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青春ブタ野郎シリーズ

Autor: Kamoshida Hajime


Ilustrador: Mizoguchi Keeji
Tradutor: JoséGui - Draconic Translations
Ilustrações
Prólogo
Capítulo 1 – Minha Senpai é uma Coelhinha
Capítulo 2 – Compensações de Reconciliação
Capítulo 3 – Problemas Surgem com um Primeiro Encontro
Capítulo 4 – Nossas Memórias
Capítulo 5 – Um Mundo Sem Você
Epílogo – Assim, Amanhece
Posfácio
Bônus – Quão Rápida é a Evolução?
Créditos
Hey, vamos nos beijar.

Disse a garota que veio me provocar, e então


desapareceu de vista depois de um tempo.

No final, isso poderia ser chamado de um conto sobre


o romance entre eu, ela e elas… provavelmente. Talvez.

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No último dia da Golden Week [NT: Semana Dourada
japonesa], Azusagawa Sakuta encontrou uma coelhinha
selvagem. Fazia cerca de vinte minutos desde que ele
tinha saído de seu apartamento. A paisagem urbana ao
redor da Estação Shonandai, onde as linhas municipais de
metrô Odakyu Enoshima, Sotetsu Izumino e Yokohama se
cruzam, apareceu em sua vista. Era uma calma cidade
dormitório, com relativamente poucos edifícios altos
como os típicos dos subúrbios. Ao passar pela estação à
sua esquerda, Sakuta virou à direita no semáforo e depois
de menos de um minuto chegou ao seu destino: a
biblioteca.

Sakuta deixou sua bicicleta no estacionamento


quase cheio e seguiu para o prédio. Não importava
quantas vezes ele viesse, ele nunca conseguia se
acostumar com o particular silêncio característico das
bibliotecas, e levemente se endireitou.

Simplesmente porque era a maior biblioteca da


região, havia um grande número de frequentadores.
Havia um homem de meia-idade o qual Sakuta costumava
ver no canto das revistas e dos jornais que ficava bem ao
lado da entrada, lendo a seção de esportes com uma
expressão descontente. O time de beisebol dele
provavelmente havia perdido ontem.

Quando ele chegou em frente ao balcão de


empréstimos, seus olhos foram em direção as mesas que

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preenchiam a maior parte do interior. Alunos do ensino
médio, estudantes universitários e trabalhadores se
destacavam, com laptops abertos em suas frentes.

Enquanto ele distraidamente reconhecia a presença


daqueles, Sakuta moveu-se para as estantes de livros
com romances contemporâneos de capa dura. Inclinando-
se ligeiramente, ele deslocou seu olhar através das
colunas em ordem alfabética; ele estava procurando por
um livro que começava com “Yu” e comparado à sua
altura de 172 centímetros, a pequena estante mal
alcançava sua cintura.

Ele logo encontrou o livro que sua irmã havia pedido.


Era escrito por Yuigahama Kanna, seu título era A Maçã
Venenosa do Príncipe e fora lançado quatro ou cinco anos
atrás. Ela gostava do trabalho anterior do autor e tinha
decidido que iria atrás de todos eles.

Sakuta pegou o livro bastante esfarrapado da


pequena estante de livros. Foi exatamente nesse
instante, quando ele levantou a cabeça para levá-lo ao
balcão de empréstimos, que aquilo preencheu sua visão.

Uma coelhinha estava de pé entre as estantes de


livros.

“…”

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Ele piscou várias vezes, sem saber se era uma ilusão
ou algo diferente, e percebeu a aparência e a existência
dela.

Ela tinha saltos altos pretos lustrosos em seus pés.


Suas pernas estavam envoltas por meias pretas
levemente transparentes e que mostravam a cor da sua
pele. Da mesma forma, um collant preto enfatizava suas
curvas e, embora seu peito fosse modesto, seu decote era
bem exibido. Em seus pulsos haviam pulseiras brancas ao
redor; acentuando a aparência e, claro, uma gravata
preta estava em volta do pescoço.

Removendo a altura de seus saltos, ela tinha em


torno de 165 centímetros. Seu rosto refinado tinha uma
expressão um pouco entediada e, uma apatia adulta e sex
appeal fluíam a partir dela.

No começo, ele se perguntou se havia algum tipo de


filmagem acontecendo, mas quando ele olhou ao redor
não havia adultos que parecessem ser funcionários de TV.
Ela estava completamente sozinha, uma perdida.
Surpreendentemente, ela era uma coelhinha selvagem.

Claro, a presença dela preenchia a biblioteca no


começo da tarde. Seria ‘fora do lugar’ o termo…? Os
únicos lugares em que Sakuta podia pensar que eram
habitados por coelhinhas eram os cassinos de Las Vegas
e restaurantes ligeiramente sombrios, mas em todo caso:
ela estava fora do lugar. No entanto, a verdadeira razão
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para a surpresa de Sakuta era algo completamente
diferente. Isso era que, embora ela estivesse com uma
roupa tão chamativa, ninguém estava olhando para ela.

“Que diabos?”

Ele não conseguiu segurar sua voz e um bibliotecário


próximo lançou um olhar para ele, dizendo-lhe para ficar
quieto. Enquanto ele acenava de volta para o
bibliotecário, ele pensou Não, não, há um outro alguém
com quem você deveria se preocupar.

Mas isso em si era o que a estranha convicção de


Sakuta havia firmado. Ninguém estava preocupado com a
coelhinha: não havia nem mesmo um distúrbio reprimido
por ignorar algo, nenhum sinal de que alguém a tivesse
notado.

Normalmente, se eles tivessem uma coelhinha tão


estimulante ao lado deles, até mesmo o estudante que
estava segurando livro de estatutos, com sua testa
franzida, teria olhado. O velho homem lendo o jornal
continuaria fingindo ler e lançaria olhares para ela,
enquanto o bibliotecário teria que educadamente
repreendê-la com algo como: “Essas roupas são um
pouco…”

Isso era estranho, era claramente estranho. Era


quase como se ela fosse um fantasma que só Sakuta
podia ver.

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Um rastro de suor frio correu pelas suas costas.

Ignorando o desconforto dele, a coelhinha pegou um


livro e se dirigiu a um canto de estudo dentro da
biblioteca. Em seu caminho, ela olhou para o rosto de um
aluno e mostrou a língua para fora, acenou com a mão
entre o rosto de um trabalhador e o PC tablet dele, como
se para garantir que ele não pudesse vê-la. Quando ela
reconheceu que eles não reagiriam, ela sorriu satisfeita e
depois pegou o assento vazio que estava mais à frente.

O estudante universitário em frente a ela não a


notou. Mesmo quando ela ajustou a área dos seios do
collant que tinha escorregado um pouco, ele não reagiu
nem um pouco. Mesmo quando ela deveria certamente
estar na frente do campo de visão dele…

Depois de um tempo, o estudante recolheu seus


livros e começou a se preparar para sair. Então, como se
nada tivesse acontecido ele saiu e, ao fazer isso,
elenão olhou para os seios da garota.

“…”

Depois de se preocupar com isso por um tempo,


Sakuta se sentou no lugar do aluno que acabara de
desocupar o assento. Ele olhou fixamente para a
coelhinha. Para as curvas de seus braços que fluíam dos
ombros nus, a pele pálida do pescoço aos seios, os
movimentos estranhamente sensuais e delicados que

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acompanhavam cada uma de suas respirações. Apesar de
estar em uma biblioteca, que deveria dar a ele uma
impressão de diligência, parecia que seu humor tomaria
um tom estranho. Não, seu humor já estava estranho o
suficiente.

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Depois de um tempo, seus olhos encontraram com
os da garota enquanto ela levantava o olhar do livro em
sua mão.

“…”

“…”

Os dois piscaram duas vezes e a garota foi a primeira


a abrir a boca.

“Isso é uma surpresa,” a voz dela possuía uma


energia travessa acerca disso, “você ainda consegue me
ver.”

O comentário dela soou como se ela esperasse que


outras pessoas não pudessem vê-la. Mas esse era
provavelmente o jeito certo de interpretar tais palavras,
porque nenhuma das pessoas ao redor tinha notado a
existência da garota, que era como uma massa de
sensações discordantes…

“Nesse caso.”

A garota fechou o livro e se levantou. Normalmente,


este seria o lugar onde eles se separariam, e ele poderia
conversar mais tarde sobre como ele conheceu uma
pessoa estranha. Mas Sakuta tinha um motivo para evitar
simplesmente se separar; o que ele estava incomodado
era o fato de que ele conhecia a garota. Ela frequentava
a mesma escola que ele e estava no ano acima, no
terceiro ano na Escola Secundária da Prefeitura de

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Minegahara. Ele sabia o nome dela também, o nome
completo.

Sakurajima Mai.

Esse era o nome da coelhinha.

“Um”. Ele gritou baixinho para as pálidas costas que


se despediam. Ela parou e perguntou “o que?” apenas
com seu olhar. “Você é a Sakurajima-senpai, certo?”

Ele manteve o volume de sua voz em mente


enquanto falava o nome dela.

“…” Os olhos de Mai mostraram surpresa por um


instante. “Se você se dirige a mim assim, você é um
estudante da Escola Secundária de Minegahara?”

Mai mais uma vez se sentou e olhou diretamente


para Sakuta.

“Eu sou Azusagawa Sakuta da classe 2-1. Azusagawa


Sakuta é formado por Azusagawa de “Área de Serviço de
Azusagawa”, e Sakuta de “Flor de Taro1 Desabrochando”.

“Eu sou Sakurajima Mai, Sakurajima Mai é formado


por Sakurajima de ‘Sakurajima Mai’ e Mai de ‘Sakurajima
Mai’.”

“Eu sei, você é famosa, Senpai.”

“Sim.”

Desinteressadamente, Mai colocou a mão na


bochecha e deixou seu olhar vagar para a janela. Ela

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estava inclinada para frente, o que enfatizava seu decote
e, naturalmente, atraía os olhos de Sakuta. Certamente,
um colírio para os olhos.

“Azusagawa Sakuta-kun”

“Sim?”

“Eu vou te dar um conselho.”

“Conselho?”

“Esqueça o que você viu hoje,” antes que Sakuta


pudesse dizer uma palavra, ela continuou, “Se você
conversar com alguém sobre isso, você será considerado
insano e tratado como tal.”

De fato, isso certamente era um conselho.

“E de maneira alguma você deve se envolver


comigo.”

“…”

“Se você entende, diga ‘sim’.”

“…”

Mai olhou de maneira sombria para ele enquanto


Sakuta permanecia em silêncio. No entanto ela logo
voltou à sua indiferença anterior e mais uma vez se
levantou, e depois de devolver o livro à prateleira,
caminhou em direção à saída.

Naquele momento, nem uma única pessoa prestou


atenção nela. Mesmo quando ela passou calmamente em

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frente ao balcão de empréstimos, a bibliotecária
silenciosamente continuou seu trabalho. Sakuta era o
único a observar com fascínio as belas e esguias pernas
delas cobertas por meias.

Quando ela tinha completamente sumido, Sakuta se


debruçou sobre a mesa.

“Dizendo-me para esquecer,” ele murmurou para si


mesmo, “de maneira alguma eu conseguirei esquecer
uma coelhinha tão excitante.”

O erotismo dos ombros até os seios dela tinha sido


exposto nu para ser visto, e Mai colocando a mão na
bochecha enfatizava seu decote. Ela havia deixado um
aroma agradável e o murmúrio de sua voz só tinha sido
audível para Sakuta. Ele olhou diretamente nos olhos
brilhantes dela. Todas essas coisas tinham estimulado a
masculinidade de Sakuta, e certa parte de seu corpo tinha
ficado bastante energética.

Graças a isso, ele se preocuparia com os olhares de


todos se ele se levantasse, então ele não podia se
levantar da cadeira. Ele só teria que sentar lá em silêncio
por um tempo. Essa era a razão pela qual, apesar de ter
muitas coisas que ele queria perguntar a ela, ele não foi
atrás de Mai.

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⟡⟡⟡

No dia seguinte, Sakuta acordou de um estranho


sonho de ser esmagado por uma ninhada de coelhos.

“Eu pensei que seria um da coelhinha, ma…” ele foi


se levantar enquanto reclamava de seu sonho. “Hmm?”

Mas ele não conseguia levantar, seu ombro esquerdo


estava muito pesado. Revirando a colcha, a razão para
isso ficou clara.

Havia uma garota vestida de pijama dormindo


enrolada em seu braço como se estivesse abraçando-o.
Ela tinha uma expressão inocente enquanto dormia. Ela
se aproximou de Sakuta como se estivesse com frio sem
a colcha.

Esta era Kaede, sua irmã mais nova que completaria


quinze anos este ano.

“Kaede, é de manhã, acorde.”

“Onii-chan, está frio…”

Ela ainda estava adormecida e não mostrava


nenhum sinal de acordar, então Sakuta levantou sua irmã
e se levantou.

“Pesada!”

Ela era sua verdadeira irmã mais nova, com 162


centímetros de altura, ela estava crescendo bem

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recentemente e seu desenvolvimento de menina para
mulher estava evidente na sensação em seus braços.

“Isso é porque metade de mim é amor por você, Onii-


chan.”

“O que há com esse cenário dramático? O que você


é, analgésicos que são amabilidade pela metade2? De
qualquer forma, levante-se se estiver acordada.”

“Mghh~”

Mesmo enquanto fazia beicinho em


descontentamento, Kaede desceu dos braços de Sakuta.
Talvez porque no ano passado a aparência dela tinha se
desenvolvido mais parecida como uma adulta, sua
aparência e suas ações não se combinavam, então havia
uma estranha sensação de corrupção na inocente afeição
física entre os irmãos.

“Além disso, amadureça e para já de se rastejar para


a minha cama.”

Ao mesmo tempo, ela deveria também parar de usar


seu pijama com capuz e estampa de panda.

“Eu vim para te acordar, mas você não queria


acordar, Onii-chan.”

A cara emburrada dela parecia muito mais imatura


do que sua idade.

“De qualquer forma, você já está envelhecendo.”

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“Ah, você estava excitado esta manhã, Onii-chan?”

“Quem cobiça a própria irmã mais nova?”

Ele cutucou levemente a testa dela e saiu do quarto.

“Ahh~, espere.”

Depois disso, ele preparou o café da manhã para os


dois e comeu com Kaede. Sakuta terminou primeiro e
rapidamente terminou de se vestir para o colégio.

“Vejo você mais tarde, Onii-chan.”

E, observado pelo rosto sorridente de Kaede, ele saiu


sozinho.

Ele bocejou logo depois de sair do apartamento.


Porque ele havia visto coisas tão estimulantes ontem que
ele tinha ficado excitado e incapaz de dormir. Além disso,
acordar com um sonho tão estranho não foi
particularmente agradável.

Ele bocejou novamente quando passou pela área


residencial. No caminho, ele cruzou uma ponte. Os
edifícios ao redor dele aumentavam à medida que ele se
aproximava da estação de trem; o número de pessoas
aumentava também e todos caminhavam na mesma
direção que Sakuta. Cruzando os semáforos no final da
estrada principal e passando por um hotel de negócios e
um atacadista de eletrônicos, a estação estava finalmente
à vista. Fazia dez minutos desde que ele tinha saído de
casa.
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Ele continuou caminhando pelo corredor por mais
trinta metros aproximadamente, e chegou à frente da
Loja de Departamentos Oda Express. Ele não ia fazer
algumas compras ali, as lojas nem sequer estavam
abertas afinal. À direita dessas portas fechadas havia
outra plataforma. A Estrada de Ferro Elétrica de
Enoshima, comumente chamada Enoden. Era uma única
rota que parava em treze estações antes de chegar a
Kamakura. Ele usou seu bilhete sazonal3 e passou pelos
portões de segurança, embarcando no trem. O trem tinha
um aspecto retrô, com uma cor creme ao redor das
janelas, cercada por verde acima e abaixo. Era um trem
pequeno de quatro vagões. Sakuta tinha andado até o
final da plataforma e entrado no primeiro vagão.

Havia muitos passageiros com uniformes escolares


do ensino primário, fundamental e médio, e os demais
eram trabalhadores vestidos de terno. Parecia apenas
uma linha de turismo até que você residisse ali, mas era
um trajeto diário para as pessoas que chamavam isso de
pátria.

Sakuta se sentou em um assento perto da porta.

“Eaí.”

E alguém chamou por ele.

A pessoa que chegou ao seu lado, terminando um


bocejo, era uma pessoa bonita que parecia que

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trabalhava em um famoso escritório de ídolos. Seu rosto
tinha uma estrutura acentuada e havia um ar intimidante
à primeira vista, mas quando ele sorria, os cantos
externos de seus olhos se moviam para trás, dando lugar
a uma tenra amabilidade. Era um charme que as garotas
não podiam resistir.

Seu nome era Kunimi Yuuma, um aluno do segundo


ano que era membro do clube de basquete. Ele tinha uma
namorada.

“Haaah…”

“Oi, oi, você não deve soltar um suspiro quando vir o


rosto de alguém.”

“Sua energia logo de manhã é um veneno para os


meus olhos, isso me deprime.”

“Sério?”

“Sério.”

Enquanto a habitual conversa sem sentido se


desenvolvia, a campainha de partida soou e as portas
fecharam. O trem só estava avançando rápido o suficiente
de forma que ainda parecia estar acelerando, como
alguém arrastando seu pesado corpo para a frente.
Quando isso veio à mente, o trem já havia começado a
diminuir sua velocidade para parar na próxima estação:
Estação Ishigami.

“Hey, Kunimi.”
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“Hmm?”

“Você conhece a Sakurajima-senpai—”

“Minhas condolências.”

Mesmo ele ainda não tendo dito nada, Yuuma o


antecipou e colocou uma mão amiga no ombro de Sakuta.

“Para o que você está me consolando?”

“Estou feliz que você esteja mostrando interesse em


uma garota que não seja a Makinohara, mas be~~m, ela
já é atéééé demais.”

“Eu não disse que iria me confessar ou que gostava


dela.”

“O que é então?”

“Eu estava apenas imaginando que tipo de pessoa


ela era.”

“Mhhhmmmm, bem, ela é famosa, não é?”

“Bem, sim.”

Isso estava certo, Sakurajima Mai era uma


celebridade, todos os alunos da Escola Secundária da
Prefeitura de Minegahara sabiam dela. Não,
provavelmente era mais ou menos setenta ou oitenta por
cento da população do país como um todo. Ela era uma
verdadeira celebridade, de tal forma que não parecia ser
um exagero dizer isso.

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“Ela estreou no mundo do showbiz [NT: ‘showbiz’ é
uma abreviação de ‘show business’] como uma atriz
infantil aos seis anos de idade. Começou com um drama
exibido no horário matinal que ostentava classificações e
popularidade a par com grandes sucessos, e se tornou
uma sensação da noite para o dia, certo?”

Ela tinha aparecido em muitos filmes, dramas e


anúncios desde seu início explosivo, e alcançou tamanha
popularidade que literalmente nem um único dia se
passava sem ela estar na televisão. Claro, depois de dois
ou três anos desde sua estréia, ela perdeu a influência de
ser ‘Sakurajima Mai, em toda e qualquer coisa’, mas, ao
contrário, ganhou ainda mais ofertas pelo seu talento em
atuação.

Entre os muitos atores que desapareceram após um


único ano, sua carreira de atriz continuou bem, mesmo
quando ela entrou no ensino fundamental. Só isso era
muito impressionante, mas ela até mesmo teve sua
segunda pausa. Aos quatorze anos, Sakurajima Mai tinha
se transformado em uma bela jovem com aparência de
uma adulta, e com o filme que estava sendo exibido na
época, ela mais uma vez ganhou atenção rapidamente, e
em uma semana, as gravuras em capas de revistas
tinham sido completamente cobertas pelo seu rosto
sorridente.

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“Eu gostava dela no ensino fundamental. É mesmo,
sabia? Eu não podia resistir àquela mistura misteriosa de
fofura e erotismo.”

Não era apenas Yuuma, muitos jovens tinham tido


seus corações roubados por ela.

Sua popularidade estava mais uma vez a caminho de


seu apogeu mas, enquanto isso estava acontecendo, ela
de repente anunciou que faria uma pausa em suas
atividades. Foi pouco antes dela se formar no ensino
fundamental, e nenhuma razão específica foi dada. Desde
então, dois anos e alguns meses tinham se passado.

Claro, quando eles descobriram que Sakurajima Mai


foi para a mesma escola que eles, eles ficaram surpresos,
e simplesmente pensaram as celebridades
realmente são reais.

“Havia muitos rumores. Ela era tão conhecida que


estava trabalhando com prostituição, que estava tendo
um caso com seu produtor, e coisas assim.”

“Ela ainda era uma estudante do ensino fundamental


naquela época.”

“Foi assim desde que ela se tornou uma estudante


do ensino fundamental. Além disso, havia rumores de que
a mãe dela era sua empresária e agora está começando
um escritório de entretenimento, certo? Eu vi na TV
semana passada.”

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“Hmmm, eu não sabia disso. Mas, no que diz respeito
aos rumores, eles são apenas divagações sem base.”

“Há a expressão “não há fumaça sem fogo”, sabia?”

“E vivemos em uma época em que não é apenas a


própria pessoa que acende o fogo”.

A informação se espalharia e seria compartilhada em


um instante na internet. E mesmo que não tivesse base…
Os destinatários dariam pouca importância à sua
veracidade, e só iriam querer falar sobre isso, fazer piadas
sobre isso, achar engraçado, divertido ou se satisfazer
com isso.

“É realmente persuasivo quando você diz isso,


Sakuta.”

Ele levemente ignorou essas palavras.

O trem, lentamente como sempre, passou por quatro


estações, Yanagi-Koji, Kugenuki, Parque Costeiro de
Shonan e Enoshima.

Olhando para fora da janela, eles estavam passando


por uma seção da estrada. Era uma visão estranha ter
carros bem ao lado do trem, mas, no momento em que
você pensasse em comentar sobre isso, você teria
retornado aos trilhos normais.

Nessa área o trem e os prédios pareciam estar tão


próximos que colidiriam, e se você pusesse a mão para
fora da janela, seria capaz de tocar as paredes das casas
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e se perguntar se as folhas e galhos de cada jardim
batiam no trem.

Deixando de lado essas preocupações, o trem


passou vagarosamente pelas casas e chegou à próxima
estação: a Estação Koshigoe.

“Mas eu não a vejo com ninguém na escola.”

“Hmm?”

“Sakurajima-senpai, foi você quem trouxe esse


assunto.”

“Ah, é mesmo.”

“Ela está sempre sozinha, sabia.”

Não só isolada de sua classe, ela ficava sozinha


também na escola. Sakuta também tinha essa impressão
dela.

“Eu ouvi de um senpai no clube de basquete, mas


ela aparentemente não veio para a escola no início do
primeiro ano.”

“Por quê?”

“Trabalhos. Mesmo depois que ela anunciou que


estava dando uma pausa, ainda acontecia as coisas que
ela já estava no elenco. ”

“Ah, é isso que você quer dizer.”

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Mas nesse caso, não teria sido melhor terminar tudo
e depois anunciar isso? Deve ter havido algo o qual fez ela
ter dito isso primeiro, mas…

“Aparentemente ela começou a vir corretamente


quando as férias de verão terminaram.”

“…Isso deve ter sido difícil.”

Ele poderia facilmente imaginar como era a sala de


aula quando Mai foi para a escola no outono. Durante o
primeiro período, os colegas de classe dela devem ter
cimentado completamente os relacionamentos e o
equilíbrio de poder dentro da classe.

“E você pode imaginar como foi a partir daí.”

Yuuma provavelmente estava imaginando o mesmo


que ele. Uma vez decidida que a estrutura de uma turma
não mudaria tão facilmente, e aliviadas em encontrar um
lugar, as pessoas se apegariam a tais lugares e
protegeriam sua posição dentro da classe.

Mai, tendo começado a frequentar no segundo


período, teria indubitavelmente tido dificuldade de lidar
com isso. Claro; ela era uma atriz, eles teriam se
interessado, mas não poderiam interagir indelicadamente
com ela também. Fazer um esforço especial para falar
com Mai faria com que eles se destacassem, e se eles se
destacassem, alguém poderia começar a chamá-los de
irritantes ou dizer que eles estavam sendo convencidos.

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Por essa razão, ela estava agora isolada de sua classe.
Todos sabiam que não havia como evitar isso desde
quando aconteceu; essa era a atmosfera de uma escola.

Por causa disso, Sakuta achava que Mai não teve


uma chance de se familiarizar com a escola.

No final do dia, apesar de as pessoas reclamarem


das coisas serem entediantes, ou de pedirem algo
interessante para acontecer, ninguém realmente queria
qualquer mudança.

Mesmo Sakuta era assim, as coisas eram mais fáceis


quando não havia nada de especial. Ele gostava das
coisas sendo fáceis, não cansando sua mente ou corpo. A
tranquilidade eterna e o tempo livre eram os melhores.

O som dos sinos de partida soou e as portas se


fecharam com um silvo. Novamente o trem correu entre
as casas vagarosamente. Diante deles seus olhos
estavam construindo paredes: parede após parede, casa
após casa e, ocasionalmente, pequenas travessias
ferroviárias. Então, quando se perguntaram se as paredes
continuariam, a linha de visão deles se expandiu de
repente até o horizonte.

O mar. Os azuis e intermináveis mares estavam


visíveis, cintilantes enquanto refletiam a luz do sol da
manhã.

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O céu. Os azuis e infinitos céus estavam visíveis, a
límpida atmosfera da manhã criando um gradiente de
azul para branco.

Diretamente entre os dois estava a linha


perfeitamente reta do horizonte, com o poder de
irresistivelmente atrair o olhar deles.

Por um tempo, o trem percorreu o litoral de


Shichirigahama que dava para a Baía de Sagami. Era uma
visão fascinante, com Enoshima à direita e Yuigahama,
conhecida por suas áreas de natação oceânica, à
esquerda.

“Mas por que a citou tão de repente?”

“Você gosta de coelhinhas, Kunimi?”

Perguntou Sakuta, ainda olhando pela janela.

“Não, eu não gosto.”

“Então, você as ama?”

“Sim, eu as amo.”

“Eu não vou te dizer então.”

“Huh? Que diabos, me diga.”

Yuuma cutucou o estômago de Sakuta.

“Digamos que você tenha encontrado uma coelhinha


encantadora na biblioteca, o que você faria?”

“Olharia novamente.”

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“Certo.”

“E então: me deliciaria com os meus olhos.” Essa


seria a reação de uma pessoa normal. Ou pelo menos a
reação de um homem normal. “O que isso tem a ver com
a Sakurajima-senpai?”

“Quero dizer, acho que tem algo a ver com ela, mas
eu me pergunto o que.”

“Que diabos?”

Sakuta evitou a pergunta e, não querendo mais


questioná-lo, Yuuma apenas riu. Ainda correndo ao longo
da costa, o trem parou em outra estação, e então chegou
à estação para a escola deles: Estação de Shichirigahama.

As portas se abriram e o cheiro de sal encontrou seus


narizes.

Dentro desse perfume, grupos de estudantes usando


o mesmo uniforme desceram para a plataforma. Havia
apenas um único portão de passagem, com uma figura
parecida com um espantalho para escanear os passes
deles. Durante o dia a estação teria atendentes, mas não
havia ninguém lá no momento em que eles se dirigiram
para a escola.

Sair da estação e passar por um único cruzamento


colocaria você bem na frente da escola.

“Ah sim, como vai a Kaede-chan?”

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“Você não terá minha irmã.”

“Que insensível, Onii-sama.”

“Você tem uma namorada fofa, Kunimi.”

“Sim, é verdade.”

“Ela ficaria com raiva se ela ouvisse.”

“Tudo bem, eu também gosto do rosto zangado da


Kamisato. Huh? Falando no diabo.”

Seguindo a linha de visão de Yuuma, ele viu


Sakurajima Mai andando sozinha cerca de dez metros à
frente. Suas longas pernas, seu rosto pequeno e sua
constituição esbelta e semelhante a uma modelo. Embora
vestisse o mesmo uniforme, ela parecia diferente dos
outros alunos. Nada disso encaixava… não as meias
pretas ao redor das pernas, nem a saia escondendo as
nádegas, ou o blazer de tamanho perfeito. Parecia que ela
estava usando um uniforme emprestado: mesmo que ela
já estivesse no terceiro ano, o uniforme não era familiar
para Mai.

Na verdade, as três garotas perto dela que estavam


conversando usavam o uniforme de maneira muito
melhor. O sênior saudando energicamente os membros
do clube era o mesmo, e até mesmo um estudante do
sexo masculino que estava chutando levemente as costas
de seu amigo estava cheio de energia.

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A curta estrada da estação para a Escola Secundária
Minegahara estava cheia de vozes alegres e risadas.
Dentro disso, Mai parecia estranhamente isolada,
andando silenciosamente, sozinha. Como uma pessoa de
fora que havia se perdido e acabado em um colégio
comum da prefeitura. Uma existência estranha, um
patinho feio. Essa era a impressão que Sakurajima Mai
mostrava aqui.

Não, pelo contrário, ninguém estava prestando


atenção nela. Apesar de Sakurajima Mai estar ali,
ninguém se virou para olhar. Nem um único aluno estava
fazendo barulho, isso era normal para a Escola Secundária
de Minegahara.

Se ele tivesse que colocar em palavras, Mai era como


a “atmosfera” aqui. Algo que todo mundo aceitava. A
visão fez Sakuta lembrar as reações das pessoas que ele
viu na biblioteca de Shonandai, e um sentimento
estranhamente desconfortável subiu em seu estômago.

“Hey, Kunimi.”

“Hmm?”

“Você pode ver Sakurajima-senpai, certo?”

“Sim, claro como o dia. Meus olhos são bons sabia,


2.0 em ambos. ”

Uma reação como a de Yuuma era normal para esse


tipo de pergunta. Algo tinha acontecido ontem.

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“Vejo você depois.”

“Sim.”

Yuuma e Sakuta estavam em turmas separadas este


ano, e assim se separaram no corredor do segundo andar,
onde Sakuta entrou na sala de aula para a turma 2-1.
Cerca de metade dos alunos já estavam lá.

Ele sentou no primeiro assento perto das janelas.


Graças ao seu nome ser “Azusagawa”, ele estava
aproximadamente no mesmo lugar que na primavera.
Enquanto não houvesse um ‘Aikawa’ ou ‘Aizawa’, ele seria
o primeiro na lista de presença. Havia de alguma forma
muitas desvantagens em relação a esse “primeiro”, mas
quando ele veio para a Escola Secundária de Minegahara,
ele tinha a garantia do assento na janela, então ele não
achava que era tão ruim assim.

E isso era porque o mar podia ser visto das janelas,


e várias velas de windsurfistas que estavam indo atrás do
vento desde aquela manhã eram visíveis.

“Hey.”

“…”

“Eu disse hey.”

Ele notou uma voz perto dele e olhou para cima.

De pé em frente à sua mesa, uma garota olhava para


Sakuta com desagrado. Ela era o centro do grupo de

43
garotas mais atraentes da turma. O nome dela era
Kamisato Saki. Seus olhos eram largos e bonitos e seu
cabelo alcançava seus ombros, curvando-se suavemente
para dentro. Seus lábios eram um lindo rosa com uma
leve camada de maquiagem, e ela era famosa entre os
garotos por ser fofa.

“É bastante rude me ignorar, não é?”

“Desculpe, eu não achei que houvesse mais alguém


nesta sala que falasse comigo.”

“Você sabe—” O sino soou e, seguindo-o, o professor


da turma entrou na sala. “Nossa. É importante, então
venha para o telhado. Depois da escola. Jure isso.”

Ela bateu as mãos na mesa dele, e então Kamisato


Saki voltou para sua própria mesa, diagonalmente atrás
da dele.

“Eu não tenho nada a dizer sobre isso?” Ele


murmurou para si mesmo, e descansou em seu cotovelo,
olhando para o mar. O mar novamente estava lá hoje, mas
isso era tudo o que havia. “Isso vai ser irritante…”

Mesmo que ele tenha sido procurado quando as


aulas terminaram por uma garota, Sakuta não ficou feliz
nem um pouco, seu coração não pulou a menor batida.

Afinal, Kamisato Saki era a namorada de Kunimi


Yuuma.

44
⟡⟡⟡

Depois da escola, Sakuta tinha se dirigido para as


prateleiras de sapato, ele tinha fingido esquecer, mas
depois apareceu no telhado como solicitado de qualquer
maneira. Ele havia reconsiderado o aborrecimento que
apareceria para ele se fingisse ter esquecido. Não era
bem o certo dizer, mas ser lento e firme vence a corrida.

E ainda assim, quando ele foi imediatamente


repreendido com um “Você está atrasado!” de Kamisato
Saki, que tinha chegado lá primeiro, ele se arrependeu
profundamente.

“Eu tive que fazer a limpeza.”

“E eu me importo?”

“Então, o que você quer.”

“Eu vou direto ao assunto”, com essa introdução,


Saki olhou diretamente para ele, “se ele continuar com
você, Azusagawa Sei-Lá-O-Que, Yuuma irá ter uma
imagem ruim.”

“…” Ele tinha ouvido algo horrível, ela realmente


tinha ido direto ao assunto. “Você sabe muito sobre mim
por falar comigo pela primeira vez hoje.”

Ele respondeu monotonamente.

“Todo mundo sabe sobre o ‘incidente do hospital’.”

“Sim… o ‘incidente do hospital’.”

45
Sakuta repetiu vagamente, não parecendo
interessado.

“Eu sinto muito por ele, então não fale mais com o
Yuuma.”

“Por essa lógica, sinto pena de você agora; você


deve estar com uma aparência horrível, não é?”

Havia outros estudantes no telhado e a visão deles


foi atraída para Sakuta e Saki, que pareciam estar em
desacordo. Havia pessoas mexendo em seus
smartphones também, provavelmente gravando, o que
era um incômodo.

“Estou bem, é pelo Yuuma afinal de contas.”

“Entendo, você é incrível, Kamisato-san.”

“Huh? Por que você está me elogiando?”

Ele na verdade estava provocando ela, mas


aparentemente, o sarcasmo não foi compreendido.

“Bem, eu não acho que você precise se preocupar.


Kunimi vai ficar bem. Ele não vai ficar com uma imagem
ruim apenas por estar comigo. Ele é alguém que sempre
diz que os almoços que própria mãe faz para ele são
deliciosos e agradece por eles todos os dias; ele é um cara
legal que entende atos de consideração desse tanto.”
Yuuma sempre ria que alguém valorizaria a própria mãe
se crescesse sem um pai, mas mesmo um idiota poderia
dizer que não era assim tão simples, e definitivamente
46
havia pessoas que iriam inutilmente refutar isso. “Então
não se preocupe, Kunimi é um cara tão legal que está
perdendo tempo com você, Kamisato-san.”

“Você está atrás de uma briga?”

“Eu irei brigar, mas não é você quem está atrás de


uma, Kamisato?”

Provavelmente porque ele estava irritado, Sakuta


esqueceu o ‘san’.

“E isso! Isso é irritante! Por que ele te chama pelo


seu nome, mas ainda me chama pelo meu sobrenome,
mesmo eu sendo a namorada dele?”

Ela se agarrou estranhamente àquela única palavra


e de repente mudou de assunto. Ele ficou em silêncio,
apenas pensando como se eu me importasse. Ele tinha
recusado a ser vencido pelo amor dela. Mas as palavras
que vieram aos seus lábios podem ter sido algo que ele
não deveria ter dito.

“Kamisato, você está no seu período? Ficando com


raiva disso.”

“O qu—!” Em um instante, o rosto de Saki ficou


vermelho. “Por que vo—morra! Idiota! Morra! Apenas
morra!”

Saki voltou para o centro do telhado, tendo perdido


completamente sua compostura, e bateu a porta do
telhado atrás dela.
47
Sakuta ficou para trás e, enquanto coçava a cabeça,
disse. “…Porra, bem na mosca, huh?”

Sakuta ficou de pé na brisa do mar por um tempo


antes de sair para casa, então ele não se encontrou
acidentalmente com Kamisato Saki. Ele chegou às
prateleiras de sapatos quando o céu tinha se tingido de
vermelho.

Não havia mais ninguém que estivesse indo direto


para casa, havia apenas estudantes participando de suas
atividades de clube agora. As desertas prateleiras
estavam silenciosas e as vozes que podiam ser ouvidas
de vários membros dos clubes pareciam demasiadamente
distantes. Ele tinha certeza de que ele era o único ali.

Ele possuía a estrada para a estação quase


inteiramente para si mesmo também, e quando ele
chegou na Estação Shichirigahama logo depois, a mesma
estava vazia também. A pequena plataforma, que era
cheia de alunos da Escola Secundária de Minegahara logo
após o término das aulas, agora tinha apenas algumas
pessoas nela.

Entre elas, Sakuta notou uma certa pessoa: uma


aluna em pé, de maneira altiva, bem no final da
plataforma. Ela tinha uma atmosfera sobre si que parecia
recusar o contato com o que a cercava, e o fio para um
par de fones de ouvido caíam languidamente de suas
orelhas em um bolso do uniforme.
48
Era Sakurajima Mai. Seu rosto, iluminado pelo sol
poente, era de algum modo apaticamente lindo e mesmo
que apenas estivesse ali, ela certamente resultaria em
uma pintura. Era o suficiente para fazê-lo sentir vontade
de olhar para ela por um tempo… mas outro interesse
moveu Sakuta agora.

“Olá.”

Ele falou coma ela quando se aproximou.

“…”

Não houve resposta.

“Olááá.”

Ele falou mais alto que antes.

“…”

Claro, não houve resposta. Mas de alguma forma


parecia como se ela tivesse notado a presença de Sakuta.

Esperando o trem na plataforma silenciosa estavam


Sakuta, Mai e três outros estudantes de Minegahara.
Então, um casal na forma de estudantes universitários
fazendo turismo chegou e mostrou o seu bilhete diário
“Noriori-kun4” para o atendente da estação.

O casal chegou ao centro da plataforma e notou Mai


pouco tempo depois.

“Hey, aquela é?”

“Tem que ser, certo?”

49
Ele podia ouvi-los sussurrar um ao outro enquanto
apontavam. Talvez Mai não tenha notado, visto que ela
continuava a encarar os trilhos.

“Hey, pare com issoooo~”

A voz da mulher não parecia nem mesmo um pouco


estar tentando pará-lo. A conversa lúdica do casal era
inevitavelmente desagradável para os ouvidos na
silenciosa plataforma. Quando Sakuta não aguentou mais
e se virou para eles, o homem apontava seu smartphone
para Mai.

Pouco antes do obturador ser disparado, Sakuta


entrou na frente do quadro, e quando o obturador
disparou, era definitivamente um close-up de Sakuta que
havia sido capturado.

“Que diabos!?”

Mesmo que ele tenha ficado surpreso por um


momento, o homem veio para a frente confiantemente.
Ele provavelmente não poderia se deixar ser exposto por
um colegial.

“Eu sou um humano.”

Ele respondeu com uma expressão séria, e ele


certamente não estava errado.

“Huh?”

“E você é um tarado então?”

50
“O qu! N-não!”

“Você não é uma criança, então pare de ser


estúpido, cara. Apenas observar você é vergonhoso como
um ser humano. ”

“Eu disse que não estava fazendo isso!”

“Você ia twittar a foto e se gabar, certo?”

“!?”

Sakuta estava certo na mosca pelo jeito, visto que o


rosto do homem estava cheio de raiva e vergonha.

“Se você quer atenção, eu posso tirar uma foto sua


e fazer upload da mesma com ‘eu sou um tarado’ se você
quiser?”

“…”

“Você foi informado na escola primária, certo? ‘Trate


os outros como você quer ser tratado’.”

“C-cale-se, idiota!”

Finalmente, depois de dizer isso, o homem foi guiado


pela mão da namorada para o trem com destino a
Kamakura. Os trens nesta estação paravam na mesma
plataforma fosse qualquer direção que seguiriam, porque
a estação só tinha um único conjunto de trilhos.

Enquanto observava placidamente o trem sair,


Sakuta sentiu um olhar em suas costas. Ele lentamente se

51
virou quando Mai estava cansadamente removendo seus
fones de ouvido. Seus olhos se encontraram e ela falou.

“Obrigada.”

“Eh?”

Sakuta soltou um som de surpresa pela reação


inesperada de Mai.

“Você achou que eu estaria com raiva e diria a você


‘não faça coisas sem sentido’.”

“Eu achei.”

“Estou me contentando com apenas pensar nisso.”

“Eu preferia que você não dissesse isso também.”

Ele não achava que ela estava se contentando de


fato quando ela imediatamente disse isso.

“Estou acostumada com isso.”

“Isso deve ser irritante mesmo se você estiver


acostumada com isso.”

“…”

Talvez ela não esperasse essas palavras, porque os


olhos de Mai mostraram uma pequena surpresa.

“Irritante… realmente é.”

Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dela como


se estivesse apreciando algo.

52
Sentindo que ele poderia falar com ela agora, Sakuta
ficou ao lado dela. Mas a primeira a falar foi Mai.

“Por que você está aqui tão tarde?”

“Uma menina da minha turma me chamou para o


telhado.”

“Uma confissão? Você é surpreendentemente


popular.”

“Foi uma confissão de ódio, embora”.

“O que é isso?”

“Foi dito pessoalmente a mim “eu realmente te


odeio”.

“Isso está muito na moda recentemente.”

“Ao menos, é a primeira vez que eu experimento


isso. E você, Sakurajima-senpai, por que você está aqui
tão tarde?”

“Eu estava perdendo tempo para que não


encontrasse você.”

Ele não podia dizer se ela estava falando sério ou


brincando a partir de seu rosto. Decidindo que ele odiaria
se ele checasse e ela estivesse falando sério, Sakuta
decidiu não perguntar, e olhou para o horário para mudar
de assunto.

“Que horas são exatamente?”

53
“Você não tem um relógio?” Ele puxou as mangas
para cima e mostrou seus pulsos vazios. “Então verifique
seu telefone.”

“Eu não tenho um.”

“Você quer dizer um smartphone?”

“Eu não tenho telefone ou smartphone, não quero


apenas dizer que esqueci hoje também.”

Ele não só não havia trazido, ele simplesmente não


tinha um.

“…Mesmo?”

Mai olhou para ele incrédula.

“Mesmo mesmo. Eu costumava usar um, mas fiquei


irritado e o joguei no mar. ”

Ele ainda se lembrava bem disso. Foi o dia em que


tinha ido ver os resultados dos exames de entrada da
Escola Secundária de Minegahara…

Ele pesava cerca de 120 gramas. Aquele


conveniente dispositivo de telecomunicações que poderia
se conectar ao mundo inteiro havia deixado sua mão,
tracejando uma graciosa parábola para o mar.

“Jogue entulhos no lixo.”

Ela repreendeu-o, naturalmente.

“Eu vou fazer isso da próxima vez.”

54
“Você não tem amigos, certo?”

Você não poderia sair com amigos se não fosse


alcançável por um telefone… era assim como o mundo
era hoje. A declaração de Mai estava correta, trocar
números, endereços de e-mail e IDs era o primeiro passo
em direção à amizade, por isso, não ter nenhuma dessas
coisas significava que ele falhara em seguir essas regras
da sociedade. No pequeno mundo da escola, aqueles que
não podiam seguir essas regras eram deixados de fora
desde o início. Então, graças a isso, era difícil para ele
fazer amigos.

“Eu tenho dois amigos exatamente.”

“Você ainda tem dois amigos?”

“Dois amigos são mais que suficientes, eu acho. Eles


só precisam ser amigos para toda a vida.”

A lógica de Sakuta era que os algarismos dos


números de telefone, e-mails e IDs armazenados em seu
telefone eram insignificantes, e ter muitos não era bom.
Além disso, havia o problema… onde você desenhava a
fronteira de ‘amigo’? Sakuta colocava esse nome no tipo
de relacionamento onde, mesmo se você ligasse para eles
no meio da noite, eles relutantemente conversariam com
você.

“Hmmmm.”

55
Mesmo quando ela fez ruídos educados enquanto
escutava, Mai pegou seu smartphone do bolso, ele tinha
uma capa vermelha com orelhas de coelho. Ela mostrou a
tela para Sakuta, e o horário 16:37 foi exibido nela. O trem
chegaria em pouco tempo. Assim que ele pensou nisso, o
telefone começou a vibrar em resposta a uma chamada
recebida.

“Empresária” estava escrito na tela que ele estava


olhando. Mai colocou o dedo no botão de rejeição e a
vibração parou.

“Está tudo bem em fazer isso?”

“O trem está chegando… e eu sei o que ela quer,


quer eu responda ou não.”

Pode ter sido sua imaginação, mas ela parecia


irritada com as últimas palavras.

O trem com destino a Fujisawa parou lentamente na


plataforma.

Ele entrou no trem pela mesma porta que Mai, e eles


se sentaram em assentos vazios adjacentes.

As portas se fecharam e o trem se avançou


lentamente. Havia um bom número de passageiros e
cerca de oitenta por cento dos assentos estavam cheios,
com várias pessoas em pé.

56
Duas estações passaram em silêncio, o mar
desapareceu e o trem estava atravessando o centro da
área residencial.

“Sobre ontem.”

“Eu te aconselhei a esquecer isso ontem.”

“Você estava sexy demais naquela roupa de coelho,


Sakurajima-senpai, não tem como eu esquecer aquilo.”
Ele soltou um bocejo controlado. “Graças a isso eu estava
excitado ontem à noite e não dormi nada”.

Ele olhou reprovadoramente para Mai.

“H-hey! Não me imagine e faça coisas estranhas.”

Em vez do olhar enojado e das palavras desdenhosas


que ele esperava, o rosto de Mai ficou vermelho e ela
entrou em pânico. Ela olhou para ele como se para lidar
com seu constrangimento. Foi realmente uma ação
adorável. Mas, quando ela ocultou seu desconforto, ela
deu uma desculpa para manter as aparências.

“E-eu estou bem com um garoto mais novo


imaginando coisas pervertidas comigo.” As bochechas
dela ainda estavam escarlates, e era óbvio que ela estava
blefando. Sua aparência adulta talvez contradissesse a
sua inesperada inocência. “Você se afastaria um pouco?”

Mai empurrou o ombro de Sakuta como se estivesse


limpando algo sujo.

57
“Uwaahh, isso dói.”

“Eu vou ficar grávida.”

“Como vamos chamar o bebê?”

“Você…” o olhar de Mai se endureceu, parecia que


ele tinha se envolvido demais em algo que não pretendia.
“Eu não estava dizendo para você esquecer minha
roupa…”

“Então o que foi aquilo ontem?”

“Ei, Azusagawa Sakuta-kun.”

“Você se lembrou do meu nome.”

“Eu me certifico de lembrar os nomes quando os


ouço.” Era uma atenção que ele gostaria de aprender. Ela
provavelmente cultivou isso enquanto trabalhava no
show business, ou parecia ter sido assim. “Eu ouvi os
rumores sobre você.”

“Rumores… huh.”

Ele podia adivinhar o que eles eram, assim como ele


poderia adivinhar porque ele tinha sido chamado para o
telhado.

“Tecnicamente falando, eu os vi em vez de ouvi-los.”


Assim dizendo, Mai pegou seu smartphone novamente e
abriu um quadro de avisos. “Você foi para o ensino
fundamental em Yokohama.”

“Está certa.”

58
“E você teve uma explosão violenta e mandou três
colegas para o hospital.”

“Sou surpreendentemente habilidoso em lutas.”

“E por causa disso, embora você fosse para o ensino


médio lá, você se mudou para cá e prestou os exames
secundários para a Escola Secundária de Minegahara.”

“…”

“Havia muitas outras coisas, devo continuar?”

“…”

“Alguém disse ‘trate os outros como você quer ser


tratado’ mais cedo.”

“Isso não é realmente algo para se intrometer, mas


pelo contrário, eu estou honrado que você esteja tão
interessada em mim.”

“A internet é incrível, muita informação pessoal


como esta está disponível.”

“Isso é verdade.”

Ele respondeu sem rodeios.

“Bem, não há garantia de que o que está escrito é


verdade”.

“O que você acha, Senpai?”

59
“É óbvio se você pensar um pouco sobre isso. Não
há como uma pessoa que fez algo tão grande ir à escola
como se nada tivesse acontecido.”

“Eu gostaria que você contasse isso aos meus


colegas.”

“Se eles estão errados, diga-lhes você mesmo.”

“Rumores são como a atmosfera. A ‘atmosfera’


naquele ‘tipo de atmosfera’… O tipo de ‘atmosfera’ que
você tem que ler.”

“Apenar por falhar em lê-la faz com que você seja


maltratado… E você sabia, aqueles que criam essa
atmosfera não estão envolvidos com isso, então se eu
explicar a verdade, provavelmente isso acabaria em uma
piada dizendo ‘O que é isso? Estúúúpido’.” Ele não estaria
lutando contra as pessoas à sua frente, então mesmo que
ele dissesse algo não haveria nenhuma resposta. E ainda,
se ele fizesse alguma coisa, haveria uma reação
concentrada de algum outro lugar. “E lutar contra a
atmosfera é ridículo.”

“Então você está deixando o mal-entendido como


está e desistindo sem nem mesmo tentar.”

“De qualquer forma, está tudo bem, não estou tão


confiante de que seria capaz de ser amigo daqueles caras
simplórios que simplesmente acreditam em rumores e

60
postagens sem pensar nada sobre ou saber quem os
criou.”

“Essa é uma maneira rancorosa de dizer isso.”

O sorriso de Mai assumiu um tom de simpatia.

“É a sua vez, Senpai.”

“…”

Mai olhou de maneira infeliz para Sakuta por um


momento, mas depois de ter ouvido falar das
circunstâncias de Sakuta, ela abriu a boca em derrota.

“Eu notei no primeiro dia dos quatro feriados.” Em


outras palavras, quatro dias antes, no dia 3 de maio, o Dia
Memorial da Constituição. “Eu fui para o aquário em
Enoshima por um capricho.”

“Sozinha?”

“Isso é um problema?”

“Eu só queria saber se você tinha um namorado.”

“Eu nunca tive um.”

Mai franziu os lábios desinteressadamente.

“Hehhh.”

“Existe um problema em eu ser virgem?”

Mai olhou para Sakuta, provocantemente.

“…”

“…”

61
Seus olhares se encontraram. Mai ficou vermelha
instantaneamente, vermelho puro, até ao pescoço.
Aparentemente ela estava envergonhada com a palavra
‘virgem’, mesmo que ela tenha começado isso.

“Ahh, eu tenho uma regra de não me preocupar com


esse tipo de coisa.”

“C-certo… de qualquer maneira! Eu notei que


ninguém estava olhando para mim naquele aquário, que
estava cheio de famílias.”

A expressão levemente mal-humorada de Mai a fez


parecer mais jovem e adorável. Porque ele só tinha visto
a aparência adulta dela antes, isso foi uma experiência
nova de várias maneiras. Se ele apontasse isso, ele
descarrilaria a conversa novamente, então Sakuta
manteve isso em mente.

“Eu pensei que era apenas minha imaginação no


começo. Já faz dois anos desde que eu estava ativa, e todo
mundo estava distraído com os peixes.” O tom da voz dela
ficou lentamente e cada vez mais sério. “Mas ficou claro
quando entrei num café a caminho de casa. Ninguém me
recebeu e eu não fui conduzida a um assento.”

“Era um self-service?”

“Era uma cafeteria tradicional, com assentos nos


balcões e apenas quatro em cada mesa.”

“Então você foi lá no passado e foi banida?”

62
“Não tem como ser isso.”

A bochecha de Mai mudou de raiva e ela pisou no pé


de Sakuta.

“Senpai, seu pé.”

“O que tem o meu pé?”

Mai perguntou seriamente, realmente agindo como


se ela não soubesse, ele realmente refletiu ali que ela era
uma profissional.

“Nada, eu apenas estou feliz por você estar pisando


em mim.”

Ele quis dizer isso como uma piada, mas Mai recuou
e se afastou de Sakuta tanto quanto ela podia, no mesmo
momento que o homem que estava sentado ao lado dela
desceu do trem.

“É uma piada.”

“Eu senti pelo menos um pouco de seriedade.”

“Bem sim, como homem, estou feliz de ter uma linda


senpai se importando comigo.”

“Certo, certo, eu estou continuando agora, então


fique quieto. Onde eu estava?”

“Você estava falando sobre como foi banida de um


café.”

“Você vai me deixar com raiva.” O olhar de Mai ficou


afiado com isso, e não importava como ele olhasse, ela já

63
parecia zangada. Para mostrar seu pedido de desculpas,
Sakuta fez um movimento de fechar um zíper em sua
boca, e Mai continuou com uma expressão infeliz. “Mesmo
quando falei com os funcionários, eles não responderam
e nenhum dos outros clientes me notou também.
Obviamente fiquei surpresa, então corri de volta para
casa.”

“Quão longe?”

“Para Fujisawa. Mas nada aconteceu quando cheguei


lá. Todo mundo olhou para mim como normalmente
ficariam surpresos em ver “Sakurajima Mai”. Então eu
pensei que realmente tinha sido minha imaginação,
mas… eu estava curiosa, então comecei a investigar se
isso acontecia em outros lugares.”

“E essa coisa de coelhinha?”

“Nessa roupa, se as pessoas pudessem me ver, elas


iriam olhar tanto que não haveria espaço para dúvidas.”

Isso estava exatamente correto, a reação de Sakuta


naquele dia provou a eficácia disso.

“Então, por outros lugares… a mesma coisa


aconteceu em Shonandai então…”

“Isso mesmo, agora eu só estou esperando até que


eu fique invisível para o mundo todo.” Por algum motivo,
ela olhou reprovadoramente para Sakuta. “Tudo estava
normal na escola hoje… até agora.”

64
Mai indicou indiretamente a porta interna, onde um
aluno com uniforme de outra escola estava checando seu
telefone e lançando olhares para eles. Claro, a mira dele
não era Sakuta, mas sim Mai.

“Parece que você está se divertindo Senpai, mesmo


que você esteja tendo uma experiência tão estranha.”

Sakuta deu suas impressões francas, Mai não


parecia estar particularmente triste com isso.

“Bem sim, isso é divertido.”

“Você está sã?”

Ele virou um olhar questionador para ela, não


entendendo o que ela queria dizer.

“Eu sempre fui o centro das atenções, não é?


Vivendo sob os olhares dos outros. Então, quando eu era
pequena, fiz um desejo de poder ir a um mundo onde
ninguém me conhecesse.”

Ela não parecia estar mentindo, mas mesmo se o que


ela dissera fosse uma atuação, havia razões suficientes
para acreditar nela. Ela era uma atriz que tinha tido a
capacidade de se tornar uma verdadeira atriz depois de
ter sido uma atriz infantil.

Enquanto eles conversavam, Sakuta notou que os


olhos dela se moveram em direção a um dos anúncios
pendurados no trem. Era um anúncio de uma adaptação
de um romance em um filme. A atriz principal era uma
65
mulher popular que havia sido promovida recentemente,
e ele achou que ela era da mesma idade que Mai. Ela
provavelmente tinha as tendências no mundo do showbiz
em sua mente, ou talvez ela estivesse nostálgica? Não,
ele tinha a sensação de que não era isso. Ele pensou que
os olhos de Mai, que pareciam estar olhando para algum
mundo distante, tinham alguma emoção ardendo neles.
Colocando de outra forma, parecia ser algum tipo de
arrependimento ou apego.

“Senpai?”

“…”

“Sakurajima-senpai?”

“Eu posso ouvir você.” Depois de um piscar de olhos,


Mai olhou de soslaio para Sakuta. “Estou feliz com esta
situação. Então não interfira.”

“…”

Antes que percebessem, o trem havia chegado à


plataforma final da Estação Fujisawa, as portas se abriram
e Sakuta apressadamente seguiu Mai, que saíra primeiro.

“Se você entende o quão estranha eu sou agora,


tudo bem.”

“…”

“Não associe mais comigo.”

66
Mai falou sem rodeios e saiu em disparada pelo
portão de passagem, e continuou, abrindo a distância
entre ela e Sakuta depois que eles se separaram.

Ele seguiu a figura em partida dela, porque esse era


seu caminho para casa de qualquer maneira, passando
pelo corredor do prédio da JR (Japan Railways) na estação.

Mai estava em frente a um armário operado por


moedas em um canto e pegou um saco de papel. Ele
pensou nisso e ela então saiu apressada para uma
barraca de padeiro.

“Um bolinho de creme por favor.”

Ela chamou a mulher que cuidava da barraca. Não


houve reação, como se a mulher não pudesse ouvi-la.

“Um bolinho de creme por favor.”

Mai repetiu seu pedido. Mas, é claro, a mulher não


reagiu. Como se ela não pudesse vê-la, a mulher pegou
uma nota de mil ienes do funcionário de escritório que
havia chegado depois, e como se não pudesse ouvi-la,
entregou um pão de melão para uma garota do ensino
fundamental.

“Com licença, um bolinho de creme por favor.”

Sakuta aproximou-se de Mai e falou em voz alta para


a mulher.

“Aqui, um bolinho de creme.”

67
Sakuta entregou 130 ienes pelo saco de papel que
ela passou por cima do balcão. Ele se afastou da bancada
e entregou o pacote para Mai, que olhou envergonhada
para o chão desconfortavelmente.

“Você realmente não se incomoda?”

“Estou incomodada por não poder comer os bolinhos


de creme daqui.”

“Certo.”

“Mas … Você acredita nas coisas loucas que eu tenho


dito?”

“Como devo dizer, eu sei sobre esse tipo de coisa.”

“…”

“É a Síndrome da Adolescência.”

As sobrancelhas de Mai se ergueram de surpresa. Ele


não tinha ouvido falar de alguém tornar-se invisível, mas
havia muitos rumores de ‘ser capaz de ler mentes’, ‘ver o
futuro’, ‘trocar corpos com alguém’ e outras ocorrências
misteriosas assim, e se você olhasse nesses tipos de
fórum de discussão, haveria muitos outros.

Psicólogos normais assumiam que isso era um sinal


de instabilidade e ignoravam isso completamente.
Especialistas autoproclamados chamavam isso de um
novo tipo de ataque de pânico causado pela sociedade
moderna, e os comuns e entretidos grupos de pessoas

68
que monitoram os pensamentos dos outros tinha opiniões
como ‘é um tipo de hipnotismo em grupo’.

Havia também pessoas que a chamavam de uma


doença da mente provocada pelo estresse causado pela
lacuna entre um mundo desumano e o ideal de uma
pessoa. O único ponto em comum era que ninguém
levava a sério. A maioria dos adultos ignorava isso como
‘apenas sua imaginação’.

Entre essa troca irresponsável de ideias, embora ele


não soubesse quem as havia dito, as estranhas
ocorrências como o que estava acontecendo com Mai
passaram a ser chamadas de “Síndrome da
Adolescência”.

“A Síndrome da Adolescência não é uma lenda


urbana comum?”

Mai estava exatamente certa, era uma lenda urbana.


Normalmente, ninguém acreditaria e todos teriam tido a
mesma reação que Mai. Mesmo que eles mesmos
tivessem experimentado algo estranho, eles pensariam
que era a imaginação deles e não aceitariam isso, porque
eles estavam vivendo em um mundo onde essas coisas
não deveriam acontecer. Mas Sakuta tinha uma base
inegável para sua crença.

“Há algo que eu quero te mostrar, então você vai


acreditar que eu acredito em você, Senpai.”

69
“Algo que você quer me mostrar?”

Mai franziu as sobrancelhas para Sakuta em


suspeita.

“Você viria comigo um pouco?”

Depois ela pensou sobre a sugestão dele por um


tempo antes de concordar e dizer baixinho.

“…Certo.”

⟡⟡⟡

Sakuta tinha trazido Mai para a esquina de uma rua


residencial, a cerca de dez minutos a pé da estação.

“Onde estamos?”

Mai estava olhando para um bloco de apartamentos


de sete andares.

“Minha casa.”

Um olhar de desconfiança e suspeita o apunhalou


pelo lado.

“Eu não vou fazer nada,” ele disse, e acrescentou em


voz baixa, “provavelmente”.

“Você acabou de dizer algo, não é?”

“Eu disse que se você me seduzir, eu não tenho


certeza se vou conseguir me controlar.”

“…”

70
A boca de Mai ficou no formato de uma linha reta.

“Oh, você está preocupada, Senpai?”

“P-preocupada? Eu?”

“Sua voz está traindo você.”

“E-Entrar no quarto de um garoto mais novo não é


nada para mim.”

Soltando um suspiro, Mai caminhou rapidamente até


a entrada, e resistindo a uma risada, Sakuta seguiu
imediatamente e ficou ao lado dela.

Eles usaram o elevador para subir cinco andares, e a


terceira porta à direita era onde Sakuta morava.

“Estou em caaasa.”

Não houve resposta ao grito dele na entrada.


Normalmente, sua irmã Kaede o teria emboscado, mas
ele tinha voltado para casa em um horário incomum hoje,
então ela provavelmente estava emburrada, ou talvez
apenas dormindo, ou se concentrando em ler e não tinha
notado sua volta.

“Pode entrar.”

Ele convidou Mai, que estava de pé de maneira rígida


na entrada e com os sapatos ainda calçados.

Eles entraram e foram direto para o quarto de


Sakuta. Mai pôs a mochila e o saco de papel que
carregava em um canto, depois abaixou-se para se sentar

71
na cama. Quando Sakuta deu uma olhada no saco de
papel, ele viu orelhas de coelho, ela provavelmente
estava planejando ser uma coelhinha selvagem em algum
outro lugar.

“Hmmm, está limpo.”

Mai deu uma opinião cansada depois que ela olhou


ao redor do quarto dele.

“Eu simplesmente não tenho muitas coisas para


deixar jogado por aí.”

“Isso é o que parece.”

A única mobília era uma escrivaninha, uma cadeira


e uma cama, fora isso o quarto estava vazio.

“Senpai, você—”

“Hey.”

Mai o interrompeu.

“O que foi?”

“Pare de me chamar de ‘Senpai’, não me lembro de


me tornar sua senpai.”

“Sakurajima-san?”

“Meu sobrenome é muito longo.”

“Então, Mai… ack!”

Mai tinha agarrado a gravata e puxado-o para baixo.

“Use ‘san’.”

72
“Pensar que você seria tão ousada…”

“Eu odeio pessoas indelicadas”.

Por um instante havia uma atmosfera tensa causada


pela Mai. Não havia espaço para brincar sobre isso. Esse
senso de valores, que parecia rígido à primeira vista,
certamente era algo cultivado no mundo do showbiz.

“Então, Mai-san.”

“Azusagawa não combina com você, então eu irei te


chamar de Sakuta-kun”. Que tipo de imagem de
‘Azusagawa’ possuía Mai? “Bem então, o que você quer
me mostrar, Sakuta-kun?”

“Se você não me soltar, eu não poderei.”

A mão de Mai de repente voou da gravata dele.


Sakuta levantou-se e afrouxou-a, depois desabotoou a
camisa e naturalmente a removeu junto com a camiseta
que ele estava usando por baixo, ficando seminu.

“P-por que você está tirando a roupa!?” Mai gritou e


desconfortavelmente olhou para longe. “V-você disse que
não faria nada. Lascivo! Pervertido! Exibicionista!”

Lançando vaias para ele, Mai lentamente voltou seu


olhar para Sakuta. E então, solte um ‘ah’ de pura
surpresa.

Havia três cicatrizes vívidas esculpidas no peito dele.


Parecia que ele havia sido arranhado por uma enorme

73
fera e cortado do ombro direito para o lado esquerdo. Elas
eram como uma enorme minhoca em seu peito, e no
momento em que as viu, Mai percebeu que elas eram
incomuns. Nem mesmo ser atacado por um urso
resultaria nisso. Parecia que ele tinha sido ferido por uma
escavadeira. Mas, infelizmente, Sakuta nunca havia
lutado contra uma escavadeira.

“Você foi atacado por um mutante?”

“Eu não sabia que você era interessada em


quadrinhos americanos, Senpai.”

“Eu só assisti aos filmes.”

“…”

“…”

Mai olhou fixamente para as cicatrizes.

“Elas são reais.”

“Você acha que eu sou o tipo de idiota que faria esse


tipo de maquiagem?”

“Posso tocá-las?”

“Vá em frente.”

Mai se levantou e estendeu sua mão, colocando


suavemente a ponta do dedo na abertura da ferida no
ombro dele.

“Ah.”

74
“Hey, não faça sons estranhos”.

“Eu sou sensível ai, então seja gentil, por favor.”

“Assim?”

O dedo de Mai traçou ao longo da cicatriz.

“Isso é muito bom.”

Sem mudar sua expressão, Mai beliscou o estômago


dele.

“Ow, ow! Me solte!”

“Parece que você está gostando.”

“Isso realmente dói!”

Talvez ela pensasse que era sem sentido, visto que


Mai o soltou.

“Então, como isso aconteceu?”

“Ah, eu realmente não sei.”

“Huh, o que você quer dizer? Não era isso que você
queria me mostrar?”

“Não, isso não importa, não se preocupe com isso.”

“Claro que isso me preocupa. Além disso, se não, por


que você se despiu?”

“É um hábito se trocar logo depois que eu chego em


casa, então não pude evitar.”

75
Assim que ele explicou, Sakuta estendeu a mão para
sua gaveta trancada e pegou uma foto dele antes de
entregá-la para Mai.”

“É isso.”

“…!?” No momento em que os olhos dela se voltaram


para a foto, eles se abriram de surpresa. Sua expressão
logo ficou séria, e ela procurou por uma explicação de
Sakuta. “O que é isso?”

Estava retratado uma garota do ensino fundamental.


Seus braços estavam à mostra com o uniforme de verão,
e esses junto com as pernas, estavam cobertos de
hematomas e cortes dolorosos.

“Minha irmã, Kaede.”

Sakuta sabia que o estômago e costas dela, cobertos


pelo uniforme, eram os mesmos.

“…Ela foi agredida?”

“Não, ela apenas sofreu bullying na internet.”

“…Eu não entendo o que você está dizendo.”

Isso era compreensível, a maioria das pessoas teria


essa reação pelo fato da irmã dele ter sofrido bullying.

“Ela deixou uma mensagem lida sem responder, e a


‘líder’ de sua classe a odiou. Então suas colegas
escreveram coisas como ‘você é a pior’, ‘morra’, ‘você é
nojenta’, ‘você é irritante’ e ‘não venha para a escola’ na

76
rede social que elas usavam.” Sakuta desabotoou seu
cinto enquanto ele falava. “E então um dia, isso
aconteceu com o corpo dela.”

“Mesmo?”

“No começo achei que alguém a tinha agredido


também. Mas ela já não ia à escola e não saía. Eu
realmente pensei que Kaede poderia estar se
atormentando com isso.”

Ele tirou as calças e pendurou-as nas costas da


cadeira para não se amassarem.

“Há pessoas que pensam que estão erradas por


sofrerem bullying e se culpam por isso.”

De alguma forma, Mai estava olhando em outra


direção.

“Eu queria saber o que estava acontecendo, então


matei aula e fiquei com ela.”

“Hey, antes de você continuar?”

“O que é?”

“Sério, por que você está se despindo.”

Ele olhou para seu reflexo na janela, ele estava


apenas usando um par de roupas íntimas. Não, ele estava
usando meias também.

“Eu te disse, é um hábito de se trocar quando eu


chego em casa.”

77
“Então se apresse e se vista!”

Ele abriu o guarda-roupa e procurou por uma troca


de roupas. Enquanto ele fazia isso, ele continuou falando.

“Umm, onde eu estava?”

“Você matou aula e estava com sua irmã.”

“No momento que Kaede olhou para a rede social,


novas feridas apareceram em seu corpo. Suas coxas se
abriram de repente, e até mesmo jorrou sangue… Cada
vez que ela via um post, ela se machucava e elas
continuavam se acumulando.”

Quase parecia que as feridas no coração dela foram


cortadas em seu corpo.

“…” Mai se preocupou em como aceitar isso. “…É


difícil acreditar tão de repente, mas não há motivos para
ir tão longe a ponto de fazer essa foto para uma história
inventada.”

Tirando a foto de Mai, Sakuta a colocou de volta na


mesa e trancou a gaveta.

“Essas cicatrizes são da mesma época.” Ele assentiu


com a cabeça ligeiramente. “Um ser humano não as fez.”

“Eu não tenho ideia do que as causou. Eu acordei


coberto de sangue e fui levado para o hospital… Eu pensei
que ia morrer.”

“Poderia isso ter sido o incidente do hospital?”

78
“Sim, eu fui enviado para o hospital.”

“É completamente o oposto, você realmente não


pode confiar em rumores.”

Mai soltou um suspiro e sentou-se novamente.

Então a porta se abriu e Nasuno, um gato de chita,


entrou no quarto com um miado. E atrás—

“Onii-chan, você está… aqui?”

—Kaede espiou da porta com seu pijama.

“Eh?”

Ela soltou um som de confusão.

No quarto de Sakuta, ela podia ver seu irmão de


cueca, e uma mulher mais velha sentada na cama.

“…”

“…”

“…”

79
Os três ficaram em silêncio e seus olhares se
encontraram por um momento, com apenas Nasuno
divertidamente rolando sobre os pés de Sakuta.

Kaede foi a primeira a agir.

“E-Eu sinto muito!”

Assim que ela se desculpou, ela saiu do quarto por


um momento mas logo espiou pela fresta, e depois de
olhar entre os outros dois, chamou Sakuta.

“O que?”

Sakuta pegou Nasuno e respondeu, parado na frente


da porta. De pé na ponta dos pés, Kaede escondeu sua
boca com as duas mãos e sussurrou no ouvido dele.

“S-Se você for chamar uma dama da noite, me avise


primeiro!”

“Kaede, você está seriamente entendendo errado as


coisas.”

“O que mais poderia ser isso além de você se


divertindo com o fetiche de uniforme com uma
prostituta?”

“Onde diabos você aprendeu sobre isso?”

“No livro que li há cerca de um mês, havia uma


garota que trabalhava nessa indústria, ela era uma garota
adorável que guiava homens deploráveis ao Nirvana.”

81
“Bem, embora a explicação varie entre as pessoas,
você normalmente não veria isso e acharia que seu irmão
trouxe a namorada para casa?”

Ele pensou que isso seria uma suposição muito mais


natural, mas…

“Eu não quero imaginar o pior caso assim.”

“O pior caso, irmãzinha?”

“O pior caso, do tanto que a Terra seria destruída.”

“Certo, então eu vou arrumar uma namorada e


destruir a Terra!”

“Hey, já podemos continuar?”

Ele se virou para o quarto quando Mai o chamou, e


Kaede aproveitou a oportunidade para se agarrar às
costas dele. Ambas as mãos dela estavam em seu ombro
enquanto ela se escondia atrás dele, espiando Mai de vez
em quando. Mas porque ela era alta, ela não conseguia
realmente se esconder. Ser vista pela Mai era
simplesmente demais.

“Onii-chan, ela não está aplicando um golpe em


você, não é?”

“Ela não está.”

“Você não prometeu ir ver pinturas?”

“Eu não.”

“Ela é—”

82
“Ela não é, relaxe. Ela não faz encontros pagos, ela
é uma senpai da escola.”

“Eu sou Sakurajima Mai, prazer em conhecê-la.”

Kaede voltou atrás de Sakuta quando Mai se dirigiu


a ela, como um pequeno animal confrontado por um
carnívoro. Então, ela colocou a boca nas costas dele e
disse algo através das vibrações.

“Uh, isso foi ‘Prazer em conhecê-la, eu sou


Azusagawa Kaede’.”

“Certo.”

“‘Este é Nasuno.’ Foi desta vez.”

Ele mostrou o gato em seus braços para Mai, onde


este soltou um miado e se inclinou de maneira relaxada.

“Obrigado por me dizer.”

Kaede mostrou seu rosto em resposta às palavras


dela, mas depois roubou Nasuno dos braços de Sakuta e
saiu correndo do quarto como um coelho em fuga, e a
porta se fechou de maneira barulhenta atrás dela.

“Desculpe por isso, ela é muito tímida, então perdoe-


a.”

“Não se preocupe com isso e diga isso a ela também.


Estou feliz que os ferimentos dela parecem ter sarado
devidamente.”

83
Estranhamente, até as cicatrizes tinham curado. Ele
realmente estava feliz com isso, ela era uma garota
depois de tudo. E ainda, ainda havia a questão do porquê
que as cicatrizes de Sakuta permaneceram, mas… isso
não era o que eles estavam pensando sobre, então ele se
concentrou em Mai, que se recostou em suas mãos e
cruzou as pernas.

“Mas é uma rara garota que não me conhece.”

“Bem… ela não assiste muita TV.”

“Hmmm.”

Ela tinha uma expressão vaga, como se ela não


concordasse.

“Então, voltando ao ponto… Mai-san, quão séria


você estava quando disse ‘eu quero ir a um mundo onde
ninguém me conhece’, o quão séria você estava?”

“Cem por cento.”

“Mesmo?”

“…Tem vezes que eu penso assim, mas quando eu


não posso comer bolinhos de creme, isso acaba sendo um
problema em si, e eu penso assim.”

Mai pegou o bolinho, segurou-o com as duas mãos e


deu uma pequena mordida.

“Eu estava te perguntando seriamente.”

84
“…” Mai mastigou, e depois de cerca de dez
segundos, engoliu e respondeu. “Eu estava respondendo
seriamente, o humor muda com o tempo, certo?”

“Bem, eu acho que sim.”

“Então, eu tenho uma pergunta, por que você me


perguntou isso?”

Os olhos de Sakuta olharam para a porta, para Kaede


que já havia saído.

“No caso da Kaede, removê-la da internet resolveu


mais ou menos as coisas.”

Ela não podia ver as redes sociais, ou postar num


fórum de discussão, ou usar conversas em grupo. Ele
havia cancelado o contrato do smartphone da Kaede e o
jogado no mar, e não havia nem mesmo um computador
nesta casa.

“‘Mais ou menos’, huh?”

“O médico disse que era o mesmo que as pessoas


que pensavam que o estômago doía, então realmente
começava a doer. No final, eles decidiram que as próprias
feridas foram infligidas pela própria Kaede…”

Sakuta não concordou com tudo o que o médico


tinha dito, mas havia partes da explicação que ele poderia
concordar. Ser insultada por seus amigos iria rasgar o
coração dela, e isso apareceria em seu corpo. Não havia
mais nada que você pudesse pensar ao ver Kaede, e a
85
sensação de o estado mental dela estar influenciando seu
corpo físico era compreensível. Todo mundo teve
experiências como… se sentir mal e ficar doente, sentir
que vomitaria ao ver comida de que não gostava, ou se
sentir enjoado ao redor de uma piscina.

Então, embora o escopo fosse completamente


diferente, “pensar que o estômago dela doía e assim por
diante” soou relevante para Sakuta.

“E então?”

“A questão é que a razão pela qual ela foi ferida foi


por causa das suposições de Kaede.”

“Eu entendi. Então você está dizendo que isso tem


algo a ver com a minha situação?”

“Afinal, Mai-san, você está fazendo o papel da


‘atmosfera’ na escola, não é?”

“…”

A expressão de Mai não mudou, e mesmo quando ela


mostrou um pouco de interesse, seus olhos simplesmente
disseram ‘então?’, friamente pedindo que Sakuta
continuasse. Pessoas comuns não conseguiriam aguentar
isso.

“Bem, então para a situação não piorar, acho que


você deveria voltar ao show business.”

86
Sakuta rapidamente desviou o olhar e tentou dizer
isso levemente. Não havia necessidade de fazer uma
estranha barganha, mesmo que eles estivessem lutando
na mesma arena, ele não teria chance de ganhar.

“Por que isso?”

“Se você se destacar na TV, não importa o quão bem


você se faça de atmosfera, as pessoas não poderão
ignorá-la, assim como antes de sua pausa.”

“Hmmm.”

“E eu acho que você ser capaz de fazer o que você


quer seria ótimo também.”

Sakuta disse, enquanto olhava para ela para julgar


sua reação.

“…” As sobrancelhas de Mai se moveram em


surpresa, era a menor mudança a qual você não teria
visto sem olhar com cuidado. “E o que seriam essas coisas
que eu quero fazer?”

O tom dela ainda era franco.

“Retornar ao show business.”

“Quando eu disse uma coisa dessas?”

Mai soltou um suspiro e pareceu enojada, mas


Sakuta achou que era uma atuação.

“Se você não está interessada, por que você estava


olhando com inveja para aquele anúncio no trem?”

87
Sakuta interrompeu imediatamente.

“É um romance que eu gosto, então eu estava


apenas um pouco interessada”.

“Você não queria atuar como a heroína?”

“Você é obstinado, Sakuta-kun.”

Mai deu um sorriso relaxado, a máscara dela não


quebrara. Mesmo assim, Sakuta continuou sem desistir.

“Acho que é bom ter algo que você quer fazer. Você
tem a habilidade e você tem o histórico. Além disso, você
tem sua empresária querendo que você volte, então qual
é o problema?”

“…Não tem nada a ver com ela.” Ela falou baixinho,


mas as palavras foram controladas, com o ar de um
estrondo atrás delas. Como prova disso, as sobrancelhas
de Mai haviam se reduzido a um olhar penetrante. “Não
se intrometa nas coisas.”

Parecia que ele tinha acertado um nervo.

“…”

Mai ficou de pé em silêncio.

“Ah, se você precisar do banheiro, está aqui fora e à


sua direita.”

“Estou indo embora.”

Mai pegou sua bolsa e abriu a porta.

88
“Kya!” Um grito veio de Kaede, que tinha trazido o
chá em uma bandeja e acabado de chegar em frente à
porta. Mesmo que ela estivesse com um pijama mais
cedo, ela agora estava vestindo uma blusa branca e uma
saia. “U-umm, umm… eu trouxe chá.”

Kaede estava completamente em pânico na frente


de Mai, que parecia terrivelmente brava.

“Obrigada.”

Mai sorriu brevemente e pegou a xícara enquanto


agradecia a Kaede, antes de esvaziá-la em um só gole.

“Estava saboroso.”

Cuidadosamente, Mai colocou a xícara de volta na


bandeja que Kaede estava segurando e se dirigiu para a
entrada.

Sakuta saiu apressadamente do quarto e correu


atrás dela.

“Ah, espere, Mai-san!”

“O que!?”

Mai estava colocando seus sapatos.

“Isso.”

Ele levantou o saco de papel com a roupa de coelho


para mostrá-la.

“Você pode ficar com isso!”

89
“Então pelo menos deixe-me acompanhá—”

Pouco antes de ele dizer ‘você até sua casa’, ela


falou com raiva.

“É próximo daqui, então está tudo bem!”

E saiu da entrada.

Ele foi persegui-la, mas.

“Onii-chan, você vai ser preso!”

Kaede apontou que ele estava de cueca, e ele não


tinha mais nada a fazer senão desistir.

Sakuta e Kaede foram deixados no caminho da


entrada.

“…”

“…”

Vários segundos se passaram e, de alguma forma,


ambos os olhares caíram sobre saco de papel, com uma
roupa completa de coelhinha.

“O que você vai fazer com isso?”

“Eu me pergunto…”

Ele tirou as orelhas e, como ela estava carregando a


bandeja e não podia resistir por enquanto, colocou-as na
cabeça de Kaede.

“E-Eu não usarei isso!”

90
Ela escapou para a sala de estar com passos
cuidadosos, para evitar derramar o resto do chá.

Forçar ela não seria bom, então ele desistiu de fazer


Kaede usar isso por enquanto. Ele acreditava que
chegaria o dia em que ela ficaria interessada em brincar
de coelhinha e o colocou em seu guarda-roupa.

“Isso está resolvido.” O que não estava resolvido era


Mai, ela estava completamente zangada. “Vou ter que me
desculpar amanhã.”

91
↑ [1] taro: nome comum dado a uma espécie de
plantas, a Colocasia esculenta.

↑ [2] Havia um anúncio para o Bufferin no Japão que


usava a frase “feito pela metade com felicidade”, que tem
sido usado/alterado e etc pela internet, e substituído aqui
por ‘amabilidade’.

↑ [3] bilhete sazonal: é um bilhete que concede


acesso ilimitado ao serviço durante um tempo pré-
determinado. Coloquei uma nota por não ter encontrado
o nome deste serviço no Brasil, se é que existe.

↑ [4] Noriori-kun: um bilhete diário para o Enoden,


particularmente para o turismo, custa 600 ienes para
adultos e 300 para crianças. O nome é literalmente
apenas ‘Embarque e Desembarque’-kun.

92
Apesar de sua determinação em tentar, Sakuta foi
incapaz de se desculpar no dia depois de irritar Mai. Suas
esperanças de encontrar-se com ela no trem pela manhã
foram totalmente despedaçadas. Ele tinha então pensado
que, nesse caso, iria para a sala de aula dela no curto
intervalo após o primeiro período, mas ele não a
encontrou em nenhum lugar. Quando ele falou com a
garota do terceiro ano perto da porta, ela fez uma cara
um pouco confusa, e então disse:

“Sakurajima-san? Hmm, ela veio hoje?” E então


voltou para a conversa dela com as amigas com “Bem,
ela veio ontem.”

“…”

A sala de aula, da qual ela estava ausente, estava


preenchida pelo riso dos garotos e da tagarelice das
garotas, a atmosfera do intervalo não mudava muito
entre o segundo e o terceiro ano. Quando ele imaginou
Mai, isolada dentro dali, seu peito se apertou um pouco.

“Onde é o lugar dela?”

“Eh? Ah, ali.”

A garota apontou para um assento na segunda fileira


a partir das janelas, bem no fundo da sala. Vendo que a
mochila dela estava na mesa isolada, Sakuta voltou para
sua própria sala de aula.

95
Em cada intervalo depois disso, ele foi para a sala do
terceiro ano, mas Mai não estava lá. Sua bolsa
permanecia e os livros da próxima aula estavam
arrumados na mesa, então ele estava certo de que ela
estava no colégio, mas cada viagem terminava como uma
perda de tempo.

Sua última esperança agora era quando as aulas


terminassem, e com o fim de sua aula, Sakuta correu para
a entrada. Ele procurou por Mai, procurando por cerca de
vinte minutos. Uma vez que ele sabia que não a
encontraria lá, ele deixou a escola e desceu a rua para a
estação. Claro, ela não estava lá; ele não conseguia
encontrá-la nem na plataforma Shichirigahama.

No final, ele não conseguiu nem sequer encontrá-la


hoje, muito menos se reconciliar com ela.

Isso continuou por três dias, depois dos quais até


mesmo um idiota teria percebido que ela estava
propositadamente evitando-o. O problema era que a
atitude completamente forçada dela não relaxou nem
depois disso.

Duas semanas haviam passado desde então, e ela


ainda o estava evitando perfeitamente. Ontem, a caminho
de casa, ele ficou à espera na estação, mas nem mesmo
isso tinha colhido frutos. Parecia que ela tinha caminhado
para a próxima estação e pego o trem lá, ela não tinha
aparecido mesmo depois de uma hora de espera.
96
De qualquer forma, ela estava tornando isso difícil.
Ela provavelmente estava usando técnicas que aprendera
no mundo do show business para evitar câmeras de
notícias, desaparecendo como a névoa às vezes.

“Eu acho que realmente toquei numa grande ferida.”

Esse pensamento tinha se fortalecido dia após dia


devido ao comportamento teimoso de Mai. Ele estava
sugerindo que ela voltasse para aquele mundo que
causara sua raiva, e o gatilho específico era
provavelmente a palavra “empresária”.

Isso o fez pensar que havia uma razão para ela ter
feito um hiato e hesitar em voltar, mesmo que ela
quisesse. Quando ele usou um computador do colégio
para procurar as coisas, os únicos tipos de razões que ele
conseguia encontrar eram rumores inúteis, fofocas como
‘excesso de trabalho talvez?’, ‘alguma coisa deve ter
acontecido com o produtor dela’ e ‘deve ser um cara’.
Tinha chegado ao ponto em que a única coisa que ele
poderia fazer seria perguntar diretamente a ela, mas ela
ainda estava perfeitamente evitando Sakuta, então não
havia mais nada a fazer.

Depois do colégio naquele dia, Sakuta decidiu que a


perseguição imprudente era inútil e mudou um pouco a
sua abordagem. Depois de terminar o serviço de limpeza,
ele foi até o laboratório de física.

97
Para encontrar sua outra amiga.

Ele bateu levemente na porta e abriu-a sem esperar


por uma resposta.

“Eu vou me intrometer.”

Ele entrou e fechou a porta atrás dele.

“Você está se intrometendo, então saia.”

E foi imediatamente atacado por palavras


impiedosas.

Havia uma única aluna dentro do grande laboratório,


a qual estava preparando uma lamparina a álcool e um
béquer na mesa do professor. Ela nem olhou para Sakuta
quando ele entrou.

Ela era pequena, com 155 centímetros de altura e


usava óculos. O jaleco branco sobre o uniforme atraía o
olhar e sua postura reta era atraente.

Seu nome era Futaba Rio, uma aluna do segundo ano


da Escola Secundária de Minegahara. Ela tinha sido da
mesma classe que Sakuta e Yuuma no ano passado e era
a única membro do clube de ciências. Ela era conhecida
como uma pessoa estranha que às vezes causava falta de
energia ou pequenos incêndios enquanto realizava
experimentos para o clube de ciências. O fato de ela estar
constantemente usando seu jaleco de laboratório era
outro motivo para chamar atenção.

98
Sakuta pegou uma cadeira próxima e sentou-se na
frente dela, com a mesa entre eles.

“Como você está?”

“Não aconteceu nada que eu informaria a você,


Azusagawa.”

“Diga-me algo divertido.”

“Não me arraste para as conversas de alunos do


ensino médio com muito tempo em suas mãos.”

Rio levantou o olhar e olhou para Sakuta. Talvez ela


realmente achasse que ele estava se intrometendo.

“Nós realmente somos estudantes do ensino médio


com muito tempo em nossas mãos, podemos agir assim.”

Rio ignorou a tentativa de Sakuta de continuar a


conversa e acendeu a lamparina com um fósforo. Ela a
colocou debaixo de um béquer cheio de água, e
provavelmente pretendia fazer algum tipo de
experimento.

“Como você tem estado, Azusagawa?”

“Bem, eu realmente não tenho nada para relatar.”

“Mentiroso. Você tem estado obcecado por uma


popular atriz infantil, não é?”

Sem sequer pensar nisso, ele sabia que ela estava


falando sobre Mai.

100
“Ela se formou como atriz infantil há muito tempo,
ela é uma atriz, performer ou artista.” Ou talvez ele
devesse chamá-la de pessoa normal enquanto estivesse
em hiato. “De qualquer forma, de quem você ouviu isso?”

“Essa é uma pergunta estúpida.”

“Bem, apenas pode ser o Kunimi.”

Yuuma era o único que sabia sobre as coisas que


Sakuta estava envolvido. Ele também era, é claro, o único
além de Sakuta que falava com Rio, tão esquisito quanto
ela por sempre usar seu jaleco de laboratório. Era isso,
QED. [NT: ‘QED’ é uma expressão em latim, recomendo
procurar para entenderem melhor]

“Eu tenho me preocupado que você esteja se


intrometendo em lugares estranhos novamente,
Azusagawa.”

“O que há com esse ‘novamente’?”

“Preocupando-se com um imprestável como você…


Kunimi é muito gentil.”

“Se você souber como isso funciona, vá em frente e


me diga.”

Ele achava que a frase ‘uma boa personalidade’


existia para Yuuma, do fundo do seu coração.

Quando os rumores tinham se espalhado sobre o


incidente do hospital no ano passado, foi apenas Yuuma

101
que não mudou seu comportamento. Ele não tinha
acreditado nos rumores e havia perguntado sinceramente
a Sakuta quando eles estavam em dupla na aula de
educação física.

“Claro que não.”

“Eu imaginei.”

Kunimi tinha sorrido.

“…Você acredita em mim, Kunimi?”

Francamente falando, isso tinha sido um choque. A


maioria dos colegas de classe dele acreditava nos
rumores e se distanciaram dele sem descobrir a verdade.

“Bem, você não fez isso, certo?”

“Bem, não.”

“Então, em vez de rumores de quem sabe quem, eu


irei acreditar em você de pé na minha frente,
Azusagawa.”

“Você é o pior, Kunimi.”

“Huh? Como você chegou a isso?”

“Mesmo a sua personalidade é perfeita, você é


realmente o inimigo de todos os homens.”

“Que diabos?”

Isso tinha acontecido há um ano e ele sempre


conversara com Yuuma desde então.

102
Ele olhou para a chama com um olhar desfocado.

“O mundo é injusto, não é?” E então ela deu um olhar


um pouco rude. “As pessoas são tão diferentes.”

Rio estava claramente olhando para Sakuta com


pena.

“Pare de me comparar ao Kunimi.”

“Eu estou apenas zombando de você, não se


preocupe com isso.”

“Obviamente eu me preocuparia. Bem, pessoas


como ele escondem todos os tipos de perversões
indescritíveis, assim o equilíbrio do mundo é mantido.”

“Você é tão desagradável socialmente como


sempre.”

Rio falou com um suspiro.

“Como?”

“Chamando seu amigo de pervertido pelas costas


quando ele está se preocupando com você.”

A declaração do Rio era irrefutável.

“…Acho que apenas pensei em uma diferença para


com o Kunimi.”

“E então.”

Rio prolongou sua fala.

“Então o que?”

103
Sakuta retornou.

A água começou a borbulhar dentro do béquer.

“Você superou a Makinohara.”

“…Por que você e o Kunimi mencionaram isso?”

“Você não entende isso melhor do que ninguém,


Azusagawa?”

Rio perguntou, antes de ter apagado o fogo e


transferido a água fervente para uma caneca, seguindo
isso com uma colherada de café instantâneo.
Aparentemente, isso não era uma experiência.

“Me dê um pouco também.”

“Infelizmente, eu só tenho um copo. Bem, você pode


usar esse cilindro de medição.”

Rio calmamente estendeu o fino cilindro de vidro de


trinta centímetros de comprimento.

“Se eu bebesse nisso, a bebida acabaria em um


único gole.”

“Você precisa experimentar para verificar se sua


hipótese está correta, Azusagawa. Além disso, não há
mais nada que você possa usar.”

“Não lhe ocorreu de usar o béquer em que você


ferveu a água?”

“Isso seria chato, muito óbvio.”

104
Mesmo enquanto reclamava, Rio acrescentou café
instantâneo à água restante no béquer.

“Açúcar, Futaba?”

“Eu não tenho.”

Rio removeu uma garrafa de plástico de uma gaveta


e a colocou com força na frente de Sakuta. Dióxido de
manganês estava escrito no rótulo.

“Está tudo bem…”

“É provavelmente açúcar. É branco afinal de


contas.”

“Até eu sei que existem muitos pós brancos”. Ele


também sabia que o dióxido de manganês era preto.
“Vamos experimentar um pouco primeiro.”

Sakuta ignorou o conselho realista de Rio e pegou


seu café.

O rosto dela ficou de certa forma arrependido com


isso e ela mais uma vez acendeu a lamparina. Ele pensou
que desta vez ela iria mesmo fazer um experimento, mas
ela colocou uma tela metálica sobre aquela e começou a
esquentar algumas lulas secas e seus tentáculos se
enrolaram.

“Me dê um pouco também.”

105
Ele não tinha pensado que seria bom com café, mas
o cheiro o fez querer comer. Rio rasgou um único
tentáculo e deu a ele.

Enquanto mastigava, Sakuta levantou sua principal


questão.

“Hey, você acha que as coisas podem se tornar


incapazes de serem vistas?”

“Se você está preocupado com sua visão, por que


não ir ver um oftalmologista?”

“Não, não é isso que eu quero dizer… não ser capaz


de ver as coisas, mesmo que elas estejam lá, como o
homem invisível.”

Mai também tinha o sintoma de ser inaudível, então


era um pouco diferente na realidade, mas… ele queria
entender o básico primeiro.

“E o que, esgueirar-se nos banheiros das garotas?”

“Eu não tenho fetiche por scat, então vamos dizer os


vestiários.”

“Esse sim é você, um traste.”

Rio estendeu a mão para a própria mochila e tirou o


celular de um bolso.

“Para quem você esta ligando?”

“A polícia.”

106
“A polícia não fará nada antes que um crime
aconteça.”

“Isso é verdade.” Rio colocou o celular de volta em


sua mochila. “Voltando à sua pergunta anterior, o
mecanismo por trás da visão está no livro de física. Você
só precisa estudar sobre luz e lentes.”

Rio colocou um livro de física na frente dele com um


baque.

“Isso é chato, então eu estou perguntando a você.”

Sakuta educadamente devolveu o livro. Rio ignorou


isso e mastigou sua lula.

“Luz é a coisa importante. Ela atinge o objeto e é


refletida por ele, entrando no olho, permitindo que as
pessoas vejam a forma e a cor. Você não pode ver as
coisas no escuro, onde não há luz.”

“Reflexão, huh.”

“Se você não entendeu, pense em ecolocalização,


você já deve ter ouvido falar de golfinhos usando
ultrassom.”

“Algo sobre medir a distância entre eles e um


obstáculo ouvindo as ondas ultrassônicas refletidas?”

“Está certo. Parece que eles também podem


distinguir a forma das coisas. Sonar em barcos é o
mesmo. Quando é difícil imaginar com a luz, geralmente

107
é porque não há luz suficiente para perceber o brilho, ou
não há sensação de luz entrando no olho. ”

“Hmmm.”

“Então, coisas que não refletem a luz como vidro


transparente são difíceis de ver.”

“Ahh, eu entendi.”

Então seria a luz que não atingia Mai. Isso acontecer


com apenas uma simples intérprete em hiato é tão
improvável que nem era engraçado. Ou talvez ele
pudesse pensar nisso como a luz não refletindo a partir
dela como o vidro… mas havia muitas coisas que não se
encaixavam. A voz dela e o fato de que havia pessoas que
podiam e não podiam vê-la. Era uma situação complicada.

“Eu meio que entendo o que você está falando.”

“Mesmo?”

Ela olhou para ele duvidosamente.

“Você deve pensar que eu sou um idiota.”

“De modo algum.”

“Então você acha que eu sou um super idiota?”

“Eu acho que você é um incômodo que sai do seu


caminho para dizer algo assim quando pode adivinhar o
que eu quero dizer.”

“Você é um incômodo.”

108
“Eu acho que você é o tipo desagradável de pessoa
que finge não entender o que está acontecendo, embora
saiba na verdade.”

“Foi mal, pare de me atormentar, você poderia?”

“Você seria capaz de sair disso tão facilmente.”

Rio bebeu seu café, sem se impressionar.

Ele deveria trazer a conversa de volta aos trilhos.

“Umm, então vou colocar algumas condições sobre


isso. É possível que você não possa mais me ver quando
estou apenas sentado na sua frente assim? ”

“Se eu fechar meus olhos, sim.”

“Com os olhos abertos, olhando diretamente para


mim.”

“É possível.”

A resposta do Rio era exatamente o oposto do que


ele imaginou, e ela veio tão prontamente também.

“Se eu estivesse me concentrando em algo e


estivesse desligada do meu redor, eu não iria mais notar
você.”

“Não, é um pouco diferente disso.”

“Bem, analisando isso inteiramente, de um ponto de


vista diferente da luz… ‘ver’ é muito mais influenciado
pelo cérebro de uma pessoa do que pelos fenômenos
físicos.” Aparentemente, ela tinha terminado seu café,

109
enchido outro béquer com água e o colocado acima da
lamparina. “Por exemplo, eu posso parecer pequena para
você, mas um estudante do ensino fundamental me
chamaria de grande.”

“Não, você é grande. Você está sempre vestindo o


jaleco de laboratório e se protegendo, mas pode-se até
mesmo notar através disso.”

O olhar dele foi em direção aos seios dela.

“N-não fale sobre os meus seios.”

Rio se cobriu como uma garota.

“Ahh, desculpe, isso te incomodou?”

“Você não tem nenhum senso de delicadeza ou


vergonha.”

“Talvez eu tenha deixado cair em algum lugar.”

Ele olhou em volta, procurando.

“Vá embora se você não for me levar a sério, a aula


acabou.”

Rio se levantou da cadeira.

“Desculpe, vou levar você a sério. Eu não vou olhar


para os seus seios também.”

“Como eu disse, não fale sobre os meus seios.”

Ele na verdade não tinha certeza de que conseguiria


evitar olhar. Seu olhar inconscientemente era atraído

110
para lá, e pondo isso em prática seria difícil sem modificá-
lo no nível genético. Ele colocou seu café na boca e evitou
olhar.

“Então as coisas que são visíveis se tornam


subjetivas?”

“Isso mesmo. O cérebro de uma pessoa é capaz de


não ver coisas que a pessoa não quer ver. ”

Assim como havia as frases ‘fingindo não ver algo’,


‘não considerando alguma coisa’, ‘não prestando atenção
a algo’ e ‘não se concentrando em algo’, havia muitas
maneiras de dizer isso, mas ele podia concordar com
muitas delas.

Era apenas que, as sugestões do Rio foram


completamente negadas pela situação de Mai assim como
ele as viu. Colocando de forma mais simples, ele achava
que ela estava desempenhando o papel de ‘atmosfera’ e
estava invisível ao seu redor, e pensou que havia uma
causa com Mai, mas Rio só tinha falado do ponto de vista
de alguém que vê. Em outras palavras, não tinha nada a
ver com aquele que estava sendo visto ou o lugar.

“Há também algo chamado teoria da observação.”

“Teoria da ob… servação?”

Ele apenas repetiu as palavras que não tinha ouvido


antes.

111
“Colocando isso de forma extrema, é que tudo o que
existe neste mundo ‘primeiro tem sua existência definida
através da observação de alguém’… é uma teoria
impensável, normalmente.” Rio falou de maneira nada
emotiva. “Você deve ter ouvido falar de um gato em uma
caixa, o gato de Schrödinger.”

“Ahh, eu já ouvi o nome pelo menos.”

Rio pegou uma caixa de papelão vazia debaixo da


mesa e colocou na frente de Sakuta.

“Você coloca um gato aqui,” enquanto falava, Rio


primeiro colocou um maneki neko na caixa de papelão.
Era um que o professor de física usava para guardar 500
ienes em moedas, mas parecia bastante leve, “e então
você coloca uma fonte radioativa que tem uma
probabilidade de emitir radiação dentro de uma hora…”
ela continuou, colocando o béquer que ela tinha fervido
água dentro, “e coloque um recipiente de gás venenoso
que se abrirá se detectar a radiação ao redor. Se ele abrir,
o gato vai respirar o gás venenoso e morrer.” Por fim, ela
adicionou a garrafa de plástico com dióxido de manganês
na caixa. “Você então fecha e espera trinta minutos.”
Assim dizendo, Rio fechou a tampa. “Agora, aqui está uma
em que foi passado os trinta minutos.”

“Isso é um programa de culinária?”

Rio ignorou a interrupção dele e continuou.

112
“O que você acha que aconteceu com o gato?”

“Hmm, há uma probabilidade de emitir radiação uma


vez em uma hora? Então, o recipiente de gás venenoso
detecta isso e abre?”

Rio assentiu inexpressivamente.

“E trinta minutos é metade disso, então… é uma


probabilidade de 50%?”

“Estou surpresa, você entendeu.”

“Se eu não entendesse esse tanto, eu seria ou um


idiota, ou não teria ficado ouvindo.”

“Então, esse gato está vivo ou morto?”

“É cinquenta-cinquenta, certo? Você pode apenas


sacudir a caixa.”

“A caixa é de metal e não pode ser movida.”

Era uma caixa de papelão na frente dele.

“Então, eu vou acreditar que ele está vivo.”

“Qualquer palpite que você faça não importa nesta


situação.”

“Então não pergunte.”

“Não há nada a fazer para ‘definir’ o estado do gato,


além de olhar.”

“Esse é um método bastante normal”.

113
Rio abriu a caixa e, é claro, o maneki neko, o béquer
e a garrafa de dióxido de manganês estavam dentro.

“No instante em que a caixa é aberta, o destino do


gato é definido. Em outras palavras, até que você abra a
caixa e verifique, o gato está meio vivo e meio morto. No
mundo da mecânica quântica, pelo menos.”

“O que há com essa lógica? E se ele morresse depois


de dez minutos? O gato não estaria morto mesmo se você
não tivesse os vinte minutos extras antes de abrir? ”

Ou pelo menos para o gato, a sua personalidade


estaria acabada. Não, seria gatonalidade neste caso… de
qualquer forma, o resultado era o mesmo.

“É por isso que eu disse que isso era uma teoria


impensável. Bem, mesmo deixando de lado em explicar a
mecânica quântica, acho que a maneira de pensar sobre
as coisas em si tem alguma verdade nisso.”

“Verdaaade, huh?”

Isso era inquestionavelmente suspeito.

“As pessoas veem o mundo como esperam que seja.


O boato sobre você é um bom exemplo. As pessoas dão
precedência à teoria mesmo sobre a verdade. Se você
fosse o gato na caixa, e os outros estudantes fossem os
observadores, você poderia pensar na realidade sendo
substituída, não?”

114
Parecia que ela estava tentando dizer… que não
eram as circunstâncias dentro da caixa, mas sim a
subjetividade daqueles que enxergavam isso depois do
acontecido. Não tinha nada a ver com Sakuta, a pessoa
em questão, a imagem de Sakuta era decidida pelos
observadores.

“Isso não é nem engraçado…”

No entanto, era difícil conciliar isso com a situação


de Mai. Sakuta podia vê-la e os outros não, e ele não
conseguia entender que tipo de condições tornar-se
invisível exigiria. Isso havia sido interessante, mas ele
tinha a sensação de que as peças não se encaixavam
perfeitamente. Além disso, um fenômeno falso como a
Síndrome da Adolescência poderia não ser explicado
fisicamente. Parecia que algumas das conversas entre
eles eram provavelmente pistas, mas discutir isso com Rio
parecia ter tornado as coisas mais difícil.

Apenas retornar ao show business poderia não


resolver o problema de Mai, e esse sentimento
desagradável se instalou no peito de Sakuta. Rio tinha
falado sobre as pessoas enxergarem do começo ao fim,
então… uma mudança apenas no estado mental de Mai
poderia não ajudar em nada.

“Isso é suplementar, mas existem exemplos físicos


da observação alterando o resultado.”

115
“É sério?”

“Há algo chamado experimento da dupla fenda…


Falando de maneira muito simples a conclusão é que,
observar o experimento ao longo do curso e apenas
observar os resultados faz com que os resultados mudem
entre cada caso.”

“Então, é como… se o time de futebol japonês tiver


um jogo e se eu apenas checar as notícias, eles
ganharam, mas se eu for assistir, eles perderam?”

“O que eu estou falando é aplicável apenas a


partículas… o mundo microscópico. Antes de ser
observada, a posição de uma partícula é probabilística e
é uma forma de onda, não importa o que. Observar isso
limita a importância.”

“Mas quando você coloca todas essas coisas


microscópicas juntas, isso forma as pessoas e as coisas,
certo?”

Mesmo Sakuta sabia que pessoas e coisas eram


feitas de moléculas, átomos, elétrons e várias outras
coisas.

“Se o que eu estava dizendo ocorresse no mundo


macroscópico, sua explicação estaria certa. Além disso,
você deveria nunca assistir ao futebol novamente em
consideração a nossa equipe. Não pense duas vezes.”

116
Ele recebeu alguns conselhos úteis de Rio quando o
interfone da escola soou:

“Kunimi-kun da classe 2-2, por favor venha até a sala


dos professores para conversar com o conselheiro do time
de basquete, Sano-sensei.”

“Ele fez alguma coisa?”

“Ele não é você. Além disso, provavelmente é para


confirmar o cronograma de treinamento deles.”

Ela não parecia estar interessada, mas Rio ficou do


lado de Yuuma. Assim que ele olhou para o alto-falante,
ele checou a hora, um pouco depois das três.

“Ah, eu tenho trabalho, então vou para casa.”

“Apenas saia.”

“Obrigado por tudo, o café estava ótimo também.”

“Se você vai agradecer a alguém, agradeça ao


professor de física, não é meu.”

Rio pegou o pote de café e mostrou-lhe o nome na


tampa.

“Bem, ele não vai notar um pouco faltando.”

Ele disse isso e se levantou, alongou os ombros e foi


saindo. Assim que ele tocou a porta, ele de repente se
lembrou de algo e olhou para trás. Rio estava cuidando de
uma chama da lamparina a gás como se ela realmente
quisesse fazer uma experiência desta vez.

117
“Futaba.”

“Hmm?”

Ela só o respondeu verbalmente e manteve seu olhar


na chama azul pálida.

“Você está bem com o Kunimi?”

Ela olhou para ele com os olhos hesitantes, e logo


disse.

“Eu estou…” então parou no meio da frase. Ela


provavelmente quis dizer ‘Eu estou bem’ e falhou, sua voz
soava vazia, e sua expressão usual de concentração
endureceu. “Estou acostumada com isso.”

Ela desistiu de dizer que estava bem e deu um


sorriso fraco.

Sakuta não podia fazer nada, ele não podia fazer


nada além de assistir de lado o amor não correspondido
dela.

“Você vai se atrasar para o trabalho.”

Ela gesticulou com o queixo para ele sair, e então o


observou ir embora enquanto ele saía do laboratório de
física. Fechando a porta atrás dele, ele inconscientemente
murmurou.

“‘Acostumada’… você não desistiu de jeito nenhum.”

118
⟡⟡⟡

“Azusagawa-kun, faça a sua pausa antes de


começarmos a correria do jantar.”

“Certo.”

Sakuta entrou no espaço que funcionava tanto como


vestiário dos homens quanto sala de descanso com essas
palavras do gerente do restaurante familiar. Yuuma tinha
acabado de se trocar e saído do lado de seu armário,
mesmo que ele já tivesse tido atividades no clube, ele não
mostrava nenhum sinal de estar cansado. Yuuma notou
Sakuta.

“Yo.”

“Hey.”

Sakuta respondeu sem rodeios a Yuuma enquanto


este amarrava seu avental.

“Você está no intervalo?”

“Eu estaria no refeitório se não fosse o caso.”

“Verdade… certo”.

Ele tinha habilmente amarrado o avental e estava


checando sua aparência diante do espelho.

“Ah, certo, Sakuta.”

Ele falou com Sakuta novamente, como se


lembrasse de algo.

119
“Hm?”

Sakuta se sentou em uma cadeira de tubo e se serviu


de chá que tinha no pote sobre a mesa.

“Você tem escondido algo de mim.”

“O que há com essa frase, você é minha namorada?”

Por um momento, ele ficou surpreso, pensando que


era sobre o amor unilateral de Rio. Mas foi um nome
diferente que saiu da boca de Yuuma.

“Não é uma piada, é sobre a Kamisato.”

“Ahh”

Sakuta olhou para longe enquanto relaxava. Isso em


si não era algo que ele queria falar sobre. Mas
aparentemente, Yuuma sabia sobre a Kamisato Saki tê-lo
chamado até o telhado. Ele provavelmente tinha ouvido a
partir da própria garota. Não havia como evitá-lo agora.

“Sua namorada é incrível.”

“Certo, ela é minha namorada maravilhosa.”

“Ela me disse para não falar com você.”

“Ela me quer para si mesma, ela me ama muito.”

“Aparentemente eu vou fazer você parecer ruim.


Quão ruim você está agora?”

“Eu sinto muito!”

Yuuma juntou as mãos e curvou a cabeça.

120
“Você é incrível também.”

“Como?”

“Ela é tão irritante e você não diz uma palavra contra


ela.”

“Bem sim, eu estou saindo com ela porque eu a amo.


Ela às vezes parece um pouco feroz, mas é uma garota
boa e honesta.”

Ele tinha a sensação de que ela era um pouco


honesta demais…

“Você parece uma esposa sendo abusada pelo


marido.”

“O que, do tipo ‘ele às vezes é gentil’? Não seja


idiota.”

“Bem, não se preocupe comigo. O que quer que ela


diga não vai me machucar ou até mesmo fazer cócegas.

“Isso é complicado em si.”

Yuuma sorriu com uma expressão perturbada.

“Mais importante, me desculpe.”

“Por que diz isso?”

“Não deve ser divertido me ouvir reclamar sobre sua


namorada.”

“Não se preocupe com isso.”

“Isso não é justo para com a Kamisato.”

121
“Ah, isso é verdade.” Yuuma deu um sorriso
despreocupado. “De qualquer forma, está tudo bem. E
Sakuta, não preste muita atenção no futuro, me evitar só
vai me deixar com raiva.”

“Eu não vou assumir a responsabilidade se você


entrar em uma briga com ela.”

“Eu vou lidar com esse problema quando ele


aparecer… Eu meio que sinto que ela estará mais focada
em você, então está tudo bem.”

Ele falou de um incômodo tão facilmente.

“Oi, espere um minuto, hey!”

“Se não machuca ou faz cócegas, está tudo bem


certo?” Yuuma sorriu triunfantemente. “Você também é
inacreditável em, ser capaz de perguntar a uma garota
‘você está no seu período’? Que coração é esse seu? É
feito de ferro?”

Yuuma gargalhou.

“Ah, droga, está na hora.” Kunimi apressadamente


passou seu cartão no relógio de ponto assim que avistou
a hora. “Batendo o poooonto.”

E então ele saiu para o refeitório.

Mas, antes mesmo de um minuto ter passado, ele


estava de volta à sala de descanso. Talvez ele tivesse

122
esquecido alguma coisa, apesar de Sakuta não conseguir
ver nada que ele teria.

O olhar de Yuuma caiu sobre ele sem hesitação, e ele


parecia querer dizer alguma coisa.

“O que?”

“Aquela mulher está aqui de novo.”

A expressão de Yuuma ficou fechada, e havia um


toque de preocupação misturado com seriedade em seu
rosto, dizendo de forma eloquente a Sakuta que era uma
cliente que ele deveria cumprimentar.

Sakuta ignorou seu intervalo e saiu para o refeitório,


indo em direção a uma mesa interna. Na poltrona estava
sentada uma mulher na segunda metade de seus vinte
anos. Ela usava uma saia na altura do joelho e uma blusa
de manga curta que tinha um toque de um dia fresco de
primavera. Ela tinha uma maquiagem natural que evitava
a cafonice. Ela parecia um tanto intelectual e como uma
apresentadora. Ela era uma real apresentadora,
embora…

“Posso pegar o seu pedido?”

Perguntou Sakuta, sendo teimosamente profissional.

“Já faz algum tempo.”

“Quem seria você mesmo?”

123
“Entendo, é assim que vai ser. Pois bem, prazer em
conhecer você, essa é quem eu sou. ”

A mulher estendeu o cartão de visita com


movimentos educados.

O logotipo da estação de TV, sua posição como


apresentadora, e no meio estava o nome dela, ‘Nanjou
Fumika’.

Ele tinha falado com ela dessa maneira, mas ele


realmente a conhecia. Ele a conhecera quando sua irmã
sofreu bullying e Fumika estava fazendo um trabalho
chamado ‘Sobre os Problemas do Bullying no Ensino
Fundamental’, e já fazia quase dois anos desde então.

“O que você quer hoje?”

“Eu vim para fazer uma reportagem sobre petingas


e estou livre esta noite, então eu vim ver você.”

A expressão de Sakuta permaneceu imóvel diante da


forçada alegria dela. Ele sabia do que ela estava atrás,
quando ela estava cobrindo o caso de bullying, ela sabia
e tinha interesse na Síndrome da Adolescência. Claro, ela
não acreditava em uma lenda urbana como essa. Ela
duvidava e era cética, mas poderia ser um grande furo se
fosse real, então ela não podia desistir disso, e a própria
Fumika falava indiferentemente sobre isso desde então.

124
“Se você está livre, por que não convida um jogador
de beisebol para um encontro? Como uma apresentadora
faria.”

“É uma sugestão encantadora, mas as principais


equipes estão trabalhando, já que é a temporada de
beisebol”.

Eram seis da noite e partidas iriam ser disputadas.

“Além disso, eu posso ter um encontro aqui.”

Fumika virou um olhar sugestivo para ele.

“Eu não tenho nenhum interesse em mulheres mais


velhas.”

“Uma criança como você simplesmente não conhece


os encantos de uma adulta.”

Ela olhou para o rosto dele enquanto segurava um


dedo na bochecha.

“Eu sei que você está mais gorda do que quando nos
encontramos há três meses. Seu braço está muito feio.”

“…kh!” Ela levantou as sobrancelhas e se sentou em


sua cadeira, fazendo beicinho de certa forma, e disse.
“Você não é fofo.”

“Você poderia ao menos dizer bonito… seu pedido?”

“Um Sakuta-kun para levar.”

“Você parece um pouco doente, então eu vou pedir


uma ambulância.”

125
Ele respondeu de forma apática.

“Vou querer o conjunto de cheesecake e bebida, com


um café quente.”

Ela pediu sem olhar para o menu. Toda vez que ela
vinha aqui, Fumika pedia a mesma coisa. Como ele
poderia dizer isso? Era como alguém que agia antes de
pensar.

“Isso é tudo?”

“Você ainda não está com vontade de falar sobre o


incidente?”

Fumika tirou o smartphone da bolsa e começou a


verificar seus e-mails.

“Nunca.”

“Eu só quero uma foto das cicatrizes no seu peito.”

“Não.”

“Por quê?”

Ela rolou a tela com o dedo.

“Então você vai me deixar tirar uma foto sua nua,


Nanjou-san?”

“Sim, claro.”

“Temos uma mulher promíscua aquiii.”

“Apenas para uso pessoal, okay? Eu seria demitida


se isso se espalhasse na internet.”

126
Parecia que falar com ela ainda mais seria estúpido,
e Sakuta saiu sem responder.

Mas, depois de dois ou três passos, ele de repente


pensou em alguma coisa.

“Um.”

Ele voltou e falou com ela.

“Hm?”

Ela respondeu distraidamente, ainda olhando para o


celular.

“Nanjou-san, você conhece Sakurajima Mai?”

Ele disse, com uma ligeira hesitação antes do nome.

“Existe alguém que não a conheça?”

O olhar de Fumika ainda estava focado em seus e-


mails.

“Você sabe… por que ela entrou em hiato?”

Ele sabia que Fumika trabalhava como assistente de


um programa de variedades e fazia coberturas sobre o
show business.

“…” Ela olhou para ele com perplexidade,


provavelmente se perguntando por que ele estava
perguntando sobre Sakurajima Mai. Mas seu rosto
rapidamente assumiu outra expressão. Ela estava
interessada que ele tinha perguntado isso, mas mesmo
que se mostrasse em seu rosto, ela não disse nada. “Eu

127
acho que sei ao menos de algumas coisas que as pessoas
normais não sabem.”

“Entendo.”

“Então, isso é um pedido como uma criança? Ou uma


negociação entre adultos?”

“Pare de me tratar como uma criança.”

“Nesse caso, então, eu não posso te dizer de graça,


posso?”

“Você pode ter uma foto.”

“Fu fu, temos um acordo.”

Ela devolveu o telefone para a bolsa e, quando


Sakuta a pediu com os olhos para prosseguir, ele se
sucedeu ao mundo adulto.

Sakuta parou em uma loja de conveniência a


caminho de casa, depois de trabalhar até as nove horas.
Havia poucas pessoas nas ruas enquanto ele se arrastava
pelas áreas residenciais por cerca de dez minutos até
chegar ao seu prédio. O elevador subiu para o quinto
andar de uma só vez, e quando ele se aproximou de sua
porta, ele notou alguém lá.

Era Mai, sentada contra a parede e usando um


uniforme escolar de Minegahara, com os joelhos para
cima e os braços ao redor deles. Ela estava sentada como
uma garota na aula de educação física, com os ambos

128
joelhos e coxas juntos, e apenas as pernas separadas. Ela
provavelmente havia seguido alguém através das portas
de travamento automático abaixo.

Ela olhou para ele de forma reprovadora quando ele


se aproximou.

“Você está finalmente em casa.”

“Eu estava trabalhando.”

“Onde.”

“No restaurante familiar perto da estação.”

“Hmm~”

“Mai-san.”

“O que?”

Primeiro, ele fez um gesto como se estivesse fritando


algo para ‘pan’, depois colocou as mãos em forma de T
para ‘ties’, seguido por juntar um dedo em forma de R
para ‘estão’ [NT: R = ‘are’], e então estendeu a mão com
a palma para cima, para “a mostra”. [NT: ‘pan’ = ‘panela’
por isso a ação de fritar / ‘panties’=’calcinha’]

“Do que você está brincando?”

Ela olhou para ele como se ele fosse um idiota,


aparentemente, ela não tinha percebido que sua calcinha
puro branco estava visível através de sua meia-calça
preta, ela estava muito indefesa.

Ele não tinha outra escolha.

129
“Eu posso ver sua calcinha.”

Ele disse a ela sem rodeios. Mai entrou em pânico e


verificou a si mesma.

“N-não é como se eu me importasse se um garoto


mais jovem visse minha calcinha.”

Enquanto ela falava, ela colocou a mão entre as


pernas e puxou a saia para baixo. Ele se perguntou por
que ela tentando esconder era mais erótico do que estar
completamente visível.

“Mesmo que você esteja brilhando vermelho?”

“I-isso é porque eu estou excitada!”

“Uwah, há uma promíscua aqui também.”

“Quem você está chamando de promíscua!”

130
Mai o encarou.

“Bem, você deveria apenas se levantar por agora.”

Ele estendeu a mão para ela. Mai a alcançou até que


eles estavam quase se tocando e, em seguida, como se
tivesse repensado as coisas, retirou-a, levantando-se com
um “hmph”.

“Eu não quero tocar na mão de um garoto, eu não


sei onde ela foi colocada.”

Ela sorriu de forma triunfante, aparentemente se


divertindo. No entanto, seu triunfo não durou muito, visto
que seu estômago roncou.

“…”

“…”

“Você parece estar faminta.”

Ele prosseguiu, monotonamente.

“Você tem uma personalidade horrível.”

“Eh, eu sei.”

Sakuta pegou um bolinho de creme da loja de


conveniência de sua sacola. Depois de alguma ligeira
hesitação, ela estendeu a mão. Parecia que ele estava
alimentando um gato de rua.

Mai abriu o pacote e mordeu o bolinho de creme.

132
“Quando você se transformou na personagem
faminta?”

“…” Ela continuou mastigando silenciosamente e


depois de engolir disse. “Eu não posso fazer compras.”

Com um tom que soou como se fosse culpa de


Sakuta.

“Ahh, entendi.”

Outras pessoas não podiam vê-la, então ela não


conseguiu fazer o que tinha planejado. Assim como ele
tinha visto acontecer quando ela tentou comprar um
bolinho de creme da padaria na estação e a mulher
pareceu ignorá-la. Foi uma cena lamentável.

“Há muitos mais lugares onde me tornei invisível. A


área em torno da estação de Fujisawa desapareceu
completamente e, mesmo que eu compre coisas on-line,
não consigo receber o pacote, então é a mesma coisa. ”

“Então, você vai entrar?”

Sakuta pegou sua chave e apontou para a porta.

“Compre comida para mim.”

“Essa é uma maneira estranha de pedir isso.”

Mai olhou fixamente para ele, mas infelizmente não


era assustador nem um pouco, na verdade, era fofo.

“Eu vou fazer isso então.”

133
“De jeito nenhum, entrar no quarto de um garoto tão
tarde é apenas implorar para que algo aconteça.”

“Entendo, então há consentimento de sua parte, eu


vou lembrar disso.”

“Esqueça isso.”

Mai bateu na cabeça dele com a ponta da mão.

“Ow”

“Não seja estúpido, apenas venha fazer compras


comigo.”

“Ah, então espere um pouco, preciso dizer a minha


irmã que estou em casa.”

“Entendi, eu vou esperar lá embaixo.”

Mai virou as costas para Sakuta enquanto ele girava


a chave e se dirigiu para os elevadores.

Demorou quinze minutos para convencer Kaede e


outros quinze para pacificar Mai depois que ela esperou
quinze minutos. Demorou dez minutos para se locomover,
e quando finalmente chegaram a um supermercado perto
da estação, o relógio já tinha passado das dez da noite.

A loja ficava aberta até as onze e tinha alguns


clientes, jovens de terno espalhados ao redor. Eles
provavelmente viviam sozinhos e estavam fazendo
compras a caminho de casa. Era a loja que Sakuta
costumava frequentar, mas era raro para ele ir neste

134
horário, então havia de certa forma um sentimento
revigorante.

E então, revigorando-o ainda mais havia o fato de


que ele não estava sozinho, ele tinha Sakurajima Mai com
ele. Ela estava um pouco à frente, escolhendo comida.
Empurrar o carrinho atrás dela era de certa forma
divertido, e seu rosto relaxou naturalmente.

“Isso definitivamente nos faz parecer um casal.”

“Você disse alguma coisa?”

Mai olhou para trás, segurando uma cenoura em


cada mão.

“Não, nada.”

“Está tudo bem, além disso, ninguém pode me ver.”

Aparentemente, ela realmente ouviu isso.

“Eu me pergunto se essa é a situação em que uma


garota me visita pela primeira vez e cozinha para mim.”

“Se continuar tendo ilusões idiotas, você acabará


ficando idiota.”

Ela devolveu a cenoura na mão direita à prateleira


com um olhar depreciativo.

“Então eu ficarei sério.”

“Eu duvido.”

135
Ele podia dizer que o tom dela era totalmente
descrente.

“Como essa cenoura parece para as pessoas que não


podem ver você, ela está flutuando?”

“Aparentemente fica invisível.” Mai respondeu


imediatamente, ela provavelmente já havia
experimentado. Ela então balançou a cenoura na frente
do rosto de um trabalhador que passava e ele não teve
reação. “Vê?”

“Então é assim.”

“Eu tentei levar as compras para um caixa antes,


mas isso também não funcionou. Além disso, eles
também não podem ver minhas roupas, podem?” Isso era
verdade, era completamente diferente com apenas a
própria Mai se tornando invisível. “Eu me pergunto se as
coisas se tornam invisíveis se eu tocá-las.”

“Por essa lógica, a Terra ficaria invisível.”

“Você está pensando grande.”

“Eu sou um cara grande.”

“Certo, certo.”

Ela ignorou isso.

“Então… o que aconteceria se você me tocasse?”

“Essa é uma maneira indireta de pedir para ficar de


mãos dadas?”

136
“Não, apenas uma experiência.”

Ele já tinha experimentado tocá-la, quando ela


entrou em seu quarto e tocou as cicatrizes em seu peito,
e quando seus ombros se tocaram e ela iria ‘engravidar’
enquanto eles estavam no trem. Mas Sakuta não tinha
ficado invisível. Ele provavelmente seria capaz de finalizar
a compra com as coisas no carrinho se ele as levasse para
o caixa. Se ele tivesse que dizer, ele queria saber o que
aconteceria enquanto eles estivessem se tocando

“Eu não vou dar as mãos para isso.”

Ela caminhou rapidamente até a carne.

“Eu estava escondendo o meu constrangimento ao


chamar isso de experiência, eu realmente só queria ficar
de mãos dadas.”

Ele respondeu para as costas dela enquanto a


observava.

“E?”

Mai sorriu em satisfação por cima do ombro.

“Por favor me dê, nunca tendo segurado a mão de


uma garota antes, minha primeira vez.”

“Isso é um pouco desagradável… mas bem, você


passou.”

Mai esperou que Sakuta a alcançasse e, em seguida,


o calor envolveu o lado direito do corpo dela assim que

137
ela colocou seu braço no dele. Ele estava, é claro,
surpreso e seu coração disparou.

O rosto de Mai estava ao lado dele por causa de sua


altura, ela estava perto o suficiente para que ele contasse
todos os seus cílios individuais.

“…”

Com o passar do tempo, ele se tornou mais e mais


consciente da sensação suave do peito dela
pressionando-o. Ele sabia quando a viu na roupa de
coelhinha, mas pelo seu corpo esbelto, ela certamente
tinha algumas curvas. A leve fragrância dela fez sua
cabeça girar.

“Você está pensando em algo pervertido, não está.”

“Algo cem vezes mais pervertido do que você


imagina.”

Mai de repente se separou devido a honestidade


dele.

“Mas bem, uma adulta como você estaria bem com


isso.”

“Está certo. Um garoto mais novo imaginando coisas


pervertidas não é nada para mim.”

Mai teimosamente segurou o braço dele.

“Uhah”

138
Ele não pôde deixar de soltar um barulho estranho.
Por causa disso, um trabalhador próximo olhou para ele
de forma intrigada. Seus olhos se encontraram e o homem
definitivamente podia vê-lo. Mas ele não pareceu notar
Mai, ela ainda estava invisível.

“Um, Mai-san?”

“Isso não é suficiente.”

“Sinto muito, esta é minha derrota. Qualquer coisa a


mais dificultará o ato de caminhar por certas razões,
então, por favor, me deixe ir.”

“Esta é sua punição por provocar as pessoas.”

Mai estava se divertindo e não se afastou dele.


Aparentemente, ela estava gradualmente se tornando
imune a esse tipo de declaração. Dito isto, o ato de Mai
não era de fato um castigo, era muito agradável e estava
mais para uma recompensa.

“Ah, isso me lembrou, não estamos brigados?”

“Isso é verdade.”

Mai estava sorrindo gentilmente e agora se afastou


de Sakuta em aparente aborrecimento. A velocidade com
que ela mudou sua atitude foi surpreendente, e ele não
sabia se ela estava falando sério ou atuando. Ele pensou
que era uma pena, mas ainda se divertiu muito no resto
das compras.

139
Havia uma pequena quantidade de desconforto
restante, mas a comida que Sakuta estava carregando foi
toda paga. Ele pagou normalmente e empacotou os
legumes, a carne e os doces em sacos.

Sakuta saiu da loja com uma sacola em cada mão e


caminhou para casa ao lado de Mai. Apesar disso, Sakuta
não sabia onde a ‘casa’ ficava.

“Mai-san, onde você mora?”

Ir às compras na estação de Fujisawa significaria que


ela vivia a uma curta distância.

“Terra.”

Ela disse desinteressadamente, e Sakuta apenas a


seguiu obedientemente. Eles estavam indo na mesma
direção que Sakuta vivia.

“Estou ansioso para ver sua casa.”

“Você não vai entrar.”

Ela se recusou categoricamente, com uma


expressão séria.

“Ehhh.”

“Não se queixe como uma criança. Além disso,


estamos brigados, não estamos?”

“Isso é porque você não é honesta.”

“Huh? Eu disse algo que eu não deveria ter dito?”

140
“Você continua seguindo em frente embora queira
voltar a atuar.”

“Não mencione coisas que não lhe dizem respeito.”

Ela falou baixinho, mas com força. Foi mais do que


uma negação, foi uma rejeição, visto que ela recusou
friamente.

“É porque eu não sei de nada?”

“Isso mesmo, não abra a boca se você não souber de


nada.”

“Que pena então, eu sei sim. Pelo menos o porquê


você entrou em hiato do show business.”

“Certo, certo.”

Mai sorriu indulgentemente.

“É o álbum de fotos que foi lançado no seu terceiro


ano do ensino fundamental.”

“!?”

A compostura desapareceu do rosto dela.

“Mesmo que você tenha dito que os trajes de banho


estavam fora de cogitação, havia um com tal traje
requisitado e sua empresária, sua mãe, assinou o
contrato.” Até então, mesmo nos ensaios, ela não tinha
usado um traje de banho, embora houvesse demanda
mais do que suficiente. Pelo contrário, ela tinha
estabelecido uma posição de não mostrar a pele, e estava

141
muito bem em apenas mostrar sua beleza. “E então, você
brigou com sua mãe e se vingou com a melhor maneira
de chocá-la ‘se retirando do mundo do show business’.”

“…”

“Mas isso foi inútil”.

“Fique quieto…”

“Jogar fora seus próprios desejos ao mesmo tempo


não tem sentido.”

“Fique quieto!”

“Não, você é quem deve ficar quieta, você vai


perturbar as pessoas dormindo…”

Enquanto ele falava, um tapa voou em sua bochecha


esquerda e ressoou pela rua.

“Eu estava obviamente muito incomodada!”

“…”

“Eu ainda era um estudante do ensino fundamental,


sabia!? E ainda assim eles me presentearam com um traje
de banho no estúdio, e havia apenas adultos por perto…
me disseram que o contrato já estava assinado, e mesmo
que eu odiasse isso, eu teria que fazer o meu trabalho,
que eu tinha que vestir aquilo… que eu tinha que forçar
um sorriso!”

Se ela fosse alguém mais comum, ela poderia ter


falado por si mesma, feito uma birra e recusado. Mas ela

142
era Sakurajima Mai, que trabalhava profissionalmente
naquele mundo desde os seis anos, entre os adultos…

Ela não teria permissão para causar uma cena


naquele momento. Ela teve que ler a atmosfera e escolher
inteligentemente. Ela teve que agir como uma adulta,
embora fosse uma criança.

“Ela me usou, ela não me enxergava como nada


além de uma maneira de conseguir dinheiro.”

Ela praticamente cuspiu as palavras com uma voz


rouca. E assim Sakuta percebeu que essa era a primeira
razão, rebelar-se contra a mãe que apenas a via como
mercadoria. Ele não iria dizer que ele entendia esses
sentimentos, ele não entendia nem um pouco, mas havia
uma coisa que ele tinha certeza.

“É por isso que eu acho que você deve voltar ao show


business.”

“Por quê?”

“Apenas largas as coisas com esses sentimentos


desagradáveis significa apenas que você vai ficar com
esses sentimentos desagradáveis.”

“Eh…”

“Se você quer fazer alguma coisa, não se segure,


apenas faça. Até eu sei disso, então você definitivamente
deveria saber.

143
“…”

Mai olhou para baixo, como se sua raiva ardente


tivesse esfriado.

“…”

Dez segundos se passaram em total silêncio.

“Sinto muito por bater em você.”

Ela pediu desculpas em voz baixa.

A bochecha dele ainda latejava de dor.

“Você costuma bater nas pessoas que estão


carregando suas coisas?”

“Eu não te dei um soco, ao menos.”

“…Muito obrigado.”

Ele a agradeceu honestamente, mas sem emoção.

“Você não parece realmente grato.”

“Bem sim, você me deu um tapa. Ahhh, isso dói, isso


dóóói~”

“Você está exagerando.”

“Dói tanto que eu talvez chore. Apenas o carinho de


uma bonita senpai pode me curar.”

“Você colheu o que plantou.”

“Eh, onde eu plantei alguma coisa?”

Ele não achava que tinha feito algo errado aqui.

144
“E quem foi que propositalmente me deixou com
raiva?”

Mai denunciou Sakuta com seu olhar insatisfeito.

“O que você quer dizer?”

Era tarde demais para se fazer de idiota agora, mas


ele não iria admitir isso aqui.

“Você estava tentando me fazer dizer o que eu


realmente queria ao me deixar emotiva, não é?”

“Nem um pouco.”

“Você realmente tem uma boa personalidade.”

A mão de Mai se estendeu até a bochecha dele, e


quando ele achou que ela iria acariciá-lo, ela gentilmente
a beliscou, beliscando a bochecha que não tinha
esbofeteado. [NT: nesse parágrafo há mais uma parte
dizendo “e separou suas mãos dele”, mas prefiro não
colocar por não fazer sentido com as próximas ações]

“Owowow.”

“A propósito, Sakuta-kun.” Mai tinha completamente


voltado a si mesma e virou um olhar questionador para
ele. “De quem você ouviu sobre isso?”

“…”

Ele olhou para o céu.

“Me olhe nos olhos.”

145
Ela comprimiu o aperto de seus dedos.

“Owowow”

“Então, quem foi?”

Ela não iria deixá-lo ficar em silêncio, e tentar


enganá-la provavelmente não funcionaria também. Mai
sabia que isso não era uma informação que a maioria das
pessoas conhecia. Afinal, isso não tinha sido descoberto
até agora.

“Eu tenho uma conhecida que é uma apresentadora


de quando as coisas aconteceram com a Kaede.”

“Quem?”

“Nanjou Fumika…”

“Ah, ela.”

“Você conhece ela?”

“Ela tem sido uma assistente naquele show de


variedades da tarde. Ela também me ajudou.” A palavra
‘ajudou’ não foi, obviamente, dita de uma maneira boa.
“Então, por que você ainda se associa com ela, a coisa
com sua irmã foi há dois anos, não foi?”

“Ahh, bem~”

“Conte-me.”

“Quando fazia o noticiário, ela tinha interesse na


Síndrome da Adolescência. Ela viu as cicatrizes no meu

146
peito e às vezes aparece querendo fazer uma história
sobre isso.”

Aliás, ela havia dito que o que ela estava lhe


contando sobre Mai era suposição em parte, e que havia
pressão de várias fontes para não ir a público com isso.

“E então, o que você disse àquela mulher para obter


as informações sobre mim?”

Mai olhou para ele com um olhar penetrante.

“Nada.”

Ele respondeu calmamente, mesmo enquanto seu


coração disparava.

“Mentiroso, essa mulher é uma repórter, além disso,


a mídia não vai apenas dar informações de graça, você
deve ter tido algum tipo de acordo.”

Mai era muito mais entendida sobre o mundo da


televisão, é claro, ele não podia continuar a mentira, e ela
provavelmente não o deixaria ficar em silêncio. Sakuta
aceitou a situação e confessou.

“Eu deixei ela tirar uma foto, das cicatrizes no meu


peito.”

Ele tinha ficado quieto sobre ter ido ao banheiro com


ela para tirar a foto, definitivamente seria melhor não
dizer que o doce perfume dela o tinha colocado em um
estado levemente excitado.

147
“Idiota.”

“Isso é maldoso.”

“Você realmente é, o que você está pensando!?”

Ela olhou para ele com raiva, mostrando sua


verdadeira raiva.

“Bem, em você.”

“…”

“Eu realmente estou.”

Ele não conseguia olhá-la no rosto por medo e olhou


para o lado.

“Haaaah…”

Em desgosto ou exausta, Mai deixou suas mãos


caírem do rosto dele e o soltou, mas ele ainda podia sentir
o olhar dela.

“Suas cicatrizes vão se tornar uma lembrança ruim


para você, e podem até machucar sua irmã.”

Mai olhou para ele seriamente.

“Eu protegerei Kaede disso.”

“Se eles fizeram uma reportagem há dois anos sobre


o bullying, eles podem noticiar algo sobre ela também?”

“Bem, eu realmente não posso ajudar isso.”

“Você não pode.”

148
Mai, de repente, estendeu a mão como se exigisse
alguma coisa. Ele não tinha a menor ideia do que ela
queria, então ele colocou as duas sacolas em uma mão e
esticou sua mão de volta.

Mas ela deu um tapa antes delas se tocarem.

“Eu lhe disse para me dar os detalhes de contato


dela.”

“Você disse?”

Ele pensou de volta, mas não conseguia se lembrar


dela dizendo uma única palavra.

“Deduza isso a partir das circunstâncias.”

“Você é muito parecida com uma rainha, Mai-san.”

“Você é muito ingênuo sobre a mídia. Ingênuo o


suficiente para ser descuidado. Se a mídia se interessar
por você, você será cercado por repórteres, sabia?
Imagine isso, câmeras apontadas para a sua casa.

Ele imaginou exatamente como ela disse, o duro


holofote sobre alguém envolvido em um escândalo, o
flash das câmeras, o rude questionamento… se colocando
em um filme que ele havia assistido no passado.

“…”

Ele engoliu em seco.

“…Me sinto doente.”

A cor sumiu do rosto dele.

149
“Você vai se sentir cem vezes mais doente se isso
realmente acontecer.”

Mai deu um perverso golpe final. Sakuta começou a


pensar que ele poderia ter feito algo que ele não
conseguiria consertar, e sentiu um arrepio nas costas.

“Tenha mais cuidado, okay?” Mesmo que ela


estivesse irritada, ele não sentia nenhum desagrado dela.
Ela parecia cordial, apesar de estar com raiva, Sakuta
percebeu que era provavelmente porque ela estava
realmente preocupada com ele e repreendendo-o. “Sua
resposta?”

“Certo, eu entendi. Eu vou tomar cuidado. Mas a foto


já está…”

“É por isso que eu disse.” Mai esticou a mão dela


novamente. “Você deve ter os detalhes de contato dela,
certo?”

Sakuta tirou o cartão de visita que ela havia lhe dado


antes e entregou a Mai. Ela olhou na frente e então o virou
imediatamente.

“Ela escreveu o número de celular dela atrás,


nojento”.

Por alguma razão, ela condenou Sakuta.

“Eu gosto de garotas mais velhas, mas


não tãovelhas assim.”

150
“Hmmm~”

Ainda descontente, Mai digitou o número em seu


telefone.

“Hey, Mai-san, o que você está fazendo?”

“Fique quieto.”

Ela colocou o telefone no ouvido e deu as costas para


Sakuta. Aparentemente, ela atendeu imediatamente.

“Peço desculpas por uma chamada tão súbita, eu sou


Sakurajima Mai, você me ajudou no trabalho antes. Não é
um trote, então não desligue, por favor… Sim, aquela
Sakurajima Mai. Já faz algum tempo. Podemos conversar
agora?” Mai desenvolveu a conversa rapidamente. “Você
falou com Azusagawa Sakuta hoje e deu a ele seu contato.
Ele está no ano abaixo de mim. Sim…”

O tom calmo de Mai no telefone a fazia parecer


estranhamente como uma confiável adulta.

“Eu gostaria que você não publicasse a foto das


cicatrizes dele. Eu também gostaria que você evitasse
perguntar a especialistas se você pudesse… Sim, claro
que eu não pediria isso de graça, eu vou te dar um furo
jornalístico em troca.”

“E-espera, Mai-san.”

Ele pensou que sabia o que ela ia dizer e entrou em


pânico, pensando que ela iria se oferecer em seu lugar.

151
Mai virou por cima do ombro e colocou um dedo nos
lábios como se estivesse dizendo a uma criança para ficar
quieta.

“Sim eu sei. É uma informação adequada, então


fique tranquila.” Ela virou as costas para ele novamente e
continuou. “Eu voltarei ao show business em breve. Eu
darei a você e à sua empresa direitos exclusivos para
isso… sim, é claro, eu sei que isso não seria suficiente,
mas tenho certeza que você concordará quando ouvir
isso.” Ela então fez uma pausa, e falou palavras que
pareciam quase ensaiadas. “Eu não voltarei para a
agência da minha mãe, voltarei com outra.”

Sakuta provavelmente ficou mais surpreso que


Fumika com isso. Apenas no outro dia, apenas em outro
momento… eles estavam brigando sobre isso, com Mai
lutando contra a sugestão de Sakuta de voltar… E ainda
assim ela estava dizendo exatamente isso. Se isso não
tivesse surpreendido ele, então nada mais iria.

“Eu acho que esta será uma história muito mais


eficaz do que a que você tem do Azusagawa-kun, a qual
fará as pessoas duvidarem de sua sanidade, não é?
Espero que você considere isso.” Por um tempo, ela
apenas respondeu com frases curtas como ‘sim’, ‘certo’ e
‘eu compreendo’. “Então nós temos um acordo. Estou
ansiosa para trabalhar com você.”

152
Tendo mantido sua educação até o fim, Mai desligou
e imediatamente se virou para Sakuta.

“E é isso.”

“Desculpe.”

“Por que você está se desculpando?”

“Obrigado.”

“Você é muito fofo quando está triste.”

Pela primeira vez, ele não tinha nada para responder


e não conseguia levantar a cabeça. O arrepio de estar
cercado por câmeras não estava mais em lugar algum e
ele estava preenchido por uma sensação de segurança. E,
sem dúvida, Mai foi quem lhe dera isso.

“Mas você disse que voltaria.”

E ela até dissera que mudaria de agência.

“Eu pensei que você estava certo.” Ela fez beicinho


como se ela não quisesse admitir isso. “Eu gostava de
trabalhar em programas de TV e filmes, valia a pena fazer
isso e foi divertido. Eu sempre achei que gostaria de
continuar fazendo isso. Eu não posso evitar, mesmo se eu
mentir sobre esses sentimentos… existe algum
problema?”

“Há um grande problema.”

“O-o que, esse é o momento onde você me perdoa.”

153
“Você diz isso depois de me evitar nas últimas duas
semanas?”

“Eu apenas ajudei você, não é?”

“Isso e aquilo são coisas separadas.”

“Uuhh… me desculpe por ser teimosa, okay?”

Mesmo quando ela parecia irritada, ela admitiu seu


erro e pediu desculpas.

“Mais uma vez.”

“Por favor, me perdoe, eu me arrependo.”

“Isso teria sido perfeito se você tivesse ficado tímida


e com os olhos virados para cima.”

“Não se empolgue.”

Mai beliscou o nariz dele.

“Uwah, o quu você está fazendd?”

Sua voz estava mais abafada do que o habitual e Mai


riu disso. Foi então que ele percebeu por que ela havia ido
à sua casa. Ela tinha ido dizer a ele que voltaria ao show
business. Não tinha nada a ver com seus problemas com
a Fumika, era algo que Mai havia decidido por si mesma.
Ele estava um pouco arrependido disso, mas também
feliz.

“O mundo continua girando, huh”.

“O que você disse?”

154
“Eu estava falando comigo mesmo.”

Eles caminharam lado a lado, e seus passos eram


muito mais leves do que antes. Tudo o que restou foi a
determinação de Mai em acabar com sua Síndrome da
Adolescência.

Três minutos depois, Mai parou e disse.

“Chegamos.”

Eles estavam parados em frente ao prédio em que


Sakuta morava.

“Eh?”

“Sim, eu moro aqui.”

Mai apontou para o prédio em frente. Era tão perto


que ele não precisaria ver a casa dela, mas era uma
surpresa que ela vivia tão perto. Hoje foi um dia de
choques, e ele ficou ainda mais surpreso do que quando
ela disse que estava voltando ao show business.

“Obrigada por carregá-las.”

Ela disse isso enquanto pegava as sacolas dele,


infelizmente, parecia que ela realmente não o convidaria
para entrar.

“Isso mesmo, Sakuta-kun.”

“O que é, minha Rainha?”

“Saia comigo neste fim de semana.”

155
As palavras dela eram estranhamente apropriadas
porque ele a chamou de rainha.

“Quando eu voltar, vou estar ocupada e não terei


tempo para sair. E apesar de eu ter vivido aqui por dois
anos, nunca estive em Kamakura, é estranho, certo?
Então eu quero ir pelo menos uma vez.”

“Você consegue trabalho assim tão facilmente?”

Ele olhou para ela duvidosamente e ela respondeu


naturalmente.

“Eu sou Sakurajima Mai.”

Era incrível que ela não soasse arrogante ao dizer


isso, mas sim revigorante. Apesar disso, parecia realista
e ele sentiu que, sendo Mai quem ela era, sua agenda
realmente seria preenchida rapidamente.”

“Ah, mas Domingo é—”

“Você tem algo mais importante do que o meu


convite?”

“Eu tenho um expediente de manhã até o almoço no


fim de semana.”

“Troque com alguém… bem, eu não vou te dizer


isso.” E quem foi aquela a dizer isso de forma tão franca.
“Eu meio que tenho a sensação de que você prioriza o
trabalho sobre mim e isso é irritante.”

“É até as duas, então depois disso está bem.”

156
“Bem, pode ser isso.”

Parecia que ela estava relutante e não concordava


nem um pouco, mas disse que sim. Ele não sabia se devia
chamá-la de adulta ou criança. Em vez disso, ela era uma
mistura dos dois, ele pensou.

“Não sorria tanto.”

“Você me chamou em um encontro, como eu não


poderia?”

“Ah, não é um encontro.”

Ela rejeitou isso imediatamente.

“Eh?”

“Um encontro seria tão bom assim?”

“Claro.”

Ele assentiu energicamente.

“Nós vamos ter um então.”

“Sim!”

E, é claro, ele fez uma pose triunfante.

“Você está feliz com isso?”

“Bem sim.”

“Então eu vou estar esperando no portão de


embarque para a estação Enoshima Fujisawa às duas e
cinco.”

“Eu disse que terminaria às duas, não foi?”

157
“É por isso que eu disse cinco minutos depois.”

“Por favor, me dê um pouco mais de tempo para


caso o restaurante esteja lotado e eu não possa sair
imediatamente.”

“Duas e meia então, se você estiver atrasado um


segundo, eu irei embora.”

“Entendido.”

E assim, Sakuta inesperadamente ganhou o direito


ao seu primeiro encontro.

Naquele dia, no banheiro da casa Azusagawa, um


rugido feliz podia ser ouvido.

“Yahooo~!”

158
O céu estava claro e o clima neste domingo tão
esperado era ideal para um encontro.

Ele tinha sido capaz de deixar o trabalho às duas


horas em ponto e realmente havia algum tempo antes de
seu compromisso, então Sakuta foi para casa por um
tempo.

Demorou cerca de três minutos, voando pelas ruas


em sua bicicleta.

“Bem-vindo de volta.”

Kaede o cumprimentou e, com um afago na cabeça


dela, ele foi direto ao banheiro. Ele lavou o corpo suado
devido ao esforço excessivo de pedalar e, por via das
dúvidas, vestiu um novo par de roupas íntimas. Kaede
observava-o com um olhar confuso.

“Um homem tem que estar preparado para qualquer


coisa,” disse ele, como se transmitisse grande sabedoria.
“Eu estou indo, Kaede.”

“Ah, certo. Vejo você mais tarde.”

Kaede o assistiu sair de casa mais uma vez às duas


e vinte, enquanto segurava Nasuno em seu peito, desta
vez indo para a Estação Fujisawa a pé.

Seu corpo estava de alguma forma leve, de modo


que ele se sentia como se estivesse de certa forma
pulando, apesar de estar andando normalmente. Como se
ele tivesse crescido asas.
161
As familiares ruas das casas pareciam diferentes
hoje, as flores que brotavam do asfalto rachado
chamavam sua atenção e o chilrear de um pardal nas
linhas de energia soava claramente pelo ar.

Como ele gostava dessas coisas, seu humor se


acalmou.

Três ou quatro minutos depois de sair de casa, um


alegre e feliz Sakuta ouviu uma pequena garota chorando.
Adiante dele havia uma garota chorando em voz alta na
entrada do parque.

“Você está bem?”

A garota parou de chorar ao ser chamada por alguém


próximo, e olhou para Sakuta. Mas imediatamente depois
disso:

“Uwaahh, você não é minha Mamãe!”

Ela disse e começou a chorar.

“Você está perdida?”

“Mama desapareceeeu.”

“Yup, você está perdida.”

“Mamãe está perdida.”

“Bem, isso também funciona.” Ela tinha um jeito com


as palavras.

162
“Vamos, pare de chorar.” Sakuta se agachou na
frente da garota e colocou a mão na cabeça dela. “Eu vou
ajudá-la a procurar por ela.”

“Mesmo?”

“Sim”. Ele sorriu e deu-lhe um aceno firme. A menina


parecia estar prestes a sorrir, mas depois inclinou a
cabeça de forma confusa. “Vamos então.”

Então, no instante em que Sakuta pegou a mão da


garota depois de se recompor—

Surgiu um grito energético atrás dele.

“Morra, seu lolicon pervertido!”

Ele se perguntou o que diabos estava acontecendo e


foi dar uma olhada ao redor, mas antes que pudesse ver
o rosto da pessoa, uma dor aguda atingiu seu traseiro.

Era como se ele tivesse sido chutado no cóccix por


um par de botas afiadas. Na verdade, isso foi exatamente
o que tinha acontecido…

“Uoooh!”

Ele se contorceu no asfalto enquanto gritava. Ele


podia ver uma garota que não parecia ter a idade muito
diferente da dele no canto de sua visão. Provavelmente
uma estudante do ensino médio.

Ela tinha um cabelo macio estilizado em um corte


bob cut [NT: também conhecido como corte chanel] e

163
uma saia curta. É claro que as pernas dela estavam nuas,
e até mesmo sua maquiagem leve era a imagem exata de
uma comum garota do ensino médio.

“Rápido, corra!” A estudante apressou a garota


seriamente. A garota apenas fez sons de confusão devido
aos eventos repentinos. “Vamos, depressa!” Ele não sabia
por que ela estava dizendo “Vamos”, mas a estudante
pegou a mão da garota e iria levá-la embora.

“Antes que o lolicon se levante!”

“Quem é um lolicon pervertido?”

Sakuta ficou de pé, segurando o traseiro. A força


tinha desaparecido de suas pernas por causa da dor
esmagadora. Suas pernas de pombo tremiam e ele
parecia um potro recém-nascido. [NT: ‘pernas de pombo’
é uma expressão devido ao formato da mesma,
recomendo procurar por ‘pigeon-toed legs’]

“Ele estava me ajudando a procurar a Mamãe.”

“Eh?” A estudante exclamou violentamente. “Ele não


é um lolicon?”

“Eu gosto de mulheres mais velhas.”

“Mas você é um pervertido!?”

Mesmo quando ela disse isso, o rosto da estudante


estava apreensivo. Agora que ele olhou, ela era uma fofa
estudante do ensino médio. Seu rosto ainda era

164
ligeiramente cercado pela juventude, e seus olhos bem
abertos e a sua maquiagem leve davam-lhe uma
impressão agradável e suave. Sakuta sempre via as
garotas na escola exagerando na maquiagem, e achou
que, caso fossem usá-las, elas deveriam tomar esta
garota como exemplo.

“Eu estava a ajudando a procurar juntos por sua mãe


perdida.”

“Espere, espere, ela é quem se perdeu, certo?”

“Mamãe está perdida.”

A garota concordou com a explicação de Sakuta,


afastando-se da estudante para o lado de Sakuta e
agarrando a manga dele com força. Uma reversão
completa.

A estudante tinha um sorriso aflito, reconhecendo


seu erro.

“Ahh, meu traseiro está doendo.”

“D-desculpe, ahaha.”

“Ele pode ter se dividido em dois.”

“Eh? Isso é terrível! Espere, ele já é dividido em dois!

“Ahh, isso dói, isso dói.”

“Entendi. Eu enteeendi.”

165
A estudante soltou um grito descuidado… então
imediatamente se virou e colocou as mãos em um poste
de telefone.

“Aqui!”

Ela empurrou o traseiro coberto pela mini-saia na


direção de Sakuta com um grito energético.

166
“Não, não ‘aqui’.”

Ela provavelmente queria que ele a chutasse, mas


ele realmente não tinha interesse em chutar o traseiro de
uma estudante do ensino médio enquanto pessoas
andavam ao redor.

“Apenas se apresse, eu prometi encontrar minhas


amigas.”

Sakuta também tinha uma promessa, uma


importante por sinal. Enquanto ele fazia isso, o tempo
passava. Ele também tinha que ajudar a garota perdida,
então ele definitivamente se atrasaria, então agora não
era a hora de perder tempo fazendo coisas sem sentido.
Neste ponto, chutá-la seria o mais rápido.

“Aqui vai então.”

Ele chutou levemente o traseiro da estudante. Ela


deveria ficar satisfeita com isso, ele pensou.

“Mais forte!”

A estudante pediu olhando por cima do ombro.

“Sério?”

Ele a chutou mais forte do que antes, fazendo um


baque.

“Mais forte!”

Ainda não era suficiente.

“Tudo bem, eu não sei o que vai acontecer!”

168
Ele se decidiu. Era um bom homem que concedeu o
pedido de uma garota. Sakuta puxou a perna para trás,
girando-a para ganhar força extra. Ele avistou o traseiro
de seu alvo, firmou sua mira e liberou um sério chute no
meio.

Isso produziu um baque baixo.

Um momento passou.

“S-s’doloroso!” [NT: há uma influência do dialeto da


garota, seria como “isso foi doloroso”]

Então, ela gritou com a fusão característica de


adjetivo e verbo do dialeto Hakata. “Uuu~” Ela se
agachou enquanto soltava um gemido, segurando
suavemente o traseiro com as duas mãos. Ela abriu e
fechou a boca várias vezes, como um peixe-dourado,
incapaz de falar por causa da dor. “M-meu traseiro se
dividiu em dois…”

Finalmente, ela conseguiu arrancar essas palavras.

“Está tudo bem, ele estava em dois desde o início.”

“Ah, com licença.” Uma voz chamou por trás. Ele e a


estudante se viraram ao mesmo tempo e um policial de
meia-idade uniformizado estava parado ali, com uma
expressão perplexa. “Um parque em plena luz do dia
durante um feriado não é o lugar para desfrutar de
atividades pervertidas como essa.”

“Não, ela é a única pervertida.”


169
Ele apontou para a estudante, porque era a verdade.

“N-não! Não é isso! Há uma razão para isso!”

A garota ficou agitada devido ao estranho mal-


entendido.

“Vamos ouvir esse motivo na delegacia.”

De repente ele agarrou os braços deles e eles não


puderam se mover. Esse era um policial, mesmo que ele
fosse de meia-idade, ele era bem treinado e firme. A paz
da cidade estava assegurada.

“Eu tenho algo importante para fazer, então me


deixe ir!”

Gritou Sakuta. A parte da delegacia não seria


brincadeira. Mai poderia esperar por cinco minutos, dez
se houvesse um milagre, mas ela não esperaria mais.
Afinal, ela era Sakurajima Mai.

“Certo, certo. Acalme-se e venha em silêncio. Você


também vem, pequena senhorita. Sua mãe está te
esperando na delegacia.”

“Mamãe? Viva!”

Sakuta ficou aliviado com o problema da garota


sendo resolvido. Mas mesmo isso…

“Dor está na moda entre a juventude


recentemente?”

Foi arruinado pela pergunta do homem.

170
O homem deixou-os ir uma hora e meia depois que
chegaram. O ponteiro do relógio balançava terrivelmente
perto da marca das quatro horas. Ele realmente queria
encontrar alguém que lhe desse uma máquina do tempo.

“Hahh, nossa, isso é o pior~”

A garota falou com uma expressão cansada


enquanto andava ao lado dele.

“Essa é a minha fala, idiota.”

“Por que você está me chamando de idiota? Foi


porque você deu-lhe uma impressão errada.”

“Você é a pior por compreender errado as coisas.”

“Isso são desculpas esfarrapadas.”

“Não é uma desculpa, é a verdade. Além disso, é


culpa sua que isso demorou tanto, Koga.”

A garota se mexeu de surpresa.

“…Espere, como você sabe meu nome?”

“Koga Tomoe. É um nome fofo.”

“Meu nome completo também!?”

Ela não devia se lembrar de ter dado seu nome na


delegacia. Ele sabia que escola ela frequentava também.
Na verdade, era a mesma escola que ele, Escola
Secundária de Minegahara. Ela estava no ano abaixo dele,
sua kouhai.

171
“Eu sei tudo sobre você.”

“Hah, você é um idiota?”

“Você veio de Fukuoka.”

“Como você sabe?”

“…”

“Ah.”

A apavorada estudante, Koga Tomoe, colocou as


mãos na boca.

“Você também gritou ‘s’doloroso!’ mais cedo.”

“E-eu não sei nada sobre isso.”

Ela desviou o olhar. Ele realmente não entendeu,


mas ela não parecia querer que as pessoas soubessem
isso. Era tarde demais para esconder isso agora.

“Bem, voltando ao assunto, você foi a errada”.

“Me diga seu nome. Não é justo que só você saiba o


meu.”

“Eu sou Satou Ichirou.”

Ele não tinha a delicadeza para contar a ela, então


contou uma mentira óbvia. Ele achou que era um nome
que qualquer um perceberia ser falso, mas—

“Então, Satou, como eu sou a errada?”

Tomoe prontamente aceitou isso. Aparentemente,


ela não sabia duvidar das pessoas e era uma garota boa

172
e honesta. Seria apenas um incômodo admitir que era
falso agora, então Sakuta decidiu ficar quieto sobre isso.

“Eu vou te dizer se você não consegue entender.


Mesmo que o policial tenha entendido o equívoco nos
primeiros trinta minutos, você estava apenas no seu
smartphone, brincando com ele, sem ouvir a conversa.”

Na verdade, a hora restante foi um sermão sobre não


se concentrar apenas no seu ‘telefone’ quando as pessoas
conversavam com você. Sakuta não tinha um telefone ou
um smartphone, então foi totalmente sem sentido. Mas…

“Isso é verdade… não seja tão lógico sobre isso.”

Ela disse, fazendo beicinho.

“Você refletiu sobre isso?”

“Mas eu recebi mensagens, então não pude evitar.”

“Não poderia evitar o quê?”

“Responder, se eu não fizesse isso rapidamente,


perderia minhas amigas.”

Tomoe encurvou a cabeça para a frente com


vergonha.

“Ah, então você estava desesperadamente digitando


as respostas?”

“Se eu não fizesse isso, elas ficariam bravas.”

Tomoe estufou as bochechas e olhou para ele.

173
“Hehhh~”

“O que há com essa reação? É assustadora.”

“Naaaada~”

“Você provavelmente está pensando: ‘se elas


parassem de ser amigas com você por causa disso, eles
não seriam amigas de verdade’.”

Ela provavelmente tinha ouvido isso antes e seu tom


se alterou levemente enquanto ela recitava isso.

“Você também não acha isso?”

“C-cale-se.”

Sakuta colocou a mão na cabeça dela e bagunçou o


cabelo.

“Wah! Idiota! Meu cabelo estava todo feito.”

Ela sacudiu para longe a mão dele e rapidamente


colocou o cabelo em ordem.

“Bem, dê o seu melhor, estudante colegial.”

“O que? Você está tirando sarro de mim?”

“Você está desesperadamente vivendo por essas


regras estúpidas, não é? Então eu não vou tirar sarro de
você. Embora eu vou pensar que você é um idiota.”

‘Você deve enviar um e-mail’, ‘você deve enviar uma


mensagem’, ele não sabia quem queria e tinha feito as
regras, ou para que elas existiam. Essas eram regras que

174
estavam lá, a princípio, para fazer as pessoas ‘se sentirem
bem’, mas se elas prestassem atenção em tais regras,
veriam também que elas se tornavam restrições que as
prejudicavam.

Uma vez que as pessoas decidiam fazer regras para


si mesmas, resultava isso. Se você não seguisse as
regras, você seria excluído, isolado. Simplesmente
perdendo seus amigos. E quando você fosse excluído uma
vez, você não conseguiria voltar para o rebanho. Sakuta
sabia disso bem, Kaede tinha sofrido muito com isso.

Era um desperdício, mas mesmo assim essas regras


criavam vínculos entre as pessoas, conectando-as,
fazendo com que elas precisassem ter um lugar para
pertencer. E-mail por e-mail, mensagem por mensagem;
você teria trocas como “Você está bem?”, “Eu estou
bem”. Pessoas que não podiam se afirmar eram
afirmadas por outras pessoas. E quando isso era
compartilhado entre todos, elas simpatizavam e podiam
relaxar com um lugar para pertencer.

Ensino fundamental, ensino médio… dentro da


sociedade, a escola em geral era um mundo em si. Claro
que todo mundo era desesperado quanto a isso.

Sakuta passara a se sentir como se tivesse


entendido essa parte da sociedade depois de ter entrado
no ensino médio, quando ele tinha começado a trabalhar
e entrou em contato com estudantes universitários e
175
funcionários adultos. Ao assistir a atmosfera chamada
“escola” de uma perspectiva externa, ele achou que
entendeu: o que eles queriam era um lugar para
pertencer…

“Você está tirando sarro de mim.”

“Você parece uma boa pessoa, Koga, então tanto


faz.”

“O que isso significa?”

“A coragem de tentar salvar uma garotinha de um


pervertido deve ser respeitada. Embora seja perigoso,
você deve chamar alguém no futuro. Você teria sido
atacada se fosse um verdadeiro pervertido; porque você
é fofa.”

“N-não me chame de fofa!”

Tomoe recuou, com o rosto vermelho. Talvez ela


estivesse surpreendentemente não acostumada a ouvir
isso.

“Bem, não esqueça seu senso de justiça e continue


levando a vida.”

“Ah, sim, obrigada.”

Tomoe agradeceu-lhe surpreendentemente de


forma honesta. Ele julgou que ela realmente fosse uma
boa pessoa no coração, deslumbrantemente pura.

176
Um smartphone tocou. Sakuta não tinha um, então
era, claro, o de Tomoe.

“Ah, droga! Eu tinha planos. Até logo!”

Ela saiu correndo. Porque ela estava usando uma


saia curta, sua calcinha ficou visível em alguns
momentos, mas gritar e apontar isso chamaria a atenção.
Então Sakuta ficou em silêncio e a assistiu sair.

“Branco, huh.”

Quando Tomoe tinha desaparecido completamente,


ele pensou em voltar para casa e começou a andar.

Ele parou depois de cerca de três passos.

Ele estava esquecendo de algo importante?

“…Ah.” O rosto de Mai passou por sua cabeça. Ela


não estava sorrindo gentilmente, e ela não estava
fazendo beicinho também. Era a lembrança da única vez
que ele a viu seriamente zangada.

“Droga.”

Suas pernas emaranharam enquanto ele corria em


direção ao local de encontro designado.

⟡⟡⟡

Sakuta tinha corrido até a estação que ele usava


para ir à escola todos os dias, a Estação Enoden Fujisawa,

177
e estava na frente das catracas de acesso. Este era o lugar
onde Mai tinha decidido que eles iriam se encontrar.

Ao recuperar o fôlego, ele olhou para a direita e


depois para a esquerda. Não demorou muito para verificar
a área de seis ou sete metros de largura na frente das
barreiras.

“…”

Infelizmente, Mai não estava lá.

“Bem, claro que não.” Sakurajima Mai não teria


esperado por uma hora e meia por ele. “Uwahh, eu
realmente fiz isso…”

Arrependimento o preencheu por dentro. Mas ele


não poderia ter apenas passar do lado e não ter feito nada
quando viu aquela garota perdida, e ele nunca tinha
pensado que a garota colegial com um senso de justiça
iria se envolver, então ele não pode evitar isso.

Ele se ressentia por não ter telefone ou smartphone.


Se ele tivesse, ele poderia ter ligado para ela. Bem, uma
vez que ele explicasse, ela teria dito ‘Hmm, então você
tem algo mais importante do que um encontro comigo’ ou
algo assim, e o encontro não teria acontecido de qualquer
maneira.

Neste ponto, como ele iria fazer com que ela o


perdoasse? Ela provavelmente estava extremamente
zangada por Sakuta não ter vindo e tinha voltado para

178
casa, ou ido para algum lugar sozinha. Ele não achava que
ela esqueceria de sua raiva tão facilmente.

Uma série de passos se aproximou por trás da forma


abatida de Sakuta. Eles pareciam familiares, mas também
pareciam extremamente irritados a julgar pelo seu ritmo.

“Você deve ser bem convencido para me manter


esperando por uma hora e trinta e oito minutos.”

“…”

Ele se virou incrédulo e Mai estava em pé ali,


vestindo roupas casuais.

“O que? Você parece um cervo diante dos faróis.”

“É só que a Mai-san não é o tipo de mulher que tem


a elegância de esperar por um retardatário por uma hora
e trinta e oito minutos! Você deve ser uma farsa!”

Os olhos de Mai se estreitaram e a temperatura ao


redor pareceu diminuir em vários graus.

“Eu sei exatamente como Sakuta olha para mim.”

Ele provavelmente foi descoberto por olhar para ela


principalmente num sentido pervertido.

“Você esqueceu o ‘kun’.”

“Sakuta é o suficiente para você.”

Mai provavelmente quis dizer isso como uma


punição, mas francamente falando, não soava como algo
além de uma recompensa para Sakuta. Se ele dissesse

179
isso, ela voltaria a chamá-lo de “Sakuta-kun”, então ele
ficou quieto.

“Do que você está sorrindo?”

“Nada mesmo.”

Lutando contra a expressão dele suavizando, ele


olhou para Mai novamente. Foi a primeira vez que ele a
viu em roupas casuais. Ela vestia um colete de malha com
capuz sobre a blusa de mangas compridas. Sua saia era
da altura do joelho e tinha um design ligeiramente adulto,
sendo alargada na orla [NT: pelo que pesquisei, seria um
saia evasê ou godê]. Além disso, ela usava botas que
alcançavam até bem abaixo dos joelhos. Sua roupa era
refinada e elegante, mas conseguia um bom equilíbrio em
não ser demais. Ela se encaixava muito bem com Mai,
com seus traços adultos.

“…” Mas nada estava exposto, o máximo que ele


podia ver era uma pequena área logo acima dos joelhos.
“Hahh…”

Ele não pôde deixar de soltar um suspiro.

“O que há com essa reação indelicada?”

“Mai-san, você está sã?”

“O-o quê?”

Mai se afastou, cautelosamente.

“Um encontro exige uma minissaia e pernas nuas!”

180
“Eu vou bater em você.”

Mai apertou seu punho.

“Hahh…”

“Você está chateado com isso?”

“Eu estava bastante ansioso por isso.”

“Você tem coragem depois de ter chegado tão


tarde.”

“Você está sempre usando meia-calça com seu


uniforme.”

“O-o quê? Eu pensei bastante sobre o que colocar…”

Ela desviou o olhar e murmurou.

“Bem, ficou muito fofo”.

“…”

Com um olhar de lado, Mai exigiu mais.

“Você está muito atraente, Mai-san.”

“É bom que você seja honesto.”

“Meu coração dispara, eu quero pegá-la, levá-la para


casa e colocá-la como decoração no meu quarto.”

“Qualquer coisa a mais do que isso é assustador,


você não precisa dizer essas coisas.”

“Vamos então?”

Ele tentou indiretamente se mover para eles saírem.

181
“Espere, a conversa não acabou.”

“Havia mais alguma coisa?”

Era algo que ele queria evitar, então ele fingiu


ignorância.

“Já chega com a atuação horrível.”

“Atuar na sua frente seria aterrorizante.”

“Faça a sua desculpa por estar atrasado, então


sinceramente implore por perdão.” Mai parecia estar se
divertindo de alguma forma, e sua expressão estava
animada. “Se não for bom o suficiente, eu irei para casa.”

Talvez ela tinha esperado por uma hora e trinta e oito


minutos para provocá-lo. Isso é o que ele achou.

“Enquanto eu estava no meu caminho, encontrei


uma criança perdida na esquina da área residencial.”

“Eu estou indo para casa.”

“Parece uma mentira, mas é a verdade!”

“Se você veio do trabalho, por que você passou pela


área residencial?”

Mai olhou de forma aguçada para ele.

“Eu fui para casa primeiro.”

“Por quê?”

“Eu tinha tempo, então tomei um banho e troquei


minha roupa íntima para o momento crítico.”

182
“…Nojento.” Mai se afastou dele. “Bem, isso é
apenas o esforço inútil de um garoto mais novo, então eu
vou ter que aceitar isso.”

“Muito obrigado.”

“No entanto, não chegue mais perto que trinta


metros de mim.”

Isso não poderia mais ser chamado de encontro,


Sakuta se pareceria com um stalker.

“Vamos, continue sua história.”

“Eu realmente fui com ela para uma delegacia de


polícia.”

“A criança perdida era uma menina?”

“Ela era.”

“Você tem alguma coragem para me manter


esperando para encontrar outra garota.”

“Mesmo que ela tivesse seis anos!?”

“Mesmo assim.”

Ela negou sem hesitação. Neste ponto, havia o risco


de ser muito honesto e contar tudo a ela. O dia em que
ele diria a ela que estava com uma linda garota colegial
chamada Koga Tomoe… ela na verdade era uma
estudante do ensino médio bastante bonita, que sabia de
que forma ele seria agredido.

“Mas há uma delegacia bem ali?”

183
Mai apontou um pouco além da entrada da estação.

“Ela me pediu para ficar até que eles encontrassem


seus pais e estava chorando.”

“Hmmm.” O olhar de Mai o apunhalou com dúvida.


“Eu odeio mentiras.”

“Que coincidência, eu também.”

“Se você estiver mentindo, você irá comer pocky


com o nariz.”

“Um palito?”

“Uma caixa.”

Era o tipo de tortura que poderia ser feito com


pressa, e as situações que ele podia imaginar eram coisas
que ele preferia evitar.

“Eu não acho que você deveria desperdiçar comida.”

“Você vai comer, então está tudo bem.”

“…”

“…”

Ela moveu o rosto para perto dele e o encarou


cuidadosamente, pressionando-o a confessar. A
respiração dela fez cócegas em sua bochecha e ela
cheirava bem.

“Você é teimoso.”

“…”

184
Ele definitivamente não podia dizer a verdade agora.
Ele não queria comer pocky pelo nariz.

“Bem, tudo bem. Eu não vou te perdoar, mas eu vou


em um encontro com você.”

Ele poderia se alegrar com isso.

“Muito obrigado.”

Então, no instante em que Sakuta relaxou:

“Ah, aquele lolicon de antes.”

Ele ouviu uma voz familiar.

Ele olhou para o corredor que conectava as estações


JR e Oda Express e viu Koga Tomoe, com quem ele
estivera junto antes. As três garotas com quem ela estava
eram provavelmente as amigas com quem ela tinha
planos. Elas eram um grupo de quatro garotas que tinham
uma atmosfera chamativa sobre si e pareciam se dar
bem. Elas pareciam ser o grupo central de sua turma.

“Aquela mulher de Hakata de antes.”

Tomoe se aproximou apressadamente de Sakuta


reagindo a ele e tentou cobrir sua boca.

“N-não diga isso!”

Ela silenciosamente ameaçou-o.

“A mulher de Hakata?”

185
“Ah, você sabe, aquela lembrançinha de Fukuoka?
Aquela com yokan em Baumkuchen. Embora a
personagem feminina não seja lida como ‘mulher’, mas
sim como ‘pessoa’.”

“Ah, eu já comi isso, era gostoso.”

“Hey, Tomoe!”

Outra das suas amigas agarrou-a pelo braço e


afastou-a de Sakuta.

“O-o quê?”

“Esse é o cara do incidente do hospital.”

Mesmo sussurrando, a voz dela era claramente


audível. Tomoe então murmurou.

“Eh? Ele chama Satou Ichirou.” E por ai vai.

“Huh? O que você está… de qualquer maneira, olhe.”

Desta vez, as meninas reunidas olharam para Mai.


Aparentemente, elas conseguiam vê-la.

“Venha, vamos.”

Puxada por suas amigas, Tomoe correu através


barreira. Enquanto as observava, Sakuta percebeu seu
erro. Ele reflexivamente respondeu para Tomoe, mas ele
deveria fingir que não a conhecia, isso teria sido muito
melhor.

Ele olhou para Mai. Ela tinha um rosto perfeitamente


inexpressivo.

186
“Hey, Sakuta.”

“É um engano…”

“O que Tomoe-chan disse.”

“Mais ou menos.”

“Não se preocupe, eu não vou para casa.” Mai


colocou o braço ao redor dele. “Primeiro precisamos
comprar o pocky.”

“Você pode comprar os mais finos?”

“Não~”

Ele não conseguia parar para apreciar o tom travesso


dela, nem a sensação envelopando seu braço.

“Por favor!”

“Não, seu lolicon.”

E assim… Seu primeiro encontro com Mai começou


indo em direção à loja de conveniência em frente à
estação.

⟡⟡⟡

O estalo de um palito de pocky quebrando ressoou.

Sakuta estava sentado ao lado de Mai em um vagão


no trem Enoden, nos assentos voltados para o mar.

Outro estalo soou. Mai estava comendo o pocky que


comprara na loja de conveniência, palito a palito. A
pequena abertura da boca dela o encantava. Claro, Mai

187
não estava fazendo isso intencionalmente, mas o pouco
tempo que ela tomou antes de mastigar para comer
apenas a ponta doce do pocky prendeu a atenção dele.

No entanto, ele não podia meramente apreciar a


cena. Ele não sabia quando ela iria perfurar o nariz dele
com um palito de pocky, então ele estava desconfortável.

E então, essa hora chegou surpreendentemente


rápida. Mai estendeu um palito de pocky e disse:

“Pegue.”

“Estou cheio,” ele respondeu firmemente.

“Eu não quero engordar, então coma o resto.”

“De que maneira.”

“Você pode comê-los normalmente.”

Mai olhou de soslaio para ele com um suspiro.

“Obrigado pela comida.”

Ele pegou a caixa inteira.

“Você realmente achou que eu faria você comê-los


com o nariz?”

“Você parecia completamente séria.”

“Isso era uma atuação.”

“Foi impressionante.”

“Bem, eu pensei que poderia fazer você tentar pelo


menos um.”

188
“Uwahh, você é um verdadeiro demônio.”

“Parece que você não se arrependeu corretamente,


não é?”

“Eu sinto muito, isso foi uma mentira. Oh grande e


linda Mai-sama, por favor, me perdoe.”

“De alguma forma, você não parece ser muito


sincero.”

Mai voltou seu olhar cansado para a janela. Apesar


de estarem apenas três estações de distância da Estação
Fujisawa, o mar não estava visível. Em pouco tempo, o
trem chegou ao trecho dos trilhos passando entre as
casas de ambos os lados.

Como estava no fim da tarde, o vagão não estava tão


cheio e ainda havia lugares vazios. Ele indiretamente
checou as reações dos passageiros nas proximidades,
mas eles não pareciam ter notado ela… eles
provavelmente não conseguiam vê-la, ele pensou.

“Hey.”

“Você vai me dizer para me desculpar com minhas


mãos e joelhos no chão?”

“Não. Sakuta, por que você se importa comigo? Sua


punição é confessar o porquê.”

“Por que mencionou isso?”

189
“Normalmente, você não gostaria de se envolver
com uma mulher problemática como eu.”

“Então você percebeu isso sozinha.”

“Qualquer um perceberia se olhasse as reações de


todo mundo.”

Mai estava isolada de sua turma e da escola como


um todo. Todos a tratavam como a atmosfera, não sendo
algo para se relacionar.

“É porque você é assim não cooperativa que você


não tem nenhum amigo, Mai-san.”

“Você também não é cooperativo.” Ele fingiu não


ouvir o cinismo de Mai. Ele sabia que, mesmo que ela não
tivesse dito isso, Yuuma e Rio sempre diriam o mesmo.
“Não só, você é estranhamente corajoso.”

“Eu sou?”

“Você é o único que fala comigo sem medo.”

“Isso é verdade, você parece bastante assustadora,


Mai-san. Eu acho que é por isso que você não consegue
fazer amigos.”

Seria difícil falar com ela se ela fosse apenas bonita,


mas ela também era conhecida em toda a nação como
uma atriz.

“Cale-se.”

“Mai-san, você gosta da escola?”

190
“Se você está perguntando isso como em ‘apesar de
não ter amigos’, então esse é o caso desde a escola
primária, então eu realmente não penso em nada disso.
Contudo eu não acho que a escola seja agradável, não.”

Isso não foi um blefe, nenhum engano, era sem


dúvida os verdadeiros sentimentos dela. Ela não sentia
nada sobre não estar acostumada à escola, não sentia
nenhum desconforto com a diferença entre ela e as
pessoas ao seu redor. Ela havia se conformado com isso
há muito tempo, e Sakuta achava que esses sentimentos
haviam desaparecido.

“E não mude de assunto.” Ela olhou de forma


aguçada para ele do seu lado. “Eu fiz uma pergunta e
você ainda não respondeu.”

“O que foi mesmo?”

“Por que você está interferindo tanto comigo, indo


tão longe a ponto de dar àquela apresentadora
informações que o colocam em uma posição ruim? Você
deve ter um motivo para fazer isso.”

Ela estava falando muito mais duramente do que


antes.

“Eu apenas tenho esse tipo de personalidade; eu não


posso deixar sozinho alguém que precise de ajuda.”

“Eu estava te perguntando seriamente.”

“Malvada.” Sakuta respondeu.


191
“Você é de bom coração, mas não por natureza.”

“Eu não sou?”

“Nem todo mundo é gentil. Algumas coisas horríveis


foram ditas por aquele casal da Estação Shichirigahama
que tentou tirar uma foto minha.”

“Acho que eles diriam aquilo mesmo que não fosse


eu.”

“Eu estou dizendo que você não conversou


gentilmente, você poderia ter dado um leve aviso, não é?”

“Mesmo que eu estivesse com raiva?”

“Você poderia ter feito isso se quisesse, não poderia?


Se você não estivesse calmo o suficiente, você não teria
sido capaz de encurralá-los verbalmente daquele jeito.”

“Quanto mais eu ouço, pior a minha personalidade


soa…”

“Você achou que ela era boa?”

Mai olhou para ele com uma falsa surpresa.

“Há alguém com uma personalidade pior aqui.”

“Já é o suficiente disso, apresse-se e diga-me.”

Mai não deixaria que ele evitasse o assunto, como de


costume.

“Eu responderei seriamente e, em seguida, farei


uma pergunta séria.”

192
“Continue.”

“Foi uma chance de me aproximar da minha linda


senpai, então eu fiquei motivado.”

“Quem disse para ser tão franco sobre isso?”

“Você foi aquela que me disse para ser sério, Mai-


san, não foi?”

“Diga-me o seu verdadeiro motivo.”

Normalmente, ela não gostaria de ouvir as


verdadeiras intenções dele. Talvez. Ele ainda não
entendia o senso de valores dela.

“Porque é irritante não ter ninguém em quem confiar


quando você está em apuros.”

“…”

Desta vez ela não disse nada, ele provavelmente


tinha passado.

“Quando Kaede teve a Síndrome da Adolescência,


ninguém acreditou no que estava acontecendo bem na
frente de seus olhos…” Ele pegou um palito de pocky e
levou-o à boca. Mai ficaria zangado com as maneiras dele
se continuasse falando enquanto comia, então ele engoliu
primeiro e depois continuou. “Ninguém me ouviu, e todo
mundo se afastava de mim. E mesmo que estivesse
dizendo a verdade, todos me chamavam de mentiroso.”

193
Mesmo assim, ele não achava que eles poderiam
ajudar quanto a isso. É mesmo, eles não poderiam.
Mesmo Sakuta teria fechado os olhos e ouvidos para isso,
não vendo e nem ouvindo tal acontecimento. Era mais
fácil viver assim. Todo mundo sabia disso.

“Posso perguntar uma coisa?” Mai falou, um tanto


hesitante. Sakuta assentiu para ela, já quase certo do que
ela perguntaria. “E seus pais?”

Ela perguntou cuidadosamente. Ela tinha um


relacionamento ruim com sua própria mãe, então estava
receosa de causar qualquer conflito desnecessário.
Sakuta a admirou se colocando no lugar dele assim. Ela
poderia agir como uma rainha, mas ela entendia os
sentimentos de seu povo.

“Nós vivemos separadamente agora.”

“Eu sei disso, imaginei isso quando entrei em sua


casa.” Ver os quartos deles eliminara a necessidade de
uma explicação, não havia sinal de um adulto ali e não
havia sapatos na entrada além dos de Sakuta. Quando
eles foram para o quarto dele, a atmosfera era a mesma
onde normalmente haveria um senso de território
separado do da família. “O que eu quero perguntar é…”

“Eu sei.” Claro, ele sabia o objetivo da pergunta de


Mai, ela estava perguntando sobre a reação deles aos
problemas com Kaede. Ele pegou três palitos de pocky,

194
esvaziando a caixa antes de esmagá-la e colocá-la no
bolso. “Minha mãe, bem, ela tentou aceitar isso, mas foi
demais, algo aconteceu… ela ainda está no hospital. Ela
estava bastante preocupada com o fato de que Kaede
estava sofrendo bullying, mas isso é apenas sensato com
algo incompreensível como a Síndrome da Adolescência.
Meu pai está cuidando dela.”

Sakuta ainda não sabia como se sentir sobre isso.


Antes que ele pudesse fazer alguma coisa, as coisas
tinham mudado e ele só percebera quando esse era o
caso.

Tudo o que restou foram os resultados.

Ele não tinha sido capaz de fazer nada, e não havia


nada que ele pudesse fazer.

“Com o choque de ser rejeitada pela mãe, e


pensando que era por causa de si mesma… Ela não
abraçaria ninguém além de mim, seu irmão mais velho.”

“Quantos anos ela tinha mesmo?”

“Dois anos mais nova que eu, no seu terceiro ano do


ensino fundamental. Desde então ela ama a casa e não
vai à escola. ”

Estritamente falando, ela não podia sair… Se ela


colocasse os sapatos e ficasse na entrada, ela não se
moveria ao dar um passo para sair pela porta, e

195
começaria a chorar como uma criança dizendo “Não,
não!”

“Você… se ressente da sua mãe?”

“Bem, sim, claro que sim”, respondeu Sakuta com


sinceridade e sem rodeios. “Eu achei que era óbvio que
nossos pais nos ajudariam, que eles acreditariam em mim
e em Kaede.”

Mas também havia coisas que ele aprendera ao viver


separado. Por exemplo, todos os dias, sua mãe cozinhava
para eles, lavava para eles, limpava a banheira e o toalete
e assumia todos os tipos de responsabilidades sozinha.
Quando eles tiveram que viver juntos, Sakuta achou que
isso era apenas natural.

Havia coisas que ele percebeu agora que ele tinha


que fazer alguma coisa se a quisesse feita, coisas que
haviam mudado. Podia ser nada demais, mas quando ele
se sentou no banheiro, por exemplo.

Ele pensou que sua mãe tinha que suportar algumas


situações, as quais ela queria que sua família notasse,
mas ela nunca tinha dito uma palavra sobre isso na frente
de Sakuta. Nunca mostrado isso em seu rosto. Ela nunca
pedira uma única palavra de agradecimento.

Quando ele pensou em não ser capaz de agradecê-


la por aqueles dias, ele tinha a sensação de que seu
ressentimento poderia estar equivocado. Foi assim que

196
ele tinha se sentido durante o ano que passou. Ele sentia
o mesmo em relação ao pai, que se reunia com eles
mensalmente para saber como eles estavam. Enquanto
cuidava de sua mãe, ele reservava dinheiro para os
gastos deles. Mesmo que Sakuta trabalhasse o máximo
que podia, ele sabia que na realidade, ele não seria
sequer capaz de pagar o aluguel do apartamento em que
moravam e tinha que admitir isso. Admitir que ele não
conseguia viver sozinho…

“O que aconteceu com Kaede me fez entender.


Ainda sou uma criança e até adultos não conseguem
resolver tudo… claro que eles não conseguem. ”

“Hmm, isso é incrível.”

“Uwahh, eu estou sendo chamado de incrivelmente


idiota.”

“Isso não é o que estou dizendo. Há muitos de seus


colegas que não percebem isso, certo?”

“Eles simplesmente não tiveram a chance de


perceber isso, se tivessem que enfrentar o problema,
todos perceberiam.”

“Então, para onde esta indo essa conversa?”

Mai estava prestando atenção na janela, e estava


chegando ao ponto em que o mar estava visível.

Ele podia lembrar a pergunta perfeitamente.

197
“Sakuta, por que você se importa comigo?”

Este foi o começo dessa conversa.

“Eu estava sozinho. Havia alguém que ouvia


seriamente o que aconteceu com Kaede com a Síndrome
da Adolescência…

Se ele não tivesse sido capaz de conhecê-la, Sakuta


não achava que ele teria sido capaz de superar o incidente
com Kaede. Foi quando ele percebeu algo.

Que havia coisas piores do que estar sozinho neste


mundo.

Não haver ninguém era o pior.

Ele tinha certeza de que todos percebiam isso


subconscientemente. Então, eles ficavam aterrorizados
com isso, e não perdoavam as respostas tardias aos e-
mails, ou deixavam as mensagens como ‘lidas’, sem
saber que isso também piorava as coisas… Não sabendo
que isso em si tornava um motivo para você não ter
ninguém…

“Havia alguém que acreditava em mim,” ele


terminou.

Foi um tanto doloroso lembrar-se dela, e pensar no


nome dela o fez morder o lábio inferior.

“Essa era uma mulher.”

“Eh?”

198
Sakuta ficou surpreso com a afirmação franca dela.
Sua fria e calma voz tinha alguma força por trás.

“Você estava fazendo esse tipo de expressão.”

Ela não parecia interessada.

O trem estava a uma estação antes de onde eles


normalmente desciam, Estação de Shichirigahama… a
parada em frente a Escola Secundária de Kamakura. No
instante em que as portas se abriram, Mai de repente se
levantou.

“Estamos saindo.”

Seus planos deveriam ter sido na última estação, e


eles precisariam andar de trem por mais quinze minutos.

“Eh, Kamakura?” Quando ele pediu por confirmação,


Mai já havia saído do trem. “Ah, espere.”

Ele seguiu apressadamente.

Alguns segundos depois, as portas do trem se


fecharam e ele, lentamente, deixou a plataforma. Mai
observou até que o trem saísse do local e depois olhou
para o mar.

A estação foi construída de frente para o mar e no


topo de uma colina, então não havia nada para obstruir o
local. Apenas por ficar de pé na plataforma, esperando por
um trem, dava-lhe o monopólio da vista do mar. Era um
local que parecia passível de aparecer em filmes e

199
dramas. Aparentemente tinha sido de fato usado para
gravar, já que Sakuta já havia visto grupos de pessoas
com Câmeras de TV antes.

“Já é noite porque você estava uma hora e trinta e


oito minutos atrasado.”

O sol começara a tingir o céu de vermelho enquanto


se dirigia para Enoshima.

“É uma pequena caminhada.”

Mai apontou para o mar e saiu da estação sem


esperar por uma resposta. Mesmo quando ele deu um
sorriso aflito para o contínuo comportamento estranho
dela, Sakuta andou feliz ao lado.

Sakuta e Mai cruzaram a Estrada Nacional 134, que


tinha semáforos que raramente ficavam verdes, depois
desceram uma escada que tinha cerca de vinte degraus e
foram para a praia de Shichirigahama.

Eles se afastaram de Shichirigahama e se dirigiram


na direção de Kamakura.

A areia em seus pés faziam seus passos ficarem


pesados.

“Você sabia? Mesmo que Shichirigahama seja escrito


com “sete ri”, ela não é tão longa assim?”

“Um ri tem cerca de quatro quilômetros e a praia não


tem sequer três.”

200
Em outras palavras, sequer era questão de ler as
medidas erradas.

“Isto é chato.”

Aparentemente, isso era uma informação importante


para Mai.

“Kujukurihama de Chiba também não tem noventa e


nove ri de comprimento, aparentemente.” [NT: ‘hama’ =
‘praia’, então ‘Kujukurihama’ = ‘Praia de 99 ri’ e
‘Shichirigahama’ = ‘Praia de 7 ri’]

“Você sabe de algumas coisas chatas.”

Mai disse por cima do ombro, como se estivesse


realmente entediada.

“Mesmo que você tenha trazido o assunto?”

“Então, que tipo de pessoa ela era?”

“Hm?”

Correndo um risco, ele fez como se não entendesse.

“A garota de conto de fadas que acreditou em sua


fofoca.”

“Você está curiosa?”

“Qual era o nome dela?”

“Você está curiosa.”

“Apenas me diga o nome dela.”

201
“O nome dela era Makinohara Shouko. Ela tem cento
e sessenta centímetros de altura e é ao todo menor que
você. Eu não sei o quanto ela pesa.”

Sakuta recitou enquanto ouvia as ondas.

“Se você soubesse, eu teria que perguntar o


porquê.”

“Como devo dizer isso, ela escutava as pessoas,


mas… não as deixava mudá-la e era estranhamente
antipática”.

“Hmmm.”

Mai reagiu friamente, apesar de ter sido ela quem


perguntou.

“Se eu tivesse que pensar em um traço particular


dela, seria que ela usava um uniforme da Escola
Secundária de Minegahara.”

“…” Nesse ponto, Mai finalmente olhou para ele.


“Você tentou entrar na Escola Secundária de Minegahara
para persegui-la?”

“As coisas estavam difíceis em casa depois do que


aconteceu com Kaede, então decidi me mudar. Havia um
assunto de mudar ainda mais longe, mas eu não achava
que a distância importava muito para as fofocas na
internet… E então, bem, a razão pela qual eu vim
para cá é como você disse.”

202
Ele confessou honestamente, agora que ele havia
dito isso, não havia sentido em esconder.

“Mas ela rejeitou você.”

Mai parecia gostar de um pouco de tristeza alheia.


[NT: por curiosidade, o texto utiliza a palavra
‘schadenfreude’, que é um empréstimo linguístico do
alemão]

“Acabou do mesmo jeito, mas eu não confessei.”

“Mesmo que você tenha feito um esforço para ir para


a mesma escola?”

“Eu não consegui encontrá-la.”

Ele pegou uma pedra da praia e a jogou no mar.


Agora que ele pensou nisso, essa poderia ser a praia em
que ele jogou seu telefone.

“Então ela se graduou.”

“Nós nos conhecemos quando eu estava no terceiro


ano no ensino fundamental, e ela disse que estava em seu
segundo ano do ensino médio.”

“Então ela transferiu?”

“Se fosse isso até estaria tudo bem.”

“Você diz isso como se alguma outra coisa tivesse


acontecido.”

“Eu passei por todas as salas de aula do terceiro ano


e falei com todos os alunos.”

203
“E eles disseram?”

Sakuta balançou a cabeça lentamente.

“Que eles não conheciam uma aluna chamada


Makinohara Shouko.”

“…”

Mai parecia perdida em como compreender isso.

“Eu olhei para os registros dos alunos, até achei que


ela teria que repetir o ano… e olhei todos os álbuns de
formatura dos últimos três anos.”

Mas, é claro, ele não conseguiu encontrá-la.

Não havia registros de uma aluna chamada


Makinohara Shouko.

“Eu realmente não entendo, mas eu definitivamente


conheci alguém chamada Makinohara Shouko, e ela
definitivamente me salvou.”

“Certo.”

“Parece que eu não vou ser capaz de retribuir o favor


para ela, então eu pensei em tentar fazer isso com você.”
Isso era algo que não poderia ser resolvido sozinho, você
precisaria de alguém ao seu lado para sentir salvo. Essa
foi a experiência de Sakuta dois anos atrás. “E há algo que
eu quero saber.”

“Algo que você quer saber?”

204
“Por que a Síndrome da Adolescência ocorre, se eu
soubesse disso…”

A mão de Sakuta se aproximou do peito dele.

“Você está preocupado com a sua cicatriz?”

“De certo modo.” As aulas de natação eram bastante


deprimentes quando o verão se aproximava, se ele
pudesse se livrar da cicatriz, ele participaria a qualquer
custo. “E se eu puder resolver isso, pode ajudar Kaede
também.”

“Entendo.”

Ele pensou que seria uma pena se ela nunca pudesse


sair de casa. Desperdiçando todos os dias lendo e
brincando com Nasuno, o gato, era definitivamente uma
pena. Ele queria trazê-la para esta praia. Então ele queria
saber muito sobre a Síndrome da Adolescência e
encontrar uma maneira de resolver o caso da Kaede. Essa
foi a razão pela qual Sakuta tinha se interessado
primeiramente por Mai…

Mesmo sem expressamente dizer isso, o perfil de Mai


tinha um sorriso que dizia que ela tinha visto através dele.
Sakuta pegou outra pedra e atirou-a para o mar, onde
traçou um arco e caiu com um respingo.

“Hey.”

“…”

205
Ele esperou silenciosamente pelo o que ela diria em
seguida.

“Você ainda gosta dela?”

“…”

Se ele gostava, ou se não gostava, ele poderia


responder imediatamente, e nem mesmo Sakuta iria
desviar-se disso com um sorriso.

“Você ainda gosta da Makinohara Shouko-san?”

Ele mentalmente repetiu as perguntas dela mais


uma vez.

“Você ainda gosta dela?”

Poderia ser um problema que ele evitou até hoje.

“Você ainda gosta da Makinohara Shouko-san?”

Até hoje, sempre que ele pensava nela, seu peito


ardia, e se ele pensasse muito nela, iria ficar dolorido e
ele não conseguiria dormir. Mas agora que um ano tinha
se passado desde então, isso era diferente. Isso havia
mudado.

Ele achava que chegara a uma conclusão há muito


tempo, mas inconscientemente evitava colocar isso em
palavras. Ele pensou que poderia ser capaz de dizer isso
aqui.

“Eu seriamente gostava dela.”

206
Ele falou seus sentimentos enquanto olhava para o
mar. Simplesmente fazendo isso, era como se uma carga
tivesse sido retirada de seu peito.

Mesmo sem a oportunidade, os sentimentos se


alteravam para lembranças com o passar do tempo.
Mesmo uma ferida de amor não correspondido iria gerar
uma cicatriz, e essa cicatriz cairia sem aviso prévio. E
assim, as pessoas seguiam em frente.

“Você pode muito bem dizer mais alto.”

“Se eu desse a você esse tipo de material, eu seria


provocado pelo resto da minha vida.”

“Eu vou gravar para você.” Mai pegou seu telefone.


“Vamos, diga.”

De alguma forma ela parecia ter ficado com um olhar


afiado, mas provavelmente era a imaginação dele.

“Você parece muito zangada?”

“Hah? Eu? Por quê?”

Ela estava claramente com raiva e irritada. Seu olhar


afiado e suas emoções pareciam estar atacando Sakuta.

“Eu que fiz a pergunta…”

“Existe alguém que ficaria feliz com o seu parceiro


de encontro confessando que gostava de outra pessoa?”

“Eu disse ‘gostava‘, isso é importante! “

“Hmm.”

207
Ela não pareceu realmente concordar. Levaria algum
tempo para agradar a ela novamente. Assim que Sakuta
pensou nisso:

“É o maaaaaar.”

Ele ouviu uma voz despreocupada. Olhando, ele viu


um homem e uma mulher descendo as escadas para a
praia.

O homem tinha os cabelos despenteados e um


grande par de headphones em volta do pescoço.

A mulher era magra e usava óculos. Ela estava


olhando para o namorado enquanto ele corria pela praia.
Seus saltos estavam afundando na areia e dificultando a
caminhada.

Ambos pareciam ser um pouco mais velhos que


Sakuta e Mai, provavelmente estudantes universitários.

O namorado dela retraçou seus passos até onde ela


estava lutando contra a areia, e então de repente.

“N-não brinque comigo.” Ele levantou sua resistente


namorada como se carregasse uma noiva e levou-a para
a beira da água. “Nossa, não acredito que você fez isso.”

As bochechas dela estavam vermelhas quando ele a


soltou. Sakuta era o mais próximo e ele indiretamente os
observava.

208
“Você tem alguma coragem.” Mas o namorado a
deixou e estava gritando nas ondas, não ouvindo de fato.
Eles eram um casal estranho. “Está frio, estou saindo.”

Ele imediatamente a abraçou por trás quando ela


disse isso, e Sakuta não pôde deixar de soltar um grito.
Mas, felizmente, o casal paquerador parece não ter
ouvido.

“Você está realmente quente.” Disse o homem.

“…”

A mulher pareceu resmungar alguma queixa, mas se


enterrou nos braços dele de maneira fofa.

Sakuta olhou de soslaio para Mai.

“Eu não estou com frio.”

Sua estratégia falhou com o aviso preventivo dela.

“Caaara, com certeza está frio.”

Ele olhou para o mar e murmurou, recebendo um


olhar de nojo de Mai.

O casal saiu pela orla, de mãos dadas. Era como uma


cena em um filme.

“Cara, isso seria bom.”

“Seria.”

“Hm?”

“N-nada.”

209
Mai aparentemente soltou seus verdadeiros
sentimentos e rapidamente se virou.

“Devemos dar as mãos?”

“Por que você é tão arrogante?”

Mesmo quando ela disse isso, Mai obedientemente


colocou a mão sobre a palma estendida de Sakuta. No
entanto, isso não era para dar as mãos. Quando a mão
dela se afastou, seu telefone permaneceu na mão dele,
um smartphone com uma capinha de coelho vermelho.

“Você está me dando?”

“Eu não estou.”

“Então…”

Quando ele estava prestes a continuar sua pergunta,


o olhar de Sakuta caiu na tela.

Havia uma mensagem escrita nele. Ele perguntou


em silêncio se podia ler, e Mai assentiu com uma
expressão um tanto desconfortável.

No dia 25 de Maio (domingo), venha à praia de


Shichirigahama às 17h.

Isso era hoje e seriam cinco horas dentro de cinco


minutos.

Ele não sabia por que Mai estava mostrando a ele a


mensagem.

210
Ele entendeu quando olhou para o campo “Para”. A
palavra “Empresária” estava escrita lá.

Em outras palavras, foi um e-mail enviado para a


mãe de Mai e, além disso, a tela dizia que ele já havia sido
enviado. Foi enviado no dia em que eles concordaram em
ir nesse encontro. O dia em que Mai lhe dissera que
voltaria ao show business, depois de terem se separado.

Logo chegaria a hora do compromisso.

“Você irá encontrá-la?”

Ele perguntou, enquanto retornava o telefone.

“Eu não quero.”

“Então não vá.” Mai tinha se afastado de sua mãe


em seu terceiro ano do ensino fundamental devido a
discussão sobre seu photobook. Ela já havia decidido
mudar de agência, então agora não haveria necessidade
de falar diretamente com a mãe dela. “Ah, há coisas ainda
para lidar no contrato?”

“Eu deixei o contrato com a agência dela ao mesmo


tempo em que entrei em hiato, então está tudo bem.”

E então tinha que ser um problema do coração. Se


ele tivesse que distinguir o tipo…

Mai tinha um rosto triste enquanto observava as


ondas. Embora ela possa ter decidido encontrá-la, ela
ainda parecia não querer.

211
“Minha lógica é ‘não faça coisas que você não quer’.”

Ele falou para ninguém.

“E há algo a mais?”

“Bem, ‘você só tem de fazer o que for necessário’ vai


junto na frase.”

Ele olhou para o mar e falou resolutamente.

Havia coisas que você poderia evitar.

E havia coisas que você não poderia.

Havia esses dois tipos de coisas neste mundo. Não


havia necessidade de fazer coisas que você podia evitar,
mas afastar-se das coisas que não poderiam ser evitadas
interromperia seu progresso.

E, nesse caso, Mai sentia que encontrar sua mãe era


o último desses dois tipos.

“Você está bem?”

Sakuta perguntou diretamente.

“É algo que eu me decidi, então… Além disso, parece


que ela já está aqui.”

Mai tinha notado uma pequena silhueta vindo da


direção de Enoshima.

“Ela é uma pessoa pontual.”

212
Ela ainda estava longe, então Sakuta não conseguia
distingui-la. Mas a certeza de Mai era, é claro, porque
eram mãe e filha.

“Vamos lá.” Mai sacudiu o pulso para ele como se


fosse espantar um cachorro de rua. “Talvez eu devesse
cumprimentá-la, visto que estou aqui.”

“…” Mai olhou seriamente para ele e ele não podia


fazer nada além de levantar as mãos em sinal de
rendição. “Continuaremos nosso encontro quando eu
terminar, então espere um pouco.”

“Okay.”

Ele andou ao longo da beira da água e sentou-se em


um pedaço de madeira que tinha sido carregado pela
água. A distante figura gradualmente cresceu e Sakuta
conseguia vê-la claramente.

Ela era uma incrível beleza que era semelhante a


Mai. Estritamente falando, Mai seria semelhante a sua
mãe, mas…

Ela era magra, alta e ainda parecia jovem. Ao menos,


ela não parecia ter idade suficiente para ter uma filha em
seu terceiro ano do ensino médio. Ao vê-la pessoalmente,
Sakuta lembrou dos rumores de que ela deu à luz a Mai
quando ela tinha vinte anos.

Se isso fosse verdade, ela deveria estar em seus


trinta anos. Ela não parecia diferente de uma mulher mais

213
velha, mas ela não tinha a aura de “mãe”, e seu traje
brilhante reforçava essa impressão ainda mais.

A mãe de Mai se aproximou dela passo a passo, e


estava a cerca de uma dúzia de passos de distância.

Ele viu Mai dizer algo, provavelmente algo como ‘já


faz um tempo’, o som das ondas abafou as palavras e ele
não conseguiu ouvi-las. A mãe dela apenas diminuiu um
pouco a velocidade e não parou, e não deu sinais de
responder.

Mai disse outra coisa, inclinando-se para frente e


falando desesperadamente.

“…”

Como ele achava que as coisas estavam estranhas,


ele notou, o olhar da mãe dela não tinha parado, estava
balançando para a esquerda e para a direita, parecendo
para Sakuta quase como se estivesse procurando por
quem a convocou.

E mesmo que ela estivesse bem na frente de Mai, ela


não mostrou nenhum sinal de parar.

“…De jeito nenhum.”

Ele teve um pressentimento horrível. Enquanto


Sakuta gritava mentalmente para ela parar… a mãe dela
passou direto por Mai.

Quase como se ela não pudesse vê-la…

214
Como se ela não pudesse ouvir a garota chamando
por sua mãe…

Ela passou por Mai com muita facilidade.

Ele pode instantaneamente ver que algo estava


acontecendo entre as duas mulheres separadas. Seu
coração se apertou. Ele se sentiu chocado e o medo fluiu
através de seu corpo.

Mai correu para a frente de sua mãe, gesticulando e


implorando.

“Você não consegue me ver?”

Sua voz foi carregada até Sakuta.

Mas a mãe dela mais uma vez passou por ela, e os


braços de Mai caíram frouxamente. Naquele momento,
Sakuta se moveu em direção a Mai, aproximando-se da
mãe dela.

Quando ele estava a cerca de dez metros, a mãe dela


notou sua aproximação, e quando ele chegou aos cinco,
ela falou irritada para ele, procurando por confirmação.

“Era você?” Ela era semelhante a Mai nessa maneira,


e Sakuta ficou surpreso. “Por que você me chamou aqui?
Quem é Você? Eu já vi você antes, mas não nos
conhecemos, não é?”

Ela perguntou sucessivamente.

215
“Eu sou Azusagawa Sakuta. Um estudante colegial.
Daquele lugar.”

Ele apontou para a Escola Secundária de


Minegahara, depois da Estrada Nacional 134.

“Entendo. Então, o que você quer comigo,


Azusagawa Sakuta-san? Estou ocupada.”

“Ah, não sou eu quem quer algo com você.”

Ele podia sentir o olhar de Mai por trás de sua mãe.

Ela pareceu se preocupar e fez algumas outras


tentativas, mas no final ela lentamente assentiu. Mai
provavelmente tinha pensado que isso poderia acontecer,
e trouxe Sakuta aqui como uma preparação para o pior
caso. Usando o encontro como isca…

“Quem é então?”

Ele achou que essa era uma pergunta estranha.

“É a Mai-san, você sabe certo?”

Foi por causa do e-mail que a mãe dela tinha vindo


aqui. Mesmo que ela não pudesse ver Mai no momento,
isso não deveria mudar essa realidade.

“…”

A mãe de Mai o avaliou fixamente.

“Você pode me dizer mais uma vez, quem me


chamou aqui?”

216
“Mai-san a chamou.”

“Ela chamou?”

“Sim.”

A mãe dela segurou o cabelo enquanto o mesmo


balançava ao vento e depois falou.

“Quem é essa.”

“!?”

Os olhos de Mai se arregalaram em choque. Ele podia


ver os olhos dela tremendo impetuosamente. Isso era
natural, a mãe dela tinha perguntado quem ela era.

“Sua filha!”

Sakuta respondeu emocionalmente. Elas podiam ter


se separado, mas a reação da mãe dela tinha sido muito
cruel.

“Eu não tenho uma filha chamada Mai, pare de


brincar.”

“Qual de nós está brincando!?”

Em contraste com as emoções ardentes de Sakuta,


a mãe dela estava apenas calma.

“O que é isso? É porque você quer se tornar parte da


minha agência?”

“Por que eu iria querer? O que você está…” No


instante em que ele olhou para os olhos dela novamente,

217
Sakuta ficou em silêncio. Ele notou os olhos dela olhando
com pena para ele… A pergunta anterior dela era
genuína, ela não sabia quem era ‘Sakurajima Mai’ era…
Foi por isso que ela disse essas palavras…

Os olhos da mãe dela não tinham sequer uma pitada


de engano.

“Isso mesmo, a mensagem! Mai-san enviou uma


mensagem dizendo que ela iria encontrá-la aqui hoje,
certo?”

“Se eu te mostrar isso, você vai parar com essa farsa


incompreensível?”

A mãe de Mai tirou o smartphone de sua bolsa e virou


a tela para Sakuta.

“…O que?”

Isso tinha sido enviado por Mai, que olhava para a


tela ao lado dele. Claro, a mãe dela não podia ver Mai ou
ouvi-la.

O corpo da mensagem era o mesmo que Mai lhe


mostrara antes.

No dia 25 de Maio (domingo), venha à praia de


Shichirigahama às 17h.

‘Mai’ estava escrito no campo ‘de’, não havia nada


de estranho nisso e, ainda assim, por algum motivo.

218
“O remetente é desconhecido, mas eu fiz um esforço
para colocar isso no meu diário, e até liberei algum tempo
para isso… o que é isso?”

Sakuta era quem queria perguntar isso. ‘Mai’ estava


claramente escrita ali e, no entanto, a mãe dela não
conseguia ver esses caracteres.

O que ele poderia dizer dessa discussão era que pelo


menos quando a mensagem foi enviada três dias atrás,
ela sabia que o remetente era sua filha, Mai. Foi por isso
que ela tinha liberado um tempo para ter a oportunidade
de vir aqui.

Mas em algum momento, enquanto o dia se


aproximava, a mãe de Mai a havia esquecido. Não apenas
ela não podia vê-la ou ouvi-la… ela tinha esquecido
completamente dela. Ele não podia acreditar nisso, mas o
comportamento da mãe dela não deixava outra
explicação.

“Algo tão ridículo assim aconteceu?” Ele


inconscientemente colocou isso em palavras. E mesmo
ouvindo isso o fez arrepiar e sua voz ficar seca. “Pode uma
coisa tão ridícula assim acontecer?”

Ele disse duas vezes para a mãe dela.

“Essa é uma interessante forma de se promover,


mas é absurda demais. Estude a sociedade um pouco
mais e tente novamente. ”

219
A mãe de Mai se virou e voltou pelo caminho que
tinha vindo.

“Você é a mãe dela!”

“…”

Ela não se virou e nem parou.

“Como você pode esquecer sua filha?”

“…Isso é o bastante.”

Essa foi a voz calma de Mai.

“Por quê!?”

“É o bastante…”

“Nós não terminamos de falar!”

Sakuta estava colocando todas as suas emoções em


seus gritos nas costas dela.

“…Por favor pare.”

Sua voz quase chorosa congelou o corpo inteiro dele.


Ele notou que estava machucando Mai ainda mais e ficou
em silêncio.

“Eu sinto muito.”

“…”

“Eu realmente sinto muito.”

“…Mhmm, está tudo bem.”

“…”

220
O que diabos tinha acontecido com Mai?

Sakuta tinha pensado que ela se tornara invisível e


inaudível no momento. A própria Mai também pensara
isso. Vir aqui os fez encarar a realidade de que eles
poderiam ter tido um grande mal entendido.

Sakuta e Mai podiam não saber de nada. Ela não


podia ser vista, não podia ser ouvida… e até mesmo sua
própria existência havia desaparecido completamente
das memórias de sua mãe.

“…”

Quanto mais ele pensava sobre isso, mais


desconfortável ele se sentia.

“Sakuta.”

Os olhos de Mai boiavam ansiosamente. Vendo isso,


Sakuta percebeu que Mai tinha a mesma dúvida. [NT: eu
tive certa dúvida em qual verbo usar aqui, visto que a
tradução usa ‘swam’, então interpretei que ela moveu os
olhos em meio a algumas lágrimas]

Não será apenas a mãe dela, ela pode até


desaparecer das memórias de outras pessoas.

Ele não sabia quando isso iria acontecer, mas isso


poderia acontecer quando ela estivesse invisível. Ou
talvez não.

221
Mas se ela realmente desaparecesse das memórias
das pessoas…

Não demorou muito para que essa dúvida se


tornasse convicção.

⟡⟡⟡

Sakuta e Mai tinham percorrido o caminho que


costumavam viajar até a Estação Shichirigahama e
rapidamente entraram no trem para casa. Eles não
tinham realmente discutido isso, mas eles naturalmente
seguiram pela estrada de volta a casa.

No caminho, Sakuta tinha falado com os turistas e


com os moradores locais. É claro, isso foi para perguntar-
lhes sobre ‘Sakurajima Mai’. Ele perguntou a dez ou mais
pessoas, e todos disseram a mesma coisa.

“Eu não sei quem é ela.”

Não havia uma única pessoa que dissesse que a


conhecia. E nenhum deles podia vê-la também.

Mesmo assim, Sakuta desejava profundamente,


desejava que ele tivesse apenas falado com pessoas que
não a conheciam. Mas essa pequena esperança logo se
extinguiu.

Assim que chegaram à Estação Fujisawa, Sakuta


usou um telefone público para ligar para a apresentadora,

222
Nanjou Fumika. Ele estava certo em ter mantido o cartão
de visita dela em sua carteira.

“Alô.”

Uma voz um tanto formal respondeu ao telefone.

“É o Azusagawa Sakuta.”

“Oh meu,” a voz dela de repente se avivou, e seu


tom certamente subiu. “Em pensar que eu receberia uma
amorosa ligação sua, este deve ser um dia especial.”

“Não há sequer um pingo de amor aqui.”

“Você não fantasia ter um relacionamento ardente


com uma mulher mais velha? Estou feliz em brincar com
fogo.”

“Esse é o equívoco de uma mulher mais velha.”

“Então, o que é.”

Aparentemente, Fumika tinha o hábito de não


escutar as coisas que a incomodavam, visto que ela
mudou de assunto.

“É sobre a Sakurajima Mai.”

“O que é isso de repente?” Oh, pensou Sakuta, isso


foi uma resposta. No entanto, suas expectativas foram
destruídas pela continuação dela. “Quem é essa?”

“…”

“Alô?”

223
“Você não conhece alguém chamada Sakurajima
Mai?”

Ele perguntou novamente.

“Eu não, quem é ela?”

“Então… sobre aquela foto?”

A foto das cicatrizes no peito dele. Ela deveria pelo


menos ainda ter isso, e prometera a Mai para não publicá-
la. Em troca de um exclusivo no retorno de Mai para o
show business…

“Eu prometi que não iria publicá-la, certo? Eu


lembro, não vou.”

“Para quem você prometeu?”

“Para você obviamente, Sakuta-kun. O que foi? Você


está bem?”

Ela parecia meio interessada e meio preocupada


com a condição de Sakuta. Sakuta achou que deveria
parar a conversa ali, antes que ele causasse problemas
para si mesmo.

“Estou bem. Desculpe, eu estava preocupado com a


foto e acabei dizendo algo um pouco estranho ”.

“Tão desconfiante~”

“Sinto muito por incomodar você quando estava


ocupada. Com licença.”

224
Enquanto ele podia se manter calmo, Sakuta
desligou.

Ele colocou o receptor de volta, suas mãos


estranhamente pesadas.

Ele lentamente se virou para onde Mai estava


esperando, e balançou a cabeça. Ela provavelmente não
esperava muito para começar, não mostrando nada em
seu rosto e simplesmente dizendo.

“Entendo.” Ela então continuou monotonamente


com “Obrigada por hoje, tchau,” antes de se virar. Não
houve hesitação nem insegurança. Mai seguiu direto para
o caminho de volta para casa.

Afastando-se com seu habitual andar indiferente.

O peito de Sakuta doía enquanto ele a observava ir.


Ele foi impulsionado por um mal-estar, que se ele a
deixasse ir, ele nunca mais a veria. E então, seu corpo se
moveu sem seu comando.

“Mai-san, espere.” Ele correu atrás dela e agarrou


seu pulso. Embora ela tenha parado, Mai não se virou,
apenas olhando para frente. “Vamos.”

“…” Mai levantou seu rosto um pouco. “Ir para


onde?”

“Pode ainda haver alguém em algum lugar que se


lembre de você.”

225
“Já está bem claro que todo mundo, exceto você se
esqueceu de mim.”

Mai riu secamente.

“…” Ele não negou isso. Ele não conseguia. Ele não
conseguia pensar em mais nada nessa situação. E a
própria Mai pensava da mesma maneira, foi por isso que
ela disse isso. Mas ainda assim, ele queria acreditar.
Acreditar que se eles fossem a alguma cidade distante,
alguém saberia de Mai, seria capaz de vê-la e apontar
para ela dizendo: ‘Aquela não é a Sakurajima Mai?’ Ele
ainda queria acreditar nisso. “Vamos verificar.”

“Em que irá mudar ao verificar? Em que irá mudar


ao saber que ninguém mais pode me ver, que ninguém
mais consegue se lembrar de mim?”

“Pelo menos, poderei estar com você enquanto


fizermos isso.”

“!?”

Claro que ela ficaria apreensiva. Ela não poderia não


ficar, ela estaria sobrecarregada por isso. Ela não saberia
o que estava acontecendo, ela não sabia por que isso
estava acontecendo, ou o que seria dela amanhã. É claro
que ela ficaria assustada se voltasse assim para sua casa
deserta.

E como prova disso, os ombros dela tremiam


levemente enquanto ela olhava para baixo.

226
“Ou pelo menos, eu quero estar com você, Mai-san.”

“…Você é atrevido.”

“Estamos em um encontro, afinal.”

“Você é tão atrevido, mesmo sendo mais jovem.”

“Eu sinto muito.”

“Minha mão dói, solte-a.”

Ele notou que estava segurando a mão dela com


força e rapidamente a abriu.

“Eu sinto muito.”

“Eu não vou te perdoar com apenas um pedido de


desculpas.”

“Eu sinto muito.”

A curta troca de palavras entre eles foi quebrada ai.

E então, depois de um minuto de silêncio.

“…Okay.”

Mai sussurrou.

“Hmm?”

“Se você está dizendo que não quer me enviar para


casa ainda, eu irei continuar nosso encontro.”

Mai olhou para cima e provocativamente cutucou o


nariz de Sakuta. Em algum momento, o tremor dela havia
parado.

227
Eles tinham gasto quase uma hora no trem com
direção contrária ao centro, tendo partido da Estação de
Fujisawa na linha Tokaido, e viajado cerca de 50
quilômetros ao oeste. Os vagões prateados com linhas
laranja e verde ao longo dos lados tinham passado pela
prefeitura de Kanagawa e chegado em Atami, na
prefeitura de Shizuoka, famosa por suas fontes termais.

Eram sete da noite.

Independentemente da hora, havia algo que eles


precisavam saber. O que estava acontecendo com Mai…

E se alguém que já a tivesse visto conseguia se


lembrar dela.

Eles precisavam saber em que escala o caso de


Síndrome da Adolescência que estava afetando Mai a faria
sofrer.

Eles já tinham descido na Estação de Chigasaki e na


Estação de Odawara, mas ninguém tinha sido capaz de
enxergá-la. Quando Sakuta perguntara às pessoas, ele só
tinha recebido reações como ‘Huh?’, ‘Eu não a conheço’ e
‘Eu não entendo as crianças de hoje em dia’. Assim que
chegaram na Estação de Atami, ele imediatamente
perguntara às pessoas, mas não houve nenhuma
mudança para melhor… Todos realmente haviam se
esquecido de Sakurajima Mai, ou pelo menos agiam como
se nunca a tivesse conhecido.

230
Mai assistiu tudo isso sem expressão. Ela engoliu
qualquer surpresa, tristeza ou medo, sem qualquer abalo
no rosto. Como um lago parado.

Sakuta olhou para cima de onde ele estava na


plataforma, para as placas elétricas com os horários de
partida do trem. Para o próximo trem, mesmo que
continuassem na linha Tokaido, eles precisariam
transferir para um outro, visto que o trem no qual haviam
andado até aqui terminava nessa estação.

Ele encontrou um trem que chegaria às sete e onze


e ia para Shimada. Ele não sabia qual prefeitura era ou
onde ficava a estação, mas… verificar o mapa da rota
revelou que ficava ainda mais ao oeste do que Shizuoka,
e isso era bastante.

Ele partiria em seis minutos então, embora não fosse


muito, ele tinha algum tempo.

“Vou telefonar para minha irmã.” Com essas


palavras para Mai, ele correu para um telefone público ao
lado de uma loja. Ele usou um trocado e levantou o
receptor antes de discar o número, o deixando tocar. Após
um curto período de tempo, ele foi transferido para a
secretária eletrônica. “Kaede, sou eu.”

Kaede nunca atenderia um telefonema de qualquer


outra pessoa, então uma ligação sempre começaria dessa
maneira com a secretária eletrônica.

231
“Alô, é a Kaede.”

“Ótimo, você está acordada.”

“São apenas sete horas.” Mesmo sem ver o rosto


dela, ele conseguia imaginá-la fazendo beicinho.
“Aconteceu algo?”

“Desculpe, eu não vou voltar para casa hoje.”

“Eh?”

“Surgiu uma coisa que preciso fazer.”

“O-o que é essa ‘uma coisa’?”

“É…” Por um momento ele estava sem palavras, mas


Sakuta logo percebeu que deveria perguntar a Kaede
também e falou ao telefone. “Kaede, você se lembra da
garota que veio à nossa casa, Sakurajima Mai?”

“Eu não conheço ninguém chamada assim.”

Ela respondeu, muito facilmente.

“…”

Ele não conseguia responder imediatamente e


levemente mordeu o lábio, tentando se acalmar.

“Quem é ela?”

Kaede resmungou com inveja. Sakuta ouviu isso de


longe. Era realmente complicado ter a realidade jogada
em sua cara dessa maneira por alguém que ele conhecia
tão bem. Foi o mesmo que quando ele falou com Nanjou

232
Fumika, muito mais complicado do que ouvir isso de
alguém que ele não conhecia e nunca tinha visto.

“Tudo bem se você não sabe. Coma o macarrão


instantâneo esta noite, pode comer qual você quiser.
Certifique-se de alimentar o Nasuno também. Escove os
dentes antes de ir dormir. Eu vou ligar de novo. Tchau.”
[NT: eu preferi colocar ‘tchau’ para fazer mais sentido,
mas no final ele fala ‘night’ como se fosse falar ‘boa noite’
de forma mais casual sem o ‘boa’]

“Ah, eh? Onii-chan!”

No meio do grito de Kaede, o telefone desligou com


o barulho de uma moeda de dez ienes.

Ele foi para o trem.

“Vamos, Mai-san.”

“Vamos.”

Sakuta e Mai embarcaram no trem em direção a


Shimada na plataforma dois.

⟡⟡⟡

O trem deixou Atami ao longo da costa do Pacífico,


indo mais ao oeste. Eles trocaram de trem ao longo do
caminho na Estação de Shimada e na Estação de
Toyohashi. Eles foram da prefeitura de Shizuoka para a
prefeitura de Aichi e partiram da prefeitura de Aichi para
a prefeitura de Gifu, viajando centenas de quilômetros.

233
Enquanto faziam isso, Sakuta perguntou para as
pessoas de lugares que ele não conhecia sobre Mai, mas
é claro que não havia um único que soubesse dela, nem
um único que pudesse vê-la.

Os dois estavam agora sacudindo com o trem a


caminho de Ogaki. Isso era provavelmente o mais longe
que eles iriam para confirmar as circunstâncias em torno
de Mai. Por volta do momento em que chegaram, a data
havia mudado. Por cada estação que passavam, o número
de passageiros diminuía.

À medida que o número de pessoas ao redor


diminuía, o rangido das rodas e dos trilhos e os solavancos
causados pelas junções nos trilhos gradualmente
começaram a soar como uma canção de ninar.

Quando um conjunto de poltronas opostas ficou livre,


Sakuta e Mai sentaram lado a lado nas mesmas.

“Na prefeitura de Gifu, lá possui o maior número de


pessoas depois da cidade de Gifu.”

Mai falou de repente enquanto olhava para seu


smartphone.

“Do que você está falando?”

Quase não havia pessoas no mesmo vagão. Havia


algumas pessoas sentadas em lugares distantes, então
não havia muita diferença no humor comparado a eles
estarem sozinhos.

234
“Sobre Ogaki.”

“Ah.”

Graças a isso, as baixas vozes deles eram


claramente audíveis para um ao outro.

“Além disso, é dito haver muita água subterrânea.”

“Eu daria uma calorosa boas-vindas em algum lugar


com água limpa.”

“…”

“…”

Os dois ficaram em silêncio e o barulho do trem


preencheu o espaço. É claro que os arredores fora do trem
estavam escuros como breu, então não havia
divertimento em olhar pela janela. Mesmo assim, Mai
apoiou o cotovelo na mesa embaixo da janela e olhou para
as terras desconhecidas.

Ele pensou que cerca de dez minutos haviam


passado sem que eles dissessem nada.

“Hey, Sakuta.”

“O que foi?”

“Você consegue me ver?”

O reflexo dos olhos de Mai no vidro manteve o perfil


do rosto de Sakuta à sua vista.

“Eu consigo ver você.”

235
“Você, você consegue me ouvir?”

“Alto e claro.”

“Você se lembra de mim?”

“Sakurajima Mai, aluna do terceiro ano na Escola


Secundária de Minegahara na prefeitura de Kanagawa.
Você estreou no mundo do showbiz ainda jovem e, bem,
você já teve um bom número papéis.”

“Por que esse ‘um bom número’?”

“É provavelmente porque você passou tanto tempo


no mundo do showbiz desde que era criança, que sua
personalidade se deformou e você não é honesta.”

“Como?”

“Escondendo-a, embora você esteja apreensiva.”

Sakuta disse isso e corajosamente segurou a mão de


Mai. As sobrancelhas dela se levantaram de surpresa e
seu olhar foi em direção a ele segurando sua mão.

“Eu não disse que você poderia segurar minha mão.”

“Mas eu quero.”

“…”

“Eu acho que você pode me dar uma pequena


recompensa, não é?”

“…Eu acho que não tenho escolha.” Mai voltou seu


olhar para a janela, e seus dedos deslizaram entre os de

236
Sakuta. O aperto de mão de uma namorada, isso fez
cócegas nele e o fez arrepiar. “Esta é uma ocasião
especial.”

O perfil de Mai parecia um pouco envergonhado


quando ela disse isso e, ao mesmo tempo, ela parecia
estar se divertindo ao ver a confusão de Sakuta.

Finalmente veio o anúncio de que a próxima parada


seria a estação terminal de Ogaki. Sakuta e Mai não se
soltaram até que tinham chegado.

Quando eles desceram na plataforma, a data já tinha


mudado há muito tempo e era meia-noite e quarenta.
Sakuta perguntou ao funcionário sobre Mai e depois dele
responder ‘Não, eu não a conheço,’ eles saíram pelos
portões de bilhetes.

Eles acabaram saindo pela entrada sul e depois


caminharam até perto do terminal de ônibus antes de
pararem. Se essa fosse uma estação sem nada ao redor,
eles teriam se preocupado com o que fazer, mas visto que
esta estação ficava no centro da cidade junto a todos os
estabelecimentos, eles deveriam ser capazes de pelo
menos encontrar um lugar para passar a noite.

O problema era onde ficar. Se Sakuta estivesse


sozinho, ele poderia ter usado um mangá café, mas ele
não podia levar Mai para um e ela havia dito a ele mais
cedo que queria tomar um banho, como se fosse um aviso

237
para ele. Sakuta concordou com isso, a brisa do mar na
praia de Shichirigahama tinha coberto eles
completamente em sal e ele queria lavar isso no chuveiro.
Ele estava um pouco melado e achava que suas roupas
poderiam estar cheirando a sal.

Levando em conta as várias considerações, Sakuta


decidiu contar com o hotel de negócios em frente à
estação como um lugar seguro. Quando ele perguntou se
havia um quarto livre, a recepcionista olhou para ele com
desconfiança, uma reação natural a um estudante do
ensino médio que estava quase de mãos vazias dizendo
que queria passar a noite. Independentemente disso, eles
passaram pelo check-in sem problemas. Para evitar mais
perguntas desagradáveis, ele pagou primeiramente pela
noite de estadia.

Como Mai era invisível, não havia motivo para fazer


o check-in. Sakuta se virou para perguntar se ela estava
bem em dividir um quarto, mas não havia necessidade, já
que Mai tinha ido direto para o elevador. Eles utilizaram o
elevador até o sexto andar.

O quarto deles ficava no final do corredor, quarto


601.

Sakuta inclinou a cabeça para o lado em completa


confusão sobre como usar o cartão-chave, então Mai
estendeu a mão e abriu a porta.

238
“Você pode retirá-lo depois de inseri-lo.”

Sakuta tentou apenas para praticar, mas devido a


falta de resposta parecia não ter funcionado, não havia
sinal da porta abrir. Mas, como Mai disse, a porta se abriu
normalmente. O quarto era de solteiro e possuía uma
cama, uma pequeníssima escrivaninha com armário, e um
assento para ela. Ele também tinha uma televisão de
dezenove polegadas, uma pequena geladeira e uma
chaleira.

Francamente falando, era apertado, e a cama


ocupava cerca de setenta por cento do quarto.

“Tão pequeno.”

“Isso é de se esperar.”

Mai se jogou na cama, ligou a TV usando o controle


remoto e tirou suas botas. Ela passou por todos os canais
antes de imediatamente desligá-la. Ela então deitou na
cama a partir de sua posição sentada. Claro, ela
provavelmente estava cansada também. Eles não tinham
feito nada além de viajar, mas essa viagem também havia
esgotado Sakuta e a pesada sensação de fadiga
permeava todo o seu corpo.

“Eu irei tomar banho.”

Mai se levantou abruptamente.

“Vá em frente, vá em frente.”

239
“Não espie.”

“Tudo bem, o som por si só já é suficiente para nutrir


meus pensamentos por um dia.”

“…”

Mai silenciosamente apontou para a porta, dizendo-


lhe para sair.

“Eu pensava que atormentar um garoto mais novo


com o som do chuveiro aqui seria do gosto de uma calma
mulher adulta.”

“E-eu sei disso, é claro.” Mai desconfortavelmente


disse como se esse sempre fosse seu plano. “Em troca,
não faça nada estranho sozinho, okay?”

“Algo estranho?”

Ele fingiu não entender o que ela queria dizer.

“C-coisas estranhas são coisas estranhas. Idiota, eu


não me importo!”

Mai se virou e entrou no banheiro, batendo a porta


atrás dela e trancando-a com um ruído alto.

“Isso foi realmente fofo…”

Finalmente, o som do chuveiro preencheu o quarto.


Enquanto ouvia, Sakuta checou o telefone fixo no quarto.
Aparentemente, ele podia fazer chamadas externas
também.

240
Ele pegou o aparelho e discou o único número que
ele havia memorizado de seus melhores amigos.

O terceiro toque foi cortado no meio e ele ouviu uma


voz familiar responder.

“Que horas você acha que são?”

Foram as primeiras e sonolentas palavras de Yuuma.

“Uma e dezesseis.”

Sakuta imediatamente respondeu com o tempo do


relógio na cabeceira da cama.

“Eu sei disso.”

“Você estava dormindo?”

“Eu estava dormindo, cansado das atividades de


clube e do trabalho.”

“É uma emergência, me ajude.”

“O que você precisa?”

“Primeiro, eu preciso fazer uma pergunta, você se


lembra da Sakurajima-senpai?”

Ele achava que fazer isso era inútil, no entanto. Hoje


ele havia perguntado a dezenas… talvez até centenas de
pessoas sobre Mai, e nem uma vez ele tinha ouvido a
resposta que queria.

“Huh? Claro que eu lembro.”

“Certo, você não lembra.”

241
Ele respondeu reflexivamente.

“Não, eu lembro.”

A voz de Yuuma ainda estava meio sonolenta e ele


balançou a cabeça.

O que Yuuma tinha acabado de dizer?

“Kunimi!”

“Woah, não fale tão alto.”

“Você conhece a Sakurajima-senpai? Sakurajima


Mai-senpai.”

“Obviamente eu conheço.” Ele não entendia o


porquê, nem um pouco, mas surpreendentemente,
Sakuta havia encontrado pelo menos uma única pessoa.
Esta alegria, surpresa e confusão fizeram seu coração
bater com tanta força que doía. “Era só isso? Eu vou
dormir.”

“Espera. Me fale o número da Futaba.”

“Eh, claro.” Parecia que ele tinha acordado um


pouco, e Yuuma resmungou o número em meio a suas
reclamações enquanto Sakuta escrevia em um papel na
mesa. “Você vai ligar para ela agora?”

“É por isso que eu pedi.”

“Ela vai ficar com raiva e dizer que você não tem
senso comum.”

“Fique tranquilo, eu pensei isso também.”

242
“Claro, estou tranquilo. Trate-me para almoçar pelo
menos, a Futaba também.”

“Certo, boa noite.”

“Sim, boa noite…”

Ele desligou a ligação e depois ligou para Rio, que


logo atendeu, e disse “É o Azusagawa”.

“Que horas você acha que são?”

A voz de Rio estava descontente e


surpreendentemente clara. Talvez ela ainda estivesse
acordada.

“Uma e dezenove.”

“Esse relógio está vinte e um minutos atrasado.”

“Ah, é mesmo?” Este era um hotel de negócios,


então ele esperava que eles colocassem o horário correto.
“Agora é um bom momento? Bem, sendo ou não, eu
gostaria de falar com você.”

“Entendo, você se envolveu mais uma vez em algo


incômodo.”

“Eu não diria realmente que foi ‘incômodo’.”

“O chuveiro que eu posso ouvir atrás de você é a


Sakurajima-senpai, certo?”

“…Você acertou.”

243
Mesmo enquanto ele estava surpreso com a
percepção muito afiada dela, Sakuta sentiu-se
profundamente desconfortável.

“Sua fofa irmã mais nova não tomaria banho a essa


hora da noite. Além disso, dá para ver que você não está
ligando da sua casa apenas pela tela do identificador de
chamadas.”

Enquanto ele ouvia a lógica de Rio, Sakuta percebeu


a razão por trás de seu desconforto.

“Futaba, você se lembra da Sakurajima-senpai


também, certo? Você conhece ela?”

Palavras buscando confirmação escaparam pela


boca dele.

“Claro que conheço alguém tão famosa. Você é um


idiota, Sakuta?”

“É porque está acontecendo algo que eu liguei para


você nessa idiota hora da noite.”

Rio soltou um suspiro.

“Okay. Eu vou ouvir sua idiota história, Azusagawa,


seu idiota.”

Sakuta levou cerca de vinte minutos para explicar o


que estava acontecendo com Mai para a Rio. Ele deixou
de fora seus palpites, dizendo-lhe apenas o que ele tinha

244
visto. Rio ocasionalmente intervia para confirmar algumas
coisas, mas ouviu atentamente toda a conversa.

“…É basicamente isso.”

Rio ficou em silêncio por um tempo depois que ele


terminou, antes de finalmente dizer:

“Entendo,” e depois, depois de deixar escapar um


suspiro de consideração, ela continuou, “Estou surpresa
que o relacionamento de vocês tenha progredido tanto”.

“Oi, você sequer ouviu alguma coisa que eu disse?”

“Eu não queria ouvir sobre o romance de vocês.”

“Eu não me lembro de ligar para você e falar sobre


isso.”

“Você apenas parecia meloso, especialmente


ligando tão tarde.”

“Eu não estou meloso.”

“Se gabando então?”

“Isso é ridículo.”

“Você diz isso, mas é realmente algo muito


espantoso.”

Rio falou em um tom de voz mostrando o quão


problemático ela tinha achado isso.

“Bem, eu suponho que sim… se você começar com


o fato de que Sakurajima Mai e eu estamos juntos, não há

245
nada de estranho em relação as pessoas não serem
capazes de vê-la, ou até mesmo ela desaparecer das
memórias delas.” Ele disse.

“Ah, isso é verdade.”

“…sua maldita.”

Ele disse isso como uma piada, mas Rio tinha


imediatamente concordado.

“Apesar que nós tínhamos conversado sobre isso


antes, e eu neguei a existência da Síndrome da
Adolescência.”

“Eu sei, você disse que era ilógico, não é?”

“Isso mesmo.”

Mesmo assim, a razão pela qual ela não tinha o


rotulado de convencido era que ele havia mostrado a ela
as feridas em Kaede e as cicatrizes em seu peito. Com
isso, ela tinha dito “É ilógico, mas acreditar no que você
está dizendo é consistente no geral”.

Claro, Sakuta não tinha falado uma única mentira.


Ele ter deixado sua cidade natal e vindo para a Escola
Secundária de Minegahara estava entrelaçado com a
Síndrome da Adolescência de Kaede. Se não fosse isso,
ele provavelmente teria ido para a escola perto de sua
casa, não conhecido a Makinohara Shouko e nunca tido a
oportunidade de conhecer a Escola Secundária de
Minegahara.
246
“Então, o que você está esperando de mim?” Ela
perguntou.

“Eu quero que você pense sobre o porquê disso estar


acontecendo e encontre algo para consertar isso.”

“Você está sendo irracional, Azusagawa.”

“Estou em pânico, por isso estou sendo irracional.”

“…” Houve um silêncio por parte de Rio.

“Huh? Futaba? Você está aí?”

“Kunimi disse algo antes.”

“Huh?”

Por que ela estava trazendo Yuuma nesse assunto?

“Que ser capaz de dizer ‘obrigado’, ‘desculpe’ e ‘me


ajude’ era um dos seus pontos positivos.”

“Ninguém além de vocês dois diria isso.”

Sakuta bufou para esconder seu constrangimento.

“Entendi, eu irei pensar pelo menos, mas não espere


nada.”

“Não, eu irei,” disse ele.

“Sabe…”

“Obrigado, isso realmente ajuda.”

Honestamente, Sakuta também estava preocupado.


O futuro era completamente incerto. Desde o caso de

247
Síndrome da Adolescência de Kaede, ele não sabia até
hoje como combater esse medo. Isso o assustava.

No futuro, ele poderia acabar ficando incapaz de


enxergar Mai, incapaz de ouvir a voz dela, esquecendo-a
completamente. Isso o assustava mais que qualquer
coisa.

“E quanto a escola amanhã?”

“Nós estamos em Ogaki no momento, então não


vamos conseguir chegar a tempo pela manhã. Por que a
pergunta?”

Ele não achava que Rio perguntaria, sem sentido,


sobre seus planos para amanhã.

“Fazendo uma breve consideração, a única coisa que


você, Kunimi e eu temos em comum é a escola.”

“Entendo.”

“E então, eu pensei que a causa poderia estar na


escola.”

“…Esse poderia ser o caso.”

De repente, Sakuta lembrou que hoje… bem, pela


data seria ontem, o que aconteceu com a garota colegial
que ele tinha conhecido junto da garota perdida, quando
eles se encontraram novamente no local onde seu
encontro com Mai deveria começar… Koga Tomoe.
Quando eles tinham se encontrado novamente na

248
estação, Tomoe pôde ver Mai, como também as amigas
dela.

“Então foi uma perda de tempo vir tão longe…?”

Enquanto pensava nisso, ele contou a Rio sobre


Tomoe e as amigas dela.

“Isso acabou sendo uma informação que ajudou a


esclarecer o que está acontecendo, então não foi um
desperdício. Graças a isso, fomos capazes de pensar que
a causa poderia estar na Escola Secundária de
Minegahara.”

“Certo… isso é bom então. Eu estarei na escola


amanhã, embora possa já estar perto do almoço nessa
hora. Peço desculpas pela hora.”

“Você deveria mesmo.”

Rio desligou enquanto abafava um bocejo e Sakuta


desligou o telefone também. Ele notou que
inconscientemente se levantara e caíra na cama. Em
algum momento, o som do chuveiro parou, e ele não
percebeu porque estava concentrado na ligação com Rio.

“Uwah, que desperdício.”

Enquanto ele expressava seu arrependimento, a


porta do banheiro se abriu levemente e a partir da
abertura, Mai colocou para fora o rosto com uma toalha
enrolada no cabelo. Seus ombros, ligeiramente visíveis,

249
estavam brilhando rosados devido a água quente, e vapor
se emanava dela.

“O que eu faço quanto as roupas íntimas?”

“Huh?”

“Está tudo bem em usar as mesmas roupas, mas eu


não quero as mesmas meias ou roupas íntimas”.

“Devo lavá-las?”

“Eu prefiro morrer.”

“Elas são suas, então eu não me importo se eles


estiverem sujas.”

“E-elas não estão sujas!”

“Pelo contrário, isso aumentaria o valor delas.”

“Pare com seus pensamentos pervertidos.”

Ela pegou a toalha em volta dos cabelos e jogou-a


nele. Ela bateu direto no rosto dele, visto que Sakuta
esquecera de se esquivar porque ficou atraído pela visão
do cabelo levemente molhado de Mai. No entanto, essa
foi a decisão correta, já que um perfume agradável
emanava da toalha, embora fosse provavelmente o do
xampu.

“Você não está usando elas agora, Mai-san?”

“Eu estou com uma toalha de banho.”

“Ohhh.”

250
“Não fique excitado imaginando coisas estranhas.”

“É uma ilusão, então está tudo bem.”

“Por que você é tão pervertido?”

“É irracional me dizer para não ficar excitado quando


estou em um hotel com a minha linda senpai.”

“Você está tentando dizer que é minha culpa?”

“Eu acho que uma estimativa moderada


definitivamente diria que foi sua culpa pela metade.”
Sakuta ficou de pé enquanto falava e checou sua carteira.
“Se você estiver okay com roupas íntimas de uma loja de
conveniência, eu comprarei algumas. Eu quero trocar a
minha também.”

“Você tem certeza?”

“Eu tenho o dinheiro.”

Ele mostrou a pequena quantidade em sua carteira


para Mai. Ele havia depositado seu salário antes de deixar
Fujisawa, então isso não era nada comparado aos
cinquenta mil ienes de antes, mas ele tinha o suficiente
para um par de roupas íntimas de quinhentos ienes.

“Não é isso que eu quero dizer… não é


constrangedor para um garoto comprar esse tipo de
coisa?”

“Hm? Ah, talvez seja, mas estou acostumado com


isso.”

251
“Acostumado?”

Mai olhou para ele com confusão, como se ela não


entendesse o que ele queria dizer.

“Comprar produtos de higiene para minha irmã mais


nova me acostumou a fazer isso. Agora posso aproveitar
as reações das funcionárias.”

Kaede se recusava a sair de casa, então Sakuta


também comprava roupas e roupas íntimas para ela.

“Que cliente mais incômodo.”

“Eu estou indo então.”

“Espere, eu também vou.”

Mai tirou a cabeça da abertura e fechou a porta,


trancando-a. Ou ela estava sendo excessivamente
cautelosa ou ela não confiava nele nem um pouco.

“Você pode simplesmente deixar isso para mim.”

“Tenho a sensação de que você escolheria algo


exagerado”.

“Embora eu esteja indo para uma loja de


conveniência.”

Eles só têm os modelos mais simples.

“Além disso, usar roupas íntimas que um garoto


escolheu é nojento.”

252
Talvez porque ela estava se vestindo em um
banheiro tão pequeno, suas palavras eram intercaladas
com sons de ‘ngh’, era muito erótico. Depois de um
tempo, os sons do banheiro mudaram para o de um
secador de cabelos.

No final, levou mais de dez minutos de espera antes


de Mai finalmente sair.

“Venha, vamos lá.”

“Ceerto”.

Sakuta e Mai evitaram a recepção e saíram pela


entrada dos fundos. Um estudante do ensino médio que
estivesse saindo por conta própria chamaria a atenção e
não haveria melhor maneira de fazer com que os olhares
desconfiados que lhe foram enviados no momento do
check-in diminuíssem. Era realmente útil que Mai estava
invisível nesse momento. Se eles fossem um casal, isso
levaria a mais especulação e poderia até envolver a
polícia. Bem, se ela fosse visível, eles não teriam vindo
tão longe assim de qualquer maneira…

Eles procuraram por toda a rua e viram o brilho de


uma placa verde sobre uma loja de conveniência a cerca
de cinquenta metros da estação. Naturalmente, os dois
caminharam nessa direção. Depois de terem caminhado
pela deserta calçada por um tempo, Mai murmurou.

“É meio estranho.”

253
Pela imagem de Mai, ela parecia estar se divertindo
enquanto olhava para a pacata rua e caminhava com as
mãos cruzadas atrás das costas.

“Hm?”

“Estar assim em uma cidade que eu não conheço.”

Mai estava andando fazendo ruídos intencionais com


seus saltos, como um soldado marchando.

“Você já não foi a muitos lugares para filmar?”

“Eu não fui a tais lugares, fui levada até eles.”

“Ah, eu sei o que você quer dizer.”

Ele já tinha ido muito mais longe em viagens


familiares. Em uma viagem no ensino fundamental, ele
tinha ido mais longe que isso para Kyoto, e na escola
primária ele tinha ido para Nikko. Ele já ido para muitos
lugares em viagens escolares, mas nunca se sentira como
se tivesse ido para tais locais por si mesmo. Como Mai
disse, ele tinha sido levado para tais locais.

Então Sakuta talvez estivesse gostando disso assim


como Mai, ele talvez tivesse uma sensação de alegria que
ele nunca havia sentido antes, desde o momento em que
ele havia embarcado no trem ao longo da linha Tokaido.
Ele não tinha escolhido um destino, mas apenas escolhido
um trem que foi longe o suficiente para procurar alguém
que pudesse enxergar Mai, alguém que pudesse se
lembrar dela…
254
Ele tinha vindo para cá por si mesmo e, é claro, não
poderia retornar por si mesmo. Essa tensão era
agradável.

Sakuta e Mai estavam em uma pequena aventura,


mesmo ignorando a Síndrome da Adolescência, era algo
incomum e foi a primeira vez que ele teve esse tipo de
diversão.

“Eu ficava em hotéis fora dos locais das filmagens.


Mesmo que fosse uma cidade que eu não conhecia, todos
me conheciam, então eu não queria sair.”

“Isso foi para se gabar?”

“Você sabe que isso não é verdade. Você está


apenas procurando por atenção?”

Os olhos de Mai sorriram ao ver através dele.

“Fui descoberto, huh.”

Mai riu pelo nariz e o chamou de mimado em sua


tentativa de esconder seu constrangimento.

“Mas a coisa mais estranha é andar por uma cidade


que eu não conheço com um garoto mais novo.”

“Eu não pensei que eu estaria andando em uma


cidade distante com Sakurajima Mai também.”

“É uma honra.”

“Eu nunca me esquecerei disso.”

255
Sakuta colocou isso em palavras com um claro
propósito. Não havia como evitar tal fato, na realidade Mai
estava desaparecendo das memórias das pessoas.

“…”

Mai não disse nada. Então Sakuta enfatizou


novamente.

“Eu definitivamente não vou esquecer.”

“…E se você esquecer?”

“Eu irei comer pocky pelo meu nariz.”

“Não brinque com a sua comida.”

“Foi você quem sugeriu isso.”

Mai não disse mais nada sobre isso, apenas sorriu.

“…Hey, Sakuta.”

“Sim?”

“…Você realmente não vai?”

“…”

“Você realmente não vai esquecer?”

Ela falou com Sakuta com um olhar hesitante, como


se estivesse testando ele.

“A imagem de você em uma roupa de coelhinha está


gravada na minha mente.”

Mai soltou um suspiro.

“Você ainda tem aquela roupa, não é?”


256
O tom dela estava completamente o repreendendo.
Era a verdade, então ele não se importava, mas…

“É claro.”

“Você provavelmente está a usando para coisas


estranhas.”

“Eu ainda não usei ela.”

“Quando voltarmos, livre-se dela.”

“Ehh.”

“Não diga ‘ehh’.”

“Você vai usá-la mais uma vez?”

“Por que você está me perguntando isso tão


seriamente?”

Mai olhou para ele completamente horrorizada.


Mesmo assim, ele não desistiu e continuou olhando para
ela.

“Como um agradecimento por hoje também… só


mais uma vez.” Com isso, com um pouco de vergonha, ela
cedeu. “Obrigado.”

“Lidar com os desejos de um garoto mais novo não


é nada.”

Traindo suas palavras, Mai desviou o olhar. Ele não


conseguia dizer devido ao escuro, mas ela provavelmente
estava corando.

257
“Bem, precisamos escolher a sua roupa íntima
primeiro.”

“Eu não vou deixar você as escolher.”

A discussão progrediu assim e os dois chegaram à


loja de conveniência.

O som de boas-vindas do recepcionista os


acompanhou ao entrar na loja. Não havia outros clientes
na loja e o outro funcionário estava organizando as
prateleiras de doces. Os itens que eles procuravam
estavam nas prateleiras perto da entrada. Ele pegou uma
cesta e ficou na frente delas com Mai.

Havia meias, camisetas, toalhas, meias-calças e, é


claro, as roupas íntimas e camisolas que eles estavam
procurando.

Ele não sabia já que nunca havia olhado tão


detalhadamente, mas eles tinham uma variedade mais
completa do que ele pensava, cada uma dessas roupas
estava dobrada em um saco de plástico para facilitar o
fato deles pegarem. No que diz respeito às roupas íntimas
femininas, havia calcinhas e camisolas, podendo escolher
entre os tamanhos pequeno ou médio, e as cores rosa ou
preto.

Sem hesitar, Mai pegou um par de calcinhas preta e,


igualmente, uma camisola preta e as colocou na cesta
antes de acrescentar um par de meias.

258
“Rosa ficaria ótimo.”

“Não é como se eu fosse mostrá-las a você, então


isso não importa.”

“Uwah, eu realmente quero ver.”

“Dizer coisas estúpidas fará de você um estúpido.”

Mai foi em direção à seção de bebidas enquanto


abafava um bocejo. Ser teimoso não mudaria nada, então
Sakuta colocou um par de cuecas junto com uma
camiseta e um par de meias na cesta para si e depois
seguiu Mai.

“Bem, o preto fica ótimo também.”

“Você disse alguma coisa?”

“Não.”

Eles voltaram para o hotel e, depois de se trocar,


encheram os estômagos com os sanduíches que
compraram. Eles tinham comido no caminho, mas isso
tinha sido há quatro horas, então eles estavam com fome.

Assim que terminaram a curta refeição, Sakuta


tomou um banho. A primeira coisa que ele disse quando
terminou foi:

“Devemos ir para casa logo pela manhã.”

Ela mostrou uma ligeira surpresa, mas pareceu


concordar e disse.

“Você deve estar preocupado com sua irmã.”

259
“Bem, eu estou, mas encontrei alguém. Alguém que
se lembra de você.”

“…Mesmo?”

“Meus amigos que frequentam a Escola Secundária


de Minegahara.”

“Quando você descobriu isso?”

“Eu liguei para eles enquanto você estava no


chuveiro.”

Ele apontou para o telefone no canto.

“Você não tem senso comum telefonando tão tarde,


você perderá seus amigos.”

“Eu me desculpei, então está tudo bem.”

“Tamanha autoconfiança.”

“Eu acho que eu os perdoaria pelo mesmo.”

“Isso seria bom… mas, compreendo. Ainda há outras


pessoas que se lembram de mim.”

“A causa pode estar na escola.”

Ele não tinha provas, mas não havia outras pistas,


então ele só poderia depositar suas esperanças nisso.

“Entendi. Vamos dormir então.”

“Ummm, onde eu deveria dormir?”

260
Ele perguntou a Mai, que havia assumido uma
posição na cama. Ele olhou para ela vestindo uma
camisola no lugar de pijamas.

“No chão, no banheiro? Eu acho que isso vai deixar


os funcionários do hotel com raiva, então fique com o
chão.” O olhar de Mai recaiu na cama de solteiro depois
de olhar fixamente para Sakuta. Depois de um momento
pensando, ela perguntou. “Você pode prometer não fazer
nada?”

“Eu prometo.”

Ele respondeu instantaneamente.

“Mentiroso.” Ela não confiava nele nem um pouco.


“Bem, fui eu quem te arrastou para um hotel.”

“Não diga isso como se você tivesse me enganado.”

“Eu vou deixar você dormir ao meu lado.”

“Mesmo?”

“Você queria dormir no corredor?”

“Eu quero dormir com você.”

Nesta situação, essas palavras soaram como se


tivessem um significado diferente.

“…”

E, na verdade, os olhos de Mai estavam


cautelosamente afiados.

261
“Eu quero dormir ao seu lado.”

Sakuta apressadamente se corrigiu.

“…Pode vir.”

Mai se moveu para ocupar apenas metade da cama


e Sakuta deitou-se no espaço. A cama estava quente
devido a Mai estar sentada há pouco tempo atrás.

“…”

“…”

Eles estavam silenciosamente tentando dormir.

“Hey, Sakuta.”

E então Mai falou.

“O que foi?”

“Está apertado.”

Claro que estava, ter duas pessoas em uma cama de


solteiro obviamente ficaria apertado e se mover faria com
que um acertasse ao outro.

“Você está me dizendo para sair?”

Ele virou a cabeça para o lado e seus olhos


encontraram os de Mai, que tinha virado da mesma
maneira. O rosto de Mai estava bem na frente dele e ele
sentiu como se pudesse contar os longos cílios dela na
fraca luz…

“Converse comigo.”

262
“Sobre o que?”

“Sobre algo divertido.”

“Isso é difícil. Você gosta de me incomodar?”

Ele ligeiramente mudou de assunto.

“Eu me pergunto.”

Mai falou sem uma alteração sequer em sua


expressão.

“Não é horrível agir desta maneira se não for


divertido?”

“Você não gosta que eu te provoque?”

“Você sabe disso e ainda me provoca, você


realmente tem a personalidade de uma rainha.”

“Eu estou apenas dando uma recompensa para você


e seu masoquismo.”

“Eu não acho que haja um homem que não gostaria


de ser provocado por uma senpai tão bonita.”

“Isso é um elogio?”

“É um grande elogio.”

“Hmmm.”

A conversa deles parou ali. Com os dois em silêncio,


o zumbido do ar-condicionado e o ventilador do banheiro
reinavam por todo o quarto. Não havia barulho de tráfego

263
do lado de fora, e nem mesmo um pio dos quartos
vizinhos.

Era apenas Sakuta e Mai.

Sakuta só podia sentir a presença dele e de Mai no


pequeno quarto de solteiro. Mai também não tirou olhar
para longe dele.

“…”

“…”

Um longo tempo passou com eles em silêncio. Eles


piscaram várias vezes, e a respiração longa de Mai pesou
nos ouvidos dele..

Sem aviso prévio, os lábios de Mai se moveram


lentamente.

“Hey, vamos nos beijar.”

264
Ele ficou surpreso, mas não se abalou.
“Mai-san, você está sexualmente frustrada?”

“Idiooota”. Mai não estava com raiva de Sakuta


depois de provocá-lo. Ela não estava perplexa ou
envergonhada, ela apenas sorriu se divertindo. “Estarei
dormindo agora, boa noite.”

Mai virou de costas para ele. Seus longos cabelos


fluíam e revelavam a nuca do pescoço dela. Pensando que
ele poderia acabar abraçando-a se continuasse olhando
para aquilo, Sakuta se virou e agora estava de costas para
Mai.

“Hey, Sakuta.”

“Você não estava dormindo?”

“Se eu começasse a tremer e chorar e dissesse ‘eu


não quero desaparecer’, o que você faria?”

“Eu te seguraria por trás e sussurraria ‘vai ficar tudo


bem’.”

“Eu definitivamente não vou fazer isso então.”

“Huh, não é bom o suficiente?”

“Você aproveitaria para apalpar meus seios.”

“E que tal o seu traseiro.”

“Isso está obviamente fora de questão.” Ela levou


isso na brincadeira e um pouco cansada. “…Eu não posso
desaparecer, decidi voltar ao show business.”

266
Sua continuação foi dita em um quase sussurro.

“Isso mesmo.”

“Eu queria participar em dramas e em filmes… eu


queria até estar no palco. Eu queria fazer um bom
trabalho com os diretores, co-atores e outros funcionários,
e me sentir viva.”

“E então ir para Hollywood.”

“Fu fu, isso seria incrível.”

“Talvez eu devesse pegar seu autógrafo agora.”

“Meu autógrafo já é muito valioso.”

“Ah, isso é verdade.”

“Realmente… eu não posso desaparecer.”

“…”

“Eu acabei de conhecer um insolente garoto mais


novo e comecei a gostar de ir à escola…”

“Eu não vou te esquecer.”

Sakuta falou suavemente, ainda de costas para ela.

“…”

Ela não respondeu.

“Eu absolutamente não vou esquecer de você.”

“Você tem essa certeza?”

Sakuta ignorou essa pergunta.

267
“Porque, você pode beijar a qualquer momento, não
precisa ser agora… você não precisa se apressar… não
precisa ser eu. Você irá para Hollywood facilmente, eu
acho, e será capaz de fazer qualquer coisa. Isso é o que
eu acho.”

“…” Ela ficou em silêncio por um tempo e depois


respondeu. “…É mesmo. Infelizmente, essa foi sua
primeira e última chance de ter o meu primeiro beijo.”

“Se você tivesse dito isso antes, eu teria feito isso.”

“Tarde demais.” Risadas vieram de Mai, mas elas


logo pararam. “…Obrigada. Obrigada por não desistir de
mim.”

“…”

Sakuta fingiu estar dormindo e não respondeu. Se


eles conversassem mais, ele talvez realmente acabaria a
abraçando.

Finalmente, ele ouviu a respiração suave de Mai


dormindo. Ele tentou dormir enquanto a sentia, mas
estando ao lado de Mai, não havia como ele conseguir
fazer isso.

⟡⟡⟡

No final, Sakuta não teve um pingo de sono e passou


as várias horas até o céu ficar iluminado ouvindo a
tranquila respiração de Mai. Claro, o clima tomou um

268
rumo estranho, mas mesmo quando ele arranjava
coragem para olhar nela, ela não mostrava nenhum sinal
de despertar, e pelo contrário, isso o fazia parecer uma
criança ficando animada por conta própria. Se concentrar
e pensar que era apenas ele ali sozinho fazia-o acalmar.

Isso deveria ter facilitado com que ele dormisse, mas


além de Mai dormir ao seu lado, o cansaço da longa
viagem fez suas articulações doerem e elas mantiveram
Sakuta acordado a noite toda. Enquanto o tempo passava
por ele dessa maneira, o outro lado das cortinas se
iluminou.

Quando a hora passou das seis e meia, Mai acordou


e eles se cumprimentaram. Então eles começaram a se
preparar para o check-out. Dito isto, eles estavam
praticamente de mãos vazias, então os preparativos de
Sakuta foram quase inexistentes.

Mai não terminou tão facilmente e disse que tomaria


um banho primeiro, gastando mais de trinta minutos.
Quando ele finalmente pensou que eles estavam prontos
para sair, ela disse que tinha outras coisas para fazer e o
forçou a sair do quarto, que injusto.

Para matar o tempo convenientemente, Sakuta foi à


mesma loja de ontem para comprar o café da manhã. Ele
teria que andar devagar…

269
Quando ele voltou, cada um deles comeu seu bolinho
de creme e, finalmente, fizeram o check-out quando o
relógio girou às oito horas.

Eles seguiram para a Estação de Ogaki, embarcaram


no trem e depois viajaram por centenas de quilômetros.
No entanto, ao contrário do dia anterior, eles usaram um
trem-bala de Nagoya, então Sakuta e Mai retornaram
rapidamente a Kanagawa e Fujisawa.

Ainda era de manhã quando eles chegaram em casa.


Este era o super expresso dos sonhos1, tinha sido super
rápido. Depois de retornar temporariamente para suas
próprias casas, eles se encontraram novamente em frente
aos prédios.

“Você parece tão desleixado.”

Disse Mai, que havia se trocado e chegado primeiro,


enquanto observava Sakuta abafar um bocejo.

“E você está tão linda como sempre.”

“Sua gravata está torta. Segure isso.”

Mai empurrou a bolsa para Sakuta e colocou as mãos


na gola dele, arrumando a gravata.

“Eu não tinha pensado que você agiria como recém-


casados tão rapidamente assim, Mai-san. Obrigado.”

“Deixe a estupidez apenas para você.”

Ela pegou a bolsa de volta e foi andando em frente.

270
“Ah, espere.”

Ele correu atrás dela, encostando ao seu lado. As


ruas deveriam ser familiares para ele, mas evocavam
uma leve sensação de nostalgia, e um sentimento como
se ele tivesse deixado a casa vazia por uma semana
habitava em seu peito.

E ainda assim eles apenas tinham saído no dia


anterior. Chegar atrasado para o encontro prometido
também tinha sido algo que ocorreu ontem, e isso já tinha
se tornado uma memória.

Enquanto ele pensava essas coisas:

“Phwaah.”

Ele soltou um bocejo. O dano de ficar acordado a


noite toda foi severo, e vir para cá tinha o deixado
sonolento de repente.

“O queee, não dormiu o suficiente?”

Mai olhou para os olhos de Sakuta, eles


provavelmente estavam vermelhos.

“E de quem você acha que é a culpa?”

“Você está tentando dizer que é minha culpa?”

“É porque você não me deixou dormir na noite


passada.”

“Isso não foi só porque você se excitou?”

“De qualquer maneira, eu estava tenso.”

271
Sakuta falou honestamente enquanto bocejava mais
uma vez.

“Você também tem seu próprio charme, Sakuta.”

“Você realmente não tem nenhuma preocupação no


mundo, você dormiu muito bem.”

“Quando eu era criança, eu ia a todos os lugares para


realizar filmagens, eu até dormi no vestiário. Além
disso…” Mai fez uma pausa e fez uma careta como uma
criança que acabara de pensar em uma travessura.
“Dormir ao seu lado não é nada.”

“Isso foi bom de ouvir, vou me certificar de fazer uma


pegadinha com você na próxima vez.”

“Você realmente não tem coragem de fazer nada


disso.”

Sakuta e Mai chegaram na escola durante o intervalo


do almoço. Era a hora em que quase todos os alunos
estavam relaxando depois de terminar suas refeições.
Eles podiam ouvir alguns dos alunos jogando nas quadras
de basquete do pátio. Esse sentimento cotidiano da
escola parecia um pouco estranho. Como voltar para a
escola depois das férias de primavera ou inverno. Eles
trocaram para os sapatos de uso interno no hall de
entrada e Mai disse.

“Eu vou olhar ao redor da escola.”

272
“Eu irei até a Futaba. Ah, Futaba é a amiga que se
lembra de você—”

“‘Futaba’, então ela é uma garota? Isso é uma


surpresa.”

Mai parou quando estava prestes a sair.

“Futaba é o sobrenome dela.”

No entanto, ela não estava errada sobre Futaba ser


uma garota…

“Entendo. Até mais tarde então.”

Sakuta inconscientemente a observou enquanto ela


saía pelo corredor. Ela passou por uma aluna segurando
um monte de anotações, pelo professor de geografia
segurando os slides da aula e por um grupo de garotas
conversando sobre um aluno mais velho no clube de
basquete.

Nenhum deles prestou atenção em Mai, nem sequer


olhou para ela. Sakuta não achou estranho, sempre foi
assim. Essa era a posição em que Mai havia sido colocada
dentro da escola.

Isso era o que o ostracismo parecia em seu extremo,


ia além de simplesmente fingirem não vê-la e era como
se ela tivesse se tornado parte da atmosfera. Essa
situação de ignorá-la era semelhante a alguma coisa.

273
Era a reação de pessoas que não podiam vê-la
mesmo sem pensar sobre isso. Essa mesma atitude tinha
sido o caso na Escola Secundária de Minegahara por um
longo tempo, desde antes de Sakuta ter chegado…

Mai passou entre as estudantes. A cena era


completamente idêntica àquela causada pela Síndrome
da Adolescência.

“…”

Havia apenas um fragmento de lógica nisso, mas ele


tinha a sensação de que havia uma conexão, uma
sensação de que ele vagamente estava olhando para a
causa.

Sakuta se sentia da mesma forma que Rio, que tinha


dito que a causa poderia estar dentro da escola.

“Azusagawa.”

Ele se virou até onde seu nome tinha sido chamado


e Rio estava de pé atrás dele, com as mãos nos bolsos do
jaleco de laboratório. Ela olhou para Sakuta e bocejou,
fazendo-o bocejar também.

“Tenho más notícias.” Com essas palavras


repentinas de Rio, Sakuta ficou tenso. “Todos, além de
mim, podem ter se esquecido da Sakurajima-senpai.”

“…!?”

274
Ele franziu a testa, isso certamente era uma má
notícia.

“Ao menos, o Kunimi não se lembra dela.”

“Mesmo?”

Rio não tinha motivos para mentir, esse não era o


tipo de brincadeira para ser feita nessa situação, e Sakuta
estava bem ciente de que Rio não tinha o tipo de
personalidade para fazer esse tipo de piada. Mas Sakuta
reflexivamente buscou por uma confirmação e queria que
isso fosse uma mentira.

“Quando eu disse o nome dela, Kunimi perguntou


quem era, eu não verifiquei com os outros alunos, mas…”

Nesse caso, Sakuta achou que eles deveriam


perguntar aos outros alunos. Ele olhou ao redor, mas a
necessidade disso logo desapareceu. Mai voltou correndo
para eles, ofegante e em pânico… sua expressão pálida
de medo. Depois que ela recuperou o fôlego, olhou
diretamente para Sakuta e perguntou:

“Você ainda pode me ver?”

“Sim, eu posso te ver perfeitamente.”

Ele respondeu com um profundo aceno de cabeça. A


tensão foi drenada do rosto de Mai.

“Ainda bem…”

275
Ela soltou um suspiro, escondendo seu alívio. Mas o
que ele deveria fazer? Por alguma razão, ela só era visível
para Sakuta e Rio, os outros estudantes provavelmente
tinham esquecido dela. Ontem, pelo menos, Sakuta, Rio,
Yuuma… e Koga Tomoe e suas amigas eram capazes de
ver Mai.

“É isso, a Koga Tomoe!”

Sakuta correu sozinho para as salas de aula dos


alunos do primeiro ano.

Ele olhou através de cada uma das salas de aula no


primeiro andar e Tomoe estava na quarta sala, classe 1-
4. Ela estava em uma mesa na janela com as amigas que
ele tinha visto ontem, comendo seus almoços.

No momento que a primeira delas o viu, todas as


quatro olharam para Sakuta.

“Aquele—”

Tomoe olhou para Sakuta e murmurou. Vendo isso,


Sakuta parou em frente à mesa da professora e falou para
elas.

“Vocês conhecem a Sakurajima Mai-senpai?”

As quatro, incluindo Tomoe, se entreolharam e


começaram a falar entre si.

“Sobre o que é isso, Tomoe, você sabe?”

“E-eu não.”

276
“Além disso, Sakura… Mai?”

“Quem é essa?”

Sakuta as interrompeu novamente.

“Vocês a viram ontem perto das catracas de acesso


ao Enoden na Estação Fujisawa.” As quatro se
entreolharam novamente e cada uma sacudiu a cabeça.
“Como vocês podem ter esquecido dela? É a Sakurajima-
senpai, a atriz, não é?”

Sakuta deu um passo à frente.

“Pense bem, ela está no terceiro ano e uma


verdadeira beldade… é quem ela é!”

Ele se aproximou ainda mais e a expressão de


Tomoe ficou tensa.

“Lembre!”

Ele colocou as mãos nos ombros dela.

“E-eu não sei!”

Assustada, lágrimas brotaram nos olhos de Tomoe.

“Por favor!”

“Ow.”

Ele notou a força de seu aperto.

“Sakuta, pare.”

Ele ouviu uma voz o contendo em sua orelha e Mai


pegou seus pulsos.

277
Lentamente, Sakuta tirou as mãos dos ombros de
Tomoe.

“Foi mal, me desculpe.”

“C-certo…”

“Eu realmente sinto muito. Com licença.”

Ele pediu desculpas mais uma vez e saiu da sala de


aula com os pés pesados.

“Azusagawa.”

Rio acenou com a mão, acenando para ele ao longo


do corredor de onde ela havia chegado depois.

“O que?”

Rio estava parada, então Sakuta não teve escolha


senão deixar Mai para trás e se aproximar.

“Eu tenho uma única ideia.”

Ela falou baixinho, de modo que só Sakuta podia


ouvi-la.

No entanto, ela fez uma pausa, como se não tivesse


certeza de como continuar.

“Me diga.”

“Diga, Azusagawa… você dormiu na noite passada?”

Essa foi a questão com a qual ela começou.

Depois da escola naquele dia, Sakuta voltou com Mai


até a Estação de Fujisawa antes de se separarem. Mesmo

278
em um momento como esse, Sakuta tinha um turno no
trabalho e não poderia faltar. Mai havia dito a ele para
cumprir o turno também.

Ele trabalhou até as nove com um olhar sonolento e,


a caminho de casa, entrou em uma loja de conveniência.
Ele caminhou ao redor da loja enquanto checava os
expositores. As bebidas energéticas que ele procurava
ficavam perto dos caixas, com coisas como geleias.

Havia bebidas que custavam duzentos ienes cada, e


aquelas que custavam o suficiente para uma tigela
grande de carne. Na verdade, ele até encontrou algumas
que custavam mais de dois mil ienes. O que diabos havia
de diferença entre elas e qual ele deveria escolher?

Por ora, ele pegou três bebidas, algumas pastilhas


de menta e alguns comprimidos para mantê-lo acordado.

Tudo custou um pouco menos de dois mil ienes.


Combinado com o custo da viagem de ida e volta para
Ogaki ontem e com a estadia no hotel de negócios, a
carteira dele estava ficando mais leve e praticamente não
restava mais nada.

Dito isto, esta não era a hora de ser mesquinho.

As palavras de Rio atravessaram sua mente.

“Diga, Azusagawa… você dormiu na noite passada?”

Sakuta tinha respondido ela com “Nem um pingo”.


Rio parecia então saber o que era.
279
“Eu também não.”

“…”

Sakuta não tinha entendido o significado e esperou


que ela continuasse.

“Não é nada mais do que uma simples conclusão,


mas eu não estava com a Sakurajima-senpai.”

“…Isso mesmo.”

“Você se lembra da conversa sobre a Teoria da


Observação?”

“Gato de Schrödinger, certo.”

“Eu sinceramente pensei que isso era ridículo…” Os


olhos de Rio tinham ido em direção a Mai naquele
momento, que tinha ficado esperando um pouco mais
distante. Rio não tinha certeza de qual expressão ela
tinha, ou qual ela deveria ter, e claramente tinha ficado
perplexa. “Experimentar isso pessoalmente é arrepiante.”

“Síndrome da Adolescência?”

“Não, antes mesmo disso acontecer, ela foi tratada


como a atmosfera dentro da escola.”

“Isso mesmo.”

“Eu fui com o fluxo também e aceitei a situação


como se ela fosse normal. Eu não tinha dúvidas quanto a
isso.”

280
“Pelo contrário, é porque não havia dúvidas que isso
aconteceu. Se as pessoas percebessem que o que faziam
estava errado, elas realmente não seriam capazes de
seguir em frente, não é?”

Ele não achava que houvesse muitos que pudessem


perceber que algo estava errado, não era legal, era
patético e tosco… e até mesmo erguer a cabeça e
proclamar ‘eu estou ignorando minha colega de classe’.
Algo estaria errado com eles.

A garota que agia como líder quando Kaede sofreu


bullying era assim, ela estava completamente perdida e
só dizia: ‘Eu fiz algo de errado?’

Para as circunstâncias com Mai, ela mesma


provavelmente também era a causa. Ela havia tentando
agir como a atmosfera em algumas ocasiões, e as pessoas
que a cercavam agiam de maneira a aceitar isso. Ela tinha
desejado desaparecer, se comportado como a atmosfera.
Atuado.

“Mas é por isso que parece provável que a causa seja


a atmosfera aqui.” Rio havia murmurado para si mesma,
lendo as entrelinhas da declaração de Sakuta. “Para a
Sakurajima-senpai, a escola é a caixa com o gato dentro.”

“…”

Ninguém a enxergava, ninguém tentava enxergá-la.


Porque ninguém estava a observando, a existência de Mai

281
se tornou indeterminada… então ela estava
desaparecendo. Não era que ela estava deixando de
existir, era que ela nunca tinha existido. Não ser
reconhecida por todos era o mesmo que não existir no
mundo…

Um calafrio percorreu por ele, uma compreensão


visceral das palavras de Rio.

Em essência, a causa estava na escola, na


consciência de todos os estudantes. Na subconsciente
apatia deles em relação a Mai. Ela não adentrou nos
corações deles, e Rio estava sugerindo que a Síndrome da
Adolescência poderia ter induzido esses sentimentos que
nem sequer poderiam ser chamados de sentimentos.

Como eles deveriam mudar seu subconsciente? Eles


nem perceberam que havia um problema, nem achavam
que o problema era um problema. Havia cerca de mil
desses alunos na Escola Secundária de Minegahara.

Havia uma maneira de transformar a apatia deles em


relação a Mai em simpatia?

“…”

Parecia que havia um vazio de escuridão diante dos


olhos dele.

Era a verdadeira causa do seu calafrio, a verdade por


trás da origem. Algo que Sakuta teria que derrotar, algo
que poderia ser chamado de seu inimigo. Não era uma

282
coisa visível, mas ela certamente existia, a ‘atmosfera’.
Aquela mesma ‘atmosfera’ que Sakuta tinha dito ser
ridículo lutar contra.

“Se a atmosfera na escola é a causa, então por que


a Mai é invisível mesmo para pessoas não relacionadas?”

“Ela pode ter sido removida da atmosfera da escola.”

Sakuta não tinha pensado que poderia negar essa


possibilidade quando a conheceu na Biblioteca de
Shonandai e quando ela havia ido ao Aquário em
Enoshima. Mai tinha agido como a atmosfera, e o próprio
Sakuta tinha achado que ela poderia ser a causa.

Mas agora, esse não era o caso.

Mai não queria mais desaparecer, ela havia


definitivamente declarado isso. Ela havia decidido
retornar ao show business, e apesar de ter sido uma
piada, ela havia perguntado a Sakuta:

“Se eu começasse a tremer e chorar e dissesse ‘eu


não quero desaparecer’, o que você faria?”

E dito a ele:

“Eu acabei de conhecer um insolente garoto mais


novo e comecei a gostar de ir à escola…”

Esses eram, sem dúvida, os verdadeiros sentimentos


de Mai.

283
“Mesmo assim, a atmosfera se espalha facilmente.”
Rio disse desinteressadamente. “Vivemos em uma era em
que as pessoas simplesmente leem a atmosfera como
elas querem, e as informações podem cruzar o mundo em
um instante, é como as coisas são convenientes hoje em
dia”.

Ele tinha ido refutá-la, tendo muitos pensamentos


sobre como fazer isso. Até mesmo Rio teve que perceber
que sua explicação estava cheia de buracos. Mesmo
assim, ele poderia concordar que havia áreas onde as
coisas eram realmente assim. Esta era… uma
conveniente era e, ao mesmo tempo, uma
desagradável…

“…”

E assim ele não tinha sido capaz de responder. Em


primeiro lugar, Sakuta não tinha visto sentido em discutir
sobre a causa do fenômeno se espalhando, tudo o que
importava para ele era a realidade diante de si.

“Voltando ao ponto…” Rio tinha assistido o silêncio


dele e cuidadosamente adicionou sua explicação final.
“Se a consciência e a observação são a chave, posso de
certa forma aceitar a mudança que ocorre quando as
pessoas estão inconscientes e adormecidas.”

Quando isso acontecia, as pessoas podiam ver,


pensar. Mas quando eles estavam dormindo, eles não

284
conseguiam permanecer conscientes de algo, você
poderia até dizer que o poder cognitivo deles caía. Como
resultado, eles aceitaram a mudança de Mai para a
atmosfera enquanto a consciência deles parava.

“…”

Ele se lembrou da noite passada e seu interior


congelou. Porque se ele tivesse dormido, ele poderia não
se lembrar mais de Mai nesse momento…

Ele mastigou a pastilha para se manter acordado


enquanto voltava para casa e bebeu a primeira bebida
energética de sua vida. Ela possuía uma doçura estranha,
bem diferente de suco, e tinha uma ligeira acidez em seu
sabor.

Não era de forma alguma desagradável e era fácil de


beber, mas ele não gostava do sabor quando o clima era
levado em conta.

Ele não estava esperando muito efeito, mas seu


corpo estava claramente energizado, e ele estava bem
acordado com sua mente clara.

“Onii-chan, o que você bebeu?” Kaede inclinou a


cabeça para ele quando viu a garrafa na cozinha. Eram
quase onze horas, e Kaede normalmente estaria
dormindo, então ela estava com bastante sono. Os olhos
dela estavam caídos, mas ela não fez um movimento em
direção ao seu quarto, provavelmente porque ela ainda

285
tinha em sua mente a memória dele saindo ontem. Ela
então acrescentou. “Eu não dormirei até você compensar
ontem.”

E então ele conversou com Kaede por um tempo,


principalmente sobre os livros que ela havia lido
recentemente.

No começo, ela realmente havia dito que não iria


dormir até de manhã, mas ela se enrolou no sofá com
Nasuno dentro de uma hora.

Ele a pegou nos braços e levou-a para o quarto dela.


Inúmeros livros estavam reunidos dentro e havia pilhas de
livros perto de seus pés que não cabiam nas estantes de
livros. Tomando cuidado com onde ele colocava os pés,
Sakuta se aproximou da cama dela e a deitou sobre.

“Boa noite.”

Ele colocou um cobertor sobre ela e apagou a luz


antes de fechar silenciosamente a porta atrás dele.

Sakuta jogou vários comprimidos de hortelã em sua


boca e depois voltou para seu próprio quarto. Eles
esfriaram sua boca e o nariz.

Enquanto ele ainda pensava claramente, havia algo


que ele tinha que fazer. Ele sentou na frente de sua mesa
e abriu um caderno. Ele não ia estudar nem nada. Ele teria
exames a partir de amanhã, então ele deveria, mas suas

286
notas eram medianas. Ele tinha que se preparar para o
pior.

Ele coçou a cabeça com o lápis e começou a


escrever.

Escrevendo suas memórias das últimas três


semanas, os dias desde que ele tinha conhecido Mai…

Ele continuou escrevendo a noite inteira.

6 de Maio

Eu conheci uma coelhinha selvagem. A identidade


dela era minha senpai em seu terceiro ano na Escola
Secundária de Minegahara, a famosa Sakurajima Mai.

Este foi o começo disso, nosso encontro. Eu não


posso esquecer isso.

Mesmo se você esquecer, lembre-se, resista, futuro


eu.

⟡⟡⟡

O primeiro dia do período de três dias de exames foi


um momento horrível para Sakuta.

Além de não ter estudado nada na noite anterior, ele


não tinha dormido por dois dias e sua concentração era
quase inexistente. Mesmo quando ele tentava pensar,
seus pensamentos paravam quando ele estava lendo as
questões e sua mente dava um branco. Ele apenas olhou
para o papel do exame, aceitando-o.
287
Após o teste, ele olhou na sala de aula seguinte em
busca de Rio. Ela estava vestindo seu jaleco mesmo na
sala de aula, então ela era facilmente identificável.

Ela também o notou, recolheu suas coisas e saiu


para o corredor.

“Você se lembra?”

Sakuta perguntou nervosamente.

“Huh? O que você quer dizer?”

Rio olhou intrigado para ele.

“Ah, não importa.”

“Certo, eu estou indo para o laboratório.”

“Até mais tarde.” Ele levantou a mão acenando


quando ela saiu. Rio saiu enquanto agitava a manga de
seu jaleco. Não adiantava esperar que ela de repente se
virasse e dissesse que estava brincando, ela continuou
andando e desapareceu pelas escadas. “Então, sua teoria
estava correta.”

A própria Rio ter esquecido de Mai era prova disso.


Agora, Sakuta era o único que restava. O único que
poderia lembrar de Mai, ouvi-la ou vê-la.

“Wheew, isso está me deixando animado.”

Contra essa adversidade, Sakuta só podia se forçar


a sentir seu desejo de resistir.

288
O dia seguinte era vinte e oito de Maio, o segundo
dia dos exames, e não foi melhor.

Ele estava sonolento, muito sonolento. Cada vez que


ele piscava, ele podia sentir um chamado para dormir. Ele
só queria fechar os olhos.

Ele não tinha dormido desde o Domingo. Hoje era


Quarta-Feira, o quarto dia sem dormir. Ele já estava muito
além de seu limite.

Ele se sentia enjoado, já tinha na verdade vomitado


duas vezes e estava preocupado com o que aconteceria
da próxima vez.

Sua condição estava horrível. Seu pulso estava


irregular e acelerado em seus ouvidos. Por estas razões,
ele estava pálido, e Yuuma havia o chamado de zumbi no
trem naquela manhã com uma expressão séria e
preocupada.

Sua única graça salvadora era que ele não tinha


turnos de trabalho durante os exames. Trabalhar nessa
condição seria demais.

Suas pálpebras estavam pesadas e seus olhos não


se abriam. A luz do sol era cansativa e beliscar suas coxas
estava começando a não acordá-lo, o estímulo não o
alcançava, a menos que fosse algo como espetar com o
próprio lápis.

“Você parece cansado.”

289
Mai disse a ele no caminho de volta.

Mesmo que apenas Sakuta conseguia enxergá-la, ela


vinha para a escola todos os dias. Ela tinha dito que não
havia mais nada a ser feito, mas ele não achava que ela
estivesse tão calma assim. Ele tinha certeza de que ela
ficaria desconfortável ao ficar sozinha em sua casa o dia
todo, e estaria esperando que, se ela fosse para a escola
naquele dia, talvez tudo voltasse ao normal.

“Eu sou sempre assim durante os testes. Eu só estou


estudando.”

“Isso só acontece com você porque você não


estuda.”

“Não diga isso como uma professora.”

“Já que insiste…”

“Hm?”

“Eu vou ajudar você a estudar.”

“Se você estiver no meu quarto comigo, só irei


conseguir pensar em coisas pervertidas, então melhor
não.”

“…” Mai parecia honestamente surpresa, como se


ela não esperasse que ele recusasse. “C-certo… tudo bem
então.”

“Vejo você amanhã então.”

Eles se separaram na frente de seus apartamentos.

290
Ele entrou no elevador e deu um suspiro de alívio.
Ele não podia deixá-la saber que ele não estava dormindo,
e se ele dissesse, ela diria que ela não podia continuar
sem dormir. Ele não queria preocupá-la e não queria que
ela se sentisse responsável por algo que ele próprio
decidira fazer.

Depois que ele voltou para casa, ele abriu um livro


de física na sala de estar. Ele havia pegado emprestado
de Rio no dia em que voltou de Ogaki, na esperança de
encontrar uma dica para alguma solução.

Este era uma introdução destinada a desmembrar a


teoria quântica. Mas mesmo isso era difícil e não entrava
na cabeça dele. Ele estava ignorando os estudos para os
exames do meio do semestre e lendo isso, mas suas mãos
estavam pesadas enquanto ele virava as páginas.

O livro de física não funcionava com suas pálpebras


sonolentas, que agiam como uma forte pílula para dormir.
Ele gritou para conectar sua consciência, que estava
desaparecendo, ao seu desejo, e de alguma forma seguiu
as notas explicativas.

Ele queria salvar Mai. Isso era tudo que o sustentava.

Depois de cerca de uma hora, o estômago de Kaede


roncou, visto que ela havia se sentado na sala de estar
com ele, lendo também. Sakuta se levantou

291
silenciosamente, começou a preparar a comida e depois
comeu com Kaede.

“Onii-chan, você parece pálido, você está bem?”

Kaede disse algo do outro lado da mesa, e embora


ele olhasse naquela direção, Sakuta esqueceu de
responder.

“…”

“Onii-chan?”

“Ahh, hmm?”

Seus pensamentos pararam devido a fadiga.

“Você está bem?”

“Meus testes estão acontecendo no momento.”

Ele não estava confiante de que isso funcionaria


como uma desculpa.

“Não se esforce demais.”

“Sim, eu não irei.”

Embora tivesse dito isso, se esforçando ou não,


Sakuta não poderia dormir.

Se ele dormisse, ele se esqueceria de Mai.

Esta não era uma certeza, mas era uma grande


probabilidade.

Por causa disso, Sakuta não podia dormir.

“Obrigado pela comida.”

292
“Obrigada pela refeição.”

Depois que ele e Kaede terminaram a refeição,


Sakuta foi dar uma caminhada até a loja de conveniência.
Ficar sentado depois da refeição era perigoso e ele se
sentia sonolento mesmo quando estava de pé. Ele estava
no ponto de adormecer em pé no trem até a escola
enquanto segurava nas alças. Na vez que ele havia
desmaiado, seu joelho se dobrara e, graças à colisão com
o homem de terno, ele acabara despertando, tinha sido
realmente perigoso.

Ele comprou bebidas energéticas, aquelas caras que


tinham o mesmo preço que uma tigela de carne.
Provavelmente porque ele as estava bebendo
continuamente, a eficácia das mesmas havia começado a
diminuir. Elas tinham um efeito enorme, mas depois de
duas ou três horas, a sonolência assaltou-o. Mesmo assim,
era muito melhor do que não beber.

Ele saiu da loja enquanto colocava a carteira no bolso


de trás.

O vento acariciou sua bochecha e Sakuta ficou


travado ali em apuros.

Alguém estava na frente dele. Ele sentiu um arrepio


de seu corpo traindo-o, que gradualmente se transformou
em um suor desconfortável.

“O que você comprou?”

293
Mai estava lá com suas roupas casuais olhando de
maneira assustadora para ele.

Ele freneticamente procurou através de sua mente


travada por uma desculpa, mas não conseguia pensar em
nada, sua sonolência tinha roubado suas capacidades.

“Ahh, hum …”

Mai pegou a sacola dele e conferiu o interior.

“Eu estava certa, você não está dormindo.”

Ela foi direto ao ponto.

“…”

Aparentemente, Sakuta estava errado sobre não ter


sido descoberto. Sua condição atual era visível com um
simples olhar, tanto Yuuma quanto Kaede haviam
apontado isso. Teria sido estranho para Mai não ter
notado.

“Você achou que poderia esconder isso?”

“Eu esperava que pudesse.”

“Idiota, você não pode simplesmente continuar


assim.”

“Eu não conseguia pensar em mais nada.”

Ele disse como uma criança mal-humorada.

Ele sabia muito bem que ele não seria capaz de


continuar com isso. Os humanos não podiam viver sem

294
dormir e, mesmo que não fosse o caso, isso não resolveria
nada. Mesmo que ele soubesse que isso não fazia sentido,
Sakuta não tinha escolha senão continuar com essa falta
de sentido. Ele ainda não tinha encontrado nada para
resolver o fenômeno incompreensível que estava
atormentando Mai. Ele nem sequer sabia se havia uma
solução. Mas ele ainda tinha que procurar por uma e ele
não poderia dormir até que tivesse a encontrado. Mesmo
que ele não conseguisse encontrar uma, ele não tinha
intenção de desistir e ir dormir.

Ele queria continuar se lembrando de Mai, mesmo


que fosse só por mais um dia. Ele queria estar com ela,
mesmo que fosse só mais um minuto. Ele queria reduzir a
quantidade de tempo que ela estava sozinha, mesmo que
fosse apenas mais um segundo. Isso era tudo que seu
cérebro exausto conseguia pensar.

“Você está tão pálido, você é realmente um idiota.”

“Eu também pensei o mesmo, desta vez.”

“Vamos lá, vamos para casa.”

Ela empurrou a sacola de volta para ele e foi em


direção a sua casa. Sem pensar, Sakuta a seguiu.

Já passava das oito da noite quando ele voltou para


casa. Kaede provavelmente estava no banho, já que ele
conseguia ouvir um canto alegre do outro lado da porta.

295
Ela estava cantando um jingle de uma loja de eletrônicos.
Era uma música curta, então ela cantava repetidamente.

Ele foi em direção ao seu quarto, mas parou na porta.

Bem no meio do seu quarto estava Mai, sentada em


uma almofada e preparando uma mesa dobrável.

“Se você entrar no quarto de um garoto a esta hora


da noite, é o mesmo que dizer que você está tudo bem
com qualquer coisa que aconteça, certo?”

“Oito horas é um horário seguro.”

“Mesmo assim, por que você está aqui, Mai-san.”

“Eu ficarei com você.”

“Hurray, uma confissão de amor.”

“Não é. Você deveria saber, eu não vou deixar você


dormir esta noite.”

“Droga, estou ficando excitado.”

“Se parecer que você vai cair no sono, eu lhe darei


um tapa para acordar.”

“Uwah, parece que esta será uma noite difícil.”

Mai parecia estar se divertindo de alguma forma.


Quantas vezes ela pretendia dar um tapa nele? Ele
esperava que ela não tivesse um fetiche estranho, mas…

“Vamos lá, sente-se.”

296
Mai deu um tapinha no tapete. Por ora, ele se moveu
para lá.

“Seu livro e caderno?”

“O que tem eles?”

“Você irá estudar para seus exames do meio do


semestre até amanhã. Eu irei observar você.”

“Ehh, tudo bem.” Estudar não o ajudaria neste


momento, apenas o deixaria mais cansado. “Além disso,
você é boa em estudar?”

“Eu não fui para a escola no início do primeiro ano


por causa do trabalho, mas desde o segundo ano, não há
um número menor do que oito no meu boletim escolar.”

A Escola Secundária de Minegahara tinha um


sistema de pontuação de dez pontos, um sendo o mais
baixo e dez o mais alto, de modo que nunca ter ganhado
menos que um oito fazia dela uma excelente estudante.

“Você é mais nerd do que eu pensava.”

“Eu apenas estudo no meu tempo livre.”

“Você normalmente se divertiria nesse tempo livre.”

“Isso já é o bastante, estude. Eu não sou tudo para


você.”

“Você é no momento.”

Se não, ele não estaria seguindo com essa


imprudente estratégia de privação de sono.

297
“Mesmo que as coisas sejam resolvidas, se você
continuar assim, você terá apenas uma folha de respostas
em branco à sua frente.”

“Estou com sono, então pare de ser lógica.”

“É o bastante. Estude.”

“Eu não tenho motivação.”

“Embora eu esteja atuando como professora em uma


visita domiciliar?”

“Se você estivesse em sua roupa de coelhinha, eu


poderia estar motivado.”

“E alguém faria isso por você, Sakuta?”

“Eu apenas diria isso para você.”

“Isso não me faz feliz de maneira alguma.” Sakuta


bocejou e esfregou os olhos com força suficiente para
fazê-los lacrimejar. “Além disso, se eu estivesse usando
aquela roupa de coelhinha, você só pensaria em coisas
pervertidas e não estudaria nada.”

“Bem, eu tentei.”

Sua cabeça mal estava funcionando e ele estava


apenas dizendo o que vinha à cabeça.

“Bem, já sei… Se você obtiver nota máxima no teste,


eu lhe darei uma recompensa.”

Seu corpo se inclinou levemente para a sedutora


oferta de Mai.

298
“Posso pedir qualquer coisa a você?”

“Certo certo, eu farei.”

Mai concordou com facilidade, pensando que isso era


sem sentido de qualquer maneira.

“Amanhã é Matemática II e Japonês, huh.” Ele


verificou seu calendário e acordou um pouco. “Eu talvez
seja capaz de obter nota máxima em matemática.”

“Eh? Você é bom nisso?”

Mai disse chocada.

“Eu normalmente vou muito bem em ciências.”

Foi por isso que ele sacrificaria Japonês e apostaria


tudo em Matemática II. Japonês possuía algumas
perguntas ligeiramente vagas de qualquer maneira, por
isso era difícil conseguir nota máxima. Já ao contrário,
matemática tinha uma resposta definitiva e, desde que
ele escrevesse o processo corretamente, ele deveria ser
capaz de evitar perder pontos pequenos.

Ele imediatamente abriu o livro de Matemática II.


Mas ele foi roubado por Mai.

“Por que você está me impedindo de estudar,


mesmo que você tenha me dito para fazer isso?”

“Embora eu tenha dito que faria qualquer coisa, eu


não quis dizer qualquer coisa.”

Ela fez beicinho, inquieta.

299
“Eu não irei tão longe assim”, ele insistiu

“Mesmo?”

“Vou me contentar com um ‘tome banho comigo’.”

“Isso está fora de questão.”

“Ehh.”

“C-claro que está!”

“Mesmo com trajes de banho?”

“Que tipo de maníaco você é, pensando em trajes de


banho no chuveiro?”

Ela olhou para ele com desprezo, cutucando-o. Isso


em si foi um bom estímulo.

“Então eu vou usar suas coxas como travesseiro


enquanto você usa sua roupa de coelhinha.”

“O que você está sugerindo como se isso estivesse


tudo bem?”

Ele tinha sido bastante sério desta vez, mas Mai não
faria isso.

“Que tal termos aquele encontro em Kamakura que


não pudemos antes?”

Talvez por causa da súbita sugestão madura, Mai


ficou chocada por um momento.

“Tudo bem… mas você tem certeza?”

“Eu posso pedir algo mais extremo?”

300
“Eu não disse isso.”

Os dedos de Mai pareciam que iriam acariciar a


bochecha dele, mas ela o beliscou com força.

“Ahh, não me acorde~”

“Honestamente, você é atrevido demais para sua


idade.”

E assim, eles passaram quase duas horas estudando


juntos.

No entanto, estudar Matemática II foi rejeitado e eles


ficaram estudando Japonês…

“Escreva as derivações corretas do radical ‘garant’


para as seguintes frases: ‘Não há ninguém que será o
_________ do futuro de Sakuta’ e ‘Não há como _________
que Sakuta viverá até a velhice’.”

“Sensei, acho que as questões estão zombando de


mim.”

“Apenas escreva-as.”

Mai bateu no caderno dele.

Por ora, ele escreveu ‘garantidor’ e ‘garantir’.

“Qual delas seria usada em ‘Não há ninguém que


será o _________ do futuro de Sakuta’?”

“É…”

301
Ele não conseguia distingui-las, então ele moveu o
dedo em direção à garantir e deu uma olhada na reação
dela. Ele tinha esperanças em determinar qual estava
correta a partir da expressão de Mai.

No entanto, ela tinha visto através disso. Seus olhos


se encontraram e ela sorriu muito gentilmente. Era um
sorriso de lado a lado, bem de frente a ele, então era
ainda mais assustador.

“Podemos tentar então ‘Eu não posso _________ a


segurança de Sakuta se ele trapacear’.”

“Me desculpe, por favor, dê uma dica.”

“Aquele com ‘or’ tem o sentido de assumir


responsabilidade, e aquele com ‘ir’ tem o sentido de
proteção.”

“Então seria ‘eu serei o garantidor da felicidade de


Mai-san’ e ‘Há como garantir que nossa vida juntos será
gratificante’?”

“Não mude a questão arbitrariamente.”

“Elas não eram fofas.”

Aparentemente ele estava correto. Se a mesma


pergunta surgisse, ele seria capaz de respondê-la,
provavelmente. Ele se lembraria disso, junto com a
expressão mal-humorada de Mai. Depois disso, Mai
continuou fazendo perguntas semelhantes, e Sakuta
conseguiu estudar as derivações como se fosse um jogo.
302
Dito isso, a concentração dele tinha seus limites e foi
quando eles estavam perto de completar a primeira etapa
de estudar as derivações que Sakuta se levantou e disse.

“Eu vou fazer uma bebida. Café está bom para você?
Embora seja instantâneo.”

“Sim.”

Mai estava folheando um livro de exercícios,


procurando a próxima pergunta para fazer a ele.

Sakuta saiu do quarto e colocou a chaleira para


ferver. Enquanto ele estava esperando, ele verificou sua
irmã, a luz do quarto dela já estava apagada, então ela
provavelmente estava dormindo.

Ele pegou duas canecas com café instantâneo e


colocou uma na frente de Mai antes de perguntar a ela.

“Leite ou açúcar?” Sakuta tinha esquecido


completamente que ele iria tomar café preto para se
manter acordado. “Eu vou buscá-los.”

Ele saiu do quarto novamente e pegou alguns


pedaços de açúcar, leite e uma colher.

Quando ele voltou, Mai ainda estava olhando através


do livro de exercícios.

“Aqui está, Mai-san.”

“Obrigada.”

303
Mai pôs o leite e o açúcar na caneca e mexeu
lentamente com a colher. Sakuta tomou um gole de café
enquanto desfrutava das ações delicadas dela. O líquido
preto e amargo se instalou em seu estômago, onde o calor
daquele o relaxou.

“Como está a sua irmã?”

“Ela já está dormindo.”

Ela tinha olhado no quarto dele cerca de uma hora


atrás, mas ao vê-lo estudando, ela apenas o deixou com
um “dê o seu melhor”.

“Você é filha única, Mai-san?”

Ele tinha essa impressão.

“Eu tenho uma irmã mais nova.”

Mai usou as duas mãos para levar a caneca à boca.

“Ah, você tem?”

“Minha mãe se divorciou do meu pai… e ela é do


segundo casamento dele.”

“Ela é fofa?”

“Não tão fofa quanto eu.”

Mai respondeu instantaneamente, como se fosse


adulta.

“Uwah, quão madura.”

304
Enquanto eles conversavam, a mente dele ficou
confusa. Ele se sentiu tonto e suas pálpebras caíram.

“Você gosta do tipo de garota que elogia a fofura de


outras garotas, embora ela mesma seja fofa?”

“Eu odeio esse tipo.”

“Mesmo?”

“Mas, sua própria irmã é…”

Ele não tinha conscientemente parado, mas suas


palavras travaram antes de ele terminar.

Os sentidos gradualmente deixaram seu corpo. Ele


não conseguia parar isso, mesmo em pânico.

Ele agarrou a borda da mesa para se sustentar.

Seus olhos já estavam meio fechados.

“Estou contente, elas estão funcionando.”

Ele olhou para cima e a expressão conflituosa de Mai


entrou em seu estreito campo de visão. Ela estava
olhando gentilmente para ele, mas definitivamente havia
desconforto no olhar dela e seus olhos estavam cheios de
lágrimas.

“Mai-san… o que você…”

Os dedos delicados de Mai agarraram alguma coisa.

Era uma pequena garrafa, com ‘pílulas para dormir’


escrito no rótulo.

305
“Por quê…?”

Ele não conseguia levantar a voz.

“Você se esforçou tanto, Sakuta.”

“Eu ainda consigo…”

Ele perdeu a força para ficar em pé.

“Você se esforçou tanto por mim.”

“…Não.”

“Então, isso é o suficiente, é o suficiente.”

Mai estendeu a mão e gentilmente acariciou a


bochecha dele. Era uma sensação quente e agradável.
Isso fez cócegas e fez seu corpo tremer. Mas mesmo essa
sensação deixou seu corpo.

“Não… é…”

Ele nem percebeu que estava falando.

“Eu sempre estive sozinha, então está tudo bem.


Não importa se você me esquecer.”

A figura de Mai estava desaparecendo. Mesmo


agora, a mão dela estava em sua bochecha, seu dedo
indicador acariciando lentamente sob sua orelha.

“Mas obrigada por tudo.”

Ele não tinha feito nada digno de agradecimento.

“E, eu sinto muito.”

Ela não tinha feito nada para se desculpar.

306
“Descanse bem…”

Guiado pela voz gentil, Sakuta finalmente fechou os


olhos e caiu em um sono confortável.

“Boa noite, Sakuta.”

Ele dormiu, profundamente, profundamente…

Está bem.

Pode ter sido doloroso e triste…

Mas de manhã você terá esquecido tudo isso e eu.

Não se preocupe com nada, apenas descanse.

Essas três semanas foram muito divertidas.

Adeus, Sakuta.

307
↑ [1] super expresso dos sonhos: é uma expressão
utilizada para os Shinkansen, os trens-bala japoneses.

308
O corpo dele estava sacudindo.

Alguém o estava sacudindo para frente e para trás.

“…chan.”

Ele ouviu uma voz distante.

“…manhã.”

Ela gradualmente se aproximou.

“…Onii-chan.”

Era uma voz familiar.

“Onii-chan, é de manhã.”

Uma luz branca brilhou através do mundo


totalmente escuro.

“…Ngh?”

Sakuta lentamente abriu os olhos quando sua


consciência retornou. Seu olhar sonolento encontrou o
rosto de Kaede, ela estava debruçada sobre a cama. A luz
que entrava pela fenda nas cortinas parcialmente abertas
machucava os olhos dele.

“Você tem exames hoje, certo? Você vai se atrasar.”

Kaede o sacudiu novamente.

“Ah, sim, isso mesmo, eu tenho os exames—phwaa.”

Sakuta sentou-se enquanto bocejava. Seu corpo


inteiro estava pesado, como se ele tivesse contraído um
resfriado. Ele estava com um pouco de febre mas, em vez

311
de dizer que não se sentia bem, ele estava apenas muito
cansado… ele tinha a sensação de que era assim que ele
explicaria.

Destruindo a sua vontade de voltar a dormir, Sakuta


lutou contra seu cansaço e se levantou da cama. Ele não
poderia se atrasar para a chamada quando tinha exames
de meio de semestre. Fazer os exames suplementares
seria problemático demais.

O relógio mostrava que era vinte para as oito. Para


chegar à escola, primeiro havia uma caminhada de quase
dez minutos até a Estação de Fujisawa, depois uns quinze
minutos sendo balançado pelo trem. Levaria cerca de
cinco minutos para descer do trem na Estação de
Shichirigahama e chegar à sala de aula. Trinta minutos
tudo somado.

Se ele não saísse de casa às oito horas, ele estaria


em apuros. Ele não tinha muito tempo.

“Você é uma heroína Kaede, obrigado por me


acordar.”

“Te acordar é o meu motivo para existir.”

Ela sorriu de maneira fofa, mas ele não podia


honestamente elogiar isso.

“Você deveria encontrar algumas outras maneiras


de aproveitar a vida.”

“Como lavar as suas costas?”


312
“Isto é, que não me envolvam.”

“De jeito nenhum.”

Ela rejeitou com uma expressão séria.

“Estou preocupado com o seu futuro, como seu


irmão mais velho.”

Enquanto ele falava, ele abriu o guarda-roupa para


trocar de roupa. Ele tirou a camisa da escola do cabide e,
naquele momento, sua mão escorregou e a camisa caiu
sobre uma sacola embaixo dela.

“O que tem aqui?”

Ele olhou para a sacola enquanto pegava a camisa.


Kaede observava do lado e ambos os olhares captaram
uma certa coisa ao mesmo tempo.

“…”

“…”

Um pequeno silêncio preencheu o quarto.

“Onii-chan, o-o que é isso?”

Kaede apontou para a sacola e falou com uma voz


trêmula.

Sakuta queria perguntar isso também. Havia um


collant preto com um pompom branco na parte de trás.
Similarmente, havia meias-calças e sapatos de salto alto
na cor preta, e até uma gravata borboleta. Havia pulseiras

313
brancas e, acima de tudo, um simbólico par de orelhas de
coelho em uma tiara de cabelo caiu da sacola.

Não importava como eles olhassem para isso, era


uma roupa de coelhinha.

“Talvez eu fosse fazer você usar isso.”

Essa era a única possibilidade.

“Eh?”

Por ora ele colocou a tiara de cabelo na cabeça dela


enquanto ela estava paralisada de surpresa.

“Sim, nada mal.”

“E-eu não vou usar isso! Ainda é muito cedo para eu


usar esse tipo de roupa sexy!”

Kaede percebeu o perigo e saiu correndo do quarto.

Ele particularmente não queria perseguir sua irmã e


fazê-la odiá-lo logo de manhã, então ele devolveu a roupa
para a sacola e a colocou de volta no guarda-roupa.

“Eu estou estressado demais?”

Ele colocou os braços através das mangas da camisa


e abotoou-a. Depois vestiu a calça do uniforme e deu um
nó na gravata. Ela estava um pouco torta.

“…”

314
Ele sempre ignorava isso e partia para a escola. No
entanto, por alguma razão, isso estava incomodando-o
hoje, então ele refez o nó, desta vez reto.

Antes de vestir o blazer, ele jogou seus livros em sua


mochila. Um caderno na mesa chamou sua atenção, e
Sakuta o pegou.

“O que é isso?”

Ele folheou as páginas e viu uma frase


cuidadosamente escrita.

Ele tinha achado que era seu caderno de Japonês,


mas, olhando com cuidado, ele percebeu que estava
errado.

Havia instruções no topo e o resto foi escrito como


uma espécie de diário.

Honestamente, acho que o que está escrito aqui será


inacreditável, mas é tudo verdadeiro, leia até o fim. Até o
fim!

6 de Maio

Eu conheci uma coelhinha selvagem. A identidade


dela era minha senpai em seu terceiro ano na Escola
Secundária de Minegahara, a famosa _______.

Este foi o começo disso, nosso encontro. Eu não


posso esquecer isso.

315
Mesmo se você esquecer, lembre-se, resista, futuro
eu.

Ele não sabia como reagir a isso.

“Isso é algo do meu passado sombrio?”

Uma adolescência emocional acabaria provocando


diversos delírios malucos. Ele não se lembrava por que
havia escrito isso, mas a caligrafia era definitivamente
dele e não havia dúvida de que os caracteres eram dele.
Então, Sakuta certamente escreveu isso.

No entanto, quanto mais ele olhava, mais doloroso


era.

O papel continuou descrevendo uma namorada


ideal, preenchendo metade do livro. Falava sobre eles
conversando na plataforma, no trem e no encontro que
tiveram e foram para Ogaki.

Ele tinha realmente ido para Ogaki há vários dias,


mas isso foi porque ele teve um súbito desejo de ir para
um lugar qualquer e embarcou em um trem, no entanto
tinha sido, infelizmente, uma viagem solitária.

“…”

Contudo, a coisa que o preocupava era o espaço em


branco. Havia uma lacuna vazia em que o nome de
alguém deveria estar na frase. Parecia um nome de
quatro ou cinco caracteres.

316
“Eu escondi isso para conseguir uma namorada?”

Era ainda mais doloroso. Mesmo que tenha sido um


erro, ele não podia deixar alguém ver isso. Ele tinha que
descartar isso rapidamente. Falando francamente, era
como uma mancha em sua vida.

As frases que estavam intercaladas e pareciam estar


falando com ele mesmo eram ainda mais dolorosas, e
constrangimento preencheu seu corpo.

Quando o relógio tocou para que ele soubesse que


eram oito horas, Sakuta se lembrou de sua pressa. Ele
jogou o caderno na lixeira, vestiu o blazer e, com um ‘Vejo
você mais tarde’ para sua irmã, ele foi para a escola.

⟡⟡⟡

Sakuta ligeiramente se apressou ao longo da rota de


dez minutos até a estação. Ele passou pela área
residencial, atravessou uma ponte e saiu na rua principal.
Embora tenha se atrasado devido a diversos semáforos,
ele caminhou até a área comercial ao redor da estação.
Quando ele olhou para as casas de pachinko1 e lojas de
eletrônicos ao redor, a placa da estação apareceu em seu
campo de visão.

A estação tinha a mesma atmosfera de sempre.


Estava lotada com trabalhadores e estudantes. Pessoas
estavam saindo da estação para seus escritórios ou iam
para outras plataformas para trocar de trem. Sakuta era
317
um dos muitos apressados no corredor para a estação do
Enoden.

Quando Sakuta passou pelas catracas, o trem que


ele usava habitualmente ainda estava na plataforma e ele
embarcou no primeiro vagão enquanto recuperava o
fôlego.

Ele ficou ao lado da porta e alguém próximo chamou


por ele.

“Yo.”

Era Kunimi Yuuma, com a mão ligeiramente


levantada o cumprimentando.

“Hey.”

O trem partiu e Yuuma examinou o rosto de Sakuta


enquanto ele segurava as alças com as duas mãos.

“Você parece muito melhor hoje.”

“Hm?”

“Você parecia um zumbi ontem. Você era do tipo de


ficar estudando na noite anterior?”

“Não, eu sou do tipo que desiste e vai dormir direto.”

“Imaginei.”

Ele devia ter ido dormir relativamente cedo na noite


passada. Ele não tinha lembranças além das nove ou dez
daquela noite. Mesmo que fosse a noite anterior a um
teste, isso era muito mais cedo do que ele costumava

318
dormir. Ele olhou desinteressadamente para o vagão.
Havia muitas pessoas com os uniformes de Minegahara,
várias delas com livros abertos para ganhar um único
ponto extra em seus exames.

Yuuma pegou o livro de matemática de sua mochila


e começou a rever as fórmulas.

O trem passou pela Estação de Koshigoe enquanto


Sakuta interferia com o estudo de Yuuma e o mar se
estendia além da janela. Enquanto fazia isso, ele sentiu
que alguém o estava observando.

“…”

Isso o incomodou e Sakuta se virou.

“O que foi?”

Yuuma olhou para ele confuso, achando as ações de


Sakuta estranhas.

“Apenas senti como se estivesse sendo observado.”

Enquanto ele falava, seus olhos encontraram os de


uma garota de pé ao lado de uma porta. Ela estava
usando um uniforme que ainda parecia quase não ter sido
usado. Ela era Koga Tomoe.

“Hmm, ela? Ela é do primeiro ano, certo?”

Tomoe desviou o olhar e Yuuma pareceu perceber.

“Você a conhece, Kunimi?”

319
“Ela muitas vezes vem para assistir os treinos com a
amiga ao lado dela.” Certamente havia uma garota de
aparência familiar ao lado dela. “O clube acha que elas
são muito fofas.”

“Entendo, então elas estão olhando para você.”

Ele se sentiu patético e envergonhado com seu


próprio mal-entendido.

“Eu acho que não.”

Yuuma voltou seu foco para o seu livro.

“Por quê?”

“Aparentemente elas vão para assistir a um dos


garotos do terceiro ano treinando.”

“Hmmm.”

“De qualquer forma, é meio estranho você saber o


nome de uma garota do primeiro ano sendo que você nem
consegue se lembrar dos nomes de seus colegas de
classe. Algo aconteceu?”

“Mais ou menos”

“Oh, que interessante. Conte-me.”

Yuuma parou de estudar e cutucou o ombro dele


com um sorriso.

“Nós apenas chutamos os traseiros um do outro e


então nos conhecemos, nada de especial.”

320
Isso tinha acontecido no Domingo anterior. Ele havia
encontrado uma garota perdida, então houve um
estranho mal-entendido e um estranho desenvolvimento.

“Apenas chutaram o traseiro um do outro, isso é


bastante estranho…”

“Esse tipo de coisa acontece.”

“Nunca aconteceu na minha vida antes… você


estava indo para algum lugar?”

“Para algum lugar diferente de aqui, eu acho.”

“Mas que diabos?”

Sakuta olhou de volta para a janela como um sinal


de que a conversa havia terminado.

Algo estava lutando em seu coração. Tinha algo a ver


com ele ter se encontrado com Koga Tomoe. Mas Sakuta
não conseguia lembrar o que levara a isso.

O trem chegou à Estação de Shichirigahama, e os


estudantes com uniforme de Minegahara saíram para a
plataforma.

Sakuta era um deles e ele andou pelo curto caminho


até a escola enquanto respirava a brisa do mar.

Ele podia ouvir as conversas de seus arredores como


‘Droga, exames’, ‘Eu não estudei nada’ e ‘Eu acabei de
fazer isso’.

321
Todos os alunos tinham a questão comum dos
exames, mas fora isso, era a cena habitual. Uma cena
cotidiana com conversas parecidas todos os dias.

Não era particularmente agradável, mas também


não era incômodo o suficiente para ele não gostar.

Todo mundo estava agindo como sempre agiam.

Essa ‘normalidade’ estava na frente de Sakuta. Uma


dupla de alunas do primeiro ano passou correndo por
Sakuta e Yuuma. Era Koga Tomoe e sua amiga,
conversando sobre ir para um karaokê após os exames.

“E você, Sakuta? Tem planos para depois dos


exames?”

“Trabalho, e você?”

“Treino, o torneio está perto.”

“Entendo, isso é bom.”

“Hm? Como?”

“Se você tivesse dito que tinha um encontro, eu


ficaria com raiva.”

“Isso espera por mim no fim de semana.”

“Você é um cara mau, Kunimi.”

“Isso vale para você, dizendo isso.”

“É melhor do que apenas pensar nisso.”

322
Sakuta e Yuuma chegaram ao saguão de entrada
enquanto falavam mal um do outro.

Eles trocaram seus sapatos para os de uso interno


na sapateira e subiram as escadas para as salas de aula
do segundo ano. Sakuta estava em uma classe diferente
de Yuuma, então eles se separaram no corredor e Sakuta
entrou na sala de aula da turma 2-2 sozinho.

Ele sentou no primeiro assento perto da janela. Ele


tinha um exame de Matemática no primeiro período
seguido por um exame de Japonês no segundo.

Alguns de seus colegas estavam freneticamente


folheando livros, e outros examinavam cuidadosamente
as anotações. Havia até alguns que haviam desistido e
estavam descansando. Kamisato Saki, que se sentava na
carteira diagonalmente atrás dele, estava comendo pocky
nesta manhã, armazenando açúcar para durante o
exame.

Enquanto seu nariz coçava por algum motivo, Sakuta


pegou seu livro.

“Talvez eu peguei um resfriado.”

Ele assoou o nariz em um lenço de papel e revisou


os exemplos de equações de ordem superior. Ele tinha a
sensação de que tinha que conseguir boas notas.

Quando ele terminou de revisar os exemplos, a área


à sua frente escureceu.

323
Alguém estava em pé na frente dele.

Ele podia dizer quem era mesmo sem sequer olhar


para cima, o jaleco de laboratório dela se estendia para o
chão mais do que sua saia, e estava levemente visível,
mesmo enquanto ele olhava para o livro.

“É raro você vir até mim, Futaba.”

“Aqui.”

Futaba, um pouco cansada, estendeu um envelope.

“Uma carta de amor?”

“Não.”

“Imaginei.”

Sakuta sabia por quem Rio tinha sentimentos. Ele


aceitou o envelope e olhou dentro. Como seria de esperar,
havia uma carta dentro. Ele olhou para ela, verificando se
podia ler.

“…”

Depois de esperar pelo aceno de Rio, ele abriu a


carta e deu uma olhada nela.

Esta é uma definição absurdamente generalizada da


Teoria da Observação, mas tudo no mundo é definido pela
observação. Nesse caso, se o desaparecimento da _______
é causado pela indiferença subconsciente dos alunos em
relação a ela, então se Azusagawa puder criar uma razão
mais forte para que ela exista, ele poderá salvar _______.

324
Em suma, se o seu amor conseguir superar a forma de
onda de probabilidade antes que _______ assuma uma
forma definitiva… Em outras palavras, o subconsciente
dos alunos forçam a forma de _______ para algo como a
atmosfera antes mesmo da existência dela ser definida.

Era uma carta bizarra com estranhos espaços em


branco. Ele não conseguia entender o significado disso.
No entanto, não havia engano que isto era algo que Rio
havia dirigido a ele.

“…”

Ele pediu por uma explicação com os olhos.

“Eu não entendo também. Estava no meu livro de


matemática, eu notei isso ontem à noite.

“Mas que diabos.”

Então, Rio colocou outra carta na mesa dele.

“Isso estava junto.”

Ainda sem entender, Sakuta passou os olhos pela


segunda carta.

Havia uma pequena frase escrita nela.

Não pense em nada, entregue a carta para


Azusagawa.

Parecia ser uma carta de Rio para si mesma. Sakuta


se lembrou de uma coisa semelhante em seu quarto
naquela manhã. Aquele delírio escrito em seu caderno.

325
Algo se remexeu em sua mente, mas ele não
conseguia se lembrar, e um sentimento confuso se
espalhou por seu corpo.

“De qualquer forma, eu estou dando isso a você.”

Foram as únicas palavras de Rio, e ela saiu da sala


de aula.

“Ah, oi!”

Seu chamado e o sinal se sobrepuseram, e ele não


teve escolha senão desistir por ora.

Seu professor entrou na sala e a aula começou.

“Este pode ser o último dia de seus exames, mas não


usem isso como uma desculpa para agir de qualquer
maneira.”

Enquanto ouvia o aviso do facilmente irritável


professor, Sakuta leu a carta que Rio lhe havia dado
novamente.

Esta é uma definição absurdamente generalizada da


Teoria da Observação, mas tudo no mundo é definido pela
observação. Nesse caso, se o desaparecimento da _______
é causado pela indiferença subconsciente dos alunos em
relação a ela, então se Azusagawa puder criar uma razão
mais forte para que ela exista, ele poderá salvar _______.
Em suma, se o seu amor conseguir superar a forma de
onda de probabilidade antes que _______ assuma uma
forma definitiva… Em outras palavras, o subconsciente
326
dos alunos forçam a forma de _______ para algo como a
atmosfera antes mesmo da existência dela ser definida.

“…Amor, huh?”

No entanto, ele não tinha ideia do significado por trás


disso.

⟡⟡⟡

Ele foi razoavelmente bem em seu exame de


matemática no primeiro período.

Ele preencheu completamente a coluna de respostas


e cuidadosamente escreveu as contas, de certa forma se
sentindo que absolutamente tinha que fazer isso.
Normalmente, ele não teria se incomodado com isso
porque era uma chatice, mas ele havia analisado suas
respostas novamente e achava que conseguiria obter
uma boa nota.

No segundo período haveria o seu exame de


Japonês.

Com o sinal os avisando, todos os seus colegas


folhearam as páginas de perguntas e respostas e, em
seguida, o arranhar do lápis preencheu a sala.

Sakuta preencheu seu nome e número do assento e


depois olhou para as questões. A primeira era uma longa
questão e, depois de verificar o título, ele continuou lendo
a parte principal.

327
Demorou vinte minutos para ele virar a primeira
página.

A próxima também era uma longa questão e uma


que não estava no livro. Parecia que levaria bastante
tempo, então Sakuta pulou para as últimas questões de
completar.

Radicais confusos.

1. Eu me tornarei o garant__ dele.

2. Garant__ a segurança do país.

Ele teria que completar com as palavras derivadas.

Sem hesitação, Sakuta escreveu garantidor para a


primeira resposta e garantir na segunda.

“…”

No momento em que terminou de escrever, Sakuta


sentiu o lápis hesitar e ele parou.

Uma pergunta diferente da que estava no exame


veio à mente.

Ele sabia dessa pergunta tão facilmente porque ele


a havia estudado na noite anterior. Mas ele não se
lembrava das circunstâncias em torno disso.

Uma vaga sensação de mal-estar passou pelo seu


corpo e gradualmente se tornou desconforto. Ele tentava
lembrar, mas não conseguia. Aquele mal-estar foi para
sua garganta e se limitou ali.

328
Quanto mais ele pensava, mais seu desconforto
aumentava. Ele sentiu como se algo estivesse implorando
para ele de dentro de sua mente.

“…O que é isso?”

Realmente, o que era essa sensação…

Havia uma sensação agradável em seu peito. Ele


encontrou tristeza. Havia também um clima alegre.

E mesmo assim, uma dor dilacerante preencheu seu


peito.

As incontáveis sensações se debateram no coração


de Sakuta e depois sumiram antes de retornar
novamente, como a quebra das ondas, sacudindo-o.

Então, algo pingou em sua folha de respostas.

Ele achou que poderia ser catarro, mas não era.

Isso havia caído de seus olhos.

Eram lágrimas.

Ele levantou a cabeça apressadamente. O que


diabos ele tinha de errado para de repente começar a
chorar em um exame?

Quando ele fungou e tentou segurar as lágrimas, a


voz de alguém soou em sua mente.

“Qual delas seria usada em ‘Não há ninguém que


será o _________ do futuro de Sakuta’?”

329
Ele conhecia essa voz.

“Podemos tentar então ‘Eu não posso _________ a


segurança de Sakuta se ele trapacear’.”

O nevoeiro em sua mente gradualmente


desapareceu.

“Aquela com ‘or’ tem o sentido de assumir


responsabilidade, e aquele com ‘ir’ tem o sentido de
proteção.”

Ele as tinha colocado na coluna de respostas, assim


como havia aprendido.

A caneta de Sakuta rolou de seus dedos. Ele não


achava que esta era a hora de fazer um exame. Seu corpo
reagiu a suas emoções e ele se levantou. Completamente
indiferente ao seu entorno.

“Whoa.”

O colega de trás recuou surpreso e a garota ao lado


dele soltou um grito.

A turma inteira parou o teste e olhou para Sakuta.

Até o professor fiscalizando o exame estava olhando


para ele confuso.

“Oi, Azusagawa, o que foi?”

“Há um grande problema.”

Sakuta falou e a sala de aula se encheu de risadas.

330
“Oi, vocês todos, se concentrem.”

Enquanto o fiscal de prova estava distraído, Sakuta


saiu correndo da sala de aula. Ele passou pelos banheiros
e desceu as escadas. Era muito problemático ir até ao
saguão de entrada, então Sakuta pulou pela janela no
andar térreo.

Ele havia se lembrado de algo importante. Memórias


de alguém precioso haviam retornado a ele.

Havia algo que tinha que fazer por ela.

“Ah, eu realmente sou o pior…”

Ele naturalmente deixou escapar seus verdadeiros


sentimentos.

Espalhado diante dele estava o campo esportivo da


Escola Secundária de Minegahara. Sakuta estava
andando em direção ao centro como se estivesse
checando cada passo antes de dá-lo.

“…Eu realmente só penso em coisas estúpidas.”

A dica era a carta de Rio e a sentença final nela.

“Se o seu amor conseguir superar a forma de onda


de probabilidade.”

Ele não saberia se o que ele estava prestes a fazer


estava correto até que ele tentasse.

Era uma batalha perdida. Afinal, o adversário de


Sakuta era a ‘atmosfera’.

331
A ‘atmosfera’ que não sofreria nenhum efeito ao ser
empurrada, puxada ou ser golpeada. A ‘atmosfera’ que
havia envolvido a escola. Mesmo agora, ele achava que
lutar contra ela não valeria a pena.

As pessoas que criam essa ‘atmosfera’ não tinham


conhecimento de sua própria conexão com ela. Não
importaria quanto ele implorasse aos alunos que não
sentissem nenhuma conexão, isso não os influenciaria
nem um pouco. Eles só ririam do pânico dele. Eles apenas
teriam antipatia à dedicação dele.

Eles simplesmente resolveriam tudo com palavras


tão clichês que nem sequer poderiam ser chamadas de
‘ler a atmosfera’.

Sakuta percebeu que estava vivendo nesse mundo.

Seguir a pessoa ao seu lado facilitava as coisas.


Decidir o que era bom ou ruim apenas consumia calorias,
e manter suas próprias opiniões apenas levaria você a se
machucar quando elas fossem negadas. Se você
estivesse com ‘todos’, então você poderia relaxar e ficar
seguro. Você não precisava ver coisas que não queria, não
precisava pensar em coisas que não queria. Você poderia
tratar tudo como problema de outra pessoa.

O mundo era tão insensível assim.

Isso fazia as pessoas se isolarem umas das outras


sem perceber, e fazia as pessoas darem as costas para

332
aquelas que estavam isoladas. A fim de proteger essa
atmosfera, para se protegerem, as pessoas conseguiam
desumanamente fingir que não podiam ver. Elas
conseguiam fazer tudo isso com um rosto inconsciente
daquelas que elas estavam fazendo sofrer.

O mundo era tão insensível que, usando esse


entendimento implícito, ele poderia ferir os outros sem
sentir dor alguma.

Mas isso não significava que a lógica de ‘todo mundo


está fazendo isso’ fazia com que estivesse tudo bem em
machucar as pessoas, ‘todo mundo está fazendo isso,
então isso é correto’ também não era o caso. Além disso,
quem era ‘todo mundo’.

Naquele dia, se ele não tivesse a conhecido na


Biblioteca de Shonandai, Sakuta teria continuado sendo
parte desse anônimo ‘todo mundo’, e teria sido parte da
causa que estava machucando-a.

E tendo notado isso, ele tinha que fazer a distinção.

Mesmo se a escola fosse seu oponente.

Mesmo se todo estudante fosse.

Mesmo que fosse a ‘atmosfera’, a coisa que ele mais


gostaria de não ter de lutar contra, Sakuta não podia
ignorar.

Isso porque ele havia encontrado algo mais


importante do que manter o status quo.
333
O tempo que eles tinham passado juntos foi
certamente divertido.

Ela estava sempre tratando Sakuta como muito mais


jovem do que ela, mas se ela tentasse fazer uma piada
sugestiva, ela era pega na mesma e ficava brilhando
vermelha, e então era obstinada em tentar esconder esse
fracasso.

A garota que ficava de mau humor se Sakuta não


seguisse suas expectativas.

Ela era egoísta, agia como uma rainha e


temperamental. Mas apesar de tudo isso, ela era
surpreendentemente inocente e um ano mais velha que
ele. Ela tinha pisado no pé dele, beliscado sua bochecha
e lhe dado um tapa.

Os dias que ele passara com ela foram os melhores.


Nas vezes que ele tinha contra-atacado, ela havia ficado
de mau humor e o chamara de insolente. Ele tinha ficado
feliz e gostado disso, e não suportava ficar sem tais
momentos.

Ela era a única pessoa pela qual ele se sentia assim.

A existência especial e solitária neste mundo.

Agora que ele conhecia essa felicidade, não valeria


a pena viver sem ela. Então, quaisquer que fossem os
métodos que ele tivesse que usar, ele resgataria esses
divertidos momentos.

334
Isso era necessário para resgatá-los.

Ele não deixaria que eles se separassem sem se


despedir novamente, assim como ele tinha feito com
Makinohara Shouko.

Ele não queria esses sentimentos.

“Eu não irei mais ler a ‘atmosfera’, isso é ridículo.”

No meio do campo, Sakuta se virou para olhar o


prédio da escola.

Ele estava encarando de frente um prédio de três


andares.

Havia ali cerca de mil alunos.

Tanto em tamanho quanto em número, era imenso.


E se ele fosse ignorado, seria o fim disso.

Ele não tinha estratégia.

No entanto, ele se decidiu.

Ele parou de pensar em como isso era problemático.

Com sorte iria ocorrer assim como ele pensava.

Com sorte iria ocorrer assim como ele achava.

As inúmeras desculpas e razões poderiam ir para o


inferno.

Sakuta se preparou. Ele respirou fundo e reuniu força


em seu estômago. E então, com a voz mais alta que ele
conseguia falar.

335
“Todos vocês, escutem!”

Ele disparou sua salva introdutória.

“Eu sou Azusagawa Sakuta!”

A voz de Sakuta ecoou através do silêncio da escola


enquanto os alunos faziam os exames.

“Da turma 2-2!”

Sua garganta já estava tremendo e com dor, mas ele


não tinha intenção de parar. A primeira reação veio da
janela da sala de professores. Alguns professores olharam
da janela e gesticularam dizendo para ele voltar.

“Assento número um!”

O barulho gradualmente preencheu a escola.

“E eu amo a aluna do terceiro ano!”

Ele tinha a sensação de que alguém disse ‘o campo


esportivo’, as janelas foram abertas uma após a outra e
muitos estudantes olharam para ele.

“Sakurajima Mai-senpai!”

Arrepios cobriram seu corpo quando ele disse o


nome, todos os poros em sua pele liberando suas
emoções. Todas as peças espalhadas se encaixaram com
uma sensação agradável, e ele estava certo de seus
sentimentos nesse instante.

Ele soltou um longo suspiro, esvaziando seus


pulmões completamente e depois os encheu. Ele olhou

336
para a escola, vendo os alunos reunidos nas janelas e
concentrando-se em Sakuta no campo esportivo.

Quando os cerca de mil olhares caíram sobre ele,


Sakuta deixou suas emoções explodirem.

“Eu amo a Sakurajima Mai-senpai!”

Ele disparou todos os seus sentimentos em direção


ao prédio da escola.

“Eu amo a Mai-saaaan!”

Ele sentiu como se sua garganta rasgasse… Sakuta


confessou seus preciosos sentimentos, querendo que
todos na cidade ouvissem, e até mesmo pessoas ainda
mais distantes.

Tanto que eles não poderiam ser ignorados.

Tanto que as pessoas não conseguiriam fingir que


elas não os viam.

Ele liberou tudo o que sentia.

Ele não conseguia mais respirar e se curvou devido


a um ataque de tosse.

A primeira coisa a acontecer foi um longo silêncio.

Em seguida foi um murmúrio barulhento de dúvida.

Todos os alunos estavam olhando para Sakuta no


campo esportivo. Os olhares de cada um se
transformaram em um martelo, batendo no corpo de

337
Sakuta. No entanto, não eram golpes fortes, eram golpes
indiferentes. Gradualmente tornando-se de zoação.

Ele queria fugir, ir para casa. Sua confissão tinha sido


em vão.

“Ah, merda! Então acabou assim, apenas em


constrangimento. Mas que porra?”

Ele continuou xingando.

“É por isso que eu não queria lutar contra a


atmosfera.”

Sakuta arrancava os cabelos enquanto eles


continuavam olhando para ele.

“Isso realmente é… o pior…”

Ir para casa, isso cruzou sua mente, e ele olhou para


os portões da escola.

“…”

No entanto, ele não deu um passo sequer em direção


a eles.

“Eu vim tão longe, isso não vale a pena sem a


recompensa da Mai-san.”

Sakuta encarou a escola meio em desespero e gritou


novamente.

“Eu quero andar de mãos dadas na praia!”

Ele não estava mais pensando.

338
“Eu quero vê-la em sua roupa de coelhinha
novamente!”

Ele deixou isso para suas emoções, e apenas falou


seus sentimentos.

“Eu quero abraçá-la forte, eu quero beijá-la!”

Ele nem sabia mais o que estava dizendo.

“Basicamente! Eu realmente amo a Mai-


saaaaaaaaaan! ”

Seu grito viajou para o céu, chamando a atenção de


todos os alunos e de todos os funcionários. Ele nunca
tinha se sentido pior, mas nesse instante esses
sentimentos se tornaram alegria para Sakuta.

Finalmente, o ambiente voltou ao silêncio.

Um silêncio tão calmo que até parecia ensaiado.


Sakuta sentiu vontade de dizer isso enquanto engolia sua
saliva.

Ele não entendia o motivo.

Do prédio, um aluno que ele não conhecia estava


apontando para Sakuta. Ele não entendeu o porquê e
achou que estavam zombando dele no começo.

Ele duvidou disso quando viu que eles estavam


apontando para um pouco atrás dele…

339
Ele sentiu alguém se aproximar dele enquanto ouvia
o barulho do cascalho. A respiração de Sakuta travou
quando a voz deles estimulou seus ouvidos.

“Eu teria ouvido mesmo se você não gritasse tão


alto.”

A voz de alguma forma parecia um som há muito


tempo perdido, a voz de uma garota que ele sempre
desejara ouvir.

Sakuta se virou apressadamente.

A brisa do mar soprava ao redor das pernas dela,


fazendo a saia balançar.

Ele viu suas usuais meias pretas. Suas pernas


estavam alinhadas com os ombros, uma mão estava em
seu quadril, e a outra segurando o cabelo para que ele
não soprasse ao vento. Ela tinha um rosto de aparência
adulta, mas sua expressão levemente irritada ainda trazia
indícios de inocência.

Uma onda de emoção percorreu a partir dos pés de


Sakuta. Mai estava a uns dez metros dele.

“Você vai incomodar os vizinhos.”

“Eu pensei que eu poderia muito bem deixar o


mundo inteiro saber.”

“Você está falando em japonês, eles não


entenderiam.”

340
“Ah, isso é verdade.”

“Você é realmente um idiota…”

A voz de Mai tremeu como se ela estivesse tentando


segurar algo.

“Eu acho que é melhor do que fingir ser inteligente.”

“Um verdadeiro idiota…” Os esbeltos ombros dela


tremiam. “Você vai fazer com que mais rumores
estranhos comecem, chamando a atenção assim.”

“Se eles forem rumores com você, então eu vou


acolhê-los.”

“Isso não é… seu idiota… seu idiota…”

“…”

“Seu idiota, Sakuta!”

Lágrimas se derramavam dos olhos de Mai enquanto


ela gritava.

Em câmera lenta, ela deu o primeiro passo.

Mai estava correndo em direção a ele.

Pensando que ela iria abraçá-lo, Sakuta abriu os


braços.

Três passos faltando, dois, um… Imediatamente


depois disso, uma slap ressoou pelos campos, ecoando no
céu. Sakuta tinha o recebido diretamente e ficou
estupefato por um instante, então sua bochecha começou

341
a latejar tardiamente e ele entendeu que, nesse
momento, Mai havia lhe dado um tapa.

“Eh? Por quê?”

Essa simples questão saiu de seus lábios.

“Seu mentiroso!” Mai olhou para ele através das


lágrimas, com uma expressão que parecia estar prestes a
se quebrar. “Você disse que nunca iria esquecer!”

Ele finalmente entendeu as ações dela. Ela


certamente tinha um motivo para culpá-lo. Como Mai
disse, ele era um mentiroso.

“Eu sinto muito.”

Sakuta gentilmente colocou os braços ao redor de


Mai enquanto ela tremia.

Com um pouco de hesitação, ele apertou seu abraço


e Mai enterrou o rosto no ombro dele.

342
“Eu não vou te perdoar…”

Ela disse com uma voz abafada.

“Me desculpe.”

“Eu nunca vou te perdoar…”

Mai esfregou o rosto no ombro dele enquanto


fungava.

“Eu não vou deixar você partir até você me perdoar


então.”

“Então eu não vou te perdoar pelo resto da minha


vida.”

Suas lágrimas ainda estavam misturadas com sua


voz.

“Ehh.”

“O que, tem algum problema com isso?”

Parecendo ter parado de chorar, ela engoliu suas


emoções.

“Se eles ouvissem isso de sua linda senpai, não


haveria um homem que— ow! Mai-san, você está pisando
no meu pé!”

“Você tem bastante coragem, dizendo isso para mim


e não ter fugido.”

“Um, meu pé.”

“Você não está feliz por eu pisar em você?”

344
“Sinto muito, sinto muito mesmo. Eu me arrependo
das minhas ações, então, por favor, me perdoe.”

Ela estar apertando o calcanhar sobre o pé dele


realmente era doloroso.

“Se você estava com tanto medo a ponto de chorar,


você não deveria ter usado pílulas para dormir.”

“Essas lágrimas são apenas um ato para incomodá-


lo.”

“Então obrigado por cuidar de mim quando eu


estava ficando acordado a noite toda.”

“Não tem de quê, mas eu não queria ouvir seus


agradecimentos.” O calcanhar de Mai estava mais uma
vez sobre o pé de Sakuta. “Embora você saiba o que quero
dizer.”

Ela gradualmente moveu seu peso para aquele pé.

Sakuta se conformou e disse as palavras que ela


queria ouvir.

“Eu te amo.”

“Mesmo?”

“Isso foi uma mentira, eu realmente amo você.”

“…” Depois de um breve silêncio, Mai se afastou. Ela


já tinha parado de chorar e o que restou foram as marcas.
“Hey, Sakuta.”

“O que.”

345
“Diga isso novamente daqui a um mês.”

“Por quê?”

“Se eu responder aqui, sinto que teria sido dominada


pelo momento.”

“Eu queria pelo menos um beijo na emoção.”

“Meu coração está batendo agora, então as coisas


podem acabar terminando assim.”

Mai se virou e falou envergonhada. Seu rosto


avermelhado era insuportavelmente fofo.

“Mai-san, você está surpreendentemente calma.”

Ela queria evitar o efeito da ponte suspensa2.

“Eu estou dizendo para você pensar adequadamente


também.”

“Sobre o que?”

Ele não achava que pensar sobre seus sentimentos


em relação a Mai mudaria em algo.

“Eu sou mais velha que você.”

“Pelo contrário, isso é um ponto positivo.”

“Estou hesitante em namorar um garoto mais novo.”

“Porque eu não sou confiável?”

“Isso não… não é o que eu quero dizer.” Ela


murmurou alguma coisa. “Se eu namorar um garoto mais
novo, não é como se eu tivesse enganado eles?”

346
“Você enganou, então eu não acho que você pode
evitar isso.”

“Eu não te enganei.”

“Você sempre fica me tentando, no entanto.”

Agora que ela pensou nisso, eles tinham se divertido


ao ter contato físico em diversos momentos. Como ela
beliscando suas bochechas, pisando em seus pés e coisas
do tipo.

“D-de qualquer maneira, você entende?”

“Eu não.”

“Não seja irracional.”

“Eu não posso esperar um mês, então posso dizer


isso todos os dias?”

Mesmo que ela estivesse um pouco surpresa, o rosto


dela relaxou, e ela não estava tão descontente quanto ela
o tinha feito acreditar.

“Tudo bem, mas continue assim pelo mês inteiro. Se


você não fizer isso, considerarei que seus sentimentos
mudaram.”

Ela disse isso e pressionou o dedo no nariz de


Sakuta, sorrindo provocativamente. Este era o sorriso de
Mai, que ele queria manter para si mesmo. Ele não tinha
escolha agora, então ele o mostrou a todos.

347
Todos os estudantes os assistiam em mudo,
silenciosamente espantados. Eles não sabiam como
reagir e estavam olhando para os outros para ver suas
reações, criando uma atmosfera de espera por um
julgamento.

“Todo mundo realmente gosta de ler a atmosfera,


huh?” Mai riu cinicamente enquanto olhava para a escola,
e então soltou um longo suspiro. “E aquele boato sobre
você mandar seus colegas para o hospital! Aquilo é
ridículo!”

De repente ela gritou.

Houve um instante de silêncio. Mai parecia bastante


orgulhosa quando se virou.

“Você queria contar a todos, não é?” Agora que ela


disse isso, os dois tinham conversado sobre isso no
Enoden. Eles estavam um pouco atrasados, mas os
estudantes se aproximaram do campo esportivo olhando
para eles de maneira confusa. “…A reação deles foi um
pouco diferente do que eu esperava.”

Isso era verdade, eles não estavam surpresos com


Mai proclamando a verdade.

“É porque você está se dirigindo a mim pelo meu


primeiro nome e sem honoríficos.” Exclusivamente neste
momento, eles não estavam lendo a atmosfera e sim
compreendendo o escândalo diante deles. Eles estavam

348
seguindo seus própios desejos, assim certamente era a
adolescência. “Eles estão prestando bastante atenção em
nós por causa de você.”

“Você está preocupado com apenas mil pessoas?


Você é muito sensível.”

Era obviamente diferente para uma atriz de renome


nacional.

“Sim, suponho que três ou quatro dígitos não sejam


suficientes para você, Mai-san.”

Finalmente, o professor de Sakuta, o vice-diretor e


um professor de educação física vestindo uma jaqueta
apareceram no campo para controlar o clamor.

“Cara, eu vou levar uma bronca na sala de


professores…”

“Isso é bom, não é?”

“Como?”

“Eu vou estar sendo repreendida junto com você.”

“Bem, isso não é ruim.”

Pelo menos, ele poderia estar junto de Mai.

Intensamente sentindo Mai ao seu lado, Sakuta


dirigiu-se ao prédio da escola.

Juntamente com Mai…

349
E assim, o mundo acolheu Sakurajima Mai
novamente.

350
↑ [1] pachinko: jogo de azar praticado em máquinas
que se assemelham a um cruzamento entre pinball e slot
machine.

↑ [2] efeito da ponte suspensa: efeito que ocorre


quando uma pessoa atravessa uma ponte suspensa e vê
alguém do sexo oposto (ou não). O medo de cair faz com
que o coração bata mais forte, fazendo com que a pessoa
confunda esta sensação com o fato de se apaixonar pelo
outro.

351
Ao contrário dos dias de Maio, os quais ele passou
envolvido com a Síndrome da Adolescência, agora era
Junho, então Sakuta passava seus dias tranquilamente.

Ele tinha uma vida cotidiana tranquila, se


confessando para Mai todos os dias assim como
prometera.

É claro, houve uma influência por ele ter gritado seu


amor no meio do campo esportivo, mas… Ao invés de
‘cara do incidente do hospital’, todos os estudantes
tinham o rotulado como ‘cara vergonhoso’ e ‘esse é o
Sakuta dos rumores’. Apenas por andar pelo corredor, ele
ouvia risadas abafadas e a escola tinha se tornado num
lugar mais e mais desconfortável.

No entanto, ele tinha sido capaz de trazer Mai de


volta e assim tido uma mudança completa de atitude para
‘isso realmente não importa’. Honestamente, se ele não
pensasse dessa maneira, ele não conseguiria ter feito
isso.

Yuuma tinha dito.

“O seu coração é realmente feito de ferro!”

E então rolado de rir. Rio estava com ele e dito com


uma expressão séria.

“Se tivesse sido eu, eu teria morrido de vergonha.


Esse é o Azusagawa, um adolescente traste.”

“O que está querendo dizer com isso?”


354
“Antes, quando circulavam os boatos sobre o
‘incidente do hospital’, você tinha dito que ‘lutar contra a
atmosfera é ridículo’, ou você esqueceu?”

“Ahh, o Sakuta havia dito isso, eu também tinha


ouvido.”

Ele certamente se lembrava de dizer isso, e sua


opinião ainda não havia mudado.

“Do que mais você chamaria alguém que não ficaria


sério por si mesmo, mas que suportaria qualquer
vergonha por sua bela senpai?”

Ele estava sem palavras por isso ter sido dito a ele
tão claramente.

“…”

Assim como Rio havia dito, ele não tinha pensado em


mudar a atmosfera sobre si mesmo, mas quando ele
pensou que era para Mai, ele ficou animado e gritou seu
amor no centro do campo esportivo.

“Isso é material para te provocar pelo resto de sua


vida.”

“Você vai continuar me chamando assim mesmo


quando eu for um velho?” À sua maneira, isso não seria
tão ruim… ele decidiu pensar. “Hey, Futaba.”

“O que?”

“Então, sua hipótese estava correta no final?”

355
“Quem sabe. Instabilidades nas mentes dos
adolescentes causando intensas interpretações
subjetivas… se você disser que mesmo isso é a Síndrome
da Adolescência, então isso não pode ser verificado
cientificamente.”

Rio tinha francamente respondido assim quando


Sakuta a visitou em outro dia no laboratório de física.

“Bem, acho que isso é verdade.”

Mai havia se comportado como a atmosfera, e os


estudantes a tratado como a atmosfera. Como tinha sido
algo subconsciente, não havia diferenças para a
verdadeira atmosfera. Se não havia um ‘como’ e esse
realmente era o caso, não haveria diferenças para a
realidade.

E sendo esse o caso, Sakuta achava que isso


provavelmente estava acontecendo em outras escolas.
Porque quando as pessoas se reuniam em grande
número, sempre haveria algum tipo de atmosfera
criada…

No caso de Mai, o entendimento implícito dentro da


escola só se espalhara pelo mundo como Síndrome da
Adolescência. Nada mais. Como Rio havia dito, pensar
mais nisso não ajudaria em nada.

356
“Bem, nosso mundo é simples o suficiente para que
uma simples confissão consiga destruir isso. Assim como
você provou.”

Enquanto saía do laboratório, Rio estava se


preparando para um experimento e observou
negligentemente. Eles tinham discutido bastante, mas
essa era a verdade que parecia a mais estranha.

“Talvez.”

Ao menos, o mundo cotidiano que cercava Sakuta


tinha tido sua cor alterada por uma simples confissão.

À sua maneira, Mai seguia em frente através da vida


cotidiana que recuperara.

Ela começara por anunciar seu retorno ao show


business. Tal conferência de imprensa tinha sido
grandiosa porque era para Sakurajima Mai, e ela parecia
ter conversado com sua mãe sobre isso, mas tinha ido ao
local de trabalho de Sakuta e descarregado sua raiva de
tudo, então elas não tinham se reconciliado muito bem.

Mesmo assim, se elas pudessem se ver e discutir,


essa seria uma relação saudável o suficiente entre mãe e
filha no ponto de vista de Sakuta, e ele ficou aliviado que
a mãe dela conseguia se lembrar de Mai
apropriadamente.

E assim, os dias passaram.

357
Já era cerca de um mês depois, vinte e sete de Junho,
uma Sexta-Feira.

Sakuta tinha sido acordado por sua irmã Kaede e


estava se preparando para a escola.

“Muito bem, Japão!” Aparentemente, a equipe


nacional tinha tido uma vitória incrível no dia anterior.
“Bom dia, hoje é Sexta-Feira, vinte e sete de Junho. Acho
que vamos começar o dia com o futebol!”

Sakuta não sabia com qual país eles tinham jogado,


mas a voz animada do locutor sugeria que foi uma grande
conquista. Em destaque na tela estava o chute livre logo
no final do primeiro tempo, que foi bem colocado no gol
do adversário.

Depois de ver isso, ele disse a Kaede o seu habitual


‘Eu estou indo então.’ e saiu de casa como sempre fazia.

Ele caminhou até a Estação de Fujisawa, depois


passou cerca de quinze minutos sendo sacudido pelo
Enoden antes de descer na Estação de Shichirigahama e
passar pelos portões da escola.

Nada de interessante aconteceu, mas nada de


estranho também. Ele queria agradecer por esses dias
normais.

Durante o almoço, nesse dia Sakuta comeu com Mai


em uma sala de aula vazia no terceiro andar. Não havia
outros estudantes lá, estavam apenas Sakuta e Mai.

358
Seus almoços estavam dispostos na mesa da janela
entre eles, e eles podiam ver o mar a partir de seus
assentos.

Felizmente, o almoço deles era um bentô1 feito por


Mai, como resultado de uma pequena conversa que
tiveram no dia anterior.

Tinha sido assim:

“Mai-san, você sabe cozinhar?”

“Eu sei, eu vivi sozinha por um longo tempo, afinal.”

“Ehh, sério?”

“Quero dizer, você está sempre comendo pão no


almoço.”

“Então eu vou fazer um bentô para amanhã.”

Havia uma rica variedade no almoço. Havia frango


temperado frito, ovos fritos, salada de batata guarnecida
com tomates cereja e até mesmo algas marinhas e feijão
cozido.

Ele provou todos eles um por um, perfeitamente


ciente do olhar de Mai. Eles estavam saborosos,
ligeiramente temperados, mas os sabores suaves
estavam realmente saborosos.

“Agora, peça desculpas por sua grosseria ontem e


implore por perdão.”

359
Mai sorriu triunfante, certa de sua vitória a partir da
reação de Sakuta.

“Peço desculpas. Eu estava errado. Eu fui atrevido.


Eu sinto muito.”

Ele obedientemente abaixou a cabeça.


Honestamente, isso não era nada, ele tinha sido capaz de
provar a comida caseira de Mai e se considerava
absolutamente vitorioso.

“Contanto que você entenda.”

Mai estava satisfeita em mostrar sua habilidade,


uma situação em que todos realmente saíram ganhando.

“Um, Mai-san.”

Ele levantou a cabeça e olhou fixamente para ela.

“O que?”

“Eu te amo, por favor saia comigo.”

“…”

Mai desviou o olhar e colocou o próprio ovo frito na


boca com o hashi.

“…”

Ela o mastigou.

“…”

Mesmo quando ele esperou que ela engolisse, ela


não deu uma resposta.

360
“É meio desestimulante.” Mai soltou um suspiro
entediada. “Ter a mesma coisa sendo dita durante um
mês inteiro faz com que ela perca o impacto.”

“Isso é horrível, embora você tenha feito eu dizer


isso.”

“Eu disse ‘diga isso novamente em um mês’, foi você


quem disse que queria falar isso todos os dias.”

“Isso é verdade.”

“Ah, é mesmo. Eu tenho um papel em um drama que


vai ao ar em Julho.”

“Uwah, você até mesmo mudaria o assunto assim


normalmente?”

Ela já havia tratado as confissões nessa maneira


rude antes…

Mai pegou desinteressadamente um roteiro de capa


amarela da bolsa e ele viu as palavras ‘episódio seis’ nele.

“É um de fim de noite, então eu só tenho um papel


em um único episódio no meio do drama.”

Isso podia não ser suficiente para Mai, que estava


acostumada em fazer o papel principal. No entanto, ele
conseguia notar que ela estava francamente feliz em ter
um papel apenas olhando para ela. Ele tinha a sensação
de que era a primeira vez que a tinha visto falando sobre
algo de maneira tão alegre.

361
No entanto, isso não tinha nada a ver com a maneira
que ele sentia sobre sua confissão ser ignorada.

“Ahhh, o que se passa com a minha vida?”

Ele olhou vagamente para o mar. Os céus estavam


em um de seus curtos períodos de tempo claro durante a
estação chuvosa, e ele sentia vontade de andar na praia.

“O que? Você não está feliz com o meu retorno?”

“Eu estou realmente feliz.”

“Há uma cena de beijo.”

“…O que disse?”

Ele tinha a sensação de que acabara de ouvir algo


impensável.

“Há uma cena de beijo.”

“Recuse por favor.”

“Está tudo bem, não está? Esse não seria o meu


primeiro, afinal.”

“…”

Podia ser sua imaginação, mas ele pensou que Mai


tinha acabado de dizer algo impensável.

“Espere um minuto, Mai-san.”

“O que?”

“Você disse que era virgem antes, certo?”

“Não se preocupe com isso.”

362
“Não não, beijos também contam.”

“Eu não sei no que você está pensando, mas mesmo


que você tenha sido o único que eu beijei?”

“…” Ele não sabia o que dizer por um minuto. “Eh?”

Ele soltou um barulho atrasado de surpresa.

“Você é o pior, você não se lembra embora eu tenha


lhe dado meu primeiro beijo.”

“Eh? Espere… huh?”

Ele tentou pensar sobre isso, mas ele realmente não


sabia. Ele não sabia, mas não parecia que ela estava
mentindo. Seu único pensamento foi durante aquele
tempo que ele tinha se esquecido de Mai.

“Ah, poderia…”

“Não foi como os contos de fadas. Eu pensei que


você poderia se lembrar de mim se eu te beijasse.”

A expressão decepcionada dela era extremamente


difícil de suportar.

“Eu definitivamente vou me lembrar, então me diga


o lugar e a hora exata.”

“De jeito nenhum.”

“Apenas uma dica.”

“Nunca.”

“Algo, por favor.”

363
Ele juntou as mãos e se curvou para ela.

“Então vamos fazer isso de novo?”

Mai deu uma sugestão inesperada. Ela olhou


sedutoramente para ele através de seu olhar levantado.
Ela tinha cuidadosamente o provocado, então ele pensou
que isso poderia ser uma armadilha também, mas os
olhos dela não tinham um charme pelo qual ele
conseguiria recuar. [NT: o texto usa a expressão
‘upturned eyes’, que é um formato de olho contrário aos
olhos caídos. Só estou com dúvida se ‘olhar levantado’ era
de fato a melhor expressão para ser usada.]

“Com prazer.”

“Então feche seus olhos.”

“Hm? Agora?”

Ele pensou que eles iam replicar a situação do


primeiro beijo dela, mas aparentemente não era isso.

“Você não quer?”

“De maneira alguma, mas eu vou fazer isso.”

Ele fechou os olhos e esperou. Seu coração estava


batendo em seus ouvidos.

“Aqui vou eu.”

A voz de Mai estava um pouco tímida. Ele sentiu um


ar em sua bochecha e o calor de Mai ao seu lado,
deixando-o saber que Mai estava inclinada sobre a mesa

364
entre eles. Cerca de um segundo depois, seus lábios
foram cobertos por uma sensação suave. Os lábios de Mai
estavam surpreendentemente frios e tinham gosto de
dashi2. O mesmo que os ovos que ele havia comido mais
cedo… na verdade, isso era um ovo.

Ele abriu os olhos apenas para ver Mai


desesperadamente segurando uma risada enquanto
pressionava um pedaço de ovo em seu hashi na boca
dele.

“Você realmente pensou que eu faria.”

Ela sorriu provocativamente.

Sem responder, Sakuta comeu o ovo, colocando o


hashi em sua boca também.

“Estou muito feliz por poder ter um beijo indireto


com a Mai-san.”

Ele falou em um tom monótono forçado. Seria fácil


tornar Mai ciente disso…

“…”

Assim como ele pensou, o olhar de Mai estava fixado


nas pontas de seu hashi. Ainda havia quase metade do
almoço dela na mesa, então ela estava preocupada sobre
como lidar com isso.

365
“Bem, você é uma adulta, então um beijo indireto
comigo, eu sendo mais jovem que você, não deve ser
nada para você.”

Ele cortou a rota de fuga dela.

“S-sim.”

Com uma ligeira hesitação, ela se endireitou e usou


esse hashi para comer seu almoço. Ela continuou em
silêncio e esvaziou seu bentô. Enquanto fazia isso, suas
bochechas estavam cobertas por um leve vermelho, e
isso era um verdadeiro banquete para os olhos de Sakuta.

“Só para você saber, não sou eu.”

Mai embrulhou o bentô num guardanapo.

“Hm?”

“A cena do beijo é do ator principal.”

Sakuta olhou para ela em insatisfação enquanto


ficava aliviado.

“Mai-san, sua personalidade é horrível.”

“Mas você não ama eu e minha personalidade?”

“Certamente parece que esse amor irá se acalmar


dessa maneira.”

“P-por quê!?”

A voz nervosa de Mai estava mais alta que o normal.

366
“Bem, você não parece se sentir dessa maneira…
você disse que era desestimulante, isso me deixaria
desesperado.”

“…Eu não disse não.”

Mai fez beicinho mal-humorada e abriu o roteiro.

“Então você irá?”

“Isso é, um…”

Mai escondeu o rosto vermelho atrás do roteiro.

“Você irá?”

Ele perguntou mais uma vez, e ela espiou por cima


do roteiro.

“…” Ela olhou timidamente para Sakuta e, em


seguida, com uma voz fraca. “…Sim, eu irei.”

Ela acenou para ele.

Sakuta não se lembrava muito do resto do dia. Sua


disposição tinha disparado com o início de seu
relacionamento com Mai, e parecia que ele estava
andando no ar.

Sua felicidade também não mostrava sinais de


abrandar na manhã seguinte.

Enquanto ele se preparava para a escola, ele


cantarolou e ligou a TV, olhando despreocupadamente
para o noticiário quando:

367
“Muito bem, Japão!”

Ele ouviu a voz de um homem animado.

“…”

Confuso, ele olhou fixamente para a tela. Ele achou


que já tinha ouvido isso antes.

“Bom dia, hoje é Sexta-Feira, vinte e sete de Junho.


Acho que vamos começar o dia com o futebol!”

O que foi que o apresentador tinha dito?

Vinte e sete de Junho

Isso definitivamente foi o que ele disse.

Sakuta também se lembrou dos destaques do jogo


que estavam sendo mostrados. Pouco antes do final do
primeiro tempo, o jogador japonês tinha acertado um
chute livre dentro do gol.

Ele voltou apressadamente para o seu quarto e olhou


para o despertador. Ele mostrava a data também.

“…O que diabos?”

Até o despertador que ele sempre usou indicava


vinte e sete de Junho.

Naquele dia, Azusagawa Sakuta acordou na manhã


de ontem.

368
↑ [1] bentô: é um tipo de marmita japonesa para
uma pessoa e servido em bandejas próprias que possuem
repartições.

↑ [2] dashi: é um caldo rico em umami utilizado na


culinária japonesa.

369
Algo estranho ocorreu no auge da felicidade. Este é
um novo caso de Síndrome da Adolescência. Ou Sakuta
está apenas sonhando? Ele estava apenas sonhando?

Ou talvez…

No final, qual é o destino de Sakuta?

Da próxima vez será o segundo volume da série, Um


Adolescente Traste Não Sonha com ○×△□, eu espero que
você esteja ansioso por isso. A parte ○×△□ ainda não foi
decidida, talvez ela nem mesmo seja alterada e apenas
tenha um ‘2’ adicionado.

Eu acho que serei capaz de entregá-lo antes que o


verão termine, mas no final, quem sabe qual será a data
de lançamento?

E eu sou Kamoshida Hajime.

Para aqueles que eu estou me encontrando pela


primeira vez, é bom conhecê-los.

Para aqueles que eu não vejo há algum tempo, já faz


algum tempo.

Para aqueles que eu encontrei no mês passado,


espero que possamos continuar nos dando bem.

Surpreendentemente, você não costuma visitar


áreas turísticas próximas.

Eu escolhi o cenário para esta história seguindo esse


sentimento. Eu passei a maior parte da minha vida na

371
prefeitura de Kanagawa, então eu sempre achei que
deveria ir até lá, mas nunca tive a oportunidade.

Isso é porque ela fica longe tanto da minha casa


quanto do departamento de edição da Dengeki Bunko.

Essa história, ambientada em uma cidade que pode


ver o oceano, começa aqui. Se você continuar comigo,
ficarei extremamente feliz.

Espero que eu possa me dar bem com meu ilustrador


Mizoguji Keeji-san e o chefe de edição Araki-san neste
trabalho também, ainda que estamos continuando a partir
do meu último trabalho deSakurasou no Pet na Kanojo.

E assim, acredito que nos encontraremos novamente


no segundo volume.

Kamoshida Hajime.

372
O sol estava se ponto em Enoshima, flutuando sobre
a Baía de Sagami, e Sakuta olhava para o mar e o céu
vermelho chamuscado a partir das janelas do trem
Enoden. Ao lado dele estava uma senpai, segurando as
alças de apoio assim como ele… Sakurajima Mai, uma
bela mulher que não conseguia evitar chamar a atenção
nas ruas e uma popular atriz que havia iniciado a carreira
quando criança.

Sakuta, que não era nada mais que um estudante do


ensino médio, conheceu ela de maneira inesperada e se
tornou íntimo a partir dessa oportunidade.

Sua figura, iluminada pelo pôr-do-sol, daria um belo


quadro e chamava a atenção muito mais do que o trem
Enoden e suas janelas meio nostálgicas.

“O que, você está sendo encantado?”

Mai sorriu maliciosamente e a triunfante curva em


seus lábios era extremamente fascinante.

Pouco antes de Sakuta responder, uma voz veio do


assento na frente deles.

“Ah, ele evoluiu.”

Seu ocupante era um estudante do primário e seus


dois amigos que o flanqueavam olhavam para o console
em suas mãos.

“Sério, tão legaaaal.”

374
“Não é justo, eu vou fazer isso também.”

Eles estavam se divertindo bastante.

“Você jogava esses jogos quando era criança?”

O olhar de Mai estava no console.

“Eu jogava.”

“Hmmm, eu não consigo imaginar isso.”

Mai examinou-o cuidadosamente.

“Eu acho que é praticamente um rito de passagem


para os garotos.”

Aliás, Sakuta fazia parte do grupo que não permitia


que eles evoluíssem imediatamente e ensinava golpes
antes.

“É você na escola primária que eu não consigo


imaginar.”

“Eu era muito fofo.”

“Não diga isso de si mesmo. Eu definitivamente era


mais fofa.”

Ela era uma jovem atriz conhecida em todo o país,


então isso era óbvio, mas não havia graça em desistir
imediatamente.

“Então quer vir ver meu álbum de formatura?”

“E o que você pretende fazer quando chegarmos em


seu quarto.”

375
“Se as coisas derem certo, perguntar se você quer
fazer coisas pervertidas.”

“Eu definitivamente não irei.” Ela totalmente o


rejeitou. “Bem, eu estou interessada no quanto você se
deteriorou, então eu irei contigo.”

Mai olhou para ele de maneira um pouco tímida, com


o olhar levantado.

“E você cresceu deliciosamente, Mai-san.”

Essas palavras foram uma sentença de morte, e Mai


não foi ao quarto de Sakuta naquele dia.

376
Tradução [JoséGui]
Revisão [JoséGui]
e-Book [JoséGui]

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