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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

Instituto de Letras
Programa de Pós-Graduação Lato Sensu
Especialização em Língua Portuguesa

Disciplina: Teoria e Prática de Texto


Docente: Beatriz dos Santos Feres
Discente: Daniela Mello Mendonça
Tema: Os aspectos político-ideológicos da língua em uso

Língua em uso e poder

A linguagem é a capacidade humana indispensável à comunicação e, portanto, à interação

social. É através da linguagem que o ser humano se integra ao mundo e dá significado a estas

interações. Segundo o Dicionário de Linguística (DUBOIS, 2014), a linguagem “é a capacidade

específica à espécie humana de se comunicar por um sistema de signos vocais (língua) […]”. Já a

língua é parte da linguagem, seu produto social. O conceito de língua que adotaremos para nossa

dissertação é aquele que a define como um conjunto de códigos adotados pelos falantes da mesma

comunidade linguística. 

A linguagem e a língua são  naturalmente políticas porque sujeitam os que falam às suas

regras, disseminadas pela própria comunidade de fala. A política existe como forma de manutenção

do poder e, como nos diz Michel Foucault em Microfísica do Poder (2014), o poder é disseminado

através das relações sociais e, ao mesmo tempo, não é relacionado a nenhuma classe ou grupo

social. O poder é múltiplo, está em toda parte e está diretamente interligado ao saber, visto que os

diversos saberes estabelecem relações correlatas de poder (poder-saber). Em seu texto Língua,

Discurso e Política (2019), Fiorin afirma que “[...]a língua não é um instrumento neutro de

comunicação, mas é atravessada pela política, pelo poder, pelos poderes.” Assim, a linguagem,

enquanto sistema de comunicação e interação, e a  língua, enquanto conjunto de códigos que possui

leis e regras que são acessadas por uma comunidade de fala, são influenciadas pela política, pelo

poder e pela ideologia. A ideologia, por sua vez, é um termo polissêmico e, assim como a política, é

um conceito fluido. Teve início na Antiguidade Clássica, com Aristóteles, chegou à modernidade

sendo definida pelos positivistas como uma ciência e encontrou no Marxismo uma definição de

natureza crítica que é adotada até hoje. Na obra Linguagem e Ideologia (1995), Fiorin retoma a

concepção marxista para afirmar que “a esse conjunto de ideias, a essas representações que servem
para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele

mantém com os outros homens é o que comumente se chama ideologia.” 

Após a reflexão sobre as interseções desses conceitos (linguagem, língua, política, poder e

ideologia), percebemos claramente que há um embate, na maioria das vezes nem um pouco sutil,

pela preservação da chamada norma-padrão e da heterogeneidade linguística objetivando a

manutenção do poder. Conforme nos ensina Faraco (2002), a norma-padrão é carregada de

preconceitos, pois tem como escopo padronizar a língua e preservá-la de mudanças (Apud

GUERRA, 2021). No uso da norma-padrão, ignoram-se todas as variedades linguísticas existentes,

privilegiando apenas as formas que são devidamente certificadas pelo Estado e perpetuadas pelas

escolas, meios de comunicação, agentes e autoridades governamentais. Com a justificativa da

necessidade de padronização da língua, com base nos princípios da autonomia, historicidade e

vitalidade, preocupa-se mais em “consertar” as variações linguísticas, como se essas fossem

defeitos e não simples mudanças na língua. Ignora-se, igualmente, as transformações pelas quais

passa a sociedade e a influência dessas mudanças na língua, como, por exemplo, a marcação do

gênero neutro, já incorporado pelos falantes da comunidade não-binária no Brasil. O próprio acordo

ortográfico da Língua Portuguesa é um exemplo de resistência às mudanças no código, posto que se

alterou apenas 2% das palavras da língua. Assim, tomando o pressuposto que a política e a ideologia

são mecanismos de manutenção do poder pelas classes dominantes e que a linguagem e as línguas

são transpassadas por essas forças, inferimos que conhecer o código linguístico de uma comunidade

de fala é PODER. 

Concluímos afirmando que é necessário vigilância para não pactuarmos com uma ideologia

de exclusão, principalmente quando o nosso saber, o nosso conhecimento do código resulta em

preconceito linguístico, evidenciando ainda mais as diferenças sociais entre os falantes que

dominam o código e aqueles que são considerados “inaptos” no uso da língua e colocados (ainda

mais) à margem da sociedade. É imprescindível observar que as variedades linguísticas de uma

comunidade de fala estão intimamente ligadas à diversidade social e cultural daquela comunidade.

Negar este fato é negar aos seus falantes o reconhecimento da sua própria identidade, promovendo a

discriminação, o preconceito, a exclusão e a invisibiliade social.

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