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ANGELA MARIA LA SAL BATÀ

DE EU INFERIOR
AO EU SUPERIOR
A Meditação como Ciência de Treinamento Interior

Apresentação
GIORGIO FURLAN

Tradução
SUELI OLIVEIRA DE VASCONCELOS

EDITORA PENSAMENTO
São Paulo
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Título do original:
Dal Sè inferiore aI Sè superiore

Sumário
Prefácio 4
I O Caminho a Percorrer 5
II Reconhecimento dos Obstáculos 11
III Integração da Personalidade 18
IV O Problema da Ilusão 24
V A Imaginação Como Técnica Espiritual 30
VI O Desapego 37
VII O Silêncio. 43
VIII A Meditação: a) O relaxamento físico 48
IX A Meditação: b) A aquietação emotiva. 55
X A Meditação: c) O domínio da mente no alinhamento 61
XI A Concentração 65
XII O Alinhamento com a Alma 71

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PREFÁCIO

Neste livro, a Dra. Angela Maria La Sala Batà expõe, com palavras realmente
compreensíveis e claras, um dos melhores métodos de meditação apropriada e típica para
os ocidentais.
Para o pesquisador sério, a meditação é um meio de enriquecimento interior, é a
possibilidade do desenvolvimento do Espírito (o Superego), é o degrau que o leva a provar
infinitos e profundos níveis do conhecimento interior transcendental.
O pesquisador ocidental pode valer-se da meditação para chegar a vivenciar os
estados de consciência acima citados. Mas, para obter esse resultado, ele deve se lembrar
de que está sujeito à mentalidade, usos e costumes do Ocidente, sendo-lhe, por isso,
necessárias técnicas ocidentais de meditação.
Esse foi, em síntese, o objetivo profundo e construtivo da autora ao compilar este
manual.
Ao leitor o conteúdo revelar-se-á de uma extrema simplicidade, de uma modéstia
realmente exemplar e de uma construtividade verdadeiramente substancial para a psique e
para o espírito.

Giorgio Furlan

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I - O CAMINHO A PERCORRER

O objetivo da vida é a gradual manifestação do Si, o Espírito, isto é, o despertar da


consciência espiritual latente em nós.
Sabemos que dentro de nós existe essa centelha divina, essa essência espiritual, que é
a nossa verdadeira natureza, a que chamamos Alma, Si Espiritual, Si Superior... Não importa
o nome, sabemos que ela existe, que é a nossa verdadeira realidade, a nossa verdadeira
individualidade, recoberta por invólucros e que apenas espera se manifestar.
Entretanto, mesmo estando convencidos dessa verdade, será que alguma vez
atinamos com o que isso realmente significa?
Será que já refletimos sobre sua profunda importância? Será que já compreendemos o
verdadeiro significado nela oculto?
Conhecemos intelectualmente essa realidade, mas continuamos a viver, ou melhor, a
ser levados pela vida numa espécie de "sonolência" interior, de indiferença espiritual,
azafamados e arrastados pela assim chamada "vida", criando problemas fúteis, sentindo-
nos frequentemente cansados e insatisfeitos, às vezes atormentados ou desesperados, sem
perceber que a única coisa importante da nossa vida, o único escopo para o qual vivemos e
estamos encarnados é o de nos tornarmos conscientes da nossa Alma, de nos tornarmos
"unos" com ela, de uma forma consciente e voluntária, para assim manifestar a vida do
Espírito no plano objetivo e transformar-nos em seus instrumentos.
A união com a Alma, com o Si, é talvez a última coisa em que pensamos, cansados de
saber que ela existe em alguma parte de nós mesmos, e adiamos sempre o momento de
iniciar o trabalho de ascensão e interiorização (necessário para nos tornar conscientes da
realidade profunda), talvez porque nos sintamos demasiado indolentes para tentar
qualquer coisa nesse sentido ou, ainda, porque estejamos muito ocupados e absorvidos
pelas nossas atividades e preocupações cotidianas.
Isso talvez aconteça porque no fundo de nós mesmos existe a convicção de que se
dedicar à vida do Espírito significa distanciar-se do mundo e nele tornar-se um estranho,
negligenciar as próprias obrigações familiares e sociais, fechar-se em si mesmo, abondonar
o trabalho e as atividades, absorver-se numa vida contingente e retirar-se para uma espécie
de "torre de marfim"...
Tal convicção é errônea.
Podemos muito bem nos dedicar ao trabalho de "reencontrar o Si" sem negligenciar
qualquer uma das nossas obrigações, sem nos retirarmos para um eremitério.
Não é necessária qualquer mudança na nossa vida, nas nossas atividades sociais, nas
nossas relações com o mundo. A transformação deve ser só e essencialmente interior, um
"deslocamento do nível de consciência", uma "repolarização" numa vibração mais alta,
que consente viver e agir nos três mundos, em função de um objetivo único e fundamental:
fazer a vida da Alma manifestar-se.
Toda a nossa ação, toda a nossa experiência, toda a nossa obrigação e toda a nossa
dor adquirem assim um novo aspecto, um novo significado, pois se tornam apenas meios

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para atingir a união com o Si, e oportunidades de progresso espiritual.
Entretanto, para poder realizar esta "repolarização" interior devemos tentar vários
estratagemas, pois não é fácil elevar a vibração depois de termos estado por muito tempo
imersos na vida objetiva, completamente extrovertidos, tomados pelo ativismo e pelo
caleidoscópio do mundo das formas, e depois de nos termos identificado com a
personalidade e a vida ilusória deste mundo.
Um dos estratagemas que nos ajudará a elevar nossas vibrações é refletir sobre a
verdadeira natureza da Alma, não de maneira exclusivamente mental e intelectual, mas
também de maneira, digamos, quase "afetiva" e "permeada de aspiração", desenvolvendo
dentro de nós um senso de amor pela Alma e um forte e profundo desejo de realizar a sua
consciência. Além disso, devemos procurar "sentir", ainda que superficialmente, aquilo que
pode ser a vida da Alma, as suas qualidades, a sua vibração. Não é fácil chegar a isso, mas,
para ajudar-nos, podemos usar também a imaginação - e nada há de estranho e absurdo
nisso -, pois existe muita afinidade entre imaginação e intuição.
A imaginação é criativa e, como a visualização, é uma verdadeira técnica esotérica.
Por isso, a reflexão sobre a Alma, sobre sua verdadeira essência, ajuda a elevar as
nossas vibrações, mesmo que de maneira insciente, e a formar em nós, aos poucos, uma
nova postura frente à vida e às suas lutas. Tornar-nos-emos mais serenos, mais
desprendidos e saberemos olhar tudo com os olhos do Espectador interior.
Ao tentar "sentir" ou imaginar o estado de consciência da Alma, perceberemos que
somos como recém-nascidos no mundo interior, visto que, a princípio, tudo nos parecerá
nebuloso, vago, sem forma, vazio e obscuro.
É difícil saber "consistir no ser", como diz o Dr. Assagioli em seu livro O
desenvolvimento do sentido esotérico: "No dia-a-dia, vivemos objetivamente e
exteriormente, sempre em relação com "objetos" externos, mas também com "objetos",
digamos assim, "interiores", como as nossas emoções, os nossos pensamentos. "Digamos
assim" porque, para a Alma, todas as atividades da nossa personalidade - dos três corpos:
físico, emotivo e mental - são exteriores. Emoções e pensamentos são mais ou menos
pertinentes ao Eu, mas não são o Eu, a Alma, Nós mesmos. Eles se sobrepõem ao Eu
verdadeiro, ocultando-o e impedindo as Suas atividades. De fato, emoções e pensamentos
estão em contínua transformação, em perene flutuação: somente o Eu permanece
imutável, tal como é; somente o Eu, a Alma, nos dá o sentido da estabilidade, do repouso,
da verdadeira segurança, da realidade permanente. O poder de viver e de atuar
subjetivamente é para nós completamente novo."
Portanto, podemos exercitar-nos, aos poucos, e tornar-nos sensíveis a esse novo nível
de consciência, procurando observar entre as numerosas ocupações e preocupações da
nossa vida, com a maior frequência possível, os momentos de pausa, de silêncio e de
recolhimento a fim de reencontrar o nosso centro de consciência interior e evitar a
"dispersão pela periferia" da consciência.
Como se vê, inadvertidamente passamos para um segundo estratagema: o cultivo de
momentos de silêncio.
Esses momentos de silêncio não são ainda a verdadeira meditação, mas uma
preparação para ela.
Quem está muito absorvido pela vida ativa, pelas preocupações e pelas numerosas
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obrigações, talvez julgue impossível poder dedicar, sequer, alguns momentos por dia a esse
recolhimento interior.
E, na verdade, tal conciliação é possível.
Se quisermos que em nós cada ato, cada experiência, cada trabalho, cada sofrimento
se transformem em Luz, em Sabedoria, e contribuam para o despertar da nossa consciência
espiritual, devemos criar em nós esse "centro de consciência separado", devemos vibrar
num nível mais alto e continuar agindo nos três mundos com o mesmo dinamismo e
esforço.
Em Luz do Caminho está escrito: "Esteja à parte numa batalha e, mesmo combatendo,
não seja você o guerreiro."
O que querem dizer essas palavras?
Querem dizer, justamente, que em cada luta e em cada ação devemos atuar apenas
como instrumentos da Alma e, mesmo se aparentemente a personalidade é quem age, na
realidade é o Si dentro de nós que nos guia e nos conduz à ação.
Tudo quanto foi dito até agora constitui somente o início, que serve, como se dizia há
pouco, para elevar o nosso nível de consciência, para "repolarizar-nos" depois de nos
termos entregado à vida da personalidade, com a qual, por força das circunstâncias,
estivemos identificados por tão longo tempo.
Este momento preparatório é todavia necessário para que se dê início ao Caminho que
conduz à união com a Alma, que não é breve ou fácil, e, pode-se dizer, constitui uma
verdadeira ciência.
É bem verdade que o maravilhoso evento do despertar do Si Espiritual também pode
acontecer de repente, sem preparação.
Temos muitos testemunhos de pessoas que experimentaram este "despertar",
ocorrido aparentemente sem pré-aviso, de repente, como um raio que cai iluminando a
cena para depois desaparecer com a mesma rapidez com que veio.
Se, porém, examinarmos atentamente a vida desses homens, as provas pelas quais
passaram, seus sentimentos, seus estados de espírito, encontraremos certamente os
"sintomas" desse evento. Sintomas que talvez passaram despercebidos dos próprios
protagonistas, porque não estavam cientes daquilo que estava evoluindo dentro deles.
Quase todos os que passaram pela experiência do contato com a Alma tinham um
corpo emotivo refinado e purificado por vidas místicas e ascéticas, ou consagradas a
qualquer outro ideal de verdade e de amor altruístico.
Sendo assim, houve a preparação, mesmo que de maneira insciente.
Realmente, esse despertar repentino, esses contatos esporádicos, ocorrem quase
sempre por meio de uma elevação do corpo emotivo, que constitui um elo de ligação com o
aspecto Amor da Alma.
Eis por que esses contatos, ainda que maravilhosos e inesquecíveis, não podem
repetir-se voluntariamente, mas são esporádicos e intermitentes.
Não podemos, portanto, alicerçar nossas esperanças de união com a Alma sobre um
contato de tal ,gênero, de natureza espontânea e, por isso, incerta.
Não podemos ficar de braços cruzados, limitando-nos a desejar a união com o Si, sem
nada fazer de um modo ciente e voluntário.
Isso poderia ser perdoado naqueles que não conheciam a verdadeira natureza do
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homem, que não tinham consciência da finalidade da vida e que tinham em si somente
vagas intuições, pálidas visões sentimentais da Verdade.
Quanto aos que estão convencidos de que o homem é essencialmente um ser
espiritual, que sabem que o verdadeiro Eu é a Alma, não se pode perdoar-lhes a inércia, a
incúria e a indiferença.
Essa é a estrada do ocultista, a estrada daquele que sabe o que quer e que, com todas
as suas forças, com todos os seus meios, constrói pouco a pouco o Caminho, a ponte que
deverá uni-lo com a sua Alma, ou melhor, torná-lo ciente de ser uma Alma.
A estrada do ocultista é, pois, uma estrada mental, consciente, determinante. Uma
dedicação da mente, do coração e da vontade num só escopo.
O ocultista não se limita a desejar, a rezar, mas estuda, pesquisa, experimenta e quer.
O místico poderia ser chamado o poeta do espiritualismo, enquanto o ocultista
poderia ser chamado o cientista do espiritualismo.

*
* *

Neste caminho que reconduz à Nascente interior estamos continuamente avançando,


mesmo que inconscientemente.
Devemos ter em mente que o objetivo da vida é um só: a manifestação do Espírito
oculto sob os invólucros da matéria com a qual se identifica. E, se esta é a meta, é natural
que tudo contribua para a sua realização.
Antes de mais nada, os grandes fatores que contribuem para esse despertar da
consciência interior vêm do exterior sob a forma de vários estímulos, sendo a dor o
principal e o mais eficaz deles.
Quando, enfim, tivermos compreendido o profundo significado e a verdadeira função
da dor humana, só então seremos capazes de retirar dela todo o bem e toda a sabedoria
que nos oferece, e poderemos encontrar no aparente mal a ajuda e o estímulo necessários
ao progresso interior.
Devemos ainda recordar que normalmente - aliás quase sempre -, aquilo que é
sofrimento para a personalidade é, entretanto, júbilo para a Alma e vice-versa, pois o nosso
Eu espiritual quer nos conduzir a uma direção, e as forças da personalidade para outra,
nascendo a dor do atrito entre estas duas tendências.
A personalidade é movida por desejos egoístas, quer a felicidade para si, enquanto a
Alma, que tem a consciência universal, é movida pelo Amor e pelo Todo, e quer somente o
bem do Todo.
O homem, identificado com a personalidade, é consciente só do eu único, está imerso
na ilusão da separatividade, agarrado ao mundo das formas; é escravo dos seus instintos,
desejos e ambições, e sofre por jamais poder satisfazê-los.
A dor agita, desperta, estimula, impele o ser humano ao recolhimento, ao refúgio em
si mesmo para se perguntar o porquê de tudo, induzindo-o a desprender-se dos objetos,
ensinando-lhe a renúncia das coisas desejadas e adquiridas, conduzindo-o, afinal, para o
caminho árido e escuro da solidão, enquanto ele, vencido, não se voltar para a realidade,
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para a Luz; aquela Luz que ele, anteriormente circundado pela névoa dos desejos, não tinha
vislumbrado; e então compreende que se enganara e reencontra a paz, a serenidade e a
alegria.
Muitos poderiam objetar que nem sempre a dor produz este efeito, e que,
frequentemente, torna o homem perverso, egoísta, rebelde ou, na melhor das hipóteses,
árido, vazio, deprimido, sem esperança e sem energia para prosseguir o caminho.
Isso é verdade. Mas não devemos esquecer o longo caminho evolutivo que o homem
tem de percorrer, os muitos degraus a subir e as suas numerosas vidas pregressas e futuras.
De início, a dor parece tornar o homem pior; eis por que ele nos agita tantas vezes quando
ainda não atingiu o seu objetivo, que é, como dissemos antes, tornar o homem consciente
do seu destino.
Se o sofrimento não produz este resultado, quer dizer que não chegou ao "grau"
necessário para produzir a "crise" da reviravolta, que nos transformará completamente.
A dor é como um fogo que arde para fundir os minérios e separar a parte bruta do
metal puro, e deve atingir uma temperatura tal que produza a fusão. Cada mineral tem
uma temperatura de fusão, assim também cada homem tem necessidade de um diferente
grau de sofrimento para despertar.
São necessárias várias encarnações para fazer com que o homem amadureça e se
torne "reativo" e sensível de maneira a tirar o devido proveito da dor.
Portanto, é fácil compreender que, no Caminho ascendente que nos conduz à
realização do Si, a dor tenha a função de estímulo e de ajuda "exterior".
Quando começamos, ainda que de maneira vaga, a nos tornar conscientes da
verdadeira finalidade da vida, e nos propomos a colaborar com a evolução e a reencontrar
o nosso Si Espiritual, então, temos de nossa parte outros estímulos e ajudas, que vêm não
mais do exterior mas do interior do nosso mundo subjetivo.
O Caminho, portanto, começa a ficar mais rápido, pois o nosso estado de consciência
nos ajuda não só a subir menos lentamente, mas também a saber retirar dos estímulos
externos a sabedoria necessária e os ensinamentos devidos, que podem ocorrer na forma
de provações, de dores, ou de dificuldades várias.
De certo modo, podemos dizer que se forma uma processo de "ação e reação" entre
os estímulos internos e os externos, pois uns servem para despertar a consciência interior
adormecida e os outros para fazer com que transformemos em sabedoria as experiências
da vida.
A essa altura, é natural a pergunta: o que podemos fazer depois de ter compreendido
a importância de voltar a nos reunir conscientemente com a Alma?
A primeira coisa a fazer é colocarmo-nos diante de nós mesmos com toda a
sinceridade e analisar o nosso comportamento interior relativo ao problema da união com
o Si, para ver claramente:
a) se somos presas da ilusão de nos julgarmos mais evoluídos do que somos e,
portanto, se somos presunçosos, orgulhosos, etc.;
b) se, ao contrário, nos sentimos desencorajados, deslocados, inferiorizados;
c) se nos sentimos excessivamente entusiasmados, emocionados, e se esperamos
resultados maravilhosos e rápidos.
Devemos ser capazes de ver dentro de nós os verdadeiros sentimentos que nos
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animam e comportar-nos corretamente, com uma objetiva, serena e sábia convicção
mental, e uma sólida, firme e constante vontade de triunfar.
Criemos dentro de nós estas duas forças:
a) convicção mental, e
b) vontade de triunfar, sem sentimentalismos excessivos, falsas ilusões, esperanças de
grandeza e, por outro lado, sem temores, pessimismo ou desânimo.
Encaremos a realidade. Aspiremos à transformação de toda a nossa experiência, de
toda a nossa dor, de todo o nosso sentimento em "consciência" e em "energia", que nos
ajudem a liberar o Si Espiritual dos liames da personalidade, e esta nossa aspiração
certamente produzirá resultados. Tais resultados podem ser grandes, mas podem também
ser tão pequenos a ponto de passar quase despercebidos. Entretanto, se empreendermos o
Caminho com a visão clara, a mente destituída de fantásticas quimeras, não sofreremos
desilusões e não conheceremos a aridez do insucesso, mas começaremos a sentir aquela
serenidade, aquela alegria, "aquela paz que ultrapassa qualquer entendimento", que são os
verdadeiros sintomas de que a vida da Alma está se sobrepondo lentamente à vida da
personalidade.

I - QUESTIONÁRIO

1. Você alguma vez se exercitou em momentos de recolhimento e meditação?


2. Tem ímpetos místicos de amor a Deus, à Alma, ou não?
3. Pensa que a vida espiritual esteja em contraste com a vida prática?
4. Leu algum livro sobre misticismo?
5. Provou alguma vez, ainda que de maneira incompleta e vaga, a "consciência" da
Alma?
6. Tem alguma ideia bem clara sobre a Alma, suas qualidades e essência?
7. Em momentos de dor, de sofrimento, sabe retirar todo o ensinamento oculto?
8. Está convencido de que o nosso verdadeiro Si, o verdadeiro Homem, é a Alma?
9. O que se propõe fazer para apressar a revelação desse Si Superior?

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II - RECONHECIMENTO DOS OBSTÁCULOS

Um fato que devemos ter sempre presente, quando nos dispomos a iniciar o trabalho,
é que para podermos obter resultados positivos torna-se necessário que sejamos objetivos
e que não tenhamos metas demasiado árduas ou em desacordo com o nosso
temperamento.
Devemos procurar utilizar nossas tendências naturais, mobilizar nossas capacidades
manifestas e latentes, e não devemos tentar ser diferentes daquilo que somos, ou sufocar a
nossa natureza para sobrepor a ela uma natureza diferente e não espontânea.
Aquilo que devemos fazer é reconhecer objetivamente as nossas tendências,
capacidades e deficiências, sem a ilusão de sermos melhores e sem crer que somos piores
do que de fato somos.
Nós, aspirantes espirituais que vivemos no Ocidente, não podemos nos comportar
como os discípulos do Oriente, que têm uma configuração psicofísica diversa e vivem num
ambiente diferente do nosso.
Nós, ocidentais, quer por temperamento quer por influência ambiental, somos mais
propensos à atividade, à extroversão e desenvolvemos nossa mente de modo mais racional
e menos intuitivo.
Os orientais, ao contrário, são introvertidos, contemplativos e essencialmente
intuitivos.
Além disso, a época em que vivemos obriga à atividade, à extroversão, ao uso da
mente concreta e não permite que nos retiremos do mundo, como os discípulos da Era de
Peixes. Agora está para iniciar-se a Era de Aquário, a Era do Sétimo Raio, que tem por
objetivo manifestar a energia espiritual também no plano físico.
Então, nós devemos utilizar as nossas tendências naturais e viver no mundo sem
abandonar a luta, sem procurar uma evasão, mas, ao mesmo tempo, sem jamais perder de
vista a meta interior e utilizar tudo para a sua realização.
É importante que procuremos realizar, com todos os nossos esforços, a "vida dúplice":
viver no mundo, mas não ser do mundo.
Como podemos realizar isso?
Primeiramente, devemos evitar a criação de dois-compartimentos separados entre a
nossa vida pessoal, social, profissional e a nossa vida interior, espiritual, dando à primeira
uma utilidade prática e concreta, e transformando a segunda num meio para desenvolver
nossas qualidades latentes e para fazer experiências úteis à nossa formação.
Portanto, deveria existir em nós uma contínua "presença", um estado de consciência
destacado da personalidade, que nos permitisse ver tudo em função de uma só finalidade e
de uma só meta: a evolução da consciência e a realização em nós do Divino.
Patañjali, no Sutra Yoga, chama de Leitura Espiritual essa faculdade de "ler" aquilo que
está escondido por trás dos acontecimentos da vida e das formas objetivas. De fato, os
acontecimentos da vida objetiva não são senão símbolos que escondem a realidade
profunda, símbolos cujo significado pode ser compreendido somente se aprendermos a nos

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focalizar na consciência do Espectador e se desenvolvermos a intuição.
Nos livros espirituais fala-se geralmente de quatro métodos de Yoga, ou seja, métodos
de união com a Alma (Yoga - união, da raiz yug do verbo unir).
Estes métodos são:
a) karma yoga;
b) bhakti yoga;
c) jnana yoga;
d) raja yoga;

O Karma yoga é a via de união com a Alma por meio da ação e da experiência; refere-
se, portanto, ao plano físico.
O bhakti yoga é a via da devoção ao Divino ou a qualquer Ser superior e refere-se,
portanto, ao plano emotivo.
O jnana yoga é a via do conhecimento e da pesquisa mental da Verdade e refere-se,
portanto, ao plano mental. O raja yoga, ou yoga real, vale por si só, porquanto seja a via de
união por meio da concentração mental da meditação e da contemplação e, portanto, pode
ser utilizado simultaneamente a qualquer um dos três vogas precedentes.
Durante o caminho evolutivo, o homem pratica os quatro métodos de união porque,
como sabemos, o tipo de personalidade do indivíduo transforma-se a cada encarna-o e,
portanto, muda o Raio ou o temperamento. Assim, acontece que numa vida o homem
estará propenso a fazer experiências no plano físico, noutra terá temperamento emotivo-
místico e em outra, ainda, terá tendências cognitivas e intelectuais, e assim por diante.
Note-se, porém, que os primeiros três vogas são praticados pelo homem quando ele
ainda está inconsciente da sua verdadeira natureza e do seu destino; o raja yoga,
entretanto, é praticado somente por aquele que "despertou", que conhece a meta e
colabora conscientemente para sua autoformação.
Portanto, quando começamos a querer percorrer voluntariamente o caminho que leva
à realização do Si, porque compreendemos a finalidade da vida e vislumbramos a
maravilhosa meta à nossa espera, deixamos de seguir pela via espontânea e mais fácil (em
cuja direção nosso temperamento nos conduz, e procuramos utilizar todos os nossos
veículos, formar uma síntese de todas as nossas energias em direção de uma só meta; e eis
que tem início o Purna Yoga, ou yoga da síntese, que utiliza e torna os três veículos
pessoais simultaneamente e cria a integração e coordenação harmônica da personalidade,
de maneira a poder transformar-se num canal propício às energias da Alma.
Este yoga da síntese é o método de união seguido pelo aspirante espiritual, isto é, por
aquele que conscientemente percorre o Caminho, conhece a meta e sabe que ele é uma
Alma.
As várias fases desse desenvolvimento consciente do aspirante espiritual são, segundo
Patañjali, as seguintes:
1) Aspiração à realização da Alma.
2) Reconhecimento dos obstáculos, ou seja, compreensão daquilo que impede o
verdadeiro conhecimento.
3) Compreensão intelectual da natureza daqueles obstáculos.
4) Determinação para eliminá-los.
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5) Um repentino lampejo ou uma súbita visão da realidade da Alma.
6) Renovada aspiração e forte proposição de fazer daquela visão uma realidade
permanente na vida cotidiana.
7) A batalha final contra a personalidade e as suas tendências, simbolizada no
Bhagavad Gīta pelo "Kurukshetra" (campo de batalha) com Krishna, a Alma, que encoraja
Arjuna, o aspirante, ao constante esforço.
A aspiração é uma manifestação da personalidade que tem uma verdadeira
importância esotérica e um profundo significado oculto.
Não é somente uma manifestação emotiva de desejo ou de devoção à Alma, mas é
uma verdadeira força magnética produzida pelo apelo concorde e simultâneo dos três
veículos da personalidade, que produz um perfeito alinhamento.
Assim se forma um canal livre de impurezas e de obstáculos, através do qual as
energias da Alma podem fluir.
"A aspiração produz inspiração", diz Alice Bailey no Tratado sobre os Sete Raios.
E ainda: "A aspiração é uma atividade de natureza científica e é inerente à própria
substância... A aspiração um processo científico que governa a própria evolução. Quando
existe um objetivo determinado seguido dê impulsos, a aspiração é um meio que pode
elevar a matéria e a personalidade inteira ao Céu" (Tratado sobre os Sete Raios, vol. I, pp.
326-27).
Podemos então compreender facilmente o quanto é importante essa primeira fase e
como ela é indispensável para criar nos corpos da personalidade a vibração, o
comportamento propício para iniciar a via de acesso à Alma.
É, por assim dizer, a "chave" de todo o trabalho de alinhamento, de integração e,
enfim, de fusão com o Si Superior.
Sem a aspiração não podemos nem mesmo iniciar o caminho de união com a Alma, e
isto é óbvio, pois, como podemos esperar atingir a meta se não a "desejamos
ardentemente", se não a procuramos com todas as nossas faculdades, com todos os nossos
desejos, com todas as nossas energias?
É necessário, portanto, que procuremos ver objetivamente se em nós existe uma
verdadeira aspiração, se ela é suficientemente forte e profunda. Se descobrirmos que é
frágil e incerta ou mesmo esporádica, devemos indagar as razões dessa sua fragilidade e
esporadicidade.
Será que temos ainda dúvidas?
Será que não estamos convencidos da importância do escopo que almejamos?
Será que a meta nos parece por demais distante e árdua? Será que ainda temos dúvida
a respeito da ideia da nossa imperfeição e inadequação?
Estas e outras perguntas similares podemos dirigi-las a nós mesmos, se notarmos que
a nossa aspiração à Alma não está suficientemente forte, e devemos procurar respondê-las
com toda a sinceridade e, se pudermos, devemos vencer todas as nossas dúvidas, as nossas
incertezas, os nossos temores, a nossa inércia.
Não podemos iniciar o caminho sem a certeza de triunfar. Não podemos nos preparar
para o trabalho e a luta inevitáveis sem uma reserva de energias, de entusiasmo, de
confiança e de fervor.
Seremos derrotados ao primeiro sinal de batalha, cairemos ao primeiro obstáculo, se
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não acendermos dentro de nós o ardente fogo da aspiração pura e férvida.
A fase referente ao reconhecimento dos obstáculos e das dificuldades que se postam
entre nós e a meta a ser atingida é muito importante.
Percebemos que há qualquer coisa que nos impede o conhecimento do nosso
verdadeiro Si, sentimos como se houvesse uma espécie de "diafragma" entre nós e a Luz,
mas não sabemos do que é constituído e como podemos eliminá-lo.
Percebemos, além disso, que os obstáculos são de fato causados pela nossa
personalidade e pela vida dos três veículos que a compõem.
Entretanto, é necessário um contínuo exame de nós mesmos, uma sensata análise das
nossas reações, dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos, para se chegar à
compreensão verdadeira dos obstáculos.
Não é fácil chegar a tal compreensão, mesmo porque os obstáculos existentes em nós
não pertencem todos à atual encarnação, mas podem provir de vidas anteriores.
Quando um Ego se reencarna traz consigo uma bagaem de tendências, qualidades,
defeitos, impurezas, que não pôde superar e transmutar nas vidas precedentes. Tais
samskaras (sementes), provenientes de encarnações anteriores, jazem no nosso
inconsciente e por isso é difícil reconhecê-las. A elas unem-se as "sementes" da vida atual,
as "sementes" trazidas pela família, pela raça a que pertencemos, e, assim, podemos
compreender claramente como o problema do reconhecimento dos obstáculos é intrincado
e de difícil resolução.
Entretanto, se tivermos firmeza de propósito, verdadeira aspiração, firme vontade de
triunfar, veremos, aos poucos, aflorar tudo aquilo que devemos eliminar na nossa
personalidade e que constitui um empecilho ao afluxo da energia anímica.
Talvez possa ser útil, nessa análise de nós mesmos, saber quais são os obstáculos
fundamentais, segundo Patañjali.

São eles:
a) A vidya (ignorância);
b) o senso da personalidade;
c) o desejo;
d) o ódio
e) o apego

Examinemo-los brevemente:
a) Avidya: é palavra sânscrita que significa "ignorância", mas o que quer dizer
realmente?
Diz Pantajali: "Avidya (ignorância) é a causa de todos os outros obstáculos, estejam
latentes, em vias de eliminação, superados ou em plena força" (Livro 11, Sutra 4).
E ainda: "Avidya é o estado que nos leva a confundir o permanente, o puro, o beato e
o Si com o não-permanente, o impuro, o doloroso e com o não-Si" (Livro II Sutra 5).
Assim, tal ignorância é inerente à natureza humana ou, antes, podemos dizer que ela é
inevitável num longo período evolutivo, pois, sendo a Alma revestida de invólucros,
identifica-se com eles e se esquece de sua verdadeira origem.
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Esse estado de ignorância é devido ao fato de sermos homens e de não estarmos
ainda conscientes do nosso verdadeiro Si.
Avidya, portanto, tem um significado muito vasto e geral porque abrange todos os
erros, as ilusões do homem nos três mundos da manifestação, desde o físico denso ao
mental inferior, e somente pode ser superado quando a Luz da Alma penetra na
consciência do indivíduo, tornando-o consciente da Realidade.
É óbvio que todos os outros obstáculos derivam dessa ignorância, principalmente o
segundo deles, que é:
b) o senso da personalidade, que significa "a identificação do Conhecedor com os
instrumentos do conhecimento, isto é, a identificação da Alma com os veículos que a
revestem".
O homem, por um infinito número de existências é consciente apenas da vida da sua
personalidade. Ele não sabe que é um centro espiritual, uma centelha divina e vive
completamente imerso no mundo objetivo, ilusório. E, ainda que comece a compreender e
a crer que o seu verdadeiro Eu é algo espiritual, que possui uma consciência mais ampla e
tem uma vida imortal, não consegue se libertar deste "senso da personalidade", porque ele
só conhece a realidade intelectualmente, mas nunca provou a verdadeira consciência
anímica e não lhe foi revelada a vida nos planos hiperfísicos.
Na realidade, este "senso da personalidade" constitui o obstáculo mais difícil e
somente será vencido, por completo, quando a Alma tiver pleno domínio sobre o homem
inferior e tiver travado uma árdua e dura batalha com diversas vicissitudes.
A personalidade, mesmo sendo ilusória e transeunte, é uma verdadeira força que se
opõe à energia espiritual, engajando uma luta em todo os planos, até que finalmente venha
a "rendição" e a Alma triunfe em toda a sua luminosa plenitude.
Esta luta é rechaçada pelo homem até que se dê o seu primeiro contato com a Alma,
despertando nele a consciência de "quem" ele realmente é. Então, compreende a futilidade
e a inconsistência do seu louco combate contra aquela que é a única e verdadeira fonte de
felicidade, de serenidade e de luz, e não mais se opõe ao querer da Alma, antes, procura
colaborar com ele - ainda que, às vezes, mesmo não querendo, é assaltado pelo mundo da
ilusão -, e consegue libertar-se completamente do senso da personalidade.
Entretanto, sua aspiração e boa vontade irão guiá-lo àquelas percepções, àquelas
práticas e estudos que o ajudarão a reencontrar a Verdade entrevista e a Luz da qual ele
percebeu o primeiro vislumbre.
c) O desejo. "Desejo é um termo genérico que designa a tendência extrovertida do
espírito para a vida da forma. Ele pode significar o prazer que um canibal sente naquilo que
come, o amor de um homem pela própria família, a admiração de um artista por um belo
quadro ou a adoração do devoto pelo Cristo ou pelo seu próprio Instrutor." (Patañjali-Sutra
Yoga, Livro II, p. 137.)
Assim se lê em Patañjali, e é claro que esse termo "desejo" tem significado muito
amplo, compreendendo tanto os desejos mais baixos, ligados aos instintos e às paixões,
quanto as aspirações e os ideais mais elevados.
Isso pode parecer um exagero para nós que ainda devemos nos libertar dos desejos e
dos liames inferiores e devemos desenvolver as aspirações para as coisas elevadas, mas, do
ponto de vista da Alma, também os desejos superiores, que constituem um liame e um
15
obstáculo à completa consciência espiritual, devem ser superados.
"... parece que o progresso da Alma está nessa passagem de um objeto desejado a
outro, até que chega a hora em que a Alma é impelida em direção de si mesma e se
encontra só. Ela exauriu todas as possibilidades de apego e até o seu instrutor parece tê-la
abandonado. Resta então somente uma Realidade, a realidade espiritual, que é a própria
Alma, voltando-se, portanto, o seu desejo para o interior. O desejo pelo mundo exterior
exauriu-se e a Alma encontra, assim, o reino de Deus dentro de si" (Patañjali, Sutra Yoga,
Livro II, pp. 132-33, Ed. Nuova Era).
Dessa forma, a Alma pode reencontrar-se real e totalmente quando se volta para o
interior e finalmente descobre que o verdadeiro Caminho para Deus não está fora, mas
dentro de si. Este é o "Caminho secreto" que o homem descobre quando se desprende de
tudo e compreende a ilusão do mundo objetivo.
d) O ódio. Na realidade, este termo quer indicar o sentido separatista inerente à
personalidade; é o oposto do sentido de unidade que, ao contrário, é o comportamento
natural da Alma.
A separação é chamada, na Voz do Silêncio, a grande heresia, pois é a causa de
infinitos sofrimentos, erros e dificuldades para o homem.
Ela produz ódio, aversão, egoísmo, dureza, incompreensão, orgulho, enrijecimento,
espírito de crítica, etc. em suma, todas aquelas qualidades negativas que derivam da falta
de amor e fraternidade.
Nenhum de nós está completamente livre de tal separação, pois ainda não temos
plena consciência da Alma e, assim, em cada um de nós existe certa dose de ódio, e
incompreensão para com os outros.
Esse obstáculo somente será superado quando o Amor da Alma puder fluir livremente
nos nossos veículos, dando-nos o sentido de união com todos.
e) O apego. Este obstáculo também é, por assim dizer, congênito no homem, pois "é o
elemento dominante na manifestação divina" por exprimir a relação entre os dois opostos:
Espírito e Matéria.
Em cada plano de manifestação reencontramos este apego e não podemos nos
libertar até que tenhamos encontrado um equilíbrio entre os "pares opostos" e descoberto
o "Caminho sutil como a lâmina de um navalha", de que fala o Buda.
Desejo e apego estão estreitamente ligados e ambos devem ser superados.
O homem não consegue o completo desprendimento de uma só vez, mas
gradativamente. Aos poucos ele se desprende daquilo que é inferior para apegar-se a
qualquer coisa de superior. Todo o caminho evolutivo do homem é prenhe destas crises de
superação e de desapego, seguidas de apego ou aspiração por qualquer coisa mais elevada.
Apenas quando a natureza inferior estiver unificada por completo à natureza superior,
isto é, quando "Espírito" e "Matéria" se tornarem um, só então cessará esse jogo alternado
de atração e repulsão, de apego e desapego. O homem não mais terá consciência da
dualidade, mas, sim, da unidade e estará completamente livre de apego.

*
* *
16
Estes são, portanto, os cinco obstáculos fundamentais, segundo Patañjali.
Como dissemos antes, eles são de natureza geral e certamente cada um de nós os
sentirá com maior ou menor intensidade.
Além destes obstáculos, em cada homem existem outros de natureza particular e
individual, dependendo de seu grau de evolução, de seu Raio dominante, de seu
temperamento etc.
Cabe a cada um descobri-los, procurando-os no fundo nós mesmos e estudando o
próprio temperamento e a própria natureza.
Não será fácil descobrir todos os obstáculos, mesmo porque os mais graves estão de
tal forma enraizados em nós de modo a se tornarem irreconhecíveis à nossa consciência.
Estes obstáculos inconscientes constituem os glamours (ilusões) que são
reencontrados em cada plano da personalidade.
No plano físico-etérico encontramos maya.
No plano astral "o ofuscamento", e o no plano mental inferior, "a ilusão".
Por ora, menciono-os de passagem, porém, análises mais particularizadas de tais
glamours serão o tema de uma das lições deste curso.
Outro obstáculo fundamental para o livre afluxo das energias anímicas é a falta de
integração dos veículos pessoais, dos quais falaremos na próxima lição.

II - QUESTIONÁRIO

1. A sua aspiração de alcançar a completa consciência da alma é suficientemente forte?


2. Se não é, você pode identificar aquilo que a impede?
3. Tem ainda dúvidas mentais ou incertezas sobre aquilo que diz respeito à realidade da
Alma?
4. Crê ser necessário aprofundar o seu conhecimento antes de se dispor a iniciar o
trabalho para realizar a união com o Si?
5. Acha que a vida prática, as suas ocupações o impedem de dedicar-se ao
recolhimento, ao estudo, às práticas apropriadas para conseguir um
desenvolvimento interior?
6. Quais as ligações que na sua vida constituem obstáculo para a realização da
consciência espiritual?
7. Consegue facilmente sentir um senso de desprendimento da personalidade, das suas
reações, dos seus desejos?
8. Acha que é um tipo essencialmente extrovertido ou introvertido?
9. Depois de refletir sobre karma yoga, bhakti yoga e jnana yoga, pode dizer por qual
dos três sente maior inclinação?
10.Acha que é fácil conciliar a vida prática, ativa, com a vida interior, espiritual?
11.Depois de ter refletido e meditado, poderia identificar qual é, atualmente, o seu
maior obstáculo entre os cinco relacionados por Patañjali?

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III - INTEGRAÇÃO DA PERSONALIDADE

A personalidade é o instrumento da Alma nos planos da manifestação e é composta de


três veículos ou corpos que devem ser o perfeito reflexo dos três aspectos da Alma:
Vontade, Amor e Inteligência.
Entretanto, no momento da individuação, esses três veículos pessoais encontram-se
em estado amorfo, embrionário e o homem ainda não está consciente de todas as
qualidades e capacidades que traz, latentes e em potencial.
Há, portanto, uma evolução também dos três corpos da personalidade; muitos são os
graus de desenvolvimento muitas as diferenças evolutivas de indivíduo para indivíduo,
justamente por aquilo que respeita ao grau de formação dos seus corpos sutis.
Aos poucos, com a sucessão das várias encarnações, e de acordo com as várias
experiências, provações e vicissitudes da vida, o homem constrói psicologicamente os seus
vários corpos sutis, isto é, vai mudando suas qualidades latentes do estado potencial para o
estado ativo, ao mesmo tempo em que se vai conscientizando de todos os estados
psíquicos e de todos os níveis inferiores, dos emotivos aos mentais.
Contudo, não se pode chamar a verdadeira "personalidade" de entidade independente
até que os três veículos pessoais, completamente desenvolvidos e formados, estejam
integrados e coordenados entre si.
O que significa integração da personalidade?
Significa que os três corpos inferiores devem funcionar coordenada e
harmonicamente, colaborando entre si para um único fim, não devendo funcionar cada
qual por conta própria em direções e finalidades diversas.
Mesmo que pareça estranho, isso pode acontecer, porque, se no homem ainda não se
formaram o senso da identidade pessoal, isto é, a consciência do eu pessoal, e o senso da
direção, os três veículos não se podem coordenar e integrar, funcionando, assim, de
maneira independente, como se cada um tivesse vontade própria.
Isso acontece porque, não tendo sido ainda formada uma unidade de consciência
pessoal, o homem tem o ânimo multiplice; identifica-se ora com um veículo ora com outro,
é presa dos seus estados psíquicos em vez de ser-lhes senhor, e se sente continuamente
impelido ora numa direção ora em outra, conforme prevaleçam os impulsos instintivos
(pertencentes ao corpo etérico), as emoções (pertencentes ao corpo astral) ou as ideias e
as formas-pensamentos (pertencentes ao corpo mental inferior).
A sua vontade é frágil e ele vai em frente, vacilando continuamente entre um objeto e
outro, sem meta definida, sem uma meta bem definida a atingir.
Esta última frase nos oferece a chave de todo o problema.
Somente quando começa a se formar no homem uma meta, um ideal, é que ele pode
criar a integração dos seus veículos pessoais, porque o fim único, que deseja alcançar,
focaliza e concentra todas as energias da sua personalidade em uma só direção e, assim, os
três corpos pessoais não funcionam mais por conta própria, mas se alinham e se
coordenam sob o comando da vontade.

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Neste ponto, emerge a verdadeira personalidade que conserva uma energia peculiar,
uma nota particular, que não é a soma nem a fusão das energias dos três corpos inferiores,
mas é uma força independente, com fins, características e qualidades próprias.
O Dr. Roberto Assagioli, em Coordenação dos veículos pessoais, diz:
"Tem uma personalidade quem é consciente de uma meta e sabe disciplinar as
atividades de maneira a alcançá-la ou, pelo menos, tentar alcançá-la."
E mais:
"Criamos para nós uma personalidade sempre que antepomos a fé ao desejo do nosso
eu inferior, sempre que temos um ideal diante de nossos olhos e coordenamos os nossos
instrumentos, sempre que direcionamos todas as nossas forças para uma única meta,
plasmando-nos em função daquilo que deve ser alcançado. Sem meta, sem ideal, não pode
existir uma verdadeira personalidade...".
Portanto, a integração dos veículos pessoais e a formação de uma verdadeira
personalidade só serão possíveis se houver a presença daquele fio integrador consequente
de um ideal, de um propósito único a ser atingido.
A esta altura, perguntamos: qual é a importância da integração da personalidade aos
objetivos da união com a Alma? Por que a falta de integração dos veículos pessoais
constitui um obstáculo para essa união?
Como dissemos antes, a personalidade deve ser o instrumento de manifestação e de
expressão da Alma nos três planos exteriores, e como poderá ela, então, servir a esse fim se
o seu funcionamento não for organizado e harmônico, se não houver perfeito equilíbrio das
energias, uma disciplinada coordenação das atividades psíquicas sob o comando da
vontade?
A Alma somente poderá servir-se da personalidade e manifestar os seus três aspectos
através dos três veículos pessoais, quando for harmônica e eficiente, pronta e madura.
A falta de integração dos corpos inferiores obsta o afluxo das energias anímicas e
produz um estado de desarmonia, de desordem na psique do homem, certamente
desfavorável à elevação e à sublimação das energias.
É verdade que em qualquer momento excepcional pode-se ter um contato fugaz com
a Alma através de um dos veículos, desde que seja (mesmo por momentos) vibrante nos
subplanos mais elevados; mas este contato é puramente casual, esporádico e instável e não
se repete voluntariamente, devido à falta de alinhamento e integração dos veículos.
Quando, ao contrário, ocorre o contato da Alma com a personalidade já integrada, ele
é estável e duradouro e as suas consequências são permanentes.
Não pode haver integração da personalidade quando existem deficiências de
desenvolvimento em qualquer dos veículos, pois, como dissemos antes, não é possível um
harmônico equilíbrio de forças em uma personalidade que não esteja igualmente
desenvolvida e formada em todas as suas partes.
É óbvio, portanto, que a primeira coisa que devemos fazer é desenvolver cada lado da
nossa personalidade, preenchendo as lacunas que porventura encontrarmos em nossos
veículos.
Essa deficiência ou falta de desenvolvimento de qualquer dos veículos é, portanto, um
obstáculo natural à integração da personalidade.
Há, também, outra série de dificuldades, mais complexas e mais profundas, que
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surgem depois de os três veículos estarem formados e desenvolvidos. Estas dificuldades são
as cisões.
Não é fácil compreender bem o que realmente significa "cisão".
É necessário possuir certa experiência subjetiva para compreender plenamente o
significado e a importância do ponto de vista psicológico, desta palavra.
Mesmo assim falaremos nela, pois é útil conhecer a sua natureza, ainda que só
intelectualmente.
"Cisão" significa "fratura", separação, divisão. Cisão é o contrário de coordenação,
colaboração, harmonia e união.
Na personalidade podem existir cisões entre um veículo e outro e, às vezes, também
no interior de um mesmo veículo.
É óbvio que essas cisões, essas fraturas existem psicologicamente e não em estrutura;
elas existem apenas na consciência do indivíduo. De fato, uma cisão entre os corpos da
personalidade significa que o indivíduo não tem consciência deles como funções da sua
psique, da qual é senhor, identificando-se separadamente ora com um ora com outro.
Note-se que, enquanto se identifica com um dos corpos, o eu esquece totalmente os
outros, liga-se por completo a esse corpo, segue cegamente os impulsos dele e obedece às
suas exigências, acreditando estar seguindo a vontade do seu eu.
Depois, caso se identifique com outro dos seus corpos, ele faz o mesmo e se porta
como se fosse uma outra pessoa, pois pode acontecer de os impulsos, as qualidades e os
desejos desse corpo serem absolutamente diversos daqueles do veículo com o qual se
havia identificado antes.
Tudo isso pode parecer confuso à primeira vista. Entretanto, se pensarmos que cada
um dos nossos veículos pessoais possui funções e características diversas devido à sua
própria natureza, compreenderemos como isso pode acontecer.
É óbvio que o corpo físico-etérico possui funções e deveres bem diversos daqueles do
corpo emotivo, que, por sua vez, possui qualidades e objetivos diversos daqueles do corpo
mental...
Portanto, se considerarmos nossos três veículos separadamente, como se fossem três
unidades diferentes, não pertencentes a um mesmo indivíduo, é como se fossem três
identidades diversas, com diretrizes e finalidades diferentes umas das outras.
As cisões tanto podem ser superficiais, temporárias e não causar graves distúrbios,
como podem ser mais profundas e duradouras.
É como se no homem florescessem alternadamente duas ou mais personalidades, não
só diversas, mas com frequência conflitantes.
O indivíduo não é sempre igual a si próprio, não é coerente, não tem uma única
fisionomia, mas é multíplice, caleidoscópico, fracionado.
Talvez cada um de nós tenha conhecido pessoas que em algumas circunstâncias
agiram de certa maneira e, em outras, de maneira totalmente diferente.
Pessoas que em suas profissões são eficientes, práticas, inteligentes e que na vida
particular são ingênuas, frágeis e supersticiosas.
Homens de mente clara e límpida, propensos às ciências concretas e que,
afetivamente, são como crianças inseguras e medrosas...
Indivíduos que parecem (e talvez sejam) honestos e íntegros no tocante às suas
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profissões e que, no campo das emoções e dos sentimentos, são egoístas, cruéis, cínicos...
Poderíamos citar infinitos exemplos dessas cisões, porém nos estenderíamos demais.
Aquilo que deve estar bem claro à nossa mente é que pode existir entre um veículo e
outro da personalidade uma fratura, uma separação, que os impede de funcionar
coordenada e harmonicamente e cria penosas dificuldades e intensos distúrbios.
Isso pode acontecer mais facilmente:
a) se os Raios que influenciam os três corpos forem de naturezas opostas, como por
exemplo os II e o I, ou o V e o II.(1)
b) se o indivíduo não tem vontade diretiva e autodomínio sobre os corpos da sua
personalidade;
c) se não tem em si o elemento integrador de um ideal e de uma meta a alcançar.
1. Vero livro da mesma autora, Os Sete Temperamentos Humanos, para maiores
Informações sobre os Raios.
Como vocês já sabem, todo o nosso veículo pessoal está sob o influxo de uma energia,
de um Raio e, assim, também a personalidade inteira.
Desta forma, pode acontecer, por exemplo, que haja uma personalidade composta da
seguinte maneira:
a) corpo físico-etérico de III Raio;
b) corpo emotivo de II Raio;
c) corpo mental inferior de I Raio.

Numa personalidade de tal modo constituída pode facilmente formar-se uma cisão
entre os corpos emotivo e o mental inferior, porque o Segundo e o Primeiro Raios possuem
qualidades e características quase contrastantes e finalidades quase opostas.
O indivíduo que possui tais Raios na sua personalidade terá muitas dificuldades para
coordenar, harmonizar e integrar o corpo emotivo com o mental, porque enquanto estiver
propenso a comportamentos amorosos, compreensivos, inclusivos, construtivos devido ao
Raio do seu corpo emotivo, será, entretanto, impelido pelo Raio do corpo mental à
prepotência, à rigidez, à destrutividade, ao isolamento. Portanto, será como se nele
houvesse duas personalidades bem diversas, distintas e contrastantes, aflorando
alternadamente, conforme sua polarização, no emotivo ou no mental.
Somente quando focalizar todas as suas energias num propósito, num único ideal, será
verificada uma coordenação dos veículos da sua personalidade, pois a vontade tomará o
comando, formar-se-á uma unidade de consciência e cada lado da personalidade será
utilizado só para aquele fim.
Este é um dos muitos exemplos de casos de cisão que podem ser encontrados na
personalidade e que é bastante revelador.
Note-se que a pessoa que tem na sua psique qualquer cisão não é consciente desta,
justamente porque nela não se formou aquele senso de auto-observação e de objetividade
que aparece quando emerge a consciência do eu pessoal, que é uma identidade distinta
dos conteúdos psíquicos.
Como se vê, também a construção e a organização da personalidade têm os seus
problemas e suas dificuldades, e ocupam um período relativamente longo.
Quando o homem se torna senhor dos seus veículos e das energias que o compõem e
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é capaz de servir-se delas para o seu objetivo, usando-as de maneira equilibrada e
coordenada, de modo que cooperem entre si, sem se obstarem reciprocamente ou criarem
conflitos e contrastes, terá, então, integrada a sua personalidade.
A integração da personalidade marca um momento evolutivo importantíssimo para o
homem, mesmo que esse desenvolvimento nem sempre corresponda a uma igual
maturação espiritual.
A propósito, é muito importante saber que o desenvolvimento da personalidade não é
sempre simultâneo e paralelo àquele interior e espiritual, apesar de ser necessário à
formação do indivíduo e à sua futura obrigação de Servidor do Plano Divino.
Muitas vezes temos falado de tipos introvertidos e extrovertidos e de temperamentos
orientais e ocidentais.
Os primeiros desenvolvem-se interior e subjetivamente, pois voltam toda a sua
atenção para o mundo interior e para os valores intuitivos.
Os segundos, ao contrário, formam-se antes exteriormente, isto é, como
personalidade, pois estão voltados para o exterior, para a atividade, para a experiência,
para o mundo do pensamento concreto e positivo.
Ambos os desenvolvimentos são necessários ao homem, e ele, de fato, não se pode
considerar completo até que amadureça, quer subjetiva quer objetivamente.
Eis por que, às vezes, podemos encontrar pessoas bem desenvolvidas e que atingiram
uma integração, mas que nada têm de espiritual, ou por outro lado, indivíduos muito
maduros espiritualmente e com intuição despertada, que têm personalidades truncadas,
imperfeitas e falhas.
Aqueles que atingiram a integração dos veículos pessoais sem ter desenvolvido,
mesmo que de maneira primitiva, a intuição espiritual (e este é o caso mais comum nos
países ocidentais), encontrar-se-ão diante de muitas dificuldades e a luta a ser travada por
sua Alma, para conquistar o seu instrumento, será muito longa e árdua.
A personalidade integrada, mesmo não sendo o verdadeiro Eu, mas somente um
reflexo dele, é uma entidade muito forte, porém, separatista, orgulhosa e rebelde.
O homem que possui tal personalidade sente-se pleno de poder, de eficiência e de
inteligência, porque, de fato: a integração das suas energias proporciona-lhe uma sensação
de bem-estar, de força e de segurança, permitindo-lhe realizar seus objetivos e ambições e,
por essa razão, é orgulhoso e acredita ser superior aos outros. Entretanto, é inconsciente
da vida da sua Alma e, mesmo que esta procure comunicar-se com ele, repele os seus
chamados porque os crê quimeras inúteis que o tirariam do Caminho.
Realmente, a finalidade da Alma é muito diferente da finalidade da personalidade,
pois, enquanto uma é altruísta, desinteressada, universal, a outra é egoísta, interessada,
separatista.
Tem início, portanto, uma longa e dura luta entre a Alma e a personalidade, porque
esta última se rebela contra a Luz da Alma, acreditando que "dar-se" a ela significa o seu
fim e a sua destruição.
Esse é, no fundo, o drama do homem que se rebela contra aquela que é a sua
salvação.
A frase do Evangelho: "Têm olhos e não veem, tem ouvidos e não ouvem" quer
significar, justamente, essa cega obstinação do homem que, por vontade própria, volta as
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costas à sua Alma para não ver a luz da realidade e não escutar a voz do seu verdadeiro Eu.
Entretanto, a personalidade é necessária ao homem e essa identificação com ela é
inevitável, e tem a sua utilidade.
O homem deve evoluir como consciência, mas deve evoluir também
"estruturalmente" (por assim dizer), isto é, deve construir, aos poucos, as várias partes do
instrumento que deverá em seguida auxiliar a Alma nos seus fins espirituais e altruísticos de
Serviço; tal instrumento é a personalidade. Eis por que são importantes a formação e o
desenvolvimento dos três veículos da personalidade, também chamados veículos de
experiência e de expressão, bem como a integração deles em um todo único, harmônico e
eficiente, pronto para os comandos do Eu Superior.

III- QUESTIONÁRIO

1. Você procura definir o mais claramente possível a Alma e a personalidade?


2. Qual é o verdadeiro objetivo e a verdadeira função da personalidade?
3. Qual é a sua utilidade para aquilo que concerne à Alma?
4. Qual é a diferença entre a evolução da personalidade e a da Alma?
5. O que significa "integração" dos três veículos pessoais?
6. Por que a integração é tão necessária para o desenvolvimento do homem?
7. Observando a si próprio, você pode dizer qual dos seus três veículos é menos
desenvolvido?
8. Qual dos seus três veículos é o mais desenvolvido?
9. Existem em você cisões das quais seja consciente?
10.Pode dar algum exemplo de cisão?
11.Acha que tem conseguido certo grau de integração?
12.Por onde reconhece ter conseguido certo grau de integração?
13.Se não a alcançou, o que é, segundo você, que o impede?
14.Tem um ideal na vida, uma finalidade bem clara a atingir, um objetivo bem
definido?

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IV - O PROBLEMA DA ILUSÃO

Outro obstáculo que encontramos em nossa personalidade e que se interpõe entre


nós e a plena revelação da Alma é o estado de obscuridade, de falta de visão, de
ofuscamento da consciência, conhecido pelo nome de ilusão e que e o estado de
consciência natural da personalidade porque ela própria é ilusória e vive no mundo do
irreal:
A humanidade inteira é presa desta obscuridade, está envolvida por esse véu que
ofusca a consciência; e só quando a Luz da Alma começa a penetrar na mente dos homens
e, a intuição começa a despertar é que a ilusão, em seus vários aspectos, aos poucos se
dissolve, diminui desaparece para dar lugar à revelação e à compreensão da Realidade.
A Ilusão deriva da identificação do homem com a forma e com o mundo objetivo;
entretanto, ela se encontra em, níveis evolutivos bastante altos, pois apresenta-se sob
vários aspectos e se introduz na personalidade por vias insidiosas e obscuras. Com
frequência, aliás quase sempre, ela está profundamente enraizada no inconsciente e é de
difícil reconhecimento.
Nas primeiras fases do Caminho evolutivo, o estado de imersão na ilusão não constitui
um problema porque não somente é inevitável, mas é, em um certo sentido, útil.
O homem deve construir os seus veículos, deve desenvolvê-los e formá-los, sendo
justamente a identificação com eles que lhe dá o impulso para tal realização. Ele não está
suficientemente maduro para operar sobre os corpos da personalidade, mesmo sabendo
que são temporários, ilusórios e efêmeros.
Assim, por longas épocas, o homem, sem conhecer o verdadeiro e profundo
significado da obra que está realizando e sem mesmo estar consciente daquilo que está
fazendo, constrói o instrumento que servirá à sua Alma na realização dos seus objetivos.
Somente quando o indivíduo entra no Caminho da Prova (que é, na realidade, o
Caminho da Purificação), começa a se desenvolver o discernimento, isto é, a faculdade de
discriminar o Real do irreal, o ilusório do permanente, o Eu do não-eu.
Nesta altura, a imersão na ilusão torna-se um verdadeiro problema a ser resolvido e
um obstáculo a ser superado, porque o homem deseja a Luz e não pode vê-la, aspira
descobrir a Realidade, mas ela está escondida sob densos véus.
A ilusão revela-se nos três planos da manifestação e toma nomes diferentes em cada
um deles: (1)
a) no plano etérico, chama-se Maya;
b) no plano astral, chama-se "Ofuscamento";
c)no plano mental, chama-se" Ilusão", e
d) a ilusão da personalidade integrada chama-se "Guardião do Limiar".
1. Ver o livro de A. A. Bailey. A Ilusão Como Problema Mundial,

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a) Maya, a ilusão no plano físico-etérico.
Dá-se pela identificação do homem com o aspecto material, denso, da criação. Ele não
só crê que o seu "eu" é o corpo físico, mas também que o verdadeiro mundo real é só
aquele que ele pode ver, tocar, sentir...
Maya é o dar excessiva importância a tudo aquilo que é material, às provas físicas, às
experiências sensíveis, às sensações. É o não poder e o não saber distinguir o material do
imaterial; é a impossibilidade de conceber qualquer coisa que não tenha forma e não seja
controlável através dos cinco sentidos.
Ainda que possa parecer estranho, maya é bem mais difundida do que se crê, não só
nos níveis evolutivos mais baixos da humanidade, mas também entre as pessoas de
evolução média, possuidoras de certa cultura e de certo desenvolvimento mental.
Há exemplos de médicos, cientistas, engenheiros e letrados incapazes de imaginar ou
de pensar alguma coisa que não seja física e que não seja controlável através dos sentidos.
Eles não podem conceber senão o mundo físico material e lhe dão precípua
importância. Vivem completamente imersos em maya e não estão conscientes nem mesmo
da contraparte energética do físico, isto é, do corpo etério.
Numa época onde só se fala de energias e de forças psíquicas, há ainda uma infinidade
de pessoas incapazes, não digo de perceber, mas até mesmo de imaginar algo diferente do
físico denso.
Somente quando o homem começa a ter consciência da dualidade existente entre ele
e as forças, é que descobre a dualidade inicial entre o corpo físico, denso e o corpo etéreo,
e aprende que: "O primeiro é o meio de contato no plano físico, o outro o instrumento de
contato com as forças internas, com as energias e com os mundos do ser." (A.A. Bailey, A
ilusão como problema mundial, p. 93.)
É nessa fase que ele começa a sentir o peso dessa imersão em maya e a lutar para
superá-la.
"Maya torna-se um problema somente quando é reconhecida e nas primeiras fases da
evolução, tal reconhecimento não pode acontecer" (idem, p. 93).
"Maya, como efeito reconhecido, só é experimentada quando se está no Caminho, a
começar pelo Caminho da Prova" (idem, p. 93).
Poderíamos, portanto, dizer que estamos todos imersos em maya, justamente pelo
fato de termos um corpo físico e os sentidos e que só nos conscientizamos dela ao entrar
no Caminho da Prova, porque ela (Maya) impede cada passo que damos para a Luz e para a
libertação, nos mantém ligados ao mundo das formas e não permite que percebamos a
realidade interior.
É nesta fase que damos início às primeiras tentativas sérias de purificação física e em
que se efetua a transmutação dos centros inferiores para os centros superiores.
De fato, enquanto as energias do nosso corpo etérico estiverem focalizadas nos
centros aquém do diafragma, não nos poderemos libertar de maya, e somente através da
purificação e da transmutação deslocaremos as energias para os centros superiores.
Dessa forma, maya será totalmente superada apenas quando o aspirante tiver
aprendido a técnica da inspiração, que consiste na substituição das energias do corpo
etérico pelas energias anímicas que afluem na meditação.
Tal substituição pode até mesmo ter início, mas de maneira inconsciente, quando o
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aspirante age com pureza de propósitos, quando tenta superar o apego ao plano físico, em
suma, a cada vez que pratica, consciente ou inconscientemente, um ato de purificação.
b) Ofuscamento ou ilusão no plano astral.
A ilusão no plano astral é chamada "ofuscamento" porque se apresenta aos olhos do
clarividente como uma verdadeira névoa que ofusca a luz e a visão.
Em A ilusão como problema mundial, de A. A. Bailey, está dito que, caso o corpo astral
da Terra, pudesse ser visto de um outro planeta, avistar-se-ia uma esfera turva pois a
humanidade, na sua quase totalidade, é presa do ofuscamento astral.
O que provoca essa névoa astral?
Ela é provocada por muitos fatores ínsitos na própria substância do plano astral, que é,
por sua natureza, ilusório e, além disso, pelo fato de o corpo astral, quando não coligado à
Alma, produzir estados emocionais, sentimentais, de caráter pessoal que ofuscam a visão,
acarretam falsos juízos, influem nas faculdades mentais e fazem o homem submergir,
sempre mais profundamente, no mundo da irrealidade.
O corpo emotivo deveria ser apenas "o instrumento de sensibilidade" do homem, o
límpido refletor do aspecto búdico do Ego, sem possuir uma atividade autônoma,
independente.
Entretanto, por um longo período evolutivo, ele funciona por conta própria, de
maneira desordenada e agitada, continuamente movido pela mais leve vibração,
provocando no homem um estado de confusão, de falta de clareza, um estado de caos, que
bem pode definir-se como ofuscamento.
Num certo sentido, o problema do ofuscamento emocional é mais difícil de ser
resolvido porque ocupa um campo vasto e indeterminado, sendo peculiarmente de difícil
reconhecimento.
De fato, ele apresenta aspectos aparentemente positivos que, diante da pesquisa do
sincero aspirante espiritual, não se apresentam como características a serem superadas ou
destruídas, mas como qualidades e virtudes.
Em outras palavras, a maior parte das ilusões emocionais não se apresenta como
defeitos ou qualidades negativas, mas como qualidades positivas e virtudes apreciáveis.
A afetividade, o sentimentalismo, o assim chamado "amor" humano, os apegos, a
sensibilidade emotiva, a devoção etc., parecem e são, em certo sentido, ótimas qualidades
e características humanas positivas, mas escondem os mais perigosos estratagemas e
mascaram, inconscientemente, qualidades negativas e personalismos.
Além disso, a característica de quase todas as ilusões (em todos os planos) é a de
serem inconscientes e de se apresentarem alteradas e camufladas à consciência do
indivíduo, sob o aspecto de virtudes e qualidades. Eis por que é tão difícil reconhecê-las.
No livro anteriormente citado, A ilusão como problema mundial, a respeito das ilusões,
está escrito:
"Na maioria dos homens é ignara. Muitas pessoas não se apercebem delas; idealizam
o seu ofuscamento e consideram as próprias ilusões como preciosas possessões,
duramente conquistadas" (p. 55).
Esta última frase é muito significativa e pode nos dar a chave para o entendimento da
natureza e da qualidade da ilusão em seus vários planos, seja ela de caráter etérico,
emocional ou mental.
26
Como foi dito anteriormente, os ofuscamentos emocionais são particularmente
difíceis de ser descobertos pois parecem "virtudes duramente conquistadas" e, também,
"por causa das belas colorações que a névoa assume" (idem, p. 87).
E mais: "Um homem perde-se na extática nebulosidade de sua criação, emanada do
seu corpo astral..." (ibidem, p. 87).
Entretanto, devemos aprender a enxergar a verdade, a saber ver, com olhos
iluminados, aquilo que está realmente escondido pelos nossos sentimentos, pela nossa
devoção, pelo nosso amor, e aprender a discriminar a vibração do corpo astral da vibração
da Alma.
Nessa difícil tarefa, somente a Luz da mente iluminada pelo Si pode nos ajudar.
Para dissipar a névoa, faz-se necessária a Luz, mas essa Luz deve ser filtrada pela
mente, que tem o discernimento, a objetividade e a faculdade de raciocinar.
A técnica de dissolver o ofuscamento é, de fato, a iluminação precedida de exercícios
formadores de uma sólida e permanente polarização mental. Quando esta polarização for
estabilizada, é necessário fazer afluir a luz no corpo astral e dispersar todas as névoas,
reconhecendo corajosamente os erros, os disfarces, os insidiosos estratagemas do
"sentimentalismo" e do astralismo.
c) Ilusão, a ilusão no plano mental.
A palavra "ilusão", quando se refere ao plano mental, tem um significado particular,
bem diverso daquele que lhe é dado comumente. Não significa "mal-entendido",
"confusão" etc., mas algo muito mais profundo e esotérico.
De fato, a ilusão mental é um problema que se apresenta somente quando o aspirante
tem certo grau de contato com a Alma, é sensível ao afluxo de ideias que provêm do plano
anímico e tem uma sólida polaridade no corpo mental.
No livro A ilusão como problema mundial, há também esta definição:
"A ilusão pode significar a reação da mente não disciplinada ao mundo das ideias com
o qual começa a tomar contato; isso acontece no momento em que o homem efetua o
próprio alinhamento e põe a própria natureza inferior em contato com a superior" (p. 95).
O homem capta a ideia que lhe provém da Alma, mas sua mente, ainda não purificada,
a colore e altera, dando-lhe uma interpretação distorcida e "ilusória".
Essa alteração da ideia é devida a várias causas, entre elas:
a) o grau de desenvolvimento da mente;
b) indeterminação da forma-pensamento;
c) o tipo de Raio do Ego;
d)instabilidade do contato da mente com a ideia percebida.
Tais causas são apenas algumas das muitas relacionadas no livro citado e podem ser
eliminadas pouco a pouco com o gradual treinamento da mente a se tornar mais receptiva
e sensível, com a prática da meditação e com a purificação do aparato mental.
Entretanto, a técnica mais eficaz, aliás, quase "única", para dissolver a Ilusão, é o
desenvolvimento da intuição.
Apenas a intuição pode nos dar o poder de superar os obstáculos, a obscuridade, as
confusões criadas pela mente concreta ainda ligada à personalidade e ao mundo das
formas; apenas a intuição pode nos colocar em contato direto com a Verdade pura, e dar-
nos a capacidade de captar a ideia na sua verdadeira essência e realidade.
27
Sem dúvida, a intuição não pode ser desenvolvida de uma só vez e a sua conquista
requer longo treinamento na prática da meditação, certas ampliações da consciência
desenvolvimento interior e maturidade, que não se pode ter antes de determinado grau
evolutivo.
Eis por que a verdadeira superação da ilusão não é possível antes que se tenha
conseguido a Iniciação.
e) Guardião do Limiar, a ilusão da personalidade integrada.
Tem-se muitas ideias confusas e frequentemente erradas sobre a natureza do
"Guardião do Limiar", e muitas interpretações e definições mais ou menos justas foram
dadas a respeito desta entidade que se apresenta ante o discípulo em certo ponto de seu
caminho evolutivo.
As seguintes palavras dão-nos um conceito preciso:
"Pode-se definir o Guardião como o conjunto das forças da natureza inferior, tal como
acontece com a personalidade antes da iluminação, da inspiração e da iniciação. A
personalidade, nessa fase, é muito forte e o Guardião encarna todas as forças psíquicas e
mentais, desenvolvidas e nutridas com cuidado no homem, ao longo das idades. Pode ser
considerado como a potência da tríplice forma material, antes da sua consciente
cooperação e consagração à vida da Alma e ao serviço da Hierarquia espiritual de Deus e da
humanidade" (A ilusão como problema mundial, p.99).
Esse "conjunto das forças da natureza inferior" constitui uma potente forma-
pensamento, diante da qual o discípulo, simbolicamente falando, se encontra quando deve
passar pela Porta da Iniciação. Tal conjunto é chamado, justamente, o Guardião do Limiar,
porque vigia a Porta Sagrada que conduz à Iniciação e o discípulo não pode ir além se antes
não vencer e destruir a potente forma-pensamento.
Na realidade, essa experiência significa que, ao estar o discípulo pronto para a
Iniciação, a Luz que flui da sua Alma fará com que ele veja todos os lados da sua
personalidade, todo o conjunto das suas forças psíquicas inferiores, que ele deve, de uma
vez por todas, submeter e superar. Ele se vê como realmente é, sem véus ou ilusões, e tal
visão é uma experiência terrificante.
O discípulo sente-se conturbado e frágil diante da sua própria natureza, que se lhe
ergue contra como inimiga, e se horroriza ao ver quanta baixeza, quanta obscuridade
quanta negatividade estão ainda escondidas e enraizadas na sua personalidade.
Entretanto, a Alma lhe dá força e coragem para lutar.
O discípulo combate, vence a batalha e entra pela Sagrada Porta "passando por cima
do seu Si morto".
***
O problema que se apresenta a nós que aspiramos a realização da união com a Alma, é
descobrir à qual dos três tipos de ilusão estamos mais sujeitos e por quê.
Devemos ter presente, entre outras coisas, que a facilidade de ser presa de uma ou de
outra ilusão não depende sempre do grau evolutivo e não determina uma diferença de
qualidade entre um indivíduo e outro, mas depende também do tipo das experiências
realizadas em vidas precedentes e do tipo de Raio que nos influencia e dá a "cor"
predominante às nossas tendências e aos nossos comportamentos.
Poderíamos fazer esta sumária subdivisão:
28
a) Maya predomina nas pessoas que estão sob o influxo do V e do VII Raio.
b) O Ofuscamento emocional predomina nas pessoas que estão sob o influxo do II e do
VI Raio.
c) A Ilusão mental predomina nas pessoas que estão sob o influxo do III e do I Raio.
Naturalmente, esta subdivisão tem apenas um valor indicativo e não absoluto, mas
pode nos ajudar na procura das nossas ilusões e dos nossos ofuscamentos.
Devemos ter presente, sobretudo, que somente a Alma nos auxiliará na descoberta de
nós mesmos e no soerguimento dos véus que escondem a realidade. Portanto, é a ela que
devemos pedir luz e visão para superarmos, aos poucos, a obscuridade, a névoa e o erro
que nos envolvem por toda parte, mantendo-nos agarrados ao mundo da ilusão.
Devemos intensificar a aspiração e a vontade de realizar o nosso Si Divino, de nos abrir
ao seu influxo e de ampliar a nossa consciência.
Enquanto vivermos identificados com o eu pessoal, estaremos imersos na ilusão e
continuaremos a caminhar cegamente. Se nos desidentificarmos desse eu, abrir-nos-emos à
intuição e a nossa mente tornar-se-á um dúplice instrumento: um receptor de Luz do alto, e
uma força de comando e de controle para baixo.
Naturalmente, para podermos alcançar tal estágio deveremos trabalhar, aprender
muitas coisas, ter a devida perspicácia, habituar-nos a comportamentos adequados, quer
para conosco mesmos quer para com os outros, e devemos nos preparar para práticas de
concentração, de meditação e de auto-afirmação aptas a produzir o despertar da
consciência superior.
Até o momento tratamos dos obstáculos que se interpõem entre nós e a realização do
Si Espiritual; nas próximas lições, falaremos dos métodos, comportamentos e meios que
favorecem tal realização e que nos ensinam a viver como Almas e não como
personalidades.

IV - QUESTIONÁRIO

1. O que é "ilusão"?
2. Quais são, em geral, as causas da "ilusão"?
3. O que significa maya? O que a provoca?
4. O que significa ofuscamento? Quais são as suas causas?
5. O que significa "ilusão mental"? O que a provoca?
6. Dê exemplos de ilusão mental no plano físico-etérico, no plano emotivo e no plano
mental.
7. A que tipos de ilusão você está mais sujeito?
8. à ilusão Maya?
9. ao ofuscamento?
10. à ilusão mental?
11. Procure determinar o porquê de você estar mais sujeito a um tipo de ilusão que a
outro.
12. Como acha possível poder dissipar a ilusão a que está sujeito?
13. Acha que está completamente isento de ilusões?
29
14. Está certo de que os seus méritos, as suas qualidades não escondem, na realidade,
ilusões?

V - A IMAGINAÇÃO COMO TÉCNICA ESPIRITUAL

Inicia-se com esta lição, a segunda parte deste livro, na qual procuraremos descrever e
analisar os vários métodos, percepções e técnicas para favorecer a união com a Alma.
Nos capítulos precedentes tratamos das dificuldades que impedem a realização
interior; agora trataremos dos recursos e apoios que encontramos dentro e fora de nós,
que ajudam a atingir mais facilmente a nossa meta.
É necessária, porém, uma breve premissa antes de adentrarmo-nos na descrição
desses métodos e técnicas.
Se quisermos realmente obter resultados sensíveis e dignos de nota, deveremos, antes
de tudo, mudar o nosso comportamento interior diante dos acontecimentos da vida.
Devemos nos convencer de que tudo aquilo que nos acontece não ocorre por acaso, mas
por efeito de leis justas e imutáveis, e que tudo tem um objetivo bem preciso e claro: servir
de estímulo para o despertar da consciência em nós adormecida.
A espiritualidade, para quem aspira realmente ao despertar do Si, não deve existir
como teoria ou como um sonho poético ou, ainda, como um momento de evasão. A
espiritualidade deve tornar-se parte integrante da vida de todos os dias, deve constituir o
fundo, o substrato de todas as ações, de todos os pensamentos e sentimentos.
A segunda coisa que devemos ter presente é que a Alma é a nossa verdadeira
identidade e que devemos nos transformar naquilo que já somos em potencial.
Na realidade, as palavras que geralmente usamos não são exatas, porque dizemos que
aspiramos à "união" com a Alma, e deveríamos dizer que aspiramos à consciência de ser
Almas.
Usando a palavra "união" pressupomos uma divisão, uma cisão, uma dualidade.
Entretanto, entre a Alma e a personalidade não existe divisão, dualidade; existe somente
"inconsciência", insciência, ignorância, obscuridade.
Van der Leeuw descreve isso muito bem no seu livro Dei in esilio.
Ele diz: "... a consciência de sermos dois, um Eu superior no Intimo e um eu inferior no
exterior, baseia-se na ignorância. Nós não somos dois, mas um. Somos o Eu Divino e nada
mais" (p. 22).
A centelha divina, que constitui o verdadeiro Homem interior, espiritual, mergulhando
na matéria dos vários planos, esqueceu a sua origem e identificou-se com os vários
invólucros e deve, portanto, penosa e lentamente, aflorar, evoluir, readquirindo a
consciência de si através das várias experiências nas sucessivas encarnações. Entretanto, o
homem vive assim, ignaro da sua verdadeira natureza, esquecido da sua origem divina por
longas épocas.
"Assim poderia viver alguém que nos dias da juventude fosse banido da terra natal e
por muitos anos tivesse estado entre estrangeiros; ele, nas misérias do exílio, passando por
privações, com muito custo recordar-se-ia de que conhecera lugares diferentes ... (Van der

30
Leeuw Dei in Esilio, p. 10).
Entretanto, chega o dia em que o homem começa a recordar, a despertar do seu sono
de inconsciência, tendo afloramentos e vislumbres, da sua verdadeira identidade, no
começo raros e alternados, tornando-se, aos poucos, cada vez mais frequentes. Tem início,
então, o período mais significativo do caminho de volta, aquele em que o homem
consciente e voluntariamente colabora com a sua evolução, trabalha para o seu despertar,
abre-se às energias espirituais e com toda a sua aspiração e as suas forças procura realizar a
sua verdadeira identidade espiritual.
Portanto, nós, que nos encontramos nesse período e desejamos com fervor nos tornar
conscientes do nosso verdadeiro Si, devemos em primeiro lugar criar em nós mesmos essa
certeza de sermos, na realidade, Almas, entidades espirituais, centelhas divinas que lutam
com firmeza para vir à luz; e, além disso, devemos compreender o significado oculto de
cada fato, de cada experiência que temos, e utilizar tudo como meio, estímulo e subsídio
para o despertar da nossa consciência interior.
Porém, acontece uma coisa estranha. Estamos convencidos de ser, na realidade,
Almas. Estamos certos interiormente de que o nosso verdadeiro Eu é uma entidade
espiritual... Mas sabemos muito pouco ou quase nada a esse respeito. E aquele pouco que
sabemos nos parece vago, nebuloso, confuso, indefinido.
Portanto, parece-me lógico que deveríamos ter uma ideia bem clara sobre a Alma,
suas qualidades, seus caracteres, as leis que a regem e, para tal, podemos recorrer quer os
livros que tratam do assunto, quer à nossa intuição e à nossa imaginação.
A esta altura creio ser necessário abrir parênteses e deter-me um pouco no significado
da imaginação.
A imaginação foi considerada por muitos como fonte de ilusão e de erro, como por
Malebranche que a chamava "Ia folle du loçis" (a louca da casa), e, por outros, como força
benéfica de invenção e progresso.
Ambas as apreciações são verdadeiras porque, se a imaginação se refere a objetos
físicos, ela tem a capacidade de mergulhar no fantástico e no absurdo, acrescentando ou
subtraindo a esses objetos tudo aquilo que queremos e criando novas formas, mesmo que
nunca tenham existido ou que nunca tenham sido vistas antes. Entretanto, se ela se refere
a alguma coisa interior, a sentimentos, ideias, estados de consciência, ela não pode "criar"
coisas impossíveis, tendo, em certo sentido, o caminho já traçado.
O homem pode imaginar formas e objetos estranhos nunca vistos porque é como se
"pintasse" com o pensamento, mas não pode imaginar sentimentos, ideias e estados de
consciência que nunca existiram e jamais poderão ser provados. É em razão disso que ele,
nesse caso, usa material da sua consciência, usa substância psicológica, que está em
contínua mutação e transformação e que tem em si, latentes, infinitas potencialidades e
possibilidades.
A imaginação, portanto, quando se refere a coisas interiores, a estados de consciência,
é criativa, evocativa e dotada de grande força.
Mesmo que não nos apercebamos, estamos continuamente movidos e influenciados
pela imaginação. Muitos estudiosos, entre eles Saudoin e Couê, põem a força da
imaginação acima da força da vontade e dizem que o homem é o produto da sua
imaginação.
31
No fundo eles têm razão.
O que é, de fato, a imaginação? É um ato do pensamento. E nós sabemos muito bem
qual é a importância do pensamento para quem se dirige ao Caminho Espiritual.
"A energia segue o pensamento", diz Tibetano em um dos seus livros.
"O homem é aquilo que ele pensa em seu íntimo", diz a Bíblia.
E assim acontece também com a imaginação quando se refere a estados psicológicos.
Eis por que é considerada uma verdadeira técnica evocativa e formativa nas ciências
esotéricas.
Quando imaginamos um sentimento, uma qualidade superior, evocamos no fundo de
nós mesmos poderosas forças latentes e, ao mesmo tempo, atraímos do alto energias afins
com aquele sentimento, com aquela qualidade que nos estamos esforçando para imaginar,
mesmo que nunca a tenhamos provado.
Por outro lado, quando imaginamos uma qualidade, criamos uma forma-pensamento,
que tenderá continuamente a realizar-se no plano físico. Esta tendência de o pensamento
efetuar-se foi admitida e provada por muitos estudiosos.
Dizia Setchenoff: "Não existe pensamento sem expressão; o pensamento é um ato
nascente, um princípio de atividade". E Prentice Mulford assegurava: "Os pensamentos são
coisas".
Eis por que devemos continuamente nos esforçar para "imaginar" as qualidades da
Alma, pensando nelas com clareza e precisão e criando uma forma-pensamento nítida e
clara.
Em cada momento do dia, em cada circunstância da nossa vida deveríamos ter sempre
em mente o pensamento:
"Eu sou uma Alma e devo provar as qualidades da Alma e não as da personalidade". E
deveríamos nos esforçar por imaginar como realmente se comportaria a Alma, o nosso Si
Superior, em contato com as provas e com as vicissitudes da vida da nossa personalidade.
Muitos místicos cristãos, diante das provações da vida, costumam repetir esta frase:
"O que faria Jesus?"
E nós também deveríamos nos perguntar: Que faria a minha Alma nessa circunstância?
Como eu agiria, como me sentiria, se eu realmente estivesse em poder da consciência
anímica?
Sejamos sinceros conosco mesmos e reconheçamos que na realidade agimos sempre
como personalidades e não como Almas. As nossas reações são sempre personalísticas e é
por isso que não sabemos enfrentar a luta da vida, não temos força para superar certos
obstáculos, sentimo-nos infelizes, frágeis e cansados. Eis por que sofremos, somos
deprimidos, corremos para todos os lados à procura de qualquer coisa que possa resolver
os nossos problemas, de qualquer coisa que torne a nossa vida pessoal cômoda e mais
bonita, como se esta fosse a verdadeira vida, a única realidade.
Tentemos um esforço de imaginação, elevemo-nos para além da mesquinha vida
pessoal e procuremos com todas as nossas forças intuir, pensar, imaginar como reagiríamos
diante das dificuldades da vida se já fôssemos Almas cientes.
Reagiríamos do mesmo modo?
Teríamos os mesmos sentimentos, os mesmos pensamentos?
Ou, então, haveria alguma coisa diferente no nosso comportamento; alguma coisa tão
32
única e especial que nos daria a solução para todas as dificuldades e a serenidade ante
qualquer prova?
Ainda que não seja fácil sentir ou imaginar esse comportamento anímico, estaremos
certos de pelo menos uma coisa: ele será bem diverso daquele da personalidade.
Se pudéssemos somente captar, entender em que seria diferente e aquilo que há de
errado no nosso comportamento pessoal, já seria muito bom.
Nossa verdadeira dificuldade é que, mesmo tendo lido e ouvido falar muito a respeito
da Alma, ainda não temos bem claro na mente quais são as suas verdadeiras qualidades,
características e particularidades.
Sabemos que ela é algo maravilhoso, superior, bonito, luminoso, mas não sabemos dar
uma fisionomia precisa, um caráter bem definido a essa entidade espiritual que é o nosso
verdadeiro Eu, o verdadeiro Homem interior, como diz Patañjali.
E isso é natural porque somente quando tivermos a plena realização interior da Alma,
poderemos compreender e sentir qual seja a sua nota, a sua essência, a sua vida.
Para isso, entretanto, desde já, a imaginação e a discriminação podem nos ajudar. Do
uso da imaginação falamos anteriormente. Do uso da discriminação daremos agora um
breve aceno.
Nesse caso, a discriminação deve ser usada para reconhecer, separar e discernir as
qualidades da personalidade daquelas da Alma.
Se não somos capazes de reconhecer as qualidades anímicas, devemos, ao menos,
saber distinguir as notas e as qualidades pessoais.
Devemos saber ver com objetividade e clareza quais são as coisas que pertencem à
personalidade, sem nos iludir com a possibilidade de que venham a pertencer à Alma, ainda
que aparentemente sejam qualidades boas e positivas.
Eis uma relação de reações pessoais, que certamente é incompleta e insuficiente, mas
que pode servir como exemplo:
1 - Sentir-se ofendido
2 - Sentir-se humilhado
3 - Desejar ser amado
4 - Desejar ser compreendido
5 - Sentir-se satisfeito
6 - Sentir-se superior aos outros
7 - Sentir-se orgulhoso
8 - Crer que as próprias ideias são as melhores
9 - Sentir-se juiz e crítico dos outros
10 - Sentir-se diferente dos outros
11 - Amar alguém com apego e desejar a retribuição
12 - Fazer uma gentileza e sentir-se bom
13 - Fazer um ato de bondade e desejar a gratidão
14 - Ser gentil e dócil por interesse
15 - Sentir-se irritado porque os outros não o apreciam
16 - Desejar elogio
17 - Ser indeciso e incerto
18 - Sentir-se deprimido
33
19 - Sentir-se triste
20 - Sentir-se infeliz
21 - Sentir-se eufórico
22 - Sentir ser algo excepcional
23 - Estar muito contente consigo mesmo a ponto de preferir-se aos outros ("não me
trocaria por ninguém")
24 - Desejar que todos saibam que fez uma coisa boa
25 - Ter medo do futuro
26 - Ter medo de ser enganado
27 - Rebelar-se contra a dor
28 - Sentir-se injustamente tratado
29 - Irritar-se e indignar-se com as maldades alheias
30 - Pretender a ajuda dos outros
31 - Desprezar aqueles que são menos inteligentes
32 - Fazer o bem somente àqueles que lhe são simpáticos
33 - Procurar somente a companhia dos afins
34 - Trabalhar apenas visando ao interesse
35 - Crer que os outros têm mais sorte
36 - Ser otimista demais
37 - Ser pessimista demais
38 - Desejar a felicidade

É óbvio que essas são apenas algumas das reações pessoais, que só podem servir
como estímulo à reflexão, ao pensamento e para incitar cada um de nós a procurar e
reconhecer em nós mesmos as reações pessoais, para distingui-Ias das anímicas.
Podemos dizer que tudo que vem da personalidade tem qualquer coisa de egoístico,
de interessado e de limitado, enquanto tudo que vem da Alma é altruístico, puro,
desinteressado, amplo, universal.
Todos os impulsos e tendências superiores de que somos capazes, como a sede de
Verdade, o amor pelo conhecimento, o senso de fraternidade para com os homens, a
atividade altruística, o amor desinteressado e impessoal, a abnegação etc., provêm da
Alma.
Eles são "reflexos", na personalidade, das qualidades e das capacidades anímicas, e
cada um dos nossos veículos pode tornar-se espelho e receptor de tais qualidades.
Para que possamos melhor compreender quais sejam essas qualidades anímicas
refletidas na personalidade, tracemos o seguintes esquema:
Qualidades anímicas refletidas através
a) do corpo físico:
atividade, laboriosidade (com objetivos altruísticos)
ordem
harmonia
ritmo
senso de bem-estar
senso de vitalidade
34
adaptabilidade física
b) do corpo emotivo:
serenidade
calma
amor desinteressado e impessoal a todos
alegria
simpatia (por todos)
sensibilidade pelo belo
compaixão
c) do corpo mental:
d)compreensão
e)sabedoria
sede de conhecimento
clareza mental
imparcialidade de julgamento
raciocínio livre de fanatismos
lógica serena
criatividade mental
discriminação
elasticidade mental
adaptabilidade mental
Todos vocês poderão por si mesmos acrescentar a esta relação outras qualidades que
possam ser anímicas, e torná-la, assim, mais completa.
Nada nos resta senão entrar em ação com seriedade de propósitos e férvida aspiração.
Peçamos ajuda ao nosso Si Divino, que está oculto no fundo da nossa consciência,
como uma luminosa lâmpada coberta por numerosos véus, à espera somente de poder
revelar-se, e comecemos a mudar o nosso comportamento.
Com a certeza interior de sermos Almas, procuremos discernir com todas as nossas
forças, em meio à névoa da ilusão que nos ofusca a vista, a verdadeira Luz da realidade, o
verdadeiro vulto do nosso Eu Espiritual e libertemo-nos das amarras da personalidade.
Pensemos na Alma, reflitamos sobre ela, invoquemo-la a cada momento do nosso dia,
afirmando: "Eu não sou uma personalidade separada, egoística, mas sou uma centelha
espiritual, uma Alma que tenta manifestar-se e realizar o seu plano a serviço dos outros."
Se de fato fôssemos capazes de fazer isso, de ter constantemente esse
comportamento interior, acho que muitos obstáculos seriam superados com maior
facilidade, muitas coisas seriam resolvidas e a Luz afluiria com maior rapidez à nossa
consciência.

V - QUESTIONÁRIO

1 - Quando pensa na Alma, você se dirige a ela como a uma entidade que está fora de
você, ou a sente como a sua mais íntima essência, o seu verdadeiro Eu?

35
2 - Consegue facilmente sentir quais são as qualidades e as características da sua Alma,
ou não?
3 - Se não consegue sentir as qualidades anímicas, experimente imaginá-las. Você é
capaz disso?
4 - Tente imaginar você mesmo de posse da consciência anímica e ver-se nas várias
circunstâncias da sua vida:
a) as suas reações seriam as mesma de agora?
b) no que elas seriam diferentes?
5 - Quais são, segundo você, as qualidades anímicas?
a) as suas características principais?
b) as suas particularidades?
6 – É capaz de distinguir as suas reações, as suas qualidades impessoais e anímicas?

36
VI - O DESAPEGO

Depois de refletir sobre as qualidades da Alma, procurando imaginar a nossa


personalidade permeada por elas, e depois de termos procurado discriminar as notas
pessoais das anímicas, devemos passar, conforme nos for possível, à atuação prática, à
verdadeira e concreta realização da consciência do nosso verdadeiro Si.
Infelizmente, não podemos chegar com rapidez a essa realização, mas há
comportamentos interiores, métodos, que favorecem e preparam o despertar da
consciência superior.
Um desses comportamentos, talvez, o principal, é o desapego.
O que significa realmente "desapego"?
O desapego é uma posição interior de indiferença por tudo o que faz parte do "não-
Si". É separar o real do ilusório, efêmero e relativo.
No livro de A. A. Bailey, A ilusão como problema mundial, a indiferença, ou desapego,
assim se define:
"Na realidade, "indiferença" significa conseguir uma posição neutra para com tudo o
que é considerado "não-Si"; implica repudiar qualquer semelhança entre o Si e o não-si;
marca o reconhecimento de uma diferença fundamental; indica a recusa em identificar-se
com algo que não seja a realidade espiritual, assim que ela for percebida e conhecida em
certo ponto no tempo e no espaço. Trata-se, por isso, de algo muito mais importante e vital
do que o significado que geralmente se dá a esta palavra. É um repúdio ativo, sem qualquer
concentração sobre o que é repudiado."
Portanto, indiferença ou desapego é o comportamento do Espectador, daquele centro
de consciência que se encontra entre a personalidade e a Alma, através do qual podemos
observar a personalidade a viver, a agir, a sentir e a pensar nos três mundos da
manifestação e, ainda, assim, calmos, serenos, separados de tudo o que acontece no plano
pessoal.
É claro que se conseguíssemos esse comportamento interior, o despertar gradual da
verdadeira consciência Anímica seria facilitado e favorecido, pois, como dissemos outras
vezes, o que fundamentalmente impede tal despertar é sem dúvida a nossa identificação
com o não-Si, com as formas e os objetos ilusórios, com os veículos da nossa
personalidade...
Entretanto, não-é fácil conseguir esse comportamento interior, pois ele é o resultado
final de graduais e sucessivos reconhecimentos; o homem não pode atingi-lo
repentinamente, mas, aos poucos, libertando-se dos apegos, das várias ilusões que o
mantêm ligado ao mundo da irrealidade.
Antes de conseguir o verdadeiro "desapego", o homem passa por vários e graduais
desapegos, ou melhor, libertações, transferindo o seu desejo e o seu apego de um objeto
inferior para um superior e vai, aos poucos, reconhecendo a caducidade de um e apegando-

37
se a outro que acha verdadeiro e duradouro.
Poderíamos dizer que, no seu todo, o caminho evolutivo do homem está semeado por
superamentos e desapegos.
Toda a ampliação de consciência pressupõe uma "libertação" de certos apegos;
portanto, podemos definir o desapego como sendo a própria técnica da evolução da
consciência a partir da prisão da forma.
Passemos agora a analisar mais particularmente esse comportamento interior
chamado "desapego".
É necessário estarmos bem atentos para não incorrermos em erros e interpretações
equívocas sobre esta palavra.
É importante observar a reação interior, suscitada em nós pelo termo "desapego", uma
vez que tal reação poderia ser o indício revelador de que temos uma ideia totalmente
errada dessa qualidade espiritual.
Pode ser que ela suscite em nós a ideia de frieza, de distanciamento, de isolamento ou
de evasão ao sofrimento...
Desapego não é frieza. Não é distanciamento ou isolamento nem, muito menos,
evasão ao sofrimento.
Desapego não é falta de amor e de compreensão. Pode-se amar com profundidade,
compreender, sentir todo o sofrimento, mesmo permanecendo, interiormente, separados.
Talvez seja essa a coisa mais difícil de se compreender e de se realizar, justamente porque
não sabemos amar com desapego, amar como Almas, isto é, dar sem nada pedir, querer
bem sem desejar retribuição, de maneira inclusiva, ampla, generosa, superando a
emotividade pessoal que é sempre egoísta, ciumenta, exclusivista.
Amar com desapego significa deixar os outros livres, amá-los como Almas e do ponto
de vista da Alma.
Para atingir isso, devemos entender a diferença profunda que existe entre o amor
pessoal e o Amor anímico.
Isso no que diz respeito ao amor, mas o desapego pode aplicar-se a todas as reações
da personalidade: à mente, ao corpo emotivo e ao corpo físico-etérico.
Em Luz sobre o Caminho está dito:
"1 - Destrua a ambição
2 - Destrua o desejo de viver
3 - Destrua o desejo de bem-estar
Trabalhe como trabalham os ambiciosos. Respeite a vida como aqueles que a desejam.
Seja feliz como quem vive para a felicidade".
Nestas admiráveis palavras que, aparentemente, são contraditórias e paradoxais, está
oculto o segredo do desapego.
É necessário superar a ambição, o orgulho, o desejo de ser louvado, de ter glória e
fama, e, entretanto, isso não quer dizer que não se deva mais trabalhar, que não se deva
mais procurar elevar-se e melhorar.
Devemos trabalhar, lutar como aqueles que são ambiciosos, isto é, com todas as
nossas energias e com toda a nossa inteligência, permanecendo, no íntimo, desapegados ao
resultado das nossas ações e esforços.
"Por isso sempre faça aquilo que deve ser feito, sem apego, pois o homem que realiza
38
uma ação desinteressadamente consegue o Supremo." (Bhagavad Gīta, Canto III, p. 48.)

O artista que cria com um impulso espontâneo de verdadeira intuição artística, o faz
por uma necessidade inata, por um impulso interno e, não, visando qualquer ganho ou
interesse,
E, assim, nas nossas ações deveríamos seguir o impulso verdadeiro e espontâneo que
nos vem do alto e não obedecer aos motivos de ordem contingente, egoística, restrita.
Devemos amar a vida, respeitá-la, gozar as suas belezas e alegrias, permanecendo,
porém, sempre desapegados internamente, sabendo que tudo é transitório, ilusório; esta
vida é o reflexo de outra mais verdadeira e real.
Não devemos deixar de nos dedicar às criaturas, às formas, mas devemo-nos dedicar
tendo a consciência de que são invólucros da Vida Una, da Vida Divina e não por apego e
pavor da morte.
Quanto à felicidade, mesmo sabendo que as alegrias da terra são efêmeras e
transitórias, devemos saber gozá-las como dons temporâneos, sem sermos tétricos, tristes
e exageradamente sérios.
Devemos saber gozar um belo dia de sol, um jardim florido, um afeto sincero, a graça.
de uma criança, uma obra de arte, mas, com desapego, sabendo, em nosso coração, que a
verdadeira alegria é outra, que a verdadeira felicidade é qualquer coisa diferente e
inexprimível e que um dia nos será possível conhecê-la e prová-la.
Devemos ser alegres e serenos, permanecendo, entretanto, livres e desapegados
interiormente.

***

Conquistar o requisito do desapego conduz o homem a despertar em si a consciência


do Espectador e, na realidade, é justamente esta consciência que nos abre a estrada para
uma ulterior realização: a consciência da Alma.
Enquanto estivermos presos pelo turbilhão dos desejos, estaremos atados a uma
infinidade de apegos, estaremos preocupados, agitados, irrequietos, infelizes, sem perceber
o chamado da nossa Alma e sem podermos ser sensíveis ao seu contínuo e constante apelo.
É como se estivéssemos imersos num tumulto de infinitas vozes, num marasmo
nebuloso, e é absurdo pensar ou esperar que possamos realizar, a consciência do
verdadeiro Si, ainda que minimamente, permanecendo nesse estado.
Só quando nos sentirmos interiormente "livres", serenos e quando não formos mais
presa de apegos e desejos, poderemos "ver" e "sentir" a verdadeira essência espiritual que
está em nós.
Certamente, não é fácil atingir esse comportamento interior, mas há maneiras e
métodos que ajudam e favorecem o seu alcance.
Primeiramente, cada um de nós deveria, através de uma análise profunda, tentar
descobrir em qual dos seus três veículos existe maior apego. Pode ser que o descubramos
em todos os três... Isto não nos deve desencorajar. O importante é reconhecer a verdade
sincera e objetivamente. Não podemos atingir o desapego se antes não conhecermos os
pontos fracos que ainda existem em nós.
39
Alguns talvez sejam muito apegados aos bens físicos, às comodidades, ao luxo, ao
conforto. Dão muita importância a todo o bem-estar material, prazer físico, riqueza etc.
Outros, talvez, não deem excessiva relevância ao conforto material, mas são muito
apegados no campo emotivo e afetivo. Os seus afetos são profundos e exclusivos, os seus
sentimentos fortes e excessivos, a ponto de provocar ciúme, agitação e perturbação
contínua. Eles acham que as coisas principais da vida são a riqueza dos afetos, os apegos e
não saberiam jamais renunciar ao amor pelas pessoas queridas.
Outros, por assim dizer, ainda têm a sede dos seus apegos no corpo mental inferior;
tal apego manifesta-se como ambição, orgulho, desejo de fama, senso de superioridade,
exagerada estima da razão e da inteligência, com o consequente desprezo do sentimento,
apego às próprias ideias, intolerância, etc.
Em lato senso, podemos dizer que os que pertencem aos Raios pares (II, IV, VI) têm
mais facilmente apegos emotivos, e aqueles que pertencem aos Raios ímpares (I, III, V, VII)
têm, com predominância, apegos mentais.
Os apegos materiais encontram-se tanto nos Raios pares como nos ímpares, mas
especialmente nos temperamentos de IV e VII Raios.
Como fazemos para descobrir à qual forma de apego estamos mais sujeitos?
Deveremos procurar continuamente objetivar-nos, olhando-nos no espelho, por assim
dizer, e criando uma espécie de dualidade entre o eu que observa, que olha e a parte de
nós que age, sofre, deseja e pensa.
Deveríamos desidentificar a consciência do nosso "eu" dos seus conteúdos psíquicos e
reencontrar em nós mesmos o centro fixo e sólido, que não muda jamais e que nós dá o
sentido da nossa identidade, da nossa personalidade.
Esse "eu" não é o Eu Espiritual, mas é o seu reflexo na consciência pessoal e nem
sempre sabemos reconhecê-lo, no entanto, é essencial que o reencontremos para que
depois possamos proceder a ulteriores alargamentos.
Uma prática muito útil para formar em nós essa consciência do "eu" pessoal
desapegado dos conteúdos psíquicos e não-identificado com os três veículos é o exame
noturno do qual tantas vezes já se falou.
Tal exame, feito regularmente todas as noites ou em qualquer outro momento do dia,
depois de uma oportuna preparação interior, durante a qual procuraremos nos relaxar,
acalmar e nos levar acima da nossa personalidade é uma prática indispensável para o
aspirante espiritual. Somente com o exame noturno, aos poucos, formar-se-á aquele ponto
intermediário entre a personalidade e a Alma, que não é mais a consciência da
personalidade e não é ainda a consciência da Alma, mas é o ponto onde se forma a
consciência do observador silencioso, do Espectador desapegado e que lhe dá a
possibilidade de observar desapaixonadamente a sua personalidade, de não se identificar
com os seus veículos e de se sentir completamente "senhor" das energias inferiores, que
lhe são próprias.
Muitos sinceros aspirantes espirituais, às vezes, negam a ideia do desapego porque
inconscientemente pensam que isso seja uma espécie de frieza emotiva ou de indiferença
desejada e quase egoísta. O verdadeiro significado do desapego deve ser compreendido em
toda a sua profundidade, antes que qualquer opinião seja emitida.
Entretanto, é necessário dizer que não é fácil compreender a sua verdadeira essência e
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a sua verdadeira natureza, quando não se provou o desapego, ao menos por algum tempo.
Às vezes, as pessoas muito racionais e pouco amorosas têm a ilusão de já ter atingido
o desapego, pois não se comovem diante da dor, não se deixam influenciar pelos
sentimentos, são indiferentes aos estados emotivos e ficam calmas em certas situações que
para outras são motivos de agitação e de preocupação.
Tal calma, tal indiferença não é desapego, mas apenas falta de amor e de
sensibilidade, pois, com frequência, o desenvolvimento da mente concreta paralisa e sufoca
o desenvolvimento do corpo emotivo e do coração.
É preciso estarmos muito atentos no julgamento e sermos sinceros e objetivos antes
de afirmar qualquer coisa.
Por outro lado, as pessoas muito sensíveis, com o corpo emotivo desenvolvido e com
tendências amorosas, evitam o desapego porque têm a inconsciente sensação de que é
bom ter a faculdade de comover-se com facilidade ter muitos apegos, ter "um coração
sensível, terno" etc.
Talvez não haja uma palavra adequada que possa descrever as qualidades do
desapego, mas ele significa profunda serenidade e calma interior, trespassada de amor,
compreensão, alegria, energia, força, e não significa indiferença, frieza, apatia, inércia...
O desapego é o comportamento de todo aquele "que sabe", de todo aquele que
superou as limitações e os apegos ilusórios e que está livre dos liames da forma.
"Ausência de paixão (ou desapego) é a consciência de ser "senhor" por parte daqueles
que se libertaram do desejo por qualquer objeto visto ou imaginado" (Sutra Yoga de
Patañjali, Livro I, p. 44, Ed. Carabba).
Mesmo que não possamos chegar a esse completo estado de desapego poderemos
atingir, progressivamente e, depois, aos poucos, de uma forma cada vez mais duradoura,
um estado de calma e de serenidade interior, que nos permitirão seguir o Caminho com os
olhos mais límpidos e o coração mais firme.
As energias da Alma não podem chegar até a nossa consciência se não estivermos
calmos e serenos e a sua voz não poderá ser ouvida se estivermos imersos no tumulto de
uma constante agitação.
Cultivemos, portanto, a cada momento do nosso dia, em cada atividade ou momento
de provação, um senso de liberdade interior, um comportamento calmo e sereno.
Preservemos a consciência do Espectador, invocando sempre a nossa Alma para que nos
faça atingir o "desapego" e nos faça conhecer a paz daqueles que, mesmo estando no
mundo, "vivem no eterno".
Esse é o caminho "sutil como a lâmina de uma navalha", de que fala Buda, indicador
do perfeito equilíbrio alcançado pelo homem que "vive no mundo e não é do mundo",
porque sabe que a vida nos três planos da manifestação não é a verdadeira vida, não é a
realidade, mas é o reflexo de uma vida completa, da vida eterna e imutável, onde reina a
verdadeira beleza, a verdadeira felicidade e o verdadeiro amor.

VI - QUESTIONÁRIO

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1 - O que significa desapego?
2 - Por que o desapego é tão importante para a vida espiritual?
3 - Que reação o pensamento do desapego provoca em você?
4 - Acredita que o desapego seja:
a) uma maneira para se evadir da dor?
b) indiferença às penas alheias?
c) recusa ao sofrimento?
d) frieza de sentimentos?
e)uma forma de absenteísmo egoístico?
5 - O que significa "amar com desapego"?
6 - O que significam as palavras da Luz Sobre o Caminho:
a) destrua a ambição;
b) destrua o desejo de viver;
c) destrua o desejo de bem-estar.
Trabalhe como trabalham os ambiciosos. Respeite a vida como aqueles que a desejam.
Seja feliz como quem vive para a felicidade.
7 - Consegue facilmente o comportamento do Espectador com relação a você mesmo?
8 - Quais apegos impedem o seu progresso espiritual?
9 - Em qual dos três veículos está mais desapegado?
10 - Na sua vida houve alguma crise de desapego?
11 - Por que o desapego é a chave da "paz que ultrapassa o entendimento"?

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VII - O SILÊNCIO

"...e no silêncio profundo ocorrerá o evento misterioso que prova que o caminho foi
encontrado."
Estas sugestivas palavras, que se encontram no livro Luz sobre o Caminho, fazem-nos
refletir sobre a importância e o significado do silêncio do ponto de vista espiritual.
Nós que vivemos no mundo ocidental, tomados pelas atividades da vida cotidiana,
imersos no movimento e na extroversão, raramente podemos e sabemos retirar força e luz
das profundas nascentes do silêncio.
Existem, aliás, muitas pessoas que parecem fugir deliberadamente do silêncio, pois,
mesmo quando têm momentos de solidão e de pausa, se apressam em preenchê-los com
sons, movimentos, ligando o rádio ou a televisão, procurando a companhia de amigos,
dedicando-se a alguma atividade extemporânea. Dir-se-ia que elas têm medo do silêncio. E
realmente é assim.
O silêncio pode parecer um vazio terrível, um abismo assustador que se abre sobre o
nada e sobre a escuridão para aqueles que vivem completamente imersos na personalidade
no mundo objetivo, e que jamais provaram, nem mesmo vagamente, a vibração que
provém dos níveis espirituais.
Só os que começaram a sentir, mesmo que inconscientemente, a influência da própria
Alma, do próprio Eu Espiritual, podem compreender e sentir o profundo significado do
"silêncio".
Do ponto de vista espiritual, o silêncio não é apenas um emudecimento da palavra,
uma ausência de sons. É algo muito mais profundo, que tem em si, ainda, o completo
apaziguamento das emoções, dos desejos, dos sentimentos e a absoluta calma da mente e
dos pensamentos.
Não basta criar em torno de si o silêncio material; é necessário levar, por inteiro, a
personalidade na mágica atmosfera do silêncio interior, que absorve e abrange todos os
três veículos, e só então a "voz sem som", a voz do silêncio, que é a voz da nossa Alma;
poderá ser sentida, no início de forma vaga e, depois, sempre mais clara e nitidamente.
Naturalmente não podemos atingir tal meta nem com rapidez, nem com facilidade, e
devemos passar por várias fases de silêncio antes de chegar ao verdadeiro silêncio aquele
que nos abre a porta do mundo da realidade. O primeiro passo é dado no plano físico, com
o domínio da palavra.
Todos aqueles que procuraram a verdade e a luz e quiseram, com seriedade de
propósitos, preparar-se para uma verdadeira vida espiritual, compreenderam o valor do
controle da palavra.
Os discípulos de Pitágoras deviam observar o silêncio absoluto por dois anos para
poderem demonstrar o seu autodomínio.
Na índia e no Tibete sempre se deu enorme relevância à observação do silêncio, e

43
muitos exercícios e práticas são feitos para que se crie o hábito de "entrar no silêncio".
Também em muitas ordens monásticas cristãs existe a regra quase absoluta do
silêncio.
Tudo isso não foi feito por acaso. Há um profundo significado oculto no domínio da
palavra, significado que não é apenas de valor moral mas, também, e principalmente,
"mágico".
Sobre isso é bom que nos detenhamos um pouco.
Compreendemos facilmente o aspecto moral do controle da palavra, mas o aspecto
mágico parece-nos obscuro e misterioso.
Para compreender tal aspecto "mágico", devemos refletir sobre a essência do som. O
som é vibração, é energia; toda vez que falamos emanamos energia, vibração diversa,
dependendo da natureza e da qualidade das nossas palavras. Sem nos apercebermos,
dispersamos continuamente energias durante o passar do dia, com o uso indiscriminado da
palavra e do som.
O silêncio é conservação de energias. O verdadeiro ocultista conhece essa verdade e
sabe usá-la sabiamente no seu trabalho esotérico. Por exemplo, quando ele traça um plano
ou um projeto de trabalho, construindo na sua mente uma nítida e detalhada forma-
pensamento, sabe que não deve falar desse plano a ninguém, senão a energia criativa, que
deve alimentar e manter a forma-pensamento, desfaz-se e dispersa-se. Se isso ocorresse, o
projeto idealizado não poderia ter o necessário tempo de nutrição, de crescimento e de
amadurecimento nos planos sutis, antes de "precipitar" sobre o plano físico, mas tenderia a
se manifestar antes do tempo e não poderia ser realizado porque estaria ainda imaturo e
sem forças.
Talvez tudo isso seja para nós um pouco obscuro, mas podemos ter provado algo
semelhante em níveis mais baixos, ao vermos naufragar algumas de nossas esperanças e
falir algum plano justamente porque falamos a respeito deles com muitas pessoas,
dispersando, assim, as nossas energias em vez de concentrá-las na mente e de observar
total discrição sobre o nosso projeto.
Além disso, há também um outro lado desse aspecto "mágico" do silêncio, que se
manifesta na ajuda aos outros.
Podemos ajudar os nossos semelhantes com as palavras, mas muito mais com o
silêncio.
Frequentemente, as palavras são inadequadas ou mesmo desagradáveis, enquanto a
vibração pura da nossa compaixão, do nosso amor, pode atingir o objetivo sem obstáculos
e sem causar reações.
Há casos, situações na vida que não podem absolutamente ser resolvidas com as
palavras e apenas o silêncio pode dar-lhes uma solução.
Mas de que tipo de silêncio se trata?
É um silêncio que se poderia dizer ativo, construtivo, radiante, que age quando a
personalidade inteira se cala. Quando os lábios emudecem, as emoções se aquietam, até os
pensamentos param, aí, então, alguma outra coisa fala em nós.
Já lhe aconteceu alguma vez, quando você quis ajudar alguém, sentir-se impotente
diante de sua obstinação e incompreensão, a ponto de provar uma sensação de derrota, de
falência, mesmo que tenha permanecido em você o desejo "puro" de ajudar?
44
"Você entregou os pontos", renunciou a ajudá-la como personalidade; entretanto,
ficou em você o impulso desinteressado de amor e de compaixão por essa pessoa.
Aconteceu então uma coisa estranha: justamente quando havia desistido de ajudá-la,
ela mudou, escolheu o caminho certo, procurou a luz por iniciativa própria.
Talvez, no silêncio da personalidade, a sua Alma pôde falar à Alma dela e o amor puro
e silencioso criou uma ponte através da qual vocês se encontraram nos planos espirituais.
Diz Maurice Maeterlinck: "Quando os lábios começam a repousar, as Almas se
despertam e se põem em ação" (O tesouro dos humildes, p. 10).
Cale como personalidade e opere como Alma: só assim você poderá obter resultados.
Certamente não é fácil para a personalidade calar-se, porque se trata de obter um
silêncio tríplice; entretanto, obter, ao menos, o silêncio do plano físico já é alguma coisa;
como dissemos antes, alcançar o domínio da palavra é um passo necessário e indispensável
para, em seguida, conseguir e compreender o verdadeiro silêncio espiritual.
No Tratado de Magia Branca, de Alice Bailey, lê-se a este propósito:
"Só quando o número das palavras normalmente ditas for reduzido e for aprendida a
prática do silêncio, será possível à "palavra" exercitar o seu poder sobre o plano físico. Só
quando as muitas vozes da natureza inferior e do próprio ambiente emudecerem, poderá a
"voz que fala no silêncio" estar presente. Só quando o som de muitas águas desaparecer no
aquietamento das emoções, será ouvida a clara voz de Deus das águas" (Magia Branca, p,
165).

***

Tudo isso poderia fazer-nos pensar: "Mas, então, a palavra é unicamente nociva? O
dom concedido por Deus aos homens de poderem exprimir-se com a palavra foi inútil e
prejudicial?
Não. A palavra tem grande importância e utilidade, mas, como diz a primeira frase do
trecho Tratado de Magia Branca, acima citado, poderemos "exercitar o poder da palavra"
sobre o plano físico e compreender-lhe o valor somente quando tivermos aprendido o
verdadeiro significado do silêncio e tivermos provado, mesmo que por instantes, a sua
verdadeira essência.
O som tem um grande poder e o homem o usa indiscriminadamente; aliás quase
sempre de maneira nociva porque ignora essa verdade.
Como falamos antes, a cada som corresponde uma vibração, e a vibração é a energia
que produz efeitos definidos e determinados. E, ainda, a cada palavra dita corresponde um
sentimento, um pensamento, que são também energia, força dinâmica que se propaga e
tende a criar resultados concretos no plano objetivo. Sem contar também com o aspecto
moral do uso da palavra, que tanto foi salientado por todas as religiões e por todos os
pensadores.
O Evangelho diz: "...De cada palavra ociosa que disserdes prestareis contas no dia do
juízo final, porque pelas tuas palavras sereis julgado e pelas tuas palavras sereis
condenado" (Mateus, XII, 36, 37).
Podemos fazer muito mal com as nossas palavras, quer sejam decisivamente más,
quer sejam simplesmente ociosas, inúteis e vazias.
45
Em Magia Branca diz-se: "as palavras podem ser de três tipos: 1) palavras ociosas, 2)
palavras amorosas e boas, 3) palavras nem boas nem amorosas. Por estas ultimas, pagar-
se-á o preço a curto prazo. São as palavras egoístas, de ódio, as palavras cruéis, de
maledicência venenosa... Todas essas palavras destroem os vacilantes impulsos da Alma:
cortam as raízes da vida e, portanto, produzem morte... (Tratado de Magia Branca, p. 541).
Como se pode ver, enquanto não tivermos conquistado o autodomínio e o
discernimento, é melhor "reduzir o número das palavras" destinadas ao uso e aprender a
calar o máximo possível.
"É bom falar pouco; melhor ainda é emudecer totalmente a menos que você esteja
bem seguro de que o que vai dizer é verdadeiro, amável e útil. Antes de abrir a boca,
considere atentamente se aquilo que vai dizer tem esses três requisitos e, se não os tem,
cale-se" (Aos pés do Mestre, p. 26). .
Devemos lembrar sempre que o lema do verdadeiro ocultista é:
"Conhecer, querer, ousar e calar", e talvez este último seja o mais difícil de se alcançar.
Quando tivermos aprendido o controle da palavra e compreendido o valor do silêncio
no plano físico, então, aos poucos, se nos revelará o significado do silêncio interior, aquele
que nos conduzirá à revelação gradual do mundo espiritual e que será a preparação para o
despertar da consciência superior.
Para o nosso intento, que é o de ajudar e favorecer o despertar da consciência da
Alma, é muito importante que nos habituemos aos poucos a cultivar esse silêncio interior e
não somente aquele do plano físico - alternando, quanto mais possível, as "pausas", os
interlúdios de silêncio, à nossa vida de trabalho e de extroversão.
Pelo menos duas vezes ao dia, deveríamos encontrar alguns minutos de solidão e de
recolhimento para nos dedicar à prática do silêncio.
Entretanto, é necessário dizer que as múltiplas vozes da nossa natureza inferior
emudecerão somente quanto houver a "rendição" completa da personalidade, após o
conflito final entre a Alma e o seu instrumento. Conflito árduo, tempestuoso, em que as
forças de involução se unirão contra as forças da Luz, a fim de combaterem até a derrota
completa, seguida pela rendição.
Esse conflito poderá também suceder-se em níveis inconscientes da psique, mas,
superficialmente, manifestar-se-á como um estado de sofrimento, de depressão, de mal-
estar profundo, de infelicidade, de cansaço e de desgosto pela Vida e, às vezes, como
verdadeiras doenças físicas, mais ou menos graves.
Terminado o conflito, como dissemos antes, com a rendição da personalidade, segue
uma calma profunda, um silêncio completo que preludia um maravilhoso e misterioso
evento, o despertar da Alma, o abrir-se do ouvido interior à sua voz que finalmente poderá
ser ouvida pelo aspirante.
"Espere que a flor desabroche no silêncio que segue à tempestade, não antes", está
escrito em Luz sobre o Caminho, e ainda: "...Até que, por inteiro, a natureza não se tenha
entregue e não se tenha sujeitado ao seu mais alto Si, a flor não se poderá abrir.
Portanto, sobrevirá uma calma semelhante à que nos países tropicais segue à chuva
torrencial, quando a natureza trabalha tão rapidamente que se pode ver a ação. Tal calma
virá ao Espírito atormentado. E no silêncio profundo acontecerá o evento misterioso que
prova que o caminho foi encontrado. Chame-o pelo nome que quiser, é uma voz que fala
46
onde não há voz alguma: é um mensageiro que chega, um mensageiro sem forma nem
substância ou, então, é a flor da Alma que se abriu."
Entretanto, podemos provar momentos vivificantes desse silêncio mágico, mesmo
antes desse evento, e utilizar os seus poderes e a sua força para tornar a nossa vida mais
útil, harmônica, tanto do ponto de vista pessoal como do espiritual.
Aprendamos a compreender a força da ação silenciosa, do serviço tácito, do Wu-wei,
a ação sem ação dos hindus, que nos abre a nascente das energias que jazem
inaproveitadas em nós. Aprendamos a entrar no mistério do silêncio, se quisermos
realmente viver não como personalidade mas como Almas.

VII - QUESTIONÁRIO

1 - Qual é o verdadeiro significado do silêncio?


2 - Por que as pessoas menos evoluídas fogem do silêncio?
3 - Alguma vez experimentou o verdadeiro silêncio?
4 - Há duas formas de silêncio:
a) o silêncio interior;
b) o silêncio exterior.
Que valor tem cada um deles?
5 - Você consegue, com facilidade, criar em você o silêncio?
6 - O que é a "voz do silêncio"?
7 - Sabe alguma coisa sobre o poder mágico do silêncio?
8 - Por que para alguns o silêncio incute pavor e angústia?
9 - O que sabe sobre o silêncio como conservação de energias?
10 - O que acontece quando toda a personalidade está em silêncio?

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VIII - A MEDITAÇÃO

a) O Relaxamento Físico
Com este capítulo tem início a parte prática deste livro, onde serão descritos os
métodos, os exercícios técnicos e os treinamentos interiores aptos a preparar a
personalidade, a fim de torná-la canal das energias espirituais e criar em nós uma vibração
mais elevada e pura que poderá, com o tempo, contribuir àquele despertar da consciência
anímica, que é a nossa meta.
Como já dissemos antes, a técnica "príncipe" para ajudar o contato com a Alma é a
meditação. Mas o que é esta meditação? O que significa meditar?
A meditação é uma verdadeira ciência de treinamento interior. Ela não é prece, não é
um comportamento místico de aspiração... A prece nasce do corpo emotivo, pois ela
contém sempre um desejo, um pedido. Há, naturalmente, vários níveis de prece, por assim
dizer, dependendo do tipo de pedido que ela exprime.
Em Do intelecto à intuição, de A. A. Bailey, estão catalogados quatro estágios de prece:
1) Prece para obter benefícios materiais ou ajuda de qualquer tipo;
2) Prece para adquirir virtude e qualidade de caráter;
3) Prece altruística ou de intercessão;
4) Prece para obter iluminação ou realização divina. A meditação, ao contrário, não
parte do corpo emotivo, mas do corpo mental e não usa o desejo, mas a vontade, para
atingir o seu objetivo.
A prece, uma vez no seu mais alto grau, forma o místico. A meditação, ao contrário,
forma o ocultista.
A verdadeira meditação oculta implica uma série de exercícios técnicos, de práticas e
de treinamentos dirigidos ao campo das energias psíquicas, que requerem diversos anos de
exercícios e certo grau de desenvolvimento mental.
A meditação é ainda criativa, pois movimenta energias, produz efeitos definitivos,
transmutações; suscita e evoca forças latentes e adormecidas, destrói a negatividade,
constrói qualidades positivas. Em outras palavras, muda completamente a nossa vida.
É absurdo pensar que possamos seguir a prática da meditação e continuar os mesmos.
Eis por que meditação e formação de caráter estão estreitamento coligados.
Aqueles que não sentem os efeitos provindos da meditação, na realidade, não
meditaram, não conseguiram criar em si aquele comportamento interior que eleva a
vibração e que atrai, ainda que o mínimo, as energias superiores.
Entretanto, é necessário dizer que os efeitos podem-se manifestar com atraso e que o
trabalho e a penetração das forças espirituais são quase sempre inconscientes. Às vezes,
aparentemente, não obtemos resultados porque não nos apercebemos e nem estamos
cientes do que se está passando no profundo de nós mesmos, sob os níveis da nossa
consciência; e de repente, mais tarde, tais resultados manifestam-se, quando não mais

48
pensamos neles.
O que devemos ter claro nesse momento é que a meditação é uma verdadeira ciência
e uma técnica de melhoramento e purificação da personalidade. Ela é, portanto,
considerada muito seriamente e, ao nos dispormos a estudar as suas várias fases, devemos
sempre saber que cada uma delas tem um significado e um objetivo bem precisos que
produzem efeitos determinados sobre nossa personalidade. Poderíamos chamar essas
várias fases da meditação de "exercícios de ginástica interior", pois, de fato, os nossos
corpos sutis (como também o corpo físico) podem ser treinados e exercitados para se
tornarem mais puros, mais fortes, mais desenvolvidos, e mais vigorosos, com a observância
regular das técnicas interiores; e, enfim, podem-se tornar perfeitos canais e instrumentos
da Alma.

***

A meditação tem várias fases:


A primeira fase é o alinhamento, que se subdivide em:
a) inferior,
b) superior.

O alinhamento inferior é aquele dos três corpos da personalidade que são levados,
com estratagemas apropriados, a uma temporária coordenação e sintonização e são
mantidos sob o controle da mente com um esforço de vontade, em calma, silêncio e
relaxamento.
Este alinhamento dos três corpos cria na personalidade uma integração que, mesmo
momentânea, abre um canal para o afluxo eventual das energias Anímicas.
O alinhamento superior é aquele da personalidade alinhada com a Alma.
Obtém-se o alinhamento inferior fazendo primeiramente o relaxamento do corpo
físico, tranquilizando depois o corpo emotivo e atingindo, por último, o silêncio mental.
Descrevemos agora, detalhadamente, cada uma dessas partes.

1 - Relaxamento físico:
Antes de dizer como se faz o relaxamento físico, devemo-nos deter um pouco para
falar do seu objetivo e da sua utilidade no que diz respeito ao alinhamento e à meditação.
Dissemos antes que durante o alinhamento os três corpos da personalidade devem
permanecer num estado de calma e silêncio. Para obter essa condição no corpo físico-
etérico, devemos procurar diluir toda a tensão, relaxar cada músculo a fim de que o veículo
físico se encontre num estado de completa quietude que permita à nossa consciência
abstrair-se totalmente dele, esquecendo-o por completo.
Ainda que possa parecer estranho, nem sempre é fácil "esquecer" o nosso corpo físico,
porque ele atrai continuamente a nossa atenção com sensações, indisposições e exigências
várias.
Durante o alinhamento preparatório à meditação, devemos dirigir nossa atenção para
o interior, abstrair-nos do mundo físico, devendo, portanto, em primeiro lugar "tirar nossa
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mente do corpo material".
O relaxamento, colocando-nos num estado de quietude e de harmonia física, faz com
que a nossa mente esteja livre para se dirigir a outros níveis, introverter-se para o mundo
psíquico, sem ser perturbada por sensações físicas.
Além disso, nesse estado de quietude também as energias do corpo etérico poderão
circular mais harmônica e livremente, sem criar obstruções e congestões que resultem em
indisposições e sensações desagradáveis.
Sem que nos apercebamos, frequentemente estamos num estado de tensão, que é o
oposto do relaxamento e, assim, submetemos nossos músculos e nervos a um esforço
maior, bloqueando o livre afluxo das correntes etéricas.
Aprender a distender-se, a relaxar-se fisicamente é sempre útil, mas o é,
principalmente, no que diz respeito à meditação.
Como se pratica um bom relaxamento?
Em primeiro lugar, é necessário distender-se numa cama, num divã, ou no chão, em
posição supina. Depois é necessário abandonar-se completamente, relaxando e soltando
todos os músculos.
Isso não é tão fácil como pode parecer à primeira vista.
Para facilitar o bom êxito do relaxamento há vários estratagemas. Ramacharaka, em
seu livro Hatha- Yoga (p. 178), diz:
"Quando estiverem deitados e relaxados, mantenham na sua mente a ideia de que
estão deitados num catre brando e macio e que o seu corpo e as suas pernas estão pesadas
como chumbo. Repitam estas palavras lentamente e várias vezes: pesadas como chumbo,
pesadas como chumbo e, ao mesmo tempo, levantem os braços e retirem deles o Prana
(com a imaginação) para cessar a contração muscular e, então, deixem-nos cair para os
lados pelo próprio peso."
O mesmo Ramacharaka aconselha também o seguinte exercício:
"Deitem-se de costas. Relaxem-se o quanto for possível, soltando todos os músculos.
Então, sempre relaxados, perscrutem com a mente todo o corpo, da cabeça aos pés.
Fazendo isso, descobrirão que aqui e ali há ainda certos músculos em tensão; relaxem-
nos novamente.
Se fizerem tudo isso, progredirão com a prática e chegarão a ter os músculos do corpo
totalmente relaxados e os nervos em repouso.
Façam algumas respirações profundas, continuando sempre tranquilos e relaxados.
Poderão variar esses exercícios, virando-se com suavidade para um lado e depois
relaxando-se novamente, por completo.
Em seguida, virem-se para o outro lado e novamente relaxem-se (Hatha-Yoga, p. 177).
Alguns conseguem imediatamente e com facilidade praticar esse relaxamento, outros
encontram obstáculos e dificuldades; isso é devido ao diferente tipo de corpo físico que
eles têm.
Sabemos que as qualidades da substância que nos compõe são três: tamas (inércia),
raias (atividade) e satva (ritmo). Estas qualidades manifestam-se de maneira diferente nos
indivíduos, segundo seu Raio, grau de evolução etc.
A relação que segue foi feita tendo por base as duas primeiras qualidades (tamas e
raias), que são as que se manifestam na média das pessoas comuns, pois satva é a
50
manifestação do Espírito.
1 - Tipos tamásicos fisicamente e rajásicos mentalmente.
2 - Tipos rajásicos fisicamente e tamásicos mentalmente.
3 - Tipos rajásicos física e mentalmente.
4 - Tipos tamásicos física e mentalmente.
Naturalmente esta subdivisão é incompleta e imperfeita pois nela aparecem todos os
tipos possíveis de pessoas, mas pode servir como exemplo para facilitar a compreensão das
próprias características.
1 - Os tipos do nº 1, por terem um físico pouco ativo, preguiçoso e lento, não
encontram especiais dificuldades no relaxamento físico; em certo sentido, eles se
encontram sempre num estado de distensão muscular e precisam de muita força de
vontade para pôr os músculos em movimento e contraí-los para praticar uma ação. Porém,
seu relaxamento, com frequência, não é restaurador e vivificante, mas é principalmente um
hábito físico de torpor e preguiça. Mas, por serem dotados de mente rajásica, isto é, ativa e
vivaz, o seu relaxamento ocorre em "plena vivacidade mental"; isso lhes dá as maiores
possibilidades para obterem êxito, principalmente se tiverem um pouco de força de
vontade.
Pode, entretanto, acontecer de esses tipos fisicamente preguiçosos serem também
frágeis de vontade e por isso não conseguirem controlar a mente. Para eles, portanto, o
ponto a ser trabalhado é a vontade.
2 - Vamos ao nº 2. Estes têm um físico dinâmico, ativo, sempre em movimento, pronto
para a ação... mas têm uma mente lenta e preguiçosa. Eles não pensam, fazem. Têm
necessidade de agir e de se mover. São os tipos extrovertidos por excelência.
Vejamo-los no relaxamento físico, preparatório à concentração, deste tipo. É quase
certo que eles, ao tentarem relaxar-se, serão acometidos por milhões de sensações físicas
inoportunas: sensações de contração, de sufocamento, coceiras e, às vezes, até
entorpecimento dos músculos... São coisas que os farão mover-se, agitar-se na tentativa de
encontrar uma posição mais cômoda. Mas, a mínima coisa os incomodará: os travesseiros
parecerão duros, a poltrona incômoda; não saberão como fazer com a cabeça e as pernas
e, finalmente, irritados, levantar-se-ão e se negarão a fazer outras tentativas.
Por outro lado, não possuindo uma mente viva, ativa e acostumada a pensar, não
poderão nem sequer se ajudar com o interesse mental provocado pelo tema escolhido. Ver-
se-ão, portanto, numa posição de desvantagem. Mas, se tiverem alguma força de vontade
(aquela que dá o propósito de conseguir a todo custo) tentarão mais vezes até
conseguirem, de início, relaxar-se quando quiserem, descobrindo que esta é uma
maravilhosa forma de repouso para ser alternada com a sua vida dinâmica e, em seguida,
poderão empreender o trabalho do despertar e do desenvolvimento da mente, chegando,
assim, a consumar a meditação.
3 - Os tipos de nº 3 são muito ativos tanto no plano físico quanto no mental; são
organizadores, homens de negócio, diretores de grandes firmas etc. Eles se encontram num
estado de contínua tensão e dificilmente se relaxam, a não ser para dormir;
frequentemente, não sabem nem mesmo dormir: têm um sono agitado e não repousante.
Geralmente, estão sujeitos a esgotamentos nervosos por excesso de trabalho. Ao tentar o
relaxamento físico para a meditação, esses tipos, em geral, não conseguem se distender e
51
relaxar-se fisicamente e, caso não sejam controlados e habituados a concentrar-se, não o
conseguem nem mesmo na meditação; e, mesmo quando o conseguem, fazem-no num
estado de tensão e contração muscular do qual só se apercebem no fim do exercício. Eles
conseguem fixar a mente no tema escolhido, justamente porque têm certa força mental,
mas também empregam nesse esforço energias nervosas e musculares, pois na vida diária
estão acostumados a uma íntima correlação entre pensamento e ação. Com frequência,
quando pensam ou refletem, enrugam a testa, cerram os maxilares, tamborilam com os
dedos etc., esbanjando energias inutilmente. Portanto, é preciso, é necessário que esse tipo
de pessoa aprenda o relaxamento físico, que será para eles a resolução de mil problemas e
um recurso a ser usado nos momentos de esgotamento.
4 - Tamásicos, física e mentalmente. Esses, mesmo não tendo na aparência nenhuma
dificuldade para praticar o relaxamento físico, devido à sua natureza inerte e preguiçosa,
não chegam a um relaxamento vivificante, pois ele consiste em alguns momentos de
repouso depois de muitas horas de trabalho, com a finalidade de harmonizar as forças vitais
e dar novas forças ao corpo físico cansado; é, portanto, "um relaxamento depois de muitas
horas de contração" e é justamente nesse contraste que se sente o efeito benéfico da
recuperação. Mas aqueles que, por costume, quase sempre se encontram num estado de
inércia não podem gozar de tal benefício, não só porque não sentem o contraste, mas
também porque neles até as correntes vitais são lentas e preguiçosas e é justamente delas
que deriva a sua preguiça. Eles deveriam se exercitar em fazer o relaxamento físico não
para repousar, mas com a intenção de harmonizar e repor em circulação as forças vitais
(prana); e, muito provavelmente, se conseguirem efetuá-lo em plena vivacidade mental,
sem se deixarem cair no torpor e no sono, conseguirão relaxar-se com um novo senso de
vitalidade e de energia.
Infelizmente, se unirem à inércia física a inércia mental, o problema se duplica, porque
com muita facilidade adormecerão ou, mesmo, mergulharão num estado de sonolência
muito parecido com o sono.
A essa subdivisão esquemática e imperfeita poder-se-ia naturalmente acrescentar
muitos outros tipos, subtipos e também tipos mistos, ou seja, pessoas que alternam
estados de inércia com estados de atividade, tanto no plano físico como no mental. E, além
disso, não se pode esquecer a parte importante representada pelo corpo emotivo para se
conseguir o relaxamento físico. Por exemplo: uma pessoa muito emotiva que se encontre
num estado de contínua tensão para controlar seus impulsos emotivos encontrará muita
dificuldade no relaxamento, porque o esforço feito para se dominar provocará um estado
de acentuado nervosismo, irritabilidade e hipersensibilidade.
Esse tipo de pessoa deveria, portanto, insistir no emotivo e procurar acalmá-lo e
distendê-lo para, assim, conseguir também calma e relaxamento do corpo físico.
Ao contrário, o tipo emotivamente calmo e harmônico estará em posição de vantagem
e conseguirá relaxar-se com muita facilidade.

***

A esta altura, poderíamos perguntar: quais são, na realidade, as vantagens do


relaxamento físico?
52
Para melhor compreendê-las, examinemos por um momento o seu oposto, a
"contração", o estado em que se encontram os nossos músculos quando realizam um
trabalho. Esses músculos se contraem continuamente sob o impulso que vem do cérebro e
entram em ação. Imaginem quantos milhões de vezes durante um dia os nosso músculos se
contraem a fim de executar os inúmeros gestos que nos servem não só para trabalhar, mas,
simplesmente para viver, como o respirar, o comer, o sentar, o caminhar, o falar etc. Trata-
se de um prana que aflui continuamente aos músculos, fornecendo-lhes a energia motriz.
O segredo para não cansarmos, ou melhor, para não esgotarmos as nossas energias
prânicas, é procurar restabelecer, uma ou duas vezes ao dia, pelo menos, o fluxo de prana
para todo o nosso corpo, que por muitas horas o usou para praticar as mais variadas ações.
Essa operação de restauração e de restabelecimento da circulação prânica no corpo etérico
(reservatório desta energia) e, consequentemente, no físico pratica-se durante o
relaxamento, quando todos os músculos estão distendidos, as articulações em repouso e a
corrente de energia vital pode, com liberdade, fluir por todo o corpo, indo vivificar e
restaurar todos os pontos mais depauperados e debilitados, rearmonizando e equilibrando
o nosso mecanismo físico e etérico.
Por isso é aconselhável fazer alguns momentos de relaxamento quando se está muito
cansado, o que alivia mais do que várias horas de um sono agitado.
Examinando o caso que nos interessa particularmente, isto é, o relaxamento durante a
meditação, é fácil compreender por que é tão útil ou, antes, necessário praticá-lo.
O nosso corpo físico não é senão o invólucro que temos para praticar as experiências
no plano físico, mas, às vezes, identificamo-nos com ele, mesmo porque as suas fraquezas,
dores e indisposições requerem muito frequentemente a nossa atenção. Pelo menos no
momento da meditação deveríamos conseguir desidentificar-nos dele e esquecê-lo por
completo, de maneira a não nos dar mais enfado e a não mais impedir o revelar-se da nossa
Consciência Superior. Relaxando-nos e harmonizando nossas correntes prânicas, poremos
nosso corpo num estado de calma e tranquilidade completa, deixando as correntes vitais
circularem livremente nele, vivificando-o e purificando-o. As energias anímicas que
poderiam ser evocadas encontrarão um invólucro calmo, receptivo e nele poderão fluir
livremente, purificando-o, harmonizando-o e praticando, aos poucos, a obra de sublimação
e transmutação da nossa matéria física.

ALGUNS EXERCICIOS DE RELAXAMENTO

1 - Retirar todo o Prana da mão, deixando que os músculos se afrouxem de maneira


que a mão possa mover-se livremente em torno do pulso, com aparência de morta. Agite-a
para a frente e para trás, até o pulso, fazendo o mesmo depois com a outra mão e, logo
após, com as duas mãos ao mesmo tempo.
2 - Relaxar o antebraço, deixando-o cair solto do cotovelo. Elevar o antebraço até o
braço, evitando porém a contração dos músculos. Agite o antebraço, mantendo-o frouxo e
solto. Primeiramente um braço, depois o outro, logo após, os dois ao mesmo tempo.
3 - Relaxar, por completo, o pé, fazendo-o girar livremente até o tornozelo. Será

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necessário um pouco de tempo e de prática porque os músculos motores dos pés estão
geralmente em contração; entretanto, os pés de uma criança são bem soltos quando estão
em movimento. Primeiramente um pé, depois o outro.
4 - Relaxar a perna, retirando todo o Prana e deixando-a cair solta e frouxa até o
joelho. Movê-la e agitá-la. Primeiro uma perna e depois a outra.
5 - Relaxar a cabeça, deixando-a cair para a frente e em seguida movê-la através do
movimento do corpo. Depois, sentado numa cadeira, relaxe-a e deixe-a cair para trás
naturalmente; assim, ela cairá em qualquer direção quando dela você tiver tirado todo o
Prana. Para atingir melhores resultados, pense numa pessoa que está com muito sono e
que, no momento em que o sono se apodera dela, relaxa-se e, deixando de contrair os
músculos do pescoço, deixa a cabeça cair para a frente.
6 - Depois de ter praticado todos os exercícios anteriores o máximo possível, se você
achar conveniente, poderá relaxar todo o corpo, começando do pescoço até os joelhos, e
cair suavemente ao chão de uma só vez. Este é um hábito eficaz, especialmente nos casos
de queda ou de outros acidentes desse tipo.
(De Hata- Yoga, de Ramacháraka, pp. 179-180-181.)

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IX - A MEDITAÇÃO

b) A Aquietação Emotiva
O corpo emotivo, o corpo astral, é um dos veículos da personalidade que,
precisamente, corresponde ao segundo aspecto da Alma; o Amor.
Tudo é tríplice no universo. Deus é uma trindade: Pai, Filho e Espírito Santo (isto é,
Vontade, Amor e Inteligência); a manifestação de Deus, o Homem, é também tríplice, pois,
de fato, ele é feito de Espírito, Alma e Corpo (como diz S. Paulo), ou seja, Mônada, Ego e
Personalidade (como dizem os esotéricos). Por sua vez, cada um desses três aspectos é
tríplice; assim, a Mônada tem três aspectos: Vontade, Amor e Inteligência; o Ego tem três
aspectos que são o reflexo dos três aspectos da Mônada; também a personalidade é
composta de três partes: corpo mental, corpo emotivo e corpo físico, que refletem os três
aspectos da Mônada e do Ego.
Assim, tornando ao corpo emotivo, ele reflete, ou melhor, deveria refletir o segundo
aspecto do Ego: o Amor.
Entretanto, transcorre muito tempo e passam-se muitas encarnações antes que o
corpo emotivo do homem possa se tornar um límpido refletor e transmissor da energia do
Amor da Alma. O corpo emotivo é composto de uma substância fluida, mutável,
sensibilíssima e está aberto a todas as influências e vibrações, sejam provenientes dos
outros dois veículos da personalidade, sejam provenientes do exterior, dos veículos das
outras pessoas ou do plano astral em geral. E antes que o homem possa regular essas
influências, repelindo as negativas, aceitando as positivas, e possa dirigir a receptividade do
corpo astral para a Alma, deve-se tornar consciente de sua meta, desenvolver o corpo
mental, a vontade e o autodomínio.
No corpo emotivo, porque ele é a correspondência inferior do aspecto Amor da Alma,
há o amor pessoal como uma nota dominante, com todos os seus aspectos derivados,
positivos e negativos; assim há o amor e o ódio, a atração e a repulsão, a simpatia e a
antipatia, a benevolência e a inveja e o ciúme... O corpo emotivo é a sede de todas as
paixões, de todos os sentimentos, de todos os movimentos do ânimo humano, dos mais
baixos aos mais elevados.
O corpo emotivo do homem comum está em contínua agitação e movimento, sendo
fácil entender por que é necessário acalmá-lo e aquietá-lo, se quisermos nos preparar para
a prática da meditação. As energias da Alma podem encontrar na sua agitação um
formidável obstáculo e a mente pode ofuscar-se, influenciar-se e tornar-se menos eficiente
pelo tumulto das ondas emotivas.
A aquietação emotiva é, portanto, uma prática indispensável a quem quiser se tornar
sensível à consciência anímica e abrir-se ao afluxo espiritual.
O corpo emotivo, durante o alinhamento, deveria estar calmo, sereno, recolhido para
o alto e límpido como um cristal. Os livros espirituais dizem que o símbolo do corpo astral é

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a água, justamente porque a fluidez, a mutabilidade, a sensibilidade a cada vibração da
substância emotiva o faz parecer-se com o elemento áqueo.
A aquietação emotiva alcança-se de muitas maneiras e por vários métodos, que
diferem de pessoa para pessoa, conforme seu temperamento, grau evolutivo, polarização
etc.
Dissemos outras vezes que o desenvolvimento do corpo emotivo não é igual em todas
as pessoas, podendo algumas ter o corpo emotivo vago, informe e pouco desenvolvido,
enquanto outras têm um corpo emotivo formado e organizado, dependendo tal fato
sobretudo do Raio dominante naquela pessoa, Raio que a influencia e faz desenvolver nela
certas partes e negligenciar outras.
Em algumas pessoas pode estar mais desenvolvido o corpo mental que o emotivo e
em outras, o contrário.
Acho que poderia ser útil esquematizar, aqui, os vários tipos possíveis:
1) tipos pouco desenvolvidos, com um corpo emotivo vago, informe, mas
receptivo e sensível;
2) tipos com corpo emotivo desenvolvido e organizado, mas não purificado e
dominado, e com corpo mental pouco desenvolvido;
3) tipos com corpo mental desenvolvido e corpo emotivo pouco desenvolvido e
reprimido;
4) tipos desenvolvidos mental e emotiva mente.
Falar dos tipos do primeiro grau é talvez inútil porque para eles a meditação é
prematura, pois deveriam, primeiro, procurar desenvolver o corpo mental e tornar-se,
assim, mais positivos emotivamente.
Para eles as tentativas de meditação poderiam ser infrutíferas, pois não seriam
capazes de ter aquele comportamento recolhido, concentrado, vigilante e atento
interiormente, necessário a tal prática e, adotando, espontaneamente um comportamento
passivo e receptivo, semelhante ao "transe", cairiam num estado de sonolência e abrir-se-
iam às influências astrais mais baixas, tornando-se presa das formas-pensamento e
vibrações astrais negativas.
Os tipos da segunda categoria são aqueles que possuem maiores dificuldades em
procurar atingir a aquietação emotiva, pois têm o corpo astral muito desenvolvido e o
mental ainda não formado, e não podem com facilidade dominar as agitações, os tumultos
dos sentimentos, e ainda não conseguem estimular a força da mente, cuja tarefa é a de
dirigir, controlar e governar a personalidade.
Eles procuram aquietar as ondas emotivas, mas não conseguem por não terem nem
mesmo força de vontade. E, então, de que maneira esses tipos de pessoas devem
prosseguir? Acaso, para elas, o caminho da meditação está fechado?
Há uma só solução para essa categoria de corpo emotivo desenvolvido, não dominado
e de mente ainda informe: o caminho da purificação emotiva e da prece mística. A
meditação oculta, a verdadeira meditação, feita por via mental, seguindo o caminho da
vontade, é impossível para eles, a não ser que desenvolvam pouco a pouco o intelecto.
Na realidade, a verdadeira meditação só é possível às pessoas que pertencem à
terceira e quarta categorias, isto é, aos tipos desenvolvidos mentalmente e de corpo
emotivo informe ou reprimido e aos tipos desenvolvidos mental e emotivamente.
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Em outras palavras, só quando a mente é bem desenvolvida e o homem aprende a
pensar e a usar o intelecto, a meditação é possível.
Num primeiro momento, poderão acontecer vagas tentativas, impulsos místicos, uma
forma de elevação e de prece, mas não a verdadeira prática meditativa, que pressupõe
certa força mental, a presença da vontade e uma capacidade de autodomínio bem
desenvolvida.
Devemos ser sinceros conosco mesmos e procurar reconhecer com objetividade se
estamos prontos para a meditação ou não; julgando que a nossa mente começa a funcionar
e que a nossa vontade é suficientemente desenvolvida, poderemos, então, dedicar-nos ao
trabalho interior ao qual nos propusemos.

***

Vejamos agora quais podem ser os principais obstáculos à aquietação emotiva.


O obstáculo mais comum vem da própria natureza da substância que compõe o corpo
emotivo e que o faz estar em contínuo movimento e agitação, tornando-o vibrante e
receptivo a todo pequeno estímulo. Caso o corpo emotivo não seja dominado, estará
sempre em movimento, se não por um sentimento preciso, por uma emoção definida, por
um conjunto de vibrações, de sensações e de reações. Essa agitação da substância emotiva
é comum a todos os que têm o corpo emotivo desenvolvido e ainda não dominado.
Outro obstáculo que se pode encontrar no veículo emotivo do homem é de natureza
mais precisa: trata-se do estado de tensão, de congestão, que pode vir a se formar
provocando uma sensação de angústia, de preocupação e de mal-estar que,
aparentemente, não tem causa precisa. Isso ocorre quando há no nosso subconsciente algo
que nos perturba, nos agita ou nos preocupa sem que estejamos cientes; tal ansiedade
inconsciente manifesta-se na superfície com uma sensação desagradável de tensão e de
angústia. Na realidade, do ponto de vista mecânico, essa ansiedade decorre da congestão
das energias emocionais que não podem fluir livre e harmonicamente.
Tal estado de tensão pode ser um grave obstáculo no alinhamento, porque absorve
toda a nossa atenção e impede a mente de se sentir livre e clara.
Outro obstáculo, ainda, pode ser a presença no corpo emotivo de um sentimento ou
de uma paixão dominante e exclusiva, de um excessivo apego a alguma pessoa ou coisa, de
um desejo intenso de natureza pessoal e egoística...
Este último obstáculo pode nos fazer pensar que talvez nenhum de nós esteja pronto
para a meditação, por que, quem se pode dizer livre de todo o desejo, apego, ou
sentimento pessoal?
Essa consideração é correta, mas é preciso uma aquietação das emoções temporâneas
para poder-se atingir o alinhamento necessário ao bom êxito da meditação. Portanto,
devemos procurar atingir a quietude e a calma do corpo emotivo por um período definido,
isto é, aquele dedicado à prática da meditação.
A aquietação estável e duradoura verificar-se-á em seguida e será o resultado da
prática constante, séria e repetida da meditação cotidiana.
Surge, então, espontaneamente, uma pergunta depois desse breve exame dos
principais obstáculos à aquietação emotiva: como podem ser superadas tais dificuldades e
57
como se pode alcançar a calma e a quietude emotiva?
É necessário antepor que se conseguirmos obter um bom relaxamento físico na
primeira fase do alinhamento, já preparamos o terreno para uma boa aquietação emotiva.
Há uma estreita conexão entre o corpo físico-etérico e o corpo emocional, conexão
que se pode ver claramente no relacionamento existente entre o sistema nervoso e a
emotividade. Acalmando e harmonizando as correntes etéricas no relaxamento físico,
acalmamos o sistema nervoso e, consequentemente, também as emoções.
Muitas pessoas provaram o quanto é útil, em momentos de agitação emotiva,
procurar relaxar-se por alguns minutos, deitando-se numa cama ou numa poltrona, fazendo
algumas respirações profundas e regulares. Podemos dizer ainda que a quietude emotiva,
por sua vez, tem uma influência harmonizante sobre o corpo físico-etérico.
Se não conseguirmos aquietar o corpo astral fazendo o relaxamento físico, devemos
agir diretamente sobre ele.
Há vários modos de agir sobre o corpo emotivo e talvez o mais eficaz seja o uso da
imaginação. A substância emotiva é muito sensível à imaginação que age sobre ela como
uma força plasmadora e criativa.
Aqueles que têm certa capacidade imaginativa podem usar essa força, procurando
visualizar imagens que suscitem vibrações de calma, serenidade, quietude. Uma imagem
muito eficaz, sugestiva e adaptada ao objetivo a que nos propomos é a de um límpido lago
de montanha, terso, cristalino.
Outra imagem adequada é a de um céu sereno e azul não ofuscado por nenhuma
nuvem...
Em outras palavras, são eficazes todas aquelas imagens que suscitam em nós
sensações de paz, calma e serenidade completa.
Outro método útil para aquietar a natureza emocional é o da afirmação, muito
adequado às pessoas volitivas.
Esse método é muito simples: basta repetir mentalmente ou em voz alta algumas
frases adequadas, como as seguintes:
"O meu corpo emotivo é calmo, sereno, límpido".
"A paz e a quietude reinam no meu corpo emotivo".
"Toda emoção se esvai, todo sentimento se aquieta".
"Somente a paz, a quietude e a serenidade reinam em mim".
Naturalmente, estas frases devem ser ditas com força, convicção e profunda calma,
sem concitação ou agitação, mas com senso de segurança e de fé no seu efeito.
O terceiro método é adequado às pessoas mais polarizadas mentalmente e mais
acostumadas a pensar. Tal método consiste em retirar a atenção do corpo emotivo,
dirigindo-a ao mundo do pensamento e concentrando-a num motivo intelectual.
É óbvio que esse "retirar-se" da atenção pressupõe duas coisas: certo
desenvolvimento da vontade e certo desenvolvimento mental.
Existem pessoas que conseguem espontaneamente esquecer o mundo emotivo
quando estão absortas em ocupações intelectuais; são as pessoas acostumadas aos estudos
e à reflexão, que têm certo domínio sobre as próprias emoções.
Entretanto, esse último método raramente é usado, porque as pessoas que têm um
corpo emotivo dominado e bem organizado não são muitas e o verdadeiro hábito de
58
pensar e de usar a mente livre de influxos emocionais e instintivos não é muito difundido
entre as pessoas comuns.
Portanto, os métodos mais usados geralmente são os da imaginação e da afirmação.
Ao tentar atingir a aquietação emotiva, apercebemo-nos de muitas coisas
interessantes, inerentes ao nosso mundo psíquico, uma das quais é a estreita conexão
existente entre os vários corpos da personalidade e as influências recíprocas exercitadas
por um corpo sobre o outro. Poderemos nos aperceber, por exemplo, se o nosso corpo
emotivo sofre as influências do corpo físico etérico (isto é, dos instintos) ou não.
Há uma zona no corpo emocional das pessoas comuns e ainda não purificadas que é
continuamente influenciada e posta em movimento por impulsos e desejos instintivos, e, às
vezes, não é fácil distinguir o limite que separa os próprios instintos das emoções e dos
sentimentos.
Por outro lado, o corpo emotivo está sujeito também a influências mentais que têm o
pode de modificar, aumentar, diminuir e dar continuidade aos estados emotivos.
Os sentimentos mais profundos e duradouros, por exemplo, são um misto de emoções
verdadeiras e estados mentais.
É a mente que dá constância, estabilidade e profundidade às emoções e as transforma
em afetos e sentimentos, tanto positivos como negativos.
A descoberta de tudo isso é útil para podermos atingir mais facilmente o domínio do
corpo emotivo, purificá-lo e torná-lo mais límpido e estável.
Portanto, ao fazer o exercício da aquietação emotiva para atingir o alinhamento,
conseguimos dois resultados:
a) habituamo-nos a acalmar e a dominar as ondas emocionais para nos preparar à
meditação.
b) conhecemos a qualidade e a natureza do nosso corpo emotivo e os seus lados bons
e os seus lados negativos; aprendemos, aos poucos, a purificá-lo e torná-lo bem organizado
e estável.

EXERCICIOS PARA A AQUIETAÇÃO EMOTIVA

1º Exercício

Sentar em posição cômoda e procurar relaxar-se. Depois de ter obtido o relaxamento


físico, procurar introverter-se e passar para o seu mundo emotivo.
Procurar observá-lo ou estudá-lo, objetivando-o com um senso de desapego e,
sentindo-o agitado, imaginar que, aos poucos, se acalma, se aquieta e se torna
gradativamente tranquilo e sereno. Deter-se na imagem de um lago na montanha, calmo,
límpido e cristalino, de superfície lisa como um espelho, onde se refletem o céu sereno e os
picos das montanhas.
Manter esta imagem nos olhos de sua mente o mais que puder e procurar sentir toda
a paz e calma que dela emanam, absorvendo-as.

59
2º Exercício

Depois de ter feito o relaxamento físico, procurar acalmar e aquietar o corpo emotivo,
introvertendo-se como no primeiro exercício.
Fazer algumas respirações profundas, lentas, regulares e depois dizer em voz baixa:
"O meu corpo emotivo é calmo, sereno, límpido.
Toda emoção se aquieta, toda preocupação se esvai.
Somente a paz, a quietude, e a calma reinam em mim.
Paz, paz, paz."
Repetir várias vezes, lentamente, essas frases, procurando sentir em profundidade o
significado das palavras pronunciadas e evocar a vibração de calma e paz nelas contidas.
Fazer um ou outro desses exercícios por duas semanas, anotando as dificuldades
encontradas e os resultados obtidos.

60
X - A MEDITAÇÃO

c)O Domínio da Mente no Alinhamento


A mente foi sempre a parte do homem menos conhecida e menos compreendida,
mesmo tendo sido estudada, observada e analisada por filósofos, psicólogos e estudiosos
de todas as eras.
Foi sempre considerada pela maioria de tais estudiosos como a parte mais elevada do
homem e, aliás, muitos têm identificado a Alma, o Eu Espiritual com a mente, não podendo
conceber nada superior a ela.
Para os espiritualistas, entretanto, a mente, o corpo mental, é também um veículo, um
instrumento da Alma, como os outros dois corpos da personalidade (o físico-etérico e o
emotivo).
O corpo mental, no seu conjunto, é composto, como os outros corpos, de sete
subplanos: quatro inferiores e três superiores. Os quatro primeiros formam o corpo mental
inferior, que pertence à personalidade, e os três mais elevados formam o corpo mental
superior, que pertence à Alma.
O corpo mental, por sua própria natureza, não forma um todo único, mas é cindido,
separado em duas partes: uma vibrante no plano da personalidade e outra no plano
espiritual. E, até que o homem, através da evolução de muitas vidas, da meditação
constante, não construa uma "ponte" entre essas duas partes, podemos dizer que existem
duas unidades mentais bem distintas, das quais uma (a superior) está tão acima da nossa
percepção, que é como se não existisse em nós. Ela é a sede da intuição cognitiva mais alta,
das ideias universais e tem uma natureza completamente diferente do corpo mental
inferior.
Por enquanto, ocupar-nos-emos somente do corpo mental inferior, que nos interessa
de perto e que devemos conhecer, estudar e dominar. Para simplificar, usaremos a palavra
mente todas as vezes em que nos referimos a ele.
A primeira coisa que devemos ter presente, quando nos propomos a ter em mãos, por
assim dizer, a nossa mente, é a sua natureza dúplice.
De fato, ela pode ser dirigida em duas direções: para o mundo exterior, objetivo e para
o mundo interior, subjetivo. É como um Jano bifronte, que com uma face olha para o
mundo da manifestação, dos efeitos e com a outra olha para o mundo das causas.
Em geral, porém, só é conhecida a face dirigida para o exterior, porque o homem
comum, de evolução mediana, põe em movimento o seu instrumento mental só por efeito
das sensações que lhe vêm do mundo exterior e pensa apenas em conexão com "objetos".
Entretanto, quando o homem volta a mente para o interior, parece-lhe, a princípio,
que se encontra diante do vazio, do escuro completo, pois não sabe onde pôr a atenção,
até que aprenda a "pensar", no verdadeiro sentido da palavra, não mais por efeito de
estímulos provenientes das percepções sensoriais, mas porque está despertada nele aquela
faculdade de "raciocinar", de formular ideias e conceitos abstratos, impessoais e objetivos,

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própria da mente desenvolvida.
Mas a nossa mente pode ainda ir mais alto... Ela não só pode pensar de maneira
abstrata, mas pode se abrir ao mundo das intuições, das ideias superiores, dos conceitos
universais e, portanto, tornar-se, para o homem um verdadeiro meio de contato com o
plano mental e com a Mente Divina.
Como o corpo emotivo deve se tornar o recipiente e o transmissor do Amor da Alma,
assim a mente deve se tornar o receptor das ideias da Alma, de seus Propósitos e Planos.
É justamente essa a função da mente na meditação e é por isso que devemos nos
tornar seus senhores, colocá-la em atividade, se inerte, dominá-la, se muito vivaz, purificá-
la, se receptáculo de ideias preconcebidas e de pensamentos negativos...
Tal é o trabalho preparatório, que devemos fazer no alinhamento, quando, depois de
ter relaxado o corpo físico e aquietado o corpo emotivo, dirigirmo-nos ao nosso corpo
mental.

***

Para muitos, o domínio da mente é a parte mais difícil do alinhamento.


Vejamos quais são essas pessoas. Elas tanto podem apresentar uma mente um pouco
inerte e letárgica, mas bastante desenvolvida, como podem apresentar uma mente
vigorosa e dinâmica, mas desorganizada e caótica.
Para melhor compreender as várias dificuldades que podem ser encontradas por tais
pessoas, devemos primeiro nos deter um pouco, para refletir sobre as palavras "domínio da
mente" e sobre o verdadeiro significado delas.
Domínio da mente significa tornar-se, por completo, senhor do nosso mecanismo de
pensamento, de maneira a poder guiá-lo como e quando quisermos. Significa, além disso,
saber discernir as influências emotivas e as provenientes das sensações físicas dos
pensamentos verdadeiros; significa libertar a mente de tais influências e saber conduzi-la
de maneira independente; significa saber concentrá-la, à vontade, em qualquer ponto e
usar a sua faculdade de raciocínio em qualquer direção...
Está claro, portanto, que podem surgir dificuldades tanto para as pessoas de mente
lenta e preguiçosa, como para as de mente dinâmica. As primeiras deverão fazer um grande
esforço para tornar a mente mais ativa, pronta, dúctil e vivaz; as segundas, ao contrário,
deverão aprender a dirigi-Ia de maneira organizada e controlada, a refreá-la, torná-la
obediente e concentrá-la no motivo desejado, sem divagar.
No alinhamento que precede a meditação, devemos, aos poucos, aprender a dominar
a mente, fazendo com que se torne um perfeito instrumento da nossa vontade. Como
podemos fazer isso?
O primeiro passo é introverter a nossa atenção, dirigindo-a para o mundo do
pensamento e começar a tomar contato, por assim dizer, com parte da nossa mente que
está dirigida para o interno.
Essa primeira fase do domínio da mente é chamada pelos vogues indianos pratyahara,
que significa (de acordo com as palavras de Ramacháraka no seu livro Raja Yoga) a arte de
tornar a mente introspectiva, ou seja, voltada inteiramente para si mesma.
De início, parecerá que nos encaminhamos para um mundo confuso e caótico, onde os
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pensamentos se movem em desordem, independentes da nossa vontade, mudando
livremente de um motivo para outro, sem pausa. Conseguir domar e reorganizar esse
mecanismo rebelde e complexo poderá parecer um empreendimento absurdo. Entretanto,
pouco a pouco, com perseverança e paciência, conseguiremos obter resultados.
Nessas primeiras tentativas de domínio da mente, faremos importantes descobertas.
A primeira delas será a constatação de que, na realidade, não sabemos pensar e não
usamos toda a mente, mas uma pequena parte dela, isto é, a mais mesclada por emoções,
instintos e desejos e que os hindus chamam de Kama-manas; percebemos, então, a
necessidade de desemaranhar o verdadeiro pensamento de todas as influências espúrias,
se quisermos aprender a usar a mente, que deve ser libertada da névoa emotiva, tornando-
se então receptiva à Luz, e se quisermos que a Alma possa dela fazer uso como seu
instrumento de conhecimento e de serviço.
Nós achamos que pensamos, mas, na realidade, nada fazemos senão exprimir
conceitos confusos, opiniões provindas de influências externas, desejos que acreditamos
ser convicções etc.
Entretanto, se quisermos usar a mente, como de fato deve ser usada, como órgão de
integração e de controle da personalidade, como aparelho receptor das intuições cognitivas
da Alma, devemos aprender a pensar, no verdadeiro sentido da palavra.
A segunda descoberta será que nos conscientizaremos, por experiência direta, de que
há alguma coisa acima dos pensamentos, acima do nosso mecanismo mental. Sentiremos
como que um centro de consciência, uma vontade, uma força que não é a mente, mas
"alguma coisa" que pode dominá-la e dirigi-Ia. Esse centro de consciência é o reflexo do Eu
na personalidade.
Estudamos e ouvimos dizer que o Eu não é a mente, que o Pensador é uma coisa e os
pensamentos são outra; mas fazer a experiência direta e adquirir a consciência interior é
diferente. É algo que nos dá certeza, é um ampliamento da consciência, é um real
conseguimento que não pode ser perdido.
É interessante perceber que essa experiência interior é um pouco diferente de pessoa
para pessoa, sentindo-a cada uma segundo o seu temperamento ou tipo psicológico. Esse
Eu será sentido pelos tipos volitivos como centro de vontade, de força; pelos tipos
intelectuais como uma nascente de pensamento, como o Pensador; e pelos tipos intuitivos-
emotivos, como um centro de consciência viva e de sensibilidade.
Naturalmente, essa descoberta interior poderá ocorrer, como um lampejo fugaz, e
depois desaparecer; de modo intermitente, poderá aparecer e é difícil que, no início, ele
permaneça por muito tempo; para podermos captar de novo esse lampejo, teremos de
fazer um esforço vez por vez. Mas virá o momento, depois que tivermos repetido várias
vezes o exercício de domínio da mente e estivermos habituados a usá-la na meditação, que
esse senso do Eu se tornará permanente.
Tal senso do Eu não é ainda a consciência da Alma, do Eu Espiritual, mas é um reflexo
dele, quase um "ponto intermediário"entre o plano da personalidade e o plano da Alma.
A descoberta desse Eu separado, que não é a mente, é uma grande ajuda e uma
grande força para podermos chegar a dirigir e a controlar a mente como quisermos. Trata-
se de um ponto de apoio a que podemos recorrer e de onde podemos obter energia e
vontade para podermos nos tornar senhores da nossa mente. Portanto, podemos dizer que
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a fase do alinhamento dedicado à mente consta de duas partes:
a) a primeira consiste na introversão da mente sobre si mesma e no contato com o
mundo do pensamento (pratyahara);
b) a segunda consiste no domínio da mente através da vontade e do seu uso na
direção desejada.
Esta segunda fase é a conhecida pelo nome de "concentração" (dharana).
A concentração mental, que os hindus chamam de "dharana", é uma faculdade
muito importante para quem deseja realmente aprender a meditar; podemos dizer que e a
base sobre a qual se apoia toda a meditação.
Portanto, é necessário que nos detenhamos um pouco sobre este tema, a que será
dedicada a próxima lição.

EXERCICIOS

a) Ponha-se em posição cômoda e, o máximo possível, livre de influências exteriores


que perturbem. Não faça esforço violento para controlar a mente, mas, acima de tudo,
permita que ela se solte, por um momento, enquanto esgota os seus impulsos. Ela
aproveitará a oportunidade e, primeiramente, dará saltos como um macaco solto até que,
aos poucos, se acalmará à espera de sua ordem. Na primeira vez, poderá ser preciso um
pouco de tempo para domá-la, mas a cada nova experiência o tempo necessário será
menor. Os yogues despendem muito tempo na aquisição dessa calma e paz mentais, mas
se consideram bem recompensados.
b) Quando a mente estiver bem calma e em perfeita paz, fixe o pensamento sobre "Eu
sou". Distinga o Eu como uma entidade independente do corpo, uma entidade imortal,
invulnerável, real. Depois considere-o independente do corpo e capaz de existir mesmo
sem o seu invólucro de carne.
Medite sobre isso por algum tempo e, depois, aos poucos, dirija o pensamento ao
reconhecimento do "Eu" como independente, superior à mente e capaz de controlá-la.
Em seguida, faça a seguinte afirmação:
"Eu" tenho uma vontade, minha propriedade inalienável, meu direito. "Eu" decido
cultivá-la e desenvolvê-la com a prática e o exercício. A minha mente obedece à minha
vontade. "Eu" afirmo a minha vontade acima da minha mente. "Eu" sou o senhor da minha
mente e do meu corpo, e asseguro que os domino. A minha vontade é dinâmica, cheia de
força, de energia e de poder. "Eu" sinto a minha força. "Eu" sou forte. "Eu" sou um centro
de consciência, de energia, de força e de poder.

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XI - A CONCENTRAÇÃO

Dissemos, no fim da lição precedente, que só se pode chegar ao domínio da mente


através da concentração, sendo esta a base sobre a qual se apoia a verdadeira meditação, a
chamada meditação oculta, porque nela a mente é utilizada como órgão de ligamento e de
contato com a Alma.
A mente dá a estabilidade, a constância, a firmeza de propósito e, ainda, a
possibilidade de poder traduzir em conceitos e em pensamentos as percepções recebidas.
Enquanto só aspirarmos, mesmo que de todo o coração, nos aproximar da Verdade,
desejando, com ardor, conhecer e entender as razões divinas de tudo e procurando nos
reunir com o nosso verdadeiro Si, estaremos continuamente num estado alternado de
insatisfação e de êxtase.
De insatisfação conosco mesmos, que por mais que estejamos ansiosos para
compreender o profundo significado das coisas, não conseguiremos alcançá-lo; de êxtase
porque, às vezes, impelidos pela nossa fervente aspiração, conseguimos ter uma súbita
visão da verdade e um rápido e temporâneo contato com a nossa Alma... Mas é somente
um relâmpago, depois do que a nossa vida cotidiana nos parece mais obscura e vazia e mais
difícil e árduo o Caminho.
Se quisermos realmente progredir, chegar a um contato estável com o Ego e ter uma
consciência clara e duradoura da Realidade, deveremos substituir a aspiração emotiva e o
desejo por uma decisiva e firme determinação de nos tornar senhores da nossa mente,
para poder usá-la segundo o seu verdadeiro objetivo, isto é, o de ser a intermediária do
mundo da Alma.
O Caminho da aspiração tem a sua importância. É o Caminho do coração, o Caminho
percorrido pelos Grandes Místicos e pelos Grandes Santos... Mas aqueles que quiserem
ingressar no Caminho do conhecimento, para estabelecer um contato bem definido com a
Alma e se tornarem "intérpretes" e executores da vontade dos Seres Superiores, devem
armar-se de vontade, perseverança e firmeza e iniciar o Caminho da meditação oculta.
Diz Alice Bailey no seu livro Do intelecto à intuição: "Começamos ver uma realização
emocional da nossa meta e, depois, através do fogo da disciplina, vamos além, até as
alturas da certeza intelectual", e continua: "...A prece é possível a todos. A meditação só é
possível aos que estão polarizados mentalmente...
"Todos os que se sentem prontos para transmutar suas emoções em devoções
espirituais podem ser Santos, mas nem todos os homens podem ser conhecedores, porque
isso requer tudo o que foi alcançado por um Santo, mais o uso do intelecto e o poder de
pensar, até chegar ao conhecimento direto."
Patañjali chama esse conhecimento direto de "leitura espiritual", isto é, a faculdade de
ler com os olhos da Alma através de todas as formas materiais, que não passam de
símbolos da realidade divina, da verdade que nelas se esconde.
Mas, antes que a mente possa se tornar o órgão dessa leitura espiritual, ela deve se

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tornar um perfeito instrumento do pensamento, obediente à vontade, e um límpido
refletor das ideias da Alma, sendo que só se pode chegar a isso, primeiro, através da
concentração e, depois, através da meditação. Eis por que a prática da concentração é tão
importante.
O que significa realmente "concentração"?
Esta palavra vem do latim cum - conjunto, e centrare - centrar, levar ao centro, ou seja,
levar junto a um centro comum.
Concentração mental, portanto, quer dizer "juntar", centrar todos os pensamentos e
conduzi-los para um mesmo ponto, sem distrações e divagações, eliminando tudo o que for
estranho ao objeto de nossa atenção.
Patañjali nos seus Sutra Yoga define assim a concentração: "Concentração, ou
dharana, é fixar a substância mental (chitta) sobre um objeto particular" (p. 11, Livro III, Ed.
Nuova Era).
A concentração poderia também ser definida como "Uma intensificação da atenção
sobre um tema escolhido".
A atenção, como se sabe, pode ser involuntária ou voluntária.
A primeira se dirige às coisas que impressionam pela sua novidade, pelo interesse que
provocam, pela sua estranheza, e não implica uma força de vontade; é totalmente natural e
espontânea. Por exemplo, enquanto passeamos, nossa atenção é atraída,
espontaneamente e sem esforço de nossa parte, por todos os objetos que, de uma maneira
ou de outra, têm algo que nos interessa e impressiona a nossa fantasia. Essa atenção é
involuntária. Também é assim aquela que usamos para ler um livro de que gostamos, para
fazer um trabalho que nos diverte e apaixona para admirar uma obra de arte, observar um
rosto que nos atrai ou estudar um assunto que nos interessa.
A atenção voluntária, ao contrário, é a que implica uma força de vontade, sendo
dirigida para qualquer objeto, seja ele Interessante e agradável, ou não. Por exemplo, a
atenção voluntária é usada para estudar um assunto difícil, não particularmente
interessante, mas que sabemos ser útil, e, ainda, é a que se usa para realizar um trabalho
que fazemos sem prazer, mas que devemos fazer por obrigação ou porque é útil... Em
outras palavras, a atenção voluntária é aquela que usamos em coisas ou objetos escolhidos
não espontaneamente ou por atração natural, mas por vontade; ela requer esforço e
concentração para ser mantida e aprofundada.
Portanto, concentração é atenção voluntária conduzida, por assim dizer, à máxima
potência.
Essa concentração do pensamento num só objeto faz com que ele se torne muito mais
intenso, profundo e vigoroso. Citaremos analogias dessa intensificação de potência e de
eficiência provocada pela concentração de energia em todos os campos. Por exemplo, os
raios do sol, quando dirigidos para um só ponto através de uma lente, podem queimar um
pedaço de papel; o vapor áqueo que passa através de um pistão movimenta uma
locomotiva... O mesmo acontece com o nosso pensamento: se é disperso, difuso, errante,
não pode ter a força, a eficiência e a perspicácia de quando está totalmente dirigido e
apontado para uma mesma direção.
Portanto, a concentração não serve apenas como meio de domínio e de controle da
mente, mas também como meio de desenvolvimento e de reforço do seu poder.
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Sem dúvida, não é fácil atingir essa capacidade de concentração com rapidez,
especialmente para aqueles que têm uma mente vivaz, fluida e, sobretudo, caótica.
Tais pessoas, nas primeiras tentativas de domínio da mente, provam um aumento de
mobilidade e uma espécie de rebelião das correntes do pensamento que, estando sempre
acostumadas a vaguear livres aqui e ali, seguindo o impulso do momento, não sabem e não
querem obedecer ao comando da vontade.
A mente reage quase com violência nas primeiras tentativas de domínio e de
reorganização - pelo menos assim se afigura a nós, que nos esforçamos para detê-la e dirigi-
la para um só objeto.
Na realidade, esse aumento de fluidez vem, não só porque a nossa mente não está
habituada a ser controlada, mas também porque, ao querermos nos concentrar
mentalmente, é natural que se forme uma polarização mental mais intensa, isto é, todas as
forças da nossa personalidade alinham-se e afluem para a mente, produzindo, assim, um
aumento de energias intelectivas, que, por natureza, não sendo ainda dominadas e
organizadas, irrompem aqui e ali de forma caótica.
Esse é o primeiro obstáculo que podemos encontrar quando iniciamos as primeiras
tentativas de concentração, obstáculo que, em seguida, se transforma em riqueza e
eficiência mental.
Outro obstáculo muito comum para os principiantes constitui-se nos pensamentos
inoportunos que vêm infiltrar-se na mente, distraindo a atenção do tema escolhido e
fazendo-a divagar.
Os pensamentos inoportunos podem ser de vários tipos e, às vezes, chamam a nossa
atenção com muita insistência pois podem não ser apenas pensamentos fúteis e vazios,
mas interessantes e urgentes... Entretanto, devemos aprender a não nos deixar distrair por
eles, porque, se quisermos de fato dominar a nossa mente, devemos, pelo menos por
aqueles cinco ou dez minutos dedicados â concentração, ser capazes de pensar apenas no
tema escolhido, sem divagações.
Ernest Wood, em Concentração, dá conselhos muito úteis à eliminação de
pensamentos inoportunos, por ele comparados a visitantes não-desejados que chegam de
repente para nos falar de seus problemas. Ele afirma não ser necessário expulsar
violentamente tais visitantes porque, sendo os seus problemas reais e importantes,
voltariam à baila mais e mais vezes e não nos permitiram concentrar.
E, se algum deles tiver de voltar, Wood aconselha que se combine um encontro com
hora marcada. Nesta hora, porém, não se deve deixar de manter o compromisso e de
resolver aquele problema.
Podem existir ainda outros distúrbios durante a concentração, isto é, ondas-
pensamento, imagens etc., oriundos de outras mentes; como tais distúrbios, em geral, não
são muito potentes e eficazes, basta mergulhar no trabalho de concentração para abstrair
por completo a atenção deles.
Vejamos, agora, como a concentração se desenvolve. É errôneo pensar que ela
consiste numa condição estática da mente; ao contrário, a concentração é um estado de
intensa atividade mental.
Patañjali, no seu livro Sutra Yoga (comentado por Alice Bailey), diz que a concentração
tem sete estágios:
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1 - A escolha do objeto sobre o qual se concentrar.
2 - A retirada da consciência mental do mundo externo, que faz com que os meios de
percepção e de experiência (os cinco sentidos) sejam aquietados e a consciência não se
volte mais para o exterior.
3 - A consciência concentra-se e fixa-se na cabeça, mais precisamente, no centro entre
as sobrancelhas.
4 - A mente fixa-se e a atenção se dirige exclusivamente para o objeto escolhido.
5 - A visualização ou percepção imaginativa de tal objeto e o raciocínio lógico sobre
ele.
6 - A extensão dos conceitos que foram formulados, passando do específico e
particular para o geral e universal ou cósmico.
7 - A procura daquilo que está por trás da forma escolhida como objeto de
concentração, isto é, a ideia que a produziu.
Esse procedimento eleva gradativamente a consciência e permite ao aspirante
transferir-se do lado da forma para o lado vida da manifestação" (Sutra Yoga, livro III, p. 12,
Ed. Nuova Era).
Examinando os estágios 5 e 6, entre os relacionados vê-se com clareza como, durante
a concentração, a mente deve ser ativa e "raciocinar com lógica" sobre o tema,
estendendo-o do particular ao geral até atingir, se possível, o significado universal e
cósmico.
Os objetos de concentração escolhidos podem ser os mais variados, começando por
objetos físicos até atingir conceitos abstratos e elevados.
Para os que ainda são principiantes nessa prática, cuja finalidade é atingir o domínio
da mente, o tipo de objeto de concentração não tem importância, por ser apenas um meio
para alcançar a meta almejada.
Quando, então, tiverem adquirido certo controle sobre o mecanismo do pensamento
e certa facilidade em concentrar a mente sem divagar, aí, sim, poderão pensar em escolher
temas de utilidade formativa e evocativa.
Inicialmente, nosso exercício será mais do que verdadeiro exercício de concentração:
será uma "chamada de atenção", pois nos aperceberemos muitas vezes de ter divagado e
perdido de vista o tema e, então, deveremos continuamente orientar a atenção para a
direção desejada. Será justamente nesse esforço contínuo, nesse ininterrupto reconduzir
da atenção ao tema, que obteremos os primeiros resultados importantes, isto é:
a) o fortalecimento da nossa vontade·
b) o aumento do poder mental;
c) o aumento de eficiência na vida cotidiana.
Esse terceiro resultado, mesmo sendo uma consequência, talvez, secundária da
concentração, não é de se desprezar, porque são justamente a faculdade da atenção, a
unidade de propósito, o saber fazer uma coisa por vez, os fatores que conduzem à
eficiência e ao sucesso.
Todos os estudiosos, os pesquisadores, os grandes homens, os gênios, tiveram essa
firmeza, essa concentração de propósitos, esse poder de pensamento, essa intensa
faculdade de atenção, tanto no seu mundo mental quanto nas suas ações, e foram
justamente essas qualidades que os levaram a poder realizar os seus mais altos objetivos.
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No tocante ao objetivo a que nos propomos, que é atingir o domínio da mente para
poder usá-la na meditação como instrumento da Alma, a concentração é o único meio
adequado e eficaz.
Além disso, quando apontamos e fixamos (como diz Patañjali) a consciência na cabeça,
consegue-se um outro resultado importante totalmente espontâneo: uma momentânea
integração de todos os três veículos da personalidade; em outras palavras, forma-se o
alinhamento dos três corpos inferiores.
Portanto, se quisermos realmente aprender a meditar, no exato sentido da palavra, ou
seja, fazer da meditação uma verdadeira técnica para poder entrar em contato com a nossa
Alma, devemos passar "através do fogo da disciplina", ter paciência, constância e
perseverança e, aos poucos, tomar em mãos o nosso mecanismo do pensamento, com
exercícios regulares de concentração.
Eu disse "regulares" porque tais exercícios, para serem de fato eficazes, devem ser
feitos regularmente, todos os dias, pelo menos por alguns minutos. É melhor um breve
período de cinco ou seis minutos por dia, que meia hora ou uma hora em dias alternados.
Esse é o único meio para se conseguir a prática regular, constante, diária, pois somente por
meio dela se forma um ritmo. Esse ritmo tem ocultos um valor real e uma verdadeira
utilidade. Todos os dias, mesmo que não nos apercebamos, conseguimos certo resultado e,
se interrompermos o ritmo, tal resultado se perde e teremos de começar de novo. Todo
exercício promove transformações dentro de nossa mente, mesmo que leves e insensíveis,
e a regularidade é a única chave para tornar tais transformações sempre mais profundas e
estáveis.
Por outro lado, essa regularidade só é difícil no início, pois, aos poucos, forma-se o
hábito interior e o ritmo se estabelece espontaneamente.
Dissemos acima que, no início, o exercício consistirá principalmente num contínuo
"chamar a atenção" para o tema escolhido e, ao fazer isso, perceberemos como a nossa
mente pensa por "associação". Se conseguirmos guiar e controlar tais associações, sem
perder o fio que as relaciona ao tema, descobriremos o segredo da concentração.
Os psicólogos observaram que a nossa mente pode pensar apenas uma coisa por vez,
só que passa tão rapidamente de uma coisa para outra, que parece pensar sobre todas ao
mesmo tempo. Portanto, na concentração nada mais fazemos senão usar a faculdade da
mente em se dirigir a um só tema por vez; impedimo-la de passar de um tema a outro,
levando-a a aprofundar, ampliar e estender o tema desejado.
Na realidade, é como se desenvolvêssemos um tema com o pensamento, como se
escrevêssemos uma composição da qual nos foi dado somente o título.
Essa faculdade de concentração, esse poder de aprofundar, de ampliar e de estender
uma ideia, um conceito, serão depois usados na verdadeira meditação, na qual os temas
serão escolhidos com fins bem precisos e com propósitos formativos ou cognitivos.
Então, ao se tornar educada, regulada e eficiente, a mente poderá nos dar resultados
admiráveis, uma vez que tem em si, latente, a possibilidade de entrar em contato com o
mundo mental do Si e com as ideias Universais.
Assim; aos poucos, a luz começará a penetrar na nossa mente e poderemos passar,
como diz Alice Bailey, "do intelecto para a intuição".

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ALGUNS EXEMPLOS DE EXERCÍCIOS DE ATENÇÃO E DE CONCENTRAÇÃO

1º Exercício
Sente-se em seu quarto e olhe em torno com atenção, notando todas as coisas,
mesmo as menores. Depois, feche os olhos e faça passar de novo em sua mente todos
esses objetos, na ordem em que os notou precedentemente.

2º Exercício
Passeie com a imaginação por uma estrada que lhe seja bem conhecida, evocando
todos os detalhes possíveis que tiver encontrado pelo caminho; depois, volte e evoque as
recordações em ordem inversa até o ponto de partida. Torne a passear desse modo todos
os dias, durante uma semana, e toda vez em que a atenção fugir e se desviar da estrada
que escolheu, volte e recomece o passeio até realizá-lo sem interrupção.

3º Exercício
Escolha um tema qualquer, melhor será, se for simples e aparentemente pouco
interessante, como uma moeda, um lápis, um relógio; depois concentre a atenção sobre
ele, procurando recolher o maior número de ideias, como se estivesse desenvolvendo uma
redação.
Se a mente divagar (como facilmente acontecerá nas primeiras vezes), reconduza-a,
com paciência ao tema.
Faça esse exercício todos os dias por poucos minutos, se possível à mesma hora,
escolhendo o momento mais adequado.
Tenha sempre ao seu alcance um caderno e anote:
a) o tema escolhido;
b) quantas vezes a mente divagou;
c) quanto tempo conseguiu manter a mente concentrada;
d) quais foram as divagações principais.

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XII - O ALINHAMENTO COM A ALMA

Realizado o alinhamento inferior, o dos três veículos da personalidade, devemos


passar à fase mais importante da meditação: o alinhamento com a Alma, o alinhamento
superior.
Na realidade, o alinhamento inferior não foi senão uma preparação para o superior,
pois a energia da Alma não pode penetrar nos três veículos pessoais se não estiverem
harmonizados, calmos e em perfeita sintonia.
Como dissemos outras vezes, a personalidade não é senão um instrumento da Alma;
não é o nosso verdadeiro Eu, mas só um reflexo do que constitui a nossa verdadeira
essência, a nossa verdadeira realidade interior.
Na meditação, tentamos fazer aflorar à consciência um vislumbre ao menos dessa
realidade e construímos um canal de comunicação entre o Si inferior e o Si Superior, a
Alma.
Na realidade, a personalidade não é separada da Alma; existe um "fio" que liga os três
veículos inferiores com o Ego: o sutratma. Esse fio dourado de energia provém da Alma e
passa através dos três corpos pessoais. Chegando ao corpo físico, divide-se em dois ramos:
um se ancora, digamos assim, no cérebro (e precisamente na glândula pineal) e o outro
desce até o coração e ali para. O ramo que para na glândula pineal constitui o aspecto
"consciência" da Alma, enquanto o ramo que para no coração constitui o aspecto "energia".
Esse fato é descrito no Tratado de magia branca, de A. Bailey (p. 566), da seguinte
forma:
"Quando essa corrente vital chega ao corpo (sutratma), diferencia-se em duas
correntes ou fios e fixa-se, ou se ancora, em dois pontos do corpo. Este é o símbolo das
duas diferenciações Atma ou Espírito, em seus dois reflexos: Alma e corpo.
"A Alma, o aspecto consciente, que faz do homem um ser racional, uma entidade
pensante, está ancorada por meio de um dos aspectos desse "fio" num ponto do cérebro,
na região da glândula pineal.
"O outro aspecto da vida, que anima cada átomo do corpo e constitui o princípio de
coesão e de integração, alcança o coração e ali se ancora [...]."
Portanto, estamos, na realidade, sempre ligados à AIma, mas não estamos conscientes
dessa ligação.
Na meditação, procuramos, através do alinhamento, conscientizarmo-nos aos poucos
desse contato, fortalecendo-o e tornando-o mais vital e vibrante.
Passando à parte prática da questão, é natural perguntar:
Como podemos fazer isso?
Quais são os meios para favorecer e ajudar esse alinhamento com a Alma?
Ao fazermos o alinhamento dos três corpos inferiores, estamos aptos a receber as
energias superiores e preparamos o terreno para o despertar da consciência anímica,
principalmente quando, com a concentração, tomamos conta da nossa mente.

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Como dissemos outras vezes, na meditação oculta, a mente é usada como ponte entre
a personalidade e a Alma e, por isso, utilizamos os exercícios de concentração para nos
tornarmos senhores do nosso instrumento mental e para movimentá-lo e detê-lo à
vontade.
Quando nos dispusermos a fazer (ou tentar fazer) o alinhamento com a Alma,
deveremos parar a nossa mente e procurar criar nela o silêncio e a calma. Mas tal silêncio
não deverá ser um vazio, um estado de modorra ou de sonolência; deverá ser, ao contrário,
um estado de atenta vigilância, de completa vivacidade e de espera atenta.
Devemos criar o silêncio em nossa mente e dirigi-Ia para a Alma, imaginando que ela é
um cálice vazio à espera de ser enchido. Portanto, o nosso comportamento deverá ser, ao
mesmo tempo, de receptividade e de atenção.
É muito útil imaginar a Alma como uma nascente de Luz e de energia que, ao nosso
chamado, faz verter sobre a nossa mente receptiva raios de Luz resplandecente e de
vigorosa energia.
Portanto, podemos dizer que a fase do alinhamento com a Alma consta de duas
partes:
a) a fase de espera e de invocação.
b) a fase de visualização da Luz e da energia que afluem à mente.
Muito importante para aqueles que estão no início dessa prática é não esperar
resultados imediatos e maravilhosos, mas estar certos de que os resultados virão.
A Alma sempre responde.
Não há apelo da personalidade à Alma que não tenha uma reação e uma resposta por
parte desta última; porém, nem sempre estamos conscientes disso. A resposta pode, ainda,
ser maior que a esperada. "Disse Deus: Se alguém procura aproximar-se um palmo de Mim,
Eu procuro aproximar-me um cúbito; e se alguém procura aproximar-se um cúbito de Mim,
Eu procuro aproximar-me dele duas braças; e se alguém caminha em direção a Mim, Eu
corro para ele." (Maomé)
A resposta e o afluxo de energia também podem ocorrer muito mais tarde, durante o
dia ou mesmo muitos dias depois, ou podem, ainda, tornar a forma de uma "lenta
penetração", semelhante à osmose numa substância porosa.
Devemos lembrar ainda que, às vezes, a resposta da Alma é bloqueada pela condição
em que se encontram os nossos três veículos; se eles ainda estão imperfeitos e impuros,
havendo, portanto, vibrações baixas, não poderão ser sensíveis às elevadíssimas vibrações
provenientes do nível Anímico.
Todos os nossos corpos são subdivididos em sete subplanos, dos quais os três mais
elevados correspondem aos três subplanos superiores do corpo mental, que pertence à
Alma.
Sobre isso acena A. A. Bailey em Cartas Sobre Meditação Ocultista, no capítulo que
trata do alinhamento (p.17):
"Não esqueça que ele (o alinhamento) é principalmente uma questão de vibração.
"Os níveis abstratos do plano mental são constituídos por três níveis mais altos, dos
quais o primeiro é chamado de o terceiro subplano.
"Como expliquei antes, cada subplano tem a sua correspondência com os planos
maiores.
72
"Por isso, quando vocês tiverem construído nos seus três corpos - físico, emotivo e
mental - matéria do terceiro subplano de cada um daqueles planos, então, o Si Superior (ou
Alma) começará, conscientemente e sempre com maior estabilidade, a funcionar, através
da personalidade alinhada...
"As vibrações dos níveis abstratos podem começar a ser percebidas".
O que isso quer dizer?
Quer dizer que se nós não elevarmos as vibrações dos nossos três corpos aos três
subplanos mais altos de cada um deles, não poderemos formar uma vibração recíproca, um
contato com a Alma, que vibra nos três subplanos mais altos do corpo mental.
Essa elevação das vibrações advém, com o tempo, do alinhamento dos três corpos da
personalidade (quando é bem-sucedido) e pode ocorrer de forma mais estável por efeito da
purificação e da autoformação realizada consciente e voluntariamente pelo sério aspirante
espiritual.
Eis por que em todos os livros espirituais está dito que junto com a prática da
meditação deve ser feita uma obra de autoformação. De resto, o trabalho de meditação, se
feito seriamente, tem como consequência natural o desejo de melhorar a si próprio e de
elevar-se; de fato, a penetração da energia da Alma na personalidade, mesmo que inicial e
lenta, age como um fermento, como um impulso interior para o crescimento subindo em
direção à Luz.
Voltando ao alinhamento com a Alma, é de grande ajuda, quando nos propomos a
tentá-lo, pensar que não estamos fazendo algo difícil e absurdo, mas, que, antes, esse
comportamento é o correto, o "verdadeiro" e "real" comportamento de todo homem e
deveria ser o único objetivo da vida: procurar realizar a própria natureza divina e colaborar
com a onda evolutiva. Se refletirmos com profundidade sobre essas palavras, sentiremos o
quanto são verdadeiras, pois somente quando nos dirigirmos para a Luz, para a Alma, só
então estaremos em sintonia, e em harmonia com a corrente ascendente da evolução; pelo
contrário, se vivermos como autômatos sonolentos ou, pior, se seguirmos os impulsos
inferiores, estaremos bloqueando essa ascensão e, num certo sentido, estaremos andando
"contra a corrente".
Se pensamos nisso enquanto tentamos nos "alinhar" com a nossa Alma, sentimos que
temos, de nossa parte, uma forte ajuda e sentimos também que nada pode impedir, mais
cedo ou mais tarde, a realização, do contato com o verdadeiro Si.
Dissemos antes que, para fazer o alinhamento com a Alma, devemos conseguir o
silêncio da mente concreta e depois dirigi-Ia para o alto, em atitude de espera e de
receptividade.
A esta altura, podem-se usar dois métodos:
a) Invocar a Alma para que faça afluir a sua Luz sobre nós;
b) Afirmar com força que somos Almas e não personalidades.
Ambos os métodos são bons e cada um de nós poderá escolher um ou outro, como
quisermos, segundo o próprio temperamento e tipo psicológico.
Darei dois exemplos, um do primeiro método, outro do segundo.
1 - Método invocativo: Coloque-se em atitude receptiva para com a Alma e pronuncie
a seguinte invocação:
"Ó, tu que és eu mesmo, centro de Luz, centro de Amor, centro de Vontade, faze
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descer sobre mim a tua energia vivificante e regeneradora, para iluminar a minha mente,
transformar as minhas emoções, purificar o meu corpo físico."
2 - Método afirmativo: Evoque o silêncio mental e, depois, voltando a mente para a
Alma, afirme com força:
"Eu não sou o meu corpo físico
Eu não sou o meu corpo astral
Eu não sou o meu corpo mental inferior.
Eu sou Alma, Centro de força, de poder, de querer.
Centro de Amor-Sabedoria, de amor-atração.
Centro de atividade inteligente. Centro de Consciência Divina.
Centro de Luz Espiritual."
Existem nos vários livros espirituais muitas invocações e afirmações adequadas e cada
um poderá escolher aquela que sentir mais consoante com o seu temperamento.
Importante é saber que estamos, de fato, construindo "uma ponte" entre a Alma e a
personalidade e estamos lentamente formando um canal de comunicação através do qual
as energias espirituais poderão fluir em liberdade, transformando os nossos veículos em
instrumentos de serviço para o Eu Espiritual. Além disso, podemos ter a certeza de que a
resposta por parte da Alma não falha jamais, mesmo que a nossa consciência ordinária não
a perceba logo de maneira clara e nítida.
Devemos sempre lembrar que todo o trabalho de penetração e de manifestação da
Alma se dá na personalidade "inconsciente" e que a maior parte das nossas maturações,
dos ajustamentos e das ampliações da nossa consciência se realiza sem que nos
apercebamos. Assim como existe uma esfera subconsciente, onde se desenvolvem os
conflitos, as elaborações e adaptações, referentes à vida instintiva e afetiva da
personalidade, existe também todo um mundo Supraconsciente, onde estão armazenados
os nossos melhores impulsos, as nossas aspirações, os nossos ideais inexprimidos, as nossas
qualidades superiores latentes e as nossas possibilidades de elevação... É justamente esse
Supraconsciente que nos liga ao mundo espiritual, pois pela sua natureza mais elevada,
pura e impessoal, ela pode receber e transmitir as vibrações mais sutis da Alma. Quando
fazemos o alinhamento, aos poucos alargamos nossa esfera de consciência limitada e
anexamos-lhe seções sempre mais amplas do Supraconsciente. Em outras palavras, afluem
em nós impulsos elevados, qualidades de altruísmo, generosidade, sacrifício, possibilidade
de sentimentos impessoais e universais, intuições de verdades amplas, energias patentes
de bem, que estavam latentes e ainda sem expressão no Supraconsciente.
Tudo isso forma, aos poucos, uma "segunda consciência" que aflora apenas nos
momentos de meditação, de silêncio e de emergência; mas essa consciência, mesmo que
intermitentes, torna-se real e verdadeira e é como uma força interior à qual podemos nos
dirigir todas as vezes que precisarmos.
Ela está lá, como um refúgio, como uma âncora de salvação, como uma sólida rocha, à
qual podemos recorrer nos momentos de necessidade, e não é uma coisa externa e
objetiva, mas uma coisa interior, uma coisa que nos pertence: ela é "nós mesmos".
Essa é a maravilhosa realidade que aos poucos descobrimos: o auxílio divino, a força
espiritual, que não precisamos buscar nos outros, ou no mundo externo, mas, dentro de
nós, no profundo da nossa Alma.
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Todos os místicos, os santos, os homens que procuraram a Luz com o coração puro,
descobriram essa verdade, e nós também podemos dizer, como Santo Agostinho:
"Senhor, andei vagando como uma ovelha perdida, procurando- Te fora de mim com
ansiosas elucubrações, enquanto estavas dentro de mim...
"Vaguei por estradas e praças da cidade deste mundo, procurando-Te e não Te
encontrei, porque em vão procurava fora Aquele que estava dentro de mim."

ESQUEMA DE MEDITAÇÃO
I - Alinhamento Inferior

a) Relaxamento físico:
Sente-se em posição cômoda, com a espinha dorsal ereta, mas não rígida; os pés
acavalados; as mãos abandonadas sobre os joelhos; a cabeça levemente inclinada sobre o
peito.
Estabeleça um ritmo de respiração calmo e regular, isso o ajudará a obter o
relaxamento e a harmonização das correntes vitais.
Procure relaxar-se completamente. Examine cada músculo, cada junta, começando
dos pés e subindo às pernas, ao tronco, ao pescoço e à cabeça.
Diga de modo inaudível: Cada músculo está relaxado, cada junta está solta. Não há
nenhuma tensão em mim, mas um completo relaxamento. Não há cansaço, mas um senso
de calma, de bem-estar e de harmonia.
b) Aquietação emotiva:
Passaremos agora ao mundo das emoções. Procuremos, aos poucos, aquietar todas as
nossas emoções; elas se acalmam, se dissolvem. Não há mais nenhuma preocupação em
nós, nenhuma tristeza. Uma grande quietude se faz, uma paz profunda, um benéfico senso
de serenidade.
O nosso corpo emotivo está perfeitamente tranquilo, como um lago de montanha
terso e cristalino. Nem mesmo uma leve encrespadura altera a sua superfície límpida, que
reflete os picos dos montes.
Paz, Serenidade, Calma.
c) Silêncio mental:
Voltemos agora a nossa atenção para a mente.
Com um ato decisivo de vontade, nos apossamos dela e a sentimos viva e desperta,
depósito infinito de energias, sob o nosso comando.
Somos os senhores dessas energias, somos os senhores dos nossos pensamentos e
podemos fazê-los calar quando quisermos, colocando-os à parte. Eles não nos interessam
mais, permanecem fora da nossa atenção, à margem da nossa consciência. No centro, há
somente uma grande força silenciosa e vigilante.
Um profundo silêncio pleno de expectativa permeia a nossa mente.
Os nossos três corpos estão alinhados. São concêntricos e uníssonos; vibram
harmoniosamente. Somos como copos vazios e virados para cima, à espera de ser enchidos

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por uma energia Superior.

II - Alinhamento Superior

Voltemos toda a nossa aspiração fervente para a fonte dessa energia, o nosso Si
Superior, a nossa Alma, e peçamos com intensidade e força: "O, tu que és eu mesmo,
centro de Luz, centro de amor, centro de vontade, faze descer sobre mim a tua energia
vivificante e regeneradora, para iluminar a minha mente, transformar minhas emoções,
purificar o meu corpo físico."
Imaginemos que essa luz, esse amor, essa potência, descem sobre nós, nos inundam.

III - Passagem ao Pensamento-Semente


Voltemos agora a nos focalizar na mente: sintamo-la outra vez viva e dinâmica, pronta
aos nossos comandos. Dirijamos toda a nossa força pensante para o pensamento-semente
(seguem 5 minutos de concentração).

IV -Invocação Final

Do ponto de Luz dentro da Mente de Deus,


Aflua luz nas mentes dos homens.
Desça luz sobre a terra.
Do centro onde o Querer de Deus é conhecido,
Aflua Amor nos corações dos homens.
Possa Cristo tornar à terra.
Do centro onde o Valor de Deus é conhecido,
Um propósito guie os pequenos desejos dos homens,
O propósito que os Mestres conhecem e servem.
Do centro que é chamado de gênero humano,
desenvolva-se o Plano de Amor e da Luz,
E possa barrar a porta atrás da qual reside o mal.
Que a Luz, o Amor e o Poder restabeleçam o Plano sobre a terra.

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