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A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÓNIO COMO MOTOR DE DESENVOLVIMENTO

SUSTENTÁVEL
O desenvolvimento económico das autarquias nos últimos dezasseis anos, aliado às facilidades
proporcionadas pelos programas comunitários, permitiu desenvolver e pôr em prática novos projectos
culturais. Mas também as mudanças nacionais e internacionais operadas nos conceitos de património e
museu originaram inúmeras transformações, assim como a percepção de uma ameaça da perca de
identidade regional originada pela adesão à Comunidade Económica Europeia e pelo fenómeno da
globalização e, previsivelmente, o desaparecimento do mundo rural com a crescente urbanização.
A crescente preocupação pela preservação do património originou um turismo específico que levou ao
nascimento do termo turismo cultural. Termo muito conhecido actualmente e que é a chave para o
desenvolvimento económico e social das chamadas áreas deprimidas, ou seja, cidades, vilas e aldeias
que sofrem do grande mal provocado pela sociedade urbana e cosmopolita dos finais do século XX; o
despovoamento e a consequente perda de identidade cultural.
O conceito de turismo cultural é relativamente vasto e inclui áreas muito diversas, tais como, arte,
arqueologia, etnologia, património monumental e edificado, gastronomia, festas, usos e costumes,
património natural e agrícola, cultura oral, etc. Áreas que têm sido desenvolvidas localmente pelo
poder político na criação de novas ofertas de lazer, como parte integrante de uma política de
desenvolvimento sustentado.
Ditas ofertas de lazer passam, na sua maioria, pela criação de pequenos núcleos museológicos e/ou
museus, pela abertura de uma galeria de exposições temporárias e pela valorização do património
arqueológico e etnográfico com o restauro e abertura ao público de sítios arqueológicos e unidades
etnográficas, tais como, moinhos, lagares, forjas e olarias.
Na implementação de um turismo cultural as visitas a museus, exposições temporárias, sítios
arqueológicos e unidades etnográficas devem ser um complemento ao contacto directo com o meio
ambiente e áreas rurais e com a população local que é a principal detentora dos usos, costumes e
tradições. Este desfrute e conhecimento converteu-se no objectivo mais apreciado pelo turista que
pratica este turismo tão específico e que é atraído por formas de vida, infelizmente, já desaparecidas na
maioria das nossas sociedades, que hoje passaram a ser contempladas com nostalgia e um certo
romantismo fruto das carências que as caracterizam.
Os projectos de cariz cultural devem contemplar à priori vários aspectos de extrema importância, tais
como a contratação de equipas especializadas e interdisciplinares, a investigação sobre a realidade e
envolvente social, cultural e comunitária, a necessidade de articulação entre os diversos projectos, a
definição de objectivos, os custos adicionais de manutenção e o orçamento anual necessário para o seu
pleno funcionamento.
Aos aspectos explanados anteriormente deve-se juntar o mais importante neste tipo de projectos; o
envolvimento directo da população local, detentora do saber fazer e principal gestora e fruidora do seu
património cultural, para que o desenvolvimento que daí advir seja um desenvolvimento sustentável.
Envolver directamente a população local implica a educação da mesma, ou seja, o faze-la perceber que
o conhecimento secular que detêm, o território que usufrui e trabalha, a casa que habita, os utensílios
que utiliza, as datas que festeja são importantes e únicas. Por tudo isso deve sentir orgulho de saber o
que sabe, viver onde vive, fazer o que faz e festejar o que festeja.
O conhecimento profundo das características sociais, culturais e comunitárias de uma dada região em
conjunto com o apoio da população deve contribuir para a utilização e descoberta de novas soluções
com as devidas diferenças locais evitando-se assim situações de repetição de soluções, as quais
imprimem ao visitante uma sensação de dejá vu.
Os museus locais, integrados numa política de implementação e desenvolvimento do turismo cultural,
devem revelar uma adequação funcional e espacial, em articulação com o território onde estão
inseridos e os seus programas museológicos devem contemplar objectivos específicos de utilização e
articulação com património envolvente. Porque um “museu local” é toda a sua envolvente cultural,
social e comunitária e extravasa as portas do edifício para se revelar ao virar da esquina, atrás de cada
postigo e porta entreaberta, nas velas do moinho, nas conversas de poial, nas pedras da calçada, nos
sulcos abertos pelo arado, no deslizar calmo de um barco, no chiar das rodas de uma carroça e nas
prosas das comadres.
Consequentemente, nos últimos tempos desenvolveu-se a nível social uma crescente preocupação pela
preservação do nosso património cultural e a tentativa de colmatar as necessidades e deficiências locais
neste campo converteu-se numa obrigação quotidiana e numa orientação política para os nossos
autarcas.
Actualmente, as autarquias de interior apostam na conservação do seu património cultural para
desenvolverem uma actividade turística de cariz mais cultural, em alternativa às inúmeras atracções do
litoral. Porque, muitas vezes é o único recurso de que dispõem para sobreviver.
Uma das primeiras autarquias a orientar a sua actividade para a preservação do património cultural e
que, actualmente, é um exemplo nacional e reconhecido internacionalmente como um caso modelar de
desenvolvimento sustentável é a vila de Mértola.
Mértola é uma pequena vila do Baixo Alentejo outrora com uma importância crucial devido ao
Guadiana e mais recentemente, entre 1857 e 1965, devido à mina de S. Domingos. Quando Cláudio
Torres a visita em 1978 estava parada no tempo, era uma vila esquecida, miserável onde ninguém
queria ficar e todos se iam embora.
Esta visita e as acções que desencadeou deram origem a um projecto ligado, exclusivamente e desde o
início à arqueologia. Foi um projecto construído no terreno diariamente e com uma componente
didáctica muito forte devido ao facto de que Cláudio Torres leccionava as aulas, na Universidade de
Lisboa, sob a prática das escavações que durante as férias efectuava em Mértola, com equipas
constituídas basicamente pelos seus alunos. Consequentemente, é um projecto que surge lentamente ao
longo dos primeiros anos, que foi englobando outras áreas e componentes culturais que enriqueceram
o próprio projecto.
De salientar que segundo palavras do próprio Cláudio Torres este foi desde o embrião um “projecto
político, político … Puramente político que era encontrar na base um ponto de apoio para aquilo que
já o Alentejo tinha nessa altura,…uma aprendizagem de uma certa dignidade, de um mundo camponês
digno, … que tinha consciência da sua força…”[1], influenciado pelo “percurso e formação humana,
intelectual, ideológica e profissional”[2] dos seus principais protagonistas, Serrão Martins e Cláudio
Torres.
Com um poder local fortemente enraizado foram desenvolvidos projectos gerais de revitalização
económica como forma de desenvolver a economia e redignificar a população local, com a certeza de
que tinha que haver uma componente cultural muito forte.
O património não podia ser encarado apenas do ponto de vista científico, nem como mero recurso
económico do qual interessava tirar o máximo proveito num curto espaço de tempo, mas sim como o
trampolim que podia promover um desenvolvimento cultural e social, com reflexos a médio e longo
prazo no tecido económico do concelho. Cláudio Torres afirma que “…ao revalorizá-lo (o
património), nós estamos a tocar na alma de uma comunidade e estamos a tocar profundamente e de
forma indelével,…, aquilo que no fim de contas as pessoas sentem que é seu, e é seu desde sempre
porque o monumento é uma espécie de antepassado da comunidade, faz parte de todos os seus pais e
avós e bisavós, faz parte da sua própria forma de ser, e isso é tão poderoso, tão forte, que quem mexer
bem… nesse monumento, ganha essa comunidade, por um lado, e por outro é muitas vezes esse
mesmo monumento que se for bem utilizado pela comunidade pode ser a sua principal arma de defesa
contra a alienação…”[3]
Em simultâneo com as escavações arqueológicas foi efectuado um levantamento bibliográfico
referente ao Castelo e ao concelho de Mértola e uma recolha de informações junto dos habitantes,
mantendo-os informados das intenções e projectos que se iriam desenvolverem. Estas duas linhas de
acção, desenvolvidas simultaneamente, complementavam-se e integravam-se num plano conjunto de
viabilidade económica e social cujo pólo dinamizador era a autarquia, na pessoa do seu presidente
Serrão Martins empenhado em arrancar a vila e o concelho de Mértola da “letargia de séculos”[4] e
em devolver-lhes a importância de outrora.
De acordo com o exposto, o projecto ideológico de Mértola integrava três linhas de acção:
Ø Os materiais provenientes das escavações ficavam em Mértola;
Ø As pessoas autóctones recebiam formação profissional nas áreas que se pretendiam desenvolver;
Ø A divulgação seria feita em duas frentes, uma para o público em geral com a exposição local dos
materiais exumados, outra para os especialistas com a divulgação e publicação dos resultados da
investigação desenvolvida.
Para o desenvolvimento sistemático e contínuo do projecto foi criada a A.D.E.P.M., em Dezembro de
1980, com o objectivo de proceder à investigação, inventariação, protecção e divulgação do património
do concelho, a qual integrava a secção C.A.M. . Com o progresso destas acções e da integração directa
e indirecta dos munícipes no projecto, as áreas de trabalho foram-se avolumando o que originou uma
fase de especialização, ao nível das áreas de intervenção e à predominância do campo geográfico,
dentro do concelho de Mértola. O C.A.M. centrou a sua actividade na vila de Mértola, suporte da sua
intervenção histórica, arqueológica e museográfica, e a A.D.P.M., com uma estratégia de intervenção
fundamentada nas preocupações ambientais, culturais e de desenvolvimento económico e social do
território, fixou a sua actividade na restante área do concelho.
O desenvolvimento das áreas de trabalho, a evolução do conceito de património e a divulgação[5] do
trabalho que se estava a fazer em Mértola culminou na divisão do projecto em subprojectos, que criou
novas dinâmicas. Como conceito pode dizer-se que o projecto é um projecto integrado, como
posteriormente foi denominado “Projecto de Mértola” ou “Projecto Integrado de Mértola”, o mais
interessante e o mais antigo ainda a evoluir e a desenvolver a sua actividade. Não existe em Portugal
nenhum que se lhe compare, principalmente porque conta com 26 anos de existência e com uma
continuidade muito forte de um dos protagonistas[6].
Porque não chega abrir um museu, recuperar um moinho, uma adega, um lagar de varas ou restaurar
dois ou três sítios arqueológico de interesse indiscutível, se a população não for envolvida, se os
projectos não se articularem e não tiverem viabilidade económica e social, se não se desenvolver uma
política de divulgação, gestão e oferta turística comuns