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Prospectiva (Frutal-MG).

Viver em Sociedade.

Dalmo Dallari.

Cita: Dalmo Dallari (2014). Viver em Sociedade. Frutal-MG: Prospectiva.

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Dalmo de Abreu Dallari

Viver em sociedade
2ª edição

Frutal-MG
Editora Prospectiva
2014

4
Copyright 2014 by Dalmo de Abreu Dallari

Capa: Hiago Silva (Editora Ferjal)


Foto de capa: Otávio Luiz Machado
Revisão: o autor
Edição: Editora Prospectiva
Impressão: Editora Ferjal – Tel (17) 3442-6644
__________________________________________________

Dallari, Dalmo de Abreu. Viver em sociedade – Frutal:


Prospectiva, 2014.

ISBN: 978-85-67463-48-3

1. Direitos humanos : Direito público 342.7 (CDU)


2. Sociedade : Sociologia 301 (CDD)

__________________________________________________

Editora Prospectiva
Caixa Postal nº 1, 382000-000 Frutal-MG
E-mail: editoraprospectiva@gmail.com
Tel: (34) 9668-9575

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SUMÁRIO
Nota do Editor.........................................................................6

Apresentação...........................................................................9

Prefácio à 2ª edição...............................................................10

Viver em sociedade...............................................................12

1. Direito à vida.....................................................................11
2. Direito de ser pessoa ........................................................15
3. Direito à liberdade real......................................................18
4. Direito à igualdade de oportunidades................................25
5. Direito à moradia e à terra.................................................29
6. Direito ao trabalho em condições justas............................33
7. Direito de participar das riquezas......................................37
8. Direito à educação.............................................................41
9. Direito à saúde...................................................................46
10. Direito de participar do governo.....................................51
11. Direito de receber os serviços públicos...........................56
12. Direito à proteção dos direitos........................................61

Parte Suplementar.................................................................65
Declaração universal dos direitos do homem........................66
Sugestões para debates..........................................................74
Legendas das fotos................................................................82
Uma pequena biografia do Professor Dalmo Dallari............83

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NOTA DO EDITOR
É com grande prazer que reeditamos o livro Viver em
Sociedade, que é de autoria de um grande jurista brasileiro, o
Professor Dalmo de Abreu Dallari.
A obra, que foi inicialmente publicada pela Editora
Moderna (em 1985), também continua mais recente do que
nunca trinta anos depois, o que nos animou a republicá-la por
entender que poderá fornecer uma contribuição significativa
para o campo dos direitos humanos, da democracia, da
cidadania e tantos outras áreas.
O primeiro contato que tive com o mestre Dalmo
ocorreu no ano de 1994, quando ainda era um jovem
estudante que pretendia prestar vestibular. E o indaguei
através da escrita de uma carta acerca de algumas “dicas” para
quem gostaria de seguir na área de Direito. Além de uma carta
bem recheada de afeto e falando ao coração do então jovem,
também fui presenteado com o livro O que são direitos da
pessoa, cuja dedicatória me chamava de amigo e de “jovem
idealista e consciente”. Não segui na área de Direito mesmo
com a motivação dada por Dalmo, mas pude aprender
bastante sobre os direitos da pessoa, a justiça social, a
fraternidade humana. Fui para a História e a Sociologia,
atuando como pesquisador, professor e agora editor, também.
O livro Viver em sociedade é primoroso,
principalmente por levantar questões ou discutir a vida social
com uma clareza absoluta: “Todos os seres humanos têm o
direito de que respeitem sua vida. E só existe respeito quando
a vida, além de ser mantida, pode ser vivida com dignidade”.
O tema da dignidade humana é analisada ao longo de
toda a obra, inclusive com uma atenção especial à proteção

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dos direitos, o que permite ao leitor compreender como uma
sociedade deve funcionar para atender os mais básicos
princípios das necessidades humanas.
A ética pública, o direito à vida, a participação cidadã e
tantas outras questões analisadas são um estímulo para se
pensar o Brasil na contemporaneidade.
Se a educação para a civilidade é mais necessária do que
nunca (num momento de aumento da criminalidade e da
violência, do consumo de drogas e da apatia política nas
nossas juventudes), então o livro é uma contribuição para
pensarmos o futuro da sociedade, principalmente quando
também são percebidos que os níveis de poluição, de
degradação ambiental e escassez de recursos hídricos
ameaçam a própria vida no planeta nas próximas décadas.
Não posso esconder a alegria de editar o livro do
Professor Dalmo, nem tampouco deixar de manifestar que
temos com isso a oportunidade especial de produzir cidadania
a um conjunto significativo de pessoas que terão acesso à
obra. Com o presente livro a coleção Produzir Cidadania é
iniciada.
As últimas vezes que voltei para visitar a cidade de
Ouro Preto me convenceram que a vida em repúblicas
estudantis é um importante espaço para aprender a viver com
outros seres humanos, inclusive para a saber encontrar o seu
espaço e a exigir os seus direitos perante os outros. Foi
pensando naquelas juventudes que a escolha da cidade para o
lançamento do livro do Professor Dalmo Dallari foi Ouro
Preto. Não somente por sua simbologia para a história do
Brasil e os inúmeros nomes e fatos que marcaram a
resistência à opressão e ao desmando, mas por existir em
Ouro Preto um conjunto de juventudes que podem ser

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potencializadas ainda mais para poderem aumentar sua
contribuição ao nosso País. É preciso aprofundar a formação
para a cidadania e trabalhar melhor o talento deles!
Diante do que expus, então, o que se espera é que a
mensagem sempre positiva e completa do Professor Dalmo
chegue a tantas pessoas como o então jovem Otávio a recebeu
(e que o marca até os dias de hoje). A leitura de Viver em
sociedade é a oportunidade de conhecer a vida e os
ensinamentos do autor, inclusive sua dedicação ao campo da
Educação e do Direito. Boa leitura!

Prof. Me. Otávio Luiz Machado


Editor da Editora Prospectiva

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APRESENTAÇÃO
Dr. Dalmo de Abreu Dallari representa para orgulho da
sociedade brasileira, o exemplo vivo de cidadão virtuoso, que
encarna na sua própria vida os valores que tem fundamentado
toda a sua trajetória na carreira brilhante de educador e jurista.
É reconhecido mundialmente como uma das maiores
autoridades em defesa dos Direitos Humanos, da liberdade, da
Democracia, do respeito à vida, da dignidade do homem e da
solidariedade universal.
Sem exibicionismo e falso moralismo, ele nos ensina,
sem nada cobrar, a trajetória da luta pela conquista dos
Direitos Humanos na História, e nos dias atuais, muitas delas
a ele devidas principalmente, quando se tratam de defender os
direitos dos “iguais” nem sempre tão “iguais” diante da lei.
Seu discurso é coerente com a sua vida, pautada pela
luta em defesa dos Direitos Humanos previstos na Declaração
Universal dos Direito, na Constituição Brasileira e na ordem
jurídica.
É dispensável a apresentação do jurista, nesta obra,
porque ela reflete toda a sua grandeza, dignidade, bravura,
concedendo-lhe o título de “pessoas imprescindíveis” das
quais já falava Bertold Brecht e que o Brasil tem orgulho de
apresentar.

Prof. Dr. Sergio Fumio Miyahara

Professor da Universidade do Estado de Minas Gerais


(UEMG Campus Frutal) e da Faculdade de Frutal (FAF –
Grupo Educacional UNIESP)

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PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Viver em sociedade é uma necessidade essencial de
todos os seres humanos. Nenhum ser humano consegue viver
sozinho, completamente isolado, pois todos precisam dos
outros para satisfazer suas necessidades, sejam elas de
natureza material, como a alimentação ou a necessidade de
cuidados em caso de doença ou de acidente, ou então de
natureza afetiva e espiritual. Mas para obter todos os
benefícios que a vida em sociedade proporciona é preciso que
as pessoas tenham consciência de seus direitos e também de
seus deveres. Para isso é preciso que desde cedo, desde os
primeiros anos de vida, quando começam a viver junto com
outras pessoas, na família, na creche, na escola ou em
qualquer outro lugar em que as pessoas fazem coisas juntas,
brincando, estudando, praticando esporte, trabalhando, ou em
outras atividades, todos tomem consciência de que devem
respeitar os outros, assim como todos têm o direito de serem
respeitados.
Por tudo isso, é muito importante que as pessoas se
lembrem de que viver em sociedade é uma necessidade e um
direito de todos, tendo também a consciência de que todos os
seres humanos têm o mesmo valor, não havendo qualquer
justificativa para que uns pretendam ser melhores do que os
outros, sendo injusta qualquer espécie de discriminação entre
as pessoas. Mas é preciso também que todos estejam
conscientes de que viver em sociedade significa ter a
possibilidade de exercer direitos, mas inclui também muitos
deveres, especialmente o dever de respeitar os outros e de agir
com espírito de solidariedade. Além disso, viver em sociedade
deve ser entendido como uma possibilidade de agir

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racionalmente, jamais usando de violência contra pessoas ou
coisas para fazer protestos ou reclamações. O ser humano é
um ser racional, o que significa que ele deve usar de
inteligência e boa vontade para que a vida em sociedade seja
justa, para que todos vivam em paz.

Professor Dalmo de Abreu Dallari

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VIVER EM SOCIEDADE

A sociedade humana é um conjunto de pessoas ligadas


pela necessidade de se ajudarem umas as outras, a fim de
que possam garantir a continuidade da vida e satisfazer seus
interesses e desejos.
Sem a vida em sociedade, as pessoas não conseguiriam
sobreviver, pois o ser humano, durante muito tempo,
necessita de outros para conseguir alimentação e abrigo. E no
mundo moderno, com a grande maioria das pessoas morando
nas cidades, com hábitos que tornam necessários muitos
bens produzidos pela indústria, não há quem não necessite
dos outros muitas vezes por dia.
Mas as necessidades dos seres humanos não são
apenas de ordem material, como os alimentos, a roupa, a
moradia, os meios de transporte e os cuidados de saúde.
Elas são também de ordem espiritual e psicológica. Toda
pessoa humana necessita de afeto, precisa amar e sentir-se
amada, quer sempre que alguém lhe de atenção e que
todos a respeitem. Além disso, todo ser humano tem suas
crenças, tem sua fé em alguma coisa, que é a base de suas
esperanças.
Os seres humanos não vivem juntos, não vivem em
sociedade, apenas porque escolhem esse modo de vida, mas
porque a vida em sociedade é uma necessidade da natureza
humana. Assim, por exemplo, se dependesse apenas da
vontade , seria possível uma pessoa muito rica isolar-se em
algum lugar, onde tivesse armazenado grande quantidade de
alimentos. Mas essa pessoa estaria, em pouco tempo,
sentindo falta de companhia, sofrendo a tristeza da solidão,
precisando de alguém com quem falar e trocar ideias,

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necessitada de dar e receber afeto. E muito provavelmente
ficaria louca se continuasse sozinha por muito tempo.
Mas, justamente porque vivendo em sociedade é
que a pessoa humana pode satisfazer suas necessidades, é
preciso que a sociedade seja organizada de tal modo que
sirva, realmente, para esse fim. E não basta que a vida
social permita apenas a satisfação de algumas
necessidades da pessoa humana ou de todas as
necessidades de apenas algumas pessoas. A sociedade
organizada com justiça é aquela em que se procura fazer
com que todas as pessoas possam satisfazer todas as
suas necessidades, é aquela em que todos, desde o
momento em que nascem, têm as mesmas oportunidades,
aquela em que os benefícios e encargos são repartidos
igualmente entre todos.
Para que essa repartição se faça com justiça, é preciso
que todos procurem conhecer seus direitos e exijam que
eles sejam respeitados, como também devem conhecer e
cumprir seus deveres e suas responsabilidades sociais.

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1. DIREITO À VIDA

A vida é necessária para que uma pessoa exista. Todos


os bens de uma pessoa, o dinheiro e as coisas que ela
acumulou, seu prestígio político, seu poder militar, o cargo
que ela ocupa, sua importância na sociedade, até mesmo
seus direitos, tudo isso deixa de ser importante quando
acaba a vida. Tudo o que uma pessoa tem perde o valor,
deixa de ter sentido, quando ela perde a vida. Por isso pode-
se dizer que a vida é o bem principal de qualquer pessoa, é
o primeiro valor moral de todos os seres humanos.
Não são os homens que criam a vida. No máximo os
homens são capazes de perceber que em determinadas
condições, quando se juntam certos elementos, a vida começa
a existir. Os cientistas podem até juntar num vidrinho,
numa proveta, os elementos que geram a vida, mas não
conseguem criar esses elementos. Na verdade, nenhum
homem conseguiu inventar ou criar a vida, dominar o
começo da vida.
E como não é capaz de criar a vida de um ser
humano, nenhum homem deve ter o direito de matar outro
ser humano, de fazer acabar a vida de outro homem. A vida
não é dada pelos homens, pela sociedade ou pelo governo, e
quem não é capaz de dar a vida não deve ter o direito de
tirá-la.
É preciso lembrar que a vida é um bem de todas as
pessoas, de todas as idades e de todas as partes do mundo.
Nenhuma vida humana é diferente de outra, nenhuma vale
mais nem vale menos do que outra. E nenhum bem humano é
superior à vida. Por esses motivos não é justo matar uma
pessoa ou muitas pessoas para que alguns homens fiquem
mais ricos ou mais poderosos, para satisfazer as ambições ou

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a intolerância de alguns, nem para que uma parte da
humanidade viva com mais conforto ou imponha ao resto do
mundo seu sistema de vida.
Quando uma pessoa mata outra por ódio, por vingança
ou para obter algum proveito, está cometendo um ato
imoral, está ofendendo o bem maior, a vida, que a nenhum
outro se iguala.
E quando uma pessoa ou um grupo de pessoas mata
alguém, porque a vítima era criminoso ou marginal, está
cometendo, além disso, um grave erro. O homicídio não
resolve problemas individuais ou sociais, mas, longe disso,
é fonte de problemas. Aquele que matou deverá responder
por seu ato homicida e será punido por ele, pois só o
Estado tem o direito e o dever de julgar e punir os
criminosos, dentro da lei e com justiça, retirando o
criminoso do meio da sociedade para ensiná-lo a respeitar
os valores humanos e sociais.
Além desses aspectos, é preciso ter em conta que a
repetição de crimes contra a vida pode gerar a ideia de
que a vida não é um bem muito importante, e com isso
todas as vidas passam a ser menos respeitadas.
A guerra é outra forma extremamente imoral de
atentado contra a vida humana. Na origem das guerras está,
geralmente, a ambição econômica dos que desejam vender
armamentos ou conquistar territórios, a ambição de mando
ou a vaidade dos que pretendem poder político ou, então,
está a intolerância de homens que querem impor aos
outros sua vontade, seus valores, seu sistema político e
econômico.
A guerra é imoral porque sacrifica vidas humanas
com o objetivo de satisfazer interesses mesquinhos. Além
disso tudo, a guerra é imoral porque consome, no comércio

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da morte, quantias elevadíssimas que deveriam ser
utilizadas para a pro- moção da vida.
Outra prática imoral e que atenta contra a vida é o
genocídio, muito em uso atualmente. Entende-se por
genocídio a matança de grupos populacionais com
características diferenciadas, por meios diretos ou indiretos.
O genocídio pode ser motivado por ódio racial ou por
interesses políticos ou econômicos:
Um caso escandaloso de genocídio é o que está
acontecendo agora com os índios brasileiros. Sendo um
grupo minoritário e pobre na sociedade brasileira, os índios
estão sendo expulsos de suas terras com a desculpa de que
estas são necessárias para o desenvolvimento econômico.
O que realmente acontece é que há poucos anos se
descobriu que, se os ladrões aventureiros tivessem a ajuda de
pessoas ligadas ao governo, seria muito fácil tomar as
terras que há séculos são ocupadas pelos índios. Ao
mesmo tempo, por meio de estudos realizados com o uso
de satélites equipados com aparelhos de grande alcance,
foi revelado que existem muitas riquezas minerais no solo e
no subsolo dos territórios indígenas. Começou aí a matança
dos índios para que as terras hoje ocupadas por eles sejam
dadas de presente aos aventureiros. Assim está ocorrendo
a morte de uma raça. Isso é um genocídio, pois é o
assassinato de um grupo racial.
Muitos outros atentados contra a vida humana estão
ocorrendo todos os dias, quase sempre pela ambição sem
limites de alguns homens, que provocam a morte de outros
com o objetivo de ganhar dinheiro. A poluição provocada
por muitas indústrias e pelo uso de venenos e substâncias
tóxicas na agricultura é bem um exemplo de agressão à
vida.

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Assim também a situação de pobreza em que são
obrigadas a viver milhões de pessoas é um atentado
contra a vida. A morte não ocorre de um momento para
outro mas essas pessoas estão morrendo rapidamente, um
pouco por dia, por falta de alimentos, de assistência
médica e de condições mínimas para a conservação da
vida.
O mesmo acontece com os trabalhadores que são
obrigados a trabalhar em condições perigosas ou muitos
prejudiciais à saúde. Sua vida não está sendo respeitada,
pois mediante o pagamento de um salário o empregador
fica com o direito de exigir que eles arrisquem a vida
constantemente ou vivam num ambiente de trabalho que
apressará sua morte.
O respeito à vida de uma pessoa não significa apenas
não matar essa pessoa com violência, mas também dar a
ela a garantia de que todas as suas necessidades
fundamentais serão atendidas. Toda pessoa tem
necessidades materiais, as necessidades do corpo, que se
não forem plenamente atendidas levarão à morte ou a uma
vida incompleta, que não se realiza totalmente e que já é
um começo de morte. Assim, também, as pessoas têm
necessidades espirituais, como a necessidade de amor, de
beleza, de liberdade, de gozar do respeito dos semelhantes,
de ter suas crenças, de sonhar, de ter esperança.
Todos os seres humanos têm o direito de que
respeitem sua vida. E só existe respeito quando a vida,
além de ser mantida, pode ser vivida com dignidade.

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2. DIREITO DE SER PESSOA
Para que um ser humano tenha direitos e para que
possa exercer esses direitos, é indispensável que seja
reconhecido e tratado como pessoa. Isso deve acontecer
com todos os seres humanos.
Reconhecer e tratar alguém como pessoa é respeitar
sua vida, mas exige que também seja respeitada a
dignidade, própria de todos os seres humanos. Nenhuma
pessoa deve ser escrava de outra, nenhum homem deve ser
humilhado ou agredido por outro, ninguém deve ser
obrigado a viver em situação de que se envergonhe perante
os demais, ou que os outros considerem indigna ou imoral.
Antes de tudo, como exigência para viver com
dignidade, a toda pessoa humana deve ser garantido o
direito de ter um nome e de ser conhecida e respeitada por
esse nome. O nome identifica a pessoa e faz parte de sua
personalidade. Por esses motivos o direito ao nome está
contido no direito de ser pessoa. Todo ser humano tem o
direito de não ser agredido ou ferido por outro. Esse é o
direito à integridade física. Em qualquer situação, mesmo
que esteja preso por ter cometido um crime, o ser humano
deve ter respeitada a integridade de seu corpo. Assim
como não deve ser tolerado que uma pessoa agrida outra,
por qualquer motivo, quando as duas estão livres e
podem defender-se , com mais razão não se pode admitir que
um policial pratique violência física contra um preso , que
não tem como se defender.
Quando se fala em respeito à integridade física de
uma pessoa, a primeira ideia que se tem é de que não deve
ser tolerada a violência direta e intencional. Mas é preciso
ter em conta que há muitas situações em que uma pessoa

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pode causar prejuízo físico a outra, sem que a agressão cause
a revolta de outras pessoas e mesmo sem que muitos
percebam que está havendo uma violência.
Aqui também é preciso lembrar as condições de vida e
de trabalho. Muitas vezes uma pessoa é obrigada a viver ou
trabalhar em condições que acarretam grande prejuízo físico,
ou por que a falta de alimentos ou de cuidados de higiene e
saúde causam doenças e o enfraquecimento físico, ou
porque a falta de segurança sujeita a pessoa a sofrer
acidentes e a perder sua capacidade física. Em todas essas
situações, não está sendo respeitado o direito à integridade
física das pessoas.
Igualmente grave é o sofrimento psíquico ou moral
imposto a uma pessoa. Nesses casos, geralmente, poucos
percebem que está havendo uma violência e que não se está
respeitando a dignidade humana, mas os efeitos da
agressão podem ser até mais graves do que aqueles
provocados por uma violência física.
Considere-se, por exemplo, a situação de uma criança
que é repreendida ou castigada com muito rigor ou
injustamente, ou que é ridicularizada perante outras
crianças ou na frente de adultos. Mais do que o sofrimento
físico, ou independente dele, essa criança sentirá um grande
sofrimento espiritual, que poderá durar muito tempo e até
pela vida inteira.
Esse mesmo sofrimento psicológico e moral será
imposto ao empregado que for tratado de modo grosseiro e
desrespeitoso por seu empregador ou por seus superiores.
O relacionamento respeitoso deverá ser observado entre
professores e alunos, bem como entre qualquer pessoa que
presta um serviço e os que recebem o serviço, pois a

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vítima do desrespeito estará sofrendo uma agressão moral e
psicológica.
As agressões dessa espécie são mais comuns nas
situações em que alguém ou tem uma posição de
autoridade pública ou pode exigir a obediência de outros.
O abuso da autoridade, a atitude arrogante de quem manda,
a imposição de humilhação aos subordinados, tudo isso
caracteriza agressão psicológica ou moral e, portanto,
desrespeito ao direito de ser pessoa.
Esse mesmo desrespeito está presente em todas as
situações sociais em que alguém é obrigado a ficar em
posição humilhante ou de inferioridade moral perante
outras pessoas. Isso acontece, por exemplo, quando uma
pessoa é forçada a viver em tal estado de pobreza que
precisa mendigar para obter alimentos e outros bens
essenciais para a sobrevivência ou a vida em sociedade.
A mesma coisa se verifica quando pessoas e famílias
são obrigadas, por sua pobreza, a morar em favelas ou
cortiços, a se vestir com roupas esfarrapadas e a revelar,
em cada situação, que são muito mais pobres do que as
outras. As pessoas que sofrem essa forma de agressão
podem não demonstrar revolta, mas seu sofrimento
psicológico e moral existe. Elas sabem que são tratadas
como inferiores e sofrem com isso.
Outras formas de ofensa ao direito de ser pessoa são
os preconceitos e as discriminações sociais. Essa ofensa
ocorre quando alguém é tratado como inferior ou não é
admitido em algum lugar por causa de sua raça, sua cor,
suas crenças, suas ideias ou sua condição social.
No Brasil, atualmente, há uma ofensa ao direito de
ser pessoa que vem sendo praticada em muitos lugares,
todos os dias, como se fosse coisa normal. Essa ofensa
está no fato de que todas as pessoas são tratadas como

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suspeitas, como desonestas, como possíveis criminosas,
sempre que vão fazer algumas compras e querem pagar
com cheque. O comprador é obrigado a exibir documentos
de identidade e a provar que não está pretendendo enganar
e prejudicar o vendedor. Essa mesma prova é exigida em
muitas repartições públicas, em bancos e em grandes
empresas. Todos são tratados como suspeitos até que
provem o contrário.
Esse procedimento é consequência do fato de que o
Brasil teve vários governos militares, que viam em cada
brasileiro um provável inimigo. Mas é uma grave ofensa
ao direito de ser pessoa.
Não existe respeito à pessoa humana e ao direito de
ser pessoa se não for respeitada, em todos os momentos, em
todos os lugares e em todas as situações a integridade física,
psíquica e moral da pessoa. E não há qualquer justificativa
para que umas pessoas sejam mais respeitadas do que outras.

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3. DIREITO À LIBERDADE REAL
A Declaração Universal dos Direitos Humanos diz
que todas as pessoas nascem livres. A mesma coisa foi dita
por muitos filósofos e estudiosos da natureza e do
comportamento dos seres humanos. Essa é uma afirmação
muito importante, pois quer dizer que a liberdade faz parte
da natureza humana. Por esse motivo o direito à liberdade
não pode ser tirado dos seres humanos, porque sem
liberdade a pessoa humana não está completa.
Para que se diga que uma pessoa tem o direito de ser
livre, é indispensável que essa pessoa possa tomar suas
próprias decisões sobre o que pensar e fazer e que seus
sentimentos sejam respeitados pelas outras .
O direito de ser livre deve existir, portanto, no plano
da consciência. Ninguém é livre se não pode fazer sua própria
escolha em matéria de religião, de política ou sobre aquilo
em que vai ou não acreditar, ou se é forçada a esconder
seus sentimentos ou a gostar do que os outros gostam,
contra sua vontade. Assim sendo, a liberdade de
pensamento, de opinião e de sentimento faz parte do direito
à liberdade, que deve ser assegurado a todos os seres
humanos.
Mas o direito de ser livre não deve ser limitado
apenas ao pensamento e ao sentimento das pessoas. É preciso
que também em assuntos de ordem prática, naquilo que as
pessoas fazem em sua vida diária, esse direito seja
respeitado. Para que uma pessoa tenha o direito de ser livre
é necessário que possa escolher o seu modo de vida e
planejar o seu futuro. É indispensável, também, que possa
escolher uma profissão de acordo com seu gosto e sua
capacidade, que possa constituir uma família e viver com

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ela, que possa, enfim, tomar suas próprias decisões sobre
todos os assuntos de seu interesse.
Muitas vezes tem acontecido que um indivíduo ou
um governo procure tirar a liberdade de muitas pessoas, ou
controlar a vida e o comportamento dessas pessoas,
alegando que elas não estão preparadas para agir livremente
ou que o excesso de liberdade de uns prejudica os
interesses de outros. É isso que fazem os regimes políticos
chamados totalitários, como as ditaduras, ou os regimes
autoritários. Eles deixam as pessoas agirem livremente
quando se trata de assunto de pouca importância, mas não
deixam as pessoas escolherem livremente o governo ou
outras coisas muito importantes.
Na realidade, o que é prejudicial é tirar das pessoas
o direito de serem livres, pois a liberdade, sendo uma
exigência da própria natureza humana, não acarreta
prejuízos ou maldades. O que muitas vezes tem trazido
prejuízo é a falsa liberdade, é o abuso que certas pessoas
cometem com a desculpa de que podem fazer tudo porque
são livres.
Quando alguém vai exercer o direito de liberdade
não pode esquecer que todas as pessoas humanas têm o
mesmo direito. Os seres humanos não vivem isolados, não
vivem sozinhos, porque a própria natureza humana exige
que vivam junto com os semelhantes .
Por esse motivo é errado dizer que cada um deve
procurar para si o máximo de liberdade, sem se preocupar
com a liberdade dos outros. Mas é igualmente errado dizer
que a liberdade de cada um termina onde começa a do outro,
pois todos exercem juntos os seus direitos de liberdade, e a
liberdade de cada um está entrelaçada com a dos demais
seres humanos.

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Assim, também, não se pode aceitar o argumento de
que existem pessoas que não sabem usar sua liberdade.
Sendo uma necessidade natural da pessoa humana a
liberdade é como a respiração: não pode ser suprimida
nem controlada por outros. O que pode acontecer é que
uma pessoa não esteja suficientemente informada ou
esclarecida no momento de fazer alguma escolha
importante. Nesse caso, o que os outros devem fazer é dar
a informação ou o esclarecimento para possibilitar a
escolha livre e não suprimir a liberdade.
É preciso, finalmente, que o direito à liberdade não
seja um faz-de-conta, que ao afirmar que as pessoas têm o
direito de agir com liberdade sejam assegurados os meios
para que essas pessoas possam ser livres.
Quando uma pessoa escolhe alguma coisa contra a
sua vontade, porque tem medo dos poderosos ou porque sua
pobreza a obriga a fazer o que os outros querem , não existe
liberdade . Nesse caso, a existência das leis afirmando que
todos têm o direito à liberdade é uma hipocrisia, desmentida
pela realidade. E ninguém deve conformar-se com uma
situação em que se negue à pessoa humana o direito de ser
livre.

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4. DIREITO A IGUALDADE DE
OPORTUNIDADES
Há quase dois mil anos o Cristianismo vem pregando
que os seres humanos são todos iguais. A Declaração
Universal dos Direitos Humanos também afirma isso,
dizendo no seu preâmbulo que todos os seres humanos
nascem iguais em dignidade e direitos. Em quase todas as
Constituições do mundo está escrito que todos são iguais
perante a lei.
Pois apesar de todas essas afirmações, repetidas e
reforçadas por muitos filósofos e pensadores políticos, o
que se vê na realidade é que as pessoas são tratadas como
desiguais. As próprias leis garantem a desigualdade, e nos
\
costumes de quase todos os povos encontram-se muitas
práticas baseadas na desigualdade, podendo-se ver
claramente que em grande número de situações as pessoas
não são tratadas como iguais.
Essas leis e esses costumes já se acham tão arraigados
que quase todas as pessoas consideram normal o
tratamento desigual. E existem mesmo pessoas que falam e
escrevem que todos são iguais e não percebem que, na
prática, agem como se os seres humanos nascessem e
continuassem desiguais.
Para perceber e corrigir essas contradições é preciso,
em primeiro lugar, compreender o que significa afirmar que
todos nascem iguais. É evidente que as pessoas nascem
fisicamente desiguais, sendo diferentes nas feições, no
tamanho, na cor da pele e em inúmeras outras
características físicas. Não é, portanto, essa igualdade que se
está afirmando.

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Quando se diz que todos os seres humanos nascem
iguais, o que se está afirmando é que nenhum nasce
valendo mais do que outro. Como seres humanos, todos
são iguais, não importando onde nasçam, quem sejam seus
pais, a raça a que pertençam ou a cor de sua pele.
Se todos nascem iguais, valendo a mesma coisa, como
se explica que uns já nasçam muito ricos, tendo toda
assistência, proteção e conforto, enquanto outros nascem
miseráveis, mal podendo sobreviver, sem cuidados médicos
e sem a certeza de que terão os próprios alimentos
indispensáveis à vida? Como justificar essa diferença de
situações e de possibilidades, se no momento em que
nascem as crianças são iguais e não existe como saber o
que cada uma fará de bem ou de mal, de útil ou de inútil,
durante sua vida?
Aí está, justamente, a principal diferenciação
estabelecida pela sociedade contra a natureza, acarretando
consequências para a vida inteira das pessoas. Os seres
humanos nascem iguais, mas a sociedade os trata, desde o
começo, como se fossem diferentes, dando muito mais
oportunidades a uns do que a outros. E isso é apoiado pelas
leis e pelos costumes, que agravam ainda mais o tratamento
desigual e criam grande número de barreiras para que aquele
que foi tratado como inferior desde o nascimento consiga
uma situação melhor dentro da sociedade.
Assim, por exemplo, um menino que nasce numa
favela é igual ao que nasce numa família rica e vale o mesmo
que este, mas dificilmente o favelado conseguirá boa
alimentação e boas escolas e desde cedo será tratado como
um marginal. Essa discriminação irá acompanhá-lo pela vida
inteira. Fica bem evidente, portanto, que um menino nascido
numa favela não tem o direito à igualdade de

27
oportunidades, embora a própria lei diga que todos são
iguais.
Mas não é só por nascer na pobreza que muitas
pessoas são tratadas como inferiores às outras. É negado
o direito à igualdade em todos os casos de discriminação
social e de preconceito de raça, de cor e de sexo. Quando
alguém é impedido, direta ou disfarçadamente, de se
hospedar num hotel, de permanecer num restaurante ou de
frequentar um clube por causa de sua cor ou de sua raça,
está sendo negado o direito à igualdade. O mesmo se dá
quando, antes mesmo de conhecer uma pessoa, de verificar
seus costumes e comprovar sua capacidade, outras pessoas
julgam que ela será mal-educada, ignorante ou
incompetente, baseando-se apenas na raça, na cor ou no
sexo da pessoa discriminada.
Assim, pois, todas às vezes em que uma pessoa é
vítima de preconceitos, ocorre a negação do direito à
igualdade. É por isso que a Organização das Nações Unidas
condena os preconceitos, e em muitos países existem leis
proibindo que as pessoas sejam tratadas como inferiores por
motivo de raça, de cor ou de sexo. Essas leis procuram
garantir para todas as pessoas o direito à igualdade, partindo
da ideia de que todos nascem iguais e são naturalmente
iguais.
Mas a experiência tem demonstrado que adianta
muito pouco a lei dizer que todos são iguais e proibir que
umas pessoas sejam tratadas como inferiores às outras se não
for garantida a igualdade de oportunidades para todos desde o
nascimento. Com efeito, quando uns nascem ricos e outros
pobres, as oportunidades são muito diferentes e por isso as
pessoas se tornam socialmente diferentes, desprezando-se a
igualdade natural.

28
Não basta afirmar que todas as pessoas são iguais por
natureza. Para que essa afirmação tenha resultados práticos
é preciso que a sociedade seja organizada de tal modo que
ninguém seja tratado como superior ou inferior desde o
instante do nascimento. É preciso assegurar a todos, de
maneira igual, a oportunidade de viver com sua família, de
ir à escola, de ter boa alimentação, de receber cuidados de
saúde, de escolher um trabalho digno, de ter acesso aos bens
e serviços, de participar da vida pública e de gozar do
respeito dos semelhantes.
Todas as pessoas nascem iguais em dignidade, e nada
justifica que não sejam dados os mesmos direitos a todos .
Todos têm igual direito ao respeito das outras pessoas, e
nada justifica que não tenham, desde o começo, as mesmas
oportunidades .

29
5 . DIREITO À MORADIA E À TERRA

A moradia é uma necessidade essencial dos seres


humanos. Desde os tempos mais antigos de que se tem
notícia, até os dias de hoje, sempre o homem procurou um
lugar para morar, tanto podendo ser uma simples caverna,
uma choça ou uma cabana, como uma casa luxuosa, de
acordo com a época, o lugar e as possibilidades
econômicas de cada um. Essa procura é consequência de
uma necessidade, não de um capricho, e por isso se deve
assegurar a todos os seres humanos o direito à moradia. É
na moradia que a pessoa humana encontra o seu abrigo,
tanto para se defender do frio, do calor, da chuva, dos
animais ferozes ou nocivos e de todos os rigores da
natureza, quanto para se defender dos perigos e pressões
da vida social. É na moradia que os seres humanos
guardam e preparam os alimentos indispensáveis à
sobrevivência e é na moradia que depositam ou recebem a
água, outro bem essencial da vida . Só isso já bastaria para
que se reconhecesse o direito de moradia como fundamental
para a pessoa humana.
A moradia é também um lugar de repouso físico e
espiritual para os seres humanos. O homem, como todos os
animais, tem necessidade de repousar para continuar
vivendo. Mesmo as pessoas mais dinâmicas e que mais
apreciam a convivência com grupos humanos necessitam
de repouso e por isso têm necessidade da moradia. Assim
acontece também com as pessoas que se dedicam à vida
pública. Além da exigência física de sono e de descanso,
elas necessitam de horas de tranquilidade e de recolhimento
espiritual. Nenhum ser humano conseguirá manter-se em
atividade permanentemente nem poderá refazer sua energia

30
física e preservar sua capacidade mental sem algumas horas
diárias de repouso do corpo e do espírito. Por esses motivos,
a todos os seres humanos deve ser garantido o direito à
moradia.
Para cumprir suas finalidades, a moradia deve ser
digna, condizente com as exigências da natureza humana,
devendo ser bem melhor do que o abrigo precário e
rudimentar de um animal irracional. A moradia deve ter a
·marca do ser humano que a utiliza, refletindo suas
necessidades, seus gostos, suas crenças e seus valores.
Assim, pois, a moradia deve proporcionar o conforto
e a proteção reclamados pelo corpo humano. Mas deve
também oferecer condições para satisfação das
necessidades espirituais dos seres humanos. Ela deve ser
um lugar onde o morador possa encontrar repouso
espiritual, possa cultivar suas crenças, ter condições para a
reflexão e para a expansão de suas necessidades estéticas e
afetivas.
A moradia deve ser, ainda, um lugar de recolhimento,
no qual a intimidade do ser humano e da família seja
resguardada, sem interferência das autoridades ou de
particulares, e sem exposição à curiosidade pública.
A par disso tudo é preciso que a moradia seja
assegurada à pessoa em caráter permanente. Não está
garantido o direito à moradia quando, por decisão arbitrária
de alguém, o morador pode ser posto fora a qualquer
tempo. Também não existe respeito ao direito à moradia
quando uma pessoa ou uma família podem ser atirados à rua
e ao desabrigo porque não puderam, apesar de seus esforços,
e por motivos alheios à sua vontade, continuar pagando
pela moradia.

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Assim, pois, é necessário que as pessoas possam
morar dignamente e com razoável conforto, de tal modo que
as condições da moradia sejam boas e que haja nas
proximidades tudo o que é indispensável para atendimento
das necessidades básicas de uma pessoa e de sua família. É
preciso, também, que o morador tenha fácil acesso ao local
de trabalho, a fim de que possa permanecer bastante tempo
convivendo com a família e repousando e para que não seja
forçado a gastar com transporte uma grande parte de sua
remuneração.
Na sociedade brasileira atual o direito à moradia não
está assegurado, especialmente nas cidades médias e
grandes. O alto custo dos imóveis impede que muitas
pessoas se tornem proprietárias. Existem muitos terrenos
vagos, e o número de casas é insuficiente para a quantidade
de pessoas e de famílias, e por isso os aluguéis são muito
altos e aumentam mais que os salários. Por esses motivos ,
existem tantas favelas e tantos cortiços, onde vivem
pessoas amontoadas, sem nenhum conforto e sem a
possibilidade de cuidados de higiene. É preciso dar
condições a essas pessoas para viverem com dignidade. É
preciso dar a elas o direito de morar.
Para os que trabalham no campo e não são
proprietários da terra, o problema da moradia é também
muito importante. Hoje existem muitos trabalhadores
rurais morando em favelas nas cidades e sendo
transportados diariamente em caminhões, sem conforto e
segurança, para o local de trabalho. E ali permanecem o dia
todo, alimentando-se mal, sem a possibilidade de uma vida
familiar, só retornando para a favela à noite, para sair de
novo na madrugada seguinte.

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O modo melhor e mais justo de assegurar o direito de
moradia aos trabalhadores do campo será dar condições
para que cada um seja dono da terra em que trabalha.
Quando cada trabalhador ou cada grupo de famílias de
trabalhadores tiver sua própria terra, eles viverão melhor e
cuidarão de sua moradia. Enquanto não se chega a esse
ponto, é indispensável procurar outros meios de garantir a
essas pessoas o direito de morar. Uma solução será
reservar sempre um pedaço da terra para moradia dos que
nela trabalharem. Mas a moradia deverá ser digna e
confortável, com as mesmas condições que devem ser
oferecidas aos trabalhadores das cidades, inclusive com
escolas, cuidados de saúde e oportunidades de lazer e
recreação. E quando o proprietário da terra não quiser
reservar uma parcela para moradia de seus trabalhadores,
deverá contribuir para que estes morem dignamente na
cidade.
Deve ser assegurado a todas as pessoas, não apenas
em palavras, mas concretamente, o direito à moradia, sem
o qual nenhum ser humano poderá satisfazer todas as suas
necessidades materiais e espirituais.

33
6. DIREITO AO TRABALHO EM
CONDIÇÕES JUSTAS
O trabalho permite à pessoa humana desenvolver sua
capacidade física e intelectual, conviver de modo positivo
com outras pessoas e realizar-se integralmente como pessoa.
Por isso, o trabalho deve ser visto como um direito de
todo ser humano.
Mas o trabalho é, ao mesmo tempo, o modo pelo qual
cada pessoa expressa a solidariedade devida às demais
pessoas, é o meio através do qual cada um dá sua
retribuição por tudo o que recebe dos demais. Visto deste
ângulo, o trabalho é um dever de toda pessoa humana.
Todas as atividades que contribuam para melhorar a
qualidade de vida das pessoas, aumentando o bem-estar
material, proporcionando satisfação estética, favorecendo o
equilíbrio psicológico e propiciando a paz espiritual, são
dignas e úteis. Assim, todos os trabalhadores são igualmente
merecedores de respeito, seja qual for o trabalho que
executem, pois todos contribuem para que as outras pessoas
tenham atendidas suas necessidades básicas e possam viver
melhor.
Em muitas sociedades, são mais valorizados os que
realizam trabalhos intelectuais, gozando de menor prestígio
social os que se dedicam a trabalhos físicos. De modo geral,
entretanto, essa diferenciação já não é tão evidente como
foi até há pouco, sendo outros os critérios para a conquista
de prestígio e de melhor retribuição.
Assim, por exemplo , na sociedade brasileira gozam de
situação mais vantajosa os banqueiros e dirigentes de
instituições financeiras, os empresários industriais e
comerciais e os que atuam com evidência nos esportes

34
profissionais e nas atividades recreativas. Trabalhos
tipicamente intelectuais, como o do professor e do escritor,
são muito mal remunerados e não asseguram especial
consideração perante a sociedade, que nos últimos anos foi
condicionada a valorizar mais as pessoas que demonstram ter
conseguido maior sucesso econômico. O preparo intelectual
e a contribuição para o bem da humanidade são quase
irrelevantes, valendo mais a capacidade para ganhar dinheiro
e acumular riqueza, o que é absurdo, pois geralmente quem
mais acumula riqueza é menos útil aos outros seres humanos.
Numa organização social justa, não se pode admitir
que, haja grande diferença de nível entre os trabalhadores de
qualquer espécie. Todo trabalho socialmente útil é digno e
merecedor de respeito, não sendo admissível que uma
pessoa valha mais ou valha menos do que outra por causa
da natureza do trabalho que cada uma executa. Assim, pois, o
que importa não é a natureza do trabalho, mas a utilidade
social que dele resulta, jamais se justificando grande
diferença de remuneração entre um trabalho e outro.
Sendo necessário para a preservação e a promoção da
dignidade humana, tanto daquele que o realiza como dos que
recebem seus benefícios, o trabalho deve ser livre. Toda
pessoa humana deve ter liberdade para escolher seu trabalho.
Quando alguém é obrigado, pela força, a executar
determinada tarefa, não se pode dizer que esteja sendo
realizado um trabalho. O que está ocorrendo é a imposição
de um castigo ou de uma coação que humilha e degrada o ser
humano. Por esses motivos, a Declaração Universal dos
Direitos Humanos condena a escravidão, e esta é considerada
crime em grande número de países. Outro aspecto importante
relacionado com o direito ao trabalho é o que se refere às
condições em que este se realiza. Muitos trabalhos são
reconhecidos como perigosos porque põem em risco a

35
integridade física ou mesmo a vida do trabalhador. Nesse
caso, é indispensável que se procure reduzir quanto possível o
risco existente e, assim mesmo, só se realizando o trabalho se
ele for mesmo necessário para a sociedade. Muitas vezes, um
trabalho é executado com grande risco porque o
empregador ou contratante do trabalho quer obter maior
lucro e determina a execução pelo modo mais perigoso ou sem
dar ao trabalhador a proteção que poderia ser dada. Isso é
injusto.
Existem outros trabalhos que são realizados em condições
insalubres, sujeitando os trabalhadores a doenças ou a
consequências maléficas para o seu organismo. Também nesse
caso não é justo deixar de reduzir a insalubridade ou de
oferecer a maior proteção ao trabalhador só para obter uma
produção mais barata e ganhar mais dinheiro. Assim também ,
não é justo determinar que se realize um trabalho insalubre se
ele não for necessário ou, pelo menos, muito útil para a
sociedade.
Nesses dois casos, o do trabalho perigoso e o do insalubre,
é frequente que os contratantes do trabalho procurem afastar
suas responsabilidades, afirmando que ninguém é obrigado a
realizar esses trabalhos , só os aceitando quem quiser. O fato é
que muitos trabalhadores concordam em correr os riscos ou
aceitar as consequências do trabalho perigoso ou insalubre
porque são pobres, necessitam da remuneração e não
conseguem trabalho melhor.
Outras vezes, empregadores ou contratantes do trabalho
afirmam que não há injustiça porque pagam um salário um
pouco mais elevado quando existe risco excepcional ou as
tarefas devem ser executadas em condições prejudiciais à saúde
do trabalhador. Na realidade, é absurdo admitir que alguém
possa adquirir, mediante pagamento, o direito de prejudicar a
integridade física ou pôr em risco a vida de um trabalhador.

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No Brasil, essas questões são especialmente importantes,
pois de acordo com informações da Organização Internacional
do Trabalho, nosso país é um dos campeões de acidentes de
trabalho no mundo. Isso acontece porque as leis brasileiras dão
às empresas a possibilidade de manterem condições de trabalho
perigosas ou insalubres, mediante o pagamento de um pequeno
acréscimo no salário do trabalhador. E os empresários, mais
preocupados com o lucro do que com as injustiças, preferem
pagar esse acréscimo e não melhorar as condições de trabalho.
Relativamente às condições justas do trabalho, é preciso
considerar o problema da remuneração dos trabalhadores. A
remuneração deve ser justa, o que significa que ela deve
proporcionar aos trabalhadores e suas famílias a possibilidade
de viverem com dignidade, satisfazendo suas necessidades
fundamentais .
A Constituição estabelece que deve ser pago aos
trabalhadores brasileiros um salário mínimo, suficiente para
satisfazer as necessidades básicas do trabalhador e de sua
família. Entretanto, a própria lei fixou um critério de cálculo
segundo o qual só se consideram as necessidades do próprio
trabalhador e não os de sua família. Além disso, o critério
fixado não levou em conta o aumento dos preços das
mercadorias e dos serviços de que os trabalhadores
necessitam. Por isso, está havendo um empobrecimento dos
trabalhadores, que, muitas vezes, ganham menos do que o
necessário para suas necessidades básicas.
O trabalho em condições dignas e seguras, com
remuneração justa, é um direito e um dever de todos os seres
humanos. Existe negação a esse direito quando não são
asseguradas todas essas condições.

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7. DIREITO DE PARTICIPAR
DAS RIQUEZAS
O homem não cria a natureza. O que os seres
humanos fazem, com o seu trabalho, é transformar a
natureza, aproveitando as riquezas da terra e do mar, os
minerais do subsolo, a vegetação, os animais, dando-lhes
utilidade ou procurando satisfazer as necessidades e os
desejos de uma parcela da humanidade. O máximo que o
homem consegue fazer é colaborar com a natureza, criando
condições mais favoráveis para que as riquezas naturais se
reproduzam.
Se a natureza é apenas transformada pelo trabalho
dos seres humanos, como se justifica que alguns se comportem
como donos da riqueza produzida, especialmente quando
foram outros que trabalharam para produzi-la? E como
justificar que alguns utilizem essa riqueza de modo egoísta,
acumulando com exagero e muito acima de suas
necessidades aquilo de que outros têm extrema necessidade
para sobreviver ou para viver com um mínimo de
dignidade?
Não existem documentos ou dados de qualquer
espécie que possam esclarecer como foi que uns homens
começaram a agir como donos da riqueza produzida por
outros. Mas é fácil verificar que a distribuição das riquezas,
como é feita no mundo de hoje, contém muitas injustiças.
Pessoas que não trabalham e nunca trabalharam têm
patrimônio e renda muito elevados, enquanto outras que
sempre trabalharam muito não têm e não conseguem
sequer o essencial para morar, vestir e se alimentar de
acordo com as exigências da dignidade e da natureza
humanas.

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É comum, também, que alguns vivam ostentando
riqueza, gastando muito dinheiro com coisas supérfluas,
desperdiçando bens valiosos para a humanidade, como os
alimentos, com absoluto desprezo pelas necessidades alheias,
visando apenas à satisfação de sua vaidade ou de seus
caprichos. Enquanto isso, outros lutam desesperadamente para
conseguir o mínimo indispensável para não morrer de fome,
de frio ou de doenças consequentes da falta de um mínimo de
bem-estar material.
Há quem procure justificar sua satisfação privilegiada,
de dono de muitas riquezas, afirmando que tudo o que
possuem é fruto de trabalho honesto. Na realidade, porém,
existem muitos casos em que a riqueza acumulada não é
produto de uma atividade honesta. Muitos enriqueceram
enganando outras pessoas, apoderando-se do que não era seu,
usando de modo indevido um cargo público ou uma posição
política, valendo-se de amizades ou corrompendo outras
pessoas para obterem proveito ilícito.
Na realidade, no mundo moderno existe um número
muito grande de situações em que não há qualquer relação
entre a riqueza e o trabalho, situações em que os que
trabalham são pobres e os que nunca trabalharam são ricos.
O exemplo mais acentuado desse desligamento é o
direito de herança. Um recém-nascido que, evidentemente,
nunca trabalhou e não se sabe se virá a trabalhar nem como
irá utilizar sua riqueza, já nasce dono de um grande
patrimônio e já tem assegurada uma renda elevada pelo
simples fato de ser filho de um homem rico. Outro já nasce
pobre, sofrendo privações antes mesmo de nascer e tendo a
perspectiva de uma vida cheia de novas privações e de
sofrimentos, mesmo que trabalhe muito, pelo simples fato de
ser filho de um homem pobre. Nem o rico nem o pobre
podem mostrar virtudes ou falhas morais no momento em

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que nascem. No entanto, sem nenhum mérito ou nenhuma
culpa, um é premiado pelo acaso de ser filho de um rico,
outro é castigado pela circunstância de ser filho de um
pobre.
Mesmo que se suponha que uma criança esteja nascente
na pobreza porque seu pai não é dado ao trabalho, é
evidentemente injusto castigar o recém-nascido e condená-
lo a uma vida de miséria por uma falta que ele não
cometeu. Por outro lado, mesmo admitindo como justo que
um pai procure assegurar a seus filhos um padrão de vida
digno, com possibilidade de acesso a todos os bens e serviços
que a sociedade proporciona, isso não deve significar a
garantia de uma posição social privilegiada, com
superioridade econômica ilimitada e sem qualquer
responsabilidade social.
A solução justa para o problema do direito de
participação nas riquezas existentes e que foram
produzidas só pode ser obtida pela conjugação de várias
medidas. Antes de tudo, é indispensável assegurar a todos
os seres humanos, no momento em que nascem, igual
oportunidade de acesso às riquezas, desde que desenvolvam
atividade socialmente útil. É preciso, também, que não se
admita a excessiva acumulação de riquezas. A
possibilidade de enriquecimento sem limites tem estimulado
a ambição por riquezas materiais, contribuindo para
acentuar o egoísmo de muitas pessoas, que, mesmo sendo
muito ricas, ignoram as necessidades dos pobres e chegam
até a explorá-los deliberadamente, buscando sempre
acumular mais riqueza.
A par disso, é preciso que as pessoas aprendam desde
a infância a não valorizar demais as riquezas materiais. Nas
sociedades modernas, sobretudo onde prevalecem os valores
do capitalismo, os seres humanos são avaliados pela riqueza

40
que possuem. Não importa a origem da riqueza nem o modo
como ela é usada: basta uma pessoa ser rica para ter
grande prestígio social. Isso é injusto, porque muitas vezes
o que tem menor riqueza é infinitamente mais útil à
humanidade e porque o fato de ser rico não é prova de
virtude, como o fato de ser pobre não é prova de culpa.

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8. DIREITO À EDUCAÇÃO
A educação é um processo de aprendizagem e
aperfeiçoamento, por meio do qual as pessoas se preparam
para a vida. Através da educação obtém-se o
desenvolvimento individual da pessoa, que aprende a utilizar
do modo mais conveniente sua inteligência e sua memória.
Desse modo, cada ser humano pode receber conhecimentos
obtidos por outros seres humanos e trabalhar para a
obtenção de novos conhecimentos. Além disso, a educação
torna possível a associação da razão com os sentimentos,
propiciando o aperfeiçoamento espiritual das pessoas.
Por tudo isso, fica evidente a importância da educação
na vida de todos os seres humanos. A educação torna as
pessoas mais preparadas para a vida mas também para a
convivência. Com efeito, a pessoa mais educada tem maior
facilidade para compreender as demais, para aceitar as
diferenças que existem de indivíduo para indivíduo e para
dar apoio ao desenvolvi- mento interior e social das outras
pessoas. Por isso, a educação de cada um interessa a todos.
A educação de uma pessoa começa nos seus
primeiros instantes de vida. Desde o momento em que nasce,
o ser humano começa a receber orientação e treinamento,
aprende a reagir perante situações criadas pela natureza,
pela sociedade e vai adquirindo hábitos, que farão parte de
seu modo de ser. E quando começa a observar o meio em
que está vivendo e a ter possibilidade de tomar decisões,
inicia seu processo de integração na vida social. E daí por
diante cada fato e cada situação exercerão influência sobre
a definição de sua personalidade. A pessoa adulta será o
resultado da educação recebida desde os primeiros
instantes de vida.

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Como se verifica, a educação de uma pessoa começa
na família ou no meio social em que a criança nasceu e
passa a viver . Essa é a chamada educação informal, que é
dada fora da escola, tanto à criança quanto ao adolescente
e ao adulto. Ao lado dessa, existe, ou pelo menos deve
existir, a educação formal, que é dada na escola. Não se pode
dizer que uma seja mais importante do que a outra, pois na
realidade ambas podem ter influência decisiva na vida de
qualquer pessoa.
Até há poucos anos, se considerava que a educação
informal tinha a principal responsabilidade pelo bom
desenvolvimento psicológico das pessoas e por seu preparo
básico para a vida social. Isso porque durante os primeiros
anos de vida, quando a pessoa recebe os ensinamentos
iniciais sobre como se com- portar no relacionamento com
outras pessoas, não existe ainda o contato com a escola.
Depois disso, considerava-se normal que as pessoas
passassem mais tempo com a família do que no ambiente
escolar. Por esses motivos , considerava-se que a escola era
um complemento da família.
Mas no mundo atual, a situação já não é a mesma.
Os sistemas de vida de quase todos os povos deixam pouco
tempo e reduzidas possibilidades para a vida familiar.
Aumentou muito o número de grandes cidades, nas quais a
maioria das pessoas adultas passa a maior parte do dia fora
de casa, além de perder muito tempo com a locomoção. E
mesmo nas cidades menores, já se tornou comum que
quase não exista convivência no lar. Todos esses fatores
reduziram muito a possibilidade de educação informal.
Além disso, aumenta cada vez mais a influência dos
conhecimentos técnicos e científicos, e de outros adquiridos
na escola, sobre o progresso individual e social dos seres

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humanos. E os meios de comunicação de massa,
transmitindo informações e conhecimentos, bem como
sugestões sobre comportamentos, podem ter influência
decisiva na vida das pessoas que não estiverem bem
preparadas para avaliar racionalmente essas transmissões.
Por todas essas razões, tornou-se praticamente
indispensável a boa educação escolar, a fim de que a pessoa
possa desenvolver sua personalidade e esteja bem preparada
para a vida social. É por isso que se inclui o direito à
educação, tanto na família quanto na escola, como um
direito fundamental da pessoa humana.
A possibilidade de receber educação na família e na
sociedade, fora da escola, depende das condições gerais
da vida social. Os valores predominantes na sociedade, as
condições econômicas, os costumes, tudo isso é importante,
mas são formas indiretas de promover a educação e não estão
imediatamente ligadas ao que se costuma chamar de
sistema educacional. Este compreende o conjunto de escolas,
de todos os níveis, em funcionamento no país, num Estado
ou numa cidade.
Para que o sistema escolar possa desempenhar bem
suas funções, que são da máxima responsabilidade, é preciso
que as escolas tenham como objetivo principal dar boa
formação e bom preparo aos alunos. Todos os demais
objetivos devem vir depois desse.
Assim, por exemplo, quando um grupo de pessoas
resolve abrir uma escola e fazer disso o seu meio de vida, é
evidente que precisam cobrar dos alunos, para terem um
bom prédio, com equipamento adequado, para terem bons
professores e para que não falte o material escolar necessário.
Além disso, precisam também do dinheiro para sua própria
subsistência. O que não se pode admitir é que organizem e

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dirijam a escola tendo como principal objetivo ganhar
dinheiro, deixando em posição secundária a preocupação
com a qualidade do ensino.
Outra exigência fundamental é que todos, sem
qualquer exceção, tenham igual oportunidade de educação.
Não basta dizer que todos têm o mesmo direito de ir à
escola, é preciso que tenham também a mesma
possibilidade. Na realidade, não está assegurado para todos
o direito à educação onde não existe escola ou quando não há
escolas suficientes. Não está assegurado esse direito quando
os pais não podem pagar as taxas da escola e comprar os
livros e o material escolar, ou quando a pobreza obriga as
crianças a procurar trabalho muito cedo, não lhes deixando
tempo e disposição para a escola.
Além da manutenção de escolas em quantidade
suficiente, em todos os núcleos habitacionais e dentro das
possibilidades econômicas de todos os que precisam da
educação, é necessário que as escolas tenham igual nível
de qualidade. Não é justo que as escolas da zona rural não
tenham o mesmo equipamento que se encontra na zona
urbana, assim como não é justo que as escolas dos bairros
pobres sejam inferiores, em qualquer sentido, às dos bairros
ricos. Todos devem ter o direito à educação da mesma
qualidade.
A educação básica, para as crianças, deve receber o
máximo apoio, mas os adolescentes e adultos também têm
direito à educação. O sistema escolar deve estar no seu
alcance, de tal modo que seja possível conciliar outras
atividades, como o trabalho e as responsabilidades da
família, com a procura de aperfeiçoamento através de
cursos e outros meios de aprendizagem. Quanto mais
educação a população receber, maior será a possibilidade de

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criação intelectual e, em consequência, de independência do
país.
A educação deve ser prioridade de todos os governos,
pois através dela as pessoas se aperfeiçoam e obtêm
elementos para serem mais úteis à coletividade. Dando-
se bastante apoio à educação, muitos problemas
desaparecerão , porque as pessoas estarão mais preparadas
para a convivência, e haverá maior participação no estudo
e na decisão dos assuntos de interesse comum. É
necessário e justo que os recursos da sociedade sejam
utilizados para estender a todos, de modo igual, o
direito à educação.

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9. DIREITO À SAÚDE
Quando se fala em saúde, a primeira ideia das
pessoas é que se tem saúde quando não se tem doença. E
muitos acham que não adianta querer ter saúde ou querer
que o governo garanta a saúde porque muitas doenças
acontecem por motivos que não dependem da vontade das
pessoas e por isso não podem ser evitadas. Para as pessoas
que pensam desse modo parece estranho falar em direito à
saúde. Será possível que uma pessoa possa ter o direito de
não apanhar uma verminose, de não ter bronquite, de não
ficar tuberculosa, de não ter sarampo?
Antes de tudo, para que se diga que uma pessoa tem
saúde não basta que ela não sofra de alguma doença. Uma
das organizações mais importantes do mundo, especializada
em assuntos de saúde, que é a Organização Mundial de
Saúde, diz que não é suficiente a ausência de doenças.
Para que se diga que uma pessoa tem saúde é preciso que
ela goze de completo bem-estar físico, mental e social. Isso
quer dizer que além de estar fisicamente bem, sem
apresentar sinal de doença , a pessoa deve estar com a
cabeça tranquila, podendo pensar normalmente e relacionar-
se com outras pessoas sem qualquer problema. É preciso
também que a pessoa não seja tratada pela sociedade como
se fosse doente e que possa conviver com as demais em
condições de igualdade e de respeito.
Tudo isso faz parte da saúde. Assim, portanto, o
direito à saúde, que deve ser assegurado a todas as pessoas
de maneira igual, significa o direito de estar livre de
condições que impeçam o completo bem-estar físico,
mental e social. Não será difícil verificar as situações que
mais prejudicam a saúde das pessoas e desse modo

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estabelecer , através de exemplos, o que se deve
compreender por direito à saúde.
Podemos começar verificando as condições do meio
ambiente, isto é, do lugar onde as pessoas vivem, trabalham,
estudam e exercem outras atividades. Para que seja
respeitado o direito à saúde é preciso que o ar seja puro, que
não haja excesso de barulho, que a iluminação não seja fraca
demais ou forte demais, que as pessoas não sejam forçadas
a ficar vendo e ouvindo coisas que achem feias ou
desagradáveis, nem sejam forçadas a suportar mau cheiro ou
sujeira.
As condições da moradia também fazem parte do
direito à saúde. O ser humano precisa da casa como um
abrigo, e é indispensável que possa morar em lugar
confortável, arejado, limpo, com o mínimo necessário para o
seu repouso e para que possa observar os cuidados de
higiene. Quando as pessoas vivem amontoadas em pequeno
espaço, quando não há janelas que assegurem boa
iluminação e ventilação, quando não há banheiro, esgoto,
água corrente de boa qualidade e tudo o mais que é
necessário para que as pessoas possam viver com limpeza
e conforto, não está sendo assegurado o direito à saúde. Por
isso é injusto que muitas pessoas sejam forçadas a morar em
favelas, cortiços, ou mesmo em casas ou apartamentos
minúsculos e mal construídos, sendo ainda mais grave que
muitos, inclusive crianças, nem mesmo isso possam ter.
O direito à saúde inclui a possibilidade de boa
alimentação. O corpo humano necessita de alimentos para
se manter ativo e a fim de que a pessoa tenha energia
suficiente para desenvolver suas atividades. Antes mesmo
de nascer, quando ainda está no ventre da mãe, a criança
necessita de alimentos, que só receberá se a mãe for bem
alimentada. Se não for atendida essa necessidade, a criança

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nascerá com deficiências e terá maior dificuldade para
aprender e para se desenvolver fisicamente. E durante toda
a sua vida o ser humano necessita de bons alimentos, não
só em quantidade suficiente para matar a fome mas
também de qualidade boa e variada, pois é dos alimentos
que as pessoas retiram o que é necessário para manter e
desenvolver sua capacidade física e mental.
No Brasil há milhões de pessoas que, por sua pobreza,
só conseguem alimentos em pequena quantidade ou de
muito má qualidade, havendo muitas pessoas que morrem
rapidamente ou que ficam gravemente doentes por falta de
alimentos. Só quando isso for mudado, quando todos
tiverem a mesma possibilidade de boa alimentação é que
se poderá dizer que o povo brasileiro tem direito à saúde.
As condições de trabalho também fazem parte do
direito à saúde. Para que esse direito seja respeitado é
necessário que ninguém seja obrigado a trabalhar em
ambiente onde haja ar impuro ou grande perigo de contrair
alguma doença. Ou então onde haja excesso de calor, de
frio, de umidade ou de barulho ou onde a iluminação não
seja boa para os olhos. Assim também não se deve obrigar o
trabalhador a executar suas tarefas com grande perigo, de
modo que seja frequente o risco de um acidente. Devem
ser evitados, igualmente, os trabalhos muito penosos, que
exigem esforço excessivo ou causam perturbação
psicológica.
À semelhança do que acontece com o trabalho, o
ambiente de estudo também deve ser adequado para que
seja respeitado o direito à saúde. Escolas mal construídas,
com espaço insuficiente, salas mal iluminadas e sem boa
circulação do ar, sem boas instalações sanitárias e sem
ambiente próprio para repouso e recreação, causam prejuízo

49
à saúde. Todas essas condições devem ser atendidas em
respeito ao direito à saúde.
Tudo o que foi dito até aqui se refere à proteção da
saúde. É importante notar que não foram citados médicos
nem remédios ou hospitais. Isso porque o ideal é que as
pessoas não cheguem a ficar doentes ou tenham um mínimo
de doenças, o que é perfeitamente possível se todos tiverem
condições de vida saudáveis, tendo assegurado seu direito à
saúde, com todas as exigências já enumeradas.
Mas nem sempre é possível evitar a doença ou
alguma situação de mal-estar. Muitas vezes uma pessoa tem
boa situação econômica, mas adota um método de vida
prejudicial à saúde, alimentando-se mal, fazendo esforços
exagerados ou não repousando o suficiente. Outras vezes,
como acontece hoje no Brasil com muita frequência, a
pessoa sabe que não está tomando todo o cuidado
necessário, mas, por ter um salário baixo, por exercer uma
profissão pouco protegida, por não poder ter uma boa casa
ou, ainda, por não ganhar o suficiente para alimentar-se
bem, fica muito sujeita a doenças. Além disso tudo, é
preciso lembrar que com o simples passar do tempo as
pessoas vão envelhecendo, seu organismo vai ficando mais
fraco, e aumenta muito a possibilidade de doença.
Por tudo isso é necessário que o governo trabalhe
permanentemente procurando evitar doenças, garantindo
boas condições de vida para todos, mas também dando
educação ao povo sobre os cuidados de saúde, realizando
vacinação, cuidando da qualidade da água fornecida à
população, construindo redes de esgotos e eliminando todos
os focos de doenças. Essas providências são necessárias
para que seja assegurada a toda a população o direito à saúde.
A par de todos esses cuidados é indispensável que
todas as pessoas, sem qualquer exceção, tenham a

50
possibilidade de receber assistência médica e, quando for
preciso, possam ser internadas num bom hospital e
receber os remédios necessários. Isso tudo faz parte do
direito à saúde. No entanto, muitos brasileiros que
necessitam desses cuidados não conseguem recebê-los,
porque os serviços dos médicos e o internamento em
hospital custam muito caro. E muitos chegam a ser
atendidos por um médico, mas depois não se tratam, porque
o preço dos remédios é muito alto. Os serviços mantidos
pelo governo são muito deficientes, e em muitas regiões do
país nem existe assistência médica. Os trabalhadores são
obrigados a contribuir para a previdência social e em troca
dessa contribuição deveriam receber assistência médica,
mas os serviços funcionam muito mal.
Como fica muito claro, o direito à saúde é um dos
direitos fundamentais dos seres humanos, porque sem esse
direito ninguém consegue viver com bem-estar e realizar
tudo o que é necessário para que uma pessoa seja feliz.
Além disso, a pessoa sem saúde não pode ajudar as outras
pessoas a conquistarem o seu bem-estar. Por todos esses
motivos, uma sociedade só poderá ser considerada justa se
todas as pessoas, sem nenhuma exceção, tiverem
efetivamente assegurado seu direito à saúde desde o primeiro
instante de vida. E no direito à saúde deve estar
compreendido tudo o que for necessário para que a pessoa
goze de completo bem-estar físico, mental e social.

51
10. DIREITO DE PARTICIPAR
DO GOVERNO
Todos os seres humanos são iguais, nenhum é superior
ou inferior aos outros. Mas cada pessoa tem seus valores, seu
modo de ser e seus interesses. Para que todos possam viver em
harmonia, respeitando-se uns aos outros, é preciso que
existam regras de convivência, estabelecendo quais são os
direitos e os deveres de cada um. Essas regras estão na
Constituição e nas leis.
Uma questão importante é definir quem estabelece as
regras a que todos são obrigados a obedecer. Se todos são
iguais, não se justifica que só alguns possam estabelecer tais
regras e que os demais só fiquem com a obrigação de obedecê-
las. Existe, porém, uma dificuldade de ordem prática, pois
não há como reunir todas as pessoas num só lugar todas as
vezes em que for preciso estabelecer novas regras ou então
mudar ou anular as já existentes .
Para contornar essa dificuldade foi criado o sistema
representativo. De acordo com esse sistema, em cada país,
Estado ou cidade as pessoas escolhem um pequeno número
de representantes, para, em nome de todos, estabelecer o
conjunto de regras cuja obediência passará a ser obrigatória.
Num sistema democrático, é preciso que o maior
número possível de pessoas tenha o direito e a possibilidade
de escolher os representantes. Como todos serão obrigados a
respeitar as regras e como estas sempre influem sobre os
direitos e deveres de todos, só em casos excepcionais é que
se pode admitir que alguém não participe da escolha.
Assim, por exemplo, é razoável que as crianças não tenham
o direito de participar, porque ainda não têm a experiência
de vida necessária para orientar as escolhas. Mas é injusto

52
que os analfabetos adultos não participem, pois mesmo sem
saber ler eles podem receber informações pelo rádio, pela
televisão e diretamente de outras pessoas, além de já terem
uma experiência de vida.
Do mesmo modo que o maior número possível deve
participar da escolha de representantes, é necessário que
quase todos tenham o direito e a possibilidade de serem
escolhidos. Só em casos excepcionais, quando por uma
incapacidade física ou por ser claramente inconveniente para
a sociedade que uma pessoa seja escolhida é que ela deva ser
impedida. Aqui também se pode dar como exemplo de
exclusão justificável as crianças. É igualmente contrário ao
interesse da sociedade que uma pessoa esteja ocupando um
cargo político importante e seja candidata a representante sem
deixar esse cargo.
Escolher representantes e representar o povo são formas
de participação no governo. Através dessas atividades, as
pessoas influem sobre o modo de organização da sociedade,
bem como sobre a escolha dos objetivos que são de interesse
de todos e sobre a maneira de procurar realizá-los, influindo,
ainda, na definição dos direitos e deveres de cada um. Todas essas
tarefas fazem parte do governo de uma sociedade.
Mas, uma vez estabelecidas essas regras, restam ainda
muitas tarefas importantes, que também são atividades de
governo. Entre outras coisas, é preciso que haja pessoas
incumbidas de garantir a aplicação das regras estabelecidas,
como também é necessário que outras, com especial preparo,
sejam responsáveis pelo esclarecimento das dúvidas quanto ao
sentido de uma regra ou à sua aplicação em determinado caso
concreto.
A par disso, existe uma infinidade de decisões a tomar e
de tarefas a realizar para que as necessidades fundamentais de
cada um e as de interesse comum sejam atendidas.
Atualmente, o atendimento de tais necessidades não fica

53
apenas a cargo das próprias pessoas ou de grupos particulares.
A sociedade, no seu conjunto, assume grande quantidade de
encargos, e estes passam, então, a ser considerados tarefas de
responsabilidade do governo.
Para a tomada de decisões e o fornecimento de bens e
serviços, o governo necessita de algumas pessoas muito bem
dotadas e preparadas, que assumam as posições de chefia.
Num sistema democrático, o povo é quem deve escolher
livremente essas pessoas. E se aplicam as mesmas
observações feitas anteriormente quanto ao direito e à
possibilidade de escolher ou de ser escolhido. É indispensável
que o maior número possível tenha esses direitos e essas
possibilidades, só se excluindo aqueles que, sem nenhuma
dúvida, não tiverem condições para agir com plena
consciência, liberdade e responsabilidade, como ocupantes
desses cargos ou ao participar da escolha dos que devam
ocupá-los.
Em termos mais concretos, o povo é que deve escolher
o Presidente da República, os Governadores dos Estados e
os Prefeitos. Para alguns cargos deve-se dar aos membros
do Legislativo, como representantes do povo, o poder de
fazer as escolhas. Mas em qualquer dessas hipóteses é
preciso que seja assegurada a possibilidade de ser escolhido o
maior número possível de indivíduos , admitindo-se apenas as
restrições que forem claramente, sem nenhuma dúvida, de
interesse do povo. É necessário, por outro lado, que ninguém
possa ocupar uma posição importante do governo se isso for
contra a vontade do povo, devendo ser previsto um sistema
de consulta para quando se tiver séria dúvida a respeito do
que o povo deseja.
São também participantes do governo, influindo sobre
o seu desempenho, todos os que ocupam cargos públicos ou
exercem funções públicas . Na realidade, sem a colaboração

54
dessas pessoas o governo não consegue aplicar suas decisões
e realizar seus objetivos.
Entretanto, como é menor a influência das atividades
de tais pessoas no conjunto dos atos do governo, admite-se
que elas sejam escolhidas sem a participação do povo. Mas
as escolhas devem ser feitas de acordo com regras
estabelecidas pelos representantes do povo, sempre tendo em
conta, antes de tudo, o interesse público. É necessário,
igualmente, que sejam realizados concursos públicos para
escolha das pessoas que irão ocupar esses cargos e funções,
assegurando-se ao maior número possível o direito e a
possibilidade de concorrer. Aqui também deverão ser feitas
apenas as restrições que o interesse público recomendar.
Finalmente, é indispensável que haja condições para que o
povo exerça constante influência sobre o governo, uma vez
que este age sempre em nome do povo e no seu interesse.
Assim, é necessário que existam meios para que as
pessoas do povo sejam bem informadas sobre os objetivos e
as decisões do governo. Só em pouquíssimos casos,
expressamente enumerados em lei, é que se deve admitir que
um plano ou um ato do governo fique em segredo.
Além de ter liberdade para receber e transmitir
informações é preciso que todos sejam livres para manifestar
opiniões e críticas sobre o comportamento do governo . Não
basta, porém, dizer na Constituição que essas liberdades
existem. É preciso que existam realmente meios concretos ao
alcance de todo o povo para a obtenção e divulgação das
informações, e por esses meios o povo participe
constantemente do governo, que existe para realizar sua
vontade, satisfazer suas necessidades e promover a melhoria
de suas condições de vida.

55
Onde não estiver assegurada a possibilidade de
participação direta e indireta do povo no governo, não existe
democracia, o governo não é legítimo e o povo não pode ser
feliz.

56
11. DIREITO DE RECEBER OS
SERVIÇOS PÚBLICOS
No mundo moderno, os órgãos do governo têm a
obrigação de prestar serviços à população. Até o final do
século passado, muitas pessoas achavam que a única
função do governo era manter a ordem pública e cuidar da
defesa do país. O governo fazia pouco mais do que isso,
deixando quase tudo nas mãos dos particulares.
Mas as condições de vida social mudaram muito.
Com a Revolução Industrial (século XVIII), um número
elevado de pessoas saiu do campo e foi para as grandes
cidades . Muitas dessas pessoas não conseguiram emprego,
outras se empregaram, mas com salários muito baixos.
Desse modo foram sendo formadas as periferias das
grandes cidades, que desde então é o lugar em que moram
os mais pobres. Formou-se também uma camada numerosa
de pessoas que ganham pouco e que, por isso, mesmo
trabalhando bastante, têm dificuldades para conseguir
moradia, alimentação, escola, cuidados de saúde e outros
bens e serviços que são indispensáveis para a pessoa
humana.
Em consequência de tal situação social, o governo teve
que assumir a responsabilidade de manter serviços destinados
a ajudar as pessoas a satisfazerem suas necessidades básicas.
Assim foram criados muitos serviços públicos. Mas a
situação social não mudou muito, e as dif iculdades dos
mais pobres se agravaram. Além disso, verificou-se que
certos serviços não devem ser prestados por particulares, que
sempre visam ao lucro e nem sempre estão preocupados com
o bem-estar da população.

57
Por esses motivos, os governos foram assumindo um
número cada vez maior de encargos, a quantidade de
serviços públicos foi enormemente ampliada, e hoje todas
as pessoas, mesmo as mais ricas e mais bem situadas na
sociedade, dependem muito de tais serviços. Por isso, o
direito de receber os serviços públicos deve ser incluído,
hoje, entre os direitos fundamentais da pessoa humana.
Um aspecto importante, que não pode ser esquecido,
é que esses serviços são pagos por todo o povo. Em alguns
casos, se exige o pagamento de uma taxa para que uma pessoa
obtenha a prestação direta do serviço. Mas no conjunto,
considerando-se que não existe a possibilidade de saber
quem vai usar e quanto vai necessitar ou receber, todo o
povo paga para que os serviços existam, como ocorre, por
exemplo, com a polícia, que é um dos serviços mantidos pelo
governo para toda a população .
Por tal razão, todos são obrigados a contribuir, uma
vez que o serviço fica à disposição de todos. É interessante
assinalar que até as pessoas mais pobres, como os próprios
mendigos , dão sua contribuição. Com efeito, quando um
mendigo compra um pão ou uma caixa de fósforos, está
praticando um ato que obriga a pessoa a pagar imposto. No
preço da mercadoria adquirida já está incluído o imposto
devido, que vai ser utilizado para a manutenção dos órgãos
do governo e de muitos serviços. Como se vê, todas as
pessoas, proprietários e não-proprietários, ricos e pobres,
empregadores e empregados e até mesmo desempregados e
ociosos contribuem para custear os serviços mantidos pelo
governo.
Os serviços públicos devem ser criados, organizados
e mantidos para todo o povo. Como todos necessitam e
todos pagam é indispensável que os serviços sejam criados

58
tendo em vista as necessidades de todo o povo, devendo
ser proporcionados a todos com a mesma qualidade e
presteza. Para prestar adequadamente os serviços, o
governo deve estar constantemente atento às necessidades
do povo, criando serviços novos, melhorando os já
existentes e, quando for o caso, extinguindo os que forem
dispensáveis.
Não existe a possibilidade de se estabelecer
previamente quais serviços serão de responsabilidade do
governo e quais os que serão realizados por particulares. Há
serviços que, por sua natureza, deverão ser sempre
públicos, como a distribuição de justiça, a manutenção da
ordem interna, a defesa do país, o fornecimento de água e
luz à população, a manutenção de escolas suficientes para
todas as crianças e de instalações apropriadas para cuidar
da saúde das pessoas, a limpeza das ruas, a vigilância para
que não haja poluição do ar e das águas e mais um grande
número de serviços.
Em cada país, Estado ou cidade é preciso decidir, de
acordo com as necessidades e as conveniências do povo,
que atividades deverão ser consideradas serviços públicos.
Esta condição pode mudar quando mudarem as condições
de vida, podendo passar a ser público um serviço particular
ou vice-versa. Além disso, um serviço público pode ser
mantido diretamente pelo governo ou, em lugar disso, ser
realizado por um particular que obedeça às condições
fixadas pelo governo e seja fiscalizado por este.
Não existe atividade que não possa ser realizada pelo
governo . Alguns serviços, como o julgamento das pessoas
e o policiamento das ruas, devem ser sempre públicos ,
assim como todas as atividades que, por sua importância,
para o povo, não devem ficar dependendo do interesse de

59
...
alguns particulares. Outros serviços, porém, podem ficar
sob responsabilidade de pessoas ou empresas privadas. O
critério para se decidir se um serviço deve ser público ou
particular deverá ser, sempre, o interesse do povo.
As pessoas que, em qualquer atividade, trabalham
num serviço público são chamadas de "servidores
públicos". Isso quer dizer que essas pessoas trabalham
diretamente para o povo, que é quem paga por seu
trabalho. O servidor público tem uma responsabilidade
especial na sociedade, pois está colaborando numa atividade
considerada das mais importantes para o povo. É preciso que
o servidor tenha consciência disso, jamais esquecendo que
seu mau desempenho prejudicará interesses e direitos
fundamentais de muitas pessoas. Por outro lado, é
necessário que os usuários de serviços públicos também se
lembrem de que estão usando um serviço que é de todos e
procurem colaborar quanto for possível para que o serviço
seja eficiente e possa ser utilizado, com igual
oportunidade, por todas as pessoas.
Um aspecto importante que deve ser considerado é
justamente o da eficiência dos serviços públicos. Como seu
objetivo principal é o atendimento das necessidades e
conveniências do povo, esse deve ser o critério para
avaliação . Um serviço é eficiente quando atinge esse
objetivo, quando é prestado nas condições que mais
atendam ao interesse do povo. Devem-se levar em conta a
qualidade do serviço, o cuidado de que as pessoas que dele
necessitem tenham realmente a possibilidade de utilizá-lo e
ainda o melhor aproveitamento possível dos recursos
existentes.
Os serviços são mantidos com o dinheiro do povo, e
por isso nenhum governante, administrador ou servidor

60
pode usar os recursos de um serviço para fazer qualquer
coisa que não seja de interesse do povo e do próprio
serviço. É necessário que também os usuários se lembrem
disso e só procurem utilizar os serviços na medida de suas
necessidades e de maneira adequada, respeitando os
interesses e direitos dos demais. Desse modo, poderá ser
proporcionado um serviço melhor a um número maior de
pessoas, assegurando-se a todas o direito fundamental de
igual possibilidade de acesso aos serviços públicos .

61
12. DIREITO À PROTEÇÃO
DOS DIREITOS
Um direito só existe realmente quando pode ser usado.
Há muitos casos de direitos que constam da lei, mas que,
pelos mais diversos motivos, grande número de pessoas não
conhece ou não consegue pôr em prática. Outras vezes, as
pessoas percebem que um direito seu está sendo
desrespeitado e, por falta de meios de defesa, perdem o
direito sem a possibilidade de reagir. Em todas essas
situações, aquele que não soube ou não pôde usar o direito
e que, por isso, o perdeu, sofre um prejuízo injusto.
Muitas vezes, esse prejuízo atinge aspectos
fundamentais da vida de uma pessoa. Imagine-se, por
exemplo, a situação de um modesto trabalhador preso
injustamente sob acusação de ter praticado um crime. Sua
família não sabe o que fazer para defendê-lo e não dispõe
de recursos para contratar um advogado. Existe grande
possibilidade de que esse trabalhador fique preso por muito
tempo, mesmo que não tenha tido qualquer participação
no crime de que foi acusado. Esse homem perde a
liberdade, o emprego, a família, a reputação social,
sofrendo prejuízos morais, físicos e patrimoniais, porque
seus direitos não foram protegidos.
O primeiro passo para se chegar à plena proteção dos
direitos é informar e conscientizar as pessoas sobre a
existência de seus direitos e a necessidade e possibilidade
de defendê-los. Com efeito, quando alguém não sabe que
tem um direito ou dispõe apenas de informações vagas e
imprecisas sobre ele, é pouco provável que venha a tomar
alguma atitude em defesa desse direito ou visando à sua
aplicação prática. É preciso, portanto, que haja a mais

62
ampla e insistente divulgação dos direitos, sobretudo
daqueles que são fundamentais ou que se tornam muito
importantes em determinado momento, para que o maior
número possível de pessoas tome conhecimento deles.
Tão importante quanto a informação é a formação da
consciência de que os direitos precisam ser defendidos,
para que não pereçam e também para que fique
assegurado o respeito a todos os direitos. A vida em
sociedade é necessária para os seres humanos, mas em quase
todos os grupos sociais existe uma competição pelas
melhores posições e pelo recebimento de mais benefícios e
vantagens. É o direito que deve garantir os interesses de
cada um e impedir que uns sejam prejudicados pelos outros.
A pessoa que tem um direito violado está sofrendo
uma perda de alguma espécie. E quando essa pessoa que
teve um direito ofendido não reage, isso pode encorajar a
ofensa de outros direitos seus, pois sua passividade leva à
conclusão de que ela não pode ou não quer defender-se.
Daí a importância de conscientizar as pessoas para que
procurem sempre defender seus direitos.
Não basta, porém, dar à pessoa consciência de seus
direitos e da necessidade de defendê-los sem lhe dar meios
para que os defenda. Com efeito, é importante que a própria
pessoa queira participar da defesa de seus direitos, mas, a
par disso, é indispensável a conjugação de uma série de
elementos, de pessoas e instituições sociais para que a
defesa seja eficiente. Só em casos excepcionais, como a
reação imediata a uma agressão ou para impedir um roubo, é
que se deve pensar na defesa individual, feita pela própria
vítima. Mas também nesses casos os direitos serão mais
bem defendidos se forem protegidos por mais de uma
pessoa ou por agentes policiais , o que mostra a

63
necessidade de que haja meios de defesa proporcionados
pela sociedade.
Para se ter um sistema eficiente de proteção dos
direitos é preciso contar com a colaboração do Legislativo,
do Executivo e do Judiciário. Ao Poder Legislativo cabe
fazer e aprovar as leis necessárias para a proteção dos
direitos, tendo o cuidado de garantir a todas as pessoas a
possibilidade de se defenderem. Não basta dizer na lei que
todos têm o direito de agir para defender seus direitos. É
preciso garantir na prática essa possibilidade . Assim, por
exemplo, há muita gente que não tem dinheiro para pagar
as despesas de um processo e os honorários de um
advogado. Isso precisa ser previsto na lei, para que esta
diga de que maneira as pessoas pobres poderão defender-se.
O Poder Executivo tem a obrigação de manter
repartições e funcionários encarregados de proteger as
pessoas e seus direitos. Grande parte dessa responsabilidade
cabe à Polícia, que deve exercer vigilância permanente,
para evitar a prática de atos prejudiciais ao direito de
alguém. As leis dizem o que a Polícia deve e pode fazer,
sendo indispensável que as autoridades policiais também
respeitem as leis, pois se elas agirem fora da lei, mesmo
que seja com a desculpa de proteger as pessoas, ninguém
estará seguro. Na verdade, é absurdo uma autoridade
praticar atos ilegais e dizer que faz isso para garantir que as
leis serão respeitadas.
O Poder Judiciário tem, igualmente, uma
responsabilidade muito grande. Quando alguém teve um
direito desrespeitado pode pedir proteção aos juízes e
tribunais, seja quem for o culpado pelo desrespeito. Assim,
também, quando existir dúvida sobre algum direito, se ele
existe ou não, ou a quem ele pertence, é o Poder Judiciário
que deve desfazer a dúvida. Para cumprir bem sua tarefa, os

64
juízes devem ter sempre a preocupação de agi com justiça,
decidindo sem medo, com serenidade e independência.
É indispensável que o Poder Judiciário esteja bem
organizado e que não seja caro demais pedir sua proteção.
Caso contrário, a demora nas decisões e a necessidade de
muito dinheiro para o pagamento das despesas judiciais
farão com que só um pequeno número de pessoas tenha a
proteção judicial. Quando o Poder Judiciário pode agir
com independência e é respeitado pelo povo e pelas
autoridades é mais raro que ocorram ofensas aos direitos.
E quando elas ocorrem é mais fácil conseguir a proteção e
a devolução dos direitos ofendidos ou a punição justa do
ofensor.
A proteção dos direitos é indispensável para que as
pessoas, sentindo-se em segurança e respeitando-se
reciprocamente, possam viver em paz.

65
PARTE
SUPLEMENTAR

66
DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS
DIREITOS HUMANOS

No século XVIII surgiram as primeiras Declarações


de Direitos, documentos que faziam a enumeração dos
direitos humanos fundamentais que todos os governos
deveriam respeitar. O primeiro documento desse tipo foi a
Declaração de Direitos do Estado de Virgínia, na América
do Norte, mas o que exerceu mais influência no mundo
foi a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
aprovada pela Assembleia Nacional francesa em 1789.
No século XX houve duas guerras mundiais, em
grande parte causadas pela ambição de poder e de riqueza
de alguns homens que desprezavam os Direitos Humanos.
Milhões de pessoas foram mortas nessas guerras e outros
milhões sofreram os maiores horrores, perdendo seus entes
queridos, tendo que suportar privações, a perda da
liberdade e graves ferimentos, além do terror dos
bombardeios e dos combates e da perda de tudo o que
possuíam.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, os
principais líderes dos países vencedores reconheceram que
era necessário criar uma associação de países que lembrasse
constantemente ao mundo que nenhum objetivo e nenhuma
ambição, de qualquer pessoa, de um grupo social ou de um
país, justifica o desrespeito aos seres humanos. E assim foi
criada a Organização das Nações Unidas, a ONU.
Para que fosse permanentemente relembrado o valor
da pessoa humana e para estabelecer o mínimo necessário
que todos os países e todas as pessoas devem respeitar, a
ONU encarregou um grupo de pessoas muito respeitadas,
entre as quais havia filósofos, juristas, cientistas políticos,

67
historiadores, de várias partes do mundo, de redigir uma
nova Declaração de Direitos. Esses estudiosos se reuniram,
pediram a opinião de muitas outras pessoas e, afinal,
prepararam um documento que proclama os Direitos
Humanos, que em nossa época devem ser considerados
fundamentais.
Preocupados com a afirmação dos Direitos, mas
também com sua aplicação prática, os autores da Declaração
não se limitaram a fazer a enumeração desses Direitos.
Indicaram, com pormenores, algumas exigências que devem
ser atendidas para que a dignidade humana seja respeitada,
para que as pessoas convivam em harmonia, para que uns
homens não sejam explorados e humilhados por outros, para
que nas relações entre as pessoas exista justiça, sem a qual
não poderá haver paz.
Assim nasceu a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, aprovada pela ONU em 10 de dezembro de
1948. É um conjunto de trinta artigos, nos quais estão
indicados os Direitos fundamentais e suas exigências. Ela
foi chamada de universal porque se dirige a toda a
humanidade, devendo ser res- peitada e aplicada por todos
os países e por todas as pessoas, em benefício de todos os
seres humanos, sem qualquer exceção. A Declaração
Universal dos Direitos Humanos foi assinada por países do
mundo inteiro, inclusive pelo Brasil, valendo como um
compromisso moral desses países. É necessário que o maior
número possível de pessoas conheça a Declaração, para
cobrar seus governos o respeito ao compromisso assumido.
Esse é o caminho para que todos os seres humanos sejam
felizes e vivam em paz.
Eis os artigos que compõem a Declaração Universal
dos Direitos Humanos, proclamados pela ONU:

68
ARTIGO I. Todos os homens nascem livres e iguais em
dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e
devem agir em relação umas às outras com espírito de
fraternidade.

ARTIGO II. Todo homem tem capacidade para gozar os


direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem
distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,
religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional
ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição.

ARTIGO III. Todo homem tem direito à vida, à liberdade e à


segurança pessoal.

ARTIGO IV. Ninguém será mantido em escravidão ou


servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos
em todas as suas formas.

ARTIGO V. Ninguém será submetido à tortura, nem a


tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

ARTIGO VI. Todo homem tem o direito de ser, em todos os


lugares, reconhecida como pessoa perante a lei.

ARTIGO VII. Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem
qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a
igual proteção contra qualquer discriminação que viole a
presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal
discriminação.

69
ARTIGO VIII. Todo homem tem direito a receber dos tributos
nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem
os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela
constituição ou pela lei. .

ARTIGO IX. Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou


exilado.

ARTIGO X. Todo homem tem direito, em plena igualdade, a


uma audiência justa e pública por parte de um tribunal
independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres
ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.

ARTIGO XI. Todo homem acusado de um ato delituoso tem o


direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade
tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público
no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias
necessárias à sua defesa. Ninguém poderá ser culpado por
qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam
delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco
será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da
prática, era aplicável ao ato delituoso.

ARTIGO XII. Ninguém será sujeito a interferências na sua


vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua
correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Todo
homem tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou
ataques.

ARTIGO XIII. Todo homem tem direito à liberdade de


locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.

70
Todo homem tem direito a sair de qualquer país, inclusive o
próprio, e a ele regressar.

ARTIGO XIV. Todo homem, vítima de perseguição, tem o


direito de procurar e de gozar asilo em outros países.
Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição
legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por
atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

ARTIGO XV. Todo homem tem direito a uma nacionalidade.


Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade,
nem do direito de mudar de nacionalidade.

Artigo XVI. Os homens e as mulheres de maior idade, sem


qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o
direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de
iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua
dissolução. O casamento não será válido senão com o livre e
pleno consentimento dos nubentes.

ARTIGO XVII. Todo homem tem direito à propriedade, só ou


em sociedade com outros. Ninguém será arbitrariamente privado
de sua propriedade.

ARTIGO XVIII. Todo homem tem direito à liberdade de


pensamento, consciência e religião; este direito inclui a
liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de
manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática,
pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em
público ou em particular.

71
ARTIGO XIX. Todo homem tem direito à liberdade de opinião
e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência,
ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e
ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.

ARTIGO XX. Todo homem tem direito à liberdade de reunião


e associação pacíficas. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte
de uma associação.

ARTIGO XXI. Todo homem tem o direito de tomar parte no


governo de seu país, diretamente ou por intermédio de
representantes livremente escolhidos.
Todo homem tem igual direito de acesso ao serviço público do
seu país. A vontade do povo será a base da autoridade do
governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e
legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo
equivalente que assegure a liberdade de voto.

ARTIGO XXII. Todo homem, como membro da sociedade,


tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço
nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a
organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos,
sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre
desenvolvimento da sua personalidade.

ARTIGO XXIII. Todo homem tem direito ao trabalho, à livre


escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho
e à proteção contra o desemprego. Todo homem, sem qualquer
distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.
Todo homem que trabalhe tem direito a uma remuneração justa
e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma
existência compatível com a dignidade humana, e a que se

72
acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.
Todo homem tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar
para proteção de seus interesses.

ARTIGO XXIV. Todo homem tem direito a repouso e lazer,


inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias
periódicas remuneradas.

ARTIGO XXV. Todo homem tem direito a um padrão de vida


capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar,
inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e
os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso
de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros
casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.
A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência
especiais. Todas as crianças, nascidas de matrimônio ou fora
dele, têm direito a igual proteção social.

ARTIGO XXVI. Todo homem tem direito à instrução. A


instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e
fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A
instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como
a instrução superior, esta baseada no mérito. A instrução será
orientada no sentido do pleno desenvolvimento da
personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos
direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução
promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas
as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as
atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.
Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de
instrução que será ministrada a seus filhos.

73
ARTIGO XXVII. Todo homem tem o direito de participar
livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de
participar do processo científico e de seus benefícios. Todo
homem tem direito à proteção dos interesses morais e materiais
decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística
da qual seja autor.

ARTIGO XVIII. Todo homem tem direito a uma ordem social


e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na
presente Declaração possam ser plenamente realizados.

ARTIGO XXIX. Todo homem tem deveres para com a


comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua
personalidade é possível. No exercício de seus direitos e
liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações
determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o
devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de
outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem
pública e do bem-estar de uma sociedade democrática. Esses
direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser
exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações
Unidas.

ARTIGO XXX. Nenhuma disposição da presente Declaração


pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer
Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer
atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de
quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

74
SUGESTÕES PARA DEBATES
Apresentamos a seguir algumas fotos que poderão servir
como estímulo para debates sobre os assuntos tratados neste
livro.

“Para cumprir suas finalidades, a moradia deve ser digna,


condizente com as exigências da natureza humana, devendo
ser bem melhor do que o abrigo precário e rudimentar de um
animal irracional. É preciso dar condições a todas as pessoas
para viverem com dignidade.”

75
“Não basta dizer na lei que todos têm o direito de agir
para defender seus direitos. É preciso garantir na prática essa
possibilidade”.

“Todos os trabalhadores são igualmente merecedores de


respeito, seja qual for o trabalho que executem, pois todos
contribuem para que as outras pessoas tenham atendidas suas
necessidades básicas e possam viver melhor”.

76
“Uma sociedade só poderá ser considerada justa se
todas as pessoas, sem nenhuma exceção, tiverem efetivamente
assegurado seu direito à saúde desde o primeiro instante de
vida.”

“Não basta afirmar que todas as pessoas são iguais por


natureza. Para que essa afirmação tenha resultados práticos é
preciso que a sociedade seja organizada de tal modo que
ninguém seja tratado como superior ou inferior desde o
instante do nascimento”.

77
“Se todos nascem iguais, valendo a mesma coisa, como
se explica que uns já nasçam muito ricos, tendo toda
assistência, proteção e conforto, enquanto outros nascem
miseráveis, mal podendo sobreviver, sem cuidados médicos e
sem a certeza de que terão os próprios alimentos
indispensáveis à vida?”

78
“Onde não estiver assegurada a possibilidade de participação
direta e indireta do povo no governo, não existe democracia, o
governo não é legítimo e o povo não pode ser feliz”.

79
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,


Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,


Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


(Manuel Bandeira, O Bicho)

80
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
A rosa hereditária
Da rosa de Hiroshima
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa hereditária

81
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem a cor sem perfume
Sem rosa sem nada
(Vinícius de Moraes, A rosa de Hiroshima).

82
LEGENDAS DAS FOTOS

P. 8: Mural da República Aquarius no 12 de 2014.


P. 11: Belo Horizonte-MG, outubro de 2014.
P. 13: Protesto do Passe-Livre em Recife-PE, 2012.
P. 21: Protesto do Passe-Livre em Recife-PE, 2012.
P. 24: Belo Horizonte-MG, outubro de 2014.
P. 28: Protesto do Passe-Livre em Recife-PE, 2012.
P. 32: Protesto do Passe-Livre em Recife-PE, 2012.
P. 40: Grupo da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto)
participando de projeto de extensão na cidade de Queimadas-
BA, 1998.
P. 45: Protesto contra corrupção em Recife-PE, 2012.
P. 55: Protesto contra corrupção em Recife-PE, 2012.
P. 64: Protesto contra corrupção em Recife-PE, 2012.
P. 74: Queimadas-BA, 1998.
P. 75: Foto superior: 21 de abril em Ouro Preto-MG, s.d.;
Foto inferior: Queimadas-BA, 1998.
P. 76: Foto superior: Nordeste do Brasil, 1998; Foto inferior:
Ouro Preto-MG, s.d.
P. 77: Queimadas-BA, 1998.
P. 78: Foto superior: Ouro Preto-MG, 1983; Foto inferior:
Ouro Preto-MG, 1984.
P. 79: Queimadas-BA, 1998.
P. 80: Queimadas-BA, 1998.
P. 81: Frutal-MG, 2014.

83
UMA PEQUENA BIOGRAFIA DO PROFESSOR
DALMO DE ABREU DALLARI1

Nasceu em Serra Negra, Estado de São Paulo, a 31 de


dezembro de 1931.
Iniciou os estudos das primeiras letras no Externato
Sagrada Família e no Grupo Escolar Lourenço Franco de
Oliveira, ambos em sua cidade natal, aí concluindo o curso
primário. Em 1947, transferiu-se com a família para São
Paulo, passando a estudar no Colégio Estadual Presidente
Roosevelt, onde concluiu o curso clássico em 1952.
No ano seguinte ingressou na Faculdade de Direito da
Universidade de São Paulo, recebendo o grau de bacharel em
1957. Em 1963 concorreu à livre-docência em Teoria Geral
do Estado; tendo sido aprovado, passou a integrar o corpo
docente desta Faculdade em 1964.
Após o golpe militar e a instalação da ditadura, passou a
ter destacada posição na resistência democrática e na oposição
ao regime que se estabelecia. A partir de 1972, ajudou a
organizar a Comissão Pontifícia de Justiça e Paz da
Arquidiocese de São Paulo, ativa na defesa dos Direitos
Humanos.
No ano de 1974, venceu o concurso de títulos e provas
para professor titular de Teoria Geral do Estado, vindo a
prosseguir suas atividades universitárias, ministrando aulas no
curso de pós-graduação desta Faculdade e, em 1986, foi
escolhido para seu diretor, permanecendo até 1990. Na sua

1
Fonte:
http://www.direito.usp.br/faculdade/diretores/index_faculdade_diretor_34.
php

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gestão foi iniciada a construção do prédio anexo da
Faculdade.
Foi membro do Conselho Universitário e da Comissão
de Legislação e Recursos da Universidade de São Paulo. É
membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São
Paulo, da qual foi presidente, da Associação Brasileira de
Juristas Democratas, do Instituto dos Advogados de São
Paulo, do qual foi vice-presidente, além de ter presidido a
Fundação Escola de Sociologia e Política.
De agosto de 1990 a dezembro de 1992 foi secretário
dos Negócios Jurídicos da Prefeitura do Município de São
Paulo, na gestão da prefeita D. Luiza Erundina. Possui
inúmeros artigos publicados em jornais e revistas
especializadas, além de ser colaborador do jornal Folha de S.
Paulo.

ALGUMAS DAS PRINCIPAIS OBRAS DO AUTOR2

- Direitos Humanos e Cidadania;


- O Direito da criança ao respeito;
- O futuro do Estado;
- O Poder dos juízes;
- Constituinte e constituição;
- Elementos de teoria geral do Estado;
- A constituição na vida dos povos;
- O Estado federal.

2
Fonte: www.livrariacultura.com.br

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