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COMO
ARQUITETOS E
DESIGNERS
PENSAM

Bryan Lawson

Tradução I Maria Beatriz Medina

, I
Para Rosie
Prefácio

Neste momento, este livro tem uma história longa demais para
o meu gosto. É assustador pensar que a primeira edição foi
publicada há quase um quarto de século. Desde então não saiu
de catálogo e muitos tiveram a gentileza de me dizer que o livro
lhes foi útil nos estudos, na pesquisa ou no desenvolvimento do
seu processo de projeto. Nem é preciso dizer que muitos outros
foram bem mais críticos em relação a algumas ideias, e que a
maioria dos seus argumentos foi levada em conta conforme o
livro progrediu nas edições anteriores a esta, que é a quarta.
A princípio, este livro não pretendia ser normativo, e con-
tinua assim. Ele é uma tentativa de reunir boa parte do que
sei sobre projetar. É claro que esse conhecimento vem de mui-
tos anos de pesquisa. Mas vem também de ensinar projetistas
com históricos bem variados. Ensinei alunos de arquitetura,
de design de interiores, de desenho industrial e de produtos, de
urbanismo e de planejamento urbano, de paisagismo, de design
gráfico e também os que desenvolvem mundos virtuais, como
sites na internet e desenhos animados. Também dei aulas
nas áreas de ergonomia, projeto de sistemas e programação
de computadores. Várias vezes esses alunos me divertiram,
surpreenderam e entretiveram. Sempre me ensinaram coisas
novas e, às vezes, me espantaram. O encanto e a vantagem
desses alunos noviços deve-se, muitas vezes, ao fato de não
perceberem que algumas coisas são consideradas difíceis, e
de vez em quando eles mostram que é possível transformar o
complexo em simples e resolver o que é espinhoso. É por isso
que projetar vicia tanto e é tão fascinante, mas é claro que
também, com muita frequência, é frustrante e enfurecedor.
Tive o privilégio de conhecer muitos projetistas maravilhosos,
alguns conhecidíssimos, outros menos famosos. Discutimos
as ideias deste livro. É comum que projetistas de muito suces-
so me avisem, no início das discussões, que conseguem des-
crever os projetos com mais facilidade do que os processos.
Na verdade, em geral conseguem dizer muito mais sobre o
processo do que antes achavam possível. Para alguns leitores,
pode parecer estranho que falo relativamente pouco da obra
final de alguns desses projetistas bem-sucedidos. O fato é que
se escreve muito mais sobre projetos do que sobre processos,
por isso não peço desculpas por dizer pouquíssimo aqui sobre
o produto e me concentrar no processo.
Se eu fosse começar a escrever este livro agora, do nada,
provavelmente faria tudo diferente. Depois que o publiquei,
escrevi mais dois sobre assuntos correlatos, Design in Mind [O
projeto em mente] e What Designers Know [O que sabem os projetis-
tas]. Na verdade, esse último é irmão deste aqui. Revisei esta
quarta edição à luz das pesquisas mais recentes, mas tam-
bém com o conhecimento de que What Designers Know já foi
publicado. Na verdade, ambos os livros, reunidos, representam
as minhas ideias mais recentes. Esta quarta edição tem dois
capítulos inteiramente novos no final. Os capítulos da tercei-
ra edição sobre projetar com desenhos e projetar com compu-
tadores foram removidos. Em essência, ambos estudavam o
modo como o conhecimento do projeto é transferido da mente
humana para alguma representação externa. Agora, as ideias
principais que brotaram desse estudo podem ser encontradas,
de forma muito mais desenvolvida, em What Designers Know.
Aqui, o primeiro capítulo novo discute a ideia do projeto como
conversa. Além de a popularidade dessa visão do projeto ter
aumentado no período em que este livro esteve em catálogo,
agora ela constitui um modo de pensar sobre muitas questões
importantes relativas ao modo como os projetistas trabalham
em equipe, com desenhos e com computadores. O segundo
capítulo novo tenta resumir, de forma bastante impulsiva, a
série de atividades que, segundo acredito, formam o processo
de projeto. Também incorpora e resume algumas lições que
só recentemente nos foram disponibilizadas sobre como real-
mente trabalham os projetistas experientes e como isso pode
ser diferente do modo como os novatos trabalham.
Portanto, no livro agora há três novos resumos. O modelo
de problemas de projeto desenvolvido no Cap. 6, as conclusões

L
-

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f
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intermediárias do Cap. 7 e o sumário final da atividade de pro-


jetar no Cap. 16. Duvido muitíssimo que esse seja o fim da his-
tória. Tenho certeza de que muitos me dirão que não é e que
continuaremos a ter os mesmos debates interessantes e fasci-
nantes dos quais tive a sorte de participar durante tantos anos.
Já pesquiso o processo de projeto há mais de quatro décadas,
conheci a maioria dos que contribuem de forma significativa e
constante com o tema e me beneficiei muito das discussões
entre todos os envolvidos. Os Design Thinking Research Sym-
posia [Simpósios de Pesquisa sobre o Pensamento ao Projetar)
e as Creativity and Cognition Conferences (Conferências de
Criatividade e Cognição] trouxeram inspirações específicas.
Supervisionei a pesquisa de muitos alunos e me beneficiei da
colaboração com eles. Sou muito grato a todos os que me aju-
daram a dar forma a essas ideias mal-ajambradas enquanto
procuramos o entendimento desta que é a mais mágica de
todas as realizações cognitivas humanas: projetar.

Bryan Lawson

Apresentação

O livro Como Arquitetos e Designers Pensam (How Designers


Think, no original em inglês) foi publicado pela primeira vez em
1980 por Bryan Lawson. Em sua quarta edição, publicada em
2006, esta obra teve um papel fundamental nos estudos sobre
o processo de projeto, principalmente em Arquitetura. A pri-
meira edição marcou um momento importante na história do
movimento chamado Design Methods, na busca de aprofundar
o conhecimento sobre os procedímentos e as atividades cogni-
tivas do processo de projeto.
As investigações na área de Metodologia de Projeto foram
formalizadas durante a década de 1950, quando arquitetos e
engenheiros atentos ao panorama científico procuraram apli-
car novas técnicas ao desenvolvimento de projeto para melho-
rar a qualidade do processo e dos seus produtos. No final de
1962, realizou-se em Londres a primeira conferência sobre
métodos de projeto (Conference on Design Methods), com o obje-
tivo de buscar e definir métodos sistemáticos de resolução de
problemas. Seguiram-se outros congressos importantes e sur-
giram grupos de estudo sobre métodos de projeto. O assun-
to tomou rumos diversos nos cinquenta anos seguintes, mas
a criação de vários periódicos, como a revista Design Studies,
publicada pela Elsevier Ltd., constituiu uma importante fonte
para pesquisa em projeto e atesta a vitalidade contínua de
estudos na área.
Nigel Cross, um dos criadores do periódico Design Studies,
identifica os principais assuntos discutidos pelos expoentes dos
métodos de projeto como sendo: o controle do processo de proje-
to, a estrutura dos problemas de projeto, a natureza da ativida-
de de projeto, e a filosofia do método de projeto. Bryan Lawson,
na sua obra Como Arquitetos e Designers Pensam, aborda os quatro
assuntos, com ênfase na natureza da atividade de projeto.
No Brasil, os Design Methods não tiveram expressiva reper-
cussão na atividade profissional dos escritórios de projeto e
influenciaram pouco os programas de ensino ou pesquisa das
escolas de Arquitetura. Um dos motivos dessa indiferença
pode ser a falta de traduções de publicações seminais como,
por exemplo, esta obra. Desta forma, a tradução do livro de
Bryan Lawson, em sua quarta edição, traz uma importante
contribuição para a área, que deve enriquecer as discussões
sobre o processo de projeto.
Espera-se poder contar com outras traduções de autores
como John Christopher Jones, Christopher Alexander, Geo-
ffrey Broadbent, ómer Akin, Donald Schõn e Nigel Cross, entre
outros. Algumas das obras desses autores já foram traduzidas
para o português, mas faltam ainda importantes textos, inclu-
sive do próprio Bryan Lawson, para estimular e apoiar os estu-
dos da área no Brasil.
Este livro de Lawson discute assuntos como: o papel do
designer ou projetista em arquitetura, os componentes dos pro-
blemas em projeto e a busca de soluções. Os estilos de pen-
samento são analisados com ênfase no processo criativo.
Analisa-se a estrutura do processo e propõe-se um modelo na
última parte da obra, que na quarta edição toma novos rumos.
É dada menos importância aos impactos da informática no pro-
cesso de projeto, e Lawson reafirma a sua fascinação pela prá-
tica de projeto, ou seja, pelo estudo e compreensão da magia
que acontece no processo criativo de projeto. Esses assuntos
são apresentados por Lawson com vários exemplos de diversas
áreas, principalmente a sua própria experiência como arquite-
to e professor de projeto, relatada em linguagem rica e agradá-
vel de ler.
A tradução de obras sobre o processo de projeto não é uma
tarefa fácil, inclusive pelas dificuldades em encontrar termos
corretos para os assuntos abordados. Para começar, o próprio
título do livro, onde figura o profissional "designer", encontrou
algumas dificuldades na sua definição em português. Trata-
-se de que tipo de projetista? Projetos são desenvolvidos em
todas as atividades humanas e as palavras "design" e "designer",
constando atualmente nos dicionários de língua portuguesa,
referem-se respectivamente às atividades de diagramação grá-
fica e aos profissionais do desenho industrial. A obra de Lawson
discute estas questões, analisando principalmente o proces-
so cognitivo de profissionais em arquitetura. Desta maneira,
optou-se pelo título Como os Arquitetos e Designers Pensam.
A tradução desta obra destina-se a profissionais de projeto,
arquitetos, designers, engenheiros e alunos de graduação e pós-
-graduação, bem como pesquisadores da área de teoria e pro-
jeto. Com esta empreitada, a Editora Oficina de Textos oferece
para este público no Brasil uma das obras mais reconhecidas
e importantes sobre como os problemas e as soluções em pro-
jeto são abordados.

Doris C. C. K. Kowa1towski
Profa Titular da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e
Urbanismo -Universidade Estadual de Campinas
Agradecimentos

Sou muito grato aos muitos estudantes de projeto que foram


meus alunos com o passar dos anos e que frequentemente
questionam, com a sua imaginação criativa, as ideias do pro-
fessor. Agradeço especificamente as muitas discussões e deba-
tes que tivemos durante tantos anos no meu grupo de pesqui-
sa e com outros colegas. Os que contribuíram dessa maneira
são tantos que não é possível citá-los, mas, se continuam inte-
ressados a ponto de ler isto aqui, espero que saibam quem são!
Tenho de agradecer aos projetistas que concordaram em
submeter-se à minha investigação. Muitos gozam de sólida
reputação e tiveram coragem suficiente para me abrir a sua
mente. Espero que sintam que aqui fiz justiça ao seu talento.
Pelo fornecimento de ilustrações, também sou grato a:
Richard Seymour, de Seymour/Powell, Londres, Reino Uni-
do, pelas Figs. 10.4 e 15.2;
Ken Yeang, da T. R. Hamzah, e Yeang Sdn Bhd, de Kuala
Lumpur, Malásia, pela Fig. 10.5;
Richard MacCormac, de MacCormac, Jamieson, Prichard,
Londres, Reino Unido, pelas Figs. 11.5, 11.6 e 14.3;
Professor Peter Blundell]ones, da Universidade de Sheffield I

Reino Unido, pela Fig. 11.7;


Kit Allsopp, da Kit Allsopp Architects, Londres, Reino Unido,
pelas Figs. 12.1 e 12.2;
Michael Wilford, de Michael Wilford and Partners, Londres,
Reino Unido, pela Fig. 12.3;
Eva Jiricna, de Eva Jiricna Architects, Londres, Reino Unido,
pela Fig. 12.4;
Robert Venturi, de Venturi, Scott Brown and Associates, Fila-
délfia, EUA, pelas Figs. 12.5 e 12.6;
Geoff ]ones, de Building and Urban Design Associates, Birmin-
gham, Reino Unido, pela Fig. 13.9;
Steven Groak, de Ove Arup Partnership, Londres, Reino Unido I

pela ideia da Fig. 15.3;


Richard Burton, de Ahrends, Koralek and Burton, Londres, Rei-
no Unido, pelas Figs. 14.1 e 14.2;
Peter Durand, Londres, Reino Unido, pela Fig. 14.4;
Ian Ritchie, de Ian Ritchie Associates, Londres, Reino Unido
pela Fig. 15.1. '
Sumário

Prefácio 4
Apresentação 7
Agradecimentos 10

Primeira parte O QUE É PROJETAR? 13

1 Introdução 15
2 A mudança do papel do projetista 27
3 Mapeamento do processo de projeto 40

Segunda parte PROBLEMAS E SOLUÇÕES 57

4 Os componentes dos problemas de projeto 59


5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 68
6 Modelo de problemas de projeto 86
7 Problemas, soluções e o processo de p rojeto 110

Terceira parte O PENSAMENTO AO PROJETAR 125

8 Tipos e estilos de pensamento 127


9 Pensamento criativo 141
10 Princípios condutores 153
11 Estratégias para projetar 171
12 Táticas para projetar 18T
13 Armadilhas do projeto 205
14 Projetar com outros 216
15 Projetar como conversa e percepção 245
16 Rumo a um modelo de projeto 264

Referências bibliográficas 280


fndice remissivo 289
PARTE UM

O QUE É PROJETAR?
.....~ti/F:

'
1
Introdução

Ponha um grupo de arquitetos, urbanistas e planejadores num ônibus


de turismo e as suas ações definirão os limites dos seus interesses.
Os arquitetos tirarão fotogra fias de prédios, estradas e pontes. Os
urbanistas esperarão o momento em que os três estejam juntos. Os
planejadores estarão ocupados demais falando para olhar pela jane la.
Denise Scott Brown, AD Urban Concepts

Ver o pensamento como habilidade e não como dom é o primeiro


passo para agir de modo a aprimorar essa habilidade.
Edward de Bono, Practical Thinking

1.1 Projetar

A própria palavra "projetar" é o primeiro problema que temos


de enfrentar neste livro, já que tem uso cotidiano mas, para
cada grupo, o seu significado é diferente e bem específi-
co. Vamos começar observando que há o verbo projetar e o
substantivo projeto, que pode se referir tanto ao produto final
quanto ao processo. Há relativamente pouco tempo, a palavra
inglesa designer, ou "projetista", chegou até a ser usada como
adjetivo. Embora, por um lado, se possa considerar que isso
trivializa a atividade de projetar como moda apenas, o uso da
palavra como adjetivo indica algo importante para nós neste
livro. Indica que nem todo projeto tem o mesmo valor e que,
talvez, o trabalho de alguns projetistas seja considerado mais
importante do que o de outros. Neste livro, não estudaremos
como projetos e designs nos propiciam acessórios da moda.
Na verdade, não daremos muita atenção direta ao produto
final dos projetos. Este livro trata principalmente do projeto
16 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

enquanto processo. Daremos atenção vel e espontânea. Desde o princípio, o


ao funcionamento desse processo, ao engenheiro sabe mais ou menos o que é
que sabemos ou não a seu respeito e a preciso. Nesse caso, uma viga que tenha
como é aprendido e praticado por pro- a propriedade de cobrir o vão necessá-
fissionais e especialistas. Estaremos rio e suportar as cargas conhecidas. É
interessados em como auxiliar o pro- provável que o conhecimento do esti-
cesso com o uso de computadores e lista de moda sobre o que é necessário
com o trabalho em grupo. Estaremos seja muito mais vago. A coleção pre-
interessados em como levar todos os cisa atrair a atenção e vender bem, e
envolvidos a se fazer ouvir. possivelmente aumentar o renome da
Até certo ponto, podemos consi- confecção. No entanto, essas informa-
derar genérica a atividade de projetar, ções nos dizem muito menos sobre a
mas, ainda assim, parece haver dife- natureza do produto final do processo
renças reais entre os produtos finais de projeto do que as do engenheiro que
criados por projetistas de vários cam- projeta a viga.
pos. Assim, uma das perguntas presen- \ Na verdade, até certo ponto, ambas
tes no livro todo será até que ponto os as descrições são caricaturas, já que a
projetistas têm processos em comum e boa engenharia exige considerável ima-
até que ponto esses processos variam ginação e muitas vezes pode ter resulta-
de um campo a outro e entre indiví- do imprevisível, e é pouco provável que
duos. Um engenheiro estrutural pode se consiga boa moda sem considerá-
chamar de projeto o processo de calcu- vel conhecimento técnico. Portanto, os
lar as dimensões de vigas de uma edifi- vários tipos de projeto lidam com ideias
cação. Na verdade, esse é um processo precisas e vagas, exigem pensamen-
quase inteiramente mecânico. Apli- to sistemático e caótico, precisam de
cam-se várias fórmulas matemáticas e ideias criativas e cálculos mecânicos.
os valores apropriados das várias car- No entanto, um grupo de campos pare-
gas que agirão sobre a viga; o resultado ce ficar próximo do meio dessa série de
é o tamanho necessário. É bem com- atividades que envolvem projetos. Os
preensível que o engenheiro use aqui a campos tridimensionais e ambientais
palavra "projeto", já que esse processo ... da arquitetura, do design de interiores,
é bem diferente da "análise" na qual as do desenho industrial e de produto,
cargas são propriamente determina- do urbanismo e do paisagismo exigem
das. No entanto, ao criar o projeto de todos que o projetista gere produtos
uma nova coleção, o estilista de moda finais belos e também úteis, práticos e
pode ficar uni tanto perplexo com o uso que funcionem bem. Nesses campos, na
da palavra "projeto" pelo engenheiro. maioria dos casos, é provável que pro-
O processo do engenheiro nos parece jetar exija considerável especialização
relativamente preciso, sistemático e até e conhecimento técnico, além de ima-
mecânico, enquanto a criação de moda ginação visual e capacidade específica.
parece mais imaginativa, imprevisí- Os projetistas desses campos geram

....
1 Introdução 17

objetos ou lugares que podem ter gran- essas atividades domésticas e cotidia-
de impacto sobre a qualidade de vida nas podem ser consideradas projetos,
de muita gente. Os erros podem causar ou pelo menos semelhantes a projetos.
inconveniências graves e custos ele- Quando estamos no trabalho, também
vados, e podem até mesmo ser perigo- projetamos ao planejar o tempo, orga-
sos. Por outro lado, projetos muito bons nizar a tela inicial dos computadores,
podem se aproximar do poder que as arrumar salas para reuniões, e assim
artes plásticas e a música têm de elevar por diante. Podemos não engrandecer
o espírito e enriquecer a vida. essas humildes tarefas com a palavra
A arquitetura é um dos campos com uprojeto", mas elas têm muitas caracte-
localização mais c·e ntral nesse espectro rísticas em comum com as tarefas pro-
da atividade de projetar e, provavel- fissionais de projetar.
mente, é sobre ela que mais se escreve. Podemos ver, porém, que essas tare-
Como o autor é arquiteto, haverá mui- fas variam de modo a nos dar algumas
tos exemplos arquitetônicos neste livro. pistas sobre a natureza do ato de proje-
No entanto, este não é um livro sobre tar. Algumas delas, na verdade, são uma
arquitetura, muito menos sobre os questão de escolher e combinar itens
.
produtos de algum projeto. É um livro predeterminados. Em alguns casos,
podemos também criar e.sses itens. Às
sobre os problemas de projetar, sobre o
que os torna tão especiais, sobre como vezes, podemos criar algo tão novo e
entendê-los, e trata dos processos de especial que os outros talvez queiram
projeto e de como aprendê-los, desen- copiar o que fizemos. Em geral, é mui-
volvê-los e praticá-los.· to mais provável que isso aconteça com
Já começamos a nos concentrar em projetistas profissionais. Mas os proje-
projetistas profissionais como os arqui- tistas profissionais também projetam
tetos, os estilistas de moda e os enge- para os outros, não só para si mesmos.
nheiros. Mas aqui há um paradoxo sobre Eles têm de aprender a entender proble-
a atividade de projetar. Hoje, visivelmen- mas que os outros acham difícil des-
te, projetar é uma atividade altamente crever e dar a eles boas soluções. Esse
profissional para algumas pessoas; os trabalho exige mais do que apenas "jei-
melhores projetistas são valorizadíssi- to" com materiais, formas e cores; exige
mos, e o que fazem é muito admirado. um grande leque de habilidades. Assim,
Ainda assim, projetar também é uma atualmente os projetistas profissionais
atividade cotidiana de todos nós. Proje- são muito bem qualificados e treinados.
tamos o nosso quarto, decidimos como
arrumar objetos em prateleiras ou sis-
temas de armazenamento, planejamos 1.2 A formação
nossa aparência toda manhã, planta- de projetistas
mos cultivamos e cuidamos do jardim,
I

escolhemos alimentos e preparamos A formação de projetistas que conhe-


refeições, planejamos as férias. Todas cemos hoje é um fenômeno relativa-
18 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

sites na internet, projetar mundos vir-


mente recente. Atualmente, o fato de o
projetista precisar de instrução formal tuais e criar novas maneiras de usar
com períodos de estudo acadêmico e de uma tecnologia muito complexa e de
isso acontecer numa instituição edu- relacionar-se com ela. Esses campos de
cacional é uma ideia aceita por todos. projeto seriam inimagináveis quando a
A história da formação de projetistas primeira edição deste livro foi publica-
mostra que progressivamente o local da [1980], mas hoje são muito populares
de trabalho foi trocado pelo ateliê de entre os estudantes. Ainda mais adian-
projeto de faculdades e universidades. te, na variedade de campos de projeto,
Numa tentativa recente de interpretar encontramos os projetistas de software
a história da formação em arquitetu- e de sistemas, que criam os programas
ra associada à fundação do Prince of que todos usamos para escrever livros,
Wales Institute of Architecture [Insti- manipular imagens e dar aulas. Muitos
i
tuto de Arquitetura Príncipe de Gales], produtos contemporâneos combinam e
essa mudança foi interpretada como integram em si hardware e software, de
uma série de conspirações políticas tal modo que a distinção fica cada vez
)
(Crinson; Lubbock, 1994). Sem dúvida, é mais irrelevante. Celulares, tocadores .
t
t
I
possível defender que falta à formação de MP3 e computadores pessoais por- I
I
acadêmica de projetista o contato com táteis surgem, convergem e transfor- 4

quem faz as coisas, mas, como vere- mam-se em novos tipos de aparelhos.
mos no próximo capítulo, isso reflete Os projetos dessas áreas vêm mudando I
i
a prática. Os projetistas de hoje não a nossa vida não só física como social-
podem mais ser treinados para seguir mente. Até há pouco tempo, acredita-
um conjunto de procedimentos, já que va-se que programas de computador
o ritmo das mudanças no mundo no e analistas de sistemas estariam fora
qual têm de trabalhar logo os deixaria do alcance de um livro como este. No
para trás. Não podemos mais nos dar entanto, descubro cada vez mais que
ao luxo de mergulhar o estudante de quem trabalha nesses campos conside-
arquitetura ou de desenho industrial ra pertinentes as ideias aqui expostas
em alguns ofícios tradicionais. Em vez
e, em consequência, passa a questionar
disso, eles têm de aprender a avaliar e
a maneira tradicional em que se forma-
aproveitar a nova tecnologia enquanto ram tais projetistas.
ela se desenvolve.
No século XX, a tecnologia começou
Também vemos surgir, como
a desenvolver-se tão depressa que, pela
consequência da tecnologia, vanos
primeira vez na história, uma pessoa,
campos novos da atividade de proje-
ao longo de sua vida, podia perceber
tar. Tive a sorte de passar algum tempo
~ssa mudança. Projetar sempre esteve
trabalhando no departamento de pro-
ligado às nossas realizações intelec-
jeto de uma universidade inteiramente t .
ua1s contemporâneas, como na arte,
dedicada à multimídia. Lá, os projetis-
na ciência e na filosofia . Durante esse
tas aprendem a fazer animações, criar
período, vimos uma mudança dessa
1 Introdução 19

atividade que, na época, foi conside- aprendem a projetar principalmente na


rada mais profunda e fundamental do prática, em vez de empregar estudos
que em todos os períodos estilísticos ou análises. Parece quase impossível
precedentes. Essa época passou a ser aprender a projetar sem pôr a mão na
conhecida pela ligação direta com o massa. No entanto, as ideias deste livro
contemporâneo: "modernismo". Esse podem ser um recurso complementar.
nome insinuava que seria um pon- ,Um dos pontos fracos do estúdio tradi-
to final na história do projeto, e estu- cional é que os alunos, por dar muita
dei com professores que acreditavam atenção ao produto final do trabalho,
genuinamente nisso. Esse conjunto de deixam de refletir suficientemente
ideias influenciou de forma tão profun- sobre o processo~ Em termos físicos, o
da o modo como pensamos a ativida- estúdio é o lugar onde os alunos se reú-
de de projetar que, às vezes, é difícil se nem e trabalham sob a supervisão dos
desembaraçar dele. Só agora começa- professores. Muitas vezes se pressupõe
mos a ver que é possível avançar além que o estúdio reproduz um escritório
do modernismo. Aqui, o estilo dos pro- de projetistas profissionais naquele
jetos não será a principal preocupação, campo de atividade. No entanto, aqui
mas também não podemos pensar no um dos problemas perenes é o fato de
processo isoladamente. ser dificílimo reproduzir na universi-
Recentemente, a formação de pro- dade boa parte do mundo profissional
jetistas saiu de um período em que a real. Especificamente, em geral não há
história era tratada como merecedora clientes com problemas reais, dúvidas,
de estudo acadêmico, mas com pou- orçamentos e restrições de prazo.
ca ligação com o presente. Ainda bem Portanto, muitas vezes é difícil para
que essa noção de modernismo como os alunos desenvolver um processo que
última palavra na atividade de projetar lhes permita relacionar-se adequada-
foi amplamente rejeitada, e esperamos mente com as outras partes interessa-
que o estudante de hoje não só aprecie das no projeto. Em vez disso, para eles
a obra histórica pelo valor intrínseco, é mais fácil desenvolver, de forma mui-
como também a use para embasar pro- to pessoal, processos autorreflexivos
jetos contemporâneos. que visam principalmente satisfazer a
A formação de projetistas tem algu- si mesmos e, talvez, aos professores.
mas características muito comuns que Assim, é fácil o estúdio didático trans-
transcendem os países e os campos formar-se num lugar fantasioso e dis-
de atividade. Tipicamente, as escolas tante das necessidades do mundo real
usam o ateliê físico e conceitual como onde os alunos trabalharão quando se
principal mecanismo de ensino. Em formarem. No processo, isso tende a
termos conceituais, o estúdio é um pro- distorcer não só o equilíbrio de habili-
cesso de aprender fazendo, no qual os dades como também o conjunto de valo-
alunos recebem uma série de proble- res que os alunos adquirem. Hubbard
mas de projeto para resolver. Assim, mostrou, por exemplo, que, a respeito
20 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

da arquitetura, os planejadores urba- mobi liá rio. Alguns dirão que os arqui-
nos tendem a adquirir um conjunto de tetos projetam móveis que se acomo-
valores diferente do público que repre- dem ao espaço sem obstruí-lo; outros
sentam e ao qual servem (Hubbard, dirão que os arquitetos simplesmente
1996). Do mesmo modo, Wilson mos- não entendem a natureza dos materiais
trou que os ªrquitetos usam sistemas usados nos móveis e, por isso, montam-
de avaliação de edificações diferentes nos como montariam uma edificação.
de outras pessoas (Wilson, 1996). Ela Hoje, admite-se que o setor de cons-
também mostrou que essa tendência é trução civil do Reino Unido é dividido
adquirida durante a formação. O mais e conflituoso demais, e que os vários
perturbador é que esse trabalho tam- especialistas e empreiteiros envolvidos
bém revelou uma forte correlação entre tendem a ser beligerantes, enquanto os
as preferências de cada escola de arqui- clientes prefeririam que fossem coope-
I

tetura e que essas preferências estão rativos. Um relatório recente sugeriu t


I

vinculadas ao estilo. Quase com cer- que uma solução seria formar todos
teza, as escolas de projeto não visam a eles num tipo de curso universitário
esses efeitos, de modo que isso talvez comum que só mais tarde permitisse
revele alguns problemas importantes a especialização (Bill, 1990). Essa ideia,
do conceito de formação de projetistas embora bem-intencionada, tem uma
por meio do ateliê de projeto. falha fundamental. Ela supõe que haja
Neste livro, veremos a quantas um reservatório de alunos de 18 anos
influências deve expor-se o projetista com mente e personalidade mais ou
e quantos argumentos existem sobre a menos vazias que se sentiriam atraí-
importância relativa dessas influências dos por um curso desses. Na verdade,
na prática. Provavelmente, a formação sabemos que a verdade é bem diferen-
do projetista, assim como a própria te. Pouquíssimos candidatos à universi-
atividade de projetar, sempre serão dade se matriculam em cursos de mais
controvertidas. Desenvolveram-se tra- de uma área do setor de construção. Do
dições que mostram variações estrutu- mesmo modo, pouquíssimos alunos
rais não só entre países, como também tentam estudar mais de um campo da
entre os vários campos de atividade. atividade de projetar. Portanto, embora
Até que ponto os vários campos pareça que a arquitetura e o desenho
usam o mesmo processo é tema de industrial têm uma relação muito ínti-
considerável discussão. O fato de que ma, há pouco contato entre os campos.
os projetistas formados em cada um . O britânico Richard Seymour, dese-
desses campos tendem a ter uma visão nhista industrial de fama internacio-
diferente dos problemas é menos con- nal, não se surpreende com isso.
trovertido. Os projetistas de móveis
afirmam que conseguem distinguir as Embora algumas obras arquitetônicas
peças criadas por arquitetos das proje- e alguns desenhos industriais pareçam
tadas por quem se forma em projeto de muito próximos, na verdade é a ponta do
galho da árvore da arquitetura que roça
1 Introdução 21

uma folha da extremidade da árvore do


departamentos de arquitetura, enge-
desenho industrial. Tendemos a pensar
que são muito parecidos, mas não são. nharia civil e desenho industrial das
Basicamente, as raízes são completamente universidades são diferentes desde o
diferentes. (lawson, 1994a) princípio. Os alunos falam e se ves-
tem de forma diferente e têm imagens
Para Richard Seymour, a separação diferentes de si mesmos e da vida que
entre essas profissões começa mui- os espera. Portanto, é preciso cautela
to cedo e, de modo importantíssimo, ao pressupor que seria possível con-
antes do período de formação superior siderar todos os campos da atividade
que poderia ser responsabilizado pela de projetar dividindo o mesmo terre-
linha divisória. A opinião dele é que no. O certo é que projetar é uma ati-
essas "raízes" são lançadas muito antes vidade mental distinta, e neste livro
e que, quando selecionamos a nossa examinaremos progressivamente as
profissão, efetivamente a escolha já suas características. No entanto, tam-
foi feita. Ele observa que a maioria dos bém descobriremos que a atividade de
desenhistas industriais tem um histó- projetar pode ser bem variada e que os
rico de realizações em ofícios mais prá- projetistas bem-sucedidos empregam
ticos, como o artesanato com metal e processos bastante diferentes, seja
madeira: "O desenhista industrial está qual for a sua formação.
acostumado a trabalhar com entidades
físicas e com a natureza dos materiais,
e as vivenda com a visão e o tato". 1.3 Tecnologias
O sistema inglês · de educação para projetar
secundária pode agravar essa dificul-
dade, porque os alunos têm de escolher Este capítulo começou com uma rápi-
apenas quatro matérias, em média, da abordagem de algumas diferenças
para estudar. E as universidades exi- entre a maneira de projetar de esti-
gem matérias específicas para con- listas de moda e de engenheiros civis.
ceder vagas em cada curso. Portanto, Outra diferença importantíssima entre
quem não estudou matemática pode eles é a tecnologia que precisam conhe-
conseguir vaga para estudar arquite- cer e usar para atingir os seus fins. Os
tura, mas é quase certo que a mesma projetistas não decidem apenas o efei-
universidade não concederá a essa pes- to que querem obter; também têm de
soa uma vaga para estudar engenha- saber como obtê-lo. Assim, o nosso
ria civil. Portanto, a especialização dos · engenheiro civil precisa entender as
alunos já começa na escola secundária. propriedades estruturais do concreto
Seja em razão do sistema educa- e do aço, enquanto o nosso estilista de
cional, seja pela própria natureza dos moda tem de avaliar as característi-
alunos, que os leva a fazer escolhas, o cas dos vários tecidos. Mais uma vez ,
clima e as normas sociais das salas de essa é uma caricatura simples, já que
aula dos estúdios e laboratórios dos
I
ambos têm de saber muito mais do que
22 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Parece que classificar a atividade de


isso, mas a questão é demonstrar que
projetar de acordo com o produ~o fin~l
os seus conhecimentos tecnológicos
é pôr a carroça adiante dos bms, pms
têm de ser pertinentes ao seu campo.
a solução é formada pelo processo de
Tradicionalmente, tendemos a usar os
produtos finais dos projetos para dife- projeto e não existia antes dele. ~ :er-
renciar os projetistas. Assim, um clien- dadeira razão para classificar a ativida-
te pode procurar um tipo de projetista de desse modo não tem tanto a ver com
para fazer uma ponte, outro para uma 0 processo, mas é um reflexo da nos-

edificação, outro ainda para uma cadei- sa tecnologia cada vez mais especiali-
ra etc. zada. Os engenheiros não diferem dos
Muitos projetistas se interessam por arquitetos só por usar um processo de
outros campos além daquele em que se projeto diferente; o mais importante é
formaram, como o famoso arquiteto que conhecem exigências e materiais
Mies van der Rohe, que projetou uma diferentes. Infelizmente, é fácil esse
cadeira para o Pavilhão Alemão da tipo de especialização tornar-se uma
Exposição Internacional de Barcelona camisa de força para os projetistas,
de 1929, que até hoje está presente em dirigindo o seu processo mental para
saguões de bancos e hotéis do mundo uma meta predefinida. Portanto, é mui-
inteiro. Na verdade, poucos projetistas to fácil para o arquiteto pressupor que
são formados em mais de um campo, a solução para o problema do cliente
como o muito elogiado arquiteto e enge- seja uma nova edificação. Muitas vezes
nheiro Santiago Calatrava. Alguns são não é! Se não tomarmos cuidado, a for-
até difíceis de classificar, como Philippe mação do projetista pode restringir, em
Starck, que projeta edificações, interio- vez de aprimorar, a capacidade de pen-
res, móveis e aparelhos domésticos. É sar de forma criativa.
interessante que algumas invenções A fábula do cientista, do engenhei-
mais famosas dos tempos modernos ro, do arquiteto e da torre da igreja
foram criadas por pessoas que não se ilustra esse fenômeno. Os três estavam
formaram especificamente no cam- diante da igreja discutindo a altura da
po ao qual deram a sua contribuição torre quando um lojista local que vinha
(Clegg, 1969): passando sugeriu uma competição. Ele
Invenção Inventor se orgulhava muito do novo barômetro
Aparelho de Vendedor de que estava à venda na loja e, para pro-
barbear rolhas movê-lo, ofereceu um prêmio a quem
Filme Kodachrome Músico conseguisse descobrir com mais exa-
Esferográfica Escultor tidão a altura da torre usando um dos
Telefone Coveiro seus barômetros. O cientista mediu cui-
automático dadosamente a pressão barométrica no
Parquímetro jornalista pé e no alto da torre e, pela diferença,
Disco LP Engenheiro de calculou a altura. O engenheiro, desde-
televisão nhando essa técnica, subiu até o alto,

l
-
1 Introdução 23

largou o barômetro e mediu o tempo da jeto que conhece~. As situações em


queda. No entanto, foi o arquiteto que, que se projeta não variam apenas por-
para surpresa de todos, encontrou a que os problemas são dessemelhantes,
resposta mais exata. Ele simplesmente mas também porque os projetistas cos-
entrou na igreja e ofereceu o barômetro tumam adotar abordagens diferentes.
ao encarregado, caso o deixasse exami- Neste livro, passaremos algum tempo
nar o projeto original da igreja. discutindo tanto os problemas quanto
Muitos problemas de projeto tam- as abordagens usadas ao se projetar.
bém podem ser submetidos a trata-
mentos igualmente variados, mas é
raro que bs clientes tenham a perspicá- 1.4 Projet ar exige o q uê?
cia do nosso lojista. Examinemos rapi-
damente a situação. Imaginemos que Talvez a maior fama de Barnes Wallis
uma companhia ferroviária oferece, há se deva à invenção, durante a guerra,
muitos anos, um serviço de alimenta- da bomba de rebote imortalizada no
ção em trens selecionados e agora des- filme The Dam Busters [Os demolidores
cobriu que essa parte do negócio vem de represas]. Mas as realizações da sua
dando prejuízo. O que fazer? Uma agên- carreira foram muito além disso, com
cia de publicidade sugeriria a criação de toda uma sucessão de projetos inova-
uma imagem inteiramente nova, com dores na aviação, como aeroplanos,
os alimentos reembalados e anuncia- hidroaviões e muitos itens menores. No
dos de forma diferente. Um desenhista entanto, aos 16 anos, Barnes Wallis não
industrial talvez achasse que o verda- passou na prova final do estudo secun-
deiro problema é o projeto do vagão- dário em Londres (Whitfield, 1975). É
restaurante. Se pudessem receber e provável que isso tenha resultado da
consumir a comida na cabine, sem ter forma de educação heurística criada
de caminhar pelo trem, seria possível por Armstrong e usada no Christ's Hos-
que os passageiros comprassem mais. pital, que pouco fazia para preparar os
É provável que um especialista em alunos para esse exame, mas se con-
pesquisa de operações se concentre centrava em ensiná-los a pensar. Bar- ,.
em descobrir se os vagões-restaurante nes Wallis recorda que "eu não sabia
estão nos trens certos etc. nada, só _pens~r,_ só pegar o problema
É bem possível que nenhum dos nos- e brigar com ele até resolvê-lo". Mais
sos especialistas esteja certo. Será que tarde, ele se formaria na Universidade
a comida não era simplesmente pouco de Londres num período curtíssimo de
apetitosa e cara demais? Na verdade, apenas cinco meses.
o mais provável é que todos os espe- Posteriormente, Barnes Wallis não
cialistas tenham alguma contribuição se opunha a receber orientação técni-
a dar ao projeto de solução. ~perigo é ca, mas nunca pediu ajuda nos projetos
que cada um esteja condicionado pela propriamente ditos: "Quando queria a
sua formação e pela tecnologia de pro- resposta de um problema cuja mate-
24 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

As vezes, esses desenhos tornam-


mática nao conseguia resolver, busca-
se objetos de arte por direito próprio e
va alguém que conseguisse [...] nesse
aspecto, eu pedia conselho e ~uxíli~ [...) são expostos ao público. Deixaremos
nunca contribuições para uma solução". para mais tarde a discussão de por que
Mesmo em tenra idade, foi a qualidade a prática de projetar não deveria ser
do pensamento de Barnes Wallis e o tipo considerada um equivalente psicológi-
de abordagem que dava aos problemas, co da criação artística. Por enquanto,
tanto quanto os seus conhecimentos basta dizer que projetar exige mais do
técnicos, que lhe permitiram produzir que apenas apreciação estética. Quan-
tantos projetos aeronáuticos originais. tos críticos de projetos, mesmo os que
Para os muitos tipos de projeto que têm percepção mais penetrante, acham
estamos considerando, é importante projetar mais fácil do que criticar?
não apenas ter competência técnica, Talvez não seja possível fazer uma
como também uma avaliação estéti- lista completa das áreas do conheci-
ca bem-desenvolvida. Espaço, forma e mento necessárias para os projetistas,
linha, além de cor e textura, são as ver- mas tentaremos chegar perto disso no
dadeiras ferramentas do ofício para o final do livro. No entanto, deveríamos,
designer gráfico e o projetista industrial pelo menos, apresentar aqui outro con-
ou ambiental. O produto final desse junto de habilidades de que os proje-
tipo de projeto será sempre visível para tistas necessitam. A imensa maioria
o usuário, que pode também se mover dos artefatos que projetamos é criada
dentro dele ou pegar o objeto projetado. para grupos específicos de usuários. Os
O projetista precisa entender a nossa projetistas precisam entender um pou-
experiência estética, especialmente a co a natureza desses usuários e da sua
do mundo visual, e, nesse sentido, divi- necessidade, seja em termos da ergo-
de o território com o artista plástico. Por nomia das cadeiras ou da semiótica da
essa razão apenas, e há outras de que comunicação visual. Mais recentemen-
trataremos mais adiante, o projetista te, junto com o reconhecimento de que
também tende a trabalhar de maneira o processo de projeto propriamente
muito visual. Quase sempre o projetista dito deveria ser estudado, a formação
desenha, às vezes pinta e, com frequ- dos projetistas passou a incluir mate-
ência, constrói maquetes e protótipos. rial das ciências sociais e comporta-
A imagem arquetípica do projetista é
mentais. Os projetistas, porém, não são
de alguém sentado à prancheta. Mas o mais cientistas sociais do que artistas
que fica claro é que ele exprime as suas plásticos ou tecnólogos.
ideias e trabalha de um modo muito
Este livro não trata de ciência, arte
gráfico e visual. Realmente, seria muito
ou tecnologia, mas o projetista não
difícil tornar-se um bom projetista sem
pode fugir à influência dessas três cate-
desenvolver a capacidade de desenhar
gorias muito amplas de esforço intelec-
bem. E, na verdade, muitas vezes os
tual. Uma das dificuldades essenciais e
desenhos dos projetistas são belíssimos.
fascinantes de projetar é a necessidade
1 Introdução 25

de adotar tantos tjeo~ diferentes çle ção da bola, evite cu rvar demais a cintura.
pensamento e conhecimento. O cien- Os braços se estendem por inteiro, mas
com naturalidade, na direção da bola, sem
tista consegue trabalhar perfeitamen- nenhuma grande sensação de tentar atin-
te sem ter sequer a mínima noção de gi-la [...] mova o taco para trás com o braço
como os artistas pensam, e estes, por esquerdo reto, deixando o cotovelo direito
se dobrar contra o corpo [...] a cabeça deve
sua vez, com certeza não dependem do
se manter acima da bola [...] a cabeça é o
método científico. Para os projetistas, · pivô fixo em torno do qual o corpo e o mo-
a vida não é tão simples; eles têm de vimento giratório devem acontecer.
avaliar a natureza tanto da arte quan- Lee Trevino (1972), I Can Help Your Game
to da ciência e, além disso, ter capaci-
Mantendo os lábios fechados de leve, es-
dade de projetar. Então, essa atividade tique-os um pouco na direção d os cantos,
de projetar é o quê, exatamente? Isso como num meio-sorriso, tomando cuidado
temos de deixar para o próximo capítu- para não virá-los para dentro no processo.
O "sorriso", talvez bem sardônico, deve re-
lo, mas já podemos ver que ela ~olve puxar as bochechas contra os dentes nas
um processo mental sofisticado, capaz laterais, e a ação muscular produzirá uma
de manipular muitos tipos de infor- firmeza dos lábios perto dos cantos. Agora,
ao soprar pela embocadura na direção
mações, misturando-os num conjunto da borda externa, a expiração criará uma
coerente de ideias e, finalmente, geran- pequena abertura no meio dos lábios e,
do alguma concretização dessas ideias. quando o jato de ar assim formado atingir
a borda externa, a cabeça da flauta soará.
Normalmente, essa concretização
F. B. Chapman (1973), Flute Technique
assume a forma de um desenho, mas,
como já vimos, também pode ser um
novo cronograma. É o processo, e não Esses dois trechos vêm de livros
o produto final do projeto, que mais nos sobre habilidades . As duas são habili-
interessa neste livro. dades que passei a vida toda sem con-
seguir aperfeiçoar: jogar golfe e tocar
flauta. Os meus exemplares folheadís-
1.5 ProJetar como um simos desses livros me sugerem para
tipo de habi-lidade onde devo voltar a minha atenção. Os
dois autores se concentram em dizer
Projetar é uma habilidade altamente aos leitores como é fazer a coisa certa.
complexa e sofisticada. Não é um talen- Alguns podem pegar um taco de gol-
to místico concedido apenas aos que fe e balançá-lo naturalmente, ou tirar
têm poderes recônditos, mas uma habi- um lindo som da flauta. Para eles, tal-
lidade que tem de ser aprendida e prati- vez esses livros não sejam muito úteis,
cada, como se pratica um esporte ou se mas, para a imensa maioria, a habili~
toca um instrumento musical. Conside- dade tem de começar a ser adquirida
remos então os dois trechos seguintes: dando atenção aos detalhes. Faz parte
da própria natureza das habilidades
Dobre os joelhos de leve e, enquanto a altamente desenvolvidas praticá-las de
parte superior do corpo se inclina na dire-
forma inconsciente. Os golfistas mais
26 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

hábeis não pensam no balanço do taco, ria ser tratado como um tipo de habili-
mas no campo, no tempo e nos adversá- dade complexa de alto nível".
rios. Para tocar bem, o flautista tem de Mais recentemente, houve muitos
esquecer as técnicas de embocadura e escritores que exortaram os leitores a
controle da respiração e os sistemas de praticar essa habilidade de pensar. Um
digitação, e concentrar-se em interpre- dos mais notáveis, Edward de Bono
tar a música como o compositor preten- (1968), resume a mensagem desses
dia. Não seria possível dar expressão à autores: "No todo, tem de ser mais
música com a cabeça cheia de conselhos importante ser hábil ao pensar do que
de Chapman sobre os lábios. É a mesma se encher de fatos".
coisa na hora de projetar. Provavelmen- Antes que possamos estudar ade-
te, trabalhamos melhor quando pensa- quadamente como pensam os pro-
mos menos sobre a técnica. No entanto, jetistas, precisamos desenvolver um
em primeiro lugar, os iniciantes têm de entendimento melhor da natureza e
analisar e praticar todos os elementos das características dos problemas e
da sua habilidade, e devemos nos lem- das soluções dos projetos. As duas pri-
brar de que até os golfistas e músicos meiras partes do livro vão examinar
profissionais mais talentosos se benefi- esse território antes da terceira seção
ciam das lições durante toda a carreira. principal sobre o pensamento ao proje-
Embora estejamos acostumados à
ideia de que habilidades físicas como
andar de bicicleta, nadar e tocar instru-
mentos musicais tenham de ser apren-
tar: O livro como um todo dedica-se a
desenvolver a ideia de que pensar para
projetar é uma habilidade. Sem dúvi-
da, é uma habilidade muito complexa e
I
)
didas e praticadas, é mais difícil admitir sofisticada, mas que ainda assim pode
I
l

que o pensamento pode exigir atenção ser analisada, decomposta, desenvol-


semelhante, como sugerido pelo famo- vida e praticada. Entretanto, no final,
so filósofo britânico Ryle {1949): "O para obter o melhor resultado, os pro-
pensamento é, em grande parte, uma jetistas precisam fazer como os golfis-
questão de treino e habilidade". tas e flautistas. Têm de esquecer tudo
I

Mais tarde, o psicólogo Bartlett


{1958) refletiu essa noção: "Pensar deve-
o que lhes ensinaram sobre a técnica e
simplesmente agir!
'
2
A mudança do papel
do projetista

A abelha envergonha muitos arquitetos ao construir os seus favos, mas


o q ue d istingue o pior arq uiteto da melhor abelha é q ue o arquiteto
ergue a sua estrut ura na imaginação antes de erig i-la na realidade. No
final de to d o p rocesso de trabal ho, ob temos um resultado que, em
princípio, já existia na imag inação do trabalhad or.
Karl Marx, O Capital

A arquitetura nos dá oportunidades extraordinárias de servir à co-


munidade, aprimorar a paisagem, renovar o ambiente e fazer a
humanidade avançar; entretanto, o arquiteto bem-sucedido precisa
de t reinamento para superar essas armadilhas e começar a ganhar d i-
nheiro de verdade.
Stephen Fry, Paperweight

2.1 Projeto vernacular ou artesanal

No mundo industrializado, projetar tornou-se uma atividade


profissional. Hoje, há uma gama variada de projetistas, todos
formados e treinados para criar objetos com propósitos bem
específicos. Há os designers gráficos, que organizam a miríade
de imagens que vemos; os desenhistas industriais, que criam
os itens que usamos na vida cotidiana; e os arquitetos, que
projetam as edificações onde moramos e trabalhamos. Hoje,
na universidade, é possível fazer cursos de projeto cenográfi-
co, urbano e paisagístico, além de design de interiores, têxtil e
de moda, e é claro que há cursos de engenharia civil e estru-
tural, elétrica e eletrônica, mecânica, química e de processos.
Assim, parece que há um projetista ou designer formado na
28 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

universidade para projetar cada arti- projetar uma máquina que processas-
go que compramos, consumimos ou se bolinhas de gude (Fig. 2.1). Com um
habitamos. No entanto, nem sempre copinho plástico, nove bolinhas eram
foi assim, e em muitas sociedades ain- inseridas numa das pontas da máqui-
da não é. A atividade de projetar que na, que, depois de determinado perío-
conhecemos no mundo industrializado do, teria de devolver duas, três e quatro
é uma ideia relativamente recente. bolinhas, respectivamente, em mais
Há alguns anos, um grupo de alu- três copinhos plásticos. Os alunos tam-
nos meus do primeiro ano de arqui- bém teriam de registrar e, mais tarde,
tetura da Universidade de Sheffield analisar como tomaram as decisões e
trabalhou num projeto cujo objetivo como interagiram entre si durante o
era fazê-los pensar sobre o proces- processo de projeto. Durante o proje-
so de projeto. Esse exercício foi criado to, o estúdio ficou muito barulhento,
especificamente para fazer os alunos não só com os choques das bolinhas
se concentrarem no processo, e não no de gude durante os testes e o aprimo-
produto, e, por essa razão, não envol- ramento das máquinas, como tam-
via edificações. Em vez disso, os alunos bém com as discussões surgidas sobre
tiveram de trabalhar em grupo para como poderiam ou deveriam ser feitos
os aperfeiçoamentos. Inevitavelmente,
os projetos, em sua maioria, começa-
ram complicados e pouco confiáveis, e,
aos poucos, os grupos foram avançan-
do rumo a máquinas mais simples e
confiáveis. Em geral, as soluções mais
confiáveis eram as que tinham poucas
partes móveis, usavam poucos mate-
riais diferentes e eram mais fáceis de
construir. Como costuma acontecer I

a aparência dessas soluções também


tende a ser agradável, e o seu funciona-
mento se explica visualme~te.
Certa noite nevou muito e na I

manhã seguinte, os alunos, de forma


bem espontânea, decidiram largar o
trabalho e construir um iglu numa pra-
ça vizinha (Fig. 2.2). O iglu foi um suces-
so. Manteve-se firme e podia acomodar
Fig. 2.1 . umas dez pessoas, com a temperatura
Parte de uma máquina de bohnhas de interna bem acima do ar ambiente. Na
gude projetada por um grupo de aluno~
de arquitetura usando um processo mutto
verdade, o iglu foi tão bem construído
consciente que chamou a atenção da estação de

..........
2 A mudança do papel do projetista 29

rádio local, que veio fazer uma entre- o qual estavam todos sendo formados.
vista conosco lá dentro. Na verdade, a imagem de iglu que esses
O mais notável, porém, foi a mudan- alunos tinham em comum e concreti-
ça do processo. • Lá fora, na praça, os zaram com êxito não era inteiramente
alunos deixaram para trás não apenas exata nos detalhes, pois, com os seus
as máquinas de bolas de gude, mas as pressupostos ocidentais, eles constru-
discussões sobre projetos. Na mesma íram as paredes em camadas horizon-
hora e sem nenhuma deliberação, pas- tais, enquanto a forma de construção
saram do modo de pensar muito auto- esquimó costuma ser numa rampa em
consciente e introspectivo estimulado espiral, contínua e ascendente (Fig. 2.3).
pelo exercício para uma abordagem Quando o iglu ficou pronto, a forma-
natural, desinibida e com base na ação~ ção teórica dos alunos voltou a assumir
Não houve discussões nem discor- o controle. Houve muita discussão sobre
dâncias prolongadas sobre a forma, o a resistência à tração e à compressão da
local, o tamanho, nem mesmo sobre a neve compactada. É conhecida a dificul-
construção do iglu, e é claro que não dade de construir arcos e cúpulas com
se fez nenhum desenho. Eles simples- materiais de baixa resistência à tra-
mente foram lá e construíram. Na ção. Também se percebeu que a neve,
verdade, na sua consciência coletiva, embora fria ao toque, é um isolante tér-
como se pode dizer de forma um tanto mico muito eficiente. Na verdade, seria
imaginosa, esses alunos tinham mais muito improvável ouvir uma discussão
ou menos a mesma imagem comum parecida entre esquimós. Em condições
de iglu. Nesse aspecto, o seu compor- normais, os iglus são construídos de
tamento tem semelhança muito maior maneira vernacular. Para o esquimó,
com a maneira esquimó de se abrigar não há um problema a resolver com um
do que com o papel do arquiteto para projeto, mas sim uma forma tradicional

Fig. 2.2
Os mesmos alunos de
arquitetura projetaram e
construíram um iglu, mas
usaram uma abordagem
nada autoconsciente
30 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Fig. 2 .3
Método tradiciona l de
construção de iglus

de solução com variações que se adap- Aqui, interessa-nos especificamen-


tam a circunstâncias diferentes, sele- te a dificuldade de Sturt com o forma-
cionadas e construídas sem pensar nos to côncavo das rodas de carroça. Ele
princípios envolvidos. logo percebeu que as rodas dos veí-
No passado, muitos objetos foram culos puxados a cavalo eram sempre
sistematicamente produzidos com pro- construídas com um formato bastante
jetos muito sofisticados e com a mesma elaborado e semelhante ao de um pires,
falta de compreensão da base teórica. É mas a razão disso lhe escapava (Fig. 2.4).
comum chamar esse procedimento de Pela descrição que faz, podemos per-
"projeto de ferreiro", porque o artesão, ceber que os operários de Sturt traba-
tradicionalmente, projetava os objetos lharam a vida inteira com aquela rara
enquanto os fazia, sem desenhos técni- combinação de habilidade construtiva
cos, baseado em padrões antigos pas- e ignorância teórica tão característica
sados de geração em geração. Há uma desse tipo de artesão. Assim, durante
descrição fascinante desse tipo de pro- muitos anos, ele manteve a tradição de
jeto no livro The Wheelwright's Shop [A construir essas rodas sem na verdade,
oficina do construtor de carroças], de Geor- '
entender por quê. Sturt percebia que a
ge sturt (Sturt, 1923). Em 1884, com a construção da roda em forma de prato
morte do pai, Sturt se viu repentina- devia ser muito mais complexa do que
mente encarregado da oficina de cons- a da roda plana. No entanto, o projeto
trução de rodas e carroças. No livro, ele exigia ainda outros detalhes complexos
recorda a luta para compreender "um para que as rodas cambassem para fora
ofício popular realizado com métodos e convergissem para a frente (Fig. 2.5).
populares", segundo a sua descrição. Assim, não surpreende que ele não se

...
2 A mudança do papel do projetista 31

contentasse em permanecer na igno- a estrada tem de ser vertical e, assim, a


rância das razões por trás do projeto. metade superior da roda se inclina para
Primeiro, Sturt suspeitou que a for- fora. Talvez isso tivesse mais validade
ma de prato servia para dar à roda uma do que Sturt percebia, porque, em 1773,
direção para se distorcer quando o aro uma lei restringiu a bitola dos veícu-
externo de ferro quente se encolhesse los de rodas grossas a um máximo de
ao esfriar, mas ]enkins (1972) mostrou 1,73 m. Embora as rodas de carroça em
que as rodas em forma de prato pre- forma de prato fossem finas o bastante
cederam o uso dos aros de ferro. Outra para não serem atingidas pela legisla-
razão que ocorreu a Sturt foi a van- ção, é provável que as estradas tenham
tagem obtida com o alargamento da ficado tão cavadas pelos veículos de
parte superior da carroça, permitindo rodas mais grossas que as carroças de
assim que cargas maiores pudessem ser bitola mais larga tenham tido que rodar
transportadas. Era possível conseguir em terreno acidentado.
isso porque a parte da roda em forma de Finalmente, Sturt descobriu a razão
prato que transfere a carga do eixo para para a forma de prato que ele achou

Fig. 2.4
A roda de carroça dos
veículos puxados a cavalo
era construída com a forma
complexa de um pires

Ponta de eixo
Fig. 2.5
O eixo tinha de ser inclinado para
baixo, para permitir que a roda da
carroça transferisse a carga para
o solo de forma quase vertical,
e depois inclinado para a frente,
de modo a evitar que a roda se Metade da Metade da
vista superior vista de elevação
soltasse
32 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

que seria a "verdadeira". A forma con- problema totalmente integrada. Por-


vexa da roda era capaz não apenas de tanto, quando se altera uma das par-
suportar a carga vertical, como tam- tes, o sistema completo pode falhar de
bém o impulso lateral causado pelo várias maneiras. Esse processo tinha
andar natural do cavalo, que tende a ótima serventia quando o problema
jogar a carroça de um lado para o outro permanecia estável durante muitos
a cada passo, mas esse não é, de jei- anos, como nos casos do iglu e da roda
to nenhum, o quadro inteiro. Desde de carroça. No entanto, quando o pro-
então, vários escritores comentaram a blema muda de repente, é improvável
análise de Sturt, e Cross (1975), espe- que o processo vernacular ou artesanal
cificamente, destacou que a roda em produza resultados adequados. Se Sturt
forma de prato também precisava de não conseguia entender os princípios
inclinação para a frente. Para manter envolvidos na forma de prato da roda
vertical a metade inferior da roda, o de carroça, como reagiria ao desafio de
eixo tem de se inclinar para baixo na projetar a roda de um veículo ·a vapor,
direção da roda. Isso, por sua vez, pro- ou mesmo de um veículo moderno com
duz na roda a tendência a escorregar motor a gasolina e pneus de borracha?
pelo eixo e se soltar, o que tem de ser
contrabalançado inclinando o eixo
de leve e, assim, virando a roda para 2.2 A profissionalização
dentro na frente. As forças resultantes do ato de projetar
da "inclinação para a frente" forçam a
roda de volta ao eixo quando a carroça No processo vernacular, o projetar é
avança. Cross defende que essa incli- intimamente associado ao fazer. Os
nação é precursora da convergência esquimós não precisam de arquitetos
usada nos carros modernos para faci- para projetar os iglus onde moram, e
litar as curvas. É provável que isso não George Sturt oferecia um serviço com-
seja exato porque, como argumentou pleto de projeto e · fabricação aos fre-
Clegg (1969), na verdade, a convergên- gueses que queriam rodas. No mundo
cia moderna é necessária para contra- ocidental moderno, a situação costuma
balançar a força lateral causada pelos ser bem diferente. Uma casa britânica
pneus de borracha, inexistente nas média, com o seu conteúdo, constitui
rodas sólidas de carroça. o produto final de uma série imensa
Provavelmente, não há uma razão de processos de projeto profissiona-
"verdadeira" e única para a forma de lizados. É provável que a própria casa
prato das rodas de carroça, mas sim tenha sido projetada por um arquiteto
um grande número de vantagens inter- e se situa numa área designada como
ligadas. Isso é bem característico do residencial por um planejador urba-
processo artesanal de projetar. Depois no. Lá dentro, a decoração, os tecidos,
de muitas gerações de evolução, o pro- a mobília, as máquinas, os aparelhoS
duto final torna-se uma resposta ao · · tas
foram todos criados por pro)eus

- -~-
2 A mudança do papel do projetista 33

que, provavelmente, nunca sujaram


legalmente protegida e socialmente
as mãos com a fabricação desses arte-
respeitada. Assim, a distância atual
fatos . O arquiteto pode ter enlameado
que separa arquitetos de construtores e
as botas no terreno ao conversar de vez
usuários foi assegurada. Por essa razão,
em quando com o mestre de obras, mas
muitos arquitetos ficaram insatisfeitos
não passou disso. Por que é assim? Essa com a criação do RIBA, e até hoje há os
separação entre projetar e fazer promo- que defendem que as barreiras legais
ve projetos melhores? Logo voltaremos levantadas entre projetista e constru-
a essa pergunta, mas vamos exami- tor não produzem boa arquitetura. Nos
nar primeiro o contexto social dessa últimos anos, o RIBA afrouxou muitas
mudança do papel dos projetistas. regras mais antigas, e hoje permite que
Hoje, pode-se dizer que cerca de um os membros sejam diretores de empre-
décimo da população da Grã-Bretanha sas de construção civil, publiquem
compõe-se de profissionais liberais. Em anúncios e, em geral, se comportem de
sua maioria, as profissões liberais que maneira mais comercial do que antes
conhecemos hoje são fenômenos rela- exigia o código de conduta. Na verda-
tivamente recentes e só começaram a de, porém, ~ofissionalismo não dizia
crescer até a proporção atual durante o respeito aos projetos nem ao processo
século XIX (Elliot, 1972). O Royal Institu- de projeto, mas à busca de controle e
te of British Architects [RIBA, Instituto elevação social, e isso pode ser encon-
Real de Arquitetos Britânicos] foi fun- trado tanto nas profissões baseadas
dado naquela época. Em 1791 já havia em projetos quanto nas outras. Não
um "Architects' Club" e, mais tarde, há dúvida de que esse controle levou
surgiram várias Sociedades Arquitetô- a padrões cada vez mais elevados de
nicas. O processo inevitável de profis- formação e exame, mas se conduziu a
sionalização começara e, em 1834, foi uma prática melhor ainda é uma ques-
fundado o RIBA. Essa entidade não era tão mais ampla.
mais um clube ou sociedade apenas, e Hoje, a divisão de trabalho entre os
sim uma organização de homens com que projetam e os que fazem tornou-se
ideias semelhantes e a aspiração de uma pedra fundamental da nossa socie-
criar, controlar e unificar padrões pro- dade tecnológica. Para alguns, pode
... parecer irônico que '~sa dependência
fissionais . A Carta Real de 1837 IniCIOU
o processo de dar aos arquitetos u~a que temos de projetistas profissionais
se baseia, em boa parte, na necessidade
boa posição social; finalmente, a cna-
de resolver os problemas criados pelo
ção de exames e registro lhes deu s.ta-
uso de tecnologia avançada~ O proje-
tus legal. Na verdade, até hoje, n~ Rem~
to de uma cabana na montanha é uma
Unido, o próprio título de a~qmt.e:o e
proposta totalmente diferente de ofere-
legalmente protegido. Era me:Itav~l
cer moradia numa cidade barulhenta e
que todo esse processo de profisswnah-
congestionada. O terreno no centro da
zação levasse à transformação d~ ~las­
cidade pode trazer consigo problemas
se dos arquitetos em elite exclusivista,
34 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

sociais de privacidade e comunida- na tecnologia disponíveis tornaram-se


de, riscos à segurança, como a disse- rápidas demais para serem acompa-
minação de incêndios ou de doenças, nhadas pelo processo evolucionário do
sem falar dos problemas de acesso ou artesão. Assim, g_ processo de projeto
poluição. A lista de dificuldades desco- que conhecemos em tempos recentes
nhecidas para construtores de iglus ou não surgiu como resultado de um pla-
cabaninhas na montanha é quase inter- nejamento cuidadoso e voluntário, mas
minável. Além disso, cada terreno no como reação a mudanças no contexto
centro da cidade apresentará uma com- social e cultural mais amplo em que se
binação diferente desses problemas. projeta. O projetista especializado e pro-
'Essas situações complexas e variáveis fissional que produz desenhos com base
parecem exigir a atenção de projetis- nos quais outros constroem passou a
tas profissionais experientes que, além ser uma imagem tão estável e conheci-
de tecnicamente capazes, também são da que hoje vemos esse processo como
treinados para o próprio ato de tomar a forma tradicional de projetar.
decisões durante os projetos. 1
Christopher Alexander (1964) apre-
sentou uma das discussões mais lúci- 2.3 O processo tradicional
das e concisas acerca dessa mudança de projetar
do papel do projetista. Ele defende
que,' ~ando a sociedade é submetida Devemos nos fazer as seguintes pergun-
a mudanças rápidas, súbitas e cultu- tas: até que ponto esse novo processo
ralmente irreversíveis, é inevitável que tradicional de projetar nos beneficiou?
a abordagem espontânea e artesanal Ele mudará? Na verdade, ele sempre
do projeto dê lugar ao processo pro- sofreu um certo volume de mudança,
fissionalizado e autoconsciente~ Essas e há sinais de que, atualmente, muitos
mudanças podem resultar do contato projetistas buscam um novo papel na
com sociedades mais avançadas, seja sociedade, embora ainda mal definido.
na forma de invasão e colonização, Por que é assim?
seja pela infiltração insidiosa que se vê A princípio; ~eparação entre proje-
mais recentemente, causada pela aju- tar e fazer teve como efeito não apenas
da externa concedida aos países sub- isolar os projetistas, como colocá-los no
desenvolvidos. Aqui na Grã-Bretanha, centro das atenções~ O próprio Alexan-
a Revolução Industrial promoveu essa der {l964) comentou essa evolução com
mudança. os meios de produção meca- bastante discernimento:
nizados recém-descobertos passaram a
0 .reconhecimento autoconsciente pelo
ser 0 pivô cultural em torno do qual a
arttsta de sua própria individualidade cau-
sociedade girou. As sementes do respei-
sa um efeito profundo no processo de criar
to pelas profissões liberais do século XIX formas. Agora, cada forma é vista como o
e da fé na tecnologia do século XX foram trabalho de um único homem, e o seu su-
cesso é uma realização só dele.
plantadas. Mudanças nos materiais e
2 A mudança do papel do projetista 35

Esse reconhecimento da realização o farão. Primária e tradicionalmente, o


individual pode dar origem facilmente desenho foi a forma mais popular de
ao culto do indivíduo. Em termos edu- dar essas instruções. Nesse processo,' o
cacionais, isso levou ao sistema de ensi- cliente não compra mais o artigo aca-
nar a projetar por meio de contratos de bado, mas recebe um projeto, descrito
estágio. O jovem arquiteto era entregue mais uma vez e primariamente com
aos cuidados de um renomado mes- desenhos~ Esses desenhos costumam
tre do ofício, na esperança de que, em ser chamados de "desenhos de apre -
consequência de um período extenso de sentação", ao contrário dos "desenhos
serviço, a habilidade específica daquele de produção", feitos para a construção.
mestre fosse passada adiante. Mesmo No entanto, no contexto deste livro,
nas escolas de arquitetura, exigia-se dos é mais importante ainda o "desenho de
alunos que projetassem à moda de um projeto". Esse desenho não é feito pelo
indivíduo específico. Para ter sucesso, os projetista para comunicar-se com os
projetistas tinham de adquirir uma ima- outros, e faz parte do próprio processo
gem fácil de identificar, ainda vista nos de pensamento que chamamos de pro-
retratos extravagantes de projetistas em jetar. Numa frase muito feliz, Donald
livros e filmes. Os grandes arquitetos do Schon (1983) descreveu o projetista
movimento moderno, como Le Corbusier como quem "conversa com o desenho".
ou Frank Lloyd Wright, além de projetar O papel do desenho é tão fundamen-
edificações com um estilo de fácil identi- tal nesse processo de projeto que ]ones
ficação, comportavam-se e escreviam de (1970) descreve o processo inteiro como
forma excêntrica sobre o seu trabalho. "projetar com desenhos". Em seguida,
Na Grã-Bretanha, no final do século XIX, ]ones discute os pontos fracos e fortes
os arquitetos descontentes com a influ- de um processo de projeto que depen-
ência crescente do RIBA defendiam que de tanto do desenho. Comparado ao
a arquitetura era uma arte individual e processo vernacular, o projetista que
não devia ser regularizada e controlada. trabalha dessa maneira tem grande
Kaye (1960) argumentou que, na verda- liberdade de manipulação. Partes da
de, esse período de profissionalização solução proposta podem ser ajustadas
coincidiu com um período de rigidez do e as consequências, investigadas ime-
estilo arquitetõnico. diatamente, sem o tempo e o custo de
construir o produto final. 'O processo de
desenhar e redesenhar poderia conti-
2.4 Projetar com desenhos nuar até que todos os problemas que o
projetista conseguisse ver fossem resol-
A separação entre projetar e fazer tam- vidos'. Segundo ]ones, essa "amplitude
bém resulta no papel central do dese- perceptiva" muitíssimo maior permite
nho. Como não é mais o artesão que que os projetistas façam muito mais
realmente faz o objeto, o projetista tem inovações e mudanças fundamentais
de transmitir instruções aos que de fato no mesmo projeto do que seria possí-
36 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

vel no processo vernacular; e resolvam tação muito pobre da vivenda de se


os problemas criados pelo a~nto do locomover dentro de uma edificação.
ritmo de mudanças da tecnologia e da Por todas essas razões, dedicamos mais
sociedad~. Assim, esse processo de pro- adiante um capítulo inteiro ao papel do
jeto encoraja a experimentação e libera desenho no processo de projeto.
a imaginação criativa do projetista de
maneira bastante revolucionária dei-
'
xando o processo quase irreconhecível 2.5 Projetar com a ciência
para o artesão vernacular.
Embora tenha muitas vantagens cla- Conforme os projetos ficaram mais
ras em relação ao processo vernacular, revolucionários e progressistas, as
projetar com desenhos não deixa de ter falhas do processo de projeto com dese-
as suas desvantagens. De certa forma, nhos tornaram-se mais óbvias, prin-
o desenho é um modelo muito limitado cipalmente no campo da arquitetura.
do produto final do projeto, mas, mes- Ficou claro que, para continuar sepa-
mo assim, num mundo cada vez mais rando o projetar do fazer, e também
dependente da comunicação visual, ele para manter o ritmo rápido de mudança
parece convincente. O projetista pode e inovação, eram urgentemente neces-
ver no desenho como ficará o produto sárias novas formas de criar modelos
final;' infelizmente, porém, nem sem- do projeto final.
pre p~d; ver como ele funcionará~ O Foi exatamente essa preocupação
desenho é um modelo bastante exato e que levou Alexander a escrever, em
confiável da aparência, mas não neces- 1964, a sua famosa obra Notes on the
sariamente do desempenho. Portanto, Synthesis of Form [Anotações sobre a sín-
os arquitetos puderam projetar formas tese da forma]. Ele defendia que éramos
de moradia bastante novas, nunca antes otimistas demais ao esperar resulta-
construídas, assim que a tecnologia per- dos satisfatórios de um processo de
mitiu os arranha-céus. O que os dese- projeto com base na prancheta. Como
nhos não puderam necessariamente algumas horas ou dias de esforço por
permitir que vissem foram .os proble- parte de um projetista substituiriam
mas sociais que, anos depOis, com os 0 resultado de séculos de adaptação e

prédios em uso, se tornaram ~ão óbvios. evolução incorporados ao produto ver-


Até a aparência dos proJetos pode nacular? Alexander propôs um méto-
ser apresentada de forma engano.sa do de estruturar problemas de projeto
pelos desenhos. O desenho que o proJe- que permitiria aos projetistas ver uma
.
usta opta por fazer enquanto cria tende, representação gráfica da estrutura dos
a ser mu1·to codificado e raramente esta problemas não visuais. Essa obra teve
ligado à nossa vivência direta do pro- um efeito extraordinariamente dura-
. fi l Por exemplo é provável que douro sobre 0 pensamento a respeito
Jeto na . ' .
os arqu1 ·tetos trabalhem mais frequen- do método de projeto. Isso é mais notá-
lantas baixas, represen- vel ainda porque só há uma tentativa
temente com P

...
2 A mudança do papel do projetista 37

registrada de usar o método, e ela não Isso, qual é o papel do projetista na


resultou num sucesso óbvio (Hanson, sociedade de hoje?
1969). A razão do fracasso do método de
Alexander vem dos pressupostos errô-
neos sobre a verdadeira natureza dos 2.6 Futuros papéis do
problemas de projeto, e isso discutire- projetista
mos no próximo capítulo. No entanto,
essa geração de metodologia do projeto No nosso estado atual de incerteza,
para a qual o trabalho de Alexander é J dificilmente seria válido ter uma opi-
hoje em dia, um símbolo, foi motivada nião definitiva sobre o futuro papel
pela inquietação comum aos projetistas do projetista, ou mesmo do seu papel
acerca da inadequação dos seus mode- presente. Cross (1975) nos pede para
los de realidade. Infelizmente, os novos pensar se estamos entrando agora
modelos, muitas vezes emprestados da numa sociedade pós-industrial que,
pesquisa operacional ou da psicologia consequentemente, necessita de um
comportamental, se mostrariam tão processo de projeto pós-industrial. Na
inadequados e inexatos quanto o pro- verdade, a dificuldade dessa pergunta
jeto com desenhos (Daley, 1969). Tal- é como encarar a possibilidade de vida
vez a verdadeira razão da influência da nesta sociedade. Em essência, a questão
obra de Alexander seja ter assinalado é o debate político sobre até que ponto
outra mudança no papel do projetista. queremos descentralizar os centros de
A questão parecia não ser mais a pro- poder da nossa sociedade. Alguns auto-
teção da individualidade e da identida- res louvam a iminente crise de energia
de dos projetistas, e sim o problema de como um empurrão importante para
exercer o "controle coletivo", segundo a volta à autossuficiência. Outros afir-
Jones, das atividades do projetista. De mam que a inércia do desenvolvimen-
certa forma, o processo todo tinha de to tecnológico é grande demais para
se expor mais à inspeção e à avaliação ser detida e que encontraremos outros
crítica.' O modelo do método científico meios de obter formas centralizadas
1
mostrou-se irresistível. Os cientistas de energia. Assim, 'ª-.Qpinião sobre o
tornavam explícitos não só os resulta- futuro papel dos projetistas está ine-
dos, como também os procedimentos. vitavelmente ligada ao tipo de direção
O seu trabalho podia ser reproduzido que desejamos que a sociedade adote~
e criticado, e os métodos estavam aci- Markus (1972) sugere três pontos de
ma de suspeitas. Como seria bom se os vista amplos que os projetistas de hoje
projetistas seguissem um processo tão podem adotar a respeito do seu papel
claro, público e aberto!~Essa ideia levou na sociedade.
muitos escritores a desenvolver mode- Em essência, o primeiro papel é con-
los do processo de projeto propriamen- servador, centrado na continuação do
te dito, e examinaremos alguns deles domínio das instituições profissionais.
na próxima seção. Porém, com tudo Nesse papel, os projetistas permane-
38 COM O ARQUITETOS E DES/GN ERS PENSAM

uturais na sociedade,
cem desligados dos clientes e daqueles mudanças estr
bém resultariam no fim
que fazem. Aguardam passivamente mas que tam
a encomenda do cliente, produzem o do profissionalismo liberal que :on_h~-
agem revolucwnana
projeto e saem de cena. Já há proble- cemos. Essa abord
mas reais nessa abordagem. No caso levaria o projetista a associar-se dire-
da arquitetura, muitas vezes o cliente tamente a grupos de usuários. Como
é um órgão do governo ou uma grande também é provável que acredite numa
organização comercial, e, nesses casos, sociedade descentralizada, esse tipo de
é comum os arquitetos serem emprega- projetista se sentirá mais feliz lidando
dos, e não assessores. Espera-se que o com destituídos, a exemplo de morado-
arquiteto que busca esse papel conser- res de áreas de favelas a serem elimi-
vador seja apoiado pelo RIBA, mas as nadas, ou de revolucionários como as
entidades profissionais tendem a reagir comunas autossuficientes. Nesse papel,
a ameaças ao seu papel redefinindo aos o projetista abandona deliberadamen-
poucos esse mesmo papel (Elliot, 1972). te a posição de independência e poder.
Portanto, quando o papel tradicional Não se vê mais como líder, mas como
do projetista de edificações é ameaça- ativista e porta-voz. Uma dificuldade
do pela obsolescência, pelas mudanças significativa desse papel é que, por ser
tecnológicas ou pela natureza mutável improvável que esse tipo de cliente/
do cliente, os arquitetos podem buscar grupo de usuários controle recursos
redefinir-se como líderes de uma equi- valorizados fora da sua sociedade limi-
pe multiprofissional ou recuar para tada, o projetista perde toda a influên-
o território mais antigo do projetista cia sobre outros projetistas, a não ser o
estético e funcional. Parece duvidoso poder do exemplo.
que uma entidade profissional como ~rceiro caminho, o do meio, fica
o RIBA consiga continuar apoiando, entre esses dois extremos e é muito
durante muito tempo, tanto o profis- mais difícil de identificar em termos
sional autônomo geral quanto o fun- que não sejam vagos. Nesse papel, os
cionário público assalariado. De várias projetistas continuam a ser especialis-
maneiras, esse papel vem sofrendo tas profissionais qualificados, mas ten-
recentemente uma dupla ameaça con- tam envolver no processo os usuários
siderável. Em muitos países, parece que ~o~ pr~jetos . Essa abordagem mais par-
0 governo segue a liderança de Marga- tlclpatlVa do projeto pode incluir várias
ret Thatcher e desmantela os depar- técnicas relativamente novas, que
_
tamentos de serviços profissionais do v ao . de pesquisas pu, bl'1cas com jogos
setor público, retratando as entidades e e Slmulações até os procedimentos
os institutos profissionais como prote- recentes de projetar com o auxílio dos
cionistas, em vez de preocupados com ~omputadores. Todas essas técnicas
o bem público. Incorporam a tentatl'va , p or parte d o
. .
o contrário dessa abordagem con- proJetlsta, de identificar e explicitar os
servadora é buscar ativamente diversas aspectos fundamentais do problema
-
2 A mudança do papel do projetista 39

e sugerir vias alternativas de ação a a oferecer certa habilidade especializa-


serem comentadas pelos participantes da de tomar decisões. Voltaremos aos
não projetistas. É provável que aqueles problemas criados por essa aborda-
que seguem essa abordagem tenham gem no final do livro, em dois capítulos
abandonado a ideia tradicional de que o especiais sobre projetar com os outros
projetista individual domina o proces- e projetar com computadores.
so, mas talvez ainda acreditem que têm
3
Mapeamento do
processo de projeto

As seis fases de um projeto:


1. Entusiasmo
2. Desilusão
3. Pânico
4. Busca do culpado
5. Punição do inocente
6. Elogios a quem não participou
Cartaz na parede do Greater London Council Architects Department
[Departamento de Arquitetura do Conselho da Grande Londres]
(De acordo com Astragal, AJ, 22 de março de 1978)

-Agora as provas- disse o Rei -e depois a pena.


_ Não! - disse a Rainha.- Primei ro a pena, depois as provas!
_ Oue maluquice - gritou Alice, tão alto que todos pularam - essa
ideia de ter a pena primeiro!

Lewis Carroll, Alice através do espelho

3 .1 Definições de projetar

Até aqui, neste livro, não tentamos definir realmente que é


0
e 0 que não é projetar. Examinamos a variedade e a comple-
xidade do papel do projetista e vimos rapidamente como esse
papel se desenvolveu com o tempo. Também examinamos um
pouco da enorme variedade de tipos de projeto e discutimos
em que dimensões ~ariam. Buscar cedo demais uma definição
de projetar pode facilmente levar a uma visão restrita e estrei-
ta Para entender inteiramente a natureza do ato de p . ,
· TOJetar, e

...
3 Mapeamento do processo de projeto 41

necessário buscar não só as semelhan- com o mesmo objetivo. Por exemplo, é


ças entre as diversas situações em que muito mais fácil definir as necessidades
se projeta, mas também reconhecer as a serem satisfeitas numa sala de aula do
diferenças bem reais. É inevitável que que numa sala de estar doméstica.
cada um de nós aborde esse entendi- Alguns pronunciamentos sobre pro-
mento geral do ato de projetar partindo jetos nos levariam a acreditar que essa
da nossa formação específica. diferença não é mesmo muito impor-
Isso também fica muito visível tante. Isso foi levado a extremos por
quando os autores buscam uma defini- Sydney Gregory (1966} no seu livro pio-
ção abrangente de projetar. Que tipo de neiro sobre metodologia do projeto: "O
projetista daria a seguinte definição de processo de projeto é o mesmo, quer se
projeto: "Solução ótima para a soma de trate do projeto de uma nova refinaria
necessidades verdadeiras de um con- de petróleo, quer seja a construção de
junto específico de circunstâncias"? uma catedral, quer seja a redação da
É mais provável que essa definição Divina Comédia de Dante".
seja ideia de um engenheiro ou de um Talvez realmente Gregory esteja nos
designer de interiores? Faz sentido falar dizendo que, ao projetar ou escrever,
de "soluções ótimas" ou "necessida- ele, pessoalmente, usava um processo
des verdadeiras" no caso do projeto de semelhante. Embora isso possa ter dado
interiores? De fato, Matchett, que assim certo com Sydney Gregory, é imprová-
definiu projeto, tem formação em enge- vel que funcionasse com Dante, que,
nharia (Matchett, 1968}. Essa defini- até onde sabemos, não demonstrava
ção sugere pelo menos dois modos de interesse nenhum pela engenharia quí-
variação das situações em que se pro- mica! O mais provável é que projetar
jeta. O uso de "ótimo" indica que, para envolva algumas habilidades tão gené-
Matchett, é possível mensurar o resul- ricas que poderíamos dizer, com sensa-
tado do projeto em relação a critérios de tez, que se aplicam a todos os tipos de
sucesso estabelecidos. Esse talvez seja prática, mas também parece provável
o caso do projeto de uma máquina cuja que algumas habilidades são específi-
produção pode ser quantificada segundo cas de certos tipos de projeto. Também
uma ou mais escalas de medição, mas seria sensato indicar que o equilíbrio de
dificilmente se aplicaria a um projeto de habilidades necessárias para cada tipo
cenografia ou de interiores. A definição de projetista é diferente.
de Matchett também supõe que todas Sem dúvida, todos os projetistas
as "necessidades verdadeiras" de uma têm de ser criativos, e trataremos do
circunstância podem ser listadas. Entre- pensamento criativo num capítulo
tanto, o mais frequente é que os proje- mais adiante. Alguns projetistas, como
. ~ tistas não tenham a mínima certeza de os arquitetos, os designers de interiores
1
todas as necessidades de uma situação. e os desenhistas industriais, precisam
Isso porque nem todos os problemas de de uma noção visual bem desenvolvida
um projeto dizem respeito a atividades e, em geral, têm de desenhar bem. 1'ra-
42 COMO ARQ UITETOS E DESIGNERS PENSAM

ocorrem numa ordem previsível e com


tamos do projeto com desenhos em
uma lógica identificável. À primeira
outro capítulo. É provável que outros
vista, parece ser uma forma bastante
projetistas mais próximos da engenha-
sensata de analisar o processo de pro-
ria precisem de habilidade maior com
jeto. Em termos lógicos, parece que o
números, e assim por diante.
projetista tem de fazer várias coisas
É claro que é possível chegar a uma
em ordem para avançar dos primeiros
definição de projeto que acomode tan-
to as características comuns quanto estágios da abordagem do problema
as distintas. Chris Jones (1970) chegou até os estágios finais, em que define a
à definição de projeto que considerou solução.' Infelizmente, como veremos,
"suprema": "Iniciar mudanças nas coi- esses pressupostos são bastante pre-
sas feitas pelo homem". cipitados. Na verdade, é bem possível
Provavelmente, todos os projetistas que a rainha de Lewis Carroll se tornas-
concordariam que isso se aplica ao que se uma boa projetista com a sugestão
fazem, mas será mesmo uma defini- aparentemente ridícula de que a pena
1
ção útil? Talvez seja genérica e abstrata deveria preceder as provas!
demais para nos ajudar a entender o que No entanto, vamos examinar alguns
é projetar. Precisamos mesmo de uma desses mapeamentos para ver se são
definição simples de projetar ou deverí- úteis. O primeiro que examinaremos
amos aceitar que esse tema é complexo foi exposto no Architectural Practice and
demais para se resumir em algo menor Management Handbook [Manual de admi-
do que um livro? Talvez a resposta seja nistração e prática arquitetônica] (1965), do
que nunca encontraremos uma defini- RIBA, para ser usado por arquitetos. O
ção única e satisfatória, mas que a busca manual nos diz que o processo de pro-
pode ser muito mais importante do que jeto divide-se em quatro fases:
a descoberta. Chris Jones (1966) já admi- 1a fase: assimilação
tiu que essa busca é difícil na primeira Acúmulo e organização de informa-
descrição que fez do que é projetar: "Rea-
ções gerais e especificamente liga-
lizar um ato de fé complicadíssimo".
das ao problema em mãos.
2a fase: estudo geral
Exame da natureza do problema.
3 .2 Alg uns mapeamentos
Investigação de possíveis soluções
do processo de
projeto ou meios de solução.
3a fase: desenuoluimento

Muitos Desenvolvimento e refinamento de


. autores tentaram mapear o
cammho do processo, do início ao fi uma ou mais soluções possíveis iso-
A ideia comum a todos esses "m m. ladas durante a 2a fase.
apea-
mentos" do processo de projeto é que 4a fase: comunicação
e~e se compõe de uma sequência de ati- A comunicação de uma ou mais
VIdades distintas e identificávei·s soluções aos que estão dentro ou
que
fora da equipe do projeto.
3 Mapeamento do processo de projeto 43

Uma leitura mais detalhada do suavemente a uma única conclusão


manual do RIBA, porém, revela que inevitável. Na verdade, esse trabalho
essas quatro fases não são necessaria- costuma revelar os pontos fracos no
mente sequenciais, embora possa pare- entendimento do problema e na com-
cer lógico que o desenvolvimento geral preensão, pelo projetista, de todas as
do projeto avance da l a até a 4a fase. No informações pertinentes. Em outras
entanto, para ver como isso funciona palavras, é necessário voltar às ativida-
na prática, temos de examinar a tran- des da 2a fase!
sição entre as fases. A experiência comum a todos os
Na verdade, para o projetista é bem projetistas, de que apenas quando mos-
difícil saber que informações recolher tram as possíveis soluções (4a fase) aos
na la fase, antes de começar a inves- clientes é que estes percebem que des-
tigação do problema na 2a fase. Com creveram mal o problema {la fase), dá o
a adoção de métodos sistemáticos de que pensar.
projetar na formação do projetista, Poderíamos continuar analisando
entrou na moda pedir aos alunos que o mapeamento dessa maneira, mas a
preparem relatórios de acompanha- lição geral seria a mesma. Embora pare-
mento dos projetos. Com frequência, ça lógico que as atividades aqui listadas
esses relatórios contêm muitas infor- deveriam realizar-se na ordem mostra-
mações laboriosamente recolhidas da no mapeamento, a realidade é mui-
no início do projeto. Como leitor regu- to mais confusa. O que o mapeamento
lar desses relatórios, acostumei-me a faz é nos dizer que os projetistas têm
verificar essas informações para ver de reunir informações sobre o proble-
se tiveram impacto sobre o projeto. ma, estudá-lo, imaginar uma solução
Na verdade, os alunos costumam ser e desenhá-la, embora não necessaria-
incapazes de indicar o efeito concreto mente nessa ordem. Aqui, o manual do
que grande parte dos dados coletados RIBA é muito sincero ao declarar que,
tem sobre as soluções. Aqui, um dos provavelmente, haverá saltos impre-
perigos é que, como recolher informa- visíveis entre as quatro fases. O que
ções é bem menos exigente em termos ele não diz é com que frequência nem
mentais do que resolver problemas, de que modo acontecem esses saltos
é sempre tentador adiar a transição (Fig. 3.1). Se passarmos as páginas do
da la para a 2a fase. É improvável que manual do RIBA, encontraremos outro
projetistas profissionais sucumbam a mapeamento em escala muito maior.
essa tentação, já que precisam ganhar A primeira vista, em razão do imenso
a vida; entre alunos, porém, isso é detalhamento, esse "Plano de Traba-
comum, e esse mapeamento só costu- lho", como é chamado, parece muito
ma servir para encorajar a procrastina- mais promissor. O plano de trabalho
ção improdutiva! compõe-se de 12 estágios descritos
É raro que o desenvolvimento como uma linha de ação lógica:
detalhado de soluções (3a fase) leve
44 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

.t tos costumavam receber


os arqul e
A Primórdios rários de acordo com um
os seus h ono
B Viabilidade . dronizado de valores e for-
C Linhas gerais da proposta sistema pa .
nto que fazia parte das
mas d e pagame .
D Projeto esquemático . _ de Contratação de Arquite-
E Projeto detalhado Cond1çoes , .
nte os honoranos depen-
F Informações sobre a produção tos. At u alme • .
dem da negociação entre arquitetos e
G Quantidade de materiais
clientes, e tanto a faixa da remuner~-
H Propostas de orçamento
çao- quanto a forma de pagamento sao,
J Planejamento do projeto
muito variáveis. No entanto, o caso e
K Operações no local
que a elaboração de um projeto arqui-
L Término
tetônico pode durar muito tempo, com
M Reavaliação
frequência vários anos, e assim, os
O manual também apresenta de for- arquitetos, para se manter solventes,
ma reveladora, uma versão simplificada precisam receber antes do fim do ser-
no que ele descreve como: "terminolo- viço. Com isso, o plano de trabalho do
.
g1a comum :
» RIBA era usado, historicamente, para
A-B Programa de necessidades combinar em quais estágios do traba-
C-D Esboços lho haveria pagamentos parcelados.
E- H Desenhos executivos
J-M Operações no local
-
1
Portanto, o plano de trabalho também
p ode ser considerado parte de uma
transação comercial; ele informa aos
Com base nisso, podemos ver o clientes o que receberão e descreve o
plano de trabalho como realmente é: que os arquitetos têm de fazer. Não nos
uma descrição não do processo, mas diz, necessariamente, como isso é feito~
dos produtos do processo. Ele não nos O plano de trabalho também des-
diz como o arquiteto trabalha, mas o creve o que os outros membros da
que tem de ser produzido em termos equipe do projeto (supervisor de orça-
de relatórios de viabilidade, desenhos mento, engenheiros etc.) farão e como
básicos e desenhos para a produção. se relacionarão com o arquiteto, sendo
Além disso, o plano também detalha os este claramente retratado como geren-
serviços oferecidos pelo arquiteto em te e líder da equipe. Isso revela ainda
termos de obter aprovação dos órgãos mais que o plano de trabalho faz parte
de planejamento urbano e supervisio- do exercício da propaganda da classe
nar a obra. dos arquitetos p ara assegurar-lhes um

Assimilação Estudo geral Desenvolvimento Comunicação

1
- 2 r-- 3 r------ 4 Fig. 3 .1
Mapeamento do processo
tt I t I \ de projeto de acordo com o
plano de trabalho do RIBA
3 Mapeamento do processo de projeto 45

papel de liderança na equipe multidis- quência na literatura sobre metodologia


ciplinar que projeta a edificação. Mais de projeto, vale a pena apresentar algu-
uma vez, hoje esse não é mais o ponto mas definições em linhas gerais antes
de vista geral sobre o papel do arquite- de examinar esses mapeamentos com
to! Nada disso deve ser entendido como mais detalhes.
crítica ao plano de trabalho do RIBA, A análise envolve a investigação das
que provavelmente cumpre as suas relações na busca de algum padrão nas
funções de maneira adequada, mas, informações disponíveis e a classifica-
no final, é provável que ele nos ensine ção dos objetivos. ~nálise é o ordena-
mais sobre a história do papel da enti- mento e a estruturação do problema.
dade do que sobre a natureza do pro- fi síntese, por sua vez, caracteriza-se
_cesso de projeto na arquitetura. . pela tentativa de avançar e criar uma
Dois acadêmicos, Tom Markus .::: resposta ao problema - a geração de
(1969b) e Tom Maver (1970), produziram soluções. f:. a~aliação envolve a crítica
mapeamentos bem mais elaborados das soluções sugeridas em relação aos
do processo de projeto na arquitetura objetivos identificados na fase de aná-
(Fig. 3.2). Eles defendiam que o quadro lise. Para ver como essas três funções
completo do método de projetar exi- de análise, síntese e avaliação se rela-
ge tanto uma "sequência de decisões" cionam na prática, podemos examinar
quanto um "processo de projeto" ou os pensamentos de um enxadrista que
"morfologia", e sugerem que precisa- decide a próxima jogada. O procedi-
mos passar pela sequência de análise, mento sugere que o nosso jogador deve
síntese, avaliação e decisão do processo analisar primeiro a posição atu al no
de projeto (estágios 2, 3, 4 e 5 do manual tabuleiro, estudando todas as relações
do RIBA) em níveis cada vez mais de ta- entre as peças: as que estão ameaçadas
lhados. Como os conceitos de análise, e como, e quais casas desocupadas con-
síntese e avaliação aparecem com fre- tinuam sem defesa. A tarefa seguinte

l_

~
1 Síntese Avaliação
[ J Decisão
Análise
} li I
+ J
Linhas Gerais Da Proposta I
J
... Síntese Avaliação ~ I Decisão
Análise
I I
+ J
Projeto Esquemático I
f l J 1 Fig. 3.2
J
I Análise
1 I
Síntese
J I Avaliação

I
I
Decisão
O mapeamento do
Projeto Detalhado +
! processo de projeto
de Markus/Maver
46 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

seria esclarecer os objetivos. É óbvio jogada pode revelar um problema novo


que o objetivo final do jogo, em lon- e sugerir que a percepção original do
go prazo, é vencer, mas nesse estágio estado do jogo estava incompleta e que
específico as prioridades entre ataque e mais análise é necessária. Isso acon-
defesa e entre ganho imediato ou pos- tece com frequência ainda maior ao
terior têm de ser decididas. O estágio de projetar, quando o problema não está
síntese seria sugerir uma jogada, que inteiramente descrito, como no tabulei-
pode surgir como ideia completa ou ro de xadrez. Isso foi admitido há muito
em partes, tal como mover uma peça tempo por ]ohn Page (1963), que avisou
específica, ocupar uma determinada à Conference on Design Methods [Con-
casa ou ameaçar certa peça, e assim ferência sobre Métodos de Projetar] de
por diante. Essa ideia, então, precisa ser 1962, em Manchester:
avaliada em relação aos objetivos antes Ao projetar, na maioria das situações
de decidir se aquela jogada específica práticas, depois que produzimos isso,
será feita ou não. descobrimos aquilo e fizemos a síntese,
Para voltar ao mapeamento de percebemos que esquecemos de analisar
outra coisa aqui, e temos de dar a volta
Markus/Maver, já vimos que os mape- toda e produzir uma síntese modificada, e
amentos do processo de projeto preci- assim por diante.
sam permitir o retorno a uma atividade
precedente. Ao ser examinada, a pri- Portanto, somos levados à conclu-
meira jogada pensada pelo nosso enxa-
são inevitável de que, na verdade, o
drista pode mostrar-se imprudente ou
nosso mapeamento deveria ter urna
até perigosa, e o mesmo acontece nos
linha de retorno de cada função a todas
projetos. Isso explica a linha que reter-
as funções precedentes. No entanto,
na da avaliação à síntese na sequência
esse mapeamento tem mais um pro-
de decisões de Markus/Maver, que, em
blema (Fig. 3.3). Ele indica, outra vez de
termos simples, exige que 0 projetis-
forma aparentemente lógica, que o pro-
ta tenha outra ideia, já que a anterior
mostrou-se inadequada. jetista parte do geral para o particular,
A presença desse retorno no dia_ das "linhas gerais da proposta" para o
grama, porém, provoca outra pergunta. "detalhamento do projeto". O estudo
Por que é o único retorno? o desenvol- concreto da maneira como os projetis-
vimento de uma solução não pode indi- tas trabalham revela que isso é bem
car que é preciso mais análise? Mesmo menos claro do que parece. Em ter-
no jogo de xadrez, uma proposta de mos convencionais, o mapeamento de
Markus/Maver do processo de projeto

Flg. 3.3
Mapeamento generalizado
do processo de projeto
3 Mapeamento do p rocesso de projeto 47

dos arquitetos indica que os primeiros se juntam confortavelmente de uma certa


estágios tratam da organização geral e maneira. {Lawson, 1994b).
da disposição dos espaços, e os poste-
riores, da seleção dos materiais usados É claro que, se funciona bem para
na construção e do detalhamento da uma arquiteta tão elogiada, temos de
su~ junção. Na verdade, acontece que levar esse processo a sério. Portan-
esse é outro exemplo de algo que pare- to, o problema do mapeamento de
ce lógico num estudo superficial, mas Markus/Maver é apenas o que signifi-
que, na realidade, é mais confuso. Isso ca "linhas gerais" e o que se quer dizer
foi bem explicado pelo famoso arquite- com "detalhe". A experiência indica que
to americano Robert Venturi: isso varia não só entre projetistas como
Temos uma regra que diz que, às vezes, é também entre projetos. Uma decisão
o rabo que abana o cachorro, ou seja, é o que talvez pareça fundamental no iní-
detalhe que determina o geral. Não vamos cio de um determinado projeto pode
necessariamente do geral para o particu-
lar e, com bastante frequência, fazemos o
ser, em outro, questão de detalhe que
detalhamento no princípio, em boa parte ficará para o final. Ainda que a própria
para servir de base. (Lawson, 1994b). estratégia de projetar não seja conduzi-
da pelos detalhes, como no caso de Eva
É por essa razão que Venturi fica tão Jiricna, parece pouco realista supor que
descontente com a tendência cada vez o processo de projeto tenha de levar em
maior, nos Estados Unidos, de separar o conta, inevitavelmente, níveis crescen-
projeto conceitual do desenvolvimento tes de detalhamento.
do projeto, com a indicação até de arqui- Do jeito que está, o mapeamento
tetos diferentes para os dois estágios. O não mostra mais uma rota firme atra-
uso no Reino Unido do sistema de "pro- vés do processo inteiro (Fig. 3.4). Ele
jetar e construir" causou problemas mais parece um daqueles caóticos jogos
semelhantes. Pelo menos uma arquite- de salão em que os jogadores correm de
ta bem-sucedida e muito admirada, Eva
Jiricna, revelou que o seu processo de
projeto é, em boa parte, uma questão
de começar com o que outros, conven-
cionalmente, considerariam detalhe.
Ela gosta de começar escolhendo mate-
riais e desenhando detalhes em tama-
nho natural da sua junção:

No nosso escritório, costumamos come- Avaliação Síntese


çar com detalhes em tamanho natural
[... J por exemplo, se temos alguma ideia
do que vamos criar com junções diferen-
Fig. 3.4
tes, podemos criar um esquema que será
bom porque determinados materiais só Representação gráfica mais honesta do
processo de projeto
COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM
48

normativos. Parecem derivar mais do


um cômodo a outro da casa só para des-
pensamento sobre o ato de projetar do
cobrir para onde terão de ir em seguida;
ajuda tanto o projetista a orientar-se no que da observação experimental; tipi-
processo quanto um diagrama de como camente, são lógicos e sistemáticos. Há
andar mostrado a uma criança de em riscos nessa abordagem, já que quem
um ano. Saber que o projeto consiste escreve sobre metodologia do projeto
de análise, síntese e avaliação ligadas não são necessariamente os melhores
em um ciclo iterativo não capacita nin- projetistas. Parece sensato supor que o
guém a projetar, assim como conhecer mais provável é que os melhores proje-
os movimentos do nado de peito não tistas dediquem o seu tempo a projetar,
impede que alguém se afogue na pis- e não a escrever sobre m etodologia. Se
cina. Cada um terá de entender como isso for verdade, seria bem mais inte-
aquilo funciona por conta própria. ressante saber como os melhores pro-
jetistas realmente t rabalham do que
saber o que um metodologista do pro-
3.3 Esses mapeamentos jeto acha que deveriam fazer! Aqui, o
são exatos? fator compensador é que muitos auto-
res acadêmicos também se dedicam a
Poderíamos continuar examinando os ensinar a projetar e, portanto, têm mui-
~apeamentos do processo de projeto,
tos anos de experiência na observação
Ja que um número considerável deles
dos alunos. No entanto, isso também
foi desenvolvido. Mapeamentos do
leva a perguntar se os alunos não pro-
processo
., de projeto semelhantes aos
jetam de forma diferente dos profissio-
Ja discutidos foram propostos para a
nais experientes.
engenharia (Asimow' 1962 .• Rose ns t e1n·
.
Rathbone;
. Schneerer• 1964), 0 desenh '
0
mdustrial
. (Archer' 1969) e ate' 1
o pane-
Jamento urbano (Levin 1966) E 3.4 Alguns estudos
• · sses
mapeamentos bastante abstratos d empíricos
campos tão variados mostram e
. , um grau
cons1deravel de concordância . d' Todas essas perguntas indicam que
, m Ican-
do que talvez Sydney Gregory es t'Ivesse são necessárias provas concretas em
certo o tempo todo: pode ser vez de apenas pensamento lógico. Nos
. que o pro- últ'Imos anos, começamos realmente
cesso de proJeto seja o mesmo
em todos
os campos. Mas, infelizmente, nenhum a e~tudar o ato de projetar de forma
dos autores aqui citados most mats organizada e científica. Foram
d ra provas
e que os projetistas realmente e con t'Inuam a ser feitos estudos em
seguem
os seus mapeamentos razão p 1 que os projetistas são investigados, e,
· ' e a qual
precisamos ter cautela. a pa r t'Ir d essas pesquisas, aprendemo s
~sim, esses mapeamento aos poucos algumas das sutilezas de
de s ten~
m a ser, ao mesmo tempo te , . como realmente se pratica o projetar.
• oncos e
A seguir, examinaremos alguns des·
3 Mapeamento do processo de projeto 49

ses trabalhos, mas antes é necessária tornavam arquitetos ou psicólogos, ou


uma palavra de cautela. Sabidamente, a natureza diferente do seu trabalho?
realizar trabalhos empíricos sobre o Assim, uma série de situações
processo de projeto é difícil. Por defi- experimentais foi criada para que os
nição, esse processo acontece dentro participantes resolvessem problemas
da cabeça. É verdade que podemos ver semelhantes a projetos em condições
projetistas desenhan do enquanto pen- de laboratório, sem nenhuma outra dis-
sam, mas nem sempre os desenhos tração (Lawson, 1972). Naturalmente,
revelam todo o processo de pensamen- era fundamental que nenhum conhe-
to. Nem sempre os próprios projetistas cimento técnico especializado fosse
estão acostumados a analisar e expli- necessário para resolver os problemas,
citar esse processo de pensamento. de modo a evitar que os arquitetos par-
Há muitas técnicas experimentais que ticipantes tivessem vantagem sobre os
podemos usar para superar esses pro- outros. Numa experiência, os indiví-
blemas, mas é provável que todos os duos tinham de completar um projeto
experimentos sobre a natureza do pro- usando vários blocos de madeira colo-
cesso de projeto tenham alguma falha . ridos e modulares. Eles recebiam mais
No entanto, quando se junta todo esse blocos do que seria realmente neces-
trabalho, surge aos poucos um quadro sário, e o problema exigia compor um
geral da maneira como pensam os pro- arranjo em uma única camada de três
jetistas. módulos por quatro. A face vertical dos
blocos era colorida de vermelho e azul
e, em cada exercício, pedia-se ao parti-
3.5 Um estudo em cipante que a parede externa do arran-
laboratório com jo final tivesse o máximo possível de
alunos de proj et o vermelho ou azul (Fig. 3.5).
A tarefa ficava mais complexa com
Há alguns anos, interessei-me pela a introdução de regras "ocultas" rela-
questão geral do estilo cognitivo no pro- tivas às relações entre alguns blocos.
cesso de projeto e de como era adquiri- Isso fazia com que algumas combina-
do. Como aluno de arquitetura e depois ções de blocos fossem permitidas e
de psicologia, comecei a sentir que os outras, não. Essas regras eram muda-
meus colegas tinham alguns modos das a cada problema, e os participantes
de pensar iguais aos meus, mas que os sabiam que algumas regras estavam
arquitetos pareciam pensar d.e ,forma em vigência, mas não sabiam quais.
visivelmente diferente dos psicologos. Assim, na realidade, esse problema
Então, duas questões muito específi- abstrato é uma situação de projeto bas-
cas evoluíram a partir desse interesse tante simplificada, na qual uma solução
geral. Essas diferenças seriam r:~is ou física tridimensional tem de cumprir
não, e, caso fossem reais, reflet1nam a certos objetivos de desempenho decla-
natureza diferente das pessoas que se rados e, ao mesmo tempo, obedecer a
COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM
50

uma estrutura relacwna · 1 que ' a princí-


. na-o é totalmente explicitada.
plO, ..
Para não intimidar os participantes,
eles foram deixados a sós para resolver os
problemas, com um computador que pro-
punha cada problema e lhes dizia, quan-
do perguntavam, se a solução proposta
era ou não uma combinação permitida.
Além disso, sem que os participantes
soubessem, o computador era capaz de
Fig. 3.5 .
registrar e analisar a sua estratégia de Experiência de laboratório para investigar o
solução de problemas. A princípio, foram processo de projeto
usados dois grupos de participantes, um
de alunos do último ano de arquitetura,
outro de alunos de pós-graduação em combinação de blocos mais favorável,
ciências (Lawson, 1979b). e assim por diante, até descobrir uma
Os dois grupos mostraram estraté- solução aceitável.
gias bem constantes e espantosamente A diferença essencial entre as duas
diferentes. Embora o problema seja sim- estratégias é que, enquanto os cientis-
ples quando comparado a problemas de tas concentravam a atenção em enten-
projeto mais reais, ainda há mais de der as regras subjacentes, os arquitetos
seis mil respostas possíveis. Claramen- ficaram obcecados pela obtenção do
te, a tarefa imediata dos participantes resultado desejado. 'Eortanto, podemos
era reduzir esse número e buscar uma descrever a estratégia dos cientistas
boa solução. Os cientistas adotaram a como concentrada no problema e a dos
técnica de experimentar uma série de arquitetos como concentrada na soluçao.
- I

projetos que usavam o máximo possí- Com isso, tínhamos o começo de uma
vel de diferentes blocos e combinações resposta à nossa primeira pergunta.
de blocos, e da forma mais rápida possí- Parecia mesmo que o estilo cognitivo
vel. Dessa maneira, tentaram maximi-
de arquitetos e cientistas era sempre
zar as informações disponíveis sobre as
diferente. Para abordar a segunda per-
combinações permitidas. Se conseguis-
gunta, foi necessária outra rodada de
sem descobrir a regra que comanda-
experiências. Nela, os participantes
va quais combinações de blocos eram
eram alunos no final do curso secundá-
permitidas, poderiam então buscar um
rio, pouco antes de irem para a univer-
arranjo que otimizasse a cor exigida
sidade, e alunos universitários no início
na parte externa do projeto. Os arqui-
do primeiro ano de arquitetura. Os dois
tetos, ao contrário, escolheram os blo-
grupos foram bem menos bons na solu-
cos de modo a obter o perímetro da cor
- d e todos os problemas, e nen hUJYl
çao
correta. Se essa combinação não fosse · cons-
d e les mostrou alguma estratégta
aceitável, substituíam-na pela próxima · que
tante em comum. Assim, parecia
3 Mapeamento do processo de projeto 51

a resposta da segunda pergunta seria essa pergunta. No entanto, também são


que é a experiência educacional dos muito limitadas na capacidade de servir
respectivos cursos de graduação que de modelo do processo real de projetar,
faz os alunos de ciência e de arquitetu- de modo que, para avançar mais, preci-
ra pensarem do jeito como pensam, e samos recorrer a estudos mais realistas.
não algum estilo cognitivo inerente. Os resultados dessa experiência
O comportamento dos grupos de também questionam ainda mais a divi-
arquitetos e de cientistas parece sen- são entre análise e síntese vista nos
sato quando comparado ao estilo edu- mapeamentos do processo de projeto no
cacional dos seus respectivos cursos. início deste capítulo. O que esses dados
Os arquitetos aprendem com uma série deixam claro é que os alunos mais expe-
de estudos de projetos e recebem críti- rientes do último ano de arquitetura
cas às soluções encontradas, e não ao usaram de forma constante uma estra-
método utilizado. Ninguém lhes pede tégia de análise por meio da síntese. Eles
que entendam problemas nem que ana- aprenderam mais sobre o problema com
lisem soluções. Assim como no mundo as tentativas de criar soluções, e não
profissional real, a solução é tudo, e o com o estudo deliberado e separado do
processo não é examinado! Em compa- problema propriamente dito.
ração, os cientistas recebem aprendi-
zado teórico. Aprendem que a ciência
avança por meio de um método que é 3.6 Algumas experiências
explicitado e pode ser reproduzido por mais realistas
outros. Os psicólogos, especificamente,
em razão da natureza bastante "flexí- Numa experiência um pouco mais rea-
vel" da sua ciência, aprendem a ter mui- lista, pediu-se a projetistas experien-
tíssimo cuidado com a metodologia. tes que reprojetassem um banheiro
No entanto, essa explicação talvez para casas teoricamente construídas
seja simples demais. Embora o desem- (Eastman, 1970). Aqui, os participantes
penho geral não fosse melhor, ambos podiam desenhar e conversar sobre o
os grupos de alunos de projeto mos- que faziam, e todos esses dados foram
traram habilidade maior que a de seus registrados e analisados. A partir des-
colegas na hora de formar as soluções ses relatórios, Eastman mostrou que
tridimensionais. Parece que tinham os projetistas estudaram o problema
maior capacidade espacial e que esta- por meio de uma série de tentativas de
vam mais interessados em simplesmen- criar soluções. 'Nesses relatórios não
te brincar com os blocos. Será possível há nenhuma divisão significativa entre
que os respectivos sistemas educacio- análise e síntese, mas sim um apren-
nais da ciência e da arquitetura sim- dizado simultâneo sobre ~(-;atureza ·
plesmente reforçam o interesse pelo do problema e a variedade de soluções
abstrato ou pelo concreto? Essas expe- possíveis: Os projetistas receberam o
riências não nos permitem responder a projeto de um banheiro existente jun-
COMO ARQ UITETOS E DESIGNERS PENSAM
52

niam restrições o tempo todo. Portanto,


to com possíveis críticas dos clientes
para Akin,' a análise faz parte de todas
sobre o aparente desperdício de espa-
as fases do projeto e a síntese começa
ço. Assim, certas partes do problema,
como a necessidade de reorganizar as bem no início do processo.'
peças do banheiro para dar mais sen-
sação de espaço e luxo, foram expos-
tas com bastante clareza. No entanto, 3.7 Entrevista s com
os projetistas descobriram muito mais projet ist as
sobre o problema ao avaliar de forma
crítica as suas próprias soluções. Um Até aqui, examinamos o resultado de
dos relatórios de Eastman mostra como experiências em que se pede a pro-
um projetista identificou o problema de jetistas que trabalhem em condições
separar o vaso sanitário do chuveiro experimentais. Na verdade, essas con-
por razões de privacidade. Mais tarde, dições nunca reproduzem o verdadeiro
isso passa a fazer parte de uma exigên- estúdio de projeto, e a pesquisa alter-
cia muito mais sutil quando ele decidiu nativa com entrevistas sobre o método
que o cliente não gostaria de um dos permite aos projetistas descrever como
seus projetos que parece esconder o trabalham em condições normais. É
vaso sanitário deliberadamente; o vaso claro que esse método de pesquisa
deveria ficar em um lugar reservado, também tem falhas, já que depende de
mas não escondido. Essa exigência sutil os projetistas dizerem mesmo a verda-
não foi pensada em termos abstratos e
de! Embora seja bastante improvável
afirmada antes da síntese, mas desco-
que mintam deliberadamente, ainda
b~rta em consequência da manipula-
çao das soluções. assim a memória tem os·seus truques,
e os projetistas podem se convencer,
Com uma abordagem semelhant
Akin pediu a arquitetos que projeta:~
em retrospecto, de que o processo foi
mais lógico e eficiente do que de fato
sem edificações mais complexas do que
o banheiro de Eastman · Ele obs ervou e foi. Uma das vantagens das entrevistas
.
registrou os comentários dos partici- é que às vezes conseguimos convencer
pantes numa série de relatórios (Aki excelentes projetistas a permitir que os
1986). Na verdade, ele resolveu es ~· entrevistemos, enquanto, infelizmente,
fi , pecl- muitas experiências de laboratório são
camente,
. "desagregar" o preces so de
proJeto, ou decompô-lo em sua realizadas com alunos , de acesso mais
. . s partes
const1tut1vas. Mesmo com e fácil para os pesqu isadores!
. . sse ataque
mtervencionista ao problema Ak' _
. • 1n nao
consegum identificar análise -
e smtese
~- como componentes significativ 3.8 O gerad or primário
'1\ te isolados do processo d . amen-
e proJeto Na · nte
H a, a1guns anos, Jane Darke, ass1ste
verdade, ele descobriu que os .
· t' seus pro
Je Istas geravam novas met - de pesquisa e colega minha, entrevis-
as e redefi-
tou alguns arquitetos britânicos farno-
3 Mapeamento do processo de projeto 53

sos acerca de suas intenções quando íntima e talvez inseparável entre aná-
projetavam habitações públicas per- lise e síntese. Darke, no entanto, usou
tencentes a governos locais. Os arqui- os indícios obtidos empiricamente para
tetos discutiram primeiro a sua opinião propor um novo tipo de mapeamento,
sobre a habitação em geral e como viam que tinha algum paralelo com uma
os problemas de projetar moradias, e proposta mais teórica (Hillier; Musgro-
depois a história de um conjunto habi- ve; O'Sullivan, 1972). Em vez de análise-
tacional específico de Londres. O proje- síntese, o mapeamento de Darke mos-
to de moradias nessas condições é um tra gerador-conjetura-análise (Fig. 3.6).
problema extremamente complexo. A Em linguagem simples, decida primeiro
série de controles legislativos e econô- o aspecto do problema que acha impor-
micos, as necessidades sociais sutis e tante, desenvolva um projeto rudimen-
as exigências dos terrenos de Londres tar com base nisso e, depois, examine-o
interagem para gerar uma situação para ver o que mais é possível descobrir
altamente restritiva. Diante de toda sobre o problema.
essa complexidade, Darke mostra que Outros indícios que sustentam a
os arquitetos tendem a apegar-se a ideia do gerador primário foram reco-
uma ideia relativamente simples logo lhidos mais recentemente com a obser-
no início do processo de projeto (Darke, vação experimental e a análise de
1978). Essa ideia- ou gerador primário, desenhos produzidos por projetistas
como diz Darke - pode ser a criação de (Rowe, 1987). Ao expor com detalhes um
uma rua com casas geminadas, deixar desses estudos de caso, Rowe descreve
o máximo possível de espaço aberto, a análise de uma série de desenhos de
e assim por diante. Por exemplo, um projeto e percebe linhas de raciocínio
arquiteto descreveu como "supusemos baseadas numa ideia sintética e alta-
que um terraço seria a melhor maneira mente formativa sobre o projeto, e não
de resolver [...) e o exercício todo, for- na análise do problema: "Envolvendo
malmente falando, foi achar um jei- o uso apriorístico de um princípio ou
to de fazer um terraço contínuo, para modelo organizador para conduzir o
usar o espaço da maneira mais eficien- processo de tomada de decisões".
te [.. .)". Assim, uma ideia muito sim- Às vezes, essas primeiras ideias ,
ples é usada para reduzir a variedade geradores primários ou princípios
de soluções possíveis, e o projetista, organizadores têm uma influência
então, consegue construir e analisar que se estende por todo 0 processo de
rapidamente um esquema. Mais uma projeto e é perceptível na solução. No
vez, vemos aqui essa relação muito entanto, às vezes também acontece que

Fig. 3 .6
Ge rado r Conjetura
Mapeamento do processo de
projeto de Jane Darke
54 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

os projetistas obtêm aos poucos um Um dos arquitetos entrevistados foi


entendimento suficientemente bom do explícito a respeito do seu método para
problema para rejeitar as ideias iniciais obter um programa de necessidades
com as quais obtiveram o conhecimen- para o projeto (estágios A e B do manual
to. Ainda assim, pode ser surpreenden- do RIBA):
temente difícil conseguir essa rejeição.
Rowe (1987) registra a "tenacidade com O programa surge, essencialmente, numa
relação constante entre o que é possível
que os projetistas se agarram a ideias na arquitetura e o que queremos fazer, e
e temas importantes no projeto diante tudo o que fazemos modifica a nossa ideia
de dificuldades que, às vezes, podem do que é possível. [...] não se pode come-
çar com o programa e (depois) projetar,
parecer insuperáveis". Com frequência,
é preciso começar projetando e progra-
essas mesmas ideias criam dificulda- mando ao mesmo tempo, porque as duas
des que podem ser técnicas ou orga- atividades são completamente interliga-
nizacionais, e parece estranho que, das. (Darke, 1978).

diante disso, não sejam rejeitadas mais


prontamente. No entanto, as âncoras Isso também deve soar bem verda-
iniciais podem ser reconfortantes, e, deiro para todo arquiteto que já proje-
quando o projetista consegue superar tou para comitês de clientes. Descobri
as dificuldades e as ideias originais que uma das maneiras mais eficazes
eram boas, é bem provável que reco- de tornar visíveis as necessidades dis-
nheçamos nisso um ato de grande cria- crepantes dos grupos em edificações
tividade. Por exemplo, o famoso projeto multiúso, como hospitais, é apresen-
de ]orn Utzon para a Sydney Opera Hou- tar um esboço de projeto ao comitê de
se era baseado em ideias geométricas clientes. Parece que os clientes acham
que só puderam concretizar-se depois mais fácil transmitir os seus desejos ao
que foram superados problemas técni- reagir a uma proposta de projeto e cri-
cos consideráveis, tanto na estrutura ticá-la do que se tentarem redigir espe-
quanto no revestimento. Infelizmente, cificações de desempenho abrangentes
não somos todos tão criativos quanto e abstratas.
Utzon, e costuma acontecer que os alu- Essa discussão simplificou demais
nos de projeto criem mais problemas a realidade ao sugerir, implicitamente,
do que conseguem resolver ao escolher que os geradores primários são sempre
geradores primários inadequados ou encontrados no singular. Na verdade,
pouco práticos. como ressalta Rowe, é a conciliação
Voltaremos a essas ideias numa e a resolução de duas ou mais dessas
seção mais adiante, mas, antes de dei- ideias que caracteriza os protocolos de
xarmos o trabalho de Darke, vale a pena projeto. No entanto, devemos deixar
observar outros indícios que ela apre- para outro capítulo o restante da dis-
senta com poucos comentários, mas cussão dessa complicação e da rejeição
que questionam ainda mais o valor dos ou resolução de geradores primários.
mapeamentos do processo de projeto.

d
3 Mapeamento do processo de projeto 55

3.9 Em resumo dação entre problema e solução, um


como reflexo do outro (Fig. 3.7). Sem
Este capítulo examinou o processo de dúvida, as atividades de análise, sínte-
projeto como sequência de atividades se e avaliação estão envolvidas nessa
e ~ou a ideia bem pouco convincen- negociação, mas o mapeamento não
te~ Sem dúvida, é sensato afirmar que, indica pontos de partida e de chegada
para que o projeto ocorra, várias coi- nem a direção do fluxo de uma ativida-
sas têm de acontecer. Em geral, é pre- de a outra. No entanto, não se deve ler
ciso haver um resumo do problema, o esse mapa de forma demasiado literal,
projetista tem de estudar e entender as já que o mais provável é que todo dia-
exigências, produzir uma ou mais solu- grama visualmente compreensível
ções, testá-las em relação a critérios simplifique demais um processo men-
explícitos ou implícitos e transmitir o tal claramente muito complexo.
projeto a clientes e construtores. No Na próxima seção deste livro, exa-
entanto, a ideia de que essas atividades minamos a natureza dos problemas de
ocorrem nessa ordem, ou mesmo de projeto e das suas soluções para com-
que são eventos separados e identificá- preender melhor por que os projetistas
veis, parece muito questionável. O mais pensam do jeito que pensam.
provável é que projetar seja um proces-
so no qual problema e solução surgem
juntos. Muitas vezes, o problema pode
não ser totalmente compreendido sem
alguma solução aceitável para ilustrá-
lo. Na verdade, os clientes costumam
achar mais fácil descrever o problema
referindo-se a soluções existentes e
conhecidas. Thdo isso é muito' confuso,
mas, assim mesmo, é uma das muitas
características dos projetos cujo estudo
Flg. 3.7
é tão desafiador e interessante.
O processo de projeto visto como negociação
A nossa tentativa final de mapear o entre problema e solução por meio das três
processo de projeto mostra essa nego- atividades de análise, síntese e avaliação
--

SEGUNDA PARTE

PROBLEMAS E
SOLUÇÕES
4
Os componentes dos
problemas de projeto

Parecia que no minuto seguinte descobririam uma solução. Mas, para


ambos, era claro que o fim ainda estava muito, muito longe, e que a
parte mais difícil e complicada apenas começava .
Anton Tchekhov, A dama do cachorrinho

É um antigo axioma meu que as pequenas coisas são infinitamente


mais importantes.
Sir Arthur Conan Doyle, As aventuras de Sherlock Holmes

4 .1 Aci ma e abaixo do problema

Tradicionalmente, os projetistas são menos identificados pelo


tipo de problema que enfrentam do que pelo tipo de solução
que produzem. Assim, os desenhistas industriais têm esse
nome por criar produtos para lojas e indústrias, enquanto se
espera que designers de interiores criem espaços internos. É
claro que a realidade não é assim tão rígida. Muitos projetistas
interessam-se por outros campos, alguns de maneira bastan-
te regular, mas a maioria tende a não ser tão versátil quan-
to alguns autores que escrevem sobre metodologia de proje-
to parecem pensar. Já vimos que, até certo ponto, isso resulta
da variedade de tecnologias de que o projetista entende. Por
exemplo, os arquitetos precisam entender, entre muitas outras
coisas, as propriedades estruturais e os problemas de junção
relativos à madeira. Assim, parece provável que a maioria dos
arquitetos poderia tornar-se projetista de móveis e criar uma
60 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

cadeira de madeira, embora os projetis- acha difícil é fácil para outro; logo,
tas de móveis costumem afirmar que devemos examinar a natureza exata
reconhecem as cadeiras projetadas por desses vários tipos de problema para
arquitetos. Isso porque a maioria dos saber mais.'É óbvio que as soluções do
arquitetos está acostumada a manejar planejamento urbano têm ~~cal§ muito
a madeira numa escala e num contex- maior que as soluções arquitetônicas,
to diferentes e, portanto, já desenvol- mas os problemas urbanísticos seriam,
veu uma "linguagem da madeira" com de certa forma, maiores e mais com-
um sotaque arquitetônico perceptível. plexos que os arquitetônicos? A res-
As cargas suportadas e os métodos posta a essa pergunta tem de ser "não
de construção de edificações são bem necessariamente". Aqui, o que real-
diferentes dos encontrados no mobi- mente importa é até onde o projetista
liário. Embora a madeira possa resol- tem de ir na hierarquia. Por exemplo, ao
ver ambos os problemas, há muitos projetar uma casa comum, é imprová-
outros materiais, cada um deles com vel que o arquiteto se preocupe muito
a sua tecnologia, que geralmente não com considerações detalhadas sobre
são comuns à arquitetura e ao projeto métodos de abrir e fechar a porta dos
de móveis. Embora ambas sejam possí- armários. Talvez seja preciso pensar
veis, não é comum ver cadeiras de tijolo um pouco sobre o tipo de janela, se
nem edificações de polipropileno!
Os vários campos em que se proje-
ta também são considerados diferen-
tes em termos da dificuldade inerente
Desenho industrial
aos problemas que se apresentam. É
fácil supor que tamanho representa
complexidade. Esse argumento insi-
Projeto de interiores
nua que a arquitetura tem de ser mais
complexa que o desenho industrial, já
que as edificações são maiores que os
produtos. Sem dúvida, é possível ver
os campos do projeto tridimensional
como uma árvore, com o planejamento
urbano na raiz e o tronco começando a
dividir-se em desenho urbano, arquite-
tura e design de interiores, até os ramos
finos do desenho industrial, mas isso
realmente quer dizer que o planeja-
Planejamento urbano
mento urbano é mais difícil que o dese-
nho industrial? (Fig. 4.1).
Fig. 4 .1
É claro que dificuldade é uma ques-
Uma "árvore" -
.d. . com tres campos do projeto
tão subjetiva. Muitas vezes, o que um t n lmens1onal
-
4 Os componentes dos prob lemas de projeto 61
I•

basculante, de correr ou pivotante, mas difícil decidir quanto tempo prever para
nem isso costuma ser fundamental. No a sua solução. Em termos gerais, pare-
entanto, o projetista de um barco ou de ce que, quanto mais perto se chega de
trailer pequeno talvez precise pensar terminar um projeto, com mais exati-
com muito cuidado nessas questões. dão se consegue estimar quanto traba-
Até o modo como se abre a porta de lho resta a fazer. Como vimos na seção
um armário pode ter importância fun- anterior, aprendemos sobre os proble-
damental no pouco espaço disponível. mas de projeto principalmente quando
Portanto, _parte da definição de um pro- tentamos resolvê-los. Portanto, pode
blema de projeto é o nível de detalha- haver muito esforço antes que o proje-
mento que exige atenção. O que pode tista saiba realmente até que ponto um
parecer detalhe para um arquiteto tal- problema é difícil. Raramente a primei-
vez seja fundamental para o desenhis- ra impressão é confiável, nesse caso.
ta industrial e o designer de interiores, e Parece que os alunos de projeto têm um
assim por diante. otimismo incorrigível quando estimam
a dificuldade dos problemas e o tempo
necessário para chegar a uma solução
4.2 O com eço e o fim aceitável. Em consequência, é comum
do prob lema que não consigam chegar ao nível de
detalhamento exigido pelos professo-
Então, como chegar ao término de um res. É muito fácil olhar superficialmente
problema de projeto? Não será possí- um novo problema de projeto e, ao não
vel continuar se envolvendo, indefini- ver nenhuma grande dificuldade, ima-
damente, com mais e mais detalhes? ginar que não há urgência. Só depois,
É isso mesmo: o processo de projeto talvez quando for tarde demais, sur-
não tem um fim natural. Não há como jam as dificuldades em decorrência de
decidir, sem sombra de dúvida, quan- algum esforço.
do um problema de projeto foi resolvi- Uma das características essenciais
dos problemas de projeto é que, muitas
do. Os projetistas simplesmente param
..\ .
de projetar quando ficam sem tempo vezes, eles não são visíveis, mas têm de
ou quando, na sua avaliação, não vale ser encontrados. Ao contrário das pala-
a pena explorar a questão ainda mais. vras cruzadas, dos jogos de raciocínio
Nos projetos, assim como na arte, uma e dos problemas matemáticos, nem a
das habilidades é saber quando parar. meta nem o obstáculo para atingi-la são
Infelizmente, parece que não há subs- expressos com clareza. Na verdade, a
tituto real para a experiência no desen- expressão inicial dos problemas de pro-
volvimento dessa capacidade de avalia- jeto costuma ser bem enganosa. Embo-
ção. Isso traz dificuldades consideráveis ra tipicamente os problemas sejam
não só para os estudantes, mas também expressos sem muita clareza, também
para os profissionais. Como não há um é verdade que os projetistas nunca
fim real do problema de projeto, é muito se satisfazem com a apresentação do
62 COMO ARQUITETOS E D ESIGNERS PENSAM

do processo de projeto examinados no


problema. Com a fábula da maçaneta,
cap. 3. Na prática, esse comportamento
Eberhard (1970) ilustrou de forma diver-
é apenas o resultado lógico da ideia de
tida esse hábito, às vezes, irritante dos
que a análise precede a síntese e a cole-
projetistas. Ele insinua que os proje-
ta de dados, a análise. Como vimos, ao
tistas têm duas maneiras de recuar na
hierarquia dos problemas: 1pela escala- projetar, é difícil saber quais problemas
da e pela regressão. 1 são pertinentes e quais informações
Diante da tarefa de projetar uma serão úteis antes que se tente obter
maçaneta nova para a porta do escritó- uma solução.
rio do cliente, o projetista de Eberhard Muitas vezes, a escalada e a regres-
imagina que talvez "devamos nos são andam juntas. Assim, o meu aluno
perguntar se a maçaneta é a melhor de arquitetura que estuda biblioteco-
maneira de abrir e fechar a porta". Logo, nomia também pode convencer-se de
o projetista questiona se o escritório que um prédio novo para a biblioteca
precisa mesmo de porta, se deveria central não é a resposta. Ele pode argu-
mesmo ter quatro paredes, e assim por mentar que o problema é projetar um
diante. Como conta Eberhard com base novo sistema para tornar os livros mais
na experiência, essa linha de argumen- disponíveis criando filiais da biblioteca,
tação pode levar ao redesenho da enti- bibliotecas ambulantes ou, talvez, até o
dade da qual fazem parte o cliente e o uso de novos métodos de transmissão
escritório- e, no final das contas, ques- de dados pela televisão.
tiona-se até o próprio sistema político Embora essa ampliação contínua do
que permite que essa entidade exista. problema possa ser usada para evitar a
Essa escalada leva à definição cada vez questão e adiar o dia cruel de realmen-
mais ampla do problema. Como a ima- te engalfinhar-se com o projeto, ainda
gem residual que fica depois que fita- assim ela é uma reação cautelosa e sen-
mos uma luz forte, o problema parece sata a problemas malformulados. Nos
seguir o nosso olhar. projetos, como na medicina, a ação só
Também podemos reagir ao proble- é necessária quando a situação atual
ma de projeto do modo que Eberhard
é um tanto insatisfatória; mas o que é
chama de regressão. Um aluno meu
melhor, tratar os sintomas ou procurar
cuja tarefa era projetar um prédio novo a causa?
para a biblioteca decidiu que precisava
estudar os vários métodos de empres-
tar e armazenar livros. Como professor I
4.3 Projet ar para consertar
concordei que isso parecia sensato, mas
na aula seguinte, descobri que parecia
~erta vez, um cliente me pediu que pro-
que ele se preparava para se formar em
Jetasse uma ampliação da sua casa. 0
biblioteconomia, e não em arquitetura.
pedido inicial era bastante vago, corn
Até certo ponto, essa linha de regressão
várias ideias de acrescentar um quarto
é encorajada por alguns mapeamentos
ou escritório. Era difícil entender o ver-
4 Os componentes dos problemas de projeto 63

dadeiro propósito da ampliação, porque


A realidade é que projetar é, fre-
a casa já era bastante grande para que
quentemente, como um serviço de
todos os membros da família tivessem reparos. Parte do problema é corrigir
os seus quartos e ainda sobrasse um algo que, de certa forma, deu errado.
que poderia ser usado como escritório.' Criar um estilo interno novo para uma
Havia pouco espaço livre no terreno e empresa comercial, reajustar o interior
a ampliação teria de ocupar o espaço de uma loja, ampliar uma casa, plantar
valioso do jardim ou envolver grandes árvores para formar um cinturão prote-
despesas p ara. con struir em cima da tor ou escolher uma área para renova-
garagem.e remover um esplêndido telha- ção habitacional são todos projetos que,
do em duas águas. Parecia que qualquer em campos variados, reagem , a situa-
ampliação estava fadada a criar novos ções insatisfatórias existentes. Por essa
problemas e, provavelmente, não seria razão, muitos autores referem-se ao
um investimento que valesse a pena. O projeto como um tipo de "conserto".j O
pensamento do cliente ainda não estava projetista é visto como se, de certa for-
claro e, numa reunião, a ideia de conse- ma, tentasse melhorar ou consertar o
guir acomodar os avós foi discutida ao que está errado. Voltaremos mais adian-
som da música bastante alta vinda do te a essa noção do projeto como "con-
quarto de um dos filhos adolescentes. serto" e examinaremos rapidamente o
Aos poucos, descobriu-se que essa era argumento de que projetar tecnologias
a verdadeira fonte do problema. Na ver- para consertar sintomas apenas torna
dade, a casa já era mesmo bem grande, mais firme a causa daqueles sintomas.
mas não suficientemente bem dividida Por exemplo, projetar barreiras sonoras
em termos acústicos. Então, o problema para filtrar o barulho da rua pode enfra-
passou a ser um isolamento acústico quecer a luta por um meio de transpor-
melhor mas isso não é fácil de conse- te mais silencioso e que gaste menos
'
guir nas construções domésticas tradi- energia do que o motor de combustão
cionais existentes. A princípio, sugeri - interna. Porém, o tema central deste
de brincadeira- a real solução: comprem capítulo é que uma parte significativa
. I .
fones de ouvido para os filhos. Asstm, dos problemas de projeto costuma ter
ao tratar a causa do problema em vez de relação com o que já existe. Assim, a
consertar os sintomas, o cliente preser- definição desse problema é uma ques-
vou o jardim e o dinheiro. Infelizmente, tão de decidir exatamente quanto do
perdi os meus honorários, mas ganhei que já existe pode ser questionado. Os
um cliente muito grato e que tornou-se problemas de projeto não têm frontei-
meu amigo. Essa é uma visão bem pou- ras óbvias nem naturais, mas parecem
co glamorosa dos problemas de projeto. organizar-se de forma mais ou menos
A imagem pública estereotipada do ato hierárquica. Raramente se consegue
de projetar mostra a criação de objetos discernir com precisão em que ponto
ou ambientes novos, originais e sem acima do problema declarado é preciso
concessões. começar e em que ponto abaixo dele se
64 COMO ARQUITETOS E OESIGNERS PENSAM

deve parar. Descobrir criativamente o prima e durabilidade do acabamento e


alcance do problema é uma das habili- das junções.
dades mais importantes do projetista, Ao projetar, é necessário frequen-
e no Cap. 12 examinaremos algumas te~te imaginar uma solução inte-
técnicas de identificação de problemas. grada para toda uma aglomeração de
exigências. Vimos, no Cap. 2, como a
roda de carroça em forma de prato de
4.4 O problema George Sturt foi uma dessas respostas
multidimensional integradas a exigências estruturais,
mecânicas e até legais. Nas edificações,
Os problemas de projeto costumam ser a janela é um exemplo excelente de
multidimensionais e altamente intera- outro componente inevitavelmente
tivos. E raríssimo que a coisa projeta- multidimensional (Fig. 4.2). Além de
da tenha alguma parte que sirva a um deixar entrar o sol e a luz do dia e per-
único propósito. Dizem que o arquiteto mitir a ventilação natural, também se
americano Philip Johnson observou que costuma exigir da janela que permita
há quem ache as cadeiras bonitas por a visão da paisagem mantendo a pri-
serem confortáveis, enquanto outros vacidade. Como interrupção da parede
acham as cadeiras confortáveis por externa, a janela apresenta problemas
serem bonitas. Sem dúvida, ninguém de estabilidade estrutural, perda de
pode negar a importância dos aspec- calor e transmissão de ruídos, e, por-
tos visual e ergonômico no projeto de tanto, comprovadamente, é um dos
cadeiras. As pernas de uma cadeira elementos mais complexos da edifi-
empilhável constituem um problema cação. Pode-se usar a ciência moder-
ainda mais multidimensional. A geo- na para estudar cada um dos muitos
metria e a construção das pernas des- problemas do projeto de janelas, com
sas cadeiras têm de oferecer estabili- ramos pertinentes da física, da psico-
dade e sustentação, permitir o encaixe física e da psicologia. Essa realmente é
quando empilhadas e ser favoráveis uma série complexa de conceitos para
à intenção visual do projetista para a pôr diante de um arquiteto. A maioria
cadeira como um todo. É improvável
dos cursos de arquitetura tenta ensinar
que o projetista de uma cadeira dessas
a maior parte desse material científico.
seja bem-sucedido se pensar separa-
No entanto, talvez os métodos da ciên-
damente nos problemas de estabilida-
cia sejam surpreendentemente inúteis
de, sustentação, empilhamento e linha
para o projetista. Em geral, as técnicas
visual, já que todos têm de ser satisfei-
modernas da ciência da edificação só
tos pelo mesmo elemento da solução.
ofereceram métodos para prever como
Na verdade, o projetista também preci-
e se a solução de um projeto vai fun-
sa ter consciência de outros problemas
cionar. Elas são simples ferramentas
mais gerais, como custo, limitações da
de avaliação e não ajudam em nada a
fabricação, disponibilidade de matéria-
síntese. Transferidores de iluminação
-
4 Os componentes dos problemas de projeto 65

natural e cálculos de perda de calor mente definidos e critérios de sucesso


ou ganho solar não dizem ao arqui- do desempenho da janela em todas as
teto como projetar a janela, apenas dimensões que identificamos. A estra-
como avaliar o desempenho da janela tégia de Page exige, então, que o pro-
já projetada. jetista reúna várias subsoluções para
cada critério e depois descarte as que
não satisfizerem a todos os critérios.
4 .5 Subotimização Portanto, o projetista de janelas produ-
ziria uma sucessão de projetos, alguns
Chris }ones (1970) sintetiza o modo com a intenção de obter uma boa vista,
como }ohn Page, professor de ciência outros de evitar o ganho solar ou obter
da edificação, propõe que os projetis- boa iluminação natural etc. Afirma-se
tas adotem, em situações como essa, que essa estratégia pretende aumentar
o que ele chama de 'estratégia cumu- o tempo gasto na análise e na síntese e
lativa para projetar.' Ela envolve o esta- reduzir o tempo gasto com a síntese de
belecimento de objetivos cuidadosa- soluções ruins.

Perda de calor

~ Conforto
Ganho solar térmico

Ventilação /
Atenção

lnteligibilidade
Acústica do
de fala
cômodo

incômodo
Transmissão de ruídos
do som

Iluminação Vista
natural
~ Ofuscamento Fig. 4.2

Luz do sol
v Privacidade
Parte da série
complexa de questões
envolvidas no projeto
PSICOFfSICA PSICOLOGIA de uma janela
FfSICA
66 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PEN SAM

É interessante que essa estraté-


período do projeto de janelas na Ingla-
terra tenh a sido o século XVIII. A pro-
gia, sugerida por um cientista, lembra
o comportamento dos alunos de ciên- porção vertical das janelas georgianas,
cias na experiência descrita no capítulo posicionadas perto da borda externa da
anterior. No entanto, essa abordagem parede e com intradorsos ampliados
não parece nascer do entendimen- ou escalonados, permite penetração e
to claro da verdadeira natureza dos distribuição excelentes da luz natural
problemas de projeto. Por serem tão {Fig. 4.3). A janela do tipo guilhotina era
multidimensionais, eles também são razoavelmente resistente às intempé-
altamente interativos. Aumentar a ries e permitia configurações de venti-
janela pode deixar entrar mais luz e lação muito mais flexíveis que a janela
propiciar uma vista melhor, mas tam- de duas folhas que a substituiria. A pro-
bém resultará em mais perda de calor, e porção entre janela e parede maciça, tão
pode criar problemas maiores de priva- fundamental até o fim do Renascimen-
cidade. A própria interligação de todos to, funcionava bem em termos estrutu-
esses fatores é que constitui a essência rais, permitia uma iluminação homo-
dos problemas de projeto, e não os fato- gênea e a privacidade dos que estavam
res isolados propriamente ditos. Nesse dentro de casa. É claro que, acima de
aspecto, projetar é como resolver pala- tudo, a janela georgiana integrava-se a
vras cruzadas. Mude as letras de uma uma linguagem arquitetônica soberba.
palavra e várias outras palavras terão Assim, parece improvável que o arqui-
de ser alteradas, exigindo ainda mais teto do século XVIII se angustiasse com
mudanças. Mude a forma de prato da a falta de conhecimentos sobre a ciên-
roda de carroça de George Sturt e talvez cia da edificação.
ela não suporte a carga e as forças late- Portanto, o bom projeto costuma
rais, a menos que o ângulo de conver- ser uma resposta integrada a toda uma
gência e a montagem do eixo também série de questões. Se houvesse uma
sejam alterados. Depois disso, talvez característica única que pudesse ser
a carroça não caiba mais no sulco das
usada para identificar os bons proje-
estradas, a menos que o comprimen-
tistas, seria a capacidade de integrar
to do eixo e o formato do corpo sejam
e combinar. Um bom projeto é quase
mudados. Como vimos, a roda de car-
como um holograma: a imagem intei-
roça resultou de muitos anos de experi-
ra está em cada fragmento. Em geral,
ência, e não da análise teórica.
não é possível dizer qual parte do
problema se resolve com qual parte
da solução. Elas simplesmente não se
4.6 A solução integrada
correspondem dessa maneira.
Até o surgimento da moder na c I·~enCia
. No entanto, se pretendem abando-
da edificação, era assim que a . nar as soluções tradicionais ou verna-
s Jane-
las eram projetadas. Talvez o melhor culares, os projetistas modernos não
podem se dar ao luxo de permanecer
4 Os componentes dos problemas de projeto 67

tão ignorantes da estrutura dos proble-


mas quanto o arquiteto do Renascimen-
to ou George Sturt. Como explicaram
Chermayeff e Alexander {1963):

Há projetistas demais que não percebem


a existência de novos problemas que real-
mente requerem novas abordagens, caso
o padrão dos problemas pudesse ser vis-
to como é e não simplesmente como uma
questão banal (de uma solução prévia),
bem à mão nos manuais ou revistas ali na
esquina.

Esse "padrão do problema" compõe-


-se de todas as interações entre uma
exigência e outra que restringem o que
o projetista pode fazer. Novamente,
para Chermayeff e Alexander (1963):

todo problema tem uma estrutura própria.


O bom projeto depende da capacidade
do projetista de agir de acordo com essa
estrutura, e não de correr arbitrariamente
contra ela.

Podemos observar algumas regras


.gerais sobre a natureza desse padr~o Fig. 4.3
de restrições no projeto e vamos dis- A janela georgiana é uma solução muito bem
integrada
cuti-las em outro capítulo. Entretant~,
.
antes precisamos examinar com mais
atenção o modo como 0 desempenho
dos projetos pode ser medido de acordo
com critérios de sucesso.
5
Medições, critérios e
avaliação ao projetar
I

- Ela não sabe fazer subtrações- disse a Rainha Bra?nca. - Sabe fazer
divisões? Divida um pão com a faca; qual a resposta.
_ Acho que... - com eço u Alice• mas a Rainha Vermelha respondeu
por ela.
_Pão com manteiga, é claro.
Lewis Carroll, Alice através do espelho

Maus Picasses não existem, mas alguns são menos bo ns que os outros.
Pablo Picasse, Com e to Judgment

5.1 A medição do sucesso do projeto

No capítulo anterior, vimos que, tipicamente, a solução de um


projeto é uma resposta integrada a um problema complexo e
multidimensional. É bem provável que cada elemento da solu-
ção resolva, ao mesmo tempo, mais de uma par te do proble-
ma. Até que ponto, porém, essa resposta é uma boa solução
do problema complexo do projeto? Como escolher entre solu-
ções alternativas? Será possível dizer que um projeto é melhor
que o outro? E, caso seja, em que medida? Portanto, a questão
diante de nós, neste capítulo, é até que ponto podemos medir
o grau de sucesso do processo de projeto.
Não é nada fácil responder a essa pergunta. Para ver a
dificuldade, consideremos o projeto de uma estufa. Há várias
características que podem variar numa estufa. Embora, ine-
vitavelmente, o corpo da estufa tenha de ser quase todo de
vidro, há mais opções quanto à estrutura. Podemos pensar

...
5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 69

pelo menos em madeira, aço, alumí-


desempenho em relação a alguns cri-
nio e plástico. A forma real da estufa
térios, mas, em outros casos, o juízo
varia ainda mais, com a possibilidade
é mais subjetivo. Finalmente, temos
de cúpulas, teto em duas águas, abó-
então o problema de combinar esses
badas de berço, e assim por diante. Na juízos numa avaliação geral.
verdade, há muito mais variáveis no
projeto, como o método de ventilação,
o tipo de porta, o piso, a construção dos 5.2 O problema dos
alicerces etc. O que o projetista tem de números e dos
fazer é escolher a combinação de todas sistemas de contagem
essas · características que permita o
desempenho mais satisfatório. Então, É claro que tudo isso significa que, num
como medir o desempenho da nossa projeto, a medição envolve quantidades
estufa? É claro que o principal propósi- e qualidades. Assim, no processo de
to de uma estufa é reter o calor do sol, tomada de decisões, os projetistas têm
de modo que podemos começar medin- de ser capazes de equilibrar, de algum
do ou calculando a eficiência térmica modo, critérios qualitativos e quantita-
de toda uma série de estufas possíveis. tivos. Voltaremos a isso mais adiante,
Infelizmente, ainda estamos longe de depois de um pequeno desvio para exa-
descrever até que ponto a nossa estu- minar a variedade de sistemas disponí-
fa será satisfatória para cada jardinei- veis para registrar juízos.
ro. Talvez eles também queiram saber Na verdade, quantidade e qualidade
quanto vai custar construí-la, quanto não são tão diferentes entre si como se
tempo ela vai durar, se será fácil de costuma supor. Isso porque não é sensa-
construir e manter, se ficará bonita no to falar de quantidade como se fosse um
jardim. Assim, a estufa tem de satis- conceito único. Normalmente, medimos
fazer critérios de ganho solar, custo, e exprimimos quantidades contando-as
durabilidade, facilidade de montagem, com algum sistema numérico. Isso nos
aparência e talvez muitos outros. leva a acreditar que todos os números
Se imaginarmos que queremos ava- se comportam da mesma maneira, o
que não é bem verdade. Acontece que
liar algumas soluções do projeto p:ra
costumamos empregar várias maneiras
arrumá-las em ordem de preferen-
bem distintas de usar os números sem
cia, precisaremos começar ava~i:~do
ter muita consciência das diferenças.
cada projeto em relação aos cntenos
Esse descuido com os números pode ser
e depois combinar essas avaliações de
fatal quando tentamos fazer o tipo de
algum modo. Isso nos deixa três difi-
juízo necessário num projeto. Os siste-
culdades. Primeiro, é provável que ~s
mas numéricos diferem na medida em
vários critérios de desempenho nao
que impõem regras ao modo como os
tenham a mesma importância, de for-
números funcionam quando nos move-
ma que é preciso haver um sistem~ de
mos pela escala.
pesos. Depois, pode ser fácil medir 0
70 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

centímetros e dois centímetros. Esse


5.3 Razão numérica
modo de usar os números, portanto,
seria útil para comparar o comprimen-
O sistema numérico que tem o conjun-
to ou o tamanho das nossas estufas.
to mais exigente de regras é a chamada
escala proporcional. Tendemos a pres-
supor que é essa escala que está em uso
quando vemos um número, e é a esca- 5.4 Números-intervalo
la numérica com a qual estamos mais
acostumados (Fig. 5.1). No entanto, nem todas as medições
Quando contamos objetos, usamos científicas que podemos fazer na nos-
essa escala proporcional de medição sa estufa baseiam-se em números pro-
que nos permite dizer não só que qua- porcionais. Se, em vez de considerar a
tro é o dobro de dois, como também quantidade de luz que entra, medirmos
que oito é o dobro de quatro. Assim, é a temperatura dentro da estufa, preci-
normal e correto supor que quem faz saremos ter cuidado! Num dia de sol
vinte anos é duas vezes mais velho no inverno, seria sensato esperar que
do que quem só tem dez anos. Por sua a estufa atinja uma temperatura inter-
vez, quem tem quarenta anos será duas na de, digamos, 20 graus centígrados
vezes mais velho do que quem faz vin- quando a temperatura externa for de
te anos. A escala ou régua constitui a apenas 10 graus. O estranho é que não
forma mais óbvia de medição propor- podemos dizer que a temperatura den-
cional, e podemos ver que a razão entre tro da estufa é o dobro da temperatura
três centímetros e um centímetro é do lado de fora (Fig. 5.2)!
exatamente a mesma que entre seis

20 68 Intervalos iguais
20-10 = 10-0
=
68-50 50-32
10 50

o 32
Mesma razão
6:2 = 3:1

Fig. 5.1
A distância é medida usando 0 siste Fig. 5.2
. . ma
numenco proporcional ~temperatura deve ser medida usando 0
Sistema nu menco
· . .mtervalar
5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 71

Podemos ver por que é assim jun-


recebeu nota quatro na montagem é
tando as duas escalas comuns de tem- duas vezes mais fácil de montar do que
peratura. A temperatura externa de 10 aquela que recebeu nota dois.
graus centígrados também pode ser
descrita como 50 graus Fahrenheit I

enquanto a temperatura interna de 20 5.5 Números ordinais


graus centígrados corresponde a uns
68 graus Fahrenheit. Portanto, essas Às vezes, usamos uma escala de medi-
duas temperaturas correspondem a ção ainda mais cautelosa, na qual nem
uma razão de 20 para 10, ou 2 para 1, na mesmo o intervalo é considerado cons-
escala centígrada, mas a uma razão de tante e confiável. Essas escalas são cha-
68 para 50 na escala Fahrenheit. madas de ordinais, porque represen-
Isso acontece porque o zero dessas tam apenas uma ordem ou sequência
escalas não é absoluto; é totalmente (Fig. 5.3). Se observarmos a tabela final
arbitrário. Na verdade, a escala centí- do campeonato da Liga Inglesa de Fute-
grada é definida com cem intervalos bol de 1930 (um ano escolhido por puro
iguais entre a temperatura de conge- acaso!), veremos que o Leeds termi-
lamento e a de fervura da água. Pode- nou em quinto lugar, o Aston Villa em
ríamos usar, com a mesma facilidade, quarto, o Manchester City em terceiro,
as temperaturas de congelamento e o Derby em segundo e o Sheffield Wed-
fervura de qualquer outra substância nesday em primeiro. No entanto, um
e, naturalmente, qualquer número de exame mais atento revela que a posi-
intervalos entre elas. Essas escalas de ção final desses times, medida numa
temperatura são descritas como medi- escala ordinal, é bastante enganosa se
das intervalares. Embora se possa des- comparada com o número de pontos
crever 20 graus como duas vezes mais que fizeram, que são medidos com uma
quente do que 10 graus, a diferença ou escala proporcional. Os times coloca-
intervalo entre 20 e 10 é exatamente dos em terceiro, quarto e quinto luga-
igual ao intervalo entre 10 e O. res estavam separados por um ponto
As escalas intervalares costumam apenas, enquanto o Derby estava a três
ser usadas em avaliações subjetivas. pontos de distância deles e o Sheffield
Os psicólogos recomendam que essas Wednesday, a enormes dez pontos à
escalas sejam bem curtas, com até sete frente do Derby. Da mesma forma, os
intervalos, para manter a confiabilida- regulamentos exigem que a superfície
de do intervalo. Assim, para voltar à do material usado em edificações não
nossa estufa, podemos pedir a vários permita a propagação das chamas em
jardineiros que avaliem a facilidade de caso de incêndio. Os materiais podem
montagem ou de manutenção em esca- pertencer a cinco classes de propaga-
las de cinco pontos. Portanto, é preci- ção das chamas, classificadas de O a 4.
Nessa escala ordinal, quanto maior o
so ter o cuidado de lembrar que não há
razão para considerar que a estufa que número, mais rapidamente as chamas
72 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

se propagam, mas a diferença entre as bonita que a outra. Os examinadores


classes 1 e 2 não é necessariamente a acadêmicos britânicos podem dar notas
mesma que entre as classes 2 e 3. de um a cem numa prova específica,
Também temos escalas ordinais numa escala que, na verdade, é inter-
quando pedimos a alguém que clas- vaiar, já que o zero raramente é usado.
sifique as suas preferências. Assim, No entanto, a classificação geral das
pediríamos aos nossos jardineiros notas costuma basear-se numa escala
que arrumassem algumas estufas em ordinal grosseira, com primeira classe,
ordem de aparência. A adequação das segunda classe superior, segunda clas-
escalas de avaliação ordinais ou inter- se inferior, terceira classe e aprovação
vaiares ainda é uma questão de discer- ordinária sem mérito.
nimento, mas, em geral, deve-se usar
as escalas ordinais quando a avaliação
depende de muitos fatores ou quando 5.6 Núm eros nominais
os fatores não podem ser facilmente
definidos. Assim, embora pareça sen- Finalmente, o quarto sistema de nume-
sato perguntar aos nossos jardineiros ração em uso, e o menos preciso, é a
o quanto uma estufa é mais fácil de escala nominal, assim chamada por-
montar que a outra, não parece sensato que os números realmente represen-
perguntar o quanto uma delas é mais tam nomes e não podem ser mani-

PONTOS POSIÇÃO
60
PRIMEIRA DIVISÃO
58
J v E D GF GC Pts
1 Sheff Wed 42 26 8 8 105 57 60
2 Derby 42 21 8 13 90 82 50
3 Man City 42 19 9 14 91 56
81 47
4 Aston Villa 42 21 5 16 92 83 47
5 Leeds 42 20 6 16 79 63 46
6 Blackburn 42 19 7 16 99 93 45 54
7 West Ham 42 19 5 18 86 79 43
8 Leicester 42 17 9 16 86 90 43
9 Sunderland 42 18 7 17 76 80 43 52
10 Huddersfield 42 17 9 16 63 69 43
11 Birmingham 42 16 9 17 67 62 41
12 Liverpool 42 16 9 17 63 79 41 50
13 Portsmouth 42 15 19 17 66 62 40
14 Arsenal 42 14 11 17 78 66 39
15 Bolton 45 15 9 18 74 74 39 48
16 Middlesbrough 42 16 6 20 82 84 38
17 Man United 42 15 8 19 67 88 38
18 Grimsby 42 15 7 20 73 89 37 46
19 Newcastle 42 15 7 20 71 92 37
20 Sheff United 42 15 6 21 91 96 36
21 Burnley 42 14 8 20 79 97 36 44 Fig . 5.3
22 Everton 42 12 11 19 80 92 35
As classificações
42 esportivas exemplificam
os números ordinais
5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 73

pulados aritmeticamente. No nosso


da camisa e não surpreende que tenha
exemplo futebolístico, podemos ver
sofrido objeção dos torcedores mais
que o número da camisa dos jogadores tradicionais.
é nominal (Fig. 5.4). Um atacante não
é melhor nem pior que um defensor
e dois goleiros não valem um zaguei- 5.7 Combinação das
ro. Na verdade, não há sequência nem escalas
ordem nesses números; poderíamos
usar as letras do alfabeto com a mesma Assim, parece que somente os números
facilidade, ou qualquer outro conjun- de uma escala proporcional verdadeira
to de símbolos. De fato, alguns times podem ser combinados de forma coe-
de rúgbi usam tradicionalmente letras rente com os números de outra escala
em vez de números nas costas, como proporcional verdadeira. Não pode-
se quisessem demonstrar esse fato. A mos combinar temperaturas de escalas
única coisa que se pode dizer sobre dois diferentes e, sem dúvida, não podemos
números nominais diferentes é que não somar os números de diferentes esca-
são iguais. Isso permite ao juiz de fute- las ordinais de preferência. Imagine
bol expulsar o jogador que comete uma se pedíssemos a algumas pessoas que
falta, escrever o seu número no cader- avaliassem vários projetos alternati-
ninho e saber que não vai confundi-lo vos, colocando-os em ordem de pre-
com nenhum outro jogador em cam- ferência. É claro que as notas dadas
po. Antigamente, o número da cami- seriam números ordinais. Simplesmen-
sa dos jogadores de futebol indicava a te não podemos somar todas as notas
sua posição em campo, com os goleiros dadas dessa maneira a um projeto por
usando ..1", e assim por diante. A ado- um certo número de juízes. Um dos
ção da chamada numeração fixa do juízes pode ter considerado os dois
atleta tirou esse significado do número primeiros projetos quase impossíveis

Fig. 5.4
Números usados como
nomes: é o sistema
numérico nominal
74 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

ção, 0 fez para desencorajar os psi-


de separar, enquanto outro pode ter
achado que o projeto que pôs em pri- cólogos a usar exatamente esse tipo
meiro lugar destacava-se bastante, com de desonestidade numérica (Stevens,
todos os outros bem atrás. Os números 1951). É interessante observar que, na
ordinais simplesmente não dão essa época, a própria psicologia era atacada
informação. Por mais tentador que seja por ser imprecisa demais, numa era de
combinar assim essas notas, é preciso lógica, para merecer o título de ciência.
resistir à tentação! Talvez por essa razão muitos psicó-
Um dos casos mais conhecidos des- logos se sentiram tentados a tratar os
se tipo de confusão entre escalas de seus dados como se fossem mais preci-
medição encontra-se num complexo sos do que indicariam as regras de Ste-
modelo numérico do processo de proje- vens. O trabalho de Archer parece uma
to imaginado pelo teórico e projetista de tentativa paralela de forçar a atividade
desenho industrial Bruce Archer. Pare- de projetar a caber num molde cienti-
ce que, com certa relutância, ele admite ficamente respeitável. Archer escrevia
que pelo menos algumas avaliações de numa época em que a ciência estava
um projeto têm de ser subjetivas, mas mais na moda do que hoje e num perí-
como cria um sistema bem organizado odo em que muitos autores considera-
para medir a satisfação em projetos, fica vam desejável apresentar como sendo
óbvio que Archer (1969) quer usar ape- científico o processo de projeto.
nas escalas proporcionais. Ele defende
que é possível usar uma escala de 1 a
100 para avaliações subjetivas e depois 5.8 Juízos e critérios
tratar os dados como se estivessem de valor
numa verdadeira escala proporcional.
Nesse sistema, não se pede ao juiz - ou Muitas vezes é tentador usar em um
árbitro, como diz Archer- que classifi- projeto métodos de medição aparente-
que a ordem, nem que use uma escala mente mais exatos do que a situação
intervalar curta, mas que dê notas até
realmente merece. As escalas propor-
100. O autor defende que, se os árbitros
cional e intervalar de nível mais alto
forem corretamente escolhidos e se as
permitem não só muito mais manipu-
condições da avaliação forem adequa-
lação aritmética, como também juízos
damente controladas, é possível supor
absolutos. Caso se possa demonstrar
que essa escala tenha um zero absoluto
que, em determinadas circunstâncias,
e intervalos constantes. Ele não espe-
20 graus centígrados é uma tempera-
cifica como "escolher corretamente" os
tura confortável, esse valor pode ser
juízes nem como "controlar adequada-
usado como critério de aceitabilida-
mente as condições", razão pela qual 0
de absolutamente mensurável. A vida
. argumento parece forçado.
não é tão fácil quando se precisa usar
Na verdade, Stevens, o primeiro a
a medição ordinal. As universidades
definir as regras das escalas de medi-
britânicas utilizam examinadores
5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 75

externos para proteger e preservar 0 se pode fazer no projeto que tem mais
valor "absoluto" da classificação das probabilidade de aprimorá-lo em rela-
notas. Talvez não seja muito difícil ção aos critérios. Portanto, a questão é
para um examinador experiente clas- mais de decisão estratégica do que de
sificar os alunos em uma ordem. No cálculo minucioso.
entanto, é muito mais difícil manter Talvez porque os problemas de pro-
um padrão constante durante muitos jeto sejam frequentemente espinhosos
anos de desenvolvimento de currícu- e incompreensíveis, é enorme a tenta-
los e mudanças nos exames. É tenta- ção de buscar critérios mensuráveis de
dor evitar esses problemas difíceis de desempenho satisfatório. Aqui, a dificul-
avaliação instituindo procedimentos dade para o projetista é dar valor a tais
padronizados. Assim, seguindo com critérios e, assim, equilibrá-los entre si
o exemplo, uma técnica de prova com e em relação a fatores que não podem
perguntas de múltipla escolha res- ser medidos de forma quantitativa.
pondidas por computador pode pare- Infelizmente, os números parecem dar
cer um passo rumo a uma avaliação respeitabilidade e importância a fatores
mais confiável. Mas, invariavelmente, que, na verdade, podem ser bem triviais.
há desvantagens nessas técnicas. De Axel Boje nos faz uma demonstração
modo paradoxal, os exames conven- excelente dessa doença da medição
cionais permitem aos examinadores numérica no seu livro sobre o projeto de
saber com muito mais exatidão, para escritórios com planta livre (Boje, 1971).
não dizer de forma inteiramente con- Ele calcula que, em média, são necessá-
fiável, quanto os alunos realmente rios sete segundos para abrir e fechar
aprenderam. uma porta de escritório. Junte-se a isso
algumas pesquisas que mostram que,
num prédio de escritórios que acomo-
5 .9 Precisão do cá lcu lo da cem pessoas em 25 salas, cada pes-
soa, em média, trocará de sala cerca de
Ao projetar, é fácil cair na armadilha do 11 vezes por dia, e Boje argumenta que,
excesso de precisão. Às vezes, os alunos numa planta livre, cada pessoa econo-
de arquitetura apresentam análises tér- mizaria umas 32 aberturas de porta ou
micas das suas edificações com a razão 224 segundos por dia de trabalho. Com
de perda de calor em todo o prédio cal- uma lógica semelhante, o autor calcula
culada até o último watt. Pergunte a eles o aumento da eficiência que resulta de
quantos quilowatts se perdem quando um arranjo ótimo do aquecimento, da
uma porta fica aberta alguns minutos e iluminação e dos telefones. A partir dis-
não saberão responder. O projetista pre- so tudo, Boje consegue concluir que um
cisa é de uma certa noção do significado escritório de planta livre adequadamen-
dos números , e não de métodos preci- te projetado poupará, em relação a um
sos para calculá-los. Como projetista, projeto convencional, dois mil minutos
é preciso saber o tipo de mudança que por mês por funcionário.
76 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

uma geometria de sólidos altamente


O projetista não ponderado poderia
complexa. Na tentativa equivocada de
facilmente usar esses dados, que pare-
auxiliar os arquitetos, os cientistas da
cem convincentes e de alta qualidade,
edificação geraram toda uma série de
para projetar um escritório com base
em fatores como minimizar "aberturas ferramentas para ajudá-los a calcular
de porta por pessoa". Mas, na verdade, 0 nível de luz natural nas edificações.

esses números são bastante inúteis, a Tabelas, diagramas de Waldram e


menos que o projetista também saiba transferidores de iluminação natural,
qual a importância relativa de econo- além de toda uma série de programas
mizar sete segundos. Esses sete segun- de computador, foram apresentados
dos economizados seriam realmente como ferramentas para o pobre arqui-
usados de forma produtiva? Que outros teto. Porém, todas essas ferramentas
efeitos sociais e interpessoais, talvez demonstram tamanha falta de entendi-
mais importantes, resultariam da fal- mento do que é projetar que merecem
ta de portas e paredes? Assim, muitas um pouco mais de estudo (Lawson,
outras perguntas precisam ser respon- 1982). Em primeiro lugar, todas exigem
didas antes que o simples indicador iso- que a geometria do lado externo da
lado de "aberturas de porta por pessoa" edificação e do interior do cômodo em
possa ter valor no contexto do projeto. questão seja definida e que o formato e
Os cientistas tenderam a desenvol- a localização de todas as janelas sejam
ver ferramentas cada vez mais precisas conhecidos. Elas são ferramentas pura-
para avaliar projetos, mas há poucos mente avaliadoras, que não servem
indícios de que isso realmente ajude para sugerir soluções; apenas as ava-
os projetistas ou mesmo que melhore 0 liam depois de projetadas. Em segundo
padrão dos projetos. É paradoxal mas, lugar, produzem resultados que pare-
às vezes, o efeito pode ser contrário ao cem muito exatos sobre um fenômeno
pretendido. Por exemplo, embora todos extremamente variável. É claro que
possamos pensar que a luz natural é 0 nível de iluminação criado pela luz
uma bênção cotidiana para todos nós I
natural varia de zero ao amanhecer
não é bem o que acontece na hora de
até um nível altíssimo, dependendo do
calcular a iluminação. Criou-se uma
tempo e da região do mundo e retorna
série de modelos matemáticos, teóri- I

a zero ao anoitecer. Ainda bem que o


cos e artificiais do céu nos quais o Sol é
olho humano é capaz de trabalhar com
totalmente excluído. Então, calcula-se 0
níveis de luz cem mil vezes mais altos
"fator de iluminação natural" em qual-
do que 0 nível mínimo em que conse-
quer ponto dentro de uma edificação
gue funcionar com eficiência e muitas
como a porção de um desses hemisfé- I

vezes fazemos esse ajuste sem sequer


rios teóricos que pode ser vista. Como
notar! Portanto, as ferramentas de ilu-
os modelos matemáticos mais avança-
dos não definem o céu como uniforme- minação natural indicam um grau de
mente claro, o processo todo envolve p.recisão que é enganoso e desnecessá-
no. Em terceiro lugar, as ferramentas
5 Medições , cn"tenos
· · e avaliação ao projetar 77

de iluminação natural estão totalmen-


te separadas de outras considerações
5.10 Regulamentos
ligadas ao projeto das janelas, como
e critérios
perda e ganho de calor, vista etc., como
Infelizmente, boa parte da legislação
vimos no capítulo anterior. Essa falta
com que os projetistas têm de traba-
de integração torna essas ferramentas
lhar parece basear-se no padrão ilus-
praticamente inúteis ao projetar. Não
trado pelo exemplo da iluminação
surpreende a constatação de que essas natural. Sempre que há a possibilidade
ferramentas não são usadas na prática de medir o desempenho, há também a
(Lawson, 1975a), mas ainda estão no oportunidade de legislar. É difícil legis-
currículo e nos livros didáticos de mui- lar sobre qualidade, mas é fácil definir
tos cursos de projeto. e impor quantidades (Lawson, 1975b).
O perigo dessas técnicas que pare- Para o projetista, é cada ve;z mais difícil
cem cientificamente respeitáveis é que, manter um processo de projeto sensa-
mais cedo ou mais tarde, elas passam to e equilibrado diante de uma legisla-
a ser usadas como critérios fixos, e isso ção necessariamente desequilibrada.
realmente aconteceu no caso da ilumi- Um exemplo evidente disso é o projeto
nação natural. Com estatísticas do nível de moradias do setor público no Reino
real de iluminação esperado durante o Unido.
ano no Reino Unido, calculou-se que, O governo britânico encomendou
nas escolas, era desejável um fator de uma excelente pesquisa, realizada por
iluminação natural de 2%. Então, fez-se um comitê presidido por Sir Parker
a exigência obrigatória de que todas as Morris, sobre as necessidades dos
carteiras das escolas novas recebessem habitantes de moradias familiares. o
pelo menos esse fator de iluminação comitê trabalhou dois anos visitando
natural. Toda a geometria das salas conjuntos habitacionais, distribuindo
de aula, portanto, foi efetivamente questionários, recolhendo informações
determinada e, em consequência, uma de especialistas e estudando a literatu-
geração de escolas foi construída com ra disponível. Foi um estudo que viria
grandes áreas envidraçadas. A inter- a ser muito minucioso e respeitado, e
ferência acústica e visual resultante, que se mostrou útil na orientação do
o ofuscamento, as correntes de ar, a desenvolvimento de projetos habita-
perda colossal de calor e o ganho solar cionais durante várias décadas (Parker
excessivo no verão, encontrados com Morris, Homes for Today and Tomorrow ,
frequência nessas escolas, acabaram 1961: 594, London House). O relatório
levando ao abandono desse regula- final assumiu a forma de um livreto
que continha mais de 200 recomenda-
mento. Em muitas áreas, implantaram-
ções principais. Mais tarde, algumas
-se programas para cobrir as janelas
delas foram incluídas como exigências
e reduzir os efeitos negativos de uma
dos padrões mínimos obrigatórios para
distorção tão desastrosa do processo de
residências do setor público. É interes-
projeto.
78 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

com um pr) O,ieto de cozinha que tal-


sante ver quais recomendações ori- _ se e ncontre nem em algumas
vez nao _
ginais de Parker Morris se tornariam
residências particulares de construç~o
exigências legislativas e por quê. Con- . Vale notar que essa legis-
sideremos apenas três delas, ligadas ao mu1to cara. ,
_ "101. ap rovada no início
laçao . .do penado
_
projeto de cozinhas:
conhecido hoje como pnmelr~ geraçao
da meto d o1o gl.a de projeto. Ainda bem
1. A relação da cozinha com o lugar e xter-
no a e la o nde é p rovável que as cria nças
_ , .
. tarde • esses padroes mim-
que, mais
brinquem deve ser !evad a em considera-
ção. . ato'rios foram revogados. De
mos ob ng .,
2. Quem trabalha na pia deve ser capa z d e certa forma, também foi uma pena, Ja
o lha r pela jane la. que continham outras exigências mui-
3. Deve have r ba ncadas d e trabalho nos
dois lados d a p osição da pia e do fog ão. As
to mais sensatas!
instalaçõ es da cozinha d evem ser dispos- Hoje, a legislação sobre projetos
tas d e modo a formar uma se qu ê ncia de passa corretamente por um exame
traba lho q ue inclua bancada/p ia/bancada/
fo g ão/ba ncada e não seja inte rrom pida
crítico e atento, e os projetistas come-
por portas nem p or out ras vias de acesso. çaram a denunciar as falhas práticas
(Parker Mo rris, 1961) da legislação. Em 1973, o Conselho do
Condado de Essex publicou o seu Design
Todas essas recomendações pare- Guide for Residential Areas [Guia de projetos
cem sensatas e desejáveis. No entanto, para áreas residenciais], uma tentativa de
pode-se apostar que a maioria dos pais tratar dos aspectos qualitativos e quan-
consideraria a primeira mais desejá- titativos dos projetos habitacionais que
vel, e a maioria de nós, provavelmen- atualmente é um clássico. Os padrões
te, sacrificaria a eficiência ergonômica visuais e conceitos como privacidade
para ter uma vista agradável. Todavia, receberam tanta ênfase quanto o nível
a terceira recomendação é a mais fácil de ruído e a circulação eficiente do trá-
de medir no desenho de um arquiteto, e fego. Embora o objetivo desse e de mui-
só esta última é que se tornou exigência tos outros guias de projeto que vieram
obrigatória (Fig. 5.5). Portanto, tornou- depois fosse aplaudido de forma quase
-se permissível projetar uma casinha universal, mais tarde vários projetis-
duplex unifamiliar ou um apartamento
tas mostraram-se preocupados com 0
em um andar muito acima do solo sem
resultado dessas orientações que, na
nenhuma visão do espaço externo à
prática, eram usadas como se fossem
cozinha onde as crianças brincam, mas
leis. Cada vez mais, as normas para

Fig. 5.5
A co nfiguração
de cozinha
recomendada por
Parker Morris que se
0..____0=---..J~L..-----
Bancada p1a
A sequência não pode ser · t ·
Bancada Fogão
saneada

tornou obrigató ria m erromp1da por portas nem vias de acesso


5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 79

edificações foram alvo de críticas de


gidas de modo a adequar-se àqueles
arquitetos que demonstraram os resul-
cujo trabalho é conferir, e não àqueles
tados indesejáveis que costumam criar cujo trabalho é projetar. Quem confere
(Lawson, 1975b), e houve propostas de precisa de um teste simples, de pre-
revisar todo o sistema de controle de ferência numérico, fácil de aplicar a
edificações (Savidge, 1978). constatações claras e nada ambíguas.
Em 1976, o Department of the Quem confere também prefere não ter
Environment (DoE) (Departamento do de considerar mais de uma coisa de
Ambiente Construído] publicou o seu cada vez. É claro que o projetista exige
relatório de pesquisa no 6, Value of Stan- exatamente o contrário, e é por isso que
dards for the Externai Residential Enuiron- a legislação costuma dificultar os pro-
ment [Valor dos padrões de ambiente externo jetos. Isso não se deve aos padrões de
residencial], que concluía que muitos desempenho impostos, que podem ser
padrões então aceitos eram impraticá- bastante desejáveis, mas à inflexibili-
veis ou até mesmo claramente questio- dade e à falta de valor introduzida no
náveis. O relatório rejeitou firmemente processo multidimensional e cheio de
a imposição de exigências em questões valores que é o projeto.
como privacidade, vista, luz do sol ou
iluminação natural: "A aplicação de
padrões uniformes em todos os senti- 5.11 Medições e métodos
dos frustra o intuito de pensar em pro- de projetar
vidências adequadamente diversas em
situações diferentes". Já houve referência ao famoso método
Esse relatório parece o dobre fúne- de projetar de Christopher Alexander,
bre da legislação baseada na primeira que talvez exemplifique a primeira
geração de metodologia de projeto da geração do pensamento sobre o pro-
cesso de projeto. Esse processo não é
década de 1960:
mais visto assim e, para examinar o
As qualidades do bom projet.o ~ão são porquê, faremos uma pausa aqui para
sintetizadas por padrõ·e s quantltatlv~s [. · .] dar alguns detalhes. O método de Ale-
É correto que os cont roa I d ores de mcor-
xander consistia em listar todas as
porações peçam provi·d encJas~ · para ,que
haja, digamos, pnvacl a ' acesso
. · d de . • '. area exigências de um problema específico
.
para crianças b nncarem ou sdenc1o.
. A de um projeto e depois procurar inte-
. ~ 1 · de quantidades
imposição da ex1genc a . .. rações entre elas (Alexander, 1964).
· e não se JUStifica
específicas é outra co1sa
Por exemplo, no projeto de uma cha-
pelo resultado dos projetos.
(DoE, 1976). leira, algumas exigências para a esco-
lha dos materiais usados poderiam ser
. as seguintes:
Infehzmente, desd e enta-0 os legis-
!adores não aprenderam a rIçao - dos
Simplicidade: quanto menos mate-
erros cometidos com a luz natural e as
riais, mais eficiente a fabricação.
cozinhas. As leis continuam a ser redi-
,...

80 COMO ARQ UITETOS E DESIGNERS PENSAM

Desempenho: na chaleira, cada fun- projetista os compreenda e resolva.


ção exige um material diferente, 0 trabalho de Alexander foi mui-
como cabo, tampa, bico. to criticado, inclusive por ele mesmo
]unções: quanto menos materiais, (Alexander, 1966), embora pareça que
menos numerosas e mais sim- poucos lhe deram ouvidos na época!
ples serão as junções e mais fácil a Alguns anos depois, Geoffrey Broad-
manutenção. bent publicou uma excelente resenha
Economia: escolher o material ade- das muitas falhas do método de Ale-
quado que seja mais barato. xander (Broadbent, 1973). Alguns erros
mais óbvios de Alexander e os que
Em seguida, as interações entre têm interesse para nós aqui resultam
cada par de exigências são rotuladas de uma visão bastante mecanicista da
como positivas, negativas ou neutras, natureza dos problemas de projeto: "o
caso se complementem, se inibam problema é definido por um conjunto
ou não tenham efeito entre si. Nesse de exigências chamado M. A solução do
caso, todas as interações, exceto jun- problema será uma forma que satisfaça
i ções/simplicidade, são negativas, já com êxito todas essas exigências".
I que envolvem exigências conflitantes. Implícitas nessa declaração estão
I Por exemplo, embora a exigência de
desempenho sugira materiais varia-
várias noções hoje comumente rejei-
tadas (Lawson, 1979a}. Em primeiro
I:
iI dos, o ideal para atender às exigências lugar, a de que existe um conjunto de
de junções e simplicidade seria o uso exigências que possa ser exaustiva-
de um material só. Assim, junções e mente listado no início do processo de
simplicidade interagem positivamente projeto. Como vimos no Cap. 3, na ver-
entre si, mas ambas interagem negati- dade isso não é factível, já que é bem
vamente com o desempenho. provável que vários tipos de exigências
Portanto, o projetista que usar o só ocorram ao projetista e ao cliente
método de Alexander fará primeiro
uma lista de todas as exigências do
bem depois de iniciada a síntese das I
soluções. A segunda concepção errada
projeto e depois determinará os pares
de exigências que interagem positiva
do método de Alexander é que todas
essas exigências listadas têm o mes-
I
ou negativamente. Em seguida, todos mo valor e que toda interação delas é
esses dados serão transferidos para um igualmente forte. O bom senso indica-
programa de computador que busca ria que é bem provável que seja mais
grupos de exigências muito inter-rela- importante satisfazer algumas exigên-
cionadas mas relativamente separadas cias, e não outras, e qu e alguns pares
de outras exigências. O computador, de exigências podem ser intimamen-
então, imprimirá esses grupos, divi- te relacionados, enquanto outros têrn
dindo efetivamente o problema em ligação mais frouxa. Em terceiro lugar
subproblemas independentes, cada um e de forma mais sutil Alexander deixa
deles relativamente simples, para que o '
de considerar que algumas exigências e

.....
5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 81

interações têm implicações m u1.to ma1. s


sem consideradas ao mesmo tempo
profundas sobre a forma da solução do que o detalhamento de portas e janelas.
que outras.
Infelizmente, o padrão de grupos gera-
P~ra ilustrar essas deficiências, do pelo método de Alexander esconde
consideremos
. . ~ .
dois pares de ex1·genc1as esse significado natural do problema e
lnteratlvas listadas por Chermayeff e impõe ao projetista um modo estranho
Alexander (1963) no estudo que fizeram de trabalhar.
~obre comunidade e privacidade no pro-
Jeto de moradias. A primeira interação
é entre "estacionamento eficiente para 5.12 juízos de valor
proprietários e visitantes; espaço ade- no projeto
quado para manobrar" e "separação de
crianças e animais de estimação em Como no projeto costuma haver muitas
relação a veículos". A segunda interação variáveis que não podem ser medidas
é entre "barreiras contra insetos raste- com a mesma escala, os juízos de valor
jantes e escaladores, pragas, répteis, parecem inevitáveis. Por exemplo, ao
pássaros e mamíferos" e "filtros contra projetar ferramentas elétricas, muitas
cheiros, vírus, bactérias, sujeira. Telas vezes é preciso equilibrar facilidade
contra insetos voadores, poeira, detri- de uso com segurança, ou portabilida-
tos, fuligem e lixo trazidos pelo vento". de com robustez. Embora seja possível
O problema do método de Alexander é medir os projetos com escalas grossei-
ser incapaz de distinguir essas intera- ras de satisfação em cada um desses
ções em termos de força, qualidade ou fatores, continua sendo difícil relacio-
importância, mas qualquer arquiteto ná-los. Assim, um cortador de grama
experiente perceberia que as soluções levíssimo e fácil de manobrar e empur-
dos dois problemas têm tipos bem dife- rar pode mostrar-se barulhento e frágil.
No caso de um item desses, não há uma
rentes de consequência. O primeiro
é uma questão de acesso e, portanto, resposta certa, já que, provavelmente I

compradores diferentes darão valor


consiste num problema de planejamen-
diferente a fatores como facilidade de
to espacial, enquanto o segundo é uma
manobra e confiabilidade. O fabrican-
questão de projeto técnico detalha-
te sensato desse tipo de equipamentos
do do revestimento da edificação. Na
produzirá vários projetos alternativos
maioria dos processos de projeto, esses I

cada um com vantagens e desvanta-


dois problemas seriam enfatizados em
gens diferentes. Entretanto, o problema
estágios bem diferentes. Assim, nesse
dos valores relativos fica muito mais
sentido, o projetista escolhe os aspec-
.. grave quando a·s decisões do projeto
tos do problema que deseja conside-
são tomadas por um grande número
rar na ordem do seu provável impacto
de pessoas que podem não ter a capa-
sobre a solução como um todo. Nesse
cidade de escolha de quem compra
caso, é improvável que as questões de
um cortador de grama. Como exemplo
configuração e organização gerais fos-
82 COMO A RQUITETOS E DESJGNERS PENSAM

desses problemas de projeto, temos as comum. HouVe tentativas de aplicar, as .


, .
tecnicas d a análise de custo-beneficio
moradias do setor público ou uma nova
.
aos tipos de problema de projeto em que.
escola, o traçado de novas estradas ou
.
h aJa gan hadores e perdedores. Infeliz-
. , .
a localização das fábricas . É inerente
que tais projetos envolvam graus varia- mente, a lgu ns fatores são mais faceis
.
dos de benefício para alguns e prejuí- de avaliar do que outros. Talvez Isso
zo para outros. Uma estrada nova pode fique bem ilustrado com a referê~cia
poupar o tempo da longa viagem de um a uma das aplicações mais conhecidas
motorista e reduzir o engarrafamen- da análise de custo-benefício: o caso da
to de uma cidade próxima, mas, infe- Comissão Roskill, que avaliou a locali-
lizmente, também pode submeter os zação do terceiro aeroporto de Londres.
moradores locais a barulho e poluição Depois de vários estágios preliminares
indesejados. nos quais foram considerados uns 78
locais, a comissão reduziu as opções a
quatro terrenos: em Cublington, Fou-
5.13 A atração do mesmo lness, Nuthampstead e Thurleigh, que
sistema de medidas foram então comparados por meio da
análise de custo-benefício. Até o dia-
Uma forma atraente de escapar das grama grosseiramente simplificado,
dificuldades que examinamos neste aqui reproduzido, dá uma ideia da com-
capítulo seria reduzir todos os critérios plexidade de efeitos que as várias par-
envolvidos no projeto ao mesmo sis- tes interessadas poderiam causar umas
tema de medidas. A análise de custo- às outras em consequência de um pro-
-benefício baseia-se na expressão de
jeto desses (Fig. 5.6}. Na verdade, há
todos os fatores em termos de valor
muitos outros efeitos bem mais amplos
monetário, criando assim uma escala
que não são mostrados, como as ques-

Equipamento
---iconstrutoraJ~
para edificações Suprimentos

I Em~~sas ~
aeroporto Edifícações Passageiros ~ Emprego

Área oc upada
y Adminis-
tração do
aeroº-orto
Pouso e
Transporte

Empresas
desembarquel aéreas 1.-
Suprimentos
Empresas

Barulho
locais
I
Terreno Moradores
Mão de obra Fig. 5.6
Diagrama
!Proprietários~· Mercadorias simplificado da
i nteração das partes
envolvidas no novo
aeroporto
5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 83

tões das distorções da rede nacional Isso ficou demonstrado quando o RIBA
de transportes resultante da oferta de exprimiu publicamente a preocupação
novas formas de acesso ao local esco- com a avaliação dos lucros e prejuízos
lhido. Por exemplo, a abertura de um e ressaltou as muitas perdas pequenas
aeroporto em Cublington resultaria no não avaliadas que podiam ter um gran-
fechamento do aeroporto existente em de efeito cumulativo:
Luton, que ficaria perto demais para
permitir os procedimentos de controle Uma hora perdida pelo viajante aéreo é
do tráfego aéreo. avaliada com muita generosidade, levan-
do em conta os custos para a empresa e
Muitos benefícios do aeroporto em o salário, mas uma hora de sono perdido
termos de lucro para várias empresas pelos que moram perto da área de maior
de transporte e outras eram razoa- impacto não recebe nenhuma avaliação.

velmente fáceis de calcular para cada (RIBA, 1970).

local e poderiam ser comparados ao


lucro perdido com o uso existente do Avaliar o custo do incômodo do
solo. O custo de oferecer transporte barulho ou o valor do silêncio já foi bas-
para o acesso a cada local e o custo em tante difícil para a Comissão Roskill,
termos do tempo da viagem também mas quando as considerações sobre
foram incluídos na equação. No entan- a conservação da vida selvagem em
to, a perda em termos da redução da Foulness foram trazidas à discussão,
conveniência foi muito mais difícil de todo o processo de tomada de dec i-
avaliar em termos puramente mone- sões começou a se romper. A análise de
tários. Esses efeitos variam de gastos custo-benefício era claramente incapaz
indesejados resultantes da necessidade de criar uma equação para comparar o
de abandonar o lar até fatores como a lucro de um aeroporto ao prejuízo de um
depreciação do valor das propriedades santuário de aves totalmente impro-
na área circundante e o incômodo do dutivo, mas insubstituível e, segundo
barulho causado pelo funcionamento alguns, inestimável. O próprio relatório
do aeroporto. Roskill admitia a inutilidade de buscar
Esse uso público da análise de cus- uma avaliação totalmente objetiva ao
to-benefício revelou muitos perigos comparar os terrenos de Cublington e
reais envolvidos em basear as decisões de Foulness. A opção foi entre o preju-
na quantificação de fatores qualitativos ízo para o valor de Aylesbury e a per-
como a conveniência de um ambiente. da de uma bela igreja normanda em
É óbvio que o sucesso de um processo Stewkley, ou a ruína do litoral de Essex
desses baseia-se no pressuposto de que e a provável extinção dos gansos Brent
todos os custos da perda da conveni- de barriga preta:
ência foram corretamente avaliados.
Como em tantos outros aspect d
Aquí, a verdadeira dificuldade é que é . - , os essa
pesqutsa, nao ha uma única res
posta cer-
improvável obter essas avaliações por ta, em b ora cada indivíduo poss .
. , a acredttar
consenso em uma sociedade pluralista. h
que aJa. Para nos pretender .
' ava 1tar de
84 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

forma absoluta essas visões (a importância


maior parte da energia consumida nos
da conservação de edificações ou da vida países desenvolvidos está ligada à fabri-
selvagem) é pretender dons de sabedoria cação e ao uso dos produtos. Uma pro-
e profecia que homem nenhum possui. O
máximo que podemos fazer é respeitar
porção muito alta está realmente ligada
ambos os pontos de vista. ao setor de construção civil. Do mesmo
{Relatório da Comissão Roskill) modo, os níveis de poluição e de emis-
sões atmosféricas são muito influen-
Até mesmo a estimativa de custo de ciados pelas decisões de projetistas de
fatores que, pareciam ser mais fáceis de desenho industrial, arquitetos e urba-
quantificar, mostrou-se extremamen- nistas. 1\.ldo isso nos leva a querer mais
te discutível. Por exemplo, a própria informações sobre o verdadeiro impac-
equipe da pesquisa de custo-benefício to das decisões de projeto, não apenas
revisou os pressupostos sobre os quais no estágio de construção, como tam-
tinha baseado o custo total da constru- bém em termos de todo o ciclo de vida.
ção. Essa mudança foi tão drástica que, Novamente, cada vez mais a legislação
nesse aspecto, Cublington passou de estabelece e depois muda os limites de
mais caro a mais barato entre os locais poluição e de consumo de energia. É
possíveis. A pesquisa continuou até provável que a maioria dos projetistas
que, aos poucos, ficou claro que mui- tenha bastante consciência da necessi-
tos pressupostos subjacentes, funda- dade de melhorar o nosso mundo dessa
mentais e necessários para a análise forma, mas ache muito difícil incorpo-
de custo-benefício poderiam ser ques- rar ao processo de projeto as descober-
tionados da mesma forma. A indecisão tas e recomendações. É raro que dados
que, pelo menos em parte, resultou do e descobertas sejam expressos clara-
descrédito da técnica, levou a muitos mente de uma forma que o projetista
anos de procrastinação até que, final- consiga entender. Assim como é cada
mente, o aeroporto foi construído em vez mais difícil saber o que é seguro
Stanstead. Talvez aqui a última palavra
e saudável comer, o ato de projetar de
seja a do professor Buchanan, integran-
maneira ecologicamente sensata está
te da Comissão, que ficou tão preo-
cercado de mitos, campanhas e, às
cupado que publicou um relatório da
vezes, dados deliberadamente engano-
minoria:
sos. No entanto, em geral, nem com toda
Fiquei cada vez mais ansioso, temendo me essa confusão projetistas poderiam agir
enredar num processo que não entendia e procrastinar como os que decidiam
por completo e, em última análise, ser le- 0 terceiro aeroporto de Londres. Eles
vado a uma conclusão com a qual sabia, no t" .
fundo do coração, que não concordava. em Simplesmente de avançar e tomar
a decisão da maneira mais integrada e
Há pouco tempo, deu-se correta- sensata possível. E aí as suas decisões
mente mais ênfase às consequências ficarão muito visíveis e fáceis de criticar
ecológicas das decisões de projeto. A conforme os dados se tornarem dispo-
níveis com mais clareza!
...

5 Medições, critérios e avaliação ao projetar 85

5.14 Decisões objet ivas to, capazes de afetar profundamente a


e subjetivas vida de muita gente, não podem mais
esperar que os seus juízos de valor
Na análise final, seria insensato que sejam feitos sem transparência. Esses
os projetistas tivessem a esperança de processos de projeto em grande escala
encontrar um processo que os proteges- precisam suscitar, com clareza, a par-
se da tarefa dolorosa e difícil de exer- ticipação de todos os que serão subs-
cer o juízo subjetivo em situações em tancialmente afetados. No entanto, não
que fatores quantitativos e qualitativos devemos esperar que o processo de pro-
têm de ser levados em conta. A tenta- jeto seja tão claro, lógico e aberto quan-
tiva de reduzir todos os fatores a uma to o método científico. Projetar é uma
medida quantitativa comum, como o atividade confusa que envolve juízos
valor monetário, geralmente serve ape- de valor entre alternativas que podem
nas para transferir o problema para a oferecer, ao mesmo tempo, vantagens
avaliação. Aqui, o estudo da Comissão e desvantagens. É improvável que haja
Roskill sobre o local do terceiro aero- uma resposta correta ou mesmo ótima
porto de Londres traz mais uma lição. no processo de projeto, e é bem possível
Os projetistas e aqueles que tomam que não concordemos acerca dos méri-
decisões semelhantes às de um proje- tos relativos das soluções alternativas.

.....
6
Modelo de problemas
de projeto

Como artista, não planejei fazer o público ente~der, mas sim achar
para mim problemas de forma e espaço, e explora-los.
Henry Moere (no seu 80° aniversário)

Não há nada absoluto em derivar a arquitetura de manipu lações funcio-


nais. Quando olhamos uma planta de Corb, essas formas maravilhosas
que ele racionalizou a partir de banheiros e coisas, sabe, são mesm o
mág icas, são diagramas completamente mágicos, mas eu realmente
preferia ter a mágica sem a funcionalidade espúria no meio do caminho.
John Outram

6.1 Análise de problemas de projeto

Neste capítulo, tentamos analisar a estrutura dos proble-


mas de projeto. Como no restante do livro, essa análise diri-
ge-se primariamente aos problemas resolvidos por projetos
tridimensionais; em muitos casos, porém, pode ser genérica
0 bastante para aplicar-se, pelo menos em parte, ao design

gráfico e a certos tipos de engenharia. Ela vai basear-se numa


investigação dos geradores de problemas de projeto, do campo
a que se referem e da sua função. A partir desse estudo, sere-
mos capazes de montar os tijolos que formam o modelo que
{~ nos permite entender a natureza dos problemas de projeto em
todas as suas variações. O modelo foi considerado útil durante
muitos anos de ensino e pesquisa do processo de projeto. É
apresentado aqui para que possamos entender melhor 0 que
torna tão especiais os problemas de projeto e, assim, ter algu-
ma noção de como pensam os projetistas e por quê.
..
6 Modelo de problemas de projeto 87

6.2 Os geradores de -lo totalmente sem ajuda. Embora, às


problemas de projeto vezes, se possa contratar para isso
um artista de sorte, o projetista qua-
À primeira vista, talvez pareça óbvio se sempre trabalha assim. A tarefa
de onde vêm os problemas de projeto. de projetar, apesar de mal definida,
Os clientes os levam aos projetistas! costuma ser gerada e expressa ini-
Como veremos, embora muitas vezes cialmente por um cliente. Contudo,
isso seja verdade, nem sempre é assim, é bastante enganoso achar que os
e acontece que essa é uma parte bem clientes são um grupo homogêneo.
pequena da história. Sem dúvida, é Em muitas situações comerciais, o
possível que um projetista descubra cliente pode ser representado por um
um problema sem que haja um cliente, profissional cujo trabalho é mais ou
e há projetos muito interessantes fei- menos esse. No outro lado da escala,
tos exatamente assim. Também pre- muitas edificações são encomendadas
cisamos fazer uma distinção minucio- por quem nunca agiu como cliente. Às
sa entre os clientes que apresentam vezes, o projetista trabalha com clien-
problemas ao projetista e os usuários tes individuais; outras, o cliente pode
finais do resultado. Como veremos, os ser representado por um comitê intei-
clientes podem ser ou não os usuários ro. No caso de edificações muito gran-
do projeto. No capítulo anterior, vimos des encomendadas por instituições
que os legisladores podem causar pro- ou empresas, o programa pode durar
blemas consideráveis para o projetista vários anos e os membros do comitê
e, às vezes, até estar em conflito com o do cliente podem mudar muito.
cliente. Por exemplo, a legislação sobre Os arquitetos Stirling e Wilford
planejamento urbano existe principal- tiveram experiência considerável com
mente para proteger o grande públi- esses grandes clientes institucionais e
co dos possíveis excessos egoístas de construíram muitas edificações gover-
clientes individuais do arquiteto. É pro- namentais e educacionais. Michael
vável que seja discutível se esse con- Wilford enfatizou a importância do
trole das incorporações é mesmo tão papel do cliente no processo de projeto:
benéfico. No entanto, assim corremos o
Atrás de cada edificação distint a, há um
risco de atropelar a discussão. cliente igualmente distinto, não neces-
sariamente de alto nível, mas que d ed ica
tempo e t rabalho a compreender as ideias
do arqu iteto, q ue lhe transmite apoio e
6.3 Clientes entusiasmo, é ousado, dispõe-se a correr
riscos e, acima de t udo, conseg ue man-
Num projeto, o problema não costu- ter a calma durante as crises inevitáveis.
(Lawson, 1994b).
ma se originar na mente do projetista,
mas na do cliente; alguém tem uma
Isso indica com bastante firmeza
necessidade e não consegue resolver
0 que Michael Wilford não vê o clien-
Problema, e talvez até nem entendê-
88 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

projetar prédios novos de grandes enti-


te apenas como fonte de informações,
dades como universidades, provavel-
·. mas também como parceiro criativo
mente serão mantidos longe dos usuá-
no processo. A arquiteta Eva Jiricna
concorda e afirma que "o pior cliente é rios reais por um comitê de clientes ou
aquele que diz: vá em frente e me dê o mesmo por um departamento específi-
produto final" (Lawson, 1994b). O clien- co para cuidar de edificações. A comu-
te, portanto, é o exemplo mais óbvio nicação frequente entre projetistas e O
de fonte de problemas e restrições do usuários é indireta e, ao mesmo tem-
projeto. Em termos ideais e frequentes, po, como argumentou John Page, filtra-
essas restrições podem ser aproveita- da pela política da entidade. No estudo
das de forma criativa na interação de sobre "planejamento e protesto" (Page,
cliente com projetista. Sem dúvida, é 1972), ele descreve as "barreiras de gen-
enganoso pensar que o cliente apresen- te" erguidas em muitas entidades para
ta simplesmente ao projetista um resu- impedir que um excesso de informa-
mo informativo completo, no qual o ções tumultuosas dos usuários chegue
problema está totalmente definido e as aos projetistas.
restrições, articuladas com clareza. Na Em órgãos do governo local, por
verdade, a própria relação entre clien- exemplo, políticos e administradores
te e projetista é uma parte significativa podem tentar arvorar-se em canais de
:•
do processo de projeto. Até certo ponto, comunicação entre os projetistas e os
o modo como os projetistas percebem usuários externos para impor políticas
e entendem os problemas é função do ou para manter uma posição de poder
modo como essa relação funciona. dentro do sistema. No fim das contas,
essas barreiras organizacionais, sejam
quais forem as vantagens que dão à
6.4 Usuários entidade cliente em termos de aumen-
to do controle do projetista, só servem \. :
(' Boa parte dos projetos de hoje é enco- para tornar mais difícil para o projetista
mendada por clientes que não serão os
a tarefa de entender o problema. Mesmo
usuários. A arquitetura pública, como a
quando não há barreiras, há o que Zeisel
de hospitais, escolas e moradias, costu-
(1984) chamou de "lacunas". Ele aludia a
ma ser projetada por arquitetos que têm "clientes p agantes " e "chentes
. , . ,
usuanos
relativamente pouco contato com os
e ~ostrou que, embora quase sempre
usuários das suas edificações. O dese- haJa. boa comun1caçao
· - entre proJetistas
. .
nho industrial e o design gráfico dirigem-
e chentes pagantes, há uma lacuna na , 1
se a um mercado de massa e, em geral,
comunicação de ambos com os clien-
são encomendados por clientes comer-
tes usuários (Fig. 6.1). Em um trabalho
ciais. A imagem tradicional do projetis- em ' ·
ta que cria uma relação pessoal com 0 plnco mais recente, Cairns (1996}
cliente/usuário é bastante enganosa. demonstrou não só a existência dessas
Até os arquitetos, contratados para lacunas no projeto arquitetônico, rnas
também q ue nem sempre os arqUltetos
.
6 Modelo de problemas de projeto 89

e os seus clientes t 1' nh am consciência


dessas lacunas. psicólogos e sociólogos continuaram
pesquisando e os projetistas, projetan-
do, e ainda não se reeducaram mutu-
amente para assumir um papel mais
Clientes genuíno de colaboração. Enquanto isso,
pagantes
--------- ~- em geral a comunicação entre os cria-
~ I

....-------' ~ ------- I

'
I
I
dores e os usuários de ambientes conti-
nua desconfortavelmente distante.
Projetistas " - -- --~-y ::;,'t1 ', _
Lacuna
' Assim, geralmente os usuários
... v .. ,
estão mais afastados dos projetistas
-'
-.../'t1 --- -- --~ .. ;
r---=--l-......,_
Usuários do que os clientes. Embora o projetista
talvez consiga interagir com um clien-
te solidário e motivado, pode não haver
Fig. 6 .1 nenhum acesso formal aos usuários.
Modelo de Zeisel da lacuna entre usuário e
necessidades

6.5 Projetistas
Como muitos jovens proJetistas
devem ter descoberto ao sair da faculda- Às vezes, é difícil separar projeto e
de, uma coisa é projetar para si e outra arte. É comum que o público consi-
bem diferente é projetar para um cliente dere artístico o produto dos projetos,
de verdade, com preconceitos e tendên- às vezes até realmente como "obras
cias pessoais e institucionais. Quando de arte", e muitas vezes os projetistas
esse cliente não é sequer um possível também são artistas de fato. Há casos
usuário do projeto, o problema torna-se em que até os desenhos gerados pelos
ainda mais afastado. Esse afastamen- projetistas para ilustrar os seus planos
to cada vez maior entre os projetistas podem ser facilmente confundidos
e aqueles para quem projetam criou com obras de arte. Se é correto ou não
a necessidade de estudos das exigên- descrever um objeto como "obra de
cias de usuários. Quase desesperados, arte" é uma questão além do alcance
os projetistas recorreram a cientistas deste livro. Aqui, o que importa não é 0
humanos e sociais, como ergonomistas, produto, mas o processo. Sem dúvida I

psicólogos arquitetônicos e sociólogos o processo criativo que pode dar ori-


urbanos, para saber de que realmente gem a uma obra de arte tem muito em
os usuários precisam. Em boa medida, comum com o processo de projeto, e os
na prática essa ligação entre projetos mesmos talentos podem ser necessá-
e ciência social não tem sido tão útil rios em ambos. Espera-se dos projetis-
quanto se esperava. A ciência social tas, assim com o dos artistas, que não .-
continua a ser principalmente descri- apenas resolvam problemas, mas tam-
tiva, ao passo que o projeto é necessa- bém levem ao processo os seus pro-
riamente normativo, de modo que os blemas e interesses. No entanto, nes-
90 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

da relação entre cliente e projetista. Por


se sentido, o projetista costuma sofrer
mais restrições do que o artista. Este essa razão, há um elemento inerente de
pode reagir ao trabalho em andamen- tensão na relação entre cliente e proje-
to e está livre para mudar o foco da tista. Ambos dependem um do outro,
atenção e explorar novos territórios e mas ambos, cada um a seu modo, .:
problemas. Raramente essas questões temem que o outro exerça demasiado
artísticas são articuladas com clareza controle. Por um lado, o projetista pro-
pelo artista fora da sua obra. Em geral, vavelmente precisa dos honorários e,
são os críticos e os historiadores que, por outro, também tem uma reputa-
em retrospecto, interpretam e iden- ção que, em boa parte, resulta de tra-
tificam as questões que, na sua opi- balhos anteriores e, portanto, pretende
nião, tiveram prioridade na mente do continuar desenvolvendo um conjunto
artista. Quando um crítico de música harmonioso de obras visíveis a todos.
lhe pediu que explicasse uma das suas O cliente, por sua vez, não pode real-
óperas, dizem que Wagner respondeu, mente projetar, mas, ainda assim, até
irritado: "mas ela é a explicação". certo ponto pode saber o que quer e
Em geral, espera-se que o projetis- teme que o projetista tenha ideias bem
ta também contribua com problemas. diferentes. É óbvio que o cliente pru-
_ Nesse sentido, os clientes supõem que dente escolhe um projetista que, com
os projetistas são artistas e que o seu base em serviços anteriores, prova-
papel seja, pelo menos em parte, inter- velmente vai interessar-se pelos seus
pretativo. O cliente do arquiteto espe- problemas. Ninguém jamais esperaria
ra bem mais do que apenas uma casa que Mies van der Rohe e Edwin Lutyens
com cômodos de tamanho adequado projetassem até mesmo casas remota-
e boas relações entre si. A expectativa mente parecidas para o mesmo cliente
óbvia é que o arquiteto leve em conta, no mesmo terreno: como arquitetos, os
por exemplo, questões de forma, espa- seus interesses pessoais eram muito
ço e luz e, com isso, crie não só uma diferentes.
edificação, mas aquilo que chamamos Neste ponto, vale notar que a dis-
de arquitetura. Essa relação entre clien- tinção entre arte e projeto, como todas
te e projetista é de mão dupla, pois o as fronteiras conceituais criadas pelo
projetista espera receber certa liber- homem, é bastante difusa e de fácil
dade para definir o problema do proje- confusão. Os alunos, quando tentam
to. Também é bastante provável que o estabelecer o seu papel de projetistas,
projetista que recebe uma nova enco- costumam confundir-se com obras que
menda espere ser capaz de continuar a
desafiam classificações fáceis. Em 1964,
explorar problemas que foram identifi-
quando Peter Cook produziu a influente
cados em projetos anteriores. Até que
uPlug-in-City", a princípio ela pareceu
ponto o projetista pode entregar-se a
ser um projeto: uma cidade, confessa-
essa autogratificação artística é função
damente imaginária e do futuro, mas
tanto da natureza do problema quanto
que ainda assim se parecia com arqui-
6 Modelo de problemas de projeto 91

tetura, e muitos desenhos eram tam- restrições dentro das quais os proje -
bém muito arquitetônicos. Na verdade I tistas têm de trabalhar. Essas leis e
de certo modo o processo e a intenção controles variam de padrões e códigos
por trás de obras assim são muito mais profissionais a diretrizes e recomen-
próximos do processo artístico do que dações. Esses padrões podem tratar
do processo de projeto. "Plug-in-City" de fatores de segurança, utilidade ou
não resolveu nenhum problema ime- aparência. Talvez tenham de ser satis-
diato nem pretendia ser construída. feitos para vender produtos no mer-
Em vez disso, ela explorava e exprimia cado, permitir descrições comerciais
ideias, crenças e valores e fazia pergun- convencionais ou autorizar o início da
tas provocadoras sobre a direção futura construção da edificação. Hoje em dia,
do urbanismo e dos padrões de vida. É a legislação de projetos pode abranger
muito adequado que os alunos de pro- tudo, da segurança dos aparelhos elé-
jeto se interessem e sejam influencia- tricos à honestidade da propaganda ou
dos por essas obras, assim como pela ao consumo de energia das edificações.
poesia, pela prosa, pela pintura ou por Em muitos casos, existe toda uma
filmes sobre questões afins. Mas eles burocracia para administrar e interpre-
não deveriam alimentar a expectati- tar essa legislação geral em cada caso
va de abordar os problemas de projeto específico. Atualmente, o arquiteto tem
apresentados por clientes no mundo de atender ao corpo de bombeiros, ao
real do modo mais introspectivo e pes- fiscal de obras e ao planejador urbano,
soalmente expressivo do artista. Os e também, dependendo da natureza do
,...
projetistas, ao contrário dos artistas, projeto específico, à empresa pública
não podem se dedicar exclusivamente habitacional, aos fiscais de saúde, aos
a problemas que tenham interesse pes- fis cais do Departamento do Interior, à
soal para si. companhia de água, de eletricidade,
aos correios, aos fiscais de fábrica, e a
lista continua. Não adianta disfarçar a
6.6 Legisladores tensão existente entre os projetistas e
os que aplicam a legislação segundo a
Até agora vimos que os problemas de qual a sociedade determinou que eles
projeto, embora costumem ser inicia- têm de trabalhar. Às vezes, o projetista
dos por um cliente, podem receber con- pode ver o legislador como descuidado ,
tribuições tanto dos usuários quanto e inflexível, enquanto, para o legislador,
dos próprios projetistas. Por último, o projetista talvez pareça caprichoso
devemos dar atenção brevemente a e irresponsável.
outro gerador de problemas de projeto, Esse conflito é exemplificado na
talvez o que está mais distante do pro- descrição que Richard Rogers faz dos
jetista: o legislador. Embora não costu- problemas que teve com 0 Corpo de
mem se envolver no projeto real pro- Bombeiros de Paris quando projetou 0
priamente dito, os legisladores criam Centro Pompidou.
92 COMO ARQU ITETO S E DESIGNERS PENSAM

Como essa foi a primeira edificação pública


de maior grandeza, todos os regulamentos
já promulgados na cidade de Paris desde
a Antiguidade foram aplicados da manei-
Projetist a
Fle~íveis_
opcronars
ra mais estrita possível, a um custo de 50
milhões de francos, cerca de 10% do orça-
mento total da construção. (Suckle, 1980).
Cliente
1
Usuário

Como o próprio Rogers explica, Rígidas


nenhum arquiteto deseja deliberada-
mente construir uma edificação perigo-
sa. Entretanto, muitas vezes é preciso
Legislador
l obrigatórias

aplicar os regulamentos em situações


Fig. 6.2
não previstas quando foram criados; Os quatro grupos de geradores de restrições
como até então nenhum projetista ao projeto empilhados em ordem de
concebera uma obra arquitetônica tão flexibilidade
extraordinária quanto a de Piano e
impostas por todos os geradores. Para
Rogers, parece ~nsensato esperar isso
garantir a segurança em caso de incên-
dos legisladores.
dio, o corpo de bombeiros exigirá que
os materiais de revestimento tenham
6.7 Os diversos papéis um determinado nível de resistência à
dos geradores de propagação das chamas e poderá deter-
restrições minar o número e a posição das portas
corta-fogo e a largura dos corredores e
Agora, os quatro primeiros tijolos do das vias de acesso. Outras leis podem
nosso modelo de problemas de projeto controlar a exposição e o armazena-
podem ser postos no lugar. Se empi- mento de alimentos, as condições de
lharmos os quatro geradores de res- trabalho dos funcionários etc. O clien-
trições do projeto num tipo de torre, te também gerará muitas restrições ao
veremos que as restrições vão ficando projeto, ligadas aos objetivos primá-
mais abertas a debate e discussão con- rios de atrair clientes e vender merca-
forme subimos torre acima (Fig. 6.2). dorias. Ao contrário das restrições do
Cada um dos geradores de problemas legislador, o projetista poderá discutir
de projeto aqui identificados impõe as restrições do cliente e estabelecer
restrições sobre a solução projetada, prioridades. Não são raros os confli-
mas com diferentes graus de rigidez, tos entre as consequências dos objeti-
sendo mais rígidas as impostas pelos vos do cliente sobre o projeto, e aqui o
legisladores e mais flexíveis as geradas projetista pode recorrer ao cliente para
pelo projetista. que, juntos, reavaliem essas restrições.
Por exemplo, ao projetar a planta do Por exemplo, por um lado o cliente da
I

interior de uma loja, haverá restrições nossa loja pode querer que as vitri-
6 Modelo de problemas de projeto 93

nes sejam projetadas e arrumadas de


ideia de projeto pode ser a criação de
modo a tornar as mercadorias tenta- um mobiliário construído de compen-
doras e atrair possíveis compradores; sado curvado revestido de laminado
por outro, sem dúvida, será importan- de cores vivas, combinado a estruturas
te minimizar a probabilidade de furtos tubulares curvas e cromadas. Depois
e danos a itens não comprados. Essas de estabelecer essa restrição de formas
duas exigências, pelo menos até certo e materiais, o projetista teria de criar o
ponto, estão em conflito. Nos termos de mobiliário concreto ·para as roupas, os
Alexander, interagem negativamente. alimentos, as joias etc.
No entanto, o equilíbrio exato de satis- É óbvio que essas restrições geradas
fação dessas exigências talvez só fique pelo projetista são comparativamente
claro para o cliente quando o projetis- flexíveis. Se provocarem dificuldades
ta explorar as várias possibilidades demais ou se simplesmente não fun-
em termos físicos e tridimensionais. cionarem, o projetista está livre para
O nosso cliente talvez só consiga dizer modificá-las ou abandoná-las por com-
exatamente que grau de risco de perda pleto. Os alunos de projeto costumam
por furto é aceitável para obter eficácia não reconhecer esse fato simples e
na exposição quando o projetista real- continuam a pôr o cérebro à prova de
mente propuser algumas ideias. forma interminável e infrutífera dian-
É claro que, do ponto de vista do te de problemas insuperáveis que, em
projetista, as restrições do cliente não boa parte, eles mesmos criaram. Uma (" .
são tão absolutas quanto as do legis- das habilidades mais importantes que .,:
,.., lador. Em vez disso, todas têm valor os projetistas devem adquirir é a de
relativo, passível de certa discussão. avaliar criticamente as restrições que
Nesse exemplo, também se espera que se impuseram, mas voltaremos a isso
o projetista gere restrições. O nosso no Cap. 11. Por enquanto, é importan-
projetista de lojas precisa ter uma ideia te reconhecer as várias contribuições
integradora, um conceito geral que ao problema dadas por cada um dos
organize e unifique o interior como um principais geradores de restrições.
todo. Portanto, as restrições geradas Como vimos, a exigência do legislador .:;
~ . é fixa, os usuários podem não estar
pelo projetista podem delimitar a gama
de cores e materiais e criar regras geo- à disposição para consulta, o clien-
métricas e dimensionais. As mercado- te pode ajustar prioridades quando as
rias à venda na loja podem variar desde consequências do projeto se revelam e
itens tão pequenos como botões, p~s­ o projetista pode pensar num conjunto
de restrições totalmente novo.
sando por livros e artigos de papelana,
, · As instala- Aqui também devemos acrescen-
e chegar a roupas e moveis. .
ções da loja têm de permitir a exposi- tar uma palavra de cautela quanto à
ção de todas essas mercadorias e talvez divisão entre esses vários geradores do
projeto. Até agora, a discussão envolveu
criar para cada departamento uma
a situação clássica do client e que enco-
imagem distinta, mas aparentada. Uma
94 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

menda um projeto, talvez em nome de relação entre cliente e projetista pode


outros usuários. No entanto, essa não ser muito variada, mas que, com mais
é, de modo algum, a única maneira de frequência, é mais fundamental para o
projetar. Na verdade, como ressaltou sucesso do projeto do que os comenta-
Roy (1993) no seu estudo de desenhis- ristas costumam admitir. No entanto,
tas industriais, muitos projetos real- vamos examinar muitas outras ques-
mente criativos e inovadores foram tões antes de fazermos um exame tão
iniciados pelos projetistas. Ele estudou detalhado desses papéis.
o projeto do inovador Ballbarrow, um
carrinho de mão plástico com uma bola
como roda; da bicicleta Moulton, com 6.8 O campo das
as suas rodas menores; e da bancada restrições do projeto
Workmate®, prática e compacta. Em
todos esses casos, o projetista partiu de Num projeto, a maioria das restrições
uma necessidade ou envolvimento pes- resulta de relações necessárias ou
soal na área de aplicação do produto. desejadas entre vários elementos. Por
O projetista ]ames Dyson ajustava um exemplo, nas habitações, o legislador
filtro de ar do tipo ciclone na fábrica do exige que haja uma superfície de tra-
seu Ballbarrow e notou que ele funcio- balho dos dois lados do fogão; o cliente
nava o dia todo sem entupir. Começou pode exprimir o desejo de que a cozi-
a se perguntar por que o seu aspirador nha e a sala de estar se abram direta-
de pó doméstico não era feito daquela mente para a sala de jantar; e o arquite-
maneira e, assim, começou a projetar to pode achar sensato organizar todos
o enorme sucesso que foi o seu aspira- os espaços em torno de um núcleo cen-
dor revolucionário que, além de man- tral estrutural e de serviços.
ter sucção constante, também elimina Nesse exemplo, o que vincula todas
a necessidade de sacos descartáveis. as restrições é o seu campo de influên-
Na verdade, Dyson constatou que era cia. Todas criam relações entre elemen-
impossível convencer os fabricantes tos do objeto a projetar - nesse caso,
britânicos a assumir a produção do seu uma casa. São inteiramente internas ao
projeto, e ele mesmo teve de comer- problema e, portanto, vamos chamá-
cializá-lo. Assim, acabou se tornando
las de restrições internas. Considere-
cliente de si mesmo!
mos, ao contrário, o seguinte conjunto
Também deveríamos notar que há
de restrições, igualmente hipotético
clientes de todos os tamanhos e for-
mas bastante provável. Os regulamen-
matos, com muitas motivações dife-
tos para edificações definem meticu-
rentes. Podem ser os futuros usuários
losamente a distância permitida entre
do projeto ou podem querer explorá-lo
as janelas e o limite dos terrenos, para
financeiramente. Podem ser indivíduos
e~itar o risco de propagação de incên-
isolados ou grandes comitês. Num
diO para propriedades adjacentes. O
capítulo mais adiante, veremos que a
cliente pode demonstrar forte preferên-
6 Modelo de problemas de projeto 95

cia por uma sala de estar que dê para reiras visuais e acústicas necessárias
o jardim e que fique exposta ao sol. o para abrigar as várias funções comuni-
arquiteto pode achar importante dar tárias e privadas da edificação. Conven-
continuidade às fachadas existentes na cionalmente, os arquitetos começam a
rua em termos de linha e altura. Aqui, atacar essas restrições internas bem no
as restrições criam uma relação entre início do processo, desenhando esque-
alguns elementos da casa e algumas mas e fluxogramas que representam
características do local. Elas relacio- graficamente as relações necessárias.
nam o objeto projetado com o contex- O fluxo de pessoas que entram e con-
to e, em cada caso, uma das pontas da tornam uma edificação era uma ques-
relação - os limites do terreno o sol a
I I tão básica do processo de projeto arqui-
rua- é externa ao problema. Portanto, tetônico do estilo Beaux Arts, e isso foi
vamos nos referir a elas como restri- levado para o "funcionalismo" do movi-
ções externas. mento modernista.
As restrições, tanto internas quanto Para o desenhista industrial, entre
externas, podem ser geradas por pro- as restrições internas está o problema
jetistas, clientes, usuários e legislado- da montagem do objeto. Algumas rela-
res. Até aqui, o modelo de restrições do ções talvez tenham de ser bem próxi-
projeto parece bidimensional, sendo as mas, ainda mais quando há mecânica
dimensões o gerador e o campo de res- envolvida. No entanto, outros itens que
trições. precisam de ligação elétrica podem
conectar-se de forma mais flexível.
Desse modo, no projeto de uma fura-
6.9 Restrições internas deira elétrica é inevitável que o motor,
a transmissão e o mandril estejam
As restrições internas são as mais diretamente ligados. O interruptor está
óbvias e fáceis de entender, já que, tra- ligado ao m·otor, mas apenas eletrica-
dicionalmente, formam a base do pro- mente e, portanto, de forma flexível I

blema do modo inicialmente exposto enquanto o mais provável é que o con-


pela maioria dos clientes. Portanto, trole de reversão seja mecânico, o que
para 0 arquiteto, as restrições internas restringe bem mais a sua localização.
frequentemente compõem a maior par- Esse papel central das restrições inter-
te do resumo informativo. O número e o nas é demonstrado em um estudo de
tamanho dos vários tipos e qualidades como Mike Burrows projetou a revo-
de espaços são as restrições internas lucionária bicicleta LotusSport, com a
, mais óbvias geradas pelo cliente. Para qual Chris Boardman ganhou a meda-
o arquiteto, a estrutura ou 0 padrão do lha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1992
problema é a relação desejada entre (Candy; Edmonds, 1996). Durante todo
esses espaços. Essa relação pode ser em o processo, a relação entre roda dian-
termos de circulação humana e distri- teira e traseira, selim e guidão teve de
buição de serviços, ou de ligações e bar- ser resolvida. Finalmente, Burrows des-
se

96 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

cartou a estrutura tradicional de tubo de restnçoes. Às vezes, as restrições


virado em forma de losango e adotou externas praticamente determinam
uma estrutura em monocasco. toda a forma do projeto. O que torna ·-
uma ponte diferente da outra são as ....,
condições do local, o vão necessário e
6.10 Restrições externas a posição e a qualidade do terreno de
sustentação. A ponte Severins sobre o
Para o estilista de moda, as restrições rio Reno, em Colônia (Alemanha), tinha
externas vão do processo de fabrica- os seus próprios problemas gerados
ção, manual ou industrial, até o corpo por restrições externas. Os esboços do
humano propriamente dito. t óbvio que arquiteto mostram a preocupação com
as roupas prêt-à-porter são criadas com a maneira como uma estrutura de sus-
base em dimensões corporais médias, pensão convencional com duas torres
mas, para o estilista de alto nível que obscureceria gravemente a vista da
produz peças exclusivas, as restrições impressionante catedral que domina o
externas de um determinado corpo, horizonte rio abaixo (Fig. 6.3). Por sorte,
ocasião e personalidade são a inspi- o terreno de sustentação era convenien-
ração para criar vestimentas únicas a te e acessível em água rasa, a cerca de
serem usadas num contexto específi- um terço da distância entre as margens.
co. Na cenografia, a peça e o palco não O esboço do arquiteto mostra a pro-
estão sob o controle do projetista, mas posta que fez ao engenheiro para que
uma combinação específica dos dois projetassem uma estrutura com uma
pode inspirar um cenário inigualável. única torre nesse ponto. No entanto, o
As exigências dramáticas da peça, jun- esboço, que não avalia inteiramente os
tamente com as propriedades visuais e problemas de engenharia, mostra uma
acústicas e os problemas do palco cons- estrutura em catenária com os carac-
tituem uma coleção muito importante terísticos cabos pendentes. O enge-

'
I
\

Flg. 6.3
Esboços do arquiteto
e do engenheiro
para uma nova
Ponte' com base ·nate
manutenção da vts
6 Modelo de problemas de projeto 97

nheiro responde com cabos retesados e go. Rowe explica que os participantes
uma torre em forma de "A". Finalmen- reconheceram o terreno como a prin-
te, a junção entre a torre e o tabuleiro cipal influência a determinar a forma,
é resolvida de forma mais satisfatória. ou "gerador primário". Os projetistas
Aqui, portanto, as restrições externas, de Rowe pensaram em "criar simetria
combinadas à preocupação do arquite- estendendo-se sobre o lago com uma
to de não destruir a linha do horizonte estrutura em píer, semelhante àquelas
de Colônia, resultaram numa solução Uá no local) adjacentes ao terreno pelo
extraordinariamente nova e distin- lado do rio" (Rowe, 1987). Só depois dis-
ta para um problema muito antigo da so os projetistas começaram a exami-
engenharia civil (Fig. 6.4}. nar a forma geral da edificação. Depois,
Rowe descreve vários estudos a atenção voltou-se novamente para o
detalhados de arquitetos observa- terreno, com o estudo da planta de pla-
dos durante o processo de projeto. nejamento das ruas do centro de Chi-
Numa dessas experiências, pediu-se cago. Finalmente, o problema passou a
aos projetistas que trabalhassem em ser a resolução destes dois tópicos: criar
um centro bibliográfico mundial em um marco à beira do lago e ampliar o
um terreno à beira d'água em Chica- padrão das ruas da cidade circundante.
Então, o plano desenvolveu-se como
uma forma planejada em grade linear
encimada por uma estrutura que lem-
bra uma rotunda projetada sobre o
lago. Mais tarde, quando as exigências
reais da própria acomodação (as restri-
ções internas) foram consideradas com
mais detalhe, isso foi aos poucos altera-
do. Nesse momento, a forma em grade
linear desapareceu e só ressurgiu como
abordagem da paisagem circundante.
Na outra ponta da variedade de pro-
jetos, as restrições externas podem ser
igualmente influentes e inspiradoras.
No seu clássico livro sobre design gráfi-
co, Paul Rand (1970) explica que o que
chama de "material dado" constitui um
ponto de partida importante no pro-
jeto gráfico de anúncios. Em essência
'
os "materiais dados" de Rand são as
restrições externas do design gráfico: 0
Flg. 6.4
O projeto real da ponte Severins deve 0 seu produto a ser promovido, o formato e 0
desenho incomum às restrições externas meio do anúncio e o próprio processo de
98 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

produção. Esses fatores não estão sob o 6.11 o papel das restrições
controle do designer; eles já existem, e o internas e externas
designer tem de trabalhar com eles. Por
outro lado, as restrições externas são A importância essencial do campo de
a própria essência das circunstâncias uma restrição está na liberdade de que
especiais - e talvez inigualáveis - que 0 projetista dispõe. Em geral, as res-
tornam o projeto diferente. Na ativida- trições internas permitem um grau
de de projetar, o movimento modernista maior de liberdade e escolha, já que
tendia a subestimar o papel do especí- só influenciam fatores sob o controle
fico e do especial na busca de soluções do projetista. É claro que as restrições,
mais gerais, talvez até universais. Na tanto internas quanto externas, podem
década de 1990, estamos retornando ser geradas por projetistas, clientes,
a um período da história da atividade usuários e legisladores. Vamos ampliar
caracterizado por um interesse maior agora o nosso modelo de problemas de
pelas restrições externas. E isso é ain- projeto, acrescentando mais tijolos e
da mais verdadeiro na arquitetura. O criando um tipo de parede (Fig. 6.5).
grande modernista Mies van der Rohe, Para voltar ao exemplo habita-
com as suas linhas limpas e minimalis- cional, a fim de obter a relação entre
tas, foi um dos pioneiros do estilo inter- cozinha e sala de jantar desejada pelo
nacional do movimento modernista. cliente, o projetista foi capaz de posi-
Le Corbusier queria que as edificações cionar ambas. As restrições externas
fossem como transatlânticos, man- não são tão simples. Em certo senti-
tendo um ambiente interno uniforme do, o desejo do cliente de ter uma sala
onde quer que fossem construídas pelo de estar ensolarada é uma exigência
mundo. Na verdade, havia uma tradição
mais problemática, já que, embora às
alternativa de modernismo defendida
por Hans Scharoun, cuja famosa sala
de concertos em Berlim demonstrava
a arquitetura totalmente específica ao
Projetista
terreno. Peter Blundell Jones {1995) res-
saltou que o antecessor de Scharoun I

Hugo Haring, na verdade dividiu escri- Cliente

tório com Mies e demonstrou como


debatiam e questionavam o universal Usuário
e o específico. É interessante notar que
os universalistas venceram 0 debate, e é Legislador
com o estilo internacional que se associa
o movimento modernista. Talvez isso
tenha mais a ver com a nossa preguiça
Fig. 6.5
de entender o que é proietar e n-ao com
J • Cada grupo pode
os méritos específicos dos argumentos.' gerar restrições
internas e externas
6 Modelo de problemas de projeto 99

vezes até quisessem, os arquitetos não de relacioná-la com as casas vizinhas e


podem controlar o movimento do sol! com outras características do terreno.
Por essa razão, as restrições externas, Tudo indica que o arquiteto residencial
ainda que às vezes possam ser apenas experiente usará um processo bem
uma pequena parte do problema total, diverso daquele empregado pelo estu-
frequentemente são importantíssimas. dante novato. Antes de atacar as habita-
Fatores como terreno, localização ou o ções pela primeira vez, é bem provável
contexto específico em que um projeto que os alunos de arquitetura tenham
será usado criam restrições externas projetado edificações como escolas e
que enfatizam a natureza individual e escritórios, nas quais o planejamen-
particular do projeto. Vale notar que, to interno tem suprema importância.
quando se trata de um projeto arqui- Assim, começaram a desenvolver um
tetônico, os planejadores urbanos são processo de projeto baseado no exame
responsáveis por restrições localizadas das restrições internas e, portanto, a
no canto inferior direito do nosso mode- princípio, podem voltar a atenção para
lo. É aí que os problemas tendem a ser a casa propriamente dita. Ao contrá-
mais exigentes e desafiadores, e onde rio, o arquiteto residencial experiente
mais restringem as opções do proje- já tem um bom domínio das variações
tista. Talvez não surpreenda, portanto, básicas do planejamento de moradias,
que às vezes arquitetos e planejadores e é bem mais provável que se concentre
urbanos se entreolhem com um cer- no terreno.
to grau de desconfiança na questão do No seu estudo do projeto de seis
controle do desenvolvimento urbano! conjuntos habitacionais em Londres,
Para os aspirantes a alunos, uma ]ane Darke cita vários arquitetos que
das características mais fascinantes do explicam o seu processo de projeto exa-
processo de projeto parece ser a natu- tamente dessa maneira. Talvez Douglas
reza do papel desempenhado pelas Stephen tenha sido o mais explícito: "No
restrições internas e externas na men- início, nunca penso na planta da casa
te do projetista. É claro que o equilí- [...) Penso inteiramente no terreno e nas
brio de importâncias nem sempre é o restrições, e no terreno não há apenas
mesmo. Talvez uma das razões para restrições espaciais, há também restri-
os estudantes de arquitetura acharem ções sociais" (Darke, 1978).
tão difícil o projeto de residências seja Outros arquitetos foram menos prá-
a homogeneidade do equilíbrio entre ticos e mais românticos a respeito da
restrições externas e internas. Ao con- influência do terreno. Kate Macintosh
trário de muitas outras edificações que achou que "deveríamos tentar expri-
o arquiteto pode projetar, a casa tem mir a característica única do terreno"
uma estrutura interna relativamente (ibid.), e Michael Neylan confirmou que
simples e fácil de entender. Contudo, o "tentamos fazer a edificação reagir às
. .(

que torna difícil o planejamento mter-·· cercanias e respirar com elas" (ibid.).
no de uma casa específica é o problema Todos esses arquitetos são projetistas
100 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

residenciais experientes e famosos, e


o propósito das restrições, obvia-
essa resposta a um novo problema é mente, é assegurar que o sistema ou
bastante compreensível quando recor- objeto projetado cumpra, da maneira
damos que os problemas de uma casa mais adequada possível, as funções
permanecem praticamente constantes, dele exigidas. Por essa razão, é mais
mas cada terreno é único. Como explica fácil desenvolver modelos da função
Neylan: "a questão toda da boa mora- das restrições em campos de projeto
dia é a relação entre a unidade (casa) específicos, como a arquitetura ou o
e o que está em volta" (ibid.). Talvez desenho industrial. Hillier e Leaman
seja essa inter-relação muito íntima e (1972) propuseram um desses modelos
fundamental entre restrições internas para ajudar a organizar a pesquisa em
e externas que torne a habitação um arquitetura. De acordo com seu modelo,
problema tão fascinante e difícil de pode-se considerar que as edificações
projetar. Sem dúvida, é provável que o cumprem quatro funções: modificar o
equilíbrio entre as restrições internas clima, o comportamento, os recursos
e externas de um problema de proje- e a cultura. Esses autores afirmam que
to tenha importância considerável ao "as edificações tenderam a ser sobrepro-
determinar a natureza desse problema jetadas sob o ponto de vista da relação
e a reação do projetista a ele. Voltare- entre a atividade e o seu recipiente
mos a esse ponto no Cap. 16. espacial, assim como foram subproje-
tadas do ponto de vista da modificação
do clima". Esse modelo, portanto, foi
6.12 A função das usado para defender o redirecionamen-
restrições do projeto to da atenção na pesquisa arquitetôni-
ca e a mudança de ênfase ao projetar. O
Vimos que os problemas de projeto são modelo foi útil para expor o argumen-
formados por restrições que podem to acerca de quais funções deveriam
ser totalmente internas ao sistema ou dominar o processo de projeto e por
ao objeto projetado, ou estar ligadas a quê. Markus dá outro exemplo desses
algum fator externo além do controle modelos de função usados para pesqui-
do projetista. Essas restrições podem sas em áreas específicas. A sua Unidade
ser impostas, mais obviamente, pelo de Pesquisa de Desempenho na Cons-
cliente ou pelos usuários, mas também trução também usava um modelo com
por legisladores e até pelos projetis- quatro funções (Markus, 1969b) para
tas. A pergunta que resta é: por que se avaliar o desempenho das edificações.
impõem essas restrições? O que obtêm, Markus considera as funções das
qual o seu propósito, a sua função? edificações divididas entre o sistema
Especificamente, podemos identificar de edificação de componentes físicos; 0
e separar tipos diferentes de função e sistema ambiental (semelhante à fun-
estudar o seu efeito sobre o processo ção de modificar o clima de Hillier e
de projeto? Leaman); o sistema de atividade/com-
6 Modelo de problemas de projeto 101

portamento (mais uma vez semelhante de desempenhar claramente a fun-


ao de Hillier e Leaman) e, finalmente, ção simbólica muito forte de exprimir
o sistema organizacional que a edifi- devoção a um ser superior. As casas
cação abriga. Talvez pela ênfase muito precisam exprimir a mensagem bem
prática, a equipe de Markus não viu as menos excepcional, mas talvez igual-
edificações como contribuições mais mente importante, de domesticidade e
amplas à cultura nem como entidades identidade.
simbólicas. Markus considera que o Portillo e Dohr (1994) investigaram
sistema de custos não é independente, os critérios usados por projetistas que
como fazem Hillier e Leaman, e prefere trabalham em interiores de edificações
ver consequências sobre os custos ou e nos seus componentes. Eles registra-
os recursos quando se atende a cada ram os critérios usados por 41 proje-
um dos quatro grupos de objetivos. tistas para tomar decisões sobre cor e
Rand {1970) reforça a importân- descobriram que eram uns 107. Portillo
cia da forma e do conteúdo no design e Dohr também me repreenderam por
gráfico. O designer gráfico comercial é confundir restrições com critérios, mas
encarregado de transmitir uma mensa- persistirei nisso por enquanto, e adian-
gem usando um projeto bidimensional. te voltaremos a esse debate. Eles anali-
Assim, esse trabalho tem claramente saram esses critérios e verificaram que
uma função simbólica e comunicati- podem ser agrupados em cinco catego-
va básica, mas também é importante rias: simbólicos, compositivos, compor-
que a mensagem, que em si pode ser tamentais, preferenciais e pragmáticos.
bastante ordinária, seja notável, inco- Claramente, o uso de "compositivo" é
mum, capaz de chamar a atenção e semelhante ao "formal" que acabamos
memorável. O designer gráfico lida com de discutir. Os critérios comportamen-
a composição bidimensional e usa cor, tais e preferenciais seriam ligados ao
textura, forma, contraste, proporção, modo como os projetistas imaginaram
linha, forma etc. A manipulação dessa que os usuários agiriam e o que preferi-
matéria formal dá à mensagem ~stilo e riam. Os critérios pragmáticos pareciam
personalidade e a torna reconhecível. relativos ao custo ou à necessidade de
Obviamente, essas duas funções respeitar esquemas de cores existentes
de forma e conteúdo são a essência do ou materiais já coloridos que tivessem
design gráfico, mas também são impor- de ser usados. Edmonds e Candy, ao
tantes em todos os campos de projeto escrever sobre o projeto de interfaces de
ambiental. Seja qual for a intenção do computador, expandiram essa lista para
projetista, é inevitável percebermos o incluir mais dois critérios: desempenho
projeto nesses dois níveis, o formal e e contextual. Os critérios de desempe-
o simbólico. A bandeira do Reino Uni- nho têm a ver com a necessidade básica
do não é apenas um padrão de cores e do sistema de oferecer um desempenho
formas, mas também, inevitavelmente, à altura das tarefas realizadas e, por-
um símbolo nacional. As catedrais têm tanto, estão bem na raiz ou no âmago
102 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

do projeto como um todo. No entanto, s1.mbo, 11cas


. , (Heath • 1984}. Na verdade,
nenhuma dessas distinções se concre-
parece que os seus critérios contextuais
.
t1za e m edificações específicas, ,mas .
pertencem à nossa segunda dimensão,
a do campo. É claro que aqui Edmon- ainda podemos ver diferenças notaveis
ds e Candy querem dizer os critérios nos processos de projeto que levam a
necessários para satisfazer a restrições edificações próximas dos . :~t~emos.
externas como "a necessidade de operar Em gera, l são os tipos ut1htanos, . de
o sistema dentro de uma oficina mecâ- edificações, como hospitais e fabn:as,
nica" (Edmonds; Candy, 1996). ~e
levaram às principais tentativas
A

Norberg-Schultz {1966) cria outra de edificar sistemas. Ninguém propos


distinção entre o "utilitário" e o "monu- uma abordagem padronizada, modular
mental" na arquitetura: e coordenada para projetar igrejas! É
claro que a sistematização do proces-
Uma arq uitetura determinada p ela ne- so de projeto esgueirou-se, até certo
cessidade do meio físico p ode ser
chamada d e 'utilitária', ao passo que a ar-
ponto, nas edificações intermediárias,
quitetura determina d a p ela necessidade como casas e escolas, e isso costuma ser
d o meio simbólico pode d enominar-se acompanhado de mais comentários crí-
'monum ent al'.
ticos do que quando se aplica a hospitais
e fábricas! Portanto, parecemos mais
Mais adiante, ele defende a impor- dispostos a aceitar a redução da noção
tância do simbólico para determinar a de projeto a uma seleção de componen-
distinção entre arquitetura e mera edi- tes num catálogo, no caso de obras con-
ficação. Portanto, parece defender que sideradas muito restritas pelo aspecto
0 puramente utilitário não deveria ser prático ou utilitário ou consideradas, em
realmente considerado um projeto no essência, como mercadoria, mas reco-
sentido em que a palavra é usada neste nhecemos que essa é uma metodologia
livro: "Os valores humanos só podem inadequada para obras mais expressi-
ser preservados e mediados por meio vas, simbólicas e carregadas de valores.
de formas simbólicas, e os fatores bási- Há muitos outros modelos das
cos da civilização exigiram os símbolos funções das restrições do projeto em
mais articulados" (ibid.).
contextos específicos que poderíamos
Isso se reflete nas opiniões de Wit-
examinar, e a maioria deles tem pelo
tgenstein, que produziu um conjunto
menos algumas características úteis.
considerável de textos e pensamentos
No entanto, tendo em vista esse modelo
sobre arquitetura que foi bem documen-
mais geral, adotaremos quatro funções •
tado (Wilson, 1986): "Onde não há nada
que, além da formal e da simbólica,
a glorificar não pode haver arquitetura".
incluem a radical e a prática. Embora
Heath usou, mais recentemente,
essas quatro funções sejam bastante
uma classificação semelhante da arqui-
exaustivas, talvez alguns leitores quei-
tetura em "edificações de mercadoria",
ram acrescentar outras ou subdividir
"edificações de sistema" e "edificações
algumas para adequ ar-se a campos de
6 Modelo de problemas de projeto 103

projeto mais especializados. Desde a podem sobrepor-se a outras restrições,


primeira edição deste livro, penei mui- mas isso ficará claro mais adiante.
tas vezes para decidir se aumentava
essa gama ou a subdividia, mas tanta
gente me disse achar útil esse modelo 6.14 Restrições práticas
para entender o projeto que o deixei na
sua forma originaL As restrições práticas são aqueles
aspectos do problema total do projeto
ligados à realidade de produzir, fazer
6.13 Restrições radicais ou construir o projeto; o problema
tecnológico. Para o arquiteto, esses pro-
As restrições radicais são aquelas que blemas incluem os fatores externos da
tratam do propósito primário do objeto capacidade de resistência do terreno e
ou sistema a ser projetado. Aqui, "radi- os fatores internos do material usado
cal" não é usado no sentido de revolu- na construção. Para o designer gráfico,
cionário nem esquerdista, mas no ver- há os problemas práticos da tecnologia
dadeiro significado de "o que está na de impressão e reprografia e dos meios
raiz", ou o que é fundamental. Portan- de transmissão. Para o desenhista
to, no projeto de uma escola, as restri- industrial, o mais comum é que inclu-
ções radicais são aquelas relacionadas am não apenas o material usado, mas
ao sistema educativo que a escola pre- também o processo de produção.
tende implantar. Assim, essas restri- As restrições práticas não dizem res-
ções podem incluir um conjunto mui- peito exclusivamente à feitura do objeto
to amplo de questões e, em geral, são projetado. Também incluem o desempe-
consideradas muito influentes desde o nho técnico do objeto durante a sua vida
princípio do processo de projeto. funcional. Para o arquiteto, isso signifi-
Embora sejam básicas e bastante ca fazer uma edificação que continue de
decisivas, pouco se precisa dizer aqui pé, resista às intempéries e modifique
sobre essas restrições. Em geral, elas são o clima interior quando necessário. o
tão importantes que se tornam óbvias desenhista industrial deve preocupar-se
e bastante bem compreendidas pelo com a durabilidade do produto durante
cliente. No entanto, pode haver conflitos o uso e a sua capacidade de suportar 0
entre as restrições radicais geradas pelo uso normal, que pode incluir circuns-
cliente e pelos usuários, ou mesmo por tâncias como quedas, ficar ao sol ou ser
grupos diferentes de usuários. Em um usado debaixo d'água.
hospital, por exemplo, geralmente o que
é bom para os pacientes pode ser incon-
veniente para a equipe médica. 6 .15 Restrições fo rmais
No entanto, para começar, essas
restrições radicais são a razão do proje- As restrições formais são as que têm a
to. Nesse sentido, em certos casos elas ver com a organização visual do objeto.
104 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Podem incluir regras sobre proporção, mas também podem exigir extrema
formato, cor e textura. Há pouca dúvida simplicidade, como exemplificado pelo
de que reagimos bem a um certo grau famoso aforismo de Mies van der Rohe:
de organização formal. A música que "menos é mais".
não tem regras torna-se um barulho No Reino Unido, toda uma escola
aleatório, embora canções demasia- de ideias foi desenvolvida por Sir Les-
damente estruturadas sejam banais e lie Martin, que pesquisou regras geo-
com pouco valor duradouro. Também é métricas para a organização do espaço
assim com as artes plásticas e os proje- e das formas e usou-as para projetar.
tos em termos visuais. Os objetos que Em Cambridge, o seu trabalho levou
apresentam um amontoado totalmente ao "Martin Centre", que influenciou
desorganizado de formas, cores, tex- toda uma geração de arquitetos e
turas e materiais não apenas são difí- desenhistas industriais. Esses estudos
ceis de entender por si sós, como ficam das restrições formais dos projetos
complicados de usar em relação com os podem ser encontrados, em termos
outros objetos à sua volta. Temos uma teóricos, em livros importantes como
necessidade fundamental de ordem e The Geometry of Enuironment (March;
estrutura, embora também apreciemos Steadman, 1974).
variedade e surpresa. O truque do bom
projeto é conseguir a ordem adequada t '.
para atender à necessidade do contexto 6.16 Restrições simbólicas
ou situação.
No seu aspecto mais extremo, as O movimento modernista, principal-
regras formais podem basear-se em mente no estilo internacional, mostrou
sistemas modulares ou grades. Os bem menos interesse pelas proprieda-
principais componentes encontrados des simbólicas do projeto. As tradições
nos estilos clássicos da arquitetura alternativas de arquitetos como Anto-
baseiam-se em conjuntos claramente nio Gaudi e Hans Scharoun revelam um
definidos de regras geométricas. Embo- interesse muito maior pelas caracterís-
ra os períodos românticos se apoiem ticas express1vas
· do projeto e pelo uso
menos nessa organização, o movi-
de forma e espaço para obter efeitos
mento modernista mostrou renovado
específicos, e não uma montagem abs-
interesse nos sistemas geométricos.
trata. Os projetos pós-modernos utili-
Le Corbusier (1946} escreveu sobre "a
zaram frequentemente os estilos histó-
necessidade de ordem. A linha regu-
ricos na tentativa consciente de religar
ladora é garantia contra os caprichos. a vida
. contemporanea" ao passado e
Ela traz satisfação ao entendimento". expnm·lr 1·de1as
· sobre as contradições
As restrições formais podem tornar- de uma épo ca ma1s · 1ncerta.
·
-se extraordinariamente complicadas
No entanto, precisamos ter cuidado
e resultar no tipo de ginástica visu-
al encontrado na arquitetura barroca, com 0 papel do simbolismo no processo
de projeto, em oposição ao seu papel na
6 Modelo de problemas de projeto 105

crítica dos projetos. Sem dúvida, alguns maior gerador das restrições formais
projetistas usam a geração de signifi- e práticas, e também contribui com as
cado simbólico como parte central do simbólicas. O mais importante é que
processo, e veremos alguns exemplos é tarefa do projetista integrar e coor-
num capítulo mais adiante. No entanto, denar todas essas restrições com um
a maior parte do que se escreve sobre mecanismo qualquer. Veremos melhor
o conteúdo simbólico dos projetos é na esse processo na próxima seção, mas
forma de análise crítica, como ressalta um exemplo interessante do trabalho
a arquiteta e designer de interiores Eva de Denys Lasdun servirá para ilustrar
Jiricna: essa questão (Fig. 6.7). Na sua descrição
do National Theatre, ele explica que as
A gente tem uma ideia, mas essa ideia não
plataformas horizontais, que chama de
é realmente um pensamento muito filo-
sófico nem conceitual. Na verdade, ela é "estratos" e que formam um elemento
uma expressão da nossa experiência, que tão dominante em toda a edificação,
é promovida pela questão. Acho que as servem, como tais, de mecanismo inte-
grandes edificações não têm muito pen-
samento simbólico por trás. Deixo para
grador e resolvem problemas radicais,
os jornalistas e críticos de arquitetura a formais e simbólicos:
tarefa de achar um significado simbólico
profundo, porque acho que quem olha Elas sustentam as funções do interior e
as edificações não consegue mesmo ler o permitem um planejamento flexível. Dão
pensamento que está por trás, e para mim, coerência a um grande esquema que,
isso é simples e totalmente inútil. ainda assim, é decomposto até a escala
(Lawson, 1994b). humana. Dão expressão visual à natureza
essencialmente pública da instituição: afi-
nal, um teatro tem de ser um lugar onde
o contato humano é enriquecido e onde
6.17 Um modelo das uma experiência comum é compartilhada.
restrições do projeto (Lasdun, 1965).

Agora podemos construir um mode- Assim como é um produto da abor-


lo totalmente tridimensional para os dagem do projetista, o projeto também
problemas de projeto, com todos os é um reflexo do padrão específico de
tijolos examinados neste capítulo (Fig. restrições que forma o problema. Já
6.6). O modelo completo dos problemas vimos que características marcantes
de projeto mostra que, em !eoria, cada da paisagem podem ser grandes gera-
um dos geradores pode contribuir com doras da forma arquitetônica, e todos
cada tipo de restrição. No entanto, na devemos reconhecer a enorme influên-
prática, cada um tende a gerar bem cia do clima na construção e na forma
mais de um tipo do que dos outros. Por- das edificações no mundo todo e em
tanto, o cliente/usuário é responsável toda a história. Portanto, a necessida-
pela maioria das restrições radicais, e de de absorver as restrições especiais
é provável que contribua com algumas peculiares a um problema específico
simbólicas, enquanto o projetista é o numa filosofia de projeto contínua e em
...

106 COMO ARQUITETOS E DESIGNÇRS PENSAM

desenvolvimento passa a ser um dos nos peçam para projetar uma bandeira
principais desafios da prática de pro- nova, como aconteceu na União Euro-
jetar. Essa questão é reconhecida por peia. É claro que o propósito da ban-
Richard Rogers na descrição fascinante deira é ser um símbolo; então, como
do projeto do Centro Pompidou: separar, de forma sensata, as restrições
radicais e as simbólicas? Assim, em
É impossível separar a edificação do seu casos extremos, um conjunto de fun-
contexto legal, técnico, político e eco-
ções pode tornar-se tão importante que
nômico. Ao mesmo tempo, uma parte
importante de qualquer abordagem do a distinção se desfaz; porém, na maio-
projeto é o modo como as restrições ria dos casos, parece que a distinção
podem ser absorvidas e, sempre que pos-
continua útil. No projeto de uma esco-
sível, invertidas em elementos positivos.
Por um lado, novas regras e necessidades la, sem dúvida, as restrições radicais
técnicas, ditames políticos e mudanças das incluirão a necessidade de acomodar
exigências dos usuários dificultam o con-
as atividades e os indivíduos envolvi-
trole da edificação; por outro, a maneira
como a edificação supera essas restrições dos na educação. A escola precisará
indica o sucesso ou o fracasso tanto da ser bem composta não só por razões
edificação quanto da sua filosofia. puramente formais, mas para que os
(Suckle, 1980)
alunos e visitantes possam construir
o seu mapa mental do prédio e orien-
Agora, podemos ver também a tar-se por ele. Até certo ponto, a escola
superposição entre as funções das res- também deve ser um símbolo do modo
trições. Por exemplo, imaginemos que como a sociedade cuida das crianças, e

Fig. 6.6
Modelo completo
de problemas do
projeto

Projetista

Cliente

Usuário

Legislador
6 Modelo de problemas de projeto 107

é claro que as restrições práticas exi- comporiam o ponto de partida do pro-


gem que o projetista crie conforto não cesso de projeto? Será que isso importa?
só para os adultos, mas também para Que restrições são fundamentais para
as crianças pequenas. Portanto, não há determinar a forma do projeto ou são
distinções absolutamente claras entre fatores básicos do sucesso? Os projetis-
todas essas funções, mas o projetista tas diferem no tipo de restrição em que
que pensa na escola talvez considere se concentram e fazem tipos diferentes
úteis essas quatro categorias de função de projeto apresentarem equilíbrios dife-
para ajudar a identificar todos os pro- rentes entre os tipos de restrição? Essas
blemas ~mportantes. perguntas ainda não foram respondidas,
mas o modelo de problemas do projeto é
uma estrutura dentro da qual podemos
6.18 O uso do modelo examinar essas .e muitas outras ques-
tões. Esse modelo não pretende fazer
Ao contrário dos mapeamentos do pro- parte de um método de projetar, apenas
cesso de projeto já examinados nes- ser um auxílio para o entendimento da
te livro, este capítulo desenvolveu um natureza dos problemas do projeto. Por-
modelo da estrutura do problema de tanto, só ajuda indiretamente a criar um
projeto. No entanto, no capítulo seguin- processo de projeto.
te veremos, em parte, como o processo Este livro começou com uma per-
pode ser mapeado quando os projetis- gunta: como é que ainda usamos a
tas transferem a atenção de uma parte palavra "projeto" para descrever pro-
do problema para outra. Que restrições cessos tão diferentes como a criação

Fig. 6.7
Os "estratos" de
Denys Lasdun,
arquiteto do National
Theatre, resolvem
problemas radicais
'
formais e simbólicos
.
108 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

de automóveis, arquitetura ou anún- e reagir com um processo de projeto


cios? A referência ao modelo mostra- adequado parece ser uma das habilida-
rá que essas situações só diferem no des mais importantes nessa atividade.
grau de importância dado aos vários É muito fácil negligenciar um conjunto
aspectos do problema. Esperamos que de restrições. Os arquitetos modernos
um estilista de moda dê grande ênfa- são frequentemente criticados por sua
se às restrições formais e simbólicas falta de atenção às funções simbóli-
geradas pelo projetista. Espera-se que cas do projeto e por produzirem obras
os arquitetos deem mais atenção aos arquitetônicas que parecem agressi-
clientes e usuários e, como a arquite- vas ou inumanas. Os alunos de projeto
tura é uma questão tão pública, que costumam dedicar tempo demasiado
respeitem os controles legislativos. a partes pouco importantes do proble-
Às vezes, as restrições internas serão ma. É fácil para os inexperientes gerar
dominantes; outras vezes, o projeto problemas práticos quase impossíveis
pode ser, em grande parte, configura- ao seguir cegamente ideias formais
do por fatores externos. malconcebidas que não são questiona-
As situações de projeto podem variar das, mas que poderiam ser modifica-
em termos do grau geral de liberdade das com facilidade. Um dos principais
e controle à disposição do projetista. papéis do professor de projeto é levar
Quando, em sua maioria, as restrições os alunos de uma parte a outra do pro-
são internas e geradas pelo projetista, blema, e a tarefa dos alunos é aprender
falamos de um projeto aberto. Quando, a fazer isso sozinhos. Aqui, mais uma
ao contrário, os clientes ou legisladores vez, o modelo dos problemas de projeto
fazem grandes exigências ou há muitos pode ser útil, servindo como uma lista
fatores externos a levar em conta, fala- de fatores a considerar. Certamente, é
mos de projetos muito restritos. Parece improvável que o projetista habilido-
que alguns projetistas preferem situ- so e experiente se comporte de forma
ações abertas e outros se sentem mais tão autoconsciente, mas o aluno nova-
à vontade com problemás restritos. to precisa aprender a desenvolver um
Dizem que Gordon Murray, o bem-suce- processo de projeto equilibrado, exa-
dido projetista dos carros de corrida da minando todas as restrições importan-
Brabham e da McLaren, considerava tes, seja quem for que as tenha gerado,
os regulamentos impostos aos carros sejam elas internas ou externas, seja
da Fórmula Um fundamentais para a qual for a sua função.
necessidade de inovar (Cross, 1996b).
Parece que, para esse projetista espe-
cífico, os problemas altamente restritos 6.19 Restrições e critérios
são mais interessantes que as situações
mais livres que talvez sejam mais nor- Como já mencionado, Portillo e Dohr
mais em outros campos de projeto. propuseram uma distinção entre res-
Reconhecer a natureza do problema trições e critérios do projeto que,
6 Modelo de problemas de projeto 109

segundo eles, faltava na versão ante- projeto é aquele que respeita todas as
rior deste livro. Sem dúvida, o seu pon- restrições até certo grau em um equilí-
to de vista é interessante, embora par- brio considerado aceitável. É claro que
cialmente semântico. Eles defendem também devemos admitir que algumas
que as restrições são consideradas pessoas gostariam de determinar, em
limitadoras e reduzem as alternativas certas áreas, critérios mais rigorosos
do projetista, enquanto os critérios são do que em outras. Poucos concordarão
flexíveis e avaliatórios: inteiramente que um projeto é mais ou
menos bom. O projetista tem de tra-
Os critérios sempre dizem respeito às
balhar para negociar uma solução que
funções do projeto e aos processos de
avaliação com base nos objetivos, ao pas-
atenda aos conjuntos relativos e discre-
so que as restrições revelam funções do pantes de critérios defendidos, muitas
projeto geralmente caracterizadas como vezes de forma implícita, por clientes,
limitadoras e alinhadas de forma mais ín-
usuários e legisladores, além dos inte-
tima às exigências de soluções específicas.
grantes da equipe do projeto.
(Portillo; Dohr, 1994)
Portillo e Dohr contribuíram de
É uma questão sutil, mas justa. No forma significativa para essa discus-
entanto, persisti com esse modelo de são ao reconhecer a importância dos
"restrições" querendo dizer questões critérios no processo de projeto. Com
que devem ser levadas em conta quan- muita frequência, o problema ao pro-
do se configura a solução. Em conjunto, jetar é que não se podem estabelecer
essas restrições formam o problema do critérios sensatos para o sucesso, a
projeto, e vimos que talvez só fiquem menos que se tenha alguma avaliação
visíveis quando a tentativa de criar a do que é possível. Portanto, os critérios
solução avança. Na minha experiência, não são necessariamente absolutos no
é raro acontecer que os critérios com- processo de projeto, exceto às vezes,
pletamente claros de sucesso sejam quando impostos por legisladores, e
esclarecidos antes das tentativas de veremos no Cap. 13 que há ocasiões em
produzir soluções para os tipos de pro- que, como resultado, eles podem ser
jeto aqui discutidos. No final, o bom bastante destrutivos!
7
Problemas, soluções e 0
processo de projeto

A única pessoa que é artista e, aque 1a que consegue fazer um quebra-


-cabeça a partir da solução.

Karl Kraus, Nachts


Tudo o que é absorvido e registrado por nossa me~t~ soma~s~ à co-
leção de ideias armazenadas na memória. Uma especte de btbltot~ca
que podemos consultar toda. vez que _surge um _problema. Asstm~
essencialmente, quanto mais ttvermos vtsto, exp er_tmentado ~ ~bsor
vida, mais pontos de referência teremos para nos ajudar a dectdtr que
direção tomar: nosso quadro de referência se expande.

Herman Hertzberger, Lições de Arquitetura

7.1 Agora e quando

o projetista tem uma tarefa mais normativa do que descriti-


va. Ao contrário dos cientistas, que descrevem como o mun-
do é, os projetistas sugerem como poderia ser. Portanto, até
certo ponto, todos os projetistas são "futurólogos". A própria
essência do seu trabalho é criar o futuro, ou, pelo menos,
algumas características dele. Obviamente essa é uma ativida-
de muito arriscada e traz consigo pelo menos duas maneiras
de ser impopular. Em primeiro lugar, o novo costuma parecer
estranho e, pelo menos para algumas pessoas, inquietante e
ameaçador. Em segundo lugar, é claro que 0 projetista pode
estar errado quanto ao futuro. É muito fácil, com maravilho-
0
so benefício de examinar o fato depois de ocorrido, encontrar
falhas em projetos. Os prédios de apartamentos residenciais
7 Problemas, soluções e o processo de projeto 111

construídos na Grã-Bretanha depois da lução criada pelo computador. No


Segunda Guerra Mundial agora pare- entanto, o meu pai não tinha muita
cem tão obviamente insatisfatórios que compreensão das consequências do
nos perguntamos como é que os proje- computador na mudança da nossa
tistas puderam ser tão estúpidos! vida. Mas agora esse nível de mudança
Mas até numa escala temporal bem é tão grande que causa impacto sobre
mais curta, o projetista tem preocupa- a vida de um único indivíduo. Muitos
ções e incertezas a respeito do futuro. autores defenderam que hoje a tec-
O cliente gostará do projeto e autori- nologia projetada é um dos aspectos
zará a sua execução? O projeto será mais significativos da nossa ordem
aprovado por legisladores e regulado- social contemporânea.
res? Será caro demais? Será bem aceito Sabidamente, Marshall McLuhan
pelos usuários? Essas e outras questões (1967) comentou a importância da
fundamentais semelhantes só podem explosão de informações provocada
ser respondidas pela passagem do tem- pela imprensa, pela televisão e pelos
po, e os projetistas precisam manter a computadores, e concluiu que a única
calma durante o processo, terminar o certeza da vida moderna é a mudan-
trabalho, submetê-lo à prova do tempo ça. Dickson (1974) vê a tecnologia como
e aguardar com paciência o veredito. o maior determinante da estrutura
Essas dúvidas e preocupações devem da sociedade e defende que os efeitos
ter atormentado a mente de muitas sociais negátivos da alta tecnologia
gerações de projetistas, mas agora há indicam que deveríamos buscar for-
incertezas novas e ainda mais inquie- mas de tecnologia alternativas e menos
tantes a serem enfrentadas pelos proje- prejudiciais. Toffler (1970) avisou que,
tistas contemporâneos. se a tecnologia continuar avançando
A sociedade tecnocrática avan- da maneira atual, todos sofreremos a
çada para a qual o projetista con- desorientação cultural que ele chama
temporâneo trabalha está mudando de "choque do futuro".
rapidamente. Ao contrário das gera- Por mais que alguns desses auto-
ções anteriores, vivemos num mun- res populares sejam polêmicos, não
do que, em termos comparativos, tem há dúvida de que mudanças assim tão
pouca tradição e estabilidade cultural. rápidas resultam num mundo cada vez
A imensa maioria do nosso ambiente mais difícil de entender e prever, de
cotidiano foi projetada e até inventada modo que estamos, ao mesmo tempo,
durante a nossa geração. O automóvel empolgados e temerosos com o futuro.
e a televisão influenciam profunda- Talvez realmente vivamos no "Mundo
mente a nossa vida cotidiana, numa em Fuga", como disse Leach:
extensão que talvez espantasse os Os homens tornaram-se parecidos com
seus inventores. O meu pai viu prati- deuses. Já não é hora de entendermos a
camente toda a revolução criada pelo nossa divindade? A ciência nos oferece 0

automóvel , e eu vivi durante a revo-


domínio total do ambiente e do destino .
112 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Numa época de rápida mudança social


mas, em vez de nos alegrarmos, sentimo-
e tecnológica, é raro o programador ou
nos profundamente assustados.
arquiteto que seja capaz de pressupor ver-
(leach, 1968)
dadeiramente que consegue lidar sozinho
com 0 presente. Sem dúvida, o i~corpo­
rador ou financista que assume o nsco da
Tudo isso torna a vida ainda mais
possibi lidade certa de obsolescência fun-
difícil para o projetista, que hoje ali- cional é bem míope.
menta incertezas não só quanto ao pro- (Suckle, 1980)
jeto, como também quanto à natureza
do mundo em que esse projeto terá de Assim, como o projetista pode rea-
se encaixar. Muitas vezes, nos últimos ~· gir ao futuro incerto? Ao contrário do
anos, vimos o processo de projeto ser cientista, o projetista não pode se can-
realmente ultrapassado por mudanças didatar a mais uma bolsa de pesquisa
sociais, econômicas ou tecnológicas. e redigir um artigo elegante para des-
Recentemente, a natureza da medici- crever a complexidade da situação.
na e dos sistemas de gerenciamento Espera-se que os projetistas ajam. Há ,..
1
de assistência médica mudou depressa três maneiras principais de lidar com :....?
demais para projetistas e construtores isso no processo de projeto, as quais
de hospitais, de modo que edificações chamaremos de procrastinação, projeto
novas já estão desatualizadas ou peque- evasivo e projeto descartável. Cada uma
nas demais antes mesmo de ficarem dessas maneiras parece mais popular
prontas. Em áreas urbanas densas como em grupos específicos de projetistas.
Hong Kong, o valor dos terrenos muda
mais depressa do que a construção de
prédios, o que torna os projetos antie- 7.2 Procrastinação
conômicos antes que sejam concluídos.
o poder dos meios de comunicação de A primeira abordagem, procrastinação,
massa pode criar mudanças súbitas baseia-se na ideia de que, de certo modo~
e fundamentais na moda e no gosto, o futuro pode tornar-se mais garantido
fazendo os itens produzidos em mas- caso esperemos um pouquinho. Quan-
sa, como automóveis, parecerem desa- do não é possível ter certeza das nos-
tualizados muito antes do fim da sua sas ações agora, talvez seja mais fácil
vida útil. Novos materiais e métodos de tomar a decisão no ano que vem ou no
fabricação podem alterar tão drastica- seguinte. Encontro regularmente pes-
mente o custo dos itens que pode ficar soas tentadas a adotar essa abordagem
mais caro manter as versões antigas do na hora de comprar um computador. O
que comprar itens inteiramente novos. argumento é que, se eu comprar agora,
Como, então, o projetista deve logo surgirá uma máquina mais nova
reagir a essa incerteza diante do e ficarei com um modelo ultrapassado.
futuro? O arquiteto americano John Tento ressaltar que isso também será
Johansen descreve a situação de manei- verdade na semana que vem, no mês
ra bem concisa: que vem e no ano que vem; logo, não

,
7 Problemas, soluções e o processo de projeto 113
f:

há razão para esperar. Essa estratégia sível não agir. O próprio processo de evi-
também é comum em quem toma deci- tar ou retardar a decisão provoca efeitos!
sões para períodos mais longos, como
políticos e planejadores urbanos. É com
base nisso que levamos tanto tempo 7.3 Projeto evasivo
para construir o terceiro aeroporto de
Londres e que não temos uma política A segunda reação à incerteza é ser o
energética nacional clara. No fundo, mais evasivo possível no projeto, embo-
essa parece ser uma das razões pelas ra, na verdade, ainda se esteja avan-
quais os governos seguem o exemplo çando. Assim, os arquitetos tenderam a
de Margaret Thatcher e se afastam do projetar edificações neutras, anônimas
planejamento estratégico central para e pouco interessantes, inespecíficas em
deixar que o mercado decida. As deci- termos de função ou localização. Não
sões de projeto tomadas por governos, surpreende que tenha havido uma rea-
sejam eles nacionais, estaduais ou ção a esse tipo de arquitetura, acusa-
municipais, as quais podem mais tarde da de não oferecer ambientes urbanos :
ser criticadas, são virtuais pesos eleito- suficientemente positivos. A noção de
rais amarrados ao pescoço dos políti- ambiente flexível e adaptável foi popu-
cos. Então, é muito melhor ser desape- lar durante algum tempo nas escolas de
gado e livre de toda culpa! arquitetura. Habraken e os seus segui-
A verdadeira dificuldade dessa rea- dores tiveram muita influência e che-
ção à incerteza é que, quando se iden- garam a sugerir que os arquitetos deve-
tifica um problema, não se pode mais riam projetar estruturas de sustentação
evitar as consequências de tomar uma que só oferecessem abrigo, apoio e ser-
decisão. Retardar a decisão propriamen- viços, dando aos futuros usuários a
te dita aumenta a incerteza e, portanto, liberdade de criar o próprio lar e expri-
pode acelerar o problema. Assim que se mir a própria identidade arrumando os
identifica a necessidade de ações de pla- kits de peças que se encaixavam nesses
nejamento numa região deteriorada da "suportes" (Habraken, 1972).
cidade, o mais provável é que essa área Em grande parte, essas ideias per-
se degenere ou vire uma "praga" com maneceram teóricas e, sem dúvida, há
rapidez ainda maior antes que sejam muitos problemas práticos e econô-
tomadas decisões quanto ao seu futuro. micos em criar edificações que sejam
Do mesmo modo, caso se planeje uma genuinamente flexíveis e adaptáveis.
nova estrada, mas o traçado continue a Hoje, talvez os arquitetos tenham se
ser debatido por um período prolonga- tornado levemente esquizofrênicos na
do, as propriedades na região dos vários sua atitude diante da flexibilidade. Por
traçados mudam de valor. Assim, a pro- um lado, muito se fala e se escreve sobre
crastin,a ção é uma estratégia profunda- o projeto de edificações capazes de
mente defeituosa. Na situação de muitos sobreviver à função inicial, enquanto,
projetos na vida real, é realmente impos- por outro lado, os arquitetos desce-
c
114 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

brem cada vez mais que não é preciso ano. Infelizmente, além de desperdiçar
demolir edificações antigas que, muitas recursos, essa abordagem consumista
vezes, podem ser facilmente conver- também produz mercadorias de vida
tidas para novos usos. John Johansen curta e qualidade cada vez menor, e I

descreve a abordagem do projeto arqui- assim a substituição dos objetos passa


tetônico que desenvolveu como res- de opção a necessidade.
posta ao futuro incerto. Ele afirma que
esse é um aspecto fundamental do seu
trabalho e defende que "quando pres- 7.5 Soluções de projeto
supomos que a natureza das nossas que criam problemas
acomodações mudará em futuro próxi- de projeto
mo, devemos escrever programas não
para o presente, mas também para o É claro que projetar em uma época de
futuro". Para Johansen (Suckle, 1980), mudanças rápidas é mais difícil do que
portanto, parece que a conclusão lógi- projetar num mundo estável e previsí-
ca é que ele tem de projetar edificações vel. Como vimos no Cap. 2, o próprio
que também sejam capazes de mudar. ritmo do desenvolvimento sociotécnico
exerce influência importante sobre o
processo de projeto e sobre o papel do
7.4 Design descartável projetista na sociedade. Mas é impor-
tante reconhecer que, além de depen-
A terceira reação à incerteza é pro- der do futuro, os projetistas também
jetar apenas para o presente. Assim, ajudam a criá-lo. Cada uma das reações
embute-se a obsolescência no obje- ao futuro incerto aqui descritas dá for-
. to projetado, pensado para ser jogado ma ao futuro, seja nas áreas degrada-
fora e substituído por um projeto mais das da cidade, na arquitetura indecisa
atualizado. Essa estratégia foi cada vez ou nos carros da moda. Como explica
mais adotada pelos projetistas de mer- Chris Jones (1970): "Projetar não é mais
cadorias produzidas em massa. Tudo, aumentar a estabilidade do mundo fei-
das roupas aos automóveis, pode ser to pelo homem: é alterar, para o bem ou
descartado em troca de novos estilos para o mal, coisas que determinam a
e imagens. Essa abordagem é favore- trajetória do seu desenvolvimento".
cida principalmente pelos estilistas de Assim, acontece que, substancial-
moda, com a própria palavra "moda" a mente, muitos problemas de projeto
confirmar a sua natureza transitória. contemporâneos também resultam da
No entanto, essas ideias já começaram atividade de projetar anterior. Isso pode
a invadir campos tradicionalmente acontecer sob a forma do barulho gera-
mais estáveis, como o design de interio- do por máquinas ou atividades ou como
I

res. Querem que, além de usar as rou- decadência urbana ou vandalismo em


pas deste ano, também preparemos a edificações, ou em termos de aeropor-
comida deste ano em cozinhas deste tos e estradas perigosos e congestiona-

..........
7 Problemas, soluções e o processo de projeto 115

dos. Cada uma dessas enfermidades da cados em qualquer processo de projeto


civilização moderna e outras parecidas são função não só da abordagem do
e incontáveis constituem os problemas projetista, como também do tempo dis-
mais urgentes enfrentados pelos proje- ponível. Pode-se encontrar urna ilus-
tistas, e, ainda assim, pelo menos até tração interessante na descrição que
certo ponto, elas podem "ser conside- Richard Rogers faz do projeto do Centro
radas fracassos humanos ao projetar Pompidou, à qual já nos referimos. Des-
pensando em condições causadas pelos de os primeiros estágios, Rogers nos diz
produtos de projetos" Uones, 1970}. que identificou a necessidade de proje-
tar visando à flexibilidade. Realmen-
te, para Rogers, o conceito do projeto,
7.6 Descobrir e resolver talvez até o gerador primário, fez com
problemas que a edificação fosse "concebida como
recipiente flexível capaz de adaptar-
Muitas vezes se sugeriu que projetar é se continuamente - não só na planta,
uma questão de encontrar os proble- mas também na seção e na elevação
mas, além de resolvê-los. Em capítulos - às necessidades que porventura sur-
posteriores, discutiremos estratégias e gissem". Ele logo passou a ver a edifi-
táticas para controlar esses processos cação como um "gigantesco brinque-
entrelaçados de identificação de proble- do de montar em mudança constante"
mas e geração de soluções. Aqui, entre- (Fig. 7.1). Em termos técnicos, a solução
tanto, é importante reconhecer que, proposta envolvia muitos componentes
provavelmente, os problemas identifi- móveis, como divisórias, revestimentos

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Fig. 7.1
o Centro Po mpidou, que Richard Rogers considerava um "gigantesco brinquedo de montar''
116 COMO ARQU ITETOS E DESIGNERS PENSAM

ções, mas essas soluções, por sua vez,


e assoalhos. No entanto, Rogers teve
criam problemas novos e diferentes.
de abandonar a tentativa de encontrar
uma solução técnica para o problema
dos assoalhos móveis:
1.1 o projeto com o
Assim que ficou claro que havia uma res- contribuição ao
trição de cinco anos de prazo a partir da conhecimento
abertu ra da concorrência, percebemos
que seria totalmente impossível depu-
ra r no tempo necessário a ideia inicial de Neste capítulo, vimos que o processo
assoalhos móveis mantidos no lugar por de projeto é afetado pelas incertezas do
grampos de fricção, razão pela qual a
futuro. No capítulo anterior, vimos que
abandonamos.
(Suckle, 1980) se pode considerar que o processo de
projeto varia de acordo com o tipo de
Assim, Rogers nos diz que mais problema abordado. No Cap. 3, vimos
problemas foram identificados e que uma série de tentativas de definir o pro-
gostaria de resolvê-los se tivesse mais cesso de projeto como uma sequência
tempo. Raramente o processo de proje- de operações, todas elas, cada uma a
to tem uma conclusão natural própria; seu modo, com as suas falhas. Uma
o mais frequente é que se encerre num abordagem mais madura foi apresen-
prazo definido. Talvez seja como res- tada por Zeisel (1984) na discussão da
ponder à questão de uma prova sob a natureza da pesquisa dos vínculos entre
pressão do tempo. O frustrante é que ambiente e comportamento. Ele pro-
talvez a gente saia da sala de provas pôs que se admitisse que projetar tem
ainda pensando em novas questões cinco características. A primeira delas
relacionadas que poderíamos ter abor- é que projetar consiste de três ativida-
dado. Sem dúvida, esse parece ser um des elementares que Zeisel chamou de
modelo melhor do processo de projeto imaginar, apresentar e testar. Imaginar
do que aquele inspirado pela ideia de é uma palavra bonita para descrever o
resolver um jogo de palavras cruzadas, que o grande psicólogo ]erome Bruner
quando há um momento reconhecível e chamou de "ir além das informações
identificável de encerramento.
dadas". É claro que isso nos leva ao ter-
Nos projetos, os problemas e as
reno do pensamento, da imaginação e
soluções são inexoravelmente interde-
da criatividade, que será examinado
pendentes. É óbvio que não faz sentido
nos próximos dois capítulos. A segun-
estudar soluções sem fazer referência
da atividade de Zeisel, a apresentação,
aos problemas, e o inverso é igualmente
também nos leva ao terreno do desenho
infrutífero. Quanto mais se tenta isolar
e do papel central que este desempenha
e estudar os problemas do projeto, mais
no processo de projeto. Isso também
importante fica referir-se às soluções
será examinado em capítulos posterio-
do projeto. Ao projetar, os problemas
res. Finalmente, a atividade de testar já
podem sugerir características das solu-
foi examinada no Cap. S.
7 Problemas, soluções e o processo de projeto 117

Zeisel também defende que uma te o que têm de fazer, mas que também
segunda característica do ato de pro- admitem que o seu esforço é imperfeito!
jetar é empregar dois tipos de infor- Vale fazer aqui uma parada rápida
mação, chamados de catalisador heu- para resumir algumas características
rístico, no caso da imaginação, e de importantes dos problemas e das solu-
corpo de conhecimentos, no caso do ções dos projetos, e as lições que se
teste. Em essência, isso nos diz que os podem aprender a respeito da natureza
projetistas baseiam-se em informações do próprio processo de projeto. Não se
para decidir como as coisas podem ser, deve considerar que os pontos a seguir
mas também que utilizam informações constituam uma lista abrangente de
para saber se as coisas poderiam fun- propriedades isoladas da situação do
cionar bem . Como é comum que a mes- projeto; na verdade, eles costumam
ma informação seja usada desses dois estar intimamente interligados e, por-
modos, o ato de projetar pode ser consi- tanto, há alguma repetição. No entanto,
derado um tipo de processo investigati- tomados em conjunto, eles revelam um
vo e, portanto, uma forma de pesquisa. quadro geral da natureza do ato de pro-
Atualmente, vivemos num mundo em jetar hoje em dia.
que está na moda produzir medições de
desempenho simples ou, como diriam
alguns, simplistas. Assim, as escolas 7.8 Problemas do projeto
e os hospitais têm de sumarizar o seu
desempenho para que seja possível 7.8.1 Os problemas do projeto
publicar "tabelas de classificação" para não podem ser totalmente
os seus "consumidores". Do mesmo determinados
modo, as universidades têm de avaliar
a qualidade do ensino e da pesquisa. Como vimos no Cap. 3, uma das dificul-
Os leitores do Cap. 5 já foram alerta- dades de desenvolver um mapeamento
dos para o perigo dessa abordagem. No do processo de projeto é que nunca;
entanto, na hora de avaliar a pesquisa se sabe com certeza quando todos os
feita nos departamentos de projeto, o aspectos do problema já foram revela-
problema fica ainda mais espinhoso. dos. No Cap. 6, vimos que os problemas
Como avaliar a produção de artistas do projeto são gerados por vários gru-·
plásticos, compositores e projetistas pos ou indivíduos com graus variados
em termos da sua contribuição para o de envolvimento no processo de toma-
conhecimento? Esse é um problema da de decisões. Fica claro que não é pos-
para os que desejam aplicar essas medi- sível esperar que muitos componentes
ções globais simplistas de desempenho dos problemas de projeto surjam antes
a fenômenos complexos e multidimen- que haja alguma tentativa de gerar
sionais. Basta dizer que os projetistas soluções. Na verdade, muitas caracte-
são naturalmente capazes de aceitar rísticas dos problemas de projeto tal-
essas dificuldades, já que é exatamen- vez nunca sejam totalmente reveladas
118 COMO ARQUITETOS E DESlGNERS PENSAM

e explicitadas. Os problemas de proje- Como vimos no Cap. 5, há muitas


to costumam ser cheios de incertezas, dificuldades para mensurar projetos,
tanto a respeito dos objetivos quanto da e os problemas, inevitavelmente, são
sua prioridade relativa. De fato, é mui- carregados de valor. Nesse sentido, os
to provável que objetivos e prioridades problemas de projeto, assim como as
mudem durante o processo de projeto . soluções, continuam sendo uma ques-
assim que as consequências das solu- tão de percepção subjetiva. O que pare-
çoes começarem a aparecer. Portanto, ce importante para um cliente, usuário
não devemos esperar uma formulação ou projetista pode não ser importante
estática e completa dos problemas de para outros. Portanto, não deveríamos
projeto, e é preciso considerar que estes esperar formulações inteiramente obje-
mantêm uma tensão dinâmica com as tivas dos problemas de projeto.
soluções do projeto.

7.8.3 Os problemas de projeto


7.8.2 Os problemas de projeto tendem a ser organizados de
exigem interpretação forma hierárquica
subjetiva
No Cap. 4, examinamos como, em geral,
No primeiro capítulo introdutório, os problemas de projeto são considera-
vimos que projetistas de campos dife- dos sintomas de outros problemas de
rentes sugeririam soluções diferentes alto nível, fato ilustrado pela história de
para o mesmo problema do serviço de Eberhard sobre o problema de reproje-
refeições não lucrativo da ferrovia. Na tar uma maçaneta, que se transformou
verdade, não apenas é provável que os em considerações sobre portas, pare-
projetistas imaginem soluções diver- des, edificações e, finalmente, organi-
sas, como também que percebam os zações completas. Do mesmo modo, o
problemas de forma variada. Até certo problema de criar uma pracinha para as
ponto, o nosso entendimento dos pro- crianças que percorrem as ruas poderia
blemas de projeto e das informações resultar do projeto habitacional onde
necessárias para resolvê-los dependem moram essas crianças, da política de
das nossas ideias de solução. Assim, planejamento que permite a constru-
como sabem fazer retrofit de trens, os ção de vastas áreas habitacionais lon-
desenhitas industriais veem problemas ge de focos sociais naturais, ou poderia
na maneira como os vagões-restaurante ser um sintoma do nosso sistema edu-
são planejados, enquanto pesquisa- cacional ou do padrão de emprego dos
dores operacionais podem ver defiei- pais. Não há forma objetiva nem lógica
ências no horário e no cronograma de de determinar o nível certo de aborda-
serviços, e os designers gráficos, identi- gem desse tipo de problema. Em gran-
ficar a inadequação da maneira como a de parte, a decisão continua a ser prag-
comida é divulgada e apresentada. mática; depende do tempo, do poder e

. ,.•
. t
7 Problemas, soluções e o processo d e proJe o
119

dos recursos à disposição do projetista, que o projetista possa simplesmente


mas parece sensato começar no nível otimizar uma exigência sem sofrer per-
mais alto que seja razoável e factível. das em outras. O modo como se fazem
as concessões e acomodações continua
a ser uma questão de discernimento
7.9 Soluções do projeto habilidoso. Portanto, não há soluções r_,
ótimas para os problemas de projeto,
7.9.1 Há um número inesgotável mas sim toda uma série de soluções
de soluções diferentes aceitáveis (se os projetistas consegui-
rem pensar nelas), e provavelmente
Como os problemas de projeto não cada uma se mostrará mais ou menos
podem ser totalmente determinados I satisfatória de várias maneiras para
segue-se que nunca existirá uma lis- clientes ou usuários diferentes. Assim
ta exaustiva de todas as soluções pos- como a tomada de decisões no proje-
síveis para esses problemas. Alguns to é uma questão de discernimento, o
autores oriundos da engenharia que mesmo acontece com a avaliação das
escreveram sobre metodologia de soluções. Não há métodos estabeleci-
projeto falam em mapear a gama de dos para decidir até que ponto as solu-
soluções possíveis. É óbvio que essa ções são boas ou ruins, e o melhor teste
noção depende do pressuposto de que da maioria dos projetos ainda é esperar
o problema pode ser enunciado de for- para ver como funcionam na prática.
ma clara e inequívoca, como insinua As soluções dos projetos nunca podem
o m étodo de Alexander (ver Cap. 5). ser perfeitas e, com frequência, é mais
Entretanto, se aceitarmos o ponto de fácil criticá-las do que criá-las. Os pro-
vista contrário aqui expresso, de que jetistas devem aceitar que, quase inva-
os problemas de projeto são bem mais riavelmente, sempre haverá quem ache
in escrutáveis e maldefinidos, não pare- que estão errados.
ce sensato achar possível que se possa
ter certeza de identificar todas as solu-
7.9.3 As soluções do projeto
ções de um problema.
costumam ser reações
holfsticas
7.9 . 2 Não há sol uções ótimas pa ra
os problemas de projeto As soluções de um projeto raramen-
, te correspondem exatamente às par-
tes identificadas do problema. Em vez
Quase invariavelmente, projetar env~l­
ve fazer concessões. As vezes, os obJe- disso, o mais comum é que uma ideia
tivos declarados podem estar em con- na solução seja uma reação integrada
flito direto entre si, como no caso dos e holística a vários problemas. A roda
motoristas que exigem boa aceleração de carroça em forma de prato estuda-
. consumo de combustível. É raro da no Cap. 2 foi um exemplo muito bom
e b a1xo
COMO ARQUITETOS E pESIGNERS PENSAM
120

e chamou a atenção de George Sturt 7.9.5 As soluções do projeto


exatamente por isso. A ideia isolada fazem parte de outros
de dar aquela forma à roda resolveu, problemas de projeto
ao mesmo tempo, toda uma série de
problemas. Do mesmo modo, a janela As soluções do projeto não são pana-
georgiana estudada no Cap. 4 pode ser ceias, e é muito comum que causem,
considerada uma reação integrada a além dos bons efeitos pretendidos,
muitos problemas. Portanto, raramente também efeitos indesejáveis. O auto-
é possível dissecar uma solução de pro- Ç . móvel moderno é uma solução mara-
jeto e relacioná-la ao problema, dizen- vilhosamente sofisticada para o pro-
do qual parte da solução resolve qual blema do transporte individual num
parte do problema. mundo que exige que as pessoas con-
sigam se deslocar com flexibilidade em
distâncias curtas e médias. No entanto,
7.9.4 As soluções do projeto são quando essa solução é aplicada a toda
I· uma contribuição para o a população e usada até para viagens
conhecimento previsíveis, acabamos projetando ruas
e estradas que dilaceram as cidades e
Depois que uma ideia se forma e um as áreas rurais. A poluição resultante
projeto se completa, de certa forma tornou-se um problema por si só, e hoje
o mundo muda. Cada projeto, seja até o carro passa a não funcionar tão
construído ou fabricado, ou mesmo que bem, já que fica preso em engarrafa-
permaneça na prancheta, representa mentos! Essa é uma ilustração bastante
um tipo de progresso. As soluções dos expressiva do princípio básico de que
projetos em si são extensamente estu- tudo o que projetamos tem potencial
i 1
dadas por outros projetistas e comen- não só de resolver problemas, como
1I tadas por críticos. Para a atividade de também de criar outros!
projetar, elas são o que as hipóteses e
teorias são para a ciência. Formam a
base sobre a qual avança o conhecimen- 7.10 O processo de projeto
to do ato de projetar. A ponte Severins,
em Colônia, que estudamos no capítu- 7.10.1 O processo é interminável
lo anterior, além de levar pessoas para
o outro lado do Reno, contribui para o Como os problemas de projeto escapam
reservatório de ideias disponíveis para a descrições completas e permitem
futuros projetistas de pontes. Portanto, um número inesgotável de soluções, o
o término da solução de um projeto não processo de projeto não pode ter um
serve apenas ao cliente, mas permite fim determinado e identificável. Na
ao projetista desenvolver as suas ideias verdade, a tarefa do projetista nunca
de maneira pública e verificável. acaba e, provavelmente, sempre é pos-
sível melhorar. Nesse sentido, projetar
7 Problemas, soluções e o processo de projeto 121

é bem diferente de montar um que- jeto quisessem, não existe nenhum


bra-cabeças. Em geral, quem gosta de modo bom e infalível de projetar. A
resolver palavras cruzadas ou proble- solução de um projeto não é apenas o
mas matemáticos consegue reconhecer resultado lógico do problema e, por-
a resposta correta e sabe quando atare- tanto, não há nenhuma sequência de
fa se encerra, mas com o projetista não operações que garanta o resultado.
é assim. Identificar o final do processo Todavia, a situação não é tão desespe-
de projeto exige experiência e discer- rançada quanto essa afirmação parece
nimento. Sente-se que não vale mais indicar. No Cap. 6, vimos que é possí-
a pena avançar porque a probabilidade vel analisar a estrutura dos problemas
de melhorar significativamente a solu- de projeto e, na Terceira Parte, exami-
ção parece pequena. Isso não significa naremos como os projetistas podem
que o projetista esteja necessariamen- modificar, e modificam, o processo em
te satisfeito com a solução, mas talvez, resposta a essa variação da estrutura
mesmo insatisfatória, ela represente do problema. Na verdade, veremos que
o melhor que se pode fazer. Tempo, controlar e variar o processo de projeto
dinheiro e informação costumam ser é uma das habilidades mais importan-
os principais fatores que limitam o pro- tes que o projetista tem de desenvolver.
jeto, e a escassez de qualquer um des-
ses recursos essenciais pode resultar
numa situação frustrante, sentida pelo 7.10.3 O processo envolve
projetista como encerramento precoce encontrar problemas, além
do processo de projeto. Alguns projetis- de resolvê-los
tas de sistemas grandes e complexos,
que envolvem escalas temporais pro- Com a nossa análise da natureza dos
longadas, começam hoje a ver o pro- problemas de projeto, fica claro que
jeto como contínuo e em andamento, é inevitável que o projetista dedique
em vez de um processo que acaba de considerável energia a identificar pro-
uma vez por todas. Talvez algum dia blemas. Uma característica central do
tenhamos, por exemplo, verdadeiros pensamento moderno sobre o ato de
arquitetos comunitários, que morem projetar é que se considera que pro-
numa área e cuidem constantemente blemas e soluções surgem juntos, em
do ambiente construído, como os médi- vez de se seguirem logicamente. o pro-
cos cuidam dos pacientes. cesso, portanto, é menos linear do que
indicam muitos mapeamentos discu-
tidos no Cap. 3 e bem mais controver-
7.10.2 Não existe um processo tido. Isto é, tanto o problema quanto a
correto e infalível solução ficam mais claros à medida que
o processo avança. Também vimos, no
Por mais que os antigos autores que Cap. 6, como na verdade se espera que
escreveram sobre metodologia do pro- o projetista contribua tanto com pro-
'.•

122 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

- ma1s
tao, . que todas as ou tras, que
, deu
blemas quanto com soluções. Uma vez
.
ongem a, prt·meira geração de metodos.
que achar problemas e produzir solu-
ções não podem ser consideradas ati- de projetar; os projet istas eram co~sl-
vidades predominantemente lógicas, é derados muito envolvidos em questoes
de se esperar que o processo de projeto sobre as quais faziam juízos de valor
exija o m ais alto nível de pensamento subjetivos. No entanto, não se pode
criativo. Discutiremos a criatividade resolver essa preocupação simples-
como fenômeno e como promovê-la na mente negando a natureza subjetiva
Terceira Parte. de muitos juízos no ato de projetar.
Talvez o pensamento atual tenha mais
tendência a tornar explícitos os juízos
7.10.4 Inevitavelmente, projetar de valor e as decisões do projetista, e
envolve juízos subjetivos a permitir que outros participem do
de valor processo, mas esse caminho também é
repleto de dificuldades.
A questão de quais são os problemas
mais importantes e que soluções resol-
vem com mais sucesso esses problemas 7.10.5 Projetar é uma atividade
costuma ser carregada de valor. Por- normativa
tanto, frequentemente a resposta que
os projetistas devem dar a essa questão Um dos modelos populares do proces-
é subjetiva. Como vimos no Cap. 5, na so de projeto encontrados na literatura
discussão acerca do terceiro aeroporto sobre metodologia de projeto é o méto-
de Londres, a importância de preservar do científico. No entanto, os problemas
igrejas ou pássaros ou de evitar o incô- da ciência n ão se encaixam na descri-
m odo do barulho depende bastante ção dos problemas de projeto delineada
do ponto de vista. Por mais que argu- anteriormente e, em consequência,
mentem os proponentes da quantifica- não é proveitoso considerar análogos
ção, nesse caso na forma de análise de o processo da ciência e o de projetar.
custo-benefício, nunca convencerão o A diferença m ais importante, óbvia
público em geral de que t ais questões e fundamental é que projetar é uma
podem ser decididas da forma corre- atividade essencialmente normativa,
ta, de maneira inteiramente objetiva. ao passo que a ciência é predominan-
A objetividade completa exige distan- temente descritiva. Os projetistas não
ciamento não apaixonado. Os projetis- visam tratar de questões sobre o que é,
tas, por serem humanos, acham difícil como é e por que é, m as sim sobre o
permanecerem não apaixonados ou que pode ser e como deveria ser. Embo-
distanciados do seu trabalho. Na ver- ra os cientistas possam nos ajudar a
dade, eles costumam ser claramente entender o presente e prever o futu-
defensivos e possessivos com as suas ro, os projetistas podem normatizar e
soluções. Talvez tenha sido essa ques- criar o futuro; portanto, o seu processo
7 Problemas, soluções e o processo de projeto 123

merece um exame não apenas ético, jeta é a capacidade de fascinar-se rapi-


como t:-~rnbc>m morn1. damente com problemas antes desco-
··,. nhecidos. Discutiremos essa difícil
habilidade na Terceira Parte.
7.10.6 Os projetistas trabalham Não só os projetistas têm de enfren-
no contexto da necessidade tar todos os problemas que surgem,
de ação como também devem fazê-lo num
tempo limitado. Mui tas vezes, proje-
Projetar não é um fim em si mesmo. tar é uma questão de tomar decisões
Toda a questão do processo de projeto negociadas com base em informa-
é que ele resultará em uma ação para ções inadequadas. Infelizmente, para
mudar o ambiente de alguma forma, o projetista essas decisões costumam
seja com a formulação de políticas, aparecer de forma concreta à vista de
seja com a construção de edificações. todos, e poucos críticos se dispõem a
Não se pode evitar nem retard ar desculpar erros ou fracassos com base
as decisões sem a probabilidade de na insuficiência de informações. Pare-
consequências indesejáveis. Ao con- ce que os projetistas, ao contrário dos
trário do artista, o projetista não está cientistas, não têm o direito de errar.
livre para concentrar-se exclusiva- Embora aceitemos que uma teoria refu-
mente nas questões que lhe parecem tada pode ajudar a ciência a avançar,
mais interessantes. É óbvio que uma raramente reconhecemos contribuição
das habilidades básicas de quem pro- semelhante nos projetos errados.
I.
I
TERCEIRA PARTE

O PENSAMENTO AO
PROJETAR
1
o
Tipos e est ilos de
pensamento

O estágio mais elevado possível da cultura moral é quando reconhe-


cemos q ue temos de controlar os nossos pensamentos.
Charles Darwin, A origem do homem

'
A arte d e raciocinar consiste em entender o assunto pelo lado certo,
de aga rrar-se às po ucas ideias gerais que esclarecem o todo e de or-
ganizar com persistência todos os fatos secundários em volta d elas.
Ninguém consegue ser bom no raciocínio a menos que, pela prática
const ante, perceba a importância de apreender as grandes ideias e
agarrar-se a elas com todas as forças.
A. N. Whitehead, 1914, discurso de posse como presidente da filial
londrina da Mathematical Association

8.1 Pensar sobre o pensamento

Até aqui, neste livro, concentramo-nos na natureza do ato de


projetar como um processo e nas características dos proble-
mas e das boas soluções dos projetos. Nesta terceira parte do
livro, chegou a hora de dedicar a nossa atenção aos processos
de pensamento necessários para identificar e entender esses
problemas de projeto e criar as suas soluções. Nos capítulos
a seguir, será preciso examinar os princípios, as estratégias e
as táticas que os projetistas utilizam nesse processo mental.
Estudaremos as ciladas e armadilhas que costumam cercá-los
e examinaremos como os projetistas usam desenhos e como
trabalham em grupo e com computadores. Afinal de contas,
projetistas não são filósofos, para os quais o próprio processo
de pensar é o centro do estudo, nem se parecem com o Pen-
128 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

sador de Rodin, sentado em meditação para os projetistas, mas com certeza


solitária. Em essência, o pensamento não é a sua ferramenta principal. Há o
do projetista está voltado para um pro- tipo de pensamento imaginativo que
duto final físico, cuja natureza tem de pode ser descrito como fantasia anco-
ser transmitida a outros que podem rada na realidade. Aqui podemos "pen-
ajudar a projetá-lo e construí-lo. sar" numa situação possível, mas não
No entanto, para começar, precisa- real. Evidentemente, é bem isso o que
mos estudar o próprio pensamento e, os projetistas fazem. Afinal, há o tipo
no capítulo seguinte, aquele fenômeno de pensamento que podemos chamar
precioso e admirável da criatividade, de "raciocínio". Este é feito de forma
tão fundamental no ato de projetar. A autoconsciente, na tentativa deliberada
história da psicologia cognitiva revela de controlar a direção dos pensamentos
muitas opiniões conflitantes sobre a rumo a algum produto final pretendido,
natureza do pensamento e o proces- mas há alguns obstáculos que têm de
so de pensar, da mais mecanicista à ser removidos. Esse é o pensamento
mais mítica. Iniciamos com um proble- reflexivo para resolver problemas.
ma bem conhecido dos que estudam No Cap. 9, examinamos o pensa-
o ato de projetar. A palavra "pensar", mento criativo e imaginativo, mas é a
assim como a palavra "projetar", é usa- última dessas muitas formas de pensar
da de tantas maneiras na linguagem que, basicamente, estamos estudando
cotidiana que precisamos especificar aqui. Ryle {1949), grande filósofo britâni-
exatamente que versões dela estamos co e estudante do pensamento, descre-
examinando. veu até mesmo essa última versão de
Há o tipo de pensamento que temos pensamento como sendo "polimorfa".
ao dizer que tentamos pensar onde Assim como dois fazendeiros podem
deixamos alguma coisa. Em essência, fazer coisas bem diferentes, um deles
isso é recordar e, obviamente, é muito
criando ovelhas e o outro colhendo a
importante no ato de projetar, mas
safra, explicou Ryle de forma memorá-
novamente não é a tarefa central. Há vel ' ainda ass1m
· reconhecemos os dois
o uso da palavra "pensar" aplicada ao
como fazendeiros. É o mesmo com o
ato de nos concentrarmos ou de sim-
pensamento.
plesmente prestarmos atenção, como
quando dizemos "pense bem no que
você está fazendo". Há o uso da palavra
8 · 2 Teorias do pensamento
com o significado de crença, quando
alguém diz o que "pensa''. Há o pensa-
Esse tema n- , f, .
mento que os psicólogos rotulariam de ao e ac1l porque logo nos
leva à psicol . d ,
"autista", mas que as pessoas comuns og1a o pensamento e, ate
certo
_ ponto, d o sentimento
. e da emo-
descreveriam como devaneio. Isso leva
çao. Tantos fil, ~ .,
a um tipo de fluxo descontrolado de oso1os e psicólogos Ja
escreveram b
consciência que, em si, pode ser útil so re o fenômeno do pen-
samento e ..
a attv1dade de pensar que
MS

8 ripos e estilos de pensamento 129

aqui não é possível fazer justiça ao muitos psicólogos behavioristas tenta-


tema. No entanto, este capítulo tenta ram explicar o pensamento puramen-
quase o impossível, que é um resumo e te em termos de vínculos associati-
um breve exame dos principais pontos vos diretos entre estímulos e reações.
desses debates que parecem importan- Chegaram a defender que, na verdade,
tes para o estudo do ato de projetar. o pensamento é apenas um discurso
A psicologia cognitiva é um dos subvocal ou "falar consigo mesmo".
campos mais problemáticos da ciên- Na verdade, alguns experimentado-
cia, uma vez que envolve a investiga- res encontraram indícios de atividade
ção de algo que não podemos ver, ouvir muscular periférica durante o pensa-
nem tocar. Sabemos que acontece e mento, mas é claro que não consegui-
todos pensamos a vida inteira sem nos ram mostrar que isso era realmente o
preocupar demais com isso, mas pen- próprio pensamento. Afinal, a ideia foi
sar sobre o pensar é outra questão. Em modificada para indicar que a ativida-
termos da psicologia ocidental moder- de muscular era tão pequena que não
na, as primeiras teorias do pensamen- tinha efeito nenhum, a não ser servir
to eram realmente muito básicas. Na de feedback para o pensador. A ideia por
verdade, as teorias "behavioristas" do trás dessa noção aparentemente estra-
pensamento mal admitiam que o pen- nha era que, nesse modelo associacio-
samento era mais do que um compor- nista do pensamento, cada reação nos-
tamento muito mecanicista que por sa poderia ser retroalimentada para
acaso acontecia dentro da cabeça. Os atuar como outro estímulo e, assim,
psicólogos gestaltistas estavam mais provocar uma nova reação. Auto-
interessados no modo como resolve- res como Osgood e Berlyne acabaram
mos problemas e, mais recentemente, a abandonando a busca do "pensamento
abordagem da ciência cognitiva tentou muscular" e apresentaram a noção das
estudar os seres humanos como pro- reações puramente corticais. Para Ber-
cessadores de informações. lyne (1965), os padrões de pensamento
resultam da nossa escolha dentre uma
variedade de reações que associamos
8.3 Os behavioristas a cada estímulo. A escolha se faz sim-
l plesmente ao selecionarmos o vínculo
O behaviorista Thorndike (1911) acre- associativo mais forte, embora esses
ditava que a inteligência humana se vínculos possam ser fortalecidos ou
compõe apenas de um processo básico: enfraquecidos pela nossa experiência
a formação de associações. Na verdade, de vida.
os behavioristas relutavam em admitir Em essência, o ponto de vista beha-
que os seres humanos podiam distin- viorista é de que é desnecessário criar
guir-se das outras espécies pela capaci- a hipótese de um mecanismo mental
dade de pensar em alto nível. Na linha complexo quando o comportamento
dos primeiros textos de Thorndike, pode ser explicado sem ele. Isso acom-
130 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

da psicologia da Gestalt é que come-


panha o sensato prinCípio científico de
çamos a encontrar material ú~il para
não inventar teorias complexas quando
as simples resolvem, mas será que os explicar o pensamento ao pro~e~ar. A
behavioristas conseguem explicar ade- escola da Gestalt criou a tradiçao de
quadamente o pensamento inteligente? estudar a solução de problemas, con-
O maior sucesso das suas teorias foi na tinuada hoje por autores como Edward
explicação de comportamentos como de Bano. As teorias de pensamento ges-
o aprendizado e a aquisição de habili- taltistas concentram-se nos processos
dades físicas. Pode-se considerar que o e na organização, e não em mecanis-
rato no labirinto do psicólogo aprende a mos. Wertheimer (1959) via a solução
associar a reação "esquerda" ou "direi- de problemas como compreender as
ta" com o estímulo de cada cruzamento. relações estruturais de uma situação e
Thorndike ampliou essa ideia simples reorganizá-las até que se perceba um
colocando gatos em caixas nas quais caminho rumo à solução. Isso já come-
várias alavancas ou trancas tinham ça a ficar mais parecido com projetar
de ser liberadas para abrir a gaiola. Os do que os gatos de Thorndike, mas
gatos escaparam por tentativa e erro e, Wertheimer foi mais além. Ele defen-
portanto, aparentemente aprenderam dia que essa reorganização mental da
a resolver o problema. Assim, os beha- situação é obtida com a aplicação de
vioristas tenderam a explicar a solução vários modos mentais de ataque que
de problemas ou o pensamento orien- ainda persistem hoje nas ferramentas
tado a objetivos em termos de tenta- de criatividade como as promovidas
tivas e erros mentais e sucessivos. Na por autores populares. Esses truques
verdade, o modelo associacionista de mentais incluem tentar redescrever o
pensamento parece mais aplicável ao problema de outra maneira e o uso de
pensamento imaginativo ou aos deva- a na1agias
· como forma de alterar o para-
neios. Neles, o pensador não controla· digma mental. Como veremos adiante
voluntariamente a direção e permite , '
~ssa e a base de várias técnicas de pro-
que o fluxo do pensamento divague. Jetar propostas há bem pouco tempo.
No entanto, isso terá de esperar o pró-
Enquanto os behavioristas utilizavam
ximo capítulo. animais para exp11car. o pensamento,
os gestaltistas o f az1am
· para mostrar
a. ausência neles de pensamento do
8.4 A escola da Gestalt
tlp~ humano. Os gestaltistas também
se Interessava .
Por mais ou menos satisfatórias que . m mu1to pela percepção
e, assim refor .
sejam as suas teorias, foram poucas ' çavam a Importância do
contexto no
as contribuições dos behavioristas que pensamento. O uso que De
Groot. faz d
podem ser utilizadas por projetistas as pa1avras para descrever
as experiênc. d
que queiram melhorar a sua habilidade , Ias e Kohler com prima-
tas e muito revelador:
de pensar. Só com a chegada da escola
-
8 npos e estilos de pensamento 131

Nós, seres humanos, nos espantamos


vesse nenhum esforço envolvido. Como
com a incapacidade desses animais b as-
t ante inteligentes de tirar uma argola de explica Bruner, o projetista tem de "ir
um prego, possibilidade que vemos ime- além das informações dadas" e ver pos-
diatamente. Pela nossa experiência com sibilidades que os outros talvez não
aros e pregos e com o seu uso, vemos a
descubram sozinhos, mas que ainda
situação de um m odo totalmente dife -
rente do macaco. Pode-se dar exemplos reconheçam como úteis, apropriadas e
semelhantes referentes à relação entre belas quando forem apresentadas.
adultos e crianças.
Markus listou quatro fontes básicas
(De Groot, 1965) de informação disponíveis na tomada ,
de decisões durante um projeto: a expe-
Portanto, para De Groot, o pensa- riência do projetista, a experiência dos
mento depende de adquirir a capaci- outros, a pesquisa existente e novas
dade de reconhecer relações, padrões pesquisas (Markus, 1969a). Talvez seja
e situações completas. No seu estudo a mistura inevitável dessas fontes que
do xadrez, De Groot mostra como os contribua para o comportamento apa-
enxadristas experientes "leem" as situ- rentemente aleatório do projetista, que,
ações em vez de "raciocinar sobre elas", às vezes, parece tirar conclusões apres-
como fazem os menos experientes. sadas e intuitivas e, em outras, avança
Assim, os mestres do xadrez conse- muito lentamente.
guem jogar várias partidas ao mesmo Os psicólogos gestaltistas deram
tempo, porque cada vez que veem um atenção especial à maneira como
tabuleiro conseguem reconhecer o representamos na cabeça o mundo
padrão do jogo. Esse "modo de perce- externo. Bartlett, principalmente, nos
ber, que é treinado e altamente espe- seus estudos, hoje clássicos, sobre
cífico", combinado a um "sistema de pensamento (Bartlett, 1958) e recor-
métodos reproduzíveis e disponíveis na dação {Bartlett, 1932), desenvolveu a
memória" (De Groot, 1965), produz uma noção de uma imagem mental inter-
reação rápida e inescrutável que, para nalizada que chamava de "esquema".
o observador não iniciado, parece um O esquema constitui uma organização
relâmpago de gênio intuitivo. O parado- ativa de experiências passadas usa-
xal é que os mestres do xadrez também da para estruturar e interpretar acon-
podem examinar a situação durante tecimentos futuros. Numa série de
muito mais tempo do que os colegas experiências, nas quais pedia aos par-
menos experientes, simplesmente por- ticipantes que recordassem desenhos e
que conseguem ver mais problemas, os reproduzissem talvez várias sema-
talvez mais à frente, do que o jogador nas depois, Bartlett m ostrou que essa
médio. Quem já observou um projetista memória depende do significado dos
experiente trabalhar reconhecerá essa desenhos. Isto é, precisamos já ter for-
descrição. Pode parecer que o projetis- mado os esquemas apropriados antes
ta está desenhando de maneira muito de interpretar e apreciar os fatos . Os
natural e relaxada, como se não hou- psicólogos desenvolvimentistas, como
132 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

·smos sem deixar de ver o


Bruner e Piaget, mostraram que os pro- nos mecan1
o como habilidade estraté-
cessos humanos de pensamento desen- pensament
. . fluente livro de Garner (1962)
volvem-se em paralelo com a formação g1ca. 0 m ..
desses esquemas básicos e fundamen- sobre psicologia cognitiva descreve
tais na criança. experiências sobre memória de_ cur-
Durante muitos anos, tentei ensinar to prazo, diferenciação, perc~pçao de
os alunos do primeiro ano de arquitetu- padrões e formação de conce1tos e de
ra a lembrar como "veem" a arquitetura linguagem usando a teoria da informa-
antes de desenvolverem os conceitos ção como padrão de medida do desem-
sofisticados que os arquitetos utilizam penho humano. Outros que trabalham
para debater o assunto. Para os proje- nesse campo propuseram teorias da
tistas, um problema real é ter tantos resolução humana de problemas com
conceitos ou esquemas a mais para base no modelo dos programas de com-
descrever os objetos que projetam que putador. A aplicação mais famosa des-
os "veem" genuinamente de forma dife- sa técnica é o programa GPS (general
rente daqueles para quem projetam. problem solver, ou solucionador geral de
Isso pode levar facilmente ao resultado problemas) de Newell, Simon e Shaw
conhecido como "arquitetura de arqui- (1958). Esses programas fazem o com-
tetos", que só pode ser avaliada e apre- putador exibir comportamentos que
ciada por outros arquitetos! lembram as características até então
próprias do ser humano, como "pro-
pósito" e "percepção". Isso pode abalar
8.5 A abordagem da parte da mística que cerca o trabalho
ciência cognitiva sobre processos de pensamento ao
mostrar que sequências de transforma-
O surgimento dos aparelhos eletrôni-
ções muito elementares de informações
cos de comunicação e de máquinas de podem explicar o sucesso na solução de
processamento de informações como problemas complexos. Naturalmente
os computadores gerou uma nova pers- . '
amda há dúvidas consideráveis de que
pectiva do pensamento humano. A teo-
esses processos simples sejam mesmo
ria da informação proporcionou uma
a base do pensamento humano. Infeliz-
métrica que permite mensurar o volu- mente ' h'a 1·Imitaçoes
· - à utilidade desses
me de informações processadas duran-
programas de computador como mode-
te o estudo de um problema. Os psicólo- los ' já que lo go se tornam tao
_ comple-
gos tentaram descobrir os mecanismos
xos quanto os processos que modelam.
com que pensamos, medindo o nosso
A nova abordagem cognitiva do
desempenho em tarefas simples em
pensamento humano encara os seres
relação ao volume de informações pro- humanos como organismos
. .
cessadas. Autores como Posner tentam . mmto
ma1s
. adapt'avels
· e genuinamente inte-
transpor o abismo entre os behavioris- ligentes do que a pnme1ra
· . abordagem
tas e os gestaltistas concentrando-se behaviorista · Ela trata de processos e
8 Tipos e estilos de pensamento 133

do funcionamento operacional, e não A existência dessa função executiva foi


de mecanismos físicos, e insiste na negada não só pela teoria associativa
influência do contexto em que se per- clássica, como também pelos gestaltis-
cebem os problemas no processo de tas. Entretanto, trabalhos mais recentes
pensamento propriamente dito. Os psi- sobre inteligência artificial mostraram
cólogos cognitivistas, ao mesmo tempo que as rotinas executivas dos progra-
que se baseiam na tradição gestaltista, mas de computador podem controlar, de
também avançam a partir do primei- maneira extremamente flexível e reati-
ro surto de entusiasmo dos psicólogos va, a ordem em que uma sequência de
com a aplicação da teoria da infor- operações muito complexa é realizada.
mação ao pensamento humano, mas Não há espaço aqui para fazer justiça a
são menos fanáticos a respeito do seu esse tema profundo e fascinante, mas
potencial. Num tratado brilhante sobre o leitor interessado encontrará discus-
psicologia cognitiva, Neisser (1967} des- sões brilhantes sobre o assunto e leitu-
taca que os seres humanos são diferen- ra agradável em Plans and the Structure of
tes das máquinas desde o princípio do Behauiour [Planos e estrutura do comporta-
processo de percepção e pensamento: mento] (Miller; Galanter; Pribham, 1960)
e O fantasma da máquina (Koestler, 1967).
Os seres humanos [...] não são, de modo Mais recentemente, a noção de um úni-
algum, neutros ou passivos em relação às
co executivo começou a ser substituída
informações que recebem. Em vez disso,
selecionam algumas partes para receber pela ideia de "agentes". Esses agentes
atenção à custa de outras, registrando-as mentais cuidam do nosso pensamen-
e reformulando-as de maneira complexa. to, assim como os agentes humanos
(Neisser, 1967)
que usamos na vida cotidiana cuidam
Como veremos em capítulos pos- dos nossos afazeres. Empregamos um
teriores, esse fenômeno da nossa per- corretor imobiliário, por exemplo, para
cepção seletiva dos problemas ocupou encontrar interessados em comprar
a mente de muitos metodologistas de a nossa casa ou para encontrar casas
projeto que buscam imaginar modos de que queiramos comprar. Portanto, eles
ampliar a percepção dos projetistas. trabalham resolutamente rumo a uma
Talvez a característica mais impor- meta relativamente simples. O mordo-
tante da abordagem que a psicologia mo talvez seja o supremo agente pessoal
cognitiva dá ao pensamento seja o novo que realmente trabalha entendendo os
reconhecimento da existência de um desejos e as aspirações do patrão e que,
certo tipo de função controladora exe- com certeza, subcontrata em seguida o
cutiva na mente. Como a psicologia trabalho de uma série de agentes mais
cognitiva aceita que as informações são especializados. Se os psicólogos cog-
reorganizadas e reconstruídas ativa- nitivos estiverem certos a respeito dos
mente na memória, e não registradas agentes e executivos, podemos ter espe-
e recordadas passivamente, segue-se rança de descobrir muito mais sobre a
que algo deve controlar esse processo. maneira como projetamos. Se conse-
134 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

abordado de maneira bem menos teóri-


guirmos entender que forças e opera-
. pra'tl.c a quando examinarmos
ca e ma1s
ções são responsáveis por levar a nossa
os métodos de estimular a criatividade
atenção de uma parte a outra do proble-
. rar a habilidade de resolver
e apnmo
m a, ou que nos permitem reorganizar
a nossa percepção de um modo novo, problemas ao projetar.
avançaremos no caminho de entender o Ainda há, porém, muitos problemas
processo de projeto. na abordagem do pensamento pela
A abordagem que os teóricos cog- ciência cognitiva, como hoje se diz. O
nitivos dão ao pensamento também é desempenho real da inteligência artifi-
fascinante para os que buscam enten- cial continua tão atrás do desempenho
der o processo de projeto porque tra- do pensamento humano, em tantos
ça muitos paralelos entre pensamento aspectos, que deve haver dúvidas de
e percepção. Postula-se um processo que algum dia os dois possam ser com-
primário e outro secundário, sendo o paráveis. A abordagem da ciência cog-
processo primário de pensamento uma nitiva é mais forte quando se trata de
atividade múltipla, como o proces- situações bem ordenadas de solução de
samento paralelo dos computadores. problemas, e não dos problemas "trai-
Esses pensamentos grosseiramente çoeiros" e mal definidos tão caracterís-
formados são semelhantes aos proces- ticos da atividade de projet ar. A "teoria
sos pré-atentivos na visão e na audição, computacional da mente" embasa toda
só levados à nossa atenção consciente a ciência cognitiva ao pressupor que o
quando selecionados para uma ela- pensamento, em última análise, pode
boração detalhada e deliberada pelos ser reduzido a um processo de compu-
processos secundários. É nos proces- ta?ão. Todavia, para que esse processo
sos secundários que se faz todo o tra- seJa poss'Ive1• e, preciso
· ter informações
balho real. Esses processos têm de ser
com que trabalhar. Para que possam
adquiridos e desenvolvidos e depen- ser processadas • e 1as tem~
de adequar-
dem do que já está memorizado e da
s.e a algumas regras semelhantes às da
maneira como o material foi organi- lmguagem p d .
zado no processamento primário. Por- ara eterminar a varieda-
de dos símbol
tanto, as teorias cognitivas dão grande d . os e as relações permiti-
as. O Cientista ..
ênfase à maneira como organizamos e (1975) cognitivo Jerry Fodor
nos resume o problema:
ar m azen amos as informações percebi-
das. O fato de não conseguir recordar Se as nossas te . .
compro met onas PSicológicas nos
é considerado análogo a não conseguir em co m .
pensament o , uma 1mguagem do
notar alguma coisa em uma cena visu- miss ' e melhor levar o compro-
o a sério d
al. A atenção, na percepção e no pen- 1·mguagem. e escobrir como e· essa
samento, é vista como responsável por
dirigir os nossos pensamentos e, por- (Fodor. 1975)
tanto, fundamental para a resolução de
Num livro co 0 , .
problemas. Esse tema será novamente tches of Th m otimo título Ske-
ought [Esboços de pensamen-
8 Tipos e estilos de pensamento 135

to}, Vinod Goel (1995) começa a atacar guém seria capaz de falar com sensatez
esses problemas. Ele analisa os esbo- de "solução criativa de problemas" ou
ços produzidos por projetistas e acha de "desenvolvimento artístico lógico",
impossível definir uma linguagem sufi- ambos conceitos com bastante signi-
cientemente rigorosa para as exigências ficado. Muitos tipos de problema, até
da teoria. Num capítulo mais adiante, em disciplinas aparentemente lógicas
tentaremos entender o papel central do como a engenharia, podem ser resol-
desenho e dos esboços no ato de pro- vidos de forma criativa e imaginosa.
jetar. No entanto, é interessante desco - Sem dúvida, a arte pode ser lógica e ter
brir agora que os cientistas cognitivos uma estrutura bem desenvolvida. É até
estão cada vez mais interessados no ato possível estudar a estrutura das for-
de projetar, pela mesma razão de que mas artísticas com a lógica da teoria da
explicá-lo põe à prova as suas teorias e, informação (Mueller, 1967). No mundo
talvez ainda mais, os seus limites. real, fora do laboratório do psicólogo,
é raro encontrar casos em que um tipo
de pensamento seja empregado isola-
8.6 Tipos de pensamento damente. É óbvio que o modo de pensar
empregado depende muito da natureza
No início deste capítulo, vimos vários da situação. A maioria dos autores con-
tipos de pensamento e concluímos centrou-se em dois fatores principais
que, provavelmente, o raciocínio e a relacionados: a relação do pensador
imaginação são os mais importantes com o mundo exterior e a natureza do
para os projetistas. Considera-se que controle exercido sobre esses processos
o raciocínio é dotado de propósito e de pensamento.
voltado para uma conclusão específi- Murphy (1947) afirmou que os
ca. Costuma-se incluir nessa categoria processos mentais são bipolares e
a lógica, a solução de problemas e a influenciados tanto pelo mundo exter-
formação de conceitos. Por outro lado, no quanto por necessidades pessoais
é comum dizer que, ao "imaginar", o internas. Ao estudar a personalidade,
indivíduo aproveita a própria experi- ele estava interessado especialmente
ência e combina esse material de um na suscetibilidade do indivíduo a essas
modo relativamente desestruturado duas influências e no predomínio resul-
e, talvez, sem propósito. Normalmen- tante de certos estilos de pensamento
te, o pensamento artístico e criativo, observáveis no indivíduo. Raramente
assim como os devaneios, são consi- uma pessoa normal passa algum tem-
derados imaginativos. po preocupada só com uma dessas
Esse tipo de taxonomia simplista influências; na verdade, elas se alter-
talvez pareça enganosa, embora apa- nam. Entretanto, é possível identificar
rentemente útil. Se o raciocínio e a condições em que seria de esperar que
imaginação fossem mesmo categorias a pessoa normal desse mais atenção a
de pensamento independentes, nin- uma influência do que a outra.
136 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

os m. d 1v1
. 'duos· Ao examinar essa linha,
É óbvio que a solução de problemas
Guilford {lgS6) concluiu que os fatores
requer m ais atenção às exigências do
mundo exterior do que à necessida- intelectuais poderiam ser d ivididos em
de mental interna. Por outro lado, no dois grandes grupos: do pensamento e
pensamento imaginativo, o indivíduo da memória. Os fatores do pensamen-
preocupa-se primariamente em satis- to, os quais são de maior interesse aqui,
fazer necessidades internas por meio Guilford subdi\.ridiu em cognição, pro-
da atividade cognitiva, que pode não dução e avaliação.
ter muita relação com o mundo real. os fatores de cognição do pensa-
Isso parece trazer uma distinção psico- mento humano têm a ver com tomar
lógica paralela à existente entre projeto consciência e entender as classes de
e arte, discutida anteriormente. O ato objetos ou ideias. Essa capacidade ana-
de projetar visa resolver um problema lítica de classificar e reconhecer tem a
no mundo real, enquanto a arte, em máxima importância no pensamento
boa parte, é automotivada e centrali- cotidiano. Por exemplo, não seria pos-
za-se na expressão de pensamentos sível estudar as diferenças entre os
íntimos. Isso não significa que o pen- sistemas estruturais empregados nas
samento imaginativo possa ser exclu- igrejas romanescas e góticas sem antes
ído do processo de projeto, mas que, reconhecer e classificar tais edificações.
provavelmente, o. seu produto sempre Guilford defende que há três maneiras
terá de ser avaliado pelo pensamento de desenvolver esse sistema de classes,
racional para que o trabalho do proje- dependendo do uso de conteúdo figura-
tista seja pertinente ao problema no tivo, estrutural ou conceitual. Portanto,
mundo real. O controle e a combinação pode-se reconhecer uma classe pelas
de pensamento racional e imaginativo suas propriedades figurativas . A prin-
(
constituem uma das habilidades mais cípio, as crianças podem reconhecer
importantes do projetista, e discutire- como vacas todos os animais de quatro
mos melhor esse tema imprescindível patas, e só depois procurar mais deta-
no Cap. 9. l~es, como chifres e caudas. O segundo
Sistema de reconhecimento de clas-
se~ pelo conteúdo estrutural exige que
8.7 Pensamento e exista alguma relação funcional entre
personalidade os elementos daquela classe, como na
questão ucomplete a sene , . d e s1m
, b o-
uma abordagem muito popular do estu- los" d 0
teste de QI. Finalmente, pode-
do da inteligência humana é a escola
-se reconhecer uma classe em termos
fatorial. Essa linha defende que a inteli- conceituais
' como o grupo de pessoas
gência humana não é um fator simples,
aprovadas em determinados exames,
e sim toda uma série de fatores relacio- que pode incl ·
nados, cada um dos quais está presen- Uir arquitetos e advoga-
dos. Assim p .
te em maior ou menor grau em todos ' ara Gu1lford esses fatores
de cognição . fl . ,
ln uenc1am a nossa capa-
8 Tipos e estilos de pensamento 137

cidade de definir e entender os proble- · tetos descobrem a estrutura dos pro-


mas, tenham eles a ver com aparência, blemas tentando gerar ordem nas
função ou significado dos objetos. Como soluções, e dá mais peso ao argumen-
destaca o próprio Guilford, os proble- to de que, ao projetar, análise e síntese
mas de tipo figurativo e estrutural são não deveriam ser consideradas ativida-
abundantes na atividade de projetar e, des inteiramente separadas (Lawson,
provavelmente, a capacidade de dife- 1972). Infelizmente, parece que poucos
renciar classes figurativas e estruturais psicólogos consideraram, ao mesmo
é importante para o projetista. tempo, o reconhecimento e a produção
O segundo grupo de fatores do pen- de ordem, de modo que, por enquanto,
samento de Guilford diz respeito à pro- temos de aceitar a distinção, uma vez
dução de algum resultado final. "Depois que a literatura sobre pensamento pro-
de entender o problema, precisamos dutivo tem vários conceitos úteis a ofe-
dar novos passos para resolvê-lo" (Guil- recer a quem estuda o ato de projetar.
ford, 1967). Assim como os fatores de É claro que não devemos supor que
cognição de Guilford tratam da capaci- todos os arquitetos sejam iguais no esti-
dade de reconhecer a ordem figurativa, lo de pensar, muito menos que todos
estrutural e conceitual, os fatores de os projetistas pensem exatamente da
produção pressupõem a nossa capa- mesma maneira. Num conjunto inte-
cidade de gerar ou produzir esses três ressante de experiências, Anton van
tipos de ordem, mas ele verificou que Bakel (1995) identificou o que, para ele,
a realidade não era tão bem arrumada é uma série de "estilos de pensamento
quanto o modelo sugeria: arquitetônico" diferentes e identificá-
veis, que ele liga a variações da _perso-
Na investigação da capacidade de pla- nalidade. As experiências e entrevistas
nejamento, supusemos que haveria uma que fez com projetistas identificaram a
habilidade de ver ou apreciar a ordem
ou a sua falta como característica de pre- sequência e a ênfase da atenção dada
paração para o planejamento. Tambér:' a vários grupos de fatores. Van Bakel
se pressupôs que existiria uma capaci- escolheu descrever o seu "espaço da
dade de produzir ordem entre objetos,
solução" como um triângulo cujos vér-
ideias ou eventos na criação de um plano .
Encontrou-se um único fator ordenador. tices são o Programa (brief), Concei-
(Guilford, 1967) to (ou princípio do projeto) e Terreno.
As suas categorias não correspondem
Portanto, Guilford não achou duas exatamente ao modelo de problemas
habilidades de manejar estrutura e de projeto utilizado neste livro, mas
ordem, mas uma só, que parecia per- podemos ver que a categoria Programa,
- e não
tencer aos fatores de prod uçao, na realidade, são as restrições geradas
aos fatores de cognição. Essa é uma pelo cliente; a categoria Conceito são
observação muito interessante à luz as restrições geradas pelo projetista; e
das minhas experiências já citada~, a categoria Terreno, a principal fonte
que tendiam a mostrar que os arqUI- de restrições externas para arquitetos.
138 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Esses resultados indicam claramente um ou outro tipo de pensamento, e o


uma variação coerente de abordagem, grau de controle direcional exercido
que pode ser uma questão de prefe- varia. Eis aqui, portanto, outra distin-
rência pessoal ligada a fatores de per- ção entre projeto e arte. Os projetistas
sonalidade. No entanto, é preciso mais têm que, de forma consciente, dirigir
trabalho para ver até que ponto isso o processo de pensamento rumo a um
varia com o tempo e com o tipo de pro- fim declarado e específico, embora às
jeto, antes de termos certeza do modo vezes possam usar deliberadamente o
como esses vários fatores realmente pensamento não dirigido. No entanto,
interagem e podermos determinar a os artistas têm bastante liberdade para
abordagem que um projetista específi- seguir a direção natural da mente ou
co utilizará num projeto específico. controlar e mudar a direção do pensa-
mento como acharem melhor. Pode-se
utilizar a classificação de Bartlett (1958)
8.8 Pensamento produtivo para sustentar esse argumento, já que
e projeto distingue o pensamento do artista do
pensamento do projetista:
Ao apresentar a noção de "pensamento
produtivo", Wertheimer (1959) preocu- Há o pensamento que revela as leis da es-
pava-se primariamente com a carac- trutura acabada ou das relações entre os
fatos da observação e da experiência. Há o
terística direcional do pensamento: "o pensamento que segue as convenções da
que acontece quando, de vez em quan- sociedade ou do indivíduo, e há, ainda, ou-
do, o pensamento toma a dianteira?". tro pensamento que vê e exprime padrões.
Ele mostrou, com toda uma série de
pequenas experiências, que, em uma
_ É claro que a busca e a expres-
situação problemática, o pensamento
sao de formas padronizadas constitui
pode ser produtivo, caso siga na dire- uma parte·Importante do pensamento
ção adequada. Aqui, há pelo menos artístico · Primanamente,
· . .
os proJetistas
duas perguntas fundamentais que 0 devem entregar-se ao pnmeuo . . tipo de
psicólogo experimental pode fazer. pensamento d e Bartlett para que pos-
Quem pensa tenta controlar a direção sam avaliar as re1açoes -
do pensamento? Em caso afirmativo entre os ele-
I
mentos dados d o problema. o volume
essa direção é produtiva ou não?
de
. .pensamento puramente expres-
É claro que os processos mentais
SIOnista q
são bipolares na sua característica ue pode acontecer é em boa
parte, fun - d 0 '
direcional, assim como na relação com çao grau em que há espaço
para restriçõ
o mundo exterior. Quem pensa pode . es geradas pelo projetista.
Corno VImo ·
controlar voluntariamente a direção s, Isso varia consideravel-
mente entr
do pensamento ou permitir que este -. . , e os problemas e, portanto,
e Inevitavel .
vagueie sem objetivo. Normalmente que haJa muitos casos em
I
que projeto . .
ninguém se dedica exclusivamente a e arte SeJam indistinguíveiS
apenas com 0
uso desse teste.
8 Tipos e estilos de pensamento 139

Bartlett prossegue e sugere dois vai chegar; em outros, mal se tem ideia.
modos principais de pensam ento pro- O outro modo de pensamento pro-
dutivo: "pensamento em sistema fecha- dutivo de Bartlett, o pensamento de
do" e "pensamento de aventureiro". Na aventureiro, é definido com menos cla-
sua definição, o sistema fechado tem reza do que o pensamento em sistema
um número limitado de unidades que fechado. Nesse modo de pensamento,
podem ser arrumadas em várias ordens o repertório de elementos que podem
ou relações. A lógica formal é um des- ser levados em conta não é determi-
ses sistemas fechados, assim como a nado. Na verdade, para ser bem-suce-
aritmética, a álgebra e a geometria. O dido, muitas vezes, o pensamento de
pensamento em sistema fechado pode aventureiro depende de elementos
ser altamente criativo, como no caso da normalmente não relacionados que se
descoberta de novas provas matemáti- unem de um jeito novo, e vem daí a sua
cas ou na criação de anagramas. Bartlett natureza aventurosa. Mais uma vez,
identifica dois processos no pensamen- porém, a distinção entre o pensamen-
to em sistema fechado: a interpolação to de aventureiro e o pensamento em
e a extrapolação. Aqui, mais urna vez, sistema fechado torna-se vaga quando
vemos o conceito de direcionalidade do aplicada a situações em que se projeta.
processo de pensamento: Sem dúvida, quando se procura é pos-
sível encontrar em projetos exemplos
O pensamento genuíno é sempre um pro- de problemas em sistema fechado. O
cesso com direção. Na interpolação, o
problema de arrumar mesas e cadeiras
ponto terminal e pelo menos alguns indí-
cios do caminho até lá são dados, e só é em um restaurante exige claramente o
preciso descobrir o restante do caminho. pensamento em sistema fechado. No
Na extrapolação, são fornecidos alguns in- entanto, muitas vezes esses exemplos
dícios do ca minho; o restante do caminho
e o ponto terminal têm d e ser descobertos
não suportam um exame mais atento,
ou construídos. Assim, é na extrapolação porque raramente o projetista traba-
que o caráter ou propriedade direcional lha exclusivamente com um conjunto
provavelmente se torne mais destacado.
de peças. Se uma arrumação de mesas
(Bart lett, 1958)
específica não serve, é comum que o
projetista tenha liberdade de experi-
Embora esses dois processos de mentar mesas de tamanho e formato
interpolação e extrapolação sejam con- diferentes e até de alterar o formato
ceitos fascinantes, quando pensamos do restaurante! Portanto, em geral, o
nas condições dos projetos do mundo conjunto de elementos dos problemas
real, a situação perde parte da clareza. de projeto não é inteiramente fechado
Ao projetar, raramente se sabe - ou não nem inteiramente aberto. Na verdade I

se sabe - o ponto terminal; em vez dis- é comum reconhecermos a resposta


so, há algumas informações sobre ele; criativa a um problema de projeto como
é uma questão de grau. Em certos tipos aquela em que o projetista se libertou
de projeto, sabe-se exatamente onde se de um conjunto de elementos conven-
140 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

exclusivamente o pensamento conver-


cionalmente restrito. Assim, muitos
ente ou 0 pensamento divergente, ain-
projetistas consideram a imposição
rígida de sistemas fechados, como no
~a assim a distinção é válida e útil.
Com a nossa análise da natureza
caso da construção de sistemas, uma
ameaça ao seu papel criativo. dos problemas de projeto, fica óbvio
Em boa parte da literatura sobre o que, como um todo, projetar é uma
pensamento produtivo, encontramos tarefa divergente. Uma vez que rara-
várias divisões binárias intimamente mente os projetos são procedimentos
relacionadas entre os processos racio~ de otimização que levam a uma única
nais e lógicos, de um lado, e os intui~ resposta correta, o pensamento diver-
tivos e imaginativos, do outro. Essas gente será necessário. No entanto, é
duas categorias principais tornaram~se provável que, em qualquer processo de
conhecidas como produção convergen~ projeto, haja muitos passos que exijam
te e divergente (Fig. 8.1). Tipicamente, tarefas convergentes. É verdade que
a tarefa convergente exige habilidade tais passos podem acabar sendo refei~
dedutiva e interpolativa para chegar a tos ou até totalmente rejeitados, mas
uma resposta que possa ser identifica~ seria extremamente absurdo achar
da como correta. A habilidade conver~ que nos problemas de projeto não haja
gente é medida por muitos problemas nenhuma parte que possa ser tratada
propostos em testes convencionais de por processos lógicos e tenha soluções
QI, e foi associada ao talento para a mais ou menos ótimas. É claro que pro-
ciência. A tarefa divergente exige uma· jetar envolve pensamento produtivo
abordagem aberta, que busca alternati- convergente e divergente, e os estudos
vas onde não há respostas claramente do trabalho de bons projetistas mostra~
corretas. A habilidade divergente pode ram que eles conseguem desenv~lver e
ser medida por testes erroneamente manter várias linhas paralelas de pen-
chamados de testes de criatividade, samento (Lawson, 1993a). No entanto, a
como "em quantos usos para um tijo~
relação entre pensamento divergente,
lo você consegue pensar", e foi asso-
pensamento convergente e linhas para~
ciada ao talento para as artes. Como
lelas de pensamento é algo que deixa-
veremos no próximo capítulo, muitas
remos para bem mais adiante.
vezes essas duas ideias foram grossei-
ramente simplificadas e confundidas,
de forma variada, com a inteligência e a
criatividade. Guilford e outros tratam o
pensamento convergente e divergente Tarefa convergente:
completar a sequência
como dimensões de capacidade separa-
das e independentes que podem surgir
em qualquer proporção nos indivíduos.
Guilford (1967) defende que, embora
poucas tarefas do mundo real exijam
L3
Fig. 8.1
Pensamento
Tarefa divergente:
0 que isso representa?

s convergente e d ivergente
9
Pensamento criativo

É um fato bem sabido que todos os inventores rabiscam a primei-


ra ideia nas costas de um envelope. Adoto uma leve variação: uso a
frente, e aí basta incorporar o selo e o projeto já está meio p ronto.
Roland Emett

Gênio é 1% de inspiração e 99% de transpiração.


Thomas Alva Edison

9.1 O que queremos dizer com criatividade?

A maioria das pessoas descreveria a atividade de projetar


como uma das ocupações humanas mais criativas. Entre as
chamadas artes criativas, estão a composição musical, a pin-
tura, a escultura e as várias formas de projeto bi e tridimensio-
nal. No entanto, a criatividade e o pensamento criativo podem
aplicar-se, da mesma forma, à ciência, à medicina, à filosofia,
ao direito, à administração e a muitos outros campos das rea-
lizações humanas. Nas artes criativas, inclusive na de proje-
tar, a questão é criar algo que os outros vivenciem e que, de
uma maneira ou de outra, seja novo e original. Nenhum livro
sobre os processos de pensamento envolvidos na atividade de
projetar estaria completo sem um exame dos fundamentos da
criatividade e do pensamento criativo.
Hoje, há um volume imenso de textos sobre criatividade, que
é extensamente estudada não apenas por psicólogos, como tam-
bém por filósofos e, mais recentemente, por cientistas cognitivos
e computacionais. Algumas de nossas noções mais profundas
sobre criatividade também vêm de pessoas famosas e extre-
;u ~ r)MQMOUni'OJI ~.,~..,

ma"'""- ~W.. qw cto"K,......,..~ ~ . r 1 pod~ COfMf- qua• Uftt *''MOrto


PfOC'O...:Jt . . . . .~. f~ lt~Utl­ r .. 611 mod-1. um• ...,""'. dat IOUpel . .
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ro. Ao combtnar várias *'••ncwu. fft uma ~~ ~ carroa urbanot pequt·
com que olhá~mos os carTOI de um nos. fáceu ~ manobrar e proctuzid"'
modo dife~ntt. Ot repftlte, o autom{).. ml massa Se ~ não i ~
9 Pensamento criativo 143

ser pobre, mas chique, inteligente e da podiam existir. Nesse período, sentava-
última moda. Assim que o Pavilhão de -se à escrivaninha pelo menos uma ou
Barcelona projetado por Mies van der duas horas por dia, experimentando
Rohe, em 1929, passa a existir, torna- combinações sem nenhum resultado
se possível toda uma nova geração de positivo. No entanto, certa noite, con-
edificações nas quais a relação entre tra os seus hábitos, ele tomou um café
as paredes, os meios de sustentação preto e não conseguiu dormir, e regis-
do teto e os espaços por eles definidos tra que "as ideias ergueram-se em mul-
mudam de maneira fundamental. tidão" (Poincaré, 1924). Pela manhã, ele
No entanto, vamos começar pelo determinara uma classe de funções
início, que é algo que a mente criativa fuchsianas que, então, pôde escrever.
muitas vezes não faz, mas que nesta Enquanto precisava levar as suas ideias
ocasião parece necessário! adiante para entender a relação entre
essas funções e outras que tinha des-
coberto, o trabalho foi interrompido por
9.2 Algumas descrições uma viagem numa excursão geológica.
do processo criativo Ele registra que a viagem o fez esquecer
o trabalho, mas que, mais tarde, ainda
O matemático Henri Poincaré (1924) viajando, estava prestes a embarcar
refletiu sobre as suas realizações cria- num ônibus quando, "no momento em
tivas consideráveis no pensamen- que pus o pé no degrau, a ideia me veio"
to matemático e nos deixou algumas (Poincaré, 1924).
ideias sobre os processos envolvidos. Esse momento de "heureca", como se
Normalmente, ele descreve um pro- costuma dizer, parece bem característico
cesso dividido em fases com tipos de dos grandes momentos criativos. Todos
-- • t
pensamento bem diferentes. Primeiro, \ já ouvimos dizer que Arquimedes pulou
um período de investigação inicial do ) do banho gritando "Heureca!" quando
problema em pauta, seguido por um resolveu um problema no qual vinha tra-
período mais relaxado de aparente. de~- j balhando havia algum tempo. Outros,
canso mental. Em seguida, uma 1de1a 1 como Helmhotz e Hadamard, descrevem
de solução surge quase sem ser solici- situações parecidas, e este último afirma
tada pelo pensador, provavelmente na I ter acordado com soluções que não esta-
hora mais inesperada e no lugar mais vam na sua cabeça antes de dormir. Mais
improvável. Por fim, a solução precisa conhecido é o relato do famoso químico
de elaboração, verificação e desenvolyt:J Friedrich von Kekule, que descobriu a
mento. É assim que Poincaré descreve estrutura em anel da molécula de benze-
o seu trabalho para o primeiro artigo no quando estava semiadormecido dian-
sobre uma série de funções matemáti- te da lareira.
cas chamadas fuchsianas. Ele diz que Não são apenas cientistas e mate-
trabalhou intensamente durante duas máticos que falam do surgimento
semanas para provar que essas funções súbito e inesperado de ideias. Parece
144 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

banheira, pegar um ônibus ou cochilar


que pintores, poetas e compositores
diante da lareira. Foi isso que Thomas
têm experiências semelhantes. Mozart 11
Edison quis dizer ao falar dos 99%"
escreveu numa carta: "Quando sou,
de transpiração na citação do início
por assim dizer, completamente eu,
inteiramente sozinho e de bom humor deste capítulo. O consenso geral é que
- digamos, viajando em uma carrua- podemos identificar até cinco fases no
gem, ou caminhando depois de uma processo criativo (Fig. 9.1), que cha-
boa refeição, ou durante a noite quando maremos de "primeira noção", "pre-
não consigo dormir -; é nessas ocasiões paração", "incubação", "inspiração" e
que as minhas ideias fluem melhor e "verificação" (Kneller, 1965).
com mais abundância". O poeta Ste-
phen Spender fala de uma "torrente de
palavras que passa pela minha mente" Primeira Formulação do problema
.., .'\.
quando está semiadormecido. Sabe- noção \

-se que, depois de tomar ópio, Samuel _t 1


Taylor Coleridge teve uma visão que
Preparação Tentativa consciente de solução
levou às imagens extraordinárias de
Xanadu em Kubla Khan. E assim vai. !
Não devemos, porém, nos deixar
Incubação Nenhum esforço consciente
levar pela ideia romântica do salto cria-
tivo para o desconhecido. Tipicamen- !
te, os pensadores criativos trabalham
Inspiração Surgimento súbit o da ideia
muito. É verdade que os grandes gênios
costumam achar a vida bastante fácil I !
mas para a maioria de nós, as ideias
só vêm depois de esforço considerável
Verificação Desenvolvimento consciente
I
.
:

e, então, podem exigir muita elabora-


ção. Geralmente se admite que, embo-
Fig . 9.1
ra Mozart escrevesse músicas quase O modelo popul .
. ar em cmco estágios do
como se as visse prontas com os olhos processo cnativo
da mente, Beethoven sentia necessida-
de de reelaborar várias vezes as suas
O· período da u pnmeua• • - ,
noçao
ideias. Os especialistas em música se
envolve simplesmente reconhecer que
espantaram com a aparente deselegân-
o problema ·
cia de algumas primeiras anotações de ... existe e comprometer-se a
resolve-lo A . . ,
Beethoven, mas é claro que todos nos t' , · sslm, a situação problema-
assombramos com o que ele acabou dIca e formul a d a e express a na mente,
fazendo com elas. e maneira formal ou in formal. Nor-
malmente
m esse período é bem curto,
Assim, . é imp~oyáv~! que_as grilll-
•~e~- !~eias nos ocorram -~ef!l __~_sforço; é -as pode durar muitos anos. Em situa-
çoes de pro. t
Improvável que baste tomar banh~na -d ~e o, raramente o problema
e eclarad0 ,
com clareza desde o princi-
9 Pensamento criativo 145

pio, e essa fase pode exigir um esforço soluções. No entanto, o que parece ser
considerável. É interessante que mui- comum a todos os que escrevem sobre
tos projetistas experientes declaram criatividade é que a esse período de tra-
a necessidade de existir um problema balho duro, intenso e deliberado, fre-
claro para que consigam trabalhar de quentemente se segue o período mais
forma criativa. O arquiteto e engenhei- relaxado de "incubação".
ro Santiago Calatrava produziu algu- Já vimos como a incubação de Poin-
mas das estruturas mais imaginosas e caré veio de uma viagem, mas essa
inovadoras da nossa época, mas todas possibilidade nem sempre se apresenta
como resposta a problemas específicos: para o projetista praticante. Alexander
"É a resposta a um problema específi- Moulton é famoso pela bicicleta inova-
co que forma o trabalho do engenheiro dora que tem o seu nome e pelo sistema
[...] Não consigo mais projetar apenas de suspensão com cones de borracha
um pilar ou um arco, sabe, preciso de empregado por Issigonis no Mini, que
um problema bem definido, preciso de mais tarde deu origem ao sistema
um lugar" (Lawson, 1994a). Atribui-se Hydrolastic e, finalmente, ao Hydragas.
declaração semelhante a Barnes Wallis: Moulton {Whitfield, 1975) aconselha:
"Primeiro, sempre houve um problema. "Tenho certeza de que, do ponto de vista
Nunca tive uma ideia inédita na vida. criativo, é importante ter uma ou duas
As minhas realizações foram soluções linhas de pensamento diferentes para
de problemas" (Whitfield, 1975). É cla- seguir. Não muitas, mas só para a gente
ro que Barnes Wallis teve muitas ideias poder descansar uma delas na cabeça
inéditas e inovadoras, mas parece e trabalhar na outra". Assim, tanto o
que ele e Calatrava nos dizem que são projetista praticante quanto o aluno de
mais criativos quando o problema lhes projeto precisam ter várias coisas em
é imposto de fora. Isso pode estar em que trabalhar para não perder tempo
conflito com algumas opiniões sobre enquanto uma delas "incuba".
o ensino da atividade de projetar que ]á documentamos neste capítulo
entraram na moda recentemente, as o momento aparentemente mágico da
quais afirmam que os alunos deveriam "inspiração", e pouco mais é preciso
ser postos em situações livres e abertas dizer. Não se sabe direito como e por
para desenvolver a criatividade! que a mente humana funciona assim.
A fase seguinte de "preparação" Alguns defendem que, durante o perío-
envolve um esforço consciente consi- do de incubação, a mente continua
derável para buscar uma solução para a reorganizar e reexaminar todos os
o problema. Como vimos, pelo menos dados absorvidos durante os períodos
ao projetar, é provável que haja idas e intensivos anteriores. Em um capítulo
vindas entre essa fase e a anterior, já mais adiante, examinaremos algumas
que o problema pode ser reformulado e das muitas técnicas recomendadas
até completamente redefinido confor- para aprimorar a criatividade. A maio-
me se explora a variedade de possíveis ria delas baseia-se em mudar a direção
146 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

o que for, Z umbindo ao fu ndo enquanto a


do pensamento, já que, em geral, reco- gente escolhe outro problema.
nhece-se que achamos mais fácil ir na
mesma direção em vez de iniciar uma
Moulton também fala de uma
nova linha de pensamento. O período
"fúria de rapidez para que a pressão
de incubação também pode fazer uma
da criatividade se mantenha e a dúvi-
linha de pensamento se interromper, e
quando voltamos ao problema, ficamos da fique acuada". Philippe Starck fala
mais livres para partir em uma direção de trabalhar intensamente para "cap-
nova, diferente da anterior. tar a violência da ideia". Ficou famosa
Finalmente, chegamos ao período a afirmação de Starck de que projetou
de "verificação", no qual a ideia é testa- uma cadeira em uma viagem de avião
da, elaborada e desenvolvida. Mais uma durante o período de decolagem,
vez, devemos lembrar que, ao projetar, enquanto as luzes para apertar os cin-
essas fases não são tão separadas como tos estavam ligadas! Ao descrever esse
a análise sugere. É muito comum que o período de intensa investigação, vários
período de verificação revele a inade- arquitetos o compararam a malabaris-
quação de uma ideia, mas a essência mos. Michael Wilford usa essa analogia
dela talvez ainda seja válida. Talvez isso de um
leve a uma reformulação do problema e
a um novo período de investigação etc. malabarista que tem seis bolas no ar [...] e
o arquiteto funciona de um jeito parecido,
com pelo menos seis frentes ao mesmo
tempo, e se tirarmos o olho de uma delas e
9.3 Velocidade de trabalho ela cair, estamos enrascados.
(Lawson, 1994a)
Com base na seção anterior, podemos
ver que é provável que as fases criati- Richard MacCormac (Lawson,
vas do processo de projeto envolvam 1994b) repete essa ideia e também res-
períodos alternados de atividade inten- salta que "não dá para fazer malaba-
sa e outros mais relaxados em que se rismo devagar durante muito tempo".
faz pouco esforço mental consciente.
Isso explica a característica específica
Isso é característico das descrições que de s · · ~.
er cnat1vo ao projetar. Raramente
temos do trabalho de muitos bons pro- 0
problema é simples, com apenas uma
jetistas. Eis outro exemplo excelente de
ou duas características· normalmen-
Alexander Mouiton: - '
te sao muitos critérios a satisfazer e
uma m·Ina , d e de restrições a respeitar.
.
Pensar é um pmcesso cerebral difícil. Nã~
A , .
se deve imaginar que esses problemas} umca maneira de mantê-los todos
se resolvam sem muito pensame no. t É
. n~ mente ao mesmo tempo, por assirn
prec1so esgotar-se. A coisa tem de ser o b _
servada na mente e regirada vár"1a
d1zer' é osCl·1ar com mu1ta
· rap1dez
· entre
. . . s vezes
de um Jeito me1o tridimensional E ' eles, como um malabarista. É claro que,
· , quan-
d o passamos por esse processo d
. 'po emas como vimos, 1sso
· pode não trazer a
d e1xar o computador da ment .
e, ou seJa lá solu - · · ·r
çao de Imediato, pois ela pode " 1
9 Pensamento criativo 147

depois de um período mais relaxado eram tipicamente inteligentes, autocen-


de incubação. trados, extrovertidos e até agressivos, e
se tinham em alta conta (Mackinnon,
1976). O perturbador é que os arquitetos
9.4 Personalidade criativa? do grupo considerado menos criativo é
que se viam como mais responsáveis e
Neste capítulo, já estudamos as opini- com maior preocupação solidária pelos
ões de várias pessoas famosas e cria- outros!
tivas que são cientistas, matemáticos, A inteligência parece ter algum
compositores, poetas e , naturalmen- papel no talento criativo. Mackinnon
te, projetistas . Isso leva a perguntar registrou que, embora "nenhum par-
se naturalmente algumas pessoas são ticipante pouco inteligente tenha apa-
mais criativas do que outras, ou não. A recido em nenhum dos nossos grupos
criatividade estará ligada à inteligên- criativos", isso não significa que pes-
cia? Haverá relações entre criatividade soas muito inteligentes sejam natu-
e personalidade? Os psicólogos estu- ralmente muito criativas. Em geral, o
daram pessoas altamente criativas em tipo de teste utilizado pelos psicólogos
busca de respostas a essas perguntas. para medir a criatividade difere do tes-
Um estudo com cientistas excepcio- te tradicional de inteligência. A questão
nalmente criativos (Roe, 1952) verificou típica dos testes de inteligência pede ao
que eram tipicamente muito inteligen- participante que encontre a resposta
tes, mas também persistentes e muito certa, geralmente usando pensamento
motivados, autossuficientes, confiantes lógico, e no teste de criatividade é mais
e assertivos. Os projetistas têm sido um provável que a questão tenha muitas
alvo popular desses estudos. Mackin- respostas aceitáveis.
non realizou uma série de estudos Getzels e Jackson, num estudo
sobre a personalidade criativa e explica famoso e bastante controvertido, com-
por que escolheu arquitetos: pararam grupos de crianças que tive-
ram pontuação elevada em testes de
De todas as nossas amostras, é nos ar- criatividade com os que tiveram bom
quitetos que podemos ter esperanças
de encontrar o que, em geral, é mais ca-
desempenho nos testes de inteligência
racterístico das pessoas criativas [...] na mais convencionais. Afirmaram iden-
arquitetura, os produtos criativos são uma tificar muitas diferenças entre esses
expressão do arquiteto e, portanto, um
dois grupos de crianças bem dotadas ,
produto muito pessoal; ao mesmo temp~,
. são um enfrentamento impessoal das exi- e uma das mais importantes era a
gências de um problema externo. imagem que as crianças tinham de si
(Mackinnon, 1962) mesmas, bastante parecida com a dos
professores (Getzels; Jackson, 1962).
Ele verificou que os seus arquitetos As crianças ditas "inteligentes" eram
criativos eram seguros e confiantes, con sideradas obedientes e flexíveis ,
embora não muito sociáveis. Também com tendência a buscar a aprovação
148 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

dos mais velhos, enquanto as "criati- revelará que o grande pintor britânico J.
vas" eram mais independentes e ten- M. w. Turner era persistente e obstina-
diam a impor padrões próprios. As do. Quadro após quadro revela a obses-
crianças ditas "criativas" eram menos são com o problema de retratar a luz na
apreciadas pelos professores do que as tela sólida. Não há aqui nenhum gran-
"inteligentes"._llsso, somado à descri- de voo de ideias, mas uma vida intei-
ção que Mackinnon faz dos arquitetos ra dedicada a aperfeiçoar uma técnica.
criativos, tende a confirmar a opinião uma técnica gloriosa e maravilhosa-
comum de que as pessoas altamente mente expressiva.
criativas podem ser de convivência Por outro lado, já vimos que os cien-
difícil e, em geral, não se incomodam tistas de sucesso podem ser considera-
com isso. ,I dos altamente criativos e que as suas
Mais recentemente, as diferenças ideias geram uma mudança comple-
entre os grupos "inteligente" e "criati- ta na maneira como vemos o mundo.
vo" foram consideradas como tendên- Uma demonstração drástica disso seria
cia a se distinguir nos pe:r::~f!1ent<2§._ o relato bastante revelador da obra de
conve~g_e nte ou divergente. Hudson ]ames Watson e Francis Crick, que des-
---- - -===-----
realizou uma série ·de estudos com cobriram a bela geometria em hélice
grupos de alunos cujo alto desempe- dupla do DNA {Watson, 1968). A estru-
nho nesses dois tipos de habilidade tura do DNA, como a conhecemos hoje,
de pensamento foi medido. Ele mos- simplesmente · não podia ser deduzi-
trou que, em geral, os meninos com da logicamente a partir dos indícios
habilidade convergente elevada ten- disponíveis para Watson e Crick. Eles
dem a sentir-se atraídos pela ciência, tiveram de dar um salto rumo ao des-
enquanto os colegas mais diyergentes conhecido, em uma demonstração por
mostram preferência pelas artes (Hud-
excelência do pensamento divergente!
son, 1966). Na verdade, a ciência não é
uma questão· de produção puramente
convergente, assim como a arte não é
9 .5 Criatividade
exclusivamente uma questão de pen-
ao projetar
samento divergente (Hudson, 1968).
Essa concentração no pensamento
tmbora tenhamos visto que os pensa-
convergente ou divergente, portanto
mentos convergente e divergente são
pode ser apenas uma pista falsa no'
necessários a cientistas e artistas, pro-
desenvolvimento da nossa compreen-
são da criatividade. vavelmente é o projetista quem preci-
sa das duas habilidades em proporção
Essa tendência bastante popular de
mais equilibrada. Os projetistas têrn
considerar o pensamento divergente
como habilidade central nas artes não de resolver problemas impostos exter·
resiste a exames. Uma visita à Galeria namente, satisfazer a necessidade doS
Clore, no Tate Museum, em Londres outros e criar objetos belos. Herrnan
' Hertzberger destaca isso quando des·
9 Pensamento criativo 149

creve o que significa ' para ele , cna


. t'lVl-
.
períodos de trabalho muito intenso ~)
dade em arquitetura. Ele discutia o pro- rápido, semelhante a malabarismos,/
blema de projetar a escada da entrada em que se relacionam muitas exigên:. :-
de uma escola: . f I
c1as, requentemente incompatíveis ou,1· ! .

pelo menos, conflitantes. No início des~1


Sabe, para mim criatividade é achar so-
luçõe~ _para todas essas coisas que são
te livro, vimos que, muitas vezes, o bo~
contranas, e 0 tipo errado de criatividade projeto é uma questão de integração.
é que a gente esquece o fato de que às As rod.ás de carroça de George Sturt
vezes chove, esquece que às vezes tem baseavam-se na ideia única da forma
gente demais, e só fazemos escadas bo-
nitas a partir daquela ideia que temos na de prato para resolver muitos proble-
cabeça. Isso não é criatividade, é falsa cria- mas totalmente diferentes. No entanto,
tividade. (Lawson, 1994a). raramente é fácil achar essa ideia, que
costuma surgir em um momento de
Esse comentário de Hertzberger "inspiraçãd' depois de longa luta.
indica que precisamos ter cuidado ao Não surpreende, pois, que os bons
distinguir originalidad~- e -c~i-;;_tividade projetistas tendam a sentir-se à von-
~ - ----- ·- ---- - -~--

e~m proj.et.o. No mundo competitivo tade com a falta de definição das suas
e, às vezes, bastante comercial da ati- ideias durante a maior parte do pro-
vidade de projetar, o novo e surpreen- cesso de projeto. ~~ralment;_~ as coisas
dentemente diferen~de se destacãr só se juntam mais tarde, quase no fim
--- -
e ser aclamado apenas- por isso. Mas do P!O_cesso. Os que preferem um mun-
ser criativo ao projetar não é apenas do mais garantido e ordenado podem
nem necessariamente uma questão de sentir-se desconfortáveis no campo
ser original. O desenhista industriaÍ/ criativo do projeto tridimensional.
Richard Seymour considera que o bom': Tipicamente, parece que os projetis-
projeto resulta da ·~~l~ç?~ inesper~da-{ tas lidam com essa falta de definição
mente pertinente, não ~e maluqmces de duas maneiras principais: com a
~se ·fin"iem ~_:.__~~i~~~e" (Law- geração de alternativas e com o uso de
son, 1994a). O famoso arquiteto Rober: "linhas paralelas de pensamento".
Venturi disse que, para o projetista, _"~L Parece que alguns projetistas traba-
melhor ser___bo.ro do _que_ser. q_rigtt?-al"'J lham deliberadamente para gerar uma
(Lawson, 1994a). Hertzberger, Seymour<; '1 série de soluções alternativas bem no
·- -

e Venturi parecem advertir-nos con-( começo, vindo em seguida um proces-


. \ so progressivo de refinamento, teste e
tra a tendência recente de v alonza.r ~f·
projeto de aparência puramente ongi- seleção. Outros preferem trabalhar em
nal sem testá-lo para ver se realmente uma ideia única, mas aceitam que, além
cumpre as exigências feitas. de evoluir, ela possa sofrer revo_luções.
Í Assim, começamos a ter uma .ima- Seja como for, é difícil que simplesmen-
gem do processo criativo de proJetar. te esperar que uma ideia surja traga
Provavelmente ele segue as fases da algum sucesso. Em geral, parece que
os nossos processos de pensamento
\ criatividade já delineadas: envolve
150 COMO ARQUITETOS E DESIG NERS PENSAM

de que ;podemos aprimorar a criativi-


têm vontade própria. Depois que tive-
dade para exigir bastante atenção do
mos uma ideia ou começamos a ver
sistema educacional pelo qual passam
um problema de um jeito específico, é
preciso um bom esforço para mudar de , os projetistas. 1
direção. Os \ pensadores criativos, em Aqui, especificamente, um dos pro-
geral, e· os projetistas, em particular, . blemas é até que ponto devemos cha-
parecem ter a capacidade de mudar a ·. mar a atenção dos alunos de projeto
direção do pensamento, gerando assim ; para projetos anteriores. Uma escola
I

mais ideias. ;No Cap. 12, discutiremos de pensamento defende que os alunos
técnicas para fazer isso como parte do devem ter um regime livre e aberto,
processo de projeto. no qual se encoraje a livre expressão.
Também fica claro que os bons pro- Outra argumenta que os projetistas
jetistas têm, de forma típica e rotineira, têm de resolver problemas do mundo
ideias incompletas e talvez conflitantes, real e que devem dar atenção à aquisi-
e permitem que essas ideias coexistam ção de conhecimento e experiência.
sem tentar defini-las logo no início do Sem dúvida, há muitos indícios favo-
processo. Essas "linhas paralelas de ráveis à escola de pensamento aberto,
pensamento" também serão discutidas · livre e expressivo. Por exemplo, muitos
com detalhes no Cap. 12. estudos demonstraram o efeito meca-
nizador da experiência. Simplesmen-
te, depois que fizemos ou vimos algo
9 .6 Educação para ser feito de uma determinada manei-
a criatividade ra, essa experiência tende a reforçar a
ideia na mente e pode bloquear alterna-
Pelo menos na atividade de projetar, tivas. Em uma das demonstrações mais
vimos que há várias habilidades que contundentes desse fenômeno, pediu-
os projetistas experientes parecem -se a vários indivíduos que fizessem
ter adquirido e que ajudam a liberar o contas simples despejando água entre
seu potencial criativo. É verdade que três jarras de capacidade diferente. Em
também vimos que os projetistas con- cada problema, o tamanho real das três
siderados criativos parecem ter em jarras mudava, mas em vários deles, a
comum alguns traços de personalida- sequência da solução era essencialmen-

-------
de. Portanto, os indícios são confusos ,
te a mesma. Mais tarde, propôs-se um
como costuma acontecer na psicolo-
. .
. Somos cnahvos --porque nasce--
problema com uma solução alternativa
gia.
e muito mais simples; os participantes
( mos assim ou somos criativos porque
tipicamente nem notaram e continua-
~ aprendemos a ser assim?íSimplesmen~ \
ram a usar a resposta mais complexa
te não temos uma respo§ta confiável a
(Luchins; Luchins, 1950).
essa pergunta, que, de qualquer modo ,
Certa vez, um professor de enge-
não faz parte do escopo deste livro.
nharia me disse que gostava de ensinar
Basta dizer que há indícios suficientes
na graduação porque "eles não sabern
9 Pensamento criativo 151

que certas coisas são difíceis". Em um sistema desses, porque o aluno não
consequência, descobriu que, às vezes, aprende apenas no projeto do estúdio,
os alunos davam soluções inéditas para mas também atuando e sendo assim
problemas já considerados bem enten- avaliado. O que pode ser uma boa expe-
didos. Embora possa ter razão, o que ele riência de aprendizado não gera neces-
deixou de destacar foi que, na verdade, sariamente uma nota alta. Infelizmente
isso era muito raro, e que o mais normal também, a ênfase nesses estúdios ten-
é que as soluções sugeridas pelos alu- de a recair no produto final, e não no
nos sejam aquelas que já sabemos que processo. Assim, espera-se que os alu-
não funcionam nem são satisfatórias. O nos se esforcem rumo a soluções que
mais comum é recordarmos os suces- serão avaliadas, em vez de mostrarem
sos, e não os fracassos dos alunos! a evolução da metodologia. Muitas
Em comparação, Herman Hertzber- vezes também a inevitável cerimô-
ger, no excelente livro Lições de arqui- nia de crítica que encerra o projeto do
tetura, mostra a importância de obter estúdio tende a concentrar-se na con-
conhecimento e experiência: denação retrospectiva de elementos do
produto final, e não no estímulo para
Tudo o que é absorvido e registrado pela desenvolver modos melhores de traba-
mente se soma à coleção de ideias guar-
dadas na memória: um tipo de biblioteca
lhar (Anthony, 1991).
que podemos co nsultar sempre que surge Um estudo da educação escolar
um problema. Assim, em essência, quanto para projetar (Laxton, 1969) concluiu
mais vemos, experimentamos e absorve- que não se pode esperar que as crian-
mos, mais pontos de referência temos para
nos ajudar a decidir em que direção se-
ças sejam verdadeiramente criativas
guir: o nosso arcabouço de referência se sem um reservatório de experiências.
expande Laxton desenvolveu um modelo bas-
(Hertzberger, 1991) tante elegante do aprendizado de pro-
jetar usando a metáfora de uma usina
Ainda é verdade, porém, que a for- hidrelétrica (Fig. 9.2). Ele defendeu um
mação de projetistas no mundo todo modelo com três estágios de educa-
baseia-se, em grande parte, no estú- ção em projeto em que as principais
dio onde os alunos aprendem tentando habilidades são identificadas e desen-
resolver problemas, e não adquirindo volvidas. _rara Laxton, a habilidade de
teoria e depois aplicando-a. Apren- iniciar ou exprimir ideias depend?cfe
der com os próprios erros costuma ser ter um reservatório de conhecimen-
mais eficaz do que confiar na experiên- _tos .nos quais se baseiam essas ideias.
cia adquirida pelos outros! Mais recen- Isso lembra a exortação de Hertzberger
temente, a popularidade e o sucesso aos estudantes de arquitetura para que
do sistema do estúdio levaram alguns adquiram conhecimento. A segunda
educadores que ensinam a projetar a habilidade de La_2C~Çm é ayal~~ dis~-;­
supor que todo aprendizado poderia D:ir ideias. Finalmente, a habilidade de
ser assim. Entretanto, há problemas em ~~nsformar ou interpretar é necessá-
152 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

ria para traduzir as ideias no contexto ~ A .for~ ação do projetista é, por-


adequado e pertinente. Kneller (1965}, r tanto, um equilíbrio bastante delicado
no seu estudo da criatividade, faz afir- / entre dirigir. o aluno para q~e a.dquira
mativa semelhante: , esse conhecimento e expenenc1a mas
i
• sem mecanizar os seus processos de .
. d.1r o sur- 1I
r
Um dos paradoxos da criatividade é que,
para pensar de forma original, temos de
· nos familiarizar com as ideias dos outros
[...] Essas ideias podem então formar um
pensamento a ponto d e 1mpe
~i~ento~e ideias originais.
- ...... _--- - ·-- - _
r ---__;
_.,.
trampolim a partir do qual as ideias do
criador podem ser lançadas.

Experiência e
conhecimento

t !!!
RESERVATÓRIO Capacidade de t~apacidade
Interpretar
de

-
iniciar ou exprimir

Capacidade
de avaliação Fig. 9.2
O engenhoso modelo
I TRANSFORMADOR hidrelétrico de Laxton para
ensinar a projetar
I

10
Princípios condutores

Trabalhar com a filosofia, assim como trabalhar com a arquitetura, é na


verdade trabalhar consigo mesmo.
Wittgenstein

-Ora - disse o Dodô - a melhor maneira de explicar é fazer.


Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

O projetista não aborda cada problema de projeto a partir do


nada, com a mente vazia, como insinua uma parte conside-
rável da literatura sobre métodos de projetar. Na verdade, os
projetistas têm as suas motivações, as suas razões para que-
rer projetar, os seus conjuntos de crenças, valores e atitudes.
Especificamente, eles costumam desenvolver conjuntos bas-
tante coesos de opiniões sobre como se deve projetar no seu
campo. Em seguida, essa bagagem intelectual é levada pelo
projetista a cada projeto, às vezes de forma muito consciente,
outras vezes nem tanto. Em alguns projetistas, essa coletânea
de atitudes, crenças e valores é confusa e malformada; em
outros é estruturada de forma mais clara e, em alguns, pode
ser até algo que se aproxima de uma teoria do ato de proje-
tar. Em última análise, alguns projetistas chegam ao ponto de
explicar esses pensamentos em livros, artigos ou aulas. Talvez
em alguns campos de projeto haja mais tradição de publicar
argumentações e posturas do que em outros. Por exemplo,
parece que os arquitetos ficam mais tentados a recorrer à pala-
vra impressa do que os desenhistas industriais! Podemos cha-
mar essas ideias de "filosofia do projetar", embora, em muitos
casos, esse título talvez pareça grandioso demais. Quer repre-
sentem uma coletânea de ideias desarticuladas, quer uma filo-
sofia coerente, quer uma teoria completa do ato de projetar,
essas ideias podem ser consideradas um conjunto de "princí_
pios condutores". É provável que essa coletânea de princípios
154 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

confiança ao afirmar que "a necessida-


cresça e mude conforme o projetista
de ética da Nova Arquitetura não pode
evolui. Às vezes, ela pode ser defendi-
mais ser posta em dúvida". O grande
da com extremo vigor e tornar-se um
território personalíssimo. O seu impac- arquiteto ]ames Stirling (1965) pondera-
to sobre o processo de projeto pode ser ria que, quando estudante, foi "deixado
bastante considerável. com uma convicção profunda da corre-
Podemos examinar de várias manei- ção moral da Nova Arquitetura".
ras a importância desses princípios Esse alto nível de confiança não era
condutores. Em primeiro lugar, alguns novo entre arquitetos. Mais ou menos
projetistas conseguem articulá-los com um século antes, Pugin defendera, de
muita clareza e defendê-los com gran- forma memorável, a retomada vitoria-
de convicção, enquanto outros têm na do gótico não apenas como honesta
menos certeza de que estão "corretos". em termos estruturais, mas como uma
Em segundo lugar, alguns projetistas representação arquitetônica da fé cató-
permitem que os seus princípios con- lica romana. Ele via o arco de ogiva como
dutores dominem o processo, enquanto puro e verdadeiro, e desprezava o uso
para outros eles ficam mais em segun- do arco pleno arredondado: "Se vemos a
do plano. Finalmente, podemos exami- arquitetura ogival sob a sua verdadeira
nar o conteúdo das ideias propriamente luz de arte cristã, assim como a própria
ditas e ver como se relacionam com 0 fé é perfeita, também o são os princí-
modelo de problemas do projeto que já pios sobre os quais se baseia" (Pugin,
descrevemos. 1841). Thdo isso é um pouco desconcer-
tante, já que, uns quatro séculos antes,
Alberti estudara Vitrúvio e publicara De
10.1 Moralidade e projeto
Re Aedificatoria. Nele, recomendava ao
Papa Nicolau V toda a ideia do Renas-
Em geral, pode-se considerar que 0 pro-
cimento, rejeitando a autoridade dos
jeto passa por fases de relativas certe-
pedreiros medievais e, portanto, é cla-
za e dúvida. Parece que agora estamos
ro, os seus arcos góticos! Ele também
num período pós-moderno de confu-
insinuava o apoio da "autoridade supre-
são pluralista, sem nenhum conjunto ma". ao d e1ender
r o uso de proporções e
de teorias amplamente adotadas sobre pn , .
nclpiOs de projeto segundo ele base-
como projetar. No entanto, só recente-
mente, durante o movimento moder- ado~ no corpo humano! Completamos
nista, é que as ideias de projeto passa- ° Circulo ao retornar ao século XX e
ram a ser aceitas de forma mais geral encontrar Le Corbusier apresentando a
pelas várias disciplinas correlatas. sua variação sobre esse tema no famo-
Walter Gropius (1935) ' um dos m awres
. so tr~atado The Modular (Fig. 10.1). Ele
responsáveis pela criação da Bauhaus propos um sistema proporcional base-
uma escola transdisciplinar para ensi~
ado em n umeros
- que, segundo a fi rma-
va ' p 0 d'Iam ser derivados da proporçao-
nar a projetar, anunciou esse período de
entre as partes do corpo humano e que,
~-
10 Princípios condutores 155

portanto, tinham significado e correção


profundos (Le Corbusier, 1951).
Não é nosso propósito aqui debater a
correção ou não dessas ideias, e outros
trataram das várias teorias do projeto
de forma bem mais minuciosa. Aqui, 0
que interessa é a aparente necessidade
de criar uma teoria subjacente do ato
de projetar com base em algum tipo
de certeza moral. A postura moral do
projetar foi estudada por David Watkin
'
que ilustra uma série dessas posições
226
mantidas atualmente e mostra que: 140 86

apontam o precedente de Pugin ao suge-


rir que o estilo cultural que defendem é
uma necessidade inescapável que ignora-
mos por nossa própria conta e risco, e que
apoiá-la é um dever importante e social.
(Watkin, 1977)
183
--- - - Fig. 10.1
/"'-- Tive o privilégio de estudar o pro- Le Corbusier afirmava que seu sistema
,' cesso de trabalho de um número con- proporcional teria um nível de autoridade
1
mais elevado ao relacioná-lo à estrutura
/ siderável de importantes arquitetos
humana
e verifiquei que nenhum deles se vê
trabalhando num "estilo", mas, ain~ campos em que se fazem projetos,
da assim, todos têm fortes programas principalmente na moda. A própria
intelectuais por trás do seu trabalho. , pal avra "mo d a, passou a representar
........ -- ._.c

Mais umavez~-ísso parece refletir a algo temporário e passageiro. Como


posição de Pugin, já que ele via o seu as edificações são mais caras e per-
trabalho baseado ''não num estilo, mas manentes, talvez os arquitetos sintam
num princípE'JHo)e;mu1to-; arquite , necessidade de descrever o seu traba-
tos vee'ãlõs estilos arquitetônicos mai~\
lho como sustentado por ideias mais
c . , . d I l duradouras. Já vimos que se pode pro-
orno mvenções dos cnt1cos o qu] 1
como conjuntos de regras que devam
1 jetar até com uma abordagem consu-
mista e descartável dos artefatos (Cap. 7).
seguir, Rob; rt ve~turi~ge-m dúvida,
I
Considera-se, portanto, que os princí-
anYmava isso quando disse: "Bernini
pios dão mais força à correção do que
não sabia que era barroco [... ] Freud não
era freudiano e Marx não era marxista" os estilos!
Neste ponto, talvez valha lembrar
(Lawson, 1994b).
uma definição de projetar que vimos
A palavra "estilo", todavia, é usada
no Cap. 3: "Realizar um ato de fé com-
com conforto e entusiasmo em outros
156 COMO ARQUITETOS E OESIGNERS PENSAM

Assim, começamos a ter a noção de


plicadíssimo" (Jones, 1966). Talvez isso
que, em essência, o processo de projeto
nos ajude a entender o fervor quase
é experimental. As teorias, filosofias ou
religioso com que às vezes os projetis-
seja lá o que for do projeto não costu-
tas defendem os "princípios" que emba-
mam ser muito bem definidas. Portan-
sam o seu trabalho. É realmente difícil
to, pode-se considerar que cada projeto,
manter o esforço para concretizar pro-
além de resolver um problema, ao mes-
jetos complexos sem ter alguma certe-
za e crença íntima. Se tudo é possível, mo tempo traz um entendimento maior
como defender o projeto contra os que dessas ideias genéricas mais teóricas.
por ventura vão atacá-lo? Com a tecno- Herman Hertzberger, o grande arquite-
logia sofisticada hoje disponível, quase to holandês, descreveu como "hipóte-
tudo é possível, de modo que talvez seja se" o seu famoso prédio de escritórios
reconfortante ter alguns princípios que da seguradora Centraal Beheer:
indicam de forma bastante inequívoca
que algumas ideias são mais certas do Se pode ou não suportar as consequências
do que traz à existência, depende da ma-
que outras! neira como se ajusta ao comportamento
Mas há perigos aqui. O conforto de dos seus ocupantes com o passar do
um conjunto de princípios é uma coisa, tempo.
mas ser dominado por uma abordagem (Suckle, 1980)
doutrinária é outra. O arquiteto Eric
Lyons (1968) declarou-se contra isso Na verdade, essa edificação é notá-
quando o movimento modernista ain- vel e inspiradora na tentativa de lidar
da estava no auge: com a vida social e pessoal dos que ali
Há moralismo demais nos arquitetos trabalham, em vez de ver os ocupantes
quando falam do seu trabalho como engrenagens de uma máquina-
d . d , e com
emasla
. .a frequência J. ustifl·c amos a -escritório. Hertzberger já tinha escri-
no:~a l~epci~ com postu ras morais [...]
ed1flcaçoes .nao
. deveriam eXIS
. t.Ir para de- to extensamente sobre a sua teoria
monstrar pnne~pios . estruturalista da arquitetura. Aqui ele
(Lyons, 1968) comparou o projeto de ferramentas
ao projeto de instrumentos musicais.
Mais recentemente ' isso &o·
11 I mostra- ·
Estes u~ ltlmos, argumentou, são menos
do por Robert Venturi, que argumentou:
específicos e encorajam os indivíduos
A rtista não é quem pro· t
Je a pa ra pr
a tomar posse deles e tornar-se criati-
var a sua teoria e sem d · ·d o- vos com eles: "Tento fazer uma edifi-
' uv1 a nem
adeq uar-se a uma id eologia [ 1t d p~r.a
-
caçao que tenta meramente ex . .
··· o a ed1f1
-
cação como se fosse um instrumento,
teoria ou toda edificaçã pnm~r uma para que dela as pessoas possam tirar
o que começ
~ma teoria e avança de forma . a com música" (Hertzberger, 1991).
tlva é seca demal·s· p . mUlto dedu-
' O r ISSO d'
trabalhamos indutivament ' IZemos q ue ,.,.--- Parece que alguns projetistas veern
e.
(l awson, 1994b) toda a sua carreira como uma jorna·
da rumo à meta da verdade suprerna.
enquanto outros têm uma atitude rnais
10 Princípios condutores 157

1 descontraída e flexível para com as for-


• não simbólico, porque permite que ela
ças _m otrizes por trás do seu trabalho. :
"vá ao escritório pela manhã, ao terreno
o famoso arquiteto Richard Rogers nos1 à tarde e ao teatro à noite, e por isso é
diz que: "Vivemos em busca de regras extremamente prático".
universais para que as nossas decisões , i Assim, os críticos podem inferir o

ao projetar não brotem de preferências :.. que o projetista não pretendeu, e deve-
puramente arbitrárias" (Suckle, 1980). ; mos ter muito cuidado ao tirar condu-
Contudo, nem todos os projetistas \ sões sobre o processo que criou o objeto
acham necessário buscar conscien- '·· .gue está sendo criticado!
~. .. ..
temente alguma teoria subjacente ao
seu trabalho. A arquiteta Eva Jiricna é
famosa pelos belos interiores high tech, 10.2 Decomposição
que mostram uma atenção meticulo- versus integração
sa e coerente à escolha e à junção de
materiais, mas ela explica isso de for- Os projetistas variam na extensão
ma bem prag~mática: ____ _ em que retratam o seu trabalho como
-------
,....-

Não é um processo abstrato. Acho que ·


movido por um repertório limitado de
para quem é pintor ou escultor, é tudo considerações e em até que ponto dese-
muito abstrato, mas a arquitetura é um jam tornar isso explícito. Já vimos nes-
trabalho muito concreto. Acho mesmo te livro que o bom projeto costuma ser
que toda essa filosofia é uma interpreta-
uma reação integrada a toda uma série
ção falsa do que realmente acontece. A
gente tem uma ideia, mas essa ideia não ' de questões. As rodas de carroça feitas
é realmente um pensamento muito filo- na oficina de George Sturt tinham for-
sófico nem conceitual. Na verdade, ela é ma de prato por uma série de razões.
uma expressão da nossa experiência, que
No entanto, também é possível ver o
é promovida pela questão~ -
' (Lawson, 1994b)
objeto projetado como desconstrução
do problema. Mesmo antes de a ideia
Isso reflete algo que vi acontecer da desconstrução como jogo filosófico
várias vezes quando estudei 0 proces- se popularizar, alguns projetistas pre-
feriam articular o seu trabalho num
so de projetistas famosos. Houve críti-
sentido técnico. Richard Rogers gosta
cos que escreveram para explicar como
de "esclarecer 0 funcionamento das
deveríamos interpretar o trabalho des-
partes" e, portanto, separa as funções,
ses projetistas, e muitas vezes isso se
de modo que cada parte seja uma solu-
tornou aceito como uma verdade. No
· · t a s . afir- ção ótima para um problema específico
entanto, os prórpios pro)etlS e desempenhe, segundo ele, um "papel
mam que não preten mm d . essas mter-
, . , Um processo de projeto como
umco.
· · a o
pretações. No caso de Eva ]lncn , ' esse foi sugerido pelo famoso rr:étodo
.
d1vert1do . e, que 1sso
. se es tendeu ate as
de Christopher Alexander, exammado-
.Intenções simbohcas , . por trás das suas no Cap. 5 que dependia de dec~m~or o
roupas, quase sempre pre a · , . t s Na ver-
· é pratiCO, e problema em suas partes constitUtivas.
dade, Eva explica que 1sso
158 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

algum tempo, mas espero que logo 0 as-


Herman Hertzberger (1971), por sua sunto ocupe o lugar correto entre as outras
vez, defende na verdade a abordagem vinte grandes questões que o projetista de
mais integrada, na qual a ambiguidade edificações t em de levar em conta.
e a multiplicidade de funções são proje- (Burton, 1979)

tadas de forma deliberada nos objetos.


Ele mostra, por exemplo, num conjunto Talvez, no contexto deste livro,
habitacional, que uma forma simples Richard Burton esteja nos alertando
de concreto diante de cada residência que de fato é preciso examinar atenta-
pode exibir o número da casa, abrigar mente um processo que, desde o prin-
uma luminária, servir de apoio para cípio, busca demonstrar a importância
garrafas de leite, ser um lugar para sen- de uma série limitada de problemas.
tar e até servir de mesa numa refeição Em geral, o processo de projeto precisa
ao ar livre. Nesse caso, Hertzberger está ser mais equilibrado e, quase por defi-
longe de tentar otimizar o objeto para nição, menos concentrado do que algu-
alguma função específica, e o vê como mas obras polêmicas talvez exijam.
um tipo de solução conciliatória.
Com o passar do tempo, questões
diferentes tendem a vir à frente e assu- 10.3 O futuro
mir o papel principal no projeto. Em
alguns casos, pode ser simplesmen- Já vimos que projetar é mais normativo
te uma questão de moda e estilo; em do que descritivo. Todo projeto contém,
outros, porém, isso pode resultar da até certo ponto, uma afirmativa sobre
pauta social, econômica e política mais o futuro. Como explica Cedric Price em
ampla da época. Sem dúvida, uma des- relação à arquitetura: "Ao projetar para
sas questões recentes é a do projeto construir, todo arquiteto se envolve em
"verde". Alguns projetistas escreveram prever o que acontecerá" (Price, 1976).
livros e até projetaram quase como for-
Assim, os projetistas são guiados
ma de propaganda para promover mais
no seu trabalho tanto pela visão de
amplamente uma mudança de atitu-
futuro quanto pelo nível de confian-
de. Por exemplo, Robert e Brenda Vale
ça nessa visão. As visões mais fortes
escreveram muitos artigos e livros a
podem tornar-se facilmente assusta-
partir da sua famosa "casa autônoma"
doras, ainda mais quando, na men-
(Vale; Vale, 1975) e construíram várias
te dos projetistas, esses arquitetos
casas para si e para outros, demonstran-
podem ter um impacto tão grande na
do esses princípios. Por sua vez, Richard
vida de todos. O movimento futurista
Burton (1979), que criou a primeira polí-
nas artes da primeira parte do século
tica energética para o RIBA, tomou 0
XX confundiu-se com a arquitetura na
cuidado de fazer uma advertência:
mente do arquiteto italiano Sant'Elia.
Vem-se dando certo alarde à energi No seu Manifesto da Arquitetura, de 1914.
·t· _ a nas
. e d 1 1caçoes, e ta 1vez isso contin ue d urante ele declarou que:
1 O Princípios condutores 159

1erw ·, d•• lltVPnl.u "rP• o rl<,lrlJu dr.>sd~ 0


pr rrH 11 r 11 1•,·,o~ c rd.1de r ncJCJe rnrJ cor 110
de direita . No livro Man Made Futurcs
t( .t '
um ~:,t.1l1 1111 11111'11~0 I' turnultuJdo, mo Wei nberg (1974) é bem ex plíci to a res-
vel, atrvo <' ' hni1mrLo IJOr tod<1 p 0 r te, e d peito dessa ligação:
edrflcaç.Jo m o dt>r na tomo um<l máqum;1
grgantescJ. A tc<.nologta o fereceu uma panau•r.1
a grdnde expansão da procJuçac• de
mercadortas que permrte a nossa c;o
A visão de futuro de Sant'Elia era ciedade caprtalista atingrr rnurtas metns
altamente tecnológica, e nas suas do engenheiro socral marxrsta sem passa r
imagens de cidade raramente se viam p ela revo lução social que M arx conside ra-
va inevitável.
cidadãos (Fig. 10.2). Essa confiança e
(Wein b erg, 1974)
afirmação da arquitetura como enge-
nharia social levaria os futuristas pelo Weinberg defendia que as "pana-
caminho do fascismo, e devemos agra- ceias" oferecidas pela tecnologia incluí-
decer porque, em boa parte, a sua visão am "consertar" os problemas da pobreza
confiante não se concretizou. Esse vín- e até "consertar" os problemas da guer-
culo entre tecnologia e crença confian- ra com a intimidação nuclear. Como
te no futuro também se encontra com comenta Nigel Cross, um dos orgam-
frequência ligado à ideologia política zadores do livro, vários anos depois,

Fig. 10.2
Conjunto confiante de imagens futuristas
de Sant'Eiia, das quais as pessoas estão
totalmente excluídas
160 COMO ARQUITETOS E DEStGNERS PENSAM

As vezes, há uma obsessão com cores


uweinberg aparentemente sugere que '
e há fases de interesse em texturas e
se pode demonstrar que a crença na
tecnologia é superior ou mais eficaz do materiais.
. . . .
que no marx1smo ou no cnstlamsmo .
" Também é assim nos campos do
Mais recentemente, ficamos menos desenho industrial, da arquitetura, do
confiantes no futuro e no poder da tec- design de interiores e do design gráfico.
nologia para resolver os nossos proble- Para examinar um pouco mais essas
mas. Portanto, em geral, esta não é uma ideias, usaremos o modelo de proble-
época em que se encontrem projetistas mas do projeto desenvolvido ante-
com sonhos utópicos. A seu modo, as riormente neste livro, como forma de
utopias de hoje são, na verdade, nos- estruturar a investigação.
tálgicas, como a aldeia romântica de
Poundbury, projetada por Leon Krier
para demonstrar as teorias arquitetô- 10.5 Cliente
nicas do príncipe Charles, explicadas
em seu livro Vision of Britain (Visão da A atitude diante das restrições geradas
Grã-Bretanha). pelo cliente varia entre os projetistas.
Dois famosos arquitetos britânicos
do século XX ilustram essa variação.
10.4 Cont eúdo Sir Denys Lasdun vê claramente que
o arquiteto tem a responsabilidade de
O conteúdo dos princípios condutores
fazer o cliente avançar:
dos projetistas é tão variado quanto os -- ..... - ··- ..
próprios projetistas. o objetivo deste O nosso trabalho não é dar ao cliente o
livro não é dar uma volta abrangente que ele quer, mas o que ele nem sonhava
por todos os princípios condutores em . que queria[...] o que eu já disse antes sobre
· .. o cliente afeta a metodologia do projeto.
ação na mente dos projetistas de hoje
(lasdun, 1965)
ou do passado. No entanto, essa rese- ......
nha poderia ser a base de uma história ... ·- ...-
intere~sante dos vários campos em que
Por sua vez, mais ou menos na mes-
se proJeta. Na moda, por exemplo, além ma época, Sir Basil Spence retrataria o
de o estilo das roupas mudar, as ideias arquiteto como um "alfaiate que mede
0
subjacentes que dão origem a esses magro e o gordo e deixa os dois con-
fortáve
. · "· p ara Spence, o arquiteto, me-
Is ·
estilos também mudam · As roupas
não podem ser totalmente separadas quivocamente, não era u m reformador.
dos ven'fiquei que uma das caracte-
. costumes sociais da época , prm- .
rísticas comuns a mu1tos . . . tas
clpalmente na medida em que o corpo proJetls
, . excelentes e, como se concentram no
e revelado, escondido' disfarçado e até
distorcido. Às vezes ' pode-se conside-
. cliente e veem que este tem um pape1
rar a ~umprir no processo de projeto pro·
. que a moda trata primariamente de
1magem, outras vezes • de prat·1c1'd ade. pnamente dito. Sem dúvida, os clientes
que d-ao apoio e oferecem compreensao -
;s· .

~

10 Princípios condutores 161

podem fazer uma diferença enorme no todas as questões relativas ao resumo


sucesso de um projeto, como destacou informativo, embora isso nem sempre
Michael Wilford: aconteça. No entanto, os usuários são
todos diferentes, e é provável que façam
Atrás de cada edificação de destaque, há
um cliente ig ualmente d e d estaque, não
exigências diferentes ao projeto final. É
necessariamente de alto nível, m as que d e- comum que os diversos tipos de usuário
dica tempo e esforço para comp reender as envolvidos nas edificações tornem isso
ideias do arq uiteto, que apoia e se empol- extremamente complexo. Por exemplo,
ga, que é ousado, d isposto a correr riscos
e que, acima de tudo, consegue manter a
frequentemente, ao projetar hospitais,
calma durante as inevit áveis crises. verifiquei que o que parecia convenien-
(Wilford , 1991) te para a equipe de enfermagem gerava
bastante desagrado nos pacientes. Ao
Um apelo sincero para que o cliente investigar edificações em uso, vi que a
demonstre essa compreensão vem de sala de aula boa na opinião dos alunos
Denise Scott Brown, que fala do cliente pode ser quase diametralmente oposta
que "deixa a gente ficar do lado dele". O à que é boa na opinião dos professores
seu sócio Robert Venturi explica como (Lawson; s, 1978). Herman Hertzberger
isso pode ser importante e delicado: deleita-se bastante com essa massa de
exigências conflitantes, já que constrói
a gente não d eve t er medo d e d izer algo
estúpid o [...] às vezes, é p reciso pensar em os seus princípios condutores em torno
voz alta e ter liberdade de dizer coisas es- da preocupação geral com os h abitan-
t úpidas [...] e se o cliente tiver fé, m uitas tes de edificações como pessoas, e não
vezes isso pod e levar a alg um a coisa [...]
como representantes dos papéis que
achamos que a arquitetura tem de vi r da
colab oração e aprendemos muito com o desempenham (Fig. 10.3). Resolver os
cliente [...] recebemos dos clientes as nos- potenciais conflitos entre esses papéis
sas melhores ideias, adoramos colaborar o atrai:
com eles.
(Lawson, 1994b) Prefiro, por exemplo, fazer uma escola a
f azer uma casa, porque si nto que na casa
há a restrição excessiva d e seguir apenas
Talvez só os melhores projetis- a particularidade e a idiossincrasia de
tas tenham confiança suficiente para uma única pessoa ou casal. Prefiro ter uma
admitir os clientes num processo cria- escola onde há diretoria, onde há profes-
sores, onde há pais e onde há crianças, e
tivo delicado e fácil de perturbar. os usuários são todos eles.
(Lawson, 1994b)

10.6 Usuários Assim, na arquitetura às vezes há


oportunidades de envolver os usuá-
Como já vimos, as necessidades dos
rios das edificações no processo de
clientes e dos usuários do projeto nem
projeto. Uma das tentativas mais notá-
sempre são exatamente as mesmas. Se
veis de explorar as consequências dis-
0 projetista tiver sorte, o cliente expn-
so é o trabalho residencial do arquiteto
rnirá uma única opinião clara sobre
162 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Fig. 10.3
O famoso prédio
de escritórios de
Herman Hertzberger
para a seguradora
Centraal Beheer, em
Appledorn, Holanda,
é um exemplo
de abordagem
arquitetônica
centrada no usuário

holandês Habraken, que acreditava que im portantes ideias geradoras. A chama-


"o processo simplesmente não funcio- da escola "high-tech" depende da glorifi-
na quando os ocupantes não se envol- cação da tecnologia e da sua expressão
vem". Isso levou Habraken a escrever de maneira muito autoconsciente.
o seu famoso tratado Suportes, no qual No projeto arquitetônico, a atividade
defendia a separação deliberada entre de fazer as edificações ficarem em pé,
as partes da solução que, segundo ele, cobrirem grandes espaços e aguenta-
deveriam ser determinadas pelo arqui- rem as forças da n atureza traz toda uma
teto e aquelas que achava m ais capazes série de ideias estruturais. Para alguns
de ser determinadas pelos usuários. projetistas, os elementos estruturais
Isso leva a um processo de projeto que deveriam descrever como cumprem a
distribui conscientemente a respon- sua tarefa. Assim, Richard Rogers nos
sabilidade entre projetista e usuário diz que projeta cada item estrutural
(Habraken, 1972). para ser eficiente e refletir a natureza
das cargas que lhe são impostas:
sólidOS
10.7 Práticas Cabos tracionados tornam-se os .0
·
mais finos, os membros compnml des-'dos sa
·~
tubos de aço; os diversos d 1am etros brO
As restrições práticas são terreno fértil crevem as várias cargas que cada mern
~a:a princípios condutores. Para os pro- deve suportar.
(Suckle, 19BOl
Jetistas fascinados pela materialidade e
pelo
. _processo de fazer coisas , ess as res- . nos diZ
tnçoes práticas podem da . Por sua vez Arthur Enkson
r ao proJeto '
que:
10 Princípios condutores 163

Há muito prefiro, apesar da inet·1c·1eh ·


. . neta es-
trutural, a amb1gu1dade visual d · Para mim, 0 antagonismo entre materiais
. e v1gas e
pilares do mesmo tamanho Log·1 principalmente materiais com o aço e outr~
. · camente,
as v1gas devem ser estreitas e altas para como concreto ou pedra, cria um dualismo
simples que às vezes podemos ver nas es-
os mome~tos fletores, e os pilares em
culturas. Fiz isso com dois ou três materiais
compressao, proporcionalmente meno-
batendo um no outro.
.res, mas isso cria um aspecto vi sual b em
Interessante. (Lawson, 1994b)

(Suckle, 1980)
Muitas vezes, descobrimos que as
Para o seu doutorado, o gran- ideias de um projeto não são tão novas
de arquiteto e engenheiro Santiago quanto pareciam e, nesse caso, o pró-
Calatrava estudou estruturas móveis prio Calatrava admite prontamente a
e dobráveis. Até hoje ele demonstra influência histórica de Violet-le-Duc no
intenso interesse pela ideia de "equilí- seu trabalho. A arquiteta e designer de
brio dinâmico", no qual as estruturas interiores Eva Jiricna também utiliza
se equilibram de maneira bem mais um processo de projeto muito condu-
atlética do que as formas mais normais zido por decisões sobre materiais: "De
e bastante estáticas usadas na arquite- certo modo, o material dita o conceito
tura. Calatrava é fascinado pelo corpo [...] e os materiais não são intercambiá- '
humano, em especial pela sua capa- .:. veis [...] para mim, o material é mesmo
cidade de se mover e, assim, assumir o ponto de partida da história" (Law-
uma variedade de configurações, todas son, 1994b).
Manter a engenharia e a tecnologia
estáveis e adequadas para resistir a um
no pano de fundo pode ser um princípio
conjunto específico de forças. As expo-
condutor, tanto quanto exprimir isso. O
sições de trabalhos seus mostram como
desenhista industrial Dick Powell con-
ele explora essas ideias em esculturas
sidera que elas "deveriam ser simples-
abstratas e em projetos concretizados:
mente escravas do mercado":
É muito bom fazer esculturas porque é São as pessoas que determinam o que são
possível tê-las em casa e olhá-las toda os produtos. A tarefa de tentar refletir o
noite; pode-se meditar a respeito delas e que as pessoas querem nos foi confiada.
girá-las. Esse é o único momento tranquilo Temos de forçar a tecnologia a ajustar-
de todo o processo de levar um projeto à -se a esse propósito [...] o nosso trabalho
. . r
sua realização.[...] esse foco é murto rr:npo - é uma negociação const ante, um ponto
tante porque nos dá uma certa autorrdade intermediário entre a criação artística e
[...]também é p ossível mostrá-la aos outros a abordagem lógica da engenharia no
e eles entenderem. projeto.
(Lawson, 1994b) (Gardner, 1989)

Esse difícil ato de equilíbrio é citado


Calatrava também é fascinado
pelo arquiteto Ian Ritchie, que tem uma
pelas propriedades dos materiais, e não
certa fama de "high-tech" mas que, ain-
só pela configuração estrutural do seu
da assim, não acha que para ele a tec-
trabalho:
nologia seja uma geradora de projetos:
164 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

seu interesse pelo assunto. Esse inte-


Quando me fazem essa pergunta, u.so uma
resse levou a uma série de publicações
analogia. Descrevo o lindo papagaiO p~u -
· 1 r' do mu1to com uma preocupação mais ampla do
o no meu ombro- mu 1ti CO o 1 '.
sad . ,
bonito-, chamado "tecnologia . ana
v· s ve
~ que normalmente se esperaria de um
zes ele pula do meu ombro para 0 pape
e espalha merda em tudo antes que r~al-
arquiteto (Duffy, 1993). Durante muitos
.' CISO anos, ele trabalhou projetando prédios
mente comecemos a pensar, e ai e pre
pegá-lo e colocá-lo de volta no seu lugar. de escritórios, mas a sua experiência
Ele é manso, se comporta e nem sempre
se intromete no projeto, mas está ali e fala-
levou-o além da mera edificação até a
mos com ele o tempo todo. socioeconomia do próprio local de tra-
(Lawson, 1994b) balho. Os desenhistas industriais da
Seymour/Powell têm sido responsá-
veis por uma lista crescente de novas
10.8 Radicais motocicletas Norton, Yamaha, MZ e
BSA. O seu trabalho é inovador e mui-
As restrições radicais poderiam ser to admirado, mas a visita à empresa
a fonte mais óbvia de um conjunto revela um interesse mais profundo. O
de princípios condutores dos proje- escritório está localizado no que antes
tos, mas, na verdade, não é assim que era uma capela um pouco afastada da
acontece. O propósito mais básico e a rua, e costuma exibir uma gama varia-
razão da existência do objeto a projetar da de motocicletas pertencentes aos
estarão inevitavelmente no centro das funcionários. Richard Seymour fala
atenções de qualquer bom projetista; dessas máquinas com tamanho entu-
por isso, dificilmente precisam de mais siasmo e dedicação que deixa claro
atenção. É claro que essas restrições que não são apenas uma parte do seu
também costumam ser tão locàis e trabalho, mas fazem parte da sua vida!
específicas ao problema que raramente Portanto, quando Duffy fala de um
dão oportunidade a investigações mais
projeto de escritório específico ou Sey·
genéricas. No entanto, alguns projetis-
mour fala de uma motocicleta espe-
tas ficam famosos por se especializar
cífica, é óbvio que há uma paixão que
em certos tipos de problema e, portan-
promoveu o processo de projeto e um
to, .e~ certos conjuntos de restrições
conjunto de atitudes que o configurou,
radtcats. Sem dúvida, há arquitetos com · tos
mas que transcende todos os pro)e
fama de projetar determinados tip d
d'fi. _ os e individuais.
e I caçoes, como hospitais escr't , .
. ~ . • I onos
ou residencias.
Talvez as mais radicais de t d
. - o as as 10.9 Formais
restnçoes, porém, sejam a l
. " que as que
mais se entranham" . .
. nos proJetlstas
Ouvir uma aula de Frank D ff . A composição visual dos objetos, eJll
· u Y sobre os·
proJeto de escritórios e' tom arcon .,, particular de objetos projetadoS, c ..
d rna•o
cia da profundidade do se SClen- tuma despertar o interesse a ra
u estudo e do ria dos projetistas. No entanto, pa
10 Princípios condutores 165

alguns, as restrições formais podem arte islâmica e oriental trouxe novas


ser reunidas em regras geométricas e possibilidades, principalmente para
proporcionais que formam conjuntos a ornamentação, que está começando
contínuos de princípios condutores. }á a reaparecer depois de um período de
discutimos a obra de arquitetos clás- minimalismo.
sicos como Vitrúvio e de arquitetos do O uso dessas ideias geométricas
Renascimento, como Palladio e Alber- como princípios condutores fica evi-
ti, que estudaram os seus sistemas. dente na obra do arquiteto Richard
Vimos até um arquiteto modernista MacCormac, que já estudou no Martin
como Le Corbusier criando sistemas Centre e é famoso pela série admiradís-
proporcionais, embora menos rígidos. sima de edificações de pequena escala
O uso de princípios geométricos nos que costumavam envolver algum ele-
projetos recebeu mais recentemen- mento de repetição, como nas residên-
te um novo sopro de vida no trabalho cias universitárias:
dos interessados pela aplicação dos Procuramos uma analogia geométrica cla-
computadores ao ato de projetar. Aqui ra para o conteúdo do problema. Todos
é possível apresentar essas regras ao os nossos projetos têm base geométri-
ca, seja a o rganização em cata-vento de
computador sob a forma de "gramá- Westoning, o sistema de pátios dos apar-
ticas da forma", para que ele produ- tamentos de Coffee Hall e de Robinson
za projetos que sigam os princípios College, a grade axadrezada específica
das casas de Blackheath ou a geometria
subjacentes de um determinado proje-
baseada em círculos de Hyde Park Gate
tista ou período estilístico. [...]A geometria é usada como meio de fa -
O poder da geometria formal de zer distinções entre os tipos de lugar, de
dar princípios condutores aos arquite- modo que atividades diferentes aconte-
c~m em situações que têm a sua própria
tos foi estudado durante muitos anos identidade e , com o uso, possam aumentar
no Martin Centre, em Cambridge (Mar- essa distinção.
ch; Steadman, 1974). Esses estudos (MacCormac; Jamieson, 1977)
mostraram que a geometria pode ser
usada para entender possibilidades Richard MacCormac descreve como
formais abstratas e concretas. Ramos a sua prática o levou a construir um
da matemática como a topologia, a "repertório de truques", como diz, que
álgebra booleana e, mais recentemen- parece basear-se bastante não apenas
te, a geometria fractal, podem oferecer no tempo que passou no Martin Cen-
aos projetistas ferramentas podero- tre, como também no estudo da obra do
sas para descrever e gerar formas . Em grande arquiteto inglês Sir }ohn Soane.
alguns casos, esses estudos levaram No catálogo que acompanhava a expo-
ao entendimento de como funcionam sição da obra de }ames Stirling e Micha-
os projetos tradicionais, enquanto el Wilford, no RIBA, em 1996, Michael
outros se compõem simplesmente de Wilford escreveu sobre a "série de estra-
modelos de ideias. O interesse recente tégias entrelaçadas" que eles desenvol-
pelos mosaicos e por outros padrões da veram em três décadas de trabalho:
166 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

nas m udanças superficiais e aparen-


• A expressão das atividades funcio-
nais primárias da edificação por temente estilísticas e dessem mais
meio de uma composição rica e hie- atenção a esses princípios condutores
que visivelmente tiveram influência
rárquica de geometrias formais.
• Incorporação de padrões coerentes cada vez mais coerente sobre o tra-
de circulação para oferecer rotas balho de Wilford, tanto com Stirling
e conexões claras dentro e fora da como posteriores.
edificação.
• Desenvolvimento de sequências
espaciais para reforçar os padrões 10.10 Simbólicas
de circulação e as atividades fun-
cionais. Em geral, para o ato de projetar, o movi-
• Articulação dos espaços dentro e mento modernista foi um período de
fora da edificação para melhorar o ênfase no aspecto formal em vez do
campo público. simbólico e, nesse sentido, pode ser
• Subordinação da estrutura e dos interpretado como outro ciclo da ten-
sistemas a objetivos formais e espa- dência histórica de alternância entre
ciais. períodos de formalismo e expressio-
• Uso de sólido e vazio, luz e sombra, nismo ou de classicismo e romantismo.
cor, textura, uma paleta limitada de Até os campos de projeto explicitamen-
materiais e paisagismo como apoio te expressivos e comunicativos, como
a objetivos formais e espaciais. a cenografia e o design gráfico, passa-
ram por períodos que podem ser con-
Essa pode ser considerada uma des- siderados austeros e até violentos. O
crição extraordinariamente clara de desenhista industrial Richard Seymour
um conjunto de princípios condutores, defende isso ao descrever a abordagem
centrado principalmente no desenvol- da Seymour/Powell, que tenta dar per- 41

vimento de restrições formais para


sonalidade" aos projetos:
organizar e exprimir as funções radi-
cais e a circulação de pessoas. Tam- Infelizmente, isso não se presta à
metodologia, embora muitos projetistas
bém há o desejo óbvio de relegar a um tentem. 1...] nas décadas de 1960 e 1970,
nível mais baixo as restrições práticas. a ideia era que, com a ergonomia certa, a
Em outro ponto do mesmo catálogo, moldagem certa, o material certo, a u:a-
bilidade e a função corretas, de um jeitO
Michael Wilford afirma que "a arquite-
misterioso isso se transformaria num bom
tura, como arte pragmática, não pode projeto.!...] mas não fazemos isso, começa-
tratar de estilos". Com o passar dos mos com o produto total.
anos, os críticos observaram que 0 tra- (Gardner, 1989)
balho de Stirling, primeiro com Gowan
As tipologias sem serifa ficararn
e depois com Wilford, passou por uma
populares e os cenários tornaram-se
série de fases. Talvez seria melhor se
indicativos em vez de tentar recriar
os críticos se concentrassem menos I 0
fielmente a cena. Richard Buckle, a
10 Princíp ios condutores 167

descrever a obra da famosa cenógra- sabia muito bem em que lugar a ação
fa sophie Fedorovitch, "acreditava em se passava, e suspeita-se que esse jogo
reduzir ao mínimo o cenário e os figu- de ver como pouco material puramente
rinos de um balé". No entanto, esse simbólico era necessário podia tornar-
minimalismo ainda tem uma tarefa -se altamente intelectual. Ainda assim,
simbólica a cumprir, e Buckle explica já aconteceu de haver vaias na ópera ou
que Fedorovitch conseguiu esse truque no balé quando, nesse jogo, um cenó-
no elogiado cenário de Nocturne: grafo vai além daquilo que a plateia
acha aceitável.
Ela usou apenas algumas colunas cobertas O desenhista industrial Richard
de cartazes, emoldurando um elemento
baixo do cenário e um pano d e fundo bem
Seymour fala do "fator X" na obra de
iluminado formando o céu, mas sabíamos Seymour/Powell:
que estávamos na Butte M ontmartre, com
Paris a d o rmir lá embaixo. Os figurinos dela O fator X de um produto é a sua perso-
costumavam ser fiapos d e cor sem nenhum nalidade essencial, o seu quociente de
padrão; às vezes, os cenários mal existiam. desejabilidade [...)Buscamos sempre essa
(Buckle, 1955) iconografia fugidia do p roduto, a ponte
psicológica entre o jeito que os consumi-
dores são e o jeito que os consumidores I
Do mesmo modo, no projeto final
para Veneziana, que só seria montado
gostariam de ser.
(Gardner, 1989)
II
postumamente, Fedorovitch manteve i
essa recusa quase teimosa de usar os Essa ideia de criar um produto com I
i
símbolos óbvios: "personalidade" para exprimir algumas
características do estilo de vida do pro-
Quantos projetistas resistiriam a suge~ir prietário é demonstrada por toda uma
o Salute, o Rialto, o Campanile ou Sao
Marcos um dos famosos marcos vene-
série de projetos de Seymour/Powell,
zianos?,Eia se contentou com um céu que inclusive a notável guitarra elétrica Bla-
se agigantava, vazio e trovejante, sobre ckhawk stutz, projetada ,e m 1986 e pen-
a lagu na, emoldurado por paredes .cor sada para 0 músico de rock, que se afasta
de rosa e treliças douradas. Os festeirOs
usavam amarelos, rosa e vermelhos ber-
radicalmente da forma tradicional ins-
rantes; havia um polichinelo de branco pirada pela necessidade de um~ caix_a
e uma tremend a cortesa- tragl
· ·ca usando
. de ressonância (Fig. 10.4). No destgn gra-
os No fmal,
vestes negras com I osang · fi.co, tudo precisa ser ainda mais direto:
quatro lanternas f oram t raz idas sobre.
. r mais romantt-
mastros. Nada po d ena se
~ em termos visuais e simbólicos que o
ca mente veneziano.
projetista concretiza, em últim~. an~lise, ~
sua percepção e as suas expenenctas, e e
Uma obra tao - coerente l. ·ndica com num mundo de símbolos que vive o ho-
. Fe d orovitch tinha mem. O símbolo, portanto, é a linguagem
clareza que Soph1e comum entre o artista e o espectador.
0
alguns princípios condutores sobre (Rand, 1970)
uso mínimo do material sim · bT0 lCo nos
especta-
projetos teatrais. É claro que 0 .
,
dor na plateia dos bales e d Fedorov1tch
GNERS PENSAM
168 COMO ARQUITETOS E OESI

Fig. 10.4
A guitarra elétrica
Blackhawk Stutz,
projetada por
Seymour/Powell, revela
0 músico de rock para o
qual foi pensada

No projeto arquitetônico, o simbóli- Conclusões


' .
· co é necessário de forma menos dire-
.~. ta do que no teatro e no design gráfico, Os projetistas não trabalham nem
: mas ainda assim é importante, de acor- pensam sob a restrição desse tipo de
'
do com alguns autores que avisaram camisa de força mental insinuada pela
do perigo de os arquitetos só darem análise neste capítulo, utilizada para
atenção às restrições formais: "A estru- mostrar a série d e influências sobre
tura espacial não é um fim em si mes- os princípios condutores. O arquiteto
ma, e só é pertinente se concretizar as malaio Ken Yeang atraiu atenção con-
consequências espaciais de uma perso- siderável para a sua abordagem da edi-
nalidade" (Norberg-Schultz, 1975). ficação nos países tropicais do sudeste
O grande filósofo Wittgenstein, que da Asia. O exame dos seus livros revela
se tornou uma espécie de aluno de os princípios condutores por trás desse
arquitetura pela amizade com Adolf corpo de trabalho coerente e cada vez
Loos, chegou ao ponto de insistir que maior. No doutorado em Cambridge,
essa era uma característica distintiva Ken investigou as questões ecológicas
essencial da arquitetura em relação à
envolvidas no projeto arquitetônico um
mera construção. Num caderno parti-
pouco antes de essas ideias entrarem
cular, ele escreveu:
na moda. Começou a ensinar e escre-
A arquitetura imortaliza e g lorifica algo. ver sobre essas ideias e iniciou a prá-
Daí, onde não há nada a glorificar não tica arquitetônica em Kuala Lumpur,
pode haver arquitetura [...] A arquitetura é
um gesto. Nem todo movimento proposi-
onde, inevitavelmente, contribuiu para
ta l do corpo humano é um gesto. E nem o horizonte cada vez mais vertical da
toda edificação projetada com um propó- cidade. Decidido a desenvolver uma
sito é arquitetura.
noção de identidade regional diante das
(Wilson, 1986)
ideias arquitetônicas ocidentais impor-
10 Princípios condutores 169

tadas sem reflexão, começou a estudar si m bT


o Icas e radicais, mas podem ser
as tradições locais de forma e constru- absorvidos por um conJunto
· abrangente
ção de edificações. Esse estudo 1evou-o de pr'mcipiOs
, · condutores com os quais
à conclusão
. de que uma das influenc1as
,., . \ 1 K_en Yeang projeta. Esses princípios são
~a1s fortes sobre_ a arquitetura tradi- \. tao bem definidos que agora ele os redi-
c10nal
. era a reaçao ao clima· 0 c11ma . I gi~ de forma bem explícita num tipo de
tropical quente e úmido do s u d este da · gma a ser usado pelos integrantes do
Asia levava a uma abordagem d o reves- seu escritório {Fig. 10.5). Depois de pro-
timento da edificação diferente daque- jetar muitos edifícios altos notáveis, Ken
la empregada nos climas mai·s nor , d'1cos Yeang conseguiu refinar e ampliar essas
da Europa e dos Estados Unidos: ideias o bastante para publicá-las em
forma de livro (Yeang, 1996).
O clima, visto do ponto de vista ge-
Aqui, mais uma vez, vemos como
ral da história humana e dos povoados
construídos, é o fator mais constante da esses princípios condutores se forma-
nossa paisagem, depois da estrutura ram depois de vários anos de projetos.
ge~l?gica básica. Embora as condições Claramente, é um processo de mão
poht1cas e socioeconômicas possam mu-
dupla. De um lado, os princípios con-
dar de forma quase irreconhecível num
período de, digamos, cem anos, assim dutores influenciam e determinam o :
como o gosto e a sensibilidade estética, o contexto mental de cada processo de
clima permanece mais ou menos imutável projeto. Do outro, cada problema de · ·
no seu curso cíclico.
projeto permite ao projetista aprender 1
(Yeang, 1994)
mais sobre os princípios condutores e i
1
exprimi-los com clareza ainda maior, •
Portanto, aqui vemos Ken Yeang
resultando finalmente em livros e \.
definir o seu interesse em arquitetura
aulas. Nesse sentido, projetar também J
ecológica e no clima dos trópicos e sua é um tipo de pesquisa: constitui um '·
preocupação em desenvolver novas método baseado na ação para progredir f
formas de arquitetura com expressão no conhecimento. No próximo capítulo, J
regional. Finalmente, ele combina isso veremos como são importantes esses
com o interesse por um tipo específico princípios condutores durante o pro-
de edificação: o arranha-céu comercial cesso de projeto e como eles funcionam
tão comum nos bairros centrais comer-
na prática.
ciais das cidades asiáticas. Esses interes-
ses, então, abrangem restrições práticas,
-..J
OBJETIVOS E PRINC[PIOS DO PROJETO o
Em geral, a posição do núcleo de Podem·se usar recessos profundos na parte Além de atender às intenções
Os edifícios altos estão expostos comerciais da edificação (p.ex.,
serviços é importantíssima no projeto de forma mais direta ao impacto mais quente para prover sombra. ()
do edifído multiandar. Além de ter
ramificações estruturais. a localização
da temperatura externa e da As janelas podem ser totalmente recuadas permitir situações de ocupação
única, dupla ou múltipla), a planta o
radiação de calor. Do mesmo • para se transformarem em sacadas ou em deve refletir o padrão de vida e ~
do núcleo de serviços pode afetar a
vista e o desempenho térmico da
modo, a orientação geral da
edificação tem inftuência
pequenos ·terraços· que podem servir,
de forma sinérgica, a várias funções, cultura do lugar e do dima. o
edificação e determina que partes das importante sobre a conservação além de prover sombra. Usar varandas em Em parte, isso envolve entender as )>
paredes periféricas terão vidraças e elevações quentes permite o uso de vidro modalidades espaciais das pessoas, ;::Q
de energia em geral. Dispor a ,
aberturas. A posição do núdeo pode edificação com as aberturas transparente com altura total.
terreno/
o modo como trabalham, o modo
como a cultura organiza privacidade
o
c
ser classificada em três tipos: o • núcleo principais e maiores para o norte
central", o ·núcleo duplo· e o • núcleo e para o sul traz mais vantagens Estas podem ser painéis deslizantes edificação/ e comunidade. Isso pode se refletir -i
para dar acesso ao espaço das varandas. solários na configuração da planta, na sua m
único •. Nos trópicos. os núcleos
deveriam localizar-se de preferência
nos lados q.uentes da edificação, ou
seja, o leste e o oeste. t evidente que
na redução da insolação do
edifício (e no uso do
ar-<ondicionado). Ê comum que
a geometria do terreno não
Estas podem servir de local de evacuação
em emergências. como grandes terraços
para plantas e paisagismo, como zona
profundidade, na posição e na
configuração de entradas e saídas.
nos meios de movimentação pelos
plantai
padrão de uso/
a
V1
espaços e entre eles. na orientação ventilação m
o núdeo duplo traz muitos beneficios. coincida com a geometria flexível para a instalação futura de
Ao colocar cada núcleo nas laterais, norte-sul do sol. Nesse caso, • banheiros ou cozinhas. e na vista externa como
interpretadas na planta etc.
om
eles formam zonas de proteção e os outros elementos construidos l.n
isolamento para o espaço interno podem, se for mais prático para Grandes espaços de transição em andares Ao mesmo tempo, a planta também
dos andares. Estudos mostraram que a planta, seguir a geometria elevados podem ser usados nas partes deve refletir o movimento do ar pelos C)
se consegue uma carga mínima de do terreno (p.ex., para central e periférica da edificação como atrios espaços e permitir que a luz do sol ~
ar condicionado com a configuração otimizar o estacionamento lateral/ajustes e espaços de ventilação. Eles servem como entre na edificação. O espaço de m
em núdeo duplo, na qual as janelas no subsolo etc.). Em geral. as da edificação zonas intermediárias localízadas entre o trabalho, mesmo numa estrutura :o
comercial de vários andares. precisa V'l
se abrem na orientação norte e sul janelas do andar devem abrir na interior e o exterior da edificação.
e os núcleos são colocados nos lados
leste e oeste. Isso também se aplica
direção de menor insolação
direta (ou seja. norte·sul nos
Podem ser projetados para funcionar de
espa~o~ de
forma semelhante à varanda tradicional dos trans1çao
de certo grau de humanidade,
interesse e escala. Por exemplo, ""'mz
a edificações na zona climática trópicos). Alguns ajustes ou antigos postos comerciais ou das casas de grandes terraços e salários podem (/)
temperada. configurações de sombreamento alvenaria tropicais do início do século XIX. servir como espaços comunitários )>
nos cantos podem ser feitos em Os átrios não devem ser totalmente ou como espaços de ventilação na 3:
terrenos que ficam mais para o fechados e devem localizar-se nesse espaço parte superior da edificação alta.
O saguão dos elevadores, as intermediário entre o interior e o exterior. varandas
norte ou para o sul dos trópicos, e terraços
escadarias e a área dos banheiros ou em plantas que divergem do Oalto pode ser protegido por uma cobertura
precisam de ventílação natural e uma caminho do sol. Em geral, em forma de shed para estimular o fluxo de Nos trópicos, é preferível que o andar
vista ao exterior. quando possível. Isso as janelas devem abrir na ar pelas áreas internas da edificação. Eles térreo se abra para o exterior e seja
significa que devem ser colocados na orientação norte-sul, a menos também podem ser projetados para um espaço de ventilação natural.
periferia do espaço útil do andar, e não que vistas importantes exijam cortina-de vidro promover e controlar a ventilação natural A relação entre a rua e o andar
na posição central. A localização outra orientação. Se necessário, ena.s sul
faces norte nas partes internas. térreo também é importante.
periférica externa dessa.s partes da por razão estética, pode·se usar O uso do átrio interior internalizado
edificação resulta em economia de uma cortina de vidro nessas As paredes externa.s da edificação devem no andar térreo pode significar a
energia, já que não exigirá ventilação fachadas que não dão para ser consideradas uma membrana permeável morte da vida da rua. Edificações
rnednica e reduzirá a iluminação vista do saguão o sol. Nas outras faces da e interativa com o ambiente, com aberturas como fortalezas, em centro de
artificial, além de eliminar a edificação, é necessário haver ajustáveis (em vez de uma pele hermética). terreno, tendem a separar a
necessidade de dutos adicionais de alguma forma de sombreamento, Em dima temperado, é claro que a parede edificação da calçada e a alienar a
pressurização mecAnica para fins de levando também em conta a externa tem de atender aos invernos muito
combate a incMclios. Esteticamente, rua ainda mais. Por serem recuadas,
qualidade da luz que penetra no frios e aos verões quentes. Em cada caso, a eliminam o movimento de pedestres
ao colocá-las na periferia, elas espaço. Nas zonas temperadas, parede externa deve ser como um filtro e
recebem iluminação natural e têm parede e reduzem a comunicação e o andar térreo
esse espaço de transição pode ter partes variáveis que permitam bom interativa movimento entre edificações, aberto
vista para o exterior, o que não seria ter vidraças ajustáveis na face isolamento no período frio e que possam se com o
possivel com a posição central. Dessa tráfego e pontos de acesso.
externa, a fim de que varandas abrir na estação mais quente. Já nos trópicos, ambiente As edificações em centro de terreno
maneira, o usuário da edificação que ou recessos possam servir de salários recuados a parede externa deve ter partes móveis que se isolam quando o terreno é isolado
sai do eleYador no andar mais alto
pode ver o exterior e ter consciª"cia
~~A
~~
· ·
"salário" para armazenar
positivamente o calor do sol,
controlem e permitam a boa ventilação
cruzada para aumentar o conforto interno, a
como uma ilha.
do lugar (em vez de entrar num ' como em estufas, áreas de proteção contra o sol e o controle da chuva
~ com luz anlficial, que poderia ._ d conservação de calor etc. de vento, além de facilitar o escoamento
fitar em~ lugar do mundo). consaencia o 1ugar rápido das pancadas de chuva forte.
Rg. 10.5
"\guns pr\ndp\os de Ken l'eang para proietar edifícios multia ndares tropicais e ecologicamente corretos
'
~
~·r

11
_Estratégias para projetar

O ato de tomar uma decisão ar . • .


sua mística quando se 'd quJtetonJca talvez possa ser despido da
. consJ era que um co . t d
to ma1s viável result a e _ nJun o e operações mui-
m a 1go - nao um estil
mas um agregado indefinido de o - o, sequer uma disciplina,
adequadas e deram . _ peraçoes que foram inteligentes e
a uma Sltuaçao a sua quarta dimensão.
Peter Cook, Architecture Action and Plan

Eu seria o voyeur de mim mesmo Essa est t . . .


rest d . ra egJa, empregue' pelo
o . o meu cativeiro. Permiti-me fazer, ser, dizer, pensar, sentir todas I
as co1sas que estavam em mim I
' mas, ao mesmo tempo, p odia ficar de
f ora, observando e tentando entender. i
1I
Brian Keenan, An Evi/ Cradling •

11.1 Teoria e prática

No último capítulo, vimos que é comum os projetistas mante-


rem um conjunto de princípios condutores durante toda a vida
profissional. Com muita frequência, essa bagagem intelectual é
montada durante a carreira, e cada projeto contribui de algum
modo para ela. Vimos alguns exemplos de conjuntos de prin-
cípios condutores e seria possível apresentar muitos outros. A
intenção foi apenas indicar que, para encontrar variações con-
sideráveis da abordagem do processo, não é necessário incluir
ideias revolucionárias ou marginais sobre projetar. Espera-se
que isso sirva de contrapeso para a parte inicial do livro, em que
a ênfase recaiu sobre os textos mais teóricos dos metodologistas
de projeto. Se desejamos obter alguma noção real da complexi-
d ade do processo de projeto, temos de estudar não só o que os
teóricos dizem, mas também o que os profissionais fazem.
os primeiros anos do movimento da metodologia de projeto
foram caracterizados pela tendência a procurar características
comuns no processo de projeto ou, pelo menos, a classificar as
172 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

estratégias utilizadas para projetar. No empíricos que mostram que os proje-


inicio deste livro, examinamos alguns tistas usam o que poderíamos chamar
mapeamentos do processo de projeto de estratégias centradas na solução, e
que, supostamente, seriam adotados não em problemas. Ou seja, dão mais
por todos os projetistas. Os profissio- ênfase em chegar à solução do que em
nais mostram uma realidade bem dife- entender o problema. Talvez agora o
rente. Eles falam bem menos de rotas nosso exame da natureza dos proble-
claramente definidas do que dos seus mas e das soluções dos projetos mostre
interesses, abordagens e estratégias que isso é mais lógico do que parece.
individuais. O nosso e~tudo anterior Vimos que os problemas de projeto não
de alguns mapeamentos do processo podem ser formulados de forma abran-
de projeto mostrou que, embora mui- gente e que as soluções não podem ser
tos deles pareçam bastante lógicos, logicamente derivadas deles. No entan·
nenhum era realmente tão útil assim. to, a maioria dos problemas de projeto
Os textos dos praticantes confirmam a também é complexa demais para que
opinião de que não há uma rota única o projetista tenha todos os fatores em
pelo processo de projeto, mas muitas. No mente ao mesmo tempo. Então, por
entanto, não basta confiar inteiramente onde os projetistas começam e que tipo
no modo como os projetistas descrevem de estratégia empregam para avançar?
o que fazem. Se conseguíssemos descre-
ver com exatidão o que nos passa pela
cabeça quando projetamos, não haveria
11.3 Programa
necessidade de livros como este!
Em geral, o projeto começa com um
programa de necessidades (brief) que,
11.2 Comece pelo começo
como se pode imaginar, o projetista
recebe do cliente. Contudo, como os
Sabemos que o processo se inicia
problemas de projeto não podem ser
com algum tipo de problema e termi-
descritos de forma abrangente, isso
na com algum tipo de solução, mas
n~s leva a perguntar o que está e o que
como os projetistas vão do primeiro ao
nao. est'a no programa! A resposta pode
segundo? Examinamos os mapeamen-
tos do processo de projeto e, em geral vanar consideravelmente. O programa
os consideramos insuficientes , J'a' que' pode ser bastante completo em uma
_ concorrenc1a
~ · de projetos. Por exemplo,
nunca sao exatos nem úteis. Assim
como exatamente os projetistas come-' em concorrências arquitetônicas, pode
çam a trabalhar? haver um terreno. um resumo das aco-
. Sabemos que raramente, para não modações necessárias e um conjunto
deexigê nc1as,
· tudo redigido de manerra·
d1zer_ nunca, . os problemas de p rO)e-
.
to sao descntos por inteiro no 1.niClO
, . bem explícita. Isso é necessário no caso
do processo. Também vimos I·nd'lCIOS. de concorrências, em que o projetista
provavelmente tem pouco ou nenhUJll
.,

11 E5t rat eglas


· · para projetar 173

contato com o cliente antes de 1·n sere-


Com 0 passar dos anos, descobrimos que
ver-se. Em um processo de projeto mais 0 programa ideal provavelmente só tem

normal, a nossa pergunta não é tão fácil uma ou


. d uas pag1nas,
· · mesmo no proje-
assim de responder. Uma reclamação to mats complexo. Muitos clientes acham
que têm de produzir algo com cinco centí-
comum dos projetistas é que os clientes metros de grossura antes que o arquiteto
não os envolvem suficientemente ce do
~
possa pôr a caneta no papel. Preferimos
no do outro jeito; preferimos o mínimo pos-
- processo.
_ Talvez os clientes ach em
sível de informações para que possamos
que precisam de uma definição clara entender o todo e, aos poucos, aprimorá-
~o _problema antes de contratar 0 pro- -lo depois com detalhes.
(Lawson, 1994b)
Jetista, mas não é assim. Em um estudo
com arquitetos e clientes, .a maioria dos
~g._:litetos argumentou que -preferia se 11.4 Estudos de registros
enyolv~! _n~_pr5'j~to-desde o princípio
(Lawson; Pilling, 1996). Para descobrir como o processo de pro-
Alguns clientes têm experiência no jeto realmente começa a desenvolver
assunto e podem até atuar profissional- o programa e a formular uma solução,
mente no cargo. Cada vez mais, gran- precisamos recorrer a alguns dos mui-
des clientes de edificações pedem aos tos estudos de registros do processo
seus arquitetos que ajudem a desenvol- de projeto. Esses registros foram feitos
ver o programa arquitetônico que, mais em condições bastante variadas, mas
tarde, será entregue a arquitetos bem todos têm em comum um ambiente
diferentes. No entanto muitos clien- bem mais controlado do que normal-
' mente se costuma encontrar nos escri-
t~~__projetos têm p<;>_!,lca ~xperiência
em pr~arar_ programas. Eva ]iricna, tórios. O processo estudado costuma
ter duração bastante curta, medida em
arquiteta e designer de interiores, conta
poucas horas, e muitas vezes se encerra
que, na sua experiência, "nunca, nunca
em uma única sessão. É claro que essas
mesmo recebemos do cliente um pro-
condições são artificialíssimas, e deve-
grama com o qual pudéssemos come-
mos ter cuidado na hora de analisar as
çar logo a trabalhar" (Lawson, 1994b).
descobertas desses estudos.
Isso pode parecer problemático para
Não surpreende que a maioria
os projetistas, mas, quando interroga-
das estratégias para projetar come-
dos, a maioria deles fica bem contente
d e receber programas bem sucmtos. . I
ce com um breve exame do problema
como ele se apresenta inicialmente. No
O arquiteto malaio Ken Yeang prefe-
entanto, também é comum verificar
re até começar com o que poderíamos que os elementos das soluções, mais
chamar de "declaração de intenções", do gue os problemas, começam a sur-
com apenas algumas frases (Lawson, gir bem noinício do processo. Em um
l994b). A opinião de Michael Wilford desses estudos mais antigos, pediu-se
ao descrever o seu trabalho com ]ames aos participantes que projetassem um
Stirling é a mesma de muitos arquite- novo banheiro, e, invariavelmente, eles
tos e projetistas:
174 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

apropriada a atividade real de projetar


começaram a desenhar soluções quase
(Lloyd et al., 1995). Portanto, ha.via aqui
na mesma hora (Eastman, 1970). Uma
material suficiente para publicar um
técnica experimental utilizada para
livro maior do que este sobre apenas
externalizar e revelar o pensamento ao . . I
projetar é usar grupos de participantes dois registros de proJetos.
e gravar as suas conversas. Um desses
estudos de alunos de arquitetura que
projetavam uma creche foi gravado em 11.5 Estratégias
vídeo e, depois, as palavras e as ações heurísticas
foram analisadas. Nesses registros,
raramente os participantes demoravam o exame dos registros feitos nessas
a utilizar expressões como "isso sugere" sessões de projetos atentamente obser-
ou "podíamos tentar". Aqui se verificou vadas revela que a maioria dos projetis-
que aspectos diferentes do problema tas adota estratégias de natureza heu-
eram examinados para descobrir o que rística. A essência dessa abordagem
sugeririam em termos de ideias de solu- é, ao mesmo tempo, ser educacional
ção, em vez de serem analisados como e buscar uma solução. As estratégias
problemas (Agabani, 1980). heurísticas não se baseiam muito no_?
Há muitas maneiras de analisar os primeiros princípios teóricos, mas !!_a
dados desses registros do processo de experiência e em macetes.
projeto. Uma contribuição notável para Para ilustrar esse princípio, vamos
o tema veio de uma conferência em examinar dois métodos de dimensionar
que todos os participantes analisaram as vigas de madeira do piso. No primei-
os mesmos dois registros de projetos ro método teórico, os cálculos são reali-
gravados em vídeo. Ambos eram pro- zados usando a elasticidade e a tensão
blemas de desenho industrial, em um de compressão e de flexão da madeira,
dos casos proposto a um indivíduo a já conhecidas. Os cálculos revelam a
quem pediram que pensasse em voz espessura necessária para a madeira
alta e, no outro, a um grupo {Cross et não se deformar mais ·d o que 0,003 do
al., 1996). Alguns pesquisadores tenta- vão e não levar a tensão de flexão e de
ram decompor o processo em sequên- cisalhamento a exceder o nível permi-
cias, outros buscaram classificar os tido. Os cálculos baseiam-se em teorias
tipos de atividade cognitiva que acha- comprovadas de mecânica estrutural
ram ter desvendado. Outros ainda ten- e seriam realizados por engenheiros
taram vincular os eventos do caminho estruturais, sendo necessários para a
rumo à solução a fases do pensamento, aprovação pelo órgão responsável de
enquanto mais alguns se concentra& fiscalização de edificações. A alternativa
ram no estilo cognitivo dos projetistas. a esse procedimento exato, mas traba-
Finalmente, os pesquisadores se con- lhoso é usar o nosso segundo método,
centraram na inadequação dos próprios o heurístico ou do macete. Há muitas
registros para representar de forma regras possíveis, como "para cada rneio
l
..ft
11 Estratégias para projetar 175

metro de vão de vigas de madeira com


a abordagem de três grupos de alunos
largura de 50 mm e espaçamento de
de arquitetura em um concurso para
400 mm, a altura da viga corresponde a
projetar um grande prédio de escritó-
25 mm". Esse método não é nada preciso,
rios para um órgão municipal. Depois
mas o resultado nunca ficará muito fora
de um período de trabalho bastante
dos conformes. No entanto, o método
curto, os grupos apresentaram as suas
não apenas vai diretamente à solução, ideias e pensamentos até então. Aqui,
como é educacional, no sentido de iden- portanto, em vez de trabalhar com
tificar claramente a relação fundamen- registros e relatórios, podemos anali-
tal entre espessura e extensão da viga. o sar as apresentações feitas pelos alu-
macete também é muito mais prático, já nos de projeto em uma das primeiras
que a madeira não vem com uma varie- sessões de críticas intermediárias com
dade infinita de espessuras e, em geral, os professores.
é vendida em múltiplos de 25 mm. O primeiro grupo começou expli-
Esse macete é um bom modelo da cando que achavam que os fatores
estratégia heurística tão empregada fundamentais eram as exigências
pelos projetistas. Uma ideia geral é rapi- ambientais do espaço dos escritórios
damente desenvolvida para os elemen- (Fig. 11.1). Fizeram uma revisão de toda
tos mais importantes da solução, que a literatura que conseguiram encon-
depois, se necessário, podem ser confe- trar sobre espaço de escritórios e che-
ridos por meio de métodos mais preci- garam ao esboço de projeto de uma
sos e ajustados. Essas regras, a exemplo "baia típica", mostrando os sistemas
daquelas que relacionam espessura e estrutural e de serviços para dar abri-
vão, resolvem claramente o aspecto go, energia, conforto e luz e, ao mes-
fundamental do problema de calcular mo tempo, mantendo o espaço do piso
o tamanho das vigas. No entanto, em relativamente ininterrupto para dar
situações mais complexas de projeto, flexibilidade à disposição dos móveis.
não é tão fácil assim decidir o que é Eles acharam que a edificação poderia
ser montada reproduzindo essas baias
fundamental. Na verdade, o mais pro-
como desejado e conforme o terreno
vável é que o importante ou fundamen ~
· ·- ,AqUI permitisse.
tal seja uma questão de op1n1ao. .
Por sua vez, o segundo grupo par-
os projetistas precisam de estrategms
tiu da opinião de que o espaço propria-
heurísticas bem mais sofisticadas.
mente dito do escritório não era difícil
de projetar e concentrou a sua atenção
em algumas características bastante
11.6 Três fases iniciais
incomuns do terreno (Fig. 11.2). O ter-
do trabalho com 0
re no , um estacionamento no subúr-
mesmo problema . ficava entre duas avenidas radiais
b10,
importantes, ligadas por um caminho
Para ver como isso realment e funciona para pedestres. Esse grupo notou que
, .
n a pratica, cons1'd eremos brevemente
176 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

tres e, assim, levava o público geral a


o programa do concurso insistia na
atravessar o prédio. Junto com a intro-
importância de não apresentar uma
dução de árvores, a inclinação do ter-
imagem remota ou hostil aos contri-
reno voltada para o sul e considerações
buintes de impostos. Eles decidiram
sobre a proteção contra o barulho das
construir o prédio de escritórios em
ruas movimentadas, o segundo grupo
torno de uma passarela coberta que
seguia a linha do caminho de pedes- conseguiu desenvolver propostas de

li li li
...... Os pilares ficam aqui
"-...
' Principais dutos de serviço

= rs_ Aqui podem ser


f ixadas divisórias

-- ---
=
~ Tomadas elétricas
podem ficar aqui

=
l Grade de fixação

Fig. 11.1
Um grupo de alunos
li li li apresenta o trabalho
inicial no projeto de um
Grade estrutural prédio de escritórios

____ ,....,.
--- --- - ----------

Boa vista -----1


Rua principal ~
barulhenta Rua
Declive \
O do terreno
secundária

ocor\sta ih
NORTE
Fig. 11.2
O segundo grupo
parece concentrar-se
em problemas bern
diferentes
I
t implantação e distribuição de massas
11 Estratégias para projetar

e, sem dúvida, não é possível consi-


177

I da edificação. Eles explicaram que a derar nenhuma delas certa ou errada.


fase seguinte seria encaixar os vários Embora, à primeira vista, essas três
departamentos dentro do prédio, ajus- abordagens pareçam bem diferentes,
tando o envoltório quando necessário. na verdade elas têm em comum basi-
o terceiro grupo concentrou-se camente a mesma estratégia geral. Em
mais nos visitantes do que apenas cada caso, um grupo de subelementos
. nos habitantes regulares da edificação do problema geral foi reunido e elevado
~' (Fig. 11.3). Esse grupo estava preocu- ao papel de gerador da forma.
pado em evitar as falhas que conside- O que diferencia as três é simples-
ravam comuns nesse tipo de prédio, mente o tipo de restrição usada nesse
isto é, grandes fachadas inescrutáveis papel central. O primeiro e o último
com interior estruturado de forma pou- grupos concentraram-se no modo de
co clara, no qual é fácil se perder. Para organizar a edificação e escolheram
eles, a estrutura da organização como restrições internas, enquanto o segun-
um todo foi o estímulo para construir a do grupo examinou as restrições exter- J
forma. Todas as seções e departamen- nas impostas pelo terreno. O primeiro
tos seriam claramente articulados com e o segundo grupos examinaram as
o uso de uma hierarquia de espaços restrições geradas por dois tipos de
abertos ligados a um pátio de entrada usuário, o funcionário e o contribuinte
I . central por rotas bem definidas. local. O primeiro grupo deu prioridade
É difícil decidir se alguma dessas ao controle eficiente das condições de
abordagens é melhor do que as outras trabalho e, portanto, reconheceu prin-

Espaço para funcionários do escritório

D
I
o
Átrio de entrada
D principal com
instalações
D
L[
comunitárias
Df
i[f]
o
~ Áreas de espera
e de entrevista
o para cada
departamento
Fig. 11.3
Saguão de cada divisão O terceiro grupo
administrativa com circulação aumenta a variedade de
vertical no átrio abordagens possíveis
,.

178 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

exige bom senso e alguma experiência


cipalmente as restrições radicais. Por I

e todos os alunos demonstravam capa-


sua vez, o segundo grupo achou que a
cidade crescente de avaliação desses
qualidade do lugar era mais importan-
te e deu mais importância às restrições problemas.
simbólicas. O terceiro grupo, ao ser o que for usado como gerador primá-
interrogado, não viu conflito entre elas rio provavelmente também vai variar I

e achou que a expressão física do órgão até certo ponto, de acordo com os vários
obtida na sua edificação, além de per- campos e problemas de projeto. Mario
mitir que o contribuinte se identificas- Bellini, o projetista da máquina de escre-
se melhor com ela, também dava aos ver portátil de esfera da Olivetti enfatiza
1

funcionários uma noção de identidade a diferença, nesse aspecto, entre proje-


e de fazer parte do todo, criando assim tar artefatos estáticos, como o mobiliá-
um bom ambiente social de trabalho. rio, e aparelhos mecânicos ou elétricos
(Bellini, 1977). É óbvio que o desenhista
industrial tem de aprender a adaptar o
11.7 O gerador primário processo de projeto à situação.
No capítulo anterior, vimos que os
Vimos que a variedade de possibili- projetistas desenvolvem os seus con-
dades pode restringir-se quando ini- juntos de princípios condutores e que
cialmente se concentra a atenção em esses conjuntos costumam indicar o
uma seleção limitada de restrições e se gerador primário de qualquer proje-
~v~nça rapidamente rumo a algumas
to. Assim, é provável que o arquiteto
Ideias de solução. Em essência, essa é
e engenheiro Santiago Calatrava, com
a ideia do "gerador prima' ri'o" que apre-
o seu princípio condutor de equilí-
sentamos no Cap. 3, mas de onde ele
brio dinâmico, use restrições práticas
vem e como funciona?
relativas à estrutura da edificação. No
Obviamente, é muito desejável que
entanto, ele mesmo observou que isso
o gerador primário envolva questões
que possam ser centrais ou de . . não basta, e que são as restrições exter-
ClSIVas
no problema. No entanto, o central nas locais e altamente específicas que
d · · eo muitas vezes o ajudam a criar formas:
ecisivo podem ser coisas bem d. ç
heren-
tes, como veremos. Os aluno d . "~ão consigo mais projetar apenas urn
s e arqui-
tetura que projetavam a edifica - Pilar ou um arco; preciso de um proble-
u , - çao de
m orgao administrativo mu . . ma bem definido, preciso de um lugar"
usaram vários geradores l' dnlcip,al (Lawson, 1994b).
funç - d' . , Iga os as
oes ra Icais as rest . - Para o projetista experiente, por-
- . ' nçoes de
anos e às restr· - usu- tanto, os princípios condutores, quan·
Içoes extern d
rena. Portanto . . as o ter- do comparados às restrições externas
' a pnme1ra f; ,
de geradores prim, . , onte obvia locais • pod em geralmente cnar
· materia!
anos e 0 ,
para a coletânea de questões que ger~rn
problema. Encont proprio
rar as que t-
maior probabilid s oes com
ade de serem h , . primariamente a forma da solu.ç~o~
a~1cas 0 projetista usa essa tentativa inlcH~

11 Estratégias para projetar 179

de solução para provocar aos poucos fundo com uma abertura cercada pela
outras considerações, talvez de nature- insinuação de uma arquitrave clássica.
za mais secundária ou periférica. Com todo o poderio técnico e finan-
ceiro da Royal Opera atrás de si, Mil-
ler escolheu essa mensagem simples
11.8 A ideia central e coerente que transmitia com eficácia
a sua interpretação de "demonstrar a
Muitas vezes, porém, esses geradores realidade sem representá-la servilmen-
primários fazem muito mais do que te". Sem dúvida, foi a determinação
simplesmente dar a partida no pro- com que resistiu a todas as tentações
cesso de projeto. t comum que o bom de afastar-se dessa única ideia simples
projeto pareça ter apenas algumas que tornou a sua produção tão memo-
poucas ideias dominantes principais rável em termos visuais.
que estruturam o plano e em torno O desenhista industrial ]ames
das quais organizam-se as considera- Dyson é famoso por vários produtos
ções secundárias. Às vezes, elas podem domésticos inovadores e, talvez, mais
requzir-se a uma única ideia principal ainda pelo revolucionário "Ballbar-
que recebe muitos nomes, mas que é row". Dyson tinha experiência com o
chamada com mais frequência de "con- uso de carrinhos de mão tradicionais
ceito" ou "partido". e sabia que, com frequência, atolavam
Em 1994, ]onathan Miller estreou no no chão enlameado do jardim (Fig.
Covent Garden como dir,e tor de ópera, 11.4). Ele transferiu de alguma experi-
tendo também projetado o cenário. No ência anterior a ideia de usar uma roda
programa, ele escreveu que "a artificia- esférica e adaptou a forma do corpo
lidade formal da obra faz parte do seu do carrinho para facilitar a mistura de
mecanismo essencial, pois demons- cimento e para verter melhor o conteú-
tra a realidade sem representá-la ser- do. Como diz Roy (1993), em todo o
vilmente. t uma discussão, não um processo de projeto havia "uma ideia
relatório; um epigrama, não um memo- geradora essencial [...] uma roda em
rando". A sua produção de Cosi fan tut- forma de bola". Roy documenta esse e
te foi ambientada na época moderna e outros casos em que o processo de pro-
utilizava figurinos criados com exclu- jeto como um todo é impelido por uma
sividade por Giorgio Armani. O público ideia única e relativamente simples,
está bem acostumado com a paleta res- mas revolucionária.
trita de Armani, que usa tecidos mono- Outro exemplo extraordinário é
cromáticos de textura macia e cores citado por Nigel e Anita Cross em um
em geral limitadas a castanhos, beges estudo fascinante sobre Gordon Mur-
e marrons. Essa ideia simples foi leva- ray, o bem-sucedido projetista de car-
da para as cores e texturas do cenário, ros de corrida. Foi Murray, quando
arrumado com bastante simplicidade, trabalhava com a equipe de Fórmula
Um da Brabham, que teve a ideia das

..
no qual havia uma grande parede de
180 COMO A RQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

outro de aquecer os novos pneus até a


temperatura da corrida antes de insta-
lá-los. Ambas as práticas tornaram-se
comuns e bem aceitas.
Esses exemplos de campos de pro-
jeto muito diferentes são modelos óti-
mos do processo criativo estudado no
Cap. g: um instante de inspiração que
leva a uma grande ideia central ou fun-
damental combinado a determinação
tenaz e obsessão singular. A descrição
que Gordon Murray faz do prazer que
tem com 0 seu trabalho revela o pro-
cesso:
Isso é que é fantástico no projeto de carros
de corrida, porque, mesmo que a gente
tenha a grande ideia - a coisa da "lâm~a­
da acesa", que é divertida -, a verdad~l.ra
diversão, na verdade, é pegar essas COisas
separadas que nunca foram feitas e na
Fig . 11.4 mesma hora tentar pensar em um jeito de
De acordo com Robin Roy, James Dyson projetá-las. E não só pensar em um jeito
criou o seu revolucionário "Ballbarrow" de fazer, mas desenhar as partes, mandar
trabalhando com uma "ideia geradora
fazer e testar.
essencial" durante todo o processo de
(Cross, 1996b)
projetar

paradas para reabastecimento no pit Essa ideia geradora central pode


stop adotadas por todos os concorren- tornar-se importantíssima para o pro-
tes. Murray explica que pensava logi- jetista, para quem às vezes ela se torna
camente em tornar o carro mais leve uma meta inatingível. É típico que 05
para que ficasse mais rápido. A ideia de projetistas se dediquem à "ideia cen·
correr com o tanque meio vazio passou · to
trai" e trabalhem por ela. O arqulte
a ser a força motriz básica atrás de um Ian Ritchie explica a importância disso
imenso programa de desenvolvimen- no processo como um todo:
to. Naquela época, os pit stops só eram
· uficien·
usados em emergências e para trocar Se não houver poder e energia 5 d de a
pneus. Murray calculou o ganho de tes nesse conceito gerador, na ver :uito
gente não vai produzir um resultado . 00
tempo obtido com a carga mais leve e bom, porque há esses tres ano
A s rna1s
e0
o tempo máximo que se poderia dedi- 1 frente
menos de trabalho duro pe ~ . de dos
car ao reabastecimento sem perder a único sustento, além da cordlalt~da. que
. d d saI ela,e nos
envolvidos, é a qualtda e es .
vantagem. A partir daí, veio a neces- , .d E , a co1sa qu
e a nossa com1 a. ssa e da vez
sidade de projetar um modo de injetar alimenta, que nos mantem.
, Sabe to
_ ' uenta
· nao ag
o combustível muito mais depressa e que a gente se chate1a ou
11 Estratégias para projetar 181

mais ou seja o que for, podemos voltar e


tomar uma injeção da ideia, e a força dela
é fundamental. Ela tem de transmitir uma
quantidade enorme de energia.
(lawson, 1994b)

Assim como a dedicação à ideia


parece "alimentar" o projetista, como
explica Ritchie, a sua busca, antes de
mais nada, pode fazer o mesmo. A ideia
central nem sempre aparece com faci-
lidade e a procura pode ser bem demo-
rada. O arquiteto Rich ard MacCormac Fig. 11.5
descreve essa busca: A capela de Richard MacCormac no
Fitzwilliam College, em Cambridge,
mostrada em corte com o espaço de culto
Esse não é um modo sensato de ganhar a no primeiro andar
vida, é completamente insano. Tem de a-
ver aque a gYande coisa ·que·a gente confia
que vai encontrar, a gente não sabe o que
é, mas fica procurando e não desiste.
(l awson, 1994b)

A ideia central nem sempre é


entendida na hora que começa a sur-
gir. Richard MacCormac descreveu isso
no desenvolvimento do projeto da sua
elogiada capela do· Fitzwilliam College,
em Cambridge (Fig. 11.5). Bem no iní-
cio do processo de projeto, adotou-se
a ideia de qu~ o espaço de culto seria
um objeto redondo no primeiro andar,
contido num envoltório quadrado: "Em
\
algum estágio a coisa ficou redonda.
Não consigo lembrar direito como foi".
( ~~ 1
Finalmente, o andar superior come- \. . . .
-~-~
çou a flutuar, solto da estrutura que '\
0 sustentava. No entanto, só quando '" ' I

se pensava em problemas detalhados,


como a solução do corrimão do balcão
~ da escadaria, é que a equipe do pro-
Fig. 11.6
Jeto finalmente entendeu a ideia e dei- Dois esboços de Richard MacCormac
xou explícita a noção de que o espaço enquanto estudava a ideia do espaço de culto
da congregação era uma "embarcaçao - , como " embarcação"

.........
182 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

(Fig. 11.6). Essa ideia, então, avança- mente radical, isto é, foram conside-
ria até configurar o detalhamento das rações sobre o propósito primário do
junções construtivas que articulam o objeto projetado. Os grupos de alunos
andar superior como se fosse um barco de arquitetura que projetavam um pré-
flutuante (Fig. 11.7). Richard MacCor- dio administrativo municipal concen-
mac defendeu, de forma convincente, traram a atenção em oferecer comuni-
que seria muito improvável que essa cação interna e condições de trabalho
característica do projeto surgisse caso satisfatórias. Em geral, parece haver
os projetistas tivessem mudado entre três fontes principais de geradores pri-
os estágios de delineamento e de deta- mários ou ideias centrais do projeto.
lhamento do projeto, como é comum ·Em primeiro lugar, e de modo bastante
acontecer hoje em alguns métodos de óbvio, como vimos, o próprio progra-
contratação de edificações. ma, em termos das restrições radicais
envolvidas. Em segundo lugar, é sensa-
to esperar que toda restrição externa
11.9 Fontes de mais importante tenha impacto signifi-
geradores primários cativo sobre o pensamento do projetis-
ta. O projeto da Ponte Severins sobre o
Nos exemplos examinados até aqui, a Reno, em Colônia, ilustrado no Cap. 6, é
função dessas restrições foi principal- um ótimo exemplo de ideia central de

Fig. 11.7
O espaço de culto mostrando
a influência da ideia da
"embarcação" na escolha
dos materiais e nos detalhes
das junções
--
11 Estratégias para projetar 183

projeto que surge das restrições exter- elas apenas se organizam em torno das
nas. Em terceiro lugar, podemos esperar ideias geradoras primárias. Howell des-
que os projetistas tragam para o projeto creve exatamente um processo desses
específico o seu programa contínuo ou com as próprias palavras:
"princípios condutores" (ver Cap. 10}.
Aqui isso merece mais exemplos. Ouando pensamos na economia estrutural,
na relação entre as divisões internas e as
Como vimos no capítulo anterior,
vigas salientes no piso, na relação entre re -
muitos arquitetos têm alguns princí- vestimento e estrutura, e assim por diante,
pios condutores baseados em restri- tomamos decisões que afetam a relação
da anatomia da edificação com o local e
ções práticas. Uma área especialmente
com os vizinhos.
popular no movimento modernista era
{Howell, 1970)
a da estrutura, e a noção de "honesti-
dade estrutural" constituía uma parte É claro que essa estratégia não é
importante dos princípios condutores "certa" nem "errada". Ela simplesmente
de muitos arquitetos. Bill Howell (1970) funcionou para esse projetista especí-.
explicou que, na sua prática na Howell, fico e criou um certo tipo de arquite-
Killick, Partridge & Amis, foi desenvol- tura que foi muito admirada (Fig. 11.9).
vida uma filosofia da edificação que eles Para exemplificar, podemos pensar em
chamavam de "arquitetura vertebrada", Arthur Erikson, que tem um conjunto
na qual "o volume interior é definido e de princípios condutores bem diferen-
articulado pela estrutura real e visível". tes sobre a estrutura e descreve assim
Howell mostrou como isso levou a um o processo de projetar do Museu de
processo de projeto em que arquiteto e Antropologia de Vancouver:
engenheiro trabalhavam num diálogo Como em todas as minhas edificações, a
íntimo para desenvolver a anatomia de estrutura só foi considerada depois que as
cada edificação. À primeira vista, essa premissas principais do projeto, o formato
dos espaços e a forma da edificação foram
abordagem parece bastante voluntario-
determinados [...) Só quando a ideia está
sa, e, realmente, Howell (1970) admite bem redonda e completa é que a estrutura
que "fazemos assim porque gostamos". deveria entrar em cena com a sua discipli-
Isso indica um processo de projeto guia- na para dar feitio e substância a uma forma
amorfa. Nesse sentido, ela é uma elabora-
do por um conjunto geral de princípios ção posterior.
a respeito do papel da estrutura, no (Suckle, 1980)
qual o gerador primário provavelmen-
te é a forma estrutural da edificação. A
sequência de desenhos aqui mostrada, 11.10 O gerador primário
feitos durante o processo de projetar e as restrições
do prédio de Howell para o University fundamentais
Centre, em Cambridge, tende bastan-
te a confirmar isso (Fig. 11.8}. É claro Neste ponto, deveríamos examinar a
que esse processo de projeto não pode importância do conceito de restrição.
excluir todas as outras considerações; Talvez não seja óbvio que o importante
184 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

v 3 do d e um par de alunos foi o seguin-


para o cliente ou usuório nem sempre te: "o m a is importante é que teremos
é fundamental no processo de projeto.
crianças brincando ao ar livre" (Agaba-
No estudo de Agabani (1980) acerca da
ni, 1980). Agora, embora brincar ao ar
maneira como os estudantes de arquite-
livre seja mesmo uma exigência do pro-
tura percebem os problemas de projeto,
jeto de uma creche, dificilmente seria
uma das experiências exigia de pares
"a coisa mais importante". No entanto'
de alunos que projetassem uma creche.
o mesmo projetista continuou: "então'
Depois de ler o programa arquitetônico
e assistir a um vídeo do local, os alunos de que jeito colocar todas as áreas de
foram filmados enquanto discutiam o brincar para que elas possam ir de uma
problema. O primeiro comentário gra- à outra?" (Agabani, 1980). Isso agora

~
lJQ1
.•. .,.
__

~~
~ ~

o~
@
@
~ b-A
"
.[

Flg . 11.8
..... Bill Howell chamou
~J r essa abordagem do
_j projeto de "arquitetura
"J lf 17
vertebrada", com
a forma gerada
principalmente a
partir da estrutura.
Essa sequência de
desenhos mostra
o processo em
funcionamento
11 Estratégias para projetar 185

Fig. 11.9
O projeto final dessa
edificação de Bill
Howell mostra a
influência do seu
processo

pode ser visto não como uma avaliação que as primeiras fases do projeto cos-
do que é mais importante para o cliente tumam caracterizar-se pelo que pode-
ou para o usuário, mas do que é funda- mos chamar de análise pela síntese. O
mental para o projetista. Nesse caso, a problema não é estudado em detalhes
orientação dos espaços principais para minuciosos, mas de maneira bem geral,
o lado protegido e ensolarado do terre- enquanto o projetista tenta identifi-
no, seguida pelo exame do acesso de car não os problemas mais importan-
veículos, era fundamental para organi- tes (para o cliente), mas os mais fun-
zar a forma geral. Nesse sentido, essas damentais para determinar a forma .
restrições são vistas pelo projetista Assim que se consegue formular uma
como fundamentais para determinar ideia de solução, por mais nebulosa que
a forma e, portanto, merecedoras de seja, ela pode ser verificada em relação
virar geradores primários. Sem dúvida, a outros problemas mais detalhados.
fazer avaliações sensatas sobre essas Nos estudos experimentais já mencio-
coisas é uma questão de experiência e, nados, os resultados de Eastman e os
talvez, uma das principais habilidades de Agabani mostram o uso combinado
dos bons projetistas. de modificações evolutivas e revolucio-
nárias das primeiras soluções. Na fase
evolutiva, o projetista realmente segue
11.11 A vida do o seu faro, modificando aos poucos 0
gerador primário embrião de projeto enquanto o testa
para ver se satisfaz às restrições e se
Até agora, vimos que a pesquisa empí- tem falhas. Finalmente, a menos que
rica e os indícios episódicos recolhidos o projeto se mostre um sucesso total
'
corn projetistas profissionais mostram uma das seguintes coisas acontece
""
186 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

para interromper essa fase evolutiva: a Isso é impossível; o processo de projeto


forma geral da solução se mostra inca- só pode começar uma vez, e não é pos-
paz de resolver problemas suficientes sível negar as lições aprendidas, as ati-
ou são necessárias tantas modificações tudes desenvolvidas e a compreensão
que a ideia por trás da solução se perde adquirida. Nesse contexto, portanto,
e é abandonada. Nos dois casos, é pro- "começar de novo" significa procurar
vável que o projetista dê o passo revo- um novo conjunto de ideias geradoras
lucionário de enveredar por um cami- em torno das quais se possa montar 0
nho de pensamento totalmente novo. próximo ataque ao problema. Isso nos
É nesse ponto que se exige mais leva o mais perto possível, até aqui,
criatividade do que engenhosidade. A do cerne do pensamento do projetista,
linha de pensamento se rompe e não pois a maneira como escolhe transferir
é mais sequencial. É preciso fazer um a atenção de uma parte do problema
esforço para procurar um novo conjun- para outra é essencial para a estratégia
to de problemas ou um novo ângulo. Na de projetar. Em estudos experimentais,
verdade, todo o gerador primário pode . observamos muitas variações. Alguns
~
ser descartado em favor de um novo projetistas só transferem a atenção
foco. Já ouvi muitas conversas entre quando chegam a um beco sem saída,
alunos de projeto que discutiam o seu enquanto outros parecem lidar com
progresso em que um dizia a outro que várias ideias em paralelo. Discutiremos
~ "acabamos de começar tudo de novo".
isso melhor no próximo capítulo.
12
Táticas para projetar
.... .......... --

' Parte
d dda art.e d e l"d · ·~saber·
1 ar com problemas difíceis está no ato de não
l ce o ema1s que tipo de solução aplicar. .
lo

Rittel e Webber, Di/em mas in a General Theory of Planning ··•.

~ue at~ques súbitos de inadvertência surpreendam a vigilância, leves


dlstraçoe.s seduzam a atenção, e eclipses casuais da mente obscureçam
o aprend1zado; e que o escritor muitas vezes persiga em vão a lembrança,
n~ ~om:.nto de necess1dade, atrás daquilo que ontem sabia com pronti-
dao 1ntu1t1va e que amanhã virá aos seus pensamentos sem ser chamado.
Samuel Johnson, Dictionary of the English Language

12.1 Métodos e t áticas

Em capítulos anteriores deste livro, já vimos que não há um


"método" correto de projetar nem uma rota única pelo proces-
so. Neste capítulo, damos atenção a como os projetistas esco-
lhem controlar os seus pensamentos, conscientemente ou não,
durante o processo de projeto. Uma das características enfu-
recedoras da mente é que ela tende a exibir inércia direcional.
Quantos de nós tentaram em vão recordar algum conheci-
mento importantíssimo, talvez numa prova, para depois vê-lo
aparecer, como se para zombar do nosso esforço, quando não
precisávamos mais dele? Quantos de nós ficaram acordados à
noite remoendo várias vezes um problema na cabeça e, mes-
mo assim, conseguindo apenas repetir exatamente os mesmos
passos, só para ver surgir uma ideia completamente diferente
bem quando deixamos o problema de lado para nos concentrar
em outra coisa? Essas características e a mente distintamente
criativa foram identificadas no Cap. 9. Aqui daremos atenção à
superação dos obstáculos ao pensamento produtivo e criativo
no processo de projeto.
É claro que essas características da mente humana não são
uma questão apenas para projetistas; elas têm de ser aborda-
188 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

das por todos os pensadores criativos nagens e personalidades diferentes.


e produtivos. Já se escreveram mm- Quando imaginamos ser esses perso-
tos livros sobre como pensar de forma nagens, muitas vezes é possível for-
mais produtiva, entre os quais se desta- mular o nosso problema de tal maneira
ca toda uma série de ideias apresenta- que surgem novas ideias para resolvê-
das por Edward de Bono. A maioria dos -lo. Outra maneira ainda de questionar
conselhos muito úteis e sensatos dados a direção do pensamento é interagir
por esses livros pode ajudar os proje- diretamente com outras pessoas. Téc-
tistas, mas é melhor lê-los no original, nicas como brainstorming (tempestade
e, portanto, eles não serão reproduzi- cerebral) e sinética baseiam-se no pres-
dos aqui. Há um número relativame;_- suposto de que, num grupo de pessoas,
te pequeno de princípios por trás de não é provável que todas abordem o
todos esses conselhos, que se baseiam problema da mesma forma, e que, se a
em controlar a direção e a qualidade variedade natural dos indivíduos puder
do pensamento. Até o famoso uso do ser aproveitada, o grupo será mais
"pensamento lateral" por Edward de produtivo. Voltaremos a essas ideias
Bono é uma exortação para não confiar no Cap. 15.
inteiramente no "pensamento vertical" Vários livros foram publicados
como ele diz. Bono caracteriza o "pen-' especificamente sobre "métodos de
samento vertical" como a ferramenta
projetar" (Cross; Roy, 1975; ]ones, 1970;
que usamos para cavar buracos maio-
Jones; Thornley, 1963). No entanto, em
res e mais fundos, enquanto 0 "pensa-
geral não são "métodos" completos
mento lateral" nos leva a cavar um novo
para projetar, mas técnicas para con-
buraco em outro lugar {Bono, 1967). Na
trolar a direção do pensamento em
verdade, ao projetar, são necessários os
certos estágios do caminho. Desde que
dois tipos de pensamento, mas Bono e
0 leitor não espere demais dessas fer-
muitos outros ressaltam várias vezes
que, quando pensamos, não refleti- ramentas mentais e esteja disposto a
mos naturalmente sobre como estamos adaptá-las, elas podem muito bem ser
pensando para ver se é possível mudar úteis. A intenção por trás deste livro
ou melhorar. não é duplicar essas "receitas cogniti·
Muitos mecanismos recomenda- vas", e há pouquíssimos indícios de que
os . . .
dos para pensar mais produt·Ivamen- proJetistas profissionais achem taiS
te baseiam-se em mecanism coisas úteis na prática. No entanto, por
os para t ' d .
mudar a direção do pensamento M . ras e muitos desses truques mentaiS,
· Ul-
tas vezes, olhar um problema p há u:rn número relativamente pequeno
or outro
lado pode ter um resultado b de princípios fundamentais que tarn·
. em espan-
toso. Nos hvros mais recentes B bém podem ser observados no processo
su · · • ono
genu Imaginar que usamos ch , usado por projetistas bem-sucedidO~·
apeus
ou sapatos de outra cor (B Alguns desses princípios serão exarni·
co b' . ono, 1991)
m o o Jetivo de nos lemb ' nados neste capítulo.
rar persa-
12 Táticas para projetar 189

12.2 Compreensão
assim, expandir a compreensão do pro-
do problema blema. Usam-se cinco truques mentais:
pede-se ao projetista que pense em
com muita frequência, os problemas maneiras de ligar pessoas ou questões
do projeto são formulados em termos por "conflito", "contradição", "complica-
das soluções esperadas. Como vimos ção", "probabilidade" e "similaridade".
no início deste livro, as várias profis- Desse modo, o jogo pode avançar com
sões que projetam se dividem não pelo a identificação das pessoas envolvidas
tipo de problema que enfrentam, mas na situação de projeto por estarem em
pelo tipo de objetos que criam. Mesmo conflito, por verem as coisas de pontos
dentro de um único campo de projeto, de vista diferentes (contradição) ou por
como a arquitetura, tendemos a pen- observarem que a situação pode não
sar nos projetos pelo tipo esperado de
edificação resultante, como escritórios,
ser tão simples quanto parece (compli-
cação). Como muitas técnicas de pen-
I
I

escolas, casas, hospitais etc. O bom samento criativo, esses mecanismos


professor de projeto toma o cuidado podem ser usados de forma autocons- J
de chamar a atenção do aluno para a ciente para mudar a direção do pen-
necessidade de repensar o problema samento que, não fosse assim, talvez
sem preconceitos sobre o tipo de solu- fosse canalizado numa única direção.
ção. Quando a Open University come-
çou um curso chamado "Futuros feitos
pelo homem", a equipe do curso achou 12.3 O modelo
importante dar esse tipo de ajuda a alu- de problemas
nos que não teriam necessariamente o
nível normal de contato com os profes- o modelo de problemas de projeto suge-
sores. Talvez por essa razão, Reg Tal- rido neste livro pode ser usado da mes-
ma maneira. É possível examinar um
bot e Robin Jacques inventaram o JIP, o
problema de projeto espiando todas as
jogo de identificação de problemas - em
caixas que combinam geradores de res-
inglês, PIG, ou problem identiftcation game.
trições, domínios e funções, e tentando
Provavelmente o jogo em si é complexo
pensar em alguns problemas pertinen-
demais para ser uma ferramenta u'flna 1
tes ao projeto. Também é útil pergun-
prática de projetar, mas as ideias que 0
tar: onde estão, no modelo, as restrições
embasam são valiosíssimas. fundamentais? Na maioria das situa-
A ideia do PIG é que o projetista vá
ções em que se projeta, h á um número
depurando o problema até obter um limitado de restrições absolutamente
enunciado simples e curt1ss1m , · o com _ fundamentais e centrais. Nesse caso,
o qual se possa identificar relaçoes segredo do sucesso é identific~r ess~s
0
.
essencialmente prob1ema' t'1c as · Essas fatores e dar a eles mais atençao. Ma1s
relações ou "pares de problemas "como • _
uma ve Z, Consultar de vez em quando o
dizem os autores do jogo, podem entao modelo de problemas de projeto duran-
ser usadas para desenvolver outras e,
190 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

te o processo de projeto pode revelar nomia a partir de um estudo da histó-


que a atenção está se desenvolvendo ria da arquitetura e mostra como cada
de maneira bastante distorcida. De uma das suas quatro técnicas foram
um modo bem simples, um aspecto utilizadas em várias épocas. Broadbent
do problema pode chamar a atenção do afirma que um método completo de
projetista, que decide encontrar uma projeto poderia levar o projetista a uti-
boa solução; no entanto, o exame do lizar todas as quatro táticas de maneira
modelo como um todo talvez indique ordenada e organizada e depois esco-
que esse pode não ser um dos fatores lher uma das soluções produzidas. Não
básicos para o sucesso do projeto. há indícios de projetistas que realmente
É claro que os bons projetistas conse- trabalhem assim, mas vale a pena estu-
guem fazer isso sem a necessidade des- dar as quatro táticas e acrescentar uma
sas ferramentas e sem uma abordagem ferramenta útil ao conjunto de táticas
tão autoconsciente. O arquiteto malaio para controlar o pensamento projetual.
Ken Yeang explica isso muito bem: O projeto pragmático é, simples-
mente, o uso dos métodos de cons-
Confio no faro, na mão intuitiva, no jeito
intuitivo do projeto [...] dá para resolver
trução com materiais disponíveis, em
te,cnicamente problemas de acomodação, geral sem inovação, como se fossem
da para resolver problemas de vista etc., selecionados num catálogo. Desde que
mas decidir qual problema resolver pri-
o projetista tenha uma boa compreen-
meir? é questão de faro [...] não dá para
expl1car, mas a gente sente que está certo, são dos pontos fortes e fracos das téc-
e em nove de cada dez vezes está mesmo. nicas tradicionais já estabelecidas, não
(Lawson, 1994b).
há dúvida de que esse método tem a sua
utilidade. Em essência, é tradicional e
conservador; portanto, constitui uma
12.4 O método abordagem de baixo risco e é imprová-
de Broadbent vel que leve a um fracasso drástico. É,
~raticamente, uma abordagem padrão;
T.alvez um dos programas mais ambi-
e pouco provável que produza grandes
ciosos para construir um método de
projetos ou faça as ideias avançarem.
projetar tenha sido desenvolvido por
No entanto, pode ser uma tática precio-
Geoffrey Broadbent (1973), para uso
especificamente na arquitetura , mas sa para identificar uma série de formas
possíveis para o projeto todo ou para as
que realmente tem muitas qualidades
suas partes.
gen~ricas. Na verdade, é provável que
0 projeto icônico é ainda mais con-
o metodo de Broadbent não se sustente
servad
. · · que exige, efetivamente,
or, Ja
como método total ' mas se base1a . em
que o p fOJetista
· · ·
copie soluções ex1s·
quatro modos distintos de gerar formas
ez:!l projetos, que ele chamolLde r · ---:----~
tentes
_ · construtores especulativos .
--- .!meto-
r dos "pragmático" "icôn1·co" "an a 1·,og1co"
. dao a impressão de trabalhar assirn,
1 ' ,
repr0 d uz1ndo
· os seus tipos de casa
e "canônico"! Ele chegou a es
~.,..• _ . sa taxo-
1 padronizados, quaisquer que sejarn as
12 Táticas para projetar 191

condições locais ou as restrições exter-


o problema. Como veremos mais adian-
nas do terreno. Embora seja imprová-
te, isso se baseia numa técnica genéri-
vel que agrade à mente criativa, essa
ca amplamente recomendada para o
abordagem tem o seu valor e os seus
pensamento criativo. Sem dúvida, há
partidários. Conrad Jameson (1971), psi- exemplos óbvios do uso significativo
cólogo comercial, criticou os arquitetos do pensamento analógico ao projetar. O
por começar o processo de projeto com uso de formas orgânicas na arquitetu-
uma folha de papel em branco, como ra, que permite gerar estruturas belas
se cada problema fosse inteiramente e também eficientes, é característico do
novo. Com o uso de técnicas icônicas, arquiteto e engenheiro Santiago Cala-
os projetistas podem começar com trava, de cujo trabalho falaremos mais
soluções existentes e modificá-las para adiante neste capítulo. Os seus blo-
atender às novas condições. Isso pode cos de rascunhos de projetos contêm
levar a uma estabilidade maior e a evi- muitos desenhos de partes do corpo
tar os erros comumente encontrados humano, com as quais frequentemen-
quando os projetistas deixam de ver a te ele obtém inspiração em termos do
inteligência com que os projetos verna- modo como o corpo pode flexionar-se
culares resolviam problemas, embora em muitas configurações alternativas e
também seja possível que essa técnica estruturalmente estáveis para suportar
perpetue erros. diferentes padrões de carga. As analo-
O projeto canônico baseia-se no uso gias podem ser usadas para dar inte-
de regras como módulos de planeja- gridade à maneira de construir partes
mento, sistemas de proporção e afins. das soluções de um projeto. Um ótimo
Os estilos arquitetônicos clássicos e exemplo já citado neste livro (ver Cap.
os seus sucessores do Renascimento 11) é o de Richard MacCormac ao des-
deram oportunidade a essa abordagem, crever o espaço de culto do andar supe-
e já vimos que Vitrúvio e, mais tarde, rior da sua capela Fitzwilliam como
se "flutuasse" solto da estrutura abai-
Alberti redigiram regras assim. Mais
xo. A partir daí, a equipe descreveu a
recentemente, o "modulor" deLe Corbu-
capela como uma embarcação e, final-
sier pode ser considerado uma tentativa
mente, detalharam a sua construção
de produzir regras canônicas que pe:-
de maneira visivelmente parecida com
mitam projetos mais iconoclastas. Mals
a de um barco. Na verdade, analogias
recentemente ainda, o sistema constru-
com formas naturais e orgânicas foram
tivo baseado na coordenação modular e
utilizadas com frequência em todas as
em componentes padronizados gero~,
escalas de projeto, até mesmo no urba-
tipicamente, resultados bastante mono- nismo (Gosling; Maitland, 1984). Numa
tonos com o uso desse método. veia mais contemporânea, o arquiteto
O projeto analógico resulta do u~o,
John Johansen explicou que ~s~ uma
Por parte do projetista, de analogtas nalo ia com circuitos eletromcos e
corn outros campos ou contextos para afala até
g do "chassi", d a "fiaçao
- " e dos
criar uma nova maneira de estruturar
192 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

"componentes" das suas edificações: que constituem os usuários da edifica-


"Queria tomar emprestados os princí- ção, os "papéis" que desempenham e
pios ordenadores subjacentes e a sua os "rituais" de que participam. Nesse
lógica sistemática e utilizá-los como nível, a arquitetura vira quase um tipo
modelo da metodologia arquitetônica" de cenário teatral no mundo real.
(Suckle, 1980). Os arquitetos, porém, não se res-
tringem apenas a histórias sobre usuá-
rios; eles contam histórias até sobre o
12.5 Contar uma história aspecto bastante prático da construção
das edificações. Kit Allsopp tem usado
O próprio Broadbent parece indicar que uma metáfora urbana para o projeto de
os mét_?dos "analógicos" são os mais edificações individuais. Especificamen-
promissores dessas quatro táticas para te, ele usou os "aspectos familiares da
a geração de formas. Isso nos leva a vida urbana cotidiana" para imaginar
outro mecanismo muito popular para como organizar e até construir as suas
ajudar o projetista a gerar formas: o da edificações (Fig. 12.1). Pode-se ver um
narrativa. De certo modo, ele pode ser exemplo no seu tribunal de Northamp-
usado como extensão do método "ana- ton (Hannay, 1991), no qual a ideia de
lógico" de Broadbent, mas consegue "ruas, árvores e céu" deu uma direção
ir muito além do uso de uma simples à forma geral do prédio e ao detalha-
analogia. No projeto que podemos cha- mento do sistema estrutural. Como se
mar de "narrativo", o projetista - ou, pode ver nos esboços do projeto, o ter-
mais comumente, a equipe- conta uma reno, que era triangular, foi dividido em
história que pode ser usada para unir fatias, como um "sanduíche", como diz
as principais características do projeto.
ele, no qual a faixa central era conce-
Para quem está de fora, talvez pareça
bida como uma rua entre dois prédios,
meio infantil ou até bastante ridículo
' em vez de um corredor no meio de um
mas há indícios consideráveis de que
prédio único (Fig. 12.2). A "rua", então,
essa técnica é muito utilizada e ajuda
é detalhada como se fosse um espaço
genuinamente alguns projetistas.
ao ar livre. Podemos ver também que
Em alguns campos de projeto, a his-
as colunas que sustentam o teto aci-
tória efetivamente já está lá. De forma
ma da "rua" são detalhadas como se
mais óbvia, os projetos teatrais real-
fossem um bouleuard arborizado cuja
mente exigem que o projetista inter-
copa bloqueasse parcialmente o céu.
prete algum tipo de história. o mesmo
Ao se apegar fielmente à "história" do
acontece, em muitos casos, com o design
prédio, Kit Allsopp produziu um lugar
gráfico, principalmente na publicidade.
Todavia, a ideia da narrativa também muito admirado que visa não parecer
separado do resto do tecido urbano.
se tornou comum entre os arquite-
tos. Em certos casos, o arquiteto conta cumprindo assim um dos dois objet~­
uma história sobre os "personagens" vos do arquiteto: "gravidade e acessl·
bilidade". É claro que o interior dessa
12 r.·atrcas
. para projetar 193

'
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Todas as sa'ils d~ aud,enCJa do
fl'•me~ra andar <ece~m lul na1ural
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I
Fig. 12.1
Kit Allsopp contou
'·.. i/ I
-·-.-.0---·,
; . , I
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l.of"/
1 I '

...
I
I
uma "história" sobre
"ruas, árvores e céu" ,, , Ji
para ajudar a projetar ,.JI.<jto ~ -~\ A pas~gem é uma ma enue
.'.lib CF' ~ \ \ 2 précllos, o trrbunal + os
t.'~--s··~6.;:p~ \ , \ gab<netes · ~eo.-e 1e1 a mawna
41
esse tribunal de 1>- ~'I> 't! ~ das caracteflstJcas de um
Northampton ~ \~uga•~
'1) "--- -
~ __ __,
~~

Fig. 12.2
O prédio do tribunal
de Northampton é
construído em torno da
sua própria "rua", que
tem até um boulevard
arborizado

edificação é bem diferente em muitos


I
O arquiteto John Outram descreveu
aspectos, de uma rua convencional, um processo completo de projetar com
rnas aqui realmente isso não importa. base em histórias riquíssimas e extre-
~que importa é que o arquiteto con- mamente elaboradas (Lawson, 1994b).
Siderou útil valer-se de uma história O seu método levou vários anos para
sobre a edificação para projetá-la e, em evoluir, mas sempre se baseou em con-
COnsequência, muitos aspectos dela tar histórias com um traço mitológico.
~bern uma certa coerência em vez de Outram descreveu e demonstrou um
arbitrários. processo de projeto em que faz o ter-
194 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

reno passar por sete estágios ou ritos. 12.6 Uma ou muitas


Aqui ele imagina que o lugar se submete soluções?
a uma evolução, e não à revolução súbi-
ta do projeto. Desse modo, ele concebe o A sugestão de Broadbent de que os seus
terreno, inicialmente, como uma "mata" quatro métodos podem ser usados para
na qual então se constrói um "cenotá- gerar soluções diferentes para os proje-
fio", que acaba enterrado ("cataclismo") tos não recebeu aprovação formal gene-
e reconstruído ("entablamento"), e então ralizada, mas, novamente, ele destaca
o velho e o novo se ligam com a criação outro conceito muito útil. Deveria o
de um "vale" na paisagem. Preocupado processo de projeto basear-se no desen-
com a ornamentação, Outram vai até os volvimento deliberado de uma solução
ritos finais de "inscrição" e "fachada". Ele ou, ao contrário, na busca consciente de
chegou a revelar essas histórias extra- soluções alternativas seguida pela sele-
ordinariamente complexas no traba- ção e, possivelmente, pela combinação?
lho que apresentou na Bienal de Veneza Muitas perguntas relativas ao processo
de 1991, mas admite que a maioria dos de projeto não podem ser respondidas
usuários das suas edificações não "lerá" de forma inequívoca, e esta não é exce-
essas histórias na arquitetura e a esse ção. Parece que ambas as maneiras são
respeito mostra-se otimista: "Defendo o utilizadas por projetistas considerados
contrário, que para a maioria das pesso- bem-sucedidos. Antes de examinar a
as basta que saibam que há um signifi- ideia de gerar alternativas e estudar
cado, isso lhes permite se envolver com maneiras de fazer isso, vamos exami-
o arquiteto no nível que escolherem". nar primeiro o caso da abordagem da
Para John Outram, todo o proc-es- solução única.
so de projeto baseia-se na sua narra-
Muitos projetistas rejeitam a ideia
tiva. Provavelmente esse uso extenso
de gerar alternativas e, especifica-
da narrativa é bastante incomum, mas
mente, a de mostrar muitas alternati-
Outram é um arquiteto incomum que
vas aos clientes. Essa parece ser uma
produz uma arquitetura incomum! Sem
questão do estilo particular de projetar
dúvida, a arquitetura de John Outram é
e administrar a clientela, mas leva os
bem diferente da de Kit Allsopp, e isso
projetistas ao medo de que o cliente
indica o poder e a flexibilidade de usar
escolha ideias de várias alternativas
histórias como técnica para projetar.
que sejam impossíveis ou difi.cílirnas
Na prática de projeto, parece que con-
de combinar, ou que resultem nurna
tar histórias sobre a solução por surgir
solução incoerente ou desconexa, sern
é uma técnica bastante comum. Como
integridade.
veremos no Cap. 15, parece que contar
histórias na prática de projeto também O arquiteto e engenheiro santiag.o
Calatrava acha que explorar alternatl·
ajuda a manter a equipe do projeto uni-
vas em demasia é sinal de dúvida e que,
da em torno desse mundo compartilha- oiver
do, mas levemente particular. como finalmente terá de desenv
defen·
uma solução única e lutar para
- 12 Táticas para projetar 195
r

der as ideias que a embasam , o projetis- Há alguns tip os de programa que estrutu-
ta deve acreditar nela, com exclusão de ram demais o projeto [...] e é preciso sentir
que, a menos que exploremos o pções, va-
tudo o mais:
mos perder alguns truques, enquanto em
outros casos- por exemplo, na competição
t preciso deixar a ideia correr e seguir com do St John's College, que vencemos- mer-
ela para se convencer[...] é claro que a gen- gulhei de cabeça, por assim dizer, numa
te a critica e pode abandoná-la e começa r ideia para o projeto que encantou o cliente
de novo com outra nova, mas não é uma e que era bem diferente dos outros proje-
questão de opção, é sempre um processo tos inscritos. (Lawson1 1994b).
linear. (lawson, 1994b).

Infelizmente, Richard MacCormac


Talvez isso se pareça com o que ainda não conseguiu exprimir com cla-
Philippe Starck descreve como "cap- reza exatamente como funciona esse
turar a violência da ideia". De certo "sentir" a natureza do problema. Pare-
..., modo, pode-se pensar que abandonar ce que Denise Scott Brown, cuja prática
.. uma ideia e buscar uma alternativa
leva à perda da "inércia mental" neces-
com Robert Venturi vai do planejamen-
to urbano em grande escala, passa pela
sária para desenvolver a ideia até uma arquitetura e desce até o mobiliário e
proposta factível. Pode haver aqui um a cerâmica, também tem essa sensação
paralelo com dar nome a alguma coisa - de que a geração de alternativas fun-
uma criança, talvez. Podemos olhar ciona em alguns problemas, mas não
centenas de alternativas e nenhuma se em outros:
destacar especialmente, mas assim que
nos decidimos por uma delas e a usa- O uso de opções no planejamento é para
obter democracia no processo. É preciso
mos por algum tempo, logo ela se torna
acomodar mais complexidade e enfrentar
especial e parece "certa". mais opções políticas no planejamento
No entanto, Santiago Calatrava cer- urbano d o que na arquitetura. (lawson,
1994b).
t~mente não nos dizia que sempre vai
direto para essa ideia única e "certa",
lr mas que, para ele, o processo baseia-se Pode realmente haver algo interes-
o

em trabalhar com apenas uma solu- sante no que Denise Scott Brown diz,
ção de cada vez. o arquiteto Richard puramente em termos de conveniência
MacCormac também acredita em evo- política, mas a ideia de que há uma hie-
lução e revolução durante o processo rarquia de problemas de projeto, com 0
de projeto, mas não se entusiasma planejamento urbano no alto, a arqui-
com a geração deliberada de alterna- tetura no meio e o desenho industrial
tivas como processo consciente. Ele embaixo, tem valor limitado. Especi-
acha que o projetista consegue sentir ficamente, a ideia de que, portanto, 0
alguma coisa na natureza do proble- planejamento urbano é mais complexo
ma a projetar que indica a probabili- do que a arquitetura foi questionada
dade de a geração de alternativas levar bem antes neste livro e considerada
ao sucesso: falha. Como logo veremos, Eva Jiricna,
196 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Na primeira manhã, quando a gente co-


na escala do design de interiores, traba-
meça a t rabalhar no .esquema, temos . ·
lha principalmente gerando alternati- .
d1gam 05, dez alternativas, todas 1gual-

vas. Assim, parece mais provável que, mente possíveis. Aí a gente passa por um
embora Richard MacCormac e Denise proce 550 de analisar e desenvolver
. cada
.
uma delas um pouco mais e f1camos: d1ga-
Scott Brown achem que alguns pro- mos, com C inco · Esse processo ,contmua e,
blemas são mais adequados do que finalmente, ficamos com uma so.
outros para a geração de alternativas,
na realidade e, pelo menos, na mesma
É interessante que esses e outros
medida, essa pode ser uma questão de
estilo e preferência pessoal do projetis- projetistas presentes no estudo que
ta , e não uma característica inerente usam a geração de alternativas costu-
ao problema. mam mostrá-las aos clientes. Parece
que isso passa a fazer parte do processo
de estabelecer o programa arquitetôni-
12.7 Geração de co: uma maneira de extrair do cliente
alternativas mais informações sobre o que realmen-
te deseja. No entanto, a discussão mais
Vamos examinar o uso de alternativas e detalhada dessas questões terá de espe-
como os projetistas as geram. Nesse pro- rar o Cap. 15.
cesso, o projetista gera muitas ideias, Para os que desejam praticar a
cada uma das quais com pelo menos geração de alternativas, parece neces-
algumas vantagens possíveis, em vez sário ter alguma base sobre a qual
de se concentrar logo numa ideia só. gerá-las. Para Eva Jiricna, são os diver-
Assim, o processo torna-se uma ques- sos materiais; para Michael Wilford,
tão de eliminar as ideias impraticáveis é muito mais a disposição dos princi-
ou insatisfatórias e escolher entre as pais elementos no terreno. No entanto,
que sobram, talvez combinando algu- Wilford avisa que esse processo não
mas ou várias características. é fácil. Ele deu aulas em escolas de
Dois defensores bem diferentes arquitetura e descobriu que os alunos
dessa abordagem são Michael Wilford,
costumam ter dificuldade para produ-
que trabalha em escala urbana, e Eva
zir uma série de ideias:
Jiricna, que trabalha com interiores
(Lawson, 1994b). Michael Wilford a des- Eles não conseguem se separar de uma
creve como "um processo muito sis- solução ou projeto específico para olhar
temático de investigação e seleção de outros [...] ficam trancados numa solução
sem ter uma série completa disponível para
opções" (Fig. 12.3). Eva Jiricna utiliza 0
avaliar se aquela solução é apropriada. Sem
estímulo deliberadamente calculado de isso, o processo tende a tornar-se efêmero.
experimentar várias combinações de
materiais que, como eco de uma seção
Assim, Wilford indica outro bene-
anterior deste capítulo, ela chama de
fício para o projetista da abordagem
"ponto de partida da história":
da geração alternativa. Ele insinua,
12 Táticas para projetar 197

:'i
- --=.!.1· I : L!.= =
r-. ··-~
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L ·.:" ; .::l'l'
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c :- . '.
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- ~-~
Fig. 12.3
Michael Wilford
descreve um processo
que envolve a geração
de muitas alternativas.
Essas são apenas .
algumas plantas
possíveis imaginadas
para a Politécnica
Temasek, em Cingapura

de certa forma, que o território está design costuma saber disso muito bem.
mapeado, que a variedade de soluções Quando apresenta o mesmo problema r
possíveis está identificada. É claro que a uma classe, geralmente parece que só
os projetistas nunca sabem realmen- há meia dúzia, mais ou menos, de solu-
te se identificaram todas as principais ções básicas válidas e sensatas, com
soluções alternativas de um problema. muitas variantes e combinações.
No entanto, muitas vezes pode haver
um número limitado de estratégias
básicas, e um projetista experiente 12.8 Linhas paralelas
como Michael Wilford pode ter bastan- de pensamento
te confiança de que todas as principais
foram encontradas. Identificar todas Muitas vezes, o desenvolvimento de
essas alternativas principais pode ser ideias alternativas por projetistas
valiosíssimo para as discussões com experientes pode ser bem mais sofisti-
0 cliente e para lançar alicerces firmes cado do que a simples geração de uma
Para o restante do processo de projeto. série de opções. Quando examinamos
0 professor de escolas de arquitetura e os desenhos feitos durante o processo
198 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Fig. 12.3
Continuação

de projeto, é possível perceber o que


detalhes. Aí tudo se une e isso muda"
podemos chamar de "linhas paralelas (Lawson, 1994b).
de pensamento" (Lawson, 1993a). Essas
Robert Venturi reflete isso com o seu
investigações paralelas constituem o
aforismo irônico característico (citado
exame de diversos aspectos do pro-
de forma mais completa no Cap. 3) de
jeto. Assim, Eva Jiricna, que gosta de
que "às vezes é o detalhe que deter~
trabalhar a partir dos materiais, tam-
mina o geral". o que ]iricna e Ventun
bém tem de planejar os seus interiores
enfatizam aqui é que, pelo menos para
em termos organizacionais (Fig. 12.4).
o processo de projeto não pode avan- eles, o projeto avança com a investiga·
çar simplesmente a partir do detalhe ção paralela tanto dos detalhes quanto
para o conceito espacial, ou no sentido das questões em grande escala. A ques·.
inverso; ambos são desenvolvidos em tão central é a capacidade e a disposi-
paralelo: "É um conceito espacial mas, ção do projetista de permitir que duas
ou ma1s . . - Paralelas
. d essas 1nvest1gaçoes
na verdade, ele segue paralelo à esco-
lha dos materiais que existem e dos aconteçam sem tentar necessanarn · en·
te resolvê-las cedo demais.
> •

12 Táticas para projetar 199

,
, . I ~~c,-
1t:::"'f"-..,._,---r.......,..--- - l~

Fig. 12.4
I Primeiros esboços do processo de projeto de Eva Jiricna, mostrando uma linha de pensamento
sobre a junção entre parede e teto

Essa questão, porém, não é sim- edificações novas e antigas (Fig. 12.6). O
plesmente entre o detalhe e o geral. Os desenvolvimento dessa segunda linha
projetistas podem desenvolver e man- de pensamento sobre a fachada cons-
ter muitas ideias nebulosas e incom- titui um estudo de caso especialmente
pletas sobre vários aspectos das suas interessante para nós aqui:
,.·~·' soluções. Os esboços feitos por Robert
Por exemplo, a ideia principal da fachada
Venturi para a famosa Sainsbury Wing
da National Gallery veio no segundo d ia
,.
'' da National Gallery, na Trafalgar Squa- em que eu pensava sobre ela em Londres.
i:::' re, em Londres mostram isso com Eu estava ali em pé na Trafalgar Square
,, .

'
bastante clareza (Fig. 12.5). Há plantas e veio assim de repente, e continuou lá,
embora refiná-la levasse muitos meses.
'I que tratam dos problemas de circu- {lawson, 1994b).
lação, de levar um grande número de
pessoas para dentro da nova edifica- Esse comentário nos lembra de que
l
ção e de ligá-la de forma satisfatória as ideias podem aparecer de repente,
.,
• mas precisam de extenso refinamento,
com o arranjo axial do prédio original
de Wilkins. Também há esboços das como vimos no Cap. 9. Contudo, na des-
e~evações, principalmente daquelas crição que Venturi faz do processo de
VIstas da Trafalgar Square, onde há projeto como um todo, fica bem claro
!
I
200 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

que boa parte do refinamento é realiza- e Denise Scott Brown usam uma gran-
do paralelamente a outras ideias, sem de variedade de técnicas nesse pro-
tentar decidir cedo demais. A sequência cesso de refinamento. Nesse caso, eles
de imagens mostra que Robert Venturi puseram as colunas da edificação exis-

-... ··.. !.:..

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·- ~
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~t t --- - - - _ . . 11.
..
-.(:' o 1

"' ·ou 'I


...J l

Fig. 12.5
Robert Venturi desenvolve na pia t .
Gallery n a uma ltnha de pensam .
ento sobre a ampliação da Nattonal
12 Táticas para projetar 201

tente no computador, o que lhes per- para conduzir o processo de tomada de


mitiu reproduzi-las e transformá-las à decisões. (Rowe, 1987).
vontade, às vezes plotando-as para u so
em modelos ou colagens combinadas a Num desses registros, em que os
desenhos mais convencionais. projetistas trabalhavam num terreno à
Num estudo de registros de projetos beira do lago, em Chicago, Rowe mostra
já citado nos Caps. 3 e 6, a análise de que dois geradores primários permane-
Rowe levou-o a descrever o projeto que ceram na mente dos projetistas duran-
surgia com o uso de vários geradores te a maior parte do processo, sendo que
primários paralelos: um, afinal, dominou e incorporou par-
cialmente o outro:
Nesse estudo de caso, podem-se identifi-
car várias linhas distintas de raciocínio que Talvez a característica mais notável do
envolvem frequentemente o uso a priori registro seja a atenção dada pelos proje-
de um princípio ou modelo organizador tistas aos dois grandes temas de criar um

Flg. 12.5 (continuação)


202 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

marco o u p onto fo cal e de estender linear- ce que costumam refletir maneiras


mente o p adrão d as ruas de Chicago até bem convencionais de pensar no tipo
o lago. Em todo o processo, esses d ois
de projeto estudado. No caso de Ventu-
temas parecem quase competir e ntre si.
Primeiro um domina, mas recua de novo ri, ele pens ava numa edificação como
com o desenrolar do processo. No final, planta e elevação. No caso de Eva )iric-
o esforço de projetar se concentrou na n a, ela pensa no projeto como coletânea
p roposta de um único prédio marcante,
embora até então as cercanias imediatas de componentes e como organização
fossem claramente controladas pela ideia espacial. As linhas paralelas de pen-
do padrão d as ruas. samento ficam especialmente eviden-
tes nos esboços de Santiago Calatrava.
Se examinarmos melhor essas Vale lembrar que já vimos que ele não
linhas paralelas de pensamento, pare- usa deliberadamente o processo de

·.
.··

CQffee
Coca.Cota

Fig. 12.6
Linha paralela de
---- - --+----
PI~e II<"C'ff.l ~'"' •rciOtJI' il yo.or <'!loo:ool . ,..,.,. ·

91
pensamento sobre 0
p rédio como elevação
i> I

12 Táticas para projetar 203

gerar alternativas. No entanto, os seus desenhista prolífico, além de basear-se


esboços são a prova clara de que ele bastante em maquetes. No primeiro
pensa no projeto de várias maneiras caderno, vemos claramente que Cala-
simultaneamente. Calatrava trabalha trava desenhou principalmente cortes
com vários cadernos de esboços aber- da edificação para desenvolver um sis-
tos ao mesmo tempo. Como veremos tema estrutural. Um desenho da forma
no Cap. 14, ele prefere folhas de papel humana mostra um dos seus princípios
pequenas em vez das grandes, e esses condutores em ação, no qual se inspi-
cadernos variam de pequenas caderne- ra antes de voltar para refinar o corte
tas de bolso a blocos de folhas A3. Em da edificação (ver Fig. 14.3). Mas, no
alguns, desenha a caneta; em outros, segundo conjunto de esboços, vemos
trabalha a mão livre com aquarela, mas uma ênfase maior na edificação como
em escala aproximada; e em outros envoltório, incluindo temas como a
ainda, chega a fazer contas. Mostramos penetração da luz natural e a relação
aqui esboços de dois cadernos para entre os espaços internos e o nível do
o projeto de conclusão da Catedral de solo externo (Fig. 12.7).
Saint ]ohn the Divine, em Nova York, Em todos esses desenhos e regis-
que foram apresentados para uma tros, há tanto áreas de imprecisão
concorrência por convite. Os esboços quanto estudos detalhados. Isso indi-
estão na sequência original, mas com ca que os bons projetistas conseguem
muitas lacunas, já que Calatrava é um manter várias "conversas" com os seus

L I
L .... ._ ... -. .... .. .... .. -- - I
~ ~
-
,,Jo
....... . 11 ~ ,_
..
..__ \....r4 ~ ~~~ -- ~11
..... -( ~~ ~
. ~l J Fig. 12.6 (continuação)
1
GNERS PENSAM
204 COMO ARQU\TETOS E DESI

I \
Fig. 12.7
I Sequência de esboços
I do projeto de
Santiago Calatrava
para a Catedral de
Saint John the Divine,
em Nova York

desenhos, cada uma com termos de ção do proJetista precise inculcar no


referência levemente diferentes, sem se aluno essas habilidades fundamentais.
preocupar se o todo ainda não faz senti- Entre outras coisas, isso também provo-
do. Essa importante capacidade mostra ca algumas perguntas sobre os sistemas
a propensão a conviver com a incerteza, de projeto com o auxílio do computador,
de levar em conta noções alternativas se ajudam ou atrapalham o processo,
e, talvez, até conflitantes, de retardar a e voltaremos a elas, mas só depois de
avaliação e, ainda assim, de finalmen- examinar o papel do desenho com mais
te resolver de forma quase impiedosa detalhes. Parece que uma característica
e agarrar-se à ideia central. Isso indica comum e importante desses processos
que aqui, talvez, seja útil um tipo espe- de projeto é a manutenção de linhaS
cífico de personalidade e que a forma- paralelas de pensamento.
1
~.

I
I

13 f
!

Armadilhas do projeto
Nesses c as
. os, h a· mUlta
· crença naquilo que se deseja; a coisa mais fácil
d e todas e enganar a si mesmo.
I
Demóstenes 'I
O médico ~ode sepultar os seus erros, mas o arquiteto só pode acon-
selhar ao dente que plante t repadeiras.
Frank Lloyd Wright, New York Times

13.1 Armadilhas para o desatento

Nenhuma área do pensamento humano é tão cheia de armadi-


lhas quanto o ato de projetar. Talvez pelo fato de os problemas
encontrados ao projetar serem tão complexos e "traiçoeiros"
ou ardilosos, é comparativamente fácil tomar decisões que,
examinadas posteriormente, parecem bastante ridículas. Na
verdade, a vida do crítico de projetos é bem mais fácil que a do
projetista! Por criarem coisas que serão usadas por outros, os
projetistas se veem cercados de críticos, todos os quais pare-
cem saber projetar, só que preferem não ganhar a vida assim!
Nenhum tipo de projeto tende a expor mais as fraquezas do
criador do que a arquit etura. O grande arquiteto Frank Lloyd
Wright, responsável pelo famoso conselho citado na epígra-
fe deste capítulo, falava claramente por experiência pessoal!
como professor, vi mais projetos errados do que a maioria e,
em muitos casos, eles resultaram da queda do projetista em
uma armadilha mental que é relativamente fácil aprender
a evitar. Este capítulo identifica algumas armadilhas mais
comuns e discute maneiras de escapar delas.
q

206 COMO ARQUITETOS E DES#GNERS PENSAM

13.2 A armadilha são interessadíssimos por projetos. Os


arquitetos estudam os prédios que visi-
da categoria
tam, os desenhistas industriais exa-
A armadilha mais óbvia para o projetis- minam os produtos que usam. O mais
ta desatento ou inexperiente é identifi- a larmante é que esses projetistas estu-
car o problema pela categoria de solu- dam remotamente a solução de projetos
ção encontrada com mais frequência. em revistas e publicações que tendem a
Assim, os arquitetos falam de "projeto concentrar a atenção nas propriedades
de habitações" ou "projeto de escolas". puramente visuais e organizacionais. É
Embora, sem dúvida, as escolas tenham bem compreensível e quase inevitável
muito em comum, também são todas que os projetistas desenvolvam ideias
diferentes. Portanto, transferir para de solução e as levem para os seus pro-
uma delas as soluções encontradas em blemas. A armadilha da categoria se
outra pode ser bastante inadequado. o ". abre quando o projetista procura opor-
pior é que o projetista que trabalha des- tunidades para utilizar alguma dessas
sa maneira talvez nem note a diferença ideias e fica tentado a aproveitá-la de
ou não perceba as partes do problema forma pouco crítica.
que não foram abordadas. Não faz mui-
to tempo, um grupo de funcionários
e alunos do meu departamento ficou 13.3 A armadilha do
fascinado, de forma bastante compre- quebra-cabeça
ensível, pelas qualidades do projeto
urbanístico das cidades das montanhas Como já vimos nos Caps. 6 e 7, os pro-
italianas. Isso deu origem a um dilúvio blemas de projeto não são quebra-
de alunos criando projetos com base -cabeças. Não há resposta correta nem
nessas ideias, sem examinar suficien- sequer resposta ótima para problemas
temente a sua pertinência em relação de projeto. Isso significa que nem o pro-
aos terrenos. Embora sejam indiscutí- jetista nem os outros conseguem iden-
véis as qualidades dessas numerosas tificar uma solução "certa" para o proje-
cidadezinhas italianas lindas e ado- to, embora muitas vezes os projetistas
ráveis, há muitas razões para que não tenham uma sensação semelh ante à de
funcionem em qualquer lugar. Além u - u
correçao quando, de repente, surge
da topografia, dos materiais, do clima uma ideia que parece atender a mui-
e- mais importante, mas também mais tos aspectos do problema. No entanto,
fácil de deixar de lado - das variações todos gostamos de quebr a-cabeças e
culturais que levam as pessoas a usar o sentimos enorme satisfação ao resolvê-
espaço de forma diferente, tudo indica -los. Uma visita à livrar ia de qualquer
que haverá problemas na transferência
aeroporto mostrar á prateleiras e pra-
dessas soluções. teleiras de palavr as cr uzadas, enigmas
Isso é complicado para os projetis-
lógicos, charadas e afins para entreter
tas, já que, pela própria natureza, eles
os que têm de passar m ais horas do que
13 Armadilhas do projeto 207

gostariam esperando o avião. Some-se


quanto uma vaga de estacionamento
a isso tudo a variedade de quebra-
e possam, até certo ponto, mudar de
-cabeças propriamente ditos e menos
tamanho e formato. Assim se revela o
portáteis e encontramos todo um setor
primeiro dos dois aspectos da armadi-
econômico baseado na nossa necessi- lha do quebra-cabeça para o projetista.
dade de resolver enigmas. Os projetistas que tratam par-
O fato de nos dispormos a investir te de um problema de projeto como
tamanho esforço na solução de pro- um pseudoquebra-cabeça podem ser
blemas sem nenhuma função mostra le:vados a pensar que os elementos e
quanta satisfação podemos ter com o as regras desse pseudoquebra-cabeça
processo. No entanto, parece que, para são tão invioláveis quanto os de um
obter essa satisfação, é preciso identi- quebra-cabeça normal. Na verdade,
ficar a resposta certa. O quebra-cabeça muitas charadas também se aprovei-
montado ou as palavras cruzadas ter- tam da nossa tendência de tratar os
minadas têm exatamente essa carac- quebra-cabeças com excesso de rigi-
terística. Podemos ficar obcecados com dez. O famoso enigma dos nove pon-
uma definição específica num jogo de tos e quatro linhas é um bom exemplo
palavras cruzadas que, por algum tem- (Fig. 13.1). A proposta é encontrar um
po, parece impossível de resolver até jeito de ligar os nove pontos traçando
que, de repente, surge a resposta óbvia apenas quatro linhas sem levantar a
e correta. A satisfação desse momento caneta do papel. A maioria das pri-
é tamanha que um colega meu, entu- meiras tentativas de resolver o pro-
siasta das palavras cruzadas, insistia blema mostra que o pensador segue
em ler para mim as definições mais
difíceis depois que as resolvia e depois
me dizer a resposta, talvez para dividir
comigo aquele momento de satisfação!
Os problemas de projeto não são
quebra-cabeças, mas costumam ter
componentes que se parecem com
eles, e os projetistas se valem desse
impulso quase obsessivo para atingir
os seus objetivos. Os problemas de pla-
nejamento urbano podem ser como um
quebra-cabeça. As vezes, componen-
tes predefinidos têm de ser arruma-
dos, como mesas num restaurante ou Fig. 13.1 ,. h t
om apenas quatro m as re as
Una os pont o S C
vagas num estacionamento. No entan- em levantar a caneta do papel: um ~roblema
to, o mais frequente é que os comp~­ s. se costuma dificultar ma1s do que
stmp1es que I' h
. . pela suposição de que as tn as
nentes dos problemas de projeto, ~ao 0 necessano
não podem ir além dos pontos
sejam predefinidos de forma tão nglda
208 COMO ARQUITETOS E DESJGNERS PENSAM

dilha durante vários dias (Fig. 13.2). Os


a regra extra não especificada de que
alunos tentavam decidir quantas casas
nenhuma linha pode ultrapassar o
para duas pessoas caberiam num ter-
perímetro do quadrado definido pelos
reno de encosta. Tinham resolvido usar
pontos. Na verdade, se essa regra fosse
um sistema de galeria de acesso que
imposta, o problema não teria solução,
acompanhava o contorno da encosta
e é essa a característica que faz dele
um quebra-cabeça. e tentavam reduzir ao mínimo a lar-
Ao projetar, é fácil criar gura do apartamento para encaixar
pseudoquebra-cabeças fixando um o máximo deles ao longo da extensão
número limitado de restrições e depois da galeria, restringida pelos limites
tentando montar os resultados. Assim, do terreno. Tinham deliberado que o
o arquiteto pode fixar o formato do banheiro e o quarto dariam para o lado
envoltório externo da edificação que contrário à galeria, na direção norte,
planeja e depois tentar encaixar den- deixando o acesso, a cozinha e a sala
tro dele os espaços necessários. Não de estar voltados para o sol e para a
há problema nisso, desde que o proje- vista do outro lado da galeria. Tinham
tista se lembre depois que o envoltório calculado a largura mínima do apar-
da edificação também pode ser ques- tamento como a soma da largura do
tionado. Tive um grupo de alunos de quarto e do banheiro, ambos os quais
arquitetura que trabalhava num proje- tinham de acomodar móveis e louças
to habitacional e que caiu nessa arma- de tamanho conhecido. Até aí, o racio-

PAREDES RETAS

sala de estar quarto

[
deque
de quarto
~acesso
sala de estar f\
~ ~anheiro
.!:::===
~cozinha . [
Fig. 13.2
Alunos de arquitetura
caem na armadilha do - _/'

quebra-cabeça ··- ·
PAREDES COM ÂNGULOS
~ '..
.
"'"
....
.. cínio era sensato. Mas eles não esta-
13 Armadilhas do projeto

O segundo aspecto da armadilha


209


..
I
vam contentes com o formato da sala,
do quebra-cabeça só entra em ação
que acharam escura e deprimente.
depois de resolvidos os pseudoquebra-
Durante uma aula, identificamos que, -cabeças. Na verdade, é a própria satis-
na verdade, eles tinham criado um fação que sentimos ao resolver um
pseudoquebra-cabeça e os levamos a quebra-cabeça que pode enredar o pro-
formular as regras da seguinte forma: jetista desatento. Ficamos tão conten-
tes com a solução que ela se torna um
1. Estrutura com paredes entre- ponto focal do projeto e pode impedir
travadas do tipo alvenaria estrutural que surjam outras ideias muito mais
com piso de pranchas de concreto. importantes. Os pseudoquebra-cabeças -c
2. Todos os cômodos com venti- que os projetistas resolvem costumam
lação natural. ser apenas uma pequena parte dos
3. Cozinha separada da sala de problemas do projeto. Q_ mais impor-
estar. tante é que muitas vezes só podem

4. Circulação interna minimizada. ser definidos quando se fazem vários
5. Salas de estar dando para a pressupostos sobre outros aspectos do
galeria de acesso e voltadas para o projeto. No caso dos nossos alunos que
Sul. projetavam moradias, o quebra-cabeça
só foi formulado depois de pressuposto
No entanto, havia outra regra implí- o esquema de acesso pela galeria e a
cita obedecida por todos os diversos pro- forma de construção com paredes de
jetos que desenharam. Essa regra nunca alvenaria estrutural.
explicitada era que as paredes separando Vejamos então os dois quebra-
as habitações tinham de ser retas e para- -cabeças aqui ilustrados (Figs. 13.3 e
lelas. Faz sentido que as paredes sejam 13.4). Em cada caso, o objetivo é encai-
paralelas e, portanto, mantenham entre . xar as peças da maneira mais simples
si distância constante, mas não há razão . e perfeita. sem dúvida, as melhores
para que sejam retas. Depois de explici- soluções são 0 quadrado e o retângulo
tada e, em seguida, rejeitada essa regra mostrados nas Figs. 13.5 e 13.6. Como
solução, o quadrado, especificamente,
incômoda e exageradamente rígida, os
tem o tipo de elegância que provavel-
alunos logo encontraram uma solução
nte agradará a quem o descobrir! No
de que gostaram muito mais. Deslocan-
do parcialmente a cozinha para a frente
:~anto, a parte seguinte e mais difícil
do problema é encaixar todas as peças
da moradia adjacente, a sala podia ficar
de ambos os quebra-cabeças numa for-
com um formato mais flexível e menos . pies e perfeita (Fig. 13.7).
profundo sem aumentar a largura da ma s1m . Como
.
er na solução sugenda, lSSO
residência. Essa configuração também se po de V -
. l' demolir as duas soluçoes ante-
Permitiu afastar a sala da galeria de 1mp 1ca f .
., ão se encaixam per elta-
riores, Ja que n
acesso, criando um espaço de transição
mente (Fig. 13.8).
externo semiprivativo.
210 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

Fig. 13.3
D Fig. 13.4
O primeiro quebra-cabeça simples O segundo quebra-cabeça simples

li
Fig. 13.5 Fig. 13.6
A melhor solução do primeiro A melhor solução do segundo quebra-cabeça
quebra-cabeça

Muitas vezes, porém, o projetista -cabeça. É facílimo projetar tipos de casa


descuidado vai cair na segunda armadi- bastante bons e depois tentar encaixá-
lha, tentando resolver o quebra-cabeça -los no terreno, sejam quais forem os
de aproveitar as soluções elegantes do· · problemas causados. Lamentavelmente,
pseudoquebra-cabeça que, n a verdade, é comum que incorporadores especu- '"".
são o maior obstáculo para o sucesso, lativos cheguem ao ponto de construir
mas o fazem sentir um certo orgulho e esses projetos, de tão apegados aos seus
satisfação. Portanto, os nossos alunos tipos de casa padronizados!
que projetam moradias podem achar
mais difícil voltar atrás para questio-
nar a ideia da galeria de acesso ou da 13.4 A armadilha
construção com paredes de alvenaria dos números
estrutural. Os problemas h abitacionais
também dão muitas oportunidades para Na verdade, já discutimos essa armadi-
essa segunda armadilha do quebra- lha de forma bastante extensa quando
212 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

ooo o [
ou Planta original

D Área útil= 12,414 m2

Nova verga e abertura

7"T"r7'?'7o:
?1 !:::: 0 DO 0 [
Fig . 13.9
Os legisladores caem na armadilha
tlJ
Sem espaço
dos números: a segunda planta Obrigatório que a
para armário
tem área útil maior, como exigido, planta tenha pelo
mas acomoda menos móveis e é menos 12,5 m 2
(12,534)
mais cara

As autoridades aprovaram o novo projeto não caberia a penteadeira. No


projeto, já que a área útil foi aumentada entanto, as autoridades, levando a sério
em 0,12 metros quadrados e agora exce- a responsabilidade de proteger o público
dia um pouquinho o tamanho mínimo. com a manutenção dos padrões míni-
Essa solução foi obtida a um custo con- mos, insistiu na mudança! Estavam mes-
siderável que dificilmente poderia ser mo presos na armadilha dos números!
considerado economicamente viável. Depositamos tanta fé nos números
No entanto, de forma ainda mais ridícu- que os argumentos favoráveis ao pro-
la, 0 verdadeiro espaço útil ficou menor. jeto com números um pouco menores
como a porta foi deslocada, o espaço do que outros frequentemente serão
atrás dela, quando aberta, ficou menor ignorados! Muitas vezes é difícil quan-
que a largura dos móveis comuns, impe- tificar os ganhos e, portanto, nem sem-
dindo a colocação ali de uma cômoda pre é fácil exprimi -los como no caso
ou um guarda-roupa. Portanto, no novo aqui mostrado.
,:~
13 Armadilhas do projeto 213
t
.
"
13.5 A armadilha do ícone
I
so de projeto. Em muitos casos, foram
tomadas decisões para dar melhor com-
Vimos no Cap. 2 que a ideia de projetar posição ao desenho, e não à edificação.
com desenhos separou o processo de É claro que nunca vemos edificações
projeto do processo de fazer ou cons- do "ponto de vista da minhoca", e rara-
truir. Hoje, o projeto com desenhos é mente do "ponto de vista do pássaro".
lugar-comum, a ponto de dedicarmos ao Mas também não vemos as edificações

assunto todo o próximo capítulo. Aqui, como plantas nem como cortes, e rara-
entretanto, veremos que uma ferramen- mente chegamos a ver uma verdadeira
ta poderosa como o desenho pode facil- elevação. Como abordaremos no próxi-
mente se tornar uma armadilha para mo capítulo, todos os desenhos têm as
os projetistas. Ao projetar, o desenho é suas possibilidades e limitações. Não
I poderoso, como ressaltou Jones (1970), há nada de errado em produzir belas
,.
~

I porque dá ao projetista um "alcance apresentações, desde que continuem a


maior da percepção". Assim, os projetis- · cumprir a tarefa de revelar e transmitir
tas podem ver o todo da proposta e fazer o projeto para que possa ser entendido
f.
I experiências com essa imagem em vez de forma adequada e completamente
de experimentar construindo na prática. examinado.
f:
l É fácil, porém, o próprio desenho
~
tornar-se uma armadilha para o proje-
~ tista. Por natureza, todos os projetistas 13.6 A armadilha

I
~
têm sensibilidade visual e habilidade
gráfica e gostam de fazer desenhos e
da imagem

t maquetes bonitos que, hoje em dia, Invariavelmente, o projetista tem na


cabeça uma imagem do projeto aca-
f podem não ser apenas físicos, mas
também construções computadoriza- bado. No entanto, muitas vezes há um
f descompasso entre a intenção e a con-
das complexas. É facílimo para o pro-
cretização do projeto. Com o passar
jetista ir se interessando cada vez mais
dos anos, assisti a várias centenas de
pela aparência do desenho propria-
alunos de projeto me apresentarem em
mente dito, e não pelo que o desenho
aula como ficariam os seus projetos e
representa. A moda vem e vai nos esti-
como seria morar neles ou utilizá-los.
los e meios de desenhar projetos, quase
Muitas vezes, a inexperiência natural e
tanto quanto nos próprios projetos.
muito compreensível do aluno faz com
Há alguns anos, o famoso arquiteto
que esteja redondamente enganado. O
James Stirling desenvolveu uma pro-
aluno de arquitetura pode querer que
pensão visível pela axonometria dese-
um espaço seja luminoso e arejado ou
nhada de baixo para cima, a ccvisão da
obter algum efeito de luz especialmen-
rninhoca" em vez da mais convencional
te drástico, mas, como não tem expe-
"visão do pássaro". Toda uma geração de
riência de realmente criar um espaço
alunos de arquitetura passou a imitá-lo,
Uf}'
desses, o projeto pode virar um grande
1 lzando esses desenhos no preces-
214 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

desapontamento se for construído. Hoje o júri desconfiou e perguntou se cami-


em dia, com demasiada frequência, os nhões de mudança conseguiriam entrar
alunos de projeto - e alguns professores e fazer o retorno. Ele não verificara. Per-
que deveriam saber o bastante para evi- guntamos se pensara em proteger as
tar esse problema - se contentam em ter árvores dos danos causados por crianças
ideias sem testar a sua concretização. jogando futebol. Ele achava que as crian-
Bem recentemente, um aluno de ças iam jogar em outro lugar. Pergunta-
arquitetura da minha faculdade dese- mos se ele achava que os moradores do
nhou um corte absolut amente mara- conjunto realmente possuíam Bentleys
vilhoso de um espaço extremamente antigos ou talvez Ford Cortinas velhos
imaginativo e envolvente. Infelizmen- parados sobre tijolos enquanto eram
te, o efeito de luz mostrado no desenho consertados. Ele achava que não tinha
seria impossível de obter com a aber- importância, então perguntamos por que
tura relativamente pequena que ele desenhara o Bentley. Aos poucos, toda a
propunha construir no teto. Esse aluno imagem formada pelos mews começou a
descreveu o seu trabalho com habili- se desfazer, mas ele relutou muito para
dade verbal considerável, numa defesa perceber. Afinal de contas, estava bem
competente, mas enganou a si mesmo preso na armadilha da imagem. Não
e a alguns dos seus críticos com a ima- conseguia mais ver o seu trabalho com
gem do projeto em desenhos e palavras. olhos críticos para pôr à prova a concre-
Esses alunos podem ser levados ao tização dessa imagem.
laboratório ou obrigados a fazer algu- Infelizmente, essas imagens não
mas contas para conferir o resultado. No são exclusivas dos alunos. Em She-
entanto, fica ainda mais problemático ffield, na década de 1960, tivemos
quando a imagem na cabeça do projetis- três grandes conjuntos habitacionais
ta trata de algum tipo de realidade social. construídos segundo o mesmo princí-
Outro aluno de arquitetura apresentou pio. Disseram que Park Hill baseava-
um conjunto habitacional numa sessão -se numa "rua•• de acesso, só que eram
de apresentação de projetos que fiz há "ruas suspensas" (Fig. 13.10). Esses con-
alguns anos. Ele explicou que separou os juntos ficaram tão famosos que muito
pedestres dos veículos, que, segundo ele, se escreveu sobre eles, inclusive pelos
entrariam num pátio, típico dos mews de arquitetos originais. Tiveram enorme
Londres, cercado de moradias. Os dese- influência e muitos arquitetos os visi-
nhos confirmavam isso mostrando uma taram e estudaram, e atualmente o
vista arborizada e ensolarada, com uma English Heritage, órgão de defesa do
senhora de guarda-sol escoltada por um patrimônio histórico inglês, acha que o
homem de calções até o joelho, boné único conjunto que ainda resta merece
e luvas de motorista, pelos paralelepí- ser tombado.
pedos, até um carro antigo. A imagem, Jack Lynn, ao descrever as "ruas
então, era de um comportamento nobre, suspensas", argumentou que as ideias
de valores tradicionais e vida tranquila. de Unité d'Habitation de Le Corbusier,

d
13 Armadilhas do projeto 215

Fig. 13.10
"Ruas suspensas" ou
exemplo da armadilha
da imagem?

com a sua circulação interna, eram ina- olhar. Muitas "ruas" realmente se liga-
dequadas na Inglaterra: vam com o chão, como afirmavam os
arquitetos, mas só na parte do conjunto
Séculos de p az e cem anos de reforma
habitacional neste país nos deram a rua
fora da cidade, fazendo com que a maio-
aberta acessível por ambos os lados, na ria dos moradores ainda tivesse de usar
qual se entra d iretamente em cada casa os elevadores para trabalhar ou fazer
pela porta da f rente [...] O gregarismo de-
compras. Essas "ruas" eram tão isoladas
penderia do ar livre? Por que há tão pouca
conversa no metrô e no elevador? Haverá
visualmente que os moradores não se
formas sociáveis e antissociáveis d e acesso sentiam inibidos de jogar pelo parapei-
à moradia? (Lynn, 1962). to objetos domésticos quebrados, como
televisores, causando temor considerá-
Parece que esses arquitetos conven- vel nos que andavam lá embaixo!
ceram a si e aos clientes que realmente É claro que essas imagens são uma
estavam construindo "ruas suspensas". parte vital do processo de projeto. No
Ficaram tão convencidos que amplia- capítulo anterior, vimos que muitos
ram a imagem para descrever as lixei- projetistas gostam de contar histórias
ras comunitárias como o "equivalente e construir imagens bastante sofisti-
moderno da bomba d'água da aldeia". cadas. Sem isso, as ideias não podem
Mais uma vez, a imagem é de uma vida ser aproveitadas e desenvolvidas. No
tranquila e bucólica com espírito comu- entanto, a armadilha da imagem está
nitário. Infelizmente a realidade era sempre por perto quando o projeto
b I
começa a assumir a realidade física e
em outra. As portas da frente podiam
se abnrpara
· social das imagens que estão sendo
os corredores, mas os espa-
Ços residenciais d avam para o outro usadas. Elas têm de ser consideradas
lado· As 11ruas" tmham hipóteses possíveis, e não aceitas como

um 1a do so,
, sem
nenhum "vizinho" do outro lado para se teses consolidadas.
14
Projetar com outros
I

. d f e &Ampre fará par~ d., 9ftJr/A


Po1 bem ou por mal, o lndtvl uo az l'd .1 é "forte" e "avVA..V·
ersona 1 ar.~e
Pnrece que não Importa se a ~ua P o ru o dobram, mvldarr.
mn"; as normns, crençns e prâttcas comuns a 9 p
e configuram o individuo. · d.v.j
Krech, Crutchfield e Ballachey, O indivíduo na sooe e

m que os outros vejam: eis


Todos estão condenados a ser o que quere dentJ '"
preço que o indivíduo paga à sociedade para ~ermanec.er ~ r-~
dela, com o que ele é, ao mesmo tempo, p,ossut~or de um p~;
0

coletivo de comportamento e por ele possUido. _At~da que c.a:m .,ez


construa sozinho a própria casa, não se pode fugtr dt~SO, mas. __
de ter de aceitar o fato de que só há um lugar para por a mesa de y.::r-
tar, pelo menos todos teriam capacidade de interpreta r a seu rr~/-
pessoal o padrão coletivo.
Herman Hertzberger, Looking for the Beach under the Pavef"""er:-

14.1 Individualidade e equipe

Em todo este livro, vimos que o ato de projetar envolve uma


variedade imensa de realizações humanas. Ele exige que se
encontrem e resolvam problemas, que se deduzam e desenhem
inferências, que se induzam e criem novas ideias, análises e
sínteses. Acima de tudo, projetar exige a formação de juízos e a
tomada de decisões ponderadas, muitas vezes num contextO
moral e ético. Os projetistas costumam possuir uma habili-
dade muito desenvolvida de comunicação gráfica e adquirem
a linguagem da crítica de arte. Portanto, é fácil imaginar que a
expressão gráfica reside no cerne do ato de projetar. Vimos que
os desenhos dos projetistas podem ser considerados obras ~
arte a serem expostas e admiradas pelo seu valor proprio. C'\.'"\tll\:'
-objetos de beleza. No próximo capitulo, veremos que os projetis-
tas conversam com os seus desenhos. 1\ldo isso tende a disun-
dar os projetistas de nós, de um modo q\le pode ser et~Th."'$.'\
14 Projetar com outros 217

projetar pode ser considerado um


publicitária é muito mais prosaica. Na
tipo de atividade muito especial pratica_
verdade, os projetistas não são pesso-
da por uma estranha raça de indivíduos
as especiais, já que todos projetamos
extremamente criativos. No cinema e
em maior ou menor grau. Toda manhã,
no teatro, os projetistas costumam ser
quando nos vestimos, projetamos a
retratados de maneira parecida com os nossa aparência. Todos projetamos o
artistas plásticos. Esses personagens interior da nossa casa e personalizamos
dramáticos são temperamentais e de o local de trabalho. Até mesmo planejar
difícil convivência, e parecem consu- e organizar o tempo pode ser conside-
midos e impulsionados por uma paixão rado um tipo de projeto. Os projetistas
íntima que os isola do resto da socie- profissionais que realmente ganham
dade. Infelizmente, parece que muitos a vida projetando para os outros cos-
projetistas querem aumentar, em vez de tumam trabalhar em equipe, forjando
eliminar, o abismo ·e ntre eles e os outros. as suas ideias com esforço, em vez de
Suas vestimentas, sua conduta e seu concebê-las com facilidade. É a ativi-
comportamento podem ser incomuns e dade em equipe tão característica do
excêntricos. De certa forma, isso é com- processo de projeto que estudaremos
preensível, já que constitui um modo neste capítulo. Um integrante impor-
de impor autoridade. O que o projetista tantíssimo dessa equipe é o cliente, e
vende além da sua criatividade? De um a relação entre cliente e projetista tam-
modo bastante falso, passamos a asso- bém será examinada aqui.
ciar criatividade a originalidade, razão
pela qual os projetistas que vendem
o seu talento querem parecer originais o 14.2 Projetar como
máximo possível. As revistas sobre pro- atividade natural
jetos, as resenhas de jornais e os progra-
mas de televisão tendem a reforçar esse Todos desenvolvemos a habilidade
culto ao indivíduo. No mínimo, é pro- de projetar, mas, para a maioria de
, s esse é um processo relativamen-
no,
vável que isso demonstre a reação jor-
te inconsciente, no qual somos muito
nalística à nossa necessidade de heróis.
. fluenciados por aqueles que nos cer-
Recentemente os meios de comunica- m b'
' caro. Escolhemos, compramos e com ~-
ção passaram a usar a palavra designer,
mos roupas e móveis e, nesse senti-
projetista em inglês, para indicar algo na il'
_
do, naopo demos deixar de
. ser
. est 1stas
exclusivo e extraordinário, como em
de moda e designers de mtenores. Tra-
«designer jeans". Provavelmente, até aqui .ardim e nos tornamos
este livro sugeriu implicitamente que balhamos no J
isagistas amadores. Em todas essas
Projetar é um processo totalmente pes- p~ . d
atlvlda es, a
lém de nos satisfazermos,
soal e individual. No entanto, não preci- , omunicamos e passamos
,I tambem nos c
sa ser assim, e na verdade raramente e. nós. Com o passar
ensagens sobre -
. A realidade por trás da imagem m adquiri uma coleçao subs-
dos anos,
snnples do dramaturgo e da moda
218 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

tancial de fotografias da maneira como Assim como a carcaça de uma casa pode ser
concluída pelos ocupantes e transformada
as pessoas modificam e decoram a sua em ambiente familiar pessoal, a rua tam-
casa para exprimir não só a identida- bém pode ser ocupada pelos moradores. A
de individual como a identidade gru- oportunidade de completar a própria casa é
importante para a autoconsciência enquan-
pal (Lawson, 2001). Muitas vezes, essa
to processo introvertido: fora dele, o outro
"personalização" foi obviamente cara e componente se manifesta na integração do
envolveu muitas horas de trabalho. As indivíduo aos outros. Por essa razão, na rua
persianas decorativas sem nenhuma é importante a preocupação de provocar e,
ao mesmo tempo, oferecer as ferramentas
função que às vezes se espalham num para estimular as decisões comunitárias.
conjunto habitacional como uma doen- A rua torna-se posse dos moradores que,
ça contagiosa são um exemplo óbvio. por meio da sua preocupação e das marcas
que deixam nela, transformam-na em seu
Nelas, gastou-se tempo e dinheiro sem
território comunitário - depois da privaci-
nenhum benefício estritamente fun- dade da casa, o segundo pré-requisito para
cional, apenas para identificar e indi- a autoconsciência.
vidualizar. Pode-se considerár que essa
ação faz parte do processo de tomar
posse da casa e, de várias maneiras, Cedric Green sugeriu que é impor-
distingue a "casa" do "lar" ao criar uma tante reconhecer o modo natural como
sensação de integração à comunidade. aprendemos a capacidade de projetar
Com demasiada frequência, os nos- {Green, 1971). Esse fato costuma ser
sos projetistas criativos e profissionais esquecido nas escolas de arquitetu-
acham que esse esforço humilde é um ra. Para Green, o desenvolvimento da
insulto aos seus projetos. habilidade de projetar se parece com
De todos os projetistas que citamos a aquisição da linguagem, por ser um
neste livro, talvez nenhum entenda processo contínuo iniciado na primei-
e aceite isso tão bem quanto Herman ra infância. Sem dúvida, as crianças
Hertzberger. O envolvimento dos usuá- pequenas adoram arrumar e rearrumar
rios no processo de projeto é uma seus pertences. Essa atividade faz parte
característica dominante da atitude do processo pelo qual aprendemos não
geral de Hertzberger em relação aos apenas a classificar e categorizar, mas
projetos. Portanto, pode-se esperar que também a nos exprimir. Assim como
pense profundamente nisso ao projetar adquirimos um vocabulário maior e
residências. Isso é verdade, sem dúvi- ficamos mais fluentes no uso da lingua-
da, mas ele nos recorda que esse pro- gem, argumenta Green, também desen-
cesso de envolvimento com o lugar se volvemos a capacidade de projetar.
estende dos indivíduos para as famílias Embora no Reino Unido tenhamos
e depois para comunidades maiores. conselhos de pesquisa de engenharia,
No entanto, Hertzberger (1971) não vê ciências exatas e sociais, meio ambien-
0 papel do projetista como puramen- te, medicina e até um Conselho das
te passivo, mas como facilitador ativo Artes, não temos nenhuma entidade
do processo: para financiar pesquisas que possam
14 Projetar com outros 219

beneficiar projetos. Embora o aprendi- de profissionalizá-lo. Para alguns, isso


zado e 0 uso da linguagem
, . sejam um
envolve o uso de jogos. É com as brinca-
campo de estudo ha mu1to tempo, rela-
deiras que as crianças adquirem muitas
tivamente pouco se fez para entender
habilidades fundamentais na vida adul-
0 nosso desenvolvimento como pro- ta, mas o uso formal dos jogos como
jetistas. Na verdade, a nossa socieda- ferramenta educativa é um fenômeno
de costuma considerar pressuposta a relativamente recente. Esse tipo de jogo
capacidade de projetar, e essa habilida- educativo costuma ter como objetivo
de talvez seja subvalorizada. Quando não só desenvolver a avaliação do pro-
crescemos, aprendemos a linguagem blema como também examiná-lo num
de maneira formal e estruturada, e o contexto social em que o papel dos joga-
estudo da linguagem é legitimado pelo dores é considerado um campo legítimo
seu lugar no currículo escolar. Até de estudo (Taylor; Walford, 1972):
recentemente, era raro ensinar a proje-
tar nas escolas do Reino Unido. Podia- ~ possível que o comportamento e a
-se dizer que certas atividades, nas interação dos participantes do jogo in-
cluam competição, cooperação, conflito e
aulas de artes plásticas, artesanato, até conspiração, mas, em geral, limitados
música, teatro e outras, estimulavam a ou parcialmente provocados. Identifica-
capacidade de projetar, mas não havia -se uma situação inicial e se dá alguma
orientação sobre como se espera que a
uma abordagem integrada para ensinar simulação funcione. Ainda assim, alguns
a projetar. Finalmente, pelo menos em jogos dizem respeito primariamente ao
termos opcionais, o plano de estudos desejo de "entender o processo de toma-
da de decisões", como nos jogos em que
do adolescente de 14 anos começou a se assumem papéis; outros, contudo, po-
incluir esse tipo de matéria, mas ain- dem orientar-se pelo desejo principal de
"entender o modelo" ou examinar o pro-
da há muitos anos esquecidos desde o
cesso representado pelo próprio jogo.
início da escola primária nos quais não
se ensina a projetar. Talvez essa seJa
Como vimos neste livro, não se pode
outra razão porque as pessoas comuns
projetar num vác~o ~ocial. Na verdad~~
às vezes se sintam um pouco intimida-
das diante de projetistas profissionais. e, a própria existencia de outros parti , .
. tes tais como clientes, usuanos
c1pan , . 'd d
e legisladores, que torna a atiVl a e
.
de proJetar t-ao desafiadora. Trabalhar .
14.3 jogos de projetar te para si pode ser conside-
meramen , ·
.
do mais um a o t de criação art1st1ca
t importante, então, reconhecer que ra ex ressionista. Portanto, de_ve-s~
projetar é uma atividade natural e que auto p próprio projetar mclm
08 alunos de projeto chegam à faculda-
·derar que 0 . ·
consl . d d habilidades sociais
vaneda e e
de preparados para isso desde a infân- to da a . egociar um consen-
. e permitemn
Cla. Portanto muitos defenderam qu ' que nos . liderança. Por sua vez,
' assumn a -
de certo modo, a formação do projeti:ta so ou . tência de tensao
isso subentende a exls
deveria continuar esse processo, alem
22D COMOMQUitEIOS E~ P96U'

e aiR de mnfiíto ~ adiaJwa IEIU o OXD mais detallies tenha sm a S~


efeito 'f\.Je esses cooffuns l::í:te! f*SSGõiis. OoeJa House- o f.K"' de cr.Je a aJq\ÜII!tD

baseados nos papéis dos inàiriduos.. ahanf470JU 0 ~'"O. de que o cDelie


têm soiJre os ptojerus. ~de~ um~ i:mer\93 de
Os projetistas 'OO:scam ~ a S.E rec-ür.SOS aàjrjnnais. óe que lJl&C grazrle

ordem e expt i:m.rr cs seus se:uimE::>Js _....,,.......,.....,. en fi nane eimlrED~


eüipt:iamllll _
iDstã-

por meio do p!~ isso não ~ :puro ~de a-. .i€ a oCfa roàa ~murro mas
capricho.. CC!I:C pens:;n"> ~~ ~ ~ ~ que se ~_a. tudo coctziaij
um plucesso ~ ãe ênnD....~ ~ 0 C'eüá-Tic õe c:nnFno cmrinm e
.. :.- ~- ,..,;;::;sc;;:=o;-.:..;;ID....... .:) resu..~
YOivimenm par~ óe caàa ?-T.C.:~~C e.. - -
SU~-~.::.-
---

~1:"';:: ~
é um óos ~-os moàe:rnos m;::~
ter uma imagem ióer:tt~ :ij ;::rte iom-ados e~ do munón.
de futuros ci._~~ Ül~d.illm. ~~ o papel da ~adnr mm 1IID
o ci.iellte mw1:as "i'eZeS é êi m b5Y;;7!C:ti.te. potencial ain<i=. rna~..Y de ("(Jf?n~
Sem dúviãa o cL\enre es:á nc am:ro;.~ que pcxitm ass:u:mir formas ~
uma vez que a encomenda rem de-t.e i! é óentes. Con~tc. remos a
ele quem. pêgc:.. mas em :odos os cx.,·::!'êS Un.agem do prcje:ri..c:ta e oo ~·:::'f~
aspectos., o projetista toma c. iaiciê.~--a. ~~~n~oornTharomo~
Quanto ma1c:: famoso e e..t.cg·adc o pre- ti.~ ~d:!nente ~ta_n.Qo ;, fur.;a
- - -
jetis~ maior o risco do cL~te.. pais irreirea'\"'el e a ~ado!". o ~-tac:u..~
essêS projeti.c::tê.S 'ffi'-em sob os ~fu.tes impassiveL A ~~ que Ri~
da pubLlcidade e é impro\Cl\""el que qt..'ei- Rogers iaz dos seus p..rOOlemas ro.m.
·r am pôr em risco a sua posiÇ.-n. .\ ta- o Corpo de Bombei.'I"QS de ~~ ~UI?
são entre cliente e proje~~ pcrranm~ 'i.mcs no cap. 6.. é um~ impres-
é inevitável e fuz parte do prob.iema.. sionante. Nas nem sempre ê a..c::s~m ~
Nos tipos de projeto em que os cLientes ~'&es. por~ os 0..~
.......
de à~ -
.... ..
não são usucLTios. é prová\~ qll€ haja jamenm podem am romo fre_~ ~
"-' ...
um elemento de tensão a m~ não res~-u o unp.:to comercial do ciien-
só entre a entidade-cliente e os u._c:uá- ~- e o arquiteto,. ao adotar uma vis.ic
rios. como também entre grupos de Uibana mais ampla. pode apoiar~
usuários. Na verdade. a tarefa do pro- restrições.
jetista. nesse caso, é realmente re\"f!lar ~ nk.--do.. issa nos ~'-a a :.rr::l
es-c:a tensão. em um processo que pode romplicaçào que todo estudante à.?
tomar a situação bastante desconfur- relações sociais já teria ~
tá,.rel. Lembro-me muito bem de como do como inevitã~. Onde há grop..15
me esforcei para resolver as tensões envolvidos na tomada de ~
subjacentes profundas entre médicos, não só existem ten~ ~.mv tãtn·
enfermeiras e administradores quan-
bêm coalizões e, portantu. ~""\'~
ào projetei hospitais. No século XX,
~uen~te. portanto. os ~is­
é: provável que um dos processos de
tas PfeCisarn de habilidade social~
projeto mais romànticos e registrado
transmitir as suas ideias.. Usu&riOS-
...
14 Projetar com outros 221

clientes, legisladores e construtores me outros locais além dos quatro exa-


ou fabricantes têm de ser convencidos minados pela pesquisa real. Esse jogo
e persuadidos para que o projeto real- consegue simular e dar vida a elemen-
mente se concretize. Em termos gerais, tos sociais do processo de projeto que
quanto maior a escala do projeto, mais este livro apenas consegue descrever.
básica e fundamental torna-se essa As relações existentes entre as pes-
habilidade. Portanto, não surpreende soas, as ideias que estas defendem e
que as técnicas de jogos e simulações a percepção que têm umas das outras
tenham sido utilizadas na formação e contribuem para as decisões, além da
no desenvolvimento principalmente de lógica e da paixão dos argumentos.
urbanistas, de planejadores urbanos e, Até agora, demos atenção ao efeito
em menor grau, de arquitetos. Taylor e sobre o processo de projeto dos vários
Walford {1972) observam isso no estu- papéis desempenhados pelos partici-
do do uso educativo de jogos e técnicas pantes na relação com o projetista, e
de simulação: falamos implicitamente do projetista
no singular. Entretanto, essa não é, de
Os jogos de urbanismo também se ex- modo algum, a única maneira de proje-
pandiram em grau notável quando o tar. Os grandes projetos, como prédios,
planejamento se aproximou mais de uma
ciência total e deixou de preocupar-se
por exemplo, costumam envolver toda
exclusivamente com os aspectos tecnoló- uma equipe de projetistas, composta
gicos dos tijolos e da argamassa. Assim, normalmente de equipes menores de
os planejadores se utilizaram dos jogos especialistas. Seja qual for o tamanho
criados por analistas empresariais, eco-
nomistas, cientistas políticos, psicólogos
da edificação, ela precisará não apenas
organizacionais e sociólogos para apresen- de arquitetos, como também de calcu-
tar uma visão sinótica mais equilibrada de listas e engenheiros estruturais e de
determinados aspectos do assentamento serviços, e edificações mais complexas
humano; eles descrevem, simplesmente,
odem envolver muitos outros pro-
o meio em que o planejador trabalha. pfissionais ainda mais especla . 1"lzados.
Pode-se considerar que tanto as equipes
É interessante que Taylor e Walford, de especialistas quanto a equipe geral
que ilustram a sua tese com vários do projeto têm uma dinâmica de grupo
jogos, dão os detalhes do chamado e não se comportam apenas como um
CIJogo da Conservação". Na verdade, . to de indivíduos. Embora alguns
conJun . d
esse jogo simula as deliberações finais ar uitetos prefiram ser mdepen en-
da pesquisa da Comissão Roskill sobre q t os optam deliberadamente por
tes, ou r 1
0 terceiro aeroporto de Londres, discu- & de prática integrada na qua
uma 1orma .
tidas no Cap. s deste livro. No jogo, co,~­ , . h b"lidades se combmam em
as vanas a I
tudo, os participantes recebem papelS . d pro)·e to. Provavelmente, o
. entre equ1pes e . .
Para trazer à tona os confl1tos d as profissiOnais mos-
me das agen .
08 Possíveis ganhadores e perdedores exa . ria dos arqmtetos pas-
, que a malO
trara . ·ndo com outros
de cada local. Para dar novo ímpeto ao . tempo mteragi
sa mais
jogo, é possível selecionar para exa-
"
222 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

Essa ideia foi ampliada num jogo


especialistas e com colegas arquitetos
mais realista chamado Gambit, que
do que trabalhando isoladamente, mas
usava peças magnéticas especiais para
é raro que isso se reflita no currículo da
maioria das escolas de arquitetura. representar elementos de uma edifi-
Cedric Green examinou o problema cação passíveis de serem arrumados
da cooperação entre arquitetos com a numa grade para criar um diagrama
adaptação engenhosa de um jogo com- arquitetônico (Green, 1977). Esses pro-
petitivo para crianças chamado Con- jetos podiam ser u orçados» de acordo
nect, criado pelo desenhista industrial com fórmulas simples para avaliar o
Ken Garland para a Galt Toys. Garland custo de capital, o custo do aquecimen-
cooperou com psicólogos no projeto de to, a eficiência estrutural etc. Os inte-
símbolos do local de trabalho e, visivel- grantes das equipes assumiam o papel
mente, isso o levou a desenvolver uma dos vários especialistas encontrados
abordagem minimalista da linguagem nas equipes de projeto de edificações
gráfica que parece ideal para o mundo do mundo real. Embora seja improvável
naturalmente inventiva e imaginativo que essa técnica produza boa arquite-
em que vivem as crianças. Desde então, tura, ela constitui um veículo maravi-
ele usou os seus conhecimentos para lhoso para estudar a dinâmica de grupo
desenvolver muitos outros jogos grá- dessas equipes. As discussões posterio-
ficos de sucesso para crianças, mas é res mostram como as tensões se desen-
provável que ficasse surpreso e interes- volvem e como as equipes capazes de
sado ao ver o seu jogo numa escola de lidar com essas tensões conseguem
arquitetura! O Connect consiste de uma vencer aquelas com integrantes vistos
série de ladrilhos com caminhos colori- como uprojetistas de muito talento".
dos que os atravessam em linhas retas Isso ilustra a mensagem deste capí-
ou curvas; às vezes esses caminhos se tulo de que projetar costuma ser um pro-
dividem ou simplesmente acabam. No cesso coletivo no qual a relação entre os
jogo original, as peças são distribuí- membros do grupo pode ser tão impor-
das entre os jogadores que, um de cada tante quanto as suas ideias. Essas ideias
vez, põem-nas na mesa, arrumando-as já foram demonstradas por Rae, que uti-
segundo a lógica dos caminhos, e ven- lizou jogos altamente formalizados com
ce o primeiro que usar todas as suas alunos de projeto do Hornsey College of
peças. Em essência, é um tipo de domi- Art, não para criar um modelo do proces-
nó gráfico em que o produto final pode so de projeto, mas especificamente para
ser tão fascinante, em termos visuais
' enfatizar a importância da dinâmica de
quanto o jogo em si. No entanto, Green
grupo e da adoção de papéis competiti-
mudou as regras para produzir um jogo
vos ou cooperativos no desempenho do
em que os membros de uma equipe
grupo (Rae, 1969). É claro que os alunos
tinham de cooperar para produzir um
também aprenderam bastante sobre
projeto que atendesse a várias exigên-
os problemas do projeto de edificações
cias físicas e econômicas.
propriamente dito e foram forçados,
14 Projetar com outros 223

pelo formato ~o jo_g~, a encarar os seus


preconceitos 1mphc~tos sobre o que era prática a mensagem de Green. Richard
importante na arqmtetura. Burton nos conta que, durante um
projeto, os três parceiros assumiram
Green também desenvolveu jogos
papéis para apresentar pontos de vista
para usar na escala urbana. Nesse caso,
aos outros (Burton et al., 1971):
primeiro os alunos estudavam uma
área local completa, na qual mais tarde Nesse estágio, e da maneira convencional
projetariam edificações. A partir des- um ou dois de nós começam uma relaçã~
se estudo, os alunos eram capazes de com um cliente e os mesmos participan-
tes continuam enquanto durar o projeto.
identificar os principais atores da área, Observamos que o membro do grupo que
como moradores, proprietários e empre- lida com o cliente representa inconsciente-
gadores, além de arquitetos, urbanistas mente o cliente no grupo e age como caixa
de ressonância dos outros. Também ten-
e incorporadores. O jogo começava com de a equilibrar os movimentos mais livres
um modelo em Lego de como era a área, dos outros dois. A dificuldade do nosso
e os alunos, representando os papéis já grupo, nesse estágio, nasce da tendência
de ter ideias prematuras com base num
identificados, iniciavam um processo aspecto do programa arquitetônico ainda
de negociação para explorar o futuro mal digerido. A vantagem vem da falta de
envolvimento total de dois membros do
da área. Foi notável o entusiasmo com
grupo, um dos quais provavelmente afas-
que os alunos de arquitetura adotaram tado o bastante para ver as distorções das
papéis aos quais normalmente faziam mudanças de rumo da pesquisa.
muitas críticas, como, por exemplo, o de
engenheiro de estradas, e muitas vezes Em seguida, Burton enuncia o valor
o resultado foi uma discussão longa e da dinâmica de grupo para ver sob
acalorada. É bem pouco provável que se outra luz as ideias criativas.
conseguisse uma análise tão profunda
Nesse ponto, 0 grupo tem urna vant~g~m
com indivíduos que, inevitavelmente,
clara sobre 0 indivíduo, porque as 1de1as
acham difícil imaginar pontos de vista podem tornar-se propriedade ~articular
conflitantes. Green também sugeriu que ou 0 território intelectual de a~guem. A :ar-
desse território é consideravel e multas
um jogo desses poderia ser utilizado ~:zes a dificuldade de trabalhar sozinho
com proveito por quem atua no mundo é romper os laços que ele causa. Dentr~
real, como forma de "prever e neutrali- do grupo, os laços se rompem com ~~~s
facilidade, porque a capacidade de cntlca
zar conflitos que, na realidade, são mui-
é despersonalizada.
to Prejudiciais e costumam ser causados
Por dificuldades de comunicação e com- ois Richard Burton
Alguns anoS dep •
Preensão de valores" (Green, 1971). Seria
demonstraria o poder do grup~ num
bern corajoso o órgão de planejamento
notável utilizado no proJeto do
que adotasse a sugestão de Green! Processo lh d
, Hospital na I a e
elogiado St Mary s '
Além de fazer fama como arquite- . le montou um grupo com par-
tos ·
. cnativos, parece que Peter Ah rend s, Wlght. E ,. entidades clientes
~hard Burton e Paul Koralek cnara · m . . antes das tres . ,.
tiClp várias supenntenden-
representando as
alguns métodos deliberados de pôr em
224 COM O ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

cias de saúde, membros da sua equipe 14.4 Dinâmica de grupo


na ABK e seus especialistas. Durante
três dias de intensa atividade, esse grupo De certa forma, todas essas ideias
combinou os principais itens do progra- dependem do conceito de grupo, que
ma arquitetônico, identificou três estra- age não só como conjunto de indiví-
tégias básicas para o projeto e escolheu duos, mas também vai um tanto além
uma delas para desenvolver melhor, da capacidade dos talentos individuais
inclusive com um esboço de orçamento coletivos. Esse conceito lembra a visão
(Fig. 14.1). Na verdade, o projeto efetiva- dos psicólogos gestaltistas de que "o
mente construído foi basicamente um todo é diferente da soma das partes",
desenvolvimento a partir dessa ideia embora nesse caso a relação entre as
final (Fig. 14.2). partes é que, claramente, mais con-

Fig. 14.1
Dois dos três
projetos alternativos
desenvolvidos por
uma equipe de
clientes e projetistas
num período de três
dias para o St Mary's
Hospital, na Ilha de
Wight
pr

14 Projetar com outros 225

Ffg. 14.2
O projeto escolhido,
elaborado num estágio
posterior do processo

tribui para a diferença. Muito se estu- Assim, em resumo, há cinco características


dou e escreveu sobre os grupos como que distinguem o grupo de um conjun-
fenômenos sociais e psicológicos, tal- to de indivíduos. Os membros do grupo
interagem entre si. Têm em comum um
vez mais do que sobre todos os outros objetivo e um conjunto de normas que dão
aspectos do comportamento huma- direção e limites à sua atividade. Também
no, e há perspectivas demais sobre o desenvolvem um conjunto de regras e uma
rede de atração interpessoal, que servem
assunto para que tratemos a ideia aqui para diferenciá-los de outros grupos.
com mais profundidade. No entanto,
pelo que já foi discutido neste capítulo, Isso nos traz várias noções funda-
parece pelo menos sensato que os pro- mentais para o entendimento do com-
jetistas tenham consciência de como os portamento do grupo, a percepção das
seus pensamentos podem ser afetados metas, o desenvolvimento de normas
pelo comportamento do grupo e como e as características das relações inter-
podem influenciar os pensamentos de pessoais. Na verdade, essas ideias
outros membros do grupo em que tra- são tão interligadas que é impossível
balham. separá-las de maneira sensata, a não
lá houve muito esforço, na literatu- ser numa análise inicial. No entanto,
ra sobre grupos, para definir a palavra hoje essa análise é bastante comum
Propriamente dita. Em consequência, é nas áreas em que os grupos têm de
Provável que hoje estejamos mais con- atuar, embora, infelizmente, pouco se
fusos do que nunca, mas talvez a expli- tenha escrito explicitamente sobre gru-
ca - pos que projetam.
_<;ao de H are (1962) de por que o grupo
nao é apenas um conJ·unto de indivídu- Hoje é comum as equipes competi-
os Sirva
. a . , . tivas utilizarem psicólogos esportivos
qui aos nossos propos1tos.
não só para desenvolver habilidades
2Z6 COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

pessoais, como também para integrar o do apego ao grupo. A princípio, parece


grupo numa unidade mais eficaz. Sabe- estranho que um passo desses rumo à
-se muito bem que, em geral, os times conformidade seja uma força do bem
que jogam fora de casa têm menos num grupo dedicado ao trabalho criati-
probabilidade de ganhar do que os que vo, e, na verdade, encontramos aqui um
jogam em casa. Ao estudar resultados dos problemas fundamentais da vida
passados e atuais do futebol no Reino desses grupos. No entanto, voltaremos
Unido e no exterior, Desmond Morris a isso um pouco mais adiante. Nin-
calculou que, em geral, é duas vezes guém discute que, em geral, os grupos
mais difícil vencer fora de casa do que criam normas. Certamente isso se vê
em casa (Morris, 1981). Há algumas com muita clareza em times ou grupos
desvantagens óbvias enfrentadas por esportivos, nos quais são muito comuns
quem joga fora de casa, como a viagem, uniformes, piadas entre os membros e
a falta de familiaridade com as condi- gestos e terminologia próprios. É claro
ções do ambiente, o público hostil etc. que, nesses casos, os torcedores tam-
No entanto, todos esses problemas tam- bém desenvolvem essas normas, mas
bém são enfrentados, em nível bem alto, aqui não é muito relevante o comporta-
por times internacionais que vivem de mento de grandes multidões.
fazer turnês. Só que, em geral, esses Uma das características das nor-
times parecem capazes de superar as mas do grupo é envolver alguma
desvantagens com a coesão social que forma de comportamento regressi-
se desenvolve por meio do contato ínti- vo. Padrões comportamentais que,
mo imposto pela viagem. Não é por aca- em outros contextos sociais, seriam
so que os times itinerantes enfrentam considerados questionáveis podem
adversários menores que provavelmen- tornar-se normais em grupos peque-
te perderão antes de começar a série de nos. Isso pode acontecer até quando os
jogos internacionais. É claro, então, que membros, individualmente, também
o desempenho pode ser muito influen- acham o seu comportamento esquisito
ciado por fatores como o moral do gru- fora do grupo. Certa vez me interessei
po, qualquer que seja ele. pelo desenvolvimento de um amplo
escritório sem paredes na sede de uma
grande empresa de atuação nacional.
14.5 Normas do grupo Antes, a empresa ocupara vários pré-
dios menores e separados, de vários
Parece que um dos fatores mais impor- tipos e idades, espalhados pela cidade.
tantes na formação de grupos eficazes No entanto, o departamento de arqui-
é o desenvolvimento de normas. Essas tetura estava acostumado às acomoda-
normas podem incluir convenções de
ções amplas e sem paredes e já tinha
vestimenta, fala e comportamento geral
desenvolvido há muito tempo esse
e servem para suprimir a individualida-
tipo de norma grupal. Depois de se
de dos membros em troca da expressão
mudar para o novo escritório, os arqui-

d
.- ··
14 Projetar com outros 227

tetos logo passaram a ser considerados


um incômodo pelos funcionários dos Em essência, ofereceram a ele uma opor-
outros departamentos, em razão da tunidade d e trabalho cansat ivo e ele
aceitou com entusiasmo [...) Parece q ue
natureza regressiva do comportamen-
havia um ri to misterioso de iniciação pelo
to do grupo, que envolvia coisas como qual passavam, de um jeito ou d e outro,
cantar em coro, reproduzir cenas dos todos os membros da equipe. A palavra
programas humorísticos de TV da vés- que os veteranos utilizavam para esse rito
(...) era "inscrever-se". Ao inscrever-se num
pera, jogar gaivotas de papel e vestir- projeto, a pessoa concordava em fazer o
-se de forma muito informal. que fosse necessário para o sucesso [...] Do
A descrição que Tracy Kidder faz do ponto de vista do gerente, as virtudes p rá-
ticas do ri tual eram muitas. A mão de obra
projeto de um novo computador Data não era mais coagida.
General é rica em exemplos da impor-
tância da dinâmica de grupo e das O resultado dessa equipe extraordi-
I relações interpessoais no desempe- nária foi que a Data General desenvol-
t nho de uma equipe de projeto. Kidder veu uma das séries de computadores
(1982) descreve como os grupos surgi- mais famosa que já se projetou, e isso
ram e ganharam identidade dentro da com a forte oposição de empresas
equipe, com as suas normas compor- maiores e mais estabelecidas, como
tamentais. Especificamente, os jovens DEC e IBM. Não há dúvida de que esse
recém-formados que participavam da grupo era realmente maior do que a
equipe e eram considerados "crianças" soma dos indivíduos. A documentação
pelos veteranos se dividiram entre os de corno esses grupos criativos funcio-
que projetavam hardware e eram cha- nam é bastante escassa. Talvez isso se
mados de "Hardy Boys" e os que proje- deva, em parte, ao culto do projetista
tavam programas e eram chamados individual, que parece ser uma imagem
de "Microkids". mais enganosa do que útil, e, portanto,
os grupos eficazes provavelmente são
Alguns recrutas disseram que gostavam bem mais comuns do que sugere a lite-
do clima. Por exemplo, o microkid Dave ratura. Já mencionamos a parceria de
Keating visitou outras empresas onde o
Ahrends, Burton e Koralek, que tam-
código tácito de vestimenta era imposto.
Ele gostava da aparência "informal" do bém parece ter criado o grupo extra-
porão de Westborough. Os j eans e tudo ordinariamente criativo descrito por
o mais. Vários falaram do "horário flexível" Richard Burton.
!...J Havia uma intensidade no ar. "Acho que
gostei do fervor e quis participar." Com o passar dos anos, desenvolvemos
o que podemos chamar de "território do
grupo": isto é, um reservatório de asso-
Kidder explica que os membros ciações de palavras, experiências, ideias e
desses grupos foram seduzidos a par- comportamentos em comum. Somos ágeis
ticipar deles pelo clima criado pelas nesse território.
normas, muito embora uma norma
Muitas vezes, o desenvolvimento
importantíssima fosse muitas horas de
das normas não é indolor. Às vezes se
trabalho duro.
228 COMO ARQUITETOS E DES/GNERS PENSAM

diz que os grupos passam pelas fases prefere est u dar leis e regulamentos
. . . em

de "formação", "ataque" e "normatiza- vez de desenVolver 0 pnnc1pal1mpulso .


. .
cnatlvo po • de paradoxalmente,
. ser uti-
ção" antes da "atuação". Isso porque,
, .
hss1mo em grupos de proJeto. Nesses
até certo ponto, as normas têm de sur-
gir a partir do conjunto de indivíduos. grupos, e, 1.mprovável .que as normas .
Quando cada um tenta impor o seu comportamentais estimulem mmto
caráter ao grupo, é provável que sur- respel'to a, conformidade ' à regulamen-
jam conflitos antes que se desenvolva tação e à burocracia. Em geral, portan-
a percepção das metas comuns ao gru- to, é improvável que os membros se
po e das normas aceitas. Nessa fase, os interessem muito por procedimentos
indivíduos costumam assumir papéis ou regras dentro dos quais tenham de
que, de fora, parecem caricaturas. Pode trabalhar. Assim, esse tipo de integran-
ser uma experiência estranha conver- te pode ser útil para manter o grupo no
sar com o membro de um grupo onde caminho certo, embora, provavelmen-
também esteja um amigo muito íntimo. te, seja bastante desvalorizado pelos
O grupo pode ver coletivamente o seu colegas. Alguns papéis servem para
amigo sob uma luz bem diferente da lisonjear outros membros do grupo,
sua, em razão do papel atribuído àque- como o do "burro", por exemplo, que, na
la pessoa no grupo. Ao mesmo tempo, realidade, é muito mais inteligente do
muitas vezes esses papéis ajudam a que parece, mas deixa os outros acha-
facilitar o trabalho do grupo e passam rem que contribuíram com boas ideias
a fazer parte do folclore que faz dele ou que têm um talento extraordinário.
um grupo unido. Portanto, um inte- É claro que nem todos os papéis são
grante pode conquistar a fama injusta produtivos o tempo todo, e a habilida-
de beberrão, dando ao grupo tanto um de de administrar esses grupos reside
motivo de piadas quanto uma descul- muitas vezes em reconhecer os papéis
pa pronta para transferir as reuniões, desempenhados pelos integrantes. Uti-
ostensivamente a pedido dele, para lizei jogos para mostrar isso aos alunos
locais mais informais. de projeto, que, provavelmente, um dia
É óbvio que os "líderes" são impor- se tornarão líderes de grupos. Nesses
tantes em grupos que, de vez em quan- jogos, havia reuniões de mentirinha em
do, precisam que se imponha uma
que cada participante tinha uma "pauta
direção. O líder ditatorial, que dirige·
secreta" e uma sugestão de papel para
sem consenso, ou a multiplicidade de
exprimi-la. Outro participante, então,
líderes podem ser igualmente preju-
era encarregado de presidir a reunião e,
diciais ao desempenho do grupo. O
ao mesmo tempo, descobrir essas ques-
"palhaço" que, aparentemente, nunca
tões ocultas, tentar trazê-las à luz e, no
leva as coisas muito a sério, pode ser
final do jogo, articular os papéis desem-
útil para desarmar conflitos capazes penhados.
de transformar-se em rixas permanen-
Um dos problemas das normas
tes dentro do grupo. O "advogado" que
grupais é que podem tornar-se dema-
14 Projetar com outros 229

siado poderosas e habituais e, em considera inevitável partir. Ou então


consequência, servir para suprimir o participante pode continuar no gru-
os desvios e a originalidade. Quando po, mas se afasta das normas e acaba
combinado à tendência de encorajar a rejeitado pelos outros. É comum que
regressão, isso pode levar os grupos a isso cause perplexidade nos que estão
perder o domínio da realidade. Richard fora do grupo e admiram o que foi fei-
Burton parece consciente disso quan- to. Nos casos mais extremados, pode-
do nos diz que é "essencial que o grupo -se ver esse fenômeno quando grupos
não se torne uma pequena comunidade muito famosos de música pop, como
fechada" e alerta que "vemos as comu- os Beatles, se desfazem. Os fãs podem
nidades fechadas como incubadoras da passar anos sem entender por que eles
fantasia". Ele indica dois remédios para jogaram fora uma relação tão produtiva
isso: mudar os participantes do grupo e torcer para que voltem a se unir. Esses
ou voltar à ideia do jogo teatral delibe- grupos raramente voltam a se formar,
rado já discutido neste capitulo. porque as condições da sua criação
nunca mais poderão ser recriadas. É
Provocamos curto-circuitos em muitas ex- comum que as parcerias entre projetis-
plicações dentro do grupo e isso dificulta
tas se rompam por questões aparente-
trabalhar com quem não tem conhecimen-
to prático do território do grupo. Basear-se mente triviais e, como nos divórcios, os
constantemente em pressupostos comuns envolvidos tornam-se bastante antagô-
pode ser perigoso, principalmente porque nicos e fazem críticas públicas uns aos
leva à estagnação, e, assim, a intervenção
outros. Assim é a natureza humana,
é bem-vinda e pode ser externa ou inter-
na ao grupo (caso em que um p articipante e, embora possamos descrevê-la e às
serve de "advogado d o diabo"). vezes explicá-la, não podemos controlá-
-la. Às vezes, conseguimos doma-la,
Provavelmente o ponto de vis- talvez apenas por um período limitado,
ta maduro de Burton sobre a manei- e gerar aquela satisfação que talvez seja
ra como funciona o seu grupo é bem a maior que existe: o trabalho em grupo
incomum; o mais provável é que mui- criativo e produtivo.
tos grupos criativos sejam bem menos
conscientes do seu desempenho e de
como administrá-lo e otimizá-lo. Por 14 . 6 Práticas ao projetar
essa razão, é previsível que a vida das
Os grupos de projeto são especiais de
equipes ou grupos de projeto seja natu-
, . s maneiras · Costumam ter um
vana
ralmente limitada. Não surpreende
, 'to específico dedicar-se a ele e
que muitas parcerias criativas acabem propOSl ' .
.derança predeúmda. Na ver-
ter uma ll .
se rompendo. A princípio, um talento
dade, uma das tarefas ~ ~~mpnr lo~o
extremamente individual pode ser pro- . , ·o de um escntono de proJe-
no pnnc1p1 . .
movido e alimentado pelo grupo, mas, , d 'dir como construu a sua erga-
tos e ec1 . ,
como no caso das crianças, parece que - . 1 Num estudo dos escnto-
nizaçao soCla .
chega a hora em que esse indivíduo
23
° COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM
rios d e vanos
' · arquitetos importantes, específico: Richard MacCormac "inicia
observaram-se padrões de estrutura o processo de projeto", Peter Jamieson
orgamzac10nal
· · bem diferentes e varia- cuida das "questões técnicas e con-
dos (Lawson, 1994b). Talvez uma das tratuais" e David Prichard é um "bom
questões mais importantes aqui seja a tocador de obras".
relação entre o nível mais alto do escri- Todos esses escritórios são muitís-
tório e cada uma das equipes de projeto. simo bem-sucedidos e produzem obras
É claro que alguns escritórios têm ape- arquitetônicas adrniradíssimas, de modo
nas um único titular, enquanto outros que todas as estruturas organizacionais
têm três ou mais e podem transformar- que representam funcionam. Portan-
-se em empresas bem grandes. Quando to, parece que, em grande parte, o que
o escritório tem mais de um titular a determina o padrão geral do escritório de
'
estrutura básica pode assumir várias projetos é uma questão de gerenciamen-
formas. Os titulares podem trabalhar to pessoal. Praticamente todos os arqui-
efetivamente como se fossem escritó- tetos do estudo sabiam qual o tamanho
rios semiautônomos e confederados, do seu escritório ideal. Os números
cada um com a sua própria equipe. variavam, mas havia pouca dúvida na
.. Geralmente, a ABK parece funcionar cabeça dos entrevistados. Parece que a
assim, com Peter Ahrends, Paul Koralek maioria dos projetistas tem ideias pró-
e Richard Burton trabalhando cada um prias a respeito de quantas pessoas eles
com o seu grupo em projetos próprios. · querem gerenciar e ter sob a sua respon-
É óbvio que aqui os parceiros ainda sabilidade. Ian Ritchie argumentou que
I. dividem a infraestrutura e discutem e as equipes de projeto precisam ter "mais
trocam ideias, mas atuam de maneira ou menos o número de pessoas capazes
bem independente. No outro extremo, de se comunicar bem entre si". Ele pre-
podemos encontrar o famoso escritório fere equipes com umas cinco pessoas e
de arquitetura de Stirling e Wilford. Até considera que o escritório ideal deve ter
a morte trágica e prematura de ]ames cinco desses grupos.
Stirling, ele e Michael Wilford dividiam
a mesma sala, que, por sua vez, se abria
para o escritório geral com uma porta 14.7 A equipe de projetos
grande normalmente aberta. Esses dois
sócios trabalhavam nos mesmos pro- É claro que o projeto depende tanto da
jetos e praticamente não os dividiam, criatividade e dos talentos individuais
chegando a escutar as conversas telefô- quanto dos ideais mantidos e compar-
nicas um do outro e as discussões com tilhados pelo grupo. Provavelmente,
outros membros da equipe. O escritó- controlar o equilíbrio entre pensamen-
rio de MacCormac, Jamieson e Prichard to individual e trabalho em grupo é
tem outra estrutura, que podemos fundamental. Podemos considerar que
chamar de modelo empresarial. Cada a equipe de projeto tem um "espaço
um dos sócios desempenha um papel de trabalho" individual e outro grupal.

.........
' I
I

14 Projetar com outros 231


Especificamente, também há 0 es a-
ço de trabalho individual do titularpdo m~neira menos confrontadora. Michael
escritório mais ligado ao projeto. A rela- W~lford compara o seu papel ao de um
ção entre o titular e a equipe de proje- ~dltor de jornal que recebe o texto dos
to parece ser mais decisiva no escritó- JOrnalistas e, então, sugere alterações
rio com um único titular. Aqui, 0 mais ou mudanças de ênfase.
provável é que a empresa tenha 0 nome
do titular e que a sua reputação pesso-
al é que tenha de ser defendida. Pelas 14.8 Como os grupos de
observações feitas por vários arquite- projeto entendem os
tos famosos, pode-se ver a necessida- objetivos coletivos
de desse indivíduo de encontrar 0 seu Os escntonos
· , · de projeto são intensa-
espaço mental. Durante o dia normal de
trabalho, titulares únicos como Herman mente sociais quando comparados, por
exemplo, com escritórios de advocacia
Hertzberger, Eva Jiricna, John Outram I
ou consultórios médicos, onde sócios e
Ian Ritchie e Ken Yeang perambulam
funcionários trabalham com mais iso-
pelo escritório ou ficam na sala de dese-
lamento. O escritório de projeto tem
nho principal. Isso acontece claramente
mais probabilidade de funcionar com
para promover o contato máximo com
eficácia depois de ser "formado". Vimos
os integrantes da equipe de projeto. No
como isso costuma envolver o estágio
entanto, muitos fazem menção especí- de "ataques" ou discussões, mas tam-
fica à necessidade de ir para casa pen- bém o desenvolvimento de normas gru-
sar no projeto, talvez à noite. pais. Essas normas parecem se reforçar
Assim, o modo como o titular do ainda mais nos grupos de projeto com
escritório intervém na atividade da o desenvolvimento de uma linguagem
equipe do projeto torna-se uma ques- comum e da mesma admiração por
tão de importância decisiva para o projetos anteriores. Não é raro que os
modo como as ideias se desenvolvem e escritórios de projeto façam reuniões ·
o processo é controlado. Richard Mac- regulares com palestrantes convidados
Cormac, especificamente, refere-se ao que, por sua vez, costumam ser pro-
seu papel como "fazer urna série de jetistas que falam do seu trabalho. Do
intervenções em diversos estágios do mesmo modo, podem-se usar visitas a
processo de projeto". Gerenciar isso exposições e lugares de interesse para
de forma bem-sucedida exige, além reforçar o grupo e desenvolver uma
da habilidade de projetar, uma noção visão comum dos bons precedentes.
de ritmo e compreensão da psicologia Isso se baseia muito em conceitos com-
do grupo. Richard MacCormac fala de partilhados e no uso em comum acordo
..criar crises" deliberadamente e encon- de palavras que servem para abreviar
trar "alguém na equipe do projeto que esses conceitos. Como vimos, a inten-
entenda essa crise". Outros projetistas sidade do processo de projeto é tal que
frequentemente essas abreviaturas são
descrevem a relação com as equipes de
232 COMO ARQUITETOS E OESIGNERS PENSAM

~ecessárias nas conversas sobre o pro- do século XX. Sabe-se que Gaudi era
Jeto em gestação. Ao visitar um escritó- fascinado pela ideia da modelagem
rio de projeto para entrevistar os seus estrutural funicular. Em termos sim-
integrantes, notei que algumas pala- ples, ela envolve construir a estrutura
vras, que normalmente seriam consi- de cabeça para baixo, usando cordas e
deradas bem esotéricas, podem surgir pesos, permitindo assim que os prin-
com muita frequência. Certa tarde num cipais componentes estruturais assu-
escritório, por exemplo, a palavra "bel- mam uma configuração lógica própria.
vedere", que não é muito comum foi I
Peng ressalta que a equipe do projeto,
usada por três pessoas diferentes de que incluía não apenas Gaudi como o
forma bastante independente quando seu engenheiro estrutural e um escul-
se discutiam questões bem distintas. tor contratado para fazer a decoração,
Do mesmo modo, é provável que haja construiu uma maquete funicular no
referências a outros projetistas ou a início do processo de projeto à qual
projetos bem conhecidos como forma cada um fazia referência de acordo
de explicação do que os projetistas ten- com os seus propósitos. Por sua vez,
tam fazer. na abordagem metaforista de Peng, os
Num estudo de como os grupos de participantes apresentam as próprias
projeto se desenvolvem e compartilham ideias e tentam encontrar outras que
o mesmo conjunto de ideias de proje- possam então ser usadas para envolvê-
·'I., to, Peng identificou dois padrões prin- -las, organizá-las e dar-lhes coerência.
() cipais de comunicação, que chama de Anteriormente, neste livro, apresen-
"estruturalista" e "metaforista" (Peng, tamos a ideia dos "princípios condutores"
1994}. O estudb de Peng limitava-se a e dos "geradores primários" (ver Caps. 10
um número muito pequeno de casos, e 11). No estudo de Peng, encontramos
mas uma característica interessante pela primeira vez uma sugestão de como
dos seus dois padrões parece confirmar esses geradores primários surgem e são
as minhas entrevistas com arquitetos entendidos, não pelo indivíduo, mas
importantes (Lawson, 1994b). por um grupo inteiro. Alguns projetis-
Na abordagem estruturalista de tas, como Ken Yeang, redigiram os seus
Peng, a equipe de projeto trabalha sob princípios condutores para formar um
a influência de um conjunto princi- conjunto de regras que, então, dominam
pal de regras já conhecidas antes do o processo de projeto, visto como "estru-
começo do projeto e que servem para turalista" na terminologia de Peng. Do
gerar formas, embora, ainda assim, mesmo modo, }ohn Outram publicou um
permitam um razoável grau de inter- conjunto de sete estágios ou ritos pelos
pretação pelo grupo. O exemplo que quais, como descreve, o seu processo de
ele dá é o desenvolvimento, pelo projeto tem de passar. Ao discutir como
famoso arquiteto espanhol Antonio reage a sua equipe, o próprio Outram é
Gaudi, do projeto da Colonia Guell, bastante explícito a respeito do impacto
em Barcelona, terminado na virada disso sobre o grupo de projeto:
14 Projetar com outros 233

o pessoal que se dá melhor são os que O espaço de culto do primeiro andar


veem isso como mais um aspecto do jogo
de que deveriam participar, entende? Há 0 acabou sendo descrito pelo grupo como
supervisor do distrito, há o supervisor de "embarcação". Isso, então, configurou,o
orçamento, há o engenheiro estrutural e modo como foi construído o andar de
há John Outram.
cima para "flutuar solto" das paredes
do andar inferior, embora ainda susten-
Por sua vez, outros projetistas con- tado por elas.
fessam que não conseguem sequer Embora Peng não considerasse isso
lembrar como o grupo desenvolveu a na sua análise, parece bem provável
ideia principal de um projeto. Richard que os padrões de comunicação em
Burton registra que "às vezes, tentamos grupo que ele chama de estruturalis-
recordar quem teve uma ideia específi- ta e metaforista possam coexistir em
ca e geralmente descobrimos que não qualquer processo de projeto. Quando
conseguimos". Esse fenômeno também o escritório de projeto mantém princí-
é citado por Bob Maguire (1971), que nos pios condutores fortes, é provável que
conta que no seu escritório as ideias eles influenciem cada projeto e sugi-
podem aparecer de repente sem serem ram uma abordagem estruturalista. No
propriedade óbvia de nenhum inte- entanto, mesmo aí as características
grante do grupo: "Não é a ideia de uma da combinação individual de restri-
pessoa. Não temos lembrança clara dis- ções específica do projeto podem ain-
so, a não ser como experiência análo- da oferecer novidade suficiente para
ga a montar um quebra-cabeça muito encorajar um elemento de pensamento
depressa". grupal metaforista.
O arquiteto Richard MacCormac
também foi bastante explícito a esse
respeito quando descreveu o trabalho 14.9 O papel do cliente
no projeto da sede e do prédio de treina-
mente da Cable and Wireless (Figs. 14.3 Embora n ão possamos deixar de ver
e 14.4) (Lawson, 1994b): o projetista no centro do processo de
projeto, temos de tomar cuidado p ara
Não consigo me lembrar direito do que não desdenhar a importância do papel
aconteceu, e Dorian ou eu dissemos "isso é desempenhado pelos outros, notada-
uma parede, não é apenas um monte de ca-
sas, é uma grande parede com 200 metros mente o cliente. Vimos que os proble-
de comprimento e três andares de altura mas e as soluções dos projetos tendem a
(...] vamos fazer uma parede alta e depois surgir juntos, em vez de aqueles neces-
furamos os elementos residenciais nessa sariamente precederem estas. Michael
parede como uma série de baias envidraça-
das que saem e se sustentam sobre pernas. Wilford descreve isso como "embele-
zamento gradual" do programa arqui-
tetônico junto com o cliente, conforme
Também vimos, no Cap. 11, o fenô-
0 processo se desenvolve. Eva Jiricna
meno em ação no projeto da capela do
acha que "o pior cliente é aquele que diz:
Fitzwilliam College, em Cambridge.

-
234
COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

v~ em frente e me dê o produto final". parece que muitos projetistas preferem


Mlchael Wilford (1991) também conside- 0 envolvimento constante do cliente em
ra n1u·t · ·
1 o ma1s at1vo o papel do cliente: todo o processo. Ao contrário da ima-
"Por trás de cada edificação singular, há gem tantas vezes retratada em revistas
um cliente igualmente singular". e jornais, muitos projetistas realmente
Isso indica que o cliente tem um gostam da relação de trabalho íntima
papel bem maior que não é nada perifé- com os clientes.
rico. É óbvio que o cliente provavelmen- Usamos a palavra "cliente" em vez
te se envolverá bastante no processo de da palavra "consumidor" para desig-
redigir o programa arquitetônico, mas nar aqueles que encomendam projetos.

- '
JY
! ÍÍ,:ç_........,

Fig . 14.3
Esboço d e um
p rojeto de Richard
MacCo rmac
para o Centro de
Treiname nto da Cable
and Wireless e uma
maq uete po sterior
mostrando a "grande
parede"
14 Projeta r com outros 235

Fig. 14.4
A "grande pa rede"
de acomodações
residenciais construída
de fato

Isso indica que o projetista é considera- essa confiança. Herman Hertzberger


do um "profissional" e, portanto, deve nos conta que o seu processo de projeto
ao seu empregador um grau maior de só funciona quando se cria essa con-
atenção do que o esperado por "consu- fiança e explica isso com uma analogia
midores". Em essência, o cliente tem envolvendo a relação das pessoas com
o direito de esperar que o profissional a comida:
o proteja da própria ignorância. Isso
Se você não tem uma boa relação em
contrasta bastante com a noção de termos humanos com os clientes, pode
"advertência ao comprador" considera- esquecer, porque eles nunca vão confiar
da norma nos contratos comerciais. É em você. Eles confiam em você enquanto
veem coisas que já comeram, mas assim
claro, portanto, que essa relação tem de que você lhes oferecer um p rato que nun -
depender da confiança, e pode-se veri- ca comeram. pode esquecer.
ficar que os bons projetistas se esfor- (Lawson, 1994b)

çam para aumentar de várias maneiras


2 6
""'
3 COMO ARQUITETOS E DESfGNERS PENSAM

. . Essa importante lição para os pro- processos de projeto e de obra são pro-
Jetistas nos recorda que, se quisermos longados, como costuma acontecer na
mesmo ser criativos e inovadores, arquitetura, o comitê do cliente muda
temos antes de criar confiança nos nos- várias vezes de formação durante a
sos clientes. Talvez se comportar de prestação do serviço. Michael Wilford
maneira muito estranha e adotar uma ressalta que, às vezes, a mudança de
postura demasiado excêntrica acabe pessoal numa entidade cliente pode
não dando certo, afinal de contas. É cla- levar o arquiteto a ser o único a acompa-
ro que, para funcionar, essa confiança nhar inteiramente o projeto e a lembrar-
tem de ser uma relação recíproca, e o -se das decisões tomadas. Quando há
cliente tem de demonstrar a sua con- mudança do pessoal do cliente, tam-
fiança para obter o melhor do projetis- bém pode haver um nível temporaria-
ta. No mundo litigioso de hoje, em que mente reduzido de comprometimento
a noção de profissão liberal é atacada com o projeto, ao qual o arquiteto tem
pelo governo, essa ideia pode parecer de sobreviver: "Em consequência disso,
antiquada. No entanto, clientes e pro- podemos sentir o projeto definhando
jetistas costumam concordar que os na gaveta sem que ninguém a abra para
melhores projetos vêm desse tipo de arejá-lo".
relacionamento. Robert Venturi e Deni-
se Scott Brown falam da necessidade
de que o cliente "deixe o arquiteto ficar 14.10 O projeto como
do lado dele". No nosso mundo contem- atividade em grupo
porâneo, parece que, a cada esquina,
somos estimulados a não demonstrar Provavelmente os críticos e comen-
confiança, de modo que o cliente de taristas continu arão apresentando os
edificações contrata um gerente de projetos como produto de indivíduos
projetos para supervisionar e proteger extremamente talentosos. Sem dúvida,
o seu interesse no trato com o arquite- há um pouco de verdade nessa ima-
to. Com mu ita frequência, isso só serve gem, pois os nossos estudos da criati-
para tornar as comunicações comple- vidade indicaram que são relativamen-
xas e remotas e, consequentemente, te poucas as pessoas muito criativas.
aumentar a probabilidade de mal- No entanto, a realidade cotidiana do
-entendidos e de falta de compreensão escritório de projetos é muito mais de
dos verdadeiros problemas por parte do trabalho em equipe. Até o indivíduo
projetista. imensamente talentoso e criativo deve
Assim como o projetista trabalha muito aos que têm de trabalhar para
em equipe, o mesmo costuma aconte- concretizar o projeto. Barnes Wallis
cer com o cliente. Poucos projetos gran- tem bastante certeza de que "o bom
des são encomendados por um único projeto é questão inteiramente de um
indivíduo; o mais comum é o cliente único cérebro" (Whitfield, 1975), e isso
ser algum tipo de comitê. Quando os pode ser verdade no caso de algumas
14 Projetar com outros 237

pessoas e de alguns projetos. Ta~bém


concretizá-las em grupo pode ser mui-
ode acontecer que urna comb1nação
~e trabalho individual e de equipe seja to frustrante, mas também é suprema
e extraordinariamente compensador.
rnais poderosa. Moulton, o projetista da
Essa é a reflexão do engenheiro John
famosa bicicleta, valoriza o trabalho em
Baker, que desenvolveu a empresa de
grupo no desenho industrial comercial,
projeto e construções IDC e nos diz que
rnas só depois que um conceito técni-
"trabalhar nessa equipe completamente
co foi originado por um indivíduo. Por
integrada é a experiência mais emocio-
outro lado, Robert Opron, projetista de
nante que já tive".
automóveis Citroen e Renault, acredita
no trabalho em equipe desde o princí-
pio. Opron (1976), entretanto, também
14.11 Volta ao
admite aqui as tensões inevitáveis
mapeamento do
entre o grupo e o indivíduo criativo: "O
processo de projeto
problema real é encontrar executivos
dispostos a submeter-se à disciplina e Agora é hora de voltar ao mapeamento
a subordinar-se aos interesses do pro- do processo de projeto que examina-
duto final". mos bem antes neste livro, mas, des-
Sem dúvida, o grande arquiteto e ta vez, em termos do funcionamento
engenheiro Santiago Calatrava é uma do processo não dentro de urna única
das mentes mais vigorosas em ação na cabeça, mas quando há equipes e orga-
arquitetura do nosso tempo, mas ele nizações envolvidas. No Cap. 3, vimos
não vê frustração em ter de trabalhar alguns problemas metodológicos deli-
em equipe. Na verdade, parece que é cados que surgem inevitavelmente
exatamente a necessidade de se comu- quando tentamos estudar o processo de
nicar e de cooperar que torna a ativida- projeto. Primeiro, examinamos a visão
de de projetar tão cornpensadora para normativa do processo nos mapeamen-
ele. Ele explica isso contando uma piada tos do RIBA e de Markus/Maver. Esses
sobre o grande pintor Rafael. Se Rafael mapeamentos, que parecem bastante
tivesse perdido os dois braços, diz Cala- lógicos, afirmam que deveríamos ver
trava, talvez não fosse capaz de pintar, fases claramente definidas de trabalho
mas, ainda assim, teria sido um grande em tarefas bem diferentes, como pro-
arquiteto. "O instrumento de trabalho grama arquitetônico, análise do proble-
do arquiteto não é a mão, mas a ordem, ma e síntese da solução. Vimos indícios
a transmissão da visão de alguma coi- empíricos que mostram que, na práti-
sa" (Lawson, 1994b). Parece que obtemos ca, esses mapeamentos não são realis-
alto grau de satisfação com a colabora- tas. Examinamos estudos de laborató-
ção bem-sucedida, seja no campo espor- rio bastante abstratos do processo de
tivo, seja num conjunto musical, seja ao projeto. Depois, verificamos que alunos
projetar. Compartilhar e entender um de projeto experientes adotavam urna
conjunto de ideias de projeto e depois estratégia diferente dos novatos e dos
238 COMO ARQUITETOS E DESJGNER5 PENSAM

alunos que estudavam outras maté- a mudar. Assim, a pesquisa mais antiga
rias. As experiências mais realistas sobre os métodos de projetar baseava-se
tenderam a confirmar esses resulta- em afirmações, depois no trabalho em
dos e indicaram que os projetistas não laboratório meticulosamente controla-
separam as atividades de análise e sín- do, depois na observação de condições
tese em estágios distintos, como seria mais realistas porém, ainda assim, con-
de esperar segundo os passos lógicos troladas. Mais recentemente, tornaram-
previstos com base na visão normati- -se mais populares as entrevistas e a
va do processo. Descobrimos então , em investigação em prazo mais longo da
entrevistas com projetistas, que até o prática real. Essa investigação também
programa arquitetônico pode não ser tende a reconhecer que projetar, com
um estágio isolado, mas uma ativida- muita frequência, acontece pela ação
de realizada durante o processo como de muitos, e não apenas de indivíduos.
um todo.
Então, qual dessas provas devemos
achar mais convincente? Em geral, 14.12 A natureza das
parece preferível ter dados empíricos organizações
em vez de suposições. Mas essa opi- que projetam
., nião tende a nos levar para a situação
!o
:i de laboratório mais controlada, que, Essa ênfase na equipe trouxe consigo
por sua vez, distorce o processo que um desejo totalmente compreensível
tentamos observar. Talvez as entrevis- de voltar à ideia dos mapeamentos bem
tas sejam mais confiáveis, já que esse definidos do processo de projeto. Um
método de pesquisa deixa o processo grupo específico de entusiastas desse
.!
intocado e o examina em retrospecto. É ponto de vista resume o argumento de
..
r
claro que isso simplesmente troca uma forma bem sucinta. "Esses pesquisado-
distorção por outra. Como saber se os res acreditam que é possível obter uma
projetistas que entrevistamos têm boa compreensão comum a todos quando
memória? Talvez tenham até razões os membros da equipe concordam com
para se convencer de que trabalham a mesma estratégia de projeto" (Mac-
de uma determinada maneira e, assim, millan et al., 2001). Eles defendem que,
distorçam quase deliberadamente o em projetos multidisciplinares como
seu relato. a construção, o benefício dessa estra-
A resposta a essa charada, natu- tégia em comum é que as equipes do
14

ralmente, é que o bom pesquisador projeto podem trabalhar de maneira


leva em conta todos os indícios e tenta eficiente e sincronizada". Esse argu-
entender o quadro como um todo. Tam- mento deixa de identificar dois gran-
bém acontece que, quando um campo des problemas dessa noção. Primeiro,
de pesquisa amadurece e os partici- ele pressupõe que a eficiência do pro-
pantes passam a ter mais confiança no cesso é igual a um projeto melhor, e
tema, os métodos que utilizam tendem não há absolutamente nenhuma prova

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24
COMO ARQUITETOS E DESIGNERS PENSAM

nada entidade, como o British Airports tórios específicos que parecem descre-
Authority Project Process (BAA, 1995). ver 0 seu processo. Podemos chamar
essa visão do processo de projeto de
visão das "Intenções". Ela nos diz o que
14.13 Três visões do indivíduos, escritórios, grandes entida-
processo de projeto des e até setores profissionais inteiros
pretendem quando se projeta. A visão
Num projeto recente, pudemos estu- das "Intenções", portanto, nos diz o que
dar o processo de projeto levando em deveria acontecer (Fig. 14.5).
conta vários tipos de dados (Lawson et Em seguida, podemos estudar o que
.. al., 2003). Estudamos alguns clientes realmente acontece na prática. Pode-
e construtoras num período de qua- -se fazer isso observando em tempo
tro anos para ver como funcionavam real, mas esse é um processo prolon-
esses mapeamentos do processo e até gado e potencialmente intervencionis-
que ponto eram realistas. Em geral, os ta que muitas empresas consideram
nossos dados indicaram que uma visão invasivo demais. Trabalhamos retros-
t•
comum do processo de projeto é mais pectivamente, observando seis gran-
'I
mito do que realidade. Esse trabalho des projetos recentemente concluídos,
·. deu origem à noção de que, na verdade, examinando todas as provas documen-
há três visões do processo. A primeira tais, entrevistando os participantes e
I•
:
é representada pela documentação de m antendo grupos de ação para debater
políticas e procedimentos, seja de enti- e obter uma visão comunitária equili-
.. dades isoladas, seja de grandes grupos, brada da prática real. Isso dá origem à
~ como o mapeamento do RIBA, que apa-
rentemente representa todo um setor
visão do processo de projeto que pode-
mos chamar de visão da "Prática". Por-
profissional. Também podemos obser- tanto, a visão da "Prática" nos diz o que
I var sites na internet e folhetos de escri- realmente acontece.

'!

,. ·-· ···- .........._,,,._

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,-__ ,
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P •
\'- - -,...
\ Práticas
: Oque estamos realmente
! fazendo? (representado
i por atividades reais de
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~~~t·~~çõ~~..................... · :~~J ·<. \ .,:·/~.;---~ <,,/ rA~·~i~~·~õ~-~..................~
j O que devemos fazer? A ;o que gostaríamos t
(re~r.esen tado pela
I polít1ca
I documentos da
e outros 1 '----------~
r- ~
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"~,
.::.~ 1 ~-
j de fazer? (representado 1
i por aspirações, desejos i
i etc.) : Fig. 14.5
1 emp~-~.s.a1.... . ....... ........ .. \ \ / / :. ...............................................]
' .... ....'...._ .::::...-:;: _ ,-- .,"'
"' /
Três visões do
processo de projeto
14 Projetar com outros 241

É óbvio que agora podemos estudar


14.14 As três visões
a relação entre a visão das "Intenções"
re lacionadas
e a da "Prática" do processo de proje-
to, e aprender muito mais sobre proje-
Antes de abandonar esse exame dos
tar no mundo real. Mas essa pesquisa
mapeamentos do processo de projeto,
faz surgir imediatamente uma tercei-
porém, vale a pena examinar mais uma
ra visão do processo de projeto, a seu
consequência da identificação dessas
modo ainda mais fascinante . A discus-
três visões do processo. Ela tem a ver
são com os participantes de projetos com a relação entre as três visões em
grandes e complexos costuma trazer à cada momento e em cada organiza-
baila um conjunto de comentários não ção. É óbvio que essas três visões - ou
sobre o que eles deveriam fazer, nem "Intenções", "Prática" e "Aspirações" -
mesmo sobre o que realmente fizeram, podem ou não se alinhar (Fig. 14.6}.
mas sim, acerca do que realmente gos- À primeira vista, parece que um escri-
tariam de fazer. Essa pode ser chamada tório de projetos eficiente deveria mes-
de visão das "Aspirações" do processo mo alinhá-las. Nesse escritório, os par-
de projeto. É claro que os que falam em ticipantes realmente realizariam o seu
aspirações em geral também conse- processo como descrito na documenta-
I
I guem descrever, muitas vezes de forma ção e de fato se sentiriam felizes e con-
i bem convincente, o que seria preferível
i
l
tentes com essa maneira de agir. O que
! no seu processo. Os que têm muitos poderia ser melhor?

i iI
anos de experiência podem até refletir
sobre por que o processo a que aspiram
Antes de responder a essa pergunta,
vamos imaginar uma situação diferen-
não se concretiza na prática. Portanto, te. Esse escritório tem um conjunto de
a visão das "Aspirações" nos diz o que