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e MOMENTOs
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5EN[IHI5 DO "MODO
LOsOFI fO DE PENsHFI "

H primeira imagem da filosofia

quem não se dedicou a um estudo sistemático da filosofia


um contato primâno com essa disciplina, a impressão de
certo caos é inevitável. A filosofia é vista como um espaço

carâter não empírico é entendid.o como pura arbitrariedade,


do não como confusão crônica. Porém, essa impressão e
a: a filosofia não é um caos de pontos de vista incomensu-
is, nem consiste simplesmente em possuir certezas. Trata-se
ter opiniões sobre certos temas bem definidos e sustentá-
em algo diferente de uma convicção pessoal; mais ainda,
núcleo essencial da filosofia não é constituído de crenças
icamente definidas e racionalmente fundadas, senão de
blemas e soluções.

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e.e. "O problema" trtrmo momento essencial im falou Zaratwstrat Às vezes os filósofos colocam diferentes
do pensar filosófico (tema, problema, roblemas em diferentes obras. Geralmente, quanto mais os
questãtr, perguntal nrendemos mais percebemos que problemas à primeira vista
esconexos são apenas aspectos de um só2. Por isso não deve-
Se o publico em geral não entende o que os filósofos fazem os só nos perguntar qu al é o problema de Heidegger em Ser
e crê que cada um simplesment e díz o que quer, isso se deve, tempo, mas também qual é "o" problema de Heidegger.
em grande medid a) ao fato de que não entende o problema ou, A compreensão do problema opõe-se à mera reunião de
mais aind.a, não toma consciência da existência de um proble- formações. Por "inforÍnações" não entendo unicamente dados
ma. Esse é o dado da equação que tende a faltar e o morivo íogrâfr,cos ef ou históricos, mas também "saberes" acerca do
essencial da impressão de arbitrariedade. O que o filósofo díz ue o filósofo " dLZ" . Estudar filosofia não é possuir um conjun-
é tomado como "mero drzer", como "irresponsável afirm ãr", ttl de "saberes" a respeito do autor. Posso ter muitos "saberes"
passando-se por alto seu origin ârio carâter de "solução". No
entanto, â filosofia possui problemas) sendo a unidade dinâmica 1. Vários leitores das primeiras versões deste texto expressaram estra-
interna desses problemas o que está na base da mulriplicidade nlteza diante de minha afirmaÇão, consciente e intencional, de que também

e da mudança de temas e opiniões. Quando não há problema


rm Nietzsche existe um "problema". Por momentos pensei escrever um
t'apítulo da segunda parte mostrando como minha tese também vale no
tampouco há filosofia. ('ílso de um autor como Nietzsche. Entretanto, logo compreendi gu€, dessa
A lista dos problemas filosóficos está sempre incompleta lilrma, o texto corria perigo de não encontrar um fi-, pois com base no
e submetida a constante revisão. Não existe, por assim dtzer, nlesmo critério outros exemplos poderiam ser considerados necessários. Por
trrl motivo, me limito a observar:
um catâl.ogo deles fixado por uma instância exrerna à própria
filosofia, e do qual ela poderia se servir. os problemas da 1. Na reflexão nietzschiana exisre conteúdo, coisa que não acontece
disciplina - e isso por sua própria natu reza não esrão ali na maioria dos nietzschianos adolescentes, os quais não passam do
- modismo estilístico.
prontos, esperando simplesmente que o pensador os tome. A 2. O problema de Nietzsche é eviden cíar que da absoluta negação de
sua construção (e não tão só e em primeira linha a sua resposra) toda transcendência não se segue o pessimismo ou o niilismo como
é parte essencial do rrabalho filosófico. consequência "necessáría", para o qual grande parte do esforço con-
siste em explicitar o que a transcendência significa. A impossibilidade
O primeiro passo para entender filosofia é sempre esrabe-
de toda transcendência não tem que ser propriamente provad.a, senão
lecer o problema. Diante de um filósofo particular, devemos explicitada. Na medida em que explicitamos, descobrimos o fenôme-
começar pela pergunra "qual é o problema por ele proposco?" e, no da alienação e, com ele, o caminho para a resposta: justamente a
negação da rranscendência possibilita ao homem assumir seu carâter
eventualmente, "por que ele o formula dessa maneira?". Enten-
criador e, deste modo, dar a si mesmo valores e sentidos.
der um autor é ver sua filosofia como resposta "ao" problema 3. Pode-se estabelecer em Nietzsche uma distinção, paralela à kantiana,
que ele se coloca. Isso vale paraqualquer filósofo, sem exceções. entre "pré-crítico" e"críttco", tqual deve ser fixada em torno ao dife-
Do mesmo modo que pergunto qual é o problema de Husserl rente tratamento do pessimismo e à ruptura com Schopenhauer.
nas Inuestigações lógicas, devo pergunrar qual é o problema de 2. Para o conhecedor é óbvia a inspiraçío, bergsoniana desta ideia;
Heidegger em Ser e ternpq ou qual é o problema de Nierzsche em justamente por isso solicito que não se a identifique.

aB rFl fiÍr:srrfia tr strus ürm*leme= üE mument*s esEencíaiE du "Ír:sdn filnsmfir* ds Fefisar" I ag


sobre Kant, Hegel ou Wittgenstein (saber, por exemplo, que O não atentar ao problema degrada o ensino ou o estudo
Kant afirma que espaço e tempo são inruições) que Hegel nega fiIosófico a um contar ou escutar histórias. Tal tendência é
a existência das coisas em si, ou que VTittgenstein defende a tão forte que se assemelha a um vírus contra o qual parece
teoria pictórica da proposição) e, não obstanre, não seÍ capaz não existir campanha preventiva efr,caz. É .o*um, quando se
de fixar o problema desses autores; nesse caso) apesar de todos pergunta aos alunos em que consiste a contribuição decisiva
os meus esforços, simplesmente não os entendi. O estudo da de Hume ao problema da causalidad"e, obter-se como resposta
filosofia não deve se dirigLr a"saber" o que os filósofos "drzem", ue é o derivar a causalidade do hábito. Aqui temos um bom
mas a entender o que drzern como solução (argumentada) a exemplo de redução de uma filosofia a uma tese, na qual não
problemas bem definidos. se consid era o problema. A afirmação de que o nexo causal
Se nossa tese é correta, então o conceito de uma filosofia surge do hábito é uma resposta que esqueceu sua pergunta.
puramente descrit wa é uma contradição de termor. É certo que O aporte de Hume se redu z, por conseguinte, ao ter "visto" (e
(como, segundo dizem) algumavez alguém disse) toda filosofia descrito adequadamente) algo que outros pensadores não viram.
deve estar referida à "experiên cLa" . outra questão, no entanto, Descrever um fenômeno) contudo, não é resolver um problema.
é se o mero d.escrever a experiência algum a vez constituiu uma Hume parece ser "um rapaz sem problemas". Obviamente, isso
filosofia. Existem de fato filosofias que pretenderam ser pura- está muito longe de ser verdade. Hume descobre o caráter não
mente "descritivas") como, por exemplo, a fenomenologia. A racional do princípio de causalidade, ou seja, que ele não é
análise husserliana da intencionalidade apresenta-se como não suscetível de demonstração. Uma vez que isso fica claro, então,
sendo mais que uma espécie de "inventário" de um certo estado jí que de fato dispomos de tal princípio , aparece a pergunta:
de coisas. É,, todavia, uma "fehz casualidade" que tal análise de onde ele surgiu? Para responder a esta pergunta é que é
solucione tantos problemas) sem se propor problemas que elabor ada a teoria do hábito, a qual ocupa, portanto, um lugar
se evidenciam como tais, quando observamos as dificuldades sistemático subordinado: ela substitui o inviável embasamento
do conceito brentaniano de intencionalidade e sua discussão racional por uma explicação psicológico-causal.
subsequente? Qrre a "teorra" da intencionalidade, assim como Os exemplos poderiam multiplicar-se. A dificuld.ade em se
qualquer outra "teorta" filosófica, também é soluçío a proble- entender a diferença entre d, priori e inato e a tendência a con-
mas, põe-se de manifesto se observamos que há. crrtérios para tinuar redttztndo um ao outro, mesmo quando se é advertido
se estabelecer o que são boas e más teorias sobre o fenômeno de sua radtcal heterogeneidade, evidenciam outros modos de
intencional. Isso não significa que o descrever adequadamenre se apresentar a mesma questão básica (decorrente) em última
não seja um fator decisivo na "soluçío", reformulação e) in- instâncLa,do esquecimento do problema): reduztr aum discurso
clusive, dissolução do problema original. Certamente, ele pode descritivo um outro tipo de discurso absolutamente diverso. A
desempenhar um papel preponderante em vários sentidos; o filosofia não pode (mais precisamente, não deve) ser "contada";
que não pode é eliminar o problema enqlranto tal (reduzrndo, ensinar frlosofra não é "contar histórias". Existe uma diferença
assim, uma tese filosófi ca a uma mera descrição). A filosofia categorial entre a história dos três porquinhos e o Discurso do
não é um discurso descritivo. Toda descriçío é para ela apenas método. Nem Descartes é uma espécie de "Prâtrco", nem o gênio
um eventual problema a ser desenvolvido. rnaligno uma espécie de "lobo mau".

30 í $t fil*smfi* § §*ri§ #i**i*r^n*s üs nlmmentus essefiriais dm "frlüdff filnsufirc de perlg§r" I 3l


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e dtzer que a verdade é o
farardo conhecimenro o,, â" verdade,
entre pensamento e realidade
evidente ou que consiste no acordo a. é uma pergunta filos ôfrca;
apenas de "informações" que
etc. Em ambos os casos, trata-se b. fixa o problema enquanco tal (sem degradâ-lo a um novo
Em Português é faúdico
o
não dererminam problema algum' saber);
da "questão". Na linguagem cornum'
hábito acadêmico de fa:ar c. fixa o problema suficientemente3;
pergunta; um "questionário",
Lrma..quest ío,, não é senão uma d. e que nem sequer basta prestar atençío à pergunta que um
uso acadêmico' porém' o terrno
uma lista de perguntas. Em seu
e se torna extremamente vago' rt autor explicitamente se faz em um texto para entender seu
perde seu ,^iír", interrogativo § problema.
"questão" é usada como sinôni- '
o
Em algumas (poucas) o.trioes, í'i
em Kant pode significar o \
mo de conceito: a,,questão,' do bero
dos casos, entretanto, "a
conceito do bero em Kant. Na maioria a.3. Existem "problemas Íilosóficos
ao tema, um tema 9ue' em
questão' fazreferência proPlamente
rnas aPenas aludido' Assim'
ml caso, por sua vez)rrào ã. fo,,ao,
"questão da metafísic t' e Propusemos uma metodologia de estud.o e uma didática da
por exemplo, se drzque Kant tfatada filosofia centradas na ideia de problema. Ora, afrrmar que a
Mas em que consiste "a questão
Heideg gerda "quescão do ser". fixação do problema constitui o momento essencial do trabalho
cons tderí-la pode nos ajudar
a
da merafísic t, eem q*e medida algo filosófico supõe dar como concedido que ele é efetivamente tal.
parece que Kant toma
entender Kant? se, à prim eiravista, Porém, isto está longe de ser óbvio. Com efeito, dtz-se que ata-
àe um certo "reservatório"'
preexisrenre (e clara-.rrr. definido) 'gefada filosofia não é responder perguntas, mas sim dissolvê-las,
que o clichê ocuka aqui a
uma mínim a anírrse deixa parenre I ..
bvidenciando que elas, em última instância, carecem de sentido.
a "questão do ser" o estado de
mais absolu ta vaguidade. com Esta tese possui uma sólida fund.amentação e sua análise nos
atndamais grave: os aurênticos
problemas desaparecem
coisas é obrigarLa a ir muito além da questão limitada que agora discu-
em uma nebulosa' timos. Não pode ser esse nosso objetivo. Apenas um ponto d"eve
mais
Uma
LJfffe vagavivência de insatis façío' Por
,oô'
lT:::i iT:
um problema filosófico' Ela §er ressaltado, â sabeq 9ue, na dimensão restrit a da qual aqui
seJa, nao basra Ppafaque tenhamos
ia. não c_^^

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comllm se
o firósofo ê o fato de que ali onde o entendimento - ^'t ^
3. Compreender o problema da Cntica da razã,o Pura,, por exemplo, não
crê, eventualmente, que ela' é saber que a pergunta dela é "como são possíveis juízos sintétic os d, priori?" .
contenra com tal irr*ti, façío (e Pode-se "saber" isso e não haver entendido o problema.
jâ é o Pensamento de um proble-
enquanto pura "resistênciC' ,
üs msmentns essenriais dn "mndü filusnficu de pensõr" I 33
3? I Fl filosofia e seus Frnblemas
.

!
E
nos ocupamos, o que à primelra vista se apresenta como uma No caso do que poderíamos chamar de "teses filosóficas",
alternativa excludente se estabelece no seio de uma coincidência plas cumPrem, além das condições mencionadas, inerenres a
básica: se o sem sentido em questão não é meramente o das
$oda tese enquanto tal, uma terceir à, à saber: elas são solução
teses filosóficas) senão o dos próprios Problemas, pelo menos de um problema. O estabelecimento da rese principal de uma
no que concerne ao signifrcado decisivo do problema) Para determinada obra depende, portanto, d, correlativa fixação do
definir o que a filosofia seja,hâ coincidência com o que temos seu problema básico
afirmado. Mais ainda, uma vez que a filosofia, redimensiona- O que foi dito é muito simples, mas tudo indica que esrá
da mediante a crítrca que consideramos, não é propriamente Ionge de ser óbvio. Não é incomum situar a rese em um lugar
"teoria", mas uma "atividade esclarecedora", tarYlpouco aqui é privilegiado do saber filosófico, centrando nela o esrudo do au-
necess ârto assumir uma alternativa excludente. tor. Querer entender a tese filosofica sem o problema é, conrudo,
algo assim como querer entend er a resposta sem a pergunta.
A tese filosofi ca é, origin ana e essencialmente, resposta; ela só
a.q. H tese pode ser entendida em co rrelação com a pergunra à qual res-
ponde. O ser-resPosta não é parte de seu entorno pragm atlco
Diferenciaremos a seguir "proposição", "Pfoposiçáo afi,rmada", contingente, mas de sua nature za logica intrínseca; não é um
"tese", "hipótese", "tese a ser refutada" e "definição". acidente, algo que casualmente lhe acontece, senão que lhe é
A proposição é um enunciado capaz de ser declarado h ermeneuticamente cons titutivo.

verdadeiro ou falso. No conjunto das ProPosições, pod emos A atividade filosófica prim ananão é a afrrmação ou negação
diferen ciar dois grupos, o das afirmadas e o das não afirmadas. de "teses em si", mas sempre em seu vínculo com o problemaa. A
Nem toda proposição é necessariamente afirmada. Entre as aparência de que o afirmar proposições é a arividade básica em
proposições afirmadas situamos a tese. Uma hipótese é um filosofia é muito florte e se deve a que, inclusive para o próprio
candidato a tese. A tese pode, eventualmente, se aPresentar, filósofo, o problema é dado como parte do legado hisrórico
de início, como uma hipótese que se confirma pela ulterior do qual ele nem sempre é plenamente consciente ou qlle, por
argumentação. Dependendo do caso, o autor pode dedicar ser-lhe óbvio, não considera necessário explicirar.
relativamente pouco espaço à sua tese) concentrando-se nas A atenção ao problema não é necess âria apenas para en-
alrernativas a serem negadas. Distinguir entre tese e d,efinição tender um filosofo em particular, mas também para perceb er a
merece cuidado especial: a maioria das definições é meramen- dinâmica própria do movimento filosófico ao longo da hisrória.
te nominal e, portanto, nem verdad eíra nem falsa, não tendo Se nos atemos apenas à tese, o devir filosófico se torna uma mera
senrido concordar ou discordar delas. Baseados no que foi dito sucessão de opiniões cujo carâter essenc ial e o não poder decidir
anteriormente) afirmamos agora: ser uma ProPosição é uma valores de verdade (urn modo de ver gue, colxo já indicamos
propriedade que o enunciado possui "em si"; ser uma Lese,
hipótese ou definição é uma função que ele assume ou não 4. Poder-se-ia inclusive afirmar, como jâ frzemos acima (1" ,2,2.2), que
conforme o contexto. a atividade filosófica básica é a própria formulação do problema.

3rl üs rnmmmntns mssenrimis dm "n'xffidff fif*smfirm de pmnsar" I 35


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[1 2, 2.I], é quase onipresente ao iniciante). Entretanto, não


' nele uma continuidade e até uma direção, tem a ver com
a
se pode entender filosofia se a reduzimos a uma sequência de propria natu reza desse tipo de discurso: explicirar suposros
é
pontos de vista diverso s, jâ que a exata fixação do problema é a forma prim ária na qual se manifesta o movimenro
reflexivo,
elemento essencial para precisar o sentido da própria tese. característica básica do modo particular de racionalidade
pre-
Como regra geral, em filosofia não se contrapõe simples- senre na filosofia (1r, 3, 3.4).
mente uma tese a outra. Quando o movimento filosófico é Alguns exemplos talvez ajudem a iluminar diferenres
as-
interpretado dessa forma, cria-se uma compreensão epidérmica pecros do que foi diro:
dele. Ali onde, à prim erra vista, parece haver uma mera opo-
sição de teses, uma análise mais acurada mos tra) não poucas 1' Geralmente se esrabelece o vínculo entre Kant e Frege
a respei-
vezes) uma mudança na própria pergunta. Com muito menos to da natureza da aritmética como se o segunclo simplesmente
frequência do que se tende a acreditar) teses contraditórias negasse uma tese que o primeiro afirma e afirmasse
uma
são soluções do mesmo problema. Mais do que simplesmente tese que o outro nega. Assim, enqLranto para Kant
os juízos
negar uma tese e a contrapor a outrz, o movimento filosófrco aritméticos são sintéticos a priori, para Frege rais juízos são
característico é a explicitação dos supostos tanto da tese quanto analíticos. o
simples opor de teses encobre aqui, rodavia, o
do problema, a qual termina conduzrndo, não poucas vezes, à que é o verdadeiro assunto e que só pode ser adequadamenre
reformulação destes últimos. fixado no contexto de uma coincidência básica: ranro
Kant
O devir filosófico contém uma certa continuidade, uffi como Frege aceitam que os juízos aritméticos são "informa-
certo sentido, algo assim como uma sedimentação conceitual. tivos". Contudo,, dado o conceiro kantiano de analiticidade,
O pensamento anterior nunca é simplesmente negado ou es- um juízo analítico não pode ser informarivo. Daí surge
o
quecido; ele é sempre "superado" e "integrado" no posterior. O problem a crítico: em que se sustentam os juízos aritméticos
devir não suprime) mas supõe o anterior, e cons trôt sobre sua já que, por não serem analícicos, não podem fazê-lopa
lógica?
base de formas diversass. É ..tto que muitos grandes filósofos Daí, Por outro lado, a solução kantiana mediante o recurso
à
pretenderam apagar tudo e começar do zero) mas sempre se "intuição pura".Dal finalmente) o problema de Irrege:
como
tratou de pura ilusão. Caso tal fato prove alguma coisa, é só que um juízo analítico pode ser informarivo? Colocando as
coisas
grandes filósofos podem ser pequenos homens. A consid eraçáo dessa forma, vê-se com clarezaque Frege não está meramente
da unidade que tese e problema compõem permite ver naquilo afirmando o que Kant nega, mas sim revisando seus supostos,
9ue, a princípio, parecia puramente descontínuo uma d"inâmica suPostos que, mediante o conceito de analiticidade, remerem,
intern à ?, inclusive) um a certa direção constitutiva daquilo que em última instância, à ceoria da proposição e, por meio
clela,
a filosofia é. Que o trabalho filosófico essencial ao longo da à propria concepção de lógica.
história se concentra na inter-relação tesef problema, existind.o 2. Entendida como "mera" tese, a negação da mudança
por parte
de Parmênides Parece ser mais uma daquelas excentricidades

5. Em tal sentido, a história da filosofia está sempre contida na filosofia tão peculiares aos filósofos. Todo aluno de graduação ,.sabe,,
contemporânea. gue, "obviamente", Heráclito "está cerro,,. o que faltaaqui é a

36 I Êl filnsoíia e sEUs prnbl*mas üs r**rn*=*t*g *xsrnt-i.*l:= Sr: "r'r:ü#ü iisms*fsr* i:# #m*:s*r-,'i 37
adequada compreensão do problema do eleata e, sobretudo, Todavia, se por "argumentar" entendemos algo preciso,
a consciência de sua importância. Haver explicitado a própria ntão ele consiste em uma inferência de valores de verdade.
ideia de Razão ao descobrir o princípio de identidade como ma vez acerta a definição anterior, segue-se que a ideia de
t'argumento" não esgota nem caracterrza sufrcientemente
o seu elemento primeiro e definidor e, inversamente, haver a ra-
entendido o dito princípio como exigência básica de toda ionalidade filosófica. Existem modos de "firnd.amentação" q*.
inteligibilidade, é justamente o aporte parmenidiano decisivo. não podem ser reduzidos a"argrtmentos" em sentido estrito. A
Uma vez qtre se toma consciência disso, surge o problema diferença essencial entre ambos reside no elemento de reflexi-
de que todo tipo de mudança e alteridade constitui algo vidad.e radical, necessariamente presente em um caso) mas não
irracional. A solução de Parmênides é, por consequência, no outrou. Um desses modos mencionados é a explicitação, a
não as reconhecer como reais. Dado 9ue, por outra parte, ual consiste em clarificar e precisar conceitos, teses, problemas
os sentidos nos informam da existência de ambas, eles não supostos de todos os tipos e gêneros. A anâlise linguística ou
pod"em nos brindar mais que pura aparência. mântica é um caso particular de explici taçáo7 .
A ideia do filosofar como "discurso argumentativo" é uma
oa descrição do gue, de fato, muitos analíticos produ zem
a.5. E argumento e a fundamentação omo filosofia) ou seja, partem irrefletidamente de problemas
'dados" e refutam outros com um certo refinamento técnico.
A tese é uma solução ao problema e implica um optar em que filosofia, contudo, é al,go diferente de um jogo de engenho.
outras alternativas são descartadas. Tal optar parte da exigência la não se limita a desenvolver consequências de pontos de
de que a resposta seja "pertinente", o que limita ern boa medida arttda pressupostos.
toda arbitrariedade. Entretanto, é óbvio que isso ainda não bas- A fundamentação (e argumentação) da tese nem sempre
ta. Às vezeshâvârias respostas igualmente "pertinentes" paraa em um carâter linear e f,acilmente reconstruível; às vezes ela
mesma pergunta. Por gue, então, o filósofo se decide por uma sume formas muito refinad.as. Em algumas ocasiões, entre os
e não por outra? É aqui que os argumentos desempenham um
papel essencial. O que legitima a opção por uma determinada T
I 6. Poderíamos formular a mesma ideia estabelecendo o ponto essencial
tese são os argumentos. Convém, portanto, determo-nos no
Le ourra forma, por exemplo distinguindo entre argumento e algoritmo.
conceito d"e "argumento" e precisar o sentido no qual ele é um I 7. A simples, simplíssima, distinção entre sentido e valor de verdade,
elemento essencial do philosophical wa1 of tbinking. Sxada e desenvolvida nos últimos dois séculos, mostrou-se extremamente
Entre filósofos de procedência analítica) costuma-se drzer Jecurrda. Toda evolução filosófica ulterior (inclusive aquela que, eventualmenre,
] supere) deve partir dela. Ora, é curioso que justamente filósofos provenienres
que o discurso filosófico é "argumentativo". No entanto, afi.r- le uma rradição que contribuiu de modo decisivo paÍaestabelecer a disrinção
mar que a filosofia é discurso argllmentativo pressupõe que ]rencionada, constituindo-a no eixo de uma concepção do fazer filosófico,
ela é "solução de problemas". O priorrtârro na ord"em lógrca é ]ossam, por momentos, redszír sua tarefa a mostrar que se p é verdadeira,
o estabelecimento d-o problema. Ele é suposto essencial tanto $rtão q é verdadeira. Querer contra-argumen tar Cízendo que a elucidação
lo significado é justamente o modo principal da argumentação fllosófica é
da tese como dos argumentos que condu zeÍn à sua aceitação Jrincar com as palavras. Pelo menos, deve-se conceder que se caracterizou o
ou ao seu rechaço. E.is.rr.so filosófico de modo inexato.

38 I R filosnfia e sEUs Frmhlen:as *E r-r:*r-nsntms eçsemei*is dm "r-rr*dff fiÊmsmfirm de p*fisffir" I 39


argumentos) encontra-se a derivação de consequências. Toda tese a. qual é o problema? (e, dado que todo problema se formula
contém consequências e também elas têm de ser verdadeiras. em uma pergunta) qual é, pois, a pergunta do autor?);
Teses são rechaçadas muitas vezes não por si mesmas, mas por' b. qual é a solução ou resposta? (o.r seja, qual é a tese ou con-
suas consequências, outras vezes aceitas pelas consequências junto de teses que ele propõe?);
de sua eventual neg açáo, porque se descartou toda outra alter- c. quais são os argumentos e fund"amentos? (por que ele escolhe
nativa etc. Não é incomum, por outra parte, que o principal uma resposta e não outra?).
"argumento" passe por uma explicitação d os supostos da tese
rival, ou seja, aqueles que dão sentido ao problema, caso em Entre estas três perguntas, a primeira é a decisiva e a que
que a argumentação da tese e a reformulação do problema clá sentido às duas restantes. A questão intrassistemática, en-
terminam confluindo. quanto derivada, não haverá de ocupar mais nossa atenção a
partir d,e agora.
Afirmamos que a filosofra"tem problemas", que é momen-
4.6. QuestÕes de sistematicidade intrafilosofica to essencial do trabalho fiIosófico formulá-los e gue, por tal
Ino[ivo) tanto sua didática como sua metod"ologia de estudo
A filosofia possui, por sua própria natureza) um anseio de totali- tlevem concentrar-se neles. Destacaremos agora, na direção
dade. "Totaltzaçáo",porém, não é necessariamente sinônimo de inversa, que se a fixação do problema é o objetivo primário da
unificação intrassistêmica. O "sistem a" náo é momento essencial irprendrzagem e d"o estudo d"a filosofia, isso ocorre porque ela
do pensar filosófico (e muito menos o é a pedante exaustivi- ó essencial para a propria filosofia.
dade). Não obstante, boa parte do esforço de alguÍls filósofos
está dirigid a a ajustes na estrutura d.o edificio que constroem
e daí, em tal sentido, à solução de um certo tipo de problemas
que poderíamos denominar "imanentes". Esta tendência se
intensifica nos períodos "epigonais", quando as grandes ideias
perdem sua força e potencial criativo. Ora, todo trabalho intra-
sistem âtrco não tem sentid.o em si mesmo, supondo, em última
instân cra) um problema 9ue, ainda que não livre de supostos,
é extrínseco à própria sist ematlzação.

?.7. Flesumtr: resultados e perspectivas

Resumamos os resultados alcançados até agora. Qualquer que


seja o autor, sempre temos que fazer três perguntas:

q0 I H filnEnfia I seus prchlemas


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