Você está na página 1de 4

ENCHEI-VOS DO ESPÍRITO

Efésios 5.18

INTRODUÇÃO: Seria impossível exagerar a importância que o Espírito Santo exerce em


nossa vida. Não existe sequer uma pessoa salva sem a obra regeneradora do Espírito
Santo. Paulo diz aos cristãos de Roma que “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse
tal não é dele” (Rm 8.9). É ele quem opera em nós o novo nascimento. Jesus disse a
Nicodemos que “se alguém não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de
Deus” (Jo 3.5).
É o Espírito Santo quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). É
ele quem nos ilumina o coração para entendermos as Escrituras. É ele quem nos consola
e “intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). É ele quem nos batiza no corpo
de Cristo (1Co 12.13). É ele quem testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus
(Rm 8.16). É ele quem habita em nós (1Co 3.16).
Confessamos que todo salvo é regenerado pelo Espírito, habitado pelo Espírito,
selado pelo Espírito e batizado pelo Espírito no corpo de Cristo. Porém, nem todos os que
têm o Espírito Santo estão cheios do Espírito.
O apóstolo Paulo já falou que somos selados pelo Espírito (1.13,14) e que não
devemos entristecer o Espírito (4.30). Agora, ele ordena que sejamos cheios do Espírito
(5.18). Observem o que o apóstolo Paulo nos ordena, no verso 18: “E não vos embriagueis
com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito”.
Se Paulo está dando esta ordem, é porque é possível ser nascido do Espírito, ser
batizado com o Espírito, habitado pelo Espírito, selado pelo Espírito e, ainda assim, estar
sem a plenitude do Espírito. Uma coisa é ser habitado pelo Espírito, outra é ser cheio do
Espírito. Uma coisa é ter o Espírito residente, outra coisa é ter o Espírito presidente. Nós
que já temos o Espírito, que somos batizados no Espírito, agora devemos ser cheios do
Espírito.
Paulo começa este novo parágrafo com dois mandamentos, dois imperativos, sendo
que o primeiro deles é negativo e o outro positivo. Senão, vejamos.
Em primeiro lugar, temos aqui um mandamento negativo. O primeiro
mandamento é: “Não se embriaguem com vinho, que leva à libertinagem” (v. 18). Esta
advertência, “não vos embriagueis com vinho” é uma citação de Provérbios 23.31, conforme
foi traduzido pela Septuaginta, que é uma versão grega do Antigo Testamento.
O apóstolo Paulo toca aqui num assunto que representava um perigo bem real
naquele tempo e que ameaçava os cristãos de Éfeso, oriundos de uma sociedade pagã.
Ao mencionar o vinho, Paulo está fazendo uma referência ao culto pagão prestado
ao deus grego Dionísio, também conhecido como Baco, praticado até o fim do primeiro
século depois de Cristo, onde, nas celebrações primaveris, o vinho era um dos meios
cultuais utilizados para alcançar o êxtase religioso, visando unir o ser humano à divindade,
sendo que tal culto geralmente acabava em libertinagem, orgias e intoxicações.
O resultado da embriaguez, segundo Paulo, é a “dissolução” (ARA), a “libertinagem”
(NVI), a “desgraça” (NTLA), a devassidão (KJA), a “contenda” (ARC). A palavra grega
asotia, que em suas duas outras menções no Novo Testamento é traduzida também por
“dissolução” ou “devassidão” (Tt 1:6; 1Pd 4:4), literalmente descreve uma situação em que
a pessoa não consegue mais controlar-se ou salvar-se.
Paulo diz, então, que a embriaguez provocada pelo uso imoderado do vinho, ou de
qualquer outro tipo de bebida alcoólica, conduz a uma vida dissoluta, de libertinagem, de
devassidão, semelhante aos desvarios induzidos nos cultos pagãos de Éfeso, que tiravam
o autocontrole, afetavam a capacidade racional e moral e levavam ao desvio espiritual,
moral e social.
As pessoas, quando estão bêbadas, entregam-se a ações desenfreadas,
descomedidas, descontroladas. Perdem o pudor e a timidez, poluem a vida e envergonham
o lar. Trazem desgraças, lágrimas, pobreza, separação e desonra à família. Muitas pessoas
buscam uma fuga para seus problemas no fundo de uma garrafa, mas o que encontram é
apenas um substituto barato, falso, maldito e artificial para a verdadeira alegria.
A embriaguez também conduz à ruína. A palavra grega asotia envolve não apenas
a ação descontrolada do homem bêbado, mas também traz a ideia de desperdício, de
prodigalidade, da perda de todos os bens. Vocês se lembram da parábola do Filho Pródigo?
Diz o verso 3, de Lucas 15, que esse jovem juntou tudo que era dele, viajou para uma terra
distante, “e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente”.
Logo, o cristão não pode ter parte em uma vida assim. A embriaguez envolve uma
perda de controle e, por isso mesmo, deve ser evitada, posto que o fruto do Espírito Santo
é o “domínio próprio”.
Em segundo lugar, temos aqui um mandamento positivo. O segundo
mandamento é: “Enchei-vos do Espírito”. A versão da NVI traduz melhor este verso quando
diz: “mas deixem-se encher pelo Espírito”. A ordem de não se embriagar é contrastada
diretamente com a outra ordem de ser cheio do Espírito.
O verbo “encher” é a tradução do grego pleroo, e traz o significado de “tornar-se
cheio, completar, preencher até o máximo, encher até o topo, fazer abundar, ter em
abundância, estar plenamente abastecido, tornar-se pleno”. Então, estar cheio do Espírito
é o mesmo que estar plenamente preenchido por ele.
É importante dizer que, nesse contexto, o verbo “encher” não tem nenhuma relação
com quantidade ou conteúdo, como se fôssemos receptáculos vazios que precisam de
certa quantia de combustível espiritual para prosseguir.
Na Bíblia, encher significa “ser controlado por”. Lucas diz que: “Todos na sinagoga,
ouvindo estas coisas, se encheram de ira” (Lc 4.28); ou seja, “se deixaram controlar pela
ira” e, por isso, tentaram matar Jesus. Novamente Lucas vai dizer: “Mas os judeus, vendo
as multidões, tomaram-se de inveja” (At 13.45); isto é, controlados pela inveja, os judeus
opuseram-se ao ministério de Paulo e Barnabé. Ser “cheio do Espírito” é ser controlado
todo o tempo pelo Espírito Santo em nossa mente, em nossas emoções e em nossa
vontade.
Este verbo, por si só, na forma como foi empregado por Paulo, traz lições muito
importantes para nós sobre este mandamento. Prestem atenção a quatro aspectos
importantes do verbo “encher” neste verso:
O primeiro aspecto é que este verbo está conjugado no modo imperativo.
“Enchei-vos”. Isto não é apenas uma sugestão, uma simples recomendação, uma
advertência educada. Não! Antes é uma ordem que Cristo nos dá, com toda a autoridade
de um dos apóstolos que ele escolheu.
A plenitude do Espírito Santo não é algo opcional, mas obrigatória para o cristão!
Aqueles que “antes eram trevas”, mas se tornaram “luz no Senhor” (5.8), só conseguirão
se manter em tal estado se buscarem o enchimento do Espírito. Dependemos radicalmente
do agir do Espírito Santo em nós. Não basta estarmos com seu selo (1.13) é preciso ser
cheio dele constantemente.
Esta é a diferença que muitos não entendem. Mas, deveriam entender. Muitos
cristãos estão detidos apenas no estágio inicial de suas vidas espirituais. Não é de
estranhar o fato de que muitos têm caído nas astutas ciladas do diabo (6.11).
Ser cheio do Espírito Santo não é uma opção para os crentes, mas um mandamento.
Nenhum cristão pode cumprir a vontade de Deus para sua vida se não estiver cheio do seu
Espírito. Se não obedecermos a esta ordem, não poderemos obedecer a qualquer outra,
simplesmente porque não podemos fazer a vontade de Deus a parte do Espírito de Deus.
Não existe nenhum outro mandamento mais prático e necessário nas Escrituras do
que este dado para todos os crentes: ser cheio do Espírito Santo.
O segundo aspecto é que este verbo está conjugado na forma plural. O mesmo
ocorre com o verbo anterior: “não vos embriagueis com vinho”. Os dois imperativos de
Efésios 5:18, tanto a proibição como a ordem, são uma ordem para toda a comunidade
cristã. Eles têm aplicação universal.
Esta ordem é dada para todos os membros do corpo de Cristo, e não apenas para
uns poucos escolhidos. O “enchei-vos” não é um mandamento que se aplica somente a
pastores e os demais oficiais da Igreja, ou a um grupo vip da Igreja. A amplitude desta
ordem é importantíssima. A plenitude do Espírito Santo não é um privilégio reservado para
alguns, mas uma obrigação de todos. Assim como a exigência de sobriedade e domínio
próprio, a ordem de buscar a plenitude do Espírito é dirigida a todo o povo de Deus, sem
exceção.
O terceiro aspecto é que este verbo está conjugado na voz passiva: “Sede
enchidos”. Uma outra tradução seria: “Deixai-vos encher pelo Espírito”(KJA), ou como diz
a Nova Versão Internacional: “deixem-se encher pelo Espírito”.
A voz do verbo grego, usado por Paulo, é passiva. O aspecto passivo indica que não
é algo que fazemos, mas que permitimos que seja feito em nós. Isto significa que o
enchimento não é algo que dependa só do cristão. Não enchemos a nós mesmos; antes,
permitimos que o Espírito Santo nos encha.
O ato de encher é totalmente uma obra do próprio Espírito, mas ele só opera através
de nossa submissão voluntária. Portanto, uma condição importante para gozar da plenitude
é entregar-se totalmente ao Espírito Santo, sem reservas de domínio. De fato, deve haver
a responsabilidade por parte do cristão em buscar este enchimento. Porém, quem atende
a esta busca é o Espírito Santo.
Todavia, não devemos pensar que somos apenas agentes passivos ao recebermos
a plenitude do Espírito. Assim como uma pessoa só fica bêbada bebendo; nós também só
ficamos cheios do Espírito também bebendo dele. O que Paulo está ordenando é que
estejamos abertos, estejamos prontos em condição de dar ao Espírito o controle total da
nossa vida.
O papel do cristão é se colocar à disposição do Espírito, o papel do Espírito é nos
encher e usar-nos para o louvor da glória de Deus!
O quarto aspecto é que este verbo está conjugado no tempo presente. É bem
sabido que, na língua grega, se o imperativo está no aoristo (passado perfeito), ele se refere
a uma ação única; se está conjugado no presente, é uma ação contínua. O verbo traduzido
por “enchei-vos” está conjugado no modo imperativo presente, proporcionando esta
tradução: “Enchei-vos continuamente do Espírito”.
Isto pode parecer um detalhe puramente técnico, mas não é! Não nos enganemos
com isso! O verbo grego é usado no tempo presente, “continuem enchendo-vos”, referindo-
se, portanto, a uma experiência que devemos desfrutar constantemente, não apenas em
ocasiões especiais.
Ou seja, a gramática grega, neste caso, deixa claro que a enchimento do Espírito
não deve ser algo esporádico, ou que aconteça uma única vez em nossa vida. Pelo
contrário, devemos buscar este enchimento diariamente, todos os dias.
O tempo do verbo, o presente do imperativo no grego, deve ser observado, estando
implícito que a experiência de receber o Espírito Santo de forma a cada parte da vida ser
permeada e controlada por ele não é uma experiência que ocorre de “uma vez por todas”.
Por exemplo, quando no casamento em Caná, Jesus disse: “Enchei d'água as talhas”
(Jo 2:7), o imperativo aoristo mostra que Ele queria que o fizessem somente uma única vez.
Entretanto, o imperativo presente “sede enchidos com o Espírito”, por sua vez, não indica
alguma experiência dramática, única ou determinante, que resolve o problema para o bem.
É uma apropriação contínua, diária.
Na carta aos Efésios, por duas vezes o apóstolo Paulo escreve que seus leitores
foram “selados” com o Espírito Santo (Ef 1.13; 4.30). Os aoristos são idênticos e aplicam-
se a todo crente arrependido. Deus o aceitou e colocou nele o selo do Espírito,
autenticando-o, marcando-o e garantindo-o como seu.
Todavia, apesar de que todos os crentes salvos são “selados” pelo Espírito, nem
todos permanecem “cheios do Espírito”, porque o selo foi colocado uma única vez, no
passado, enquanto que a plenitude é, ou pelo menos deveria ser, presente e contínua na
vida de todo cristão que já nasceu de novo.
Nos primeiros capítulos de Atos dos Apóstolos, repete-se inúmeras vezes que os
mesmos apóstolos ficaram “cheios com o Espírito Santo”. A implicação prática é que o
cristão deve deixar sua vida aberta para ser constante e repetidamente cheia pelo Espírito
divino. O aspecto contínuo de ser preenchido (lit. “estar sendo cheio em todo o tempo”)
envolve uma submissão diária e contínua à vontade de Deus, ao senhorio de Cristo, sob o
controle do Espírito.
Handley Moule, em sua obra “Commentary on Ephesians”, assim parafraseia este
verso: “Deixem que o Santo, que os selou e os santificou, os envolva e os possua de tal
forma que vocês sejam como vasos cheios de sua pura energia; e depois, entregando o
coração sem reservas a ele, vocês sejam vasos imersos ‘nele’ e ‘cheios’ dele. Quando ele
os recebe, ele os ocupa continuamente e consagra todas as partes da natureza de vocês,
e todos os departamentos da vida de vocês”.
Conclusão: Paulo dá uma ordem negativa: “não vos embriagueis com vinho” e uma ordem
positiva: “enchei-vos do Espírito”.
Paulo faz, aqui, uma comparação superficial e um contraste profundo. A comparação
é que assim como uma pessoa embriagada está sob o poder do vinho, assim também uma
pessoa cheia do Espírito está sob o poder e influência do Espírito.
O contraste é que o vinho conduz à dissolução, mas a plenitude do Espírito ao
domínio próprio. Quem está cheio de vinho não pode estar cheio do Espírito. Quem é
dominado pelo vinho não pode ser dominado pelo Espírito. A embriaguez é obra da carne
e conduz à escravidão e à morte, mas a plenitude do Espírito traz liberdade e vida.
Ser controlado pelo Espírito Santo é absolutamente essencial para viver a vida cristã
conforme os padrões de Deus. Ainda que todo o cristão seja habitado, batizado e selado
pelo Espírito, a menos que ele também esteja cheio do Espírito Santo, viverá em fraqueza,
torpeza, frustração e derrota espiritual.
Que vocês procurem ser cheios do Espírito, e não de vinho. E, como a bebedeira é
fato comum no mundo ao redor de vocês, e o abuso das bebidas alcoólicas uma experiência
diária, que a plenitude do Espírito Santo seja a constante preocupação de cada um de
vocês.