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Tanatologia

Camila Cordeiro
Conceitos Iniciais
•Morte
• Com o decorrer do tempo na cultura ocidental, o fenômeno morte
vem assumindo cada vez mais uma conotação de algo “não natural”,
encarado pela sociedade com certo preconceito, como algo
impronunciável ou no qual não se fizesse necessário pensar.
• Assim, para as equipes de assistência, a morte acaba por assumir
um caráter de fracasso, como se fosse responsabilidade de alguém
da equipe impedi-la. A morte acarreta rompimento de vínculos,
perda de papéis e um luto de duração variável, do qual falaremos
em detalhes mais adiante.

KOLINSKI, 2007
Conceitos Iniciais
• Perdas
• São fenômenos que ocorrem inúmeras vezes ao longo da vida de cada indivíduo,
não necessariamente ligados à morte. Costumam despertar sensações de angústia,
medo e solidão, análogas à morte, e contém em seu bojo sofrimento, dor e tristeza.
Mesmo as perdas de pequeno porte costumam precisar de um tempo para serem
elaboradas. Como exemplos, podemos citar as perdas por separação, perdas de
emprego, perdas advindas das diversas fases do desenvolvimento e as mudanças (de
residência, de cidade, de escola etc.).
• As escolhas, visto que quando se opta por alguma coisa abre-se mão de outra,
também representam perdas em si mesmas. A maneira como reagimos às perdas é
influenciada por vários fatores, como a faixa etária, o desenvolvimento cognitivo e
emocional, as circunstâncias da perda, a dinâmica familiar (a forma com que o
paciente está inserido no contexto familiar e os papéis exercidos pelos membros da
família), a cultura e os fatores sociais. Também tem papel importante o tipo de
relação prévia do indivíduo com o próprio corpo.
KOLINSKI, 2007
Conceitos Iniciais
• Luto
• O estudo do luto passa pelo aprofundamento do conceito de subjetividade, já que as
representações da vida e da morte para o indivíduo têm a ver com a particularidade de suas
vivências. Denomina-se luto a reação a uma perda e representa uma reação natural a esta, seja ela
real ou simbólica. Para que haja o processo de elaboração de uma perda, é imprescindível o
aparecimento do luto.
• O luto é tanto um processo de abandono de esquemas conhecidos quanto de aprendizagem de
novos esquemas. Ele se compõe por fases não-lineares que podem ser aqui enumeradas: uma
reação de choque ou torpor; a negação (aqui definida como a defesa a uma informação que não é
possível absorver imediatamente); a raiva; a barganha (momento em que há uma tentativa de
negociação); a depressão (tristeza pela perda, pesar), e a aceitação que vai levar o indivíduo a
organizar a vida com a nova realidade.
• Quando o luto termina de forma natural após algum tempo, dizemos que ali houve um luto bem
elaborado. Quando, pelo contrário, tem uma duração longa, acompanhado de um estado
depressivo, doenças, contínuo desconforto e aumento na dificuldade para lidar com perdas
subsequentes, dizemos que há um luto de difícil elaboração. Enquanto que no primeiro tipo nem
sempre é necessária a intervenção de um profissional, no segundo tipo considera-se imprescindível,
visto que este tende a se tornar um obstáculo para o desenvolvimento pessoal. Perdas posteriores a
um luto, cuja elaboração tenha sido difícil, frequentemente não encontram espaço para serem
elaboradas, fragilizando ainda mais o estado emocional do indivíduo.
KOLINSKI, 2007
Conceitos Iniciais
• Luto
• Os conceitos aqui levantados têm como pressuposto básico que cada situação
de perda compõe-se de alguém ou algo que foi perdido e alguém que lamenta
essa perda, vivenciando, por isso, um processo de luto.
• Dizemos que o luto está finalizado ou elaborado quando a presença do objeto
perdido é internalizada, havendo paz e espaço disponível para outras relações.
• Torna-se importante para o trabalho de luto o exercício de reflexão e avaliação
das experiências de perdas e ganhos ao longo da vida. É importante trazer à
consciência o sentido e o valor daquilo que se perdeu, os sentimentos e as
sensações, além de explorar e desvendar o que foi tomado como próprio na
relação estabelecida com objeto perdido.

KOLINSKI, 2007
O que é que normalmente se sente, pensa
e faz perante a perda de um ente querido?
• Tristeza O sentimento mais comumente encontrado no enlutado, muitas vezes
manifestando-se através do choro;
• Raiva Um dos sentimentos mais confusos para o sobrevivente, estando na raiz de muitos
problemas no processo de sofrimento após a perda; a raiva advém de duas fontes: da
sensação de frustração por não haver nada que se pudesse fazer para prevenir a morte e
de um tipo de experiência regressiva que ocorre após a perda de alguém próximo
(semelhante ao que acontece quando uma criança se perde da mãe e no reencontro
pontapeia-a e mostra-se zangada em vez de se mostrar feliz e ter uma reação de amor por
a ver, devido à ansiedade e pânico sentidos pela criança antes da mãe a encontrar) em que
a pessoa se sente indefesa, incapaz de existir sem o outro e experimenta a raiva que
acompanha estes sentimentos de ansiedade; formas ineficazes de lidar com a raiva são
deslocá-la ou direcioná-la erradamente para outras pessoas, culpabilizando-as pela morte
do ente querido ou virá-la contra o próprio, podendo, no extremo, desenvolver
comportamentos suicidas;
• Culpa e autocensura Normalmente, e principalmente no início do processo de luto, há
um sentimento de culpa por não se ter sido suficientemente bondoso, por não ter levado a
pessoa mais cedo para o hospital, etc.; na maior parte das vezes, a culpa é irracional e irá
desaparecer através do teste com a realidade;
O que é que normalmente se sente, pensa
e faz perante a perda de um ente querido?
• Ansiedade Pode variar de uma ligeira sensação de insegurança até um forte
ataque de pânico e quanto mais intensa e persistente for a ansiedade, mais
sugere uma reação de sofrimento patológica; surge de duas fontes: do
sobrevivente temer ser incapaz de tomar conta dele próprio sozinho e de uma
sensação aumentada da consciência da mortalidade do próprio;
• Solidão Sentimento frequentemente expressado pelos sobreviventes,
particularmente aqueles que perderam os seus cônjuges e que estavam
habituados a uma relação próxima no dia a dia;
• Fadiga Pode, por vezes, ser experimentado como apatia ou indiferença; um
elevado nível de fadiga pode ser surpreendente e angustiante para uma
pessoa que é normalmente muito ativa;
• Desamparo Está frequentemente presente na fase inicial da perda;
O que é que normalmente se sente, pensa
e faz perante a perda de um ente querido?
• Choque Ocorre mais frequentemente no caso de morte inesperada, mas também pode
existir em casos cuja morte era previsível;
• Anseio Ansiar pela pessoa perdida, desejá-la fortemente de volta é uma resposta normal à
perda; quando diminui, pode ser um sinal de que o sofrimento está a chegar ao fim;
• Emancipação A libertação pode ser um sentimento positivo após a perda; por exemplo, no
caso de uma jovem que perde o seu pai que era um verdadeiro tirano e a oprimia por
completo;
• Alívio É comum principalmente se a pessoa querida sofria de doença prolongada ou
dolorosa; contudo, um sentimento de culpa acompanha normalmente esta sensação de
alívio;
• Torpor Algumas pessoas relatam uma ausência de sentimentos; após a perda, sentem-se
entorpecidas; é habitual que ocorra no início do processo de sofrimento, logo após tomar
conhecimento da morte; pode ser uma reação saudável bloquear inicialmente as sensações
como uma espécie de defesa contra o que de outra forma seria uma dor esmagadora e
insuportável.
Sensações físicas normalmente
sentidas após a perda:
• Vazio no estômago
• Aperto no peito
• Nó na garganta
• Hipersensibilidade ao barulho
• Sensação de despersonalização (nada parecer real, incluindo o próprio)
• Falta de fôlego,
• Sensação de falta de ar
• Fraqueza muscular
• Falta de energia
• Boca seca
Cognições ou pensamentos habituais após
a perda:
• Descrença (não acreditar na morte assim que se ouve a notícia)
• Confusão (pensamento confuso, não conseguindo ordenar os pensamentos;
• Dificuldade de concentração ou esquecimento de coisas)
• Preocupação (obsessão com pensamentos acerca do falecido)
• Sensação de presença (contraparte cognitiva do sentimento de anseio)
• Alucinações (visuais e auditivas; são uma experiência frequente nos
enlutados; são normalmente experiências ilusórias passageiras, que ocorrem
habitualmente após poucas semanas da perda e normalmente não provocam
uma experiência de sofrimento mais complicada ou difícil)
Comportamentos usualmente
manifestados após a perda:
• Alterações do sono (insônias)
• Alterações do apetite (normalmente há uma redução, mas também pode
haver um aumento do apetite)
• comportamentos de distração ("andar aéreo")
• isolamento social
• sonhos com a pessoa falecida
• evitar lembranças da pessoa falecida procurar e chamar pelo ente perdido
• suspirar
• hiperatividade, agitação
• chorar
• visitar locais ou transportar consigo objetos que lembrem a pessoa perdida
guardar objetos que pertenciam à pessoa falecida
A História da Morte
• Possuímos uma herança cultural sobre a morte que
define nossa visão de morte nos dias atuais.
Segundo Kastenbaum e Aisenberg (1983), as
interpretações atuais sobre a morte constituem
parte da herança que as gerações anteriores, as
antigas culturas nos legaram.
• Na pré-história, os mortos dos povos musterenses
eram cobertos por pedras, principalmente sobre o
rosto e a cabeça, tanto para proteger o cadáver dos
animais quanto para evitar que retornassem ao
mundo dos vivos. Mais tarde, eram depositados
alimentos e as armas do morto sobre a sepultura
de pedras e o esqueleto era pintado com uma
substância vermelha.
A História da Morte
• Egípcios da Antiguidade, em sua sociedade bastante desenvolvida do ponto de vista
intelectual e tecnológico, consideravam a morte como uma ocorrência dentro da esfera de
ação. Eles possuíam um sistema que tinha como objetivo ensinar cada indivíduo a pensar,
sentir e agir em relação à morte.
• Malaios, por viverem em um sistema comunitário intenso, apreciavam a morte de um
componente como uma perda do próprio grupo. Desta feita, um trabalho de lamentação
coletiva diante da morte era necessário aos sobreviventes. Ademais, a morte era tida não
como um evento súbito, mas sim como um processo a ser vivido por toda a comunidade.
• Livro da Sabedoria (a versão latina da Bíblia) → após a morte, o justo irá para o Paraíso.
• As versões nórdicas do Livro da Sabedoria rejeitaram a ideia de Paraíso descritas no livro
original, pois, segundo os tradutores, os nórdicos não esperam as mesmas delícias que os
orientais, após a morte.
• Isso porque os orientais descrevem que o Paraíso tem “a frescura da sombra”, enquanto os
nórdicos preferem “o calor do sol”.
• O ser humano deseja, ao menos após a morte, obter o conforto que não conseguiu em
vida.
A História da Morte
• Já o budismo, por meio da sua mitologia, busca afirmar a inevitabilidade da morte. -
“Parábola do Grão de Mostarda”
• Na mitologia hindu, a morte é encarada como uma válvula de escape para o
controle demográfico. Quando a “Mãe Terra” se torna sobrecarregada de pessoas
vivas, ela apela ao deus Brahma, que envia então a “mulher de vermelho” .
• Os mortos destes povos eram enterrados em covas familiares, onde os que
morreram há mais tempo recebiam os “recém-mortos”. Assim, as famílias eram
constituídas tanto pelos vivos quanto pelos mortos. (Fino-úgricos - Xamanismo).
• Esses exemplos nos trazem uma ideia de continuidade em relação à morte, não
sendo considerada como um fim em si. Havia uma certa tentativa de controle
mágico sobre a morte, o que facilitava sua integração psicológica, não havendo,
portanto, uma cisão abrupta entre vida e morte. Isso, sem dúvida, aproximava o
homem da morte com menos terror.
A História da Morte

• Os antigos de Constantinopla mantinham


os cemitérios afastados das cidades e das
vilas. Os cultos e honrarias que prestavam
aos mortos tinham como objetivo mantê-
los afastados, de modo a que não
“voltassem” para perturbar os vivos.

• Por outro lado, na Idade Média, os


cemitérios cristãos se localizavam no
interior e ao redor das igrejas, e a palavra
cemitério significava também “lugar onde
se deixa enterrar”.
A História da Morte
• A morte se personifica como forma de o homem tentar entender com quem
está lidando, e séries de imagens artísticas se consagram como verdadeiros
símbolos da morte, atravessando o tempo até os dias de hoje (Guerra, peste).
• O homem tem se tornado cada vez mais individualista, preocupando-se
menos com os problemas da comunidade. Essas mudanças têm seu impacto
na maneira com a qual o homem lida com a morte nos dias atuais.
“Diminuindo a cada dia sua capacidade de defesa física, atuam de várias
maneiras suas defesas psicológicas” (KÜBLER-ROSS, 1997).
• A possibilidade de escolha deu lugar a uma crescente perda da dignidade ao
morrer, como nos afirma Kübler-Ross (1997): “[...] já vão longe os dias em que
era permitido a um homem morrer em paz e dignamente em seu próprio lar.”
A História da Morte
• Para Mannoni, nos dias atuais, 70% dos pacientes morrem nos hospitais
enquanto no século passado 90% morriam em casa, perto de seus familiares.
Isto ocorre porque nas sociedades ocidentais o moribundo é, geralmente,
afastado de seu círculo familiar.
• A morte natural deu lugar à morte monitorada e às tentativas de reanimação.
Muitas vezes, o paciente nem é consultado quanto ao que deseja que se tente
para aliviá-lo. A medicalização da morte e os cuidados paliativos, não raro,
servem apenas para prolongar o sofrimento do paciente e de sua família.
• Cuidados Paliativos versus Prolongamento da vida.
• Morrer lentamente versus Morte instantânea.
• O tempo da doença justamente ajuda a assimilar a ideia de morte
Sobre os mistérios da morte e o amparo àqueles que dela se
aproximam

• Décadas mais recentes → A negação de nossa finitude, expressão do grande


tabu do século XX.
• Num passado recente, morria-se em casa, junto à família. O processo do
morrer era acompanhado com compaixão pelos entes queridos. Atualmente,
o hospital é o lugar onde nascemos e morremos (UTIs).
• Possivelmente, os valores da sociedade de consumo em que vivemos alimente
ideias de uma certa onipotência e ausência de limites, valores incompatíveis
com a natureza efêmera da vida material e com a sábia postura de humildade
frente ao transcendente.
• A missão do médico não é a de salvar vidas, mas a de minorar o sofrimento
humano.
Por que falar da morte?
• Histórias antigas – Múmias , histórias populares
• Outra coisa que sabemos é que a morte é, em todo mundo, uma ocasião
triste, mesmo quando a pessoa que morre já é velha ou está doente. Depois
dos primeiros momentos, em alguns casos, talvez a família respire aliviada por
não estar mais testemunhando o sofrimento do doente, ou a demência da
pessoa idosa, mas logo vem a consciência de que esta pessoa jamais vai ser
vista outra vez. Sua voz nunca mais vai ser ouvida.

• “A pessoa morta não vai mais vir para jantar. Não vai mais telefonar. Não vai
mais poder convidar para um cafezinho, ou dar uma bronca, ou contar uma
piada, ou simplesmente estar no mundo com a gente. A pessoa que morreu
não vai mais mudar. Não vai mais envelhecer. A pessoa que morreu vai seguir
por um caminho que nós não conhecemos.”
Pan de muerto
Por que falar da morte?
• De fato, tanto pelos excessos de demonstração de poder quanto pela
simplicidade das tumbas, os cemitérios podem ser tomados como uma
manifestação histórica, cultural, artística, religiosa e até política. Parece ser
um fato mundial que, embora a morte possa significar a cessação da presença
física da pessoa morta, não significa que a sua contribuição para a sua família,
grupo social, partido político ou país, cesse com a sua morte física.
A morte e a Medicina
• A missão tradicional do médico é aliviar o sofrimento humano; se puder curar,
cura; se não puder curar, alivia; se não puder aliviar, consola.
• Ao pensar na morte, seja a simples ideia da própria morte, ou a expectativa
mais do que certa de morrer um dia, seja a ideia estimulada pela morte de um
ente querido ou mesmo de alguém desconhecido, o ser humano maduro
normalmente é tomado por sentimentos e reflexões. As pessoas que se
regozijam em dizer que não pensam na morte, normalmente têm uma relação
mais sofrível ainda com esse assunto, tão sofrível que nem se permitem
pensar a respeito.
• Sentimento-Pensamentos → Podem ser sentimentos confusos e dolorosos,
serenos e plácidos, raivosos e rancorosos, racionais e lógicos, e assim por
diante. Enfim, são sentimentos das mais variadas tonalidades.
TANATOLOGIA
 Maior desenvolvimento da tanatologia após as
guerras mundiais (Hermann Feifel, 1959 – The
meaning of dead).

 Kübler-Ross e Sauders (déc 60) – trabalho com


pacientes sem possibilidades terapêuticas.

(KOVÁCS, 2008)
TANATOLOGIA
 Dificuldades na pesquisa:
 Quantificação dos dados (déc 80)

 Redução da profundidade da discussão


 Morte como tabu
 = mecanismo de defesa dos pesquisadores

(KOVÁCS, 2008)
TANATOLOGIA
 Wilma Torres foi a primeira psicóloga brasileira
que se dedicou à sistematização da área no Brasil
(RJ)
 1980 – Livro Psicologia e morte.

 Maria Júlia Kovács (USP)


 Desde 1987 estudando a morte e o morrer.
A pesquisa sobre a morte e suas
dificuldades
 Kübler-Ross
 “A estranha”
 “assunto doentio”
 “exploração e violência para com os pacientes”

 “O profissional de saúde mental deve ser suficientemente


criativo para encontrar táticas que permitam enfrentar
situações aparentemente inabordáveis com colegas,
pacientes e familiares” (CASSORLA In BOTEGA, p. 418, 2002).
Os estágios de Kübler-Ross
 Existência de padrões de fantasias,
comportamentos, ansiedades e defesas utilizados
pelo paciente ante a ameaça de morte.

 Agrupou em cinco estágios pelos quais os


pacientes passam desde que se afirma o mau
prognóstico.
Negação
 Costuma ser o primeiro mecanismo utilizado;

 Recusar o contato com o fato


 = não promover sofrimento e turbulência emocional;

 Pode impedir uma desestruturação mental


 = o mundo interno ganha tempo

 Negações mais intensas nos pacientes que utilizam


predominantemente mecanismos de cisão e identificação
projetiva (posição esquizoparanóide).
O que é que normalmente se sente, pensa
e faz perante a perda de um ente querido?

• Tristeza O sentimento mais comumente encontrado no enlutado, muitas vezes


manifestando-se através do choro;
• Raiva Um dos sentimentos mais confusos para o sobrevivente, estando na raiz de muitos
problemas no processo de sofrimento após a perda; a raiva advém de duas fontes: da
sensação de frustração por não haver nada que se pudesse fazer para prevenir a morte e de
um tipo de experiência regressiva que ocorre após a perda de alguém próximo (semelhante
ao que acontece quando uma criança se perde da mãe e no reencontro pontapeia-a e
mostra-se zangada em vez de se mostrar feliz e ter uma reação de amor por a ver, devido à
ansiedade e pânico sentidos pela criança antes da mãe a encontrar) em que a pessoa se
sente indefesa, incapaz de existir sem o outro e experimenta a raiva que acompanha estes
sentimentos de ansiedade; formas ineficazes de lidar com a raiva são deslocá-la ou
direcioná-la erradamente para outras pessoas, culpabilizando-as pela morte do ente querido
ou virá-la contra o próprio, podendo, no extremo, desenvolver comportamentos suicidas;
• Culpa e autocensura Normalmente, e principalmente no início do processo de luto, há um
sentimento de culpa por não se ter sido suficientemente bondoso, por não ter levado a
pessoa mais cedo para o hospital, etc.; na maior parte das vezes, a culpa é irracional e irá
desaparecer através do teste com a realidade;
O que é que normalmente se sente, pensa
e faz perante a perda de um ente querido?
• Ansiedade Pode variar de uma ligeira sensação de insegurança até um
forte ataque de pânico e quanto mais intensa e persistente for a
ansiedade, mais sugere uma reação de sofrimento patológica; surge de
duas fontes: do sobrevivente temer ser incapaz de tomar conta dele
próprio sozinho e de uma sensação aumentada da consciência da
mortalidade do próprio;
• Solidão Sentimento frequentemente expressado pelos sobreviventes,
particularmente aqueles que perderam os seus cônjuges e que estavam
habituados a uma relação próxima no dia a dia;
• Fadiga Pode, por vezes, ser experimentado como apatia ou indiferença;
um elevado nível de fadiga pode ser surpreendente e angustiante para
uma pessoa que é normalmente muito ativa;
• Desamparo Está frequentemente presente na fase inicial da perda;
O que é que normalmente se sente, pensa
e faz perante a perda de um ente querido?
• Choque Ocorre mais frequentemente no caso de morte inesperada, mas também
pode existir em casos cuja morte era previsível;
• Anseio Ansiar pela pessoa perdida, desejá-la fortemente de volta é uma resposta
normal à perda; quando diminui, pode ser um sinal de que o sofrimento está a
chegar ao fim;
• Emancipação A libertação pode ser um sentimento positivo após a perda; por
exemplo, no caso de uma jovem que perde o seu pai que era um verdadeiro tirano
e a oprimia por completo;
• Alívio É comum principalmente se a pessoa querida sofria de doença prolongada
ou dolorosa; contudo, um sentimento de culpa acompanha normalmente esta
sensação de alívio;
• Torpor Algumas pessoas relatam uma ausência de sentimentos; após a perda,
sentem-se entorpecidas; é habitual que ocorra no início do processo de
sofrimento, logo após tomar conhecimento da morte; pode ser uma reação
saudável bloquear inicialmente as sensações como uma espécie de defesa contra
o que de outra forma seria uma dor esmagadora e insuportável.
Sensações físicas normalmente
sentidas após a perda:
• vazio no estômago
• aperto no peito
• nó na garganta
• hipersensibilidade ao barulho
• sensação de despersonalização (nada parecer real, incluindo o
próprio)
• falta de fôlego,
• sensação de falta de ar
• fraqueza muscular
• falta de energia
• boca seca
Cognições ou pensamentos habituais após
a perda:
• descrença (não acreditar na morte assim que se ouve a notícia)
• confusão (pensamento confuso, não conseguindo ordenar os
pensamentos;
• dificuldade de concentração ou esquecimento de coisas)
• preocupação (obsessão com pensamentos acerca do falecido)
• sensação de presença (contraparte cognitiva do sentimento de anseio)
• alucinações (visuais e auditivas; são uma experiência frequente nos
enlutados; são normalmente experiências ilusórias passageiras, que
ocorrem habitualmente após poucas semanas da perda e normalmente
não provocam uma experiência de sofrimento mais complicada ou
difícil)
Comportamentos usualmente
manifestados após a perda:
• Alterações do sono (insônias)
• Alterações do apetite (normalmente há uma redução, mas também pode
haver um aumento do apetite)
• comportamentos de distração ("andar aéreo")
• isolamento social
• sonhos com a pessoa falecida
• evitar lembranças da pessoa falecida procurar e chamar pelo ente perdido
• suspirar
• hiperatividade, agitação
• chorar
• visitar locais ou transportar consigo objetos que lembrem a pessoa perdida
guardar objetos que pertenciam à pessoa falecida
Quais as 4 tarefas essenciais do processo
de luto

• 1. aceitar a realidade da perda (- fatos da perda; -


significado da perda; - irreversibilidade da perda.)
• 2. trabalhar a dor advinda da perda
• 3. ajustar a um ambiente em que o falecido está
ausente
• 4. transferir emocionalmente o falecido e prosseguir
com a vida
Raiva
 Quando o paciente não pode mais negar, ou se o impacto
sentido foi tão grande que a negação se tornou impossível,
ele se sente tomado pelo ódio, pode apresentar condutas
violentas, mostra-se agressivo e opositor. Pode recusar-se
a efetuar procedimentos médicos.
 = dificuldades para a família e para a equipe.

 Questões básicas: “por que eu?”, “por que agora?”

 Necessidade de encontrar responsáveis


 = brigas consigo, com Deus.
Negociação
 O paciente tenta efetuar barganhas que lhe possibilitem
manter uma visão não totalmente realística dos fatos,
apesar de já terem começado a aceitar a realidade.

 Neste estágio mesclam-se vários mecanismos, como


projeção, idealização, negação maníaca, revisão e
tentativas de anulação de culpas, tendências à reparação,
etc.

 Somente é possível em pessoas que já estão alcançando


algum contato razoável com a realidade.
Depressão
 Nesse estágio a pessoa está elaborando lutos.

 O paciente apresenta-se retraído, triste, sofrendo


intensamente e evita contato com pessoas que não
respeitem seu momento. Mas necessita muito de
companhia, de alguém sensível que o acompanhe
nesse estágio, mas sem invadi-lo ou pertubá-lo.
Aceitação
 Chegam a esse estágio pacientes que superaram os
anteriores.

 A chance disso ocorrer é maior se tiverem ajuda durante


todo o processo.

 Pode manifestar-se uma grande paz e tranquilidade. O


paciente parece desligado, dorme bastante, como que
repousando de um sofrido processo.

 Será o apoio emocional que lhes permitirá chegar a esse


estágio, caso não tenham recursos próprios.
A percepção da morte nas
crianças
 Grande capacidade de observação;

 Pode expressar em palavras, mas pode não ser


compreendida;
 O adulto mente acreditando defender a criança do
sofrimento;
 Acha que a criança não vai entender;
 Confunde a sua dor com a explicação da situação.

 Sua angústia pode ser expressada por sintomas ou


dificuldades de conduta.
 A morte da criança desperta no adulto a ansiedade de
alguém que morre sem ter-se realizado;

 A morte dos pais ou de um irmão é uma grande dor para


uma criança e falar nela não é aumentar o sofrimento

A verdade alivia o sofrimento e ajuda a elaborar a perda

 O mais importante é esclarecer que aquela pessoa não


vai mais voltar, que não poderá vê-la de novo.
 Uso de fantasias e representações (céu, estrelas, anjos...)
ajudam depois, mas antes ela precisa estar consciente de
que a morte não tem volta.
 O ocultamento da morte dificulta o trabalho do luto,
transtorna seu desenvolvimento e perturba o vínculo da
criança com o mundo adulto.
 E o terapeuta, como fica?
 A primeira reação à perda de um ente amado é a
negação, porém ocultando, o adulto ajuda essa negação
e dificulta a passagem pelas outras fases de elaboração
do luto.

 Querer morrer é uma reação comum = seguir o destino


do objeto
 Microssuicídios: se colocar em perigo, parar de comer,
distúrbios do sono.
Luto
 Parkes (1987)

 Perdas afetam estruturas de significado na vida –


profunda transição existencial.

 Efeitos do processo de luto no sistema imunológico –


sintomas do luto ≠ patologias.

 Diferenças nas respostas do luto (gênero, parentesco e


quanto ao tipo de morte).
Luto
 Rando (1992)

 Processos importantes para a elaboração do luto:

a. Reconhecer o luto;
b. Reagir à separação;
c. Recolher e re-vivenciar as experiências com a pessoas
perdida;
d. Abandonar ou se desligar de relações antigas;
e. Reajustar-se a uma nova situação;
f. Reinvestir energia em novas relações.
Luto complicado
 Kastenbaum (1969)

 número de idosos
 Muitos apresentam fatores de risco para o luto
complicado (problemas financeiros, isolamento,
doenças graves)
 Somados à perda de um filho, por exemplo.

SOBRECARGA DE LUTOS
Luto complicado
 Rando (1992)

 É necessária cuidadosa avaliação. É fundamental:

1. Identificar fatores de risco;


2. Delinear tendências sócio-culturais e que possam exarcebá-las;
3. Observar o que é necessário ser trabalhado para se evitar um
luto complicado.

 Ficar atento a processos de negação e repressão ligadas à perda


e à dor.
Luto não autorizado
 Aborto
 Adultério
 AIDS

 Adolescentes costumam não ter seu luto


reconhecido.
 Se isolam ou se retraem dando a ideia
equivocada de que não estão envolvidos com a
situação.
EMENTA
Aborda concepções teóricas de tanatologia: aspectos históricos, filosóficos,
culturais e espirituais da morte e do processo de morrer. Enfoca aspectos
éticos e legais de situações de morte clínica, eutanásia, ortotanásia, distanásia
e a atuação da psicologia e de outros profissionais de saúde junto ao paciente
e seus familiares no processo de morrer e de morte.
OBJETIVOS
A disciplina pretende habilitar o/a aluno/a para analisar a morte e o processo
de morrer como fenômeno inerente ao ciclo vital, considerando-a em suas
diferentes dimensões: social, contexto histórico, cultural psicossocial,
espiritual, ético da sociedade pós-moderna e no âmbito dos profissionais de
saúde.
CONTEÚDOS
MÓDULO I: INTRODUÇÃO À TANATOLOGIA

1. Reconhecimento enquanto ciência;


2. Fatos históricos do nascimento e atribuições da tanatologia no Brasil e no mundo;
MÓDULO II: TANATOLOGIA x PSICOLOGIA

1. Atitudes diante da morte e morrer;


2. A criança, o adolescente, o adulto e o idoso diante da morte e do morrer;

3. Morte, separação, perdas e o processo de luto;


4. Luto normal, luto antecipatório, lutos não reconhecidos e luto complicado.
MÓDULO III: MORTE E CUIDADADOS PALIATIVOS: TEMAS DIVERSOS

1. A formação dos profissionais de saúde para as questões de morrer e de morte.


2. Aspectos éticos e legais relacionados à morte: as competências de cada profissional.
3. Epiritualidade e morte;

4. Suicídio e morte.
METODOLOGIA
Aulas expositivas dialogadas, estudos de textos e elaboração de síntese, debates, exibição de vídeos/documentários ilustrativos sobre a
temática da disciplina, pesquisas bibliográficas.
Sobre a disciplina- Tanatologia
Aula Data Conteúdo ministrado Hora/aula

1ª 06/08 Apresentação da disciplina e conteúdo programático 03


2ª 13/08 Conceitos introdutórios em Tanatologia 06
3ª 20/08 Finitude e Bioética do fim da vida 09
4ª 27/08 Fatos históricos do nascimento e atribuições da 12
tanatologia no Brasil e no mundo
5ª 03/09 Estudo de Caso- Apresentação de palestrante 15
6ª 10/09 Atitudes e estágios diante da morte e morrer 18
7ª 17/09 Revisão 21
8ª 24/09 1º Exercício 24
01/10 Devolução do 1 Exercício - Aula de resolução
comentada na devolução do 1° exercício
(oportunidade única para revisão da nota do 1°
exercício).
9ª 08/10 Morte, separação, perdas e o processo de luto 27
10ª 15/10 Luto normal, luto antecipatório, lutos não reconhecidos e 30
luto complicado Parte- 1
Sobre a disciplina- Tanatologia
11ª 22/10 Luto normal, luto antecipatório, lutos não reconhecidos e luto 33
complicado Parte- 2
12ª 29/10 Ajuste de conteudo 36
13ª 05/10 Apresentação de Palestrante 39
14ª 12/10 Seminários – Parte 1 42
15ª 19/11 Seminários – Parte 2 45
16ª 26/11 Revisão 48
17ª 03/12 2º Exercício 51
18ª 10/12 Devolução do 2 Exercício - Aula de resolução comentada na 54
devolução do 2° exercício (oportunidade única para revisão da
nota do 2° exercício).
19ª 17/12 2ª Chamada 57
20ª 10/12 Final 30
Avaliações

Primeiro Exercício Segundo Exercício

• Avaliação valerá de 0 a • Avaliação valerá de 0 a


10 pontos 10 pontos
• Todo o conteudo ministrado • Todo o conteudo ministrado

Segunda Chamada Avaliação Final

• Avaliação valerá de 0 a • Avaliação valerá de 0 a 10


10 pontos pontos
• Todo o conteudo ministrado • Todo o conteudo ministrado
Para a Próxima aula....
BIBLIOGRAFIA
Bibliografia Básica
ARANTES,Ana Cláudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.

ARIÈS, Phillipe. História da morte no ocidente. Rio de janeiro: Ediouro, 2003.

CARSSOLA, Roosevelt Moises Smeke (org). Do suicídio: Estudos Brasileiros. Campinas, SP: Papirus, 1991.

KOVÁCS, Maria Júlia. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo,2010.

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. 9.ed. São Paulo: Martins Fontes,2008.

SANTOS, Franklin Santana (org) Cuidados paliativos: discutindo a Vida, a Morte e o Morrer. São Paulo, Ateneu, 2009. 447 p.

Bibliografia Complementar
ARANTES,Ana Cláudia Quintana. Histórias lindas de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.

KOVÁCS, Maria Júlia (org). Morte e Existência Humana: caminhos de cuidados e possibilidades de intervenção. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2088.

LOUREIRO, Altair Macedo Lahud. A velhice, o tempo e a morte. Brasília, DF: Editora universidade de Brasília, 2000.

LUZ, Rodrigo; BASTOS, Daniela Freitas. Experiências contemporâneas sobre a morte e morrer: o legado de Elisabeth Kübler- Ross para os nossos dias. São
Paulo: Summus, 2019.

MANNIX, Kathryn. Precisamos falar sobre a morte. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.

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