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O Surrealismo e o seu Projeto Libertário à Esquerda

do Partido Comunista Francês


Anderson da Costa∗

Índice além da concepção surrealista de arte e do


seu papel no processo revolucionário, o que
Introdução 2 culminaria na aproximação com Trostky e no
1 Surrealismo e PCF: liberdade total x Manifesto por uma arte revolucionária inde-
liberdade vigiada? 2 pendente, escrito a quatro mãos por André
2 Rupturas: O Congresso dos Escritores Breton e o revolucionário russo no México.
para Defesa da Cultura e o “Caso Palavras-chave: Surrealismo; Partido
Aragon” 5 Comunista Francês; Arte de Propaganda;
3 Breton e Trotsky: Por uma arte revolu- André Breton; Leon Trotsky.
cionária independente 10
Considerações finais 13 Abstract
Bibliografia 14
Between 1925 and 1935 the French sur-
Resumo realists had an intense and nothing harmo-
nious debate with the French Communist
Entre 1925 e 1935 os surrealistas france- Party (PCF). Believing there are points of
ses travaram um debate intenso e nada har- convergence between the ideals of the left
monioso com o Partido Comunista Francês and the libertarian ideals that punctuated
(PCF). Acreditando haver pontos de con- the search surrealist, some members of the
vergência entre os ideais de esquerda e os Group of Paris, as soon as accepted by the
ideais libertários que pontuavam a busca sur- PCF, are openly differ from the practices
realista, alguns membros do Grupo de Paris of the revolutionary party, who do not ac-
tão logo aceitos pelo PCF passam a divergir cept any interference in interior of the sur-
abertamente em relação às práticas revolu- realist movement. This article discusses the
cionárias do partido, de quem não aceitam troubled relationship of surrealism to the
ingerência alguma no interior do movimento PCF, which passes by refusing to call "logic
surrealista. O presente artigo procura discu- state"and the art of propaganda, beyond con-
tir a atribulada relação do surrealismo com ception surrealist art and its role in the revo-
o PCF, a qual passa pela recusa à chamada lutionary process, which culminated in ap-
“lógica de estado” e à arte de propaganda, proach with Trotsky and the Manifesto for

Universidade Federal de Santa Catarina. an independent revolutionary art, written by
2 Anderson da Costa

four hands by André Breton and the russian plano pela crítica, a qual nem sempre se in-
revolutionary in Mexico. teressa por questões que lhe pareçam idea-
Keywords: Surrealism; French Commu- listas demais ou que venham a extrapolar a
nist Party, Art of Propaganda, André Breton, sua área de atuação. Entre elas, noções de
Leon Trotsky. cunho primordial para o movimento como o
amor, a poesia e a liberdade. Noções tais
que traziam em seu interior uma motivação
Introdução
política, o que foi rapidamente percebido
quase noventa anos de sua pelo surrealismo, exigindo de seus membros
P ASSADOS
criação, o surrealismo mantém-se vivo
aos olhos do público e da crítica quase que
uma ativa participação nesse campo. A mili-
tância política, partidária ou não dos surrea-
unicamente através de suas obras, situando- listas, (con)funde-se com a própria história
se assim, ironicamente, em um lugar onde do movimento, que em decorrência disso
os seus criadores jamais quiseram que ele impetrou um franco e nada harmonioso de-
ocupasse: o de mais um movimento artís- bate com a esquerda da primeira metade do
tico, ainda que dos mais bem sucedidos na século XX. Debate que se por um lado rele-
história da arte. gou os seus membros e o movimento a certo
O valor artístico do surrealismo e a sua isolamento nos campos político, intelectual
contribuição para a arte moderna é ine- e mesmo artístico, por outro se revela, com a
gável, contudo, compreendê-lo apenas en- distância dos anos, bastante lúcido.
quanto estética é também descaracterizá-
lo, negando-lhe a sua própria essência,
1 Surrealismo e PCF: liberdade
banalizando-o. O surrealismo sempre foi en-
tendido e apresentado pelos seus membros total x liberdade vigiada?
como um projeto de revolta absoluta, o qual A aproximação do surrealismo com o mar-
possuía a ambição de permitir ao homem xismo compreende um período de dez anos
uma libertação total em relação a toda e qual- que vai de 1925 a 1935 e que deixou profun-
quer forma de opressão perpetrada pela so- das marcas no movimento. Tal aproximação
ciedade burguesa, sendo a arte, nesse caso, levou a momentos de dramática tensão no in-
apenas um dentre tantos meios para se atingir terior do surrealismo, em especial no Grupo
tal objetivo. Assim, ao considerar o surrea- de Paris, tendo como consequência o afas-
lismo apenas como um projeto estético fica- tamento voluntário e a expulsão de alguns
se à margem de sua principal meta, que era a dos seus principais membros, além do suicí-
de proporcionar um estado de libertação que dio de René Crevel em 1935 durante o Con-
extrapolava os limites da arte. gresso dos Escritores para Defesa da Cul-
Em função do entendimento do surrea- tura, o qual marcará o rompimento defini-
lismo como uma das vanguardas históri- tivo, não exatamente com o marxismo, mas,
cas somente, questões de valor fundamental sobretudo com o stalinismo, então predomi-
para o movimento e para a sua compreen- nante na maioria dos partidos comunistas da
são tornaram-se com o passar dos anos prati- época. Por outro lado, se esse convívio co-
camente opacas e relegadas a um segundo

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brou um pesado ônus a André Breton e àque- sentido marxista do termo, é primordial que
les que o rodeavam, por outro deu ao sur- ele tenha se libertado das convenções insti-
realismo uma sólida consciência política que tuídas pela sociedade burguesa. Entre elas
anteriormente não existia. estão as de pátria, família, religião, amor
Foi no número cinco da revista La Révo- e arte, as quais se faz necessário destruir
lution Surréaliste, veículo oficial do movi- e superar. Para Breton e seus colegas é
mento, lançado em outubro de 1925, que An- impossível, incompatível mesmo, lutar por
dré Breton escreve um artigo intitulado Leon ideias sociais avançadas mantendo uma com-
Trotsky: Lênin, acerca das impressões que preensão tão retrógrada acerca desses pon-
lhe causaram a leitura do livro que o coman- tos, o que no modo de entender dos surre-
dante do Exército Vermelho escrevera so- alistas acontecia com os militantes do par-
bre o líder da Revolução Russa. Nesse ar- tido. Sobre isso, Breton escreve no Segundo
tigo, Breton rechaça a propaganda negativa Manifesto do Surrealismo em 1929 que não
de Lênin feita no ocidente; nega a ideia de via, a despeito de alguns revolucionários de
que a Revolução Russa teria chegado ao fim espírito tacanho, razão para os surrealistas
ao afirmar que uma revolução de tal ampli- deixarem de considerar no mesmo campo
tude não poderia estar tão depressa acabada; que o da revolução social os problemas do
confirma o caráter revolucionário do sur- amor, do sonho, da loucura, da arte e da re-
realismo, findando o artigo com um “Viva ligião (Breton, 1985, p. 114,115).
Lênin!” e um “Saúdo humildemente Leon Entretanto, e devido a essa fundamental
Trotsky”. É após esse episódio que se inicia divergência, os surrealistas aceitam longas
a aproximação dos surrealistas com os co- discussões com o partido como condição
munistas, em especial com a revista Clarté para o seu ingresso no PCF. Em tais debates
dirigida por Henri Barbusse, com a qual eles os surrealistas tentavam fazer ver aos comu-
passam a colaborar e da qual rapidamente se nistas que Lautréamont e Sade tinham tam-
afastarão. O entusiasmo revelado por Breton bém procedido, da mesma maneira que Marx
nesse artigo inicia um longo e desgastante e Engels, em direção a uma libertação ver-
debate no interior do Grupo de Paris e outro dadeira do homem. Porém, era justamente
de igual proporção com os comunistas, em esse “espírito tacanho” segundo Breton, que
especial com o Partido Comunista Francês impedia os comunistas de compreender cer-
(PCF), onde os surrealistas postulavam a sua tos pontos de vista do surrealismo. Sobre es-
entrada. sas discussões com o PC, Breton escreve em
O cerne da querela entre o surrealismo 1929:
e o comunismo nesses dez anos de con-
tato mais estreito encontra-se na irredutível No curso de três interrogatórios
postura de autonomia, defendida ardorosa- de muitas horas, precisei defender
mente por Breton e seus companheiros, e o surrealismo da acusação pueril
das próprias convicções revolucionárias que de ser em sua essência um movi-
tinha o surrealismo. Essas convicções pas- mento político de orientação niti-
savam para os surrealistas pela ideia de que damente anticomunista e contrar-
para o surgimento de um “novo homem”, no revolucionária. Discussão pro-

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funda de minhas ideias, inútil dizer idealistas” em prol de uma causa verdadeira-
que, da parte dos que me julgavam, mente revolucionária.
eu não podia esperar. “ Se o Todavia, em detrimento de toda a
senhor é marxista” berrava nessa polêmica que duraria dois anos, os surrea-
época Michel Marty para um de listas são aceitos pelo partido em 1927,
nós, “o senhor não precisa ser sur- ainda que a questão não tenha sido resolvida
realista.” [...] Como não ficar ter- e se perpetuasse durante e após o convívio
rivelmente inquieto com um tal en- com os comunistas. Nesse mesmo ano, em
fraquecimento de nível ideológico decorrência da adesão de Breton ao partido
de um partido que pouco antes es- e de outros membros importantes do grupo
tava brilhantemente armado com como Louis Aragon, Paul Éluard e Benjamin
duas das mais fortes cabeças do Péret, o movimento perde Philippe Soupault
século XIX!. (Breton, 1985, p. e Roger Vitrac que não querem nenhuma
117, 118) espécie de relação com militantes, sendo
acompanhados por vários outros membros.
Se o debate com os comunistas é áspero, Dois anos mais tarde, é a vez de Antonin
ele não é menos ríspido no interior do Artaud que escreve o panfleto O blefe
próprio surrealismo, vindo a ocasionar várias surrealista, no qual afirmava que a adesão
exclusões de membros do movimento. A de Breton e seus amigos ao comunismo
primeira ruptura com um membro do grupo acabara com o movimento.
se dá em 1926 com Pierre Naville, um dos O Segundo Manifesto do Surrealismo é
fundadores do surrealismo e então diretor da publicado em 1929 no último número de
revista La Révolution Surréaliste, que tenta La Révolution Surréaliste, que doravante
colocar seus colegas diante de um dilema. irá se chamar, por imposição de Aragon
Naville questiona se seria legítimo crer numa que dirigirá a revista, Le Surréalisme Au
libertação do espírito antes da derrocada Service De La Révolution, abreviadamente
das condições burguesas da vida material (S.A.S.D.L.R). Nesse manifesto, além de se-
ou se, contrariamente, não seria necessário veras críticas a ex-companheiros, há três
primeiramente abolir essas condições para pontos discutidos por Breton que se desta-
que só então fosse possível a libertação cam. Primeiramente a ideia, buscada em
do espírito, tal qual o surrealismo dese- Hegel, de um ponto supremo que ultrapas-
java. Breton responde com o texto Légitime saria uma série de pares opostos:
défense (1926), demonstrando que dialeti-
camente a questão de Naville não tem sen- Tudo indica a existência de um
tido e que as atividades interiores do grupo certo ponto do espírito, onde vida
não devem ser controladas de fora, nem pelo e morte, real e imaginário, pas-
marxismo1 . Naville fica com o partido, em- sado e futuro, o comunicável e o
bora tenha tentado convencer os seus com- incomunicável, o alto e o baixo,
panheiros a abandonarem “as brincadeiras cessam de ser percebidos como
1
Ver La Révolution Surréaliste n.8, dezembro de contraditórios. Ora, em vão se
1926, p. 30-36. procuraria na atividade surrealista

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outro móvel que não a esperança a tomar parte em uma revolução sem ques-
de determinar esse ponto. (Breton, tionar a legitimidade moral dos métodos di-
1985, p. 98) tos revolucionários. Esse é um dos pon-
tos nevrálgicos da divergência com os comu-
Socialmente, os surrealistas entendem que nistas e que remonta ao período da revista
esse ponto supremo está na Revolução, pois Clarté, mesma época em que se recusam a
com ela as contradições da sociedade bur- colaborar com o jornal L’ Humanité.
guesa deixariam de existir. No entanto, não Henri Barbusse, considerado pelos surrea-
se cansarão de afirmar que as outras anti- listas um escritor medíocre, também escrevia
nomias, fruto dessa mesma sociedade e que para o jornal oficial do PCF e lhes tinha su-
aos comunistas pareciam irrelevantes, mere- gerido a participação através de uma nove-
cem igual atenção e incessante luta a fim de la literária por dia. A recusa de Breton e
superá-las, sob pena de fracasso dessa revo- de seus amigos a tomarem parte em tal em-
lução. Outro ponto de destaque no Segundo preitada, revela de que forma o surrealismo
Manifesto é a adesão do surrealismo ao ma- pensava acerca da literatura. A proposta de
terialismo dialético. Barbusse é para os surrealistas uma prática
Aprofunda-se aqui a divergência com o literária reacionária e contra a qual se faz
PC, o qual não entendia ser possível que necessário romper. Para eles é impossível
questões de caráter “metafísico” pudessem sacrificar a obra de arte, que deve em sua
ser relevantes para alguém que se consi- gênese surgir livre de quaisquer compromis-
dera materialista. A noção de que no sos, àquela dita “de propaganda” (Breton,
sonho, no acaso e mesmo na escrita au- Légitime défense). O engajamento político,
tomática pudesse haver algo de premonitório portanto, não deve se dar no âmbito da obra
como criam os surrealistas, além da ideia de em si, mas sim através da prática revolu-
realidade enquanto “convenção burguesa”, cionária de seus artistas no dia a dia, e tam-
não podia ser compreendida pela prática bém na postura crítica de um membro no in-
funcional do partido. Diante disso, os terior do movimento revolucionário ao qual
surrealistas argumentam fundamentando-se pertence. Para os surrealistas, portanto, a
nas descobertas de Freud sobre o incons- “arte de propaganda” era um escândalo e a
ciente para as “coincidências atordoantes” sua recusa estava fundamentada em orien-
na vida diária propiciadas pelo acaso e nas tações freudianas e trotskistas, as quais em
noções de Hegel sobre o mesmo. Defendem contrapartida figuravam para o partido como
ainda a existência de certos estados psíquicos ideologias idealistas e socialdemocratas.
ainda não totalmente conhecidos e que deve-
riam ser explorados, não implicando isso de
maneira alguma uma contradição com o ma-
2 Rupturas: O Congresso dos
terialismo filosófico. Escritores para Defesa da
Por fim, o Segundo Manifesto discute o Cultura e o “Caso Aragon”
caráter controlador do Partido e da Interna-
cional, o qual os surrealistas jamais abriram Durante a primeira metade dos anos trinta
mão de criticar, recusando-se dessa forma a contenda entre surrealistas e comunistas

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acirra-se. Breton questiona o partido em a França, assinam uma carta para a União In-
face aos “Processos de Moscou”, que já ternacional dos Escritores. Nela, o Segundo
vinham acontecendo desde 1929, e denun- Manifesto do Surrealismo, a psicanálise e
cia a degradação ideológica do comunismo o trotskismo são considerados antirrevolu-
oficial, que em nome do “Estado” traiu os cionários e idealistas.
princípios revolucionários e em consequên- A assinatura de tal documento causa
cia Marx e Engels. Breton percebe que a enorme barulho no interior do grupo. Vários
ideia de liberdade que promoveu o encon- membros pedem a exclusão de Aragon e
tro do surrealismo com o comunismo está Sadoul que com tal atitude abriam mão do
seriamente ameaçada devido ao que estava surrealismo. Contudo, Aragon publica Le
acontecendo na União Soviética e também surréalisme et le devenir révolutionnaire no
pelo crescente patriotismo do PCF. As críti- número três de S.A.S.D.L.R. Nesse texto ele
cas cada vez mais ácidas ao partido, a des- demonstra haver convergências entre surrea-
confiança crescente ao culto a Stalin e a de- lismo e comunismo filosoficamente através
fesa de Trotsky, além da recusa de Breton do materialismo dialético, enquanto obje-
em renegar um texto de Ferdinand Alquié tivos práticos na ação revolucionária, e tam-
que censurava as concepções cívico-morais bém no que consiste à situação social, já
que presidiram o filme russo O caminho da que os surrealistas sofriam, como os inte-
vida acarretam, em 1933, na sua exclusão lectuais de esquerda, repressão para publi-
do diretório da Associação dos Escritores e carem seus textos e obras. Esse texto em
Artistas Revolucionários. A reação dos sur- verdade nada apresenta de novo, apenas ra-
realistas é imediata e segundo eles a “neces- tifica as posições que o grupo vinha tomando
sidade frenética de ortodoxia do partido” é desde 1926 e funciona na prática como
contraditória a Engels que dizia que “um par- uma mea culpa de Aragon, que somada as
tido reconhece-se como um partido vitorioso suas ameaças de suicídio acabam contempo-
dividindo-se e podendo suportar a divisão” rizando a situação.
(Durozoi & Lecherbonnier, 1976, p. 282). É No entanto, o mal-estar é contínuo e
em meio a esse contexto que se dá uma das Aragon só faz aumentar a tensão em vários
mais marcantes rupturas no interior do grupo episódios, os quais revelam o seu distancia-
surrealista de Paris. mento cada vez maior do surrealismo. Num
O “Caso Aragon”, como ficou conhecido, deles, durante uma reunião do grupo, Sal-
inicia-se ainda em 1930 quando em compa- vador Dali esboçava um objeto-surrealista
nhia de Georges Sadoul, Louis Aragon re- que se tornaria célebre, um smoking coberto
presenta o surrealismo na Segunda Confe- de cálices repletos de leite. Irritado, Aragon
rência Internacional dos Escritores Revolu- irrompe aos berros dizendo que “o leite
cionários em Kharkov, na então União So- poderia ser dado às criancinhas”.
viética. Como havia sido combinado com A situação chega ao seu limite em fins de
Breton em Paris, os dois fazem acusações 1931 quando Aragon publica o poema Front
contra a revista Monde de Barbusse, o que Rouge, na revista da União Internacional
não impede a eleição deste para a presidência dos Escritores. Escrito sob encomenda do
do congresso. Todavia, antes do retorno para partido, o poema causa, por esse motivo,

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escândalo no interior do grupo e também que os surrealistas se dispunham a pagar para


fora dele, pois faz apologia ao assassinato defender as suas convicções. A exclusão de
político, o que custa a Aragon um processo Aragon do surrealismo, portanto, não deve
que lhe poderia dar cinco anos de prisão. ser entendida através de motivações políti-
Ainda assim, os surrealistas o defendem e cas apenas. Ficar com o partido naquele
conseguem em torno de trezentas assinatu- momento significava também não apenas es-
ras ao seu favor. Como argumento de de- tar de acordo com o totalitarismo stalinista
fesa, Breton, embora questione a qualidade que se configurava na URSS, mas, sobre-
do poema, afirma haver uma grande dife- tudo, abandonar um projeto revolucionário
rença entre o que se diz poeticamente e a radicalmente amplo na concepção dos sur-
ação de fato o que, ironicamente, poderia se realistas, e que ambicionava “transformar o
aplicar à discussão sobre o objeto-surrealista mundo e mudar a vida”2 , por outro que pas-
esboçado por Dali. Após esse episódio, a sava necessariamente pelo controle incondi-
situação de Aragon é insustentável. Em cional e arbitrário do partido sobre qualquer
março de 1932 aparecem dois panfletos con- questão. Esse outro projeto, no modo de en-
tra ele. Um de Éluard, Certificat, e outro co- tender do surrealismo, lançava mão dos ob-
letivo, Paillasse, que conta com a assinatura jetivos primeiros da Revolução preconizados
de todos os membros do grupo, exceto a de por Marx, Engels e levados a cabo por Lênin
André Breton. A exclusão é inevitável e e Trotsky, em nome do oportunismo dos diri-
Aragon fica com o partido. gentes e do culto a um líder que renegara
O “Caso Aragon” é emblemático no os valores revolucionários em nome do na-
que se refere à compreensão da tumul- cionalismo e do Estado.
tuada atividade dos surrealistas no PCF. A expulsão de Aragon e outros membros
Amigo íntimo de Breton desde 1917, quando do movimento durante esse período demons-
ambos então estudantes de medicina se tra a coerência por parte dos surrealistas a-
conhecem em meio a Primeira Guerra cerca de seus preceitos ideológicos e filosó-
Mundial num hospital para alienados men- ficos, além de uma lucidez crítica em re-
tais, Aragon é um dos fundadores da revista lação ao período que Stalin esteve à frente
dadaísta/pré-surrealista Littérature, respon- da URSS e que só chegaria aos partidos co-
sável pela chegada de Tristan Tzara à Paris. munistas vinte anos depois. Lucidez que
Junto com Breton rompe com o dadaísmo na época do desligamento dos surrealistas
e funda o surrealismo, tornando-se um dos do partido foi vista como uma traição à es-
seus membros mais ativos e criativos, ri- querda. Vem desse período a alcunha pejo-
valizando muitas vezes com o próprio Bre- rativa de “Papa do surrealismo” ganha por
ton nesse sentido. A ruptura, dolorosamente Breton, que foi acusado de não tolerar ideias
sentida por ambas as partes como confes- divergentes das suas, punindo com a expul-
saria Breton anos mais tarde na série de são do movimento os companheiros que o
entrevistas para a Radiodiffusion Française, 2
“É preciso transformar o mundo” (Karl Marx);
com um membro da envergadura de Louis “É necessário mudar a vida” (Arthur Rimbaud). Os
Aragon, e mais tarde por motivos seme- surrealistas farão dessas duas frases uma só, a qual se
lhantes com Éluard e Dali, revela o preço tornará uma de suas palavras de ordem.

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contrariasse. Entretanto, uma análise mais escritor russo (Breton, 1969, p. 177). Em
cuidadosa revela que embora fundador e um represália, a delegação soviética exige a ex-
dos principais teóricos surrealistas, não é ex- clusão de Breton do congresso. Percebendo
clusivamente André Breton quem determi- ser impossível a conciliação e sentindo-se
nava quem era excluído ou não. Tais ati- desgastado com a situação entre surrealis-
tudes surgiam espontaneamente no interior tas e comunistas que se arrastava por anos,
do movimento, como é possível perceber no Crevel, também membro do PCF e sempre
“Caso Aragon.”. fiel a Breton, comete suicídio. Por fim, É-
Mas a ruptura definitiva com os comu- luard consegue ler o discurso de Breton, já
nistas ocorreria somente em 1935 e o fator com a sala praticamente vazia e com a ener-
decisivo é, sem dúvida, a repressão stalinista gia elétrica para ser cortada a qualquer mo-
na Rússia. Em junho daquele ano em Paris, mento, pois o espaço havia sido alugado até
os comunistas organizam o Congresso dos meia-noite e meia.
Escritores para Defesa da Cultura. Os sur- Nesse discurso, Breton coloca o sur-
realistas queriam participar e René Crevel realismo numa posição contrária ao pacto
empreendeu todos os esforços para que Bre- franco-soviético e chama a atenção para o
ton pudesse ler um discurso. Porém, um in- estreitamento não com uma França cultural,
cidente ocorrido uma semana antes do con- mas sim com uma França ultra-imperialista
gresso deu motivo para que fosse negada a estupidificada por ter incubado o monstro
palavra a Breton. hitleriano. É devido a essa França impe-
Ilya Ehrenbourg, escritor russo que fazia rialista que posa de “irmã mais velha da
parte da delegação soviética concedeu uma República soviética, ostentando ares prote-
entrevista na qual relembrara o que já dis- tores” (Breton, 1969, p. 175), que os sur-
sera certa vez sobre o surrealismo e seus in- realistas questionam o papel crítico do inte-
tegrantes. Ehrenbourg reafirmou que os sur- lectual revolucionário. Breton coloca-se a
realistas aceitavam muito bem Hegel, Marx e favor sim de um intercâmbio cultural e cien-
a revolução, mas o que não queriam era tra- tífico, mas vê com pessimismo a troca tal ela
balhar, pois alguns estavam muito preocupa- se configura:
dos em devorar uma herança, enquanto ou-
tros o dote de alguma mulher. Além disso, No plano intelectual, se se pode
estavam também bastante ocupados com o dizer, aguardemos que os serviços
sonho, a pederastia, o fetichismo, o exibi- de propaganda do Quai d’ Orsay
cionismo e a sodomia. E como Freud vinha dele se aproveitem para despejar
em socorro, as perversões comuns eram ve- sobre a URSS a onda de insô-
ladas com o incompreensível. Enfim, quanto nias e de canalhices que a França
mais idiota melhor. (Ehrenbourg, apud. Bre- mantém a disposição dos outros
ton, 1985, p. 188,189) povos, sob a forma de jornais,
Encontrando por acaso Ehrenbourg na livros, filmes e turnês da Comédie-
rua, Breton decide dar-lhe uma severa repri- Française. Não é de boa von-
menda e depois de apresentar-se o esbofeteia tade que veremos tudo isso se jun-
várias vezes, sem reação alguma por parte do tar às Obras Completas de Mau-

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passant, às peças de Scrib, de uma colaboração cultural entre a França e a


Claudel e de Louis Verneuil, que URSS” (Breton, 1997, p. 35).
já se tinham introduzido impune- Fato é que o rompimento com os comu-
mente. Estas diversas conside- nistas era inevitável e o congresso serviria,
rações nos obrigam a ficar em es- sobretudo para marcar essa postura. O dis-
tado de alerta. (Breton, 1985, p. curso lido por Éluard ainda reafirma a in-
178). dependência do surrealismo, a sua constante
busca pela liberdade total do homem, além
O estado de alerta em que se colocam de críticas à corrupção ideológica e moral
os surrealistas baseia-se não apenas em do partido. Contudo, a oficialização da rup-
questões de caráter cultural e estéticos que tura viria logo em seguida, no mês de agosto,
poderiam ser discutíveis até, mas também no com o texto coletivo Du temps que les sur-
clima de animosidade em que se tenta colo- réalistes avaient raison, no qual em meio à
car o povo francês em relação ao alemão. análise do congresso o surrealismo se posi-
Para ilustrar tal clima Breton se refere a uma ciona oficialmente em relação à política de
matéria publicada no L’Humanité, na qual os Moscou:
proletários são conclamados a defenderem o
patrimônio cultural da França. Com o risco de provocar o furor
Essa matéria faz Breton perguntar se essa de seus turiferários, perguntamos
tentativa de renovação da ideia de pátria não se é necessária uma outra avaliação
é uma contradição com a teoria de Marx. para julgar por suas obras um
Além disso, afirma também estar aí incon- regime, na espécie, o atual regime
testavelmente implícita para o trabalhador da Rússia soviética e o chefe todo-
francês a ideia de defender o patrimônio poderoso sob o qual esse regime
cultural da França da Alemanha. Partindo está se tornando a negação mesma
disso, Breton entende haver uma tentativa do que devia ser e do que foi.
de “esmagamento do pensamento alemão”, A esse regime, a esse chefe, não
sendo utilizado o argumento falacioso de podemos senão manifestar formal-
defesa do patrimônio cultural francês (ibid, mente a nossa desconfiança. (Bre-
p. 176). Pensamento alemão esse que se ton, 1985, p.200, 201).
revolucionário ontem, também o continuará
revolucionário amanhã. A Alemanha e o Os dez anos de atribulada convivência
povo alemão, pensa Breton, não são Hitler, com os comunistas serviram não apenas para
portanto, não se pode permitir o isolamento uma tomada de consciência tão somente no
completo do país e de seu povo, diz Breton campo social por parte dos surrealistas, mas,
no discurso lido por Paul Éluard. Barbusse, acima de tudo, para uma sólida e definitiva
entretanto, rebate as críticas no dia seguinte definição do projeto surrealista que, como já
por intermédio do “seu jornal”, ironiza Bre- se referiu, sempre ambicionou ultrapassar a
ton, publicando que “Éluard manifestou- esfera da arte. Arte que também precisará ser
se contra o pacto franco-soviético e contra defendida do controle do partido e do aparato

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de propaganda de Stalin, arte que vem dis- contra questões pertinentes àquele momento
farçada de revolucionária através do Realis- histórico, quando a “arte de propaganda” e
mo Socialista. É essa preocupação aliada à o Realismo Socialista figuravam como arte
admiração de Breton por Trotsky que pro- revolucionária oficial. Dessa forma, num
piciará o encontro de ambos no México em sentido mais amplo, o manifesto posiciona-
1938. se radicalmente contra o stalinismo. Sobre
essa “arte revolucionária” escreve Trotsky
em A burocracia totalitária e a arte:
3 Breton e Trotsky: Por uma
arte revolucionária Não é possível contemplar sem
independente repulsa física mesclada com hor-
ror, a reprodução de quadros e es-
A aproximação com o revolucionário russo culturas soviéticas nos quais fun-
começa efetivamente em 1934, quando Bre- cionários armados de pincel, sob a
ton escreve o panfleto Planeta sem pass- vigilância de funcionários armados
aporte, no qual se posiciona contrariamente de máusers, glorificam os chefes
à expulsão de Trotsky do território francês. ‘grandes’ e ‘geniais’, privados na
No campo intelectual, a admiração pelo “sig- realidade da menor centelha de
natário da paz de Brest-Litovsk” vem de gênio e grandeza. [...] a arte da
anos antes, desde o livro que este escrevera época stalinista entrará na história
sobre Lênin e que causara profundo impacto como a expressão mais espetacular
sobre o jovem Breton. Mas é sem dúvida a do profundo declínio da revolução
concepção que Trotsky tinha sobre a inde- proletária. (Breton-Trotsky, 1985,
pendência da arte, expressas primeiramente p. 18).
em 1923 com Literatura e revolução, que
fazem o surrealismo dele se aproximar, ainda e Breton sobre Stalin em A verdade sobre
que o próprio Trotsky reconheça ser esse o processo de Moscou, declaração lida em
texto “pré-histórico”, o que o fará rever e 1936:
modificar algumas posições sobre a inde-
pendência da arte em A arte e a revolução, [...] a partir do momento em que
já em 1938. nos esclarece definitivamente so-
Em julho de 1938, portanto, Breton e Trot- bre a personalidade de Stalin: o in-
sky encontram-se no México e lá redigem divíduo que chegou até esse ponto
o manifesto Por uma arte revolucionária é o grande traidor e principal ini-
independente. Todavia, por questões es- migo da revolução proletária. De-
tratégicas o nome de Trotsky não aparece vemos combatê-lo com todas as
no texto original, mas sim o do pintor me- nossas forças, devemos ver nele o
xicano Diego Rivera. A independência da principal falsário de hoje — em-
arte nesse manifesto não se configura ape- preende não somente falsear a sig-
nas como liberdade artística contra qual- nificação dos homens, mas tam-
quer forma de opressão, ela se direciona bém falsear a história — e o mais

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imperdoável dos assassinos. (Ibid, da preparação da revolução. No


p. 81) entanto, o artista só pode servir
à luta emancipadora quando está
Assim, Breton e Trotsky ao perceberem compenetrado subjetivamente de
a degradação da arte representada pelo seu conteúdo social e individual,
Realismo soviético como uma extensão da quando se faz passar por seus
degradação da revolução proletária — pois nervos o sentido e o drama dessa
“a arte da época stalinista entrará na história luta e quando procura livremente
como a expressão mais espetacular do pro- dar uma encarnação artística a seu
fundo declínio da revolução proletária” — mundo interior. (Ibid, 1985, p. 43)
entendem que o combate a Stalin é tam-
bém combate a essa arte cujos fins são escu- Mas é no parágrafo anterior, inteiramente
sos. Para os autores de Por uma arte revolu- redigido por Trotsky — retomando o que ele
cionária independente, não se pode disso- já escrevera em A revolução traída (1936),
ciar um combate do outro, porque compreen- quando afirmava que nem a ciência e nem a
dem que a arte não pode salvar-se por ela arte deveriam sofrer algum tipo de imposição
própria e sendo assim, ela deve então buscar (Trotsky, 1980, p.125) — que se percebe
uma conexão com um movimento social re- claramente o quanto a ideia de independên-
volucionário. “A independência da arte para cia da arte é cara ao manifesto:
a revolução, a revolução para a libertação
Se, para o desenvolvimento das
definitiva da arte” (Breton-Trotsky, 1985, p.
forças produtivas materiais, cabe
47), é essa a palavra de ordem do manifesto.
à revolução erigir um regime so-
Essa compreensão do lugar reservado à
cialista de plano centralizado, para
arte no processo revolucionário poderia dar
a criação intelectual ela deve, já
margem para se pensar que ela continuaria
desde o começo, estabelecer e as-
a correr o risco de tornar-se subjugada aos
segurar um regime anarquista de
interesses políticos de qualquer outro grupo
liberdade individual. Nenhuma au-
que almeje o poder. Todavia, cabe lembrar
toridade, nenhuma coação, nem o
a querela com o PCF a partir da recusa do
menor traço de comando! As di-
surrealismo em fazer parte de um processo
versas associações de cientistas e
revolucionário sem questionar a legitimidade
os grupos coletivos de artistas que
moral dos métodos utilizados para pôr em
trabalharão para resolver tarefas
prática e realizar esse processo. Para os sur-
nunca antes tão grandiosas unica-
realistas, os fins jamais justificam os meios.
mente podem surgir e desenvolver
Contra tal ideia de subjugação, pode-se ler
um trabalho fecundo na base de
no parágrafo onze do Manifesto por uma arte
uma livre amizade criadora, sem
independente:
a menor coação externa. (Breton-
Trotsky, 1985, p. 42, 43)
Consideramos que a tarefa
suprema da arte em nossa época é A recusa peremptória a qualquer tipo de
participar consciente e ativamente intervenção exterior à arte deixa muito claro

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12 Anderson da Costa

o papel destinado a ela não só no pro- do artista, tornando-o assim, antirrevolu-


cesso revolucionário, mas também no pro- cionário na concepção dos surrealistas, sem-
cesso pós-revolucionário. O “regime anar- pre estará na ordem do dia. É dever do artista
quista de liberdade individual” vem ao en- revolucionário posicionar-se contra essa a-
contro do que os surrealistas entendiam por titude e denunciá-la, mesmo que ela venha
postura crítica do intelectual diante e durante a ser um “esforço de guerra”, como ocorre
o processo revolucionário. Caberia, então, à com o engajamento de vários artistas durante
arte e ao artista assegurar que os princípios a ocupação nazista na França. A posição
revolucionários não fossem desviados, que a contrária do Grupo de Paris à maneira como
liberdade, pilar principal da Revolução, não vários artistas colocam a serviço da Re-
sucumbisse diante de uma chamada “Razão sistência a sua arte, gerará fortes críticas
de Estado”, com a qual se procurava legi- desde ex-companheiros como Louis Aragon
timar a arte da União Soviética. Percebe- e Paul Éluard a Jean-Paul Sartre, e que desta
se aqui, portanto, uma censura direta ao que vez ultrapassarão os limites do partido.
ocorria na Rússia de Stalin. Os surrealistas, contudo, mantêm-se
Ao fim do manifesto, convida-se à união firmes nas posições que sempre defenderam,
os representantes de todas as correntes “es- insistindo que a verdadeira causa revolu-
téticas, filosóficas e razoavelmente diver- cionária tem como sustentáculo a liberdade
gentes”, contra o stalinismo, total, a qual não pode ser sacrificada em
nome de uma liberdade estratégica. É isso
Os marxistas podem caminhar aqui
que Breton e Trotsky procuraram firmar
de mãos dadas com os anarquistas,
com o manifesto e com a F.I.A.R.I, e que
com a condição que uns e outros
será retomado por Benjamin Péret em 1945
rompam implacavelmente com o
com Le déshonneur des poètes sobre a “Arte
espírito policial reacionário, quer
da Resistência”, um dos últimos textos
seja representado por Josef Stalin
surrealistas a polemizar a questão.
ou por seu vassalo Garcia Oliver
Nele, Péret critica mais uma vez a
(Ibid, 1985, p. 45)
degradação ideológica, desta vez dos poetas
terminando com a proposta de criação que abandonaram o dever revolucionário da
da Federação Internacional da Arte Revolu- poesia para fazer alianças com setores que
cionária (F.I.A.R.I), a qual terá curta du- sempre se mostraram contrários a ela. Péret
ração. Anos mais tarde, em entrevista a An- define assim o papel do poeta:
dré Parinaud, Breton atribuirá o fracasso da
F.I.A.R.I “à situação internacional cada vez O poeta tem antes de mais de
mais sombria a partir de Munique” (Breton, tomar consciência da sua natureza
1969, p.192.), o que somado ao assassinato e do seu lugar no mundo. Inven-
de Trotsky contribuiu decisivamente para o tor para quem a descoberta cons-
fim do projeto. titui apenas o meio para alcançar
A postura do surrealismo em rechaçar a uma nova descoberta tem de com-
“arte de propaganda”, a qual no seu en- bater sem descanso os deuses que
tendimento cerceava a liberdade individual paralisam, [...]. O poeta será,

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pois revolucionário; mas não um capital entre surrealistas e comunistas acerca


desses que se opõem ao tirano do papel da arte na revolução. Para aqueles é
de hoje, a seus olhos nefasto por somente através da arte, quando essa propõe
ser prejudicial aos seus interesses, transformações radicais para a vida humana
para glorificarem a excelência do — o ponto supremo de que fala Breton —
opressor de amanhã, de que desde que se pode almejar um novo homem, en-
logo se constituíram servidores. quanto que para estes ela deve estar a serviço
O poeta luta contra toda e qual- da revolução, a única capaz de empreender o
quer opressão [...];. Não quer processo de libertação do homem. Todavia,
isso dizer que deseje pôr a poe- para os surrealistas, caso assim se procedesse
sia a serviço de uma ação política, em relação à poesia, essa acabaria por negar
mesmo sendo ela revolucionária. a si mesma, pois abandonaria a sua razão de
É a sua qualidade de poeta que existir. Assim, esse texto de Péret bastaria,
faz dele um revolucionário, que segundo Durozoi e Lecherbonnier (1976, p.
tem de combater em todos os ter- 297), para explicar todos os mal entendidos
renos: no da poesia, através dos ocorridos ao longo dos anos entre os surreal-
meios que a esta são próprios, istas e os comunistas.
e ao mesmo tempo no terreno
social, sem nunca confundir os
Considerações finais
dois campos de ação, sob pena
de restabelecer a confusão que A controvérsia entre surrealistas e comu-
se trata de dissipar e, em conse- nistas no período entre guerras possui a-
quência, de deixar de ser poeta, tualmente talvez um valor histórico apenas,
isto é, revolucionário”. (Péret- mas demonstra a hoje conhecida prática con-
Gombrowicz, 1989, p. 18) troladora e mesmo policialesca tão comum
aos partidos comunistas durante o período
Esta passagem, que retoma a posição de- em que Stalin esteve à frente da União So-
fendida pelos surrealistas desde Légitime viética. Prática essa que acarretou em uma
défense, demonstra claramente a maneira série de equívocos que apenas anos mais
como o surrealismo entendia a poesia en- tarde, quando das denúncias dos crimes de
quanto revolucionária nela mesma, quando Stalin no XXI Congresso do PCUS, seriam
esta tem a função de buscar mudanças pro- (re)conhecidos por esses partidos no mundo
fundas para o homem. Nesse caso, sendo inteiro.
tais mudanças libertárias na sua essência tal Cabe ainda destacar que a atitude vista
como o surrealismo a compreende, a poe- como “traidora” dos surrealistas à esquerda
sia não necessita filiar-se aos dogmas de da época revelou-se com o passar do tempo
um partido, ainda que revolucionário, sob não apenas coerente com as concepções
pena de correr o sério risco de transformar-se sobre arte e liberdade por parte do sur-
numa caricatura dela mesma, vindo a tornar- realismo, mas também de apurada lucidez
se apenas um instrumento de atuação desse política naquele momento. Lucidez essa, a-
partido. Sem dúvida aqui está a divergência liás, atribuída a André Breton por Jacque-

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14 Anderson da Costa

line Chénieux-Gendron que afirma que as Boaventura. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz
análises e denúncias sobre os Processos e Terra, 1985.
de Moscou por parte de Breton foram “as
primeiras e uma das poucas análises lúcidas” C ARROUGES, Michel. André Breton et les
que se fez dos mesmos na época (Chénieux- données fondamentales du Surréalisme.
Gendron, 1992, p. 95). 1. ed. Paris: Gallimard, 1971.
Por fim, ao final de dez anos de altercação C HÉNIEUX -G ENDRON, Jacqueline. Le sur-
com os comunistas e em face do que veio a réalisme. Paris: Presses Universitaires
público alguns anos mais tarde no XXI Con- de France, 1984.
gresso do Partido Comunista da União So-
viética, parece, ao que tudo indica, que eram D UROZOI, Gérard & L ECHERBONNIER,
aqueles “tempos em que os surrealistas ti- Bernard. O Surrealismo. Trad. Eugê-
nham razão”. nia Aguiar e Silva. 1. ed. Coimbra:
Almedina, 1976.
Bibliografia P ÉRET, Benjamin & G OMBROWICZ,
A RAGON, Louis. Le surréalisme et le de- Witold. Contra os poetas. Trad. Júlio
venir revolutionnaire. Le Surréalisme Henriques. Lisboa: Antígna, 1989.
au Service de la Révolution, n. 3, p. 02-
09. Paris : 1931.

B RETON, André. Position politique du


surréalisme. Paris: Librairie Général
Française, 1997.

_____ Manifestos do Surrealismo. Trad.


Luiz Forbes. 1. ed. São Paulo:
Brasiliense, 1985.

_____ Entretiens. Paris: Gallimard, 1969.

_____ Légitme Défense. La Révolution Sur-


réaliste, no 8, p. 30-36 . Paris : 1o dez,
1926.

_____ Leon Trotsky: Lenin. La Révolution


Surréaliste, no 5, p. 29 . Paris : 15 oct,
1925.

B RETON, André & T ROTSKY, Leon. Por


uma arte revolucionária independente.
Trad. Carmem Silva Guedes e Rosa

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