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Recusa em Receber Transfusão de Sangue –

Responsabilidade Médica e dos Hospitais – Termo de


Isenção de Responsabilidade

1. Versa o presente sobre a relação dos hospitais com a recusa do


paciente em receber transfusão de sangue.

2. Há informações de que o paciente chega aos hospitais trazendo


termo pelo qual informa e exige que não sofra transfusão sangüínea, eximindo a
responsabilidade do hospital e do médico por danos que sofresse em virtude da falta de
transfusão de sangue.

3. Primeiramente será analisada a recusa do paciente em receber a


transfusão de sangue perante o Direito Brasileiro, e o dever dos médicos frente a tal recusa,
para após discorrermos sobre a validade de eventual termo de isenção de responsabilidade e,
ao final, o procedimento que julgamos conveniente aos hospitais e médicos no atendimento
ao grupo de pessoas que se recusam a receber a transfusão de sangue.

1- A conduta médica frente a recusa de receber transfusão sangüínea

4. Como é sabido, suscita polêmica o debate acerca do


posicionamento ideológico de pessoas que se recusam receber transfusão sangüínea, mesmo
diante de casos extremos que podem acarretar graves lesões ou morte. Os mais afetados por
essa polêmica são, sem sombra de dúvida, os médicos e as instituições que, em não raros
momentos, encontram-se em delicada situação, tendo que optar por uma ou outra atitude,
que lhes podem acarretar conseqüências danosas, tanto no aspecto judicial, quanto no
aspecto profissional.
5. Sob a ótica do Direito Positivo Brasileiro, tem-se que o presente
caso envolve o problema da aplicação de dois princípios constitucionais – direito à vida e
direito ao livre pensamento religioso - que, no presente caso, aparentam ser incompatíveis,
de forma que, realizada ou não a transfusão, um deles seria obedecido, em exclusão ao outro.

5.1. Ocorre que, tanto a doutrina quanto a jurisprudência pátrias


firmaram posicionamento no sentido de dar primazia ao direito à vida frente aos demais
direitos garantidos. Justifica-se afirmando que, sem a vida, os demais direitos garantidos não
podem ser exercidos. Só existe personalidade jurídica, essencial para a aquisição de direitos e
obrigações às pessoas, se existir vida. Ademais, são também uníssonas ao entender ser o
direito à vida indisponível, de modo que a seu titular não é permitido dele abdicar, através de
ação ou omissão qualquer.

6. Assim entendido, temos que, o exercício do direito da liberdade


de concepção religiosa, não pode extremar-se ao ponto de preterir a vida frente a um
preceito religioso.

6.1. Tal afirmação não significa, porém, que ao paciente deve


sempre ser negado o direito de recusar a transfusão de sangue. Sua concepção religiosa tem
que ser ao máximo levada em consideração e respeitada. Tendo o profissional condições de
realizar tratamento sem a necessidade de se recorrer à transfusão sangüínea, assim deverá
proceder.

6.2. Contudo, ao deparar-se com a necessidade de transfusão de


sangue para a preservação da vida do paciente, mesmo contra a vontade deste, deve sim
praticá-la. Os médicos e as instituições que prestam serviços médicos têm o dever legal de
sempre preservar e salvar vidas, conforme prescreve o Código de Ética Médica, em seus
artigos 46, 56 e 57. O próprio Conselho Federal de Medicina já editou resolução a respeito –
Resolução 1021/81 – que assim conclui:

“Em caso de haver recusa em permitir a transfusão de sangue, o médico,


obedecendo a seu Código de Ética Médica, deverá observar a seguinte conduta:
1º - Se não houver iminente perigo de vida, o médico respeitará a vontade do
paciente ou de seus responsáveis.
2º - Se houver iminente perigo de vida, o médico praticará a transfusão de
sangue, independentemente de consentimento do paciente ou de seus
responsáveis.”

7. A conduta acima prescrita, hodiernamente, é aceita por nossa


doutrina e jurisprudência, de modo a afastar qualquer ilicitude nesse ato, que ensejaria
eventual pleito indenizatório. Afasta-se, outrossim, o crime de Constrangimento Ilegal,
tipificado no art. 146 do Código Penal, pois seu próprio § 3º, I, exclui a tipificação da
conduta do médico que pratica intervenção necessária para a manutenção da vida do
paciente, mesmo sem o consentimento deste. Nossa jurisprudência e doutrina nesse sentido
posicionam-se:

“O Direito Penal Brasileiro volta-se para um quadro valorativo. Nesse


contexto, oferece particular importância à vida (bem jurídico). Daí ser
indisponível (o homem não pode dispor da vida).(...) Em decorrência não
configura constrangimento ilegal (...) compelir médico a salvar a vida do
paciente de perigo iminente e promover a transfusão de sangue, se
cientificamente recomendada para esse fim. Aliás, cumpre fazê-lo, presente a
necessidade.” ( Voto do Ministro Luiz Vicente Cernicchiaro, no Recurso de Habeas
Corpus 7785/SP - STJ)”

“Prevê o §3º do art. 146 dois casos de exclusão da antijuricidade. Não há crime
quando se trata de intervenção médica ou cirúrgica, sem o consentimento do
paciente ou de seu representante legal, se justificada por iminente perigo de
vida. O tratamento médico arbitrário é um caso de estado de necessidade em
que se viola a liberdade individual para salvar-se a vida do paciente. É
perfeitamente admissível a inclusão na hipótese de transfusão de sangue e
cirurgia contra a vontade do paciente ou de seu representante legal, ainda que
por motivos religiosos, quando há iminente perigo de vida.” (Júlio Fabrini
Mirabete. Manual de Direito Penal. Parte Especial. Arts. 121 a 234 do CP, pp. 183)

“É possível que um paciente, correndo risco de vida não queira submeter-se à


intervenção cirúrgica, determinada por seu médico, seja por que tem medo,
seja por que deseja morrer ou por qualquer outra razão. Entretanto, já que a
vida é um bem indisponível, a lei fornece autorização para que o médico
promova a operação ainda que a contragosto. Não se trata de constrangimento
ilegal, tendo em vista a ausência de tipicidade. Como se disse, não houvesse tal
dispositivo, ainda assim o médico poderia agir, embora nutrido pelo estado de
necessidade, que iria excluir a antijuridicidade.” (Guilherme de Souza Nucci. Código
Penal Comentado, 2002. pp. 458)

8. No âmbito do Direito Civil, como asseverado, é arredada


também qualquer responsabilidade profissional haja vista que, como prescreve o art. 188, I,
do Código Civil, não são considerados ilícitos os atos praticados no exercício regular de um
direito reconhecido. Com efeito, pois, conforme exposto, o médico que efetua a transfusão
de sangue diante de iminente perigo de vida, mesmo contra a vontade do paciente, atua no
estrito cumprimento de um dever legal, não lhe podendo ser, sob pena de violação legal,
exigida conduta diversa.

8.1. Raul Canal1, sobre o tema acima, afirma que,

“se do médico, do ponto de vista terapêutico, de acordo com os


conhecimentos científicos atuais, segundo a melhor doutrina, a literatura
predominante e a técnica consagrada, não lhe era exigível conduta diferente
daquela praticada, não há se falar em responsabilidade por efeito danoso, não
há se cogitar culpa e há de se afastar completamente qualquer discussão acerca
do dever reparatório.”

8.2. Nesse sentido, transcreve-se abaixo o voto do Desembargador


Flávio Pinheiro, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em acórdão que decidiu por
manter sentença que afastava a responsabilização por danos morais de um médico que

1
O Exercício da Medicina e suas Implicações Legais, Ed. Gráfica Bárbara Bela, Brasília, 2000. pp. 99.
realizou a transfusão de sangue contra a vontade do seu paciente, quando esta era necessária
para manutenção de sua vida:

“Entretanto, em que pesem as convicções religiosas da apelante que, frise-se,


lhe são asseguradas constitucionalmente, a verdade é que o que deve
prevalecer, acima de qualquer credo, religião, é o bem maior tutelado pela
Constituição, a vida.
(...)É evidente que ao profissional médico é vedado, pautando-se, inclusive,
com o disposto no Código de Ética Profissional da categoria, efetuar qualquer
procedimento médico sem o esclarecimento prévio do paciente ou de seu
responsável legal. Entretanto essa regra admite exceção, quando o paciente se
encontra em iminente risco de morte.
E, no caso dos autos, restou demonstrado pela prova que os médicos que
acompanhavam o tratamento a que estava sendo submetida a apelante
esgotaram todas as formas alternativas de tratamento contra o mal que a
acometia.
E, diante do iminente risco de morte do paciente, outra alternativa não lhes
restou senão providenciar transfusão sangüínea, dado a baixa do número de
plaquetas do sangue da apelante.
(...) A conduta dos profissionais foi legal e pautou-se dentro, inclusive, do que
prescreve o Código de Ética Médica, que, em seus artigos 46, 56 e 57,
estabelecem que a obrigação primordial do médico consiste em preservar e
salvar vidas, lançando mão de todos os meios necessários, com respeito à
vontade do paciente, desde que não se vislumbre iminente perigo de vida.” (
TJSP, Apelação Cível 123.430-4/4.00. Rel. Flávio Pinheiro. Julgado em 07/05/2002)

9. Resta claro que o profissional que realiza a transfusão contra a


vontade do paciente, desde que seja para preservar ou salvar vida deste, e a instituição na
qual ocorre o ato agem no estrito cumprimento de um dever profissional, no exercício
regular de um direito, preservando o bem de maior valor para a Constituição da República,
de modo que não viola quaisquer normas jurídicas, sejam elas de natureza cível ou penal, não
podendo, pois, sofrerem sanções de quaisquer natureza.

2. Da validade do termo de isenção de responsabilidade


10. Conforme assinalado, o médico, diante da recusa do paciente
em receber a transfusão de sangue, deve respeitar esse posicionamento, salvo quando estiver
em perigo a vida do paciente, quando então tem o dever profissional de utilizar todos os
métodos a seu alcance para preservar a vida daquele, mesmo que para tal se valha da
transfusão sangüínea, sob pena de incorrer em ilícitos administrativos, civis e penais.

11. Dito isso, perante o Direito, um Termo de Isenção de


Responsabilidade não desobriga o médico de realizar a transfusão, nem exime sua
responsabilidade caso assim proceda, nos casos de risco de vida, porque, conforme
explanado, o médico não só pode realizá-la, como tem o dever profissional de fazê-la, visto
ser o direito à vida bem jurídico indisponível, ao qual não se sobrepõe a vontade individual.

3. Da postura dos Hospitais no atendimento aos clientes Testemunhas de Jeová

12. Entendido o dever legal dos médicos e das Instituições


Hospitalares frente a recusa do recebimento de transfusão de sangue, é mister que estas
últimas adotem postura e conduta única no atendimento a esse grupo de clientes, evitando-
se o radicalismo de recusar o atendimento das mesmas, o que pode ensejar sanções
administrativas, cíveis e penais por omissão de socorro, homicídio, discriminação, dentre
outros, além de causar prejuízo à imagem da instituição.

13. Os hospitais, primeiramente, devem sempre ter como regra a


Resolução 1021/81, do Conselho Federal de Medicina, que ordena que a transfusão de
sangue seja realizada toda vez que esteja em risco a vida do paciente, ressalvando que
expedientes alternativos à transfusão sejam utilizados quando possível, em respeito à
vontade do paciente.
13.1. Assim sendo, convém aos hospitais definirem a sua
capacidade de oferecer expedientes alternativos à transfusão de sangue, para que, em contato
com o paciente, possa sempre informá-lo da possibilidade ou não de serem utilizados, em
preferência à transfusão.

14. Os pacientes, todavia, devem ser expressamente comunicados


de que a transfusão de sangue será realizada, se for esse o expediente necessário para a
preservação e proteção de sua vida, informado também que assim proceder-se-á em respeito
as normas constitucionais e profissionais pertinentes, a fim de se evitar futuras sanções.

14.1. Caso o paciente não concorde com o posicionamento,


entendemos caber ao mesmo buscar na justiça o direito de não receber a transfusão, sendo
que, somente através dessa, o médico não realizará a transfusão.

4. Conclusão

15. Diante do exposto, para que os pacientes sejam atendidos de


conformidade com as disposições legais e a ética profissional, recomendamos que:

(i) no Contrato de Prestação de Serviços seja incluída cláusula informando que a


transfusão de sangue, se necessário for, sempre será realizada para preservar e
proteger a vida do paciente, mesmo contra a vontade destes;

(ii) que a Cláusula acima seja sempre informada ao paciente, quando da entrada deste no
hospital, e sempre quando a recusa for discutida entre médico e o paciente ou
representantes;
(iii) que, não concordando o paciente com esta cláusula, que busque na justiça o direito
de não receber a transfusão, sendo informado que só através de decisão judicial nesse
sentido o Hospital deixará de realizar a transfusão, quando necessária para a proteção
da vida do paciente.

16. É o nosso posicionamento, s.m.j.

Stanley Martins Frasão

João Pedro da Costa Barros