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MÓDULO DE:

ASPECTOS SOCIAIS, SAÚDE E PRODUTIVIDADE

AUTORIA:

Dra. Fernanda Flávia Cockell


Dr. Daniel Perticarrari

Copyright © 2008, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil

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Copyright © 2007, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil
Módulo de: ASPECTOS SOCIAIS, SAÚDE E PRODUTIVIDADE

Autoria: Dra. Fernanda Flávia Cockell


Dr. Daniel Perticarrari

Primeira edição: 2009

CITAÇÃO DE MARCAS NOTÓRIAS

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A presentação

Neste módulo você irá estudar os aspectos sociais e os impactos do processo de


precarização do trabalho e reestruturação produtiva para a saúde dos trabalhadores.

A partir do ponto de vista da Saúde do Trabalhador e da Ergonomia, você entrará em contato


com os fatores nocivos à saúde dos trabalhadores decorrentes das mudanças recentes no
mundo do trabalho e das novas tecnologias empregadas.

As doenças ocupacionais e os acidentes do trabalho serão discutidos sob um novo


paradigma teórico, contrapondo-se à visão da medicina do trabalho e saúde ocupacional
ainda hegemônica e vigente nas empresas brasileiras.

Ao abordarmos os aspectos sociais, a saúde e a produtividade sob o ponto de vista da


Saúde do Trabalhador e da Ergonomia, você aprenderá novas questões como a penosidade
do trabalho, a importância da percepção e subjetividade operária, a eficácia das
micronegociações e a fragilidade das ações de segurança do trabalho baseadas no ato
inseguro.

As unidades baseiam-se em textos básicos e complementares. Os principais materiais


didáticos utilizados no desenvolvimento deste módulo são as normas e manuais técnicos
produzidos pelo Ministério da Saúde. Outros recursos irão auxiliá-lo no estudo do assunto,
como figuras, tabelas, fluxogramas e vídeos.

Dedique-se à leitura dos textos complementares, buscando aprofundar seus conhecimentos


sobre cada assunto.

Bons estudos!

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O bjetivo

Embasar teoricamente os profissionais de diversas áreas envolvidos com as questões de


trabalho e saúde para que os mesmos possam promover saúde e atuar eficazmente na
prevenção de doenças ocupacionais e acidentes do trabalho, de forma a melhorar a saúde
dos trabalhadores e, concomitantemente, manter a eficácia da produção, sob o ponto de
vista da produtividade e da qualidade final.

E menta

Diferentes concepções da saúde.

A visão da medicina do trabalho, saúde ocupacional e da saúde do trabalhador.

A nocividade do trabalho e o conceito de penosidade.

As principais doenças ocupacionais, entre elas: LER/DORT, Dermatoses, Perda Auditiva


Induzida pelo Ruído, Síndrome do Burnout, Pneumoconioses, Lombalgias e Disfonia.

As teorias e abordagens de análise sobre trabalho e adoecimento mental.

O assédio moral e os desdobramentos para os trabalhadores e para as empresas.

A visão da ergonomia sobre atos inseguros e acidentes do trabalho.

Impactos sociais para a saúde dos trabalhadores e para a produtividade das empresas
resultantes do processo de reestruturação produtiva, acumulação flexível e precarização do
trabalho.

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S obre o Autor

Dra. Fernanda Flávia Cockell

Doutora em Engenharia de Produção (Saúde e Trabalho) pela Universidade Federal de São


Carlos (UFSCar) – SP, 2008;

Mestre em Engenharia de Produção (Ergonomia) pela Universidade Federal de São Carlos


(UFSCar) – SP, 2004;

Graduada em Fisioterapia pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, 2001.

Desenvolveu pesquisas na área de ergonomia junto à UFMG, FUNEP e UFSCar.


Atualmente, participa de projeto de pesquisas na UFSCar e UNICAMP, nas áreas de
Sociologia do Trabalho e Saúde do Trabalhador. Tem experiência em treinamentos, comitês
de ergonomia e projetos de intervenção ergonômica nas empresas: UNILEVER, Telemig
Celular, Multibrás (Brastemp), SOICOM, CRB, Johnson e Johnson, PMMG, Companhia
Mineira de Metais, entre outras.

Dr. Daniel Perticarrari

Pós-Doutorado pela UNICAMP – Faculdade de Educação;

Doutor em Sociologia Industrial e do Trabalho pela Universidade Federal de São Carlos


(UFSCar) – SP, 2007;

Mestre em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP, 2003;

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos, 1999;

Desenvolveu e desenvolve projetos de pesquisa científica junto à UFSCar, UNICAMP, e


Cardiff University – Inglaterra.

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S UMÁRIO

UNIDADE 1 ........................................................................................................... 9
O ambiente social e saúde ................................................................................ 9
UNIDADE 2 ......................................................................................................... 16
Saúde do Trabalhador no Brasil ...................................................................... 16
UNIDADE 3 ......................................................................................................... 23
A nocividade do trabalho.................................................................................. 23
UNIDADE 4 ......................................................................................................... 29
Doenças Ocupacionais .................................................................................... 29
UNIDADE 5 ......................................................................................................... 36
LER/DORT ....................................................................................................... 36
UNIDADE 6 ......................................................................................................... 43
O diagnóstico das LER/DORT ......................................................................... 43
UNIDADE 7 ......................................................................................................... 47
Neuropatias Compressivas causadas pelo trabalho ....................................... 47
UNIDADE 8 ......................................................................................................... 54
Tendinites, Tenossinovites e outro tipos de LER/DORT ................................. 54
UNIDADE 9 ......................................................................................................... 59
Dores nas costas de origem ocupacional ........................................................ 59
UNIDADE 10 ....................................................................................................... 66
Fatores Psicossociais da DORT ...................................................................... 66
UNIDADE 11 ....................................................................................................... 74
Tratamento e Prevenção da LER/DORT ......................................................... 74
UNIDADE 12 ....................................................................................................... 80
Saúde, trabalho e doença mental .................................................................... 80
UNIDADE 13 ....................................................................................................... 86
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Saúde/doença mental/trabalho – Abordagem epidemiológica ........................ 86
UNIDADE 14 ....................................................................................................... 91
Saúde/doença mental/trabalho – Subjetividade e Trabalho ............................ 91
UNIDADE 15 ....................................................................................................... 96
A síndrome de Burnout .................................................................................... 96
UNIDADE 16 ..................................................................................................... 102
Assédio Moral................................................................................................. 102
UNIDADE 17 ..................................................................................................... 110
Agentes Físicos e Biológicos ......................................................................... 110
UNIDADE 18 ..................................................................................................... 116
Agentes Químicos .......................................................................................... 116
UNIDADE 19 ..................................................................................................... 124
Dermatoses Ocupacionais ............................................................................. 124
UNIDADE 20 ..................................................................................................... 131
Pair-Perda Auditiva Induzida Pelo Ruído ...................................................... 131
UNIDADE 21 ..................................................................................................... 137
Disfonia .......................................................................................................... 137
UNIDADE 22 ..................................................................................................... 142
Pneumoconioses ............................................................................................ 142
UNIDADE 23 ..................................................................................................... 148
Acidentes do Trabalho ................................................................................... 148
UNIDADE 24 ..................................................................................................... 155
A visão da ergonomia sobre a segurança do trabalho .................................. 155
UNIDADE 25 ..................................................................................................... 161
Atos inseguros pela visão da ergonomia ....................................................... 161
UNIDADE 26 ..................................................................................................... 166
Reestruturação produtiva e saúde do trabalhador ........................................ 166
UNIDADE 27 ..................................................................................................... 172

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Acumulação flexível e saúde do trabalhador ................................................. 172
UNIDADE 28 ..................................................................................................... 179
Precarização do Trabalho – uma nova questão social.................................. 179
UNIDADE 29 ..................................................................................................... 185
Replanejar o trabalho através de negociações cotidianas ............................ 185
UNIDADE 30 ..................................................................................................... 193
Melhoria das condições de trabalho segurança, saúde e produtividade. ..... 193
GLOSSÁRIO ..................................................................................................... 201

BIBLIOGRAFIA ................................................................................................ 210

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U NIDADE 1
O ambiente social e saúde

Objetivo: Identificar as diferentes concepções de saúde e conhecer os fundamentos da


saúde do trabalhador.

Nesta unidade trabalharemos com um trecho do texto “Saúde e Trabalho: Conceitos Gerais”
de Lino Domingos e Fátima Pianta (2002), páginas 1 a 4.

Você aprenderá as diferentes concepções de saúde e os tipos de conceitos de acordo com


as abordagens da Medicina do Trabalho, Saúde Ocupacional e Saúde do Trabalhador. Toda
a discussão da ergonomia é baseada nos princípios da Saúde do Trabalhador e na
concepção bio-psico-social de saúde.

Boa leitura!

Fragmento do Texto

De um modo geral o meio ambiente social pode ser caracterizado como o conjunto
historicamente constituído de relações sociais de produção estabelecidas na interação entre
os homens e destes com a natureza, onde valores de uso, objetos que respondem às
necessidades humanas tanto fisiológicas quanto sociais, são determinados e as próprias
condições de vida são criadas. Uma definição ampla do ambiente social é aquela que o
considera como a condição de vida dos indivíduos, dos grupos e da comunidade na
sociedade, incluindo os fatores do comportamento.

As condições do ambiente em que o homem vive, marcadamente social, podem determinar


seu estado de saúde, a manifestação de doenças ou mesmo a morte. Muitos são os
componentes que concorrem para constituir a condição de vida: trabalho, alimentação,
moradia, saneamento, educação, transporte, lazer, etc. Estes podem influir direta ou
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indiretamente sobre o homem, por ação isolada ou por infinitas possibilidades de
combinações. São os determinantes sociais da saúde.

Concepções de Saúde

A saúde pode ser enfocada sob vários aspectos, entretanto três concepções se destacam: a
concepção médica, a concepção social e a concepção bio-psico-social.

Concepção Médica

Aquela que se baseia no conhecimento e na tradição médica, na prática da atividade


profissional que envolve três abordagens:

 Clínica: abordagem individual que procura eliminar a doença ou enfermidade e assim


restabelecer o adequado funcionamento do organismo;

 Psíquica: abordagem individual da inter-relação, no organismo humano, entre mente e


corpo;

 Sanitária: abordagem voltada à prevenção, promoção e recuperação da saúde coletiva


e não da individual.

Concepção Social

Aquela que se coloca como resposta à consciência social de que a saúde é um bem coletivo
vinculado ao desenvolvimento político, econômico e social.

 Aspecto político: a saúde é um direito extensivo a toda população;

 Aspecto econômico: investir em ações preventivas demanda menor custo do que


esperar acontecer os acidentes e aparecerem as doenças;

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 Aspecto sociológico: saúde e doença são acontecimentos ou fatos sociais.

Concepção Bio-Psico-Social

Aquela que pretende dar um sentido positivo à saúde, tentando superar sua identificação
com a ausência de doença e romper com a tradição "biologicista" que trata o ser humano
como ser meramente orgânico.

Durante a reunião da organização Mundial de Saúde (OMS), ocorrida em Alma-Ata, capital


do Cazaquistão, na ex-União Soviética, em 12 de setembro de 1978, a saúde foi definida
segundo uma concepção chamada de ideal, aqui tratada como bio-psico-social, de caráter
universal. "O estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente a ausência
de afecções ou enfermidades, é um direito humano fundamental. Alcançar o mais alto grau
possível de saúde é um objetivo social extremamente importante em todo o mundo, cuja
realização exige a intervenção de muitos outros setores sociais e econômicos, além
daqueles da saúde".

“Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, o qual não pode ser
confundido com a mera ausência de doença, e que se caracteriza pela preservação da vida
humana e pela qualificação dos elementos que constituem a condição de vida”. Com esta
perspectiva, se pretendeu, por um lado, superar a visão da ausência de doença e por outro,
romper a tradição do modelo "biologicista". Desde então estes dois critérios têm sido
universalmente aceitos, ao menos no plano teórico; não tem sido do mesmo modo com a
equiparação da saúde ao "estado de bem-estar", devido as suas conotações subjetivas.

Analisando a história das sociedades humanas verifica-se que os homens, através da


experiência acumulada e pela aquisição de conhecimentos de naturezas diversas, já
desenvolveram meios suficientemente capazes de erradicarem parte das doenças que
atingem o ser humano e aumentarem a qualidade de preservação da saúde.

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Conceitos de Saúde no Trabalho

Medicina do Trabalho

Concepção baseada na unicausalidade, que reconhece que todo acidente ou doença tem
uma única causa e cada causa determina um único acidente ou doença. Os acidentes são
explicados como a resultante exclusiva da ação isolada do trabalhador, ato inseguro, e as
doenças como resultantes específicas da atuação de agentes patogênicos específicos sobre
o organismo do trabalhador.

 Abordagem biologicista e individual;

 Centrada no conhecimento médico;

 Exposição a agentes externos;

 Relação causa-efeito.

Saúde Ocupacional

Concepção baseada na multicausalidade, que reconhece a multiplicidade ou interação de


vários agentes físicos, químicos, mecânicos e biológicos como causadores de acidentes e
doenças. Valoriza os aspectos externos ao trabalhador, reproduzindo a forma tradicional da
engenharia e da medicina de encarar os acidentes e as doenças, fenômenos de ordem
técnica ou biológica centrados no indivíduo, e adotando medidas saneadoras sobre o
ambiente de trabalho, higiene no trabalho.

 Abordagem multicausal e interprofissional;

 Centrada nas relações técnicas do trabalho;

 Intervenção baseada na diminuição da frequência e no nível de exposição;

 Relação risco x doença.

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Saúde do Trabalhador

Promoção e defesa da saúde no trabalho através de um conjunto de ações destinadas à


prevenção e à assistência e reabilitação dos trabalhadores, visando transformar as
condições de trabalho e eliminar sua nocividade. Concepção que reconhece que a relação
saúde/doença é um processo histórico-social expresso no corpo, onde o processo de
trabalho é incorporado como categoria central e objeto fundamental na análise da relação
trabalho e saúde.

 Abordagem transdisciplinar e multiprofissional, incorporando a epidemiologia crítica e


as contribuições das ciências sociais;

 Baseada na determinação social do processo saúde-doença (Intervenção no processo


de trabalho e nas relações de produção);

 Relação processo de trabalho x saúde.

Conceitualmente, pode-se dizer que a Saúde do Trabalhador surge enquanto uma prática
social instituinte, que se propõe a contribuir para a transformação da realidade de saúde dos
trabalhadores, e por extensão a da população como um todo, a partir da compreensão dos
processos de trabalho particulares, de forma articulada com o consumo de bens e serviços e
o conjunto de valores, crenças, ideias e representações sociais próprios de um dado
momento da história humana.

O objeto da Saúde do Trabalhador pode ser definido como o processo saúde e doença dos
grupos humanos, em sua relação com o trabalho. Trabalho entendido enquanto espaço de
dominação e submissão do trabalhador pelo Capital, mas, igualmente, espaço de resistência,
de constituição, e do fazer histórico dos trabalhadores, que buscam o controle sobre as
condições e os ambientes de trabalho, para torná-los mais saudáveis, num processo lento,

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contraditório, desigual no conjunto da classe trabalhadora, dependente de sua inserção no
processo produtivo e do contexto sócio-político de uma determinada sociedade.

A Saúde do Trabalhador busca compreender melhor a determinação do processo saúde-


doença nos trabalhadores e desenvolver alternativas de intervenção que levem à
transformação da realidade, em direção à apropriação pelos trabalhadores da dimensão
humana do trabalho. A atuação em Saúde do Trabalhador está baseada na premissa de que
os trabalhadores apresentam um viver, adoecer e morrer compartilhado com o conjunto da
população, em um dado tempo, lugar e inserção social, mas que é, também, específico,
resultante de sua inserção em um processo de trabalho particular. E esta especificidade deve
ser contemplada pelos serviços de saúde.

A Saúde do Trabalhador considera que a explicação do processo saúde-doença diferenciado


dos trabalhadores tem sua base na organização da sociedade e no trabalho, enquanto seu
eixo organizador, mas incorpora também conceitos, procedimentos e metodologias da
Medicina do Trabalho, da Clínica, da Medicina Social, da Saúde Pública/Saúde Coletiva e
mais recentemente o enfoque ecológico-ambientalista. Apresenta, assim, uma interface com
o referencial da Clínica, centrado no indivíduo e outra, no coletivo utilizando o enfoque da
Saúde Pública e/ou da Saúde Coletiva.

Essas múltiplas influências conformam uma prática diferenciada que, a rigor, não cabe em
nenhum dos referenciais, até então conhecidos, distintos entre si, aparentemente
excludentes ou antagônicos, o que causa confusão e perplexidade inicial aos que se
aproximam da área e tem acarretado algumas dificuldades para o assentamento e aceitação
dessa prática ou para o recorte dessa área temática. Mas, por outro lado, é responsável pela
riqueza de possibilidades abertas, que sinalizam alternativas para a crise da intervenção em
saúde, vivenciada mundialmente. Assim, as ações de atenção à Saúde do Trabalhador
incluem a promoção, a prevenção e a assistência, dirigidos ao indivíduo trabalhador que
sofre, adoece, ou se acidenta e ao conjunto ou coletivo de trabalhadores, programadas e
executadas de forma integrada.

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As ações de Saúde do Trabalhador estão direcionadas na busca de mudança nos processos
de trabalho - das condições e dos ambientes de trabalho - através de uma abordagem
transdisciplinar e intersetorial, com a participação dos trabalhadores, enquanto sujeitos e
parceiros, capazes de contribuir com seu saber para o avanço da compreensão do impacto
do trabalho sobre o processo saúde-doença e de intervir efetivamente para a transformação
da realidade.

A Saúde do Trabalhador se concretiza em práticas diversas, em diferentes momentos e


regiões dentro de um mesmo país, mantendo, porém, os mesmos princípios: trabalhadores
buscam ser reconhecidos em seu saber, questionam as alterações nos processos de
trabalho, particularmente a adoção de novas tecnologias e novas formas de organizar o
trabalho, exercitam o direito à informação e à recusa ao trabalho perigoso ou arriscado à
saúde, buscando a humanização do trabalho.

Dica 1: O texto completo “Saúde e Trabalho: Conceitos Gerais” de Lino Domingos e Fátima
Pianta (2002) encontra-se disponível no endereço:

http://actrav.itcilo.org/english/calendar/2002/A1_2744/recurosos/word_documents/01_Conceit
os.doc

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U NIDADE 2
Saúde do Trabalhador no Brasil

Objetivo: Conhecer os fundamentos da saúde do trabalhador, a história de luta pela saúde no


Brasil e a importância de superar o modelo de saúde ocupacional.

Nesta unidade trabalharemos com outro trecho do texto “Saúde e Trabalho: Conceitos
Gerais” (DOMINGOS; PIANTA, 2002) páginas 7 a 10.

Fragmento do Texto

A luta dos trabalhadores pela saúde no Brasil é anterior até mesmo à industrialização do país
no início do século XX. Antes, porém, os trabalhadores lutavam por direitos considerados
atualmente como “básicos”, mas que só foram alcançados graças a muita luta, como:
Descanso semanal remunerado; Jornada semanal de 48 horas de trabalho; Igualdade de
direitos para a mulher trabalhadora; Assistência médica e aposentadoria; Indenização por
acidente de trabalho.

Com o aumento da industrialização do país a partir da década de 50, surgem os primeiros


médicos de empresa, com a responsabilidade de manter nas linhas de produção os
trabalhadores mais saudáveis, afastando aqueles que sofriam de algum mal ou um acidente.
No entanto, nesta época, pouco ou quase nada se fazia em termos de prevenção e, a única
preocupação real era a perda de tempo e os prejuízos causados pelos acidentes ao
empregador.

Já nos anos 60, começam a se sobressair os conceitos de prevenção e higiene ocupacional,


que ganharam um impulso maior com a classificação do Brasil como “Campeão Mundial de
Acidentes de Trabalho”, nos anos 70, em plena Ditadura Militar.

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Assim mesmo, o país só veio a ter uma legislação ampla e articulada, voltada para a
prevenção, apenas no final dos anos 70, após forte desgaste da imagem do país em nível
internacional e da opinião pública nacional. Desta forma, durante todos estes anos, a
questão da prevenção dos acidentes (e em raríssimas situações, das doenças profissionais),
foi tratada no âmbito do Ministério do Trabalho (em algumas épocas, Ministério do Trabalho e
Previdência Social), já que a lógica predominante era a do desenvolvimento do capitalismo
no país, baseado na industrialização crescente e nos paradigmas conceituais do Fordismo e
do Taylorismo.

Origem e Evolução do Conceito de Saúde do Trabalhador no Brasil

Somente a partir do final dos anos 80, os conceitos de saúde do trabalhador começam a
ganhar espaço na sociedade brasileira, graças à forte influência da chamada Medicina Social
Latina na formação de profissionais de medicina e, à movimentação de alguns sindicalistas a
favor de melhores condições de trabalho, incentivados pela experiência positiva do
movimento sindical italiano, cuja influência teve papel decisivo para o desenvolvimento das
primeiras ações articuladas dos sindicatos brasileiros neste campo. A Dra. Elizabeth Costa
Dias, renomada estudiosa da área, classifica o desenvolvimento da Saúde do Trabalhador no
Brasil em quatro momentos:

1. “O primeiro momento, compreendido entre 1978-1986, denominado de difusão das


ideias, é marcado pela efervescência das idéias e pressupostos que conformam a
área temática da saúde do trabalhador e da atenção à saúde dos trabalhadores
enquanto uma prática de saúde diferenciada. É o tempo da divulgação da experiência
italiana, através do intercâmbio e visitas de técnicos e profissionais de saúde à Itália;
da implantação dos primeiros Programas de Saúde do Trabalhador na rede pública de
serviços de saúde; da realização de inúmeros seminários e reuniões, particularmente
no eixo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, destacando-se a inserção do tema
nas discussões da VIII Conferência Nacional de Saúde e na realização da I
Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador”.

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2. “O segundo momento, compreendido entre 1987-1990, foi marcado pela
institucionalização das ações de saúde do trabalhador na rede de serviços de saúde,
através das conquistas no âmbito legal e das instituições. É o tempo do processo
constituinte, da promulgação da Constituição Federal de 1988 e das Constituições
Estaduais; da elaboração e sanção da Lei Orgânica da Saúde, em 1990”.

3. “O terceiro momento pode ser denominado: da implantação da atenção à saúde do


trabalhador no SUS. É um tempo marcado pelo caos do Sistema de Saúde, que se
debate entre propostas antagônicas construídas, uma na perspectiva do projeto da
Reforma Sanitária e outra do projeto Neoliberal; pelas disputas corporativas e pela
ausência de mecanismos claros e efetivos de financiamento para as ações no SUS.
Para a atenção à saúde dos trabalhadores as dificuldades são ampliadas ou
potencializadas (...). Tempo de acirramento de disputas e de conflitos entre as
corporações profissionais e entre os setores de governo responsáveis pela
operacionalização da política de saúde do trabalhador, tradicionalmente o Ministério
do Trabalho e da Previdência Social. Este período se encerra em março de 1994, com
a realização do II Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador, em Brasília”.

4. “Inicia-se a partir daí, a transição para um quarto momento: o DEVIR, onde todas as
possibilidades estão em aberto. A se concretizar o cumprimento da legislação, seria
marcado pela difusão da atenção à saúde dos trabalhadores no Sistema de Saúde, a
todos os trabalhadores, conforme previsto no texto legal e poderia ser denominado de
consolidação da difusão”. Esta breve descrição histórica reflete singularmente como
se deu a transição do modelo da chamada Saúde Ocupacional para o modelo da
Saúde do Trabalhador. Mas por que superar o modelo da “Saúde Ocupacional”?

O modelo da “Saúde Ocupacional” é aquele que caracteriza o Serviço Especializado em


Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) das empresas, normalmente denominados de:
Departamento Médico, Departamento de Segurança Industrial, Serviço de Saúde
Ocupacional, Setor Médico, Medicina do Trabalho, Segurança do Trabalho, Outros. Estes

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serviços são compostos exclusivamente por Técnicos de Segurança, Engenheiros de
Segurança do Trabalho, Médico do Trabalho, Enfermeiro do Trabalho e Auxiliar de
Enfermagem do Trabalho. De forma geral, suas principais características são:

 Enfoque individual na avaliação da saúde dos trabalhadores: Médico observa apenas


a relação causa-efeito das doenças no paciente e não coletiviza para o conjunto dos
trabalhadores do setor da empresa;

 Desconsideração das evidências epidemiológicas: Médico não realiza estudos


epidemiológicos sobre o estado de saúde do conjunto dos trabalhadores da empresa;

 Concentração do poder nas mãos dos técnicos: Médico não informa o resultado dos
exames aos trabalhadores, mas apenas ao Gerente de Recursos Humanos da
empresa, que acaba demitindo o trabalhador doente: o engenheiro e o técnico não
informam os trabalhadores dos riscos e seu “saber técnico” acaba sempre se
sobrepondo às reclamações e observações dos trabalhadores;

 Abordagem estritamente médica da saúde: Fatores relacionados à saúde mental do


trabalhador, por exemplo, não são considerados;

 Valorização excessiva dos Limites de Tolerância: Os aparelhos de medição é que


acabam definindo se um ambiente é bom ou ruim, e não a percepção e o sentimento
dos trabalhadores;

 Nenhuma participação dos trabalhadores nas decisões: Os trabalhadores são


completamente excluídos de qualquer decisão sobre o ambiente ou o processo de
trabalho nocivo, cabendo todas as decisões aos técnicos e à gerência da empresa;

 Não informação dos riscos aos trabalhadores: Os trabalhadores não ficam sabendo
nunca os verdadeiros riscos do trabalho; muitas vezes a empresa informa de maneira
genérica, omitindo o principal e, principalmente, os efeitos de longo prazo à saúde;

 Relação de subordinação dos técnicos aos interesses de produção da empresa: Os


profissionais perdem sua autonomia, submetendo suas decisões ao gerente da

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empresa; não afasta o trabalhador doente, por exemplo, se isto for prejudicar a
produção; não emite a Comunicação de Acidente do Trabalho (CAT); participa das
reuniões da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) com o objetivo de
desqualificar as reivindicações dos trabalhadores com seu suposto “saber científico”;

 Valorização exclusiva dos riscos ambientais: Acaba valorizando apenas problemas


como calor, ruído, iluminação etc., não se envolvendo com os riscos relacionados à
organização do trabalho (ritmo da produção; pressão das chefias; horas extras; etc.),
como se não fossem assuntos de sua responsabilidade, já que adoecem e matam.

O modelo da Saúde do Trabalhador

O modelo da Saúde do Trabalhador foi construído a partir da intervenção direta dos


trabalhadores nas questões que dizem respeito à sua saúde, no local de trabalho. Cansados
de terem seus direitos violados pelas empresas – subsidiadas pelos profissionais do SESMT
-, os trabalhadores através de seus sindicatos passaram a exigir das empresas e do governo
a sua participação direta no controle da saúde e do risco nos locais de trabalho. O modelo de
fiscalização do Estado através das Delegacias Regionais do Trabalho (DRT – hoje
Superintendência Regional do Trabalho e Emprego) do Ministério do Trabalho (MTb) passou
a ser questionado, já que apenas reproduz o controle “técnico” dos riscos ambientais, sem
prever a participação permanente dos trabalhadores nas decisões que dizem respeito à sua
saúde.

Viu-se também que estas intervenções “pontuais” e esporádicas do Estado não eram
suficientes para garantir boas condições de trabalho e o fim das doenças e acidentes. Os
trabalhadores passaram então a reivindicar o acompanhamento das fiscalizações da DRT,
descobrindo-se então diversos casos de contaminação e doenças que eram simplesmente
escondidos pelas empresas.

Grandes mobilizações e até greves passaram a exigir a transformação das condições de


trabalho, a interdição de máquinas e processos inseguros e nocivos, a informação dos riscos

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aos trabalhadores, a entrega dos resultados dos exames médicos, a reavaliação e
atualização dos limites de tolerância das substâncias químicas, o banimento de produtos e
processos cancerígenos, etc. A constituição dos Programas de Saúde do Trabalhador (PST)
na rede pública de saúde ao mesmo tempo em que se alastrava a luta nos locais de trabalho,
permitiu que os trabalhadores passassem a dispor de uma retaguarda técnica de caráter
multidisciplinar (constituída por médicos, engenheiros, psicólogos, fonoaudiólogos e outros
profissionais), que apresentava uma abordagem do processo saúde e doença em sua
relação com o trabalho, de forma totalmente diferenciada do modelo da Saúde Ocupacional.

Estudo Complementar 1

Mendes e Dias escreveram o texto “Da medicina do trabalho à saúde do trabalhador”,


publicado na Revista de Saúde Pública de São.Paulo em 1991. Apesar de escrito há mais de
uma década, o texto é um excelente ensaio de revisão sobre a evolução dos conceitos e
práticas da medicina do trabalho à saúde do trabalhador, passando pela saúde ocupacional.
Busca-se responder às seguintes questões: quais as características básicas da medicina do
trabalho (na sua origem e na sua evolução); como e por que evoluiu a medicina do trabalho
para a saúde ocupacional; por que o modelo da saúde ocupacional se mostrou insuficiente;
em que contexto surge a saúde do trabalhador; quais as principais características da saúde
do trabalhador.

Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v25n5/03.pdf

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Fórum 1 – Serviços de Segurança e Medicina das empresas

As ações dos SESMT (Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho) das


empresas baseiam-se no modelo da Medicina do Trabalho e da Saúde Ocupacional, apesar
de todas as suas limitações. Diante de tal contexto, o presente fórum tem como objetivo
iniciar ou continuar uma discussão sobre o assunto.

1. Por que o modelo de Saúde do Trabalhador não é adotado pelas empresas?

2. Como Incorporar a Saúde dos Trabalhadores nas Políticas de gestão das empresas?

3. Quais são os principais desafios do campo da Saúde do Trabalhador para a próxima


década?

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U NIDADE 3
A nocividade do trabalho

Objetivo: Contextualizar a penosidade e a nocividade do trabalho.

Nas unidades anteriores você aprendeu que a Saúde do Trabalhador tem como objetivos a
promoção e defesa da saúde no trabalho, através de um conjunto de ações destinadas a
prevenção e à assistência e reabilitação dos trabalhadores, visando transformar as
condições de trabalho e eliminar sua nocividade

A ergonomia de origem francesa e a análise ergonômica do trabalho (AET) têm como


fundamentos entender a nocividade no trabalho e prevenir os problemas de saúde e
segurança ocupacional. Levam em conta a dinamicidade do trabalho e a complexidade
psicofisiológica do ser humano, analisando a penosidade do trabalho, ou seja, as condições
de conforto na perspectiva do trabalhador. A análise da nocividade de trabalho permite
identificar acontecimentos vividos como um desconforto na atividade ou como entrave à
liberdade de ação, tendo efeitos fisiológicos, cognitivos, afetivos ou sociais para o
trabalhador.

Nesta unidade trabalharemos com um trecho do texto “A Contribuição da Ergonomia para a


Identificação, Redução e Eliminação da Nocividade do Trabalho” de Ada Ávila Assunção e
Francisco de Paula Antunes Lima (2003), p.1767 a 1769.

Lembre-se de que, ao ser sujeito de sua própria aprendizagem, sempre exercerá autonomia
no sentido de avançar ou não em relação a novos conhecimentos.

Ouse avançar!

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Fragmento do Texto

O trabalho é uma atividade que convoca o corpo inteiro e a inteligência para enfrentar o que
não é dado pela estrutura técnico-organizacional. É um dos espaços de vida determinantes
na construção e na desconstrução da saúde. As relações entre saúde e trabalho envolvem
diferentes níveis da realidade humana (Cassou, 1995:9).

 Nível microscópico da célula, dos órgãos, e das funções;

 Nível pessoal, ou seja, a história individual;

 Nível social, que implica na capacidade de funcionar num determinado ambiente e de


definir novas normas, onde cada indivíduo estabelece relações com o outro.

Sob esse ponto de vista, na tentativa de abranger os fenômenos complexos que envolvem as
dimensões humanas implicadas no trabalho, a saúde ultrapassa a concepção de ausência de
doenças, expandindo para os aspectos econômicos e sociais. Contudo, a abordagem dos
fenômenos de saúde relacionados ao trabalho continua assentada sobre a ideia de uma
passividade dos trabalhadores face às condições de trabalho inseguras ou aos fatores de
risco.

Os problemas de saúde ocupacional podem, todavia, ser analisados sob um novo ângulo se
consideramos que, em uma situação de trabalho, a nocividade está presente quando a
organização do trabalho diminui as possibilidades do trabalhador para evitar a exposição ao
fator de risco (formalmente reconhecido ou não), por exemplo, ao impor um quadro temporal
rígido para a realização das tarefas (Assunção, 1998:3).

Criar novas abordagens é parte de um processo que pretende fazer avançar as práticas
preventivas dos danos à saúde relacionados ao trabalho. No entanto, esta tarefa não é
simples. Uma das dificuldades surge do parcelamento, entre as disciplinas envolvidas, das
diferentes dimensões da saúde.

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A biologia estuda as células, a medicina do trabalho estuda a dimensão clínico-ocupacional
dos problemas de saúde derivados do trabalho e participa na elaboração de medidas de
prevenção pertinentes, a psicologia se interessa pelos aspectos psíquicos, a sociologia se
ocupa das relações sociais, a epidemiologia e a higiene estudam os fatores de risco
presentes nos ambientes de trabalho, a segurança estuda os atos e as condições inseguras.

Recortando assim os seus objetos, as pesquisas sobre os problemas de saúde relacionados


ao trabalho tornam-se limitadas por não levarem em conta a dinamicidade do trabalho e a
complexidade psicofisiológica do ser humano. A maioria dos estudos a partir dos quais as
normas de regulamentação das condições de trabalho são geradas se fundam sobre o
trabalho prescrito, ou sobre a análise crua dos riscos e negligenciam a variabilidade industrial
ou dos serviços prestados, o que é determinante da ação dos trabalhadores.
Frequentemente, é no imprevisto das situações de trabalho que se situa a explicação dos
problemas de saúde.

É esta a tese geral que apresentamos neste texto, partindo da crítica de certos aspectos das
abordagens tradicionais a fim de estabelecer outros princípios de análise da relação saúde-
trabalho, inspirados na experiência da análise ergonômica do trabalho. As abordagens
tradicionais da saúde ocupacional já foram objeto de críticas endereçadas por várias
disciplinas, que ressaltam a insuficiência de sua prática e dos modelos teóricos diante das
determinações sociais do processo saúde-doença (Breilh, 19916; Laurell e Noriega, 198925;
Tambellini, 1978:61). Não é nosso propósito retomar aqui as críticas neste nível geral, mas
evidenciar as insuficiências dos modelos tradicionais na forma como se entende a relação
trabalhador-fator de risco e como esta relação é apreendida (técnicas de análise).

Por uma caracterização da penosidade no trabalho

Classicamente a saúde ocupacional trata da insalubridade (aspectos relacionados à higiene


ocupacional) e da periculosidade (acidentes de trabalho), procurando, para tanto, identificar
riscos de diversas naturezas que estejam efetiva ou potencialmente presentes nas situações
de trabalho. Mais recentemente a preocupação com os aspectos ergonômicos levou à

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necessidade de cunhar um novo termo – penosidade. Esta diferenciação é necessária e traz
uma nova luz sobre os problemas de saúde ocupacional.

Um trabalho pode ser penoso, sem que chegue a ser considerado como perigoso ou
insalubre. Inversamente, um trabalho insalubre ou perigoso, do ponto de vista de um
observador externo, pode não ser vivido como penoso por quem o realiza. Assim, os critérios
de penosidade, introduzidos pela ergonomia, tendem a ser mais precisos do que os
anteriores, na medida em que se referem às condições de conforto e - isto é essencial - da
perspectiva do trabalhador.

Um ruído, por exemplo, pode estar abaixo do nível considerado insalubre (85 dB), mas pode
causar irritação se perturba um trabalho que requer atenção. Da mesma forma, substâncias
químicas, vapores ou gases podem não ser tóxicos segundo critérios estritamente científicos,
mas geram ansiedade quando sua composição química é desconhecida. Por outro lado, um
ambiente com excesso de ruído ou de calor pode ser tolerado, dependendo de como os
trabalhadores regulam, individual e coletivamente, a exposição ao risco.

O essencial nesta concepção de penosidade é o caráter relacional da exposição que não


mais se esgota na relação unívoca entre o trabalhador (em verdade, apenas o seu corpo é
considerado em uma abordagem tradicional) e os riscos do ambiente, sejam eles físicos ou
resultantes de determinações sociais. Esta concepção é fundamental tanto para aprofundar
os conhecimentos dos nexos entre saúde e trabalho como para orientar as práticas de
melhoria das condições de trabalho.

O trabalho é nocivo quando as margens postas pela organização do trabalho constrangem o


trabalhador e reduzem suas possibilidades de construção da saúde. Esta construção
depende das possibilidades que homens e mulheres no cotidiano têm para evitar os riscos,
atenuá-los ou eliminá-los durante a realização das suas tarefas e ainda depende das
possibilidades que o trabalhador terá para desenvolver as suas competências que sustentam
as estratégias de regulação dos riscos.

Assim, a nocividade, enquanto penosidade está relacionada à obrigação rígida para se


realizar uma tarefa ou, de modo geral, a acontecimentos vividos como um desconforto na

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atividade ou como entrave à liberdade de ação, tendo efeitos fisiológicos, cognitivos, afetivos
ou sociais para o trabalhador. Nos sistemas produtivos, a todo o momento pode surgir um
imprevisto, um acaso, um acontecimento inesperado que exige adaptações para que os
objetivos estabelecidos sejam alcançados.

A produção conta com o caráter plástico do trabalho humano, ou seja, as pessoas podem
realizar as tarefas mesmo em situações penosas, perigosas ou que agridem sua integridade
moral. Estas adaptações podem ser individuais e/ou coletivas. Atender a diversos critérios
como eficácia, segurança, relativa economia de recursos mentais e físicos implicados pode
gerar uma situação de risco.

Analisar a nocividade do trabalho e no trabalho é analisar a situação que a produziu e como


o trabalhador reagiu a esta situação. Analisar a nocividade é também analisar a situação na
qual, mesmo expostos a fatores de risco, a condições inseguras ou a fortes exigências
psicossociais, os indivíduos não apresentaram queixas.

Para tanto a ergonomia vale-se da observação de situações do cotidiano do trabalho durante


a realização das tarefas e busca identificar traços que nem sempre são manifestos ou
registrados formalmente. O adoecimento pode se expressar de formas variadas, inclusive
através de queixas consideradas "vagas" para as quais o modelo de abordagem restrito à
identificação do fator de risco é limitado.

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Para refletir 1

Tendo por base a afirmação: “As atividades penosas são aquelas em que o trabalho é árduo,
difícil, molesto, trabalhoso, incômodo, doloroso, rude e que exija constante atenção e
vigilância acima do comum”,

1. Reflita sobre o que é penoso para você.

2. Aponte pelo menos um aspecto físico e um emocional que você percebe como penoso
no seu dia-a-dia.

Lembre-se: o conceito de penosidade está ligado a condições de conforto e à percepção


individual de cada pessoa.

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U NIDADE 4
Doenças Ocupacionais

Objetivo: Introduzir a discussão sobre as doenças relacionadas ao trabalho.

Nas unidades seguintes descreveremos algumas doenças relacionadas ao trabalho. É


impossível esgotarmos o assunto, pois existe uma grande variedade de doenças
ocupacionais. Parte das doenças ocupacionais já é reconhecida, mas é importante sabermos
que o cada dia surgem novas doenças devido às constantes mudanças no mundo do
trabalho.

Todo profissional que pretende atuar nesta área precisa conhecer as doenças ocupacionais
e identificar quais fatores presentes no trabalho podem resultar no adoecimento do
trabalhador. As doenças ocupacionais são todas as moléstias causadas pelo trabalho ou
pelas condições do ambiente em que é executado. São subdivididas em doenças
profissionais e do trabalho para efeitos legais.

 As Doenças Profissionais são aquelas que resultam diretamente das condições de


trabalho e causam incapacidade para o exercício da profissão ou morte. As doenças
profissionais já possuem o nexo causal reconhecido. Neste caso, a presença de
determinado agente patogênico dispensa a necessidade de vistoria do local de
trabalho.

 As Doenças do Trabalho são aquelas cuja relação com a situação de trabalho deve
ser comprovada (Menegon et al., 2002).

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Schilling (1984) propõe uma divisão em 3 grupos sobre as doenças ocupacionais:

1. Doenças em que o trabalho é a causa necessária, tipificadas pelas doenças


profissionais, stricto sensu, e pelas intoxicações agudas de origem ocupacional.
Exemplos: Intoxicação por chumbo, Silicose, Doenças profissionais legalmente
reconhecidas.

2. Doenças em que o trabalho pode ser um fator de risco, contributivo, mas não
necessariamente exemplificadas pelas doenças comuns, mais frequentes ou mais
precoces em determinados grupos ocupacionais e para as quais o nexo causal é de
natureza eminentemente epidemiológica. A hipertensão arterial e as neoplasias
malignas (cânceres), em determinados grupos ocupacionais ou profissões, constituem
exemplo típico. Exemplos: Doença coronariana, Doenças do aparelho locomotor,
Câncer, Varizes dos membros inferiores.

3. Doenças em que o trabalho é provocador de um distúrbio latente, ou agravador de


doença já estabelecida ou pré-existente, ou seja, com causa, tipificadas pelas
doenças alérgicas de pele e respiratórias e pelos distúrbios mentais, em determinados
grupos ocupacionais ou profissões. Exemplos: Bronquite crônica, Dermatite de contato
alérgica, Asma, Doenças mentais.

O Ministério da Saúde produziu em 2001 o Manual de Procedimentos para os Serviços de


Saúde a respeito das doenças ocupacionais. É um dos materiais mais completos sobre o
assunto, com 580 páginas. O manual tem por objetivo orientar os profissionais de saúde,
orientando-os na prevenção, vigilância e assistência à saúde dos trabalhadores.

Tem ainda como propósito possibilitar a caracterização das relações entre as doenças e as
ocupações, o que é indispensável para promover a qualidade, a capacidade resolutiva e a
integralidade das ações e dos serviços dirigidos à população trabalhadora.

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No manual, cada entidade nosológica ou doença é objeto de um protocolo, abordando
aspectos básicos do conceito, epidemiologia (ocorrência e distribuição), situações de
exposição ocupacional, quadro clínico, critérios de diagnóstico e caracterização da relação
com o trabalho ou ocupação, tratamento, vigilância em saúde, encaminhamentos
previdenciários e uma bibliografia sugerida para aprofundamento do tema. É estruturado de
acordo com a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, organizada segundo os grupos
de patologias da Classificação Internacional das Doenças (CID-10) em:

Grupo I - Doenças Infecciosas e Parasitárias Relacionadas ao Trabalho (Grupo I)

As doenças infecciosas e parasitárias relacionadas ao trabalho apresentam algumas


características: os agentes etiológicos não são de natureza ocupacional; a ocorrência da
doença depende das condições ou circunstâncias em que o trabalho é executado e da
exposição ocupacional, que favorece o contato, o contágio ou a transmissão.

Grupo II - Neoplasias (Tumores) Relacionadas ao Trabalho

É um processo multifatorial, sofrendo predisposição genética ou induzida por fatores


secundários, ambientais ou virais. Pode surgir como consequência da exposição a agentes
carcinogênicos presentes no ambiente onde se vive e trabalha decorrentes do estilo de vida
e de fatores ambientais produzidos ou alterados pela atividade humana.

Grupo III - Doenças do Sangue e dos Órgãos Hematopoéticos Relacionadas ao


Trabalho

Agressões ao sistema hematopoético podem ocorrer na medula óssea, afetando a célula


primitiva multipotente ou qualquer das células dela derivadas, e na corrente sanguínea,
destruindo ou alterando a função de células já formadas. Destacam-se o benzeno e as
radiações ionizantes.

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Grupo IV - Doenças Endócrinas, Nutricionais e Metabólicas Relacionadas ao Trabalho

Os efeitos ou danos sobre os sistemas endócrino, nutricional e metabólico, decorrentes da


exposição ambiental e ocupacional a substâncias e agentes tóxicos são, ainda, pouco
conhecidos. São reconhecidas como capazes de produzir doenças: utilização de ferramentas
vibratórias associado à síndrome de Raynaud (doença vascular periférica); extração e
manuseio de pedra-pome, provocando deficiência adrenal; produção e uso de derivados do
ácido carbâmico (carbamatos), utilizados como pesticidas, herbicidas e nematocidas;
expostos ao chumbo e a exposição ao dissulfeto de carbono (CS2).

Grupo V - Transtornos Mentais e do Comportamento Relacionados ao Trabalho

A contribuição do trabalho para as alterações da saúde mental das pessoas dá-se a partir de
ampla gama de aspectos: desde fatores pontuais, como a exposição a determinado agente
tóxico, até a complexa articulação de fatores relativos à organização do trabalho, como a
divisão e parcelamento das tarefas, as políticas de gerenciamento das pessoas e a estrutura
hierárquica organizacional.

Grupo VI - Doenças do Sistema Nervoso Relacionadas ao Trabalho

A vulnerabilidade do sistema nervoso aos efeitos da exposição ocupacional e ambiental a


uma gama de substâncias químicas, agentes físicos e fatores causais de adoecimento,
decorrentes da organização do trabalho, tem ficado cada vez mais evidente, marcada por
manifestações neurológicas das intoxicações decorrentes da exposição ocupacional a metais
pesados, aos agrotóxicos ou a solventes orgânicos, e de outras doenças do sistema nervoso
relacionadas às condições de trabalho.

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Grupo VII - Doenças do Olho e Anexos Relacionadas ao Trabalho

O aparelho visual é vulnerável à ação de inúmeros fatores de risco para a saúde presentes
no trabalho, como, por exemplo, agentes mecânicos (corpos estranhos, ferimentos contusos
e cortantes), agentes físicos (temperaturas extremas, eletricidade, radiações ionizantes e
não-ionizantes), agentes químicos, agentes biológicos (picadas de marimbondo e pêlo de
lagarta) e ao sobre esforço.

Grupo VIII - Doenças do Ouvido Relacionadas ao Trabalho

As doenças otorrinolaringológicas relacionadas ao trabalho são causadas por agentes ou


mecanismos irritativos, alérgicos e/ou tóxicos. No ouvido interno, os danos decorrem da
exposição a substâncias neurotóxicas e fatores de risco de natureza física, como ruído,
pressão atmosférica, vibrações e radiações ionizantes. Os agentes biológicos estão
associados às otites externas, aos eventos de natureza traumática e à lesão do pavilhão.

Grupo IX - Doenças do Sistema Circulatório Relacionadas ao Trabalho

Apesar da crescente valorização dos fatores pessoais, como sedentarismo, tabagismo e


dieta, na determinação das doenças cardiovasculares, pouca atenção tem sido dada aos
fatores de risco presentes na atividade ocupacional atual ou anterior dos pacientes.

Grupo X - Doenças do Sistema Respiratório Relacionadas ao Trabalho

O sistema respiratório é a interface importante do organismo humano com o meio ambiente,


particularmente com o ar e seus constituintes, gases e aerossóis, sob a forma líquida ou
sólida. A poluição do ar nos ambientes de trabalho associa-se a uma extensa gama de
doenças do trato respiratório que acometem desde o nariz até o espaço pleural.

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Grupo XI - Doenças do Sistema Digestivo Relacionadas ao Trabalho

As doenças do aparelho digestivo relacionadas, ou não, ao trabalho estão entre as causas


mais frequentes de absenteísmo e de limitação para as atividades sociais e ocupacionais.
Entre os fatores importantes para a ocorrência das doenças digestivas relacionadas ao
trabalho estão agentes físicos, substâncias tóxicas, fatores da organização do trabalho, como
estresse, situações de conflito, tensão, trabalho em turnos, fadiga, posturas forçadas,
horários e condições inadequadas para alimentação.

Grupo XII - Doenças da Pele e do Tecido Subcutâneo Relacionadas ao Trabalho

As dermatoses ocupacionais compreendem as alterações da pele, mucosas e anexos, direta


ou indiretamente causadas, mantidas ou agravadas pelo trabalho.

Grupo XIII - Doenças do Sistema Osteomuscular e do Tecido Conjuntivo Relacionadas


ao Trabalho

Devido a sua importância atual e alta prevalência, este grupo será discutido em detalhes nas
Unidades 5 a 10. Apresenta como características comuns aparecimento e evolução de
caráter insidioso, origem multifatorial complexa, na qual se entrelaçam inúmeros fatores
causais, entre eles exigências mecânicas repetidas por períodos de tempo prolongados,
utilização de ferramentas vibratórias, posições forçadas, fatores da organização do trabalho,
como, por exemplo, exigências de produtividade, competitividade, programas de incentivo à
produção e de qualidade.

Grupo XIV - Doenças do Sistema Gênito-Urinário Relacionadas ao Trabalho

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A exposição ambiental e/ou ocupacional a agentes biológicos, químicos e farmacológicos
pode lesar, de forma aguda ou crônica, os rins e o trato urinário.

Dica 2: Você pode baixar o texto integral do “Doenças relacionadas ao trabalho: manual de
procedimentos para os serviços de saúde”, organizado por especialistas brasileiros a serviço
do Ministério da Saúde. Disponível em:

http://dtr2004.saude.gov.br/susdeaz/instrumento/arquivo/16_Doencas_Trabalho.pdf#search=
%22doen%C3%A7as%20relacionadas%20ao%20trabalho%22

Atividade Optativa 1

Acesse as páginas dos organismos nacionais que abordam a questão da saúde do


trabalhador. Nestes endereços você encontrará textos, artigos, links interessantes e
descrições de doenças relacionadas ao trabalho.

Ministério da Saúde
http://portal.saude.gov.br/saude/

Observatório da Saúde do Trabalhador


http://www.opas.org.br/saudedotrabalhador/principal.cfm?hobsnumcod=17
Ministério do Trabalho e Emprego
http://www.mte.gov.br/
Fundacentro
http://www.fundacentro.gov.br/

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U NIDADE 5
LER/DORT

Objetivo: Identificar os principais fatores desencadeadores da LER/DORT.

Nesta unidade iniciaremos o estudo sobre LER/DORT (Lesões por Esforços


Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho). Dados recentes
mostram que em 2006, foram registrados 26.645 casos de doenças ocupacionais na
Previdência Social, com uma estimativa de 45% por LER/DORT, valor este subestimado se
considerarmos que os números não englobam autônomos e informais, pois somente são
contabilizados os eventos registrados e ocorridos entre os trabalhadores segurados – com
carteira assinada. Além do mais, a desinformação dos trabalhadores sobre os seus direitos,
a morosidade do processo, o despreparo das equipes de saúde e o medo do desemprego
também reduzem o percentual de casos notificados às autoridades (SILVEIRA et al., 2005;
RIGOTTO, 1998).

Se considerarmos as primeiras ocorrências do problema, a LER/DORT já existiam há 2000


mil anos, conforme relatado pelo precursor da Medicina do Trabalho, Bernadino Ramazzini
em 1700. Segundo ele, na Antiguidade os escribas (responsáveis por escrever nos
pergaminhos os conhecimentos orais) já apresentavam um quadro doloroso, bastante
compatível com o quadro de LER. Por outro lado, se olharmos para atualidade veremos uma
epidemia moderna, fruto da crescente industrialização, modernização, intensificação do ritmo
de trabalho pela busca incessante por produtividade, precarização do trabalho (perda dos
direitos trabalhistas e previdenciários) e das condições de trabalho.

Um dos mais completos documentos sobre LER/DORT foi elaborado pelo Instituto Nacional
do Seguro Social (INSS). Trata-se da Instrução Normativa INSS/DC Nº 98 “Atualização
clínica das lesões por esforços repetitivos (LER) distúrbios osteomusculares relacionados ao
trabalho (DORT)” de 05/12/2003.

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Fragmento da norma

Os Distúrbios do Sistema Osteomuscular Relacionados ao Trabalho têm-se constituído em


grande problema da saúde pública em muitos dos países industrializados. A terminologia
"Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho" tem sido preferida por alguns
autores a outras, tais como Lesões por Traumas Cumulativos - LTC, Lesões por Esforços
Repetitivos - LER, Doença Cervicobraquial Ocupacional - DCO e Síndrome de Sobrecarga
Ocupacional - SSO, por evitar que na própria denominação já se apontem causas definidas
(como por exemplo, "cumulativo" nas LTC e "repetitivo" nas LER) e os efeitos (como por
exemplo, "lesões" nas LTC e LER).

Apesar da adoção de nova terminologia - DORT - para fins de atualização desta norma, o
uso do termo LER nesta seção justifica-se, para se manter a referência bibliográfica. As LER
representam um grupo heterogêneo de quadros clínicos, alguns deles bem definidos como
tenossinovite, sinovite ou epicondilite e outros mais difusos.

O estigma criado em torno da LER contribui para que o paciente tenha receio em recorrer à
assistência médica, a não ser quando já se encontra com dificuldade de manter o ritmo de
trabalho. Somado a esta situação, o paciente enfrenta o afastamento do trabalho, o que
significa geralmente perda econômica e afastamento do círculo que lhe é habitual e no qual
tem um papel definido socialmente.

Encontrar um tratamento que seja adequado é mais um dos desafios que acaba enfrentando.
Infelizmente, a grande maioria da rede de tratamento, pública ou privada, ainda está
despreparada para receber esse paciente. O mercado, que obedece à lei da quantidade e
não da qualidade, geralmente oferece profissionais não-qualificados, sem informações sobre
a fisiopatologia da LER, usando aparelhagem ineficaz, e sem visão e prática
interdisciplinares necessárias no caso.

No Brasil há uma epidemia de queixas de LER. Estatísticas dos serviços de saúde públicos e
privados, e em especial os de saúde do trabalhador, mostram que em todo o País as LER
ocupam posição de destaque entre a demanda. Este fato e a incapacidade para o trabalho
por tempo prolongado exigem da parte dos profissionais de segurança, saúde, ergonomia e

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produção, sindicatos e empresas seriedade na abordagem dos diversos aspectos envolvidos,
tanto na ocorrência e agravamento do quadro, como na possibilidade de diagnóstico
precoce, tratamento e reabilitação adequada.

Entendemos LER como uma "síndrome clínica", caracterizada por dor crônica, acompanhada
ou não por alterações objetivas e que se manifesta principalmente no pescoço, cintura
escapular e/ou membros superiores em decorrência do trabalho. O termo LER é genérico, e
o médico deve sempre procurar determinar o diagnóstico específico.

Como se refere a diversas patologias distintas, torna-se difícil estabelecer o tempo


necessário para uma lesão persistente passar a ser considerada como crônica. Além disso,
até a mesma patologia pode se instalar e evoluir de forma diferente, dependendo dos fatores
etiológicos.

Com todas essas limitações, o que se pode dizer é que as lesões causadas por esforços
repetitivos são patologias, manifestações ou síndromes patológicas que se instalam
insidiosamente em determinados segmentos do corpo, em consequência de trabalho
realizado de forma inadequada.

Assim, o nexo é parte indissociável do diagnóstico que se fundamenta numa boa anamnese
ocupacional e em relatórios de profissionais que conhecem a situação de trabalho,
permitindo a correlação do quadro clínico com a atividade ocupacional efetivamente
desempenhada pelo trabalhador, donde a proposta da nova terminologia Distúrbios
Osteomusculares Relacionados ao Trabalho-DORT.

Aspectos Epidemiológicos

Com o advento da Revolução Industrial, quadros clínicos decorrentes de sobrecarga estática


e dinâmica do sistema osteomuscular tornaram-se mais numerosos. No entanto, apenas a
partir da segunda metade do século, esses quadros osteomusculares adquiriram expressão
em número e relevância social, com a racionalização e inovação técnica na indústria,
atingindo particularmente perfuradores de cartão.

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Esses autores explicam a disseminação da prevalência das LER pelo aumento da carga do
trabalho contínuo resultante do uso inadequado de sistemas de esteiras; aumento do
trabalho manual que requer movimento dos dedos, bem como movimentos repetitivos dos
membros superiores; inadequação dos mobiliários; controle estrito do trabalho pela gerência
e diminuição de pausas e tempo livre. Entre outros países que viveram epidemias de LER
estão a Inglaterra, os países escandinavos, os Estados Unidos e a Austrália. A ocorrência
das LER em grande número de pessoas em diferentes países provocou uma mudança no
conceito tradicional de que o trabalho pesado, envolvendo esforço físico, é mais desgastante
que o trabalho leve, envolvendo esforço mental, com sobrecarga dos membros superiores e
relativo gasto de energia.

Há que se lembrar de que, ao contrário de previsões feitas na década de 80, a incidência de


LER vem aumentando nos países industrializados, nos quais as características da
organização do trabalho de forma geral privilegiam o paradigma da alta produtividade e
qualidade do produto em detrimento da preservação do trabalhador, devido à inflexibilidade e
alta intensidade de ritmo, grande quantidade e alta velocidade de movimentos repetitivos,
falta de autocontrole sobre o modo e ritmo de trabalho, mobiliário e equipamentos
ergonomicamente inadequados.

As Lesões por Esforços Repetitivos no Brasil foram primeiramente descritas como


tenossinovite ocupacional. Foram apresentados, no XII Congresso Nacional de Prevenção de
Acidentes do Trabalho - 1973, casos de tenossinovite ocupacional em lavadeiras,
limpadoras, engomadeiras, recomendando-se que fossem observadas pausas de trabalho
daqueles que operam intensamente com as mãos. A partir de 1985, surgem publicações e
debates sobre a associação entre tenossinovite e o trabalho de digitação, que resultaram na
publicação da Portaria no 4.062, em 6 de agosto de 1987, pelo Ministério da Previdência e
Assistência Social, reconhecendo a tenossinovite como doença do trabalho. Nesta época, as
Comunicações de Acidentes do Trabalho - CAT’s de tenossinovite registradas no INSS
concentravam-se na função de digitadores.

Posteriormente, observou-se no Brasil o surgimento de casos em diferentes ocupações


exercendo atividade de risco. Por exemplo, em 1991 o Núcleo de Saúde do Trabalhador

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registrou casos de LER nas seguintes funções: digitador, controlador de qualidade,
embalador, enfitadeiro, montador de chicote, montador de tubos de imagem, operador de
máquinas, operador de terminais de computador, auxiliar de administração, auxiliar de
contabilidade, operador de telex, datilógrafo, pedreiro, secretário, técnico administrativo,
telefonista, auxiliar de cozinha e copeiro, eletricista, escriturário, operador de caixa,
recepcionista, faxineiro, ajudante de laboratório, viradeiro e vulcanizador.

Fatores de Risco

O desenvolvimento das LER é multicausal, sendo importante analisar os fatores de risco


envolvidos direta ou indiretamente. A expressão "fator de risco" designa, de maneira geral,
os fatores do trabalho relacionados com as LER. Os fatores foram estabelecidos, na maior
parte dos casos, por meio de observações empíricas e depois confirmados com estudos
epidemiológicos. Os fatores de risco não são independentes. Na prática, há a interação
destes fatores nos locais de trabalho. Na identificação dos fatores de risco, devem-se
integrar as diversas informações.

Sobre o plano conceitual, "os mecanismos de lesão dos casos de LER são considerados um
acúmulo de influências que ultrapassam a capacidade de adaptação de um tecido, mesmo
se o funcionamento fisiológico deste é mantido parcialmente". Na caracterização da
exposição aos fatores de risco, alguns elementos são importantes, dentre outros:

a) a região anatômica exposta aos fatores de risco;

b) a intensidade dos fatores de risco;

c) a organização temporal da atividade (por exemplo: a duração do ciclo de trabalho, a


distribuição das pausas ou a estrutura de horários);

d) o tempo de exposição aos fatores de risco.

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Os grupos de fatores de risco das LER podem ser elencados como:

a) O grau de adequação do posto de trabalho à zona de atenção e à visão. A dimensão


do posto de trabalho pode forçar os indivíduos a adotarem posturas ou métodos de
trabalho que causam ou agravam as lesões osteomusculares;

b) O frio, as vibrações e as pressões locais sobre os tecidos (a pressão mecânica


localizada é provocada pelo contato físico de cantos retos ou pontiagudos de um
objeto ou ferramentas com tecidos moles do corpo e trajetos nervosos);

c) As posturas inadequadas. Em relação à postura existem três mecanismos que podem


causar as LER:

 Os limites da amplitude articular;

 A força da gravidade oferecendo uma carga suplementar sobre as articulações


e músculos;

 As lesões mecânicas sobre os diferentes tecidos.

d) A carga osteomuscular pode ser entendida como a carga mecânica decorrente:

 De uma tensão (por exemplo, a tensão do bíceps);

 De uma pressão (por exemplo, a pressão sobre o canal do carpo);

 De uma fricção (por exemplo, a fricção de um tendão sobre a sua bainha);

 De uma irritação (por exemplo, a irritação de um nervo).

Entre os fatores que influenciam a carga osteomuscular, encontramos: a força,


a repetitividade, a duração da carga, o tipo de preensão, a postura do punho e
o método de trabalho.

e) A carga estática está presente quando um membro é mantido numa posição que vai
contra a gravidade. Nestes casos, a atividade muscular não pode se reverter a zero
("esforço estático"). Três aspectos servem para caracterizar a presença de posturas
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estáticas: a fixação postural observada, as tensões ligadas ao trabalho, sua
organização e conteúdo;

f) A invariabilidade da tarefa implica monotonia fisiológica e/ou psicológica.

g) As exigências cognitivas podem ter um papel no surgimento das LER, seja causando
um aumento de tensão muscular, seja causando uma reação mais generalizada de
estresse;

h) Os fatores organizacionais e psicossociais ligados ao trabalho. Os fatores


psicossociais do trabalho são as percepções subjetivas que o trabalhador tem dos
fatores de organização do trabalho. Como exemplo de fatores psicossociais podemos
citar: considerações relativas à carreira, à carga e ritmo de trabalho e ao ambiente
social e técnico do trabalho. A "percepção" psicológica que o indivíduo tem das
exigências do trabalho é o resultado das características físicas da carga, da
personalidade do indivíduo, das experiências anteriores e da situação social do
trabalho.

Dica 3: O texto completo da Instrução Normativa INSS/DC Nº 98 “Atualização clínica das


lesões por esforços repetitivos (LER) distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho
(DORT)” encontra-se disponível no endereço:

http://www81.dataprev.gov.br/sislex/imagens/paginas/38/inss-dc/2003/anexos/IN-DC-98-
ANEXO.htm

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U NIDADE 6
O diagnóstico das LER/DORT

Objetivo: Caracterizar os principais sinais clínicos da LER/DORT.

Nesta unidade estudaremos a evolução clínica da LER/DORT e os sinais clínicos


fundamentais para o diagnóstico rápido e eficaz.

Sabemos que o nosso corpo tem limites, pois não somos uma máquina. Possuímos
capacidade de regulação, mas quando a demanda sobre o nosso corpo excede os limites,
sinais surgem demonstrando o início da agressão. Se não houver tempo de recuperação
suficiente, a intensidade dos sinais aumentam devido aos danos impostos ao sistema
osteomuscular, podendo levar à incapacidade laboral temporária ou permanente.

Existem umas diversidades de sinais, sendo o mais frequente a DOR. De acordo com a
Instrução Normativa INSS/DC Nº 98 (2003) a dor é em geral “insidiosa, de início remoto, sem
data precisa de instalação”. Os relatos de dor vêm associados após certo período de
sobrecarga. A localização da dor é, normalmente, pouco definida, sugerindo distúrbio
neurológico central. A dor localizada é sinal de comprometimento de um músculo, tendão ou
nervo específico. Nos primeiros momentos, a dor é menor no início da jornada, surgindo ao
fim do expediente e aliviando com o repouso noturno; com o tempo passa a ser mais
duradoura, até tornar-se contínua nos casos graves.

O documento explica que além da dor, é comum a ocorrência de parestesias (dormências ou


formigamentos), mostrando a existência de compressão nervosa. O trabalhador com LER
pode apresentar ainda intumescimentos de estruturas e hipertonias musculares (aumento do
tônus muscular). Há ainda a presença de nodulações de tendões, diferenças de temperatura
e umidade por distrofia simpático-reflexa (suor nas extremidades), etc. Outros sinais

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importantes são as posturas antálgicas e o receio demonstrado pelo paciente mesmo
durante o aperto de mãos devem ser valorizados. Sinais flogísticos (sinais que aparecem no
corpo) ocorrem principalmente nas tenossinovites agudas (inflamações dos tendões). Muitas
vezes o paciente relata sensação de edema, chegando mesmo a afirmar vigorosamente que
o apresenta, sem que o médico seja capaz de vê-lo.

Estágios da LER/DORT

O desenvolvimento da LER/DORT é multicausal, dessa forma há uma variedade de quadros


clínicos, que podem ser de etiologia compressiva, inflamatória ou desconhecida (causadas
por distúrbio neurológico de percepção da dor).

Nas fases mais avançadas, a pessoa chega a perder o controle do movimento e a força.
Trata-se, portanto, de uma doença evolutiva caso a exposição ao fator de lesão permaneça.
Podemos dividir os sintomas e sinais clínicos da LER/DORT em 4 estágios.

1. Primeiro estágio

 Sensação de desconforto e peso no membro afetado;

 Ainda não interfere na produtividade;

 Melhora com repouso;

 Sinais clínicos ausentes.

2. Segundo Estágio

 Presença de dor e com persistência durante a atividade;

 Redução da produtividade;

 Sensação de formigamento e calor;

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 A recuperação demora no repouso;

 Presença de nodulações na bainha muscular

3. Terceiro estágio

 Dor forte e persistente;

 O repouso apenas atenua a dor;

 Perda da força muscular e parestesia;

 Sensível queda da produtividade;

 Edema frequente e recorrente;

 Alterações da sensibilidade da pele.

4. Quarto estágio

 Dor contínua, insuportável;

 Perda evidente da força;

 Perda do controle de movimento;

 Edema persistente;

 Atrofia por desuso;

 Atividades da vida diária (AVD) bastante prejudicadas (banhar-se, alimentar-se,


vestir-se, etc.).

 Depressão, ansiedade, angústia.

O diagnóstico da lesão ou doença subjacente às LER deve ser individualizado, cabendo o


nexo causal ao médico. É eminentemente clínico e muitas vezes difícil, demandando numa
minoria dos casos exames complementares para apoiar o diagnóstico clínico.

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Quanto mais precoce for feito o diagnóstico menor a evolução da doença e maior a chance
de cura do distúrbio. A literatura mostra que se os sintomas não forem tratados logo no início,
podem ficar crônicos ou irreversíveis.

O reconhecimento tardio da doença pode resultar na incapacidade parcial, temporária e até


permanente na realização da atividade profissional e o afastamento do mercado de trabalho,
levando a uma problemática não só de saúde, mas também social e econômica.

Atividade Dissertativa 1

O Ministério da Saúde elaborou um manual sobre LER/DORT voltado para o próprio


trabalhador, chamado “Saber Ler para prevenir Dort” (2001). O objetivo deste manual é
auxiliar a prevenção da LER/DORT, incentivando a participação dos próprios trabalhadores.

Após a leitura do manual descreva a importância social e econômica da prevenção da


LER/DORT para:

1. Os trabalhadores;

2. Para a empresa

3. Para a sociedade.

Sua reflexão deverá ser baseada em óticas distintas: a da prevenção da ocorrência da


doença, ou seja, como vamos evitar que trabalhadores que hoje são saudáveis não
desenvolvam LER e da ótica de quem já está lesionado, ou seja, como vamos prevenir que
as pessoas em estágios iniciais de LER, passem para um estágio avançado, caracterizado
por um quadro crônico e irreversível?

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U NIDADE 7
Neuropatias Compressivas causadas pelo trabalho

Objetivo: Identificar as principais neuropatias compressivas.

A Neuropatia é um acometimento do Sistema Nervoso. No caso das neuropatias


compressivas, ocorre a compressão mecânica de nervos ou raízes de nervos de causas
internas ou externas. Podem resultar em um bloqueio na condução de impulsos nervosos ou
perda axonal, causadas por isquemia, inflamação ou um efeito mecânico direto.

No Tabela 1 você pode analisar a relação entre algumas patologias e o trabalho. Os


exemplos permitem vislumbrar como uma série de situações de trabalho pode levar ao
surgimento de determinadas patologias. A partir dos dados do quadro é possível transformar
as condições de trabalho, buscando eliminar os fatores desencadeantes e melhorar a saúde
dos trabalhadores e a eficácia da produção.

RELAÇÃO EXEMPLIFICATIVA ENTRE O TRABALHO E ALGUMAS PATOLOGIAS

ALGUNS
LESÕES CAUSAS OCUPACIONAIS EXEMPLOS DIAGNÓSTICOS
DIFERENCIAIS

Apoiar o Gota, traumatismo


Bursite do cotovelo Compressão do cotovelo
cotovelo em e artrite
(olecraniana) contra superfícies duras
mesas reumatóide

Contratura de Fáscia Operar Heredo-familiar


Compressão palmar
compressores (Contratura de
palmar associada à vibração
pneumáticos Dupuytren)

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Diabetes, artrite
reumatóide,
Compressão palmar
Apertar alicates mixedema,
Dedo em Gatilho associada à realização de
e tesouras amiliodose e
força
tuberculose
Pulmonar

Movimentos com esforços Doenças


estáticos e preensão Apertar reumáticas e
prolongada de objetos, parafusos, jogar metabólicas,
principalmente com o punho tênis, hanseníase,
Epicondilites do Cotovelo estabilizado em flexão desencapar fios, neuropatias
dorsal e nas tricotar, operar periféricas,
pronossupinações com motosserra traumas e forma T
utilização de força de hanseníase.

Epicondilite
Flexão extrema do cotovelo medial, seqüela de
Síndrome do canal Apoiar cotovelo
com ombro abduzido. fratura, bursite
Cubital em mesa
Vibrações. olecraniana, forma
T de Hanseníase

Cistos sinoviais,
tumores do nervo
Síndrome do Canal de Compressão da borda ulnar ulnar, tromboses
Carimbar
Guyon do punho. da artéria ulnar,
trauma, artrite
reumatóide e etc.

Cérvico-
Fazer trabalho
braquialgia,
manual ou sobre
síndrome da
veículos, trocar
costela cervical,
Síndrome do Desfiladeiro Compressão sobre o ombro, lâmpadas, pintar
síndrome da
flexão lateral do pescoço, paredes, lavar
Torácico primeira costela,
elevação do braço. vidraças, apoiar
metabólicas, artrite
telefones entre o
reumatóide e
ombro e a
Rotura do Supra-
cabeça
espinhoso

Carregar objetos
Síndrome do Interósseo Compressão da metade pesados
Anterior distal do antebraço apoiados no
antebraço

Carregar pesos,
praticar
Síndrome do Pronador Esforço manual do Síndrome do túnel
musculação,
Redondo antebraço em pronação. do carpo
apertar
parafusos.

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Menopausas,
tendinite da
gravidez
(particularmente
Movimentos repetitivos de se bilateral), artrite
flexão, mas também Digitar, fazer reumatóide,
Síndrome do Túnel do extensão com o punho, montagens amiloidose,
Carpo principalmente se industriais, diabetes, lipomas,
acompanhados por empacotar neurofibromas,
realização de força. insuficiência renal,
obesidade, lupus
eritematoso,
condrocalcinose
do punho, trauma

Artropatias
metabólicas e
endócrinas,
Manutenção do antebraço
artrites, osteofitose
Tendinite da porção supinado e fletido sobre o
Carregar pesos da goteira bicipital,
longa do Bíceps braço ou do membro
artrose
superior em abdução.
acromioclavicular
e radiculopatias
(C5-C6)

Bursite,
Carregar pesos
Elevação com abdução dos traumatismo,
Tendinite do Supra sobre o ombro,
ombros associada à artropatias
Espinhoso jogar vôlei ou
elevação de força. diversas, doenças
peteca
metabólicas

Doenças
Estabilização do polegar em
reumáticas,
pinça seguida de rotação ou
Torcer roupas, tendinite da
Tenossinovite de desvio ulnar do carpo,
apertar botão gravidez
DeQuervain principalmente se
com o polegar (particularmente
acompanhado de realização
bilateral),
de força.
estilóidite do rádio

Artrite
Reumatóide,
Fixação antigravitacional do
Tenossinovite dos Gonocócica,
punho. Movimentos Digitar, operar
Osteoartrose e
extensores dos dedos repetitivos de flexão e mouse
Distrofia Simpático
extensão dos dedos
Reflexa (Síndrome
Ombro-Mão)

Obs: Considerar a relevância quantitativa das causas na avaliação de cada caso.


A presença de um ou mais dos fatores listados na coluna "Outras Causas e Diagnóstico Diferencial" não
impede, a priori, o estabelecimento do nexo.
Tabela 1
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Nesta unidade trabalharemos com outro fragmento da Instrução Normativa nº 98, sobre os
tipos de neuropatias compressivas mais comuns nos membros superiores ocasionadas pelas
situações de trabalho. Além das neuropatias descritas no documento, é importante
salientarmos que situações de trabalho também podem levar à compressão dos nervos nos
membros inferiores devido à falta de espaço para as pernas, presença de quinas vivas ou
cadeiras inadequadas.

Fragmento da norma

Neuropatias compressivas

Das estruturas do membro superior, os nervos são as mais delicadas, e muitas vezes
trafegam por áreas estreitas, tornando-se passíveis de compressões. Nas neuropatias são as
parestesias e não a dor o elemento mais importante.

1. Síndrome do desfiladeiro torácico: é a compressão do feixe vásculo-nervoso num


estreito triângulo formado pelos músculos escaleno anterior e médio e a 1˚ costela.Na
síndrome do desfiladeiro torácico, o quadro clínico superpõe características de
compressão ulnar com outras de síndrome do túnel do carpo. Dor difusa e vaga no
membro superior associada à parestesia na borda ulnar pode ser uma forma de
síndrome do desfiladeiro torácico. Nestes casos, a eletroneuromiografia (ENMG) será
normal. Devem-se pesquisar os potenciais evocados bilateralmente e compará-los.
Ocupacionalmente ocorre em trabalhadores que mantêm os braços elevados por
períodos prolongados ou que comprimem o ombro contra algum objeto, como, por
exemplo, o uso prolongado e diário de telefone apoiado entre a orelha e o ombro.

2. Síndrome do supinador: o músculo supinador hipertrofiado comprime o nervo


interósseo posterior que passa dentro dele. A síndrome do supinador, que deve ser
distinguida da epicondilite lateral, é a compressão do ramo motor do nervo radial no
cotovelo. É causada por movimentos repetitivos de pronossupinação, como apertar
parafusos e prática de musculação.

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3. Síndrome do pronador redondo: é a compressão do nervo mediano abaixo da prega
do cotovelo, entre os dois ramos musculares do pronador redondo.É diferente da
compressão do nervo mediano no punho. Na síndrome do pronador redondo. Além da
área distal dos dedos, a região tenar também tem alterações de sensibilidade. Ocorre
em tarefas que exigem pronossupinação vigorosa do antebraço ou manuseio de
cargas.

4. Síndrome do interósseo anterior: é a compressão do nervo na borda de origem dos


músculos flexores superficiais dos dedos. A síndrome do interósseo anterior (ramo
exclusivamente motor do nervo mediano), que é mais comum que a síndrome do
pronador, acomete aqueles que carregam objetos pesados. Há também déficit motor.

5. Síndrome do túnel do carpo: é a compressão do nervo mediano ao nível do punho.


Decorre da desproporção continente/conteúdo no túnel do carpo. Ocorre nas tarefas
manuais repetitivas, principalmente se houver força ou desvio do carpo, quando os
tendões hipertrofiados ou edemaciados comprimem o nervo mediano. A
eletroneuromiografia (ENMG), quando solicitada, deve ser feita em posições de
hiperflexão/extensão, pois, quando realizada na posição anatômica, pode deixar de
identificar esta patologia. É importante saber que a Síndrome do Túnel do Carpo -
STC, principalmente quando bilateral, é comum nas grávidas e em situações não-
ocupacionais.

6. Lesão do nervo mediano na base da mão: é a consequência da compressão


extrínseca do nervo, como, por exemplo, a causada pelo uso de ferramentas como
chave de fenda de cabo curto; vibração e uso da base da mão, como, por exemplo,
com o uso de martelo para grampear, carimbar, etc.

7. Síndrome do canal cubital: É a compressão do nervo ulnar ao nível do túnel cubital.


Quando o cotovelo é progressivamente fletido e o ombro abduzido, há um aumento da
pressão intraneural estimulando os flexores que estreitam o túnel em
aproximadamente 55%, achatando e alongando o nervo cubital em quase 5 mm.
Traumas agudos, processos degenerativos e infecciosos, anomalias musculares,

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tumores de partes moles, sequelas de fraturas, esforços de preensão e flexão,
ferramentas inadequadas e vibrações são as causas predisponentes mais comuns.
Mais uma vez, o diagnóstico é essencialmente clínico.

8. Síndrome do canal de Guyon: é a compressão do nervo ulnar ao nível do chamado


canal de Guyon no punho, causando distúrbio de sensibilidade no quarto e quinto
dedos, bem como distúrbios motores na face palmar. Esta síndrome é cinco vezes
menos frequente do que o comprometimento do nervo ulnar no canal cubital. A
utilização excessiva da borda ulnar do punho, traumas, fraturas de ossos do carpo e
do metacarpo, variações anatômicas, tumores de partes moles, comprometimento da
artéria ulnar e cistos sinoviais são os elementos predisponentes mais comuns.
Aparece com muita frequência nos carimbadores, escrivãs e aramistas.

9. Síndrome do interósseo posterior: é o comprometimento do ramo profundo do nervo


radial, após sua bifurcação na extremidade proximal do antebraço, causados por
sequelas de fraturas ou luxação do cotovelo, processos inflamatórios, tumores de
partes moles, variações anatômicas e iatrogênicas, além de intoxicação por metais
pesados, herpes zoster, sarcoidose e hanseníase.

10. Podem estar presentes queixa de dor vaga no dorso do antebraço e diminuição da
força muscular. É de evolução lenta, podendo levar meses para se instalar e não há
alteração sensitiva associada. Caso se faça presente, deverá ser questionada
compressão mais alta do nervo radial.

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Dica 4: O texto completo da Instrução Normativa INSS/DC Nº 98 “Atualização clínica das
lesões por esforços repetitivos (LER) distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho
(DORT)” encontra-se disponível no endereço:

http://www81.dataprev.gov.br/sislex/imagens/paginas/38/inss-dc/2003/anexos/IN-DC-98-
ANEXO.htm

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U NIDADE 8
Tendinites, Tenossinovites e outro tipos de LER/DORT

Objetivo: Diferenciar outros tipos de LER/DORT.

Nesta unidade continuaremos apresentando os tipos de LER/DORT, conforme descrito e


exemplificado na Tabela 1. Discutiremos outro fragmento da Instrução Normativa nº 98,
sobre os tipos de tendinites, tenossinovites e outras patologias comuns nos membros
superiores ocasionadas pelas situações de trabalho A partir do conhecimento das principais
patologias, é possível projetar ferramentas, mobiliários e postos de trabalho adequados às
características físicas dos trabalhadores e as exigências da tarefa, bem como melhorar a
organização do trabalho.

Fragmento da norma

Tendinites e tenossinovites

São as doenças inflamatórias que comprometem as bainhas tendíneas e os tendões, em


decorrência das exigências do trabalho. Muitas delas são traumáticas, agudas, e, nestes
casos, ocorrem acidentes típicos (ou acidentes tipo e/ou de trajeto) se forem relacionadas
com o trabalho. Estudos do NUSAT, confirmando outros autores, sugerem que essas formas
de LER predominam e são mais precoces nas atividades de grande repetitividade aliadas à
exigência de força.

1. Doença de “De Quervain”: é a inflamação da bainha comum dos tendões do abdutor


longo e extensor curto do polegar no ponto onde eles passam juntos por uma única
polia: o sulco ósseo do processo estilóide do rádio. Foi originalmente descrita em

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lavadeiras, mas incide em todas as atividades em que haja fixação do polegar
acompanhada de força, quer de torção, quer de desvio ulnar do carpo.

2. Dedo em gatilho: a inflamação dos tendões flexores dos dedos pode produzir
espessamentos e nódulos que dificultam o deslizamento dos mesmos em suas
bainhas. Ao vencer abruptamente a resistência ao movimento de extensão, o dedo
"salta", caracterizando o diagnóstico. Incide nas atividades em que há associação de
força com compressão palmar por instrumentos como alicates, tesouras e gatilhos de
bombas de gasolina.

3. Epicondilite lateral: também conhecida como cotovelo de tenista (tennis elbow), é a


inflamação da inserção dos músculos responsáveis pela extensão e supinação do
antebraço. A doença é desencadeada pelos movimentos de extensão, como no "back-
hand" do tênis, e pronossupinação, como ao apertar parafusos.

4. Epitrocleíte (epicondilite medial): é a inflamação dos músculos flexores do carpo na


borda medial do cotovelo. É menos frequente que a epicondilite lateral. Pode ocorrer,
por exemplo, em descascadores de fios elétricos, e está associada à flexão do punho.

5. Tendinite biceptal: é a inflamação da bainha sinovial do tendão da porção longa do


bíceps, no ponto em que ela muda de direção: no sulco biceptal. Ocorre mais
frequentemente associada a outras lesões da bainha rotatória do ombro.
Ocupacionalmente ocorre nas atividades em que o braço é mantido em elevação por
longos períodos.

6. Tendinite do supra-espinhoso: também conhecida como síndrome do impacto, é


ocasionada pela compressão das fibras do supra-espinhoso pelo acrômio ao realizar a
abdução do braço acima de 45º. Muito frequentemente é acompanhada de bursite
subacromial, em decorrência do extravasamento de exsudato para o interior da bursa.
São incidentes em adultos e podem não ser ocupacionais. O sedentarismo e a falta de
estrutura muscular são fatores predisponentes.

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7. Tenossinovite dos extensores dos dedos e do carpo: são muito comuns em
digitadores e operadores de mouse. Decorrem mais da contração estática desses
músculos, para fim antigravitacional sobre o carpo e dedos, que da contração
dinâmica para o movimento dos dedos.

8. Tenossinovite dos flexores dos dedos e dos flexores do carpo: acometem os tendões
da face ventral do antebraço e punho em decorrência de movimentos repetitivos de
flexão dos dedos e da mão.

9. Tendinite distal do bíceps: decorre de atividades que exigem movimentos de flexão do


antebraço supinado sobre o braço.

10. Tenossinovite do braquiorradial: decorre de atividades que exigem movimentos de


flexão do antebraço pronado sobre o braço.

Outras patologias

1. Cistos sinoviais: são tumefações esféricas, geralmente únicas, macias, habitualmente


indolores e flutuantes que ocorrem por degeneração mixóide do tecido sinovial
periarticular ou peritendíneo. São comuns na face extensora do carpo, podendo ter o
seu aparecimento favorecido por trabalhos manuais que exijam força. Nem sempre
são ocupacionais e/ou incapacitantes.

2. Distrofia simpático-reflexa: a distrofia simpático-reflexa tem como uma de suas


características a dor de caráter difuso e em queimação. Podem ocorrer em diversas
situações não-ocupacionais em que o ombro seja mantido em repouso prolongado,
como após acidente vascular cerebral, infarto agudo do miocárdio, queimaduras, etc.
O ombro congelado é uma forma de distrofia simpático-reflexa localizada no ombro.

3. Síndrome miofascial e fibromialgia: em face da natureza polêmica da matéria, o


presente tópico tem como objetivo apresentar as patologias envolvidas,
recomendando-se buscar maiores informações em publicações especializadas,

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enquanto não se dissipam as dúvidas entre as várias correntes existentes.
Fibromialgia, fibrosite, reumatismo psicogênico, síndrome da fadiga crônica muito
possivelmente representam formas diferentes de expressão clínica, dentro do
espectro de uma síndrome, a fibromialgia.

a. A fibromialgia é a doença reumatológica mais frequente. Ocorre em nove


mulheres para cada homem, principalmente entre os 30 e 50 anos. Na
fibromialgia há vários trigger points ou tender points (pontos sensíveis no
corpo), que, entretanto, não provocam dor referida com tanta precisão quanto
na síndrome miofascial. Caracteriza-se pela presença de pontos dolorosos
específicos ou difusos; distúrbios do sono com fadiga e rigidez matinais;
relação com mudanças do tempo e situações angustiantes; tendência à
cronicidade. Atinge indivíduos de personalidade perfeccionista e deprimidos,
em quem o sistema músculo-esquelético seria o "órgão de choque". As
fibromialgias são predominantes em certos pacientes de LER, como os
telefonistas. Nestes profissionais predominam as dores difusas, sem lesões
específicas demonstráveis.

O mecanismo fisiopatológico primário para a síndrome da fibromialgia envolve


mecanismos centrais de distúrbios do sono, aumento dos níveis da substância
P, diminuição das taxas de serotonina, bem como perturbação do eixo
hipotálamo-hipofisário-adrenal. Assim, a dor pode ser causada por mecanismos
de dor central aberrantes sem qualquer anormalidade em tecidos periféricos,
embora fatores ou efeitos periféricos, tais como trauma ou falta de
condicionamento físico, possam posteriormente ampliar a dor em tais casos.
Moreira e Carvalho observaram algumas alterações comuns em 46 pacientes
portadores de fibromialgia do ambulatório de reumatologia da UFMG:

 Preocupação excessiva;

 Perfeccionismo e exigência;

 Grande eficiência em suas atividades;


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 Incapacidade de dizer não;

 Sentimento de extrema lealdade;

 Baixa auto-estima;

 Sentimentos exagerados de culpa

b. A síndrome da fadiga crônica caracteriza-se por fadiga intensa, associada a


sintomas que sugerem processo infeccioso subjacente, como febrícula,
odinofagia, mialgia, cefaleia, artralgias e dor à palpação de linfonodos axilares
ou cervicais.

Em portadores de síndrome miofascial há uma produção significativamente


aumentada de noradrenalina, comparada com controles normais. Há também
alterações comportamentais, da imunidade humoral e celular e aumento de
níveis de glicocorticóides circulantes. Pode-se concluir que a fibromialgia é uma
doença complexa que pode ter ou não um componente ocupacional importante.
Cabe ao médico avaliar a existência do componente ocupacional.

4. Câimbra do escrivão: é uma doença neurológica, do grupo das distonias, que se


manifesta com fortes contrações dos dedos e mãos que escrevem, obrigando a
interrupção da atividade. Não é doença ocupacional, visto que a escrita em excesso
não pode ser considerada causa da doença nem fator de seu agravamento.

5. Contratura fibrosa do fáscia palmar: é caracterizada pelo espessamento, com


contratura da fáscia palmar. Alguns autores usam como sinonímia contratura de
Dupuytren, que tem caráter heredofamiliar e bilateral.

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U NIDADE 9
Dores nas costas de origem ocupacional

Objetivo: Entender o processo de algia nas costas ocasionado pelas diferentes cargas
presentes nas situações de trabalho.

Nesta unidade discutiremos a mais comum patologia músculo-esqueléticas causada pelo


trabalho, popularmente, conhecida como dor nas costas. A dor pode ser sentida no pescoço,
conhecida como Cervicalgia, podendo deslocar-se pelo braço e mão. Na parte superior do
tranco, denominada de Dorsalgia, ou na parte inferior das costas, podendo deslocar-se para
as pernas e pés, conhecida como Lombalgia. As dores nas costas acompanham o homem
desde sua evolução, conforme ilustrado na Figura 1.

Quando o homem assume a posição bípede (apoiado nos dois pés), diferentemente dos
quadrúpedes que apóiam nas quatro patas, é exigido do corpo humano um sistema de
controle da estabilidade muito mais complexo. A coluna passa a suportar uma carga muito
maior e a exercer não só a função de equilíbrio, como também de sustentação e movimento,
auxiliando a capacidade do homem para realizar trabalho.

Independente da altura, a queixa de dor pode ser acompanhada de fraqueza e dormência, de


acordo com o tipo de disfunção. Ou seja, o tipo de sintoma e a intensidade do mesmo
dependem das estruturas(s) comprometidas, como músculos, nervos, ossos, articulações ou
outras estruturas na coluna vertebral. A dor pode ser constante ou intermitente, permanecer
num lugar ou deslocar-se ou espalhar-se para/por outras áreas. Pode ser uma dor surda ou
uma sensação aguda de perfuração ou ardência.

Nas últimas décadas, tem-se notado uma preocupação progressiva com as mais diversas
questões relacionadas às patologias da coluna vertebral. As lombalgias estão entre os mais
comuns e significantes distúrbios músculo-esqueléticos, com consequentes envolvimentos
social e econômico em muitos países. Mais de 80% da população mundial adulta irá sofrer,

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eventualmente, dores nas costas em algum momento de suas vidas e 4 a 5% da população
tem um episódio agudo de lombalgia anualmente (Marras, 2000).

Figura 1

Diferente de muitas doenças ocupacionais, a lombalgia acomete os mais jovens e saudáveis.


Anderson (1997) afirma que a frequência dos sintomas de dores nas costas é tipicamente
alta entre 35 e 55 anos, enquanto o número total de dias afastados cresce com o avançar da
idade (Marras, 2000).

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Atualmente, a dor lombar é a principal causa de incapacidade entre a população de
trabalhadores (Xu Ying et al., 1997). A alta incidência desse problema nas indústrias
representa enorme impacto sócio-econômico devido às influências negativas na qualidade de
vida dos funcionários e aos altos custos gerados com assistência médica, dias de
afastamentos, benefícios sociais e treinamentos de novos funcionários. De acordo com
Marras (2000), as lombalgias representam 16 a 19% de todos os pedidos de indenizações
feitos pelos trabalhadores, nos EUA.

A etiologia da lombalgia é complexa, multifatorial e, frequentemente, está ligada às


atividades de alto risco ocupacional causadoras de sobrecargas biomecânicas e fisiológicas
no corpo do trabalhador (Granata et al., 1999; Latza et al., 2000). Portanto, a probabilidade
de identificar uma única causa específica é muito pequena já que muitos desses fatores
estão altamente relacionados.

Tarefas que necessitam levantamento e manuseio de cargas vêm sendo apontadas através
de evidências epidemiológicas e biomecânicas, como fortes fatores de risco (NIOSH, 1981).
Apesar da mecanização nas indústrias, essas atividades permanecem como um componente
vital no ambiente de trabalho exigindo do trabalhador movimentações dinâmicas
significativas, rápidas e combinadas, aumentando dessa maneira, o risco de um trabalhador
vir a desenvolver lombalgia, mesmo que manuseando pesos relativamente leves (Davis et
al., 2000; Waters et al., 1998).

Condições de levantamento assimétricas foram inicialmente estudadas por Carg e Badger


(1986). Quando uma pessoa faz rotação do tronco para pegar uma carga, o sistema
músculo-esquelético desenvolve forças maiores de um lado do que do outro (Ferguson et
al.,1992).

A contração muscular desproporcional entre os lados direito e esquerdo cria forças


assimétricas e laterais desequilibradas de cisalhamento impondo forças compressivas e
torsionais à coluna. Essa combinação de movimentos em vários planos causa desgaste nos
discos intervertebrais, diminuindo a sua capacidade de distribuição de sobrecargas e
aumentando a carga biomecânica nas articulações, principalmente nas tarefas que requerem

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altas velocidades de flexão lateral e de rotação (Waters et al., 1998). Segundo Davis et al.
(2000), o movimento dinâmico do tronco tem um impacto significante nas forças
tridimensionais impostas à coluna lombar durante as atividades assimétricas.

Geralmente, quanto maior for a frequência de movimento dinâmico e assimétrico do tronco


maiores serão as cargas tridimensionais impostas à coluna vertebral nos seus três planos,
variando em 10 a 50% nas forças de compressão, 50 a 325% nas de cisalhamento lateral e
de 10 a 30% no cisalhamento ântero-posterior (Davis et al., 2000).

Os movimentos fisiológicos da coluna tóraco-lombar são raramente movimentos puros, pois


mesmo os levantamentos sagitais simétricos, envolvem alguns graus de assimetria. Em
situações reais de trabalho, sobrecargas à coluna ocorrem dinamicamente em três
dimensões. Contudo, a maioria dos estudos biomecânicos, focados na compressão axial,
assume que o tronco está em posição sagital simétrica limitando-se à avaliação estática e
laboratorial da coluna vertebral em apenas duas dimensões (Fathallah et al.,1998; Granata et
al., 1999).

Embora os estudos epidemiológicos ofereçam valiosos critérios com os quais fatores de risco
de lombalgia ocupacional possam estar associados, a profundidade da informação não
consegue controlar o risco no ambiente de trabalho, pois, normalmente, baseiam-se em
dados retrospectivos (Marras e et al., 1999). Nestes estudos espera-se que os funcionários
adoeçam, para depois identificar as atividades de risco e só então buscar mudanças
apropriadas.

Segundo Waters et al. (1998), um único método não é suficientemente capaz de avaliar
eficazmente as atividades de manuseio de cargas. Sendo assim, independente do método
utilizado, é fundamental identificar também as áreas e níveis dos desconfortos físicos
percebidos durante a jornada de trabalho para que mudanças adequadas possam ser
propostas.

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Fatores causadores de algias nas costas

De acordo com COUTO (1995, p.195), são fatores de esforços excessivos à coluna vertebral:

a) Manuseio, levantamento e carregamento de cargas excessivamente pesadas;

b) Manuseio de cargas que, embora não sejam tão pesadas, estão em posição
biomecanicamente desfavorável; neste caso, culpa-se muito o esforço em flexão
(pegar a carga com as pernas estendidas e com o tronco fletido), mas outras posturas
costumam ser bem mais críticas do que esta especificamente;

c) Manutenção de postura assimétrica durante boa parte do tempo (inclusive sentado),


com o consequente tensionamento da musculatura e dor, além da possibilidade de
ocorrência de lesões em longo prazo dos discos da coluna;

d) Efeitos diretos da vibração de todo o corpo sobre o trabalhador (por exemplo, trabalhar
com trator, empilhadeira).

Cailliet (2001) diferencia três fatores que podem levar a problemas na coluna vertebral.

1. Esforço anormal numa coluna normal - o objeto manuseado é pesado demais, sendo a
insuficiente contração muscular. O manuseio por um tempo demasiadamente longo
causará fadiga ou exaustão. Se a contração muscular foi superada ou exaurida, o
ímpeto da tensão recai sobre os ligamentos que tem uma elasticidade limitada e, ao
cederam os ligamentos, a tensão recai sobre as articulações com resultante
subluxação da articulação.Pode causar a distensão do ligamento longitudinal ao longo
da coluna toda, causando instabilidade dos segmentos e, por vezes alterando a
curvas fisiológicas da coluna.

2. Esforço normal numa coluna anormal - algumas vezes um defeito da coluna ou de


seus tecidos contíguos, o esforço pode ser impróprio ou excessivo.

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3. Esforço normal numa coluna normal, despreparada para este esforço - Toda atividade
músculo-esquelética é precedida de antecipação e preparo. O movimento antecipado
é graduado pela intensidade necessária de contração, pela rapidez da ação que se
propõe e pela extensão da contração necessária, considerando os fatores de espaço
e tempo.

A coluna pode ser lesionada por traumas diretos (contusão da região, queda de altura, por
escorregamento etc.), esforço excessivo, atitude postural (atividades laborais que
determinam posições agressivas à coluna lombar, como, por exemplo, costureira), solicitação
anormal (forças assimétricas com ou sem peso), sobrecarga, resvalo com carga,
microtraumas ou qualquer outro fator penoso ao trabalhador.

Os fatores descritos acima se referem principalmente ao trabalho de manuseio de cargas.


Entretanto, um dos principais fatores que levam à compressão intradiscal é o trabalho
sentado. A posição sentada eleva o risco de hérnias discais, pois ocorre um aumento de 50%
na pressão nos discos intervertebrais. Não podemos nos esquecer de que os discos são
desprovidos de nutrição por artérias, desta maneira o aumento da pressão leva à redução da
nutrição.

No módulo “Aplicabilidade das principais vertentes e ferramentas ergonômicas” você


aprenderá a analisar a percepção dos trabalhadores e os tipos de métodos existentes para
analisar as cargas de trabalho que podem levar a disfunções na coluna vertebral.

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Dica 5: Deseja saber mais sobre lombalgia?

Acesse: http://www.herniadedisco.com.br/doencas-da-coluna/lombalgia

Neste endereço você encontra informações sobre diagnóstico, sintomas, causas e


tratamentos para lombalgia.

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U NIDADE 10
Fatores Psicossociais da DORT

Objetivo: Identificar os principais fatores psicossociais da DORT

Nesta unidade apresentaremos outro fator importante para o desenvolvimento da DORT: os


fatores psicossociais. A literatura aponta uma variedade de fatores que podem causar DORT,
como: a frequência dos movimentos do membro superior (índice de repetição e duração da
exposição); a postura da articulação; a força necessária para realizar a tarefa ou a carga que
cria forças na musculatura e nos tecidos; a vibração; as condições ambientais; as
características da organização do trabalho; as condições psicossociológicas e os fatores de
risco de ordem individual (sexo, doenças prévias como diabetes, artrite, gota, etc.).

O texto abaixo de Michel J. Smith (1996), traduzido por Maria Zamberlan, mostra o papel dos
fatores psicossociais e da organização do trabalho sobre a DORT.

Fragmento do texto

O papel dos fatores psicossociais

Os DORT nos membros superiores parecem ser mais frequentes em ocupações cujas
características são conhecidas como produtoras de tensão no trabalho, tais como, as tarefas
de ciclo curto, monótonas, com baixo poder de controle, de baixo conteúdo e de alto ritmo de
trabalho (Smith e Carayon, 1996). Isso é lógico, já que muitas dessas mesmas
características de trabalho levam a um aumento dos fatores de risco biomecânicos
tradicionais que levam à DORT, ou seja, alta repetitividade, esforço substancial, postura
inadequada dos membros superiores e exposição de longa duração.

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Há várias maneiras pelas quais os fatores psicossociais podem aumentar o risco de DORT.
Em nível pessoal, os fatores psicossociais podem criar tensão no trabalho e as fadigas
psicológicas e fisiológicas correlatas. Isso pode aumentar a suscetibilidade fisiológica à
DORT, afetando as reações hormonais e circulatórias que exacerbam a influência dos
tradicionais fatores biomecânicos de risco. A fadiga psicológica pode influenciar as atitudes e
o comportamento pessoal, o que pode levar a ações arriscadas.

Em nível do trabalho, a natureza das atividades (os métodos de trabalho), do treinamento do


trabalhador, da disponibilidade de relações de assistência e supervisão pode afetar a
exposição, a satisfação, a atitude e o comportamento (técnicos).

Em nível organizacional, as políticas e os procedimentos da companhia podem afetar a


exposição, por meio da definição de projetos de cargos, através da especificação da duração
do tempo gasto em atividades específicas, estabelecendo os ciclos de pausas, definindo o
grau de pressão no trabalho e estabelecendo o clima psicológico em relação à socialização,
à carreira e à segurança no emprego. Esses fatores podem influenciar a disposição
psicológica que afeta a motivação, a atitude, o comportamento e a saúde numa base
holística. Seus efeitos podem influenciar a suscetibilidade para desenvolver os DORT, ou a
sensibilidade à dor e ao desconforto.

Mecanismos bioquímicos

Quando um indivíduo está sob os efeitos psicológicos e fisiológicos da tensão no trabalho há


mudanças na química do corpo que podem aumentar o risco dos DORT. Cannon (1928) foi
quem primeiro descreveu essa possibilidade como a resposta “resistir ou fugir” (fight or flight
response) que estava ligada a uma infusão de adrenalina, e Selye (1956), mais tarde,
aprimorou a síndrome médica associada a esse prolongado processo “provocado”. Levi
(1972) descreveu, em detalhe, os mecanismos específicos de mudanças bioquímicas.

A reação básica do organismo à ameaça externa e à tensão psicológica interna é a de


mobilizar recursos de energia para ações defensivas e reprimir os mecanismos de resposta

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que poderiam comprometer a sobrevivência do organismo, se lesado. Essa reação é
controlada pelo sistema nervoso vegetativo e é involuntária. Ou seja, não há raciocínio
envolvido e a pessoa não tem controle sobre as respostas. Quando ocorre essa reação, há
menos fluxo de sangue nas mãos e pés, inclusive nos músculos e tendões das mãos e pés.
Quando o trabalho requer movimentos repetitivos ou movimentos vigorosos, e a pessoa está
sob tensão, o fluxo então reduzido de sangue limitará a disponibilidade de recursos de
energia. É bastante provável que a fadiga ocorra em breve e que os músculos e tendões
possam ser forçados além dos seus limites.

Uma segunda reação bioquímica que ocorre é o aumento de corticosteróides. Eles, em


particular o cortisol, podem levar a um aumento da retenção de líquidos nos tecidos do
corpo. Esse mecanismo é semelhante ao que ocorre com a produção de fluido e dilatação
dos tecidos devidos à fricção repetitiva do corpo do tendão na sua bainha. Isso pode criar
pressão e pinçar o(s) nervo(s), o que pode causar parestesia (sensações anormais) e dor em
neuropatia periférica.

Segundo Selye (1956), em determinado momento, na síndrome da tensão, o organismo é


incapaz de continuar respondendo normalmente e ocorre a exaustão. Ao longo dessa
exaustão induzida pela tensão, o sistema imunológico não é capaz de funcionar
normalmente e, consequentemente, não pode prover os recursos adequados para reparar os
tecidos danificados. A exposição crônica aos agentes causadores da tensão por traumas
cumulativos, enquanto o organismo está sob tensão psicológica, pode criar micro danos que
não podem ser totalmente reparados por causa da reduzida capacidade do sistema
imunológico.

Uma quarta reação bioquímica, que ocorre quando o organismo está sob tensão, é o
aumento nos neurotransmissores periféricos (em particular a noroepinefrina) que promove a
capacidade de resposta das sinapses periféricas. Isso pode criar a sensibilização dos
músculos. Com os níveis de noroepinefrina aumentados, a tensão poderia aumentar, assim
como o nível de força gerada pelos músculos quando desempenham uma atividade.

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Essa tensão muscular elevada pode ser aumentada por uma estimulação “eferente” direta,
devido a estados psicológicos como a ansiedade ou a raiva. Por conseguinte, quando a
pessoa está com raiva ou assustada os músculos estão caracteristicamente mais tensos.
Esses são processos fisiológicos e psicológicos que podem conduzir à elevação da tensão
muscular que pode aumentar o risco de força muscular excessiva quando se trabalha. As
catecolaminas (epinefrina e noroepinefrina) também estimulam o aumento da pressão
muscular e dos batimentos cardíacos. A hipertensão está correlacionada à síndrome do túnel
do carpo (um dos tipos de DORT).

A última conexão biomecânica é menos evidente. Já foi verificado que as pessoas que
sofrem de depressão e esquizofrenia têm padrões anormais de produção de serotonina e
endorfinas. Esses narcóticos naturais são importantes na alteração dos estados de humor,
no estímulo ao sono e na consequente sensação de fadiga geral. Um padrão semelhante de
ruptura da produção normal de serotonina já foi também observado em trabalhadores que
operam em turnos. Estados de humor negativos, tais como esses, que prevalecem durante
estados de sofrimento psicológico, podem afetar a produção de serotonina e endorfinas e ter
consequências negativas na fadiga muscular e na sua recuperação.

Mecanismos psicológicos

A segunda forma mais importante pela qual a tensão pode influenciar a ocorrência de DORT
é por meio dos seus efeitos sobre reações psicológicas e comportamentais das pessoas. Por
conseguinte, a tensão pode afetar os estados psicológicos, o comportamento no trabalho, o
modo pessoal e as ações defensivas, a motivação para informar sobre danos à saúde e a
motivação para procurar tratamento.

Os DORT nos membros superiores são distúrbios que envolvem uma dor significativa. Muitas
vezes o diagnóstico do distúrbio é baseado na natureza e na extensão da dor relatada pela
pessoa. A tensão pode atuar no aumento da frequência dos relatos de dor nos membros
superiores em função do aumento geral de sensibilidade pessoal à dor trazido pelo estado de

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ânimo negativo. Se a pessoa não estivesse sob efeito de tensão psicológica ela poderia não
percebê-la como uma dor significativa e, portanto, não reportá-la.

Um tópico que guarda relação com isso é o aspecto psicológico social do comportamento
doentio. É possível que a pessoa sob tensão psicológica possa desenvolver sintomas físicos
específicos (tal como dor nos punhos) que “legitimem” seu desconforto psicológico geral e a
sua dor. Ter dores nos punhos e dedos é um distúrbio aceitável, enquanto se sentir
deprimido não deve ser aceitável. Por conseguinte, os efeitos dos distúrbios psicológicos
podem se refletir em problemas físicos do sistema musculoesquelético. Isso é
caracteristicamente um distúrbio psicossomático, onde os distúrbios induzidos
psicologicamente levam a danos físicos.

Mecanismos comportamentais

A tensão no trabalho pode influenciar o comportamento de uma pessoa no lidar com o


ambiente de trabalho. Por exemplo, uma pessoa que está tensa pode modificar os métodos
de trabalho que levam a uma maior fadiga biomecânica. A pessoa sob tensão muitas vezes
desenvolve comportamentos e motivação ruins em relação ao trabalho e em relação a sua
própria saúde e bem estar.

Elas se tornam apáticas. Tais pessoas talvez não procurem assistência médica quando os
primeiros sinais de DORT ocorrerem. As reações comportamentais individuais à tensão
incluem hábitos de sono alterados, o aumento de consumo de bebidas alcoólicas, o aumento
do fumo, e o aumento do consumo de drogas. Outros comportamentos podem incluir o
aumento do absenteísmo no trabalho, a rotatividade, e a queda de desempenho. Todas
essas são reações comportamentais à tensão atuam como mecanismos defensivos mal
adaptados.

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Organização do trabalho, projeto do trabalho, tensão e DORT

Smith e Carayon (1989,1995) formularam uma proposta na qual afirmam que a tensão é
resultante de um desequilíbrio entre elementos do sistema de trabalho. Esse desequilíbrio
produz uma “carga” nos mecanismos de resposta humanos que produzem reações adversas,
tanto psicológicas quanto fisiológicas.

As respostas humanas, que incluem o comportamento, as reações fisiológicas e a cognição,


atuam como mecanismos defensivos para tentar controlar os fatores ambientais que criaram
o desequilíbrio. Esses esforços, aliados à incapacidade de alcançar o equilíbrio, produzem a
sobrecarga dos mecanismos de resposta que conduzem à fadiga física e mental. A
exposição prolongada a essas situações e à fadiga pode levar à tensão e ao adoecimento,
principalmente de pessoas suscetíveis.

Fatores de carga de trabalho, tais como sobrecarga quantitativa, qualitativa e de tempo já


foram relacionados à tensão psicológica. Essas mesmas características de trabalho podem
representar fatores significativos de risco de DORT, porque eles interferem no nível de
esforço músculo-esquelético, na frequência de ações dos membros superiores, no grau de
fadiga, e no grau de exposição geral à atividade.

A repetitividade é outro agente causador de tensão no trabalho que já foi associado ao


sofrimento e à dor (Salvendy e Smith, 1981; Smith, 1987), aos distúrbios de saúde mental
(Salvendy e Smith, 1981; Cox,1985) e a problemas comportamentais, tais como o
absenteísmo (Cox, 1985).

O ritmo de trabalho afeta a tensão psicológica e pode criar o risco de DORT. Tarefas nas
quais o ritmo de trabalho é ditado pela máquina são mais estressantes do que tarefas nas
quais o ritmo de trabalho não é ditado pela máquina (Salvendy e Smith,1981). O ritmo de
trabalho ditado pela máquina é particularmente estressante porque isso é quase sempre
caracterizado pela sobrecarga quantitativa, pela grande pressão no trabalho, pela
repetitividade e pela falta de controle do trabalhador sobre o seu trabalho (Smith,1985).

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Os fatores ergonômicos de risco para os DORT, tals como a frequência de movimentos
repetitivos e a duração da exposição podem ser vinculados diretamente às exigências de
ritmo de trabalho e de carga de trabalho (padrões de trabalho) que são estabelecidos pela
organização.

O contexto organizacional no qual o trabalho está inserido pode interferir na tensão no


trabalho e na saúde. Considerações sobre a carreira, incongruências relativas à posição
dentro da organização e à falta de segurança estão ligadas à tensão no trabalho (Cooper e
Marshall, 1976).

Outros aspectos do contexto organizacional tais como conflitos e ambiguidade com relação
ao papel a ser desempenhado também trazem consequências emocionais negativas
(Jackson e Schuler, 1985). Essas condições podem criar um “clima“ de desconfiança, medo
e confusão que pode levar os trabalhadores a “perceberam” mais frequentemente dores e
sofrimento e a relatarem mais DORT. Empresas que são potencialmente redutoras de força
de trabalho (dispensa de trabalhadores ou por redução de vagas) podem ser mais
suscetíveis a que os empregados relatem problemas maiores e com mais frequência, como
uma autodefesa econômica.

A tecnologia pode ter características inerentes que a tornam mais estressante, tais como
exigências físicas e mentais, uso de softwares pouco amigáveis, uso de sistemas com
desempenho ruim (Carayon-Saintfort,1992).

Há algumas evidências que demonstram que a tecnologia utilizando terminais de vídeo pode
ser uma fonte de tensão física, tais como problemas visuais e musculoesqueléticos (Smith et
al., 1992). Outra influência da tecnologia está presente na apreensão dos trabalhadores
quanto às qualificações específicas a eles requeridas para o uso da tecnologia e no medo da
redução de cargos devido ao aumento da eficiência da mesma (Ostberg e Nilsson,1985;
Smith e al. 1987).

A maneira pela qual a tecnologia é introduzida também pode influenciar a tensão e a saúde
do trabalhador e os DORT (Smith e Carayon, 1995). Por exemplo, quando não é dado tempo

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suficiente aos trabalhadores para que se acostumem com a tecnologia, eles podem
desenvolver métodos e posturas de trabalho prejudiciais à saúde (Smith e al., 1992).

Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua
SALA DE AULA e faça a Atividade 1 no “link” ATIVIDADES.

Atividade Optativa 2

No endereço abaixo você encontra o link para o texto “Considerações psicossociais sobre os
distúrbios ósteo musculares relacionados ao trabalho (DORT) nos membros superiores” de
Michel J. Smith.

Neste endereço você pode baixar outros artigos na área da ergonomia, legislação e normas,
trabalhos científicos e livros completos.

Acesse: http://www.ergonomia.com.br/htm/cientificos.htm

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U NIDADE 11
Tratamento e Prevenção da LER/DORT

Objetivo: Apontar as formas de prevenção e tratamento da LER/DORT.

Nesta unidade trabalharemos com outro fragmento da Instrução Normativa nº 98, a respeito
das possibilidades de tratamento e prevenção da LER/DORT.

Fragmento da norma

Tratamento

Nas LER/DORT, em geral, como em qualquer outro caso, quanto mais precoce o diagnóstico
e o início do tratamento adequado, maiores as possibilidades de êxito. Isto depende de
vários fatores, dentre eles, o grau de informação do paciente, a efetividade do programa de
prevenção de controle médico da empresa, a possibilidade de o paciente manifestar-se em
relação às queixas de saúde sem “sofrer represálias”, explícitas ou implícitas, e a direção da
empresa, que pode facilitar ou não o diagnóstico precoce.

A gravidade do problema está intimamente relacionada ao tempo de evolução do quadro


clínico. No entanto, às vezes encontramos casos de início relativamente recente que
evoluem rapidamente para quadros graves, como distrofia simpático reflexa ou síndrome
complexa de dor regional, de difícil controle. O papel do médico da empresa é fundamental
no diagnóstico precoce, no controle dos fatores de risco e na realocação do trabalhador
dentro de um programa de promoção da saúde, prevenção de agravos ocupacionais,
diminuição da possibilidade de agravamento e cronificação dos casos e reabilitação.

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O controle da dor crônica músculo-esquelética exige o emprego de abordagem
interdisciplinar, que tente focalizar as raízes do problema. Os tratamentos costumam ser
longos e envolvem questões sociais, empregatícias, trabalhistas e previdenciárias, além das
clínicas. Se todos estes aspectos não forem abordados adequadamente, dificilmente obtém-
se sucesso no tratamento.

A equipe multiprofissional, composta por médicos, enfermeiros, terapeutas corporais,


profissionais de terapias complementares, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais,
psicólogos e assistentes sociais, deve estabelecer um programa com objetivos gerais e
específicos do tratamento e da reabilitação para cada caso, e cada meta deve ser conhecida
pelos pacientes, pois do contrário as pequenas conquistas não serão valorizadas,
esperando-se curas radicais e imediatas.

Recursos Terapêuticos

Alguns dos recursos terapêuticos que podem ser utilizados em um programa de tratamento e
reabilitação encontram-se abaixo citados:

 Medicamentos - devem ser prescritos de maneira cautelosa. Os pacientes precisam


ser bem orientados quanto à forma correta de utilização e o que esperar deles. Além
disso, é importante considerar o tempo de tratamento, que pode ser um fator
importante a considerar nos casos de medicamentos de alto custo. Os medicamentos
analgésicos e anti-inflamatórios são úteis no combate à dor aguda e inflamação, mas,
se usados isoladamente, não são efetivos para o combate da dor crônica. Nesse caso,
é necessária, a associação dos psicotrópicos (antidepressivos tricíclicos e
fenotiazínicos), que proporcionam efeito analgésico e ansiolítico, estabilizam o humor
e promovem alterações na simbologia da dor;

 A dor crônica pode ser refratária a técnicas menos invasivas, o bloqueio da cadeia
simpática com anestésicos locais ou outras formulações pode ser utilizado a fim de
diminuir o desconforto e propiciar a possibilidade do emprego de medidas

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fisioterapêuticas como a cinesioterapia, para recuperação do trofismo e da amplitude
articular da região afetada pela lesão. O agulhamento seco e a infiltração local de
anestésico produzem resultado satisfatório em alguns casos;

 Atividades coletivas com os grupos de adoecidos por LER/DORT têm sido realizadas
com bons resultados nos serviços públicos de saúde, permitindo a socialização da
vivência do adoecimento e da incapacidade, a discussão e reflexão sobre os temores
e dúvidas dos pacientes em relação ao adoecimento e às dificuldades encontradas no
estabelecimento do diagnóstico, tratamento e reabilitação;

 A fisioterapia utiliza recursos de eletrotermofototerapia, massoterapia e cinesioterapia,


sendo que a combinação de técnicas adequadas deve ser definida para cada caso.
Não é possível padronizar o tipo nem a duração do tratamento. Seus objetivos
principais são: alívio da dor, relaxamento muscular e prevenção de deformidades,
proporcionando uma melhora da capacidade funcional dos pacientes portadores de
LER/DORT. A presença ativa do fisioterapeuta é fundamental para uma avaliação
contínua da evolução do caso e para mudanças de técnicas ao longo do tratamento.
Alguns recursos como alongamentos, automassagens, e relaxamentos podem ser
realizados em abordagens grupais; as técnicas específicas para cada caso são
aplicadas em sessões individuais;

 Apoio psicológico é essencial aos pacientes portadores de LER/DORT, para que se


sintam amparados em sua insegurança e temor no que se refere às atividades prévias
no trabalho, às consequências do adoecimento, às perspectivas no emprego. A
abordagem dos aspectos psicossociais das LER/DORT e do sofrimento mental que
cada paciente apresenta são muito úteis no processo de recuperação e reabilitação;

 Os grupos informativo-psicoterapêutico-pedagógicos, promovidos por profissionais da


área de saúde mental, também propiciam a troca de experiências a respeito de toda
problemática das LER/DORT, enriquecendo as discussões e os progressos durante o
tratamento. Situações de conflitos, de medo, que trazem sofrimento expresso de

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diferentes maneiras são enfrentadas coletivamente, por meio de técnicas
diversificadas;

 A terapia ocupacional tem se mostrado bastante importante na conquista da


autonomia dos pacientes adoecidos por LER/DORT. Nas atividades em grupo são
discutidos temas referentes às atividades da vida cotidiana, para que esses
trabalhadores possam se apropriar novamente das suas capacidades e ressiginificar o
seu ”fazer”, levando em conta as mudanças decorrentes do adoecimento.
Individualmente, a terapia ocupacional também pode atuar na indicação e confecção
de órteses de posicionamento adequadas para cada caso visando a prevenção de
deformidades;

 As terapias complementares, como a acupuntura, do-in, shiatsu, entre outras, também


têm se mostrado bastante eficazes no tratamento da LER/DORT;

 Terapias corporais de relaxamento, alongamento e reeducação postural têm sido de


extrema importância, assim como a hidroterapia.

 Nos casos em que houver quadro de compressão nervosa periférica, também o


tratamento clínico deve ser instituído de forma integral e interdisciplinar. Os
procedimentos cirúrgicos não têm se mostrado úteis, mesmo nos casos em que a
indicação cirúrgica parece adequada. Frequentemente ocorre evolução para dor
crônica de difícil controle.

Prevenção

A prevenção das LER/DORT não depende de medidas isoladas, de correções de mobiliários


e equipamentos. Um programa de prevenção das LER/DORT em uma empresa inicia-se pela
criteriosa identificação dos fatores de risco presentes na situação de trabalho. Deve ser
analisado o modo como as tarefas são realizadas, especialmente as que envolvem
movimentos repetitivos, movimentos bruscos, uso de força, posições forçadas e por tempo

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prolongado. Aspectos organizacionais do trabalho e psicossociais devem ser especialmente
focalizados.

A identificação de aspectos que propiciam a ocorrência de LER/DORT e as estratégias de


defesa, individuais e coletivas, dos trabalhadores, deve ser fruto de análise integrada entre a
equipe técnica e os trabalhadores, considerando-se o saber de ambos os lados. Análises
unilaterais geralmente não costumam retratar a realidade das condições de risco e podem
levar a conclusões equivocadas e encaminhamentos não efetivos.

A Norma Regulamentadora (NR 17) estabelece alguns parâmetros que podem auxiliar a
adapatação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores,
de modo a proporcionar conforto, segurança e desempenho eficiente. Embora não seja
específica para a prevenção de LER/DORT, trata da organização do trabalho nos aspectos
das normas de produção, modo operatório, exigência de tempo, determinação do conteúdo
de tempo, ritmo de trabalho e conteúdo das tarefas.

No item 17.6.3. da NR 17, para as atividades que exijam sobrecarga muscular estática ou
dinâmica do pescoço, ombros, dorso e membros superiores e inferiores, e a partir da análise
ergonômica do trabalho, estabelece inclusão de pausas para descanso. Para as atividades
de processamento de dados, estabelece número máximo de toques reais por hora
trabalhada, o limite máximo de cinco horas por jornada para o efetivo trabalho de entrada de
dados, pausas de dez minutos para cada cinquenta minutos trabalhados e retorno gradativo
à exigência de produção em relação ao número de toques nos casos de afastamento do
trabalho por quinze dias ou mais.

Embora normas técnicas ajudem a estabelecer alguns parâmetros, o resultado de um


programa de prevenção de agravos decorrentes do trabalho em uma empresa, depende da
participação e compromisso dos atores envolvidos, em especial a direção da empresa,
passando pelos diversos níveis hierárquicos, incluindo trabalhadores e seus sindicatos,
supervisores, cipeiros, profissionais da saúde e de serviço de segurança do trabalho,
gerentes e cargos de chefia.

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Fórum 2 – A epidemia da LER/DORT

As LER/DORT são um grande desafio para os diversos profissionais envolvidos com a


questão. Precisamos unir esforços para compreender suas formas de instalação, os diversos
fatores envolvidos no seu desencadeamento e desenvolver formas adequadas de prevenção
e tratamento.

O objetivo deste fórum é discutir e trocar experiências sobre as formas de prevenção deste
problema, principalmente do ponto de vista dos fatores psicossociais, onde o estresse e os
aspectos da organização do trabalho têm ocupado um lugar de destaque.

1. Identifique formas de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores acometidos por


LER/DORT.

2. Aponte os desafios colocados tanto no âmbito institucional como para a sociedade no


sentido de superação dos fatores de adoecimento das LER/DORT.

3. Assinale meios de promover a disseminação de informações que possam ajudar a


combater essas patologias, através do processo multiplicador da orientação.

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U NIDADE 12
Saúde, trabalho e doença mental

Objetivo: Introduzir as abordagens teórico-metodológicas sobre saúde, doença mental e


trabalho.

Nesta unidade discutiremos um fragmento do texto Abordagens teórico-metodológicas em


saúde/doença mental e trabalho de 2003, escrito por Maria da Graça Corrêa Jacques,
páginas 101 a 104.

A autora apresenta quatro amplas abordagens que buscam analisar e entender a relação
entre trabalho e saúde mental. Nesta unidade discutiremos as teorias sobre estresse e a
psicodinâmica do trabalho. Na unidade seguinte, continuaremos o debate apresentando as
abordagens de base epistemológica e/ou diagnóstica e os estudos e pesquisa em
subjetividade e trabalho.

Fragmento do Texto

As teorias sobre estresse

O conceito de estresse vem sendo amplamente utilizado não só nos estudos e pesquisas
científicas e acadêmicas, mas também nos órgãos de comunicação e na linguagem
cotidiana. Tal popularização, por um lado, desvelou o vínculo entre trabalho e saúde/doença
mental, vínculo este nem sempre reconhecido visto a prevalência concedida aos fatores
hereditários e às relações familiares na etiologia do adoecimento mental; por outro lado,
constata-se uma imprecisão conceitual e a utilização do termo tanto para qualificar um
estado de irritabilidade como um quadro de depressão grave.

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Além da polissemia conceitual, derivada da própria palavra em inglês como assinalam
Figueiras e Hippert (1999), citando a pesquisa de Doublet (stress tem 28 significados
diferentes no Oxford Long English Dictionary), verifica-se pouca clareza na distinção entre
fatores estressores, coping e estresse propriamente dito, e entre estresse biológico,
psicológico, social, ambiental, entre outros.

Sem pretender esgotar os aspectos conceituais relativos às teorias sobre estresse, pois a
literatura é ampla e de fácil acesso, necessário se faz apresentar algumas considerações
que justifiquem a identificação de seus pressupostos.

O termo estresse, de origem na física para definir o desgaste de materiais submetidos a


excessos de peso, calor ou radiação, foi empregado pelo fisiologista austríaco Hans Selye,
em 1936, para designar uma "síndrome geral de adaptação", constituída por três fases
(reação de alarme, fase de adaptação, fase de exaustão) e com nítida dimensão biológica. O
processo neuroendocrinológico envolvido foi objeto de estudos e pesquisas, destacando-se,
no Brasil, a sistematização de Vasconcelos (1992) sobre as interconexões entre córtex
cerebral, hipotálamo, hipófise, glândulas supra-renais e as alterações bioquímicas
resultantes no organismo.

O estresse psicológico é uma aplicação do conceito para além da dimensão biológica e é


definido por Lazarus e Folkman (1984) como uma relação entre a pessoa e o ambiente que é
avaliado como prejudicial ao seu bem-estar. Os autores chamam a atenção para a
importância da avaliação cognitiva da situação (o fator estressor) que determina por que e
quando esta situação é estressora e para o esforço de enfrentamento, ou seja, a mudança
cognitiva e comportamental diante do estressor. Introduzem o conceito de coping (sem
tradução em português) para se referirem ao conjunto de estratégias cognitivas e
comportamentais utilizadas para avaliar e gerenciar as exigências internas e/ou externas,
com base nas experiências pessoais e nas especificidades do estímulo (novidade,
previsibilidade, intensidade, por exemplo).

Lipp (1984), outra reconhecida pesquisadora brasileira na temática do estresse, o define


como "uma reação psicológica com componentes emocionais físicos, mentais e químicos a

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determinados estímulos que irritam, amedrontam, excitam e/ou confundem a pessoa" (p. 6).
Tais definições apontam para o referencial teórico cognitivo-comportamental como o
referencial que embasa o amplo campo das teorias sobre estresse psicológico e que
sustentam os modelos de prevenção, diagnóstico e intervenção propostos.

Conforme Glina e Rocha (2000), o estresse não é uma doença, mas uma tentativa de
adaptação e não está relacionado apenas ao trabalho mas ao cotidiano de vida
experimentado pelo sujeito. Ressaltam, no entanto, que a importância conferida ao trabalho
se deve a sua relevância neste cotidiano, transformando-o em um dos principais fatores
desencadeantes do estresse.

A perspectiva adaptacionista e a inspiração biológica características da psicologia social


científica estão presentes nos pressupostos que fundamentam as teorias sobre estresse,
bem como seus modelos de ciência e de pesquisa inspirados nos modelos das ciências
físicas e naturais.

A ênfase recai em métodos e técnicas quantitativas de avaliação dos fatores estressores,


coping ou estresse propriamente dito. As ações de prevenção e intervenção são voltadas,
preferencialmente, para o gerenciamento individual do estresse através de mudanças
cognitivas e comportamentais e práticas de exercícios físicos e relaxamento. Tais ações, em
geral, apresentam-se em programas de qualidade de vida no trabalho (QVT), focalizadas no
gerenciamento dos trabalhadores e com menor ênfase nas condições de trabalho e,
principalmente, na organização do trabalho.

Embora se verifiquem essas tendências nas diversas teorias sobre estresse, em maior ou
menor grau, enquanto generalizações devem ser consideradas com prudência,
especialmente quando aplicadas aos estudos e pesquisas sobre a síndrome de Burnout.

A síndrome de Burnout (traduzida como síndrome de esgotamento profissional) foi definida


por Marlach e Jackson (1981) como uma reação à tensão emocional crônica e que envolve
três componentes: a exaustão emocional, a despersonalização e a diminuição do
envolvimento pessoal no trabalho.

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Foi reconhecida entre profissionais da área de serviços e cuidadores e, mais recentemente,
entre trabalhadores de organizações que estão passando por transformações como a
reestruturação produtiva. Entre cuidadores a prevalência desta síndrome é associada ao
paradoxo por esses experimentados, pois precisam estabelecer vínculos afetivos com
aqueles a quem prestam seus cuidados e cotidianamente rompem esses vínculos por se
tratar de uma relação profissional mediada por normas, horários, turnos, transferências,
óbitos, etc. Nesta teorização poder-se-ia interpretar que o trabalho tem função constitutiva no
adoecimento e não, simplesmente, apresenta-se como fator desencadeante.

No entanto, embora a consideração sobre tal natureza, o enfoque ainda dicotomiza a


dimensão externa e interna em que a natureza do trabalho se apresenta como fonte de
tensão individualmente experimentada pelo trabalhador. Corrobora com esta tese a
recomendação da Portaria 1339/99 do Ministério do Trabalho do Brasil que prevê a
"síndrome de Burnout" como relacionada ao trabalho mas, a inclui no grupo II da
classificação proposta e que corresponde à qualificação do trabalho como fator contributivo
mas não necessário ao quadro clínico.

Em síntese, o conjunto de teorias sobre estresse, embora sua multiplicidade privilegie o


emprego de métodos quantitativos e os pressupostos teóricos do referencial cognitivo-
comportamental, cabendo ao trabalho o atributo de fator desencadeante do processo, com
maior ou menor grau de relevância.

A Psicodinâmica do Trabalho

Esta abordagem tem o autor francês Dejours como o principal expoente. Tornou-se difundida
a partir da publicação, na França, em 1980, da obra 'Travail: usure mentale; essai de
psychopatologie du travail' (traduzida no Brasil, em 1987, com o nome de 'A loucura do
trabalho; estudos de psicopatologia do trabalho'), ganhou grande receptividade e tem sido
um dos referenciais de apoio de inúmeros estudos e pesquisas brasileiras.

A ênfase da proposta dejouriana recai no privilégio concedido ao estudo da normalidade


sobre a patologia o que, inclusive, ensejou a substituição da expressão psicopatologia do
trabalho por psicodinâmica do trabalho para minimizar a importância aos aspectos

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psicopatológicos, embora a advertência inicial do autor de que utilizava a expressão
inspirado nos estudos freudianos e não no sentido restritivo do mórbido.

O campo da psicodinâmica do trabalho, conforme Dejours citado por Merlo (2002), é o


campo do sofrimento e do conteúdo, da significação e das formas desse sofrimento no
âmbito do infrapatológico ou do pré-patológico. Tem por referências os conceitos
ergonômicos de trabalho prescrito e trabalho real, priorizando aspectos relacionados à
organização do trabalho (como ritmo, jornada, hierarquia, responsabilidade, controle).

As intervenções propostas se voltam para a coletividade de trabalho (e não indivíduos


isoladamente) e para aspectos da organização do trabalho a que os indivíduos estão
submetidos. Introduz o conceito de "sofrimento psíquico (como) uma vivência subjetiva
intermediária entre a doença mental descompensada e o conforto (ou bem-estar) psíquico"
(DEJOURS; ABDOUCHELY, 1994, p. 124) que suscita a utilização de "estratégias
defensivas, construídas, organizadas e gerenciadas coletivamente" (p. 127). Utiliza o
conceito de sublimação como um instrumento de compreensão das situações de trabalho
(MERLO, 2002).

A proposta dejouriana busca na psicanálise os aportes teóricos que permanecem


subjacentes à pesquisa e ao trabalho de interpretação: o método proposto pelo autor é a
escuta, a interpretação, a devolução, sendo explicitamente contrário ao uso de questionários,
estudos epidemiológicos e impõe restrições à observação do cotidiano de trabalho por
priorizar a escuta do trabalhador. Para tanto, privilegia o emprego da entrevista coletiva por
entender que a abordagem individual ressalta "aquilo que na ordem singular, está ligado, em
parte, ao passado do sujeito e a sua história familiar (entendida essencialmente como a
história das relações afetivas criança-pais)" (DEJOURS; ABDOUCHELY, 1994, p. 124).

A psicodinâmica do trabalho se aproxima do campo clínico da psicologia, em especial, do


referencial psicanalítico. Preconiza o emprego de métodos qualitativos, de abrangência
coletiva, pautada no modelo clínico de diagnóstico e intervenção.

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Atividade Complementar 2:

O texto “A contribuição da abordagem clínica de Louis Le Guillant para o desenvolvimento da


Psicologia do Trabalho” apresenta a vida e a obra do psiquiatra francês Louis Le Guillant, sua
participação na fundação da Psicopatologia do Trabalho e suas proposições. O texto
apresenta a principal obra do autor, conhecida por “A neurose das Telefonistas”, além de
outros estudos como: o ressentimento das empregadas domésticas e a penosidade do
trabalho dos condutores de locomotiva. Apesar dos estudos terem sido realizados há
décadas atrás na Europa (realidade distinta à brasileira), os achados de Louis Le Guillant nos
ajudam a entender alguns problemas que enfrentamos atualmente.

Dedique-se à leitura!

Texto completo disponível em:

http://www.revispsi.uerj.br/v6n1/artigos/v6n1a02.htm

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U NIDADE 13
Saúde/doença mental/trabalho – Abordagem epidemiológica

Objetivo: Continuar a discussão sobre saúde, doença mental e trabalho, apresentando outras
abordagens.

Na unidade anterior você aprendeu as teorias sobre estresse e a abordagem da


psicodinâmica do trabalho. Nesta unidade será discutido o modelo epidemiológico, descrito
por Jaques (2003) no texto “Abordagens teórico-metodológicas em saúde/doença mental e
trabalho”, páginas 106 a 110.

Fragmento do Texto

Abordagens com base no modelo epidemiológico e/ou diagnóstico

A epidemiologia tem uma longa trajetória no âmbito da medicina, identificada, principalmente,


com as doenças infecto-transmissíveis. Sua relação com o chamado hoje campo da saúde
do trabalhador se faz a partir da obra de Ramazzini, publicada em 1700 – a primeira
publicação sistematizada sobre os efeitos do trabalho nos processos de adoecimento dos
trabalhadores.

Nos estudos epidemiológicos, somente a partir da 2ª guerra mundial é que a concepção


multicausal tem se apresentado como marco explicativo predominante em substituição ao
paradigma monocausal. Tal substituição foi um dos elementos fundamentais para a
aplicação da epidemiologia no campo da saúde/doença mental.

Os autores reconhecem neste campo duas grandes escolas epidemiológicas: a russo/anglo-


saxã e a franco/latino-americana, esta última apoiada no modelo da determinação social da
doença e nos denominadores comuns da dialética (SAMPAIO e MESSIAS, 2002). Estes
autores conceituam a epidemiologia como "ciência social, prática, aplicada, que estuda a
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distribuição, determinação e modos de expressão, para fins de planejamento, prevenção e
produção de conhecimento, de qualquer elemento do processo saúde/doença em relação à
população qualificada nos elementos sócio-econômico-culturais que a possam tornar
estruturalmente heterogênea" (p.147).

O modelo da determinação social da doença, com a aplicação dos conhecimentos das


ciências sociais, enriqueceu, segundo Fachini (1994), a teoria epidemiológica. Suas
contribuições permitiram comprovar o caráter social (e aí o trabalho) do processo
saúde/doença, a reconstrução do objeto de estudo como um processo coletivo e a
estruturação de uma nova proposta de determinação sustentada por uma teoria social.

Com base na lógica da epidemiologia são reconhecidos e difundidos no Brasil os estudos de


Codo e colaboradores, cujo um dos objetivos é identificar quadros psicopatológicos
associados a determinadas categorias profissionais. O próprio autor assim se refere: "este
método de investigação, com seus avanços e recuos, foi responsável pela descoberta da
síndrome do trabalho vazio entre bancários, paranóia entre digitadores, histeria em
trabalhadores de creches e Burnout em educadores" (CODO, 2002, p.185).

As concepções marxistas e, na psicologia, os pressupostos da psicologia social histórico-


crítica fundamentam a visão ontológica que emana das pesquisas de Codo e colaboradores
em que o trabalho se apresenta como um fator constitutivo do psiquismo e do processo
saúde/doença mental. Segundo o autor (1997, p.25), o trabalho é "uma dupla relação de
transformação entre o homem e a natureza, geradora de significado". Diz, ainda, que "o
sofrimento psíquico e a doença mental ocorrem quando e apenas quando, afeta esferas da
nossa vida que são significativas, geradoras e transformadoras de significado" (CODO, 2002,
p.174), para acrescentar que o trabalho é uma das atividades humanas geradoras de
significado por excelência.

Como metodologia, Codo e colaboradores propõem a utilização de instrumentos de medida


das condições de trabalho e saúde mental dos trabalhadores (incluindo 13 escalas de
trabalho, 7 escalas clínicas – depressão, histeria, paranóia, mania, esquizofrenia, desvio
psicopático e obsessão – e 1 escala de alcoolismo), um protocolo de observação do trabalho

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e análise de tarefas e entrevistas qualitativas de aprofundamento. Tal proposta preconiza a
utilização de abordagens qualitativas e quantitativas.

Segundo Codo (2002, p.184) a "investigação se conduz com a lógica da epidemiologia,


cruzando as variáveis advindas do diagnóstico do trabalho com as escalas clínicas,
estudando possibilidades de aparecimento de sintomas; (...) depois se recorre à entrevista
clínica, buscando identificar a psicodinâmica". Segundo o autor, a sistemática proposta
recebe críticas dos quantitativistas por utilizar estudos de casos clínicos e dos qualitativistas
pelo uso da estatística.

O emprego de abordagens tanto quantitativas como qualitativas tem tradição nas pesquisas
de Le Guillant, considerado um dos pioneiros nos estudos sobre os vínculos entre
saúde/doença mental e trabalho. Trata-se de uma abordagem que qualifica de
"pluridimensional" em que recorre, na busca de informações, a todos os instrumentos
disponíveis: observações, questionários, entrevistas, fontes documentais, dados estatísticos
variados... (LIMA, 2002).

Sua proposta foi de desenvolver uma abordagem em saúde mental e trabalho que permitisse
demonstrar a existência de uma relação entre a condição de vida e de trabalho e o
surgimento, a frequência e a gravidade dos distúrbios mentais. Tal proposta se consolida
quando constata o número elevado de empregadas domésticas internadas nos hospícios
franceses em meados do século XX, o que lhe suscita indagações sobre o caráter
patogênico do trabalho desta categoria profissional.

Publica, em 1956, o clássico artigo 'A neurose das telefonistas' (LE GUILLANT et al., 1984)
em que defende, de um lado a ênfase a fatos concretos e precisos do trabalho e, de outro, o
universo subjetivo dos trabalhadores e suas relações. Le Guillant busca, também, na tradição
marxista seus fundamentos epistemológicos, embora receba críticas, como as de Doray,
sobre suas concepções demasiadamente economicistas e suas tentativas de aproximação a-
crítica entre Marx e Hegel (LIMA, 2002).

A articulação entre o subjetivo e o objetivo está presente nos estudos e pesquisas de Le


Guillant e nos de Codo, no Brasil. O relato do caso de Madame L., paciente de Le Guillant na

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década de 50, é considerado pelos analistas um exemplo do sucesso do autor na articulação
dessas duas instâncias (LIMA, 2002). Na discussão proposta, integra a história de vida e de
trabalho da paciente com as condições mais gerais presentes na sociedade francesa da
época, extrapolando os limites da análise para o contexto social mais amplo.

Esta tendência de inclusão do contexto social mais amplo se constata nos estudos sobre
queixas e sintomas psíquicos, genericamente agrupados e rotulados de "doença dos
nervos". O DSM-IV reconhece a expressão "doença dos nervos" como uma síndrome com
apresentações semelhantes aos transtornos de ansiedade, depressão, histeria ou psicose,
incluindo-a entre as síndromes relacionadas à cultura.

As particularidades sócio-culturais são reconhecidas por Souza (1983) e Costa (1989) nas
manifestações da "doença dos nervos". Os autores apontam a sua associação com
situações conflitivas de trabalho a partir de um esquema cognitivo-representacional peculiar
às características das populações de baixa renda. O vínculo da identidade de trabalhador
como representativa da identidade do eu e o valor conferido a este sistema identitário na
integração ao mundo social (JACQUES, 2002) atribuem ao trabalho um caráter essencial na
manifestação das queixas e sintomas rotulados como "doença dos nervos".

Os estudos e pesquisas de Codo, Le Guillant e a chamada "doença dos nervos" têm, em


comum, a prioridade à identificação de quadros psicopatológicos relacionados ao trabalho
em que este se apresenta como constitutivo e não, tão somente, como fator desencadeante.
Os pressupostos incorporados à psicologia social histórico-crítica são também identificados
na argumentação dos autores, particularmente a referência à tradição marxista.

Ainda na perspectiva diagnóstica em que o trabalho tem caráter essencial na determinação


do adoecimento mental estão as patologias derivadas da exposição a substâncias químicas
tóxicas e a agentes físicos como o ruído. São distúrbios previstos na legislação
previdenciária brasileira (demência, delirium, transtorno cognitivo leve, transtorno orgânico de
personalidade, transtorno mental orgânico, episódios depressivos, neurastenia), classificados
no grupo de patologias em que o trabalho "é causa necessária", conforme nomenclatura
oficial (Ministério da Saúde do Brasil, 2001).

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Dica 6:

O artigo “Abordagens teórico-metodológicas em saúde/doença mental & trabalho” da autora


Maria da Graça Corrêa Jacques discorre sobre algumas das principais abordagens no âmbito
da saúde/doença mental e trabalho, suas interseções com a psicologia e, particularmente,
com a psicologia social. Você encontra o texto completo disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/psoc/v15n1/v15n1a06.pdf

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U NIDADE 14
Saúde/doença mental/trabalho – Subjetividade e Trabalho

Objetivo: Finalizar a discussão sobre saúde, doença mental e trabalho, apresentando os


estudos e pesquisas em subjetividade e trabalho.

Nas duas unidades anteriores você aprendeu as teorias sobre estresse, a abordagem da
psicodinâmica do trabalho e o modelo epidemiológico.

Nesta unidade apresentaremos o último modelo em saúde mental e trabalho, baseado em


estudos e pesquisas em subjetividade. Finalizaremos a discussão dos modelos, de acordo
com outro fragmento do Texto “Abordagens teórico-metodológicas em saúde/doença mental
e trabalho” de Jaques (2003), páginas 110 a 113.

Fragmento do Texto

Estudos e pesquisas em subjetividade e trabalho

A temática subjetividade e trabalho busca analisar o sujeito trabalhador definido a partir de


suas experiências e vivências adquiridas no mundo do trabalho (NARDI, TITTONI e
BERNARDES, 1997). No Brasil, reúne um conjunto amplo e variado de estudos e pesquisas
que tiveram início nos anos 80 do século XX (SELIGMANN-SILVA, 1994).

Um ponto comum entre esses estudos e pesquisas é a escolha do trabalho como eixo
norteador para além do seu caráter técnico e econômico, cujo significado perpassa a
estrutura sócio-econômica, a cultura, os valores e a subjetividade dos trabalhadores. Os
pressupostos marxistas sustentam a concepção sobre a determinação histórica dos
processos de saúde/doença e seus vínculos com as condições de vida e de trabalho dos

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trabalhadores; apóiam-se, ainda, na leitura desses pressupostos por autores
contemporâneos como Thompson (1981), do qual incorporam a noção de experiência
(operária) enquanto determinada por fatores que não se restringem ao macro-econômico.

Outra característica comum é a ênfase concedida a categorias como vivências, cotidiano,


modos de ser e não, necessariamente, a diagnósticos psicopatológicos; ou ainda, a
valorização dos aspectos qualitativos e das experiências em si dos trabalhadores que
acompanham os processos de adoecimento associados ao trabalho. Tal perspectiva
encontra importante respaldo teórico nas discussões de Canguilhem (1990) sobre saúde e
doença.

As teses do autor sobre a distinção entre patologia e anormalidade e seu conceito de saúde
não restrito à ausência de doença fundamentam as proposições dos estudos e pesquisas em
subjetividade e trabalho. Ao não privilegiarem os aspectos psicopatológicos, aproximam-se
dos postulados da psicodinâmica do trabalho, da qual emprestam o conceito de vivência; no
entanto, na abordagem dejouriana prevalece a influência do modelo clínico na concepção de
pesquisa e no trabalho de interpretação.

Os estudos e pesquisas em subjetividade e trabalho se alicerçam em postulados derivados


de diferentes campos disciplinares no âmbito das ciências sociais. Da psicanálise buscam
fundamentos em posições que ampliam o campo conceitual para além do intrapsíquico e que
concebem o sujeito como vinculado às normas sociais e construído nas tramas que definem
tais normas, ressignificando o conceito de subjetividade (por exemplo, GUATTARI e
ROLNIK, 1986). Compactuam com a psicologia social histórico-crítica ao assumirem
pressupostos comuns como a não dicotomia entre indivíduo e coletivo, subjetivo e objetivo,
visão ontológica não essencialista e/ou desenvolvimentista e em oposição às concepções de
sujeito autônomo e livre associadas à idéia de indivíduo, bem como à concepção de ciência e
de pesquisa.

Como metodologias privilegiam abordagens qualitativas através de técnicas como


observação, entrevistas individuais e coletivas, análises documentais... Segundo Tittoni
(2000, p. 286), "as estratégias de discussões em grupo, de entrevistas coletivas, de pesquisa

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etnográfica, das diferentes estratégias para análise do discurso, mostram-se como formas
importantes de agir sobre a produção de conhecimento em saúde mental e trabalho". Sato
(2002) sinaliza a pertinência do emprego do método etnográfico com base na proposição de
Thompson de que a subjetividade não se restringe apenas ao que as pessoas pensam ou
conhecem, mas se expressa em outras instâncias como costumes e hábitos.

Em suma, no âmbito da subjetividade e trabalho se incluem estudos e pesquisas variados,


sobre temas muito diversos como gênero, etnia, processo de trabalho, transformações
tecnológicas e organizativas. Em comum o privilégio à dimensão da experiência e das
vivências dos trabalhadores sobre o cotidiano de vida e de trabalho enquanto expressões do
sujeito na intersecção de sua particularidade com o mundo sócio-cultural e histórico, em que
se incluem as vivências de sofrimento e adoecimento sem privilegiar, necessariamente, os
diagnósticos clínicos. Conforme Nardi, Tittoni e Bernardes (1997, p.245), as diferentes
abordagens que "constroem o campo da subjetividade e trabalho, buscam as experiências
dos sujeitos e as tramas que constroem o lugar do trabalhador, definindo modos de
subjetivação relacionados ao trabalho".

Considerações Finais

O texto discorre sobre as abordagens mais difundidas no campo da saúde/doença mental e


trabalho em suas intersecções com a psicologia e, particularmente, com a psicologia social.
Discute seus pressupostos teóricos e metodológicos, suas concordâncias e discordâncias
com o objetivo de subsidiar a utilização desses aportes de forma crítica e reflexiva.

A complexidade da relação entre saúde/doença mental e trabalho enseja, muitas vezes,


extrapolar os limites de uma determinada abordagem. Pesquisadores, com longa tradição,
admitem o emprego de conceitos e de procedimentos metodológicos de origens diversas - é
o caso, por exemplo, de Codo que admite, inclusive, receber críticas por assumir esta
postura (CODO, 2002). No entanto, o fazem a partir de uma reflexão e de uma
argumentação consistente e não, tão somente, um empréstimo acrítico e ocasional.
Conforme Sato (2002), a opção pelo emprego de uma ou outra abordagem repousa em

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diversos condicionamentos como a natureza do objeto, o objetivo do estudo, a concepção
sobre a realidade social; portanto, condicionantes de ordem epidemiológica e teórico-
conceitual.

Entre as abordagens apresentadas, as que utilizam o conceito de estresse se fundamentam,


em geral, no referencial cognitivo-comportamental e privilegiam metodologias quantitativas.
Compartilham com a psicodinâmica do trabalho o pressuposto de que o trabalho é um fator
desencadeante no processo de saúde/doença mental. A psicodinâmica do trabalho, ao
contrário, propõe metodologias qualitativas, inspiradas no método clínico e nos fundamentos
da psicanálise que lhe fornecem subsídios teóricos e epistemológicos.

O caráter constitutivo do trabalho é comum nas abordagens que se fundamentam em teorias


marxistas e suas releituras contemporâneas como as que privilegiam a identificação de
quadros psicopatológicos (abordagens com base no modelo epidemiológico e/ou
diagnóstico) ou as experiências e vivências dos trabalhadores (estudos e pesquisas em
subjetividade e trabalho).

A ausência de ênfase na patologia é um dos aspectos comuns entre as investigações em


subjetividade e trabalho e a psicodinâmica do trabalho, bem como o privilégio aos métodos
qualitativos sem, no entanto, restringir-se, como na proposta dejouriana, ao método clínico.
Os pressupostos da chamada psicologia social científica são mais facilmente identificados no
conjunto das teorias sobre estresse; já as demais abordagens compartilham, em maior ou
menor grau, com os pressupostos da psicologia social histórico-crítica.

Todas essas considerações informam sobre um olhar e um recorte analítico sobre as


proposições acerca dos vínculos entre trabalho e saúde/doença mental, como uma imagem
em um caleidoscópio a partir de agrupamentos de fragmentos visuais. Um simples
movimento no caleidoscópio e/ou a troca do observador, com certeza, propõe uma
reconfiguração e, portanto, uma nova imagem sobre este campo conceitual e empírico. A
imagem e a análise propostas neste texto são uma entre muitas possíveis e não se esgotam
em si mesmas.

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Para refletir 2:

Você aprendeu que para o entendimento da relação entre saúde/doença mental e trabalho é
preciso extrapolar os limites de uma determinada abordagem. Cada campo de saber
contribui com o emprego de conceitos e de procedimentos metodológicos. Diante desta
afirmação, procure refletir como o seu campo de formação acadêmica ou de atuação
profissional pode contribuir com este debate.

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U NIDADE 15
A síndrome de Burnout

Objetivos: Apresentar a síndrome de Burnout e seus fatores desencadeadores.

Nesta unidade trabalharemos com uma síndrome ocasionada pelo estresse ocupacional,
conhecida como Burnout, em referência ao termo do inglês para “combustão completa” (Burn
= queima; out = exterior).

A Síndrome de Burnout descreve o estado de exaustão prolongado e a diminuição de


interesse, principalmente pelo trabalho. O trabalhador passa a ter uma avaliação negativa de
si mesmo, depressão e insensibilidade com relação a quase tudo e todos (até como defesa
emocional).

Vários estudos mostram que o Burnout incide principalmente sobre os profissionais que
prestam assistência ou são responsáveis pelo desenvolvimento ou cuidado de outros.
Portanto, acomete preferencialmente os trabalhadores que mantêm uma relação constante e
direta com outras pessoas, como profissionais da saúde, professores, assistentes sociais,
atendentes públicos, comerciários, carcereiros, funcionários de departamento pessoal,
telemarketing, etc.

Fatores desencadeadores

Entre os fatores aparentemente associados ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout


podemos apontar: rápido desenvolvimento tecnológico; processo de reestruturação
produtiva; pouca autonomia no desempenho profissional; problemas de relacionamento com

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as chefias; problemas de relacionamento com colegas ou clientes; sentimento de
desqualificação; falta de cooperação da equipe.

No caso específico dos trabalhadores de saúde, Lautert (1997) acrescenta como fatores
associados ao Burnout: a divisão e expansão das especialidades médicas, a prevalência da
autoridade médica, rigidez organizacional configurada por um conjunto de regras e normas,
poucos canais de comunicação e duas linhas paralelas de autoridade (a administrativa e a
profissional).

Cabe aqui a discussão sobre como o Ato Médico, projeto de Lei 7703/2006, ainda em
tramitação, vem causando problemas nas relações interprofissionais entre médicos e as
demais categorias de saúde. O ato médico poderá subordinar à profissão médica todas as
demais profissões de saúde, transformando-os em profissões paramédicas, de apoio à
medicina (Guimarães e Rego, 2005).

Outra categoria comumente afetada são os professores. Uma pesquisa realizada na UnB
com 8,7 mil docentes revela alta incidência de Burnout, atingindo 15% dos professores.

Fragmento do Texto

Uma pesquisa feita com mais de 8 mil professores da educação básica da rede pública na
região Centro-Oeste do Brasil revelou que 15,7% dos entrevistados apresentam a síndrome
de Burnout, que reflete intenso sofrimento causado por estresse laboral crônico. A
enfermidade acomete principalmente profissionais idealistas e com altas expectativas em
relação aos resultados do seu trabalho. Na impossibilidade de alcançá-los, acabam
decepcionados consigo mesmos e com a carreira.

O estudo confirma a vulnerabilidade do docente à síndrome, pois o excesso de exigências


auto-impostas, associadas a condições precárias de trabalho, bem como à falta de
retribuição afetiva, expõem o profissional a um desgaste permanente. Assim, a tensão
gerada entre o desejo de realizar um trabalho idealizado e a impossibilidade de concretizá-lo
acaba por levar o profissional a um estado de desistência simbólica do ofício.

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Essa condição, mostrada em pesquisas anteriores, é confirmada por um estudo realizado
pela psicóloga Nádia Maria Beserra Leite. Ela analisou 8.744 questionários, respondidos por
professores de ensino fundamental e médio, como parte do seu mestrado no Instituto de
Psicologia (IP) da Universidade de Brasília (UnB).

Nádia é cautelosa quanto à generalização dos resultados, mas considera os dados


preocupantes. “Obter 15,7% num universo de 8 mil não é desprezível”, afirma. Caso o índice
seja o mesmo em todo o País, por exemplo, então mais de 300 mil professores brasileiros
convivem com a síndrome, isso somente no ensino básico. Entre outras consequências, tal
cenário levaria a um sério comprometimento na educação de milhões de alunos.

Os dados vieram à tona com informações obtidas por um questionário que permite identificar
a incidência dos três sintomas que caracterizam a síndrome: exaustão emocional, baixa
realização profissional e despersonalização. Com relação ao primeiro sintoma, 29,8% dos
professores pesquisados apresentaram exaustão emocional em nível considerado crítico.
Quanto à baixa realização profissional, a incidência foi de 31,2%, enquanto 14%
evidenciaram altos níveis de despersonalização.

Suscetibilidade – A síndrome de Burnout pode afetar qualquer profissional. Porém, é mais


comum em pessoas que desenvolvem atividades de constante contato humano,
principalmente aquelas que favorecem o envolvimento emocional. Nesse grupo estão, por
exemplo, médicos, enfermeiros e professores, profissões que lidam com ideais ambiciosos e
situações que nem sempre podem ser resolvidas por eles próprios, seja manter alguém vivo,
seja promover transformações sociais.

Os problemas surgem à medida que esses objetivos não se concretizam. “É como aquela
professora que pensa em contribuir para mudar a vida dos estudantes, muitas vezes
reproduzindo a dedicação que teria com os próprios filhos, mas não se sente retribuída”,
explica Nádia. Também se enquadra nesse perfil o professor que espera dos alunos um
ótimo aprendizado do conteúdo por ele transmitido em sala de aula. Esforça-se para isso e o
eventual desinteresse ou baixo rendimento dos alunos é percebido por ele como um fracasso
pessoal. “Então, vem o desânimo e o cansaço”, diz a pesquisadora.

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Sintomas – De acordo com Nádia, o primeiro sinal de instalação da síndrome é a exaustão
emocional. Afetivamente, significa que o docente não consegue mais se doar. “Ele percebe o
esgotamento da energia e dos recursos emocionais.” Quando não consegue lidar com essa
sensação, desenvolve mecanismos reativos. Como alternativa ao sofrimento, acaba por se
distanciar emocionalmente, tanto do seu trabalho quanto do próprio aluno.

O distanciamento do trabalho, ou baixa realização profissional, caracteriza-se pela falta de


envolvimento pessoal e pela indiferença aos assuntos da sua profissão, além de uma
assumida sensação de ineficácia contra a qual não tem ânimo para lutar. O distanciamento
do aluno, ou despersonalização, aparece na forma de endurecimento afetivo e falta de
empatia. Para a pesquisadora, a despersonalização é a face mais perversa do Burnout, pois
afeta justamente aquele que deveria ser objeto de atenção e cuidado. Nádia exemplifica a
situação citando docentes que se referem às turmas como “aqueles pestinhas”, ou que, na
hora do cafezinho, tudo o que conseguem fazer é reclamar dos alunos. Qualquer referência
aos estudantes será sempre negativa.

Consequências – De acordo com a psicóloga, estudos vêm mostrando que professores com
o problema tendem a adoecer mais, faltar ao trabalho e se tornar menos criativos. Em sala
de aula, há grandes chances de piorar a relação professor-aluno. Uma relação de hostilidade
entre os dois lados acabará comprometendo a aprendizagem.

Segundo Nádia, a presença do Burnout em professores da educação básica levanta


preocupações. “Esse período escolar acompanha uma fase essencial da formação do
indivíduo. É quando a relação aluno-professor é mais necessária para a aprendizagem e o
desenvolvimento integral do educando”, afirma. Já os estudantes universitários são mais
independentes da figura do docente.

Apoio – O estudo analisou formas de minimizar a síndrome e descobriu ser fundamental o


companheirismo e a cooperação no ambiente de trabalho. Os professores que disseram ter
apoio dos demais docentes apresentaram os menores níveis de exaustão emocional,
despersonalização e de baixa realização profissional.

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A frequência de exaustão entre indivíduos sem suporte é quase o dobro da verificada em
professores que percebem estar apoiados pelos seus pares. Quanto à despersonalização e à
realização profissional reduzida, os dados seguem a mesma tendência: a incidência desses
sintomas é três vezes maior entre os docentes que não se sentem apoiados pelos colegas.

Soluções – Segundo Nádia, os resultados do estudo serão úteis em estratégias de


enfrentamento da síndrome. Ela considera que medidas simples podem contribuir para
minimizar o sofrimento. “O mérito desse trabalho é ter mostrado, de forma científica, que é
muito mais difícil enfrentar de forma solitária os estressores que levam a Burnout”, diz a
psicóloga. “Encontramos evidências de que o suporte social no trabalho, que favoreça a
construção coletiva de estratégias de enfrentamento dos problemas típicos da profissão, é
uma maneira efetiva de reduzir as estatísticas da síndrome.” Nádia afirma, ainda, que esse
recurso tem o mérito de ser acessível aos professores, pois depende da vontade do grupo.

Atividades que estimulem a aproximação entre professores podem contribuir para evitar a
tendência a expectativas profissionais inalcançáveis, substituindo-as por metas realistas e
discutidas coletivamente. Mesmo a ausência de condições de trabalho adequadas pode ser
minimizada pela busca em grupo de soluções criativas, deixando de ser apenas uma queixa
isolada. “É muito importante a sensação de ser acolhido por pessoas que enfrentam os
mesmos problemas, seja na busca por mudanças ou para conviver com o que é impossível
mudar”, diz.

Conflito entre trabalho e família

O eterno conflito entre trabalho e família é o principal elemento para desencadear a


síndrome, revela a pesquisa. Isso acontece quando o professor se dedica mais do que
poderia para a escola, reduzindo o tempo destinado à esposa (ou marido) e filhos, ou vice-
versa. Do total de entrevistados com exaustão emocional alta, 74% indicaram vivenciar
problemas para conciliar o tempo e a atenção que dedicam a essas duas instâncias tão
importantes da sua vida. Nádia destaca que esse resultado é uma indicação de quanto o

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trabalho docente tende a invadir o tempo que deveria ser dedicado ao lazer e aos cuidados
com a família.

Da maneira como o trabalho está estruturado na maioria das instituições, não há tempo,
dentro da carga horária prevista, para que sejam realizadas atividades como preparar aulas,
pesquisar materiais, bem como corrigir provas e trabalhos, tarefas que são levadas pra casa.
Quando não consegue equacionar o problema, o professor passa a ser submetido a uma
pressão em seu ambiente doméstico. Assim, já fragilizado pelos problemas que enfrenta no
trabalho, fica mais exposto aos efeitos que levam à Burnout.

Dica 7:

A reportagem sobre a Síndrome de Burnout entre professores encontra-se disponível em:


http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/burnout_atinge_15_porcento_profes.htm

Vídeo 1

Assista à entrevista realizada com a pesquisadora Gisela Levy no canal Futura sobre a
Síndrome de Burnout com professores.

Disponível em: http://br.youtube.com/watch?v=7Im2efAvKWE

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U NIDADE 16
Assédio Moral

Objetivos: Definir o assédio moral, reconhecer os principais elementos que o caracterizam e


as consequências para a saúde dos trabalhadores e para as empresas.

Nesta unidade discutiremos o assédio moral nas relações de trabalho e seus impactos para
os trabalhadores. O assédio moral é um tema novo para um problema velho, que sempre
existiu na sociedade. Tem consequências para a saúde dos trabalhadores e para as
empresas devido às indenizações. Nos EUA e na Europa vem gerando indenizações
milionárias em favor dos assediados, transformando-se em um dos principais riscos
financeiros das empresas.

A rede Wal-Mart foi condenada a pagar 50 milhões de dólares a uma empregada assediada
moralmente, como decorrência de observações chocantes sobre seu dote físico.

A Chevron foi condenada a uma indenização superior a 2 milhões de dólares a empregados


por agressões ocorridas no ambiente de trabalho, sendo que no Estado da Flórida, houve a
condenação de uma empresa a pagar indenização de 237 mil dólares a um gerente que foi
assediado por seu chefe.

Para Guedes (2003), assediar é submeter alguém, sem tréguas, a ataques repetidos,
requerendo, assim, a insistência, a repetição de condutas, procedimentos, atos e palavras,
inadequados e intempestivos, comentários perniciosos e críticas e piadas inoportunas, com o
propósito de expor alguém a situações incômodas e humilhantes. Há certa invasão da
intimidade da vítima, mas não em decorrência do emprego abusivo do poder diretivo do
empregador, visando proteger o patrimônio da empresa, mas sim, deriva de conduta
deliberada com o objetivo de destruir a vítima e afastá-la do mundo do trabalho.

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Menezes (2006) indica várias situações em que pode haver assédio moral, pela sua
repetição ou sistematização, tais como:

1) Rigor excessivo;

2) Confiar tarefas inúteis ou degradantes;

3) Desqualificação ou críticas em público;

4) Isolamento ou inatividade forçada;

5) Ameaças explícitas ou veladas;

6) Exploração de fragilidades psíquicas e físicas;

7) Limitação ou proibição de qualquer inovação ou iniciativa do trabalhador;

8) Impor obrigação de realizar autocríticas em reuniões públicas;

9) Exposição ao ridículo (ex: impor o uso de fantasias, sem que isso guarde relação com
sua função);

10)Divulgação de doenças e problemas pessoais de forma direta ou pública;

11)Agressões verbais ou através de gestos;

12)Atribuição de tarefas estranhas à atividade profissional do empregado, para humilhar e


expô-lo a situações vexatórias, como lavar banheiros, fazer limpeza, levar sapatos
para engraxar ou rebaixar de função (de médico para atendente de portaria, por
exemplo);

13)Trabalho superior às forças do empregado;

14)Sugestão para pedido de demissão;

15)Ausência de serviço ou atribuição de metas dificílimas ou impossíveis de serem


cumpridas;

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16)Controle de tempo no banheiro;

17)Divulgação pública de detalhes íntimos;

18) instruções confusas;

19)Referência a erros imaginários;

20)Solicitação de trabalhos urgentes para depois jogá-los no lixo ou na gaveta;

21)Imposição de horários injustificados;

22)Transferência de sala por mero capricho;

23)Retirada de mesa de trabalho e pessoal de apoio;

24)Boicote de material necessário à prestação dos serviços, além de instrumentos como


telefone, fax e computador; e

25)Supressão de funções ou tarefas.

Existem histórias de assédio moral vivenciadas por trabalhadores que sofreram um acidente
do trabalho ou adoeceram. Os trabalhadores com LER/DORT são conhecidos por LERdos
ou com LERdeza. Tradicionalmente, o assédio moral é confundido com outros problemas do
mundo do trabalho como estresse ou conflito natural entre colegas ou agressões pontuais.
Para entendermos o assédio moral no trabalho, iremos analisar um trecho do texto “Assédio
moral nas relações de trabalho”, Caixeta (2003).

Fragmento do Texto

O assédio moral nas relações de trabalho

O assédio moral pode verificar-se nas famílias, na escola, no trabalho. Mas é no ambiente
laboral que é mais comum e os danos causados são mais perversos. Pesquisa realizada

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pela médica do trabalho Margarida Barreto, da PUC de São Paulo, aponta que 36% dos
trabalhadores brasileiros sofreram violência moral. Nos países europeus, segundo a
Organização Internacional do Trabalho, esse índice cai para 10% e nos EUA para 7%.

Nas relações de trabalho, o assédio moral caracteriza-se pela exposição dos trabalhadores a
situações humilhantes, constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de
trabalho. É mais comum nas relações hierárquicas autoritárias, em que predominam
condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes
dirigida ao subordinado, de modo que desestabilize a relação da vítima com o ambiente de
trabalho e a organização. Trata-se de “comportamento opressivo, malicioso, intimidatório ou
insultuoso, desenvolvido de forma persistente no local de trabalho que provoca no seu
interior medos ou humilhações minando a autoconfiança da pessoa e marginalizando-a na
comunidade laboral”.

Marie-France Hirigoyen ensina: “Por assédio em um local de trabalho temos que entender
toda e qualquer conduta abusiva manifestando-se, sobretudo, por comportamento, palavras,
atos, gestos, escritos que possam trazer dano à personalidade, à dignidade ou à integridade
física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo seu emprego ou degradar o ambiente de
trabalho”.

As constantes humilhações, a exposição do trabalhador ao ridículo, a supervisão excessiva,


as críticas cegas, o empobrecimento das tarefas, a sonegação de informações e as repetidas
perseguições são notas características do assédio moral, cuja prática está relacionada
geralmente a uma relação de poder, como ocorre também com o assédio sexual. O
fenômeno deteriora, sensivelmente, o meio ambiente do trabalho, com repercussão na
produtividade e na ocorrência de acidentes.

O assédio nasce como algo inofensivo e propaga-se insidiosamente. Em um primeiro


momento, as pessoas envolvidas não querem mostrar-se ofendidas e levam na brincadeira
desavenças e maus tratos. Em seguida esses ataques se vão multiplicando e a vítima é
seguidamente acuada, posta em situação de inferioridade, submetida a manobras hostis e
degradantes durante um período maior.

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Essa guerra psicológica no local de trabalho agrega dois fenômenos: o abuso de poder, que
é rapidamente desmascarado e não é necessariamente aceito pelos empregados; e as
manipulações perversas de fatos e informações, que se instala de forma mais insidiosa e
causa devastações muito maiores. O assédio torna-se possível porque vem precedido de
uma desvalorização da vítima pelo agressor, que é aceita e até afiançada pelo grupo. Essa
depreciação leva o ofendido a pensar que realmente merece o que está acontecendo.

Em um grupo, é normal que os conflitos se manifestem. Um comentário ferino em um


momento de irritação ou de mau humor não é significativo, sobretudo se vier acompanhado
de um pedido de desculpas. É a repetição dos vexames, das humilhações, sem qualquer
esforço no sentido de abrandá-las, que torna o fenômeno destruidor.

O terror psicológico provoca na vítima danos emocionais e doenças psicossomáticas, como


alterações do sono, distúrbios alimentares, diminuição da libido, aumento da pressão arterial,
desânimo, insegurança, entre outros, podendo acarretar quadros de pânico e de depressão.

Em casos extremos, tais quadros mórbidos podem levar à morte ou ao suicídio. O médico
do trabalho Mauro Moura diagnostica os sintomas mais comuns nos casos de assédio moral:
“Os primeiros sintomas são os problemas clínicos devido ao estresse. O funcionário começa
a dormir mal, a ter tremores, palpitações, pressão alta, problemas de pele, aumenta ou
diminui de peso “abruptamente”.

Uma pessoa que não tem diabete pode desenvolver a doença, e quem possui pode
descompensar o sintoma. Em alguns casos, distúrbios hormonais também são verificados.
Nas mulheres, alterações na menstruação.

Nos homens, impotência. Depois, começa a ser afetada a parte psicológica. A primeira
reação é achar que o assediador tem razão [...]. A autoestima da pessoa começa a entrar em
declínio –e não raras vezes o sujeito pensa no suicídio como única maneira de se salvar”.
Não se morre diretamente das agressões, mas perde-se parte de si a cada momento. Volta-
se para casa, a cada noite, exausto, humilhado, deprimido. E é difícil recuperar-se.

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O assédio moral na legislação nacional

Esse quadro tem demandado a iniciativa legislativa para coibir o chamado psicoterror. No
Brasil, além de algumas leis municipais (São Paulo-SP, Guarulhos-SP, Iracemápolis-
SP,Cascavel-PR, Natal-RN, Sidrolândia-MS) e projetos de lei municipais e estaduais
(Municípios:Guararema-SP, Curitiba-PR, Porto Alegre-RS; Estados: São Paulo e Rio Grande
do Sul), existem, pelo menos, dois projetos de lei sobre o tema, tramitando na Câmara dos
Deputados: Projeto de Lei nº 4.591/2001 30, de iniciativa da deputada Rita Camata (PSDB-
ES), e Projeto de Lei nº 4.742/2001 31, apresentado pelo deputado Marcos de Jesus (PL-
PE).

O primeiro modifica a Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990, proibindo a prática do


assédio moral no âmbito do serviço público federal e cominando pena que vai da singela
advertência até a demissão, esta em caso de reincidência. O segundo introduz o art. 146-A
no Código Penal, tipificando o assédio moral com a seguinte redação:

“Art. 146-A. Depreciar, de qualquer forma e reiteradamente a imagem ou o desempenho de


servidor público ou empregado, em razão de subordinação hierárquica funcional ou laboral,
sem justa causa, ou tratá-lo com rigor excessivo, colocando em risco ou afetando sua saúde
física ou psíquica. Pena–detenção de um a dois anos 33”.

Dica 8:

Quer entender mais o Assédio Moral?

Acesse: http://www.assediomoral.org/

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Dica 9:

O texto completo de Sebastião Caixeta faz parte do boletim científico disponível no endereço:
http://www3.esmpu.gov.br/linha-editorial/boletim-cientifico/boletim6.pdf#page=91

Atividade Dissertativa 2:

O Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro elaborou uma cartilha sobre assédio moral.
Leia atentamente a cartilha. Disponível em:

http://www.sindipetro.org.br/w3/images/sindipetro/img9/assedio-moral-cartilha.pdf

Em seguida, assista ao vídeo sobre o assédio moral no trabalho. A reportagem apresenta


informações sobre a criação do grupo de apoio às vítimas de assédio moral.

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Vídeo 2:

Disponível em: http://br.youtube.com/watch?v=MMh7142QuCA

Baseado na leitura da cartilha e no vídeo discorra criticamente sobre:

1. Aponte os elementos que contribuem para que o assédio moral seja uma epidemia
invisível.

2. Explique por que a informação é o principal instrumento de combate ao assédio moral.

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U NIDADE 17
Agentes Físicos e Biológicos

Objetivo: Diferenciar os tipos de agentes patogênicos.

A Legislação Brasileira define as doenças profissionais ou do trabalho no Decreto 2.172, de


05 de março de 1997 (sobre os benefícios da previdência social), artigo 132, incisos I e II.
Para todos os efeitos legais, as doenças ocupacionais são equiparadas ao acidente do
trabalho.

Segundo o Ministério da Saúde (2001), o controle das condições de risco para a saúde e
melhoria dos ambientes de trabalho envolve as seguintes etapas:

 Identificação das condições de risco para a saúde presentes no trabalho;

 Caracterização da exposição e quantificação das condições de risco;

 Discussão e definição das alternativas de eliminação ou controle das condições de


risco;

 Implementação e avaliação das medidas adotadas.

De acordo com Trivellato (1998), os fatores de risco podem ser classificados, segundo sua
natureza, em:

1. Ambiental:

 Físico: alguma forma de energia: radiação, ruído, vibração, etc.;


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 Químico: substâncias químicas, poeiras, etc.;

 Biológico: bactérias, vírus, fungos, etc.;

2. Situacional: instalações, ferramentas, equipamentos, materiais, operações, etc.;

3. Humano ou comportamental: decorrentes da ação ou omissão humana.

O Ministério da Saúde lembra que existe uma diferença entre a capacidade que tem um
agente para causar dano e a possibilidade de que este agente cause dano.

O potencial intrínseco de um agente tóxico para lesar a saúde só se concretiza se houver


condições para que este agente alcance o(s) órgão(s) crítico(s) que ele pode danificar. Por
exemplo: a sílica livre cristalina é o agente etiológico da silicose, portanto um bloco de granito
“encerra” o risco de silicose.

Entretanto, esse bloco só oferecerá risco real de doença se for submetido a algum processo
de subdivisão que produza partículas suficientemente pequenas para serem inaladas e
depositadas nos alvéolos pulmonares. Se o bloco de granito fizer parte de um monumento,
não haverá risco de silicose, porém se este mesmo bloco de granito estiver em um canto no
local de trabalho é importante investigar para que será utilizado. O fato de, no momento, não
estar oferecendo risco não significa que assim será no futuro. (MS/BRASIL, 2001).

Para aprofundarmos a discussão sobre o assunto, é fundamental reproduzirmos nesta


unidade a relação dos agentes patogênicos causadores de doenças profissionais presentes
no Anexo II do decreto 2.172. Na unidade seguinte apresentaremos os riscos químicos, de
acordo com o mesmo documento.

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Fragmento do Decreto 2.172 – Anexo II

Agentes Físicos

1. RUIDO E AFECÇÃO AUDITIVA

Mineração, construção de túneis, exploração de pedreiras (detonação, perfuração);


engenharia pesada (fundição de ferro, prensa de forja); trabalho com máquinas que
funcionam com potentes motores a combustão; utilização de máquinas têxteis; testes de
reatores de aviões.

2. VIBRAÇÕES

Afecções dos músculos, tendões, ossos, articulações, vasos sanguíneos periféricos ou dos
nervos periféricos.

Indústria metalúrgica, construção naval e automobilística; mineração; agricultura


(motosserras); instrumentos pneumáticos; ferramentas vibratórias, elétricas e manuais;
condução de caminhões e ônibus.

3. AR COMPRIMIDO

a) Trabalhos em caixões ou câmaras pneumáticas e em tubulações pneumáticos;

b) Operações com uso de escafandro;

c) Operações de mergulho;

d) Trabalho com ar comprimido em túneis pressurizados.

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4. RADIAÇÕES IONIZANTES

a) Extração de minerais radioativos (tratamento, purificação, isolamento e preparo para


distribuição), como o urânio;

b) Operação com reatores nucleares ou com fontes de nêutrons ou de outras radiações


corpusculares;

c) Trabalhos executados com exposições a raios X, rádio e substâncias radioativas para


fins industriais, terapêuticos e diagnósticos;

d) Fabricação e manipulação de produtos químicos e farmacêuticos radioativos (urânio,


radônio, mesotório, tório X, césio 137 e outros);

e) Fabricação e aplicação de produtos luminescentes radíferos;

f) Pesquisas e estudos dos raios X e substâncias radioativas em laboratórios.

Agentes Biológicos

1. MICROORGANISMOS E PARASITAS INFECCIOSOS VIVOS E SEUSPRODUTOS


TÓXICOS

a. Mycobacterium; vírus hospedados por artrópodes; cocciclióides; fungos;


histoplasma; leptospira; ricketsia; bacilo (carbúnculo, tétano);ancilóstomo;
tripanossoma; pasteurella - Agricultura; pecuária; silvicultura; caça (inclusive a
caça com armadilhas); veterinária; curtume.

b. Ancilóstomo; histoplasma; cocciclióides; leptospira; bacilo; sepse - Construção;


escavação de terra; esgoto; canal de irrigação; mineração.

c. Mycobacterium; brucellas; estreptococo (erisipela); fungos; ricketsia;


pasteurella-Manipulação e embalagem de carne e pescado.

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d. Fungos; bactérias; mixovirus (doença de Newcastle) - Manipulação de aves
confinadas e pássaros.

e. Bacilo (carbúnculo) e pasteurella – Trabalho com pêlo, pele ou lã.

f. Bactérias; mycobacteria; brucella,; fungos; leptospira; vírus; mixovirus;


reckectsia; pasteurella – Veterinária.

g. Mycobacteria, vírus; outros organismos responsáveis por doenças


transmissíveis – Hospital; laboratórios e outros ambientes envolvidos no
tratamento de doenças transmissíveis.

h. Fungos (micose cutânea) – Trabalhos em condições de temperatura elevada e


umidade (cozinhas; ginásios; piscinas; etc)

2. POEIRAS ORGÂNICAS

a. Algodão, linho, cânhamo, sisal

Trabalhadores nas diversas operações com poeiras provenientes desses


produtos.

b. Agentes Físicos, Químicos ou Biológicos que afetam a pele

Referem-se aos agentes não considerados outros itens do anexo.

Trabalhadores mais expostos: agrícolas; da construção civil em geral; da indústria


química; de eletrogalvanoplastia; de tinturaria; da indústria de plásticos reforçados
com fibra de vidro; da pintura; dos serviços de engenharia (óleo de corte ou
lubrificante); dos serviços de saúde (medicamentos, anestésicos locais,
desinfetantes); do tratamento de gado; dos açougues.

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Atividade Optativa 3

A partir de 2001 a previdência terá novos critérios para avaliar as doenças relacionadas ao
trabalho. No endereço abaixo você poderá entender como a mudança irá afetar
significantemente as empresas de todos os setores.

Acesse o endereço:

http://empreendedor.uol.com.br/?secao=Noticias&categoria=167&codigo=9654

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U NIDADE 18
Agentes Químicos

Objetivo: Categorizar os diferentes agentes químicos.

Nesta unidade continuaremos apresentando as doenças ocupacionais presentes no Anexo II


do decreto 2.172 de 05 de março de 1997, especificamente os agentes patogênicos químicos
presentes em determinadas situações de trabalho.

Agentes Químicos

Os Agentes Químicos são substâncias compostas ou produtos capazes de penetrar no


organismo pela via respiratória ou dependendo da natureza da atividade de exposição
possam ter contato através da pele ou serem absorvidos pelo organismo por ingestão.

São os agentes ambientais causadores em potencial de doenças profissionais devido à sua


ação química sobre o organismo dos trabalhadores. Podem ser encontrados tanto na forma
sólida, como líquida ou gasosa. Além do grande número de materiais e substâncias
tradicionalmente utilizadas ou manufaturadas no meio industrial, uma variedade enorme de
novos agentes químicos em potencial vai sendo encontrada, devido à quantidade sempre
crescente de novos processos e compostos desenvolvidos.

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Fragmento do Decreto 2.172 – Anexo II

01 - ARSÊNIO E SEUS COMPOSTOS ARSENICAIS

Metalurgia de minérios arsenicais e indústria eletrônica; Extração do arsênico e preparação


de seus compostos; Fabricação, preparação e emprego de tintas, lacas (gás arsina),
inseticidas, parasiticidas, eraticidas; Processos industriais em que haja desprendimento de
hidrogênio arseniado; Preparação e conservação de peles e plumas (empalhamento de
animais) e conservação da madeira; Agentes na produção de vidro, ligas de chumbo,
medicamentos e semicondutores.

02 - ASBESTO OU AMIANTO

Extração de rochas amiantiferas, furação, corte, desmonte, trituração, peneiramento


emanipulação; Despejos do material proveniente da extração, trituração; Mistura, cardagem,
fiação e tecelagem de amianto; Fabricação de guarnições para freios, materiais isolantes e
produtos de fibrocimento; Qualquer colocação ou demolição de produtos de amianto que
produza partículas atmosféricas de amianto.

03 – BENZENO E SEUS HOMÓLOGOS TÓXICOS

Fabricação e emprego do benzeno, seus homólogos ou seus derivados aminados e nitrosos;


Instalações petroquímicas onde se produzir benzeno; Indústria química ou de laboratório;
Produção de cola sintética; Usuários de cola sintética na fabricação de calçados, artigos de
couro ou borracha e móveis; Produção de tintas; Impressores (especialmente na
fotogravura); Pintura a pistola; Soldagem.

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04 - BERÍLIO E SEUS COMPOSTOS TÓXICOS

Extração, trituração e tratamento de berílio; Fabricação e fundição de ligas e compostos;


Utilização na indústria aeroespacial e manufatura de instrumentos de precisão e
ordenadores; ferramentas cortantes que não produzam faíscas para a indústria petrolífera;
Fabricação de tubos fluorescentes, de ampolas de raios X, de eletrodos de aspiradores,
cátodos de queimadores e moderadores de reatores nucleares; Fabricação de cadinhos,
vidros especiais e de porcelana para isolantes térmicos.

05 - BROMO

Fabricação e emprego do bromo e do ácido brômico.

06 - CADMIO OU SEUS COMPOSTOS

Extração, tratamento, preparação e fundição de ligas metálicas; Fabricação e compostos de


cádmio para soldagem; Soldagem; Utilização em revestimentos metálicos (galvanização),
como pigmentos e estabilizadores em plásticos, nos acumuladores de níquel-cádmio e
soldagem de prata.

07 - CARBONETOS METALICOS DE TUNGSTÉNIO SINTERIZADOS

Produção de carbonetos sintetizados (mistura, pulverização, modelado, aquecimento em


forno, ajuste, pulverização de precisão), na fabricação de ferramentas e de componentes
para máquinas e no afiamento das ferramentas. Trabalhadores situados nas proximidades e
dentro da mesma oficina.

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08 - CHUMBO OU SEUS COMPOSTOS TÓXICOS

Extração de minérios, metalurgia e refinação do chumbo; Fabricação de acumuladores e


baterias (placas); Fabricação e emprego de chumbo-tetraetila e chumbo-tetrametila;
Fabricação e aplicação de tintas, esmaltes e vernizes à base de compostos de chumbo;
Fundição e laminação de chumbo, de bronze, etc; Fabricação ou manipulação de ligas e
compostos de chumbo; Fabricação de objetos e artefatos de chumbo, inclusive munições;
Vulcanização da borracha pelo litargirio ou outros compostos de chumbo; Soldagem;
Indústria de impressão; Fabricação de vidro, cristal e esmalte vitrificado; Sucata, ferro-velho;
Fabricação de pérolas artificiais; Olaria;

10- CROMO OU SEUS COMPOSTOS TÓXICOS

Fabricação de ácido crômico, de cromatos e bicromatos e ligas de ferrocromo; Cromagem


eletrolítica de metais (galvanoplastia); Curtição e outros trabalhos com o couro; Pintura a
pistola com pigmentos de compostos de cromo, polimento de móveis; Manipulação de ácido
crômico, de cromatos e bicromatos; Soldagem de aço inoxidável;

Fabricação de cimento e trabalhos da construção civil; Impressão e técnica fotográfica.

11- FLÚOR OU SEUS COMPOSTOS TÓXICOS

Fabricação e emprego de flúor e de ácido fluoridrico; siderurgia (como fundentes);


Fabricação de ladrilhos, telhas, cerâmica, cimento, vidro, esmalte, fibra de vidro, Fertilizantes
fosfatados; Produção de gasolina (como catalisador alquilante); Soldagem
elétrica;Galvanoplastia; Calefação de superfícies; Sistema de combustível para foguetes.

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12 - FÓSFORO OU SEUS COMPOSTOS TÓXICOS

Extração e preparação de fósforo branco e de seus compostos; Fabricação e aplicação de


produtos fosforados e organofosforados (sínteses orgânicas,
fertilizantes, praguicidas); Fabricação de projéteis incendiários, explosivos e gases
asfixiantes à base de fósforo branco; Fabricação de ligas de bronze; Borrifadores,
trabalhadores agrícolas e responsáveis pelo armazenamento, transporte e distribuição dos
praguicidas organofosforados.

13 - HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS OU AROMÁTICOS (seus derivados halogenados


tóxicos)

Cloreto de metila - síntese química (metilação), refrigerante, agente especial para extrações.
Cloreto de metileno - solvente (azeites, graxas, ceras, acetato de celulose), desengordurante,
removedor e pinturas. Clorofôrmio - Solvente (lacas), agente de extração. Tetracloreto de
carbono - síntese química, extintores de incêndio. Cloreto de etila - síntese química,
anestésico local (refrigeração). Dicloroetano - síntese química, solvente (resinas, borracha,
asfalto, pinturas), desengraxante. Tricloroetano - agente desengraxante para limpeza de
metais e limpeza a seco. Tricloroetano - solvente.Tetracloroetano - solvente. Tricloroetileno -
desengraxante, agente de limpeza a seco e de extração, sínteses químicas. Tetracloroetileno
- desengraxante, agente de limpeza a seco e de extração, sínteses químicas. Cloreto de
vinila - intermediário na fabricação de cloreto de polivinila. Brometo de metila - Inseticida em
fumigação(cereais), sínteses químicas. Brometo de etila – sínteses químicas, agente
especial de extração. Dibromoetano – inseticida em fumigação (solos), extintor de incêndios,
solventes (celulóide, graxas, azeites, ceras). Clorobenzeno – síntese química, solvente.
Diclorobenzeno - sínteses químicas, solvente.

14 - lODO

Fabricação e emprego do iodo.

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15- MANGANES E SEUS COMPOSTOS TÓXICOS

Extração, tratamento e trituração de pirolusita (dióxido de manganês); Fabricação de ligas e


compostos do manganês; Siderurgia; Fabricação de pilhas secas e acumuladores;
Preparação de permanganato de potássio e fabricação de corantes; Fabricação de vidros
especiais e cerâmica; Soldagem com eletrodos contendo manganês; Fabricação de tintas e
fertilizantes; Curtimento de couro.

16 - MERCÚRIO E SEUS COMPOSTOS TÓXICOS

Extração e fabricação do mineral de mercúrio e de seus compostos; Fabricação de espoletas


com fulminato de mercúrio; Fabricação de tintas; Fabricação de solda; Fabricação de
aparelhos: barômetros, manômetros, termômetros, interruptores, lâmpadas, válvulas
eletrônicas, ampolas de ralo X, retificadores; Amalgamação de zinco para fabricação de
eletrodos, pilhas e acumuladores; Douração e estanhagem de espelhos; Empalhamento de
animais com sais de mercúrio; Recuperação de mercúrio por destilação de resíduos
industriais; Tratamento a quente de amálgamas de ouro e prata para recuperação desses
metais; Secretagem de pêlos, crinas e plumas, e feltragem à base de compostos de
mercúrio; Fungicida no tratamento de sementes e brilhos vegetais e na proteção da madeira.

17- SUBSTÂNCIAS ASFIXIANTES

1 - Monóxido de carbono

Produção e distribuição de gás obtido de combustíveis sólidos (gaseificação do


carvão); mecânica de motores, principalmente movidos à gasolina, em recintos
semifechados; soldagem acetilênica e a arco; caldeiras, indústria química; siderurgia,
fundição, mineração de subsolo; uso de explosivos; controle de incêndios; controle de
tráfego; construção de túneis; cervejarias.

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2 - Cianeto de hidrogênio ou seus derivados tóxicos

Operações de fumigação de inseticidas, síntese de produtos químicos orgânicos;


eletrogalvanoplastia; extração de ouro e prata; produção de aço e de plásticos
(especialmente o acrilonitrilo-estireno); siderurgia (fornos de coque).

3 - Sulfeto de hidrogênio (Ácido sulfidrico)

Estações de tratamento de águas residuais; mineração; metalurgia; trabalhos em silos;


processamento de açúcar da beterraba; curtumes e matadouros; produção de viscose
e celofane; indústria química (produção de ácido sulfúrico, sais de bário); construção
de túneis; perfuração de poços petrolíferos e gás; carbonização do carvão a baixa
temperatura; litografia e fotogravura.

18 - SÍLICA LIVRE (Óxido de Silício - Si 02)

Extração de minérios (trabalhos no subsolo e a céu aberto); Decapagem, limpeza de metais,


foscamento de vidros com jatos de areia, e outras atividades em que se usa areia como
abrasivo; Fabricação de material refratário para fornos, chaminés e cadinhos, recuperação
de resíduos; Fabricação de mós, rebolos, saponáceos, pós e pastas para polimento de
metais; Moagem e manipulação de sílica na indústria de vidros e porcelanas; Trabalho em
pedreiras; Trabalho em construção de túneis; Desbastes e polimento de pedras.

19 – SULFETO DE CARBONO OU DISSULFETO DE CARBONO

Fabricação de sulfeto de carbono; Indústria de viscose, raiom (seda artificial); Fabricação e


emprego de solventes, inseticidas, parasiticidas e herbicidas; Fabricação de vernizes,
resinas, sais de amoníaco, tetracloreto de carbono, têxteis, tubos eletrônicos a vácuo,
gorduras; Limpeza a seco; Galvanização; Fumigação de grãos; Processamento de azeite,
enxofre, bromo, cera, graxas e iodo.

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20 - ALCATRÃO, BREU, BETUME, HULHA MINERAL, PARAFINA E PRODUTOS OU
RESÍDIDUOS DESSAS SUBSTÂNCIAS, CAUSADORES DE EPITELIOMAS PRIMITIVOS
DA PELE.

Processos e operações industrias ou não, em que sejam utilizados alcatrão, breu, betume,
hulha mineral, parafina e produtos ou resíduos dessas substâncias.

Dica 10:

- A relação das atividades profissionais correspondentes a cada agente patogênico tem


caráter exemplificativo.

- A doença profissional ou do trabalho será caracterizada quando, diagnosticada a


intoxicação ou afecção, se verifica que o empregado exerce atividade que o expõe ao
respectivo agente patogênico, constante deste anexo.

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U NIDADE 19
Dermatoses Ocupacionais

Objetivo: Descrever os fatores relacionados ao trabalho que podem desencadear as


dermatoses ocupacionais.

A dermatose é uma doença ocupacional muito frequente. É uma inflamação resultante da


interação entre um agente externo e a pele. Pode estar relacionada ou não à profissão.
Nesta unidade discutiremos apenas as dermatoses de origem ocupacional, foco do nosso
interesse devido aos altos índices de absenteísmo.

A dermatite de contato, também conhecida como dermatose, é a doença ocupacional que


acomete um maior número de trabalhadores no Brasil, principalmente nas áreas da
construção civil, limpeza, mecânica e metalurgia.

Pimentel e Mata (1998) explicam que apesar de não haver definição universalmente aceita,
podem ser consideradas dermatoses ocupacionais de contato aquelas parcial ou totalmente
relacionadas às condições de trabalho. As dermatoses ocupacionais de contato são de
natureza alérgica ou irritativa, sendo as últimas responsáveis pela maioria dos casos. Em
conjunto, respondem por 18% de todas as doenças ocupacionais e por mais de 90% das
dermatoses ocupacionais.

Essa doença é caracterizada por lesões que afligem a pele dos trabalhadores durante o
desenvolvimento de suas atividades. Produtos e agentes químicos na maioria das vezes são
irritantes da pele e alguns provocam alergia. As dermatites vão desde o ressecamento,
vermelhidão, descamação, fissura, crostas, inchaço, inflamação, até uma cronificação
irreversível, incapacitando o trabalhador.

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Substâncias como solventes (gasolina, querosene, acetona e outros), óleos minerais e
vegetais, tintas, resinas, ácidos, álcalis (cimento, cal, etc.), metais (cobalto, níquel e cromo),
podem provocar a dermatite de contato nos trabalhadores. Há também as provocadas por
agentes físicos, como as radiações UVA e UVB, e agentes biológicos, como as bactérias,
fungos, picadas de insetos. Lembrando que agentes químicos e biológicos são absorvidos
pela pele, passando para a corrente sanguínea. Segundo Duarte (2005), níquel, cobalto e
cromo são os metais mais comumente responsáveis pela Dermatite de Contato (DC) por
metais.

Fatores relacionados ao trabalho

Pimentel e Mata (1998) relacionaram cinco fatores, sendo eles:

1. Trabalho com água: a água é fator importantíssimo no desenvolvimento de doenças


cutâneas relacionadas ao trabalho, haja vista o grande número de dermatoses
ocupacionais entre trabalhadores que lidam com água frequentemente como parte de
sua atividade laborativa: trabalhadores na área de saúde, serventes, trabalhadores em
bares e restaurantes, etc. O trabalho frequente com água atua ainda como facilitador
da ação de outros agentes irritativos, como sabões, detergentes, etc, embora sua
importância seja recorrentemente subestimada.

2. Irritantes químicos: são responsáveis por 75 a 80% dos casos de dermatite de contato
relacionada ao trabalho. Os irritantes fortes são bem conhecidos, mas os irritantes
fracos são subestimados em seus efeitos cutâneos. Os irritantes compreendem
solventes, sabões, detergentes, sumos vegetais, e óleos de corte, antioxidantes,
ácidos, alcalinos, agentes redutores, etc. Os profissionais tendem a superestimar o
efeito alergênico das substâncias químicas e a subestimar seu efeito irritativo. Os
alergênicos provocam cerca de 20% dos casos de dermatite de contato na indústria.
Entretanto, embora haja autores que defendam o uso do teste de contato pré-
admissional como forma de selecionar indivíduos aos diversos setores industriais,
essa posição é contestada por outros.

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3. Fatores mecânicos e físicos: compreendem calor, frio, umidade, radiação (ionizante e
mão ionizante e ultravioleta) e vibração, e contribuem para o efeito dos agentes
químicos.

4. Agentes biológicos: mais importantes em certas indústrias ao ar livre, relacionadas à


agricultura, florestas, pesca e processamento de alimentos, que apresentam
problemas relacionados a insetos, plantas, fungos, bactérias e vírus, e que podem
promover ou agravar dermatites de contato.

5. Trauma: incluindo lacerações, feridas perfurocortantes, queimaduras, mais frequentes


em determinadas funções e certos ramos industriais, como maquinistas, fabricantes
de metais, indústria mecânica e na construção civil. Pequenos traumas agem como
facilitadores da ação de agentes químicos.

Cockell (2008) mostrou que uma enfermidade de risco elevado entre os trabalhadores do
setor são as doenças de pele, acometem cerca de 30% dos operários da construção,
principalmente, devido ao contato direto com substâncias química irritantes, como os
compostos cromo e cobalto, presentes na composição do cimento. De acordo com o SESI
(1991), entre as dermatoses sobressaem-se os eczemas de contato causados pelo cimento,
luvas e sapatos de material sintético, as micoses nos pés e, em menor frequência, a
hiperceratose palmar.

Duarte et al. (2005) avaliaram 487 casos de dermatite de contato por metais (chumbo, níquel
e cobalto), atendidos num serviço assistencial entre 1995 e 2002, e encontraram um
percentual de 9% de trabalhadores da construção civil, número este inferior somente aos
profissionais do setor da limpeza (incluía também as donas de casa). Chamou atenção para
a possibilidade de redução da sensibilização ao cromo e ao níquel entre os trabalhadores do
setor, através da adição de sulfato ferroso ao cimento, medida já em vigor em países
europeus.

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Dermatoses ocupacionais de contato

Pimentel e Mata (1998) classificam as dermatites ocupacionais de contato em quatro


grandes grupos:

1. Dermatites de contato por irritantes

São responsáveis pela maioria dos casos de dermatoses ocupacionais de contato. São
substâncias que agem das mais diferentes maneiras, causando lesão à pele. O local de ação
dessas substâncias também varia grandemente. Os locais mais frequentemente afetados
pelas dermatoses ocupacionais irritativas são as mãos, principais ferramentas do trabalho
humano. Ocasionalmente, outros locais podem ser atingidos, como nos casos de líquidos em
contato com antebraços ou nos casos de poeiras, partículas, vapores e gases carregados
pelo ar, quando o rosto e outros locais podem ser afetados. As dermatites de contato
irritativas obedecem a dois padrões principais:

 Dermatite de contato irritativa aguda: desenvolve-se quando a pele é exposta a


irritante potente. Ocorre geralmente em acidentes de trabalho.

 Dermatite de contato cumulativa ou crônica: ocorre quando os pacientes são


expostos a substâncias irritativas fracas. É o tipo mais frequente.

2. Dermatites de contato alérgicas

Ocorre sensibilização a substâncias presentes no ambiente de trabalho, com


desenvolvimento de verdadeiro eczema de contato. Nesse caso, está envolvido processo de
hipersensibilidade retardada. O quadro clínico é o de eczema, podendo ser subdividido em
dermatite de contato alérgica aguda ou dermatite de contato alérgica crônica.

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3. Dermatites de contato fototóxicas

Ocorrem quando há exposição da pele à substância potencializadora da ação de radiações


não ionizantes (especialmente a radiação ultravioleta).

4. Dermatites de contato fotoalérgicas

Implicam na participação de mecanismo imunológico (reação de hipersensibilidade


retardada, tipo IV), além da necessidade de exposição à radiação não ionizante. Ocorre em
minoria dos indivíduos expostos, e a manifestação clínica é a de eczema em área
fotoexposta, podendo haver ocasionalmente manifestações à distância.

Prevenção

Pimentel e Mata (1998) afirmam que as medidas preventivas podem ser de ordem
administrativa, medidas de segurança ambiental e medidas de proteção individual.

 Medidas administrativas: exame pré-admissional, identificação do indivíduo com


fatores predisponentes, orientação e acompanhamento do trabalhador, rodízio de
trabalhadores, treinamento adequado dos trabalhadores.

 Medidas de segurança ambiental: identificação de possíveis substâncias irritantes,


sensibilizantes e carcinogênicas no processo laborativo, medidas relativas à
ventilação do ambiente (importante na remoção de fumos, poeiras, etc.) substituição
de materiais por outros menos tóxicos ou sensibilizantes, limpeza do ambiente e
sistemas fechados no processo de manufatura, que não ensejem contato físico do
trabalhador com substâncias potencialmente agressivas.

 Medidas de proteção individual: roupas adequadas, luvas - já que 70-85% de todas as


dermatoses ocupacionais envolvem as mãos, - cremes protetores, medidas de higiene
pessoal, botas e máscaras. No entanto, há que estar atento para a possibilidade de

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eczema de contato no látex. Os cremes-barreira não interferem com a destreza
manual e são facilmente recolocados, aumentando a consciência do trabalhador para
a segurança e podendo ser utilizados para aplicações específicas (por exemplo,
protetores solares). Seu uso, entretanto, é controverso, havendo autores que
constataram não terem tido efeito significativo na prevenção de dermatites de contato.
Outras medidas de ordem diversa podem ser tomadas para situações específicas. Na
Dinamarca, por exemplo, sulfato ferroso tem sido adicionado ao cimento desde 1981,
como maneira de diminuir a alergia ao cromato, com bons resultados. Uso de botas
hipoalergênicas pode ser útil para prevenir dermatite alérgica de contato à borracha.
As medidas a serem tomadas irão variar conforme o ambiente profissional e o tipo de
trabalho.

Estudo Complementar 3

O Ministério da Saúde elaborou um manual técnico sobre dermatoses ocupacionais. Neste


manual há informações sobre as causas de dermatoses, tipos, diagnóstico, tratamento e
medidas para a prevenção.

Aprofunde os seus conhecimentos!

Acesse agora o endereço abaixo e aprenda mais sobre dermatoses ocupacionais.

http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/06_0553_M.pdf

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Dica 11:

O Ministério da Saúde também disponibiliza um fluxograma para orientar o atendimento de


trabalhadores com dermatose. Disponível em:

http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/0093_dermatoses.pdf

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U NIDADE 20
Pair-Perda Auditiva Induzida Pelo Ruído

Objetivo: Conhecer os mecanismos da Perda Auditiva Induzida pelo Ruído (PAIR) de origem
ocupacional.

Nesta unidade será analisado um dos agentes ocupacionais mais encontrados nos
ambientes de trabalho: o ruído. Iremos discutir casos nos quais o ruído ultrapassa os limites
humanos, podendo provocar perda auditiva irreversível em consequência de lesão no órgão
de Corti diante da exposição contínua e prolongada.

Entretanto, é fundamental recordarmos o conceito de penosidade introduzido na Unidade 3.


Você aprendeu que, mesmo nos casos onde o ruído do ambiente de trabalho está dentro dos
limites permitidos, o trabalho pode ser penoso ao trabalhador.

Uma vez que não existe tratamento clínico, a literatura aponta a importância da prevenção do
problema pela adoção de medidas ambientais associadas ao uso de equipamentos de
proteção individual. Devemos novamente chamar atenção para o fato das medidas utilizadas
nas empresas serem baseadas na medicina do trabalho e na saúde ocupacional. Assim, o
tipo de intervenção realizada nas empresas brasileiras ainda busca a diminuição da
frequência e do nível de exposição ao ruído, restringindo-se a intervenções pontuais sobre os
riscos mais evidentes e enfatizando a utilização de equipamentos de proteção Individual em
detrimento aos de proteção coletiva Tais abordagens são consideradas paliativas sob o
ponto de vista da saúde do trabalhador e da ergonomia, pois não consideram a determinação
social do processo saúde-doença e nem intervêm no processo de trabalho e nas relações de
produção.

De acordo com o Ministério da Saúde (2006), a Perda Auditiva Induzida por Ruído (Pair) é a
perda provocada pela exposição por tempo prolongado ao ruído. Configura-se como uma
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perda auditiva do tipo neurossensorial, geralmente bilateral, irreversível e progressiva com o
tempo de exposição ao ruído (CID 10 – H 83.3).

Dados Epidemiológicos

Os dados epidemiológicos sobre perda auditiva no Brasil são escassos e referem-se a


determinados ramos de atividades e, portanto, não há registros epidemiológicos que
caracterizem a real situação. Os dados disponíveis sobre as ocorrências dão uma ideia
parcial da situação de risco relacionada à perda auditiva (MS/BRASIL, 2006).

Miranda e Dias (2005) estudaram a prevalência de PAIR em trabalhadores de bandas e trios


elétricos de Salvador-Bahia. A partir de dados audiométricos referentes a 187 trabalhadores
em 18 bandas e trios elétricos, os autores constataram que a PAIR foi de 40,6 por cento na
população estudada. Em relação à função, observou-se prevalência de PAIR de 44,4 por
cento entre os contrarregras, 41,2 por cento entre os trabalhadores ligados à produção, 40,4
por cento entre os músicos, 37,5 por cento entre os motoristas e 33,3 por cento entre os
operadores de som.

Cordeiro et al. (1994) pesquisaram os motoristas e cobradores de veículos coletivos urbanos


da cidade de Campinas, São Paulo e verificaram uma associação positiva entre a perda
auditiva e o tempo acumulado de trabalho, bem como a existência de uma interação entre
esta variável e a idade dos condutores.

Pesquisa realizada no período de janeiro a março de 2000 com 187 trabalhadores da


indústria metalúrgica no município de Goiânia obteve 21% audiometrias ocupacionais
sugestivas de PAIR, 72%, normais e 7%, sugestivas de outras doenças auditivas (ARAÚJO,
2002).

O Ministério da Saúde (2006) estima que 25% da população trabalhadora exposta seja
portadora de PAIR em algum grau. Apesar de ser o agravo mais frequente à saúde dos
trabalhadores, ainda são pouco conhecidos seus dados de prevalência no Brasil.

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Características da PAIR

De acordo com o Comitê Nacional de Ruído e Conservação Auditiva, são características da


PAIR:

 Ser sempre neurossensorial, uma vez que a lesão é no órgão de Corti da orelha
interna.

 Ser geralmente bilateral, com padrões similares. Em algumas situações, observam-se


diferenças entre os graus de perda das orelhas.

 Geralmente, não produzir perda maior que 40dB(NA) nas frequências baixas e que
75dB(NA) nas altas.

 A sua progressão cessa com o fim da exposição ao ruído intenso.

 A presença de PAIR não torna a orelha mais sensível ao ruído; à medida que aumenta
o limiar, a progressão da perda se dá de forma mais lenta.

 A perda tem seu início e predomínio nas frequências de 3, 4 ou 6 kHz, progredindo,


posteriormente, para 8, 2, 1, 0,5 e 0,25 kHz.

 Em condições estáveis de exposição, as perdas em 3, 4 ou 6 kHz, geralmente


atingirão um nível máximo, em cerca de 10 a 15 anos.

 O trabalhador portador de PAIR pode desenvolver intolerância a sons intensos,


queixar-se de zumbido e de diminuição de inteligibilidade da fala, com prejuízo da
comunicação oral.

Sintomas

 Perda auditiva;

 Dificuldade de compreensão de fala;

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 Zumbido;

 Intolerância a sons intensos;

O trabalhador portador de Pair também apresenta queixas, como cefaleia, tontura,


irritabilidade e problemas digestivos, entre outros

O zumbido é um dos sintomas mais comumente relatados pelos portadores de PAIR, e


provoca muito incômodo. Ele é definido como sendo a manifestação do mau funcionamento,
no processamento de sinais auditivos envolvendo componentes perceptuais e psicológicos
(MS/BRASIL, 2006).

A literatura aponta que quando o indivíduo é portador de uma PAIR, que tem como
característica ser neurossensorial ocorre uma redução na faixa dinâmica entre o limiar
auditivo e o limiar de desconforto, provocando um aumento na ocorrência de recrutamento
(fenômeno de crescimento rápido e anormal da sensação de intensidade sonora) e, portanto,
um aumento da sensação de desconforto. Isso é comum nos ambientes de trabalho com
elevados níveis de pressão sonora.

Prevenção

Os resultados epidemiológicos mostram que a legislação em vigor no Brasil não tem evitado
a disseminação da surdez profissional. As empresas devem manter, de acordo com as
Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho, um Programa de Prevenção de Riscos
Ambientais (PPRA–NR9), no qual os diversos riscos existentes no trabalho devem ser
identificados e quantificados para, a partir dessa informação, direcionar as ações do
Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO-NR7), que procederá às
avaliações de saúde dos trabalhadores (MS/BRASIL, 2006). Fiorini e Nascimento (2001)
apresentam um programa específico para o gerenciamento do ruído:

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1. Designação de responsabilidade: momento de atribuição de responsabilidades para
cada membro da equipe envolvido.

2. Avaliação, gerenciamento e controle dos riscos: etapa na qual, a partir do


conhecimento da situação de risco, são estabelecidas as metas a serem atingidas.

3. Gerenciamento audiométrico: estabelece os procedimentos de avaliação audiológica e


seguimento do trabalhador exposto a ruído.

4. Proteção auditiva: análise para escolha do tipo mais adequado de proteção auditiva
individual para o trabalhador.

5. Treinamento e programas educacionais: desenvolvimento de estratégias educacionais


e divulgação dos resultados de cada etapa do programa.

6. Auditoria do programa de controle: garante a contínua avaliação da eficácia das


medidas adotadas.

O Ministério da Saúde explica que as ações de controle da PAIR estão relacionadas ao


controle do ruído. São as medidas de controle da exposição na fonte, na trajetória e no
indivíduo. Além dessas, podemos dispor de medidas organizacionais, como redução de
jornada, estabelecimento de pausas e mudança de função. Apesar da importância das
medidas organizacionais, predominam as ações pontuais.

A avaliação audiológica periódica permite o acompanhamento da progressão da perda


auditiva, que pode variar de acordo com a intensidade e com o tempo de exposição, além da
suscetibilidade individual. A velocidade da progressão da perda auditiva determinará a
eficácia das medidas de proteção tomadas e a necessidade da aplicação de outras. Os
efeitos extra-auditivos devem ser considerados nessa avaliação, apesar de não serem
previstos pela legislação.

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Estudo complementar 4

O Ministério da Saúde elaborou um manual técnico sobre PAIR (Perda Auditiva Induzida por
Ruído). O manual descreve a patologia, formas de diagnóstico, avaliação, tratamento e
prevenção. No final, em anexo, apresenta um fluxograma sobre a avaliação da patologia.
Você encontra o manual no endereço: bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/06_0444_M.pdf

Leia o manual e se dedique ao assunto!

Boa leitura!

Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua
SALA DE AULA e faça a Atividade 2 no “link” ATIVIDADES.

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U NIDADE 21
Disfonia

Objetivo: Reconhecer as causas da disfonia de origem ocupacional.

A voz é uma característica humana relacionada com a necessidade do homem de se agrupar


e se comunicar. Resulta de um trabalho em conjunto do sistema nervoso, respiratório e
digestivo, e de músculos, ligamentos e ossos, harmoniosamente atuando para que se possa
obter uma emissão eficiente.

A disfonia é uma disfunção vocal. Trata-se da presença de qualquer dificuldade ou alteração


na emissão vocal que impede a sua produção natural e a percepção do indivíduo sobre sua
voz, ou seja, a subjetividade (MEDEIROS, 2006).

A Globalização no mundo, o desenvolvimento tecnológico, a mudança no perfil sócio-cultural


e o crescimento do setor de serviços vêm aumentando o número de atividades de
comunicação oral. Tais atividades demandam o uso constante e contínuo da voz, sendo mais
freqüente em indivíduos que utilizam abundantemente a voz de uma forma incorreta, como é
caso dos profissionais da voz.

Os profissionais da voz são todos os indivíduos que têm como seu instrumento de trabalho a
VOZ, ou seja, dependem da voz para exercer a sua profissão, como Cantores, Atores,
Professores, Pastores e Padres, Advogados, Juízes, Promotores, Repórteres, Radialistas,
Operadores de Telemarketing, Leiloeiros, Políticos, Dubladores, Vendedores, entre outros.

Fortes et al. (2007) explicam que para estes profissionais, a disfonia pode representar a
impossibilidade em exercer a profissão, acarretando em faltas ao trabalho, diminuição de
rendimento, e até mesmo a necessidade de mudança de profissão.

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Sabe-se que muitos profissionais usam a voz como instrumento do trabalho. Ortiz et al.
(2004) constataram a ampliação do conceito de profissional da voz. Apesar do predomínio de
professores, os autores encontram profissões incomumente relacionadas a alterações
vocais, como promotor de eventos, lavadeira industrial, operador de máquinas e secretária.

Vários estudos apontam os prejuízos econômicos e produtivos das disfonias e os aspectos


sociais para os trabalhadores.

Pesquisas realizadas com profissionais de telemarketing, por exemplo, revelam que a


disfonia ocupacional pode levar a uma diminuição das vendas, com impacto direto sobre a
produtividade (JONES et al., 2002). Os operadores de teleatendimento têm disfonias mais
precocemente do que outras categorias profissionais (6 meses); pode-se mesmo inferir que o
estresse emocional, ambiental, demanda e perfil dessa categoria favoreçam a alteração
precoce (ORTIZ et al., 2004).

Nos professores, a disfunção vocal aparece tardiamente na média dos professores escolares
(14 anos). Em 1997, Smith et al. mostraram que a alteração vocal entre professores ocorre
após 10-20 anos de trabalho. No entanto, os professores de educação física apresentam
frequência de disfunção vocal aguda de 86%, pelo uso de ataque vocal brusco e elevada
intensidade (ORTIZ et al., 2004). De acordo com Jardim et al. (2007), o professor disfônico
apresenta além de uma série de sinais e sintomas relacionados ao próprio problema de voz,
importantes limitações no desenvolvimento de seu trabalho. Como consequências da
disfonia para o docente, citam:

a) Redução de atividades ou interações sociais e perda de dias de trabalho;

b) Dificuldades em sua comunicação e vida social, além de problemas emocionais e


psicológicos como consequência direta de sua disfonia;

c) Interferências negativas no desempenho do seu trabalho, expressas por dificuldade na


aprendizagem dos alunos;

d) Necessidade de “poupar a voz” na sala de aula;

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e) Prejuízos sociais, econômicos, profissionais e pessoais, estimados em cerca de 200
milhões de Reais ao ano, em nosso país.

f) Dificuldades de relacionamento com os pares, uma vez que alguns colegas de


trabalho julgam o professor disfônico como simulador;

g) Não aceitação do absenteísmo relacionado à disfonia como um problema de saúde


por parte dos gestores públicos da educação e dos profissionais de saúde, visto que,
as queixas relacionadas à saúde acabam, muitas vezes, sendo interpretadas como
simulações ou motivos de “fuga da sala de aula”.

ORTIZ et al., (2004) afirmam que o ambiente de trabalho influencia no desempenho do


profissional, muitas vezes negativamente. As queixas mais frequentes são: ruído ambiental,
poeira, produtos de limpeza, ar condicionado. Citam uma pesquisa da PUC-SP que conclui
que o fator ergonômico pode ser também considerado risco ocupacional para disfonia. A
disfonia pode ser divida, segundo Rocha (2007), em:

Disfonias Funcionais

São aquelas que não apresentam nenhuma alteração visível nas pregas vocais, elas são
decorrentes do mau uso ou do abuso da voz. Existem três fatores que podem vir a
desencadear uma disfonia funcional:

a) Uso incorreto da voz: Ocorre em pessoas, sejam profissionais da voz ou não, que
utilizem a voz abundantemente durante todo dia, sem ter nenhuma noção de como
usa – lá corretamente.

b) Inadaptações Vocais: Não existe, no corpo humano, um aparelho que tenha por
função específica a fonação, mas o que temos é uma adaptação de várias estruturas,
formando assim o aparelho fonador. Quando não existe uma boa adaptação destas
estruturas, ocorre o que chamamos de Inadaptações Vocais.

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c) Alterações Psicoemocionais: As emoções influenciam e são responsáveis por
mudanças na nossa voz. A voz permite que nos comuniquemos com outras pessoas;
se temos alguma emoção muito forte (raiva, ansiedade, alegria), poderá repercutir em
nossa voz, provocando uma disfonia funcional.

Disfonias Orgânico – Funcionais

São, em geral, iniciadas com uma disfonia funcional que tem seu diagnóstico tardio, como a
disfonia funcional não foi tratada, então ela evolui para uma lesão secundária nas pregas
vocais.

Disfonias Orgânicos

São aquelas que apresentam uma alteração anatômica nas pregas vocais. Existem vários
tipos de alterações anatômicas: Nódulos, Pólipos, Paralisia das pregas vocais, Câncer.

Prevenção

Ações preventivas deveriam ser adotadas na atenção integral destes profissionais. Contudo,
o trabalhador geralmente não recebe qualquer informação sobre o funcionamento e cuidados
vocais, a fim de diminuir o risco de apresentar disfonia. Os cuidados vocais são propagados
entre cantores e artistas, mas não entre os professores e outros profissionais (ORTIZ, 2004).

Os programas de prevenção são importantes e devem focar no reconhecimento precoce dos


sintomas, evitando a cronificação do problema. Os principais sinais são:

 Fadiga vocal;

 Tosse seca;

 Alteração do pitch vocal (altura do som).

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É fundamental a orientação sobre uma boa higiene vocal. Esta inclui boa hidratação, evitar
irritantes como o tabagismo ativo ou passivo, poeira, dieta adequada e diminuição da
atividade em quadros de infecções das aéreas superiores.

Apesar de todas essas recomendações, a prevenção da disfonia vocal não deve ser focada
apenas nos indivíduos, pois depende da mudança dos aspectos organizacionais. As ações
isoladas sobre os indivíduos sem melhorias nas condições de trabalho têm impacto limitado,
pois segundo Medeiros (2006, p.78), “os condicionantes dos comportamentos de
hipersolicitação continuam a agir e os comportamentos nocivos tenderão a reincidir”.

Como exemplo, Jardim et al. (2007) citam as condições penosas de trabalho dos docentes
que levam a disfonia tais como: ambiente estressante e intranquilo, desgaste na relação
professor-aluno, salas inadequadas, trabalho repetitivo, desempenho das atividades sem
materiais e equipamentos adequados e exposição ao pó de giz. De acordo com os autores, o
estresse de forma geral associado ao trabalho é um dos fatores que contribuem para a
prevalência de problemas vocais nos professores, desta forma, a prevenção do problema
depende diretamente da eliminação dos fatores nocivos à saúde dos trabalhadores.

Faltam ainda estudos que permitam identificar a grande variedade de fatores associados ao
trabalho para subsidiar programas de promoção, prevenção e reabilitação das disfonias em
profissionais da voz. O distúrbio da voz relacionado ao trabalho ainda não é considerado um
agravo de notificação compulsória pelo Sistema Nacional de Informações de Agravos de
Notificações (SINAM), por isso, os percentuais encontrados não representam a realidade e a
dimensão deste problema.

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U NIDADE 22
Pneumoconioses

Objetivo: Examinar os fatores presentes nos ambientes de trabalho que podem ocasionar as
pneumoconioses.

Nesta unidade apresentaremos as pneumopatias relacionadas etiologicamente à inalação de


poeiras em ambientes de trabalho, conhecidas como pneumoconioses (do grego, conion =
poeira).

As pneumoconioses podem, didaticamente, ser divididas em fibrogênicas e não fibrogênicas


de acordo com o potencial da poeira em produzir fibrose reacional (MS/BRASIL, 2006b).

Existe uma variedade de pneumoconioses de acordo com o tipo de poeira: Silicose (Sílica
livre), Asbestose ( fibras de asbesto ou amianto), Pneumoconiose do trabalhador do carvão
(Poeiras contendo carvão mineral e vegetal), Silicatose (Silicatos variados), Talcose (Talco
mineral), Pneumoconiose por poeira mista, Siderose (Óxidos de ferro), Estanose (Óxido de
estanho), Baritose (Sulfato de bário -barita), Antimoniose (Óxidos de antimônio),
Pneumoconiose por rocha fosfática, Pneumoconiose por abrasivos (Carbeto de silício -(SiC e
Óxido de Alumínio - Al2O3), Beriliose (Berílio), Pneumopatia por metais duros, Pneumonites
por hipersensibilidade (alveolite alérgica extrínseca), Poeiras orgânicas contendo fungos,
proteínas de penas, pelos e fezes de animais e Pneumonia intersticial por hipersensibilidade.

Epidemiologia

As ocupações que expõem trabalhadores ao risco de inalação de poeiras causadoras de


pneumoconiose estão relacionadas a diversos ramos de atividades.

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Segundo a Fundacentro (2004), no Brasil as atividades que apresentam os maiores riscos de
se adquirir a silicose são:

a) Fundição de ferro, aço ou outros metais onde se utilizam moldes de areia;

b) Indústria extrativa (mineração, atividades de extração e beneficiamento de pedras que


contenham o mineral);

c) Cerâmicas: fábricas de pisos, azulejos, louças sanitárias, louças domésticas e outros,


produção e uso de tijolos refratários;

d) Fabricação de vidros (preparação e também no uso de jateamento de areia para


opacificação);

e) Perfuração de rochas na indústria da construção (túneis, barragens e estradas),


moagem de quartzo e pedras;

f) Construção de fornos refratários, jateamento de areia (utilizado na indústria naval, na


fundição e polimento de peças na indústria metalúrgica);

g) Execução de trabalho em mármore, ardósia, granito e outras pedras, fabricação de


material abrasivo;

h) Mineração subterrânea;

i) Escavação de poços;

j) Atividades de protético.

Na indústria cerâmica, por exemplo, é preocupante quanto à possibilidade de exposição de


trabalhadores a material particulado presente no ar (poeira respirável) devido ao fato de
trabalharem com o material sólido no qual a possibilidade de formação de poeira é elevada,
expondo os trabalhadores a riscos. Outra característica é que a poeira gerada nas etapas de

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fabricação dos produtos cerâmicos não se restringe aos muros das fábricas, atingindo
também os trabalhadores da indústria da construção civil (LIMA. CAMARINI, 2005)

As pneumoconioses são doenças ocupacionais comuns no setor da construção civil. Dos


seis milhões de trabalhadores expostos a poeiras contendo sílica quatro milhões encontram-
se na construção (SOUTO et al., 2005). De acordo com Ribeiro et al. (2005), cerca de 14,7%
dos casos de silicose no período compreendido entre 1998 a 2003 ocorreram com
trabalhadores cujo último vínculo profissional foi na construção civil.

Entretanto, o percentual encontrado pelo autor pode estar subestimado, pois os dados da
previdência não consideram os trabalhadores “informais” do setor e, além disso, os primeiros
sintomas das doenças causadas pela poeira da sílica, como as pneumoconioses, demoram
mais de 15 anos para aparecerem (COCKELL, 2008).

O ramo de mineração e garimpo expõe trabalhadores a poeiras diversas como ferro, bauxita,
zinco, manganês, calcário, rochas potássicas e fosfáticas, asbesto, granito, quartzo,
quartzito, feldspato, argilas e outros minerais contendo sílica livre (MS/BRASIL, 2006b).

Silicose

A silicose é a doença profissional mais antiga que se conhece, identificada por Ramazzini em
1705. Desenvolve-se em pessoas que inalaram pó de sílica durante muitos anos, resultando
na formação permanente de tecido cicatricial nos pulmões causada pela inalação de pó de
sílica (quartzo). É uma doença incurável caracterizada por inflamação e cicatrização em
forma de lesões nodulares nos lóbulos superiores do pulmão. Provoca, na sua forma aguda,
dificuldades respiratórias, febre e cianose.

O pó de sílica é o elemento principal que constitui a areia, sendo por isso frequente a
exposição entre os mineiros do metal, os cortadores de arenito e de granito, os operários das
fundições e os oleiros. Os sintomas aparecem, geralmente, após 20 ou 30 anos de
exposição ao pó. No entanto, nos trabalhos em que se utilizam jactos de areia, na construção

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de túneis e no fabrico de sabões abrasivos que requerem quantidades elevadas de pó de
sílica, os sintomas podem surgir em menos de 10 anos.

Dados recentes de estimativa de expostos à sílica no Brasil apontam que para o período de
1999 a 2000, cerca de 1.815.953 trabalhadores vinculados a empregos formais estavam
expostos à sílica por mais de 30% de sua jornada de trabalho (MS/BRASIL, 2006b).

Prevenção

Segundo o Ministério da Saúde (2006b), as atividades de prevenção e controle das


pneumopatias ocupacionais enquadram-se nos princípios que fundamentam as ações
executadas para doenças ocupacionais, como as ações de higiene industrial, que tentam
modificar o ambiente ocupacional tornando-o mais salubre, ações educativas e ações de
controle médico da população trabalhadora exposta.

A prevenção primária, como o próprio nome indica, deve ser a preocupação essencial e
primeira no esquema de prevenção de pneumopatias ocupacionais. Diversas são as medidas
de higiene industrial que, auxiliadas pela engenharia de produção, podem levar ao controle
de situações de risco inalatório na geração e disseminação de aerossóis. Essas medidas vão
desde a simples umidificação do ambiente com lavagem constante do piso, evitando o
levantamento secundário de poeira já sedimentada, e aspersão de névoas de água nos
pontos de produção de poeira. Duas medidas clássicas nesse tipo de controle são a
exaustão localizada, que deve ser instalada contra o fluxo inalatório do trabalhador em seu
posto de trabalho, e a ventilação geral do ambiente como um todo (MS/BRASIL, 2006b).

Outras medidas básicas de higiene industrial são o enclausuramento total ou parcial do


processo produtor de poeiras, com operação externa, tentando isolar processos poluidores, e
mudanças de layout. A substituição de matérias-primas/produtos são medidas de prevenção
de grande importância, como o uso de outros abrasivos em operações de jateamento com
areia e a utilização de fibras alternativas em produtos de cimento-amianto, materiais de
fricção e outros.

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Produtos substitutos devem ter um perfil de toxicidade conhecida para não se incorrer na
substituição de determinados riscos por outros similares. As emanações industriais para o
exterior devem ser submetidas a processos que minimizem ou eliminem suas repercussões
para o meio ambiente e para as populações vizinhas (MS/BRASIL, 2006b).

O controle da produção do pó no local de trabalho pode ajudar a prevenir a silicose. Quando


esta não pode ser controlada, como poderá ser o caso da indústria de jactos de areia, os
trabalhadores devem usar máscaras que forneçam ar exterior limpo ou que filtrem
completamente as partículas (capacetes que forneçam ar externo puro ou máscaras que
filtrem completamente as partículas). Porém, essa proteção não está ao alcance de todos os
trabalhadores numa zona poeirenta (por exemplo, pintores e soldadores) e, nesse caso, é
fundamental utilizar abrasivos diferentes da areia.

Os operários expostos ao pó de sílica devem realizar regularmente uma radiografia torácica


– a cada seis meses para os operários que trabalham com jato de areia e a cada dois a cinco
anos para os demais operários –, para que os problemas sejam detectados precocemente.
Se as radiografias indicarem a presença de silicose, o médico provavelmente irá orientar o
indivíduo a evitar a exposição contínua à sílica. Entretanto, tais medidas não são preventivas,
apenas evitam o agravamento do problema.

A proteção respiratória individual deve, portanto, ser utilizada apenas em operações em que
as medidas de proteção respiratória coletivas são insuficientes para o controle de exposição
inalatória. Entretanto, ainda é empregada como prática dominante!

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Vídeo 3:

A silicose é uma doença grave e acomete milhares de trabalhadores. A reportagem realizada


pela TV Brasil mostra a realidade dos trabalhadores que trabalham na extração e
acabamento de peças de mármores.

Disponível em: http://br.youtube.com/watch?v=kUZ8OP-QLgM

Atividade Optativa 4

As pneumoconioses são doenças ocupacionais complexas causadas por uma variedade de


agentes etiológicos. Você pode obter maiores informações sobre estas doenças, através do
manual elaborado pelo Ministério da Saúde.

Acesse: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/06_0443_M.pdf

Boa leitura!

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U NIDADE 23
Acidentes do Trabalho

Objetivo: Entender os impactos dos acidentes do trabalho.

Nesta unidade abordaremos os acidentes de trabalho. Os prejuízos econômicos e sociais


dos acidentes do trabalho são enormes, trazendo impacto para os trabalhadores, na vida
familiar das vítimas, para a sociedade, para o Estado (Previdência Social - aposentadoria e
SUS – cuidados médicos) e para as empresas.

De acordo com o Ministério da Saúde (2006c), nas últimas décadas também é crescente a
abordagem de consequências socioambientais de eventos adversos em geral, aí incluídos os
acidentes, em especial, em casos classificados como acidentes maiores ou ampliados,
destacando-se aqueles que provocam contaminações de coleções hídricas, devastam áreas
de proteção ambiental, comprometem a qualidade do ar e ameaçam a sobrevivência e a
qualidade de vida de populações de trabalhadores e/ou moradores das vizinhanças.

Acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa, com o
segurado empregado, trabalhador avulso, médico residente, bem como com o segurado
especial, no exercício de suas atividades, provocando lesão corporal ou perturbação
funcional que cause a morte, a perda ou redução, temporária ou permanente, da capacidade
para o trabalho.

Considera-se estabelecido o nexo entre o trabalho e o agravo quando se verificar nexo


técnico epidemiológico entre a atividade da empresa e a entidade mórbida motivadora da
incapacidade, elencada na Classificação Internacional de Doenças (CID).

Os acidentes de trabalho podem ser classificados em:

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 Acidente típico é aquele decorrente da característica da atividade profissional
desempenhada pelo acidentado;

 Acidente de trajeto é aquele ocorrido no trajeto entre a residência e o local do trabalho


do segurado;

 Doença profissional ou do trabalho é qualquer tipo de doença profissional


característico a determinado ramo de atividade.

A precariedade das informações

Cabe à empresa notificar a ocorrência de acidente de trabalho ou doença profissional à


Previdência Social através da emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho – CAT
(MIRANDA, 2005). As CATs podem ser abertas também pelo próprio trabalhador, por seus
dependentes, pela entidade sindical, pelo médico ou por autoridade (magistrados, membros
do Ministério Público e dos serviços jurídicos da União, dos estados e do Distrito Federal e
comandantes de unidades do Exército, da Marinha, da Aeronáutica, do Corpo de Bombeiros
e da Polícia Militar).

A comunicação de acidente de trabalho ou doença profissional será feita à Previdência


Social por meio do Comunicado de Acidente de Trabalho, preenchido em seis vias: 1ª via
(INSS), 2ª via (empresa), 3ª via (segurado ou dependente), 4ª via (sindicato de classe do
trabalhador), 5ª via (Sistema Único de Saúde) e 6ª via (Delegacia Regional do Trabalho).

Nos primeiros 15 dias de afastamento, o salário do trabalhador é pago pela empresa. Depois,
a Previdência Social é responsável pelo pagamento. Enquanto recebe auxílio-doença por
acidente de trabalho ou doença ocupacional, o trabalhador é considerado licenciado e terá
estabilidade por 12 meses após o retorno às atividades. O auxílio-doença deixa de ser pago
quando o segurado recupera a capacidade e retorna ao trabalho ou quando o benefício se
transforma em aposentadoria por invalidez.

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Apesar do quadro historicamente alarmante, conforme você pode visualizar na Tabela 2, os
números oficiais encontram-se subnotificados, não englobando autônomos e informais. Para
Miranda (2005), a fragilidade do sistema de notificação deve-se ao fato do INSS somente
contabilizar os eventos registrados e ocorridos entre os trabalhadores segurados – com
carteira assinada. Além do mais, a desinformação dos trabalhadores sobre os seus direitos,
a morosidade do processo, o despreparo das equipes de saúde e o medo do desemprego
também reduzem o percentual de casos notificados às autoridades (SILVEIRA et al., 2005;
RIGOTTO, 1998).

TABELA 2 – Acidentes do trabalho registrados dos contribuintes da Previdência Social por


grupo de atividade econômica – Brasil, 2003.

AT Doença
AT Incidência
GRUPOS Celetistas Típicos Trajeto do Óbito
líquido do AT Registrado trabalho
Agricultura, Pecuária,
Silvicultura,
1.259.919 32.023 2,43 30.665 28.780 1.590 367 217
Exploração Florestal
e Pesca
Extrativa Mineral 122.403 2.457 1,85 2.260 2.018 119 123 27
Indústria da
5.255.543 116.289 2,10 110.130 93.936 9.388 6.806 536
Transformação
Eletricidade, Gás e
192.172 2.993 1,44 2.773 2.186 466 121 46
Água.
Indústria da
1.042.510 23.904 2,11 21.972 19.093 2.187 692 310
Construção
Comércio e Veículos 5.117.644 43.244 0,79 40.674 30.339 8.192 2.143 471
Alojamento e
895.913 7.228 0,76 6.799 5.031 1.295 473 38
Alimentação
Transporte,
Armazenagem e 1.453.982 25.132 1,61 23.399 17.592 4.140 1.667 419
Comunicações
Intermediações
565.649 4.920 0,74 4.160 1.571 838 1.751 16
Financeiras
Atividades
Imobiliárias e 3.203.632 29.668 0,87 27.878 18.565 6.704 2.609 253
Serviços Prestados
Administração
642.720 7.355 1,08 6.942 5.415 1.277 250 54
Pública

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Ensino 872.926 3.984 0,44 3.834 2.879 748 207 9
Saúde 1.094.572 25.784 2,30 25.202 20.659 3.816 727 21
Outros Serviços 1.249.712 15.327 1,17 14.577 11.821 2.183 573 83
Serviços Domésticos 8.685 114 1,32 115 95 19 1 2
Organizações
1.976 0 0,51 10 10 0 0 0
Internacionais

Totais 22.980.911 340.432 1.70 321.390 259.918 42.962 18.510 2.502

Ignorado 0 72.521 0 68.790 59.985 6.10 2.698 80

Fonte: Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho - AEAT (MPAS, 2005).


*
Típicos: ocorridos no exercício do trabalho ou que decorrem da extensão do conceito inserido na Lei
8.213/91;
**
Trajeto: ocorrido no trajeto casa-trabalho-casa;

As equipes de saúde encontram-se despreparadas para a caracterização do nexo causal.


Diante da prioridade do atendimento aos indivíduos enfermos ou acidentados, deixam de
realizar a anamnese ocupacional não anotando nos prontuários informações sobre a
ocupação e sua relação com o evento ocorrido. Casos confirmados poderiam ser notificados
à Previdência Social, corroborando com a diminuição da subnotificação dos acidentes de
trabalho no Brasil (SILVEIRA et al., 2005).

Além disso, as informações oficiais sobre trabalhadores instáveis (cerca de 51,2% dos
trabalhadores brasileiros) são incompletas e muitas vezes mascaram a realidade em virtude
da ausência de registros sobre acidentes e doenças que atingem essa população e sobre as
possibilidades de reinserção profissional. As diferentes formas de interpretação e
estratificação deste fenômeno entre os estudiosos da área, bem como da diversidade dos
tipos de contrato de trabalho, dificultam a análise do processo de vulnerabilidade social
provocado pelo aprofundamento da instabilidade do mercado de trabalho.

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Incentivos à prevenção

O Fator Acidentário de Prevenção - FAP é um índice aplicado sobre a contribuição SAT -


Seguro Acidente de Trabalho (devida pelos empregadores), que tanto pode resultar em
aumento como diminuição da respectiva contribuição.

O Fator Acidentário de Prevenção foi criado pela Lei 10.666, em maio de 2003. Trata-se de
um mecanismo para aumentar ou diminuir as alíquotas de contribuição das empresas ao
seguro de acidente de trabalho, dependendo do grau de risco a que cada uma delas expõe
seus funcionários.

As empresas que baixarem os índices de acidentes de trabalho vão ser beneficiadas, a partir
de janeiro de 2010, com o pagamento de alíquota diferenciada à Previdência Social.
Atualmente, elas recolhem de 1% a 3% sobre a folha salarial, conforme o índice de
acidentes, e passarão a ter esses fatores multiplicados por 0,5% a 2%, conforme os
resultados de sua política de redução de acidentes.

A instituição do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) vai permitir a multiplicação da


contribuição atual de acordo com o grau de risco do ramo de atividade, que inclui também a
ocorrência de doenças profissionais. Onde os índices forem maiores, poderá haver aumento
de até 100% na alíquota de contribuição, cabendo a redução se houver regressão das
estatísticas atuais.

A intenção do Ministério da Previdência Social é, de acordo com Ministro José Pimentel,


“criar uma cultura de prevenção de acidentes e doenças ocupacionais".

O FAP vai ser aplicado às alíquotas que financiam o Seguro de Acidentes de Trabalho
(SAT). A multiplicação dos fatores atuais pelo FAP poderá elevar para até 6% o percentual
que será pago sobre a folha de salários das empresas que trabalham com atividades de alto
risco.

Para simplificar: o FAP será multiplicado à alíquota definida a cada ramo de atuação, de
maneira a chegar a uma nova alíquota.

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Exemplo:

Supondo que uma determinada empresa, que faz parte de um ramo de atividade de alto risco
(que tem alíquota de 3%), isoladamente, apresenta os menores indicadores de risco de
acidentes. Graças ao bom desempenho dessa empresa em relação à segurança do trabalho,
ela tem um FAP de 0,5. Então, se multiplica a alíquota de 3% (do ramo de atividade) por 0,5
(da empresa). O resultado, de 1,5%, será a nova alíquota de contribuição dessa empresa.

Já a empresa classificada no mesmo ramo de atividade, com alta incidência de morbidade,


terá um FAP de 2,0, que, multiplicado pelos 3%, será responsável por uma alíquota de nada
menos que 6%

Dica 12:

Você pode obter dados do Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho – AEAT,


disponibilizado pelo Ministério da Previdência Social de 1999 a 2006, através do site:
http://creme.dataprev.gov.br/AEAT/Inicio.htm

Neste endereço você pode obter estatísticas de acidentes do trabalho por município.

Lembre-se: as estatísticas referem-se apenas aos trabalhadores formais.

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Atividade Optativa 5

O Ministério da Saúde elaborou um manual sobre acidentes do trabalho, disponível no


endereço: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/06_0442_M.pdf

O Manual aborda os impactos dos acidentes do trabalho, a precariedade das informações,


recomendações, vigilância de cada tipo de acidente e obrigatoriedade da notificação.

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U NIDADE 24
A visão da ergonomia sobre a segurança do trabalho

Objetivo: Contrapor a visão da segurança do trabalho sobre os acidentes do trabalho.

Nesta unidade trabalharemos com um trecho do texto “A visão da ergonomia sobre os atos
inseguros como causadores de acidentes de trabalho” de Gonçalves et al. (2005),
apresentado no XXV Encontro Nacional de Engenharia de Produção, páginas 2520-21.

Fragmento do texto

Os autores apresentam a teoria vigente em nosso país no campo da segurança do trabalho e


como a ergonomia se contrapõe a esta visão na qual os acidentes de trabalho têm como
causa os atos inseguros (90%) e as condições inseguras (10%). Os autores propõem aplicar
a visão da ergonomia para interpretar os erros humanos chamados de atos inseguros,
enquanto atribuídos como causa de acidentes de trabalho.

Para Danielou (2004), a ergonomia encontra três níveis de desafios:

a) O nível das condições de trabalho, que é confrontado com as questões de adaptação


cujo desafio principal é a segurança e, mais amplamente, a saúde que está ligada aos
ambientes físicos, psicossociais e das normas, abordando as condições de trabalho
no contexto da atividade;

b) O nível dos sistemas técnicos, que é confrontado com a questão da eficiência, cujo
desafio principal é a confiabilidade;

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c) O nível dos sistemas de produção, que é confrontado com a questão da eficácia, cujo
desafio principal é a qualidade ligada aos sistemas de produção.

No contexto da atividade, para atuar sobre os acidentes de trabalho, a Ergonomia deve olhar
o trabalhador como ser humano, a quem o trabalho deve ser adaptado; precisa alcançar a
segurança do trabalho e sua defasagem entre a normalização e a realidade e necessita olhar
os erros humanos (estudado pela ergonomia) e os atos inseguros (estudado pela segurança
do trabalho).

A Figura 2 (a visão da ergonomia sobre os atos inseguros como causadores de acidentes do


trabalho), desenvolvida por Gonçalves et al. (2005), apresenta a visão da ergonomia sobre
os acidentes e o inter-relacionamento entre os fatores.

Figura 2

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A Visão da ergonomia sobre o trabalhador

O trabalhador está exposto às condições ligadas ao ambiente no seu aspecto físico, químico,
biológico e aos aspectos de higiene e segurança. Os aspectos do ambiente estão
relacionados com as cargas físicas e, estas, com o sofrimento do corpo. A organização do
trabalho, abrangendo aspectos de divisão do trabalho, conteúdo da tarefa, sistema
hierárquico, modalidades de comando, relações de poder e responsabilidades, está
relacionada com as cargas mentais e com o sofrimento ao nível mental do trabalhador.

Para Dejours (2003), a saúde mental do trabalhador é tão importante quanto a saúde física.
O homem pode estar submetido tanto a uma carga física de trabalho como a uma carga
psíquica e, às vezes, as duas cargas estão fortemente presentes. O estado emocional que
resulta da defasagem entre a demanda e as habilidades do ser humano é chamado de
stress.

Para Lipp (2004) o stress é definido como um conjunto de reações do organismo, de ordens
física e/ou psicológica, que ocorrem diante de situações que de algum modo provoquem
irritação, medo, excitação, causando uma quebra da homeostase interna do indivíduo. O que
determina que uma pessoa vai reagir ao stress é a forma como ela percebe os estímulos, os
estressores, dependendo do que ela pensa e sente, assim como de seus valores, crenças e
atitudes.

Alguns estressores no ambiente do trabalho, segundo Kroemer e Grandjean (2005), são o


controle do trabalho, o suporte social, o sofrimento do trabalho, a demanda da tarefa e
exigências de desempenho, a segurança do trabalho, a responsabilidade pela vida e bem-
estar de outras pessoas, os problemas do ambiente físico e a complexidade do trabalho.

Segundo França e Rodrigues (2002), tanto as pessoas como as organizações necessitam de


certo grau de stress para o seu funcionamento certo. No entanto, se a pressão sobre elas for
muito intensa ou o oposto, o resultado é que teremos um desempenho ineficiente.

Alguns indicadores de estresse evidenciam a dinâmica psicossomática do trabalhador,


revelando alguns sintomas como: Psicológicos (instabilidade emocional, ansiedade,

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depressão, agressividade, irritabilidade); Danos físicos (úlceras, alergias, asma, enxaquecas,
alcoolismo, disfunções coronarianas e circulatórias) e Sociais (queda no desempenho
profissional, ausências, acidentes, conflitos domésticos e apatia) (FRANÇA E RODRIGUES
,2002).

Para Dejours (2003), cada ser humano é único e individualmente se defende dos efeitos
penosos da organização do trabalho. O trabalho produz sofrimento nos indivíduos, gerando
disfunções como sentimento de indignidade, quando a tarefa é desinteressante; sentimento
de inutilidade, quando percebe sua falta de qualificação ou a falta de finalidade do trabalho.

Frustração resulta de um conteúdo inadequado às potencialidades do indivíduo. Angústia,


resulta de um conflito intrapsíquico de dois desejos. Medo resulta da exposição a riscos
relacionados à integridade física. Ansiedade decorre da vigilância, da concentração.
Agressividade, hostilidade e perversidade são geradas pelas relações do trabalho com a
hierarquia, chefia, supervisão e com outros trabalhadores. Os mecanismos de defesa
aparecem como resposta contra todos os sofrimentos destinados a contê-los, por exemplo, a
prática de atividades esportivas, apelidos e até ridicularização dos companheiros.

O trabalho é uma lei da natureza. A civilização obriga o homem a trabalhar cada vez mais,
porque aumenta suas necessidades e seus prazeres. Ao seu trabalho, o homem deve sua
alimentação, sua vivência social e seu bem estar. O trabalho também é sinônimo de prazer,
condições financeiras e sucesso profissional. O ser humano é complexo e adaptar o trabalho
a cada um deles, é realmente um desafio. A finalidade do trabalho é, principalmente, a
produção; no entanto, produzir com segurança deve ser a meta da ergonomia.

A Visão da ergonomia sobre a segurança do trabalho

A segurança do trabalho estuda, através de metodologias e técnicas apropriadas, as


possíveis causas de acidentes do trabalho, objetivando a prevenção de suas ocorrências.
Para isso deve realizar o planejamento e controle das condições de trabalho existentes na
empresa, através da identificação, avaliação e eliminação dos riscos existentes no local de
trabalho.

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Para Vidal (2002), do ponto de vista da ergonomia da produção, a ideia de confiabilidade
como critério de eficiência está contido na ideia de segurança, que a abrange e lhe dá
sentido. O princípio que daí deriva é o da produção segura, segundo o qual, o processo de
trabalho “deve produzir produtos e saúde”. O desempenho produtivo deve ser integrado com
saúde e segurança no trabalho. O princípio da produção segura traz a ideia de que
produtividade e segurança não devam ser consideradas como antagônicas de um projeto e,
sim, como um compromisso a buscar.

Para atingir os seus objetivos dispõe de farta normalização, no entanto, segundo a OIT, o
Brasil apresenta uma taxa de mortalidade por número de acidentes de trabalho bastante alta
( 16 a 20 mortes a cada 100 mil trabalhadores nos últimos dez anos). A causa disso,
segundo Peeters et al. (2003), é que o modelo brasileiro (modelo na proteção) se baseia no
isolamento do trabalhador das “fontes acidentárias” e não na eliminação destas fontes
porque proteger significa literalmente “isolar do mal”.

O empresariado brasileiro trata as normas apenas como exigência legal. Como um acidente
do trabalho pode originar demanda na justiça por indenizações, os empresários acabam
cumprindo os requisitos mínimos para evitar problemas com a fiscalização e a justiça do
trabalho. A preocupação com o todo, quando ocorre, é motivado por um acidente de trabalho
apenas pelo problema jurídico que disso decorre.

Vilela (2003), analisando laudos obtidos das investigações de causas de acidentes graves e
fatais do trabalho efetuados pelo Instituto de Criminalística (IC) Regional de Piracicaba,
conclui que 80% desses laudos apontam que os acidentes foram causados por atos
inseguros dos trabalhadores e que para 15,5 % deles a causa foi a condição insegura, ligada
ao ambiente do trabalho. Ele afirma que, a despeito das críticas que têm recebido nas duas
últimas décadas no meio técnico e acadêmico e, apesar de estar ultrapassada há décadas
em países desenvolvidos, a Teoria da Culpa mantém-se hegemônica no Brasil, prejudicando
o desenvolvimento de políticas preventivas na grande maioria das empresas brasileiras.

A ideia de que em última instância, o culpado por um acidente de trabalho é o próprio


acidentado, é induzida até em campanhas promovidas pelos órgãos oficiais e entidades

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empresariais da área com sérias repercussões nas ações preventivas por parte dos
trabalhadores. Para o autor, mesmo no caso de acidentes de trabalho onde a
responsabilidade da empresa é evidente, os acidentados assumem para si essa
responsabilidade, inclusive a de trabalhar em uma máquina quebrada ou sem dispositivos de
proteção.

Um avanço na segurança do trabalho é mudar da visão baseada na proteção para a visão


baseada na prevenção, pois, hoje em dia, já é possível indicar a repetição de eventos
precursores para, pelo menos estimar de maneira razoável a probabilidade de um acidente.
O sinal precursor deve possuir algumas propriedades, tais como: caráter desfavorável,
adverso, negativo, contrário à segurança do complexo industrial, repetitivo e potencialmente
perigoso.

A seriedade no tratamento da segurança do trabalho vem avançando nas organizações a


partir do advento da corrida por certificações de qualidade com as normas internacionais
como a BS 8800 (Guide to occupational helth and safety management systens), em 1996 e a
OHSAS 18001 (Occupational Helth and Safety Assessment Series), em 1999.

Olhar a realidade da segurança do trabalho é enxergar os opostos de uma realidade, onde,


infelizmente, por enquanto, ainda estamos longe das condições ideais.

Vídeo 4:

Acesse: http://br.youtube.com/watch?v=V-JnipVpR_4

O Vídeo indicado é uma animação sobre acidentes do trabalho. De uma forma divertida o
vídeo ilustra situações comuns nos ambientes de trabalho.

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U NIDADE 25
Atos inseguros pela visão da ergonomia

Objetivo: Contrapor a visão da segurança do trabalho sobre o erro humano com a visão da
ergonomia.

O Campo da Saúde do Trabalhador e da Ergonomia possui uma visão completamente


diferente da teoria proposta pela Segurança do Trabalho e da Medicina do Trabalho sobre
acidentes do trabalho e doenças ocupacionais. É fundamental deixar claro a nossa não-
concordância com a concepção de que determinados riscos são inerentes às atividades
laborais, quando se discutem os acidentes de trabalho.

O conceito de risco “inerente” traz consigo a ideia, amplamente difundida, da necessária


presença de fatores de risco, considerados inseparáveis de determinadas atividades de
trabalho. Consideramos que estes fatores existem por determinantes outros que não a
impossibilidade técnica de sua eliminação ou controle (MS/BRASIL, 2006c).

Todas as unidades foram elaboradas de acordo com os princípios e fundamentos da Saúde


do Trabalhador e da Ergonomia. Ao rompermos com a visão ainda hegemônica nas
empresas sobre controle de riscos e de atos inseguros, é razoável causarmos estranheza
para aqueles que atuam como técnicos de segurança, engenheiros de segurança ou
médicos do trabalho. Por isso, optamos por trabalhar nesta unidade com outro trecho do
texto “A visão da ergonomia sobre os atos inseguros como causadores de acidentes de
trabalho” de Gonçalves et al. (2005), apresentado no XXV Encontro Nacional de Engenharia
de Produção, páginas 2523-24.

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Fragmento do texto

O ato inseguro é um erro humano com potencial para causar acidentes. As consequências
podem atingir a própria pessoa ou quem estiver próximo. Errar é próprio do ser humano.

Para Santos et al (1997), quando acontece um incidente grave, é frequente atribuir ao ser
humano o “erro” ocorrido, na medida em que alguém deveria fazer diferente algo que foi
feito. Porém “esta situação condicional não permite avançar na análise do incidente”. Se
erros foram cometidos, afirma o autor, eles foram devidos à concepção dos dispositivos
técnicos e à organização do trabalho e é preciso prevenir a ocorrências de novos incidentes.

O erro humano, segundo Decker (2003), é um julgamento feito depois que o fato acontece
para achar culpados pelo acidente. O erro humano, todavia, pode também ser visto como um
efeito ao invés de uma causa de problemas graves dentro de sistemas.

Segundo Montmollim (1990), a apresentação tão simples de erro humano, já não é aceita,
hoje em dia, em ergonomia, a análise do trabalho e, em particular a dos acidentes, leva a
isolar o erro do seu contexto específico e da sua história. Ainda, segundo Dekker (2003), a
perspectiva mais recente é chamada de “nova visão” em ergonomia, atualmente. O apoio
para a nova visão é extraído de pesquisas recentes sobre acidentes como fenômenos
emergentes sem causas claras, onde desvios se tornaram um padrão de operações normais
geralmente aceitos.

Almeida e Baumecker (2004) mostram claramente a defasagem entre a velha e a nova visão,
apresentando as ideias do Professor Sidey Decker no livro “The Field Guide to human error
investigations”, onde o autor afirma que é possível fazer uma análise retrospectiva de uma
situação de acidente.

A velha visão - Teoria da Culpa

a) O erro humano é a causa de acidentes.

b) Para explicar falhas os investigadores devem procurar falhas;

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c) Procuram encontrar falhas de avaliações, decisões erradas e julgamentos
inadequados das pessoas.

A nova visão - Modelo da Prevenção

a) O erro humano é sintoma de problemas profundos do sistema;

b) Não tenta saber em que aspectos as pessoas estavam erradas para explicar falhas;

c) Procure saber como as avaliações e ações das pessoas faziam sentido para elas na
hora em que ocorreram, dadas as circunstâncias que as cercavam.

Além disso, as organizações revelam desordens em seus interiores não importando se elas
estão predispostas a um acidente ou não. Quando se fala em erros humanos, geralmente
isto se refere a uma desatenção ou negligência do trabalhador. Para que essa desatenção
ou negligência resulte em acidente, houve uma série de decisões que criaram as condições
para que isto acontecesse. Se essas decisões tivessem sido diferentes, essa mesma
desatenção ou negligência poderia não ter resultado em acidente. A abordagem do erro
humano tem sofrido mudanças na medida em que se compreende melhor o comportamento
do homem.

Atualmente, existem dados que permitem analisá-lo melhor, para se prever o desempenho
futuro de sistemas onde haja a participação humana. O erro humano na visão da ergonomia
está relacionado às anormalidades ergonômicas no ambiente de trabalho. Essas
anormalidades é que levam à ocorrência do que conhecemos por erros humanos. (ALMEIDA
e BAUMECKER, 2004).

O ato inseguro estudado pela segurança do trabalho reflete bem a “velha visão” e é
apresentada ainda como base da segurança do trabalho. Para Zocchio (2002) é a maneira
pela qual o trabalhador se expõe ao perigo de acidentar-se.

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O ato inseguro pode ser:

 Consciente: quando o trabalhador sabe que está se expondo ao perigo, por exemplo,
quando uma auxiliar de enfermagem deixa de usar luvas para realizar um curativo;

 Inconsciente: quando o trabalhador desconhece o perigo ao qual se expõe, por


exemplo, um bombeiro industrial que se expõe ao risco químico;

 Circunstancial: o trabalhador pode conhecer ou desconhecer o perigo a que se expõe,


mas algo mais forte o leva a praticar uma ação insegura, por exemplo; tentativa de
salvar alguém de uma situação perigosa, tentativa de evitar algum prejuízo à empresa,
ou mesmo fazer algo errado por pressão da chefia.

Alguns exemplos clássicos de atos inseguros são os seguintes: ficar junto ou sob cargas
suspensas, colocar parte do corpo em lugar perigoso, usar máquinas sem habilitação ou
autorização, imprimir excesso de velocidade ou sobrecarga, lubrificar, ajustar e limpar
máquinas em movimento, improvisação ou mau emprego de ferramentas manuais, usar
dispositivos de segurança inutilizados, não usar proteções individuais, uso de roupas
inadequadas ou acessórios desnecessários, manipulação insegura de produtos químicos,
transportar ou empilhar inseguramente, fumar ou usar chamas em lugares indevidos,
tentativa de ganhar tempo, brincadeiras e exibicionismo.

O ato inseguro é vivenciado no dia-a-dia da segurança do trabalho. Explicar o porquê desses


atos é entrar no campo complexo da psicologia humana. Proteger o trabalhador com
medidas adequadas é a meta da segurança do trabalho.

A velha visão baseada na Teoria da Culpa em que os acidentes do trabalho são causados
por condições inseguras ou, na maioria das vezes, por atos inseguros dos trabalhadores é
muito simplista e não leva às ações efetivas que avancem para um ambiente com produção
segura.

A nova visão baseada nos conceitos mais atualizados da ergonomia permite olhar com mais
profundidade sobre todos os atores envolvidos, como o trabalhador, devido às cargas físicas
e mentais que o trabalho lhe impõe e à maneira como esse trabalhador assimila e reage
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perante elas; à segurança do trabalho na sua tarefa de identificar e eliminar riscos atuando
diretamente nos maquinários e no treinamento dos operadores; os erros humanos/atos
inseguros como efeito das anormalidades ergonômicas encontradas no local de trabalho
sendo um desafio esta eliminação.

Para levantar medidas a serem utilizadas em empresas com finalidades corretivas,


preventivas e preditivas, é necessário realizar uma Análise Ergonômica do Trabalho, tendo
como demanda o acidente ocorrido.

Atividade Dissertativa 3

Nas Unidades 24 e 25 analisamos a visão da ergonomia sobre atos inseguros. Na página


2525 do texto “A visão da ergonomia sobre os atos inseguros como causadores de acidentes
de trabalho”, disponível em
www.abepro.org.br/biblioteca/ENEGEP2005_Enegep0405_0449.pdf, os autores analisam um
acidente de trabalho fatal de acordo com a velha visão baseada na teoria da culpa e a nova
visão baseada na teoria da prevenção.

Após a leitura do estudo de caso (itens 6 a 8) do artigo, procure discutir com suas próprias
palavras os seguintes questionamentos:

1. O que há por detrás do termo “ato inseguro”?

2. Por que a abordagem da Segurança do Trabalho tem quase sempre como objetivo
definir e transferir a culpa para o acidentado?

3. Por que os programas baseados em “atos inseguros” não conseguem desenvolver


ações eficazes?

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U NIDADE 26
Reestruturação produtiva e saúde do trabalhador

Objetivo: Entender quais são os fatores da reestruturação produtiva que causam


desdobramentos para a saúde dos trabalhadores.

Nesta unidade discutiremos quais elementos dos processos de reestruturação produtiva e


globalização da economia de mercado, em curso, têm acarretado mudanças significativas na
organização e gestão do trabalho com repercussões importantes sobre a saúde do
trabalhador.

Segundo o Ministério da Saúde (2001), entre as consequências da reestruturação produtiva


destacam-se “a exigência de maior produtividade, associada à redução contínua do
contingente de trabalhadores, à pressão do tempo e ao aumento da complexidade das
tarefas, além de expectativas irrealizáveis e as relações de trabalho tensas e precárias,
constituem fatores psicossociais responsáveis por situações de estresse relacionado ao
trabalho”.

Heredia (2004) explica que a introdução de novas tecnologias desencadeou uma série de
efeitos sociais que afetaram os trabalhadores e sua organização. Esses efeitos, que a autora
chama de impactos sociais, repercutiram nos:

 Processos de trabalho;

 Na qualificação da força de trabalho;

 Nas próprias condições de trabalho;

 Na saúde do trabalhador.

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De acordo com a autora, o processo de reestruturação trouxe consequências para as
políticas de ocupação, afetando diretamente a questão do emprego. O uso de novas
tecnologias ocasionou a diminuição do trabalho necessário que se traduz na economia
líquida do tempo de trabalho, uma vez que, com a presença da automação microeletrônica,
começou a ocorrer a diminuição dos coletivos operários e uma mudança na organização dos
processos de trabalho (HEREDIA, 2004).

A seguir apresentaremos algumas das características ou tendências que já se configuram,


de acordo com Rigotto (1998, p. 2-3).

Tecnologia e organização do trabalho

Apropria-se dos avanços da microeletrônica e da incorporação da informática aos processos


de produção para garantir produtos de melhor qualidade e maior competitividade no
mercado. Modifica as rígidas formas Taylorista e Fordista de organizar o trabalho nas
empresas, sob forte influência do modelo Toyotista japonês, reduzindo os níveis
hierárquicos, buscando mais iniciativa e participação do trabalhador no processo.

Novas modalidades de trabalho e novas relações de trabalho

Expandem-se novas modalidades de trabalho, como o autônomo, o tempo parcial, o


temporário, em domicilio etc. No campo das relações de trabalho, "verifica-se a
implementação de políticas que visam impor ao empregado uma nova identidade,
configurada na relação entre indivíduo-empresa e forjada através de diferentes estratégias
de interação na disputa pela lealdade do trabalhador".

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Mundialização da produção/desterritorialização do capital

Desconcentra geograficamente a produção, aproveitando-se das facilidades de transporte


oferecidas pela globalização: organiza a fabricação de componentes a partir de atividades
em diversos países, usufruindo de vantagens comparativas no acesso a recursos naturais e
matérias-primas, isenções oferecidas pelos governos, características da mão-de-obra local -
qualificação, custo etc.

Focalização da produção

A grande empresa tende a ser substituída por estabelecimento menor, que centra sua
atividade naquilo que é a sua excelência (por exemplo, o motor do carro). As demais partes
do processo produtivo são delegadas a outras empresas, as terceirizadas. Estas empresas,
às vezes, são implantadas numa mesma área geográfica, formando um condomínio de
empresas.

Especialização flexível

A competitividade baseia-se na identificação e na produção de bens não padronizados,


voltados para nichos de mercado ou atende, aparentemente, aos desejos do consumidor
individual. Em oposição a produção de bens em massa, supõe uma planta industrial flexível,
com máquinas universais programáveis e operadas por trabalhadores desespecializados,
qualificados e polivalentes.

Financeirização da economia

Há um domínio do capital financeiro, operando como "dinheiro volátil", por meio de redes e
circuitos informatizados globais, cerca de 1,4 trilhões de dólares por dia, em detrimento do

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investimento produtivo. Mesmo as corporações tipicamente industriais têm as aplicações
financeiras como um elemento central do processo de acumulação.

Emersão de novos atores globais e crise do Estado Nacional

Articuladas ao neoliberalismo, estas transformações têm sido conduzidas pelos interesses


diretos de novos e poderosos atores sociais, refletindo acelerada concentração do capital.

Assimetria

Sob a cortina de um mundo globalizado, de uma suposta "aldeia global" homogeneizada pela
superação dos limites do espaço/tempo, esconde-se um processo estrutu ralmente
assimétrico. Ele designa papeis e limites específicos a cada povo/segmento ou
país/região/localidade, mediante nova divisão internacional do trabalho, aprofundando as
desigualdades inter e intranacionais. Os países industrializados passaram a ser exportadores
de tecnologia cientifica e muitos "países subdesenvolvidos" passaram a ser os "novos países
industrializados", num processo desigual tanto do ponto de vista socioeconômico quanto
ambiental, no tocante à distribuição dos riscos ambientais e ocupacionais.

Tais contextos vêm ocasionando problemas osteomusculares e o adoecimento mental


relacionados ao trabalho, que crescem em importância em todo o mundo, conforme já
discutidos anteriormente. Além dos efeitos para a saúde dos trabalhadores temos que levar
em conta as consequências do processo de reestruturação para o meio ambiente.

Na atualidade, a preocupação com o meio ambiente e a saúde das populações residentes na


área de influência das unidades produtivas vem fortalecendo o movimento que busca a
mudança de processos de trabalho potencialmente lesivos para a saúde das populações e o
ambiente (MS/BRASIL, 2001).

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Rigotto (1998) explica que a saúde humana, hoje, é profundamente marcada pela forma
como se vive, no Brasil e no mundo, o processo de Globalização e de Reestruturação
Produtiva, mediado pelas mudanças urbanas, as transformações no processo de trabalho e a
difusão ampliada dos riscos industriais e ambientais. O modo de vida desenhado por este
modelo redefine os padrões de saúde-doença das populações.

Franco e Druck (199) argumentam que “a incorporação de milhares de novas substâncias


químicas, o aumento das plantas industriais, dos volumes produzidos e transportados e da
aplicação de diversas formas de energia trouxeram, indubitavelmente, a ampliação da
grandeza e do alcance dos impactos sócioambientais das atividades humanas nas
sociedades contemporâneas. Assim, os padrões de produção e consumo passaram a definir,
cada vez mais profundamente, tanto o estado das águas, do ar, dos solos, da fauna e flora,
quanto as próprias condições da existência humana: seus espaços de moradia e de trabalho,
seus fluxos migratórios, as situações de saúde e de morte”.

É evidente que a reestruturação produtiva está baseada na busca constante pelo aumento
da produtividade, conseguida através de novas formas de gestão e de produção. Mas, os
custos sociais deste processo também são significativos, resultando em agravos à saúde
daqueles que vivenciam as consequências deste processo, fortemente marcado pela:
insegurança, desemprego, fim de algumas funções, criação de outras, mudanças no
ambiente de trabalho, nos fatores organizacionais e psicológicos, como o excesso de jornada
de trabalho, falta de intervalos apropriados, despreparo técnico para execução de tarefas,
necessidade de trabalhadores mais qualificados, são fatores que contribuem para o
“desgaste do trabalho” (NUNES E MENDES, 2002).

Nas próximas unidades analisaremos como o processo de transformação do trabalho,


baseado na flexibilização da produção, na terceirização de atividades e na precarização do
trabalho é nocivo para a saúde dos trabalhadores.

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Dica 13:

Texto completo disponível em: http://www.saudeetrabalho.com.br/textos-organizacao-1.htm

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U NIDADE 27
Acumulação flexível e saúde do trabalhador

Objetivo: Analisar os impactos do regime de acumulação flexível para a saúde do


trabalhador.

Nesta unidade trabalharemos com um trecho do texto “Regime de acumulação flexível e


saúde do trabalhador” escrito por Maria Abramides e Maria Cabral (2003), páginas 7 a 9.

O texto discute criticamente como a saúde do trabalhador é vista pelo capital e como o
regime de acumulação flexível aumentou a intensidade, o ritmo de trabalho, os índices de
doenças do trabalho e a vulnerabilidade social.

Boa Leitura!

Fragmento do Texto

A VIII Conferência Nacional de Saúde, realizada em Brasília-DF em 1986, expressou uma


concepção ampla de saúde, entendendo-a como “a satisfação das necessidades básicas de
acesso a uma alimentação regular e nutritiva, moradia adequada, transporte seguro, serviços
de saúde e educação eficientes, para além da simples ausência de doenças, a falta de uma
renda mínima que assegure esses direitos, constitui-se para uma ampla camada de
trabalhadores, em efetiva deterioração de suas condições de vida e reprodução da força de
trabalho” (Mattos et al., 1995:48).

Compreender a saúde nessa dimensão significa entendê-la nas diversas formações sociais e
na divisão social e técnica do trabalho. No capitalismo as condições objetivas e subjetivas da
classe trabalhadora e sua própria condição de classe são afetadas pelo caráter destrutivo do

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capital, em sua estrutura orgânica metabólica de relação dos homens entre si e com a
natureza, em que a propriedade privada dos meios de produção, a super-exploração da força
de trabalho, e o Estado a serviço da ordem burguesa determinam um viver e morrer.

A força de trabalho, considerada mercadoria básica no processo de produção capitalista, é


requerida pelo mercado, mas lhe é exigido ter a saúde necessária para executar um
processo de trabalho: “Para o capital, a saúde – entenda-se a saúde suficiente – é um
simples e relativizado componente da mercadoria força de trabalho” (Ribeiro, 1997:102).
Portanto, saúde e capacidade técnica são elementos indissociáveis da capacidade de
trabalho.

A força de trabalho é para ser consumida e substituída na medida de seu desgaste, como
qualquer outro componente do processo de produção. O trabalhador tem, por sua vez,
consciência de sua capacidade técnica e sabe que, para exercitá-la, precisa ter saúde. A
relação indissociável entre saúde e capacidade técnica, e o processo histórico de lutas da
classe trabalhadora pela redução da jornada de trabalho e por melhores condições de vida,
possibilita ampliar postos de trabalho bem como proteger esses dois componentes da
capacidade produtiva.

A intensidade e o ritmo acelerado no trabalho e o número excessivo de horas na jornada são


decisivos na precarização da saúde do trabalhador, podendo eliminá-lo, precocemente, do
mercado. Nas condições de trabalho estão incluídas as atividades corporais e mentais dos
trabalhadores, bem como os elementos materiais, físicoquímicos, ambientais, temporais e
também as relações de trabalho.

O capital, historicamente, incorpora o trabalho da mulher, o infantil e o da juventude desde o


primeiro ciclo da Revolução Industrial, na Inglaterra, como forma de ampliar sua exploração,
dilatando a margem de mais-valia, o que concorre para o barateamento do preço da força de
trabalho: “O valor da força de trabalho era determinado não pelo tempo de trabalho
necessário para manter individualmente o trabalhador adulto, mas pelo necessário à sua
manutenção e a de sua família. Lançando à máquina todos os membros da família do
trabalhador no mercado de trabalho, ela reparte o valor da força de trabalho do homem

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adulto pela família inteira. Assim, desvaloriza a força de trabalho do adulto” (Marx apud
Ribeiro, 1997:104).

O movimento operário brasileiro desde sua origem vem lutando pela garantia de uma jornada
de trabalho reduzida, sem redução de salário, e obteve algumas conquistas que hoje estão
ameaçadas pela flexibilização dos direitos trabalhistas, pela prevalência do acordado sobre o
legislado.

Outro elemento analítico a ser considerado na compreensão da saúde é a relação da força


de trabalho nas diferentes ocupações requeridas pela divisão sociotécnica do trabalho nos
diferentes ramos da atividade econômica. Os componentes que caracterizam o exercício de
determinada ocupação são históricos e sociais, mutáveis no tempo e no espaço, com
consequências diferenciadas entre essas doenças, embora, em dado processo produtivo, em
certo espaço sociocupacional, possam ocorrer casos imediatos ou próximos de doenças
recorrentes e acidentes do trabalho, mas a existência desses fenômenos não pode levar a
uma neutralização do risco ou do dano, uma vez que ambos inserem-se em uma
temporalidade sócio-histórica e cultural específica.

É possível, ainda, uma terceira dimensão que pode influir na condição de saúde, embora os
trabalhadores vivenciem as mesmas circunstâncias de vida e de trabalho, dadas por sua
condição de classe, exercendo funções semelhantes, muitas vezes em uma mesma empresa
ou ocupação com relações de trabalho semelhantes, e que podem ou não vir a ser afetados
em sua condição de saúde individual.

A dimensão social da saúde é “abrangente e corresponde ao ciclo do capitalismo e às


condições objetivas onde ele se desenvolve. Ela se expressa nas relações sociais e de
produção e tem a ver também com as tecnologias dos processos produtivos e de
organização do trabalho incorporados pelas empresas. A causalidade mais ou menos
aparente do trabalho com a ocorrência de doenças e acidentes é apenas um modo violento e
explícito de evidenciar essa determinação” (Ribeiro, 1997:65).

A Saúde do Trabalhador, diretamente vinculada ao processo de relações sociais de


produção, apontou para a necessidade de uma discussão, de um debate e de uma

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intervenção na área denominada Saúde do Trabalhador na rede pública de serviços de
saúde no Brasil a partir da década de 80, impulsionada pelas lutas e reivindicações do
movimento dos trabalhadores. Portanto, a área da Saúde do Trabalhador surge como “uma
prática social instituinte, que se propõe a contribuir para a transformação da realidade de
saúde dos trabalhadores, e por extensão a da população como um todo, a partir da
compreensão dos processos de trabalho particulares, de forma articulada com o consumo de
bens e serviços e o conjunto de valores, crenças, ideias e representações sociais próprios de
um dado momento da história humana” (Dias, 1995:27).

O objeto da Saúde do Trabalhador pode ser definido como o processo de saúde e doença
dos homens em sua relação com o trabalho. Trabalho, no capitalismo, é entendido como a
subsunção do trabalhador ao capital no processo produtivo de supe-rexploração do trabalho
humano e extração da mais-valia, mas também compreendido como pólo de resistência e
luta dos trabalhadores por melhores condições de vida e trabalho, em que a saúde é parte
constitutiva desse processo.

No Brasil, desde 1988 a Saúde do Trabalhador configura-se como prática institucionalizada


no interior do Sistema Único de Saúde e do ponto de vista da luta sindical. A CUT organiza o
Instituto de Saúde no Trabalho para instrumentalizar o processo de luta e negociação dos
trabalhadores.

A política relativa aos benefícios acidentários foi incorporada como cobertura prestada pela
Previdência Social, em 1969, constituindo-se no Seguro-Acidente. Alterações substantivas
vêm sendo realizadas no Seguro-Acidente, com a alteração do cálculo, com perdas visíveis
para os trabalhadores, além de alterações na sistemática de comunicação do acidente.

A reestruturação produtiva no Brasil, com a precarização das relações de trabalho, a


intensificação de ritmos, a perda de postos de trabalho e a exigência de polivalência
(requisições diferenciadas na atividade laborativa) têm ampliado e agravado o quadro de
doenças e riscos de acidentes nos espaços sócio-ocupacionais.

As inovações tecnológicas, a microeletrônica, a robótica e a automação presente na atual


fase de reprodução do capital no plano internacional e nacional ampliam as doenças relativas

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ao trabalho, como a LER/ Dort (lesões por esforço repetitivo e distúrbios osteomoleculares),
em setores de produção individual ou de serviços, descortinando um dos frutos mais
dramáticos do processo de acumulação flexível e afetando, consequentemente, as condições
de trabalho e de existência desses trabalhadores em seu cotidiano nas diferentes esferas da
vida social. Os registros de LER/Dort incidem com maior frequência em algumas atividades
ocupacionais: digitadores, caixas de banco e comércio, telefonistas, empacotadores,
trabalhadores de empresas de processamento de dados, entidades comerciais e financeiras,
indústria editorial e metalúrgica, entre outros, e, particularmente, na área de telemarketing a
LER tem crescido em ritmo acelerado.

E nos quadros clínicos da LER/Dort, incluem-se: tenossinovite, tendinite, bursite e mionite,


provocando inflamação em várias áreas dos membros superiores. Esse quadro associa-se,
de um lado, à incorporação de novas tecnologias, máquinas digitais, computadores e
maquinário em geral, com a aceleração do ritmo de trabalho, de modo que possa responder
às exigências do processo produtivo; de outro, as atividades repetitivas não qualificadas têm
sido também responsáveis por quadros de LER.

A precarização das relações de trabalho com demissões constantes, trabalho por tempo
determinado, desemprego, terceirização, quarteirização, perda de direitos sociais e
trabalhistas são expressões de um conjunto de efeitos das relações de trabalho sobre a
saúde do trabalhador, como estafas, fadigas, ansiedades e insegurança permanente, dores
lombares e generalizadas, distúrbios emocionais, dentre outros.

Portanto: “os males da saúde ocasionados pela ausência de trabalho não são somente
aqueles vinculados à queda do nível de qualidade de vida e, consequentemente, da condição
geral de saúde, mas, também, aqueles relacionados ao sofrimento mental advindos do
sentimento de impotência individual, sensação de carência de sentidos da vida, ausência de
normas, distanciamento cultural e isolamento social, que resultam normalmente em
respostas psicológicas básicas, como agressão, repressão, fixação (comportamentos rígidos
e estereotipados), apatia.

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É importante ressaltar que no cenário produtivo brasileiro convivem as novas tecnologias do
processo de acumulação flexível e sua forma estruturante de trabalho com processos de
trabalho fordista/taylorista clássicos, em que ainda predominam os acidentes de trabalhos
típicos – amputação, morte e doenças profissionais características de ramos de produção
como: silicose, asbestoses, hidragerinos, bezenismo, entre outras.

Os processos de terceirização e quarteirização têm sido responsáveis pela realização de


atividades produtivas no interior das residências dos trabalhadores, com expansão do risco
para além das fronteiras dos espaços sócio-ocupacionais, atingindo crianças e mulheres.
Outro aspecto a considerar é o do aumento da presença feminina em atividades
precarizadas, com baixos salários, sem direitos previdenciários e trabalhistas.

Para as que estão inseridas, formalmente, no mercado de trabalho, existe a constante


ameaça de retirada desses direitos, como a licença-maternidade e a possibilidade de
demissão no período de gestação (abandono da Convenção 103 da Organização
Internacional do Trabalho).

A importação de mais tecnologia, por sua vez, tem configurado a transferência de


tecnologias obsoletas e perigosas, causando danos ao meio ambiente e à saúde da
população. As transformações profundas ocorridas nesse quadro histórico, no ambiente da
internacionalização do capital e do capitalismo em sua crise estrutural, com alterações
significativas no processo produtivo e na esfera do Estado, vêm destruindo conquistas
sociais históricas da classe trabalhadora na luta por melhores condições de vida e trabalho.
Essa razão destrutiva aliena ainda mais o trabalho humano, apresentando um quadro de
miséria e de destruição da própria vida.

A relação saúde-doença é fortemente afetada nesse processo de barbarização da vida social


pela investida do grande capital. O desafio posto para a classe trabalhadora é o de retomar
seus instrumentos de luta – o partido e o sindicato no âmbito da autonomia e da
independência de classe.

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Estes, na última década, vêm sofrendo uma inflexão significativa com um giro do movimento
na direção social-democrata e abandono gradativo das lutas sociais em detrimento de acordo
na esfera da institucionalidade.

O grande desafio para a classe trabalhadora é a retomada das lutas imediatas por direitos
sociais e trabalhistas, bem como sua perspectiva histórica de luta anticapitalista no horizonte
de uma sociedade emancipada de auto-organização dos indivíduos livremente associados,
na perspectiva marxista.

Dica 14:

Você pode encontrar a versão completa do texto no site:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
88392003000100002&nrm=iso&lng=pt&tlng=pt

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U NIDADE 28
Precarização do Trabalho – uma nova questão social

Objetivo: Verificar como o processo de reestruturação produtiva resulta na precarização do


trabalho e na exclusão social.

Nesta unidade discutiremos um fragmento de texto sobre o processo de precarização social


e desproteção social, escrito por Gomes e Thedim Costa (1999), páginas 412-414.

Fragmento do texto

As profundas transformações do modelo econômico decorrentes da reestruturação produtiva,


da integração mundial dos mercados financeiros, da internacionalização das economias, da
desregulamentação e abertura dos mercados, com a quebra de barreiras protecionistas, em
suas causas e consequências político-sociais, vêm atingindo, de forma acelerada e
diferenciada, sobretudo na última década, amplos setores da população trabalhadora. Essas
mudanças, em grau e extensão diferentes entre países e no interior dos mesmos, geram
permanentes incertezas, novas tensões, aprofundamento das desigualdades sociais e da
exclusão social.

No caso brasileiro, observa-se um processo de pauperização, inclusive entre os


trabalhadores integrados ao mercado de trabalho, como resultado de uma trajetória marcada
pela insegurança, instabilidade e precariedade nos vínculos laborais. Essa degradação das
condições materiais de vida, das formas de reprodução, agravada pela ausência de
mecanismos de proteção social e associada à desestruturação/reconstrução de identidades
geradas em torno do trabalho, configura, em sua complexidade, a nova questão social.

A violência nas grandes metrópoles expressa em formas e espaços distintos, vem agravar o
conjunto de contradições da vida contemporânea, constituindo-se em mais um efeito nefasto
dessas transformações. As repercussões para a saúde, de natureza diversa, situam-se no
cerne dessa problemática que afeta os trabalhadores ainda inseridos no mercado formal,
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sobretudo os terceirizados, mas reflete-se, particularmente, no grande contingente de
excluídos e em segmentos mais vulneráveis do mercado informal, em contínua expansão.
Dentre estes, os que exercem atividades com expressivo impacto nas taxas de morbi-
mortalidade, não contempladas nos estudos sobre o trabalho informal, por razões que vão
desde a falta de reconhecimento social a seu caráter de ocupação à margem da legalidade.

O movimento de globalização econômica se caracteriza pela grande mobilidade de massas


de capitais, pelo crescimento de corporações transnacionais e pela predominância dos
investimentos no âmbito financeiro, onde acontece a maior valorização do capital, inclusive
por corporações industriais ou de serviços.

Os fluxos financeiros mundiais são de tal ordem que correspondem hoje a aproximadamente
78 vezes dos recursos aplicados produtivamente Pochmann (1999). Em consequência,
acelera-se a internacionalização das grandes decisões – das quais o trabalhador enquanto
ator social tem estado sistematicamente alijado com a concomitante redução do papel dos
Estados nacionais na obtenção de recursos tributários e na formulação e efetivação de
políticas. Por outra parte, os imperativos do crescimento econômico e da competitividade no
mercado regem a alteração radical do paradigma produtivo.

Uma lógica de flexibilização das estruturas produtivas e das formas de organização e divisão
social do trabalho intra e inter-empresas, intensifica o fenômeno visível da fragmentação e da
dispersão dos processos produtivos por várias nações, através de filiais, empresas
fornecedoras, subcontratadas.

Além de visar ao aproveitamento mais eficiente das tecnologias e matérias primas existentes
para um mercado consumidor global, implanta-se também um processo de flexibilização da
força de trabalho. De acordo com as conveniências e conjunturas locais, estabelecem-se
variadas formas de contratação: desde vínculos estáveis nos moldes convencionais ou com
diversos níveis de precarização que conformam os denominados empregos atípicos Caire
(1997) – terceirizados, temporários, em tempo parcial, por tarefas – até a utilização da mão-
de-obra familiar, o que conduz a uma alternância entre emprego e não-emprego.

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As críticas à rigidez do modo de produção fordista, considerada fator limitante do
crescimento, justificam a tendência mundial de exacerbar uma flexibilização, fundadas em
duas premissas concomitantes e interligadas. Por um lado, fomentam-se variáveis de
produtividade, buscando a qualidade total de processos e produtos. Incrementam-se
inovações tecnológicas como elementos-chave para enfrentar a competição mundial ou
realizam-se reformas organizacionais, sem investimentos substanciais em novas tecnologias,
com o intuito de obter os mesmos resultados a custos mais reduzidos.

Tendo como foco as demandas do cliente e as flutuações do mercado, adota-se a estratégia


de obter produtos de qualidade, em curto prazo de tempo, aliada a políticas de treinamento,
de capacitação profissional e de proteção social, que redundem no aprimoramento da
organização do trabalho, com profissionais de elevado nível de formação e remuneração.
Opostamente estabelecem-se contratos de trabalho precários, subcontratação em cascata
configurada por uma externalização de riscos e responsabilidades, com redução de salários
e de empregos.

A circulação mundial de capitais produtivos baseia-se fundamentalmente nos potenciais de


mercado, de recursos naturais, de capacitação estratégica e na busca de eficiência por meio
de investimentos em pesquisa e desenvolvimento nos países avançados. Os capitais
produtivos dirigem-se, portanto, para zonas onde a força de trabalho, apesar de cara, é
altamente qualificada, polivalente, com um repertório de habilidades para adaptar-se às
flutuações da demanda e que têm condições de comercialização e infraestrutura de
telecomunicações, bem como de manutenção de equipamentos sofisticados. Em
contrapartida, voltam também seus investimentos para regiões onde o trabalho é barato, com
inferior conteúdo tecnológico, mas com utilização intensiva de matéria prima e mão-de-obra.

Esse quadro de reestruturação das empresas e dos sistemas produtivos, inquestionável


numa ótica eminentemente econômica, acarreta um pesado ônus expresso, em última
instância, na precariedade e na exclusão social, fontes alimentadoras da violência atual. Uma
precarização que atinge não apenas as populações consideradas vulneráveis, mas o
conjunto da sociedade, embora de modo diferenciado, muitas vezes sob o eufemismo de
novas formas de trabalho. Essa figura semântica – que aparentemente revela um avanço nos

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parâmetros tradicionais de exercício profissional – esconde, no entanto, a diminuição de
postos de trabalho e a fragilidade dos novos arranjos laborais como a oferta de empregos de
tempo parcial ou duração eventual; as limitações na absorção da força de trabalho jovem,
inclusive qualificada; a instabilidade e irregularidade ocupacionais; o subemprego e o
desemprego recorrente, duradouro e sem perspectivas de inclusão no mercado formal; as
dificuldades de inserção da mão-de-obra não-qualificada e os rendimentos decrescentes
para boa parcela das populações já empobrecidas.

Precarização econômica e regressão social convergem com a omissão do Estado em


funções fundamentais no âmbito do trabalho e da proteção social. Nesse contexto,
questiona-se a legitimidade de um Estado que, pautado pela racionalidade da ordem
econômica dominante, ausenta-se na redefinição das regulações contratuais e salariais
anteriores e nem mesmo consegue desempenhar seu papel na compensação das
desigualdades e fragilidades sociais, bem como na reparação das injustiças. Um Estado que,
frente ao enorme contingente do moderno “exército industrial de reserva” gerado pelo
desemprego em massa, oferece, quando muito, alternativas de reinserção circunstancial
negociadas com as empresas, por meio de incentivos financeiros e redução ou isenção de
encargos sociais.

Encontramo-nos hoje perante a nova questão social, cuja amplitude e centralidade se


assemelham às suscitadas pelo pauperismo da primeira metade do século XIX, como afirma
Castel, para quem “no momento em que os atributos vinculados ao trabalho para caracterizar
o status que situa e classifica um indivíduo na sociedade pareciam ter-se imposto
definitivamente, em detrimento de outros suportes da identidade, como o pertencimento
familiar ou a inscrição numa comunidade concreta, que essa centralidade do trabalho é
brutalmente colocada em questão enquanto sentido da experiência humana, inclusive como
fator associado ao crescimento.

Teremos chegado a uma quarta etapa de uma história antropológica da condição de


assalariado, etapa em que uma odisséia se transforma em drama?” Castel (1998). A
precarização, o não-trabalho, é mais do que o desemprego. Como avalia o próprio autor,
evocando Hannah Arendt, mesmo sem desconhecer o frágil equilíbrio das décadas

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precedentes, é o reaparecimento de um perfil de “trabalhadores sem trabalho”, os quais
ocupam na sociedade, literalmente, um lugar de supranumerários, de “inúteis para o mundo”.
E que vêm engrossar o contingente populacional, por vezes “funcional”, das “massas
desarraigadas”, dos grupos “considerados supérfluos” Arendt (1990), sem espaço na vida
econômica, na produção de bens e serviços, com reduzidos direitos sociais e humanos. Uma
força de trabalho atomizada, desprotegida socialmente, por cujo infortúnio ninguém parece
ser responsável, restando-lhe apenas soluções individuais. Essa fragilização ou ruptura de
vínculos comporta privação econômica e reverte em profundo isolamento.

O senso de solidariedade que distinguia os movimentos de trabalhadores organizados está


em declínio. As negociações coletivas voltam-se prioritariamente para os trabalhadores do
quadro funcional das empresas e as reivindicações têm como foco central a manutenção do
emprego e o posicionamento frente às propostas de redução da jornada de trabalho, com a
consequente diminuição de salário, como alternativa de incorporação, sob contratos
precários, de mão-de-obra desempregada. Os próprios interesses dos trabalhadores
terceirizados, submetidos às mais desfavoráveis formas de contratação e de condições de
trabalho, raramente são contemplados.

Atualmente o questionamento da exploração econômica, do trabalho-mercadoria, dos moldes


tayloristas e fordistas de produção tornou-se anacrônico diante da necessidade de manter o
emprego e da urgência em formular estratégias que propiciem a inserção, sem maiores
indagações, de segmentos da população desempregada ou com precária situação laboral.

A vulnerabilidade inerente às diversas faces da precarização tem como desfecho final o


desemprego recorrente, a exclusão social. Uma exclusão caracterizada “por trajetórias de
labilidade dos vínculos sociais até uma ruptura completa, atravessando “terrenos” de
dissociação ou desvinculação. Entre o início da trajetória e a ruptura total, existem situações
(ou zonas) intermediárias de rupturas parciais de vínculos, eventualmente reconstituídas a
partir da criação de novos vínculos mais ou menos lábeis” Escorel (1999).

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Dica 15:

Texto completo disponível em:

http://www.scielosp.org/pdf/csc/v4n2/7123.pdf

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U NIDADE 29
Replanejar o trabalho através de negociações cotidianas

Objetivo: Entender o processo de replanejamento do trabalho a partir de negociações


cotidianas.

Nesta unidade iremos analisar parte do texto de Leny Sato “Prevenção de agravos à saúde
do trabalhador: replanejando o trabalho através das negociações cotidianas” (2002). O texto
aborda como o replanejamento da organização do processo de trabalho pode contribuir com
a prevenção dos problemas de saúde.

Fragmento do texto

O replanejamento do trabalho é um tema que se insere num conjunto de preocupações


relacionadas à saúde do trabalhador. Insere-se, especialmente, naquele conjunto de
estratégias que visam prevenir determinados problemas de saúde, como por exemplo, os de
saúde mental e psicossomáticos, as lesões por esforços repetitivos, os acidentes de
trabalho, como mostram diversas evidências obtidas por pesquisas empreendidas com o
apoio de referenciais teórico-metodológicos os mais diversos, e focando as diferentes
categorias de trabalhadores.

A depender da forma como o processo de trabalho é organizado, o cotidiano no local de


trabalho é configurado por contextos nos quais os modos de se trabalhar, de se relacionar,
de lidar com o tempo, com o espaço e com os equipamentos são sabidamente danosos à
saúde. A prevenção dos problemas de saúde que encontraria maior grau de resolução seria
o replanejamento da organização do processo de trabalho, conforme argumentado por
Gardell (1982a) e Spink (1991b).

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Alguns exemplos mostram-nos que os trabalhadores criam formas para resistir à
racionalidade imposta à organização do trabalho tal qual planejada pelo corpo gerencial,
denunciando que os trabalhadores buscam constantemente melhorar a sintonia entre eles e
os contextos de trabalho. Eles o fazem individual e coletivamente. Denunciam, com essas
práticas, que a divisão entre planejadores e executores é de fato, uma ideologia. Podemos
observar diversas manifestações que mostram a existência de outras racionalidades, outros
modos de conceber e fazer o trabalho nos limites dados pela tecnologia empregada e pela
divisão de poderes no local de trabalho.

Estudo clássico de Frederico (1979) descreve as formas através das quais operários de uma
indústria automobilística na região do ABCD paulista resistiam ativamente às pressões da
organização do processo de trabalho, demonstrando a concepção de distintos modos de se
combinar a dimensão técnica e social do trabalho de modo a diminuir o ritmo, tais como a
"operação-zêlo", a "operação-acidente", a "operação-soluço", dentre outras. Menos visíveis
do que aquelas "operações", os trabalhadores constroem "ações adaptativas" as quais têm
por finalidade adequar os contextos de trabalho, no limite do possível, às características
pessoais e aos limites subjetivos (Sato, 1993).

Evidências sobre a adoção de outras racionalidades para organizar o trabalho já foram


demonstradas também pela psicologia industrial, quando estudos da Escola de Relações
Humanas observaram, nos anos 20 do século XX (Brown, 1972), que as pessoas concebem
outras formas de se trabalhar, atribuindo outros significados às prescrições e criando laços
entre si.

Tais vínculos são sustentados e sustentam a criação de regras próprias, e norteiam a


realização do trabalho segundo modos distintos daquele concebido pelo grupo gerencial. Por
serem vínculos criados à revelia da iniciativa gerencial, foram denominados de "grupos
informais". Também Daniellou et al. (1989), através das noções de "trabalho prescrito" e
"trabalho real", reconhecem a existência de distintas realidades: distintas organizações. Não
raro, o trabalho real conduz não apenas a um maior conforto aos trabalhadores, mas à
economia e ao aperfeiçoamento do processo e, por isso, contemplam os interesses
gerenciais e do capital.

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Os exemplos acima reafirmam que, apesar de o corpo gerencial conceber a atividade de
planejamento e concepção como procedimento de natureza estritamente técnica e conduzida
unilateralmente por ele, no "chão de fábrica", as pessoas, através do conhecimento
construído na prática, replanejam-no para então executá-lo, tanto com a finalidade precípua
de amenizar os esforços do trabalho, como para manifestar a resistência política ao poder e
controle gerenciais ou ainda, para tornar factível aquilo que foi planejado por outrem. Isso
significa que a condução de assuntos cotidianos é norteada pela interpretação de regras,
como mostra Clegg (1992) a respeito da "regra do mau tempo", empregada por
trabalhadores da construção civil.

Todas essas evidências reafirmam que a vida cotidiana - o chão de fábrica - é criada e
recriada, é o lugar onde as pessoas dão sentido aos fazeres, orientadas por métodos
práticos, aquilo que é denominado "raciocínio sociológico prático" (Garfinkel, 1984). O
conjunto de preceitos e técnicas denominado modelo japonês, reconheceu e tem utilizado as
outras racionalidades que explicam a diferença entre o prescrito e o real, e construiu técnicas
com o intuito de aproveitar o conhecimento dos trabalhadores visando aprimorar os
processos de trabalho. Assim, as técnicas de kaisen e muda, os CCQs, são expressões
orientais desse reconhecimento, substituindo as obsoletas caixinhas de sugestões. É
também nesse sentido que vemos a adoção dos programas de empowerment.

Considerando-se então que existem formas de organização do trabalho reconhecidamente


danosas à saúde, e que há uma busca contínua em adotar outros modos de combinar os
sistemas técnico e social, guiados por outras racionalidades, o replanejamento seria o modo
através do qual o cotidiano no local de trabalho pode ser publicamente modificado. Para
pensar-se em como fazê-lo, é necessário que seja trazida à luz a concepção sobre o que é o
local de trabalho: quais são seus elementos, como ele é construído, qual o papel das
pessoas; ou seja, o que é uma organização. A depender da concepção adotada,
identificaremos distintas maneiras de pensar, como planejar/replanejar o trabalho.

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Astúcia e ambigüidade: características das negociações cotidianas

É justamente na particularidade do universo de cada local de trabalho que são conduzidas


outras formas de negociação qualificadas de cotidianas (Sato, 1997). São micronegociações,
praticamente invisíveis ao visitante esporádico ou menos atento.

São práticas que visam o alcance de acordos - apesar da reconhecida assimetria de poder e
controle - e que constroem outros modos de se realizar o trabalho, configurando-se como
processos de replanejamento negociados. Elas ocorrem independentes da ação política
coletiva que pressuponha uma estratégia articulada, e da existência de sindicatos
combativos ou CIPAs também combativas. São conduzidas por pessoas comuns.

Se observarmos atenta e pacientemente o dia-a-dia dos locais de trabalho, veremos que há


uma série de imprevistos, de novidades que irrompem em meio ao seu funcionamento
repetitivo, mesmo naqueles processos onde as atividades também são repetitivas, realizadas
por trabalhadores fixos em seus postos de trabalho, com ciclos extremamente curtos, como,
por exemplo, as atividades de embalagem e empacotamento.

Esse funcionamento expressa que, cotidianamente, uma série de "situações problemáticas"


tem vez no local de trabalho e deve ser equacionada e resolvida. Essa denominação -
situações problemáticas - designa situações previstas ou não, que devem ser resolvidas,
pois implicam em problemas. São problemáticas porque afetam interesses de alguma ordem
e de alguém. Por exemplo: doenças do trabalho, esforço demasiado, afastamento de
trabalhadores, perda de material, retrabalho, depreciação da qualidade do produto. Essas
situações são acontecimentos que apenas ganham significado quando postos em relação a
interesses. As doenças do trabalho são fatos que ganham o status de situação problemática
quando postas em relação aos interesses dos trabalhadores. Do mesmo modo, a perda de
material é um tipo de acontecimento que se torna uma situação problemática quando posta
em relação aos interesses dos proprietários e acionistas.

A resolução negociada dessas situações dá-se mediante a construção de significados que


possibilitam, digamos assim, "iniciar a conversa", pois que a negociação só se torna possível
quando as partes em conflito conseguem minimamente vislumbrar a existência das

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diferenças; olhar, ainda que parcialmente, a perspectiva, os problemas e os interesses
alheios. É essa possibilidade de "início de conversa" que denominamos de "base simbólica"
(Sato, 1997), ou seja, o requisito simbólico para que se inicie o processo de negociação.
Certamente, além desse requisito para que a negociação se processe, há aquele de ordem
política: o poder de barganha.

Foi através de situações problemáticas que pudemos acessar e caracterizar o requisito


simbólico para a negociação, assim definido: a base simbólica é o conjunto de significados
polissêmicos, estruturados pelo conflito de interesses e dinamizado pelos processos de
"com-fusão" de interesses e de "deslocamento" de posições. Explicando: o conflito de
interesses é requisito necessário para que sejam observados os processos de negociação,
daí porque ele constituir a estrutura do requisito simbólico. Isso porque em não havendo
diferenças de interesses que, em relação, configuram uma situação de conflito, não há
motivo para negociar. Por sua vez, os dois processos que dinamizam a base simbólica
demonstram como no dia-a-dia a relação de interesses é complexa. Em primeiro lugar
porque há uma infinidade de interesses presentes. Em segundo porque, ainda que possamos
ver e distinguir a pluralidade de interesses, o mais comum é que eles se apresentem
misturados, muitas vezes escamoteados, mimetizados, daí porque denominamos um dos
processos de "com-fusão" de interesses, pois um mesmo acontecimento pode,
simultaneamente, ser uma situação problemática para a gerência, para os acionistas, para os
consumidores e para os trabalhadores. Esse processo separa interesses que deveriam estar
juntos (como os dos trabalhadores) e funde interesses que deveriam estar separados (como
os dos trabalhadores e os da gerência).

Vejamos um exemplo: a fabricação de produtos fora das especificações pode atingir os


interesses da produção, mas pode significar, simultaneamente, maior volume de trabalho
para os operadores, pois deverão acertar o funcionamento da máquina. De outro lado, a alta
prevalência de doenças do trabalho representa, para os trabalhadores, o prejuízo para a
saúde e para a capacidade de trabalho, mas pode, simultaneamente, representar para a
gerência e para os proprietários, o comprometimento da produtividade e da qualidade.

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O segundo processo - "deslocamento" de posições - demonstra que, apesar de existirem
posições definidas no local de trabalho, posições essas que expressam e defendem os
interesses, constantemente as pessoas mudam de posição. As posições são dadas e
assumidas pelos papeis de trabalho, são dadas pela divisão de diferentes setores e,
também, por posicionamentos pessoais e de classe social. E essa mudança é possibilitada
também pela própria organização do processo de trabalho, que cria postos e tarefas nos
quais interesses estão embutidos.

Esse "deslocamento" possibilita que as pessoas se aproximem do lugar ocupado pelas


outras e, assim, possam vislumbrar interesses diferentes e opostos. Esse processo cria
condições para que observemos situações inusitadas, pois, se num primeiro momento uma
determinada pessoa, assumindo um determinado papel de trabalho defende um interesse,
em outro, por mudar de posição, passa a atacar esse mesmo interesse. A ambiguidade da
base simbólica criada por esses dois processos explica avaliações de que há pessoas que
têm duas caras.

Como nos fala Chaui (1993:121), a ambiguidade, a qual define que algo é "isto e aquilo ao
mesmo tempo", possibilita tematizar o atraso e a emancipação, a capacidade de se
conformar ao resistir e de resistir ao se conformar. Por isso, o caráter ambíguo da base
simbólica remete tanto às possibilidades de negociação como ao acirramento dos conflitos.
Se de um lado essa ambiguidade é um elemento que dificulta a clara conformação de
interesses e, portanto, do claro posicionamento das pessoas, por outro, é ela que possibilita
processar negociações no local de trabalho em contextos de poder e controle assimétricos.

Como dissemos anteriormente, as negociações cotidianas são quase invisíveis, observadas


e reconhecidas quando o olhar atento consegue ver que os acontecimentos no local de
trabalho têm significados e que as pessoas buscam lidar com as situações que se
apresentam como problemáticas. Esses processos de negociação foram qualificados como
astuciosos por adotarem estratégias e táticas de modo a que o fraco possa existir frente ao
forte; por exemplo, reconhecendo a existência de um discurso gerencial, e aproveitando-se
dele. Criam-se mecanismos de resistência no seio do conformismo (Chaui, 1993) ou, como

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nos fala Certeau (1994), criam-se táticas de modo que o colonizado escape ao poder do
colonizador sem, no entanto, deixá-lo.

A astúcia reside na capacidade de aproveitar-se da ambiguidade das situações


problemáticas, da "com-fusão" de interesses e do conhecimento possibilitado pelo
"deslocamento" de posições. É através desse deslocamento que são extraídos argumentos
utilizando-se da linguagem permitida, pois, como disse um trabalhador, "aqui todo mundo
tem que falar a mesma língua". A astúcia leva alguns trabalhadores a esconderem suas
reivindicações em "sugestões de melhoria", um claro eufemismo, mas que só assim
interesses opostos aos da gerência e do capital podem ter passagem, serem expressos e
ouvidos. Só através do controle da expressão do mundo subjetivo (vivências e sentimentos),
interesses pessoais ou do grupo de operários podem ser apresentados (Goffman, 1985). A
apresentação pública, verbal e não-verbal, dá-se de modo a esconder a existência de
conflitos de interesse.

Um exemplo desses mecanismos astuciosos é o uso do discurso da "qualidade". Uma


primeira aproximação com os discursos sobre a "qualidade" veiculados na fábrica dá-nos a
impressão de que a ideologia gerencial é totalmente eficaz. A princípio, todos,
indistintamente, referem-se à necessidade de se trabalhar com qualidade. Uma primeira
conclusão a que somos levados é a de que os trabalhadores estão em comunhão com os
interesses da gerência, dos proprietários e dos consumidores. Porém, ao nos afastarmos
desse núcleo vemos a polissemia que a noção de "qualidade" conserva. Ela possibilita que
diversos argumentos sejam ancorados nesse núcleo, levando a defender interesses os mais
diversos e até mesmo opostos. Assim, para alguns, trabalhar com qualidade implica na
economia de tempo, de pessoas e de matérias-primas, enquanto para outros significa
diminuir o ritmo de funcionamento das máquinas.

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Dica 16

Você pode ter acesso ao texto completo da autora Leny Sato no endereço:

http://www.scielo.br/pdf/csp/v18n5/10988.pdf

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U NIDADE 30
Melhoria das condições de trabalho segurança, saúde e produtividade.

Objetivo: Compreender a importância de conciliar saúde, segurança e produtividade.

Nas unidades anteriores você aprendeu como o processo de reestruturação produtiva e de


precarização do trabalho repercute na saúde, na segurança e na vida dos trabalhadores.
Alguns indicadores tais como índices elevados de acidentes, surgimento de novas doenças,
aumento da incidência de doenças ocupacionais, alcoolismo, utilização crescente de drogas
e remédios, consumismo exagerado, dificuldades de relacionamento, perda do contato do
homem com a natureza e até depredação da mesma, evidenciam a deterioração da
qualidade de vida no trabalho.

Melhorar as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores são objetivos da Saúde do


Trabalhador, como também da Ergonomia. Estes campos de saber têm como objeto de
estudo e intervenção as relações entre o trabalho e a saúde. Buscam conjuntamente a
prevenção de doenças ocupacionais e acidentes do trabalho, visando sempre à proteção da
saúde individual e do coletivo de trabalhadores e a promoção à saúde.

As ações da Saúde do Trabalhador e da Ergonomia têm como foco as mudanças nos


processos de trabalho que contemplem as relações saúde-trabalho em toda a sua
complexidade. Estes campos buscam não apenas evitar aos trabalhadores os postos de
trabalhos fatigantes e/ou perigosos, mas procuram projetar as melhores condições de
trabalho de forma a melhorar o rendimento e evitar o acidente ou fadiga excessiva. Além
disso, a Ergonomia procura igualmente a melhoria da produção e da produtividade.

Cockell (2004) verificou que o equilíbrio da relação saúde versus produtividade – preservar a
saúde dos trabalhadores e melhorar a sua produtividade, a qualidade do seu trabalho do

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ponto de vista individual e coletivo – apesar de ser um dos objetivos finais da ação
ergonômica, nem sempre é atingido. Sabe-se que a complexidade de manutenção deste
equilíbrio, de maneira não patológica, aumenta à medida que os interesses no ambiente
econômico, social, cultural e político das empresas se transformam. A ação ergonômica atua
em “termos de melhoria das condições de trabalho, de aumento da produtividade e de
melhoria da qualidade dos produtos e serviços realizados”.

Dejours (1995, p.11) argumenta que as condutas humanas no trabalho precisam satisfazer
concomitantemente a duas racionalidades distintas: “a racionalidade em relação aos
objetivos materiais de produção e a racionalidade em relação à saúde e à realidade em si,
isto é, em relação aos fins subjetivos”. Esta dicotomia de racionalidades, muitas vezes
divergentes, faz com que os agentes enfrentem em seu cotidiano o dilema de colocar o
sistema em operação com resultados crescentes de desempenho – quantidade e qualidade
de produção – proporcionando ao mesmo tempo condições favoráveis de saúde e de
segurança.

Produtividade é a palavra chave de todo este processo de mudança em saúde, que pode
integrar o Governo, Empresas, Sindicatos e Trabalhadores em prol de um único objetivo:
melhorar a saúde e qualidade de vida dos trabalhadores e da população.

De acordo com Thiry-Cherques (1991), até a II Guerra Mundial, o conceito de produtividade


limitava-se à razão entre o produto e a hora trabalhada. Embora, já nos anos 20, Paul
Douglas e Charles Cobb tenham introduzido o capital no denominador dessa razão, somente
a partir da década de 50 é que a produtividade global dos fatores de produção começa a ser
efetivamente estudada. Assim, dentro deste contexto, o autor relata ainda que a
produtividade como entendida hoje, é um indicador constituído pela divisão de um
produto/serviço pelos fatores de produção, que compreendem além do trabalho, o capital
financeiro, incluindo seus custos; o capital tangível (terras, instalações, equipamentos,
estoques) e, ainda, as matérias primas, transporte e energia. Para Silva Filho (1995), a
produtividade vista sob a luz da Engenharia de Produção é a relação entre total produzido e
os recursos gastos na produção (SANTANA, 1997).

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Kazarian (1989) e Kotschevar (1985) têm escrito extensivamente sobre produtividade e
ambos advertem que o melhor caminho para alcançar a produtividade é planejar áreas de
trabalho de forma que os trabalhadores não tenham que alcançar objetos e se deslocar além
de certos limites, pois se as limitações e capacidades do homem, forem respeitadas na sua
atividade de trabalho, isso proporcionará uma performance mais criativa, mais inteligente e,
portanto, mais eficiente (SANTANA, 1997).

Para alguns pesquisadores da área da saúde não é possível discutir a questão saúde
relacionando-a com produtividade enquanto para os gestores não é possível ser produtivo e
se preocupar com a saúde dos trabalhadores que, segundo eles, deve ser relegada em
segundo plano. Mas, esses aspectos coexistem na realidade das empresas, assim, se
analisarmos a saúde dos trabalhadores sem levarmos em conta os aspectos da produção,
não haverá possibilidade de mudança.

Para Dejours (2004), os dois reducionismos possíveis na avaliação do melhoramento são


insustentáveis: se não se leva em consideração que os critérios de eficácia na avaliação do
melhoramento, arrisca-se a sacrificar a saúde, a segurança, e até a vida do homem no altar
da produtividade. Ao contrário, leva-se em consideração somente os critérios humanos de
melhoramento da situação, podemos chegar a desastres econômicos, o que não seria mais
racional. O autor explica que é necessário então manter em conjuntos os critérios de
avaliação do melhoramento relativos à eficácia e à saúde. Não somente estes critérios não
são os mesmos, mas melhoramento da eficácia e melhoramento da condição humana no
trabalho podem ser contraditórios. Existem de qualquer modo situações onde as duas
preocupações são iguais, quando o melhoramento da qualidade passa por um melhoramento
da segurança e do respeito às regras de trabalho.

De acordo com Braga (2008), existem estudos bem consistentes que mostram que a cada
Euro investido em programas de promoção de saúde, você tem um retorno de investimento
de cerca 3 ou 4 vezes o valor investido. Por que isto ocorre?

No dia-a-dia do trabalho, as empresas podem perder rendimento por conta de doenças de


seus trabalhadores por dois motivos principais: absenteísmo (faltas, licenças médicas,

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afastamentos) e presenteísmo (perda de produtividade no trabalho, estando o trabalhador
presente). A maioria das empresas não consegue quantificar estas perdas, principalmente as
causadas pelo presenteísmo, que são bem maiores. Se uma empresa investe em programas
de qualidade de vida, tais perdas de produtividade são drasticamente reduzidas, gerando
lucro e retorno de investimento.

Braga (2008) cita um exemplo: Imagine que determinado dia, o Sr. João, já não aguentando
o estresse de sua empresa, acabou entrando em depressão, somados a outros motivos
sociais e familiares. Apesar disso, por pensar ser forte e resistente, não procurou auxílio
médico, trabalhando sobre esta nova condição de doença por aproximadamente 9 meses.

No nono mês já não conseguia sair de casa para trabalhar. Procurou um médico que lhe
prescreveu antidepressivos e uma terapia com uma psicóloga, dando também um atestado
de 30 dias de afastamento do trabalho, podendo ser renovado caso não houvesse melhora.
Neste contexto, o empregador terá a ideia de perder apenas 30 dias em termos de
produtividade no trabalho, mas o que ele não sabe é que a depressão pode causar uma
perda de produtividade no dia-a-dia que pode variar de 40 a 60% (é o presenteísmo), não
calculado, não medido, subestimado. Se o Sr. João fosse um vendedor, estaria perdendo
cerca de 40 a 60% de possíveis vendas por dia, sem o empregador ter a mínima noção
destas perdas. Costuma-se comparar que as perdas de produtividade por absenteísmo
sejam apenas a ponta do iceberg. Abaixo da superfície estaria um imenso bloco de gelo,
representado pelo presenteísmo.

As empresas teriam todos os motivos para investir em programas de saúde e qualidade de


vida, mas não o fazem. Muitas até pagam planos de saúde, de forma integral para seus
trabalhadores, atuando apenas de forma curativa, não preventiva. Isto não resolve o
problema, trata-se apenas de uma medida paliativa. Raras são as empresas que acordaram
para este problema.

É fundamental que elas sejam capazes de perceber que ao tomarem a decisão de priorizar
a eficácia em detrimento da saúde, podem causar desequilíbrios na relação saúde e
produtividade que, muitas vezes, só serão percebidos em longo prazo após o aumento

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significativo do número de afastamentos, com a queda da qualidade dos produtos ou mesmo
a redução da produtividade. Todos saem ganhando, o Estado, as empresas, os
trabalhadores e a sociedade.

A Empresa

 Aumento da produtividade;

 Redução de despesas com doenças;

 Alinhamento da equipe com os objetivos da empresa;

 Engajamento e motivação da equipe nos projetos da empresa;

 Imagem corporativa associada à qualidade de vida e responsabilidade social;

 Produtos e serviços alinhados com as tendências dos consumidores, cada vez mais
preocupados com saúde e bem estar.

Os trabalhadores

 Prevenção e otimização no tratamento de doenças crônicas;

 Redução de faltas, afastamentos e acidentes de trabalho;

 Melhora do rendimento com redução do presenteísmo (observação: apenas se as


empresas repassarem aos trabalhadores);

 Redução do estresse e melhora da qualidade de vida;

 Melhora do relacionamento com a empresa;

 Aumento do prazer e redução do sofrimento pelo trabalho;

 Retenção de talentos e redução do “turnover” de pessoal.

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Dica 17

O Ministério do Trabalho e Emprego possui um banco de dados com vários artigos


relacionados com o campo da Saúde do Trabalhador. Acesse:

http://www.fenop.com.br/segtrabalho.html

Fórum 3: Os conhecimentos da Ergonomia e da Saúde do Trabalhador podem contribuir


para que os objetivos materiais da produção e a racionalidade em relação à saúde sejam
igualmente alcançados. Entretanto, a realidade atual vem mostrando que o equilíbrio entre
saúde e produtividade depende de uma série de interesses econômicos, sociais, culturais e
políticos.

1. É possível melhorar as condições de saúde do trabalhador em um contexto de


trabalho cada dia mais precário e flexível?

2. Como pensar em saúde do trabalhador em ambientes de trabalho em domicílio ou em


cooperativas?

3. O que pode ser feito para melhorar as condições de trabalho dos trabalhadores
informais (lembre-se que parte dos informais são subcontratados por empresas).

4. Como manter o equilíbrio saúde e produtividade se para o capital a saúde do


trabalhador é vista apenas como a saúde suficiente?

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ATIVIDADE DE TRABALHO

Pesquisa Bibliográfica

Escolha um ramo produtivo (exemplo, construção civil, metalurgia, transportes, etc) ou uma
atividade de trabalho (exemplo, operador de telemarkting, professor, médico, motorista, etc) e
faça uma pesquisa bibliográfica, procurando categorizar as principais questões sobre a
saúde dos trabalhadores do setor ou da atividade produtiva proposta.

A pesquisa deverá contemplar todos os tópicos a seguir:

I. Descrição do ramo ou atividade.

II. Levantamento dos principais riscos presentes no ramo ou na atividade escolhida.

III. Exposição das principais doenças ocupacionais do setor ou da atividade.

IV. Estatísticas atuais sobre acidente de trabalho do setor ou da atividade.

V. Pesquisas sobre prevenção ou promoção de saúde, realizadas no ramo ou na


atividade escolhida.

Você poderá pesquisar em livros, artigos, anuários estatísticos e jornais.

Aproveite a pesquisa e conheça mais sobre o assunto!

Bom estudo!

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Antes de iniciar sua Avaliação Online, é fundamental que você acesse sua SALA
DE AULA e faça a Atividade 3 no “link” ATIVIDADES.

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G LOSSÁRIO

ATIVIDADE

Refere-se ao processo de encadeamento dos comportamentos reais dos operadores no local


de trabalho, tanto do ponto de vista físico (gestos, posturas) como mentais (raciocínio,
verbalização). Em ergonomia a atividade se opõe à tarefa.

ABSENTEÍSMO

Ausência dos trabalhadores no processo de trabalho por falta ou atraso devido a algum
motivo interveniente.

ASSÉDIO MORAL

Assédio moral é a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e


constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de
suas funções.

ASPECTOS ORGANIZACIONAIS

Compreendem o modo como as tarefas envolvidas em determinados processos de trabalho


estão divididas entre os trabalhadores; os tempos, os ritmos, a duração das jornadas em que
se realizam as tarefas; a remuneração pelo trabalho (salário) e a estrutura hierárquica
(relações verticais e horizontais) no trabalho. Na organização do trabalho incluem-se as
condições físicas, químicas, térmicas e psicossociais das situações profissionais. Tal
definição é exigida pela Psicopatologia do Trabalho, pois as condições materiais e
psicossociais de trabalho (em que se incluem a pressão, a tensão, as injustiças) também
podem ser determinantes de sintomatologia psicopatológica. O ambiente profissional sem
condições de higiene é uma condição material de trabalho que afeta a dignidade dos
trabalhadores, determinando sentimentos de menos valia e tristeza. A investigação dos
diferentes aspectos da organização do trabalho é fundamental para a avaliação

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psicopatológica na anamnese ocupacional. A organização do trabalho tem sido apontada
como a dimensão do trabalho cujas características guardam relações de determinação mais
específicas com sofrimento psíquico e com o adoecimento mental relacionado ao trabalho.

AUTOMAÇÃO

Diz respeito à substituição ou apoio ao esforço mental do homem para a realização de uma
determinada série de operações, está relacionada, portanto, à realização de um conjunto de
operações sem interferência imediata do homem.

BUROUT

A Síndrome de Burnout é um termo psicológico que descreve o estado de exaustão


prolongada e diminuição de interesse, especialmente em relação ao trabalho.

CLT – CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO

Foi criada através do Decreto-Lei nº 5.452, de 1° de maio de 1943 e sancionada pelo então
presidente Getúlio Vargas, unificando toda legislação trabalhista então existente no Brasil.
Seu objetivo principal é a regulamentação das relações individuais e coletivas do trabalho,
nela previstas.

CADEIA SIMPÁTICA

A "cadeia" de nervo simpático é formada por um grupo de nervos localizado próximo às


costelas no tórax, muito próximos a coluna vertebral. Os ramos nervosos , que saem de um
espessamento de nervos chamados gânglios atingem a glândula e estimulam a sudorese. Há
um gânglio em cada nível vertebral da coluna e todos estes gânglios correm
longitudinalmente formando a "cadeia simpática." Os ramos do nervo simpático saem então
de cada um destes gânglios e vão agir sobre os vasos sanguíneos e glândulas de suor no
corpo.

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CATECOLAMINAS

São compostos químicos derivados do aminoácido tirosina. Algumas delas são aminas
biogénicas. As catecolaminas são solúveis em água, e 50% circulam no sangue ligadas à
proteínas plasmáticas. As catecolaminas mais abundantes são a adrenalina, noradrenalina e
dopamina. Como hormônios, são libertadas pela glândula supra-renal em situações de
stress, como stress psicológico ou hipoglicemia.

DERMATOSE

Qualquer afecção da pele.

DESGASTE

A noção de desgaste relaciona-se às cargas de trabalho, que são elementos do processo


ocupacional que interagem dinamicamente entre si e com o corpo do trabalhador, gerando
processos de adaptação que se traduzem em perda da capacidade corporal e psíquica,
potencial e/ou efetiva. Como exemplos de cargas de trabalho, existem a atenção
permanente, a supervisão com pressão, a consciência de periculosidade do trabalho, os
ritmos extenuantes, a desqualificação e parcialização do trabalho. Como efeito, existem o
desgaste caracterizado, ora por acidentes de trabalho com lesões corporais, ora tensão, a
depressão e a ansiedade permanente e seus equivalentes somáticos (neuroendócrinos e
psicofisiológicos).

DISFONIA

Alterações da função do aparelho fonatório.

DISTROFIA SIMPÁTICO REFLEXA

Um distúrbio doloroso complexo, que se apresenta com uma dor intensa e persistente, em
um dos braços. A dor é associada à queimação, disestesia, parestesia e hiperalgesia ao frio
e sinais clínicos de disfunção do sistema nervoso autonômo (cianose, edema, frio e alteração
de transpiração local).

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DOENÇA OCUPACIONAL

Doença contraída ou adquirida no exercício de uma ocupação ou atividade laboral.

DORT

Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. É um grupo heterogêneo de


distúrbios funcionais e/ou orgânicos. Induzidos por fadiga neuromuscular devido ao trabalho
realizado numa postura fixa (trabalho estático) ou com movimentos repetitivos,
principalmente dos membros superiores.

EFICÁCIA

Qualidade de uma ação que atingiu os objetivos.

EFICIÊNCIA

Qualidade de um procedimento que utiliza bem os recursos postos à sua disposição para
atingir determinados fins ou objetivos.

ENTIDADE NOSOLÓGICA

A entidade clínica, uma configuração de sintomas, torna-se uma entidade nosológica quando
uma quantidade suficiente de conhecimento é acumulada para explicar a configuração.

EPIDEMIOLOGIA

É uma ciência que estuda quantativamente a distribuição dos fenômenos de saúde/doença, e


seus fatores condicionantes e determinantes, nas populações humanas.

ERGONOMIA

Conjunto de conhecimentos científicos relativos ao homem e necessários para a concepção


de ferramentas, máquinas e dispositivos que possam ser utilizados com o máximo de
conforto, segurança e eficácia.

ERGONOMIA DA ATIVIDADE

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É a ergonomia de origem francesa, baseada na atividade do trabalhador. Realiza a análise
gestual ao contrário do estudo do movimento muscular.

ESTRESSE

Desadaptação do organismo tendo como consequências comportamentos doentios ou


inadequados, ou ainda distúrbios orgânicos (tensão, dores, palpitações, arritmias, problemas
sexuais, desordens mentais e emocionais, perturbações do sono, fraqueza, desmaios,
angústia, etc.).

FIBROMIALGIA

É uma síndrome dolorosa não-inflamatória, caracterizada por dores musculares difusas,


fadiga, cansaço e dor em pontos dolorosos específicos sob pressão (pontos no corpo com
sensibilidade aumentada ou tender-points.

FORDISMO

Dando prosseguimento à teoria de Taylor, Henry Ford (1863-1947), dono de uma indústria
automobilística (pioneiro), desenvolveu seu procedimento industrial baseado na linha de
montagem para gerar uma grande produção que deveria ser consumida em massa. Os
países desenvolvidos aderiram totalmente, ou parcialmente, a esse método produtivo
industrial, que foi extremamente importante para consolidação da supremacia norte-
americana no século XX.

GLOBALIZAÇÃO

É um dos processos de aprofundamento da integração econômica, social, cultural, política,


com o barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final
do século XX e início do século XXI. É um fenômeno gerado pela necessidade da dinâmica
do capitalismo de formar uma aldeia global que permita maiores mercados para os países
centrais (ditos desenvolvidos) cujos mercados internos já estão saturados. O processo de
Globalização diz respeito à forma como os países interagem e aproximam pessoas, ou seja,
interliga o mundo, levando em consideração aspectos econômicos, sociais, culturais e

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políticos. Com isso, gerando a fase da expansão capitalista, onde é possível realizar
transações financeiras, expandir seu negócio até então restrito ao seu mercado de atuação
para mercados distantes e emergentes, sem necessariamente um investimento alto de
capital financeiro, pois a comunicação no mundo globalizado permite tal expansão, porém,
obtém-se como conseqüência o aumento acirrado da concorrência.

HÉRNIA DE DISCO

É a projeção da parte central do disco intervertebral (o núcleo pulposo) para além de seus
limites normais (a parte externa do disco, o ânulo fibroso). Ocorre geralmente póstero-
lateralmente, em virtude da falta de ligamentos que sustentem o disco nessa região.

INDÚSTRIA

É toda atividade humana que, através do trabalho, transforma matéria-prima em outros


produtos, que em seguida podem ser, ou não, comercializados. De acordo com a tecnologia
empregada na produção e a quantidade de capital necessária, a atividade industrial pode ser
artesanal, manufatureira ou fabril.

INOVAÇÃO

Significa novidade ou renovação. A palavra é derivada dos termos latins novus (novo) e
innovatio (algo criado novo) e se refere a uma ideia, método ou objeto que é criado e que
pouco se parece com padrões anteriores. Hoje, a palavra inovação é mais usada no contexto
de ideias e invenções assim como a exploração econômica relacionada, sendo que inovação
é invenção que chega ao mercado.

INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

É um termo usado para diferenciar inovações. A inovação tecnológica abrange os tipos


inovação de processo e inovação de produto.

LER

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Lesão por esforço repetitivo. Representa uma síndrome de dor nos membros superiores,
com queixa de grande incapacidade funcional, causada primariamente pelo próprio uso das
extremidades superiores em tarefas que envolvem movimentos repetitivos ou posturas
forçadas.

LOMBALGIA

É o nome que se dá ao que é conhecida como dor nas costas na região lombar.

NEOLIBERALISMO

É um termo que foi usado em duas épocas diferentes com dois significados semelhantes,
porém distintos: Na primeira metade do século XX, significou a doutrina proposta por
economistas franceses, alemães e norte-americanos voltada para a adaptação dos princípios
do liberalismo clássico às exigências de um Estado regulador e assistencialista; A partir da
década de 1970, passou a significar a doutrina econômica que defende a absoluta liberdade
de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia, só devendo esta ocorrer
em setores imprescindíveis e ainda assim num grau mínimo (minarquia). É nesse segundo
sentido que o termo é mais usado hoje em dia.

ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

De forma geral, diz respeito ao conjunto formado pelo arranjo físico e tipo dos equipamentos,
pelos fluxos de materiais e pela organização do trabalho que compõem um sistema de
produção.

ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Diz respeito aos métodos, conteúdos do trabalho e relações entre os ocupantes de cargos
em um determinado sistema de produção.

ÓRGÃO DE CORTI

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Localizado no ouvido interno. É a parte integrante do sistema auditivo. Apresenta em sua
superfície células sensitivas que reagem a sons provocando vibrações de fibras nervosas e
enviando ao cérebro um impulso de determinada frequência.

PAIR

Perda Auditiva Induzida por Ruído.

PNEUMOCONIOSE

Pneumopatias (doenças pulmonares) relacionadas à inalação de poeiras em ambientes de


trabalho.

POSTO DE TRABALHO

Os trabalhadores são uniformemente dispostos lado a lado, a cada trecho por onde passa o
objeto de trabalho trazido pelo mecanismo de transferência, e nos quais já estão presentes,
na forma de pequenos estoques e com mecanismos que permitam seu mais fácil acesso aos
trabalhadores, os instrumentos, as ferramentas e as matérias-primas que serão utilizadas por
eles na tarefa estritamente determinada que tenham para cumprir. Esses postos de trabalho
são geralmente numerosos, ocupados por um trabalhador cada e ordenados de forma linear
e, sendo mínima a intervenção de cada um na produção como um todo.

QUALIFICAÇÃO

É a preparação do indivíduo através de uma formação profissional ou técnica para que ele ou
ela possa aprimorar suas habilidades para executar funções específicas demandadas pelo
mercado de trabalho.

SOFRIMENTO PSÍQUICO

Ideia muito utilizada em estudos de Psicopatologia do Trabalho, especialmente na França e


no Brasil; refere-se aos sentimentos de angústia relacionados a situações de trabalho;
introduz a dimensão do inconsciente na análise das vivências do trabalho pelos profissionais,
importante para a análise da dinâmica da satisfação e da insatisfação ocupacionais, presente

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na origem de sintomas psíquicos relacionados ao trabalho. Dois fatores relevantes para a
origem da sintomatologia psíquica em trabalhadores são a perda do sentido subjetivo do
trabalho e a falta de reconhecimento social pelo trabalho que realizam.

SILICOSE

A silicose é uma forma de pneumoconiose causada pela inalação de finas partículas de sílica
cristalina e caracterizada por inflamação e cicatrização em forma de lesões nodulares nos
lóbulos superiores do pulmão.

TAYLORISMO

O Taylorismo é uma teoria criada pelo engenheiro Americano Frederick W. Taylor (1856-
1915) que a desenvolveu a partir da observação dos trabalhadores nas indústrias. O
engenheiro constatou que os trabalhadores deveriam ser organizados de forma
hierarquizada e sistematizada, ou seja, cada trabalhador desenvolveria uma atividade
específica no sistema produtivo da indústria (especialização do trabalho). No taylorismo, o
trabalhador é monitorado segundo o tempo de produção, cada indivíduo deve cumprir sua
tarefa no menor tempo possível, sendo premiados aqueles que se sobressaem, isso provoca
a exploração do proletário que tem que se “desdobrar” para cumprir o tempo cronometrado.

TECNOLOGIA

Conjunto de conhecimentos registrados e disponíveis para a fabricação de determinado


produto. Resumidamente, as diversas formas de se fabricar uma coisa ou prestar um serviço.
Não se relaciona somente aos equipamentos, mas aos métodos de trabalho e
gerenciamento.

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B IBLIOGRAFIA

ARAÚJO, S.A. Perda auditiva induzida pelo ruído em trabalhadores de metalúrgica. Rev Bras
Otorrinolaringol. v.68, n.1, 47-52, jan./fev. 2002

ASSUNÇÃO, AA; LIMA, FPA. A contribuição da ergonomia para a identificação, redução e


eliminação da nocividade do trabalho, pp. 1.767-1.789. In RMendes (org.). Patologia do
trabalho. Editora Atheneu, São Paulo. Belo Horizonte, 2003, 53pp.

BARRETO, MARGARIDA MARIA SILVEIRA. Violência, saúde, trabalho: uma jornada de


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