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Oswaldo Martins R A V A G N A N I *

OLIVEIRA, E.R. de — O que é benzeção. São Paulo, Brasiliense. 1985. 1 lOp. (Primeiros passos, 142).

Mais uma vez a Brasiliense nos brinda trou no campo da saúde curando através
através da coleção Primeiros Passos com de assistências de caridade e de rituais de
um livro de Elda.Desta vez sobre a benze- exorcismo. Encontrou, no entanto, resis-
ção. Como introdução ao assunto a auto- tência e desafios por parte de pessoas que
ra analisa os vários tipos de bênção e os se acreditavam com poderes sobrenaturais
diversos agentes que benzem: pais, tios, para curar e adivinhar o passado e o futu-
avós, padrinhos, benzedeiras, padres etc. ro. Eram pessoas simples, do ponto de
Abrange pessoas com relações de paren- vista econômico e social. Por romperem
tesco, de amizade, de compadrio, de normas, ordens e valores que a igreja im-
clientela, e de "paroquianismo". " A bên- punha e defendia foram perseguidas e
ção é, então, uma prática social que acusadas de bruxaria.
acompanha todos nós." Quaisquer intrigas ou deslizes em suas
Cada profissional executa sua bênção vidas particulares, em seus trabalhos ou
segundo sua formação religiosa e a sua vi- em suas relações sociais justificavam
são de mundo. Médiuns de Umbanda, do aquela acusação. Então, "Desamparadas,
Candomblé, do Kardecismo, do Esoteris- sofrendo as pressões sociais dessa época,
mo, pastores da Seicho-No-Iê, da Cura essas mulheres eram perseguidas, oprimi-
Divina, do Pentecostalismo, benzem. das, rejeitadas, torturadas, punidas e lan-
A seguir a autora trata apenas da ben- çadas vivas em fogueiras até a sua mor-
zedeira popular, objeto de estudo de seu te." Para isso havia o Tribunal do Santo
livro, através de uma abordagem diacrô-
Ofício, instituição essa que se amparava
nica. Assim, para se entender o exercício
profissional da benzedeira de hoje busca em teorias codificadas em bulas, códigos,
suas raízes na Idade Média, analisando o leis e manuais vindos da igreja católica e
controle social sobre a população exerci- que defendiam seus interesses. " A Inqui-
do pela igreja católica. Depois investiga a sição produziu os mais duradouros e san-
maneira como em nossos dias esse mesmo güinários crimes contra a humanidade re-
controle se exprime através do exercício gistrados na história, momento em que
político da medicina erudita. No passado, emerge como profissão promissora a de
séc. X V I ao XVIII, a igreja católica en- caçador de bruxas."

* D e p a r t a m e n t o de A n t r o p o l o g i a , P o l í t i c a e F i l o s o f i a — Instituto de Letras, C i ê n c i a s Sociais e E d u c a ç ã o — U N E S P —


14800 — A r a r a q u a r a — S P .
Já no século XVIII surgem novas for- mesmo tempo, a realização de dois fenô-
mas de tratar os males do corpo e da al- menos: a ordem nas cidades e a ascensão
ma. Desde o renascimento apareceram do poder dos médicos na sociedade."
novas concepções de doença e cura e con- A partir desses referenciais a autora
sequentemente de morte e dor. Com o inicia seu estudo da benzedeira e seu espa-
tempo corpo e alma são vistos separada- ço atual na sociedade brasileira abordan-
mente. Supera-se o enfoque mágico- do com minúcias os mais variados aspec-
religioso. A doença passa a ser localizada tos desta prática. À página 68, explicita a
no corpo humano, "momento em que se abordagem utilizada na interpretação da
dá a formulação do discurso médico sobre benzeção: "Abordo neste capítulo as ben-
a doença, discurso técnico, que se separa- zeções como a conquista e a preservação
va cada vez mais da visão de magia, de- de um espaço de resistência, uma demons-
mônios, feitiçaria, bruxaria". tração de força, por pequena que ela seja,
Com isso aumenta o poder da ciência, ao saber erudito."
do saber, codificado em livros de medici- Após penetrar no mundo da benzeção,
na. O que antes (séc. X V e XVI principal- de uma maneira rica e criativa colocando
mente) era explicado como manifestação problemas, levantando dúvidas, relacio-
de bruxaria, magia e feitiçaria passa a ser nando e opondo o saber erudito e o saber
visto como histeria e tratado em hospitais. popular, nos deixa pensativo revendo nos-
Nos séc. X I X e X X intensificam as inter- sas colocações, discutindo suas idéias.
nações em manicômios "momento em Porque acima de tudo é uma obra criati-
que emerge o controle social pela psicaná- va, proposta para fazer pensar, rever po-
lise, que promove a ascenção da loucura sições. É a riqueza da abordagem marxis-
como doença". Já desde o século X I X a ta que a autora tão bem sabe manejar
medicina cria um amplo controle social aliada à sua facilidade de expressão que
através do isolamento das doenças e cria- caracterizam o livro.
ção de modelos de higiene. " E l a está atrás E finalizando sua obra insiste no mo-
da criação de prisões, manicômios, hospi- do como a benzeção deve ser vista: "Não
tais, hospícios, quartéis, cemitérios e zo- como um resquício de formas antiquadas
nas de prostituição, feitos em nome da se- de curar, algo já superado pela ciência
gregação das pessoas, dás doenças e dos moderna. Mas como um ato de resistência
doentes." Depois de pensar no controle política e cultural, feito como alguma coi-
social da doença mais para proteger a sa própria de uma cultura que contesta e
classe dominante representada entre nós rejeita a linguagem da opressão, da domi-
pelo branco, pelo latifundiário e pelo bur- nação e da exploração entre os homens.
guês do que uma real preocupação com os Deve ser vista como uma singela contri-
pobres, afirma: " O Encarceramento dos buição para um novo projeto de mundo.
'loucos', 'tarados' e 'anarquistas' em Contribuição vinda de um grupo de pes-
hospícios, e dos pobres, doentes e expro- soas que está do lado dos oprimidos,
priados em asilos marca uma nova forma identificando-se com a sua luta e com os
de controle social. Este visava garantir ao seus sofrimentos."

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