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O fundamento transcendente

Kafka descreve muito bem a sensação de pesadelo que se converte uma existência sem
fundamento, que por isso mesmo acaba também sendo uma existência sem sentido, geradora
dessa angústia existencial que marcou tão profundamente a cultura do século XX: viver seria
atravessar uma ponte fragilíssima no escuro, uma estrutura tão precária e inconsistente sobre o
abismo do nada que o risco de ver-se engolido por ela é máximo e permanente. Esse é o
argumento de duas de suas obras mais conhecidas, O processo e O castelo. O protagonista de O
Castelo, um topógrafo denominado simplesmente K., é destinado a um povoado porque foi
contratado para realizar trabalhos no castelo do conde de Westwest. Ao chegar à aldeia onde,
segundo seus dados, encontra-se o castelo do conde, percebe que nenhum dos habitantes sabe da
existência do tal conde; uns o enviam a outros, numa cadeia interminável. Diante de sua
obstinação por saber, os cidadãos acabam pensando que está louco e não lhe dão nenhuma
atenção. Seus mil esforços para informar-se resultam inúteis. Por fim, aparece um suposto
criado do conde que diz que efetivamente foi admitido como topógrafo do conde, mas que por
infelizmente se trata de um trabalho sem nenhuma obrigação concreta. A angústia de K. cresce
insuportavelmente: em que lugar abominável eu vim parar? Onde estou? Quem manda aqui?
Que sentido têm essas multidões que vêm e vão enormemente atarefadas?
Tudo lhe parece uma infinita cadeia de instâncias: nenhuma é a definitiva. Ninguém sabe dar
razão de sua presença naquele estranho lugar, todos aqueles a quem pergunta lhe remetem a um
outro informante. Não pode ir embora, nem sabe porque esta ali, sozinho no meio de uma
multidão estranha... Não há possibilidade de perder-se, porque tudo está cheio de pessoas e de
informações; porém, na realidade, as informações sobrem: num mundo assim é impossível que
alguém se perca porque simplesmente ninguém vai a algum lugar. Ou, o que é a mesma coisa,
por estranho que pareça: todos, também os tranqüilos e afanosos habitantes do lugar, embora
não o saibam e nem sequer se perguntem, todos estão igualmente perdidos.
Embora a história de Kafka pareça referir-se unicamente ao destino do homem, afeta também à
origem, porque a questão do sentido abarca ao mesmo tempo a origem e o final. Se o homem se
pergunta por seu destino é porque entende que sua origem não é fruto do acaso. Se sua origem
fosse puramente casual, a pergunta acerca do final careceria de fundamento. Ou seja, o homem
encontra a certeza - não psicológica, não puramente desiderativa - de que existe necessariamente
um ser que tenha em si mesmo a razão de sua própria existência e fundamente e ative a minha e
a de todos aqueles seres que não têm em si mesmos a razão de seu próprio existir, uma espécie
de solo existencial que sustente minha existência e evite que se precipite no nada, “uma
existência absoluta e incontestável, completamente livre do nada e da morte” (Maritain), um ser
transcendente e último. O homem intrigado por seu próprio existir encontra esta resposta:
“Alguém, além de mim e por cima de mim, me precede e me sustenta”. Não existe só mundo,
coisas e pessoas; existe algo mais, dificilmente definível com precisão porém apreensível: o
mistério do ser, que tudo penetra e, ao mesmo tempo, tudo transcende, “mistério que o filósofo
denomina o Absoluto e o crente Deus, e do qual nem sequer o que nega ambas denominações é
capaz de prescindir em sua situação” (Buber), o mistério onipresente do Ser que é Deus. E
aparece também simultaneamente a idéia da vida como dom, como algo oferecido
graciosamente, sem mérito nem dívida.
As outras respostas que o homem pode dar a esta questão são insatisfatórias ou insuficientes; em
alguns casos – como no caso do recurso ao acaso, colocado de novo em circulação por Monod-
se trata de respostas que não respondem nada, respostas que não são mais que convites a repetir
a pergunta ou maneiras diversas de dizer “não sei”.