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PGR-00267493/2021

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL


PROCURADORIA GERAL DA REPÚBLICA
SECRETARIA DE PERÍCIA, PESQUISA E ANÁLISE
CENTRO NACIONAL DE PERÍCIA

PARECER PERICIAL N.º 764 - CNP/SPPEA/ANPA

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REFERÊNCIA 1.00.000.012494/2017-76

UNIDADE SOLICITANTE 6.ª Câmara de Coordenação e Revisão

AUTORIDADE REQUERENTE Ricardo Pael Ardenghi

Grupo de Trabalho Gestão Territorial e Autossustentabilidade da


EMENTA 6.ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público

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Federal.
TEMÁTICA Povos indígenas, relações interétnicas, geração de renda,
acesso e interações com o mercado.
SOLICITAÇÃO DE PERÍCIA 1905/2021

1 INTRODUÇÃO

As relações interétnicas entre povos indígenas e agentes econômicos não indígenas são
importantes pilares na atuação da 6.a Câmara de Coordenação e Revisão (CCR) do
Ministério Público Federal (MPF). Motiva o fato de essas relações, não raramente,
resultarem em violações dos direitos humanos e coletivos desses povos. A compreensão
dessas relações é especialmente importante para instruir a atuação do Grupo de Trabalho
Gestão Territorial e Autossustentabilidade (GTA) da 6.ª CCR. Com tal intuito, o
coordenador desse GT, Dr. Ricardo Pael, solicitou um parecer pericial1 com vistas à
análise dessas relações.
Como informado na solicitação, os povos indígenas estão vulneráveis diante das
pressões econômicas externas que sofrem sobre seus territórios e sociedades, e ainda, em
1
Atendido inicialmente pelo Parecer Pericial N. 368 - CNP/SPPEA (Solicitação de Perícia n. 2467/2020),
aqui complementado por meio da presente solicitação de perícia de n.1905/2021.
2 Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Quadro_Geral_dos_Povos. Acesso em: 18 fev. 2021.
PGR – Anexo III – SAS Quadra 3 Bloco J – CEP 70.070-925 – Brasília-DF
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grande medida, não estão suficientemente instrumentalizados para interagirem com esses

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agentes econômicos. Resulta, portanto, oportuno e necessário, o exame desse contexto de
modo a subsidiar a atuação do MPF para que possa interagir criticamente com as políticas
públicas relacionadas ao assunto, objetivando garantir e promover os direitos desses povos.
A solicitação de perícia indica um roteiro que passa pelo exame de casos concretos,
como a lavoura mecanizada dos Paresi (MT), a produção de café pelos Suruí (RO), a

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mineração pelos Munduruku (PA) e a exploração de madeira pelos Nambiquara (MT), para
produzir uma análise crítica das economias indígenas, dos processos de transformação, dos
desafios e das oportunidades para o futuro. Considerando as ofertas de apoio estatal às
atividades, tais como Embrapa, Empaer e FAO.
Em comum acordo com o coordenador do GTA, Dr. Ricardo Pael, com vistas a
efetivar o diálogo com os membros do GT sobre a temática abordada nesta perícia,
metodologicamente desenvolveremos o trabalho em dois momentos: em um primeiro
faremos uma abordagem ampla de caráter mais conceitual, para subsidiar um debate prévio
com os membros do GT; em um segundo momento, quando a situação sanitária estiver
sob controle, trataremos dos casos concretos agregando dados primários levantados em
campo, dados econômicos atualizados e a contribuição de outros peritos, como feito no
exitoso trabalho pericial realizado em torno da avaliação das medidas emergenciais
relacionadas à pandemia do novo coronavírus e aos povos indígenas e comunidades
tradicionais.
Desse modo, este texto diz respeito ao primeiro momento: fazer uma abordagem
conceitual mais ampla com vistas ao diálogo com os membros do GT da 6.a CCR.
Priorizamos tratar aqui os conceitos de economias indígenas, o
desenvolvimento/etnodesenvolvimento e a descrição sumária de algumas formas de
geração de renda indígena hoje praticadas no Brasil. Tais escolhas visam favorecer uma
primeira aproximação dessa temática, sem pretender esgotá-la. Pretende-se oferecer

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subsídios para o diálogo em torno da definição de alguns parâmetros úteis na abordagem

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das temáticas da gestão territorial e da autosustentabilidade.

2 ECONOMIAS INDÍGENAS

Há que se falar em economias indígenas, dado a grande pluraridade sociocultural dos

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povos indígenas no Brasil que – com mais de duas centenas e meia de povos, 256
segundo o Instituto Socioambiental2 – constitui diferentes formas de organização
socioeconômica3. Dentro dessa diversidade encontramos também unidade. Uma
característica recorrente na organização social das sociedades indígenas é a integração
de diferentes aspectos da vida social em um todo orgânico, em que diferentes atividades
vinculadas a esses aspectos, tais como política, economia, arte, religião, trabalho,
educação, saúde, família, recreação e subsistência, por exemplo, tramam um único
tecido cotidiano sem fronteiras e compartimentos estanques.
Não se observa nas economias indígenas o distanciamento das atividades
econômicas da vida social, como um “departamento autônomo”, fenômeno observado
desde o início da acumulação de riquezas nas sociedades ocidentais, que foi
sistematicamente organizada a partir do século 19 com o advento das corporações,
quando os resultados das atividades econômicas passaram a ser um fim em si mesmo4,
desvinculados de motivações éticas associadas às necessidades humanas fundamentais
para a preservação da própria espécie e sua reprodução física e cultural.

2 Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Quadro_Geral_dos_Povos. Acesso em: 18 fev. 2021.


3
SCHRÖDER, Peter. Economia indígena: situação atual e problemas relacionados a projetos indígenas
de comercialização na Amazônia Legal. Recife: Editora Universitária UFPE, 2003.
4
Exemplo da discussão atual, no contexto da pandemia, sobre a quebra de patentes das vacinas contra
o Covid-19, que estão protegidas pela lei de patentes, cuja finalidade é preservar o lucro das empresas
farmacêuticas, que em grande parte usaram recursos públicos para desenvolver essas vacinas, em
detrimento do interesse social em preservar a vida e a saúde da população nos países periféricos.
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Agrega-se a esses fatores constitutivos de ordem sociocultural, outros de ordem

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histórica, decorrente do estabelecimento de relações interétnicas diferenciadas dos
povos indígenas entre si e com a sociedade nacional nos diversos contextos regionais e
locais. As especificidades geradas nesses contextos tiveram e ainda têm repercurssões
sobre as condições de vida das populações indígenas, como na atual configuração de
diferentes perfis territoriais que, por sua vez, caracterizam oportunidades econômicas

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distintas entre esses povos.
Tem povos que desfrutam de territórios extensos, contínuos e preservados
ambientalmente, na sua grande maioria localizados na Amazônia (60% da população
indígena do país com 98% da extensão das terras indígenas reconhecidas), os quais
podem reproduzir formas tradicionais e neotradicionais de ocupação, e povos que vivem
em situação de confinamento e/ou descontinuidade territorial, em terras ambientalmente
degradadas, predominantemente localizadas fora da Amazônia Legal (40% da
população indígena com 2% das terras reconhecidas), o que os obriga à exploração
intensiva dos recursos naturais e à venda da força de trabalho4. Acrescente-se um
terceiro perfil, formado pelas populações indígenas que vivem em cidades e que são
pouco conhecidas no geral, e em particular quanto à renda que produzem e as relações
que mantêm com suas comunidades de origem.
Outro aspecto a se destacar, é que após mais de cinco séculos de contato
interétnico e um intenso processo de colonização, dificilmente encontre-se uma
economia indígena “pura” ou isolada, que não tenha estabelecido trocas econômicas
com representantes de outras sociedades indígenas ou não indígenas. A colonização
portuguesa e espanhola intensificou aqui em Pindorama o processo de transformação
das economias nativas, objeto de análise desta perícia. Além do que, as relações

4 RICARDO, Carlos Alberto. Notas sobre economia indígena e mercado no Brasil. 2. ed. São Paulo:
Instituto Socioambiental, 2002, p. 6.
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econômicas trazem em si a força propulsora das trocas interculturais, e isso não é

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diferente entre os povos indígenas.
A geógrafa Bertha Becker observou que “[…] a Amazônia, o Brasil, e os demais
países latino-americanos são as mais antigas periferias do sistema mundial capitalista”5.
Explica que seu povoamento e desenvolvimento foram fundados segundo o denominado
por Kenneth Boulding, paradigma da economia de fronteira, no qual o crescimento

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econômico é visto como linear, infinito e com base na contínua incorporação de terra e
de recursos naturais, também percebidos como infinitos. O velho e contemporâneo
projeto das feitorias coloniais produtoras e exportadoras de commodities, que resultou
em importantes perdas territoriais e ambientais para os povos indígenas, obriga-os a se
adaptarem a novas condições de sobrevivência.
A maioria dos povos indígenas necessita hoje acessar o mercado e suas
mercadorias para sobreviverem, e/ou assim o desejam dentro da dinâmica própria das
trocas interculturais que estabelecem com a sociedade envolvente. Necessitam, portanto,
gerar renda e acessar o meio circulante para as trocas. Desse modo, estão expostos, nos
contextos em que estão inseridos, às atividades econômicas predominantes no entorno
de seus territórios e àquelas impostas pela expansão da economia de fronteira sobre eles.
O resultante desses fatores é que hoje as economias indígenas são
predominantemente mistas, ou seja, compostas por práticas econômicas tradicionais
baseadas nas especificidades socioculturais dos povos indígenas, com práticas
econômicas da sociedade envolvente relacionadas à economia de mercado vinculada ao
sistema capitalista global. Essas economias mistas são caracterizadas por uma mistura
de atividades voltadas à subsistência para autoconsumo, com atividades relacionadas
para a geração de renda e/ou excedentes com vistas ao estabelecimento de trocas e a
aquisição de mercadorias, que serão incorporadas segundo parâmetros socioculturais
5
BECKER, Bertha K. Geopolítica da Amazonia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 19 n. 53, p. 72, 2005.

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próprios. O grau ou a proporção da contribuição de uma e outra matriz econômica na

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composição das economias indígenas varia segundo o contexto local e regional onde um
determinado povo indígena está inserido e às suas especificidades socioculturais.

2.1 Práticas econômicas não indígenas e práticas econômicas tradicionais indígenas

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2.1.1 Práticas econômicas não indígenas

As atividades relacionadas a práticas econômicas não indígenas são facilmente


identificadas naquelas próprias das sociedades nacionais integradas aos mercados local,
regional e global. A título de exemplo, temos aquelas atividades voltadas para a geração
de renda que vão desde a produção de commodities associadas à exploração de recursos
naturais, tais como os florestais (madeira, borracha, palmitos, castanhas, drogas do
sertão etc.), minerais e animais, até o uso da terra propriamente dita para a produção do
agronegócio.
Tem também a renda gerada por atividades não produtivas, acessada por meio de
políticas públicas (aposentadorias, programas de distribuição de renda, indenizações
compensatórias por impactos socioambientais causados por grandes empreendimentos
etc.), e a renda decorrente do assalariamento obtido em empregos públicos, como
prestadores de serviços para as próprias comunidades, ou no mercado de trabalho
formal e informal.
O mercado de projetos acessado por meio das organizações indígenas em
parcerias com organizações da sociedade civil movimenta recursos para as chamadas
atividades produtivas com viés de sustentabilidade socioambiental. Tais projetos
abarcam uma grande variedade de produtos da sociobiodiversidade que são
comercializados nos mercados nacionais e até internacional.

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As populações indígenas nas cidades geram renda de diferentes formas, renda

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que integra as economias comunitárias e que constitui fenômeno ainda muito pouco
conhecido. Esses são alguns exemplos de atividades relacionadas à economia da
sociedade envolvente e que compõem hoje as economias indígenas no Brasil.

2.1.2 Práticas econômicas tradicionais indígenas

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Nas ciências econômicas as práticas tradicionais indígenas se aproximariam dos
conceitos de economia natural e de economia de subsistência. O primeiro conceito, que
sugere uma proximidade entre sociedade e natureza, é caracterizado por uma
organização econômica em que os bens produzidos se destinam à satisfação das
necessidades dos próprios produtores, uma economia de autossuficiência que raramente
gera excedente. Já a economia de subsistência gera um excedente destinado ao mercado
local, o que a dota de um caráter mercantil. A economia de subsistência é identificada
como tendo sido a principal atividade da economia medieval, sobretudo a partir do
século XI com a ampliação das relações de troca nos mercados locais e feiras. Na
atualidade está ligada às pequenas propriedades agrícolas e às unidades de produção
familiar6.
A noção de economia de subsistência tem como pressuposto teórico um homem
“primitivo”, subordinado à sua condição animal e biológica, incapaz de usar
eficazmente seu meio ambiente e relacionar sua produção econômica à sua reprodução
cultural. Tal pressuposto é falso, na medida em que as economias indígenas não se
limitam apenas à reprodução física de seus membros, pois produzem o suficiente para o
funcionamento de suas estruturas socioculturais e metafísicas, tais como prestígio,
parentesco, reciprocidade, arte e espiritualidade.
O conceito de subsistência não considera a importância dos aspectos
6
SANDRONI, Paulo. Novíssimo dicionário de economia. São Paulo: Editora Best Seller, 1999.
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socioculturais relacionados à organização econômica, segundo uma visão eurocêntrica

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sugere a fixação das economias indígenas a um passado supostamente superado por
uma evolução civilizatória. Se por um lado esses aspectos tornam esse conceito das
ciências econômicas insuficiente para caracterizar as práticas econômicas tradicionais
indígenas, por outro auxilia a caracterizar seus aspectos produtivos nos âmbitos
doméstico e familiar.

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A Conferência Circumpolar do povo Inuit, no Canadá, ampliou a definição de
economia de subsistência incluindo os aspectos socioculturais:

[…] uma noção altamente complexa que inclui aspectos econômicos,


sociais e culturais, com dimensões estruturais e
espirituais. Subsistência significa muito mais do que mera
sobrevivência ou padrões mínimos de vida. Enriquece e sustenta as
comunidades Inuit promovendo coesão e pertencimento. Estabelece
uma ligação essencial para a comunicação com o mundo natural, do
qual os Inuit são parte integral7 (KUOKKANEN, 2011, tradução
nossa).

É de se notar que as economias tradicionais indígenas vão muito além das


práticas necessárias para o autossustento associadas à obtenção de alimentos. Estão
intrinsicamente ligadas à construção de sentidos e significados coletivos, como dito
pelos Inuit, geradores de coesão social e identidade coletiva por meio do
estabelecimento de relações de ordem material e espiritual que incluem o
relacionamento com agentes não humanos. Essa rede de relações compõe a organização
social das sociedades tribais, seus respectivos calendários comunitários festivos e
ritualísticos, gerando oportunidades de convivência, exteriorização de prestígio,
solidariedade, reciprocidade e transmissão de conhecimentos.

7
KUOKKANEN, Rauna. Indigenous Economies, Theories of Subsistence, and Women: exploring the
Social Economy Model for Indigenous Governance. Nebraska: University of Nebraska Press, 2011. 219
p.
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Os dois pactos da Organização das Nações Unidas (ONU) – Pacto de Direitos

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Civis e Políticos e o Pacto sobre Direitos Sociais, Econômicos e Culturais – que formam
a estrutura internacional de direitos humanos, reconhecem o direito de todos povos aos
seus próprios meios de subsistência. A ONU adotou no ano de 2007 a Declaração Sobre
os Direitos dos Povos Indígenas e reconheceu-lhes o direito aos seus sistemas
econômicos tradicionais, bem como o direito de participar plenamente, se o desejam,

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na vida política, econômica, social e cultural do Estado e a dedicar-se livremente a
todas as suas atividades econômicas tradicionais e de outro tipo8.
Soaria estranho que tais direitos fossem declarados para sociedades majoritárias,
que comportam dentro de suas organizações sociais diferentes modalidades de
atividades econômicas consideradas ou não tradicionais, sem que isso implicasse em
qualquer dúvida sobre sua autodeterminação e legimitadade de suas identidades
nacionais ou étnicas. Para os povos e sociedades minoritários, tal direito, em princípio
óbvio, requer reconhecimento de modo a preservar suas identidades étnicas e afirmar
sua autodeterminação, independentemente das escolhas e práticas econômicas adotadas.
A declaração da ONU nada mais fez do que reconhecer a realidade social dos
povos indígenas em diferentes partes do globo, em que práticas econômicas tradicionais
coexistem com práticas econômicas não tribais. Tal coexistência, como dito, resulta de
relações interétnicas muito antigas, vide o caso brasileiro em que mercadorias como
espelhos, miçangas, machados e facões foram usadas como técnica de “atração” nos
primeiros contatos com os povos indígenas, e são inerentes ao processo histórico em
que os povos nativos estão inseridos, principalmente onde ocorrereu o fenômeno do
colonialismo.
Chamamos aqui de práticas econômicas tradicionais indígenas aquelas em que
há a predominância dos seguintes elementos: participantes indígenas; agricultura de

8
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Declaração das Nações Unidas sobre os direitos
dos povos indígenas. Rio de Janeiro: ONU, 2008.
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coivara; caça, pesca e coleta; unidade de produção e consumo no âmbito doméstico e da

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família extensa; trocas não monetarizadas; autoconsumo sobre o comércio; ausência ou
o baixo perfil organizativo de instituições formais de produção e distribuição; pouca
especialização nos processos produtivos; simplicidade na divisão do trabalho,
estabelecido frequentemente pela divisão sexual; conhecimento coletivo e
compartilhado das práticas produtivas; produção multitarefas; circulação de produtos

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restrita aos níveis local e interlocal; integração com aspectos não exclusivamente
econômicos, tais como cultural, ecológico, espiritural e ritual9. Importa notar que essas
atividades podem gerar excedentes destinados para a troca e a venda.
Segundo diagnóstico de Pozzobon10, direcionado a essas atividades tradicionais,
em um conjunto de 56 povos indígenas da Amazônia a atividade mais praticada é a
agricultura11, com 44 povos, o que corresponde a 78,6%. A caça e a coleta vêm em
segundo para 30 povos e a pesca em terceiro para 25 povos. Constatando que provém da
coleta a maior parte do autossustento indígena, de 50 a 75%, o que demonstra uma
estreita relação dessa modalidade econômica com a disponibilidade de recursos
naturais.
Vale destacar que para a maioria desses povos, 54 ou 96,4% deles, essas
atividades são praticadas simultaneamente com diferentes ênfases, e a elas ainda estão
associadas outras menos predominantes, tais como a apicultura, a fruticultura e a
entomofagia – coleta de insetos comestíveis. Lembramos aqui que no contexto de

9
SCHRÖDER, Peter. Economia indígena: situação atual e problemas relacionados a projetos indígenas
de comercialização na Amazônia Legal. Recife: Editora Universitária UFPE, 2003. p. 19-20.
10
Ibid., p. 29.
11
Cultivos mais frequentes na agricultura indígena na Amazônia, do mais ao menos frequente: mandioca
(brava), macaxeira (mansa), tubérculos diversos, milho e banana. As roças indígenas são policulturais,
em média são cultivados 3,3 desses mais frequentes sem considerar abacaxi, amendoim, algodão,
fumo, pimenta e outros. Entre os Guajajara, o tamanho médio da roça para uma família de 4,3 pessoas
é de 1,25 a 3,5ha. A divisão do trabalho mais comum nas roças é: os homens brocam e queimam e as
mulheres plantam e colhem.
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economias mistas outras atividades econômicas não tradicionais também podem ocorrer

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simultaneamente à realização dessas.
Para os Nambiquara, as horas diárias dedicadas às atividades econômicas antes
relacionadas é entre 2,4h a 4,4h12, portanto algo em torno de 28% do período diurno,
contrastando com o tempo médio dedicado na sociedade brasileira para as atividades de
trabalho relacionadas ao sustento, em média de 8 a 10h diárias incluindo os

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deslocamentos, ou aproximadamente 75% do período diurno. O esforço médio do não
indígena no Brasil para contemplar suas necessidades básicas de sobrevivência dispende
mais do que o dobro do tempo.
Como vimos, novas necessidades foram introduzidas em decorrência do contato
interétnico e das perdas territoriais e ambientais, aumentando a pressão sobre as
sociedades indígenas para gerarem renda e acessarem o mercado que, por sua vez, se
reproduz gerando novas necessidades de consumo. Tal processo teve impactos sobre o
modo de vida índigena. Um dos aspectos afetados foi a perda crescente da
autossuficiência econômica para o atendimento das necessidades básicas de
sobrevivência e da correspondente perda da autodeterminação sobre o tempo de vida, o
qual na visão de mundo de muitos povos indígenas não deve ser consumido
excessivamente, ou exclusivamente, com o trabalho voltado à sobrevivência e menos
ainda ao que visa à acumulação de renda. Uma parcela importante do tempo deve ser
disponibilizada para outras atividades, com viés predominantemente imaterial, como a
convivência familiar, a participação nos rituais e festas, a educação dos filhos, o lazer, o
cuidado com a saúde, a observação e a contemplação da natureza, o repouso, a produção
criativa estética e/ou utilitária, entre outros. Tal visão se choca com a trazida pelo
europeu, na qual trabalhar além da necessidade era e é tido como virtude e a limitação

12
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do esforço como pecado. Essa ética do esforço pavimenta o caminho para se impor

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sobre a natureza, em contraposição com a integração aos seus fluxos.
O tempo de vida distribuído com equilíbrio entre os diversos aspectos da
experiência humana, como fazem os indígenas quando na força de suas culturas, é hoje
no mundo ocidental um dos fatores considerados na análise sobre qualidade de vida,
como brilhantemente o faz o ex-presidente do Uruguai, José Mujica, quando aborda o
princípio da sobriedade13.

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Pierre Clastres no seu clássico A sociedade contra o Estado fala dos contrastes e
estranhamentos entre a perspectiva econômica europeia trazida aos trópicos pelos
colonos, voltada para a produção de excedentes por meio de um enorme esforço laboral,
realizado na maior parte pelo trabalho escravo, com a perspectiva holística indígena, em
que o tempo dedicado ao que chamamos trabalho não apenas é suficiente para viabilizar
o necessário para a sobrevivência física como também dispor do tempo necessário para
a realização de diferentes interesses socioculturais e aspectos da existência. Analisa o
autor:

Se entendemos por técnica o conjunto dos processos de que se munem


os homens, não para assegurarem o domínio absoluto da natureza
(isso só vale para o nosso mundo e seu insano projeto cartesiano cujas
conseqüências ecológicas mal começamos a medir14), mas para
garantir um domínio do meio natural adaptado e relativo às suas
necessidades […] A verdadeira pergunta que se deve formular é a
seguinte: a economia dessas sociedades é realmente uma economia de
subsistência? Precisando o sentido das expressões: se por economia de
subsistência não nos contentamos em entender economia sem mercado
e sem excedentes – o que seria um simples truísmo, o puro registro da
diferença –, então com efeito se afirma que esse tipo de economia
permite à sociedade que ele funda tão-somente subsistir, afirma-se que
essa sociedade mobiliza permanentemente a totalidade de suas forças
primitivas para fornecer a seus membros o mínimo necessário à
subsistência. Existe aí um preconceito tenaz, curiosamente co-

13
Disponível em: https://youtu.be/FpfsXQKG8vY. Acesso em: 15 dez 2020.
14
Texto de 1974.
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extensivo à idéia contraditória e não menos corrente de que o


selvagem é preguiçoso. Se em nossa linguagem popular diz-se

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‘trabalhar como um negro’, na América do Sul, por outro lado, diz-se
‘vagabundo como um índio’. Então, das duas uma: ou o homem das
sociedades primitivas, americanas e outras, vive em economia de
subsistência e passa quase todo o tempo à procura de alimento, ou não
vive em economia de subsistência e pode, portanto, se proporcionar
lazeres prolongados fumando em sua rede. Isso chocou claramente os
primeiros observadores europeus dos índios do Brasil. Grande era sua
reprovação ao constatarem que latagões cheios de saúde preferiam se

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empetecar, como mulheres, de pinturas e plumas, em vez de regarem
com suor as suas áreas cultivadas. Tratava-se, portanto, de povos que
ignoravam deliberadamente que é preciso ganhar o pão com o suor do
próprio rosto. Isso era demais e não durou muito: rapidamente se
puseram os índios para trabalhar, e eles começaram a morrer. Dois
axiomas, com efeito, parecem guiar a marcha da civilização ocidental,
desde a sua aurora: o primeiro estabelece que a verdadeira sociedade
se desenvolve sob a sombra protetora do Estado; o segundo enuncia
um imperativo categórico: é necessário trabalhar. Os índios,
efetivamente, só dedicavam pouco tempo àquilo a que damos o nome
de trabalho. E apesar disso não morriam de fome. Os cronistas da
época são unânimes em descrever a bela aparência dos adultos, a boa
saúde das numerosas crianças, a abundância e variedade de recursos
alimentares15 (CLASTRES, 1988).

O estranhamento entre essas perspectivas se dá em razão da diferença entre seus


pressupostos.
A economia ocidental moderna se baseia no princípio da escassez, segundo o
qual a economia é a capacidade de alocar recursos escassos para satisfazer necessidades.
Nesse modelo, baseado nas mercadorias, as necessidades não podem ser saciadas, pelo
contrário, são ilimitadas. Novas necessidades são criadas freneticamente como
mecanismo interno de autorreprodução, o combustível que faz a roda do mercado girar.
O pressuposto de que os recursos são limitados em contraponto a necessidades
ilimitadas gera a expectativa de que a sobrevivência está em risco, acionando o

15
CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de antropologia política. Tradução Theo
Santiago. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988, p. 133-135.
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mecanimo competitivo que dá largada a uma corrida individual pela acumulação de

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bens16 e dos meios para produzí-los, necessários para abastecer as reservas que
garantem a sobrevivência. Só que a linha de chegada nessa corrida se afasta do corredor
à medida que os recursos vão se escasseando e as necessidades aumentando. Diante de
um futuro assim tão incerto, ameaçador e com condições psicológicas tão adversas, a
ânsia por levar o esforço laboral ao limite, os recursos à exaustão e a eliminação dos

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outros competidores se justificariam. Desse entropismo surgem a desigualdade social, a
exploração do trabalho e a devastação do recursos naturais.
Um dos pilares ideológicos desse pressuposto é a ideia neodarwinista da
sobrevivência dos mais aptos por meio da seleção natural. A transposição dessa teoria
da biologia para a sociedade ocidental se deu pela exaltação da competição, em que a
vida social do ancestral humano seria guiada pela lógica biológica de indivíduos lutando
para passarem seus genes adiante, “o gene egoísta” de Richard Dawkins, o que dá a esse
pressuposto um profundo significado individualista que, teoricamente, seria inerente à
luta pela sobrevivência. Em tempos de pandemia vemos o quão temerário é a
transposição de conceitos da biologia para o campo social sem a devida ponderação.
Infelizmente temos no Brasil um exemplo macabro: a adoção pelo governo brasileiro da
ideia da imunidade de rebanho espontânea, inspirada no neodarwinismo social. Segundo
essa perspectiva os mais aptos sobreviverão ao fim da pandemia, enquanto milhares de
vidas dos “menos aptos” estão sendo sacrificadas sem que as devidas medidas sanitárias
sejam adotadas.
Já o altruísmo e a cooperação não podem ser explicados pela lógica da seleção
natural, pois não tendem a preservar indivíduos que melhor conseguem maximizar seus
benefícios, mas beneficiar coletividades no todo, como constatado na surpreendente
resiliência dos sistemas colaborativos encontrados na natureza, por exemplo, entre

16
Como disse Karl Polany, jamais o ganho e o lucro tiveram tal centralidade na economia humana.
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espécies cooperativas como formigas e abelhas. Tal discussão é hoje, na biologia

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contemporânea, objeto de uma profunda revisão da teoria neodarwinista.
A colaboração se aproxima da organização social das sociedades indígenas, com
reflexos nos seus alicerces econômicos. As economias indígenas são baseadas no
pressuposto da abundância regulado por necessidades saciáveis. Segundo o antropólogo
Marshall Sahlins, as necessidades podem ser satisfeitas produzindo muito ou desejando

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pouco. A abundância é assegurada por uma economia baseada na reciprocidade e em um
contexto de necessidades ponderáveis. Nas economias indígenas a riqueza não está na
retenção cumulativa de bens, mas na circulação por meio da dádiva, da troca e do
compartilhamento17. Dessa forma, as relações sociais são baseadas em generosidade e
solidariedade, gerando condições para o acolhimento dos indíviduos no seio da
sociedade, fortalecer os vínculos sociais e manter a coesão social.
Nas sociedades indígenas a natureza não foi apartada pelo pólo da cultura, mas a
ele integrada. O princípio da abundância se estabelece pela convivência próxima com a
natureza e pela constatação empírica de que ela é a fonte da abundância, a principal
provedora da vida e das condições para que esta se realize. É na natureza que os
indíviduos e as sociedades se abastecem. Nesse sentido, se a cultura é capaz de fornecer
os meios para a compreensão das leis e do funcionamento da natureza, e desenvolver o
conhecimento necessário para nela buscar o sustento sem destruí-la, terá abundância. De
outro modo, se a cultura não produzir instrumentos para compreendê-la e respeitá-la, o
trabalho frenético e incansável estará fadado a produzir escassez.
Como vimos anteriomente, as economias tradicionais indígenas têm
organizações produtivas baseadas na autonomia. Produzem o que consumem
descentralizadamente. Seus bens circulam por meio da cooperação direta sem a
intermediação de grandes aparatos logísticos e mecanismos de precificação.

17
LOPES, Luiz Carlos de Oliveira. Imagens de escassez e abundância: o estilo da economia Mbya.
Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 9, n. 1, p. 264-302, 2015.
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Em resumo podemos dizer que esses diferentes pressupostos geram diferentes

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resultados. Enquanto o pressuposto da escassez leva a economia moderna à retenção da
riqueza – ao ponto de poder desperdiçá-la – para poucos e a escassez para muitos, o
pressuposto da abundância gera nas economias indígenas a circulação da riqueza entre
todos.

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2.2 Interações com o mercado e o pensamento xamãnico

Desde o início do contato interétnico, passando por práticas que se tornaram tradicionais
no Brasil contemporâneo, como as adotadas no sistema de aviamento, a interação entre
povos indígenas e mercado é baseada, predominantemente, em relações assimétricas, e
não raro, violentas. Nelas se observou a subordinação da mão de obra indígena,
inclusive por meio da escravidão, da subvalorização de conhecimentos e produtos, do
saque aos recursos naturais de seus territórios e de pronunciados desníveis no
conhecimento e manejo dos instrumentos do mercado, como preços e regulamentos, o
que gerou desequilíbrio em desfavor dos índios.
No século 20 a interação com o mercado foi mediada pelo estado via
indigenismo oficial. Segundo o antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira18, essa
mediação se deu pela adoção do regime de patronato, exercido pelo então Serviço de
Proteção aos Índios e seguido pela Funai, que caracterizou uma forma de colonialismo
interno. Os encarregados dos postos indígenas se estabeleciam como patrões nas terras e
os tratavam como empregados. As relações de patronagem adotadas no Brasil rural de
então foram introduzidas pelos encarregados do SPI, que em sua maioria eram
recrutados em regiões rurais próximas aos territórios indígenas. O mecanismo
econômico desse sistema passava pela adoção de uma genérica renda indígena nacional,

18Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/indigenismo-ou-colonialismo.


Acesso em: 1 mar. 2021.
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composta por um fundo constituído pelo resultado de tudo que as economias indígenas

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produziam, cuja distribuição era arbitrada pelo estado via sua organização indigenista.
Tal mecanismo rompia a autonomia indígena e se apropriava da renda produzida
localmente pelas sociedades indígenas, cuja destinação subsequente lhes era alheia.
São muitos os exemplos históricos de como a inserção no mercado, que foi
predominantemente compulsória dentro da experiência colonial e da sua herança

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comtemporânea, foram desfavoráreis para os povos indígenas. No entanto, tal viés não
nos autoriza afirmar que os povos indígenas foram vítimas inertes na relação interétnica
historicamente estabelecida com os agentes econômicos “brancos”. Pode-se constatar
também, que os índios foram sujeitos ativos que defenderam e continuam a negociar
seus interesses e, em muitos casos, trataram os brancos como idiots savants de quem se
pode subtrair objetos maravilhosos em troca de gestos de fachada” 19.
Bem antes do estabelecimento sistemático de relações econômicas mercantis, já
se observava o interesse indígena em acessar esses objetos maravilhosos que eram
obtidos de diferentes formas, por exemplo pelo escambo, pela pilhagem ou pela guerra.
Objetos que foram e são incorporados segundo parâmetros culturais próprios. O
mercado é hoje a via predominante de acesso às mercadorias, e a inserção no mesmo se
dá por meio de suas cosmologias, valores e organizações sociais próprios.
Posto que os indígenas são sujeitos nessa relação, é também verdade que há uma
assimetria de condições entre as partes envolvidadas e que a introdução de bens e
valores relacionados ao modo de produção mercantil têm gerado impactos sobre as
estruturas sociais nativas, entre os quais podemos citar a monetarização das relações
internas se sobrepondo às tradicionais relações de troca e reciprocidade; o consumo
abusivo de alimentos industrializados carregados de carboidratos, açúcares e sódio, com
efeitos deletérios sobre a saúde da população indígena, por causarem um exponencial

19
CALDEIRA, Jorge; SEKULA, Julia Marisa; SCHABIB, Luana. Brasil: paraíso restaurável. Rio de Janeiro:
Estação Brasil, 2020.
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aumento de diabetes, obesidade e hipertensão; a diminuição do tamanho das roças

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familiares, comprementendo a segurança alimentar; o abandono de técnicas tradicionais
de produção e manejo ambiental; e a interrupção das cadeias de transmissão dos
conhecimentos tradicionais.
As imagens produzidas pelo pensamento xamãnico auxiliam a iluminar os
desafios dessa interação com agentes econômicos não indígenas, no caso específico,

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típicos da economia de fronteira.
Na década de 1990 o líder xamã Davi Yanomami descreveu os garimpeiros –
que para os Yanomami representam os “brancos” – como “comedores de terra-floresta”
e portadores dos vírus mortais. São eles os sujeitos da destruição da floresta e da
vitimização, pela epidemia, dos seus anciões detentores do conhecimento xamãnico
capaz de equilibrar as forças da natureza e evitar a queda do céu que, para os
Yanomami, representa uma ameaça para toda a humanidade. Tal avidez predatória dos
garimpeiros, segundo Bruce Albert, propõe um enigma trágico para os Yanomami.
Enigma decifrado pelo líder xamã ao identificar a causa dessa tragédia na escuridão
confusa do pensamento plantado nas mercadorias.
Esse pensamento obscuro é, para Davi, gerador de um saber engenhoso e
predatório, destituidor de sentidos, reificante20, “[…] para quem a floresta não passa de
cenário inerte, ‘criado à toa’, diante do qual eles [garimpeiros] se comportam como
‘inimigos’”21.
A esse pensamento se contrapõe o saber lúcido dos pajés, o saber ver capaz de
transceder a aparência dos objetos e revelar o sentido espiritual da floresta, precondição
para que as leis da natureza sejam respeitadas ou, como diz a tradição religiosa indiana,
para que se cumpra o Dharma. Como mostra Yuval Noah Harari, as sociedades

20
Essa crítica corresponde à que foi feita por Adorno e Horkheimer à razão iluminista de Francis Bacon,
de que o entendimento que vence a superstição deve ser o amo da natureza desencantada.
21
ALBERT, Bruce. O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da
natureza. Brasília: DAN/UnB, 1995, p. 10-11 (Série Antropologia v. 174).
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contemporâneas vivem o dilema da dissociação entre o crescente poder, expresso na

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capacidade de fazer, com o saber usar essa capacidade, identificar o significado das
coisas, as leis da natureza e o respectivo sentido da ação. O conhecimento xamãnico
oferece pistas nessa direção.
A interpretação xamãnica revela o tipo de subjetividade subjacente à mercadoria,
constituída pelo processo social que a produz. Subjetividade produtora e consumidora

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de objetos descartáveis, vazios de significado que transcendam o valor material
reduzido ao preço atribuído pelo mercado, e os dotem de algum sentido humano e
espiritual. Valor este tão caro para as culturas indígenas, sensíveis ao mundo sagrado e
aos mistérios da natureza, que, à medida que são conhecidos, revelam o sentido oculto
das coisas invisíveis aos olhos materialistas.
Talvez esses sejam os pontos sensíveis de maior tensão nas relações econômicas
interétnicas entre os mundos branco e indígena, o atrito/contato entre subjetividades tão
distintas. Tais pontos levantam dúvidas se as subjetividades indígenas resistirão, e
sobreviverão, ao avanço da subjetividade reificante subjacente ao modo expansionista
de produção mercantil e suas relações.

3 DESENVOLVIMENTO E ETNODESENVOLVIMENTO
SEGUNDO STAVENHAGEN

O ideário europeu que acompanhou o processo de colonização das Américas difundiu a


visão eurocêntrica de mundo que no pós-guerra do século 20 se desdobrou na ideologia
do desenvolvimento22. Essa ideologia propôs, em especial para as ex-colônias
europeias, um programa social e econômico para suas sociedades que foi adotado quase
22
ESCOBAR, Arturo. Encountering development: the making and unmaking of the third world. Princeton:
University Press, 1995.
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à unanimidade pelas elites dirigentes dos países latino-americanos, resultando em

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diversas iniciativas socioeconômicas que tiveram impactos importantes sobre os povos
indígenas e as comunidades tradicionais nesses países.
Nas décadas de 1950-1970 o desenvolvimento correspondia a uma concepção
evolucionista, composta por estágios evolutivos sucessivos e lineares que não podiam
ser pulados23. O mundo foi então dividido entre países subdesenvolvidos, em

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desenvolvimento e desenvolvidos, segundo critérios fixados pela tecnocracia dos países
desenvolvidos coordenados por organismos multilaterais como a Organização das
Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial (BIRD). A nomenclatura subdesenvolvido
veio substituir a designação dos países antes chamados atrasados, bárbaros ou
primitivos. Para sair do atraso e alcançar os estágios superiores de desenvolvimento,
pressupôs-se a aplicação de programas desenvolvimentistas elaborados pela mesma
tecnocracia internacional baseada nos países do denominado primeiro mundo.
Na década de 1960 a ideia de desenvolvimento se confundia com a de
modernização, ou a implantação das transformações necessárias para se alcançar a
modernidade que corresponderia ao padrão civilizatório ocidental. O viés eurocêntrico
chegou ao ponto de nessa década se falar em “ocidentalização” dos países
subdesenvolvidos.
O fracasso desse programa foi constatado ao longo dessas décadas, quando em
vez de se observar uma melhoria nos indicadores socioeconômicos constatou-se o
aumentou da distância entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, com um
exponencial aumento da desigualdade social e da pobreza interna nos países
subdesenvolvidos. Passou-se então a reconhecer que o subdesenvolvimento não
decorria de disfunções socioculturais intrínsicas às sociedades desses países, mas de
relações econômicas assimétricas entre os países do centro e os da periferia do sistema

23
STAVENHAGEN, Rodolfo. Etnodesenvolvimento: uma dimensão ignorada no pensamento
desenvolvimentista. Anuário Antropológico, Brasília, v. 9, n. 1, p. 11-44, 1985.
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capitalista. A partir dessa crítica, feita pelas ciências sociais, a nomenclatura

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subdesenvolvido passou a significar ser dependente e explorado ou seja, a causa do
subdesenvolvimento deixou de ser atribuída exclusivamente a fatores internos de ordem
sociocultural, mas associada às relações econômicas entre as nações dentro do sistema
capitalista. Nem tudo foi atribuído às relações internacionais, fatores locais e nacionais
também foram identificados como tributários para a desigualdade entre os países24.

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Em termos geopolíticos, a plataforma desenvolvimentista desempenhou
importante papel do soft power dos países ocidentais no contexto da guerra fria, em
especial dos Estados Unidos sobre os países periféricos na economia capitalista, com o
objetivo de afastá-los da influência soviética e submetê-los à agenda de valores
ocidentais e aos seus interesses econômicos.
A atualização do ideário colonial no período do pós-guerra, associado ao afã em
impor uma pauta política e cultural, fez com que as culturas locais e nativas fossem a
princípio desconsideradas, ou apenas consideradas causa do próprio
subdesenvolvimento como resquícios de um passado primitivo e arcaico a ser superado.
Isso se consorciou ao receio de que o pertencimento étnico, então considerado
irracional, tradicional e conservador, ameaçasse as premissas do estado-nação, pilar da
organização das relações internacionais. Nações que, por sua vez, representariam a
consolidação do poder de uma classe e/ou grupo étnico dominante sobre um
determinado território, em que os demais grupos étnicos são considerados minorias que
costumam estar integradas em um sistema de estratificação social que assume a forma
de um colonialismo interno25.
Outro aspecto a ser considerado na perspectiva evolucionista embutida na
ideologia desenvolvimentista de matriz etnocêntrica, é que o desenvolvimento do
capitalismo e também do socialismo industrial pressupõem o desaparecimento do
24
Ibid., p. 18.
25
Ibid., p. 27-33.
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campesinato e de todo o diversificado conjunto de modos de produção semelhantes,

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hoje associados às denominadas comunidades tradicionais, cujas economias se baseiam
nas unidades domésticas. Exemplo disso foi a tentativa frustada, experimentada por
décadas, de importar modelos agrícolas dos países industrializados de clima temperado
para a implantação nos países tropicais ignorando os conhecimentos e a organização
social dos povos e comunidades tradicionais/camponeses desses países, já adaptados às

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condições tropicais. A economia capitalista pós-industrial desconsiderou a unidade
doméstica como de referencia para o planejamento, em que pese ser ela uma base
fundamental do sistema econômico, principalmente nos países periféricos, devido suas
funções sociais e culturais para a criação dos filhos, educação, segurança, solidariedade
e reprodução da força de trabalho26.
Os programas desenvolvimentistas se voltaram mais à integração ou assimilação
dessas sociedades tradicionais à economia de mercado do que propriamente para
melhorar a qualidade de vida de suas populações, a exemplo do que foi proposto na
Convenção Internacional do Trabalho (OIT n.o 107), de 1957, “sobre a proteção e
integração das populações indígenas, tribais ou semitribais de países independentes”. A
partir do final da década de 1960 a resistência a essas propostas se materializou em
novas formas de organização política e de empoderamento baseadas na etnicidade,
disseminadas nas décadas seguintes pela influência das ONGs no debate internacional
sobre o desenvolvimento27.
A aplicação dessa plataforma econômica nas políticas indigenistas na América
Latina foi duramente criticada por Stavenhagem: “as políticas da maioria dos governos
latino-americanos, em relação a suas próprias populações indígenas, chamadas de
‘indigenismo’, e apoiadas nas melhores intenções e na terminologia desenvolvimentista,

26
Ibid., p. 23.
27
ALBERT, Bruce. Situaçãotnográfica e movimentos étnicos. Notas sobre o trabalho de campo pós-
malinowskiano. Revista de Antropologia Social, v. 15, n. 1, 2016.
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são etnocidas em seu conteúdo e nos resultados esperados”28. O autor conclui sua

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análise:

Não existe nenhum processo evolutivo unilinear inequívoco que


conduza da existência de uma multiplicidade de grupos étnicos a uma
única cultura mundial, assim como não existe evolução unilinear de
uma sociedade subdesenvolvida a uma desenvolvida. Não há motivo
para se supor que os 150 estados-nações (que variam em tamanho e
complexidade, de Santa Lúcia à China, de Tonga aos Estados Unidos)

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sejam, naturalmente, unidades mais viáveis para o desenvolvimento
(econômico, social, político, cultural) do que os milhares de grupos
étnicos estimados no mundo. […] Proponho que o
etnodesenvolvimento, isto é, o desenvolvimento de grupos étnicos no
interior de sociedades mais amplas, deva tornar-se a principal questão
da reflexão sobre o desenvolvimento, tanto teórica quanto pratica.
Usei aqui o conceito de etnodesenvolvimento em contraposição aos de
etnocídio e etnocracia, definidos acima29 (STAVENHAGEN, 1985).

Apesar de Stavenhagem não aprofundar o que chama de desenvolvimento


de grupos étnicos no interior de sociedades mais amplas, deixa claro que a proposta de
desenvolvimento concebida desde fora para esses grupos caracteriza-se antes como uma
tentativa de suplantar as culturas autóctones, um etnocídio. O conceito de
etnodesenvolvimento viria em sentido contrário como um impulso interno aos povos e
comunidades tradicionais, segundo seus próprios termos, em busca de alternativas
econômicas e possíveis melhorias sociais no contexto das relações interétnicas. Em que
pese a crítica, a ideia de desenvolvimento pesa como substrato para se pensar uma
alternativa a ele próprio, como um outro tipo de desenvolvimento pautado pelas
especificidades étnicas dos povos e comunidades.

28
STAVENHAGEN, Rodolfo. Etnodesenvolvimento: uma dimensão ignorada no pensamento
desenvolvimentista. Anuário Antropológico, Brasília, v. 9, n. 1, p. 11-44, 1985.
29
Ibid., p. 41.
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3.1 Desenvolvimento sustentável e a ecologização dos índios

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Nas décadas de 1980 e 1990 a ideia de desenvolvimento adquiriu uma nova versão, a do
desenvolvimento sustentável, oficializada em 1987 no relatório Brundtland da Comissão
Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU. A partir de então essa
“versão” foi incorporada pelas agências multilaterais. Apesar da sua proposta auspiciosa
em termos da conservação da natureza, não produziu os efeitos esperados na reversão da

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tendência predatória do desenvolvimento, baseada na ideia do crescimento econômico
ilimitado, e se prestou antes como instrumento político e ideológico usado sob a
promessa de sustentabilidade. Nesse sentido, foi e ainda é fartamente usado no
marketing corporativo e governamental como uma espécie de “selo” de
responsabilidade socioambiental sem, na maioria das vezes, ter um lastro de
conservação consistente.
Essa versão do desenvolvimento foi também apropriada pelo movimento
conservacionista associada à ideia estereotipada de um ecologismo indígena “natural”,
ideia que foi também incorporada à pauta política do movimento indígena. Duas
conferências internacionais realizadas em 1992 representaram o auge dessa fase: a
Conferência Internacional sobre Povos Indígenas das Florestas Tropicais (Penang,
Malásia) e a Conferência Mundial dos Povos Indígenas sobre Território, Meio Ambiente
e Desenvolvimento realizada durante a Cúpula da Terra, a Eco 92, Conferência das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro
em 1992.
Segundo o antropólogo Bruce Albert30, essa perspectiva aumentou muito a
audiência política para a pauta dos direitos indígenas, levando o movimento indígena a
adotá-la e buscar nela uma nova fonte de legitimidade para suas demandas territoriais e

30
ABERT, Bruce. Territorialité, ethnogenèse et développement. Note sur les terres indigènes et le
mouvement indien en Amazonie brésilienne. Cahiers des Amériques Latines, n. 23, p. 177-210, 1997.
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culturais, nos termos de uma etnicidade ecológica, combinando suas próprias

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referências cosmológicas com elementos do desenvolvimento sustentável e do
ecologismo a eles imputado. A ideia de desenvolvimento sustentável foi especialmente
acionada na resistência ao etnocídio promovido pelas etnocracias nacionais. Apesar de
secundários, esses efeitos do desenvolvimento sustentável podem ser avaliados como
positivos na perspectiva da luta do movimento indígena.

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Essa conjunção de fatores concorreu para o surgimento do indigenismo
ambientalista e da economia verde indígena. Essa última é hoje responsável por uma das
principais fontes de recursos financeiros, principalmente para os povos indígenas cujos
territórios possuem ativos naturais significaticos, acessados por meio de projetos de
conservação associados à remuneração por serviços ambientais, créditos de carbono e
repartição de benefícios pelo acesso ao conhecimento tradicional, entre outros.
Outro legado do desenvolvimento sustentável é um maior compromisso dos
financiadores e governos com o licenciamento ambiental de grandes empreendimentos
que afetam territórios indígenas.
Importa frisar que apesar da ideia de sustentabilidade ter sido incorporada a
inúmeras iniciativas econômicas voltadas aos povos indígenas, do ponto de vista social
ela só será verdadeiramente sustentável se for uma política indígena concebida por eles
e para eles. Qualquer iniciativa formulada desde de fora não poderá ter a
sustentabilidade como princípio, quando muito poderá tê-la como objetivo a ser
alcançado.

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4 FORMAS DE GERAÇÃO DE RENDA NAS ECONOMIAS

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INDÍGENAS

Em uma avaliação geral da renda dos indígenas, o censo de 2010 constatou que a
maioria dos índios brasileiros não recebia à época qualquer tipo de renda. A taxa dos
que não recebiam rendimento atingia 52,9%31. Tais dados disseram respeito à renda

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monetária produzida a partir de relações econômica com a sociedade nacional, sem
considerar os bens gerados pelo usufruto do território para o autossustento, portanto sem
considerar as especificidades socioculturais dos povos indígenas, em especial daqueles
que podem usufruir de seus territórios.
Em relação à parcela da sociedade brasileira que hoje se autodeclara indígena,
em dezembro de 2020 haviam 164.567 famílias indígenas inscritas no Cadastro Único32
(CadÚnico), destas, 123.82433 estavam classificadas em termos de renda como em
situação de extrema pobreza, o que corresponde a 75% do total das famílias indígenas
inscritas no CadÚnico.
Importante frisar que esse tipo de informação não pode induzir à generalização e
no respectivo enquadramento dos indígenas na categoria “pobre”, como se observou
historicamente nas política públicas, em especial naquelas que foram implantadas a
partir do ano de 2003 no combate à pobreza. A análise do ponto de vista da renda, não
pode nublar a compreensão das especificidades socioculturais e enviesar as políticas

31
Disponível em: http://noticias.r7.com/economia/noticias/maioria-dos-indios-brasileiros-nao-tem-qualquer-
tipo-de-renda-20120810.html?question=0. Acesso em: 23 mar. 2021.
32
Segundo a Caixa Ecônomica Federal, o Cadastro Único é um conjunto de informações armazenadas
pelo governo federal sobre as famílias brasileiras em situação de pobreza e extrema pobreza, utilizadas
pelo Governo Federal, Estados e municípios para implementação de políticas públicas. Abarca as
famílias de baixa renda que ganham até meio salário mínimo por pessoa ou até 3 salários mínimos de
renda mensal total. Disponível em: https://www.caixa.gov.br/servicos/cadastro-
unico/Paginas/default.aspx. Acessado em 26 de julho de 2021.
33
Disponível em: https://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/vis/data3/data-explorer.php#. Acesso em: 23 mar.
2021.

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públicas destinadas aos povos indígenas, reduzindo sua sociodiversidade a um

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denominador de renda. Não obstante, é também necessário reconhecer que a segregação
etnorracial estrutural, encontrada na sociedade brasileira, tem um importante impacto
sobre a renda e as condições de vida das populações indígenas.
Isso posto, procuramos apresentar a seguir sinteticamente algumas das mais
frequentes formas de geração de renda encontradas hoje nas economias indígenas. Essas

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formas estão contextualizadas segundo os aspectos já tratados, quais sejam, a
pluraridade sociocultural dos povos indígenas; as especificidades histórias e regionais
do contato interétnico; a diversidade das organizações econômicas indígenas; a presença
histórica e contínua das trocas interculturais; as práticas econômicas não indígenas e as
tradicionais indígenas; a existência de economias mistas, em que essas diferentes
práticas coexistam; o fenômeno da economia de fronteira; a necessidade e/ou o desejo
das sociedades indígenas acessarem o mercado e suas mercadorias; o encontro de
subjetividades resultantes de diferentes visões de mundo e modos de vida; as interações
com o mercado e suas características de assimetria, dominação e exploração; e a
ideologia do desenvolvimento e suas versões do etnodesenvolvimento e do
desenvolvimento sustentável.

4.1 Participação na exploração desregulamentada de recursos naturais e o potencial


para uma economia do conhecimento da natureza

A mais antiga forma de geração de renda pelos indígenas, em interação com a economia
não indígena, e que ainda segue contemporânea, é a participação na exploração
desregulamentada de recursos naturais tais como: minérios, madeira e outros produtos
florestais nos territórios indígenas.

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A exploração de recursos naturais foi historicamente gerida por estruturas

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sociais de origem colonial, como a do aviamento. Destacamos o aviamento devido sua
importância, principalmente no contexto amazônico, como mecanismo de subordinação
do trabalhador indígena por meio do seu endividamento, e da organização do comércio
e do acesso ao mercado por uma complexa rede de relações de interdependência entre
indígenas, regatões (atravessadores responsáveis pela logística comercial e a prestação

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de alguns serviços) financiados por patrões urbanos, que por sua vez são financiados
por patrões externos à região e vinculados aos mercados nacional e internacional.
Nessa modalidade de geração de renda e interação com o mercado,
representativa de uma das mais frequentes relações entre povos indígenas e mercado,
apresenta-se com maior clareza a assimetria decorrente da subvaloração do trabalho
indígena, dos seus conhecimentos, respectivos produtos e dos bens naturais explorados
em seus territórios estabelecendo relações de subordinação e exploração. Não obstante
tal desequilíbrio, há que se observar que tais redes quando organizadas em estruturas
que pressupõem vínculos de lealdade e reciprocidade, constroem em regiões onde o
acesso aos serviços públicos é praticamente inexistente relações úteis de solidariedade e
apoio para os povos da floresta. Há também contextos em que essa exploração
caracteriza-se como pilhagem, envolvendo a participação de poucos indíviduos,
portanto gerando pouca renda para a comunidade e enormes passivos socioambientais.
A exploração desregulamentada de recursos naturais tem forte viés predatório,
levando em alguns casos à exaustão os recursos explorados e a desequilíbrios
ecológicos. Está fortememente associada aos crimes ambientais e outros ilícitos. É a
forma produtiva mais comum da economia de fronteira. Na ausência da presença
fiscalizadora do estado, agentes econômicos associados a essas práticas exercem forte
pressão aliciadora sobre lideranças indígenas por meio de um misto de negociação de
interesses que envolve o fornecimento de mercadorias e/ou dinheiro, prestação de

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“favores” e/ou de serviços básicos e coação. Predomina nessa modalidade a distribuição

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desigual dos benefícios auferidos, sendo comum a retenção da maior parte pelos líderes
indígenas envolvidos, suas famílias e aliados.
Esse tipo de atividade quando exercida sem o controle social das comunidades,
são vetores de desagregação social. Ocorrem à revelia da lei, sem quaisquer tipo de
controle sanitário ou ambiental, expondo as comunidades ao arbítrio da força e da

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violência, às doenças levadas pelos trabalhadores não indígenas (garimpeiros,
madeireiros e congêneres), ao abuso sexual de mulheres, jovens e meninas indígenas, a
conflitos internos decorrentes da distribuição desigual dos benefícios, introdução
descontrolada de novas necessidades, desorganização das economias tradicionais e a
perdas territoriais e/ou de ativos ambientais desses territórios. O custo-benefício dessa
modalidade de geração de renda é predominantemente negativo do ponto de vista
coletivo, uma vez que os benefícios são “privatizados” e os prejuízos coletivizados,
como soe ocorrer nas sociedades regidas pelo neoliberalismo.
Tal modalidade de geração de renda está diretamente vinculada à herança
colonial, quando foram estabelecidas as bases de exploração predatória e subordinação
entre os colonizadores e os povos nativos e seus territórios. Limites foram estabelecidos
pela Constituição Federal de 1988, cuja implantação ainda constitui desafio, mas vem
possibilitando um passo fundamental no sentido de sincronizar essas relações a uma
nova abordagem da relação natureza/sociedade, também observados nos tratados sobre
mudanças climáticas e na nova economia do século 21, e no respeito aos direitos
humanos, individuais e coletivos preconizados na carta constitucional.
Há hoje uma forte corrente econômica, vocalizada por economistas como
Ricardo Abramovay, que advoga a transição de uma economia da predação para uma
economia do conhecimento da natureza. Uma economia que constitua cadeias de valor
dos produtos da sociobiodiversidade, agregue valor aos produtos in natura, alcance

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diretamente consumidores que estão fora dos circuitos locais, valorize os serviços

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ambientais e as inovações tecnológicas. Uma economia que alcance melhores preços,
fortaleça a autoestima identitária, o interesse dos jovens, crie pontes entre diferentes
visões de mundo e auxilie a manter a integridade dos ecossistemas. E que,
fundamentalmente, reconheça a contribuição intelectual dos povos indígenas para o
desenvolvimento econômico contemporâneo. A exemplo do que afirma Caldeira (2020),

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ao debater as amarras ideológicas do etnocentrismo europeu, aplicado ao conhecimento
tradicional indígena:

Esse tipo de julgamento também acarretou uma demora de quatro


séculos para se reconhecer a capacidade de desenvolver tecnologia por
parte dos nativos. Em alguns aspectos, a diferença tecnológica a favor
deles era gigantesca. No século XVI, os europeus dominavam o uso
de algo como uma centena de espécies vegetais; os nativos
manipulavam cerca de 3 mil espécies – hoje consideradas patrimônio
da humanidade34 (CALDEIRA, 2020).

A oportunidade em se associar ao patrimônio intelectual indígena e produzir


ganhos científicos e tecnológicos, integrando as comunidades locais e os centros
tecnológicos atuais, foi assim identicado por Bertha Becker:

O Brasil já efetuou três grandes revoluções tecnológicas: a exploração


do petróleo em águas profundas; a transformação de cana-de-açúcar
em combustível (álcool) na Mata Atlântica e a correção dos solos do
cerrado, que permitiu a expansão da soja. Está na hora de implementar
uma revolução cientifico-tecnológica na Amazônia que estabeleça
cadeias tecno-produtivas com base na biodiversidade, desde as
comunidades da floresta até os centros da tecnologia avançada. Esse é
um desafio fundamental hoje, que será ainda maior com a integração
da Amazônia sul-americana35 (BECKER, 2005, p. 85).

34
CALDEIRA, Jorge; SEKULA, Julia Marisa; SCHABIB, Luana. Brasil: paraíso restaurável. Rio de Janeiro:
Estação Brasil, 2020.
35
BECKER, Bertha K. Geopolítica da Amazonia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 19 n. 53, p. 72,
2005.
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Nesse sentido, faz-se necessário fortalecer o processo de reconhecimento e

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regularização das terras indígenas, garantindo aos seus habitantes meios para promover
a integração entre conhecimento tradicional, pesquisa científica e inovação tecnológica;
incrementar os Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA), parte da Política
Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI)36, com o
objetivo de aumentar a governança dos povos sobre seus territórios, garantindo

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autonomia e protagonismo no uso dos seus recursos naturais; fortalecer os mecanismo
de repartição de benefícios pelo acesso aos conhecimentos tradicionais; incentivar a
elaboração de políticas públicas governamentais e não governamentais destinadas a
investir no conhecimento da biodiversidade e na gestão econômica sustentável das
terras indígenas pelos próprios indígenas; incrementar formas de remuneração por
serviços ambientais e a ampliação das oportunidades de renda monetária extra-local
como salários, bolsas e aposentadorias; fortalecer uma base ética que reaproxime
natureza e sociedade.
O caráter inovador dessa proposta tem ainda os desafios de adotar, quando se
tratar de iniciativa externa aos povos indígenas, as devidas mediações socioculturais por
meio de consulta prévia, livre e informada sintonizada ao tempo social das
comunidades; realizar estudos sobre a viabilidade econômica, social e ambiental dos
projetos; elaborar planejamento de longo prazo com vistas a firmar relações sustentáveis
também de longo prazo; estabelecer parcerias ampliadas de nível regional, nacional e
internacional; calibrar as demandas à realidade das escalas das econominas locais e
implementar formas de remuneração pelos produtos propriamente ditos, pelo acesso ao
conhecimento tradicional associado e pelo uso de imagem.

36
Instituída em 2012 pelo Decreto n.º 7.747. A PNGATI tem o objetivo de garantir e promover a proteção, a
recuperação, a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais das terras e territórios indígenas.

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Dentro do escopo dessa proposta, algumas experiências já vem sendo

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desenvolvidas pelos próprios povos indígenas, iniciativas inovadoras que procuram
agregar valor ao conhecimento tradicional e aos produtos da sua sociobiodiversidade. A
título de exemplo podemos citar algumas dessas iniciativas:
• O registro e a expedição do certificado de reconhecimento do nome geográfico37 da
Terra Indígena Andirá-Marau, pelo povo Sateré-Mawé, como denominação de origem
para o "waraná" (guaraná nativo) e "pães de waraná" (bastão de guaraná), nos termos da

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da Instrução Normativa n.º 95/201838;
• Constituição do Consórcio dos Produtores Sateré-Mawé. O Consórcio foi constituído
com o objetivo de apoiar as atividades produtivas das famílias Sateré-Mawé por meio
de orientação técnica, regulamentação, certificação, beneficiamento e comercialização
da produção. O faturado do Consórcio também financia a administração autônoma da
Terra Indígena Andirá-Marau;
• Produção e comercialização do café do povo Paiter Suruí. Trata-se de um café especial,
produzido de forma sustentavel pelas famílias Suruí das Terras Indígenas Sete de
Setembro e Rio Branco no estado de Rondônia. Hoje cultivam e comercializam a
produção de aproximadamente 800 mil pés de café;
• Chocolate Yanomami. O Chocolate é uma iniciativa das lideranças e jovens Yanomami
e Ye’kwana, fabricado a partir do cacau plantado dentro da Terra Indígena Yanomami,
com o objetivo de gerar renda para que as comunidades possam acessar ferramentas e
bens industrializados utilizados em atividades cotidianas;

37
Como informa Juliana Santilli, as indicações geográficas conferem ao produto ou serviço uma
identidade própria. O nome geográfico utilizado no produto ou serviço estabelece uma ligação entre as
suas características e a sua origem, criando um fator diferenciador entre tais produtos e os demais
disponíveis no mercado, agregando-lhes valor justamente em virtude da sua identidade própria. São
produtos diferenciados, associados a valores simbólicos e a dinâmicas socioculturais locais, que
buscam as suas próprias formas de inserção em um mercado dominado por produtos globalizados e
estandartizados. Disponível em:
https://pib.socioambiental.org/pt/A_valorização_dos_produtos_ind%C3%ADgenas. Acessado em 26 de
julho de 2021.
38
Publicado na revista da Propriedade Industrial n.º 2598, Indicações Geográficas, seção IV, CÓDIGO
395.
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• Cogumelos Yanomami. Esses cogumelos são parte do conhecimento tradicional do

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povo Sanöma, que faz parte do povo Yanomami e habita a região de Awaris, Terra
Indígena Yanomami, nas florestas de montanha do extremo noroeste de Roraima.
Caçadores e coletores, os Sanöma tem um grande conhecimento sobre a biodiversidade
de seu território, os cogumelos são um produto do seu sistema agrícola. São os
primeiros cogumelos nativos da Floresta Amazônica a serem colocados no mercado
brasileiro, e contribuem para a geração de renda das comunidades produtoras. São 15

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espécies de cogumelos oferecidas em duas apresentações: Cogumelos Desidratados
Inteiros e Cogumelos Desidratados em Pó, com sabores distintos e inéditos39;
• Arte Baniwa. Trata-se de um projeto, e também de uma marca criada pelos Baniwa,
para comercializar seus produtos tais como a cestaria de arumã e a conhecida pimenta
jiquitaia, dentre outros. A pimenta Baniwa é uma mistura de pimentas cultivadas
organicamente pelas mulheres nas roças e quintais das comunidades do Rio Içana e
afluentes. Os objetivos do projeto são: valorizar o patrimônio cultural; animar a
produção de objetos de arumã como uma forma de reciclagem e disseminação de uma
tradição cultural milenar; identificar nichos duradouros de mercado compatíveis com a
capacidade de produção das comunidades; gerar renda para os produtores indígenas e
suas associações; contribuir para o uso sustentável dos recursos naturais; capacitar a
Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e associações filiadas no
gerenciamento de projetos40;
• O projeto “Frutos do Cerrado” é baseado em uma parceria entre os povos Timbira e
pequenos produtores do Maranhão e do Tocantins. É executado pela Associação Wyty
Catë, que representa cinco povos Timbira, e assessorado pelo Centro de Trabalho
Indigenista (CTI), organização civil. Os frutos são coletados em áreas extrativistas e de
plantio, onde o manejo é orgânico e livre de agrotóxicos. No seu beneficiamento não
recebem nenhum tipo de aditivos químicos ou conservantes. O projeto é integrado pela

39
Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Lista_de_produtos_e_marcas_ind%C3%ADgenas.
Acesso em: 27 de jun. de 2021.
40
Disponível em: https://www.artebaniwa.org.br. Acessado em 27 de julho de 2021.
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Agroindústria Frutasã que realiza a coleta e o beneficiamento de polpas de frutas do

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Cerrado;
• A Arte Waimiri Atroari é uma marca que reúne produtos feitos pelo povo Kinja.
Atualmente esse povo tem no artesanato uma das fontes de renda para aquisição dos
artigos industrializados dos quais necessitam. A venda é feita em Manaus por
intermédio do Programa Waimiri Atroari (PWA), programa constituído para mitigar os
impactos socioambientais causados pela construção da Usina Hidrelétrica de

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Balbina/AM;
• Mel, Pequi e Pimentas dos Índios do Xingu. Os povos da Terra Indígena do Xingu têm
produzido e comercializado produtos orgânicos como mel, derivados do pequi e
pimentas. O mel produzido pelos índios do Xingu, além de auxiliar na garantia da
segurança alimentar, gera renda através da sua venda num mercado com exigência de
responsabilidade social e ambiental, o que é garantido pela certificação do mel. Em
2015 a Associação Terra Indígena do Xingu (ATIX) se tornou a primeira associação
indígena certificadora de produção orgânica, conquistando seu credenciamento junto ao
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que é responsável pela
normatização e fiscalização das regras da produção orgânica no Brasil, e inaugurando o
primeiro Sistema Participativo de Garantia (SPG) exclusivamente indígena do mundo.
As normas prevêem a organização de uma estrutura de avaliação e verificação dos
produtos pela própria comunidade, a fim de certificá-los conforme as regras da
produção orgânica, fortalecendo o controle social e a transparência do processo. O
Sistema Participativo de Garantia é uma importante política pública de acesso dos
pequenos produtores à certificação orgânica. Mais do que a certificação do mel do
Xingu, essa conquista possibilita que grupos de pequenos produtores de todo Brasil se
organizem para certificar seus produtos sem intermediação de certificadoras privadas41.

41
Disponível em: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/provamos-que-e-
possivel-gerar-renda-com-a-floresta-em-pe. Acessado em 28 de julho de 2021.
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Tais iniciativas são uma pequena mostra do conjunto das experiências

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desenvolvidas no Brasil pelos povos indígenas, e do pontencial que têm para se
associarem à nova economia baseada no conhecimento e na sustentabilidade da
sociobiodiversidade.

4.2 Apoio produtivo estatal

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Cada vez mais o apoio produtivo estatal tem se esvaziado como forma de apoio à
geração de renda para os indígenas. A principal forma de participação foi por meio dos
denominados projetos produtivos, financiados e concebidos pelo indigenismo oficial e
cujo emblema foram as roças comunitárias.

Como visto anteriormente, esse apoio teve sua gênese em uma modalidade de
colonialismo interno, baseado em um sistema de patronagem em que o próprio estado
usava a força de trabalho indígena para explorar os bens de seus territórios e se
apropriar dos resultados por meio da renda indígena. Tal engrenagem era
operacionalizada pela estrutura tutelar, assistencial e burocrática da política indigenista
oficial e sua plataforma, explicitada pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI),
em integrar os índios na sociedade nacional transformando-os em agricultores
nacionais.
As denominadas roças comunitárias tiveram, no início na década de 1970, papel
de destaque dentro dos projetos de desenvolvimento comunitário da Funai.
Caracterizaram-se pela distribuição de ferramentas e sementes – basicamente de milho,
arroz e feijão – e o uso de maquinário e implementos agrícolas na implantação.
Primaram pela falta de consulta, escuta e, conquentemente, aderência às especificidades
socioculturais dos povos indígenas, concretizando o ideal tutelar do “fazer para”. O
próprio conceito de comunitário é exótico para a maioria dos povos indígenas, que têm

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sua organização produtiva baseada na estrutura doméstica e familiar. Introduziram

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sementes híbridas, tratadas com agrotóxicos, que causaram corrosão genética das
variedades nativas. Da mesma forma foram introduzidas novas espécies alimentares na
dieta indígena, gerando novas necessidades em torno desses alimentos, caso do arroz,
cuja técnica de cultivo os indígenas não dominavam, além de ser mais uma fonte de
carboidrato em uma dieta já rica em carboidratos pela presença de diferentes variedades

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de mandioca. As roças comunitárias sofriam por falhas na organização burocrática,
muitas vezes as sementes chegavam nas aldeias fora da época adequada para o plantio.
Esse conjunto de fatores fizeram tais projetos padeceram de insustentabilidade
socioambiental e econômica, tendo sua sobrevivência vinculada à presença do
acompanhamento técnico do órgão indigenista ou de outros parceiros, bem como do
contínuo aporte de insumos e financiamento externos.
Tal proposta serviu de modelo para diversos outros projetos produtivos, tais
como a criação de gado, pequenos animais e atividades hortifrutigranjeiras,
aproximando-se mais do extensionismo rural direcionado a pequenos produtores rurais
não indígenas. Esse modelo atravessou décadas até chegar aos dias atuais desidratado e
misturado a propostas vinculadas ao etnodesenvolvimento e ao desenvolvimento
sustentável. Podemos identificar sua marca nas ações da Funai noticiadas, em setembro
de 2020, pela Casa Civil da Presidência da República. Segundo a notícia tais ações são:

[…] voltadas à autonomia e geração de renda desses povos. O


objetivo é garantir a sustentabilidade econômica das aldeias e ajudá-
las a retomar as atividades após a redução da incidência da doença no
País. Com foco na produção de alimentos e criação de animais nas
comunidades, todas as ações levam em consideração a diversidade
sociocultural dos diferentes grupos. Foram investidos, até o momento,
R$ 10,4 milhões apenas para o etnodesenvolvimento durante a
pandemia do novo coronavírus. O recurso foi aplicado na aquisição de
tratores, sementes, mudas, materiais para pesca, para maquinário,
embarcações, veículos, tudo vocacionado para as atividades em terras
indígenas. Do total liberado, por exemplo, R$ 1 milhão foi destinado
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para aquisição de ferramentas; e R$ 742 mil para compra de sementes,


mudas e insumos. A Funai também repassou R$ 445 mil para

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incentivar a criação de animais; R$ 351 mil para implementos
agrícolas; e R$ 329 mil para atividades de pesca42 (BRASIL, 2020).

Ao longo do tempo os povos indígenas vislumbraram nesses projetos


oportunidades para a geração de renda e o enfrentamento das vicissitudes do próprio
contato interétnico a eles intrínseco. Segundo André Villas-Bôas esse processo foi assim

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incorporado pelos povos do Xingu:

Apesar de não terem tido sucesso comercial e nem terem sido


incorporadas na rotina de subsistência das comunidades, essas
experiências fomentadas pela Funai geraram um entendimento, por
parte dos povos do Xingu, de que algumas atividades trazidas pelos
brancos voltadas a geração de recursos deveriam ser uma iniciativa
comunitária, em contraste com a forma tradicional de organização
para o trabalho, predominantemente de cunho familiar, com algumas
etapas realizadas em mutirão. Lideranças das aldeias, diante da
necessidade de aquisição ou manutenção de bens das comunidades,
como motores de popa, barco, gerador ou carro, viram nos chamados
projetos comunitários uma possibilidade de obter recursos financeiros
“comunitários” para manter essas estruturas, antes inexistentes.
Enfrentavam, com isso, o risco de conflito implicado em organizar
uma atividade cujo destino é o benefício de uma comunidade inteira,
mas que nem sempre conta com o trabalho efetivo de todos, gerando
envolvimento desigual e sobrecarga de trabalho para alguns43
(VILLAS-BÔAS, 2017).

O viés tutelar e assistencialista é também encontrado em iniciativas semelhantes


adotadas no indigenismo não governamental, em que tal perspectiva repercute na
insustentabilidade dos projetos, característica presente nas relações interétnicas pautadas
pela predominância da visão e expectativas dos "brancos", ainda que sejam dotadas de

42
BRASIL. Presidência da República. Comunidade indígenas recebem apoio para ações voltadas à
autonomia e geração de renda. [S. l.], 2020. Disponível em: https://www.gov.br/casacivil/pt-
br/assuntos/noticias/2020/setembro/comunidades-indigenas-recebem-apoio-para-acoes-voltadas-a-
autonomia-e-geracao-de-renda. Acesso em: 23 mar. 2021.
43
VILLAS-BÔAS, André J. A. et al. (Org.). Xingu: histórias dos produtos da floresta. São Paulo: Instituto
Socioambiental, 2017. p. 40.
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boas intenções e dos valores da sustentabilidade socioambiental. Tal insustentabilidade

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se expressa na dependência de assessorias técnicas e financiamentos externos, ambos de
forma continuada, exigindo dos povos indígenas e de suas organizações um esforço
extra para se conectar e manter redes de apoio que forneçam tais insumos. Importa notar
que, tais projetos geram internamente aos grupos indígenas novas formas de
diferenciação sociocultural para os membros mais diretamente envolvidos nesses

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projetos.
Tais aspectos antes relatados foram observados em muitos projetos implantados
a partir da década de 1990, principalmente na Amazônia, cuja expectativa em recuperar
a autonomia indígena se daria pelo fomento de alternativas econômicas que garantissem
segurança alimentar e geração de renda com base em um modelo ambientalmente
sustentável.
Tal drama foi assim descrito por Villas-Bôas:

[…] o que parece estar em jogo não é a autonomia dos índios para sua
sustentabilidade, mas a sustentabilidade dos parceiros, sempre às
voltas para justificar aos financiadores a demora no alcance da
autonomia dos índios. Se para setores da sociedade urbanizada e
industrializada usos e costumes indígenas são referência para se
resgatarem padrões de sustentabilidade ambiental, isso não se aplica
para a sustentabilidade econômica dos parceiros executores quando
olham para o engajamento dos índios na replicabilidade dos resultados
dos trabalhos. Vale lembrar com que frequência, para povos indígenas
e algumas comunidades tradicionais, a noção de sustentabilidade se
confunde com a de sustento, o que os faz estender sua relação de
dependência com o aprendizado das técnicas estrangeiras44 (VILLAS-
BÔAS, 2017).

Voltando ao apoio estatal, vimos que ao longo da história esse cumpriu um papel
ambíguo diante dos direitos e interesses indígenas, alternando entre momentos em que
promoveu sistematicamente a violação desses direitos com outros em que os defendeu.

44
Ibid., p. 108.
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Segundo o antropólogo Stephen Baines, faz-se necessário examinar o contexto

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histórico em que a ação estatal ocorre. Avalia que o atual momento histórico, há quatro
décadas dominado pela agenda neoliberal em nível internacional, caracterizado pela
abertura das economias nacionais para capitais especulativos e a realização de reformas
estruturais que visam ao estado mínimo, tem resultado no desmantelamento das
estruturas de proteção social dos estados, resultando em forte concentração da renda e

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aumento da desigualdade social com reflexos diretos sobre as políticas indigenistas
governamentais.
Afirma o antropólogo que diante desse quadro de perdas, concessões artificiais
de “autonomia” estão sendo outogardas às populações nativas como forma de
compensar a drástica redução da participação dos estados nacionais na defesa dos seus
direitos. Tal constatação pode ser uma chave analítica para o atual e intenso processo de
cooptação de lideranças indígenas como sócios do bandeirantismo extrativista na
exploração das suas terras, evento possivelmente vinculado a essa autonomia artificial
outorgada pelo atual governo, associada à permissividade face a ilegalidade na
exploração dos recursos naturais nas terras indígenas.
A artificialidade dessa suposta autonomia pode ser constatada na contradição
entre o discurso de que “eles (os índios) têm o direito de ser iguais a nós (os brancos)” -
ou seja, terem autonomia para fazerem o que quiserem no que diz respeito à exploração
econômica dos recursos naturais de suas terras -, com a narrativa de que os índios e suas
terras são uma ameaça à soberania nacional, portanto sua autodeterminação seria uma
ameaça a ser combatida pelo estado-nação.
O atual capítulo da novela que envolve a relação dos povos indígenas com o
estado brasileiro confirma o seu aspecto estruturalmente contraditório, ao tempo que
parcela do estado ataca os direitos indígenas, como tem feito o atual governo, outras

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parcelas procuram defender esses mesmos direitos, caso do sistema de justiça do qual o

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Ministério Público faz parte.

4.3 Parcerias agrícolas e pecuárias

As parcerias e os arrendamentos das terras indígenas envolvendo não indígenas são


praticadas há muitas décadas no Brasil. Foram iniciados pelos órgãos indigenistas, SPI e

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Funai, dentro da lógica tutelar e patronal associada ao mecanismo da renda indígena
administrada pelo estado. Como apontado pelo Relatório Figueiredo, o arrendamento
foi a porta de entrada ao roubo das terras indígenas. Arrendatários em conluio com
agentes estatais levaram a termo o esbulho de muitas terras indígenas no Brasil.
Segundo o pesquisador Marcelo Zelic, que trouxe a lume o Relatório Figueiredo,
atual coordenador do Armazém da Memória:

[…] o arrendamento ilegal de terras indígenas é um dos temas tratados


no Relatório Figueiredo, Comissão de Investigação criada no âmbito
do Ministério do Interior em 1967, pelo efeito nocivo que proporciona
na ‘dilapidação do patrimônio indígena’, sendo esses contratos
listados na série de crimes contra a pessoa e a propriedade do índio
descritos no relatório final da investigação45.

A partir do caso emblemático do arrendamento sobre as terras Kadiwéu em Mato


Grosso do Sul, uma das primeiras terras indígenas reconhecidas pelo estado brasileiro,
demonstrada por meio da documentação do SPI e da Funai, o esbulho decorrente dessa
prática sobre as terras Kadiwéu, continua o pesquisador:

O Relatório Figueiredo traz inúmeros relatos sobre o caso e apontando


como famílias influentes da região constituíram patrimônio próprio
esbulhando as terras indígenas a partir de um contrato de
arrendamento inicial, ou conforme documentos abaixo simplesmente
se apossando das terras, como ficou registrado em reiterados ofícios

45
Vide anexo A.
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ao Ministro da Agricultura enviados pelo Diretor do SPI Moacir


Coelho em que é solicitada providências sobre as invasões e contratos

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lesivos aos direitos dos índios, retrantando a situação desta terra
indígena […] até os dias atuais grandes porções das terras do povo
Kadiwéu seguem em disputa judicial em função de terem sido
arrendadas no início dos anos 1960 e desde então nunca mais voltaram
ao controle do povo Kadiwéu, exigindo esforços do MPF e advogados
para restabelecimento de um direito originário reconhecido ainda no
tempo do Império como reconhecimento da participação deste povo
na guerra do Paraguai46.

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O pesquisador colaciona documentos para demonstrar como o esbulho se
relacionou à prática do arrendamento, tais como contratos firmados pelo SPI e pela
Funai47, demonstrando como tais atos estão na origem do que ainda hoje se discute
judicialmente na Ação Cível Originária n.º 368 que tramita no Supremo Tribunal
Federal, em que proprietários rurais requerem supostos direitos sobre a terra Kadiwéu
contra a União.
A mentalidade colonial em conquistar e explorar as terras indígenas,
concretizado pelo empreendimento das feitorias coloniais, empreendido por colonos
“brancos” produtores de commodities para exportação, foi reproduzida ao longo dos
séculos na ideologia e nas práticas das elites nacionais até a chegada do século 20,
quando se manifestou por meio da apropriação da renda indígena pelo estado via órgãos
indigenista, caso das terras Kadiwéu.
Tal mentalidade ainda se manifesta em pleno século 21. Esse é o caso da
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n.o 343/2017, de autoria do deputado Nelson
Padovani (PSDB/PR), um dos representantes da denominada bancada ruralista no
Congresso Nacional.
Sob a justificativa de que o novo regramento da matéria

46
Ibid.
47
CORREIA, Jader Figueiredo. Relatório Figueiredo. [S. l.], 1968. v. 24. e arquivo Câmara dos
Deputados. Vide anexos A, B e C.
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[…] pode se tornar uma ferramenta importante para sanar os conflitos


existentes entre índios e produtores rurais pela disputa de suas terras,

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fazendo com que ambas as partes possam manter parcerias na forma
de concessão, em consonância com as disposições constitucionais48
[…] (BRASIL, 2017).

A PEC n.o 343/2017 pretende alterar o §4.o do art. 231 da Constituição Federal
redefinindo as prerrogativas de inalienabilidade, indisponibilidade e imprescritibilidade
dos direitos territoriais indígenas, para permitir a implantação de parceria agrícola e

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pecuária entre a Fundação Nacional do Índio (Funai) e brasileiros que explorem essas
atividades, conforme o interesse nacional, na forma compatível com a política
agropecuária.
Assim propõe o texto:

§4.o As terras de que trata este artigo são inalienáveis e


indisponíveis, e os direitos sobre elas, imprescritíveis, ressalvando-
se as seguintes condições simultâneas para fins estratégicos de
implantação de parceria agrícola e pecuária entre a Funai –
Fundação Nacional do Índio, e brasileiros que explorem essas
atividades, conforme o interesse nacional, na forma compatível com a
política agropecuária:

I – aproveitamento racional e adequado; II – utilização adequada dos


recursos naturais disponíveis, visando sua preservação; III –
observância das disposições que regulam as relações de trabalho; IV –
convivência harmônica e pacífica com os grupos indígenas ocupantes
da área e respeito a sua organização social, costumes, línguas, crenças
e tradições; V – terras demarcadas até a entrada em vigor da
Constituição Federal de 1988; VI – participação nos resultados de
exploração de ambas as partes na forma da lei; VII – a concessão não
poderá ultrapassar mais da metade da área indígena demarcada; VIII –
a exploração agropecuária de terras indígenas terá sempre por prazo
determinado, não podendo ser cedida ou transferida, total ou
parcialmente, sem prévia anuência do poder concedente49 (BRASIL,

48 o
BRASIL. Presidência da República. PEC n. 343, de 5 de julho de 2007. Dá nova redação ao artigo 231
da Constituição Federal para tratar da implantação de parceria agrícola e pecuária entre a Funai -
Fundação Nacional do Índio, e terceiros. Brasília: PR, [2007].
49
Ibid.
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2017, grifo nosso).

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Sem meias palavras, a PEC propõe a institucionalização do esbulho na forma
largamente praticada no século passado por meio dos arrendamentos das terras
indígenas. Ao propor a parceria agrícola e pecuária entre a Funai e brasileiros, recoloca
a Funai como agente tutelar e patrão dos índios, ao tempo que dispõe as terras indígenas
para os “parceiros”. Vemos na PEC também a possibilidade de acionar o mecanismo de

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dívidas, usado no passado para cativar a mão de obra indígena no sistema de aviamento.
Por meio dele, os parceiros sequer teriam que adquirir as terras indígenas arrendadas,
uma vez que, como principais financiadores dessas atividades agropecuárias, facilmente
poderiam transformar esses financiamentos e/ou investimentos em dívidas junto à Funai
e aos índios a serem quitadas com a transferência da terra dos índios para suas mãos. Tal
proposta é um verdadeiro pot-pourri das práticas de expropriação das terras e bens
indígenas usadas ao longo do século 20.
A origem do arrendamento das terras indígenas está associada ao esbulho. A
Constituição Federal de 1988 colocou um limite ao esbulho das terras indígenas
instituindo o usufruto exclusivo das terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas,
bem como nulos e extintos, sem efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a
ocupação, o domínio e a posse delas (§2.º e §6.º, art. 231 da CF/1988). O Estatuto do
Índio (Lei n. 6001/1973) em seu art. 18, afirma expressamente que: “as terras indígenas
o

não poderão ser objeto de arrendamento ou de qualquer ato ou negócio jurídico que
restrinja o pleno exercício da posse direta pela comunidade indígena ou pelos
silvícolas” (BRASIL, 1973). Em que pese ser ilegal, o arrendamento ainda é praticado
50

em diversas terras indígenas gerando uma série de impactos aos povos indígenas e aos
seus territórios.

50 o
BRASIL. Presidência da República. Lei n. 6001, de 19 de dezembro de 1973. Dispõe sobre o Estatuto
do índio. Brasil: PR, [1973].
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Um dos danos sociais mais observados hoje na prática do arrendamento é a

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distribuição desigual dos benefícios dentro das comunidades indígenas, pois são
destinados majoritariamente para os grupos vinculados às lideranças que os gerenciam,
o que tem gerado sérios conflitos internos. Outro dano preocupante é o fenômeno da
perda do acesso à terra pelos grupos que não fazem parte das famílias das lideranças que
administram os arrendamentos e/ou não são seus aliados políticos, ficando esses grupos

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restritos a diminutas áreas das terras indígenas que não foram arrendadas, gerando a
paradoxal existência de índios “sem terra” dentro das terras indígenas. Esses fenômenos
são recorrentes nos contextos dos arrendamentos praticados em Mato Grosso do Sul e
nos estados do sul do Brasil nas terras Kaingang.
A oficina Arrendamento e Parceria Agrícola em Terras Indígenas: aspectos
legais, socioculturais, ambientais e econômicos, realizada em 2018 pela 6.ª Câmara de
Coordenação e Revisão do MPF, com a presença de representantes indígenas, debateu
essas práticas no contexto atual. A oficina abordou duas situações distintas, o contexto
Kaingang do sul do Brasil e a denominada parceria agrícola Paresi, em Mato Grosso,
que também envolve os povos Nambikara, Manoki, Irantxe e Terena. Naquela
oportunidade levantou-se a partir dessas experiências os seguintes aspectos: i) o que já
foi experimentado e gerou resultados negativos; ii) o que precisa ser melhor avaliado,
pois não há clareza a respeito do assunto; e iii) o que já foi experimentado e trouxe
resultados positivos.
Quadro 1 – Caso Paresi

Caso Paresi

Resultados negativos Precisa ser melhor avaliado Resultados positivos


Jurídico Jurídico Jurídico
• Relativização do direito • Distinção entre • Importância dos TACs
ao usufruto exclusivo parceria e para regularizar as
das TIs; arrendamento; situações que já estão

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• Esse modelo pode • Licenciamento de ocorrendo.


refletir negativamente pequenas atividades e

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nas demandas das de grande escala
territoriais indígenas (ausência de
(ex.: alegar-se que parâmetros legais);
teriam tanta terra que • Seria melhor buscar
podem até arrendar); diretrizes gerais?;
• Abertura de • Necessidade de se
precedente que observar as
fragilize a proteção das especificidades locais,

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terras indígenas; e mas a normatização
• Ambiguidade do tem caráter geral;
Código Florestal. • Qual o nível e os
limites de proteção
ambiental das TIs;
• OGMs em TIs; e
• Agricultura em larga
escala em TIs.

Meio ambiente Meio ambiente Meio ambiente


• Impactos ambientais; • Uso do PGTA no • GT Ibama/Funai para
• Multas ambientais; contexto das normatização dos
• Áreas desmatadas parcerias/arrendament empreendimentos
(assoreamento de rios os agrícolas em TIs;
etc.); • GT Ibama/Funai – • Feira de sementes;
• Uso de OGMs; Discussão sobre • Os indígenas devem
• Recursos para pequenos, médios e ser chamados para as
preservação ambiental grandes discussões sobre o
não chegam às empreendimentos; e licenciamento;
comunidades • A dimensão histórica • Embrapa apresentará
indígenas; e das questões alternativas de
• Intoxicação por relacionadas à produção agrícola para
agrotóxicos. exploração de recursos substituir a soja;
ambientais. De • Instrução normativa
práticas oficiais às sobre atividades que
proibidas. não necessitam de
licenciamento;
• Ibama foi provocado
para fazer a discussão
sobre os
empreendimentos em

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TIs;
• Envolvimento do

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Ibama na discussão
dos empreendimentos
de médio e grande
porte; e
• Há diretrizes que
possibilitam tratar
desses casos na
PNGATI.

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Socioeconomia Socioeconomia Socioeconomia
• A perspectiva de o • Decisões coletivas, por
licenciamento meio de assembleias;
contribuir para que a • Aquisição de
comunidade tome maquinário, operado
decisões informadas por indígenas;
sobre os • Resgate de indígenas
empreendimentos para o território;
agrícolas; • Capacitação de
• A distribuição de indígenas;
benefício precisa ser • Transferência de
pensada como tecnologias agrícolas
fundamental para a para indígenas;
viabilidade do • Relação de confiança
empreendimento entre Funai e
agrícola; comunidade Paresi;
• Considerar a dimensão • Repartição de
dinâmica das culturas; benefícios;
• É possível uma solução • Transparência;
uniforme para todas as • A atividade agrícola
TIs?; e será realizada pelos
• Impactos próprios indígenas;
socioculturais. • Melhoria das
condições de vida no
interior da TI;
• Etnoturismo,
comercialização de
frutos, produção de
farinha, coleta e
comercialização de

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mel;
• A agricultura

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convencional não
impediu a
continuidade de outras
atividades econômicas;
e
• Agroecologia e
tecnologia não se
excluem.

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Apoio institucional Apoio institucional Apoio institucional
• Falta de apoio e • Definição de políticas • Essa discussão trouxe a
a
pesquisa de mercado públicas que permitam participação da 6. CCR
a
para a produção de a continuidade dos e 4. CCR; e
mel; projetos de • O caso Paresi
• Falta de linhas de agroecologia; possibilitou colocar
crédito oficiais para os • Experiências todos na mesa para
indígenas; internacionais discutir o tema.
• Ausência de (positiva: Maori,
financiamento por experiências na
falta de garantia; e América Latina de
• Falta de alinhamento produção
das políticas públicas diferenciada);
(para além do • Pensar
controle). estrategicamente
sobre as TIs
considerando também
o ambiente externo;
• Necessidade de formar
indígenas para gestão
dos projetos, para
empregar melhor os
recursos disponíveis; e
• Maior alinhamento
entre os órgãos sobre
quais os parâmetros
ambientais a serem
seguidos.

Fundiário (riscos)
• Risco dos projetos se
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dirigirem para o
arrendamento;

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• Invasão de TIs para
atividades como
garimpo, madeireira e
loteamento;
• Pressão madeireira e
fundiária sobre as UCs
e TIs;
• Somente a atividade

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de fiscalização não é
suficiente para impedir
o avanço de
madeireiros e grileiros
nas TIs; e
• O modelo da
agricultura
convencional exige
cada vez mais terras.

Elaboração do autor.

Quadro 2 – Caso Kaingang

Caso Kaingang
Resultados negativos Precisa ser melhor avaliado Resultados positivos
Jurídico (riscos) Jurídico Jurídico
• Distinção entre • Formação de
parceria e entendimento jurídico.
arrendamento.

Meio ambiente Meio ambiente Meio ambiente


• Problemas ambientais; • Plano de gestão • Experiência com
• Intoxicação por territorial; e agroflorestas (para
agroquímicos; • Lavouras mercantis pequenas áreas de
• Plantio de OGMs; e incluídas nos PGTAs. manejo orgânico, para
• Não evolução da grandes áreas de
PNGATI. cultivo mecanizado),
atendendo
compromissos globais
para o clima.

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Socioeconomia Socioeconomia Socioeconomia


• Distribuição desigual da • Formas alternativas de • Casos em que há

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renda dentro de terra agricultura; distribuição justa de
indígena; • Opções de grandes benefícios (Paresi,
• Distribuição desigual do plantações que Nambikawa, Manoki);
lucro entre arrendatário garantem proteção • Modelo de cooperativa
e população indígena; ambiental e podem (Sateré-Mawé);
• Vulnerabilidade contribuir com a • Apesar do
econômica; segurança alimentar; agronegócio, do
• Concentração fundiária; • Novos modelos de arrendamento e das

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• Insustentabilidade produção agrícolas; parcerias ainda
econômica e cultural; • Recursos do existem modos
• Impactos na saúde arrendamento/parceria tradicionais de
indígena; para financiamento dos produção;
• Assimetria de poder novos modelos de • Há iniciativas como a
entre indígenas e produção e para semente criola, o selo
produtores rurais garantia da segurança Kaingang; e
(arrendatários); alimentar (para fins de • Territorialidades.
• Práticas de transição);
desterritorialização • Protocolos de consulta;
internas; e • Representatividade na
• Representatividade, a consulta às
parte da comunidade comunidades ou
indígena que decide a autonomia do grupo
parceria/arrendamento para decidir;
não representa sua • Necessidade de raio x
totalidade. de situações específicas
como ponto de partida;
• Aumento das
necessidades
financeiras; e
• Como proteger práticas
produtivas tradicionais
que ainda resistem nas
terras Kaingang, que
são excluídas pelo
modelo da agricultura
convencional.

Apoio institucional Apoio institucional Apoio institucional


• Tratar problemas • Novas formas de • GT com o Ibama;

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complexos com financiamento; • Políticas públicas para


soluções simplistas e • Espaços paritários investimento em terras

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uniformes; como a CNPI para indígenas;
• Projetar valores da discutir modelos de • Portfólio de projetos
sociedade envolvente desenvolvimento; específicos para povos
para os indígenas; • Projetos-piloto; indígenas e
• Transferir • Política de governo comunidades
responsabilidades do interministerial tradicionais;
estado para os povos (inclusão no PPA); • Empresas públicas que
indígenas; Instar os órgãos a têm produzido

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• Exclusão das apresentarem informações e reflexão
organizações indígenas alternativas de modo sobre a produção em
do acesso a recursos de produção; terras indígenas
para preservação • Liberar recursos (Emater, Embrapa); e
ambiental; públicos para aplicação • Convênios específicos:
• Falta de postura firme onde os mecanismos prefeitura de
do órgão indigenista; de transição não forem Tabatinga/associação
• Cenário político possíveis/viáveis; de Mulheres,
desfavorável; e • Os órgãos de governo Itanhaém-inclusão
• Custo das operações de deveriam criar um milho guarani na
desintrusão. plano de trabalho para merenda escolar etc.
superação do
arrendamento; e
• Políticas voltadas para
famílias.

Fundiário (riscos) Fundiário Fundiário


• Arrendamento como
mecanismo de esbulho
das terras indígenas; e
• Arrendamento como
argumento de
deslegitimação dos
direitos territoriais
indígenas.

Elaboração do autor.

Analisando quantitativamente esses dois quadros, observamos que a experiência


Paresi apresentou mais resultados positivos, 24, enquanto a experiencia Kaingang

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apenas 12, a metade da primeira. Tanto uma quanto a outra apresentaram praticamente o

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mesmo número de pontos que requerem aprofundamento e melhor avaliação, Paresi 20
e Kaingang 19. A experiência Kaingang apresentou um maior número de resultados
negativos, 22, do que a Paresi, com 19.
Quando comparados os saldos em cada uma delas, entre resultados negativo e
positivo, vemos que a experiência Paresi teve um saldo positivo de cinco, enquanto a

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Kaingang um saldo negativo de dez. Vemos que essas duas experiências apresentaram
resultados bem diferentes, apontando para a existência de especificidades
regionais/locais que requerem tratamentos específicos, não sendo possível generalizar a
avaliação de uma delas para regiões e/ou diferentes terras indígenas.
Na metodologia adotada (semáfaro), em que os resultados negativos
correspondem ao pare os pontos a serem melhor avaliados a atenção e os pontos
positivos a siga, podemos fazer um exercício com a soma dos resultados de ambas as
experiências. Somadas a pontuação, temos 41 resultados negativos, 38 pontos a serem
melhor avaliados e 36 resultados positivos. Aqui um sinal de alerta ascende, pois há o
indicativo de que esse tipo de alternativa para produção de renda apresenta-se entre ser
contraindicada ou a requerer muita cautela em ser adotada, ou seja, parar, prestar muita
atenção e seguir muito cautelosamente. Diante dessa avaliação, é recomendável pensar
em soluções para os pontos negativos e focar a avaliação e o esclarecimento dos pontos
que requerem aprofundamento antes de qualquer iniciativa no sentido de promover essa
alternativa de renda.
Os arrendamentos ou parcerias em andamento vêm sendo coibidos por meio de
ações judiciais ou ajustados por meio de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC). O
caso Paresi foi adotado pelo governo Jair Bolsonaro como modelo a ser difundido para
outras terras indígenas, ressalva-se que essa é uma experiência muito específica para ser
adotada como parâmetro em outros lugares e apresentou em sua avaliação significativo

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número de pontos negativos. Essa experiência, apesar de avaliada como “positiva” no

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saldo entre pontos negativos e positivos, suscita muitas dúvidas que foram expressas
pelo grande número de pontos a ser melhor avaliados. Ela está sendo ajustada por meio
de um TAC, assinado em 16 de dezembro de 2019, cujos resultados ainda estão sob
avaliação.
Esse TAC tem validade de dois anos prorrogável por mais dois e cobre uma área

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total de 18.849,8ha distribuídos em: 16.600ha de lavoura e 150 de pastos para os Paresi;
1.249,8ha de lavoura para os Nambiquara e 1.000ha de lavoura para os Iranxte e
Manoki. No TAC, os seguintes ajustes foram destacados: necessidade da realização da
consulta prévia, livre e informada; promoção do licenciamento ambiental; não uso de
organismos geneticamente modificados (OGMs), os trangênicos; vedação à ampliação
da área de plantio; uso exclusivo, a partir da safra 2020/2021, do financiamento via
instituições financeiras regulares; exploração agrícola a ser desenvolvida
exclusivamente pelos indígenas. Trata ainda de sustentabilidade socioambiental,
incentivo às roças indígenas, repartição justa dos benefícios e adequação aos
condicionantes do licencimento ambiental.
No rastro desse TAC surgiu a Instrução Normativa Conjunta (INC) n.º 1, de 22
de fevereiro de 2021, entre o Ibama e a Funai. Dispõe, no seu enunciado, “sobre o
licenciamento ambiental de empreendimentos ou atividades localizados ou
desenvolvidos no interior de Terras Indígenas cujo empreendedor seja organizações
indígenas”51. Já no seu art. 1.º a INC contradiz seu enunciado e inclui não indígenas no
seu escopo, “cujo empreendedor sejam os próprios indígenas usufrutuários” e
“organizações de composição mista de indígenas e não indígenas”.

51
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Fundação Nacional do índio. Instrução Normativa
o
Conjunta n. 1, de 22 de fevereiro de 2021. Dispõe sobre os procedimentos a serem adotados durante
o processo de licenciamento ambiental de empreendimentos ou atividades localizados ou desenvolvidos
no interior de Terras Indígenas cujo empreendedor seja organizações indígenas. Brasília: Funai/Ibama,
2021.
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Tal intento em abrir espaço para não indígenas explorarem economicamente as

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terras indígenas afronta o dispositivo constitucional do usufruto exclusivo indígena
sobre suas terras. Afronta explicitada no art. 5.º da INC, quando diz que cabe à
organização responsável pelo empreendimento a construção da proposta, “respeitada a
sua autonomia de escolha de seus modelos próprios de desenvolvimento […] [e] modos
próprios de tomada de decisão”. Como será possível uma organização mista com a

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participação de não indígenas definir “seus modelos próprios de desenvolvimento e os
seus meios próprios de tomada de decisão”52? Quais parâmetros de desenvolminto e de
decisão serão adotados? Os dos brancos ou os dos indígenas? Essa organização mista
levará em conta o interesse da maioria da comunidade? O “meio próprio” de decisão
dessa organização levará em conta a consulta prévia da comunidade e o que ela decidir?
A INC também viola a autodeterminação das comunidades, ao prever a manifestação da
Funai como conclusiva em relação aos impactos socioambientais e ao abrir a
possibilidade da dispensabilidade do licenciamento ambiental para não indígenas.
Aqui temos um exemplo da delicadeza que é tratar o assunto do arrendamento, e
como ele ainda dá ensejo ao afã em liberar as terras indígenas para sua exploração e/ou
sua apropriação por não indígenas. Infelizmente esse assunto requer o cuidado de ser
avaliado na perspectiva dessa ameaça que ainda o ronda.
Algumas recomendações podem ser depreendidas dessas informações: i) não
abordar esse assunto para além dos ajustes nas experiências já em andamento; ii)
esclarecer as incertezas e analisar os pontos negativos das experiências em andamento,
levantados na oficina citada; iii) realizar estudos de impactos socioambientais nas
experiências de arrendamento em andamento no Brasil; e iv) com base nesses estudos,
realizar consultas prévias, livres e informadas no sentido da continuidade ou não dessas
experiências.

52
Ibid.
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4.4 Assalariamento e prestação de serviços

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Segundo o Ministério do Trabalho, em 2017 haviam 75 mil indígenas trabalhando com
carteira assinada no Brasil53. Se aplicamos a taxa anual de crescimento vegetativo da
população brasileira em geral, de 1,24%, sobre os 896,7 mil indígenas recenseados pelo
IBGE em 2010, temos uma estimativa, para o ano de 2017, de uma população de
aproximadamente 977.815 mil indígenas. Desse modo, o número de indígenas com

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carteira assinada em 2017 corresponderia a aproximadamente 7,67% de sua população
indígena. Esse percentual tenderia a aumentar, se calculado apenas para a população
economicamente ativa, além do que, não inclui a parcela da população indígena que
possui inserção no mercado de trabalho informal, cuja participação talvez seja ainda
maior do que no mercado formal.
Esse breve e superficial exercício de estimativa indica que a contribuição do
trabalho assalariado, formal e informal, constitue uma importante fonte de renda para as
economias indígenas contemporâneas. Fato que não é de se estranhar, devido às
profundas raízes históricas, já observadas na precoce inserção do trabalho indígena na
economia colonial, quando teve um peso e relevância destacados, conforme a
historiografia tem noticiado:

Nos últimos anos, uma renovada historiografia sobre a América


portuguesa tem destacado o importante papel da mão de obra indígena
na construção e reprodução da estrutura produtiva colonial. Em geral,
esses estudos revelam como a exploração do trabalho escravo
indígena desempenhou papel-chave nos processos de acumulação
interna, especialmente nos períodos em que as elites coloniais em
formação ainda não detinham liquidez efetiva para se aventurar no
crescente mercado de escravos africanos54 (CANCELA, 2014).

53
Disponível em: http://www.tst.jus.br/web/guest/radio-outras-noticias/-
/asset_publisher/0H7n/content/reportagem-especial-insercao-de-povos-indigenas-no-mercado-de-
trabalho?redirect=/web/guest/radio&inheritRedirect=true. Acesso em: 17 mar. 2021.
54
CANCELA, Francisco. O trabalho dos índios numa “terra muito destituída de escravos”: políticas
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Também possui raízes profundas algumas características dessa relação

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interétnica. Já na aurora da colonização portuguesa no Brasil, a inserção do trabalho
indígena na economia colonial foi marcada pela exploração e a subordinação da mão de
obra indígena, alcançada por diversos estratagemas que compuseram um gradiente que
ia da imposição violenta da escravidão, passando por relações de vassalagem até formas
mais atenuadas concretizadas por negociações e alianças. Essa marca de origem, ainda

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hoje acompanha o trabalho indígena no Brasil. Da mesma forma, essa relação foi
também caracterizada pela seminal resistência indígena à sua subordinação pelo
trabalho, fazendo do tensionamento entre subordinação versus autonomia um traço
constitutivo dessa relação e uma importante chave para compreendê-la.
O trabalho assalariado no século 20 veio substituir gradualmente o trabalho
escravo indígena, que ainda permaneceu sob diferentes modalidades ao longo do século,
por exemplo pelo endividamento do trabalhador usado no sistema do aviamento ou
barração. Ainda hoje, no Brasil do século 21, trabalhadores indígenas são encontrados
em condições análogas à escravidão, porém em menor escala que na primeira metade do
século 20 e nos cinco séculos anteriores. Pode-se dizer que o cativeiro foi atenuado, mas
não eliminado. Ainda permanece e pode ser também identificado na superexploração da
mão de obra indígena obtida por meio de contratos e condições de trabalho
precaríssimos, baixos salários e, fundamentalmente, pela perda da autonomia sobre o
processo de trabalho, presente nas sociedades indígenas e por elas altamente valorizada.
Por isso também, paralelamente, seguiu presente da parte indígena a luta contra
essa subordinação pautada por repertórios socioculturais próprios e calçada na
experiência histórica de resistência ao longo do processo de colonização. Hoje contam
com algum apoio estatal na defesa de seus direitos, mas em grande parte do século 20 e

indigenistas e políticas indígenas na antiga Capitania de Porto Seguro (1763-1808). História, São
Paulo, v. 33, n. 2, p. 514-539, jul./dez. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/his/v33n2/0101-
9074-his-33-02-00514.pdf. Acesso em: 15 abr. 2021.
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dos anteriores, não só careciam desse apoio como o estado era um ativo agente da

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subordinação indígena.
No século 20 a maior parte da mão de obra indígena, no sentido da sua
disponibilidade para a economia nacional, foi formada em decorrência do processo de
expropriação territorial e da política indigenista iniciada no período colonial. Isso
resultou na formação de uma espécie de campesinato indígena que em diferentes

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contextos regionais conseguiu manter seus vínculos territoriais se valendo de diferentes
estratégias, como a posse e o usufruto sobre partes do território e o domínio, também de
partes dos territórios, via reconhecimento estatal. A exemplo das reservas indígenas, e a
permanência na terra por vínculos estabelecidos com os novos ocupantes por meio de
parcerias, alianças e lealdades, como as trazidas pelo compradio, arrendamentos, posses
consentidas e pelo assalariamento, como peões e trabalhadores braçais temporários.
Em algumas regiões o assalariamento teve lugar de destaque nas relações
interétnicas. Nas décadas de 1950 e 1960, quando o antropólogo Roberto Cardoso de
Oliveira realizou trabalho de campo, hoje Mato Grosso do Sul, foi constatado que mais
de 80% da população Terena da terra indígena Cachoeirinha dependia do mercado
externo de trabalho.55
Na segunda metade do século 20, especialmente após a Constituição Federal de
1988, novas oportunidades de assalariamento surgiram e adquiriram importância, como
as do serviço público vinculado às políticas de saúde, educação e assistência, casos da
Funai no cargos de coordenadores locais, regionais, motoristas e administradores, da
Sesai para os cargos de enfermeiros, agentes de saúde e de saneamento, coordenadores,
auxiliares de escritório etc. e secretarias estaduais de educação para professores,
diretores, coordenadores pedagógicos, vigias, merendeiras.

55
CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto. Urbanização e tribalismo: a integração dos índios Terena numa
sociedade de Classes. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1968.
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Outro aspecto que mudou esse quadro é a crescente escolarização dos indígenas.

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De acordo com o censo da educação superior, em 2018, havia 57.706 indígenas
matriculados em todo o país, o que representava 0,7% do total de 8,4 milhões de
estudantes. Esse conjunto de estudantes estão se capacitando para ocupar postos de
trabalhos com melhores condições e salários e se inserirem em seguimentos menos
proletarizados do mercado de trabalho, resultando em um progressivo descolamento das

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oportunidades exclusivamente associadas às atividades disponíveis ao campesinato
indígena.
Aquelas parcelas das sociedades indígenas que se urbanizaram se inseriram no
contexto das oportunidades de trabalho das cidades ofertadas aos trabalhadores com
menos escolaridade. A renda gerada nas cidades passa a integrar as economias
comunitárias por meio de redes e vínculos que são mantidos com as comunidades de
origem. Tanto no contexto rural quanto no urbano, à medida que os indígenas se
inserem em relações de trabalho pautadas pelo mercado, as condicionantes de ordem
étnica se associam às de classe, fazendo com que a renda e a forma da sua geração
requeiram uma abordagem que considere também essa outra camada que perpassa as
relações interétnicas. Por esse motivo, toda a discussão sobre a superação da
desigualdade social adquire relevância para se avaliar essas alternativas de geração de
renda associadas ao assalariamento no mercado de trabalho nacional, no que diz
respeito à melhoria das condições de trabalho e da qualidade de vida dos indígenas nele
inseridos. Isso faz que o trabalho do MPF voltado à garantia dos direitos coletivos,
individuais e difusos, e a sua promoção por meio de políticas públicas adequadas,
continue sendo necessário para fazer com que essas fontes de renda superem a marca
histórica da exploração do trabalho indígena.

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4.5 Artesanato

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O artesanato é a transformação do artefato indígena, ou seja, dos objetos confeccionados
por eles e usados no dia a dia com valor de uso, troca e dádiva56, em objetos com valor
de mercado a partir do estabelecimento de um preço para serem comercializados. Os
artefatos indígenas compõem na antropologia o campo dos estudos da cultura material,
em que esses são analisados como documento histórico, artístico, simbólico e de

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identificação étnica. Os artefatos circulam no âmbito intra e interétnico, enquanto o
artesanato é predominantemente para circulação externa, usado nas relações
interétnicas.
Caracterizam tanto um quanto o outro serem feitos à mão, terem a marca dos
autores, guardarem uma ligação entre autor/produtor, objeto e usuário, e o controle
pelos autores/produtores do processo produtivo. Também agregam o valor da
sociobiodiversidade por meio do conhecimento tradicional, o saber fazer.
Os desafios gerados pela transformação do artefato em artesanato passam por
evitar o esvaziamento dos significados culturais e simbólicos dos objetos e a imposição
indiscriminada de modificações com vistas a adequá-los à demanda de mercado. Outro
desafio é evitar a superexploração dos recursos naturais usados na sua produção. Todo
cuidado deve ser adotado para garantir que não haja a dissociação entre autor/produtor,
objeto e usuário, em termos marxistas, a alienação, e a consequente perda pelo artífice
do controle do seu processo produtivo.
Além desses, tem-se o desafio central do estabelecimento de processos de
consulta prévia, precondição para o desenvolvimento de qualquer atividade econômica
junto aos povos indígenas. Há que se estabelecer redes comerciais estáveis e

56
Quando objetos e alimentos são oferecidos como presentes e geram ao receptor uma dívida de
retribuição junto ao doador, estabelecendo relacionamentos de reciprocidade. Mecanismo descrito por
Marcel Mauss no seu clássico Ensaio sobre a dádiva.
MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. São Paulo: Cosac Naif, 2003.
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sustentáveis a longo prazo, como também de canais de comunicação entre as aldeias e

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os potenciais mercados. Outro desafio passa pelo apoio aos povos indígenas na gestão
da comercialização e na gestão ambiental, no que diz respeito ao uso de matérias-primas
para sua produção.
Por outro lado, o artesanato tem o potencial de articular atividades econômicas
sustentáveis e a valorização cultural e identitária, criando oportunidades de transmissão

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dos conhecimentos tradicionais e a geração de renda dentro das terras indígenas, com
potencial para envolver a participação dos jovens. O artesanato pode compor junto ao
turismo uma importante pauta para as economias indígenas.

4.6 Turismo

O turismo é uma atividade econômica com potencial de gerar renda para as


comunidades indígenas conciliando conservação ambiental dos seus territórios e
fortalecimento das identidades étnicas. Para que esse potencial se concretize, faz-se
necessário uma criteriosa avaliação e planejamento participativo. Por outro lado, a
ausência da avaliação de impactos e de planejamento tem o potencial de causar danos
socioambientais para as sociedades indígenas.
Na perspectiva de conciliar geração de renda, conservação ambiental e
valorização cultural, das múltiplas vertentes do turismo a que mais se aproxima das
realidades locais das comunidades indígenas é o ecoturismo57. Ele abarca atividades

57
Comparado a outros países, a atividade turística no Brasil, principalmente na vertente do ecoturismo, é
ainda muito pouco desenvolvida. Essa é a conclusão do Fórum Econômico Mundial. Em uma lista de
136 países o Brasil aparece em primeiro lugar em potencial de recursos naturais, mas perde
competitividade em quase todos os outros 13 itens listados. No ranking geral fica na 27.ª posição. O
resultado está no documento The Travel & Tourism Competitiveness Report 2017, lançado
recentemente pela organização. Desde 2007, a pesquisa monitora o potencial competitivo de recursos e
serviços para o turismo internacional. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39573246.
Acesso em: 10 mar. 2021.
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voltadas à valorização e ao conhecimento das especificidades etnoculturais dos povos

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indígenas e ao contato com a natureza de seus territórios.
Em grande parte, as atividades de ecoturismo desenvolvidas em terras indígenas
ainda carecem de planejamento que lhes garantam sustentabilidade socioambiental e
econômica, a exemplo do turismo de pesca vinculado a pousadas administradas por não
indígenas, em que se observa, entre outros aspectos, uma concorrência dessa atividade,

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em alguns casos conflituosa, com a pesca tradicional praticada pelos próprios indígenas.
Recomendações para essa modalidade de turismo foram estabelecidas no Brasil
a partir de 1997 no programa-piloto de ecoturismo em terras indígenas, documento
elaborado pelo Grupo Técnico de Coordenação do Ecoturismo para a Amazônia Legal
(GTC Amazônia), com apoio da Funai, do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur),
promovido pelo Ministério do Meio Ambiente e executado pela Associação Brasileira
de Ecoturismo (ECOBrasil). Esse esforço resultou no Manual Indígena de Ecoturismo
que, por sua vez, definiu as seguintes recomendações:

[…] a tradição cultural deve prevalecer sobre os interesses do


ecoturismo; o ecoturismo deverá levar em conta o grau de contato da
sociedade indígena; o ecoturismo deve respeitar e valorizar a cultura
local; a comunidade deve participar de todo o processo do ecoturismo
em suas terras; cabe à comunidade a gestão do ecoturismo em suas
terras; o ecoturismo deve gerar recursos econômicos para melhorar a
qualidade de vida da comunidade indígena; o uso sustentável dos
recursos naturais deve ser praticado; ecoturismo deve ser uma
atividade complementar e de apoio às atividades tradicionais e a
outros projetos da comunidade; os ecoturistas não levem armas de
fogo e bebidas alcoólicas; não devem faltar com o respeito à cultura e
à privacidade das comunidades; não tenha risco de transmissão de
doenças; não deixem lixo na mata ou nos rios e igarapés; não
introduza vícios (álcool e drogas) e prostituição; não explore e/ou
manipule a mão de obra da comunidade; não passe falsos valores,
sobretudo a crianças e jovens; não estimule a vergonha étnica; não
tenha venda de artesanato e artefato abaixo do valor justo; não ocorra
a produção “industrial” de artesanato; não ocorra a produção de

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artesanato com espécies raras e ameaçadas de extinção58 (MÜLLER,


1997).

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A partir dessas recomendações/parâmetros deve-se investir na avaliação e no
planejamento das atividades de turismo com vistas a dotá-lo de sustentabilidade
socioambiental e evitar danos às sociedades indígenas. Esse processo de instrução e
deliberação deve ser qualificado pela participação indígena. O diálogo e a consulta
deverão ser transversais ao longo do seu desenvolvimento, estabelecendo mecanismos

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de consulta que envolvam a participação das populações locais ou aldeias em todo o
processo.
Estudos de impacto sociocultural, ambiental e econômico, composto por
inventário do potencial turístico, pesquisa de mercado/demanda e avaliação dos
impactos deverão ser produzidos como subsídio à consulta informada, bem como para
qualificar o planejamento e, em caso de anuência da comunidade, o próprio
desenvolvimento da atividade turística.
Uma série de perguntas devem ser feitas e respondidas nessa fase:

Quem representa a comunidade? Qual é o modelo de turismo que se


quer? Qual é o turista que se quer? Qual é o turista que não se quer?
Quem define o que é ou não de interesse dos turistas? Qual a melhor
época para a realização do turismo? Quando não será permitido?
Serão oferecidos alimentos tradicionais da cultura local aos turistas?
Serão apresentadas danças ou rituais? Quais os efeitos disso? Os
turistas poderão andar pelas aldeias? Poderão andar livremente por
alguma área? Quais as práticas de ecoturismo ou esportivas que serão
permitidas e/ou oferecidas? Quais os melhores locais para construção
da hospedaria? Qual o tipo de hospedaria será oferecido? O quê mais
precisa ser construído, e onde? Quais os possíveis impactos
socioambientais durante a implantação da infraestrutura turística?
Quais os possíveis impactos durante o desenvolvimento do turismo?
Quais os equipamentos e recursos disponíveis quanto à saúde e à
comunicação, e em que casos (devido a que doenças/acidentes) ou
condições se podem recorrer a eles? Qual é a acessibilidade dos

58
MÜLLER, Regina Polo et al. Manual indígena de ecoturismo. [S. l.]: Instituto Ecobrasil, 1997.
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atrativos, e a das aldeias? Quantos turistas os espaços permitem de


uma só vez? Quais os horários de visitas às aldeias, se é que serão

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permitidas? Como os turistas serão preparados? Quem vai ser
responsável por quais atividades do ecoturismo? Quando e como isso
ocorrerá? Como o turismo pode afetar as atividades tradicionais?
Como a renda gerada será distribuída? Como e por quem isso será
definido? 59 (GUIMARÃES, 2006).

O planejamento deve ter como meta a certificação desse tipo de turismo, nos
termos, por exemplo, da ABNT NBR ISO 21401:2020, publicada em janeiro de 2020,

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elaborada pelo Comitê Brasileiro de Turismo (ABNT/CB -054). Essa norma se vincula
à internacional ISO 2140 (Tourism and related services – Sustainability management
system for accommodation establishments – Requirements), desenvolvida para atender
demandas de desenvolvimento do turismo sustentável para qualquer tipo, tamanho e
localização geográfica de meio de hospedagem. Norma ligada à agenda de
sustentabilidade, em que são abordados direitos humanos, saúde e segurança, proteção
ambiental e desenvolvimento da economia local.

4.7 Renda decorrente de atividades não são diretamente produtivas: previdência


social, transferência de renda, compensações por impactos socioambientais

4.7.1 Previdência social e programas de transferência de renda

O contato interétnico causou para a maioria dos povos indígenas crises sanitárias
graves, perdas territoriais, exploração e subordinação de sua mão de obra,
desestruturação das suas economias tradicionais e degradação socioambiental. Portanto,
tais impactos causaram desequilíbrios nas organizações sociais desses povos, pondo em
risco sua sobrevivência física. Diante desse quadro, semelhante a um período de pós-

59
GUIMARÃES, Rodrigo Gomes. Turismo em terras indígenas já é fato: quem se arrisca? Revista
Dialogando no Turismo, v. 1, n. 1, p. 15-42, 2006.
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guerra, faz-se necessário um esforço de reconstrução capaz de garantir condições para a

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reorganização socioeconômica dessas sociedades afetadas.
As sociedades indígenas nas Américas viveram essa experiência de guerra sem
que a elas tenha sido direcionado qualquer esforço concertado de reconstrução, como o
que foi dedicado aos países europeus no período do pós-guerra. Em vez disso, as
sociedades nativas ainda vivem a continuidade, em menor escala, da guerra de

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conquista, fazendo uma analogia, continuam a sentir as ondas decorrentes do abalo
sísmico causado pelo evento colonial. Na ausência de um esforço sistemático de
reconstrução observamos a pulverização de uma série de medidas pontuais de
reparação, representadas pela efetivação de direitos sociais que soem ocorrer como uma
política repadora randomizada e assistencial. Do ponto de vista econômico, tais direitos
são concretizados por meio de programas de transferência de renda, aposentadorias,
compensações por impactos socioambientais, entre outros.
Os programas de transferência de renda têm se revelado importante para mitigar
a pobreza extrema e garantir segurança alimentar de uma maneira geral, e
principalmente para os povos indígenas mais afetados pelo contato interétnico, caso dos
Guarani Kaiowá em Mato Grosso do Sul.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, o número total de famílias
indígenas beneficiadas pelo Programa Bolsa Família (PBF), no Brasil, em março de
2021, é de 131.74860 famílias. O valor médio pago mensalmente a essas famílias pelo
PBF é de R$186,8361. Isso significa a distribuição mensal de mais de 24 milhões e meio
de reais para essas famílias, o que corresponde a aproximadamente a metade do
orçamento anual da Funai, que em 2020 foi de 640 milhões.

60
Disponível em: https://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/ri/relatorios/cidadania/. Acesso em: 23 mar. 2021.
61
Disponível em: https://aplicacoes.mds.gov.br/sagi/vis/data3/data-explorer.php#. Acesso em: 23 mar.
2021.
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Dados gerais da Previdência Social relativos ao ano de 200262 demostram o

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impacto na renda da Região Norte onde vive a maior parte da população indígena no
Brasil. Naquele ano as despesas previdenciárias corresponderam a 4,2% do produto
interno bruto (PIB) dessa região. No Acre e em Tocantins as transferências da
Prvidência chegaram respectivamente a 6,5% e 6,8% do PIB. Segundo o IBGE, cada
benefício preividenciário favorece em média 3,5 pessoas relacionadas ao beneficiário

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direto, estima-se que os recursos previdenciários incrementem a renda de 23,6% da
população total residente na Região Norte ou 44,3% da sua população rural, incluindo
nesses percentuais a população indígena63.
Pesquisa realizada sobre os impactos dos benefícios assistenciais junto à população
Guarani Kaiowá, com base em estudo de caso nas aldeias Bororó e Jaguapirú, no
município de Dourados, em Mato Grosso do Sul, demonstrou a significativa presença
desses benefícios na renda das famílias Kaiowá, em que a maioria recebiam algum dos
seguintes benefícios de forma isolada ou concomitante: Bolsa Família, Benefício de
Prestação Continuada (BPC), aposentadoria e pensão.64
A adequação desses benefícios às especificidades socioculturais dos povos
indígenas ainda é um desafio. Os principais problemas indentificados em duas
avaliações, uma referente às aposentadorias65 e outra ao Programa Bolsa Família66

62
Devido à dificuldade em obter dados atualizados e específicos para a população indígena, encontramos
essa referência, relativa ao ano de 2002, ilustrativa do impacto desse benefício para a população rural
da Região Norte.
63
Disponível em: https://www.povosindigenas.org.br/pt/Not%C3%ADcias?id=4638. Acesso em: 24 mar.
2021.
64
QUERMES, Paulo Afonso de Araújo. Os impactos dos benefícios assistenciais para os povos indígenas:
estudo de caso em Aldeias Guaranis. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, n. 116, out./dez. 2013.
Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-
66282013000400010&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 24 mar. 2021.
65
Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br/images/arquivos/office/3a_110505-152006-640.pdf.
Acesso em: 25 mar. 2021.
66
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria de Avaliação e Gestão da
Informação. Estudos etnográficos sobre o Programa Bolsa Família entre povos. Brasília: MDS,
2015. Disponível em: https://fpabramo.org.br/acervosocial/wp-content/uploads/sites/7/2017/08/513.pdf.
Acesso em: 24 mar. 2021.
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(PBF), passam por:

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• Desconhecimento por parte dos indígenas dos seus direitos e dos requisitos para acessá-
los. Dificuldades em cumprir os procedimentos burocráticos para a emissão da
documentação exigida para a concessão dos benefícios;
• Barreiras linguísticas. Muitos servidores públicos não compreendem e/ou falam os
idiomas indígenas, parte considerável dos índios não dominam o português;
• Deslocamento aos centros urbanos para acessar os benefícios. Custos logísticos

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elevados com transporte, alojamento e alimentação. Exposição ao ambiente urbano,
pouco familiar para muitos indígenas, onde estão sujeitos a violência física e simbólica,
como constrangimentos sofridos nos estabelecimentos em que sacam e gastam os
recursos. Exposição ao contágio de doenças transmissíveis que circulam em áreas
populosas, o que ficou claro no período da pandemia do coronavírus. Dispêndio de
tempo em longas viagens em detrimento das atividades desenvolvidas nas terras
indígenas;
• Presença de redes de intermediação para o acesso e usufruto aos benefícios.
Estabelecimento de um sistema de exploração dos benefícios dos indígenas em proveito
dos intermediários, os patrões. Em alguns casos isso ocorre dentro da própria etnia.
Criação de vínculos de dependência a essas redes para o recebimento e usufruto dos
benefícios; e
• Defasagem das estruturas de atendimento das políticas previdenciárias, assistencial e
indigenista diante a demanda. Número insuficiente de servidores, precariedade
operacional (equipamentos, orçamento etc.) e ausência de capacitação adequada no
atendimento das especificidades socioculturais indígenas.

Os mesmos estudos que identificaram tais problemas também recomendam os


seguintes ajustes e melhorias nessas políticas públicas:
• Integração intersetorial das políticas públicas. O acesso aos direitos e benefícios sociais
não podem estar descolados, por exemplo, do reconhecimento das terras indígenas,
principal substrato para a reprodução física e cultural dos povos indígenas;
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• Apoio às economias indígenas, por meio do financiamento e da prestação de assistência

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técnica culturalmente qualificada e continuada das iniciativas familiares e coletivas de
produção, distribuição, consumo e comercialização de alimentos, bens e serviços
oriundos da sociobiodiversidade local;
• Apoio institucional às organizações indígenas, como na formação de cooperativas
indígenas que facilitem o acesso a mercadorias e evitar a intermediação dos “patrões” e
a necessidade de deslocamentos para as cidades;

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• Apoio a projetos de recuperação de áreas degradadas, como reflorestamento e
reconstituição de matas ciliares, por meio de planos locais e regionais de gestão
territorial e ambiental; e
• Constituição de um subsistema para gerenciar os programas assistenciais indígenas,
com regras e procedimentos próprios, a exemplo do subsistema de atenção à saúde
indígena.

4.7.2 Compensações e indenizações67 por impactos socioambientais

O avanço atual de grandes obras de infraestrutura sobre os territórios indígenas está


relacionado à histórica expansão das fronteiras econômicas internas, iniciada no periodo
colonial e atualizada sob novas formas. Uma dessas formas é o desenvolvimentismo,
adotado desde o regime militar com vistas à “integração” da Amazônia segundo a
ideologia de segurança nacional, por meio do fomento da economia extrativista e a
substituição da floresta por uma paisagem antropizada, entendida como indicador da
integração da região.
Com base no acompanhamento pericial pelo MPF de processos de licenciamento
ambiental junto às procuradorias da república nos estados, observamos que os recursos
67
A compensação ambiental se conecta aos impactos e/ou danos previstos nos estudos prévios, Estudos
de Impacto Ambiental (EIA), que não podem ser objeto de medidas mitigadoras ou preventivas,
enquanto a indenização é aquela devida pelo empreendedor quando da ocorrência de impactos ou
danos não previstos ou não considerados no EIA/Rima.
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injetados nas comunidades indígenas em decorrência do licenciamento ambiental de

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grandes obras ou empreendimentos, caracterizam-se por não cumprirem, ou só
cumprirem parcialmente, o desiderato de mitigar e compensar os danos socioambientais
que causam.
Isso se deve ao baixo perfil da participação social indígena decorrente do não
cumprimento da consulta prévia, livre e informada, prevista na Convenção n.º 169 da

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Organização Internacional do Trabalho (OIT), na definição desses empreendimentos em
todas suas fases, inclusive, e principalmente, na do seu planejamento. Um grande
empreendimento quando é definido sem levar em consideração as populações e bens
atingidos, reduz o licenciamento ambiental ao mero cumprimento de protocolos
burocráticos com vistas à obtenção das licenças. Nesse sentido, o empreendedor é
induzido a “mitigar” os impactos socioambientais por meio de uma economia das
externalidades, cuja lógica visa reduzir, ao máximo, os custos dos impactos
socioambientais68, ou das externalidades geradas pelo empreendimento não
contabilizados no orçamento inicial do projeto.
Abrimos aqui um parentêses para falar do conceito de externalidades. Em
economia, externalidade diz respeito aos efeitos, negativos ou positivos, sobre a
sociedade, o meio ambiente e os indivíduos, gerados por uma determinada atividade
econômica. Na maioria dos casos as externalidades não são consideradas no
estabelecimento dos preços de uma determinada mercadoria ou serviço.
Internalizar uma externalidade envolve a alteração de incentivos para que as empresas,
governos, sociedades e indíviduos levem em conta os efeitos de suas ações. O governo
pode, por exemplo, internalizar uma externalidade modulando os impostos sobre uma

68
Segundo o Relatório de Custos da Coordenação Geral de Meio Ambiente do DNIT, de 2011, nos anos
de 2002-2010, o valor empenhado para contratação dos serviços ambientais não chegou a 1,5% do
montante empenhado para a execução dos projetos de infraestrutura de transporte nos modais
rodoviários, ferroviários e aquaviários, ficando a média em 0,83%. Disponível em:
https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/30999/1/2017_MartonchelesBorgesdeSouza.pdf. Acesso em:
6 abr. 2021.
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determinada atividade econômica conforme os custos ou benefícios que esta produza.

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Por exemplo, a ponderação das externalidades geradas pela indústria de bebidas
acoólicas, entre os benefícios decorrentes da geração de emprego e renda e os custos
sobre a saúde pública decorrentes do aumento da violência, acidentes de trânsito,
doenças, desagregação familiar etc., ainda não são considerados nos impostos pagos
pelos fabricantes e comerciantes. E que, quando ocorrer, certamente refletirá no preço

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dessa mercadoria que, por sua vez, resultará em mudanças de hábitos e comportamentos
produzindo impactos sociais cuja ponderação de necessidade, conveniência e
oportunidade a sociedade e o governo devem fazer, e não apenas os agentes econômicos
envolvidos.
Voltando às grandes obras de infraestrutura e empreendimentos, no Brasil, via de
regra, suas externalidades socioambientais não são internalizadas nos seus custos e
preços, tampouco seu custo de oportunidade é ponderado pela sociedade e pelas
populações atingidas, mas o são exclusivamente pela tecnocracia estatal e pelos agentes
econômicos interessados.
Dessa forma, o estado, ao não considerar o custo socioambiental efetivo de um
empreendimento, transfere esse custo para a sociedade onerando-a duplamente, uma
como financiadora indireta do empreendimento, por meio dos impostos imbutidos no
financiamento público e principal fonte de financiamento dessas obras, e outra pela
solução a um custo altíssimo e de longo prazo do passivo socioambiental produzido,
uma vez que, também, essa solução é gerida de forma randômica e sem racionalidade
que a vincule às suas causas geradoras.
A economia das externalidades feita pelos governos e agentes privados começa
pela busca em "fatiar" o licenciamento. Por exemplo, para a construção de uma rodovia
ou um complexo hidrelétrico localizado em uma mesma bacia hidrográfica, busca-se
subdividir o licenciamento em partes menores, por trechos ou UHEs, para que sejam

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analisados isoladamente. Trata-se de uma operação para subdimensionar os impactos e

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impedir que esses sejam vistos no todo, considerando os efeitos sinérgicos e
cumulativos existentes. Essa perspectiva transforma o dever/direito em mitigar e
compensar em uma corrida de obstáculos, em que o custo socioambiental é tratado
como impedimento a ser superado por meio de uma negociação cujo objeto não é a
solução dos danos, mas a redução do seu “preço”; e em imputar às populações e aos

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bens afetados a condição de “obstáculos ao desenvolvimento” a serem transpostos. No
caso das populações afetadas, essas são também acusadas de oportunistas quando
reivindicam a reparação dos danos que sofreram.
Esses aspectos demonstram que o licenciamento como um todo é visto como um
empecilho, perdendo-se de vista sua finalidade precípua em precaver/evitar danos
socioambientais que afetem a sociedade, o que soe ocorrer na própria concepção desses
projetos ao não contabilizarem seus custos socioambientais nos respectivos orçamentos.
Tal distorção gera repercussões ao longo do processo, como a adoção da pior
técnica de gestão durante o licenciamento. A exemplo do uso de estratégias de
negociação que envolvem a cooptação e a corrupção de lideranças, a abertura de balção
para negociar compensações individuais em detrimento da mitigação ou compensação
dos danos coletivos; a desqualificação do atingido como oportunista; a definição do
dever de mitigar, compensar e reparar como mera liberalidade ou favor do
empreendedor. Tal modus operandi já se constitui em “cartilha” difundida entre
empreendedores e empresas poluidoras. Sua adoção é responsável por gerar conflitos,
internos ou interétnicos, pelo acesso aos recursos e gerar impactos novos e não
previstos, como a desestruturação das economias indígenas. O dossiê do Programa
Xingu do Instituto Socioambiental sobre o licenciamento da usina hidrelétrica de Belo
Monte demonstra o impacto da adoção desses métodos durante o licenciamento dessa
usina:

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Segundo a Norte Energia, R$ 212 milhões já foram


gastos com os povos indígenas. Porém, em lugar de

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serem investidos, de forma estruturada, na mitigação
e compensação dos impactos, esses recursos foram principalmente
utilizados no fornecimento de bens materiais (até março de 2015,
foram comprados 578 motores para barco, 322 barcos e voadeiras, 2,1
milhões de litros de gasolina, etc.), consolidando um inaceitável
padrão clientelista de relacionamento entre empresa e povos
indígenas. Os recursos foram distribuídos por dois anos (de outubro de
2011 a setembro de 2013), na forma de uma espécie de “mesada” no

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valor de R$ 30 mil mensais por aldeia. Dessa maneira, o
empreendedor e o Estado puderam controlar temporariamente os
processos de organização e resistência indígena, deixando como
legado a desestruturação social e o enfraquecimento dos sistemas de
produção de alimentos nas aldeias, colocando em risco a saúde, a
segurança alimentar e a autonomia desses povos69 (ISA, 201-).

A baixa efetividade do licenciamento ambiental na redução de danos aos povos


indígenas, se deve também pela recorrente inadequação sociocultural das medidas
previstas nos Projeto Básico Ambiental do Componente Indígena (PBA-CI). As
comunidades indígenas são obrigadas a lidar com um mundo novo de informações,
estranho aos seus léxicos culturais, que envolve aspectos técnicos, políticos, legais,
contábeis e burocráticos associados ao licenciamento, gerando sérias dificuldades de
compreensão e acompanhamento do processo em que são envolvidas. Outra causa é o
reduzido cumprimento das condicionantes estipuladas no decorrer do licenciamento.
Como consequência desses fatores, os recursos advindos das compensações e
indenizações têm-se mostrado incompetentes para criar condições econômicas
sustentáveis para que as comunidades indígenas possam, a partir deles, gerar
autonomamente renda após a implantação dos empreendimentos.
Esse quadro de coisas tem impedido que os danos socioambientais sejam
efetivamente evitados, mitigados e compensados, bem como sejam evitados novos

69
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Belo Monte: não há condições para a licença de operação. São
Paulo: ISA, [201-]. p. 14. Disponível em:
https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/publications/25D00019.pdf. Acesso em: 4 abr. 2021.
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danos e respectivos custos. Recursos assim enviesadamente investidos têm apresentado

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resultados com baixíssimo perfil de sustentabilidade, tornando a renda disponibilizada
aos índios em potencial geradora de expectativas clientelistas de longo prazo e
dependência do empreendedor, resultado indesejável para todas as partes envolvidas.

5 CONCLUSÃO E PROPOSTA DE ENCAMINHAMENTO

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Vimos ao longo deste parecer pericial que as economias indígenas estão em permanente
troca com a economia nacional, ou compulsoriamente expostas às suas interferências no
contexto de nossas fronteiras internas, fenômeno descrito como economia de fronteira.
Observamos também que as economias indígenas são hoje, em sua maioria, economias
mistas compostas por atividades voltadas à geração de renda vinculadas à economia
nacional, o que tem se intensificado com o passar dos anos.
Notamos a existência de uma grande assimetria de condições nas relações entre
povos indígenas e agentes econômicos não indígenas, marcadas pela subordinação do
trabalho indígena, perdas territoriais, exploração predatória dos bens naturais dos seus
territórios, subvalorização dos seus conhecimentos e dos seus produtos, o que gerou, ao
longo de séculos, diferentes tipos de impactos para as sociedades indígenas. Em
decorrência disso, vemos quão necessário e oportuno buscar um maior equilíbrio nas
relações econômicas entre os povos indígenas e a sociedade nacional.
Vimos também que a maioria das propostas apresentadas aos povos indígenas,
de boa-fé e dentro da legalidade, relacionadas ao desenvolvimento econômico,
ocorreram de fora para dentro das sociedades indígenas, sem a devida consulta e
adequação às suas especificidades socioculturais, fazendo que essas propostas resultem
em insustentáveis dos pontos de vista socioeconômico e ambiental.

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Notamos que historicamente não foi dada oportunidade para as sociedades

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indígenas optarem em permanecer na força de suas culturas e realizar seus modos de
vida. Ao longo de mais de meio milênio de contato interétnico com o mundo ocidental,
elas foram compulsoriamente forçadas, pelo estado e pela sociedade nacional, a
aderirem a um projeto etnocida por meio dos mecanismos da assimilação e/ou da
integração. Ainda não lhes foram garantidas condições para exercerem livremente a

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autodeterminação e construírem alternativas criativas em que possam consorciar o
acesso aos benefícios que lhes convierem acessar, disponibilizados pela sociedade
nacional, associado à realização de seus modos de vida.
Observamos a existência de um grande potencial para se desenvolver formas de
geração de renda que preservem a integridade dos territórios indígenas, por meio do uso
não predatório dos bens naturais, e que respeitem suas singularidades culturais através
da valorização dos seus modos de vida, conhecimentos, artefatos e produtos.
O desafio na interação com o mercado apresenta riscos e oportunidades. Os
riscos, como vimos, passam: por impactos diretos sobre a territorialidade indígena,
traduzidos em perdas territoriais e na exploração predatória dos seus recursos,
desorganizando suas economias tradicionais; pela monetarização das relações internas
se sobrepondo às tradicionais relações de troca e reciprocidade; por mudanças na suas
dietas alimentares com efeitos negativos sobre a saúde da população indígena; pelo
abandono de técnicas tradicionais de produção e manejo ambiental; e pela interrupção
das cadeias de transmissão dos conhecimentos tradicionais. Há ainda um risco, em um
nível mais profundo, na medida da expansão da subjetividade reificante subjacente à
mercadoria e ao seu modo de produção sobre as subjetividades indígenas. Esses riscos,
e respectivos danos, foram observados historicamente, muitos deles diretamente
associados à economia predatória associada à exportação de matérias-primas e suas

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conmodities, que são atualizações contemporâneas do modo de produção iniciado no

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Brasil, com a prática do bandeirantismo, nos séculos 16 e 17.
A oportunidade em favor dos povos indígenas nessa interação com o mercado,
passa pelo advento da bioeconomia, conceito que engloba sistemas de produção
baseados no uso e na conservação dos recursos biológicos dos ecossistemas por meio de
investimento e aplicação de ciência e tecnologia no uso dos ativos da

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sociobiodiversidade, de modo a agregar valor aos seus produtos e beneficiar as
populações locais. A geração de renda nesse arranjo produtivo também passa pelo
pagamento dos serviços ambientais fornecidos pelos ecossistemas preservados pelas
comunidades locais. Como diz o economista Ricardo Abramovay, para que essa
economia da sociobiodiversidade floreça, faz-se necessário um esforço de inovação que
respeite o conhecimento dos povos tradicionais.
Diante disso, e do que foi debatido ao longo desse parecer, vemos como
oportuna uma atuação menos reativa ou refém dos problemas gerados a partir da intensa
dinâmica das relações interétincas de viés econômico - muitas das quais meras
atualizações de relações iniciadas no longínquo período colonial -, mas uma atuação de
caráter mais preventivo e voltada à promoção de direitos, no sentido de apoiar os povos
indígenas a se preparem para lidar com agentes econômicos não indígenas e com a
economia do século 21, caracterizada por relações cada vez mais complexas. Com isso,
objetiva-se alcançar maior simetria e equilíbrio nas relações econômicas entre indígenas
e os agentes econômicos não indígenas.
As premissas a partir das quais se pretende construir essa proposta são: o
protagonismo indígena; o usufruto exclusivo pelos indígenas de suas terras; o uso
sustentável dos recursos naturais; e a valorização dos seus conhecimentos.

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A forma aqui proposta para realizar esse propósito é inusual, mas não inédita70,

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diante do que vem sendo mais experimentado nas práticas indigenistas governamentais
e não governamentais. Trata-se do desenvolvimento, em parceria com o movimento
indígena, de um programa-piloto de governança econômica indígena que englobe a
implantação de uma escola de negócios, uma incubadora e uma aceleradora de startups
indígenas. Tal programa visa formar e capacitar indígenas para o desenvolvimento de

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planos de negócios inovadores e a interação econômica com agentes econômicos não
indígenas.
Tendo em vista a delimitação de alguns dos casos emblemáticos inicialmente
apresentados nesta análise e também à grande sociodiversidade presente no estado de
Mato Grosso, o programa poderá ser desenvolvido de forma piloto nesse estado em
parceria com a Federação dos Povos Indígenas de Mato Grosso (FEPOIMT), bem como
com outros parceiros acadêmicos, organizações governamentais e não governamentais.
Existem hoje no estado de Mato Grosso 90 organizações indígenas ativas, distribuídas
entre associações, institutos, cooperativas, conselhos e fóruns tradicionais65 que poderão
ser beneficiários diretos do programa.
Tal programa deverá contemplar alguns eixos principais, tais como: formação,
capacitação e pesquisa relacionados aos seguintes objetivos:
• Formar gestores indígenas para o desenvolvimento de negócios inovadores e
sustentáveis;
• Formar consultores indígenas para assessorar as comunidades na interação com o
mercado;
• Capacitar pesquisadores indígenas para a realização de estudos de impactos

70
Vide a experiência da incubadora de negócios socioambientais - Saúde e Alegria. Disponível em:
https://saudeealegria.org.br/economia-da-floresta/incubadora-negocios-socioambientais/. Acessado em
14 de abril 2021.
65
Levantamento socioprodutivo e ambiental em terras indígenas do estado de Mato Grosso, realizado de
2018 a 2019 no âmbito de uma parceria Fepoimt, Instituto Centro Vida (ICV), secretaria de Meio
Ambiente de MT e secretaria de assuntos institucionais de MT.
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socioculturais, ambientais e econômicos nas diferentes situações abordadas, desde

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atividades já implantadas até novas que se pretendam implantar;
• Capacitar consultores indígenas para apoiarem a realização dos protocolos de consulta e
assessorarem os processos de consultas propriamente ditos;
• Formar técnicos indígenas para apoiarem as organizações indígenas no
desenvolvimento e operação dos seus negócios;
• Capacitar pesquisadores indígenas para desenvolverem e apoiarem projetos voltados ao

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uso do etnoconhecimento;
• Estabelecer fóruns indígenas de diálogo e avaliação sobre novas alternativas
econômicas; e
• Apoiar a normatização das atividades econômicas validadas e aprovadas pelo
movimento indígena.
Em linhas muito gerais e preliminares, esta é a proposta a ser detalhada,
aprofundada, debatida e analisada junto ao movimento indígena e a outros parceiros, de
modo a se avaliar sua pertinência e viabilidade.
Este é o parecer.
30 de julho de 2021.

MARCO PAULO FRÓES SCHETTINO


Analista pericial em antropologia

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