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DALMO DE ABREU
DALLARI
Professor Titular da Faculdade de Direito da Universidade de S.io Paulo.

Elementos de
Teoria Geral
do Estado

3().i. edição
2011

n Editora
V4 Saraiva

J
....-
Saraiva
ISBN978.85-02.10325.2

DodOllnlelnocionoís de COlologoçoo no Publi(OçOO (CIP) -----_._------------------------------


(Cômaro Bra~leira do líVIO, SP, Brasil)

Dallari, Dalmo de Abreu


Elementos de teoria gelOl do Estado / Dalmo de Abreu Prefácio
Dallari. - 30. 00. - São Paulo: Saraivo, 2011.
Bibliografia.
.~" 1. O Estado I. Título .
(Da 20J!.edição)
." .. "

1(}íl9900 COli-320.101 Este livro foi escrito em 1971 para servi,. de texto didático de apoio às alllas,
Indice para catálogo s~temático:
aos seminários, aos estudos e às pesquisas no âmbito da Teoria Geral do Estado e
1. Teoria geral do Estado: Ciência politico 320.101 nas áreas afins. A generosa e continuada acolhida dos colegas, possibilitando
agora a 2()!1 edição, permite acreditar que esse objetivo vem sendo ClImprido.
Nesses anos todos, o mundo tem passado por profundas transformações,
o papel do Estado foi e continua sendo questionado, alteraram-se com muior ou
menor amplitude suas formas de organização e atuação. Mas permanece o
reconhecimento da enorme influência do Estado na vida da humanidade e,
cada vez mais, é objeto de preocupação a conciliação da eficiência do Estado
Diretor ed#oriol Antonio Luiz de Toledo frnto com a preservação dos direitos fundamentais da pessoa humana. A busca de
Diretor de produrão editorial Luiz Roberto (uno preservação da liberdade, que foi um dos fatores de criação do chamado Estado
Gerente de produrão editorial LígiaAlves
Editor Jônotos Junqueiro de Mello
Moderno, sucessor do absolutismo, continua presente, agora com a consciência,
Assistente de proourão editorial (Ionssa 8croschi Maria resultante da experiência histórica, de que não basta a garantia formal da li-
Prepararão de originais Cínoo do SIlvo Leimo berdade onde pessoas, grupos humanos, populações numerosas, sofrem pro-
Arte e diagramarão úisffno AparecidoAgudo de Freitas
Mônico londi •
fundas discriminações e não têm possibilidade de acesso aos benefícios propor-
Revisão de provas RilJJde (ássio Queiroz Gorgoli cionados pelas criações da inteligência humana e pela dinâmica da vida social.
(élio Regina Souza de Arou;a
Por tudo isso, e mais do que antes, o conhecimento do Estado e de seu
Denise Pisoneschi
~rvifas editoriais Eloineúislina do Silvo significado, positivo ou negativo, para a preservação e promoção dos direitos
I'lIIiciusAsevedo I'l8ilO fundamentais da pessoa humana, é indispensável. Na busca desse conheci-
Copo APIS design integlOdo
Fota do autor Nelson ToIedo
mento é necessário reconhecer que nenhuma teoria tem valor algum se não
servir para a prática. A par disso é preciso ter em conta que o Estado, criação
humana e instrumento de seres humanos, não é bom ou mau em si mesmo, mas
será aquilo que forem as pessoas que o controlarem.
Este livro foi inspirado na crença de que o conhecimento é o caminho para
a sabedoria, fonte dejustiça. Os dados teóricos constantes deste livro continuam
inteiramente válidos para a busca do conhecimento do Estado, como também
continua fntegra a crença de que esse conhecimento deverá ser útil para a
Data de fechamento da edição: 17.9-2010
construção de uma nova sociedade, voltada para a realização do bem comum,
Dúvidas? fundada na solidariedade e comprometida com o respeito pela dignidade de
Acesse www.saraivajur.com.br
todos os seres humanos.
São Paulo, 31 de dezembro de 1997,
Nenhuma porte deslO publkaçõo poderó "" "",aduzido PO' qoolquer me~ ou fOlmo
sem o p1évio outorizaçõo do EdilOro Soroivo.
o AUTOR
A violação dos direitos outo<o~ é crime estobe~(~o 00 lei n. 9.61 0/98 e punido
pelo ortigo 184 do Cód~o Peool.
5
.:~.:!:::

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Prefácio
(Da lã edição)
O problema do Estado, que já era de primordial importância quando sc
sustcntava o absoluto predomínio da iniciativa privada, ganhou I/om sigl/~(i-
cação com o intenso il/tervencionismo que sucedeu a cada uma das guerras
mundiais deste século, atingindo agora um ponto de extrema relevância. Dc
fato, chamado primeiramente a intervir para assegurar ajustiça social, conteI/-
do os abusos das grandes forças político-sociais, o Estado foi primeiramente
combatido por essasforças, as quais, entretanto, verificando a inevitabilidade da
intervenção, mudaram seu comportamento, procurando dominar o Estado e
utilizá-lo a seu favor, gerando uma nova espéciede intervencionismo.
Essa nova situação favoreceu e estimulou o crescimento do Estado. seI/do
raras, atualmente, as atividades sociais que se desenvolvem sem a sua partici-
pação ou o seu controle. Em consequência, o problema do Estado passou a ser
um problema de todos, uma vez que ninguém pode praticar qualquer ato de
alguma repercussão social, ainda que muito restrita, sem levar em conta as
diretrizes do Estado.
E os que se preparam para exercer qualquer profissão jurídica têm, mais
do que qualquer pessoa, absoluta necessidade de conhecer o Estado, sua orga-
nização e seu funcionamento, para desempenharem adequadamente suas res-
pectivas funções, que os colocarão sempre em estreito relacionamento com os
mandamentos do Estado ou com os próprios agentes estatais.
Opresentelivro,escrito com objetivos didátiros, pretende ser, tão só, um au-
xiliar na obtenção desse conhecimento, dando menos relevo às discussões de
caráter doutrinário e acentuando mais os aspectos práticos de cada situação
que envolva o Estado, fixando diretrizes teóricas em estreito relacionamento
com a problemática do Estado.
São Paulo, 31 de dezembro de 1971.
o AUTOR

7
• -----,----------------------------

Índice Geral
Prefácio (Da ZOa edição) 5
Prefácio (Da la edição) 7

INTRODUÇÃO
Teoria Geral do Estado: Noção, Objeto e Método - Ciência
Política...... 13

Capítulo I
DA SOCIEDADE
Origem da Sociedade: Origem Natural da Sociedade. O Contra-
tualismo..................... 2J
A Sociedade e seus Elementos Característicos........................... 31
Finalidade Social: O Determinismo. As Teorias Finalistas. O
Bem Comum 33
Ordem Social e Ordem Jurídica: Direito, Moral e Convencio-
nalismos Sociais. A Realidade SociaL............................. 36
O Poder Social: Características do Poder Social. Teorias Anar-
quistas. Teorias do Poder Necessário 44
As Sociedades Políticas: Diferenciação das Sociedades quan-
to aos Fins. Sociedades de Fins Políticos........................... 55

Capítulo II
DO ESTADO
Origem e Formação do Estado: Origem Histórica do Estado.
Causas da Formação de Estados 59
Evolução Histórica do Estado: Tipos de Estados. Estado Anti-
go. Estado Grego.Estado Romano. Estado Medieval. Es-
tado Moderno. Elementos Essenciais do Estado 68

9
Democracia Direta, Semidireta c Representativa: Práticlls de
Soherania: AflI"II/llçtio llistáriclI da SolJCfa11i11.Noçlio c CII-
Democracia Direta. A "Landsgemeil/de" SI/íça. O "Rc:(e-
mctcrísliClls da So[,cfan;a. Conceito Político e COl/ceito
Jllríd;co de Sobcrania . 81 rendum': O Plebiscito. A Iniciativa. O Veto POf'uIM.
O "RecaU". Representação Política e Mandato. Carac-
Território: Noçtio, Características, Frll1çàesc Lim;tes do Terri-
t6r;0 . 92 terísticas do Mandato Político . 152

Povo: EI'olllção H;stóriCll da Noção de Povo. Noção Jllrídica Representação Política: Os Partidos Políticos. Característ;-
de Povo. A Cidadan;a . 100 cas e Classificação dos Partidos. Sistemas Partidários ..... 162

Finalidade e Funções do Estado: A F;nalidade como Elemento Representação Profissional, Corporativa e Institucional: Fun-
Essenc;al. Classificação dos Fins do Estado. O Bem damentos e Características da Representação Prof;s-
Comum como F;'liIlidade do Estado . 107 sional. Anarcossindicalismo, Sindicalismo e Federação
O Poder do Estado: Características do Poder do Estado. Po- ELLmômica. Fundamentos da Representação Corporativa.
der Político e Poder Jurídico . 113 O Corporativismo na Teoria e na Prática. Fundamentos
Conceito de Estado: Críticas ao Conceito de Estado. A Varie- da Representação Instituciotwl. Experiência com a Re-
dade dos Conceitos. Proposição de um Conceito . 119 presentação Institucional... . 170

O Sufrágio: Natureza Jurídica do Sufrágio. Sufrágio UllÍver-


Capítulo III
sal e Sufrágio Restrito. As Restrições ao Direito de Su-
ESTADO E DIREITO
frágio . 183

Personalidade Jurídica do Estado: A Noção Jurídica do Esta- Sistemas Eleitorais: Representação Majoritária. Represen-
do e sua Personalização. Consequências da Personali- 190
tação Proporcional. Sistema de Distritos Eleitorais .
zação . 123
O Estado Constitucional: A Ideia de Constituição. Origens e
Estado, Direito e Política: Aspectos Social, Jurídico e Político
Características do Constitucionalismo. Constituição em
do Estado. As Relações do Estado com o Direito e com a 197
Sentido Material e Formal. O Poder Constituinte .
PoUtica . 128
As Declarações de Direitos e as Normas de Direitos Humanos:
Estado e Nação: O Conceito de Nação. Sociedade e Comuni-
Antecedentes. As Declarações do Século XVIIl. O "RiU of
dade. Distinção entre Estado e Nação. Relações Estado
e Nação . 133 Rights". A Declaração do SéculoXX e as Nonnas de Direitos
Humanos: Antecedentes, Significação e Eficácia . 205
Mudanças do Estado por Reforma e Revolução: O Estado como
Ordem Dinâmica. Processos de Transformação do Es- A Separação de Poderes e as Funções do Estado: Objetivo da
tado. A Revolução . 139 Separação de Poderes. Poderes e Funções. A Teoria e a
Prática da Separação de Poderes. Delegação de Pode-
Capítulo IV 214
res .
ESTADO E GOVERNO
Formas d:~ Governo: Forma de GOl'erno c Regime Político.
Estado Moderno e Democracia: A Aspiração à Democracia Classificação das Formas de Governo. Monarquia e Re-
no Estado Moderno. Origens do Ideal Democrático. Prin- pública . 222
cípios Fundamentais do Estado Democrát;co . 145

11
10

o Parlamentarismo: Forlllaçi1o Histórica do Parlalrlcntaris- : ; i ! i INTRODUÇÃO
i: I i
: : i i i TEORIA GERAL DO ESTADO:
I
1110.Características do Parlamcntarismo. Dcrivaçõcs do
/)arla" ICII taris' 110 •.•••.•••.••••.•••••.••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• 229
0T!-:1
o Presidencialismo: Formação Histórica do Presidcncialis-
mo. Características do Presidencialismo. Derivações do
PresideneiaIismo . 237 Noção, Objeto e Método -
Tendências do Governo no Estado Contemporâneo: Tentati-
vas de Classificação. Tendências já Identificáveis. Racio-
Ciência Política
nalização do Governo. Fortalecimento Democrático do Go-
vemo...................................... 244
o Estado Federal: Origem Moderna do Estado Federal. Carac- 1. Ao se iniciar o estudo de Teoria Geral do Estado, vem muito a pro-
terísticas do Estado Federal. Crítica do Estado Federal na pósito ressaltar a advertência de RALPHFucHs, enfatizada por EDGARBo-
na Atualidade . 251 DENHEIMER, a respeito da necessidade de preparar o profissional do Direito
para ser mais do que um manipulador de um processo técnico, formalista e
Capítulo V limitado a fins imediatos.
PROBLEMAS DO ESTADO CONTEMPORÂNEO "O de que mais se precisa no preparo dos juristas de hoje é fazê-los
o Estado na Ordem Internacional: Disciplina Jurídica das Rela- conhecer bem as instituições e os problemas da sociedade contemporânea,
ções entre Estados. Organizações Internacionais. A Socie- levando-os a compreender o papel que representam na atuação daqueles e
dade das Nações. A Organização das Nações Unidas . 259 aprenderem as técnicas requeridas para a solução destes. Evidentemente
_ acrescenta BODENHEIMER - certas tarefas a serem cumpridas com relação
Intervenção do Estado na Sociedade: O Estado Liberal Não
a esse aprendizado terão de ser deixadas às disciplinas não jurídicas da car-
Intervencionista. "New Deal" e Neoliberalismo. O Novo reira acadêmica do estudante de Direito"l.
Intervencionismo. Globalização: Exagero e Realidade .... 271
Há, nessa referência, três pontos que devem ser ressaltados: a) é neces-
Estado Socialista e Capitalismo de Estado: Origem Histórica sário o conhecimento das instituições, pois quem vive numa sociedade sem
do Estado Socialista. O Estado Socialista Soviético. De- consciência de como ela está organizada e do papel que nela representa não
mocracias Populares. Socialismo Asiático. Socialismo é mais do que um autômato, sem inteligência e sem vontade; b) é necessário
Africano. Socialismo Americano. Capitalismo de Estado .. 280 saber de que forma e através de que métodos os problemas sociais deverão
ser conhecidos e as soluções elaboradas, para que não se incorra no gravís-
Ideia Atual de Estado Democrático: Inadequação do Conceito
simo erro de pretender o transplante, puro e simples, de fórmulas importa-
Tradicional de Democracia. Flexibilidade do Estado De-
das, ou a aplicação simplista de ideias consagradas, sem a necessária adequa-
mocrático. Supremacia da Vontade Popular. Liberdade e
ção às exigências e possibilidades da realidade social; c) esse estudo não se
Igualdade do Homem Social . 299
enquadra no âmbito das matérias estritamente jurídicas, pois trata de mui-
tos aspectos que irão influir na própria elaboração do direito.

1. EDGAR BODENHEIMER, Ciência do Direito. pág. 383.

13
12
.'. : •••
E tudo isso est,i situado enl re os objetos da li:oria Geral do Estado, que, chega a generalizações universais, criando, assim, a possibilid,lJe de lima
emhora niio deixe de apreciar os aspectos jurídicos deste, vai além disso, ciência política.
cuidando também dos aspectos niio jurídicos, uma vez que se dedica ao Por vários motivos. sobretudo por consider,lç()es intnesseifils e iml'-
estudo do Estado em sua totalidade, detendo-se apenas quando surge o di- diatistas dos que não desejavam que fossem daraméntl' rl'wlados os wl'da-
reito legislado, ou seja, formalmente positivado. deiros fundamentos do poder, a obra notável de MA<)t;IA''I'.1.
sofreu rest ri,"(les
2. Fixando-se, em largos traços, a noção de Teoria Geral do Estado, e deturpações durante vários séculos. sendo objeto, por isso. de apreál\'ôes
pode-se dizer que ela é uma disciplina de síntese, que sistematiza conheci- apaixonadas, que prejudicaram a análise objetiva de sua contribuição. Hoje,
mentos jurídicos, filosóficos, sociológicos, políticos, históricos, antropoló- entretanto, sobretudo na Itália, já se estuda seriamente a obra maquiavelia-
gicos, econômicos, psicológicos, valendo-se de tais conhecimentos para na, havendo um reconhecimento generalizado de sua extraordinária impor-
buscar o aperfeiçoamento do Estado, concebendo-o, ao mesmo tempo, como tância, uma vez que, apesar dos obstáculos e da condenação veemente, ela
um fato social e uma ordem, que procura atingir os seus fins com eficácia e foi o marco inicial e de inevitável influência na colocação da exigência de
l
com justiça. enfoque objetivo dos fatos políticos .
Esta disciplina, como tal, é realmente nova, só aparecendo nos fins do Vieram, depois, autores como HOBBES, LOCKE,MO~TESQUIEU, RúussE.~U,
século XIX. Entretanto, já na antiguidade greco-romana se encontram estu- influenciados pela ideia de um Direito Natural, mas procurando o funda-
dos que moderna mente estariam no âmbito da Teoria Geral do Estado, como mento desse direito, assim como da organização social e do poder político,
ocorre com escritos de, entre outros, PLATÃO, ARISTOTELES e C1cERO,aos quais, na própria natureza humana e na vida social, como verdadeiros precursores
evidentemente, falta o rigor exigido pelas modernas concepções científicas. da antropologia cultural aplicada ao estudo do Estado.
Não há, nesses escritos, uma separação nítida entre a realidade observada e
Finalmente, no século XIX, vai desenvolver-se, especialmente na AI<:"
a realidade idealizada, havendo preocupação acentuada pela indicação da
manha, um trabalho de sistematização jurídica dos fenômenos políticos.
melhor forma de convivência social.
Teve especial importância a obra de GERBER, "Fundamentos de um Sistema
Durante a Idade Média também se encontram muitos trabalhos que, de Direito Político Alemão", aparecida em 1865, que iria exercer grande in-
pelo menos em boa parte, podem ser considerados como situados no âmbi- fluência sobre outro notável alemão, GEORGJELLlNEK, a quem se deve, afinal,
to da Teoria Geral do Estado. Assim, por exemplo, muitos dos escritos de a criação de uma Teoria Geral do Estado, como disciplina autônoma, tendo
SANTO AGOSTINHO e SANTOTOMÁSDEAQuINo,os quais, embora fundamental- por objeto o conhecimento do Estado. A obra fundamental de JELLINEK, in-
mente opostos sob muitos aspectos, têm em comum a preocupação de jus- titulada precisamente "Teoria Geral do Estado", foi publicada pela primeira
tificar a ordem existente, a partir de considerações de natureza teológica. Já 3
vez no ano de 1900, alcançando, desde logo, notável repercussã0 •
no fim da Idade Média começam a surgir os primeiros sinais de reação a esse
Depois disso, foram bastante intensificados os estudos sobre o Esta-
irrealismo, como se verifica, por exemplo, na obra de MARS1LIO DEPADUA,
do, notando-se, porém, que não ocorreu a uniformização quanto ao nome
"Defensor Pacis", aparecida em 1324, onde chega a ser preconizada a sepa-
ração, com independência recíproca, da Igreja e do Estado.
A grande revolução nos estudos políticos, com o abandono dos fun-
2. Um excelente estudo sobre MAQUIAVEL, suas ideias fundamentais e suas ino-
damentos teológicos e a busca de generalizações a partir da própria realida- vações metodológicas. foi publicado por LAVRO EscOREL, intitulado Introdução ao
de, ocorre com MAQUlAVEL, no inicio do século XVI. Sem ignorar os valores Pensamento PoUticode Maquiavel (Rio de Janeiro,Organização SimõesEditora, 1958).
humanos, inclusive os valores morais e religiosos, o notável florentino faz 3. A obra de JELLlNEKfoi traduzida para várias línguas. tendo-se divulgado no
uma observação aguda de tudo quanto ocorria na sua época em termos de Brasilespecialmente as seguintes edições: L'État Moderne et son Droit, edição fran-
cesa em dois volumes, de 1911; Teoria Generale dello Stato. edição italiana de 1921,
organização e atuação do Estado. Ao mesmo passo em que observa e vive,
com uma valiosíssima introdução escrita por V. E. ORI.AS:'::uma edição argentina,
como Secretário da República de Florença, a intimidade dos fenômenos sob o título Teoria General dei Estado, do ano de 1954, con~endoum prólogo bas-
políticos, MAQUIAVEL, dotado de vasta cultura histórica, também procede a tante elucidativo, de autoria de FERNANDO DELOSRIOSUR}::n.Apesar de ser uma
comparações no tempo. Dessa forma, conjugando fatos de épocas diversas, obra clássica, de permanente atualidade, não (oi até agora editada em português.

14 15

da dis(iplina. Assim l; quc. na Itália, através da obra magistral de V. E. mente referida como parte do Direito Constitucional. Por decisão do gover-
OIlI"~lltl, foi l'xtrcmamente desenvolvido o Diritto PlIb/llico Gellera/e, sur- no federal, a pártir de dezembro de 1994 o ensino da Teoria Geral do Estado
gindo mais recentemcnte a designação Dottrina dello S/ato, ambas ocupan- continuou a ser obrigatório, mas, de maneira ambígua, o ato governamental
do-se dos temas propostos pela Teoria Geral do Estado. Na França. tornaram-se menciona, entre as disciplinas fundamentais do curso jurídico. "Ciência
correntes as dcnominaçôes Théorie Générale de rÉtat e Doctrine de fÉtat, Política (com Teoria do Estado)". Uma vez que são disciplinas diferentes, a
prevalecendo na Espanha a designação Derecho Político, para os estudos conclusão lógica é que se tornou obrigatório ensinar Ciência Política junto
relativos ao Estado. Em Portugal, como esclarece MARCELLO CAETANO, a de- com Teoria do Estado. Apesar da obscuridade, fica fora de dúvida que con-
nominação Direito Político englobava, de início, a parte referente ao Estado tinua obrigatório o ensino de Teoria do Estado.
e a que mais tarde se destacou como Direito Constitucional, havendo agora
O que a realidade mostra é que, cada vez mais, não há possibilidade de
uma tendência, a que aderiu o próprio MARCELLO CAETANO, no sentido de
desenvolver qualquer estudo ou pesquisa de Ciência Política sem considerar
se considerar a parte inicial abrangida pela Ciência Política4•
o Estado. Isso já fora observado por Max Weber, numa famosa conferência
No Brasil, os estudos relativos ao Estado foram primeiramente inclu- publicada com o título A Política como Vocação, onde conceitua a política
ídos como parte inicial da disciplina Direito Público e Constitucional. Por dizendo entendê-la como "o conjunto de esforços feitos com vista a partici-
voltá do ano de 1940 ocorreu o desdobramento em Teoria Geral do Estado
par do poder ou a influenciar a divisão do poder, seja entre Estados seja no
e Direito Constitucional. Recentemente, seguindo a mesma tendência já
interior de um único Estado': Mais recentemente, Neil MacCormic, profes-
observada em Portugal, e sob influência de grande número de obras de
sor da Universidade de Edimburgo, tratou da relação do Estado com a polí-
autores norte-americanos chegadas ao Brasil, bem como pelo estreitamento
tica num ensaio inserido no livro Theories and COl1ceptsof Politics, coorde-
das relações entre as universidades brasileiras e as dos Estados Unidos da
nado por Richard Bellamy (Manchester University Press, 1993), fazendo a
América, inúmeros professores e autores de Teoria Geral do Estado passaram
seguinte observação: "O Estado é de interesse central para a política, sendo
a identificar esta disciplina com a Ciência Políticas. Para efeito de currículo,
ele próprio um locus para o exercício do poder, um produtor de decisões e
algumas universidades passaram a dar ao curso de Teoria Geral do Estado a
a comunidade política primária para muitos seres humanos, no mundo
denominação Direito Constitucional I, o que nos parece uma impropriedade,
contemporâneo". Além disso, acrescenta o mesmo autor, "concebido como
uma vez que, embora havendo estreita relação entre ambas as disciplinas, a
um sujeito ativo, o Estado age através de indivíduos e grupos organizados
Teoria Geral do Estado e o Direito Constitucional não se confundem, tendo
de pessoas, que tomam e implementam decisões em nome do Estado e que,
cada uma o seu objeto próprio, sendo mais conveniente, do ponto de vista
ao decidir, alegam que são agentes ou órgãos do Estado':
cientifico e didático, mantê-las autônomas.
Basta isso para se perceber que para a formação do jurista contempo-
2A. A questão do relacionamento da Teoria Geral do Estado com a
râneo o estudo da Teoria do Estado é indispensável. O Estado é universal-
Ciência Política é de interesse mais acadêmico do que prático. Entretanto,
mente reconhecido como pessoa jurídica, que expressa sua vontade através
modificação recente imposta pela burocracia federal do ensino no Brasil
de determinadas pessoas ou determinados órgãos. Nesse dado é que se apoiam
pode dar a impressão de que algo de importante aconteceu e pode, eventu-
todas as teorias que sustentam a limitação jurídica do poder do Estado, bem
almente, suscitar dúvidas. Até recentemente era obrigatório o ensino da
como o reconhecimento do Estado como sujeito de direitos e de obrigações
Teoria Geral do Estado nos cursos jurídicos e essa disciplina era expressa- jurídicas. O poder do Estado é, portanto, poder jurídico, sem perder seu ca-
ráter político.
A Ciência Política faz o estudo da organização política e dos comporta-
4. Exemplo dessa tendência é justamente a obra de MARCELWCAETANO, que re- mentos políticos, tratando dessa temática à luz da Teoria Política, sem levar
cebeu o título de Manual de Ciência Política e Direito Constitucional.
em conta os elementos jurídicos. Tal enfoque é de evidente utilidade para
5. Há dois casos de mestres consagrados de Teoria Geral do Estado que pu-
complementar os estudos de Teoria do Estado, mas, obviamente, é insuficien-
blicaram obras de Ciência Política: um deles foi o notável e saudoso mestre gaúcho
DARCYAZAMBU'A; o outro, também um mestre renomado, é PAULOBONAVIDES, Ca- te para a compreensão dos direitos, das obrigações e das implicações jurídicas
tedrático da Universidade do Ceará. que se contêm no fato político ou decorrem dele.

16 17

, -,;

evolução; b) doutrina jllrÍtiiclI, que se ocupa d,l organização e personificação
3. Quanto ao objeto da Teoria Geral do Estado pode-se di/.er, dc
mancira ampla, quc é o estudo do Estado sob todos os aspectos, incluindo do Estado; c) doutrina jllstiji((ltil'(l, quc cuida dos funda mentos e dos fins do
7
a origem, a organização, o funcionamento e as finalidades, compreendcn- Estado •
do-se no scu âmbito tudo o que se considere existindo no Estado e influin- .Assim, pois, verifica-se que, não obstante a possibilidade de destacar,
do sobre ele. para fins meramente didáticos, um ou outro aspecto do Estado, a Teoria
O que é importante observar, porém, é que o Estado, podendo ser Geral do Estado sempre o considera na totalidade de seus aspectos, aprecian-
abordado de diferentes perspectivas, apresenta-se como um objeto diverso, do-o como um conjunto de fatos integrados numa ordem e ligados a funda-
segundo o ponto de vista do observador. mentos e fins, em permanente movimento.
É possível, entretanto, fazer-se um agrupamento das múltiplas orien- 4. Pela própria multiplicidade de aspectos que a Teoria Geral do Estado
tações, reduzindo-as a três diretrizes fundamentais: a) uma orientação que deve considerar verifica-se a impossibilidade de adoção de um método único.
se poderia identificar com uma Filosofia do Estado, enfatizando a busca de Conforme o ângulo que esteja sendo enfocado. haverá um método mais
uma justificativa para o Estado em função dos valores éticos da pessoa hu-
adequado, utilizando-se a indução para a obtenção de general;;:açôes a par-
mana, acabando por se distanciar excessivamente da realidade concreta e por
tir de fatos considerados isoladamente, a dedllção. sobretudo para a explica-
colocar em plano nitidamente inferior as preocupações de ordem pragmá-
tica; b) uma segunda orientação coloca-se em sentido oposto, procurando ção de fatos particulares ou para a fixação de perspectivas, e o método ana-
ser eminentemente realista, dando absoluta preponderância aos fatos con- lógico para estudos comparativos.
cretos, considerados completamente à parte de qualquer fator abstrato, Mas, como é óbvio, seja qual for o método aplicado em qualquer mo-
aproximando-se muito de uma Sociologia do Estado; c) a terceira das gran- mento, os resultados obtidos deverão ser integrados numa síntese, podendo
des correntes é a que reúne os autores que só admitem e só consideram o perfeitamente ocorrer que de uma lei geral. obtida por indução, tirem-se
Estado como realidade normativa. criado pelo direito para realizar fins ju- deduções que irão explicar outros fenômenos, havendo, portanto, uma as-
rídicos, afirmando-se um formalismo jurídico que só estuda o Estado a sociação permanente de métodos, assim como os próprios fenômenos estão
partir de considerações técnico-formais. sujeitos a uma interação causal, uma vez que a vida social está sempre sub-
Todas essas orientações extremadas conduziram a conclusões unila- metida a um processo dialético. o que faz da realidade social uma perma-
terais e imperfeitas. como era inevitável, prejudicando ou quase anulando nente criação.
o interesse prático dos estudos. Reagindo a isso, surgiu uma nova orienta-
ção. que procura efetuar uma síntese dinâmica daquelas três direções
fundamentais. adotando uma posição que MIGUELREALEchama de cultu- Bibliografia
6
ralismo realista •
ORLANDO M. CARVALHO. Caracterização da Teoria Geral do Estado, Belo Hori-
Entre os autores que compreenderam a necessidade de considerar o
zonte, 1951;PAULO BONAVIDES. Ciência Política, Ed. FGV.Rio de Janeiro, 1967; ALE-
Estado como um todo dinâmico. passível de ser observado sob vários ângu-
XANDRE GROPPALI,Doutrina do Estado, Ed. Saraiva. São Paulo. 1962; LOURIVAL VILA-
los mas sempre conservando uma unidade indissociável, situa-se o italiano NOVA, O Problema do Objeto da Teoria Geral do Estado. Recife, 1953; NELSONDE
ALEXANDRE GROPPAL!, que. com clareza e precisão, indica o objeto da Doutri- SOUZA SAMPAIO,Prólogo à Teoria do Estado. Ed. Forense, Rio de Janeiro, 1960;MIGUEL
na do Estado através de uma tríplice perspectiva, que, segundo ele, compre-
ende três doutrinas que se integram compondo a Doutrina do Estado e que
são as seguintes: a) doutrina sociológica, que estuda a gênese do Estado e sua temas fundamentais do Estado segundo a perspectiva do culturalismo realista, com-
preendendo o Estado na totalidade de seus aspectos e considerando indissociáveis as
três ordens de apreciação: a filosófica. a sociológica e a jurídica.
7. A obra de Al.EXANDRE GROPPALI foi publicada em português. em tradução de
6. Veja-se,a esse respeito, a obra de MIGUEl.
REAl.E
intitulada Teoria do Direito e
Paulo Edmur de Souza Queiroz, pela Saraiva.
do Estado. Nessa obra o antigo mestre da Universidade de São Paulo aborda os

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Rhll.l., '[('ur;a do IJ;re;to l' do btado, 2' ed" Ed. Martins, São Paulo, 1960; GUlIl<;
, I:I.I.INEK,Tcoría (;CIlcral dei Estlldo, Ed. Albatroz, Bucnos Aircs, 1954; V. E, ORI.ANI)O, i i : ; !i
/)iril/(l I'lIb/Jlifo Gcncralc, Ed. Giuffrc, Milão, 1954; EIl(;Alt BOIlENItEIMElt, Ciéllcill do , ; • i ::

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CAPÍTULO I
J )in'ilO, Ed. Forense, Rio de Janeiro, 1966; KUltT SONTIlEIMElt, Cicllcia Política y Teoría -_._------------------------------
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Jllrídim dei £Statio, Eudcba, Bucnos Aircs, 1971; KAltl. LARENz, La Filosofía COlllcm-
porállea dei J)creôJOy dcJ Estado, Editorial Revista de Derecho Privado, Madri, 1942;
RF.INHOI.ll ZII'PELII;S, Tcoria Geral do Estado, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian,
Lisboa, 1971; DALMO [)E AllltEU DALLAltl, O Futuro do Estado, Ed. Moderna, São Paulo,
Da Sociedade
1980; LuIS SA, llllrodução à Teoria do Estado, Ed. Caminho, Lisboa, 1986; CAltl.OS
ALBERTOAfONSO, Teoria do Estado, Ed. Vozes, São Paulo, 1988; ElClR CASTElLO BRAN-
co, Teoria Geral do Estado, Ed, Saraiva, São Paulo, 1988; MARTlN CARNOY, Estado e
Teoria Política, Ed. Papirus, Campinas, 1986; JEAN MEYNAUO, A Ciência Política, Ed,
Fund. Getulio Vargas, Rio de Janeiro, 1960; SEBASTIAOTOIAl, Teoria Geral do Estado,
Origem da Sociedade
Ed. Forense, São Paulo, 1997; DAVID EASTON, Uma Teoria de Análise Polftica, Rio de
Janeiro, Ed. Zahar, 1968; RICHARD BEllAMY (Editor), Theories and Concepts of Politics, 5. A vida em sociedade traz evidentes benefícios ao homem mas, por
Manchester, Manchester University Press, 1993. outro lado, favorece a criação de uma série de limitações que, em certos
momentos e em determinados lugares, são de tal modo numerosas e fre-
quentes que chegam a afetar seriamente a própria liberdade humana. E,
apesar disso, o homem continua vivendo em sociedade. Como se explica este
fato? Haverá, por acaso, uma coação irresistível, que impede a liberdade dos
indivíduos e os obriga a viver em sociedade, mesmo contra sua vontade? Ou,
diferentemente, será que se pode admitir que é a própria natureza do homem
que o leva a aceitar, voluntariamente e como uma necessidade, as limitações
impostas pela vida social?
Tanto a posição favorável à ideia da sociedade natural, fruto da pró-
pria natureza humana, quanto a que sustenta que a sociedade é, tão só, a
consequência de um ato de escolha vêm tendo, através dos séculos, adeptos
respeitáveis, que procuram demonstrar, com farta argumentação, o acerto
de sua posição. Impõe-se, portanto, que se faça o estudo de ambas as po-
sições e dos respectivos argumentos, uma vez que esse é o dado inicial do
qual dependerão conclusões fundamentais, relativas à posição do indivíduo
na sociedade e no Estado, com repercussões muito sérias sobre as diretrizes
a respeito da organização, do funcionamento e da própria existência do
Estado.
6. Vejamos, em primeiro lugar, as teorias favoráveis à ideia da socie-
dade natural, que têm, atualmente, maior número de adeptos e que exercem
maior influência na vida concreta do Estado.
O antecedente mais remoto da afirmação clara e precisa de que o ho-
mem é um ser social por natureza encontra-se no século IV a.c., com a
conclusão de ARISTOTELES de que "o homem é naturalmente um animal po-

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