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FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA

REBECA HERINGER ARBEX

OS LIMITES IMPOSTOS PELOS DIREITOS FUNDAMENTAIS AO PODER


DISCRICIONÁRIO DOS ESTADOS-MEMBROS EM MATÉRIA DE
REAGRUPAMENTO FAMILIAR – ANÁLISE DO ACÓRDÃO DO TJUE
“CHAKROUN” (2010; C-578/08)

Lisboa
2019
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO................................................................................................03
2. REAGRUPAMENTO FAMILIAR E O DIREITO FUNDAMENTAL DE VIVER
EM FAMÍLIA....................................................................................................04
3. PRINCÍPIO DA SOBERANIA TERRITORIAL DOS
ESTADOS......................07
4. CONDIÇÕES IMPOSTAS PELOS ESTADOS PARA A CONCESSÃO DO
REAGRUPAMENTO FAMILIAR.....................................................................09
5. DIREITOS FUNDAMENTAIS COMO LIMITADORES AO PODER DO
ESTADO..........................................................................................................11
6. ANÁLISE DO ACÓRDÃO DO TJUE “CHAKROUN” (C-
578/08) ...................12
6.1. Primeira Questão
Prejudicial...................................................................13
6.2. Primeira Questão
Prejudicial...................................................................15
7. CONCLUSÃO..................................................................................................17
1. INTRODUÇÃO

Os fluxos migratórios têm um enorme impacto na sociedade, transformando


uma sociedade homogênea em multicultural, representando grande importância
social, econômica e cultural. No entanto, esse mesmo fluxo que agrega
positivamente uma sociedade, suscita algumas dificuldades, como a regulação dos
fluxos migratórios somado ao combate à imigração clandestina, além dos obstáculos
na integração destes estrangeiros nessa nova sociedade.

Em razão da dimensão crescente dos fluxos migratórios, o Direito dos


Estrangeiros surge como um conjunto de normas e princípios que definem a
situação jurídica dos estrangeiros, em especial a sua entrada e permanência em
território nacional, bem como o seu estatuto jurídico. Nesse sentido, Luís de LIMA
PINHEIRO afirma tratar-se de um “conjunto de normas e princípios que definem a
situação jurídica do estrangeiro”1 e António MARQUES DOS SANTOS define como
“o conjunto de normas materiais que regulam a capacidade de gozo de direitos,
públicos ou privados, dos estrangeiros – isto é, dos não nacionais - ,
designadamente em relação aos nacionais, quer essas regras pertençam ao direito
interno dos Estados quer façam parte do Direito Internacional Público”2.

E é nesse contexto de progressivo fluxo migratório e sua consequente


normatização que o instituto do reagrupamento familiar se destaca como o principal
canal de imigração legal para a Europa, razão pela qual merece especial atenção.

2. Reagrupamento Familiar e o Direito Fundamental de Viver em Família


1
Um Direito Internacional Privado para o século XXI, Suplemento da Revista da Faculdade de Direito
da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2001, p. 67.
2
Direito Internacional Privado, Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, Lisboa,
2000, pp. 51 e 52.
4
O direito ao reagrupamento familiar é instrumento de concretização do direito
fundamental de viver em família e encontra-se regulado na Diretiva 2003/86/CE do
Conselho, de 22 de setembro de 2003, estando sua definição diretamente
relacionada com sua finalidade, que é a entrada e residência de familiares do
imigrante legalmente residente no território de um Estado-Membro, a fim de manter
a unidade familiar.

Essa definição independentemente de os laços familiares serem anteriores ou


posteriores à entrada do residente, ou seja, a temporalidade não é essencial para a
avaliação do direito à reunificação. Em outras palavras, embora se tenha a ideia de
que a família do imigrante é aquela deixada por ele no país de origem quando
imigrou para outro Estado, pode ocorrer que este vínculo surja após sua chegada ao
território da União.

É necessário, ainda, identificar o conceito jurídico de família. O direito civil


define família em sentido lato como “o conjunto de pessoas unidas pelos vínculos do
casamento, parentesco, afinidade e adoção. E, em sentido restrito, como “o grupo
formado por seus progenitores e seus descendentes ou mesmo, mais restritamente
ainda, pelos pais e seus filhos menores 3”. Para fins de reagrupamento familiar,
aplica-se somente esse segundo conceito, considerando a família nuclear e
monogâmica, não deixando, assim, espaço para que outras expressões culturais
desta mesma instituição tenham tutela legal 4.

Dito isto, podemos evocar a própria Diretiva 2003/86/CE para conceituar


reagrupamento familiar que, em seu considerando nº 4 assevera que:

O reagrupamento familiar é um meio necessário para permitir a vida


em família. Contribui para a criação de uma estabilidade sociocultural
favorável à integração dos nacionais de países terceiros nos
Estados-Membros, o que permite, por outro lado, promover a coesão
económica e social, que é um dos objectivos fundamentais da
Comunidade consagrado no Tratado.

No Direito Interno Português a definição de reagrupamento familiar é


encontrada na Lei n.º 23/2007, de 04 de julho que, basicamente, transcreve a
diretiva.
3
PRATA, A. (2008). Dicionário Jurídico. 5.ª ed. Lisboa: Almedina. p. 667.
4
PEREIRA, A. (2000). “A Proteção Jurídica da Família Migrante”. in Direitos Humanos, Estrangeiros,
Comunidades Migrantes e Minorias. Oeiras. Celta. p. 32.
5
Para além das normas que regulam o reagrupamento familiar, no direito
internacional estão presentes numerosos instrumentos de realização do direito
fundamental a viver em família, os quais podemos citar, em primeiro lugar, a
Declaração Universal dos Direitos do Homem, em seus artigos 12 e 16:

Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua


família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques a sua
honra e reputação. Todo o homem tem direito à proteção da lei
contra tais interferências ou ataques.

I) Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de


raça, nacionalidade ou religião, tem o direito de contrair matrimônio e
fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao
casamento, sua duração e sua dissolução.
II) O casamento não será válido senão com o livre e pleno
consentimento dos nubentes.
III) A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem
direito à proteção da sociedade e do Estado.

A Convenção Europeia dos Direitos do Homem, em seu artigo 8, prevê o


direito ao respeito pela vida privada e familiar:

1. Qualquer pessoa tem direito ao respeito da sua vida privada e


familiar, do seu domicílio e da sua correspondência.
2. Não pode haver ingerência da autoridade pública no exercício
deste direito senão quando esta ingerência estiver prevista na lei e
constituir uma providência que, numa sociedade democrática, seja
necessária para a segurança nacional, para a segurança pública,
para o bem - estar económico do país, a defesa da ordem e a
prevenção das infracções penais, a protecção da saúde ou da moral,
ou a protecção dos direitos e das liberdades de terceiros.

A Carta dos Direitos Fundamentais da UE, dispõe sobre o direito ao respeito


pela vida privada e familiar em seu art. 7: “Todas as pessoas tem direito ao respeito
pela sua vida privada e familiar, pelo seu domicílio e pelas suas comunicações” e o
direito a casar e a fundar uma família em seu art. 9: “O direito de contrair casamento
e o direito de constituir família são garantidos pelas legislações nacionais que regem
o respectivo exercício.”

A Convenção sobre os Direitos da Criança, em seu artigo 8,1, prevê que: “Os
Estados Partes comprometem-se a respeitar o direito da criança a preservar a sua
identidade, incluindo a nacionalidade, o nome e relações familiares, nos termos da
lei, sem ingerência ilegal.” Os artigos 9 e 10,1 asseveram que:

Os Estados Partes garantem que a criança não é separada dos seus


pais contra a vontade destes, salvo se as autoridades competentes
6
decidirem, sem prejuízo de revisão judicial e de harmonia com a
legislação e o processo aplicáveis, que essa separação é necessária
no interesse superior da criança. Tal decisão pode mostrar-se
necessária no caso de, por exemplo, os pais maltratarem ou
negligenciarem a criança ou no caso de os pais viverem separados e
uma decisão sobre o lugar da residência da criança tiver de ser
tomada

Nos termos da obrigação decorrente para os Estados Partes ao


abrigo do n.º 1 do artigo 9.º, todos os pedidos formulados por uma
criança ou por seus pais para entrar num Estado Parte ou para o
deixar, com o fim de reunificação familiar, são considerados pelos
Estados Partes de forma positiva, com humanidade e diligência. Os
Estados Partes garantem, além disso, que a apresentação de um tal
pedido não determinará consequências adversas para os seus
autores ou para os membros das suas famílias.

A Convenção Internacional sobre a Proteção dos Direitos de Todos os


Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias, artigo 44, prevê que:

1. Reconhecendo que a família, elemento natural e fundamental da


sociedade, deve receber a protecção da sociedade e do Estado, os
Estados Partes adoptam as medidas adequadas a assegurar a
protecção da família dos trabalhadores migrantes.
2. Os Estados Partes adoptam todas as medidas que julguem
adequadas e nas respectivas esferas de competência para facilitar a
reunificação dos trabalhadores migrantes com os cônjuges, ou com
as pessoas cuja relação com o trabalhador migrante produza efeitos
equivalentes ao casamento, segundo a legislação aplicável, bem
como com os filhos menores, dependentes, não casados.

A Convenção nº 143 da Organização Internacional do Trabalho, em seu artigo


13, reforça:
1 - Todo o Estado Membro poderá tomar as medidas necessárias,
dentro da sua competência, e colaborar com outros Estados
Membros no sentido de facilitar o reagrupamento familiar de todos os
trabalhadores migrantes que residam legalmente no seu território.
2 - O disposto no presente artigo refere-se ao cônjuge do trabalhador
migrante, assim como, quando a seu cargo, seus filhos, seu pai e
sua mãe.

Ademais, a proteção à vida familiar está amplamente consagrada na


Constituição da República Portuguesa, onde encontram-se disposições que
protegem a família como direito fundamental - artigo 36 - e como instituição e
elemento básico da sociedade - artigo 675.

5
GIL, A. (s.d.). Le droit fondamental au regroupement familial en droit portugais. [Em linha]. Lisboa:
Academia. [Consult. em 19-02-2018]. Disponível em: <URL: https://unl-pt.academia.edu/AnaRitaGil
7
Os direitos fundamentais do imigrante também estão protegidos pelo princípio
da equiparação constante no art. 15, nº 1, segundo o qual “os estrangeiros e os
apátridas que se encontrem ou residam em Portugal gozam dos direitos e estão
sujeitos aos deveres do cidadão português” e, dentre esses direitos, está o direito a
constituir família, ao casamento e à filiação, que são claramente extensíveis aos
estrangeiros residentes em Portugal.

Os artigos 18 e 19, da mesma forma, representam uma proteção ao


reagrupamento familiar ao dispor sobre os exercícios dos direitos, liberdades e
garantias.

Dessa forma, ainda que o reagrupamento familiar não esteja expressamente


previsto na Constituição, é evidente sua natureza de direito fundamental, não
podendo ser restringido ou suspenso, pois está sob a proteção da Constituição.

Por fim, o princípio da dignidade humana significa, em última análise, igual


dignidade para todas as famílias6, sejam elas nacionais ou estrangeiras.

3. Princípio da Soberania Territorial dos Estados

O direito dos estrangeiros está intimamente ligado ao princípio geral do Direito


Internacional da soberania territorial, a partir da qual cada Estado tem o poder de
fixar as condições de entrada e permanência de estrangeiros em seu território.
Princípio este que possui três implicações essenciais, conforme aclarado por
Constança Urbano de Sousa7:

(I) Nenhum estrangeiro tem direito a entrar e permanecer no território


de um Estado que não seja o da sua nacionalidade.
(II) Nenhum Estado é obrigado a conceder a um estrangeiro os
mesmos direitos que reconhece aos seus nacionais: o estrangeiro
não tem o direito ao tratamento nacional, podendo ser excluído do
gozo de certos direitos e submetido a certos deveres especiais.
(III)Qualquer Estado tem o direito de afastar do seu território o
estrangeiro que se encontre em situação ilegal ou que ameace a sua
ordem pública.

Diante da liberdade dos Estados em admitir ou não estrangeiros no seu


território e da inexistência de um direito do estrangeiro à entrada e permanência no

6
DIAS, M. (2010). Manual de Direito das Famílias. 6.ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. p. 63.
7
Introdução ao Estudo do Direito dos Estrangeiros, Lisboa, p. 10.
8
território de um Estado, a jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do
Homem afirmou que “de acordo com um princípio do direito internacional bem
consolidado, os Estados têm o direito, sem prejuízo de algumas obrigações
decorrentes de tratados por eles celebrados, de controlar a entrada de estrangeiros
no seu território”8.

Ou seja, está consagrado na ordem jurídica internacional apenas o direito de


as pessoas saírem livremente de um país e de serem admitidos no próprio país da
sua nacionalidade, mas não o direito de entrar e residir em um país estrangeiro.

Nesse sentido, o artigo 13, nº 2 da Declaração Universal dos Direitos do


Homem9 dispõe que “Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se
encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país”. O artigo 12 do Pacto
Internacional de Direitos Civis e Políticos 10, em seu nº 2, prevê que “toda a pessoa
terá direito de sair livremente de qualquer país, inclusivamente do próprio” e, em
conformidade com o nº 4 do mesmo artigo, “ninguém pode ser arbitrariamente
privado do direito de entrar no seu próprio país”.

O artigo 2, nº 2 do 4º Protocolo Adicional à Convenção Europeia dos Direitos


do Homem11 dispõe que “toda a pessoa é livre de deixar um país qualquer, incluindo
o seu próprio” e o artigo 3, nº 2 prevê que “ninguém pode ser privado do direito de
entrar no território do Estado de que for cidadão”.

Assim, deparamo-nos com um paradoxo, no qual as disposições do direito


internacional garantem ao estrangeiro o direito de saída, mas não lhe garantem o
direito de entrar no território do Estado de que não é nacional, uma vez que esse
Estado é soberano para determinar quem entra ou não em seu território.

Embora exista uma incongruência inicial, a partir de princípios consagrados


na ordem internacional, bem como fixação do critério de proporcionalidade e

8
Acórdão “Abdulaziz, Cabales et Balkandali”, 1985.
9
A Declaração Universal dos Direitos do Homem encontra-se publicada no Diário da República, I
Série, n.º 57, de 9 de Março de 1978.
10
Aprovado para ratificação, pela Lei n.º 29/78, , publicada no Diário da República, I Série A, n.º
133/78 de 12 de Junho de 1978 (rectificada mediante aviso de rectificação publicado no Diário da
República n.º 153/78, de 6 de Julho) e em vigor na ordem jurídica portuguesa desde 15 de Setembro
de 1978. Ver Aviso do Ministério dos Negócios Estrangeiros publicado no Diário da República, I Série,
n.º 187/78, de 16 de Agosto.
11
Ratificado por Portugal conjuntamente com a Convenção. Ver Lei n.º 65/78, de 13 de Outubro de
1978, Diário da República Série I, n.º 236, de 13 de Outubro de 1978, p. 2119 e segs.
9
equilíbrio entre princípios, é possível conciliar o direito do imigrante de saída e
entrada no país em que não é nacional, uma vez que esse direito soberano dos
Estados não é absoluto e possui limitações no direito internacional, como veremos
adiante.

4. Condições impostas pelos Estados para a concessão do


Reagrupamento Familiar

Conforme já exposto, a partir do princípio da soberania territorial, os Estados


têm o poder de decidir quem pode entrar e residir em seu território e, nesse sentido,
a própria diretiva do reagrupamento familiar 2003/86/CE faculta aos Estados a
criação de limitações e condições ao exercício desse direito.

O capítulo IV da Diretiva traz os requisitos para o exercício do direito ao


reagrupamento familiar como uma possibilidade aos Estados, como veremos a
seguir.

O artigo 6 dispõe sobre a possibilidade de os Estados indeferirem um pedido


de entrada e residência de um dos familiares, retirarem ou não renovarem uma
autorização de residência por razões de ordem pública, de segurança pública ou de
saúde pública. Prevê, ainda, que os Estados-Membros devem ter em consideração a
gravidade ou o tipo de ofensa à ordem pública ou à segurança pública cometida pelo
familiar, ou os perigos que possam advir dessa pessoa. O próprio dispositivo prevê
que deve ser aplicado o princípio da proporcionalidade ao impor essa restrição
permitida pela diretiva.

O artigo 7, nº 1 prevê que os Estados-Membros podem exigir que o


requerente apresente provas de que dispõe de alojamento adequado, seguro de
saúde e recursos estáveis e regulares, que sejam suficientes para a sua
subsistência e para a dos seus familiares, sem recorrer ao sistema de assistência
social. Embora os Estados possam fixar critérios para que aquele imigrante não seja
um peso para a segurança social, eles não podem impor valores exorbitantes que
impeçam a entrada. O objetivo nunca deve ser impedir o reagrupamento familiar.

10
O artigo 7, nº 2 prevê as medidas de integração, onde os Estados-Membros
podem exigir que os nacionais de países terceiros cumpram medidas de integração,
em conformidade com o direito nacional.

Conforme Orientações da COM (2014), as medidas de integração devem


servir para facilitar a reintegração e não para restringir o reagrupamento familiar.
Devem ser proporcionadas e aplicadas com flexibilidade, de forma a assegurar que
o reagrupamento familiar possa ser concedido sem estarem cumpridas as medidas
de integração, em caso de dificuldades específicas ou circunstâncias pessoais que
devem ser tidas em consideração.

O artigo 8 prevê que os Estados-Membros podem exigir que o requerente do


reagrupamento tenha residido legalmente no respectivo território, durante um
período não superior a dois anos, antes que os seus familiares se lhe venham juntar.

Novamente visando a conciliação de interesses, conforme Orientações da


COM (2004), os Estados não podem impor um período de espera geral aplicado
uniformemente a todos os requerentes, sem ter em conta as circunstâncias
particulares dos casos específicos. Este período de espera deve ter como objetivo
garantir aos familiares uma instalação estável e a integração e respeitar o princípio
da proporcionalidade.

O artigo 5, nº 5 prevê que os Estados devem ter em consideração o interesse


superior dos filhos menores e o artigo 17 prevê que os Estados também devem
analisar a natureza e a solidez dos laços familiares da pessoa e o seu tempo de
residência no Estado-Membro, bem como a existência de laços familiares, culturais
e sociais com o país de origem. Novamente, nos deparamos com normas que
buscam o equilíbrio.

Posto isso, pode-se afirmar que, na análise do pedido de reagrupamento, a


margem de apreciação do Estados é limitada pela própria diretiva e pela
jurisprudência. As decisões nunca podem ser automáticas. O reagrupamento familiar
é um direito fundamental e, uma vez preenchidos os requisitos, os Estados tem
obrigação de autorizar entrada. A faculdade que eles têm de impor condições devem
ser de aplicação muito restrita.

11
Conforme jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia, o
reagrupamento familiar é um aspeto específico do direito ao respeito pela vida
familiar e os Estados têm uma obrigação positiva de autorizar a entrada e residência
do cônjuge e filhos menores. A faculdade de imporem condições de exercício é de
interpretação restrita e não pode ser exercida de forma a colocar em causa o
objetivo e efeito útil da Diretiva: facilitar o reagrupamento familiar.

5. Direitos Fundamentais como Limitadores ao Poder do Estado

Os direitos humanos também podem constituir fortes limitações ao poder


soberano dos Estados de determinar quem pode ou não entrar em seu território e,
no direito da imigração podemos citar, sobretudo, dois direitos humanos que tem tido
grande peso: princípio do non refoulement e proteção da vida privada e familiar.

Para a aplicação desses princípios, devemos levar em consideração o critério


de proporcionalidade, sendo permitida ingerência na vida familiar quando existam
obstáculos sérios que impedem a vida familiar fora do território do Estado de
acolhimento.

A Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados estabeleceu, em seu artigo 33,


o princípio do non-refoulement, segundo o qual os refugiados não podem, de forma
alguma, serem devolvidos para o seu país de origem ou para nenhum país onde
possam sofrer riscos.

O princípio do non refoulement faz parte do direito internacional


consuetudinário, considerado um princípio de ius cogens, impõe aos Estados a
obrigação de não repelirem um estrangeiro para as fronteiras de um Estado onde
possam sofrer qualquer tratamento degradante ou desumano, o que, por vezes,
pode implicar na obrigação de admiti-los em seu território, pelo menos até ser
encontrado um Estado seguro que esteja disposto a acolhê-lo.

A proteção da vida privada é outro princípio de grande relevância no âmbito


internacional. Se refere ao direito de qualquer pessoa ao respeito pela sua vida
privada e familiar, conforme artigo 8 da Convenção Europeia dos Direitos do Homem
e artigo 7 Carta dos Direitos Fundamentais da Uniao Europeia.

12
Esse direito não é absoluto, sendo lícita a ingerência, desde que prevista na lei e
necessária para a salvaguarda da segurança, bem estar econômico do país, defesa
da ordem pública, prevenção de infrações penais, proteção da saúde pública,
proteção de direitos de terceiros.

Ambos os princípios mostram-se como claras limitações ao poder discricionário


dos Estados-membros em matéria de reagrupamento familiar

6. Análise do Acórdão Do TJUE “Chakroun” (C-578/08)

As normas opcionais permitem aos Estados-Membros grande margem de


manobras, que, por vezes, resultam no indeferimento do pedido de reagrupamento.
É o que ocorre com relação ao art. 7, nº 1, alínea C da Diretiva, segundo a qual, por
ocasião da apresentação do pedido de reagrupamento familiar, o Estado-Membro
pode exigir ao requerente do reagrupamento que apresente provas de que dispõe de
recursos estáveis e regulares para subsistência da família.

Embora se trate de norma coerente e razoável, sua aplicação de forma


desproporcional pode impedir o direito de viver em família, conforme veremos na
análise do acórdão do TJUE de 2010 referente ao processo C-578/08.

O caso em questão trata-se de um litígio entre Rhimou Chakroun e Minister van


Buitenlandse Zaken em razão da recusa deste segundo em conceder uma
autorização de residência provisória àquela, tendo como objeto do pedido a
interpretação dos artigos 2, alínea D e 7, n° 1, alínea C, da Diretiva 2003/86/CE.

O Sr. Chakroun, de nacionalidade marroquina, residia nos Países Baixos desde


21 de dezembro de 1970, sendo titular de uma autorização de residência regular por
tempo indeterminado, tendo se casado com R. Chakroun, também marroquina, em
31 de julho de 1972.

Em 2006, R. Chakroun requereu na Embaixada dos Países Baixos em Rabat, no


Marrocos, uma autorização de residência provisória com a finalidade de poder viver
com o marido, o que foi indeferido pelo fato do Sr. Chakroun não auferir rendimentos
suficientes na acepção do Decreto Real de 29 de setembro de 2004 (Staatsblad
2004, n° 496). O subsídio auferido pelo Sr. Chakroun referia-se a 1.322,73 euros

13
mensais, valor este inferior ao valor-padrão de rendimentos aplicável em caso de
constituição da família, de 1.441,44 euros.

Após a interposição de alguns recursos, sem êxito, R. Chakroun levou a questão


ao Conselho de Estado, Raad van State, órgão consultivo constitucionalmente
estabelecido na Holanda, que decidiu suspender a instância e submeter ao Tribunal
de Justiça duas questões prejudiciais.

6.1 Primeira Questão Prejudicial

A primeira questão prejudicial se referia à expressão “recorrer ao sistema de


assistência social” prevista no artigo 7, n° 1, alínea C da diretiva. O Conselho
questionou se essa expressão deve ser interpretada no sentido de permitir a um
Estado-Membro adotar um regime no qual o reagrupamento familiar é recusado
àquele requerente que, mesmo tendo provado dispor de recursos para sua
subsistência e de sua família, poderá, eventualmente, recorrer à assistência especial
para prover a necessidades especiais de subsistência, tendo em conta o nível dos
seus rendimentos.

A recorrente alega que o valor-padrão de 120% do salário mínimo, tal como se


encontra fixado, tem por consequência impedir que os requerentes jovens
preencham o critério dos meios de subsistência, tendo em vista que a lei estabelece
como referência o salário mínimo de uma pessoa de 23 anos.

A Comissão das Comunidades Europeias assevera que o montante exigido pelas


autoridades neerlandesas, para efeitos de avaliação da suficiência dos recursos, é o
mais elevado de todos os Estados-Membros da Comunidade. Além disso, salienta
que se os laços familiares entre os cônjuges Chakroun tivessem existido antes da
entrada do Sr. Chakroun no território da Comunidade, o valor dos rendimentos
tomados em consideração teria sido inferior ao valor tido em conta no referido
processo, nos termos do artigo 3.74, alínea D do Decreto Real.

Assim, pode-se considerar que o valor exigido pela regulamentação nacional


quando os laços familiares existem antes da entrada do requerente do
reagrupamento no território da Comunidade corresponde ao valor que é
normalmente necessário para prover às necessidades mais elementares na
sociedade neerlandesa.
14
Por fim, tanto R. Chakroun quanto a Comissão consideram que as autoridades
neerlandesas deveriam ter levado em consideração a longa duração da residência e
do casamento e, uma vez que isso não ocorreu, fora violada a exigência de
apreciação individual do pedido, prevista no artigo 17 da diretiva.

O Governo neerlandês defendeu que a fixação em 120% do salário mínimo legal


se refere ao valor dos rendimentos geralmente considerado pelos municípios dos
Países Baixos como um dos critérios que permite determinar os beneficiários
potenciais de uma medida geral ou especial de assistência social. Ademais,
acrescenta que o nível do salário mínimo nos Países Baixos permite satisfazer
exclusivamente as necessidades vitais, podendo ser insuficiente face às despesas
individuais específicas.

Analisada a questão, o tribunal afirma inicialmente que o artigo 7, n° 1, alínea C,


da diretiva permite que os Estados-Membros exijam que o requerente do
reagrupamento faça prova de que dispõe de recursos estáveis, regulares e
suficientes para prover à sua própria subsistência e à dos seus familiares, sem
recorrer ao sistema de assistência social do Estado-Membro em causa.

Acrescenta ainda, que, sendo a autorização do reagrupamento familiar a regra


geral, a faculdade prevista nesse dispositivo deve ser interpretada de forma restritiva
à luz dos direitos fundamentais e do direito ao respeito da vida familiar. Além disso,
essa margem de manobra reconhecida aos Estados-Membros não deve ser utilizada
de forma a prejudicar o objetivo da diretiva, que é favorecer o reagrupamento
familiar.

Além disso, uma vez que a extensão das necessidades pode variar em função
dos indivíduos, os casos devem ser analisados e interpretados conforme o artigo 17
da diretiva, que impõe um exame individualizado dos pedidos de reagrupamento.
Isso significa que os Estados-Membros podem indicar um certo montante como valor
de referência, mas não podem determinar um valor de rendimento tal que inviabilize
o reagrupamento, sem que ao menos seja realizado um exame concreto da situação
de cada requerente.

Por fim, não compete ao Tribunal de Justiça decidir se o rendimento mínimo


previsto na lei neerlandesa é suficiente para suprir as necessidades básicas dos

15
cidadãos ou não. Todavia, é importante reiterar que, caso os laços familiares entre o
casal Chakroun já existissem quando da entrada do Sr. Chakroun no território da
Comunidade, o valor dos rendimentos tidos em consideração teria sido inferior a
120% do salário mínimo.

Tendo em conta estes elementos, em resposta ao primeiro questionamento, o


Tribunal entendeu que a expressão “recorrer ao sistema de assistência social”
constante no artigo 7, n° 1, alínea C, da diretiva deve ser interpretada no sentido de
não permitir um Estado-Membro adotar uma regulamentação que não autoriza o
reagrupamento a um requerente que, mesmo tendo comprovado dispor de recursos
para sua subsistência e de sua família, poderá, eventualmente, recorrer à
assistência especial para prover a necessidades especiais de subsistência, tendo
em conta o nível dos seus rendimentos.

6.2 Segunda Questão Prejudicial

O segundo questionamento se assenta na possibilidade de uma lei nacional,


conforme ocorrido na legislação neerlandesa, realizar a distinção entre
reagrupamento familiar e constituição da família, consoante os laços familiares
sejam anteriores ou posteriores à entrada do requerente do reagrupamento em
território neerlandês, dado que tal distinção não decorre do artigo 7, n° 1, da diretiva.

Segundo a recorrente e a Comissão das Comunidades Europeias, a diretiva não


contém nenhum fundamento para se distinguir entre a manutenção da família e a
criação desta. Além disso, a Comissão questiona em que medida essa distinção
pode ter qualquer relação com a satisfação das condições materiais para a
subsistência do requerente de reagrupamento e sua família.

O Governo neerlandês alega que a distinção efetuada pela legislação nacional


não é proibida pela diretiva e corresponde a uma forma de analisar a natureza e a
solidez dos laços familiares, como impõe o artigo 17 da diretiva.

Conforme decisão do Tribunal de Justiça, o artigo 2, alínea D, da diretiva define


reagrupamento familiar sem estabelecer qualquer distinção em função da data do
casamento, razão pela qual se entende reagrupamento como a entrada ou
residência no território do Estado-Membro de acolhimento de um membro da família
16
a fim de manter a unidade familiar, independentemente de os laços familiares serem
anteriores ou posteriores à entrada do residente. Trata-se de intepretação conforme
o artigo 8 da Convenção Europeia dos Direitos do Homem e artigo 7 da Carta dos
Direitos Fundamentais, que não estabelecem nenhuma distinção em função das
circunstâncias e do momento em que se constitui uma família.

Dessa forma, a avaliação de recursos regulares e suficientes para prover as


necessidades do requerente e de sua família não dependem, de forma alguma, do
momento em que este constituiu a sua família.

17
7. CONCLUSÃO

O Direito Internacional reconhece o direito dos Estados de determinar quem


entra e pode residir no seu território, mas inexiste um direito humano à entrada e
residência no território de um Estado estrangeiro.

Diante desse paradoxo, os direitos humanos, que são reconhecidos a qualquer


pessoa, independentemente da nacionalidade ou estatuto legal, podem constituir
limites ao poder dos Estados em matéria de entrada e residência de estrangeiros.

A jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem não garante, de


forma imediata, um direito a entrar e residir no território de um Estado estrangeiro,
mas pode impor limitações ao direito dos Estados de controlar a entrada e
residência dos estrangeiros no seu território.

Diante de todo o exposto, conclui-se que as medidas relativas ao reagrupamento


familiar devem ser proporcionais e considerar a dimensão do direito fundamental ao
reagrupamento familiar, a obrigação do respeito e proteção da vida privada e
familiar, o princípio do non refoulement.

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