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Língua Portuguesa

1 – INTERPRETAÇÃO
1. (CESGRANRIO 2019)
Texto I
Projetos urbanísticos, patrimônios e conflitos
O Porto do Rio – Plano de Recuperação e Revitalização da Região Portuária do Rio de Janeiro foi
divulgado pela Prefeitura em 2001 e concentrou diferentes projetos, visando a incentivar o
desenvolvimento habitacional, econômico e turístico dos bairros portuários da Saúde, Gamboa e Santo
Cristo. Em meados de 2007, quando se iniciou esse estudo sobre o Plano e seus efeitos sociais, a Zona
Portuária já passava por um rápido processo de ressignificação perante a cidade: nos imaginários
construídos pelas diferentes mídias, não era mais associada apenas à prostituição, ao tráfico de drogas e
às habitações “favelizadas”, despontando narrativas que positivavam alguns de seus espaços,
habitantes e “patrimônios culturais”.
Dentro do amplo território portuário, os planejadores urbanos que idealizaram o Plano Porto do Rio
haviam concentrado investimentos simbólicos e materiais nos arredores da praça Mauá, situada na
convergência do bairro da Saúde com a avenida Rio Branco, via do Centro da cidade ocupada por
estabelecimentos financeiros e comerciais.

GUIMARÃES, R. A Utopia da Pequena África. Rio de Janeiro: FGV, 2014, p. 16-7. Adaptado.

Segundo o Texto I, a Zona Portuária, até o início do século XXI, era vista como

a) uma área desvalorizada social e urbanisticamente.


b) uma mancha no cenário carioca de belezas naturais.
c) uma região cercada de arranha-céus.
d) um reduto dominado pelo crime organizado.
e) um bairro histórico com poucas áreas habitáveis.

2. (CESGRANRIO 2019)
Texto II
Serviu suas famosas bebidas para Vinicius, Carybé e Pelé
Os pedaços de coco in natura são colocados no liquidificador e triturados. O líquido resultante é coado
com uma peneira de palha e recolocado no aparelho, onde é batido com açúcar e leite condensado.
Ao fim, adiciona-se aguardente.
A receita de Diolino Gomes Damasceno, ditada à Folha por seu filho Otaviano, parece trivial, mas a
conhecida batida de coco resultante não é. Afinal, não é possível que uma bebida qualquer tenha
encantado um time formado por Jorge Amado (diabético, tomava sem açúcar), Pierre Verger, Carybé,
Mussum, João Ubaldo Ribeiro, Angela Rô Rô, Wando, Vinicius de Moraes e Pelé (tomava dentro do carro).
Baiano nascido em 1931 na cidade de Ipecaetá, interior do estado, Diolino abriu seu primeiro
estabelecimento em 1968, no bairro do Rio Vermelho, reduto boêmio de Salvador. Localizado em uma
garagem, ganhou o nome de MiniBar.
A batida de limão — feita com cachaça, suco de limão galego, mel de abelha de primeiríssima qualidade e
açúcar refinado, segundo o escritor Ubaldo Marques Porto Filho — chamava a atenção dos homens,
mas Diolino deu por faltAa sdsasumnutloheres da época. É que elas não queriam ser vistas bebendo
em público, e então arranjavam alguém para comprar as batidas e bebiam dentro do automóvel.
Diolino bolou então o sistema de atendimento direto aos veículos, em que os garçons iam até os carros
que apenas encostavam e saíam em disparada. A novidade alavancou a fama do bar. No auge, chegou a
produzir 6.000 litros de batida por mês.

SETO, G. Folha de S.Paulo. Caderno “Cotidiano”. 17 maio 2019, p. B2. Adaptado.

O Texto II diz que o principal motivo do sucesso da vendagem no estabelecimento de Diolino


Damasceno foi

a) a receita secreta de sua batida de limão.


b) seu jeito peculiar de combinar os ingredientes.
c) a clientela de grandes nomes da cultura e do esporte.
d) fazer uma bebida que podia ser ingerida por diabéticos.

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e) o sistema original de atendimento direto aos veículos.

3. (CESGRANRIO 2019)
Texto III
Beira-mar
Quase fim de longa tarde de verão. Beira do mar no Aterro do Flamengo próximo ao Morro da Viúva,
frente para o Pão de Açúcar. Com preguiça, o sol começava a esconder-se atrás dos edifícios. Parecia
resistir ao chamado da noite. Nas pedras do quebra-mar caniços de pesca moviam-se devagar, ao
lento vai e vem do calmo mar de verão. Cercados por quatro ou cinco pescadores de trajes simples ou
ordinários, e toscas sandálias de dedo.
Bermuda bege de fino brim, tênis e camisa polo de marcas célebres, Ricardo deixara o carro em
estacionamento de restaurante nas imediações. Nunca fisgara peixe ali. Olhado com desconfiança.
Intruso. Bolsa a tiracolo, balde e vara de dois metros na mão. A boa técnica ensina que o caniço deve
ter no máximo dois metros e oitenta centímetros para a chamada pesca de molhes, nome sofisticado
para quebra-mar. Ponta de agulha metálica para transmitir à mão do pescador maior sensibilidade à
fisgada do peixe. É preciso conhecimento de juiz para enganar peixes.
A uma dezena de metros, olhos curiosos viam o intruso montar o caniço. Abriu a bolsa de utensílios.
Entre vários rolos de linha, selecionou os de espessura entre quinze e dezoito centésimos de
milímetro, ainda fiel à boa técnica.
— Na nossa profissão vivemos sempre preocupados e tensos: abertura do mercado, sobe e desce das
cotações, situação financeira de cada país mundo afora. Poucas coisas na vida relaxam mais do que
pescaria, cheiro de mar trazido pela brisa, e a paisagem marítima — costuma confessar Ricardo na
roda dos colegas da financeira onde trabalha.

LOPES, L. Nós do Brasil. Rio de Janeiro: Ponteio, 2015, p. 101. Adaptado.

A leitura atenta do Texto III mostra que Ricardo

a) trabalhava no setor de financiamento de material de pesca.


b) dava pouca importância aos pescadores simples do quebra-mar.
c) praticava a pesca por diletantismo nas horas de folga ou de lazer.
d) era um assíduo frequentador da beira do mar no Aterro do Flamengo.
e) dava mais importância ao ritual de preparação para a pescaria do que ao esporte.

4. (CESGRANRIO 2019)
Texto II
Estojo escolar
Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas,
bastava telefonar e eu receberia um notebook capaz de me ajudar a fabricar um navio, uma estação
espacial.
Minhas necessidades são mais modestas: tenho um PC mastodôntico, contemporâneo das cavernas da
informática. E um laptop da mesma época que começa a me deixar na mão. Como pretendo viajar esses
dias, habilitei-me a comprar aquilo que os caras anunciavam como o top do top em matéria de
computador portátil.
No sábado, recebi um embrulho complicado que necessitava de um manual de instruções para ser
aberto. Depois de mil operações sofisticadas para minhas limitações, retirei das entranhas de isopor o
novo notebook e coloquei-o em cima da mesa. De repente, como vem acontecendo nos últimos tempos,
houve um corte na memória e vi diante de mim o meu primeiro estojo escolar. Tinha 5 anos e ia para
o jardim de infância.
Era uma caixinha comprida, envernizada, com uma tampa que corria nas bordas do corpo principal.
Dentro, arrumados em divisões, havia lápis coloridos, um apontador, uma lapiseira cromada, uma
régua de 20 cm e uma borracha para apagar meus erros.
Da caixinha vinha um cheiro gostoso, cheiro que nunca esqueci e que me tonteava de prazer. Fechei o
estojo para proteger aquele cheiro, que ele ficasse ali para sempre, prometi-me economizá-lo. Com
avareza, só o cheirava em momentos especiais.
Na tampa que protegia estojo e cheiro havia gravado um ramo de rosas muito vermelhas que se
destacavam do fundo creme. Amei aquele ramalhete – olhava aquelas rosas e achava que nada podia ser
mais bonito.

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O notebook que agora abro é negro, não tem rosas na tampa e, em matéria de cheiro, é abominável.
Cheira vilmente a telefone celular, a cabine de avião, ao aparelho de ultrassonografia onde outro dia
uma moça veio ver como sou por dentro. Acho que piorei de estojo e de vida.

CONY, C. H. Crônicas para ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2009. Disponível em:
<https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz12039806.htm>. Acesso em: 23 jul. 2019.

Com base na leitura de todo o Texto II, entende-se que ele tem como foco a contraposição entre

a) cheiro de notebook e cheiro de estojo


b) requinte e simplicidade
c) sociedade e indivíduo
d) presente e passado
e) trabalho e lazer

5. (CESGRANRIO 2018)
“Guerra” virtual pela informação
A internet quebrou a rígida centralização no fluxo mundial de dados, criando uma situação inédita na
história recente. As principais potências econômicas e militares do planeta decidiram partir para a ação ao
perceberem que seus segredos começam a ser divulgados com facilidade e frequência nunca vistas
antes.
As mais recentes iniciativas no terreno da espionagem virtual mostram que o essencial é o controle
da informação disponível no mundo - não mais guardar segredos, mas saber o que os outros sabem
ou podem vir a saber. Os estrategistas em guerra cibernética sabem que a possibilidade de
vazamentos de informações sigilosas é cada vez maior e eles tendem a se tornar rotineiros.
A datificação, processo de transformação em dados de tudo o que conhecemos, aumentou de forma
vertiginosa o acervo mundial de informações. Diariamente circulam na web pouco mais de 1,8 mil
petabytes de dados (um petabyte equivale a 1,04 milhão de gigabytes), dos quais é possível
monitorar apenas 29 petabytes. Pode parecer muito pouco, mas é um volume equivalente a 400
vezes o total de páginas web indexadas diariamente pelo Google e 156 vezes o total de vídeos
adicionados ao YouTube a cada 24 horas.
Como não é viável exercer um controle material sobre o fluxo de dados na internet, os centros
mundiais de poder optaram pelo desenvolvimento de uma batalha pela informação. O manejo dos
grandes dados permite estabelecer correlações entre fatos, dados e eventos, com amplitude e rapidez
impossíveis de serem alcançados até agora.
Como tudo o que fazemos diariamente é transformado em dados pelo nosso banco, pelo correio
eletrônico, pelo Facebook, pelo cartão de crédito etc., já somos passíveis de monitoração em tempo
real, em caráter permanente. São esses dados que alimentam os softwares analíticos que produzem
correlações que servem de base para decisões estratégicas.

CASTILHO, Carlos. Observatório da imprensa. 21/08/2013. Disponível em:


<http://observatoriodaimprensa.com.br/codigo- aberto/quando-saber-o-que-os- espioes-sabem-gera-uma-
-guerra-virtual-pela-informacao/.> Acesso em: 29 fev. 2018. Adaptado.

De acordo com o texto, o que viabiliza a espionagem virtual é a(o)

a) capacitação de especialistas para a criação de máquinas velozes.


b) centralização do fluxo mundial de dados pelas grandes potências.
c) criação de sites de entretenimento para a atração dos internautas.
d) datificação de todas as informações geradas pelas pessoas na internet.
e) emprego de softwares que possam capturar as senhas dos usuários.

6. (CESGRANRIO 2018)
Memórias Póstumas de Brás Cubas
Lobo Neves, a princípio, metia-me grandes sustos. Pura ilusão! Como adorasse a mulher, não se vexava de

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mo dizer muitas vezes; achava que Virgília era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades sólidas e
finas, amorável, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava aí. De fresta que era, chegou a
porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existência; faltava -lhe a
glória pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela unção religiosa de um
desejo que não quer acabar de morrer; então compreendi que a ambição dele andava cansada de bater
as asas, sem poder abrir o voo. Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos, as
amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas,
despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente havia aí uma crise de melancolia; tratei
de combatê-la.
— Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. Não pode imaginar o que tenho passado. Entrei na
política por gosto, por família, por ambição, e um pouco por vaidade. Já vê que reuni em mim só
todos os motivos que levam o homem à vida pública; faltou-me só o interesse de outra natureza. Vira o
teatro pelo lado da plateia; e, palavra, que era bonito! Soberbo cenário, vida, movimento e graça na
representação. Escriturei-me; deram-me um papel que... Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe-
me ficar com as minhas amofinações. Creia que tenho passado horas e dias... Não há constância de
sentimentos, não há
Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo não ouvir coisa nenhuma, a não ser o
eco de seus próprios pensamentos. Após alguns instantes, ergueu-se e estendeu-me a mão: — O senhor
há de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe aquele desabafo; tinha um negócio, que me mordia o
espírito. E ria, de um jeito sombrio e triste; depois pediu- me que não referisse a ninguém o que se
passara entre nós; ponderei-lhe que a rigor não se passara nada. Entraram dois deputados e um chefe
político da paróquia. Lobo Neves recebeu-os com alegria, a princípio um tanto postiça, mas logo depois
natural. No fim de meia hora, ninguém diria que ele não era o mais afortunado dos homens;
conversava, chasqueava, e ria, e riam todos.

ASSIS, M. de. Memórias Póstumas de Brás Cubas; IN: CHIARA, A. C. et alli (Orgs.). Machado de Assis para jovens
leitores. Rio de Janeiro: Eduerj, 2008.

Com base na leitura do texto, entende-se que o desabafo de Lobo Neves ao longo do texto deve- se à
sua insatisfação com a(o)

a) vida pública
b) sua família
c) seu casamento
d) teatro da época
e) glamour da sociedade

7. (CESGRANRIO 2018)
Texto II
O Brasil na memória
A viagem tem uma estruturalidade típica. Há a escolha do destino, uma finalidade antevista, uma
partida e um retorno, um trajeto por lugares, um tempo de duração. Há situações iniciais e finais, outras
intermediárias, numa dimensão linear, e há atores, um dos quais o viajante, que serve de fio condutor
entre pessoas, acontecimentos, locais e deslocamentos. Supõe uma subjetividade que se abre ao
desconhecido, a perda de referências familiares, o abandono do mesmo pelo diferente, o encontro com o
outro e o reencontro consigo mesmo. Em contrapartida, a narrativa de viagem depende em primeiro
lugar da memória e de anotações. Seleciona experiências, precisa estabelecer um projeto de narração,
não necessariamente cronológico ou causal, torna-se, mesmo sem intenção, um testemunho. E é
orientada por perspectivas do narrador-viajante, que incluem seu estilo de vida, sua mentalidade, assim
como sua visão de mundo e sua posição de sujeito, ou seja, o local cultural de onde fala.

BORDINI, Maria da Glória. In: Descobrindo o Brasil. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2011, p. 353.

Para a autora do Texto II, a narrativa de viagem depende essencialmente de quais condições?

a) Dos lugares visitados e das pessoas com quem o viajante lidou.


b) Das recordações feitas pelo viajante e dos apontamentos da viagem.

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c) Do domínio que o viajante tem sobre a organização textual de uma narrativa.


d) Do olhar apurado do viajante para as pessoas e as paisagens que conheceu.
e) Dos dados pitorescos e surpreendentes com os quais o viajante teve contato.

8. (CESGRANRIO 2018)
Na internet, mentiras têm pernas longas
Diz o velho ditado que “a mentira tem pernas curtas”, mas nestes tempos de internet parece que a
situação se inverteu, pelo menos no mundo digital. Pesquisadores mostram que rumores falsos “viajam”
mais rápido e mais “longe”, com mais compartilhamentos e alcançando um maior número de pessoas, nas
redes sociais, do que informações verdadeiras.
Foram reunidos todos os rumores nas redes sociais - falsos, verdadeiros ou “mistos”. Esses rumores
foram acompanhados, chegando a um total de mais de 4,5 milhões de postagens feitas por cerca de 3
milhões de pessoas, formando “cascatas” de compartilhamento.
Ao compararem os padrões de compartilhamento dessas milhares de “cascatas”, os pesquisadores
observaram que os rumores “falsos” se espalharam com mais rapidez, aumentando o número de
“degraus” da cascata - e com maior abrangência do que os considerados verdadeiros.
A tendência também se manteve, independentemente do tema geral que os rumores abordassem, mas
foi mais forte quando versavam sobre política do que os demais, na ordem de frequência: lendas urbanas;
negócios; terrorismo e guerras; ciência e tecnologia; entretenimento; e desastres naturais. Uma surpresa
provocada pelo estudo revelou o perfil de quem mais compartilha rumores falsos: usuários com poucos
seguidores e novatos nas redes.
— Vivemos inundados por notícias e muitas vezes as pessoas não têm tempo nem condições para
verificar se elas são verdadeiras — afirma um dos pesquisadores. Isso não quer dizer que as pessoas
são estúpidas. As redes sociais colocam todas as informações no mesmo nível, o que torna difícil
diferenciar o verdadeiro do falso, uma fonte confiável de uma não confiável.

BAIMA, Cesar. Na internet, mentiras têm pernas longas. O Globo. Sociedade. 09 mar. 2018. Adaptado.

De acordo com o texto, no mundo digital, “mentiras têm pernas longas” porque

a) abordam temas desconhecidos pelo público.


b) conseguem atingir grande número de pessoas.
c) demoram muito tempo para serem desmentidas.
d) fazem propaganda de produtos desnecessários.
e) tendem a ser esquecidas em curto prazo de tempo.

9. (CESGRANRIO 2018)
O ano da esperança
O ano de 2017 foi difícil. Avalio pelo número de amigos desempregados. E pedidos de empréstimos.
Um atrás do outro. Nunca fui de botar dinheiro nas relações de amizade. Como afirmou Shakespeare,
perde-se o dinheiro e o amigo. Nos primeiros pedidos, eu ajudava, com a consciência de que era uma
doação. A situação foi piorando. Os argumentos também. No início era para pagar a escola do filho.
Depois vieram as mães e avós doentes. Lamentavelmente, aprendi a não ser generoso. Ajudava um
rapaz, que não conheço pessoalmente. Mas que sofreu um acidente e não tinha como pagar a fisioterapia.
Comecei pagando a físio. Vieram sucessivas internações, remédios. A situação piorando, eu já estava
encomendando missa de sétimo dia. Falei com um amigo médico, no Rio de Janeiro. Ele aceitou tratar o
caso gratuitamente. Surpresa! O doente não aparecia para a consulta. Até que o coloquei contra a
parede. Ou se consultava ou eu não ajudava mais.
Cheio de saúde, ele foi ao consultório. Pediu uma receita de suplementos para ficar com o corpo atlético.
Nunca conheci o sujeito, repito. Eu me senti um idiota por ter caído na história. Só que esse rapaz havia
perdido o emprego após o suposto acidente. Foi por isso que me deixei enganar. Mas, ao perder
salário, muita gente perde também a vergonha. Pior ainda. A violência aumenta. As pessoas buscam vagas
nos mercados em expansão. Se a indústria automobilística vai bem, é lá que vão trabalhar.
Podemos esperar por um futuro melhor ou o que nos aguarda é mais descrédito? Novos candidatos
vão surgir. Serão novos? Ou os antigos? Ou novos com cabeça de velhos? Todos pedem que a gente
tenha uma nova consciência para votar. Como? Num mundo em que as notícias são plantadas pela
internet, em que muitos sites servem a qualquer mentira. Digo por mim. Já contaram cada história a meu

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respeito que nem sei o que dizer. Já inventaram casos de amor, tramas nas novelas que escrevo. Pior.
Depois todo mundo me pergunta por que isso ou aquilo não aconteceu na novela. Se mudei a trama.
Respondo:
— Nunca foi para acontecer. Era mentira da internet. Duvidam. Acham que estou mentindo.

CARRASCO, W. O ano da esperança. Época, 25 dez. 2017, p.97. Adaptado.

No penúltimo parágrafo, o autor do texto revela ser autor de novelas, mas reclama

a) do assédio dos fãs.


b) da falta de privacidade quando anda pelas ruas.
c) dos casos de amor que atribuem a ele nas redes sociais.
d) da necessidade de ter consciência na hora de votar.
e) das versões falsas publicadas na internet das histórias de suas novelas.

10. (CESGRANRIO 2018)


Portugueses no Rio de Janeiro
O Rio de Janeiro é o grande centro da imigração portuguesa até meados dos anos cinquenta do século
passado, quando chega a ser a “terceira cidade portuguesa do mundo”, possuindo 196 mil
portugueses — um décimo de sua população urbana. Ali, os portugueses dedicam-se ao comércio,
sobretudo na área dos comestíveis, como os cafés, as panificações, as leitarias, os talhos, além de outros
ramos, como os das papelarias e lojas de vestuários. Fora do comércio, podem exercer as mais variadas
profissões, como atividades domésticas ou as de barbeiros e alfaiates. Há, de igual forma, entre os mais
afortunados, aqueles ligados à indústria, voltados para construção civil, o mobiliário, a ourivesaria e o
fabrico de bebidas.
A sua distribuição pela cidade, apesar da não formação de guetos, denota uma tendência parasua
concentração em determinados bairros, escolhidos, muitas das vezes, pela proximidade da zona de
trabalho. No Centro da cidade, próximo ao grande comércio, temos um grupo significativo de patrícios e
algumas associações de porte, como o Real Gabinete Português de Leitura e o Liceu Literário Português.
Nos bairros da Cidade Nova, Estácio de Sá, Catumbi e Tijuca, outro ponto de concentração da colônia, se
localizam outras associações portuguesas, como a Casa de Portugal e um grande número de casas
regionais. Há, ainda, pequenas concentrações nos bairros periféricos da cidade, como Jacarepaguá,
originalmente formado por quintas de pequenos lavradores; nos subúrbios, como Méier e Engenho Novo; e
nas zonas mais privilegiadas, como Botafogo e restante da zona sul carioca, área nobre da cidade a partir
da década de cinquenta, preferida pelos mais abastados.

PAULO, Heloísa. Portugueses no Rio de Janeiro: salazaristas e opositores em manifestação na cidade. In:
ALVES, Ida et alii. 450 Anos de Portugueses no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2017, pp.
260-1. Adaptado.

Segundo as informações do Texto, o perfil dos portugueses que habitavam o Rio de Janeiro em meados
do século passado está adequadamente traçado em:

a) Moravam em bairros pobres, próximos a seus locais de trabalho, e tinham profissões simples.
b) Dedicavam-se à formação de grupos literários e folclóricos e se agrupavam em bairros
exclusivos para sua comunidade.
c) Eram trabalhadores de variadas atividades profissionais e procuravam residir em áreas perto de
suas zonas de trabalho.
d) Ocupavam pontos variados da cidade, distribuindo-se em proporção semelhante por bairros da
periferia, do Centro e da zona sul.
e) Tinham profissões que correspondiam às oportunidades de trabalho que recebiam, sem
necessidade de alguma formação especializada.

11. (CESGRANRIO 2018)


A Benzedeira
Havia um médico na nossa rua que, quando atendia um chamado de urgência na vizinhança, o remédio
para todos os males era só um: Veganin. Certa vez, Virgínia ficou semanas de cama por conta de um

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herpes-zóster na perna. A ferida aumentava dia a dia e o dr. Albano, claro, receitou Veganin, que, claro,
não surtiu resultado. Eis que minha mãe, no desespero, passou por cima dos conselhos da igreja e
chamou dona Anunciata, que além de costureira, cabeleireira e macumbeira também era benzedeira. A
mulher era obesa, mal passava por uma porta sem que alguém a empurrasse, usava uma peruca preta
tipo lutador de sumô, porque, diziam, perdera os cabelos num processo de alisamento com água
sanitária.
Se Anunciata se mostrava péssima cabeleireira, no quesito benzedeira era indiscutível. Acompanhada
de um sobrinho magrelinha (com a sofrida missão do empurra- empurra), a mulher “estourou” no
quarto onde Virgínia estava acamada e imediatamente pediu uma caneta- tinteiro vermelha — não podia
ser azul — e circundou a ferida da perna enquanto rezava Ave- Marias entremeadas de palavras
africanas entre outros salamaleques. Essa cena deve ter durado não mais que uma hora, mas para mim
pareceu o dia inteiro. Pois bem, só sei dizer que depois de três dias a ferida secou completamente,
talvez pelo susto de ter ficado cara a cara com Anunciata, ou porque o Vaganin do dr. Albano finalmente
fez efeito. Em agradecimento, minha mãe levou para a milagreira um bolo de fubá que, claro, foi
devorado no ato em um minuto, sendo que para o sobrinho empurra-empurra que a tudo assistia não
sobrou nem um pedacinho.

LEE, Rita. Uma Autobiografi a. São Paulo: Globo, 2016, p. 36.

No Texto, na descrição de como dr. Albano e Anunciata atuaram no tratamento da ferida na perna de
Virgínia, a autora deixa implícita a ideia de que, em relação à cura da perna da moça,

a) Anunciata desempenhou ali o papel mais importante.


b) Anunciata e dr. Albano em nada contribuíram para o fim do problema.
c) dr. Albano e o remédio que ele sempre receitava foram de vital importância.
d) Anunciata e dr. Albano tiveram papel igualmente decisivo no caso.
e) tanto Anunciata quanto dr. Albano podem ter sido os responsáveis pela solução do caso.

12. (CESGRANRIO 2018)


Texto I

Gente Humilde
Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem, vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar
São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda, flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar.

SARDINHA, A.A. (Garoto); HOLLANDA, C.B.; MORAES, V. Gente humilde. Intérprete: Chico Buarque. In: C.B.
Hollanda nº 4. Direção de produção: Manoel Barebein. Rio de Janeiro: Companhia
Brasileira de Discos, p1970. 1 disco sonoro. Lado 1, faixa 4.

O Texto I como um todo expressa sentimentos de

a) impotência e tristeza

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b) insegurança e medo
c) indiferença e desprezo
d) melancolia e luto
e) conformismo e rancor

13. (CESGRANRIO 2018)


Mobilidade e acessibilidade desafiam cidades
A população do mundo chegou, em 2011, à marca oficial de 7 bilhões de pessoas. Desse total, parte
cada vez maior vive nas cidades: em 2010, esse contingente superou os 50% dos habitantes do
planeta, e até 2050 prevê-se que mais de dois terços da população mundial será urbana.
No Brasil, a população urbana já representa 84,4% do total, de acordo com o Censo 2010. É preciso,
então, que questões de mobilidade e acessibilidade urbana passem a ser discutidas.
No passado, a noção de mobilidade era estreitamente ligada ao automóvel. Hoje, como resultado, os
moradores de grande maioria das cidades brasileiras lidam diariamente com congestionamentos
insuportáveis, que causam enormes perdas. Isso, sem falar no alto índice de mortes em vias urbanas do
país. Depreendemos daí que a dependência do automóvel como meio de transporte é um fator que
impede a mobilidade urbana.
É importante investir em infraestrutura pedestre, cicloviária e em sistemas mais eficazes e adequados
de ônibus. Ao mesmo tempo, podemos desenvolver cidades mais acessíveis, onde a maior parte dos
serviços esteja próxima às moradias e haja opções de transporte não motorizado para nos
locomovermos.

BROADUS, V. Portal Mobilize Brasil. 16 jul. 2012. Disponível em:


<http://www.mobilize.org.br/noticias/2419/mobilidade-acessibilidade- e-defi ciencias-fi
sicas.html>. Acesso em: 9 jul. 2018. Adaptado.

Glossário:
Mobilidade urbana – É a facilidade de locomoção das entre as diferentes zonas de uma cidade.
Acessibilidade urbana – É a garantia de condições às pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade
reduzida,

No segundo parágrafo, o texto defende a necessidade de discutir questões relativas à mobilidade urbana.
Antes disso, o texto refere-se à

a) ampliação da população urbana mundial


b) diminuição da distância entre casa e trabalho
c) imobilidade urbana causada pelo automóvel
d) importância do investimento em infraestrutura
e) paralisação do trânsito das grandes cidades

14. (CESGRANRIO 2018)


Velhas casas
Tenho um amigo arquiteto que gosta de me falar de velhas casas brasileiras, da simplicidade e do gosto
dos antigos mestres de obra, dos homens práticos que encheram o Brasil de casarões, de igrejas, de
cidades.
O meu amigo vê a casa como um técnico, um especialista, o homem que ama a sua profissão. Com ele
andei pelos solares de Vassouras. E vi e senti o seu entusiasmo diante dos velhos sobrados do café.
As soluções encontradas pelos antigos, a sobriedade, a solidez, a marca do lusitano transplantado, sempre
mereciam dele uma crítica de quem admirava tudo e, às vezes, se espantava. Havia, de fato, grandeza
no que aquela gente fizera.
Sérgio Buarque de Hollanda fala no caráter empírico das cidades portuguesas da América. Em confronto
com os espanhóis, os portugueses fundaram as suas cidades com liberdade, dando mais vida, mais força
aos seus criadores. O instinto, a intuição, a necessidade de viver comandava-os. Não seriam conduzidos
por urbanistas, seriam levados pela necessidade, pelo arrojo, pelos fatos. Mas esta energia nunca se
desmandou. As casas portuguesas nunca seriam um despropósito. Havia na arquitetura que eles nos
legaram um toque de sobriedade que é uma maravilha de equilíbrio. O barroco, que se excedera nos

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interiores das igrejas, contivera-se nos exteriores. Era até aí de uma simplicidade tocante. Na arquitetura
residencial quase que ele não se fez sentir. A pureza de linhas, o gosto, o chão dos nossos sobrados
falam de homens que amavam mais a solidez do que o ornato. Os mestres de obras não eram
individualistas, artistas que quisessem dar um sinal de sua personalidade. Eles edificavam, construíam.

REGO, José Lins do. In: O Cravo de Mozart é eterno: crônicas e ensaios. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004,
p. 303-4. Adaptado.

No texto, está empregada a expressão “velhas casas brasileiras”. Caso o redator tivesse escrito “casas
velhas brasileiras”, o trecho

a) permaneceria com o mesmo sentido.


b) indicaria que as casas estavam abandonadas.
c) mostraria as casas como construções populares.
d) inverteria o sentido de casas e de velhas.
e) passaria a indicar as casas como gastas pelo tempo.

15. (CESGRANRIO 2016)


Texto I
Banhos de mar
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão feliz
quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda, Recife.
Meu pai também acreditava que o banho de mar salutar era o tomado antes de o sol nascer. Como
explicar o que eu sentia de presente prodigioso em sair de casa de madrugada e pegar o bonde vazio
que nos levaria para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço, eu
acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Nós nos vestíamos
depressa e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saímos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o bonde. Até
que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta do banco, e
minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive de novo. No
bonde mesmo o tempo começava a clarear, e uma luz trêmula de sol escondido nos banhava e
banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé: “Olhe, um porco
de verdade!” gritei uma vez, e a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras da minha
família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe, um porco de verdade.”
Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E
me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me
agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.

LISPECTOR, C. A Descoberta do Mundo. São Paulo: Rocco, 1999, p. 175. Adaptado.

Texto II
Festival reúne caravelas em barcos
Dizem que o passado não volta, mas a cada cinco anos boa parte da história marítima da Europa se
reúne para navegar junto entre o Mar do Norte e o canal de Amsterdã. Caravelas e barcos a vapor do
século passado se juntam a veleiros e lanchas contemporâneas que vêm de vários países para um dos
maiores encontros náuticos gratuitos do mundo. Durante o Amsterdam Sail, entre os dias 19 e 23 de
agosto, cerca de 600 embarcações celebram a arte de deslizar sobre as águas.
Desde 1975 o grande encontro aquático junta apaixonados pelo mar e curiosos às margens dos
canais para ver barcos históricos e gente fazendo festa ao longo de cinco dias – na última edição, o
público estimado foi de 1,7milhão de pessoas. Há aulas de vela e de remo para adultos e crianças,
além de atrações musicais. [...]
Você pode até achar que é coisa de criança, mas o jogo em que cada um leva o próprio balde e simula
as tarefas a bordo de um navio é instrutivo e divertido para todas as idades.

MORTARA, F. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 4 ago. 2015, Caderno D, p. 10. Adaptado.

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Comparando-se o conteúdo e a tipologia do Texto I e do Texto II, tem-se que

a) há uma conexão temática entre os dois textos, já que ambos fazem menção ao mar.
b) ambos combinam o domínio literário com o domínio jornalístico.
c) predomina no Texto I a informatividade e no Texto II a narratividade.
d) é natural haver bondes e canais em textos que enaltecem as belezas do mar.
e) a infância é o tempo mais adequado para conhecer embarcações e tomar banhos de mar.

16. (CESGRANRIO 2016)


O suor e a lágrima
Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o
mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava
atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem
nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.
Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o
trono de um rei desolado de um reino desolante.
O engraxate era gordo e estava com calor — o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo
italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando
posso estou sempre de tênis.
Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou- lhe a testa
e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que
era abundante.
Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a
todo instante o usava para enxugar-se — caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.
E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato
adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente
suados.
Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou
espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos
meus dias.
Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos
assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e
tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.

CONY, C. H. In: NESTROVSKI, A. (Org.). Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha. São Paulo:
Publifolha. 2001. p. 31

O uso dos adjetivos destacados em “rei desolado de um reino desolante” justifica-se pelo fato de o autor

a) demonstrar-se triste pela condição do engraxate.


b) sentir-se incomodado pelo forte calor no Rio.
c) encontrar-se solitário numa cidade nova.
d) entender-se tão oprimido quanto o engraxate.
e) revelar-se como alguém sem compaixão.

17. (CESGRANRIO 2016)


Texto I
“Quando eu for bem velhinho /
Bem velhinho, que [precise] usar um bastão / Eu hei de ter um netinho, ah... / Pra me levar pela mão / No
carnaval, eu não fico em casa / Eu não fico, eu vou brincar! / Nem que eu vá me sentar na calçada / Pra
ver meu bloco passar...”
Lupicínio Rodrigues — autor de elaboradas e densas canções de amor — surpreende escrevendo,
em 1936, ano em que nasci, essa singela e comovente marchinha carnavalesca. Uma raridade que constrói
e, ao mesmo tempo, define um carnaval. O carnaval como um ritual
— como um encontro necessário, como as festas religiosas e algumas cerimônias cívicas — e não
como uma brincadeira da qual se escolhe, livre e individualmente, participar. O carnaval faz parte do
calendário religioso católico romano que, mesmo no Brasil republicano, burguês e pós- moderno, continua

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a ser observado. Hoje, ao lado da Semana Santa e da Semana da Pátria, ele talvez seja mais um feriado
festivo do que uma ocasião que coage o nosso comportamento, obrigando à participação, como
deixa claro a marchinha de Lupicínio.
Ouvi a música pelo piano de mamãe quando era um menino: supunha-me o netinho que levava o avô
pela mão até o seu bloco de carnaval. Hoje, sendo um avô feliz e orgulhoso de cinco lindas moças e
três belos rapazes, tenho nada mais nada menos do que 16 mãos dispostas a, amorosamente, me
conduzirem ao meu bloco que passa todo ano pela minha calçada.
Leitor querido: se você tiver alguma recordação dessa música, ouça-a. Se você não souber manipular
algum aparelho eletrônico, seu netinho o ajuda. E ouvindo a simplicidade dessa tocante canção, você
vai ler esta crônica como eu a escrevo: com os olhos molhados dos antigos carnavais.

DAMATTA, R. O Globo, Rio de Janeiro, 10 fev. 2016. Primeiro Caderno, p. 13. Adaptado.

A leitura atenta do Texto I permite sustentar que o título dado à crônica

a) contradiz a informação de que o autor nasceu em 1936.


b) mostra originalidade no emprego equivocado das aspas.
c) contém uma homenagem explícita aos bailes de carnaval.
d) tem continuidade sintática nos versos transcritos no primeiro parágrafo do texto.
e) é a reprodução de uma frase-feita empregada costumeiramente entre os mais idosos.

18. (CESGRANRIO 2016)


Texto
Homem no mar
De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao
sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que
marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.
Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância
da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas
que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de
nada, toda a sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração,
todo o seu corpo a transportar na água.
Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o
vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas
encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário
como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros;
antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda
confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinquenta
metros, e o perderei de vista, pois um telhado o esconderá. Que ele nade bem esses cinquenta ou sessenta
metros, isto me parece importante, é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, que eu o veja
desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será
perfeito; a imagem desse homem me faz bem.
É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de
sua cara. Estou solitário com ele, e espero que ele esteja comigo. [...]
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não
consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a
favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um
modo puro e viril.
Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e
minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.

Janeiro, 1953 BRAGA, Rubem. A cidade e a Roça. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964. p. 11.

No 2o parágrafo do Texto, de acordo com o narrador, as espumas são mais rápidas que o homem porque
a) fazem parte do mar.
b) apresentam substância menos densa.
c) são elementos imateriais.
d) surgem pelo movimento do nadador.

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e) se dissipam antes de serem formadas.

19. (CESGRANRIO 2016)


Texto
A função da arte
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o
Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar
estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou
mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2002. p.12.

No Texto, em “E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai”, o emprego das
vírgulas

a) realça a admiração do menino pelo mar.


b) põe em dúvida o sentido dos verbos que assinala.
c) marca o sentido temporal das orações.
d) insere um caráter de incredibilidade ao que se narra.
e) muda o sentido das palavras tremendo e gaguejando.

20. (CESGRANRIO 2016)


O Bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

BANDEIRA, Manuel. Antologia poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

No trecho do Texto “Não examinava nem cheirava:/ Engolia com voracidade.”, a estrutura do primeiro
verso, articulado pelas palavras Não e nem, contribui para

a) deslegitimar a opinião do autor sobre a cena.


b) indicar a causa da ação de engolir com voracidade.
c) opor o sentido dos verbos “examinava” e “cheirava”.
d) exprimir uma relação de concessão.
e) intensificar a voracidade do “bicho”.

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2 – GA BA RITO
1 A
2 E
3 C
4 D
5 D
6 A
7 B
8 B
9 E
10 C
11 E
12 A
13 A
14 E
15 A
16 B
17 D
18 B
19 A
20 E

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