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AMAZ~NIA

A FRONTEIRA AGRÍCOLA20 ANOS DEPOIS


GOVERNO DO BRASIL
SCT/CNPq
MUSEU PARAENSE EMfLIO COELDI
COLEÇAOEDUARDOGALVÃO
ORSTOM -
FRANÇA
INSTITUT FRANçAIS DE RECHERCHE SCIENTIFIQUE
POUR LE DgVELQPPEMENT EN CQOPÉRATION

‘ A

AMAZONIA
A FRONTEIRA AGRÍCOLA20 ANOS DEPOIS

Philippe Léna
Adélia Engrácia de Oliveira
(Organizadores)

Belém-Pará-Brasil
1991
GOVERNO DO BRASIL
SCTICNPq
MUSEU PARAENSE EMI'LIO COELDI
PRESID~NCIADA REP~BLICA
Prcsidcntc: Fcrnando Collor dc Mello
SECRETARIA DA C I ~ N C I AE TECNOLOGIA
Sccrctiirio: Edson Machado dc Souza
CONSELHO NACIONAL DE DFSENVOLVIhlEhTO CIEhTI'FICOE TECNOLdGICO
Prcsidcntc: Marcos Luiz dos Marcs Guia
MUSEU PARAENSE EbliLlO GOELDI
Dirctor: Josd Guillicrmc Soarcs Maia
Vicc-Dirctor dc Pesquisa: Pcdro L. B. Lisboa
Vicc-Dirctor dc DifusIo Científica: Dcnisc HamÚ
ORGANIZADORES:
Philippc L h a
Addlia Engriicia dc Olivcira
COMISSÃO DE EDITORAÇAO
Prcsidcntc: William L. Ovcral
Editor-Associado: Lourdcs G. Furtado
Equipc Editoral: Lais Zumcro, Graça Ovcrall c Lairson Costa

Amaz6nia: a frontcira agricola 20 anos dcpois; organizado por Philippc U n a


e Addlia Engrscia dc Olivcira - Bcldm:
Muscu Paracnsc Emflio Gocldi, 1991.
363 p. (COlCÇBO EdWdrdO (kdlVg0)

-
ISBN 85-m~8-028-0
I.CONDIÇÕES ECONÔMICAS - Brasil - Amazbnia. 2. COLONI-
Z A Ç Ã ~- Brasil - AmazBnia. 3. CONFLITO SOCIAL
Brasil - AmazBnia. I. Una, Philippc, org. II. Olivcira, Addlid E., org.
CDD: 330.9811
338.09811
325.811
301.6309 811

@Direitos de c6pia/Copyright 1991


podby CNP-Museu Goeldi
C.P. 399/P.O BOX 399
Belém, Parli, Brasil
AGRADECIMENTOS

Os organizadores deste volume e do seminário que o antecedeu, “Amazônia:


a fronteira agrícola vinte anos depois”, agradecem 2s seguintes pessoas e instituições:
- Cottselh Nacional de Deseti~drinietitoCienlFco e Tecnológico (CNPq) e
o Institut Francais de Reclierche Scietit9que pour le Développenient en CoopPra-
tion (ORSTOM) pelo apoio dado tanto para a realização do seminário como para
a efetivação da presente publicação;
- Diretoria do Museu Paraense Etnílio Goeldi, nas pessoas de Cuilhernle de
La Petiha e Celso Martins, pelo apoio que deram continuamente ao nosso trabalho;
- Violeta R. Loureiro, então diretora do Instituto para o Desenvolvimento Eco-
nômico e Social do Pará (IDESP) pelo uso do auditório desta instituição;
- Lais Zumero, pelo difícil trabalho de editoração e revisão dos textos e Graça
Overal pelo apoio constante;
- Ana Maria de Fátima Oliveira pela revisIo bibliográfica;
- Renate Brigitte Viertler, pela colaboração na escolha da capa;
- Luciana R. Storto, Williatn Overall, Denny Moore e Williarn L. Balée pela
versão inglesa dos resumos;
- Funcionários do DAD/Museu Paraense Etnílio Goeldi pelo apoio que pernii-
tiu a realização tanto do seminário quanto desta publicação;
- Philippe Hamelin, Roberto Araújo e Rodrigo Peixoto que, aldm de contri-
buir com textos, participaram ativamente da organização do seminário;
- Nossos estagiários Maria Goreti da C. Tavares, Diana L. Santos, Socorro
T. Santos, Josiane de Melo e Maur0 César M. Farias, que muito nos ajudaram du-
rante o encontro.
CONTE~DO

INTRODUÇÃO
Notas sobre expansgo de fronteiras e desenvolvimento na Amazônia
Philippe Léna; AdLlia Eqrúcia de Oliwira ............................. 9

PARTE I - A FRONTEIRA E AS POPULAÇ~ESREGIONAIS


1. Soldados da terra: territorialização indígena e reversibilidade da
fronteira - Priscila Faulhaber ......................................... 23
2. Terras indígenas, política ambiental e geopolítica militar no de-
senvolvimento da Amazônia: a propcisito do caso Yanomami
Bruce Albert ................................................................ 37
3. Militares, indios e fronteiras políticas
Antônio Carlos de Souza Lima ......................................... 59
4.Parque indígena do Xingu: um estudo das relações entre indige-
nismo e geopolitica - Maria Lúcia P. Menezes .................... 83
5. Engenhos na Várzea: Uma análise de declínio de um sistema de
produção tradicional na Amazônia - Scott D. Atidersort ........ 101

PARTE II - ASPECTOS SOCIAIS E ECONÔMICOS DA FRON-


TEIRA AGRÍCOLA: DINÂMICA DOS ASSENTAMENTOS
1. Campo religioso e trajetórias sociais na TransamazÔnica
Roberto Araújo ............................................................ 125
2. Ação cultural e concepção política entre a igreja católica e os
camponeses (um estudo na região de Marabá)
Rodrigo Peixoto ............................................................ 145
3. O fracasso anunciado - Pliilippe Hamelin ........................... 161
4.Valor e preço, exploração e lucro da produção camponesa na
Amazônia: crítica à noção de funcionalidade da produção fami-
liar na fronteira agrícola - Fruizcisco de Asis Costa .............. 177
PARTE III - SISTEMAS DE PRODUÇÃO: PROBLEMAS
E PERSPECTIVAS
1. Desmatamento e desenvolvimento agrícola na Amazônia
Philip M. Fearnside .................................................... 207
2. Avaliação do impacto ambiental da colonização em floresta
Amazônica - Evaristo Eduardo de Miranda ..................... 223
3. Nuevas vias de escape de la crisis del barbecho: un estudio de
caso de colonización en Rio Bajo, Bolivia
Penizy Davies, Fidel Hoyos, Grahatii Uiiele ..................... 239

PARTE IV - CONFLITOS E MUDANçAS RECENTES


NO PROCESSO DE OCUPAÇXO
1. O intransitivo da transição. O Estado, os conflitos agrários e
a violência na Amazônia
Alfredo Wagner Berilo de Almeida ................................... 259
2 . Migração e o migrante de origem urbana na Amazônia
Haroldo da Gama Torres ............................................. 291
3. Garimpo e fronteira amazônica: as transformações dos anos 80 i

Alberto Carlos Lourenço Pereira .................................... 305


4. Colonos contra amazônidas no Polonoroeste
Maur0 Leoiiel ............................................................ 319

PARTE V - PRODUÇÃO E DIFERENCTAÇÃODOS ESPAçOS


REGIONAIS: TENDÊNCIAS ATUAIS E PERSPECTIVAS
1. Gestão do território e territorialidade na Amazônia
Bertha Becker ............................................................ 333
2 . Carajás: processo de emancipação política ou embrião de uma
nova regionalização? - Zvaldo Gonçalses de L h a .............. 351
INTRODUÇÃO
Notas sobre expansão de fronteiras
e desenvolvimento na Amazônia
Philippe Léna‘
AdGlia de Oliveira2
Reunimos, no presente volume, uma seleçã0 de trabalhos apresentados no se-
minário que organizamos em Belém, em dezembro de 1988, no auditório do Institu-
to para o Desenvolvimento Ecoiìomico e Social do Pará (IDESP), com o apoio do
Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEGENPq) e do ORSTOM (França). Proble-
mas financeiros alargaram, indevidamente, o tempo decorrido entre o encontro e
a publicação, o que levou vários autores a introduzir no seu texto algumas modifica-
ções no sentido de abalizar dados fatuais. No entanto, em seu conjunto, a presente
colettinea C o retrato do estado da questão da fronteira, tal conio analisada pelos
participantes no momento da realização do encontro. Desde então, mudanças im-
portantes aconteceram no cenário amazônico e brasileiro: ampliação do debate eco-
lógico, reforço dos movimentos sociais que questionam o atual processo de ocupação
da Amazônia com base na sua prática quotidiana, mudança de governo, aprofunda-
mento da crise financeira e social, etc. Porém, as análises aqui apresentadas não
perderam nada da sua atualidade na medida em que siio fruto de pesquisas de campo
aprofindadas, pouco sensíveis aos fenômenos conjunturais, podendo, ao contrário,
contribuir para tornar esses Últimos niais inteligíveis.
Apesar da diversidade de temas abordados neste volume, resolvemos conser-
var o título original do seminririo, na medida em que um dos seus objetivos era jus-
tamente fazer uma revisão crítica do conceito de “Fronteira Agrícola”, com base
nas transformaç%s drásticas ocorridas nos vinte Últimos anos. Ao mesmo tempo,
queremos manter a ênfase nos processos de ocupação agrícola e pastoril do espaço
rural, por constituírem uma das formas que, historicamente, são as primeiras a se
desenvolver nas áreas de froqteira e contribuem para definir um perfil regional e
conflitos sociais específicos. E também a forma que acarreta a maior destruição de
ecossistemas naturais por unidade populacional (hectarehabitante) bem como a maior
lGe6graf0, Pesquisador do ORSTOMlFrança (ConvCnio CNPqlMPEG - ORSTOM).
2Antrop610ga, Pesquisadora do MPEGKNPq.

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Mus. Poro. Eniílio Geldi: Colc(-no Eduardo Galwlo, I991

pressão sobre as terras utilizadas pelas populações locais e, por isso, continua me-
recendo uma atenção especial.
Essa escolha não significa em absoluto o esquecimento da complexidade dos
fenômenos abrangidos pelo conceito de “fronteira” quando aplicado à Amazônia.
A literatura sobre o assunto revela essa complexidade e heterogeneidade quando acres-
centa à palavra “fronteira” uma grande quantidade de predicados destinados a defi-
nir com mais precisão o aspecto estudado: fronteira extrativista, especulativa,
capitalista, garimpeira, tecnológica, etc. Nesse sentido, a fronteira agrícola repre-
senta um dos múltiplos aspectos do movimento de ocupação da região, que não po-
de mais ser entendido sem analisar suas interaçöes com os outros processos em curso
(urbanização, garimpo, grandes projetos). Constitui tão somente uma porta de en-
trada (portm fundamental) para a abordagem da problemática de fronteira.
Para evitar confusões, achamos conveniente estabelecer uma diferença entre o
“conceito de fronteira” (Oliveira Filho l979), ferramenta heurística aplicada a uma
região concreta no intuito de entender melhor uma strie de fenômenos com caracte-
rísticas comuns supostamente devidas à situação específica de fronteira, e a “fren-
te” enquanto objeto empírico envolvendo um tipo de atividade, “uma combinação
concreta de forças produtivas e relações de produção que se introduz em uma Area
de fronteira” (Sawyer et al. 1990). Essa formulação, altm de representar uma ten-
tativa de trazer mais rigor metodológico para a a abordagem dos fenômenos especí-
ficos em estudo e facilitar sua teorização, permite retratar melhor a heterogeneidade
crescente do espaço amazônico, devido à justaposição, sobreposição, interaçã0 e
evolução diferente de frentes as mais diversas. Assim podemos explicar melhor a
não linearidade da progressão, a não contigüidade das áreas de expansão, bem co-
mo os fenômenos locais de crescimento e refluxo que ocorrem em escala interme-
diária, conforme as diferentes frentes observadas. O conceito de “fronteira” diz
respeito a situações mais gerais e mais abrangentes, em que ocorre uma desconcen-
traçã0 espacial de certas atividades econômicas, que encontram condições favonl-
veis num espaço onde elas estavam antes ausentes ou pouco representadas (Sawyer,
op. cit.). Portm, temos que adotar uma definição mais restritiva para podermos fa-
zer uma distinção entre as dinâmicas econômicas desaglomerativas simples e a ex-
pansão de fronteiras que 6, antes de mais nada, um fato político. Assim, todos os
fenômenos de desconcentração não entram na categoria de fronteira; seria um abu-
so, por exemplo, caracterizar dessa forma a extensão a Nagoya ou Osaka de ativi-
dades industriais outrora unicamente presentes em Tokyo. No entanto, a colonização
agrícola da ilha de Hokkaido, incentivada pelo governo japonês no final do sdculo
passado e no início deste, pode entrar nessa categoria. Portanto, o enquadramento
de uma situação particular no conceito de fronteira exige a presença de outras ca-
racterísticas: em primeiro lugar, trata-se da integraçã0 sócio-econômica, no âmbito
de uma sociedade nacional, de espaços em geral pouco povoados, cujos habitantes
muitas vezes não pertencem à mesma cultura, e/ou apresentam um quadro econ6
mico que difere daqueles que caracterizam as regiões mais dinâmicas do país. fi
um fenômeno interno, que se desenvolve dentro das fronteiras políticas existentes,
já que não há mais espaços não integrados a um Estado (a não ser a Antártida).

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Nesse sentido, constitui muitas vezes a Última fase do processo de incorporação das
populações que não tiveram a força, representatividade e organização suficiente pa-
ra serem consideradas nações com direito a um Estado. A definição inclui também
uma noção de escala e de integração; a simples instalação de alguns enclaves para
mineração, ou a exploração da mão-de-obra local através de um sistema de avia-
mento, não são suficientes. Enfim, implica o deslocamento permanente de popula-
ções, para participar do desenvolvimento das novas atividades. Se esse processo fosse
conduzido exclusivamente por populações locais, falar-se-ia em desenvolvimento
regional, não em expansão de fronteira. A origem externa à região dos agentes eco-
nômicos, bem como a defasagem cultural, técnica e econômica que acarretam, são
essenciais para entender a profunda ruptura, e o trauma, gerados pela expansão de
fronteiras. S6 p d e ser comparado com o choque da colonização. A expansão da
fronteira exige a ausência de populações ou a presença de populações que, demo-
grácca e politicamente, não tenham condições de se opor ao processo ou de conduzi-
lo. E preciso ressaltar também o papel fundamental do Estado no incentivo, viabili-
zação e gestão das operações de integração territorial. Por todas essas razCies, deve
ser considerado um fenômeno moderno, excluindo da definição a expansão espacial-
demográfica de povos tradicionais, bem como a expansão das fronteiras políticas
dos reinos e impérios do passado, realizada através de conquistas territoriais. De
fato, durante séculos, tratou-se menos de dominar e integrar espaços do que povos,
cujo trabalho permitia pagar impostos e enriquecer o poder central. Desde a dpoca
da procura do ouro das Américas e, sobretudo, a partir da revolução industrial até
hoje, as problemáticas nacionais e internacionais orientaram-se para o domínio dos
recursos naturais e dos espaços potencialmente produtivos (diretamente no caso na-
cional, e através de vários tipos de contratos e tratados no cenário internacional).
A existência de povos mal integrados nesses espaços constitui mais um empecilho
do que uma riqueza, a não ser que não disputem o espaço com as novas formas
de ocupação e possam ser utilizados como mão-de-obra a serviço dos novos em-
preendimentos. Na época contemporânea, as Américas são, portanto, o lugar privi-
legiado para encontrar formas de ocupação que se enquadrem no conceito de fronteira,
devido ao caráter relativamente recente do povoamento por populações de origem
européia: oeste norte-americano, pampa argentino, cerrados brasileiros e, hoje, Ama-
zônia (principalmente no que diz respeito ao Brasil mas, também, em escala menor,
para os outros integrantes do Pacto Amazônico). Outras partes do mundo, porkm,
apresentam tambdm fenômenos de integração e ocupação territorial de grande porte
que correspondem à nossa definição: A Sibéria, a Indonésia (Kalimantan) e a Aus-
trália são os principais. Apesar de ?presentar vários casos de colonização agrícola
dirigida, é pouco provável que a Africa venha sofrer um tal processo em grande
escala na medida em que as expansões atuais, mesmo quando promovidas pelos
governos, se dão num espaço já ocupado por populações de mesmo nível, sem defa-
sagem cultural, técnica ou econômica muito forte. Poucos casos preenchem as con-
dições para integrar-se à nossa definição.
O fato de se tratar de regiões de um país, e não de um país, confere à problemá-
tica do desenvolvimento características particulares; entre outras, a quase inexisdncia

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Mus. Para. Eniilio Goeldi: Coleçdo Eduardo Galvdo. 1991

de freios à açã0 do Estado ou da empresa privada, bem como o fato das atividades
econômicas serem implantadas em função de interesses nacionais e não prioritaria-
mente regionais. Isso agrava os aspecto importado e sobreposto das ações de desen-
volvimento, que podem ser implementadas sem as pesadas modificações que sem
dúvida sofreriam se existisse uma sociedade civil regional forte e organizada. As
técnicas de produção locais são pouco produtivas e geram uma poupança demasiado
pequena para poder aplicar em tecnologia com melhor desempenho, ou mesmo ge-
rar tecnologias locais. Daí o fosso existente entre os pacotes tecnológic,os oriundos
do Sudeste do pais ou do estrangeiro e a estrutura produtiva regional. E o caso dos
enclaves minerais, das hidrelétricas e de certas agroindústrias. Utilizam pouca mão-
de-obra da região e, mesmo assim, principalmente desqualificada.
Diante deste quadro, muitos colocam sua esperança na agricultura, principal-
mente camponesa, tendo em vista sua capacidade para repartir a renda e formar uma
base produtiva sólida. Porém, é preciso saber que tipo de agricultura tem chances
de se desenvolver na Amazônia e como ela se situa frente aos problemas de locali-
zação dos mercados e custos de transporte. Fala-se muito em agriculura camponesa
sem definir o que ela é e quais são suas exigências, como se qualquer atividade agri-
cola em pequena escala fosse camponesa ou tivesse condiçks de induzir o desen-
volvimento por suas próprias forças.
Em primeiro lugar parece essencial fazer uma diferença entre a agricultura de
subsistência e a agricultura camponesa. A agricultura de subsistência é uma ativida-
de inserida num contexto social e cultural complexo, onde a solidariedade entre os
membros do grupo e entre as geraçGes, através da filiação e das alianças matrimo-
niais, permite uma repartiçä0 do trabalho e do produto equilibrada. As regras são
mantidas graças à força das representações, mitos, rituais, etc. A comunidade C per-
feitamente auto-suficiente a nível de uma unidade demograficamente ampla. Trata-
se de um modo de reprodução antônomo, ao contririo do que Ocorre com a socieda-
de camponesa. Os membros são agricultores, mas não camponeses, já que não há
outro segmento social com o qual eles se relacionam. Hoje, na Amazônia, um tipo
puro de agricultura de subsistência (ou modo de produção doméstico) só C encontra-
do entre as comunidades indígenas isoladas.
Embora as sociedades camponesas tenham mantido muitos traços da agricultura
de subsistência, elas se diferenciam pela relação a um mercado que permite as tro-
cas com outros segmentos sociais não agrícolas. Elas pertencem a um conjunto so-
cial maior, caracterizado pela presença da cidade, que se opõe ao campo, daí o nome
de camponês. O trabalho é essencialmente familiar e o auto-abastecimento está pre-
sente em grau variável, mas continua fundamental, tanto para a alimentação como
para os insumos e ferramentas. Contudo, a sociedade camponesa carrega uma série
de contradições internas, que faz a sua riqueza e diversidade, mas que a abre Bs
influências externas. Por motivos históricos diversos, conforme as regiões e Cpo-
cas, ela perdeu as características sociais que permitiam sua reproduçäo equilibrada
no tempo, em parti,cularas características institucionais que mantinham a solidarie-
dade econômica entre as gerações (Geffray, 1990). Portanto, a unidade de produção

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Notas sobre expansdo de fronteiras e desmvoli~inientona Aninidnia

encontra-se reduzida à família, mesmo que ampla, o que a torna sensível às varia-
ções temporais da relação entre a quantidade de trabalho familiar disponível e o vo-
lume do produto, bem descritas por Chayanov (1966). Além do mais, seu crescimento
econômico faz com que as famílias camponesas se tornem cada vez mais dependen-
tes do mercado, podendo, no entanto, voltar ao auto-abastecimento integral por um
tempo, em caso de crise ou de preços baixos, e expandir de novo o volume de pro-
duto vendido em períodos favoráveis. Na ausência dos mecanismos da economia
de subsistência, os camponeses procuram compensar essa carência através de soli-
dariedades, mutirões, organizações de vários tipos e, enfim, através do crédito agrí-
cola ou da cooperativa, sem conseguir, contudo, acabar totalmente com esse
desequilibrio estrutural.
Suas características permitiram que a forma de produção camponesa sobrevi-
vesse através dos tempos e dos mais diversos regimes políticos. Enquanto a produ-
tividade do trabalho urbano, não agrícola, ficou baixa, a condição camponesa não
se distinguiu por um nível de pobreza particular. Mas, com o desenvolvimento da
indústria, tornou-se necesslirio fazer crescer também a produtividade do trabalho
agrícola, primeiro para obter um excedente maior a fim de alimentar o número cres-
cente de não agricultores e, mais tarde, para evitar a deterioração dos termos de
troca da agricultura familiar com as outras atividades econôniicas, condição do de-
senvolvimento rural. Ao se desenvolver, o mundo camponês perde parte da sua ori-
ginalidade e, sobretudo, sua relativa autonomia: deseja bens de consumo iguais aos
da cidade, tendo, por isso, de aumentar seu poder aquisitivo, o que o coloca em
posição dependente para abastecimento de sementes, produtos químicos, máquinas,
etc. Paradoxalmente, o sucesso da modernização camponesa implica o fim da socie-
dade camponesa e o surgimento da figura do produtor agrícola, capitalizado, cuja
produtividade e modo de vida se assemelha ao do produtor urbano. A condição des-
sa evolução está na possibilidade de gerar uma renda cada vez maior através da co-
mercialização de um valor de produção crescente, o que não B possível sem
consideráveis ganhos de produtividade do trabalho.
Uma outra forma que vale a pena ser mencionada na medida em que possui
uma importância marcante para a Amazônia, é o aviamento. Neste caso, há comer-
cialização de um ou vários produtos (em geral um número reduzido, e em pequenas
quantidades), mas não há relação com um mercado anônimo. A transaçã0 é efetuada
com um comerciante com quem são mantidos laços personalizados. Surge normal-
mente como intermediaçã0 entre agricultores de subsistência e um mercado longín-
quo, mas pode abranger agricultores individuais (indios deculturados ou imigrantes)
que não estão em condições de ter um acesso direto ao mercado por causa da disdn-
cia, e não niais usufruem da segurança que era proporcionada pela economia do-
mBstica de subsistência, o que representa, sem dúvida, uma situação extremamente
difícil. Nesse sistema, parte do trabalho é desviado para a procura ou cultura do
produto valorizado por esse mercado, sem alterar profundamente os modos de vi-
da. O aviamento não transforma os agricultores de subsistênciaem camponeses (falta
uma relação aberta e direta com o mercado) mas pode eventualmente ser um passo
nesta direção. Devemos constatar, porém, que a agricultura nos lugares pouco

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Mus. Para. Emilio Goeldi: Colccdo Fduardo Gnlruio. 1991

acessíveis e distantes da Amazônia 6 mais parecida com o aviamento do que com


uma agricultura camponesa. Isto ocorre mesmo nas regiões de imigração recente
da Amazônia Oriental. As relações de troca (e a dívida) são personalizadas e o pe-
queno produtor tem pouca escolha para comprar e vender. O pequeno comerciante
e/ou o posseiro que está melhor de vida e compra a produção dos seus colegas “na
folha”, viabilizam essa agricultura que seria impossivel sem eles (isto C, na ausên-
cia de um sistema que proporcionaria as mesmas vantagens) e, ao mesmo tempo,
freiam seu desenvolvimento.
Existe, no entanto, uma agricultura camponesa na Amazônia. Ela está onde o
Estado assentou colonos (ou regularizou suas posses) em torno dos Projetos. Pri-
meiro porque boa parte dos agricultores em questão já estava inserida em uma eco-
nomia camponesa no seu lugar de origem (ainda que como parceiros) e, segundo,
porque as infra-estruturas (estradas, transportes, postos de sadde, escolas) criadas
pelo Estado, bem como a assistência técnica, a compra do produto pelo governo,
os emprdstimos subsidiados, permitiram a recriação das condições da economia cam-
ponesa, ao menos no início. Encontra-se também na periferia de centros urbanos,
ou perto das estradas transitáveis e próximas dos mercados, bem como nos lugares
onde certas formas de organização social permitiram a permanência e coesão de
um grupo que vende no mercado (mesmo em pequenas quantidades) sem depender
dos comerciantes e atravessadores (antigos quilombos, por exemplo).
Esta agricultura camponesa, porém, está em crise. Mesmo nos projetos de co-
lonização que foram beneficiados com os melhores solos e uma boa assistência ini-
cial. Em Rondônia, muitos colonos desistem de plantar cacau ou café, dando a
preferência para a pastagem (dinámica, aliás, comum a todas as regiões amazôni-
cas). Na Transamazônica, os cerca de 450.000 colonos que ai’ vivem, incentivados
pelo governo a tentar essa aventura, estão passando por uma situação de desespero
diante da degradação das vias de transporte e as dificuldades de escoamento da pro-
dução. Os sucessos e fracassos acompanham a flutuaçã0 dos preços, sem sinais de
estabilização. Os colonos mais recentes, afastados das estradas transitáveis, não têm
condições de morar no seu lote e caem na dependência dos comerciantes ou dos
colonos melhor situados, conforme o modelo do aviamento. A crise C perceptível
mesmo entre os colonos que eram considerados bem sucedidos alguns anos atrás.
Muitas vezes, os donos de lote se queixam menos de seu nível de vida atual do que
da falta de perspectivas de crescimento ou da ameaça de afogamento que representa
a deterioração da estrada. O mais surpreendente é que o sonho não acabou; os mi-
grantes à procura de terra continuam a chegar. São, entretanto, menos numerosos
os que vêm para comprar um lote, levando, em certos casos, à baixa do preço da
terra, fenômeno até então muito raro na fronteira. Os que chegam são, na maioria
dos casos, pessoas sem recursos, que vão se tornar donos de terra pela primeira
yez na sua vida atrav6 da posse e, por isso, aceitam ocupar os lotes mais afastados.
E o desejo de autonomia e a expectativa de ascenção social que os animam, isto
6, o desejo de evitar o assalariamento ou a parceria, bem como o de constituir um
patrimônio, negociável em caso de dificuldades, que lhes garanta um nível razoável
de segurança e independência. Em contrapartida, porém, caem na dependência das

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formas específicas de comercialização características das áreas de fronteira, Eles
estão confiantes de que, de acordo com o modelo que sempre funcionou no Brasil,
a “civilização” (infra-estruturas, transportes, comércios, cidades.. .) acompanhará
seus passos com suficiente rapidez para que eles possam aproveitar as vantagens
proporcionadas pelo fato de estarem entre os primeiros que chegaram no local (o
que podemos chamar de “ganhos de fundador”, mesmo que em pequena escala).
Esta esperança, esta fé no futuro e no progresso linear constitui um dos maiores
motores do fenômeno de fronteira. Devemos nos perguntar, contudo, se esse mode-
lo ainda é válido para a Amazônia; isto é, retornando a nossa problemática inicial,
se algum dia existiu uma verdadeira fronteira agrícola na Amazônia.
A região já tem uma longa história de tentativas frustradas de desenvolvimento
agrícola. De modo geral, a literatura especializada faz do meio natural o grande
responsável por esses fracassos. Sem negar que o meio apresente problemas especí-
ficos, até hoje não resolvidos, acreditamos que o principal motivo foi o malogro
dos poderes públicos em estruturar um mercado em escala regional, o que prova-
velmente foi dificultado pela imensidão da região e a fraca densidade demográfica.
Daí as políticas de povoamento e imigração que si0 uma constante desde o período
colonial até o presente. Essas tentativas, porém, nunca atingiram a “massa crítica”
que teria permitido alcançar esse objetivo. Os estrangeiros assentados na Amazô-
nia, mesmo oriundos de uma região de agricultura camponesa no seu país de ori-
gem, não conseguiram vencer as condições sociais de produção desfavoráveis e se
mudaram para as cidades ou para outras regiões do país, evitando submeterem-se
As relações de produção do aviamento. A concorrência do Nordeste e, logo depois,
do Sudeste, não deu chance de reverter a tendência que levou a firmar a Amazônia
como periferia. Não que a região não tenha produzido nada (basta lembrar o “ciclo
agrícola” do século XVIII, baseado no cacau, cafk, cana-de-açúcar, etc.) mas as
formas sociais e técnicas de produção apresentavam um quadro atrasado (a maior
parte do cacau exportado durante o século XVIII era de origem extrativa - Santos,
1980 -) e não conseguiram adaptar-se à evolução da demanda bem como às trans-
formações políticas e econômicas.
As fronteiras agrícolas recentes se expandiram nos espaços contíguos às regiões
dinâmicas do país, em conformidade com a lógica econôniica de expansão espacial
das atividades agrícolas em resposta ao crescimento da demanda. Vale ressaltar que
os espaços abrangidos eram relativamente pequenos e, portanto, mais facilmente
dominados. Devido ao tamanho da região e ao caráter obrigatoriamentelinear e pouco
difuso das infra-estruturas de transporte, a expansão nos cerrados já mostra diferen-
ças: a ocupação do espaço não é mais contínua (mesmo se uma parte está numa si-
tuação de contiguidade e continuidade em relação às áreas de expansão anteriores)
e depende sobremaneira dos grandes eixos de penetração. As necessidades de ex-
portação da soja explicam melhor essa fase de expansão do que uma continuação
das dinâmicas anteriores. Com a Amazônia o problema é ainda maior. Trata-se da
metade do território nacional, sem ligações com a região Sudeste, e com uma dis- ’
tância máxima dos centros consumidores e produtores do país. Em termos da eco-
nomia espacial clássica, somente atividades extremamente extensivas, com custos

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de produção baixíssimos (compensando assim custos de transporte elevados), pode-
riam competir com as regiões mais centrais, tais como atividades de mineraçä0 (pe-
lo menos as que apresentam condições favoráveis em termos de custos de produção
e competitividade), pecuária extensiva, extrativismo vegetal, etc. Elas, entretanto,
dificilmente trazem desenvolvimento local, pois criam poucos empregos, os quais
são em geral mal remunerados.
As tentativas de colonização oficial procuraram reverter esse quadro. Obede-
cendo aos princípios dos modelos da economia espacial, concentraram os pequenos
produtores ao longo das estradas (em faixas de I O km de largura) e reservaram as
áreas mais afastadas à pecuária; tentaram induzir fenbmenos aglomerativos e de cen-
tralidade através da criaçäo de núcleos urbanos a intervalos regulares. Porém, CO-
mo toda a região possui as características de uma periferia, torna-se muito mais difícil
gerar as dinâmicas almejadas. Basta retirar as ajudas e subsídios públicos para que
a artificialidade do processo apareça.
O fenômeno é ainda agravado pela própria transformação da agricultura do Sul,
que substitui gradativamente as dinâmicas espacialmente expansivas pelo crescimento
“vertical” (aumento dos rendimentos e ganhos de produtividade). Próxima dos mer-
cados e dos fatores técnicos de produção, aproveitando um mercado de trabalho bem
estruturado, ela se torna capaz de competir inclusive com produtos para os quais
a região Norte deveria, em princípio, desfrutar de uma renda natural (produtos re-
gionais como a borracha, por exemplo). Por outro lado, vários autores já ressalta-
ram que, no Nordeste, a baixa umidade relativa do ar (que impede a difusão de pragas)
e a intensa insolação, tornariam aquela região favorável para a cultura de plantas
originlirias da Amazônia, se convenientemente irrigada.
Sem dúvida, a maior riqueza da Amazania são seus recursos minerais mas, a
madeira, enquanto recurso natural renovável, pode ser chamada a ter um papel ain-
da mais importante a médio e a longo prazo. Principalmente quando se considera
o esgotamento rápido dos,recursos das outras regiões produtoras de madeiras tropi-
cais (Sudeste Asiático e Africa). Sua exploraçäo atravds do manejo sustentado al-
cançaria dois objetivos ao mesmo tempo: a preservação da biodiversidade e a geraçäo
de renda e empregos estáveis. O reflorestamento, com a utilização da biomassa pa-
ra fins energéticos ou de produção de celulose, constitui uma opção, já que precisa
de grandes espaços, mas sofrerá a concorrência das florestas energéticas do Centro-
Oeste, e não pode ser recomendada em larga escala por acabar com a biodiversida-
de. Deveria ser limitada a áreas de pastagens degradadas. A criação de gado, pelas
mesmas razões e por ser insustentável com os padrões técnicos atuais, ou de renta-
bilidade duvidosa com padrões mais intensivos, deveria tambCm sofrer sérias res-
trições. Apesar da redução dos desniatamentos efetuados por fazendas (o setor
apresenta um refluxo na região), ainda é superior aos desmatamentos crescentes rea-
lizados por pequenos agricultores (crescimento devido ao prosseguimento da imi-
gração, mesmo em ritmo mais lento, e à adoçã0 da criaçäo de gado como estratégia
mais segura de sobrevivência e acumulação). Portanto, a reconversão das fazendas
para outros tipos de produção (reflorestamento, plantações de dendê, etc.) repre-
sentaria um importante passo no sentido da preservação.

16
Tendo em vista o perfil atual da agricultura brasileira, seria errado dizer que
os desmatamentos na Amazônia são destinados à alimentação do povo brasileiro ou
são necessários ao seu desenvolvimento. No entanto, 6 verdade que, mesmo descar-
tando as populações tradicionais, cuja participação no desflorestamento global C in-
significante, uma determinada quantidade de desmatamentos permite a certas camadas
da população imigrante encontrar sua subsistência na ausência de outras opções.
Constitui, antes de niais nada, um problema social e, secundariamente, um proble-
ma econômico e ecológico. Sua soluçäo pode estar tanto na agricultura como em
outros setores (a oferta de emprego de setores como a construção civil exerce um
apelo muito forte sobre esses segmentos da população rural). Contudo, profundas
modificações devem ser incentivadas ao nível dos sistexas de produçäo campone-
ses para torná-los ecológica e economicamente sustentáveis. Tendo em vista as res-
trições já expostas, a tarefa é sem dúvida árdua. Ela é complicada pelo fato de se
encontrarem na Amazônia praticamente todos os tipos de agricultura, desde a agri-
cultura de susbistência até a agricultura empresarial, passando pelo aviamento e a
agricultura camponesa em diferentes momentos do processo de integração/moder-
nização, tornando necess5rio o implemento de políticas diferenciadas.
As reservas indígenas, por exemplo, cuja demarcação C urgente, não podem,
nem devem, ser consideradas áreas de preservação do meio ambiente (o que signifi-
ca que as necessárias áreas de preservaçä0 devem ser consideradas à parte). Além
de ser uma noção discriminatória, ela C infundada. Algumas popu1açõe.s indígenas
já estão em relação com o mercado e a tendéncia é a intensificação desta relaçäo,
que já leva à venda de madeira, procura $e ouro, caça e pesca para fins comerciais,
etc., fatos amplamente docufnentados. E o exercício do seu direito e constitui um
processo quase inevitável. E preciso evitar, entretanto, a exploraçä0 desenfreada
de terceiros, a qual, em geral, leva a problemas de sadde e de desestruturação sócio-
cultural extremamente graves, como no caso recente dos Yanomami. A proposta
de ajudar a desenvolver, nessas áreas, atividades rentáveis (desde que requeridas
pelos indios) que não acarretem o esgotamento dos recursos naturais, introduz uma
problemática bem semelhante à da passagem do aviamento à agricultura camponesa
ou da modernização dessa última.
O problema é semelhante no caso das “reservas extrativistas”. Plenamente jus-
tificadas como meio de defender um grupo social e dar para ele o tempo e as condi-
ções para dominar suas transformações, elas dificilmente podem ser consideradas
Breas de preservação (a não ser que se retire a esse grupo a liberdade, duramente
conquistada, de decisão e escolha). Uma conseqüência lógica dessa liberdade C a
tendência ao reforço da agricultura (e da pecuária) presente, e freqüentemente do-
minante, nesses grupos. E de fato pouco provhvel que o extrativismo venha a con-
tribuir de maneira significativa no crescimento da renda. O setor da borracha está
em crise e, se se recuperar, são as plantações (em particular as de São Paulo) que
estarão em condições de atender a demanda. A castanha-do-pará começa a ser plan-
tada mas, mesmo assim, sua coleta representa ainda uma fonte de renda interessan-
te, que pode ter efeitos locais através da disseminação de pequenas usinas de
processamento. Entretanto, éuma perspectiva limitada. Quanto aos outros produtos,

17
Mus. Para. Eniilio Gncldi: CnkCflo Edimrdo Gilwln, I991

nos deparamos com a dificuldade de estruturaí- um mercado em lugares afastados,


para um grande número de produtos em pequenas quantidades e cuja demanda é
reduzida. As plantas medicinais e produtos procurados pela indústria farmacêutica
entram nessa categoria. Dificilniente uma parte significativa dos capitais interessa-
dos será investida a nível da procura de amostras e do abastecimento (a não ser,
talvez, através de capital de risco). A maior parte irá para a fase final de processa-
mento do produto. E se um mercado amplo e seguro se abre, a domesticação ou
síntese do agente ativo serão procurados. A domesticação não C sempre possível
nem sempre rentável mas, com certeza, ela representa uma sCria ameaça para a ex-
tração. De novo encontramos a problemática da modernização da agricultura, de
maneira a proporcionar um nível de vida decente para populações rurais. Esses se-
tores vão enfrentar o problema da competição com regiões (ou periferias das cida-
des) onde a agricultura é mais intensiva e melhor localizada, puxando os preços para
baixo.
Tecnicamente, 6 perfeitamente possível implementar sistemas de produção pluri-
específicos, com plantas perenes arbustivas (que protegem o solo e têm efeitos cli-
máticos reduzidos), sistemas agrosilvopastorisque minimizam os efeitos destrutivos
da agricultura sobre os ecossistemas; porém, C muito mais difícil encontrar preço, I
mercado, rentabilidade e estabilidade econômica para eles. Um fato positivo é que
as organizações camponesas, ou dos “povos da floresta”, estão cada vez mais cons-
cientes dessa necessidade e tornam-se interlocutores dinâmicos que exercem uma
forte demanda sobre os setores ligados à pesquisa e extensão rural.
Existe também uma incógnita no que diz respeito aos efeitos das políticas pú-
blicas na região, bem como ao papel dos centros urbanos na demanda de produtos
regionais. A previsível continuação do processo de urbanização e o provável pro-
gresso das infra-estruturas podem ter um impacto sobre a modernização rural. A
abertura da BR-364 até o Pacífico, estrada cuja significação econômica C muito maior
que a Transamazônica (e por isso sua construção só é uma questão de tempo), pode
trazer profundas transformações para a Amazônia Ocidental. Serviria, sem dúvida,
para escoar a produção de soja do Centro-Oeste e a madeira da Amazônia (o que
não será catastrófico se for madeira oriunda de manejo sustentável) mas também
pode favorecer um fenômeno de deslocamento do centro de gravidade da economia,
em pequena escala, mas suficiente para abrir perspectivas para certos setores e, prin-
cipalmente, à agroindústria, com efeitos dinamizadores sobre as áreas rurais próxi-
mas. O maior problema seria de conter as tevdências ao aproveitamento extensivo
do capital natural, isto é, os desmatamentos. E provável que a valorização econômi-
ca da mata seja decisiva na luta para uma preservação que os motivos éticos e cien-
tíficos não conseguem. Porém, é perigoso confiar unicamente no valor da floresta,
pois C possível que esse nunca alcance o valor que poderia oferecer um uso alterna-
tivo. E essencial que a produtividade cresça tanto em outros lugares que torne a
utilização da floresta para fins agrícolas sem interesse, desanimando novos empreen-
dimentos. Mas os simples mecanismos econômicos com certeza são insuficientes
e não dispensam o peso da lei e a pressão da opinião pública.

18
As áreas já desmatadas (em torno de 4 15.000 km*) são teoricamente suficien-
tes para obter unia produção agricola (ou de bioniassa) considerável (se não levar
em conta os empecilhos ligados à distância e aos custos de transporte). Acrescen-
tando 800.000 kni2 para manejo sustentado da floresta (com possibilidade de enri-
quecimento) e niais os impostos sobre a produção mineral, a região poderia oferecer
empregos para uma população de oitenta milhões de habitantes (ou seja, quatro ve-
zes a população atual) deixando dois terços da Amazônia como reserva de biodiver-
sidade e banco de gens. Os fatos, provavelmente, não acontecerão dessa maneira.
Trata-se somente de uni exemplo destinado a mostrar que a devastação não C uma
necessidade e que o desenvolvimento pode se dar de outras formas.
Hoje o consenso C cada vez maior (inclusive e, talvez, sobretudo, entre as or-
ganizações camponesas, indígenas e extrativistas) sobre a idCia de que a Amazônia
não pode resolver os problemas sociais de outras regiões, acolhendo os excluídos
e os gananciosos. Porém, deixando de lado os fenômenos de caráter especulativo,
que poderiam ser resolvidos por lei, é inegável que existe uma forte ligação entre
o nível de vida da população de baixa renda e a procura por terra na Amazônia.
Dito de outra maneira, mesmo uma agricultura de baixa rentabilidade pode repre-
sentar uma solução para certas camadas da população, o que significa uma tendên-
cia à expansão das frentes agrícolas não capitalizadas. Da mesma forma, o garimpo,
apesar de oferecer condições extremamente difíceis, atrai 600 a 800.000 pessoas
para a Amazônia, surgindo como uma opção alternativa à procura por terra. Essas
frentes entram em choque com as populações indígenas e invadem suas reservas,
difundindo doenças e trazendo prejuízos de todo tipo. No entanto, alCm das medi-
das imediatas a serem tomadas, acreditamos que a Única solução definitiva C o de-
senvolvimento, regional e nacional, que constitui a melhor forma de tornar a base
produtiva e o crescimento econôniico nienos dependentes dos recursos naturais e
mais moderados no seu uso.
A região está atualmente profundamente dividida entre tendências opostas e con-
traditórias tais como: os fenômenos de polarização e concentração inevitavelmente
ligados ao desenvolvimento, versus as dinâmicas centrífugas, de dispersão e des-
concentraçäo próprias da fronteira; a defesa do modo de vida local, da identidade,
versus a sociedade complexa, o mercado, os processos não locais (a comunidade
contra a sociedade, as relações mecânicas contra as relações orgânicas, nos termos
de Durkheim); a reconhecida necessidade de preservar o meio ambiente versus a
destruição do capital natural para sobreviver ou alcançar a rentabilidade de um em-
preendimento, etc.
A luta pela apropriação, dominação e controle de frações do espaço amazônico
se desenvolve através de um intenso processo de territorialização que abrange todos
os atores (Estado, forças armadas, empresas plibiicas e privadas, posseiros, garim-
peiros, indios, etc.. .) e que leva à espacialização dos conflitos sociais. De um lado,
o Estado se reforça à medida que procede à estruturaçã0 e ao controle do espaço
nacional; do outro, os diferentes grupos conquistam ou redefinem sua identidade
e seu espaço político atravCs do estabelecimento ou questionamento dos limites

19
territ6riais que os separam. Tais dinâmicas, reforçadas e diversificadas pelas mdlti-
plas estraegias postas em prática, constituem a base das novas relaçiies de poder,
bem como da estruturação do campo político-social e do espaço regional.
Os textos a seguir tratam das modalidades e conseqüências da expansão da fron-
teira em várias regiões da Amazônia, ressaltando os aspectos conflitantes e as ques-
tões tdcnicas levantadas pelas dinâmicas em curso. Nossa esperança d que eles possam
contribuir para o aprofundamento da reflexão sobre os difíceis problemas enfrenta-
dos pela região.

BIBLIOCRAFlA CITADA

CHAYANOV. A. V. 1966. Thc thcory ofpcasanr economy. ManchcstcrUniversity Prcss. Manchcstcr,


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SAWYER, D.R. et alii. 1990. Frontciras na AmazBnia: significado c pcrspcctivas.'Rclat6rio CEDE-
PLARIUFMG, l84p.

20
PARTE I
A FRONTEIRA E AS POPULAçõES
REGIONAIS
SOLDADOS DA T E R M : TERRITORIALIZAÇÃO
IND~CENAE REVERSIBILIDADE BQ SABER
SQBRE A FRONTEIRA
Priscila Faulhaber'
RESUMO - Trata-sc dc um cscrcício dc intcprctaçiio antropldgica do pro-
cesso dc dcmarcaçiio das terras ind&cnas no Mldio Solimõcs/AM, no qual os
indios tivcrani unia participação ativa.
Na tcntativa dc examinar as cstmtlgias de apropriaçfio c uso da tcrra a par-
tir do ponto dc vista dos indios, obscrvanios quc estas estratégias são infornia-
das por cddigosjurídicos rcgulados scja por costumc, seja pela Ici escrita, a fini
dc dclincar a discussão descnvolvida pclas cidncias sociais das difcrcntcs con-
ccpçõcs dc frontcira.
Este artigo tem como objetivo a comprccnsiio da tcrritorialidadc ind@nh
em uma situação histdria singular como um processo rclacionado com prfiticas
discursivas e niï0 discursivas dc outros atores da soeicdade nacional.
PALAVRAS-CHAVE: Demarcação, Tcrras indígcnas, Tcrritorialidadc, Fron-
teira, Processo jurídico.
ABSTRACT - This paper is an cxercisc o f anthroplogic?l intcrprctdon o f
the demarcation o f Indian lands in thc Middle Soliniõcs (AM) as a social pro-
cess in which the Indian thenisclvcs had an active participation.
Wc try to examinc the estratcgics o f appropriation and use o f thc land from
thc Indian 's point o f view. Those stratcgics arc informcd by juridicial codcs rc-
gulatcd cithcr by custoni or thc law. All this Icd us to huniblys sketch out a dis-
cussion of the differentconccptions O f frontierdeveloped by thc social scicnccs.
Our aim is thc undcrtanding o f thc Indians tcrritoriality as a proccss, in a
singlc historical situation, relatcd to discursive and non-discursivc practices of
others actors o f tlic notional socicty.
KEY WORDS: Indian lands, Dcmarcation, Tcrritoriality, Fronticr, Juridical
proccss.

I SCT-PWCNPq. Museu Paraense E d i o GoeIdi - DcptP de Ciencias HUIEI~~S,


Doutorandoem Ciencias
Sociais da UNICAMP.

23
Mus. Pmo. Enillio Goeldi: Coleç&doEdiurd0 CalwTo, I991

INTRODUÇÃO

Em 1987, as terras indígenas na região polarizada pela cidade de Tefé foram


demarcadas pela FUNAI (Tabela l), com intensa participação dos indios. Trata-se
de uma região tradicionalmente ocupada pelas frentes da sociedade nacional cujo
movimento representou a conquista e colonização dos territórios indígenas, desde
o skulo XVT. (Tabela 2)

Tabela 1 - Áreas demarcadas pela FUNAI

Povo A.I. Mun. Área Pop.


(km3 (89)
Miranha Miratu Uarini 288,OO 262
Miranha Méria Alvarães 86,33 77
Cambeba Jaquiri Alvarães 1130 80
Cambeba Ig. Gde Alvarbs 4 ,O0 63
Mayorúna Marajaí Alvarães 16,81 336
Cambebal B. Missão Tefé 16,20 316
Cocama 199

Tabela 2 - População total estimada em 1984 (IBGE)

Município População Estimada Årea ~ 2 )


Tef6 24.318 22.904
Alvarães 17.304 ’ 6.075

Uarini 7.014 9.850

Serão mostradas, neste artigo, algumas implicações teóricas e práticas da no-


ção de fronteira, que vêm à tona a partir da leitura dos depoimentos dos próprios
indios sobre a demarcação de suas terras, registrados mediante observação direta
em dezembro de 1987, em um momento imediatamente posterior à demarcação.
A participação dos indios na demarcação de suas terras é apresentada por eles
dentro da luta pela garantia de seus direitos enquanto cidadãos, na qual associam
as idtias de demarcação e República, como podemos observar no seguinte depoi-
mento de um líder Cambeba, em reunião na área indígena do Jaquiri, em 1987:
“Mas o que andei, tão vasto, quanto pela República, mas a Repú-
blica precisava saber que a demarcação começou.. . E se não fosse a pre-
cisão de terra, a gente não tinha feito este esforço...”
Depoimentos como este, em reuniões estabelecidas em um processo de crescente
politização dos grupos indígenas, devem ser examinados como um material de lin-
guagem cuja carga semântica está impregnada de ideologia.

24
Soldados da Terra

Trata-se de enfocar a relação entre este material de linguagem e os processos


sociais intrinsecamente relacionados com a “ideologia da construção nacional” dentro
da perspectiva de análise sócio-política da intervenção do estado nacional sobre suas
fronteiras internas, procedimento caracteristico da antropologia no Brasil (Peirano
1981: 160).
Considerando as práticas dos atores sociais em sua temporalidade e historicida-
de, enquanto uma estrutura diferenciada que opera como expressão de ideologias
políticas, suponho que devemos levar em conta a reversibilidade do saber sobre a
fronteira, e, neste sentido, mostrar o ponto de vista dos outros, i.e. do indio, relati-
vamente ao ponto de vista da sociedade nacional, colonizadora.
Esta abordagem deverá implicar o exame da territorialidadeindigena e a aná-
lise de diferentes racionalidades de organizaçãojurídico-política do espaço, por dis-
tintos atores e grupos sociais, enquanto dispositivos que aparecem a nível micro.

DISCURSO JURÍDICO, FRONTEIRA E TERRlTORIALIDADE DO MOVIMEN-


TO INDÍGENA

Embora a demarcação das terras indígenas tenha sido efetivada pela FUNAI
com a participação indígena, a demarcação ainda não foi homologada pela Presi-
dência da República. Este impasse, que tem implicaç&s práticas, indica que exis-
tem diferentes instâncias de construção do discurso jurídico. Trata-se, aqui, da
construção de uma linguagem antropológica a partir deste discurso sobre a apro-
priação fundiária.
Trata-se de examinar as categorias pelas quais os atores se designam, as regras
atraves das quais os atores em oposição se relacionam, os códigos nos quais todos
se apóiam e, em suma, o discurso jurídico que fornece a perspectiva unificadora
de questões que aparecem tanto na esfera costumeira quanto na esfera judicial (Da-
vis, in: Moura 1988:25). Estas diferentes ordens de categorizaçãopodem ser infor-
madas por relações sociais não legitimadas oficialmente, e mesmo por formas
oficiosas de apropriação da terra.
A figura da aldeia indígena, reconhecida enquanto tal por interferência de agência
do Estado data, no MCdio Solimöes, de 1928, quando o Serviço de Proteçã0 ao fn-
dio (SPI) reconheceu as áreas indígenas de Miratu e MCria, tendo sido demarcada
a aldeia do MCria em 1929. No relatório da 1? Inspetoria Regional do SPI, apare-
cem diferentes categorias de apropriação fundiária, grifadas por mim, que dizem
respeito a diferentes códigos de categorização:
“A inspetoria do SPI - Estado do Amazonas e Território do Acre.. . pede pelo
delegado da aldeia de MCria (Isidoro Sampaio) município de*TefC,baixo Solimões,
que suste o arrendamento do lugar denominado Muratu, distrito do Uariny, do Mu-
nicípio de TefC.. .” Segundo Isidoro Sampaio, os Miranhas aí estão aldeados há 30
anos. Hoje são 40 indios semi-civilizados, sendo tuxaua J. Trovão, vivendo todos

25
Mus. Pam. Eniílio Goeldi: Coleqao Eduardo Galvdo. 1991

da exploração de pequeno castanha1 existente na área do terreno ocupado pelos cita-


dos indios, área que fora respeitada pelos que anteriormentedemarcaram as respec-
tivas adjacências.. . Assim foram assegurados ao! indios Miranha do Miratu os direitos
de posseiros (Brasil. Serviço de Proteçã0 ao Indio 1931: 218-220).
A figura da aldeia indígena C preexistente, pordm, 3presença de agência tutelar
govemamental, sendo reconhecidas pelos regionais como aldeias outras áreas que
tinham como traço distintivo o de serem terras pertencentes ao Patrimônio da Prela-
zia de TefC, e terem sido ocupadas por grupos indígenas migrantes com o consenti-
mento da Igreja.
A partir da dCcada de setenta verificou-se, em processo análogo aos antigos al-
deamentos, a formação dos territórios indígenas do Marajaí - com a migração dos
Mayoninas provenientes do Japurá e da Barreira da Missão - ocupados por Cam-
bebas, Cocamas, Caixanas, Ticunas, etc, provenientes de Fonte Boa, no So1imÕe.s.
A Prelazia de TefC cobrava uma renda em castanha dos ocupantes desta área, mas
estes afirmam que deixaram de pagar a renda à Igreja um ano após terem se apossa-
do do terreno.
As terras de várzea do Jaquiri - de propriedade da União - foram ocupadas,
em condições semelhantes, pelos indios Cambebas. Em 1982, tendo sido vítimas
de uma grande enchente, os Cambebas ocuparam com roças um terreno Laranjal,
limítrofe à MCria e ao Marajaí.
Estes grupos indígenas Ctnica e territorialmente organizados passaram, a partir
de 1980, a reivindicar à FUNAI a demarcação de suas terras, a exemplo dos indios
Miranhas do Miratu e MCria. Os Miranhas do Miratu, cujos limites eram respeita-
dos pelos comerciantes não indios, tinham o hábito de reavivar os marcos firmados
pelo SPI.
Este movimento pela demarcação das keas indígenas de TefC se intensificou
atravCs de alianças entre os diversos grupos indígenas da região, que mantêm, a
partir de 1980, fortes vínculos com o movimento indígena regional e nacional. Em
1982, as áreas foram delimitadas pela FUNAI. Em 1985, uma equipe da FUNAI
permaneceu cerca de três meses (de setembro a novembro) na área do Miratu, sem
nada fazer, o que intensificou a dinâmica da luta dos grupos indígenas pela demar-
cação de suas terras.
A mobilização efetiva destes grupos indígenas minimizou os efeitos negativos
dos impasses gerados pela máquina administrativa da agência tutelar, em processo
caracterizado como autodemarcaç50 (Oliveira Filho & Almeida 1989:61-65), que
implica a afirmação da territorialidade e a cidadania dos indios e que foi levada
a cabo pela auto-organização dos indios na luta pela garantia de seus territórios.
A necessidade de garantia de suas terras impõe práticas de mobilização permanen-
te enquanto grupos social e etnicamente organizados e portanto relativamente autôno-
mos perante a ação tutelar. Sendo assim a autodemarcação está ligada a um estado
de mobilização constante dos indios no sentido de garantir os limites de seus

26
Soldados da Terra

territórios, ameaçados por continuadas invasões, como afirmou uma liderança


Cmibeba:
“Os peixeiros (barcos pesqueiros invasores), que têm malhadeira,
que invadem ... invadem aqui dentro de nossa área, ab5 ver se acabam
com tudo.. . Foi demarcada.. . mas eu queria ver o atendimento da de-
marcação’’.
A autodemarcação implica uma situação de tensão permanente, pois como ocor-
rem freqüentes conflitos os grupos ficam em estado de prontidão constante para reagir
contra ameaças latentes ou manifestas. A afirmação de sua identidade Ctnica consis-
te em um processo político informado pelo discurso sobre a territorialidade e pela
formação de um saber sobre a fronteira.

O SABER SQBRE A FRONTERA


Diferentes concepções de fronteira: delineando um debate.
Trata-se de esboçar um mapeamento das possibilidades teóricas abertas pelas
ciências sociais referentes às diferentes concepções de fronteira, considerando que
estas formas de saber estão enraizadas historicamente e têm relação com as estratd-
gias que dizem respeito à intervenção dos diversos atores sobre o território nacio-
nal e 2i territorialidade dos indios.
A abordagem sociológica da noção de fronteira extrapola a concepção geográ-
fica de fronteira física entre países.
Na definição de fronteira interna no Estado nacional como um espaço aberto
porém controlado, consideramosa intervenção do Estado sobre as relações sociais
nestes espaços (Velho 1979: 101). Esta concepção, que supõe uma estrutura social
relativamente em aberto, C informada pelo exame de relações sociais contraditó-
rias, e de conflitos relativos à apropriação fundiária, que aparecem em “movimen-
tos de ocupação e reocupação de terras’’ (Musumeci 19845).
A demarcação das terras indígenas, neste sentido, pode ser vista como a aber-
tura de uma fronteira étnica, e deve ser conceituada em termos político-
saciológicos.
A demarcação de terras pode ser entendida como o resultado do fortalecimento
e politização do movimento indígena. PorCm sua análise enquanto um fato da dinâ-
mica da estrutura agrária a nível nacional associado aos movimentos político-
econômicos de concentração fundiária, ou seja, fechamento da fronteira (Silva 1982:
115-1191, faz-nos lembrar que constitui um mecanismo de diferenciação social in-
terno ao processo de concentração da estrutura fundiária, o qual - ao menos a nível
da conjuntura política atual- não tem maior significação em termos de uma mu-
dança efetiva na formação econômico-social dominante.
Dentro de uma brspectiva etnográfica, proponho investigar em que medida estes

27
Mus. Pam. Emilio Goeldi: Cole@o Eduardo Galvdo, I991

espaços podem ser entendidospelos seus efeitos em termos de virtualidade históri-


ca (Becker, 1986:302), ou seja, que a fronteira C um sistema espacial ainda em
vias de estruturação plena. Ou então, ao contrário, se devemos refletir sobre o es-
gotamento das possibilidades objetivas de uma fronteira fechada em termos sócio-
econômicos.
Ou então, cabe perguntar se estas variáveis seriam argumentações contrárias
porem complementares, na tentativa de tornar inteligível um processo dinâmico e
contraditório. Convem formular, neste sentido, a hip6tese - dificilmente provável
dada a situação de intensos conflitos a partir da qual é formulada - de que os gru-
pos indígenas sejam virtuais atores que passam a desempenhar papéis ativos nos
processos políticos da fronteira amaaônica.

Como os ídios vêem a fronteira


Os indios definem fronteira como divisi70 das terras, divisa0 das áreas. Esta
definição 6 informada por uma concepção de fronteira fisica, que limita diferentes
países e 15guarnecida militarmente:
“Fronteira é uma área que os militares tomam conta, por motivo
da invasão das duas nações: Colômbia, Peru, ou outra terra qualquer,
ali tem militar tanto de uma parte como de outra. Aí ningu6m dorme,
.
ali.. ” (depoimento de Cambeba, em reunião no Jaquiri).
Eles conhecem também a noção de faixa de fronteira:
“Agora tem uma parte, que se chama faixa, de muitos quilôme-
tros, já vai conhecendo como aquela terra, que pertence à fronteira. E
ninguCm mexe mais. S6 os militares que mandam” (depoimento de Cam-
beba, em reunião no Jaquiri).
A faixa de fronteira, no alto rio Japurá, em comparação com o MCdio Soli-
mões, é vista como devastada, menos povoada, sendo assim mais suscetível de con-
flitos, os quais ocorrem inclusive pela disputa de recursos econômicos, o que é usado
para justificar a intervenção militar:
“Não tem povoado, o lugar 4 assim desabitado, então, eles fazem,..
o que eles querem. Se acontecer um desastre, por acaso, aí leva horas
e horas para chegar à Vila Bittencourt (localizada no rio Japurá, em tor-
no de uma guarnição militar de fronteira do Brasil com a Colônibia).
Então eu acho que C por isso mesmo, a terra C devastada (grito meu),
não tem quase gente. Agora, passou da Vila, para outros pafses, a briga
maior C porque lá está o ouro.. . As mortes são por causa do garimpo
do ouro... No tempo que eu estava Iá, de sessenta e poucas pessoas,
parece que quinze desapareceram. Foi no ano retrasado.. (depoimen-
to de Cambeba no Jaquiri).

28
Soldados da Terra

A concepção geograficizada de fronteira física informa a definição, mais ge:


neralizada, de divisão entre áreas ou lotes de terra, que pode porbm significar
os limites territorializados mais abstratos, e que não coincidem com a materialidade
da fronteira física. Como o espaço C politicamente construido, os grupos indígenas
levantam fronteiras em um sentido Ctnico, que extrapola a concepção físico-espacial.
Eles contam, por exemplo, que existem fronteiras entre o Miratu e o Jaquiri, mas
não se trata de áreas contíguas, pois existem diversas povoações organizadas comu-
nitariamente entre estas duas áreas indígenas.
“Verdadeiramente, com certeza, fronteira 6 divisão. Divi$í0 entre ca-
da lote de área, entre cada setor. No pensamento, assim: Nos aqui, para
cima C a fronteira nossa b a divisão com o Miratu. Cada qual no seu
pedaço.. . E estes países, que existem, são divididos em pequenos lotes.
.”
Aí, nos países.. (depoimento de Cambeba no Jaquiri).
A partir da leitura deste depoimento, vemos que os indios percebem que o exer-
cício de sua identidade se dá em um campo de relações materialistas de força. Eles
se territorializam à medida que a autodemarcação leva a um estado de mobiliza-
ção permanente no sentido da defesa dos limites da área indígena. A sua afirmação,
enquanto um grupo politicamente organizado, faz com que os indios vejam estes
limites em termos da construção e da demarcação de uma fronteira Ctnica, como
um processo análogo 2s fronteiras político-geográficas entre países.
“Porque lá na fronteira, de limite de país para país, quem governa são
os militares, nb? Nós aqui tambCm nos consideramos como militares,
gente de poder tamb6m” (depoimento de Mayonina no Marajaí).
A auto-atribuição da capacidade militar pelo indio C acionada enquanto uma me-
táfora da possibilidade do exercício da força no tocante à garantia de seus direitos
e denota a aspiração pela autonomia política e territorial.
Assim examinando a concepção dos indios, suponho que a demarcação possibi-
litou o fortalecimento de sua relação com seu território, no sentido de maior auto-
nomização. Ao levantarem fronteiras sociais que separam seus territórios dos
territórios confinantes, territorializani-se, ou seja, politizam sua concepção de área
indígena.
Esta concepção politizada não tem representado, no entanto, uma homogenei-
zação das concepções de terra, mesmo internamente aos grupos indígenas. A auto-
demarcação constitui uma estratbgia política de afirmação destes grupos dentre de
uma situação social, no sentido do reconhecimento da territorialidade indígena.
O exercício da identidade de grupos etcnicamente diferenciados aparece como um
processo político que envolve relações materiais e simbólicas de força. E importan-
te sublinhar, neste sentido, a complexidade e ambivalência das relações sociais tra-
vadas pelos indios que se territorializam face a outros atores como a FUNAI e
a Igreja, que examinaremos com mais detalhes a seguir.

29
Mus. Para. EmNio Goeldi: Cole@o Eduardo G a l ~ o1991
,

TERRITORIALIDADE INDÍGENA
E SITUAÇÃO HIST6RICA
Diferentes concepções de ferra e estratégias

Dentro de um processo de politização e de territorializagão, os indios da Bar-


reira da Missão recusaram a proposta inicial de loteamento oferecida por membros
da Prelazia de Tef6 que estavam travando entendimentos com a EMADE - Empresa
Amazonense de Dendê - instalada em área confinante com os limites indígenas.
A demarcação das terras indígenas foi uma estrategia no sentido da auto-organização
do grupo 6tnico em termos da garantia de uma base territorial, que era avaliada em
termos econômicos, pois eles recusaram o loteamento porque como estavam endivi-
dados com os patrões e o Banco do Brasil, temiam ser forçados a entregar a terra
para pagar suas dívidas.
Internamente a este grupo, no entanto verificavam-se diferentes concepções de
relação com a terra. Dentro da área da Barra da Missão e em área limítrofe com
a área onde estava sendo implantada a EMADE, um grupo de Cocamas organiza-
dos, territorial e religiosamente aglutinados pelo movimento da Cruz, rejeitava a
idéia da demarcação da terra pela FUNAI, alegando motivos religiosos:
“Não estou lutando por terra, por coisas de vocês, estou lutando para
ver se salvo a minha alma”.
Na concepção dos indios Cocamas vinculados religiosamente ao “Movimento
da Cruz”,de inspiração messiânica, a luta pela terra consiste em uma atividade pro-
fana e que B condenada do ponto de vista de uma orientação religiosa extremamente
rigorosa e que prescreve que seus seguidores estejam voltados unicamente para ati-
vidades do âmbito do sqgrado, no sentido da salvação da alma de solicitações consi-
deradas impuras, de ordem profana.
As representações sobre terra são orientadas por valores contraditórios e po-
dem ser informadas tanto por uma inspiração religiosa que interdita a compra e a
venda de terras, quanto por motivos utilitArios, no sentido da instrumentalização
de relações mercantis.
No Marajaí, tivemos um interessante exemplo de como a relação mercantil com
a terra pode ser instrumentalizadaem função dos interesses dos indios. Eles já ocu-
pavam coletivamente um terreno limítrofe com roças hll cerca de dez anos, mas ha-
via impedimento jurídico para o reconhecimento de área ind&ena, e a solução
encontrada foi a compra do terreno, com a intermediaçã0 de um indio vereador,
e a mediação do prefeito de Alvarães.
Seguindo instruçks do Prefeito, os Mayoninas trabalharam na demarcação da
terra junto com a FUNAI, que indenizou apenas as benfeitorias dos antigos proprie-
tários. Mas os Mayoninas consideraram que a terra seria de propriedade indigena,
h medida que o Pr$feito comprou a terra e transferiu documento para a comunidade
mediante doação. E interessante notar que o recurso h compra, segundo os próprios
indios, foi efetivado para evitar a desapropria& (como eles próprios contaram), pois

30
Soldados da Term

como em Alvarães existem diversas áreas de conflitos entre posseiros e proprietários,


o prefeito preferiu evitar abrir um precedente que pudesse gerar uma intensificação
dos conflitos agrários em outras Areas. Os indios registraram o terreno em cartório
em nome da comunidade e disseram pretender tamb6m a documentação do terreno
pertencente à Paróquia, e transmitir para o nome da comunidade. AtravCs destas es-
traGgias, demonstraram pretender maior autonomia face à FUNAI e à Par6quia.

Tuxauas e capitães: situação social en7 perspectiva histórico-comparativa


“Quem quer ser da FUNAI, seja da FUNAI, mas quem quer se empregado,
abandona a FUNAI e vai ser empregado”, disse um representante dos Cruzados
da Barreira da Missão rejeitando a presença da FUNAI.
Para compreender melhor este depoimento, C necessário traçar alguns elemen-
tos para a comparação com a situação dos Ticunas do Alto Solimões - onde o Mo-
vimento da Cruz tem grande influéncia - cuja relação com o “regime tutelar’$
foi analisada por Oliveira Filho (1988).
Na perspectiva da análise dos indios Ticuna de Umariaçu, O Tuxaua consiste
em um “instrumento de reforço e favorecimento da dominação sobre os indios”
(Oliveira Filho 1988:125). O termo serve para designar a chefia indígena, mas na
prática o Tuxaua representa um canal de exercício direto do poder sobre os indios,
utilizado pelos patrões para controlar as relações de trabalho e a circulação de mer-
cadorias. Em certas circunstâncias, o patrão chega a substituir o Tuxaua. O papel
de capitão, por sua vez, aparece entre os Ticunas do Alto SoIimões, em áreas de
interferéncia direta da FUNAI, que institui relações sociais distintas das relações
de patronagem.
Verificava-se anteriormente à demarcação das áreas do MCdio Solimões, a pre-
sença do Tuxaua entre os grupos indígenas, e aquele tinha meios de exercer dominação
direta de modo semelhante às práticas exercidas pelos Tuxauas do Alto Solimões.
A partir do apogeu da empresa seringalista, o sistema do aviamento baseado
na patronagem e caracterizado por relações de sujeição-dominação difundiu-se em
toda a Amazônia. A complexidade deste sistema impõe que seja examinado como
um evento histórico singular, cujo exame indica elementos para a compreensão das
circunstâncias particulares da situação histórico-social na qual foram definidas as
fronteiras entre o Brasil, a Colômbia e o Peru na região entre os rios Japurá e Putu-
mayo (de onde são provenientes os indios Miranhas das A.I. do Miratu e MBria).
A exploração gomífera consistiu, nesta região, uma forma de capitalização sel-
vagem, tanto na produção seringueira quanto na extraçã0 do “caucho negro”
(1890-1895), que se esgotou rapidamente porque para extrair o látex, deve-se der-
rubar a brvore. As empresas extrativistas criaram um sistema de peonagem movido
por uma atividade lucrativa e subjugaram os indios como mão de obra forçada em
função do que se considerava civilização (Hardenburg 1912:271). Ainda que diver-
sos grupos tenham sobrevivido enquanto forma de organização dtnica, diversas et-
nias indígenas foram destruidas territorial e politicamente.

31
Mus. Pora. Emilio Giuldi: Colecao Muardo GalWo, I991

Foi difundida, assim, uma “cultura do terror” (Taussig 1987:57), associada


ao sistema de domesticaçã0 pela dívida. As atrocidades cometidas no Putumayo con-
sistiram em fatos-limite, histórica e geograficamente circunstanciados, associados
ao apogeu da empresa seringalista. Mas os relatos dos dramas encenados nesta si-
tuação limite estão vivos nos relatos dos velhos Miranhas do Mtdio Solimões. E
o “sistema de trabalho” engendrado na “situação de seringal” implicou a difusão,
em toda a fronteira amazônica, de relações sociais de sujeição-dominação informa-
das por uma economia política do terror.
Mesmo quando não se encontra uma “situação de seringal” típica, verifica-se
a disseminaçãode relações de patronagem nela engendradas, caracterizadas pela su-
bordinação da força de trabalho camponesa por relações mercantil-usurárias dentro
de um sistema vertical de relações que constitui a cadeia do aviamento (Oliveira
Filho, 1979:124).
No MCdio Solimões, no entanto, tem-se verificado uma situação de crise deste
sistema de relações. Esta crise não tem representado o desaparecimentodas figuras
do patrão e do Tuxaua, mas seu poder de arregimentaçãopolítica e econômica pare-
ce estar sendo colocado em questão por relações de mercado. Em algumas áreas,
esta crise tem acarretado a repetida troca de lideranças, cuja representatividade tem
sido questionada durante as assembldias dos indios.
Atualmente, os indios chamam de “patrão” a todos aqueles com quem travam
relações mercantis, os quais não detêm o monopólio da comercializaçã0nem o con-
trole total das relações de trabalho. A medida que se politizam as relações sociais,
o seu poder tem-se enfraquecido. Numa situação limite, nas áreas próximas à
cidade de TefC, onde as relações de sujeição-dominação do sistema de patro-
nagem parecem mais Gnues, os indios passam a vender a quem oferece os melhores
preços.
Entre as reivindicações dos indios do Mddio Solimões, no sentido de uma atua-
ção tutelar efetiva, aparece a recusa de que a FUNAI interfira nos assuntos internos
de cada grupo:
“Isto al d nosso prazer, mas que a FUNAI somente se faça advogado
.
da terra.. . ela serve para isso.. Mas ninguCm quer negociar direto com
ela, mesmo ela interferindo nisso, naquilo, outro.. .” (depoimento de
Cocama da Barreira da Missão).
Os indios, todavia, demonstravam interesse na presença da FUNAI em Tefe,
reivindicando a instalação de uma “casa de trânsito” nesta cidade, que havia sido
prometida pelo Superintendenteda FUNAI em Manaus. Os indios Cambebas e Ma-
yoninas mostravam tamMm interesse em “conhecer de dentro o Órgão da FUNAI”. ..
“colocar uma pessoa que fosse ver mais de perto.. a parte ... do trabalho da FU-
NAI”. Este contato seria viabilizado tanto mediante vínculo empregatício, quanto

32
Solciados da Terra

mediante a apresentação de projetos econômicos tendo em vista o apoio financeiro


por parte deste agência.*
Desde 1982 os indios têm estabelecido relações econômicas com a FUNAI, que
esporadicamente fornece ferramentas de trabalho, cabeças de gado e outros recur-
sos. Estas relações têm acentuado os conflitos políticos e econômicos internamente
aos grupos indígenas. O faccionalismo, preexistente nas áreas em estudo, tem sido
incrementado através da aglutinação em torno de indios com maior trânsito na agência
tutelar, e vêm conseguindo junto a ela recursos econômicos.
Observa-se, desta maneira, a intensificação da diferenciação social interna ‘as
aldeias. Esta diferenciação já era um mecanismo característico da estrutura social
do aviamento. As relações de sujeição-dominação não desaparecem com o predo-
mínio das relações de “livre-mercado”. Ao contrário, as “relações de mercado”
são livres s6 na aparência e persistem os vínculos de dependência pessoal caracte-
rístico da patronagem.
Através destes mecanismos, que fazem com que as relações sociais pareçam
naturais, parecem ser perpetuadas as relações de força que implicam a sujeição dos
membros dos grupos indígenas a relações desiguais.
A diferenciação interna aos grupos indígenas 6 um mecanismo articulado aos
processos mais gerais de diferenciação da formação econômico-social, que se ca-
racteriza pela concentração do poder sócio-econômico e político nas mãos dos seg-
mentos dominantes de comerciantes, empresários (entre os quais se situa o próprio
estado) e agentes do governo. Neste sentido, os grupos indígenas podem ser carac-
terizados como um segmento da pequena produção mercantil que é um ator domina-
do na estrutura política regional (Faulhaber 1987:97).
A diferenciação social interna aos grupos indígenas consiste em uma estratégia
sócio-econômica que não implica a dissolução da identidade Ctnica, pois esta se ma-
nifesta no processo de territorializaçäo e B exercida em relação com a agência tute-
lar, com a pastoral indigenista e com os movimentos indígenas de nível local, nacional
e mesmo internacional.
Mas a persistência de formas de organização Ctnica não implica que represen-
tantes indígenas não sejam recrutados como força de trabalho por empresas que atuam
em esfera local e regional. Isto ocorre principalmente com os homens mais jovens,
dos quais a unidade familiar prescinde temporariamente.
Diversos indios do MCdio Solimões têm sido, deste modo, engajados em fren-
tes de trabalho da Petrobrás, no rio Ururu, e de empresas mineradoras como

Quando foi realizada a pesquisa de campo que levantou os depoimentos examinados neste artigo, os
Lndios mantinham com a FUNAI apenas relaçtcs espridicas. Com a implantaçä0de uma m a dc trhsito
e com a presença constante de um funcionario da FUNAI cm Tcf6, a partir dc 1988, seguramente
Ocorreram transformaçdes nas relações entre os Indios e a agência tutelar. Em outra pesquisa de cam-
po, em abril e março de 1989, obscrvci que as estrategias dos Indios face à atuaçäo da FUNAI varia-
vam entre a aproximaçZo e a rejciçäo, por6m 1120
tcnho clemcntospara avaliar critcriosamcntc a siwaçäo
atual destas relações.

33
Mus. Para, Eniilio Goeldi: Colecao Eduardo Gahao, 1991

Paranapanema e Goldamazon, no Alto rio Negro, e Paranapanema, na Serra do Traí-


ra, no Alto JapurB. Este recrutamento 6 uma estratégia generalizada por estas em-
presas, que pretendem aproveitar o grande conhecimento que os indios têm das Breas
de fronteira.
Mas a ruptura dos indios com o grupo social de referência não C uma constante
no Mtdio Solimões. Antes, a deserção deste tipo de frente de trabalho parece ser
a regra entre os membros destes grupos indígenas. Os grupos indígenas de TefC
mantêm fortes vínculos com a terra, que consiste para eles em uma garantia não
somente de suas estratégias sócio-econômicas de subsistência, quanto das possibili-
dades de uma autonomia política que lhes permitirá concretizar suas aspirações por
uma vida mais livres.

CONCLUSAO
A politização dos movimentos indígenas tem implicado uma real mobilização
dos indios na luta pela garantia de seus direitos. Neste processo, eles têm constituí-
do formas de sociabilidade de tipo novo, com as alianças horizontais entre grupos
Ctnicos diferentes, que representam uma estratdgia alternativa à verticalidade das
relações patemalistas de sujeição-dominação que caracterizam a estrutura social tra-
dicional (Faulhaber 1987:231).
Neste sentido, a territorialização e a afirmação da identidade dos indios estão
associadas à luta pelo reconhecimento de seus direitos enquanto cidadãos, como se
pode ler no seguinte depoimento de um jovem Cambeba da Barreira da Missão:
“Somos donos da terra. Somos soldados aqui mesmo na terra. Porque
esta terra não foi doação. Foi só uma ajuda que o governo deu para n6s
garantirmos a nossa terra”.
A afirmação que os indios são “soldados da terra” deve ser entendida como
um enunciado que se repete na formação discursiva dominante, constituída histori-
camente a partir das guerras de conquista entre os Estados coloniais.
AtravCs dos tratados coloniais, a guerra foi “prolongada por outros meios” (Fou-
cault 1981:176). A formação dos Estados nacionais latino-americanos representou
a territorialização dos povos indígenas dentro das fronteiras nacionais.
A territorialização indígena emerge em processos políticos que não podem ser
analisados, de maneira simplista, como se tratasse unicamente de episódios de “guerra
declarada”, como os que resultaram no extermínio de inúmeras etnias indígenas.
O contato interdtnico implicou a disseminaçãode mecanismos de poder - pr6prios
à sociedade nacional, como a patronagëm, cujo exercício 6 visto como natural e
parece perpetuar as relações de sujeição-dominação.
Os grupos indígenas reivindicam o lugar, que lhes C previsto por lei, que lhes
permita organizar-se social e espacialmente, enquanto grupos etnicamente diferen-
ciados, no interior do Estado Nacional. Esta reivindicação C apresentada dentro do

34
Soldados da Terra

campo semântico dominante, ou seja, do código jurídico que preve a possibilidade


de uso comum da terra pelos indios. A garantia deste direito, no entanto, envolve
o exercício de relações bélicas no qual, freqüentemente, os grupos indígenas
encontram-se em posição mas frágil.
Se procurarmos evidenciar as contradições sociais e históricas que são oculta-
das pelo discurso dominante, vemos que não só é apagado o que é dito pelos indios,
mas que eles são transfigurados através de processos fantasmagóricos anAlogos ao
fetichismo das mercadorias. Estes efeitos fazem com que as relações entre pessoas
parqam relações entre coisas, e as relaçöes entre coisas pareçam relaçöes entre su-
jeitos de direito.
Na constituição do discurso antropológico, a partir da tentativa de mostrar aquilo
que diz o outro, verificamos que ao evidenciar a rede de relações em que este dis-
curso 15produzido, mostramos que faz parte da trama histórica formular enunciados
que se repetem.
Torna-se curioso investigar como as identidades indígenas são constituídas no
interior destes Estados nacionais, e verificar como os representantes das sociedades
nacionais olham os autóctones, ou seja, se estes são encarados como inimigos in-
ternos, ou como aliados 3, ou se esta categorização varia de acordo com a situa-
ção histórica ou com a circunstância política.
A repetição do enunciado de que os indios são “soldados da terra” lhes con-
fere, contudo, nos dias atuais, novas significações, se procurarmos entender o dis-
curso indígena sobre a territorialidade em relação com o discurso indigenista, o
discurso sobre a reforma agrária, o saber sobre a fronteira.
Estas remissões envolvem uma rede de problemas da grande carga política e
simbólica, que não podem ser solucionados no espaço restrito deste trabalho, por-
que envolvem a compreensão do delicado problema da politização indígena em re-
lação com a crescente militarizaçäo do meio rural e indígena brasileiros.
Ao territorializarem-se, os indios desenvolvem estratégias no sentido da con-
quista de sua autonomia, que talvez seja mais importante para eles que manter-se
em estado de alerta diante da ameaça de invasões constantes. Neste sentido, a auto-
organização tem como objetivo a manutenção daquilo que partilham entre si, e que,
a despeito de suas lutas intestinas, parecem ser para eles mais importante que a polí-
tica e que a guerra.

3 Segundo depoimcnto de indios Caxinaui do Rio JordiolAC, na fronteira com o Peru, em pcqquisa
por mim realizada em 1980, eles eram considerados e se considcravam como “guamiçäo de frontei-
ra”. Esta categorizaçZo do indigenismo militar de Rondom era acionada pelo seringueiro Caxinaui
com um sentido inverso ao atribufdo pela doutrina positivista, que visava “integrar os Indios 8 comu-
nhäo nacional”.

35
Mus. Para. EniNio Goeldi: Cole@ Muardo Galvdo, 1991

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36
TERRAS INDÍGENAS, POLÍTICA AMBIENTAL E
GEOPOLÍTICA MILITAR NO DESENVOLVIMENTODA
AMAZ~NIA:A PROP~SITODO CASO YANOMAMI
Bruce Albert‘
RESUMO - A deliniitação das tcrras dos indios Yanomami na drca do Projeto
Calha Norte tem constituído um caso emblcmdtico da política indigcnista e am-
biental do governo da “Nova República” (1985-1990).Este artigo analisa o que
o caso Yanomami revelou, no períbdo, tanto da perpetuação do controle militar
sobre o descnvolvinicnto aniazônico quanto dos renianejanientos jurídicos e po-
liticos impostos a scu excrcício pelas conquistas do movimento democrdtico na
Constituiçãode 1988 e pela pressão das ONGs ambientalistasc indigcnistas in-
temacionais.
PALAVMS-CHAVE: A d n i a , indios Yanomami,Terras Indígcnas, Política
Ambiental, Militares, Dcsenvolvimcnto, Calha Nortc, Mineração.
ABSTRACT - The delimitation of Yanoniami Indian lands within the scope
of the Calha Norte Project epitomizes the official indigenist and environnicntal
policies of the “New Republic” (1985-1990). This article fmusses on the
Yanomam‘case and what it reveals of that period in terms ofthe on going m’lihy
control over the development of Amazonia. It also analyzes the lcgal and political
constraints over such nlifitaiycontrol as a result o f both the democratic movcment
that led to the 1988 Constitution, and the pressure of international NGOs
concerned with the environment and indigenous peoples.
KEY WORDS:Amazonia, Yanomami Indians, Indigenous Lands, Environmcntal
Policy, Military, Development, Calha Nortc, Mining.

INTRODUÇÃO

Ap6s o golpe militar de 1964, a Amazônia brasileira passou a ser objeto de


uma agressiva política de ocupação demogrdfica e de desenvolvimento econômico,
enquadrada numa estratt?gia geopolítica de integraçã0 regional, elaborada nos anos
50 e começo dos 60 sob a influência da Escola Superior de Guerra (Arruda 1983;
ORSTOM - UnB.

37
Mus. Para. Emilio Goeldi: ColeçOo Eduardo Gulw?o, 1991

Silva 1967). Esta política, inspirada pela doutrina da segurança nacional (Comblin
1980), constitui-se, nos anos 60 e 70, de sucessivos planos regionais (Operação
Amazônia, Plano de Integraçã0 Nacional, Polamazônia) visando a desenvolver irifra-
estruturas (estradas, aeroportos, telecomunicações),alocar incentivos fiscais e linhas
de crédito subsidiado a fim de atrair empresas na região, abrir programas de
colonização pública e, finalmente, implementar grandes projetos agropastoris,
minerais e florestais (Allen 1990:12-20; Mahar 1989: 9-45). Nos anos SO o peso
da dívida externa brasileira contribui para acentuar drasticamente o papel da região
amazônica como fonte de recursos primários para exportaçä0 e espaço de
implementaçã0 de projetos de desenvolvimento que atraíssem um fluxo de
emprdstimos internacionais, particularmente no setor mineral (Becker 1990: cap.
4). Ao longo da dbcada, a preocupação geopolítica dos militares continuou a ser
um parâmetro essencial da política de desenvolvimento da Amazônia (Mattos 1980,
1983), especialmente durante o governo civil da “Nova República” (1985-go), cuja
desastrosa política ambiental e indigenista provocou intensas campanhas de protesto
nacionais e internacionais (Albert, org. 1990).
A Amazônia legal conta com aproximadamente 63% dos 220.000 indios do Brasil
e os seis estados da Região Norte englobam por si só 78% dos 745.000 km2 de
terras indígenas do país (CEDI/Museu Nacional 1987: 12,23). Os governos militares
integraram, portanto, no seu planejamento do desenvolvimento da região amazônica,
políticas indigenistas destinadas a liberar os recursos naturais das terras indígenas
à exploração em grande escala e a administrar as conseqüências sociais do avanço
desta nova fronteira econômica. Estas políticas concretizaram-senuma sucessão de
disposições legais e administrativas resultante de uma complexa dinâmica de confronto
entre interesses militar-empresariais embutidos no aparelho de Estado, mobilização
dos movimentos sociais nacionais e influência da mídia e das Organizações Não-
Governamentais (ONGs) internacionais.
Este artigo examina uma configuração recente desta dialdtica entre politica
indigenista oficial e pressões sociais nacionais e internacionais, durante o período
da “transição democrdtica” (1985-go), analisando atravds dela os remanejamentos
impostos ao discurso e a estratdgia desenvolvimentista dos militares na Amazônia,
tanto pelas conquistas do movimento indígena e indigenista nacional na Constituição
de 198SY2quanto pela influência das ONGs ambientalistas internacionais sobre as
fontes externas de empréstimo.
Começaremos por apresentar uma breve retrospectiva da política oficial relativa
ao reconhecimento legal das terras indígenas entre 1967 e 1987. Passaremos depois
para um estudo de caso: o da delimitação das terras dos indios Yanomami (1988-89),
situadas ao longo da fronteira Brasil-Venezuela (Amazonas e Roraima). Tentaremos,
enfim, mostrar, primeiro, de que maneira o caso Yanomami revela uma estratdgia

O artigo 231 da nova Constituiçäo dB, em particular, uma definiçäo extensa do conceito de tcrra indigena,
inclufndo não somente as Breas habitadas, mas tambCm todas as ilrc is nccessilrias às atividades sociais
e econ6miCas tradicionais das comunidades indfgenas, bem como as Breas neccssiirias seu crescimento
demogrBfico (Allen 1989; Carneiro da Cunha 1990; Coelho dos Santos, 1989; Santilli 1989a).

38
Terra$ indígenas, politiea e gcopolitica niililar

de perpetuação do controle militar sobre o desenvolvimento amazônico a serviço


dos interesses minerários; segundo, como isso se deu através de uma tentativa de
neutralizaçã0 tanto da emergência do poder civil no que tange à definição das políticas
de ocupação da Amazônia, quanto das pressões das ONGs em relação aos custos
sociais e ecológicos dos grandes projetos de exploração dos recursos naturais da
região.

DESENVOLVIMENTO DA AMAZ~NIAE POL~TICAINDIGENISTA MILITAR


(1967-1987)

Após décadas de inoperância na proteçã0 das populaç6es indígenas face ao avanço


violento da fronteira extrativista e agropastoril - 87 etnias indígenas foram destruidas
no Brasil na primeira metade do sCculo (Ribeiro 1982: 250) - o Serviço de Proteçã0
aos indios (SPI), criado em 1910, foi extinto em 1967, em meio a acusações de
corrupção e das mais diversas formas de conivência com o extermínio, a exploração
e a expropriação dos indios. Alvo de uma campanha internacional de denúncia de
omissão e cumplicidade na destruição das populações indígenas, o governo militar
da época (General Costa e Silva) criou, no mesmo ano, a Fundação Nacional do
Índio (FUNAI) e promulgou, em 1973, uma nova legislação indigenista, o Estatuto
do Índio (Lei nP 6001 de 19/12/73).
A função deste Estatuto fora, neste contexto, recompor a imagem do país, abalada
na mídia internacional mas também, mais sutilmente, remodelar a legislação
indigenista nacional face 3s exigências dos novos planos de desenvolvimento da
Amazônia. O Estatuto constitui-se, assim, à primeira vista, em um conjunto de
disposições visando proteger as terras indígenas e garantir diversas formas de
assistência aos indios (médica, educacional, econômica), revestidas de uma retórica
que resgata o discurso humanitgrio das origens do SPI (Lima 1987). Por outro lado,
acham-se embutidos neste invólucro protecionista dispositivos altamente lesivos aos
indios, impostos pela lógica do modelo militar de ocupação econbmica da região
amazônica: disposições discriminatórias e de controle político (como a tutela jurídica
da FUNAI sobre os indios considerados “relativamente incapazes”), disposições
assimilacionistas (como o pressuposto da transitoriedade da condição indígena) e
disposições expropriativas como o não reconhecimento da propriedade indígena, a
previsão de remoção de grupos por razões de segurança nacional ou para a realização
de obras públicas, a autorização de mineração por estatais e a tolerância de contratos
de arrendamento em terras indígenas) (Oliveira Filho 1985).
Nos anos subseqüentes à promulgação do Estatuto do Índio, o processo de
demarcação das terras indígenas (previsto num prazo de cinco anos) foi extremamente
lento e quase sempre motivado por situações de emergência: apenas 15% das terras
indígenas identificadas foram assim, homologadas entre 1973 e 1981(Oliveira Filho
& Almeida 1989: 15-20; Oliveira Filho 1985: 22). Paralelamente, aumentaram as
tensões fundiárias envolvendo territórios indígenas, bem como a mobilização dos

39
Mus. Para. Eniílio Goeldi: CokqAo Eduardo GalvAo, I99I

indios e dos seus aliados pol~ticospara exigir o cumprimento das disposições


protecionistas do Estatuto do Indio3.
O crescimento destas pressões levou os militares a intervir mais profundamente
na questão indígena, vista cada vez mais, em razão da visibilidade política de sua
incidência na problemática fundiári’a, como uma ameaça h segurança nacional. Foi,
assim, reformulado o dispositivo legal e administrativo de reconhecimento oficial
das terras indígenas, no sentido de conter? avanço deste movimento de reivindicações
territoriais sustentado pelo Estatuto do Indio (Albert 1987: 123-126), considerado
como um obstáculo à ocupaçãchFonômica da Amazônia. A partir de 1980, o processo
decisório de delimitação das terris. indígenas comqou a extrapolar a FUNAI, julgada
por demais vulneráveis às pressões políticas dos indios e indigenistas (Oliveira Filho f

& Almeida 1989: 49-50), e passou, em 1983, para um grupo de trabalho


interministerial (GTI)dominado pelos Minist6rios do Interior (MINTER) e de
Assuntos Fundiários (MEAF) - este último dirigido pelo Secretário-Geral do
Conselho de Segurança Nacional (CSN)‘. Este GTI foi instituído com a
recomendação explícita de levar em conta os empreendimentos econômicos de
terceiros já existentes nas terras indígenas no processo de sua delimitação (Carneiro
da Cunha 1984). Abriu-se, tamMm, a autorização para mineração em terra indígena I
às empresas privadas (CPI/SP 1985).
Entretanto, a mobilização popular, que viabilizou o fim dos governos militares
em 1984, neutralizou o impacto imediato destas medidas e o MEAF foi substituído,
no governo da “Nova República”, pelo Ministdrio da Reforma e Desenvolvimento
Agrário (MIRAD), ocupado por civis. Nesse período, deu-se um breve refluxo da
intervenção pública dos militares na questão indígena. No entanto, a tutela militar
sobre esta questão continuou a manifestar-se, ainda que discretamente, num processo
de quase paralisação dos trabalhos do GTI encarregado de definir as delimitações
de terras indígenas. Assim, entre março de 1983 e março de 1985, o GTI s6 havia
aprovado 14 das 50 propostas de delimitação recebidas da FUNAI (Olivera Filho
& Almeida 1985). Em meados de 1986, 36 casos aprovados encontravam-se ainda
bloqueados pelo MINTER e, uma vez que a mobilização democrática estava em
refluxo, os militares recomeçaram a aparecer na cena indigenista.
O novo Secretário-Geral do CSN começou, assim, a insistir publicamente na
necessidade de definir-se “crit6rios de razoabilidade” na delimitação das terras
indígenas, em particular, nas Areas de fronteira (Albert 1987: 134-139). JA em 1987,
o discreto congelamento das delimitações de terras indígenas pôde transformar-se
numa legalização do papel da Secretaria Geral do CSN enquanto instância decisória
encarregada de impor crithios econômicos e geopolíticos de redução dos territórios
indígenas (Decreto nP 94.945, de 23/09/87).

As assemblbias indigenas organizadas, desde 1974, pelo Conselho Indigenista Missionirio tiveram um
papel de destaque neste processo.
Cf.Miyamoto 1987 sobre o papel do CSN.

40
Terras indígenas. polirica e geopolítira militar

Em 1988-89, tanto a mobilização da sociedade civil no processo de elaboração


da nova Constituição, quando uma campanha ambientalista internacional denunciando
a destruição acelerada da floresta amazônica no Brasil vieram novamente modificar
a configuração da política oficial de expropriação das terras indígenas, mais do que
nunca considerada como um parâmetro essencial da viabilização do modelo militar
de integraçã0 e desenvolvimento da Amazônia. Uma análise do processo de
delimitação das terras dos indios Yanomami efetivado durante este período nos ajudará
a evidenciar os novos mecanismos legais e administrativos, assim como os novos
recursos retóricos desta política.

TERRASYANOMAMI: CRÔNICA DE UMA EXPROPRIAÇAO TCOLÓGICA~~


HA 22 anos, numerosas entidades nacionais e internacionais (associações
humanithias, instituiçiks científicas e religiosas) reivindicam o reconhecimento legal
das terras tradicionalmente ocupadas pelos quase 10.000 indios Yanomami do
BrasilS,‘naforma de uma área extensa e contínua que corresponde ?figura ì jurídica
de um Parque Indígena, tambCm dedicada à preservação ecológica6. A 19 de
Agosto de 1988 foi finalmente anunciada pelo Presidente da FUNAI a elaboração
de uma Portaria Interministerial de delimitação das terras Yanomami.
Esta Portaria foi assinada uma primeira vez em 13 de setemb?o (n? 1601, para
ser repentinamente reformulada em 18 de novembro (nP 250)7. O Ministro do
Interior declarou 3 imprensa na ocasião, referindo-se ao movimento pró-Yanomami,
que a Portaria em questão constituiria uma resposta ? comunidade
i nacional e
internacional preocupada com a preservação deste grupo indígena e de seu habitat
(Correio Braziliense, 26/08/88). A FUNAI lançou, assim, uma importante campanha
na imprensa escrita e na televisão sobre o tema: “Yanomami têm suas terras
demarcadas em mais de oito milhões de hectares”’, apresentando esta medida como
uma realização histórica da política indigenista brasileira.

A “ T e m Ind&ena Yanomami” na portaria n P 160: Uma delimitação dúplice


Esta campanha da FUNAI desenvolveu-se atravds de um slogan tão estrondoso
quanto tendencioso: os Yanomami seriam beneficiados com uma área
“correspondendo a quatro vezes a superficie do Estado de Sergipe”. Por outro lado,
a divulgação da configuração topográfica, bem como dos fundamentos jurídico-
administrativos efetivos desta delimitação foram deixados na penumbra, por razões

De acordo com o Pareccr nP 190/88 de 19/08/88 da FUNAI, a população Yanomami do Brasil d de


9.910 pessoas.
Estatuto do fndio, art. 28. O Parque Indlgcna tem vocaçäo de proteçäo e assistkncia às populações
indigenas e de preservação do meio ambiente. Pam uma c o l e t h a recente da lcgislação indigenista
brasileira ver Guimarães 1989a.
Estas Portarias foram assinadas pelo Ministro do Interior, Ministro da Agricultura, Ministro da Reforma
e do Desenvolvimento AgrLio e o SccretBrio-Geral do Conselho de Segurança Nacional.
Tftulo do comunicado de imprensa da FUNAI de 19/08/88.

41
Mus. Para. Emilio Goeldi: Coleçdo Eduardo Galvdo, 1991

óbvias. A área de 8.216.925 ha supostamente concedida aos Yanomami representa


uma redução de f3% do território reconhecido pela FUNAI desde 1985 como de
ocupação tradicional deste grupo indigenag - excluindo do seu perímetro várias
aldeias - e constitui-se numa colcha de retalhos composta de 22 Areas distintas,
regidas por regulamentos diferentes e, na maioria dos casos, contraditórios com o
reconhecimento efetivo dos direitos territoriais Yanomami.
Não se trata, portanto, de uma legalização das terras Yanomami, como a FUNAI
noticiou, mas sim, da criação no seu perímetro de um complexo arranjo territorial
e administrativocuja apresentação, tão espetacular quanto ambígua, visa escamotear
perante a opinião pública nacional e internacional, medidas que só poderão ter
desdobramentos altamente lesivos aos direitos territoriais destes indios. A duplicidade
da Portaria 160 manifesta-se, fundamentalmente, na superposiçãodeliberada de várias
figurasjurídicas indigenistas e ambientalistas incompatíveis, permitindo uma “dupla
leitura” dos direitos territoriais reconhecidos aos Yanomami.
Vejamos brevemente aqui as articulações principais desta construção
administrativa. O parágrafo I da Portaria em questão declara “de posse permanente
dos indígenas, para efeito de delimitação, a ‘Terra Indigena Yanomami’, com
superfície aproximada de 8.216.925 ha” e define o seu perímetro. Este parágrafo
contdm a única medida relativamente positiva da Portaria, reconhecendo legalmente
a ocupação pelo grupo da área que corresponde, aproximadamente, a seu espaço
territorial histórico (esta medida seria realmente favorável se o perímetro da “Terra
Indígena Yanomami” fosse corrigido e sua criação referida ao conceito de “terra
tradicionalmente ocupada” do artigo 23 1 da nova Constituição, cf. nota’).
Entretanto, os parágrafos II e III da mesma Portaria criam uma diferenciação
administrativa e um retalhamento territorial dentro da “Terra Indígena Yanomami”,
em contradição com o parágrafo anterior que a declara na sua totalidade como de
posse indígena permanente. Assim, a “Terra Indígena Yanomami” encontra-se
afinal, fragmentada num mosaico territorial constituído por dois tipos de áreas com
funções antagônicas:
1 - Áreas regidas pelo Código Florestal: duas Florestas Nacionais (FLONA)
(FLONA de Roraima e do Amazonas) e um Parque Nacional (PN) (PN do Pico
da Neblina, criado em 1979pelo Decreto nP 83.550 de 5/6), num total de 5.781.710
ha, ou seja, 70% da “Terra Indígena Yanomami”.
2 - Áreas Indígenas (AI)”: dezenove Breas descontínuas incrustadas e
dispersas nas FLONAs e no PN (dez na FLONA de Roraima, cinco na FLONA
do Amazonas e quatro no PN do Pico da Neblina), num total de 2.435.215 ha, ou
seja, 30%da “Terra Indígena Yanomami”.

Portaria da FUNAI nP 1817/Ede 08/01/85 que delimita o territdrio efetivamente ocupado pelos
Yanomami (9.419.108 ha) como medida administrativa preliminar 1 criação do Parque Indígena
Yanomami.
lo Tais como definidas pelo Decreto nP 94.946 de 23/9/87: kcas “ocupadas ou habitadas por silvícolas
não aculturados, ou em incipiente processo dc aculturação”.

42
Terras indígenas, política e gropolfiica miVIar

Deve-se observar aqui que a regulamentação e a destinaçã0 das unidades de


conservação em apreço (FLONAs e PN), administradas pelo Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (I€3AMA)I1,são, sob vários
aspectos, contraditórias com o direito de usufruto exclusivo que caracteriza a posse
permanente das terras tradicionalmente ocupadas por populações indígenas (art. 231,
parágro 2P da nova Constituição). As FLONAs-têm fins de exploração econômica,
tais como a comercialização de madeira e outros recursos florestais, inconciliáveis
com as formas indígenas de ocupação e de uso do meio natural. Os Parques Nacionais
são, por sua vez, áreas de preservação integral QU quase integral e podem, assim,
impor aos indios restrições à exploração de certos recursos florísticos e/ou faunîsticos
essenciais às suas atividades produtivas. Nos dois casos, portanto, há
incompatibilidade com o usufruto exclusivo reconheciblegalmente aos indios sobre
os recursos naturais de suas terras. Além disso, no perímetro de ambas unidades
de conservação, está previsto o desenvolvimento de atividades recreativas e turísticas,
mesmo que o ingresso de estranhos seja proibido em área indígena”.
A Portaria 160 conferindo, assim, à maior parte da “Terra Indígena Yanomami”
um estatuto paralelo de unidade de conservação incompatível com a sua ocupação
indígena, resultard em que, no decorrer do tempo, o exercîcio dos direitos territoriais
efetiv0s.e exclusivos dos Yanomami acabe sendo restringido, de fato, à superfície
das 19 Areas Indígenas que representam, aproximadamente, um quarto do território
que este povo indígena ocupa, tanto do ponto de vista econômico-social, quanto
histórico. A superposição legal e administrativa criada pela -Portaria 160 revela-se,
portanto, não como uma mera contradição interna, mas como um insidioso dispositivo
jurídico-administrativo de expropriação. A dupla leitura dos direitos territ9riais
Yanomami que ela permite (totalidade da “Terra Indígena Yanomami” ou 19 Areas
Indígenas) abre, assim, caminho à viabilização legal de uma estratkgia de redução
do espaço econômico destes indios. Através de um programa de sedentarização
forçada e de “aculturação econômica” trata-se, pois, de confinar os Yanomami a
um conjunto de áreas reduzidas e de eliminar a possibilidade de esta população
continuar a usar as extensas áreas que, tradicionalmente, são imprescindíveisà sua
mobilidade espacial e às suas atividades produtivas (caça, coleta, agricultura de
coivara). Durante este processo, as áreas do território indígena a serem expropriadas
passam a ter transitoriamente o estatuto de área de proteçã0 ambiental até poderem
ser, em tempo hábil, integradas à fronteira económica envolvente (mineração,
exploração de madeira, colonização).

O arquipélago Yanomami na portaria 250: Uma expropriação explícjtz


Porkm, a arquitetura do plano de expropriação embutido na Portaria 160 revelou-

11 O IBAMA foi criado em fevereiro 1989 (IBAMA 1989a). I

12 Sobreo que precedecf. Caigo Florestal (Lein? 4771 de 15/12/65), art. 5; IBDFlFBCN 1982 20-21,
25-26; Rcgularncnto dos Parques Nacionais do Brasil (Decreto n? 84.017 de 21/9/79), Estatuto do
fndio, art. 22 e Portaria FUNAI n? 745 (6/7/88). Ver tambdm Gaiger 1989b: 20-21 para comentários
jurfdicos sobre a incompatibilidade entre FLONA, PN e terras indfgenas.

43
Mus. Para. Emílìo Goeldi: Coleçdo Eduardo GulruTo, 1991

se ainda insatisfatória para seus autores que a reformularam repentinamente,


promulgando, dois meses depois, uma nova versão de delimitação das terras
Yanomami, na Portaria n? 250. Como notamos, a Portaria 160 reconhecia
oficialmente a posse permanente dos Yanomami sobre a maior parte do seu território
tradicional, ainda que fosse na perspectiva de sua redução a m a i o prazo. Seus autores
devem ter realizado, finalmente, que esta disposição podia constituir um perigo
político, abrindo espaço a recursos jurídicos contra o recorte de unidades de
conservação dentro da “Terra Indígena Yanomami”, recursos esses que
inviabilizariam as possibilidades de sua abertura ex officioa garimpeiros ou empresas
de mineração.
O território Yanomami foi invadido a partir de 1987 por aproximadamente N.O00
garimpeiros disseminados pelo curso superior da maioria dos afluentes da margem
esquerda do Rio Negro (AM) e, sobretudo, do alto Rio Branco (RR) (APC 1989;
CCPY 1989; Albert 1990). Os empresArios de garimpo exercem pressões constantes
sobre o Governo Federal para obter a legalização destas invasões na forma da
liberação de Areas garimpeiras incrustadas nas zonas de proteção ambiental retalhadas
nas terras Yanomami (Cor&o Braziliense e Folha de S. Paulo, 20/8/88). Eles
rejeitaram, portanto, a criação da “Terra Indígena Yanomami” (Portaria 160) como
um provAvel obstkulo à satisfação desta reivindicação (Folha de Boa Vista, 21/8/88
e CCPY 1988: 4-5).
Estas pressks do lobby garimpeiro tiveram, certamente, um peso fundamental
na decisão de reformular a Portaria 160 no sentido de acelerar o processo de
expropriação das terras Yanomami inicialmente planejado pela Secretaria Geral do
CSN, o qual foi provavelmente concebido na perspectiva de abrir gradativamente
a Area Bs empresas industrais de mineração. De fato, 37% do território Yanomami
ja estavam loteados, em 1987, por 27 alvarás e 363 requerimentos de autorização
de pesquisa mineral registrados junto ao Departamento Nacional de Produção Mineral
(DNPM) (CEDIICONAGE 1988: I1113.
Analisemos brevemente as novas disposições da Portaria 250. Nota-se, de saída
e muito significativamente, que a referência B posse indígena permanente de uma
“Terra Indígena Yanomami” de 8.216.925 ha, que tanto serviu de vitrina B FUNAI
nos meses anteriores, desapareceu totalmente do texto. Os direitos territoriais
Yanomami são, agora, diretaa explicitamente restringidos à superfície das 19 Areas
Indígenas reduzidas e dispersas da Portaria 160, as quais são definidas, desta vez,
como “terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas Yanomami” (pardgrafo I).
O conceito de “terras tradicionalmente ocupadas” tem sua origem no artigo 231,
parágrafo l ? , da nova Constituição. T) texto constitucional afirma que a noção de
ocupação se refere não somente às terras habitadas pelos indios, mas tamb6m Bs
utilizadas para suas atividades produtivas, às imprescindíveis para a preservação dos
recursos ambientais necessiírios aseu bem-estar e k necess&ias para a sua reprodução
13 Um documento recente menciona 451 alvads e requerimentos de pesquisa mineral incidentes nas
terras Yanomami (Governo de RWCODESAIMA 1989).

44
Terras indfgenas, politica e geopollrica milirar

física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. Cercando apenas conjuntos
de malocas plotadas durante um Único levantamento efetuado em 1988 - portyto,
somente Breas habitadas naquele m o m e n t ~ ‘- ~ a delimitação das 19 Areas
Indígenas da Portaria 250 não leva em conta as áreas efetivamente ocupadas e
utilizadas a longo prazo pelos Yanomami, conforme os imperativos de sua
organização econômica e s6cio-política específica. O conceito de “terras
tradicionalmente ocupadas” 6, portanto, usado nesta Portaria num sentido deturpado
a fim de burlar as disposições constitucionais sobre as terras indígenas.
As Breas subtraídas ao território tradicional Yanomami permanecem registradas
como áreas de preservação ambiental nos mesmos moldes que na Portaria 160, fora
um acrdscimo da FLONA do Amazonas qye aumenta a superfície das unidades de
conservação (71,5%) em relação à das Areas Indígenas (28,5%). Entretanto, a
garantia do uso econômico exclusivo destas unidades pelos indios, legalmente
pressuposta pelo reconhecimento da posse indígena sobre o território que as engloba,
j B enfraquecida na Portaria 160, 6 totalmente anulada na Portaria 250 com a
eliminação do conceito de “Terra Indígena Yanomami” (parágrafo IV).Essa garantia
encontra-se substituída pelo mero reconhecimento do “uso preferencial” concedido
aos Yanomami sobre os recursos naturais das FLONAs, noção que carece de qualquer
fundamento jurídico e constitucional.
Finalmente, define-se que o desenvolvimento de atividades econômicas não-
indígenas nestas FLONAs será unicamente submetido à autorização da FUNAI e
do IBAMA (parágrafo IV). Convkm notar aqui, para medir as conseqüências desta
disposição, que o IBAMA (então Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal)
elaborou, em julho de 1988, uma proposta de’ regulamento das FLONAs,
possibilitando a exploração mineral nestas Breas de proteção ambiental (artigo 1 P,
parágrafo 33’’ e que uma lei de julho de 1989 submete ao mesmo IBAMA a
concessão de permissão de lavra garimpeira nas unidades de conservação que ele
administra (Lei nP 7.805 de 18/7/89, art. 17). Isto significa que, por via destas
medidas, 50% das terras Yanomami, transformadas em FLONAs pela Portaria 250,
podem ser diretamente cedidas Bs empresas de garimpo ou às mineradoras pelo
IBAMA, com o acordo da FUNAI. Elas instauram, assim, uma forma de contornar
uma outra disposição fundamental da nova Constituição: o imperativo de submeter
a decisão de exploração de recursos minerais em terras indígenas ao Congresso
Nacional e aos próprios indios (art. 49-XVI; 176, parágrafo 1P e 231 , parágrafos
3P e 7P).
Em resumo: a Portaria 250 anula a criação da “Terra Indígena Yanomami”
eara manter apenas a configuração de sua divisão interna: um arquipdago de 19
Areas Indígenas incrustadas no coração de três zonas de proteção ambiental. O

l4 Na realidade, nem mesmo inclui todas as dreas habitadas; pc10 menos 23 comunidades foram deixadas
fora das 19 Áreas Indfgenas.
l5 Memorial 107/88IBDF/DE, encaminhado pelo Diretor do Departamento de Economia Florestal ao
Presidente do IBDF.

45
Mus. Para. Enillio Goeldi: Colep?o Eduardo Galw70. 1991

dispositivo de esbulho das terras Yanomami embutido nas suas disposições é, assim,
muito mais direto que o previsto na Portaria 160. Desta vez, não se prevê nenhuma
etapa de “transição ecológica” no processo de integraçã0 das terras indigenas à esfera
do mercado dos interesses minerários. Subtraindo à condição de terra indígena 71,5%
do território tradicional Yanomami e registrando essa área na forma de unidades
de conservação, a Portaria 250 permite sua abertura direta a empresas de garimpo
e a mineradoras por meio da simples manipulação do regulamento destas unidades.

FLONAS: INTERESSES MINERAIS E RET~RICAECOL~GICA

No primeiro trimestre de 1989, o desmembramento do território Yanomami foi


consolidado através $a promulgação de uma série de 2 1 decretos presidenciais
regularizando as 19 Areas Indígenas e as duas FLONAs circundantes que constam
da Portaria 25016. No mesmo período, o Superintendente regional e o
Administrador local da FUNAI já admitiam oficialmente que, após esta delimitação
das terras Yanomami, os garimpeiros poderiam utilizar as FLONAs tanto quanto
os indios (Manchete, 2811189 e O Jornal, 24/2/89). Em abril, a Exposição de Motivos
de um novo decreto regulamentando as atividades garimpeiras, assinada pelo Ministro
do Interior e pelo chefe da Secretaria de Assessoramento da Defesa Nacional
(SADEN, novo nome da Secretaria Geral do CSN desde setembro de 1988),
estipulava que “as atividades garimpeiras não são incompatíveis com o conceito de
Floresta Nacional””. Em 25 de julho, uma comissão, presidida pelo Ministro das
Minas e Energia e composta de membros da FUNAI, do IBAMA, da SADEN e
do governo de Roraima, anunciou a IegaIizaCão das atividades garimpeiras nas
FLONAs subtraídas ao território Yanomami através da criação de “Reservas de
Garimpagem” (Folha de S. Paulo, 26/7/89), seguindo as recomendações do Projeto
Meridiano 62 do governo local, de acordo com o qual “a atividade garimpeira
marcará sua prioridade na FLONA de Roraima naquelas áreas onde atualmente se
desenvolve” (Governo de RREODESAIMA 1989). Finalmente, três destas áreas
de garimpagem foram criadas oficialmente em janeiro e fevereiro de 199018.
Um ano e meio após o seu inicio, o suposto processo de regularização das terras
Yanomami tornou explícito o seu caráter de manipulação política e seu real objetivo:
a entrega de grande parte deste território indígena aos empresários de garimpo. A
delimitação de áreas indígenas cercadas por unidades de conservação, apresentada
como uma realização ambientalista histórica, acabou revelando uma mera tentativa
do Estado de burlar as disposições da nova Constituição sobre as terras indígenas
e de “esverdear’ ’ a implementação dos seus planos de ocupação militar-empresarial
da região norte-amazônica.

-
l6 Decretos n? 97.512 a 97.530 de 17/2/89 (19 AIS) e n? 97.545 97.546 de 1/3/89 (2 FLONAs).
l7 Exposição de Motivos n? 8/89, Decreto n? 97.627 (10/4/89). Alkm disso, a lei n? 7.805 de 18/7/89
sobre o de regime de permissão de lavra garimpeira menciona a criação de “8reas de garimpagem”
(art. 13).
Decretos n? 98.890 de 25/1/90, n? 98.959 e 98.960 de 15/2/90 (“drcas de exercicio de atividade
de garimpagem” de Santa Rosa, Uraricocra e Catrimani-Couto de Magalhães).

46
Terms indígenas, poIirica e gropolirica niilirar

8, aliás, com este propósito de “ecologização” da expropriação das terras


Yanomami que a introdução da Portaria 250 pretende fundamentar-se em justificativas
ambientalistas, tais como a necessidade de conservar os ecossistemas das cabeceiras
dos rios de Roraima e de criar áreas ecológicas tampão (“cinturões-verdes”) para
proteger o habitat indígena. Outros fatos confirmam o caráter retórico e a função
estrat@ca destes recursos ao discurso ecológico e à legislação ambiental. Constata-se,
em primeiro lugar, que esta temática surge no discurso desenvolvimentista do Estado,
justamente, no momento em que ele se esforça por sepultar a figyra jurídica do Parque
Indígena, conceito indigenista e ambientalista do Estatuto do Indio de 1973, apesar
de ele ser, na legislação brasileira, a Única figura adequada à compatibilização dos
direitos territoriais indígenas com cuidados ambientais (Gaiger 1989b: 2 I),
correspondendo ao conceito de “Cultural Park” (CSQ 1985: 25). Além disso, sendo
as florestas das terras indígenas consideradas por lei de preservação ~ermanente’~,
se o objetivo essencial da Portaria 250 fosse a proteção ecológica da área indígena,
nada teria sido mais lógico do que delimitar a totalidade da área Yanomami conforme
os seus limites tradicionais ratificados pela FUNAI em 1985 (cf. nota’). E isto sem
recorrer à criação de pseudo ‘kintur6e.s verdes” que, longe de serem espaços
ecológicos adicionais às terras indigenas, são constituídos em seu prejuízo, sendo
subtraídos do território tradicionalmente ocup3do pelos Yanomami. Comprova-se,
assim, a exclusão das soluções legais realmente apropriadas à proteção destes indios
e do seu habitat, e a escolha deliberada dos conceitos de FLONA e de Parque Nacional
- unidades abertas ao uso de terceiros e sem registro de posse indígena - a fim
de limitar a exclusividade do uso dos recursos naturais desta área pelos indios a menos
de 30% de sua superfície”.
Essa deturpação do direito e dos conceitos ambientalistas, a fini de reduzir e
retalhar o território Yanomami, não constitui, entretanto, um caso isolado. Vários
territórios indígenas situados na região da fronteira norte-amazônica conheceram
tratamentos semelhantes em 1988 e 1989. Os territórios dos dezesseis povos indígenas
$a região do Alto Rio Negro foram, assim, retalhados em quatorze Colônias” ou
Areas Indígenas e onze FLONAs, ocasionando para os indios uma perda do direito
de uso exclusivo sobre 61 % de suas terras tradicionais (Buchillet 1990: 134, Tabela
III). Da mesma maneira, as terras de seis povos da região do Acre e sul do Amazonas
foram recortadas em vinte Colônias ou Areas Indígenas e seis FLONAs, chegando
a uma perda territorial de 34% (Guimarães 1989b: 76-77). Outras delimitações nos
mesmos moldes estão sendo estudadas também para os Waiãpi do Amapá (23 % de
perda territorial)” e os Tikuna do Amazonas (47%) (Aconteceu, nP 526: 11).

A fim de “manter o ambiente necessirio h vida das populaç&s silvicolas” (C6digo Florestal, art.
3 Item g.).
20 A inconstitucionalidade do uso do conceito de FLONA na delimitaçãodas terras Yanomami estabelecida
na Portaria 250 foi atestada num Inquérito Civil hfbficoda Procuradoria Geral da Rcpdblica (3/10/89).
21As ColBnias Indlgcnas são Areas “ocupadas ou habitadas por indios aculturddos ou em adiantado processo
de aculturação” (Decreto n? 94.946 de 23/9/87). A Portaria FUNAI n? 1.O98de 6/9/88 define os
critkrios de avaliação do grau de aculturação dos grupos indigenas.
22 Sobre o projeto de FLONA Waiãpi, cf. Parecer FUNAI 193/88 de 15/9/88 e Informação n?
015/89-SUAF/FUNAI.

47
Mus. Para. Emilio Goeldi: Colepio Muardo Gulwïo, 1991

A recorrência da aplicação deste modelo de “expropriação ecológica” das terras


indígenas das regiões do norte e oeste amazônico revela a implementaçã0 de uma
política sistemática. Ele se enquadra, de fato, numa skrie de projetos e medidas
elaboradas estes Últimos anos para operacionalizar um esquema geopolítico de
ocupação militar e econômica das fronteiras amazônicas do Brasil, definido pela
Secretaria Geral doCSN - SADEN (Guimarães 1988)23.Atd agora, são dois estes
projetos: o Projeto Calha Norte, lançado em 1985 (Albert 1987, 1990; Allen 1990;
Miyamoto 1989; Santilli 1987, 1989; SG/CSN 1985, 1988), e o Programa para o
Desenvolvimento da Faixa de Fronteira da Amazônia Ocidental (PROFFAO), em
estudo a partir de 1989 (Bayma Denys 1989; CIMI 1989) - complementados por
uma rede de terras reservadas ao Exercito em toda a Amazônia: dois decretos
assinados em 1988-89 concederam aos militares 35 áreas na região, totalizando
6.206.015 hectaresx.

POLÍTICAAMBIENTAL E GEOPOL~TICAAMAZ~NICA: o PMACI E o


PROGRAMA NOSSA NATUREZA

Sendo a floresta tropical caracterizada por sua notória wlnerabilidade ecológica


I
e as regiões das fronteiras norte-amazônicas por suas extensas áreas de povoamento
indígena, temas tidos como cada vez mais sensíveis na viabilização da política
brasileira de emprkstimos internacionais para a região, a Secretaria Geral do CSN
- SADEN adotou, entre 1986 e 1989, uma estratdgia de tomada de controle direto
da política indigenista e ambiental na Amazônia.
No âmbito do Projeto Calha Norte, a Secretaria Geral do CSN começou a se
auto-atribuir a direçã0 do processo de definição das terras indígenas, oficiosamente,
a partir de 1985 e, oficialmente, a partir de 19872’. Isto sob a justificação de que
a questão indígena interfere significativamente na definição de assuntos diretamente
relevantes de sua jurisdição, tais como a integraçã0 e a soberania nacional, a
integridade do patrimônio da nação e a,.paz social 26. Aparentemente considerando
os indios como apátridas subversivos, a Secretaria Geral do CSN começou a
desenvolver uma política indigenista de exceção visando reduzir sistematicamente

23 Com o novo nome de Conselho de Defesa Nacional (CDN) o ex-Conselho de Segurança Nacional
(CSN) conserva, na Constituiçäo de 1988, muitas das suasatribuiçöcs anteriores. O artigo 91, parigrafo
1?-IIl da nova Carta confere, assim, ao CDN a competPncia de “propor os critérios e condições de
utilizaçäo de drew indispensdveis ? segurança
i do territdrio nacional e opinar sobre seu efetivo uso,
espccialmentc na faixa de fronteira e nas relacionadas com a preservaçä0 e a cxploraçiio dos rccursos
naturais de qualquer tipo”.
24 Decreto nP 95.859/88 e97.596/89. Tomando em consjdcraçäo um outro decreto de 1982(n? 87.571),
o total de terras sob domlnio do Exfrcito na AmazBnia e de IO. 132.215ha. Todas estas terras reservadas
encontram-se em regiões consideradas “problemdticas”: ZOMS de fronteira, de conflitos fundidrios
e dreas indlgcnas (cf. Folha de S. Paulo, 27 - 29/9/89 e Tempo e Presença, 244/245:31).
25 Vimos que a intromissb da Secretaria Geral do CSN na definiçäo das tcrras indigenas foi oficializada
atravds do Decreto n? 94.945 de 23/9/97.
26 Ver o estudo da Secretaria Geral do CSN n? 007/3? Scçäo11986: “A questiio IndIgena e os Riscos
para a Soberania e a Integridade do Territdrio Nacional” (extrato publicado em Schor, 3/11/87).

48
Term ind&wa.v, polilica e geopolitica militar

os territórios indígenas na faixa de fronteira amazônica e a isolar politicamente os


seus ocupantes, cortando todos os seus vínculos com entidades não-governamentais
de apoio. Política exemplificada, no caso Yanomami, pela expulsão das equipes
mtdicas da Comissão Pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), em agosto de
1987, e pelo desmembramento territorial organizado em 1988-89 (Albert 1990).
A primeira intervenção da Secretaria Geral do CSN na política ambiental
amazônica começou em 1988 com sua tomada de controle da coordenação do
Programa de Proteçã0 ao Meio Ambiente e Comunidades Indígenas (PMACI), do
qual era responsável a Secretaria de Planejamento da Presidência da República
(SEPLAN). O PMACI foi criado pelo govemo brasileiro para preencher os requisitos
ambientais e indigenistas de um contrato de empréstimo de 146,7 milhks de dólares,
assinado em 1985, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para
a pavimentaçãoda estrada BR-364 de Porto Velho (Rondônia) a Rio Branco (Acre).
Esta tomada de controle do PMACI pela Secretaria Geral do CSN ocorreu no
momento em que protestos ambientalistas nacionais e internacionais denunciando
a sua inadequação conseguiram influenciar o BID a ponto de obter que o financiameno
do emprtstimo fosse sustado (Allegretti 1988).
O Plano de Ação Definitivo (PAD) do PMACI (agosto de 1987), elaborado sob
o estreito controle da Secretaria Geral do CSN, visa 2ì implementação, financiada
pelo BID, no sul do estado do Amazonas e no Acre, de um complexo zoneamento
constituído por unidades de conservação, assentamentos extrativistas (para os
seringueiros) e áreas indígenas, destinado a amortecer o impacto social e ecológico
do asfaltamento da BR-364 na região. Entretanto, a incidência das normas de redução
das terras indígenas impostas pela Secretaria Geral do CSN aparece neste projeto
na forma de propostas de retalhamento dos territórios dos indios ApuTinã, Kaxarari,
Kaxinawa, Paumari, Yamamadi e Yaminawa, num mosaico de vinte AreasIColÔnias
Indígenas e seis FLONAs, comparável às configurações territoriais criadas na região
Yanomami e no Alto Rio Negro (Guimarães 1989: 76-77). O PAD-PMACI foi
apressadamente aprovado em setembro de 1988, apesar dos protestos das lideranças
indígenas dessas áreas*’, para ser apresentado ao BID e, assim, obter a liberação
da linha de crddito necessária h conclusão do asfaltamento da estrada BR-364. Apesar
das suas inquietações em relação ao reconhecimento dos direitos de posse indígena
nas FLONAs (chamadas “associated forests”), o BID deixou-se convencer a reiniciar
o desembolso do empréstimopela retórica ambientalista da delegação brasileira que,
ironicamente, apresentou o caso Yanomami como um sucesso da política oficial de
zoneamento econômico-ecológico na Amazônia (julho de 1989)’*.
O passo seguinte da intromissão da Secretaria Geral do CSN - SADEN na
politica ambiental amazônica deu-se na forma do lançamento, em outubro de 1988,

27 Cf.a carta da União das Naçöes IndIgenaslNorte aos coordenadores do PMACI e aos representantes
do BID de 01/05/88 (CSQ 1989:44); O Estado de S. Paulo, 17/09/88 e o Jornal do Brasil, 28/09/88.
28 Cf. BID Cable OD9/BR-665/88 de 8/12/88 e Memorandum do Envimnment DcfienseFund sobre
a reuniä0 PMACI no BID do 26/4/89; Jornal do Brasil, 1/4/89 e Correio Braziknse, 6/9/89.

49
Mus. Para. Emilio Goeldi: Colecdo Fduardo Guhdo, 1991

do Programa de Defesa do Complexo de Ecossistemas da Amazônia Legal (Programa


Nossa Natureza, Decreto n? 96.944 de 12/10/88). Este lançamento destinou-se a
desenvolver, na linha temática do PMACI, uma ofensiva ecológico-publicitária em
reaçã0 21 pressão crescente dos movimentos ambientalistas e indigenistas internacionais
contra os grandes projetos econômicos predatórios na Amazónia brasileira. O
surgimento do Programa Nossa Natureza deu-se após dois verões de noticiário
apocalíptico sobre a destruição da floresta amazônica: o Instituto de Pesquisas
Espaciais (TNPE) tinha apresentado, assim, em 1987, avaliações das superfícies
florestais queimadas na Amazônia (respectivamente 204.608 e 300.000 Km2) que
tiveram grande repercussão jornalí~tica~~. Logo após a criação do Programa Nossa
Natureza, o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, em dezembro de 1988
(CEDUCSN 1989), a reunião dos indios Kayapó contra as hidrelétricas do Xingu
em Altamira, em fevereiro 1989 (Turner 1989) e a mobilização de vários movimentos
sociais na Amazónia (Berno de Almeida 1989) acabaram por transformar a questão
da devastação da região no assunto privilegiado da mídia internacional. Last but
not least, as pressões ambientalistas sobre o governo brasileiro que, habitualmente,
originavam-se dos movimentos ecologistas, começavam a ser assumidas por governos
estrangeiros e organismos multilaterais3'.
A primeira meta da Comissão Executiva do Programa Nossa Natureza -
presidida pelo Secretário-Geral da SADEN (autor do PCN e do PROFFAO) e
dominada por cinco funciondrios deste organismo - foi criar seis grupos de trabalho
interministeriais (GTIs) encarregados de estudar, propor e promover medidas de
proteçã0 da Amazônia3'. Os seis GTIs foram os seguintes: I) Proteção da Cobertura
Florística; II) Substâncias Químicas e Processos Inadequados de Mineração; TIT)
Estruturaçã0 do Sistema de Proteção Ambiental; IV) Educação Ambiental; V)
Pesquisa; VI) Proteção do Meio Ambiente, das Comunidades Indígenas e das
Populações Envolvidas no Processo E~trativista~~. Os trabalhos destes seis GTIs
desembocaram na redação de 22 projetos de textos legais (leis, decretos e portarias)
e 25 memorandos do Presidente da República, recomendando diversas medidas a
serem tomadas pelos minist6rios relevantes, bem como na promulgação de quatro
decretos (criando três Parques Nacionais e uma Reserva Biológica).

29 Deia 1988; Veja 9/11/88 e 23/11/88. A árca dcsmatada na Amazbnia legal (4.988.939 km2) está
atualmente avaliadaem 344.706 km2 (8.4%)para as ánas dc Ilorcsta (4.127.087 km2) e de 238.163
km2 (27,6%)para as ireas de cerrado (861.852 h2), o que d i um total de 582.869 km2 (1 1.7%)
(Fearnside 1989: 9).
30 Uma Comissão Parlamentar de InquCrito foi instalada em março de 1989, tendo como objetivo "apurar
as denúncias sobre a dcvastação da hilCia amazbnica e a participaçEo estrangeira nestas denúncias"
(Correio Braziliense, 1/3/89).
31 Foi tamMm suspensa, na ocasião, a aprovaç20 de novos incentivos fiscais e de ckditos a projctos
agropecuLios na Amazdnia por 90 dias (Dccrcto n? 96.943 de 12/10/88) e recomendadas pela
Presidencia da República ao MinistCrio da Fazenda a proibição das exportações de madeira em toras
e ao MinistCrio da Reforma e do Desenvolvimento Agrbio a adaptação da Iegislação referente à reforma
agrária às normas ambientais da nova Constituição (MEM PRISADEN N? O01 c O02/88).
32 Anexo à ExposiçHo de Motivos/PR n? O01 do 12/10/88.

50
A divulgação desses resultados deu-se em abril de 1989 na forma de um
verdadeiro show ecológico orquestrado pela SADEN para a imprensa nacional e
internacional (no qual o caso Yanomami foi, novamente, citado como exemplo, cf.
IBAMA 1989b: 15). Este evento foi, significativamente,precedido por uma violenta
campanha dos militares contra a ameaça de “internacionalização da Amazônia”
supostamente embutida nos protestos a~nbientalistas~~, numa interessante inversão
retórica das denúncias esquerdistas dos anos setenta contra a entrega da Amazbnia
às multinacionais pelo regime militar (Ribeiro 1989).
O lançamento do Programa Nossa Natureza teve, também, desdobramentos
diplomáticos na forma de uma mobilização dos países do Tratado de Cooperação
Amazônica pelo governo Brasileiro (Declaração de Quito em março de 1989, reunião
de Manaus em maio), a fim de reforçar, no plano regional, a sua rejeição do debate
internacional sobre a ecologia da Amazônia enquanto ameaça à soberania e à
segurança nacional (Santilli 1989b).
Finalmente, uma vez cumprida a sua função político-publicitária, a maioria dos
projetos de 12s do Programa Nossa Natureza foi votada pelo Congresso entre abril
e julho de 1989. Graças a uma mobilização das ONGs e dos parlamentares da
Comissão do Meio Ambiente, eles sofreram serias emendas, permitindo, assim,
neutralizar os seus aspectos anti-democráticos e suas falhas técnicas @AMA 1989b;
Oliveira & Born 1989). Entretanto, restaram embutidos, no coração deste programa,
mecanismos chaves do dispositivo de expropriação ecológica das terras indígenas
que vimos operar no caso Yanomami.
O’ GTI VÏ do Programa Nossa Natureza (Proteçã0 do Meio Ambiente, das
Comunidades Indigenas e das Populações Envolvidas no Processo Extrativista) tinha
por objetivos fundamentais sistematizar a nietodologia de planejamento económico-
ecológico do PMACI, generalizar o seu modelo de zoneamento e pesquisar possíveis
fontes de financiamento internacional para a implementaçã0 de tais projetos
integrados. Ao contrário de todos os outros, este GTI teve poucos resultados: apenas
uma lei instituindo o Fundo Nacional de Meio Ambiente (Lei nP 7.797 de 10/7/89)
e um memorando ao Ministro da Agricultura determinando prioridade para
implantação de Reservas Extrativistas (cf. Menezes 1990 sobre essas reservas). Além
disso, seus trabalhos foram prorrogados por tempo indeterminado, sua coordenação
confiada diretamente à Comissão Executiva do Programa Nossa Natureza (Decreto
nP 97.636 de 10/4/89 e Portaria SADEN nP 60 de 25/7/89) e o seu orçamento indica
a realização, em 1990, de estudos de ordenamento territorial, no estilo do PMACI,
em nove áreas prioritárias da Amazônia: Xingu/Iriri, Baixo Rio NegrolUatumã; Mé-
dio e Baixo Tapajós; Carajás; Alto Capim e Baixo Tocantins; TocantindAraguaia;

33 Ver as manchctes da imprensa cm março de 1989: Correio Emilicnse 113, 8/3,9/3, 28/3: “Ambien-
te mobiliza os militares”, “Gencral teme campanha”, “Militares rcagem à intcrfer&nciana Amaz6-
nia”, “Cobiça move a campanha pela AmazBnia”; A Critica 8/3, 913, 1313: “Presença militar na
AmazSnia 6 aumentada”, “Militares nZo aceitam interferEncia”. ”ExBrcito esti atento à.s pressdes
estrangeiras”.

51
Mus. Para. Emílio Goeldi: Cole@o Eduardo Galvdo. 1991

Rio Branco; Juruena e Rio Araguari (IBAMA 1989b: 57). Finalmente, os “pressu-
postos econômicos-sociais” indicados pela SADEN para orientar os trabalhos deste
GTI sobre as populações indígenas preconizam submeter a definição de suas terras
- em desconsideração total à nova Constituição - à perspectiva do ‘‘desenvolvi-
mento dessas comunidades visando sua integraçZo total à sociedade regional ” (gri-
fo nosso)34.
Estas informações deixam pensar, portanto, que a SADEN visava transformar
o GTI VI numa agência de zoneamentoecológico/indigenista, diretamente submeti-
do aos parâmetros geopolíticos milita;es, com o fim de sistematizar o seu modelo
de expropriação das terras indígenas (AreaslColôniasIndígenas incrustadas em uni-
dades ambientais) e expandir sua aplicação a toda a Amazônia, sob a cobertura do
nacional-ambientalismo publicitário do Programa Nossa Natureza.

INVESTIMENTOS MINERAIS E SEGURANçA NACIONAL NO NORTE AMA-


ZÔNICO: O PROJETO CALHA NORTE

Vimos de que maneira os projetos militares de ordenamento territorial da Ama-


zônia foram progressivamente dotados de instrumentos legais e administrativos des-
tinados a abrir as terras indígenas & fronteira econômica pela via da manipulação
de figuras do direito ambiental, Examinamos agora os objetivos econômicos e geo-
políticos subjacentes a estes projetos, tomando como exemplo a incidência dos inte-
resses minerais na implementação do Projeto Calha Norte.
O PCN estende-se por 6.771 km da fronteira norte-amazônica do Brasil, onde
prevê a aplicação de importantes financiamentos públicos destinados a aumentar a
presença militar, bem como a desenvolver as vias de comunicação, a produção ener-
gdtica e serviços básicos, a fim de atrair investimentos e fluxos migratórios para
a região. Declarações de membros da SADEN, autor do projeto, indicaram explici-
tamente como um fator decisivo para a sua implementação ‘‘O grande número de
jazidas minerais situadas em áreas indígenas ou pretensamente indígenas, interdita-
das pela FUNAT para fins de estudos e delimitaçã^"^^. Esta colocação demostra que
a lógica do PCN, enquanto projeto de “interiorização de pólos de desenvolvimen-
to” sob controle militar, gira essencialmente em torno de uma estradgia de redução
das terras indígenas destinada a liberar o acesso das empresas de mineração indus-
trial ou semi-industrial (“cooperativas” garimpeiras) às jazidas minerais que estas
terras contêm.
A concentração dos interesses minerais sobre os territ6rios indígenas da área
fronteiriça da Amazônia setentrional C, de fato, notável36.As terras indígenas in-
34 Ver PRISADEN (1988): Programa Nossa Natureza, Ancxo D (Mcmcnto dos Rclatdrios dos GTIs
a NGA do Programa Nossa Naturcza), Prcssupostos Econ6n~ico-sociais (documcntos GTI VI).
35 ConfcrCncia do Coroncl A. Nascimcnto sobrc o PCN realizada no Instituto Superiorde Estudos Ama-
zBnicos (KEA) cm Manaus, 6/1/88.
36 Todas as estimativas que se scpcm foram calculadas a partir dos dados dos documentos CedilMuseu
Nacional 1987 e CedilConage 1988.

52
Term indígenas, política e geopollrica niilitar

cluídas nesta região representam, aproximadamente, 242.000 kn12. Existem 76 al-


varás e 973 requerimentos de pesquisa mineral registrados no DNPM sobre 22 (45 %)
dos 49 territórios indígenas oficialmente registrados na faixa de 150 km ao longo
da fronteira, considerada área de segurança nacional (cf. notau). A superfície co-
berta por estes titulos de pesquisa mineral d, aproximadamente, de 93.872 km2.
Isto significa que 39 % dos territórios indígenas da faixa de fronteira norte-amazônica
estão com o seu subsolo loteado e bloqueado por títulos minerários, constituindo-se
numa considerável reserva de mercado de empresas de mineração, em particular,
de empresas privadas nacionais3’.
Nessa perspectiva, deve-se notar, significativamente, que as áreas indígenas nas
quais se desenvolveu uma implementaçã0 mais dinlimica das medidas de expropria-
ção ecológica do Calha Norte em 1988-89 - as terras do Alto Rio Negro (Tukano,
Maku, Baniwa ...) e do oeste de Roraima (Yanomami, Yekuana), com redução res-
pectivas de 61 e 71 3%de sua superfície - são as áreas de maior potencial mineral
da zona de fronteira norte-amazônica. As maiores glebas reservadas ao Exdrcito
na Amazônia encontram-se, tambCm, nestas duas regiões. As terras do Alto Rio
Negro são cobertas por 17 alvarás e 359 requerimentos de pesquisa mineral, as ter-
ras Yanomami por 27 alvarás e 363 requerimentos, ou seja, um total de 766 títulos
minerários representando 73 % do total dos títulos registrados na região da faixa de
fronteira norte-amazônica. Deve ser lembrado, enfim, que as terras indígenas desta
região são também cobiçadas por numerosas empresas clandestinas de garimpagem;
existem, assim, garimpos em 14 (29%) dos 49 territórios indígenas oficialniente
reconhecidos na área.
O encaminhamento da questão mineral como foco da estraggia de ordenamento
territorial da região fronteiriça do norte amazônico C associado para os militares, aldm
de seus fundamentos desenvolvimentistas, a justificativas geopolíticas que dizem res-
peito à integraçã0 regional. De fato, sob o prisma da doutrina da segurança nacional,
o Exdrcito considera as campanhas internacionais a favor da preservação da floresta
tropical e dos direitos territoriais indígenas como ameaças à soberania nacional. Es-
sas campanhas estariam, assim, induzindo os povos indígenas fronteiriços a reivindi-
car “a soberania do subsolo, a garantia da sua autodeterminação política e econômica
e, at& o reconhecimento de nacionalidades diferentes do resto da sociedade nacio-
nal”. Isso, na visão militar, poderia desembocar na “formaçä0 de vastos enclaves
territoriais pouco povoados e dissociados da comunidade nacional” e, assim, “evo-
luir em direçã0 à criação de nações indígenas autônomas” (cf. nota ”).
Convdm ressaltar, finalmente, que a questão da exploração mineral nas terras
indígenas, por ser considerada determinante na geopolítica norte-amazônica, não
deixa de se constituir, também, num problema político significativo a nível de toda
a Amazônia brasileira: 70 (29 %) das 242 terras indígenas oficialmente registradas

37 Dados de junho de 1987. A validade dos alvarás de pesquisa mincral B dc três anos, renov&vcis,a
dos requcrimcntos B indefinida, permitindo o bloqueio da área (Ricardo & Rocha 1990).

53
Mus. Para. Emilio Goeldi: Colecao Eduzrdo Galwlo, I991

na região estão, assim, afetadas por 560 alvarás e 1.685 requerimentos de pesquisa
mineral e tem 333% da sua extensão total com o subsolo reservado a empresas
de mineração. As empresas de garimpagem atingem, por sua vez, 21 (9%)destes
242 territórios indígenas. Assim, ainda que outros aspectos econômico-políticos pos-
sam ter incidido nesta estratdgia (como os conflitos fundiArios), a, questão mineral
tem, certamente, contribuído de maneira fundamental para motivar o projeto de ex-
pansão pan-amazônica de um modelo de ordenamento territorial sob controle mili-
tar, associando a expropriação ecológica das terras indígenas à instalação de uma
rede de glebas reservadas ao Exército em Areas “críticas”.

CONCLUSÃO

Vimos o quanto a política indigenista e ambiental oficial da “Nova República’’


ainda estava subordinada a um modelo de integraçã0 da Amazônia dando continui-
dade econômica e política ao célebre binômio desenvolvimento-segurançanacional
dos anos 60 e 70, atraves do qual se garantia a exploração industrial dos recursos
naturais da região para exportação, num quadro de controle social e político gene-
ralizado assegurado pela tutela militar. Entretanto, constatamos que a repercussão
negativa dos custos sociais e ecológicos deste modelo econômico altamente desi-
gual e predador, traduzida numa pressão crescente das ONGs e das opiniões públi-
cas sobre os credores internacionais que sustentam sua infra-estrutura, obrigou seus
planificadores a modificar bastante o estilo político, legal e administrativo de sua
implementação. As conquistas indigenistas e ambientalistas da nova Con~tituição~~,
bem como o crescimento do movimento democrático e de seus eseaços institucio-
nais, tiveram, igualmente, uma influência decisiva neste sentido. E, portanto, em
resposta a estes novos parâmetros da conjuntura política nacional e internacional
que os membros do ex-CSN, ligados aos setores empresariais interessados, têm de-
senvolvido, nestes últimos anos, uma nova estratkgia de manipulação da política in-
digenista e ambiental nacional. Com isso, pretendia-se tanto recompor a esgotada
ideologia dos anos do “Milagre brasileiro”, quanto garantir a continuidade do en-
volvimento militar no planejamento geopolítico e econômico do desenvolvimento
amazônico.
Os militares consideram as pressões das ONGs nacionais e internacionais como
obstáculos à ocupação econômica da Amazônia não somente por supostamente fo-
mentar separatismos indígenas nas Areas de fronteira mas também, mais seriamen-
te, por afetar as condições de acesso do Brasil aos empréstimos dos Bancos
Multilaterais de Desenvolvimento e, através disto, a disponibilidade dos emprésti-
mos privados a eles vinculados, cuja proporção ultrapassa 80% na estrutura da dívi-
da externa brasileira (Schwartzman & Malone 1988: 64-65)39.Nesta perspectiva,

38 Cf. o capftulo VI da nova Constituiçäo sobre a questä0 ambiental c o capltulo VIlI sobre a questão
indígena.
39 Os ambientalistase indigenistas sä0 regularmente denunciadospelos militares como subversivos mo-
vidos por “interases inconfas6veis”, visando “excrcer uma influência indevida na AmazBnia” (cf.,
por exemplo, Correio Braziliense, 28/11/88 e 24/2/89).

54
T e r m indígenas, polllica e geopolítica niiIiIar

a neutralização da influência do movimento ambientalista e indigenista sobre os re-


quisitos sócio-ecológicos dos empréstimos internacionais tornou-se uma prioridade
política da SADEN. Esta tentativa de neutralização desenvolveu-se, como vimos,
atravks de uma estratigia de “ecologização” da retórica desenvolvinientista e de
uma manipulação administrativa da legislação ambiental, associadas 5expulsão dos
membros das ONGs, e de muitos pesquisadores, das áreas da Amazônia considera-
das politicamente críticas, como as áreas do Alto Rio Negro, Kayapó, Tikuna, Ya-
nomami, Waimiri-Atroari, etc. (Oliveira Filho 1988; Farage s.d.).
A delimitação das terras Yanomami, que procuramos analisar neste artigo, ilustra
de maneira exemplar os desdobramentostanto da temática, quanto das modalidades
políticas desta estratégia oficial de “esverdeamento” dos custos sociais do desen-
volvimento militar-empresarial da Amazônia (para maiores detalhes sobre o caso
Yanomami cf. Albert 1990).@’ A análise desse modelo militar de expropriação eco-
lógica das terras indígenas, criado pela Secretaria Geral do CSN - SADEN duran-
te o governo civil da “Nova RepJblica”, oferece ensinamentos tanto para os ONGs
ambientalistas, quanto para as agências financiadoras do desenvolvimento amazôni-
CO. Ela ressalta, assim, a necessidade de as ONGs monitorarem cuidadosamente o
impacto político de suas campanhas, a fim de neutralizar a apropriação retórica dos
seus conceitos de conservação em detrimento das populações indígenas e de seu ha-
bitat. Ela demonstra, igualmente, o quanto é importante que os Bancos Multilate-
rais de Desenvolvimento aprimorem os seus critérios de avaliação dos projetos
sócio-ambientais a eles submetidos como condição de empréstimo, em particular
no que tange à análise dos contextos políticos de sua implementaçã0 local, de modo
a evitar o uso de seus recursos na sustenação de projetos ecológica e socialmente
predadores. Finalmente, o caso Yanomami mostra o interesse - na perspectiva da
“ecologia política” proposta por Schmink e Wood (1987) - de estudos sobre a
interaçã0 entre movimentos sociais e estratégias do Estado na definição e imple-
mentaçã0 das políticas de desenvolvimento da Amazônia.

Brasilia, março de 1990

AGRADECIMENTOS

O autor agradcce C. Andujar, D. Buchillet, A.R. Ramos e K.1 Taylor por seus valiosos comcntdrios
sobre verscies antcriores deste artigo.

REFERÊNCIAS BIBLIOCRÁFICAS
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40.Em 1989, enquanto a SADEN desenvolvia a sua propaganda ambientalista, &.O00 km2 de floresta
amaz6nica foram destrufdos (INPE, citado na Folha de S.Paulo, 26/6/90) e a poluição dos rios da
A d n i a por mercrIrio usado pelos garimpeiros atingiu um nivel critico ( Jornal do Erasil, 6/3/90;
Martinelli et al. 1989; Pfeiffer et al. 1990).

55
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MILITARES, ÍNDIOSE FRONTEIRAS POLÍTICAS
AittBitio Carlos de Souza L i d

RESUMO - O autor tcnta rctraçar a rclação histdrica cxistcntc cntrc índios,


enquanto tutclados do Estado Brasilciro, militarcs e controlc da faixa dc frontciras
no Brasil, de modo a comprecndcr as cspccificidadcs do Projcto Calha Norte.
PALAVRAS-CHAVE: Indigenismo, Militares, Gcopolítiea, indios do Brasil,
Amazônia.
ABSTRACT - The author trics do cstablish the historical relationship bctwccn
Indian Pcoplcs, considcrcd as undcr Statc tutclagc, and intcrnational fionticrs
in Brazil, as a way to understand Calha Nortc Projccts spccificitics.
KEY WORDS: Indigenism, Militaries, Geopolitics, Indians of Brazil, Amazonia.

Não C hoje mais nenhum segredo, nem constitui novidade se apontar a,relação
existente entre indios, militares e fronteiras politicas. Desde que se tornou conheci-
do da opinião pública, em outubro de 1986 (quase um anos após sua aprovação pela
Presidência da República, e ao início efetivo dos trabalhos) e oficialmente divulga-
do ao Congresso Nacional, em outubro de 1987 (Oliveira Filho 1988:3-4), o assim
chamado Projeto Calha Norte põe em evidência a intensa preocupação dos estamen-
tos militares com a região Norte-Amazônica e a incidência direta dessa preocupa-
ção sobre a situação concreta dos povos indígenas aí localizados.
Se dúvidas restarem, uma breve leitura do Projeto (1988) sem dúvida demons-
trará a grande visibilidade do tema e, at& a preocupação de divulgá-lo de forma
intensa.
De fato, para aqueles que acompanham a situação das terras indígenas no Bra-
sil, a intervenção militar na esfera indigenista não surpreende desde os desdobra-
mentos que se seguiram ao Decreto nP 88118/83, que alterava o processo
jurídico-administrativo de regularização das terras de posse dos indios, colocando-o
sob o controle de um Grupo de Trabalho Interministerial do qual fazia parte o então
Ministério Extraordinário para Assuntos Fundiários (MEAF), locus, a partir do qual
se disseminava a ação militar sobre os assuntos fundiários (Oliveira Filho 1983).

Professor Assistente I do Setor de Etnologia e EtnograFia/Dcpt.O de AntmpoIogia/Museu NacionaVUFFU.

59
Mus. Para. Enillio Goeldi: ColeçUo FAuardo Gnhulo, 1991

Posta a Nova República, e após um aparente momento de vacilação, a ofensiva


militar começaria a se fazer visível, demonstrando o enorme poder da Secretaria
do então Conselho de Segurança Nacional: o início se deu com a paralizaçõ pro-
gressiva da demarcação de áreas indígenas situadas na redefinida faixa de fronteiras
para, com a implantação d? gestão de Romero Jucá, atual governador de Roraima,
na Fundação Nacional do Indio Fm 1985 (ano chave, portanto), açambarcar pro-
gressivamente toda a questão indigena, pondo sob sua direta responsabilidade a re-
formulação das linhas de ação do órgão, de seus quadros e competências específicas.
Isto culminaria com os decretos nPs 94.945 e 94.946, de 23/09/87; especifica-
mente voltados para a questão das terras indígenas, responsáveis pela redefinição
do processo demarcatório e das instlncias nele participantes (o primeiro), e pelo
estabelecimento das figuras de “áreas” e “colônias” indígenas, segundo o critdrio
estabelecido de graus de aculturação (Oliveira Filho 1987: 17-19).
Uma pesquisa mais aprofundada poderia mostrar, ainda que com relativa su-
perficialidade, como a intervenção militar em assuntos fundiarios e sua atenção quanto
aos seus aspectos indígenas, remonta a meados finais da década de setenta, paralela
à repressão, por exemplo, de conflitos no campo e ao processo de “abertura política”.
Pordm, apesar da grande visibilidade atual do tema, e de at6 mesmo muitos
seminários realizados sobre o PCN, parece-nos que, sob o ângulo mais geral acima
definido, nossos conhecimentos empíricos são limitados. O efeito de contra-luz @el-
leuze 1987), do qual o centro do poder militar vem se beneficiando, permite que
a vigilância sobre a nação e o espaço territorial se faça sem que se possa delinear
adequadamente seus limites.
Por outro lado a lacuna C tamb6m da ordem da reflexão de carster teórico-
metodológico, tanto no que tange à relação entre índios (melhor seria dizer indige-
nismolpolítica indigenista) e militares, quanto no que se refere à relação entre ín-
dios e fronteiras políticas, e mesmo à relação entre militares e fronteiraspolíticas.
Esta Última, objeto de reflexão da ciência política, da história das relações interna-
cionais - ainda que mais trabalhada em certos aspectos - se remetida às reflexões
referentes à expansão da fronteira agrícola, esbarrará, decerto, na limitação que as
definiç¡% mais freqüentes da categoria sociológica de fronteira (e seus correlatos)
têm estabelecido.
O objetivo deste trabalho i?, ao levantar algumas das lacunas e questões para
investimento futuro, marcar: l?) a profundidade histórica do trinômio; 2P) as dife-
renças fundamentaisentre as articulações históricas do trinômio e as atuais. Em ter-
mos teóricos poder-se-ia dizer que estas reflexões movem-se sobre o solo das formas
e tdcnicas de governo de um Estado-Nação sobre seu espaço territorial e suas popu-
lações, dentre as quais se destacam aquelas que se ajustam mal ao modelo da nacio-
nalidade construida como dominante2, em especial as que poderíamos descrever
como grupos dtnicos (Barth 1969).

Sobre o conceito de Nação, seu aspecto de construct0 idcol6gic0, ver Mauss (1970); Weber (1972)
e Reis (1983).
Miliurres, hdios e fìnteims polilicas

Parte-se, principalmente, de algumas idCias de Foucault (1977, 1979, 1983),


notadamente da proposta de se tratar as relações de pod& como guerra. Numa for-
mulação breve, a hipótese que norteará este breve trabalho, de forma mais implícita
que com fins de - neste momento - comprovação, C a de que a expansão do Estado-
Nação sobre o espaço territorial (logo, a constituição de um território strictu sensu)
no Brasil C uma forma re-elaborada de guerra de conquista: conquistam-se terras
e populações (osindios, dentre outros). O “governo” dos povos indígenas, sua re-
dução à condição de tutelado são, pois, produtos e produtores dessa conquista, em
que o indio (como categoria histórica, sujeito a uma certa relação de poder - Lima
1988), fruto de um “modo de ser em reserva” (Oliveira Filho 1986: 29) encontra
no militar a materialização mais perfeita do tutor.
*
A primeira lacuna a ser enfrentada deve ser a que se gera pela forma como são
concebidos os povos indígenas pelas Ciências Sociais no Brasil. Em ocasiões ante-
riores (Oliveira Filho & Lima 1983; Lima 1984, 1985, 1987a) pudemos apontar
como, mais especificamente, as relaç8es entre povos indígenas e Estado no Brasil
(sua historicidade e prática atual) têm sido relegadas a uma bem delimitada posição
secundária na hierarquia das Ciências Sociais.
É fato que os antropólogos - agentes legitimamente encarregados, dentro da
divisão do trabalho científico, de “falar de indio” - têm elaborado um discurso
dtico (característico desse campo de saber na atualidade), em defesa da existência
e reprodução dos povos indígenas, atuando em circunstâncias como a da campanha
contra o “decreto de emancipação”, em 1978 (quando, nas últimas duas décadas,
levantou-se de forma ampla a bandeira da demarcação das terras indígenas), ou no
cenário da AssemblCia Nacional Constituinte recém-concluída.
Esse discurso se atualiza não apenas nestas “grandes” ocasiões - onde parece
se repetir a luta bíblica entre o Bem e o Mal, e em que as populações nativas pode-
riam estar à beira da extinção por um golpe de pena - mas também nos rituais anuais
da “Semana” ou do “Dia do indio”, data instituída pelo indigenismo interamerica-
no, na dCcada de 1940, para celebrar esse ser genCrico oficial, sujeito à dominação
do Estado, antítese por excelência da diferença Ctnica.
Em todos esses momentos somos remetidos a episódios passados, transforma-
dos em santuarios da ideologia indigenista3: O debate entre Varnhagen e João Fran-
cisco Lisboa no dculo passado; a criação do Serviço de Proteçã0 aos fndios e
Localizaçãodo Parque Indígena do Xingu, durante a dCcada de 1950. Em todas elas
o tom C o da catástrofe iminente e da urgência da intervenção, e o que se põe em
foco C a sobrevivência fisica, e não dtnica, dos povos indígenas.
Neles os intelectuais têm sua participação enquanto cidadãos, aproveitando-se
de sua posição como produtores de conhecimento, sem no entanto construírem de
3 Em Lima (1988a) busca-sedefinir indigenisino e política indigenista de modo a demonstrar O lapso
entre ideologia e pritica.

61
Mus. Para. EniflioGocldi: Coleglo Eduardo Galwlo. 1991

fato interpretaçijes baseadas em dados oriundos de pesquisa empírica ou em refle-


xão teórica especificamente sobre os temas de que falam.
As razões para tanto devem ser procuradas externa como internamente ao cor-
pus teórico das Ciências Sociais. No primeiro caso, trata-se da história social das
ciências no Brasil que jaz por ser feita, a qual poderá desvendar as relações entre
campo intelectual e campo político em nosso país4 - se é que podemos, em dados
momentos, supor uma autonomia relativa ao primeiro que autorize sua análise en-
quanto sistema de relações diferenciado. Um estudo do gênero poderá mostrar as
solidariedades freqüentes entre a produção intelectual e a política, seja através da
legitimaçã0 explícita, da omissão ou de uma certa simbiose.
No segundo caso - que não deve ser estritamente separado das suas determi-
nações sociais’ - parece-nos que a visão teórica que aborda os povos indígenas en-
quanto totalidades autocontidas e auto-explicáveis tem predominado, a despeito de
que se insista que a produção nacional em Etnologia indígena tem-se caracterizado
pelos estudos do contato interdtnico. Estes, aliás, têm sido marcados pelo que Oli-
veira Filho (1986) vem chamando de “solução dualista”, e outros elementos que
acabam por reduzir a situação de contato “... a um esquema tripartido de Brasil,
onde se teria um Brasil Indígena, um segundo com uma dinâmica expansionista,
e o terceiro constituído pela dialética das relações entre classes sociais e grupos tri-
bais, o qual seria o foco das pesquisas desenvolvidas nessa orientação. ” (Oliveira
Filho 1986:41).
O resultado tem sido o abandono quase total do estudo dos processos de articu-
lação entre as escalas local, regional e nacional nos quais se dão as relações entre
indios e Estado, e indios e classes sociais no Brasil, e a negligência considerável
no estudo das Qimensões regional e nacional.
Sem dúvida procede destes limites a ausência de reflexão (e de propostas políti-
cas consistentes) sobre a constituição de terras indígenas. Como regulamentada pe-
la legislação prévia h Constituição atual (e, em parte, ainda por esta) vigente no
momento presente e, sobretudo, como operacionalizada na prática pelo Estado, a
demarcação de um espaço como território para indios 6 a resultante de um processo
político desdobrado, em grande medida, nos planos extralocais (Oliveira Filho 1983,
1987; Oliveira Filho & Almeida 1985). Mesmo quando a normatização e os produ-
tos parecem querer recuperar o saber nativo sobre a territorialidade como etnica-
mente definida (Lima 1987b), o destino final é a constituição de marcas que se
tornarão indeléveis no processo de regularização fundiária, dificilmente produzidas
estritamente dentro das demarcações estabelecidas pelo próprio grupo indígena.

Em Lima (1987~)procurei mostrar como tais relaçks s b constitutivas tanto do sabcr antropl6gico
quanto da prDica indigenista. No mesmo sentido ver Faria 1984, 1988; Menezes 1987a.
É sempre bom lembrar que a pesquisa entre indios no Brasil 6 condicionada B aprovaçiio do Estado
tutor, que vem de ser recentemente objeto de nova regulamentaçiocom a Portaria N? 745, de 05/07/88,
da PresidEncia da FUNAI. Ver Oliveira Filho (1988b).

62
Militares. hdios efronleims polirieas

Frente a este quadro, supor que a definição da área de terras ocupadas por um
povo indígena resulta apenas de determinações internas a ele 6, no mínimo, inge-
nuidade.
*
No que se refere à discussão que motiva esse simpósio - sobre a expansão de
fronteira agrícola, em especial na Amazônia -, poderíamos localizar aí outra lacu-
na fundamental no tratamento do trinônimo proposto.
O processo de penetração territorial brasileiro, e o contato entre seus agentes
e as populações indígenas em território nacional têm sido pensados pelas Ciências
Sociais no Brasil, em especial pela Antropologia, principalmente através de algu-
mas noções, como as de frente de expansão, frente pioneira e fronteira.
No verbete do Dicionário de Ciências Sociais sobre a noção de frente de expan-
s b , Velho (1986: 493-494) aponta Darcy Ribeiro como responsável pela introdu-
ção da expressão em texto de 1957, onde seu objetivo não estava em constituir ‘‘um
objeto e sim para estabelecer distinções”, como entre as frentes extrativistas, pasto-
ris e agrícolas, não tendo uso sistemático, alternando-se com outros termos e,
situando-se, dentro do esquema evolucionista que embasaria mais tarde os textos
de Ribeiro, na qualidade de etapas de desenvolvimento.
Tais noções seriam retomadas e trabalhadas por Oliveira (1972) no âmbito das
discussões sobre a fricção interétnica, asociando-se tambdm à noção de colonialis-
mo interno. Apropriando-se do pensamento do geógrafo Leo Waibel, Olivera pro-
p% a distinção entre frente pioneira e frente de expansão, além de aproximar tais
noções das de “fronteira demográfica” e “fronteira econômica”, apresentadas, tam-
bém na qualidade de distinções por Arthur Hell Neiva em texto de 1949. Vale des-
tacar, aqui, que tais noções me parecem marcadas pelo seu “local” de origem, isto
6, o campo político.
Chamando atenção para o fato de que à parte tais preocupações sistematizado-
ras, a questão da expansão territorial esteve presente no pensamento de outros pro-
dutores intelectuais, Velho apresenta Martins (1975) como tendo sido um dos mais
recentes interessados em refletir sobre a questão, fazendo-o à luz do materialismo
histórico.
A relação fundamental, para tal autor, estaria na apropriação diferencial da ter-
ra, sendo na frentepioneira a implantação da propriedade privada, enquanto na frente
de expansão esta estaria ausente.
Como Velho destaca, o texto de Martins demonstra a desvinculação a que se
procede entre contato interétnico e frentes de expansão enquanto problemáticas pa-
ra o pensamento intelectual. Critica ainda Martins apontando, de sua Ótica, o cará-
ter questionável da visão deste autor que colocaria as frentes de expansão enquanto
exteriores a uma formação capitalista, absolutizando a “propriedade privada enquanto
indicador da penetração do capitalismo no campo”. (Velho 1986).

63
Mus. Para. Emilio Goeldi: Cole@a Eduardo Gah.do, 1991

A partir disso o mesmo autor introduz contrastivamente a noção de fronteira


em movimento, oriunda do campo intelectual norte-americano, com a qual traba-
lhou em Capitalismoautoritário e campesinato(Velho 1976), para apresentar com-
parações entre casos de expansão, acabando por sugerir uma melhor avaliação da
literatura sobre colonização, sobre as vias de desenvolvimento capitalista, ou sobre
a oposição entre fronteira aberta e fechada. O objetivo de Velho em seu sugestivo
texto, C, manifestamente,pensar a partir da fronteira o desenvolvimento brasileiro,
sobretudo sob seu aspecto político-social.
Procurando, de um outro ângulo, operacionalizar a noção em termos de uma
região específica durante um dado período, qual seja, a Amazônia do seCu10 passa-
...
do, Oliveira Filho (1979) propõe ver o seringal “ enquanto fronteira, isto C, co-
mo um mecanismo de ocupação de novas terras e de sua incorporação, em condição
subordinada, dentro de uma economia de mercado”.
.
Na tentativa de viabilizar sua proposta, o autor define oito “.. suposições bási-
cas constitutivas da fronteira enquanto modelo para análise teórica de fenômenos
histórico-sociais”, das quais duas me interessam principalmente. Trata-se das afir-
.
mações relativas à fronteira enquanto “. . mecanismo que correlacione de forma
regular e complementar diferentespartes de uma totalidade (que tanto pode ser in-
tranacional quanto associar partes pertencentes a diferentes países)” (Oliveira Fi-
lho 1979:111), e as que se referem “ ... (à) criação de uma classe de indivíduos
destituídos dos meios de subsistência”, destacando-se: I P) a instituição da proprie-
dade privada da terra, condicionando sua aquisição à compra; 2P a constituição de
um espaço de mediação à cidadania plena, entregando a seus detentores a possibili-
dade de compelir a mão-de-obra ao trabalho, imobilizando-a; mecanismos estes os
quais apontam que as “... características da fronteira não são um fato natural, mas
sim uma criação da instrincia politica, podendo tanto transformar um território ocu-
pado em terras livres e passíveis de apropriação mediante certas condições (o caso
dos grupos tribais, p. ex.), quanto instaurar tipos diferentes de cidadania corres-
pondendo a diferentes elencos de direitos e obrigações” (Oliveira Filho 1979:
112-13).
Encontra-se aí uma crítica ao economicismo marcante dos estudos sobre fron-
teira que, ao deslocarem do político o foco da análise, deixam escapar os atores,
os aparelhos de Estado e as ideologias que operam o mecanismo, o que implicaria,
forçosamente, considerar a participação militar. Considere-se, ainda, que este me-
canismo de incorporação de terras ao mercado B um dos principais dispositivos de
governamentalizaçãodo espaço e de implantação de dcnicas de vigilância sobre a
população, logo como instrumento da expansão da forma política Estado-Nação.
Isto significa transpor, em termos teóricos, uma adscrição estrita entre o que
seria o econômico e o que seria o politico, resgatando um embricamento fundamen-
tal entre os dois níveis (Poulantzas 198513).
Coloca-se no foco mesmo da análise as fronteiraspoliricas,já que estas são os
limites de um Estado-Nação, e que sua transcendência implica guerra entre nações

64
Milimres, hdios c fronreiras polificas

e/ou diplomacia. Da mesma maneira, demandaria perceber os militares como fun-


damentais para análise do mecanismo de fronteira,produtores que são, de há mui-
to, de um saber geopolítico e de uma ideologia de ocupação do território, na qual
os indios foram sempre figurantes.
A pesquisa histórica pode trazer tona um elenco considerável de questões e,
adod-la como “demarche” privilegiada é uma estratégia possível para desmontar
mitos e discutir questões do presente.
*
Partindo $essas premissas propusemos, em outro momento, tratar o Serviço de
Proteçã0 aos Indios e Localização de Trabalhadores Nacionais como agência es-‘
fatal de fronteira, “.. . aparelho de Estado responsável pela implementação de uma
política que vise a criar e/ou controlar uma fronteira ligada a um sistema capitalista,
notadamente dos fatores de produção em mãos de diversos atores sociais em ação
nas regiões do país que podem ser pensadas como participando dessa dinâmica”
(Leite & Lima 1985).
Acompanhar o surgimento da agência em 1910 (Lima 1985) foi bastante Útil
na percepção de um deslocamento fundamental entre o que a ideologia indigenista
veicula ainda hoje, e o que os fundadores do Serviço propunham então.
Tomando-se o texto paradigmático (Lima 1985: capítulo 2) de A politica indi-
genista brasileira (Ribeiro 1962)7 pode-se ver como surgem duas categorias de mi-
litares ao longo da argumentação, de resto uma defesa apologética da existência do
SPI, então ameaçado de extinção. A primeira delas seria a dos “bons” militares,
identificados ao grupo encabeçado por Cândido Mariano da Silva Rondon, “funda-
dor” (na versão oficial) do SPILTN, grupo que poria em prática os procedimentos
de atração e pacificaçãoe ter-se-ia constituído em torno da Comissão de Linhas Te-
legráficas Estratdgicas do Mato Grosso ao Amazonas, tantas vezes referida e cele-
brizada como Coniissão Rondon.
A outra categoria seria a dos “maus” militares, ou os verdadeiros - já que
ao primeiro grupo a ideologia positivista, responsável pela idéia de proteçã0 frafer-
nal, imprimiria conteúdos “humanistas” (sic), isto 8, “humanitaristas” -, que es-
tariam pondo o SPI de 1962 à bancarrota, permitindo o massacre de populações
indígenas, num total descompromissocom as mesmas. Considerando-se que o texto
procura mostrar o SPI do mito Rondon, e de seus herdeiros, como tendo sido capaz
de evitar massacres, logo, de conter a depopulação violenta no contato interétnico,
a acusação tem um peso considerável.

Ap6s a lei do orçamento de 1918, a verba atinente àLocalização de Trabalhadores Nacionais passaria
a outm serviço do Ministkrio da Agricultura, Indhstria e Comércio.
O texto passaria, posteriormente, à parte II do livro Os indios e a Civilizapio, publicado durante O
exilio de Ribeiro. Para uma versIo renovada, porCm herdeira do compromisso ao culto rondoniano,
ver Gomes (1988), texto que inielizmente s6 nos chegou às mbs quando cste trabalho@ se achava
em redação.

65
Mus. Para. Eniilio Goeldi: ColCCdo Eduardo G d v d o , 1991

De fato, o período final da história do SPI (extinto em 1967 quando criada a FU-
NAO, é dos mais obscuros, bem como marcado por denúncias de corrupção e conflitos.
No entanto, o retrato da primeira categoria só C aceitável se nos colocarmos
como “herdeiros” de Rondon, ou se nos abstivermos de pesquisa e reflexão’. Um
esforço no sentido de ultrapassar ambas as limitações pode desvendar um quadro
bastante distinto do reproduzido ainda hoje pelos que citam Darcy Ribeiro acritica-
mente, ou pelos que fogem de enfrentar o fantasma do “Marechal Rondon”, um
dos mitos da nacionalidade brasileira. Com isto teremos a profundidade histórica
necessária à percepção de descontin~idades.~
*
As preocupações que vinculam indios e fronteiraspoliticas podem ser facilmente
remontadas ao período colonial, notadamente às medidas pombalinas, voltadas so-
bretudo para a Amazônia (sobre elas ver Beozzo 1983; Farage 1986). Ou pode-se
ver precursores de medidas atuais nas sugestões de JosC Bonifácio de aldear indios
próximo a contingentes militares estacionados (Silva 1965), nas idCias de Couto de
Magalhães de “civilizar” os indios atravCs do aprendizado da língua portuguesa
através de intérpretes militares (Magalhães 1975), ou no estabelecimento de ‘‘colô-
nias agrícolas” no Império, onde missionários investidos de patentes militares e vin-
culados ao Ministério da Agricultura do Império aldeavam indios. Este tipo de
construção trans-histórica deixa de lado as relações sociais concretas, as práticas
sobre as quais se elaboram discursos muitas vezes delas discrepantes.
8, assim, durante o período republicano, em que se tem um Estado-Nação em
expansão, estabelecido formalmente separado da Igreja, que se poderá ver melhor
delineada a relação entre militares (como agentes diretos e planificadores), {ndios
e fronteiraspoliricas. O ‘‘local’’ para tanto seria o Serviço de Proteçã0 aos Indios
e Localização de Trabalhadores Nacionais e as Comissões Telegráficas, dentre as
quais se eternizou a já referida Comissão Rondon.
Foram, primordialmente, e~genbejros-mi~i~ares os ocupantes das unidades de
ação do SPILTN, bem como das Comissões Telegráficas. No caso do SPILTN, a
presença de militares à frente de suas unidades de açã0 foi inclusive objeto de defe-
sa por parte dos quadros dirigentes da agência, quando o Ministro da Guerra, por
requisição de novembro de 191 1pede o retorno de oficiais do ExCrcito ao serviço
regular. Em texto enviado como relatório do SPILTN ao Ministro da Agricultura,
JosC Bezerra Cavalcanti (1912), diretor de fato (embora apenas substituto de direi-
to) da agência, não só pontua como para o Serviço essa presença era importante,
como tamMm assinala o seu sentido para o ExCrcito.

* Nä0 6, pois, de se estranhar que um conhecido antropdogo tenha se referido em rcuniäo no Museu
do fndio, em 1985, aos pcrIodos francamente ditatoriais da histdria brasileira recente como os mais
propfcios aos indios. Ver Lcitc & Lima (1987) sobre o assunto.
Ver Lima (1988b) para uma consideração minuciosa do “principal” texto biogriifico sobre Rondon,
isto 6 Viveiros (1957). O trabalho faz-se acompanhar de uma ficha com dados objetivos sobre a traje-
tdria do biografado.

66
Militures, hidios e fronteiras poliricas

No primeiro caso apontava como o Inspetor do Serviço - responsável por uma


Inspetoria Regional, unidade de açã0 em escala mBdia da agência ‘O -&,veria de-
monstrar sua coragem física (“elemento de guerra”) e moral (“elemento de civili-
zação”) quando, ao ser atacado por indios hostis deveria manter a posição somente
defensiva e dar-se conta da nobreza da “missão” a cumprir, de modo a convencer
o “inimigo” de seu desejo sincero de estabelecer relações de amizade. Este seria
um componente fundamental da pacificaçb”, estratégia de conquista supostamen-
te inventada por Cândido Rondon, grande trunfo na sua indicação como implemen-
tador do SPILTN: tratava-se de, ao atrair e pacificar, conquistar terras sem destruir
os ocupantes indigenas, obtendo, assim, a mão-de-obra necessária l2à execução dos
ideais de Couto de Magalhães, de desbravamento e preparação das terras não-
colonizadas (para uma posterior ocupação definitiva por brancos) por populações
“aclimadas” aos trÓpicosl3. Realizar-se-ia o duplo movimento de ocupação dos es-
paços grafados como desconhecidosnos mapas da Bpoca, e a transformaçãodo “ín-
dio” em “trabalhador nacional”.
No segundo caso, Bezerra assinalava como o SPILTN era “uma excelente e
incomparável escola de aplicação para os nossos dignos militares, os-que. sincera-
mente se dedicam ao conhecimento perfeito e exato de nossa pátria, a fim de melhor
servi-la e defendê-la”. Após apenas 41 (quarenta e um) anos à Guerra do Paraguai,
o Brasil não tinha outros motivos para se envolver em guerras externas senão uma
possível agressão ao território nacional, possibilidade que Bezerra fazia temer ao
recordar as campanhas de 1893 e 97, em que os maiores desastres teriam advindo
do desconhecimento absoluto do terreno a ser pisado.
De fato as razões para a permanência dos militares eram tamMm de natureza or-
ganizacional. As discussões do Projeto n? 307/1911 da Câmara dos Deputados - o
orçamento da União para 1912 - pontuava como a saída dos militares colocaria em
patamares muito elevados os custos da açã0 do Estado, com sua máquina então em
formação, frente aos grupos indígenas - em muito maior número que a população
indígena atual (Anais 1914: 467-468). A proposta explícita no orçamento era de que
se implementasse mais decididamente os subsídios à catequese católica como forma
de redução orçamentária. Frente a uma elite política pouco imbuída da necessidade de
controle sobre o território, pensando a açã0 do Estado sobretudo como a de pacifica-
Go, o grupo enfeixado em torno de Rondon procurava vender seu projeto.
Estas idCias eram bastante anteriores, tendo sido gestadas dentro da Escola Mi-
litar da Praia Vermelha, ao longo do s&ulo XIX, sob influxos variados como o do

lo O SPI atuava em escala local, atravB dos Postos Indlgcnas; em escala regional, atravds das Inspcto-
rias Regionais; em escala nacional, atraves da Diretoria Gcral.
Ver, sobre as pr6tica.s de ufrugTo e pueifimgTo, a proposta de anilise de Erthal (1986).
I2 Ver Lima (1985: capltulo 6) e hite & Lima (1986) sobre a transformaçä0 dos Indios em “trabalha-
dores nacionais”.
13 Sobre as diversas propostas de substituiçzo do braço escravo e dc entrada de imigrantes como temas
“raciais”, ver Skidmore (1976).

67
Mus. Para. Eniilio Goeldi: Cole@o Eduardo GalvtTo, 1991

positivismo heterodoxo e da constituição da idéia do Exército como força salvadora


da Nação, uma das resultantes da Guerra do Paraguai.
Nesse sentido, retraçar o itinerário dessa instituição, da qual sairiam os princi-
pais responsáveis pela criação e implementaçã0 das comissões telegraficas que de-
veriam ligar diversos pontos do país, torna-se fundamental,já que ela detinha inclusive
um papel expressivo no campo intelectual daquele momento (Almeida 1977: 123-4).
Em minha dissertação de mestrado (Lima 1985: 414-423) procurei enfrentar a tare-
fa baseando-me, sobretudo, nos trabalhos de Galvão (1984) e Carvalho (1977), no
sentido de mostrar como o engenheiro-militar seria aquele que, por sua própria for-
mação, estaria encarregado de “construir” a nação: além de de contar em sua ba-
gagem, com os mesmos conhecimentos do engenheiro civil (eminentemente técnicos,
portanto), era-lhe, ainda, facultado o exercício da violência legítima a essa construção.
O poder do Exército tenderia a crescer e se ampliar ao longo da Primeira República.
Claro está que essa era uma das facções do Exército que, na medida de seu
crescimento, sofreria alterações substantivas ao longo do período e que um trabalho
mais acurado deveria pensá-la em relação às outras existentes.
Sairia daí o corpo principal, da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas
do Mato Grosso ao Amazonas. E importante destacar que o termo estratégicas, que
confere h Comissão seu sentido propriamente militar e a recoloca dentro das ques-
tões mais gerais de defesa do território e povoamento, de guarda das fronteiras, acha-
se freqüentemente omitido na literatura encomiástica que trata do assunto.
Nem o esforço era novo, nem era este o primeiro empreendimento do gênero
em que o “herói” participava. Já em IS89 Rondon fora nomeado para a Comissão
Construtora da Linha Telegrafica de Cuiabá ao Araguaia, que deveria levar h frente
um plano do governo imperial. Tal comissão era chefiada pelo major Antônio Er-
nesto Gomes Carneiro, e seus trabalhos durariam de 1890 a 1891. Outras viriam
para as diversas regiões do país, tendo estado Rondon vinculado de diferentes ma-
neiras h expansão dos telégrafos em Mato Grosso (Viveiros 1957; Ribeiro 1959;
Lima 1988a).
Não cabe aqui historiar a criação das comissões thegrrificas ou recompor sua
trajetória histórica sobretudo no que se refere às relações com grupos indígenas no
interior do país, o que em si seria um outro trabalho de razoáveis proporções.
A intenção 6, apenas restituir o caráter de empreendimentomilitar e estratégi-
co da Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas do Mato Grosso ao Amazo-
nas, aspecto este que foi obscurecido diante da forma como foi representada pelos
‘autores que sobre ela escreveram, todos eles formados dentro da ideologia positi-
vista, e que trataram de representá-la quase que tão somente como empreendimento
civilizatório, de cunho científico, cujo melhor exemplo não poderia ser senão o títu-
lo de um desses textos, qual seja, o de Missão Rondon. Para esse caráter, em muito
contribuiria a relação da comissão com o Museu Nacional (Lima 1 9 8 7 ~ uma ) ~ de
suas principais fontes de legitimidade propriamente científica.

68
Militares, fndios e fionteims polificas

fi certo que seus quadros dirigentes eram constituídos por elementos formados
sob a ideologia positivista (sobre tudo por alguns dos aspectos veiculados pelo Apos-
tolado Positivista do Brasil), que se destacava por uma dada proposta de estabeleci-
mento de uma ordem social autoritária no Brasil (Lima 1985: 374-393). Dentro desse
projeto as comunicações detêm, evidentemente, um papel significativo.
Não foi, pois, uma coincidência a criação a 19 de abril de 1890, do Ministério
da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, para o qual foi nomeado como seu pri-
meiro titular, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, que assumiu a pasta a 22
de junho de 1890 (Lins 1967: 386), o que está por trás é a proposta pedagógica
- lato senso - positivista que se deveria realizar a nível nacional.
A Repartição Geral dos Telégrafos iria, mais tarde, para o Ministério da Indús-
tria, Viação e Obras Públicas.
A proposta de criação da Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas do
Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA) teria surgido, segundo Rondon, de um
projeto de Francisco Bhering (Pardal 1985: 1 19) apresentado ao Clube de Engenha-
ria a 13 de dezembro de 1904, intitulado “O vale do Amazonas e suas comunica-
ções telegráficas” na Revista do Club de Engenharia 1905. A 3 I de maio de 1906,
teria surgido uma carta não assinada no Jornal do Comércio sobre o assunto. Em
9 de dezembro de 1906, Bhering voltaria - com o concurso de opiniões de Eucli-
des da Cunha - a defender suas idéias, em matéria do Jornal do Commercio. A
6 de janeiro de 1907, o Eng. Leopoldo I. Weiss consideraria tal tarefa inexeqiiível
( Jornal do Commercio).
O fato é que seria no ano de 1907 que a referida Comissãoseria instituída pelo
decreto n? 6370, de 14 de fevereiro.
O trecho seguinte, extraído da introdução do relatório do supracitado ministé-
rio, desse mesmo ano, fornece os dados necessários a caracterizar os pressupostos
implícitos em tal empresa:
“No intuito de unir todos os Estados da República pelo TelCgrafo
Nacional, e, ao mesmo tempo, dotar o território do Acre de meios mais
fáceis de comunicação com o resto do país e com os estrangeiros, auto-
rizou V.EX. a construção, mediante o concurso de tropas federais, de
uma linha telegráfica que partindo de Cuiabá se dirija a Santo Antonio
do Madeira, ponto inicial da E.F. Madeira ao Mamoré e dai se bifurque
por um ramo, em demanda das sedes das prefeituras do Alto Purus e
Alto Juruá, e, por outro, Manaus. A Comissão incumbida de construí-
la, deverá estudar ramais para pontos convenientesda Fronteira e, bem
assim, proceder ao reconhecimentogeral da zona, sob o ponto de vista
estratdgico, geográfico e econômico, promovendo, ao longo da linha,
a formaçãode colônias de indios wnvjzinhas das estações. Todos esses
trabalhos devem estar terminados em pouco mais de três anos, já tendo
sido providenciadoa respeito do pessoal e material necessários à execu-
ção do serviço” (Brasil 1907:24).

69
Mus. Para. Emilio Goeldi: Colcc¿lo Eduardo GaIv¿lo, 1991

Ou, como ficaria mais claro nas palavras do próprio Rondon, escritas aposferiori:
“Desbravar esses sertões, torná-los produtivos, submetê-los à nossa ati-
vidade, aproximá-los de nós, ligar os extremos por eles interceptados,
aproveitar a sua feracidade e as suas riquezas, estender at6 os mais re-
cônditos confins dessa terra enorme a açã0 civilizadora do homem.. .
eis a elevada meta de uma política sadia e diligente, eis a obra de um
estadista que tenha a compreensão nítida das necessidades primordiais
do desenvolvimento material desta Pátria, bem merecedora de ser mui-
to amada e carinhosamente servida”. (Rondon (s.d.:5)
Reconhecimento estratégico, geográfico, econômico e estabelecimento de co-
lônias de indios deveriam ser os pontos básicos para um esforço de desbravamento
e vinculação interna do território de forma a torná-lo produtivo. Tal poderia ser
pensado dentro dos quadros mais vastos de busca de expansão do Estado-Nação (Reis
1979) naquele momento, que se representava, nos termos da ideologia positivista
da Cpoca, como a “missão” que o “cidadão armado”, isto é, o soldado deveria
levar a cabo: “civilizar os sertões” era demarcar e solidificar as fronteiras - a uni
tempo simbólicas e empíricas - da nação (Leite & Lima 1985).
Assim, as Instruçöespelas quais se deveráguiar o chefe da Comissão Consfru-
tora da Linha Telegráfica de Mato Grosso ao Amazonas determinavam que:
“( ...)
TI - A comissão determinará as coordenadas geográficas de todas as es-
tações que inaugurar e dos pontos que julgar conveniente ao longo da
linha telegráfica.. .
Fará igualmente a medição e demarcação das fazendas nacionais
de Caissara e Casal-Vasco, no Estado do Mato Grosso, pertencentes ao
Ministério da Guerra.
III - Para execução desses diferentes trabalhos terá a comissão, além
do chefe, cinco ajudantes, quatro auxiliares, os engenheiros praticantes
que forem designados pelo Ministério do Guerra, um pagador, um en-
carregado do depósito de víveres e material, dois mtdicos, dois farma-
cêuticos, os empregados da Repartição dos Telégrafos indispensáveis
ao serviço da construção e conservação, os trabalhadores paisanos ne-
cessários à construção de casas e pontes, ao serviço de transporte de
material e custeio das boiadas de carro e de corte, e um contingente de
350 praças, com a respectiva oficialidade.
IV - (...) No fim de todo serviço será organizado um relatório geral em
que venham mencionados, não só o serviço executado, como também
informações gerais no sentido de esclarecer os Ministérios respectivos
sobre o valor do terreno explorado, sua topografia e estatística, espe-
cialmente relativa às nações de indios da zona que a linha atravessar.
(...)
V - O chefe da comissão poderá entender-se diretamente com o presi-

70
Milirares, hdios e fronreiras pollticas

dente do Estado de Mato Grosso sobre o estabelecimento de colônias


em torno de cada estação, devendo a comissão medir e demarcar lotes
para os colonos, de acordo com o mesmo presidente...
(. ..I
VI - A comissão fará o estudo:
Da região sob o ponto-de-vista de sua defesa, do traçado de vias
de comunicação para a fronteira, da navegabilidade dos rios e da natu-
reza do terreno, quanto à sua utilização para a lavoura ou indústria
pastoril.
Dos produtos extrativos da região que quer percorrer, principal-
mente os minerais (...)” (Brasil 1908: 413-414).
O Engenheiro-militar, soldado-cidadão, era por assim dizer, o agente indicado
por excelência para o trabalho de “salvação” da nacionalidade, “missão civiliza-
dora” que consistia em descobrir e demarcar o território geográfico, submeter e
“civilizar” os que estivessem à margem da Nação, tal significando torná-los pro-
dutivos e engajados nesse mesmo esforço.
Impunha-se uma representação da Nação como indivíduo coletivo, a quem toda
diferença deveria se achar submetida. Estendiam-se, por outro lado, os serviços do
Estado, Único ator que seria capaz de guiar a nação nesta visão. A idCia da tutela
6, sob este aspecto, mais geral.
Tais propostas nunca foram abandonadas pelos gestores iniciais do SPILTN,
e pelo próprio Cândido M.da Silva Rondon. Para prová-lo bastaria uma leitura trans-
versa dos relatórios dos funcionários da Agdncia na Amazônia. A uma situação ins-
titucional definida como mais próxima das instâncias responsáveis por assuntos
estratdgicos corresponderia uma maior explicitação dessas intenções.
Com a passagem do SPI à esfera da Tnspetoria de Fronteiras do ministdrio da
Guerra - esta sob a responsabilidade de Cândido M. da Silva Rondon desde 1927
- estas idCias ganhariam forma de regimento.
Assim, em 1936, o Decreto nP 736, de 6 de abril, apryaria, em caráter provi-
sório, um novo Regulamento do Serviço de Proteçá0 aos Indios. Este regulamento
marcava-se pela preocupação com a “nacionalização dos silvícolas” com o fim de
incorporá-los à sociedade brasileira (Art. lP, b): aparece aqui, de forma coerente
com a posição em que a agência se encontra, essa virtualidade do discurso indige-
nista, a saber, a visão do indio enquanto “guarda das fronteiras”:
“O Sr. General Cândido Rondon, mestre de todos os que cuidam
dos indios desinteressadamente,em um relatório sobre a organização
das Fronteiras, dirigido ao Ministro da Guerra, assim se expressa:
“Sou contrário à educação ministrada pelas Missões teológicas, ca-
tólicas ou protestantes, como prejudicial à formação do caráter selvagem.
(...>

71
19991
Mus. Para. Emilio Goeldi: Colecdo Eduardo Gal~~ao,

O regime que preconizamos, de evolução mecta1 natural, sem nenhuma


pressão sistemática sobre sua alma dará ao Indio a capacidade de me-
lhor aproveitar os dotes naturais da raça no que diz respeito As suas qua-
lidades primordiais de caráfer.
Em conseqüência, melhores elementospara bem servir A Pátria no
que ela mais precisa: guarda de suas fronteirase respectiva defesa, ali
o encontraria o Exkrcito“ (Vasconcelos 1939: fotogramas 020 a 026).
(Grifos meus)
A ênfase da ação indigenista prevista para o SPI residia na educação enquanto
via-de-acesso à incorporação, idéias que surg$m discriminadas no Capítulo II, inti-
tulado “Nacionalização e Incorporação dos Indios”:
“Art. 7P. As medidas e ensinamentos a que se refere a letra b do artigo
l?, têm por fim a incorporação dos indios à sociedade brasileira, eco-
nomicamente produtivos, independentes e educados para o cumprimen-
to de todos os deveres cívicos; podem ser assim classificadas:
a) medidas e ensinos de natureza higiênica;
b) escolas primárias e profissionais;
c) exercícios físicos em geral e especialmente os militares;
d) educação moral e cívica;
e) ensinos de aplicação agrícola ou pecuária.” (Oliveira 1947:152).
De acordo com o discurso da nacionalização seria principalmente enfatizada
a situação dos indios em áreas de “fronteiras”, e secundFriamente, a dos situados
nos “sertões”. Assim, no Capítulo I (“Da Proteção aos Indios”), o Art. 2?,pará-
grafo 2?, k,estabelece que o SPI, dentro das atividades de proteçã0 e assistência,
“.
deve .. diligenciar para que os indios das fronteiras não cedam à atração das na-
ções limítrofes e para que se desenvolvam neles, vivamente, os sentimentos da na-
cionalidade brasileira’’ (Oliveira 1947: 155). Nas “disposições gerais” (Capítulo VI,
Art. 41 a 47), o Art. 44 estabelece claramente o monop6lio relativo (ou ao menos
a supervisão) do governo sobre a atuação indigenista em Breas de “fronteiras”:
“Art. 44. nas zonas de fronteira e nos sertões despoliciados do Brasil,
s6 brasileiros natos poderão exercer função de natureza educativa e de
caráter nacional junto aos índios.
0 1P. As pessoas e asscxiaç&s estrangeiras que aijá se encontrem estabe-
lecidas, com a missão de catequizar ou educar os indios, pderão perma-
necer no mesmo local o temp neceSSilrio ajulio do Governo,observadas
as garantias asseguradas aos indios pela Constituição e leis vigentes.
5 2?. Nenhuma associação, ou pessoa estrangeira, poderá estabelecer-
se nas fronteiras ou sertões despoliciados do Brasil, ou neles internar-
se,para agir sobre indios, semprkvio assentimentodo GovernoFqderal,
ouvidos o Conselho de Segurança e o Serviço de Proteção aos Indios.

72
$ 3?. As autoridades militares atenderão às requisições de forças devi-
damente justificadas, feitas pelos serventuários do Serviço de Proteçã0
aos fndios, para a defesa da vida dos indios e do patrimônio nacional
e ind@ena a cargo do referido Serviço.” (Oliveira 1947: 168). (Grifos
meus).
Note-se a associação entre educação e nacionalização. Ao longo de todo o re-
gulamento propõe-se uma verdadeira “pedagogia da nacionalidade” e do < ‘civis-
mo” (p. ex., Art. 17, c, 5, dentre outros).
O discurso da nacionalizaçãocontinua, pordm, assente sobre a id6ia de estágios
distintos, já que o Decreto n? 5484, de 27/06/1928, responsável pelo estabeleci-
mento de uma categorização relativa ao grande contato, cerne da “proteção” (Lima
1987a), era ainda vigente, e pela própria retórica do regulamento na qual se dava
menos ênfase a uma categorização dos ccaborígenes”,não deixava de pensá-los co-
mo inferiores e diferenciados evolutivamente em função do contato. Por exemplo,
falando acerca dos dois tipos de postos indígena^'^ com os quais deveria contar o
SPI, prevê para os Postos de Atração, Vigilância e Pacificação:
“ 1. Aproveitar essas circunstâncias [hostilidades partidas dos próprios

grupos indígenas - ACSL] para demonstrar a grandeza, a eficiência


e a generosidade de nossa civilização, usando dos amplos meios com
que a ciência e a indústria modernas superiormente nos aparelham, não
para destruir povos imbeles, desarmados e na infância social, mas sim
para despertar-lhes o desejo de compartilhar conosco do progresso a que
atingimos.” (Oliveira 1947: 158).
Este tipo de posto deveria lidar com “tribos arredias ou hostis”, responsabilizan-
do-se ainda por “, .. fiscalizar a entrada para o sertão de pessoas estranhas ao Servi-
ço, e velar pela fronteira próxima ...”
(Oliveira 1947: 159), no caso de se localizar
em região de limites internacionais próximos, ou vazio demográfico.
O segundo tipo, isto 6, os Postos de Assistência, Nacionalização e Educação,
destinar-se-iam, de acordo com o regulamento, a “...
uma ou mais tribos, em rela-
ções pacíficas, já sedentárias e capazes de se adaptarem à criação e à lavoura e a
outras ocupações normais.” (Oliveira 1947: 159). Poderíamos ler a frase como de-
signativa de grupos que ao deixarem de “esboçar reação” (leia-se sob a forma de
violência física) ao branco, isto 6, ao serem pacificados, deixaram tamMm de ser
arredios, fixando-se e incorporando elementos de um patamar social distinto.
O regulamento prevê, tambkm, a forma de atuação do posto, em que deveriam
ser fundados estabelecimentos de ensino primário noturno e diurno para adultos e
crianças, de ensino agrícola, acompanhados de “campos de experiência e demons-
tração’’, silos e paióis para beneficiamento e armazenamento (Art. 23 In: Oliveira,

l4Sobre as tarefas gerais dos PIS, os “estigios sociais” de que tratavaq e as priticas adequadas aos
mesmos, ver o artigo 5P do “ n o regulamento.

73
Mus. Pam. Emilio Goeldi: Coleqdo Eduardo Galvdo, 1991

1947: 160-61), propostas que seguem fielmente os modelos formulados pela Socie-
dade Nacional de Agricultura para a açã0 de um Minisdrio da Agricultura frente
aos trabalhadores nacionais e agricultores, em 1901, e implementado pelo MAIC,
a partir de 1910”, e presentes nos regulamentos anteriores nas partes referentes aos
trabalhadores nacionais: A inovação fica por conta do aspecto militar, consoante
a tônica do regulamento presente, que determina:
“.. . educação física e instrução militar, organizando-se para esta ins-
trução nas terras de fronteiras e nas de Sertão linhas de tiro, sempre
que a população indígena for suficientemente densa e que seu estado so-
cial o permita.” (Oliveira 1947: 161). (Grifos meus).
O posto de Assistência, Nacionalizaçãoe Educação deveria proceder pedagogi-
camente, no sentido amplo do termo, ao se estabelecer sobre as bases de um orde-
namento espacial distinto do indígena, que comportasse um serviço de saúde, e uma
forma de organização da lavoura e da pecuária de modo a servir de exemplo, exer-
cicio e fonte de subsistência ao grupo. O texto frisa, ainda, a importância do “culto
12 bandeira”, das noções de civismo e de história do Brasil a serem ministradas.
Se estas são as duas principais unidades executoras do SPI, o regulamento pre-
vê, ainda, de acordo com o Decreto nP 24.700, de 12/07/193416,a criação de nd-
cleos militares com o objetivo de cumprir melhor a tarefa de “nacionalização das
fronteiras ou ao desenvolvimento e policiamento dos sertões habitados por indios”
(Oliveira 1947: 153), os quais deveriam ser destinados a “reservistas, trabalhadores
nacionais e mesmo a indios” (idem) com a condição de não alienarem os lotes que
lhes forem consignados.
De fato existia ainda a categoria, não mencionada no Regulamento, de posfos
indfgenasde fionteira,(Vasconcelos 1939: fotograma 20-26),responsável pela atração
para o território nacional e fixação dos povos indígenas situados na região das fron-
teiras políticas do Brasil.
Não 6 gratuito, pois, que este mesmo regulamento previsse explicitamente que
“a proteção, assistência, defesa ou amparo” deveriam ser dados na terra habitada
pelos indios, “salvo. .. enchente, secas, epidemias ou outras calamidades e motivos

Lima (1985: capftulo 5); Santos & Mcndonça (1986). “Rcprcscntaçôcs sobre o trabalho livre na crise
l5
do escravismo fluminense, 1870-1903”. Comunicação apresentadaao Congresso da ANPUR, 1985;
Mendonça (1986).
l6 O Decreto nP 24.700, de 12/07/1934 diz em seu artigo 4P: “O Ministbrio da Agricultura, por intcr-
m u i o das Repartições competcntcs e dentro dos scus recursos orçamentirios, prestarii ao Ministerio
da Guerra todo o concurso que o mesmo precisar para o desenvolvimento da lavoura e da criação
de animais domhticos nos núcleos militares e povoaç6es indigenus, fornecendo miiquinas, instru-
mentos e ferramcntas agrkolas, plantas, semcntes e animais reprodutores adequados a cada região,
bem assim (sic) o pessoal tecnico neccssiirio à organização e oricntação dos trabalhos e sua especiali-
dade” Oliveira (1947:145).

74
Mililnrcs, hdios c fronteiras poliricos

justificáveis ...” (Art. 2P. In: Oliveira 1947: 149) pois interessava que os grupos in-
dígenas se mantivessem nas regiões onde se encontravam de forma a povoar os ser-
t&s e guarnecer as fronteiras, prevendo o artigo 6P que o SPI deveria atuar no sentido
de impedir e corrigir ‘‘O pendor para o nomadism0 urbano”. Por outro lado, vale-
ria h pena perguntar em que medida 24 anos de açã0 indigenista servira para acu-
mulação de um certo saber prático sobre os grupos indígenas que desmentia o
simplismo dos pressupostos positivistas.
Expressa-se não só a idéia de terras próprias às sociedades ind&enas, mas tam-
bém a visão de um território ind&ena pretérito e de um cálculo econômico distinto.
Creio que a primeira id6ia poderia ser remetida ao centro mesmo do Regulamento,
isto 6, a de “nacionalização”: 6 bom lembrar que para o discurso protecionista (e
não só a ele) o indio 6 a “origem” da nacionalidade brasileira. Reconhecer-lhes
terras próprias é reconhecer à própria nação o direito ao território que ocupa; na-
cionalizar os indios é assegurar o controle sobre os rincões mais isolados desse ter-
ritório. Da mesma forma esta explicação se aplicaria h idéia de um território anterior
à ocupação presente: é preciso lembrar que não fazia 20 anos dos últimos litígios
em torno das fronteiras internacionais; que as guerras em que o Brasil se envolveu
no século passado fazem parte presente do imaginário militar ainda hoje, determi-
nando uma preocupação tambtm presente com a “guarda das fronteiras”.
A instauração da ditadura getulista traz uma serie de alterações h máquina
burocrático-administrativado Estado brasileiro”, dentre as quais algumas se refe-
rem ao Órgão indigenista.
Assim, o Decreto-Lei nP 1736, de 3/11/1939, subordina o SPI ao Ministdrio
da Agricultura, acentuando
‘‘.. que o problema da profeção aos indios se acha intimamente ligado
a questão de colonizaFão, pois, se trata, no ponto de vista material, de
orientar e interessar os indígenas [sic] no cultivo do solo, para que se
tornem útek ao país e possam colaborar com as populações civilizadas
que se dedicam 3s atividades agrícolas.” (Oliveira 1947: 171). (Grifos
meus).
Deixa-se, pois, o modelo do “guarda-fronteiras” para o do “colono”. De fa-
to, é preciso lembrar que toda a ênfase da retórica estado-novista residia na formulação
da chamada “Marcha para Oeste”’*, na colonização dos sertões, iddia que em si
abarcava a própria visão de controle sobre o espaço territorial brasileiro, notada-
mente de seus limites internacionais, representações produzidas durante a Segunda
Guerra Mundial, quando o controle geopolítico do território ganhava relevo especial.

Sobre isto ver Lima (1980) e Souza, Maria do Carmo Campe10 de. Estudo e Partidos Políticos no
Brasil. %o Paulo, Alfa-dmega, (1976), em particular Capltulo IV.
Sobre o tema ver Velho, Otkio Guilherme. Cupitulimo uutoritdrio e campesinuto. Si0 Paulo, Difel,
(1976); Esterci, Ncide. “O mito da democracia no pafs das bandciras”. Disscrtaçio de mestrado.
Rio de Janeiro, Museu Nacional, (1972) e Lima (1980).

75
MUS. Para. Emílio Goeldi: Coleçdo Eduardo Galvdo, 1991

Em 22de novembro de 1939, o Decreto-Lei nP 1794 cria o Conselho Nacional


de Protqão aos indios, do qual fariam parte representantes do Mweu Nacional,
do Serviço Florestal e do Diretor do SPI, obrigatoriamente, al6m de mais quatro
membros designados pelo Presidente da República com fins de estudar “as ques-
tões que se relacionam com a assistência e proteçã0 aos silvícolas, seus costumes
e línguas.” (Decreto-Lei nP 1.794, de 22/11/1939, Oliveira 1947: 172; Freire 1986).
Havia, sem dúvida, uma ênfase na ação protecionista que ganhava largo espaço
na imprensa naquele período, juntamente com as notícias referentes à penetração
territorial rumo ao Nordeste de Mato Grosso, sobretudo a partir de 1943 com a Ex-
pedição Roncador-Xingu, a qual mais tarde se vincularia à Fundação Brasil Cen-
tral, criada no mesmo ano para realizar primordialmente a colonização de vastas
porções do interior do Centro-Oeste, sua esfera de atuação abrangendo não só Mato
Grosso, mas Goiás, Pará, Maranhão e at6 certas regiões de Minas Gerais. A FBC
e o SPI atuariam conjuntamenteem muitas situações, e muitos quadros da primeira
passariam ao segundo como é o caso dos pr6prios Villas-Boas e de Aires Câmara
Cunha, que mais tarde viria a ser marido da india Diacui.lg
A vinculação entre militares e prospecção mineral, como parte dos expedientes
de controle e vigilância do territbrio, surgiria de forma cristalina no contexto da
“Marcha para Oeste”, no qual o espaço era explicitamente pensado como “objeto
de conquista e exploração”. Castro Faria (1988:8) nos mostra como Cândido Ron-
don, em conferência intitulada Rumo ao Oeste, proferida no DIP, em 3 de setembro
de 1940, fazia a vinculação bastante pragmática entre a prospecção de ouro pela
extinta CLTEMA e as atividades combinadas dos Ministério da Fazenda, Agricul-
tura e Guerra, no envio de uma comissão de engenheiros de minas, concomitante
ao da 4? Companhia do 4P Batalhão Rodoviário, de forma a explorar as jazidas lo-
calizadas nas cabeceiras do Rio Pimenta Bueno, e viabilizar o escoamento da pro-
dução para Cuiabá.
Por outro lado, a criação da FBC era pensada como forma de restituir ao SPI
a dimensão de Localização de Trabalhadores Nacionais, perdida desde 1918 (Freire
1986). As articulações entre FBC, SPI e os aparelhos militares vêm sendo objeto
de pesquisa de Menezes (1987; 1988), mais especificamente em torno da criação
do Parque Indígena do Xingu.
*
Não se tem a intenção de realizar, neste momento, um trabalho global em torno
do trinômio, para o que ficaria faltando uma quantidade considerável de pesquisa em-
pírica. O que foi apresentado ak? agora tem como fbnção mostrar: 1) a profundida- ’

de histórica da vinculação dos termos; 2) que esta vinculação partia da idéia básica
de vir a incorporar o indio como “trabalhador nacional” e/ou “guarda das
~

l9 Lima (1981) e a “Exposição dc Motivos” do Dcpartamcnto Administrativo do Serviço PlIbIico (DASP),


assinada por Luiz Simões Lopes, ao Presidente da Rcpúbl,ica, em Oliveira (1947: 198-204, em parti-
cular pardgrafos 3, 4 c 9).
I

76
Militares. hdios efronteiras polilieas

fronteiras”, mão-de-obra Útil ao projeto de construção da nacionalidade brasileira;


3) que esta incorporação era pensada como tarefa militar, pois esses seriam os bni-
cos atores dotados da disciplinarização necessária para impor ordem aos sertiks;
4)que enquanto tknica e estrat&giaesta incorporação supunha a figura de controle
espacial chamada posto ind&ena, sob suas variadas categorias.
O posto ind&ena (PI) deveria funcionar como um ímã que dispõe em linhas
de força, entre seus pólos, a limalha atd então informe: atravds da oferta de recur-
sos e da proteçã0 contra outros brancos, deveria deslocar a população indígena dos
territórios que ocupava, aglutiná-la em torno de si, impor-lhe uma outra dinâmica,
formando os fatores de produção - terra e trabalho - necessários ao projeto de
ocupação do interior do pais. O PI agia por concentragão e se por um lado contri-
buía para desmantelar a organização de poder nativa, suas formas de articulação
com o brancoz0, por outro impunha novas formas e produzia um novo ser indíge-
na, o indio enquanto tutelado (Lima 1988), muitas vezes fortalecendo as institui-
ções nativas pela sua simples presença.
A figura do posto indigena de fronteira tornava manifesta, também, o fato de
que o PI integrava (e integra) um sistema nacional de vigilância e escansão espacial.
Supunha uma confiança fundamental no processo pedagógico de “nacionalização”
dos indios, tendo como suporte a ideologia de que estes eram os “verdadeiros se-
nhores da terra”, afeitos ao Brasil como que por intuição (Rondon 1949), bem co-
mo a idéia de que as fionteiraspoliticas - quiçá em função do fato de que a ocupação
dos espaços próximos a elas era bastante descontinua, senão inexistente - eram
de certo modo duras: atrair os indios e alocá-los bastaria para guarnecer o “Brasil”
e reservar seus recursos a esse constructo que é a Nação.
*
Em que pese a existência de similitudes no plano do discurso - e da propaganda
intencionalmente veiculada na midia - a discrepância entre a prática protecionista
rondoniana e o novo indigenismo militar, estampado no Projeto Calha Norte, 6
intensa.
O primeiro afastamento reside no plano organizacional: ao contrário do que se
expôs acima “.. . o PCN não possui a estrutura rígida e sistematica de um programa
ou de um plano, nem institui um grupo ou unidade que atue de modo permanente
na sua elaboração ou execução. Trata-se da formulação de um conjunto coerente
de orientações e metas com as quais devem vir a compatibilizar-se todas as iniciati-
vas governamentais voltadas para aquela região” (Oliveira Filho 1988:7),
configurando-se em objeto de sigilo.
Enquanto a prática protecionista se fazia sempre acompanhar de um discurso
de justificação, da glorificação de seus efeitos (via de regra cotejados aos da cate-
quese católica), da produção de um saber eminentemente prático sobre “o que fazer”

2o Para um estudo da implantação da açã0 indigcnista num contexto regional vcr Oliveira Filho (1986).

77
Mus. Para. Emilio Girldi: Cnlecdn Fduardn &lvdo. 1991

com os indios, o PCN C mudo quanto à temática indígena. Apesar de colocada co-
mo central nos textos de apresentação do projeto, ela não t posta em discussão de
modo sistemático dentro dos mesmos.
Em texto recente sobre o PCN, Olivera Filho (1988: 18) procura mostrar que
uma suposta homologia, aparente nos textos de formulação do Projeto, entre FU-
NA1 - como especializada e tecnicamente competente para tratar de indios - e
Forças Armadas - especialistas na defesa nacional -, resulta não apenas engano-
sa, como tambdm numa completa “inversão”, pois “... o que o PCN parece pre-
tender C assegurar a presença nacional, esquecendo-se de garantir a terra ocupada
pelos indios, 6 aumentar o controle sobre os nativos, não elevar os padrões de assis-
tência. ”
Consoante a genealogia que o autor Oliveira Filho (1988:36) retraça para o PCN
- a que o articula aos Grupos Executivos, como o GETAT e o GEBAM, ligados
diretamente ao Conselho de Segurança Nacional - o projeto se basearia “. .. num
modelo de atuação governamental elaborado nos Últimos anos de governo militar,
como uma forma do Poder Central combater a violência no campo, articulando-se
diretamente com os poderes regionais, obtendo suporte político para o chamado ‘pro-
cesso de abertura’, e a estruturaçã0 localizada de agremiações partidárias que ga-
rantem apoio eleitoral ao governo. No intuito de debelar focos de tensão social,
tamMm dialogam diretamente com movimentos reivindicatórios fornecendo solu-
ções t6picas que lhes possibilitem dividir e manipular lideranças. ” (Oliveira Filho
1988:38-39).
Ao contrário do que as palavras, e os temas que estas veiculam (segurança das
fronteiras, viabilização do extrativismo mineral, integraçã0 do indio 21 vi& nacio-
nal, apaziguamento de conflitos) podem fazer pensar, as coisas são bastantes distintas.
O melhor exemplo estaria em como nesse novo indigenismo o poder se exerce-
ri4 sobre indiose ferritdrios.Refiro-me h figura da “colônia indígena”, Cujas impli-
cações parecem se coadunar perfeitamente com o modelo originário do PCN,
expandido hoje para toda a ação indigenista no país.
Sem propor a “emancipação”, a aferição de ‘‘critdrios de indianidade” (logo,
a necessaria perda cultural para o abandono de sua condição de indio), a nova políti-
ca indigenista se concentra na “absorção de novos padrões” culturais, como defini-
dores do “grau de aculturação” (Oliveira Filho 1988: 30-31). Este indice apontaria
- na esmagadora maioria da população nativa do país - para a aplicação da ‘‘colô-
nia indigena”, de resto nada semelhante k chamadas “colônias agrícolas”, referi-
das acima, primeira aproximação interpretativa realizada por alguns “amigos dos
indios’ ’.
De forma oposta 2I do PI (ou da “Area indígena) a “colônia indígena” opera
nä0 uma coneenfra&o, mas a dspersão de um grupo Ctnico ja que ao mesmo tempo
que libera a terra para a exploração econômica, reduz a unidade de demarcação ao
nível da aldeia, e mantCm a fiqão de um território mais amplo, com a instituição

78
Militares. fndios e fronteiras poliricas

das florestas nacionais em torno das quais estariam dispostas as áreas de posse e
exploração unicamente indígenas. Cumpre, portanto, o papel de pôr fim a conflitos
de terra, na medida em que - implantada sempre após intensas pressões e negocia-
ções com lideranças exaustas de reivindicarem a demarcação de seu território -
destrói potencialmente a base étnica de reivindicações sobre as quais, via de regra,
se apóia a movimentação indigena.
Não há nenhum convite à participação dos indios na nacionalidade ou crença
no valor de sua mão-de-obra. Muito pelo contrário: enquanto engenho de alocação
espacial , estratégia de poder, a “colônia indígena”, operando uma quadriculação
mais perfeita do espaço e da população (logo, uma vigilância e um controle muito
mais estreitos) espelha uma visão fundamentalmente desconfiadaquanto 4 presença
ind&ena, em especial nas áreas de fronteirapolitica. No limite, trata-se da certeza
de que a sobrevivência étnica destes povos constitui-se em obstáculo à exploração
intensiva das regiões em que se localizam.
Ter estas questões em mente 6 apenas o ponto de partida para não se seduzir
pelo jogo dos velhos rótulos para novas garrafas.

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82
PARQUE INDÍGENADO XINGU:
UM ESTUDO DAS RELAÇÕES ENTRE
INDIGENISMO E GEOPOLíTICA
Maria Lúcia Pires Meiiezes
RESUhfO - O Parquc do Xingu exeniplifica uma fornia de apropriação de es-
paço pelo Estado. Neste processo, intcrcsses de ordem gcopolítica constitucm-
se numa força significativa de implcmcntaçrio da referida rescrva indígcna. A
instalação de unia basc adrca militar no Parque do Xingu significou, cm decor-
rência, a intcrdição de vasta ilrea do estado de Mato Grosso, legalniente consti-
tuída como parque nacional, nias de fito administrada como territdrio estatal.
Não sd a aviaçrio nacional e internacional incluíram o Parque do Xingu co-
mo área priniordial a seus intcrcsses conio, atravds de alianças com setores do
indigcnisnio ofieial, a adniinistração estatal inscriu a área na realização de inte-
rcsscs niais vastos das Forças Armadas do Brasil.
PALAVRAS-CHAVE: Parque do Xingu, Territ6ri0, Estado, Geopolitica, Re-
serva Indígena.
ABSTRACT - Thc Xingu Indian Parkis an example o f a specific form o f space
appropriation by tlic State. In thcprocess, gcopolitical interests act as a significant
force in iniplcnicnting this rcscrve. The establishment o f a miiitary airbase in
the Xingu National Park significd that large arca o f the state o f Mato Grosso
has bcen forbidden. This arca, Icgally cstablishcd as a National Park, is in fict
adniinistcrcd as a state territory.
Not only the national and intcrnational aviation have included the Xingu
Park as an arca o f foremost importance to thcir interests but, through alliances
with sectors of the official tliouglit on Indian matters, the state administration
has inserted it in the carrying out of the Brazilian Armed Forces amplcr interests.
KEY WORDS: Xingu Indian Park, Territory, State, Geopolitics, Indian Reserve.

INTRODUÇÃO

Em 27/4/52 foi apresentado, no Congresso Nacional, o Anteprojeto de Lei que


dispunha sobre a criaçiio e organizaç50 do Parque Indígena do XinguIPIX. Este An-
teprojeto de Lei encaminhado ao então Vice-presidente da República Dr. João Caft?

Pesquisadora do PETIlMuscu NacionaUUFRJ. Projeto Estudo Sobre Terras Indígenas no Brait. Inva-
sões, Uso do Solo, Recursos Naturais. Mestre em Gcografia pela UFRJ.

83
Mus. Para. EiiiNio Gocldi: Colcçdo Eilriardo Galvdo, 1991

Filho resultou do esforço de promover a criação do primeiro parque indígena no


Brasil, encabeçado por Darcy Ribeiro, chefe da Seção de Estudos do SPI; Heloisa
Alberto Torres - Diretora do Museu Nacional; Claudio Villas Boas - sertanista
t do SPI, e do Brigadeiro Raimundo Vasconcelos Aboim - da FAB, Presidente da
Comissão que elaborou o Anteprojeto de Lei.
Na verdade, os membros da referida comissão constituem elementos engajados
há tempos, na problemática da presença indígena em Areas de expansão da fronteira
econômica do Brasil Central. Em 1946, os irmãos Villas Boas, funcionários da Fun-
dação Brasil Central, integrantes da Expedição Roncador-Xingu, estabelecem, jun-
tamente com o apoio da FAB, duas pistas de pouso, embriões dos primeiros postos
militares do Xingu: Garapu e Sete de Setembro. Em 1947, o Museu Nacional, por
intermédio de sua Diretora H5loísa Alberto Torres, também Conselheira do Conse-
lho Nacional de Proteçá0 aos Indios - CNPI, desenvolve projeto que prevê pesquisa
na região, junto aos indios Kamayurá. Criando o Posto Indígena Capitão Vasconce-
los, os irmãos Villas Boas começaram a dar assistência aos Indios (Freire 1987:9),
sendo designados por Cindido Mariano da Silva Rondon, então presidente do CNPI,
delegados do SPI na área.
A instalação de campos de pouso pela FAB na &reado PIX articula-se com o
projeto da criação de uma rota aérea ligando Rio a Miami, através de pontos de
apoio instalados na área pretendida para o Parque, e uma escala prevista, também,
em Manaus.
A década de 40, portanto, período imediatamente anterior B apresentação do
Anteprojeto de Lei, é um período de grandes transformações na área do Alto Xin-
gu, caracterizado, principalmente, pela intensificação do contato com as frentes de
expansão. Paralelamente, a região de Mato Grosso começa a ser valorizada para
fins de colonização. Mato Grosso, desde a década de 10 apresentava “sinais” de
futuras transformações:
“Havia vontade política de proceder à ocupação dos territórios que es-
tavam sendo mapeados pelas expediçks militares da Comissão Rondon.
Se o Alto Xingu ficou preservado da invasão segingalista, dada a ausên-
cia da matéria prima em suas matas, foi, contudo, alvo dos planos da
Comissiío Rondon. Assim se realizam duas expedições, em 1920 e em
1924” (Franchetto 1987:36)
8, neste momento de intensas transformações, reflexo de um jogo político e
econômico em escala mais ampla, que se desenrolam as lutas pela criação do Par-
que do Xingu.
O histórico da criaçiío do Parque do Xingu traduz-se, B medida em que se apro-
funda seu estudo, num objeto de investigação extremamente rico para avaliar as trans-
formações operadas na referida Area, cujo objetivo de análise é a construção de tal
espaço geográfico entendido como “a forma como se organiza territorialmente a
sociedade, a sua configuração topológica...” (Moreira 1987:176). A organização

84
POrqrV indigena do Xngu: indigenismo e geopo~lica

territorial, neste caso, privilegiará o estudo da atuação de atores e agências do Esta-


do, cuja lünção, no momento, C administrar o deslocamentoe a ocupação espacial
da referida área, cujo ápice se-situa na construção do Parque do Xingu.
O SPI como agênica governamental destinada h proteção dos indios, assume
um lugar específico na andlise da questão, pois s e d atravds do seu procedimento
e de suas posições frente ao Parque do Xingu, que será possível constatar os confli-
tos que irão se dar no seio da estrutura organizacional do Estado.
A instalação do Parque do Xingu, no momento histórico da expansão para o
Centro-Oeste, reveste-se de caso singular no sentido de analisar a fronteira, enquanto
fato público, ou seja, como:
“... a criação da instância política, podendo tanto transformar um

território ocupado em terras livres e passíveis de apropriação mediante


certas condições (o caso dos grupos tribais, p. ex.), quanto instaarar
tipos diferentes de cidadania correspondendoa diferentes elencos de di-
reitos e obrigações”. (Oliveira Fiiho 1979: 112-113).
A disputa que se irá estabelecer entre o SPI e o Estado de Mato Grosso teve
como eixo a questão da formação de um território indígena com limites fechados
‘a expansão e aquisição de terras. Posicionando-se totalmente contrário h criação do
Parque do Xingu, o governo de Mato Grosso promove a titulaçã0 de terras em prol
de empresas colonizadoras ,do sul do país. A reação 6 tiio intensa que se processa
numa total situação de ilegalidade. Por exemplo: a venda de um mesmo lote a VA-
rios requerentes e a venda de Breas de mais de 10.000 ha, “contrariando, com isso,
outro dispositivo constitucional que proibe a entrega de glebas de tais dimensões
a particulares sem pr6via autorização do Senado Federal”. (Oliveira 1978:69).
. Neste contexto, a região do Xingu valoriza-se rapidamente, suas terras
transformam-se em mercadoria de grande valor no mercado de compra e venda re-
gional.
A estreita cooperação SPIIFAB nos remete a analisar a questão índios/milita-
res, historicamente sempre presente,a um ângulo geopolítico. Tomar o Parque do
Xingu a partir de sua situação locacional, portanto topológica, remete h considera-
ção de conceitos, permanentemente expressos na ordem militar: estratdgia e posi-
ção. Tal conduzir4 ao estudo da posição estrategica do Parque do Xingu.
A Cooperação SPI/FAB aponta para a situação do indio e das terras indígenas
na jurisprudênia brasileira e de sua importância estraegica em área de fronteira.
A tAtica utilizada por ambos os Órgãos, mesmo que com discursos diferentes, revela
um sentido de controle/administraçãodos processos desencadeados na área. Ao SPI
cabe a manutenção e a viabilização do provimento do Parque como estabelecer a
’ presença da ordem, na figura da base &rea”, que conseqüentemente, implicaria
o controle do território do Parque. Ordem, aqui expressa, no sentido topológico
da hierarquia dos lugares, da ordem tópica (Moreira 1987).

85
Mus, Para. Entilio Godili: Colcç~ZoEduardo Gnlw?o. 1991

Na lógica da expansão capitalista em keas de fronteira, o Parque do Xingu emer-


ge como forma de alocar os grupos indígenas. O papel do indigenismo oficial, atra-
vés da prática estabelecida dentro do Parque foi o de apontar, ainda que com muitas
mediações, para a formação de um canipesinato indígena, através das ações de atra-
Fã0 e pacificaçiTo.
Lima (1987:70) destaca o Decreto 52.339 de 8/8/63 - Cap. XX ReguZamento
do Ministério da Agricultura - que definia o SPI como 6rgHo executivo das ativi-
dades de proteçã0 e de assistência aos indios, visando a sua integraçá0 na socieda-
de. Teria, portanto, como tarefas: demarcar e localizar a posse das terras habitadas .
pelos indios, executando trabalhos de aproveitamento econômio das terras indíge-
nas, aplicar normas para valorização do patrimônio indígena e proceder ao registro
contábil do patrini8nio indígena, bem como da renda proveniente do trabalho in-
dígena.
Ao sedentarizar os grupos tribais, o indigenismo oficial promove a desarticula-
ção e a subordinação de uni grupo populacional, cuja conseqüência imediata é, pau-
latinamente, reverter-se numa classe destituída dos meios de subsistência. No caso,
de grupodáreas sujeitas à assistência direta do 6rgão protetor, o projeto que per-
meava sua ação era transformar o indio em produto tutelado, assentado em área de
sua posse, porém cuja propriedade é da União.
Para dizer de outra forma, a ação do SPI e da FAB impõe uma reordenação
intra e extra limites do território xinguano. Estabelece-se, assim, uma descontinui-
dade entre este espaço e todo aquele de competência estatal, qual seja, aquele cir-
cunscrito pelos políticos do país (Alies 1980:13): no plano interno, processa-se à
constituição da “geografia” do Xingu atual, sob a competência primordialmente
do órgão de proteçiío oficial. Em relação ao resto do território nacional, o Parque
do Xingu distinguir-se-ia como a maior porção de terra de propriedade do Estado,
a bem dizer como o maior territdrio estatal.

A IMPLANTAÇXO DA AVIAÇAO BRASILEIRA E A CRIAÇÃO DO PARQUE


DO XINGU

Para melhor compreendermos o objetivo da pesquisa, faz-se necessário o relato


histórico da utilização, por parte do poder militar, da área reservada ao Parque do
Xingu e dos grupos indígenas, na montagem da infra-estrutura de apoio ao desen-
volvimento da Aviaçiío Brasileira. Tal significa operar com um território dentro da
perspectiva logística e estratégica, função exercida pelo Parque do Xingu desde que
instalado o campo de pouso do Jacaré que, mais tarde, como base da FAB, assunii-
ria de fato a função acima citada, isto é, de uma importante base de apoio às rotas
aéreas.
Antes, porkm, é preciso relatar como se d6 a inscrição da Base do Jacaré no
desenvolvimento das rotas aéreas para o norte do país.
Em 1941 é criado o Ministério da Aeronáutica. O desenrolar da II Guerra

86
Parque i n d i g e ~do Xingu: indigenism0 e geopollrica

Mundial coloca o Brasil numa posição estratkgica em relação hs rotas atreas alter-
nativas de alcance ao continente europeu. A criação do Ministdrio da Aeronáutica
faz parke de um acordo firmado entre o governo norte-americano e brasileiro que
previa o aparelhamento de um? rota airea que, passando pelo norte e nordeste do
Brasil, permitisse alcançar a Africa. A autorização dada pelo Governo Brasileiro
a Panair do Brasil
“.. .
. na realidade, o fora ao governo norte americano.. na Bpoca (a Pa-
nair era) uma subsidiária da Pan American, controlada pelos cofres pú-
blicos dos Estados Unidos.. . Em muitos casos ela agia como se fora um
Estado soberano...” (Duarte s.d. 133).
AlCm de instalar rotas adreas, formaram-se quadros de pessoal treinados nos
EUA, assim como aquisição de aviões de treinamento, aparelhamentodos aeropor-
tos para operar com grandes aeronaves e a instalação de campos de pouso como
bases auxiliares na condução da guerra z.
O Decreto-lei ri? 2.961 de 20 de janeiro de 1941que’criou o MinistCrio da Ae-
ronautica prescrevia que todo o corpo militar da Arma de Aeronáutica, do ExCrcito
e do Corpo da Aviação Naval, inclusive as respectivas reservas, passavam a consti-
tuir uma corporação única, subordinada ao Ministdrio da Aeronáutica com a deno-
minação de Forças ACreas Nacionais, depois mudada para Força Aérea Brasileira
(FAB) pelo Decreto nP 3.302 de 22 de maio de 1941.
A incipiente atuação da aviação brasileira na guerra e a necessidade de apare-
lhamento do territdrio brasileiro levou a um novo acordo entre o Miniserio da Ae-
ronáutica e a American Air Force (A.A.F.) em 1946. O acordo previa a precisão
de localização de pontos e acidentes geograficos com bases em fotografias adreas.
O levantamento cartográfico e o posterior mapeamento ficará a cargo do Conselho
Nacional de Geografia (CNG) que, na 7? Sessão Ordinária da AssemblCia Geral,
aprovara a Resolução n? 208 de 26/07/46 estabelecendo a triagem de fotografias
adreas do território em regime de cooperação com a A.A.F.
Por legislação, a coordenação das atividades cartográficas no Brasil estava su-
bordinada ao CNG e ao Setor Geografico do ExCrcito. A centralização destas ativi-
dades nos dois 6rgãos supracitados gera uma superposição de comando da prática
cartográfica em relação 21 elaboração da “Comissão da Carta de Mato Grosso e Re-
gi&s Circunvizinhas” sob a coordenação de Cândido Rondon e de Jaguaribe de
Matos 4. A situação C contornada por carta enviada pelo Secretário Geral do IBGE,

O melhor exemplo foi a Base de Natal que, durante a guerra, tornou-se a base fundamental da rede
de scgurança dc d c h a do hcmisftrio, na A d r i a do Sul. TamMm desempenhouo papel de trampolim
para o envio dc pcssoal e material para Breas em conflito de guerra (s.d.: 320-21).
Segundo Meircllcs (1960:155) as fotografm feitas pela A.A.F. foram casualmente descobertas nos
arquivos da Socicdodc dc Gcogmfia pelo cngenheiroda Fundaçä0 Brasil Central, Frederico Hoepken.
Chefe do Serviço dc ConclusrSo da Carta de Mato Grosso. Foi respodvel, tamum, pela elaboração
de um mapa sobrc a proviívcl kea a ser reservada para o Parque do Xingu, extddo da Carta de Mato
Grosso.

87
Mus. Para. Eniilio Goclili: Colqno Eduardo Gal~do.1991

Teixeira de Freitas, que diplomaticamente afirmou não poder prestar cooperação


a Candido Rondon, j i que o levantamento para a confecção da “Carta Geral do
Brasil” era prioridade naquele momento (Museu.. . Filme 354 fotog. 51-54).
Para consecução de tais tarefas foi acionada a Fundação Brasil Central, no sen-
tido de incluir em seus objetivos a construção de campos de pouso e a cooperação
no reconhecimento das áreas de atuação do Órgão com o Ministério da Aeronáutica.
A posse do Gal. Borges Fortes de Oliveira, em setembro de 1948, na presidência
da FEC, tinha como objetivo viabilizar o direcionamento e a administração da insti-
tuição para o aparelhamento das rotas aéreas com base em levantamentos aerofoto-
gramétricos.
Orlando Villas Boas sintetizaria o momento da seguinte forma:
“A Expediçiio Roncador Xingu ficara sem objetivo, quando ‘morreu’
a idéia de fundar núcleos de povoamento. Então o Brigadeiro Eduardo
Gomes e o General Borges Fortes de Oliveira resolveram dar à ERX
uma ‘missiio mais iinportante’: a abertura de campos de pouso para se-
gurança de vôo”. (Villas Boas 1985).
Na vanguarda da empreitada jri se encontrava o engenheiro da ”C Frederico
Hoepken, que vinha realizando voos de estudo na região norte de Mato Grosso.
Um novo mapa da região entre os rios Xingu e Teles Pires C por ele organizado,
por ordem do Ministro da Aeronáutica, Major Brigadeiro Trompovsky. O mapa
registrava algumas alterações sobre a localização da foz do rio Manitsuá-Missu e
das condições de orientação e características naturais da região em relação ao rio
Teles Pires. O mapa servia também de guia para o avanço da ERX que “poder8
caminhar rio acima (Manitsuá-Missu) até este se virar para o sul, tendo então que
atravessar por picada apenas cerca de 50 Km, para alcançar o rio Teles Pires’ (Mu-
seu.. . Filme 302. Fotog. 234-240).
O levantamento feito pelo engenheiro Hoepken induz a uma série de alterações
nas cartas da A.A.F. Tais alterações são notificadas ao, então, Diretor de Rotas
Aéreas do Ministério da Aeronáutica, Brigadeiro Eduardo Gomes. Este, por sua
vez, notifica as alterações ao Sr. MacMillan pesquisador da Universidade de Yale
e do Ministério do Ar Bridnico. MacMillan fizera várias visitas ao Brasil por força
do convênio do país com a A.A.F. Em sua última viagem ao pai’s, esteve em Xa-
vantina e na seçiío de Cartografia do CNG, de onde obtivera informações sobre o
levantamento aerofotogrifico. Tais informações são repassadas ao presidente da FBC
com sugestões acerca da determinação de coordenadas geográficas de pontos que
servissem de referencia1 às fotografias já tiradas. Desses pontos deveriam ser tira-
das as coordenadas no ar e no chão com o uso de um sextante de bolha “R.A.F.
Mark IX A” (Museu ... Filme 302 fotog. 297-302).
O pesquisador dispõe-se a colaborar e sugere uma reunião com um represen-
tante do CNG e outro do Ministério da Aeronáutica, além da FBC para explicar
os métodos que pretendia empregar. Anexa à carta uma lista de vários rumos e

88
Parque indrgcna do Xingu: indigenism0 e geopdtica

distâncias no Brasil Central que pede seja entregue ao engenheiro Frederico Hoep
ken e a Orlando Villas Boas s.
Em meados de 1949 realizou-se uma expedição aeroniiutica ao Brasil Central.
Esta expedição era chefiada pelo, então, Diretor de Material da Aerondutica Ray-
mundo Vasconcelos Aboim, tamb6m Conselheiro da FBC. Aboim convida a im-
prensa. “Da opiniiio dos jornalistas muito depende o bom andamento dos trabalhos
de desbravamento do Brasil Central” (O Cruzeiro 1949). TamUm seguem junto
h comitiva deputados 6, mddicos, engenheiros e altas patentes das Forças Armadas.
O objetivo dessa expedição 6 muito mais veicular e obter apoio politico para o pro-
jeto da rota aCrea Rio-Miami, do que proceder a levantamentos &nicos. A expedi-
ção teve ampla cobertura dos Didrios Associados de Assis Chateaubriand, especial
convidado de Aboim para o evento, que se constitui, tamMm, num preparatório
das atividades que se seguiriam para alcançar a implantação da rota drea.
A questão que se apresenta, naquele momento, era a determinação correta da
linha direta Xingu-Manaus. De posse das sugestões apontadas por MacMillan e dos
vôos e fotografias tiradas por Hoepken, a FBC e o Ministdrio da Aeroniiutica deci-
dem desmembrar a Expedição Roncador-Xingu. Uma frente seguiria rumo h Cole-
toria (PA) as margens do Tapajós, sob o comando de Hoepken. A outra foi liderada
por Orlando Villas Boas em direção fr Serra do Cachimbo. Ambos, com objetiios
de instalar campos de pouso que serviriam de base a futuras instalações de aeropor-
tos para o apoio da rota aCrea para Manaus (Coletoria) e Belem (Cachimbo). Alem
do mais, a distância considerável entre o rio Xingu e o rio Tapajós aconselhava a
construção de um aeroporto intermedidrio que seria o de Cachimbo. A localização
do aeroporto na Serra de Cachimbo obedeceu aos seguintes criterios:
.
a). .divisor de dguas de vários tributArios do rio Xingu e Tapajós, situava-
se, praticamente, sob a rota em abertura e, aproximadamente a meia
disdncia entre o campo do Jacard (Xingu) e o campo General Dutra
(Tapajós). . .
b) alem disso, ela eliminava, acima de certas cotas, quaisquer riscos de
inundação, mesmo nas maiores enchentes, o que não ocorria com mui-
tas outras zonas circunvizinhas tambdm relativamente elevadas;
c) e, finalmente, sua cobertua floristica, escassissima em viirios pontos
e constituída principalmente de cerrados, o que, em comparação hs ma-
tas seculares que a circundam, representava considerdvel vantagem, tanto
em face das exigências tCcnicas da navegação aerea como em face dos
trabalhos de deslocamento, terraplanagem e consolidação da pista em
...
projeto (Meireles 1960:158).

Coordenadas gcogrificcas tiradas por Mac Millan em julho de 1950 que serviriam de base para o avan-
ço da expediçio: confluência rio das Mortes com Araguaia; Diauarum; l? Cachoeira do rio Xingu;
2? Cachoeira do rio Xingu; confluência Sus-Missu-Xingu (Museu... Filme 302 Fotog. 340-345)
fi Entre os deputados estavam Juracy Magalhães e João Caf6 Filho. Presente. tamb6m, o Gal. Borges
Fortes de Oliveira, Prcsidcnte FBC e o &l. Lurival Seroa da Mota, do Estado Maior do Ex6rcit0,
entre outros.

89
Mus. Para. Emilio Goclli: Colccao Eduardo Galvdo, 1991

No Tapajós, o campo General Dutra (Jacareacanga), assim que instalado o ae-


roporto, teria a função de servir de entroncamento para as rotas Miami-Manaus-Rio
e Dakar-Recife-Lima.
A expedição para Serra do Cachimbo não pôde ser realizada por via terrestre.
O plano era subir o rio Manitsuá-Missu aG as cabeceiras, chegar ao Peixoto de Aze-
vedo e galgar a serra. Porém, a presença dos Kreen-Akore, atocaiando-se e hostili-
zando a expedição, inviabilizou o projeto. Seguiram os irmãos Villas Boas junto
com indios de aviso para a serra onde, após fazer uma aterrissagem forçada, per-
maneceram por 180 dias isolados trabalhando na construção do campo de pouso.
No retorno a Xavantina, Orlando Villas Boas escreve a Rondon relatando fatos
da expedição. Durante a jornada Villas Boas, ajudado por indios Kaiaby identifica-
ria um grupo indígena que estes denominaram de ManitsuB. Relata, tambtm, as
constantes investidas dos Kayapó contra seringueiros no alto Tapajós. Villas Boas
chama a atenção de Crindido Rondon para a extensa área percorrida pelos Kayapó
e pede a intervenção rápida e urgente do SPI na área.
É importante chamar a atenção acerca da utilização feita por diversos agentes
de contato em relação ao domínio territorial que os indios possuíam. Quando da
abertura do campo do Jacaré e da criação do Posto Diauarum no Alto Xingu.
“Orlando Villas Boas e seus irmãos foram vuliosíssimos por terem o
dorn natriml de travar ... relações amistosas e conseguiram obter assim,
em vez de serem hostilizados, os preciosos coiuelhos indígenas sobre
os lugares onde poderiam ser estabelecidos campos de aviação.. . (Hoep-
ken, 1950:85) (Grifos meus).
Da mesma forma, por indicação dos Juruna e SUYA,estabeleceram o Posto Diaua-
rum. O que faz Villas Boas na realidade, ?i operar com a mesma lógica dos indios,
quanto 2i questão territorial. Por isso, chama a atenção de Cândido Rondon para
o extenso território dominado pelos Kayapó e sua constante preocupação em trazê-
los para dentro do Parque do Xingu.
A lógica do domínio territorial faz com que o avião seja usado para romper
este poder sobre o espaço. Assim como os Kreen-Akrore impediram a chegada a
Cachimbo por via terrestre, aos Xavante, Hoepken imputa a necessidade do uso do
avião, quando do avanço da Expedição Roncador Xingu ao rio Kuluene (Hoepken
1950:84), já que estes dominavam a região do rio das Mortes.
A associação índio-avião transforma-se, na via institucional, num acordo infor-
mal firmado entre FAI3 e SPI (Conselho 1954: 37-39), no qual o SPI propõe-se a
construir campos de pouso em postos indígenas, especialmente os postos do centro-
norte do país e nos Postos de Vigilância de Fronteira. Altm dos campos de aviação
o SPI propunha a instalaç50 de estações rádio-telegráficas em todos os postos de
fronteira.
Ao SPI interessava suprir com transporte e comunicação rápida, principalmente

90
Parque ìndtgena do Xingu: i d g e n ì s m e geoplirìca

nas Breas de difícil acesso, altm do controle mais eficaz que o rBdio transmissor
traria 2s regiks de fronteira.
Mas as.re1açije.sSPI/FAB começam a ficar tensas, quando no Alto Xingu a pre-
sença dos militares e do avião passa a interferir nos seus interesses. fi atravds do
avião que chegam os demarcadores de terras a area reservada para o Parque do Xin-
gu. A informação de Orlando Villas Boas de que agrimensores estavam hospedados
na base do Jacart leva Darcy Ribeiro, então chefe da Sqão de Estudos do SPI, a
se manifestar junto 21 direçã0 do SPI pedindo providências para a
“...grave questão dos contatos indiscriminadosentre o pessoal das ba-
ses da F.B.C. e da F.A.B ...
Da primeira partiu recentemente a epidemia de sarampo.
(...I
Finalmente, faz-se necessario advertir o CNPI dos perigos que pesam
sobre os indios Xinguanos em virtude da forma de funcionamento da
base da FAB instalada naquela Brea e solicitar Aquele drgão o estudo
das medidas mais convenientes para fazer frente a esta situação” (Bra-
sil 1955).
O uso do Parque do Xingu por parte da FAB foi mediatizado por Orlando Vil-
las Boas. O relacionamento deste quando na chefia da expedição, e a construção
do campo na Serra do Cachimbo, resultaram na sua interferência junto ao Ministd-
rio da Aerondutica, pressionando para que este passe a atuar diretamente sobre os
campos de pouso construidos pela FBC Tal atitude nasce da oposição aos atos do
Presidente da FBC, Arquimedes Pereira Lima, que determinou o fechamento dos
campos de pouso no Alto Xingu, inclusive Cachimbo. Esta medida do Presidente
da FBC buscava impedir a criação do Parque do Xingu e conseqüentemente evitar
o controle da Brea por parte do SPI. Pereira Lima, em aliança com o governo de
Mato Grosso, geria a FBC com o objetivo de facilitar os contratos de colonização
e a concessão de terras na Area.
Com a administraç80 dos campos de pouso entregue exclusivamente FAB,
a primeira conseqüência 6 o melhor aparelhamento da Base do Jacare no Parque
do Xingu. Reforçando a aliança de Villas Boas com a FAB, quando da criação do
Parque do Xingu em 1961 e tendo se tornado o seu primeiro administrador, fran-
queia a base do Jacart ao Curso de Operaç%s Especiais (COE) das Forças Arma-
das. O COE realiza no Alto Xingu “adestramento de tdcnicas de ação militar de
tipo não convencional” (Museu 1961). A imprensa logo notifica o fato, denuncian-
do o “aliciamento de indígenas para ações de guerrilhas, treinamento dos indios
no manejo de armas, ...,na construção de pistas, marchas atraves de várzeas e da
selva e evacuação do ar sobre a base do Xingu” (Correio da Manhã 1961).

Villas Boas introduziu tambbm, no Parque do Xingu, o treinamento de paraquedistas do PARASAR.


Convidado para duas confcrhcias na Escola de Cadetes de Agulhas Negras franqueou a ida de solda-
dos desta escola e da Escola de Pjrassununga do Ministirio da Aeronautica. Da exper2ncia do PA-
RASAR advcio o trcinmcnto do Batalhäo de Selvas da Amazbnia (Villas Boas 1985: depoimento).

91
Mus. Para. Eniílio Gocltli: Colqao Eduardo Gulvdo, 1991

Uma comissão de antropólogos redige um documento ao Ministro da Agricul-


tura repudiando o ato e protestando contra a “omissão confortável e burocrAtica
do SPI” (Museu Nacional 1961). O grupo signatário do documento invoca o respei-
to às crenças, 2s terras dos indios e 2i sua maneira de viver, que SÓ deve mudar de
forma lenta e gradual, invocando a legislação brasileira que coloca o indio sob tute-
la direta do Estado.
O cargo supracitado é o resultado de um processo que se vinha esboçando e
foi, no caso do Parque do Xingu, tornado prAtica corrente: o uso das terras dos ín-
dios, tutelados do Estado, por parte de diferentes aparelhos de estado cada um com
seu objetivo, uso e formas especificas na apropriação do território.
Disto resulta a construção de um território estratdgico e logistic0 ao Estado,
que irá propiciar e mediar este uso de acordo com os interesses dominantes, atrav6s
de diferentes mecanismos que usam a apropriação e a gerência do espaço de forma
exclusiva. O Parque do Xingu serviu, portanto, como território livre em que o Esta-
do pôde exercer sua função de mediador entre “as determinaçõesinternas e o espa-
ço nacional” (Becker 1982:231).
A estratégia de incorporação da área revela o jogo de intenções e atrações, por
parte das diferentes agências estatais, bastante complexas, em que se articulam um
discurso e uma prática geopolíticos, sobre os quais o raciocínio geográfico deve sa-
ber pensar a complexidade dos fenômenos políticos.
A presença de diferentes agentes de contato junto aos grupos xinguanos e ao
espaço geográfico denominado Alto Xingu desencadeou um processo de tradução
e transformação das formas espaciais que teve nos sistemas informacionais vetores
importantes na composição de uma imagem xinguana para a Nação.

A CRIAÇÃO DO PARQUE DO XINGU E O SENTIDO ESTRATÉGICO DAS


TERRAS DOS ÍNDIOS

Com a proposta de criação do Parque do Xingu, um novo tempo e um novo


espaço se esboça na questão das terras indígenas e militares. A década de 50 marca
para o Xingu, a luta por sua criação e a presença de base militar da FAB, juntamen-
te com o SPI assistindo os grupos e controlando a área. O período marca para os
militares a sedimentaçãode uma elite que prenunciaria a tomada de poder em 1964.
Período de gestação da Doutrina de Segurança Nacional (DSN).
“Na verdade trata-se da ação política de uma geração de oficiais oriun-
dos do Tenentismo, passando pela Revolução de 30 e o Estado Novo.. .
De formação política ideológica bem caracterizada, inspirada na Geo-
política, esta geraçio desempenhou um papel extremamenteimportante
no desenvolvimento das instituições brasileiras nos anos 50 aos nossos
dias ...” (Oliveira 1987:64).
Soberania e Segurança Nacional são conceitos gestados para garantir a integridade

92
Parque indfgena do Xingu: indigenism0 e geopalítica

física do territdrio brasileiro e o bem-estar da população, “contendo uma atifude


de tutela sobre a vida política nacional” (Oliveira 1987: 63).
.
“Reservar uma Area testemunho, representativa do Brasil Prístino.. assegurar
as suas populações as terras de que necessitava”’ (Conselho 1954: 103) compikm
a justificação do Anteprojeto de Lei que dispik sobre a criação do Parque Indígena
do Xingu. Pordm, no plano da ação, o Parque do Xingu revela, espacialmente, o
amAlgama da atuação das diferentes agências estatais.
No caso do Xingu, hi4 de se sinalizar a ausência de conflitos entre os grupos
tribais localizados no alto curso do rio e a proposta de criação do Parque, assim
como as lutas que se desenrolam em torno da implementaçã0 oficial da reserva indi-
gena, não envolvem nem são reivindicações dos grupos indígenas habitantes da Area.
A ausência de conflitos envolvendo os indios da Area, superdimensiona o papel
do Estado nas lutas que se vão travar no seu interior pela criação do Xingu. Como
por exemplo, a reação contraria do governo de Mato Grosso, assim como da Fun-
dação Brasil Central e o apoio e a defesa por parte do SPI, da FAB e do Museu
Nacional.
A extensão territorial pretendida para o Parque 6 o alvo principal para defesa
e ataque B sua criação. O Xingu emerge como a primeira proposta de criação de
uma reserva territorial de grande extensão subordinada B União, envolvendo gru-
pos indígenas.
O Parque do Xingu insere-se, portanto, no momento em que o Estado produz
transformações estruturais na região, reorganizando as relações sociais de produ-
ção, em função do suporte espacial (ex: malha de transportes, bases dreas, etc).
Este espaço produzido 15 tambdm um espaço produtor (Lefebvre s.d.: 270). O Par-
que do Xingu constitui-se como um monumento, uma vitrine, onde se espelha orgu-
lhosamente o indigenismo oficial. Produz pesquisas, serve de base a6rea e campo
de pouso, mobiliza a imprensa: vende jornais e revistas. Enfim, um espuço ÚtiL (Fou-
cault 1987: 132).
O Parque do Xingu pode, tambdm, ser tomado como paradigma no tocante h
institucionalização das terras indígenas. Na verdade, constitui-se como prentincio
de uma situação limite envolvendo a sobrevivênciados grupos tribais no Brasil. O
fracasso do projeto de integraçã0 do indio na sociedade nacional como trabalhador
nos moldes assimilacionistas proposto pelo SPI, não exclui, no entanto, a tendência
da criação de um campesinato indígena, dentro de uma “mentalidade empresarial”
dominante no SPI no final da decada de 50 ao tentar transformar postos indígenas
em unidades auto-suficientes e pela arrecadação da renda indígena.
O modelo “isolacionista” do Parque do Xingu desponta como exemplo da luta
institucional-jurídica para legalização da integridade territorial, que esboça uma das
formas de luta pela sobrevivência do grupo indígena e de sua identidade 6tnica. Co-
mo relata Lima (198756):

93
Mus. Pam. Etiiilio Gi~clli:Colqdo Eduurdo Gnlv&o. 1991

“Mas, 8, sobretudo, para a temática das terras indígenas que o ano de


1950 traz novidades significativas... muitas das noções que viriam a,
na dCcada de 60 e posteriormente, se cristalizar em legislação”.
Neste momento, a preocupação do Órgão C como agir frente à ofensiva do po-
voamento das áreas de fronteira, por diversos segmentos da sociedade nacional. Fa-
zendo um paralelo coin a situapio atual, o Projeto Calha Norte impede a demarcação
de terras indígenas em áreas de fronteira política reservando uma faixa de terras
contínua ao limite político para gestão exclusiva dos militares, em prol da defesa
da soberania nacional. A questão territorializaçãol desterritorialização dos grupos
indígenas torna-se cada vez mais emergente.
No Anteprojeto de Lei, o Parque Xingu foi proposto, enquanto Parque Indíge-
na - figura jurídica inexistente no Direito nacional. O Decreto 50.455/61 cria o
Parque Nucioiinl do Xingu, com área infinitamente menor do que a proposta em
1952. Como parque nacional, o Xingu fica subordinado diretamente 21 Presidência
da República, suas terras, flora e fauna sujeitas ao regime especial do C6digo flo-
restal. Diz o Art. 3-0:
“O Ministério de Agricultura, o Ministério da Guerra e o Ministdrio
da Aeronáutica, com a cooperação da Fundação Brasil Central, promo-
verão oportunamente os estudos, levantamentos aerofotogramétricos da
área do Parque, bem como a descrição minuciosa de sua linha perimd-
trica e conseqüente demarcação, com determinação rigorosa do polígo-
,no” (Decreto 50.455/6 I).
O envolvimento dos três ministdrios supra-citados diz respeito à delimitação
e 3 demarcação do Parque Nacional do Xingu, ou seja, a localização precisa com
demarcação de uma figura jurídica que se assenta sobre base territorial. A presença
do Ministério do Exircito relaciona-se com a questão do levantamento topográfico,
que será posteriormente transformado em convênio celebrado entre a FUNAI e o
Ministdrio do Exército, atravds da Diretoria de Serviço Geográfico (DSG) visando
3 “mútua cooperação na execução de trabalhos técnicos cartográficos elou topográ-
ficos com fins de demarcação de terras indígenas” (Oliveira Filho & Almeida
198531).
A descrição do polígono que forma a área pertencente ao Parque Nacional do
Xingu contida no decreto de sua criação, C extremamente vaga, impedindo mesmo
sua representação em mapas, mesmo os de escalas que permitem um maior detalha-
mento da área representada. O mesmo acontece na descrição de outros parques na-
cionais. Tive oportunidade deFonstatar tal imprecisão dos limites destas áreas ao
participar do Eiieontro Sobre Arem Especiais e Dados Censitáriospromovido pelo
lBGE em janeiro de 1988, quando o DECAR (Departamentode Cartografia) acusava,
numa carta do Atlas Brasil ao Milion&simo,a impossibilidade de cartografar a área
de uma determinada reserva florestal devido à imprecisão dos limites da área ex-
pressos no decreto de sua criação.

94
Parque indígena do Xingu: indigenisme geopolllica

Na Carta Brasil ao Milionésimo aparece indicado o topônimo Parque Indígena


do Xingu, mas seus limites não estão assinalados M carta. O desenvolvimento da
Cartografia e da Topografia no ExCrcito, e a ausência do mapeamento das Areas
indígenas nos mapas produzidos, at4 então, pelo IBGE, apontam para o dominio
e o controle privilegiado do Exkrcito sobre tais Breas e para o desconhecimentodo
grande público, at6 mesmos, dos 6rgãos governamentais, da existência e da locali-
zação das Areas indígenas no Brasil.
Especialmente em Breas de expansão da fronteira consideradas a d pouco tem-
po como keas de vazio dentogrdfco a representação cartogrlfica privilegia os “ele-
mentos do quadro natural”. Tal procedimento não estA atrelado somente B construção
ideológica das Breas (anecúmenas) pela sociedade nacional, mas tamb6m se atrela
a privilegiar o levantamento cartogrAfico e aerofotogramktricodos recursos natu-
rais (Projeto RADAM), ou, mesmo, apoiar-se teoricamente no conceito de paisa-
gem natural 8.
Desta forma, constituiu-se o Parque Nacional do Xingu, no fechamento do ter-
ritório das tribos que o habitam, na primeira reserva territorial de grandes propor-
ções instituída legalmente pelo Estado (não como unidade administrativa, mas como
unidade juridicoipolítica), a ele sendo diretamente subordinada, caracterizando-se,
portanto, uma intervenção estatal direta sobre uma determinada &ea do país, estan-
do esta sob seu jugo e controle direto. Tal situação perdurou atd 1967 com a criação
da FUNAI.
Note-se que, somente em 1975 pela Portaria n? 255/N da FUNAI, normatiza-
se a questão dos limites, quando:
“... se estabelece uma Comissão Permanente, composta por um enge-
nheiro agrimensor ou topógrafo, um antropólogo e um engenheiro agra-
nomo, com o fim de realizar a ‘...definição de limites’ ..., isto 6, de
estabelecer fronteiras claramente discriminadas e fechadas para os gru-
pos indígenas. ..” (Lima 1987: 12).
O Estatuto do indio - Lei nP 6001/73, tem como princípio primeiro regular
a situação jurídica dos indios. Nessa lei, finalmente, criou-se a figura jurídica do
Parque Indígena: “6 a Brea contida em terra na posse de indios, cujo grau de inte-
gração permita assistência econômica, educacional e sanitdria dos 6rgãos da União,
em que se preservem as reservas de flora e fauna e as belezas naturais da região”
(Cap. III - Art. 28, Cunha 1987: 224).
O pr6-requisito para constituição do parque indígena, 6 estar o grupo j B inte-
grado, de modo que permita um contato direto atravCs da assistência dos Órgãos
da União, ou seja, a praxis da tutela.

8 Paisagem natural ou meio naturd contram-se em geografia ao meio social OU cu~tura~. A mmtruçäo
ideol6gica do mcio natural pressupõe a caracterktica de uma Brea ainda não modificada, por via da
paisagem, pelo homcm (Moreira 1988:23).

95
Mus. Para. Eniilio Gocldi: Colcqdo Eduardo Gulrrlo. 1991

Porém, somente ein 1978 - Decreto nP 82.263, a Presidência da República


dispõe sobre a nova denominação do Xingu e do Parque de Tumucumaque, ambos
na qualificaçiío parque indígena.

CONSIDERAÇÖES FINAIS

Os grupos indígenas, junto aos quais o Órgão indigenista oficial atuou, foram
pacientes de uma relaçlo de dominação. Relação esta expressa no nível ideológico
e no nível da açã0 (tática), produto das relações sócio-políticas desencadeadas e as-
sentadas numa matriz militar.
Demarcar territhrios indígenas significa invadir estes territórios, ou então, criar
territórios. Isto é: alocar grupos, sedentarizá-los, dar-lhes um lugar que possa ser
locdjzdvel e, portanto, controlado.
A criação do Parque Indígena do Xingu assume para os seus defensores a cons-
trução de um território, cuja função seria a de estado-tampão, expressa claramente
no Anteprojeto de Lei, amortecedor dos choques de contato e disputa para com o
avanço da ocupação destas Areas, por parte da sociedade nacional. Para Lord Cur-
zon a criação de estados-tampão substituiria as chamadasfionteiras de tensão (Mei-
ra Mattos 1979).
A ofensiva das ondas migratórias para Mato Grosso a partir da ddcada de 30,
provoca uma nova ordenação espacial.
i
,“Verifica-se, pois, que a configuração geogrhfica deste processo histó-
rico de desbravaniento vem se realizando em termos de uma compres-
são de forças que - com seus vetores convergindo para o centro do
país - ameaçam levar os grupos indígenas lá existentes a um gradativo
desalojamento” (Oliveira 1955: 176).
A análise dos discursos referentes à criação do Parque do Xingu, oriunda do
indigenismo oficial, está eivada de noçBes e conceitos geopolíticos. Tal como os
supracitados estado-tampão, compressão, forças, desalojamento, etc.
A instalação de postos indígenas dentro da área do parque foi, segundo relata
Bastos (1986), primordialmente localizada a partir das áreas que se ofereciam mais
favoráveis 2 instalaçiío de campos de pouso e à instalação da Base Aérea da FAB,
em 1946. Tal prática supõe-se ter tido um peso considerável na reordenação interna
da área xinguana. A partir de uma abordagem dos dom’nios lingüísticos e geopolíti-
cos, proceder-se-ia a análise de identidade dtnica pelo par de oposição “membros
da tribo do norte do Parque x membros das tribos diferentes do norte do Parque”
(Bastos 1981:49). Tal proposta incluiria a análise da prática dos irmãos Villas Boas
no Parque do Xingu, salientando-se as alianças estabelecidas e as lideranças por eles
1 ‘‘forjadas’ ’.
O Ministério da Aeronáutica foi criado, em 1941,como fruto de alianças entre
o governo norte-americano e o brasileiro, no tocante à posição estratdgica do território

96
Parque indígena do Xingu: indigenismo e geopolltica

brasileiro frente à guerra que se desenrolava no continente europeu. Instalar rotas


adreas estratkgicas, formar quadros de pessoal treinado nos EUA, assim como ad-
quirir aviões de treinamento, aparelhar dos aeroportos para operar com “poderosas
aeronaves” e instalar campos de pouso como bases auxiliares na condução da guer-
ra foram medidas tomadas, num acordo bilateral, visando ao funcionamento do re-
c6m criado ministkrio.
Portanto, o discurso geopolítico que permeia parte da justificação do Antepro-
jeto de Lei que criou o PIX revela a intensa relação entre indigenismo, geopolítica
e militares no Brasil.
No tocante h presença, ainda hoje, da base a6rea da FAB no PIX pouco pode-
mos relatar, na medida em que são desconhecidos dados documentais que remetem
B sua atuaçáo e açHo sobre a área indigena. Entre os relatos oriundos da produção
científica destaca-se Schwartzman (1987) assinalando a história não contada da Ba-
-
se Adrea do Jacart?, vizinha ao Posto Leonardo (SPI irmãos Villas Boas). Ambos
prestam assistência aos grupos “tradicionais” do sul do Parque, traduzindo-se a
“assistência” atraves da forma em que o Posto e a Base Aerea se estabelecem: co-
mo pólo político-econômico irradiador de poder e controle, em torno do qual os
Altos Xinguanos se reordenaram.
“The image of the Xingu that has created in the popular magazines
postcards, and more recently television (a 1986 11 pert TV
documentary...) has been constructed by selecting certain moments of
the system and suppressing others that is, in fact, intimately related. So
the image of the Xingu includes the Upper Xinguans, but not the less
picturesque groups around Diauarum (ao norte), the beneficient
administration of Posto Leonordo, but not the Air Force Base ...”
(Schwartzman, 1987:317)
Já para Bastos (1986) a presença da Base Atrea do Jacark “aponta para conti-
nuidade de um mesmo eixo de referência no trato da coisa indígena: do telkgrafo
sem fio ao aviiio”. Estabelecendo um paralelo: em 2/6/83, conforme relato de Bas-
tos (1985), dá-se o episódio no qual um avião não autorizado pousou na pista do
PI Diauarum. Tal fato foi considerado pelos indios como violação do seu território.
“A explicação do piloto para a descida foi a de que apenas desejara ‘conhecer’ a
área indígena’’ (Bastos 1985:3). O avião foi impedido de decolar e os indios exigi-
ram da FUNAI a presença de sua cúpula dirigente para negociar, não só a liberação
do avião, mas suas reivindicaçljes em relação B situação do Parque.
Dezessete dias após, ClAudio Villas Boas (então, assessor da FUNAI) chega
ao Diauarum com a missão de “obter dos indígenas a devolução do aparelho, em
troca de barcos, motores de popa e outros ‘brindes’ ” (Bastos 1985:4).
Os indios mantêm-se irredutíveis e o caso só 6 solucionado, no dia 18 de agos-
to, quando o indio Marcos Terena, funcionário da FUNAI, decolou com o avião
em direçã0 a Brasília.

97
Mus. Para. Emilio CoeLli: Colcplo Eduardo Gahdo, I991

O episódio acima relatado demonstra claramente a tentativa de persuasão de


Claddio Villas Boas nos mesmos moldes de sua prática no Xingu, enquanto chefe
do posto e Diretor do Parque. A resistência dos indios pode ser entendida como
fruto de uma ardua conscientização adquirida, em função da própria história e da
situação do norte do Parque e destacamos, curiosamente, o fato de que desta vez,
Claudio Villas Boas estava presente não para proporcionar a ida do avião para o
Parque do Xingu, mas para proporcionar a saída do avião do Parque do Xingu.
Numa outra ótica, Ribeiro (1979) aponta a presença da Base Aérea do Jacaré
como um dos fatores que contribuiram para o não desmembramento territorial do
Parque. Ribeiro declara, tambCm, a,presença de um acampamento do PARASAR,
próximo à Base Aérea do Jacaré. “E um acampamento que abriga 13 oficiais para-
quedistas, um dos quais médico, falante, simpático e bom public-relations” (Ribei-
ro, 1979:99).
“Quando voltava do banho ... encontramos uma turma do PARASAR,
vinda da aldeia Kamayurá e dirigindo-se ao Posto Leonardo. Parece que
estas visitas fazem parte do seu treinamento. Vêm também em busca
de souwnirs.. .
(...I
Sepain contou que no tempo de Orlando também vinham tropa à aldeia
conhecer os indios e treinar salvamento na selva” (Ribeiro 1979:80).
Tais relatos demonstram claramente o uso da área do Parque do Xingu por par-
te dos militares. O Parque do Xingu, também, serve de treinamento para tropas.
A presença do PARASAR, corpo de elite que teve atuação destacada na época das
guerrilhas, evidencia a situação estratégica do Parque do Xingu, como ponto logís-
tic0 no controle, treinamento e lugar que propicia um conhecimento detalhado da
área, não só através das excursões de campo mas tambCm, da apropriação que pode
ser feita, através do contato direto com os indios, do conhecimento da área.
O Xingu serve aos militares de varias maneiras, entre elas, a oportunidade de
construir uma tstica para eventuais intervenções sobre as áreas periféricas ao Par-
que, i.e., a área de expansão da fronteira. O Parque do Xingu, portanto, permitiu
o acúmulo de uni saber precioso para a gestão militar.
Finalmente, revela-se a necessidade de reflexão profunda e cuidadosa, cujo ob-
jetivo seria o de analisar a especificidade da relação de poder que se instaurou entre
militares e a questlo indígena. E o papel mediador da política indigenista, tanto no
plano ideológico como no plano de sua prática.

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1O0
ENGENHOS NA VÁRZEA: UMA ANALISE DO
DECLÍNIODE UM SISTEMA DE PRODUÇÃO
TRADICIONAL NA A M A Z ~ N I A
Scott Douglas Andersoit‘

RESUMO - Anilise do dcclínio de uni tradicional sistema agroindustrial vol-


tado à produçlio de cana-de-açúcar e fibricação de aguardente no estuirio do
Amazonas. Apresenta-se inicialnicntc o sistcnia como funcionou tradicionalmente
em ternios ceoldgieos, agronôniicos, econôniicos e sociais. Em seguida,
examinam-se, a nívcl local, fitores externos ao sistcma, responsiveis pelo seu
dcclínio, que desequilibraram relaç5cs antcriormcnte estdvcis. Analisando es-
tes cvcntos nuni contexto maior, dcnionstra-se que cxistiani inovações tEcnicas
viiveis que pcmiitirani que o sistcnia tradicional continuasse funcionando, nias
que niï0 fomni divulgadas pc10 govcrno neni procuradas pela elite econômica
local. Aprcscnta-scunia explicação rclacionada à natureza do modelo de desen-
volvimcnto rcgonnl, e sugcre-se um niodelo alternativo.
PALAVRAS-CHAVE: Dcscnvolvimcnto cconômico regional, Mudança social,
Dcgradaçiío mcio ambiental, “Bias” urbano, Migraçiío rural-urbana.
ABSTRACT - Tliis is an analysis of tlie dccline o f a traditional agroindustrial
system for producing sugarcane and nianufieturing rum at the mouth of the
Amazon. The production systcm is first prcscntcd as it functioned ecologically,
agrononiically, ccononiieally, and socially. Factors cxternd to tlie systcm and
responsiblc for its abrupt decline are then investigated as they operated at the
localIcvcland disruptcd prcviously stable rclations. Analyzing these events in
a broader contcx, it is dcniostratcd that viable teenieal improvements existed
that would have allowed the production system to continue functioning, but that
these wcre not disseminated by the government nor sought by the key local
economic elite. Reasons for this, rclated to the nature o f tlie model for regional
devclopnicnt, arc prcsented and an alternative niodel is suggcsted.
KEY WORDS: Rcgional cconomic dcvclopmcnt, Social change, Environmental
dcgradntion, Urban bias, Rural-urban migration.

SCT-PRICNPq. hluscu Paracnsc Emílio Gocldi - Bolsista de DcsenvolvirncntoRcgional. Doutorando


da University of Chicago, Dcpartmcnt of Gcognphy.

101
Mus. Para. Emilio Gocldi: Colq~70Eduardo Gnlvao. 1991

INTRODUÇAO
As mudanças decorridas da ocupação da Amazônia, aceleradas nos Últimos vinte
anos pela política governamental visando ao desenvolvimento da região, conduzi-
ram, entre outras conseqüências, à degradação do meio ambiente e ao desequilibrio
social. Estas conseqüências foram produzidas não só na fronteira agrícola, um dos
principais alvos dessa política, mas tambCm na área já dominada tradicionalmente
por europeus.
Apesar de certa convergência na natureza dos resultados, seria errado supor
que o processo de mudança fosse o mesmo nestas duas áreas rurais. Suas caracterís-
ticas básicas são distintas, e é necessário, a princípio, discernir entre a Amazônia
tradicional e a AmazBnia da fronteira.

Duas Ainazônias rurais


Tratando esta distinção resumidamente, pode-se observar, em termos ecológi-
cos, que a Aniazônia tradicional, acessada por rios, situa-se em solos férteis de vár-
zea, enquanto a Aniaz8nia da fronteira, acessada por estradas, situa-se em solos
geralmente mais pobres de terra firme.
Vista histórica e culturalmente, a Amazônia tradicional, acessível por vias na-
turais, foi ocupada h6 sdculos por europeus, que absorveram populações indígenas
remanescentes na vlirzea, dando origem à chamada cultura cabocla dos ribeirinhos
da região. Em contraste, a expanslo da fronteira agrícola na Amazônia, dependen-
do de estradas, começou apenas no início deste sdculo, via estrada de ferro na zona
Bragantina a leste de Beldm, e teve o seu grande avanço, via estradas rodoviárias,
só nos Últimos vinte anos. Neste avanço por terra, os povos indígenas encontrados
foram marginalizados, e a sociedade dominante sucessora foi essencialmente com-
posta de uma mistura heterogênea de migrantes de diversas regibes.
Em termos de economia e tecnologia, a Amazônia tradicional aliou atividades
agrícolas de subsistência, fundamentadas em práticas ecologicamente sustentAveis
de origem indígena, com atividades voltadas ao mercado, baseadas principalmente
na extraçã0 de produtos da floresta e do rio. Por outro lado, na fronteira agrícola,
a produção agropecuaria dirigiu-se sempre ao mercado, e a sua tecnologia improvi-
sada foi essencialmente alheia ao aproveitamento sustentável de recursos naturais.
Finalmente, a Amazônia tradicional não foi contemplada pela política desen-
volvimentista do governo e recebeu o seu impacto apenas indiretamente. Em con-
traste, na fronteira, a presença do governo foi direta e, em certas épocas, muito
ativa, manifestando-se não somente na construção de estradas, mas tambCm no fo-
mento de projetos agropecuários e de colonização.
Essas diferenças distinguem, a grosso modo, a Amazônia tradicional da Ama-
zônia da fronteira e estabelecem o contexto do presente estudo, voltado h análise
do processo de niudanqa sofrido nos Últimos anos na Amazônia tradicional.

102
Engenhos na Vdrzea

Uni caso tradicional

Um caso específico de mudança na Amazônia tradicional encontra-se nos mu-


nicípios paraenses de Igarapé-Miri e Abaetetuba, localizados na foz do rio Tocan-
tins. Nesta região, durante mais de dois S ~ C U ~ O Sa ,base da economia foi um sistema
agroindustrial dedicado ao cultivo de cana-de-açúcar e fabricação de aguardente em
pequenos engenhos. Este sistema, após um breve período de expansão, entrou, ulti-
mamente, em brusco declínio a níveis bem abaixo dos tradicionais.
O número de engenhos em atividade nesses dois municipios reflete as mudan-
ças neste sistema. Desde o final da época da borracha até a década de 1950, o núme-
ro de engenhos foi estJvel, em torno de 30. Depois, em pouco mais de dez anos
esta quantidade dobrou e estabilizou-se em torno de 60 engenhos. Finalmente, a
partir dos meados da década de 1970 houve uma rápida diminuição, de forma que,
no final de 1987, havia apenas 16 engenhos em atividade*. (Figura 1)
A correspondente rirea plantada em cana-de-açúcar, a produção de aguardente,
e o núniero de empregos diretos gerados nesta agroindústria refletem, ainda mais,
estas variações. (Tabela 1 e Figura 2)
Confrontando-se na Tabela 1 as estimativas com os dados do recenseamento
de 1970, pode-se ter uma idéia da relativa importância que este sistema agroindus-
trial alcançou no seu período de auge. A área plantada nos muncípios de Igarapé-
Miri e Abaetetuba representou mais de 90% da área plantada em cana-de-açúcar
em todo o estado do Para (IBGE 1970a:264). A produção de aguardente correspon-
deu a 100% da produção registrada em toda Amazônia (IBGE 1970b:272-73). O
valor da cana-de-açúcar produzida nestes dois municípios representou mais de 80 %
da renda das atividades agrícolas que empregaram a população nas suas extensas
várzeas @GE 1970a: Tab. 101-4 e 106)3. Quinze anos depois, porém, o ritmo de
produção-não se manteve a um d6cimo desses níveis. Evidentemente, a ascensão
e declínio desta agroindústria teve importantes conseqüências na economia, ecolo-
gia e sociedade regional e, ainda, pode refletir processos similares em outros siste-
mas de produçtlo na AmazBnia tradicional e nas sociedades por eles sustentadas.
O objetivo deste estudo é analisar o funcionamento do sistema de produção na
sua forma tradicional, apontar os fatores que, a nível local, causaram as mudanças
no seu ritmo de atividade, e investigar se o seu eventual declínio poderia, ou não,
ter sido evitado. Para alcançar estes objetivos será necessário abordar, não somente
fatores econBinicos, mas UmbCni tecnológicos e sociais. No final, serão consideradas,

Em julho dc 199 I , havia 6 cngcnhos funcionando.


Ncstcs dois municipios, considcrou-se para o valor total da produçiio da v6rzca: 100% do valor do
cacau, cana-dc-agkar, andiroba, borracha e palmito; 50%da banana, coco-da-bda e manga; e 25%
do arroz c milho.

103
Mus. Pura. Eniilio Goeldi: Colqdo Eduurdo Gnh.ao. I991

brevemente, a metodologia deste estudo e algumas das implicações dos seus resul-
tados. Os dados e fatos relatados, quando não referenciados, baseiam-se em conclu-
sões, entrevistas e levantamentos de campo realizados no periodo de 1985 a 1988.

Figura 1 - Engenhos de Aguardente nos Municípios de Igarap6-Miri e


Abaetetuba-ParB.

104
Engenhos na Vdrzca

Tabela 1. Indicadores sobre a Agroindústria Aguardenteira nos Municípios de


Igarapé-Miri e Abaetetuba-Pad.

Indicadores 1920-1950 1950-1960 1960-1975 1987


Nllmcros de En-
genhos: (1) -
30 50
- 60
- 16
-
Grandcs (2) - - 5 1
MCdios 5 20 35 3
Pcqucnos 25 30 20 12

Ha. em Cana-dc-AçÚçar (3) 1.650 4.650 5.500 720

PrcduçIo de Aguardcntc (4)


1.OOO.ooO litros 290 5,6 10,6 099

Empregos Dirctos: 775


- 1960
- 2760
- -
300
na Agricultura (5) 550 1550 2200 240
na Indústria (6) 225 410 560 60

Notas da Tabcla 1.
(1) 1920-75: de acordo com o Abnnnack heininert (1927) existiam 16 engenhos em Iganp&Miri em
1927, e com a F o l h du N u m (1janciro 1940, p. 29) existiam 17 em 1940; dados da Prefeitura
de Igarap6-Miri indicam que existiam cm torno de 25 cngcnhos no período de 1950-60e 30 engcnhos
durante o pcriodo dc 1960-75. Na ausencia de dados correspondentes para Abaetctuba, julgou-se
procedente dobrar c arrcdondar os valores de Igarapt!-Miri para obter um total geral para ambos os
municipios, considcrando quc o comportamcnto e porte da agroindllstriaaguardentciranos dois mu-
nicipios vizinhos foi similar, postcriormcnte.
1987: dados dc lcvantamcnto dc campo.

(2) Estimativa í‘cita por moradorcs na rcgilio cm funçlio da capacidade de moagem, em frasqueiras de
cana por dia dc oito horas (uma kasqueira de cana pesa aproximdamcnte 112T.); dal: grande =
60 frasqucirasl dia; mCdio = 40 frasqucirad dia; e pcqucno = 25 frasqueiras/ dia.

(3) Calculado na basc de: (nP dc cngcnhos na classe) X (frasquciras de cana moidal dia) X (dias de
moagem/ ano) / (frasqueiras dc canal ha.) = ha. em cana-de-açllcar.
Considcrou-sc para moagcm: 1920-50 = 100 diaslano; 1950-60 = 150 diad ano; 1960-75 = 200
diad ano; e 1987 = 75 diaskano.
Considcrou-separa produtividadc dc cana: 1920-60 c 1987 = 50 frasqucirasl ha; e 1960-75= 80
frasqueiras/ ha.

(4) Calculado na razio dc: 1frasqueira dc cana produz 24 litros de aguardente; daf, para cada período
calculou-sc: (hcctarcs cm cana) X (rrasqucira de cana/ ha.) x (24 litros dc aguardente/ frasqueira
de cana) = produ~iode aguardcntc.

(5) Estimado na basc dc: 1920-60e 1987 = 1cmpregol3 ha. em cana; e 1960-75: 1emprcgol2,5 ha.
em cana.

(6) Calculado na basc do tamanho do engenho; assim: grande = 14 empregoslano; medio = 10 empre-
gos/ ano; e pequeno = 7 cmprcgos/ ano; para 1987considerou-seem torno da mctade dcsta razão.

105
Mus. Pam. Edlio Gocldi: Colqdo Eduardo Gulrulo, 1991

Ha ou 1.000 L

NO de Engenhos IOMX)

9.00o

PROWfiO D E AGUARDENTE 8.000


l1.000 L 1

7.000

€0T S.OC0

5D00

40 4.000

x, 3.000

20 2000

1,000
lot

19272 1932 1940 1950 1960 1970 1960 1987

06s.: DAOOS TIRADOS DA TABELA 1

Figura 2- Evolução do Número de Engenhos, Área em Canade-Açúcar e Produ-


ção de Aguardente nos Municipios de Igarapk-Miri e Abaetetuba - Pard.

O StSTEMA DE PRODUÇÃO TRADICIONAL: 1920 - 1950


O meio ambiente

Este sistema agroindustrial de estuario sempre se baseou no plantio de c a a d e -


açúcar em solos de vdrzea alta. Esta vdrzea 6 sujeita inundação pelas marks de
Qua doce da foz do rio Amazonas. As inundações não ultrapassam 40 cm de altura
e duas horas de duração e Ocorrem vinte a trinta vezes durante os meses de feverei-
ro a abril, na estação de chuva, e eventualmente dez a quinze vezes de agosto a
outubro, na estação menos chuvosa. Este regime 15distinto, portanto, da grande inun-
dação anual ao longo do rio Amazonas que chega a varios metros de altura e perma-
nece durante meses.
Uma conseqüência deste regime de inundação 6 a deposição de sedimentos na
superficie do solo, que servem para manter a sua fertilidade. Aldm disso, o fluxo
da mark, mesmo quando não chega a cobrir a superfície, penetra na vkzea atravds
de rios e igarapds, mantendo a umidade do solo mesmo nas 6pocas mais secas. Em
contrapartida, estes mesmos rios e igarapks facilitam a drenagem do solo, evitando
o seu encharcamento. Assim, os solos destas varzeas, quimicamente entre os mais
fdrteis da Amazdnia, beneficiam-se de um regime natural de adubação, irrigação
e drenagem.
Uma outra conseqüência deste regime de inundação reflete-se no acesso e

106
hgenlws na Vdrzea

transporte. Devido ao volume de água que escoa destas terras planissimas, oriundo
dos 2000 mm de chuva que caem anualmente e tambCni dos SO00 mm, ou mais,
de água levados à terra pela mark, todas estas v4rzeas são cortadas por indmeros
rios, furos e igarapks. Portanto, existe uma rede natural de acesso por via fluvial
que, canalizando o fluxo e refluxo da marí?, facilita ainda mais o transporte de pro-
dutos volumosos e pesados, como a cana-de-açúcar.

A produção da cana

Aproveitando estas condiçiks ecolbgicas, agricultores plantavam canade-açúcar


nas várzeas ao longo dos rios e igarapCs da região, desde os tempos coloniais. No
período em consideração, os ‘‘roçados” de cana eram preparados pelos mdtodos
usuais na AniazBnia de derrubada e queima, desde pequenas c‘pontas7’ab? áreas
de dez ou mais hectares. Os Únicos tratos culturais dados à cana era uma ou duas
capinas com terçado e o replantio de uma parte após o corte, conforme a necessida-
de. Geralmente, mantinha-se um roçado de cana em produção por três a seis cortes,
embora existissem casos de dez ou mais cortes na mesma área.
Todas as despesas de preparo, manutenção e corte de um roçado de cana eram
por conta do agricultor que plantava a área, o “canavialista”. Para alguns canavia-
listas era possível obter financiamento para estas despesasjunto ao dono de um en-
genho, o “engenheiro”, pois este tinha interesse em garantir o fornecimento de cana
para beneficiar. Em troca do “aviamento” de um roçado de cana, o engenheiro
esperava do canavialista a entrega de toda a sua produção em qualquer época que
a mesma fosse solicitada. O aviamento não era feito em dinheiro, mas sim em pro-
dutos de consumo postos à disposiçlo no “comí?rcio” do engenho. Tais produtos
eram usados para pagar ao canavialista e a seus “diaristas” pelo preparo e manu-
tenção do roçado. Sendo uma relação pessoal e informal, sÓ uma minoria dos agri-
cultores, em torno de um dí?cimo,eram aviados como canavialistas. Os agricultores
sem recursos próprios ou aviamento acabavam relegados, em grande parte, a traba-
lhar como diaristas.
Para plantar cana, o canavialista não precisava ser proprietário de terras, pois
era comum na região o uso de terras de terceiros. Este uso era compensado median-
te o pagamento ao propriethrio da terra de uin terço do valor recebido na venda
da cana ao engenho, correndo todas as despesas por conta do canavialista. Esta re-
lação era bastante comum, dando aos agricultores acesso as terras ociosas na região
sem que os proprietririos sentissem os seus direitos ameaçados. De fato, vários pro-
prietários viviam de terços e at6 procuravam canavialistaspara plantar em suas terras.

Corte, transporte e pagamento da cana


Devido à ausência de baixa temperatura ou de estiagem que, como no resto do
país, estimulani a concentraçiio de açúcar no colmo da planta numa determinada
Cpoca, na regi50 de vh-zea, a cana era cortada durante o ano todo. Por causa deste
corte contínuo, a população agrícola era relativamente estável, com suas atividades

107
Eduurdo GrrlvUo, I991
Mus. Pura. Etttllio Goeldi: Cob~-~?o

e renda distribuídas ao longo do ano, sem fluxos anuais de trabalhadores entrando


e saindo da região por causa da “safra” de cana. Também, por trabalharem o ano
inteiro, os engenhos não necessitavam de uma capacidade industrial tão grande, co-
mo em outras partes do país, para produzir anualmente uma mesma quantidade de
aguardente.
Cada roçado de cana era cortado a cada doze a dezoito meses, dependendo da
maturação, do preço, ou da necessidade do engenho que o aviasse. A cana era cortada
em pedaços de aproximadamente 80 cm de comprimento e amontoada no campo
em feixes contendo o equivalente em volume a 100 pedaços de cana de primeiro
corte. Daí, os feixes eram carregados a batelões, que entravam nos igarapés até os
roçados, e amontoados em lotes de dez, formando assim uma “frasqueira” de ca-
na. Na região, a frasqueira de cana era a unidade de medida para fins de transaçã0
comercial entre o canavialista e o engenheiro.
Sempre foi aceito na região que “o engenho tem direito à metade” de cada
frasqueira de cana entregue pelo canavialista. Acredita-se que este direito tenha sua
origem nos tempos coloniais, quando donos de engenhos de açúcar tinham obriga-
ção de moer a cana dos produtores sem engenho, sendo compensados com a metade ,
do produto finalmente obtido. Como nesta região o produto final era aguardente
e não açúcar, era difícil acompanhar um carregamento de cana para verificar o seu
rendimento real, devido ao fato de misturar-se canas de vários canavialistas a fim
de encher os tanques de fermentação, e de esperar-se dias para completar este pro-
cesso. Assim, para pagar a cana com base na metade dos seu produto final, seria
conveniente arbitrar a quantidade média de aguardente produzida por uma determi-
nada quantidade de cana. Por estas considerações, acredita-se, sempre foi aceito,
também, que uma frasqueira de cana produza 24 litros de aguardente. Esta quanti-
dade de aguardente também era denominada de “frasqueira”. Deste modo, para
cada frasqueira de cana entregue ao engenho, o canavialista recebia meia frasqueira
de aguardente, a metade do seu rendimento, usualmente paga em produto. Desta
renda bruta era descontado o valor dos produtos aviados pelo engenheiro e, se fosse
o caso, o terço a ser pago diretamente ao dono da terra. Assim, era garantida aos
canavialistas, e indiretamente aos seus diaristas e aos proprietários de terra, a parti-
cipaçiio na metade do produto final da agroindústria.

Industrializaçrlo e coiiiercializaçrlo
Transportada ao engenho por conta do engenheiro, a cana era jogada dos bate-
Iões ao “picadeiro”, lugar onde era empilhada, desordenadamente, para moagem.
As moendas, de três rolos, eram movidas a vapor e alimentadas manualmente. A
“garapa doce”, assim extraída, era bombeada para tanques de madeira para ser fer-
mentada. A fermentação era espontânea, ou seja, através de leveduras encontradas
naturalmente no ar, nas canas, ou pregadas nos tanques de fermentação, demorando
até oito dias. Terminada a fermentação a “garapa azeda” resultante era bombeada
para colunas de destilação contínua. A aguardente obtida era transferida para dor-
nas de madeira, pronta para a venda.

108
Engenhos na V4rzca

A coniercializaçiío da aguardente era feita a granel em garraf-es de 24, 36 e


48 litros. Vendedores itinerantes, regatks, compravam esta aguardente para revendê-
la, junto com outros produtos, no estuário do Amazonas. Estes regatóes usavam
barcos movidos a vela que aproveitavam o fluxo e refluxo da maré para auxiliar
o seu deslocamento. Os regatóes podiam ser aviados pelo engenheiro quanto à aguar-
dente, para em troca, trazer produtos agrícolas como farinha e tabaco, produzidos
na terra firme nos arredores da várzea, peixe salgado do baixo Tocantins, gado dos
campos da ilha de Marajó, e eventualmente, manufaturados que vinham de Belém.

O Sistema tradicional
Este sistema agroindustrial era caracterizado pela especialização e dependência
mútua entre os seus componentes: proprietários de terra, canavialistas, diaristas,
engenheiros e regataes. Os canavialistas dependiam dos engenheiros para aviamen-
to, dos proprietlirios para acesso à terra, e concorriam entre si para os serviços de
diaristas, que tinham ainda as opções de trabalhar nos engenhos, de cuidar de pe-
quenos roçados, ou de explorar produtos extrativos locais. Por outro lado, os enge-
nheiros, não produzindo a cana por conta própria, dependiam dos canavialistas para
maGria-prima e, vendendo no porto, dependiam também dos regatöes para comer-
cialização.
O papel do engenheiro no sistema era fundamental, apesar de não dominá-lo
por integraçã0 vertical ou horizontal, devido a sua posição de intermediário entre
os dois ciclos de troca de produtos que moviam o sistema. No ciclo externo, o enge-
nheiro trocava aguardente com os regatóes por produtos agrícolas, peixe, gado e
manufaturados. No ciclo interno, o engenheiro aviava os canavialistas e seus diaris-
tas com estes produtos e, em troca, recebia cana-de-açdcar para produzir aguarden-
te. Estes ciclos eram relativamente fechados, na medida em que os seus recursos,
atividades e produtos tinham origem e fim limitados ao estuário do Amazonas. Os
ciclos só não eram totalmente fechados por causa da entrada de manufaturados de
fora em pequena escala. O sistema de produçiio tradicional, movido por estes dois
ciclos de troca, funcionou em equilíbrio ecológico e econômico durante os trinta
anos em consideraçk
Este sistema agroindustrial, relativamente fechado, inseria-se numa sociedade
igualmente isolada. Os meios de transporte eram limitados a lentos barcos a vela
e navios a vapor da época da borracha que atendiam algumas vezes por mês à região
canavieira. As comunicaç6es restringiam-se ao correio e telégrafo nas sedes dos dois
municípios. No interior, a despeito de tradições paternalistas, alguns engenheiros
exploravam os seus canavialistas e operários de forma até hoje ressentida. Em al-
guns lugares, especialmente nas cidades, havia malária e era comum uma mulher
perder a metade de seus filhos por doença, senão a própria vida no parto. Em re-
trospecto, é importante notar como a diferença na qualidade de vida entre a cidade
e o interior nZo era inarcante nesta época. Tanto a cidade como o interior eram ca-
rentes de assistência médica e igualmente sem luz elétrica. Claro, a cidade podia
ganhar em movimento, mas Ili tudo se pagava em dinheiro. Em compensação, no

1o9
Mus. Pura. Emilio Goeldi: Cdeplo Eduurdo Gulvdo, 1991

interior, os recursos naturais eram pouco explorados e, dizem os idosos, a caça e


a pesca, o camarão e o fruto do açaí eram abundantes.

EXPANSÃO E DECLÍNIO:1950 - 1987


A expansgo: 1950 - 1960
As primeiras mudanças no tradicional sistema agroindustrial foram provoca-
das, ainda que indiretamente, pela disseminação de motores a diesel em barcos da
região. Estes motores tinham a vantagem de serem mais compactos e de consumi-
rem um combustível bastante mais concentrado em relação a motores a vapor que
queimavam lenha. Assim, barcos com motores a diesel tinham muito mais capaci-
dade disponível para carga, o que reduzia o custo de transporte de produtos pesados
e volumosos, como a aguardente. Os numerosos regatões movidos a vela no estui-
rio, quando transformados a diesel, passaram a negociar também no baixo e médio
Amazonas, suplantando os navios a vapor (McGrath 1989).
A expansão do raio de atividades dos regatões resultou, para a região aguar-
denteira de Igarapé-Miri e Abaetetuba, na ampliação de vendas do seu produto. Es-
te aumento na demanda da aguardente foi reforçado ainda pelo crescimento natural
da populaçgo ao longo do Amazonas neste período, e também pelo aumento da sua
renda, oriundo da venda de peles de animais silvestres destinados ao comércio in-
ternacional. Os regatões, ao subirem o rio, ofereciam aos comerciantes do interior
produtos agrícolas e manufaturados, inclusive aguardente, em troca de peles e ou-
tros produtos extrativos. Ao retornar ao estuário e ao negociar aguardente com os
engenheiros, os regatões ofereciam produtos novos para aviar roçados, como carne
salgada de jacaré e capivara e, graças à venda de peles para exportadores, podiam
oferecer, também, manufaturados ou pagamento em dinheiro.
Para atender a crescente demanda dos engenhos, o setor agrícola, no início,
podia aumentar a sua produção de cana-de-açúcar mantendo os roçados de cana em
produção por um maior número de cortes. Porém, aos poucos novos investimentos
foram necessários para aumentar a área em produção, que chegou quase a triplicar,
como mostra a Tabela 1. Este capital foi obtido dos engenheiros, mediante opadi-
cional aviamento, usando os produtos no crescente negócio com os regatões. E bom
notar, também, que nio houve impedimentos fundiários à expansão da área de pro-
dução, devido ao uso convencional de terras ociosas na região em troca do paga-
mento de “terços” aos proprietários.
No setor industrial a crescente demanda para aguardente também podia ser aten-
dida, inicialmente, pelo uso mais intensivo dos investimentos já existentes, moendo
e alambicando mais freqüentemente. Acredita-se que, nesta dpoca, os engenheiros
descobriram a técnica de misturar com a garapa doce, a “sorrapa”, resíduo da des-
tilação, que, baixando o pH do líquido, favorece o desenvolvimento de leveduras
de fermentação alcodica. Esta prática reduziu o tempo de fermentação de oito para
três a cinco dias, permitindo uma produção maior com o mesmo volume de tanques
de fermentação. PorCm, para atender uma demanda três vezes maior, foi necessário

110
Engenhos na V&rwa

adquirir equipamentos de maior capacidade para os engenhos já existentes, e mon-


tar engenhos novos. De fato, foi justamente nesta época que o número de engenhos
em funcionamento inais cresceu. Os pequenos engenhos adquiriam, aos poucos, equi-
pamentos novos, passando a ser mCdios, e os equipamentos descartados de menor
porte serviram para equipar novos engenhos. Acredita-se que o capital desta expan-
são veio quase exclusivamente do crescente volume de negócios na agroindústria.
Em alguns casos, engenhos novos foram montados por ex-canavialistas que conse-
guiram certo grau de capitalização.
A expans50 da produção, tanto agrícola como industrial, para atender à cres-
cente demanda, ocorreu n5o tanto por inovações na tecnologia, mas essencialmente
pela multiplicação das unidades em produção. O tradicional sistema produtivo era
surpreendentemente divisível, podendo crescer em pequenas etapas. Apesar desta
expansão, as relações entre engenheiros, canavialistas e proprietários de terra não
se alteraram, exceto pela monetarização da frasqueira, ou seja, o canavialista e o
proprietario jiio niio recebiam mais em produtos, mas em dinheiro. O engenheiro
continuava pagando a metade das frasqueiras de cana entregues, porém a preço cor-
rente no mercado de uma frasqueira de aguardente. Assim, o tradicional sistema
agroindustrial respondeu ao estímulo do aumento da demanda e teve capacidade de
quase triplicar seu porte numa dCcada sem alterar a sua natureza.
Da mesma forma, a sociedade na região aguardenteira começou a ter maiores
contatos externos. Os meios de transporte, agora movidos a diesel, tornaram-se mais
comuns. Houve migração B região de pessoas em busca de novos empregos, criados
tanto no setor agrícola como industrial. Importante foi o crescente controle da ma-
lária, que também contribuiu para aumentar a população nas vkzeas destes municí-
pios. Nessa época foi criada a SPVEA (antecesora da SUDAM) e construida a
rodovia BelCm-Brasília que revelavam o interesse extra-regional no desenvolvimento
da Amazônia. PorCm, estes acontecimentos, ainda assim, não tiveram maiores im-
pactos na regiiío. Acredita-se que, com a expansão autônoma da agricultura e indús-
tria na região aguardenteira, criou-se um período de otimismo, e at6 mesmo de fartura,
entretanto dentro dos moldes e meios da sociedade tradicional.

O Auge: 1960 - 1975

O sistema agroindustrial tradicional continuou a se expandir, atendendo a cres-


cente demanda na Amaz6nia, p o r h a taxas menores. No setor agrícola, a área
plantada em cana aumentou neste período apenas 20%, conforme a estimativa da
Tabela 1,enquanto a produção de aguardente quase dobrou. Este aumento deveu-se
B difusão de variedades de cana que produziram mais por hectare do que a varieda-
de tradicional, cana caiana (40 T./ha., vs. 25 T./ha.), e tambCm como eram viço-
sas, praticamente não precisavam de capina ou replantio. As novas variedades foram
introduzidas na regi50 por alguns engenheiros que as obtiveram na estação de pes-
quisa agronôniica em Belém.
Embora a area total em cultivo de cana-de-açúcar aumentasse em mais de três
vezes, n5o se tem notícias de que tenha caído a produtividade devido ao

111
Mus. Para. Eniílio Gockli: Colqilo E&v‘iloGalnio, I991

empobrecimento dos solos ou à necessidade de aproveitar terras de qualidade infe-


rior. Inclusive, a produção de cana nesta época foi, às vezes, além das necessidades
dos engenheiros, pois slio relatados casos de canavialistas que destruíram roçados
de cana, plantados por conta pr6pria, que tinham passado do ponto de maturação
sem serem negociados, a fini de desocupar a área para tornar a plantar cana nova.
No setor industrial, a tecnologia continuou a mesma. O aumento de produção
de aguardente neste período, estimado em quase 90%, deveu-se menos h instalação
de novos engenhos do que ao aumento da capacidade dos engenhos existentes. Nos
engenhos maiores, iniciou-se o engarrafamento da aguardente pronta para ser ven-
dida no varejo, em vez de a granel. Outros engenheiros tentaram engarrafar a sua
produção através de uma cooperativa, que afinal não prosperou por desunião entre
os associados.
Esta iniciativa comercial de engarrafamento foi, em parte, uma resposta à en-
trada no mercado regional de aguardente de outras regiões do país, principalmente
de São Paulo. Estes produtos iniciaram a concorrência em termos de qualidade, fa-
ce à prática dos regatões de diluir a aguardente comprada a granel antes da revenda.
Em certos casos, porém, quando os engenheiros passaram a engarrafqr seu próprio
produto, a situaçzo até piorou, pois alguns adulteraram a sua aguardente com álcool
industrial, água e, dizem, até pimenta do reino. Na Amazônia, ao contrario do nor-
deste e do sul do país, tomar uma “boa” produzida num pequeno engenho do inte-
rior nunca conquistou a preferência dos fregueses.
A situaç50 comercial ficou niais crítica quando, com o melhoramento das estra-
das entre a Amazônia e o resto do país, aguardentes de outras regiões começaram
a concorrer no mercado regional tambCm pelo preço.
Os problemas que o sistema agroindustrial enfrentou no seu auge não eram oriun-
dos de um desequilibrio interno no seu funcionamento e nem da sua rápida expan-
são, mas sim, do rompimento do isolamento do seu mercado. Produtores de outras
regiões desafiavam os engenheiros com um produto que concorria tanto na qualida-
de conio no preço. Seria necessário enfrentar esta concorrência para garantir a
viabilidade econbniica dos engenhos e, portanto, a própria sobrevivência do siste-
ma de produção tradicional.
Também neste período a sociedade na região sentiu, mais intensamente, os im-
pactos de fora. Os meios de transporte mudaram bastante, de forma que, para che-
gar a Belém, em vez de poder viajar só três vezes por semana, passando uma noite
inteira de barco, a viagem das sedes dos municípios passou a ser diária, via ônibus
e barco, e durava cinco, depois quatro, e finalmente três horas com o melhoramen-
to das estradas. Nas cidades, chegou a energia elétrica e a água encanada, e foi ins-
talado o serviço de telefonia, permitindo a comunicação não somente com a capital,
mas com o país inteiro. A universidade da capital deixou de formar apenas uma
pequena elite de profissionais e passou a atender em massa, de modo que at6 filhos
do interior podiam aspirar a freqüentá-la e a ser “Doutor”, caso a família pudesse
arcar com as despesas de sustentri-los. Chegou a televisão, um divertimento

112
Engenhos na Vdrzca

empolgante, constante e barato, com programas idealizados e realizados “no sul”.


Percebeu-se pela primeira vez uma diferença marcante de qualidade de vida entre
a cidade e Q interior, e o interior ficou para trás. Lá, a população continuou a cres-
cer, não tanto inais pela migraçlo, mas sim, como conseqüência da entrada de anti-
bióticos e de uma melhoria nos níveis de saúde pública. A abundância de caça e
pesca, de camarão e açaí começou a ser ameaçada.

O Declínio: 1975 - 1987


O desafio da concorrência de fora coincidiu com o decllnio do sistema de co-
mercialização atrav6s dos regatW. Este declini0 Ocorreu em parte porque o com&
cio de peles foi diminuindo, devido a sua superexploração e posterior proibição,
e em parte porque caminhões, via estradas e balsas, permitiram que comerciantes
das cidades do interior se abastecessem diretamente em outros centros, sem a inter-
mediação dos regarbes (McGrath 1989).
Na medida em que o número de regatões diminuia, os engenheiros foram for-
çados cada vez mais a sair de um mercado informal, ou pelo menos mal fiscalizado
pelo governo, e entrar em um inais formal, no qual os produtores de outras regiões
jA estavam plenamente integrados. Mas este mercado mais formal exigia práticas
de higiene no engarrafamento e selos de imposto nas garrafas. No decorrer do tem-
po ficou cada vez niais dificil burlar a lei, como os engenheiros estavam acostuma-
dos a fazer, sem criar problemas com os fiscais da saúde e do er8rio. Tambkm nesta
6poca a aguardente de qualquer origem passou a disputar com a cerveja, ab5 no inte-
rior, a preferência como bebida mais popular. Tudo isso fez com que os custos dos
engenheiros aumentassem, enquanto as suas vendas caíam.
Com a crescente presença do govgno federal na região, os engenhos &mbt?m
passaram a ser efetivaniente sujeitos à legislação trabalhista, especialmente depois
da implantação de uma Junta da Justiça de Trabalho ein Abaetetuba no final de 1974.
Inicialmente, a reação dos engenheiros foi de ignorar as exigências e despesas de-
correntes desta legislação e de manter o tradicional regime paternalista e pessoal.
Pelo menos em dois grandes engenhos, todas as carteiras de trabalho entregues aos
patrões para serem assinadas simplesmente sumiram. Porkm, sem receber os bene-
fícios garantidos pela lei, os empregados empreenderam e ganharam causas na Jun-
ta contra os patrões, de forma que parte do capital acumulado pelos engenheiros
passou a ser distribuído entre os funcionários. Como reflexo disso, alguns dos en-
genhos que continuam funcionando at6 hoje estão em mãos de ex-empregados. Em
outros casos, engenhos inteiros foram tomados pela Justiça, para pagamento de dí-
vidas trabalhistas, e permaneceram parados, em processo de deterioração, por não
acharem compradores interessados em reativd-los.
Neste período, a inflação chegou a Zingir as relações internas do sistema tradi-
cional, movido, como foi, a aviamento. Acostumados a acertar as contas de avia-
mento em valores histbricos, a inflação descapitalizava os engenheiros. As
conseqüências forani mais acentuadas quanto maior o montante de cr6dito e prazo

113
Mus. Para. Eniílio Gocldi: Colc@o Eduurdo Galwïo, 1991

de pagamento, especificamente no setor agrícola, com as despesas de abrir roçados


e o prazo de retorno de até um ano e meio. Assim, foi cada vez mais reduzido o
aviamente de roçados novos, favorecendo a manutenção dos já existentes. Na medi-
da em que as taxas de inflação cresceram e foi diminuindo o capital de giro dos
engenheiros, até este apoio B manutençiio dos roçados acabou, sendo possível obter
aviamento só para o corte de cana. Ao longo do tempo, a produtividade dos roçados
caiu e a tendência era de cada vez mais retrair o fornecimento de cana aos engenhos.
Finalmente, a desintegração interna do sistema foi marcada pelo rompimento
da relação entre canavialistas e engenheiros baseada na frasqueira, a qual servia de
referencia1 para a distribuição de renda no sistema. Este rompimento decorreu da
concorrência dos produtores de outros centros, o que fez o preço da aguardente na
região cair em termos reais. Justificados por esta imposição, os engenheiros conse-
guiram desvincular, gradativamente, o preço da frasqueira de cana do preço da fras-
queira de aguardente, e passaram a pagar pela cana preços bem mais baixos. Desta
forma, terminava a garantia tradicional da participação de canavialistas, diaristas
e proprietgrios de terra na metade da renda global da agroindústria.
Na medida em que entrou em declínio, o sistema agroindustrial passou a viver
do que restava de seu auge. Cada vez mais, a cana que entrava nos engenhos era
obtida de velhos roçados e passava a ser tratada como uma espdcie silvestre explo-
rada extrativamente. Os engenhos ainda em atividade canibalizavam os desativa-
dos, aproveitando as suas peças velhas para reposição, pois não tinham capacidade
financeira real de se manter em funcionamento. O engarrafamento parou, por não
atender às exigências legais de higiene, e os engenheiros voltaram a vender a sua
aguardente a granel aos poucos regatões que ainda circulavam no estugrio. Mas isto
não significava um retorno aos velhos tempos, pois o sistema não estava mais fe-
chado, em equlibrio, mas numa espiral de declínio que continua at6 hoje.
Evidentemente, a sociedade rural sentiu o impacto deste declínio. Com a perda
de empregos na agricultura e na indústria, centenas de pessoas mudaram-se para
a cidade para tentar a sorte. Outras passaram a trabalhar em improvisadas serrarias
e olarias na região, em fase de expansão, justamente para atender a construção de
casas para as populações crescentes nas cidades. No campo, o cacau e a borracha
voltaram a ser aproveitados apesar de preços baixos. Famílias inteiras se dedicaram
à confecção de rudes cestas vendidas aos regatões, a preços irrisórios. Neste con-
texto, os recursos tradicionais de alimentação foram explorados cada vez com mais
intensidade: a caça foi praticamente extinta; a pesca passou a render pouco; o cama-
rão em vez de complementar a dieta familiar foi capturado predatoriamente para
revenda; e açaizais inteiros foram derrubados para vender o palmito a fgbricas. A
antiga abunddncia acabou.

ANALISE DAS CAUSAS DO DECLÍNIO

Da perspectiva local, o que aparentemente mais pesou no declínio do tradicio-


nal sistema agroindustrial foi o fato de os engenheiros não terem podido concorrer

114
Engenhos na Vdrzea

com os produtores de outras regiões quanto ao preço e qualidade do produto posto


no mercado. A conseqüente reduçio de vendas e lucros dificultou a entrada dos en-
genheiros em uni mercado mais formal e fiscalizado, facilitou os problemas com
a Justiça do Trabalho e, finalmente, levou à desarticulação interna do sistema com
o descarte da frasqueira conio referencial.
Com o objetivo de saber se o declínio deste sistema poderia ou não ter sido
evitado, como também a degradaç20 ecológica e o desequilibrio social que o segui-
ram, procurou-se identificar os fatores que conduziram a este processo.
Custos e tecnologia
Como a concorrência de fora aparentemente desencadeou o processo, buscou-
se primeiro averiguar como produtores de Si0 Paulo puderam concorrer em termos
de preço num mercado tao distante como o da Amazônia. Num levantamento com-
parativo feito nas duas regiões, verificou-se que no setor agrícola, os custos para
produzir e cortar uma tonelada de cana, dependendo muito de mão-de-obra tanto
na AmazBnia como lá, nlo s20 nitidamente diferentes e, por causa do uso de adubos
químicos, talvez até sejam maiores ein São Paulo. Porém, a cana entregue ao enge-
nho na AmazBnia tem, em media, uni teor de açúcar menor em relação àquela co-
lhida em São Paulo, 15Ovs. lSOBrix (Valsechi 1960:13). Assim, para se obter uma
determinada quantidade de açúcar para fermentar, 6 necessário plantar, cortar, trans-
portar e moer 20% niais cana na Amazônia.
Este problema de qualidade da cana 6 agravado pelos processos usados nos en-
genhos da AmazBnia que convertem em álcool apenas 50% do açúcar inicialmente
presente na garapa, contra uma conversão de 80%, ou mais, em São Paulo (Valse-
chi 1960:77-79). Assim, para se obter uma determinada quantidade de álcool como
produto final, 6 necessririo, na regiio amazônica, fermentar 60% mais açúcar. Por
causa destes dois fatores, para produzir unia deterninada quantidade de álcool, deve-
se beneficiar 92% niais cana na regiio amazônica do que em São Paulo. Evidente-
mente, as vantagens peculiares do sistema tradicional de adubação natural pelos se-
dimentos da maré e de transporte de cana via Bgua, niio são suficientes em si para
compensar estas deficitncias.
A incapacidade de concorrer em preço deveu-se, portanto, aos custos de pro-
dução mais altos dos engenheiros, conseqüência dos teores menores de açúcar na
cana produzida na regi20 e dos processos usados nos engenhos que convertiam me-
nos desse açúcar em álcool. Conclui-se, então, que a tecnologia de produção menos
eficiente, tanto no setor agrícola como no setor industrial, foi fundamental no pro-
cesso de declínio do sistema tradicional.
Com este diagnóstico, procurou-se determinar as possibilidades de superar es-
ses problemas técnicos. No setor agríc?la, com auxílio de agrônomos do Centro
de Pesquisa Agropecuária do Trópico Umido (CPATU) da EMBRAPA, que não
mais efetua pesquisa com cana-de-açúcar, buscou-se em Pernambuco treze varieda-
des novas de cana. Depois de mais de um ano num campo experimental em

115
Mus. Para. Eniilio Gocldi: Colqdo Eduurrlo Grrlvdo, 1991

Abaetetuba, todas se mostraram adaptadas Bs condições da várzea, sem sintomas


de praga ou doença, com bom desenvolvimento vegetativ0 e pelo menos quatro va-
riedades apresentaram teores de açúcar comparáveis aos padrões de São Paulo.’
No setor industrial, com auxílio de quíniicos industriais da Universidade Fede-
ral do Pará, os processos de moagem, fermentação e alambicagem foram acompa-
nhados num engenho tradicional. Este estudo apontou a fermentaçãoesponfânea como
responsável pela baixa eficiência industrial, o que poderia ser corrigido com o uso
de leveduras de panificaçiio para iniciar a fermentação, como em São Paulo (Mene-
zes 1988:17). Esta técnica ajudava também a garantir um produto final padroniza-
do, com menores teores de produtos secundários de fermentação, e portanto, de
melhor qualidade.
Estas práticas de plantar novas variedades de cana e de usar leveduras de pani-
ficação, por se basearem em meios biológicos que se multiplicam naturalmente, se-
riam de baixo custo de implementaçiio. Encontraram-se então, soluçÕes técnica e
financeiramente exeqüíveis, que poderiam encaminhar os engenhos da região a con-
dições iguais de produtividade e eficiência de seus concorrentes de outras regidks
do país.
O fato destas soluções técnicas não terem sido implementadas a tempo não sig-
nifica que não existissem ou que niio fossem acessíveis. Destarte, nZo se pode con-
cluir que, inviáveis t6cnica ou economicamente, os engenhos tenham sido condenados,
inevitavelmente, 2 extinção frente a concorrentes de fora - embora seja isto o que
esteja acontecendo.
A vialibilidade, em potencial, desses engenhos é ainda substanciada pelo fato
de que a produçiio de aguardente, dentro do padrão técnico sugerido aqui, continua
sendo um bom negócio. Afinal, “pequenos” engenhos observados em Piracicaba,
São Paulo, muitos com equipamentos e escala de produçHo similares aos dos enge-
nhos “médios” e “grandes” da regiiio amazônica, estão atualmente produzindo nor-
malmente com esta tecnologia, e até aumentando a sua produção, justamente no estado
de origem dos produtos que tanto concorrem na região.
Estes fatos levam-nos a perguntar: Se o declínio dos engenhos não foi inevitá-
vel e se os engenhos eram, e ainda são, potencialmente viáveis, por que, num perío-
do de tantas inovaçks vindas de fora, não foram estas também introduzidas no campo
e na indústria?
O papel do governo
Da mesma forma que a presença de Órgãos do governo como fiscais foi mar-
cante na Amazônia tradicional, foi também marcante a ausência dos Órgãos encar-
regados de apoio. O brgão máximo de desenvolvimento regional, a Superintendência
do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), ao que se sabe, nunca em todo este
periodo encaminhou assistência, direta ou indiretamente, aos produtores de cana
ou proprietários de engenhos em Igarapé-Miri e Abaetetuba. Aparentemente, passou

116
EngenhosM V6ruw

despercebida pela SUDAM que só nestes dois municipios foram perdidos quase 2000
empregos diretos no setor agrícola, ou seja, mais de 60% de todos os empregos
criados pelos projetos agropecuArios incentivados pela SUDAM em todo o Estado
do Pard nos vinte anos at6 1985.
O Órgão responsjvel pelo setor açucareiro no país, o Instituto de Açúcar e Ál-
cool (IAA), quando presente na região, só fiscalizava a obediência as suas quotas
que restringiam a produçgo de açúcar. Centralizando a pesquisa de cana-de-açúcar
ultimamente, este órgio, controlado pelos grandes usineiros dos centros açucarei-
ros do Nordeste e Centro-Sul, interessou-se pouco em apoiar produtores em outras
regiões, nem mesmo com a expansão da produção na Cpoca do Proálcool.
O Órgão de extensgo rural, EMATER, prestou a maior parte de sua assistência
em áreas de terra firme, acessiveis por carros via estradas, e raramente em áreas
de várzea, acessíveis por barcos via rios, deixando assim os produtores de cana nes-
tas ricas terras fora de seu alcance.
Evidentemente, estes Órgios, encarregados de fomentar e fornecer a assistên-
cia técnica imprescindível a evitar o declínio do sistema de produção tradicional,
foram todos omissos neste caso. Por outro lado, 6rgãos de pesquisa não tão direta-
mente envolvidos, como o CPATU e a Universidade, quando consultados a respei-
to de problemas levantados no interior, responderam em pouco tempo e a baixo custo
com soluções técnicas, ou pelo menos apontando caminhos para soluções.
Mesmo assim, diante dos problemas, porque os mais interessados não busca-
r a m a tempo soluções? Afinal, estavam em jogo o patrimônio dos engenheiros, a
prosperidade dos canavialistas e donos de terra, e os empregos que sustentavam di-
retamente quase quinze mil pessoas. A causa não foi mero conservadorismo ou falta
de visão, pois foram justamente indivíduos desta sociedade tradicional que atende-
ram ao aumento da demanda inicial e expandiram a capacidade produtiva do siste-
ma agroindustrial. Como grupo chave, foram os engenheiros responsdveis pela
introdução de inovações em todos os setores: as novas variedades de cana no cam-
po, o uso de sorrapa na fermentação, e o engarrafamento na comercializaçCo. Por
que este processo de inovação, liderado pelos engenheiros, parou? Como se expli-
car esta passividade, seniio a displicência, dos engenheiros face ao desafio dos pro-
dutores de outras regiões?

O papel dos engenheiros


Quando começou a crise de concorrhcia de fora, com a necessidade de buscar
e iniplementar inovações ticnicas, uma parte dos engenheiros já havia se deslocado
para as cidades da região e para a capital do Estado. De modo geral, quando se
mudaram para a cidade, estes engenheiros não tiraram o seu capital dos engenhos,
mas os deixaram sob a direçã0 de terceiros, como gerentes ou arrendatários. As-
sim, se estes engenheiros moravam na cidade, portanto mais próximos das fontes
de soluções técnicas, por que não iniplementaram estes melhoramentos a tempo nos
seus engenhos?

117
Mus. Para. Emilio Goeldi: Colepio Eduardo Grr[r.í?o, 1991

Acredita-se que os fatores que motivaram o deslocamento às cidades ajuda a


explicar esta oniissiio. O primeiro foi a expansão da universidade que, freqüentada
por um grande número dos filhos desses engenheiros, separou-os de suas famílias
e de seus negócios no interior, de forma que não mais quiseram continuar no ramos
dos pais. O segundo, mais geral, foi a mudança da própria qualidade de vida nas
cidades, representada pela chegada da televisdo que, tanto quanto qualquer outro
elemento, contribuiu para que as pessoas da região percebessem a diferença entre
a qualidade de vida na cidade e no interior. Diante disso, muitos engenheiros, fi-
nanceiramente bem na época do auge, desinteressaram-se pelos negócios no inte-
rior, identificando-os como atrasados em relação cidade e sem futuro para os filhos,
e assim se deslocaram para as cidades. Uma vez na cidade, muitos tentaram outros
negócios e, de fato, alguns tiveram êxito, mas este dinamismo, este espírito empre-
sarial, não foi mais direcionado em benefício do sistema tradicional centrado nos
engenhos. Por estes motivos, quando ocorreu a crise de concorrência, aparentemente
nenhum engenheiro na cidade procurou as soluções ecnicas, tão próximas, para o
seu engenho.
Para os engenheiros que permaneceram no interior e sentiram os problemas dos
engenhos mais de perto, foi difícil buscar as soluções necessárias. Eles estavam longe
das fontes de soluções técnicas e preocupados o ano todo com o seu dia-a-dia numa
indústria cada vez mais em crise. A sua situação foi agravada ainda mais pelos obje-
tivos imediatistas dos engenheiros na cidade, que só se interessavam na renda do
engenho para se sustentar, e dos seus gerentes e arrendatários, nenhum dos quais
com interesse, a longo prazo, nos problemas do sistema tradicional. AlCm disso,
qualquer iniciativa sua de responder à concorrência era desestimulada pelo clima,
sentido nos engenhos, de abandono, tanto pelos outros engenheiros, que largavam
um negócio problemático em troca de uma vida melhor na cidade, quanto pelo go-
verno, que promovia benefícios que só IA apareciam.
Enfim, quanto 3 busca das soluções tknicas para enfrentar a concorrência de
fora, os engenheiros que foram B cidade tiveram as condiç%s mas não mais o inte-
resse, e os que ficaram nos engenhos tiveram o interesse mas não as condições.
Diante deste dilema, o processo de inovação parou, selando o declínio do sistema
tradicional.
*
Em suma, por existirem soluções técnicas para os problemas econômicos dos
engenhos, que Ihes permitiriam enfrentar a concorrência de produtores de outras
regiões, concluiu-se que o declínio do tradicional sistema agroindustrial não foi ine-
vitável. Pelo contrário, este declínio foi uma contingência da vontade humana. Pri-
meiramente, políticas e aç6es governamentais fomentaram a ruptura do isolamento
da região, sem dar apoio ao sistema de produção assim afetado. Em seguida, a omis-
sä0 ou impossibilidade dos engenheiros de buscar soluçks em resposta à concorrência

11s
Engenhos na Vhzea

selou o declínio do sistema. Neste contexto, a concorrCncia de fora provocou o de-


clínio dos engenhos, o tradicional sistema agroindustrial desintegrou-se, e as bases
econômicas e ecológicas ds sociedade rural entraram em desequilibrio.

IMPLICAçõES DO CASO EM ESTUDO

Odesfecho do caso em estudo encerra muitos eventos do processo de mudança


no mundo de hoje: o fim dos meios de vida tradicionais, ecologicamente equilibra-
dos; o declínio de sociedades e culturas sustentadas por estes meios; o surgimento
do uso indevido de recursos naturais e sua conseqüente degradação; a distribuição
de benefícios sociais que favorece mais a cidade do que o interior, mais a elite do
que a massa; a migraç50 para as cidades. Tudo isto ocorreu numa pequena região
da Amazônia que inal chega a medir 20 por 40 km.
Para destrinchar estes eventos foi necessirio, nesta reconstrução histórica, con-
testar a história e, neste estudo de uma economia local, ir alCm da simples conside-
ração de fatores econômicos. Assim foi possível, experimentando no campo alguns
elementos da tecnologia de produçiio, certificar-se da existência de opções tecnol6
gicas que nio se manifestaram historicamente. Foi possível ainda determinar no
seu contexto social, que as açdes da elite local, apesar de cruciais para a econo-
mia que a sustentou, n5o forain motivadas necessariamente por considerações eco-
nômicas.
Com esta metodologia, chegou-se à conclusão, ao contrário do desfecho hist&
rico, de que o declínio do tradicional sistema de produção não era inevitável. Por-
tanto, conseqüências indesejaveis deste declínio, como a perda de uso produtivo de
recursos naturais, seguido por sua degradaç50 e a migração para as cidades, pode-
riam ter sido evitadas, ou pelo menos atenuadas.
A fini de aproveitar o caso em estudo para apontar caminhos o um desfecho
diferente em casos similares, deve-se rever as aç%s dos responsiveis pelos resulta-
dos, isto d, o governo e os engenheiros. Como visto, o governo, ao incentivar o
processo de desenvolvimento regional, afetou o sistema de produção com abertura
de estradas, cobrança de impostos, exigências de higiene e aplicação da legislação
trabalhista. O resultado foi equiparar os engenheiros com os seus concorrentes em
tudo que onera, como o mercado, as obrigações públicas e sociais e ainda a infla-
ção, mas em nada que rende, como a eficiência e a produção. O governo atingiu,
tambdm, a sociedade rural tradicional oferecendo-lhe a possibilidade de desfrutar
de luz, água, telefone, televisiio, educação de nível superior e saúde pública. Po-
rdm, estes atrativos, que beneficiam pessoas diretamente, manifestaram-se , com
a exceção da saúde, só na cidade, nunca no interior.
Em resposta, como visto, uma parte dos engenheiros, por acolher esses benefí-
cios de bem-estar pessoal, mudou-se para a cidade e deixou os seus negócios no
interior 21deriva, enquanto a outra parte, por permanecer no ramo no interior, não
teve como procurar as soluções técnicas necessririas para evitar o declínio do sistema

119
Mus. Para. Eniilio Gocldi: Colqdo Eduurdo Grrhlo, I991

de produção. Desta forma criou-se o dilema central da Amazônia tradicional. Mes-


mo assim, diante do declínio que resultou deste impasse, e numa época de tantas
atividades em outras frentes, por que o governo não ofereceu, tambCm, apoio ao
sistema tradicional?
Acredita-se que a falta de apoio do governo a sistemas de produção na Amazô-
nia tradicional tem sua base numa suposição, implicitamente aceita em planos eco-
nômicos regionais, de que o avanço dos processos de “integraçb”, “modernização”
e “urbanização” não só C bom, mas também inevitável. Esta suposição implica que,
quando estes processos encontram e rompem o isolamento de tradicionais socieda-
des rurais, confrontando-as com um mundo maior, estas sociedades fatalmente en-
tram em declínio, como de fato vem ocorrendo na Amazônia tradicional. Par-
tindo deste princípio, nada se poderia fazer quanto ao conseqüente desequili-
brio econômico, ecol6gico e social deste encontro, o que justificaria o descaso do
governo.
Porém, o fato do declínio ein si, dessas sociedades não serve para confirmar
esta suposição quanto a sua causa. Pelo contrário, como este estudo demonstra, o
declínio de pelo menos um sistema de produção e da sua sociedade rural foi, mais
do que isso, resultado da prcipria suposição. Considerando o caso em estudd, o cus-
to da política desenvolvimentista fundamentada nesta suposição pode ser medido,
não em termos de um produto não essencial ein si, que deixou de sef fabricado na
Amazônia, mas em termos de uma sociedade rural, desequilibrada ecológica, eco-
nômica e até culturalmente.
Como alternativa, os resultados deste estudo apontam para uma outra suposi-
ção, mais vGlida, de que existe um meio termo entre estagnação e extinção para
as sociedades rurais da Amaz6nia tradicional, e que este meio termo reside na adap-
tação das suas bases econômicas ao mundo integrado, moderno e urbano. Além dis-
so, como esta adaptaç20 dificilmente pode ser realizada pela sociedade rural
tradicional por si só, faz-se necessirio, também, um apoio externo, até como
contrapartida fornecida pelos agentes que iniciaram o processo de mudança. Em
retrospecto, unia política fundamentada nestes dois princípios e voltada, enfim, ao
desenvolvimento não da Amazônia mas dos amazônidas, teria invertido o desfecho
do caso em estudo.

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121
PARTE II

ASPECTOS SOCIAIS E ECON~MICOS


DA FRONTEIRA AGRÍCOLA:
DINÂMICA DOS ASSENTAMENTOS
CAMPO RELIGIOSO E TRAJET~RIASSOCIAIS
NA TRANSAMAZ~NICA
Roberto Araújo’
RESUMO - Tcnta-sc apscscntar as ldgicas sociais subjaccntcs B constituição
de um campo scligioso, polasizado principalmcnte eni torno de uma oposição
entre catdlicos c pcntccostais. A tentativa de organiagio dos priniciros em “CO-
munidadcs de basc ’’pcla hicsarquia cclcsiistica, visando B formação de lídcres
capazes dc orientas a participaç50 dos agricultorcs niigrantcs nos proccssos de
dccisZo política, cncontra scu fundamcnto na visiio de uma comunidade iguali-
tifria,dc pcqucnos psodutoscs rclat¡vanicntchoniogêncos, quc prcfiguma insta-
laç50 dc unia nova osdcni social.
A tmnsforniaç5o obsigatória das estsutuns sociais de um niundo dividido
entre “ricos* ’ c ‘‘pobscs”, “fostcs” c “fracos”,as congscgaçõespentecostais
opõcni a ênfisc na niosalizaç5o da conduta individual, num UNVCSSOcm que
se difcscnciani “cscntcs” c ‘‘pccadoscs ”.
O discusso scligioso funciona conio unm metifosa da via3 socid. A identi-
dade do agsicultor pobrc, nuni contcxto de niobilidadc individual, parece osci-
lar entre a pesspcctiva do combate a uma anicaça extcrna - encamada no
personagcni do “rico ’’ c cni suas nianifcstslçõcs- que dctermina a precarieda-
de das condiçõcs de existência do “fmco” e a nccessidade dc formalizarpap6is
sociais c dcfinir rclaçõcs scciprocas para aldni das fiontcisas de catcgorias SO-
ciais lioniogêncas.
PALAVRAS-CHAVE: Comunidadc dc base, Pcntccostalismo, DifcrcnciaçZío
social, Milcnarisino, Canipesinoto dc fronteira.
ABSTRACT - Tlic social logic is prcscntcd that underlies thc polarization of
groups in coniniunitics along thc Transamazon High way, mainly between
Catholics and pcntccostals. Tlic attcmpt to organize the first in “base
eommunitics” by the ccclcsiastic hicraschy is grounded in the idca of an
iguditasian con~niunityo f sclatively honiogcncous poorpeasants that psefigures
a ncw social osdcr.
In contrast to the ncccssasy tsmsfornmtionof the socidstructures ofa world
dividcd bctwccn “sich*’ and “poor ”,pentecostalcongmgation emphasize the
tlic

SCT-PWCNPq. Muscu Paracnsc Emilio Gocldi-Dcpt? de Ciencias Humml Antropologia.

125
Mus. Para. Enillio Gocidi: Coic@o filuardo Gulwio, 1991

moralization o f individual conduct in an universe in which therc is a differentia-


tion bctwccn “bclicvcrs’’ and “sinners”.
The religious discourse works as a nietaphor o f sociallife. The identity of
the p r pasant in a context ofascending or dcscending individual niobility seems
to oscillate bctwecn thc perspective o f struggle against an extcrior thrcat - em-
bodied in the charactcr of the “rich ’’ - and the necessity o f fornializingsocial
roles and defining rccprocal rclations beyond the frontiers o f homogeneous so-
cial categories.
KEY WORDS: Basc comniunitics, Pcntccostalism, Social diffcrcntiation, Mil-
lcnarian movcmcnts, Frontier peasantry.

*
Estudos sobre o campesinato de fronteira têm evidenciado a importância de re-
ferências mítico-religiosas em diversos movinientos sociais do meio rural. Profe-
cias, procissões e alegorias traduzem os anseios de posseiros e pequenos proprietarios
em medforas de suas difíceis condições de existência, ritualizando por vezes ele-
mentos do conflito que caracteriza suas relações com outros segmentos sociais. Mar-
tins (1981: 132), por exeniplo, refere-se Bs representações diabólicas do dinheiro
- “a Besta-Fera (personagem do apocalipse) é o dinheiro” - e 2s profecias “de
circulação interna” 2s unidades camponesas, compondo verdadeiro “código (. ..)
e doutrina de ocupação de terras novas”. Tais doutrinas emergiriam “num nível
exterior à sociedade moderna” (Martins 197548) como efeitos do choque de or-
dens sócio-econômicas distintas, desempenhando funções precisas: “. ..há profecias
claras no sentido de que a margem esquerda do rio Araguaia é uma região sagrada,
(...) de terras (...) e homens livres (...). (Por isso) não há mais que se deixar expul-
sar, 6 preciso resistir” (Martins 1981: 133 - 134).
Mas visões do Milênio ou aspirações Utopia nem sempre se deixam apreen-
der em contexto de funçijes tão definidas, como simples expressão de uma resisdn-
cia 3 penetração do capitalismo, e/ou de uma visão de mundo capitalista, no campo.
Não se pode relacionar invariavelmente <Terra de Trabalho, e recusa da proprieda-
de privada ou do papel da mercadoria nas relações sociais. Deve-se lembrar que
“embora a ocupaç50 de áreas de fronteira tenha-se baseado apenas excepcionalmente
em relações capitalistas de produção (...), as chamadas frentes “demográficas” (são)
econômicas tanto em sua origem quanto em seu funcionamento” (Sawyer 1988).
Acrescente-se a isso a dimensHo de ruptura presente na necessidade de adaptação
a estruturas sócio-espaciais em contínua mudança e na emergência de novas opções
e estratigias, dificultando ou impossibilitando a análise de certas representações so-
ciais características de migrantes das regiões de fronteira como tendendo à reprodu-
ção funcional de sociedades camponesas.
É portanto não do ponto de vista de um confronto entre ordens sócio-econômicas
distintas, mas sim levando-se em conta a importância de estratégias sociais diferen-
ciadas - e “diferenciantes” - no seio de uma mesma ordem social, que se tentará
aqui uma apresentação parcial do campo religioso na área estudada, uma área da
Transamazônica, principalmente em torno do Km 180 no trecho Altamira-Itaituba.
Tentaremos mostrar de que maneira esse campo se constitui através da polarização

126
Cnmpo religioso e trajerdriassociais ìm Tmiisaiiiazdirica

das ênfases diversas de um discurso mítico-religioso preocupado em tecer versões


sobre o tema do conflito entre o Bem e o Mal.
*
Os colonos proprietários de lotes individuais de 100 ha entre os Kms 80 e 100
da Transamazônica, de Altamira a Itaituba, foram encorajados a plantar cana-de-
açúcar para uma usina de beneficiamento do produto (Usina de Vila Pacal, Km 92)
que, entre 1974 e 1983, esteve sob a responsabilidade de 6 diferentes organismos,
entre os quais o próprio INCRA. Em 198I,a Construtora e Incorporadora Carneiro
da Cunha Nóbrega Ltda. (CONAN), subsidiária da firma Catende, assumia a dire-
ção da usina após um conv6nio com o INCRA. As relaçks entre a companhia e
os agricultóres cedo degeneraram em conflito. Derrubadas foram realizadas por or-
dem do chefe de segurança da usina em diferentes Breas na região de Vila Pacal,
supostamente para a CONAN, que pretenderia delas apropriar-se, inclusive por meios
violentos: o próprio chefe da segurança, acompanhado por funcionários da CONAN,
teria incendiado barracos de posseiros. Todos estes fatos ocorriam, aliás, varios meses
depois do barbaro assassinato de dois lavradores que realizavam empreitadas para
o superintendente da usina, atribuído a funcionários da companhia.
Os conflitos atingiram seu apice em meados de 1983, quando a companhia, às
voltas com prejuízos financeiros, recusava-se a saldar seu dCbito para com os pro-
dutores de cana. Estes, oganizados pela Associario dos Fornecedores de Cana da
Transamazônica, ASFORT, e contando com o apoio de padres e religiosos da re-
gião, interromperam o tráfego na rodovia ocupando a ponte do igarapd Pacal. O
bispo da Prelazia do Xingu, de quem depende a hierarquia católica na &ea, veio
juntar-se aos manifestantes, e foi manietado pelos soldados da polícia militar do es-
tado, que o utilizaram como refém para obter a desobstrução da ponte. Duas sema-
nas depois, uma missa era celebrada in loco sobre um caminhão pelo arcebispo
coadjutor de BelCni, estando presentes, alCm dos agricultores, vários bispos, reli-
giosos, sindicalistas e funcionarios do INCRA. Durante o ofertório, foram levadas
ao altar uma bomba de gás lacrimogênio utilizada pela polícia na ponte, e uma cruz
de madeira, símbolo do sacrifício dos dois lavradores anteriormente assassinados.
Nesse meio tempo, uma entrevista feita com o bispo do Xingu era publicada na Pro-
vincia do Pará, em Belém, na qual o prelado declara:
“O movimento foi um movimento popular. Não foi nem da Igreja
nem da ASFORT. A iniciativa (de ocupar a ponte) não foi tomada pelos
padres, nem por freiras. Foi decidida em AssemblCia. Agora, o povo
que estava 18 participa das comunidades”. (8/6/83).
O que sio, e o que representam, as ((comunidades, de que fala o bispo, na Trans-
amazônica? Pode-se usar o termo para designar, de maneira geral, o conjunto de
pessoas residentes em determinado perímetro. Neste sentido, ele não assume ne-
nhuma significaçio particular, preferindo-se a ele o tipo de indicação em vigor na
região que, ao invés de tophinios, utiliza a posição do lugar em relação à rodovia
principal para indicar sua localização. Tal indivíduo mora assim no Km 120,

127
canlpo re [igioso e rrujcfbriussociuis nu Trmsuniazbnicu

devendo-se precisar se se trata do Kin 120 ‘Lfaixa’’,isto 8,se sua morada 6 próxima
da beira da estrada, ou “travessão sul/ travessiio norte”, caso resida às margens
dos caminhos secundários que, cortando perpendicularmente a rodovia, enfronham-se
pelo interior das terras.
Erguem-se em espaço cedido por u m morador de determinado sítio, igrejas ca-
tólicas ou templos de outras confissões religiosas, construidos pelos migrantes em
dbua ou pau-a-pique. Por vezes, é a própria morada de um colono que serve duran-
te certo tempo como lugar de reuniiio. Estas construções que, no âmbito do períme-
tro, constituem freqiienteniente um espaço Único de convívio social, congregam
regularmente os membros de uma mesma ucomunidadew.
Utilizado sobretudo por leigos e religiosos católicos, o termo de comunidade
aplica-se ao conjunto de católicos que se reúnem periodicamente no seio de uma
mesma capela, participando das atividades promovidas pela Igreja ou executadas
com sua aprovaçiio. Mas para a hierarquia pós-conciliar ,a experiência comunitária
contém em germe um projeto de sociedade cuja concretização C necessária à reali-
zação do Reino. Refletindo os valores cristãos de partilha e de igualdade entre os
homens, lugar de um poder refrakírio a toda concentração excessiva da autoridade,
a comunidade, “escola” na qual o povo aprende a tornar-se sujeito da própria his-
tória, antecipa uma forma nova de vida social. Condição necessária mas não sufi-
ciente: falta dispor de instrumentos concretos capazes de irradiar a Ctica comunitária
2i totalidade das esferas sociais. A metdfora da “Caminhada” em direçã0 de uma
sociedade mais justa simboliza as diversas etapas de uma evolução comunitária em
que a procura coletiva por melhores condiçees sociais de existência, através da or-
ganização de sindicatos locais e da participação em partidos políticos, ganha uma
perspectiva escatológica, orientando a participação voluntarista de padres e religio-
sos nas lutas sociais.
Um líder comunikírio (Km 242 S) descreve assim os princípios diretores da co-
munidade, na 6poca do antigo vigário da paróquia de Uruará (Km 180 ATM-Itaituba):
“O que o padre pensava, e nós com ele, C que não tinha divisão, né? Igreja, sindica-
to, partido político (...). Se na missa você fala PT, sindicato, é oração porque C
uma coisa sadia. (...) At6 que a gente fechou: quem não participa da organização
do sindicato e de cooperativas comerciais locais não tem direito de receber nenhum
sacramento, nem de batizar os filhos’’. A recusa do sacramento batisnial destinava-
se rio raro a orientar os laços de compadrio, excluindo-se certos indivíduos que
não parecessem capazes de integrar-se aos princípios estritos de reciprocidade, aju-
da mútua e principalmentede engajamento político. Em cursos e encontros regular-
mente realizados com a ajuda de leigos, e durante as visitas do padre, interrogava-se
a comunidade sobre o grau de participação de seus membros nas atividades comuns,
encorajando-se a solidez da organização comunitária diante dos problemas quoti-
dianos, e a consistência do engajamento sindical do grupo. No ponto ideal de um
sistema distintivo entre “boas” e “miis” comunidades, ter-se-ia uma sociedade igua-
litííria de pequenos proprietários relativamente autônomos, produzindo víveres em
parte comercializados pelo próprio grupo.

128
olmpo religioso e rmaje16riíissociíiis na Troiisarwzdnica

Os líderes coniunitlirios, compondo um grupo estreitamente ligado ao padre,


visitavam freqüentemente as diversas comunidades. Participando de encontros de
formação de lideranças organizados pela Prelazia do Xingu, contribuíram 2 funda-
ção de um sindicato local dos trabalhadores rurais, e ao desenvolvimento do Partido
dos Trabalhadores na regiio. Com a ajuda da Igreja e das associações classistas de
Santarém, foram organizados postos de revenda sob forma de cooperativa em de-
terminadas áreas, de forma a reagrupar as compras de bens de primeira necessidade
e, eventualmente, comercializar parcialmente a produção dos agricultores dos tra-
vessões.
Grande parte das energias militantes dedicaram-se porém, sobretudo, à reivin-
dicação de uma melhor infra-estrutura para a Area. Significativamente, a reivindica-
ção de uma “terra para trabalhar” encontrou-se minimizada nesta área destinada
21colonizaçlo, diante da importincia da pavimentação da Transamazônica, da cons-
trução de estradas secundárias, escolas e hospitais, tenlas que se encontram sempre
entre as principais deniandw dos movimentos sociais organizados.
Mas além da Igreja Catblica, diversas seitas notabilizam-se por sua vitalidade
e influência. Nio entra no inibito deste artigo o estudo da história, estrutura e fun-
cionamento das diferentes seitas pentecostais na Transamazônica. Algumas obser-
vações fazem-se, todavia, necessárias. Do ponto de vista da histdria das religiões,
o pentecostalisnio brasileiro inscreve-se na tradição do Despertar (awakening) reli-
gioso cuja eclosio quase simulthea nos Estados Unidos e no País de Gales nos pri-
meiros anos deste século deve muito gs concepções metodistas de uma religião
emocional. Dois movimentos passam a recrutar adeptos no Brasil em 1910 e 1911,
respectivamente: a Congregaçiio Crisd do Brasil, trazida por um integrante italiano
estabelecido primeiramente em Santo Antbnio da Platina, no NE do Paraná, nas fran-
jas do que era entHo a fronteira pioneira do café; e a Assembléia de Deus, trazida
por dois missionririos suecos estabelecidos em Belém do Pará, nos primdrdios do
“grande colapso” provocado pela queda dos preços da borracha. Conhecendo uma
progressão variável mas constante desde enfio, esses gupos compartilham atualmente
a denominação popular de “crentes” com outras seitas que nascem de divisões su-
cessivas a partir de unia congregação original. Assim, a Deus é Amor surge no co-
meço dos anos 60 de unia cisio no interior da Igreja Evangélica Pentecostal para
Cristo, ela mesnia derivada da Igreja do Evangelho Quadrangular, nascida nos Es-
tados Unidos em 1923 e instalada ein Slo Paulo em 1951.
Para o conjunto dessas Igrejas, o tema do mil&nioe da Batalha entre o Bem
e o Mal no final dos tempos assunie uma importincia fundamental. Em função da
espera do retorno iminente de Cristo - que virá “como um ladrão” (Mateus,
24.19-44; v. tb. Marcos, 13.24-37)acolher o seu povo - as doutrinas pentecostais
pregam a necessidade de renunciar aos prazeres deste mundo. A obediência a diver-
sos interditos e a observdncia de certas prriticas que encontram às vezes justificação
em textos dos Evangelho, identificam o fiel aos olhos dos outros, permitindo seu
controle pela comunidade dos crentes. Uma estrita vigillincia moral estende-se Bs
esferas mais intimas do comportamento, vigorando freqüentementeno seio da família.

129
Mus. Pam. EniNio Goeldi: CokpJo Educrrdo GuIvc70, 1991

A retidão do fiel fornece a prova quotidiana de uma real conversão, vivida co-
mo uma experiência súbita e sensível, quando o indivíduo, tocado pela Graça divi-
na, passa a adotar um novo princípio de vida. Milagres e maravilhas constituem
a expressão das manifestações do Espírito Santo entre os homens, que Dele rece-
bem dons diversos (dom das línguas, da profecia etc.). Templo de uma relação não
mediatizada coni o Espírito, o corpo humano deve ser Constantemente purificado.
Deixando o crente de fumar, beber, dançar e evitando toda outra atividade que cons-
purque a pureza do gesto e da intençiio, obtém em troca a intervenção benevolente
de Deus na resoluçiio de suas dificuldades, além do aperfeiçoamento e da multipli-
cação dos dons espirituais a seu alcance.
Quais elementos constituem a base das representações comuns aos grupos que
compõem o universo religioso e, por outro lado, como, a partir destes elementos
comuns, efetua-se a polarizaçiio do campo religioso? Atente-se para o que dizia,
em 1983, um colono da zona açucareira em torno de vila Paca1 (Km 92, ATM -
Itaituba).
“Quem é latifundilirio niio dá valor ao pobre. O rico não gosta de
pobre, não gosta de chegar perto. O agricultor tem condição de viver
em qualquer lugar, porque é acostumado a sofrer, a andar sem dinhei-
ro, a passar fome, acredita só em Deus e na terra. O homem que dá
valor só à cana niio é agricultor, porque a terra produz arroz, feijão,
milho. A cana é lavoura do latifundiário, não do pobre. Sempre lutei
contra a cana e sempre fui criticado. Quem acredita só em Deus vai ven-
cer, quem confia só na cana ni0 vai vencer. N o meu lote tem capim,
lavoura branca, cacau, cana, eu arranco cana e como o que Deus me
dá. Nós temos que mudar de lavoura, mas tem sempre gente repetindo:
minha lavoura é cana. Pobre que se mete no meio de rico só vai morrer
de fome”.
Crer em Deus ou na cana? Surpreendente alternativa, que se deve desde logo
remeter às perspectivas do migrante, quando tenta situar em relação à sua experiên-
cia os dados de uni novo contexto social. O tema da viagem h procura de um terreno
é freqüentemente invocado. Abandonar terras exaustas, escapar à grilagem, deixar
de trabalhar “de meia”, são razões apresentadas como causas da migração para
a Transamazônica, ao termo da qual se espera dispor de uma terra de onde tirar
seu sustento e o da família. A versão da *Terra de Trabalho,, serve todavia, essen-
cialmente, a situar aquele que fala diante do interlocutor: “Eu não quero terra pra
mim ’ta vendendo prá uni e prá outro, eu quero terra prá mim beneficiar o sustento
prá mim”, afirmava uni migrante. Mas, ao legitimar as aspirações do pobre, Único
a merecer o epíteto de agricultor, pois só ele tira da terra produtos imediatamente
utilizáveis no seio da unidade domkstica, a oposição pressentida entre produtos do
rico e do pobre aparenta ir além da simples definição de categorias de pessoas: ela
representa a materializaçiio das naturezas irreconciliáveis do rico e do pobre, base
do confronto entre fortes e fracos no seio de um mesmo universo. A “fraqueza”
do pobre C seguidamente posta em evidência no discurso dos informantes: “o ruim

130
Conrpo religioso e rrujcl6rius sociuis nu ~uflsutiiazcfnica

C que a gente nio tem estudo. A gente que nasceu na roça, a gente não tem estudo,
não tem prdtica. A pessoa que vive na roça, conforme a pessoa fala prá gente, tudo
bem, nC?”
O conflito entre fortes e fracos desenrola-se num espaço progressivamente ocu-
pado pelos primeiros, 2s custas dos segundos - o colono acima se sente assediado
de certo modo pela cana, que parece privá-lo de seu espaço de subsistência: “no
meu lote tem pasto, lavoura branca, cacau, cana, e eu arranco cana e como o que
Deus me dsi” - e parece constituir o desdobramento de um combate, temporal-
mente circunscrito, entre o Bem e o Mal (“Quem acredita sÓ em Deus, vai vencer.
Quem confia só ein cana nIo vai vencer”). Assim, como no caso da cana, a pimenta
representa, aos olhos do informante citado em seguida, uma ameaça iminente à sua
autonomia e integridade. Note-se que se o caldo-de-cana C por vezes utilizado como
adoçante do café coado, e o bagaço na alimentação da criação porcina - usos para
os quais não se necessita de grandes quantidades de p6s plantados - o valor de uso
da pimenta B praticamente nulo:
“Pimenta $ uma coisa muito inútil prá n6s plantar. É só prá des-
truir o povo. E por isso que dsi dinheiro monstro... (...). Só aqui na
Altamira produz pimenta ... Tonié-Açu, Castanha1... e não chega, o po-
vo em cima, atrris. O senhor acha que o povo dava conta de toda essa
pimenta prá comer? Tem um movimento com ela, ela C maligna, não
é aceitável prá n6s. (...) (Ela) nIo vem de Deus. O que vem de Deus
B o milho, o feijGo, o arroz. (...) Mais para o fim dos tempos só vai
ficar aquilo que foi dado graças pa mesa do Cristo” (colono da Assem-
blkia de Deus, ATM-MARABA).
Proliferando incontroladamente, tanto a cana quanto a pimenta parecem assim
perseguir os migrantes de unia regiio, até mesmo de um estado para outro (“lá no
Rio Grande do Norte, muitos fornecedores de cana ficaram sem nada. A cana to-
mou tudo, a usina roubou tudo. Aqui vai acontecer a mesma coisa se tem gente con-
tinuando plantando cana”). Plantados pelo rico, esses produtos, contribuindo a
aumentar sua prosperidade para além do limite legítimo imposto pela necessidade
de alimentar a si e à família, cerceiam o espaço vital do pobre e reduzem-no 21midria.
O tema do assédio pela cana e sua variante, a multiplicação da pimenta que
o informante encontrou em superabunddncia em regiões que percorreu durante a
vida, coaduna-se dificilmente com um contexto em que a terra seja atribuída, e sua
posse garantida, quer seja por uni conjunto de práticas a que o hábito atribuiu força
de lei, quer ainda por um conjunto de normas e instituições em cujo funcionamento
o migrante possa encontrar satisfaçiio. Mas ele tanipouco reflete a visão de um “Bem
Ilimitado” (Velho, 1979:99 - 101; Musumeci 1988:90,92, 108) relacionada 2 exis-
tência de “terras livres” na fronteira.
Deve-se lembrar que a tirea estudada é, originalmente, destinada à colonização
dirigida. Lotes individuais atribuídos aos colonos foram previamente delimitados
pelo INCRA. O afluxo de migrantes para a área não se restringiu, entretanto, às

131
levas organizadas pelo Instituto. Diversas vagas de migração esponanea sucederam-se
em direçã0 à região, mas a preocupaçlo com a “legitimação” do lote adquirido
por ocupação ou compra de direito de posse, manifesta-se no afi demonstrado pelos
migrantes em respeitar as injunções governamentais. Procura-se dessa forma, com
exceções que se pode não raro atribuir B topografia de uma dada área, medir os
terrenos em relaçZo aos marcos deixados pelos técnicos. Em caso de disputa sobre
limites, a conformidade 2s disposições governamentais sobre a organização do es-
paço, embora sendo estas passíveis de interpretações contraditórias no campo, cons-
tituem ainda assim um argumento de peso. Neste sentido, o que está em jogo não
6 necessariamente a tensão entre, por um lado, a idealizaçã0 de uma situação vivida
nos primeiros tempos da colonização em que o direito de posse fosse condicionado
unicamente ao uso de um espaço “aberto” e, por outro, a intervenção de fatores
externos que fixam os contornos da propriedade privada: trata-se de uma contesta-
ção direta das razões da instabilidade do pequeno agricultor. O raciocínio parece
buscar inspiraçä0 nunia “orientaçlo cognitiva” semelhante a que, caracterizando
múltiplos aspectos da sociedade camponesa, oferece ao observador uma “Imagem
do Bem Limitado” como descrita por Foster (1965).
u(. ..) peasants view their social, economic and natural universes - their
total environment - as one in wich all of the desired things in life (...)
exists in finite quantity and are always in short supply (...). It is as if
the obvious fact of land shortage in a densely populated area applied
to all other desired things: not enough to go around. “Good”, like land,
is seen as inherent in nature (...): present, circumscribed by absolute
limits and having no relationship to works (Foster 1965: 296 - 298).
À diferença, no entanto, do camponCs de Foster, não se trata para o migrante
de manter o equilíbrio de determinadas posições sociais em relação a uma norma
de modestos padrões de consumo universalniente aceita, dispondo de um poder coer-
civo próprio a desencorajar todo acúmulo individual. Poder-se-ia mesmo inverter
aqui os termos de seu exemplo. De certa maneira, 6 não como se a penúria de terras
numa área densamente povoada constituísse o ponto de partida de um raciocínio
aplicável a todos os outros bens, mas sim como se a penúria de bens de que sofre
o pequeno agricultor, determinando a precariedade de suas condições de solvência,
constituísse a base de u m raciocínio aplicável à terra.
Atingir certa estabilidade econamica ainda que com modestos padrões de con-
sumo já é motivo de constante preocupaçlo para o colono. Reduzir os gastos com
a aquisição de uma terra C essencial. Ora, em teoria, todo agricultor pode ocupar
um terreno não beneficiado e distante dos eixos rodoviários - visto a disponibilida-
de em terras e a pressiío demogrttfica aumentarem na razão inversa da proximidade
das estradas e da quantidade de trabalho já investida no lote. Mas a dureza das con-
dições de vida e de trabalho, assim como o tempo gasto com o abastecimento da
unidade doméstica e o escoamento da produção, crescem consideravelmente com
a distância. Para uma grande maioria, que chega à região não dispondo senão de
parcos recursos, um primeiro passo 6 dado ao plantar em torno da habitação fami-
liar produtos para o consumo doméstico.

132
Campo religioso e rmjer6rias sociais na Trcmsaninrbnica

A diversificaçlo da produçiÍo pode garantir tanto uma renda melhor distribuída


durante o ano agrícola, ein funçlo dos diferentes períodos de safra, quanto a possi-
bilidade de um maior leque de preços. Contando com o fator tempo, e com a quanti-
dade de braços disponíveis no grupo familiar, o colono tenta constituir uma reserva
de valor adquirindo algumas cabeças de gado, semeando pastagens após ter colhido
um par de anos no mesmo terreno.
Mas C difícil, para os que nií0 dispõem de um capital inicial, ultrapassar o “pe-
ríodo crítico” do começo (Lena 1988). Os preços agrícolas caem durante a época
das safras, sob o efeito conjugado da oferta e da açã0 de atravessadores. Diante
da impossibilidade de estocar, na espera de um niomento favorável à venda, uma
produção às vezes ja engajada no pagamento de dívidas contraídas junto a marretei-
ros e comerciantes, o colono é presa fácil do menor revés que o obrigue a vender
sua terra.
A inversão dos termos do exemplo utilizado acima conviria melhor à situação
do migrante, para quem uma lógica inapelrivel guia aparentemente o rumo das coi-
sas: a riqueza de u m homem, testemunho de sua “força”, dar-lhe-á melhores con-
dições de amealhar sempre mais, eni detrimento daqueles que nada têm, ameaçando
a permanência na terra e o futuro do pobre. Mas é igualmente determinante a “fra-
queza” do pobre, revelada pela ausência do “estudo” e da “prática” que permitem
a outros “pegar um rumo de sair, de ganhar o pii0 mais fácil, de descobrir as metas
do negócio, as bases boas de negócio”. Despido assim dos bens, mas também do
status, que lhe garantiriam, um e outro, solvência e oportunidade, o pobre endivida-se
até ser obrigado a deixar a terra. O raciocínio parece contestar desta maneira a ideo-
logia da prosperidade unicamente como resultado do esforço individual: a “fraque-
za” do pobre é sobredeterminante, embora esteja o agricultor consciente do quanto
seu próprio trabalho contribui à prospericiade de comerciantes e atravessadores. Tudo
se passa então como se a nocividade de um produto derivasse de seu carriter de mer-
cadoria - nio só o produto do rico, destinado exclusivamente ao mercado, mas
também o produto do pobre, a lavoura branca, desnaturada no momento em que
escapa ao controle do agricultor para ser integrada aos circuitos de comércio. O
produto ganha assim o opaco “movimento” que o torna nocivo, contribuindo a tor-
nar os ricos niais ricos e os pobres, niais pobres.
*
Mas nio se pode pretender que toda e qualquer forma de mercadoria possua
um caráter “diab6lico”. Por reduzidos que sejam os contactos de determinado gru-
po de famílias com os principais eixos rodoviários e/ou com a economia especulati-
va da regilo, inúmeras ntividades envolvendo trocas monetárias complementam a
agricultura “de subsistência”, permitindo ao colono a compra de renikdios, de p61-
vora, de instrumentos agrícolas, etc. Mas principalmente, múltiplas formas de uma
especulaçio fundiriria em escala reduzida asseguram, para o pequeno produtor, a
possibilidade de acumular um modesto capital. A apropriação, por exemplo, de vá-
rios lotes temporariamente fora do alcance de qualquer rede rodoviária por indivíduos

133
Mus. Para. Eiiiílio Goeldi: Colccno Educrrdo Gahvlo, 1991

de uma mesma família, nem sempre se explica pela existência de estratdgias patri-
moniais tendendo à reprodução do grupo domistico no mesmo local. A venda, par-
cial ou total, do patrini6nio assim obtido, pode constituir, em função da variação
do preço da terra - quando da abertura de uma estrada, por rudimentar que seja
- um capital que será investido em nova área ainda não ocupada por todos ou por
alguns membros do grupo familiar.
Nem por isso o traço de desconfiança para com a atividade mercantil ou espe-
culativa se torna menqs necessario à definição da identidade do agricultor enquanto
produtor domCstico. E em larga medida nas ocasides de maior conflito social, como
em lutas pela terra, que a exacerbação destes traços tende a encontrar livre curso.
Nestes momentos, em que se estreita a “união” entre agricultores, a utopia da co-
munidade igualitária manifesta grande transparência diante da realidade: o ideal co-
munitário parece desde já realizar-se na organização de um sistema de trabalho
comum, que permita ao mesmo tempo a ocupação acelerada da terra com o plantio
de roças e a defesa eventual contra agressões físicas orquestradas por propriethios
ou especuladores. Como exprime um colono, rememorando com prazer e nostalgia
a Cpoca do “mutirão”, em que uns montavam guarda enquanto outros limitavam
a terra dos lotes sucessivos de um mesmo travessão: “bastava dar um tiro de espin-
garda para todo mundo correr prá ver o que era”. Organizaçöes como a Comissão
Pastoral da Terra, emanaç50 da Igreja Catdica, ou as assessoriasjurídicas de asso-
ciações sindicais diversas, não encontram aí dificuldade alguma em mobilizar os
grupos doniCsticos. Encoraja-se a eclosão de sindicatos e organismos locais cuja fi-
nalidade política se encontra legitimada, na medida em que são vistos como meio
de concretizar, no domínio da experiCncia sensível, a ruptura para com uma situa-
ção anterior condicionada pela subordinaçiio ao “rico” - ameaça à existência e
à identidade do grupo, figura “externa” do Mal.
A conversão ao pentecostalismo, por sua vez, aparenta enfatizar o controle so-
bre o “pecado” e representaçöes “internas” do mal. A figura, por exemplo, da
mulher, cuja natureza particularmente exposta A contaminação (Velho 1978: 11-12)
põe em risco a moralidade e as bases de sustentação do grupo domistico. E em sen-
tido análogo que vários colonos reservam críticas às associações sindicais, interpre-
tando literalmente a medfora da “Caminhada” em direçã0 de uma sociedade mais
justa: “O que eles querem C que a gente passe o tempo na caminhada, correndo
de um lado prá outro na estrada (referência 3s reuniöes e assembliias promovidas
por sindicalistas). Quando uma mulher ia pra uma reunião, já mandavam prá outra,
tiravam ela do meio dos filhos, deixavam as crianças dum jeito...”. Em outras oca-
siões, insinuam-se suspeitas sobre a moralidade do que ocorre durante assembldias
em que militantes e agentes sindicais encontram-se hospedados numa mesma casa,
independentemente do sexo, para passar a noite.
A mulher não C entretanto a Única personagem intermediária do que aparece
como um deslocamento na Cnfase do sentido. Um informante, ao falar do que, a
seus olhos, constituiu uma “traição” de um dos líderes de sua comunidade a um
projeto de cooperativa, expressava-se nos seguintes termos: “O ruim C que a gente

134
canlpo religioso e trajek5iYas socinisna Trunsaniazdnica

não tem estudo. A gente que nasceu na roça, a gente não tem estudo, não tem prdti-
ca. A pessoa que vive na roça, conforme a pessoa fala prá gente, tudo bem, né?
(...) Mas ele,foi pegar lini riiiiio de sair, achar um jeito de ganhar o pão niaisfdcil.
Eu com 6 anos aqui, ïido sobrou sustento (...). Ele descobriu todas as nietas do
...
negócio, as bases boas do negócio. E aíó, niarretar nós uni cara que itiio tinha
nem onde cair morto!”. E conclui: “galpão de pobre, arniazdm de rico: sempre
foi assim e sempre ser4”.
A fronteira que, em termos absolutos, recobriria a oposição entre “nós” e “os
outros” (marreteiro/rico/grande x agricultor/pobre/pequeno) desloca-se desta for-
ma para o interior do grupo. Ao mesmo tempo, pordm, a afirmação em questão
de uma identidade inicial entre o agricultor e o pequeno comerciante (“...um cara
que não tinha nem onde cair morto”) não deixa de dar trajetória real do segundo
a perspectiva de uma trajetória virtual para o primeiro, no momento em que valori-
za a “descoberta das bases do negócio” - isto 6, dos mecanismos que perpetuam
a subordinação - como meio de evitar uma situação conduzindo a - ou represen-
tando - uma perda de autonomia.
Assim, o aproveitamento das possibilidades oferecidas pela participação na es-
fera de circulação do produto (pequeno comércio etc.) ou no mercado de fatores
(compra e venda de terrenos, aluguel de miío-de-obra etc.), na medida em que con-
tribui ao acirramento de conflitos internos à comunidade concebida como igualitá-
ria, pode levar à exigência de uma redefinição da identidade dos atores. Se até agora
encontrávamos o Mal, ora materializado em objeto exterior ao agricultor pobre, ora
atribuído à natureza que lhe era estranha, o conflito pode doravante desdobrar-se
em outra dimenslo: seu palco é o indivíduo diante de Deus, à imagem das palavras
de um colono:
“No dia do arrebatamento, gente vai urrar, berrar (. ..). Eu SÔ vivo, num
SÔ melhor do que ninguém, somos todos pecadores. Mas “bem-
aventurado o pecador remido”. (...) Quando voc6 peca, você chega na
sua cama, você olha: “Senhor, perdoa minhas atividades, eu SÔ fraco”.
Bom é o que lembra. Porque se você botar numa malazinha tudo que
é papel que você traz da rua, coin três meses nlo cabe mais, “tá derra-
mando, né? Pois assim 6 o pecado, se qã0 lembrar de pedir a Deus prá
perdoar, derrama e ai C a lepra (...). E uma lepra que só quem tira é
o Sangue de Cristo”.
Importa aqui realçar o caráter unicamente individual da salvação, que permite
dissociar o advento do Reino de um esforço humano coletivo necessário à “Liberta-
ção”. Um pastor da Assembléia insistia assim na distinção: “há uma falsa liberda-
de, o diabo mostra sempre uma falsa liberdade, mas essa liberdade, esse castelo
de falsa liberdade, ele ruirá, pois a liberdade pura e genuína, é a liberdade paga
.
pela pessoa bendita, por Nosso Senhor o Salvador Jesus Cristo.. . (. .) Eu não te
falo aqui de uma liberdade política. Você niio vai encontrar liberdade espiritual e
política, mas você encontra liberdade espiritual, é a liberdade espiritual de Jesus
de Nazaré (...). Que os grilhks sejam quebrados, as correntes do mal sejam desfei-
tas, o império do diabo seja demolido, e o nome de Jesus seja glorificado”.

135
Mus. Pam. Enillio Goclli: CoIcc&o Wuutdo &IvhO, I991

Contudo, o proselitismo das seitas nlo significa necessariamente a existência


de grupos abertos, e em mesma medida, a qualquer nova incorporação. O rigor das
normas vigentes, seria ja de per si Suficientemente eloqüente quanto às condições
impostas para um enquadramento definitivo. Estas parecem enfatizar a fidelidade
‘as relações tecidas ou atualizadas no seio da irmandade, e a obediência aos princí-
pios reconhecidos de uma autoridade fundada no carisma pessoal. A conversão in-
troduz dessa maneira a possibilidade da rejeição de laços que, no exterior da
agremiação, poderiam constituir, ou ser interpretado como o fundamento de uma
dupla vassalagem.
Criado numa família nordestina integrada à Assembléia de Deus, um rapaz, dono
de um “comdrcio” em Uruará, decidiu ingressaar na congregação local da Deus
C Amor, uma das últinias Igrejas pentecostais a estabelecer-se na cidade. Segundo
ele, o “entusiasmo” dos crentes da AssemblCia “esfriou”. Dentre os irmãos, Al-
fredo ti? sem dúvida o mais bem sucedido do ponto de vista econbiiiico. Seu gêmeo
trabalhava recentemente como operirio da construção civil em Altamira, um outro
irmão B militante ativo do Partido dos Trabalhadores, e seu pai, um dos primeiros
migrantes estabelecidos em Uruará, pequeno propriettirio, abandonou a agricultura
pela vida na cidade, onde se dedica a pequenas transaçijes comerciais. Contraria-
mente a exemplos freqüentes na regiso, embora não de forma surpreendente, os
membros da família de Alfredo ni0 escolheram frutificar em comum acordo as ener-
gias ou o patriniBnio do grupo familiar.
Em casos análogos, a adesiio a uma seita pode representar, sob determinadas
condições e não para todo converso, a ocasiio de reconsiderar, dentre suas rela-
ções, aquelas que se revelem coercivas ou despidas de atrativos num determinado
momento de sua trajetbria pessoal, abrindo, ao mesmo tempo, um novo campo de
relaçks sociais, no interior do qual reforça, a prazo, a coerência de interesses e
experiências comuns. Certas prfiticas como a das “cartas de apresentação”, assina-
das por pastores ou “cooperadores”, em que se apresenta o viajante como “mem-
bro de bom testemunho” pode facilitar a integraçã0 de um migrante de uma área
ou região a outra, criando-lhe oportunidades de emprego e assistência quando não
o estabelecimento de relações comerciais.
Nas cidades nascidas ou recriadas no processo de colonização da região, cen-
tros ativos de comkrcio, congregaçks locais mantêm importante participação em
setores de atividade onde siio recrutados seus personagens mais representativos, cu-
j o vínculo religioso vem se acrescentar ao profissional. Um fazendeiro e profissio-
nal liberal de Altamira, dizendo-se avesso à experiência religiosa, afirmava dessa
forma que “crente não mexe com latifúndio. Quando pega em terra, o negócio de-
les ti? granja com mfiquina de arroz e tudo.. .”, salientando a coincidência entre afi-
liação religiosa e atividades empresariais e comerciais. Empórios comerciais e
empresas de certo porte, trabalhando, por exemplo, com importação de máquinas
e insumos agrícolas, transporte de cargas e/ou cessão de credito para o garimpo,
encontram-se, localmente pelo menos, na esfera de determinadas seitas. Começan-
do como empresas familiares, abrem filiais dirigidas por parentes e recrutam

136
Gmpo religioso e rraje~driassociais na ~iitisa11m611ica

mão-de-obra - embora não exclusivamente - no seio das organizações religiosas


em que os empresririos ocupam posição de destaque. Impõe-se a analogia com a
situação descrita por Leonardo (1952: 72) na São Paulo dos anos 50: “...em São
Paulo, as gentes honestas que, na rua do Hipódromo, saúdam cordialmente ao pas-
sar tal c‘ancião”, termo que se refere a uma posição de prestígio na hierarquia da
Congregação Crista das Congregações, são em grande parte ao mesmo tempo fidis
de sua comunidade e operarios de sua grande usina”.
*
Seria tão prematuro reduzir a conversão pentecostal à emergência de uma “éti-
ca capitalista” quanto afirmar sua inevitabilidade na dinamica social das regiões de
fronteira. Inegavelmente entretanto a conversgo pentecostal se situa nos limites da
utopia igualitária nessa sociedade em que o migrante, sem contar com a segurança
que a institucionalização de relações interpessoais oferece num quadro social “tra-
dicional”, tanipouco dispõe das garantias do “homem livre” munido das ‘‘oposi-
Ç&S que o cálculo e a razgo possibilitam nas situaçks de interesse” (Martins 1973:36)
numa sociedade contratual.
Já nos referimos acima ao quanto determinadas exigências da prática militante,
a princípio fortemente encorajada pela hierarquia católica na região, podem ser lo-
calmente interpretadas como uma ameaça à estabilidade do grupo familiar. A Cnfa-
se negativa posta na personagem mundana do “rico” cria ademais uma tensão
insuperável entre a visão de uma comunidade igualitiria e a lógica das relações de
clientela ou dependhia. Lógica econômica, por um lado, que tende a privilegiar,
em dado momento, indivíduos cuja própria desenvoltura designa como centro de
redes de relações interpessoais, capazes de combinar de forma coerente um leque
de estratdgias que Ihes garanta ao mesmo tempo autonomia e melhora de sua condi-
ção social.
Lógica política, por outro lado, reforçada pela criação de instâncias municipais
seguindo-se ao desmembraniento de antigos municípios. Preenchendo parcialmente
o vazio existente entre as instrincias do poder local, estadual e federal, a instauração
de novos municípios contribui a unia dissociação progressiva entre os temas da me-
lhoria das infra-estruturas e a perspectiva de profundas reformas sociais, que pôde
orientar em seus primórdios as expectstivas dos movimentos sociais. Alguns líderes
locais que conseguiram inserir-se com sucesso entre as malhas da política clientelis-
ta regional, abandonando eventualmente as alianças com as organizações populares
que haviam possibilitado sua projeç50 inicial, manipulam de forma habil uma posi-
ção que lhes possibilita intermediar a obtenção de bens e serviços para a região.
Contrariamente aos princípios que orientam a utopia igualitária, a visão pente-
costal de um mundo hierarquizado permite evitar as contradições porventura assim
criadas pelo reconhecimento do carisma pessoal, atravds de uma teoria da graça.
Não se trata invariavelmente, porém, do “dever de conquistar na luta quotidiana
a certeza subjetiva” de ter atingido o estado de graça, a certitudo salutis do calvinis-
ta weberiano (Weber 1985: 126-12s)que prepara o espírito à terrível tarefa de

137
Mus. Para. Emiílio Goeldi: Colqilo Eduuro Galvdo. I991

racionalizar o mundo. Para o converso Pentecostal, a graça divina - imediatamente


eficaz - manifesta-se sob a forma do milagre, às vezes anterior ou concomitante
à própria conversiio.
A conversiio niio se encontra assim, necessariamente, no tCrmino de uma clara
“transferência da noção de pureza da ordem mágica para a ordem moral” (Bour-
dieu 1987:38). Pois se parece ser possível atribuir à afiliação religiosa uma varia-
ção na ênfase do discurso, de forma a privilegiar representações “externas” ou
“internas” do Mal, C porque se encontram estas representações simultaneamente
presentes à consciência dos interessados: o infortúnio enquanto conseqüência da con-
dição social ou do pecado individual não constituem manifestações excludentes, mas
sim complementares. Trata-se de ênfases distintas niío de um raciocínio subordina-
do a priori “à relaçiio imediata com a realidade plastica e vital das forças naturais”
(Weber 1985; Bourdieu 1987:35), mas sim de um pensamento constantemente ocu-
pado com o sentido das relações sociais. Em outras palavras, ênfases distintas de
um raciocínio subordinado primordialmente nií0 ao que, sendo intrínsico 2i condi-
ção do camponês, obsta à “racionalização” das praticas e crenças religiosas, mas
sim ao que C intrínsico à condiçiío do agricultor migrante: a exigência de integraçã0
das dimensões concomitantes de ruptura e de continuidade da experiência social.
Ora, a revelaçiio da graça dri-se, no processo de conversão, atravds de uma s6-
rie de manifestações do Espírito Santo: glossolália, visões proféticas e extra-lúcidas
estão entres os dons que Deus concede ao fiel. Dentre eles, o dom da cura - que
constitui a chave da reputaçiio de certos pastores e, em certos casos, a base da fun-
dação de nova Igreja - encontra-se entre os de mais difícil obtenção. Pois o dom
C obtido em funçiio dos nifiritos do converso, ou seja, de sua obstinação em aceitar
distinções significativasque, no seio de determinado universo social, encontram dessa
forma justificaçiío nos textos dos Evangelhos, determinando o papel relativo do in-
divíduo diante de cada membro da irmandade.
Dessa relaçiío graça niío se exclui, entiio, o caráter de provação, de tal manei-
ra que o reconhecimento de um dom especial, equivalendo a considerar seu benefi-
ciario como destinatário de especial concessão do Espírito, pressupõe que se lhe
tenha atribuido uni estoicismo de JÓ. Se o relativo sucesso mundano de certos indi-
víduos parece assim designi-los a ocupar posiçks de prestígio no seio das congre-
gações, não se deve descartar a recíproca de que oportunidades mundanas venham
corroborar a obstinação em interiorizar as diretrizes de uma concepção das relações
socias premiando, por exemplo, estrita disciplina e assiduidade no trabalho.
Não parece todavia ser de mesmo molde a obstinação que inspirava a incessan-
te e pia ladainha do converso: “Somos todos pecadores (...). Quando você peca,
você chega na sua cama, você olha: Senhor, perdoa minhas atividades, eu SÔ fra-
co”. O que dizer desta conversií0 a um pietismo situado a meio caminho entre a
reparação puramente ritual da transgressiio e o estabelecimento de intensa relação
indiviGual com o Espírito que assegura ao verdadeiro crente a certeza de sua elei-
ção? E certo que a exigência de sistematizaçiio se faz em princípio pouco sentir pelo
agricultor, exercendo atividade cujo caráter C sazonal, e não um trabalho contínuo

138
Campo rGkgioso e tr‘ajeidrius sociais na Transunmdnica

que exija a previsão - e compreensão - “da relação entre objetivo, meios, êxito
ou fracasso”. Mas qual vem a ser então, quando se manifesta aqui, a razão da con-
versão?
Tentando atingir o nível das “crenças profundas” de unia “cultura bíblica”
do meio rural, Velho (1987) nos ajuda a situar a questão ao se interrogar sobre a
ambivalência de sentido de determinadas categorias, como a de cativeiro. Noção
complexa, “em sua forma niais acabada o cativeiro é a pura e simples escravidão
.
(. .). Por extensão, qualquer situação considerada de muita exploração e perda de
autonomia é identificada coni o cativeiro” (op. cit.: 13). Mas se o cativeiro vem
- ou retorna - através da ario dos ricos, talvez de estrangeiros, e da ingerência
governamental que tolhe a liberdade do agricultor, “entre alguns camponeses re-
mediados manifesta-se certa dúvida quanto à volta do cativeiro. Segundo um deles,
o que chamam de cativeiro é o domínio das leis, e acisso é um cativeiro bomu, embo-
ra outros afirmem que “a Bestíì-Fera, personagem apocalíptico associado ao cati-
veiro, não d um animal que se veja, é uma lei” Velho (1987: 14).
Não raro, porém, a “lei católica” ou a “lei do padre” encontram-se explicita-
mente associadas à “lei da Besta”. Uma ex-catequista da Igreja cadlica, tendo ade-
rido, juntamente com o marido e os filhos, à Congregação Crist5 local - na qual
já se encontravam as famílias de seu irmão e, logo a p h , de seus pais - afirmava
que “o padre não explica a Bíblia” e, referindo-se ao que vê como a permissivida-
de reinante no seio da Igreja, que “na Igreja católica pode tudo (sic). Quando a
gente d crente, tem que seguir o ‘caminho estreito’ de Nosso Senhor”.
Na necessidade de reforçar rigidas injuções morais como Única nianeira de
salvaguardar-se num universo apocalíptico e pecaminoso reside assim a razão de
numerosas conversões ao pentecostalismo. Afirmações do tipo “na minha terra pa-
dre não usava calça curta” ou ‘‘nií0 se metia em política”, e “na Igreja católica
pode tudo” pertencem à mesina ordem de idéias: enquanto assertivas que reforçam
a necessidade de maior formalização da conduta prática, podem expressar aspira-
ções de um retorno ao formalismo acentuado, e h segurança de relações hierkqui-
cas e papdis sociais claramente definidos com referência a experiências sociais
anteriores.
É notável nesta perspectiva a relação que o proselitismo do converso mantdm
com a “tradição”. A insistência nas vantagens da conversiio ao pentecostalismo en-
quanto transformação da situarso precedente (cura de uma doença, aparição de dons
jamais manifestos, resolução de angústias e dificuldades etc.), testemunham ja do
recebimento da graça, que permite n5o raro uma melhor compreensão da “tradição”:
“A dindinha tinha 125 anos e jri dizia: - “( ...) quem nunca chorou vai
chorar; quem nunca pediu vai pedir; e quem nunca roubou vai roubar”.
(...) E esse “povo antigo” sabe, porque lia muito. (...) O que dizia o
Pe. Cicero, por que é que é verdade? Porque (ele) lia a Bíblia. (...) E
nós sabemos que d escrito nas Escritpras que Deus dizia assim: passartl
os céus e a terra, mas minhas palavras nio hão de passar e nem faltar

139
Mus. Para. Eniilio Goelil¡: Cole(il0 Etlirortlo Gali*do, 1991

nem um jota e nem um til, nEo C? Se você não sabed porque você não
lê, porque quem ler entende”.
As profecias “tradicionais” sií0 exatas porque o ccpovoantigo” lia a Bíblia,
ou seja, respeitava as palavras - a Lei - do Senhor. Mas a recíproca C verdadeira:
na corroboraçiio das profecias do “povo antigo” estabelece-se a veracidade dos es-
critos - e da Lei - bíblicos. Nenhuma contradição persiste nestes termos entre
a tradição milenarista do Pe. Cicero, originada no catolicismo popular, e a conver-
são Pentecostal.
Distinções a partir das quais o senso comum define papéis sociais podem integrar-
se às hierarquias formais propostas pela teoria pentecoshl da graça, esquematizan-
do determinadas relações: os direitos e deveres do homem e da mulher na economia
do grupo domdstico, por exemplo. Diversas agremiações dispõem assim de fundos
financeiros destinados a membros menos afortunados, constituídos pelo pagamento
do dizimo ou de contribuições espontdneas segundo as posses de cada um. A institu-
cionalização de uma função de assittincia social inal esconde no entanto o quanto
as condições de acesso a estas vantagens podem depender do julgamento do grupo
- e de seus membros mais eminentes - sobre o indivíduo. A figura do Pastor -
ou seu equivalente - confunde-se à do ccpatrãoyy que dispensa auxílio e proteçã0
a seu “cliente” ou “dependente”.
Finalmente, poder-se-ia insistir sobre o caráter conformista desta religião que
parece pregar, antes de niais nada, a aceitação de um status quo. Mas não C inopor-
tuno lembrar o alerta de Velho quanto aos “limites (de se enxergar) a questão do
cativeiro e da libertação sob a dtica da autonomia” (1987:15), sendo esta definida
com referência aos parlimetros da “realização libertaria humanística”. Se a con-
versão pode integrar a dimensão de continuidade da experiência social, exigência
que mesmo a consciência da submissão a duras condições de existência não deixa
de manifestar, C porque, ao mesmo tempo, garante a permanência da utopia no seio
da realidade social. O futuro advento do Reino como fruto de uma transformação
das estruturas sociais C susbtituído pela crença Pentecostal na parusia imediata atra-
vés da intervenção miraculosa - e da distribuição dos bens do Espírito - entre
todos os seus escolhidos.
As irreconciliAveis naturezas do rico e do pobre diluem-se no seio de uma con-
gregação na qual o reconhecimento, dentre os seus, dos melhores, obedece aos dita-
mes de uma mais alta servidzo: aos fundamentos da lei do Cristo. A aceitação desta
lei, imagem de um possível por definição miraculoso e necessariamente estrangeiro
à análise das relações s6cio-econ6micas, não exclui porkm a consciência da
injustiça “d’un ordre des climes dont rien n’autorise à espérer le changement. Mais
aucune Iégitiniité n’est accordte à cet étut de fait, bien au contraire. Le fait n ’est
pas recevable cointile une loi, iiii.nie s’il reste un fait. Prise dans une dépendance,
contrainte d ’obéiraiafaits, cette coiidction oppose unefin de non-recevoir au statut
de I ’ordre qui s ’impose coititite nutrirel et une protestation éthique à sa fatalité. Une
innacceptabilité de l’ordre pourtunt étubli se dit, àjuste titre, sous la f o m e du
miracle ’* (De Certeuii 1980:56-57).

140
Canpo religioso e trajeldrius sociuis mi fiaiimniuidnicu

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143
AÇÃO CULTURAL E CONCEPÇÃO POLÍTICA
ENTRE A IGREJA CATóLICA E OS CAMPONESES
(UM ESTUDO NA REGTAO DE MARABÁ)
Rodrigo C.D. Pcixoto

RESUMO - Na rcgião dc Marab5, o choquc cntrc a chamada frcntc dc cxpan-


siio canipomça c os eniprccndinicntospccuaristas e cspceuhtivos rcsulta cni con-
flitos violcntos. Ncstc contexto, o apoio quc a dcnoniinada Igrcja progrcssista
ofcrccc aos caniponcses sobrcssai-sc conio uni traço sociol6gico c político ea-
ractcriqtico da rcgião. A Igrcja proniovc uma açã0 cultural junto dcstc g m p
social no scntido dc dot5-lo dc nicios dc pcrnianc?nciana tcrra. Essa ação signi-
fica uni iniprtantc apio aos niovinicntos sociais no campo, mas ,+”ni car-
rega ambigüidades.
PALAVRAS-CHAVE: Camponcscs, Igrcja, Açã0 cultural, Conflitos, Rclaçõcs
políticas.
ABSTRACT - In thc rcgion ofMarab$, thc cncountcr bctuvcn thc cxpanding
pcasant front, cattlc ranchcrs, and land spceuhtors rcsults in violcnt conflicts.
In this context, thc support that thc so-callcd progrcssivc Church offers to thc
peasants stand out sociologically. Thc Church proniotcs political-cu1turalaction
togcthcr with this group in ordcr to cndow it with nicam to rcniain on thc land.
This action rcprcscnts iniportant support to socialmovcnicnts in rural arcas, but
also raises anibiguitics.
KEY WORDS: Pcasants, Church, Cultural action, Conflicts, Political relations.

COLOCAÇAO DO PROBLEMA

Marabá 6 um dos pólos da tradicional corrente migratória Nordeste-Norte e sua


rodoviária recebe diariamente uma grande quantidade de famílias de origem rural.
Os lavradores, que vêm no fito da “bandeira verde” e das “terras livres”, dão de
encontro, no entanto, com uma das maiores concentrações da propriedade da terra

SCT-PR/CNPy. Muscu Paracnsc Emilio Gocldi-Dcpt? de CiEncias Humanas/ Antropologia.

145
Mus. Para. Enillia Gbelli: Colega0 Edimrdo Grrlv~lo.1991

no Brasil 2. O choque entre a frente de expansão camponesa e os empreendimen-


tos pecuaristas, madeireiros e especulativos traduzem-se em conflitos violentos. De
um lado, o empreendimento capitalista latifundiário encampa todos os poderes cons-
tituídos; os juizes, os cartórios, a polícia e os Órgios públicos nada têm de impar-
ciais. De outro lado, os lavradores têm o apoio da Igreja dos pobres. Essa conjunção
entre a Igreja Católica e os camponeses sobressai-se como um traço sociológico ca-
racteristico da regiio.
A Igreja põe em prática, junto ao camponCs, u m alentado trabalho de promoção
cultural, fundado em discursos e práticas e objetivando a promoção de uma dinâmi-
ca social mudancista. A práxis político-religiosa, de luta contra o latifúndio, em apoio
intelectual e material ao caniponês, niio poderia ser, de forma alguma, desprovida
de conexões históricas e ideolBgicas ou de interesses político-institucionais.
Situada na realidade histórica das sociedade, a Igreja procura justificar seus tra-
dicionais motivos teológicos através de atitudes contemporâneas. A difusão da f6
requer um campo propício, que nio C o da mais gritante miséria social e permanen-
tes migrações populacionais. Ao lutar para a mudança da política governamental,
em favor dos princípios éticos do bem comum, a Igreja niio s6 contribui para a evo-
lução da sociedade, como tambCm se legitima perante esta sociedade para continuar
a exercer seu poder autônomo. A Instituição opta pelos camponeses pobres como
que, simultaneamente, levada por seus próprios motivos e induzida pelas circuns-
tâncias históricas. Assim, ela procura influenciar criticamente a sociedade, cuja es-
trutura e politica a levaram a assumir esta posiçiio.
Ao conscientizar, organizar, mobilizar e formar lideranças, que vêm depois as-
sumir milidncias sindicais e político-partidárias, a Igreja desempenha uma função
orgânica na luta política dos camponeses. A promoção ideológica e cultural 6, sem
dúvida, um aspecto da luta política. A doutrina transmitida corresponde Ir necessi-
dade de um elemento cultural de agregaç20 para o campesinato pobre. Nesse senti-
do, a práxis da Igreja, no caso historicamente específico de Marabá, funciona de
acordo com a acepção gramsciana de ideologia. “Enquanto historicamente necessá-
rias (as ideologias) têm uma validade ‘psicolÓgica’, ‘organizam’ as massas huma-
nas, formam o terreno em que os homens se movem, adquirem consciência de sua
posição, lutam, etc.” Gramsci (1987).
Ao promover culturalmente uma sensibilidade nos Camponeses, para que eles
atuem nos sindicatos e partidos, de forma a reproduzirem seus próprios intelectuais
orgânicos, a Igreja estaria de fato criando condições para a autonomização do movi-
mento político-camponês, e este papel teria u m inegável valor histórico: a Igreja
estaria contribuindo para a consolidaçiío de uma forma produtiva que parece desti-
nada a cumprir u m papel fundamental na nossa formação econômico-social.
Contudo, se esta atitude de sentido progressista se verifica em alguns religiosos,

221 estabclccimcntos (17% do total do município) maiores de 1.000 ha, ocupavam,.em 1980, 84%
da Area rural cadastrada. “Mariba: a luta pcla tcrra c a luta pcla vida - 1985”. An. Soc. Econ.

146
em outros persiste a intençiío do domínio indireto, da intermediaçiío permanente,
de continuar sendo “a voz dos que niío têm voz”, e, assim, os camponenses conti-
nuam sem voz própria.
Postanto, o sentido da aç20 da Igreja Católica junto ao campesinato não deixa
de ser ambivalente. Se a fraçiío progressista B niais movimento que instituição e,
na sua inserção na realidrtde, ela progride e se transmuda, niio se pode deixar de
considerar o poder encampador da burocracia eclesiktica, tanto em relação aos mo-
vimentos populares como 2s tendgncias internas divergentes: “Deve-se notar que
todas as inovações no seio da Igreja, quando niio si0 devidas à iniciativa do centro,
tEm em si algo de herético e terinin:ini assumindo explicitamente este caráter, atd
que o centro reage energicamente, desbaratando as forças inovadoras, reabsorven-
do os vacilantes e excluindo os refrat8rios” Gramsci (1984).

o MOVIMENTO CAMPONBS
Na região de Marabri, até muito recentemente, qualquer movimentação política
dos trabalhadores rurais dependia totalmente da Pastoral da Terra. Houve um tem-
po em que só havia realmente a Igreja, com sua relativa liberdade frente ao poder
político nacional, para acolher os refugiados do processo de implantação do capita-
lismo nesta fronteira econ6mica.
De 1972 a 1975, a regiiío foi palco da guerrilha do Araguaia e passou por uma
forte açã0 militar repressiva. Niío havia clima para a organizaç50 dos trabalhadores
em sindicatos. A simples realização de reunices comunitifrias em vilas rurais po-
bres era já um atentado B Doutrina da Segurança Nacional. Valendo-se de métodos
coercitivos e ideologizantes, atemorizando a populaçHo com demonstração de for-
ça, procurando cooptar através da concessão de lotes rurais e estruturando aquele
espaço com a abertura de estradas, o exército tratou de assegurar o seu domínio
sobre a área. As atuaçijes do INCRA e depois a do GETAT, no geral, seguiram
a mesma doutrina, e procuraram inibir também a organização política dos cam-
poneses.
Fechando-se todos os níveis de representatividade própria e nHo havendo ne-
nhum outro ponto de apoio aos camponenses, a Igreja assumiu o papel de suplência,
do sindicato e de socorro a uma populaciío totalinente abandonada pelo Estado. Este
C um dos aspectos que explicam a aproximaçiío da Igreja, principalmente a partir
de 1970, do ai5 camponês.
Com a criaçIo da Coniiss5o Pastoral da Terra (CPT), pela CNBB, em 1975,
refoqou-se esse laço, estabelecendo-se entre este nível da Igreja Católica e os cam-
.
poneses uma convivência de mútua influenciação. “A CPT surgia para . .assesso-
rar e estimular o pessoal que ja se encontrava engajado nos trabalhos de base (...)
A CPT procurava prestar serviços diretamente B organização dos trabalhadores:
cartilhas com explicações sobre os direitos dos posseiros, dos meeiros, dos assala-
riados; cursos de orientação para a formaçiío de sindicatos; estímulo para a estrutu-
ração de oposições sindicais onde o drgiio classista estivesse dominado por pelegos

147
e apoio para que os próprios trabalhadores pudessem se encontrar e discutir seus
problemas ...” (A Igreja dos Oprimidos... 1981)
Um ex-coordenador da CPT de Marabá, que viveu todo esse processo, desde
o início, o sinteliza assim: “O apoio direto da diocesse de Marabá aos trabalhado-
res rurais começou com a chegada do bispo. D.Estevão e com a instalação das Co-
munidades Eclesiais de Base na região, em 1969. Eram tempos obscuros em Marabl,
época da guerrilha, em que só havia um espaço onde o povo podia dizer alguma
coisa: as CEBs. Na década de setenta, foi um trabalho lento, inclusive muito peno-
so, muito sofrido, os agente pastorais da região de Marabá foram todos persegui-
dos. Uns apanharam, outros foram presos. O próprio bispo teve que responder a
vários inqudritos; tanto D. Esteviio conio D.Alano, que assumiu a diocese de Ma-
rabá a partir de 1976. As CEBs derani oportunidade ao surgimento das organiza-
c$es populares, principalniente o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Cada região
tinha a sua CEB, coni sua equipe de coordenação e de vez em quando as equipes
pastorais convidavam os animadores de comunidades a se encontrarem entre eles.
Este foi o grande trabalho da igreja de Marabá, na década de setenta. Como se dizia
naquele tempo, não basta só rezar, precisa ação. E as primeiras ações eram ações
simples, de ajuda mútua, de niutirão ou até de trabalhos coletivos: arrumar um pe-
daço de estrada ou arrumar unia ponte. A partir dos niutirões, das ajudas mútuas,
começaram as reivindicações, principalmente de escolas, professores pagos pela Pre-
feitura. Depois se tentava conseguir uma estrada. A partir de 1977/78, começou
uma discussão sobre a questiio sindical e, em 5 anos, a questão envolveu tanto as
comunidades que foram criados sindicatos em toda a região. Hoje, o apoio da Igreja
continua, mais principalmente por causa da CPT, tentando dar um grande respeito
5 autonomia dos próprios movimentos populares. Quer dizer, a CPT ou a Igreja
não tem nenhum papel de dirigente. Ao contrário, isso seria uma volta a uma certa
cristandade. Mas h¿ algumas ireas da Igreja, mesmo progressista, que têm sauda-
des daquele tempo dos anos setenta, eni que a Igreja, tipo galinha choca, segurava
pintinhos debaixo da asa” 3.
Hoje, os camponeses criaram suas próprias entidades, e a posiç50 da Igreja não
B mais a de carro-chefe. H B os sindicatos, na verdade carentes ainda de concepções
e práticas mais avançadas, beni COMO de número de filiados e de delegacias sindicais;
as iniciantes associações de produtores, algumas em nível de projeto ainda, montadas
com máquinas de pilar arroz, armazém e caminhão, com fundos provenientes de Igrejas
européias, ou com financiamento do Banco do Brasil e Governo Estadual. E há o
Partido dos Trabalhadores, surgido dos sindicatos e das CEBs, em virtude da adesão
de seus militantes e das lideranças aí produzidas, além de outras entidades comuni&
rias, que atuam nas áreas de saúde, educaçiio, assessoria sindical etc.
Tudo isso forma um conjunto articulado, cujos militantes atuam cruzadamente
em vários papiis. Niio sem conflitos de tendências e posturas, já que os pr6prios
setores progressistas da Igreja, responsáveis em boa dose pelo apoio e gênese das

Mano - ex-coordcnador da CPT de Marabll.

148
entidades e lideranças camponesas, têm diferenças entre si, na medida em que se
articulam com movimentos de concepç5es diferenciadas, com o SERPAJ, a CUT
e tendências do PT.
A organização política dos camponeses passa por uin momento de crescimento.
A16m da Comissão Pastoral da Terra e do Partido dos Trabalhadores, outras insti-
tuiçües da sociedade civil, como a Universidade e a Associação Paraense de Defesa
dos Direitos Humanos, e funcionários públicos e estudantes apóiam a causa da pe-
quena produção agrícola. A CUT bem aunientado sua penetração na área e os seto-
res mais avançados do movimento estlo mobilizados em vista das eleições sindicais
previstas com a criação dos novos municípios na regilo. Má,portanto, perspectiva
de desenvolvimento.
Presentemente, no entanto, o indice de filiaçlo de trabalhadores no sindicato
6 baixo. No município de Marabá, por exemplo, há cerca de 45 mil trabalhadores
rurais; são sdcios do sindicato, criado em 1980, 7 mil; desses apenas I S O O pagam
mensalidades.
Por várias razões o trabalhador rural - inclusive o posseiro e o pequeno pro-
prieario - nlo participa em bom número. Algumas diretorias não costumam de-
mocratizar as decisões em asseniblCias e não promovem, atravts da discussão e
participação, a formaçiio política e a reprodução de militantes. Alguns sindicatos
têm ligaç&%com personalidades do PMDB local e nlo praticam uma política inde-
pendente. Há certos obstáculos h criação de novas delegacias sindicais, impedindo
o aumento das raizes do sindicato no local de trabalho.
Altm disso, a condiçlo econôniica do camponês é tiio precária que mesmo uma
mensalidade no valor de 2% do salário mínimo representa uni encargo pesado, prin-
cipalmente se ele nlo tem muita motivafio. Se o camponês ja possui o título de
propriedade e se o sindicato não dá uma resposta imediata às necessidades mais pre-
mentes, principalmente na área da saúde, conforme uma expectativa assistencialis-
ta, a maioria de fato se desinteressa.
Um'outro fato significativo 6 a dificuldade do relacionamento político dos mo-
vimentos populares com o poder. Quando o Governo concede algum espaço 6 no
sentido do assistencialisnio e da cooptação. Em virtude disso, algumas lideranças
populares da regilo acabaram entrando num beco sem saída, na medida em que se
aproveitaram, para fomentar seus próprios prestígios como lideranças, de relações
pessoais para obterem recursos governamentais. A sobrevivência destas lideranças
passa então a depender de uma relaçlo permanente com certos representantes do
Estado. SHo exemplares desse tipo de assimilaçiio algumas trajetórias pessoais, li-
deranças que há três anos atuavain no PMDB popular, entiio uma linha de frente
na região, e que hoje, filiadas a partidos como o PTB e PDC, ou ligadas a projetos
pessoais de políticos, estiío, de certa maneira, extemporheas na luta.
Nesse contexto político, o papel da CPT vem sendo rediscutido. Hoje, certa-
mente, este papel nlo C mais aquele de suplência. Os camponeses têm suas próprias

149
representações políticas. Contudo, sua niobilização depende muito do emprCstimo
de recursos da Igreja, tais como instalações para reuniões, meios de locomwão e
veículos de divulgação. No plano intelectual esta dependência continua tambCm muito
forte. A responsabilidade quanto h formaç20 política e cultural dos camponeses 6
quase que exclusiva da CPT. De forma que o alcance de um grau mais elevado de
autonomia política por parte dos camponeses está a requerer progresso na sua base
econômica e a participação, junto com a CPT, de seus Órgiios superiores de agrega-
ção, como a CONTAG, a FETAGRI e a CUT, no suprimento de recursos materiais
e intelectuais ao movimento.
A CONCEPÇÃO POLÍTICADA IGREJA CATóLICA NO BRASIL

Enquanto instituiçiio supra-nacional, a articulaçiiopolítica da Igreja com os cam-


poneses tem antigas raizes. Desde que o liberalismo, como concepçiio de mundo,
superou o catolicismo conio refertncia ordenativa principal da sociedade, retirando
a Igreja da posiçiío privilegiada de “falar como se fosse a premissa necessária de
todo modo de pensar e de agir” (Gramsci 1984), a Tgreja Católica viu-se na neces-
sidade de organizar-se para fazer frente h situaçiío adversa, representada pelo cres-
cente anticlericalismo. Entiio, em reaçiío 5 apostasia das grandes massas e 2i perda
da hegemonia ideológica mundial, en1 favor da cultura laica, a Igreja se aproximou
das populações pobres, especialmente dos camponeses. Passou então a abordar o
problema da pobreza, proscrevendo o conformismo dos pobres, a caridade dos ri-
cos e a propriedade privada, especialmente a da terra, como um direito natural.
O marco mais tradicional da sistematizaÇä0 do pensamento social católico C a
encíclica Rerum Novarum, de Leão XII1 (1891). Nesta Encíclica (Igreja ... 1983),
há um prefácio, apontando que a “Reruni Novaruni foi para a açã0 social cristã
o que foi o Manifesto dos Comunistas (1848) ou o Capital de Marx para a ação
socialista. Opõe-sediretamente 2 açiío socialista. Marx e Lego Xm partindo da veri-
ficação da estridente desigualdade econt“ entre plutocracia e proletariado, quise-
ram, ambos, realçar a sorte dos openirios, oprimida pelo liberalismo econômico (,..)
a Igreja... naturalmente, contra as teorias da luta de classes, propugna a colaboração
de operários e patrks no respeito mútuo dos direitos e na prática recíproca das obri-
gações”.
Mais contemporaneamente, o docuniento Gaudium et Spes, do Concilio Vati-
cano II (1962), C a referencia principal de quase toda abordagem social feita pela
Igreja. No tópico relativo A propriedade particular e aos latifúndios, o documento
se mant6m atual com muito do que presentemente prescreve a Igreja. “Dado que
a propriedade e as outras formas de domínio privado dos bens externos contribuem
para a expressão da pessoa e lhe d5o ocasiäo de exercer a própria funçäo na socie-
dade e na economia, é de grande importiincia que se fomente o acesso dos indiví-
duos e grupos a um certo domínio desses bens (...) Em bastantes regiões
economicamente pouco desenvolvidas, existem grandes e até vastíssimas proprie-
dades rústicas, fracamente cultivadas ou até deixadas totalmente incultas com inten-
tos lucrativos, enquanto que a maior parte do povo n5o tem terras ... Impõem-se,

150
portanto, reformas necessirias.. . para distribuir terras não suficientementecultiva-
das àqueles que as possam tornar produtivas” (Concílio 1983).
Prosseguindo o processo de renovaçlo da Igreja, as Assembléias do CELAM,
em Medelim (1968) e Puebla (1979), abrem-na mais à participação do povo,
concebendo-a como “povo de Deus”, e nlo mais apenas como uma instituição es-
truturada hierarquicamente. O problema social ganha uma nova dimensão da óptica
da Igreja, e a partir daí ela passa a representar a “voz dos que não têm voz”.
N o âmbito nacional, o posicionamento político atual dos setores progressistas
da Igreja Católica tem origem na Aç50 Cat6lica Brasileira. “De um certo modo,
a Ação Católica preparou tudo isso.. . preocupava-se imito em formar líderes (mas)
2s vezes não percebia a importnncia das IigaçBes com as massas. .. Agora, os novos
movimentos de evangelização tem o niesino espírito da Açio Católica, porém mais
adaptados à nossa realidade latino-:iinericana e brasileira, em que o povo, a comu-
.
nidade, participa mais do movimento geral” (Igreja.. 1981). Ao progressismo atual,
tiveram influência a mudança do enfoque político da JEC e JUC, a fundação da AçBo
Popular e o surgimento do MEB, com sua linha de educar para tranformar - fatos
estes acontecidos na conjuntura política de 1961.
Depois, veio o movimento de 1964. Passando o primeiro momento de expecta-
tiva at6 certo ponto favorrivel, da parte da maioria dos religiosos, tendo em vista
o afastamento do fantasma do comunismo, a política concentradora de renda e es-
poliativa das massas populares, implementada pelo regime militar, veio a produzir
uma espdcie de choque cultural em alguns religiosos estrangeiros atuantes no Bra-
sil, levando-os a uma posiçlo de reserva quanto ao modelo de desenvolvimento eco-
nômico adotado.
AICm disso, no pacto politico de 1964, a Igreja foi alijada do bloco do poder,
do qual participavam apenas a grande burguesia nacional e as empresas multinacio-
nais. O estreitamento do centro de decisões motivou o reposicionamento do clero
excluído, no sentido de aliançar-se coin o povo, em busca de unia base de poder.
Contudo, um momento de inflexiio muito importante C o Ato Institucional nP
5, de 1968. O endurecimento político do regime e a agressgo violenta a religiosos,
atingiu em cheio o espírito de corpo da Igreja e direcionou o clero, inclusive alguns
bispos que haviam simpatizado antes com o movimento militar de 1964, a se posi-
cionarem contra o Governo, em favor do povo.
É, portanto, um conjunto de motivações, ou seja, a herança dos movimentos
politico-religiosos anteriores a 1964; o impacto da miséria social, resultante do mo-
delo de desenvolvimento econhico entiio implantado; o desrespeito aos direitos
humanos, inclusive em relação a membros da Igreja; a exclusgo da Igreja do bloco
do poder, e inclusive, a estratégia da Igreja Católica à concorrência com as reli-
giões protestantes a a crise de vocações - o que leva a Igreja a procurar um posi-
cionamento social contririo ao sistema.
Como produto histdrico de uma sociedade historicamente situada, a Igreja passou

151
Mus. Para. Emilio Goeldi: Coleqdo Ecliurdo Gnlvao, 1991

a ter então uma nova interaçã0 com o contexto social. A aproximação com o povo,
a maior participação dos leigos nas suas atividades, o apego maior ao concreto, tu-
do isso introduziu rapidamente a realidade social para dentro da Igreja. O conflito
social, que desde o sdculo passado cliva ideologicamente a Igreja Católica na Euro-
pa, atravessa tambdm a Instituição no Brasil, influenciando religiosos e alimentan-
do correntes filosóficas internas, que passaram, atraves da assimilação das ciências
sociais, de teorias tais como a da dependência e a da economia política marxista,
a formular e explicitar críticas ao capitalismo.
Essa evolução culmina com as formulações da Teologia da Libertação. Mas hå,
tambdm, uma publicaç50 muito significativa da CNBB - “Igreja e problemas da
terra” - de 1980, em que siio tecidas críticas severas ao modelo econbmico e polí-
tico vigente no país.
A posição dos bispos da CNBB, neste documento, C a de “Valorizar .. o ponto.
de vista, o modo de pensar e a experiência concreta dos que sofrem por causa do
.
problema da terra (...)nií0 somente ouvir, nias assumir . . as lutas e esperanças das
vítimas da injusta distribuição e posse da terra” (Conferência ... 1980).
O documento coloca, inicialmente, “a realidade dos fatos”, com o título a “terra
de todos como terra de poucos”, e, no que toca ao campesinato, vê a realidade da
seguinte maneira:
9 a pecutiria estrangula a pequena agricultura;
* a política de crkdito beneficia os grandes;
os incentivos fiscais, ao favorecer a expansão das empresas pecuaris-
tas, prejudicam a agricultura familiar;
* opequeno produtor sofre as carências da falta de escoamento da pro-
dução, do preço baixo de seus produtos e da sistemitica do atravessa-
mento na comercinlização;
os posseiros, para serem expulsos da terra, siÍ0 vítimas de violências,
praticadas por pistoleiros profissionais e at6 por juizes;
‘‘Háno país milhiies de migrantes (...) O desenraizamento do povo
gera insegurança pelo rompimento dos vínculos sociais e perda dos pon-
tos de referência culturais, sociais e religiosos, levando a dispersão
e h perda de identidade ...”
As responsabilidadespela situaçzo szo atribuidas A:
falta de união e organizaçzo do povo;
concepção e utilização da propriedade como intrumento de exploração;
injustiça institucionalizada, do delegado de polícia, do juiz, do cartó-
rio etc.;

152
Aç& cultural e concep@o polilieu entre Igri$u Ctirdliru e cunponeses

0 dependência B dívida externa, que sobrecarrega a agricultura com um


pesado tributo;
0 política agriiria governamental incompatível com “uma visão huma-
nista e cristii de sociedade”;
e ao lucro dos grandes grupos econdmicos.
Finalmente, depois de ver a realidade e julgar as responsabilidades, os bispos
propkm formas de ação, empregando o tradicional método de ver, julgar e agir,
inaugurado com a Açã0 Católica: “Que faremos para que a terra seja um bem de
todos? Que faremos para que a dignidade da pessoa humana seja respeitada? Que
faremos para que a sociedade brasileira consiga superar a injustiça institucionaliza-
da e rejeitar as opções políticas antievang6licas?” (Conferência ... 1980).
a denúncias de injustiças e violências;
0 apoio aos trabalhadores, “colocando as nossas forças e os nossos
meios a serviço de sua causa”;
e estímulo, através da pastoral, h participaç50 e organização dos traba-
lhadores em sindicatos, associaçks etc.;
e rejeição tanto do capitalismo como do “coletivismo marxista de cujos
maleficios temos notícia em outros países”;
aprofundamento do processo de conscientizaçiio dos trabalhadores nas
CEBs.
Fundamentalmente, a Igreja quer fixar as famílias rurais para sustar as migra-
ções que afetam sobremaneira a prstica pastoral. A dispersão do povo é a própria
contradição do ideal comunitirio católico, campo propício para a pastoral. A acul-
turação popular requer um trabalho lento e persistente, através do qual os valores
pessoais, familiares, sociais e religiosos vão sendo introduzidos metodicamente, at6
que se consolide uma cosmovisiio conformada aos princípios &cos católicos.
Assim, em nome do próprio campo de atuação da Igreja, 6 preciso defender
a pequena propriedade rural das pressões do capitalismo. Para isso, a Igreja procu-
ra realizar um esforço de conscientização, para que a população rural amplie seu
nível de informação e se organize política e economicamente, capacitando-se a lutar
por seu espaço na sociedade.
Dentro do projeto social da Igreja, uma meta essencial 6 a Reforma Agriria,
no sentido abrangente de redistribuiçiio da propriedade da terra e viabilização eco-
nômica da produçiio agrícola familiar. Ao combater a concentração da propriedade
e propor a pequena produçiío agrícola como soluçiio para o problema da pobreza,
tanto no campo como na cidade, a Igreja alcança um elevado conceito junto ao po-
vo, bem como em amplos setores da sociedade civil, colocando-se, ela própria, co-
mo um elemento da soluçi7o.

153
Mus. Para, Endlio ci;ocldi: Colc@o &luurdo Giihtlo, I991

O PROJETO CAT~LICO-CAMPONÊS

Étípico do camponês da região de Marabá a trajetória errante, de diversos pou-


SOS, mudanças, trabalhos e malogros, até que, articulado politicamente pela CPT
e pelo sindicato, ele consegue lutar por unia fixação espacial.
A síntese da história de vida de Assis C reveladora desse tipo de trajetória:
“Eu sou trabalhador rural, inclusive meus pais. Sou procedente do Ma-
ranhão; meus pais são cearenses. Nossa vinda do Maranhão foi porque,
em 1969, o Governo do Estado vendeu para uni firma da SUDENE uma
grande terra, e a nossa terra foi circundada dentro desta terra. Meu pai
foi pressionado pela firma para vender a terra. Houve resistência, pois
a gente jS tinha nossos animais. Então meu pai achou melhor questio-
nar. Constituímos advogado. Dentro de 2 anos o advogado comeu tudo
quanto a gente tinha. O resultado foi sair de lá mesmo. Mudamos para
outro município mesmo no Maranhiio. Uma região ruim, terra muito
seca, muito cheia de alto. A gente ficou decepcionado e, em 1974, saiu
de lá. Viemos parar em Goiás e ficamos alguns tempos num garimpo.
Em 1978, a gente passou novamente a mudar para a cidade de Boa Vis-
ta, Territbrio de Roraima. A gente Iá em Roraima estava trabalhando
de motorista; mudamos de profissiio nessa época. 1982 foi a euforia do
garimpo de Serra Pelada. Serra Pelada estava dando muito ouro, cha-
mando muita gente de muitos outros estados; inclusive a gente veio nes-
se embalo para MarabB. Em 1984 a gente deixou Serra Pelada e passamos
a trabalhar em outros trabalhos; começamos a trabalhar em terras de
patrões. Mas a situação da roça assim, trabalhando com fazendeiros,
C muito difícil. A gente tinha que pagar 40% para ter direito de plantar.
Digamos, se a gente produz 100 sacos de arroz, 40 seria para o dono
da terra. Começou a surgir problemas agrários na região, de trabalha-
dor rural ocupando terra que era de fazendeiro. A entidade que nos dei-
xou um pouco claro, que nos começou a dar uni pouco de incentivo,
digamos assim, a abrir os olhos, foi a Igreja, setores da Igreja Católica
e os companheiros da CPT. Isso no ano de 1985. Nós resolvemos nos
associar no sindicato, para que dessa associaçlo a gente começar a cha-
mar outros companheiros para poder ocupar algumas Breas de terra e
para ter a entidade para nos defender nos momentos legais”.
Os imigrantes, repelidos de outras partes, trazeinjá uma visão de mundo mar-
cada pela opressão. No Sul do Parri, encontram unia situação de convulsão política,
em torno das disputas de terra. Esta realidade de luta, dada pela possibilidade de
conquistar espaços ainda indefinidos na estrutura econômica, acrescida da experiência
adquirida pelo itinerkio geográfico e social percorrido, faz do camponês desta fron-
teira um tipo diferente do pequeno produtor agrícola do Centro-Sul, certamente mais
integrado econôniica e politicamente ao sistema.
4 Assis - sindicalista c possciro.

154
&&o culruml e concepplo políiicu emre Igreju Curdlicu e cuniponcses

Não há dúvida de que a propriedade de um lote de terra para produzir C o ideal


comum dos camponeses de toda as partes do país. Isso C básico para a realização
de outros ideais do projeto camponês, tais como criar a família com seu trabalho
autbnomo, sem patrio; assegurar uni meio de vida futuro para os filhos, e, especial-
mente para o camponês de fronteira, fixar-se num lugar, pondo fim à sua cansativa
trajet6ria de migrante. Esta estabilidade familiar, fixada espacial e economicamente
na base da propriedade privada, C um ideal ainda mais caro à Igreja.
A produção em bases pouco sedimentadas, em vista do pouco tempo de chega-
da ou das constantes mudanças, desprovida de equipamentos, alCm dos niais rudi-
mentares, e fundada tão-somente na cultura temporliria, além da insegurança, no
caso do posseiro, da posse de terra, faz com que esse camponês não tenha nenhum
motivo para ser politicamente conservador. A niío efetivação da reforma agrária e
a execução de uim política agrícola totalmente desfavorlivel, mantêm todo o proje-
to camponês apenas no nível da idealizaçlo, produzindo, na sua mentalidade, uma
insatisfação com o sistema social e uma idéia negativa acerca do Governo.
0 senso político que se forma a partir da marginalização social do camponês
tende a se transformar em consciência crítica e consciência organizada, na medida
em que ele se inicia numa organizaç20 que lhe possibilita a discussão em grupo,
o questionamento político e un~aprática direcionada 21 mudança social. Este caminho,
normahente, tem início na Comunidade Eclesial de Base, passa pela niilidncia sin-
dical e pode culminar na militfincia político-partidhia.
Com relaçlo a essa elevaçio cultural, ou seja, a passagem iio7nconformismo
político à consciência crítica e organizativa, alguns setores da Igreja progressista
trabalham no sentido de promovê-la, enquanto outros estão mais preocupados em
controlá-la dentro de padrões cat6licos reformistas, ou, de acordo com a velha tra-
dição da igreja Católica, em arrebanhar consciências para a Instituição. Segundo
Mano, ex-coordenador da CPT de Marabri, tem “duas tendências dentro da tal Igreja
progressista: uma que pensa arrebanhar mais gente que for possível; outra que não
está interessada em arrebanhar coisissima nenhuma, ao contrário, está interessada
em enviar, justamente, penetrar em toda a sociedade prá ver se muda alguma coisa.
São du?s posições radicalmente diferentes: a primeira, eu chamaria de neocristan-
dade. E uma visi0 melhorada do que era na Idade MCdia. A outra não está interes-
sada em arrebanhar para a Igreja, mas em atacar as estruturas existentes”.
Os objetivos da açio cultural da Igreja estao colocados de maneira muito clara
e sint6tica nesse trecho do documento Igreja: Comunhiio e Missab na evangelizaçb
dos povos, no mundo do rraballio, da politica, da cultura:
“A formaç60 política dos crisdos requer uma conipreensão do que seja
política, um aprofundamento da fC e a devida articulação entre as duas.
Sem dúvida, a Igreja deverli formar os cristios numa fC engajada, na
mística do compromisso corn uma sociedade mais justa. Para tanto, o
cristão deverri conhecer a estrutura da sociedade, seus mecanismos com-
plexos no campo econômico, social, político, ideológico e cultural.

155
A questão que se põe: a quem cabe dar a formação estritamente políti-
ca? Aos partidos? A outras entidades da sociedade civil? Se não o fazem
ou se fazem em dissonância com os valores evang&cos, a Igreja, que-
rendo evangelizar a dimensão politica, deverá fazê-lo” (Conferência ...
1988).
Os métodos de aculturação utilizados pela Igreja parecem ser bastante próprios
para a mentalidade camponesa. Fazendo analogias - do tipo besta fera do apocalip-
se: o capital; faraó do êxodo: o Estado; dragões: o grileiro, o capitalista - e ins-
truindo por meio de diversas cartilhas sobre formação sindical, legislação, direitos
dos posseiros, estrutura da sociedade etc., a Igreja consegue transmitir alguma ex-
plicação acerca da realidade social. (Hdbette 1986).
A relação entre os religiosos e os camponeses, ou, conforme Gramsci, entre
a filosofia dos intelectuais e o senso comum dos simplórios, tem uma boa exemplifi-
cação na fala do Pe. Jose de S. Domingos do Araguaia:
“Os lavradores, sozinhos, não sabem o que fazer. Você pode conscien-
tizar para o uso da liberdade, para o crescimento autêntico deles ou po-
de conscientizar levando para o caminho que você mesmo traçou, e isso
ja nã? é uma conscientizaçãoverdadeira. Aí C que está o cerne da ques-
tão. E um trabalho de muita paciência, e é onde os movimentos popula-
res falham, porque não têm a paciência de esperar; C um querer os frutos
imediatamente. O trabalho a ser feit? 6 o trabalho que a Igreja pratica
nas Comunidades Eclesiais de Base. E um tipo de trabalho assim: pegar
a pessoa, a mais humilde, a mais analfabeta, a mais ignorante, num am-
biente onde ela mora, trabalha, e começar a fazer uma analise da reali-
dade. Eu estou assim, passando fome, por quê? Porque Deus quer assim
ou C porque tem alguém que está tirando comida que era minha e está
jogando para os porcos? Até que essa pessoa descobre um pouquinho
onde é que está a raiz do sofrimento dela. Pode durar 1 dia, como pode
durar 1 ano, 10 anos ou 20 anos. Eu não queria dizer que só fazendo
aquela reunião C suficiente. Se se fica só na teoria, o lavrador 6 o pri-
meiro que no segundo dia não volta. O difícil 6 acompanhar na prática,
propondo soluções”.
Os cantos, nas celebraçiies ou nos intervalos dos encontros, onde se discutem
a conjuntura política e econômica, os problemas dos sindicatos e associaçss e os
próprios problemas cotidianos do povo, estabelecem uma conjugação entre fé e po-
lítica. Por exemplo: “Nosso roceiro que vive do chão/ sÓ tem metade de sua produ-
..
ção/ A grande esperança que o povo conduz/ pedir a Jesus pela Oração/ .que Ele
não deixe o capitalismo/ levar ao abismo a nossa nação/ a desigualdade que existe
6 tamanha: enquanto o ricaço não sabe o que ganha/ o pobre do pobre vive de tos-
tão”, ou “Se esta terra C patrimônio de Deus Pai/ nunca passou escritura pra nin-
guCm/ e se a terra C fonte de nossa vidal vai ser repartida...”. Ou seja, os cantos
procuram estabelecer um ideal comum entre a Igreja e os camponeses.

I56
A@ culiuml e concep@ política entre Igreja Gzitdlica e canponeses

Sem dúvida, há pontos de contato entre a concepção social da Igreja e o ideario


dos camponeses. Mas a ação cultural da Igreja visa não apenas a reforçar esta iden-
tidade, como tamb6m a promover a introjeção e validação, pelos camponeses, de
valores necessários B mudança social por ela abalizada. Assim, em alguma medida,
a Igreja conduz a concepção e a construção do projeto camponês.
A da resistência do camponês ao avanço do capitalismo 6 um bom exemplo
disso. E bem possível que, apesar da estima que têm pela terra e pelo trabalho na
terra, em vista de esforço tão ingrato nas circunstâncias regionais, o ideal do cam-
ponês não seja realmente o de ser camponês. Pelo menos, alguns conseguem virar
pequenos comerciantes e muitos devem desejar profissão para si e para os filhos.
Contudo, em função da valorização atribuída B vida camponesa, eles ficam de fato
imbuídos da significação política e quase her6ica de ser camponês, ou ficam cons-
trangidos a atenderem, pelo menos a nível de discurso, a esta expectativa idealizada
de seus interlocutores.
A comunidade é o ideal de organização social da igreja e as CEBs são o pr6prio
retrato, atomizado, deste ideal. Em que pese haver muito individualismo entre os
camponeses, o trabalho comunitário, na forma do niutirão, é uma saída adotada pe-
los pequenos produtores para suprirem necessidades de força de trabalho. No
associativismo, a motivação B tanibdm a de aumentar a força produtiva através da
união. Associados, os pequenos produtores podem se articular melhor com o siste-
ma: obter financiamento, adquirir meios de produção, comercializar melhor seus
produtos etc. Entretanto, diferentementeda atitude espontdnea dos mutiróes, a as-
sociação produtiva dificilmente 6 uma providência originária dos próprios cam-
poneses.
A constituição de associações de pequenos agricultores requer uma organiza-
ção empresarial que os camponeses não têm como conceber e administrar, em vista
de não possuir nenhuma vivência com o assunto. Assim, a origem destas associa-
ções e s d em setores da Igreja, na maioria dos casos, que elaboram projetos e cap-
tam recursos internacionais. Estas associações estão ainda longe de serem
autogestionadas pelos camponeses, pois a gestão contábil e financeira, a escritura-
ção, o relacionamento com bancos e outras burocracias, além de outras tarefas que
exigem uma educação formal, acabam tendo de ser realizadas por freiras ou padres.
A autonomia 6 um valor presente tanto no idekio campones como na concep-
ção de frações progressistas da Igreja, que certamente não pretendem o controle
dos sindicatos e associações. O poder pelo qual a Igreja luta é indireto, dado pela
consciencialização de seus valores éticos e morais. Mas a nível político e a nível
econômico, a autonomia camponosa não é uma realidade visível. Assim, nesse ca-
so, Igreja e camponeses comungam de uma mesma utopia.
A açã0 cultural da Igreja não se restringe ao meio camponês. Em torno da questão
agrdria, há toda uma racionalização que visa 21obtenção da hegemonia-desuas con-
cepções na sociedade civil em geral. Assim, a distinção entre terra de negócio ou
terra de exploração e terra de trabalho - incluindo entre esta oposição a categoria

157
Mus. Para. Eniílio Goeldi; Cole@o Eduardo &IMO, 1991

conciliativa de terra de produção, ou seja, “a propriedade rural que respeita o direi-


to dos trabalhadores, segundo as exigências da doutrina social da Igreja” (Confe-
rência 1980) -, feita a partir da idCia de que o camponês não tem a terra como
mercadoria, mas estritamente como campo de aplicação do seu trabalho, embora
tendo relativo apego real, não deixa de ser tambCm uma elaboração muito generali-
zante. O vínculo doutrina1 desta distinção está nos conceitos de propriedade social
e propriedade capitalista. O encaixe numa ou noutra categoria depende de uma escala
de produção e de uma Ctica nas relações de produção. São conceitos estabelecidos,
portanto, sobre limites de difícil precisão. Apesar disso, são elaborações que cum-
prem uma função ideológica em diversas esferas da sociedade civil.
Igualmente, na Area do Direito, a Igreja pode não estar cientificamente correta,
.
ao defender a prática de ocupação de terfas pelos posseiros - “. .é o trabalho so-
bretudo que legitima a posse da terra. E o que entendem os posseiros quando se
concede o direito de abrir suas posses em terras livres, desocupadas e não trabalha-
das, pois entendem que a terra é um patrimônio comum e que enquanto trabalham
nela, não poderão ser expulsos” (Conferência 1980) - mas sua elaboração justifica
eticamente a prática dos posseiros perante a sociedade.
As características da formação econômico-social brasileira, desfavorgveis à sub-
sunção real da agricultura de alimentação pelo capital, de forma que o nosso capita-
lismo reclama mesmo a contradição da economia camponesa, abrem espaço à volta
dos ideais populistas do final do século XIX na Rússia. Assim, não só da parte da
Igreja, mas também nas universidades, nos partidos políticos e em amplos segmen-
tos da sociedade civil, a bandeira da reforma agrária ganha adesão. Não mais em
termos de revolução burguesa ou estágio necessario do desenvolvimento capitalista,
mas como um requisito de uma nova organização social, econômica e política do
país. O fato de que a matéria tenha sofrido um revés na atual constituição, não sig-
nifica que a questão esteja encerrada.

CONSIDERAçõES FINAIS

A Igreja realiza um movimento cultural importante numa região em que a po-


pulação rural 6 predominante e atinge a centenas de milhares de pessoas. Introdu-
zindo o camponês, pela fi5 religiosa, a uma análise política racional e crítica, ela
o prepara para uma atuação política transformadora, no sentido de abrir caminho
consolidação da agricultura camponesa como alternativa produtiva.
A influenciaçã0 psico-social está na própria natureza da Instituição, de forma
que os mdtodos de dilüsão cultural por ela utilizados são bastante eficientes no meio
camponês. AtravCs da conscientizaçãode lideranças e de racionalizações teóricas,
ela logra um efeito social ampliado, Mas o seu veículo de transmissão doutrinária
não 6 apenas o discurso lógico e racional. A partir de uma forte razão politica -
a conquista da terra - de decididas ações práticas por este objetivo e de apelos emo-
cionais que falam diretamente da realidade concreta, a Igreja progressista consegue

158
A Ç ~ cultural
O e concep@o políiica enire Igreja Catdlicu e camponeses

fazer sua concepção social penetrar na mentalidade do camponês, sob a forma de


uma fC político-religiosa.
No quadro de midria social, agora não de uma forma opiácea, ou no sentido
de produzir o consentimento dos dominados, conforme toda a sua tradição histói-
Ca, mas lutando pela realização de uma utopia, a Igreja se vê novamente posiciona-
da como o suspiro de uma população oprimida. Requisitada pelo povo, ela não se
omite. Ao contrário, ela enfrenta o Estado opressor, e trabalhando junto ao povo,
formando consciências, passa a influenciar forças sociais que lhe conferem nova
base de poder. A Igreja se torna suporte para a ação prática de um extrato dos domi-
nados que aspira à mudança social, e se coloca contemporaneamente na sociedade.
A relação da Igreja com os camponeses encadeia efeitos recíprocos. Os campo-
neses se elevam culturalmente e se organizam em sindicatos, associações e no partido
político. Estas organizações, com outras articulações na sociedade e em contato pr6-
ximo com a Instituição, levam as teorias e realidades políticas para dentro dela, que
parcialmente as absorve, alterando práticas, fortalecendo a participação dos leigos
e levantando questionamentos internos. A elevação da consciência crítica e organi-
zativa dos intelectuais do movimento camponês, inicialmente formados pela Igreja,
leva-os, geralmente, a uma críticki dos dogmas religiosos e, principalmente, da Igreja,
enquanto instituição dominador& Descolam-se então desta base e passam a exercer
uma niilitância política independente. Contra essa independência, alguns religiosos
protestam. Contudo, para qualquer consciência mais descompromissada, a autono-
mia popular aparece como um atributo essencial.
Genericamente, a Igreja tem a sua própria concepção de sociedade, que não
se confunde com nenhum outro projeto, seja de ideologia liberal, seja de ideologia
socialista. No específico da região de Marabá, os camponeses, incutidos da f6 polí-
tica e os intelectuais religiosos, enquanto atuantes no movimento camponês, com-
põem um bloco ideológico. “E não existe organização sem intelectuais, isto 6, sem
organizadores e dirigentes” (Gramsci 1984). A ambivalência está em que os reli-
giosos não são apenas orgânicos ao movimento camponês, mas são tambCm mem-
bros de uma burocracia autoritária e centralizadora. E at6 que ponto esta fraçã0
progressista, catalizadora de mudanças estruturais, vai resistir, com alguma auto-
nomia, à ingerência da hierarquia, no sentido de coibir ou integrar? Essa C uma per-
gunta para a qual não há resposta definitiva no presente. Apenas hri lições da história,
e 6 com base nelas que as dúvidas permanecem.
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160
O FRACASSO ANUNCIADO
Philippe Hamelin’

RESUMO -Aiidlise das diferentesfases da evohçao de um Distrito, hoje Mu-


nicipio da TraiisamazBiiica, desde os primdrdios da coloitizaçdo ate hoje.
Constata-se que apesar das dìjìculdades e iristabilidadesprovocadas pelas mu-
danças políticas e pela flutuaçdo dos preços agrícolas, a regiiio cresceu de ma-
neira sigiiijìcativa, coritradizeìido os progndsticos pessimistas dos estudiosos.
P o r h , h semelhança de outras partes da Amazdnia, estd enjìrentado,hoje, u m a
crise que exige uma forte reestruturaçao. Sdo propostas diversas hipdteses ou
cendrios possíveis, que dependem tanto de decisdes políticas, como da capaci-
dade da sociedade local de organizar-se e adaptar-se hs ìiovas exig2ncias.
PALAVRAS-CHAVE: Amazônia, Transamazônica, Colonização, Plancjamcnto,
Dcscnvolvimcnto.
ABSlRA CT- Die diyereiit phases iri the evolution of a “Distrito” (Couìitoi)
along the Transamazon Highway are aiialized, from its beginnings as a colony
to the “Municipio” (Municipalitylof today. hi spite of dificulties aid iirstabilities
imposed by political changes aid the oscillation of agriculturalprices, the region
has experienced sigriijïcant growth, contrary to the negative predictiom of mariy
researchers. As in other parts of the Amazoii, however, this area is noivjEzciiig
a crisis that requires of it a serious restructuriug. Several hypotheses and possible
scenarios are proposed, that depend not ody oli political decisions, but also
011the local commuiiify ’s abilities to orgaiiize and adapt itseIf to the new demands.

KEY WORDS: Ammonia, Transamazon Highway, Colonization, Planning,


Devclopmcnt.

TNTRODUÇÃO
Apesar do fracasso, tantas vezes anunciado desde o início dos anos 80, da colo-
nização ao longo da Transamazônica, as 100.000 famílias que o Estado sonhava
implantas entre 1972 e 1976 já aí vivem, e a população continua a crescer a um

1ORSTOM - Museu Paraense Emflio Goc1di;lDCH.


De Itaituba a %O Joäo do Araguak o conjunto dos municipiosatravessados pela Transamazbnica no Par6
(Tabela 1).

161
Mus. Pam. Emilio Goeldi: Colepio Eduardo Galwïo, I991

Tabela 1- População dos Municípios atravessados pela Transamazônica no Pará


entre 1970 e 1987

CENSO 70 CENSO 80 ESTIMAÇÃO 85 ESTIMAÇÃO 87


IBGE IBGE IBGE IDESP
Itaituba 13.682 39.829 80.834 187.833
Aveiro 8.872 12.914 15.236 16.434
Prainha 12.358 46.48 1 62.570 113.084
Porto de Moz 7.488 12.201 14.291 18.130
Altamira 15.428 49 .O20 84.146 101.088
Sen. José Porfirio 3.O44 6.565 8.300 10.889
Portel 16.438 43.683 58.341 84.000
Tucuruf 10.081 87.265 84.326 218.316
Itupiranga 5.368 15.640 23.008 33.160
Ja cu n dá 2.229 15.179 21.847 58.000
Marabá 24.798 72.530 133.559 184.060
São João do Araauaia 15.348 36.356 42.293 64.757
Total 135.125 4 17.663 608.862 1.008.692
Taxa de crescimento 11,3% 7,8% 27%
Taxa de crescimento entre 80 e 85 - Estimação IBGE 7,8%
Taxa de crescimento entre 80 e 87 - Estimação IDESP 13,4%
Nota: De acordo com os dados do IBGE, a expansão da fronteira ao longoda Transamazdnica esti desa-
celerando. E o contririo se levar em conta os dados do IDESP. Isto mostra a fragilidade dos dados quan-
titativos na AmazBnia. A população de Tucumi parece supcrcstimada pclo IDESP, enquanto a população
dc Marabi 6 subestimada pclos dois drgäos, se compararmos seus dados com os da SUCAM, que avalia-
va a população de Marabi em 292.000 h em 1986. E impassive1 decidir atualmente quem tem razão.
S6 o censo dc 1990 poderi fornecer dados mais confiiveis. Porkm, mesmo se for aceita a estimativa
baixa do IBGE, 6 dificil afirmar que a fronteira esti em recesso quando sua população aumentou quase
50% em cinco anos.

162
O Fracasso anunciado

ritmo de lo%, às vezes 15% ao ano em certos setores3. Se os primórdios da colo-


nizaçäo foram laboriosos e difíceis, B devido em grande parte ao tipo mesmo da
colonização que, contrariamente à do Centro-Oeste - caracterizado pela expansão
. marginal a partir de centros prbexistentes - realizou-se através da construçäo de
um eixo rodoviário de leste a oeste, cortando o coração da Amazônia, e do desen-
volvimento de centros (Altamira, Itaituba, Marabá) que foram anteriormente bases
de apoio à atividade extrativa. O meio natural constitui outra diferença: pode-se com-
parar a facilidade da penetração da savana 2s dificuldades da floresta equatorial densa?
Se o desenvolvimento da regiä0 foi lento a princípio, suas possibilidades fituras
sä0 importantes:
- No setor agrícola em que a substituição da força de trabalho pelo capital
(Lena 1988) é dificultada pelo meio ambiente e pelo tipo de produçäo (cacau, pimenta-
do-reino, café, dendê, etc.), exceçäo feita à criação de gado, pouco rentável no en-
tanto (Hamelin 1988a); e no qual os trabalhadores rurais, cada vez melhor organi-
zados, opõem-se mais e mais aos grandes latifundiários.
- No setor industrial, em que riquezas minerais e energkticas deram impulso
à indústria pesada (siderurgia, fábrica de alumínio).

Tabela 2 - Crescimento Médio Anual do Município de Uruará

CIDADE DE I MEIORURAL TOTAL

N?
URUARA
CRESC. N? CRESC. r
ÏpËz&
I
ANUAL ANUAL
1983 1825 9632 11457
1984 2666 46 % 10669 lo$% 13335 16,4%
1985 4561 70% 12319 15,4% 16870 26%
1986 6 147 35% 14382 16,8% 20529 21%
Crescimento
Médio 50 $4 14,3 % 21%
Anual

(Os dados acima são a sfntese dos dados recolhidos pela SUCAM, durante uma pesquisa em 1986, e
pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais em 1984).

Ver as Tabela 1 e 2. Os dados da SUCAM estabelecem para o municlpio dc Marabil um Indice de


crescimento anual de 25% entre 1980 (72.000 habitantes, Censo IBGE) e 1986 (292.000 habitantes
- SUCAM), enquanto que o mesmo Indice cai para 12% segundo as estimativas do IBGE. Neste
dltimo caso, trata-se da simples projeçäo das tendências observadas entre 1970 e 1980, sem levar em
conta o impacto da descoberta de Serra Pelada e do Projeto Carajis. Outra fonte de erro 6 encontrada
a nlvel das noções de populaçäo residente e população presente.

163
Mus. Para. Emilio Goeldi: Coleplo Eiiurdo Gulv&o, 1991

Esses dois pólos (combinados 2I exploração racional da floresta, à extraçã0 au-


rífera, e ao desenvolvimento de outros setores, como o turismo e as plantas medici-
nais) podem formar a base de sustentação econômica de um desenvolvimento e
crescimento sem precedentes nessa região. O'forte potencial econômico da Amazô- ,
nia 6 totalmente insuficiente, no entanto, para gerar um verdadeiro desenvolvimen-
to, a não ser que se estabeleça um consenso social mínimo a respeito de para quem,
por que e como desenvolver. Este consenso deve possibilitar a resolução de temas
polêmicos como os conflitos entre interesses nacionais e regionais, industrialização
e preservação ecológica, redistribuição da riqueza e investimento, etc.
A. HIST~RIADA FRONTEIRA

Só se pode analisar a fronteira amazônica numa perspectiva histórica atrav6s


de uma análise de sua dinâmica.
As análises sincrônicas sob a dupla restrição das brutais variações observadas
e da precária qualidade dos dados disponíveis podem conduzir a interpretações equi-
vocadas e mesmo, a contra-sensos.
O importante 6 ver se as diferentes fases sociais e econômicas são simples ci-
clos que vão do ponto zero atd o ponto zero ou, ao contrário, constituem etapas
da estruturação espacial e social da Amazônia.

1. A ruptura de 1970
Em 1970 a criação do Programa de Integraçã0 Nacional (PIN) provoca uma
dupla ruptura: ruptura do modelo social que, desde a chegada do colonizador portu-
guês, caracterizava o modo de ocupação da Amazônia; ruptura no modelo da ex-
pansão da fronteira no Brasil 4.

I.
I.
A ruptura social
A história da colonização da Amazônia se confunde com a dos ciclos econômi-
cos: drogas do sertão, borracha, castanha-do-pará. O extrativismo vegetal, entre-
cortado, nas fases de crises, de tentativas de colonização agrícola, domina a atividade
econômica.
O fracasso das diferentes tentativas pode-se prestar a explicações econômicas
e/ou políticas, mas a causa deste mau êxito deve ser procurada no modelo social.
Não se pode basear a conquista de um espaço como a Amazônia na desvalorização
do homem, na sua redução à condição de quase escravo. Uma tal estrutura social
era adaptada 21 gerência de uma sociedade em estagnação.

Uma caracterlstica importante desse novo modelo foi a civilizaçiioda estrada, que surgiu com estrondo
na civilizaçäo do rio. S e d isso um fator importante ou não? TerA isso algum significado simb6lico
de ruptura com o colonizador português agarrado i costa e r( &ira do rio? (Moog 1985).

164
O Fmcasso anunciado

Neste contexto, o pTograma de colonização de 1970 estará em ruptura total com


tudo o que antecedeu. E a primeira vez na história da Amazônia, desde o começo
da colonização portuguesa, que a conquista se baseia num novo contrato social. A
Amazônia C oferta ao homem livre, ao camponês sem terra, ao cidadão marginal,
em toda propriedade. Pela primeira vez, o homem não 6 mais o componente secun-
dario que vai rentabilizar o capital, C o capital que d colocado à disposição do ho-
mem. O objetivo 6 criar uma classe niddia de camponeses; a utopia de construir
uma sociedade igualitária na periferia de um Brasil que, em pleno milagre econômi-
CO,fomenta sem perceber uma sociedade cada vez mais desigual. fi difícil dizer
se isso foi um lapso, um concurso de circunstâncias ou uma tropeçada da oligarquia
burguesa que o levou ao poder, mas o regime militar, não querendo ou não podendo
enfrentar a oligarquia do Nordeste, vai investir na Amazônia para beneficiar desfa-
vorecidos. Ele lhes construirá estradas, distribuirá terras, doará casa e condições
para sobreviver no começo. Ao camponbs, ele dá a terra para que este pioneiro co-
rajoso construa o Brasil de amanhã. A terra não 6 mais um bem de capital como
conv6m ao economista ou ao latifundiário, mas sim um intrumento de trabalho.
Este projeto durou pouco tempo. Desde 1974 a colonização dirigida esta quase
abandonada (Ianni 1979). Após esta data, tenta-se restabelecer o equilibrio atravCs
do financiamento ao grande capital para valorizar a Amazônia; mas o impulso foi
dado, o mito está criado, a Amazônia C a terra onde cada um tem sua chance, 6
a terra onde o pequeno pode desafiar o grande, o “coronel” não encontra mais af
o seu lugar 5.

1.2. Descontiiiuidade espacial da expansdo da fronteira 120 Brasil


Antes de 1970, o avanço da fronteira se realizava por transbordamento, e sua
expansão era continua, apoiando-se sobre as bases anteriores. A criação da Transa-
mazônica, no coração da floresta, e o d$staque inicial sobre o PIC Altamira produ-
zirão um projeto de natureza diferente. E como se diante da imensidão da Amazônia
e das dificuldades de penetração o poder quisesse colocar em seu centro uma carga
explosiva para quebrá-la em pedaços e facilitar sua consquista; isto em oposição
21estratdgia de “corrosão das margens” que havia prevalecido atd então no Brasil.
Esta modificação de estratdgia (esta vontade talvez de acelerar a história) vai obri-
gar a desenvolver um projeto gigantesco, sem comparação com aquele que havia
sido empreendido anteriormente.
Foi necessário criar um novo centra no coração da Amazônia e conectá-lo gra-
ças B realização de enormes infra-estruturas, sem poder se apoiar em bases anteriores.
Depois desta ruptura na continuidade espacial da fronteira brasileira, qual d a
natureza da fronteira? A fronteira 6 somente econômica? E tamMm demografica?
Assistimos a uma simples reprodução do modelo social ou à emergência de uma
nova forma de sociabilidade?
Nos conflitos sangrentos que opõem os “fazendeiros” e os “posseiros”, os lIltimos nem sempre saem
perdendo.

165
2.A regido de Uruará

A superfície do distrito é desconhecida: os limites Leste-oeste estão determina-


dos, mas nenhuma demarcação foi feita ao Norte ou ao Sul. O INCRA demarcou
e distribuiu 600.000 ha no interior do distrito. Os colonos “pequenos” ou “gran-
des”, ampliaram ainda esta área já importante em pelo menos 150.000 ha. A popu-
lação do distrito antes da abertura da Transamazônica em 1970 era oficialmente de
O (zero) habitantes. Entretanto, a descoberta de 80 indios ARARA em 1980 e, de-
pois, o contato ern setembro de 1987 com um outro grupo Arara com cerca de 100
indivíduos, permite estimar entre 300 e 1.O00 indivíduos a população original. Em
abril de 1986, segundo nossas estimativas, a população alcançava entre 19.000 e
21.000 indivíduos (19.300 segundo a SUCAM). Cerca de 4.100 lotes de terra fo-
ram demarcados e atribuídos. (Fonte: INCRA; 3.750 Lotes de 100 ha, 250 lotes
de 500 ha, 30 lotes de 3.000 ha). O número de estabelecimentos agrícolas em 1986,
segundo minhas estimativas, devia situar-se entre 1.600 e 2.000, levando-se em conta
os lotes não explorados por falta de acesso, os não incluídos no projeto do INCRA,
e o agrupamento em uma só área de exploração de vários lotes (a fazenda mais im-
portante possui 12.500 ha). Além da agricultura, o corte e a serragem das madeiras
de lei é a principal atividade. As cinco serrarias do distrito empregam cerca de 500 i
pessoas que compõem a maioria dos assalariados permanentes do local, juntamente
com. os 160 professores das escolas.
A imensidão do distrito, sua diversidade e as modalidades de ocupação não per-
mitem considerar URUARA como representativo da Amazônia brasileira. O distri-
to não é nem mesmo representativo do Projeto Integrado de Colonização (PTC) de
Altamira, no qual está incluído. A boa qualidade dos seus solos, o fato de que a
assistência do INCRA se limitou à demarcação das terras e o sucesso das culturas
permanentes (cacau e pimenta) distinguram-no dos outros distritos do PIC Altami-
ra. Por outro lado, a colonização agrícola representa apenas uma das formas de de-
senvolvimento da ocupação humana na Amazônia 6. Mas o estudo do processo de
formação desta comunidade permite identificar as etapas fundamentais comuns à
maioria dos projetos de colonização agrícola da Amazônia.
De 1970 a 1987, a fronteira agrícola no PIC Altamira conheceu três fases ( prin-
, cipalmente na região estudada):
- Um período de estabelecimento de 70 a 80. O INCRA era ‘‘O pai e a mãe
dos colonos”, segundo a expressão dos colonos;
- De 81 a 84, uma recessã0 aparente;
- A partir de 85, uma retomada da expansão.

Salvo talvez em Rondbnia; seria a mcmdria do Marcchal Rondon, dcscobridor dcste tcrritdrio nos anos
20, a razão pela qual o podcr militar näo tentou acabar com a colonizaçäo por pcqucnos camponcscs?

166
O Fmcasso anunciado

2.1. Instalação

O Objetivo da colonização na Amazônia era duplo: ocupar o espaço amazônico


e resolver os problemas sociais do Nordeste, integrando à economia nacional “amplas
faixas de população antes dissolvidas na economia de subsistência, condenadas à
estagnação tecnológica e à perpetuação de um drama social int~lerável”~. As de-
clarações governamentais deste tipo, assim como as inúmeras visitas do Presidente
da República e dos ministros, fizeram da colonização da Amazônia um grande pro-
jeto nacional. O PIC Altamira era a vitrine deste projeto. Altamira I *, em uma edi-
ção luxuosa, relatava de maneira bastante detalhada as tarefas a serem cumpridas:
desde o modo de seleçã0 dos colonos at6 a separação das mudas de milho segundo
os diferentes tipos de solo. Nele encontramos o plano das agrovilas acompanhado
do plano-tipo da casa do colono, do posto de saúde, do depósito para estocageni;
estão ai determinados o tamanho das roças e as culturas a serem implantadas; são
calculadas, igualmente, as quantidades de sementes e de produtos fitossanitários pa-
ra cada tipo de cultura, bem como a alimentação necessaria à sobrevivência da fa-
mília do colono na espera da primeira colheita, a duração dos trabalhos e a
rentabilidade de cada produção. Mas, como declara o próprio presidente do INCRA
em introdução ao projeto: “do desconhecimento inicial quase absoluto da Area, pe-
lo menos ao nível requerido para um projeto específico, partiu o INCRA para a
acão imediata, com base em uma programação de emergência, que sem embargo
desse caráter contingencial, já encerrava as diretrizes básicas que acabariam por in-
formar os rumos desse projeto” q . O desconhecimento do meio e a precipitação
com a qual o projeto foi elaborado (C interessante constatar que o INCRA redigia
as diretrizes de instalação dos colonos enquanto os instalava) fazem dele uma cons-
trução intelectual desconectada de qualquer realidade local. A primeira conseqiiên-
cia foi que Altamira I, anunciado como o primeiro de uma sGie de projetos, não
será jamais seguido por Altamira II. Certas diretrizes tiveram um efeito muito ne-
fasto pois, no tocante à própria estrutura do projeto, elas eram irreversíveis. Em
particular, a escolha de um zoneamento retangular que criava, perpendicularmente
à estrada Transamazônica, a cada 5 km, uma vicinal de 10 km de extensão, nas
margens da qual eram demarcados os lotes de terra de 100 ha (400 m de frente por
2,5 km de fundo). Quando, no local, foi preciso abrir essas vicinais, percebeu-se
que algumas delas passavam no meio de rios ou pintanos, outras escalavam colinas
com encostas importantes; alguns lotes ficaram sem Agua enquanto que outros, ao
contrfirio, eram sulcados por dois ou três cursos d’água.
A Area do PIC Altamira era uma faixa de terra com largura de 20 a 24 km,
atravessada no meio pela Transamazônica, com extensão de 480 km (240 km para
cada lado a partir da cidade de Altamira).

Brasil, Presidência da Rcpdblica, mctas e bases para a a ç b do governo. Sct. 1970, p.31.
* Plano de instalação das 3.000 primeiras famílias do PIC Altamira; o Único quc existiri, pois, os se-
guintes nä0 seräo jamais editados e, provavelmente, ncm mcsmo redigidos.
Altamira I (março de 1972).

167
MUS.Para. Entilio Goeldi: CokCdQ Eduardo Gah.do. 1991

Entretanto, o projeto só foi executado no interior de um segmento situado a


Oeste de Altamira, do km 20 ao km 120; quanto ao resto, ou seja, o que se chamara“
de “colonização espontânea” em oposição à “colonização dirigida”, o INCRA se
contentara“, muitas vezes, em apenas demarcar e distribuir as terras ou regularizar
os ocupantes sem títulos que se haviam antecipado aos geômetros.
A área que se estende do Km 20 ao Km 120 6, então, a Única onde foi colocada
em prática uma parte das diretrizes descritas em Altamira I: construção de agrovi-
las, postos de saúde, algumas escolas, etc. A Única também onde foram colocados
em prática sistemas planejados de produção.
Globalmente, até o fim dos anos 70, será a produção de arroz, associada à cria-
ção de pastagens e à eventual compra de gado (quando os excedentes monetários
resultantes da venda de arroz o permitirem) que constituirá o sistema dominante.
A liberação de financiamentos somente para a produção de arroz, no caso dos
colonos sem titulos de propriedade (o INCRA só havia distribuído 50 títulos atd 1986),
C talvez, uma das explicações deste fenômeno (Wood & Schmink 1982: 78-8 1). No
final da ddcada, a produção de arroz está em declínio, o ponto máximo foi atingido
em 1976. Outras culturas como pimenta-do-reino e cacau desenvolveram-se lenta-
mente mas seu impacto ainda C fraco. Alguns colonos fornecedores de canade-açúcar
se aproveitaram da generosidade do Estado que subsidiava os dCficits da usina de
açúcar. Quase todas as terras previstas, desde o projeto inicial, foram ocupadas.
As condições de acesso, no entanto, não melhoraram. As outras infra-estruturas,
tais como escolas, postos de saúde, etc. não preenchiam as necessidades da popula-
ção. A fronteira nos fins dos anos 70 está ainda em estagnação.

2.2.A RECESS-O APARENTE

Período turbulento no qual o Estado, que havia iniciado seu desengajamento


por causa da crise, retira-se quase totalmente. Os créditos subsidiados desaparecem
em 1982, a usina de açúcar C privatizada e fecha em 1983. O preço do cacau e da
pimenta, que começavam a ter uma produção significativa, cai e a produção desta
Última 6 condenada pelas CEBs e pelo sindicato como “produção capitalista” (Ha-
melin 1988a).
Esse período caracteriza-se por uma crise econômica conjuntural, associada a
mudanças profundas e à crise de identidade dessa sociedade que, face ao abandono
pelo Estado, vê-se obrigada a assumir suas responsabilidades. A coincidência entre
esses dois fenômenos deixou crer que o refluxo da fronteira agrícola já tinha inicia-
do, enquanto na verdade assistia-se ao parto doloroso de um embrião de organiza-
ção social, que deveria permitir-lhe a retomada de sua expansio a partir de 1985.
Alguns colonos abandonam a Transamazônica que não C mais cuidada e fica
interrompida durante a estação das chuvas. Mas, no meio desta crise, algo mostra
que a fronteira está ainda viya. O embrião de vila criado em 79 em torno da escola
do Km 180 (futura URUARA) se desenvolve. Surge a primeira farmácia, um posto

168
O Fracasso anunciado

de gasolina e diversos comkrcios. Os jovens leigos que junto ao padre visitam e


animam as CEBs recebem um início de formação que lhes permite formar os futu-
ros quadros do sindicato. Alguns utilizam esse trampolim para entrar na politica.
As divisões administrativas não retificadas no início da colonização deixam a
parte oeste do PIC Altamira na dependência do município de Prainha, cuja sede situa-
se na margem norte do rio Amazonas, a mais de 4 dias de viagem. Este fato incenti-
vará o reforço do núcleo urbano da futura Uruará. Enfim em 1983, a liberação pelo
INCRA de mais de 2.500 lotes de terra de 100 ha trará uma lufada de ar fresco,
permitindo a não-inversão dos fluxos migratórios.

2.3. 1984: O novo crescimento

A partir de’J985, a reviravolta será rápida. O sindicato, fundado em 1984, jun-


tamente com a Associação dos Plantadores de Cana-de-Açúcar irão ocupar, em ju-
nho, a Esplanada dos Miniserios em Brasília e conseguirão a retomada da usina
açucareira sob forma de Cooperativa, bem como recursos para reformar e criar no-
vas estruturas (estradas, escolas, postos de saúde, etc.). Alteam-se os preços da pi-
menta e do cacau, que se tornarão as culturas dominantes do sistema de produção,
passando de 24% de colonos possuidores de uma cultura perene em 1983 a mais
de 84% em 1986 (Tabela 3), e a uma multiplicação por cinco das áreas cultivadas,
aproximadamente (Hamelin 1988a). O ano de 1986 será de grande entusiasmo na
esteira da euforia do “Plano Cruzado”, com excelentes colheitas de pimenta e ca-
cau e o dólar alto no câmbio negro lo. O salário dos diaristas será quadruplicado
em termos reais, o preço da terra tambCm. A cidade de Uruará conhecerá uma es-
peculaçäo desenfreada, alguns terrenos urbanos e certos comkrcios serão vendidos
a preços 3 ou 4 vezes superiores aos vigentes em Belém, embora Uruará seja uma
cidade sem rede de esgotos, sem eletricidade e sem ruas asfaltadas. Já 1987 será
um ano mais difícil, a colheita da pimenta será inferior e o preço do cacau entrará
em declínio. A expansäo mede-se bem lançando-se mão de duas variáveis:
- A apumüo espacial: se em 1985 a maioria dos lotes de terra liberados em
1983 estavam ociosos, em 1987 eles estão todos ocupados, e a colonização ja foi
além. Em 1985, falava-se dos “bichos-da-mata” instalados a 30 km da beira da
estrada, hoje se encontram importantes grupos de colonos a 50 km; uma vicinal possui
uma extensão de 86 km e está totalmente ocupada.
- O crescimento demográjìco 15 um outro indicador pertinente (Tabela 2). Se
a cidade aproveita ao máximo esse crescimento, o meio rural continua a crescer
com indices significativos. Segundo nossas observaçks de campo em 1988, o cres-
cimento da cidade parece atenuar-se apesar de um fluxo imigratdrio importante, o
que parece significar que o meio rural continua em crescimento.

lo Uma grande parte da produçäo era escoada atravds das redes de contrabando do Médio Amazonas
para a Guiana Francesa e o Suriname e, logicamente, paga em divisas trocadas no câmbio negro.

169
Mus. Pam. Eniílio Goeldi: Colecao Fduardo Gnlvdo, 1991

Tabela 3 - Presença das diferentes culturas em 1124 áreas exploradas *

Produção Pimenta Cacau Cafk ** Guarana Criação


dc Grãos

CARAC. s6 em em em em <I0 ca-


PRODUÇÁO auto total prod. total prod. total prod. total prod. total bcças total
NP de
Camponeses 362 998 140 462 184 624 178 385 1 128 240 440
envolvidos
% 32.9 90 12,5 41,5 16,5 56 16 45 O 16,5 21,5 39,5

* Durante a pesquisa de 1986, para 1760 chefes de famflia foram contados 1124 lotes em exploração,
o que permite estimar em cerca de 2.100 o ndmero total de lotes cultivados.
** A maioria das plantações de café em produção são de tamanho reduzido; somente 22 propriedades
vendem seu produto regularmente.
Nota: 271 lotes (ou seja, 24%dos 1.124 lotcs explorados da amostra) comercializam cacau elou pimenta
c/ou café. 178 (16%) produtores não possuem nenhuma plantação; entre estcs, 67 (6%) têm gado.

B. PERSPECTIVAS
1. O futuro do modelo URUARA
Uruará C apenas uma das unidades da fronteira agricola, mas a análise de suas
possibilidades de desenvolvimento bem como das condições que influenciam seu
futuro, possibilita determinarem-se eixos comuns ao conjunto da fronteira.

1.I . Intensijìcaçlio: Possibilidades e condições

Seja econômica, ecológica ou socialmente (Tabela 4), as culturas perenes são


hoje o Único sistema conhecido de produção agrícola capaz de assegurar a sobrevi-
vência e o desenvolvimento desta comunidade e certamente de muitas outras na Am-
zônia. O arroz, se condenado como cultura comercial, tem ainda um papel muito
importante a desempenhar a nível do auto-consumo familiar, visto que ele pode se
manter como cultura intercalar no início das plantaçiks. A criação de gado, conde-
nável social e ecológicamente, e talvez condenada economicamente enquanto mo-
noprodução, tem hoje junto aos pequenos produtores, um papel importante. Eles
compram o gado quando a colheita C boa, e o vendem para receber cuidados m&i-
cos, construir uma nova casa, ou para enfrentar os anos difíceis; ele C de uma certa
forma seu seguro em caso de doença, sua caixa de poupança, sua garantia contra
a flutuaçã0 dos preços.

170
0 Fracasso anunciado

Do total das áreas distribuidas, cerca de 10%estão sendo cultivadas; mas 80%
da renda comercial são fornecidos pelas plantaçbes de pimenta e de cacau que ocu-
pam menos de 1O % desta área. Mais de 80 % desta superfície é ocupada por pastagens
pouco produtivas, o resto C destinado à produção de arroz, feijão e mandioca, ser-
vindo para o auto-consumo. Os excedentes não são nem suficientes para alimentar
a cidade de Uruará, onde as lojas vendem arroz e feijão importados do sul do Bra-
sil. O fator terra não ?i um freio ao desenvolvimento econômico: o volume da pro-
dução poderia ser facilmente decuplicado, principalmente graças às imensas
possibilidades de intensificação que permitiriam aumentar fortemente o rendimento
das plantações. As possibilidades técnicas de um desenvolvimento existem, mas es-
te desenvolvimento só se realizará se o quadro social se consolidar. A comunidade
regional terá, sem dúvida, uma grande responsabilidade neste processo, mas o Es-
tado será o fator decisivo, pois é ele o Único que tem capacidade de realizar os in-
vestimentos de infra-estrutura (estradas, distribuição de energia, etc.), de implantar
os serviços de base (sadde, justiça, escola), de sustentar os produtores durante as
crises provocadas pela queda dos preços ou pelas más colheitas.

I.2. Limitação do mercado e*diversijìcação


Hoje, a nível mundial, os estoques de café e de cacau se acumulam, os preços
baixam, a pimenta deverá, muito em breve, enfrentar a mesma situação; o guaran8,
sem um verdadeiro mercado, viu seus preços afundarem em 1987 por causa da en-
trada em produção das plantações da zona cacaueira da Bahia. O melhoramento da
produtividade e dos circuitos comerciais pode permitir manter os níveis de renda
dos atuais plantadores, mas não permite prosseguir o ritmo de expansão e menos
ainda, a generalização para o resto da Amazônia destas produções. A diversificação
das produçiks é o Único caminho realista, as possibilidades são inúmeras, algumas
ja são praticadas na Amazônia (dendê, suco de fruta, matéria-prima para fabricação
de papel), outras são conhecidas (copaiba, rícino, plantas medicinais e a grande va-
riedade de frutos de palmeiras utilizadas tradicionalmente pela população local). Po-
rém, estas possíveis alternativas enfrentam um duplo problema: ou elas alimentam
um mercado local muito restrito e não têm a possibilidade, sem infra-estrutura in-
dustrial adequada, de absorver uma produção maior, ou são gigantescos complexos
agroindustriais concentrados em dezenas de milhares de hectares para a produção
de matéria-prima e sua transformação. O que 6, alCm dos riscos agronômicos e eco-
nômicos ligados à monoprodução e os riscos sociais ligados à gerência de’mão-de-
obra, um modelo inadaptado às representações sociais dos colonos que muitas ve-
zes fugiram de suas regiões de origem para escapar do assalariamento, ansiosos de
se tornarem “camponeses-proprietários e independentes” (Araújo 1986) na Ama-
zônia. O exemplo da usina de canade-açúcar do Km 90 C bastante revelador neste
ponto: o confronto entre os plantadores e o industrial que dirigia a usina não era
devido a problemas econômicos, mas sim ao desejo do industrial de adquirir terras
e produzir, ele mesmo, 50% da cana para, dizia ele, assegurar o abastecimento re-
gular da usina, o que os plantadores recusavam totalmente, com medo de se trans-
formarem nos satélites da usina, sobre os quais cairia todo o peso das crises.

171
+
Mus. Para. Emilio Goeldi: Coleflo Eduardo Galvdo, 1991

Tabela 4 - Comparação dos resultados econômicos das quatro produçks mais im-

1
portantes da região de Uruará *

Balanço de 10 anos Pimenta-do-reino Cacau Criação: 330 ha


(4 produções) 2 ha 8 ha Venda de bezer-
ros de 1 ano
Queimada
Preparação 416 680 525 2.930
Plantação (DEI)
Manutenção
Colheita
etc. (DEI)
3.400 4.800
4*100 I 6.600

equiv. 180 '


Quantidades
Colhidas (Kg.) 48.000 48.000 9o.Ooo II Bezerrolano
1.440 bezerros
Produto bruto
I 96.000 1 48.000 9.000 1 216.000

1 1
(US$)

+'
custos(vs$)
at4 1s colheita 4.000 900 90 160.000
outros 3.000 2.800 100.OOO
financeiros 1.600 380 36 64.000

residual ap6s 16.000 20.000


10 anbs (US$)
Produto
financeiro ('US$, 98.400 83.940 8.874
Total
trabalho @/H) 1 38.318 I 5.480 4.825 I 8.530
Remuneração
do trabalho (US$) **0,82
Produto I 4.920 I 800
halano (US$) **720 I ""370

6 l
Densidade
de população 1
teórica (Hab/Km2)
* Os dados contidos neste quadm devem ser interpretados como indicadores de tendências. Eles resul-
tam da sintese de informações recolhidas junto aos agricultores, geralmcnteempregadores de mão-
doobra, que sä0 praticamente os únicos capazes de forneccr indicações precisas sobre O tempo de
trabalho. Eles têm, tam", rendimentos geralmente superiores h midia.
** Simulaçä0 de preços: pimenta dividida por 4; cacau e arroz divididos por 2, e queda de 28% do preço
da carne.
Nota: D/H - Significa dias de trabalho por homcm.

172
O Fracasso anunciado

A associação dos plantadores preferiu deixar fechar a usina a ver escapar de suas
mãos a exclusividade da produção da cana, que lhe permitia estabelecer, em pC de
igualdade, relaçhs contratuais com a indústria.
A melhoria das condições de vida, a manutenção de uma corrente migratória,
a fixação da segunda geração, serão as provas tangíveis do desenvolvimentoda re-
gião. Hoje Uruará está na encruzilhada dos caminhos, os dois esquemas aqui apre-
sentados (Tabela 5) mostram quais são as possibilidades extremas. O desaparecimento
das culturas perenes torna o primeiro cenário quase que irreversível. O segundo
está longe de ser linear e depende de muitos fatores externos como a situação eco-
nômica brasileira e mundial. Gostaria de destacar um ponto importante: a concen-
tração de terra não 6 uma causa, mas muito mais uma conseqüência de erros a nível
das orientações técnicas (incentivo à criação extensiva) ou de uma estrutura social
desequilibrada.

2. Uruurá não é indepetdente do resto da Amazônia


A fronteira agrícola na Amazônia entra em concorrência com outros projetos
(garimpos, Carajás, grandes barragens, etc.). Tal concorrência pode dar origem a
efeitos desestabilizadores caso não haja integraçã0 das diversas frentes e compatibi-
lizaçã0 dos diferentes projetos.

2.I . O risco de super-desenvolvimento

As grandes obras, como a construção de barragens, drenam importantes fluxos


de população. Se ainda por cima disto, tais obras são implantadas numa região que
ja apresenta altas taxas de crescimento demográfico, a desestabilização social toma-
se um risco maior (Hamelin 1988b). O projeto Xingu, da ELETRONORTE, pode-
ria vir a aumentar as taxas anuais de crescimento populacional dos 10% atuais a
aproximadamente 20%, o que multiplicaria por três a população no fim do projeto.
Afora as dificuldades imediatas de gestão de tal fluxo populacional, como esperar
que a fronteira agrícola possa absorvê-lo quando as obras terminarem? Reassentar
os excedentes atravks da abertura de uma nova frente agrícola significaria diferir
o problema, acelerando ao mesmo tempo o desastre social e ecológico. Numa Ama-
zônia devastada, e na falta de novos espaços, será então necessário enfrentar o cora-
ção do problema, que 6 a organização sócio-política da sociedade.

2.2. A ìndispotiìbilidade de nião-de-obra


O dtulo pode parecer contraditório em relação ao do parágrafo precedente. Ele
6, mas apenas em parte, pois a procura de mão-de-obra para o desenvolvimento
dos projetos endrgeticos e industriais pode privar o setor agrícola da sua força de
trabalho. As zonas de fronteira agrícola em que os sistemas dominantes de produ-
ção são grandes consumidores de mão-de-obra podem assim enfrentar fases de re-
cesso (ver 1.2). Já são conhecidos os custos do desenvolvimento industrial baseado

173
Mus. Pam. E d i o Goeldi: Coleç& E&uudo Golvdo. 1991

- Dois Cenilrios Possíveis para Uruard


Tabela 5
SITUAÇAO HOJE: - Fraca concentração de terras
- Inicio de difusão de culturas perenes
-Acumulação significativa por parte dos colonos
que possuem culturas perenes em produção

A CURTO PRAZO:
A B
Status quo a nivel das infra-estruturas Desenvolvimento das infra-estruturas
e investimentos sociais. As condições de base. Investimento na formação.
de vida pioram. Os jovens vão para a Apoio h estruturação de um mercado de
cidade. A imigração diminui. trabalho para beneficiar os jovens. Ma-
nutençã0 da imigração.

Falta mão-de-obra Disponibilidade de mão-de-obra quali-


ficada.

Aumento das dreas em pastagem. Desenvolvimento dos Aumento das


serviços e, possivel- culturas
mente, do setor agro- perenes.
industrial.
Valorização
da terra.

A MfiDIO PRAZO:
Queda dos preços Queda na oferta A região atrai os mi- A criação
da terra de empregos grantes e fixa os jo- extensiva
Queda da fertili- (qualidade e vens. Os lucros da toma-se
dade do solo quantidade) agricultura começam não rent&
a ser.investidos em vel
Extensificação Parada da imi- outros setores
destinada a gração. Emigra-
compensar a ção dos jovens Melhoramento das infra-estruturas
perda de produ- (energia, comunicação, sadde, justiça,
tividade lazer, etc.)

Diminuição dos investimentos Organização e especialização dos pro-


sociais dutores
..............................................
A LONGO PRAZO:
Criação de latifúndios pouco produtivos Desenvolvimento de agro-indústrias
Degradação ecol6gica acentuada O Municipio pode chegar a ter 500.000
Abandono da região, demogrilfica e hab. com somente 15% dos ativos no
biologicamente transformada em deser- setor agrícola. A renda por hab. pode-
to, provavelmente de maneira não re- ria ser cinco vezes mais elevada que a
versfvel em muitos aspectos m a i a do Pard.

174
O Fracasso anunciado

no sacrificio da agricultura. Aldm disso, ao custo social de um tal modelo de desen-


volvimento, acrescentar-se-ia um pesado custo ecológico, pois certamente haveria
substituição das culturas perenes, relativamente bem adaptadas, pela criação de ga-
do com seu lastro de conseqüências ecológicas.

CONCLUSÃO

A realidade amazônica torna-se a cada dia mais complexa. O aparecimento de


imprevistos (bacia petrolífera do Juruá, garimpo de Cutia), um conhecimento insu-
ficiente, a pouca viabilidade das estatísticas e as diferenças regionais não permitem
dizer como será o amanhã.
Certos itens emergem em meio a essa complexidade:
- A expansão demográfica: muitos pensaram que as taxas de crescimento sig-
nificativamente elevadas da dkada de 70 iriam decair durante a d6cada de 80, o
que não parece ser o caso hoje. A Amazônia Legal passará provavelmente dos 20
milhões de habitantes em 1990. Pordm, as previsões a longo prazo são muito difi-
ceis; afirmar, por exemplo, que a população da Amazônia se situará entre 25 e 60
milhões de habitantes em 2010 não tem utilidade para o planejamento.
- A emergência de um campesinato: a fronteira agrícola contribuiu em parte
para a modernização da agricultura do CentreSul do Brasil. Hoje esta agricultura,
graças a ganhos de produtividade e i# sua integraçã0 agro-industrial, B o motor do
crescimento brasileiro. Essa modernização dá-se paralelamente a um desenvolvi-
mento relativamente harmonioso (se comparado com as megal6polis do tipo São
Paulo). Por que os irmãos e os filhos dos autores desse desenvolvimento,juntamen-
te com os migrantes do Nordeste ou os plantadores de cacau da Bahia, não conse-
guiriam a mesma coisa com outros sistemas de produção na Amazônia?
- O grande potencial econômico da região, traduzido em recursos energkti-
cos, minerais e agrícolas.
- O choque cultural: a sociedade amazônica tradicional s6 se conscientizou
há pouco da deflagração de 1970, e exprime agora sua frustaçã0 atrav6s da dendn-
cia do colonialismo interno. Se ela está apenas saindo das relações feudais do avia-
mento, como poderá resistir a essa expansão? Deixar-se-á suplantar simplesmente,
como no caso do polígono dos castanhais em Marabá? (Emmi 1988) Será a violên-
cia sua forma de reagir, ou deixar-se-á assimilar?
O problema ecológico, desde a degradação do ecossistema local at6 o começo
do efeito estufa, que diz respeito B totalidade da biosfera, encontrar-se-á no centro
dos debates. Se a ecologia não for integrada rapidamente como um fator importante
corre-se o risco de uma imposição, pela opinião pública mundial, de medidas seve-
ras, que impediriam todo desenvolvimento.

175
Mus. Para. Emilio Goeldi: Cole@o Eduardo Galvao, 1991

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176
VALOR E PREçO, EXPLORAÇÃO E LUCRO DA
PRODUÇÃO CAMPONESA NA AMAZôNIA:
CRÍTICAS À NOÇÃO DE FUNCIONALIDADE DA
PRODUÇÃO FAMILIAR NA FRONTEIRA AGRÍCOLA
Fraiicisco de Assis Costa‘

RESUMO -As principaisfonnulações sobre a evoluçdo do campesiriato na Ama-


zbnia t2m nas categorias d‘coloiiialismoiiitenio ” e “auto-exploraçdo campo-
nesa” a base de u m a economia política da ‘3ncioiialidade”da produçdofamiliar
ila firiteira agricola dsfrações urbanas do capital. Coilsiderandoa rigide: destas
noçbes (o suposto da sobredetermiiiaçdo do político lias relações de mercado
e absolutizaçdoda rioçdo chayaiioviaila de capacidade de auto-exploraçdocam-
ponesa), o presente artigopropõe uma abordagem que privilegie as noções mar-
xistas de valor e esploraçdo do trabalho - e suas expressbes como preço e lucro
- na visualbaçdodas complexas e contraditdrìas relações entre estruturas cam-
ponesas e produçdo social.
PALAVRAS-CHAVE: Amazônia, Campcsinato, Economia, Agricultura, Fron-
teira agrícola.
ABSlXACT - This artile proposes a model of economic interactioii arnorig
A ~ ~ Z peasants,
OII local markets, and the Brazilian national economy, seeking
to explain the evolutiori of that peasantry in areas of the expanding agricultural
frontier and incrasing penetration of capitalism, in temis of the surplus value
of pesarit labor and its esploitation. Previous models based oit “iiitenial
coloriialism”aid the “selfexploitatiorr ofpeasants, whosefamily-based labor
I’

is sold at very low price, are discussed.


KEY WORDS: Brazilian Amazon, Peasant economy and agriculture, Agricultural
expansion.‘

i. INTRODUÇAO
As principais vertentes teóricas sobre a questão agrária que relevam a presença
camponesa como questão central na compreensão do desenvolvimento capitalista

Doutor em Eeonomia pela FU-Berlin. Professor e pesquisador do NAEA e do Depto. de Hist6ria da UFPa.

177
Mus. Para. Emilio Goeldi: Colecdo Eduardo Galvdo, 1991

brasileiro e vêem na Amazônia um locus privilegiado da formação, recriação ou


expansão de um campesinato crescentemente significativo t6m no ‘‘colonialismo
interno” a principal categoria descritiva das relações de mercado entre o campesinato
e os setores urbano-capitalistas.
Para Velho (1976:49), por exemplo, parece evidente
“(. ..) que desde que os países caracterizados pelo capitalismo
autoridrio %hegaram tarde’ comparados com os paises burgueses
avarqados, têm grande dìjìculdade em competir na arena internacional
acumulando atravLs de procedimentoscolonialistas e imperialistas, assim
tendo de realizar internamente uma política aruiloga ”.
Martins3 (1971:37) vai mais além quando supõe o “colonialismo interno”
como suporte à exterioridade das estruturas camponesas em relação à sociedade
capitalista plenamente constituída, expressa na sua categoria “frente de expansão”,
e, ao mesmo tempo, como explicativo suficiente dos mecanismos que recolocam
na “frente pioneira” as contradições que fornecem os elementos recriadores da
economia do posseiro, ou, como explicitamente denomina, da “economia do
excedente”. Isto é: de uma economia. 1

“(. ..) cujos participantes dedicam-se principalmente à própria


subsistência e secundariamente h troca do produto que pode ser obtido
com osfatores que acedem iàs suas necessidades” (Martins 1971:35-36)
(e onde) “(. ..) o excedente é (...) o artigo que adquire valor de troca
porque hd condições econômicaspara sua comercializaç& e niio porque
tenha entrado nas relações de troca como resultado da divisão do
trabalho. Na frente de expansiio, as condições de vida sii0 reguladas
pelo grau de fartura e &o pelo grau de riqueza ”. (Martins 1971:37).
De um lado, a transformação do “excedente” da “frente de expansão” em
mercadoria, ou melhor, as “condições econômicas” que tornam essa transformação

Essas correntes partem do pressuposto da especificidade camponesa em relação à produção capitalista,


explicando, a partir dcssa espccificidade, a constatação cmplrica de sua permanência nas formações
sociais estruturadas sob o domfnio do modo de produço capitalista. Se contraria, al, portanto, a
pcrspectiva clhsica do marxismo, onde, ou rio haveria especificidadea ser considerada (Lenin, 1960),
uma vez que por condições enddgenas ao prdprio campainato se daria um processo de sua diferenciação
social criando-se capitalistas e trabalhadores agrlcolas numa inevitilvel homegeneizaçäo das relações
sociais no campo, ou, por outra parte, o que haveria de especlfico no campones (como a “rendncia”
Ltaxas de lucro e de renda da terra), conduziria, na sua relaçäo com o capitalismo, incxoravelmente
à sua supcraçäoldestruiçäohist6rica- e nä0 B sua permanência (esse 6 o caso de Kautski, 1899, e
do prdprio Marx em vLios momentos da sua obra, espccialmentc no livro 3 - NEW 25, pp. 608-9.
639 e 916-17). Entre nds, esta tem sido a matriz tedrica dos analistas da questão agrLia que veem
no campones nada mais que um “trabalhador para o capital” e a fronteira amaz6nica como um curral
do latifundiilrio de “porteira fechada” para um campesinato decadente (D’ Incao & Melo 1975: 85
- 116; Silva 1981: Wanderley 1979).
Não se desconhece, aqui, as divergencias, por vezes profundas (ver a prup6sito Velho, 1980), entre
os autores citados que supõem, comumente em suas anAlises, o “colonialismo interno”.

178
Valor e preço, e.yIora@o e lucro da prcduçdo camponesa na Anlnzdnia

possível são dadas como resultado da presença do colonialismo interno que, todavia,
enquanto empreendimnto capitalista.
“(. ..) se situa ‘fora’dos componentes da estrutura social da frente
de expansão e absorve a renda potetzcialntente gerada pela terra”.
(Martins I971:33.
De outro lado, 6 o “colonialismo interno” o responsável pela contínua
reinstauração do estado de insuficiência econômica da “frente pioneira”, na medida
em que se insinua ali colocando para os produtores
“(. ..) os preços dos produtos agrícolas (...) Jixados en1 função da
rentabilidade do capital dos empreendimento urbanos e não em função
dos custos de produção. ” (Martins 1971:39).
Abstraindo-se nuances no uso do conceito, “colonialismo interno” significa o
prmsso de viabilização da acumulação de capital a partir do exercício, pelo Estado,
de funções outrora desempenhadas pela metrópole colonial (Linhares e Silva,
1981:68). Atravds de mecanismos como controle de preço, confiscos cambiais e
taxaçks diversas o Estado garante um nível de apropriação do excedente social pelas
frações hegemônicas do capital.
A (super) acumulação viabilizada pelo “colonialismo interno” encontra
contrapartida lógica na (super) auto-exploração da família camponesa que
“(. ..) aproximadamente nos tennos de Cliayanov (...) é capaz (e
por vezes forçado) a trabalhar além do ponto em que a produtividade
marginal se iguala aos custos de subsistznca. A riecessidade de utilizar
plenamente a força de trabalhofmziliarpemiite, através de unta espécie
de “sobretrabalho”, que venda barato ”. (Velho 1976:198).
Para Martins (1975: 11-12), os pequenos produtores - que “podem.vender
seu produto a qualquer preço” - absorvem diretamente os rendimentos líquidos
negativos decorrentes do colonialismo interno “numa auto-expropriação” (Martins
1971:40).
Colonialismo interno, de um lado, e capacidade de outo-exploraçãocamponesa
de outro, conformam as bases lógicas da tese da futzcionalidade da produção
camponesa na fronteira à reprodução das frações hegemônicas do capital -do capital
industrial e bancário. Assim, a economia política da “funcionalidade” pode ser
resumida como segue: a instância política, na figura do Estado, cuida para que
condiçks constantes e claras no nível macro - quer dizer, no nível em que se dá
a divisão do produto social - sejam mantidas no sentido de garantir o assalto da
agricultura em favor da indústria. Na medida em que os camponeses em geral, mas
em especial os camponeses na fronteira agrícola podem produzir mais barato - a
partir de uma “elasticidade extraordinária de auto-exploração” (Soares 1981:206)
-, eles ‘transferem valor aos setores hegemônicos da acumulação do capital na
indústria, num processo que eventualmente poderia ser caracterizado de acumulação
primitiva permanente.

179
Mus. Pam. Eniilio Gocldi: Colepio Ed~íardoGulwTo, 1991

Essa concepção desconsidera duplamente a lei do valor: no plano do mercado,


não pode se manifestar atravds dos preços; ao nível micro, C obscurecida ao ponto
de se supor o paradoxo de que, com mais sobretrabalho das unidades produtoras,
baratea-se socialmente um dado produto, isto C, reduz-se o seu valor.

2. DA CRÍTICAPARCIAL

Há um esforço de crítica a essa formulação. Sandroni (1980: 48-51), seguido


por Musumeci (1988:296), coloca questões fundamentais. Necessária 6 a indagação
de se há base empírica para a afirmação de que os preços dos produtos camponeses
são continuamente baixos para o consumidor urbano; por seu turno, pertinente C
perguntar pela necessidade de levar em conta o fato de tam" a produção camponesa
ter um valor - como, de resto, toda produção regularmente cambiada (Marx 1970
- NEW 23) -, isto 6, a necessidade prática de expressar, na troca, o trabalho humano
nela cristalizado.
Não C suficiente, todavia, lembrar o valor: urge conduzir, para os produtos
camponeses levados ao mercado, uma andlise crítica a partir de sua formação e
realização; C dizer, a partir dos mecanismos da determinação de preço enquanto
forma transmutada de valor - enquanto grandeza distinta do valor mas a ele
subordinada. Somente a partir daí se poderá verificar os problemas fundamentais
da tese da funcionalidade do campesinato na fronteira agrícola à acumulação do capital
nos setores urbanos.

3. DA FORMAÇÃO SOCIAL DO VALOR E DO PREçO DE MERCADO

Numa formação econômico-social uma mercadoria C obtida a partir de diferentes


formas de produção, as quais a produzem a partir do emprego de diferentes quantum
de trabalho humano, vivo ou morto. No mercado esses valores se homogeneizam,
estabelecendo-se como tendência um Único valor: o tempo de trabalho socialmente
necessário à obtenção da mercadoria em questão, isto 6, a massa de trabalho
despandidasocialmente na sua produção relacionada com a massa dessa produção.
Em torno desse valor - dessa tendência - atendidas certas condições normais de
desequilibrio entre necessidades sociais (traduzidas em poder efetivo de compra)
e disponibilidade do produto, giram os preços de mercado.
Tomemos o exemplo do arroz, principal produto camponês na fronteira, objeto
de produção capitalista no Rio Grande do Sul, mais importante fonte de calorias
e, depois de feijão e carne de boi, o terceiro mais importante fornecedor de proteínas
da população brasileira (IBGE 1978).
Quatro regiões definidas, correspondendo sistemas ou formas de produção
distintas, foram responsáveis, nos anos 60 e 70 por aproximadamente 83% da
produção nacional: a produção camponesa na fronteira agrícola do norte, onde se
inclui a produção do Maranhão, a produção das antigas regi& produtoras, como
Minas Gerais e S. Paulo, a produção do centroeste, no geral uma produção capitalista

180
valor e preco. .%plora@o e lucro da pt'dUÇd0 camponesa na Anuudnia

de relações não capitalistas, e a já mencionada produção capitalista do Rio Grande


do Sul. Com base nas informações estatísticas de produção, Gcnicas de trabalho
e níveis de produtividade pode-se verificar, por estimação, o movimento do tempo
de trabalho mCdio de obtenção do arroz, no Brasil, entendendo-o como o tempo
socialmente necessário h sua produção para diferentes períodos (Costa 1988). De
45,14 dias de trabalho por tonelada para o período 1962-67, esse valor aumentou
para 51,72 no período 1968-74e, no periodo seguinte, 1975-80, reduziu um pouco
para 50,28 HD/t ( Tabela 1).

Tabela 1 - Estimativa do desenvolvimento do tempo de trabalho socialmente


necessário para a produção do arroz no Brasil - 1962-1980

Fronte¡- Regiões Centro- Rio Outras Total


ra Agrl- Antigas este Grande Regiões
cola do sul

MÉDrA DO PERfODO 1962-1967


1-Dias de trabalho
para a produção
de 1.OOO Kg 57,s 55,2 50,2 23,6 50,4 45,14*
2- Quantidade de
produto lançada
no mercado 10,o 30,O 23,O 20,o 17,O 100,OO
3- Total de trabalho
empregado ( 1X 2) 575,O 1.656,O 1.154,O 472,O 657,O 4.514,OO

MÉDIA DO PERfODO 1968-1974


1-Dias de trabalho
para a produção
de 1.OOO Kg 57,O 69,5 59,O 21,o 51,O 51,00*
2-Quantidade de
produto lançado
no mercado 12,o 23,5 24,5 21,o 19,0 100,oo
3- Total de trabalho
empregado (1X 2) 684,O 1.633,O 1.445,O 441,O 969,O 5.172,OO

MÉDIA DO PERfODO 1975-1980


1-Dias de trabalho
para a produçö de
1.000 Kg 50,O 68,O 64,O 20,o 52,O 50,28*
2-Quantidade de
produto lançada
no mercado 16,O 14,O 31,O 23,O 16,O 100,OO
3-Totd de trabalho
empregado (1X 2) 800,O 952,O 1.984,O 460,O 832,O 5.028,OO

Observação: * Valor=E (Dias de Trabalho X Quantidade) f E Quantidade

181
Mus. Para. Emilio Goeldi: Cokç& Eduardo Galvdo, 1991

Considerando que a oferta social do produto não se afastou de forma significativa


',
e continuada da sua demanda os preços tiveram que obedecer os movimentos
indicados pelo desenvolvimento acima mencionado. De fato: uma verificação da
evolução dos preços a nivel nacional demonstra que eles cresceram na d&ada de
60, d r a m na d&ada seguinte, p r 6 m em proporção inferior aS elevações do perlodo
anterior, de modo a se evidenciar, no pedodo como um todo, uma tendência
ligeiramente crescente (Figura 1).

150 T

1 !f' 6 6 6 6 6 6 6 6 6 7 7 7 7 7 7 7 ? 7 7 8
E 1 2 3 4 5 6 7 8 9 8 1 2 3 4 5 6 7 8 9 8

Figura 1- Desenvolvimento do preço real do arroz no mercado nacional -


1960-1970, 1970-1980 e 1960-1980.
Fonte: Costa 1988.
fndice: 195862 = 100
Oh.: As tedncias foram calculadas pelo programa CHART.

4 Em t w anterior logrei analisar pormenorizadamente, a partir de nmdelos de estima^, a evolugo


da demanda do arroz de 1955 at6 1980. Na antilise fica clara a sua evolução a altas taxas, tendo sido
verificado na mMia de todo periodoum ritmo de 3,411 a.a. A oferta acompanhouesse desenvolvimento
com uma taxa anual de 3,581.

182
Valor e p r e p . crploru@30 e lucro da producdo canlponern M Anrazdnia

4. DA DETERMINAÇÃO PARTICULAR DO PREçO DE PRODUÇÃO DOS


PRODUTOS CAMPONESES NA FRONTEIRA AMAZ~NICAou NEGANDO
A AUTO-EXPLORAÇÃO EM FAVOR DA DETERMINAÇÃO SOCIAL DA
EXPLORAÇAO

As considerações acima permitem afirmar que não há razão para não se supor
que, tamb6m em relação a produtos camponeses, os preços de mercado estão, em
última instância, regulados pelos valores respectivos. Prevalece o pressuspostogeral
de que as trocas, no mercado nacional, se fazem referenciadas pelos valores das
mercadorias em questão, mesmo quando estes se realizam atravds dos preços de
producão e não se verificam as hipdteses extremas da homogeneidade nas composições
orgânicas do capital dos diversos ramos e setores da economia e do equilibrio entre
necessidade e produção sociais. Em todos os casos, alterando-se as condições a partir
das quais se estabelece o valor, alteram-se, concomitantemente, as condições que
determinam os preços de produção.
Por seu turno, mesmo quando no mercado nacional estão dadas condições para
trocas equivalentes, as trocas camponesas com os agentes articuladores, isto 6, com
o capital mercantil, por se darem aquCm ou alCm desse mercado, são sempre trocas
desiguais. O intercâmbio de produtos industriais por mercadoria camponesa 6, pois,
no primeiro nível (ao nível da relação unidade camponesa/ capital comerciFl), uma
troca de valores nominais iguais que expressam valores reais diferentes. E que os
preços são, aí, co-determinados por condições outras que não aquelas prevalecentes
no mercado nacional. Esses preços são, todavia, regulados em última instância pelos
preços do mercado nacional e, portanto, pelos valores das mercadorias em questão.
Essa regulação se faz referida às condições objetivas da exploração camponesa -
associadas por seu turno a especifcidade da unidade produtiva camponesa -,
efetivando-se a partir da concorrência como fato interior a produção camponesa,
da concorrência entre as frações do capital mercantil e da concorrência entre a
produção camponesa e as demais formas de produção, principalmente a capitalista.

4. I. Da reprodução da família canipoilesa e da reprodução do capital


mercantil ou da inserção do trabalho concreto campoiiês no circuito de
trabalho abstrato, ìsto e', do valor

de Chayanov (Tschajanow 1923) o mérito de enunciar, pela primeira vez,


que a produção da família camponesa se faz considerando avaliações subjetivas dos
seus membros em relação às condições objetivas da sua produção e reprodução. Isto
6, que as decisões da unidade familiar camponesa enquanto unidade de produção
são afetadas necessariamente por suas necessidades enquanto unidade de consumo.
Uma decorrência dessa formulação C a de que não há um regulação social para o
rendimento da unidade de trabalho camponês, como o salário o 6 para as empresas
capitalistas.

183
Mus. Para. Emilio Goeldi: Coleqdo Eduardo Galwlo, 1991

Concorda-se, aqui, com esses traços da especificidade campanesa na formação


social capitalista. Entende-se como erro, entretanto, levar às Últimas conseqüências a
noção daí derivada das “determinações privadas” (uma vez que não sociais) da produ-
ção, dos investimentos, do consumo e at6 da diferenciação camponeses. Como C sabi-
do, para Chayanov estes processos se explicariam pela exploração camponesa como
coisa privada, isto C, como auto-exploraçãoda família. Desse modo, o citado autor
atribui uma neutralidade impossível às relações campesinato/mercado e vê exploração
social do campesinato como fato eventual, portanto não relevante teoricamente.
Nos interessa, todavia, os processos de socialização do específico, da transfor-
mação daquilo que se denomina de auto-exploração em exploração social. O que
se fará a seguir, portanto, C retrabalhar as caracterizações chayanovianas da
especificidade camponesa, situando-as no interior das relações dialtticas das
categorias marxistas trabalho concreto / trabalho abstrato <-> valor de uso / valor
de troca, partindo daí para discutir valor/ preço e exploração/ lucro no universo
do campesinato na fronteira amazônica.

*
Pode-se pensar a reprodução da família camponesa como um sistema fechado.
Nesse caso, os circuitos (dispêndios e reposição) de trabalho se equilibrariam
“naturalmente”, isto 6, incorporariam apenas os desequilíbrios necessários 3s
exigências do desenvolvimentodemogriifico da família, como supõe Chayanov: os
pais produziriam um sobretabalho que supriria o dtficit dos filhos (Tabela 2).
Um inquestionável ganho da antropologia5na fronteira amazônica 6, entretanto,
o de que, 18, campesinato supõe mercado (Velho 1977:290). A reprodução da familia
camponesa se dá, pois, como o descrito na Tabela 3, onde o mesmo orçamento de
545 (ponto de partida do balanço anterior) dias de trabalho por ano exige, agora,
645 dias de trabalho do conjunto da família camponesa - sendo 100 o sobretrabalho
exigido nas relaç%s de troca necessariamente desiguais entre capital mercantil e
família camponesa. Importante, tamMm, C verificar que, agora, nada acontecerá
no processo da reprodução da família camponesa que seja neutro. Cada mudança
na composição do orçamento familiar, seja por fonte, seja por uso, se reflete no
dispêndio total de trabalho dos membros da família.

As categorias descritivas (casa, roçado, mata, etc.) usadas nos esquemas e formulaçöes tdricas que
seguem estão baseadas nas categorias encontradas M descriçäo camponesa da realidade de sua pmdução
e reproduçäo por mais de duas dczcnas de trabalhados antropoI6gicos na Amazbnia. (v.costa, 1988).

184
Valor e preqo. aploraqdo e lucro da prmiuplo canponesa na Antozdnia

A f6rmula geral 6 C
HG . {(I-n-c). [r
Que C igual a
+ (1-r). (l+a)] 4- n +c = KG

+
HG. [(I a(1-r-n-c+nr+cr)] = KG
ou HG. [l+a (1-u)] = KG
ou, ainda, HG. (1+s) = KG

Onde:
1+s = Fator determinante do emprego total de trabalho por parte da família cam-
ponesa enquanto unidade de produção;
s = a(1-u)
a = Relação entre o sobretrabalho da famflia camponesa e o valor dos bens ad-
quiridos atravds do mercado;
u = Fator defi?ido pela proporção, no orçamento, dos bens obtidos como valor
de uso. E, portanto, uma função de n, c e r;
HG = Orçamento anual (casa) da família camponesa enquanto unidade de consumo;
n = Proporção do orçamento que C obtida atravds da mata;
c = Proporção do orçamento que C obtida atravds da casa;
r = Proporção, no orçamento, da parte do roçado autoconsumida;
KG = Total de trabalho empregado pela família camponesa na obtenção de HG,
do orçamento, da despesa da casa.
Considerada constante a tknica, trabalhando-se menos na ïnata ou na casa
(mudança nos lançamentos 3, 6, 9 e 11) elou se uma pafcela maior do roçado 6
realizada no mercado (mudanças nos lançamentos 17), enfim, reduzindo-se u, se
trabalhará mais para cobrir as mesmas necessidades. E a proporção com que se elevará
o dispêndio de trabalho face a essas mudanças dependerá fundamentalmente da taxa
a, da taxa de exploraçcío das estruturas camponesas consideradas. Essa taxa 6 , pois,
uma das determinantes do balanço de trabalho concreto da unidade camponesa na
obtenção dos pressupostos de sua reprodução.

6. O orçamento se divide em
Hc = C.HG
HM = n. HG e
HR = (1-n-c). HG, i, e. em parcelas que provêm da casa (Hc), da niclfa (HM)c do roçado (HR).
Esta última se dividc ainda numa parcela dirctamcntc levada ao orçamento.
r. HR
e uma parcela que se realha atravB do mercado
(l-r)HR
De vez que esta Última parcela s6 pode ser obtida acompanhada do emprego de sobretrabalhose pode re-
presentar como segue o trabalho total necessario para a obtençäoxla parcela do orçamento que su@
IlErCado:
(1-r) HR + a.(l-r) HR = (1-r) (1 + a). HR

185
Mus. Para. Emilio Goeldi: Cole@o Eduardo Gulldo, I991

Tabela 2 - Reprodução da família camponesa como sistema fechado

HOMEM ROçADO

uso Fonte uso Fonte

14) 235 1) 200 1) 200 10) 350


15) 35 2) 50 4) 100
3) 20 7) 50
- - -
270 270 350 350

MULHER MATA

uso Fonte Uso I Fonte


13) 210 4) 100 2) 50 I 11) 65
5) 10
6) 100
- -
210 210 65

CASA

uso Fonte USO Fonte


12) 100 7) 50 3) 20 12) 100
8) 5 6) 100 13) 210
9) 10 9) 10 14) 235
15) 35 10) 350
11) 65
-
100 I -
100
-
545
I -
545

Fonte: Desenvolvido pelo autor.

186
Valor e preco. aploracao e lucro da prcduplo camponesa na Anmdnia

Tabela 3 - Reprodução da família camponesa


HOMEM ROçADO
I

uso Fonte uso Fonte


14) 235 1) 261 1) 261 10) 250
15) 22 2) 50 4) 126 16) uw)
18) 74 3) 20 7) 63
-
331 I -
331
-
450 I -
450

MULHER MATA

uso Fonte uso Fonte


13) 210 4) 126 2) 50 11) 65
19) 26 5) 10 5) 10
6) 100 8) 5
- - - -
236 236 65 65

CRIANçAS CASA

uso Fonte uso Fonte


12) 100 7) 63 3) 20 12) loo
8) 5 6) 100 13) 210
9) 10 9) 10 14) 235
15) 22 10) 250
11) 65
17) 100
-
100
-
100 545
-
545

MERCADO

Uso I Fonte
16) 200 I 171 100
I lsi 74
19) 26

200

Fonte: Desenvolvido pelo autor.

187
Mus. Para. Enzílio Goeldi: CokW Eduordo GnlVao, I991

2. O lucro e a taxa de lucro do capital comercial.


Não se pode confundir a taxa a, a taxa de exploraçãodas estruturas camponesas,
derivada a partir do valor socialmente determinado dos produtos camponeses
colocados no mercado, com a taxa de lucro do capital mercantil.
O capital mercantil se reproduz de acordo com o seguinte circuito:
G‘-(J -(an= PO.WI)

I I
(wI=p’I.wI) G”’

Considerado como um todo, o capital mercantil se reproduz na medida em que


converte a quantidade de dinheiro G em mercadorias industrializadas w1 por um valor
de mercado p l . w I , vendendo-as aos camponeses por G” (=p.WI)e comprando a
produção destes últimos por G” (p1*.wi) e colocando-a no mercado nacional por
G””. A condição para a reprodução ampliada B que G”” - G S.
No suposto de que cada movimento deste circuito fosse desempenhado por agente
ou parcela distinta do capital comercial se teria a massa de lucro total como um
resultado das seguintes apropriações parciais:
Depois do movimento 1 + G’ = (l+m).G
Depois do movimento 2 + G” = (l+m).G’ = (l+m) 2.G
Depois do movimento 3 + G”’ = (1+m) 3.G
Depois do movimento 4 + G”” = (1+m) 4.G
..............................................................................
Depois do movimento n ---* G (“1’ = (l+m) “.G
Visto por outro prisma, a massa total de lucro,
G (n)’ - G = (l+m) n. G-G = G. [(l+m) n - 11,
que depende, em Última instância, de G (valor dos bens industriais vendidos aos
camponeses), e de G(4’ (do valor de mercado dos produtos camponeses) se
distribuiria, a partir da taxa m,pelas fiações de capital de acordo com as respectivas
dimensões e, j4 que não h4 porque supor que esta forma de capital não concorre
com as demais, a taxa m tenderia h taxa mUia de lucro da economia como um todo.
Todavia, o que h4 de especifico no conjunto do capital comercial na fronteira
amazônica, quando comparado 3s demais formas de capital, estabelece condições
particulares na regulaçã0da massa e taxa de lucro por ele apropriadae das condições
de ‘reprodução de suas parcelas. Considere-se, pois, os seguintes pontos:

188
Valor e p r e p . “phwao e lucro da p r d u g o camponesa na Anuz&nia

1 - O capital comercial na Amazônia funciona a partir de estruturas


hierarquizadas, onde as pequenas frações (bodegueiros,taberneiros, catninhotteiros,
etc.) estão, em regra, subordinadas por endividamento 2s grandes parcelas, aos
grandes comerciantes, atacadistas e mineiros, e onde estes últimos exercem
hegemonia econômica sobre os demais. Assim, defende-se a hipótese de que o total
do lucro 6 distribuído entre agentes e frações de capital a partir de taxas diferenciadas
e diretamente proporcionais às respectivas dimensões. Duas implicações dessa
suposição são de fundamental importância: a) com as conjunturas desfavoráveis de
mercado, essas diferenças se acentuam e b) os sistemas de produção articulados por
estas estruturas mercantis permanecem funcionando, quer dizer, concorrendo a nivel
nacional, enqyanto as frações hegemônicas puderem se reproduzir, isto 6, at6 o ponto
em que G (n) = (l+m).G, onde, portanto, o lucro é totalmente apropriado por
aquelas frações hegemônicas. Isso seria impossível em estruturas mercantis onde
cada agente da chamada cadeia de intermediaçã0 correspondesse a uma fração
autônoma de capital - como 6 o caso das estruturas que realizam a produção
capitalista, seja agrícola, seja industrial.

2 - Essas características do capital mercantil na Amazônia se manifestam em


especial nas conjunturas de baixa de preços e no estabelecimento, num mesmo ano,
do raio de alcance geográfico (absorção dos custos de transporte) da oferta aí
administrada. Isso explica a constataçã0 empírica de que a produção camponesa
na fronteira tem alcance geográfico maior que a produção capitalista como se vê
na Figura 2. O que há de peculiar nessas estruturas mercantis funciona, de um lado,
como arma de enfrentamento na concorrência com outros sistemas de produção no
mercado nacional; de outro, se constitui em mecanismo de estreitamento da massa
e da margem de lucro do conjunto do capital comercial atuante na região.

Utilizandoos dados do serviço de informação do mercado agricola para dez anos, foi possfvel ajustar
curvas correlacionando preço de mercado de um mesmo tipo de arroz e distlncia das respectivas Breas
de produção - da produçb camponesa do Maranhão e da produçäo capitalista do Rio Grande do Sul.
Seguem as duas hnçt5e.s:
PM(Maranh8o)= 1.157+0,08. D
e.
PM(R.G. do Sd)=1.096+0,21.D,
onde PM, o preço de mercado, 6 uma funçä0 da distlneia (D) da Breas de produçb. Nesse contexto,
o coeficiente linear representa o preço de prcduçäo mMio do sistema de produçäo em questão e o
coeficiente angular os custos de transporte. Precisamentea grande diferençaentre os coeficientesangulares
das funç&s acima, uma vez considerada a igualdade dos custos de transporte para ambas produções,
nos permite formular as hip6teses que seguem.
* A capacidade de concorrência da produção da fronteira supera a do Rio Grande do Sul, em termos
de dishcia, em 98%. Enquanto os gauchos podcm vender mais barato alt 1.176 Km distante de Porto
Alegre, a produção da fronteira 6 colocada com vantagem de preço num raio de 2.324 Km de disthcia
da sua origem.

189
Mus. Poro. M l i o Gocldi: Cok@ Edmado Cialvdo. 1991

2.000 -I. 1

1.600 -.
Po

C
r 1.200
s Haranhao
I
6 .
O
800 -.
K
B

400 --

a Do
oO . , I
SS . L u i s . B r a h a B.H&iz. S.Pho Parhi P.Alegre

Figura 2 - Representação da atuação conjunta das ofertas do arroz do Maranhão


e do Rio Grande do Sul na determinação do preço de mercado a nivel nacional.
Fonte: Costa 1988.

3 - A estruturação do capital comercial'na AmazBnia se faz a partir de uma


hierarquização que corresponde, por outra parte, a uma distribuição de funções
definidas M articulação da produção camponesa ao mercado. Essas lùnçöes estão
associadas com os problemas'do financiamento, do controle, do armazenamento,
e da comercialização da produção camponesa. São inúmeras, na literatura disponível,
as anaises empiricas dessas funms,principalmente da& funções de controle exercidas
a partir de diversos mecanismos (econômicos, sociais e politicos), pelos pequenos
comerciantes residentes nos povoados. Duas coisas têm sido entretanto desprezadas.
Primeiro, as formas como se dii a concorrência entre as frações hegemdnicas do
capital mercantil regional, principalmente nos momentos de conjuntura favoriivel
de mercado. Se lista, com frequência, entre os agentes do capital mercantil, um agente
m6vel: o caminhoneiro, o tropeiro, o lancheiro, etc. As distinções do cariiter de
sua incidência a literatura costuma referenciar ao espaço: nos trabalhos em que eles
aparecem como importantes se diz que são importantes naquela região, etc. ;quando
aparecem como secundfirios, a afirmação 6 de que, naquela Area, eles estão
pressupostamente em extinção. Ningudm jamais tentou uma distinção no tempo,
marcada pelas conjunturas de mercado. Uma olhada atenta nos anos em que foram
escritas as referências permitid distinguir que os comerciantes mSveis crescem de

190
Valor e p r e p , u;plora@o e lucm da p d u @ o componesa na Amadnia

importância nas conjunturas de alta e, ao contr&io, parecem sumir nas conjunturas


de baixa de preço do produto dominante, p.ex., do arroz. I? que esses agentes
mercantis m6veis são os instrumentos da concorrência entre as frações hegemônicas
do capital mercantil na região, da mesma maneira que os pequenos comerciantes
de povoados os seus instrumentos de controle. Estes os p6s assentados, aqueles os
braços em movimento dos usineiros e grandes atacadistas no sentido de garantir a
maximizaçb dos seus ganhos privados (Figura 3). Segundo, tem sido eventual a
referência ao cardter contraditório, no plano econômico, das funções de controle.
Estas funções levam a uma atuação dos pequenos comerciantes de povoado que
pressupöe a formação de um quadro maior ou menor de fregueses fixos. Se isso
de um lado atua no sentido de garantir maximizações de ganho em conjunturas de
preços altos para os produtos camponeses, de outro lado se constitui num problema
nos momentos em que a conjuntura recomenda retenção na oferta. Poder-se-ia
enunciar, a partirdai, que as funções de controle, por uma parte, e as de c ” & c i a ,
de outra, levam a que o capital comercial, como um todo, aja pressionando a
, exisencia da oferta em momentos de alta conjuntura e, em momentos de preços
baixos, por esta pressionado. As funções de controle se colocam, ao nivel local,
no sentido de reduzir e as funções de concorrência de elevar G, a base sobre a qual
6 calculado o lucro do capital mercantil; no plano do mercado naqional, todavia,
essas funções atuam em conjunto no sentido da redução de G (n) . Esses sä0 os
parhnetros socialmente dados, as contradições que determinam as condições de
reprodução, massa e taxa de lucro, do capital mercantil visto como um todo.

Unidade camponesa
*.-
. . d’

Pequenos comerciantes de povoado (bodegueiros, etc.)


Grandes comerciantes, Usineiros
+ Financiamento, fornecimento de bens, etc.
t Pequenos comerciantes m6veis (caminhoneiros, etc.)

Figura 3 - Concorrência e controle do capital mercantil nas estruturas camponesas


na Anmania.
Fonte: Costa 1988.

191
Mus. Pam. Emilio Gbeldi: Coleçdo Eduardo Gulw?o, I991

5. RELAÇÕES OBJETIVAS CAMPONESES/ CAPITAL MERCANTIL:


Taxa de lucro e taxa de exploração das estruturas camponesas.

O valor expresso por G tem, para as estruturas camponesas, o status te6rico


do preço de custo para a produção capitalista expressando, todavia, apenas em parte
o mesmo conteúdo. Como o preço de custo na empresa capitalista, G expressa o
total de valores de troca colocados no processo de produção. Ao contrário do preço
de custo de produção capitalista, G não pode expressar o valor da força de trabalho
que deu origem a essa produção. Pois, na produção camponesa, o trabalho não se
materializa enquanto trabalho abstrato, a força de trabalho não se homogeneiza no
mercado de trabalho e nem se expressa socialmente como valor, sendo, portanto,
os rendimentos por unidade de trabalho variáveis e não reguláveis numa mtdia que
possa se assemelhar aos salários do trabalhador para o capital.
O preço de produção das estruturas camponesas 6, pois,

G (1+m) = G””.

O que, a partir das explicitações acima pode ser reescrito como segue:

+
(1 m) .(wi .pi) =Wi .p’n m= -. -
ou :n]-l

Considerando-se que WI e W I não são as quantidades de produtos mas sim o


seu valor - a massa de trabalho social neles cristalizados - a taxa de exploração
a, acima definida, corresponde a
w1
a= -- 1
W1

e, assim,

Pode-se derivar, tambdm, a partir da relação “a” uma “função de produção”


que se expressaria como segue.

(1+a) . wi=Wi .
Isto significa que a produção camponesa destinada ao mercado C função direta
da taxa de exploração da estrutura camponesa considerada e da parcela do orçamento
familiar obtida no mercado.

192
Valor e preço, crploracdo e lucro da produçdo canponesa na Anmdnia

Estas relações descrevem de forma resumida os lùndamentos contraditórios das


estruturas camponesas na Amazônia. A taxa de lucro do capital mercantil (m) C uma
função direta da relação entre os preços dos produtos lançados no mercado pelas
estruturas camponesas conjunta e concorrencialmente com outras formas de produção
(p’”) e dos produtos industriais necessários à reprodução das condições de vida e
trabalho das famílias camponesas (pi) e da taxa de exploração vigente na estrutura
camponesa considerada. Caindo a referida relação de preço, cairá também a taxa
de lucro uma vez que permaneça a taxa de exploração - ou esta se elevará para
que permaneça imutável a taxa m. As condições de concorrência descritas acima
levam à suposição de uma permanente pressão sobre m no plano digamos cotidiano
do estabelecimento do preço de mercado. Considera-se, altm disso, a verdade prática
e teórica da tendência a um valor decrescente da produção capitalista (pura!) do Rio
Grande do Sul (v. Tabela I) e os seus efeitos de longo prazo sobre a mencionada
relação de preço. Mencione-se, também, os efeitos, ali, das fases conjunturais de
queda de preços. Para todas e cada uma dessas componentes de força a resposta
dos agentes individuais do capital mercantil (em particular daquelas mais vulneráveis,
os pequenos comerciantes de povoado) é Única: elevação da taxa de exploração a
partir ou da elevação mais que proporcional de Wi ou da redução de W I . O
primeiro caso implica, considerada invariável a técnica, uma sobrepressão sobre
os meios de produção, particularmente a terra; o segundo implica a degradação da
capacidade de consumo da família camponesa e a imposição de limites cada vez mais
estreitos 21 reposição da força de trabalho e dos meios de produção. O sistema tende,
assim, a se desenvolver eliminando seus pressupostos (ver na Figura 4 a evolução
da produtividade do arroz no tempo e no espaço, ordenada pela idade/tempo de
ocupação).
*
fi imanente ao sistema de produção camponesa na fronteira mecanismos de
destruição e recomposição. Não se vislumbra, entretanto, pressão estrutural que
possibilitasse a síntese proposta classicamente por Lenin (1960) na categoria
diferenciação social do campesinato.
A dissolução de uma estrutura camponesa se dá, por parte das famílias
camponesas, quando o orçamento familiar, HG,mediado pela taxa s, não mais pode
ser reproduzida, mesmo que se aplique toda força de trabalho disponível na família.
Nesse caso se é forçado a “trabalhar com fome” - como, de forma impressio-
nantemente sintética, um camponês descreveu este crítico momento de dissolução
(Lins e Silva 1977). Por parte do pequeno comerciante de povoado o momento de
desestruturação se dá quando ele já não consegue reproduzir seu capital.
Na medida em que as condições de produção e circulação d o diferentes de região
para região, são diferentes também as condições a partir das quais se dá a exploração
das diferentes estruturas camponesas. Por essa razão o processo de decadência dessas
estruturas (processo esse provocado no geral já apenas pela exploração) não C
mecânico, se fazendo por uma dinâmica contraditória, que pode torná-lo bem longo,

193
Mur. Para. Emilio Guldi: COL@ Edvardo Gdvdo. 1991

x1

Anos / Uicroreqi6es

Figura 4 - Desenvolvimento da produtividade da produção do arroz em diferentes


microrregiões do Pari.
Fonte: CEPA-PA,1979 e IBGE Estatlsticas Agrfcolas Municipais

194
Valor e preto. crplomçdo e lucro da prdqdo camponesa na Aniazdnia

ao par de doloroso. As diferenças, aqui, dependem da relação entre a taxa s, isto


6, do fator que determina, referenciado pelas condições objetivas de cada estrutura,
a aplicação total de trabalho da família, e a taxa de exploração a. Quer dizer: de
como uma elevação na taxa de exploração se reflete no volume de trabalho necessário
2 reprodução da família camponesa (AG).
Considerando o dito em 4.I., a formulação geral C a seguinte: quanto maior
a parcela de valores de uso no orçamento familiar (quanto mais as proporções n,
c e r se aproximarem de 1) tanto menor será o fator s e, quanto menor este fator,
tanto mais suave será o efeito de uma elevação de a sobre o “fundo de trabalho”
da família camponesa, fazendo maior o campo para sua elevação, para a elevação
da exploração atravds dos frequentemente descritos mecanismos de manipulação de
preços (compra na folha, p. ex.), elevação de juros, etc.
Resulta daí que a taxa de lucro do capital comercial regional, m, 6, para um
dado ano, uma ponderação de taxas sub-regionais diferenciadas que se baseam em
diferentes taxas de exploração - estas associadas com as condições objetivas das
estruturas camponesas consideradas. Assim:

O i representa aquelas condições características para uma região que se refletem


no fator s permitindo, empiricamente, sejam classificadas as diferentes macro e/ou
microregilks. A partir daí d possível apreender a diversidade dos comportamentos
sociais e econômicos das estruturas camponesas nelas detectadas - frequentemente
descritos na literatura sobre a Amazônia mas, como é de uso, imediata e erroneamente
generalizados para a região como um todo - a partir da dinâmica estruturadora
de última instância, isto C, do mercado como um momento estrati?gico da reprodução
social. Uma distinção pode ser feita entre as regiões mais recentemente ocupadas,
como grande parte do Xingu, Tapajós, etc., numa aproximação do que Velho chama
de “fronteira aberta” e, também, onde a “frente de expansão” de Martins
pressupostamente evoluiria - ai o acesso a terra C relativamente livre (me refiro
aos anos setenta), a produtividade natural do solo é alta e o papel da mata, como
objeto de trabalho, C significativo - e as áreas camponesas antigas: a fronteira
fechada, como Bragantina e Salgado, onde a mata pertence ao passado e a
produtividade natural 6 baixa.
Movimentando-se positivamente o preço de mercado dos produtos camponeses
lançados no mercado nacional, pyn,quer dizer configure-se uma conjuntura de
mercado favorável, comportam-se de forma aparentemente paradoxal as variáveis
das estruturas camponesas nas diferentes regiões e microrregiões.
1) Nas novas regiões, por causa das condições objetivas de reprodução (baixo

195
Mus. Para. Eniílio Goeldi: Coleçao Eduardo Gnlvdo. 1991

fator s) se elevam as taxas de exploração e nas velhas se dá o inverso. Cúmplice


no sentido de afirmar esta tendência se mostram tamb6m as condições em que se
faz a concorrência entre as frações de capital: nas velhas regi& ela C mais forte
e nas novas mais fraca. O argumento, no todo, C demonstrado pela Tabela 4. Entre
1977 e 1979, período em que em 1978 o preço do arroz no mercado nacional era
de 16% e em 1979 12% maior do que em 1977, o rendimento/ receita monetária
do trabalho camponês na produção vendida deste produto, em Rondônia, continuou
praticamente constante. Em Marabá se dá o mesmo para os anos de 1976 e 1979.
Em 1980, ano de preço alto do arroz, o rendimento do trabalho camponês em Santo
Antônio do Tauá, na microtregião Salgado, área velha, era o dobro de Rondônia
no ano anterior e três vezes o de Marabá em qualquer dos anos demonstrados. I

2) Porque a taxa de exploração pode ser elevada naquelas regiões de ocupação


recente, rapidamente cresce, ali, a oferta do produto em questão. Nas velhas regiEes,
onde, já em função das condições objetivas de reprodução, s6 com dificuldade o
fator s poderá ser elevado, acontece o contr8rio: a taxa de exploração se reduz e,
com ela, torna-se relutante ou mesmo cai a oferta do produto. Isso C claramente
demonstrado pelas curvas de oferta de arroz9 das diversas microrregiões produtoras
no Pará (Figura 4 a 7). i

6. A TíTULO DE CONCLUSÃO UM ROTEIRO PARA DISCUSSÃO

1.Pode-se falar de funcionalidade - por baratear a estrutura de custo do capital


industrial ou,com outras palavras, por reduzir o valor da força de trabalho dos setores
urbanos - relativamente a um sistema de produção, como o da produção camponesa
na fronteira agrícola, que atua a maior parte do tempo no sentido de elevar o valor
da mercadoria em parte nele originado, fazendo, assim, o preço de mercado se
movimentar acima e não abaixo do indice geral de preços?
2. Se há uma funcionalidadeexplicitada do campesinato na fronteira amazônica I

il outras formas de capita1 que não ao “antidiluviano” (Marx 1970507) capital


comercial e usurário, essa diz respeito ao sobrelucro propiciado à produção capitalista
do arroz, no Rio Grande do Sul, p y a onde crescentemente flui valores dos demais
sistemas de produção (Tabela 5). E de se perguntar por que, com este superlucro,
o sistema de produção de arroz no Rio Grande do Sul, existente com relações
capitalistas de produção desde os anos vinte, não consegue dominar por completo
o setor rizícola. A resposta a esta questão se prende, em parte, às características
das relações entre proprietários de terra e capitalistas agrários nas áreas produtoras
- nas formas de divisão deste sobrelucro entre lucro do capitalista e renda dos
proprietários da terra (v. Beskow 1986; Costa 1988). Do sobrelucro termina por
ser apropriado, pelo capitalista, um lucro a partir de uma taxa digamos normal,
mantendo-se todavia para ele uma faixa não desprezível de risco, considerada a tenaz
concorrência de sistemas outros de produção - como o da fronteira agrícola.

Estas funções foram ajustadas por regressb pelo metodo dos dnimos quadrados a partir de dados
de produção e prcqo para 12 anos, de 1969 a 1980.

196
Valor e preco, erploraflo e lucro da p r d u @ o canponesa na Anuazdnia

Tabela 4 - Rendimento de cada unidade de trabalho nas unidades produtivas


camponesas na produção de arroz na região amazônia em diferentes lugares e anos.

MARABÁ ROND~NIA STO. ANTONIO


RUBRICAS DO TAUÁ
1969 1976 1977 1979 1980

CALCULOS DE ACORDO COM AS FONTES

1. Força de Trabalho (I) 4.684 7.989 9.101 9.101 4.956


2. Embalagem 1.530 732 1.350 1.350 732
3. Transporte 2.201 1.825
4. Juros 559
5. Outros 253 253
6. Custos Totais (II) 8.415 11.109 10.704 10.704 5.688
7. Receitas (III) 5.510 6.098 5.785 5.850 11.200
8. Saldo (III-II) 2.905 -5.011 4.919 -4.854 5.512

RECALCULO PARA RENDIMENTO/ RECEITA DO TRABALHO

9. Dias de Trabalho (IV) 40,2 4032 40,2 4092 41,3


10. Difia (VIV) 116,52 198,73 226,39 226,39 120,00
Il.Rendimento de cada .
unidade de trabalho
= [m- (II-I)]/ N 44,25 74,08 104,03 105,65 253,46
% da dkiria 38% 37% 46% 47 % 211%

12. Produtividade - Kgl


Ha 1.200 1.200 1.350 1.350 950
13. Preço-CrS160 Kg 275,50. 305,00 257,00 260,00 700,00

-
Fonte: VELHO, 1972: 127 134; Wood & Schmink (1983:84); Mesquita (1982: 35-36); Calvcnte(l980:
101 -107, 157-168); Carvalho (1984: 287).
-
Bemerkunger: a os valores foram corrigidos pelo Indice da FGV.
Para MarabB: Preço M pr6xima cidade. Para RondBnia e Santo Ant6nio do Tau&: prqo no roçado.

197
Mus, Poro. Emilio Gocldi: Coleplo Eduardo Galvdo, 1991

r
Bragantha Baixo Tocantins
PI =10658,6-0,d581 .pc t -1
I PI =-8i7L7-Otl617 .PI 1 - 1 1
--u-
-L-LL
la000 :
I
P P
I I 8750
O O :
d 10000 d : :
U U
Ç F
a a 7500 k
O O

(PI (Pl 6150

' 1056 1200' 1356 1500 1656 1800


900 900 1200 1500 1800
Preco (PI Preco (PI

Kedio Aiazonas
Pi:17364,6-0,0459.p( 1-11

i P 2100[
I 1

I
117501 A-
11 I
a
d
U
ç 1750(
I

t
.

:
1 : a
O 1
t t

1100(

'1
(Pl (Pl t

Id I
goo
I d
1200
I 1358 ' 165b iaoo
i500
Preco (pl Prego Ip)
Figura 5 - Curvas de ofertas de arroz das microrregiöesBragantina, Baixo Tocantins,
Guajarina e M a i o Amazonas - Parli.
Fonte: S I M A M A Boletins Anuais; IBCE -Estatfsticas Agrfcolas Municipais und AnuLios Estatlsticos
- Brasil.

198
Valor e prep, crplar@o e lucro da prcduçao “poncso M Amazbnia

10000. 10500. :
: :
P P
r : I :
O O
d 6000.
U :
Ç
a

900 1100 1500 1800


Preeo Ipl

24000
:
P P
r 15000. t r
O O
d 16000
U
Ç
a
O
a000

lP1
I :

ib-1105bTGd
900 1200 1500 1800
Preço lp)

Figura 6 - Curvas de oferta das microrregiões Salgado, Tapajbs, Maraba e Xingu


- Pari4
Fonte: SIMAIMA; IBGE - Estatfsticas Agrfcolas Municipais und Andrios Estatfsticos - Brasil

199
Mus. Para. Emilio Gocldi: ColepYo Eduardo Galvdo, I991

Tabela 5 - Estimativa da distribuição do valor social da produção do arroz entre


os sistemas ou regiks produtores - 1962-1980

Fronte¡- Regiões Centro- Rio Outras


ra Agri- Antigas este Grande Regiões
cala do Sul

MÉDIA DO PERfODO 1962-1967


1- Total de trabalho
empregado 575 1.656 1.154 472 657 4.514
2-Total da massa de
valor obtida 451 1.355 1.O38 903 767 4.514
3- Saldo (2-1) -124 -301 -116 +431 +llO 0

MÉDIA DO PER~ODO1968-1974
1- Total de trabalho
empregado 684 1.633 1.445 441 969 5.172
2-Total da massa de
valor obtida 621 1.215 1.267 1.086 983 5.172
3- Saldo (2-1) 63 -418 -178 +645 + 14 0

MÉDIA DO PERfODO 1975-1980


1- Total de trabalho
empregado 800 952 1.984 460 832 5.028
2- Total de massa de
valor obtida 804 704 1.559 1.157 804 5.028
3- Saldo (2-1) +4 -248 -425 +697 -28 0

Fonte: Valores estimados M tabela 1.


P
r
O
d
U
Ç
a
O

[Pl

Figura 7 -. Curva de oferta da microrregião Araguaia Paraense - Pari4


Fonte: SIMAIMA; IBGE - Estatfstica Agrlcolas Municipais e Anuirios Estatfsticos.

3. Não ha razão para crer, como fato social, num supercapital mercantil, que
na fronteira fosse capaz de fugir hs regulaçöes da taxa e da massa de lucro e, por
isso, encarecer os produtos por ele intermediados. O encarecimento, como se viu,
consideradas condições normais de necessidades e produção social ,se passa no plano
do valor. Isso não quer dizer que não se encontre na realidade dos intercâmbios
taxas extorsivas, nem que não seja da lógica das parcelas individuais do capital a
tentativa permanente de fugir hs regulações. O comportamento do conjunto, todavia,
condiciona a atuação das parcelas numa direçã0 precisa, fazendo valer, para elas,
leis gerais.
4. O que se passa na relação do campesinato na fronteira com a reprodução
do capital não se explica por auto-exploração. Nem se trata, apenas, de superex-
ploração que se passa no plano das relaçöes das unidades camponesas com o capital
mercantil. Se trata de algo mais profundo e mais drio: de uma superexploração
como contradição, seja do sistema envolvente, seja das estruturas camponesas
inseridas na formação social. Contradição surgida da relqão, mesma, entre o mercado
e as formas de produzir capitalista e as estruturas camponesas.
5. fi difícil poder supor exterioridade, carater não mercantil ou autonomia de
uma suposta “economia do excedente, regida pelo grau de fartura e não pelas relações

201
Mus. Pnra. Entílio Gorldi: Coleçao Eduardo Galw?o, 1991

de mercado”, para as estruturas camponesas mais recentes ou avançadas na


incorporação de terras novas quando se testa, como fizemos, as respectivas
“sensibilidades” aos movimentos do mercado e se apreende suas determinantes.
6. De outra parte, C correto supor um carAter específico camponês -
especificidade, todavia, que pressupõe condições sociais determinadas para se.
exteriorizar. Estruturas camponesas que reagem 3 elevação dos seus rendimentos
reais por unidade de trabalho não aumentando (ou ab5 mesmo reduzindo) a produção,
estão movidas por uma lógica específica no interior da formação econômico-social.
Para os camponeses na fronteira, consideradas determinadas condições objetivas,
a decisão de poupar a terra ou a força de trabalho, por exemplo, pode prevalecer
em detrimento da elevação do ganho - um comportamento em nada distante daquele
preconizado pela teoria de Chaynov (1923).

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203
PARTE III

SISTEMAS DE PRODUÇAO:
PROBLEMAS E PERSPECTIVAS
DESMATAMENTO E DESENVOLVIMENTO
AGRÍCOLANA AMAZôNIA BRASILEIRA
Philip M. Fearilside

RESUMO - O desniatameritona Amazbiia brasileira estd aumentatido explo-


sivamente como resultado conjutito de uma intensa niigraçdo para a regido e
de modos de deseiivolvimeiito que mmimizam o impacto da populaçdo sobre
afroresta. A pecdria bovina toma a nlaiorparte das terras desmatadasna Arna-
zbiiia, iiiclusive a maior parte daquilo que C, primeiramelite, desmatado para
culturas anuais. A produçdo de cante bovina C baixa, mas o papel das pasta-
gens tia especulaçciofitididria acelera o desmatatneiitopara a criaçdo de gado.
Medidas com alta probalxXdade de frear o desinatamelito incluem a desestiniu-
laça0 da especulaçdo de terras (com a imposiçdo de impostos, a limitaçdo do
tamanho de propriedades, etc.) e a supressdo de iiicetitivosfiscais e financia-
mentos para a pecudria. O ciclo vicioso que liga a coiistruçdo de estradas cf
migracdo e ao desmatamerito,pode ser quebrado pelo corte de despesas gover-
nameritaispara a coiistruçdo e melhoria de rodovias. Mudanças tias regides de
origem dos migrantes devem ser implementadas para redistribuir terras, favo-
recer a agricultura que utiliza niuita nido de obra, criar empregos urbanos e
desencorajar o cresciineiitopopulaciorial.A situaçdo de posseda terra lia Ama-
zbriia precisa ser defîiiida e, uma vez toinadas as decisdes, elas necessitam ser
cumpridas com rigor. Os criterios para estabelecer a posse da terra precisam
ser modijïcados, para remover este poderoso motivo de desniatametito;sobre-
tudo, pastagens rido devem ser consideradas como “beilfeitorias”, para firis
de estabelecer a posse da terra. Novasformas de cdlculos ecoribmicosprecisam
ser iniplenientadas a fim de tornar os usos sustentdveis lucrativos e OS lido-
sustmitdveis e/ou nocivos ao meio-anibieiite, iiüo lucrativos.
PALAVRAS-CHAVE: Dcsmatamcnto, Amazônia, Floresta tropical, Desenvol-
vimcnto agrícola, Colonização agricola.
ABSTRACT- Deforestationiri Brazil SAmazoii region is eyploding as a combined
result of intense migration to the region aiid developmeritmodes that marinlize
the population’s impact on theforest. Canle ranching claims the nlajorioj of the
lartd deforested iti Amazoiiia, includitig most of what is first cleared for annual
crops. Beef yield is low, but pasture’s role iti land speculatiori speeds clearirig

Pesquisador do INPA. Instituto Nacional de Pesquisa da Amaz6nia - Dcpto. de Ecologia.

207
for cattle. Measures likely to be effective in slowing deforestation include
discouragirig laiid speculation (inipoaing tmes, liniifiiigthe size of holdings, etc.).
All fiscal incentives aiid fiì uni cingfor rarichirig should be abolished. The vicious
circle lirikirig road buildiiig to migration atid deforestation could be broken by
cutting govenirnerit expenditures ori highways. Changes iii the source areas of
migrants should be made to redistribute land,favor labor-intensiveagriculture,
create urbanjobs, and discouragepopulation growth. The laiid tenure situation
in Ama:onia niust be defined, arid once decisioiis are niade they must be fimily
eilforced. nie criteriafor establishirig land tenure niust be changed to reniove
this poiverjid niotivefor deforestation -pasture, especially, rnust be elimitiated
as a bcnfcitoria (“iniprovemetit ’3 used in establishiiig claim. Ultimately, new
fonns of ecoiioinic calculation must be devised that inake sustainable land uses
profitable, and urisustabiableand eil vironmentally damaging uses unprofitable.
KEY WORDS: Dcforcstation, Amazonia, Rainforcst, Tropical forest,
Agricultural dcvclopmcnt.

INTRODUÇÃO

Esforços no sentido de controlar o processo de desmatamento serão pouco efi-


cazes se não estiverem fundamentados em um entendimento correto das forças que
motivam a destruição da floresta. O processo de desmatamento varia muito em dife-
rentes partes da região (Fearnside 1984), (Figura 1). A floresta está sendo destinada
para diversos usos não florestais, muitas vezes devido a motivos colaterais, ao invés
de visar exclusivamente à obtenção de produtos agrícolas.

A PECUARIA BOVINA

As pastagens dominam o uso da terra em áreas desmatadas na Amazônia brasi-


leira, aumentando muito o impacto que uma pequena população humana causa sobre
a floresta (Fearnside, 1983). A produção de carne bovina é mínima por causa de
um declínio constante na produtividade do capim, causado por uma queda no teor
de fósforo disponível no solo, erosão e compactaçã0 do solo e invasão por ervas
daninhas não comestíveis (Fearnside 1979a, 1980a, 1989a; Hecht I98 I, 1983).
A carne bovina C quase toda consumida dentro do Brasil: a presença de aftose
impede a exportação de carne congelada para a América do Norte e Japão, assim
salvando a Amazônia da força implacável que os mercados internacionais exercem
sobre a América Central atravds da “Hamburger Connection” (Myers 1981; Na-
tions & Komer 1983). A manutenção da produtividade das pastagens além da pri-
meira dkcada, aproximadamente, exige insumos de fosfatos (Serrão & Falesi 1977;
Serrão et al. 1979). O nível dos insumos exigidos não poderia ser justificado sem
subsídios maciços e, na vasta escala das pastagens Amazônicas, são limitados pela

208
Desmammenro e desenvolvimemo agrlcola M Amarbnìa

MATO-GROSSO
POLONOROESTE DO SUL

GRANDE GARAJAS
SUFRAMA
O 350 700

Figura 1 - Amazônia Legal - Áreas dos Grandes Projetos Regionais de Desenvol-


vimento.

209
Mus. Para. Eniflio Gocldi: Colc(.no Eduardo G a l v ~ o ,1991

disponibilidade deste recurso não renovável (Fearnside 1985a, 1987a, 1990). A Ama-
zônia não tem nenhuma jazida de fosfato, com exceção de um pequeno depósito
de bauxita fosfatada na costa do Maranhão (Lima 1976) e uma promissora, porém
ainda não dimencionada, ocorrência ao norte do rio Amazonas perto de Maicuru,
Pará (Beisiegel & Souza 1986). Dado o fraco desempenho agronômico e as pers-
pectivas pouco promissoras, a longo prazo, das pastagens, as razões que explicam
a dominação da paisagem por este uso da terra SÓ podem ser outras.
Uma razão é o conjunto generoso de incentivos fiscais dado aos grandes fazen-
deiros pelo governo brasileiro, através de programas administrados pela Superin-
tendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) e pela Superintendência da
Zona Franca de Manaus (SUFRAMA).
Estes programas não só dão isenção do imposto de renda sobre os empreendi-
mentos agropecuários propriamente ditos, mas tamb6m permitem que as empresas
invistam nas fazendas o dinheiro que, de outra forma, teriam de pagar como impos-
to de renda sobre empreendimentos de outros tipos em outras partes do país (Bun-
ker 1980; Hecht 1985; Mahar 1979; Fearnside 1979b). Empréstimos especiais são
dados a taxas de juros (inclusive a correção monetária) inferiores à inflação brasi-
leira, tornando os juros negativos em termos reais. Os programas de financiamento
criam um motivo adicional para estabelecer fazendas como uma frente para receber
capital subsidiado que, aparentemente, às vezes acaba sendo desviado para ativida-
des mais rentáveis em outros lugares (Mahar 1979). Os subsídios governamentais
totalizam at6 75% do total dos investimentos nas fazendas (Kohlhepp 1980: 71).
Os programas destinados a subsidiar as fazendas aumentaram rapidamente na
dkada de 1970, mas, recentemente, têm parado de crescer. Em 1979, a SUDAM
anunciou que não aprovaria “novos” incentivos na área de “floresta densa” da Ama-
zônia Legal, por6m continuou com os antigos incentivos (os já aprovados) para os
mais de 300 projetos em andamento na região de floresta densa, além da possibilidade
de ‘bnovos” incentivos na grande área oficialmente classificada como floresta de
transição, ao longo do bordo sul da região. A maior parte da área de “floresta de
transição” 6, na realidade, uma interdigitação de floresta densa com a vegetação
do cerrado, ao invés de ser um tipo de vegetação intermediária. Imagens de LAND-
SAT dessa região revelam que os fazendeiros realizam preferencialmente seus des-
matamentos na floresta de alta biomassa (Dicks 1982).
A pecuária subsidiada ainda 6 um importante fator no desmatamento, porém
a crise econômica do país tem reduzido a quantidade de dinheiro disponível para
este fim. Sendo que as restrições são impostas pela falta de verbas, ao invés de se-
rem o resultado de decisões sobre as políticas fundamentais a respeito de pastagens,
o fluxo de verbas aos fazendeiros pode recomeçar, assim que a economia brasileira
se recupere. O então Presidente da República, Jose Sarney, foi recentemente citado
como tendo dito que “nem quis ouvir falar” da possibilidade de sustar os progra-
mas de subsídios à pecuária na Amazônia (Fraude ... 1987).
Muito do desmatamento, tanto pelos grandes como pelos pequenos proprietários,

210
Desmatam“ e desenvolvinienlo agrícola na Aniazditia

está sendo feito seni a ajuda dos programas de subsídio. Mesmo na região que niais
recebeu incentivos para pecuária, ao longo da rodovia Belém-Brasília, durante o
auge do programa da SUDAM, apenas cerca da metade dos desmatamentos gozou
dos incentivos fiscais (Tardin et al. 1978; Fearnside 1979b). A explicação pelo grosso
das pastagens é o papel chave deste uso da terra na especulação imobiliária (Fearn-
side 1979b, 1988a; Hecht 1985; Hecht et al. 1988).
O valor das terras na Amazônia vem aumentando constantemente a uma taxa
superior a da inflação brasileira, assim rendendo retornos vultosos para qualquer
um que consiga manter a posse de um terreno e vendê-lo a outra pessoa. Por exem-
plo, durante a década de 1970, os valores das terras em Mato Grosso estavam au-
mentando a uma taxa anual de 38%, após a correçã0 pela inflação (Mahar 1979:
124). As terras de pastagens da Belém-Brasília, têm superado a inflação da mesma
forma (Hecht 1985). Uma parte da explicação do aumento no valor da terra 6 a ân-
sia por investimentos em imóveis, como forma de abrigo contra a inflação. Esses
desempenham, assim, o papel de uma reserva de valor (parecido com lingotes de ,

ouro), ao inv6s de funcionar como insumo 2 produção. Propriedades individuais


aumentam consideravelmente de valor, quando conseguem acesso a uma estrada (um
benefício fornecido pelos contribuintes de todo o Brasil, e pelos bancos internacio-
nais que financiam a construção de estradas). Um pulo similar do valor ocorre quando
a posse da terra fica legalizada pelo título definitivo. A substituição da floresta por
pastagens é a maneira mais fácil de ocupar a área e protegê-la contra a perda para
posseiros, fazendeiros vizinhos, ou programas governamentais de reforma agrária.
As pastagens tambdm contam como uma “benfeitoria” para justificar a concessão
de títulos definitivos. Ironicamente, os investimentos e empreendimentos
improdutivos de pecuária representam um fator significativo na dinâmica da infla-
ção brasileira (Gall 1980), assim formando um ciclo vicioso que leva, cada vez mais,
às pastagens (Fearnside 1988a).

AS EMPRESAS AGR~COLAS

As empresas agrícolas são responsáveis por uma pequena porção da área des-
matada, em comparação com as pastagens, porCm esta pode aumentar bastante no
futuro. Planos em grande escala existem para financiar a agricultura mecanizada
e indústrias associadas na área do Grande Carajás (Brasil 1983; Fearnside 1986a;
Hall 1987). Atualmente muito da parte agrícola do programa encontra-se paralisada
2 espera de verba. Em contraste com isto, as partes do Programa Grande Carajás
ligadas à produção de carvão vegetal têm aumentado rapidamente.

A silvicultura
Os planos de silvicultura no Projeto Carajás ilustram uma característica seme-
lhante à da fênix renascendo das cinzas. O plano para usar carvão vegetal, no bene-
ficiamento de minério de ferro, foi originalmente proclamado em 1982 por Nestor
Jost, então Secretário-Executivo do Programa Interministerial Grande Carajás

211
Mus. Para. Eniilio Gocldi: Cok~cloEduardo Gulvdo, 1991

(Fearnside & Rankin 1982). Um plano para 2,4 milhões de hectares de plantações
de Eucalyptus foi anunciado além de um plano para coletar carvão vegetal da flo-
resta nativa junto a fazendeiros, agricultores e até tribos indígenas. O projeto foi
fortemente reduzido no plano de 1983, para o “Programa Grande Carajás - Agríco-
la” (Brasil 1983; Fearnside 1986a). De repente, o plano de carvão vegetal reapare-
ceu numa escala enorme, com uma previsio de demanda de carvão que precisaria
de mais de 70 mil ha de Eucalyptus: quase dez vezes a área das plantações maneja-
das no Projeto Jar¡ (Fearnside 1987b, 1988b,c). O plano cresceu mais ainda, com
uma produção de ferro-gusa esperada totalizando 2,s milhões de toneladas ao ano
(Fonseca 1987: 32), o que corresponde à manutenção de 787 mil ha de Eucalyptus
(um pouco mais que dez vezes a plantação manejada no Projeto Jari) ou ao desmata-
mento de 82 mil ha de floresta nativa ao ano. A produção de ferro-gusa começou
em Açailândia, Maranhão, em O8 de janeiro de 1988, sem um Relatório de Impacto
Sobre o Meio Ambiente (RIMA).
As plantações de silvicultura no Projeto Jari, utilizadas para produzir celulose
nas fábricas da empresa, foram iniciadas pelo armador norte-americano D. K.Lud-
wig, em 1968. Certas condições, tais como as características do local, a personali-
dade do fundador do projeto e as concessões feitas pelo governo brasileiro fazem
com que seja pouco provável que empreendimentos similares venham a se multipli-
car na região (Fearnside & Rankin 1980, 1984, 1985). Ludwig vendeu um interesse
majoritário na propriedade para um consórcio de firmas brasileiras, em 1982, a um
preço que representava uma fração pequena dos custos de implantação do projeto.
O Projeto Jari tem padecido de diversos problemas biológicos, inclusive o fraco cres-
cimento de algumas das primeiras plantações que foram localizadas em solos ina-
propriados, taxas de crescimento médio muito menores do que as esperadas
originalmente e perdas ocasionadas por diversas pragas e doenças (especialmente
o fungo Ceratocustis~nzbriata,na espécie arbórea que é a carta de visita da empre-
sa: Gmelina arborea). O aumento dramático nos preços de celulose que Ludwig
previu para a década de 1980, ainda não aconteceu. Embora uma rendosa mina de
caulim na propriedade tenha permitido que o projeto como um todo pague as suas
despesas operacionais (porkm, não o serviço de sua dívida), o setor de silvicultura
vem perdendo dinheiro: em 1985 a perda foi de US$47 milhões (Fearnside 1988b).
Ainda que alguns dos problemas iniciais do Projeto Jari possam ser atribuídos a de-
cis%s mal informadas por parte do próprio Ludwig, os problemas biológicos que
continuam a ocorrer, e que de maneira nenhuma refletem mal sobre a qualidade
do gerenciamento, indicam que a silvicultura em grande escala na Amazônia t mui-
to mais cara e muito mais difícil do que os planejadores de Carajás podem estar
pensando. Seria ingenuidade imaginar que uma área de plantações dez vezes maior
do que a do Projeto Jari possa funcionar sem grandes dificuldades.
O resultado provável em Carajás é que a produção de carvão vegetal será supri-
da por lenha tirada da floresta nativa, enquanto florestas acessíveis continuarão a
existir. A decisão de implantar as usinas de ferro-gusa, aparentemente tomada sem
qualquer análise sobre os impactos ambientais decorrentes do suprimento de carvão,

212
De.vma/amenro e de.wnvolvinienro agrícob na Anmaznia

pode levar toda a economia, na área afetada, a ser desviada para alimentação destes
empreendimentos, de forma muito parecida com a atraçiio de urn pássaro para ali-
mentar o filhote de um cuco no seu ninho (Fearnside 1987b).
Quando a primeira usina de ferro-gusa começou a funcionar, em 8 de janeiro
de 1988, a empresa (Companhia Siderúrgica Vale do Rio Pindaré) tinha feito um
plano de manejo florestal, visando a produzir a lenha para carvão vegetal no futuro.
No entanto, quando visitei a usina, duas semanas depois, a companhia ainda não
tinha comprado o terreno para a implementaçlo do plano. Fica claro que os planos
de manejo não são suficientementedetalhados para tornar necessário o conhecimen-
to de um terreno específico, tampouco a existência do terreno é pré-requisito para
o cqmeço das operações. O plano de ferro-gusa do Grande Carajás é o mais recen-
te, numa longa strie de desventuras do desenvolvimento na Amazônia, onde proje-
tos têm sido decretados antes de confirmar a sua sustentabilidade e o seu nível de
impacto (Fearnside 1985b).

A produção de álc00l
O Alcool 12um produto que foi considerado de grande potencial para ser desen-
volvido por agroindústrias (Abelson 1975). Os esforços para explorar este poten-
cial têm, at6 agora, encontrado um sucesso variável. O Projeto Açucareiro Abraham
Lincoln (PACAL), iniciado em 1972, na rodovia Transamazdnica, a 90 km a oeste
de Altamira/Pará, vem sofrendo uma longa strie de problemas. Originalmente mon-
tado para a produção de açúcar, hoje, a usina produz apenas álcool (um produto
de valor menor). O local encontra-se numa área que se mostrou, anteriormente, atra-
vCs do zoneamento agrícola, como sendo climaticamente inapropriada para a cana-
de-açúcar (Moraes & Bastos 1972). A cana cultivada neste local tem um baixo teor
de sacarose, o que tem levado parte considerável da safra dos agricultores da área
a ser rejeitada pela usina, assim causando tensões sociais severas. As tensões so-
ciais foram agravadas por erros administrativos, tecnológicos e de relações públi-
cas, por exemplo avisar os agricultores para que cortem sua cana em uma determinada
data, e depois não fornecer o transporte prometido, resultando na perda rápida do
conteúdo de sacarose da cana-de-açúcar. Em diversas ocasiões, os agricultores da
área não foram pagos durante muitos meses após entregar a sua cana à usina. Uma
série de firmas que operaram a usina fracassaram no estabelecimento de um rela-
cionamento operacional com os agricultores, e recorreram à violência para manter
os agricultores sob controle.
Um projeto maior de álcool de cana, com financiamFnto do Banco Mundial, atual-
mente está sendo implantado no Acre pela ALCOBRAS, e a primeira plantação de
5.000 ha, deste plano de 20.000 h?, aproxima-se de sua conclusão. A cana, prove-
niente da propriedade da ALCOBRAS, será suplementada por compras efetuadasjunto
aos agricultores das áreas vizinhas. Problemas sociais surgiram no projeto, como re-
sultado da expulsão da área de SO famílias de seringueiros e pequenos agricultores.
Uma plantação de 5.000 ha de cana, com uma destilaria de álcool, também começou
a produzir, no final de 1988, em Presidente Figueiredo, ao norte de Manaus.

213
O álcool de mandioca produzido na Amazbnia, visto por Abelson (1975) como
uma solução possível para o futuro esgotamento do petróleo fóssil, não provou ser
a panacCia originalmente esperada. A produção de álcool de mandioca revelou-se
mais cara do que a de cana-de-açúcar, em parte devido ao suplemento energdtico
fornecido ao processo pelo bagaço da cana. Na SINOP, ao norte de Mato Grosso,
uma firma agro-química já produziu álcool de mandioca a partir de tubCrculos tanto
cultivados na propriedade da empresa como comprados dos agricultores das ime-
diações. Batata-doce e sorgo tamb6m foram usados. A partir de 1987, a firma dei-
xou de usar mandioca, devido ao custo e 2s incertezas do uso de mão-de-obra
migratória para a colheita dos tubCrculos. A firma atualniente utiliza sorgo, produ-
zido em plantações mecanizadas na propriedade, para a fabricação de álcool para
bebidas: um produto de valor mais alto que o álcool combustível obtido da mandio-
ca ou da batata-doce. A capacidade de absorção dos mercados, no entanto, coloca
limites muito mais severos sobre o álcool para bebidas do que sobre o álcool para
combustíveis.

As culturas perenes
Limitações de mercado restringem severamente as extensões que podem ser plan-
tadas por ,empresas agrícolas. Por ser tão grande, qualquer parte significativa da
região Amazbnica plantada com culturas perenes iria saturar os mercados mundiais.
Os preços da maioria dos produtos já são baixos, do ponto de vista do agricultor;
quando caem niais ainda, este sofre perdas financeiras e opta por outros usos da
terra. O preço do cacau, por exemplo, vem caindo desde seu ponto alto em 1977,
com exceção de um breve aumento após as secas de 19!2/1983, provocadas pelo
fenbmeno EI Niño, que destruiu plantações de cacau na Africa. Uma queda a longo
prazo dos preços do cacau foi prevista por economistas do Banco Mundial, antes
do grande esforço para aumentar a área plantada em Rondônia, que foi implementa-
do no âmbito do projeto POLONOROESTE (International 1981).
Doenças de plantas restringem severamente a converção potencial para cultu-
ras perenes (Fearnside 1980b, 1985a, 1986b, 1989b, s.d.).
O cacau e a seringueira são nativos da Amazônia, e, conseqüentemente, são
suscetíveis de serem atacados por todas as doenças que eles herdaram. A vassoura-
de-bruxa (Crinipellis perniciosa) no cacau e o mal das folhas (Microcyclus ulei),
na Tringueira, já têm efeito devastador sobre as plantações. Estas doenças não existem
na Africa e nem no sudeste da Asia, dando assim uma vantagem comparativa para
as plantações naqueles Lugares. Outras culturas perenes, tais como o cafd, pimenta-
do-reino e dendê sofrem de doenças que os seguiram a partir dos continentes de
onde estas culturas se originaram. O café é atacado pela ferrugem (Helmileiu vasa-
trix), a pimenta-do-reino pela doença de Margarita (Fusariumsolani f. piperi) e o
dendê pela doença viral queima-de-lança, recentemenre chegada. As doenças têm
uma relação infeliz com os mercados, o que reforça o efeito tanto de aumentos quanto
de quedas dos preços. Uma vez que custa muito dinheiro controlar as doenças, os
agricultores ficam menos motivados a arcar com essas despesas quando G preço do

214
produto está baixo, assim deixando a praga se alastrar, o que, por seu turno, enca-
rece ainda mais o controle das doenças.

O desensolvirnento da Várzea
O projeto de arroz irrigado do Projeto Jari foi uma tentativa Única de utilizar
a várzea para a agricultura empresarial. As empresas acionistas do empreendimento
resolveram, em abril de 1988, abandonar a produção de arroz na área. A plantação
contava com 4.150 ha de arroz; os planos originais para aumentar a &ea plantada
ab5 12.700 ha não tinham sido levados à frente (Fearnside 1988b; Fearnside &Ran-
kin 1980, 1984, 1985). A expansão do arroz irrigado em extensks muito maiores,
ou atravts de agricultura empresarial mecanizada, como o Projeto Jar¡ ou atravts
de pequenos agricultores, t tecnicamente possível, porém, parece pouco provável
sob as atuais condições econômicas (Fearnside 1987a).
A criação de bubalinos para a produção de leite, queijo e carne tem aumentado
no Projeto Jari, até utilizar 50.000 ha de campo de várzea. Os grandes criadores,
em outras áreas de várzea do Baixo Amazonas, tal como a Ilha de Marajó, têm ado-
tado este mttodo de exploração da várzea. A criação de búfalos tem sido promovida
pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) nos rios Amazo-
nas e Solimões, no Estado do Amazonas, porém, nestes locais, as extensões utiliza-
das para esta atividade ainda não alcançaram a escala observada no Baixo Amazonas.
A “Estrada da Várzea”, construida em 1988 no Estado do Amazonas, trará com
certeza fluxos migratórios para as áreas inférteis de terra firme, como um efeito
colateral da atividade de construção de estradas, embora a justificação da obra se
baseie no potencial produtivo da várzea, especialmente para bubalinos. A criação
de búfalo por grandes criadores representa um meio de utilização da várzea, que
vem concorrer com as culturas de subsistência e com as fibras plantadas pelos pe-
quenos agricultores que tradicionalmente ocupam esta área. Nem os criadores de
búfalo, nem os pequenos agricultores são “donos” da várzea, já que toda a terra,
ab5 50 m do limite atingido pelas aguas na tpoca de enchente dos rios, pertence à
Marinha Brasileira.

A EXPLORAÇÃO MADEIREIRA

A parte do desmatamento imputável à exploração madeireira está crescendo.


O corte de madeira de leí, no,passado, foi muitomenos intenso na Amazônia do
que nas florestas tropicais da Africa e sudeste da Asia, devido à densidade menor,
na AmCrica do,Sul, de árvores comercialmente valorizadas. As florestas tropicais
do sudeste da Asia são dominadas por uma Única família de árvores: a Dipferocar-
paceae. Apesar de uma alta diversidade, a nível das espécies, as madeiras têm mui-
tas semelhanças, podendo ser agrupadas em apenas seis classes para fins de serraria
e comercialização, como se existissem apenas seis espécies ao invts de centenas.
As espécies amazônicas, sendo menos próximas uma das outras em termos taxonô-
micos, apresentam um conjunto proporcionalmente mais heterogêneo de características

215
Mus. Pam. Ettiílìo Goeldi: Colqdo Eduurdo Galvdo, 1991

de madeira. As árvores amazônicastêm, até agora, resistido aos esforços para agrupar
as especies em um número relativamente pequeno de categorias para fins de benefi-
ciamento e comercializaçiio. Uma outra desvantagem C a cor escura da madeira da
maioria das árvores amazônicas, pm contraste com as cores claras que dominam
nas madeiras de lei do sudeste da Asia. As madeiras de cor clara servem mais facil-
mente como substitutos para espécies de clima temperado, tais como o carvalho e
bordo, na fabricação de móveis na Europa e América do Norte.
A dizimação das florestas tropicais na África está praticamente completa do ponto
de vista comercial, enquanto aquelas do sudeste da Asia estão rapidamente chegan-
do ao fim. As exportações da Amazônia estão, portanto, aumentando. A retirada
de madeira da Amazônia vem ocorrendo atravCs da rápida proliferação de pequenas
serrarias, por exemplo em Mato Grosso, Rondônia, Acre e Roraima. Muitas dessas
serrarias vêm de áreas do Brasil onde a madeira já está chegando ao fim, tais como
Espírito Santo e a rodovia BelCm-Brasilia, no Pará. Um fluxo constante de cami-
nhões, carregando toras ou madeira serrada bruta, pode ser visto entrando em São
Paulo a partir das regiões amazônicas próximas.
A exploração madeireira está tornando-se um fdtor importante nas invasões de
áreas indígenas em Rondônia, Acre e parte ocidental do Amazonas. Estradas para
exploração madeireira funcionam como vias de penetração para posseiros que des-
matam na esperança de assegurar a posse da terra. Imagens de satélite de'RondÔnia
(AVHRR interpretado pelo C. J. Tucker na NASA, Greenbelt, Maryland, EUA)
mostram que as queimadas em 1987 incluem áreas em reservas indígenas, como
a dos Pacaás Novos, Tubarões e Lajes. Vários destes locais são conhecidos como
focos de penetração de madeireiras, tais como as partes da reserva dos Pacaás No-
vos que abastecem serrarias em Ouro Preto do Oeste.
A exploração madeireira na terra firme está rapidamente destruindo os esto-
ques de algumas espCcies mais valiosas, inclusive cerejeira (Amburunu ucreunu) e
mogno. (Swieteniu macrophyllu). Nas florestas inundadas da várzea (que são as pri-
meiras a serem afetadas, devido facilidade de transportar as toras por via aquáti-
ca) espdcies comerciais como a ucuúba (Virolu spp.), estão em franco declínio.
Uma parte da exploração madeireira e do beneficiamento C feita por grandes
empresas, tais como a Georgia Pacific, que detCm uma sCrie de aproximadamente
60 propriedades na área de Portel, Pará (R. W. Bruce, comunicação pessoal 1988),
totalizando 500.000 ha (Cardoso & Muller 1978: 161). A fábrica de lamimados da
companhia, em Portel, produz 150.000 m3 anualmente, e supre aproximadamente
25% do mercado norte-americano para laminados de madeira tropical. Até agora,
a maior parte da madeira está sendo comprada de madeireiras particulares fora das
propriedades da companhia (R. W. Bruce, comunicação pessoal 1988). A maior
parte da exploração madeireira, no entanto, 6 feita pelos milhares de exploradores
brasileiros, relativamente pequenos, e não por grandes multinacionais. Na Amazô-
nia como um todo, pelo menos a metade da atividade madeireira acredita-se que
seja realizada em operações clandestinas, fora do controle dos esforços de cobrança
de impostos realizados pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal -

216
Desnimamenio e descnvolvin,tlenroagrícola na Aniazbia

IBDF (desde 1989 incorporado ao Instituto de Meio Ambiente e Recursos Naturais


Renováveis - IMARNR - hoje lBAMA).
O corte das madeiras “nobres” está espalhando-se rapidamente, na medida em
que o acesso a áreas anteriormente remotas melhora, e a pressão dos mercados au-
menta. As madeiras menos nobres também esGo encontrando mercado com mais
freqüência, e é este setor que apresenta o maior potencial para aumentar o impacto
da exploração madeireira so)re a floresta. Contratos com mercados menos exigen-
tes, tais como a China e a India, foram assinados em alguns casos, por exemplo
para o aproveitamento da madeira oriunda da hidrelétrica de Samuel em Rondônia.
Delegações vindas de países altamente desmatados como esses, vêm visitando a re-
gião com freqüência crescente na busca de contratos para suprimento de madeira.
No entanto, um contrato para suprir a China com ferro-gusa (produto cuja fabrica-
ção utiliza carvão vegetal) foi cancelado pelos chineses (Saída ... 1987).
Os esforços continuam para desenvolver maneiras de aproveitar cada vez mais
a grande diversidade de espécies da floresta. A possibilidade de que uma floresta
inteira possa ser simplesmente triturada e levada embora, para utilização na fabri-
cação de aglomerados ou de papel de baixa qualidade, esti4 confirmada pelo uso deste
procedimento nas áreas baixas de Pápua-Nova Guiné. Isto C chamado de maneira
eufemística de “colheita total”, pelas firmas japonesas que a praticam naquele país
(Routley & Routley 1977). Até agora a Amazônia foi preservada de um fenômeno
bastante comum no sudeste asiático: montanhas de cavacos de madeira sendo carre-
gadas em navios para a exportação. O esgotamento dos recursos florestais em ou-
tras partes, junto com o progresso tecnológico no aproveitamento das espécies
disponíveis, aumentam a probabilidade de o cavaqueamento se tornar um fator im-
portante na destruição de florestas da Amazônia.
O cavaqueamento de espCcies selecionadas da floresta nativa está sendo usado
para suplementar a madeira proveniente das plantações, para a fabricação de celu-
lose na Jari. O número de espécies usadas para este fini diminuiu de SO, em 1983,
para 40, em 1986 (Fearnside 1988b:18). A reduçlo do número de espécies utiliza-
das contribuiu para manter uma qualidade mais elevada da celulose. Para um papel
de qualidade inferior, ou o papelão, tais critdrios não precisam ser aplicados.
O uso de cavacos de madeira para combustão em usinas termo-elttricas C outro
fator potencialmente importante no processo de desmatamento. Uma sCrie de usinas
à lenha picada está em fase de construção nos Estados do Amazonas e Rondônia.
Duas delas (Manacapuru-Amazonas e Ariquenies-Rondônia) já estão funcionando.
A expansão deste uso depende muito do preço do petróleo. Preços elevados do pe-
tróleo lhe deram uma alta prioridade nos planos iniciais, no começo da dCcada de
1980; porkm um declínio subseqüente nos preços removeu muito deste incentivo.
Por exemplo, o projeto hidrelétrico de Balbina tinha uma termoelétrica à lenha, de
7,5 MW de capacidade, para abastecer o canteiro de obras durante a construção
da barragem. Esta usina foi desativada e substituída por geradores a diesel em se-
tembro de 1987, mais de um ano antes do início previsto para a geração de energia
hidrelétrica. Duas usinas termoelitricas de 50 MW cada, construidas com o intuito

217
Mus. Para. Edh'o Goeldi: ColccAo Eduardo Galw20. I991

de usar a madeira da Area em volta do reservatório de Balbina, foram transferidas


para Manaus e transformadas em usinas a óleo para suplementar o parque termoeld-
trico daquela cidade. O baixo preço do petróleo C o fator chave na mudança de pla-
nos, e não uma conscientizaçãosúbita acerca do interesse em preservar as florestas.
Considerando-se que os estoques de petróleo no mundo estão sendo rapidamente
esgotados, os preços do petróleo vão com certeza subir no futuro, aumentando as-
sim o interesse por termoelCtricas movidas à lenha.

A AGRICULTURA DE CORTE E QUEIMA

A agricultura itinerante, com pousios longos capazes de regenerar o solo após


um ano ou dois de uso sob culturas anuais, 6 um fator mínimo no desmatamento
no Brasil. Apenas os povos indígenas e alguns agricultores caboclos utilizam esta
prAtica tradicional. A agricultura pioneira, ao contrArio, representa uma grande for-
ça, em crescimento constante na Amazônia brasileira. Os pioneiros que chegam à
região provenientes de outras partes do país, cortam e queimam a floresta da mes-
ma maneira que no primeiro passo da agricultura itinerante tradicional, pordm, de-
pois de um breve periodo de cultivo, eles deixam as roças em pousio durante um
curto tempo (insuficiente para regenerar a capacidade produtiva da parcela) ou,com
mais freqüência, plantam a Area com pastagens. Para a agricultura itinerante ser
uma pratica sustent4ve1, precisa de um conjunto complexo de tradições culturais
(conhecimento tradicional e costumes respeitados), capaz de evitar que os agricul-
tores reduzam o período de pousio e desencadeiem o processo de degradação. Mes-
mo que este sistema possa, potencialmente, prover uma população esparsa de forma
sustentavel, fica condenado ao fracasso para os pioneiros devido à pressão popula-
cional, h necessidade de gerar uma renda em dinheiro, ao preconceito cultural con-
tra as pessoas que têm florestas secundfirias, e/ou aos motivos especulativos que
levam h plantação de pastagens; no lugar de continuar com lavouras anuais.
A agricultura de corte e queima vem, por muito tempo, sendo um fator impor-
tante de desmatamento nas regiões amazônicas do Peru e Equador, mas esta prAtica
foi superada no Brasil pelo aumento rápido das pastagens em grandes fazendas. Po-
rCm, a importância do corte-e-queima vem aumentando em comparação com os des-
matamentos efetuados pelas grandes fazendas, devido à falta de verbas para financiar
as fazendas, bem como h expansão explosiva dos pequenos agricultores do sul e
do centro-sul do pals. O corte-e-queima est4 aumentando rapidamente em Rondônia,
Acre e Roraima. O potencial para o espalhamento deste tipo de desmatamento por
pequenos agricultores C muito maior do que aquilo que se tem experimentado at6
hoje, mas o curso futuro desta expansão depende de decisões políticas contra as quais
existe uma forte oposição. Um programa de Reforma Agraria de longo alcance foi
anunciado pelo ex-Presidente JosC Sarney, em 1985. O plano original especificava
que as terras a serem redistribuídas viriam da desapropriação de grandes latifúndios
(Brasil 198530). Se fosse implementado desta forma, o plano iria ajudar a frear
o desmatamento. Noentanto, os propriedrios fizeram uma forte pressão para o pla-
no parar de vez e para começar primeiro pela ¿istribuição de terras públicas. JA

218
que quase todas as terras que ainda pertencem ao domínio público encontram-se na
Amazônia, uma interpretação deste tipo tornaria a “reforma agrária’’ um mero eu-
femismo para a colonização do tipo que deu resultados fracos na Transamazônica
(Pará), em Rondônia e em outros lugares. Colonos dos estados do centro-sul já es-
tão sendo reassentados no âmbito do programa de “reforma agrária” em terras pd-
blicas, em regiöes tais como Presidente Figueiredo, no Estado do Amazonas. Levado
à sua conclusão Ibgica, o uso da Amazônia como válvula de escape para assentar
pessoas sem terra significa um desastre, do ponto de vista tanto do sacrifício da flo-
resta como da implantação de uma forma não sustentável de agricultura em grande
escala. A Amazônia Legal brasileira tem uma área de cinco milhöes de quilômetros
quadrados: se a região inteira (inclusive as reservas e as terras já ocupadas) fosse
dividida igualmente entre os 10 milhöes de famílias sem terra no país, cada uma
iria receber apenas 50 ha (a metade da área dos lotes da rodovia Transamazônica).
A incapacidade da Amazônia para resolver os problemas sociais de outras partes
do país tem que ser reconhecida pelos planejadores.

O desmatamento está aumentando na região Amazônica, como resultado da so-


ma de diversas forças ligadas ao desenvolvimento agrícola nesta e em outras re-
giões do Brasil. A maior parte da área desmatada C utilizada de maneira não
sustentável, tal como pastagens. Esforços para conter o desmatamento, e redirecio-
nar o desenvolvimento para usos sustentáveis da terra, somente serão eficazes se
os processos subjacentes que estão empurrando a derrubada da floresta são enfren-
tados. Estes incluem a expulsão das populaçöes das regiöes Centro-Sul, Sul e Nor-
deste (devido à continuação da concentração de terras em grandes propriedades e
à substituição de culturas intensivas de mão-de-obra pela pecuária e pela agricultura
mecanizada), bem como o uso das pastagens, na Amazônia, como uma maneira ba-
rata e eficaz de proteger a terra contra a invasäo por posseiros, a desapropriação,
ou a perda para outros fazendeiros ou grileiros. A construção de estradas e a espe-
culação imobiliária estäo ligadas ao desmatamento num ciclo vicioso que leva ao
crescimento exponencial das áreas derrubadas. Os pontos do sistema mais susceptíveis
de controle governamental são: as decisöes sobre a construção ou a melhoria de
estradas; a política de reconhecimento da posse da terra com base em pastagens,
aceitas como “benfeitorias”; a definição de políticas de desenvolvimento agrícola
e industrial nas áreas de origem dos migrantes, fora da região Amazônica.
Outros fatores contribuem para acelerar ainda niais o processo de expansão da
fronteira e o desmatamento, quais sejam, as rodovias e os assentamentos associados
à mineração, o desenvolvimento agrícola e as bases militares. Mudanças recentes
na importincia relativa das forças que levam ao desmatamento podem ser observa-
das: impacto crescente da exploraçä0 madeireira (especialmente em Areas indíge-
nas); impacto crescente dos pequenos migrantes relativamente às grandes fazendas;
diminuição do efeito dos incentivos fiscais para pecuária em grandes fazendas. A
disponibilidade reduzida de incentivos C resultado da crise econômica do Brasil, e

219
Mus. Para. Eniilio Gbddi: Colc~aoEduardo Gnkdo, 1991

não significa uma mudança fundamental de política no sentido de reconhecer a não


aptidão dos solos da região para pastagens. A desaceleração do desmatameto esti-
mulada por esta força 6, portanto, temporária, já que é de se esperar que verbas
voltem a fluir novamente para os incentivos à pecuária, se a economia brasileira
se recuperar da crise atual. O ritmo rápido do desmatamento significa que ações
precisam ser imediatas e decisivas, se C para alterar o processo antes que a floresta
esteja eliminada ou reduzida a vestígios insignificantes.
O efeito provlivel sobre o desmatamento precisa ser avaliado antes que os pro-
jetos de desenvolvimento se tornem “irreversíveis”: os projetos julgados como cau-
sadores de desmatamento excessivo devem ser cancelados, ao invés de simplesmente
alocar verbas adicionais para pesquisas, monitoramento e contramedidas paliativas.
Os planos de “macrozoneamento” no Brasil precisam ser efetuados e respeitados,
inclusive os parques e reservas de diversos tipos tais como as reservas extrativistas
que permitem uma exploração renovAvel de produtos não madeireiros da floresta.
A defesa de parques e reservas precisa ser perseguida rigorosamente, com a ajuda
de adequados recursos financeiros, legais e de policiamento.
Em Última análise, novas formas de cálculos econômicos precisam ser desen-
volvidas e utilizadas na avaliação das opções de desenvolvimento e na distribuição
de recompensas financeiras. Os usos sustentáveis da terra que mantêm a cobertura
florestal precisam tornar-se lucrativos, e os usos não sustentáveis e nocivos ao meio
ambiente precisam tornar-se antieconômicos.

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222
AVALIACÃO DO IMPACTO AMBIENTAL DA
COLONIZAÇÃO EM FLORESTA AMAZÔNICA
Evaristo Eduardo de Miranda I

RESUMO - A cerca de 9 graus de Latitude Sul e 62 de Lnrigitude Oeste, o


Projeto Macliadiiiho visa asseiitar 2.943famílias de agricultores sem term, su-
perarido os problemas tradicionais da coloriizaçdo em regido equatorial. Pes-
quisa da EMBRAPA levantou cerca de 45% dos colorios e clenioiistrou que a
taxa atual de ocupação do Projeto t! de 33%. Os resultadosfoniecem uma visdo
circuristariciada do perjl agro-s6cio-ecoridmicodos agricultores e de seus sis-
temas de produçdo. Scio apreseritados esaustivanierite os dados tkctiicos refe-
rerites a 22 culturas e 03 criaçdes, sintetizados em 194 tabelas.
PALAVRAS-CHAVE: Projcto Machadinho (RO), Aspectos agrícolas, Aspcc-
tos sdcio-cconômicos, Impacto anibicntal.
ABS" - í'lu?objective of the Machaditiho Project is to provide land for
2.934 tiori-land oivtiirig fanners atid to overcome traditiorial tropical larid
settlement problems. The area is located at 9' LS arid 62' LW.A sainplirig of
45% of these famiers was taken by EMBRAPA. Results showed a 33% laiid
occupation rate. í'lie research provides a detailedagro arid socioecoiiomicproJle
of the&nners atid theirproclucfioiisystems. A great amount of data oti 22 crop
arid 03 livestock productiori rates is preseiited iri 194 tables.
KEY WORDS: Machadinho Projcct (RO), Agricultural aspccts, Socio-cconomic
aspccts, Environmcntal impact.

1. A TERRA DO MITO

À procura de um pedaço de terra para plantar, somente entre janeiro e feverei-


ro de 1987, mais de 20.000 brasileiros emigraram para Rondônia vindos de diver-
sas partes do território nacional. Apesar das dificuldades crescentes que enfrenta
o Estado, o mito da terra prometida continua mobilizando e atraindo homens e mu-
lheres de todo o pais, sobretudo os marginalizados pelo processo de modernização
da agricultura no Centro-Sul (Alencar 1987).

Doutor cm Ecologia, Chcfc do Ndclco dc Monitoramcnto Ambicntal c dc Rccursos Naturais por Sat&-
lites - NMAlEMBRAPA - Rua Dontito D'Otaviano nP 276 - 13065 Campinas.-

223
Mus. Para. Eniílio Goelcl: Colc@o Edunrdo Gdv&o, 1991

As causas e as conseqüências dessa dinimica agrícola com poucos precedentes,


que C o caso de Rondônia, têm sido objeto de pesquisas, estudos, reportagens e aná-
lises. Mas não se conhece de forma precisa o que está ocorrendo de concreto no
espaço rural do Estado. Entretanto, a necessidade de gerenciar e controlar esse pro-
cesso e suas conseqüêticias s50 inadiáveis.
De um lado estão os trabalhos que analisam Rondônia dentro de uma lógica
global de desenvolvimento da economia do país e sua incapacidade de enfrentar a
questão agrária nas regiöes mais desenvolvidas. Solução para possíveis crises polí-
ticas e sociais, a distante fronteira 6 a base de uma estratkgia de redução dos confli-
tos no campo, de eficácia duvidosa a médio prazo, sobretudo nas proximidades dos
núcleos urbanos das regitks mais desenvolvidas (Oliveira 1981). Para essa solução
convergem os esforços do planejamento (Brasil s.d.), da intervenção estatal (Brasil
1980), dos financiamentos do Banco Mundial, etc. O Polonoroeste é apresentado
como a própria consolidação e ilustração perfeita dessa estratkgia, com graves con-
seqüências ecológicas, como publicou recentemente a revista Science (Walsh 1986),
abordando o caso de Rondônia.
Outros grupos de trabalhos ilustram, no que pese os sucessos agrícolas, as trá-
gicas conseqüências ecológicas, econômicas e sociais desse processo, que conheceu
uma aceleração importante a partir de 1972 e sobretudo após o asfaltamento da
BR-364.Em geral, o conteúdo da denúncia 6 muito forte dada a dimensso dos pro-
blemas causados. Hoje tudo tende a mostrar que Rondônia, para 95% das pessoas
que ainda emigram, n5o passa de um mito (Alencar 1987). A estrutura agraria já
consolidada, os mecanismos de comercialização, a rede urbana e de serviços hoje
existentes em torno de cidades como Ji-Paraná, Ouro Preto, Jaru, Ariquemes e Ca-
coal, além dos problemas de saúde e de marginalização, levam o migrante a enfren-
tar uma situação bem diferente da existente há uma dicada atrás. Suas chances de
sucesso são mínimas. Nesse processo de exploração, grilagem, ocupaç50 e uso ina-
dequado dos solos, a floresta já cedeu cerca de 15%de sua área. A erosão destrói
a fertilidade dos solos. O abandono de terras 6 crescente. O processo de concentra-
ção se intensifica. Os parques e reservas siio invadidos e a população autóctona in-
dígena 6, mais uma vez, duramente atingida (Rösler-Handschke 1986). O impacto
ecológico desse processo começa a se manifestar atrav6s da população de pragas
intermitentes (Duranton et al. 1987) e do assoreamento de cursos d’água.
Diante desse quadro, duas linhas de ação preocupam os responsáveis pelo pla-
nejamento e pelo desenvolvimento rural em Rondônia: reduzir ou parar a emigra-
ção e gerenciar a difícil situação atual. Este trabalho se insere sobretudo como uma
contribuição a essa segunda linha de reflexão.
De fato, entre as análises sobre as causas e as conseqüências do processo de
ocupação e assentamento em Rondônia existe um hiato, um vazio. A compreensão
de como, concretamente se dá a instalação da agricultura nas áreas pioneiras 6 pou-
co elaborada, sobretudo no tocante a sua dimensão ecológica, agronômica e técni-
ca. Mas 6 dessa compreensão que depende a tomada de decisões políticas e
administrativas para limitar determinados problemas e eliminar outros. Como tornar

224
A~nliap?odo inipacro anibicntal da colonizup?o eni Jlorcsra aniazdnica

viável e se possível rentável a pequena propriedade rural nas condições sócio-


econômicas e agro-ecológicas atuais? Medidas paliativas, corretivas e mesmo sa-
neadoras deverão ser articuladas como base de um gerenciamento eficiente das ques-
töes levantadas pela prática da agricultura nas diversas partes de Rondônia. Todavia,
como defini-las? Como gerenciar esse macroassentamentonuma perspectiva de busca
de equilíbrio agro-ecológico e sócio-econômico?
Tradicionalmente, o papel da pesquisa agropecuária nos programas de desen-
volvimento rural tem sido o de fornecer tecnologias que permitissem o aumento da
produção e da produtividade agrícola. A pesquisa entra como a fonte de inovações
tecnológicas que serão difundidas por outros organismos, sobretudo a extensão ru-
ral, atravts dos mais variados mecanismos, incluindo ou não o uso dos financia-
mentos creditícios (Aguiar 1983). Esse modelo está em crise e demonstrou sua
insuficiência no caso de programas como o Polonordeste, Projeto Sertanejo e diver-
sos PDRTs. Sem invalidar a importhcia desse aporte, o papel da pesquisa agrope-
cuária no processo de desenvolvimento pode e deve ser mais amplo (Rosseto 1985).
A pesquisa tem-se qualificado nos Últimos anos para contribuir na elaboração, na
implantação e na avaliaçiio dos programas de desenvolvimento rural (Alves 1985).
Seria uma atitude muito reducionista imaginá-la na simples e Única tarefa de forne-
cer pacotes tecnol6gicos, por mais interessantes que estes possam ser, sobretudo
na problemática região da fronteira agrícola.
No caso de Rondônia, a relativa facilidade de recursos existentes nos progra-
mas de desenvolvimento permitiram no passado a montagem de um vasto, mesmo
se insuficiente, aparato de pesquisa e extensão rural: muitas bases de apoio, tkcni-
cos e meios para gerenciar e produzir alternativas aos novos colonos. Novos pro-
gramas continuam a injetar recursos na região. Mas a tarefa t quase impossível pois
C anacrônica e parte de um enfoque equivocado. Em primeiro lugar os sistemas eco-
lógicos da região estão entre os mais complexos (Hallt et al. 1978), os mais frágeis
(NASA 1985) e os menos estudados do mundo (Golley 1983). A disponibilidade
de informações sobre a ecologia da região é quase que inexistente (Tricart 1974;
Caufield 1984). Os projetos e obras são conduzidos sem a devida avaliação de seu
impacto ambiental. As extrapolações a partir de outras áreas da Amazônia são todas
perigosas pois em geral incorretas. Basta citar como exemplo o clima da região:
marcado pela continentalidade, ele apresenta uma estação seca pronunciada, e está
submetido às influências da Alta Pressão da Bolívia e das Frentes Frias (Climanáli-
se 1987). Uma situação completamente distinta de regiões agrícolas mais conheci-
das da Amazônia como as do Pará ou em torno de Manaus. Em segundo lugar o
estoque de tecnologias disponíveis t muito pequeno: tanto a nível da pesquisa e da
extensão, como dos agricultores. A condição de área pioneira ainda não permitiu
a consolidação de todo um conjunto de tknicas comprovadas (PRONAPA 1986).
A própria origem dos lavradores, de outras regiões ecológicas do país, dificulta es-
sa elaboração empírica de sistemas de cultivo e produção adaptados à região e agra-
va, por vezes, o impacto ecológico dessa agricultura. Enfim, a pouca disponibilidade
de recursos financeiros, humanos e materiais leva os agricultores em Rondônia a
trabalharem com uma estratégia de minimizaçã0 total dos investimentos e

225
Mus. Para. Eniilio Gocldi: Colrcdo Edrurrdo Grrlr~do,1991

maximização do produto numa ótica de curto prazo. Assim esse modelo de desen-
volvimento rural não se coloca como exigência à preservação do potencial produti-
vo das terras, dos equipamentos e, tragicamente, do próprio agricultor.
A essas dificuldades deve ser agregada uma outra, ligada ao peso dos fatores
exógenos no desenvolvimento da agricultura de Rondônia, completamente fora do
controle e mesmo de uma eventual pressão dos interessados locais.
Esse quadro, já analisado com muito mais detalhe em outros trabalhos, coloca
a necessidade de chegar-se a uma visão circunstanciada da realidade atual nas áreas
de assentamento e colonização e de sua dinamica interna. Urge definir os parâme-
tros prioritários para um gerenciamento desse processo, já que se trata de uma rea-
lidade instaurada e irreversível, no que pese toda e qualquer catilinLia a esse respeito.
Mas se isso é tarefa de todos, a pesquisa agropecuária, dentro do seu campo, pode
aportar alguns instrumentos de análise e monitoramento de alto interesse, principal- '
mente para os órgãos de planejamento e desenvolvimento rural (Miranda et al. 1986).
Apoiada em instrumentos modernos como as imagens de satélite e os recursos da
informática, a pesquisa agropecuária tem desenvolvido métodos e modelos para quan-
tificar e qualificar a curto prazo e a baixo custo os problemas tecnológicos, ecológi-
cos e sócio-econômicos enfrentados pelos agricultores em locais determinados do
país, com um detalhamento de nível municipal e mesmo intramunicipal.
Ao acompanhar as experiências já consolidadas pela EMBRAPA em outras re-
giões do país (Miranda 1984), a UEPAE de Porto Velho decidiu testar, em colabo-
ração com o CNPDA, um novo enfoque de trabalho, complementar ao tradicional
(Trajano 1987). Busca-se conciliar produção e proteçã0 na propriedade rural, ga-
rantindo a renda do agricultor e a perenidade dos seus recursos naturais (Manera
1986). Esse enfoque parte da necessidade de conhecer-se a realidade concreta dos
agricultores e os problemas que limitam sua produção e produtividade, antes de se
pensar em recomendações ticnicas definidas a priori (Contag 1985). Mesmo as re-
comendações técnicas devem ser avaliadas quanto a sua pertinência sócio-econômica
e seu impacto ecológico. Realizado na perspectiva de uma intervençä0 mais direta
dos programas de pesquisa no desenvolvimento rural, esse diagnóstico deve ser exe-
cutado em tempo relativamente curto para ser operacional. Mas deve, também, ser
suficientemente detalhado para poder servir de base para um plano de ação.
Para realizar essa pesquisa elegeu-se como área piloto a do Projeto Machadi-
nho, entre os municípios de Ariquemes e Jaru. Esse Projeto, dirigido pelo INCRA,
foi .criado recentemente dentro de uma nova Ótica de assentamento e colonização,
onde os estudos (Wittern & Conceição 1982) e os investimentos, antes da implanta-
ção dos agricultores, são bem maiores (Banco Mundial 1983). A preocupação da
experiência piloto nesse sentido era dupla: testar e desenvolver métodos de avalia-
ção dos sistemas de produção em uso pelos agricultores numa região tropical úmida
de fronteira e, ao fazê-lo, caracterizar a situaçä0 atual do Projeto Machadinho, seu
impacto agroecológico e sócio-econômico.
Qual a taxa de implantação e de ocupação efetiva dos lotes nas diferentes glebas

226
do Projeto? Quem é o colono que está desenvolvendo a agricultura, hoje, no Projeto
Machadinho? De que recursos efetivamente dispõe? O que viabilizou de fato esse
acesso b terra? Qual o futuro possível para quem ganhou um pedaço de terra em
pleno coração da floresta amazônica? Qual o desempenho dos sistemas de produção
em uso elou propostos pela pesquisalextensão? Que principais problemas enfren-
tam? Qual a eficácia das instituições do Estado, sobretudo as de fomento, pesquisa
e extensão rural, diante das demandas existentes? Quais os resultados reais do pla-
nejamento estatal imagidrio, de quem planeja o que não executa e avalia o que não
faz? Como detectar e caracterizar esses problemas? Essa caracterização, ao permi-
tir um marco quase que inicial sobre a situação do Projeto hoje, deveria viabilizar
a detecção precoce de problemas e ajudar na aplicação eficaz de medidas corretivas
e saneadoras em benefício dos agricultores.
A aplicação desses métodos, no caso do Projeto Machadinho, revelou realida- .
des inesperadas e quantificou fenômenos conhecidos somente a nível qualitativo,
o que impedia toda hierarquização e prioritização. A possibilidade de generalização
dos métodos empregados será discutida também, no final deste documento. Os pro-
blemas detectados podem e devem ser superados. O desenvolvimento da agTicultura
em Rondônia deveria ser sinônimo de desenvolvimento dos agricultores. E devido
a essa perspectiva de progresso que os homens deixam suas origens, seus laços
familiares e até parte de sua cultura e história na aventura de Rondônia. Tudo indica
que esse processo deve continuar, já que, com a atual estrutura agrária brasileira,
a terra do mito e o mito da terra continuarlo a caminhar juntos no imaginário dos
agricultores pobres (Gomes 1987).

2. OBJETIVOS, METAS E FINALIDADES

O principal objetivo deste trabalho 6 o de caracterizar o perfil agro-sócio-


econômico dos agricultores e da agricultura existente hoje no Projeto Machadinho
(RO). Ele pode ser dividido em metas a serem obtidas quase que consecutivamente:
1 - Definir a taxa atual de ocupação efetiva dos lotes pelos agricultores do
Projeto, se possível por gleba;
2 - Caracterizar quem é o homem que vive hoje nos lotes do projeto, quais
os recursos naturais e s6cio-econômicos que ele efetivamente dispõe para desenvol-
ver sua atividade produtiva e quais os sistemas de produção existentes;
3 - Gerar uma base de dados computadorizada que permita varios tipos de
tratamento da informação adquirida, em função de demandas específicas das insti-
tuições envolvidas. Essa base de dados deverá ter uma estrutura de fácil acesso e
utilização, compatível com os equipamentos e os logiciais disponíveis na região;
4 - Consolidar um perfil agro-sócio-econômico do Projeto como um marco
inicial, para fins de avaliação futura de sua evolução.
Enfim, em termos de finalidades cabe assinalar que este trabalho de pesquisa

227
Mus. Poro. Eniílio Goeldi: ColcpTo Fduurdo Golmio, 1991

pretendia, também, difundir e testar, nas condições especificas daquela região, no-
vos procedimentos e métodos inéditos de investigação. Espera-se que eles permi-
tam solucionar - dentro da grande problemática existente - alguns problemas
concretos, ligados à caracterização técnica dos projetos e à avaliação das propostas
e das instituições participantes, principalmente no tocante à tecnologia agrícola e
seu impacto ambiental.
3. CARACTERTZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO
O projeto de assentamento do TNCRA em Machadinho encontra-se localizado
entre os municípios de Ariquemes e Jaru, distanciados aproximadamente 400 km
da capital Porto Velho, entre as coordenadas geogrgficas 6 I .47’ e 63.00’ de longi-
tude WGR e 9.19’ e 10.00’ de latitude Sul (Figura I).
. Segundo a classificação de Koppen, o tipo climático da região C AM com chu-
vas do tipo monção. Ele caracteriza-se por uma estação chuvosa que vai de dezem-
bro a março, com precipitações anuais em torno de 2.000 mm, e uma estação seca
bem definida nos meses de junho, julho e agosto. A temperatura média anual fica
em torno de 24.C e a umidade relativa entre 80 e 85%.
Na área do Projeto foram identificados e mapeados os seguintes solos: Latosso-
lo Vermelho-Escuro distrófico, Latossolo Vermelho-Amarelo álico, Latossolo
Vermelho-Amarelo álico podzólico, Terra Roxa Estruturada distrófica, Podzólico
Vermelho-Escuro distrbfico, Podzólico Vermelho-Amarelo álico, Podzólico
Vermelho-Amarelo álico endoconcrecionárioplíntico, Cambissolo álico, Glei Pou-
co Húmico álico e distrófico, Solos Aluviais álicos e Solos Litólicos distróficos,
além de áreas onde Ocorrem significativamente Afloramentos Rochosos.
‘A área total do projeto é de cerca de 209.000 hectares, com’2.934 lotes para
colonos divididos em 4 glebas assim distribuídas: gleba O1 com 48.000 ha e 602
lotes; gleba 02 com 71 .O00 ha e 1.140 lotes; gleba 03 com 49.000 ha e 622 lotes
e gleba 06 com 40.000 ha e 570 lotes. Ainda no projeto existe um núcleo urbano
principal (2.000 ha), um aeroporto (59ha), 10 núcleos urbanos secundários (953 ha)
e 17 reservas florestais (68.000 ha).
1
Existem, atualmente no núcleo urbano principal, 2.000 famílias, dotadas de infra-
estrutura bgsica, com uma escola de primeiro grau, um hospital, uma agência ban-
cária, um posto da SUCAM, uma seção do INCRA e um Centro Técnico onde fun-
ciona a administração geral de apoio (EMATER-RO, SEAGRI, SETRAPS,
SEPLAN, etc). O comércio local possui supermercados, farmácias, serrarias, pos-
to de combustível e uma peixaria abastecida pelo rio Machadinho, afluente do rio
Ji-Paraná.
4. MÉTODOS E PROCEDIMENTOS UTILIZADOS
4.1. Obtenção dos dados

No problema da amostragem buscou-se reunir documentos que permitissem uma


avaliação precisa da população em questão. Foram adquiridas e tratadas, junto ao

228
Awlia@o do impacro ambienla1 da colonizacdo e m floresla amazbniea

IO 40 ao
om IOOLn

Figura 1 - Estado de Rondônia - localização do projeto Machodinho


Fonte: Nllcleo Moritoriamento Oriental e de Recursos Naturais por Satt.?lite NMAIEMBRAPA.

(Modelo matedtico preditivo do impacto ambiental da ocupaçä0 na Amaz6nia).

229
Mus. Para, Eniílio Goeldi: Colrcao Eduardo Galvdo, 1991

TNPEICNPq, na escala 1:250.000, imagens do satélite LANDSAT TM (WRS


23 I 1068 - TM5 de 07lAgo185 e WRS 23 11067 - TM5 de 07lAgo185) visando
a caracterizar a ocupação atual da área e sua progressão espacial recente. Os resul-
tados obtidos permitiram também uma visão espacial da situação desse assentamen-
to com relação ao processo de colonização daquela regiio (Ariquemes, Jaru e
Ji-Paraná). Essas informações foram completadas pelo mapa dos lotes previstos pa-
ra assentamento pelo TNCRA no Projeto Machadinho, na escala l :100.000 (Brasil
1985). No levantamento dos dados, utilizou-se uma amostra casual simples (Fron-
tier 1983) de 438 lotes ocupados (Tabela l), subdivididos em 4 glebas, correspon-
dente a aproximadamente 45,1% do total de lotes ocupados (presença física dos
agricultores ou sinais evidentes de atividade produtiva) na data do trabalho de cam-
po. Essa amostragem foi realizada progressivamente para avaliar as taxas atuais de
ocupação dos lotes. Pois, conforme as imagens de satélite já indicavam, era previsí-
vel uma baixa taxa de ocupação dos lotes constitutivos do projeto. Partia-se da hipó-
tese que todos os 2.934 lotes estavam atribuidos e ocupados, conforme indicavam
as informações do INCRA. A estratégia de realização progressiva da amostra deve-
ria permitir uma identificação concreta da situação de cada gleba: lotes implantados
ou não (existência de demarcação, de estradas de acesso, etc) e os ocupados ou não
(presença física dos agricultores ou sinais evidentes de atividades produtiva).

Tabela 1 - Amostragem dos lotes ocupados no Projeto Machadinho @O) - de-


zembro de 1986

PERCENTUAL DA
GLEBA ESTIMATIVA TOTAL DOS AMOSTRA
DA POPULAÇAO LOTES EM RELAÇAO AO TOTAL
DE LOTES AMOSTRADOS ESTIMADO DE LOTES
OCUPADOS OCUPADOS
322 125 38,8
563 228 40,s
47 47 100,oo
38 38 100,oo

ITOTAL~ 970 438 45. I

A ficha de levantamento da propriedade rural foi definida em função das infor-


mações disponíveis sobre o objeto em estudo e dos objetivos deste trabalho e foi
composta de 5 partes básicas:
1. Descritores de localizaçiío (10 variáveis);
2. Descritores sócio-econômicos (77 variáveis);
3. Descritores agronômicos (24 variáveis para cada cultura anual, 26 variá-
veis para cada cultura perene, 26 variáveis para cada cultura frutícola e 14
variáveis para cada cultura hortícola);
4. Descritores de pecuária (1 1 variáveis para cada atividade).

230
Avaliapio do iniparro ainhienlal du coloniin& em Jloresia anmaidnica

A ficha continha na parte final somente duas questões em aberto onde os agri-
cultores indicavam seus maiores problemas para viabilizar a produção e suas prin-
cipais necessidades para desenvolver a propriedade rural. A aplicação das fichas
de levantamento ao nível dos lotes foi realizada pela UEPAE de Porto Velho e o
CNPDA entre a última semana de novembro e a primeira de dezembro de 1986,
e contou com a colaboração e o apoio logístico da EMATER e do INCRA. Uma
primeira tabulação e checagem dos dados foi realizada ainda en1 Rondônia.

4.2. - Tratamento dos Dados


O tratamento dos dados foi realizado inicialmente no CNPDA através de um
microcomputador do tipo PC-xt. Utilizou-se, na montagem do banco de dados, o
logicial D Base III plus, tanto para entrada como no processamento e edição de rela-
tórios. As estatísticas de base, que permitiram criticar e analisar os dados, foram
realizadas atraves do logicial SOC (Software.Científico) desenvolvido recentemen-
te pelo NTIAIEMBRAPA. Para os dados quantitativos foram calculados parrime-
tros como a média, o desvio-padrão, variância, soma dos quadrados, valores mínimos
e máximos, amplitude, coeficiente de variação, e realizadas algumas divisões em
classes. Para as variáveis qualitativas foram feitas análises de suas freqüências ab-
solutas, relativas e acumuladas (Diday et al 1982). Os resultados obtidos são encon-
trados em Miranda (1987). Na parte de tipificação foram utilizados os programas
disponíveis no pacote SAS e na biblioteca de software do ClRAD/PRIFAS, instala-
dos juntos ao NTIA.

5. PERFIL AGRO-SÓCIO-ECON~MICODO AGRICULTOR E DA AGRICUL-


TURA NO PROJETO MACHADINHO
5.1. O colono do Projeto Maclzadinho

Com uma média de idade de 39 anos, os 438 colonos pesquisados siio oriundos
em sua maior parte de estados das regiões Sudeste (44,5%), Sul (26%) e Nordeste
(21,9%). Desses agricultores 70,5% vieram da região Sul-Sudeste e quase nenhum
da própria Amazônia. A grande maioria desses homens (84%) vieram para Rondô-
nia após 1977, dentro do grande movimento migratório já evocado. Apesar da cria-
çäo recente do Projeto, 28% dos entrevistados declararam ser o segundo ocupante
do lote que exploram. Somente cerca de 32% desses agricultores eram proprietli-
rios antes de se deslocarem para o Projeto, os outros 68% eram, na sua maioria,
meeiros, arrendatários ou trabalhadores sem terra. Esse terço dos colonos, antigos
pequenos proprietários, que deixaram suas propriedades pelo Projeto Machadinho
ilustra a um tempo a força dessa terra do mito que é Rondônia, e as dificuldades
vividas pelos pequenos agricultores no Brasil, mesmo se proprietários. Dos 2934
lotes atribuídos somente 33% estavam ocupados!
Após sua chegada ao Projeto, 90,4 % dos colonos contraíram doenças ou mani-
festaram problemas importantes de saúde. Isso os levou a perder uma média de 55
dias de trabalho, parados devido a enfermidades, problema enfrentado

231
Mus. Para. Emilio Gocldi: Cole@o Eductrdo Gnhul~,1991

sistematicamente pelos agricultores. As doenças representam uma gravidade parti-


cular por se tratar freqüentemente de endemias, como a malária, que debilita pro-
gressivamente a saúde das famílias, única força de trabalho disponível nessa
agricultura totalmente manual.
Apesar dessas dificuldades os colonos em sua maioria (70%) dedicam-se inte-
gralmente a suas propriedades. Eles não possuem outra mão de obra na propriedade
alêm da familiar (94%),composta no total por cerca de 5 pessoas das quais, em
79% dos casos, somente 3 no mhximo poderiam ser consideradas como ativos agrí-
colas. Somente 5,9% das propriedades possuem alguma forma de mão-de-obra ex-
trafamiliar permanente, mas em quantidade pouco expressiva; já a mão-de-obra
temporária extrafamiliar é um recurso utilizado esporadicamente por quase 1/4 dos
agricultores. Também é reduzido o número de famílias que possuem alguma pessoa
trabalhando fora da propriedade ou atividades extra-agrícolas, como um empório,
por exemplo, dentro do lore. A exceçiio é o caso do trabalho agrícola fornecido a
outras propriedades sobretudo para desmatamentos, capinas e colheita, que atinge
mais de 20% dos agricultores. Isso mostra a existência de um mercado de mão-de-
obra assalariada no Projeto e talvez prefigure a evolução das relações soeiais de
produção naquela área.
Os dados obtidos ilustram o quanto ainda é necessário e importante para os co-
lonos do Projeto a complementação de sua renda através de outras atividades, além
das de produção agrícola no próprio lote. São cerca de 35% das propriedades que
possuem alguma pessoa trabalhando fora do lote, e isso sem contar o possível envio
de recursos ou ajuda financeira a partir de parentes que ficaram nas regiões de ori-
gem dos colonos. Não há porque fazer-se uma avaliação negativa desses fenôme-
nos. Muito pelo contrário, uma das estratêgias de capitalização para os pequenos
agricultores do Projeto deveria passar pela maior transformaçiio possível da produ-
ção agrícola na propriedade ou no núcleo urbano mais próximo. Essa perspectiva
de uma pequena industrialização dos produtos aumentaria seus valores agregados
e geraria empregos complementares para a população.
Indagados sobre seus três principais problemas para produzir, 80% dos agri-
cultores indicaram a falta de financiamento como questão prioritária. A dificuldade
de obtenção de insumos (sementes, adubos, rações, medicamentos, etc ...) vem em
segundo lugar com 1I ,4%das indicações, seguido com 9,8% para os problemas
de desconhecimento e da baixa fertilidade dos solos. Outros problemas tiveram uma
importância pouco relevante.
Enfim, entre suas três principais necessidades atuais para viabilizar sua pro-
priedade rural, 73% indicaram a melhoria das condições de saúde e em segundo
lugar (35%) o apoio educacional para seus filhos e familiares. A melhoria das estra-
das e dos transportes ocuparam o terceiro e quarto lugar das necessidades apontadas
pelos colonos, com porcentagens quase equivalentes: 15,3% e 13,9% respecti-
vamente.

232
5.2 - Dos recursos de que dispõe
Em Machadinho a abundlncia dos problemas contrasta com a pobreza dos re-
cursos. Cada agricultor dispõe de um lote cuja área mtdia t de 46,5 ha, do qual
cultivam atualmente cerca de 6,5 ha. Cálculos realizados a partir da totalização das
áreas levantadas no campo pela amostragem permitem uma avaliação da seguinte
ordem: 44.927ha de superfície ocupada em termos fundiários, da qual 6.352 ha es-
tavam sendo cultivados em dezembro de 1986. A área cultivada por lote t muito
variável, podendo ir de O a 26,6 ha. Essa variabilidade 6 ainda maior nas superfícies
destinadas a pastagens, da ordem de 300%, flutuando entre O e 32 ha, para uma
média de 1 ha. No total do projeto estas ocupavam em dezembro de 1986 cerca
de 1.030 ha.
A parte do projeto e dos lotes ocupada pela floresta ainda é elevada, cerca de
37 ha em cada propriedade. Apesar das culturas e pastagens apresentarem ainda
uma pequena parte da área total, os agricultores instalados já haviam desmatado até
o final de 1986 cerca de 7.380 ha. Freqüentemente evoca-se esse desmatamento co-
mo uma possível e oportuna fonte de renda para os agricultores, em geral descapita-
lizados, que se estão instalando. Ora impressiona constatar que 87%dos agricultores
declararam não ter vendido ou usado a madeira obtida com as derrubadas. Pior ain-
da, 74% declararam tê-la queimado na medida do possível.
No tocante i s instalações permanentes, a situação dos colonos espelha a pouca
idade do Projeto. Cerca de 99% vivem em casas de madeira (64,8%) ou de pau-
roliço (30,s %), nlo possuem energia elétrica e obGm água para uso doméstico através
de poços (50,7%) ou aguadas (40,s %). Apesar das condições climáticas agressivas
e desfavoráveis à conservação de insumos, equipamentos e produtos, somente 4,6%
possuem um galpão ou construção equivalente. No que pese aos plantios de café,
cacau, legumes e cereais, ninguém possui qualquer tipo de secador e somente 1,S %,
um terreiro para beneficiamento da produção. Mais de 65% dos agricultores plan-
tam mandioca mas somente 0,6% possui meios para beneficiar a produção em fari-
nhas, ilustrando esse quadro de descapitalização generalizada dos colonos.
Esse quadro de descapitalização se reflete tambtm nos equipamentos disponí-
veis. Com exceção da plantadeira manual, a “matraca”, presente em 88,6% dos
lotes, da moto-serra (43,6%) e do pulverizador costal (13,7%), os outros equipa-
mentos são praticamente inexistentes. Os agricultores dispõem apenas de enxadas,
machados, facões e foices. Mas contrastam com essa situação os investimentos re-
lativamente elevados, nesse contexto, com os meios de transporte, o que denotaria
a importância dessa função no momento atual do Projeto. Dos agricultores pesqui-
sados 60,3% possuem uma bicicleta, 1,4% uma motocicleta, 2,5% uma carroça e
7,3% um veículo a motor. Seis agricultores possuem um trator (1,4%) e prestam
alguns serviços a outros colonos. Mas se esses dados completam uma visão dos re-
cursos sócio-econômicos próprios dos agricultores, cabe ainda considerar os recur-
sos externos, ligados ao Projeto e que serão analisados a seguir.

233
Mus. Para. Eniilio Gocldi: Colcqdo Eduardo Gí~lrrlo,1991

5.3. - Dos sistemas de produçiio praticados


Os colonos do Projeto Machadinho cultivam um número bastante significativo
de plantas, quase uma centena. Dentre essas destacam-se 11culturas alimentares,
9 culturas industriais, 29 fruteiras e 20 espCcies hortícolas, isso sem discriminar
as plantas medicinais e ornamentais. Destacam-se, nas culturas, o arroz, o milho
e a mandioca, presentes na quase totalidade das propriedades, assim como o cafd,
presente em mais de 50% das propriedades (cafC robusta e arábica). A fruticultura
tambtm está representada e o cacau e a seringueira são plantados em cerca de 20%
dos lotes. Muitas dessas plantas são raras, o que não impede um desenvolvimento
futuro da cultura. Isso não significa que uma cultura como a pimenta-do-reino, por
exemplo, detectada somente ao nível de um agricultor, não possa vir a ter no futuro
um papel relevante no Projeto Machadinho. Essa reflexão pode ser estendida a to-
das as outras culturas pouco freqüentes e resumida na idCia de que raridade não sig-
nifica irrelevância. Para cada sistema de cultivo ou criação reuniram-se em Miranda
(1987), sob forma de tabelas, as informações mais importantes no que se refere à
tecnologia empregada pelos agricultores, às técnicas de manejo, aos calendários cul-
turais, ao desempenho físico da exploração em termos de área à produtividade da
terra e da mão-de-obra ao preço, etc, além de algumas informações sobre o destino
da produção. A natureza deste informe não permite a inclusão destes resultados
exaustivos.

6 . O MITO DA TERRA

Em termos agrícolas o Projeto Machadinho C um recém-nascido com direito


a muitas indulgências, dadas as dificuldades naturais de sua implantação. Muito em-
bora o objetivo desse documento não seja o de avaliar o projeto em si, uma análise
desse processo de implantação se faz necessária, uma vez que ali se busca a supera-
ção de erros cometidos em outras Areas do Estado de Rondônia. E, se os resultados
deste trabalho talvez indiquem que o paraíso de Rondônia 6 um mito, esse mito se
espelha no sonho da posse da terra: a crença pueril de que o simples acesso à posse
da terra garantiria um futuro de progresso para os agricultores. Só a terra não basta
para assegurar a viabilidade econômica e social dos agricultores. Diante desta cer-
teza, no Projeto Machadinho procurou-se constituir uma estrutura física, humana
e institucional, como forma de apoio aos futuros colonos.
Para a pesquisa agropecuária, um dos primeiros passos para a efetivação deste
apoio era conhecer o perfil dos colonos ali instalados. Quantificou-se, então - atra-
VCS de um procedimento estatístico apropriado - a taxa real de ocupação do proje-
to, da ordem de 33% (53,7%, 49,4%, 14,8% e 13,6% nas glebas 1, 2, 3 e 6,
resepectivamente), Isso se traduz por cerca de 970 famílias efetivamente instaladas
em 1986, o que C diferente do número de lotes atribuídos. O objetivo final do proje-
to C instalar quase 3.000 famílias, nessas quatro glebas.
Merece especial atenção o fato de aproximadamente 35 % dos colonos pesqui-
sados terem declarado não ser o primeiro proprietário ou ocupante do lote, bem

234
Avaliaçda do inipaeto antbicntal du coloniznçdo eni floresla antazdirica

como o indice de doenças endêniicas, que atingiu mais de 90% dos recém-chegados,
deixando-os ¡nativos por 55 diadano, em média. Numa agricultura totalmente ma-
nual (como mostram os dados) onde as famílias não possuem mais do que 2 ou 3
ativos agrícolas, dois meses de paralisação por enfermidade representam um peso
enorme no início da implantação de un1 lote. Ainda assim, ao contrário do que se
assiste por vezes junto a pequenos agricultores - desanimados pelas dificuldades
que enfrentam para manter suas famílias e atividades produtivas - os colonos do
projeto apostam decididamente no seu sucesso. Praticamete 1/3 dos que ali estão
era proprietário antes de vir para Rondônia e sua decisão C um motor potente para
suportar as adversidades atuais. A impressão deixada pelas entrevistas, e confirma-
da pelo tratamento numérico dos dados, C a de que estes colonos parecem estar vi-
vendo um processo de gênese e apocalipse a um sÓ tempo.
A ruptura com as tradições de origem, com os laços familiares, o processo de
migração, o batismo das endemias tropicais, as condições ecológicas da região equa-
torial e outros aspectos a priori desestruturadores parecem confirmá-los em sua con-
fiança no futuro. Muitos tomaram consciência de que o problema número um não
C mais a terra. Todos reclamam da falta de recursos para financiar a compra de equi-
pamentos e insumos. O exame rápido dos sistemas de produção indica que adota-
ram uma estratégia de minimizaçã0 dos riscos através de uma enorme multiplicidade
de pequenos investimentos, tanto na produção animal como na vegetal. O uso de
tecnologias modernas, como calagem, fertilizantes minerais, sementes de qualida-
de, defensivos agrícolas, etc - no que pese aos problemas de fertilidade do solo
e de defesa fitossanitária ali existentes - ainda está limitado a menos de 3 % dos
agricultores.
TambCm sobressai, nesta primeira análise dos sistemas de cultivo e criação,
a baixa produtividade observada em 97% dos casos, a condição de vida próxima
da miséria absoluta e uma capacidade de capitalização a partir da atividade agrícola
próxima do zero. O isolamento geográfico do projeto e do Estado de Rondônia, a
distância existente at6 os mercados consumidores e a política atual de preços agríco-
las convergem para a importância, como alternativa de lucro, das culturas de alto
valor agregado e boa densidade econômica. Dois bons e preocupantes exemplos
seriam a pimenta-do-reino, plantada por um agricultor somente, e o guarani, culti-
vado em 4% dos lotes. Ainda representam boas alternativas pouco exploradas as
culturas que podem ser transformadas na propriedade e estocadasgor um longo pe-
ríodo, como a borracha, que ~618% dos colonos arriscam plantar em campos mo-
destos. Por que a presença dessas culturas a nível do projeto ainda é insignificante?
Cabe a pergunta! Como seria talvez pertinente preocupar-se desde já com a inexis-
tência de terreiros para a secagem de griíos e mesmo de secadores ou estruturas aná-
logas, quando metade dos agricultores cultiva o café e a maior parte deles planta
cereais e leguminosas, além da impordncia crescente do cacau, presente em 20%
dos lotes. Em breve essas culturas perenes entrarão em produção exigindo condi-
ções minimas de secagem e beneficiamento, ora inexistentes. Esses poucos exem-
plos ilustram a impordncia do perfil agro-econômico dos colonos para a detecção
precoce dos problemas existentes. Uma maior integraçã0 entre a pesquisa agropecukia,

235
Mus. Para. Emilio Gocldi: Cohqdo Eduardo G?ihdo, 1991

a extensão rural, os agricultores e os responsáveis pelo desenvolvimento rural po-


derá viabilizar, a curto prazo, a solução de muitos dos problemas identificados nes-
sa pesquisa de campo. A agricultura tem de ser uma atividade rentável para os colonos
do projeto. Essa é a única garantia de um sucesso verdadeiro para o Projeto após
todos os investimentos realizados.
Ao nível dos agricultores C preciso aproveitar a dinâmica positiva ali existente,
já que todos apostam com muita energia num futuro melhor. A precocidade do seu
perfil viabiliza medidas técnicas e administrativas que a leitura desses resultados
por certo suscitar6 entre as pessoas comprometidas com o projeto, local e regional-
mente. A base informatizada de dados, constituída a partir dos levantamentos de
campo, pode sustentar o tratamento objetivo da realidade agro-sckio-econômicados
colonos estudados para outros fins específicos, conforme a demanda de interessa-
dos. Essa mesma informação é passível de um tratamento através de outros mode-
los matemáticos e estatísticos para gerar resultados diversos, segundo as preocupações
do usuário. Os dados estão disponíveis sob a forma de disquete e podem ser explo-
rados em microcomputadores do tipo Pc. Eles representam também um marco ini-
cial da situação do projeto no final de 1986, início de 1987. Esse marco deverá
permitir, no futuro, comparaç&s, avaliações e análises sobre a dinâmica evolutiva
do projeto e a pertinência das medidas tomadas para gerenciar ou solucionar os pro-
blemas. As soluções positivas aqui obtidas servirão para a generalização e a aplica-
ção desses mCtodos de pesquisa a outros projetos planejados, em implantação ou
já instalados.
Enfim, no tocante às conseqüências ecológicas desse tipo de projeto, foi possí-
vel quantificar uma série de parâmetros como a área efetivamente desmatada, cerca
de 7.380 ha, aproximadamente um sexto da superfície ocupada em termos fundiá-
rios. O fato de 87% dos agricultores declararem não ter vendido ou utilizado a ma-
deira oriunda desses desmatamentos, sendo que 74% afirmaram ter tentado queimá-la
na medida do possível, está ligado aos sistemas técnicos de produção do Projeto.
Estes não incorporam nenhuma proposta alternativa de valorização das terras, a não
ser num número infimo de proprietários. A partir dos dados obtidos pode-se definir
com precisão um dispositivo experimental que valorize a informação de caráter eco-
lógico já obtida. Por exemplo, o que acontece ao nível do ciclo biogeoquímico quando
um agricultor pratica ou não uma queimada antes de instalar um cultivo? Qual a
taxa de perda de bases? Qual o efeito da associação de cultivos sobre a evolução
da fertilidade do solo? Seria fácil comparar esses casos, pois eles estão repertoria-
dos e identificados. De certa forma essa base de dados representa um múltiplo e
diversificado experimento, espelho das diversas estratdgias dos agricultores. Um
esquema científico de acompanhamento e medida poderia com facilidade aferir os
respectivos desempenhos técnicos e econômicos desses diferentes sistemas, princi-
palmente no tocante às variáveis de natureza ecológica.
Ao enfrentar-se com a realidade dos agricultores, nas suas condiçks agro-
ecológicas e sócio-econômicas concretas, os pesquisadores complementam os tra-
balhos de campo experimental e de laboratório e aperfeiçoam seus programas de

236
Aialiaqdo do inpacro anibienral da cobiizn~Uoenr Jloresra aniazdnica

investigação científica. O aprofundamento do trabalho de pesquisa iniciado no Pro-


jeto Machadinho talvez permita medir at6 que ponto, para o desenvolvimento rural,
a tecnologia agrícola não seria um outro mito.

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238
NUEVAS VIAS DE ESCAPE DE LA CRISIS
DEL BARBECHO: UN ESTUDIO DE CASO DE
COLONIZACIóN EN RIO BAJO, BOLíVIA
Fidel Hoyos 1
Penny Davìes 2
Graham Thiele 2
RESUMEN - 60% de la superfln‘etotal de Bolivia esta coilfonnadapor regioires
amazhicas. En Ia clkada del 50 se enipezd una colonizacidir nmsiva de losllanos
tropicales de Santa Cruz por parte de la poblacidii del altiplaiio. La coloiiìzacidii
se efectud eri varias fonnas, seini-orientada y espontdriea,y aseritainieiitos eii
“iiucleos” o “parcelas dc teclado”. El colono actualinente cultiva arroz hajo
un sistema de corte y qrrenia; al agotarse la selva virgen en su parcela, enpieza
cortar y quemar la vegefacidiisecundaria o el “barbecho”. La reritabilidad de
este sistema va lmjarido debido a mayores gastos de deshierbefrente a menores
rendimieirtos. Cuando el barbecho es sustituido por vegetaci6w graininéa, el
agricultor vende o ahridoria su parcela, desplazdridosepor la fioiitera mdvil
agricola. EI Centro de bivestigacidii Agrícola Tropical (CIAr ) del departametito
de Santa Cruz, esta iii vestigaiido bajo un erlfoque de sistemas agropecuarios
(ISA)eri nuevas vías (le escape de la “crisis de barbecho”. Por ejemplo, un
diagnosticordpido ni14ltiili.~c~~liiiario
de la zona de Rio Bajo ideiitijcd 5 difrerttes
dominios de recoincridacidri (DOR),de los cuales algunos productorespequerios
de arroz habiari podido diversijcar sus actividades hacia sistemas mirtos de
lechería, ganadería, baiiaiio y la hoja de coca. Adenuts de estas teniologías
probadas por los cainpcsiiios, el CIAT ahora esta investigando en la cría de
ganado pequeiïo, y sistemas agroforestalescon cultitas anual/jweniies asociados
con arboles de niuhi-uso.
PALABRAS-CLAVES: Bolivia, Colonización, Sistcmas dc Producci611,
Invcstigaci6n Agropccuria, Divcrsificaci6n
RESUMO - 60% da supeflcie total da Bolívia pertence d Bacia Amazbiiica.
Durante os anos ciiiqiienta teve início u m processo maciço de colonizaçdo das
plariícies tropicais da regiao de Santa Cruz pelas populaçdes do altiplano. Essa

Programa dc Socio Economia Rural, Ccntro dc Investigaci6n Agrícola Tropical (CIAT) - cl instituto
dcpartamcntal dc invcstigaci6n agropccuaria dc Santa Cruz dc la Sicrra, Bollvia.
Programa dc Socio Economia Rural, Misi611Britanica cn Agricultura Tropical (MBAT) ayuda t&nica
dc la Administraci6n del Dcsarrollo cn cl Ultramar (ODA), Rcino Unido.

239
Mus. Para. Eniílio Goeldi: CokeciIo Eduardo Gulr.do, I991

colonização sc dcscnvolvcu d c vBrias formas, scmidirigidas e cspontâncas, com


asscntamcntos cm núclcos ou ao longo das cstradas, como as tcclas dc um piano.
Atualmcntc, os colonos cultivam arroz com o sistcma dc dcrrubada c queima
da florcsta; quando não tcm mais mata no scu lotc, clc comcça a cortar c qucimar
a vcgctação sccundsria, a “capocira”. A rcntabilidadc do sistcma vai diminuindo
por causa do aumcnto dc gastos com a r c m g ã o das crvas daninhas c com a qucda
dos rcndimcntos. Quando a capocira 6 substituída pcla vcgctação graminca, o
agricultor abandona ou vcndc sua parccla, dcslocando-se para a frontcira agrícola
em movimcnto. O Ccntro dc Pcsquisas Agrícolas Tropicais (CIAT), d o
dcpartamcnto dc Santa Cruz, procura novos caminhos para superar cssa “crise
das capociras”, atrav6s do dcscnvolvimcnto dc sistcmas mistos agropccuários.
Assim, um diagn6stico rápido c intcrdisciplinário da região dc Rio Bajo idcntificou
5 conjuntos d c rccomcndaçöcs (DOR) graças Bs quais alguns pcqucnos produtorcs
de arroz conscguiram divcrsificar suas atividadcs, incluindo produção bovina
e dc lcitc, banana c folha dc coca. A16m dcssas tccnologias cxpcrimcntadas pclos
camponeses, o CIAT está rcalizando pcsquisas sobrc a pcqucna criação c os
sistcmas agro-florestais com culturas anuais c pcrcncs associadas com árvores
de usos múltiplos.

PALAVRAS-CHAVE: Bolívia, Colonização, Sistcmas dc produção, Pcsquisa


agropcculria, Divcrsificação d c agrossistcmas.

ABSll7.4CT - Si-ctypercerit of the total Boliviaii territory is part of the Am~7zoii


basin. During the 1950’s the populatiorisfrotn the highlands begari a massive
process of colooitization of the tropical Santa Cruz lowland region. This
colonization has beeii developed in differetit ways - semi-directed arid
spoiitarieous - with settlements distributed iri iiucleus or alorig the highways,
in a i&Iaythat resembles a piario keyboard. Presently the settlers cultivate rice
using the slash-aiid-bunt system. When there is no moreforest ori their property,
they start to bunt the secondary vegetatioii (“capocira ’3. The reiitability of this
system goes doioti gradually, due to the iricreasiiig experises with the removal
of weeds, and income decreases. Wheii the “capoeira ” is substituted by
gramineous vegetation, farmers either abaiidoit or sell their shares, moving to
new developing agricultural frontiers. í‘lie Center for Research of Tropical
Agriculture (CAT) of the department of Santa Cru: iii Bolivia has been lookitig
for new solutiolis to the %risis of the ‘%apoeiras”’throught the developmeitt
of mived agricultural atid cattle-railchirigsystems. fius, a first ititerdiscipliilaty
evalurrtiori of the Rio Bajo regiori has suggested jive recomntettdatiotis (DOR)
which have been put iii practice by some small farmers aid succedeed in
diversifying activities such as bovine meat, milk, bariaiia arid coca leaves
production. hi addition to these techtiologiestried byfarmers, CIATis developing
research oit small livestock arid agro-florestty systems with both aritiual arid
peremial crops associated with trees with multiple uses.
KEY WORDS: Bolivia, Colonization, Production Systcms, Agricultural and
Cattlc/Ranching Rcscarch, Divcrsification of Agrosystcms.

240
Vias de escape de la crisis del barbecho: un estudiode cato. &nia Cruz. Bolivia

1INTRODUCCION
I . I. EI Creciniierito Ecoriómico del Departamento de Santa Cm7

Muchas personas tienen como imagen de Bolivia un país andino o altiplánico


y es cierto que un 80% de la población vive en las tierras altas. Sin embargo, las
estadisticas nos muestran que los tres Departamentos que conforman la parte
amazónica del país (Santa Cruz, Beni y Pando) representan casi 60% (648,000km2)
de la superfície total. Por su poca densidad poblacional y abundante tierra es común
considerar a estas llanuras tropicales como un recurso todavia para explotar. Desde
el siglo pasado habían planes gubernamentales de colonizar estas llanuras, tanto para
aprovechar este recurso como para incorporarlas políticamente en la nación. Sin
embargo, el proceso de colonización a los llanos de Santa Cruz por parte de la
población del altiplano tenía que esperar la apertura de la carretera a Santa Cruz
en la dkcada del 50. La vinculación con los mercados y poblaciones del interior que
representó la construcción de la carretera estimuló el crecimiento de la ciudad de
Santa Cruz de 20.000 habitantes en 1950 hasta mas de 6OO.OOO actualemnte. En
el departamento se produjo un aumento de población de unos 300.000 habitantes
a unos 1.4OO.OOO aproximadamente en 1987 (Instituto 1977; Estimación 1988).
ET departamento comprende 5 zonas agro-ecolbgicas, de las cuales la zona de
colonización es la más dinámica (ver Figura 1 y Anexo 1). Los limites de esta zona
no son fijos y la colonización pionera continúa expandikndose hacia afuera siguiendo
los caminos viales que salen al norte, oeste y al este de Santa Cruz (Figura 1). La
frontera no consta de los mismos tipos de agricultores, siendo un mixto de grandes
productores y pequeños colonos.
El crecimiento y la consolidación de las áreas de colonización refleja el ritmo
acelerado del crecimientoeconómico del departamento durante los Últimos 40 años.
El departamento experimentó un verdadero “boom” en los 70s, el que se originó
con la inversión regional de las regalias del petróleo, con la expansión agrícola (caiia
azucarera y algodón para la agroindustria; el arroz y ganado para el consumo
domtstico) y la explotación maderera. En an& más recientes la industrialización
de la cocaína ha generado importantes ingressos.

1.2. El Sector Agn’cola

Hacia principios de los 1950sel panorama tradicional de la agricultura de Santa


Cruz comenzó a cambiar. Anteriormente se encontraban principalmente pequeñas
y medianas haciendas feudales con ganadería extensiva, de habitantes de origen
mestizo, así como grupos indígenas que practicaban la agricultura de subsistencia
y la caza. La implementación de un modelo de desarrollo baseado en (i) la sustitución
de importaciones de alimentos básicos; (i¡) el establecimiento de la agro-industria
local; y (iii) la incorporación de las llanuras orientales al resto de la economia del
país, significaba el comienzo de la transformación tecnológica del sector agrícola
y mayor tnfasis en colonización (Plan Bohan, 1942).La reforma agraria de 1953

241
Mus. Para. Emilio Goeldi: ColeCno Eduardo Galrdo, 1991

Zonas de Producción del Departamento de Santa Cruz

Figura 1 - Zonas de Producción del Departamento de Santa Cruz

242
Vias de escope de lo crisis &I barbecho: un e s i d o de caso, Sanla Cruz, Bolivia

no solamente inició el proceso de abolición de la prestación de mano de obra gratuita,


sino dió a toda persona adulta el derecho a tener un título de propriedad de Ia tierra
una vez que le hubiera dado un uso productivo durante 2 años. Con el excedente
de mano de obra en las minas, la escasez de tierra en el altiplano y la construcción
del camino que vincula Santa Cruz con La Paz,se inició “la marcha hacia el oriente”
y una colonización masiva del norte de Santa Cruz.

1.3. La Colonizacióii del norte de Santa Cruz


Actualmente se encuentra en las zonas de colonización unas 20.000 familias
de colonos nacionales, unas 450 familias japonesas y 2.000 familias menonitas
(Bojanic 1988). Puede atribuirse a los Últimos agricultores extranjeros cerca del 80%
de la agricultura mecanizada en el departamento. Cultivan parcelas de 50 a 250
hectáreas con siembras de soya, trigo, maiz y arroz mecanizado.
La colonización nacional se efectuó bajo varias formas. De las 20.000 famflias
de colonos, 22% se asent6 bajo de esquemas o proyectos estatales de colonización,
es decir, orientada en diferentes grados. En general, la ubicación de tales
asentamientos fue planificada y los colonos recibieron durante el primer año alguna
infraestructura básica, herramientas, alimentos básicos y, en San Julián (un proyecto
mAs orientado) una capacitación sobre el uso de tecnologías apropiadas. La
parcelación del terreno ha tomado mayormente la forma del “teclado” en el que
las parcelas generalmente de 20 a 30 hectheas, están ubicadas a lo largo de los
caminos viales en fajas paralelas, EI colono vive en su parcela, dándose un patrón
de asentamiento disperso. En San JuliAn se ensayó otra forma de asentamiento: 2.000
familias fueron asentadas en “nucleos” permitiendo la formación de comunidades
alrededor de las cuales están las parcelas (Figura 2).
Teclado Núcleo

Figura 2 - Formas de Parcelación en las Zonas de Colonización


Fuente: propia

243
Mus. Para. Entílio Goricl¡: Coiepcdo Eduurdo Gíilvdo, I991

Sin embargo, la mayoria de la colonización ha sido en forma expontánea, donde


sindicatos colonizadores - el sindicato es una organización de base con afiliaciones
políticas - se han asentado en tierras nuevas aprovechando en muchos casos los
caminos abiertos por las empresas que efectuaban explotación maderera y petrolera.
Por eso también las parcelas están ubicadas en forma de “teclado”. Tal colonización
no recibió apoyo directo del estado, sin embargo el sindicato funciona como un grupo
de ayuda mútua durante los primeros anõs de migración y asentamiento, debilitándose
una vez se encuentra establecida la colonia. Aunque el sindicato lucha para mejorar
el acceso a la infraestructura no es sujeto de crédito bancario.

2. AGRICULTURA MIGRATORIA
2.1. El Sistema de Corte y Quenia

Los pequeños colonos nacionales practican un sistema de “corte y quema”,


desplazándose por la frontera móvil agricola que va avanzando al interior de la selva.
En esencia este sistema implica la habilitación o chaque0 manual de unas 3 a
5 hectáreas de monte virgen dentro de su parcela de 20 a 50 ha para el cultivo de
arroz en secano y/o maíz, pero principalmente de arroz. Despues de 1 a 2 anõs de
cultivo consecutivo, los rendimientos tienden a bajar principalmente por un
enmalezamiento gradual de la tierra, de manera que en cierto momento resulta más
económico chaquear nuevamente. AI agotarse el monte alto en la parcela, el agricultor
sigue practicando el mismo sistema de corte y quema de la vegetación secundaria
o el barbecho.
Sin embargo, al no dejarse al barbecho un adecuado número de años para que
el suelo se regenere y la carga de semilla de malezas disminuya, se agudizan los
problemas de enmalezamiento y fertilidad. La rentabilidad del cultivo en barbecho
es menor que en chaqueado debido a mayores gastos de deshierbe frente a menores
rendimentos. A tal situación, Maxwell (1981) la denominó la crisis de barbecho.
Esta situación se hace insostenible para el agricultor cuando el barbecho es sustituido
por una vegetación pajiza (Ej.: Imperata sp) que no quema bien, haciendo mAs costoso
el establecimiento del arroz y más problemático el control de malezas. Algunos
agricultores venden o abandonan sus parcelas para buscar nuevamente monte virgen
o migrar a la ciudad. Otros han intentado otras soluciones o “vías de escape” a
la crisis del barbecho.

2.2. Vias de Escape de la “Crisis de Barbecho ”

Una vía de escape en algunas zonas es el destronque de los barbechos para


permitir la preparación mecanizada de la tierra. Tal sistema involucra el destronque
manual del terreno en barbecho que ya se ha cultivado bajo de un sistema de corte
y quema, o el destronque mecanizado después del inicial desmonte. Sin embargo,
esta opción ha tenido un éxito limitado. Es común que los rendimientos decrescan
drasticamente después de varios años y el ataque de malezas, principalmente de

244
Has de escape de la crisisdel bnrbecho: un esiudio de caso, Sanra Gui. Bolivia

Rogelia (Rottboellia exaltara), aumenta (Tabla 1). Además la falta de buena


preparación de terreno, y la falta de rotaciones con un Cnfasis en el monocultivo,
ha resultado en un aumento en el número de pasadas de tractor para controlar plagas
y malezas, lo cual en su turno está causando graves problemas de compactación de
suelos en algunas Breas (Stutley 1982). Además en Areas con pendientes como en
el caso de Rio Bajo, el arado ha acentuado el deterioro de los suelos.
Otras vías de escape constituyen la cría de ganado bovino en base a pastos
naturales y pequeñas superficies de pastos cultivados; y el establecimiento de
platanales donde los suelos permiten.

Tabla 1. Rendimentos de Arroz en Barbecho y en Arado (Rio Bajo)

Sistema Rendimento de Arroz


(tm/ha)
Barbecho alto (5-7 años de edad) 1,4-1,8
Barbecho bajo (3-4 años de edad) 0,7- 1,4
Cultivo contínuo en arado: ler. año 2,1-3,5
4to. año 0,5-0,9
5to. año Abandonan o introducen pastos.
Fuente: Hoyos et al, 1987.

2.3 Investigación Bajo de u11 Enfoque de Sistemas por el CUT


El Centro de Investigación Agrícola Tropical (CIAT), fundado en 1975, es res-
ponsable de la investigación agropecuária del departamento de Santa Cruz.Cuenta
actualemte con unos 25 ingenieros investigadores. La metodología de investigación
al comienzo se desarrolló según rubros - es decir, programas de investigación en
maíz, arroz, soya, etc. Desde 1980 el CIAT comenzó a explorar y consolidar una
metodologia que aprovecha más eficientemente de los recursos limitados la cual es-
tá orientada a solucionar problemas específicos de sistemas de producción, es decir,
que el CIAT está tratando de hacer más investigaciones bajo un enfoque de sistemas
agropecuarios (ISA). EI CIAT considera a los pequeños colonos como uno de sus
grupos “objetivo”, con los cuales esti colaborando en la búsqueda de actividades
donde ellos pueden autocapitalizarse, diversificar la finca y salir de la crisis de
barbecho.

3. UN ESTUDIO DE CASO: NUEVAS VIAS DE ESCAPE EN RIO BAJO


3.I. El Clima y los Recursos Naturales

EI Area de Rio Bajo corresponde a la zona ecológica denominada “Bosque HÚ-


medo Tropical” con una temperatura anual promedio de 24OC y unos 2.000 mm
de precipitacidn.

245
Está ubicada al pie de las colinas que preceden los valles mesotérmicos, por
lo tanto presenta una topografía accidentada. Los suelos generalmente son livianos
con buen drenaje. Estas características de alta precipitación, con topografía acci-
dentada y suelos livianos hacen el terreno susceptible a la erosión y han influído
tanto en el desarrollo de los sistemas agropecuarios como en los tipos de investiga-
ción que el CIAT ha programado en el área para combatir el problema de erosión.

3.2. El Proceso de Colonizacidn

Hasta fines de la década del 50 la zona era accesible por una senda, por su ais-
lamiento era habitada por indígenas que Vivian de la caza y unos cuantos campesi-
nos que llegaron durante un primer intento de colonización en la década del 30.
EI ejército inició obras de colonización a fines de la década del 50, mejorando
la senda que atravieza el área, y desmontando una faja de 20 metros de ancho a
cada lado de la senda para ayudar a los primeros colonos en el establecimiento de
sus cultivos de subsistencia (plátano, yuca y maíz). Los primeros colonos naciona-
les empezaron a llegar en 1961 espontáneamente. El ejército organizó la parcela-
ción de la tierra dando 30 ha a cada colono. AI principio los colonos no recibían
ningún otro apoyo, sin embargo, el pavimento de la carretera Rio Bajo, y la possibi-
lidad de trabajar en las fincas de una colonia japonesa cercana, estimuló su llegada
con tal resultado que el número de colonos nacionales llegó a 170 en 1962.
EI año siguiente se potenció el proyecto con un gran programa rural de coloni-
zación financiado por el BID y supervisado por el Instituto Nacional de Coloniza-
ción. En su tiempo era uno de los programas más ambiciosos de América Latina.
En total se logró el asentamiento de cerca a 2.000 famílias en el área, usando la
forma de parcelas en teclas. Tal vez el componente más importante del proyecto
era la construcción de un puente sobre el Rio Bajo permitiendo por primera vez
la entrada de camiones al área. También se construyó caminos y puentes dentro de
la colonia, se perforaron pozos de agua y se construyeron escuelas y postas sanita-
rias. Se hizo un estudio del uso de la tierra, designando las partes más accidentadas
como reservas forestales para evitar serios problemas de erosión, además definien-
do “barreras verdes” entre las fajas de parcelas. Sin embargo, se sobreestimó la
calidad de los suelos y su capacidad a soportar cultivos anuales.
Después de algunos años se dieron cuenta que el tamaño original de la parcela
no era adecuado y se otorgaron reintegros de tierra dentro de la colonia producien-
do el padrón típico de tener tierras en dos lugares.
A pesar de los planes para introducir modelos básicos en la cria intensiva de
ganado, en la práctica el sistema agropecuário que resultó después de diez años de
colonización era baseado en el arroz tal como en zonas espontáneas de coloniza-
ción. Los planes de controlar el uso de la tierra también no resultó, en las áreas
designadas como reservas forestales se asentaron sindicatos espontáneamente, a pe-
sar de los problemas de erosión que se presentaron.

246
Viasde escape de la crisis del barbecho:un esrudio de caso, Snnra Cruz., BoliviO

3.3. El Sondeo del CIAT


Desde 1978, el CIAT ha trabajado esporádicamente en la zona de Rio Bajo.
En 1987, se organizó un centro regional de investigación (CRI) en Rio Bajo, donde
pudieran efectuarse ensayos a largo plazo e investigaciones adaptadas, y que a la
vez vaya a servir como un centro desde el cual pudieran planificarse los ensayos
en fincas. Sin embargo, para poder orientar y asignar prioridades al trabajo de in-
vestigación a efectuarse en el CRI, se hacia necesario entender claramente los siste-
mas agropecuariosexistentes en la zona. Con tal fin se efectuó un diagnostico rápido
- un sondeo - (baseado en la metodología desarrollada por el ICTA en Guatema-
la, ver Hildebrand y Ruano (1982) con un equipo multi-disciplinario de investiga-
dores del CIAT - 3 científicos sociales del programa de SocioEconomía Rural,
un especialista en Cultivos Perennes, un especialista en Cultivos Anuales, un cientí-
fico de Malezas y el investigador de CRI.

3.4. Sub-Zonas y Dominios de Recomendacìdn


EI sondeo permitió la identificación de 5 diferentes sub-zonas, de acuerdo al
criterio básico de la topografía y comunicaciones (Tabla 2 y Figura 3). Indepen-
dientemente de las sub-zonas clasificadas, se distinguieron unos 5 a 7 dominios de
recomendación (DOR), o sea grupos de agricultores que tienem circunstancias si-
milares y, por lo tanto, susceptible de las mismas recomendaciones tecnológicas (Ta-
bla 3).

Tabla 2. Definicidn dc las Sub-Arcas, Rio Bajo


Sub-Arca Características
A* - Ccrcania a la Faja Ccntral (1 km a 7 km)
- Caminos de regular calidad, dc difícil acceso cn Epoca
de lluvias.
- Topografía ondulada.
B - Caminos inacccsiblcs la mayor parte del año.
- Topografia ondulada.
C - Caminos rcgularcs.
- Acceso al agua.
D - Excclcnte comunicaci6n con CI mercado.
- Topografía relativamente plana.
E - Suelos limosos aptos para el cultivo del plAtano.
- Caminos de regular calidad, dc difícil acceso cn 6pocas
de lluvia.
- Topografía plana.
* Aqui se encuentra el CRI del Rio Bajo.
Fuente: Hoyos et al. 1987.

247
Mulus. Pam. Eniílio Goclli: Cokp7o Eduurdo Grrlvdo, I991

Tabla 3 - Dominios de rcconicndacidn (DOR) - Rio Bajo


Caractcrísticas Distintivas
DOR Grado de Existe en
Importan. Sub-zona Sup. Coca Sup. Tamaño
en el árca Arroz Plátano del Hato
(ha) Ola) (cab.)
1. Arroz (sin- Baja ABCDE <2 No - -
ticrra propia)
2. Arroz con Coca Alta AB <2 Si Auto- <’5
cons.
3. Arroz-Ganadería
Mixta-Coca Muy alta A BCD <5 si Auto-
cons. .
5 20
4. Arroz-Lxchcria-
Coca Baja CD <2 si Auto- < 10
cons.
5. Arroz-Plátano Baja/
Muy baja E <2 No <4 -
4+
Fucntc: Hoyos et al. 1987.

3.5. Las Nuevas Vias de Escape


En todas las sub-áreas se encuentra aproximadamente 10% de la población sin
tierra propia (DOR 1). Este DOR alquila tierra de otros colonos para cultivar arroz
en barbecho. Generalmente los del DOR 1cultivan entre 0,5 y 2 hectáreas, siendo
2 hectáreas lo máximo que se puede cultivar sin usar peones y 0,5 hectáreas lo míni-
mo para asegurar el arroz que necesita para el consumo familiar. Alquilan el terre-
no por un año, pagando 1 fanega (176 kilogramos) de arroz por hectárea. Muchos
colonos pasan por esta etapa, de ser inquilino, antes de establecerse como colonos
permenentes con parcelas propias. Forman un ‘‘pool” de jornaleros que trabajan
para otros colonos. Actualemente en Rio Bajo además de la cosecha y carpida del
arroz, Ia cosecha de la coca y el trabajo en los centros urbanos son muy importan-
tes. Sin tierra propia no pueden establecer rubros mas rentables, pero trabajando
como peones poco se trasladan a los otros dominios de recomendación. En este sen-
tido el trabajo ahera de la fiança con la coca, que ahora existe por el problema
de la baja rentibilidad del arroz, es un paso inicial para salir de la crisis de barbecho.
En sub-areas C y D se encuentran los productores que practican la lechería semi-
intensiva (DOR 4),además cultivan la coca y el arroz. Debido a la cercanía de mer-
cado, al buen acceso por camino y la promoción por la via del crédito y asistencia
tkcnica desde 1969 de la lechería por un proyecto no gubernamental, la misma ha
funcionado en estas zonas como una via de escape de la crisis de barbecho. Eso,
junto con otro factor limitante, el tamaño de la parcela (máximo 20 hectáreas), ha

248
Viar de escape de la crisisdel barbecho: un estudio de coso, Santa Cnu. Bolivia

Figura 3 - Localización de los dominios de recomendación

249
dado lugar a esta especialización. Algunos de los colonos de este DOR han podido
capitalizarse, estableciendo pastura y alambrado, con la producción propia de la ho-
ja de coca, aunque actualmente la coca es de menor importancia como actividad
comercial de la finca que en otros domínios. Por el tamaño de la parcela y el tiempo
libre que la lechería deja al colono, algunos productores alquilan o poseen tierras
en arado en otras zonas de colonización donde los rendimientos de arroz son toda-
via mayores.
Todos los productores de pequeñas y medianas superficies de plátano (DOR
5) se encuentran en el sub-area E donde el suelo es limoso y bañado por el rio. Es
el Único lugar donde el plátano rinde bien. EI camino en mal estado es el principal
cuello de botella. Pese a las dificultades de comercialización, los ingresos genera-
dos permiten al productor satisfacer los requerimientos de subsistencia familiar y
en lugares en que el productor tiene la suerte de ser favorecido con una buena via
de acceso, es frecuente que tenga vivienda en el centro urbano más cercano. Tal
vez es el Único rubro actual que ofrezca iguales ventajas que la coca; el plátano dá
mayor retorno al jornal que la coca. Sin embargo, los factores suelo y acceso vial
restringen la expansión, y el margen bruto por hectárea de plátano es US$ 152mien-
tras de la coca es US$ 216. (Tabla 4).

Tabla 4 - Margcn Bruto por hcctarca y por Jornal: Coca, Arroz, Platano. (US$ 1987)

Coca Arroz en Arroz cn Platano


Barbecho Barbecho
(m. dc obra (m. dc obra
contratada) familiar)
I INGRESOS
Rcndimicntolhalaño 976.00 200.00 200.00 470.00
II COSTOS VARIABLES
- Mano dc obra 725.00 218.00 140.00 214.00
- Insumos 35.00 42.00 42.00 103.00
I
II MARGEN BRUTO/ha 216.00 + -60.00 + 17.60 +152.00
MARGEN BRUTO/JORNAL 1.15 + -1.10 +OSO +2.75
Nota: Vcr Ancxos 2, 3, 4.
Fucntc: Propia; Hoyos ct al. 1987.
Es principalmente en las sub-áreas A y B (el Último en particular que tiene ac-
ceso muy difícil) donde la coca se encuentra como un componente fuerte de varios
de los domínios de recomendación 2 y 3. Existen 2 variedades de coca. La primera
es de hoja grande, es más fácil cosechar y mas apropriada para el mercado indus-
trial. La segunda es de hoja menuda, cuesta más cosechar pero es preferida para
masticar. Previo al almácigo, la siembra se realiza asociada con el maíz o la yuca
por la sombra que requiere la planta en su período inicial. La Cpoca de siembra es
flexible pudidndose sembrar en diferentes Cpocas del año.

250
Has de escape de [o crisisdel barbecho: un estudio de caso,Sama Cruz.Bolívia

Aparentemente, en años anteriores - cuando no se conocía el uso de herbici-


das - la carpida era el principal “cuello de botella” que impedía ampliar la super-
ficie de coca. Empero, con el uso de Gramoxone (Paraquat) se ha podido solucionar
este problema.
En la cosecha participa toda la mano de obra familiar y se contrata mano de
obra. Una ama de casa, que tiene que cocinar además, cosecha entre 35 y 40 libras
diarias. Un niño cosecha entre 25 y 50 libras al día mientras que su padre cosecha
entre 75 y 100 libras. La cosecha se la realiza cada 3 meses. Los rendimientos va-
rían desde l .5 hasta 3 paquetes por tarea (1 paquete = 50 libras de hoja seca), debi-
do a los fuertes vientos que durante la cosecha de Agosto/Septiembre deshojan la
planta.
En promedio se puede hablar de un rendimiento anual de aproximadamente 2
t/ha de hoja seca. Una vez cosechada la hoja es secada bajo sol. Aproximadamente
de 250 l b de hoja húmeda salía una carga ( I carga = 100 1b) de hoja seca, lo que
significa una phdida de peso del 60 X .
Entre los problemas más importantes se encuentra la imposibilidad de secar la
hoja cuando no hay sol. Cuando no seca bien la hoja se negrea y los compradores
la rechazan o bajan mucho el precio. Otro problema es que existe temor de que los
funcionarios de narcóticos eliminen nuevamente las plantaciones.
. Al parecer la comercialización no representa mayores problemas al agricultor.
En los lugares de mAs dificil acceso el precio actual por libra es de US$ O. 15 mien-
tras que en regiones más próximas al mercado el precio es de USS0.24. EI precio
de la coca ha estado fluctuandoen los últimos años entre US$ O. 15 y 0.59 por libra.
Se recuerda sin embargo que en 1981/1982 el precio alcanzó un máximo de US$
3/lb, lo cual ha permitido capitalizar súbitamente a muchos agricultores quienes
en muchos casos han cambiado la actividad, por ejemplo, viven en el centro urbano
cercano con algún negocio estabelecido dejando un casero en la parcela.
En cierta forma, la coca es un producto ideal: es susceptible al procesamiento
inicial en finca (el secado); da al productor un valor agregado a su producto prima-
rio, ademss es de bajo volumen (mas fácil de transportar) y se la puede almacenar.
Analizando los costos de producción y márgenes brutos de arroz y coca se ve
que la coca es una alternativa mAs rentable especialmente tomando en cuenta que
es perenne, evitando que hayan costos de establecimiento cada año como en el culti-
vo de arroz (ver Tabla 4). La coca da un margen bruto de unos US$216/ha mien-
tras el margen bruto de una hectárea de arroz (suponiendo que la mano de obra
familiar tiene el valor de un jornal) es negativo. Aparte de su rentabilidad, un culti-
vo como la coca hace más estable y sostenible el sistema de producción evitando
la necesidad de que el colono se vaya de un lugar al otro buscando nuevos bosques
a cortar y quemar. Desde el punto de vista del colono asentado en regiones con mal
acceso, representa la perfecta vía de escape de crisis de barbecho. Además porque
tarda solo un año hasta que produzca (en comparación muchos otros perennes tardan

25 I
Mus. Para. Emilio Gwldi: Cnlec&oFAuardo Grrl~To,I991

3 años o mas) siendo ideal para los colonos sin acceso al crddito, para que pueden
capitalizarse y entrar a la ganadería como un resultado del ahorro que el cultivo
de la coca les da.

3.6. Implicaciones para el Trabajo del CIAT

El sondeo en Río Bajo mostró que los sistemas agropecuarios en cada zona’de
colonización tienen sus propias características y dinámica. En la zona de coloniza-
ción se precisa m8s análisis en la identificación de sub-áreas, cuellos de botella y
dominios de recomendación para poder planificar y orientar investigación dirigidas
más hacia las necesidades de diferentes regiones.
Como recomendaciones específicas que salieron del sondeo para investigacidn
en Río Bajo se concluyó que el arroz seguirá siendo un cultivo importante para el
consumo pero con la tendencia a disminuir en importancia como cultivo comercial.
Para el arroz y otros cultivos anuales se deberla tratar de mejorar o reemplazar el
barbecho de bosque con la introducción de rotación de cultivos anuales con cobertu-
ra de leguminosas (Ej: Kudzu), o el intercultivo de cultivos anuales con árboles le-
guminosos, pensando en sistemas apropiados para las laderas. Además se debería
probar sistemas sostenibles de arroz y maíz intercultivo con cultivos perennes (Ej:
Cafd, Macadamia, CayÚ, etc) y arbóreos de múltiple propósito (Ej: frutales, som-
bra, combustible, rompe-vientos, forraje, setos vivos, etc).
Aunque es casi imposible buscar cultivos que compiten directamente com la
coca, el agricultor está interesado en diversificar su producción. CIAT está aprove-
chando este inter& en diversificar para investigar tambidn otras vías de escape de
la “crisis de barbecho”, por ejemplo, el establecimiento de pastos y la cría de gana-
do pequeño (ovino, porcino) por lo cual el agricultor puede autocapitalizarse y criar
ganado mayor; el mejoramiento del barbecho, estableciendo dentro del barbecho
cultivos arbóreos de múltiples usos (ramoneo, frutas, leña, postes, madera, etc);
la implementación de sistemas de cultivo contínuo durante años sucesivos (verano
e invierno).
Es cierto que algunas de estas vías para ser adoptadas por los colonos necesita-
rían un apoyo en t6rminos de asistencia t6cnica, plantines y crkdito para su estable-
cimiento. Tal aspecto tendrá implicaciones para el CIAT como una institución de
investigaci6n, es decir: i Como podría esta institución mejorar sus vínculos y coor-
dinación con otras instituciones trabajando a nivel del campesino en los aspectos
de crddito, extensión y comercialización?

REFERBNCIAS BIBLIOGRAFICAS
BOJANIC, Alan. 1988. Tenencia y uso de la tierra en Sanfa Cruz. (Cedla incidentcle Publicatier, 4).
ESTIMACIdN de la poblaci6n del Departamento de Santa Cruz por Provincias, Canton y localidad.
1988. La Paz, Cordecruz.

252
Bas de escqpe de la crisis del barbecho: un esludio de caso, Sanul Cruz. Bollvia

HILDEBRAND, P. & RUANO, S. 1982. EI sondeo. NicarAgua, ICTA.


HOYOS,F. et. al. 1987, Sondeo de Yapacani Sur: Resultados y recomendaciones para investigocion
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STUTLEY, C. 1982. Un Estudio de los problemas del destronque en el area de colonizacion de Chant!-
Pimi. La Paz, CIATIMBAT.

253
Mus. Pam. Entilio Goeldi: Colrcdo Eduardo Galrdo, 1991

ANEXO 1.
ZONAS AGRO-ECOLOGICAS DEL DEPARTAMENTO DE SANTA CRUZ

Zonn Precipitacidn Suelo y Vegetacidn Agricultura que se Practica

1. Zona Ccntral 1100 mm Suclos livianos a pesa-. Caña azucarcra; cultivos anuales
o Integrada dos Drcnajc impcrfccto. mecanizados, cngordc de ganado
Vegctacidn dcsboscada y Icchcrfid. Granjas de escala pe-
qucña a mcdiana. Poblacidn lo-
cal, nacional y extranjera.

2. Crccicntc Nortc 1000-2500 mm Suclos aluvialcs Bosque Agricultura dc cortc y qucma;


de colonizaci6n subtropical caducifolia (arroz y ma?L). Granjas dc pe-
y hdmcda queña cscala dc colonizadores, I
entrcmcickadas con granjas cmprc-
sarialcs mecanizada-ï (trigo, soya).
Colonizadorcs dcl altiplano y cmi-
grantcs cxtranjcros.

3. Escudo Prc- 1100 mm SUCIOS antiguos, mcta- Ganadcria bovina cxtcnsiva cntrc-
CBmbrico mdrficos, bosque dc ca- mezcladas con agricultura de cor-
ducifolia y pastos natu- te y qucma en pcqucña cscala, prac-
rales ticada por grupos indlgcnas tro-
picalcs.

4. EI Chaco 400-800 mm Vcgctacidn caduci folia Ganadcría cxtcnsiva basada en


y Cordillcra CI ramonco (1 U A por cada 10-15 I
ha). Agricultura dc cortc y quema
en pequeña escala, practicada por
grupos indgcnas tropicales.

5. Vallcs 600- 800 mm Altitud dc 1000-2000m. Granjas de pcqucña escala


Mcsotdrmicos Vegctacidn dc matorralcs blccidas (frutas y vegetales
en faldas de cerros de clima tcmplado, maíz). Sc usa
traccidn animal.

Fuente: propia

254
Was de escape de la crisisdel barkrho: un estudìo de caso, Sonta Cnu,Bolívia

ANEXO 2

COSTOS DE PRODUCCI~NPOR UNA HEDAREA DE COCA: RIO BAJO (uss1987)

Unidad Precio Contidad Valor


Unitario Total
(US$.) (VSJ)

I. INGRESOS
Rendimientoihalaiío Paq. 50 Lb 12.20 80 976.00
(4 cosechas) de hoja seca

II. COSTOS VARIABLES


Mano de obra:
- Aplic. herbicida (4/aiío) Jornal 3.90 8 31.20
- Carpida manual (llaño) Jornal 3.90 20 78.00
- Cosecha (30 Ib hoja s e d
jornal) Jornal 3.90 133 518.70
- secado Jornal 3.90 5 19.0
- Transporte Jornal 3.90 20 78.00
--_-
Total Mano de Obra 186 725.40
Insumos:
- Gramoxone (I .5 Ltlha) Lt 5.85 6 35.10
Total Costo Variable 760.50
III. MARGEN BRUTOlHA 215.50
MARGEN BRUTOlJORNAL 1.16

Fuente: Hoyos et al. 1987.

255
Mus. Para. Eniilio Goeldi: Colqdo Eiluurdo Gahtlo, I991

ANEXO 3

COSTOS DE PRODUCCT~N POR UNA HECTÁREA DE ARROZ EN BARBECHO ( ~ ~ $ 1 9 8 7 )


A: TODO MANO DE OBRA CONTRATADA.
B: CON USO DE JORNALES FAMILIARES

Unidud Precio antidud A B


Uniturio Valor Valor
fus) Totul Total
WS$) (VS8

I.INGRESOS
Rendimiento * * Fanega 20.00 10 200.ooO 200.000
II. COSTOS VARIABLES
Mano de Obra:
- Prep. de terreno Jornal 3.90 15 58.50 27.30*
- Siembra manual Jornal 3.90 4 15.60
- Aplic. herbicidas Jornal 3.90 2 7.80
- Carpida IXUIWdl Jornal 3.90 10 39.00 19.50*
- Aplic. insecticida Jornal 3.90 1 3.90
- Cosecha y Postcosecha Jornal 3.90 24 93.60 93.60*
--__
56 218.40 140.40
Insumos:
- Semilla kg 0.50 40 20.00
- Torddn 2t 1.o0 9 9.00
- Nuvacron 2t 1.o0 9.5 9.50
- Transporte y trilla-
do por fanega fanega 4.00 10 4.00
--_-_-__
TOTAL COSTO VARIABLE 260.40
III. A. MARGEN BRUTOlHA -60.40
MARGEN BRUTOlJORNAL -1.08
B. MARGEN BRUTOlHA +17.60
MARGEN BRUTOlJORNAL t 0.49

Fuente: Davics y Hoyos, 1987.


* 50%de la mano de obra contratada para prcparacidn y la carpida, 100% contratada durante la cosecha.
** 1 fanega = aprox. 176 kg.

256
PARTE IV

CONFLITOS E MUDANçAS RECENTES


NO PROCESSO DE OCUPAÇÁ0
o INTRANSITIVO DA TRANSIÇÁO: o ESTADO,
os CONFLITOS AGRÁRIOS E A VIOLÉNCIA
NA AMAZôNIA (1965 - 1989)
Afiedo Wagrier Benio de Alincida 1

RESUMO -A pai.firde 1970 iiiteiisifica-se a iriterveiiçüodo Estado iio proces-


so de ocipaçdo de iiosas terras - defiiiido conio froriteira em morherito -
ria AniazBiiia brasileira.
As políticas govertiaiiieritaisresultam ein elevados íiidices de coticeiitraçdo
fundidria e rio acirmineiito clos coiiflitos sociais iio campo. A estrutura agrliria
da regido (Par&, Mararihüo, Acre, Muto Grosso) ocuparla por posseiros,
transfoma-se de uni lugar de destitiaçdo ein i~ina&rea de espulsdo.
O estudo baseia-se na aiidlise dos docuineiitos oficiais sobre os coiiflitos
de terra bein coino ?io trabalho de campo do autor na regido. Pretetide ser uma
coiitribitiçdo crítica i3 teoria dos coiiflitos sociais ria froiiteira.

PALAVRAS-CHAVE: Estrutura agrária, Pcqucnos camponcscs, Frontcira, Con-


flitos d c tcrra, Papcl do Estado.

ABSTRACT - Froiii the 1970's oiiwards, air increasing state iiiterveritioii is


observed iii tlteprocess oflaiid occupatiori - ivliicli is defiiied as a inoviiigfioiitier
- iii Brazil's Aniazori regioir.
nie goveniiiieiit policies result iri agrariaii coiiceiitratioii arid getieralized
laiid coiiflicts. nie agrariari structure of region (Pard, Maraiihdo,Acre, Mato
Grosso), which is occuper/ by die mall peasants, wil/ theii l ~ trarisjiiniied
e from
a place of destiiiatioii to a zoiie of evictioii.
l'lie study is based oli the oficial clocuineiitsoli Iaiid conflicts aiidjeld-work
by the author in the region. It's a critical coiitributioii to the tlieoiy of social
coiiflicts iii froiitier.

KEY WORDS. Agrarian structurc, Sinall pcasants, Fronticr, Land conflicts,


Statc participation.

259
Mus. Pflm. Eniilio Gncldi: ColrcnO Ediiflrdo Grrlvno, I991

O descompasso entre a intensificação dos conflitos de terra e o caráter irregular


e desigual da intervenção governamental têm-se constituído num traço marcante da
estrutura agrária da região Amazônica no decorrer das duas Últimas décadas. Pre-
valece neste período uma representação oficial algo tecnocrática dos conflitos, e par-
ticularmente da violência, considerados como fatores inerentes à modernização da
agricultura e ao desenvolvimento das forças produtivas numa região de fronteira
agrícola. Interpreta-se de maneira naturalizada o acirramento das tensões sociais e
dos confrontos num endosso tácito à concentração fundiBria sob o ditame da força
bruta e da coerção. A subjugaçiio, pela violência, de diferentes segmentos campo-
neses denominados regionalmente de posseiros e peGes, e de diversos grupos indi-
genas, não obstante provocar declarações públicas de indignação moral, manifesta-se
implicitamente, nos meandros desta lógica, como um “fato necessário” e peculiar
aos processos econômicos e 2s estruturas políticas de uma situação de fronteira,
delineando-se numa constante observável tanto em períodos explicitamente ditato-
riais (1964-U), quanto em conjunturas definidas como de “transição à democra-
cia” (1985-89). Sem conhecer maiores reversões essa tendência concentracionista,
de certo modo, reproduz, na fronteira, padrões culturais intrínsecos à formação dos
latifúndios, tal como verificada em áreas de colonização antiga. O princípio da su-
bordinação dos camponeses por atos coercitivos e por modalidades diversas de ban-
ditismo e pistolagem mostra-se historicamente coextensivo il consolidação dessa
grande propriedade territorial fundada no acesso aos meios de produção pela des-
truição dos sistemas de apossamento preexistentes e na adoção de mecanismos de
imobilização, como a peonagem da dívida 2, que configuram modalidades extre-
mas de repressão da força de trabalho.
Consoante B. Moore estas formas mais extremadas de agricultura repressiva
podem se constituir em “auxiliares decisivos” (Moore 1966:568) para o desenvol-
vimento do capitalismo na fronteira (Moore 1975: 555-582). A vigência destes me-
canismos imobilizadores, no caso da Amazônia, apresenta-se.ademais articulada com
uma ação geral do Estado que, além de impor medidas rígidas de controle social
a indios e posseiros no acesso formal à terra, faculta vantagens crediticias, incenti-
vos fiscais e concessões de extensas glebas a grupos empresariais pretextando ra-
cionalidade econômica e maior tecnificação. As inovações técnicas decorrentes têm,
entretanto, função nitidamente conservadora porquanto não podem ser dissociadas
do monopólio da terra, dos mecanismos de imobilização e de atos coercitivos como
forma de resolução dos conflitos agrários. A generalização da violência na fronteira
não é, pois, contingente, constituindo-se num dado de estrutura essencial a este tipo
de desenvolvimento capitalista 3. A anuência a esta assertiva permite que se fale
numa “modernização de caráter autoritário”, que inova conservando, como pres-
suposto para uma reflexão sobre a ação governamental na Amazônia nas décadas
mencionadas.

Para maiorcs esclarccimcntos sobre as rclaçöcs cntrc cstcs scgmcntos camponcscs c os cmprccndimcn-
tos agropccuários na frontcira, Icia-sc Estcrci (1987).
As rclaçöcs cntrc o sistcma rcprcssor da força dc trabalho c o dcscnvolvimcnto de uma vcrtcntc autori-
tiria do capitalismo na frontcira silo analisadas cm Vclho (1976).

260
Semelhante representação oficial e as práticas administrativas e operacionais
dela derivadas, a despeito de condicionarem o ritmo da intervençãogovernamental,
não se apresentam, todavia, segundo uma regularidade. Conhecem variações entre
1964, quando foi promulgado o Estatuto da Terra (Lei 4.504, de 30 de novembro
de 1964), e 1989, ditadas principalmente pelo grau de mobilização dos campone-
ses, pela reconhecida incapacidade dos Órgãos fundiarios e dos interesses latifun-
diários em assimilar as pressões e demandas geradas por esta mobilização e,
sobretudo, pelas oscilações da prolongada “transição democrática”, que a partir
do tkrmino formal do regime militar, em 15 de março de 1985, instituiu um Plano
Nacional de Reforma Agrária (Dec. n? 91.766 de 10 de outubro de 1985) o qual,
passado o impeto reformista inicial, logo veio a se tomar incicuo.
O surgimento de movimentos sociais no meio rural fora dos marcos tradicio-
nais do controle clientelistico, reivindicando desde 1973 uma execução “ampla e
maciça da reforma agraria”, desorganiza, em certa medida, regras daquela domi-
nação imposta como “natural”. Reconhecendo as mobilizações e o acirramento dos
conflitos agrarios na região Amazônica, a Confederação Nacional dos Trabalhado-
res na Agricultura procede, ainda na ditadura do General Garrastazu Mkdici, B dis-
tinção entre “reforma agraria” e “colonização”, criticando as transfertbcias e
remoções compulsórias de camponeses para “áreas distintas das que habitam” e
reivindicando reforma agrária com a fixação deles nos locais em que t2m morada
...
habitual e cultivam (Congresso 1973: 132) 4. Em maio de 1974 a CONTAG en-
trega um memorial ao General E. Geisel exigindo uma “reforma agrária ampla e
imediata” com a participação direta dos interessados 5 e concomitantemente pro-
cura expandir o sindicalismo na Amazônia.
Numa direçã0 similar as Igrejas da Amazônia Legal reunidas em Goiânia, em
junho de 1975, preocupadas com a disseminação dos conflitos, decidem, com o apoio
da Conferência Nacional dos Bispos, intensificar sua mediação, criando uma “Co-
missão de Terras” com o propósito de “interligar, assessorar e dinamizar” as ati-
vidades de apoio aos movimentos sociais no campo. Foi criada, assim, a Comissão
Pastoral da Terra (CPT) numa imensa região onde a estrutura sindical se revelava
bastante fragil e em condições muito precarias para atender, sobretudo, o segmento
mais expressivo do campesinato na fronteira: os posseiros (Comissão 1983).
As mobilizaçõescamponesas, transcendendo as medidas usuais de controle, lo-
gram, de certo modo, uma reordenação das praticas de latifundiários e de “moder-
nos pecuaristas”, bem como uma revisão de procedimentos administrativos da
burocracia dos Órgãos fundiarios oficiais.
Seringalistas do Acre e do Amazonas, donos de castanhais do Sul do Pará, pe-
cuaristas das ribeiras fdrteis do Baixo Amazonas, da nha de Marajó e da Baixada
Maranhense, madeireiros, mineradores e grupos econômicos do Centro-Sul do país,

Cf. Anais do II Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais. Brasflia, CONTAG, 1973.
Para exp1icaqk.s mais detalhadas consulte-se o Memorial. 1974. Brasilia, CONTAG, 61 p.

261
I991
Mus. Poro. Endio Gncldi: Colrcno Eduardo Gul~*v7o,

responsáveis por centenas de projetos incentivados pela SUDAM, ao se haverem


com problemas agrários têm recorrido, invariavelmente, qualquer que seja a con-
juntura, à resposta tradicional do latifúndio, qual seja, atos de truculência. Criticam
a morosidade da justiça nos litígios dominiais e na busca do que intitulam de “solu-
ção imediata” decidem pelo manejo de instrumentos de força. A celeridade da reso-
lução que objetivam pressupõe, no mais das vezes, a “eficiência” pela utilização
da força, mesmo que violando dispositivos legais. Tal resposta, entretanto, está sendo
levada a extremos no Último lustro, ultrapassando limites considerados toleráveis
e vitimando consecutiva e principalmente trabalhadores rurais, indígenas, assesso-
res sindicais e membros das entidades confessionais e de apoio h reforma agrária.
Porquanto parece-lhes ser impossível aumentar a escalada ou sustentar permanente-
mente um tipo de dominação em seus limites extremos, acionando a todo tempo
com intensidade máxima os instrumentos coercitivos, os interesses latifundiários têm
sido impelidos a reverem parcialmente suas formas de organização e seus estratage-
mas. A armação de tocaias e emboscadas contra líderes sindicais, a destruição de
roçados, a queima de casas, os massacres em aldeias indígenas e povoados campo-
neses e a disseminação de armas de fogo como regra geral para resolver qualquer
problema agrário, em mantendo as prerrogativas dos latifundiários, parecem esca-
par do controle destes atores sociais que as impuseram, enfraquecendo, por conse-
guinte, as instituições de dominação e poderio.
Acrescente-se a esta situação limite tensões geradas no interior dos grupos do-
minantes pela emergência de interesses industriais e do capitalismo financeiro, so-
bretudo na região do Programa Grande Carajás. Matizados pelas denominadas
“modernas ideologias políticas”, tímida e cautelosamente, opõem o uso da força
ao desenvolvimento econômico ao se negarem a conceber a violência explícita co-
mo um de seus fatores essenciais. Parecem querer reverter os “auxiliares decisi-
vos” mencionados por Moore ao recusarem os apossamentos ilegítimos e as grilagens,
ao pretenderem a demarcação das áreas indígenas, ao repudiarem as práticas delin-
qüentes de trabalho escravo decorrentes da imobilização da força de trabalho e ao
chamarem a atenção para o valor ecológico da floresta. Preconizam maior raciona-
lidade econômica e uma dinamizaçã0 do mercado de terras (Almeida 1985). Embo-
ra não seja ainda tão elevado esse nível de tensão ele concorre tambCm para abalar
os fundamentos daquele princípio de opressão como instituição “natural e ne-
cessária’ ’.
O propósito maior de uns e outros parece, entretanto, ser o de “re-naturalizar’’
modernamente a dominação “tradicional” neutralizando instrumentos de ação fun-
diária previstos em diplomas legais, que asseguram os direitos de posse e que
concemem a desapropriação por interesse social. Em outros termos esta aludida tensão
implica um desdobramento dos antagonismos deslocando-os para as instâncias do
judiciário, sobretudo através das chamadas açöes de reintegração de posse (que se
multiplicam a partir do final dos anos 70 e que ainda hoje assinalam grandes despe-
jos), e para o exercício de pressões constantes sobre o legislativo, que se tornam
regra de atuação dos interesses latifundiários, notadamente a partir de 1986 e dos
trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte. Um nível de legalização do que já

262
foi “natural” e que não exigia legitimidade para ser imposto, C o que objetivam.
A tensão entre o esforço para traduzir seus interesses numa forma legal e a recor-
rência de atos coercitivos para solucionar antagonismos revela as dificuldades in-
trínsecas às estratdgias diferenciadas dos grupos dominantes.
De igual modo há tensões que permeiam os Órgãos fundiários oficiais, levando-
os a sucessivas revisões em sua intervenção. A explicação senso-comum destas al-
terações alega a “descontinuidade administrativa”. Muitos deles, certamente, têm
existência tão efêmera quanto as políticas que preconizam. Não apenas os de abran-
gência nacional como o IBRA (1966-713, o INCRA (1970-87) e o MEAF (1983-85),
mas tamMm aqueles voltados, precipuamente, para a região Amazônica como a Coor-
denadoria Especial do Araguaia-Tocantins (1976-79), o GETAT (1980-87), o GE-
BAM (1980-86) e a Coordenadoria Especial do Acre (1980-85). Para aldm da inCpcia
operacional, há relações com diferentes grupos sociais na fronteira que têm sido
redefinidas nestas duas ddcadas. Uma delas diz respeito aos poderes locais e sua
capacidade de atuação. Recorde-se que os Órgãos fundiários estaduais, à exceção
do IDAGO que data de meados dos anos 60, foram reativados na Amazônia a partir
de 1978 como parte de uma política de revigoramento do poder regional (Almeida
1980:48) para fazer frente às mobilizações camponesas e à ação das entidades con-
fessionais e de apoio. E estas relações redefinidas, ainda que 21 sombra do poder
central, são coletâneas de modificações na prioridade dos instrumentos de ação fun-
diária dotados, que ora dão ênfase 21 colonização dirigida, ora ao reconhecimento
das “ocupações espontâneas”, ora a colonização privada em regiões determinadas,
como o caso do Norte de Mato Grosso, ora a simples distribuição de terras sem
observância dos módulos rurais definidos por lei, como o GETAT entre 1980 e março
de 1985, ora a arrecadação sumária e a discriminação desvinculadas da colonização.
Tais revisões podem ser situadas num fundo comum de recusa efetiva do instru-
mento de desapropriação por interesse social, de dificuldades no reconhecimento
dos conflitos, acarretando procedimentos de “administração por crise”, e da proe-
minência de quadros militares e de organismos de segurança nacional na orientação
operacional dos 6rgãos fundiArios. Os invariantes ressaltam o caráter autoritário,
quando não colonialista, dos projetos governamentais em curso.

OS CONFLITOS AGRARIOS E OS INSTRUMENTOS DE AÇAO GOVERNA-


MENTAL (1970-1980)

Importa sublinhar, contudo, que os conflitos agrários na região Amazônica pas-


saram a ser formalmente reconhecidos como questão relevante para a intervenção
governamental na segunda metade da ddcada 1970-80. Então, a despeito do vigor
das aç& repressivas, os conflitos ampliavam-se e erigiam obstáculos à implanta-
ção dos projetos agropecuários, madeireiros e de mineração, que ameaçavam o sis-
tema de apossamento preexistente. Os posseiros se batiam pela manutenção de suas
posses, notadamente no Maranhão, no Pará e em Goiás, que congregavam então
113do total nacional de ocupantes que, de acordo com os dados censidrios da FIB-
GE, correspondia, no ano de 1980, a 898.164 posseiros (Almeida 1986). At15 este

263
Mus. Para. Entilio Gocldi: Calrcdo Eduardo Gali.do, 1991

período os órgãos fundiarios só concebiam estas disputas como fatos característicos


do que as forças militares classificavam de “turbulência agrAria”, que deviam ser
reprimidas “energicamente” como o foram as populações camponesas que se loca-
lizavam nas regiões alcançadas pela Guerrilha do Araguaia, entre 1971 e 1974.
Imaginavam que o local geográfico dos conflitos fosse a Região Nordeste e outras
Areas de colonização antiga e que a solução para eles consistia na transferência dos
“excedentes populacionais” para os projetos de colonização oficial na Amazônia.
Os conflitos agrários eram explicados basicamente pela pressão demográfica e pe-
los fatores climáticos (a “seca do Nordeste”), cujos efeitos de acordo com o pensa-
mento tecnocrático poderiam ser atenuados, senão completamente resolvidos, pela
existência de recursos abertos que configuravam uma situação de fronteira. Segun-
do esta concepCão os conflitos eram necessariamente “problemas das regiões de
origem”.
O INCRA havia sido criado sob esta inspiração, consoante o Decreto-Lei n!’
1.I 10, de 9 de julho de 1970, e voltado prioritariamente para a “colonização dirigi-
da”. Os projetos integrados de colonização (PIC), as agrovilas, as agrópolis e ruró-
polis, que compunham tal colonização se revelaram, porém, inadequados e não
lograram êxito. As prioridades de açã0 do INCRA foram definidas visando à im-
plantação de projetos de colonização oficial e particular, ao longo das rodovias Tran-
samazônica e Cuiabá-Santarém, vinculados aos objetivos do PIN e do Proterra. A
ação discriminatória ao longo das rodovias da Amazônia Legal foi planejada no
sentido de disciplinar o “povoamento espontâneo”. Tratava-se de medida comple-
mentar aos projetos de colonização no seu propósito de promover o “povoamento
dirigido”.
Uma vez que a tensão social e os conflitos eram pensados pelos órgãos oficiais
como subproduto de um processo migratório desordenado, à migração eram atri-
buídos aumentos vertiginosos dos lndices de criminalidade e delinqüência na região,
bem como os atos ilegais e as operações fraudulentas que caracterizavam a grilagem.
Declarações do Presidente do INCRA, José Moura Cavalcanti, em outubro de 1972,
associavam a grilagem com um suposto segmento de migrantes:
“O maior problema encontrado pelo INCRA na colonização da Ama-
zônia está na região de Rondônia, onde t maior a emigração com a pre-
sença de aventureiros que estão tuniultuarldo a regularizaç& dos títulos
de terra.” (Moura 1972).
Uma outra região problemática assinalada seria o Maranhão onde a Procurado-
ria Geral do INCRA foi levada a iniciar perante o Juizo Federal daquele Estado
ação de nulidade do registro imobiliário de inúmeras glebas.
Em fevereiro de 1973 o Presidente do INCRA reconhecia a necessidade de gran-
des alterações na estrutura operacional do INCRA em sua ação na Amazônia, onde
estaria havendo um fluxo migratório espontâneo que superava as estimativas oficiais:

264
O Intransitivoda fmnsiçrlo: o &rodo. os conflilos agnfrios e Q viol8ncia naAnmania

“AS famílias saem de todos os Estados e chegam h Amazônia num ritino


bem mais intenso do que nossa capacidade atual para msentd-las. . .
Mas o INCRA montara uma estrutura que atenda este fluxo, pois, esta-
mos recebendo um colono excepcional que, ao se deslocar voluntaria-
mente, jA participou de uma auto-seleção.” (INCRA 1973).

Com respeito a Rondônia, Moura Cavalcanti sublinhou um fato recorrente em


toda a região. Ao visitar o Projeto Sidnei Girão, próximo h fronteira boliviana, de-
parou com:
“( . . .) 100 famílias de paranaenses e nordestinos que jA tinham chega-
do antes da estrada ficar pronta. ” (ibid.).
A chamada ‘ocupação espontânea” não apenas transcendia as suas próprias
ações e lhes impunha seu reconhecimento. O INCRA passava a utilizar os projetos
de assentamento dirigido (PAD), considerados de menor custo operacional e que
se caracterizavam por um loteamento oficial, prevendo-se, no entanto, uma assis-
tência aos colonos atravds de outros Órgãos públicos, que participavam do projeto
mediante convênios. Procurava restringir seu campo de ação aos que jA se encontra-
vam na região. Não mais promovia o transporte de camponeses do Sul do país para
a Amazônia, nem remunerava-os nos seis primeiros meses a título de ajuda de cus-
to. Comwava-se a desacelerar a “colonização dirigida”.
A vido positiva do migrante “auto-selecionado” parece ter sido, entretanto,
circunstancial. Em julho de 1973 o então Presidente do INCRA Walter Costa Porto
sugeria ao Ministro da Agricultura inibir a migração interna e reordenar a ocupação
da Amazônia, privilegiando grandes empreendimentosagropecuários. Segundo sua
formulação os “colonos” continuariam a ser assentados nas Areas pr6-estabelecidas,
enquanto que lotes de 50 mil hectares seriam dispostos 2ì venda, atraindo interesses
empresariais e “vultosos recursos”. Destaque-se que neste mesmo mês o Ministro
do Planejamento, João Paulo dos Reis Veloso, anunciava viagem h Amazônia com
um grupo de grandes empresArios, objetivandoabrir nova etapa para a colonização,
fundada em imóveis com imensos domlnios territoriais6. Segundo sua concepção
esta coalizão de interesses aumentaria o poder do Estado frente 21 ocupação desor-
denada.
Em abril de 1974, o novo Presidente do INCRA, Lourenço Vieira da Silva,
anunciava que a “colonização oficial” seria finalmente “readaptada”. Seu anúncio
ocorreu concomitantementecom a divulgação de um documento da SUDAM, inti-
tulado “Estudos do Plano de Desenvolvimento da Amazônia”, afirmando que com

Neste mesmo d s o INCRA conclula a licitaçä0 prIblica para a aquisiçäo de terras no Estado do Pad
e no TerriMrio de Rondbnia anunciando oficialmente que 430 pessoas foram consideradas legalmente
aptas para ocuparem lotes de 2 a 3 mil hectares nas glebas Anapu, Aratu e Uruad. Ainda neste d s
abria-se nova eoncorrhcia para aquisição de propriedades na Amazbnia, a ser julgada em 15 de outu-
bro, quando seriam oferecidos mais de 2 milh6es de hectares a pessoas fisicas ou juridicas interessadas.
Para maiores dados consulte-se Reis Veloso (1973).

265
Mus. Porn. Eniílio Gnelli: Colrqno Ellucrrdo GUIWZQ,I991

os fluxos de migração espontdnea superando a capacidade controladora do INCRA


tinha-se uma transplantação para a Amazônia dos conflitos e problemas agrários do
Nordeste. Admitia que institucionalmente era impossível se proibir ou reprimir os
deslocamentos e sugeria critérios rigorosos de seleçã0 de “colonos”. Defendia tam-
bém a solução dos problemas agrários nordestinos no próprio Nordeste, sugerindo
que a Amazônia fosse reservada para os grandes projetos.
A proposição de reduzir as migrações internas será também endossada pelo Mi-
nistro da Agricultura, Alysson Paulinelli, em conferência pronunciada na Escola
Superior de Guerra em 5 de agosto de 1974. Asseverava da necessidade de se con-
jugar a expansão da fronteira agrícola e a incorporação de regi%s pioneiras ao pro-
cesso produtivo com a inibição das migrações internas que ameaçavam tornar
conflituosa a Amazônia.
Os aparelhos de poder convergem para uma ação fundiária centrada na implan-
tação de grandes empreendimentos agropecuários e logram afastar de vez os setores
da burocracia que ainda acreditavam num processo de ocupação apoiado principal-
mente em pequenos produtores agrícolas.
Diversos projetos de colonização e empreendimentos agropecuários resultaram
numa incidência em áreas indígenas ao suporem estes territórios como “espaços
vazios”. Terras indígenas foram consideradas como terras de domínio público e
dispostas à ocupação, o que gerou grandes entreveros. Os intrusamentos acirraram
antagonismos e criaram áreas críticas de conflito e tensão social. No Acre (Yamina-
wa e Machineri), no Pará (Tenibé, Parakanã), no Maranhão (Guajá, Urubu e Gua-
jajara), em Goiás (Xerente), em Rondônia e Roraima colonos e posseiros foram
assentados em oposição aos grupos indígenas. O agravamento deste quadro em pra-
ticamente toda a Amazônia levou o Presidente do INCRA, Lourenço Vieira da Sil-
va, a uma tentativa malograda de resolução. Em 22 de junho de 1976 instituiu um
Grupo de Trabalho com o objetivo de promover junto à FUNAI estudos atinentes
ao reassentamento dos que estavam ilegalmente localizados em áreas indígenas’.
A questão prossegue, no anos seguintes, sendo formulada nos termos demográ-
ficos de sempre, mas registra-se alteração de Cnfase com relação aos instrumentos
operacionais acionados. O Diretor do Departamento de Projetos e Operações do TN-
CRA, Hélio Palma de Arruda, em agosto de 1977, no seu “Informe à Associação
dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG)” intitulada Os problenzas
jùndi6rios na estratégia do Deseiivolvirnento e da Seguranca, realizado em Brasí-
lia, no Auditório do Tribunal de Contas da União, expunha o seguinte:
“Assim, o problema fundiário da Amazônia, de uma maneira geral se
caracteriza pela necessidade de discriminação das terras devolutas nela

A FUNAI, pcla Portaria n!’ 754/P/1976 tambdm criou um Grupo de Trabalho para atuar em conjunto
com o INCRA. Esta iniciativa tambdm nIo obtcvc exit0 cos seus resultados foram reunidos na scguin-
te publicação: INCRA (1978).

266
O Intrmilivo da transiplo: o Estado. os conJlitos agrbrios e a viol&nciana Amazbnia

existentes, para que possam ser levados para IA os grandes contingentes


humanos do Brasil, que necessitam de terra boa e barata.” (Arruda
1977: 15).
Neste momento o instrumento de discriminação ainda era apresentadocomo as-
sociado B colonização. PorCm, desde que não podiam mais ignorar que as zonas
de tensão e conflito se multiplicavam em regiijes da própria Amazônia os Órgãos
fundiarios foram compelidos a proceder a novas alterações em sua intervenção. A
pressão demografica diferentemente das primeiras formulações era verificada ago-
ra intemamente à região Amazônica, funcionando como móvel de antagonismos.
Os conflitos estavam sendo reconhecidos nas chamadas “Areas de destino”. Me-
diante acontecimentos desta ordem os órgãos fundiarios recuaram novamente da
colonizaçã@e conferiram prioridade aos trabalhos discriminatórios desvinculados
dos projetos de colonização oficial. Conforme se pode depreender do depoimento
do Diretor do Departamento de Recursos Fundiários do INCRA, Odair Zanatta,
na Comissão Parlamentar de InquCrito sobre a política de incentivos fiscais na Ama-
zônia, publicado em junho de 1980, a questão era disposta da maneira seguinte:
“Em função da situação jurídico-fundiaria, da densidade populacional
e dos conflitos possessórios e dominiais deu-se prioridade à discrimina-
ção de terras nas regiões mais críticas, principalmente aquelas de Mato
Grosso, Sul do Amazonas, Rondônia e Sul do Para ...” (Zanatta
1980: 13).
Como decorrência desta “prioridade”, atd 31 de dezembro de 1984 foram dis-
criminados pelo INCRA, pelo GETAT, pelos Estados e pelo Projeto Nordeste 139
milhões 908 mil 652 hectares. Destaque-se que 82,6% desta Area discriminada o
foram no Acre, Amazonas, Par6 e Rondônia e nos Territórios de Roraima e Ama-
PA. Estas unidades da Federação acrescidas dos Estados de Mato Grosso e Goids
perfazem nada menos de 97,7% de toda a Area discriminada no País (Ribeiro, 1985).
Tal instrumento, ainda que mantido, logo se revelou ineficaz para alterar as chama-
das “distorç6e.s” na estrutura fundisria e permitir um livre acesso à terra. Dirimia
dúvidas dominiais porventura existentes, mas não lograva uma solução para os con-
flitos de manutenção de posse ou de recuperação das posses de onde os trabalhado-
res rurais jA haviam sido anteriormente expulsos e despejados. AlCm disto, a
morosidade das discriminatórias, que permanecem inconclusas após dkada, SÓ con-
tribuiu para agravar conflitos e tensões.
De igual modo resultaram as iniciativas primeiras do Conselho de Segurança
Nacional adotadas em nome de uma “agilização das aç&s fundiárias”. Em 1976,
atravds das Exposições de Motivos 005 e 006, o Conselho de Segurança Nacional
defendeu que a União reconhecesse “títulos de propriedade irregularmente transcritos

Segundo dados coletados no TNCRA em 1985, tcm-se que no perlodo de 1970 a 1984 foram criados
64 projetos de colonizaçäo oficial, cobrindo uma superficie superior a 12 milhões de hectares e pro-
porcionando o assentamentode 86.503 famflias das quais 65.435 na Amaz6nia (Acre, Amazonas, Pa-
ri, Rondbnia e Roraima).

267
no registro de imóvel”. Em decorrência introduzia-se no mercado de terras imen-
sas extensões territoriais resultado de adulteração de documentos alusivos às cadeias
dominiais e da deformação dos registros em cartório. Ainda que num primeiro mo-
mento houvesse problemas, as operações de mercado, posteriormente, iriam legali-
zando as extensões griladas em sucessivas transaçks de compra e venda. Os litígios
seriam assim absorvidos de forma gradual pelos próprios mecanismos de mercado,
bem como os casos de apossamentos ilegítimos.
A CONTAG se contrapôs a esta representação oficial. Para ela estas medidas
constituíram um estimulo sem precedentes à grilagem e às violências cometidas contra
os posseiros:
“(. . .) considerando, em evidente prejuízo, dez anos de ocupação, o
que contraria uma longa prática de respeito à posse de ano e dia, emba-
sada na legislação vigente e reconhecida pelo INCRA” (CONTAG
1981: 12).
Quando elaboradas estas Exposições de Motivos o CSN já acumulava alguns
conhecimentos impressionísticosa partir de acompanhamento de situações de conflifo.
Na condição de “observadores” seus quadros militares e especializados desenvol-
viam verificações in loco tanto no Maranhão e no Pará, quanto no Acre.
Em julho de 1974 o Coronel Venceslau Braga, da SG-CSN, foi enviado ao Acre
para examinar os conflitos que envolviam os seringueiros e os grupos de pecuaris-
tas do Centro-Sul do país que haviam se deslocado para a região, implantando pro-
jetos agropecuários a partir da desagregação da empresa seringalista. O nível de
tensão nos seringais forçava milhares de seringueiros a se deslocarem para territó-
rio boliviano. De maneira concomitante o processo de ocupação espontânea na re-
giäo intensificava-se a partir da frente camponesa que avançava de Rondônia.
Em agosto esta verificação se ampliava com a presença na área de um grupo
de trabalho interministerial objetivando medidas emergenciais, tal como o registra
o artigo “Governo estuda situação de migrantes desabrigados e sem alimentos na
Amazônia”, senão vejamos:
“O governo está procurando resolver a situação em que se encontram milhares
de pessoas na Amazônia, principalmente no Estudo do Acre, todas elas completa-
mente abandonadas, sem abrigo e sem alimento, aglomeradas em regiões que acre-
ditavam viessem a ser um novo Eldorado. (. .) .
Um grupo formado de representantes dos Ministérios da Justiça, do Planeja-
mento, da Agricultura e do Interior, com a assistência de um observador do Conse-
lho de Segurança Nacional, está encarregado de elaborar as medidas necessárias
para que estas familias possam conseguir meios de se manter na Amazônia ou de
regressar aos seus Estados. No Acre, o problema C mais grave. O Ministério da
Justiça teme que estes aglomerados, pelas próprias dificuldades em que se encon-
tram, venham a se tornar púlos de ailinento de criminalidade, razão pela qual as
autoridades federais estão assistindo diretamente a todos, mantendo até agora um

268
O Intransitiw do imnsiçdo: o Es&, os conflios agnlnos c a viokncÌa na Amazbnia

controle da situação com a assisdncia do Exército, cujos homens têm fornecidobar-


racas para abrigo e alimentação.”(Jornal do Brasil, 9 de agosto de 1974).
O acompanhamento de situaçks de conflitos e tensão social no Acre, no Mara-
nhão e no Pard, sobretudo com as experiências na repressão ao movimento guerri-
lheiro do Araguaia, entre 1971 e 1974, funcionou como uma esgcie de ensaio e
de teste para as medidas que o governo militar viria a tomar, posteriormente, face
hs questks agrdrias na Amazônia.
As demais medidas oficiais quanto aos conflitos mantiveram-se, entretanto, ads-
tritas ao circunstancial e ao epis&io, não havendo referências nem prop6sitos de
modificações profundas na estrutura agr&ia, conforme reivindicavam os trabalha-
dores rurais, principalmente a partir de seu IIICongresso Nacional realizado em
maio de 1979.

OS DESDOBRAMENTOS DA AÇÃO FUNDIÁRIA OFICIAL: A MILITARIZA-


ÇÃO DO CONTROLE SOBRE OS CONFLTTOS (1980-1985)

Mecanismos de ajustes urdidos por planejadores oficiais provocaram revisões


no escopo da ação fundidria, com vistas ao que passaram a denominar de adminis-
tração dos conflitos agrarios na Amazônia, no período autoritário imediatamente
anterior h chamada Nova República. A partir de fevereiro de 1980 o governo mili-
tar do General Figueiredo encetou uma sdrie de medidas, objetivando uma “agili-
zação das questões fundiiirias pendentes”. Criou sucessivamente o GETAT - G r u p
Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins (Decreto-Lei n? 1.767 de 1P de feve-
reiro de 1980), o GEBAM - Grupo Executivo para a Região do Baixo Amazonas
(Decrèto nP 84.516 de 28 de fevereiro de 1980) e a Coordenadoria Especial do Acre.
As ações da denominada “regularização fundidria” concentravam-se pois, em re-
giões amazônicas onde a expansão camponesa com seu movimento de ocupação es-
pondnera suplantava as expectativas oficiais e onde o sistema de apossamento
preexistente, como no caso dos seringueiros, castanheiros e posseiros em regiões
de babaçuais, contrariava, inteiramente, as determinações governamentais acerca
da forma de ocupação das terras. O fluxo destes movimentos e os ininterruptos con-
flitos onde as posses estavam consolidadas colidiam com os ideais de “ocupação
racional” propugnados pela açã0 oficial. Enquanto na lógica da unidade camponesa
a terra se incorporava ao processo produtivo mediante o trabalho familiar, tem-se
que para os grupos econòmicos e projetos incentivados interessava uma visão e uma
relação jurídica e mercantil com ela. Em nome destes Últimos pressupostos d que
os brgäos oficiais começam a falar com freqüência em “invusbo de terras públicas
e particulares” (GETAT 19815) na Amazônia. As condiçks de posseiros e ocu-
pantes passam a ser recobertas pela ilegitimidade atribuída ao invasor. O documen-
to “Estudos sobre o Projeto Carajds” elaborado no âmbito da Secretaria Geral do
Conselho Nacional e do GETAT, datado de Marabd, setembro de 1981, assim ad-
vertia:

269
“. . . já se iniciou e tende a intetisijìcar-sede maneira incontrolivel
a iniiasão desordenada das terras situadas ao longo das vias de acesso
que demandam a Serra dos Carajás e das localizadas na extensa Area
de sua influência. Esta situação se não for prontamente corrigida pode-
rá comprometer irremediavelmente ... os projetos de desenvolvimento
da região.” (CSN-GETAT 19815).
Os critdrios de segurança para tratar os problemas agrários, alegados na cria-
ção do GETAT e do GEBAM, expressariam, nesta ordem, uma dimensão clara-
mente econômica. Afinal tratava de se estender um cordão protetor para as
companhias de colonização particular (entre 1968 e 1984 foram aprovados pelo IN-
CRA 71 projetos de colonização privada, sendo 66 localizados no Mato Grosso,
03 no Maranhão e 02 no Pará), para as centenas de projetos agropecuários, que
usufruem de benefícios fiscais atravds do FINAM (Fundo de Incentivos da Amazô-
nia), assim como para os empreendimentos madeireiros e mineraiss. Sublinhe-se
que o volume de incentivos fiscais concedidos desde 1966 contribui decisivamente
para manter os indices de concentração fundiária na Região Norte. Segundo as esta-
tísticas cadastrais do INCRA, os dados de 1985 (base 1984) assinalam nesta região
69.987 latifúndios, que medem 98,9 milhões de hectares, representando 79,74%
da Região e 16,61% da área cadastrada do País.
Os atos discriminatórios e as arrecadações sumárias perpetrados pelo GETAT
e pelo INCRA constituiriam, em verdade, instrumentos de ação fundiária voltados
para assegurar um certo tipo de desenvolvimentocapitalista que aliás, só pode man-
ter seu processo de reprodução na Amazônia se conseguir neutralizar as ocupações
de posseiros, a demarcação das Breas indígenas e os movimentos de garimpeiros,
coletores de castanha, juteiros e seringueiros que têm resistido à implantação de gran-
des projetos agropecliários e das empresas madeireiras e de extraçã0 mineral (Al-
meida 1980, 1985).
Neste sentido, o jxopósito de “regularização fundiária”, ao visar a uma orde-
nação jurídica para atender fundamentalmente os grupos sociais que mantêm uma
relação mercantil com a terra, foi-se confrontando cada vez mais com os interesses
reais dos movimentos camponeses e indígenas. Os conflitos decorrentes passaram
a ter uma nova dimensão, constituindo-se tamb6m em formas de participação politi-
ca assumidas por camponeses e indígenas para fazer reconhecidos seus direitos de
cidadania. Pelos antagonismos impunham-se como interlocutores legítimos aos or-
ganismos oficiais. Por esta interlocução os conflitos passaram gradativamente a re-
presentar, ainda que de maneira paradoxal, uma modalidade de organização e uma
via para assegurar o acesso às terras disponíveis e o domínio de posses já consolida-
das. Zonas críticas de tensão social at6 então menosprezadas ou ignoradas pelo

-
Segundo rclatdrio da ComissIo dc AvaliaqIo dos Inccntivos Fiscais COMTF, criada cm 1985, em
20 anos foram aprovados 62 I projctos agropccu4rios c industriais do FINAM. Destes, 90 foram can-
celados apcsar da SUDAM somcntc rcalizar f~scali¿aq&sa cada tr& anos coito mescs, com prcjuizos
para a Unitio estimados em 4.552.053.24 ORTN quc nlo foram ressarcidos. Para um aprofundamen-
to, consultc Gasqucs & Yokomizo (1985).

270
O Inimnsiriwda imnsiflo: o Btado, os cmflior agrdrios E a violhia na Anlnzdnia

burscratismo do regime militar passaram a impor seu reconhecimento, Mediante


as mobilizações, os 6rgãos fundiários foram.impelidos a formalizar os registros de
conflitos. Data de 29 de setembro de 1981, Ofício-Circular NP 502do INCRA, que
instituiu o Cadastro de Áreas de Tensão Social. ConcomitantementetamMm foi criado
o Cadastro de Áreas Problemas no âmbito da açã0 do GETAT.
A este tempo a questão dos conflitos já havia se imposto como tema de reflexão
3s instituições militares e aos organismos de segurança. Na única reunião do Conse-
lho de Segurança Nacional de que at6 então participara na qualidade de Ministro
da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel leu para os presentes, em março de 1980, dois docu-
mentos históricos regulando a posse e a aquisição de títulos de propriedade (Castelo
Branco 1980). Em 30 de julho do mesmo ano o Presidente do INCRA, Paulo Yoko-
ta, realizara palestra no Estado-Maior das Forças Armadas enfatizando os problemas
fundiários na Amazônia e no Nordeste (Yokota 1980). No agosto seguinte em con-
ferência aos oficiais desse Estado-Maior, o Governador Antônio Carlos Magalhães,
falara da necessidade de um “pacto social no campo” (Antônio Carlos 1980). Pau-
latinamente os conflitos agrários passaram a ser vistos como matéria de segurança
nacional. Deste modo, para alem das medidas de identificação e mapeamento dos
conflitos inerentes ao cadastramento, o governo do General Figueiredo projetava
uma outra configuração legal relativa 2 competência da questão. Em nome da “agi-
lização” militarizou inteiramente a questão agrária e indígena, subordinando as pers-
pectivas pollticas e a ç k s ao Conselho de Segurança Nacional. Procedeu, em 16 de
agosto de 1982 atravts do Decreto nP 87.457, h instituiÇä0 do Programa Nacional
de Política Fundiária e 3 nomeação do Ministro Extraordinário para Assuntos Fun-
diários ifivestido cumulativamente na função de Secretário-Geral do Conselho de
Segurança Nacional: General Danilo Venturini.
Percebe-se que quanto mais se aproxima a data que fixaram para a “mudan~a
de regime” e para o “inicio da transição democratica com um governo civil”, mais
os militares erigem mecanismos autoritários para o campo e em particular para a
Amazônia. Com estas medidas e aquelas anteriores relativas h criação do GETAT
e do GEBAM deixam transparecer que a democracia não pode vigir no campo e,
principalmente, na fronteira.
Quando daquela decisão que instituiu o MEAF, o instrumento de tributação pro-
gressiva da terra não-cultivada, que fora concebido no governo do General Castelo
Branco para corrigir gradualmente as “distorçöes” na estrutura fundiária, achava-
se relegado.
“Em seu pico, em 1967, quando ainda se preparava o cadastro rural
(o recolhimento do E R ) alcançou 0,36% da receita federal da Uniäo,
percentagem que baixou continuamente, em função da incompetência
ou desidia fiscal, at6 alcançar o nivel ridículo de 0,08% em 1983. Perdeu-
se assim a oportunidade de uma solução gradualista e eficaz para o dra-
ma agrário.” (Campos 1988).

271
Mus. Pam. Eriílìo Gwlrli: ColCCdo Eduardo Galw70. I991

Lamentava-se o Senador Roberto Campos, ex-Ministro do Planejamento do


General Castelo Branco, em artigo publicado na Folha de Sau Paulo, de IO de maio
de 1988, intitulado “Buraco Branco”, em que se apresenta no primeiro parágrafo
como o “principal formulador do Estatuto da Terra de 1964”.
Quanto ao instrumento da desapropriação por interesse social at6 então havia
sido formalmente definido como mero mecanismo auxiliar da “regularização fun-
diária”. O prciprio GETAT nlo havia realizado ab5 fins de 1982 nenhuma açäo des-
te tipo. Preponderavam neste período as chamadas “composições” e “permutas”,
quer dizer, o GETAT promovia a troca de áreas de posse efetivamente ocupadas
por camponeses, mas pretendidas por latifundiários e/ou grandes projetos, por ex-
tensões de terras devolutas com dimensão superior, localizadas, geralmente, no Va-
le do Rio Xingu, realizando assim pequenas remoções e remanejamentos. Para lá
eram deslocadas as famílias de posseiros e imaginava-se que esta região poderia fun-
cionar como “alívio das tensões” nas áreas contíguas aos grandes empreendimen-
tos de extraçã0 mineral do PGC.
Mediante as mobilizações camponesas e as denúncias de violência nos confli-
tos, o MEAF iniciou uni trabalho de investigação das “origens” dos antagonismos
e acenou cQm a possibilidade de desapropriação em situaçks críticas, isto 6, com
grande concentraqão de posseiros, grau elevado de violência e resistência prolonga-
da aos despejos. Os critérios adorados para uma primeira caracterização dos confli-
tos diziam respeito a:
“a) dúvidas quanto à legitimidade do título;
b) litígios entre posseiros em terras devolutas quanto à sua pretensão;
c) propriedades rurais que não cumprem função social;
d) ausências de demarcação de áreas indígenas e de grandes propriedades
com fins extrativos (castanhais e seringais);
e) desrespeito aos direitos de posse anteriores às privatizações;
f) reassentamentos para a implantação de obras públicas (barragens);
g) exigência por parte do posseiro de área superior ao mddulo rural.” (Ventu-
rini 1985:31).
A caracterização adotada pelo MEAF omitia qualquer referência explícitaà vio-
lência nos conflitos, considerando-a de atribuição de outros órgãos. Face às repeti-
das denúncias e exigências de justiça no campo feitas por diferentes entidades tais
como a CONTAG, a CPT, o CIMI e a OAB, relativos aos massacres de populações
indígenas, ao assassinato de mais de 800 trabalhadores rurais e indígenas em confli-
tos agrários’” ocorridos no período de 1970-83 e à impunidade generalizada, o Mi-
nistro do MEAF alegava o seguinte:
“Algumas instituições, com o intuito de mostrar o aumento do número
de conflitos, confundem os problemas de âmbito exclusivamentepolicial
‘O Para outros csclarccimcntosconsultc-sc: Assassinatos no campo: crimne e itnpunidde. 1964-85. Pes-
quisa elaborada por Maria Cristina Vanucchi Leme c Wania Mara de Araújo Pictrafcsa. São Paulo,
Movimento dos Trabalhadores Rurais scm Terra, 1985. 217 p.

272
O Inrrasilivo da rransipa: o Esradn. os confliros agrdnos e a violencia na Amazdnia

inclusive o indice de criminalidade) com o conflito fundiário.” (Ventu-


rini 1985:31).
A separação pretendida entre o “policial” e o “fundiário” tentando evidenciar
que o MEAF cingia-se a aspectos tkcnicos, desdizia a própria idkia de conflito co-
mo magria de segurança nacional e de competência de organismos militares, em
que se baseava a própria autoridade do Ministro.
Um dos desdobramentosda açã0 oficial consistiu na adoçã0 da desapropriqão por
interesse social desvinculada das pollticas de colonizaçãoll, naquelas situações de con-
flito tidas como incontornáveis e classificadas como gerando “graves tensöes sociais”.
Tais atos constituíram, no entanto, uma exceçb. Sua aplicação restringiu-se hquelas
disputas em que os pretensos proprietários não lograram resultado na chamada limpeza
de área e em que o volume da ocupação camponesa tomou inapropriada a medida usual
de remanejamento. Os primeiros im6veis rurais desapropriados pelo GETAT datam
de novembro de 1982, ou seja, quase três meses após a criação do MEAF. Atd feverei-
ro de 1985 foram desapropriados somente O6 imóveis correspondentes a uma área total
de 396.694 ha. Consaante a leitura do quadro abaixo observa-se que atí5 a extiwão
do MEAF nenhuma ação desapropriatória ocorreu M &ea do Maranhão, sob jurisdi-
ção do GETAT e que era uma das zonas mais críticas de conflitos.
GETAT: AREAS DESAPROPRIADAS POR INTERESSE SOCIAL
(NOVEMBRO DE 1982 A FEVEREIRO DE 1985)

Federação
GlebalIm6vel MunicIpio Total
(ha)

Fundaçä0 Brasil Central Xinguara 141.326 - 141.326


Fazenda Tupã Ciretä Rio Maria/Xinguara 34.848 - 34.848
Co16nia Verde Brasileira Santana do A~aguaia 52.316 - 52.316
Fazenda Extrema Itacajd - 159.400 159.400
Fazenda Extrema Norte Naiad - 7.101 7.101
Fazenda SerralGL-J-L22 SItio Novo - 1.703 1.703
I
TOTAL 228.490 168.204 396.694

Entre 1964e 1985 (fevereiro) foram dcsapmpriados 13.6 milhões de hectares no Brasil, dos quais 105
m i l b na Regiäo Norte (AM, AC, PA, RO). Sublinhe-se que o elevado volume de ireas desapropria-
das em 1971, correspondcndo a 6.363.721,65 ha, “esta representado pelas desapropriações do Pougo-
no de Altamira em Iiu@da construçäoda Transamazbnica e das agrovilasda regkW (Yokota 1981:37).
Outras cotas referem-se igualmente aos projetos de colonizaçä0 e apenas 5% delas constituem instru-
mento de resoluçäo de connitos. Pam maiores esclarecimentos consulte-se Yokota (1981).
Para um exame detalhada do quadro demonstrativo das dcsaprOpriaçöcsdcstc mencionado periodo leia
os Atoais do Simpdsio Internacional de Erpen¿ncia Fundidria. Salvador, MEAF, 20 a 24 de agosto
de 1984 (Aphdices) p. 702, 703 e 714 e 715.

273
Mus. Para. Entilio Goeldi: Colqdo Eduardo Galvdo, IÇ91

PNRA: RITO EMERGENCIAL E OBSTACULOS A ÊNFASE NO


INSTRUMENTO DA DESAPROPRIAÇÃO (junho de 1985 a agosto de 1986)

Com a criação do Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrlirio (MI-


RAD), através do Decreto nP 9 I .214 de 30 de abril de 1985, e com as amplas dis-
cussões e debates que antecederam o lançamento da Proposta ao Plano Nacional
de Reforma Agrária (PPNRA), fato ocorrido no IV Congresso Nacional dos Traba-
lhadores Rurais, em 25 de maio de 198512, sinalizava-se para os movimentos cam-
poneses e para os grupos indígenas que uma parte essencial das obrigações do Estado,
na chamada Nova República, consistiria na resolução dos antagonismos na área ru-
ral através, sobretudo, de modificações na estrutura agrária. Os pronunciamentos
oficiais passaram a falar da reforma agrária como uma “dívida social” e da inocui-
dade da ação fundiária no período ditatorial, apresentando uma nova hierarquização
dos instrumentos com Cnfase na desapropriação por interesse social em detrimento
da colonização, da tributação e das aquisições com recursos do PROTERRA.
Abertos os, arquivos com documentação alusiva aos conflitos verificou-se que
o Cadastro de Areas de Tensiío Social do INCRA indicava para a região Amazônica
somente 154 imóveis conflitados corresponPendo a uma área de 3.043.063 ha e en-
volvendo 38.655 famílias. O Cadastro de Areas Problemas do GETAT não permi-
tiu de imediato a composição de um quadro demonstrativo. Em junho de 1985 o
MIRAD constituiu uma Comissão para proceder ao levantamento de dados sobre
os conflitos nesta área. Agregando os dados do GETAT a informações diversas co-
letadas tal levantamento arrolou 125 situações de conflito envolvendo 13.133 famí-
lias e 1.598.227 ha13.
Os pressupostos que tradicionalmente orientavam o MEAF na conceituação e
classificação dos conflitos incidiam sempre em torno do que intitulavam comumen-
te de “pendências”. As estatísticas e bases cartográficas produzidas no âmbito do
INCRA, que sempre circularam de maneira restrita e baixo o carimbo de “reserva-
do” ou “confidencial”, aludem 2s áreas de tensão social como compreendendo,
principalmente, os denominados “litígios dominais” com ações que tramitam no
judiciário. O GETAT considerava, de acordo com o relatório elaborado pela men-
cionada Comissão, que os conflitos localizados em áreas tituladas não eram de com-
petência dos Órgãos fundiários e sim da Justiça. A noção de “área problema” para
o GETAT abrange os casos em que o imóvel ocupado pelo interessado não coincide
com a área descrita no título definitivo ou com a materializaçã0 no campo da área
objeto do título, bem como os casos de posseiros com benfeitorias em áreas de grandes
projetos e também as denominadas “invasões de posseiros”.

Este Congrcsso contou com rcprcscntantcs de 2.600 STRs. A cxpansão do sindicalismo na


l2 fronteira
ficou registrada pclos 131 STRs do MaranhIo c os 85 do Pari.
l 3 MIRAD - Estudo de situopIo dus dreus de conflito du regido Arguain-Toccmlins. Brasília, agosto,
1985. p. 2. Rclat6rio elaborado por Comissão constitulda atraves das scguhtcs Portdrias/MIRAD
nP 32 de 4 de junho de 1985; nP 33 de 12 de junho dc 1985 e nP 40 dc 18 dc junho de 1985.

274
Os demais casos inclusos nestes cadastros referem-se a situações emergenciais,
não necessariamente produto de questões judiciais, que tiveram uma repercussão
tal ou um tipo de antagonismo considerado de gravidade, inadiável e, portanto, im-
possível de não ser respondido. Nestas dltimas 6 que com freqiiência sobressaem
atos de violência, constrangimentos físicos e maus-tratos contra trabalhadores ru-
rais. Os dados quantitativos a seguir apresentados foram compostos a partir das fi-
chas que integram os referidos cadastros. As fichas do’INCRA eram regularmente
preenchidas e assinadas pelos Coordenadores Regionais e depois remetidas 2i Dire-
toria de Recursos Fundiários (INCRA-Brasília). Os dados obtidos se referem ao que
denominavam de “focos de tensão social”. Considerando-se o ritmo dos encami-
nhamentos e as providências adotadas eram subdivididos do seguinte modo: “focos
solucionados” atravks de discriminatória, aquisição e desapropriação;e “focos pen-
dentes”. Quanto 21 sistemática instituída para avaliar, decidir e aplicar as medidas
nas situações emergenciais, tem-se que era baseada na experiência dos burocratas
militares e nas regras impostas informalmente pelos chamados “bombeiros”, que
se deslocavam continuamente “apagando os focos de incêndio”. Os conflitos eram
administrados por crise, menosprezando quaisquer possibilidades administrativas de
tornar regular a intervenção dos Órgãos fundiários, (Brasil. Conflitos 1986). Esta
ação episódica explica os dados subestimados acerca dos conflitos, o menosprezo
pelo acompanhamento sistemático dos entreveros e a ausência de documentação de-
talhada que registrasse as várias versões em jogo, (ver tabelas a seguir).

Unidade da Área Total N? de


N? de Imóveis
Federação (ha) Familias
Pará 66 918.075 8.084
Goiás 48 412.967 2.092
Maranhão 12 268.185 2.957
-
Fonte: MIRAD Estudo da situaçb das Breas de conflito da Rcgib Araguaia-Tocantins. BrasKi, agasto
de 1985. p. 26.

Consultando-seas versões originais dos Planos Regionais de Reforma Agrária,


que começaram a ser elaborados dois meses após a montagem dos quadros demons-
trativos baseados nos antigos Cadastros, verifica-se o quanto estavam sendo subes-
timadas as informações sobre os conflitos na Amazônia. Os dados levantadosjunto
a Sindicatos de Trabalhadores Rurais, entidades patronais, entidades confessionais
e associações voluntárias de apoio 2i reforma agrária revelaram números que ultra-
passaram por demais aqueles coletados nos antigos Cadastros. Por outro lado, a qua-
lidade das informaç6es autoriza uma interpretação mais circunstanciada e acurada
de cada situação de conflito.

275
Mus. Para Eniilio Gocldi: Coli2@oEdiiflrdo GnlWo, I991

CONFLITOS DE TERRA NA REGTÃ0 AMAZÔNICA SOB JURTSDTÇÃO DO INCRA

UF NPde Área NP de Focos Penden


Imóveis Total Famílias
(ha)
*MA 78 767.062 23.480 533.250
* PA 11 325.383 2.108 312.844
AM 02 21.051 417
AC 11 459.554 1.936 155.000
RO 07 362.241 2.023 288.500 4%
MT 38 983.069 7.997 2.855 16
*GO 07 124.703 694 90.243 210
* Nio inclui GETAT.
Fontc: INCRA, Cadastro dc Arcas dc Tcnsb Social / maio 1985. Cf. (Of.Circ. INCRAlnP 502 dc
29.08.81).

Registre-se que a partir destas versões para apenas O4 Unidades da Federação


da região Amazônica, isto C, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Rondônia foram le-
vantadas 371 situações de conflito, correspondendo a uma área de 5.666.430 ha e
envolvendo 82.447 famílias. A diferença entre estes dados e aqueles dos Cadastros
só não C maior porque não foi possível consultar as versões concernentes aos de-
mais Estados. Ressalte-se que estas versões originais dos PRRAs tiveram vida efê-
mera e não foram formalizadas. Por imposição do Conselho de Segurança Nacional,
que havia passado a assessorar a Presidência da República, desde que orientou a
elaboração da versão definitiva do Plano Nacional de Reforma Agrária (Decreto
nP 9 I .766 de 10 de outubro de 1985), tais versões foram modificadas e reformula-
das com a subtração de dados concernentes a conflitos em muitas delas. Os textos
publicados no Didrio Oficial da Unicfo, em maio de 1986, aprovando os PRRAs,
não contêm semelhantes dados14 e as publicações levadas a efeito pelo INCRA ou
apresentam total omissão (casos do Acre, de Goiás) ou confirmam apenas os totais
assinalados naquelas versões originais (casos do Pará e de Rondônia) ou apresen-
tam os totais só que segundo uma atualização que aumenta o número de imóveis
arrolados (casos do Mato Grosso e do M maranhão). No PRRA de Mato Grosso
assevera-se que “já estão catalogados mais de 250 conflitos” (p. 7) (Brasil. Plano
Mato Grosso 1986), enquanto que a versão original assinala 144; no PRRA do Ma-
ranhão estima-se “mais de 100 conflitos que envolveram, aproximadamente, 15.000
lavradores, num território estimado em mais de dois milhões de hectares” (p. 8)
(Brasil. Plano Maranhão 1986), superando a versão original em número de confli-
tos e área, mas apresentando um número inferior de famílias.

l4 Para aprofundamcnto dcstas modificaçöcs Icia-se Silva (1987).

276
O Inrmnsirivoda :mnsi@o: o Esrado, os conflios agrdrios e a viofPncia na Anrazbnia

DADOS DE CONFLITOS DE TERRA NOS PRRA DA REGIAO AMAZÔNICA

UF Conflitos Área NP de
NP de NP de NP de (ha) Familias
Municípios Imóveis Conflitos
MA 45 - - 1.260.75 I 28.497
MT 30 144 - - 24.297
PA 29 - 122 1.668.610 21.727
RO - 60 - 2.737.064 7.926

Quanto à caracterização dos imóveis rurais nestas zonas críticas de conflito


verificou-se que em sua quase totalidade são classificados como latifúndio. Em di-
versas situações seus respectivos domínios constituem, em grande parte, resultado
de concessões de grandes extensões de terras públicas a grupos econômicos e de
alienação atravCs de concorrência pública em módulos de 500 a 3.000 ha. Sobres-
saem, neste particular, aqueles imóveis localizados no Sul do Pará e no Oeste do
Maranhão (Ribeiro 1987).
Contrapondo-se h Proposta ao PNRA lançada pelo MIRAD, às suas formula-
ções associando os conflitos de terra ao processo de concentração fundiária e à ado-
ção do instrumento desapropriatório, os interesses latifundiários fizeram-se manifestar
tambdm por dentro dos meandros do aparato de Estado. Segmentos da burocracia
estatal, que haviam conduzido as açöes fundiárias no período ditatorial, foram rea-
cionados. O Conselho de Segurança Nacional, em cuja Secretaria-Geral se haviam
encastelado os quadros especializados em “problemas agrários” (advogados, a g r a
nomos, oficiais militares) oriundos do antigo MEAF, do GETAT, do GEBAM e
da FUNAI, constituiu o lugar institucional de onde comqou a ser urdida uma contra-
estratr5gia conservadora e contraria h Proposta de Reforma Agrária encetada pelo
MIRAD. Posições conflitantes passaram, deste modo, a permear os aparelhos de
poder, revelando as próprias ambigüidades e níveis de contradição dos compromis-
sos políticos que resultaram na chamada “Nova República”. O Estado tomou-se
uma arena de disputas para orientar seu plano de açã0 agrária.
Em agosto de 1985, dois meses após o lançamento da Proposta ao PNRA no
IV Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais, o Conselho de Segurança Nacio-
nal fez circular um documento intitulado “Política Nacional de Desenvolvimento
Rural - PONDERI” colidindo frontalmente com a referida Proposta e com dispo-
sições do Estatuto da Terra. Ato contínuo, o General de Brigada Rubens Bayma
Denys, que acumulava as funções de Ministro-Chefe do Gabinete Militar e de
SecretArio-Geral do Conselho de Segurança Nacional, encaminhou ao Presidente
da República a Exposição de Motivos 021/85. Propunha a criação de um Grupo

277
de Trabalho Interministerial, coordenado pelo CSN, com a finalidade de elaborar
documento concernente 2s ações do governo e aos instrumentos necessários à “Fi-
xação do Homem no Meio Rural”. Para compor tal GTI convocava representantes
dos seguintes ministérios: Justiça, Fazenda, Transportes, Agricultura, Educação,
Comunicações, Interior, Minas e Energia, Indústria e Comércio, Saúde, Trabalho,
Previd&nciae Assistência Social, Reforma e Desenvolvimento Agrário, Desenvol-
vimento Urbano e Meio Ambiente e ainda a Secretaria Especial de Ação Comunitá-
ria e a Secretaria de Planejamento da Presidência da República.
Consoante este documento o CSN reavivava as concepções de conflitos agrá-
rios e distorçöes na estrutura fundiária atreladas à pressão demográfica e às migra-
ções internas. Novamente insistem no problema da distribuição demográfica sobre
o território brasileiro como fator determinante das tensões sociais. As “áreas prio-
ritárias” a serem selecionadas, segundo o documento, deveriam apresentar uma ou
mais das características a seguir:
“atingidas ou propensas ao êxodo do cmnpo;
, com excedentes popiilacionais não utilizados ou subutilizados;
com quadro potencial ou real de agravamento do nível de tensão social por
questões agrárias;
O com vocação agrícola não explorada adequadamente, que assegure ocupaçks
rurais produtivas de baixos custos;
não situadas na sede dos municípios (distritos);
O deficientes de infra-estrutura agrária e situadas en1 noi~asfronteiras agrícolas, su-
jeitas a pressões sociais elou incidência de indesejável retorno da corrente mì-
gratbria”. (Em 021185 p.2) (g.n.)
Com este projeto de “fixaçäo do homem no meio rural” planejavam inverter
a tendência do chamado “êxodo no campo”, orientando os fluxos migratórios a
partir da “criação de pólos de atração agrícola” (ibid.) ou retendo os migrantes
potenciais em suas regiões de origem. Confinando a explicação dos conflitos no âm-
bit0 da demografia erigiam fortes obstáculos h aprovação da Proposta ao PNRA pe-
la Presidência da República, porquanto demonstravam uma suposta inocuidade dos
instrumentos desapropriatórios previstos no Estatuto da Terra. O demografismo de
suas formulaç&s elidia os conflitos ao nível das relações de trabalho e dos proces-
sos reais subjacentes às formas de acesso ao meio de produção básico, a terra. Ima-
ginavam, assim, despolitizar os antagonismos sociais e neutralizar as reivindicações
. dos movimentos camponeses, que então conheciam grau elevado de mobilização.
Esta Exposição de Motivos, por outro lado, abordava questões que seriam de
atribuição do MIRAD e do Ministério da Agricultura. Deslocava competências pa-
ra o âmbito da Secretaria Geral do CSN e lhe conferia autoridade no trato dos pro-
blemas agrários, constituindo numa interferência direta na elaboração da versão
definitiva do PNRA, que se encontrava em curso com inúmeras reformulações im-
postas pela Presidência da República ao MIRAD.
Em 19 de agosto de 1985, o Presidente da República aprovou a mencionada

278
O Iniransiiivoda transiqdo: o Esido. os confliios agrdrios e a b*io&3tciana Amazdnia

Exposição de Motivos. Ao fazê-lo definiu indiretamente a orientação a ser imprimi-


da ao PNRA.
O referido GTI realizou pelo menos três reuniks gerais e seus resultados fo-
ram encaminhados, no início de outubro, b Presidência da República. Em 8 de ou-
tubro o Didrio Oficial da Uni& publicava a Exposição de Motivos nP 501, intitulada
“Política Nacional de Desenvolvimento Rural (PNDR)”, que objetivava estabele-
cer as bases para uma “harmonização” entre a “reforma agrária e a política agrí-
cola”. Tal EM representava um mero desdobramento do PONDERI elaborado em
agosto sob a chancela do CSN. Dentre seus signatários, entretanto, não se incluíam
seus verdadeiros autores. Assinaram-na os Ministros do Planejamento, da Agricul-
tura e da Reforma e do Desenvolvimento Agrário. A omissão dos autores reais evi-
denciava a força interna da Secretaria Geral do CSN, de impor como de outros
ministdrios as suas próprias formulações. Esta definição daquele choque de forças
dentro do Estado assegurava o terreno para a assinatura e promulgação do PNRA,
cuja elaboração fora tambdm balizada e condicionada pelas orientações do CSN (Silva
1987:128-136). Com efeito, dois dias depois, em 10 de outubro de 1985, o Presi-
dente da República assinava o Decreto 9 1.766 instituindo o Plano Nacional de Re-
forma Agrária (1985-1989), após ter recusado onze versões apresentadas pelo
MIRAD, a cada vez que se exigiam modificações, e ter acolhido uma versão intei-
ramente modificada pela sua assessoria direta. Dentre as modificações efetuadas
assinalem-se aquelas que pretendiam neutralizar o instituto da desapropriação por
interesse social para fins de reforma agrária e retirar poderes e competências ao
INCRA e ao MIRAD. No primeiro caso tem-se a ênfase na “negociação”, que se-
gundo modificação enxertada na proposta do MIRAD pela assessoria da Presidên-
cia da República ‘‘6 o primeiro instrumento a ser tentado”. No outro, tem-se que
os planos regionais de reforma agrdria seriam executados somente após a aprova-
ção do Presidente da Repúlica, quando at6 então a competência de aprová-los era
deferida ao próprio INCRA.
Nos termos do Decreto deve-se evitar a desapropriação dos latifúndios, que de-
sempenhem função social da propriedade, mantenham níveis satisfatórios de produ-
tividade, assegurem a conservação dos recursos naturais, etc. Tal dispositivo
contrariava mais uma vez o Estatuto da Terra ao tentar impor a figura controversa
do “latifúndio produtivo”. Aquelas áreas nas quais se constata elevada incidência
de arrendatdrios ou parceiros representavam um dos critdrios para se desapropriar.
O Decreto diz exatamente o inverso. Na prática os contratos agrários passarão a
ser utilizados para evitar a desapropriação, desviando, assim, a reforma agrária de
seu eixo principal.
Num ato de discordincia explícita com tais intervenções indevidas no PNRA
solicitaram demissão imediata o então Presidente do INCRA, Jost Gomes da Silva,
e o Procurador Geral da autarquia, Luiz Edson Fachin.
A este tempo os conflitos agrários haviam assumido uma característica de tra-
g a i a tantas eram as denúncias de arbitrariedades e atos de violência. O Ministdrio
da Justiça estudava a realização das “operações de desarmamento” em zonas críticas

279
Miis. Para. Enrílio Goeldi: Cole~cloEduardo Calvdo. 1991

de tensão social e conflito na Amazania, reeditando um mecanismo acionado em


1982 pelo Governo do General Figueiredo. O Ministério do Exército, embora reco-
nhecendo que tal procedimento C de atribuição da Polícia Federal, colocava-se à
disposição do Presidente da República para agir nestas regiões se necessário.
A aprovação do PNRA foi, portanto, cercada de muitas cautelas que compu-
nham a contra-estratégia latifundiaria e que mantinham ajustados os mecanismos
coercitivos. Assim, um dia após a promulgação do decreto, que instituía o PNRA,
foi oficializada a alteração na estrutura organizacional do Exército. Em 11 de outu-
bro de 1985 foram instituídos os chamados Comandos Militares em substituição aos
denominados Exércitos:
“Com a nova disposição desapareceu o conceito de Exército em tempo
de paz, porque a antiga estrutura leva em consideração apenas os esca-
lões operacionais (divisiÍ0 interna que consistia em: Exército, Divisão,
Brigada, Batalhão, Companhia e Pelotão) quer dizer, mobilizava-se um
Exército e os outros auxiliavam. A transformação em Comandos Mili-
tares (designação mais apropriada) tornou possível, pelo menos
teoricamente, a mobilização de vários comandos, simultaneamente, por-
que até então, o país tinha de mobilizar no miximo dois dos quatro exér-
citos existentes. Isto 6, os outros dois dariam cobertura àqueles
eventualmente mobilizados.” (Miyamoto 1985:391-393).
A relação entre estas alterações organizacionais e as zonas críticas de conflito
e tensão social, envolvendo movimentos camponeses em processo de luta perma-
nente, se fez sentir na delimitação das áreas adstritas aos mencionados Comandos.
Assim, de acordo com Miyamoto 1985:392), teriam ocorrido duas modificações “ex-
tremamente significativas”, a primeira referente à criação do Comando Militar do
Sudeste e a segunda diretamente vinculada aos conflitos agrarios na Amazônia:
“A segunda grande modificação foi excluir do antigo IV Exército o Es-
tado do Maranhão, subordinando-o ao Comando da Amazônia. O que
significa dizer que todos os locaispotenciais de cotifitosfundiários, in-
cluindo aquele Estado, o Pará e o Nordeste de Goiás, ficam sob um
linico Comando, a partir desta refonna, o que agiliia as tonradas de
decisiio. ” (Miyamoto 1985:393
Os três documentos legais aprovados entre 8 e 11de outubro bem complemen-
tam os obst4culos erguidos pela contra-estratégia latifundiária às mobilizações no
campo e às tentativas de realização de uma reforma agrária.

COMISS~ESAGRARIAS: IMOBILISMO E QUEBRA DO RITMO DOS PRO-


CESSOS DESAPROPRIATÓRIOS

As discussões em torno da versão definitiva do PNRA, a morosidade na refor-


mulaçã0 dos PRRAs e a ofensiva dos setores conservadores no campo, notadamen-
te a partir de maio de 1985 com a fundação da União Democratica Ruralista, que

280
sobrepujou as federações patronais com uma milidncia belicista e aguerrida, não
inibiram inicialmente a utilização do instrumento de desapropriação por interesse
social. Um rito de características emergenciaisprevaleceu at6 a criação das Comis-
sões Agrárias em agosto de 1986. Consoante este procedimento, em 25 de outubro
de 1985, foram desapropriadas as primeiras áreas na Amazônia. A partir daí e at6
12 de julho de 1986 foram desapropriados 67.694,23 ha no Maranhão, 67.245,95
ha no Pará, 33.027,93 ha em Rondônia, 65.939,66 ha no Mato Grosso, 56.083,80
ha em Goiás e 2.983,95 ha no Acre. Durante este período os conflitos recrudesce-
ram. Os latifúndiários ampliaram suas milícias privadas e mesmo escudados em man-
dados de reintegração de posse procederam a expulsöes de posseiros, desenvolvendo
uma açã0 de terra arrasada. Povoados camponeses foram inteiramente destruidos,
notadamente no Vale do Mearim (SãoMiguel, Serraria) e do Itapecuru (Palmeira
Torta) no Estado do Maranhão e na região norte do Mato Grosso. Em julho de 1986
numa Informação Tknica ao Ministro do MIRAD, a Coordenadoria de Conflitos
Agrarios do referido minist6rio estimava em 892 as situaç&s de conflito na região
Amazônica, sendo que destas 778 localizavam-se no Mato Grosso, Pará, Maranhão
e Goiás.
DuraRte os meses de junho e julho de 1986 o Mutirão Contra a Violência, orga-
nismo redm-criado pelo MinistCrio da Justiça, coordenado pelo Coronel Curt Pes-
seck recebia um total de 185 denúncias de violência no meio rural:
“O Estado do Maranhão aparece como o mais violento, com 41 queixas
apresentadas, envolvendo assassinatos, despejos violentos, denúncias de
agricultores contra proprietários e destes contra invasores de suas ter-
ras, alCm de acusaçks contra autoridades.” (O Campo... 1986).
Neste mesmo período o Ministdrio da Justiça, atravks do Departamento de Po-
lícia Federal, elaborou um “cadastro das fazendas em conflito e identificação dos
grupos armados”, segundo o Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 5 de junho de
1986 - “Desarmamento Rural Tem Prazo”, compreendendo o Norte de Goi&,
o Oeste do Maranhão e o Sul do Pará. Tratava-se da medida inicial para desenca-
dear uma Operação de Desarmamento, levada a efeito a partir de 10 de junho em
toda a região conhecida como Bico do Papagaio. Mediante protestos do movimento
sindical dos trabalhadores rurais e das entidades confessionais, o MinistCrio da Jus-
tiça assegurava que não se repetiria a operação realizada em 1982, no governo do
General Figueiredo, que se limitou a desarmar os camponeses: “Brossard promete
desarmar fazendeiros tambdm - Exaltado, afirma que não repetirá Abi-Ackel que
em 1982 s6 tirou armas dos posseiros” (Correio Braziliense, Brasília, 4 de junho
de 1986).
Estas zonas críticas de conflito e tensão social já haviam sido objeto de inúme-
ras ações do MIRAD instruindo processos de desapropriação por interesse social
para fins de reforma agrária. A operação do Ministdrio da Justiça, entretanto, não
se realizava em conjunto com o MIRAD, havendo inclusive discordâncias entre os
dois ministdrios quanto ao tratamento da questão. Não obstante, continuavam tra-
mitando no MIRAD aqueles processos referidos e em várias situações ja se havia

28 1
Mus. Para. Entilio Goeldi: Colecilo Eiluurdo Galr*ilo,1991

aplicado o rito emergencia1 com a publicação do decreto desapropriatório. Até en-


tão as situações mais graves assim tratadas referiam-se h Fazenda Capetinga
(Redenção-PA), Fazenda Joncon (Conceição do Araguaia-PA), Fazenda Juarina (Col-
mCia e Couto de Magalhães-GO), dentre outras.
Em julho de 1986 encerra-se o período de aplicação do rito emergencial. A partir
das Comissões Agrárias, que paradoxalmente tinham sido concebidas como meca-
nismos de democratização da reforma agrsria, percebe-se que o MIRAD e o INCRA
não se mostravam mais capazes de gerar iniciativas que rompessem com os imobi-
lismos e com os entraves colocados pela contra-reforma. A inexistência de uma orien-
tação e prioridade, quanto a que imóveis deveriam ser desapropriados levou a que
fossem instruídos processos relativos a imóveis cuja desapropriação só interessava
aos proprietários. Os latifundiários beneficiavam-se, livrando-se de terras de baixa
qualidade, que transferiam aos camponeses vantajosamente através do PNRA. A
chamada “desapropriação amigável” tornou-se freqüente sob uma visão iludida de
conciliar interesses divergentes. Na Amazônia as Comissões Agrárias funcionaram
como fator para esfriar o ritmo imposto ao processo desapropriatório. No decorrer
do ano de 1987, a Comissão do Estado do Pará reuniu-se uma Única vez. Em inÚ-
meras unidades da federação foram arquivados processos considerados prioritários
para os movimentos sociais. Entraves burocráticos de toda a sorte marcaram o fün-
cionamento destas Comissões, que acabaram tendo efeito desmobilizador pela ilu-
são de participação e de igualdade de representação entre os interesses dos camponeses
e aqueles patronais. O MIRAD, por seu turno, abdicou de acionar o rito emergen-
cial, que poderia ter “corrigido” em parte o problema de um direcionamento da
reforma agrária consoante as demandas dos movimentos sociais. Entre agosto de
1986 e maio de 1987 tal rito teria sido acionado apenas por duas vezes nos casos
da Gleba Aymoré (MT) e Castanha1 Araras (PA).
A reivindicação do movimento sindical dos trabalhadores rurais de extinção ime-
diata do GETAT e do GEBAM não foi atendida. Foram mantidos’s sob gestão con-
servadora e sem rupturas maiores com as orientaçks anteriores. A pressão das
mobilizações camponesas nesta região foi muito intensa e logrou algumas desapro-
priações. De 29 de novembro de 1985, data da primeira ocorrida em área do GE-
TAT, até 15 de janeiro de 1987 foram desapropriados 15 latifúndios correspondendo
a uma área de 77.673,57 ha beneficiando a 1.208 familias camponesas.
No mais o total da a‘rea desapropriada pelo MIRAD na Amazônia, após o fim
da aplicação do rito emergencial, encontra sua explicação nas chamadas “desapro-
priações amigáveis” e na conjuntura pré-eleitoral de novembro de 1986. Os com-
promissos políticos na esfera regional, através das comissões agrárias, atuaram como
fator de despolitização da reforma agrária. Privilegiaram os chamados “acordos”
em detrimento das reivindicações sindicais. Os quase hum milhão e quinhentos mil

l5Para um cntcndimcnto desta continuidade aludida, vidc: Pronunciamenfodo Presidente do GETAT


perante a Corni.csdo do Interior da Glinara Federal, Sr. Asdnibal Mendes Bcntes. Brasília, MIRADIGE-
TAT, setembro de 1985. 48 p.

282
O IntrMSitivo do transiç&: o &:ado, os conflitos agrdrios e a vioYnciaMAmazbnia

hectares desapropriados na região Amazanica at6 15 de dezembro de 1987 devem


tamMm ser interpretados tendo-se em conta estas ressalvas.

AMAZÔNIA - QUADRO DEMONSTRATIVO DAS DESAPROPRIAÇ~ES


(15/03/85 - 15/12/87)
--
Capacidade
Unidades da N? de NP de Área! ÁreaTdal(ha) de Assenta- NP de
Federação m Príjecc dos projebs d: mento FmKis
FamBias) deposse Assentament1 Assedamenlo FmKias Assenladas
Rondônia 012 l6I.O7l,5590 3.781 07 06 85,179,2215 1.839
Acre 006 75.68I , I223 1.609 04 o4 68,240,8117 1.482
Amazonas 003 103.545,oooO 1.628 o1 o2 25.275,oooO 320
Pará 026 256.675,5238 3.598 15
08 o8 101.682,4490 2.019
Maranhão 022 307.900,5942 7.763 14 162.143,8175 3.946
Mato Grosso 039 447.901,2419 8.815 18 21 142.%6,7473 2.235
Goi& O25 140.988,2044 2.945 03 10 67.789,3490 1.224
TOTAL 133 11.493.763,3056( 24.139 I 56 65 653.277,396(: 13.065 468
Fonte: Area obtidas para assentamento (INCRAINIBII IPIDPO-I

A PARALISIA DO PROCESSO DESAPROPRIATÓRIO COM A REEDIÇÃO DAS


AQUISIÇ~ES

Com o gradativo enfraquecimento do que seria o instrumento principal da re-


forma agrária e a desativação dos setores mais ágeis da burocracia dos órgãos fun-
diarios, juntamente com as sucessivas modificações na dirqão do MIRAD,
configurou-se um quadro agravador do imobilismo. Privados dos meios elementa-
res de exercer com plenitude sua finalidade precipua, os órgãos fundiários foram
investidos de uma passividade a gosto dos interesses da contra-reforma. As pró-
prias estatísticas e analises acerca dos conflitos e dos homicídios dolosos cometidos
neste periodo e que haviam sido elaboradas em 1985 e 1986 pelos setores compe-
tentes, não foram mais sistematizadas para divulgação ampla. A reedição do caráter
reservado e de circulação restrita dos levantamentos acobertava a incapacidade tk-
nica. As verificaçëes in loco foram igualmente limitadasl6. Com a inercia genera-
lizada passou-se, implicitamente, no caso da Amazônia, a um endosso tácito de formas
de dominação pela força bruta que prosseguiam sendo acionadas por latifundiários
e grileiros, seguros de que nem mesmo as sanções previstas no Estatuto da Terra
seriam aplicadas.
l6 Destaque-se que os homicldios dolosos em conflitos de terra na A d n i a atingiram entre 1985 e
1987 o total de 479 casos. Trata-se de um ndmero subestimado posto que os dados referentes a 1987
são parciais e foram obtidos fundamentalmente a partir de informaçiks de entidades e STRs, enquan-
to que nos dois anos imediatamenteanteriores os dados haviam sido levantados atravh da Coordena-
doria & Conflitos Agr&rios e inelufam dados referentes a pistoleiros e grileiros, porventura, vitimados.
Esta Coordenadoria foi desativada em dezembro de 1986.

283
A extinção do GEBAM (Decreto nP 92.678 de 19 de maio de 1986), e aquela
do GETAT (Decreto-Lei nP 2.328 de 05 de maio de 1987) ocorreram sem provocar
rupturas significativas. A extinção do INCRA (Decreto-Lei nP 2.363 de 21 de outu-
bro de 1987) representou u m novo golpe desfechado contra o instrumento de desa-
propriação por interesse social ao preconizar a inexpropriabilidadede imóveis rurais,
cuja área contínua não exceda a mil e quinhentos hectares, na região de atuação
da SUDAM. Em janeiro de 19S9 ocorreu a extinção formal do MIRAD. Em março
o Congresso Nacional votou a revogação de parte do Decreto n? 2.363 e o INCRA
foi mantido, porém, com sua capacidade de açã0 restringida e novamente subordi-
nado ao Ministério da Agricultura, como durante o regime militar.
A revogação do Decreto nP 1.164 de I P de abril de 1971 ocorreu em 24 de
novembro de 1987 através do Decreto-Lei nP 3.375 e deixou vastas áreas tais como
os Municípios de Itaituba, Altamira e Marabá (PA) provisoriamente sob jurisdição
federal, aguardando manifestação do Ministério do Exército. Consoante os Decre-
tos nP 95.859, de 22 de março de 1988, e nP 97.596, de 30 de março de 1989,
foram consideradas afetas a uso especial do Exército 35 áreas na Amazônia, numa
extensão superior a 6 milhões de hectares. Todas estas redefiniçöes legais pertinen-
tes à Amazônia sem atenderem 2s reivindicações dos movimentos sociais revelaram-se
inócuas e não propiciaram condições factíveis de reverter a tendência anti-reformista.
Ao contrário, acentuaram-na, porquanto permitiram pelo imobilismo consideráveis
avanços dos interesses latifundiririos. Estes se propagaram no judiciirio e nos traba-
lhos da Assembléia Nacional Constituinte. Na primeira situação o MIRAD s Ó lo-
grou obter imissão de posse de pouco mais de um terço daqueles imóveis cujos
decretos foram publicados, na outra os interesses latifundiários conseguiram impor
a noção de “propriedade produtiva” na nova Constituição (art. 185).
Em suma, pode-se asseverar que o golpe de misericórdia no já desacreditado
MIRAD não veio propriamente das decisks da Assembléia Nacional Constituinte
relativas à não desapropriação de terras consideradas “produtivas”, mas sim da ree-
dição dos atos de aquisição. Com o ato de assinatura pelo Ministro do MIRAD no
Estado do Pará, no dia 24 de maio de 1988, das escrituras de compra de terras pú-
blicas aforadas, reeditava-se a aquisição como solução para antagonismos em bene-
fício dos latifundiários foreiros e em detrimento da desapropriação. O MIRAD
adquiriu 56 imóveis rurais, sendo 53 aforados e 03 titulados, localizados no não-
demarcado Polígono dos Castanhais, no Sul do Pará, com uma área correspondente
a 205.303 ha, com 2.670 famílias de posseiros, por um montante equivalente a
404.613 Títulos da Dívida Agrária, resgatáveis em cinco anos, mas com prazo de
carência de dois anos, correspondendo a aproximadamente 2,2 bilhões de
cruzadosl7. Estas áreas, após a referida assinatura, foram repassadas ao governo
estadual e a seu Órgão de terras, o TTERPA, que se incumbiriam do assentamento
dos posseiros. Teria prevalecido, neste ato, a pressão dos donos e dos foreiros que
exploram os castanhais. Queriam se desfazer vantajosamente de algumas áreas, que

l7
Para uma intcrpretaçiio acurada conccrncntc a estas aquisiçõcs pclo MIRAD do dominio Útil dcstcs
castanhais consulte-se Silva 1988:23). 23 p.

284
O Infransifiwda tmnsi@o: o Erfado,os conflfos agrdn'os e a viololencia na A m d n i a

efetivamente já estavam com sua produção controlada pelos posseiros. Assim di-
versas zonas mais críticas do referido Polígono permaneceram excluídas de qual-
quer ação oficial. Numa leitura mais direta pode-se afirmar em consonância com
as prciprias interpretações de Silva (1988:21) que os órgãos fundiários correm o ris-
co de serem convertidos numa agência de corretagem de terras sem apresentar qual-
quer outra medida concreta e deixando interrogações diversas acerca do desfecho
dos conflitos que se mantêm acirrados e sem perspectiva de solução.
Os 3.502.217 ha desapropriados ak? abril de 1989 devem, pois, ser tamMm
lidos com mais uma ressalva, qual seja, a da utilização difusa do instrumento da
aquisiçao de imóveis rurais noladamente nas gestões dos Ministros Jader Barbalho
e Leopoldo Bessone, quando aproximaram de 450.000 ha.

QUADRO DEMONSTRATIVO DAS DESAPROPRIAÇ~ESNA A M A Z ~ N I A


(1985 - ABRIL DE 1989)

Unidade da Áreas Desapropriadas Famílias


Federacão (ha) Assentadas
Acre 211.578 7.056
Amazonas 263.013 2.363
Goifis 125.512 5.002
Maranhão 558.501 12.544
Mato Grosso 698.451 8.362
Pará * 1.O9 1SO4 13.098
Rondônia 453.658 7.984
TOTAL 3S02.2 17 56.409

285
Mus. Pflra. Emilio Goeldi: Colc@o Eduurilo Gulvdo. I991

QUADRO DEMONSTRATIVO DAS DESAPROPRIAÇ~ES NA A M A Z ~ N I A


(1985 - dezembro de 1989)

Unidade da Federação I N? de Imóveij Áreas Desapropriadas


( ha 1
Famílias
Assentadas
ACRE 14 231.678 7.378
AMAZONAS 13 293.596 4.063
TOCANTINS 35 167.313 3.875
MARANHÃO 53 596.506 14.528
MATO GROSSO 50 690.264 9.991
PARÁ * 57 887.985 14.421
ROND~NIA 19 480.411 10.624
TOTAL 24I 3.348.753 I 64.280

A CONTRA-ESTRATÉGIA AUTORITARIA NO CONTROLE DA A M A Z ~ N I A

Uma análise mais detida dos resultados objetivos desta experiência malograda
de reforma agrária, talvez possa vir a sugerir que a chamada “transição democráti-
ca” e, por extensão, as priticas de democracia que asseguram os direitos elementa-
res de cidadania, só tangencialmente chegaram 2 área rural e, com toda certeza,
não chegaram aos camponeses e grupos indígenas da fronteira. As mobilizações so-
ciais se mantêm intensas na Amazônia. A neutralizaçã0 dos instrumentos básicos
de reforma agrária e o esvaziamento do MIRAD deixaram em aberto, como que
vago, um lugar institucional de interlocução. Os interlocutores oficiais, que se dis-
põem nas instâncias de poder, passada a fase transitória de açã0 emergencia1 do MI-
RAD, permanecem sendo os organismos subordinados direta OU indiretamente ao
ex-CSN, agora denominado Secretaria de Assessoramento da Defesa Nacional da
Presidência da República. Reeditaram medidas nos moldes do GETAT e do GE-
BAM com o fortalecimento dos múltiplos Projetos Especiais do Calha Norte, a par-
tir de meados de 1986, e do Programa de Desenvolvimento da Faixa de Fronteira
da Amazônia Ocidental (PROFAO), conforme a Exposição de Motivos nP 002, pu-
blicada no Diririo Ojìcial de 10 de março de 1989. Passaram a coordenar o Progra-
ma Nossa Natureza, lançado em 12 de outubro de 1988, orientando sua Comissão
Executiva e seus grupos de trabalho interministeriais. Indiretamente passaram a tam-
bCm orientar o TBAMA e sua política florestal e de controle dos desmatamentos.
Assessoram as decisões relativas 2 política mineral. A partir de setembro de 1988
com a designação do advogado Iris Pedro para a Presidência da FUNAI lograram
que o dirigente do GETAT durante cinco anos e afinado com seus pressupostos de
ação passasse a conduzir formal e explicitamente a política indigenista. Outra vez,

286
O Intransiliuo da rmnsiçdo: o Esrado. os conflitos agrdrios e a viol8nc.b MAmazdnia

numa moldura diferente, todos os problemas cruciais da Amazônia são alçados 2


condição de magria de “segurança”. A questão ambiental, a mineral, a indígena,
a camponesa e a da própria industrialização da Amazônia tomaram-se explicitaniente
(ou sempre foram mantidas potencialmente, a despeito do tdrmino formal do regi-
me ditatorial) problemas da alçada, direta ou indireta, da burocracia militar e seus
quadros especializados. A administração dos conflitos e tensks sociais acha-se con-
finada nos domínios estreitos desta compethcia. Este parece ser o leito institucio-
na1 em que os conflitos e antagonismos sociais na Amazônia estariam agora se
derramando, debatendo-se tragicamente na ansia de soluç%s democráticas (aparen-
temente cada vez mais longinquas) e não-coercitivas (cada vez mais improvsveis
considerados os indices de violência em conflitos agrários registrados nos dltimos
meses).
Certamente que esta “aparente” hipertrofia não C um dado conjuntura1 ou con-
tingente e traz em seu bojo estratdgias pelas quais aqueles que detêm o poder se
permitem minimizar a tragicidade dos antagonismos ao perseguirem soluções eco-
nômicas, consideradas essenciais e inibidoras de mudanças profundas. A compreensão
de sua logicidade talvez esteja embutida nos esforços de resposta à pergunta: as ins-
tâncias-centralizadoras de poder podem “abrir mão” ou penalizar os mecanismos
de violência e coerção na fronteira sem erigir obstáculos incontornáveis para a re-
produção da vertente autoritária do capitalismo?

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290
MIGRAÇÃO E o MIGRANTE DE ORIGEM
URBANA NA AMAZôNIA
Haroldo da Gania Torres‘

RESUMO - Tentamos mostrar que a niigraçdopara a fronteira ania:Ôrzica irdo


é mais a cldssica inigraçüo rural-rural. Dados de um survey em Machadinho,
Ronrldiiia, iriílicain a iinpotidncia dos jli~rosurbario-rurais e urbano-ur.!?anos,
A hipdtese central P que a fronteira atnazdriica estd-se toniaiido urbana rapi-
dameilte.
PALAVRAS-CHAVE: Amazônia, Migração, Urbanização, Colonização, Fron-
teira, Rondônia.
A B S W CT - We fry s h o that ~ migration to the Amazon frontier is rio Ioriger
classical rural-rural migratioii. Data froin a survey in Machadirilzo - Rotidarzia
irzdicate the sigriijìcance of urban-rural and urbart-urbanmovements. The nlairi
hypotesis is that the Amami frontier is very quickly becoining urban.
KEY WORDS: Amazon, Migration, Urbanization, Colonization, Fronticr,
Rondônia

INTRODUÇÃO

A Fronteira Agrícola tem sido pensada como espaço alternativo para os


“excedentes rurais” gerados nas áreas agrícolas mais antigas. Neste sentido, a
ocupação da Amazônia Ocidental, por um lado, seria fruto do processo de
modernização da agricultura no Centro-Sul do país, em particular do Paraná, enquanto
a ocupação da Amazônia Oriental, do outro lado, receberia população rural expulsa
pela agricultura tradicional do Nordeste.
Esse quadro de migração rural-rural apresenta, no entanto, novidades. Ao lado
dos migrantes de origem e destino rural vão-se constituindo outros fluxos. Ao mesmo
tempo em que a fronteira vai-se tornando cada vez mais urbanizada, os migrantes
de origem urbana, mesmo nas áreas rurais, passam a constituir um número cada
vez mais expressivo. Por isso discutiremos, neste trabalho, o papel da Amazônia

’ Economista. Mcstrc cm Dcmografia do CEPLARIUFMG.

291
Mus. Para. Endio Gocldi: Colccdo Eduardo Gulvdo, I991

como espaço alternativo para os “excedentes simultaneamente urbanos e rurais”


e sua absorção ou não nas áreas urbanas.
Na primeira parte procuraremos marcar a especificidade da relação entre mi-
gração e urbanização na Amazônia a partir de dois elementos: a estrutura fundiária
e a chamada urbanização “provisória”. Na segunda parte deste trabalho, procura-
remos discutir o significado dessa “expulsão” de população urbana para a frontei-
ra, seja mostrando o migrante de origem urbana como elemento de transformação
da própria fronteira, seja discutindo seu significado mais geral.

ESTRUTURA FUNDIARIA E URBANIZAÇÃO DA FRONTEIRA

Boa parte da literatura produzida a propósito da ocupação da Amazônia na dé-


cada de 70 apontava para a contradição colocada pela perspectiva de expansão, no
mesmo espaço geográfico, da pequena produção familiar e de grandes projetos agro-
pecuários. Essa contradição se reproduzia no interior do próprio Estado, dividido
entre implementar alguns projetos de assentamento de migrantes, até ambiciosos,
e o farto apoio oferecido à grande empresa agropecuária, contemplada com genero-
sos incentivos fiscais (Cardoso & Müller 1977; Ianni 1979; Martine 1978).
A literatura apontou o apoio à grande empresa como a política pública hegemô-
nica para a região. O Programa de Integraçã0 Nacional, que pretendia assentar um
milhão de famílias até 1980, foi rapidamente abandonado, vindo a ser considerado
como uma política pouco representativa do conjunto da orientação estatal.
Rondônia viria a se constituir, em bases mais modestas, no principal lugar onde
a pequena produção se podia expandir dentro dos marcos da colonização oficial,
dirigida pela INCRA. Isto teria sido possível devido ao baixo grau de ocupação do
Território, ? disponibilidade
i de terras devolutas e ao maior interesse da empresa
agropecuária nas terras do Sul do Par& mais próximas da rodovia Belém-Brasília,
asfaltada no começo da década de setenta.
Alguns autores procuraram caracterizar essa particularidade da ocupação de Ron-
dônia como uma tentativa de criação, através da colonização dirigida, de “bolsões
de força de trabalho” para a grande empresa rural. Essa abordagem é dotada de
lógica, uma vez que supõe, por raciocínio comparativo, que a grande empresa no
Sul do Pará pôde beneficiar-se de uma oferta relativamente farta de força de traba-
lho proporcionada pela migraçiio de origem nordestina. Há, no entanto, uma obje-
ção substantiva. Muitos dos grandes projetos nem chegaram a produzir, revelando-se
como pouco demandantes de força de trabalho. Daí questionamos, pelo menos de
imediato, a chamada “funcionalidade” da pequena produção familiar enquanto oferta
de força de trabalho para a grande empresa na Amazônia (Hebette 1982; Turchi 1982).

A formaçiïo de uni mercado de terras - o papel do NCRA


As empresas agropecuárias, de fato, não traduziram os incentivos fiscais rece-
bidos em produção agrícola:

292
Migraçdo e o niigranfc de origmn urlnna na Aniazdiiia

“Até setembro de 1985, um total de 674 projetos tinha sido aprovado


pelo sistema de incentivos fiscais da Região Norte (. . .) Destes, 527 -
encontravam-se em fase de “iniplantação”, 94 eram considerados “im-
.
plantados” e 53 haviam sido cancelados (. .) Um terço dos projetos
“implantados” não tinha nenhuma produção e outro terço tinha uma
produção de 9 % do previsto (. . .) Entre os projetos em “implantação”,
apesar de terem se beneficiado, em média, durante 14,2 anos de incen-
tivos fiscais, apenas um dos 26 projetos analisados apresentou volume
de produção e venda considerável. Mais de dois terços não tinham ne-
nhuma realização de produção e venda”’.
No entanto, os incentivos fiscais permitiram a incorporação das terras da Ama-
zônia ao mercado nacional de terras, onde a determinação do preço da terra se dá,
não apenas no processo produtivo (renda capitalizada), mas em conjunto com todos
os ativos financeiros:
“Aparentemente, nessas condições, assistimos a um movimento autô-
nomo do preço da terra erroneamente tratado como puramente especu-
lativo. Paradoxalmente, a renda parece ser “puxada” pelo preço da terra
de tal forma que o preço parece ganhar autonomia incompatível com
sua explicação pela teoria do valor (renda capitalizada). Daí a atração
pela explicaçBo via especulação.
Na verdade, trata-se de um movimento estrutural que se realiza via
especulação. O preço da terra não se move por si próprio. Ele apenas
reflete as condiç6es de movimento do capital no campo, mas as condi-
ções de mobilização do capital-dinheiro via sistema financeiro, que esta
estrutura atribui ao monopólio resultem em reforço da tendência de cres-
cimento da renda” (Silva 1984, citado por Delgado 1985: 204).
Mais do que renda gerada no processo produtivo, o preço da terra na Amazônia
a partir dos incentivos fiscais parece ter sua formação marcada pela diversificação
das aplicações financeiras dos grandes grupos empresariais, que com a aquisição
de terras a preços relativamente baixos, puderam dispor de um volume bastante subs-
tantivo de recursos para o desenvolvimento dos projetos; recursos, como parece ser
o caso, freqüentemente desviados para outras atividades.
Esse processo “artificial” de elevação do preço da terra na Amazônia foi acen-
tuado pela busca, por parte dos grupos empresariais, dos chamados “ganhos de fun-
dador”, originados a partir da incorporação de uma nova área à exploração do capital.
E, por exemplo, o caso das empresas de colonização privada que se antecipam ao
pequeno capital e aos proprietários individuais, colocando-se em posição privilegia-
da para vender-lhes a terra.
. Essa valorização “artificial” da terra não teria sido possível sem uma decisiva
participação do Estado. Consciente ou inconscientemente ele tem concorrido para
a formação e regulaçã0 do mercado de terras na fronteira:

Martinc (1987). Ncstd passagem o autor sc rcfcrc ao trabalho dc Gasqucs & Yokornko 1986.

293
Mus. Para. Emilio Gwldi: Colcplo Ediiurdo &/&-do, I991

“O estudo do processo regulatório do mercado de terras, relativa-


mente ao grande capital, seria fundamental para se compreender a real
dimensão da articulação do capital financeiro com o Estado.. Esse pro-
cesso teria que considerar não o aspecto formal, mas principalmente os
mecanismos reais pelos quais se realizam a adjudicação de terras, esco-
lha de clientes, concessão de incentivos fiscais, processos de licitação
de terras públicas, titulaçã0 privada de terras devolutas ou comunidades
indígenas e a sua conseqüência fatal de expropriação das terras de ín-
dios e posseiros” (Delgado 1985217).
São diversos os órgãos públicos que exercem algum papel neste “processo re-
gulatório”. Evidentemente, os que atuam na área fundiária são da maior impordn-
cia. At6 recentemente, a nível federal, o TNCRA e o GETAT coordenavam a maior
parte das ações do Estado, no âmbito das questões fundiárias na Amazônia. O IN-
CRA vai diminuindo o peso de sua atuação na colonização dirigida que vai, paulati-
namente, perdendo a importância em relação a outras formas mais precárias de
assentamento onde a organização social e produtiva fica a cargo dos próprios assen-
tados, ao contrário da colonização oficial. Trata-se de uma intervenção essencial-
mente cartorial por parte do Estado, que visa simplesmente a legitimar a posse efetiva
da terra. Mesmo em Rondônia, a colonização dirigida vai perdendo sua importân-
cia. Enquanto em 1978, o número de famílias assentadas pela colonização corres-
pondia a 72 % do total de famílias assentadas pelo INCRA em Rondônia, esse número
vai para 46% em 1982 (Tabela 1). Analogamente, no Sul do Pará, o GETAT nunca
chegou a realizar colonização propriamente dita, trabalhando principalmente com
regularização fundiária e arbitragem de conflitos.
A relação entre migração e o mercado de terras apresenta um duplo sentido.
Por um lado, a chegada de migrantes significa a valorização da terra, uma vez que
se cria uma rede urbana, demanda-se infra-estrutura, ocupam-se e desmatam-se ter-
ras, etc. Por outro lado, os migrantes ameaçam a propriedade privada da terra quando
a estrutura fundiária já se encontra previamente definida. Se a migração para essa
“fronteira fechada” permite a valorização das terras, ao mesmo tempo ameaça a
realização de ganhos especulativos por parte daqueles que, através de sua articulação
prévia com o Estado, tiveram acesso a essa terra.
As agências de colonização intervêm seja garantindo que a terra mesmo depois
de invadida possa ser comprada’, seja oferecendo um volume, mesmo que limita-
do, de lotes para o assentamento das famílias “bem comportadas”. Ao mesmo tem-
po em que estimula a chegada de novos migrantes, a colonização arrefece os conflitos.
Os migrantes que não conseguem terras se dirigem para as áreas urbanas da frontei-
ra onde esperam receber um lote.

“O MIRAD comprou por CzS 2 bilhões e 350 milhões, no conflitado sul do Para’, 229.673 hectares.
Situacão jurfdica confusa, infestada de posseiros, com nenhumas ou puquissimas bcnrcitorias, as
terras não valeriam scqucr a metade dos Cz$ 10 mil e Ci$ 14 mil que o MIRAD pagou pc10 hecta-
re.”MatEria publicada no Joma1 do Brasil sob o titulo “Mirad paga Ci$ 2 bilhõcs por castanhais
de latifundia‘rios”. 25/06/88. Vcr, a propdsito do Projcto Tucuml, da Andrade Gutierrez, cm nego-
ciação com O MIRAD, WOOD, C.H. SCHMINK, M. Confestedfmntiersin Ammonia. Universida-
de da F16rida, 1988 (v. prcliminar).

294
Tabela 1 - Estado de Rondônia - 1978/1982. Ndniero de assentamentos por tipo
de projeto efetuado pelo INCRA

I Famílias assentadas
Tipos de projeto até 1978 até 1982
número número
Colonização 16.216 24.870 46,O
Assentamento rápido 16.000 29,7
Regularização fun-
diária
~~ ~~~
6.267 27.9 13.146 24,3
TOTAL (-22.483 100.0 I 54.016 100.0
Fonte: CEPARO. Estmtuia fundiibia dc RondGnh. VerGo prcliminar. Porto Vclho, CEPAIRO, 1984, p. 73.

A urbanixção da frorzteira Anzazôriica


A manutenção do fluxo migratório diante de uma fronteira fechada aponta para
a dificuldade de fixaç50 da população nas Breas rurais. Esse fenômeno 6 agravado
pelo evidente insucesso da colonização dirigidal. Isso vem determinar, no caso da
Anfazônia, a chamada “urbanização da fronteira”, urbanização que não pode ser
pensada independente da estrutura fundiária.
.A urbanização da Amazônia se distingue, em vários sentidos, do contexto geral
da urbanização da fronteira brasileira. A principal característica da urbanização na
Amazônia é a sua transitoriedade:
“As cidades e povoados de “boom” na Amazônia são mais conhecidas
que as cidades “fantasma”, mas estas também existem. Além de Beira-
dão, Ariquemes, Curionópolis, Imperatriz e Barcarena, ex@m tam-
bém Peixe, Sena Madureira, Guajará-Mirim, Cristallindia, Agua Azul,
Manelão, seni falar de outras localidades urbanas que já desapareceram.
O Estado do Pará, por exemplo, possui 14 sedes de distrito, localida-
des, portanto, consideradas urbanas pelo critério do TBGE, com popu-
lação zero” (Sawyer 198753).
A principal dificuldade de pensarmos a urbanização da fronteira reside na exis-
tência de “várias” fronteiras, marcadas por especificidades de ordem natural e so-
cial nem sempre levadas em conta. Circunscrevendo a questão à “fronteira agrícola”,
torna-se fundamental distinguir a fronteira onde existam condições ecnicas e de infra-
estrutura para o avanço da produção em bases capitalistas da fronteira onde tais con-
dições não existam.

Ver MARTINE, op. cit. quc rcscnha survcys realizados em RO. VALE, M.C.F. Ocupac50 rccentc
na Amaz6nia: colonizaçiio da Amaz6nia. Bclo Horizonte, CEDEPLAR, (mimo), 1982. Onde se dis-
cutcm survcys realizados nos PIC Marabd c Altamira.

295
Mus. Para. Eniílio Gocldi: Coli@o Eduurdo Gahlo, 1991

Esse corte se filia B tradição de pensar o atraso relativo da agricultura em rela-


ção à indústria. Na agricultura, a dificuldade de submeter a natureza às necessida-
des de valorização do capital, faria com que a produtividade e a composição orgânica
crescessem mais lentamente do que na indústria (Silva 1981). Se as tecnologias já
desenvolvidas para algumas regiões permitem contornar essas limitações, não exis-
tem, no entanto, tecnologias para todas as regiões. Além do mais, fatores às vezes
negligenciados, como a localização em relação aos mercados e fontes de matérias-
primas e insumos, ou a fertilidade natural do solo, acabam por limitar, brutalmente,
as potencialidades da empresa agrícola capitalista em determinadas regiões.
Assim, na fronteira onde estão dadas as condições tticnico-espaciais para a pro-
dução capitalista (como parece ser o caso dos cerrados brasileiros na década de 80)
a produção tende a se expandir muito rapidamente, inclusive porque não tem que
submeter outras formas de propriedade fundiária, como o latifúndio, por exemplo.
Por outro lado, onde estas condições não estão dadas, a produçio só poderá se de-
senvolver sob bases nio capitalistas5, mais lentamente. Isso não significa que o ca-
pital não esteja presente, seja através da propriedade da terra, seja através de formas
indiretas de dominação da produção como o capital comercial.
Na Região AmazBnica os aspectos naturais (rios altos ou baixos, grandes dis-
tâncias, lixivização do solo, pragas, etc.) são determinantes. Por isso, a produção
agrícola capitalista encontra barreiras formidáveis ao seu desenvolvimento. Nos cer-
rados da Região Centro-Oeste, por outro lado, a agricultura e a urbanização estão
sendo marcadas pela interiorização do “Complexo Agro-indus trial"^. Haveria duas
formas principais para essa urbanização. Por um lado, a urbanizaçiio seria fruto da
criação de uma demanda por trabalho temporário nas fases não modernizadas da
produção, como na colheita por exemplo; estes trabalhadores temporários seriam
sobretudo residentes urbanos. Por outro lado, a urbanização seria fruto da deman-
da, por parte da agricultura moderna, de uma série de novos serviços urbanos como
a distribuição de máquinas, equipamentos, insumos, financiamento, assistência ttic-
nica, etc, além de outros serviços próprios do crescimento e da sofisticação da po-
pulação urbana (Sawyer, op. cit.).
Na Amazônia, a demanda por trabalho temporário e a presença de alguns servi-
ços modernos vinculados à atividade agrícola se referem, principalmente, aos pri-
meiros momentos de incorporação da floresta. As atividades de desmatamento
empregam trabalho temporário, os serviços de distribuição e manutenção de moto-
serras e, sobretudo, as serrarias dão o vigor urbano dos primórdios da ocupação.
Essas atividades procuram se deslocar em função do avanço do desmatamento.
Abandonando a questão específica da fronteira agrícola, 6 preciso notar que na
Amazônia, muitas vezes o garimpo C o responsável pela urbanização. Dificilmente

Formas não capitalistas podcm avançar ncstas rcgiõcs porquc não siio submctidas I s mcsmas condiçöcs
de valorizaçb da atividadc agdcola capitalista, onde a taxa dc lucro proporcionada por invcstimcntos
altcrnativos f a varilivcl fundamcntal na dccisão dc como c onde invcstir.
LAVINAS, L.A agro-urbaniznCiiodli fronteinz. In: LAVINAS, L. (org.). A urkinizcigüo da fronfei-
m. Rio dc Janeiro, PUBLTPUR/UFRJ. 1987.

296
Migra@a e o nrigmnre de origem u r h a na Anlazania

o vigor do crescimento do sul do Pará, por exemplo, poderia ser atribuído à ativida-
de agrícola ali desenvolvida. Várias localidades como Itaituba, Curionópolis, Ouri-
Iândia, Xinguara e mesmo Marabá têm seu crescimento estreitamente vinculado h
mineração de ouro. A mineração 6 importante mesmo para Rondônia, com o garim-
po de ouro no Rio Madeira e a extraçã0 de cassiterita.
Essa atividade, por ser desconcentrada espacialmente (ouro de aluvião, predo-
minantemente) e praticada basicamente por garimpeiros e pequenos empresários de
garimpo que romperam com o monopólio de lavra das grandes mineradoras (Wood
& Schmink, op. cit.), acaba por ter um efeito multiplicador sobre a economia local
muito mais poderoso do que sob uma organização da produção concentrada, meca-
nizada e verticalizada. Pouco se pode esperar, no entanto, do ponto de vista do cres-
cimento uniforme e sustentado da atividade no longo prazo.
São estes alguns dos elementos que contribuem para definir o caráter instável
e transitório da urbanização nessa região. Na medida em que a estrutura fundiária
não mudar e as condições t6cnicas para a produçäo agrícola comercial continuarem
não dadas, o crescimento urbano na Amazônia continuará extremamente dependen-
te da extraçä0 vegetal e mineral e das transferências do Estado.
Há um outro elemento que vem sendo apontado, dentro de uma perspectiva mais
sociológica, como relevante para a formação de uma fronteira urbanizada. São os
novos padrks de consumo da população rural que incorporam uma strie de bens .
industrializados e serviços urbanos (Sawyer, op. cit.). Na verdade, parcelas cres-
centes da população rural brasileira e da fronteira em particular, têm passado por
significativas experiências urbanas, o que tende a alterar suas formas de sociabili-
dade e de consumo.
Alem da urbanização da fronteira, da urbanização da atividade agrícola embu-
tida no conceito de “Complexo Ag?-Industrial”, pode-se dizer que a própria po-
pulação rural está se urbanizando. E o que discutiremos a seguir.

o MIGRANTE DE ORIGEM URBANA NAS AREAS RURAIS DA A M A Z ~ N T A

Muitos dos migrantes na Amazônia (rur?l e urbana) apresentam experiências


urbanas antes de migrarem para a região’. E o que tambtm acontece no Projeto
Machadinho de colonização dirigida, em Rondônia, onde o CEDEPLAR aplicou
834 questionarios em 1987. Em Machadinho, a maior parte dos migrantes apresen-
ta, simultaneamente, experiências urbanas e rurais (Tabela 2).

“No Brasil parcclas n b dcsprczlvcis dc contingentes fixados em Arcas dc frontcira, ja rcsidiram algum
tempo em arca urbana.” (Mougcot 1986:25). Nota-sc que 44%das imigraç& intcrestaduais para
os Estados da Rcgilo Norte tinham como origcm regiões urbanas, scgundo o censo de 1980. Do total
dc imigrantes dc origem urbana, 30%se dirigiram para Arcas rurais, correspondcndo a 23%do total
dc imigrantcs que tivcnm as drcas rurais como dcstino. (Ver IBGE, Censo Dcmogdfico, 1980).

297
Mus. Pam. Eniílio Goflli: Colccdo Eduurdo GaIv&o, 1991

Tabela 2 - Experiência de trabalho e residência dos chefes de domicílio em áreas


urbanas ou rurais antes de Rondônia (%)

Categorias Urbano * Rural *


Trabalhou por mais de um ano. 6090 95,l
Trabalhou no Último ano. 30,8 65,9
Residência por mais de um ano. 66,4 95,7
Residência no Último ano. 36,3 61,9
Fontc: Inqufrito domiciliar dc Machadinho, 1987. CEDEPLARIUFMG
* As rcspostas “urbano” e “rural” s6 são mutuamcntc cxcludcntcs para as informaçiics rcfcrcntcs ao
tíltimo ano. A difcrença cm rclação 1 soma 100 se rcfcrc aos casos sem informação. O númcro de
casos 6 834.

No ano anterior a Rondônia, 31 % dos informantes declararam ter trabalhado


na área urbana. Esse número se eleva para 60% quando perguntados se, em algum
momento de suas vidas, já trabalharam na área urbana por mais de um ano. Ao mesmo
tempo, a quase totalidade dos migrantes (95%) declarou j á ter trabalhado na área
rural por mais de um ano.
Embora exista um núcleo de migrantes com exclusiva experiência rural (40%
nunca trabalhou em cidades, 34% nunca residiu), a maioria parece constituir uma
espkie de categoria “anfíbia”, simultaneamente urbana e rural.
Do conjunto de migrantes que informa ter morado em cidades por mais de um
ano, um grupo muito expressivo declara já ter morado ou trabalhado em grandes
cidades e regiões metropolitanas (Tabela 3).

Tabela 3 - Maior cidade em que o chefe de domiciliojá residiu antes de Machadinho.

Categorias dc cidadc % N? dc casos


Rcgiõcs mctropolitanas (a). 27,6 152
Mais dc 100.000 habitantcs (b). 20,9 115
Dc 50.000 a 1OO.OOO habitantcs (b). 6,s 36
Menos dc 50.000 habitantcs (b). 42,8 236
Scm informacão. 2,2 12
TOTAL “0 551
Fontc: Inqu6rito domiciliar dc Machadinho, 1987. CEDEPLARKJFMG
Notas: (a) As rcgiks mctropolitanas, segundo definição do IBGE,são: BclCm, Bclo Horizontc, Curiti-
ba, Fortaleza, Porto Alcgrc, Rccifc, Rio de Janciro, Sdhador e>io Paulo. (b) Tamanho das cidades
segundo o censo dc 1980.

Quase a metade dos informantes que já residiram em áreas urbanas, trabalha-


ram ou residiram, em algum momento, em cidades com mais de 100.000 habitantes
(inclusive Regiües Metropolitanas). Esse número representa 34% do total de

298
MigraCao e o niigranrc de origeni urbrrna na Aniazbnia

entrevistados. São Paulo, com 84 casos, foi a cidade mais citada, representando 10%
do total de casos e 15%do conjunto dos que informam já ter residido em cidades.
Aparecem com destaque as cidades de Ariquemes, Curitiba e Belo Horizonte, nesta
ordem.
Esses resultados apontam em dois sentidos. Existe um grupo que experimentou
seu processo de urbanização na própria fronteira, com 15%do total de casos (Ari-
quemes, Ji-Paraná, Ouro Preto do Oeste e Porto Velho). Outro grupo teve signifi-
cativa experiência urbana em grandes cidades, principalmente nas maiores cidades
do país.
Além de se constituir espaço alternativo para os “excedentes rurais’’ a frontei-
ra parece se constituir alternativa para o excedente simultaneamente urbano e rural.
Espe