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LINGUAGEM NEUTRA

Elx, el@s, todxs? Na língua portuguesa, sem gênero neutro: apenas


masculino e feminino
De acordo com a linguística, substituir masculino e feminino por um gênero neutro não funciona
Na transição do latim para o português, a semelhança entre masculino e neutro fez com que
ambas as categorias fossem resumidas em uma.
“Elxs, el@s, todxs, tod@s, meninxs, menin@s” – a tentativa de eliminar preconceitos se reflete
também em uma tentativa de mudar a língua portuguesa. Em uma iniciativa impulsionada por
movimentos sociais, os discursos que se referem a um grupo de pessoas são modificados para
não usarem o plural masculino – “eles”, “todos”, “meninos” – mas sim uma marcação de gênero
neutro que substitui a terminação “o” por “x” ou “@”.

Apesar das intenções de democratizar a língua portuguesa, o modelo quase não tem apoio
científico. De acordo com a linguística: substituir masculino e feminino por um gênero neutro não
é algo que funciona na língua portuguesa. Pelo menos não do modo como é discutido pelos
movimentos sociais.
Origens
Segundo pesquisadores da área, usar o gênero masculino para se referir a um grupo de
pessoas, homens e mulheres, não é uma forma de preconceito. A origem desse uso estaria no
latim – que lançou as bases da língua portuguesa e de outras línguas latinas, como o francês e
o espanhol.
Assim, se o que é visto como gênero masculino, na verdade é um gênero neutro, não há
prevalência do masculino nos discursos - o ponto que seria criticado ao sugerir a substituição de
“o” por “x”, por exemplo. O único gênero que recebe marcação na língua portuguesa é o
feminino.
É isso que aponta o linguista Joaquim Mattoso Câmara Jr., em pesquisas sobre linguagem
desenvolvidas desde a década de 1940. No artigo “Considerações sobre o gênero em
português”, um dos principais trabalhos produzidos no Brasil sobre o tema, o linguista explica
que o gênero feminino é, em português, uma particularização do masculino. Essa
particularização é feita pela terminação “a”, que é diferente da terminação neutra “o”.
Recentemente o pesquisador e professor da Unicamp Sirio Posseti destacou que a única
marcação de gênero é o feminino. “Os nomes [substantivos] com marca de gênero, em
português, coincidem exatamente com os que estamos acostumados a considerar femininos. Os
outros casos, todos, seriam considerados sem gênero (inclusive os nomes considerados
masculinos)”, diz.
“É por isso que dizemos ‘o circo tem dez leões’ mesmo que tenha cinco leões e cinco leoas,
mas não dizemos, no mesmo caso, que tem dez leoas. Também é por isso que se pode dizer
que ‘todos nascem iguais em direitos...’, o que inclui as mulheres, mas não se incluiriam os
homens se a forma fosse ‘todas nascem iguais em direitos...’.”, explica Posseti.
Essa regra, chamada por pesquisadores da área de “masculino genérico”, surge nas origens da
língua portuguesa. No latim, as palavras podiam receber três marcações de gênero: feminino,
masculino e neutro – este último com a terminação “u”. Na transição do latim para o português,
a semelhança entre masculino e neutro fez com que ambas as categorias fossem resumidas em
uma só, que hoje entendemos como masculino.
Polêmica global
Uma discussão similar acontece na França: o movimento “Écriture Inclusive” (“Escrita Inclusiva”,
em português) defende que a língua francesa é intrinsecamente machista e reivindica a adoção
de gênero neutro como uma tentativa de combater o suposto preconceito.
Um dos grupos por trás do movimento, “Mot-Clés” (“Palavras-chave”), diz que o francês é uma
“língua falocêntrica” por favorecer o uso do masculino genérico. De acordo com o grupo, a
mudança no uso da língua francesa seria um modo de “realmente mudar as mentalidades” das
pessoas no país.
No país, as críticas ao movimento apontam o caráter pouco prático de uma mudança profunda e
artificial em uma das línguas mais faladas no mundo. A L'Académie française, organização
encarregada de julgar assuntos relacionadas à língua francesa e que funciona de modo similar à
Academia Brasileira de Letras, declarou que a escrita inclusiva representa um “perigo mortal”
para a língua francesa.
“Frente a essa aberração ‘inclusiva’, a língua francesa está agora em perigo mortal, pelo qual
nossa nação é responsável agora para as gerações futuras”, declararam os imortais da
L'Académie française.
“Já é difícil aprender um idioma, como será se o uso acrescentar formas secundárias e
alteradas? Como as gerações futuras crescerão com intimidade com nossa herança escrita?
Quanto às promessas de um mundo francófono, elas serão destruídas se a língua francesa se
enfraquecer com este aumento de complexidade, beneficiando outras línguas que se
aproveitarão para prevalecer no planeta”, completou a entidade.
Em setembro, Rosa Laura, ativista da causa trans, não binária, gravou um vídeo em seu
Instagram explicando como utilizar a linguagem neutra no dia a dia. O vídeo rapidamente
viralizou, tanto pelo didatismo de Rosa Laura quanto pela revolta de usuários das redes sociais
que consideraram a proposta um capricho do ativismo trans. Em Portugal, o tema também está
quente: o Ministério da Defesa, em 18 de setembro, produziu uma diretiva que recomenda o uso
de linguagem neutra e inclusiva em certidões e registros civis. Em vez de "nascido em", usar
"data de nascimento"; em vez de "os políticos", usar "a classe política".
A linguagem neutra, ou linguagem não binária, não é obrigação imposta por nenhum movimento
da causa LGBTQI+, mas uma discussão que propõe uma modificação na língua portuguesa
para incluir pessoas trans não binárias, intersexo e as que não se identificam com os gêneros
feminino e masculino. A ideia é criar um gênero neutro para ser usado ao se referir a coletivos
ou a alguém que não se encaixa no binarismo. Para além do universo preto-no-branco das
redes sociais, essa discussão vem crescendo nos últimos anos entre acadêmicos de linguística
e estudos de gênero. Uma crítica comum é a dificuldade em implementar esse sistema na língua
portuguesa e seus efeitos na aprendizagem e alfabetização. Afinal, por que a linguagem neutra
é considerada tão importante, e qual seria o problema em adaptar a língua portuguesa para
incluir uma parcela inviabilizada da população?
Não é capricho
A proposta de criação de um gênero neutro na língua portuguesa e de mudanças na forma com
que nos comunicamos nem sempre é aceita, e costuma ser vista como "capricho". Para
Monique Amaral de Freitas, doutoranda em Linguística pela USP (Universidade de São Paulo),
apresentadora do podcast "Linguística Vulgar" e colunista no blog "Cientistas Feministas", o
debate está longe de ser irrelevante. "Há dois problemas com esse tipo de afirmação. O primeiro
é que ela pressupõe que a língua seria apenas um reflexo da sociedade, o que, a essa altura,
no campo das ciências da linguagem, já sabemos que não é verdade. A relação entre língua e
sociedade não é de mão única. As coisas que dizemos são, por elas mesmas, ações no mundo,
elas têm consequências. O segundo problema é que refletir sobre a linguagem não nos impede
de agir a respeito de outras questões", explica. A implementação da linguagem neutra seria uma
forma de inclusão de grupos marginalizados, acredita Jonas Maria, de São Paulo, criador de
conteúdo LGBTQI+ e graduado em Letras.
"Não é uma simples mudança gramatical, mas uma mudança de perspectiva", afirma. "Quando
falamos em linguagem neutra, estamos falando sobre gênero, relações de poder. Sobre tornar
visível uma parcela da sociedade que é sempre posta à margem, que são as pessoas
transgêneras", disse Maria ao TAB.
O masculino genérico A discussão sobre um gênero neutro na linguagem deriva do uso do
gênero gramatical masculino para denotar homens e mulheres ("'todos' nessa sala de aula
precisam entregar o trabalho") e do feminino específico ("[Clarice Lispector] é incluída pela
crítica especializada entre os principais autores brasileiros do século 20"). Na gramática, o uso
do masculino genérico é visto como "gênero não marcado", ou seja, usá-lo não dá a entender
que todos os sujeitos sejam homens ou mulheres — ele é inespecífico. Por ser algo cotidiano, é
difícil pensar nas implicações políticas de empregar o masculino genérico, mas o tema foi
amplamente discutido por especialistas como uma forma de marcar a hierarquização de gêneros
na sociedade, priorizando o homem e invisibilizando mulheres. O masculino genérico é
chamado, inclusive, de "falso neutro".Entretanto, essa abordagem não é unânime no campo da
Linguística. Para muitos estudiosos, a atribuição sexista ao masculino genérico ignora as
origens latinas da língua portuguesa. No latim havia três designações: feminina, masculina e
neutra. As formas neutras de adjetivos e substantivos no latim acabaram sendo absorvidas ora
por palavras de gênero masculino. A única marcação de gênero no português é o feminino. O
neutro estaria, portanto, junto ao masculino. Vivian Cintra, professora de língua portuguesa,
coordenadora pedagógica e mestre em Linguística pela USP (Universidade de São Paulo),
lembra que a língua também é influenciada pela cultura e pela época em que vivemos. O uso ou
a negação do masculino genérico pode ser político, sempre dependendo do contexto e do
objetivo do interlocutor.
"Em uma sociedade patriarcal, fazer questão de utilizar o feminino para dar visibilidade,
discursivamente, a mulheres, configura uma forma de resistência para elas. Talvez, para as
pessoas que têm a preocupação de usar formas mais neutras para se expressar, manter-se
empregando o masculino genérico seja uma postura de aceitação da dominação masculina na
nossa sociedade ou da lógica binária segundo a qual homens só podem se expressar no
masculino, e mulheres, no feminino", explica Cintra. 'Você é mi namorade' As primeiras
propostas foram trocar "o" e "a", que em português são vogais-morfemas que definem o gênero
das palavras, para "x" ou "@". Por exemplo: "você é linda" ficaria ""você é lindx" ou "você é
lind@".

'Você é mi namorade'
As primeiras propostas foram trocar "o" e "a", que em português são vogais-morfemas que
definem o gênero das palavras, para "x" ou "@". Por exemplo: "você é linda" ficaria "você é
lindx" ou "você é lind@". No entanto, esses sistemas foram contestados por serem
exclusivamente escritos e também atrapalharem a leitura de pessoas com dislexia. Atualmente,
o uso do "x" perdura em algumas iniciativas de inclusão de LGTBQIs, mas o que parece ser
mais adaptável é usar a vogal "e" no final de palavras como adjetivos. Ficando assim: "Você é
meu namorado" para "Você é mi namorade". Sempre que a proposta da linguagem neutra
reaparece nas redes sociais, também ressurgem alguns argumentos contra essa
implementação. O argumento de Cintra, entretanto, destaca que já existem outros termos e
adaptações que também não seriam necessariamente inclusivos.
"Quando nos comunicamos pela internet, é comum usarmos abreviações como 'pq', 'vc', 'tbm',
'rsrsrs' entre outras, que tampouco são decifradas por softwares de leitura de tela para cegos,
nem são ensinados nas escolas. Imagino que poucos adolescentes encontrem dificuldade para
dominar o 'texting'. Mas isso não costuma gerar tanta polêmica quanto linguagens não binárias.
Talvez a solução de leitura desses softwares precise considerar não apenas as linguagens não
binárias, como diversas outras manifestações linguísticas que hoje ainda não são
contempladas", explica Cintra.
Questões linguísticas
O Brasil não é o único país onde a linguagem neutra é discutida. Alguns setores acadêmicos ,
instituições de ensino e ativistas dos EUA já consideram usar pronome neutro para se referir a
todos, em vez de recorrer à demarcação de gênero binário.
Especialistas avaliam que a modificação gramatical em línguas latinas pode ser muito mais
complexa e custosa do que no inglês ou no alemão, onde já está em uso o gênero neutro,
porque a língua em si já oferece essa opção.
"Esse tipo de inovação é mais fácil de ocorrer no inglês, em que, com exceção daquelas
palavras herdadas do latim, como 'actor' (ator) e 'actress' (atriz), a flexão de gênero não altera
os substantivos e adjetivos. No caso do português, essa transformação não depende apenas da
alteração de um pronome, porque a flexão de gênero afeta todo o sintagma nominal. Assim, a
flexão de gênero é demarcada pela vogal temática (a/o) (como em "pesquisadoras brasileiras")
e/ou por meio do artigo (a/o) (como em "a intérprete")", explica Amaral sobre a adaptação.
Mesmo com os desafios morfológicos, a linguista afirma que não é impossível pensar em
proposições mais inclusivas. E isso não necessariamente significa que há uma tentativa de
"destruição" do português. "A história de uma língua sempre conta muito sobre a história de
seus falantes, de modo que as coisas que falamos hoje em dia não brotaram da terra ou vieram
prontas, mas dependem de nossa história como humanidade. (...) Nesse sentido, as propostas
já existentes seriam primeiros passos nesse movimento, e não uma forma final a ser imposta a
todos os falantes", afirma.
No caso do Brasil, a proposta de linguagem neutra exige, além de vontade política dentro da
área da educação e da sociedade em geral, uma soma de forças de diversos setores da
sociedade para assim desenvolver um sistema que possa ser aprendido por brasileiros já
alfabetizados e pelos que estão em processo de alfabetização.
"A resistência que ocorre, seja dentro ou fora da universidade, geracional ou não, não diz
respeito à viabilidade dessa mudança, pois não existe nenhum empecilho estrutural nos
sistemas que estão sendo propostos. O sistema "elu/delu" é só uma sugestão, mas poderia ser
qualquer outro. Essa mudança é possível linguisticamente, em todos os sentidos, mas a
discussão se dá por conta do grupo social que está propondo e do que está sendo discutido",
opina Jonas Maria.

Todxs e todes: estudos indicam que a língua neutra diminui preconceitos Imagem: Getty Images
Do TAB Em São Paulo 15/08/2019 13h51 Repensar a linguagem para que ela vá além do
binarismo homem/mulher e não trate nomes e pronomes masculinos como padrão realmente
tem algum efeito na sociedade? Pesquisas indicam que sim. Estudiosos da Universidade de
Washington desenharam bonecos simples, sem gênero, com um balão de pensamento cheio de
interrogações e outro cheio de exclamações. Em seguida, separaram 3.900 suecos em três
grupos para criarem histórias com os personagens. Um grupo podia usar apenas pronomes
femininos, outro apenas masculinos e um terceiro poderia usar termos neutroscomo "hen", um
pronome não-binário usado na Suécia. Os participantes do terceiro grupo criaram histórias
menos centradas em palavras masculinas e mais inclusivas com minorias.
O termo "hen" é uma alternativa sem gênero a "hon" (ela) e "han" (ele). Ele ganhou visibilidade
no vocabulário sueco em 2012 quando o autor Jesper Lundquist empregou-o no livro infantil
"Kivi e o Monstro Cachorro". Na obra, o protagonista não tinha gênero. A palavra "hen" já havia
sido criada na década de 1960 e foi inspirada no "hän", dos finlandeses, que cumpre a mesma
função. Após o lançamento da obra, um linguista publicou em um jornal sueco que a vida devia
imitar a arte, sugerindo que todos adotassem o pronome. Os suecos passaram a discutir, alguns
veículos baniram o termo e outros o abraçaram. Após dois anos de vai e vem, o Conselho da
Linguagem Sueco reconheceu oficialmente o pronome sem gênero. Hoje a palavra é comum no
país e usada no dia a dia. Ainda há quem se oponha, mas o número é cada vez menor.
Como o termo não era usado antes de 2012, não há como comparar com testes anteriores.
Ainda assim, os resultados indicam como criar novos termos ajuda a mudar a cultura. "[Hen] É
uma palavra sem associações biológicas. Ela vem do zero. E está funcionando do jeito que
disseram que iria funcionar", diz Efrén Pérez, pesquisador de psicologia política na Universidade
da Califórnia, à revista Wired. "Essas linguagens podem empurrar as pessoas em direções que
alguns consideram dignas".
Pérez publicou um estudo na revista Nacional de Ciências dos Estados Unidos revelando que
linguagens mais inclusivas fazem com que opiniões de massa sejam mais igualitárias em
relação a gêneros e LGBTs. "Você não percebe diferentes realidades, mas coloca mais ou
menos ênfase em diferentes aspectos", diz. Novos termos que abracem outras possibilidade de
gênero, como o "hen" sueco ou os "todes" e "todx" em português, funcionam no sentido oposto
da censura: em vez de apagar ideias da cultura, simplesmente contribuem trazendo mais
opções e alternativas. Fique por dentro de comportamento e cultura seguindo o TAB no
Instagram e tenha conteúdos extras sobre inovação, tecnologia e estilo .

Para todes: a reinvenção da língua portuguesa


sem masculino ou feminino

Depois de abandonarem X e @, defensores da linguagem neutra criam novas


formas inclusivas, usando, por exemplo, E para substituir A e O em substantivos e
adjetivos

A história da linguagem acompanha a história humana no planeta. Desde que descobriu a

comunicação por meio da voz e de símbolos, o ser humano passou a inventar, reinventar e

renovar línguas a todo o momento, em uma atualização constante e ininterrupta. Apesar de ser

um processo gradual e orgânico, de acordo com costumes e neologismos de cada época, uma

inovação na língua portuguesa tem gerado controvérsias no mundo acadêmico e em debates na

internet: o “gênero neutro”, proposta que prega a adição de sentido não-binário a palavras que
sejam marcadas pela dicotomia masculino/feminino, substituindo os artigos A e O, que definem

gênero na nossa língua. A mudança é defendida por grupos identitários, principalmente em prol

da visibilidade de pessoas trans não-binárias, com o objetivo de garantir maior inclusão.

Leia também: Os termos das comunidades LGBT+ e seus significados

Apesar de a polêmica existir na língua portuguesa, a discussão não é exclusiva de terras

tupiniquins. Estudos realizados pela Universidade de Washington, nos Estados Unidos, com 3,9

mil falantes suecos indicam que a linguagem neutra de fato diminui preconceitos. Enquanto isso,

na Espanha, a Real Academia do país (equivalente local à Academia Brasileira de Letras), se

envolveu em polêmica em outubro de 2020, ao incluir o pronome neutro elle em seu

observatório de palavras online e retirá-lo do ar três dias depois, após “confusão” entre

internautas. A companhia aérea Japan Airlines (JAL) anunciou que irá abolir o termo “senhoras

e senhores” do chamamento de seus voos. Outras empresas do setor aéreo como Air Canada e

EasyJet também mudaram para saudações de gênero neutro desde 2019.

Aqui no Brasil, o início do debate trazia elementos como X e o @ à tona, que seriam usados

para substituir o A e O definidores de gênero das palavras. Entretanto, conforme aponta a

ativista Rafaela “Rafuska” Queiroz, do Movimento Estamos Todes em Ação (META Brasil), os

próprios grupos defensores da linguagem neutra colocaram em questão a utilização desses

termos gráficos, por provocarem a exclusão de pessoas com deficiência. “O problema foi

principalmente apontado por pessoas cegas ou com baixa visão, que fazem uso de leitores de

tela em aparelhos eletrônicos. Aplicativos com essa finalidade dão erro ou leem a palavra de

forma errada quando marcamos o gênero neutro a partir do @ ou do X”, descreve Rafuska.

André Conforte, professor de Língua Portuguesa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro


(Uerj), reforça que a linguagem neutra a partir desses caracteres seria igualmente problemática

para outros grupos. “Também há pessoas disléxicas e adultas em processo de alfabetização,

que teriam muitas dificuldades para entender”, complementa.

Para contornar as características excludentes, novas formas de uso de gênero neutro para o

português foram criadas. O Manual para o Uso da Linguagem Neutra em Língua Portuguesa,

elaborado por Gioni Caê, estudante de Letras Português-Inglês da Universidade Estadual do

Oeste do Paraná (Unioeste), identifica quatro sistemas usados na linguagem neutra: Elu, Ile, Ilu

e El. “Decidi juntar tudo o que tinha encontrado em um único local, para poder estudar e me

adaptar. Daí surgiu o manual”, narra Gioni, que se identifica como pessoa não-binária e atende

por pronomes masculinos.

O uso do gênero neutro vem se tornando uma realidade entre pessoas não-binárias. É o caso

de Mar Facciolla, de 21 anos, estudante de Psicologia de São Caetano do Sul, São Paulo, que

se reconhece enquanto transgênero não-binárie, e pede que seja referide a partir do sistema

Elu. Para Mar, a consequência mais importante da adoção de linguagem neutra na língua

portuguesa é a humanização de pessoas transvestigêneras (termo que une as palavras

“travesti, transexual e transgênero”) não-binárias e pessoas intersexo na sociedade. “No dia a

dia, nossa existência não está incluída na sociedade. Essa dicotomia que atravessa nossos

corpos faz com que sejamos excluídes”, afirma.

Para e estudante de Psicologia, o pronome é uma demarcação social. Mar explica que, ao

chamar alguém por pronomes femininos ou masculinos, coloca-se o indivíduo em um espectro

de feminilidade ou masculinidade. “Tudo na sociedade que está relacionado à ‘ela’ está

intimamente associado ao feminino. Igualmente, tudo o que é ‘ele’ está relacionado à

masculinidade. O pronome é uma expressão de gênero, então quando utilizam pronomes


femininos ou masculinos para se referirem a mim, estão me colocando em um lugar que não é

meu”, explica Mar.

Leia também: Música não-binária no mundo árabe

Candidate não eleite a uma cadeira na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro em 2016 e

2020, Indianarae Siqueira construiu sua última campanha política fazendo uso integral da

linguagem neutra. Em posts no Facebook, Indianarae conta que, após percorrer “todo o caminho

da transição”, se encontrou sem gênero. “Nesse momento, tenho peitos, pau e barba. Tô em

paz”, relata.

Em outra postagem, explica a opção pela linguagem neutra no material de campanha.

“Subverter a língua é também romper com padrões, amores. A língua portuguesa atribui gênero

a muitas palavras e expressões que geram desigualdade e opressão. Já percebeu como o

padrão para tudo é usar ‘o’ (masculino), e não o ‘a’ (feminino)? É por isso que escrevemos todos

os materiais dessa campanha lindE usando a letra “e” que elimina o gênero das palavras que

são ‘generificadas’ com ‘o’ ou ‘a’: assim qualquer pessoa pode se enxergar ali”, escreveu

Indianarae, que teve 2.504 votos.

Mar Facciolli: “O pronome é uma expressão de gênero, então quando utilizam pronomes femininos ou masculinos para se

referirem a mim, estão me colocando em um lugar que não é meu” (Foto: Arquivo Pessoal)

Linguagem neutra: longo caminho para o reconhecimento acadêmico na língua

portuguesa

O manual da linguagem neutra surgiu porque Gioni Caê, interessado no tema, encontrou

informações espalhadas na internet, sem organização. “Na academia não achei nada”, conta. O
manual, lançado em maio do ano passado, apresenta artigos, pronomes, adjetivos, preposições,

quantificadores e palavras irregulares sob a ótica dos diferentes sistemas de linguagem neutra.

Além disso, o guia também dá dicas de como reformular frases, suprimindo o uso de gênero.

“Enquanto estava escrevendo, percebi que muitas pessoas poderiam estar na mesma situação

que eu: querendo saber mais sobre a linguagem neutra, mas confusas com o que estava pela

internet. Isso me fez querer disponibilizar esse material online, com todas as referências que

encontrei”, acrescenta

Apesar de iniciativas como a do estudante, a linguagem neutra segue sem reconhecimento

acadêmico na língua portuguesa. Para o professor André Conforte, da Uerj, a dificuldade de

inserção do “gênero” está na quebra do fluxo contínuo da língua. “Não conheço um processo de

mudança linguística que não tenha se dado de baixo para cima. Mudanças linguísticas impostas

geralmente não acontecem e, quando acontecem, sofrem as resistências normais da língua. Por

exemplo, quando o império romano impôs a sua língua (o latim) sobre a Península Ibérica, não

foi a língua imposta que se estabeleceu por lá com o tempo. O latim veio como uma língua por

cima, que chamamos ‘superstrato’, mas as línguas de ‘substrato’, que vieram por baixo,

impuseram suas formas e normas também”, exemplifica.

A discussão sobre o assunto deve seguir na agenda dos brasileiros nos próximos anos. Para

Gioni Caê, só o tempo dirá se a linguagem neutra vai ganhar visibilidade acadêmica e a

popularização dos termos na sociedade em geral. “Não dá para colocar nada à força na vida de

ninguém. É sempre importante termos respeito com todas as pessoas, e eu vejo a linguagem

neutra assim. Como uma maneira de respeitar ês próximes”, afirma.

O respeito também pauta as atividades da ativista Rafuska Queiroz, responsável pelas redes

sociais do META Brasil, onde faz uso da linguagem não-binária desde a criação do movimento
no país. “Quando falamos em gênero neutro, falamos em respeito a outra pessoa. Socialmente

podemos inserir o que é novo, e acho que ainda estamos nesse processo inicial. É um desafio

usar o gênero neutro na linguagem, mas incluir não é simples, seja por não ser comum ou por

não fazer parte da nossa vida. Mas é possível. Talvez para chegar até as normas da língua

portuguesa seja necessário um novo processo, quase uma reforma ortográfica. Mas, nas nossas

redes sociais e ao nos comunicarmos com não-bináries, podemos utilizar a linguagem neutra”,

argumenta.

Apesar de já fazer uso da neutralidade na língua, Mar Facciolla acredita que a luta por direitos

de pessoas trans não-binárias e intersexo precisa avançar mais antes de ser possível visualizar

mudanças linguísticas estruturais. Para elu, é necessário institucionalizar os gêneros neutro

não-binário e intersexo no sistema enquanto identificação pessoal, como já ocorre com feminino

e masculino. A linguagem acompanharia este processo. “Precisamos que os gêneros neutro

não-binário e intersexo sejam incluídos no RG, e automaticamente em todos os sistemas: SUS,

Receita Federal, polícia…”, defende.

Para Mar, essas alterações precisam ser institucionalizadas primeiro. “Para que depois que as

pessoas tiverem conhecimento da nossa existência, a gente consiga fazer com que as

mudanças linguísticas ocorram. Se a gente não existe para o Estado, como podem fazer uma

reforma linguística pautada em quem não existe?”, questiona. O raciocínio é acompanhado pelo

professor André Conforte. “A gente precisa mudar a sociedade. Em mudando a sociedade, pode

ser que a língua acompanhe isso, que é o que geralmente acontece. A história interna da língua

acompanha a história externa”, ensina.


A Linguística e o gênero neutro no Português

Neste texto, serão apresentadas de forma breve as concepções social e

biológica de gênero, apontando suas principais incompatibilidades. Em

seguida, abordaremos a tentativa de se explicar socialmente a desigualdade

que a língua proporciona às pessoas que se identificam com gêneros não

binários (i.e. gêneros masculino e feminino). Por último, dada a insuficiência

explicativa da abordagem social frente ao tema, analisaremos sob o ponto de

vista estritamente linguístico o funcionamento dos gêneros na gramática da

língua portuguesa.

Gênero biológico versus gênero social

A distinção principal entre os conceitos biológico e social do termo “gênero”

diz respeito à incompatibilidade entre o primeiro ser determinado socialmente

e o segundo ser construído socialmente. Há três parâmetros pelos quais o ser

humano percorre na construção de seu sexo: a definição de sexo, a definição

de orientação sexual e a de identidade de gênero. Os três não devem ser

confundidos entre si, embora estejam relacionados.

Sexo

O sexo define qual órgão reprodutor será desenvolvido durante a gestação. O


indivíduo que desenvolve dois órgãos genitais é denominado intersexo. É

importante ressaltar que há gradações entre o indivíduo do sexo masculino,

entre o intersexo “verdadeiro” e entre o indivíduo do sexo feminino.

Orientação sexual
Escala Kinsey.

Há também a orientação sexual, que pode ser representada por um spectrum

chamado Kinsey’s Continuum (Em uma extremidade estão os heterossexuais

e, na outra, os homossexuais; na intersecção estão os bissexuais).

Lembrando que essa definição é apenas conceitual, posto o continuum

existente inerente a essa definição.


Os heterossexuais sentem atração afetiva e sexual por indivíduos do sexo

biológico oposto e por indivíduos cuja identidade seja oposta à sua própria. Já

os homossexuais sentem atração afetiva e sexual por indivíduos do mesmo

sexo biológico e por indivíduos cuja identidade seja idêntica à sua própria.

Identidade de gênero

A identidade também pode ser representada de forma gradual, tendo em uma

ponta os cisgêneros e na outra os transgêneros.

Cisgênero é a pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído. As

pessoas não-cissexuais são aquelas que não se identificam com o gênero que

lhes foi atribuído. As pessoas trans (ou transexuais) estão contidas no

subconjunto dos transgênero, como explica Jaqueline Jesus em seu guia:

Denominamos as pessoas não-cisgênero, as que não são identificam com o gênero

que lhes foi determinado, como transgênero, ou trans.

Esses indivíduos não encontram representatividade na sociedade,

conservadora a ponto de negar-lhes o direito à existência. Essa falta de

representatividade parece se estender até mesmo à língua por nós

compartilhada, visto que a gramática do Português nos obriga a optar pelos


únicos dois gêneros gramaticais disponíveis, o masculino e o feminino. É

intuitivo observar que, como se não fosse o bastante, o Português também

tende a beneficiar o gênero masculino por meio de seus morfemas de gênero.

Entretanto, analisando mais a fundo o funcionamento gramatical dos gêneros

do Português, será que essa concepção de fato se mostra verdadeira?

Gênero social versus gênero gramatical

A aparente falta de representatividade na língua – proporcionada pela

ausência de morfemas que poderiam ser usados para designar gêneros

diferentes dos tradicionais binários – deve-se à interpretação feita por aqueles

que, embora possam conhecer suficientemente aspectos dos gêneros dentro

dos Estudos de Gênero nas Ciências Sociais, talvez desconheçam o

funcionamento dos gêneros sob o ponto de vista interno da linguagem. Assim

como é útil distinguir sexo biológico de identidade de gênero – como foi feito

acima – é necessário que seja definido o gênero linguístico-gramatical como

completamente distinto de quaisquer acepções exteriores à linguagem, sejam

elas de cunho biológico ou de cunho social.

O mito da influência social na linguagem

As ciências da Linguagem podem ser agrupadas em três ramos principais:

som, estrutura e significado. Dentro de som estão os estudos da Fonética e


da Fonologia. Por estrutura entende-se os estudos dentro da Morfologia e da

Sintaxe. A Semântica e a Pragmática ocupam-se dos estudos do significado

nas línguas naturais. Tais subdivisões nos oferecem uma noção de

delimitação entre cada nível de análise, desde os mais físicos, que estudam

os sons e as articulações do aparelho fonador humano, até os mais abstratos,

que chegam a analisar a linguagem em seu uso. São possíveis também

relações de interface, como acontece entre a Fonética e a Fonologia, ou entre

Sintaxe e Semântica.

No entanto, em uma outra faceta da linguagem referente à oposição língua

falada versus língua escrita, não são verificadas relações de interface, de

modo que o estudo de uma não influencia necessariamente o estudo de outra.

Ou seja, é comum alterações proporcionadas por acordos ortográficos

políticos não se reverterem em mudanças no sistema da língua falada, por

esta ser autônoma em relação a eles e alheia às suas revoluções — salvo

exceções, como por exemplo o substantivo “subárea”, cuja pronúncia alguns

adotaram como [subi’arɪɐ] após o último Acordo Ortográfico da Língua

Portuguesa. A própria língua oferece diferentes ferramentas para que se

possa concluir que mudanças linguísticas não acompanham mudanças sociais

a ponto de serem por elas determinadas.

Não há relação entre sociedades mais avançadas no que diz respeito aos
direitos das pessoas não-binárias e a língua falada por eles. Ter à disposição

em sua gramática um morfema neutro não confere representatividade social

ao indivíduo. Países como a Turquia, cuja língua é completamente neutra em

relação ao gênero dos substantivos, não necessariamente refletem essa

neutralidade no que diz respeito aos direitos das mulheres e das minorias.

Do ponto de vista da gramática, portanto, é possível afirmar que os gêneros

na língua portuguesa serem entendidos como uma oposição entre masculino

e feminino não é um reflexo dos avanços ou retrocessos sociais sobre o tema.

Além de ser possível que outros tipos de gêneros gramaticais aconteçam,

estes não necessariamente têm sexo como critério de distinção. A língua

Yorubá é completamente gender neutral em relação a homens e mulheres; a

língua Gurr-Goni, falada em Arnhem Land (norte australiano), tem como

critério de distinção de gênero a oposição comestível/não comestível; o

Latim, como muitas outras línguas, possuía gênero masculino, feminino e

neutro.

A ideia da evolução da linguagem em seus aspectos estruturais causada por

avanços sociais e mudanças culturais, embora intuitiva, não mostra ser o

caso. Se avanços sociais, como por exemplo os tecnológicos, alavancam

mudanças linguísticas, como então explicar os mecanismos que proporcionam

mudanças em sociedades até hoje caçadoras-coletoras como a língua


sentinelesa falada pelo povo sentinelês? A ciência da linguagem ainda busca

uma resposta para a pergunta “por que as línguas mudam?”, não sendo

possível, portanto, detectar qual seria o fator social responsável, por exemplo,

por causar o surgimento da estrutura tópico-comentário tanto no japonês

quanto no português brasileiro, o que não aconteceu em nenhuma outra

língua românica, tampouco em outras línguas faladas em países que fazem

fronteira com o Brasil, justamente porque o surgimento de tal fenômeno

permanece sem explicação.

Alguns grupos que protestam contra a suposta imposição do gênero

masculino sobre todos os outros na língua portuguesa adotam o símbolo “@”

e a letra “x” na posição dos morfemas de gênero nos nomes na tentativa de

neutralizá-los. Porquanto língua escrita e língua falada não se confundem, é

impossível que essas intervenções sejam aplicáveis no cotidiano das duas

modalidades, por elas não caracterizarem uma relação de interface como

acontece com outros conceitos dentro das teorias da linguagem. A língua

escrita é meramente uma tentativa de representação gráfica — e uma

abstração — da língua falada. Palavras como “professorxs” e “alun@s” são

simplesmente impronunciáveis; a tal solução estética falta reflexão suficiente

sobre os mecanismos das gramáticas, pois, como vimos, a inserção do “x” e

do “@” não influencia morfologicamente o sistema do PB. Pessoas mais

competentes do que eu, como a Bárbara Rocha, explicaram como e por que
ambos “@” e “x” não funcionam nem na teoria nem na prática. Neste texto, me

concentrarei em mostrar por que o “e”, além de ser uma má solução,

simplesmente não funciona como um neutralizador gramatical de gênero no

Português.

O uso do “e” como tentativa de neutralização de gênero no português

Com o “e”, surgem palavras perfeitamente pronunciáveis, como “menines”

(“meninos”/”meninas”), “bonites” (“bonitos”/”bonitas”); por conseguinte, a

criação desse morfema seria uma saída válida, já que o “e” como morfema

neutro resolveria os problemas de representatividade na língua. No entanto,

como a Monique Freitas, do Cientistas Feministas, mostra em seu texto sobre

o assunto, por ser pronunciável, o “e” se mostra uma alternativa mais efetiva

do que o arroba e o xis, porém ainda assim apresenta problemas práticos:

“Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características

morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir

das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo

espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim

da total adaptação dos sintagmas nominais.

(…) uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria

algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.”


Torna-se evidente no sentido prático a insuficiência também do “e”, mas o

sistema gramatical do Português nos mostra por que nenhum deles funciona.

Em contraponto ao uso do “e” como alternativa morfêmica válida, e

observando diacronicamente os comportamentos fonético, morfológico e

sintático dos NPs (Noun Phrases) desde o Latim Vulgar, passando pelo

Português Arcaico, até o Português Moderno, obtemos explicações sobre por

que, para o sistema linguístico, tal alternativa não se mostra verdadeiramente

eficaz.

A partir da dialetação do latim, quase todas as desinências casuais deram

lugar a preposições (com exceção dos casos nominativo e acusativo) e os três

gêneros expressos foneticamente, de três passaram a ser dois.

Posteriormente, o caso acusativo desapareceu no Latim Vulgar; tal mudança

possibilitou o surgimento da forma atual dos gêneros masculino e feminino,

como mostrado no quadro abaixo:


Quadro 1: Formas do Nominativo e Acusativo (Pires; Monaretto, 2012)

Com a queda do caso nominativo, suas formas plurais “-ae” (1ª declinação) e

“-i” (2ª declinação) cedem espaço às formas “-as” e “os” do caso acusativo.

Além do desaparecimento dos casos, houve também um processo de

simplificação das cinco declinações do Latim, identificáveis por suas vogais

temáticas características. A primeira declinação é “a”; a segunda, “o/u”; a

terceira, “i/e”; a quarta, “u”; e a quinta, “e”. Os nomes da 5ª declinação (“e”)

vão para os da 3ª (“i/e”) e os da 4ª (“u”) vão para os da 2ª (“o/u”), tudo graças

a fatores de semelhança sonora. Ou seja, nomes como “mundo”, “amigo” e

“desejo” têm a mesma vogal temática “o” (2ª declinação). Outros nomes, como

“senhor”, “luz” e “animal”, por não apresentarem vogal temática em suas

formas lemáticas, demonstram-na através de seus plurais (“senhores”, “luzes”

e “animaes” (posteriormente “animais”)). E é aqui onde o “e” – candidato a

intervenção a fim de que a língua se torne mais inclusiva – entra: nomes da 3ª

declinação vieram para o português, como pode se verificar em formas como

“a morte”, “o nome” e “a saúde”. A vogal temática “e”, por não ser um morfema
de gênero, está presente tanto em nomes masculinos quanto em nomes

femininos.

Segundo Caroline Pires e Valéria Monaretto, no português atual

“as formas neutras dos substantivos e adjetivos latinos foram absorvidas ora pelas

palavras de gênero masculino ora pelas de gênero feminino, não apresentando

atualmente a expressão gramatical para a categoria semântica neutra. A flexão de

gênero em português é caracterizada pelo emprego do morfema -a para o gênero

gramatical feminino e pelo morfema zero (Ø) para o gênero gramatical masculino;

ou seja, não marcado por morfema algum, assim como ocorre com o plural em

português, que possui o morfema –s para o plural e morfema zero para o singular.”

Sabemos que a construção dos nomes em PB se dá através dos três

paradigmas vocálicos resultantes do que a língua herdou das declinações

latinas, que são as três vogais temáticas “a”, “e” e “o”. Sabemos também que

a vogal temática “a” nos substantivos femininos carrega, além do tema, a

função gramatical de gênero. Entretanto, os nomes que possuem as outras

duas vogais temáticas têm morfema zero (Ø) para gênero, o que equivale a

dizer que substantivos e adjetivos que não estão no feminino concordam tanto

com o masculino quanto com nada. No limite, podemos afirmar que a língua

portuguesa possui apenas um gênero, que é o feminino, quando


morfemicamente marcado, pois adjetivos dispõem-se na mesma forma para

concordarem com substantivos não marcados e para não concordarem com

nada, como mostrado a seguir no exemplo (1).

(1)

a. Aqui é bom.

b. Está frio nesta sala.

c. Uma cerveja seria ótimo.

A vogal temática “e” dá conta de determinar que um nome não está fazendo

concordância de gênero, pois a única concordância de gênero possível é

aquela do que o linguista canadense John W. Martin chamou de marcados.

Para o sistema linguístico, além de ineficaz, é redundante tentar atribuir uma

marca ao “e”, já que as vogais temáticas “e” e a “o” não estão em oposição

com a vogal “a”; o que acontece é que nomes com “e” e “o” são substantivos e

adjetivos sem marca alguma de gênero, portanto também sem concordância.

Ao testar as formas masculinas, femininas, seus singulares e seus plurais, é

possível observar a tendência que o português possui de evidenciar a forma


marcada (feminina) em detrimento da não marcada (masculina). Observando

o exemplo (2) abaixo:

(2)​

a. “Olá, menino.” (Sentença direcionada exclusivamente a alguém do sexo

masculino.)

b. “Olá, menina.” (Sentença direcionada exclusivamente a alguém do sexo

feminino.)

c. “Olá, meninos.” (Sentença direcionada a um conjunto que pode conter

indivíduos de ambos os sexos.)

d. “Olá, meninas.” (Sentença direcionada exclusivamente a um conjunto de

indivíduos do sexo feminino.)

Em (2) c., temos uma forma não marcada que abarca todos os sexos; não é

uma forma exclusiva. Na verdade, as formas que dispõem de exclusividade

são a., b., e d., sendo d. a única forma plural a apresentar essa função. A

forma marcada (feminina) possui três possibilidades, enquanto a não marcada

possui apenas uma, no singular, em a.


Ainda segundo Pires e Monaretto,

“o desaparecimento do neutro deu-se pela confusão com o gênero masculino dos

casos nominativo, vocativo e acusativo, que possuíam terminações idênticas para

ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também se presenciou (...) uma

confusão fonética pela queda, no latim vulgar, do -s e do -m nas palavras”.

Ou seja, assim como as palavras latinas da 1ª declinação (vogal temática “a”)

tendem a ser femininas no português (“Roma”, “puella”, “littera” etc.), com a

queda do caso nominativo, restou ao sistema o singular terminado em “-um” e

o plural terminado em “-os” do caso acusativo nos nomes da 2ª declinação

(“o/u”). Somado a isso, o desaparecimento das terminações em “-m” e “-s”

impossibilitou a distinção entre formas como cantu(s) e hortu(s), templu(m) e

cornu(m), antes divididas morfologicamente por casos e declinações

foneticamente e morfologicamente diferentes. A consequência da mudança foi

que a maior parte dos nomes de gênero neutro foi confundida

morfofonologicamente com os nomes de gênero masculino. Como é no

português moderno, nomes que apresentam a vogal temática “a” tendem a ser

do gênero feminino, assim como nomes que apresentam a vogal temática “o”

tendem a ser do gênero masculino/neutro.


A Linguística e os gêneros gramaticais

Uma característica de línguas como o Português é a arbitrariedade com que

estão dispostos os determinantes de substantivos não animados. Em

Português, “sangue” é considerado um nome masculino, pois o artigo

masculino “o” é seu determinante, contrariamente ao que ocorre no Espanhol,

onde “sangre” é um substantivo feminino. Ou seja, não existe algo intrínseco

nas propriedades do sangue ou da palavra “sangue” que interfira na não

arbitrariedade da atribuição de seu gênero gramatical.

No Português Arcaico havia menos redundâncias no NP dos nomes de 3ª

declinação. Há registros do século XIII em que o pronome possessivo

feminino “mia” determina o nome “senhor”, cujo morfema para gênero é zero

(Ø). Semelhantemente, há registros do século XIV que mostram distinções

entre e/a, como em sargente/sargenta, servente/serventa. Como mostrado

anteriormente, sargente e servente não são exatamente masculinos, são

nomes com morfema zero (Ø) marcado para gênero.

No artigo “Substantivos portugueses não flexionam em gênero”, o linguista

brasileiro Oto Vale, ao fazer uma análise de corpus usando o ferramental do

PLN (Processamento de Linguagem Natural), observa que apenas

substantivos que nomeiam animais e substantivos que nomeiam seres


humanos flexionam em gênero no português, tendo como minoritária a flexão

de gênero no primeiro conjunto. Conclui-se que apenas um terço dos

substantivos flexionam em gênero, fazendo com que

as formas que permitem flexão em gênero seriam exceções” ,

pois os substantivos que nomeiam seres inanimados também não flexionam.

Conclusão

Na ciência, é comum que os resultados das pesquisas e deduções a partir de

teorias bem fundamentadas sejam contraintuitivos — e com a linguagem não

poderia ser diferente, considerando que a análise e a descrição são as tarefas

primais do linguista. As conclusões de que os substantivos não flexionam em

gênero e de que a única flexão verificada no português é a de morfema

marcado (morfema “a”) em oposição à de morfema não marcado (morfema

zero, restando apenas as vogais temáticas “e” e “o”) causam estranheza por

não serem as ideias que temos quando pensamos a respeito da língua no

nosso cotidiano.

Neste intuito, tentamos compilar alguns argumentos estritamente gramaticais

sobre o tema, deixando de fora da discussão a pressão social por igualdade e

inclusão por entendermos que o funcionamento do sistema linguístico


independe de tais reivindicações. Também nos preocupamos em obter

explicações sobre os mecanismos gramaticais que atuaram e continuam

atuando desde a dialetação do latim e a formação do português.

O erro principal cometido pelos que defendem uma língua mais inclusiva como

pauta social não são as soluções gramaticalmente ineficazes ou por vezes

absurdas; seu maior erro é, de saída, cometer um básico equívoco lógico

conhecido como Falácia do Espantalho, no qual um lado A defende um

argumento X, enquanto um lado B, por sua vez, decide atacar um argumento

fictício Y (que não foi dado por A).

É ingênuo, senão desonesto, propor soluções para uma língua machista

quando essa língua não é machista; é errado acusar uma gramática de não

inclusiva e não adaptada a gêneros sociais quando essa gramática não

destina espaço nem mesmo para os gêneros sociais já existentes, como

demonstrado enfaticamente neste texto. A Falácia do Espantalho cria

soluções para problemas inexistentes, e é o que se verifica quando a

gramática do português é contrastada com as reivindicações brevemente

citadas aqui; estas tão genuínas, porém que não poderiam estar mais

equivocadas a respeito do sistema gramatical que eles ativamente criticam.

(Deixo um agradecimento especial à Milena França e ao Pedro Bertazzi, por


terem tido a paciência de me explicar os básicos sobre gênero social e

orientação sexual. Espero ter conseguido aprender e usar de maneira

satisfatória o que vocês me ensinaram.)

Não se esqueça de dar 50 claps se você gostou deste texto. É um

pequeno gesto que ajuda bastante na divulgação da linguística

Referências

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