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Universidade Nove de Julho – UNINOVE


Rua Vergueiro, 235/249 – 11º andar
01504-001 – Liberdade – São Paulo, SP
Tel.: (11) 3385-9218 – editora@uninove.br
Estudos de iniciação científica – v. 2

Fronteiras entre a Eficiência


UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Jurídica e a Censura:
estudos Sobre o Supremo
Tribunal Federal e a ditadura

Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci


(Organizador)

São Paulo
2016
© 2016 UNINOVE
Todos os direitos reservados. A reprodução desta publicação, no
todo ou em parte, constitui violação do copyright (Lei nº 9.610/98).
Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer
meio, sem a prévia autorização da UNINOVE.

Conselho Editorial Eduardo Storópoli


Maria Cristina Barbosa Storópoli
Patricia Miranda Guimarães
Gustavo Gonçalves Ungaro
Sergio Pereira Braga
Monica Bonetti Couto
Samyra Haydêe Dal Farra Naspolini Sanches
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Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade do autor

Capa: Uninove / Big Time Serviços Editoriais


Imagens da capa: 1) STF (SCO/STF) | 2) ROSTO (shutterstock_346286213)
Editoração eletrônica: Big Time Serviços Editoriais
Revisão: Big Time Serviços Editoriais

Catalogação na Publicação (CIP)


Cristiane dos Santos Monteiro – CRB/8 7474
------------------------------------------------------------------------------------
Fronteiras entre a eficiência jurídica e a censura : estudos
sobre o Supremo Tribunal Federal e a ditadura / Álvaro
Gonçalves Antunes Andreucci, organizador. — São Paulo :
Universidade Nove de Julho, UNINOVE, 2016.
196 p. il. — (Estudos de iniciação científica ; v. 2)

Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-89852-30-2 (e-book)
ISBN: 978-85-89852-47-0 (impresso)

1. Censura – Jurisdição. 2. Ditadura – Supremo Tribunal


Federal. I. Série II. Título

CDU 343
------------------------------------------------------------------------------------
Dedicamos o resultado destas análises, produzidas
por jovens pesquisadores da UNIVERSIDADE
NOVE DE JULHO, ao magnífico Reitor Prof.
Eduardo Storópoli e a Pró-Reitora Acadêmica
Profª Mestre Maria Cristina Barbosa Storópoli,
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pelo constante apoio dado aos pesquisadores


da Instituição. Dedicamos também este livro à
Diretoria de Pesquisa da Universidade Nove de
Julho que, através do incansável trabalho de todos
os seus membros, identificados aqui pelo Prof. Dr.
João Carlos Ferrari Correa como representante
deste grupo, desenvolvem um trabalho de
excelência, apoiando minuciosamente todos os
professores em suas pesquisas. Mencionamos,
ainda, o Prof. Dr. Vladmir Oliveira da Silveira,
o Prof. Mestre Sérgio Pereira Braga, Diretor do
Curso de Graduação em Direito, e o Prof. Livre
Docente Emerson Antônio Maccari, Diretor do
Programa em Pós-Graduação de Administração,
todos dedicados profissionais da educação na
UNINOVE.
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Sumário
Prefácio.................................................................................................................9
Apresentação................................................................................................... 11

Capítulo 1......................................................................................................... 21
Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista
Universitário – Subversão ou Liberdade de Expressão?
Osvaldo Estrela Viegaz

Capítulo 2......................................................................................................... 57
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Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal


Federal e a Liberdade de Expressão – Breve Análise de Acórdãos
Sobre a Censura em Publicações
Elaine Antunes Fernandes

Capítulo 3.......................................................................................................109
Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos
Ministros do Supremo Tribunal Federal na Ditadura Militar
Arari Vinicius Guimarães
Elaine Antunes Fernandes
Fernanda Benozzatti
Márcio de Sessa

Capítulo 4.......................................................................................................151
Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985): A
(Re)Construção dos Princípios Democráticos
Arari Vinícius Guimarães
Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci

Autores.............................................................................................................193
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Prefácio - 9

Prefácio

Recebemos o convite e com prazer aceitamos prefaciar a pre-


sente obra organizada pelo Professor Álvaro Gonçalves Antunes
Andreucci e intitulada de “Fronteiras entre a Eficiência Jurídica e a
Censura: Estudos sobre o Supremo Tribunal Federal e a Ditadura –
Estudos de Iniciação Científica”.
Trata-se de uma coletânea de diversos trabalhos seriamente
desenvolvidos por alunos do Programa de Iniciação Científica da
Universidade Nove de Julho de São Paulo – UNINOVE, da Faculdade
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de Direito, e cuidadosamente selecionados para compor essa obra


que aborda temas de interesse nacional. Assim, dando continuida-
de ao Volume 1 (“Autoritarismo e Direito no Brasil e na Argentina:
Estudos de Iniciação Científica como pressuposto para a formação
de um pensamento reflexivo”), este Volume 2 é de grande importân-
cia àqueles que se interessam por assuntos como “ditadura militar”,
“liberdade de expressão”, “censura”, “atuação do Supremo Tribunal
Federal”, dentre outros, inseridos na temática proposta.
A iniciativa do organizador desta obra, professor dos Cursos de
Graduação e Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito na UNINOVE,
continua sendo merecedora de aplausos, na medida em que os es-
tudos realizados são deveras atuais, contribuindo continuamente
não somente para o aprimoramento da iniciação cientifica no País,
como também para a formação e amadurecimento do pensamento
dos seus alunos.
Essa iniciativa reafirma o compromisso da UNINOVE em for-
mar um corpo discente e docente capaz de refletir criticamente sobre
temas relevantes para a nossa sociedade. Por isso, parabenizamos
os autores Osvaldo Estrela Viegaz, Elaine Antunes Fernandes, Arari
Vinicius Guimarães, Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa, pela
coragem em abordar tão maduramente assuntos delicados e densos
de nossa realidade.
10 - Prefácio

Reiteramos nosso sentimento de satisfação com o importan-


te trabalho desenvolvido pelo Professor Álvaro Gonçalves Antunes
Andreucci e desejamos que continue colhendo bons frutos nessa em-
preitada fundamental que é a iniciação científica.
Boa Leitura!

São Paulo, primavera de 2015.

Vladmir Oliveira da Silveira

Sérgio Pereira Braga


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Apresentação - 11

Apresentação

Iniciação científica, pesquisa e pensamento crítico na


formação jurídica: ética, solidariedade e autonomia para
novos paradigmas

Atualmente, debate-se muito nos cursos de Direito sobre a crise


do Poder Judiciário e sobre os métodos alternativos de resolução de
conflitos. De fato, se fizéssemos um instantâneo da maioria dos tri-
bunais do país, provavelmente mal poderíamos ver os juízes e juízas
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na foto, pois estes estariam atrás de pilhas e pilhas de papéis oriun-


das dos processos em andamento ou a espera de serem julgados. Esta
cultura que valoriza primordialmente o conflito levado aos tribunais
nacionais vem sendo criticada e tem, como uma de suas opções pos-
síveis, a utilização dos métodos alternativos de resolução de confli-
tos, como a mediação, a composição e a arbitragem.
Além disso, já é notório o fato de que a Ciência não é deten-
tora da verdade e nem mesmo os próprios cientistas (salvo algumas
tristes exceções...) afirmam serem capazes de produzir verdades in-
questionáveis e imutáveis. Boaventura de Souza Santos, por exem-
plo, fazendo uma leitura do papel da ciência na modernidade e na
pós-modernidade, afirma que:

Sendo um modelo global, a nova racionalidade científica é


também um modelo totalitário, na medida em que nega o
caráter racional a todas as formas de conhecimento que se
não pautarem pelos seus princípios epistemológicos e pelas
suas regras metodológicas. É esta a sua característica funda-
mental e a que melhor simboliza a ruptura do novo paradigma
científico com os que o precedem.1

1
SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício
da experiência – para um novo senso comum: a ciência, o direito e a política na
transição paradigmática. São Paulo: Editora Cortez, 2002, p. 61.
12 - Apresentação

Outro exemplo possível, dentre tantos, é a obra do filósofo


Zygmunt Bauman2 que, em suas reflexões, identifica a realidade da
pós-modernidade com as características dos elementos líquidos. A
própria “verdade” deve ser vista desta forma, ou seja, moldável, adap-
tativa, sem forma fixa, permeável etc. O que significa dizer que não te-
ríamos mais uma verdade sólida, mas apenas uma verdade liquefeita.
Diante destas questões, acreditamos ser necessário refletir de
forma sistemática sobre o papel da educação jurídica como um pres-
suposto para a formação de cidadãos críticos e aptos a enfrentar os
novos desafios que a realidade da pós-modernidade impõe. E, nes-
se sentido, a Iniciação Científica ocupa um local privilegiado nesse
processo que implica, em última instância, na transformação de ve-
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lhos paradigmas de uma cultura jurídica desadaptada à realidade na-


cional, haja vista a crise institucional que podemos observar, e não
apenas localizada no Poder Judiciário.
Formar operadores Jurídicos, que através da experiência na
pesquisa crítica possam realizar leituras da realidade social, e espe-
cificamente da realidade instrumentalizada pelos sistemas jurídicos,
sendo que, a partir desta análise, possam propor ações que envol-
vam ética e solidariedade, requer o desenvolvimento de um pensa-
mento autônomo. Isso significa um processo de desmistificação de
um senso comum do discurso jurídico e uma abertura para uma nova
reflexão sobre a realidade.
Nesse sentido, procuramos unir um pensamento fundamenta-
do por autores de uma teoria crítica sobre o Direito e sobre o mun-
do contemporâneo, aliados a uma interdisciplinaridade com a teoria
histórica e sociológica. A ideia foi formar pesquisadores que se in-
teressem por reler, analisar e interpretar fontes jurídicas, como uma
possibilidade de se compreender os mecanismos de construção de
valores e de uma realidade jurídica, em determinado contexto, e des-
vendar os usos (e abusos) que as formas de controle e poder social
podem se valer a partir de modelos de verdade.
O pensamento crítico, nesse sentido, não se propõe grandioso,

2
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
Apresentação - 13

mas sim como aquele que realiza pequenas tarefas de analisar estra-
tos de realidade que podem nos auxiliar a compreender as regras de
um jogo social, político, econômico, dentre outros, muitas vezes ins-
tituído e controlado pelo discurso científico e jurídico sobre o mundo.
Neste segundo volume que publicamos, podemos encontrar
o trabalho de jovens pesquisadores, a maioria deles dedicados a
Iniciação Científica. O tema desta obra apresenta capítulos sobre o
Supremo Tribunal Federal (STF) e a Ditadura Militar3.
O capítulo “Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror
Comunista Universitário – subversão ou Liberdade de Expressão?”
procura abordar um tema recorrente quando o assunto é ditadura mi-
litar: a liberdade de expressão.
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Mais do que isso, trabalha elementos políticos importantes, so-


bretudo com relação à visão acerca da ideologia comunista e todo
o terror criado e floreado pelos militares com o intuito de subverter
seus seguidores.
Este foi um embate comum na ditadura militar brasileira.
Primeiro, por conta da controversa forma de análise e leitura das
obras marxistas e, segundo, pelas pressões externas (principalmen-
te dos Estados Unidos) sobre os países da América no pós-Revolu-
ção Cubana.
O momento do golpe é estudado como sendo um choque entre
a instabilidade política e esta citada pressão externa, em que o fervo-
roso debate aumentava consideravelmente em tempo de Guerra Fria.
O ponto inicial, portanto, é justamente analisar como estava a
situação global quando ainda vigente a Geopolítica da Bipolaridade,
iniciada com o fim da Segunda Guerra Mundial e travada entre a
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (teoricamente comu-
nista) e os Estados Unidos da América (capitalista).
Neste período, o Brasil se encontrava em meio à crises internas

3
O primeiro volume intitula-se: “Autoritarismo e Direito no Brasil e na Argentina:
Estudos de Iniciação Científica como pressuposto para a formação de um pensa-
mento reflexivo” e foi publicado no formato de e-book pela Editora Letras Jurídicas.
14 - Apresentação

que colocavam em voga a democracia recém-criada após anos de di-


tadura de Vargas e do domínio perpetrado pela República Oligárquica.
Apesar de, conforme considera Norberto Bobbio4, a democra-
cia necessite correr riscos para atingir a plena liberdade de seus ci-
dadãos, bem como a confiabilidade e a segurança jurídica do Estado,
não era bem assim que se via na realidade nacional.
Por evidência, muitas prisões ocorreram por conta da dissemi-
nação deste tipo de doutrina, incorrendo na discussão sobre a liber-
dade de expressão e a pretensa subversão defendida pelos militares.
O Supremo Tribunal Federal, por mais de uma vez, foi insta-
do a se manifestar sobre esses casos, ocorridos não apenas com a
divulgação de materiais nas vias públicas, mas também propagado
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nas universidades públicas e particulares.


Este tema em si gerou debates acalorados entre os Ministros,
que não apenas se limitaram a julgar a relação subversão ou liberda-
de de expressão, como também emitiam suas opiniões sobre a pró-
pria doutrina comunista.
A discussão também atingiu os partidos políticos e invocou a
segurança nacional do Estado, tamanho foi o afinco militar em coi-
bir a disseminação da ideologia marxista na sociedade brasileira da
época, repetindo-se o ocorrido desde os anos 1920.
Essas discussões, embates e formas de analisar os eventos mar-
cados pela “subversão” e pela liberdade de expressão são pontos in-
teressantes do trabalho.
O capítulo seguinte, “Palavras Malditas e Navalha de Tinta: o
Supremo Tribunal Federal e a Liberdade de Expressão – Breve Análise
de Acórdãos Sobre a Censura em Publicações”, procura dar conti-
nuidade ao assunto e abordar o tema sobre liberdade de expressão.
Este trabalho, em específico, procura analisar as questões relacio-
nadas à censura, à resistência da imprensa e à liberdade de expressão
ligadas aos meios de comunicação e publicidades no período ditatorial.

4
BOBBIO, Norberto. O filósofo e a política: antologia. Rio de Janeiro: Editora
Contraponto, 2003.
Apresentação - 15

Dois pontos se tornam imperativos nesta propositura: em pri-


meiro lugar, além do caráter ditatorial da Constituição Federal de
1967, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) trouxe em seu bojo disposições
duras sobre a liberdade de expressão.
Este Ato, posteriormente incorporado junto com os demais com
a Emenda Constitucional nº 1, de 1969, foi um divisor de águas no
regime militar, pois é com base nele que a perseguição aos “subver-
sivos” se tornou o baluarte de todo um sistema.
E o segundo ponto se refere à Lei de Imprensa, instituída como
forma de controlar e ao mesmo tempo censurar os meios de comu-
nicações brasileiros, principalmente quando suas ações se encontra-
vam contrárias ao regime.
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Se de um lado havia o braço pesado do governo, instituindo


medidas capazes de conter os ânimos e assegurar a efetividade de
suas ações por meios de leis arbitrárias, doutro lado encontraremos
a sociedade insatisfeita.
A resistência dos mais variados tipos de meios de comunica-
ção, se mostrou uma das principais formas de combater e burlar o
sistema ditatorial estabelecido, sendo que muitos desses organismos
– senão todos – funcionavam na clandestinidade.
Por meio de um levantamento de dados, foi possível se verifi-
car os assuntos nos quais a censura era maior, se sobressaindo, por
evidência, os tipos de matérias jornalísticas tratantes de questões po-
líticas, quase um tabu neste período.
A produção jurídica encontrada nos acórdãos do Supremo
Tribunal Federal se mostrou capaz de elucidar muitos fatos, ainda
mais sobre como os ministros enxergavam a liberdade de expres-
são, a censura e o papel dos meios de comunicações na fragilizada
sociedade brasileira.
O capítulo “Decifra-me ou te Devoro: conhecendo um Pouco dos
Enigmas dos Ministros do Supremo Tribunal na Ditadura Militar”, pro-
curou, por outras vias, abordar a atuação dos ministros do Supremo
Tribunal Federal.
Através da análise curricular e da vida de alguns ministros,
16 - Apresentação

este capítulo procura trazer as influências, as formas de pensar e as


escolas dos membros da Corte Suprema em determinados períodos
da Ditadura Militar.
Para delimitar o estudo, procurou-se centrar a análise de forma
a encontrar quais ministros expunham suas opiniões nos julgamentos
realizados no Supremo Tribunal Federal, o que nem sempre ocorria.
Muito pelo contrário: foi mais fácil encontrar ministros pura-
mente técnicos, julgando apenas com base no Direito e sem expres-
sar qualquer movimento retilíneo com a sociedade em que viviam.
Contudo, aqueles ministros que colocavam seus olhares sobre
a contextualização daquilo que viviam e compreendiam, apesar de
exceções, se fizeram presentes nas cátedras do Pretório Excelso5.
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Inclusive, alguns foram ousados o suficiente para discutir os di-


tames do País, ou seja, discutir política na Ágora brasileira, em que
víamos de um lado os “sofistas” do governo militar e aqueles que
lutavam em suas decisões por suas convicções.
Chegaram até mesmo a enaltecer as vantagens e os valores en-
contrados na democracia, bem como sua necessidade no Brasil como
fundamento para o futuro da Nação.
São muitas as transcrições em que os ministros, em diversos vo-
tos em julgamentos dos mais diversos, se expressavam de acordo com
seus ideais e não presos ao estrito cumprimento da legislação ditatorial.
Em outras palavras, os ministros procuravam deixar em suas
decisões um olhar histórico-jurídico do País, revelando muitos pon-
tos primordiais para compreendermos a situação do Poder Judiciário
na Ditadura Militar, sobretudo após o Ato Institucional nº 6 (AI-6),
que mexeu profundamente com as estruturas do Judiciário brasileiro.
Mais ainda do que isso, alterou substancialmente o Supremo
Tribunal Federal, que foi afetado não apenas em sua composição,
como também em sua competência de julgamento, em que os atos
praticados pelo governo estavam fora de sua alçada.
Alguns ministros, contra todos os prognósticos esperados para

5
Supremo Tribunal Federal.
Apresentação - 17

esta época, criticavam abertamente os rumos tomados pela Ditadura


Militar, sendo um deles e talvez o principal crítico do governo o
Ministro Aliomar Baleeiro.
E quando estas posições ficavam evidenciadas? Quando os mi-
nistros se posicionavam em temas polêmicos, como sobre as ideo-
logias, liberdade de expressão e censura, já trabalhadas nos artigos
anteriores.
Por fim, o capítulo “Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar
(1964-1985): a (Re)Construção dos Princípios Democráticos” pro-
curou fechar a análise do Supremo Tribunal Federal no momento
derradeiro da Ditadura Militar e na fase de transição da volta do re-
gime democrático.
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Inicialmente, realiza um apanhado histórico e analítico sobre a


questão do Supremo Tribunal Federal na ditadura militar, abordando
as questões constitucionais e legais de sua composição e competência.
Procurou, assim, analisar o papel desempenhado pelo Pretório
Excelso como guardião da Constituição e defensor dos ideários de-
mocráticos, faltantes no cenário político até então vigente.
Até mesmo por isso, a sua competência foi o principal alvo de
mudanças pelos governos anteriores e durante a ditadura, de modo
que as modificações introduzidas impediam julgamentos que, cos-
tumeiramente, caberia à Corte Suprema a decisão final.
Basta verificar que o AI-6 de 1969 subjugou totalmente o STF
ao Executivo, tendo que assistir passivamente as aposentadorias
compulsórias de seus Ministros contrários às formas de atuação da
Junta Governamental. Além disso, a Justiça Militar, que deveria ter
somente atuação junto à Marinha, ao Exército e à Aeronáutica, bem
como em seus demais órgãos, passou também a ter jurisdição sobre
os civis. O militarismo, assim, apoderou-se dos Três Poderes.
Além disso, a prevalência da Doutrina de Segurança Nacional
com a atualização da Lei de Segurança Nacional (herança da Era
Vargas), colocou em xeque não apenas a sociedade, como também
os ministros em seus julgamentos.
O terrorismo de Estado se tornou a principal forma de o governo
18 - Apresentação

“controlar” a sociedade, cidadãos e todo e qualquer dissidente con-


trário às regras instituídas durante a Ditadura Militar.
Esse terrorismo, é bom que se diga, não estava concentrado
apenas na sociedade, mas atingiu também órgãos do Estado, como
é o caso do Supremo Tribunal Federal, com os desmandos, mudan-
ça de estrutura e aposentadoria de ministros.
Perfazendo o intuito histórico, o capítulo aborda as questões
da reabertura democrática iniciadas com a revogação do AI-5, em
1978, e a outorga da Lei de Anistia, em 1979, ambos pelo presiden-
te Figueiredo.
Com a reabertura democrática e posterior fim do regime mili-
tar, veio também a promulgação da nova Carta Constitucional que,
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ao contrário da anterior, primou pelos direitos e garantias fundamen-


tais do cidadão.
Mais do que isso, procurou colocar muitos direitos como invio-
láveis (e não absolutos), inclusive pelo próprio Estado, sob pena de
incursão em crimes, procurando estabelecer o Estado Democrático
e Social de Direito. Tais direitos permitem a todos na sociedade go-
zar de suas plenas faculdades de cidadãos, brasileiros e estrangeiros.
Ao Supremo Tribunal Federal e a todo o Poder Judiciário, a
Constituição Federal de 1988 procurou também estabelecer direi-
tos fundamentais, sendo inclusive cláusula pétrea a Tripartição,
Independência e Harmonia dos Três Poderes do Estado.
Apesar disso, resquícios da ditadura ainda podem ser encontra-
dos no País, como é o caso da Lei de Anistia, julgada pelo Supremo
Tribunal Federal como de acordo com os princípios e garantias con-
tidos na Carta Política de 1988.
Mesmo diante dessa decisão, percebe-se como o Pretório
Excelso pode expressar e julgar de acordo com suas disposições e
competências, sem sofrer interferências, o que é uma grande con-
quista e um marco para a Corte Suprema Brasileira.
Formamos assim um pequeno retrato de alguns aspectos do STF
durante a ditadura militar no Brasil e podemos, a partir destes estu-
dos, refletir sobre os rumos e funções que o Poder Judiciário pode
Apresentação - 19

assumir no arranjo institucional do Estado brasileiro, principalmen-


te quando as liberdades democráticas estão sujeitas ao autoritarismo
e ao controle da expressão e da cidadania.
Os jovens pesquisadores que se debruçaram nesta empreitada
conseguiram compreender a importância da pesquisa científica séria,
que alia ética e solidariedade, no intuito de formar novos paradig-
mas sobre o Direito e construir uma realidade onde não mais predo-
mine a disputa judicial e os interesses individuais, mas sim onde um
futuro mais solidário e com responsabilidades mútuas possa preva-
lecer, revelando a possibilidade de diversos meios de resolução dos
conflitos a partir de um novo paradigma do consenso.
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Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci


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Osvaldo Estrela Viegaz - 21

Capítulo 1

Ameaça Vermelha: Marxismo e o


Pseudo Terror Comunista Universitário –
Subversão ou Liberdade de Expressão?

Osvaldo Estrela Viegaz


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Resumo: O estudo da doutrina marxista é muito controverso, so-


bretudo pela falta de entendimento e pelas críticas infundadas de
muitos “estudiosos”. Durante o regime militar, a desculpa sobre a
proliferação da doutrina comunista e uma pseudo ameaça verme-
lha deram ensejo a uma série de medidas autoritárias de conten-
ção da sociedade, medidas que atingiram cidadãos, professores e
estudantes que estivessem com materiais “subversivos”. As uni-
versidades, inclusive, sofreram diretamente com a liberdade de
pensamento e de cátedra. São esses pontos que procuraremos tra-
balhar, analisando não a história contada pelos historiadores, mas
sim aquela contada e esquecida nas jurisprudências do Supremo
Tribunal Federal.

Introdução

Não são poucos os autores que iniciam seus trabalhos analíticos


sobre o Regime Militar (1964-1985) procurando revelar a motivação
militar para o golpe que originou um dos períodos mais sombrios da
história recente brasileira, que ainda hoje, passados quase trinta anos
do seu fim, continua a causar calafrios na sociedade.
O ponto de convergência desses autores se encontra justamente
na possível razão pela qual os militares instauraram a ditadura: um
pseudo terror comunista vindo da União Soviética, sobretudo após
22 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

a Revolução Cubana (1959) e o fato de o presidente João Goulart


ter um discurso “esquerdista”.
É neste contexto de embate entre o capitalismo estaduniden-
se e o comunismo de modelo soviético, caracterizando a geopo-
lítica da bipolaridade, que o golpe militar brasileiro ganhou força
em muitos setores da sociedade (incluindo àqueles que posterior-
mente bradariam contrários ao regime autoritário), havendo inclu-
sive o apoio de contingente militar estadunidense que se deslocou
à costa brasileira, mas que não foi utilizado devido a passividade
com que tudo aconteceu.
A instabilidade política, social e econômica brasileira permane-
cia como um aspecto da longa duração e se agravava com as cons-
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tantes crises entre as duas superpotências, bem como nas muitas


ideologias existentes internamente, levando à muitas dúvidas sobre
os rumos do País, o que não mudou mesmo após o golpe.
Também não mudou a importância do Supremo Tribunal Federal
como termômetro em mais uma crise nacional. Como a história repu-
blicana demonstra, muitas foram as vezes em que o Pretório Excelso
foi instado a se manifestar, gerando descontentamento com os Poderes
Executivo e Legislativo, bem como com parte da sociedade brasileira.
É fato que desde a Revolução Russa (1917-1922) e a fundação
da União Soviética, as ideias marxistas se propagaram, surgindo,
além de Marx, os seus intérpretes, de modo que apareceram diver-
sos tipos de comunismo: de modelo soviético (pautado em subdivi-
sões, como os leninistas, trotskistas e stalinistas); de modelo chinês
(sobretudo no maoísmo doutrinado com a filosofia de Confúcio); de
modelo cubano (castrista); dentre outros.
No Brasil, claro, a influência do pensamento marxista também
encontrou seu espaço desde a década de 1920, tendo sido sempre
subjugada e em algumas ocasiões considerada como ilegal (por mui-
tos anos o Partido Comunista Brasileiro – PCB – viveu na clandes-
tinidade). Durante os anos que antecederam o golpe de 1964, tais
ideias continuavam sendo consideradas subversivas e após o golpe
o apoio à elas se tornou tão perigoso quanto atentar contra o Estado.
Osvaldo Estrela Viegaz - 23

Até por este motivo, a maioria dos presos políticos durante o


regime militar estava de algum modo ligada às teorias esquerdistas.
A grande luta dos militares não foi contra as pessoas, mas sim con-
tra as ideias que estas propagavam, e a jurisprudência do Supremo
Tribunal Federal pôde nos mostrar como essa força ideológica foi
importante neste período, assim como o local no qual a maior parte
dessas ideias foram divulgadas: nas cátedras universitárias.
A análise jurisprudencial se pauta, assim, em um pergunta sim-
ples, mas ao mesmo tempo complexa: subversão ou liberdade de
expressão? É esmiuçando os votos dos ministros que poderemos
verificar a posição de cada um deles sobre o regime, bem como
considerarmos seu posicionamento com relação às ideias esquer-
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distas nas quais professores, alunos e parte da sociedade se pauta-


vam para a luta.
Ademais, não podemos deixar de considerar os estudos que
envolvem cada vez mais os temas referentes à Ditadura Militar
Brasileira, seja um estudo do caso isolado brasileiro ou em conjun-
to com os regimes totalitários de direita instalados no Cone Sul e em
outros países da América Latina.
Sobre o nosso caso em específico, muito importante a análise
de conteúdo das jurisprudências da Corte Suprema pátria no perío-
do, pois é a partir desse ponto que poderemos considerar a visão ju-
rídica dos fatos ocorridos no período, com os embates ideológicos
dos ministros se sobressaindo ao simples cumprimento estrito da le-
tra fria da lei, momento no qual percebemos posições, anseios e até
mesmo a defesa e/ou crítica ao regime militar.
Os ministros do Supremo Tribunal Federal se manifestaram ao
longo da história brasileira sobre os mais diversos temas e assuntos.
Nestes momentos de maior instabilidade política e social, podemos
analisar como os votos dos ministros estavam ou não em consonância
com o Regime Militar, bem como suas percepções sobre o mesmo.
Inclusive, a visão dos ministros sobre o marxismo, a liberda-
de de expressão e de cátedra e como estes enxergavam as manifes-
tações nas universidades são também tema desta pesquisa, por se
24 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

mostrarem como algo inédito e novo na historiografia jurídica bra-


sileira, merecendo destaque.
Esses estudos possibilitam a quebra do tabu e o resgate da his-
tória, que, por vezes, ficou esquecida em detrimento de uma falsa
percepção da realidade, intuito este da Lei de Anistia, através da am-
nésia com relação aos atos praticados e aos fatos ocorridos durante
os vinte anos de ditadura.
A amnésia e o tabu são questões importantes que devem ser dis-
cutidas e debatidas, que dizem respeito justamente à importância do
não esquecimento desses fatos e a busca pela verdade como um di-
reito (porque não?) fundamental daqueles que sofreram direta ou in-
diretamente no período e, também, da própria sociedade brasileira1.
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Geopolítica da bipolaridade e a desculpa comunista

2 de setembro de 1945. Esta data marca o fim da Segunda


Grande Guerra Mundial (1939-1945) com a assinatura da carta de
rendição japonesa aos aliados. O terror nazista sucumbira meses an-
tes. Com o fim da guerra, uma nova configuração mundial estava
prestes a surgir.
Os países que formavam a aliança, na sua maioria, possuíam (e
possuem ainda hoje) o capitalismo como corrente doutrinária esta-

1
Sobre o tema, os autores Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci e Osvaldo Estrela
Viegaz procuraram trabalhar como a amnésia criada pelos militares com a Lei de
Anistia ensejou um tabu que aos poucos começa a cair, tabu este que criou um
imaginário em torno da “impossibilidade” de trabalhos, pesquisas e até mesmo
discussões aprofundadas sobre a Ditadura Militar. A criação da Comissão Nacional
da Verdade e da Lei de Acesso à Informação, ambas em 2011, podem ser apontadas
como um dos principais motivos para esta quebra de paradigma, mas também não
podemos deixar de citar os pesquisadores incansáveis que lutam, mesmo desde
antes de 2011, para buscar e revelar a verdade à sociedade, ação esta que não pode
parar e deve se intensificar cada vez mais com as novas possibilidades de pesquisas,
como a análise jurisprudencial. Fonte: ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes;
VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a amnésia: a organização da ditadura militar
brasileira – rompendo silêncios, revelando informações. In: Encontro Nacional DO
CONPEDI; Vladmir Oliveira da Silveira (Org.). 22., 2014, São Paulo. Anais... São
Paulo: Fundação Boiteux, 2014.
Osvaldo Estrela Viegaz - 25

tal, tendo sido liderados pelos Estados Unidos da América. De ou-


tro lado havia a doutrina comunista trazida pela importante aliada na
luta contra a Alemanha nazista e a Itália fascista, a União Soviética
de Josef Stalin.
Apesar de aliados na luta contra o Eixo, com o fim da guerra
e sem mais nenhum outro motivo para permanecerem unidos, estas
nações se distanciaram cada vez mais, até chegarem ao ponto de se
tornarem inimigas públicas. Começa, com isso, um embate ideoló-
gico entre o modelo capitalista estadunidense e o comunismo de mo-
delo soviético que caracterizou-se pela Geopolítica da Bipolaridade
e permeou toda a Guerra Fria (1945-1991).
Mesmo tendo sido um conflito puramente verbal, alguns mo-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

mentos colocaram em cheque a ainda instável ordem mundial, tais


como as Guerras da Coreia (1950-1953) e do Vietnã (1962-1975), as
Revoluções Chinesa (1949) e Cubana (1959) e a crise dos Mísseis
em Cuba (1962), que quase deram início a um novo conflito armado2.
O momento mundial não era dos melhores. Os países se divi-
diam entre capitalistas e comunistas e mesmos aqueles que não ti-
nham assumido ainda o seu lado na história tinham, por sua vez, de
tomar partido de alguma maneira. Todo o Leste Europeu encontra-
va-se sob o manto da Cortina de Ferro Soviética, enquanto o res-
tante da Europa seguia os preceitos do “Liberalismo Democrático
Estadunidense”. Berlim estava dividida por um muro e assim per-
maneceu até 1989. Separava não somente as ideologias do Oeste
Capitalista das do Leste Comunista, como também e principalmen-
te, filhos, pais e avós uns dos outros.
Mesmo todos esses movimentos ocorrendo no hemisfério norte,
o sul não ficou livre da incidência e influência das ideologias mun-
diais dominantes. Após o “perigo” da Revolução Cubana, em 1959,

2
Nota do autor: embora os Estados Unidos tenham enviado tropas e combatentes
à Guerra do Vietnã (1962-1975) em apoio ao Vietnã do Sul (capitalista), a União
Soviética, por sua vez, forneceu auxílio apenas no campo balístico ao Vietnã do
Norte (comunista), não tendo contribuído com nenhum soldado durante os anos de
guerra. Com os muitos protestos que se seguiram e aumentaram contra a guerra,
os Estados Unidos enfim se retiraram da mesma a partir de 1973.
26 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

logo iniciou-se uma intentada dos Estados Unidos com o fim de evitar
a proliferação da influência soviética nas Américas, começando com
o embargo econômico aos produtos cubanos (que permanece até os
dias atuais) e sendo ainda mais incisivo nos países sul-americanos.
Não poderiam acontecer erros: nenhuma outra nação da América
deveria ficar sob a égide do comunismo soviético. Além da propagan-
da denegridora do comunismo (que ocorria de maneira inversa nos
países comunistas), os Estados Unidos se prepararam e armaram as
nações para impedir o avanço ideológico bolchevique. No Brasil, o
golpe aconteceu de forma rápida, sem a necessidade do auxílio mi-
litar enviado pelos estadunidenses.
Por conta de suas atitudes contraditórias3, Jânio Quadros renun-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

cia em 1961, ocasião em que há a primeira tentativa de golpe, que


não teve o apoio completo das forças armadas, que inclusive se reu-
niram em apoio ao então vice-presidente João Goulart (Jango), ga-
rantindo sua posse por meio de um golpe militar preventivo.
Ocorreu o chamado “golpe preventivo”, ou seja, uma interven-
ção militar para garantir a posse do presidente eleito e não para im-
pedi-la. A principal personagem da ação ocorrida a 11 de novembro
de 1955 foi o general Lott, que mobilizou tropas do Exército no Rio
de Janeiro. As tropas ocuparam edifícios governamentais, estações
de rádio e jornais. Os comandos do Exército se colocaram ao lado
de Lott, enquanto os ministros da Marinha e da Aeronáutica denun-
ciavam a ação como “ilegal e subversiva”. As forças do Exército
cercaram as bases navais e da Aeronáutica, impedindo um confron-
to das Forças Armadas4.

3
No pouco tempo em que permaneceu no poder, Jânio Quadros teve atitudes polí-
ticas discrepantes tanto na sua atuação como no seu discurso, apresentando-se de
maneira diferente conforme a oportunidade. Neste sentido: “Minado pelas contradi-
ções de sua política, que externamente apoiava a esquerda, enquanto internamente
adotava uma postura de direita, Quadros renunciaria à presidência pouco menos de
sete meses após a posse, lançando o país em uma das maiores crises políticas de sua
história”. (COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção
da cidadania. São Paulo: IEJI, 2001, p. 156).
4
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 8. ed. São Paulo: EDUSP; Fundação Para o
Desenvolvimento da Educação, 2000. pp. 421-2.
Osvaldo Estrela Viegaz - 27

O parlamentarismo inserido no País para que houvesse a posse


de Jango foi a forma encontrada de dar ao Vice-Presidente o cargo
que lhe era de direito, mas ao mesmo tempo lhe retirar o poder en-
quanto representante do Poder Executivo Federal, se tornando uma
figura pública mais do que propriamente um presidente.
Os estadunidenses, preocupados com os rumos e com a forma
com que as coisas aconteciam no Brasil, chegaram a discutir o caso
no seu alto escalão. Tal discussão, por evidência, não engloba em
parte alguma a realidade na qual o País e a ideologia de Jango esta-
vam assentados.

A 27 de março [de 1964], o embaixador dos Estados Unidos


UNINOVE – uso exclusivo para aluno

enviava um memorando para o secretário de Estado, Dean


Rusk, para o secretário de Defesa, McNamara, e para outras
figuras representativas do governo americano, no qual co-
municava sua convicção de que Goulart se achava envolvido
numa campanha para conseguir poderes ditatoriais, contando
para isso com a colaboração do Partido Comunista Brasileiro
e de outros revolucionários da esquerda radical. Se tiver êxito,
é mais que provável que o Brasil fique sob controle comu-
nista, embora Goulart talvez se volte contra seus defensores
comunistas adotando o modelo peronista, que a meu ver é
do seu gosto pessoal. Na sua análise da situação política no
Brasil, não descartava a possibilidade de uma guerra civil.5

Concluímos, pois, que tal posicionamento se deu pura e exclu-


sivamente com o intuito de justificar o golpe, de possibilitar uma
desculpa para perseguir os comunistas por conta das políticas jan-
guistas, sem que houvesse qualquer prova sobre a real e fática pos-
sibilidade de golpe por parte de Jango.
A insatisfação com a política de João Goulart, contudo, já era
antiga, desde antes de o próprio assumir a presidência com a renún-
cia de Jânio Quadros, em 1961. Sua viagem com destino à China
Comunista foi a gota d’água: “nas altas horas da noite do dia 31 de

5
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 164.
28 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

março (de 1964) o golpe tinha uma bandeira: tirar Jango do poder,
para combinar o resto depois”6.
Após a tomada do poder, uma incrível rede de informações
foi criada e mantida pelo Regime Militar junto com o DOI-Codi
(Departamento Operações de Informações – Centro de Operações
de Defesa Interna) e os DEOPS (Departamento Estadual de Ordem
Política e Social), bem como com o CIE (Centro de Informações do
Exército), o CENIMAR (Centro de Informações da Marinha) e o
CISA (Centro de Informações da Aeronáutica), tudo sob a chancela
do SNI (Serviço Nacional de Informações)7.
O SNI sobretudo, quando idealizado por Golbery do Couto e
Silva, foi o responsável por colher informações sobre os brasilei-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

ros, bastando para entrar na lista a mínima suspeita de ser ou es-


tar ligada a algum movimento contrário aos militares, incluindo em
universidades.

O SNI foi idealizado e implementado pelo general Golbery


do Couto e Silva, o ideólogo mais conhecido da Doutrina de
Segurança Nacional. Mesmo antes do golpe de 1964, Golbery
já detinha informações sobre mais de 400.000 brasileiros, co-
lhidas por agentes infiltrados em sindicatos, na imprensa, em
organizações culturais, na Igreja Católica e em universidades.8

Os infiltrados do Regime Militar estavam em todos os lugares,


incluindo as universidades, sempre em busca de possíveis candida-

6
GASPARI, Élio. A ditadura envergonhada: as ilusões armadas. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002. p. 86.
7
Nota do autor: para maior aprofundamento sobre o tema, analisar a já citada obra
“Do Tabu a Amnésia: A Organização da Ditadura Militar Brasileira – Rompendo
Silêncios, Revelando Informações”, dos autores Álvaro Gonçalves Antunes
Andreucci e Osvaldo Estrela Viegaz.
8
MATTOS, Marco Aurélio Vannuchi Leme de. Em nome da Segurança Nacional:
os processos da Justiça Militar contra a Ação Libertadora Nacional (ALN), 1969-
1979. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas
da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) – Universidade de São Paulo, São
Paulo: 2002, p. 15.
Osvaldo Estrela Viegaz - 29

tos a entrar na lista dos subversivos e serem “julgados” nos porões


da ditadura.
É cediço e de conhecimento geral que as investigações con-
duzidas pelos agentes da Ditadura Militar, como Freddie Perdigão
Pereira, constituiu uma importante tática de guerra contra os oposi-
cionistas, ou melhor, contra aqueles que possuíam de alguma maneira
ligação com o comunismo, o grande monstro caçado pelos militares.

Uma vez instituído o sistema de informações, o controle


operacional do regime militar passou a se valer desta extensa
rede de dados que se mostrou de grande importância para
combater os chamados subversivos, aqueles que se opunham
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

ao regime. A criação desse intrincado sistema de informações


das Forças Armadas em conluio com outros órgãos estaduais
e municipais, estenderam o paradigma da repressão para a
sociedade. O que antes era uma tática dos militares conserva-
dores para com os militares tidos como liberais, ultrapassou os
muros dos quartéis para chegar nas ruas e na sociedade civil.9

Com essas informações e crentes de estarem prestando um servi-


ço de combate ao terror comunista, os militares passaram a perseguir
qualquer um que, segundo o critério dos agentes, enquadrassem-se
no estereótipo “comunista comedor de criancinhas”.
A desculpa comunista teve um intuito claro: perseguir os sub-
versivos. Não porque sua doutrina estava em desacordo com os ide-
ários militares capitalistas, mas sim porque a tarefa era mais fácil
do que perseguir e caçar os corruptos que estavam entranhados na
política brasileira, até porque os corruptos, por serem corruptíveis,
fariam o que lhes mandassem10.

9
ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu
a amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios,
revelando informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira
da Silveira (Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux,
2014. pp. 9-10.
10
Neste sentido: “Perseguir subversivos era tarefa bem mais fácil do que encarcerar
corruptos, pois se os primeiros defendiam uma ordem política, os outros aceitavam
30 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

STF e a invasão marxista: liberdade de cátedra ou


abuso de liberdade?

As ideias “vermelhas” estavam afloradas no País, ou melhor,


continuavam ganhando força, já que iniciadas durante a década de
1920. Sua proliferação era um problema para os militares, pois sua
posição de combate ao terrorismo de Estado e às práticas de extre-
ma-direita colocavam em discussão pontos cruciais característicos
nos regimes totalitários da América.
Não por menos, alguns desses “subversivos” foram julgados
pelo Supremo Tribunal Federal por suposta prática de crimes contra a
segurança nacional, ou seja, manifestação a favor da esquerda e pro-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

pagação das ideias marxistas, tidas como proibidas pelos militares.


Os ministros, por evidência, não somente se manifestaram como
também em alguns momentos expressaram sua opinião sobre o que
ocorria. É importante termos em mente que, uma vez instaurado o
regime totalitário, a maioria das liberdades constitucionais eram cer-
ceadas, acontecendo o mesmo com o Poder Legislativo (Congresso
Nacional e Assembleias fechados) e com o Poder Judiciário (poda-
do de sua atuação). A arma dos ministros para se manifestar são os
seus votos.
Neste sentido, um dos primeiros casos que ganharam destaque
no Supremo Tribunal Federal após o Golpe Militar sobre o tema li-
berdade de expressão apontou o Habeas Corpus nº 40.910/PE, jul-
gado em 24 de agosto de 1964, alguns meses após o golpe, que teve
como relator o Ministro Hahnemann Guimarães, tendo sido a ordem
concedida por unanimidade ao paciente Sérgio Cidade de Rezende.
O que chama a atenção, porém, é a discussão sobre as ideolo-
gias. É cediço que a Corte Suprema pugnava pela defesa das liber-
dades e garantias individuais, mas o interesse do referido julgamento
é justamente a discussão sobre o alcance dessas liberdades, discus-
são que pode ser vista no voto do Ministro Pedro Chaves, que dei-

quaisquer tipos de ordens. Fariam parte do regime, fosse qual fosse”. (GASPARI,
2002, p. 135).
Osvaldo Estrela Viegaz - 31

xa claro que concorda com o Ministro Relator no campo legal, mas


discorda do mesmo no campo ideológico.
Sobre o terreno legal, afirmam os ministros que a ação do pro-
fessor Sérgio Cidade de Rezende de distribuir panfletos em sala de
aula não constitui o crime previsto na Lei nº 1.802/5311, motivo pelo
qual a ordem de Habeas Corpus deveria ser concedida. De acordo
com o resumo do caso:

No exercício de sua cadeira de professor da Universidade Ca-


tólica de Pernambuco, escreveu, em um pedaço de papel, di-
zeres subversivos, “Viva o Partido Comunista” [...] o paciente
faz crítica desfavorável à situação política atual, acentuando,
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

ao final, que aos estudantes “cabe uma responsabilidade, uma


parcela de decisão dos destinos da sociedade e para isto têm
de optar entre ‘gorilisar-se’ ou permanecer seres humanos. A
estes cabe a honra de defender a democracia e a liberdade”.12

Pela leitura, percebe-se que o professor Sérgio Cidade de


Rezende pretendia instar seus alunos na politização de ideais con-
trários ao regime militar recém-nascido. Sua posição em sala con-
clamava os alunos a se responsabilizarem enquanto seres humanos
e, com isso, se diferenciar dos animais (gorilas)13.
Diante do relatório acima elencado, o voto do Ministro Relator

11
BRASIL. Lei nº 1.802, de 5 de janeiro de 1953. Define os crimes contra o Estado
e a Ordem Política e Social, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/L1802.htm>. Acesso em: 25 ago. 2015.
12
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 40.910/PE. Relator
Ministro. Hahnemman Guimarães. Julgado em: 24/08/1964. Disponível em: <http://
www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalMemoriaJurisprud/
anexo/Hahnemann_Guimaraes.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2015.
13
Não podemos aqui deixar de citar e lembrar do pensamento de Immanuel Kant.
De acordo com o filósofo alemão, a diferença entre o homem e os animais está
justamente na razão em que o primeiro possui, de modo que sua atuação no meio
deve estar de acordo com o respeito aos outros seres humanos, isto é, a partir de
uma ação na qual visa unicamente todos os seres humanos e não apenas um ou
outro específico. É desta maneira que podemos distinguir a ação ao dever moral
(cujo impulso é exterior) da ação por dever moral (cujo início é interior).
32 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

concedendo a medida de Habeas Corpus pode ser considerada liberal,


até porque foi no início do regime militar, sendo no seguinte sentido:

Não há no manifesto nada que se possa considerar propaganda


de processos violentos para subversão da ordem política ou
social (lei nº 1.802, artigo 11, a e § 3º), ou instigação pública
à desobediência coletiva ao cumprimento da lei de ordem
pública (lei nº 1.802, artigo 17).14

Inclusive, o ministro relator seguiu o mesmo entendimento


proferido em julgamento onze anos antes, quando do seu voto na
Apelação Criminal nº 1.501/SP, de 6 de julho de 1953, na qual con-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

siderou não ser crime caso alguém tenha em seu poder propaganda
condenada, desde que não as distribua. Mais do que isso, conside-
rou que não é propaganda condenada a exposição, a crítica e a dis-
cussão de qualquer doutrina15.
Ainda com relação ao Habeas Corpus 40.910/PE, o Ministro
Pedro Chaves, ao considerar de igual maneira a análise sob a égide da
liberdade de expressão e da legalidade constitucional dos atos pratica-
dos, deixou entrever a contradição entre as ideias do Ato Institucional
nº 1 (AI-1) e da manutenção do liberalismo na Constituição Federal

14
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 40.910/PE. Relator
Ministro. Hahnemman Guimarães. Julgado em: 24/08/1964. Disponível em: <http://
www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalMemoriaJurisprud/
anexo/Hahnemann_Guimaraes.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2015
15
Neste sentido: “Não posso concordar com a conclusão a que chegou o ilustra-
do Representante do M. Público da Comarca. Em primeiro lugar, não há prova
nos autos de que o jornal vendido pelo réu seja órgão de publicidade do Partido
Comunista, que parece sobreviver (existência de fato), após a cassação de seu re-
gistro pela Justiça Eleitoral. E ainda que nos autos existisse prova da ligação entre
o jornal e o Partido, mesmo assim não se poderia afirmar que o acusado incorreu
na sanção do art. 10, acima transcrito, pois este artigo, em seu sentir, pune apenas
a ajuda real, efetiva, inequívoca, cuja medida só pode ser encontrada no vulto e na
habitualidade da cooperação emprestada. Só a ajuda prestada nestas condições será
equivocadamente dolosa, de sorte a autorizar a imputação do agente”. (BRASIL.
Supremo Tribunal Federal. Apelação Criminal nº 1.501/SP. Rel. Min. Hahnemann
Guimarães. Julgado em: 06/07/1953. Fonte: STF).
Osvaldo Estrela Viegaz - 33

de 1946, que por força deste mesmo Ato Institucional foi mantida
no ordenamento jurídico16. Conforme o entendimento do Ministro:

Esta Constituição de setembro de 1946, como todas as Cons-


tituições inspiradas nos princípios da Liberal Democracia, é
uma Constituição que não fornece meios de defesa às ins-
tituições nacionais e é uma Constituição onde se prega um
liberalismo à Benjamin Constant, pleno, amplo e absoluto,
mesmo contra os interesses que se presumem ser da nacionali-
dade, porque consagrados por uma Assembleia Constituinte.17

Devemos aqui considerar que o ministro Pedro Chaves conce-


deu o Habeas Corpus ao paciente em estrito cumprimento à lega-
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lidade, ou seja, pura e simplesmente porque os atos praticados por


Sérgio Cidade de Rezende não se enquadravam nas condutas tipifi-
cadas pela Lei nº 1.802/53.
Basta verificarmos, assim, a pesada crítica ao modelo liberal-
-democrático previsto na Constituição Federal de 1946 que, nos di-
zeres do ministro, protege tanto a liberdade individual que deixa a
liberdade nacional (os interesses da nacionalidade) desprotegidos e
passiveis de abusos pela individualidade.
Em sentido contrário a este, o ministro Evandro Lins e Silva
declara que só existe liberdade de expressão quando os cidadãos
podem se opor aos postulados essenciais nos quais o regime se as-
senta. O ministro pautou seu discurso nas ideias do juiz da Suprema
Corte estadunidense William O. Douglas e prossegue afirmando que

16
BRASIL. Ato Institucional nº 1, de 9 de abril de 1964. Dispõe sobre a manu-
tenção da Constituição Federal de 1946 e as Constituições Estaduais e respectivas
Emendas, com as modificações introduzidas pelo Poder Constituinte originário da
revolução Vitoriosa. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/
ait-01-64.htm>. Acesso em: 25 ago. 2015.
17
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 40.910/PE. Relator
Ministro. Hahnemman Guimarães. Julgado em: 24/08/1964. Disponível em: <http://
www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalMemoriaJurisprud/
anexo/Hahnemann_Guimaraes.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2015.
34 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

o governo não pode privar os cidadãos do acesso ao conhecimento,


motivo pelo qual a pesquisa deve dominar escolas e universidades.

O paciente é professor da Universidade Católica de Pernam-


buco, de uma cadeira cujas vinculações com a política são
inarredáveis. É professor de Introdução à Economia. Prosse-
gue Douglas: “Aos professores se deve permitir a busca das
ideias em todos os domínios. Não deve haver limites para tal
discussão” (The Right of The People. pp. 14-5).18

Evandro Lins, assim, defende a liberdade de pensamento de cá-


tedra, demonstrando que a universidade é a responsável pelo conhe-
cimento e pela formação política dos cidadãos. E, embora no caso
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

em tela se trate de teoria marxista, de acordo com o entender do mi-


nistro, qualquer forma de conhecimento assim deve ser considera-
da (tanto que dentre as citações de William O. Douglas realizadas
pelo ministro, em uma ocasião há uma crítica ao Estado Comunista
Soviético e Chinês, mas nem por isso o ministro deixa de defen-
der a liberdade do pensamento marxista na cátedra universitária)19.
O ministro Pedro Chaves, voltando agora seu discurso para a
sociedade e o que, na realidade, a Constituição Federal de 1946 pro-
piciou com as liberdades plena, ampla e absoluta, conforme foi clas-
sificada pelo ministro:

Assim, há abuso da liberdade de imprensa, há abuso da liber-


dade de pensamento, há abuso das imunidades parlamentares

18
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 40.910/PE. Relator
Ministro. Hahnemman Guimarães. Julgado em: 24/08/1964. Disponível em: <http://
www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalMemoriaJurisprud/
anexo/Hahnemann_Guimaraes.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2015.
19
Neste sentido, ao citar novamente William O. Douglas, vota o ministro Evandro
Lins e Silva: “Uma Universidade é uma espécie de uma contínua conversação
Socrática, no mais alto nível, com as melhores pessoas que se possa imaginar
e reunir – sobre as mais importantes questões, e deve-se fazer o possível para
garantir a tais homens a liberdade – de pensar e de expressar-se”. (SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL. op. cit. Rel. Min. Hahnemman Guimarães. Julgado em:
24/08/1964. Fonte: STF).
Osvaldo Estrela Viegaz - 35

e há abuso da liberdade de cátedra. Não podia ter passado


pela ideia de um constituinte, honestamente consciente das
necessidades nacionais de transformar o direito de liberdade
de cátedra em direito de incutir no ânimo dos estudantes ideias
que são contrárias àquelas proclamadas e consagradas pela
Constituição.20

Aqui percebe-se não somente a crítica do ministro às liberdades


constitucionalmente previstas, como também à possibilidade criada
de um estudante tomar partido de uma ideia contrária à Constituição
Federal. Apesar de ter votado no mesmo sentido do ministro relator,
Pedro Chaves deu uma visão sobre o que considerava a “verdadeira”
subversão ocorrida no País, em total consonância com a ideia con-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

tida no discurso da ditadura.


Já o ministro Victor Nunes, de forma diversa, se manifestou
sobre a liberdade de cátedra, comparando-a com a liberdade de im-
prensa e acaba de certa maneira provocando o regime militar ao afir-
mar que as ideias propagadas pelos jornais são muito piores do que
as defendidas pelo professor Sérgio Cidade de Rezende em seu ma-
nifesto e nem por isso são atacadas.

O que disse o paciente, no seu incriminado manifesto aos


alunos, é muito menos do que alguns jornais publicam
diariamente. E a liberdade de imprensa não goza de maior
imunidade que a liberdade de cátedra. O contrário é que
se deveria dizer. A ideia impressa é mais susceptível de se
traduzir em atos concretos, eventualmente atos subversivos,
do que a ideia expressa pelo professor, no exercício de seu
magistério.21

20
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 40.910/PE. Relator
Ministro. Hahnemman Guimarães. Julgado em: 24/08/1964. Disponível em: <http://
www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalMemoriaJurisprud/
anexo/Hahnemann_Guimaraes.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2015.
21
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. op. cit. Rel. Min. Hahnemman Guimarães.
Julgado em: 24/08/1964. Fonte: STF.
36 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

Podemos perceber que o Ministro Pedro Chaves concedeu o


Habeas Corpus ao paciente simplesmente porque a ação de Sérgio
Cidade Rezende não se encontrava tipificada em lei, o que não sig-
nifica que essa ação seja de igual maneira constitucional, porque
atenta à Constituição, ao mesmo tempo em que é uma liberdade
concedida por esta.
Esta relação dialética é preponderante para o que aqui pre-
tendemos, uma vez que, até 1967, a Constituição Federal de 1946
permaneceu vigorando, na medida em que tínhamos liberdades con-
trastando com medidas autoritárias do governo militar. Inclusive,
o ministro Pedro Chaves é categórico em sua posição de que são
os que abusam das liberdades (entendemos aqui como sendo os
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

subversivos) os responsáveis pela situação do País. Mais do que


isso, critica de maneira dura o marxismo e os marxistas, cuja dou-
trina é a responsável pelo que ocorreu no caso Sérgio Cidade de
Rezende (e em outros).

Estes que abusam da liberdade são os maiores responsáveis


pela situação atual. Não ignorantes ou semi-analfabetos –
soldados e marinheiros – que se reuniam, sob amparo da
política do Governo anterior, para fazer propaganda da
subversão. Estes não sabem o que é marxismo, nem ideias
marxistas. São homens como este, que é professor de In-
trodução à Ciência Econômica e que vai incutir nos seus
discípulos – 26 rapazes – ideias de desprestígio das Forças
Armadas, matéria inteiramente fora do âmbito da cátedra,
porque, embora tenha relações com a ciência política, é estri-
tamente presa à Introdução das Ciências Econômicas. E não
foi no desenvolvimento de uma tese que em ele sustentasse
uma opinião contrária a de seus opositores; não foi dando
uma aula, que o paciente emitiu ideias marxistas, que ele
podia acalentar, sem dúvida, mas não da sua cátedra, que
não podia transformar em meio e local de propaganda da sua
própria conduta para com seus jovens alunos. Foi expondo
matéria econômica que ele emitiu os aludidos conceitos?
Não. Foi distribuindo um manifesto, um memorial, para
concitar os seus jovens alunos, a que pensassem na situação
atual, que evitassem se “gorilizar”, porque, para ele, aqueles
Osvaldo Estrela Viegaz - 37

que derrubam o Comunismo, que estava se implantando dia


a dia nesta terra, eram ‘gorilas’.22

Este longo trecho do voto do ministro Pedro Chaves está imbuí-


do de enorme riqueza de suas ideias. Traz, por exemplo, sua visão do
marxismo e do comunismo, bem como uma defesa velada dos mili-
tares que derrubaram o comunismo crescente no Brasil, reafirman-
do em plenário a “desculpa” utilizada pelos militares para o golpe.
Contudo, é durante o voto do citado ministro Victor Nunes que
se desenrola acalorada discussão acerca das liberdades no Brasil, so-
bretudo quando as mesmas são comparadas ao modelo dos Estados
Unidos. Apesar do rico debate, seria demais citar aqui na íntegra a
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

discussão dos ministros


Importante mencionar, porém, que a liberdade de pensamen-
to está em discussão em igual patamar com a liberdade de cátedra
(em alguns pontos a liberdade de cátedra chega a ser colocada como
mais importante do que a de pensamento, uma vez que é por ela que
se constrói o conhecimento). O ministro Victor Nunes resume essa
liberdade da seguinte forma:

Os riscos da liberdade do pensamento universitário são al-


tamente compensados com os benefícios que a universidade
livre proporciona ao povo, ao desenvolvimento econômico do
país, ao aperfeiçoamento moral e intelectual da humanidade.
E assim quer a Constituição, porque, além de consagrar a
liberdade de pensamento em geral, também garantiu, redun-
dantemente, a liberdade de cátedra (art. 168, VII).23

Ao menos neste início da Ditadura Militar percebe-se que os minis-

22
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 40.910/PE. Relator
Ministro. Hahnemman Guimarães. Julgado em: 24/08/1964. Disponível em: <http://
www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalMemoriaJurisprud/
anexo/Hahnemann_Guimaraes.pdf>. Acesso em: 25 ago. 2015.
23
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. op. cit. Relator Ministro. Hahnemman
Guimarães. Julgado em: 24/08/1964.
38 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

tros podiam não somente atuar como também manifestar-se com maior
liberdade, o que foi diminuindo cada vez mais com o passar dos anos.
Temos, pois, ao menos nos primeiros meses de ditadura mili-
tar, dois posicionamentos distintos tanto sobre a liberdade de pen-
samento/cátedra, como sobre o papel das universidades na vida dos
jovens brasileiros. Enquanto um – de início – mais dominante para
o lado das liberdades, o outro mais autoritário e em sintonia com o
regime militar, pregando a estrita função educacional e na limitação
da propagação de ideias pelos professores.

Partidos Políticos e a Segurança Nacional


UNINOVE – uso exclusivo para aluno

As questões envolvendo as universidades é bastante importante


para analisarmos o período, seja de acordo com os julgamentos do
Supremo Tribunal Federal, seja pelos muitos movimentos estudan-
tis criados, que foram preponderante em muitos pontos para a união
da sociedade em busca das liberdades constitucionais.
Foi também nas universidades que estudantes, professores e
simpatizantes se reuniram para, na clandestinidade, reorganizar os
partidos políticos, o que era considerado subversivo e desrespeito-
so ao sistema bipartidário criado desde o golpe em 1964, consistin-
do apenas no partido do governo, a Aliança Renovadora Nacional
(ARENA) e o partido oposicionista, o Movimento Democrático
Brasileiro (MDB).
Um desses casos diz respeito ao envolvimento de universitários
na reorganização do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em reuni-
ões ocorridas na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo
(USP). É o caso envolvendo o Recurso Ordinário Criminal (ROC)
nº 1.191, tendo como Relator o Ministro Rodrigues Alckmin, sendo
julgado em 11 de dezembro de 1973, durante os chamados “Anos
de Chumbo”, tendo a seguinte ementa:

CRIME CONTRA A SEGURANÇA NACIONAL. (DL


314/67, art. 36). Para a tipificação do delito previsto no art. 36
Osvaldo Estrela Viegaz - 39

do DL 314/67, bastam a doutrinação, o aliciamento, o paga-


mento de contribuições visando a reorganizar partido político
cujo registro tenha sido cassado – condenação apoiada nas
provas. – Recurso não provido.24

Sabemos o quanto a Doutrina da Segurança Nacional (DSN) foi


importante para o governo militar, que readequou a Lei de Segurança
Nacional criada por Getúlio Vargas em 1935 para que esta cumpris-
se os seus desígnios na realidade militar e fornecesse o aparato ne-
cessário para a implantação do regime totalitário.
Antes de mais nada, destaca-se o que devemos considerar como
“crime político”, tratado na Lei de Segurança Nacional. A ementa
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

contida no acórdão do Recurso Extraordinário (RE) nº 72.486/SP,


sobre o crime de roubo em estabelecimento de financiamento (priva-
do) e incurso no art. 27 do DL 898/6925, de relatoria do ministro Luiz
Gallotti demonstra que tal posicionamento doutrinário foi suscitado
inclusive no STF, em julgamento ocorrido em 19 de abril de 1972:

O conceito de crime político é largamente controvertido na


doutrina, sendo respeitável a opinião dos que sustentam ser
indispensável à sua configuração a existência do móvel polí-
tico. No caso, a lei levou em conta o período que estamos vi-
vendo, o caráter de tais delitos e o abalo social que provocam,
pois, embora causando dano patrimonial a estabelecimento
de crédito ou financiamento, ameaçam também, seriamente,
as numerosas pessoas que a eles têm de comparecer, com
reflexos na segurança interna. O conceito desta não é imutável
e, sim, varia no tempo e no espaço.26

24
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Ordinário Criminal nº 1.191. Rel.
Min. Rodrigues Alckmin. Julgado em: 11/12/1973. Fonte: STF.
25
BRASIL. Decreto-Lei 228, de 28 de fevereiro de 1967. Reformula a organização
da representação estudantil e dá outras providências. Disponível em: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del0228.htm>. Acesso em: 23 nov. 2015.
Art. 27. Assaltar, roubar ou depredar estabelecimento de crédito ou financiamento,
qualquer que seja a sua motivação: Pena: reclusão, de 10 a 24 anos.
26
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 72.486 – SP
(Tribunal Pleno). Competência. Justiça Militar. Crime político. Assalto a banco.
40 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

Considera-se crime político e que atentem contra a segurança


nacional, assim, todos aqueles que possam de alguma forma atingir
à sociedade, o que é amplamente controverso, já que todo e qual-
quer crime atinge a sociedade (ou caso contrário não teríamos prati-
camente todos os crimes previstos no Código Penal Brasileiro (CPB)
– como sendo de iniciativa pública – condicionada ou incondiciona-
da). Ademais, o próprio conceito de crime já enseja tal interpretação.
Contudo, nos atentemos a um trecho da ementa de suma im-
portância: a lei leva em consideração o período em que se vive, isto
é, o período na qual ela entrou em vigor. O DL nº 898/69 e o julga-
mento ocorrido em 1972 são ambas do período chamado “Anos de
Chumbo”, e caracteriza muito bem o que se podia considerar “cri-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

me político” neste período: praticamente qualquer coisa que atente


contra o regime militar (não contra a segurança nacional).
O referido Recurso Extraordinário (RE) em que foi recorrente
Osmar Élcio da Silva Jacinto, versava praticamente na sua integrali-
dade sobre a inconstitucionalidade da Justiça Militar no julgamento
de crimes de assalto a bancos, competência prevista no Art. 129, §
1º, da Constituição Federal de 1967. A inconstitucionalidade do art.
27, do DL nº 898/69, que trata sobre o assunto, foi afastada.
Consideramos importante mencionar este fato, uma vez que uma
leitura rápida da ementa do julgamento pode levar o leitor a entender
que os ministros eram favoráveis ao regime militar ao considerar o
conceito de crime político amplo baseados no momento vivido pelo
país que ensejava este entendimento, o que não significa, todavia,
a concordância do autor com a conceituação ampla como forma de
manutenção de um crime comum considerado como político, sendo
este também o entendimento externado pelo sempre brilhante e crí-
tico Ministro Aliomar Baleeiro quando de seu voto no mesmo RE:

Crime político. Assalto a banco. Decreto-Lei nº 898/69 (constitucionalidade).


Revista Trimestral de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 62, p. 1-228, out. 1972.
Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/062_1.
pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
Osvaldo Estrela Viegaz - 41

Não conheço do recurso por falta de prova da divergência.


Lamento divergir do eminente Relator. Creio que o conceito
de segurança nacional não pode ser dilatado a ponto de se
empregar as palavras no sentido oposto ao que elas significam.
Quando a Constituição empresa palavras de Direito Privado,
ela se reporta àqueles conceitos de Direito Privado; quando ela
se refere a conceitos de Direito Penal, ela também se reporta
àqueles conceitos já consagrados no País, se por acaso não
lhes emprestou outros. No caso concreto, creio que o crime de
contrabando ou ataque a bancos, se foi praticado em um móvel
político, por meliantes comuns com passado criminoso etc.,
como no caso relatado pelo Ministro Barros Monteiro, não
pode, à luz da Constituição, ser julgado pela Justiça Militar.
Até degrada a Justiça Militar, que foi instituída exclusivamente
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

para delitos militares ou de civis que prejudiquem institui-


ções militares, ou para casos de crimes políticos, como tais
definidos, naquelas hipóteses a que a Constituição se refere.27

Aliomar Baleeiro, em sua inteligência doutrinária, conceituou exa-


tamente o que aqui pretendemos passar: não se pode, independente do
período, dar entendimento diverso àquilo que realmente significam as
palavras. É perigosa e temerária esta ação, uma vez que emprega des-
tino diverso ao que realmente se pretende, sendo esta uma arma muito
utilizada pelo regime militar, já que a hermenêutica interpretativa pode
levar a um leque sem fins de possibilidades para um termo que significa
apenas e tão somente o que ele significa, como bem relatou o ministro.
Este não foi o único caso envolvendo crimes contra a Lei de
Segurança Nacional que chegou ao STF. Alguns, inclusive, depois
das mudanças dos Atos Institucionais, que atingiram profundamen-
te a competência para julgamentos e a mitigação do Habeas Corpus
(AI-5) e a alteração do número de ministros da Corte Suprema (AI-6).

27
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 72.486 – SP (Tribunal
Pleno). Competência. Justiça Militar. Crime político. Assalto a banco. Crime político.
Assalto a banco. Decreto-Lei nº 898/69 (constitucionalidade). Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 62, p. 1-228, out. 1972. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/062_1.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
42 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

Inclusive, o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 196828,


atingiu, além da sociedade, também o Poder Judiciário, quando o
Habeas Corpus foi mitigado de apreciação pelo Supremo Tribunal
Federal, sendo este a partir de então da competência da Justiça Militar.

A pior das marcas ditatoriais do Ato (Institucional nº 5), aquela


que haveria de ferir toda uma geração de brasileiros, encontrava-
-se no seu artigo 10: “Fica suspensa a garantia de Habeas Corpus
nos casos de crimes políticos contra a segurança nacional”. Es-
tava atendida a reivindicação da máquina repressiva. O Habeas
Corpus é um inocente princípio do direito, pelo qual desde o
alvorecer do segundo milênio se reconhecia ao indivíduo a ca-
pacidade de livrar-se da coação ilegal do Estado. Toda vez que a
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Justiça concedia o Habeas Corpus a um suspeito, isso significava


apenas que ele era vítima de perseguição inepta, mas desde os
primeiros dias de 1964 esse instituto foi visto como um túnel
por onde escapavam os inimigos do regime.29

A máquina repressiva do Estado Militar, assim, se consolida-


va cada vez mais firme no sentido de inibir toda e qualquer mani-
festação popular contrária ao regime. Não só isso, tentava impedir o
Supremo Tribunal Federal de se manifestar da maneira como outrora
fizera, limitando os casos que chegavam para seu pronunciamento.
Mesmo assim, alguns ministros fiéis aos seus posicionamen-
tos permaneciam firmes no sentido de se manifestar de acordo não
somente com a legalidade trazida no bojo do ordenamento jurídico
pátrio, como também da doutrina seguida por estes ministros, quan-

28
BRASIL. Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. São mantidas a
Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições Estaduais; O Presidente
da República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios, sem as
limitações previstas na Constituição, suspender os direitos políticos de quaisquer
cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e
municipais, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/AIT/ait-05-68.htm>. Acesso em: 23 nov. 2015.
29
GASPARI, Élio. A Ditadura envergonhada: as ilusões armadas. São Paulo:
Editora Companhia das Letras, 2002, pp. 340-1.
Osvaldo Estrela Viegaz - 43

do alguns ainda mostravam-se liberais, como veremos adiante com


o nobre Ministro Aliomar Baleeiro.
O citado Decreto-Lei nº 314/67 foi posteriormente revogado
pelo Decreto-Lei nº 898/69. Quando a “subversiva” Nair Yumiko
Kobashi foi condenada em primeira instância pelo crime previsto
no Art. 12 do DL nº 314/6730, este dispositivo legal passou a ter cor-
respondência no Art. 14 do DL nº 898/6931, tendo a pena sido redu-
zida por conta do Art. 36 do DL nº 314/6732.

A Lei de Segurança Nacional (LSN) criada por Getúlio Vargas


em 1935, durante o seu Governo Constitucional (1934-1937),
forneceu as bases para implantação do Estado Novo (1937-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

30
BRASIL. Decreto-Lei 314, de 13 de março de 1967. Define os crimes contra a
segurança nacional, a ordem política e social e dá outras providências. Disponível
em: <h t t p : / / w w w 2 . c a m a r a . l e g . b r / l e g i n / f e d / d e c l e i / 1 9 6 0 - 1 9 6 9 /
decreto-lei-314-13-marco-1967-366980-publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso
em: 23 nov. 2015.
Art. 12. Formar ou manter associação de qualquer título, comitê, entidade de classe ou
agrupamento que, sob a orientação ou com o auxílio de govêrno estrangeiro ou organi-
zação internacional, exerça atividades prejudiciais ou perigosas à segurança nacional:
Pena – reclusão, de 1 a 5 anos.
31
______. Decreto-Lei 898, de 29 de setembro de 1969. Define os crimes contra a
segurança nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento
e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
decreto-lei/1965-1988/Del0898.htm>. Acesso em: 25 nov. 2015.
Art. 14. Formar, filiar-se ou manter associação de qualquer título, comitê, entidade de classe
ou agrupamento que, sob a orientação ou com o auxílio de govêrno estrangeiro ou orga-
nização internacional, exerça atividades prejudiciais ou perigosas à Segurança Nacional:
Pena: Reclusão, de 2 a 5 anos, para os organizadores ou mantenedores, e, de 6
meses a 2 anos, para os demais.
32
______. Decreto-Lei 314, de 13 de março de 1967. Define os crimes contra a
segurança nacional, a ordem política e social e dá outras providências. Disponível
em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1960-1969/
decreto-lei-314-13-marco-1967-366980-publicacaooriginal-1-pe.html>. Acesso
em: 23 nov. 2015.
Art. 36. Fundar ou manter, sem permissão legal, organizações de tipo militar, seja
qual fôr o motivo ou pretexto, assim como tentar reorganizar partido político cujo
registro tenha sido cassado ou fazer funcionar partido sem o respectivo registro ou,
ainda associação dissolvida legalmente, ou cujo funcionamento tenha sido suspenso:
Pena – detenção, de 1 a 2 anos.
44 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

1945) e foi amplamente utilizada pelos militares para justificar


os atos contrários às liberdades e garantias fundamentais.
Por meio do Decreto-Lei 898, de 29 de setembro de 1969,
a ditadura militar reavaliou a Lei de Segurança Nacional e
estabeleceu novos pontos e diretrizes para os seus agentes. A
dita Doutrina da Segurança Nacional era colocada em voga
novamente para justificar os atos de barbárie cometidos pelo
governo autoritário, apoiados pelo Ato Institucional nº 2.33

A reorganização dos partidos políticos sempre foi temida pela


Ditadura Militar. O pluripartidarismo, além de proporcionar uma
maior gama de possibilidades para a oposição, possibilitaria ainda
mais a proliferação de doutrinas subversivas aos propósitos milita-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

res, não somente o marxismo, como no caso acima, mas também o


liberalismo-democrático ou até mesmo os ideais anárquicos.
No caso em tela, assim relatou o Ministro Rodrigues Alckmin
sobre o envolvimento da recorrente e dos seus “comparsas” no cri-
me de reorganização partidária nas Faculdades de Filosofia da USP
e de Medicina de Ribeirão Preto:

A recorrente e outros foram denunciados por terem organiza-


do célula do PCB a fim de atuarem na Faculdade de Filosofia
da Universidade de São Paulo e na Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto, para o que realizaram reuniões, conferências
e aulas sobre marxismo, aliciando elementos para a célula
e chegando mesmo, alguns denunciados, a ‘atividades de
panfletagem e pichações dentro do esquema subversivo da
ideologia extremista que abraçaram’ – como reza a denúncia.34

Mais do que relatar os motivos da denúncia e da condenação,

33
ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do
tabu a amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios,
revelando informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira
da Silveira (Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux,
2014. pp. 15-6.
34
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Ordinário Criminal nº 1.191. Rel.
Min. Rodrigues Alckmin. Julgado em: 11/12/1973. Fonte: STF.
Osvaldo Estrela Viegaz - 45

claramente percebemos a conotação pejorativa e negativa em torno


das “reuniões, conferências e aulas sobre marxismo”, considerada
uma “ideologia extremista abraçada pelos subversivos”.
Parece-nos, na verdade, que o problema maior não era a reor-
ganização dos partidos políticos, mas sim a formação de células que
tivessem como intuito a discussão e proliferação da ideologia marxis-
ta. Tanto o DL nº 314/67 como o diploma revogador DL nº 898/69,
não traziam explicitamente o “problema marxista”, mas sabemos
também que é desnecessário citar que seus partidários eram os alvos.

A denúncia, como visto, especificou devidamente a ativida-


de delitiva atribuída à ré, consistente em ter participado da
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

organização de célula do PCB. Quanto às provas colhidas,


observa a Procuradoria Geral da República, às fls. 702:
“Os fatos estão provados. Em 1968, em dias e meses não
precisados, um grupo reuniu-se por diversas vezes, quase
sempre na residência da ré Myrna Therezinha Rossi Rego,
em caráter secreto, e desenvolveu atividades de doutrinação
e aliciamento. (grifo nosso).35

Basta verificar os dizeres da Procuradoria Geral da República,


citadas pelo ministro relator. Apesar de não terem ciência dos dias e
meses das reuniões, tinham certeza absoluta tanto que elas acontece-
ram como que os assuntos tratados eram de cunho marxista e com o
intuito de reorganizar o PCB. Pergunta: como sabiam? Respondemos
com outra pergunta: e isso tem alguma relevância?
A denúncia e a condenação da recorrente se basearam em depoi-
mentos contraditórios de dois pretensos participantes das reuniões.
Em certo sentido, esses depoimentos possuíam cunho até pessoal,
indicando mais “rancor” pelo fim de um relacionamento do que pro-
va de formação partidária.
Temos, desta forma, que transcrever aqui os trechos nos quais
foram embasadas a condenação da recorrente, em depoimentos co-

35
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Ordinário Criminal nº 1.191. Rel.
Min. Rodrigues Alckmin. Julgado em: 11/12/1973. Fonte: STF.
46 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

lhidos de dois outros acusados no mesmo processo: Adilson Pereira


Teles e Armando Gimenez, que afirmaram em sede de interrogató-
rio judicial que as reuniões tinham sempre outros intuitos, confor-
me relata Armando Gimenez:

[...] que, em 1968, foi convidado para promover uma pales-


tra na residência de Gusmão, e ali chegando percebeu que
o assunto era se deviam, ou não, participar de uma passeata
estudantil nesta capital [...] que ao promover a palestra na
casa de Myrna o seu objetivo era falar sobre a dialética ma-
terialista e tudo mais teoricamente, enquanto que as pessoas
ali presentes tinham na realidade outro objetivo, razão porque
foi dispensado da palestra.36
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Já Adilson Pereira Teles, afirmou que contribuía financeiramen-


te com o partido, mas que mudou seu comportamento com o tempo
conforme assistia às reuniões do grupo (o que parece mais uma des-
culpa do que um fato consumado):

Adilson Pereira Teles, que ‘pagava três contos para o Partido’,


teve seu comportamento alterado em face do que assistia nas
reuniões do grupo. Conversou com a recorrente sobre isso e
‘esta preferiu deixar o namoro do que continuar namorando
com o interrogado fora do Partido’.37

Apesar de os réus em geral negarem as acusações38, afirman-


do que as reuniões tinham como intuito a discussão filosófica (o que
inclui a filosofia marxista), foram condenados como incursos na Lei
de Segurança Nacional.

36
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Ordinário Criminal nº 1.191. Rel.
Min. Rodrigues Alckmin. Julgado em: 11/12/1973. Fonte: STF.
37
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. op. cit., Rel. Min. Rodrigues Alckmin.
Julgado em: 11/12/1973. Fonte: STF.
38
“Os réus, na ação penal, insistem que, nas reuniões tratavam de filosofia geral e
filosofia marxista, inclusive dialética, não extravasando o limite das aulas teóricas”.
(BRASIL. Supremo Tribunal Federal. op. cit. Rel. Min. Rodrigues Alckmin. Julgado
em: 11/12/1973. Fonte: STF).
Osvaldo Estrela Viegaz - 47

Segundo consta do voto do ministro relator, Rodrigues Alckmin,


as provas elencadas durante todo o curso da ação penal não deixam
dúvidas quanto a participação dos réus nos crimes contra a Segurança
do País. Mesmo assim afirmando, citou apenas e tão somente os dois
depoimentos (contraditórios) para embasar sua tese.

Não resta dúvida que a recorrente fez parte de um grupo que


organizou uma célula estudantil do Partido Comunista Brasi-
leiro, destinada a atuar na Faculdade de Filosofia da USP e a
praticar atos nocivos à segurança nacional. Houve a formação
da célula, a doutrinação, o aliciamento. Para a tipificação
do delito do artigo 36 do Decreto-lei nº 314/67 mais não é
preciso, porquanto basta tentar reorganizar partido político
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

cujo registro tenha sido cassado. A doutrinação, o aliciamento,


o pagamento de contribuições para manutenção de Partido, a
discussão sobre participação em passeata se compreendem no
núcleo do tipo ‘tentar reorganizar’. (grifo do autor).39

Ponto importante de se destacar nesta decisão do ministro


Rodrigues Alckmin: tanto o DL nº 314/67, como seu diploma re-
vogador, o DL nº 898/69, em nada fazem referência a “discussão
sobre participação em passeata” como partes do tipo penal “tentar
reorganizar” um partido político. Na realidade, percebe-se uma de-
cisão que contraria o histórico do próprio Pretório Excelso: a defesa
das liberdades individuais, dentre elas a de se reunir pacificamente.
O que é interessante notar em comparação com o anteriormen-
te estudado no Habeas Corpus nº 40.910/PE, tendo como relator o
ministro Hahnemann Guimarães, é a mudança de paradigma con-
tida na decisão do Supremo Tribunal Federal, sobretudo quanto ao
liberalismo demonstrado pelos ministros no caso do HC em compa-
ração à crítica ideológica deste ROC, que foi julgado praticamente
dez anos depois do primeiro.

39
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Ordinário Criminal nº 1.191. Rel.
Min. Rodrigues Alckmin. Julgado em: 11/12/1973. Fonte: STF.
48 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

Subversão estudantil e universitária

Já notamos com os julgados que as universidades foram o gran-


de antro de produção contrária ao regime ditatorial militar. Não por
menos, afinal, como bem demonstrou o Ministro Victor Nunes-Leal,
a liberdade de cátedra é compensada pela produção de conhecimento.
O conhecimento é uma arma extremamente perigosa e não afir-
mamos isso somente com relação ao regime militar brasileiro, mas
sim de maneira geral (incluindo a União Soviética e os países atual-
mente “comunistas”). Aqueles que se encontram no poder procura-
rão sempre, de alguma forma, minar o conhecimento da sociedade.
Mentes pensantes são mentes críticas40.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

O conhecimento traz consigo o perigo da crítica e com ele a


possibilidade de que estas se espalhem e se transformem rapidamente
de uma simples manifestação do pensamento para algo incontrolável
que atinja a todos na sociedade e que minem, por isso, os desígnios
ditatoriais do governo.
Tão perigoso quanto o que ocorria nas universidades foi o
Supremo Tribunal Federal, que, quando possível, manifestava seu
posicionamento favorável às liberdades individuais, incluindo nisso
também as liberdades de pensamento e de cátedra, garantidas pela
Constituição.

Respondendo a crescente onda autoritária e repressiva, a


sociedade civil organizava-se. Os estudantes e setores da

40
Nota do autor: embora a mitigação do conhecimento possa ser vista em muitos
momentos da história, um dos períodos mais marcantes em que esta ocorreu foi
a Idade Média. Com o domínio da Igreja Católica, o conhecimento ficava encar-
cerado nas suas bibliotecas e mosteiros, sendo divulgado tão somente aquilo que
passava por seu aval. O Index Librorum Prohibitorum, introduzido já durante a
Renascença, por exemplo, trazia a lista dos livros tidos como “subversivos” (os
subversivos novamente) e que atentassem ao Cristianismo. Brilhantes mentes como
Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Nicolau Maquiavel, René Descartes, Charles de
Montesquieu e Immanuel Kant (para citar alguns) tiveram seus nomes inscritos na
lista dos indesejosos, que foi abolida apenas em 1966. Ainda hoje a Igreja Católica
publica críticas à algumas obras, mas sem nenhuma força como outrora.
Osvaldo Estrela Viegaz - 49

Igreja manifestavam-se contra atos arbitrários do governo.


Os trabalhadores movimentavam-se e as greves em São Paulo
recomeçaram com maior intensidade. O Supremo Tribunal
Federal continuava a tomar decisões que desagradavam
a setores de linha dura das Forças Armadas. No dia 10 de
dezembro de 1968, o Supremo ordenou a libertação de 81 es-
tudantes, detidos desde junho. Dois dias depois, o Congresso,
onde a resistência também se esboçava, recusou-se a atender
à solicitação do presidente para processar o deputado Márcio
Moreira Alves, que fizera críticas consideradas ofensivas
pelos militares. A situação ficou ainda mais tensa no decorrer
de 68 com o aparecimento de ações guerrilheiras em assaltos
a bancos, roubo de armas e explosão de bombas em alguns
pontos de valor mais simbólico do que estratégico, como os
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

escritórios do Peace Corps, no Rio de Janeiro.41

Muitos eram os setores descontentes com a situação do País,


sobretudo pela repressão e o uso constante de violência pelos agen-
tes militares a mando do governo, o que causava revolta em todas as
partes da Nação e nas mais diversas áreas da sociedade cívica brasi-
leira, desde os trabalhadores e estudantes até o Congresso Nacional
e o Supremo Tribunal Federal, libertando estudantes.
Os movimentos estudantis, aliás, exerceram papel de extrema
importância durante os vinte anos de ditadura militar, motivo pelo
qual tiveram sua atuação quase sempre minada e na maior parte do
tempo essas organizações foram consideradas ilegais42, situação que
não os impediu de agirem na sociedade, ainda que clandestinamente.

41
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 177.
42
BRASIL. Decreto-Lei 228, de 28 de fevereiro de 1967. Reformula a organização
da representação estudantil e dá outras providências. Disponível em: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del0228.htm>. Acesso em: 23 nov. 2015.
Art. 20. Ficam extintos os órgãos estudantis do âmbito estadual, ainda que organi-
zados como entidades de direito privado.
Parágrafo único. O Ministério Público Federal promoverá a dissolução das entidades
e o patrimônio dos referidos órgãos será incorporado à Universidade federal do
Estado respectivo, para utilização pelo D.C.E.
50 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

As medidas adotadas pelo regime militar, portanto, não con-


seguiram sufocar o movimento estudantil; entidades paralelas
foram mantidas, mesmo consideradas ilegais e manifestações
e passeatas em repúdio ao governo continuaram ganhando
força. Em 1967, mais um Decreto que reformulava a organi-
zação da representação estudantil foi promulgada. O Decreto-
-Lei nº 228, de 28 de fevereiro de 1967 acabou com todas
as entidades estudantis gerais, inclusive com o DNE. Entre
outras medidas, proibia manifestações político-partidárias,
raciais ou religiosas e estabelecia que, nos estabelecimentos
de ensino de grau médio, os grêmios seriam constituídos com
finalidades cívicas, culturais, sociais e desportivas.43

Aliás, o papel desempenhado pelos alunos engajados nos mo-


UNINOVE – uso exclusivo para aluno

vimentos estudantis foi preponderante em algum momento da luta


contra o autoritarismo ditatorial do regime militar, principalmente
por sua atuação na construção do conhecimento como um todo e,
posteriormente, na luta armada.
O diretório da União Nacional de Estudantes (UNE), por exem-
plo, era formado por estudantes que iniciaram no pensamento direi-
tista, passaram pelo centro e posteriormente se fixaram na esquerda,
pulando por fim ao marxismo exatamente no período em que a re-
pressão aumentava.

Entre 1950 e 1967, num processo surpreendente, a militância


católica das universidades movera-se da direita para o centro,
do centro para a esquerda, da esquerda para o marxismo e
dele para a luta armada. Desde 1960 a esquerda católica, co-
ligada com o PCB, fornecia o presidente da União Nacional
dos Estudantes. Com uma mensagem cristã e socialista, era a
organização com maior número de militantes no movimento
estudantil e, portanto, a que mais sofria com a repressão que o

43
REIS, Thaís Blume dos. A lógica da suspeição sobre o movimento estudantil gaú-
cho: o olhar das Seções de Ordem Política e Social do Reio Grande do Sul (SOPS/
RS) em relação aos “estudantes subversivos” (1964-1974). Trabalho de Conclusão
de Curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2002. p. 27.
Osvaldo Estrela Viegaz - 51

clandestinizara. No seu processo de radicalização tinha circui-


tos ligados com o brizolismo, com Havana e com Pequim.44

Por isso, o AI-5, de 1968, foi um importante fator para com-


bater o pensamento e a produção do conhecimento, mas parece que
nas universidades ele não foi suficiente, tendo sido necessário, tam-
bém, a criação do Decreto-Lei nº 477, de 26 de fevereiro de 196945,
baixado justamente pelas atribuições conferidas ao presidente da re-
pública pelo Ato Institucional nº 5, do ano anterior.
De acordo com o DL nº 477/69, os professores, alunos, fun-
cionários ou empregados de estabelecimento de ensino público ou
particular cometeriam infração disciplinar caso, de alguma maneira,
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

atentassem contra o estabelecimento, mas o que chama mais a aten-


ção são as disposições sobre a divulgação de material subversivo,
bem como a organização de passeatas e movimentos neste sentido46.
Citamos este fato simplesmente porque, de acordo com os in-

44
GASPARI, Élio. A Ditadura envergonhada: as ilusões armadas. São Paulo:
Editora Companhia das Letras, 2002. p. 242.
45
BRASIL. Decreto-Lei 477, de 26 de fevereiro de 1969. Define infrações discipli-
nares praticadas por professôres, alunos, funcionários ou empregados de estabele-
cimentos de ensino público ou particulares, e dá outras providências. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1965-1988/Del0477.htm>.
Acesso em: 23 nov. 2015.
46
BRASIL. op. cit.
Art. 1º Comete infração disciplinar o professor, aluno, funcionário ou empregado
de estabelecimento de ensino público ou particular que:
I – Alicie ou incite à deflagração de movimento que tenha por finalidade a parali-
sação de atividade escolar ou participe nesse movimento;
II – Atente contra pessoas ou bens tanto em prédio ou instalações, de qualquer
natureza, dentro de estabelecimentos de ensino, como fora dêle;
III – Pratique atos destinados à organização de movimentos subversivos, passeatas,
desfiles ou comícios não autorizados, ou dêle participe;
IV – Conduza ou realize, confeccione, imprima, tenha em depósito, distribua
material subversivo de qualquer natureza;
V – Seqüestre ou mantenha em cárcere privado diretor, membro de corpo docente, fun-
cionário ou empregado de estabelecimento de ensino, agente de autoridade ou aluno;
VI – Use dependência ou recinto escolar para fins de subversão ou para praticar
ato contrário à moral ou à ordem pública.
52 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

cisos III, IV e VI, do Art. 1º do referido DL nº 477/69, comete in-


fração todo aquele que divulga material subversivo, que organiza
passeatas ou que, de alguma forma, contribua com essas manifesta-
ções. Ora, isto nos soa bem familiar. Se voltarmos algumas páginas
encontraremos disposições idênticas na Lei de Segurança Nacional.
Por qual motivo repeti-las?
Temos que considerar algo além da simples e estrita legali-
dade contida na tipificação escrita da lei. De igual forma, não po-
demos considerar simplesmente as ações dos professores, alunos e
funcionários das universidades, já que a Lei de Segurança Nacional,
teoricamente, também os abarcaria. O que devemos, então, enxer-
gar nesta ação militar?
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Nossa análise deve estar pautada no imaginário da sociedade,


mais precisamente naqueles que integram os quadros dos estabele-
cimentos de ensino públicos ou particulares. Explica-se: enquanto a
Lei de Segurança Nacional é geral, com aplicação a todos os brasi-
leiros, o DL nº 477/69 é específico e trata diretamente de uma peque-
na parte da população, o que, de alguma forma, acaba por interferir
na mentalidade coletiva desta parcela.

O Decreto-Lei nº 477, de 26 de fevereiro de 1969, definia as


infrações disciplinares cometidas por professores e alunos,
bem como estabelecia as respectivas punições. Cometiam
infrações aqueles que incitassem paralisações de atividades
ou organização de passeatas, confeccionassem ‘material
subversivo’ ou que usasse a ‘dependência ou recinto escolar’
para fins de subversão ou para praticar ato contrário à moral
ou à ordem pública, entre outros.47

É notório, assim, que a maior parte dos ditos subversivos en-


contravam-se de alguma forma nas universidades, sejam eles os

47
REIS, Thaís Blume dos. A lógica da suspeição sobre o movimento estudantil gaú-
cho: o olhar das Seções de Ordem Política e Social do Reio Grande do Sul (SOPS/
RS) em relação aos “estudantes subversivos” (1964-1974). Trabalho de Conclusão
de Curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2002. p. 27.
Osvaldo Estrela Viegaz - 53

professores responsáveis pela divulgação nas aulas de materiais con-


siderados pelo regime militar como proibidos e inapropriados, se-
jam eles os alunos que se engajavam na luta estudantil pelo fim da
repressão e pela liberdade de pensamento.

Considerações finais
Tivemos ao longo dessas páginas a oportunidade de estudar um
material novo e inédito, apesar de sua idade, alguns com mais de ses-
senta anos, outros com pouco mais de quarenta anos, mas ainda assim
pouco conhecidos ou mesmo nada analisados pelos estudos históricos.
A jurisprudência produzida pelo Supremo Tribunal Federal no
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período compreendido no regime militar nos traz importantes con-


tribuições sobre as visões e anseios de uma parte da sociedade que
não tem tanta relevância para muitos estudiosos do período, embora
contribuam significativamente para a compreensão histórica.
Não se trata apenas de analisarmos as questões legais contidas
nos julgamentos, buscando uma compreensão conforme os operado-
res e juristas o fazem, mas sim aquilo em que os ministros se basea-
vam para fundamentar suas decisões, suas impressões da sociedade
e dos acontecimentos da sua realidade.
Identificamos como momentos diferentes nos julgamentos do
Supremo Tribunal Federal influíam nas decisões e nas discussões dos
ministros, sendo que inicialmente a liberdade ainda se fazia presen-
te, possibilitando aos ministros discutir mais abertamente sobre os
mais diversos temas e, conforme o passar dos anos e das constan-
tes medidas autoritárias do regime, esta liberdade foi diminuindo.
Apesar disso, em muitos momentos, verificamos ministros que
continuaram com suas convicções e, sem medo das represálias dos
militares, colocavam em seus votos aquilo que se passava na socie-
dade, isto é, buscavam a partir de sua posição enquanto julgadores
e representantes do povo no Poder Judiciário se colocar de maneira
crítica quando a situação assim pedia.
Professores, estudantes e funcionários de instituições de ensino
públicas e privadas sofreram com as intervenções da ditadura militar,
54 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

interferências que atingiam não somente suas atribuições enquanto


educadores e educandos, mas também sua atuação enquanto cida-
dãos, uma vez que, independente de estarem ou não nos meandros
universitários, eram julgados como professores e estudantes, ainda
que fossem detidos na praça ou nas ruas.
O medo dos militares tinha um fundamento lógico: o conheci-
mento é perigoso àqueles que estão no poder. Tal constatação, porém,
não é exclusiva do regime militar brasileiro, mas sim algo recorren-
te na história do Brasil e também do mundo. A arma da sociedade é
e sempre será o conhecimento.
A política do regime militar sobre o assunto comprova este fato,
tanto é que além da Lei de Segurança Nacional, outros diplomas le-
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gais passaram a integrar o ordenamento jurídico brasileiro e de algu-


ma maneira incidiram sobre a atuação dos professores e estudantes
das universidades e instituições de ensino no País.
Seja por conta de materiais tido como impróprios, seja por con-
ta de organizações de passeatas ou até de partidos políticos clandes-
tinos, professores e estudantes foram preponderantes na divulgação
da doutrina marxista, o que levou a inúmeros processos e manifes-
tações dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Quando escolhemos por trabalhar o marxismo e a liberdade de
cátedra universitária, tínhamos em mente o quão delicada essas ques-
tões foram durante a ditadura militar e, mais do que isso, a quan-
tidade de pessoas que foram consideradas como subversivas e por
este motivo foram cassadas, torturadas e brutalmente assassinadas.
A liberdade política, de expressão, de pensamento e de cátedra
são fundamentos constitucionais hoje consagrados, mas que durante
anos foi reprimida na ditadura militar. O valor histórico da luta da-
queles que deram a vida por nossa liberdade deve ser sempre lem-
brado com estudos capazes de trazer à tona a história não contada
por meio das jurisprudências.
Osvaldo Estrela Viegaz - 55

Bibliografia

ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a


amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios, revelando
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______. Decreto-Lei 228, de 28 de fevereiro de 1967. Reformula a organização da


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______. Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. São mantidas a
Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições Estaduais; O Presidente da
República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios, sem as limitações
previstas na Constituição, suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo
prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais, e dá
outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/
ait-05-68.htm>. Acesso em: 23 nov. 2015.
______. Decreto-Lei 477, de 26 de fevereiro de 1969. Define infrações disciplinares
praticadas por professôres, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos
de ensino público ou particulares, e dá outras providências. Disponível em: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1965-1988/Del0477.htm>. Acesso em:
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segurança nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento
e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
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______. Habeas Corpus nº 40.910/PE. Relator Ministro. Hahnemman Guimarães.
56 - Ameaça Vermelha: Marxismo e o Pseudo Terror Comunista Universitário...

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da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) – Universidade de São Paulo, São
Paulo: 2002.
REIS, Thaís Blume dos. A lógica da suspeição sobre o movimento estudantil gaúcho:
o olhar das Seções de Ordem Política e Social do Reio Grande do Sul (SOPS/RS)
em relação aos “estudantes subversivos” (1964-1974). Trabalho de Conclusão de
Curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2002.
Elaine Antunes Fernandes - 57

Capítulo 2

Palavras Malditas e Navalha de Tinta:


O Supremo Tribunal Federal e a Liberdade de
Expressão – Breve Análise de Acórdãos Sobre a
Censura em Publicações

Elaine Antunes Fernandes


UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Resumo: O período da Ditadura Militar no Brasil, compreendido


como os anos de 1964-1985, remanesce com muitos dos seus aspec-
tos obscuros, em razão dos poucos estudos sobre o tema, mesmo com
a divulgação crescente de informações, nos quais destacam-se pro-
jetos como Brasil Nunca Mais e a Comissão Nacional da Verdade.
Nesse contexto, o presente trabalho analisará a posição adotada pelo
Supremo Tribunal Federal, em questões relacionadas à censura im-
posta na época, à resistência da imprensa e à liberdade de expressão.

Introdução

A liberdade de expressão está garantida em nossa Constituição


vigente, em seu Art. 5º, incisos IV e IX, in verbis:

Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de


qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos es-
trangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes:
[...]
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado
o anonimato;
58 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística,


científica e de comunicação, independentemente de censura
ou licença; [...]

Sua importância para uma sociedade democrática é inquestioná-


vel, pois como direito de personalidade, é uma das bases para a concre-
tização do princípio da dignidade humana, uma proteção da sociedade
contra opressões, afinal traz a denúncia, incita a reflexão e a ação.
Contudo, por muito tempo foi apenas teórica essa liberdade.
Ciente da influência exercida não apenas pela imprensa, mas pe-
los meios de comunicação em geral, principalmente com relação às
críticas ao regime, o governo procurou limitar, controlar sua ação.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Apesar de ser especialmente famosa a censura à liberdade de expres-


são no período da ditadura militar (1964 a 1985), essa política não
foi exclusiva desse espaço temporal. A esse respeito, explana Soares:

A liberdade de imprensa foi assegurada aos brasileiros em 28


de agosto de 1821, assinada por D. Pedro I. Cento e cinqüenta
e um anos depois, precisamente no dia 6 de setembro de 1972,
o decreto de D. Pedro foi censurado pelo Departamento da Po-
lícia Federal, com a seguinte ordem a todos os jornais do País:
‘Está proibida a publicação do decreto de D. Pedro I, datado
do século passado, abolindo a Censura no Brasil. Também
está proibido qualquer comentário a respeito’. A proibição de
se referir, nos meios de comunicação de massa, ao ato de D.
Pedro revela a orientação da Censura. Protegida pela própria
censura, ela não hesitava em fazer proibições ridículas, segura
de que elas não chegariam ao conhecimento público. Houve
muitos outros episódios que seriam cômicos, se não fossem
humilhantes para o País. A Censura, parte do Estado autoritário,
o protegia e, protegendo-o, protegia a si.1

1
SOARES, Glaucio Ary Dillon. Censura durante o Regime Autoritário. Rev. bras.
Ci. Soc., Rio de Janeiro, v. 4, n. 10, jan./jun. 1989. Disponível em: <http://www.
anpocs.org/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=227:rbcs-
-10&catid=69:rbcs&Itemid=399>.
Elaine Antunes Fernandes - 59

Ainda no que concerne sobre a censura, em outros períodos de


nossa história, expõe Souza que:

Durante o período republicano e a assim chamada Era Vargas


(1930-1945), os meios de comunicação passaram pelos mais
diversos processos de sujeição e controle. A ideia de uma
imprensa livre, por mais de meio século foi uma ficção. O
novo regime implantado em 1889 continuou com as práticas
de corrupção e violência vindas do Império. Somente com a
revolução de 30 o panorama mudou com a implantação de
organismos burocratizados de controle e propaganda. Com a
ditadura de 1937, uma nova onda de violências ocorreu, num
nível que só seria suplantado com a ditadura militar mesmo
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

assim, após 1968.2

Em seus estudos, Lacerda reflete o papel da imprensa no perío-


do da ditadura militar, tanto para apoiar o golpe de 1964 como para
derrubar o regime no fim dos anos 70, denunciando os abusos co-
metidos. No mesmo trabalho, enumera três fatores que foram con-
tributivos a fim de que a imprensa não fosse totalmente silenciada:
a) para “salvar a democracia”, os militares teriam que resguardar a
imagem democrática, de forma que não poderiam deixar a censura
totalmente aparente; b) o trabalho censório atuou com intensidades
distintas em cada fase do regime, se mostrando mais rígida no perío-
do de 1969-1974; c) a imprensa não era a única instituição perseguida
pelo regime, citando-se também a Instituição Católica, por exemplo3.
Na Constituição de 1967 que, de acordo com Castro, “era nada
mais que a de 1946, extraídos os pontos democráticos demais e inclu-
ídos os Atos Institucionais”4, salta aos olhos que claramente delimi-

2
SOUZA, José Inácio de Melo. O Estado contra os meios de comunicação (1889-
1945). São Paulo: Annablume: Fapesp, 2003. p. 219.
3
LACERDA, Eliane Muniz. O jornalismo nos limites da liberdade: um estudo da
cobertura da imprensa sobre os casos dos religiosos acusados de praticar ativida-
des subversivas durante o regime militar. Dissertação (Mestrado) – Programa de
Pós-Graduação em Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2007. p.36
4
CASTRO, Flávia Lages de. História do direito geral e do Brasil. 10. ed. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2013. p. 542
60 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

tava os direitos de expressão e alertava sobre o risco de se “abusar”


das liberdades5, conforme verifica-se nos artigos 150 e 151 abaixo:

Art. 150 – A Constituição assegura aos brasileiros e aos es-


trangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos
concernentes à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes:
[...]§ 8º – É livre a manifestação de pensamento, de convicção
política ou filosófica e a prestação de informação sem sujeição
à censura, salvo quanto a espetáculos de diversões públicas,
respondendo cada um, nos termos da lei, pelos abusos que
cometer. É assegurado o direito de resposta. A publicação de
livros, jornais e periódicos independe de licença da autori-
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dade. Não será, porém, tolerada a propaganda de guerra, de


subversão da ordem ou de preconceitos de raça ou de classe.
[...]
Art. 151 – Aquele que abusar dos direitos individuais pre-
vistos nos §§ 8º, 23. 27 e 28 do artigo anterior e dos direitos
políticos, para atentar contra a ordem democrática ou praticar
a corrupção, incorrerá na suspensão destes últimos direitos
pelo prazo de dois a dez anos, declarada pelo Supremo Tri-
bunal Federal, mediante representação do Procurador-Geral
da República, sem prejuízo da ação civil ou penal cabível,
assegurada ao paciente a mais ampla, defesa.6

Observando-se o AI nº5, em sua introdução, continuando sua


reflexão sobre as limitações impostas, Castro alerta sobre os sinais
de que “a legalidade, mesmo que torta, baseada nas ingerências já
realizadas nas leis brasileiras, não estava sendo considerada suficien-
te, por aqueles que detinham o poder no país”7, qual seja, a Ditadura
precisava de mais poderes, razão do surgimento do AI-5:

5
CASTRO, Flávia Lages de. História do direito geral e do Brasil. 10. ed. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2013. p. 547-548
6
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1967. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao67.htm>.
Acesso em: 23 ago. 2015.
7
CASTRO, op. cit., pp. 542.
Elaine Antunes Fernandes - 61

CONSIDERANDO que a Revolução Brasileira de 31 de


março de 1964 teve, conforme decorre dos Atos com os quais
se institucionalizou, fundamentos e propósitos que visavam
a dar ao País um regime que, atendendo às exigências de
um sistema jurídico e político, assegurasse autêntica ordem
democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade
da pessoa humana, no combate à subversão e às ideologias
contrárias às tradições de nosso povo, [...]
CONSIDERANDO que o Governo da República, responsável
pela execução daqueles objetivos e pela ordem e segurança
internas, não só não pode permitir que pessoas ou grupos
anti-revolucionários contra ela trabalhem, tramem ou ajam,
sob pena de estar faltando a compromissos que assumiu com
o povo brasileiro, bem como porque o Poder Revolucionário,
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ao editar o Ato Institucional nº 2, afirmou, categoricamente,


que “não se disse que a Revolução foi, mas que é e continuará”
e, portanto, o processo revolucionário em desenvolvimento
não pode ser detido;
[...]
CONSIDERANDO que, assim, se torna imperiosa a adoção
de medidas que impeçam sejam frustrados os ideais supe-
riores da Revolução, preservando a ordem, a segurança, a
tranquilidade , o desenvolvimento econômico e cultural e a
harmonia política e social do País comprometidos por pro-
cessos subversivos e de guerra revolucionária; [...].8

Por todo o exposto, Castro conclui que com os poderes amplia-


dos pelo AI-5, aquele que ocupasse a Presidência, tinha todo o po-
der de controlar os veículos de comunicação, estimular a ideologia
a ser seguida, manipular a mídia com a divulgação apenas do que
for de seu interesse, promover a repressão dos que lhe são contrá-
rios, fomentar a opinião popular e implementar qualquer outra me-

8
BRASIL. Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. São mantidas a
Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições Estaduais; O Presidente
da República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios, sem as
limitações previstas na Constituição, suspender os direitos políticos de quaisquer
cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e
municipais, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/AIT/ait-05-68.htm>. Acesso em: 23 nov. 2015.
62 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

dida que achar necessária à manutenção dos ideais da revolução. O


Presidente da República dominaria as esferas legislativas federal,
estadual e municipal, a ponto de poder fechá-las e tomar para si o
poder de legislar9.
Diante desse cenário, destacam-se política e socialmente as
ações dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, aqui represen-
tados sob o símbolo de um malhete10, que desde a Constituição de
1891, quando o poder Moderador foi eliminado e teve início a di-
visão entre o Poder Judiciário Federal e os poderes judiciários es-
taduais, foi-lhes incumbida a missão de guardiões da Constituição
e, portanto da defesa de seus princípios. Sobre esse tema, explica
Andreucci, que as decisões tomadas pelo Supremo Tribunal Federal,
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

tinham por função a fixação de pontos controvertidos quanto à forma


de interpretar a Constituição. Suas ações por vezes se apresentavam
mais liberais e por vezes mais repressivas, outrossim representavam
a interpretação oficial da lei11.
Costa, em seu trabalho O Supremo Tribunal Federal e a cons-
trução da cidadania, expõe que após sua posse, o então presiden-
te Humberto Alencar Castelo Branco visitou o Supremo Tribunal
Federal, onde foi recebido pelo Ministro Ribeiro da Costa. Lá, em
seu discurso, o Ministro ressaltou a importância da democracia e da
necessidade de, em momentos de crise, sacrificar temporariamente
alguns de seus princípios e garantias constitucionais, mas alertou que
a Justiça era imparcial, não era contra ou a favor de partidos políti-
cos. Naturalmente, pouco tempo depois, vislumbrou-se a impossi-
bilidade de convivência de um Judiciário imparcial e independente,
cooperando com o Executivo em detrimento de proteger princípios
e garantias cuja missão era defender. Afinal, nas palavras de Costa:

9
CASTRO, Flávia Lages de. História do direito geral e do Brasil. 10. ed. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2013. p. 551
10
Malhete é um pequeno martelo, usado por juízes em tribunais. (Nota da autora)
11
ANDREUCCI, Álvaro G. A. Uma cadeira de espinhos: o Supremo Tribunal
Federal e a política (1933-1942). Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) – Universidade de São Paulo. São
Paulo: 2007. p. 19.
Elaine Antunes Fernandes - 63

“Como exerceria sua função de defensor da Constituição, se esta a


cada passo sofria alterações que modificavam o seu texto?”12
Ainda consoante Costa, os atos arbitrários do governo deram
origem a inúmeros pedidos de Habeas Corpus. Destaca-se o do pro-
fessor Sérgio Cidade Resende, incurso na Lei nº 1.802, de 5 de janei-
ro de 1953, que definia os crimes contra o Estado e a ordem política
e social. Neste Habeas Corpus, Resende era acusado de distribuir
em aula um manifesto contra a situação presente, intencionando sub-
verter a ordem política e social. Consequentemente, foi preso. No
Supremo Tribunal Federal, invocava, em seu pedido, a liberdade de
pensamento e de cátedra garantidas constitucionalmente. Seu pedi-
do foi julgado em 24 de agosto de 1964, quando atuou como relator
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

o ministro Hahnemann Guimarães. No manifesto, segundo a autora,


o relator não encontrou nada que se considerasse propaganda sub-
versiva, concluindo da mesma forma os ministros Evandro Lins e
Hermes Lima.
Divergiu parcialmente o ministro Pedro Chaves, quanto ao pos-
to no âmbito político-ideológico. Apontou, este ministro, que havia
uma contradição entre as ideias de revolução e Constituição. Continua
a autora, em sua explanação, que o ministro explicava que, em sua
opinião, a Constituição de 1946 não oferecia meios de defesa às ins-
tituições nacionais, com abuso na liberdade de imprensa, de pensa-
mento, de cátedra, de imunidades parlamentares. Segundo o ministro
Pedro Chaves, os responsáveis pela situação em que o País se en-
contrava eram justamente os que abusavam da liberdade. No debate
que surgiu com uma série de considerações e exemplos americanos
a respeito da liberdade de cátedra, levantados pelo ministro Vítor
Nunes Leal, insurgiu a questão, fundada no argumento culturalista:

Será que a diferença cultural autoriza a falta de liberdade


no Brasil? Onde iríamos com esse raciocínio, que regime
adotaríamos aqui? Porque haveríamos de adotar regime
democrático, se este País pode não estar maduro para a

12
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJE, 2001. p. 168.
64 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

democracia como os Estados Unidos? Sua intervenção apon-


tava os riscos de uma argumentação que invocava diferenças
culturais para justificar o cerceamento das liberdades públicas
e todos os tipos de arbitrariedades.13 (grifo nosso)

Com a continuidade da votação, o Habeas Corpus em ques-


tão foi concedido. Essa discussão, destaca Costa, acaba por revelar
a tensão existente no Supremo devido aos acontecimentos políticos.
Até que grau essa interferência era aceitável? O governo não recebeu
esse resultado com satisfação, mas respeitou a decisão. Contudo, tão
reiterados foram os pedidos, que a competência para julgamento dos
Habeas Corpus que se seguiram foram passados para a Justiça Militar.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Pontuando, portanto, a importância do sentido que o Supremo


Tribunal Federal dá à Lei, releva-se seu papel na forma de como se
dava a interpretação de todas essas restrições que ocorreram no pe-
ríodo do presente trabalho. Será que aqueles que tinham por dever
guardar a Constituição aceitavam o retrocesso que os militares in-
fringiam-lhe? Até onde foi aceita a censura? Até que ponto foi acei-
to o corte da navalha censória que cortava as palavras consideradas
malditas, por remeterem à ideias subversivas?
Eis o objetivo deste trabalho, avaliar algumas discussões de
assuntos sujeitados à censura que alcançaram o Supremo Tribunal
Federal e, através dos debates instaurados, podermos determinar
até que ponto os Ministros da época se sujeitavam aos interesses da
Ditadura Militar, mesmo que contrários ao espírito da Constituição
que deveriam defender. Com esse objetivo, contamos com a análise
de livros e pesquisas correlacionadas ao nosso objeto de estudo, bem
como dos acórdãos que estão disponíveis no website do Supremo
Tribunal Federal.
Para tanto, este trabalho foi dividido em 4 partes. Na primei-
ra, acompanharemos a exposição de alguns aspectos importantes a
serem considerados para melhor compreensão do objeto em estudo;

13
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJE, 2001. p. 169
Elaine Antunes Fernandes - 65

em seguida, verificaremos como ocorreu a resistência da impren-


sa contra as ações censórias, prosseguindo com a análise de alguns
acórdãos emitidos pelo Supremo Tribunal Federal, culminando na
apresentação das conclusões alcançadas.

A navalha à espreita – aspectos preliminares

A ditadura militar foi instaurada em 1964, “aparentemente,


para livrar o país da corrupção e do comunismo e para restaurar a
democracia”14. Em certos períodos, a imprensa e o Estado caminham
lado a lado, independentemente se por interesses financeiros, políti-
cos ou culturais. Pode-se dizer que um desses períodos se deu no ano
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

de 1964 até a promulgação do AI-5. Todavia, a imprensa que apoiou


o golpe militar de 1964, viu-se severamente limitada por aqueles a
quem ajudara. Em seus estudos, Lacerda enuncia alguns motivos des-
sa reação, como por exemplo, a não aceitação de críticas ao regime;
a restrição de direitos aos cidadãos, a necessidade de legitimação
do poder, a veiculação da imagem de governo correto, lícito, legal.
Para isso, os militares tiveram de se utilizar de meios para controlar
a imprensa, de forma velada, já que, ao mesmo tempo, ela era um
instrumento para legitimar o poder dos militares junto à sociedade.
O meio encontrado para tal fim foi a censura15. Inicialmente, o go-
verno parecia tolerar ou subestimar a cultura do protesto, nas diver-
sas mídias – música, cinema, literatura, artes plásticas etc. – já que
estas, através de sua arte ou através de seu humor, faziam críticas ao
regime. Entre 1954-1965, o sistema da censura se mobilizava com
algumas atividades como o aumento de pessoal, adequação de estru-
tura, organização de grupos para análise de roteiros, programas de
televisão, roteiros de peças teatrais, comissões de debates de assun-

14
FAUSTO, Boris. História concisa do Brasil. 2. ed. São Paulo: EDUSP. 2012.
p. 257.
15
LACERDA, Eliane Muniz. O Jornalismo nos limites da liberdade: um estudo
da cobertura da imprensa sobre os casos dos religiosos acusados de praticar ativi-
dades subversivas durante o regime militar. Dissertação (Mestrado) – Programa de
Pós-Graduação em Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2007. p. 17.
66 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

tos polêmicos e legislação, tentativa de uniformizar critérios para a


censura e assessoramento às delegacias regionais16.
Em 1969, a Constituição recebeu a Emenda nº 1, já com o
Presidente Médici que, basicamente, servia para aumentar ainda mais
o poder do Executivo e fortalecer a Lei de Segurança Nacional17.
O Departamento de Censura compunha-se até 1966 por funcio-
nários públicos, geralmente deslocados de outros setores. Segundo
Soares, a atividade tinha quase 100% de sua atuação em Brasília.
Os censores tinham formações universitárias em um dos seguin-
tes cursos: Direito, Filosofia, Sociologia, Comunicação Social ou
Psicologia, e era necessário um curso de especialização, na Academia
Nacional de Polícia, em Brasília, que durava de 3 a 6 meses. Ainda,
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

de acordo com sua pesquisa, houve um momento em que passou a se


exigir também a aprovação em uma série de exames psicológicos18.
De 1967 a dezembro de 1968, foi gradualmente militarizado,
completado esse processo a partir do AI-5, acrescentando-se ao mo-
ralismo, o foco político. A partir daí a liberdade de expressão se tor-
nou mais tolhida e seus tentáculos se expandem a todos os meios
de comunicação.
No tocante à imprensa, segundo Abreu, “dificilmente a histó-
ria da imprensa brasileira registra outro período em que a palavra
exerceu tamanho peso”19. A Censura a atingiu de formas diversas: a

16
GARCIA, Miliandre. A Censura de Costumes no Brasil: Da Institucionalização
da Censura Teatral no Século XIX à Extinção da Censura da Constituição de 1988.
Trabalho apresentado à Coordenação-Geral de Pesquisa e Editoração-CGPE como parte
dos requisitos necessários à conclusão da bolsa-pesquisador do Programa Nacional
de Apoio à Pesquisa da Fundação Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, 2009, p. 23.
17
CASTRO, Flávia Lages de. História do direito geral e do Brasil. 10. ed. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2013. p. 557.
18
SOARES, Glaucio Ary Dillon. Censura durante o Regime Autoritário. Rev. bras.
Ci. Soc., Rio de Janeiro, v. 4, n. 10, jan./jun. 1989. Disponível em: <http://www.
anpocs.org/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=227:rbcs-
-10&catid=69:rbcs&Itemid=399>. p. 18.
19
ABREU, João Batista de. As manobras da informação: análise da cobertura
jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro:
Mauad, 2000, p. 38.
Elaine Antunes Fernandes - 67

Lei da Imprensa de 1967, a censura prévia, em 1970, a autocensura.


Era a época das palavras malditas, cujo rol não parava de crescer.
Conveniente estabelecer o que vem a ser subversivo, termo
tão amplamente usado nas ações censórias. A esse respeito, Abreu
explica:

Inicialmente, ‘subversivo’, servia para designar os políticos


cassados e os recém-indiciados nos chamados IPMs (In-
quérito Policial Militar), instaurados nos primeiros anos do
regime militar.
Estes inquéritos englobavam tanto os acusados de práticas
políticas condenáveis pelo regime quanto os suspeitos de des-
vios de verbas públicas. Com o tempo, ‘subversivo’ tornou-se
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

uma palavra para tachar todo aquele que, de uma maneira ou


de outra, se opunha ao regime de exceção recém-instalado.
Aos olhos dos líderes ‘revolucionários’, tratava-se de colo-
car num mesmo rol os supostos inimigos do novo governo,
independentemente das acusações que pairavam sobre eles,
a fim de desqualificá-los, junto à população.20

Oportuna a consciência, no presente estudo, em constatar que


mesmo os Ministros da Suprema Corte sofriam censura por determi-
nados atos. Cite-se como exemplo, o narrado em discurso proferido
pelo Ministro Celso de Mello em homenagem ao Ministro Aliomar
Baleeiro, no qual se evidencia a seguinte passagem, retirada da obra
Perfis Parlamentares, de Luís Viana Filho (1994), a respeito do ho-
menageado, sobre um episódio ocorrido quando este, ainda presi-
dente do STF, em um Encontro dos Tribunais de Alçada, proclamou
ser o Brasil, o único país do ocidente que tinha sua Independência
negada em razão do AI-5, assemelhando-o à espada de Dâmocles21

20
ABREU, João Batista de. As manobras da informação: análise da cobertura
jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro:
Mauad, 2000, p. 23-24.
21
Espada de Dâmocles, com referência ao personagem mitológico, é uma expres-
são que significa perigo iminente. Fonte: <http://www.brasilescola.com/biografia/
damocles.htm>.
68 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

ameaçando a cabeça dos magistrados brasileiros. Isso no auge da di-


tadura, o que gerou muita confusão na reunião. Depois, veio a saber
que o jornal “O Estado de São Paulo” havia recebido uma comunica-
ção, na qual se informava que tanto o jornal “O Estado de São Paulo”
como o “Jornal da Tarde” foram proibidos de mencionar qualquer
notícia que envolvesse o Ministro em questão, bem como comentar
ou divulgar qualquer manifestação de qualquer natureza que tenha
feito ou viesse a fazer22. Essa é uma demonstração de que a navalha
de tinta golpeava quem quer que fosse, se lhe constituísse ameaça.

Resistência à censura – suavizando o


golpe da navalha
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Em períodos difíceis, por que resistir? Por que não se deixar


levar, se é o caminho mais fácil? Muitas podem ser as respostas às
essas perguntas, e uma delas, bastante pertinente, vem de Ihering,
em seu livro A Luta Pelo Direito:

Eu costumo contrapor a esta colocação uma afirmativa: a


resistência contra a lesão ao nosso direito, que ofenda a
nossa personalidade, ou seja, contra a violação do direito,
que assuma o caráter de desprezo consciente desse mesmo
direito, de uma ofensa pessoal, constitui um dever, dever do
interessado para consigo mesmo, pois representa um impera-
tivo de autodefesa moral, dever para com a sociedade, porque
somente mediante tal resistência é que o direito se realiza.23

Abreu, em sua obra As Manobras da Informação, ponde-


ra que:

22
MELLO, Celso de. Sessão em Homenagem ao Centenário de Nascimento do Ministro
Aliomar Baleeiro (15-9-2004): Discurso proferido em sessão realizada em 22 setembro
de 2005. Brasília: Supremo Tribunal Federal, 2005. 51 pp. Disponível em: <http://
www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalCentenarioNascime/
anexo/Plaqueta_Centenario_Nascimento_AliomarBaleeiro_NOVACAPA.pdf>.
23
JHERING, Rudolf von. A luta pelo direito. 7. ed. São Paulo: Rev. dos Tribunais,
2013. p. 53.
Elaine Antunes Fernandes - 69

O sentimento de reação não pode ser atribuído exclusiva-


mente a uma opção ideológica dos jornalistas – ao contrário
do que pensavam alguns setores militares – nem tampouco
a um hipotético plano “anti-revolucionário” dos empresários
de comunicação. Independentemente da doutrina política,
jornalistas e patrões compartilhavam a mesma insatisfação de
sofrerem, cotidianamente, a ingerência de pessoas estranhas
à rotina de fechamento de jornal. Isso, em se tratando de
um setor do empresariado, de estrutura familiar, que sempre
administrou seu negócio como se o jornal fosse extensão
do lar, soava extremamente constrangedor, por maior que
fosse o atrelamento da empresa jornalística ao Estado. Nos
governos Médici e Geisel, as companhias estatais atribuíam
com a maior parcela da receita publicitária da mídia impressa.
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Os níveis de reação, portanto, variavam, dependendo do grau


de colaboração de cada empresa. É claro também que esta
insatisfação foi bem maior no período de censura prévia, mas
nunca deixou de existir.24

A ameaça de corte de publicidade nos jornais era também uma


forma de controle usada pelos militares, visto que parte da imprensa
dependia desses recursos25. Os jornais contavam ainda com a publici-
dade privada, no entanto, sua dependência com o Estado permanecia
devido à dependência dele para “favores”, tais como empréstimos e
alíquotas reduzidas para importação de máquinas, terrenos, conces-
sões. Podemos citar como exemplos de companhias que se destaca-
vam como anunciantes na mídia: Petrobrás, Eletrobrás, Companhia
Siderúrgica Nacional, Vale do Rio Doce, Banco do Brasil, Caixa

24
ABREU, João Batista de. As manobras da informação: análise da cobertura
jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro:
Mauad, 2000. p. 43.
25
LACERDA, Eliane Muniz. O Jornalismo nos limites da liberdade: um estudo
da cobertura da imprensa sobre os casos dos religiosos acusados de praticar ativi-
dades subversivas durante o regime militar. Dissertação (Mestrado) – Programa
de Pós-Graduação em Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2007.
p. 17. 2007. p. 18.
70 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Econômica Federal etc.26 Desta feita, para alguns jornais a ameaça de


corte de publicidade era tão ou mais significativa que a censura em si.
Diante da limitação ferrenha, a saída encontrada por muitos jor-
nalistas foi criar uma espécie de código, a fim de deixar pistas com
as quais o leitor pudesse ler nas entrelinhas que a versão oficial era
apresentada, mas a realidade era distinta. Esperava-se que o leitor en-
tendesse a inserção dos poemas, receitas culinárias, desenhos, ou mes-
mo espaços vazios que ocupavam o lugar das matérias censuradas.
Consoante Abreu, “todos esses artifícios (e muitos outros) compu-
nham um jeito peculiar de fazer e ler jornal, transformando jornalis-
ta e leitor em cúmplices de um mesmo delito: o delito de resistir”27.
Essa censura, logo após a decretação do AI-5, era feita inicialmente
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por oficiais do Exército, sendo posteriormente transferida para agen-


tes da Polícia Federal, fazendo com que jornais, revistas, rádios e
televisões se habituassem a receber ordens e recomendações por te-
lefonemas28. Verifica-se que o grau de restrição à imprensa através
de assuntos proibidos, teve sua intervenção aumentada gradualmen-
te, sendo-lhe acrescidos temas como: prisões de criminosos comuns,
declarações de autoridades estrangeiras em visita ao Brasil, incêndios
de grandes proporções29, problemas de saúde pública, e até mesmo
assuntos que beiravam ao ridículo, como a proibição de divulgação
do surto de meningite na cidade de São Paulo, em 1974, tudo moti-
vado pela necessidade de evitar pânico e alarmismo30.
Em suas pesquisas, Aquino surpreende-se ao verificar que dentre
os jornais de grande circulação no eixo Rio-São Paulo, assim como
em toda a grande imprensa diária, enquanto a prática comum era a
autocensura, com as mencionadas “sugestões” da Polícia Militar,
apenas o O Estado de São Paulo (OESP) e o Jornal da Tarde foram

26
ABREU, João Batista de. As manobras da informação: análise da cobertura
jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro:
Mauad, 2000. p. 39.
27
ABREU, op. cit., p. 40.
28
ABREU, op. cit., p. 43.
29
ABREU, op cit., p. 73.
30
ABREU, op cit., p. 73.
Elaine Antunes Fernandes - 71

alvos de censura prévia (entre agosto/setembro de 1972 e janeiro de


1975), com o OESP recebendo a visita diária do censor, em sua reda-
ção, interferindo em produção jornalística. Tal postura diferenciada,
alega a autora, está relacionada à postura liberalista31 ligada a este
jornal em especial32. O que se depreende com isso é que o trabalho
censório podia ser mais ou menos rígido de acordo com a postura
adotada pelo jornal. Já Lacerda afirma que os meios de comunica-
ção submetidos à censura prévia eram aqueles que não aceitaram
as “sugestões” escritas e telefônicas, conhecidas como autocensu-
ra, sendo poucos os que sofreram censura prévia quando compara-
dos aos que eram submetidos à autocensura. Acrescenta ainda, que
a maior diferença entre essas duas formas é que, “na autocensura,
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‘aparentemente’ a responsabilidade da informação recaía sobre a


imprensa e, na censura prévia, os censores praticamente assumiam
esta responsabilidade”33.
Haviam tantos assuntos proibidos que isso causava problemas
aos jornais, fosse por falta de fontes de informação, fosse pelo com-
portamento governamental que acabava por dar “abertura” para ação
de pessoas de má-fé, que se faziam passar por censores, a fim de, por
telefonemas, censurar assuntos conforme seus interesses34.

31
É importante colocarmos aqui, que na visão de Aquino, liberalismo entende-se
como aplicação do modelo teórico de defesa das chamadas liberdades naturais
do indivíduo e da teoria política de contenção da interferência do Estado. Aponta
também, no caso específico da OESP, a existência de uma contradição, pois ao
mesmo tempo que adotam essa postura liberalista, também propuseram em vários
editoriais, no período anterior ao golpe de 1964, a intervenção por intermédio
da ação das Forças Armadas para a derrubada de um governo democraticamente
constituído. (p. 38-39).
32
AQUINO. Maria Aparecida de. Censura, imprensa e estado autoritário (1968-
1978): o exercício cotidiano da dominação e da resistência: O Estado de São Paulo
e Movimento. Bauru: EDUSC, 1999, p. 38.
33
LACERDA, Eliane Muniz. O Jornalismo nos limites da liberdade: um estudo
da cobertura da imprensa sobre os casos dos religiosos acusados de praticar ativi-
dades subversivas durante o regime militar. Dissertação (Mestrado) – Programa
de Pós-Graduação em Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2007.
p. 17. 2007, p. 22.
34
LACERDA, op. cit., p. 27.
72 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Aquino ainda sobreleva um quadro das matérias mais censu-


radas do jornal O Estado de São Paulo, que foi transcrito abaixo:

Matérias Censuradas35
Período: 29/03/1973 a 03/01/1975
Unidades temáticas* Quant. %
Questões Políticas 601 52,91
Questões Econômicas 91 8,01
Questões Sociais 128 11,27
Questões Educacionais 75 6,60
e Culturais
Questões de Política 33 2,90
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Internacional
Censura 208 18,31
Total 1.136 100,00
Fonte: O Estado de São Paulo
* No que se refere às unidades temáticas, constatou-se que muitas são
as formas de tematização do material censurado. Após uma demorada
reflexão, quando do encerramento do trabalho de pesquisa aos dois
periódicos, chegou-se a uma série de unidades temáticas que atendem
melhor aos objetivos da análise pretendida.36

Dos recursos usados para romper a censura, de acordo com


Abreu, no tocante à crítica ao regime, um deles era debater sobre os
regimes ditatoriais no mundo, criticando, por exemplo, as atrocida-
des que ocorriam na República de Uganda, na África, cometidas pelo
general Idi Amin, na tentativa de o leitor conseguir fazer uma cor-
relação entre o comportamento dos dois governos, visto que restava
inviável uma crítica aberta ao governo doméstico. Ressalta Abreu,
que a correlação entre os dois governos saltou aos olhos de forma
mais vibrante depois que o deputado Ulisses Guimarães, na época

35
AQUINO. Maria Aparecida de. Censura, imprensa e estado autoritário (1968-
1978): o exercício cotidiano da dominação e da resistência: O Estado de São Paulo
e Movimento. Bauru: EDUSC, 1999. p. 62.
36
Explicação de Aquino (1999), constante em sua obra, a respeito de seu quadro.
Elaine Antunes Fernandes - 73

presidente do MDB, em um discurso na Câmara, fez a comparação


do comportamento do general Ernesto Geisel com o de Idi Amin37.
Outro recurso apontado, era a reprodução exata à narrativa da
autoridade, a fim de provocar a indignação do leitor. Tal reação, no
entanto, só era alcançada por aqueles leitores que já tivessem pontos
de vista estabelecidos, afinal sempre havia o risco do entendimen-
to literal. Abreu cita como exemplo de seu uso, a matéria publicada
no Jornal da Tarde no dia 2 de julho de 1973, a respeito da inaugu-
ração do prédio do Banco Nacional da Habitação. Nessa matéria, o
edifício, construído com recursos do Fundo de Garantia do Tempo
de Serviço (FGTS), foi detalhado tão minuciosamente em sua sofis-
ticação e luxo, que era inevitável observar o contraste de tanta os-
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tentação em um prédio público quando a maioria dos brasileiros não


tinham acesso à casa própria38.
A censura não era realizada da mesma forma em todos os ve-
ículos de comunicação. Consequentemente, o comportamento de
cada jornal também não foi padronizado. Alguns reagiram mais do
que outros. Os jornais O Estado de São Paulo (OESP) e o Jornal da
Tarde conviveram com a censura prévia até 1975, e inovaram nas
formas de reagir à ação censória, ao publicar, nos espaços onde fi-
cariam as matérias proibidas, ao invés de matérias liberadas, poe-
sias de Camões, textos em latim (Estado de São Paulo) e receitas
culinárias, as quais muitas vezes eram propositadamente inviáveis,
fato que gerava telefonemas de leitores inconformados (Jornal da
Tarde). Essas ações indicavam aos leitores que as informações lhes
estavam sendo restringidas39.

37
ABREU, João Batista de. As manobras da informação: análise da cobertura
jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro:
Mauad, 2000. p. 68.
38
ABREU, João Batista de. op cit. p. 69. Na descrição, o autor transcreve o subtí-
tulo da matéria: “33 andares, fachada de cristal importado, banheiros de mármore,
tapetes de pele de carneiro, um teatro (o mais luxuoso da Guanabara) etc. E um dos
autores do projeto diz que o edifício ‘expressa a grandeza do problema habitacional.
39
ABREU, op. cit., p. 72.
74 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Abreu chamou essas manobras de “jogo de pique-esconde”40.


Era necessário fazer com que o leitor entendesse, sem haver um di-
cionário ou glossário de eufemismos e metáforas, o que havia nas
entrelinhas das matérias.
No entanto, driblar os censores não era tão simples e nem sem-
pre os jornalistas obtiveram o resultado esperado e a compreensão
dos leitores. De acordo com Lacerda, “a meta era bajular, burlar ou
vencer o censor pelo cansaço”41.
A imprensa alternativa, pequenos jornais, no entanto, era a
que mais sofria com a censura prévia, pelo risco de apreensão de
seus exemplares e do custo do envio do material para análise em
Brasília. Tal fato exigia o fechamento antecipado do jornal. Essa di-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

ficuldade é exposta pelo jornalista Raimundo Pereira, ex-diretor de


Opinião e Movimento, em uma palestra sobre a imprensa alternati-
va, em 1985, na cidade de Belo Horizonte, cujo conteúdo parcial é
disposto na obra de Abreu:

[...] É de 69 a 74 o período de censura institucionalizada,


quando a imprensa alternativa vai ter o período de maior
repressão. Primeiro, porque os jornais dos partidos clandesti-
nos, jornais alternativos, são violentamente perseguidos. Ser
encontrado com um jornal daqueles nas mãos ou imprimindo
um jornal era motivo para ser preso e morto, como foram pre-
sos, torturados e mortos muitos companheiros que militaram
nesta imprensa alternativa clandestina, que sempre existiu no
país. Foi este o período de maior repressão. Continuou exis-
tindo legalmente uma imprensa alternativa, que a despeito de
uma censura feroz a partir de 1972, procurou ainda explorar
algumas brechas e criar dificuldades para o regime militar,

40
ABREU, João Batista de. As manobras da informação: análise da cobertura
jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro:
Mauad, 2000. p. 39.
41
LACERDA, Eliane Muniz. O Jornalismo nos limites da liberdade: um estudo
da cobertura da imprensa sobre os casos dos religiosos acusados de praticar ativi-
dades subversivas durante o regime militar. Dissertação (Mestrado) – Programa
de Pós-Graduação em Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2007.
p. 17. 2007. p. 30.
Elaine Antunes Fernandes - 75

dentro de um campo legal o mais limitado possível. Esta foi


a imprensa política que Pasquim e Opinião fizeram.42

Divergências entre os jornalistas também são apontadas no que


tange à questão da luta contra o poder censório. Alguns sofreram mais
ações repressivas que outros, e alegam que apenas a imprensa alterna-
tiva de fato arcou com todo o cerceamento do Estado, enquanto que
os grandes jornais se aliavam ao regime, mediante acordos. Lacerda
alerta que esse conflito reflete a divisão interna que existia na im-
prensa brasileira43. Ironicamente, observa-se também que os atos de
violência contra os jornalistas e o controle abusivo da comunicação
descartam a ideia de que a imprensa foi totalmente manipulada ou
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completamente censurada ao sabor dos ventos que interessavam aos


militares. Um bom exemplo é a cobertura da imprensa sobre casos
de religiosos acusados de praticarem atividades subversivas na épo-
ca. A autora chama a atenção para o fato de que apesar da proibição
de se tratar do assunto Igreja, a Instituição Católica esteve presente
em mais de três mil matérias, no espaço temporal de 1968 a 197744.
Naturalmente, não só os jornais estiveram na mira dos censo-
res, o mesmo ocorreu com as revistas, como a revista Veja que, com
119 edições, apresentou um saldo de 10.352 linhas cortadas, 60 ma-
térias totalmente proibidas, 44 fotografias e 20 desenhos e charges45.
Convém também levarmos em conta que houve contatos pes-
soais entre censores e censurados, bem como censores “residentes”,
e esse contato humano e pessoal constante, podia tanto abrandar
como enrijecer a censura, e a força com que caía a navalha. Soares,

42
ABREU, João Batista de. As manobras da informação: análise da cobertura
jornalística da luta armada no Brasil (1965-1979). Niterói: EdUFF; Rio de Janeiro:
Mauad, 2000. p. 74.
43
LACERDA, Eliane Muniz. O Jornalismo nos limites da liberdade: um estudo
da cobertura da imprensa sobre os casos dos religiosos acusados de praticar ativi-
dades subversivas durante o regime militar. Dissertação (Mestrado) – Programa
de Pós-Graduação em Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2007.
p. 17. 2007. p. 32.
44
LACERDA, op. cit., p. 33.
45
MARCONI, Paolo, 1980 apud SOARES, Glaucio Ary Dillon, 1989, p. 8.
76 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

em seu trabalho, menciona, por exemplo, os contatos entre direto-


res e proprietários de jornais e revistas convivendo com ministros e
comandantes das forças militares, e cita, inclusive, como caso em-
blemático, a relação dos Mesquita, de o O Estado de São Paulo,
com o Ministro da Justiça, Buzaid, que teriam conspirado com altas
patentes militares, que conseguiram cargos de alta importância no
período ditatorial, para a deposição de Goulart. “Os Mesquita ne-
gociaram o abrandamento da censura com Falcão46, almoçando na
residência deste”47. Nem sempre, contudo, essa proximidade funcio-
nou para “adoçar” as relações, já que não necessariamente a pessoa
contatada era a responsável pela ação censória, o que fazia com que
as relações variassem de almoços, conversas e agrados a gritos, dis-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

cussões e ameaças48.
Ainda nas reflexões de Soares, encontramos a repercussão des-
se tipo de relacionamento no meio social:

Na imprensa, como em outras áreas, alguns usaram a difícil


posição política de outros para resolver disputas pessoais e
profissionais. As delações e denúncias constituíram a forma
mais comum de iniciar processos repressivos. Vários jorna-
listas interpretam a sua saída de um determinado órgão como
um sacrifício político visando aliviar a censura e as pressões
econômicas; outros como uma solução para rivalidades
pessoais e profissionais. Entretanto, também há demissões
quando não há censura: Como saber quais as demissões po-
liticamente motivadas? Como distinguir aquelas nas quais a
repressão política foi usada para justificar demissões que se
deveram a outras causas? Melhor ainda, em que proporção
cada um destes fatores influenciou a demissão em cada caso?
É impossível saber. O que se pode provar, estatisticamente,

46
Armando Falcão foi Ministro da Justiça durante o governo Ernesto Geisel (1974-
1979) como sucessor de Alfredo Buzaid.
47
SOARES, Glaucio Ary Dillon. Censura durante o Regime Autoritário. Rev. bras.
Ci. Soc., Rio de Janeiro, v. 4, n. 10, jan./jun. 1989. Disponível em: <http://www.
anpocs.org/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=227:rbcs-
-10&catid=69:rbcs&Itemid=399>. pp. 16-17.
48
SOARES, op. cit., pp. 16-17.
Elaine Antunes Fernandes - 77

é que os jornalistas que combateram ativamente a ditadura


tiveram menor estabilidade no emprego.
Os conflitos pessoais, as perseguições reais e as simples para-
nóias deixaram ressentimentos permanentes que, embora não
pesquisados pela alienadíssima Ciência Política tradicional,
influenciaram e continuam a influenciar, de maneira drástica,
a vida de muitos.49

Um ponto interessante sobre a censura, também apontado por


Aquino, é a grande preocupação com o respaldo legal para a ação dos
censores, o que se observa, por exemplo, no Decreto-Lei nº 1.077,
que resguardava as ações da Polícia Federal quanto à censura pré-
via, impedimento da veiculação e a apreensão do material que se en-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

quadrasse nesses moldes50:

Art. 1º – Não serão toleradas as publicações e exteriorizações


contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam
os meios de comunicação.
Art. 2º – Caberá ao Ministério da Justiça, através do Departa-
mento de Polícia Federal verificar, quando julgar necessário,
antes da divulgação de livros e periódicos, a existência de
matéria infringente da proibição enunciada no artigo anterior.
Parágrafo único. O Ministro da Justiça fixará, por meio de
portaria, o modo e a forma da verificação prevista neste artigo.
Art. 3º – Verificada a existência de matéria ofensiva à moral
e aos bons costumes, o Ministro da Justiça proibirá a divul-
gação da publicação e determinará a busca e a apreensão de
todos os seus exemplares.
Art. 4º –As publicações vindas do estrangeiro e destinadas
à distribuição ou venda no Brasil também ficarão sujeitas,

49
SOARES, Glaucio Ary Dillon. Censura durante o Regime Autoritário. Rev. bras.
Ci. Soc., Rio de Janeiro, v. 4, n. 10, jan./jun. 1989. Disponível em: <http://www.
anpocs.org/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=227:rbcs-
-10&catid=69:rbcs&Itemid=399>. pp. 16-17.
50
AQUINO. Maria Aparecida de. Censura, imprensa e estado autoritário (1968-
1978): o exercício cotidiano da dominação e da resistência: O Estado de São Paulo
e Movimento. Bauru: EDUSC, 1999. pp. 63-64.
78 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

quando de sua entrada no país, à verificação estabelecida na


forma do artigo 2º deste Decreto-lei.
Art. 5º – A distribuição, venda ou exposição de livros e perió-
dicos que não hajam sido liberados ou que tenham sido proi-
bidos, após a verificação prevista neste Decreto-lei, sujeita os
infratores, independentemente da responsabilidade criminal:
[...]
II – À perda de todos os exemplares da publicação, que serão
incinerados a sua custa.
Art. 6º – O disposto neste Decreto-Lei não exclui a com-
petência dos Juízes de Direito, para adoção das medidas
previstas nos artigos 61 e 62 da Lei número 5.250, de 9 de
fevereiro de 1967.
Art. 7º – A proibição contida no artigo 1º deste Decreto-Lei
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aplica-se às diversões e espetáculos públicos, bem como à


programação das emissoras de rádio e televisão.

A Lei nº 5.250, supramencionada no Art. 6º, é conhecida como


Lei de Imprensa, que procurava incrementar as penalidades nos cri-
mes contra a Segurança Nacional e, ao mesmo tempo, diminuir a
liberdade dos jornalistas, filtrando as informações de modo a benefi-
ciar o Governo, exaltando-o e omitindo ou mascarando os fatos não
desejáveis ao regime51.
Consoante Otero, quando o DL nº 1.077 foi publicado, surgiram
manifestações do Exército, do Clero, conservadores, aparentemen-
te com mais veemência na aprovação da medida que desaprovação.
O estopim da discórdia foi quando o Ministério da Justiça baixou a
Portaria 11-B, de 06 de fevereiro de 1970, na qual se transferia aos
Delegados Regionais do Departamento de Polícia Federal a compe-
tência de analisar tudo o que se considerasse ofensivo à moral e aos
bons costumes. Como consequência de tanto alvoroço, o Ministro
da Justiça repensou o assunto, dando origem à Portaria 11-B. Nesta,
figurava a isenção de censura prévia para publicações filosóficas,
científicas, técnicas e didáticas, com a condição de que não tratas-

51
STEPHANOU, 2001 apud SILVA, 2010, p. 13.
Elaine Antunes Fernandes - 79

sem sobre sexo, moralidade pública e bons costumes52. Se o assun-


to tratado fosse referente a esses temas ou a temas a eles correlatos,
teriam de ser distribuídos com o aviso de proibição a menores de 18
anos, lacradas e embaladas em papel opaco.
A violência com que eram realizadas essas interdições foi mar-
cante nos primeiros anos da ditadura militar. Otero expõe em sua
pesquisa que:

Os agentes de segurança, dentro do espírito do momento,


apreendiam livros em editoras, livrarias e, também, em resi-
dências daqueles considerados adversários do novo regime.
A coação era tão grande que, quando os agentes de segurança
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não confiscavam os livros, os próprios diretores das editoras


acendiam suas fogueiras. Como foi o caso da Editora Brasi-
liense: ‘Yolanda Prado, diretora da Brasiliense, lembra que a
editora chegou a queimar, a partir de 1968, estoques de livros
considerados ofensivos ao regime e que seriam censurados’.53

Mesmo com o desenvolvimento de diversas formas de fiscali-


zação de livrarias, bancas de jornais, editoras, distribuidoras e ou-
tros, ainda vislumbravam-se “as denúncias de cidadãos, as pressões e
cobranças das entidades religiosas para a defesa da família e as notí-
cias, publicadas nos jornais, sobre novos livros”54. O controle da cen-
sura chegava a ponto de em apenas 1 despacho serem proibidos 22
livros, amparada a ação com base na Lei de Segurança Nacional. O
Ministro que mais censurou livros no período estudado foi Armando
Falcão, já nos tempos em que o Presidente da República era o gene-
ral Ernesto Geisel. Tal fato gera uma controvérsia, visto que normal-
mente o Governo Geisel é associado ao fim da censura, e ao mesmo
tempo, tem-se o registro de maior número de livros proibidos.

52
OTERO, Maria Mercedes Dias Ferreira. Censura prévia de livros: a moralidade
como recurso político. In: Encontro Nordestino de História; Encontro Estadual de
História, 5. 2004, Recife. Anais eletrônicos... Recife: UFPE, 2004. pp. 5-6.
53
OTERO, op. cit., p. 5-6.
54
OTERO, op. cit., p. 7.
80 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Verifica-se ainda a dupla função exercida pelos jornais, eis que


apontado por Otero:

Da mesma forma que a Censura se utilizava das notícias de


jornal sobre novos lançamentos ou novas edições, muitos
editores afirmavam que as notícias em jornais ou revistas,
sobre ‘capítulos potencialmente mais ofensivos de um livro’,
sem reação da Censura, indicava ‘que o livro poderia ser
publicado sem problemas’. As notícias de jornal eram um
recurso usado tanto pelos editores para ‘sondar as águas’, do
que se queria publicar, quanto por parte da censura, para tomar
conhecimento do que se publicara ou se pretendia publicar.
Na ditadura, uma das dimensões da moral mais combatidas
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

pela censura, foi a que se refere à sexualidade. O combate à


pornografia foi uma das suas ‘cruzadas’ nos anos 70.55

Todavia, mesmo com todos esses mecanismos, os chamados


livros proibidos se mantinham em circulação. A ciência da situação
pelo governo ficou clara quando, em 1975, o Ministério da Justiça
lança o “Plano Para um Combate Sistemático Contra as Publicações
Obscenas e Subversivas”. Neste, apontava-se descentralização da
censura e apenas “em determinadas oportunidades, a serem inteligen-
temente escolhidas”, as publicações deveriam ser proibidas através
de Portaria do Ministro da Justiça, “para demonstrar à Nação a vi-
gilância sobre o setor”56. Sobre o fracasso de proibir e retirar de cir-
culação os livros considerados pornográficos, a autora conclui: “Se
a intenção do Ministro Armando Falcão era apagar da literatura na-
cional os autores considerados pornográficos, pelo menos com duas
delas, Cassandra Rios e Adelaide Carraro, não consegue. Tornaram-

55
OTERO, Maria Mercedes Dias Ferreira. Censura prévia de livros: a moralidade
como recurso político. In: Encontro Nordestino de História; Encontro Estadual de
História, 5. 2004, Recife. Anais eletrônicos... Recife: UFPE, 2004. pp. 5-6.
56
OTERO, op. cit., p. 9.
Elaine Antunes Fernandes - 81

se verdadeiros ‘best-sellers’, ambas têm hoje, respectivamente 73 e


47 registros no acervo da Biblioteca Nacional”57.
Uma reflexão a respeito do real uso da censura no País é men-
cionada em Marconi, no respeitante à imposição da censura políti-
ca na comunicação:

É dizer que ela vicejou em função da escalada subversiva no


País. É verdade que todos os teóricos da guerra revolucionária
– especialmente os militares franceses derrotados na Indo-
china e na Argélia – são unânimes em reconhecer que, sem o
acesso aos modernos meios de comunicação, a subversão se
torna impotente, por não conseguir repercutir suas ações junto
à opinião pública. Acontece que, no caso brasileiro, fica claro
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ao dar uma olhada mesmo superficial nas proibições que essa


censura às informações serviu mais para encobrir as mazelas
do regime e garantir sua sobrevivência do que para defender
a ‘segurança nacional’. Afinal, a censura não permaneceu, e
até inchou, após o desmantelamento das ações armadas dos
dissidentes políticos?58

O Supremo Tribunal Federal e a censura da imprensa


– contendas entre o malhete e a navalha

Diversas foram as atuações do STF durante o período da di-


tadura militar, que trataram direta ou indiretamente da censura im-
posta ao Brasil, ou seja, dos golpes da navalha de tinta nas palavras
malditas ao regime. Analisaremos, no presente estudo, alguns des-
ses casos, todos relacionados à publicações, entendendo-se como tal
jornais, panfletos, revistas e similares.

57
OTERO, Maria Mercedes Dias Ferreira. Censura prévia de livros: a moralidade
como recurso político. In: Encontro Nordestino de História; Encontro Estadual de
História, 5. 2004, Recife. Anais eletrônicos... Recife: UFPE, 2004. pp. 5-6.
58
MARCONI, 1980 apud LACERDA, 2007, p. 19.
82 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Obscenidades e pornografia

O Mandado de Segurança nº18.534 – SP59, de 1º de outubro de


1968, julgado pela Segunda Turma, teve como recorrente a Editora Abril
Ltda., e recorrido o Juiz de Direito da Vara de Menores da Capital, e
seu relator foi o Ministro Temistocles Cavalcanti. Destaca-se pelo fato
de tratar da limitação do entendimento dos juízes a respeito da classifi-
cação de algo como obsceno. Esta classificação não deixa de ser uma
censura realizada pelos magistrados. O assunto discutido era o conteúdo
dito obsceno de uma revista chamada Realidade, em que a mencionada
obscenidade referia-se a dois artigos: “Porque me orgulho de ser mãe”
e “Confissões de uma moça livre” e uma fotografia que, de acordo com
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

o relatório, “seria de mau porte, mas não obscena”60, com a subsequente


apreensão de seus exemplares. Os debates que se sucederam resultaram
em provimento parcial. O juiz que classificou a revista como imprópria,
usou como base o Art. 53 da Lei de Imprensa, no qual se impedia o trato
de quaisquer publicações de caráter obsceno, conforme a primeira lei.
Na segunda, esse dispositivo foi repetido, contudo, no lugar da palavra
“obsceno” utilizava-se “contra a moral e os bons costumes”. De acor-
do com o Ministro Temistocles Cavalcanti, não havia um critério de-
finido para se declarar se uma publicação era ou não obscena, fazendo
com que o sentimento de pudor dependesse da formação moral, educa-
ção, idade, concepções filosóficas de cada pessoa. Em seu voto, enuncia:

Se formos analisar o que se publica na generalidade das re-


vistas, poucas resistiriam a uma análise mais rigorosa, dentro
do conceito fixado no ato impugnado.
No meu entender, não se trata de revista obscena, embora
considere profundamente medíocre sob todos os pontos de
vista, o que nela se contém. Considero de profundo mal gôsto
e se destina a um público pouco exigente.

59
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Segurança nº18.534 – SP
(Segunda Turma), Poder de polícia. Apreensão de publicação obscena ou por-
nográfica. Vedação de vendas a menores. Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 47, p. 787-799, mar. 1969. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/
arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/047_3.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
60
Ibid., p. 788.
Elaine Antunes Fernandes - 83

Nego, porém, provimento ao recurso, porque não vejo no ato


manifesta ilegalidade que justifique a concessão da medida
impetrada, que, dentro do conceito que faz de obscenidade,
considerou necessária a apreensão da revista. Não se pode
pela lei, negar ao juiz, certo arbítrio [...]61

Em seu voto, o Ministro Aliomar Baleeiro, declara:

Ainda não há, na jurisprudência do STF, standards claros


e seguros a respeito da linha divisória entre o obsceno ou o
pornográfico, dum lado, e o publicável do outro lado, porque
relativamente poucos os casos trazidos à sua barra. Os recentes
acórdãos sobre films nacionais, envolviam mais questões de
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

competência da União e dos Estados para o exercício da censura,


que, num dêles, era antes um pretexto para cobrança de taxas.62

Com relação ao estabelecimento de critérios dessa censura reali-


zada pelos próprios juízes, verifica-se a visão consciente do Ministro
Evandro Lins a esse respeito: “Há certa distinção que é preciso fa-
zer. O critério a ser seguido pelo juiz, sobre a caracterização da obs-
cenidade, não deve ser o seu critério pessoal, mas sim, o critério da
maioria, o pensamento médio da população”63. Visão também ob-
servada pelo Ministro Aliomar Baleeiro:

Não podemos, também, entregar isso ao arbítrio do juiz. Êle


tem que atender a certos padrões. Deve ter uma espécie de
standard ou test [...]. Não há outro meio. Como vamos deixar
um magistrado apreender a edição de uma revista, pode ser,
hoje, Realidade, pode ser, amanhã, outra qualquer, pode ser
O Estado de São Paulo, conforme lhe der na cabeça, segundo
sua concepção pessoal ou visão religiosa do que é obsceno?

61
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Segurança nº18.534 – SP
(Segunda Turma), Poder de polícia. Apreensão de publicação obscena ou por-
nográfica. Vedação de vendas a menores. Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 47, p. 789, mar. 1969. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/
cms/publicacaoRTJ/anexo/047_3.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
62
Ibid., p. 794.
63
Ibid., p. 797.
84 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Não é possível uma coisa destas. É preciso estabelecer cri-


térios, segundo os quais ele possa fazer isso.64

No condizente ao assunto “sexo”, o Ministro Aliomar Baleeiro


pondera, em seu voto:

[...] Por outro lado, os problemas de sexo, que, são em geral o tabu
dos censores, fazem objeto da investigação científica de várias uni-
versidades, inclusive do ponto de vista psicológico e psiquiátrico
das obras literárias e artísticas que tomam por motivo. É notória a
enorme Biblioteca de publicações eróticas de todos os tempos, in-
clusive os glorificados pela austeridade como o reinado da rainha
Vitória, – pertencente hoje ao Institute for Sex Research, fundado
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por Alfred Kinsey, o famigerado autor do relatório que leva seu


nome e que foi condensado pela grande parte das revistas de larga
penetração em lares, como Ladie’s Home Journal e Seleções do
Digest há cêrca de 15 anos. Um dos livros de pesquisas nesse
material sombrio (The Other Victorianas – a Study of sexuality
and pornography in mid-19th Century, de Steven Marcus 1966)
foi subvencionado pelas Universidades de Colúmbia e Indiana,
assim como pelo American Council of Learned Societies.
Note-se que um dos fundamentos da apreensão foi ter Realidade
promovido e publicado um inquérito sôbre o procedimento sexual
de certo grupo de mulheres brasileiras, em amostragem de 1.200
delas, exatamente o que, em vulto maior, fizeram os dois relatórios
Kinsey, resumidos em várias revistas de larga circulação mundial.
Ninguém ignora que, em tôdas as capitais civilizadas, são publica-
das revistas restritas e voltadas ao erotismo, com a tolerância das
autoridades. Humberto de Campos, da Academia Brasileira de Le-
tras, sob pseudônimo notório de Conselheiro XX, não só publicava
diàriamente nos jornais crônicas picarescas, mas fundou e dirigiu
há cêrca de 40 ou 50 anos, A Maçã, revista no gênero daquelas.
Mas importante, do ponto de vista dêstes autos, é que revistas
insuspeitas de comércio de torpezas, – revistas de circulação
mundial e que versam os mais graves temas da atualidade,

64
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Segurança nº18.534 – SP
(Segunda Turma), Poder de polícia. Apreensão de publicação obscena ou por-
nográfica. Vedação de vendas a menores. Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 47, p. 797-798, mar. 1969. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/
arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/047_3.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
Elaine Antunes Fernandes - 85

como o Time, em quase tôdas as suas edições tratam de sexo,


erotismo, contra-concepção, a pílula e até de anormalidades
da conduta sexual, como a prostituição, a homossexualidade,
sadismo etc. etc. Outro tanto ocorre com as revistas brasileiras
das mais prestigiosas e insuspeitas do cultivo de paixões más.
Por que, então a atitude discriminatória contra a Realidade?
Até que ponto, outros interêsses, outras considerações, outros
preconceitos ideológicos podem ter açulado uma repres-
são a que foram poupadas outras revistas com os mesmos
pecados?65

Neste comentário, o Ministro supra já destaca que o assunto


“sexo” era um tabu para os censores.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Sobre esse assunto, Otero pondera em sua pesquisa o porquê


desse tabu:

Na ditadura, uma das dimensões da moral mais combatidas


pela censura, foi a que se refere à sexualidade. O combate à
pornografia foi uma das suas ‘cruzadas’ nos anos 70. É interes-
sante lembrar que, historicamente, a pornografia e a política
estiveram entrelaçadas de diversas formas. Entre 1500 e 1800,
na Europa, a pornografia era ‘um veículo que usava o sexo
para chocar e criticar as autoridades religiosas’. As principais
fontes da ‘tradição pornográfica moderna e da sua censura
podem ser buscadas’ na Itália, França e Inglaterra, nos séculos
XVI, XVII e XVIII, respectivamente, com antecedentes na
Grécia e Roma antigas. A fonte moderna mais citada pelos
estudiosos da pornografia é o escritos italiano Pietro Aretino,
do século XVI. Desde Aretino, ‘a pornografia vinculou-se à
subversão política e religiosa’. Ela era vista como uma ‘forma
de comentário político’ e não se destacava como gênero.66

65
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Segurança nº18.534 – SP
(Segunda Turma), Poder de polícia. Apreensão de publicação obscena ou por-
nográfica. Vedação de vendas a menores. Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 47, p. 791-792, mar. 1969. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/
arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/047_3.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
66
OTERO, Maria Mercedes Dias Ferreira. Censura prévia de livros: a moralidade
como recurso político. In: Encontro Nordestino de História; Encontro Estadual de
História, 5. 2004, Recife. Anais eletrônicos... Recife: UFPE, 2004. pp. 5-6.
86 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Como a ditadura, em sua defesa pela preservação da família contra


o comunismo internacional, via seu objeto de proteção ameaçado pelos
novos comportamentos e liberalidades que surgiam nos anos 70, como
por exemplo, o projeto divorcista, os militares se agarraram à bandei-
ra da luta contra a subversão67, considerava como tal, tudo o que fosse
contrário à moral e aos bons costumes, a fim de resguardar seus valores.
Desta feita, tendo em vista a transcrição anterior, de que desde Aretino
mantém-se o conceito de que a pornografia, a subversão política e a sub-
versão religiosa “andam de mãos dadas”, nada mais natural, então, a ver-
dadeira aversão que os censores sentiam por tais assuntos, banindo-os
de toda produção musical, cinematográfica, cultural, literária e jornalís-
tica tanto quanto possível, tal qual em uma verdadeira caça às bruxas.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Panfletos de conteúdo subversivo

Para melhor entendimento dos recursos seguintes, vejamos, ini-


cialmente, o que dispõe o Art. 38, do DL nº 314:

Art. 38. Constitui, também, propaganda subversiva, quando


importe em ameaça ou atentado à segurança nacional:
I – a publicação ou divulgação de notícias ou declaração;
II – a distribuição de jornal, boletim ou panfleto;
III – o aliciamento de pessoas nos locais de trabalho ou de ensino;
IV – cômico, reunião pública, desfile ou passeata;
V – a greve proibida;
VI – a injúria, calúnia ou difamação, quando o ofendido fôr
órgão ou entidade que exerça autoridade pública, ou funcio-
nário em razão de suas atribuições;
VII – a manifestação de solidariedade a qualquer dos atos pre-
vistos nos itens anteriores; Pena – detenção, de 6 meses a 2 anos.

67
OTERO, Maria Mercedes Dias Ferreira. Censura prévia de livros: a moralidade
como recurso político. In: Encontro Nordestino de História; Encontro Estadual de
História, 5. 2004, Recife. Anais eletrônicos... Recife: UFPE, 2004. pp. 5-6.
Elaine Antunes Fernandes - 87

No Recurso Criminal nº 1.096 – SP68, julgado em 17 de novem-


bro de 1970, cujo relator foi o ministro Luiz Gallotti, declarava-se
que o recorrente, um aluno da Faculdade de Medicina de Botucatu,
havia sido denunciado por distribuir panfletos de conteúdo subver-
sivo e condenado pelo Conselho de Justiça Militar, à pena mínima
de 6 meses de detenção. No panfleto, em questão, lia-se:

AO POVO
Mais uma vez estamos escrevendo para o povo.
Sabemos que o povo já está cansado de tantos manifestos como
êste, mas sabemos também que o povo precisa conhecer tudo o
que os estudantes estão fazendo, porque os estudantes têm que
dar satisfação só ao povo e não àqueles que enganam o povo.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Os estudantes não pararam, não se cansaram e nem ficaram com


mêdo de dizer a verdade, só porque o govêrno proibiu e pôs a po-
lícia nas ruas para bater ou prender quem quisesse dizer a verdade.
Por que os estudantes não saíram mais às ruas?
Os estudantes não fizeram mais passeatas, mas estão saindo
às ruas para ir de casa em casa, para mostrar ao povo porque
estão lutando, para mostrar ao povo que o govêrno não se
interessa pelas escolas, que para o govêrno não interessa que o
povo seja estudado, porque um povo estudado sabe ver quais
são seus direitos e sabe lutar por eles, e um povo estudado o
govêrno não pode enganar.
Por que os estudantes ainda estão no Seminário?
Os estudantes ainda estão no Seminário porque esperavam que
o dinheiro para a escola viesse logo e, não compensava sair para
ser prêso, mas agora está vendo que o govêrno está esquecendo
que o estudante e o povo têm força; por isso está esquecendo
também que a escola está parada por falta de dinheiro.
E os estudantes vão continuar dentro do Seminário?
Não, os estudantes não vão continuar dentro do Seminário;
vão sair ainda esta semana para mostrar a todos que o dinheiro
para a escola ainda não chegou, para gritar que temos direito

68
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1096 – SP (Primeira
Turma), Crime político. Propaganda subversiva. Panfleto. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 56, p. 148-150, abr. 1971. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/056_1.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
88 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

e exigir do governo o que deve ser nosso, para gritar, que


temos direito de exigir do governo o que deve ser do povo.
Centro Acadêmico Pirajá da Silva”.

O ministro, apesar de reconhecer palavras “excessivas e injustas”,


alegou não existir subversão em seu conteúdo, voto acompanhado pe-
los demais, absolvendo o acusado, por unanimidade. Nas palavras cita-
das no relatório, pronunciadas pelo auditor Nelson da Silva Machado
Guimarães, compreende-se a contextualização na qual ocorreu a dis-
tribuição do panfleto, tido inicialmente como subversivo. Refere-se
ao movimento estudantil ocorrido em Botucatu, para obter liberação
de verbas federais à Faculdade de Ciências Biológicas. Justifica o au-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

ditor que apesar da falta de conteúdo subversivo no panfleto, o risco


de tais movimentos reivindicatórios se dá por serem, em geral, apro-
veitados por agitadores, que deles se utilizam para fins subversivos.
Segundo Lacerda, “qualquer oposição ao Estado, naquele mo-
mento, tornava-se suspeita de subversão.” Para os militares, a ame-
aça do comunismo ainda era muito presente, e de acordo com a Lei
de Segurança Nacional, era o maior inimigo da nação. Assim, não
controlar a expressão de ideias poderia incutir esse inimigo na so-
ciedade, em seus diversos setores69. Portanto, era primordial o com-
bate a tudo que pudesse lhe abrir caminho.
Ainda sobre a distribuição de panfletos, vislumbramos o
Recurso Ordinário Criminal nº1.097 – PE, no qual atuou como rela-
tor o ministro Thompson Flores. Neste, observamos como recorrente
Ivair Gabriel Barreto e como recorrido o Superior Tribunal Militar.
O fato discutido se dá a respeito de que no dia 8 de agosto de 1969,
às 20h30, os denunciados distribuíam panfletos, cujo conteúdo inci-
tava a subversão da ordem político-social, animosidade entre classes
sociais e paralisação de fábricas e atividades agrícolas.

69
LACERDA, Eliane Muniz. O jornalismo nos limites da liberdade: um estudo da
cobertura da imprensa sobre os casos dos religiosos acusados de praticar atividades
subversivas durante o regime militar. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-
Graduação em Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2007. p. 91.
Elaine Antunes Fernandes - 89

Em trechos citados, são lidas, pelo ministro Thompson Flores,


as seguintes mensagens:

Ditadura Militar Prende, Espanca e Tortura Camponeses do


Cabo, com Mêdo da Luta do Povo [...]
[...] Mas os latifundiários, que junto com os grandes patrões
e os americanos formam essa ditadura, só querem explorar o
povo. Querem matar o povo de fome e roubar nossa Pátria [...]
[...] Todo apoio à luta dos camponeses do Cabo. Greve na
fábrica contra o arrôcho da ditadura [...]
[...] Com estas lutas, os operários e os camponeses estão se
preparando para a Guerra Popular, que é uma guerra longa e
árdua, uma guerra dirigida pela classe operária para expulsar
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

o imperialismo americano, para derrubar a ditadura militar,


acabar com os latifundiários, os grandes patrões e botar um
govêrno democrático-nacional [...]
[...] A guerra popular derruba a ditadura e expulsa o impe-
rialismo [...]
[...] O povo na luta, punirá os seus assassinos. Todo apoio
a luta dos camponeses do Cabo. A guerra popular derruba a
ditadura e expulsa o imperialismo [...].70

Alegava o recorrente, que era seminarista, que não fazia parte do


grupo de distribuição de panfletos subversivos e que apenas interferiu
na prisão da acusada (havia uma mulher no grupo) para defendê-la,
pois pensava que o policial à paisana era um agressor. No parecer da
Procuradoria-Geral da República, encontra-se o seguinte comentário:

Os depoimentos de f.116-117 não ilidem a acusação, nem o


fato de ser o recorrente seminarista prova em seu favor, pois
que a subversão, como notória, conseguiu penetrar nas igre-
jas e conventos, sendo hoje inúmeros os sacerdotes, frades
e freiras que dela participam ativamente. Desnecessário e

70
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1097 – PE (Segunda Turma),
Crime político. Propaganda subversiva. Distribuição de panfletos. Decreto-Lei nº 314/67.
Sentença condenatória. Prova indiciária. Conjunto da prova. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 58, p. 442-443, nov. 1971. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/058_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
90 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

constrangedor apontar nominalmente alguns deles, adeptos


fervorosos de Fidel e Guevara, santos, ou profetas do novo
credo, que desenvoltamente pregam aos seus tresmalhados
rebanhos, na sinistra faina de transformar ovelhas em lobos.71

No que concerne à atitude da Igreja, nesse período, Lacerda


constata que no início da ditadura militar a Igreja reagiu de forma
neutra, pois nessa época já se dividia, com alguns de seus integran-
tes com absoluto horror ao comunismo, assim como os militares, e
portanto, com os mesmos interesses em afastá-lo, e outros, que de-
fendiam o regime socialista, combatendo os efeitos de miséria e di-
visão de classes que crescia, culpando o capitalismo72. Conforme
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

a ditadura militar se tornava mais severa, mais críticas recebia da


Igreja, diminuindo gradativamente o apoio que antes dela recebia.
Após o voto de provimento negativo do ministro Thompson
Flores, levantou-se a seguinte reflexão no voto do ministro Adaucto
Cardoso, a respeito da coleta de provas:

O que é de estranhar é que a autoridade policial com todo êsse


manancial de prova, se tenha omitido e deixado de ouvir ditas
pessoas. Não prestaram declarações ditas pessoas, nem o me-
nor a que se referem as testemunhas que depuseram em Juízo.
Aliás, na fase do inquérito policial foram ouvidas sòmente
as quatro testemunhas ouvidas em Juízo e mais a senhora que
hospedou a acusada Nair do Rosário Barbosa.73
Há, como que um, descaso na coleta das provas na feitura do
inquérito. Descaso êsse, que não se pode admitir em proces-

71
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1097 – PE (Segunda
Turma), Crime político. Propaganda subversiva. Distribuição de panfletos. Decreto-Lei
nº 314/67. Sentença condenatória. Prova indiciária. Conjunto da prova. Revista Trimestral
de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 58, p. 443, nov. 1971. Disponível em: <http://www.stf.
jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/058_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
72
LACERDA, Eliane Muniz. O jornalismo nos limites da liberdade: um estudo da
cobertura da imprensa sobre os casos dos religiosos acusados de praticar atividades
subversivas durante o regime militar. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-
Graduação em Comunicação – Universidade de Brasília. Brasília, 2007. p. 68.
73
Esse era o nome da mulher que estava distribuindo panfletos junto ao grupo,
também conhecida como Norma Gonçalves Guimarães.
Elaine Antunes Fernandes - 91

sos comuns, quanto mais em se tratando de processos que


visam a apurar a responsabilidade penal, por infringência a
dispositivos da lei de segurança nacional.
Outro fato estranho que ocorreu neste processo, é o de que
os acusados foram presos em flagrante, como faz certo o
ofício de f.5, quando afirma: ‘Apresento-vos a Srta. Norma
Gonçalves Guimarães [...], os quais foram flagrados, neste
Município, distribuindo panfletos subversivos [...]’, contudo,
com um passo de mágica, contrariando a toda a sistemática
processual vigente, transformou a autoridade processante dita
prisão em flagrante numa simples instauração de inquérito, e
com isso deixando sôlta a acusada Nair, que por certo estará
neste momento em outras plagas, cometendo os mesmos
delitos, em face do beneplácito da autoridade policial.74
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

E continuam, com o debate sobre a precariedade das provas


e o descuido da polícia na coleta dos depoimentos, os ministros
Thompson Flores e Adaucto Cardoso:

[...] O Sr. Ministro Thompson Flores (Relator): _ Positivar


para ouvir as outras. E não foram inquiridas porque a Polícia
descurou dêsse dever.
O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _ Então isso vai refletir em
prejuízo para o acusado?
O Sr. Ministro Thompson Flores (Relator): _ Não, evidente-
mente, mas permite do conjunto extrair o livre convencimento.
O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _ O livre convencimento
não vai ao ponto de adotarmos como provado aquilo que não
está provado. Vou prosseguir a leitura do acórdão: ‘[...]não é,
evidentemente, nada impossível, sendo ao contrário perfeita-
mente lógica e é afirmada por três testemunhas, de modo que,
embora se não tenha identificado o menor, o fato nem por isso
deixa de ser aceitável.’

74
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1097 – PE (Segunda Turma),
Crime político. Propaganda subversiva. Distribuição de panfletos. Decreto-Lei nº 314/67.
Sentença condenatória. Prova indiciária. Conjunto da prova. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília, DF, v. 58, p. 446, nov. 1971. Disponível em: <http://www.stf.
jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/058_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
92 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

O Sr. Ministro Eloy da Rocha: _ Neste ponto, queria fazer


uma pergunta: as duas testemunhas que viram o réu distribuir
panfletos foram ouvidas?
O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _ Não foram.
O Sr. Ministro Thompson Flores(Relator): _ As duas teste-
munhas a que se referem a denúncia, o acórdão e o parecer
da Procuradoria eram: primeiro, o 1º tenente que interferiu na
autuação, quando êsse co-réu procurava fugir. Deteve-o e o
levou até a Delegacia de Polícia, onde todos foram ouvidos.
Numa pequena localidade como a que ocorreram os fatos, é
fácil verificar que várias pessoas acudiram, e estas é que não
foram ouvidas na Polícia, para identificarem o acusado como
um dos tantos que distribuíam os panfletos.
O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _Mas, se não foram ouvidas,
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

como podiam ter acusado?


O S. Ministro Thompson Flores (Relator): _Foi o 1º tenente
quem informou.
O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _ O 1º tenente diz que as
duas pessoas disseram, mas estas não foram ouvidas.
O Sr. Ministro Thompson Flores (Relator): _ Outra pessoa
que informou foi o soldado que deteve o paciente.
O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _ A fonte de informação,
embora pudesse ser alcançada pela Polícia, não foi ouvida.
O Sr. Ministro Thompson Flores (Relator): _ A prova se robus-
teceria, se fôsse ouvida, mas nem por isso deixou de existir.
O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _O que o acórdão salienta
é isto: ‘[...] embora se não tenha identificado o menor, o fato
nem por isso deixa de ser aceitável’.
O Sr. Ministro Thompson Flores (Relator): _É o convencimento.
O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _ V. Excia. me perdoe, mas
se isso é livre convencimento, então a liberdade está exposta
aos piores acidentes. (grifo nosso)75

Após o acirrado debate, em que o Ministro Adaucto Cardoso


defendeu veementemente a falta de provas confiáveis que fundassem

75
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1097 – PE (Segunda Turma),
Crime político. Propaganda subversiva. Distribuição de panfletos. Decreto-Lei nº 314/67.
Sentença condenatória. Prova indiciária. Conjunto da prova. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 58, p. 448-449, nov. 1971. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/058_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
Elaine Antunes Fernandes - 93

o livre convencimento da culpa do recorrente, deu-se provimento ao


recurso, contra o voto do relator. Vale a pena expor aqui, o comentá-
rio tecido pelo Ministro Thompson Flores sobre os artifícios usados
por aqueles que instigavam a subversão, quando ainda restava em
pauta de discussão a atitude do recorrente ao interferir na prisão da
mulher, alegando protegê-la mesmo sem supostamente conhecê-la:

O Sr. Ministro Adaucto Cardoso: _ Mas não se fêz a prova de


que a môça fôsse conhecida dêle, e isto estava ao alcance da
Polícia. Se ambos estavam distribuindo panfletos, era natural
que essa prova se fizesse.
O Sr. Ministro Thompson Flores (Relator): _ São artifícios
usados por êsse tipo de acusados. V.Excia., certamente, não
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

ignora como operam êles. Seus métodos não coincidem com


os delinqüentes comuns, porque preparam, estudam e executam
seus planos para os quais são até treinados [...]76

Esse comentário elucida a diferenciação expressa no conceito


de delinquentes ditos comuns daqueles que desafiavam o sistema,
com atuações voltadas a atitudes políticas.

Posse de materiais subversivos

Consta no Recurso Ordinário Criminal nº 1.115 – SP, julga-


dos em 05 de agosto de 1971, cujo relator foi o Ministro Oswaldo
Trigueiro, no qual citam-se como recorrentes José Marcos Botejara
Marreiros e Magno Flávio Simões e recorrido Superior Tribunal
Militar. O assunto em questão é a apreensão de farto material de
conteúdo subversivo, constituído de jornais, panfletos e livros, en-
contrados na residência de Marcos (uma república de estudantes),
supostamente sido enviados por Magno. Segundo consta, também

76
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1097 – PE (Segunda
Turma), Crime político. Propaganda subversiva. Distribuição de panfletos. Decreto-Lei
nº 314/67. Sentença condenatória. Prova indiciária. Conjunto da prova. Revista Trimestral
de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 58, p. 452, nov. 1971. Disponível em: <http://www.stf.
jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/058_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
94 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

foi confessada a participação em marcha subversiva, por estudantes,


com nomes e fatos registrados pela crônica jornalística e policial.
São ainda acusados de comunistas militantes que promoviam pro-
paganda subversiva no meio estudantil com a distribuição de todo o
tipo de literatura que lhes convertesse a sua ideologia.
No parecer da Procuradoria, encontra-se disposto:

[...] 2. É verdade que, no Inquérito, teriam confessado a ati-


vidade subversiva que lhes era atribuída, mas essa confissão
não se reproduziu em Juízo, quando então se alegou que
fôra, na Polícia, extorquida por meio de violência a que não
se tornou possível resistir.
3. Pretendeu o representante do Ministério Público invali-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

dar essa alegação, para tanto requerendo fôssem ouvidas as


autoridades acusadas de prática de tais violências, mas as
declarações por estas prestadas impressionaram negativa-
mente o Conselho Permanente de Justiça, sendo inverossímel
a afirmação do Delegado de que, trabalhando há vinte e seis
anos na Polícia, jamais vira um pau-de-arara.
4. Por outro lado não seria de esperar que, acusados de terem
obtido confissões mediante torturas, fôssem admitir como
procedente essa incriminação.77

O relator deu provimento ao recurso, o qual foi acompanhado


pelos demais ministros presentes, com a ressalva feita pelo Ministro
Amaral Santos de que, apesar das provas suficientes para enquadra-
mento dos recorrentes como subversivos, acompanharia o voto do
relator e dá o parecer da Procuradoria, não adotando, portanto, as
confissões mediante tortura.
Acompanhemos agora o Recurso Ordinário Criminal nº 1.116 –
SP, julgado em 20 de agosto de 1971, cujo relator foi o Ministro Djaci
Falcão, e no qual se apresentam como recorrentes Caio Prado Júnior
e Antônio Mendes de Almeida Júnior e como recorrido o Superior

77
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1115 – SP (Primeira
Turma), Confissão. Retratação em juízo. Crime político. Apreensão de boletins sub-
versivos. Revista Trimestral de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 58, p. 778, dez. 1971.
Elaine Antunes Fernandes - 95

Tribunal Militar. Neste, os recorrentes foram condenados com incur-


são no Art. 33, I, § único, DL nº 314, de 13 de março de 1967 – Lei
de Segurança do Estado, devido à concessão de entrevista de inte-
lectual marxista em revista universitária evidentemente subversiva.
No relatório expunha-se que era a terceira vez que esse caso vinha
até a Alta Corte: a primeira era um Habeas Corpus, que foi negado; a se-
gunda em grau de apelação, com provimento parcial e o recurso presente.
Em seu voto, o Ministro Djaci Falcão contextualiza a situação
em análise de que o recorrente Caio Prado Júnior foi entrevistado
por estudantes, em agosto de 1967, a propósito de ideias e opiniões
que desenvolveu no ensaio intitulado A Revolução Brasileira, para
a revista Revisão, nº 4, e lê trechos da entrevista “subversiva”. Após
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

a leitura dos principais pontos, explana:

Aí está em seu conjunto, a manifestação do pensamento de


Caio Prado Júnior. Deve ser considerada como um todo, de
modo a permitir a melhor aferição do seu objetivo e a sua
análise no mundo jurídico-penal.
A despeito da permissão constitucional de que ‘é livre a mani-
festação do pensamento, de convicção política ou filosófica’, na
mesma regra é vedada a propaganda de guerra e de subversão
da ordem (Art.150, § 8º, da Constituição de 1967). Com o
objetivo de assegurar o normal exercício daqueles direitos, em
resguardo da atividade do Estado em prol da paz pública, é que
são impostos limites à liberdade de emissão do pensamento. Daí
os crimes políticos de manifestação do pensamento definidos em
lei especial, além das infrações previstas na lei penal comum.
Tenho para mim que a conduta de Caio Prado Júnior, embora
reprovável, não se enquadra como incitação delituosa. Vistas
no conjunto e em confronto as diversas respostas do entre-
vistado, chega-se a conclusão de que não está caracterizado
o escopo de incitar ou estimular a prática da subversão da
ordem político-social. Não se vê um fato concreto querido
pelo sujeito ativo, como objeto da incitação.
Observo que as respostas dadas às perguntas sob ns.10 e 3478
impressionaram fortemente os eminentes Ministros do Superior

78
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1116 – SP (Primeira Turma),
Crime político. Incitamento à subversão. Propaganda subversiva. Elemento subjetivo.
96 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Tribunal Militar. Todavia, essa imagem resultou, data vênia, da


falta de um juízo de mérito em torno de um conjunto da mani-
festação do pensamento do entrevistado. Assim, não se pode
deixar de considerar como concluiu a resposta à 34ª pergunta:
‘Mas não adianta programar a luta armada se não existem
os elementos capazes de concretizá-la. A forma de ação é
determinada pelas circunstâncias e condições do momento’.
Tal afirmação que traduz o convencimento da impossibilidade
de condições de luta armada, afasta a figura da incitação, que
pressupõe antes de tudo um objetivo possível. Não há sequer
o incitamento a fato criminoso futuro. Outrossim, o crime
não pode decorrer de uma conjectura. Não há, pois, uma ação
concreta a que a atividade instigadora pudesse conduzir os
leitores da entrevista. Falta a potencialidade causal.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Ademais, deve-se considerar que o recorrente, em seu inter-


rogatório afirmou, de modo peremptório:
‘que a entrevista de que trata a denúncia foi concedida ao longo
de várias horas de conversa com os entrevistadores e foi publicada
sem revisão do interrogando; que, em consequência, vários de
seus tópicos como, especialmente, o que é transcrito na denúncia,
não correspondem ao pensamento do entrevistado e não podem
ser entendíveis fora do contexto em que foram colocados; que o
interrogando deseja esclarecer, quanto à aludida transcrição que,
naquele passo, argumentando por absurdo, o seu objetivo era de-

Revista Trimestral de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 59, p. 254-255, jan. 1972. Disponível


em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/059_1.pdf>. Acesso
em: 18 ago. 2015. Pergunta 10: A Revolução Brasileira terá uma solução pacífica ou
armada? Isto nunca se sabe. Não sou profeta, nem sei qual a maneira prática de realizar
a Revolução. A luta é em torno de reivindicações, e torno de certos objetivos concretos
a que se propõe. Se fôr possível conseguir estes objetivos através de meios pacíficos, a
revolução será sem luta armada. Caso contrário, se a resistência se revelar muito grande,
a luta armada será, evidentemente, a única solução. A existência ou não da luta armada,
depende das circunstâncias do momento, da situação tal como ela se apresenta. Pergunta
34: Qual a solução para este problema (a respeito da forma de os trabalhadores chegarem
ao poder pela via pacífica ou armada)*? Não devemos discutir a forma de luta, e sim
começar a lutar. Depois, são as contingências do momento que vão indicar que espécie
de luta se vai fazer. Se se dissesse, concretamente, que existem, em São Paulo, 30 ou 50
mil trabalhadores dispostos a pegar em armas e tomar o poder, é evidente que a nossa
tarefa é arranjar armas para estes operários e ajudá-los a tomar o poder. Mas não adianta
programar a luta armada, se não existem os elementos capazes de concretizá-la. A forma
de ação é determinada pelas circunstâncias e condições do momento.
* Explicação da autora
Elaine Antunes Fernandes - 97

monstrar a tese segundo a qual a tomada do Poder pela violência


requer a existência de condições determinadas que não existem
no Brasil e sequer podem ser tidas como previsíveis; que, assim,
o sentido daquele texto é exatamente o contrário daquele que deu
a denúncia; que deseja ressaltar que no mesmo exemplar daquela
revista o interrogando é apontado como revisionista, o que na atual
linguagem marxista significa alguém que se opõe à violência para a
conquista dos objetivos políticos; que, efetivamente, o espírito da-
quela entrevista, tomado o termo em tal acepção, era revisionista’.
E na própria entrevista, onde debate vários problemas, deixa
transparecer a sua exata opinião. Assim é que não crê no êxi-
to, nem estimula guerrilhas, nem tampouco louva a atuação
de ‘Ligas Camponesas’. Depois de defender a extensão da
legislação trabalhista aos trabalhadores rurais e a organização
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

de sindicatos, acentua:
‘Aqui, a reivindicação é mais de emprego, uma reivindicação
trabalhista’.
E por desenvolver semelhantes considerações no seu livro A
Revolução Brasileira, é que no mesmo número de Revisão
que publicou a sua entrevista (não revista e à qual fez retifi-
cação ao ser interrogado em juízo), sofreu a seguinte crítica:
‘Abandona definitivamente qualquer visão revolucionária
do marxismo’.
‘Ao propor para a solução dos problemas dos trabalhadores
rurais, a sindicalização, Caio Prado não nos oferece mais que
uma saída burguesa, uma saída reformista’.79

Após essa análise minuciosa, seguida da comparação da denún-


cia com o disposto no art. 38, DL nº 314, seu voto foi de absolvição
quanto a esse recorrente. O mesmo não se deu, contudo, ao recorrente
Antonio Mendes, pois, juntamente com o réu Antonio de Pádua, am-
bos estudantes e responsáveis pela revista Revisão, respectivamente
como redator-chefe e diretor, o relator chegou à seguinte conclusão:

79
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1116 – SP (Primeira
Turma), Crime político. Incitamento à subversão. Propaganda subversiva. Elemento
subjetivo. Revista Trimestral de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 59, p. 256-257,
jan. 1972. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/
anexo/059_1.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
98 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

Os três números de Revisão, que instruem o processo (docs.


f. 94, 95 e 96), deixam à mostra que não se trata de órgão
informativo, de estudos ou debates democráticos. Pelo con-
trário, percebe-se da sua leitura a preocupação de difundir a
ideologia marxista, com os seus processos para alcançar o po-
der. Nos seus editoriais, em alguns artigos e notícias, vê-se a
difusão de idéias tendentes a conduzir à atividade subversiva.
Assim, no editorial ‘Teoria e Prática da UNE’, a que alude a
denúncia, se não está caracterizado o incitamento à subversão
da ordem político-social, como entendeu o acórdão recorrido,
configura-se todavia a propaganda subversiva [...].80

Desse modo, o provimento ao recorrente Antonio Mendes foi


UNINOVE – uso exclusivo para aluno

apenas parcial, desclassificando-o do delito do Art. 33, I, § único,


para o Art. 38, I, ambos do DL nº 314.
Costa ressalta que, em 1969, o Supremo Tribunal Federal já
se encontrava quase totalmente renovado, com ministros indicados
pelo regime81. Apesar disso, ao analisarmos os acórdãos expostos, o
que podemos verificar? Levando-se em consideração que, com ex-
ceção do Mandado de Segurança nº 18.534 – SP, de 1º de outubro
de 1968, todos os outros foram julgados já com a Alta Corte qua-
se totalmente reestruturada, mesmo assim, observa-se que em seus
julgamentos foi buscado resguardar, dentro do possível, e alguns
com mais determinação que outros, o devido processo legal, a cole-
ta confiável de provas, a liberdade de pensamento e de expressão e
a não aceitação de confissões realizadas mediante tortura. Pode-se
constatar uma análise mais racional a fim de se chegar a uma con-
clusão de que determinado texto ou conduta era subversiva ou não,
observando-se o contexto, e não apenas a presença das palavras ou
expressões ditas subversivas ou revolucionárias.

80
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Criminal nº 1116 – SP (Primeira
Turma), Crime político. Incitamento à subversão. Propaganda subversiva. Elemento
subjetivo. Revista Trimestral de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 59, p. 257, jan. 1972.
Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/059_1.
pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
81
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 179.
Elaine Antunes Fernandes - 99

Considerações finais

Os conhecidos anos de chumbo, período vivido no País sob


uma atmosfera pesada e temerosa, não ficou muito clara a uma par-
te dos brasileiros que a viveram. Mascarada pelo crescimento da
economia brasileira e da propaganda política, para muitos, enqua-
draram-se como anos dourados. A repressão, a censura, as torturas
e prisões, as limitações de direitos ficaram velados, mesmo deixan-
do marcas na geração e feridas ainda abertas àqueles que a sentiram
na pele, bem como aos seus familiares.
A imprensa, dentro das possibilidades que alcançava, procurou
reagir, com grupos divididos, como em todos os setores da socie-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

dade, entre aqueles que eram contrários ou a favor do regime, assu-


mindo suas posições nem sempre por vontade própria, mas muitas
vezes por necessidades de sobrevivência e pressões.
Sobre o tema é inquestionável a importância da liberdade de
expressão em uma sociedade democrática, com bem enfatizado pelo
Ministro do STF, Prado Kelly, em discurso proferido no ano de 1945,
data anterior à ditadura militar, a respeito das liberdades públicas e
suspensão das garantias individuais:

Aos homens de inteligência, que dela vivem e a exercitam


nos labôres quotidianos, se faz imprescindível uma ‘garantia-
-condição’ para a tarefa que lhes toca desempenhar na
sociedade: a da integral liberdade da palavra oral e escrita.
Sem o cumprimento dessa condição, estiolam-se as fontes
da cultura; tornam-se inacessíveis os problemas para cuja
solução se considera indispensável [...].82

No entanto, mesmo com a garantia da liberdade de expres-

82
KELLY, Prado. Restituição da Liberdade. In: Estudos de Ciência Política. Tomo
III: Liberdades Públicas e Suspensão das Garantias Individuais. Discurso oficial de
encerramento dos trabalhos do I Congresso Brasileiro de Escritores, proferido a 27
de Janeiro de 1945, no Teatro Municipal de São Paulo e publicado a 4 de março do
mesmo ano no Correio da Manhã. São Paulo: Saraiva, 1966. p. 6.
100 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

são, com limitações, presente na vigência de uma Carta Magna,


não apenas esse direito, como também a Constituição em si, se
mostrou desrespeitada em várias ocasiões, pela efusão de decretos-
-lei que a reconstruíam conforme os interesses políticos do poder.
Portanto, mesmo os direitos assegurados na Constituição, sofriam
cortes da navalha de tinta, oriundos dos que tinham poder para usá-
-la. Ninguém estava a salvo de seus golpes. Neste cenário, vislum-
bramos que o Supremo Tribunal Federal, que tal como o malhete,
fazendo barulho e impondo sua decisão, fazendo-se ouvir, mui-
tas vezes cumpriu seu papel de guardião dos valores constitucio-
nais, ao tomar decisões muitas vezes contrárias às desejadas pelo
Regime Militar, que reiteradamente, em sua determinação em to-
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lher tudo o que lhe constituísse ameaça, por menor que fosse, agia
controlador e vigilante, como em uma caça às bruxas, retalhando
o que lhe obstava os interesses.
Observemos que nos acórdãos expostos, o STF adotou uma po-
sição mais branda quanto aos assuntos ligados à censura por palavras
ligadas à obscenidade, por inexistência de um critério seguro, no qual
o juiz prolator pudesse se apoiar ao decidir. A posição do Ministro
Temistocles Cavalcanti se mostrou muito perspicaz, ao destacar que
mediocridade se difere de obscenidade. Ainda relacionado a esse as-
sunto, constata-se também o apontado de forma bastante sagaz pelo
Ministro Aliomar Baleeiro, no Mandado de Segurança nº 18534-SP,
no que diz respeito à maioria dos acórdãos envolvendo filmes na-
cionais, cujas divergências referiam-se principalmente a quem ca-
bia a cobrança de taxas relacionadas à censura, se à União ou aos
Estados. Aqui, sugerem-se, inclusive, futuras pesquisas concernen-
tes a quanto a taxa de censura rendeu aos cofres públicos e se esses
recolhimentos influíam na rigidez aplicada no controle das palavras
malditas ao regime. Pois, se a suposição se revelar correta, a censu-
ra teria então pelo menos duas funções ao governo: controlar a ma-
nifestação de ideias e fornecer fundos aos cofres públicos estaduais
e federais. Indaga-se, nesse caso, se uma das funções se sobrepôs a
outra, em relevância, em algum momento.
Ademais, analisa-se a distinção atribuída na abordagem dos cri-
Elaine Antunes Fernandes - 101

minosos comuns e dos ditos subversivos, também claramente expos-


ta no comentário do Ministro Thompson Flores, no Recurso Ordinário
Criminal nº 1097-PE, no qual indica a diferença de métodos usados por
aqueles que se enquadram na Lei de Segurança Nacional, enaltecendo o
preparo de suas ações e mesmo o treinamento recebido para executá-las.
Contudo, a classificação do rótulo subversivo não influenciava
de forma restritiva a análise de todos os Ministros, consoante se ob-
serva nas atitudes do Ministro Adaucto Cardoso, no mesmo recurso,
ao afirmar que, se a situação que se moldava era de livre convenci-
mento, a liberdade estava suscetível aos piores acidentes. Esta era
uma posição contrária à assumida pelo Relator Ministro Thompson
Flores, ao enunciar que a prova seria fortalecida com a oitiva da tes-
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temunha, mas que “nem por isso deixou de existir”.


Outro exemplo, a respeito de atuação livre de preconceitos quan-
to ao rótulo da acusação, se aplica à atitude tomada pelo Ministro
Djaci Falcão no julgamento do Recurso Ordinário Criminal nº 1116-
SP, ao considerar todo o conteúdo da entrevista em sua reflexão e não
apenas trechos onde se inferia um determinado tipo de pensamen-
to ou ideologia e complementa em sua argumentação: “[...] o crime
não pode decorrer de uma conjectura [...]”.
Quanto à situação pela qual passava o País, em discurso profe-
rido pelo Ministro Celso de Mello, este, citando um trecho de discur-
so anterior enunciado pelo Professor Josaphat Marinho, ambos em
homenagem ao Ministro Aliomar Baleeiro, sobreleva a consciência
demonstrada por este Ministro, ao destacar sua posição, quando em
julgamentos: “[...] não era possível julgar os fatos, para defini-los
como crimes, sem examinar o clima psicológico dominante na so-
ciedade, sobretudo por efeito das agitações políticas [...]”83.
Prado Kelly, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal apo-
sentado em 1968, a respeito da ditadura do Estado Novo mencio-

83
MELLO, Celso de. Sessão em Homenagem ao Centenário de Nascimento do Ministro
Aliomar Baleeiro (15-9-2004): Discurso proferido em sessão realizada em 22 setembro
de 2005. Brasília: Supremo Tribunal Federal, 2005. 51 pp. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalCentenarioNascime/anexo/
Plaqueta_Centenario_Nascimento_AliomarBaleeiro_NOVACAPA.pdf>
102 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

nou em discurso uma ideia que poderia ser trasladada à forma como
a Corte Maior do País julgara os acórdãos descritos em nosso estu-
do, e como se esperava que o Supremo Tribunal Federal cumprisse
sua importante função de guardião da Constituição:

Teria sido em vão dispendêssemos esforços na elaboração de


um diploma restaurador das liberdades e das garantias dos
indivíduos, se cobríssemos com o nosso silêncio ou a nossa
indiferença os fatos que estão ocorrendo. Estabeleceríamos
uma forma de cumplicidade com aquêles que não cumprem
seu próprio dever.84

Neste sentido, Costa menciona em sua obra um Habeas Corpus,


UNINOVE – uso exclusivo para aluno

em novembro de 1964, no qual atuava como relator o ministro


Gonçalves de Oliveira85. Neste, o relator discursou, e Costa exaltou
sua coragem em fazê-lo, de forma que “suas palavras evidenciaram
o desejo, tantas vezes expresso por outros ministros em circunstân-
cias semelhantes”86, sobre a independência do Poder Judiciário em
tempos tempestuosos:

84
KELLY, Prado. Liberdade de Imprensa – Depredação das Oficinas da “Tribuna
Popular” – Discurso de 22 de outubro de 1947, no plenário da Câmara, In: Estudos
de Ciência Política. Tomo III: Liberdades Públicas e Suspensão das Garantias
Individuais. Discurso oficial de encerramento dos trabalhos do I Congresso
Brasileiro de Escritores, proferido a 27 de Janeiro de 1945, no Teatro Municipal
de São Paulo e publicado a 4 de março do mesmo ano no Correio da Manhã. São
Paulo: Saraiva, 1966. pp. 7-8.
85
Segundo Costa, o HC era em favor do governador Mauro Borges Teixeira, do
estado de Goiás, submetido a inquérito policial-militar. O ministro Gonçalves de
Oliveira concedeu a liminar, “em virtude de notícias sobre movimentação de tropa
federal para Goiás e prisão iminente do governador” (p. 170). Em sua argumentação,
o Ministro alegou que “a Constituição limitava a competência da Justiça Militar,
que só poderia se estender aos civis em casos de crimes contra a segurança externa
do país ou das instituições militares. Por duas vezes, houve tentativa de acrescentar
a expressão interna ao dispositivo legal, mas ambas, felizmente, haviam falhado,
caso contrário, a propósito de simples revolta, poder-se-ia arrastar os civis à barra
das cortes especiais para as forças armadas”.(p.170)
86
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 171.
Elaine Antunes Fernandes - 103

A Constituição é o escudo de todos os cidadãos, na legítima


interpretação desta Suprema Corte. É necessário, na hora
grave da história nacional, que os violentos, os obstinados,
os que têm ódio no coração, abram os ouvidos para um dos
guias da nacionalidade, o maior dos advogados brasileiros,
seu maior tribuno e parlamentar, que foi Rui Barbosa: Quando
as leis cessam de proteger nossos adversários, virtualmente,
cessam de nos proteger.87

Outrossim, de forma alguma esgota-se o tema, neste estudo.


Para melhor análise e compreensão de nossa história e aguçamen-
to crítico de nosso passado, é relevante aceitar que aqui apenas uma
parte ínfima das decisões tomadas pela Corte Magna foi considerada.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Vale destacar que apesar dessas amostras de posições mais críticas


demonstradas pelos Ministros do STF quanto às limitações impos-
tas pelo regime militar, diversas vezes, mais não pôde ser feito, visto
que grandes abusos e violências praticadas contra os cidadãos ocor-
riam antes de chegarem aos tribunais, isso quando chegavam. Era
importante que alguns fossem a julgamento, pois a máscara da ma-
nutenção de uma democracia se mantinha, com a impressão de que
o País defendia as liberdades individuais e que seu governo susten-
tava sua legitimidade, características importantes a se manter, tanto
interna quanto externamente. As ilegalidades, o abuso de poder e a
tortura ocorriam previamente, de forma que, quando alcançavam a
Corte, a situação já se encontrava distorcida, frequentemente com
as provas da oposição convenientemente postas a favor do regime.
Naturalmente, muito ainda resta para a exaustão dessas refle-
xões, e muitos aspectos precisam ser explorados, como por exem-
plo uma comparação entre esses acórdãos e os Habeas Corpus de
jornalistas e outros, cujas opiniões incomodaram o regime. Será
que os mesmos pressupostos e a mesma determinação em proteger
o devido processo legal, a liberdade de pensamento e a dignidade
da pessoa humana (ao menos no tocante à tortura) também preva-

87
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 171.
104 - Palavras Malditas e Navalha de Tinta: O Supremo Tribunal Federal e a...

leceu, como o que verificamos no Recurso Ordinário Criminal nº


1.097, com a insistência do Ministro Adaucto Cardoso, mesmo indo
de encontro ao voto do relator ou ainda como a constatada análise
crítica realizada pelo Ministro Djaci Falcão no Recurso Ordinário
Criminal nº 1.116? Ou houve variações, talvez dependendo da fase
de enrijecimento da Ditadura Militar?
Outro fator importante a se manter em foco é que, em tempos
árduos, a sociedade tende a cobrar mais enrijecimento na postura
de seus governantes. Nesta situação, o limite entre o aceitável e o
abuso da suspensão ou diminuição das garantias individuais é mui-
to tênue. Ao conhecermos melhor e compreendermos o que ocorreu
nessa época conturbada em nosso País, evitaremos o risco de provo-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

car episódios semelhantes em nosso futuro. A esse respeito, devem


ser gravadas em nossas mentes as palavras de George Santayana, en-
saísta espanhol, que apregoa, em uma de suas obras, sobre a impor-
tância da capacidade de retenção da memória, a fim de evoluirmos,
não repetindo os erros do passado88, reflexão que adicionada ao es-
pírito crítico permanente se torna cada vez mais relevante em uma
sociedade que se mostra sempre mais complexa.

88
George Santayana é um pseudônimo do filósofo, poeta e ensaísta espanhol, cujo
nome verdadeiro era Jorge Agustín Nicolás Ruiz de Santayana y Borráz. Na obra
em questão, qual seja A Vida da Razão, volume I, capítulo XII, publicado em 1905,
encontra-se a citação mencionada: “O progresso, longe de consistir em mudança,
depende da capacidade de retenção. Quando a mudança é absoluta, não permanece
coisa alguma a ser melhorada e nenhuma direção é estabelecida para um possível
aperfeiçoamento; e quando a experiência não é retida, como acontece entre os
selvagens, a infância é perpétua. Aqueles que não conseguem lembrar o passado
estão condenados a repeti-lo”. (grifo do autor) Fonte: <http://super.abril.com.br/
blogs/superblog/frase-da-semana-aqueles-que-nao-conseguem-lembrar-o-passado-
-estao-condenados-a-repeti-lo/>.
Elaine Antunes Fernandes - 105

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Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 109

Capítulo 3

Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um


Pouco dos Enigmas dos Ministros do Supremo
Tribunal Federal na Ditadura Militar

Arari Vinicius Guimarães


Elaine Antunes Fernandes
Fernanda Benozzatti
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Márcio de Sessa

Resumo: O presente capítulo busca, lidando metaforicamente


com o mito da disputa entre Édipo e a Esfinge, uma das mais enig-
máticas figuras gregas, esclarecer posturas dos ministros da mais
Alta Corte do País, o Supremo Tribunal Federal (STF). Realiza-
se um breve resumo da biografia desses Ministros, com intuito de
identificar as matrizes de suas fundamentações jurídicas, utiliza-
das a posteriori, no exercício de sua profissão, em uma época em
que o Brasil passava por transformações políticas radicais como a
Ditadura Militar (1964-1984).

Introdução

A imagem das Esfinges está presente em diversas culturas


antigas. Na mitologia grega, a Esfinge de Tebas era um ser cuja
metade inferior era um leão e a metade superior era uma mulher,
que propunha um enigma aos viajantes. Aqueles que a decifravam
podiam ir são e salvos, enquanto que, os que errassem a resposta,
eram mortos. Na mitologia, essa Esfinge, tendo sido vencida por
Édipo e vendo-se humilhada por ter seu enigma decifrado, se ati-
rou do alto do rochedo para a morte. Graças ao seu ato de decifrar,
Édipo tornou-se rei.
110 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

Uma interpretação livre, referente ao mito acima e aplicada


analogicamente ao presente trabalho, seria a seguinte: todos os ca-
sos conflituosos, que conseguem chegar à apreciação do Supremo
Tribunal Federal, correspondem à figura da Esfinge, pois desafiam
seus julgadores, que aqui substituem a figura de Édipo que, nesta pes-
quisa, compara-se aos Ministros do STF. Estes, para “decifrarem” o
litígio que lhes é posto, tomam para si o ato de reflexão e interpreta-
ção, em que cada argumento deve ser analisado sob várias perspec-
tivas para construir uma decisão. E naquele contexto, tudo era feito
sob a vigilância permanente da Ditadura Militar.
Outra possível relação que podemos estabelecer com o mito gre-
go é a ideia de que, enquanto na mitologia grega a Esfinge geralmen-
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te apresenta uma descrição feminina com partes de vários animais,


a egípcia, por outro lado, era masculina, descrita como um simples
amálgama da cabeça de faraó e corpo de leão, aparecendo geralmen-
te inscrita juntamente ao nome de algum faraó. A Esfinge de Tebas
surge diferente das demais, remetendo às transformações passadas
no imaginário grego, que, segundo os estudos de CONNELL1, rela-
cionam-se às mudanças da própria sociedade. Nesse sentido, temos
a ideia de quão fundamental é o (re)conhecimento de nosso passado
institucional, pois fundamenta as trajetórias políticas e forma a base
da cidadania de um povo, posto que a Esfinge e seus enigmas se al-
teram conforme a sociedade também se modifica, ao passo que, no
seu desconhecimento, abre-se o caminho para a manipulação ide-
ológica e política, uma vez que as relações históricas, as causas e
consequências dos fenômenos e fatos sociais ficam dissociados e,
então, o passado pode devorar o presente se não o conhecemos e o
encaramos de forma crítica.
Limitamo-nos, temporalmente, ao período correspondente ao
da Ditadura Militar, que ocorreu no Brasil nos anos de 1964 a 1984,
buscando compreender como pensavam alguns Ministros do Supremo

1
CONNELL, Jane. O silêncio da Esfinge: o erro de Édipo e a redescoberta resposta
ao enigma. Fragmentum, v. 2, n.38, jul./set. 2013. Disponível em: <http://periodicos.
ufsm.br/fragmentum/article/download/13781/8651>. Acesso em: 25 nov. 2015.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 111

Tribunal Federal, principalmente quando os enigmas propostos iam


de encontro aos interesses do Regime, nessa época tão conturbada
de nossa história, em que decisões e ações interpretadas de forma
contrária à desejada pelo governo poderiam ser alvo de represálias.
Apesar de a Alta Corte ter por função característica a guarda da
Constituição, verifica-se que ela nem sempre agiu com a independên-
cia que deveria lhe ser própria, gerando, por vezes, situações con-
traditórias. Pergunta-se então se estes guardiões se desvencilharam
de seu encargo e agiram em prol do governo vigente, cometedor de
tantas atrocidades aos direitos humanos, civis e sociais. A esse res-
peito, no estudo apresentado por Vieira (2002) se destaca a coopera-
ção da Suprema Corte, que por diversas vezes frustrou as pretensões
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

dos litigantes por sua submissão à vontade ditatorial2. Outras vezes,


no entanto, vislumbraram-se atitudes claramente contrárias aos in-
teresses dos militares, em uma posição altamente desafiadora, de tal
porte que o governo se sentiu incomodado a ponto de alterar a com-
posição do STF, de 11 para 16, através do AI-2, ocasião em que o mi-
litares puderam acrescentar cinco novos Ministros que lhes fossem
favoráveis, em uma clara tentativa de garantir seu domínio sobre o
Tribunal3, ou ainda, na reflexão de Marx, se o STF não se mostrava
tão disposto em agir abertamente contra os abusos do regime, tam-
bém não se pode afirmar que lhes serviu como instrumento de le-
gitimação político-ideológica, pois, se assim o fosse, não teria sido
necessária a edição do Ato Institucional nº 54.
Devido à importância das decisões do Supremo Tribunal
Federal, seu papel político e de sua função de defesa dos princípios

2
VIEIRA, Oscar Vilhena. Supremo Tribunal Federal: jurisprudência política. São
Paulo: Malheiros, 2002.
3
CASTRO, Flávia Lages de. História do direito geral e Brasil. 10. ed. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2013. p. 536.
4
MARX, Ivan Cláudio. Uma leitura jurídico-filosófica do papel do Supremo
Tribunal Federal brasileiro no período ditatorial de 1964-1968. Texto escrito em
2008. p. 57 – 72. Disponível em: <http://www.academia.edu/10377876/Direitos_
Humanos_Paulo_Duarte_Rinocerontes>. Acesso em: 25 nov. 2015. Edição Especial
Dr. Romulo Gonçalves: A verdade e o acesso à informação como direitos humanos.
112 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

fundamentais constitucionais5, alguns de seus Ministros e suas po-


sições político-jurídicas nos acórdãos, bem como seu perfil, foram
escolhidos como nosso objeto de estudo. Utilizaremos o material
disponível no endereço eletrônico do Supremo Tribunal Federal,
principalmente no que se refere a seus acórdãos, discursos e estu-
dos correlatos, nos quais se possam constatar opiniões e reflexões
dos Ministros, quanto a assuntos mais “delicados” no período, des-
tacando-se aqueles relacionados à própria Ditadura Militar, à liber-
dade de pensamento e independência do Judiciário.
No tocante à delimitação temporal dentro do período histórico
escolhido, em razão da quantidade considerável de materiais a serem
triados e analisados, foram selecionadas, embora não estritamente,
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

mas majoritariamente, aquelas decisões concernentes aos anos de


1968/1969 e 1978/1979, por serem momentos chave do processo his-
tórico do regime militar. Nos anos de 1968/69 residem os momentos
de endurecimento da repressão e da correspondente expressão jurí-
dica através do Ato Institucional nº 5, enquanto em 1978/79 temos
o início do processo de transição democrática com a luta pela anis-
tia ampla, geral e irrestrita, capitaneada, sobretudo, pelas mulheres
dos militantes de esquerda exilados e desaparecidos, com a conse-
quente aprovação da Lei de Anistia em 1979. Estes marcos pode-
rão estabelecer e mostrar eventuais mudanças de comportamento e
de manifestação de opinião nas decisões de Ministros do Supremo
Tribunal Federal.
Como estrutura, dividiremos esta pesquisa em 3 partes, de modo
que, após esta introdução, seguiremos com uma breve apresenta-
ção de Édipo e suas principais informações, prosseguindo com as
opiniões e ideias selecionadas, a partir dos enigmas propostos pela
Esfinge, quando partiremos para as reflexões finais.

5
ANDREUCCI, Álvaro G. A. Uma cadeira de espinhos: o Supremo Tribunal
Federal e a política (1933-1942). Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) – Universidade de São Paulo. São
Paulo: 2007. p. 19.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 113

Informações preliminares sobre os ministros


(informações sobre Édipo)

Os Ministros do STF constituem um grupo social e, como tal,


apresentam uma identidade característica, com valores, ideologia e
linguagem própria de seu meio. Nas palavras de Oliveira (2012), “o
STF é a cúpula de um dos poderes do Estado e ao mesmo tempo o
posto mais alto que se pode atingir na carreira judiciária, sendo uma
corporação profissional”6.
Dentre a miríade de Ministros que atuaram na Suprema Corte
no período estudado, destacamos aqueles cujas visões analisaremos
no próximo tópico. Em nossas pesquisas foi constatado que poucos
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Ministros expunham suas opiniões nas decisões, sobre os temas fo-


cados neste capítulo, de forma que 9 Ministros se tornaram nosso
objeto de estudo, conforme tabelas seguintes:

Tabela 17
Decisões/
Nomeação Saída do obras a
Ministro Indicação
ao STF STF serem
analisadas
1 Adalício 16/11/1965 24/02/1972 Castelo RCL 849-DF
Nogueira Branco

2 Aliomar 16/11/1965 02/05/1975 Castelo RC 1.082;


Baleeiro Branco HC 44.901-
RS; RE
70.009-RS

6
OLIVEIRA, Fabiana Luci de. STF: do autoritarismo à democracia. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2012. pp. 77-78. Cumpre esclarecer que a autora se utiliza da expressão
grupo social no sentido atribuído por Bottomore (in Bottomore e Outhwaite,
1996:344-345), no qual é descrito grupo social como ‘agregado de seres humanos
no qual (1) existem relações específicas entre os indivíduos que o compreendem e
(2) cada indivíduo tem consciência do próprio grupo e de seus símbolos. Em suma,
o grupo tem pelo menos uma estrutura e organização rudimentares (incluindo regras
e rituais) e uma base psicológica na consciência de seus membros’ p. 77.
7
As tabelas 1 e 2 foram elaboradas pelos autores, com base nos dados disponíveis
no site do STF: <http://www.stf.jus.br>.
114 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

3 Cordeiro 16/09/1974 18/03/1986 Ernesto RE 79.317-


Guerra Geisel SP
4 Djaci Falcão 01/02/1967 26/01/1989 Castelo Obras e
Branco discursos
5 Prado Kelly 16/11/1965 18/01/1968 Castelo Obras e
Branco discursos
6 Raphael de 23/06/1967 03/05/1974 Costa e Silva RE 70.009-
Barros (falecimento) RS
7 Thompson 16/02/1968 27/01/1981 Costa e Silva HC 51.778-
Flores SP; RCL
849-DF
8 Victor Nunes 26/11/1960 16/01/1969 Juscelino HC 44.901-
Kubitscheck RS
9 Xavier de 17/04/1972 21/02/1983 Garrastazu RE 70.009-
Albuquerque Medici RS; RE
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79.317-SP

Há que se observar na Tabela 1 supra que os Ministros com data


de nomeação em 16/11/1965 tiveram suas vagas decorrentes do Ato
Institucional nº 2 (AI-2), que aumentou o número de Ministros para
16, casos de Adalício Nogueira, Aliomar Baleeiro e Prado Kelly.
Quanto a isso, interessante apontar a afirmação de Valerio quanto
à decretação do AI-2, que aumentou o número de Ministros no STF.
Segundo o pesquisador, a ideia do então Presidente Castelo Branco era
inserir na Corte Ministros que compreendessem os ideais da Revolução,
servindo-se, para tanto, de bacharéis-políticos da União Democrática
Nacional (UDN): Aliomar Baleeiro, Prado Kelly, Oswaldo Trigueiro.
Quanto a Carlos Medeiros, apesar de não ser udenista, era um juris-
ta que compreendia as ações revolucionárias propostas, visto que foi
um dos redatores do AI-1. Adalício Cardoso, por sua vez, indica o au-
tor, aparentemente foi nomeado graças a sua relação pessoal com o
Ministro da Justiça Juracy Magalhães. Ressalte-se que a filha do mi-
nistro em questão era casada com o filho de Juracy8.
Ainda dispondo sobre as nomeações, expôs na obra que Castelo
nomeou outros Ministros para o STF; no entanto, observa-se que o

8
VALERIO, Otavio L.S. A toga e a farda: o Supremo Tribunal Federal e o
Regime Militar (1964-1969). Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo – Universidade de São Paulo, 2010. p. 210.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 115

perfil escolhido foi alterado, quando da escolha de Eloy da Rocha e


Djaci Falcão, os quais não contavam com participação política pró-
-revolução. O pesquisador elucida que, desmantelando a sequência
de nomeações referentes a juízes de carreira, o presidente promoveu
a nomeação de Adaucto Lucio Cardoso, tido como “histórico” ude-
nista. Já na presidência de Costa e Silva, nota-se que as indicações
para o Supremo ocorreram voltadas às pessoas da carreira judiciá-
ria, em detrimento das pessoas envolvidas em experiências políti-
co-partidárias. Sobre essa alteração de conduta, Valerio comenta:

As fontes pesquisadas não revelaram porque Costa e Silva


optou por não indicar políticos profissionais para o STF. É
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

possível levantar, porém, três hipóteses: (i) lobby dos meios


jurídicos/judiciários, já que o Supremo certamente era à época
a posição mais cobiçada para um profissional de direito, (ii)
o fato de Costa e Silva não ser tão próximo dos udenistas
quanto fora Castello Branco, e talvez (iii) a percepção, por
Costa e Silva, da inutilidade da medida de Castello Branco
de nomear os cinco Ministros quando do Ato Institucional
nº 2. Costa e Silva nomeou quatro Ministros para o STF:
Barros Monteiro, Themístocles Cavalcanti, Amaral Santos
e Thompson Flores.9

Consequentemente, com essas alterações, em menos de cinco


anos, a composição do Supremo foi quase completamente renovada10.

9
VALERIO, Otavio L.S. A toga e a farda: o Supremo Tribunal Federal e o
Regime Militar (1964-1969). Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo – Universidade de São Paulo, 2010. p. 210. p. 156.
10
VALERIO, Otavio L.S. op. cit., p. 211.
116 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

Tabela 211
Universidade
Profissões / funções já
Ministro Origem e ano de
exercidas
formação
Promotor público; Juiz;
Desembargador; Professor
Faculdade
universitário; Prefeito Municipal
de Direito da
Adalício da cidade de Salvador de
Universidade
Nogueira Inhambupe-BA novembro/1945 a fevereiro de
da Bahia
1946 e, por força de sua condição
1924
de Chefe do Poder Judiciário
local, Governador do Estado, de
julho a setembro de 1963.
Jornalista; Advogado; Professor
universitário; Deputado da
Constituinte Baiana (1935) e
da Assembleia Legislativa da
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Bahia (1935-1937); Integrante


Faculdade da Câmara Federal (1946-1958,
de Direito da 1960, 1963-1965); Deputado da
Aliomar
Salvador-BA Universidade Constituinte e da Assembleia da
Baleeiro
da Bahia Guanabara (1960-1962), na qual
1925 era Relator-Geral da Constituinte
(1961); Secretário da Fazenda
do Estado da Bahia (1959-
1960); Delegado do Brasil na
Conferência Geral da UNESCO
(Florença, 1950).
Chefe do departamento jurídico da
“Sul América Capitalização S/A” e
Consultor jurídico das organizações
lideradas por “HC Cordeiro
Guerra – Engenharia, arquitetura
Faculdade e construções”; Promotor Público;
Cordeiro Rio de Janeiro-RJ Nacional de Curador da Justiça; Curador de
Guerra (na época era DF) Direito resíduos e de massas falidas;
1937 Procurador da Justiça; Procurador-
geral da Justiça; Presidente do
Conselho do Ministério Público;
Assistente jurídico do Chefe de
Polícia do DF; Assistente de todos
os Procuradores-Gerais da Justiça
Faculdade Juiz; Desembargador; Membro
de Direito do do Tribunal Regional Eleitoral
Djaci Falcão Monteiro-PB
Recife – PE de Pernambuco, de onde foi
1943 Presidente em 1966

As tabelas 1 e 2 foram elaboradas pelos autores, com base nos dados disponíveis
11

no site do STF: <http://www.stf.jus.br>.


Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 117

Poeta; Advogado; Redator-


chefe do Departamento Oficial
de Publicidade e Secretário da
Imprensa Nacional; Deputado
da Assembleia Nacional
Constituinte (1933); Vice-
presidente da grande comissão
da Constituição, na constituinte
de 1946; Deputado Federal
(1935-1937, 1946-1950,
1955-1948); Presidente da
União Democrática Nacional
(1948-1949); Delegado
do Brasil, representando a
Faculdade
Câmara dos deputados: a) na
de Direito da
Conferência Interamericana
Prado Kelly Niterói-RJ Universidade
para a manutenção da paz e
do Brasil
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

da segurança do continente
1926
(Rio de Janeiro –1947); b)
na reunião do Conselho
da União Interparlamentar
(Genebra-março-1958); c) na
47ª conferência da União (Rio
de Janeiro – 1958); na posição
de Ministro Plenipotenciário,
fez parte da missão especial do
Brasil à posse do Presidente
Videla, do Chile (1946);
Integrante do Conselho Federal
da OAB, do qual foi Presidente
da Seção do Estado da
Guanabara (1959)
118 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

Funcionário do departamento
dos Correios e Telégrafos
do Estado; Advogado; Juiz;
Desembargador; Professor
universitário; Corregedor-Geral
da Justiça Eleitoral; Presidente da
Justiça Eleitoral; Vice-presidente
do Tribunal de Justiça de São
Paulo; Presidente da Associação
Paulista de Magistrados;
Integrante da delegação de juízes
brasileiros participantes do
Faculdade de congresso promovido pela União
Raphael de Direito de São Internacional de Magistrados
Areias-SP
Barros Paulo (Haia-1963); fez parte do grupo
1930 de juízes que visitaram as
instituições judiciárias no Reino
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Unido a convite da majestade


britânica; integrou a delegação
brasileira que participou das
reuniões da Comissão Central
da União Internacional de
Magistrados e da Comissão
de Direito Constitucional
(Salzburg-1966); presidiu a
delegação de juízes paulistas em
visita às instituições judiciárias da
Europa e em Nova York (1967)
Aspirante a oficial (1931); Juiz;
Desembargador; Corregedor-
Geral da Justiça; Presidente da
Associação dos Juízes do Rio
Grande do Sul (1955-1956);
representante do Tribunal de
Faculdade de Justiça no Congresso de juristas
Direito de Porto (Fortaleza-1958); Professor
Thompson
Montenegro-RS Alegre no curso de formação de
Flores
(ano não magistrados pela Associação
disponível) dos Juízes do Rio Grande do Sul
(1964-1965); representante eleito
pelo Tribunal de Justiça para
participação na III Conferência
de Desembargadores (Rio de
Janeiro-1964); Presidente do
Tribunal (1966-1968)
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 119

Redator de jornais e revistas;


Advogado; Diretor do
Serviço de Documentação;
Professor universitário;
integrante do Conselho
Diretor do Instituto Brasileiro
de Ciências Administrativas
e do Conselho do IBBEC;
foi o primeiro Presidente do
Instituto de Ciências Sociais
da Universidade do Brasil
(1959); membro e fundador
da Academia Nacional de
Cultura e da Associação
Faculdade Brasileira de Escritores
Victor Nunes Nacional de (Brasília); Procurador-geral da
Carangola-MG
Leal Direito Justiça no antigo DF; Chefe
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

1936 da Casa Civil da Presidência


da República; Consultor-geral
da República; Procurador do
Tribunal de Contas do atual
DF; representante do Brasil na
IV Reunião do Conselho de
Jurisconsultos da Organização
dos Estados Americanos
(Santiago-1959); no Congresso
de Direito Administrativo
(Itália-1960); nas missões de
observadores estrangeiros
nas eleições da República
Domincana (1962) e da
Nicarágua (1963).
Professor universitário;
membro do Conselho Técnico
Administrativo da Faculdade
de Direito do Amazonas;
membro titular e ex-presidente
do Instituto dos Advogados do
Amazonas; membro fundador
do Instituto dos Advogados
Faculdade
Xavier de do DF; membro do Instituto
Manaus-AM de Direito do
Albuquerque Brasileiro de Direito Processual
Amazonas 1949
Civil e membro fundador do
Instituto Clovis Bevilacqua,
em Fortaleza; Advogado;
Conselheiro da OAB – seção
do Amazonas; Conselheiro da
OAB – seção do DF; Ministro
do Tribunal Superior Eleitoral;
Procurador-Geral da República
Fonte: Autores
120 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

As profissões/funções mencionadas na Tabela 2 se referem


àquelas exercidas até o momento da nomeação para o STF. Além
disso, verificamos que, na abordagem do trabalho, foi possível di-
vidi-los em grupos separados por faixa temporal e, assim, obtemos
3 agrupamentos:

Grupo 1 – Ministros atuantes no período


de estudo 1968-69
Adalício Nogueira
Aliomar Baleeiro
Prado Kelly
Raphael de Barros
Victor Nunes
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Grupo 2 – Ministros atuantes no período


de estudo 1978-79
Cordeiro Guerra
Xavier de Albuquerque

Grupo 3 – Ministros atuantes em ambos


os períodos estudados
Djaci Falcão
Thompson Flores

Édipo Vislumbrando Enigmas Sob a Égide da Ditadura

Ivan Cláudio Marx, em sua pesquisa sobre os Ministros do STF,


mencionou a respeito de discrepâncias de pensamentos manifestados
por seus membros e ressaltou que essas incongruências eram espe-
radas12. Procuramos assumir esta mesma posição quanto à presen-

12
MARX, Ivan Cláudio. Uma leitura jurídico-filosófica do papel do Supremo
Tribunal Federal brasileiro no período ditatorial de 1964-1968. Texto escrito em
2008. p. 57 – 72. Disponível em: <http://www.academia.edu/10377876/Direitos_
Humanos_Paulo_Duarte_Rinocerontes>. Acesso em: 25 nov. 2015. Edição Especial
Dr. Romulo Gonçalves: A verdade e o acesso à informação como direitos humanos.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 121

te reflexão, afinal, interpretações dos fatos são fatores subjetivos e


confiamos que o STF não é uma corporação homogênea a ponto de
inexistirem divergências entre os Ministros. Ainda segundo Marx:

Inevitável considerar que a posição do STF não era a de


um tribunal comum, pois, naquele estado das coisas, não
dispunha da imparcialidade necessária para, em função de
uma determinada norma de direito-verdade, decidir com
força executória sobre a pretensão de qualquer das partes.
E não dispunha da imparcialidade, justamente pelo fato de
que o resultado de suas decisões poderia implicar represálias,
quando desatendidos o interesse de uma das partes – a que
representasse o Estado repressor.13
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Selecionar opiniões alheias não é uma tarefa das mais fáceis,


principalmente por causa do fator subjetividade, não apenas dos
Ministros entre si, como, porque não, dos próprios pesquisadores.
Impossível desconsiderar a distinção de valores que tal ousadia abran-
ge no critério de seleção. No que tange ao aspecto valorativo, reco-
nhecemos que é relativo, nesse sentido, na mesma posição de Max
Weber, que “via na história uma incessante criação de valores, cada
qual relativo ao fugaz momento em permanente luta com valores di-
ferentes que se ofereçam ao arbítrio do homem”14. Logo, cientes de
que a forma de interpretação do material apresentado não é a única
válida, e que o fator época também exerce influência junto a outros
fatores, tais como: religião, educação, política crenças pessoais etc.,
naturalmente discrepâncias interpretativas podem ocorrer decorren-
tes, inclusive, do desconhecimento de motivos internos e pessoais

13
MARX, Ivan Cláudio. Uma leitura jurídico-filosófica do papel do Supremo
Tribunal Federal brasileiro no período ditatorial de 1964-1968. Texto escrito em
2008. p. 57 – 72. Disponível em: <http://www.academia.edu/10377876/Direitos_
Humanos_Paulo_Duarte_Rinocerontes>. Acesso em: 25 nov. 2015. Edição Especial
Dr. Romulo Gonçalves: A verdade e o acesso à informação como direitos humanos.
14
GOERGEN, Pedro. Educação e valores no mundo contemporâneo. Educ. Soc.,
Campinas , v. 26, n. 92, pp. 983-1011, out. 2005 . Disponível em <http://www.
scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302005000300013&lng=pt
&nrm=iso>. Acesso em: 30 nov. 2015.
122 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

que possam ter levado esses Ministros a tomar essa ou aquela deci-
são, ou ainda, a fazer esse ou aquele comentário que porventura ve-
nha a se revelar no futuro.
Para facilitarmos a compreensão e procurarmos uma maior ob-
jetividade nas interpretações, tanto quanto possível, dividimos nossa
pesquisa em 3 categorias de opiniões: a) visões sobre a Ditadura; b)
posição sobre ideologias distintas da vigente no período/ liberdade
de pensamento; e c) independência do Judiciário/separação de po-
deres. Alerte-se que nem todos os extratos aqui apresentados corres-
ponderão exatamente a cada uma dessas separações, isoladamente,
sendo perfeitamente possível que alguns se encaixem em mais de
uma, ou mesmo não propriamente em alguma, embora esteja corre-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

lacionada indiretamente, o que foi considerado.

Visões Sobre a Ditadura

Muitas vezes, com olhos atuais, pergunta-se como foi permitido


que os militares tomassem o governo na época da Ditadura Militar,
que atuou de forma tão temerária, deixando cicatrizes em nossa his-
tória. Em discurso, o Ministro Prado Kelly revela a esperança depo-
sitada nas Forças Armadas às vésperas do golpe de 1964:

A primeira vez que acudi ao chamado da Escola Superior


de Guerra foi em 4 de junho de 1963. Eram dias aziagos, de
geral perplexidade e pungente desesperança. [...]
As Forças Armadas eram o último reduto da confiança na-
cional.
Ao penetrar este recinto, não fui insensível à cordial atmosfera
em que confraternizavam militares e civis no porfiado estudo
dos problemas brasileiros. Nem eles podiam ser indiferentes
a uma realidade agressiva que punha em risco iminente a
paz social.15

15
KELLY. Prado. O fascínio da democracia. Rio de Janeiro: Ed. Agir, 1977. pp.
49-50.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 123

Na mesma ocasião, exalta: “nasceram ‘cívicas’ as nossas for-


ças armadas, como sentinelas da ordem e da lei. Tão importante fun-
ção não lhes atribuiu enfaticamente a constituição de nenhum outro
país do mundo”16.
Em outro discurso, enaltecendo os valores da democracia, cul-
mina afirmando que a custódia de tão importantes elementos cabe à
Constituição e que tudo o mais é dinâmica política. Sobre a prática
política, elenca três pressupostos indispensáveis, quais sejam: a frui-
ção plena das liberdades civis, convivência de partidos e a fidelidade
à Constituição. Ao terminar, confessa aos jovens: “Confio – não em
reverência ao passado, mas em benefício do futuro – que conservem
e aprimorem o ideário democrático, alvo do que há superior, senão
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

providencial, nas vacilações e fraquezas humanas. Assim seja”17.


Os extratos em destaque se referem ao ano de 1977. Natural-
mente, tão valoroso em sua defesa dos ideais democráticos, impos-
sível não ter percebido o nobre ministro que “as sentinelas da ordem
e da lei”, sob o pretexto de conservar a ordem e a paz social, vio-
laram diversos direitos civis, apenas mascarando uma suposta de-
mocracia existente, visando simpatia internacional. Essas violações
são registradas, em relevo, principalmente após o emblemático Ato
Institucional nº 5.
Neste mesmo sentido, em discurso de agradecimentos às home-
nagens do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), quanto à no-
meação para o STF, o ministro Djaci Falcão deixa-nos entrever um
pouco de sua opinião sobre o regime anterior ao da Ditadura Militar:

Na conjuntura atual, após uma parada na demagogia e nos


antagonismos estéreis que tanto degradaram a nação, impõe-
-se a soma de esforços dos integrantes do Poder Judiciário,
último reduto do direito, dos participantes do Poder Legis-
lativo que guarda a altaneira função de criar a lei, expressão
formal do direito, e dos dirigentes do Poder Executivo, na sua
não menos edificante tarefa, de modo a proporcionar a natural

16
KELLY. Prado. O fascínio da democracia. Rio de Janeiro: Ed. Agir, 1977. p. 51.
17
Ibid., p. 31.
124 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

evolução do regime democrático dentro de uma diretriz que


se estruture em autênticos fundamentos jurídicos e éticos, da
essência de uma sociedade cristã, único caminho capaz de
propiciar o bem estar dos homens.18

Infelizmente a “natural evolução da democracia” não prospe-


rou como se esperava, conforme o passado mostrou. Por ocasião da
abertura do ano sesquicentenário da Fundação dos Cursos Jurídicos,
em 1976, expõe:

O fato econômico, o fato social, enfim o fato político,


qualquer deles guarda, normalmente, uma vinculação com
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

o ordenamento jurídico. Por isso mesmo, no âmbito dos


conflitos de valores e de interesses, torna-se também neces-
sária a palavra do jurista. Naturalmente daquele que, sem se
tomar um autômato ou sem guardar preconceito negativista,
com uma visão dos alicerces da construção jurídica e social
através dos tempos, com a imagem do todo, procura atuar
coma dedicação do mediador, em busca do melhor, na ordem
da convivência humana.19

Pergunta-se, naturalmente, porque essa mediação foi tantas ve-


zes ceifada, frente a atitudes que claramente eram conhecidas, mesmo
que não às claras, como a tortura de prisioneiros no Departamento
de Ordem Política e Social (DOPS).
Uma hipótese a respeito dessa falta de mediação se dá, quando
em discurso, o Ministro Xavier de Albuquerque enfatiza: “[...] o es-

18
Pernambuco. Tribunal de Justiça. Centro de Estudos Judiciários. Memória ju-
diciária de Pernambuco: Ministro Djaci Alves Falcão. Recife: O Tribunal, 2009.
pp. 131-132.
19
FALCÃO, Djaci. Pronunciamentos. João Pessoa: Universitária/UFPB. 1998. pp.
101-103. Discurso proferido pelo Ministro Djaci Falcão, Presidente do Supremo
Tribunal Federal, ao presidir a sessão solene de abertura do ano sesquicentenário
da Fundação dos Cursos Jurídicos no Brasil, em 11 de agosto de 1976, no Mosteiro
de São Bento, Olinda. In: Pernambuco. Tribunal de Justiça. Centro de Estudos
Judiciários. Memória Judiciária de Pernambuco: Ministro Djaci Alves Falcão.
Recife: O Tribunal, 2009. p. 142.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 125

tado de carência do Judiciário permanece sem solução. Dir-se-á que


todos somos pobres, a começar pelo País; mas, na realidade, a po-
breza do Judiciário é superlativa, franciscana e crônica [...]”.

Haverá exceções aqui ou ali, geralmente circunstanciais


e episódicas. Um que outro dirigente de órgão judiciário
pode marcar tento, vez por outra, e obter a adjudicação de
recursos significativos para este ou aquele fim, se tiver espe-
cial talento e particular desinibição para o jogo de pressões
postulatórias que se desenvolve junto às províncias gover-
namentais incumbidas da elaboração orçamentária. Essas
exceções ensombrecem ainda mais o panorama, ao invés de
iluminá-lo. Não é admissível que o Poder Judiciário, ao qual
a Constituição atribui destaque especial quando lhe confere
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

a função incomparável de julgar os atos dos demais Poderes


independentes, deva ser submetido, para organizar sua
economia interna e prover medidas inerentes a seu auto-
governo, ao constrangimento de postulações desgastantes
e embaraçosas. (grifo nosso)20.

Haveria, por vezes, de se ignorar violações para assegurar suas


condições de existência, visto que mesmo as garantias asseguradas
aos magistrados não estiveram a salvo do Governo?
Não se mostram suspeitas solitárias, conforme se verifica no
alegado em recurso ordinário interposto por advogado do paciente
do HC 51.778:

Ao ser denegada a medida ora pleiteada, em grau de recurso


ordinário, na forma do art.119, inc.II, letra c, da E.C. nº1,
não restará aos advogados – poucos, pouquíssimos – que
se abalançam a patrocinar, perante os pretórios, a causa dos
opoentes do governo (sem perquirir-lhes a razão ou sem-
-razão dos sentimentos e propósitos), outra conclusão além

20
ALBUQUERQUE, Xavier de. À guisa de apresentação, embora supérflua.
Trecho de Conferência apresentada em 17/6/1981, na Escola Superior de Guerra,
Revista Ajuris, n. 24, p. 18. In: Pernambuco. Tribunal de Justiça. Centro de Estudos
Judiciários. Memória Judiciária de Pernambuco: Ministro Djaci Alves Falcão.
Recife: O Tribunal, 2009. pp. 48-49
126 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

de que, a par da malquerença e incompreensão dos soidisant


agentes de segurança, estão por igual expostos ao sol e ao
sereno, impossibilitados de obter a proteção do Judiciário,
quando direitos e prerrogativas profissionais são mandados
às urtigas por fanáticos perdigueiros que em tudo e por tudo
farejam conspirações contra a ordem estabelecida.
A vigência, entre nós, de uma legislação excepcional, sus-
pensa, qual espada de Dâmocles, sobre todas as cabeças
pensantes e independentes; o amordaçamento de parte dos
veículos de divulgação e o acovardamento ou a conivência
da imprensa não arrolhada diretamente – tudo de molde a
escamotear à opinião pública nacional os negregados assassí-
nios, as torpes torturas e inúmeras outras hediondas violências
de que padecem os antagonistas do intitulado Sistema; a
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

iterativa atoarda oficial de que são agitadores, subversivos,


comunistas, terroristas ou apátridas todos os que se recusam
a balir no coro laudatório e do ‘sim senhor’ aos poderosos
do momento; a suspeição que alcança, automaticamente,
como por contágio, aqueles que, sem atravessar as lindes
da legalidade, ousam erguer a voz em prol das vítimas da
opressão, do arbítrio e da truculência; os constantes recuos
e arrefecimentos de certas seções da Ordem dos Advogados
do Brasil; a suspensão das garantias constitucionais de ina-
movibilidade e vitaliciedade dos magistrados – todos esses
fatores, conjugados com inúmeros outros que longo, senão
ocioso, fora assinalar, concorrem para encorajar caprichosas
perseguições ou mesquinhas escaramuças, bem assim a per-
petração reiterada de iniquidades, ilegalidades e abusos de
poder, a exemplo do caso, singular nos anais de nossas Cortes
judiciárias, que agora se submete a acurada e desapaixonada
consideração de Vossas Excelências.21

Em resposta, segue voto do Ministro Xavier de Albuquerque


(relator):

21
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso de Habbeas Corpus nº 51.778 – SP
(Tribunal Pleno), Defesa. Exercício da profissão. Advogado. Acesso a réu preso.
Ingresso em presídio (restrições ilegais). Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 69, p. 394, ago. 1974. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/
cms/publicacaoRTJ/anexo/069_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 127

O Poder Judiciário, de que o Supremo Tribunal é a mais alta,


mas não a única expressão, é absolutamente incoercível e in-
dependente, desempenhando a sua missão constitucional com
irrepreensíveis dignidade e altivez. Assim ele é e assim tem
de ser, ainda quando algum de seus órgãos incida, porventura,
na suposição desavisada de não poder sê-lo. E se a suposição
se converte, aqui ou ali, esporadicamente, em tibieza que lhe
conspurca a essência jurisdisciente, serve a exceção patológica,
contingente e tópica, para demonstrar a regra da normalidade
sanitária do corpo em que se integra o órgão doente.
Pouco importa a vigência da legislação excepcional que
contingências políticas impuseram ao País. Melhor fora,
certamente, que já não precisasse subsistir, e nisso estão
de acordo governantes e governados.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Pouco importa, portanto e também, a suspensão das garantias


constitucionais de inamovibilidade e vitaliciedade dos magis-
trados, tema predileto das variações quotidianas de quantos se
sentem, acredito que com permanente boa intenção, no dever
de criticar a excepcionalidade residual do regime. Tais mani-
festações, se se recomendam ao aplauso enquanto sustentam
postulados de ciência política e objetivam à restauração de um
estágio abstrato de aprimoramento do Estado moderno, des-
graçadamente incidem, com frequência, no exagero dialético,
sumamente injurioso, de suporem que os juízes desta República
são incapazes de, sem a presença de tais garantias, exercerem
com independência e dignidade a sua missão constitucional.
Como as concebo, as garantias da magistratura são uma con-
quista do Estado, não dos juízes. Em outras palavras e no que
me diz respeito: como cidadão e, se o fosse, como pensador
político, estimaria que se restabelecessem quanto antes, em toda
a sua plenitude, porque isso restituiria ao Estado brasileiro o
timbre do aperfeiçoamento que lhe dever ser, enquanto Estado,
consubstancial. Como juiz, porém, pouco se me dá tê-las ou não
tê-las, porque tê-las ou não tê-las não interfere em nada com a
independência, com a imparcialidade, com a dignidade que im-
primo ao desempenho da minha função judicante.22 (grifo nosso).

22
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso de Habbeas Corpus nº 51.778 – SP
(Tribunal Pleno), Defesa. Exercício da profissão. Advogado. Acesso a réu preso.
Ingresso em presídio (restrições ilegais). Revista Trimestral de Jurisprudência,
128 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

Do mesmo modo, dá ciência da suspeita, o Ministro Thompson


Flores:

Quero deixar expressa a minha inteira conformidade com S.


Ex.ª, seja quando, prefacialmente, respondeu argüição ma-
lévola, quiçá injuriosa aos magistrados, cuja independência
pôs em dúvida, face à suspensão do direito à vitaliciedade.
Penso que não poderia silenciar, já que iguais observações, cons-
tantemente, se vêem na imprensa, oriundas de fontes diversas.23

E o Ministro Aliomar Baleeiro, a respeito do AI-5:


UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Sr. Presidente, quanto à parte introdutória do voto do emi-


nente Relator, tenho a dizer que o mesmo sentimento de que
os juízes brasileiros não se intimidam com as leis pendentes
sobre as suas cabeças pelo Ato nº 5, foi inequivocamente
afirmado por mim em discurso que proferi no Congresso de
Juízes de Tribunais de Alçada, no Rio de Janeiro, em 1972.
Ali, afirmei que a existência dessa cláusula não havia inti-
midado os magistrados de todo o País.24

De conformidade com o pontuado acima, conta-se sobre o dito


discurso proferido no Congresso de Juízes de Tribunais de Alçada,
em ocasião de sua homenagem, na voz do Ministro Celso de Mello:

Brasília,DF, v. 69, p. 396, ago. 1974. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/


cms/publicacaoRTJ/anexo/069_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
23
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso de Habbeas Corpus nº 51.778 – SP
(Tribunal Pleno), Defesa. Exercício da profissão. Advogado. Acesso a réu preso.
Ingresso em presídio (restrições ilegais). Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 69, p. 399, ago. 1974. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/
cms/publicacaoRTJ/anexo/069_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
24
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso de Habbeas Corpus nº 51.778 – SP
(Tribunal Pleno), Defesa. Exercício da profissão. Advogado. Acesso a réu preso.
Ingresso em presídio (restrições ilegais). Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 69, p. 399-400, ago. 1974. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/
arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/069_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 129

Nenhuma conveniência lhe calava a voz. Quando presidente


do Supremo Tribunal, no auge do autoritarismo militar, Bale-
eiro, na solenidade de um Encontro dos Tribunais de Alçada,
não se escusou de proclamar ser o Brasil o único país oci-
dental onde a Justiça tinha a sua independência negada pelo
AI-5, que chamou a espada de Dâmocles sobre a cabeça dos
juízes brasileiros. Na ocasião foi um deus-nos-acuda, tanto
o País se desabituara a ouvir essas verdades. Para ele não era
uma bravata, mas apenas um dever. Um dever que cumpriria
integralmente. Mas, tudo tinha um preço, por vezes alto. Não
demorou Baleeiro receber do jornalista Rui Mesquita, diretor
de ‘O Estado de S. Paulo’, esta comunicação:
‘Comunico-vos que, por decisão da censura federal e até segun-
da ordem, ‘O Estado de S. Paulo’ e o ‘Jornal da Tarde’ foram
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

proibidos de publicar toda e qualquer notícia que mencione o


nome de V. Exa., bem como comentários, artigos, editoriais
ou notícia de qualquer espécie a respeito de manifestações de
qualquer natureza que V. Exa. tenha feito ou venha a fazer’.25

O Ministro Aliomar Baleeiro fez, abertamente, várias críticas


ao Regime. Destaca-se como uma de suas ações pró-constituinte, o
episódio ocorrido em 1977, quando, já com 72 anos e apresentando
problemas cardíacos, aceitou participar de um debate em Londrina,
no Diretório Central dos Estudantes da Universidade Estadual de
Londrina, do qual também participariam o jurista Dalmo Dallari e o
jornalista Sérgio Buarque de Gusmão. Contudo, os arredores do local,
onde seria realizado o debate, estavam cercados por tropas da PM e
do Exército. Não houve como chegar ao lugar, pois foram intercepta-
dos pela polícia que lhes deu a ordem de retornar. Na declaração para
a imprensa, Aliomar Baleeiro, ao ser questionado por um repórter se
era perigoso para o País, respondeu que sim, pois carregava uma pe-
rigosa arma: a Constituição Federal. O ocorrido teve cobertura pelo

25
MELLO, Celso de. Sessão em Homenagem ao Centenário de Nascimento do Ministro
Aliomar Baleeiro (15-9-2004): discurso proferido em sessão realizada em 22 setembro
de 2005. Brasília: Supremo Tribunal Federal, 2005. p. 16. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoPublicacaoInstitucionalCentenarioNascime/anexo/
Plaqueta_Centenario_Nascimento_AliomarBaleeiro_NOVACAPA.pdf>. Acesso em:
30 nov. 2015.
130 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

jornal Folha de Londrina, que lamentou pela sofrível proibição de um


ex-ministro do STF falar a estudantes a respeito de direitos humanos
e a Constituinte. Mal imaginava o ex-ministro, que morreu em 1978,
que após 10 anos é que a Constituinte finalmente se reuniria26.
Ainda sobre o AI-5, publicado em 13 de dezembro de 1969, res-
salte-se que, este Ato Institucional não foi ideia unicamente dos mili-
tares no poder. Em julho de 1968, o ministro da Justiça Luiz Antonio
da Gama e Silva, o ministro da Fazenda Antonio Delfim Neto e o mi-
nistro da agricultura Ivo Arzua Pereira também apoiaram essa ação.
Destaca-se o comentário feito pelo Ministro da Justiça, na ocasião
em que se discutiam sobre a necessidade da promulgação do AI-5, no
qual criticava o Poder Judiciário, argumentando que lá se encontravam
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

os inimigos da Revolução, bem como defendia a censura à Imprensa.


De acordo com o jornalista Carlos Chagas, em sua obra A Guerra
das Estrelas (1964/1984) – os bastidores das sucessões presidenciais,
Gama e Silva queria também o afastamento de todos os governado-
res e o recesso do STF, ou seja, apesar de toda a rigidez imposta pela
edição do AI-5, ele poderia ter sido ainda mais restritivo do que fora27.

Posições sobre ideologias distintas e


liberdade de pensamento28

No julgamento do HC nº 44.901-RS, na data de 06 de dezembro


de 1967, em que atuou como relator o Ministro Victor Nunes, observa-

26
ARRUDA, Roldão. Em Londrina, ditadura militar mobilizou tropa para silenciar
ex-presidente do STF. Estadão, Blog Roldão Arruda, São Paulo, 29 out. 2013.
Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/blogs/roldao-arruda/
exercito-mobilizou-tropa-para-impedir-palestra-de-ex-ministro-do-stf-em-londrina/>.
Acesso em: 30 nov. 2015.
27
SION, Vitor. Especial À Espera da verdade – 45 anos do AI-5, 50 anos do golpe.
Última Instância, São Paulo,13 dez. 2013. Disponível em: <http://ultimainstancia.uol.
com.br/conteudo/noticias/68040/Ai_5+ja+era+debatido+cinco+meses+antes+opond
o+costa+e+silva+e+o+futuro+presidente+medici.shtml>. Acesso em: 30 nov. 2015.
28
Para maiores informações especificamente do tema liberdade de expressão e
pensamento, ver capítulo disponível nesta publicação: Palavras Malditas e Navalha
de Tinta – O Supremo Tribunal Federal e a Liberdade de Expressão – breve análise
de acórdãos sobre a censura em publicações.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 131

-se a posição assumida perante ideologias contrárias à vigente. Referia-


se então, o recurso, sobre o paciente, que na época do julgamento era
médico. A atitude reprovada correspondia à época da faculdade, ao tem-
po de estudante, na Universidade de Santa Maria – RS, a respeito de
comportamento subversivo, conquanto anterior à promulgação do AI-2.
No voto do relator, declaravam-se as acusações contra o paciente,
quais sejam: “elemento da alta periculosidade”, “esquerdista”, “inocente
útil”, “simpatizante”, “criptocomunista”, “comunista”, “comunista atuan-
te”, “comunista convicto”. Continua, resumindo que o inquérito policial:

[...] menciona fatos que, isoladamente, não são criminosos.


Por exemplo: ter dirigido organização estudantil; ser cabeça
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

de método de alfabetização Paulo Freire;29 distribuir revis-


tas subversivas nos Centros Acadêmicos (sem especificar a
matéria subversiva de tais revistas) etc.30

Seguindo o relatório, elucida que o paciente fora ouvido diversas


vezes, e teve afirmações esclarecedoras, como sua opinião política,
sua declaração sobre ser socialista do modo do Partido Trabalhista
Inglês e outros. Sobre esses interrogatórios, interessante constatar a
observação feita pelo relator:

29
Paulo Freire defendia mais que a simples alfabetização do homem, mas sua posição
com dignidade enquanto ser humano. Segundo o autor, o homem que detém a crença
em si mesmo é capaz de dominar os instrumentos de ação à sua disposição, incluindo a
leitura. Seu método e filosofia foram considerados subversivos e propagadores de desor-
dem e comunismo, na época do golpe militar de 1964. Consequentemente, a cartilha do
Movimento de Educação de Base (MEB) foi rasgada diante das câmeras de televisão, no
Programa Flavio Cavalcante, depois de ter sido proibida, no extinto Estado da Guanabara,
pelo então Governador Carlos Lacerda. Vistas como ameaça ao governo, as campanhas
de alfabetização, com vistas a desenvolver o senso crítico chegava ao seu fim, em 1964.
30
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habbeas Corpus nº 44.901 – RS (Tribunal
Pleno), Inquérito policial. Desarquivamento. Prova nova. Habeas corpus. Julgamento
pelo Plenário. Habeas corpus. Reiteração do pedido. Inquérito policial. Arquivamento
(falta de despacho formal). Inquérito policial. Competência. Arquivamento de inqué-
rito policial. Desarquivamento (prova nova). Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 48, p. 172, abr. 1969. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/
cms/publicacaoRTJ/anexo/048_1.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
132 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

Devo acrescentar que esses interrogatórios foram extrema-


mente minuciosos, parecendo muito mais uma inquisição
ideológica do que um inquérito criminal, porque se indagou da
opinião do depoente a respeito de muita coisa sem implicação
criminal, inclusive sobre uma peça teatral.31

Considerando a impertinência do alegado contra o paciente, re-


vela o Ministro Aliomar Baleeiro:

Quando cheguei ao Tribunal, tinha a impressão de que se usa-


va e abusava do Habeas Corpus, e isso não estava de acôrdo
com o figurino clássico do instituto. Entretanto, penitencio-me
dêsse pensamento e hoje sou partidário da corrente liberal.
Os fatos que observei, através de processos de Habeas Corpus
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

em minhas mãos, me levaram à conclusão de que o Supremo


Tribunal Federal estava certo na sua orientação [...].32

Em outro momento, o mesmo ministro, a se manifestar sobre


o encerramento do assunto, menciona:
[...] o Coronel encarregado dêsse IPM33 declarou que se
tratava de um jovem muito inteligente, que se caracterizava
como socialista do tipo britânico, e que foi expresso em dizer
que não praticou nenhum ato subversivo e vivia indignado
com a desorganização dos serviços universitários.
Sou Professor e acho que o serviço universitário não é ne-
nhum primor.
É verdade que certas testemunhas, o outros co-réus, teriam dito
que ele é comunista, o que, em princípio, não é crime. Ser comu-
nista não é crime enquanto não passa à ação, à prática daqueles
atos que a L.1.802 e agora o DL. 314, preveem.34 (grifo nosso)

31
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habbeas Corpus nº 44.901 – RS (Tribunal
Pleno), Inquérito policial. Desarquivamento. Prova nova. Habeas corpus. Julgamento
pelo Plenário. Habeas corpus. Reiteração do pedido. Inquérito policial. Arquivamento
(falta de despacho formal). Inquérito policial. Competência. Arquivamento de inqué-
rito policial. Desarquivamento (prova nova). Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília,DF, v. 48, p. 173, abr. 1969. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/
cms/publicacaoRTJ/anexo/048_1.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
32
Ibid., p. 180.
33
IPM – Inquérito Policial Militar.
34
Ibid., p. 181-182.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 133

Marx (2008), ao comentar sobre esse HC, destaca que com a


edição do AI-2, tinha-se a pretensão de processar, na Justiça Militar,
processos iguais já arquivados na Justiça Comum. Observa-se ainda
que, do comentário do relator a respeito dos interrogatórios, o estu-
dioso afirma que o que se buscava era justamente processar aqueles
que se opunham por crimes de opinião. Ao que, se constata, O STF
se posicionava de forma discordante dessa intenção35.
O Recurso de Habeas Corpus nº 46.049-GB foi julgado em
10 de dezembro de 1968. O relator foi o Ministro Victor Nunes e o
julgamento tratava de um pedido de HC que já esteve no STF pelo
HC nº 44.553 em 16/10/1967, quando foi concedido que o Superior
Tribunal Militar (STM) apreciasse o caso. A situação em discus-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

são refere-se ao fato de que, no dia imediato ao da promulgação


do AI-2, o recorrente proferiu um discurso em praça pública, em
Montes Claros. Nesse discurso se utilizava de palavras excessivas
e ofensivas às Forças Armadas. Subsequentemente, foi processado
por crime contra a segurança nacional. Na ocasião do julgamen-
to anterior, o Ministro Waldemar de Figueiredo Costa, cujo voto
fora vencido, argumentara que as acusações eram imprecisas le-
galmente, quanto ao aspecto subversivo, pois a ofensa à autorida-
de por termos como “vendilhões da pátria” só havia passado a ser
crime contra a segurança nacional por lei posterior (DL 314) e não
no regime em que ocorreu o fato (L 1.802).
De volta ao presente julgamento, as palavras do Ministro Victor
Nunes:

Levo em conta, sobretudo, que fazer um discurso contra o


segundo Ato Institucional, no dia imediato ao da sua promul-
gação, quando nem estava oficialmente publicado, não podia
ser considerado crime contra a segurança. O segundo Ato Ins-

35
MARX, Ivan Cláudio. Uma leitura jurídico-filosófica do papel do Supremo
Tribunal Federal brasileiro no período ditatorial de 1964-1968. Texto escrito em
2008. p. 57 – 72. Disponível em: <http://www.academia.edu/10377876/Direitos_
Humanos_Paulo_Duarte_Rinocerontes>. Acesso em: 25 nov. 2015. Edição Especial
Dr. Romulo Gonçalves: A verdade e o acesso à informação como direitos humanos.
134 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

titucional foi, praticamente, um novo golpe-de-Estado em face


da própria ordem revolucionária instituída em 1964, porque êle,
já excedidos os prazos do primeiro Ato Institucional, restaurou
as faculdades discricionárias do Gôverno. Era, portanto, admis-
sível e tolerável que êsse fato provocasse controvérsias. Quem
conhece a região sabe que dificilmente poderia ter resultado
um movimento subversivo que trouxesse risco efetivo para o
Gôverno Federal. O que houve, portanto, foi excesso verbal,
crime de outra natureza, não contra a segurança do Estado.36

Posicionou-se, porém, de outra maneira o Ministro Barros


Monteiro, ao dispor sobre a arguição do relator, que lhe dava, ini-
cialmente, a impressão de justificar o procedimento do paciente, mas
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em suas ponderações alega:

[...] bem se demonstra, ao meu ver, que excedeu o paciente o


direito de mera crítica que a liberdade assegura, para entrar
no terreno – são palavras/ do julgado, da condução de opinião
contra a ordem e a autoridade então vigentes. E, isso, através da
propaganda subversiva e de ódio de classe, provocando, ademais,
animosidade contra as classes armadas, tudo a configurar, à pri-
meira vista, os delitos dos arts.11, “a” e “b”, e 14 da Lei n. 1.802,
de 1953. A leitura do escorreito acórdão recorrido, bem como
dos demais elementos que os autos ministram, convenceu-me
de que, realmente, não podia a alegação de falta de justa causa,
na espécie, ser apreciada pela via sumária de Habeas Corpus.37

Como se vê, por um lado figura o Ministro Victor Nunes de-


fendendo a tolerância da opinião contrária e, por outro, o Ministro
Barros Monteiro defendendo que houve excesso, cuja consequência
foi a animosidade inflamada contra as Forças Armadas.

36
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso de Habbeas Corpus nº 46.049 –
Guanabara (Primeira Turma). p. 622-633, ago. 1969. Disponível em: <http://redir.
stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=92027>. Acesso em:
18 ago. 2015.
37
Ibid., p. 636-637.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 135

Sobre esse julgamento, Untura38, em seu estudo, explica que essa


divergência entre os Ministros reflete o clima tenso quanto a ideolo-
gias, na época. Alega também que, geralmente, se oscilava entre as
duas opções defendidas pelos Ministros: o relator que apresenta seus
argumentos baseados em valores como a tolerância e a liberdade de
expressão, ao mesmo tempo que deixa entrever um certo desconfor-
to quanto à situação jurídico-social gerada pela imposição pelo Poder
Executivo de um já segundo Ato Institucional. Percebe--se, contudo,
que a interpretação do Ministro Barros Monteiro considera que a liber-
dade de expressão assegura apenas “o direito de mera crítica” e que as
consequências de um discurso desse tipo possuem poder de persuasão
suficiente para incentivar a opinião pública contra a ordem e a auto-
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ridade, representando assim uma ameaça à segurança nacional, mes-


mo que aparentemente, a motivação interna da ação não fosse essa.
Explica também o pesquisador que essa visão da realidade social
através da segurança nacional trazia a tendência em se gerar análises
mais conservadoras, tais como a do ministro Raphael de Barros39.
Em um julgamento considerado traumático para época, em que o
Movimento Democrático Brasileiro – MDB – em 1970, solicita ao en-
tão Procurador-Geral da República, Xavier de Albuquerque, que ofereça
representação contra o Decreto-Lei nº 1.077, de 26.01.1970 que instituía
a censura prévia, que havia sido indeferido, e arquivado, pelo Ministério
Público. Estando no Supremo Tribunal Federal, o relator Adalício
Nogueira exprime seu voto a favor da decisão do Ministério Público:

Rendo-me, contudo, à argumentação da maioria, para conhe-


cer da reclamação, não somente em razão da relevância da

38
UNTURA Neto, Marcos. Ideologia da Segurança Nacional no Brasil durante
a Ditadura militar: uma análise a partir da jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal dos anos de 1968 e 1969. Disponível em: <http://www.sbdp.org.br/
ver_monografia.php?idMono=17>. Acesso em 29 jul. 2014.
39
UNTURA Neto, Marcos. Ideologia da Segurança Nacional no Brasil durante
a Ditadura militar: uma análise a partir da jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal dos anos de 1968 e 1969. Disponível em: <http://www.sbdp.org.br/
ver_monografia.php?idMono=17>. Acesso em 29 jul. 2014.
136 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

matéria, como porque está em discussão a competência do


Supremo Tribunal Federal.40

Acompanhando o voto do relator, o ministro Thompson Flores:

Considero que os dois temas versados na reclamação são


distintos. Cuida um da cadência do processo, da qual se ser-
viu o recorrente – reclamação. O outro importa no próprio
merecimento: se pode a Procuradoria Geral da República
arquivar representações, para o fim da declaração, em tese,
da inconstitucionalidade da lei federal, e, se assim fazendo
invadia o chefe do Ministério Público Federal área de com-
petência privativa desta Côrte. Aquela questão primeira é
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preliminar, mereceria apreciação vestibular. Todavia, temo


que está ela envolvida pelo próprio merecimento, tornando,
por isso, inviável a cisão. Assim, por esta razão é que rejeito
a preliminar, tal como foi posta. É o meu voto, nesta parte.41

Independência do judiciário, divisão de poderes e


atuação do Supremo Tribunal Federal

Em 30 de janeiro de 1989, quando de sua aposentadoria como


ministro do STF, em seu discurso de despedida, o ministro Djaci
Falcão dispõe sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal:

O Supremo Tribunal Federal, nos limites conferidos pela


Constituição sem delírios de grandeza, com imperturbável
serenidade e altivez, na trajetória de secular história tem a

40
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação nº 849 – DF (Tribunal Pleno –
Matéria Constitucional). Revista Trimestral de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 59, p.
341, fev. 1972. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/
anexo/059_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
41
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação nº 849 – DF (Tribunal Pleno –
Matéria Constitucional). Revista Trimestral de Jurisprudência, Brasília,DF, v. 59, p.
343, fev. 1972. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/
anexo/059_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 137

atuação jurisdicional voltada para o cumprimento do direito


positivo e efetivação dos valores da Justiça.42

No acórdão do julgamento do Recurso Extraordinário nº 70.009


– RS se discute a constitucionalidade de o Juiz contribuir compul-
43

soriamente para o Instituto de Previdência do Estado. Salienta-se a


opinião do Ministro Raphael de Barros Monteiro (relator) no voto
proferido em 2 de setembro de 1970, a respeito das violações de ga-
rantias concedidas aos magistrados. Verifica-se tal opinião em seu
voto, após haver citado o Ministro Moacyr Amaral Santos, sobre a
importância de se manter a independência do Judiciário, visto que
as características peculiares a ele concedidas remetem a sua própria
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força, já que garantem sua não sujeição a outros órgãos do Estado,


devendo, assim, submeter-se o juiz apenas à lei. Prosseguindo:

Perdoem-me os meus ilustres colegas a recapitulação de tão


comenzinhos princípios de direito, mas que se torna necessá-
ria para mostrar como, através de breve esquema da história
de nosso Direito Constitucional, na era republicana, no capí-
tulo referentes às garantias da magistratura, vem o legislador
constituinte sempre e cada vez mais, procurando abrir brechas
nas garantias políticas outorgadas à magistratura [...].44

Culminou seu voto pela inconstitucionalidade das impugnadas

42
FALCÃO, Djaci Alves. [Palavras de despedida do Ministro por ocasião de sua apo-
sentadoria do Supremo Tribunal Federal]. In: SESSÃO ORDINÁRIA DO PLENÁRIO
DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, 1., 1988, Brasília. Ata da [...] realizada em 10
de fevereiro de 1989. Diário da Justiça, 10 fev. 1989. Seção 1, pp. 377-378. Carta de
despedida do Ministro Djaci Falcão que foi lida na Sessão pelo Ministro Célio Borja.
Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/biblioteca/PastasMinistros/DjaciFalcao/
Discursos/Proferidos/1989_fev_10.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2015.
43
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 70009 – RS
(Tribunal Pleno). Magistrado. Vencimentos. Irredutibilidade. Contribuição previ-
denciária. Constitucionalidade. Lei estadual nº 5.274/66-RS. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 83, p. 1-328, jan. 1978. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/083_1.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
44
Ibid., p. 76-77.
138 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

contribuições. Interessante a divergência com relação ao apresenta-


do supra, com o voto do Ministro Xavier de Albuquerque, que alega
que essas questões das contribuições de caráter previdenciário têm
sido tratadas com exagero, e continua:

Dizia eu e repito que não vejo no que medidas dessa ordem,


de caráter geral e não discriminatório, instituídas para todo o
funcionalismo e estendidas aos juízes, que também não po-
dem ser privados da assistência por elas objetivada, ainda que
pensem devê-la dispensar, possam perturbar ou comprometer
as garantias de independência da magistratura.
Considero, com todo respeito, excessiva a jurisprudência que
o Supremo Tribunal Federal assentou anteriormente, e pela
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qual reputou inconstitucionais imposições dessa ordem. Não


só acompanho V.Exa. como estendo ainda mais o meu pro-
nunciamento. Conheço do recurso, mas lhe nego provimento,
por inteiro, porque nem mesmo a taxa de assistência médica,
que V.Exa. Repele, eu a excluo. Desde que se trata de contri-
buição geral, que visa à obtenção de uma contraprestação e
tem por isso, caráter nitidamente remuneratório, com a qual
o Estado supre a eventual imprevidência do funcionário e
do magistrado, não aceito, sinceramente, que ela ofenda o
princípio da irredutibilidade de vencimentos.45

No mesmo recurso, o Ministro Aliomar Baleeiro reflete, a res-


peito das contribuições, a respeito de um caso análogo em que foi
relator e no qual manteve a contribuição:

Devo dizer que não estou muito tranquilo com a minha


consciência. Acho que é quem põe filhos no mundo deva
tomar a responsabilidade de mantê-los. Não é possível que
a comunidade vá aguentar os filhos dele. Considero o luxo
mais caro que um cidadão pode ter. Ele deve pagar por esse

45
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 70009 – RS
(Tribunal Pleno). Magistrado. Vencimentos. Irredutibilidade. Contribuição previ-
denciária. Constitucionalidade. Lei estadual nº 5.274/66-RS. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 83, p. 82, jan. 1978. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/083_1.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 139

luxo, também, para ter os prazeres do convívio familiar, o


consolo, a esperança na velhice.46

Como resultado desse julgamento, foi negado provimento por


não haver alcançado o quórum para declaração de inconstitucionali-
dade da respectiva norma estadual. Contudo, verifica-se pelos votos
apresentados que, apesar de estarem debatendo assunto de seu pró-
prio interesse, nem todos permanecem parciais a sua causa, visan-
do o benefício de sua categoria profissional, pura e simplesmente.
Observa-se que, a despeito do voto do Ministro Raphael de Barros,
no qual se posiciona contra o desconto, opõem-se os Ministros Xavier
de Albuquerque e Aliomar Baleeiro.
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No Recurso Extraordinário nº 79.317-SP47, cujo relator foi o


Ministro Xavier de Albuquerque, no voto proferido pelo Ministro
Cordeiro Guerra, a respeito da estabilidade profissional da mulher
após o parto menciona:

Acho que o lado social, o lado sentimental e, talvez mesmo,


até o lado econômico, possam justificar tal providência. O
que me impressiona não é o fato de ter sido dado, tal pri-
vilégio, o que me preocupa, é o fato de me parecer que o
Tribunal se antecipou ao legislador, porque a estabilidade
não é matéria a ser reconhecida em tese ou normatividade
pelo Poder Judiciário.
[...] não podia, pois, o Tribunal dar a estabilidade, porque
compete à União legislar sobre Direito do Trabalho. A
estabilidade não pode ser concedida por sentença. Por ser
reconhecida, quando a lei prevê, em cada caso.
Aí veio a primeira questão constitucional, quer dizer, não foi
respeitado o princípio da autonomia e independência entre os
Poderes. A decisão impugnada legislou sobre estabilidade,

46
Ibid., p. 83.
47
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 79317 – SP (Tribunal
Pleno). Magistrado. Competência. Justiça do Trabalho. Estabilidade provisória da
gestante (fixação). Decisão normativa. Competência. Justiça do Trabalho. Salário nor-
mativo (estabelecimento). Dissídio coletivo. Sentença normativa. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 83, p. 403-414, fev. 1978. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/083_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
140 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

embora em caso excepcional, antecipando-se – creio – ao le-


gislador. Fez o que não podia fazer, porque invadiu atribuição
do Poder Legislativo.48

Com a continuação dos debates com o relator, revelando este


que a estabilidade referida se tratava de um direito regresso, rebateu:

O direito de regresso é uma coisa, a estabilidade outra. Está


na Constituição que ninguém é obrigado a fazer ou deixar
de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. E aqui está
obrigando o empregador a reconhecer uma estabilidade que
a lei não criou.49
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Nesse debate, o assunto em discussão, mesmo sendo reconhe-


cida a relevância social da estabilidade profissional da mulher após
o parto, se dá sobre a divisão de Poderes. Procurava-lhes o fato de
que estavam “invadindo” a esfera legislativa e, com isso, obrigan-
do o empregador a cumprir algo que a lei não determinou. Aparenta
exagero, à primeira vista, que concerne. No entanto, refletindo um
pouco mais a respeito, verifica-se que há pertinência nessa cautela.
Montesquieu, ao sistematizar a teoria tripartite da separação dos po-
deres, tomou o cuidado de impedir que àquele a que compete legis-
lar, não competirá administrar, nem tampouco julgar obedecendo às
leis vigentes. Essa atenção visava evitar o abuso da falta de limites
a cada poder, afastando o risco da tirania, arbitrariedade, opressão.
Surgiu assim o sistema conhecido como de freios e contrapesos, ado-
tado por nossa Constituição, já há muito tempo. Apesar de os Três
Poderes concorrerem de forma harmônica entre si, há limites para
cada intervenção, limites estes que o STF tinha a cautela de não ul-

48
Ibid., p. 412.
49
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 79317 – SP (Tribunal
Pleno). Magistrado. Competência. Justiça do Trabalho. Estabilidade provisória da
gestante (fixação). Decisão normativa. Competência. Justiça do Trabalho. Salário nor-
mativo (estabelecimento). Dissídio coletivo. Sentença normativa. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 83, p. 403-414, fev. 1978. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/083_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 141

trapassar, pois como guardião da Constituição, e estando nela dis-


postas as funções de cada Poder, natural que observá-los também
é função da Corte Magna. Como resultado, deu-se provimento par-
cial do recurso.

Considerações finais

Quando em fase de triagem dos acórdãos e outros materiais para


tornar este estudo possível, vislumbramos a primeira dificuldade que
se nos impunha à frente: a grande quantidade de decisões a serem
triadas e, por outro, a escassa quantidade de material cujas opiniões
estavam expostas de forma clara, ao menos nos anos pesquisados.
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Essa preferência pela busca de opiniões explicitamente declaradas


se deu a fim de diminuirmos o risco de influências de interpretações
subjetivas dos próprios pesquisadores na análise.
No entanto, percebemos que, na grande maioria dos acórdãos,
os Ministros julgadores normalmente assumiam posturas discretas
e estritamente ligadas ao assunto em julgamento. Apenas em alguns
poucos acórdãos há realmente debates sobre os temas propostos.
Essa dificuldade nos conduziu a uma menor abrangência no número
de Ministros estudados – nosso Édipo – limitando-nos àqueles cujas
ideias se tornaram mais acessíveis que os demais.
Um segundo aspecto complicador se revelou quando consta-
tamos a quantidade de Ministros que, de fato, atuaram nos limites
temporais propostos inicialmente, quais sejam: 1968-1969 e 1978-
1979. Conforme se verifica em nossa tabela indicativa relativa ao
Grupo 3, encontram-se apenas 2 Ministros, nessa situação, que pu-
deram ser analisados. A composição do Supremo Tribunal Federal,
entre 1964 e 1969, mostrou-se muito rotativa, já que contou, nesse
período, com 23 Ministros50.
Com relação às posições assumidas por Édipo ao decifrar os

50
VALERIO, Otavio L.S. A toga e a farda: o Supremo Tribunal Federal e o
Regime Militar (1964-1969). Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo – Universidade de São Paulo, 2010. p. 211.
142 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

enigmas da Esfinge, chamou a atenção a visão idealizada, podemos


dizer “romântica”, no começo da Ditadura Militar, dos Ministros no
papel de Édipo (Grupo 1). Na luta contra o comunismo, realmente
se acreditava que as medidas tomadas eram as corretas para proteger
o País. Essa visão fica clara ao verificarmos o enunciado por Prado
Kelly, às vésperas do golpe: “As Forças Armadas eram o último re-
duto da confiança nacional”51.
Sobre essa visão idealizada, “romântica”, Valerio (2010) men-
ciona que, na realidade, a tomada de poder pelos militares foi aplau-
dida por alguns de seus Ministros, como por exemplo, Ribeiro da
Costa, Villas Boas e Pedro Chaves, apesar de terem sido indicados
respectivamente por José Linhares, Juscelino Kubitschek e Jânio
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Quadros, bem como pelo meio jurídico, de modo geral, em razão,


principalmente, da influência dos bacharéis da UDN52.
Talvez, por essa fé na condução governamental das Forças
Armadas, questões sobre a constitucionalidade dos Atos Institucionais
não tenham sido levantadas. Destaca-se que uma das poucas vezes
em que Édipo decidiu contra o Regime, foi quanto às legislações re-
volucionárias, em um julgamento de constitucionalidade de um de-
creto-lei53 (RE 62.739).
Outro ponto relevante é o que mostra a situação do Judiciário
à época, conforme o alegado pelo ministro Xavier de Albuquerque:

Não é admissível que o Poder Judiciário, ao qual a Consti-


tuição atribui destaque especial quando lhe confere função
incomparável de julgar os atos dos demais Poderes indepen-
dentes, deva ser submetido, para organizar sua economia in-

51
KELLY. Prado. O fascínio da democracia. Rio de Janeiro: Ed. Agir, 1977, pp.
49-50
52
VALERIO, Otavio L.S. A toga e a farda: o Supremo Tribunal Federal e o
Regime Militar (1964-1969). Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo – Universidade de São Paulo, 2010. pp. 196-204.
53
VALERIO, op. cit., p. 205.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 143

terna e prover medidas inerentes a seu autogoverno, ao cons-


trangimento de postulações desgastantes e embaraçosas.54

E sobre a suspensão de suas garantias sobre a suposição de que


“[...] os juízes desta República são incapazes de, sem a presença de
tais garantias, exercerem com independência e dignidade a sua mis-
são constitucional”55.
Já Aliomar Baleeiro, em alto e bom som, em um Encontro dos
Tribunais de Alçada, proclamou que o Brasil era é único país ociden-
tal onde a Justiça tinha sua independência negada pelo AI-5, criti-
cando abertamente a Ditadura Militar. Em outra ocasião, acrescenta
o comentário “que os juízes brasileiros não se intimidam com as leis
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

pendentes sobre suas cabeças pelo Ato nº5”56.


A respeito dessas tentativas de conter o Judiciário, que já não era
republicano, o Ministro Barros Monteiro declara: “[...] no capítulo
referente às garantias da magistratura, vem o legislador constituinte
sempre e cada vez mais, procurando abrir brechas nas garantias po-
líticas outorgadas à magistratura”57. Como se vê, todas são demons-
trações de desaprovação assumidas perante o governo.
Em manifestações abertas sobre o AI-5, inclui-se a mencionada
em discurso de homenagem ao centenário de nascimento do minis-

54
ALBUQUERQUE, Xavier de. À guisa de apresentação, embora supérflua.
Trecho de Conferência apresentada em 17/6/1981, na Escola Superior de Guerra,
Revista Ajuris, n. 24, p. 18. In: Pernambuco. Tribunal de Justiça. Centro de Estudos
Judiciários. Memória Judiciária de Pernambuco: Ministro Djaci Alves Falcão.
Recife: O Tribunal, 2009. pp. 48-49.
55
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso de Habbeas Corpus nº 51.778 – SP
(Tribunal Pleno). Defesa. Exercício da profissão. Advogado. Acesso a réu preso.
Ingresso em presídio (restrições ilegais). Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília, DF, v. 69, p. 396, ago. 1974. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/
arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/069_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
56
Ibid., p. 399-400.
57
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário nº 70009 – RS
(Tribunal Pleno). Magistrado. Vencimentos. Irredutibilidade. Contribuição previ-
denciária. Constitucionalidade. Lei estadual nº 5.274/66-RS. Revista Trimestral de
Jurisprudência, Brasília,DF, v. 83, p. 76-77, jan. 1978. Disponível em: <http://www.
stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/083_1.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
144 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

tro Prado Kelly (integrante do Grupo 1), em relato do Dr. Aristoteles


Atheniense – Vice-Presidente do Conselho Federal da OAB. Nesta,
ele relembra que, em uma homenagem, em 1982, Prado Kelly dis-
cursou, referindo-se ao Ato Institucional nº 5, editado após sua apo-
sentadoria. Nas palavras de Dr. Aristoteles, quando Prado Kelly foi
indagado por um estudante quanto à sua concordância com aquela
medida opressiva, ele respondeu: “A Providência me poupou a pro-
va do AI-5”58.
O Ministro Xavier de Albuquerque (integrante do Grupo 2),
sobre esse ato, destaca também, em outra ocasião: “Pouco impor-
ta a vigência da legislação excepcional que contingências políticas
impuseram ao País. Melhor fora, certamente, que já não precisasse
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subsistir, e nisso estão de acordo governantes e governados”59. Nessa


reação, constata-se que essas legislações eram de desagrado geral.
Poder-se-ia pensar que a atitude tomada pela Ditadura Militar
no AI-2, tivesse mostrado eficiência em promover julgamentos mais
benéficos ao Regime, visto que os Ministros nomeados eram mais
simpáticos aos ideais revolucionários60. Entretanto, essa eficácia, se-
gundo Valerio (2010), não se confirmou. O pesquisador argumenta
que, ao se verificar o número de Habeas Corpus concedidos entre a
edição dos Atos Institucionais 1 e 2, com Ministros indicados por
presidentes civis, e os concedidos entre os Atos Institucionais 2 e 5,

58
MELLO, Marco Aurélio Mendes de Farias. [Discurso]. In: SESSÃO em home-
nagem ao centenário de nascimento do Ministro Prado Kelly. Brasília: Supremo
Tribunal Federal, 2005. pp. 13-20.
59
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso de Habbeas Corpus nº 51.778 – SP
(Tribunal Pleno). Defesa. Exercício da profissão. Advogado. Acesso a réu preso.
Ingresso em presídio (restrições ilegais). Revista Trimestral de Jurisprudência,
Brasília, DF, v. 69, p. 396, ago. 1974. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/
arquivo/cms/publicacaoRTJ/anexo/069_2.pdf>. Acesso em: 18 ago. 2015.
60
VALERIO em sua obra argumenta que o caso em que houve maior divergência
entre votos de Ministros indicados por civis e militares foi no julgamento do HC
ajuizado em favor de Jânio Quadros (HC 46.118), sendo nítida a divisão entre os
Ministros. Ressalva que apesar da grande repercussão deste processo, a pesquisa
não confirmou que essa divisão, apesar de existente, se desse por relação de origem
militar ou civil de cada ministro. p. 199
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 145

já com Ministros indicados pela Ditadura, percebe-se que tal hipó-


tese não prospera61.
De tudo, se depreende que os Ministros do STF, via de regra, se
mantinham fiéis a seus princípios e convicções. Da mesma forma que
Édipo, para decifrar o enigma proposto pela Esfinge, precisou utilizar
de todos seus conhecimentos e se entregar à reflexão para achar a res-
posta, os Ministros do STF, em seus julgamentos, não se utilizaram
apenas de seus conhecimentos jurídicos, mas também de sua experi-
ência de vida e valores morais, pouco importando quem os indicara
para o STF. Oliveira (2012) explana que a identidade dos Ministros se
reforça justamente quando se opõem ao campo político. Justifica que
nessa abordagem é que se diferenciam dos políticos convencionais,
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que tomam legitimamente a posição de decidir de forma imparcial a


respeito do rumo político, econômico e social do País. Atuam mais do
que mediadores ou harmonizadores, pois suas decisões impõem uma
forma de visão do mundo62. É uma posição de poder e, percebe-se
por seus comentários, que nosso Édipo tem consciência desse poder.
Ousamos mesmo dizer que, independentemente de se mani-
festarem para “o” ou “contra” o regime, o que realmente importava
eram suas convicções de certo e errado e que, muitas vezes, eram
consonantes com a visão de mundo dos generais no poder. Não se
tratava apenas de qual presidente-general havia nomeado determi-
nado ministro, os vínculos de identidade e visão de mundo, muitas
vezes, eram mais subsistentes que o vínculo político, stricto sensu.
A própria forma de recrutamento e formação dos juízes e dos ba-
charéis em direito já favorecia um pensamento elitista, autoritário e
antidemocrático, sendo poucos os Ministros que enfrentaram a con-
cepção autoritária de poder.
E, mesmo quando os enigmas propostos tiveram um retorno
de decisão contrária aos interesses do regime militar por parte dos

61
VALERIO, Otavio L.S. A toga e a farda: o Supremo Tribunal Federal e o
Regime Militar (1964-1969). Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo – Universidade de São Paulo, 2010. p. 197.
62
OLIVEIRA, Fabiana Luci de. STF: do autoritarismo à democracia. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2012. pp. 78-79.
146 - Decifra-me ou te Devoro: Conhecendo um Pouco dos Enigmas dos Ministros...

Ministros-Édipos, ocorreram tentativas de devorá-los, como por exem-


plo, na suspensão das garantias de vitaliciedade dos juízes. Ainda assim,
sob essas ocasiões, os Ministros-Édipos se mantiveram firmes ao decla-
rar que mesmo nessas condições não se absteriam de julgar com a in-
dependência esperada pela instância maior do Judiciário. Contudo, este
discurso de imparcialidade e neutralidade incorporado pelo Judiciário,
para se afirmar diferente dos outros Poderes essencialmente políticos
e legitimados pelo voto popular, revela-se um discurso que, no fun-
do, significa a assunção de uma posição política que lhe concedia li-
berdade para decidir conforme suas convicções, aquelas convicções
que muitas vezes convergiam com as dos militares. A manutenção do
poder, portanto, constituiu-se com sutilezas no arranjo sócio-jurídico-
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-político da Ditadura Militar, construindo um aparato judicial de cú-


pula com poderes para concordar abertamente ou veladamente, por
uma própria característica de omissão, e mesmo com a liberdade para
discordar, ainda que houvesse um preço, mas que funcionava como
uma tensão necessária e que legitimava a própria concepção autoritá-
ria de poder que os militares imprimiam literal e simbolicamente nas
estruturas do Estado brasileiro.
Na mitologia, a Esfinge encontrou a morte, diferentemente do
que se verifica em nossa analogia. Nosso Édipo lidou corajosamen-
te com os enigmas que lhe foram propostos, porém a Esfinge con-
tinua viva e ativa.
Lembremo-nos que a Esfinge refere-se aos litígios que alcança-
vam o STF. Ora, sob essa perspectiva, entende-se que sua origem, de
fato, é a sociedade, que é espelhada nos desafios que se apresentavam
à Corte, refletindo conflitos entre a sociedade, as normas e o gover-
no, sob os olhos controladores do Regime Militar. Ao se vislumbrar
essa perspectiva, auferimos a importância da posição de Édipo em
se manter fiel a seus valores, mesmo que sob ameaça, ao determi-
nar parâmetros para solução destes conflitos, reforçando seu poder
de decisão e a presença do Poder Judiciário. A sociedade continua
impulsionando a Esfinge, que por sua vez, impõe novos enigmas a
serem solucionados. A cada caso apresentado no STF, permanece a
Esfinge desafiando Édipo ao bravejar: “decifra-me ou te devoro”.
Arari V. Guimarães e Elaine A. Fernandes e Fernanda Benozzatti e Márcio de Sessa - 147

Bibliografia

Albuquerque, Xavier de. À guisa de apresentação, embora supérflua. Trecho


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Ajuris, n. 24, p. 18. In Pernambuco. Tribunal de Justiça. Centro de Estudos
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Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições Estaduais; O Presidente da
República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios, sem as limitações
previstas na Constituição, suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo
prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais, e dá
outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/
ait-05-68.htm>. Acesso em: 23 nov. 2015.
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Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 151

Capítulo 4

Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar


(1964-1985): A (Re)Construção dos Princípios
Democráticos

Arari Vinícius Guimarães


Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Resumo: O presente trabalho procura estudar e discutir a (re)cons-


trução da sociedade após a Ditadura Militar (1964-1985), analisando
inicialmente como o Supremo Tribunal Federal se inseria nesta con-
juntura e como este foi importante para a reabertura democrática e
todas as disposições que se seguiram a este momento, com a preva-
lência dos direitos e garantias fundamentais e sua importância para
a inserção do Brasil no Estado Democrático e Social de Direito no
qual pretende se colocar. Por fim, verificaremos em alguns pontos
como a decisão do próprio Supremo Tribunal Federal sobre a Lei de
Anistia comprova como ainda a ditadura militar está presente e in-
fluencia os desígnios sociais, ainda que trinta anos após o seu fim.

Introdução

Muitas são as discussões surgidas desde o fim da ditadura mi-


litar brasileira, desde o alcance de seus atos até ações praticadas em
nome de uma dita ordem pautada na “ameaça comunista” que en-
volveu uma caça aos supostos subversivos, sendo assim considera-
dos todos aqueles que se colocavam contra o regime.
A ditadura militar mexeu com todas as estruturas da sociedade
e do Estado, interferindo na vida dos cidadãos e impedindo o livre
exercício de seus direitos fundamentais (alguns inclusive naturais).
152 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

O Poder Judiciário, de igual maneira, sofreu com as constan-


tes interferências da Junta Militar que governou o país ao longo de
vinte anos. O Supremo Tribunal Federal, por evidência, não ficou à
parte e sofreu com os desmandos governamentais, sobretudo após a
outorga dos Atos Institucionais.
Isso não impediu o Pretório Excelso de atuar na sociedade e
em alguns casos firmar seu entendimento, como também ocorrido
em outros momentos da história do País, garantindo por vezes a li-
berdade de expressão, de opinião e até mesmo de presos tidos como
subversivos, mesmo com a mitigação do Habeas Corpus pelo Ato
Institucional nº 6.
É com base nas disposições legais tanto da Constituição Federal
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

de 1967, como dos Atos Institucionais que lastreamos a presente pes-


quisa, tendo como intuito analisar como a defesa dos direitos e ga-
rantias fundamentais no período ditatorial militar foi preponderante
para lançar as bases do novo Estado Democrático e Social de Direito
construído a partir do fim do regime.
Com isso, analisaremos como os atos praticados pela ditadura
militar atingiram a sociedade, tais como o sequestro, a tortura e o as-
sassinato de cidadãos que, em muitos casos, não passavam pelo cri-
vo judicial, pois seu julgamento encontrava-se nas dependências dos
órgãos de opressão da ditadura, como o DOI-Codi (Destacamento de
Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna).
A sociedade política e legal estava, antes de mais nada, inseri-
da numa pretensa Doutrina de Segurança Nacional, herança da Era
Vargas (1930-1945) e que ainda possuía força suficiente para pro-
vocar e espalhar o medo e o terrorismo de estado quando necessá-
rios para a manutenção de seu próprio poder.
É a partir da reabertura democrática que as mudanças sociais,
políticas e jurídicas passaram a se operar, muito embora alguns atos
praticados pelas organizações paramilitares tentavam a todo custo
imputar aos “subversivos” a prática de crimes políticos e ao mesmo
tempo procuravam a sobrevivência do governo militar.
Foi com a Constituição Federal de 1988 que pudemos perceber
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 153

que todos os direitos e garantias não existentes durante o regime mi-


litar foram colocados como sendo inerentes a todos os brasileiros e
estrangeiros residentes no País.
São essas garantias e direitos fundamentais que permitem ao
Estado Brasileiro se inserir numa ordem em que a sociedade possui
como princípio a liberdade, princípio este que encontra-se como pri-
mordial para o Estado, tanto que considerados como cláusulas pé-
treas pela Carta Política de 1988.
Apesar disso, contudo, analisaremos como a ditadura militar ain-
da hoje, vinte e cinco anos depois da Constituição, continua influen-
ciando a sociedade, como é o caso da Arguição de Descumprimento
de Preceito Fundamental nº 153 (ADPF 153), que pugnou pela re-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

cepção da Lei de Anistia.

O Supremo Tribunal Federal na Ditadura Militar

O Supremo Tribunal Federal é, na história recente da República,


um importante fator na construção da democracia e na luta pela pre-
valência dos princípios e parâmetros constitucionais estabelecidos.
Seu nascimento pressupõe o Supremo Tribunal de Justiça, instân-
cia máxima do Poder Judiciário durante o Império, mas foi durante
a República que passou a exercer papel preponderante na sociedade
através de suas decisões.
Em muitos casos, inclusive, seu posicionamento conflita-
va com os interesses dos poderosos que encontravam-se no po-
der e não foram poucas as vezes em que o Judiciário, junto com o
Legislativo, sofreu interferências do Poder Executivo, sempre vi-
sando a manutenção do status quo e de interesses particulares, que
não possuíam quaisquer relações com os interesses da coletivida-
de e da República.

O Poder Judiciário foi desenhado e redesenhado inúmeras


vezes para atender aos interesses ditatoriais, diminuindo
as possibilidades de defesa e da segurança jurídica, assim
como ocorreu em outras ocasiões da História Republicana
154 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

Brasileira, como durante os constantes estados de sítio da


Primeira República (1889-1930) ou no Estado Novo de
Vargas (1937-1945).1

Evidentemente não se afirma aqui que o Supremo Tribunal


Federal não é um órgão político, ou que sua atuação jamais visou
outros interesses, ou mesmo que em alguns casos a sua posição es-
tava contrária aos atos emanados pelo Poder Executivo. Ao longo de
sua história é possível perceber posicionamentos dos mais diversos,
assim como ministros que estavam de acordo ou não com os acon-
tecimentos na conturbada história recente da República.
Durante o Regime Militar não foi diferente e as constantes inter-
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

ferências em suas atribuições e composição demonstram exatamente


como o Poder Judiciário conviveu com os mandos e desmandos da
política militar e de seu poder extremado advindo da Constituição
Ditatorial de 1967 e dos Atos Institucionais, sobretudo o de nº 6, além
das muitas (e inúmeras) vezes em que a legalidade dos atos era pos-
terior à sua prática, ou seja, primeiro se executava para depois bus-
car a motivação legal para tanto.
Assim, temos que o Supremo Tribunal Federal sofreu muitas in-
terferências e desmandos durante a República e, na Ditadura Militar,
muitos desses atos se repetiam. A sua competência, por exemplo, foi
o principal alvo de mudanças pelos governos anteriores e durante a
ditadura, de modo que as modificações introduzidas impediam jul-
gamentos que, costumeiramente, caberia à Corte Suprema a deci-
são final.
Antes da outorga da Constituição de 1967, o Ato Institucional
nº 2, de 27 de outubro de 19652, já mexeu com a organização Judicial

1
ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a
amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios, revelan-
do informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira da Silveira
(Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux, 2014. p. 24.
2
BRASIL. Ato Institucional nº 2, de 27 de outubro de 1965. Mantem a Constituição
Federal de 1946, as Constituições Estaduais e respectivas Emendas, com as altera-
ções introduzidas pelo Poder Constituinte originário da Revolução de 31.03.1964,
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 155

e, sobretudo, com as competências de julgamento entre os órgãos


do poder, principalmente quanto ao julgamento previsto na Lei nº
1.802, de 5 de janeiro de 19533.
Chama atenção, inclusive, parte do preâmbulo do sobredito Ato
Institucional nº 2, no qual a Junta Militar procura justificar a suspen-
são das garantias constitucionais como forma de se alcançar a “de-
mocracia”, além de afirmar que a “revolução” está viva e tem por
propósito restaurar a paz e a ordem no País.

A revolução está viva e não retrocede. Tem promovido


reformas e vai continuar a empreendê-las, insistindo patrio-
ticamente em seus propósitos de recuperação econômica,
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

financeira, política e moral do Brasil. Para isto precisa de


tranquilidade. Agitadores de vários matizes e elementos da
situação eliminada teimam, entretanto, em se valer do fato de
haver ela reduzido a curto tempo o seu período de indispensá-
vel restrição a certas garantias constitucionais, e já ameaçam
e desafiam a própria ordem revolucionária, precisamente no
momento em que esta, atenta aos problemas administrativos,
procura colocar o povo na prática e na disciplina do exercício
democrático. Democracia supõe liberdade, mas não exclui
responsabilidade nem importa em licença para contrariar a
própria vocação política da Nação. Não se pode desconstituir
a revolução, implantada para restabelecer a paz, promover o
bem-estar do povo e preservar a honra nacional.4

O AI-2 mexeu com as estruturas do Tribunal Supremo, gerando


uma grande crise entre o Judiciário e o Executivo. Já na Constituição

e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/


AIT/ait-02-65.htm>. Acesso em: 30 nov. 2015.
3
BRASIL. Lei nº 1.802, de 5 de janeiro de 1953. Define os crimes contra o Estado
e a Ordem Política e Social, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/L1802.htm>. Acesso em: 25 ago. 2015.
4
BRASIL. Ato Institucional nº 2, de 27 de outubro de 1965. Mantem a Constituição
Federal de 1946, as Constituições Estaduais e respectivas Emendas, com as altera-
ções introduzidas pelo Poder Constituinte originário da Revolução de 31.03.1964,
e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
AIT/ait-02-65.htm>. Acesso em: 30 nov. 2015.
156 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

de 1967 o Supremo Tribunal Federal está disposto nos Arts. 113,


114 e 115, os quais tratam da organização, competência de julga-
mento e composição, respectivamente, tendo sido alterado pelo Ato
Institucional nº 6, de 1º de fevereiro de 1969.
De acordo com a Carta Política de 1967, que revogou a
Constituição Federal de 1946 que havia colocado fim ao governo
autoritário de Getúlio Vargas e do Estado Novo (1937-1945), bem
como revogando a Constituição Polaca de 1937, o Supremo Tribunal
Federal seria composto de 16 ministros no pleno e dividido em tur-
mas, tendo as suas competências os processos originários, o recurso
ordinário e o recurso extraordinário.
Esta configuração e divisão de suas competências é comumente
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

trazida pela Carta Magna. Contudo, de acordo com as modificações


do Ato Institucional nº 6 na Constituição Federal de 1967, outorgada
pelos militares, a possibilidade de julgamento em razão de Habeas
Corpus somente encontraria respaldo em recurso ordinário, isto é,
após o pedido já ter sido outrora analisado pelas instâncias e tribu-
nais inferiores.

A jurisdição do STF foi diretamente atingida e alterada a


partir do Ato Institucional nº 6, de 1º de fevereiro de 1969,
em que houve diminuição no número de ministros, passan-
do dos habituais 16 para 11 (número que se manteve com a
Constituição Federal de 1988). A mais significativa, porém,
está na questão da mitigação do Habeas Corpus, que passou
de possibilidade de pedido originário realizado diretamente
no Tribunal para julgamento secundário, ou seja, a partir de
recurso ordinário nos autos de Habeas Corpus em tribunais
locais ou federais em que houvesse a denegação, para depois
o STF analisá-lo.5

O que mais chama a atenção encontra-se no fato de a Corte

5
ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a
amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios, revelan-
do informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira da Silveira
(Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux, 2014. pp. 14-5.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 157

Suprema não ser responsável, ou melhor, não possuir a competên-


cia originária para o processamento e julgamento de Habeas Corpus.
Sendo ela a responsável pela guarda da Constituição, deveria de igual
maneira ser a responsável por julgar qualquer abuso que tenha sido
cometido contra esta.
Ainda que o mais terrível (e mais lembrado) Ato Institucional
tenha sido o famigerado nº 5, que mexeu em todas as estruturas de
liberdades individuais e garantias fundamentais e de ter instaurado (e
confirmado) o terrorismo de estado, a cultura do medo e o caráter au-
toritário de regime, principalmente pela suspensão do Habeas Corpus
em determinados casos6, para o Supremo Tribunal Federal e, por con-
seguinte, para o Poder Judiciário em geral, foi o Ato Institucional
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

nº 6, de 1969, aquele que mais causou abalos em suas estruturas7.

A pior das marcas ditatoriais do Ato (Institucional nº 5),


aquela que haveria de ferir toda uma geração de brasileiros,
encontrava-se no seu artigo 10: ‘Fica suspensa a garantia de
Habeas Corpus nos casos de crimes políticos contra a segu-
rança nacional’. Estava atendida a reivindicação da máquina
repressiva. O Habeas Corpus é um inocente princípio do
direito, pelo qual desde o alvorecer do segundo milênio se

6
BRASIL. Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. São mantidas a
Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições Estaduais; O Presidente
da República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios, sem as
limitações previstas na Constituição, suspender os direitos políticos de quaisquer
cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e
municipais, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/AIT/ait-05-68.htm>. Acesso em: 23 nov. 2015.
Art. 10 – Fica suspensa a garantia de Habeas Corpus, nos casos de crimes políticos,
contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.
7
BRASIL. Ato Institucional nº 6, de 1 de fevereiro de 1969. Altera a composição e
competência do Supremo Tribunal Federal, amplia disposição do Ato Institucional
nº 5, de 13 de dezembro de 1968 e ratifica as emendas constitucionais feitas por
Atos Complementares. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/
ait-06-69.htm>. Acesso em: 30 nov. 2015.
Altera a composição e competência do Supremo Tribunal Federal, amplia disposição
do Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968 e ratifica as emendas
constitucionais feitas por Atos Complementares.
158 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

reconhecia ao indivíduo a capacidade de livrar-se da coação


ilegal do Estado. Toda vez que a Justiça concedia o Habeas
Corpus a um suspeito, isso significava apenas que ele era
vítima de perseguição inepta, mas desde os primeiros dias
de 1964 esse instituto foi visto como um túnel por onde
escapavam os inimigos do regime.8

O Ato Institucional n° 5, em alguns aspectos, pareceu se sobre-


por às disposições contidas na Constituição Federal de 1967, exor-
bitando os poderes contidos nesta. Muitos atos foram excluídos da
apreciação judicial, tendo suspendido as garantias constitucionais,
como por exemplo os direitos políticos por dez anos de qualquer
cidadão.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Uma das consequências do AI-5 foi o fechamento do Congresso


Nacional e acabou com o direito fundamental do Habeas Corpus,
principalmente os de competência do Supremo Tribunal Federal,
além de outras medidas autoritárias, nos casos de crimes políticos,
contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a eco-
nomia popular.
Visando deixar mais forte o regime de exceção configurado
pela “Revolução” de 1964, os Atos Institucionais foram, em 1969,
definitivamente incorporados à Carta Política de 1967, se transmu-
tando desta feita na equivalência legal de ambos os dispositivos.
Demonstrava-se cada vez mais um governo “censurador”, aprisio-
nador e torturador.

O Executivo ampliava seus poderes sobre o Legislativo,


outorgando-se o direito de fechar o Congresso Nacional, as
assembléias legislativas e as câmaras de vereadores, de cassar
mandatos parlamentares e direitos políticos e de legislar sobre
qualquer matéria.9

8
GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Editora Companhia das
Letras, 2002. pp. 340-1.
9
COSTA, Luís César, MELLO, Leonel Itaussu. História do Brasil. São Paulo:
Scipione, 1999.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 159

É certo que os mandamus de Habeas Corpus possuem prevalên-


cia na ordem de julgamento em todo e qualquer tribunal brasileiro,
mas também sabemos que a celeridade não é a marca registrada des-
ses tribunais. Em outras palavras, muitas ordens de Habeas Corpus
impetradas tinham sua desistência considerada logo após a denega-
ção da ordem ou a não concessão da medida liminar, uma vez que
até a matéria ser julgada no mérito para posteriormente alcançar o
Supremo Tribunal Federal em recurso ordinário, por vezes o preso
já se encontrava em liberdade.
O já citado Ato Institucional nº 6 não somente mexeu nas es-
truturas do Supremo Tribunal Federal, como também interferiu na
competência da Justiça Militar. Estando o País sendo governado pela
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Junta Militar, nada mais “justo”, na opinião dos mandatários, do que


estender aos civis os benefícios de serem julgados em casos especí-
ficos pelo Supremo Tribunal Militar.

Estendia novamente a jurisdição da Justiça Militar aos civis


nos casos expressos em lei, para repressão de crimes contra
a segurança nacional ou instituições militares, competindo
ao Supremo Tribunal Federal julgar os governadores de Es-
tado e seus secretários nos crimes acima referidos. Como de
costume, excluíam-se de qualquer apreciação judicial todos
os atos que infringissem o disposto no novo ato.10

Já sabemos que a Tripartição dos Poderes trazida desde a


Constituição Imperial (que previu uma “Quadripartição” com o
Poder Moderador) jamais foi realmente tripartida, independente e
harmônica, sendo que o Poder Executivo, como herdeiro do Poder
Moderador Imperial, sempre se colocou acima dos demais durante
toda a Primeira República e pelos quinze anos de Era Vargas (1930-
1945), somente encontrando certo alento após 1946, mas novamen-
te sobrepujado com a ditadura militar e o golpe de misericórdia foi
exatamente o AI-6.

10
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 179.
160 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

O AI-6, de 1969, subjugou totalmente o STF ao Executivo, ten-


do que assistir passivamente as aposentadorias compulsórias de seus
Ministros contrários às formas de atuação da junta governamental.
Além disso, a Justiça Militar, que deveria ter somente atuação junto
a Marinha, Exército e Aeronáutica, bem como em seus demais ór-
gãos, passou também a ter jurisdição sobre os civis. O militarismo,
assim, apoderou-se dos Três Poderes.
Embora a Constituição tenha se mantido nos seus moldes, as
alterações e posterior incorporação dos Atos Institucionais às suas
disposições foram preponderantes para o sucesso do autoritarismo
militar. A questão do Habeas Corpus é de salutar importância, pois
sua aplicação aos casos concretos foi o grande trunfo do Supremo
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Tribunal Federal ao longo da história republicana para diminuir os


abusos cometidos pelos atos do Poder Executivo. Com sua mitiga-
ção junto ao Pretório Excelso e depois com sua suspensão nos casos
trazidos pelo AI-5, pouco (ou quase nada) pôde a Corte Suprema se
posicionar nos julgamentos.

Segundo a Constituição, não haveria pena de morte, bani-


mento e ninguém seria preso, senão por ordem escrita de
autoridade competente. Impunham-se a todas as autoridades
o respeito à integridade física e moral do detento. A partir
do aparecimento da guerrilha, no entanto, não só a tortura
foi usada contra presos políticos, como a pena de morte foi
instituída e vários presos foram mortos ou desapareceram
sem deixar traços. A lei assegurava ao acusado plena defesa.
Concedia Habeas Corpus sempre que alguém sofresse ou se
achasse na iminência de sofrer violência ou coação em sua
liberdade de locomoção por ilegalidade ou abuso de poder.
Mas os Habeas Corpus ficariam suspensos em casos de cri-
mes contra a segurança nacional.11

A Doutrina da Segurança Nacional (DSN) também deve e mui-


to ser considerada neste caso. Resquício do autoritarismo de Vargas,

11
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 176.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 161

a DSN manteve-se útil também aos militares, que a colocou, por um


lado, como base do sistema repressivo para convalidar seus atos e,
de outro lado, como empecilho para o Poder Judiciário agir em ca-
sos de abuso de poder, crimes contra a ordem nacional e a seguran-
ça do Estado, o que para o regime serviu perfeitamente, vez que a
maioria das prisões e dos atos arbitrários eram cometidos por con-
ta de crimes considerados políticos e que, portanto, estavam fora do
alcance da jurisdição dos órgãos do Poder Judiciário.

Explicada de modo sucinto, a Doutrina da Segurança Na-


cional enfatizava a ameaça do ataque comunista indireto
ao país. Segundo a doutrina, brasileiros aliados aos países
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comunistas (dentre os quais, estariam os agrupamentos


guerrilheiros, como a ALN) procuravam desestabilizar o
regime político, com a finalidade de tomarem o poder. Não
se tratava, portanto, de combater o agressor externo, mas
de coibir a ação daqueles que, dentro do país, conspiravam
contra o governo e desejavam colocá-lo sob a influência da
União Soviética, da China e de Cuba. Fazia-se necessário,
então, cuidar da segurança interna, o que nos faz entender a
preocupação central do regime militar, desde o seu início, em
detectar, reprimir, julgar e, no limite, assassinar os cidadãos
tidos como ‘subversivos’.12

Se a Constituição Federal de 1967 foi a responsável por con-


firmar e constitucionalizar o regime militar no Brasil, os Atos
Institucionais, mais tarde anexados e tidos como Emendas Consti-
tucionais, em 1969, foram utilizados como válvula de escape para o
Poder Executivo e a Junta Militar instaurar o terror, tal qual Getúlio
Vargas havia feito anteriormente com seus Decretos-Leis, em que
a legalidade encontrava-se nos atos advindos do Poder Executivo
Federal, não das leis.

12
MATTOS, Marco Aurélio Vannuchi Leme de. Em nome da Segurança Nacional:
os processos da Justiça Militar contra a Ação Libertadora Nacional (ALN), 1969-
1979. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas
da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP) – Universidade de São Paulo, São
Paulo: 2002. pp. 13-4.
162 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

Os efeitos da repressão e do aumento do controle estatal a


partir da Lei de Segurança Nacional atingiram os órgãos
jurisdicionais no tocante ao número de processos referentes
a presos políticos ou que estavam sendo acusados de come-
terem crimes que atentassem contra a ordem constitucional
estabelecida.13

Ao Supremo Tribunal Federal, assim como ao Poder Judiciário


como um todo, coube o papel secundário de convalidar os atos do
Poder Executivo, até porque sua posição desprivilegiada não per-
mitia ações efusivas no sentido de combater ou mesmo minimizar
os atos ditatoriais. Soma-se a isso que as modificações introduzidas
pelo Ato Institucional nº 5 impediu o julgamento de crimes políti-
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cos e contra a segurança nacional, o que era a grande maioria nos


anos de chumbo.
A segurança nacional, inclusive, foi a preocupação principal da
autoritária Constituição Federal de 1967, de suas emendas e dos atos
institucionais. Se de um lado garantia determinadas liberdades aos
cidadãos, de outra excluía todo e qualquer ato do Poder Executivo
de apreciação junto ao Poder Judiciário, garantindo ainda que os cri-
mes cometidos por civis contra o próprio Poder Executivo, “repre-
sentado” pela ordem nacional, não fossem de igual feita levados à
apreciação judicial comum, mas sim ao Supremo Tribunal Militar,
ou seja, à justiça especializada.

As garantias individuais e liberdades pessoais reduzidas a


nada. Novos exílios. Prisões cheias. Violências sem conta.
Muitos presos não voltaram à luz do dia. Torturas. O Habeas
Corpus e o mandado de segurança mutilados. O Poder Exe-
cutivo pôs-se acima da lei e vedou a apreciação judicial de
determinados atos seus. De fato, as perseguições políticas
estenderam-se não só às pessoas de esquerda, como também

13
ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a
amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios, revelan-
do informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira da Silveira
(Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux, 2014. p. 17.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 163

a conhecidos nacionalistas, a liberais, a democratas-cristãos,


a governantes de períodos anteriores, como João Goulart,
Juscelino Kubitschek, e até mesmo aos que, como Ademar
de Barros e Carlos Lacerda, haviam inicialmente apoiado a
Revolução.14

Podemos assim entender que a perseguição não possuía al-


vos específicos. Para o Alto Comando Militar o intuito principal era
perseguir como forma de intimidar, de manter a ordem a todo cus-
to, independente do preço. Se necessária a tortura, a perseguição, a
prisão ilegal ou o assassinato de presos políticos e dissidentes, que
assim fosse feito.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Neste sentido, basta analisar o conteúdo do Ato Institucional nº


13, de 5 de setembro de 196815, no qual o Poder Executivo “recebeu”
o direito de banir do território nacional brasileiros que atentassem
contra a segurança nacional ou que fossem inconvenientes. É sabi-
do que durante a Era Vargas foi comum a expulsão de estrangeiros
do território nacional sob as mesmas condições, mas com relação a
brasileiros foi uma novidade trazida pela ditadura militar, compro-
vando seu caráter autoritário e como a alegada defesa da sociedade
foi uma fachada para atos outros.
As ações do Poder Executivo eram convalidadas, antes ou de-
pois de serem cometidas, pelos Atos Institucionais. As prisões se tor-
naram tão comuns que os motivos deixaram de ser importantes, ou
melhor, não precisavam de motivos para prender, pois os próprios
Atos Institucionais excluíam essa possibilidade.

Três meses depois da edição do AI-5, estabeleceu-se que os


encarregados de inquéritos políticos podiam prender quais-

14
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 177.
15
BRASIL. Ato Institucional nº 13, de 05 de setembro de 1969. Institui a pena de
banimento do Território Nacional para o brasileiro que se tornar inconveniente,
nocivo ou perigoso à Segurança Nacional e dá outras providências. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/ait-13-69.htm>. Acesso em: 23
nov. 2015.
164 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

quer cidadãos por sessenta dias, dez dos quais em regime


de incomunicabilidade. Em termos práticos, esses prazos
destinavam-se a favorecer o trabalho dos torturadores. Os dez
dias de incomunicabilidade vinham a ser o dobro do tempo
que a Coroa Portuguesa permitia pelo alvará de 1705. Estava
montado o cenário para os crimes da ditadura.16

Havia uma relação intrínseca entre as prisões e as punições


ocorridas com a tortura. Como acima mencionado, as atribuições do
Supremo Tribunal Federal para o julgamento originário de Habeas
Corpus foram mitigadas pelos Atos Institucionais de nº 5 e 6, de
modo que cabia às outras instâncias tal julgamento, que somente
seria objeto de Recurso Ordinário à Corte Suprema depois do jul-
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gamento do mérito, o que fazia muitos advogados e impetrantes de-


sistirem do remédio constitucional.
Em outras palavras, o percurso até a possibilidade de o Pretório
Excelso analisar o pedido de Habeas Corpus em Recurso Ordinário
era tão longo que os pacientes, na maioria das vezes, já estavam
soltos. E, além de libertos, já haviam sofrido todas as torturas físi-
cas e psicológicas nos porões do DEOPS (Departamento Estadual
de Ordem Política e Social), ou seja, a punição era extralegal, mas
a liberdade somente ocorria após o julgamento oficial do Poder
Judiciário.

Se de um lado havia o julgamento e a consequente absolvição


dos acusados, de outro havia o prolongamento no tempo entre
a efetuação da prisão e a sentença de livramento, já que os
acusados, em grande parte das ocasiões, somente eram soltos
após a realização do julgamento judiciário, mas até então, já
haviam sofrido os julgamentos internos e extraoficiais, de
modo que eram punidos por antecipação.17

16
GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Editora Companhia das
Letras, 2002. p. 341.
17
ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a
amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios, revelan-
do informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira da Silveira
(Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux, 2014. p. 19.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 165

Esta questão é importante, pois reflete em muitos casos a impo-


tência do Poder Judiciário frente aos desmandos do Poder Executivo,
quando este tinha por princípio basilar a Doutrina da Segurança
Nacional. Saliente-se ainda que na maioria dos Atos Institucionais
(incluindo o de nº 5 e 6 anteriormente elencados), as ações pratica-
das pelo Poder Executivo encontravam-se excluídas de toda e qual-
quer apreciação judicial18.

A Reabertura democrática

A década de 1980 foi de extrema importância para a história re-


cente mundial, a começar pela crise dos blocos comunistas, em pri-
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meiro lugar pelo leste europeu, atingindo posteriormente a União


das Repúblicas Socialistas Soviéticas que, mesmo com a adoção da
Glasnost (do russo, transparência) e Perestroika (do russo, recons-
trução), no governo de Mikhail Gorbatchev, mostraram a fragilidade
do sistema soviético, colocando em voga a Guerra Fria e toda uma
discussão sobre a economia e a política mundiais inseridas numa
nova conjuntura global.
Com a cada vez mais forte pressão interna e externa sobre os
atos cometidos pelos governos militares, a reabertura democrática,
antes inimaginável, passou a ser uma realidade mais palpável a par-
tir da segunda metade da década de 1970, sobretudo após o milagre
econômico ter ruído.
Entre o final da década de 1970 e o início da década seguin-
te todo o esquema armado no Regime Militar e que lhe serviu tão
bem começou a ser desfeito, de modo a propiciar a reabertura po-

18
BRASIL. Ato Institucional nº 6, de 1 de fevereiro de 1969. Altera a composição e
competência do Supremo Tribunal Federal, amplia disposição do Ato Institucional
nº 5, de 13 de dezembro de 1968 e ratifica as emendas constitucionais feitas por
Atos Complementares. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/AIT/
ait-06-69.htm>. Acesso em: 30 nov. 2015.
Art. 4º – Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de
acordo com este Ato Institucional e seus Atos Complementares, bem como os
respectivos efeitos.
166 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

lítica do País. Neste sentido, importante contribuição sobre o tema


o depoimento de Cláudio Guerra, ex-comandante do Departamento
Estadual de Ordem Política e Social do Espírito Santo (DEOPS/ES):

Do final da década de 1970 até meados dos anos 1980, toda


a estrutura montada para combater os nossos adversários
começou a ser desconstruída. Dentro do governo militar
emergiu uma corrente contra nós, que havíamos conquistado
muito poder depois do AI-5. A divergência entre os grupos e a
percepção, em Brasília, de que não havia mais enfrentamento
armado ao regime aceleraram a abertura política. A desarticu-
lação começou pela peça-chave do sistema, o Destacamento
de Operações de Informações – Centro de Operações de
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Defesa Interna (DOI-Codi) nos estados.19

O começo do fim veio com a revogação, em 1978, do Ato


Institucional nº 5, pelo então presidente Ernesto Geisel, quando houve
o abrandamento (mas não o fim) da repressão militar, tendo sua con-
tinuidade no ano seguinte com João Baptista de Oliveira Figueiredo,
último presidente militar do país20.
Segundo a Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979, outorgada
pelo governo militar, a Lei de Anistia, como ficou conhecida, conce-
deu de forma geral e irrestrita a anistia a todos que, de alguma forma,
estiveram envolvidos em crimes políticos e/ou conexos, estendendo-
-se tanto aos civis (muitos deles voltando do exílio após a publica-
ção da lei) e aos militares responsáveis pelas barbáries cometidas21.

19
GUERRA, Cláudio; NETTO, Marcelo; MEDEIROS, Rogério. Memórias de uma
guerra suja. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012. p. 151.
20
Neste sentido: “Prosseguindo no seu objetivo de promover a reabertura polí-
tica e respondendo às pressões internas e internacionais, o governo revogou, em
junho de 1978, o Ato Institucional nº 5 e as suspensões de direitos políticos dele
decorrentes. Não concedeu, entretanto, a anistia ampla reclamada pela sociedade”.
(COSTA, 2001, p. 185).
21
BRASIL. Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979. Concede anistia e dá outras
providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6683.
htm>. Acesso em: 30 nov. 2015..
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 167

Durante o governo de João Baptista Figueiredo, que tomou


posse em março de 1979, prosseguiu a abertura. Um dos
primeiros atos de seu governo foi conceder anistia aos con-
denados por crimes políticos, excluídos os atos de terrorismo,
assaltos, sequestros e assassinatos.22

Para o retorno à certa legalidade, por evidência, tanto a revoga-


ção do Ato Institucional nº 5 como a Lei de Anistia surtiram efeitos,
principalmente para a sociedade cívica, que pôde acompanhar o de-
senvolvimento e a eclosão de movimentos cada vez mais crescentes
em prol das eleições livres, como ocorreu com as “Diretas Já!”, no
estado de São Paulo e que contou com inúmeros políticos que so-
mente conseguiram retornar ao País por conta da anistia.
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Em 1982 já tivemos a primeira grande mudança nos Estados


da República, quando a população compareceu às urnas para eleger
governadores e deputados, sendo que esta “era a primeira vez, em
muitos anos, que se realizava uma eleição direta”23.
Por outro lado, não podemos afirmar que o processo de reaber-
tura e redemocratização foi calmo ou que não houveram problemas
com dissidentes militares, além das constantes repressões que persis-
tiam em alguns pontos do Brasil, se sobressaindo nos grandes cen-
tros. Novamente, Cláudio Guerra bem esclarece a questão:

Esses primeiros passos da abertura política lenta, gradual


e segura, como defendida pelo general Ernesto Geisel, en-
frentaram forte resistência entre nós. Acostumados ao poder,

Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 02 de


setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo
com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e
aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao
poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares
e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos
Institucionais e Complementares.
22
COSTA, Emília Viotti da. O Supremo Tribunal Federal e a construção da cida-
dania. São Paulo: IEJI, 2001. p. 187.
23
Ibid., p. 188.
168 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

grupos de oficiais das forças armadas resolveram agir por


conta própria fora da cadeia oficial de comando. Partiu de
nossos grupos uma onda de atentados terroristas a bancas de
jornal, veículos de comunicação, eventos e shows. Além de
todas essas ações, ameaças falsas eram plantadas para deixar
a população em pânico.24

Apesar disso, a reabertura prosseguia. O movimento pelas di-


retas não surgiu o efeito imediato esperado, mas em 1985 foi eleito
ainda pelo Colégio Eleitoral para a presidência da república Tancredo
Neves, do Partido da Mobilização Democrática Brasileira (PMDB),
tendo como vice-presidente José Sarney, do Partido da Frente Liberal
(PFL), primeiros civis a serem eleitos após a ditadura militar.
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A grande vitória veio em 5 de outubro de 1988 quando, sob a pre-


sidência de Ulysses Guimarães, a Assembleia Nacional Constituinte
entregou à toda sociedade brasileira a nova Carta Política. Chamada
de Constituição Cidadã pelo presidente da constituinte, a Carta Magna
de 1988 procurou trazer disposições contrárias aos modelos até então
estabelecidos, propagando o Estado Democrático e Social de Direito
como base de toda sociedade brasileira25.
O último ato que realmente findou com o período autoritário do
regime militar foi, contudo, as eleições presidenciais diretas ocorri-
das em 1989, as primeiras desde a eleição de Jânio Quadros e João
Goulart, em 1960, tendo sido eleitos pelo sufrágio universal do povo
Fernando Collor de Melo e Itamar Franco.
Devido aos grandes abalos sofridos pelo País graças ao autori-
tarismo governamental e aos interesses privados que se sobrepuse-
ram desde a Proclamação da República, em 1889, com as oligarquias
agrárias, até os empresários durante a ditadura militar, a Constituição

24
GUERRA, Cláudio; NETTO, Marcelo; MEDEIROS, Rogério. Memórias de uma
guerra suja. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012. pp. 151-2.
25
Neste sentido: “Reuniu-se a Assembleia Constituinte a 1º de fevereiro de 1987,
completando seus trabalhos em outubro de 1988. Com a aprovação da Nova
Constituição, terminava o governo de exceção e instalava-se novamente o estado
de direito no país”. (COSTA, 2001, p. 189).
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 169

prezou pela defesa de direitos e garantias fundamentais aos cida-


dãos, para evitar que novamente abusos fossem cometidos, motivo
pelo qual o Art. 5º traz um extenso rol de direitos considerados como
cláusulas pétreas, ou seja, não passíveis de diminuição por Emenda
Constitucional (Art. 60, § 4º, CF/88).
Também considerado como Cláusula Pétrea, a Tripartição dos
Poderes é elemento preponderante nesta análise, já que envolve ao
longo da história uma série de dificuldades para se compreender os
limites constitucionais ali estabelecidos e as competências dos Três
Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, de modo que de igual
maneira se mostra importante o sistema de freios e contrapesos no
qual o poder, por suas atribuições típicas e principalmente atípicas,
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freia os abusos que poderiam ser cometidos pelos demais poderes26.


Ao longo da história do Brasil sabemos que não é um fato isola-
do na Ditadura Militar a pretensa superioridade do Poder Executivo
sobre os demais. Durante o Império (1822-1889), com a figura do
Poder Moderador, a Primeira República (1894-1930), em que o Poder
Moderador do Imperador passou ao Executivo e posteriormente com
a Era Vargas (1930-1945), em que o Executivo se colocou acima dos
demais através dos Decretos-Leis, são períodos marcados pela teóri-
ca Tripartição dos Poderes, mas sem o respeito e o respaldo necessá-
rios para a sobrevivência do mesmo. As alterações foram tanto para
preservar os poderes, como para colocá-los em seus devidos lugares
nas suas funções típicas ou atípicas27.

26
Assim preconizou Montesquieu ao tratar sobre o assunto: “para que não possam
abusar do Poder, precisa que, pela disposição das coisas, o Poder freie o Poder”.
(MONTESQUIEU, Charles de. O espírito das leis. 9. ed. São Paulo: Editora
Saraiva, 2008. p. 35).
27
Neste sentido: “Uma comparação das Constituições de 1946, 1967, 1969 e 1988
revela que o Poder Judiciário sofreu modificações, que acabaram por redefinir as
funções do Supremo Tribunal Federal. As Constituições de 46 e 67 incluíam cinco
órgãos do Poder Judiciário. Na de 1946 constavam: o Supremo Tribunal Federal,
o Tribunal Federal de Recursos, juízes e Tribunais Militares, juízes e Tribunais
Eleitorais, juízes e Tribunais do Trabalho. A única diferença na Constituição de
1967 foi a alteração do item referente ao Tribunal Federal de Recursos, que foi
substituído por Tribunais Federais de Recursos e juízes federais. A Constituição
de 1969 (que segundo alguns é a Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro
170 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

A Carta política de 1988: direitos e


garantias fundamentais

A Emenda Constitucional nº 26, de 27 de novembro de 1985,


pugnou pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte, ten-
do seus trabalhados iniciados em 1987 e findados em 1988, com a
promulgação da Constituição Federal. A Carta Política, conhecida
como Constituição Cidadã, buscou a máxima efetividade dos direitos
fundamentais, além da não limitação do poder político, isto é, garan-
te aos brasileiros ampla e completa atuação na sociedade.
Com suas características, a concretização e a positivação dos
direitos fundamentais tornou possível a presença, em todos os lu-
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gares, das regras e princípios constitucionais, bem como a efetiva-


ção da justiça para todos, com prevalência da dignidade e da própria
coletividade.
Como o Estado possui uma Constituição e sendo um Estado
Democrático de Direito, a Carta Política passou a limitar o poder
conferido aos demais poderes, com a prevalência dos direitos fun-
damentais a todos os cidadãos brasileiros e estrangeiros, bem como
maneiras de se impedir o abuso de poder, seja ele perpetrado pelo
Estado ou por cidadãos de maneira isolada, em que se garante a pre-
valência dos bens públicos sobre os privados.
Ademais, um dos princípios fundamentais insculpidos na
Constituição Federal reside no fato de reconhecer que o povo é o
titular do poder, cabendo a ele a definição daqueles que lhe repre-
sentará por meio das eleições, de modo que pela primeira vez a so-

de 1969) incorporou novos órgãos. O artigo 113, parágrafo 6º, contém todos os
órgãos mencionados na de 1967, mas acrescentou os Tribunais e juízes estaduais.
Finalmente a de 1988 definiu como órgãos do Poder Judiciário: o Supremo Tribunal
Federal, o Superior Tribunal de Justiça (instituído em 88), os Tribunais Regionais
Federais e juízes federais (que substituíram os Tribunais Federais de Recursos e
juízes federais), os Tribunais e juízes do Trabalho, os Tribunais e juízes eleitorais,
os Tribunais e juízes militares, os Tribunais e juízes dos Estados, do Distrito Federal
e Territórios. O aumento de órgãos e sua distribuição regional são indicativos da
importância crescente da matéria judiciária”. (COSTA, 2001, p. 190).
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 171

berania popular realmente estava presente no país, havendo tanto


a democracia representativa (representantes eleitos), como a direta
(plebiscito, referendo ou iniciativa popular)28.
O povo, assim, pelo seu poder investiu o Estado igualmente
de Poderes, sendo eles o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. A
teoria revista por Charles de Montesquieu em seu livro “O Espírito
das Leis”, foi utilizada como parâmetro na Revolução Francesa e
transmutado para o direito brasileiro desde a Constituição Imperial,
quando houve um grande passo para a identificação de três funções
estatais, diretamente ligadas e entrelaçadas, sendo autônomas, dis-
tintas e independentes entre si, cada uma correspondente a um órgão.
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Esta trilogia não reflete uma verdade, uma essência, algo


inexorável proveniente da natureza das coisas. É pura e
simplesmente uma construção política invulgarmente notável
e muito bem-sucedida, pois recebeu amplíssima consagra-
ção jurídica. Foi composta em vista de um claro propósito
ideológico do Barão de Montesquieu, pensador ilustre que
deu forma explícita à idéia da tripartição. A saber: impedir
a concentração de poderes para preservar a liberdade dos
homens contra abusos e tiranias dos governantes.29

Assim, o Estado Social e Democrático de Direito pratica atos


decorrentes de um só Poder, sendo ele uno e indivisível, advindo do
povo, conforme preceitua a Carta Política de 1988, em seu já cita-
do Art. 1ª e parágrafo único, de modo que se impediu o que muito

28
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm> Acesso
em: 24 nov. 2015..
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos
Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático
de Direito e tem como fundamentos:
[...] Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de
representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
29
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. 29. ed.
São Paulo: Malheiros Editores, 2012. p. 31.
172 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

se viu na história brasileira de concentração dos poderes na mão de


um único poder central.
O poder é tripartido, seguindo a adaptação da teoria montes-
quiana da separação dos poderes, adequada ao caso brasileiro desde
os primórdios constitucionais, isto é, desde a primeira Constituição
do Império de 1824, em que havia, ainda, a figura de um quarto po-
der, pairando sobre todos os demais, denominado Poder Moderador,
que cabia ao chefe do Executivo, ou seja, ao Imperador.
Certo é que, com a Proclamação da República, em 1889, o
Poder Moderador foi oficialmente extinto, embora continuasse pre-
sente na figura do Poder Executivo, que tomou para si as disposi-
ções antes contidas para este poder, mesmo a Constituição de 1891
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tendo-o abolido e dispondo sobre a pretensa independência e har-


monia dos poderes30.
Cada órgão exerce somente a função que lhe foi atribuída, e
para evitar qualquer tipo de abuso entre os poderes constitucional-
mente instituídos, também outra teoria de Montesquieu foi utiliza-
da como base, denominada freios e contrapesos.

O sistema de separação dos poderes, consagrado nas Consti-


tuições de quase todo o mundo, foi associado à ideia de Estado
Democrático e deu origem a uma engenhosa construção
doutrinária, conhecida como sistema de freios e contrapesos.
Segundo essa teoria os atos que o Estado pratica podem ser
duas espécies: ou são atos gerais ou são especiais. Os atos

30
Neste sentido: “Com a proclamação da República, a extinção do Poder Moderador
e a equiparação do Poder Judiciário aos demais poderes – cabendo ao Supremo
Tribunal Federal o controle de constitucionalidade -, se observa uma nova reper-
cussão do STF na cena política. A população, a imprensa e os políticos correm às
tribunas e suas decisões são comentadas pelo país, provocando as mais variadas
reações. Passa-se a atribuir grande importância aos atos desse tribunal, devido
ao papel político, no tenso jogo do equilíbrio e disputa com os demais poderes.
Rapidamente, o STF assume algumas das questões mais delicadas do início de nossa
história republicana”. (ANDREUCCI, Álvaro G. A. Uma cadeira de espinhos: o
Supremo Tribunal Federal e a política (1933-1942). Tese (Doutorado) – Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) – Universidade de São
Paulo. São Paulo: 2007. pp. 73-4).
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 173

gerais, que podem ser praticados pelo poder legislativo,


constituem-se na emissão de regras gerais e abstratas, não
se sabendo, no momento de serem emitidas, a quem elas
irão atingir. Dessa forma, o poder legislativo, que só pratica
atos gerais, não atua concretamente na vida social, não tendo
meios para cometer abusos de poder nem para beneficiar ou
prejudicar a uma pessoa ou a um grupo em particular. Só
depois de emitida a norma geral é que se abre a possibilidade
de atuação do poder executivo, por meios de atos especiais.
O executivo dispõe de meios concretos para agir, mas está
igualmente impossibilitado de atuar discricionariamente,
porque todos os seus atos estão limitados pelos atos gerais
praticados pelo legislativo. E se houver exorbitância de
qualquer dos poderes surge a ação fiscalizadora do poder
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judiciário, obrigando cada um permanecer nos limites de sua


respectiva esfera de competência.31

Assim, temos que o sistema de freios e contrapesos tem por


pressuposto impedir que os poderes, no uso e gozo de suas atribui-
ções, possam extrapolar a sua esfera e invadir, querendo ou não, a
esfera dos demais.
Em alguns casos, pode-se afirmar que é não a função típica,
mas sim a função atípica dos Três Poderes que impede os abusos no
atual Estado Democrático e Social de Direito, isto porque, ao tem-
po em que o executivo legisla e julga no âmbito interno de suas atri-
buições, de igual forma o judiciário legisla e executa e o legislativo
julga e executa conforme suas próprias disposições.

As funções típicas são aquelas exercidas predominantemente


por um determinado órgão, são as que guardam uma relação
de identidade com o Poder por que são desempenhadas. De
forma singela, pode-se dizer que, tipicamente, o Poder Exe-
cutivo administra e executa, o Poder Legislativo legisla e o
Poder Judiciário julga. Atipicamente, cada um dos órgãos
estatais exerce as funções que são típicas dos outros. Assim,

31
DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do Estado. São Paulo:
Saraiva, 1998. pp. 184-185.
174 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

atipicamente, o Poder Legislativo executa e julga, o Poder


Executivo legisla e julga e o Poder Judiciário administra e
legisla.32

Ademais, a Constituição Federal de 1988 em seu preâmbulo de-


terminou os princípios reguladores que levaram os Constituintes a,
reunidos em Assembleia Nacional, estabelecer os novos parâmetros
legais ao Estado Brasileiro, pautando-se na democracia e nos ide-
ais da liberdade e igualdade, antes inexistentes no período militar33.
Destarte, temos que a nova Carta Política trouxe significati-
vas mudanças, reconhecendo e declarando direitos antes inexisten-
tes, consolidados no texto sobre os direitos individuais e coletivos,
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junto com os princípios democráticos, a ampliação dos direitos dos


trabalhadores e outros remédios constitucionais, tais como o man-
dado de segurança coletivo, o Habeas Data e o retorno da previsão
de Habeas Corpus (inclusive ao Supremo Tribunal Federal).
Embora o Título II, Capítulos I, II, III, IV e V sobre os Direitos
e Garantias Fundamentais esteja inserido entre os Arts. 5º e 17 da
Constituição Federal, não se pode olvidar que toda a Carta Política
de 1988 traz disposições que visam garantir o máximo de direitos
aos cidadãos, lembrando que tal fato mostra-se como reflexo de anos
de instabilidade jurídica advindas desde os tempos coloniais e ainda
mais fortes em tempos da Ditadura Militar recém-acabada.

32
SILVA, Roberto Baptista Dias da. Manual de direito constitucional. São Paulo:
Manole, 2007. pp. 205-6.
33
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm> Acesso
em: 24 nov. 2015.
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional
Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exer-
cício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o
desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade
fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida,
na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promul-
gamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA
FEDERATIVA DO BRASIL.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 175

Não podemos deixar de perceber muitos desses aspectos na


Constituição Federal de 1988, que procurou corrigir os erros histó-
ricos cometidos pelo Estado em detrimento de uma ordem de ma-
nutenção do status quo dominante.
Não se trata, aqui, de se inferir sobre o alcance dessas dispo-
sições e até que ponto os direitos e garantias fundamentais são real-
mente alcançados. Não são poucos os casos de abusos cometidos,
seja pelo Estado, seja por particulares, à Constituição Federal de
1988, mesmo sendo a carta cidadã mais abrangente da histórica po-
lítica (e jurídica) do País.

A Importância dos Direitos e


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Garantias Fundamentais

Apesar de comumente nos referirmos aos Direitos e Garantias


Fundamentais como aqueles dispostos no Art. 5º, com todos seus in-
cisos e parágrafos da Constituição Federal de 1988, a abrangência
dos mesmos é maior e abarca outros dispositivos que, de igual ma-
neira, tratam sobre esses direitos fundamentais.

Antes de mais nada, é bom ressaltar que na Constituição


Federal de 1988, os direitos fundamentais ganharam maior
importância e relevância, sobretudo por conta do regime
ditatorial recém-acabado, de modo que suas disposições são
consideradas como Cláusulas Pétreas, isto é, não passíveis
de alteração por Emenda Constituição, salvo se o intuito da
EC for aumentar estes direitos.
Apenas a título informativo, podemos apresentar, após
uma combinação de conceitos, os direitos humanos como:
aqueles direitos inerentes a todo ser humano, reconhecidos
em instrumentos jurídicos, a partir da natureza das coisas
e que garantem, legalmente, uma identidade, livre-arbítrio
e possibilitam a todas as pessoas uma vida sem sofrimento
imposto indevidamente ou de modo abusivo.34

34
PAGLIUCA, José Carlos Gobbis. Direitos humanos. São Paulo: Rideel, 2010.
p. 19.
176 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

Os direitos humanos, assim como os direitos fundamentais,


possuem grande relevância no ordenamento jurídico brasileiro, por
trazer em seu bojo situações nas quais a sociedade pode se valer de
direitos que, teoricamente, são naturais ao ser humano, mas que ne-
cessitaram de positivação para não haver arbítrios.
Interessante também notar a questão da identidade suscitada
na defesa dos direitos humanos. Quando se fala em identidade, não
há como se pensar em outra coisa senão nas características mais es-
senciais do homem, enquanto ser político, postas na sociedade e na
vida cotidiana, podendo considerar que a “a vida cotidiana é a vida
do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana com
todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade”35.
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Tal apontamento é importante, vez que estamos diante de uma


situação na qual a identidade do homem, enquanto ser político e atu-
ante, foi em inúmeras vezes retirados como possibilidade de atua-
ção do homem em sociedade, impedindo-o de atuar politicamente
na decisão de sua própria vida social.
Do mesmo modo, preceitua a Constituição Federal outras cláu-
sulas tidas como imutáveis, como a configuração do Estado fede-
rado, o voto direto e a separação dos poderes, tendo por escopo
impedir que novamente o País viva anos de chumbo como aqueles
da Ditadura Militar36.
Desta feita a Carta Política consagrou os direitos individuais

35
HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
p. 32.
36
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso
em: 24 nov. 2015.
Art. 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:
[...]
§ 4º – Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:
I – a forma federativa de Estado;
II – o voto direto, secreto, universal e periódico;
III – a separação dos Poderes;
IV – os direitos e garantias individuais.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 177

e coletivos, aqueles chamados de primeira geração, na qual se tem


uma ação negativa do Estado, mas também guardou espaço aos di-
reitos sociais, também conhecidos como segunda geração, que inclui,
por evidência, o acesso aos bens básicos, como a saúde, educação e
trabalho, prescrevendo medidas essenciais à vivência dos cidadãos
brasileiros (e estrangeiros).

Os arts. 6º a 11 da Constituição Federal contemplam os di-


reitos sociais de forma sistematizada. O art. 6º prevê que são
direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o
lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à materni-
dade e à infância, bem como a assistência aos desamparados.37
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A questão dos trabalhadores não foi deixada de lado na Nova


Carta Constitucional, que estabeleceu como sendo direitos funda-
mentais aqueles inerentes ao exercício do trabalho e a preservação
da integridade física e moral do trabalhador.
Outra importante disposição fundamental diz respeito ao li-
vre exercício sindical, o que em muitos casos na ditadura militar era
considerado grave, uma vez que toda e qualquer luta contra o regi-
me era severamente diminuída.
Os sindicatos, neste período, tiveram grande importância na
união dos trabalhadores e na busca por melhores condições de traba-
lho, o que acabava atingindo também o governo, ainda que as muitas
greves fossem em empresas privadas, garantido-se ainda a represen-
tatividade dos trabalhadores.

O art. 7º enumera os direitos dos trabalhadores urbanos e


rurais enquanto o art. 8º trata da livre associação profissional
ou sindical. O art. 9º disciplina o direito de greve. Já o art. 10
dispõe que é ‘assegurada a participação dos trabalhadores e
empregados nos colegiados dos órgãos públicos em que seus
interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto de

37
SILVA, Roberto Baptista Dias da. Manual de direito constitucional. São Paulo:
Manole, 2007. p. 291.
178 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

discussão e deliberação’. Por fim, o art. 11 estabelece que


nas empresas com mais de duzentos empregados, é assegu-
rada a eleição de um representante destes com a finalidade
exclusiva de promover-lhes o entendimento direto com os
empregadores.38

De igual forma podemos considerar os direitos políticos como


uma conquista, vez que durante todo o regime militar o que me-
nos existiu foi a liberdade de expressão e política dos cidadãos,
que ficavam sempre amarrados às disposições autoritárias dos Atos
Institucionais.
É a partir dessas disposições que a sociedade passou a oficial-
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mente se constituir politicamente através da legalidade constitucio-


nal, isto é, com a constitucionalização dos direitos políticos como
sendo fundamentais a todo e qualquer cidadão, incluindo neste caso
a livre criação de partidos políticos.
É certo que na história mundial sempre (ou quase sempre) quan-
do determinada Nação instaura a ditadura como forma de governo,
uma das primeiras disposições é extinguir toda e qualquer forma de
representatividade dos partidos políticos, mantendo-se, assim, ape-
nas o partido do governo.
Embora na ditadura militar brasileira ainda existisse um “parti-
do de oposição”, é mais do que evidente que sua posição, bem como
a impossibilidade de ação feita pelos militares em proveito do par-
tido pró-ditadura, minaram a consolidação de um partido realmen-
te oposicionista, mas não por culpa dos partidários anti-ditadura.
Minar a livre associação política é uma estratégia que possibi-
lita não ter oposição e, por conseguinte, não ter nenhuma contesta-
ção oficial ao governo, mesmo a contestação ocorrendo no âmago
da própria sociedade organizada.
A última das disposições sobre os direitos fundamentais e dos
partidos políticos estabelece a vedação legal ao uso de grupos e or-

38
SILVA, Roberto Baptista Dias da. Manual de direito constitucional. São Paulo:
Manole, 2007. p. 291
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 179

ganização paramilitares, sendo este um reflexo cabal do ocorrido


com a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido da ditadu-
ra militar que se valeu desses grupos para manutenção do regime.

O aparato paramilitar montado propiciou ao regime militar


manter-se vivo e na ativa por longos anos. Nem mesmo com
a abertura política iniciada pelo presidente Ernesto Geisel e o
ministro da Casa Civil Golbery do Couto e Silva minaram os
planos dos militares considerados linhas-duras de permane-
cerem no poder, continuando com os atos clandestinos após
a Anistia e durante a redemocratização do país.39

Desta forma, entendemos que a disseminação dos direitos e ga-


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rantias fundamentais estabelecidos na Constituição Federal de 1988


tem por pressuposto impedir que novas práticas autoritárias sejam
realizadas contra a população brasileira em nome de uma minoria
dominante.
Sabemos que quando tais fatos acontecem, essas disposições
são relevadas e esquecidas em detrimento de uma suposta “manu-
tenção da ordem”, momento em que ocorrem os golpes, mas assim
como os atos institucionais serviram muitas vezes para intimidar as
pessoas, as disposições e garantias servem para retirar ou diminuir
este medo outrora causado pelo terrorismo de estado.

Reflexos da Ditadura Militar: O Supremo Tribunal


Federal e o Julgamento da ADPF40 nº 153

O fim da Ditadura Militar e início da fase Democrática não


significou, como vimos, o fim da influência conservadora no cená-
rio político, jurídico e social do País. Não somente muitos envolvi-

39
ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a
amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios, revelan-
do informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira da Silveira
(Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux, 2014. p. 12.
40
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental.
180 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

dos nos episódios continuam atuantes na sociedade, como também


muitas das disposições legais do período permanecem em vigor no
ordenamento jurídico pátrio.
É certo que a maioria das disposições autoritárias, como a
Constituição Federal de 1967 e todos os Atos Institucionais (17),
caíram com a reabertura democrática. Não se pode concluir, po-
rém, que os reflexos destas não ficaram presentes no orbe jurídico
nacional, já que suas influências estavam também nas cadeiras do
Congresso Nacional.
Os atos favoráveis ao regime continuavam a ser praticados,
seja pelos militares no poder, seja por aqueles que estavam desejo-
sos por chegar ao mesmo, tudo para impedir a reabertura democráti-
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ca iniciada por Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, de modo


que toda a gama de atentados e práticas ilegais continuava a existir
e conviver com a nova realidade que se apresentava.

O aparato paramilitar montado propiciou ao regime militar


manter-se vivo e na ativa por longos anos. Nem mesmo com
a abertura política iniciada pelo presidente Ernesto Geisel e o
ministro da Casa Civil Golbery do Couto e Silva minaram os
planos dos militares considerados linhas-duras de permane-
cerem no poder, continuando com os atos clandestinos após
a Anistia e durante a redemocratização do país. Foi assim
quando do atentado no Riocentro, no ano de 1981, em festi-
val organizado pela Cebrade, fundado por Oscar Niemeyer,
Ênio Silveira e Sérgio Buarque de Holanda, que contaria com
artistas objetivando a reabertura política e as eleições diretas
para presidente.41

É neste contexto que surge a já anteriormente citada Lei nº


6.683/79, que entrou em vigor no último governo militar, de João
Baptista Figueiredo, em 28 de agosto de 1979, tendo a mesma sido

ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a


41

amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios, revelan-


do informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira da Silveira
(Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux, 2014. p. 12.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 181

pensada e fundamentada de acordo com as ainda presentes disposi-


ções autoritárias do período.
Segundo seu texto legal, concede-se anistia para todos que
cometeram crimes políticos ou conexos como este no período de
02/09/1961 a 15/08/1979, punidos com fundamentos em Atos
Institucionais e Complementares, abarcando desde o momento ime-
diatamente anterior até pouco antes da entrada em vigor da lei.
Dentre os crimes conexos, a lei traz disposição expressa sobre
a natureza jurídica relacionada aos crimes políticos ou aqueles prati-
cados por motivação política no período supracitado, excetuando-se
a lei àqueles que foram condenados pela prática de crimes de terro-
rismo, assalto, sequestro e atentado pessoal.
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Todas essas possibilidades encontram-se dispostas no Art. 1º, da


Lei de Anistia, e poderiam ser compreendidas de forma perfeita ao mo-
mento vivido pelo Brasil de reabertura e volta à democracia, salvo por
uma pequena disposição que estende os benefícios da lei tanto aos civis,
como aos militares, naquilo que ficou conhecido como “autoanistia”.
Por conta desta anistia “ampla, geral e irrestrita”, muitas dis-
cussões passaram a integrar a sociedade brasileira. Embora muitos
afirmem que foi a solução encontrada para a volta à legalidade, bem
como o retorno dos anistiados ao País, é certo que sua vigência tem
como pressuposto maior não abarcar os supostos crimes considera-
dos subversivos, mas sim resguardar os militares dos crimes come-
tidos por eles próprios em nome da “defesa da Revolução”.
Neste diapasão, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados
do Brasil buscou junto ao Supremo Tribunal Federal a inconstitu-
cionalidade do supracitado Art. 1º, da Lei de Anistia, mais especi-
ficamente o trecho no qual concede anistia também aos militares,
interpondo a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental
n°153 (ADPF 153).
Procurou a Ordem dos Advogados do Brasil, por esta ação, tra-
zer uma interceptação menos obscura do referido dispositivo legal, de
modo a buscar uma interpretação não extensiva a todos, excluindo-se
da apreciação aqueles que cometerem os crimes em nome do regime.
182 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

Trata-se de saber se houve ou não anistia dos agentes públicos


responsáveis, entre outros crimes, pela prática de homicídio,
desaparecimento forçado, abuso de autoridade, lesões corpo-
rais, estupro e atentado violento ao pudor contra opositores
políticos ao regime militar, que vigorou entre nós antes do
restabelecimento do Estado de Direito com a promulgação
da vigente Constituição.42

De forma clara, tenta o Conselho Federal da OAB propiciar


que não seja o silêncio e o esquecimento os pressupostos da Lei de
Anistia, mas sim proporcionar justamente o contrário, pautando na
memória e no “grito de liberdade” os ideais democráticos pelos quais
muitos morreram lutando e, neste momento, estão sendo colocados
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no mesmo patamar daqueles que os mataram.


Sendo assim, entende-se que a extensão da anistia aos agen-
tes do Estado não estaria de acordo com os preceitos reguladores do
atual Estado Democrático e Social de Direito, sobretudo porque os
crimes cometidos durante o período militar são considerados de le-
sa-humanidade, o que agrava ainda mais a situação e inflama o de-
bate acerca do assunto.
Ademais, salienta a petição inicial que muitos dos crimes co-
metidos durante o regime militar não possuíam em nada motivação
política, sendo, portanto, crimes comuns, de modo que não se apli-
caria o disposto na Lei de Anistia, que por conta disso tem um en-
tendimento ainda mais extensivo por parte daqueles que defendem
que agiam em nome de uma dita “revolução”.

Os agentes públicos que mataram, torturaram e violentaram


sexualmente opositores políticos não praticaram nenhum dos
crimes (políticos) previstos nos diplomas legais (Decretos-
-Leis 314 e 898 e Lei 6.620/78), pela boa razão de que não
atentaram contra a ordem política e a segurança nacional.

42
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de descumprimento de preceito
fundamental nº 153 (ADPF 153). Tribunal Pleno. Rel. Min. Eros Roberto Grau.
Julgado em 29/04/2010. Disponível em: <www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiano-
ticiastf/anexo/adpf153.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2015.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 183

Irrefutável que não podia haver e não houve conexão entre os


crimes políticos, cometidos pelos opositores do regime mili-
tar, e os crimes comuns contra eles praticados pelos agentes
da repressão e seus mandantes no governo. A entidade chama
de “aberrante desigualdade” o fato de a anistia servir tanto
para delitos de opinião (cometidos por pessoas contrárias
ao regime) e os crimes violentos contra a vida, a liberdade
e a integridade pessoal cometidos contra esses opositores.43

Isto ocorre uma vez que não houve comunhão de propósitos


e objetivos entre os agentes criminosos, de um lado e de outro, de
modo que o grande problema não está somente em estender os efeitos
da lei tanto aos militares como aos civis, mas também (e principal-
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mente) em igualar crimes comuns a crimes políticos, o que benefi-


cia, sem dúvidas, aos militares.
Apesar dos argumentos não somente do Conselho Federal da
Ordem dos Advogados do Brasil, como também dos Amicus Curiae
permitidos no processo, além de toda a pressão e motivação advinda
da sociedade cívica, o Supremo Tribunal Federal pugnou pela cons-
titucionalidade da Lei de Anistia, por 7 votos a 2, seguindo abaixo
transcrição da Ementa:

EMENTA: LEI N. 6.683/79, A CHAMADA “LEI DE


ANISTIA”. ARTIGO 5º, CAPUT, III E XXXIII DA CONS-
TITUIÇÃO DO BRASIL; PRINCÍPIO DEMOCRÁTICO
E PRINCÍPIO REPUBLICANO: NÃO VIOLAÇÃO.
CIRCUNSTÂNCIAS HISTÓRICAS. DIGNIDADE DA
PESSOA HUMANA E TIRANIA DOS VALORES. INTER-
PRETAÇÃO DO DIREITO E DISTINÇÃO ENTRE TEXTO
NORMATIVO E NORMA JURÍDICA. CRIMES CONEXOS
DEFINIDOS PELA LEI N. 6.683/79. CARÁTER BILATE-
RAL DA ANISTIA, AMPLA E GERAL. JURISPRUDÊN-
CIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NA SUCES-

43
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de descumprimento de preceito
fundamental nº 153 (ADPF 153). Tribunal Pleno. Rel. Min. Eros Roberto Grau.
Julgado em 29/04/2010. Disponível em: <www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticianoticiastf/
anexo/adpf153.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2015.
184 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

SÃO DAS FREQUENTES ANISTIAS CONCEDIDAS, NO


BRASIL, DESDE A REPÚBLICA. INTERPRETAÇÃO
DO DIREITO E LEIS-MEDIDA. CONVENÇÃO DAS
NAÇÕES UNIDAS CONTRA A TORTURA E OUTROS
TRATAMENTOS OU PENAS CRUÉIS, DESUMANOS
OU DEGRADANTES E LEI N. 9.455, DE 7 DE ABRIL DE
1997, QUE DEFINE O CRIME DE TORTURA. ARTIGO
5º, XLIII DA CONSTITUIÇÃO DO BRASIL. INTERPRE-
TAÇÃO E REVISÃO DA LEI DA ANISTIA. EMENDA
CONSTITUCIONAL N. 26, DE 27 DE NOVEMBRO DE
1985, PODER CONSTITUINTE E “AUTO-ANISTIA”.
INTEGRAÇÃO DA ANISTIA DA LEI DE 1979 NA NOVA
ORDEM CONSTITUCIONAL. ACESSO A DOCUMEN-
TOS HISTÓRICOS COMO FORMA DE EXERCÍCIO DO
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

DIREITO FUNDAMENTAL À VERDADE.44

De acordo com o entendimento do Ministro Relator Eros


Roberto Grau, a Lei de Anistia foi inserida e, consequentemente,
recepcionada pela nova Constituição Federal de 1988, não sendo
possível a revisão da referida lei, permanecendo, no entender do mi-
nistro, bilateral, atingindo tanto os militares como a população que
lutou contra a Ditadura Militar45.

44
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de descumprimento de preceito
fundamental nº 153 (ADPF 153). Tribunal Pleno. Rel. Min. Eros Roberto Grau.
Julgado em 29/04/2010. Disponível em: <www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticianoticiastf/
anexo/adpf153.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2015.
45
Neste sentido: [...] 2. O argumento descolado da dignidade da pessoa humana
para afirmar a invalidade da conexão criminal que aproveitaria aos agentes políticos
que praticaram crimes comuns contra opositores políticos, presos ou não, durante
o regime militar, não prospera. 3. Conceito e definição de “crime político” pela
Lei n. 6.683/79. São crimes conexos aos crimes políticos “os crimes de qualquer
natureza relacionados com os crimes políticos ou praticados por motivação política”;
podem ser de “qualquer natureza”, mas [i] hão de terem estado relacionados com
os crimes políticos ou [ii] hão de terem sido praticados por motivação política; são
crimes outros que não políticos; são crimes comuns, porém [i] relacionados com
os crimes políticos ou [ii] praticados por motivação política. A expressão crimes
conexos a crimes políticos conota sentido a ser sindicado no momento histórico da
sanção da lei. A chamada Lei de anistia diz com uma conexão sui generis, própria
ao momento histórico da transição para a democracia. Ignora, no contexto da Lei
n. 6.683/79, o sentido ou os sentidos correntes, na doutrina, da chamada conexão
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 185

O Ministro, assim, entendeu que embora a lei traga um concei-


to amplo de crimes políticos, os mesmos devem ser observados de
acordo com o momento histórico vivido no período, ou seja, a tran-
sição da exceção à democracia, de modo que, na sua visão (repita-
-se) a anistia deve continuar sendo ampla, geral e irrestrita46.
A decisão, contrária ao pensamento e a vontade da maioria da
população brasileira, destoa dos preceitos da própria Carta Política
de 1988. Ainda que esta não traga, em tese, disposições autoritárias,
o fato de permitir que a impunidade aos acusados (e em alguns ca-

criminal; refere o que ‘se procurou’, segundo a inicial, vale dizer, estender a anistia
criminal de natureza política aos agentes do Estado encarregados da repressão. 4.
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A lei estendeu a conexão aos crimes praticados pelos agentes do Estado contra os
que lutavam contra o Estado de exceção; daí o caráter bilateral da anistia, ampla
e geral, que somente não foi irrestrita porque não abrangia os já condenados – e
com sentença transitada em julgado, qual o Supremo assentou – pela prática de
crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal. [...] (BRASIL. op.
cit. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticianoticiastf/anexo/
adpf153.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2015.)
46
Neste sentido: “[...] 5. O significado válido dos textos é variável no tempo e no
espaço, histórica e culturalmente. A interpretação do direito não é mera dedução
dele, mas sim processo de contínua adaptação de seus textos normativos à realidade
e seus conflitos. Mas essa afirmação aplica-se exclusivamente à interpretação das
leis dotadas de generalidade e abstração, leis que constituem preceito primário, no
sentido de que se impõem por força própria, autônoma. Não àquelas, designadas
leis-medida (Massnahmegesetze), que disciplinam diretamente determinados
interesses, mostrando-se imediatas e concretas, e consubstanciam, em si mesmas,
um ato administrativo especial. No caso das leis-medida interpreta-se, em conjunto
com o seu texto, a realidade no e do momento histórico no qual ela foi editada,
não a realidade atual. É a realidade histórico-social da migração da ditadura para
a democracia política, da transição conciliada de 1979, que há de ser ponderada
para que possamos discernir o significado da expressão crimes conexos na Lei n.
6.683. É da anistia de então que estamos a cogitar, não da anistia tal e qual uns e
outros hoje a concebem, senão qual foi na época conquistada. Exatamente aquela
na qual, como afirma inicial, “se procurou” [sic] estender a anistia criminal de
natureza política aos agentes do Estado encarregados da repressão. A chamada Lei
da anistia veicula uma decisão política assumida naquele momento – o momento
da transição conciliada de 1979. A Lei n. 6.683 é uma lei-medida, não uma regra
para o futuro, dotada de abstração e generalidade. Há de ser interpretada a partir da
realidade no momento em que foi conquistada. [...]”(BRASIL. op. cit. Disponível
em: <http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticianoticiastf/anexo/adpf153.pdf>.
Acesso em: 30 nov. 2015.)
186 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

sos confessos) praticantes de “crimes políticos” permaneçam sem


a punição merecida, faz com que também ela seja passível ao ocor-
rido durante um dos mais obscuros períodos da história brasileira.
Importante retrato dessa impossibilidade de impunidade pode
ser visto em depoimento do Juiz Federal Guilherme Madeira, titu-
lar da 2ª Vara de Registros Públicos do Foro Central da Comarca da
Capital/SP, que determinou a alteração da certidão de óbito do ex-di-
rigente do PCdoB João Batista Drumond, em que constava trauma-
tismo craniano devido a atropelamento na Avenida Nove de Julho,
modificando o mesmo para não mais constar a Avenida, mas sim o
DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de
Informações de Defesa Interna).
UNINOVE – uso exclusivo para aluno

Ao ser inquirido por reportagem da Ordem dos Advogados


do Brasil, Seccional do Rio de Janeiro, o nobre magistrado afir-
mou que segue o entendimento da Corte Interamericana de Direitos
Humanos, que condenou o Brasil no caso da Guerrilha do Araguaia,
de modo a reconhecer que a autoanistia é impossível em um Estado
Democrático de Direito.

Compartilho da posição pacífica da Corte Interamericana de


Direitos Humanos: auto-anistias são impossíveis de serem
aceitas pelo ordenamento jurídico. Foi o que aconteceu no
Brasil, uma auto-anistia. Daí porque não posso concordar
com sua aplicação nos dias de hoje, especialmente quando
levo em consideração que a corte determinou que o Brasil
revogasse a Lei de Anistia.47

Embora isolado, o posicionamento do Douto Juiz corrobora o


entendimento de que, embora o Supremo Tribunal Federal tenha con-
siderado a Lei de Anistia como apta ao ordenamento jurídico bra-

47
MADEIRA, Guilherme. O que aconteceu no Brasil foi uma auto-anistia.
Seção Tribuna do Advogado da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional
Rio de Janeiro. mar. 2012. Disponível em: <http://www.oabrj.org.br/
materia-tribuna-do-advogado/17423-O-que-aconteceu-no-Brasil-foi-uma-auto-anistia>.
Acesso em: 05 abr. 2014.
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 187

sileiro, a sociedade como um todo está despertando e deixando de


lado o esquecimento, para lembrar de sua própria história, por mais
triste e forte que ela possa ser.
E pela leitura dos dispositivos contidos na Lei de Anistia po-
demos sim verificar esses dois pontos, quais sejam: (i) a autoanistia
foi o principal intuito dos militares, por “medo” das consequências
daquilo que foi provocado por eles próprios; e (ii) promover o es-
quecimento gradual da sociedade com relação aos crimes cometidos
em nome da “Revolução”.

A Lei de Anistia de 1979 teve justamente o intuito de trazer


o esquecimento dos atos praticados durante os duros anos da
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ditadura militar. Ao conceder a anistia como sendo geral e


irrestrita aos perseguidos e exilados políticos, bem como aos
militares, deixou claro sua intenção de enterrar o passado.
Deram a abertura com uma mão, retiraram qualquer possi-
bilidade de punição com a outra.48

Temos, portanto, uma visão clara de que não apenas a menta-


lidade, como também a visão da sociedade, dos magistrados e até
mesmo do Supremo Tribunal Federal após a renovação catedrática
realizada na Corte, as ações neste sentido têm se mostrado cada vez
mais firmes, além da pressão internacional advinda da decisão da
Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Considerações Finais

A Ditadura Militar Brasileira constituiu um dos períodos mais tris-


tes da história recente do País, em que a ilegalidade dos atos e o abu-
so de poder do Estado militar atingiram a sociedade de forma direta.
A negatividade das ações militares atingiu a própria configura-

48
ANDREUCCI, Álvaro Gonçalves Antunes; VIEGAZ, Osvaldo Estrela. Do tabu a
amnésia: a organização da ditadura militar brasileira – rompendo silêncios, revelan-
do informações. In: Encontro Nacional DO CONPEDI; Vladmir Oliveira da Silveira
(Org.). 22, 2014, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação Boiteux, 2014. p. 24.
188 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

ção do Estado, de modo a deixar não a harmonia entre os poderes, mas


sim uma discrepância em que o Executivo se sobrepôs aos demais,
fechando o Congresso e editando atos ou impedindo o Judiciário de
exercer suas funções típicas.
Ambas as questões foram preponderantes à nova Constituição
do Estado a partir da reabertura democrática, em 1979 e posterior-
mente com a Carta Política de 1988, pois foi lastreado por estes acon-
tecimentos recentes que verificamos uma total predisposição legal
primando pelas garantias e direitos fundamentais.
Desde a separação dos poderes, até os princípios reguladores
do próprio Estado se mostram destoantes com o período militar, pro-
curando impedir e demonstrar que os abusos outrora cometidos não
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seriam aceitos nesta nova ordem instituída.


Por este motivo, os direitos fundamentais foram dispostos a
deixar a sociedade resguardada, de que abusos não mais seriam co-
metidos e que a democracia seria baseada em princípios seguros e
concretos, não mais permitindo o abuso de poder por um em detri-
mento dos outros.
Contudo, pudemos analisar um caso específico que chegou ao
Supremo Tribunal Federal e verificar que ainda hoje a ditadura mi-
litar continua a influenciar muitas escolhas e decisões da socieda-
de brasileira.
O julgamento da Lei de Anistia e a decisão de recepção da
mesma pela Corte Suprema não mostra o desejo da sociedade, mui-
to menos do próprio sistema jurídico pátrio, vez que a história en-
contra-se presente para mostrar o quão distante a decisão do STF
está da sociedade.
A “autoanistia” realizada pelos militares foi aceita pelo
Judiciário, o que não significa ter sido aceita pela sociedade, que
cada vez mais cria mecanismo para estudar e encontrar respostas ao
que ocorreu durante aquele período, como a criação da Comissão
Nacional da Verdade e da Lei de Acesso à Informação.
Verificamos diante dessa situação elementos do velho e do novo
convivendo na mesma ordem política e jurídica em que se tenta as-
Arari Vinícius Guimarães e Álvaro Gonçalves Antunes Andreucci - 189

sentar as bases da democracia em ideais que, na realidade, perma-


necem e muito pautados nas velhas práticas ditatoriais.
É certo que muito se aprendeu com a ditadura militar e foi essa
experiência que possibilitou a criação de uma Constituição Federal
pautada em princípios sólidos, tanto para o Estado como para a
sociedade.
O preço pago foi altíssimo e o mínimo que poderia ocorrer é
que estas lembranças não caiam no esquecimento como propõe a Lei
de Anistia, mas sim que a sociedade se lembre dos atos praticados
e, de igual maneira, revise a lei que ainda hoje permite que tortura-
dor e torturado possam conviver como se nada tivesse acontecido.
UNINOVE – uso exclusivo para aluno
190 - Supremo Tribunal Federal e Ditadura Militar (1964-1985):...

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Autores - 193

Autores

Doutor em História do Direito pela Faculdade de Filosofia, Letras e


Ciências Humanas da USP, professor e pesquisador do Programa de
Mestrado da Universidade Nove de Julho (UNINOVE). Professor-
-Tutor do Programa de Educação Tutorial Administração e Direito do
Ministério da Educação da Universidade Nove de Julho (PET/ADi MEC
UNINOVE)
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Bacharel em Direito pela Universidade Nove de Julho (2014). Advogado


em São Paulo.

Licenciada em Letras pela Universidade de Taubaté (UNITAU).


Acadêmica de Direito da Universidade Nove de Julho (UNINOVE).

Licenciada em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de


Mesquita Filho (UNESP). Acadêmica de Direito da Universidade Nove de
Julho (UNINOVE).

Mestre em Direito pelo programa da Universidade Nove de Julho


(UNINOVE). Bacharel em Direito pela Universidade Metodista de
Piracicaba (2003). Advogado em Limeira.

Licenciado em História pelas Faculdades Integradas de Guarulhos


(2009). Bacharel em Direito pela Universidade Nove de Julho (2014).
Advogado em São Paulo.
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