura, de um lado, e, do
outro, do transbordamento do mundo urbano naquele espaço que tradicionalmente era definido como
rural (Graziano da Silva, 1999, p.1).

Em primeiro lugar, nota-se que o autor visa reeditar a aposta na idéia, já clássica, de um continnum,
ou seja, de que haveria uma espécie de gradação separando dois mundos distintos que, todavia, existiriam
apenas como “tipos ideais”9. O que se quer enfatizar, porém, neste caso, não seria tanto esta reapropriação do
passado teórico-metodológico subjacente a história da constituição da sociologia rural enquanto disciplina, e,
sim, o fato de que esta pequena passagem explicita bem o peso de um tipo de visão que, como previne
Sarraceno (1996, p.ver página), revela “um vício conceitual na identificação do rural que diferencia o espaço
de maneira não neutra”. Por meio de constatações como as acima referidas, continua-se a reproduzir, ainda
hoje, tanto dentro da “Academia”, mas, especialmente, no seio dos órgãos institucionais encarregados de
tratar temais “rurais”, um tipo de olhar que vê as “ruralidades” como uma espécie de Frankenstein, ou melhor,

9
Como é sabido nos círculos de debates envolvendo a disciplina de sociologia rural, uma tal proposição
surgiu como alternativa (“raptada”, como disse Martins, “ideologicamente”) a ser contraposta a uma outra
idéia, igualmente antiga, e que colocava ênfase na polarização entre “rural” e “urbano” (Sorokin, Zimmerman
e Galpin, 1981). Contudo, como atestou o próprio Martins (1981, p.28), ambas as perspectivas continuaram a
adotar como referência a oposição “rural-urbano”, ou seja, ambas mantiveram entre si a relação de
necessidade ditada pelas características diferenciais que “retém, de qualquer maneira, a polarização
rural/urbano”. Sobre isto, ver também Carneiro (2003).
como uma “anormalidade” a ser ultrapassada através de uma suposta e redentora “urbanização” ou
“industrialização do campo”. Contudo, como já havia demonstrado Martins (1981, p.34), faz mais de 20 anos,
“já vimos que a mudança nesses termos é mudança no sentido da superação da polarização rural-urbano
através da urbanização do rural”. Com isso, a identificação recorrente de um “mundo rural” em permanente
crise continua a ser percebida e interpretada “a partir da expansão da dominação do urbano sobre o rural, na
medida que o conhecimento científico está fundado no mundo urbano e na expansão das cidades” (Martins,
1981, p.25).
Obviamente, não se pretende, de forma alguma, negar as inúmeras contribuições que o “Projeto
Rurbano”, do qual o autor é um dos principais idealizadores, pode trazer para os estudos sobre as
“ruralidades” em geral, visto que este se configura, sem dúvida, uma das mais amplas e audaciosas tentativas
de caracterizar um “rural brasileiro” e suas transformações ao longo dos últimos 25 anos (Graziano da Silva,
1999). O que, no entanto, se está querendo chamar a atenção, refere-se ao perigo, subjacente a este tipo de
abordagem, de se reproduzir um certo evolucionismo (ou, no mínimo, um determinismo) simplificador da
realidade social (como quando o autor afirma que houve um “transbordamento do mundo urbano naquele
espaço”, ou seja, em um “rural”) e, também, a armadilha de se fazer um tipo de sociologia que serve como
expressão e instrumento de dominação de idéias e representações hegemonicamente disseminadas e
naturalizadas no imaginário social. Visto que nenhum processo de dominação é total e unidirecional, e mesmo
porque, como já foi dito anteriormente, um “urbano” só pode existir como evidência concreta por meio da
referência ao seu par antagônico (sendo que, como demonstrou Martins, 1981, esta dicotomia não desaparece
totalmente no caso da idéia de continuun) se se aceitasse, sem discussão, o fato de que um tal
“transbordamento” teria, de fato, ocorrido, seria perfeitamente lícito imaginar, em contrapartida, que um
movimento contrário também poderia estar ocorrendo. O que poderia, quem sabe, seduzir um outro
economista ou sociólogo a tentar buscar elementos quantificáveis que permitissem verificar, por exemplo, o
“grau de transbordamento do rural sobre o mundo urbano”.
Além do mais, ao refletir sobre pontos de vista como estes, vê-se como são
emblemáticos uma série de trabalhos (diga-se de passagem, extremamente minuciosos e
precisos do ponto de vista metodológico) relacionados à delimitação estatística de espaços
que deveriam ser vistos como “rurais” e outros como “urbanos” (repare-se, neste caso, que
está implícito a idéia de um “rural” associado a um lugar, a um espaço físico). Tais estudos,
mesmo quando estão tentando, justamente, relativizar ambas as categorias através da
eleição de outros critérios diferenciadores, acabam criando uma espécie de gradação. Isto
fica evidente, por exemplo, quando se propõe classificações ampliadas que, na tentativa de
diminuir o caráter reducionista contido na dualidade “rural-urbano”, segmentam o espaço
físico em um maior número de categorias (por exemplo: através das propostas de separação
dos espaços físicos em “rural profundo”, “rural relativamente urbano”, “áreas urbanas-
urbanizadas” “áreas urbanas-isoladas”). Ora, se, como afirma Veiga (2002, p.63), é
verdade que o “Brasil é menos urbano do que se calcula”, pois a “metodologia oficial de
cálculo do ‘grau de urbanização’ no País está obsoleta”, por outro lado, uma tal afirmação
deixa de considerar em relação a quem, a que idéias, a que representações e a que novos
parâmetros, tidos como “mais avançados”, o Brasil é menos urbano. Enfim, alguém poderia
perguntar: a quais referências, a quais agentes e interlocutores, a que tipo de realidades e a
que pressupostos se estará aludindo ao se questionar as metodologias oficiais de cálculo
sobre o “grau de urbanização” do país? Somos “obsoletos” em relação a que outras formas
de aferição?
De outra parte, no afã de ultrapassar certas visões já socialmente acessíveis e
partilhadas sobre a categoria “rural”, muitos autores buscaram construir interpretações e
caracterizações (através de intermináveis tipologias e tipificações) que, dos seus pontos de
vista, seriam pretensamente mais acéticas, já que, teoricamente, tenderiam a estar menos
contaminadas por representações originadas a partir do senso-comum. Porém, poucas
destas descrições reconhecem, em suas metodologias, que, ao propor tais abordagens,
estariam também contribuindo para a criação de interpretações etnocentradas, reificando
assim representações – que, repare-se, passam a adquirir o status de “científicas” - sobre um
“rural” que, embora agora passível de delimitação, permanece essencializado a partir da
eleição de critérios pretensamente objetivos e distintivos10. Como se vê, cai-se, neste caso,
na mesma armadilha normativa que caracterizou a sociologia rural no passado, com a
agravante de se relegar a uma espécie de discurso de segunda classe as inumeráveis e

10
Como ocorre no caso das inúmeras tentativas de definição e delimitação de um “rural” feitas através da
eleição de uma série de características que estariam ausentes, se comparadas ao seu pólo oposto - o “universo
urbano” -, tais como, por exemplo: uma menor densidade demográfica (associado a idéia de menos população
e a locais quase desabitados); uma menor heterogeneidade dos seus integrantes (o que significa dizer que
seriam realidades com baixa complexidade e menor diferenciação social); a existência de laços mais fortes de
solidariedade baseados em relações diádicas, de interconhecimento e em mecanismos de reciprocidade; uma
menor mobilidade social (afinal, neste caso, diferentemente dos “meios urbanos”, a grande maioria das
pessoas seriam “agricultores” ou, no máximo, agentes que dependeriam grandemente do trabalho destes para
exercer suas atividades); uma menor possibilidade de acessar e produzir inovações tecnológicas (o que se
evidencia em certos qualificativos como atrasado, tradicional, rústico e não-moderno); uma menor
capacidade de responder a estas inovações (fazendo com que seus integrantes fossem considerados como
arredios e conservadores, etc.); uma maior dependência das características ambientais (dando uma idéia, ao
contrário dos “ambientes urbanos”, de que haveria, neste caso, a prevalência da natureza na formatação dos
comportamentos e atividades humanas); ou, anda, uma maior autonomia face à sociedade global (o que faria
com que houvesse a necessidade da existência de certos “mediadores” encarregados de fazer uma espécie de
ponte entre as estas duas realidades sociais).
inquantificáveis formas de perceber, de representar e de classificar que a diversidade social
inevitavelmente anda a construir sobre a categoria “rural”.
Evidentemente, é preciso reconhecer que esta característica, normalmente
circunscrita às metodologias baseadas em tipologias, não necessariamente designam algo
que seja peremptoriamente “negativo” ou indesejável, visto que é justamente com base nos
contrastes e nas oposições que se originam a partir da construção desta ampla diversidade
de compreensões sobre as transformações em curso que se torna possível gerar o debate
sobre a pertinência do uso de certas categorias e da construção de determinadas tipificações
para, no limite, buscar ultrapassá-las. O que acontece, todavia, é que, muitas das vezes,
consciente ou inconscientemente, a maioria dos analistas que propõem este tipo de
classificação tende a utilizar a noção de um “rural” absolutizado ao invés de percebê-lo
como uma categoria, ao mesmo tempo, relativa e relacional. Além do que, ao se fazer este
tipo de recorte, voltar-se-á a recorrer, mais uma vez, a uma operação que desconsidera
justamente a importância auto-explicativa que o próprio “objeto” que se pretende analisar
possui. Isto, porque o analista, ao eleger critérios distintivos a priori ou segundo pontos de
vista derivados somente das suas experiências de mundo, estará desconsiderando o fato de
que aqueles agentes tidos como mantendo algum vínculo com as representações “rurais”
estarão contribuindo, da mesma forma, para o processo de invenção da própria realidade
por eles vivida, bem como para a construção de diferentes e múltiplas identidades sociais
que, porventura, estes mesmos agentes e grupos sociais possam estar assumindo. O que fica
evidente e explicitado em frases aparentemente banais, mas que denunciam este caráter
referenciador, tais como: “eu vivo aqui no meio rural”, “lá no meio rural onde eu nasci as
coisas eram diferentes”, “esses ‘urbanóides’ e 'doutores' que vêm da cidade não entendem
as coisas daqui” (Gerhardt, 2000). O termo “rural”, em todos estes casos, passa a ser usado
e adotado como expressão cotidiana por populações que com ele se identificam no sentido
de dar-lhe sentidos próprios (portanto, que podem não ou não se confundir com as
representações construídas pelos especialistas técnico-científicos) e, mais do que isso, que
visam operacionalizar tais significados através de práticas concretas conduzidas e pensadas,
diariamente, nos ambientes específicos em que vivem segundo condições (culturais,
econômicas, ecológicas, etc.) efetivas disponíveis a estes mesmos agentes.
Sob o pretexto de conceitualizar, identificar e descrever, por exemplo, diferentes
"grupos de agricultores” através da caracterização dos seus diferentes "sistemas produtivos"
(metodologia esta bastante conhecida e utilizada por sociólogos e economistas rurais), o
que acontece é que estas tentativas de tipificação contribuem, efetivamente, para construir a
própria realidade social que, neste processo, deve passar (ou melhor, pretende-se que passe)
a ser aceita como “real”. Daí a vê-la como algo que existe em si mesmo e que independe
daqueles que assim a nomearam e a descreveram, é um passo. Ora, mesmo que uma tal
tipificação venha a ser feita com o máximo rigor metodológico ou, ainda, que utilize
abordagens ditas "participativas", nada impede que, posteriormente a sua realização,
diferentes usos e apropriações sejam feitas, por exemplo, pela Emater local, pela Secretaria
Estadual de Agricultura etc. (de fato, em muitos casos, este uso instrumental potencial
encontra-se explícito nos próprios objetivos e justificativas de tais estudos). E, como se
sabe, tais pesquisas, ao serem apropriadas pelos agentes melhor situados dentro das
inúmeras realidades locais – sendo estes tradicionalmente chamados de “mediadores” -
acabam sendo retrabalhadas, reformatadas e, para usar uma expressão adotada por Guivant
(1997), “hibridizadas” a tal ponto, que acabam sendo vistos como provenientes unicamente
dos processos de produção do próprio conhecimento técnico-científico. Em síntese, estes
conhecimentos híbridos, devido a legitimidade dos saberes adquiridos tanto pelos cientistas
(em um primeiro momento) como pelos técnicos (em um segundo momento) e, também,
devido as dificuldades de acesso a tais conhecimentos por parte de um número não
desprezível de populações e grupos sociais, acabam sendo totalmente desfigurados e
utilizados normalmente com um sentido de conhecimento que é visto como “superior”.
Quando um sociólogo, em um determinado trabalho acadêmico, identifica e
caracteriza o que seria, para ele, diferentes "grupos rurais", caso o leitor quiser seguir o
pensamento do autor, ele deve, ao menos, consentir, provisoriamente, na pertinência das
suas proposições. Contudo, é fácil perceber que, ao se questionar ou ao se colocar em
dúvida suas propostas classificatórias, os alicerces que sustentam tal argumentação tendem
a se desmoronar. De fato, quando se pensa que é possível colocar em questão, até mesmo, a
pertinência analítica do principal fundamento da sociologia rural – isto é, a dicotomia rural-
urbano -, vê-se que, mais uma vez, um autor como Pahl mostra-se decisivo:
O que está sendo disputado é a relevância sociológica destas diferenças materiais [do ‘rural’],
especialmente nas altamente complexas sociedades industriais. Se, de fato, não existem diferenças
sociológicas fundamentais entre urbano e rural, então aqueles a quem chamam a si mesmos de
sociólogos rurais podem bem duvidar das bases de sua identidade profissional (Pahl, 1966, p.299)1.

Sobre “novas”e “velhas ruralidades”:


No campo das disciplinas que mantém alguma relação com questões associadas as
“ruralidades” e, especialmente, no caso do que se conhece por "ciências agrárias", parece
recorrente o fato de que o conteúdo das proposições de muitos autores que desenvolvem
trabalhos com algum tipo de preocupação intelectual esteja relacionado à tentativa de
compreender, mais a fundo, de que modo estariam se dando às transformações por que
passam o que eles reconhecem, genericamente, por "mundo rural", "universo rural",
“atividades e populações rurais” ou, simplesmente, "meio rural”. Porém, é importante
atentar para o fato de que quando se propõe, por exemplo, a “hipótese de que o recorte
rural-urbano, em suas novas e modernas formas, permanece como um recorte pertinente
para analisar as diferenças espaciais e sociais das sociedades modernas, apontando não para
o fim do mundo rural, mas para a emergência de uma nova ruralidade” (Wanderley, 2000,
p.90), ao mesmo tempo em que se está aqui diante de uma postura analítica que pretende
dar conta de entender, ao menos em parte, as transformações por que passa este mesmo
“mundo rural”, vê-se, também, como proposição, como tese (afinal, a autora,
prudentemente, a assume como hipótese) a pretensão de legítima delimitar a “emergência
de uma nova ruralidade”.
Ocorre que, neste caso, poder-si-ia propor a seguinte questão: quais as possíveis
implicações que decorreriam do uso do adjetivo “novo” o qual, via de regra, muitos
analistas acoplam à expressão "ruralidades"? O que estaria por trás da opção por utilizar
este artifício? Sem ter a pretensão de responder completamente aos desdobramentos destas
indagações, se poderia, contudo, ponderar que, como o próprio termo indica, a expressão
“novo” parece sugerir, em princípio, o surgimento de uma coisa que antes não existia. O
que, por sua vez, leva a se pensar na idéia de que houve, em um determinado momento
histórico, um processo de ressignificação o qual permitiu a possibilidade de se reconhecer
algum tipo de ruptura, uma cisão irreversível e já completamente desacoplada do estado de
coisas que antes havia. Afinal, parece razoável cogitar que, para que surjam “novas
ruralidades", precisa-se que sejam, a elas contrapostas, “antigas ruralidades", o que supõe,
por sua vez, a necessidade de qualificar, de indicar os componentes que permitiriam
identificar novidades (ou seja, o caráter “novo”) em um universo empírico cujo foco centra-
se em estudos sobre as “ruralidades”. Em síntese, para que um tal objetivo possa ser
alcançado, necessita-se descrever e caracterizar o “velho”, ou seja, aquilo que parece estar
deixando de ser o que é para virar um “novo rural”.
Outro aspecto importante de se atentar, neste caso, é o fato de que ambos não
poderiam existir um sem o outro, ou seja, tal como o par “rural-urbano”, a dualidade “novo-
velho” se mostra complementar, revelando um outro tipo de oposição. Esta, apesar de não
mais privilegiar as dimensões espacial (um “rural” como um lugar), setorial (um “rural”
como atividade produtiva) ou social (um “rural” como modo de vida), permanece viva por
meio da referência a um componente temporal (o antes - o que é “antigo” - em
contraposição com o depois - o que é “novo”)11.
Considerando este panorama, seria compreensível, neste momento, que alguém
estivesse se indagando se seria possível falar na existência de algo definitivamente “novo”
nestas “novas ruralidades"? Não seria este fenômeno, perguntaria esta mesma pessoa, uma
tentativa de reeditar o “velho” em uma nova roupagem, de transfigurar o “rural” através de
uma espécie de operação plástica efetuada nas interpretações sobre as relações sociais,
econômicas e políticas postas em questão? Contudo, perguntas como estas não ajudam a
revelar muita coisa, visto que tendem a ir ao outro extremo da questão. Quer dizer, ao se
pensar no “novo” como mera reedição do “velho”, portanto, imaginando que, na verdade,
nada muda de fato, estar-se-ia trabalhando com a perspectiva de que haveria uma espécie

11
Grosso modo, é possível perceber nos debates vinculados à sociologia rural, além da já referida
temporalidade linear dos processos, os quais evoluiriam de um passado conhecido (ou conhecível) até um
futuro, ao menos teoricamente, previsível, uma confluência de duas outras grandes e gerais associações em
relação ao “rural”. Estas, dependendo da situação, tendem a se amalgamar e a se distanciar conforme
soprarem os ventos teórico-metodológicos e os contextos históricos e institucionais. Em uma delas, o “rural”
estaria sendo associado a um determinado espaço, a um lugar, isto é, a um meio físico e a um ambiente
ecológico diferenciado e vinculado a uma atividade em particular: a agricultura (sobre este assunto, ver
Wanderley, 2001). Na outra, esta categoria viria a colocar ênfase em um ser social em especial (sendo as
representações sobre a figura do “camponês” o caso mais emblemático), indicando, com isso, a possibilidade
de existirem certos “modos de vida rurais” particulares. Sob este ponto de vista, os diferentes grupos e
identidades sociais pertencentes ao “rural” deteriam, por sua vez, lógicas de pensamento, modos de produção,
utopias auto-referenciadoras e visões de mundo que, em alguma medida, poderiam ser socialmente
compartilhadas pelos seus integrantes e, ainda, comparadas ou com outras realidades “rurais” semelhantes ou
através das alteridades construídas a partir do reconhecimento de outros “modos de vida” e identidades sociais
consideradas “urbanas”. Além disso, estes modos de vida poderiam conformar identidades sociais específicas
que permitiriam com que “espaços sociais” identificados como “rurais” pudessem ser vistos como
constituindo o que, por exemplo, Wanderley (2000) chamou de “ator coletivo”.
de circularidade histórica em que todos os processos sociais poderiam ser reduzidos a uma
mesma essência, o que poderia, facilmente, conduzir a uma busca hercúlea e,
provavelmente, infrutífera, em tentar encontrar explicações que permitissem compreender a
“real natureza” destes mesmos processos. Não é preciso dizer que, a partir de um ponto de
vista como este, toda sorte de determinismos e arbitrariedades teórico-conceituais poderiam
estar sendo reeditadas.
O que se está querendo dizer, em síntese, diz respeito ao fato de que, se sempre
existirá a possibilidade de se diagnosticar mudanças significativas e que parecem, a
primeira vista, decisivas e geradoras, portanto, de elementos de descontinuidade antes
inexistentes ou não reconhecidos, por outro lado, será também, da mesma forma, sempre
possível proceder à identificação de certas permanências marcantes e não redutíveis a uma
espécie de resquício do passado, a algo que, conforme um pensamento neopositivista, ainda
hoje bastante recorrente, só não desapareceu por um capricho da história ou, o que é ainda
pior, devido à teimosia de certos grupos retardatários. Aqui, ganha relevo a dimensão da
historicidade, ou seja, a questão do reconhecimento – sobretudo, no caso dos sociólogos
rurais - acerca da importância de se levar em conta a dinâmica histórica subjacente aos
processos atuais de ressignificação da categoria “rural”; e isso, tanto no que se refere a
produção de sentidos por parte daqueles especialistas como pelos demais agentes sociais.
Independentemente do que seja visto hoje como “novo” ou “velho”, a atual delimitação de
diferentes “ruralidades”, ao se incorporar, como prática cotidiana, na forma como os
agentes pensam e atuam no mundo social, traz, tal qual como percebeu Moreira (2000, p.3)
para o caso da constituição de identidades sociais nas sociedades contemporâneas, “tudo
aquilo que foi, criou e se tornou, bem como tudo aquilo que incorporou da sociedade,
consciente ou inconscientemente”.
De tudo isso, chama-se a atenção para dois aspectos considerados aqui importantes.
O primeiro diz respeito ao reconhecimento, como prática sociológica legítima, acerca da
possibilidade de se tentar identificar, através de minuciosas e criteriosas pesquisas
científicas – estas, levadas a cabo com todo aquele rigor metodológico que, normalmente,
as caracterizam -, características que poderiam ou não ser consideradas “inéditas” no caso
da questão das “ruralidades” ou, ainda, interpretações que estariam indicando rupturas com
aqueles enfoques que, até então, teriam dominado o debate sobre este mesmo tema. Já o
segundo aspecto tem relação com o fato de que, embora tais proposições possam estar
contribuindo para que alternativas epistemológicas menos dogmáticas sejam geradas, torna-
se, cada vez mais, imperativo perceber que um tal empreendimento não deixa de ser,
igualmente, uma tentativa, um esforço coletivo (embora controverso) de construção de
outras categorias designativas, conceitos, metodologias, referenciais teóricos, etc.
Além disso, permanece o fato de que, a despeito da interação problemática entre
sujeito e objeto de conhecimento aqui já comentada, tais reformulações tendem a ser
levantadas e debatidas em ambientes específicos e, por vezes, bastante restritos. Este é o
caso, sobretudo, dos espaços de legitimação construídos dentro do campo científico através
das suas diferentes disciplinas e áreas de conhecimento, mas, também, junto às esferas
públicos ligadas às agências governamentais encarregadas de fazer aferições, delimitações
e estatísticas sobre um certo “rural” ou incumbidos de propor, produzir e levar adiante
políticas públicas voltadas para este mesmo “rural”. Em uma certa medida, isso significa
que, no caso da tentativa de identificação de “novas ruralidades", o que ocorre é que não se
trata apenas de comunicar, explicar, compreender ou visualizar quais seriam as supostas
“novidades”, já que também está em questão o fato de que certos agentes estarão
envolvidos, através da interferência e da participação em diferentes esferas de legitimação,
em uma luta por fazer reconhecer discursos de autoridade 12. E, quando se busca refletir
sobre o processo de constituição da idéia de “ruralidades” tendo em conta que este
fenômeno implica, necessariamente, uma disputa (mais ou menos comprometida e mais ou
menos consciente) permanente por dizer e fazer o “rural”, ou seja, uma disputa em que se
encontra em jogo a sua própria ressignificação, torna-se evidente o fato de que, também na
sociologia rural, as diferentes interpretações que venham a ser propostas carregam consigo
tanto as possibilidades de construção de um passado (sempre idealizado e presentificado)
como a necessidade, inerente a condição humana, de invenção de um futuro.

A aposta na constituição de controvérsias entre investigadores: uma forma de tornar


menos “duros” e operacionais as análises sobre as “ruralidades”?
12
De fato, uma conseqüência direta e que, de certa forma, evidencia concretamente a efetividade deste
processo de invenção de um “novo discurso” destinado a interpretar as “novas ruralidades” refere-se ao
próprio aparecimento e uso, tanto nos textos produzidos como na fala dos autores quando estes participam de
encontros e comunicações diversas, de todo um outro tipo de vocabulário, ou seja, neste processo de
redirecionamento interpretativo, surgem termos, expressões, analogias, referências, metáforas e, até mesmo,
mudanças substanciais no estilo da escrita que, vistos retrospectivamente, poderiam ser descritos, senão como
inexistentes, ao menos como elementos dissonantes e marginais.
Antes de se partir para as reflexões finais deste ensaio, propõe-se, neste momento,
um pequeno exercício ilustrativo. Com vistas a problematizar a questão da geração e da
ampliação de controvérsias acadêmicas sobre o tema das “ruralidades”, optou-se por
enfocar uma análise acerca dos debates levados a cabo por dois pesquisadores dos temas
“rurais” já reconhecidos. Trata-se do diálogo crítico que se gerou, faz já alguns anos, entre
Moreira (2005 e 200?) e Carneiro (2005 e 1998), ambos pesquisadores do Programa de
Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ). Em termos gerais, no centro do debate que ambos
tem mantido, encontra-se a questão da redefinição valorativa, ou melhor, da ressignificação
da idéia de “ruralidade” e da geração de “identidades rurais” nas sociedades
contemporâneas, sendo que, conforme consta na página eletrônica do “Núcleo de Estudos
em Desenvolvimento Sustentável e Ruralidades”, núcleo este do qual os dois pesquisadores
fazem parte, parte-se do princípio de que esta problemática “requeria a incorporação, na
análise, das tensões econômicas, sociais, políticas e culturais que se expressavam no
adensamento da incerteza e da indeterminação em geral e em particular no mundo rural”
(http://www.ruralidades.org.br, acessado em 27/08/2005). Ocorre que este tema geral o
qual ambos irão estar preocupados em abordar tem servido, por vezes, como mote para
certas indagações recíprocas feitas sobre idéias sustentadas pelos dois pesquisadores em
diferentes momentos13.
Em seu artigo “Ruralidades e globalizações: ensaiando uma interpretação”, Moreira
(2005 e 199?) faz uma pequena síntese das idéias da autora e escreve:

“Carneiro (1998) problematiza a ruralidade como novas identidades em construção, postulando-as


produto das novas relações campo-cidade. Apoiada em suas pesquisas, a autora interpreta a
ruralidade contemporânea como uma pós-modernização da agricultura, no caso francês, e uma

13
A partir de indicações reveladas por Moreira (2005), é possível identificar, como primeira objetivação
inicial deste debate, os desdobramentos oriundos da realização, em 2000, de um seminário do CPDA –
denominado “Pensando a respeito” -, evento em que este autor esteve incumbido de comentar um artigo
anteriormente escrito por Carneiro (1998). Estimulado pelos resultados deste seminário, Moreira iria fazer,
posteriormente, em um trabalho inicialmente publicado na série “Cadernos do CPDA” (2000), algumas
ponderações críticas a alguns dos argumentos sustentados por Carneiro neste mesmo artigo. Mais tarde, esta
última iria, quando da publicação do livro “Identidades sociais: ruralidades no Brasil contemporâneo” (2005),
publicação esta organizada por Moreira, de certa forma “responder” aos tencionamentos deste autor através de
outras indagações feitas, justamente, sobre idéias por ele propostas neste mesmo artigo publicado no ano de
2000 e relançado nesta coletânea de 2005. A seguir, com o intuito de dar a oportunidade ao leitor de se
inteirar de parte dos conteúdos discutidos pelos autores, faz-se uma breve descrição dos debates que ambos
mantiveram até agora.
modernização incompleta, interrompida ou segmentada, nos casos da região serrana do Rio de
Janeiro, que analisa. Para a autora, ambas são conformadas por uma revalorização da natureza que,
por vários e complexos processos, cria uma urbanidade contemporânea que revaloriza a vida no
campo e a produção de alimentos sustentáveis (...)”.

Porém, mais adiante, o autor parte para alguns questionamentos sobre os possíveis
desdobramentos e implicações analíticas que estariam subjacentes às proposições de
Carneiro:

“Carneiro (1998, p.72) fala de uma ‘ruralidade não mais como realidade empiricamente observável,
mas como uma representações social’. Como ficaria aqui a questão da representação social e do ser
social? O ser sujeito criativo desaparece, ou a representação torna-se o próprio ser? Como ficaria a
realidade virtual. É real ou só ficção e representação? Castoriadis (1999, p.133-151) revela que todo
imaginário, todo social instituído contém uma dimensão conídica (conjuntista-identitária). Neste
sentido, toda representação imaginária da sociedade contém um empírico observável e classificável.
Não estaria Carneiro trabalhando com uma epistemologia subjacente na qual o empírico só seria
observável numa natureza exterior ao ser humano? Ou ainda, que as representações sociais não são
observáveis? Em um outro momento a autora fala que a ‘ruralidade não é mais definida com base na
oposição à urbanidade. O rural e o urbano corresponderiam, portanto, a representações sociais
sujeitas a reelaborações e ressemantizações diversas de acordo com o universo simbólico a que estão
referidas’ (Carneiro, 1998, p.73). Isto não significaria que um mesmo sujeito social, dependendo do
universo simbólico, pode vir a representar o espaço da ruralidade ou da urbanidade, contendo,
portanto, em si mesmo, a referida oposição que a autora pensa ter desaparecido? Poderia o sujeito ser
captado por um universo simbólico sem com ele interagir? O próprio universo simbólico não é
relacional?”

O leitor poderia estar pensando que os dois caminhos mais prováveis de serem
seguidos pela autora, cujas idéias foram motivo de indagações críticas feita por Moreira,
seria ou responder aos questionamentos deste último ou, simplesmente, ignorar tais
considerações. Contudo, Carneiro não adota nem uma nem outra alternativa, senão a de
utilizar o mesmo artifício e a mesma estratégia adotada pelo seu interlocutor, a saber,
apresentação de uma síntese seguida de alguns questionamentos (ou seja, indagações) sobre
certas proposições feitas por Moreira. Assim, em uma coletânea de textos recentemente
organizada por este pesquisador (em que consta também o seu artigo já publicado
anteriormente), a autora, incumbida de fazer a apresentação do livro, faz, primeiramente,
um breve resumo sobre as idéias do autor:

“partindo de um olhar crítico sobre as maneiras como a noção de rural aparece no debate contemporâneo,
Moreira reconhece uma ruptura no processo de apreensão do rural na passagem da modernidade para o que tem
sido genericamente identificado como pensamento pós-moderno. Essa mudança de olhar seria expressa no
rompimento com a idéia de rural como o atraso a ser superado pela modernidade (idéia sobre a qual se sustentou
a própria construção da sociologia rural como disciplina específica). Identifica, assim, um processo de
ressignificação das noções de rural e de território que aparecem na atualidade associados à noção de natureza.
Ao reconhecer possibilidades de uma disputa de hegemonias nas diferentes possibilidades de construção social
do rural incorpora a dimensão política à análise orientando a atenção do leitor para as hierarquias sociais que
atuam a se atualizam nas diferentes possibilidades de construção social do rural (...).Mas fala-se também de um
‘rural desterritorializado’ implícito na idéia de ruralidade como ‘expressão de identidades sociais abertas e
múltiplas’ que não se restringe, no mundo rural globalizado, a uma especificidade pré-definida nem a atividades
ocupacionais específicas do setor agrícola. Nesta direção, argumenta-se que o que está em jogo na sociedade
contemporânea não é o fim de um rural abstrato, mas de um tipo de vivência do rural consolidado pela
modernidade burguesa. Em seu lugar emergiria um novo rural, o da pós-modernidade” (Carneiro, 2005, p.11).

O interessante de se notar, é que, como já comentado a pouco, após esta


apresentação das idéias do autor, Carneiro utiliza-se da mesma estratégia adotada por
Moreira. Quer dizer, ao propor “avançar no diálogo com o rico conjunto das idéias e
análises aqui apresentadas a partir das formulações de Moreira”, faz isto também através de
um conjunto de indagações:

“(...) Moreira chama a atenção para as ‘especificidades das vivências da modernidade no centro e na
periferia, destacando a modernização incompleta das periferias mundiais e latino-americanas’. No
entanto, tal observação, a meu ver, permite indagar (...) até que ponto entender a sociedade brasileira
como ‘periférica’ e, como tal, sujeita a um processo de modernização incompleto, seria compatível
com as interpretações pós-modernas de apreensão da nossa sociedade? Ou será que estamos aqui
falando da convivência do moderno com o ‘pré-moderno’ e com o ‘pós-moderno’, o que nos
encaminharia a relativizar a superação da representação do rural associado ao atraso dando lugar a
um modelo do rural-natureza como símbolo da civilidade ocidental? Será que ao falar em ‘cultura
hegemônica (metropolitana, citadina, globalizada)’ como sujeito da construção de alteridades
subordinadas e não-hegemônicas (rural-agrícola) e em ‘centro’ e ‘periferia’, não se estaria
reeditando, em outros termos, a dualidade em que se baseou a construção moderna do rural como
objeto de conhecimento da sociologia? Seria possível reconhecer nesta abordagem, ainda que ela
objetive uma compreensão superadora do pensamento moderno, a presença da ambigüidade a que se
refere Martins (1981, p.16) quando alerta para o fato de que ‘o relacionamento entre modo de vida e
estilo de pensamento não se pode dar de modo mecânico’? Em outras palavras, ao reconhecer o rural
associado ao agrícola e ao atraso como fruto de um pensamento não-hegemônico opondo-se ao rural-
natureza desvinculado de uma referência espacial e temporal (...) e símbolo de civilidade
contemporânea e do pensamento pós-moderno estaria Moreira associando dois estilos de pensamento
a dois modos de vida, um periférico e outro central ao capitalismo?

Ao se refletir mais detidamente e de forma desapaixonada sobre as controvérsias


levantadas e os desdobramentos deste tipo de diálogo crítico – abordando-o sem
necessariamente tomar partido de um ou de outro autor -, percebe-se que o que ambos estão
pretendendo, quando propõem indagações recíprocas, não tem por finalidade “resolver” as
questões levantadas, mas, sim, a pretensão de colocá-las no campo de discussão como
questões pertinentes e, de certa forma, propor rumos qualitativos ás discussões que,
porventura, possam vir a se seguir e a se efetivar através da entrada de outros debatedores14.

14
Note-se que, neste caso, embora tome as discussões dos autores como objeto de reflexão, o trabalho que
aqui se está apresentando pode ser visto também como sendo um tipo de continuidade ao debate acima
Em suma, abre-se um espaço, sobretudo nos ambientes acadêmicos relacionados às
atividades de cientistas sociais que se preocupam com o tema das “ruralidades”, de
discussão sobre determinadas questões e problemas.
Além disso, ainda que possam existir divergências substanciais entre os dois
autores, não é difícil ao leitor perceber que ambos comungam referencias, por vezes, que
mais os aproximam do que os afastam. Por outro lado, a própria participação conjunta em
um “núcleo de estudos” específico sobre o tema das “ruralidades” (“Núcleo de Estudos em
Desenvolvimento Sustentável e Ruralidades”) supõe a necessidade de se compartilhar um
mínimo de referencias comuns. Qual o efeito prático disso? De uma certa maneira, pode-se
pensar que há uma tentativa (que pode não necessariamente precisa estar explícita) de gerar
e aglutinar, em torno de temas e princípios gerais, um grupo de pesquisadores que, mesmo
podendo estar divergindo uns com os outros, apontam problemas e questões comuns. Eis aí
um dos motivos que levam os autores a fazer um resumo ou síntese das idéias do autor,
pois será a partir desta base, em termos de conteúdos, que a crítica poderá ser proposta.
Ademais, este exercício de se fazerem sínteses sobre outros intérpretes com vistas a
embasar futuras reflexões (característica recorrente e muito adotada nos meios científicos)
pode ser visto como parte daquele processo, já descrito anteriormente, tautológico em que
proposições e interpretações diferenciadas são construídas a partir de conceitos e noções
comuns a um certo universo teórico-metodológico, o que, por sua vez, acaba contribuindo
para que sejam gerados, em diferentes áreas científicas, sentidos comuns doutos passíveis
de serem submetidos a um ambiente de controvérsias concorrentes. Dito de uma forma
direta, por vezes discordando, por vezes concordando ou por vezes apenas enumerando
idéias e arrolando autores, fulanos poderão estar se referindo a cicranos, sendo que estes,
porém, referiam-se originalmente a beltranos que, não é difícil de acontecer, já haviam se
referido a um trabalho anterior realizado por fulano. Não é difícil notar que estas discussões
tendem a estar acessíveis a um grupo não muito numeroso de interlocutores auto-
referenciados.

descrito, ou seja, ao explicitá-lo na forma de um texto, se está adentrando ao universo de proposições que os
autores estão fazendo e, obviamente, ao universo teórico dos dois pesquisadores.
Finallizando
Como qualquer outro termo, expressão, categoria, noção ou conceito que visa dar
conta de explicar e interpretar - ou mesmo intervir em - uma determinada especificidade
social da vida humana, a idéia de “rural” também não estará isenta de juízos de valor, de
algum tipo de a priori, em suma, de uma certa dose de arbitrariedade conferida pelo lugar
ocupado por aquele que dela faz uso, pelo discurso que a precede e que se acha, por sua
vez, nela incorporado e, igualmente, pelas possibilidades hermenêuticas dos seus
interlocutores15. Neste sentido, a elaboração do que representaria um “rural” - bem como
dos diversos vieses teórico-metodológicos propostos para este termo com vistas a
interpretar realidades e processos sociais - encontra-se devedora de uma série de condições
históricas e de circunstâncias sociais, culturais, econômicas e políticas próprias. Porém, se
se pode dizer, como o faz Wanderley (2000, p.90), que “o reconhecimento e a delimitação
do espaço rural varia de país para país, em função das formas efetivas de ocupação
territorial, da evolução histórica e das concepções predominantes em cada um deles”, junto
a estes processos, encontram-se, como agentes ativos que ajudam a direcionar a maneira
como se dará este mesmo reconhecimento e delimitação, um número não desprezível de
cientistas sociais. Isto tem relação direta com a peculiaridade, já bastante aceita e
disseminada nas ciências humanas, de que os "objetos" das ciências sociais "são, ao mesmo
tempo, 'sujeitos' que têm representações de sua vida em sociedade. [Ademais,] os próprios
pesquisadores fazem parte de seu objeto de estudo" Corcuff (2001, p.34). O que, por sua
vez, implica considerar o fato de que, no caso dos sociólogos que se ocupam com temas
“rurais”, estarão se confundindo, se encontrando e se desencontrando, tanto "objetos" e
"sujeitos" do conhecimento, como estes e os operadores institucionais incumbidos de
instrumentalizar estes mesmos conhecimentos.
De uma certa maneira, poder-se-ia afirmar que as interpretações daqueles que, no
campo das ciências humanas, terminaram por se tornar “especialistas” em temas
qualificados como “rurais”, ao mesmo tempo em que contribuíram para que certas
representações e práticas sociais sobre as “ruralidades” se efetivassem concretamente,
constituem-se, igualmente, como resultado das mesmas representações. Quer dizer, se

15
O que vale, sem dúvida, para diversas outras expressões semelhantes (embora etimologicamente diferentes)
adotadas como categorias de análise nas ciências sociais, tais como “raça/etnia”, “família”, “parentesco”,
“sustentabilidade”, “louco”, “região”, “globalização”, etc.
transformações concretas puderam ser percebidas e identificadas por estes cientistas
sociais, estes últimos e suas produções acadêmicas também fazem parte destas mudanças.
Em outras palavras, se se pode afirmar que suas interpretações e explicações incidem, de
algum modo, sobre as realidades empíricas por eles observadas, a dinâmica inconstante e
mutável destas últimas também interfere alterando tanto seus interesses “acadêmicos”, suas
preferências temáticas, enfim, quanto suas capacidades cognitivas. Quer dizer, neste duplo
movimento, as transformações sociais que, dependendo da época e do contexto, serão vistas
como dizendo despeito a especificidades “rurais” atuam sobre o conjunto dos seus
processos mentais os quais, em última instância, são o que lhes permite fazer um
reconhecimento, uma classificação, uma teorização ou um recorte de objetos de estudo,
problemas que mereceriam ser investigados, projetos de pesquisa e não de outros.
De outra parte, a idéia genérica e socialmente aceita acerca da pertinência do uso do
termo “rural” quando se necessita qualificar situações, lugares, pessoas, atividades etc.,
embora permaneça um processo polissêmico e que se encontra cotidianamente sendo
reinventado, implica que uma tal categoria passa a fazer algum sentido para as pessoas.
Ocorre que esta situação vale, também, para o caso dos especialistas em temas “rurais”.
Quer dizer, ao ser usada por estes últimos - não importando se em situações corriqueiras ou
se em espaços considerados mais “acadêmicos” e a despeito das discordâncias e dos
diversos entendimentos que dela eles possam ter -, todos irão “entender”, a sua maneira, o
que o outro estará dizendo ou afirmando. Obviamente, uma tal situação tem que ver com o
fato de que os sentidos sobre o que caracterizaria (ou, em alguns casos, sobre o que deveria
caracterizar) o “rural” e o “urbano” estarão sendo forjadas simultânea e diacronicamente -
no tempo e no espaço - de acordo com as ambigüidades acionadas pela instituição de
interpretações concorrentes (dominantes ou dominadas) sobre estas duas realidades
socialmente construídas e permanentemente ressignificadas. O que causa confusão, no
entanto, é o fato de que, em determinados momentos, devido à necessidade intrínseca do
pensamento humano de procurar classificar o mundo e as coisas que existem neste mesmo
mundo, tais representações parecem, para as pessoas (incluindo-se aí muitos sociólogos
rurais), estar inscritas desde sempre no fazer e no pensamento das sociedades
contemporâneas16. O que costuma ocorrer, nestes casos, refere-se a um fenômeno bem
peculiar aos processos comunicativos e que diz respeito ao fato de "que por trás dos
substantivos que empregamos consideramos automaticamente que haja substâncias, 'coisas
bem visíveis e tangíveis" (Elias, 1981 apud Corcuff, 2001, p.36). E, tal como no caso de
outras dualidades – por exemplo, o caso da oposição indivíduo/sociedade analisada por
estes dois autores -, este mecanismo faz com que se proceda, quando de seu uso cotidiano,
como se “rural” e “urbano” fossem como duas coisas ontologicamente diferentes ou, como
brinca Corcuff, "como se se tratasse de uma mesa e uma cadeira".
Por outro lado, deve-se reconhecer que esta mesma tendência, para as ciências
sociais, não deixa de funcionar, de certa forma, como um constante desafio, visto que ela
coloca a questão da necessidade de se estar permanentemente atento e buscando ultrapassar
tais naturalizações17. Em outras palavras, parte da aceitação, neste campo do conhecimento,
de que as categorias "rural" e "urbano" poderiam ser analiticamente pertinentes possui
relação direta com a existência de concepções teóricas (normalmente identificadas como
fazendo parte de algum tipo de construtivismo) que vêem a ambas como noções relativas e
interdependentes, ou seja, que se definem uma em relação à outra de acordo com os
processos históricos, com os contextos macro e micro envolvidos e, é claro, de acordo co as
possibilidades psíquicas e cognitivas disponíveis àquele que pretende observa tais relações.
Ocorre que esta contínua ressignificação a respeito do “rural” - e, logicamente, do
seu par “urbano” - não se encontra restrito a esfera das idéias, mas se efetiva em ações que
se tornaram, com o tempo, cotidianas e passíveis de apropriação pelos agentes e grupos
sociais em geral, mas, igualmente, pelos especialistas da área da sociologia rural. Como
salienta novamente Carneiro (2005), baseando-se no pensamento de Mormont (1989), “as
propriedades do rural são possibilidades simbólicas, mas também possibilidades práticas.

16
Como o leitor já deve ter percebido, esta situação se repete quando do uso de outros qualificativos adotados
no lugar do par “rural-urbano”, como é o caso das oposições campo x cidade, agricultura x indústria, local-
regional x global.
17
Este é o caso, por exemplo, quando se olha para a criteriosa e minuciosa historicização, feita por Williams
(1989), sobre como foram se consolidando determinados significados, inscritos na literatura inglesa por ele
analisada, sobre as “qualidades” que distinguiriam – ora positiva ora negativamente - o “campo” da “cidade”
na Inglaterra ao longo dos últimos 500 anos. Depois de percorrer a miscelânea de sentidos que o referido
autor apresenta, vê-se que aquilo que parecia bastante sólido começa a se desanuviar. De fato, ao refletir
especificamente sobre os casos descritos, é de se pensar se teria alguma importância para algum pensador
europeu do século XVII – mas, também, para as pessoas em geral que lá viveram durante este tempo -,
quaisquer que pudessem ser suas possíveis significações, a idéia de “rural” ou, no limite, até mesmo se tal
termo tivesse ou fizesse, além do sentido conferido pela ausência de sentido, algum significado.
Elas orientam práticas sociais sobre determinado espaço de acordo com os significados
simbólicos que lhes são atribuídos (...)” (Carneiro, 2005, p.9). Sucede que, nos meios
acadêmicos ligados às disciplinas das ciências sociais que tratam temas considerados como
tendo algum tipo de viés “rural”, por meio do próprio processo tautológico que reveste e
alimenta as várias disputas discursivas que despontaram no decorrer do tempo, as inúmeras
representações de caráter interpretativo produzidas a respeito deste mesmo “rural”
acabaram por gerar, de fato, realidades vividas e experienciadas e que se concretizam em
ações, práticas e formas de pensamento.
Além disso, é nítido o fato de que há uma sobreposição de interfaces entre as redes
sociais construídas pelos cientistas sociais que se debruçam ou que recortam, como
problema de pesquisa, um universo empírico ligado as “ruralidades” e as instâncias mais
operacionais vinculadas, por exemplo, a implementação de políticas públicas; aos órgãos
governamentais e não-governamentais que apresentam alguma função ou papel junto
aquelas realidades, processos, atividades, lugares, grupos sociais rotulados como tendo um
caráter “rural”; ou, até mesmo, em alguns casos, uma íntima aproximação com eventuais
ações de movimentos e grupos sociais que se identificam como pertencentes a esta última
categoria ou, ainda, que assim são vistos pelos especialistas. Isso implica perceber que,
além dos espaços de legitimação de conhecimentos construídos nos meios científicos, uma
parte considerável daqueles agentes que teriam a pretensão de interpretar, com todo o rigor
exigido pela ciência, “fenômenos rurais” poderão estar buscando, eventualmente, se inserir
em todo um outro universo de esferas de reconhecimento social para seus saberes situados,
por sua vez, ou fora ou a margem do campo científico.
De outra parte, ao tomar-se este ponto de vista, percebe-se que o “rural” passa a
representar a explicitação de uma realidade presentificada nas coisas (em fatos e lugares
empiricamente observáveis e em eventos cognitivamente percebíveis), nos modos de
pensamento (explicitados através dos discursos e das narrativas de interlocutores os mais
diversos) e nos próprios embates de idéias (isto é, no campo da ação política de agentes
socialmente diferenciados). De acordo como estar-se-á dando à generalização deste
processo envolvendo a objetivação (tanto nos meios intelectuais como fora deles) de
significados construídos sobre as “ruralidades” - ou seja, sobre as qualidades daquilo que
deveria caracterizar o que se entende por “rural” e, obviamente, do que distinguiria este
último do seu par antagônico, o “urbano” -, instala –se uma espécie de concorrência
interpretativa que, por sua vez, mantém íntima relação com as distintas possibilidades
psíquicas e cognitivas momentaneamente disponíveis aos seus intérpretes, bem como com o
ambiente perceptivo que estes últimos identificam como algo que lhes pareceria exterior.
De forma dialética, diferentes compreensões que, porventura, possam estar sendo propostas
sobre determinados "problemas sociais" específicos caracterizados como vinculados as
"ruralidades" ou ao "meio rural" ( por exemplo: "êxodo rural", "multifuncionalidade",
"envelhecimento do campo", "reforma agrária", etc.), ao mesmo tempo em que tendem a
orientar tanto ações concretas como reflexões de diferentes agentes (por exemplo,
sociólogos rurais), encontram-se, permanentemente, sendo reinventadas e ressignificadas
devido, justamente, as contingências que estariam sendo apontadas pelas incertezas quanto
a dinâmica a ser seguida por aqueles mesmos "problemas sociais” com alguma
especificidade “rurais". E, neste caso, não importa a origem e o lugar ocupado por um
determinado agente que, eventualmente, pretende fazer uso da categoria “rural”, o que
implica, por sua vez, na difícil aceitação de que também os “sociólogos rurais” não poderão
fugir completamente as suas conseqüências e aos desdobramentos deste tipo de fenômeno.
De fato, se se levar esta condição ao seu limite, uma tal situação será valida, até mesmo,
quando estes últimos encontram-se mais preocupados em “desconstruir” tais naturalizações,
visto que, ao se tentar relativizar os significados e os usos operatórios da categoria “rural”,
todos terão, no mínimo, que utilizar a própria expressão “rural”.
Embora possa ser algo controvertido e, de uma certa forma, que pode ser entendido
como uma espécie de disputa hermenêutica, o uso cotidiano da categoria “rural”
subentende, em muitos casos, uma constante repetição designativa, valorativa,
classificatória ou, no mínimo, operacionalizável de argumentos, de autores, de correntes
teóricas, de métodos e metodologias de análise, etc. De fato, como já demonstrado por
Latour (2000), o uso, em um texto científico, destes últimos ingredientes (isto é, a opção
por um e não por outro "método", a citação de tal autor e não de outro, a alusão a esta e não
aquela corrente teórica, etc.), mais do que somente situar (e, de certa forma, distinguir) o
seu autor em relação aos seus pares, funciona como estratégia de legitimação, em áreas e
disciplinas específicas, do próprio texto e, evidentemente, dos argumentos nele contidos.
Com isso, uma tal tautologia (mesmo que extremamente controversa), ao ser levada a cabo
por diferentes intérpretes, ajuda a produzir, além de um senso-comum douto sobre o tema
das “ruralidades”, também uma variedade de concepções concorrentes que fazem com que
o uso da categoria “rural” seja vista, pelo menos provisoriamente, como analiticamente
pertinente, passando a ser um termo de uso comum e corriqueiro também nos meios
científicos. De uma certa maneira, as idéias genéricas, difusas e fragmentadas que o termo
“rural” assume "fora" do campo de produção de conhecimentos, ao serem apropriadas de
uma forma sistemática, cuidadosa e intencionalmente refletida e debatidas através do uso
de arsenais teóricos e metodológicos vistos como mais rigorosos – o que, diga-se de
passagem, é outro fator que ajuda a conferir legitimidade tanto científica como social as
interpretações que estarão sendo propostas -, se torna então uma categoria conceituável,
mais ou menos definível e, como conseqüência, que passa a apresentar, para quem as usa,
uma pertinência em termos analíticos, já que torna possível o exercício de especulação
acerca de elementos que se organizam em uma totalidade identificada, neste caso, pela
categoria "rural" (embora, é preciso reconhecer, esta totalidade não deixe de ser, sempre,
um recorte arbitrado e proposto por um autor específico).
Todavia, como os argumentos científicos, pelo menos no caso das ciências
humanas, “não dependem de um resultado explicativo imediato para serem considerados
científicos” e, mais do que isso, na medida em que “é possível acumular conhecimentos
sobre o mundo a partir de pontos de vista diferentes e em competição” (Alexander, 1987,
p.6), o que se passa no caso do uso da categoria “rural” por parte dos cientistas sociais é
que, como há uma permanente concorrência pelo seu uso legítimo, ao mesmo tempo em
que todos parecem estar cônscios do que pretendem afirmar com uma tal expressão, um
olhar mais acurado poderia concluir, ao contrário disso, que ninguém sabe exatamente o
que se está querendo dizer. Aliás, a identificação deste tipo de dilema não é algo recente,
como demonstra a lúcida constatação elaborada por Pahl e escrita ainda durante a década de
1960: “em um contexto sociológico os termos rural e urbano estão mais marcados por suas
habilidades de confundir do que pelo seu poder de explicar” (Pahl, 1966, p.299).
Neste sentido, dentro das instâncias de debate disponíveis a sociologia rural, o
próprio estado de permanente controvérsia epistemológica sobre a pertinência dos
potenciais usos analíticos e explicativos que a categoria “rural” encerraria contribui para
produzir o que se chamou aqui de senso-comum douto18. De fato, como salienta Martins
(1986, p.12), “(...) o rural é parte de uma forma de construção social da realidade, ainda que
no âmbito do chamado conhecimento sociológico”. Ora, fruto das distintas controvérsias
levadas a cabo pelos investigadores quando estes delimitam questões e recortam temas
visando entender transformações (tanto empíricas como teóricas ou representacionais) em
realidades e processos identificados como “rurais”, criam-se questões sociologicamente
relevantes (por exemplo, temas como os da "multifuncionalidade" e dos "neo-rurais") ao
mesmo tempo em que outras o deixam de ser (como, por exemplo, o fim das intermináveis
discussões sobre o car'ater capitalista ou feudal da sociedade brasileira e, particularmente,
das relações sociais e de produção no "campo"). Dito de outra forma, a partir do esforço
destes especialistas em propor, debater e delimitar problemas por eles vistos como
concernentes as “ruralidades”, institui-se uma concorrência por elevar um rol de temáticas à
condição de problemas que apresentam um caráter sociológico pertinente e que, por
conseguinte, deva vir a ser motivo de investigação.
Ocorre que este debate precisa ser feito através do confronto de argumentos
diferenciados e do uso de proposições a serem submetidas as mais diversas controvérsias
interpretativas. O que faz com que o campo de produção de conhecimentos, por exemplo,
sobre os “atuais processos de transformação do mundo rural” (bem como sobre a
delimitação destas transformações) ou sobre “o surgimento de novas ruralidades” e de um
“novo rural” subentenda a interlocução permanente entre pesquisadores que, neste
processo, adquiriram uma certa autoridade socialmente reconhecida para falar sobre ou
propor interpretações sobre estes mesmos temas. É claro que uma tal legitimação deverá se
realizar (isto é, terá efeito prático), sobretudo, dentro dos limites e fronteiras que
circunscrevem o campo de reconhecimento construído em torno das disciplinas que se
ocupam com estes temas, bem como segundo os espaços legítimos disponíveis (por
exemplo: congressos, encontros, publicações, núcleos institucionais montados dentro ou
entre universidades e nos programas de pós-graduação, delimitação de linhas de pesquisa
que passam a poder reivindicar financiamentos públicos para suas investigações e

18
Repare-se que aí se encontra presente o fato de que está em jogo a delimitação do objeto de estudo desta
disciplina, aliás, fato que, sendo ao mesmo tempo um problema e um desafio constante aos pesquisadores,
pode ser visto como um dos principais fatores que movem e alimentam o interesse por investigações
sociológicas sobre o tema.
investigadores, entre outros) - o que não significa dizer, por outro lado, que os
conhecimentos produzidos não terão efeito para além destes espaços, muito pelo contrário.

Bibliografia Referenciada

CARNEIRO, Maria José. Ruralidades na sociedade contemporânea: uma reflexão teórico-


metodológica. Seminário Internacional “El mundo rural: transformaciones y perspectivas
à luz de la nueva ruralidade”. Bogotá, Out., 2003.

__________. Ruralidades: novas identidades em construção. Estudos Sociedade e


Agricultura, nº11, outubro, 1998, pp. 53-75.

__________. Pluriatividade no campo: o caso francês. RBCS, no. 32. Ano II. Out, 1996.

DE SANTIS, Pablo. O calígrafo de Voltaire. José Olympio Editora.

GERHARDT, Cleyton H. Agricultores, mediadores sociais e meio ambiente: a construção


da “problemática ambiental” em agro-eco-sistemas. Porto Alegre, 2002a. Dissertação de
Mestrado (Programa de Pós-Graduação em desenvolvimento Rural, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul).

GIORDANO, Chr. La ruralitté comme phénome cultural. Recherches Sociologiques. Vol.


XX, n. 3, 1989.

GRAZIANO da SILVA. José. O novo rural brasileiro. Campinas: UNICAMP/Instituto de


Economia, 1999. (Coleção pesquisas 1).

GUIVANT, Júlia S. Heterogeneidade de conhecimentos no desenvolvimento rural


sustentável. Cadernos de Ciência e tecnologia. Brasília: Embrapa, v.14, nº3, set/dez, 1997,
pp.411-448.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34, 1994.

MARTINS, José de Souza. 2002. O futuro da sociologia rural. Estudos Sociedade e


Agricultura. p. 5-12, n.15. Out., 2000.

__________. Introdução crítica a sociologia rural. São Paulo: Hucitec, 1981.

MOREIRA, Roberto José. Ruralidades e globalizações: ensaiando uma interpretação.


Ruralidades, CPDA, nº1/set/2002.

MORMONT, Marc. Vers une redefinition du rural. Recherches Sociologiques. Vol. XX, n.
3, 1989.

PAHL, R. E. The rural-urban continuum. Sociologia Ruralis. Vol. VI, n. 3-4, 1966.
RÉMY, Jean. Pour une sociologue du rural ou lê statut de léspace dans la formation des
acteurs sociaux. Recherches Sociologiques. Vol. XX, n. 3, 1989.

SARRACENO, Elena. O conceito de ruralidade: problemas de definição em escala


européia. Roma: Unine: CRES. Tradução de Ângela Kageyama (datilo), 1996

SOLARI, Aldo B. Que és Sociologia Rural. In: Sociologia Rural Latino Americana. 2ºed.
Buenos Aires : Paidos 1968.

WANDERLEY, Maria de N. A emergência de uma nova ruralidade nas sociedades


modernas avançadas: o “rural” como espaço singular e ator coletivo. Estudos Sociedade e
Agricultura. p. 87-145, n.15. Out., 2000.

__________. A ruralidade no Brasil moderno. Por um pacto social pelo desenvolvimento


rural. Norma Giarraca (Org.). In.: Uma nova ruralidade na América Latina? Buenos Aires:
CLACSO, 2001.