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Sobre Cidades sitiadas

“A pior política é atacar cidades. Sitie uma cidade apenas como último
recurso.” Essa advertência, registrada há mais de 2.500 anos no clássico A arte
da guerra, do filósofo chinês Sun Tzu, descreve a tendência dominante que o
pensamento e as práticas militares estão desenvolvendo hoje. Pela primeira vez
em seus 150 mil anos de história, a humanidade torna-se, no início deste
século, uma espécie predominantemente urbana. Nesse contexto, as principais
cabeças das forças militares e securitárias do mundo passaram a conceber nossas
cidades como zonas de conflito, espreitadas, o tempo todo, por ameaças
ocultas.
Este livro é uma verdadeira enciclopédia do presente e do futuro da guerra
no século XXI. Ele revela a quantidade assombrosa de estruturas militares e
corporativas ocultas por trás da vida cotidiana nas grandes cidades. Articulando
farto material de pesquisas originais, o geógrafo urbano Stephen Graham, da
Universidade de Newcastle, apresenta uma teoria do “novo urbanismo militar”
à altura da mudança paradigmática em curso. Atualizando o conceito
foucaultiano de “efeito bumerangue”, o autor analisa o processo através do qual
as cidades do Ocidente estão implementando internamente experiências e
tecnologias militares de controle importadas diretamente de territórios
ocupados no exterior, como a faixa de Gaza e o Haiti.
A nova doutrina de segurança que ora emerge ofusca dramaticamente as
antigas separações entre guerra e paz, normalidade e exceção. Com as
crescentes militarização da polícia e “policialização” das forças militares, os
exércitos de hoje se vertem em forças altamente inteligentes de
“contrainsurgência”, e os cidadãos comuns se tornam, em massa, alvos que
precisam ser rastreados e controlados. A totalidade da paisagem, da
infraestrutura e dos espaços mais banais da vida cotidiana nas cidades precisa
ser colonizada por sistemas militarizados de rastreamento, triagem e controle.
Mais do que ser o novo lugar da guerra, o espaço urbano se tornou ele próprio
instrumento ativo nessa guerra.
No sequestro da prática e do planejamento urbano por ideias militarizadas
de “segurança”, Graham aponta a corrosão da esfera pública. Se já nos
acostumamos com o léxico da “guerra às drogas” e da “pacificação” é porque
cada vez mais é a linguagem bélica que permeia a política metropolitana. Nesse
cenário, deslocamentos migracionais são vistos como ameaça, manifestantes são
enquadrados como terroristas, o medo de elementos antissociais é ativado por
autoridades para pacificar protestos, e novos mecanismos jurídicos são
mobilizados para suspender a lei civil. Quando a gestão da pólis passa a ser
pensada em termos militares, não há mais lugar para a democracia.
Entender a dimensão e a natureza do projeto político por trás do novo
urbanismo militar – e o fetichismo que lhe é próprio – é o primeiro passo para
resistir a ele. Mais do que uma obra de referência para entender a cartografia da
guerra e do pensamento urbano no século XXI, Cidades sitiadas é leitura
incontornável para desenharmos novas e urgentes formas de resistência.
Sobre Cidades sitiadas
Raquel Rolnik

“A militarização das cidades − ou a extensão de projetos de vigilância,


rastreamento e controle por meio de dispositivos tecnológicos e reestruturação
espacial sobre áreas cada vez maiores do ambiente urbano − é um fenômeno
global que incide não apenas sobre a natureza dos espaços, mas também sobre a
própria vida que neles se desenvolve. Stephen Graham revela os meandros, os
agentes, os dispositivos e as lógicas presentes nesse processo, informação
fundamental para quem, voluntária ou involuntariamente, participa dessa
guerra.”
Sobre Cidades sitiadas
David Harvey

“O espaço urbano é um lugar fundamental de ação política e revolta. As


reais características do local são importantes; a reengenharia física e social e a
organização territorial desses lugares são uma arma em lutas políticas. Como
ocorre nas operações militares, a escolha e a formatação do terreno de combate
são, para protestos populares e movimentos políticos em cenários urbanos, um
elemento crucial para determinar o vencedor.”
Sobre Cidades sitiadas
Mike Davis

“Eis aqui a geografia urbana vista da perspectiva de um drone a 8 mil


metros de altura. Um relato assombroso e fundamental a partir da zona de
conflito global.”
SUMÁRIO

Apresentação – Cidades e militarização, de “Norte” a “Sul”


Marcelo Lopes de Souza
Agradecimentos
Introdução – “Alvo interceptado…”
1. A guerra volta à cidade
2. Mundos maniqueístas
3. O novo urbanismo militar
4. Fronteiras onipresentes
5. Sonhos de um robô da guerra
6. Arquipélago de parque temático
7. Lições de urbicídio
8. Desligando cidades
9. Guerras de carro
10. Contrageografias
Fonte das imagens
Sobre o autor
E-books da Boitempo Ediotrial
para Doreen e Margaret
Lutas políticas não se realizam na superfície da
geografia, e sim em sua própria trama.
Steve Pile, “ e Troubled Spaces of Frantz Fanon”

Hoje em dia, guerras são travadas não em trincheiras e campos de


batalha, mas em salas de estar, escolas e supermercados.
Sultan Barakat, “City War Zones”
Apresentação
CIDADES E MILITARIZAÇÃO, DE “NORTE” A
“SUL”

Não é nada incomum que livros importantes sejam traduzidos para o


português somente muitos anos (ou mesmo várias décadas) após sua
publicação na língua original. Nesses casos, quando o leitor lusófono que
depende de tradução chega a ter acesso à obra, em geral é tarde para participar
de determinados debates científicos ou filosóficos: a conjuntura intelectual já
mudou, e a discussão se deslocou para outros terrenos. Em um país em que,
ainda por cima, a regra é a importação pouco ou nada crítica de agendas
intelectuais estado-unidenses e europeias, o trágico assume contornos de
patético.
Felizmente, não é isso que ocorre com Cidades sitiadas: o novo urbanismo
militar, de Stephen Graham, professor na Universidade de Newcastle.
Publicado em inglês em 2010, o livro versa sobre uma temática atualíssima
entre nós (e no mundo inteiro, e cada vez mais). Essa circunstância favorável, à
qual se acrescenta a excelente qualidade do trabalho, não elimina, porém, a
necessidade de alguns comentários de contextualização, uma vez que o lugar de
enunciação de onde escreve Graham (seu “locus de construção discursiva”) não
é o mesmo vivenciado pelo público leitor de seu livro no Brasil.
Assim, pois, apresentar Cidades sitiadas para o leitor brasileiro exige certo
distanciamento. O autor e eu temos preocupações e avaliações (e, em parte,
também fontes de inspiração teórica) em grande medida convergentes, mas
vivemos e trabalhamos em países, continentes e hemisférios diferentes. O foco
de Graham é a problemática do “urbanismo militar” – ou do controle sócio-
espacial[1], da securitização do quotidiano e daquilo que tenho chamado de
“dimensão geopolítica supralocal da escala local”[2] e “militarização da questão
urbana”[3] –, analisada com base no papel de países capitalistas centrais
(mormente dos Estados Unidos, e secundariamente do Reino Unido) e desse
peculiar país semiperiférico que é Israel. Encarada a partir do Brasil, da
América Latina e do “Sul global”[4], a questão ganha feições específicas.
Complementares, certamente; mas um tanto distintas. Senão, vejamos.
Na perspectiva do “Norte global” (que é a de Graham, ainda que de um
ponto de vista eminentemente crítico), o problema fundamental é aquilo que o
Estado e o capital privado protagonizam em meio à chamada “guerra ao terror”
– que, como todos sabemos, não é travada apenas “em casa”, mas também nos
países e nas cidades do “Sul global”. No “Sul”, em contraste, a “militarização da
questão urbana” tem sido impulsionada, acima de tudo, pelo combate à
criminalidade violenta ordinária, seja aquela associada ao crime organizado (ou
àquele “semiorganizado”, que corresponde à maior parte do tráfico de drogas
de varejo), seja a associada ao crime não organizado. Em um país como o
Brasil, o pano de fundo da “militarização da questão urbana” são sentimentos
difusos e cada vez mais presentes de medo e insegurança, reverberados e
retroalimentados pela mídia (afinal, o horror quotidiano rende boas
manchetes) e pelo sistema político-eleitoral (afinal, o medo generalizado
costuma ser um bom instrumento de controle sócio-espacial). Sabe-se, porém,
que a relação desses sentimentos com a incidência objetiva de crimes violentos
(homicídios, assaltos, latrocínios etc.) está longe de ser linear.
É evidente que, no “Norte” (e em particular nos Estados Unidos), a
criminalidade violenta “não terrorista” é preocupação antiga. Ela já suscitou
diferentes abordagens de controle sócio-espacial, como os “espaços defensáveis”
(defensible spaces) do arquiteto e urbanista Oscar Newman e, mais amplamente,
o enfoque conhecido como “Prevenção de crimes através do desenho urbano” –
Crime prevention through environmental design (CPTED) – ou, como preferem
os autores anglo-saxônicos, “desenho ambiental”. Ao mesmo tempo,
preocupações esdrúxulas com o “terrorismo” não têm estado ausentes nem
mesmo de um país como o Brasil: é o que demonstra a tentativa de setores
políticos e jurídicos conservadores (e até de alguns não tradicionalmente vistos
dessa forma) de tipificar o crime de terrorismo em nosso ordenamento jurídico,
usando os megaeventos esportivos (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de
2016 no Rio de Janeiro) como principal pretexto[5]. Esses aspectos em comum
não impedem, todavia, que o cerne da preocupação das elites dominantes (e
das classes médias) seja bem diferente quando comparamos os quadros típicos
do “Norte” e do “Sul”.
Uma das epígrafes usadas por Stephen Graham nesta obra é uma forte
observação extraída de um texto de Sultan Barakat: “Hoje em dia, guerras são
travadas não em trincheiras e campos de batalha, mas em salas de estar, escolas
e supermercados”. Essa ponderação é sintomática de uma época em que o
inimigo imediato não são apenas tropas armadas e uniformizadas, integrantes
das Forças Armadas regulares, mas sim populações inteiras ou grandes fatias de
toda uma sociedade, assimiladas indistintamente a insurgentes, rebeldes e
guerrilheiros ou vistas como criminosamente coniventes com eles. Estratégias
de terra arrasada não são novas na história da humanidade, mas Graham
mostra, nos notáveis capítulos 7 e 8, a inusitada importância que a destruição
maciça das condições de sobrevivência em países declarados como hostis vai
ganhando, mediante o bombardeio de infraestrutura, ataques cibernéticos
(cyberattacks) e congêneres. Um termo estranho e emblemático designa esse
tipo de investida contra um país: “desmodernização” (demodernisation). Ao
lado disso, sempre que o envio de tropas terrestres (nem sempre das Forças
Armadas: o papel de mercenários vem crescendo assustadoramente) por parte
de países capitalistas centrais for considerado inevitável, serão empregadas
táticas de “guerra urbana de baixa intensidade” (low-intensity urban warfare),
no jargão da contrainsurgência. Em analogia à ideia de “Estados fracassados”
(failed States), um discurso conservador profundamente desconfiado em relação
às grandes cidades tem encarado Bagdá e outras cidades como “cidades
fracassadas” (failed cities), sem que seus autores façam qualquer exame crítico
da responsabilidade histórica do colonialismo e do imperialismo nesses
supostos “fracassos”.
Uma das mais interessantes linhas de costura entre “Norte” e “Sul”, para
além de fatores econômicos globais (de natureza tecnológica, por exemplo),
reside nas entrelinhas das preocupações “oficiais” ou declaradas: lá como aqui,
não são apenas terroristas e criminosos que estão na mira das “forças da
ordem”, mas sim qualquer agente potencialmente perturbador da ordem sócio-
espacial hegemônica – a começar por movimentos sociais emancipatórios e
protestos antissistêmicos em geral, desde resistências à gentrificação até
demonstrações contra o G7, o Banco Mundial ou o Fundo Monetário
Internacional (FMI). No que concerne ao “Norte”, a relação entre terrorismo e
criminalização de movimentos de protesto já havia sido enfocada em uma
ótima coletânea organizada pelo próprio Stephen Graham em meados da
década passada[6].
Quanto ao Brasil, o texto final da Lei nº 13.260/2016, que tipifica o crime
de terrorismo, ressalva que o ali disposto “[...] não se aplica à conduta
individual ou coletiva de pessoas em manifestações políticas, movimentos
sociais, sindicais, religiosos, de classe ou de categoria profissional, direcionados
por propósitos sociais ou reivindicatórios, visando a contestar, criticar, protestar
ou apoiar, com o objetivo de defender direitos, garantias e liberdades
constitucionais, sem prejuízo da tipificação penal contida em lei”, assim
avançando em relação ao anterior substitutivo do senador Aloysio Nunes
(PSDB) ao Projeto de Lei da Câmara (PLC) 101/2015. A redação deste
último, segundo a qual é terrorismo político “atentar gravemente contra as
instituições democráticas”, suscitou fundados temores de que a liberdade de
protestar contra o Estado e governos específicos poderia vir a ser bastante
cerceada no país. No entanto, não há motivo para os movimentos sociais
emancipatórios ficarem tranquilos: o enquadramento “disciplinador” e a
criminalização que ele possibilita não foram totalmente afastados.
No “Norte global” estamos diante de países capitalistas centrais que
constituem vetores de processos de conteúdo imperialista em sentido clássico e
estrito. No “Sul”, a situação é diversa e diversificada. Por um lado, há a miríade
de países econômica e geopoliticamente periféricos (e também uns tantos
semiperiféricos) que são palco de processos basicamente exógenos (a despeito
da indispensável associação com elites nacionais) de conteúdo imperialista;
constituem, desse modo, o reverso do imperialismo, que, como se sabe, é um
fenômeno em primeiro lugar econômico, a despeito do destaque que merecem
seus desdobramentos político-militares, amiúde espetaculares. Por outro lado,
no entanto, países semiperiféricos não fazem parte do quadro geral apenas na
qualidade de palcos de processos imperialistas exógenos. Como o Brasil muito
bem ilustra, países semiperiféricos são potências regionais (as quais, vez por
outra, aspiram à condição de potências globais, ainda que de “segunda
divisão”) que procuram, elas próprias, ser protagonistas de processos de
conteúdo imperialista, a despeito do alcance bem mais restrito. Tendo o nosso
país como principal “laboratório”, Ruy Mauro Marini, brasileiro que acabou
escrevendo a maior parte de suas obras no exílio mexicano, nos anos 1970
cunhou o termo e esboçou o conceito de subimperialismo[7]. Muito mais
recentemente, o ensaísta uruguaio Raúl Zibechi descortinou as ações e as
contradições por trás do “Brasil potência”, não somente durante o regime
militar (referência histórica concreta de Marini), mas também depois, e até
mesmo durante os governos supostamente de esquerda dos últimos treze
anos[8]. A atuação de empresas brasileiras na América Latina e na África, das
grandes firmas de construção civil à Petrobras, evidencia o quanto, na verdade,
o subimperialismo brasileiro atual é ainda mais significativo do que na época
em que Ruy Mauro Marini produziu seus escritos seminais.
Para um leitor brasileiro, a problemática do subimperialismo é um pano de
fundo indispensável contra o qual alguns aspectos da “militarização da questão
urbana” podem ser mais bem compreendidos. Nesse ponto, a ideia de que
guerras são travadas, crescentemente, em “salas de estar, escolas e
supermercados” adquire uma feição familiar aos brasileiros, especialmente se
pensarmos nas ruas e casas de espaços segregados, nas favelas e periferias.
Stephen Graham, dialogando com Michel Foucault, chama a atenção para os
casos de “efeito bumerangue”, que ocorrem quando os governos de países
capitalistas centrais empregam técnicas de controle social e espacial
desenvolvidas e testadas em suas (antigas) colônias, da técnica de impressão
digital a procedimentos de “controle de multidões”. A dialética por trás desse
“efeito bumerangue”, porém, não é exclusiva dos países imperialistas e
colonialistas tradicionais; quanto a isso, o estudo de Graham necessita de uma
complementação. Atente-se, por exemplo, para a “Conexão Rio de Janeiro-
Porto Príncipe”: chefiando uma “missão de paz” das Nações Unidas (ONU) no
Haiti (Minustah), o Brasil tem aproveitado para treinar tropas que – como já
vem ocorrendo, aliás – serão depois utilizadas na “guerra urbana de baixa
intensidade” nas favelas brasileiras, combatendo o tráfico de drogas de varejo (e
quem mais for declarado como novo “inimigo interno” neste complexo e
confuso cenário pós-Guerra Fria). Quando, em 2007, o então ministro da
Defesa Nelson Jobim anunciou que o Haiti era o “primeiro passo”[9], como
parte de um esforço para robustecer a base legal para intervenções das Forças
Armadas brasileiras em missões de “Garantia da Lei e da Ordem” (GLO),
como o combate ao tráfico de drogas de varejo nas grandes cidades, o Rio de
Janeiro já tinha testemunhado várias intervenções militares de larga escala em
suas favelas, desde o início da década de 1990[10]. Naquele mesmo ano de
2007, aliás, consolidava-se a implantação, em Campinas (SP), do Centro de
Instrução de Operações de Garantia da Lei e da Ordem, subordinado à 11ª
Brigada de Infantaria Leve.
No “Norte global”, por fim, a “militarização da questão urbana” visa ao
controle sócio-espacial de minorias, quase sempre minorias étnicas
estabelecidas há menos ou mais tempo dentro das fronteiras nacionais,
tornadas alvos renovados de desprezo e desconfiança por motivos racistas e,
também, por seu suposto papel de “viveiros de terroristas”. Para os governos (e
empresas) de países capitalistas centrais, lidar com ameaças reais ou presumidas
em países onde a maioria da população é pobre e oprimida é algo que remete a
suas intervenções externas. Em um país como o Brasil, diversamente, os
pobres, isto é, aqueles dos quais a classe média desconfia e que são por ela
estigmatizados (e temidos), não são uma minoria: são a franca maioria. Se a
“militarização da questão urbana” tem a ver, no caso dos Estados Unidos, com
a projeção geopolítica global de um “policial do mundo” (para além,
obviamente, da enorme repressão interna, com notório fundo racista), no caso
do Brasil a referida militarização toma por objeto privilegiado o próprio povo.
Aqui, o braço repressor do Estado atua como versão moderna e institucional
dos capitães de mato da era escravocrata, em uma situação em que exploração
de classe e racismo se misturam.
Diante de tudo isso, para os estudiosos e pesquisadores brasileiros, a
melhor maneira de dialogar com Cidades sitiadas decerto não consiste em
assimilar e repetir mecanicamente a análise de Stephen Graham. Isso seria um
desserviço ao povo deste país, e tampouco seria um tributo adequado ao
esforço do autor. Uma vez que todo conhecimento sobre a sociedade tem
“sotaque”, ou seja, tenta elucidar o mundo a partir de uma perspectiva
histórico-geográfica determinada – ou seja, é histórica e culturalmente situado
–, todo conhecimento teórico-conceitual sobre a sociedade precisa ser
recontextualizado à luz da realidade de quem o recebe. Somente assim poderá
ser verdadeiramente útil de um ponto de vista crítico, inspirando sem cobrar
subordinação, iluminando sem ofuscar. Este será, assim quero crer, o destino
da relevante obra que o leitor tem em mãos.

Marcelo Lopes de Souza


Departamento de Geografia
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Rio de Janeiro, maio de 2016.

[1] O leitor que porventura não esteja familiarizado com a distinção conceitual entre “socioespacial” e
“sócio-espacial” pode ficar tranquilo: o uso, aqui, da segunda grafia não constitui desconhecimento das
normas ortográficas em vigor. As duas formas, com e sem hífen, têm seu lugar ao sol. Muito embora o
“espaço social” não deva ser reduzido à materialidade, ele também é, obviamente, materialidade: um
estádio de futebol é uma realidade que exemplifica o espaço social, inclusive em seu sentido material.
Quando desejamos nos referir ao espaço de um tal estádio, com as marcações do campo, suas
arquibancadas etc., podemos falar de sua estrutura socioespacial, sem hífen: aqui, “social” apenas qualifica
“espacial”. Ou seja, não fazemos referência direta às relações sociais que produziram o estádio, ou àquelas
que o animam durante uma partida (sejam as tensões e os confrontos entre torcidas, seja o jogo em si −
bem como os interesses econômicos e políticos eventualmente por trás dele...). Entretanto, para
compreender e elucidar o espaço, não basta compreender e elucidar o espaço. É preciso considerar, de
forma profunda, não superficial, também as relações sociais. É necessário interessar-se pela sociedade
concreta, em que relações sociais e espaço são inseparáveis, ainda que não se confundam. E é aqui que
entra em cena o sócio-espacial, no qual “sócio”, longe de apenas qualificar “espacial”, é, para além de uma
redução ao adjetivo “social”, um indicativo de que estamos falando, direta e plenamente, também das
relações sociais. Uma análise sócio-espacial de uma partida de futebol considerará, portanto, não apenas a
estrutura socioespacial, mas examinará, como processos vivos, as interações que se desenrolam durante a
partida, e até mesmo seu pano de fundo cultural, político e econômico, nos marcos de uma espacialidade
determinada, que as referencia e, de certo modo, condiciona. Sócio-espacial e socioespacial são, assim,
termos técnicos que designam conceitos diferentes e complementares.
[2] Vide, deste autor, O desafio metropolitano: um estudo sobre a problemática sócio-espacial nas metrópoles
brasileiras (Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000), p. 95 e seg.
[3] Consulte-se, por exemplo, deste autor, Fobópole: o medo generalizado e a militarização da questão
urbana (Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2008).
[4] As expressões “Sul global” (Global South) e “Norte global” (Global North), populares entre os
estudiosos anglo-saxônicos, são melhores que simplificações abusivas tais como “países pobres” versus
“países ricos” (como se fizesse sentido generalizar os qualificativos “pobre” e “rico” em escala nacional, e
como se países semiperiféricos como Brasil ou México pudessem, sem mais, ser adjetivados dessa maneira
simplista), “países desenvolvidos” versus “países subdesenvolvidos” (indisfarçado tributo à ideologia
capitalista do “desenvolvimento econômico”) e “países industrializados” versus “países não
industrializados” (como se todas as economias capitalistas não centrais fossem basicamente agrárias ou
primário-exportadoras). Entretanto, as expressões “Norte global” e “Sul global” não devem ser
empregadas sem ressalvas. Elas constituem, em última instância, generalizações pseudogeográficas, que
não só implicam várias incongruências (o México e a América Central, parte da África, o Oriente Médio
e a Índia, por exemplo, estão no hemisfério Norte, mas são “Sul”, ao passo que a Austrália e a Nova
Zelândia, que se situam no hemisfério Sul, são “Norte”) como também costumam trazer um olhar
eurocêntrico. Contudo, por conveniência de comunicação e aproveitando o fato de que são utilizadas por
Stephen Graham em seu trabalho, decidi, aqui, fazer uso dessas expressões.
[5] A Lei nº 13.260, que “regulamenta o disposto no inciso XLIII do art. 5º da Constituição Federal,
disciplinando o terrorismo, tratando de disposições investigatórias e processuais e reformulando o
conceito de organização terrorista”, foi decretada pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidente
Dilma Rousseff em 16 de março de 2016. Houve considerável pressão externa nesse sentido: o Grupo de
Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo, organização
intergovernamental com sede em Paris e conhecida internacionalmente pela sigla Gafi (do francês Groupe
d’action financière), ameaçava o Brasil com sanções internacionais caso a legislação não fosse aprovada.
[6] Stephen Graham (org.), Cities, War, and Terrorism: Towards an Urban Geopolitics (Malden [MA],
Blackwell, 2004).
[7] Para um primeiro contato com a obra de Marini, o leitor brasileiro pode recorrer, por exemplo, a
Dialética da dependência (Petrópolis, Vozes/Clacso, 2000), originalmente publicado em 1973.
[8] Ver, de Raúl Zibechi, Brasil potencia: entre la integración regional y un nuevo imperialismo (Bogotá,
Ediciones desde Abajo, 2012) [ed. bras.: Brasil potência: entre a integração regional e um novo imperialismo,
coord. trad. Carlos Walter Porto-Gonçalves, Rio de Janeiro, Consequência, 2015].
[9] Eliane Cantanhêde, “Jobim no Haiti”, Folha de S.Paulo, Opinião, 4 set. 2007.
[10] Sobre o assunto, consultar também, além de meu livro Fobópole, cit., o ensaio de minha autoria “A
‘reconquista do território’, ou: Um novo capítulo na militarização da questão urbana”, em Dos espaços de
controle aos territórios dissidentes: escritos de divulgação científica e análise política (Rio de Janeiro,
Consequência, 2015), originalmente publicado pelo site Passa Palavra, em 2010.
AGRADECIMENTOS

Enquanto fiz parte do Departamento de Geografia da Universidade de


Durham, tive a sorte de estar cercado por uma gama extraordinária de amigos e
acadêmicos que tratam da política da geografia com verve, vigor e criatividade.
Aprendi muitíssimo trabalhando com essas pessoas, que foram imensamente
importantes para a gênese deste livro. Muitos fizeram a especial gentileza de
comentar rascunhos e oferecer ideias. Agradeço, em particular, a Ash Amin,
Louise Amoore, Harriet Bulkeley, Ben Anderson, David Campbell, Mike
Crang, Angharad Closs Stephens, Stuart Elden, Alex Hall, Paul Harrison,
Kathrin Hörschelmann, a todos no Ibru[a], Francisco Klauser, Colin
McFarlane, John Mendel, Christine McEwan, Gordon McLeod, Rachel Pain,
Marcus Power, Joe Painter e Divya Tolia-Kelly.
Mais adiante, recebi incentivo vital e duradouro de colegas que tanto
fizeram para alargar as agendas políticas que este livro assumiu. Também fui
beneficiado por um amplo espectro de críticas, o que é especialmente
importante para uma obra desta envergadura. Minhas dívidas aqui são
numerosas demais para uma lista completa. Mas sou grato, em particular, a
Rowland Atkinson, John Armitage, Kirstie Ball, John Beck, Zygmunt Bauman,
Ryan Bishop, Alastair Bonnett, Neil Brenner, Judit Carrera, Bob Catterall,
Greg Clancey, Jon Coaffee, Deborah Cowen, Jordan Crandall, Lieven De
Cauter, Simon Dalby, Mike Davis, Ashley Dawson, Volker Eick, Keller
Easterling, Ulrike Engel, Derek Gregory, James Harkin, Ken Hewitt, Bryan
Finoki, Omar Jabary Salamanca, Caren Kaplan, Maria Kaika, Roger Keil,
Stephen Legg, Patrick LeGalès, Setha Low, David Lyon, Peter Marcuse,
Eduardo Mendietta, Deborah Natsios, Clive Norris, Vyjayanthi Rao, Neil
Smith, Michael Sorkin, Eric Swyngedouw, Nigel rift, Nick Turse, Robert
Warren, Eyal Weizman, David Wood, Elvin Wyly, Alison Williams, Rachel
Woodward, Steve Wright, Charles Zerner e Elia Zureik.
Meu profundo agradecimento também pelo apoio do Departamento de
Sociologia da Universidade de Nova York – em especial a Neil Brenner e
Harvey Molotch –, que me acolheu como professor visitante em novembro de
2007. Preciso enfatizar, claro, que todos os erros e todas as fraquezas do
presente trabalho são meus.
Devo minha ampla gratidão ao Economic and Social Research Council
[Conselho de Pesquisa Econômica e Social], por oferecer apoio ao projeto
Contested Borders [Fronteiras em Disputa], que possibilitou muitos dos
insights presentes no capítulo 5.
O material visual desta obra conta com o trabalho de um grande número
de amigos e colegas. Muito obrigado a Lisa Benton-Short, Adam Broomberg,
Oliver Chanarin, Ben Colebrook, Teddy Cruz, Keller Easterling, Ulrike Engel,
Bryan Finoki, Mark Gillem, Francisco Klauser, Paula Levine, Deborah Natsios,
Jeremy Németh, Clive Norris, Steve Rowell, Anne-Marie Schleiner, Elin
O’Hara Slavick, John Young e Micah Ian Wright por gentilmente fornecer
imagens. Também sou muitíssimo grato a Michele Allan e Chris Orton pelo
excelente trabalho de preparo das tabelas, dos mapas e das figuras.
Em penúltimo lugar, é necessário explicar que versões anteriores de partes
deste trabalho já foram publicadas nas seguintes formas: a Introdução, como
um artigo na revista City[1]; o capítulo 6, como um estudo preliminar em Crisis
States, da London School of Economics and Political Science (LSE), como
artigo na City[2], e de diferentes formas em dois livros: War, Citizenship,
Territory [Guerra, cidadania, território][3] e eorizing Surveillance [Teorizando
a vigilância][4]; o capítulo 7, em um formato muito diferente, na New Left
Review[5]; o 8, também em formato muito diferente, na New Left Review[6]; e,
finalmente, o capítulo 9, como um artigo na City[7] e, em diferentes formatos,
como capítulos em dois livros: Violent Geographies [Geografias violentas][8] e In
the Nature of Cities [Na natureza das cidades][9].
Finalmente, muito obrigado a Simon Marvin pelas cervejas em Haifa que
deram início a isto, em 2002; a Tom Penn e Mark Martin, da editora Verso,
pelo incentivo perfeito; a Avis Lang e Noah Eber-Schmid, respectivamente,
pelas esplêndidas edição de texto e checagem de fatos; a Palma, Lynn e Sally,
por me darem tempo para terminar; e, acima de tudo, a Annette, Ben e Oliver,
pela luz e pelo amor que me permitiram completar essa jornada.

Stephen Graham, Newcastle.

[a] Ibru: Center for Borders Research [Centro de Pesquisa sobre Fronteiras], fundado como International
Boundaries Research Unit [Unidade Internacional de Pesquisa sobre Fronteiras], por isso a sigla. (N. E.)
[1] Stephen Graham, “Cities as Battlespaces: the New Military Urbanism”, City, v. 13, n. 4, nov. 2009.
[2] Idem, “Robowar Dreams: US Military Technophilia and Global South Urbanization”, City, v. 12, n.
1, abr. 2008.
[3] Idem, “Imagining Urban Warfare: Urbanization and US Military Technoscience”, em Deborah
Cowen e Emily Gilbert (orgs.), War, Citizenship, Territory (Routledge, Nova York, 2008).
[4] Idem, “Surveillance, Urbanization, and the US ‘Revolution in Military Affairs’”, em David Lyon
(org.), eorizing Surveillance (Willan, Cullompton, 2006).
[5] Idem, “War and the City”, New Left Review, n. 44, mar.-abr. 2007.
[6] Idem, “Lessons in Urbicide”, New Left Review, n. 19, jan.-fev. 2003.
[7] Idem, “Switching Cities Off: Urban Infrastructure and US Air Power, City, v. 9, n. 2, jul. 2005.
[8] Idem, “Demodernizing by Design: Everyday Infrastructure and Political Violence”, em Allan Pred e
Derek Gregory (orgs.), Violent Geographies (Nova York, Routledge, 2006).
[9] Idem, “Urban Metabolism as Target: Contemporary War as Forced Demodernisation”, em Eric
Swyngedouw, Nick Heynen e Maria Kaika (orgs.), In the Nature of Cities (Londres, Routledge, 2005).
Introdução
“ALVO INTERCEPTADO…”

Em 14 de novembro de 2007, Jacqui Smith, então ministra do Interior do


Reino Unido, anunciou uma das mais ambiciosas tentativas já empreendidas
por um Estado de rastrear e vigiar sistematicamente todas as pessoas que
entrassem e saíssem do território por ele controlado. O altamente controverso
programa e-Borders procura fazer uso de sofisticados algoritmos de
computador e técnicas de mineração de dados para identificar indivíduos ou
atitudes “ilegais” ou hostis antes que ameaçassem as fronteiras do território do
Reino Unido. O programa utiliza uma tecnologia desenvolvida pelo consórcio
Trusted Borders, liderado pela gigantesca corporação de defesa Raytheon.
O projeto e-Borders se baseia em um sonho de onisciência tecnológica:
rastrear todos os que passem pelas fronteiras do Reino Unido, usando registros
de atividades passadas e associações para identificar ameaças futuras antes que
se materializem. Smith prometeu que, quando o sistema finalmente estivesse
funcionando, em 2014 – ainda que muitos afirmem que é impraticável –, o
controle e a segurança nas fronteiras do Reino Unido seriam restabelecidos, em
um mundo radicalmente móvel e inseguro[1]. “Todos os viajantes que forem
para a Inglaterra passarão pela filtragem de listas de pessoas barradas e listas de
alvos a interceptar”, ela previu. “Junto com vistos biométricos, isso vai ajudar a
manter os problemas longe da nossa costa… Além da checagem dupla mais
rigorosa na fronteira, carteiras de identidade para estrangeiros que vivem no
país logo fornecerão uma checagem tripla”[2].
A linguagem de Smith – “lista de alvos”, “filtragem”, “vistos biométricos” e
assim por diante – é muito reveladora. A gigantesca proliferação global de
projetos de vigilância governamental altamente tecnófilos como o programa e-
Borders é um sinal da impressionante militarização da sociedade civil – a
extensão das ideias militares de rastreamento, identificação e seleção nos
espaços e meios de circulação da vida cotidiana. De fato, projetos como esse
são mais do que reações do Estado a ameaças à segurança que estão em
mutação. Em um mundo marcado pela globalização e pela crescente
urbanização, eles representam tentativas drásticas de traduzir antigos sonhos
militares de onisciência e racionalidade altamente tecnológicas para o controle
da sociedade civil urbana.
Estando atualmente a segurança e a doutrina militar nos Estados ocidentais
centradas na tarefa de identificar insurgentes, terroristas e uma vasta gama de
ameaças ambientais no caos da vida urbana, esse fato se torna ainda mais claro.
Além do mais, seja nas filas do aeroporto Heathrow, nas estações do metrô de
Londres ou nas ruas de Cabul e Bagdá, a doutrina da vez enfatiza que é preciso
encontrar maneiras de identificar tais pessoas e ameaças antes que seu potencial
letal seja concretizado, dado que elas hoje são efetivamente impossíveis de
distinguir em meio à população urbana mais ampla. Portanto, há um esforço
nas cidades, tanto no coração capitalista do Norte global quanto na periferia e
nas fronteiras coloniais do mundo, para estabelecer sistemas de monitoramento
de alta tecnologia que vasculhem dados acumulados do passado para identificar
ameaças futuras.

Os filhos deles contra o nosso silício


Na raiz dessas visões de guerra e segurança no mundo pós-Guerra Fria
estão fantasias em que o Ocidente faz uso de seu incontestável poder
tecnológico para restabelecer sua declinante supremacia militar, econômica e
política. “Em nosso território e lá fora”, escreveram os estudiosos de segurança
estado-unidenses Mark Mills e Peter Huber na publicação de direita City
Journal, um ano depois dos ataques de 11 de Setembro, “vão acabar sendo os
filhos deles contra o nosso silício. Nosso silício vai ganhar”[3].
Huber e Mills preveem um futuro próximo saído diretamente do filme
Minority Report – A nova lei. Para eles, toda uma série de sistemas de vigilância
e rastreamento emerge na esteira de modos de consumo, comunicação e
transporte de alta tecnologia para permear todos os aspectos da vida nas
cidades ocidentais. Comparando constantemente o comportamento atual dos
indivíduos com vastos bancos de dados que registram eventos e associações
passados, esses sistemas de rastreamento – de acordo com o argumento – vão
sinalizar automaticamente quando os corpos, espaços e sistemas de
infraestrutura das cidades estiverem prestes a sofrer um ataque terrorista.
Assim, o que Huber e Mills chamam de “alvos confiáveis” ou “cooperativos”
são constantemente separados dos “não cooperativos” e seus esforços de usar
sistemas postais, elétricos, de internet, financeiros, aéreos e de transporte como
meios de projetar resistência e violência. Aliás, a visão de Huber e Mills pede
que sistemas de segurança e vigilância em estilo aeroportuário passem a
abranger cidades e sociedades inteiras utilizando, em sua base, os meios de
consumo e mobilidade de alta tecnologia que já estão estabelecidos nas cidades
ocidentais.
Quanto às fronteiras coloniais resistentes, os autores, como muitos teóricos
militares e de segurança estado-unidenses, sonham com um aparato de guerra
contrainsurgente contínuo, automatizado e robotizado. Usando sistemas
semelhantes àqueles empregados nas cidades norte-americanas, mas desta vez
com o poder soberano para matar com autonomia, eles imaginam que as tropas
estado-unidenses podem ser poupadas do trabalho sujo de lutar e matar em
solo nas zonas fronteiriças em rápida urbanização. Enxames de pequenos drones
armados, equipados com sensores avançados e em comunicação uns com os
outros, serão então empregados para vagar permanentemente sobre as ruas, os
desertos e as estradas. Huber e Mills sonham com um futuro em que esses
enxames de guerreiros robotizados vão trabalhar sem descanso para “emitir
poder de destruição com precisão, critério e a partir de uma distância segura –
semana após semana, ano após ano, enquanto for necessário”[4].
Essas fantasias de onipotência high-tech são muito mais do que ficção
científica. Além de desenvolver o programa e-Borders no Reino Unido, a
Raytheon também é, por exemplo, líder na produção tanto de mísseis de
cruzeiro quanto de drones não tripulados usados com regularidade pela CIA
para realizar incursões assassinas pelo Oriente Médio e pelo Paquistão desde
2002. A Raytheon também está no centro de uma série de projetos militares
estado-unidenses bastante reais, nos quais softwares são desenvolvidos para
programar armas robotizadas a mirar e matar inimigos de modo autônomo,
sem nenhum envolvimento humano, como Huber e Mills anteviram.

O novo urbanismo militar


A transição entre o uso militar e civil de tecnologia avançada – entre a
vigilância e o controle da vida cotidiana nas cidades ocidentais e as agressivas
guerras de colonização e de recursos – está no cerne de um conjunto muito
mais amplo de tendências que caracteriza o novo urbanismo militar. Claro, os
efeitos observados no cenário ocidental urbano são muito diferentes daqueles
vistos em zonas de guerra. Mas, fundamentalmente, seja qual for o ambiente,
esses atos de violência de alta tecnologia têm por base um mesmo conjunto de
ideias.
A mudança paradigmática que torna os espaços comuns e privados das
cidades, bem como sua infraestrutura – e suas populações civis –, fonte de
alvos e ameaças é fundamental para o novo urbanismo militar. Isso se manifesta
no uso da guerra como metáfora dominante para descrever a condição
constante e irrestrita das sociedades urbanas – em guerra contra as drogas, o
crime, o terror, contra a própria insegurança. Esse advento incorpora a
militarização sub-reptícia de uma ampla gama de debates de política interna,
paisagens urbanas e circuitos de infraestrutura urbana, além de universos
inteiros de cultura popular e urbana. Leva à difusão furtiva e insidiosa de
debates militarizados sobre “segurança” em todos os aspectos da vida. Juntos,
mais uma vez, eles lutam para trazer ideias essencialmente militares de guerra, e
de sua preparação, para o centro da vida citadina comum e cotidiana.
A militarização insidiosa da vida nas cidades ocorre em uma época em que
a humanidade se tornou uma espécie predominantemente urbana pela
primeira vez em seus 150 mil anos de história. Ela ganha força a partir dos
múltiplos circuitos de militarização e securitização que, até o momento, não
foram considerados em conjunto nem vistos como um todo. É a essa tarefa que
este livro se dedica.
À guisa de introdução, e para oferecer uma amostra do impressionante
leque de circuitos políticos, sociais e culturais que atualmente estão sendo
colonizados pelo novo urbanismo militar, vale a pena apresentar suas cinco
características principais.

Urbanização da segurança
Assim como as previsões de Huber e Mills para o futuro, o novo
urbanismo militar, em toda a sua complexidade e o seu alcance, se apoia em
uma ideia central: técnicas militarizadas de rastreamento e triagem precisam
colonizar permanentemente a paisagem urbana e os espaços da vida cotidiana
tanto na “pátria”[a] quanto nas cidades do Ocidente, bem como nas fronteiras
neocoloniais do mundo. Para os mais recentes gurus militares e de segurança,
isso é considerado crucial, a única maneira adequada de lidar com as novas
realidades daquilo que chamam de guerra “assimétrica” ou “irregular”.
Essas guerras colocam terroristas ou insurgentes internacionais contra a
segurança de alta tecnologia, as forças militares e de inteligência de Estados-
nação e seus leques cada vez maiores de aliados privados e corporativos. Sem
fardas, de modo geral indistinguíveis da população urbana, guerreiros não
estatais, milicianos, insurgentes e terroristas espreitam, invisíveis, graças ao
anonimato oferecido pelas cidades em desenvolvimento do mundo (em
especial os distritos informais em rápido crescimento). Eles exploram e miram
os condutos em espiral e as artérias que conectam as cidades modernas: a
internet, o YouTube, a tecnologia de GPS, os celulares, as viagens de avião, o
turismo global, a imigração internacional, os sistemas portuários, as finanças
globais e até os serviços de correio e as redes elétricas.
Os atentados terroristas em Nova York, Washington, Madri, Londres e
Mumbai (para citar alguns alvos desses ataques), ao lado das agressões militares
estatais a Bagdá, Gaza, Nablus, Beirute, Grozny, Mogadíscio e Ossétia do Sul,
demonstram que a guerra assimétrica é o veículo para a violência política que
atravessa espaços transnacionais. Cada vez mais, os conflitos contemporâneos
ocorrem em supermercados, edifícios, túneis do metrô e distritos industriais,
em vez de campos abertos, selvas ou desertos.
Tudo isso significa que, talvez pela primeira vez desde a Idade Média, a
geografia localizada das cidades e os sistemas que as entrelaçam começam a
dominar as discussões em torno da guerra, da geopolítica e da segurança. Na
nova doutrina militar da guerra assimétrica – também rotulada de “conflito de
baixa intensidade”, “netwar”, a “guerra longa” ou “guerra de quarta geração” –,
locais prosaicos e cotidianos, áreas de circulação e espaços da cidade estão se
tornando o principal “campo de batalha”[5] tanto em território nacional quanto
no exterior.
Nesse contexto, a doutrina de segurança e militar ocidental está sendo
rapidamente repensada de maneiras que obscurecem dramaticamente a
separação jurídica e operacional entre policiamento, inteligência e militarismo;
as distinções entre guerra e paz; e entre operações locais, nacionais e globais.
Cada vez mais, guerras e mobilizações associadas deixam de ser restritas pelo
tempo e pelo espaço e, em vez disso, se tornam, na mesma medida, ilimitadas e
mais ou menos permanentes. Ao mesmo tempo, centros de poder estatal
empregam cada vez mais recursos tentando separar figuras consideradas
malignas e ameaçadoras daquelas consideradas valiosas e ameaçadas dentro dos
espaços cotidianos e das infraestruturas que as entrelaçam. Em vez de direitos
legais e humanos e de sistemas jurídicos baseados na cidadania universal, essas
políticas de segurança emergentes se fundamentam na elaboração de perfis de
indivíduos, locais, comportamentos, associações e grupos. Tais práticas
atribuem a esses sujeitos categorias de risco baseadas em suas supostas
associações com violência, desordem ou resistência contra as ordens geográficas
dominantes que sustentam o capitalismo neoliberal global.
No Ocidente, essa mudança ameaça reorganizar as concepções de cidadania
e limites nacionais, fundamentais ao conceito de Estado-nação ocidental desde
meados do século XVII. A obsessão cada vez maior com perfis de risco pode
usar as ferramentas de segurança nacional para desmantelar ideias que
alimentam a concepção de cidadania nacional universal. Por exemplo, os norte-
americanos já estão pressionando a Inglaterra para introduzir um novo sistema
de vistos para cidadãos do Reino Unido com vínculos próximos com o
Paquistão que quiserem visitar os Estados Unidos. Em outras palavras, esses
fatos ameaçam estabelecer práticas de fronteira dentro dos espaços dos Estados-
nação – desafiando a definição do “interior” e do “exterior” geográfico e social
de comunidades políticas. O processo se equipara, por sua vez, à erupção de
pontos de fronteira dentro dos limites territoriais das nações, em aeroportos,
portos de carga, terminais de internet e estações ferroviárias de trens expressos.
Ao mesmo tempo, o alcance dos braços de policiamento, segurança e
inteligência dos governos também está indo além dos limites territoriais
nacionais, conforme sistemas de vigilância global são criados para monitorar os
sistemas aéreos, portuários, comerciais, financeiros e de comunicação
mundiais. Os programas eletrônicos de fronteiras, por exemplo – como o da
Raytheon no Reino Unido –, estão sendo integrados aos sistemas
transnacionais para que os passageiros tenham seus dados de comportamento e
associações minerados antes mesmo de tentarem embarcar em aviões para a
Europa e para os Estados Unidos. Os poderes de policiamento também estão se
estendendo para além das fronteiras dos Estados-nação. O Departamento de
Polícia de Nova York, por exemplo, estabeleceu recentemente uma rede de dez
escritórios no exterior como parte de seus crescentes esforços antiterrorismo. O
policiamento extranacional prolifera nos encontros de cúpula política e nos
eventos esportivos internacionais. Em um movimento paralelo, campos de
refugiados e exilados cada vez mais se constituem de forma “offshore”, para
serem mantidos fora dos limites territoriais das nações capitalistas ricas, de
modo que se armazene e lide de maneira invisível e a distância com corpos
humanos considerados malignos, indignos ou ameaçadores.
A expansão dos poderes da polícia para além das fronteiras nacionais ocorre
enquanto as forças militares estão sendo alocadas com regularidade cada vez
maior entre as nações ocidentais. Recentemente, os Estados Unidos
estabeleceram pela primeira vez um comando militar para a América do Norte:
o Northern Command [Comando Norte][6]. Antes disso, essa era a única parte
do mundo não coberta dessa maneira. O governo estado-unidense também
reduziu de maneira gradual antigas barreiras legais ao posicionamento de
militares dentro de cidades do país. Hoje em dia, exercícios de treinamento de
guerra urbanos ocorrem com regularidade em cidades dos Estados Unidos,
simulando crises de “segurança nacional”, bem como desafios de pacificação de
rebeliões nas cidades das periferias coloniais no Sul global. Além do mais, em
uma convergência expressiva de doutrina e tecnologia, satélites high-tech e
drones desenvolvidos para monitorar inimigos da distante Guerra Fria ou
insurgentes estão sendo cada vez mais usados dentro das cidades ocidentais.

O bumerangue de Foucault
O novo urbanismo militar se alimenta de experiências com estilos de
objetivos e tecnologia em zonas de guerra coloniais, como Gaza ou Bagdá, ou
operações de segurança em eventos esportivos ou cúpulas políticas
internacionais. Essas operações funcionam como um teste para a tecnologia e
as técnicas a serem vendidas pelos prósperos mercados de segurança nacional ao
redor do mundo. Por processos de imitação, modelos explicitamente coloniais
de pacificação, militarização e controle, aperfeiçoados nas ruas do Sul do globo,
se espalham pelas cidades dos centros capitalistas do Norte. Essa sinergia, entre
operações de segurança nacional e internacional, é a segunda característica
fundamental no novo urbanismo militar.
O pesquisador de estudos internacionais Lorenzo Veracini diagnosticou um
dramático ressurgimento contemporâneo da importação de alegorias e técnicas
tipicamente coloniais para a administração e o desenvolvimento de cidades nos
centros metropolitanos da Europa e da América do Norte. Ele argumenta que
esse processo está servindo para desfazer, de maneira gradual, uma “distinção
clássica e antiga entre a faceta exterior e a interior da situação de colônia”[7].
É importante destacar, então, que o ressurgimento de estratégias e técnicas
explicitamente coloniais entre Estados-nação como os Estados Unidos, o Reino
Unido e Israel no período “pós-colonial” contemporâneo[8] envolve não apenas
o uso de técnicas do novo urbanismo militar em zonas de guerra no exterior,
mas sua difusão e imitação por meio da securitização da vida urbana ocidental.
Assim como no século XIX as nações colonialistas europeias importaram o uso
de impressões digitais, as prisões panópticas e a construção de boulevards
haussmannianos para implantá-los nos bairros rebeldes de suas cidades depois
de os terem experimentado em fronteiras colonizadas, as técnicas coloniais hoje
funcionam por meio do que Michel Foucault chamou de “efeito
bumerangue”[9]. “Jamais deve-se esquecer”, afirmou Foucault,
que, enquanto a colonização, com suas técnicas e suas armas políticas e jurídicas, obviamente
transportou modelos europeus para outros continentes, ela também teve um considerável efeito
bumerangue nos mecanismos de poder do Ocidente e nos aparatos, nas instituições e nas
técnicas de poder. Toda uma série de modelos coloniais foi trazida de volta ao Ocidente, e o
resultado foi que este pôde praticar algo que se parece com a colonização, ou um colonialismo
interno, em si mesmo.[10]

No período contemporâneo, o novo urbanismo militar está marcado por –


e, na realidade, consiste em – uma miríade de chocantes casos de efeito
bumerangue foucaultiano, elaborados detalhadamente em boa parte deste livro.
Por exemplo, drones israelenses desenvolvidos para verticalmente subjugar e ter
palestinos como alvo são rotineiramente utilizados hoje em dia pelas forças
policiais na América do Norte, na Europa e na Ásia Oriental. Operadores
privados das prisões de segurança máxima nos Estados Unidos estão bastante
envolvidos na administração do arquipélago global que organiza o
encarceramento e a tortura, em franco crescimento desde o início da “Guerra
ao Terror”. Corporações militares privadas colonizam fortemente os contratos
de reconstrução tanto no Iraque quanto em Nova Orleans. A perícia israelense
no controle populacional é buscada por aqueles que planejam operações de
segurança para eventos internacionais no Ocidente. E políticas de “atirar para
matar” desenvolvidas para combater homens-bomba em Tel-Aviv e Haifa
foram adotadas por forças policiais na Europa e nos Estados Unidos – um
processo que resultou diretamente na morte de Jean Charles de Menezes pela
polícia antiterrorismo londrina em 22 de julho de 2005.
Enquanto isso, o policiamento agressivo e militarizado em manifestações
públicas e mobilizações sociais em Londres, Toronto, Paris e Nova York está
começando a usar as mesmas “armas não letais” que o Exército de Israel em
Gaza ou Jenin. A construção de “zonas de segurança” ao redor dos centros
financeiros estratégicos e distritos governamentais de Londres e Nova York
importa diretamente técnicas usadas em bases militares instaladas em outros
países e em áreas internacionais. Por fim, muitas das técnicas usadas para
fortalecer enclaves em Bagdá ou confinar permanentemente civis em Gaza e na
Cisjordânia estão sendo vendidas mundo afora como “soluções de segurança”
de ponta, comprovadas em batalha, por coalizões corporativas que conectam
empresas e governos israelenses, estado-unidenses e de outros lugares.
Essencialmente, esses casos de efeito bumerangue que fundem doutrinas de
segurança e militares nas cidades do Ocidente com aquelas das periferias
coloniais são reforçados pelas geografias culturais que sustentam a direita e
extrema direita política, junto com comentadores beligerantes dentro das
próprias Forças Armadas ocidentais. Eles tendem a considerar as cidades em si
espaços intrinsecamente problemáticos – os principais espaços de concentração
de atos de subversão, resistência, mobilização, dissenso e protestos, desafiando a
segurança nacional tanto dentro do país quanto fora dele.
Bastiões da política etnonacionalista, os movimentos da ascendente
extrema direita em geral têm forte representação dentro da polícia e das Forças
Armadas estatais. Eles tendem a ver áreas rurais ou os subúrbios abastados
como espaços autênticos e puros de nacionalismo branco, associados a valores
cristãos e tradicionais. Exemplos disso vão desde fundamentalistas cristãos
norte-americanos e o Partido Nacional Britânico até o Partido da Liberdade
austríaco, a Frente Nacional francesa e a Forza Italia. Em contrapartida, os
bairros cosmopolitas que crescem e se espalham cada vez mais nas cidades
ocidentais são muitas vezes colocados por esses grupos nos mesmos termos
orientalistas que as megacidades do Sul do globo, como lugares radicalmente
externos à vulnerável nação – territórios tão estrangeiros quanto Bagdá ou
Gaza.
Paradoxalmente, no entanto, a imaginação geográfica que serve de base
para o novo urbanismo militar tende a tratar fronteiras coloniais e “pátrias”
ocidentais como domínios fundamentalmente separados – dois lados em um
embate de civilizações, de acordo com a hipótese incendiária e muito
controversa de Samuel Huntington[11]. Essa separação criativa coexiste de
modo desconfortável com a progressiva fusão, em um todo indistinto, das
doutrinas de segurança, militares e de inteligência que lidam com ambos os
lados. Tais concepções procuram negar as formas pelas quais as cidades de
ambos os domínios estão cada vez mais ligadas pela imigração e pelo
investimento.
Considerar todas essas cidades como espaços problemáticos para além das
zonas rurais e dos subúrbios prósperos habitados por comunidades nacionais
autênticas cria uma consonância peculiar entre as periferias coloniais e os
centros capitalistas. Por exemplo, a construção a partir de 2003, pelas forças
norte-americanas, de enclaves sectários em Bagdá seguindo o modelo israelense
foi amplamente descrita pela segurança dos Estados Unidos como o
desenvolvimento de comunidades fechadas em estilo norte-americano no
Iraque. Em decorrência da devastação de Nova Orleans pelo furacão Katrina
no fim de 2005, oficiais do Exército norte-americano falaram sobre a
necessidade de “retomar” a cidade dos “insurgentes” de inspiração iraquiana.
Então, como sempre, a maneira como a vida urbana nas áreas colonizadas é
imaginada reverbera com força nas cidades dos colonizadores. De fato, a
projeção das alegorias coloniais e dos exemplos de segurança das metrópoles
pós-coloniais nos centros capitalistas é alimentada por um novo “orientalismo
dos bairros pobres”[12]. Seu lastro é uma representação disseminada entre
formadores de opinião de direita nas áreas de segurança, militarismo e política
segundo a qual os distritos de imigrantes nas cidades do Ocidente são zonas
“atrasadas” que ameaçam o corpo político das cidades ou nações ocidentais. Na
França, por exemplo, o planejamento estatal trabalhou para conceituar os
projetos habitacionais de massa da periferia (os banlieues) como reservas “quase
periféricas”, conectadas – mas distantes – aos centros metropolitanos do
país[13]. Lembranças amargas dos argelinos e de outras guerras anticoloniais
saturam o discurso da extrema direita francesa sobre a diminuição do poder
“branco” e a “insegurança” causada pelos banlieues – um processo que levou a
uma dramática mobilização das forças de segurança dentro e ao redor dos
principais complexos habitacionais de imigrantes depois dos tumultos nas
periferias em 2005.
Discutindo a mudança de colonização externa para interna na França,
Kristin Ross aponta para a maneira como o país hoje “se distancia de suas
(antigas) colônias, tanto no interior quanto no exterior”. Isso funciona, ela
continua, através de um “isolamento dos imigrantes, sua remoção para os
subúrbios em uma grande reforma das fronteiras sociais de Paris e de outras
cidades francesas”[14]. Os tumultos de 2005 foram apenas os mais recentes em
uma longa trajetória de reações à militarização e à securitização crescentes dessa
forma de colonização interna e “periferidade”[b] imposta no que Mustafa Dikeç
chamou de “áreas ruins”[c], da República Francesa[15].
De fato, tamanha é a fusão por parte da direita contemporânea entre
terrorismo e imigração que simples atos de imigração hoje são tratados quase
como atos de guerra. Essa mudança discursiva foi chamada de
“armamentização” da imigração[16] – mudar a ênfase, que passa das obrigações
morais de oferecer hospitalidade e asilo para a criminalização ou
desumanização dos imigrantes, como se estes fossem armas contra bases
supostamente homogêneas e etnonacionalistas de poder nacional.
Aqui, os debates mais recentes sobre a guerra assimétrica, irregular ou de
baixa intensidade – em que nada pode ser definido fora das acepções ilimitadas
e intermináveis de violência política – se confundem de maneira desconfortável
com o crescente clamor de demonização feito por figuras da direita e da
extrema direita das cidades diaspóricas e cada vez mais cosmopolitas do
Ocidente. Levando sua tese sobre o conflito de civilizações ainda mais longe,
Samuel Huntington atualmente argumenta que a própria trama do poder e da
identidade nacional dos Estados Unidos está sob ameaça não só por causa do
terrorismo islâmico global, mas porque grupos não brancos e, em especial,
latinos estão colonizando, e dominando, as regiões metropolitanas estado-
unidenses[17].
Adotando visões igualmente maniqueístas do mundo, o teórico militar
norte-americano William Lind afirmou que atos prosaicos de imigração do
hemisfério Sul global para as cidades do Norte agora devem ser considerados
atos de guerra. “Na guerra de quarta geração”, escreve ele, “a invasão pela
imigração pode ser, no mínimo, tão perigosa quanto a invasão por um exército
nacional”. Lind argumenta que, sob o que ele chama de “ideologia venenosa do
multiculturalismo”, imigrantes nas nações ocidentais hoje podem criar “uma
variedade doméstica da guerra de quarta geração, que é de longe o tipo mais
perigoso”[18].
Considerando o trânsito de mão dupla dos modelos do novo urbanismo
militar entre as cidades ocidentais e aquelas nas fronteiras coloniais, alimentado
pelo antiurbanismo instintivo dos Estados de segurança nacional, não
surpreende que cidades em ambos os domínios comecem a demonstrar
similaridades impressionantes. Nos dois âmbitos, proliferam fronteiras
rigorosas em estilo militar, cercas e postos de controle ao redor de enclaves
protegidos e “zonas de segurança”, sobrepostos à cidade ampla e aberta.
Barreiras feitas de módulos de concreto, postos de controle de identidade,
circuito interno de TV, fiscalização biométrica e formas militares de controle
de acesso protegem arquipélagos de centros sociais, econômicos, políticos ou
militares fortificados de um exterior considerado indomável, empobrecido ou
perigoso. Nos exemplos mais extremos, isso inclui zonas internacionais, prisões
militares, bairros étnicos sectários e bases militares; eles estão crescendo ao
redor de distritos financeiros estratégicos, embaixadas, espaços de consumo e
de turismo, complexos portuários e aeroportuários, arenas esportivas,
comunidades muradas e zonas francas.
Nas duas esferas, esforços para identificar as populações urbanas estão
ligados a sistemas similares que observam, rastreiam e têm como alvo
indivíduos perigosos em meio à massa da vida urbana. Assim, enxergamos um
paralelismo no uso de satélites de alta tecnologia, drones, circuitos internos
“inteligentes” de TV, armas “não letais”, mineração de dados e fiscalização
biométrica nos contextos muito diferentes de cidades nacionais e estrangeiras.
E, finalmente, nos dois casos, existe uma percepção semelhante de que novas
doutrinas de guerra perpétua estão sendo usadas para tratar todos os moradores
urbanos como alvos constantes, cuja natureza benigna, em vez de ser
presumida, agora precisa ser constantemente demonstrada para complexas
arquiteturas de vigilância ou tecnologias de mineração de dados conforme o
indivíduo se desloca pela cidade. Tais fatos são amparados por suspensões legais
paralelas que têm como alvo grupos considerados ameaçadores, com restrições
especiais, prisões preventivas ou encarceramento a priori em campos de tortura
e gulags ilegais mundo afora.
Apesar de funcionar de diversas maneiras, todos esses diversos arquipélagos
se sobrepõem a tradições urbanas de sistemas de segurança de livre acesso que
forçam as pessoas a provar sua legitimidade se quiserem se mover com
liberdade. Urbanistas e filósofos hoje em dia se perguntam se a cidade como
espaço-chave para protestos e mobilização coletiva dentro da sociedade civil
está sendo substituída por geografias complexas criadas por vários sistemas de
enclaves e campos conectados entre si e afastados do exterior urbano que existe
para além dos muros ou sistemas de controle de acesso[19]. Nesse contexto,
pode-se perguntar se a securitização urbana chegará, no futuro, a um nível que
efetivamente desconecte o papel econômico estratégico das cidades como
condutoras-chave da acumulação capitalista do papel histórico delas como
centros para a mobilização de dissenso democrático.
Economia vigilante
Passando para nosso terceiro ponto de partida fundamental – a economia
política do novo urbanismo militar –, é importante enfatizar que a colonização
da prática e do pensamento urbanos por ideias militarizadas de “segurança” não
tem uma fonte única. Aliás, essa colonização emana de uma gama complexa de
origens, que englobam vastos complexos industriais multinacionais que se
estendem para além dos setores militar e de segurança para abranger as
indústrias da tecnologia, da vigilância e do entretenimento; um leque amplo de
consultores, laboratórios de pesquisa e universidades corporativas que vendem
soluções de segurança como balas de prata para solucionar problemas sociais
complexos; e uma complexa massa de pensadores militares e de segurança que
hoje argumentam que a guerra e a violência política se concentram
esmagadoramente nos espaços e circuitos cotidianos da vida urbana.
Ainda que vagas e abrangentes, ideias sobre segurança infectam
praticamente todos os aspectos das políticas públicas e da vida social[20]. Assim,
esses emergentes complexos industriais e de segurança atuam juntos nos
desafios altamente lucrativos de ter como foco constante atividades, espaços e
comportamentos cotidianos nas cidades, bem como os condutos que conectam
as conurbações. Em meio ao colapso econômico global, os mercados para
serviços e tecnologias de segurança estão em ascensão como nunca antes.
Basicamente, como o exemplo da Raytheon mais uma vez demonstra, com
frequência as mesmas constelações de empresas de segurança estão envolvidas
na venda, na implantação e na supervisão das técnicas e práticas do novo
urbanismo militar tanto em cidades das zonas de guerra quanto em seus países.
Muitas vezes, como nas novas políticas de segurança da União Europeia para
toda a Europa, Estados ou blocos supranacionais não necessariamente
introduzem meios militarizados e de alta tecnologia para rastrear imigrantes
ilegais por ser esta a melhor forma de tratar de suas preocupações sobre
segurança. Na realidade, muitas dessas políticas têm como objetivo ajudar a
formar campeões da indústria local, desenvolvendo suas próprias empresas de
defesa, segurança e tecnologia para poderem competir nos ascendentes
mercados globais de tecnologia de segurança.
Nesse lucrativo mercado de exportação, a experiência israelense de
bloquear cidades e transformar os Territórios Ocupados em campos prisionais
urbanos permanentes está se provando especialmente influente. É a principal
fonte de técnicas e tecnologias “comprovadas em combate”. A nova cerca de
alta tecnologia na fronteira entre os Estados Unidos e o México, por exemplo,
está sendo construída por um consórcio entre a Boeing e a empresa israelense
Elbit, cujas tecnologias de radar e direcionamento foram desenvolvidas no
bloqueio permanente da vida urbana palestina. Também é impressionante o
quanto as estratégias norte-americanas anti-insurgência no Iraque se basearam
explicitamente em esforços para copiar o tratamento que Israel deu aos
palestinos durante a Segunda Intifada.
As economias políticas que sustentam o novo urbanismo militar
inevitavelmente se concentram no papel de um grupo de elite de cidades ditas
“globais” como centros do capitalismo neoliberal e também como principais
arenas e mercados para lançar novas soluções de segurança. Os principais
centros financeiros do mundo, em particular, orquestram processos globais de
militarização e securitização. Eles abrigam a sede de corporações militares, de
segurança e de tecnologia globais, fornecem locais para as maiores
universidades corporativas do mundo – que dominam a pesquisa e o
desenvolvimento de novas tecnologias de segurança – e amparam a rede global
de instituições financeiras que com tanta frequência trabalham para apagar ou
se apropriar de cidades e recursos em regiões colonizadas em nome da
economia neoliberal e do “livre comércio”.
Desse modo, a rede de cidades globais através das quais o capitalismo
neoliberal é fundamentalmente orquestrado – Londres, Nova York, Paris,
Frankfurt e assim por diante – ajuda a produzir novas lógicas de
desapropriação e aquisição colonial agressiva pelo capital multinacional, que
opera em proximidade com exércitos e empreiteiras militares.
Com a diminuição dos monopólios estatais da violência e a proliferação de
corporações mercenárias e militares de aquisição, tornam-se mais aparentes do
que nunca a violência brutal “urbicida” e a expropriação que tantas vezes
ajudam a promover os aspectos parasitários das economias urbanas ocidentais,
bem como alimentar o capitalismo corporativo contemporâneo[21]. Em um
mundo cada vez mais assombrado pelo espectro do iminente esgotamento de
recursos, o novo urbanismo militar está, portanto, intimamente ligado à
exploração neocolonial de recursos distantes, em um esforço de sustentar as
cidades mais ricas e os estilos de vida urbanos afluentes. Nova York e Londres
oferecem o poder financeiro e corporativo por meio do qual as reservas de
petróleo iraquianas foram tomadas por empresas petroleiras ocidentais desde a
invasão de 2003. O land grabbing – a transferência de terras para investidoras
estrangeiras ou “estrangeirização de terras” – neocolonial para a produção de
biocombustíveis para carros ou alimentos para populações urbanas cada vez
mais precárias do Norte afluente também é organizado por meio de mercados
de commodities globais concentrados nos grandes centros financeiros do
mundo. Finalmente, o rápido crescimento global dos mercados de segurança
de alta tecnologia está, em si mesmo, oferecendo um grande incentivo a essas
cidades em tempos de colapso econômico.

Infraestrutura urbana, guerra urbana


A própria natureza da cidade moderna – sua dependência de complexas
redes de infraestrutura, sua densidade e anonimato, sua dependência de água,
alimentos e energia importados – cria a possibilidade de violência contra ela, e
por meio dela.
Assim, a cidade é cada vez mais concebida como meio principal de travar
guerras tanto para atores estatais quanto não estatais.
Muitos exemplos recentes demonstram como, com o intuito de projetar e
ampliar enormemente o poder de sua violência política, atores não estatais
ganham boa parte de seu poder se apropriando da infraestrutura técnica
necessária para a vida urbana, moderna e globalizada. Insurgentes usam a
infraestrutura da cidade para atacar Nova York, Londres, Madri ou Mumbai.
Eles cortam redes elétricas, oleodutos ou sistemas de telefonia móvel no Iraque,
na Nigéria e em outros lugares. Somalis que sequestram sistematicamente em
rotas marítimas globais chegaram até a usar espiões na corretagem marítima de
Londres para obter informações privilegiadas para seus ataques. Ao fazer isso,
esses atores conseguem subsistir com as armas mais básicas, transformando
aviões de carreira, trens do metrô, carros, celulares, eletricidade e redes de
comunicação ou pequenas embarcações em dispositivos letais.
No entanto, essas ameaças de terrorismo infraestrutural, ainda que bastante
reais, mostram-se pálidas se comparadas aos esforços muito menos visíveis das
Forças Armadas estatais direcionados a infraestruturas urbanas fundamentais.
Por exemplo, as forças estado-unidenses e israelenses trabalham de modo
sistemático para “desmodernizar” sociedades urbanas inteiras por meio da
destruição da infraestrutura de Gaza, da Cisjordânia, do Líbano e do Iraque
desde 1991. Governos substituíram a guerra total contra cidades pela
destruição sistemática do abastecimento de água e eletricidade com armas –
como bombas que dispersam bobinas de fios de grafite para provocar curtos-
circuitos em estações de eletricidade – desenvolvidas especialmente para essa
função.
Apesar de serem divulgadas para a mídia como um modo de exercer
pressão política inexorável sobre regimes adversários, tais formas de guerra
supostamente humanitárias acabam matando os membros mais vulneráveis da
sociedade com tanta eficácia quanto o bombardeio de saturação, mas longe do
olhar atento das câmeras. Esses ataques se desenvolvem por meio da geração
deliberada de crises de saúde pública em sociedades altamente urbanizadas nas
quais não há alternativas para o fornecimento moderno de água, tratamento de
esgoto, eletricidade ou de medicamentos e alimentos.
O devastador cerco israelense a Gaza desde que o Hamas foi eleito em
2006 é um exemplo de peso. Ele transformou um denso corredor urbano, com
1,5 milhão de pessoas espremidas em uma área do tamanho da ilha de Wight,
em um grande campo prisional. Dentro desses limites, a morte dos mais fracos,
dos idosos, dos jovens e dos enfermos é invisível para o mundo externo. Os
indivíduos mais fortes são forçados a viver algo semelhante ao que Giorgio
Agamben chamou de “vida nua” – uma existência biológica que pode ser
sacrificada a qualquer momento por um poder colonial que se reserva o direito
de matar impunemente, mas recusa qualquer responsabilidade moral, política e
humana sobre a população[22].
Cada vez mais, os objetivos de uma guerra infraestrutural formal, como
meio de coerção política, se fundem por completo com a estrutura de
competição econômica e a geopolítica de energia. A Rússia renascida, por
exemplo, ganha boa parte de seu poder estratégico na atualidade não de seus
movimentos militares formais, mas de suas contínuas ameaças de cortar
subitamente o fornecimento de energia das cidades europeias.

Soldados-cidadãos
O quinto elemento-chave do novo urbanismo militar é a maneira como
suas reivindicações de legitimidade estão imiscuídas a filões militarizados da
cultura popular, urbana, eletrônica e material. Com muita frequência, por
exemplo, as tarefas militares de rastrear, vigiar e ter como alvo não requerem
sistemas tecnológicos inteiramente novos. Em vez disso, elas apenas se
apropriam dos sistemas que operam em cidades para manter os meios mais
recentes de viagem e consumo digitalmente organizados. Assim, como no
centro de Londres, áreas de congestionamento logo se transformam em zonas
de segurança. Interações e transações via internet fornecem a base para a
mineração de dados em um esforço para revelar comportamentos
supostamente ameaçadores. Sonhos de carros inteligentes ajudam a dar vida a
sistemas de armamentos robóticos. Imagens de satélite e o GPS dão apoio a
novos estilos de vida urbana civil com base nas mesmas estruturas da Força
Aérea dos Estados Unidos que facilitam o bombardeio urbano “de precisão”. E,
como na nova iniciativa de segurança em Lower Manhattan, Nova York,
câmeras de circuito interno de segurança desenvolvidas para fazer comerciantes
se sentirem seguros são transformadas em sistemas de monitoramento
“antiterroristas”.
Talvez a série mais poderosa de cruzamentos civis-militares no cerne do
novo urbanismo militar esteja sendo forjada nas culturas de entretenimento
virtual e eletrônico e de grandes grupos midiáticos. Aqui, para tentar os
recrutas habilidosos mais capazes de controlar os mais recentes drones e armas
de alta tecnologia, o Exército estado-unidense produz alguns dos mais
populares videogames de guerra urbana. Jogos de muito sucesso, como
America’s Army, do Exército, ou Full Spectrum Warrior, da Marinha dos Estados
Unidos[23], permitem que os usuários matem terroristas em cidades fictícias e
orientalizadas utilizando estruturas baseadas diretamente naquelas dos sistemas
de treinamento das próprias Forças Armadas estado-unidenses. Para fechar o
ciclo entre entretenimento virtual e assassinatos remotos, painéis de controle
dos sistemas de armas norte-americanos mais recentes – como as mais
modernas estações de controle para pilotos dos drones armados Predator,
fabricados pelos nossos velhos amigos da Raytheon – agora imitam os consoles
do PlayStation, que, afinal, são muito familiares para os soldados.
Um último circuito vital de militarização conectando a cultura popular
urbana nas cidades nacionais à violência colonial em cidades ocupadas se
concentra na bem estabelecida, mas cada vez mais intensa, militarização da
cultura do automóvel. O símbolo mais poderoso disso é a popularidade do
explicitamente militar Sports Utility Vehicle, ou SUV, um fenômeno notável
nos Estados Unidos. A ascensão e queda do Hummer é um exemplo
especialmente marcante. Como veremos, veículos para guerra urbana das
Forças Armadas estado-unidenses foram convertidos em veículos civis
hiperagressivos, comercializados como a personificação patriótica da Guerra ao
Terror. SUVs modificados para civis, por sua vez, foram o veículo escolhido
pelos mercenários da Blackwater nas ruas do Iraque, bem como o foco recente
das campanhas de recrutamento norte-americanas voltadas para minorias
étnicas urbanas. Além disso, tendências experimentais em direção a carros civis
computadorizados se misturam intensamente com os impacientes esforços
militares dos Estados Unidos de construir veículos de solo totalmente
robotizados voltados para a guerra urbana. Claro, todas essas conexões se
relacionam com as inseguranças e a violência perpetuadas pelo desregramento
petrolífero norte-americano, que está forçando as Forças Armadas dos Estados
Unidos a uma corrida espalhafatosa pelo acesso e controle de reservas e
estoques em rápida diminuição.

Objetivos
Esse é o contexto em que Cidades sitiadas pretende apresentar uma ampla
exploração e crítica dos contornos do novo urbanismo militar. Ao contrário
dos debates convencionais dentro da política internacional, da ciência política e
da história, esta obra não vê os espaços, a infraestrutura e os aspectos culturais
da vida na cidade como mero pano de fundo para a imaginação e a propagação
da violência ou da construção da “segurança”. Em vez disso, considera que a
maneira como as cidades e os espaços urbanos são produzidos e reestruturados
de fato ajuda a formar essas estratégias e fantasias, além de seus efeitos (e vice-
versa).
Para que isso seja alcançado, Cidades sitiadas, de modo proposital, trabalha
com uma gama atipicamente vasta de escalas geográficas. O livro enfatiza como
o novo urbanismo militar opera estabelecendo a vida urbana tanto nos centros
metropolitanos do Ocidente quanto nas cidades em desenvolvimento das
fronteiras coloniais do Sul global. Ademais, ele revela como isso é feito por
meio de processos e conexões que exigem a observação simultânea dos âmbitos
transnacional, nacionais, urbanos e pessoais[24].
Esta obra tem como objetivo, em particular, unir dois discursos bastante
diferentes e, em geral, distantes sobre as cidades e a vida urbana: o debate cada
vez maior dentro dos estudos sobre segurança e política internacional sobre a
urbanização da segurança; e os debates em geral mais críticos dentro do
urbanismo, da geografia, da arquitetura, da antropologia e dos estudos
culturais sobre como essas mudanças estão desafiando a política das cidades e
da vida urbana em uma época de rápida urbanização.
A escrita deste livro foi motivada em parte pela falta de uma análise
acessível e crítica que explorasse como o imperialismo ressurgente e as
geografias coloniais características da era contemporânea conectam, de maneira
umbilical, cidades nos centros metropolitanos e nas periferias coloniais[25]. Tal
negligência é resultado da rígida divisão do trabalho dentro da academia. Isso
significa que, em termos mais amplos, pesquisadores de política externa, dos
assuntos militares, do direito e de relações internacionais têm se ocupado da
tarefa de abordar as novas guerras imperiais na escala internacional. Ao mesmo
tempo, um corpo totalmente separado de acadêmicos nas áreas de urbanismo,
direito e ciências sociais têm trabalhado para explorar as novas políticas das
cidades ocidentais que envolvem a mobilização da segurança nacional nas
escalas urbana e nacional dentro das nações do Ocidente. Mas esses debates se
mantiveram teimosamente afastados por suas diferenças de tradição teórica, e
pelas orientações geográficas e escalares de ambas.
Essa falha analítica em parte se explica pela maneira como investigações
dominantes, conservadoras e realistas sobre a ligação entre globalização e
segurança dividem a realidade contemporânea entre a civilização “doméstica”
do Norte rico e moderno e a civilização distinta do Sul, caracterizada em
grande parte pelo atraso, pelo perigo, pela patologia e pela anarquia[26]. De
fato, como veremos, essas visões maniqueístas do mundo são, em si mesmas,
uma força motriz do novo urbanismo militar. Tais perspectivas tendem a
demonizar um Sul orientalizado como a fonte de toda a insegurança
contemporânea. Elas também trabalham ativamente para negar as maneiras
pelas quais a vida urbana e econômica do Norte global depende
fundamentalmente de vínculos com o Sul pós-colonial – e, em alguns casos,
neocolonial – e é formada por eles. No processo, esses discursos têm um papel-
chave na produção da violência simbólica necessária para permitir que os
Estados lancem mão da guerra e da violência de fato.
Além do mais, a obsessão com as rivalidades geopolíticas dos Estados-nação
ou dos movimentos não estatais transnacionais faz com que essas perspectivas
realistas e conservadoras ignorem por completo como as cidades e os processos
de urbanização também oferecem formas territoriais fundamentais de
dominação, hiperdesigualdade e insegurança e ajudam a propagar a violência.
“Um dos determinantes fundamentais da experiência moderna pode ser
encontrado na maneira como o imperialismo mascara e esconde a natureza do
sistema”, escreveu o teórico da cultura Fredric Jameson em 2003. “Em
primeiro lugar, os poderes imperiais do antigo sistema não querem saber nem
de suas colônias nem da violência e da exploração que constituem a base de sua
prosperidade”[27].
Talvez surpreendentemente, as disciplinas acadêmicas que em tese lidam
com questões urbanas estejam, elas mesmas, lutando para superar o legado de
suas próprias histórias coloniais, o que inibe dramaticamente sua habilidade de
compreender o novo urbanismo militar. A visão maniqueísta que caracteriza os
textos conservadores sobre globalização também é perceptível no trabalho de
muitos teóricos do espaço urbano. Em especial, o conceito de um mundo
repartido em duas zonas hermeticamente fechadas – cidades “desenvolvidas”,
que são estudadas pela geografia urbana ou pela sociologia, e cidades “em
desenvolvimento”, estudadas pelos “estudos do desenvolvimento” – continua
sendo impressionantemente difundido.
Isso significa que, com muita frequência, cidades no Ocidente e no
chamado mundo em desenvolvimento se mantêm artificialmente separadas,
com a atenção teórica esmagadoramente voltada para as primeiras. Isso faz com
que cidades em expansão centrais do Sul sejam caracterizadas como um mero
“outro”, externo à cultura ocidental, um status que praticamente impossibilita
que os teóricos compreendam como os dois tipos de cidade se constituem
mutuamente dentro das geografias imperial, neocolonial ou pós-colonial[28].
O campo dos estudos urbanos tem sido especialmente lento em abordar o
papel central das cidades no novo imperialismo – o ressurgimento de um
militarismo agressivo, colonial, voltado para a apropriação violenta de terras e
recursos do Sul[29]. De fato, hoje em dia as prósperas cidades do Norte são
muitas vezes idealizadas por analistas e teóricos liberais como centros de
migração e laboratórios de integração cosmopolita, características consideradas
tão vitais para seus futuros econômicos de alta tecnologia quanto as conexões-
chave da “economia do conhecimento global”. Essa integração é vista por
influentes gurus de políticas urbanas, como Richard Florida, como um motor
vital de criatividade econômica dentro do capitalismo tecnologicamente
avançado[30].
No entanto, essas perspectivas ignoram sistematicamente a maneira como
as cidades globais do Norte costumam funcionar como parasitas econômicos
ou ecológicos, pilhando o Sul, se apropriando de modo violento de energia,
água, terras e recursos minerais, dependendo de condições de trabalho
exploradoras em locais distantes, desencadeando processos de mudança
climática nocivos e gerando um fluxo em geral altamente prejudicial de
turismo e resíduos. São ainda menos reconhecidas as maneiras como as cidades
globais do Norte atuam como os principais locais de obtenção de fundos e
orquestração do controle do mundo em desenvolvimento, o que está no cerne
da extensão do capitalismo neoliberal[31]. As maneiras pelas quais as cidades
ricas do mundo do capitalismo avançado se beneficiam da violência “urbicida”,
que tem como alvo deliberado as geografias urbanas do Sul global para
sustentar a acumulação de capital, mal foram observadas. Cidades sitiadas é
uma tentativa de reparar essa situação[32].
Estrutura da obra
Cidades sitiadas compreende três capítulos amplos e temáticos, seguidos
por seis estudos de caso expandidos. O primeiro capítulo temático se debruça
sobre como a guerra, a violência política e os imaginários militares e de
segurança estão readentrando as cidades atualmente. Esse acontecimento
sucede um longo período em que o pensamento militarista ocidental estava
preocupado com o planejamento das interações nucleares pelo mundo entre
superpotências ou enormes operações com tanques por áreas rurais. O capítulo
também examina como a mais recente doutrina militar e de segurança está
agindo para colonizar os ambientes cotidianos das conurbações modernas.
O capítulo 2 parte para um olhar sobre como os vários bastiões da direita
política atuam cada vez mais para demonizar cidades como locais
intrinsecamente ameaçadores ou problemáticos que requerem violência
política, controle militarizado ou securitização radical. No capítulo 3, detalho
as características específicas do novo urbanismo militar e uso algumas das
pesquisas mais recentes nas ciências sociais para destacar características-chave
da interpenetração cada vez mais profunda entre urbanismo e militarismo.
Os seis estudos de caso que se seguem abordam os circuitos através dos
quais o novo urbanismo militar conecta a vida urbana no Ocidente com a
existência nas fronteiras coloniais. Os três primeiros tratam, respectivamente:
da proliferação de fronteiras e de sistemas de monitoramento na trama da vida
urbana; das ambições das Forças Armadas dos Estados Unidos em relação a
guerras urbanas e operações de contrainsurgência baseadas no uso de robôs
armados, e das conexões entre entretenimento, simulação e a violência imperial
e militar dos Estados Unidos. Os três capítulos finais exploram a difusão da
tecnologia e da doutrina israelenses na guerra e na securitização urbanas; os
elos entre a infraestrutura urbana e a violência política contemporânea; e as
maneiras como a cultura dos SUVs, ou veículos esportivos utilitários, está
incrustada em um cenário geopolítico e político-econômico que conecta
cidades e espaços coloniais e domésticos.
Existem maneiras de desafiar as ideologias, as táticas e as tecnologias do
novo urbanismo militar e defender e rejuvenescer visões democráticas e não
militarizadas da existência urbana moderna. E é para essas possibilidades
positivas que me volto no capítulo final, para uma variedade de ativistas,
artistas e movimentos sociais “contrageográficos”, cada qual buscando desafiar a
violência urbana, como constituída atualmente, de diferentes maneiras e
tentando mobilizar conceitos radicais de segurança como base para novos
movimentos políticos. Em vez de maquinações de Estados de segurança
nacional, esses novos movimentos devem se concentrar nas bases humanas,
urbanas e ecológicas da segurança, em um mundo de crises crescentes de
alimentos, água e ambiente, cidades em florescimento, rápida mudança
climática e do nível do mar e combustíveis fósseis em rápida diminuição.

[1] O Ministério do Interior do Reino Unido gastou pelo menos £ 830 milhões entre 2003 e 2015. Mas
os projetos foram um fracasso porque os sonhos de controle absoluto eram excessivamente ambiciosos e,
de fato, impraticáveis no contexto das fronteiras tão complexas e tão tensas.
[2] Nicole Kobe, “£650 million e-borders contract to Raytheon group”, IT Pro, 14 nov. 2007. Disponível
em: <www.itpro.co.uk/139053/650-million-e-borders-contract-to-raytheon-group>. Acesso em: 21 maio
2016. Em uma curiosa ironia, outra forma de vigilância – um registro de fatura de material pay-per-view
– quase forçou Smith a renunciar no fim de março de 2009, quando se descobriu que ela tentou declarar
as despesas do hábito do marido de assistir a conteúdos pornográficos como um gasto parlamentar. No
mesmo mês, um escândalo posterior de membros do Parlamento abusando desses gastos a colocou, e
também a muitos de seus colegas, sob pressão. Smith acabou renunciando em junho de 2009.
[3] Mark Mills e Peter Huber, “How Technology Will Defeat Terrorism”, City Journal, Nova York, v. 12,
n. 1, 2002.
[4] Idem.
[a] No original, homeland, que pode ser tanto a terra natal de alguém quanto o território ou a área
destinada ao povo de determinada nação, cultura, raça ou etnia. Assim, dependendo do contexto, o termo
foi traduzido ora como “pátria”, ora como “interior”, ora como “interno”, ora como “nacional” ou,
quando nenhuma das opções em português dava conta do sentido completo, mantido no original. (N. T.)
[5] Ver Tim Blackmore, War X: Human Extensions in Battlespace (Toronto, University of Toronto Press,
2005).
[6] Ver <www.northcom.mil>. Acesso em: 21 maio 2016.
[7] Lorenzo Veracini, “Colonialism Brought Home: On the Colonization of the Metropolitan Space”,
Borderlands, v. 4, n. 1, 2005. Disponível em: <www.borderlands.net.au>. Acesso em: 31 mar. 2016.
[8] Ver Derek Gregory, e Colonial Present (Oxford, Blackwell, 2004); David Harvey, e New
Imperialism (Oxford, Oxford University Press, 2005) [ed. bras.: O novo imperialismo, trad. Adail Sobral e
Maria Stela Gonçalves, São Paulo, Loyola, 2005].
[9] Michel Foucault, Society Must Be Defended: Lectures at the Collège de France, 1975-76 (Londres, Allen
Lane, 2003), p. 103 [ed. bras.: Em defesa da sociedade: curso no Collège de France, trad. Maria Ermantina
Galvão, São Paulo, Martins Fontes, 1999]. Sobre panoptização, ver Tim Mitchell, “ e Stage of
Modernity”, em Tim Mitchell (org.), Questions of Modernity (Minneapolis, University of Minnesota
Press, 2000), p. 1-34. Sobre planejamento haussmanniano, ver Eyal Weizman, entrevista com Phil
Misselwitz, “Military Operations as Urban Planning”, Mute Magazine, ago. 2003. Disponível em:
<www.metamute.org>. Acesso em: 22 maio 2016. E, sobre impressões digitais, ver Chandak Sengoopta,
Imprint of the Raj: How Fingerprinting Was Born in Colonial India (Londres, Pan Books, 2003).
[10] Michel Foucault, Society Must Be Defended, cit.
[11] Ver Samuel Huntington, e Clash of Civilizations and the Remaking of World Order (Nova York,
Simon and Schuster, 1996) [ed. bras.: O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial, trad.
M. H. C. Côrtes, Rio de Janeiro, Objetiva, 1997].
[12] Ver Sally Howell e Andrew Shryock, “Cracking Down on Diaspora: Arab Detroit and America’s
‘War on Terror’”, Anthropological Quarterly, n. 76, p. 443-62.
[13] Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism: On the Meaning
of Urbicide Today”, eory and Event, v. 10, n. 2, 2007, p. 1-39.
[14] Kristin Ross, Fast Cars, Clean Bodies: Decolonization and the Reordering of French Culture
(Cambridge, MIT Press, 1996), p. 12.
[b] No original, peripherality. A palavra “periferidade” (ou, ainda, “periferalidade”) tem sido usada em
português e talvez já não deva ser considerada um neologismo. Continua, no entanto, a causar certa
estranheza, embora seja um termo muito importante, pois designa a condição de ser (ou sentir-se)
periférico em relação a algo. Enquanto tal, aplica-se a uma multiplicidade de escalas geográficas e
situações, desde o nível intraurbano até o global, da estigmatização cultural à dependência econômica.
(Nota de Marcelo Lopes de Souza)
[c] O termo badlands, utilizado por Stephen Graham e traduzível literalmente por “áreas ruins”, foi
popularizado pelo livro Badlands of the Republic: Space, Politics and Urban Policy, publicado em 2007 pelo
geógrafo turco (radicado na Inglaterra e com passagens também pelos Estados Unidos e pela França)
Mustafa Dikeç. A expressão “áreas ruins”, usada de modo irônico e provocativo por Dikeç, refere-se à
periferia (banlieue) de cidades francesas como Paris, Lyon e Marselha. Embora o termo banlieue não se
aplique exclusivamente às periferias pobres e com maciça presença de população imigrante, cuja
estigmatização tem sido insuflada por políticos racistas e xenofóbicos – afinal, também há aqueles espaços
situados nos arrabaldes de grandes cidades e que são chamados de banlieue aisée, “periferia confortável” ou
“subúrbio confortável” –, de modo geral a mídia e não poucos políticos profissionais têm forçado, no
imaginário coletivo, uma associação da banlieue não somente com pobreza mas também com
criminalidade e desajustamento social. Com isso, tem-se construído uma imagem de “lugares-problema”,
ou “áreas ruins”. (Nota de Marcelo Lopes de Souza)
[15] Mustafa Dikeç, Badlands of the Republic: Space, Politics and Urban Policy (Oxford, Blackwell, 2007).
Ver também Kristin Ross, Fast Cars, Clean Bodies, cit.
[16] Ver Cato, “ e Weaponization of Immigration”, Center for Immigration Studies, fev. 2008.
Disponível em: <www.cis.org>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[17] Ver Samuel Huntington, Who Are We: e Challenges to America’s National Identity (Nova York,
Simon & Schuster, 2005); e, do mesmo autor, e Clash of Civilizations and the Remaking of World Order,
cit.
[18] William Lind, “Understanding Fourth Generation War”, Military Review, set.-out. 2004, p. 16.
Disponível em: <www.au.af.mil/au/awc/awcgate/milreview/lind.pdf>. Acesso em: 31 mar. 2016.
[19] Ver Bülent Diken e Carsten Bagge Laustsen, e Culture of Exception: Sociology Facing the Camp
(Londres, Routledge, 2005), p. 64; Stephen Graham e Simon Marvin, Splintering Urbanism (Londres,
Routledge, 2001).
[20] Ver Giorgio Agamben, “Security and Terror”, eory and Event, v. 5, n. 4, 2002, p. 1-2.
[21] Ver Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism”, cit.
[22] Ver Giorgio Agamben, Homo Sacer: Sovereign Power and Bare Life (Stanford, Stanford University
Press, 1998) [ed. bras.: Homo sacer: o poder sobernano e a vida nua, trad. Henrique Burigo, Belo
Horizonte, Editora UFMG, 2010].
[23] Ver, por exemplo, <www.americasarmy.com>. Acesso em: 30 maio 2016.
[24] Ver Michael Peter Smith, Transnational Urbanism: Locating Globalization (Nova York, Blackwell,
2001).
[25] Ver Derek Gregory, e Colonial Present, cit.
[26] Os textos de Robert Kaplan são exemplos fundamentais aqui. Ver “ e Coming Anarchy”, Atlantic
Monthly, fev. 1994; e Coming Anarchy: Shattering the Dreams of the Post-Cold War World (Nova York,
Random House, 2000) [ed. bras.: À beira da anarquia: destruindo os sonhos da era pós-Guerra Fria, trad.
Bazán Tecnologia e Linguística, São Paulo, Futura, 2000].
[27] Fredric Jameson, “ e End of Temporality”, Critical Inquiry, v. 29, n. 4, 2003, p. 700, citado em
Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism”, cit.
[28] Jenny Robinson, “Cities Between Modernity and Development”; artigo apresentado no encontro
anual da Associação de Geógrafos Americanos, 2003, Nova Orleans, não publicado. Ver também, da
mesma autora, Ordinary Cities (Londres, Routledge, 2006).
[29] Ver Kanishka Goonewardena e Stefan Kipfer, “Postcolonial Urbicide: New Imperialism, Global
Cities and the Damned of the Earth”, New Formations, v. 59, 2006, p. 23-33.
[30] Ver Richard Florida, e Rise of the Creative Class (Nova York, Basic Books, 2002).
[31] Ver, por exemplo, Saskia Sassen, e Global City, (2. ed., Nova York/Londres/Tóquio/Princeton,
Princeton University Press, 2002); Peter Taylor, World City Network: A Global Urban Analysis (Londres,
Routledge, 2003).
[32] Para uma excelente discussão sobre isso, ver Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization
and the New Imperialism”, cit.; e, dos mesmos autores, “Postcolonial Urbicide”, cit.
1
A GUERRA VOLTA À CIDADE

Planeta urbano
No despertar do século XX, uma em cada dez das 1,8 bilhão de pessoas da
Terra viviam em cidades – uma proporção sem precedentes, ainda que a
humanidade se mantivesse esmagadoramente rural e agrícola. Uma mísera
fração da população urbana, em sua grande maioria localizada nas efervescentes
metrópoles do Norte global, orquestrava os assuntos industriais, comerciais e
governamentais de um mundo colonial cada vez mais interconectado.
Enquanto isso, nas nações colonizadas, as populações urbanas se mantiveram
relativamente pequenas, concentradas nos entrepostos e nas capitais
provinciais: “As populações urbanas dos impérios britânico, francês, belga e
holandês no zênite eduardiano provavelmente não passavam de 3% a 5% da
humanidade colonizada”, escreveu Mike Davis[1]. Isso posto, a população
urbana do mundo em 1900 – algo como 180 milhões de almas – somava não
mais do que a população total das dez maiores cidades do mundo em 2007.
No decorrer do meio século seguinte, a população da Terra cresceu de
maneira constante, mas não espetacular, chegando a 2,3 bilhões de pessoas em
1950. Apesar de ter quase triplicado, atingindo mais de 500 milhões de
pessoas, a população urbana ainda compunha menos de 30% do total. No
entanto, os eventos do meio século seguinte foram surpreendentes: o maior
movimento de massa combinado com a maior explosão demográfica na
história humana. Entre 1957 e 2007, a população urbana do mundo
quadruplicou. Em 2007, metade dos 6,7 bilhões de pessoas do mundo podia
ser classificada como citadina. De uma hora para outra, o Homo sapiens tinha
se tornado uma espécie predominantemente urbana. As cidades do mundo
tinham levado quase 10 mil anos – de 8000 a.C. até 1960 – para abrigarem o
primeiro bilhão de urbanoides; então, em meros quinze anos esse número
aumenta de 3 bilhões para 4 bilhões[2]. Daca, capital de Bangladesh, uma
cidade de 400 mil habitantes em 1950, terá inchado e se tornado uma área
metropolitana de cerca de 22 milhões de habitantes em 2025 – um aumento
de cinquenta vezes em menos de 75 anos. Considerando a densidade
demográfica das cidades, mais da metade da humanidade está atualmente
espremida em apenas 2,8% da superfície de terra firme do nosso planeta, e o
aperto está aumentando a cada dia[3].
Conforme avançamos para o que tem sido chamado de “século urbano”,
parece não haver fim para essa urbanização apressada do nosso mundo. Em
2007, 1,2 milhão de pessoas somaram-se à população urbana mundial toda
semana. Em 2025, de acordo com estimativas recentes, facilmente poderá
haver 5 bilhões de urbanoides, dois terços dos quais viverão em nações “em
desenvolvimento”. Em 2030, a Ásia, sozinha, vai ter 2,7 bilhões de citadinos;
as cidades da Terra estarão abarrotadas, com 2 bilhões de pessoas a mais do que
acomodam hoje. Vinte anos mais adiante, em 2050, 75% dos estimados 9,2
bilhões de habitantes do mundo provavelmente vão viver em cidades[4].
Em outras palavras, em pouco mais de quatro décadas a Terra vai
acomodar 7 bilhões de habitantes urbanos – 4 bilhões a mais do que em 2007.
A maioria esmagadora deles estará em cidades em franco desenvolvimento e em
megacidades da Ásia, da África e da América Latina. É claro que muitas cidades
em nações desenvolvidas ainda estarão crescendo, mas esse crescimento será
tímido se comparado com a explosão urbana do Sul global.
Enquanto centros de gravidade demográficos, políticos, econômicos e
talvez tecnológicos emergirem no Sul, enormes mudanças demográficas e
econômicas inevitavelmente vão continuar. Num passado tão recente quanto
1980, treze das trinta maiores cidades do mundo ficavam no “mundo
desenvolvido”; em 2010, esse número tinha diminuído para oito. Em 2050, é
provável que apenas algumas das trinta principais megacidades estejam
localizadas nas antigas nações “desenvolvidas” (Figura 1.1).
1980 1990 2000 2010

1 Tóquio 21,9 Tóquio 25,1 Tóquio 26,4 Tóquio 26,4

Cidade do
2 Nova York 15,6 Nova York 16,1 18,1 Bombaim* 23,6
México

Cidade do Cidade do
3 13,9 15,1 Bombaim* 18,1 Lagos 20,2
México México

4 São Paulo 12,5 São Paulo 15,1 São Paulo 17,8 São Paulo 19,7

Cidade do
5 Xangai 11,7 Xangai 13,3 Nova York 16,6 18,7
México

6 Osaka 10,0 Bombaim 12,2 Lagos 13,4 Daca 18,4

7 Buenos Aires 9,9 Los Angeles 11,5 Los Angeles 13,1 Nova York 17,2

8 Los Angeles 9,5 Buenos Aires 11,2 Calcutá 12,9 Karachi 16,6

9 Calcutá 9,0 Osaka 11,0 Xangai 12,9 Calcutá* 15,6

Buenos
10 Pequim 9,0 Calcutá 10,9 12,6 Jacarta 15,3
Aires

11 Paris 8,9 Pequim 10,8 Daca 12,3 Délhi 15,1

Rio de
12 8,7 Seul 10,5 Karachi 11,8 Los Angeles 13,9
Janeiro

Rio de Grande
13 Seul 8,3 9,7 Délhi 11,7 13,9
Janeiro Manila

Buenos
14 Moscou 8,1 Paris 9,3 Jacarta 11,0 13,7
Aires

15 Bombaim 8,1 Moscou 9,0 Osaka 11,0 Xangai 13,7

Grande
16 Londres 7,7 Tianjin 8,8 10,9 Cairo 12,7
Manila

17 Tianjin 7,3 Cairo 8,6 Pequim 10,8 Istambul 11,8

Rio de
18 Cairo 6,9 Délhi 8,2 10,6 Pequim 11,5
Janeiro

Grande Rio de
19 Chicago 6,8 8,0 Cairo 10,6 11,5
Manila Janeiro

20 Essen 6,3 Karachi 7,9 Seul 9,9 Osaka 11,0

21 Jacarta 6,0 Lagos 7,7 Paris 9,6 Tianjin 10,0


1980 1990 2000 2010

Grande
22 6,0 Londres 7,7 Istambul 9,5 Seul 9,9
Manila

23 Délhi 5,6 Jacarta 7,7 Moscou 9,3 Paris 9,7

24 Milão 5,3 Chicago 6,8 Tianjin 9,2 Hyderabad 9,4

25 Teerã 5,1 Daca 6,6 Londres 7,6 Moscou 9,4

26 Karachi 5,0 Istambul 6.5 Lima 7,4 Bangcoc 9,0

27 Bangcoc 4,37 Teerã 6.4 Bangcoc 7,3 Lima 8,8

São
28 4,6 Essen 6,4 Teerã 7,2 Lahore 8,6
Petersburgo

29 Hong Kong 4,6 Bangcoc 5,9 Chicago 7,0 Madras* 8,2

30 Lima 4,4 Lima 5,8 Hong Kong 6,9 Teerã 8,1

1.1 As trinta maiores cidades do mundo em 1980, 1990, 2000 e 2010 (projeção). A tabela ilustra o
crescente predomínio de “megacidades” no Sul global.

* Bombaim passou a se chamar Mumbai em 1995; Calcultá passou a se chamar Kolkata em 2001; e
Madras passou a se chamar Chennai em 1996. Porém, para efeito de comparação, mantivemos os antigos
nomes em todas as colunas. (N. E.)

Mundo polarizado
Estamos descobrindo o que países de todo o mundo em desenvolvimento viveram no decorrer
de três décadas: economias neoliberais instáveis e injustas levam a níveis inaceitáveis de ruptura
social e privações que só podem ser contidas por uma repressão brutal.[5]

A rápida urbanização do mundo importa muito. Como a ONU declarou,


“a maneira como as cidades se expandem e se organizam, tanto no mundo
desenvolvido quanto no em desenvolvimento, vai ser decisiva para a
humanidade”[6].
Enquanto cidades de relativa igualdade, como as da Europa ocidental
continental, tendem a oferecer uma sensação de segurança, sociedades
altamente desiguais são, com frequência, marcadas pelo medo, por altos níveis
de crime e violência e pela militarização cada vez mais intensa. O predomínio
de modelos neoliberais de administração nas últimas três décadas, combinado
com a difusão de modelos punitivos e autoritários de policiamento e controle
social, exacerbou as desigualdades urbanas. Como resultado, os pobres da
cidade são muitas vezes confrontados com redução nos serviços públicos, de
um lado, e uma palpável demonização e criminalização, do outro.
O neoliberalismo – a reorganização das sociedades pela imposição
disseminada de relações de mercado – fornece a atual ordem econômica
dominante, ainda que aturdida pela crise[7]. Nesse contexto, as sociedades
tendem a vender os bens públicos (sejam companhias de serviços públicos,
sejam espaços públicos) e abrem os mercados domésticos para o capital
estrangeiro. Estratégias de mercado para a distribuição de serviços públicos
prejudicam e suplantam programas sociais, de saúde e bem-estar social[8].
Uma expansão extraordinária de instrumentos financeiros e mecanismos
especulativos também é fundamental para o neoliberalismo. Todas as áreas da
sociedade se tornam mercantilizadas e financeirizadas. Tanto Estados quanto
consumidores acumulam dívidas financeiras drásticas, securitizadas por
instrumentos arcanos das bolsas de valores globais. Em 2006, pouco antes do
início da crise financeira global, mercados financeiros negociavam mais em um
mês do que o produto interno bruto anual do mundo todo[9].
Na prática, os tão alardeados axiomas econômicos de “privatização”, “ajuste
estrutural” e o “Consenso de Washington” camuflam transformações
preocupantes. Eles funcionam como eufemismo para o que Gene Ray chamou
de “coerções coordenadas de prisão dos devedores globais, para a pulverização
da mão de obra local e das proteções ambientais, e para escancarar todos os
mercados para as operações não reguladas do capital financeiro”[10]. A riqueza
foi arrancada das economias pobres e vulneráveis pelas predações flagrantes do
capital global, organizadas a partir de umas poucas megacidades do Norte.
Políticas de ajuste estrutural (SAPs, na sigla em inglês) impostas às nações
pobres do mundo pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco
Mundial entre o fim da década de 1970 e o fim da de 1990 reorganizaram
economias ignorando questões de bem-estar social e segurança humana. O
resultado foi uma ruptura enorme, insegurança disseminada e um processo de
urbanização gigantesco e informal. Condições deteriorantes em áreas agrícolas
cada vez mais mercantilizadas – muitas vezes combinadas com a remoção
forçada de sistemas de bem-estar social sob as restrições das políticas de ajuste
estrutural[11] – forçaram muitas pessoas a migrar para a cidade.
Então, invariavelmente, “liberalização” tem significado um colapso nas
oportunidades de emprego formal para populações urbanas marginais; um
enfraquecimento das redes de segurança fiscal, social e médica, dos sistemas de
saúde pública, das companhias de serviços públicas e dos serviços educacionais;
e um gigantesco crescimento tanto do débito dos consumidores quando do
setor informal das economias. Esses regimes fiscais e de débito com frequência
tenderam a, nas palavras de Mike Davis, “dilapidar as finanças públicas de
países em desenvolvimento e sufocar novos investimentos em moradia e
infraestrutura”. Assim, as políticas de ajuste estrutural funcionaram em muitos
casos para “dizimar o funcionalismo público, destruir as indústrias de
substituições de importação e deslocar dezenas de milhares de produtores rurais
incapazes de competir com o agrocapitalismo altamente subsidiado dos países
ricos”[12].
Tais processos têm sido uma força motriz fundamental por trás do
aumento da desigualdade nas últimas três décadas. No mundo todo, fissuras
sociais e polarização extrema – intensificadas pela disseminação global do
capitalismo neoliberal e do fundamentalismo de mercado – tendem a se
concentrar de modo mais visível e denso em cidades em desenvolvimento. A
paisagem urbana está hoje povoada por alguns indivíduos abastados, uma
classe média muitas vezes precária e uma massa de párias. Em quase toda parte,
ao que parece, a riqueza, o poder e os recursos estão se tornando mais e mais
concentrados nas mãos dos ricos e super-ricos, que se isolam cada vez mais em
casulos urbanos murados e implantam seus próprios sistemas de segurança ou
forças paramilitares para as tarefas de imposição de limites e controle de acesso.
“Em muitas cidades mundo afora, riqueza e pobreza coexistem com muita
proximidade”, escreveu Anna Tibaijuk, diretora do Programa de Habitação da
ONU (UN-Habitat), em 2008.

Bairros ricos e bem cuidados e condomínios residenciais fechados muitas vezes estão
localizados perto de favelas do centro ou da periferia que carecem dos serviços mais básicos. [A
divisão muitas vezes é] claramente marcada por cercas elétricas e muros altos, com frequência
patrulhados por empresas de segurança privada armada dotadas de cães assassinos.[13]
Essas tendências têm duas dimensões relacionadas. Por um lado, o
neoliberalismo global acentuou desigualdades já escancaradas entre as nações
ricas e as pobres. Quanto mais os mercados, bolhas especulativas e fusões
aumentam o poder monopolístico do capital dominante, parcelas cada vez
maiores de riqueza se acumulam nas mãos de um número cada vez menor de
pessoas e nos enclaves urbanos em que elas se concentram. “O hiato entre a
renda dos países mais pobres e a dos mais ricos continua aumentando”,
confirmam as Nações Unidas. “Em 1960, os 20% dos habitantes do mundo
nos países mais ricos tinham trinta vezes a renda dos 20% nos países mais
pobres; em 1997, 74 vezes”[14].
Até os economistas do Banco Mundial viram com preocupação, em 2002,
que “o 1% mais rico do mundo tem tanta renda quanto os 57% mais
pobres”[15]. Espantosamente, em 1988, os 5% mais ricos da população
mundial tinham uma renda média 78 vezes maior do que os 5% mais pobres;
apenas cinco anos depois, isso tinha aumentado para um múltiplo de 114. Ao
mesmo tempo, os 5% mais pobres da população mundial na verdade se
tornaram mais pobres, perdendo efetivamente um quarto de sua renda real[16].
Estima-se que, em 2006, 10,1 milhões de indivíduos mundo afora tinham
um patrimônio líquido de mais de US$ 1 milhão, excluindo o valor de seus
domicílios. Isso representou um aumento de 6% em relação ao ano anterior.
Cada indivíduo dentro desse grupo de elite tinha ativos que somavam, em
média, mais de US$ 4 milhões. Essa “classe capitalista transnacional” hoje
compõe o que os pesquisadores do Citigroup chamaram de “força motriz
dominante da demanda” em muitas economias contemporâneas. Ela atua para
ficar com “a nata das ondas de produtividade e dos monopólios de tecnologia,
para depois gastar […] suas parcelas cada vez maiores da riqueza nacional o
mais rápido possível em produtos e serviços de luxo”[17]. No processo, gera
enormes pegadas ecológicas e de carbono. Enquanto isso, em meio ao turbilhão
do colapso dos sistemas financeiros, “a maior parte do mundo observa o grande
banquete pela televisão”[18].
Por outro lado, e não é nenhuma surpresa, as desigualdades sociais também
estão aumentando com rapidez no interior de nações, regiões e cidades. Muitos
economistas concordariam com Giovanni Andrea Cornia quando ele diz que “a
maior parte da onda recente de polarização de renda [dentro das nações] parece
estar relacionada à tendência política em direção à desregulamentação
doméstica e liberalização externa”[19]. Isso tendeu a concentrar riqueza em
classes sociais, corporações e locais capazes de lucrar com a privatização e a
extensão de capital financeiro, enquanto prejudicou salários, o patrimônio e a
segurança de indivíduos e lugares mais marginalizados.
Nos Estados Unidos, por exemplo, o coeficiente de Gini – a melhor
medida de desigualdade social – aumentou do nível já alto de 0,394 em 1970
para 0,462 em 2000. (Um índice 0 indica igualdade perfeita, em que todos
têm a mesma renda; um resultado igual a 1 representa uma desigualdade
perfeita, em que uma pessoa arrecada toda a renda e todos os demais têm renda
zero. Acima de 0,3 implica uma sociedade extremamente desigual.) Assim, a
polarização social nos Estados Unidos é hoje em dia excedida apenas por alguns
países muito pobres da África e da América Latina[20].
Em 2007, a renda do um quinto mais rico da população estado-unidense
estava calculada em US$ 168.170 por ano, enquanto o um quinto mais pobre
sobrevivia com uma média de US$ 11.352. Tem sido uma febre para algumas
dúzias de super-ricos: os Estados Unidos tinham 51 bilionários em 2003 e 313
no ano seguinte[21]. “Nos Estados Unidos, essas concentrações extremas de
riqueza são combinadas com níveis extraordinariamente altos de
encarceramento entre os grupos mais pobres. Sendo a principal “democracia
penal” do mundo[22], os Estados Unidos, com 5% da população do mundo,
contavam com 24% do total mundial de prisioneiros (mais de 2 milhões de
pessoas) em 2007[23].
Enquanto isso, o Reino Unido hoje é a nação mais polarizada da Europa
ocidental com exceção da Itália. Sua desigualdade de renda – mais uma vez,
medida pelo coeficiente de Gini – aumentou drasticamente desde o começo
dos anos 1960, com a reforma da economia por uma radical
rerregulamentação, privatização e neoliberalização. Para os 10% mais ricos da
população do Reino Unido, as rendas aumentaram, em termos reais, em 68%
entre 1979 e 1995. Sua renda coletiva hoje equivale à dos 70% mais pobres da
nação. Durante o mesmo período, a renda domiciliar entre os 10% mais
pobres do Reino Unido caiu efetivamente 8% (sem considerar os custos
habitacionais). Isso rapidamente reverteu a redução da desigualdade alcançada
durante o boom keynesiano no Reino Unido.
Considerando custos com habitação, os 10% mais ricos da nação
aumentaram sua fatia de riqueza negociável do Reino Unido de 57% em 1976
para 71% em 2003. Ao mesmo tempo, de acordo com Phillip Blond, do jornal
e Independent, “o capital especulativo que poderia ser alocado ou investido
pelos 50% da base da população britânica caiu de 12% para apenas 1%”[24].
A imposição do fundamentalismo de mercado teve efeitos especialmente
espetaculares no bloco ex-comunista Conselho para Assistência Econômica
Mútua (Comecon, na sigla em inglês), depois do colapso do comunismo no
fim dos anos 1980. Isso não só gerou um punhado de bilionários e oligarcas,
mas, ao mesmo tempo, aumentou o número de pessoas vivendo na pobreza e
na profunda insegurança: de 3 milhões em 1988 para 170 milhões em
2004[25].
Em termos globais, em 2007, bem mais do que um bilhão de pessoas – um
terço de toda a população urbana – tinham uma existência muito precária em
favelas e assentamentos informais de rápido crescimento[26]. Cada vez mais, o
mundo em desenvolvimento está sendo dominado por populações
empobrecidas de favelas cujas inseguranças diárias favorecem a receptividade a
ideologias e movimentos radicais violentamente antiocidentais. A maioria dos
residentes de assentamentos informais leva uma vida especialmente precária
porque constitui o que Mike Davis chama de “proletariado excluído”: “Essa é
uma massa da humanidade”, escreveu ele, “estrutural e biologicamente
redundante para o acúmulo global [de capital] e a matriz corporativa”[27]. Nem
consumidores nem produtores, não integrados ao sistema corporativo
dominante da globalização; em vez disso, eles tentam se beneficiar de modo
indireto – por meio dos “mercados negros” e do trabalho informal – do centro
urbano que literalmente cercam.
É bastante fácil para as elites políticas, corporativas ou militares retratarem
os residentes de assentamentos informais como ameaças existenciais, até sub-
humanas, à economia neoliberal “formal” e seu arquipélago de enclaves
urbanos privilegiados de residência, produção, especulação, transporte e
turismo. Em toda parte, as fronteiras urbanas entre os “interiores” e os
“exteriores” da ordem econômica dominante do nosso planeta revelam espaços
de militarização palpável, na medida em que forças de seguranças estatais e
corporativas tentam não apenas policiar, mas também, com frequência, lucrar
com as relações entre os dois lados[28]. Favelas com frequência são demolidas
por urbanistas estatais, forças policiais ou militares, seja para liberar a área para
a modernização da infraestrutura ou para a especulação imobiliária, seja para
lidar com supostas ameaças de crime ou doença, seja simplesmente para afastar
as populações marginalizadas da vista dos enclaves.
Está claro que, assim como políticas públicas, sociais e de saúde se
provaram inadequadas para lidar com as inseguranças criadas por enormes
assentamentos informais[29], as políticas e doutrinas de cumprimento das leis e
os militares também estão mal preparados para lidar com o crescimento desses
assentamentos. Esses lugares criam o que Mike Davis chama de “problemas
únicos de ordem imperial e controle social que a geopolítica convencional mal
começou a registrar”. Ele faz a previsão solene de que “se o objetivo da guerra
contra o terror for perseguir o inimigo dentro de seu labirinto sociológico e
cultural, então as periferias pobres das cidades em desenvolvimento serão os
campos de batalha permanentes do século XXI”[30].
Ao mesmo tempo, as políticas de segurança nacionais e internacionais se
concentram em resguardar o arquipélago de enclaves urbanos em rápida fusão
organizados por e para os mesmos grupos que mais se beneficiam da
neoliberalização. Mesmo assim, os ancoradouros dos super-ricos são sempre
frágeis, e essa classe emergente está na proa do desenraizamento transnacional.
“As pessoas da ‘camada superior’ não aparentam pertencer ao local onde
vivem”, escreve Zygmunt Bauman. “Suas preocupações se assentam (ou
flutuam) em outra parte”[31].
Ainda assim, determinadas cidades – em especial Londres – estão se
transformando radicalmente, sendo redesenhadas como espaços primordiais
para os über-ricos do mundo. Por meio de um urbanismo grandioso, outras
cidades – notadamente Dubai – estão emergindo como a materialização
supercarregada e hiper-real de extremos globais, com o objetivo principal de
atrair os super-ricos para férias e talvez algo mais. Como escreveu Mike Davis,
em Dubai as construtoras

são convidadas a se conectar a clusters da alta tecnologia, zonas de entretenimento, ilhas


artificiais, “montanhas de neve” cercadas por vidro, subúrbios no estilo de O Show de Truman,
cidades dentro de cidades – o que quer que seja grande o bastante visto do espaço e esteja
explodindo de esteroides arquitetônicos.[32]
Urbanismo do antigo militarismo
Olhando para as paisagens urbanas de Dubai, é fácil esquecer que muitas
cidades do mundo surgiram, pelo menos em parte, como construções militares.
A história da concepção, construção e ocupação dos espaços urbanos não pode
ser contada sem levar em consideração o papel central deles como locais
primordiais de poder e controle militar[33]. Nos tempos pré-modernos e no
início da modernidade, cidades e cidades-Estado eram os agentes primários,
bem como os principais alvos, da guerra. A pilhagem de cidades fortificadas,
junto com o assassinato de seus habitantes, era o evento central da guerra[34].
Histórias em parte alegóricas desses atos compõem boa parte da Bíblia – em
especial no Livro de Jeremias e no das Lamentações –, bem como outros textos
antigos e clássicos. “Mitos de ruína urbana crescem da raiz da nossa cultura”,
afirma Marshall Berman[35].
Nos séculos XVI e XVII, os Estados-nação europeus modernos que
emergiam – “repositórios de poder cercados” dentro dos primeiros sistemas de
capitalismo imperial global – começaram a buscar um monopólio da violência
política[36]. “Os Estados alcançaram o avanço das cidades como agentes de
guerra”, escreve Fernand Braudel[37]. As cidades metropolitanas e imperiais em
expansão que ficavam no núcleo desses Estados-nação não mais organizavam
seus próprios exércitos nem suas próprias defesas, mas mantinham seu poder e
alcance político. Elas dirigiam a violência, o controle e a repressão, além da
aquisição colonial de território, matérias-primas, riqueza e força de
trabalho[38].
Desde então, as cidades se tornaram agentes centrais nas muitas formas de
violência causadas pelo imperialismo capitalista. Um elemento crucial tem sido
sua capacidade de “centralizar atividades militares, políticas e econômicas e, ao
fazê-lo, atrair formações sociais de outra forma díspares para relações
estruturais hierárquicas e de exploração em escalas espaciais de abrangências
diversas”[39]. Mas a violência repressora em grande escala nem sempre foi
necessária nas cidades coloniais que serviam para organizar os impérios das
potências ocidentais; a classe média e as mais baixas muitas vezes eram
integradas às economias coloniais de exploração e dependiam delas[40]. No
entanto, a guerra, a eliminação e a supressão violenta de revoltas – contra
guerrilhas revolucionárias rurais, contra movimentos de independência, contra
indústrias e comunidades nativas, contra minorias demonizadas – eram
igualmente indispensáveis para a conquista e a exploração colonial. Aliás, como
Pierre Mesnard y Méndez escreve, a “base econômica para o triunfo do
capitalismo foi a pilhagem da guerra colonial do século XV até o XVIII e
XIX”[41]. Mais especificamente, a construção dos impérios imperialistas da
Europa foi sustentada por um amplo espectro de guerras urbanas que
avançavam entre a exploração e as persistentes lutas que aconteciam nas
colônias, de um lado, e a política igualmente volátil das metrópoles imperiais
no “coração do império”, de outro[42].
Técnicas e tecnologias de repressão e guerra colonial urbana fazem um
percurso de mão dupla entre fronteiras coloniais e centros metropolitanos
europeus. (Foucault chamou esses vínculos de “efeito bumerangue”, como
discutido na Introdução deste volume.)
As potências europeias combateram rebeliões e insurgências nas cidades e
zonas rurais nas franjas de seus impérios, ao mesmo tempo que operavam para
proteger “suas capitais em crescimento explosivo contra rebeliões e revoluções
domésticas alimentadas por lutas de classe”[43]. No processo:

O campo de batalha se mudou dos descampados para os muros da cidade e se posicionou


ainda mais no interior do coração urbano, como uma luta pela própria cidade. Se a histórica
guerra de sítio acabou quando o valo da cidade foi rompido e invadido, a guerra urbana
começou no momento de entrada na cidade.[44]

Essas guerras urbanas coloniais e efeitos bumerangue são lembretes


contemporâneos dos perigos de tentar aplacar a resistência de guerrilha em
cidades ocupadas por meio de poder militar superior, atos de brutalidade,
violência urbicida ou reestruturação física agressiva. Experimentos espaciais no
laboratório da cidade colonial muitas vezes prepararam o terreno para o
replanejamento da metrópole colonial. Nos anos 1840, por exemplo, depois
que o marechal omas Robert Bugeaud[45] conseguiu reprimir a insurreição
em Argel combinando atrocidades e a destruição de bairros inteiros para abrir
caminho para estradas modernas, suas técnicas de “planejamento urbano
atravessaram o Mediterrâneo, do interior argelino, onde foram testadas, para as
ruas e becos de Paris”[46]. Para minar o fermento revolucionário dos pobres de
Paris, Bugeaud elaborou um plano para a violenta reorganização da cidade por
meio da construção de amplas rodovias militares – um plano mais tarde
implementado por um ávido leitor seu, o barão Haussmann[47].
No final do século XIX e no século XX, cidades industriais no Norte global
tinham crescido em sincronia com o poder de destruição da tecnologia. Elas
forneciam os homens e equipamentos para sustentar as enormes guerras do
século XX, enquanto seus bairros e suas indústrias (muitas das quais com
trabalhadoras mulheres) emergiam como os principais alvos para a guerra total.
Assim, a cidade industrial se tornou

[…] em sua totalidade um espaço de guerra. Em poucos anos […] os bombardeios foram da
destruição seletiva de locais-chave nas cidades para ataques amplos a áreas urbanas e,
finalmente, para a aniquilação instantânea de populações e espaços urbanos inteiros.[48]

Às vezes, réplicas exatas da arquitetura vernacular das cidades eram


construídas para serem bombardeadas, a fim de facilitar o aprimoramento do
processo. Em Dugway Proving Grounds, em Utah, por exemplo, a Aeronáutica
estado-unidense construiu réplicas exatas dos prédios de apartamentos de
Berlim ao lado de povoados japoneses de madeira e papel de arroz, e os
incendiou repetidas vezes para aperfeiçoar o projeto de suas bombas
incendiárias[49].

O olho do artilheiro
Com a destruição mutuamente garantida da Guerra Fria, tais sutilezas se
tornaram menos necessárias. Como escreveu Martin Shaw, “com os mísseis
intercontinentais, a capacidade de destruir simultaneamente todos os principais
centros de vida urbana se tornou um símbolo da degeneração da guerra”[50].
Contudo, grandes esforços foram feitos nos Estados Unidos durante a Guerra
Fria para construir um bastião para se contrapor tanto ao Armagedom nuclear
quanto à ameaça comunista[51]. Desses esforços surgiram a família nuclear, a
casa no bairro residencial suburbano e o Estado nuclear, fundidos no bastião
político-cultural da vida estado-unidense.
Até o começo do século XXI, a captura de cidades estratégicas e
politicamente importantes continuou sendo “o símbolo maior da conquista e
da sobrevivência nacional”[52]. Ademais, desde a falência dos sistemas óbvios de
fortificações urbanas, o desenho, o planejamento e a organização das cidades
foram moldados por questões estratégicas e geopolíticas – um tópico
negligenciado nos estudos urbanos mainstream[53]. Além de fornecer a famosa
“máquina para a vida” e trazer luz e ar para as massas urbanas, urbanistas e
arquitetos modernistas imaginavam que situar torres residenciais dentro de
parques seria uma forma de reduzir a vulnerabilidade das cidades a
bombardeios aéreos. Essas torres também foram projetadas para colocar os
urbanoides acima do gás mortal que à época se esperava que houvesse dentro
das bombas[54].
Junto com o “êxodo branco” para os subúrbios residenciais, o urbanismo
do começo da Guerra Fria nos Estados Unidos tentou enxergar as cidades do
país “pelo olhar do artilheiro”[55] e ativamente estimulou a descentralização e o
espraiamento como maneira de reduzir a vulnerabilidade da nação a um ataque
nuclear soviético precedente[56]. E costuma-se esquecer que o enorme sistema
de rodovias interestaduais norte-americano foi inicialmente chamado de um
sistema “de rodovias de defesa” e em parte desenhado para auxiliar a
mobilização militar e a evacuação no caso de uma guerra nuclear global.
Anunciando o plano em 1954, o vice-presidente Richard Nixon argumentou
que a maior razão de ser do projeto era “atender às demandas de uma catástrofe
ou defesa, caso ocorra uma guerra atômica”[57]. Enquanto isso, novas cidades e
novas capitais luminosas e modernistas foram erguidas mundo afora, tanto por
urbanistas soviéticos e ocidentais quanto por programas de auxílio estrangeiros,
como forma de manter o apoio geopolítico nas fronteiras mundialmente
alargadas da Guerra Fria[58].
Enquanto isso, de volta aos Estados Unidos, gigantescos novos distritos de
alta tecnologia, como o Vale do Silício, na Califórnia, foram forjados como
motores de uma nova “economia do conhecimento” voltada para as cidades
“globais” emergentes, como é bastante sabido. Muito menos reconhecido é o
fato de que esses “tecnopolos” também eram forjas-chave das tecnologias de
controle militar que sustentaram a Guerra Fria e, mais tarde, foram
mobilizadas como base para a transformação das forças estado-unidenses
através da “Revolution in Military Affairs” – ou Revolução dos Assuntos
Militares[59]. Ao mesmo tempo, os imperativos que se apresentaram à nova
ciência militar da cibernética logo se ampliaram do controle remoto de mísseis
para a tarefa de organizar novas maneiras de reconstruir cidades norte-
americanas durante os anos de eliminação em massa das “favelas” nas décadas
de 1950 e 1960, bem como construir as primeiras redes de TV a cabo[60].
Também não podemos esquecer as implicações geopolíticas e de segurança
internacional mais indiretas das geografias e arquiteturas de urbanização da
Guerra Fria. A suburbanização subsidiada pelo Estado, por exemplo, foi o
axioma central do “keynesianismo militar” que sustentou os Estados Unidos
durante o período da Guerra Fria. Juntas, como argumentou Andrew Ross, a
acelerada suburbanização subsidiada pelo Estado e a militarização e a pesquisa
tecnológica no bojo da Guerra Fria podem, de fato, ser consideradas

as âncoras econômicas gêmeas da Pax Americana, e, até o ponto em que ainda cabe,
representam um perigo claro e presente para qualquer um que tenha o azar suficiente de ficar
no caminho do combustível que abastece suas necessidades energéticas.[61]

Nas fronteiras coloniais e imperiais, enquanto isso, a Guerra Fria foi


caracterizada por um complexo conjunto formado de guerrilhas urbanas bem
“esquentadas”, guerras por independência e por procuração. Guerras brutais
em plena escala ou batalhas urbanas de baixa intensidade em Seul (1950),
Argel (1954-1962), Hué (1968), Praga (1968), na Irlanda do Norte (1968-
1998), na África do Sul (1948-1990), em Israel-Palestina (1948-) e em toda
parte se fundiram com lutas dentro dos centros metropolitanos imperiais do
Norte pelo “direito à cidade” – o movimento pelos direitos civis; movimentos
sociais antirracismo, antiguerra, ambientalistas e pós-coloniais; revoltas
urbanas[62].
Para teóricos do militarismo ocidental, no entanto, eles sempre foram
vistos como espetáculos secundários bastante irrelevantes diante da
preocupação principal: planos para o “exterminismo” nuclear planetário[63],
para a eliminação instantânea de sistemas inteiros de cidades da face da Terra, e
para batalhas massificadas “Air-Land” (aéreo-terrestres) entre as forças soviéticas
e as da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pelo solo europeu.
Assim, entende-se que o legado físico do urbanismo militar da Guerra Fria no
Norte global seja dominado por extraordinários túneis subterrâneos criados
para garantir a sobrevivência das elites políticas e de amostras da população
mais ampla nos mundos “strangelovianos”[a] do futuro pós-apocalíptico[64].

Implosões globais
A guerra adentrou a cidade de novo – a esfera do cotidiano.[65]

Nas “novas” guerras da era pós-Guerra Fria – guerras que cada vez mais
atravessam os “vãos tecnológicos” que separam nações industriais avançadas de
combatentes informais –, as cidades em crescimento do mundo são espaços-
chave. Aliás, áreas urbanas se tornaram os para-raios da violência política do
nosso planeta.
A guerra, como todo o resto, está sendo urbanizada. As grandes disputas
geopolíticas – de mudança cultural, conflito étnico e mistura social diaspórica;
de rerregulamentação e liberalização econômica; de militarização,
informatização e exploração de recursos; de mudança ecológica – estão, e em
um grau cada vez maior, se reduzindo a conflitos violentos nos espaços
estratégicos da nossa era: as cidades contemporâneas. As lutas geopolíticas do
mundo se articulam cada vez mais em volta de conflitos violentos sobre espaços
urbanos estratégicos, e, em muitas sociedades, a violência em torno dessa
guerra civil e cívica molda a vida urbana cotidiana.
No processo, guerras dentro de nações e guerras entre nações se tornam
radicalmente indistintas, tornando os consagrados pares binários militar-civil
cada vez menos úteis[66]. De fato, o que este livro chama de novo urbanismo
militar tende a “presumir um mundo em que civis não existem”[67]. Assim,
todos os elementos humanos são cada vez mais vistos como combatentes reais
ou em potencial, terroristas ou insurgentes, alvos legítimos.
Estratégias para o ataque deliberado a sistemas e locais que servem de apoio
para a vida urbana civil só se tornaram mais sofisticados a partir da aniquilação
urbana em massa que caracterizou o século XX. A devastação proposital dos
espaços de existência urbana, por atores estatais ou não, continua acelerada. Ela
é alimentada por transformações múltiplas e paralelas que definem o mundo
pós-colonial e pós-Guerra Fria.
Aqui, precisamos considerar uma verdadeira tempestade de fatores: o
desencadeamento, desde o fim do sistema bipolar da Guerra Fria, de ódios
étnicos anteriormente contidos; a proliferação de grupos religiosos
fundamentalistas e grupos políticos etnonacionalistas motivados pelo ódio do
cosmopolitismo urbano; a militarização de gangues, cartéis de tráfico de
drogas, milícias, regimes políticos corruptos e agências de cumprimento da lei,
todos efetivamente sabotando o monopólio de violência do Estado; o colapso
de certos Estados nacionais e locais; a urbanização de populações e da
geografia; o acesso cada vez mais amplo a armas pesadas; a crise da polarização
social crescente em todas as escalas geográficas já discutidas; e o aumento na
escassez de muitos recursos essenciais.
Na África, por exemplo, tem havido uma rápida urbanização,
hiperdesigualdade social, proliferação de guerras por recursos globais
fundamentais e mudanças radicais na economia política dos Estados nos
últimos 25 anos. Com muitos Estados perdendo seu monopólio tanto da
violência quanto de território, a coerção se torna uma commodity a ser
comprada e vendida. “A mão de obra militar é comprada e vendida em um
mercado em que a identidade dos fornecedores e compradores não significa
quase nada”, escreve Achille Mbembe. “Milícias urbanas, exércitos privados,
exércitos de comandantes regionais, empresas de segurança privada e exércitos
estatais, todos reivindicam o direito de exercer a violência ou de matar.”[68]
A esse coquetel letal precisamos acrescentar os efeitos desestabilizadores das
políticas de ajuste estrutural, as intervenções cada vez mais agressivas e
violentas dos Estados Unidos em um leque cada vez mais amplo de nações, e
seu apoio de longo prazo a muitos regimes brutais. Somada a isso, a dissolução
de Estados comunistas ou autoritários desencadeou muitas vezes aspirações e
ódios etnonacionalistas há muito reprimidos, que com frequência se
manifestam na deliberação de tomar como alvo os espaços e símbolos da
mistura cosmopolita: as cidades e suas materializações arquitetônicas da
memória coletiva. Assim como nos Bálcãs no começo dos anos 1990, a
violência genocida contemporânea é muitas vezes atacada com tentativas
deliberadas de urbicídio: a matança de cidades e a devastação de seus símbolos
e arquiteturas de pluralismo e cosmopolitismo[69]. Então, com muita
frequência, as heterogeneidades e a fluidez inerentes à vida da cidade
contemporânea entram na mira de um amplo espectro de fundamentalismos
culturais que buscam alvos, bodes expiatórios, certezas e objetos passíveis de
eliminação cultural ou arquitetônica. De fato, os próprios chamados à violência
contra cidades devem ser vistos como tentativas de formar comunidades
políticas baseadas na certeza e na simplicidade. Criar estereótipos e imagens de
alteridade para a imensa complexidade da cidade, a fim de torná-la uma única
identidade pura, constitui um prelúdio fundamental do chamado para a
violência contra ela[70].
Coletivamente, hoje em dia, esses fatores estão forçando o que o
antropólogo Arjun Appadurai chamou de uma “implosão de políticas globais e
nacionais no mundo urbano”[71] – um processo que levou a uma proliferação
de guerras sangrentas e predominantemente urbanas. Muitas delas, por sua vez,
estimularam não apenas vastas migrações, mas também a construção de
campos de refugiados em escala equivalente à de cidades para acomodar as
populações desalojadas, que já somavam cerca de 50 milhões de pessoas em
2002[72].
A permeação da violência política organizada dentro e pelas cidades e pelos
sistemas citadinos é complicada pelo fato de que muitas mudanças urbanas
“planejadas”, mesmo em tempos de relativa paz, envolvem em si mesmas níveis
bélicos de violência, desestabilização, ruptura, expulsão forçada e aniquilação
de locais[73]. Em particular nos picos e quedas vertiginosos do urbanismo
capitalista e neoliberal ou na implementação de programas de “renovação”,
“regeneração” ou “renascimento” urbano em grande escala, o planejamento
estatal muitas vezes resulta na limpeza legitimada de vastas áreas das cidades em
nome da remoção de entulho, da modernização, das melhorias, ou da
organização, da concorrência econômica, ou da facilitação da mudança
tecnológica e da acumulação de capital e da especulação[74].
Enquanto segmentos de cidades em expansão são muitas vezes eliminados
por especulações desenvolvidas pelo Estado, as muitas cidades que estão
encolhendo por causa da desindustrialização, da realocação industrial global e
do esvaziamento demográfico também estão vulneráveis ao urbanismo de
limpeza total. “Os processos de destruição criativa movidos econômica, política
e socialmente por meio do abandono e do remodelamento”, sugere David
Harvey, “muitas vezes são atos de guerra tão destrutivos quanto arbitrários. Boa
parte da Baltimore contemporânea, com suas 40 mil casas abandonadas, parece
uma zona de guerra comparável a Sarajevo”[75].

Guerra à solta
Nesse contexto, e considerando as desigualdades sociais cada vez mais
extremas, não surpreende que os teóricos e pesquisadores do militarismo
ocidental estejam hoje especialmente preocupados em relação a como as
geografias das cidades, em particular das cidades do Sul global, estão
começando a influenciar tanto a geopolítica quanto a tecnociência da violência
política pós-Guerra Fria. Depois de longos períodos pregando que o conflito
urbano fosse evitado ou, pelo contrário, que os centros urbanos fossem
aniquilados a distância por meio de bombardeios estratégicos, a doutrina
militar voltada aos desafios das operações militares dentro das cidades está
rapidamente surgindo de baixo do que um coronel canadense, Jean Servielle,
chamou há pouco tempo de “a poeira da história e o […] peso da dissuasão
nuclear”[76].
Aliás, um sistema paralelo de pesquisa urbana militar, quase despercebido
nas ciências sociais urbanas “civis”, está se estabelecendo rapidamente,
subsidiado por orçamentos de pesquisa militar ocidentais. Como afirma Keith
Dickson, um teórico militar estado-unidense de guerra urbana, a percepção
cada vez mais comum dentro dos exércitos do Ocidente é a de que,

para as forças militares ocidentais, as guerras assimétricas em áreas urbanas serão o maior
desafio do século [… ]. A cidade se torna uma área estratégica privilegiada – quem a controlar
vai ditar o curso dos eventos futuros no mundo.[77]
O consenso entre os teóricos que defendem essa mudança é que “operações
de combate urbano modernas vão se tornar um dos principais desafios do
século XXI”[78]. Nessa vertente, o major Kelly Houlgate, analista dos Fuzileiros
Navais estado-unidenses, nota que, entre 1984 e 2004, “dos 26 conflitos em
que as forças estado-unidenses lutaram […], 21 envolveram áreas urbanas, e
dez foram exclusivamente urbanos”[79].
A ampla adoção da doutrina de guerra urbana vem depois de séculos em
que planejadores militares ocidentais pregaram um mantra articulado em 1500
a.C. pelo filósofo chinês Sun Tzu, de que “a pior política é atacar cidades”. Ela
sucede uma Guerra Fria marcada por uma obsessão com eventos Air-Land
gigantescos liderados pelas superpotências e centrados no norte da Europa,
dentro e acima dos espaços entre cidades-regiões europeias intencionalmente
evitadas. Ainda que as forças ocidentais tenham lutado numerosas guerras em
cidades do mundo em desenvolvimento durante a Guerra Fria, como parte de
lutas maiores contra movimentos de independência, movimentos terroristas e
guerras por procuração, como já mencionado, esses conflitos eram vistos por
teóricos do militarismo no Ocidente como espetáculos secundários atípicos em
relação aos eventos aéreo-terrestres e nucleares, as supostas atrações principais.
Além da catástrofe militar e geopolítica que é a guerra esmagadoramente
urbana no Iraque, existem operações militares emblemáticas, como as
humilhações estado-unidenses com os Falcões Negros[b] em Mogadíscio em
1993, as operações norte-americanas em Kosovo em 1999 e em Beirute nos
anos 1980, e diversas operações também estado-unidenses no Caribe e na
América Central: Cidade do Panamá (1989), Granada (1983), Porto Príncipe
(1994). Conflitos urbanos como os ocorridos em Grozny, na Chechênia
(1994), em Sarajevo (1992-1995), na Geórgia e na Ossétia do Sul (2008), e em
Israel-Palestina (1947-) também pairam sobre os atuais debates militares sobre
a urbanização da guerra.
O foco das Forças Armadas estado-unidenses em operações na esfera
urbana doméstica também está sendo fortalecido pela chamada Guerra ao
Terror[80], que designa cidades – nos Estados Unidos ou estrangeiras – e suas
principais infraestruturas como “campos de batalha”. Vistos sob esse prisma, os
protestos de Los Angeles de 1992; as diversas tentativas de securitizar os
centros urbanos durante grandes eventos esportivos ou cúpulas políticas; a
reação militar ao furacão Katrina em Nova Orleans em 2005; os desafios de
“segurança nacional” nas cidades estado-unidenses – todas elas se tornaram
operações militares urbanas de “baixa intensidade” comparáveis à condução de
uma batalha de contrainsurgência em uma cidade iraquiana[81]. Relatos de
“lições aprendidas” elaborados depois do envio de militares com o objetivo de
conter os protestos em Los Angeles em 1992, por exemplo, atribuem o
“sucesso” da missão ao fato de que “o inimigo” – a população local – foi fácil
de manipular, dadas suas táticas e estratégias de batalha simples[82].
Procedimentos de alta tecnologia para detecção de alvos, como drones não
tripulados e programas organizados de monitoramento por satélite, que
anteriormente escolhiam como alvo espaços além da nação para
(supostamente) mantê-la em segurança, estão começando a colonizar os
espaços domésticos da própria nação[83]. A doutrina militar também passou a
tratar operações de gangues nas cidades dos Estados Unidos como “insurgência
urbana”, “guerra de quarta geração” ou “netwar”, diretamente análogas ao que
ocorre nas ruas de Cabul ou Bagdá[84].
Assim, de modo importante, os paradigmas militares estado-unidenses de
controle, monitoramento e reconfiguração violenta do urbano hoje em dia
transpõem o binário tradicional interior/exterior de cidades dentro dos Estados
Unidos versus cidades no resto do mundo. Em vez disso, as preocupações com
“segurança” que até recentemente dominavam discussões de política externa
agora emergem em espaços urbanos habituais – espaços “nacionais”. O que
antes eram preocupações de segurança internacional agora “penetra [… ] todos
os níveis do governo. A segurança está se tornando mais cívica, urbana,
doméstica e pessoal: a segurança está vindo para casa”[85].

Cidades como campos de batalha


A cidade não [é] apenas o espaço, mas o próprio meio da guerra – um meio flexível, quase
líquido, que é sempre contingente e em fluxo.[86]
O que conduz os espaços ordinários e locais da vida urbana pelo mundo a
se tornarem alvos militares é uma nova constelação de teorias e doutrinas
militares. Nela, o espectro do conflito militar Estado-versus-Estado é visto em
retirada radical. Em vez disso, a nova doutrina gira em torno da ideia de que
um amplo espectro de insurgências transnacionais atua hoje em dia sobre redes
sociais, técnicas, políticas, culturais e financeiras, que estão condenadas a
oferecer ameaças existenciais a sociedades ocidentais ao ter como alvo ou
explorar espaços, infraestrutura e tecnologias de controle que sustentam as
cidades contemporâneas. Supõe-se que essas ameaças à espreita se camuflam
dentro do caos de cidades para se proteger contra formas tradicionais de
detecção de alvos militares. Essa situação, diz o argumento, requer um ajuste
radical de técnicas de rastreamento, monitoramento e direcionamento, voltadas
tanto para as arquiteturas de circulação e mobilidade – infraestrutura – quanto
para os espaços da vida urbana cotidiana.
Assim, o foco desse novo corpus de doutrinas militares borra a separação
tradicional das esferas militar e civil, das escalas local e global, e do interior e
do exterior das nações. Ao fazê-lo, escreve Jeremy Packer, “tanto cidadãos
quanto não cidadãos hoje são tratados como uma ameaça sempre presente.
Nesse sentido, todos são vistos como combatentes, e todos os terrenos, como
campos de batalha[87]. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, esse processo
permite que as Forças Armadas da nação superem obstáculos legais tradicionais
para se posicionar dentro da própria nação[88]. Como consequência, as
apresentações em PowerPoint dos militares estado-unidenses falam de
operações urbanas em Mogadíscio, Fallujah ou Jenin no mesmo momento em
que falam das operações durante os protestos em Los Angeles, os confrontos
antiglobalização em Seattle ou Gênova, ou a devastação de Nova Orleans pelo
furacão Katrina. Esse paradigma permite que uma série de movimentos e
campanhas transnacionais – por justiça social ou sustentabilidade ecológica,
contra a opressão do Estado ou contra os efeitos devastadores do
fundamentalismo de mercado – sejam considerados como formas de “netwar”,
de fato transformando as ideias dos zapatistas no equivalente ao islamismo
radical e assassino da Al Qaeda[89]. Finalmente, essa indistinção significa que a
militarização e a construção de muros nas fronteiras nacionais, como o que
existe entre os Estados Unidos e o México, não apenas envolvem as mesmas
técnicas e tecnologias que as usadas ao cercar bairros em Bagdá ou Gaza, mas às
vezes de fato envolvem a outorga de contratos lucrativos às mesmas
corporações militares e tecnológicas.
Assim, torna-se imperativo continuar conectando os efeitos da agressão
estado-unidense no exterior com suas políticas domésticas contra o terrorismo
no que hoje é comumente chamado de “homeland” – políticas que estabelecem
como alvo, perfilam, mapeiam e encarceram americanos de ascendência árabe e
asiática em particular. Em um contexto em que “o poder imperial atua
obscurecendo os vínculos entre projetos domésticos de subordinação racial e
cooptação de minorias e estratégias de restruturação econômica e dominação
política no exterior”, como descrevem Sunaina Maira e Magid Shihade,

esse elo entre as frentes nacional e internacional de poder imperial nos ajuda a entender que as
experiências compartilhadas dos americanos de ascendência árabe e asiática nos Estados
Unidos, tanto as visíveis quanto as não tão visíveis, se devem à atuação do império.[90]

Essas indistinções radicais e múltiplas também têm outras manifestações.


Agências civis da lei, por exemplo, estão sendo reformadas de acordo com
linhas muitos mais (para)militarizadas[91]. Além de se reorganizar para se
envolver em operações antiterrorismo altamente militarizadas e fortificar as
principais convenções, eventos esportivos ou conferências políticas, elas adotam
cada vez mais técnicas e linguagem de guerra para lançar equipes da Swat
contra um leque cada vez mais amplo de eventos civis e notificações
rotineiras[92]. “Alguma coisa está causando uma mudança atitudinal entre a
polícia, em massa”, afirma o blog Signs of the Times, e isso estaria “provocando
uma reação zelosa excessiva aos problemas mais mínimos”[93]. Peter Kraska
estimou que as equipes da Swat são chamadas nos Estados Unidos cerca de 40
mil vezes por ano, um grande aumento em relação aos 3 mil chamados anuais
nos anos 1980[94]. A maior parte dos chamados, ele destaca, são realizados para
“entregar mandados para crimes não violentos relacionados a drogas”[95].
Assim, modelos explicitamente militares cada vez mais sustentam novas
ideias em penalogia e doutrinas e tecnologias de cumprimento da lei, além de
monitoramento, treinamento, simulação e assistência a desastres civis[96].
Doutrinas que tratam da guerra urbana, de operações militares em áreas
urbanas ou conflitos de baixa intensidade – conceitos militares desenvolvidos
com o propósito de controlar massas urbanas na periferia global – são
rapidamente imitados “para disciplinar grupos e movimentos sociais
considerados perigosos dentro do território das metrópoles imperiais”[97].
Sistemas de comando e controle em estilo militar atualmente estão sendo
estabelecidos para amparar a política de “tolerância zero” e práticas de
monitoramento urbano criadas para excluir consumidores falidos ou figuras
indesejadas dos novos enclaves de consumo e lazer urbano[98]. O que Robert
Warren chama de “exércitos pop up” são organizados em termos transnacionais
para militarizar, de modo preventivo, cidades que enfrentam grandes protestos
antiglobalização[99]. As técnicas de guerra urbana de alta tecnologia – de drones
não tripulados até a divisão de espaços com muros e pontos de identificação
biométrica – cada vez mais oferecem modelos para a reorganização do espaço
urbano doméstico[100]. Além disso, a metaforização quase infinita da “guerra” –
contra o crime, as drogas, o terror, a doença – solidifica mudanças mais amplas
de paradigmas urbanos sociais, de bem-estar e keynesianos para ideias
autoritárias e militarizadas do papel do Estado para manter a ordem.

Quando a vida em si é uma guerra


A busca das Forças Armadas estado-unidenses por uma nova doutrina
aplicável às cidades explicitamente reconhece as semelhanças entre áreas
urbanizadas nacionais e no exterior, independentemente das diferenças
geográficas. De acordo com Maryann Lawlor, ao escrever na revista militar
Signal, figuras importantes no Joint Forces Command (JFCOM) [Comando
de Forças Conjuntas dos Estados Unidos] em Norfolk, Virgínia, fizeram uso de
simuladores e jogos de guerra em grande escala, como o Urban Resolve, para
“identificar diversas preocupações-chave comuns a ambas as áreas”[101]. Entre
essas questões estão a dificuldade de separar “terroristas” ou “insurgentes” da
população urbana civil; a alta densidade da infraestrutura; a maneira como
cidades interferem nos sistemas militares tradicionais de monitoramento e
direcionamento; e a complexa natureza tridimensional do “campo de batalha”
urbano.
Com muita facilidade, esse discurso leva a um mundo em que “a vida em si
é uma guerra”[102]. Ele revela uma profunda inabilidade para lidar com
qualquer noção de outro para além de colocar esse outro na mira do
mecanismo de combate. Se o pensamento militar puder seguir desenfreado, no
fim das contas não vai sobrar nada no mundo que não seja um alvo para todo o
espectro da violência simbólica ou de fato. A teórica de mídia Rey Chow
escreve que

a essência de continuamente tornar o mundo um alvo como forma fundamental de produção


de conhecimento é a xenofobia, a inabilidade de lidar com a alteridade do outro para além da
órbita que é o próprio campo de visão do atirador. Para o xenófobo todos os esforços devem ser
feitos para manter e garantir essa órbita – ou seja, manter o lugar do outro como alvo sempre
ocupado.[103]

É aí que os conceitos domésticos e estrangeiros da cidade convergem.


Assim, por um lado, oficiais militares estado-unidenses têm o hábito de falar
sobre murar bairros em Bagdá como construções análogas às comunidades
fechadas que abrigam mais da metade dos novos lares em muitas cidades do
Sul e do Oeste dos Estados Unidos[104]. Não só as apresentações para vendas
militares, mas também os comentários da mídia de direita borraram as cidades
nacionais e as iraquianas, transformando-as em um único espaço demonizado
que requer um ataque pesado e de alta tecnologia. Nicole Gelinas, por
exemplo, propôs em 2007 no City Journal do Manhattan Institute que Nova
Orleans no pós-Katrina era uma “Bagdá no Bayou” e argumentou que a cidade
precisava de uma resposta militarizada semelhante, de modo a levar a ordem e
investimentos em meio às supostas patologias do crime e da violência[105].
Um anúncio recente de sensores infravermelhos de helicópteros publicado
em uma revista militar captura de forma impactante essa diluição do doméstico
e do distante (Figura 1.2). Em volta de um helicóptero com duas faces – o lado
militar com foguetes; o da polícia, com câmeras aéreas –, a legenda diz [em
tradução livre]: “Toda noite, a noite toda – de Bagdá e Baton Rouge – vamos
cuidar de você”.
1.2 Um clássico “efeito bumerangue”: anúncio para sensores infravermelhos de helicóptero simbolizando
a diluição entre os esforços militares de usar a alta tecnologia de monitoramento e controle de alvos para
dominar cidades colonizadas “fora” da nação e a militarização das “operações urbanas” da polícia em
“conflitos de baixa intensidade” difusos nas cidades nacionais.

A resposta dos Estados Unidos à devastação causada pelo furacão Katrina


na cidade predominantemente afro-americana de Nova Orleans oferece um
exemplo essencial aqui[106]. Alguns oficiais do Exército estado-unidense
discutiram a reação altamente militarizada ao desastre do Katrina como uma
tentativa de “retomar” Nova Orleans de “insurgências” afro-americanas[107].
Em vez de organizar uma enorme resposta humanitária que tratasse as vítimas
do Katrina como cidadãos que necessitavam de ajuda imediata, os oficiais
(finalmente) realizaram uma operação predominantemente militar. Essa
resposta apenas reforçou a ideia de que é adequado tratar geografias tanto
externas quanto internas como campos de guerras financiadas por governos
contra “outros” racializados e “biopoliticamente descartáveis”[108]. A operação
Katrina lidou com aqueles abandonados no centro da cidade como uma
ameaça – a ser contida, que deveria estar na mira e ser abordada de modo que
se protegesse a propriedade das populações predominantemente brancas dos
bairros residenciais suburbanos e semiurbanos abastados que tinham fugido em
seus próprios carros[109]. No processo, os cidadãos afro-americanos de Nova
Orleans foram transformados em refugiados em seu próprio país. Como
defendem Robert Starn e Ella Shohat, “o Katrina não arrancou apenas os
telhados da Costa do Golfo, mas também a fachada do ‘homeland security
state’”[110].

Urbanizar a doutrina militar


Em 1998, ao mesmo tempo que geógrafos urbanos escreviam que as cidades eram locais onde
as identidades se formavam, o capital social era construído e novas formas de ação coletiva
emergiam, a Marinha norte-americana explicava o fenômeno de forma um pouco diferente:
“historicamente, as cidades são os locais onde ideias radicais são fermentadas, dissidentes
encontram aliados e grupos descontentes recebem atenção da mídia”, dessa forma, tornando as
cidades “uma fonte provável de conflito no futuro”.[111]

A combinação de antiurbanismo racializado de direita e nova doutrina


militar é incendiária. Ela significa que não só as principais cidades domésticas,
mas também cidades distantes no coração da Guerra ao Terror, são vistas como
campos de batalha problemáticos ou anárquicos, revelando contrastes
profundos com as supostas ordem, segurança e harmonia das zonas
normalizadas dos bairros residenciais e das comunidades abastadas suburbanas
e semiurbanas – zonas que precisam ser protegidas das ameaças e dos contágios
que emanam de todas as cidades em toda parte. Quando as técnicas de
(tentativa de) controle urbano – zonas de segurança isoladas, muros,
rastreamento, biometria, armas ostensivamente não letais, mineração de dados
– são semelhantes em Gaza, Bagdá e Nova York, então a indistinção se torna
inevitável, em especial se acompanhada por uma demonização generalizada de
direita das cidades centrais.
A nova doutrina militar cria uma ideia da guerra como um exercício
permanente e sem limites, colocando operações de segurança e militares de alta
tecnologia – junto com terceirizados do setor privado e corporações militares –
contra uma vasta série de adversários não estatais. Tudo isso ocorre dentro de
um ambiente marcado por uma intensa midiatização, um alto grau de
mobilidade e a rápida exploração de novas tecnologias militares.
Assim, muitos teóricos militares falam sobre uma “quarta geração” de
guerra – baseada, eles argumentam, em guerras “não convencionais”, lutas
“assimétricas”, “insurgências globais” e “conflitos de baixa intensidade” que
colocam o militarismo estatal de alta tecnologia contra combatentes informais
ou civis mobilizados[112]. O teórico militar omas Hammes defende que a
característica principal desses conflitos é que “a vontade política superior,
quando empregada corretamente, pode derrotar o poderio econômico e militar
superior”[113]. Contando com essa doutrina, os comandantes estado-unidenses
em Bagdá enfatizaram a necessidade de coordenar todo o “campo de batalha”
da cidade – referindo-se à infraestrutura civil e à economia destruída,
fortalecendo a consciência cultural e usando “a aplicação controlada da
violência” para tentar manter a segurança da cidade[114].
Esses paradigmas transformam atos sociais prosaicos que constituem
coletivamente a vida urbana em ameaças à existência e à sociedade. Como
vimos na Introdução, o teórico militar estado-unidense William Lind –
ampliando os debates “das guerras culturais” dos Estados Unidos dos anos
1980 e 1990, e engolindo por completo o binário “choque de civilizações” de
Huntington – argumentou que até a imigração urbana agora precisa ser vista
como um ato de guerra. “Na guerra de quarta geração”, ele escreveu, “a invasão
por imigração pode ser pelo menos tão perigosa quanto a invasão por um
exército”. Sob o que chama de “ideologia venenosa do multiculturalismo”,
Lindt defende que imigrantes nas nações do Ocidente agora podem lançar
“uma variedade nacional da guerra de quarta geração, que é de longe o tipo
mais perigoso”[115].
Aqui confrontamos o que o Centro de Estudos de Imigração chamou de
“armamentização” da imigração[116]. Esses conceitos de violência política são
especialmente perniciosos porque tomam todos os aspectos da vida humana
como nada além de guerra: nações são conceituadas em termos limitados
etnonacionalistas, e cidades diaspóricas emergem como poluentes culturais[117].
“A estrada do caráter nacional para uma cosmologia totalizada da nação
sagrada”, afirma Arjun Appadurai, “e, mais além, para a pureza e limpeza
étnica, é relativamente direta”[118].
Enquanto isso, outros comandantes e teóricos do militarismo estado-
unidense geraram um enorme debate desde o começo dos anos 1990 sobre
uma suposta revolução em assuntos militares (que recebeu o acrônimo RMA,
Revolution in Military Affairs)[119]. Esse debate leva em consideração de que
maneira novas tecnologias de monitoramento, comunicação e direcionamento
“secreto” de alvo ou “de precisão” por meio de “armas inteligentes” podem ser
aproveitadas para sustentar uma forma mundial de onipotência militar estado-
unidense baseada na guerra “centralizada por rede”. Em um mundo unipolar
pós-Guerra Fria, o sonho da RMA era que a intimidadora e altamente
tecnológica “superioridade militar [dos Estados Unidos] hoje indicaria a
capacidade de derrubar a perspectiva de qualquer desafio à maneira como o
mundo é ordenado”, como disse Randy Martin[120]. Com a “névoa da guerra”
transformada em história pelas tecnologias militares estado-unidenses de
perfeita detecção e assassinato em tempo real, o domínio sobre qualquer
inimigo deveria estar garantido, ainda que o número de tropas, além do
próprio peso dos exércitos, fosse radicalmente reduzido. Em outras palavras, a
guerra deveria ser um processo de assassinato de alta tecnologia a distância
movido a capital intensivo.
Essa visão de onipotência tecnológica era especialmente atraente, do ponto
de vista militar e cultural, porque, nas palavras de Ashley Dawson, “o grande
bastão tecnológico higienizou o lado sangrento da guerra com suas imagens
pixelizadas da precisão da destruição”[121]. Sendo assim, as fantasias tecnófilas
de poderio perfeito que os debates da RMA se ofereceram para “absolver
aqueles que o exerceram a partir de responsabilidades morais por seus
atos”[122]. De fato, entre muitos falcões – políticos estado-unidenses pró-guerra
– e neoconservadores[123], a RMA ajudou a tornar as guerras imperiais estado-
unidenses em um meio desejável de forçar a reorganização “preventiva” do
mundo de modo a ampliar o poder político e econômico dos Estados Unidos
dentro da estrutura do choque de civilizações[124]. Apresentadas por Donald
Rumsfeld, secretário de Segurança estado-unidense entre 2001 e 2006, essas
conceituações de guerra corroboraram a estratégia do governo Bush de usar
nova tecnologia militar para promover uma nova fase da hegemonia política e
do imperialismo estado-unidenses. Assim, a RMA ofereceu “uma grande
dádiva e um álibi para os falcões pró-guerra”[125].
No entanto, como os gurus da guerra de quarta geração nunca se cansam
de destacar, e o pântano de sangue nas cidades iraquianas continua a
demonstrar, a obsessão dos teóricos da RMA com hardware fez pouco, em um
mundo em rápida urbanização, para tornar o poder militar estado-unidense
invencível. No Iraque, como tanto acontece na história urbana e militar, a
ocupação violenta de uma cidade distante parece ter transformado todos os
sonhos de conduzir uma guerra a distância – afastando os soldados norte-
americanos do risco enquanto armas de alta tecnologia aniquilam o inimigo –
em pouco mais do que ficção científica (ou talvez apenas uma publicidade
conveniente para o complexo militar-industrial-de segurança). Mais uma vez,
ficou claro que, como afirmou Edward Luttwak,

as Forças Armadas dos países mais avançados, e com certeza as dos Estados Unidos,
formidáveis contra os inimigos reunidos em formações de massa convenientemente atingíveis,
são menos eficientes no combate a insurgentes.[126]

Nas cidades do Iraque, o Exército estado-unidense considerou impossível


diferenciar os insurgentes dos civis. A catastrófica ignorância linguística e
cultural dos militares sobre os lugares em que eles estavam combatendo tem
sido um enorme obstáculo. Além disso, a complexa geometria tridimensional
das cidades iraquianas interferiu nos sistemas de detecção e networking que
deveriam criar a onisciência militar e um campo de batalha aberto[127], e o
poder de fogo superior e as táticas agressivas dos Estados Unidos – muitas vezes
impostos com um desprezo racista pela vida dos habitantes iraquianos dos
espaços urbanos, que vivem em uma proximidade inescapável do ponto de
impacto – foram bastante contraproducentes. As massas resultantes de civis
iraquianos mutilados e mortos só aumentaram a legitimidade e o poder das
insurgências iraquianas.
Todavia, estranhamente, a resiliência cultural da tecnofilia militar estado-
unidense é tanta que “a mitologia sedutora da guerra pós-moderna de alta
tecnologia ainda entronada na mítica fase de combate ativo da invasão do
Iraque foi mantida cuidadosamente livre de contaminação pelas realidades
brutais e caóticas da ocupação”[128]. Como vamos ver mais adiante, sonhos de
onipotência de alta tecnologia apenas migraram de fantasias globais da RMA
de dominação vinda de cima para fantasias de controle das complexas
microgeografias do universo urbano por meio de guerreiros robóticos e
sensores onipresentes.
Um terceiro e último grupo de teóricos militares estado-unidenses agora
está obcecado com a necessidade de se preocupar com “operações baseadas em
efeitos” – os complexos efeitos das operações militares em vez do simples
imperativo de destruir ou matar o inimigo. Em uma linguagem tipicamente
nada sutil, um desses teóricos argumenta que a guerra se tornou mais do que
uma questão de “mandar ferro no alvo”[129]. O controle ou a fabricação das
imagens e informações de guerra são, então, considerados tão importantes
quanto os bombardeios ou o disparo de mísseis. Por consequência, “a guerra da
informação” pode envolver tudo, de espalhar folhetos e bombardear redes de
TV que mostram a morte de civis até esforços de coerção política e social que
façam infraestruturas inteiras de nações urbanas parar repentina e
completamente.
O conceito-chave que move o pensamento e a prática militar atuais é o
“campo de batalha”. Ele é crucial porque, na essência, sustenta “uma concepção
de questões militares que inclua absolutamente tudo”[130]. Nada fica fora do
campo de batalha, temporal ou geograficamente. Esse campo não tem dianteira
nem traseira, não tem começo nem fim. É “profundo, alto, amplo e
simultâneo”[131]. Então, o conceito de campo de batalha permeia tudo, das
escalas moleculares da engenharia genética e da nanotecnologia, passando pelos
espaços cotidianos e experiências da vida na cidade, até esferas planetárias do
espaço e o ciberespaço da internet que atravessa o globo[132].
Com guerras e batalhas não mais sendo declaradas nem encerradas, as
temporalidades da guerra ameaçam se estender infinitamente. “A guerra está de
volta e, pelo jeito, para sempre”, escreve Patrick Deer[133]. Não surpreende que
os gurus do Pentágono tenham convencido George W. Bush a substituir a ideia
da “Guerra ao Terror” com a nova Grande Ideia de “Guerra Longa” em
2004[134].
Administrar e manipular a política do medo por meio daquilo que os
militares estado-unidenses chamaram de “operações de informação” –
propaganda política – é fundamental para essas novas constelações de doutrina
militar. Como é comum na guerra, o uso da propaganda política para
convencer populações domésticas de que apenas uma ousada ação militar no
exterior pode impedi-las de serem aterrorizadas em seu país tem sido
especialmente importante para a Guerra ao Terror. De fato, fomentar o medo
permitiu que a catastrófica má administração da macroeconomia dos Estados
Unidos, e o consequente sofrimento da população estado-unidense, fossem
maquiados – pelo menos até o colapso financeiro de 2008-2009. A fusão de
entretenimento, mídia e guerra no que James Der Derian chama de “rede
militar-industrial-mídia-entretenimento” teve uma importância central
aqui[135]. Como escreveu Andrew Ross em 2004:

Com o advento da chamada guerra ao terror, a legitimidade do governo dos Estados Unidos
não mais depende de sua capacidade ou disposição para garantir um padrão de vida decente
para esses cidadãos; em vez disso, ele depende do grau em que a população pode ser persuadida
com sucesso de que está à beira de ser aterrorizada.[136]

Mesmo em meio ao caos e à devastação da crise econômica, os


desesperados gerentes da campanha republicana conseguiram retratar
amplamente o candidato à presidência democrata, Barack Obama, como um
aliado à espreita do maior inimigo terrorista, Osama bin Laden.

“As cidades são o problema”


O futuro das guerras está na ruas, redes de esgoto, arranha-céus, parques industriais e no
alastramento de casas, barracos e abrigos que compõem as cidades fragmentadas do nosso
mundo.[137]

Espaços urbanos e operações militares urbanas ocupam cada vez mais o


centro de todas essas conceituações de guerra. Teóricos militares antiurbanos
divulgam a ideia de que espaços urbanos concentram, abrigam e camuflam
uma série de agitadores, insurgentes e movimentos sociais contra o Estado. É
nas cidades, eles defendem, que as vantagens da alta tecnologia dos exércitos
ocidentais se perdem, porque não é mais possível usar as armas da RMA para
eliminar alvos em áreas desertas de maneira conveniente e barata, como foi
feito no Iraque em 1991. É nas cidades em expansão que as vulnerabilidades
do poder estatal, econômico e militar ocidentais estão mais expostas. E são as
cidades que servem de camuflagem contra a onipotência e onisciência vertical
das forças estado-unidenses. Depois de 1991, muitos teóricos levantaram a
hipótese de que

forças insurgentes do mundo todo, tendo testemunhado a aniquilação das tropas de Saddam
no deserto aberto pelas “bombas inteligentes” estado-unidenses [durante a primeira Guerra do
Golfo], constataram que sua única chance de sobrevivência estava em lutar guerras futuras nas
selvas urbanas do mundo subdesenvolvido.[138]

Essas perspectivas sugerem, como afirma Duane Schattle, do Escritório de


Operações do Comando de Forças Conjuntas dos EUA, que “as cidades são o
problema”[139] para o poder militar estado-unidense. Na mesma linha, James
Lasswell, chefe do Escritório de Ciência e Tecnologia do Laboratório de Guerra
da Marinha, acredita que “o urbano é o futuro” e que “tudo pelo que vale a
pena lutar está no ambiente urbano”. E Wayne Michael Hall, consultor do
Escritório de Operações Urbanas Conjuntas, postula que as forças estado-
unidenses “vão lutar em terreno urbano pelos próximos cem anos”[140].

Viradas culturais, poder em declínio


No entanto, é impressionante como discussões vagas dentro das forças
militares estado-unidenses sobre a guerra urbana agora estão sendo
complementadas por discussões sobre como colonizar as íntimas inflexões da
cultura urbana dentro das principais cidades de contrainsurgência. Essa “virada
cultural”[141] na doutrina militar urbana e de contrainsurgência se concentra
no que o Pentágono chama de “Sistema Terrestre Humano”[142]. Na Guerra
Longa, ao que parece, “antropólogos são artigos em alta”[143].
Além do recrutamento de antropólogos, “os orçamentos do Pentágono
refletem um compromisso cada vez maior com a aquisição do chamado
‘conhecimento cultural’”, escreve Roberto González[144]. As especificidades
culturais de cidades e distritos agora estão, portanto, sendo copiadas e
simuladas. Soldados estado-unidenses estão recebendo treinamento rudimentar
para apreciar as tradições culturais iraquianas, o urbanismo islâmico, a
complexa composição étnica do Iraque e tradições e costumes locais.
Especificamente, estão sendo realizados estudos militares da cidade islâmica,
carregados de clichês orientalistas[145]. O objetivo de compilar dados
antropológicos e etnográficos sobre o terreno humano das operações estado-
unidenses de contrainsurgência é, ao que parece, como afirma González,
“ajudar a ganhar as lutas de ‘vontade e legitimidade’” (talvez pelo uso de
propaganda política), para “trazer à tona as redes insurgentes de bombas de
fabricação caseira [IED, na sigla em inglês]” (presumivelmente para
transformá-los em alvos) e para funcionar como “um elemento de poder de
combate” (isto é, como arma). A preocupação aqui, ele comenta, é que

num futuro próximo, agentes talvez usem perfis culturais para mirar, de forma preventiva,
insurgentes ou extremistas estatisticamente prováveis (em vez de reais) no Iraque, Afeganistão,
Paquistão ou em outros países considerados refúgios de terroristas.[146]

O uso da chamada consciência cultural como arma contra as insurgências


iraquianas é, no entanto, completamente fraudulento. Em sua tentativa de
reposicionar as forças americanas como pouco mais do que espectadores
inocentes em meio à carnificina das ruas de Bagdá, ele ofusca e higieniza a
violência imperial e a insegurança radical geradas exatamente pela presença
dessas forças[147], e, em vez disso, coloca toda a culpa dessas condições nas
patologias criadas pelas diferenças étnicas e sectárias dentro do Iraque. Isso
obscurece a presença provocadora e as ações assassinas dos militares
americanos, junto com suas forças representantes e legiões mercenárias. E deixa
de levar em consideração as maneiras complexas como uma miríade de acordos
entre as Forças Armadas dos Estados Unidos, seus regimes de fachada e suas
milícias representantes e um amplo espectro de militares privados contratados
aumentaram muito, e de fato exploraram, as tensões sectárias no Iraque e,
assim, promoveram programas de limpeza étnica.
Esse fracasso é sintomático de um problema muito mais amplo que
permeia a virada cultural e urbana na doutrina militar estado-unidense. Ele
corrobora uma discussão altamente tecnocrática e tecnófila que gira em torno
do que Ashley Dawson chama de “uma predominância cada vez maior de
zonas de combate urbanas”, combinada com a completa inabilidade de
“reconhecer as forças políticas e econômicas subjacentes que movem a
urbanização nas megacidades do Sul global”[148]. Ao não abordar as causas que
estão na raiz da extrema polarização e da violência geradas pela neoliberalização
e do enorme crescimento de assentamentos informais, o discurso militar
urbano simplesmente faz eco para o catastrófico fracasso das elites políticas e
econômicas do mundo em “questionar como integrar o excedente de
humanidade do Sul global à economia global”. A melhor interpretação para as
fantasias alimentadas por teóricos militares estado-unidenses de controle dos
assentamentos e das cidades em desenvolvimento do mundo provavelmente é o
que Dawson chama de “índice de declínio da hegemonia do poder imperial
dos Estados Unidos, em vez de um sinal da potência invencível do
império”[149]. Em 2009, ao testemunhar o rápido declínio de poder da
economia estado-unidense, cambaleando sob a atual crise econômica, é difícil
não discordar. Claro, isso não significa que essas fantasias militares não trazem
consequências. Ao contrário, como fica claro no capítulo a seguir, elas refletem
formas de pensar que têm raízes profundas e são extremamente problemáticas,
ao transformar nosso mundo em urbanização em uma geografia perigosamente
sedutora de bondade versus hostilidade.
[1] Mike Davis, “ e Urbanization of Empire: Megacities and the Laws of Chaos”, Social Text, v. 22, n.
4, 2004, p. 4.
[2] Humansecurity-cities.org., “Human Security for an Urban Century”, Vancouver, 2004, p. 9,
disponível em: <humansecuritycities.org>. [Esse link, originalmente consultado pelo autor, não está mais
acessível. O texto, no entanto, encontra-se disponível em:
<https://docs.unocha.org/sites/dms/HSU/human_security_for_an_urban_century%20South%20Americ
a%20(1).pdf>. Acesso em: 3 jun. 2016. – N. E.]
[3] William M. Reilly, “Urban Populations Booming”, TerraDaily.com, 27 jun. 2007. Disponível em:
<www.terradaily.com/reports/Urban_Populations_Booming_999.html>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[4] UN-Habitat, State of the Worlds Cities 2006/7 (Nairóbi, UN-Habitat, 2007), p. 4.
[5] Madeleine Bunting, “Faith. Belief. Trust. is Economic Orthodoxy Was Built on Superstition”, e
Guardian, Londres, 6 out. 2008.
[6] Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), e State of World Population 2007: Unleashing the
Potential of Urban Growth (Nova York, UNFPA, Rensslaer Polytechnic Institute, 2007).
[7] Ver Michael Pryke, “City Rhythms: Neoliberalism and the Developing World”, em John Allen,
Doreen Massey e Michael Pryke (orgs.), Unsettling Cities (Londres, Routledge, 1999), p. 229-70.
[8] Chris Wright e Samantha Alvarez, “Expropriate, Accumulate, Financialise”, Mute Magazine, 10 maio
2007. Disponível em: <www.metamute.org>. Acesso em: 1º abr. 2016.
[9] Randy Martin, “Where Did e Future Go?”, Logos, v. 5, n. 1, 2006.
[10] Gene Ray, “Tactical Media and the End of the End of History”, Afterimage, v. 34, n. 1-2, 2006.
[11] Ver Nigel Harris e Ida Fabricius (orgs.), Cities and Structural Adjustment (Londres, University
College London Press, 1996).
[12] Mike Davis, “ e Urbanization of Empire”, cit., p. 2.
[13] Citada em UN-Habitat, “UN-Habitat Unveils State of the World’s Cities Report”, 23 out. 2008.
Disponível em: <www.unhabitat.org>. Acesso em: 1º abr. 2016.
[14] Projeto de Desenvolvimento das Nações Unidas, Human Development Report 1999 (Nova York,
ONU, 1999), p. 36.
[15] Branco Milanovic, “True World Income Distribution, 1988 and 1993: First Calculations Based on
Household Surveys Alone”, e Economic Journal, v. 112, jan. 2002, p. 88.
[16] Ibidem, p. 51-92.
[17] As duas citações vêm de: Mike Davis e Daniel Bertrand Monk (orgs.), Evil Paradises: Dreamworlds of
Neoliberalism (Nova York, New Press, 2007), p. xi-xii.
[18] Ibidem, p. xiii.
[19] Giovanni Andrea Cornia, “ e Impact of Liberalisation and Globalisation on Within-country
Income Inequality”, CESifo Economic Studies, v. 49, n. 4, 2003, p. 581.
[20] Pat Murphy, “Peak America – Is Our Time Up?”, New Solutions, n. 7, 2005, p. 2. Disponível em:
<www.communitysolution.org>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[21] Holly Sklar, “Boom Time for Billionaires”, ZNet Commentary, 15 out. 2004, citado em Henry
Giroux, “ e Conservative Assault on America: Cultural Politics, Education and the New
Authoritarianism”, Cultural Politics, v. 1, n. 2, p. 143.
[22] Joy James (org.), Warfare in the American Homeland: Policing and Prison in a Penal Democracy
(Durham [NC], Duke University Press, 2007).
[23] Ashley Seager, “Development: US Fails to Measure Up on ‘Human Index’”, e Guardian, Londres,
17 jul. 2008.
[24] Phillip Blond, “Outside View: e End of Capitalism as We Know It?”, e Independent, Londres,
23 mar. 2008.
[25] Mike Davis, “ e Urbanization of Empire”, cit., p. 12.
[26] Idem, Planet of Slums (Londres, Verso, 2006) [ed. bras.: Planeta favela, trad. Beatriz Medina, São
Paulo, Boitempo, 2006].
[27] Mike Davis, “ e Urbanization of Empire”, cit., p. 11.
[28] Ver Loïc Wacquant, “ e Militarization of Urban Marginality: Lessons from the Brazilian
Metropolis”, International Political Sociology, v. 2, n. 1, 2008, p. 56-74.
[29] Ver Humansecurity-cities.org, Human Security for an Urban Century, cit., p. 9.
[30] Mike Davis, “ e Urbanization of Empire”, cit., p. 15.
[31] Zygmunt Bauman, City of Fears, City of Hopes (Londres, Goldsmiths College, University of London,
New Cross, 2003), p. 16. Disponível em: <www.goldsmiths.ac.uk>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[32] Mike Davis, “Sand, Fear and Money in Dubai”, em Mike Davis e Daniel Bertrand Monk (orgs.),
Evil Paradises (Nova York, New Press, 2007), p. 51.
[33] Ver Max Weber, e City (Glencoe [IL], Free Press, 1958); Lewis Mumford, e City in History
(Nova York, MJF Books, 1961).
[34] Ver Christopher Gravett, Medieval Siege Warfare (Oxford, Osprey Publishing, 1990).
[35] Marshall Berman, “Falling Towers: City Life After Urbicide”, em Dennis Crowe (org.), Geography
and Identity (Washington, Maisonneuve Press, 1996), p. 172-92.
[36] Anthony Giddens, e Nation-State and Violence (Los Angeles, e University of California Press,
1987) [ed. bras.: O Estado-Nação e a violência, trad. Beatriz Guimarães, São Paulo, Edusp, 2001].
[37] Fernand Braudel, Capitalism and Material Life (Nova York, Harper Collins, 1973), p. 398.
[38] Ver Felix Driver e David Gilbert (orgs.), Imperial Cities (Manchester, Manchester University Press,
2003).
[39] Kanishka Goonewardena e Stefan Kipfer, “Postcolonial Urbicide: New Imperialism, Global Cities
and the Damned of the Earth”, New Formations, v. 59, 2006, p. 23-33.
[40] Ver Mike Davis, “ e Urbanization of Empire”, cit., p. 9; Anthony King, Urbanism, Colonialism
and the World Economy (Londres, Routledge, 1991).
[41] Pierre Mesnard y Méndez, “Capitalism Means/Needs War”, Socialism and Democracy, v. 16, n. 2,
2002.
[42] Ver Henri Lefebvre, e Critique of Everyday Life, v. 1 (Londres, Verso, 1991); Stefan Kipfer e
Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism: On the Meaning of Urbicide Today”,
eory and Event, v. 10, n. 2, 2007, p. 1-39.
[43] Eyal Weizman e Phil Misselwitz, “Military Operations as Urban Planning”, Mute Magazine, ago.
2003.
[44] Idem.
[45] Em 1847 Bugeaud escreveu talvez o primeiro manual ocidental de guerra urbana: La Guerre des Rues
et des Maisons [A guerra de ruas e casas] (Paris, Jean-Paul Rocher, 1997).
[46] Eyal Weizman, Introdução, em omas Bugeaud, “ e War of Streets and Houses”, Cabinet, n. 22,
2006. Disponível em: <www.cabinetmagazine.org>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[47] Idem.
[48] Martin Shaw, War and Genocide (Cambridge, Polity Press, 2003).
[49] Ver Mike Davis, Dead Cities, and Other Tales (Nova York, New Press, 2003), cap. 3.
[50] Martin Shaw, “New Wars of the City: Relationships of ‘Urbicide’ and ‘Genocide’”, em Stephen
Graham (org.), Cities, War and Terrorism (Oxford, Blackwell, 2004), p. 143.
[51] Laura McEnaney, Civil Defense Begins at Home (Princeton, Princeton University Press, 2000).
[52] Martin Shaw, “New Wars of the City”, manuscrito não publicado, 2001. Disponível em:
<www.martinshaw.org>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[53] Ryan Bishop e Greg Clancey, “ e City-as-Target, or Perpetuation and Death”, em Stephen Graham
(org.), Cities, War and Terrorism, cit., p. 54-73.
[54] Ver Jose Luis Sert e Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, Can Our Cities Survive?: An
ABC of Urban Problems, their Analysis, their Solutions; Based on the Proposals Formulated by the C.I.A.M.
(Cambridge [MA], Harvard University Press, 1942).
[55] Peter Gallison, “War against the Center”, Grey Room, n. 4, 2001, p. 29.
[56] Ibidem, p. 5-33; Michael Quinn Dudley, “Sprawl as Strategy: City Planners Face the Bomb”,
Journal of Planning Education and Research, v. 21, n. 1, 2001, p. 52-63; Matthew Farish, “Another
Anxious Urbanism: Simulating Defense and Disaster in Cold War America”, em Stephen Graham (org.),
Cities, War and Terrorism, cit., p. 93-109.
[57] Citado em Dan McNichol, e Roads at Built America: e Incredible Story of the US Interstate
System (Nova York, Sterling Publishing, 2006), p. 103.
[58] Michelle Provoost, “New Towns on the Cold War Frontier”, Eurozine, jun. 2006. Disponível em:
<www.eurozine.com>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[59] Ver Manuel Castells, “High Technology and the Transition from the Urban Welfare State to the
Suburban Warfare State”, em e Informational City (Oxford, Blackwell, 1989); Anne Markusen et al.,
e Rise of the Gunbelt: e Military Remapping of Industrial America (Oxford, Oxford University Press,
1991).
[60] Jennifer Light, From Warfare to Welfare: Defense Intellectuals and Urban Problems in Cold War
America (Baltimore, e Johns Hopkins University Press, 2003).
[61] Andrew Ross, “Duct Tape Nation”, Harvard Design Magazine, n. 20, 2004, p. 2.
[62] Ver Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism”, cit.
[63] Ver E. P. ompson, “Notes on Exterminism: e Last Stage of Civilization”, em E. P. ompson
(org.), Exterminism and Cold War (Londres, NLB, 1982) [ed. bras.: Exterminismo e Guerra Fria, trad.
Denise Bottmann, São Paulo, Brasiliense, 1985].
[a] Referência ao filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, de 1964,
dirigido por Stanley Kubrick e estrelado por Peter Sellers. No Brasil, foi lançado como Dr. Fantástico. (N.
E.)
[64] Ver, por exemplo, Tom Vanderbilt, Survival City: Adventures Among the Ruins of Atomic America
(Nova York, Princeton Architectural Press, 2002).
[65] Phillip Misselwitz e Eyal Weizman, “Military Operations as Urban Planning”, em Anselm Franke e
Eyal Weizman (orgs.), Territories: Islands, Camps and Other States of Utopia (Berlim, KW, Instituto de
Arte Contemporânea), p. 272.
[66] Arjun Appadurai, Fear of Small Numbers: An Essay on the Geography of Anger (Durham [NC], Duke
University Press, 2006), p. 1 [ed. bras.: O medo ao pequeno número, trad. Ana Goldberger, São Paulo,
Iluminuras, 2009].
[67] Ibidem, p. 31. Ver também Derek Gregory, “Editorial: e Death of the Civilian?”, Environment
and Planning D: Society and Space, v. 24, n.5, p. 633-8.
[68] Achille Mbembe, “Necropolitics”, Public Culture, v. 15, n. 1, 2003, p. 32.
[69] Ver Robert Bevan, e Destruction of Memory: Architecture at War (Londres, Reaktion Books, 2006).
[70] Arjun Appadurai, Fear of Small Numbers, cit., p. 7. Ver também Jean-Luc Nancy, “In Praise of the
Melee”, em A Finite inking (Stanford, Stanford University Press, 2003).
[71] Arjun Appadurai, Modernity at Large: Cultural Dimensions of Globalization (Minneapolis, [MN],
University of Minnesota Press, 1996), p. 152.
[72] Ver Michel Agier, “Between War and City: Towards an Urban Anthropology of Refugee Camps”,
Ethnography, v. 3, n. 3, 2002, p. 317-41.
[73] Marshall Berman, “Falling Towers”, cit.
[74] Para um exemplo excelente, ver Greg Clancey, “Vast Clearings: Emergency Technology, and
American De-Urbanization, 1930-1945”, Cultural Politics, v. 2, n. 1, 2006, p. 49-76.
[75] David Harvey, “ e City as a Body Politic”, em Jane Schneider e Ida Susser (orgs.), Wounded Cities:
Destruction and Reconstruction in a Globalized World (Nova York, Berg, 2003), p. 26.
[76] Jean Servielle, “Cities and War”, Doctrine, n. 3, 2004, p. 43-4.
[77] Keith Dickson, “ e War on Terror: Cities as the Strategic High Ground”, artigo não publicado,
2002.
[78] Defense Intelligence Reference Document (DIRC), e Urban Century: Developing World Urban
Trends and Possible Factors Affecting Military Operations, MCIA-1586-003-9, Quantico, VA, Corpo de
Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, 1997, p. 11.
[79] Kelly Houlgate, “Urban Warfare Transforms the Corps”, e Naval Institute: Proceedings, nov. 2004.
Disponível em: <www.military.com>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[b] No original, Black Hawk Down. Título do livro do jornalista Mark Bowden, publicado em 1999, que
deu origem ao filme homônimo de Ridley Scott, lançado em 2001, sobre as batalhas na Somália. No
Brasil, o filme recebeu o nome de Falcão Negro em perigo. Black Hawk, do título original, é o helicóptero.
(N. E.)
[80] Ver Nathan Canestaro, “Homeland Defense: Another Nail in the Coffin for Posse Comitatus”,
Washington University Journal of Law & Policy, n. 12, 2003, p. 99-144.
[81] Ver Phil Boyle, “Olympian Security Systems: Guarding the Games or Guarding Consumerism?”,
Journal for the Arts, Sciences, and Technology, v. 3, n. 2, 2005, p. 12-7.
[82] Deborah Cowen, “National Soldiers and the War on Cities”, eory and Event, v. 10, n. 2, 2007, p.
1.
[83] Ver, por exemplo, Siobhan Gorman, “Satellite-Surveillance Program to Begin Despite Privacy
Concerns”, Wall Street Journal, 1º out. 2008.
[84] Max Manwaring, Street Gangs: e New Urban Insurgency (Carlisle [PA], Strategic Studies Institute,
US Army War College, 2005). Disponível em: <www.strategicstudiesinstitute.army.mil>. Acesso em: 30
mar. 2016.
[85] David Murakami Wood e Jonathan Coaffee, “Security Is Coming Home: Rethinking Scale and
Constructing Resilience in the Global Urban Response to Terrorist Risk”, International Relations, v. 20, n.
4, 2006, p. 503.
[86] Eyal Weizman, “Lethal theory”, LOG Magazine, abr. 2005, p. 53.
[87] Jeremy Packer, “Becoming Bombs: Mobilizing Mobility in the War of Terror”, Cultural Studies, v.
20, n. 4-5, 2006, p. 378.
[88] A lei Posse Comitatus dos Estados Unidos, por exemplo, que proibiu explicitamente o
posicionamento doméstico de tropas estado-unidenses dentro de seu território. Além disso, um novo
Comando Estratégico americano – o Northcom [Comando Norte] – foi estabelecido abrangendo a
América do Norte. Antes de 2002, essa era a única parte do mundo não coberta. As Forças Armadas dos
Estados Unidos agora também realizam exercícios regulares nas cidades do país como parte de seus
esforços para aprimorar suas habilidades de “guerra urbana”.
[89] John Arquilla e David Ronfeldt, Networks and Netwars (Santa Monica, Rand, 2001).
[90] Sunaina Maira e Magid Shihade, “Meeting Asian/Arab American Studies: inking Race, Empire,
and Zionism in the US”, Journal of Asian American Studies, v. 9, n. 2, 2006, p. 118.
[91] Ver James Shepptycki, “Editorial – Reflections on Policing: Paramilitarisation and Scholarship on
Policing”, Policing and Society, n. 9, 2000, p. 117-23.
[92] Ver Radley Balko, “Overkill: e Latest Trend in Policing”, Washington Post, 5 fev. 2006.
[93] Correspondente especial do Signs of the Times, “Militarized Police, Overreaction and Overkill: Have
You Noticed It In Your Town Yet?”, Signs of the Times, 16 dez. 2007. Disponível em:
<ponerology.blogspot.com>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[94] Citado em Radley Balko, “Overkill”, cit.
[95] Idem.
[96] Ver Peter Kraska (org.), Militarizing the American Criminal Justice System (Chicago, Northwestern
University Press, 2001).
[97] Ashley Dawson, “Combat in Hell: Cities as the Achilles’ Heel of US Imperial Hegemony”, Social
Text, v. 25, n. 2, 2007, p. 176.
[98] Stephen Graham e Simon Marvin, Splintering Urbanism (Londres, Routledge, 2001).
[99] Robert Warren, “City Streets – e War Zones of Globalization: Democracy and Military
Operations on Urban Terrain in the Early 21st Century”, em Stephen Graham (org.), Cities, War and
Terrorism, cit., p. 214-30.
[100] Leonard Hopper e Martha Droge, Security and Site Design (Nova York, Wiley, 2005).
[101] Maryann Lawlor, “Military Lessons Benefit Homeland”, Signal, fev. 2008. Disponível em:
<www.afcea.org/signal>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[102] Phil Agre, “Imagining the Next War: Infrastructural Warfare and the Conditions of Democracy”,
Radical Urban eory, 14 set. 2001.
[103] Rey Chow, e Age of the World Target: Self-Referentiatility in War, eory, and Comparative Work
(Durham [NC], Duke University Press, 2006), p. 42.
[104] Edward J. Blakely e Mary Gail Snyder, Fortress America: Gated Communities in the United States
(Washington [DC], Brookings Institution Press, 1999).
[105] Ver Nicole Gelinas, “Baghdad on the Bayou”, City Journal, 2007, p. 42-53.
[106] Ver Stephen Graham, “‘Homeland’ Insecurities? Katrina and the Politics of Security in
Metropolitan America”, Space and Culture, v. 9, n. 1, 2006, p. 63-7.
[107] Peter Chiarelli e Patrick Michaelis, “Winning the Peace: the Requirement for Full-Spectrum
Operation”, Military Review, jul.-ago., 2005.
[108] Ver Henry Giroux, “Reading Hurricane Katrina: Race, Class, and the Biopolitics of Disposability”,
College Literature, v. 33, n. 3, p. 171-96.
[109] Idem.
[110] Robert Stam e Ella Shohat, Flagging Patriotism: Crises of Narcissism and Anti-Americanism (Nova
York, Routledge, 2007), p. 167.
[111] Gan Golan, Closing the Gateways of Democracy: Cities and the Militarization of Protest Policing (Tese
de Doutorado, Cambridge [MA], Massachusetts Institute of Technology, 2005), p. 69. Disponível em:
<dspace.mit.edu>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[112] omas Hammes, e Sling and the Stone (Nova York, Zenith, 2006), p. 208.
[113] Ibidem, p. 2.
[114] Peter Chiarelli e Patrick Michaelis, “Winning the Peace”, cit.
[115] William Lind, “Understanding Fourth Generation War”, Military Review, set.-out. 2004, p. 13-4.
[116] Ver Cato, e Weaponization of Immigration (Washington [DC], Center for Immigration Studies,
Backgrounders and Reports, fev. 2008). Disponível em: <www.cis.org>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[117] Idem.
[118] Arjun Appadurai, Fear of Small Numbers, cit., 2006, p. 4.
[119] Ver Richard Ek, “A Revolution in Military Geopolitics?”, Political Geography, n. 19, 2000, p. 841-
74; Jerry Harris, “Dreams of Global Hegemony and the Technology of War”, Race and Class, v. 45, n. 4,
2003, p. 54-67.
[120] Randy Martin, “Derivative Wars”, Cultural Studies, v. 20, n. 4-5, 2006, p. 459.
[121] Ashley Dawson, “Combat in Hell”, cit., p. 171.
[122] Idem.
[123] Ver Christian Parenti, “Planet America: e Revolution in Military Affairs as Fantasy and Fetish”,
em Ashley Dawson e Malini Johar Schueller (orgs.), Exceptional State: Contemporary US Culture and the
New Imperialism (Durham [NC], Duke University Press, 2007), p. 101.
[124] Susan Roberts, Anna Secor e Matthew Sparke, “Neoliberal Geopolitics”, Antipode, v. 35, n. 5,
2003; Samuel Huntington, e Clash of Civilizations and the Remaking of World Order (Nova York,
Simon and Schuster, 1996) [ed. bras.: O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial, trad.
M. H. C. Côrtes, Rio de Janeiro, Objetiva, 1997]; Luiza Bialasiewicz, “‘ e Death of the West’: Samuel
Huntington, Oriana Fallaci and a New ‘Moral’ Geopolitics of Births and Bodies”, Geopolitics, v. 11, n. 4,
2006, p. 1-36.
[125] Ashley Dawson, “Combat in Hell”, cit., p. 171.
[126] Edward Luttwak, “Dead-end: Counterinsurgency Warfare as Military Malpractice”, Harper’s
Magazine, fev. 2007, p. 33-42.
[127] Tim Blackmore, “Dead Slow: Unmanned Aerial Vehicles Loitering in Battlespace”, Bulletin of
Science, Technology & Society, v. 25, n. 3, 2005, p. 195-214.
[128] Patrick Deer, “Introduction: e Ends of War and the Limits of War Culture”, Social Text, v. 25, n.
2, 2007, p. 1.
[129] John W. Bellflower, “ e Indirect Approach”, Armed Forces Journal, jan. 2007. Disponível em:
<www.armedforcesjournal.com>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[130] Phil Agre, “Imagining the Next War”, cit.
[131] Tim Blackmore, War X: Human Extensions in Battlespace (Toronto, University of Toronto Press,
2005).
[132] O major David Pendall, do Exército estado-unidense, escreve: “Operações com acesso cibernético
ou virtuais vivem nas mesmas redes e nos mesmos sistemas que as redes e os sistemas dos adversários. Na
maioria dos casos, ambos usam os mesmos protocolos, infraestruturas e plataformas. Eles rapidamente
podem transformar qualquer espaço em um campo de batalha”. David Pendall, “Effects-Based
Operations Exercise of National Power”, Military Review, jan.-fev. 2004, p. 26.
[133] Patrick Deer, “Introduction: e Ends Of War and the limit of War Culturte”, cit., p. 1.
[134] Dr. David H. Mcintyre, “Strategies for a New Long War: Analysis and Evaluation”, Declaração
apresentada ao Comitê sobre Reforma do Governo, Subcomitê sobre Segurança Nacional, Ameaças
Emergentes e Relações Internacionais, 3 fev. 2004. Disponível em: <www.iwar.org.uk>. Acesso em: 30
mar. 2016.
[135] James Der Derian, Virtuous War: Mapping the Military-Industrial-Media-Entertainment Network
(Boulder [CO], Westview, 2001).
[136] Andrew Ross, “Duct Tape Nation”, cit., p. 4.
[137] Ralph Peters, “Our Soldiers, eir Cities”, Parameters, US Army War College Quarterly, v. 26, n. 1,
1996, p. 43.
[138] Ashley Dawson, “Combat In Hell”, cit., p. 172.
[139] Nick Turse, “Slum Fights: e Pentagon Plans for a New Hundred Years’ War”, Tom Dispatch, 11
out. 2007.
[140] Idem.
[141] Ver Derek Gregory, “‘ e Rush to the Intimate’: Counterinsurgency and the Cultural Turn in Late
Modern War”, Radical Philosophy, n. 150, 2008.
[142] Não surpreende que essa tendência tenha enfrentado críticas ferozes de muitos antropólogos
acadêmicos. Ver Roberto González “‘Human Terrain’: Past, Present and Future Applications”,
Anthropology Today, v. 24, n. 1, 2008, p. 21-6.
[143] Laura McNamara, “Culture, Critique and Credibility: Speaking Truth to Power during the Long
War”, Anthropology Today, v. 23, n. 2, 2007, p. 20-1; e Roberto González, “Towards Mercenary
Anthropology? e New US Army Counterinsurgency Manual FM 3-24 and the Military-Anthropology
Complex”, Anthropology Today, v. 23, n. 3, 2007, p. 14-5.
[144] Roberto González, “‘Human Terrain’”, cit., p. 22.
[145] Ver Louis DiMarco, Traditions, Changes, and Challenges: Military Operations and the Middle Eastern
City (Fort Leavenworth [KS], US Army Combat Studies Institute Press, 2006, série Global War on
Terrorism Occasional Paper, n. 1).
[146] Roberto González, “‘Human Terrain’”, cit., p. 21-6.
[147] Derek Gregory, “‘ e Rush to the Intimate’”, cit.
[148] Ashley Dawson, “Combat in Hell”, cit., p. 171.
[149] Ibidem, p. 174.
2
MUNDOS MANIQUEÍSTAS

Realidade partida
A separação epistemológica entre colônia e metrópole, a ocultação sistemática do trabalho
colonial em que a prosperidade imperial está baseada, resulta em uma situação em que […] a
verdade da existência metropolitana não está visível na própria metrópole.[1]

Esta obra sustenta que a guerra e o terror dos dias de hoje se resumem em
grande parte a uma disputa por espaços, símbolos, significados, sistemas de
apoio e estruturas de poder das cidades. Como aconteceu no decorrer da
história da guerra, essas lutas são alimentadas por construções dicotomizadas e
maniqueístas[2] de um “nós” e um “eles” distinto – o alvo, o inimigo, o odiado.
Programas de violência política organizada sempre foram legitimados e
sustentados por complexas “geografias imaginativas” – um termo que, de
acordo com o trabalho de Edward Said[3] e Derek Gregory[4], denota as
maneiras pelas quais as sociedades imperialistas constroem generalizações
binárias tanto sobre territórios colonizados e “estrangeiros” quanto sobre os
espaços “nacionais” que estão no “coração do império”.
Essas geografias imaginativas são cruciais para a “separação colonial da
realidade”[5] que sustenta todos os impérios. Edward Said, por exemplo,
argumenta que as geografias imaginativas são há muito tempo fundamentais
para manter um tratamento orientalista do mundo árabe como o “outro”.
Como ele enfatizou pouco antes de sua morte, a depreciação e demonização de
lugares e de povos distantes como “eles” não pode funcionar sem a valorização
paralela de um “nós” virtuoso, e, assim, “sem uma noção bem organizada de
que as pessoas de lá não eram como ‘nós’ e não apreciavam os ‘nossos’ valores –
o cerne mesmo do dogma orientalista –, não teria havido guerra” no Iraque[6].
Ao acabar com as similaridades ou conexões entre “nós” e “eles”, o
orientalismo emprega uma violência simbólica considerável e traduz as
diferenças como a distinção necessária para legitimar e manter a violência
contra povos e lugares distantes[7]. Essencialmente, isso resulta tanto no
“Terceiro Mundo” quanto no “Ocidente”[8], ou no “Ocidente” e no “mundo
islâmico”, vistos como universos distantes e aparentemente desconexos. No
processo, a possibilidade de forjar vínculos entre as experiências vivenciadas por
pessoas de ambos os universos é sistematicamente negada. “Um dos
determinantes fundamentais da experiência [moderna]”, sugere Fredric
Jameson, “pode ser encontrado na maneira como o imperialismo mascara e
oculta a natureza de seu sistema”. Acima de tudo, Jameson destaca,

os poderes imperiais do sistema mais antigo não querem saber de suas colônias nem da
violência e da exploração que é a base de sua própria prosperidade, tampouco desejam ser
forçados a reconhecer a multidão de “outros” escondidos sob a linguagem e os estereótipos, as
categorias sub-humanas, do racismo colonial.[9]

Para sabotar a separação de civilizações distintas, categorias normalizadas –


o alvo distante versus a comunidade supostamente homogênea e nacional da
“pátria” – precisam ser resistidas e abaladas ativamente. Em um mundo em
rápida urbanização, forjado a partir de uma abundância de diásporas instáveis e
circulações urbanas que transcendem as geografias imaginativas, tal projeto é
crucial. Amir Parsa, por exemplo, sugere que “não existe ‘mundo islâmico’! E,
claro, não existe ‘Ocidente’ – a menos que se trate de descrever uma direção
(geográfica, quando muito)”[10]. Parsa afirma que “a maior parte das
dicotomias [são] retratos simplistas de fenômenos e divisões muito mais
complexos [mas] essa é especialmente problemática”, e destaca que

essa invenção generalizada nega completamente os vastos complexos de individualidades,


subjetividades, comunidades, cada qual com camadas sobrepostas de diferenças, complexidade
e ambiguidade em sua própria trama, que existem e operam dentro de todos os estratos do
“mundo”.[11]

Apego ao espaço
O discurso de guerra […] funciona como uma estratégia que recorta, separa e compartimenta
o conhecimento, oferecendo uma grade altamente sedutora e militarizada através da qual se
pode interpretar o mundo.[12]

As geografias imaginativas tendem a ser caracterizadas por fortes


binarismos de apego ao espaço. Não surpreende que eles tendam a ser
especialmente poderosos e intransigentes em tempos de guerra. A guerra
mobiliza uma dialética carregada de apego ao local: a ideia de que os “nossos”
lugares são a antítese dos lugares do inimigo demonizado[13]. Com frequência,
essa polarização é fabricada e reciclada por meio dos discursos do Estado,
amparados por representações adequadas à cultura popular. Ela sentimentaliza
determinado espaço enquanto destitui a humanidade dos espaços do inimigo.
Por criar uma disposição política para tomar esse espaço do inimigo como alvo
e destruí-lo, as construções binárias são um elemento fundamental[14].
Desde a sua criação, a chamada Guerra ao Terror dos Estados Unidos conta
com essas construções duplas do espaço – em especial do espaço urbano. Elas
têm sido essenciais para obter legitimação, mesmo que mínima, da ideia central
de que uma guerra pesada, global e perpétua é a reação adequada a ataques ou
ameaças de terrorismo urbano. Desde 11 de setembro de 2001, a construção
discursiva da Guerra ao Terror é marcada pela reelaboração das geografias
imaginativas que separam as cidades de uma suposta pátria estado-unidense das
cidades árabes retratadas como fonte de ameaças terroristas contra os interesses
nacionais dos Estados Unidos. Isso envolveu a atribuição de duas classificações
constitutivas mutuamente exclusivas e mutuamente constitutivas: ou “conosco”
ou “contra nós”, de acordo com a famosa expressão de Bush. Assim, a guerra
tem sido retratada, em especial em seus estágios iniciais, como o que Derek
Gregory chamou de “um conflito entre uma civilização unitária e universal
(sintetizada nos Estados Unidos) e barbarismos múltiplos e em bandos que
eram sua negação e nêmesis”[15]. Com a direita cristã e sionista integrando
perfeitamente o tratamento que Israel dá aos palestinos à Guerra ao Terror –
tudo sob a ordem da deidade judaico-cristã –, essas técnicas discursivas criaram
a situação para que o Iraque de Saddam Hussein, a Al Qaeda e os campos de
refugiados palestinos fossem igualados, e atacados, em paralelo.

Espelhos maniqueístas
O ódio a formas de vida relativamente abertas e cosmopolitas (com matizes muitas vezes
explícitos de antissemitismo) é um aspecto importante da política vivenciada dos teocratas
estado-unidenses e islâmicos.[16]

O impressionante aqui é como construções fundamentalistas e racistas de


espaço urbano são quase exatamente espelhadas nas representações caricatas e
preconceituosas de cidades rotineiramente disseminadas por grupos islâmicos
fundamentalistas como a Al Qaeda[17]. Aqui, no entanto, como a ordem
teológica deriva de uma fonte diferente, os alvos são as cidades “infiéis”,
“cristãs” e “sionistas” do Ocidente e de Israel, e os espaços sentimentalizados da
pátria islâmica devem ser violentamente purificados da presença ocidental para
a criação forçosa de um espaço islâmico transnacional, ou Ummah, que exclui
sistematicamente, por meio do exercício contínuo de uma força assassina, toda
diversidade e alteridade.
Assim, em vez do “conflito de civilizações” de Huntington, o que emerge
aqui é o “conflito de barbáries” de Gilbert Achcar[18]. Aliás, de muitas formas,
há uma ligação umbilical entre o terrorismo e o contraterrorismo.
Tragicamente, no fim das contas, ambos estão se autoperpetuando, sustentados
por suas geografias imaginativas espelhadas. Isso ocorre, em especial, quando
tanto a Guerra ao Terror quanto o islamismo radical tendem a demonizar o
cosmopolitismo confuso das cidades, retratando-as como lugares
intrinsecamente amorais, pecaminosos e antinaturais. Não surpreende que
ambos os barbarismos tenham como alvo de destruição as cidades e seus
habitantes. Ou que tanto o fundamentalismo cristão/neoconservador quanto o
islâmico compartilhem o que Zillah Eisenstein chamou de mentalidade
“masculinista-militarista”, em que a violência é o caminho para a destruição
criativa de cidades, nações ou civilizações[19].
Os espelhos maniqueístas dos dois fundamentalismos polarizados
inevitavelmente produzem uma duplicação e reduplicação da violência[20]. O
resultado é uma convergência entre terror de Estado e terror não estatal. A
“principal catástrofe” da Guerra ao Terror, como Joseba Zulaika destaca, “é que
uma guerra tão categoricamente mal definida, constantemente prorrogada,
simplória, do Bem versus o Mal ecoa e recria a própria mentalidade absolutista
e as táticas de ‘excepcionalismo’ dos terroristas insurgentes”. Zulaika sugere
ainda que

ao adotar formalmente o jogo dos próprios terroristas – que, por definição, carece de regras de
engajamento, fins definidos, alinhamentos claros entre inimigos e amigos ou arranjos formais
de qualquer espécie, sejam militares, políticos, legais ou éticos –, o perigo inevitável está em
reproduzi-lo infinitamente.[21]

Assim, a verdadeira tragédia da Guerra ao Terror é seu paralelismo próximo


com a Al Qaeda ao invocar noções homogêneas e exclusivistas de comunidade
como forma de legitimar a violência em massa contra civis. As estratégias e os
discursos tanto da administração Bush quanto da Al Qaeda – caracterizados
por dialéticas exageradas e que se reforçam mutuamente – contavam com
conceitos hipermasculinizados de guerra (assimétrica), invocações de uma
ordem teológica e noções absolutistas de violência, com o objetivo de criar uma
ordem social eterna, ilimitada e fixa por meio do extermínio definitivo do
inimigo. Ambos também dependeram em grande medida do uso da mídia
transnacional para reiterar uma retórica de bem versus mal e um espetáculo de
vitimização, demonização, desumanização e vingança.

Cidades pinçadas
As cidades sempre geraram medo e ódio entre as elites políticas e religiosas.
Quase todo grande movimento religioso ou político da história expressou um
sentimento profundamente ambivalente, na melhor das hipóteses, sobre a
concentração da humanidade em cidades fervilhantes. O Antigo Testamento,
por exemplo, inclui passagens sobre um Deus colérico destruindo uma cidade
maligna. Jacques Ellul chegou a defender que, de uma perspectiva cristã, “Deus
amaldiçoou, condenou a cidade, em vez de nos dar uma lei para ela”[22].
Nosso mundo em rápida urbanização guarda em si mesmo, no entanto,
um estranho universo paralelo de fundamentalismo antiurbano e apocalíptico.
Esse fundamentalismo tem forte ligação com antigas alegorias religiosas em
torno da necessidade de vingança contra cidades pecaminosas e urbanoides
pródigos. Como coloca o coletivo Retort, tanto “o império quanto a Jihad
[são] virulentas mutações da direita”[23]. Ambos são alimentados por uma
repulsa ao cosmopolitismo e à desordem incontrolável da vida nas grandes
cidades.

Islamismo radical e a cidade ocidental


Então, por um lado, os islamistas radicais do mundo costumeiramente
expressam sua repulsa por cidades do Ocidente: as cidades ocidentais. O ataque
de 11 de Setembro contra aquele ícone do urbanismo ocidental, o World Trade
Center – uma Torre de Babel moderna? –, evocou um antigo “mito sobre a
destruição da cidade pecaminosa”[24]. Há pouca dúvida de que a natureza
repugnante atribuída ao urbanismo ocidental capitalista cosmopolita tenha
sido uma motivação central para o ataque. Na realidade, os líderes do ataque
eram eles mesmos urbanistas qualificados que abominavam o modernismo
arquitetônico ocidental[25].
O cientista político Julian Reid chegou a interpretar o 11 de Setembro
como parte de uma “longa tradição de fazer guerra contra formas
arquitetônicas modernas [verticais] que tiveram origem no Ocidente”[26]. Os
historiadores do urbanismo Michael Mehaffy e Nikos Salingaros apontaram
que

o organizador do ataque, Mohamed Atta, era um urbanista profissional que estudou na


Alemanha, e um antimodernista que odiava arranha-céus, [que] odiava prédios modernistas
ocidentais que, para ele, acabavam com a vitalidade tradicional de suas cidades.[27]
Osama bin Laden enfatizou repetidas vezes em seus discursos que via os
estado-unidenses como adoradores de ídolos, disseminadores de idolatria pelo
mundo – pelo mundo muçulmano em particular –, na forma tanto do
secularismo quanto do cristianismo. A retórica da Al Qaeda retrata os centros
das cidades ocidentais como concentrações incomparáveis de pecado,
devassidão, cobiça, materialismo e crueldade. No entanto, longe de ser
antimodernos, os membros da Al Qaeda muitas vezes estão totalmente imersos
em sociedades de consumo – uma imersão que os leva a crer que tanto o
Ocidente quanto as cidades ocidentalizadas são “aglomerações desenraizadas de
materialistas arrogantes e frios”. Os campesinos, em contraste, são vistos como
“fortemente sintonizados com a natureza e a tradição, cujos sangue e suor se
misturaram à terra que eles aram e conhecem como seus”[28].
Na construção de Ummah – um verdadeiro reino islâmico, um califado
que se baseia nos princípios do islã –, as depravações das cidades em estilo
ocidental devem ser violentamente eliminadas. Uma comunidade pura e
homogênea, argumenta-se, deve ser criada dos escombros do cosmopolitismo
capitalista vira-lata – uma cultura que encontra seu apogeu no inimigo maior,
o judaísmo. “Relatos do Novo Califado que resultaria do sucesso da Al Qaeda,
do Hezbollah e de grupos relacionados em conseguir o que querem”, aponta
Trevor Boddy, “são assustadoramente semelhantes à ‘arquitetura de conforto’
nos parques temáticos [ocidentais]”. Com isso, Boddy quer dizer que

eles propõem cidades e países estruturados por imposição de uma narrativa – nesse caso, o
Alcorão, o Hadith e interpretações subsequentes – que vão codificar espaços com emoções, em
especial a fé e seu oposto, a raiva contra aqueles sem fé.[29]

Ian Buruma e Avishai Margalit sugerem em seu livro Ocidentalismo[30] que


a Al Qaeda insiste em antigos ódios antiurbanos, há tempos mobilizados por
um amplo espectro de ideologias políticas e religiosas. Estas englobam desdém
por mercadores burgueses, que representam a própria antítese do herói que se
sacrifica; desprezo pela mentalidade ocidental e sua celebração da razão e da
ciência; e aversão ao incrédulo, que deve ser destruído para abrir caminho a um
mundo de fé pura[31].
Território inimigo: a direita neoconservadora/cristã e a
cidade estado-unidense
A visão patriótica [da direita cristã] da cidade começa com uma história no Gênesis 11:1-9.
Quando Deus viu a primeira cidade da humanidade e a torre que seus residentes tinham
construído, Ele destruiu a torre e confundiu sua língua, “para que ninguém entendesse a língua
do companheiro”, “os espalhou por toda a face da Terra, e eles pararam de construir a cidade”.
Mais adiante, no Gênesis, Deus destrói as cidades de Sodoma e Gomorra por profunda
imoralidade, interpretada como homossexualidade.[32]

Talvez seja motivo de surpresa que os fundamentalistas cristãos e


neoconservadores dos Estados Unidos tenham uma visão das principais cidades
do país bastante semelhante à da Al Qaeda. Conforme a política teocrática
fundamentalista cristã entrou para o mainstream nos Estados Unidos, em
grande parte pela colonização do Partido Republicano, o antiurbanismo
profundamente enraizado no coração da cultura política e tecnológica estado-
unidense se transformou em uma completa demonização urbana[33]. O coração
eleitoral do Partido Repúblicano costuma “desprezar o modernismo liberal que
deu forma à cultura metropolitana no século XX, e o vê como uma ideologia
tão exótica e ameaçadora quanto o comunismo”[34].
Como argumenta David Harvey, a profunda repulsa antiurbana vai ao
encontro de uma tendência cultural mais ampla dentro dos círculos
conservadores, nos quais discussões sobre a cidade tendem a “evocar um
pesadelo distópico em que tudo o que há de pior no caráter fatalmente falho da
humanidade se junta em um abismo de desespero”[35]. Com muita frequência,
então, os conservadores imaginam os bairros pobres nas cidades como uma
espécie de “estado de natureza hobbesiano”[36] – uma imagem que se funde
perfeitamente com retratos das cidades “fracassadas” ou “selvagens” do Sul
global, produzindo uma fantasia abrangente de urbanismo que engloba o
interior e o exterior dos Estados Unidos dos conservadores.
Além do mais, tais descrições podem legitimar soluções políticas
neoliberais baseadas na reabilitação de um éthos de disciplina/responsabilidade
individual dentro de comunidades patologizadas, combinadas com políticas
militarizadas ou operações francamente militares. Ao mesmo tempo,
explicações coerentes sobre o que causa a situação das populações e dos espaços
urbanos marginalizados saem ainda mais de cena. “Na cidade estado-
unidense”, afirma David Simon, autor da aclamada série dramática para TV
e Wire, “o porquê deixou de existir” no discurso político mainstream[37].
Na esfera pessoal, os políticos republicanos costumam ficar claramente
desconfortáveis com os centros metropolitanos dos Estados Unidos. Em 2005,
por exemplo, uma pequena tempestade midiática foi gerada pelos comentários
de Tom DeLay, um importante republicano de Houston e, na época, líder da
maioria na Câmara dos Deputados, sobre a vindoura convenção republicana na
cidade de Nova York – a primeira da história na cidade.
DeLay sugeriu que, em vez de ocupar hotéis pela cidade, os representantes
deveriam alugar um navio de cruzeiro de luxo com 2.240 cabines, o Norwegian
Dawn, e ancorá-lo ao lado do Centro de Convenções Javits. Para ele, alugar a
embarcação era “uma oportunidade de [os representantes] ficarem em um
único lugar, em segurança”[38].
Um impressionante reflexo do antiurbanismo instintivo do Partido
Republicano em relação ao que Paul Street chamou de “território inimigo” das
cidades estado-unidenses, a proposta de DeLay foi bombardeada por políticos
nova-iorquinos, preocupados com a possibilidade de que os multiplicadores
econômicos esperados para quando a cidade sediasse o evento fossem engolidos
pelo navio. Street foi um dos muitos a condenar a decisão de realizar a
convenção em Nova York, considerando-a uma exploração vulgar do terceiro
aniversário dos ataques terroristas de 11 de Setembro:

Nenhum cidadão estado-unidense respeitável deveria encorajar o Partido Republicano a


parecer qualquer coisa além do que ele de fato é: um inimigo racista, retrógrado e direitista dos
Estados Unidos urbanos. Uma luxuosa embarcação segura da cidade? É o lugar deles![39]

O “outro selvagem e urbano”


Assim, a visão das principais cidades estado-unidenses como destoantes dos
autênticos valores “norte-americanos” e “cristãos” se tornou axiomática tanto
entre os neoconservadores como entre a direita cristã dos Estados Unidos.
Como Steve Macek demonstrou, desde os anos 1980 a mídia, o cinema, a
literatura de ficção, a publicidade e as análises dominantes nos Estados Unidos
estão acostumados a demonizar cidades centrais e os indivíduos (com
frequência fortemente racializados) que as habitam. No processo, a mídia
inventa e perpetua o urbanoide pobre e negro na figura do que Macek chama
de “o ‘outro’ selvagem e urbano”[40]. Mais uma vez, surge uma imagem de um
“estado de natureza” urbano hobbesiano – uma anarquia urbana controlada
totalmente à margem da lei por implacáveis gangues de rua e que necessita, em
resposta, de uma penologia autoritária e de militarização. Além disso, a
proliferação do monitoramento em vídeo digital possibilita que atos genuínos
de violência urbana dominem a banda larga em rápida expansão: reality shows
prontos para o consumo, praticamente gratuitos. Isso cria um círculo vicioso
de mais pedidos de monitoramento, mais imagens geradas e consumidas como
entretenimento, e maior demonização da cidade por voyeurs suburbanos e
moradores de áreas abastadas.
Versões direitistas da cidade selvagem como lar dos perdedores em uma
luta darwinista social justa e igualitária[41] alimentaram a construção do
“homeland security state”[42] do governo Bush. O livro de Murray e Herrnstein
de 1994, e Bell Curve [A curva do sino], por exemplo, emergiu como a bíblia
da política social urbana e da criminologia neoconservadora. Nele, os autores
alertam que a polarização dos Estados Unidos entre “as elites cognitivas” e a
subclasse de QI deficiente (e altamente fértil) acabaria exigindo um “Estado de
custódia”, que, eles imaginam, seria uma versão “de alta tecnologia e mais
luxuosa das reservas indígenas para uma substancial minoria da população do
país, enquanto o resto dos Estados Unidos vive a vida”[43].
Representações pejorativas e racializadas de áreas urbanas estão em toda
parte da grande mídia estado-unidense. Bairros afro-americanos em geral são
retratados como locais patológicos habitados por criminosos não brancos,
traficantes de drogas e “outros” ameaçadores. Essas populações são amplamente
descritas como sombrias e monstruosas, à espreita fora das áreas normalizadas e
prósperas dos distritos e dos subúrbios abastados, predominantemente brancos.
Ainda que em grande parte invisíveis nesses locais, elas ainda assim
representam uma ameaça e, portanto, criam a necessidade de grandes ajustes de
fortificação, militarização, securitização e controle de acesso que gerem a
sensação de segurança entre as elites ou a classe média brancas. De fato, a
maneira como a juventude afro-americana dos centros das cidades é retratada
na mídia convencional estado-unidense é bastante similar à forma como são
apresentados os longínquos terroristas que são alvo das guerras imperiais dos
Estados Unidos que ocorrem longe dos guetos das cidades da nação. Em ambos
os casos, “o material psicossocial bruto que se alimenta de ameaças imaginárias
é manipulado com muita facilidade e transformado em formas fóbicas”[44].
Assim, dentro das recentes guerras da cultura, as áreas centrais das cidades
são amplamente retratadas como “caóticas, arruinadas e repulsivas, o oposto
exato do idílio ordeiro e doméstico dos bairros residenciais suburbanos”[45]. A
cultura suburbana de massa é vista como normal e oposição ao “outro” da vida
citadina, que emerge, ao contrário dela, como uma patologia[46].
Em geral, os discursos da direita cristã normalizam a vida das zonas
residenciais abastadas suburbanas e rurais associada ao Meio-Oeste estado-
unidense como autêntica e temente a Deus. Ao mesmo tempo, escreve Jeff
Sharlet, cidades são equiparadas a “mais almas caídas”, “mais demônios” e
“mais tentação”; as ameaças do urbanismo intrinsecamente mau, de acordo
com essas leituras, “forçaram os conservadores cristãos a fugir […] acossados
pelos pecados que consideram desenfreados nas cidades (homossexualidade,
ensino ateísta nas escolas, imagens ímpias)”. Os cristãos de direita “se
imaginam párias em sua própria terra”. O pastor Ted escreveu em seu influente
livro de 1995, Primary Purpose, que “nós [cristãos] perdemos todas as grandes
cidades dos Estados Unidos”[47].
Esse discurso de “almas perdidas” em “cidades perdidas” promove um
“outro” essencializado e demonizado. Ao mesmo tempo, promove metáforas
militares: o “soldado de Cristo” precisa se mobilizar para recuperar a raça
maligna, não cristã de moradores das cidades centrais como parte de uma
guerra de ordem teocrática[48].
Alguns pregadores cristãos fundamentalistas chegaram a sugerir que tanto
os ataques de 11 de Setembro quanto o furacão Katrina, na verdade, eram
parte da ira de Deus contra os pecados da vida urbana, a homossexualidade em
especial. “Ainda que a perda de vidas seja devastadora, esse ato de Deus
destruiu uma cidade pervertida”, sugeriu Michael Marcavage, diretor da
organização religiosa Repent America, em um press release de 2005. “De ‘Girls
Gone Wild’ a ‘Southern Decadence’, Nova Orleans era uma cidade que estava
com as portas totalmente abertas para a celebração pública do pecado. Que da
devastação surja uma cidade cheia de virtude moral.”[49] Enquanto isso, o
pastor Fred Phelps, notório homofóbico de Topeka, Kansas, repetidas vezes
sugeriu que os ataques de 11 de Setembro tinham sido “um ato direto de ira e
vingança de Deus Todo-Poderoso nesta nação maligna”[50].
Entretanto, as percepções urbanas da direita cristã estão cheias de
contradições. Está claro, por exemplo, que uma proporção considerável da
própria direita cristã vive em cidades estado-unidenses (em grande parte por
razões econômicas) e, assim, tenta atuar de dentro para forçar as políticas
públicas em uma direção reacionária e antiurbana.
Além disso, conforme áreas rurais se urbanizam e zonas urbanas em
expansão se transformam em enormes complexos e corredores sem limites,
fundindo-se cada vez mais no que Richard Skeates chamou de “cidade
infinita”, está muito menos óbvio nos Estados Unidos de hoje o que de fato
pode ser uma cidade[51]. Assim, ainda que em termos estatísticos “os Estados
Unidos fossem uma nação urbana apenas entre os censos de 1920 e 1970”, a
distinção entre o que é urbano e o que é rural foi subsequentemente
erodida[52].
Finalmente, também está claro que as cidades principais na verdade são
geradoras dominantes de riqueza dentro da economia estado-unidense – os
locais que estão movendo de maneira esmagadora todas as formas de inovação
e riqueza financeira. Ao mesmo tempo, zonas rurais e as áreas residenciais
abastadas muitas vezes enfrentam sérios declínios demográficos e econômicos.
“Áreas urbanas estão ganhando vantagem”, escreve Juan Enriquez,
“selecionando a nata dos talentos das cidades pequenas e gerando a vasta
maioria dos tributos, investimentos e patentes”[53].
Tais complexidades fazem pouco para inibir o fluxo de discursos
inflamados contra as cidades estado-unidenses e seus moradores. Uma grande
parte da campanha da candidata à vice-presidência Sarah Palin em 2008, por
exemplo, teve como foco a maneira como os “Estados Unidos das cidades
grandes” e das “elites metropolitanas” estavam supostamente arruinando a vida
das “mães dos jogadores de hóquei” e dos “bebedores de cerveja” rurais e
suburbanos, “pró-Estados Unidos”. Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova
York e morador de longa data de um dos sobrados mais caros do Lower East
Side de Manhattan, parabenizou Palin pelo importante discurso de 3 de
setembro na convenção republicana. “Sinto muito que Barack Obama ache
que a cidade natal [de Sarah Palin] não é cosmopolita o bastante”, ele
desdenhou. “Sinto muito que não seja exagerado o suficiente. Talvez eles se
apeguem à religião lá”[54]. Esse discurso disfarça o fato de que o Partido
Republicano há tempos foi dominado por uma confraria de bilionários, CEOs
e lobistas corporativos e militares que tiveram sucesso em formatar a política
para subsidiar os interesses de sua classe enquanto sabotavam drasticamente os
serviços e subsídios para as classes trabalhadora e média-baixa do país.

Vozes da cidade (diário)


Folhear as páginas da maior revista da “nova direita urbana” dos Estados
Unidos, a City Journal, publicada pelo Manhattan Institute, arquitetos
intelectuais tanto do neoconservadorismo de George W. Bush e da
“contrarrevolução” de direita de Giuliani em Nova York nos anos 1990, é algo
revelador[55]. Celebrações dos aspectos econômicos, culturais, políticos ou
sociais positivos da mistura metropolitana estão ausentes ali. Em vez disso, há
enxurradas de críticas antiurbanas inflamadas destacando os supostos fracassos,
ameaças, patologias e vulnerabilidades das áreas metropolitanas centrais da
nação.
Peter Huber, por exemplo, coloca as cidades centrais como locais que vão
trazer novos patógenos letais para os Estados Unidos. “Nossa disponibilidade
casual de tolerar uma subclasse séptica”, escreveu na edição da primavera de
2007, “com certeza vai acelerar o surgimento de doenças, em número muito
maior e muito piores” do que a Aids, a sífilis e até o antraz[56]. Nicole Gelinas,
enquanto isso, sugere, na mesma edição, que Nova Orleans é uma cidade
patologicamente criminosa, violenta e dependente de auxílio governamental –
semelhante, em estilo bumerangue, a uma “Bagdá no Bayou” – que requer
enormes militarização e reestruturação neoliberal para sustentar um
“renascimento” imobiliário e favorável à gentrificação depois do furacão
Katrina[57]. Numa edição anterior, Peter Huber e Mark Mills afirmam que o
blecaute acidental de 2003 nas cidades do Nordeste dos Estados Unidos não
foi nada comparado ao caos que os terroristas poderiam criar se atacassem as
infraestruturas elétricas estado-unidenses[58]. E Steven Malanga destaca que “na
verdade, não existe essa coisa de estado azul [democrata] – apenas regiões
metropolitanas azuis” – e se põe a demonizar esses lugares como parasitas
“comedores de impostos” que dependem de enormes gastos públicos[59]. Esse
retrato das cidades como essencialmente parasitárias dos Estados Unidos dos
subúrbios abastados persiste, apesar das muitas evidências de que os tributos e
subsídios políticos na verdade saem dos centros metropolitanos do país – que
movem a maior parte da economia nacional – para áreas rurais e residenciais
suburbanas[60].

Apartheid como modelo


Escritores do City Journal não hesitam em projetar seu discurso altamente
virulento, racializado, antiurbano em outras partes do mundo. Um artigo de
2002 de eodore Dalrymple sobre a imigração africana para os conjuntos
habitacionais de periferia de Paris é um exemplo revelador. Duramente
intitulado “Os bárbaros nos portões de Paris”[61], o texto afirma que “ao redor
da Cidade-Luz há ameaçadoras Cidades da Escuridão”. Clichês antiárabes
orientalistas e islamofóbicos permeiam a discussão sobre as políticas urbanas
domésticas de outra nação ocidental, de maneira muito semelhante à
demonização da cultura árabe em terras distantes que são alvo dos ataques
imperiais estado-unidenses.
Dalrymple censura as inseguranças supostamente criadas por urbanoides
burgueses franceses que vivem em centros históricos perto dos “conjuntos
habitacionais que cercam e assediam cada vez mais as cidades ou vilarejos de
todos os tamanhos na França”[62]. Sua mensagem traduz o orientalismo e o
maniqueísmo geopolíticos para as microgeografias da vida urbana: para o autor,
o conflito de civilizações invadiu as ruas dos espaços urbanos ocidentais mais
iluminados e icônicos do Ocidente, com consequências devastadoras para a
segurança.
As sugestões propostas são chocantes: a Paris contemporânea não deveria
apenas usar a África do Sul do apartheid como modelo, mas também os
confinamentos utilizados pelas Forças Armadas estado-unidenses em Bagdá ou
pelas forças israelenses nos territórios ocupados. Dalrymple recorda as palavras
de um africâner que ele conheceu na África do Sul, um homem que lhe
explicou “o princípio de acordo com o qual uma única estrada conectava os
municípios negros às cidades brancas: quando é bloqueada por um veículo
blindado, a estratégia deixa ‘os negros sujarem seu próprio ninho’”[63]. Como
uma imitação direta dessas técnicas coloniais, Dalrymple afirma, os banlieues
franceses “poderiam ser desligados do resto do mundo desconectando-se os
trens e bloqueando com um ou dois tanques as rodovias que passam por eles
(em geral com um muro de concreto de cada lado) vindos do resto da França”,
ou o que ele chama de “as partes melhores de Paris”[64].

“Arquipélago urbano”
Como mostra a figura 2.1, a geografia eleitoral que sustentou o sucesso do
governo Bush refletiu o poder político enormemente desproporcional de 50
milhões de norte-americanos, em grande parte brancos das zonas rurais e de
áreas residenciais abastadas, em uma nação altamente – e cada vez mais –
urbanizada. Muitos analistas destacaram a cultura de guerra resultante: o
cosmopolitismo urbano (esmagadoramente democrata) versus o
conservadorismo suburbano e de áreas residenciais semirrurais abastadas
(esmagadoramente republicano) marcado por um crescente fundamentalismo
cristão, além de crescentes tentativas de secessão política, fiscal e geográfica das
áreas centrais metropolitanas que movem o poder econômico estado-
unidense[65].
2.1 O “arquipélago urbano” dos Estados Unidos, como revelado na geografia eleitoral para a eleição de
2004. Enquanto dados em nível estadual (no alto) apresentam uma imagem simplista do Sul e do Meio-
Oeste como centros republicanos e dos baluartes democratas de ambas as costas, os dados em nível de
condado (embaixo) demonstram um arquipélago de cidades liberais e democráticas cercadas por um
ininterrupto “mar” republicano rural e de áreas residenciais abastadas semirrurais.

John Sperling chamou esse contraste de um conflito “da nação retrô versus
metropolitana”[66]. Um infame artigo no jornal on-line de Seattle e Stranger
identificou no resultado das eleições de 2004 exposto em mapas dos condados
um surpreendente “arquipélago urbano” sitiado por paisagens republicanas que
odeiam cidades, são altamente religiosas, hipernacionalistas e, com frequência,
extremamente racistas. “Liberais, progressistas e democratas”, eles
proclamaram,

não vivem em um país que se estende do Atlântico ao Pacífico, do Canadá ao México. Vivemos
em uma cadeia de ilhas. Somos cidadãos do Arquipélago Urbano, as Cidades Unidas da
América. Cidadãos do Arquipélago Urbano rejeitam os “valores” da pátria, como xenofobia,
sexismo, racismo e homofobia, bem como linhagens mais intolerantes do cristianismo que
formaram raízes no país.[67]

As políticas e os discursos de George W. Bush não pararam de retrabalhar


essa visão antiurbana e apocalíptica da geografia estado-unidense. O bem-estar,
a educação e os programas de infraestrutura foram constantemente minados,
enquanto programas sociais baseados em igrejas, organizados por igrejas que
ajudaram a financiar os republicanos, se expandiam. Ao mesmo tempo,
recursos vultosos foram direcionados para amparar os incentivos fiscais para os
ricos (principalmente das áreas residenciais suburbanas e semirrurais
abastadas). Até mesmo o financiamento antiterrorismo em ascensão foi
desproporcionalmente disperso por áreas interioranas extremamente rurais em
que o risco de ataques terroristas é mínimo ou inexistente. O aumento dos
gastos com defesa também tendeu a beneficiar as áreas residenciais abastadas,
suburbanas e rurais dos Estados Unidos – que dominam na geografia das bases,
manufaturas e recrutamento militares – mais do que beneficiou as cidades
centrais. O mais notável é que Bush praticamente ignorou a questão de Nova
Orleans (em grande parte afro-americana) depois do furacão Katrina. Em geral,
as políticas da era Bush significavam que “o bem-estar não desapareceu – o
dinheiro apenas foi de cidades para o interior na forma de subsídios para
fazendas e corporações, políticas de preço mínimo, gastos militares e projetos
clientelistas”[68].
Como as percepções antiurbanas da direita cristã com que tem um vínculo
tão próximo, no entanto, essa geografia interna polarizada dos Estados Unidos
está cheia de contradições. Por um lado, o que Greg Clancey chama de
“império vermelho” de republicanos antiurbanos

é historicamente isolacionista e voltado para dentro, e concorda com a projeção de poder


militar em direção a espaços estrangeiros (e de poder legislativo em direção a espaços urbanos
nacionais) quando se sente ameaçado, justificadamente ou não, como claramente acontece hoje
em dia.[69]

Por outro lado, democratas urbanos – azuis –, que em geral são capazes de
“viver com as ambiguidades e riscos”, tendem a ser contra o ataque imperial
que caracterizou as guerras do governo Bush. Ao mesmo tempo, são eles que
vivem nas cidades e nos complexos de infraestrutura que têm mais chances de
se tornar alvo de terroristas.
Para Clancey, as tensões cruciais na cultura política estado-unidense
contemporânea na verdade ocorrem entre subúrbios e áreas residenciais
afluentes e poderosas, de um lado, e cidades centrais e importantes, de outro.

No fim das contas a grande divisão na política estado-unidense não é Leste versus Oeste ou
Norte versus Sul. Não é nem mesmo “rural” versus “classe média urbana” porque as áreas
vermelhas [republicanas] de fato poderosas são subúrbios e zonas residenciais afluentes fora das
cidades, cheias dos mais recentes colonizadores-refugiados vindos das próprias manchas azuis.
[70]

Assim, a principal tensão política atua de modo longitudinal entre o centro


e a periferia abastada de cada região metropolitana. “Ninguém desgosta mais
das manchas azuis [democratas, urbanas] do que aqueles que se reassentaram
em suas bordas; os que trilharam naquele grande êxodo que começou nos anos
1940 e continua forte nos dias de hoje”. Clancey vai além e argumenta que a
eleição de 2004 demonstrou que as principais cidades dos Estados Unidos são
agora duplamente alvos, visto que enfrentam “organizações religiosas
estrangeiras de um lado e […] organizações religiosas nacionais do outro”[71].

A cidade do Sul global como alvo


Sei que a maior parte dos estado-unidenses não quer ouvir isso, mas os verdadeiros campos de
batalha na guerral global contra o terrorismo ainda estão por aí. Se comunidades fechadas e
seguranças fossem suficientes, o 11 de Setembro jamais teria acontecido.[72]

As supostas patologias sociais, sexualidades liberadas e “estruturas de ego


frágil” que os críticos neoconservadores consideram estar na base dos
problemas das cidades estado-unidenses são idênticas aos supostos traços da
“mentalidade árabe” essencializada, evocada pelos neoconservadores e por
oficiais militares da reserva durante a Guerra ao Terror[73]. Assim, uma vasta
gama de representações comparáveis demonizam as cidades centrais dos
Estados Unidos e descrevem as cidades em desenvolvimento do Sul global
como o “outro” intrinsecamente anárquico e ameaçador[74]. Escritores
neoconservadores apresentam cidades em ascensão como os motores centrais
da “anarquia vindoura”[75] do mundo pós-Guerra Fria – locais essencialmente
selvagens que geram ilegalidade, abuso de drogas, criminalidade e guerras
brutais por território, bem como riscos de segurança para o resto do mundo.
A obsessão com “Estados falidos” como as principais ameaças de segurança
para os interesses estado-unidenses está, de fato, se transformando em uma
preocupação com cidades “falidas” – concentrações urbanas em
desenvolvimento aparentemente desconectadas dos supostos benefícios da
globalização neoliberal[76]. “Imagine uma grande metrópole abrangendo
centenas de quilômetros quadrados”, escreveu Richard Norton em um
influente artigo de 2003 na Naval War College Review.

Antes um componente vital da economia nacional, esse ambiente urbano em expansão se


tornou hoje uma vasta coleção de prédios deteriorados, uma imensa placa de Petri de doenças
antigas e novas, um território onde a lei há tempo foi substituída pela quase anarquia, em que a
única segurança possível é a obtida pela força bruta.

Essas “cidades selvagens”, ele acredita, exercem “uma influência quase


magnética em organizações terroristas”, “vão ser um novo fenômeno e criar
ameaças de segurança em uma escala até agora nunca encontrada”[77].

Cartografias da conquista
Então qual é a solução para as “zonas selvagens” das megacidades do Sul
global e seu interior? Para muitos pensadores geopolíticos neoconservadores,
incluindo, em especial, omas Barnett, é a guerra imperial preventiva,
expedicionária e permanente dos Estados Unidos.
Pelo menos antes do colapso global financeiro neoliberal, Barnett
argumentava repetidas vezes que essas guerras expedicionárias forçariam o que
ele chama de países do “vão não integrado” – partes do Caribe e do norte da
América Latina e a maior parte da África, do Oriente Médio e do Sudeste
Asiático – a integrar os mundos pacíficos e benignos da globalização neoliberal
por meio do poder civilizatório do capital estado-unidense[78]. Barnett, que vê
o Afeganistão e o Iraque como meros projetos demonstrativos dessa
reordenação forçosa do mundo, é mais notório pelo que Simon Dalby chamou
de seus “esboços para conquista” cartográficos[79]. Sua cartografia maniqueísta
global é uma cartografia de alvos militares globais. Seguindo a mentalidade de
escritores como Robert Kaplan, ela divide o mundo em uma zona de segurança
– o “centro funcional” – em volta de uma zona de perigo. Assim, ela tenta
simplificar e transformar “a complexa bagunça de geografias humanas em
entidades humanas abstratas”, em um esforço para “deixar pessoas e lugares
prontos para a ação militar”[80].

Orientalismo e terror
O fato de que a designação [terrorista] essencialmente despe os indivíduos de seu direito à vida
ou a um tratamento humanizado significa que os próprios critérios para a designação precisam
ser interrogados, torturados e interrogados de novo.[81]

Contando com, e reavivando, as duradouras imagens orientalistas que


retratam os não ocidentais como “outros” bárbaros e exóticos, essas
representações atingem o que Mike Davis chamou de “estágio mais elevado de
orientalismo”. Elas evocam as favelas em expansão da cidade selvagem para
construir a pátria urbana sitiada[82]. Como vimos, no entanto, essa é sempre
uma construção ambivalente, na medida em que as culturas da direita cristã
conservadora e das Forças Armadas estado-unidenses são profundamente
antiurbanas, imersas em dúvida e medo tanto em cidades nacionais quanto
distantes.
Tais discursos apocalípticos que descrevem as áreas urbanas do Sul global
como intrinsecamente ameaçadoras podem facilmente se tornar apresentações
dessas cidades como alvos militares. É especialmente importante aqui a noção
de que essas cidades prejudicam o vasto complexo de capacidade de
monitoramento vertical que alimenta os sonhos dos militares estado-unidenses
de “domínio de todo o espectro” mundo afora. “O tamanho enorme de uma
cidade selvagem”, argumenta Richard Norton, “com seus prédios, outras
estruturas e espaços subterrâneos, ofereceria uma proteção quase perfeita para
os sensores vindos do alto, sejam eles satélites, sejam veículos aéreos não
tripulados”[83]. Assim, qualquer espaço urbano além do olhar eletrônico
penetrante e vertical do poderio estado-unidense é, na essência, uma ameaça.
Norton é um dentre muitos que pedem que as Forças Armadas dos Estados
Unidos se reorganizem em, de fato, uma força de contrainsurgência urbana,
cuja missão real, em vez de uma guerra de alta tecnologia entre pares, seria
penetrar, controlar e pacificar as cidades selvagens do mundo. Ele invoca o que
geógrafos chamam de processo de redimensionamento – uma reorientação que
se afasta das revoluções que atravessam o globo em guerra de alta tecnologia e
se aproxima de uma preocupação dominante com os espaços das ruas, favelas,
medinas e bairros. Isso corre em paralelo com uma preocupação cada vez maior
das forças militares e de segurança com as microgeografias das cidades
nacionais. “Tradicionalmente, problemas de decadência urbana e questões
associadas, como a criminalidade”, escreve Norton, “eram vistos como questões
domésticas que deveriam ser cuidadas pela segurança interna ou pela polícia.
Isso não é mais uma opção”[84].
A linguagem de absolutismo moral do governo Bush era, em especial,
profundamente orientalista. Ela funcionava separando “o mundo civilizado” –
as cidades da “pátria”, que precisam ser “defendidas” – das “forças sombrias”,
do “eixo do mal” e dos “ninhos terroristas”, acusados de viver, se situar e definir
as cidades árabes, que supostamente sustentam os “malfeitores” que ameaçam a
saúde, a prosperidade e a democracia de todo o mundo “livre”[85]. O resultado
dessas geografias imaginativas tem sido uma projeção a-histórica e
essencializada da civilização árabe urbana. Isso, como Edward Said apontou
pouco antes da invasão do Iraque em 2003, foi facilmente retrabalhado de
modo a “reciclar os mesmos factoides e generalizações amplas que colocam a
‘América’ contra o mal estrangeiro”[86].
As noções orientalistas de valor racial diferenciado que ajudaram a dar
forma tanto às geografias reais quanto às imaginadas do colonialismo ocidental
foram bases importantes para a Guerra ao Terror[87]. Essas ideias permitiram
que alguns corpos humanos fossem “mais fácil e apropriadamente humilhados,
aprisionados, acorrentados, subjugados pela fome e destruídos do que
outros”[88]. Discursos de “terrorismo” têm sido crucialmente importantes para
manter valores tão diferenciadores e noções tão binárias de valor humano[89]. É
central, aqui, o princípio de absoluta externalidade do “terrorista” – a
desumanidade e a monstruosidade não só daqueles considerados “terroristas”
de fato ou inativos, mas também dos que são solidários a eles.
Importante é que, como destacam Jasbir Puar e Amit Rai, “a construção do
terrorista depende de um conhecimento de perversidade sexual
(heterossexualidade fracassada, concepções ocidentais de psique e certa
monstruosidade sombria)”[90]. Imagens de um profundo racismo, orientalismo
e homofobia se misturam livremente com uma demonização generalizada. Na
fala comum dos soldados, os iraquianos que são alvo das ações militares estado-
unidenses são chamados de “macacos da areia” (sand niggers)[91]. Homens
árabes – em especial o próprio Bin Laden – são chamados de “bichas” (fags). E
antigas suposições sobre patologias sexuais que permeariam a vida árabe –
oriundas da influente diatribe quase acadêmica de livros como e Arab Mind,
de Raphael Patai[92] – voltaram a circular nos métodos de tortura de Abu
Ghraib e em outras partes[93]. Como Puar e Rai destacaram em 2002,

As formas de poder usadas hoje na Guerra ao Terror advêm de processos de deixar um outro
racializado e sexualizado em quarentena, mesmo que as normas ocidentais do sujeito civilizado
forneçam a estrutura através da qual esses mesmos outros se tornem elementos a serem
corrigidos.

Amparados pela imagem difundida da civilização islâmica ou árabe como


presa em um “conflito civilizatório inato” com o Ocidente[94], a grande mídia e
a mídia de direita tiveram facilidade, em especial durante os estágios iniciais da
Guerra ao Terror, em apresentar cidades árabes basicamente como receptores
da artilharia militar estado-unidense. Durante essa época, um público voyeur
consumiu com voracidade mapas de internet e de jornais dessas cidades, que as
apresentavam como superfícies cartográficas bidimensionais feitas de nada além
de uma gama de alvos à espera de munição. Às vezes, como nos mapas on-line
do USA Today, de 2003, havia até imagens de satélite do “antes e depois” da
destruição provocada por bombas “inteligentes” guiadas por GPS lançadas por
aviões de guerra dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Essa cobertura se combinou para propagar uma série de mitos poderosos e
inter-relacionados: de que as cidades iraquianas existiam como domínios
associais completamente físicos, que podiam ser compreendidos de uma
perspectiva deificada de sensoriamento remoto ou imagens cartográficas; que
essas cidades eram, ao mesmo tempo, de alguma forma desprovidas de uma
população civil; e que, portanto, não era inevitável que civis iraquianos fossem
mortos ou mutilados em grandes quantidades quando as cidades em que
viviam fossem sujeitas a bombardeios áereos em grande escala (que ocorreram
mesmo quando o alvo era considerado “preciso”).
Além de reduzir cidades inteiras ao estado de míseros receptáculos de
artilharia (como em geral é o caso nas guerras), o bombardeio de cidades-alvo
distantes foi amplamente ligado a melhorias na suposta “segurança nacional”
dos urbanoides. O general Ricardo Sanchez, o primeiro comandante estado-
unidense no Iraque, enfatizou já em 2004 – enquanto a insurgência explodia
pelas cidades iraquianas – que “todo norte-americano precisa acreditar nisto;
que, se falharmos aqui neste ambiente [iraquiano], o próximo campo de
batalhas serão as ruas dos Estados Unidos”. Enquanto isso, Paul Bremer, o
primeiro chefe do comando civil estado-unidense no Iraque, reiterou que
“preferia estar lutando [contra os terroristas] aqui [no Iraque] do que em Nova
York”[95].
Um truque discursivo semelhante do começo da guerra no Iraque era
construir determinadas cidades iraquianas de alto simbolismo como “cidades
do terror” desumanizadas – ambientes semelhantes a covis cuja geografia era
vista como prejudicial à onipotência de alta tecnologia das forças estado-
unidenses. Por exemplo, enquanto uma grande batalha irrompia em Fallujah
em abril de 2004, na qual mais de seiscentos civis iraquianos morreram, o
general Richard Myers, presidente da Junta de Chefes de Estado-Maior dos
Estados Unidos – talvez inadvertidamente seguindo as descrições das cidades
palestinas feitas pelo Exército israelense[96] –, rotulou a cidade toda de um
“ninho de ratos” desumanizado ou uma “colmeia de vespas” de “resistência
terrorista” contra a ocupação estado-unidense, com o qual era “preciso
lidar”[97].
Tais pronunciamentos eram amparados por representações geopolíticas
populares muito difundidas de cidades iraquianas. Nas discussões pré-invasão
sobre a ameaça de “guerra urbana” que as forças invasoras estado-unidenses
enfrentavam em um Iraque altamente urbanizado, por exemplo, a grande
mídia, como a revista Time, retratou repetidas vezes as ruas orientalizadas
estilizadas e tortuosas em seus gráficos coloridos[98]. Neles, cada característica
ou elemento da cidade parecia ser um estratagema enganoso que ocultava
ameaças com as quais era preciso lidar por meio da supremacia tecnológica das
forças militares estado-unidenses[99].
A retórica da Guerra ao Terror se tornou tão difusa que quase toda
oposição política ao poder soberano dos Estados Unidos e de seus aliados pode
ser rotulada de terrorista. “Sem uma forma definida nem raízes determinadas”,
escreveu Derek Gregory, o manto do terrorismo agora “pode ser lançado sobre
qualquer forma de resistência ao poder soberano”[100]. Jean Baudrillard
argumenta que “o sistema considera terrorista de fato o que quer que se
oponha a ele”[101].
Aqueles que com frequência são rotulados de terroristas por governos
nacionais ou pela mídia aliada desde 11 de Setembro incluem dissidentes
antiguerra, estivadores em greve, manifestantes antiglobalização, ativistas
contra o comércio de armas, hackers, artistas, pesquisadores críticos, sociólogos
urbanos, defensores da sustentabilidade ecológica e da liberdade de imprensa e
defensores pró-independência em países aliados dos Estados Unidos, como a
Indonésia – são protagonistas de um amplo espectro de oposição ao domínio
transnacional dos Estados Unidos. Aliás, quase qualquer grande grupo que se
reúna nas ruas de uma cidade e não esteja preocupado com o consumo foi
demonizado. “Desde o 11 de Setembro, a combinação de grandes grupos de
pessoas em espaços urbanos com o terrorismo tem se acelerado”, afirma Ashley
Dawson[102].
Acima de tudo, grupos marcados com o rótulo de terrorista se tornam
radicalmente deslegitimados. Quem, afinal, vai falar em favor de supostos
terroristas e seus simpatizantes? Esse truque linguístico ajudou a impedir
juridicamente populações inteiras envolvidas na Guerra ao Terror – tanto civis
quanto guerrilheiros – de receber proteção sob as leis humanitárias ou
internacionais. “Os poderes soberanos dos Estados norte-americano, britânico
e israelense”, diz Derek Gregory, “repudiaram ou suspenderam leis
internacionais, de modo que homens, mulheres e crianças fossem
transformados em párias, atrás de cercas e para além das proteções e recursos da
modernidade”[103].
Finalmente, a proliferação do “outro” orientalizado pelo uso disseminado
do rótulo “terrorista” também teve seu impacto nas geografias domésticas da
demonização racial. Republicanos da Virgínia disputando a eleição de 2008,
por exemplo, enviaram folhetos com os olhos de Barack Obama sobrepostos a
uma imagem de Osama bin Laden, com a legenda “Os Estados Unidos
precisam olhar nos olhos do mal e não hesitar” (“America must look evil in the
eye and never flinch”). Em um condado do estado de Nova York, circularam
folhetos do Partido Republicano com o nome “Barack Osama”.
Até agora, tratamos das representações vulgares do mundo pela direita
através de geografias imaginativas maniqueístas que se baseiam em uma repulsa
generalizada ao urbano. Vamos voltar e detalhar esses desafios
“contrageográficos” no capítulo final. No entanto, a mobilização e a resistência
efetiva a esses desafios exigem que primeiro revelemos as especificidades do
“novo urbanismo militar” quando comparado às interseções anteriores entre
cidades e violência política. É sobre essas especificidades que vamos nos
debruçar nos próximos dois capítulos.

[1] Fredric Jameson, “ e End of Temporality”, Critical Inquiry, v. 29, n. 4, 2003, p. 700.
[2] “Maniqueísmo” se refere a um sistema de doutrina religiosa ensinado por Mani, um profeta persa, no
século III. Ele se baseava “no suposto conflito primordial entre luz e escuridão ou bem e mal” (Collins
English Dictionary, Londres, 1995). Na teoria contemporânea de Relações Internacionais, o termo
“maniqueísta” é usado para descrever todas as representações e construções do mundo que o dividem em
pessoas e lugares “bons” ou “maus”, herméticos e supostamente autoevidentes. Esse é o uso adotado aqui.
[3] Edward Said, Orientalism (Londres, Routledge and Kegan Paul, 1978) [ed. bras.: Orientalismo, trad.
Rosaura Eichenberg, São Paulo, Companhia das Letras, 2007].
[4] Derek Gregory, “Imaginative Geographies”, Progress in Human Geography, n. 19, 1995, p. 447-85.
[5] Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism: On the Meaning
of Urbicide Today”, eory and Event, v. 10, n. 2, 2007.
[6] Edward Said, Orientalism (ed. do 25º aniversário, Londres, Penguin, 2003), p. xxiii.
[7] Hugh Gusterson, “Nuclear Weapons and the Other in the Western Imagination”, Cultural
Anthropology, n. 14, 1999, p. 111-43.
[8] Idem.
[9] Fredric Jameson, “ e End of Temporality”, cit., p. 700.
[10] Amir Parsa, “Division”, em Jordan Crandall (org.), Under Fire 1. e Organization and
Representation of Violence (Roterdã, Witte De Witte, 2004), p. 29.
[11] Idem.
[12] Patrick Deer, “Introduction: e Ends of War: the Limits of War Culture”, Social Text, v. 25, n. 2,
2007.
[13] Ken Hewitt, “Place Annihilation: Area Bombing and the Fate of Urban Places”, Annals of the
Association of American Geographers, n. 73, 1983, p. 258.
[14] Idem.
[15] Derek Gregory, “Geographies, Publics and Politics”, ensaio extraído de “Raising Geography’s Profile
in the Public Debate”, Encontro Anual da Associação de Geógrafos Estado-Unidenses, Filadélfia, PA,
mar. 2004, n. 8. Disponível em: <geography.berkeley.edu>. Acesso em: 2 jun. 2016.
[16] Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism”, cit.
[17] Joseba Zulaika, “ e Self-Fulfilling Prophecies of Counterterrorism”, Radical History Review, n. 85,
2003, p. 191-9.
[18] Ver Gilbert Achcar, Clash of Barbarisms: September 11 and the Making of the New World Disorder
(Nova York, Monthly Review Press, 2002).
[19] Zillah Eisenstein, “Feminisms in the Aftermath of September 11”, Social Text, v. 20, n. 3, 2002, p.
81.
[20] Emran Qureshi e Michael Sells, “Introduction: Constructing the Muslim Enemy”, em Emran
Qureshi e Michael Sells (orgs.), e New Crusades: Constructing the Muslim Enemy (Nova York, Columbia
University Press, 2003, p. 1-50).
[21] Joseba Zulaika, “ e Self-Fulfilling Prophecies of Counterterrorism”, cit., p. 198.
[22] Jacques Ellul, e Meaning of the City (Grand Rapids [MI], Eerdmans, 1970), p. 16.
[23] Iain Boal et al., “ e New 1914 that Confronts Us: An Interview with Retort”, Afterimage, v. 34, n.
4, p. 20.
[24] Ian Buruma e Avishai Margalit, Occidentalism: e West in the Eyes of Its Enemies (Londres, Penguin,
2004), p. 14.
[25] Bin Laden é engenheiro civil de formação. Mohamed Atta – o principal homem-bomba – se formou
em arquitetura no Cairo e em urbanismo em Hamburgo e escreveu uma tese que vituperava os impactos
da arquitetura ocidental modernista nas cidades árabes.
[26] Julian Reid, “Architecture, Al Qaeda, and the World Trade Center”, Space and Culture, v. 7, n. 4,
2004, p. 396.
[27] Michael Mehaffy e Nikos Salingaros, “ e End of the Modern World”, PLANetizen, 9 jan. 2002.
Disponível em: <www.planetizen.com>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[28] Robbert Woltering, “ ey Hate Us because We’re Free…”, Review of International Social Questions,
28 jun. 2004.
[29] Trevor Boddy, “Architecture Emblematic: Hardened Sites and Softened Symbols”, em Michael
Sorkin (org.), Indefensible Space: e Architecture of the National Security State (Nova York, Routledge,
2007), p. 281.
[30] Ian Buruma e Avishai Margalit, Occidentalism: A Short History of Anti-Westernism (Londres, Grove,
2004) [ed. bras.: Ocidentalismo: o Ocidente aos olhos de seus inimigos, trad. Sérgio Lopes, Rio de Janeiro,
Zahar, 2006]. Críticos do livro de Buruma e Margalit culpabilizam a obra de reduzir o “islã” a um mero
espaço de resistência contra o Ocidente, em vez de uma gama heterogênea de sociedades com agência e
poder próprios. Ver, por exemplo, Martin Jacques, “Upping the Anti”, e Guardian, Londres, 4 set.
2004.
[31] Ver Mackubin Owens, “Against the West: Islamic Radicals Hate Us for Who We Are, Not What We
Do”, Ashbrook Center for Public Affairs, jul. 2004.
[32] Jeremy Adam Smith, “Tearing Down the Towers: e Right’s Vision of an America Without Cities”,
Public Eye Magazine, v. 21, n. 1, 2006.
[33] Gregory K. Clancey aponta que o próprio Partido Republicano foi criado, como ele coloca, “pela
marcha pelas Grandes Planícies; um ato de êxodo ou recuo da orla urbana do Atlântico”. Em Jordan
Crandall (org.), Under Fire 2: e Organization and Representation of Violence (Roterdã, Witte de Witte,
2005), p. 64.
[34] Jeremy Adam Smith, “Tearing Down the Towers”, cit.
[35] David Harvey, Justice Nature and the Geography of Difference (Oxford, Blackwell, 1996), p. 404.
[36] Guy Baeten, “ e Uses and Deprivations of the Neoliberal City”, em BAVO (org.), Urban Politics
Now: Re Imagining Democracy in the Neoliberal City (Roterdã, NAi Publishers, 2008); Rowland Atkinson
e Gesa Helms (orgs.), Securing an Urban Renaissance (Bristol, Policy Press, 2007).
[37] David Simon, “ e Escalating Breakdown of Urban Society across the US”, e Guardian, Londres,
6 set. 2008.
[38] Citado em Paul Street, “Republicans, Cities, and Cruise Ships”, Znet, fev. 2004.
[39] Idem.
[40] Steve Macek, Urban Nightmares: e Media, the Right and the Moral Panic Over the City
(Minneapolis [MN], University of Minnesota Press, 2006), p. 37-70.
[41] É impressionante como os fundamentalistas cristãos fazem uso regular da pseudociência do
darwinismo social ao mesmo tempo que rejeitam de imediato o surpreendente acúmulo de evidências
científicas que amparam as teorias darwinistas da evolução das espécies. Ver George Monbiot, “How these
Gibbering Numbskulls Came to Dominate Washington”, e Guardian, Londres, 28 out. 2008.
[42] A expressão “homeland security state” [estado de segurança nacional] se refere a uma obsessão,
incutida nas esferas do discurso político, dos gastos do governo e do orçamento interno nos Estados
Unidos, depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, em garantir a segurança das infraestruturas, dos
espaços e dos locais cotidianos da nação estado-unidense.
[43] Richard Herrnstein e Charles Murray, e Bell Curve: Intelligence and Class Structures in American
Life (Nova York, Free Press, 1994), p. 526.
[44] No outono de 2002, os moradores do subúrbio ao redor do anel rodoviário de Washington, DC,
ainda sob o impacto dos ataques de 11 de Setembro, foram submetidos a um ataque de atiradores. Dez
foram mortos em três semanas. Diversos morreram enquanto abasteciam o carro com gasolina ou diesel
nas áreas abertas dos postos. Revertendo mais de meio século de dispersão racial, esses moradores
começaram a se dirigir ao centro da cidade para abastecer seus veículos. Andrew Ross comentou na
Harvard Design Review que isso ocorreu, ostensivamente, porque “eles acreditavam que (o centro da)
cidade era o único local seguro para sair de seus carros em público”. Foi uma cena, ele enfatizou, “que diz
muito sobre a geografia da segurança nos Estados Unidos hoje em dia, especialmente se você considerar
quão racializada é sua geografia”. Andrew Ross, “Duct Tape Nation”, Harvard Design Magazine, n. 20,
2004, p. 1-3.
[45] Steve Macek, Urban Nightmares, cit., p. 275.
[46] Nicholas Mirzoeff, Watching Babylon: e War in Iraq and Global Visual Culture (Nova York,
Routledge, 2005), p. 28-9.
[47] Jeff Sharlet, “Soldiers of Christ”, Harpers Magazine, maio 2005, p. 41-54.
[48] Idem.
[49] Repent America, “Hurricane Katrina Destroys New Orleans Days Before ‘Southern Decadence’”,
press release, 31 ago. 2005. Disponível em: <www.repentamerica.com>. Acesso em: 30 mar. 2016.
[50] Dan Kapelovitz, “Fred Phelps Hates Fags: Straight Talk With God’s Favorite Homophobe”,
reproduzido em Kapelovitz.Com, set. 2003.
[51] Richard Skeates, “ e Infinite City”, City, v. 2, n. 8, p. 6-20.
[52] Andrew Ross, “Duct Tape Nation”, cit., p. 2.
[53] Juan Enriquez, e Untied States of America: Polarization, Fracturing and Our Future (Nova York,
Crown, 2005).
[54] Stephen Collinson, “Obama Has Never Led Anything”, News24.com, 9 abr. 2008.
[55] Alice O’Connor, “ e Privatized City: e Manhattan Institute, the Urban Crisis, and the
Conservative Counterrevolution in New York”, Journal of Urban History, n. 34, 2008, p. 333-53; ver
Jamie Peck, “Liberating the City: Between New York and New Orleans”, Urban Geography, v. 27, n. 8,
2006, p. 681-713.
[56] Peter Huber, “Germs and the City”, City Journal, primavera 2007, p. 14-29.
[57] Nicole Gelinas, “Baghdad on the Bayou”, City Journal, primavera 2007, p. 42-53. Jamie Peck critica
a maneira como os discursos conservadores efetivamente culparam os afro-americanos de Nova Orleans
por sua situação depois que o furacão assolou a cidade. “O mais ofensivo”, ele escreveu, “é que isso está
exposto na imagem de que os moradores de Nova Orleans optariam por desobedecer às ordens de
evacuação em antecipação aos cheques do auxílio social do começo do mês e às oportunidades de
pilhagem depois do furacão. Portanto, não teria sido por falta de recursos, transporte privado ou sistemas
de apoio externo que alguns dos moradores mais necessitados ficaram no caminho do furacão; foram as
consequências de longo prazo de auxílio governamental urbano – e seu elenco racializado de personagens
coadjuvantes, incluindo os desempregados, os displicentes, os ilegais, os pais ausentes, as mães inertes e os
jovens criminosos”. Jamie Peck, “Liberating the City”, cit., p. 706.
[58] Mark Mills e Peter Huber, “Can Terrorists Turn Out Gotham’s Lights?”, City Journal, outono 2004.
[59] Steven Malanga, “ e Real Blue Engine of America”, City Journal, inverno 2006, p. 66-73.
[60] Em 2003, os estados norte-americanos que receberam mais do que pagaram em termos de impostos
tendiam a ser predominantemente rurais: Novo México, Alasca, Mississípi, Virgínia, Dakota do Norte,
Alabama, Montana e Havaí. Aqueles que pagaram mais do que receberam, em contrapartida, eram em
geral altamente urbanizados: Nova Jersey, New Hampshire, Connecticut, Nevada, Minnesota, Illinois,
Massachusetts e Califórnia. A gestão Bush foi extremamente generosa com as corporações extrativistas e
de agribusiness que dominam a maior parte das economias rurais. Nas eleições de 2004, 75% dos votos de
Bush vieram de estados “tomadores”, enquanto 76% dos votos de Kerry, de estados “doadores”. Juan
Enriquez, e Untied States of America, cit., p. 34.
[61] eodore Dalrymple, “ e Barbarians at the Gates of Paris”, City Journal, outono 2002, p. 63-73.
[62] Ibidem, p. 65.
[63] Ibidem, p. 67.
[64] Idem.
[65] Ver, por exemplo, Brain Mann, Welcome to the Homeland (Nova York, Steerforth Press, 2006).
Também, Juan Enriquez, e Untied States of America, cit.
[66] John Sperling et al., e Great Divide: Retro vs Metro America (Nova York, Polipoint Press, 2004).
[67] “Urban Archipelago”, e Stranger, v. 14, n. 9, 2004.
[68] Jeremy Adam Smith, “Tearing Down the Towers”, cit.
[69] Gregory K. Clancey, Under Fire 2, cit., p. 64.
[70] Idem
[71] Idem
[72] omas Barnett, “ e Pentagon’s New Map”, Esquire, v. 139, n. 3, 2003, p. 174.
[73] A diatribe racista encontrada no livro de 1973 de Raphael Patai, e Arab Mind (Nova York,
Hatherleigh Press), foi, pelo jeito, leitura obrigatória no governo Bush durante a Guerra ao Terror. Ver
Brian Whitaker, “Its Best Use is as a Doorstop”, e Guardian, Londres, 24 maio 2004.
[74] Ver Luiza Bialasiewicz et al., “Performing Security: e Imaginative Geographies of Current US
Strategy”, Political Geography, v. 26, n. 4, 2007, p. 405-22.
[75] Robert Kaplan, e Coming Anarchy: Shattering the Dreams of the Post-Cold War World (Nova York,
Random House, 2000).
[76] Retratos binários que sugerem uma separação absoluta entre cidades “do interior” e as cidades árabes
do alvo “outro” são reforçados de maneira intensa por ideologias geopolíticas neoconservadoras. Em
termos normativos, eles enfatizam o imperativo de integrar territórios que ameaçam os interesses estado-
unidenses em processos de globalização neoliberal, se necessário pelo uso de atos “preventivos” de ataque
militar estado-unidense, como a invasão do Iraque em 2003. O influente livro de omas Barnett, e
Pentagon’s New Map (Nova York, Putnam, 2004), é um exemplo de um leque de representações
geopolíticas neoliberais imaginárias do mundo capturado pelo governo Bush em apoio à Guerra ao
Terror. O diagrama global binário de Barnett enfatiza a suposta “desconexão” das zonas que são alvo das
Forças Armadas estado-unidenses no Oriente Médio, na África e na América Central – ou o que ele
chama de “vão não integrado” – em relação ao resto do mundo, que é visto como parte de uma integração
benigna por meio da atuação do capitalismo neoliberal para se tornar o que o autor chama de “centro
funcional”.
[77] Richard Norton, “Feral Cities”, Naval War College Review, v. 65, n. 4, 2003, p. 98-100. Eu seria o
último a negar que o rápido crescimento das megacidades do Sul global gera preocupações, de segurança
e de outras naturezas. Com populações tão vastas efetivamente “desligadas” do crescimento industrial e
dos empregos formais, conforme milhões se mudam para as cidades por causa de ajustes estruturais
catastróficos e dos programas de marquetização rural e de privatização relacionados, as questões de
segurança estão, de fato, oscilando em escala. O que eu questiono aqui, em primeiro lugar, é a
representação dessas cidades como intrinsecamente “selvagens”, e, em segundo, a ideia de que a
militarização ocidental de alta tecnologia, reformada como operações urbanas de contrainsurgência, pode
ser a resposta a esses problemas. Seria muito melhor abordar a segurança urbana, humana e ecológica a
partir dos princípios básicos no esquema da política e da política econômica global, lidando assim com as
causas, em vez dos sintomas, da insegurança. Ver Mike Davis, “ e Urbanization of Empire: Megacities
and the Laws of Chaos”, Social Text, v. 22, n. 4, 2004, p. 4-15.
[78] omas Barnett, e Pentagon’s New Map, cit.
[79] Simon Dalby, “ e Pentagon’s New Imperial Cartography”, em Derek Gregory e Allan Pred (orgs.),
Violent Geographies (Nova York, Routledge, 2007), p. 302 e 306.
[80] Ibidem, p. 303.
[81] Kelly Gates, “Identifying e 9/11 ‘Faces Of Terror’”, Cultural Studies, v. 20, n. 4-5, 2006, p. 436.
[82] Ashley Dawson, “Combat in Hell: Cities as the Achilles’ Heel of US Imperial Hegemony”, Social
Text, v. 25, n. 2, 2007, p. 175; ver Dag Tuastad, “Neo-Orientalism and the New Barbarism esis:
Aspects of Symbolic Violence in the Middle East Conflict(s)”, ird World Quarterly, v. 24, n. 4, p. 591-
9.
[83] Richard Norton, “Feral Cities”, cit., p. 99.
[84] Ibidem, p. 100.
[85] Dag Tuastad, “Neo-Orientalism and the New Barbarism esis”. A representação das cidades ou
distritos urbanos como “ninhos” terroristas é bastante difundida. Ela serve tanto para desumanizar os
moradores urbanos como para essencializar os lugares como animalescos ou bárbaros. Para uma discussão
sobre o exemplo de Mumbai, ver Arjun Appadurai, Fear of Small Numbers: An Essay on the Geography of
Anger (Durham [NC], Duke University Press, 2006), p. 87-114 [ed. bras.: O medo ao pequeno número:
ensaio sobre a geografia da raiva, trad. Ana Goldberger, São Paulo, Iluminuras, 2009].
[86] Edward Said, Orientalism, cit., 2003, p. vi.
[87] Derek Gregory, e Colonial Present (Oxford, Blackwell, 2004).
[88] Paul Gilroy, “‘Where Ignorant Armies Clash by Night’: Homogeneous Community and the
Planetary Aspect”, International Journal of Cultural Studies, n. 6, 2003, p. 263.
[89] John Collins e Ross Glover (orgs.), Collateral Language: A User’s Guide to America’s New War (Nova
York, New York University Press, 2002).
[90] Jasbir Puar e Amit Rai, “Monster, Terrorist, Fag: e War on Terrorism and the Production of
Docile Patriots”, Social Text, v. 20, n. 3, 2002, p. 117.
[91] Mike Davis, “ e Pentagon as Global Slumlord”, Tom Dispatch, fev. 2006.
[92] Raphael Patai, e Arab Mind, cit.
[93] Derek Gregory, “ e Angel of Iraq”, Society and Space, v. 22, n. 3, 2004.
[94] Emran Qureshi e Michael Sells (orgs.), e New Crusades, cit., p. 2.
[95] Citado em Jan Nederveen Pieterse, “Neoliberal Empire”, eory, Culture & Society, v. 21, n. 3, 2004,
p. 122.
[96] Stephen Graham, “Lessons in Urbicide”, New Left Review, v. 2, n. 19, 2003, p. 2-3, 63-78.
[97] Citado em News24.com, 2004, ver Stephen Graham, “Remember Fallujah: Demonizing Place,
Constructing Atrocity”, Environment and Planning D: Society and Space, n. 23, 2005, p. 1-10.
[98] Derek Gregory, e Colonial Present, cit., p. 222.
[99] Idem.
[100] Derek Gregory, e Colonial Present, cit., p. 219.
[101] Jean Baudrillard, “ is Is the Fourth World War”, International Journal of Baudrillard Studies, v. 1,
n. 1, 2004.
[102] Ashley Dawson, “Combat in Hell”, cit., p. 177.
[103] Derek Gregory, “Geographies, Publics and Politics”, cit., p. 9.
3
O NOVO URBANISMO MILITAR

Acima de tudo, [a recente cultura de guerra de baixa intensidade dos Estados Unidos] se
autoperpetua e autorreplica; ela normaliza e naturaliza o estado de guerra. A paz não é o fim da
cultura de guerra. Em seu cerne, a cultura de guerra busca um adiamento dos tempos de paz
“por enquanto”; busca um ajuste a um estado de guerra permanente.[1]

Na essência do argumento desta obra está a ideia de que novas ideologias


militares de guerra permanente e sem limites estão intensificando radicalmente
a militarização da vida urbana. Longe de ser novo, o processo apenas acrescenta
toques contemporâneos a transformações contínuas – política, cultural e
econômica – que, juntas, funcionam para normalizar a guerra em si, além dos
preparos para a guerra[2]. Aliás, em muitos casos, as transformações
relacionadas ao novo urbanismo militar apenas ampliam e revivem a
militarização urbana, a securitização, o pensamento maniqueísta e a instigação
do medo, que eram uma característica central, notadamente, da Guerra Fria,
mas também de conflitos anteriores.
De modo geral, sociólogos militares categorizam esses processos como
“militarização”. Michael Geyer a define como “o processo social tenso e
contraditório em que a sociedade civil se organiza para a produção de
violência”[3]. Inevitavelmente, um processo como esse é complexo e
multidimensional, ainda que seus componentes sejam tão antigos quanto a
própria guerra. Como vimos no capítulo anterior, eles invariavelmente
envolvem a construção social de uma divisão conceitual entre o interior e o
exterior de uma nação ou outra área geográfica, e a demonização orquestrada
dos inimigos e dos locais inimigos para além das fronteiras internas. A
militarização também envolve a normalização dos paradigmas militares de
pensamento, ação e política; esforços de disciplinar agressivamente corpos,
espaços e identidades considerados não condizentes com noções masculinizadas
(e interconectadas) de nação, cidadania ou corpo; e o uso de uma ampla e
diversificada propaganda política que romantiza ou higieniza a violência como
um meio de vingança legítima ou de conquista de algum propósito divino.
Acima de tudo, a militarização e a guerra organizam a “destruição criativa” de
geografias herdadas, economias políticas, tecnologias e culturas.
Então, o que exatamente há de novo no “novo urbanismo militar”? De que
maneira ele difere da intensa militarização vivenciada pelas cidades, digamos,
da Guerra Fria ou da guerra total? É preciso destacar sete tendências
relacionadas que, para mim, apresentam dimensões palpavelmente novas para a
militarização contemporânea da vida urbana.

Soldados rurais, guerra urbana


Em primeiro lugar, relações novas estão emergindo entre nações, soldados e
cidadãos, e têm implicações significativas para a urbanização contemporânea da
guerra. Deborah Cowen destacou que, hoje em dia, as Forças Armadas
profissionalizadas do Ocidente com acesso a alta tecnologia são muitas vezes
“compostas esmagadoramente de soldados rurais”[4]. Bebendo na fonte de
Gramsci, ela argumenta que isso “sugere que uma fissura político-geográfica
surgiu entre o urbanismo e o cosmopolitismo, de um lado, e o ruralismo e o
nacionalismo, do outro”.
Assim, continua Cowen, “áreas rurais se tornaram centrais para o
militarismo e o patriotismo ‘autêntico’” em muitas nações ocidentais.
Enraizado na antiga naturalização das nações que recorre a “um tipo de
autenticidade territorial bucólica” que se baseia em ser branco, a política
conservadora das zonas rurais, como vimos, muitas vezes tem origem no ódio
ou na suspeita em relação aos supostos horrores ou às ameaças e impurezas
raciais, cosmopolitas e multiculturais representadas pelas cidades. Cowen
argumenta que tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá um “poderoso
discurso cultural do ideal rural identifica o rural como o espaço autêntico para
o militarismo patriótico”. Assim, os recrutadores militares em geral consideram
que o rural “tem tanto as motivações econômicas para o alistamento em massa
como a cultura interiorana do nacionalismo patriótico”. Aliás, apesar de os
Estados Unidos serem uma das nações mais urbanizadas da Terra, os soldados
rurais hoje dominam suas Forças Armadas. Entre 2003 e 2004,

47,6% de todos os soldados mortos em ação durante a Operação Liberdade Duradoura e


44,3% daqueles mortos em ação durante a Operação Liberdade do Iraque até 5 de fevereiro de
2004 vinham de comunidades com populações com menos de 20 mil habitantes.[5]

No entanto, esses militares ocidentais em grande parte ruralizados precisam


agora ser enviados prioritariamente para cidades, tanto nacionais quanto
estrangeiras. Considerando que a mídia de direita, principalmente nos Estados
Unidos, retrata cidades em geral como lugares “do ‘outro’ selvagem e
urbano”[6], nas palavras de Steve Macek, e considerando o caráter antiurbano
das culturas militares, parece provável que muitos recrutas sejam facilmente
socializados para ver todos os espaços urbanos como intrinsecamente
estrangeiros, ameaçadores e perigosos, onde quer que estejam. Em outras
palavras, locais inimigos. Cowen cita muitos blogs militares em que
“declarações positivas sobre o patriotismo rural são intercaladas com e
inextricáveis de outras que descrevem a cidade como o local de degeneração e
vício”[7].
Considerando que militares ocidentais são enviados de bases
avassaladoramente semiurbanas e rurais, é provável que o discurso difundido
de que cidades precisam estar “na mira” e ser “pacificadas” pelo poder militar –
cujos centros semiurbanos e rurais são os espaços normalizados de
nacionalismo “autêntico” – ganhe mais força em razão da composição cada vez
mais ruralizada dos recrutas. Cidades nacionais e estrangeiras, então, se tornam
“outros”, a serem abordados e penetrados de longe – dos espaços autênticos
onde os militares estão estacionados e, cada vez mais, onde são criados.
Com o posicionamento militar urbano no exterior e no próprio país em
geral voltado para indivíduos de pele negra ou escura (e muitas vezes
agredindo-os), a radicalização dos alvos urbanos fica tão clara quanto
contraditória. Ainda que o Exército dos Estados Unidos hoje seja o maior
empregador de afro-americanos, por exemplo, exercícios militares urbanos têm
como alvo predominante bairros afro-americanos. Ao acompanhar um desses
exercícios nos conjuntos habitacionais da Filadélfia e de Chester, na
Pensilvânia, em 1999, um morador irritado reclamou que “eles não teriam feito
isso se não fosse uma comunidade negra”[8].

Monitoramento: cidadão-consumidor-soldado
A militarização contemporânea está ligada a uma economia do desejo, bem como a uma
economia do medo.[9]

A segunda tendência é a maneira sem precedentes pela qual o novo


urbanismo militar funde e mistura os usos civis e militares das tecnologias de
controle, monitoramento, comunicação, simulação e mira. Não é exatamente
uma surpresa, considerando que, por um lado, tecnologias de controle cujo
objetivo original era o uso militar se tornaram fundamentais para praticamente
todos os atos da vida e do consumo urbanos em cidades industriais
desenvolvidas, e que, por outro, modificações comerciais dessas tecnologias
estão sendo amplamente reapropriadas pelos militares.
Com suas fortificações há muito esquecidas, apagadas ou transformadas em
pontos turísticos, as cidades contemporâneas hoje estão, nas palavras de Paul
Virilio, “superexpostas” a uma vasta gama de ameaças à segurança
circunvizinhas, móveis e transnacionais[10]. Entre essas ameaças estão os
patógenos móveis, códigos de informática malignos, crashes financeiros,
migração “ilegal”, terrorismo transnacional, guerra infraestrutural estatal e os
extremos ambientais desencadeados pela mudança climática.
A permeabilidade das cidades contemporâneas à circulação transnacional
significa que sistemas de (tentativas de) controle eletrônico – expandidos para
atender as geografias transnacionais dessa circulação – se tornam as novas
arquiteturas estratégicas da vida citadina. Estas suplantam cada vez mais, sem
substituir totalmente, as arquiteturas confinadas ou os “espaços disciplinares” –
prisões, escolas, clínicas, fábricas, asilos, quartéis – destacados por Michel
Foucault. Nesses locais das cidades ocidentais dos séculos XVIII e XIX, o
controle social panóptico operava pelo olhar supervisor direto dos humanos.
Em contraste, o filósofo francês Gilles Deleuze atestou que, como os
dispositivos de monitoramento e o controle eletrônico em rede hoje estão
dispersos por toda a sociedade, a vida urbana cotidiana é regulada por uma
noção de vigilância, escrutínio e cálculo eletrônico onipresentes. As sociedades
contemporâneas, para ele, são “sociedades de controle”[11]. Os dispositivos de
monitoramento criam perfis, analisam padrões de comportamento e
mobilidade e, cada vez mais – porque a memória agora é digitalizada –, não
esquecem jamais[12]. Assim, os movimentos de um indivíduo entre diferentes
espaços e locais dentro das cidades ou nações muitas vezes implicam um
movimento paralelo do que os sociólogos chamam “titular dos dados” ou
“indivíduo estatístico” – o conjunto de históricos e rastros eletrônicos
acumulados como uma forma de julgar a legitimidade, os direitos, a
lucratividade, a segurança ou o grau de ameaça de um indivíduo. A tentativa de
controle social cada vez mais funciona por meio de complexos sistemas
tecnológicos que atravessam tanto zonas temporais quanto geográficas. Elas
constituem um pano de fundo em desenvolvimento, uma matriz
computadorizada onipresente de dispositivos cada vez mais interligados:
cartões bancários e bancos de dados financeiros; transmissores-receptores de
GPS, códigos de barras e redes de satélites globais; chips de radiofrequência e
identificadores biométricos; computadores, telefones móveis e sites de vendas; e
um universo em expansão de sensores implantados em ruas, casas, carros,
infraestruturas e até corpos.
Assim, cada vez mais, por trás de cada momento social atua uma vasta
gama de cálculos computadorizados dispersos por uma matriz global de
computadores e dispositivos computadorizados interligados. Bancos de dados
se comunicam e seus conteúdos são continuamente minerados por diversas
fontes, escalas e espaços por meio de algoritmos avançados de computador que
avaliam uma variedade proporcional de corpos, transações e movimentos.
Significativamente, o volume de dados nesse “segundo plano calculador” é tão
vasto que apenas algoritmos automatizados conseguem avaliar o que ou quem é
considerado normal e, portanto, digno de proteção, e o que e quem é
considerado anormal e, portanto, uma ameaça maligna que deve ser
acompanhada.
Essas tecnologias de controle cada vez mais se diluem no pano de fundo
dos ambientes urbanos, das infraestruturas urbanas e da vida urbana. Aplicadas
sobre e na extensão das paisagens urbanas do dia a dia, trazendo à tona estilos
radicalmente novos de movimento, interação, consumo e política, de certa
forma elas se tornam a cidade. Exemplos incluem novos meios de transporte
(taxação de congestionamento, pedágio eletrônico, companhias aéreas em estilo
Easyjet), consumo customizado (páginas personalizadas da Amazon) e
movimentos sociais swarming [por afluência] (redes sociais, smart mobs, flash
mobs).
Discussões sobre “segurança nacional” e transformações de alta tecnologia
da guerra enfatizam a necessidade de usar algumas dessas mesmas técnicas e
tecnologias – monitoramento de alta tecnologia, mineração de dados,
algoritmos computadorizados – para tentar rastrear, identificar e acompanhar
constantemente “Outros” ameaçadores em meio à massa confusa apresentada
pelo nosso mundo em rápida urbanização e cada vez mais móvel. Assim, as
arquiteturas tecnológicas de consumo e mobilidade se fundem naquelas usadas
para organizar e praticar todo um espectro de violência política, da elaboração
de perfis até o assassinato. E os múltiplos elos entre as cidades e a história
militar pós-Segunda Guerra Mundial sugerem que essa conexão não deveria
nos surpreender. Como aponta Gerfried Stocker, “não existe esfera da vida civil
em que a frase ‘a guerra é o pai de todas as coisas’ tenha uma validade tão
incontestável quanto no campo de tecnologia digital de informação”[13].
Além do mais, o novo urbanismo militar tem sido a oficina de fundição
das novas tecnologias de controle. Depois da Segunda Guerra Mundial, uma
miríade de estratégias militares conhecidas como C3I – comando, controle,
comunicação e informação – dominou a abordagem das Forças Armadas
relativa ao combate de guerra e à dissuasão estratégica, além de ter colonizado
as minúcias da vida urbana em modernização, em especial nas nações do
Ocidente. “Nenhuma parte do mundo se manteve intocada pela C3I”, escreve
Ryan Bishop. “E ela delineia os sistemas organizacionais, econômicos e
tecnológicos que derivam das estratégias militares, dependem delas e as
perpetuam.”[14]
Desde o começo da Guerra Fria, por exemplo, tem sido comum para os
Estados Unidos dedicar 80% de todos os gastos governamentais em pesquisa e
desenvolvimento tecnológicos para “defesa”[15]. Tecnologias como internet,
realidade virtual, viagens a jato, mineração de dados, circuitos internos de
segurança, engenharia espacial, controle remoto, micro-ondas, radar,
posicionamento global, computadores em rede, comunicação sem fio,
monitoramento por satélite, conteinerização e logística – que hoje em dia
facilitam coletivamente a vida urbana cotidiana – foram criadas na segunda
metade do século XX como parte da elaboração de sistemas de controle militar.
Vista dessa maneira, “essa ‘insígnia militar’ […] se manifesta em uma
miríade de maneiras nos espaços urbanos globais […]. A cidade global não
seria uma cidade global, como passamos a entender o fenômeno, sem estar
profundamente imersa nesses processos”[16]. Sem dúvida, a relação entre o
controle comercial e militar e as tecnologias de informação sempre foi uma
complexa via de mão dupla, mas é preciso lembrar que as arquiteturas
tecnológicas da vida contemporânea e as geografias imperiais convergem no
novo urbanismo militar.
Nas atuais Forças Armadas profissionais do Ocidente, números
relativamente pequenos de recrutas são deslocados, feridos ou mortos nas novas
guerras imperiais. É raro cidadãos dessas nações serem expostos a verdadeiros
atos de violência (terrorista). Além do mais, apenas os espaços urbanos mais
estratégicos revelam sinais visíveis de militarização. Como consequência, as
tecnologias de controle e de mídia constituem a principal experiência do
urbanismo militar para a vasta maioria das pessoas.
Tomemos o exemplo gritante do GPS. Desde que as Forças Armadas
estado-unidenses fizeram uso dele pela primeira vez, para auxiliar os
assassinatos “precisos” da primeira Guerra do Golfo, o GPS foi em parte
tornado público e disponibilizado para um universo cada vez mais amplo de
usos comerciais, governamentais e civis. Ele se tornou a base da mobilidade e
da navegação civis, uma tecnologia de consumo onipresente usada em
assistentes pessoais digitais, relógios, carros e um amplo leque de serviços de
geolocalização. E tem sido usado para reorganizar a agricultura, o transporte, o
governo municipal, o cumprimento de leis, a segurança das fronteiras, jogos de
computador e atividades de lazer. No entanto, poucas pessoas levam em
consideração como os poderes militares e imperiais permeiam todos os usos do
GPS.
Com um conjunto de tecnologias de monitoramento e controle organizado
atualmente para se antecipar e antever tanto o consumo quanto o risco, “a
produção de conhecimento não pretende mais revelar nem esclarecer o que
pode ser sabido, mas, sim, ‘esclarecer’ o que não pode ser sabido”[17]. Cada vez
mais, a cidade é “definida pelo objetivo militar de poder conhecer o inimigo
antes mesmo que ele se veja como tal”[18]. O caráter abrangente do novo
monitoramento militar, quer seus alvos estejam localizados em Manhattan,
quer em Bagdá, Londres ou Fallujah, é a construção de sistemas de visão
tecnológica em que programações de computador, junto com bancos de dados
de alvos reais ou projetados, identifiquem e distingam alvos “anormais” da
“normalidade” do pano de fundo ou do caos de um país ou cidade de zona de
guerra.
Sendo assim, o rastreamento – o que o teórico de mídia Jordan Crandall
chama de “imagem antecipatória”[19] – é fundamental para os modos
emergentes de governança e poderio militar. Ele sugere que a questão-chave
agora é “como os alvos são identificados e diferenciados de não alvos” na
“tomada de decisão e no assassinato”. Crandall destaca que essa integração
generalizada de rastreamento computadorizado com bancos de dados de alvos
representa “uma colonização gradual do agora, um agora sempre um pouco à
frente de si mesmo”. Essa mudança é um processo profundamente militarizado
porque a identificação social dos indivíduos dentro do cumprimento da lei civil
é complementada ou até substituída pelo olhar mecanizado sobre “alvos”.
“Enquanto imagens civis se inserem em processos de identificação baseados na
reflexão”, escreve Crandall, “perspectivas militarizadas transformam os
processos de identificação em ‘checagem de identidade’ – uma via de mão
única de identificação em que um conduto, um banco de dados e um corpo
são alinhados e calibrados”[20].
Dessa forma, por exemplo, cartões de transporte público com chip,
sistemas de cobrança eletrônica de pedágio ou sistemas de vias urbanas centrais
se metamorfoseam em triagens “antiterroristas” para proteger “zonas de
segurança”. A internet é apropriada como um sistema global de
monitoramento financeiro e civil. Cadeias de logística just-in-time que atendem
tanto o comércio global quanto as viagens aéreas são reorganizadas para
possibilitar identificar, rastrear e manter corpos e circulações sob controle.
Tudo, de telefones celulares até passaportes, traz identificadores com
microchips de radiofrequência que têm o potencial de transformar o objeto
que os porta em dispositivos de rastreamento.
Por consequência, tecnologias de origem militar – refratadas pelos vastos
mundos da pesquisa, do desenvolvimento e do uso civil que ajudam a compor
economias, sociedades e culturas de alta tecnologia – estão sendo reapropriadas
como a base para novas arquiteturas de controle, rastreamento,
monitoramento, alvos e assassinatos militarizados. Mark Mills agradece que
essa “mudança tectônica felizmente espelhe o ambiente de ameaça” de inimigos
desconhecidos e espalhados e circulações perigosas. “Enquanto boa parte dessa
capacidade se concentrou na produção de iPods, celulares, videogames,
gigabytes de streaming de dados e fazendas de servidores de internet”, ele
escreve,

o maquinário e a propriedade intelectual subjacentes à economia digital estão se transformando


em segurança civil e militar. Tudo isso representa um bom prognóstico para as perspectivas de
mais segurança, e novas oportunidades robustas para empreendedores, grandes ou pequenos.
[21]

Através desses processos, “cada vez mais setores da sociedade civil estão
sendo integrados à infraestrutura global gerada pelos militares”, destaca Simon
Cooper[22]. E tudo isso acontece em nome da segurança – de um “nós” sem
nome e sem forma contra as infinitas ameaças de um “outro” sem forma à
espreita no “novo normal” estado de exceção, de emergência permanente.
Assim, cidadãos e indivíduos são mobilizados para o controle militar e
recrutados por sistemas de consumo neoliberal que os encorajam a consumir
pelo bem da economia – como Bush incentivou depois dos ataques de 11 de
Setembro – ao mesmo tempo que oferecem seus “eu em dados” para análise,
rastreamento, elaboração de perfis, determinação de alvos e avaliação de
ameaças contínuos e preventivos.
Randy Martin demonstrou como os enormes sistemas de dados e
monitoramento que estão emergindo neste momento de fusão militar-civil
reforçam a transferência, pelos Estados – tanto dentro quanto fora de seus
limites territoriais –, dos princípios de especulação e prevenção das políticas
fiscais neoliberais para o centro da indústria de guerra militarizada[23]. A
chamada securitização envolve tanto a dimensão militar quanto a financeira,
atuando em paralelo. Martin afirma que esses sistemas são ajustados no sentido
de proteger as pessoas e os enclaves urbanos que se beneficiam da riqueza
superabundante que surge das economias políticas neoliberais – isto é, protegê-
las dos riscos que as massas ao seu redor representam. Tentativas de separar os
bons riscos dos maus, no entanto, acabaram gerando seus próprios mercados
financeiros, organizados por meio das mesmas técnicas de prevenção,
elaboração de perfis e determinação de alvos pelos militares.
Nesse contexto, “a legitimidade é acumulada pelos cidadãos apenas na
medida em que estão integrados a uma rede de alta tecnologia”[24]. Caren
Kaplan afirma que o uso de tecnologias de controle militar no coração das
“sociedades de informação” contemporâneas leva, necessariamente, à formação
de “sujeitos-cidadãos e consumidores militarizados que se relacionam com
tecnologias que conectam geografia, demografia, sensoreamento remoto e
políticas de identidade contemporâneas”[25]. Então, campanhas de marketing
miram nos cidadãos, usando as mesmas tecnologias e algoritmos de
identificação de alvo como arma. “A combinação digital de posição e
identidade nos sujeitos selecionados”, escreve Kaplan, “ressalta o aspecto
marcial e territorial do mapeamento ao longo do período moderno”[26].
No entanto, a nova cultura de monitoramento digital não é simplesmente
imposta a cidadãos coagidos e oprimidos, como em um cenário de Big Brother
orwelliano. Com muita frequência, como ocorre com o uso de webcams, o
rastreamento de telefones celulares e os sistemas de geoposicionamento, ela é
absorvida e ativamente usada como meio de organizar novas expressões de
mobilidade, identidade, sexualidade e vida cotidiana – bem como de
resistência.

Câmera como arma: espetáculos de violência urbana


A duradoura atração da guerra é esta: mesmo com sua destruição e carnificina, ela pode nos dar
o que tanto desejamos na vida. Pode nos dar propósito, sentido, uma razão de viver.[27]
Em terceiro lugar, o novo urbanismo militar e suas guerras são
esmagadoramente desempenhados e consumidos como espetáculos visuais e
discursivos nos espaços imagéticos eletrônicos. É improvável que a vasta
maioria dos participantes, pelo menos nas cidades dos Estados Unidos ou do
Ocidente, seja submetida à convocação militar ou se torne alvo de uma ação
violenta. Em vez disso, eles participam pela televisão, pela internet, por
videogames e filmes. As novas guerras – voltadas para a ideia de que a
mobilização permanente e preventiva é necessária para a manutenção da
segurança pública – cada vez mais “assumem a forma de mecanismos
midiatizados e são determinadas como grandes intrusões na cultura visual, que
são misturadas à materialidade de fato e às práticas da esfera pública e as
substituem”[28].
Como os ataques de 11 de Setembro demonstram, insurgentes e terroristas
são, eles mesmos, cuidadosos ao organizar sua violência tendo em mente
espetáculos de mídia urbanos extraordinários – espetáculos de aniquilação
apocalíptica urbana, que guardam uma surpreendente semelhança com as
sofisticadas imagens dos filmes de desastre hollywoodianos, mas são realizados
ao vivo, em tempo real e em lugares reais, com corpos reais[29]. Os atentados de
11 de Setembro, por exemplo, “foram organizados como um épico de terror
cinematográfico com atenção meticulosa à mise-en-scène”, escreve Mike Davis.
“Os aviões sequestrados estavam apontados precisamente para o limite
vulnerável entre fantasia e realidade.” Como resultado,

milhares de pessoas que ligaram seus televisores em 11 de Setembro estavam convencidas de


que o cataclisma era apenas um programa de televisão, de que era uma pegadinha. Elas
achavam que estavam vendo cenas do último filme de Bruce Willis.[30]

Uma reação comum a esses eventos foi a de que “foi como ver um filme!”.
Aliás, a tradição dramática de Hollywood conta fortemente com a destruição
espetacular de cidades e com a queda de arranha-céus. A história de Nova York
em especial – a metrópole moderna arquetípica – pode ser contada por meio
das histórias de sua destruição imaginada e retratada em filmes, histórias em
quadrinhos, videogames e livros.
Esses circuitos visuais e eletrônicos conferem à guerra e ao urbanismo
militar certa legitimidade e certo consentimento, ainda que precários. Ao
mesmo tempo, as distinções entre simulação militar, guerra de informação,
notícias e entretenimento estão sendo mais e mais diluídas, a fim de que se
tornem cada vez mais insignificantes. Juntos, pelos menos nos Estados Unidos,
eles se fundiram em um mundo confuso de “militenimento” que se
autorreforça[31].
Assim, as Forças Armadas dos Estados Unidos empregam o melhor de
Hollywood para misturar suas simulações para treinamento diretamente com
os videogames de massa. Fechando o ciclo, elas então usam consoles de
videogame para simular as estações de controle dos drones não tripulados
empregados para patrulhar as ruas de Bagdá ou realizar assassinatos
extrajudiciais e execuções determinadas. Além do mais, os militares “mobilizam
escritores de ficção científica e outros futurologistas para planejar as guerras de
amanhã, assim como conscientemente recrutam jovens que jogam videogames
para lutar nesses conflitos”[32] com armas cujos controles imitam diretamente
os dos PlayStations. A profusão de sensores de imagem digitais, por sua vez,
oferecem uma gama quase infinita de material para reality shows como Police,
Camera, Action! [Polícia, Câmera, Ação!], que proporcionam aos cidadãos as
experiências voyeurísticas e erotizadas de violência urbana. A invasão do Iraque
em 2003 “foi a primeira guerra a surgir no espaço de informação eletrônico
como um ‘espetáculo de mídia’ totalmente coordenado”, com repórteres
infiltrados, sites interativos, modelos em 3D e mapas, tudo à mão[33].
Barulhenta e belicosa, a cobertura da mídia comercial, enquanto isso, se
apropria de suas próprias simulações digitais das cidades e espaços que estão na
mira da guerra imperial. Ela oferece um mundo de guerra constante e um
misto de informação e entretenimento que erotiza os armamentos de alta
tecnologia enquanto torna a morte curiosamente invisível. Nos Estados
Unidos, em especial, o conteúdo de mídia comercial no início da invasão de
2003 foi intensamente distorcido em favor de argumentos pró-guerra. Material
era pré-selecionado e aprovado por oficiais do Pentágono que atuavam como
consultores residentes em cada estúdio de TV. Cenários, imagens, mapas,
simulações e gravações orquestraram o que James Der Derian chama de “uma
tecnoestética”. Ele escreve:
Quando a guerra estreou [o uso do verbo é proposital], os estúdios de televisão apresentaram
novos cenários que simulavam os centros de comando e controle dos militares (aliás, a Fox
News se referia à sua versão, sem nenhum toque de ironia strangeloviana[a], como “Sala de
Guerra”).[34]

E também destaca que:

Gráficos dos campos de batalha do Iraque gerados por computador foram criados pelas
mesmas indústrias de defesa (como Evans & Sutherland e Analytical Graphics) e empresas de
satélites comerciais (como a Space Imaging e Digital Globe) que atendem as Forças Armadas
estado-unidenses.[35]

No fim das contas, o erotismo tecnófilo armamentista encheu as telas. “As


redes exibiram uma verdadeira Jane’s Defence Review[b] de armamentos”, escreve
Der Derian, “fornecendo ‘imagens virtuais’ do Iraque e dos equipamentos
militares quase iguais aos monitores de detecção de alvos”[36].
Em termos mais gerais, o noticiário da grande mídia ao mesmo tempo
contribui e se beneficia dos discursos de medo, demonização e emergência sem
fim que sustentam o novo urbanismo militar. A “cobertura midiática e o
terrorismo são almas gêmeas, praticamente inseparáveis”, admite James
Lukaszewiski, um profissional de relações públicas estado-unidense que presta
consultoria para as Forças Armadas dos Estados Unidos.

Eles se retroalimentam. Juntos, criam uma dança da morte – um por motivações políticas ou
ideológicas, a outra por sucesso comercial. As atividades terroristas são eventos de alta
visibilidade que aumentam a audiência. O noticiário precisa prolongar essas matérias porque
elas produzem mais espectadores e leitores.[37]

Essas diluições e fusões são sintomas do surgimento mais amplo do que


Der Derian[38] chamou de “rede de entretenimento-mídia-militar-industrial”,
um poderoso agente para a criação de eventos e a manipulação das notícias.
“Simulações de batalhas, notícias e jogos interativos existem em um espaço
cada vez mais unificado”, acrescenta Jordan Crandall. “Com sistemas de
entretenimento-noticiário-militares, as simulações mexem com a realidade para
se tornar a base da guerra. Elas ajudam a combinar espectadores de mídia e
combate, a audiência e a luta.”[39]
No processo, o território nacional – o espaço principal dessa contínua
exibição eletrônica – se torna um espaço militarizado para a representação
potencialmente constante tanto da violência simbólica quanto real contra
“outros” distantes, que, é claro, podem estar em uma variedade de distâncias
geográficas da tela que está em casa e das arquiteturas de segurança à sua volta.
Uma lógica semelhante opera no gueto racializado no centro da cidade e na
cidade árabe.
Enquanto a violência urbana midiatizada oferece uma experiência muito
diferente do que a de ser uma presença de fato em sua linha de fogo, a
experiência midiática dos enormes massacres terroristas ou oficiais contra
cidades pode, contudo, muitas vezes ser “caracterizada como sublime: nossa
mente entra em conflito com os fenômenos que suplantam nossas habilidades
cognitivas, desencadeando uma série de emoções intensas, como a dor, o medo
e o espanto”[40]. Assim, os observadores da televisão ficaram profundamente
perturbados e também chocados tanto com o espetáculo estetizado dos ataques
de 11 de Setembro quanto com a campanha de bombardeio “de choque e
pavor” igualmente estetizada contra Bagdá que, supostamente, representou a
reação dos Estados Unidos àqueles ataques.
Os múltiplos circuitos de mídia “civil” foram, assim, inscritos nas mais
recentes variações de doutrina militar como grandes elementos do campo de
batalha contemporâneo. Aliás, é comum que teóricos militares hoje descrevam
a TV e a internet como “armas virtuais” nos domínios cruciais da “guerra de
informação”. Eles também se queixam de como lutas “assimétricas”, tais como
a Segunda Intifada Palestina, ganham intensa credibilidade política global
porque levam a imagens como as de crianças palestinas enfrentando tanques
israelenses com pedras[41].
Aspectos informativos e psicológicos das operações militares estado-
unidenses são hoje uma preocupação central dos planejadores militares.
Pensemos na pirotecnia de “choque e pavor” de 2003, em que a artilharia
destruiu alvos simbólicos do regime de Saddam Hussein (além de civis
iraquianos) a uma distância segura, mas apropriada para a câmera de jornalistas
enfileirados em um hotel próximo. Ou pensemos nas coletivas de imprensa da
Guerra do Golfo de 1991, com um monte de gravações feitas por câmeras
acopladas a mísseis que mostraram essas armas atingindo “com precisão” seus
alvos iraquianos. Vamos lembrar também que o Pentágono baniu a circulação
de imagens dos estado-unidenses mortos pela guerra sendo levados de volta ao
país, e discutiu de forma aberta a necessidade de divulgar matérias totalmente
fabricadas[42]. Por fim, consideremos a violência usada contra os veículos de
mídia que tiveram a audácia de mostrar imagens dos civis mortos em Bagdá,
vítimas das Forças Armadas dos Estados Unidos: sucursais da Al Jazeera tanto
em Cabul quanto em Bagdá foram bombardeadas pelos estado-unidenses,
matando um jornalista[43].
Está claro que as “operações de informação” estado-unidenses se
concentram em “distribuir visualmente morte e destruição nos domínios do
evento e do não evento”. Como resultado, explica Allen Feldman,

“choque e pavor” é um evento de mídia cuidadosamente encenado, enquanto centenas de


milhares de mortes e mutilações de civis em decorrência de “danos colaterais” são um não
evento contínuo que de fato precisa, ironicamente, ser ofuscado com violência.[44]

Ao mesmo tempo, por meio de intervenções cada vez mais diretas do


Pentágono, filmes de ação militar e emissoras de TV de direita como a Fox
News se tornaram anúncios complementares das Forças Armadas estado-
unidenses ou da Guerra ao Terror. De fato, “os militares assumiram os estúdios
de televisão”[45]. Por meio de seus escritórios de relações públicas instalados nos
estúdios,

generais e oficiais aposentados do alto escalão exercem um domínio completo sobre as redes de
TV a cabo, bem como sobre estações de rádio comerciais e públicas. Os novos oficiais de
relações públicas da rede de entretenimento-mídia-militar-industrial incluem Clark e Sheppard
na CNN, Nash e Hawley na ABC, Kernan e Ralston na CBS, McCaffrey e Meigs na NBC e
Olstrom e Scales na NPR. A Fox News, sozinha, tinha ex-militares suficientes para realizar seu
próprio desfile do Dia do Veterano de Guerra.[46]

No entanto, os mesmos circuitos digitais de imagens que foram


organizados com tanto sucesso para divulgar a guerra no Iraque também
ajudaram a instigar sua desconstrução. A circulação global das imagens digitais
em estilo turístico dos torturadores de Abu Ghraib, por exemplo, forneceram
não só um forte impulso para os opositores à guerra, como também imagens
icônicas de tortura para ativistas e investigadores que suspeitavam de
brutalidades disseminadas no sistema carcerário estado-unidense sem
julgamento. Esforços feitos por campanhas de operações de informação das
Forças Armadas dos Estados Unidos para comprar todas as imagens de satélite
relevantes durante as invasões do Iraque e do Afeganistão não impediram o
Google Earth, por exemplo, de ser amplamente usado tanto por ativistas
contrários à guerra quanto por insurgentes iraquianos. E enquanto câmeras de
vídeo digital têm sido utilizadas para possibilitar que canais baratos de TV a
cabo mostrem imagens demonizadas dos perigos à espreita no centro das
cidades, essas mesmíssimas tecnologias permitiram que observadores revelassem
as matanças regulares de civis iraquianos pela empresa militar privada
Blackwater.

Surto de segurança
Um quarto componente novo do urbanismo contemporâneo é que,
enquanto espaços e sistemas cotidianos da vida urbana são colonizados por
tecnologias de controle militar, e enquanto conceitos de guerra e policiamento,
doméstico e internacional, paz e guerra se tornam menos distintos, surge uma
grande onda em um complexo industrial convergente que engloba segurança,
monitoramento, tecnologia militar, prisões, instrumentos de punição e
entretenimento eletrônico. Dentro do aparato mais amplo da rede de
entretenimento-mídia-militar-industrial, a fusão dessas indústrias explora a
fertilização cruzada e a diluição entre os imperativos militares tradicionais da
guerra, externos ao Estado, e os imperativos do policiamento interno.
A proliferação de guerras que mantêm uma mobilização permanente e
monitoramento onipresente e preventivo dentro e fora das fronteiras
territoriais significa que o imperativo de segurança agora “se impõe sobre o
princípio básico de atividade do Estado”[47]. Giorgio Agamben defende que “o
que costumava ser uma entre diversas medidas decisivas de administração
pública até a primeira metade do século XX agora se torna o único critério de
legitimação política”[48].
O resultado é uma paisagem cada vez mais ampla de “segurança”
misturando práticas comerciais, militares e de segurança com culturas cada vez
mais temerosas de consumo, cidadania e mobilidade civil. Como William
Connolly sugere:

Vigilância aeroportuária, filtros de internet, dispositivos de rastreamento de passaportes,


detenção legal sem acusações criminais, campos de prisioneiros (security internment camps),
julgamentos secretos, “zonas de liberdade de expressão” (free speech zones), identificação de
DNA, cercas e muros de fronteira, erosão da linha entre segurança interna e ação militar
externa – essas atividades de segurança ressoam juntas, engendrando uma máquina de
segurança nacional que exclui diversas questões do âmbito do dissenso legítimo e mobiliza a
população a apoiar novas práticas de segurança e monitoramento contra inimigos não
especificados.[49]

Não é por acaso que complexos de segurança-industriais floresçam em


paralelo com a difusão de ideias do fundamentalismo de mercado para
organizar a vida social, econômica e política. As hiperdesigualdades, a
militarização urbana e a securitização mantidas pela expansão do
neoliberalismo se reforçam mutuamente. Em uma discussão sobre a resposta
do governo dos Estados Unidos ao desastre do furacão Katrina, Henry Giroux
destaca que a normalização do fundamentalismo de mercado na cultura estado-
unidense tornou muito mais “difícil traduzir problemas privados em questões
sociais e ações coletivas ou insistir em uma linguagem do bem público”. Ele
argumenta que “a evisceração de todos os conceitos de socialidade” nesse caso
levou a “uma sensação de total abandono, resultando em medo, ansiedade e
insegurança sobre o futuro de cada um”[50].
Somada a isso, diz Giroux, “a presença dos pobres racializados, com suas
necessidades e vulnerabilidades – agora visíveis –, se torna insuportável”. Em
vez de lidar com as causas da pobreza ou da insegurança, as reações políticas
agora invariavelmente “se concentram em promover uma sensação diminuída
de segurança, cuidadosamente alimentada por uma fé renovada em tudo o que
é militar”[51]. Também é possível observar a pilhagem dos orçamentos públicos
para assistência e reconstrução pós-desastre por grupos de lobistas com vínculos
próximos tanto com o governo quanto com um leque cada vez maior de
corporações privadas militares e de segurança[52].
Dado o contexto, não surpreende que, em meio a uma crise financeira
global, o crescimento do mercado de serviços e tecnologias de segurança se
mantenha extremamente forte: “Os gastos internacionais com segurança
interna hoje ultrapassam ramos estabelecidos, como a indústria cinematográfica
e a indústria musical, em receita anual”, anuncia uma edição de dezembro de
2007 do Economic Times da Índia[53]. A Homeland Security Research
Corporation (HSRC) [Corporação de Pesquisa de Segurança Interna] declarou
que “no mundo todo, a previsão é que as despesas com ‘defesa total’ (militar,
comunidade de inteligência e segurança e defesa internas) cresçam
aproximadamente 50%, de US$ 1,4 trilhão em 2006 para US$ 2,054 trilhões
em 2015”. Em 2005, apenas os gastos com defesa estado-unidenses atingiram
US$ 420 bilhões por ano – comparáveis ao total combinado do resto do
mundo. Mais de um quarto disso foi dedicado à aquisição de serviços de um
mercado em rápida expansão de corporações militares privadas. Estava previsto
que, em 2010, esses grupos mercenários receberiam impressionantes US$ 202
bilhões só do governo federal dos Estados Unidos[54].
Enquanto isso, previa-se também que os gastos mundiais com segurança
nacional dobrariam, de US$ 231 bilhões em 2006 para US$ 518 bilhões em
2015; “onde o gasto com segurança nacional era de 12% do total dos gastos
com defesa em 2003, espera-se que chegue a 25% do orçamento total em
2015”, de acordo com a HSRC[55]. Um crescimento ainda mais meteórico era
esperado em alguns setores-chave de novas tecnologias de controle: mercados
globais de tecnologia biométrica, por exemplo, tinham uma previsão de
aumento de uma base pequena de US$ 1,5 bilhão em 2005 para US$ 5,7
bilhões em 2010[56].
Ainda que existam poucas boas pesquisas sobre as estruturas complexas do
que a OECD chama de “nova economia de segurança”[57], está claro que a
consolidação global está criando um oligopólio de enormes corporações
transnacionais de segurança dominadas pelo mercado. Em 2004, as seis
maiores empresas assumiram 20% do mercado global de serviços de
segurança[58]. Coalizões entre governos e interesses corporativos seguem
desenfreadas para além do escrutínio democrático. “O crescimento na indústria
é garantido por enormes contratos governamentais e generosos subsídios para
pesquisa e desenvolvimento de segurança nacional”, escrevem Ben Hayes e
Roche Tasse[59]. Uma variedade de fusões e alianças institucionais entre os
setores civil, militar e comunitário, marcadas por complexos cruzamentos entre
o uso de tecnologias de controle civil e militar, está ocorrendo em diferentes
escalas geográficas de operação.
Hayes, da organização Statewatch, destaca que os esforços da União
Europeia para estabelecer um Programa de Pesquisa de Segurança em âmbito
continental seriam mais bem descritos como uma mistura de “Big Brother”
com fundamentalismo de mercado[60]. Os grandes contratos de fornecimento e
desenvolvimento do programa são organizados por uma rede de “oficiais da
União Europeia e das maiores empresas de TI e armamentos da Europa”[61].
Além do mais, assim como nos Estados Unidos, a política e as pesquisas de
segurança da União Europeia são pesadamente influenciadas por um forte
lobby por parte das principais empresas de segurança corporativa (muitas das
quais são operações estatais privatizadas recentemente). Em vez da ética da
securitização maciça, a principal preocupação da União Europeia é como as
corporações europeias podem conseguir uma parcela maior dos crescentes
mercados globais para

uma miríade de sistemas de vigilância global e local; a introdução de identificadores


biométricos; RFID (identificação de radiofrequência), monitoramento eletrônico e via satélite;
“armas menos letais”; equipamento paramilitar para gerenciamento de crises e da ordem
pública; e a militarização dos controles de fronteira.[62]

Assim, a securitização urbana pode se tornar uma vitrine para políticas


industriais dentro do mercado de segurança em expansão.

Colonizando o urbanismo transnacional


A recalibração de uma problemática interno/externo, do ponto de vista dos Estados Unidos,
está cheia de contradições explosivas.[63]

Nosso quinto componente é este: em um mundo em rápida urbanização


marcado pela intensificação transnacional da migração, do transporte, do
capital e dos fluxos de mídia, todas as tentativas de construir um binário
mutuamente excludente – um “interior” securitizado envolvendo os espaços
urbanos do território estado-unidense, e um “exterior” em urbanização em que
o poderio militar dos Estados Unidos pode atacar por antecipação fontes de
ameaça terroristas – são inevitavelmente ambivalentes e tomadas por
contradições.
“A soberania nacional” é hoje a lógica para construir sistemas
transnacionais que tentam estabelecer um controle social. Certas pessoas só se
tornam sujeitos “nacionais” depois que se tornam vítimas de terrorismo. E as
fronteiras “nacionais” simultaneamente permeiam os espaços dentro e além dos
limites territoriais das nações, enquanto se tornam inseridas em sistemas cada
vez mais onipresentes cujo objetivo é o rastreamento e o controle.
Do ponto de vista global, o novo urbanismo militar está sendo mobilizado
para garantir a segurança de viciadas cadeias de commodities, redes de logística e
enclaves corporativos que constituem as arquiteturas geoeconômicas do nosso
planeta. Esses nós-chave, enclaves, circulações e infraestruturas cruciais que,
juntos, mantêm as arquiteturas do urbanismo transnacional[64] tendem a andar
lado a lado com populações e espaços urbanos considerados propensos a serem
fontes de resistência insurgente, mobilização social ou terrorismo
infraestrutural. Como veremos no capítulo 5, estão em andamento tentativas
extremamente lucrativas para redesenhar as finanças, a comunicação, as
companhias aéreas e os sistemas portuários globais a fim de obter uma espécie
de fronteira onipresente, um “interior global” que siga as arquiteturas
infraestruturais de uma rede global de cidades e enclaves econômicos em vez
dos limites territoriais que demarcam Estados-nação.
A geografia dessa fronteira imaginária e onipresente separa e protege as
“cidades globais” estratégicas e valorizadas do Norte, bem como os enclaves
econômicos do Sul – com suas zonas de segurança e seu monitoramento de alta
tecnologia –, das multidões ameaçadoras do lado de fora dos portões urbanos
nacionais ou supranacionais cada vez mais fortificados. Aqui o discurso da
guerra de alta tecnologia, “limpa” e “humanizada” em torno da RMA se funde
com ideologias chamativas de globalização de alta tecnologia no centro da
ortodoxia econômica neoliberal e do fundamentalismo de mercado. Como
escreve Patrick Deer, essas ideologias afirmam “ocupar um espaço limpo e
tranquilo nas redes de comando e controle das cidades globais do primeiro
mundo, com seus fluxos sem atrito e ágeis de capital e mão de obra
metropolitanos”. Todavia, elas operam em “profundo contraste com o mundo
cotidiano ‘sujo’ das oficinas de trabalho escravo e maquiladoras ou as favelas e
campos de refugiados do Sul global subdesenvolvido”[65].
Cada vez mais, as arquiteturas “cidade para cidade” de guerra
infraestrutural ou centradas em rede convergem com as arquiteturas “cidade
para cidade” dominantes da vida urbana globalizada – sistemas de linhas aéreas,
sistemas portuários, sistemas financeiros eletrônicos, a internet – que sustentam
o capitalismo transnacional. O resultado são as fronteiras em rápida
militarização entre o Norte e o Sul, os campos de refugiados e tortura
extraterritoriais em proliferação e os espaços urbanos colonizados semelhantes
aos campos prisionais de massa. Isso é o que o geógrafo Peter Taylor chamou
de “rede urbana mundial”[66] – o complexo transnacional de cidades
estratégicas, partes de cidades e infraestruturas destinadas a serem delimitadas,
cercadas e reconstruídas como terrenos globais. E é assim que a globalização
neoliberal, tão dominante na cultura ocidental dos anos 1990, se transforma
em guerra permanente: as arquiteturas da globalização se fundem
perfeitamente nas arquiteturas de controle e guerra[67].
Dessa forma, os processos mais básicos e banais da vida urbana moderna
são considerados guerra (em rede). Como afirma Deer, “a difundida
metaforização da guerra borra os limites entre militar e civil, combatente e não
combatente, máquina de Estado e de guerra, tempos de guerra e de paz”[68].
Assim, atos de protesto, desobediência civil, resistência, mobilização social,
movimentos sindicais, crimes de informática ou até tentativas de sobrevivência
depois de desastres são tratados como atos de guerra urbana, que pedem uma
reação militar ou paramilitar como parte do conflito de baixa intensidade.
Dada a importância crucial do sistema de cidades “mundiais” para as
geografias globais do imperialismo, nada disso deveria ser uma surpresa. Aliás,
o complexo industrial em expansão dentro do qual as indústrias de segurança,
tecnologia, biotecnologia, correção, prisão, tortura, eletrônica, militar, de
entretenimento e monitoramento estão se fundindo gera grandes fatias das
lucrativas economias centrais de cidades como Londres e Nova York.
No entanto, o papel central da guerra e do poder imperial para as
dinâmicas econômicas das cidades mundiais contemporâneas é continuamente
obscurecido pela sugestão de que essas cidades, nestes tempos pós-coloniais, são
definidas por sua mistura cosmopolita e “híbrida” – uma mistura que alguns
gurus políticos, como Richard Florida, veem como uma característica
competitiva fundamental dos centros criativos, das “fundições”, das economias
“baseadas no conhecimento”[69]. Para Stefan Kipfer e Kanishka
Goonewardena, definir cidades

genérica e unilateralmente como laboratórios de cosmopolitismo e “motores de crescimento”


endógenos é ignorar outros aspectos formativos da história urbana: parasitismo econômico e
ecológico, formas de exclusão sociopolítica (contra não cidadãos e residentes) e uma
dependência de transações comerciais de militarismo, expansão imperial e outras formas de
acumulação primitiva.[70]

Cosmopolitismo e “pátria”
O medo e o urbanismo estão em guerra?[71]

O sexto e penúltimo atributo do novo urbanismo militar é a maneira como


ele está marcado por intensas contradições entre discursos que destacam a
poderosa desconexão e a diferença entre cidades estado-unidenses e as demais,
por um lado, e os que enfatizam a proliferação da conexão, dos vínculos e das
interdependências entre esses dois grupos de cidades, por outro. Essas
contradições ficam mais e mais evidentes nas cidades mundiais. Nas cidades
mais globalizadas e cosmopolitas dos Estados Unidos – e Nova York é o melhor
exemplo –, a noção de pátria etnonacionalista é totalmente estranha – uma
ideia trazida à tona para o consumo dos republicanos das áreas residenciais
abastadas suburbanas e semirrurais, em vez de uma noção que descreva com
um mínimo de viabilidade o mundo social da cidade contemporânea. E, no
entanto, como Roger Keil enfatiza, os Estados Unidos hoje são uma nação
predominantemente suburbana, cujos bairros residenciais, “ainda que bastante
urbanizados, são projetados de forma que qualquer associação com a cidade
seja evitada”[72]. Para muitos estado-unidenses, Keil destaca, “a constatação de
que a cidade está no centro de sua potência mundial circunferencial não era
imediatamente plausível antes de 11 de setembro de 2001”[73]. Além do mais,
a vida suburbana é tão idealizada na cultura dos Estados Unidos como o
“American way of life” autêntico que uma sensação de vínculo com o mundo
mais amplo geralmente se faz notar pela ausência. “Para muitos estado-
unidenses”, afirma Keil, “o mundo, que constitui sua existência em uma
economia global de império, se mantém fora de sua experiência”[74].
O discurso “redelimitado” de “pátria” é uma tentativa de construir uma
comunidade imaginária domesticada, singular e espacialmente fixa da ideia de
nação dos Estados Unidos[75]. Essa comunidade imaginária – presa a um
“território” familiar – valoriza uma população nacional privilegiada de
moradores de zonas residenciais e abastadas, afastada dos “outros” racializados
tanto nas cidades estado-unidenses quanto nas fronteiras coloniais. Apesar das
interconexões correntes e inevitáveis entre as cidades dos Estados Unidos e
outros lugares mais ou menos distantes, “a retórica dos ‘interiores’ que precisam
de proteção em relação a ameaças externas na forma de organizações
internacionais é dominante”[76]. O que é o motivo presumível para a tentativa
do novo Department of Homeland Security (DHS) [Departamento de
Segurança Interna] dos Estados Unidos de redesenhar sistemas de informação,
transporte, controle de fronteiras e logísticos com novas tecnologias de controle
a fim de monitorar constantemente os múltiplos circuitos que conectam as
cidades estado-unidenses com as do resto do mundo[77].
Amy Kaplan detecta um “quê decididamente antiurbano e
anticosmopolita” nesse surto de nacionalismo depois de 11 de Setembro[78].
Ela sugere que até a palavra “homeland” [que pode ser traduzida como “pátria”]
invoca uma “conexão inexorável com um lugar com raízes profundas no
passado”. Essa linguagem ofereceu uma “característica rural folclórica, que
combinava uma noção romântica germânica de povo com os rincões dos
Estados Unidos para ressuscitar o mito rural de identidade estado-unidense”,
ao mesmo tempo que eliminava “uma imagem urbana dos Estados Unidos
como territórios múltiplos com pontos de vista concorrentes e áreas
conflitantes para defender”[79]. Esse tipo de discurso foi especialmente
problemático em cidades globais como Nova York, constituídas como são por
constelações complexas e gigantescas de grupos sociais diaspóricos e
entrelaçadas intimamente nas divisões internacionais (e interurbanas) do
trabalho que sustentam o capitalismo atual. “Em que sentido”, pergunta
Kaplan, “os nova-iorquinos se referem a sua cidade como sua pátria? Lar, sim,
mas pátria? Difícil”[80].
Paul Gilroy vai além, propondo que a difundida invocação de “pátria” pelo
governo Bush, seguindo a imagem extremamente influente de um “choque de
civilizações” proposta por Huntington, “requer que a consciência cosmopolita
seja ridicularizada” nos pronunciamentos do governo estado-unidense e na
grande mídia[81]. No mundo pós-11 de Setembro, ele diagnosticou uma
generalizada “inabilidade de conceituar relações multiculturais e pós-coloniais
como qualquer coisa além de risco ontológico e dano étnico”[82].
As identidades “híbridas” de muitos bairros e muitas comunidades em
cidades dos Estados Unidos, formadas por gerações de migração transnacional
e mistura diaspórica, foi então problematizada. Inevitavelmente, esses lugares e
grupos se estendem pelos binários ressurgentes “nós e eles” e “nacional e
estrangeiro”. Como afirma Lorenzo Veracini,

quando “fronteiras” (mesmo que reconstruídas) e seu monitoramento se tornam aspectos


cruciais de uma passagem integrante, diásporas – sua composição, suas sensibilidades, suas
estratégias, suas políticas, suas histórias – também se tornam um espaço estratégico para
contestação.[83]

Contrainsurgências domésticas e estratégias coloniais internas


invariavelmente têm como alvo distritos urbanos cosmopolitas em que
comunidades diaspóricas e imigrantes étnicos e pós-coloniais se concentram.
Sally Howell e Andrew Shryock chamam esse front doméstico da Guerra ao
Terror de “repressão enérgica à diáspora”[84]. Isso envolve realização
concentrada de perfis geográficos, aumento em batidas policiais, deportações
extraordinárias, repressão voltada para trabalhadores ilegais, mobilização dos
poderes antiterrorismo para procurar e investigar a vida cotidiana e muitos
encarceramentos sem julgamento. Nos Estados Unidos, essas estratégias têm se
voltado em especial para bairros árabe-americanos como o da cidade de
Dearbon, Michigan, perto de Detroit.
Conceitos políticos em nível municipal e de bairro, claro, entram em atrito
com o nacionalismo ressurgente que faz parte do novo urbanismo militar. Os
próprios eventos de 11 de Setembro revelam ideias conflitantes de como o
território geográfico se vincula com a comunidade política em um mundo em
urbanização e globalização. Pelo menos cem nacionalidades estavam
representadas na lista de mortos daquele dia terrível, e muitas daquelas pessoas
eram imigrantes “ilegais” trabalhando na cidade de Nova York. Como colocou
Jennifer Hyndman: “Se existia qualquer distinção confortável entre doméstico
e internacional, aqui e lá, nós e eles, ela deixou de ter significado naquele
dia”[85].
“Padrões globais de migração de mão de obra […] levaram o mundo até
Lower Manhattan para atender os quarteirões de escritórios corporativos”,
escreveu Tim Watson. Aqueles que morreram junto com profissionais de
escritório naquele dia – “os lavadores de pratos, mensageiros, vendedores de
café e profissionais de limpeza” – eram “mexicanos, bengaleses, jamaicanos e
palestinos”[86]. Mas foi só na morte que essas pessoas ganharam visibilidade,
por mais efêmera. Para Watson, “uma das tragédias de 11 de Setembro de 2001
foi ter sido necessário um evento tão absurdo para revelar a realidade cotidiana
da vida no coração da cidade global”[87].
Postumamente, os mortos do 11 de Setembro foram agressivamente
nacionalizados, reemergindo como estado-unidenses heroicos cujas mortes
requeriam uma guerra global orquestrada por descrições maniqueístas da
geografia do mundo. A transformação é irônica, para ser gentil, considerando
que muitos sem dúvida estavam lutando como “forasteiros ilegais” para obter a
nacionalização em vida. Como Allen Feldman comenta, “o World Trade
Center, apesar de sua estrutura de referência transnacional, [logo] foi
enaltecido como um espaço utópico de capital, trabalho e produção inclusiva
de riqueza americanizado que foi violado”[88].
Quanto aos bombardeios suicidas devastadores em Londres pelos
chamados terroristas “locais” em 7 de julho de 2005, as reações dos londrinos
foram marcadamente diferentes da de Tony Blair. A reação imediata do
primeiro-ministro às atrocidades, como Angharad Closs-Stevens sugere, “foi
uma afirmação característica de uma comunidade britânica unida”. Essa
afirmação “teve muito sucesso [em nível nacional] para gerar uma lógica
binária entre o ‘povo britânico’ [e] as pessoas [que estão tentando] nos
intimidar, nos assustar para nos impedir de fazer o que queremos fazer”[89].
Desse modo, Blair conseguiu neutralizar o que poderia ter sido uma enorme
reação política negativa contra o envolvimento do Reino Unido na Guerra do
Iraque – um envolvimento que na Espanha, em contraste, resultou na pronta
remoção do governo Aznar após os bombardeios terroristas nos trens
suburbanos de Madri, em 11 de março de 2004.
O prefeito de Londres à época, Ken Livingston, teve uma reação diferente,
no entanto.
Destacando o papel de Londres como um centro diaspórico cosmopolita
proemintente, vivendo dentro e também além de qualquer noção simples de
identidade nacional britânica, a mensagem de Livingstone girava em torno da
“ideia de Londres como uma comunidade urbana multicultural” e enfatizou “o
princípio da diferença, em vez da unidade”[90].
Paul Gilroy fez uma crítica semelhante da resposta do governo do Reino
Unido aos bombardeios de Londres, em especial da instigação da ideia
simplista de “britanicidade” e de unidade britânica. “Essa alternativa salutar”,
diz ele, “supostamente ofereceria benefícios imediatos na forma de um
sentimento popular nacional semelhante”[91] ao patriotismo cívico manifestado
nos Estados Unidos. Gilroy se preocupa que os proponentes de uma visão tão
ordenada de britanicidade

se afastem voluntária e […] enganosamente da interação cultural inspiradora comum em


cidades como [Londres] que não estão – ainda não, pelo menos – segregadas de acordo com
princípios da lei racial que, como vimos no resultado da inundação de Nova Orleans, é o
parceira silenciosa e dominante da cultura política estado-unidense, teimosamente organizada
por cor.[92]

Novos espaços estatais de violência


O destino de impérios muitas vezes é selado pela interação entre guerra e débito.[93]
Finalmente, o novo urbanismo militar vai muito além de uma preocupação
com as tecnologias, doutrinas e táticas militares/de segurança necessárias para
uma tentativa de controlar, pacificar ou se aproveitar das populações ou dos
espaços demonizados. Vai além das complexas intersecções de cultura visual e
tecnologias de controle militar, além das tensões entre ideias de comunidade
urbanas e nacionais. Ele faz uso dos poderes do Estado para reconfigurar
violentamente ou apagar o espaço urbano, como um meio de aliviar supostas
ameaças, de abrir espaço para exigências da formação da cidade global, da
produção neoliberal ou da criação de uma tabula rasa urbana capaz de gerar
bolhas extremamente lucrativas de especulação imobiliária. Para justificar
ataques tão violentos, muitas vezes contra um inimigo urbano, racial ou de
classe (demonizado e ficcionalizado), ele recorre com regularidade a invocações
de exceção e emergência. Esses estados de exceção são declarados não só para
constituir as geografias de violência permanente que sustentam a economia
dominante, mas também para criar o que Achille Mbembe chama de “mundos
da morte” – espaços como a Palestina, onde vastas populações são forçadas a
existir como mortos-vivos[94]. Dessa forma, estados de emergência sustentam
geografias mais amplas de acumulação pela espoliação, que, apesar de serem tão
antigas quanto o colonialismo, provam ser especialmente úteis para a
globalização neoliberal.
Aqui confrontamos as complexas economias políticas do novo urbanismo
militar e sua integração central ao que Naomi Klein diagnosticou como a
tendência dentro do capitalismo neoliberal contemporâneo de criar choques
catastróficos “naturais” ou político-econômicos e/ou se beneficiar deles[95]. Está
em questão o caráter do que pode ser chamado de “novos espaços estatais” de
guerra e violência, e sua relação com a violência política e as geografias
contemporâneas de desapropriação[96].
Citando a destruição sistemática de casas e cidades promovida por Israel na
Palestina, a semelhante aniquilação de Fallujah e outros espaços de resistência
iraquiana, e a disseminada eliminação de assentamentos informais pelo globo
conforme as autoridades organizam de modo empreendedor os espaços da
cidade, Kanishka Goonewardena e Stefan Kipfer apontam para “uma realidade
ominosamente normalizada vivenciada pelos ‘condenados da terra’ depois do
‘fim da história’”. Isso, eles argumentam, gerou uma nova palavra-chave em
estudos urbanos e disciplinas afins: urbicídio[97].
Definido como a violência política criada intencionalmente para eliminar
ou “matar” cidades, o urbicídio pode envolver a transformação de espaços de
mistura cosmopolita em alvos etnonacionalistas (como os Bálcãs nos anos
1990); a devastação sistemática dos meios de subsistência para uma vida
urbana moderna (como a deseletrificação do Iraque em 1991, o cerco a Gaza
em 2006-2008, ou o ataque ao Líbano em 2006)[98]; ou a aniquilação direta de
povos e lugares demonizados, declarados não modernos, bárbaros, impuros,
patológicos ou sub-humanos (como a destruição, por Robert Mugabe, de
centenas de milhares de lares em favelas na periferia de Harare em 2005)[99].
A eliminação de pessoas e locais é um traço extremamente comum, ainda
que muitas vezes ignorado, em áreas urbanas do Sul global, que as elites
políticas e econômicas locais buscam reformar como “cidades globais” – para
transformá-las na “próxima Xangai” e, assim, legitimar “o planejamento como
destruição”.
Acessórios supermodernos – estradas, shopping centers, aeroportos,
quarteirões de escritórios, estádios esportivos, complexos de apartamentos de
luxo – são inevitavelmente considerados mais adequados ao status global do
que as favelas dilapidadas, construídas pelos moradores e muitas vezes “ilegais”,
que abrigam os pobres urbanos. Uma pesquisa recente feita pelas Nações
Unidas descobriu que, entre 2000 e 2002, um total de 6,7 milhões de pessoas
em sessenta países foram despejadas de seus assentamentos informais, contra
4,2 milhões nos dois anos anteriores[100]. As palavras de Frantz Fanon são mais
relevantes do que nunca aqui: “a atividade de obscurecer a linguagem é uma
máscara por trás da qual se oculta a atividade muito maior da pilhagem”[101].
Para Goonewardena e Kipfer, a proliferação contemporânea do urbicídio
reflete a mudança para um mundo em que a política da cidade é totalmente
central para a produção e constituição de relações sociais. Em um mundo
majoritariamente urbano, “a luta pela cidade [agora] coincide cada vez mais
com a luta por ordem social”[102], escrevem eles. Com a intensificação da
urbanização, essa coincidência só deve avançar mais.
Como consequência, a arquitetura e o urbanismo emergem não apenas
como um elemento-chave nos esforços – imperiais, neoliberais, corporativos ou
militares – para produzir ou reorganizar o espaço urbano, mas também nas
resistências e contrageografias que emergem em reação a tais intervenções[103].
Apropriações estranhas acontecem aqui. Eyal Weizman, por exemplo,
demonstrou como alguns generais israelenses se apropriaram dos escritos
radicais, pós-estruturalistas do filófoso francês Gilles Deleuze para desenvolver
uma nova doutrina militar para tomar e controlar os espaços labirínticos dos
campos de refugiados palestinos[104]. Aqui, escreve Weizman, “a guerra urbana
contemporânea se desenvolve em uma arquitetura construída, real ou
imaginária, e por meio da destruição, construção, reorganização e subversão do
espaço”[105]. Ao romper os muros conectados de cidades inteiras e criar, assim,
caminhos, as Forças Armadas israelenses tentam “criar ‘espaço [operacional]
como se não houvesse fronteiras’, neutralizando as vantagens concedidas pelo
terreno urbano para os opositores da ocupação”[106].
Muitas das novas técnicas de guerra urbana usadas por Forças Armadas
estatais – que Goonewardena e Kipfer rotularam de “colonização sem
ocupação” – são imitações de técnicas urbanas de resistência usadas contra as
forças militares em séculos anteriores. “Essa estratégia não linear, polinuclear e
anti-hierárquica de combate em áreas urbanas”, eles comentam, “é de fato um
plágio das táticas dos rebeldes da Comuna de Paris, Stalingrado e os kasbahs de
Argel, Jenin e Nablus”[107].
Técnicas de militarismo urbano e violência urbicida servem para disciplinar
ou desalojar divergentes e a resistência. Elas eliminam ou deslegitimam
reivindicações e espaços urbanos que se colocam no caminho de formas cada
vez mais predatórias de planejamento urbano[108] que abre caminho para
infraestruturas supermodernas, centros de produção ou enclaves para o turismo
e o consumo urbano[109]. Fundindo-se, como acontece, com a virada
autoritária da criminologia, da penalogia e da política social, esse novo
urbanismo militar tenta controlar ou encarcerar as populações rebeldes da
metrópole pós-colonial, como o que foi cunhado de “colônias internas” dos
banlieues franceses[110].
Mas, para além de tudo isso, os processos globais de securitização,
militarização, desinvestimento e eliminação oferecem sustento para as
economias metropolitanas. As cidades estão bem no centro dos “establishments
militares-industriais do capitalismo corporativo, liderados pelo estado-
unidense, que produz ‘commodities letais’ como a parte mais lucrativa do
comércio global”[111].
Consideremos o agrupamento de cidades globais ressurgentes e estratégicas
através do qual o acúmulo capitalista opera cada vez mais. Elas organizam e
acertam fluxos financeiros, formatam o desenvolvimento geográfico desigual e
extraem o excedente para os setores corporativos dominantes e elites
socioeconômicas globalizadas que estão intimamente integradas aos governos
nacionais e internacionais. Elas dominam os aspectos da produção do
complexo militar-industrial-de segurança-monitoramento e estão cercadas de
“cidades-guarnição” cujas economias são dominadas por militares estacionados
e corporações industriais privadas. Com suas bolsas de valores, tecnópoles,
feiras de armas, centros de alta tecnologia e laboratórios de armas estatais, essas
cidades são o cérebro por trás da globalização altamente militarizada da nossa
era.
O conflito militar imperial que abastece a acumulação de capital por meio
do sistema urbano global se baseia cada vez mais em novas formas de
“acumulação primitiva”, que dependem de altos índices de retorno (em especial
para o complexo petroquímico), estimulados por guerras por recursos e
petróleo, em vez de contratos militares que ofereçam estímulos keynesianos
para a economia, como era o caso no fim do século XX[112].
Sendo assim, a construção de cidades contemporâneas pode ser vista,
segundo Neil Smith, como uma

estratégia de acumulação de maneira muito mais intensa do que em qualquer momento


anterior. A militarização, enormes reinvestimentos de reconstrução e uma suposta agenda
humanitária (bombas lançadas junto com pacotes de mantimentos em Cabul) alimentam essa
estratégia de construção da cidade.[113]

Dessa forma, a destruição militar e a apropriação forçada podem funcionar


como agentes de rápida destruição criativa. Isso, por sua vez, oferece grandes
oportunidades para privatização, gentrificação e apropriação de bens por meio
das bolsas de valores globais.
O que ocorre, ao analisar nosso “presente colonial”, é que enfrentamos o
desafio de simultaneamente abordar as economias macropolíticas do que David
Harvey chama de “acumulação por espoliação”[114] por economias de guerra
permanente, e desenvolver uma compreensão sofisticada das táticas e estratégias
cotidianas de controle urbano e urbicídio. Existe, então, uma necessidade de
reconsiderar extensamente a relação entre violência e o sistema governamental
nacional/transnacional. Apesar de estar além do escopo deste livro, essa
reteorização precisa abordar as maneiras pelas quais choques e crises não são
apenas explorados, mas também fabricados para exploração corporativa. É
preciso analisar as conexões entre a difusão global da crise econômica estado-
unidense – causada pela financeirização não regulada, hiperendividamento e
déficits comerciais insustentáveis – e as duradouras trajetórias das geografias e
economias políticas autoritárias e “pós-fordistas” que alimentam esse novo
militarismo urbano[115]. Por último, é preciso tentar explicar a importância
político-econômica e cultural de ideologias hipermilitarizadas de guerra
preventiva, mobilização permanente e gerenciamento de risco antecipatório,
que transformam tudo em um problema militar que exige, a priori, uma
solução militar[116].
No fim das contas, os sete elementos inter-relacionados do novo urbanismo
militar – a disjunção entre soldados rurais e guerras urbanas, a indiferenciação
de tecnologias de controle civis e militares, o tratamento de ataques contra
cidades como eventos de mídia, o surto de segurança, a militarização do
movimento, as contradições entre culturas nacional e urbana de medo e
comunidade, e as economias políticas dos novos espaços estatais de violência –
são responsáveis por forjar aquela que é, talvez, sua principal característica. Essa
característica é a reorganização radical da geografia e da experiência de
fronteiras e limites. Ela engloba uma série de “efeitos bumerangue”
foucaultianos que se movem continuamente entre a metrópole colonial e a
fronteira da zona de guerra – um processo tão crucial para o novo militarismo
urbano que merece um capítulo próprio, dedicado ao surgimento da “fronteira
onipresente”.
[1] Patrick Deer, “Introduction: e Ends of War and the Limits of War Culture”, Social Text, v. 25, n. 2,
2007, p. 1.
[2] Rachel Woodward, “From Military Geography to Militarism’s Geographies: Disciplinary
Engagements with the Geographies of Militarism and Military Activities”, Progress in Human Geography,
v. 29, n. 6, 2005, p. 718-40.
[3] Michael Geyer, “ e Militarization of Europe, 1914-1945”, em John Gillis (org.), e Militarization
of the Western World (New Brunswick [NJ], Rutgers University Press, 1989), p. 79.
[4] Deborah Cowen, “National Soldiers and the War on Cities”, eory and Event, v. 10, n. 2, 2007.
[5] Idem.
[6] Steve Macek, Urban Nightmares: e Media, the Right and the Moral Panic Over the City (Minneapolis
[MN], University of Minnesota Press, 2006), cap. 3.
[7] Deborah Cowen, “National Soldiers and the War on Cities”, cit.
[8] Idem.
[9] Marieke de Goede, “Beyond Risk: Premediation and the Post-9/11 Security Imagination”, Security
Dialogue, v. 39, n. 2-3, p. 168.
[10] Paul Virilio, e Lost Dimension (São Francisco, Semiotext(e), 1991), cap 1.
[11] Gilles Deleuze, “Postscript on the Societies of Control”, October, n. 59, 1992, p. 3-7.
[12] Idem.
[13] Gerfried Stocker, “Info War”, em Gerfried Stocker e C. Schopf (orgs.), Ars Electronica: Infowar, n.
98, Linz, Springer-Telos, 1998.
[14] Ryan Bishop, “‘ e Vertical Order Has Come to an End’: e Insignia of the Military C3I and
Urbanism in Global Networks”, em Ryan Bishop, John Phillips e Yeo Wei Wei (orgs.), Beyond
Description: Space, History, Singapore (Londres, Routledge, 2004), p. 61.
[15] Pierre Mesnard y Méndez, “Capitalism Means/Needs War”, Socialism and Democracy, v. 22, n. 2,
2002.
[16] Ryan Bishop, “‘ e Vertical Order Has Come to an End’”, cit., p. 61.
[17] Anne Bottomley e Nathan Moore, “From Walls to Membranes: Fortress Polis and the Governance of
Urban Public Space in 21st Century Britain”, Law and Critique, v. 18, n. 2, 2007, p. 171-206.
[18] Idem.
[19] Jordan Crandall, “Anything that Moves: Armed Vision”, C eory.net, jun. 1999.
[20] Idem.
[21] Mark Mills, “Photons, Electrons and Paradigms”, discurso de abertura do Simpósio de Defesa e
Segurança dos Estados Unidos, Orlando, FL, 9-13 abr. 2007.
[22] Simon Cooper, “Perpetual War within the State of Exception”, Arena Journal, 1º jan. 2003, p. 114.
[23] Randy Martin, “Derivative Wars”, Cultural Studies, v. 20, n. 4-5, 2006, p. 459-76.
[24] Simon Cooper, “Perpetual War within the State of Exception”, cit., p. 117.
[25] Caren Kaplan, “Precision Targets: GPS and the Militarization of US Consumer Identity”, American
Quarterly, v. 58, n. 3, 2006, p. 696.
[26] Ibidem, p. 698.
[27] Chris Hedges, War Is a Force Which Gives Us Meaning (Nova York, Public Affairs, 2002), p. 3.
[28] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, Interventions: International Journal of
Postcolonial Studies, v. 6, n. 3, p. 330-50.
[29] Iain Boal et al., Afflicted Powers: Capital and Spectacle in a New Age of War (Londres, Verso, 2006).
[30] Mike Davis, Dead Cities (Nova York, New Press, 2002), p. 5.
[31] Jonathan Burston, “War and the Entertainment Industries: New Research Priorities in an Era of
Cyber-Patriotism”, em Daya Kishan ussu e Des Freedman (orgs.), War and the Media (Londres,
Routledge, 2003), p. 163-75.
[32] Chris Hables Gray, Postmodern War (Londres, Routledge, 1997), p. 190.
[33] John Jordan, “Disciplining the Virtual Home Front: Mainstream News and the Web During the
War in Iraq”, Communication and Critical/Cultural Studies, v. 4, n. 3, 2007, p. 276-302.
[a] Ver nota do editor, capítulo 1, p. 66. (N. E.)
[34] James Der Derian, “Who’s Embedding Whom?”, 9/11 INFOinterventions, 26 mar. 2003. Disponível
em: <www.watsoninstitute.org/infopeace/911>. Acesso em: 2 abr. 2016.
[35] Idem.
[b] Publicada pelo grupo IHS (Information Handling Services), com sede no Colorado, Estados Unidos,
Jane’s International Defence Review (IDR) é uma revista mensal com reportagens sobre novidades na área
militar e tecnológica. (N. E.)
[36] James Der Derian, “Who’s Embedding Whom?”, cit.
[37] Citado em Sheldon Rampton e John Stauber, Weapons of Mass Deception: e Uses of Propaganda in
Bush’s War on Iraq (Londres, Robinson, 2003), p. 34.
[38] James Der Derian, Virtuous War: Mapping the Military-Industrial-Media-Entertainment Network
(Boulder [CO], Westview, 2001).
[39] Jordan Crandall (org.), Under Fire 1. e Organization and Representation of Violence (Roterdã, Witte
De Witte, 2004), p. 15.
[40] Roland Bleiker e Martin Leet, “From the Sublime to the Subliminal: Fear, Awe and Wonder in
International Politics”, Millennium: Journal of International Studies, v. 34, n. 3, 2006, p. 713.
[41] omas Hamms, e Sling and the Stone: On War in the Twenty-First Century (Nova York, Zenith
Press, 2006).
[42] O mais impressionante aqui era a ideia do “Escritório de Influência Estratégica”. Ver James Der
Derian, “ e Rise and Fall of the Office of Strategic Influence”, INFOinterventions, 4 mar. 2002.
Disponível em: <www.watsoninstitute.org/infopeace/911>. Acesso em: 2 abr. 2016.
[43] Lisa Parks, “Insecure Airwaves: US Bombings of Al Jazeera”, Communication and Critical/Cultural
Studies, v. 4, n. 2, 2007, p. 226-31.
[44] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, cit., p. 330-50.
[45] James Der Derian, “Who’s Embedding Whom?”, cit.
[46] Idem.
[47] Giorgio Agamben, “Security and Terror”, eory and Event, v. 5, n. 4, 2002, p. 1-2.
[48] Idem.
[49] William Connolly, Pluralism (Durham [NC], Duke University Press, 2005), p. 54.
[50] Henry Giroux, “Reading Hurricane Katrina: Race, Class, and the Biopolitics of Disposability”,
College Literature, v. 33, n. 3, p. 171.
[51] Ibidem, p. 172.
[52] Eric Klinenberg e omas Frank, “Looting Homeland Security”, Rolling Stone, dez. 2005.
[53] “Spending on Internal Security to Reach $178 bn by 2015”, e Economic Times, Mumbai, 27 dez.
2007.
[54] Fred Schreier e Marina Caparini, “Privatising Security: Law, Practice and Governance of Private
Military and Security Companies”, Occasional Paper, n. 6, Geneva Centre for the Democratic Control of
Armed Forces (DCAF), Genebra, mar. 2005.
[55] Homeland Security Research Corp, 2007. Disponível em: <www.photonicsleadeship.org.uk>.
Acesso em 2 abr. 2016.
[56] Idem. Para dados atuais, ver: “Homeland Security Market worth $544.02 Billion – 2018”.
Disponível em: <www.marketsandmarkets.com/PressReleases/homeland-security-emergency-
management.asp>. Acesso em: 20 jun. 2016. E, também: “Homeland Security and Emergency
Management Market, 2013–2018”. Disponível em: <www.marketsandmarkets.com/Market-
Reports/homeland-security-emergency-management-market-575.html>. Acesso em: 20 jun. 2016.
[57] Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, A Economia de Segurança (Paris,
OECD, 2004); ver também Sven Bisley, “Globalization, State Transformation, and Public Security”,
International Political Science Review, v. 25, n. 3, 2004, p. 281-96.
[58] Frank Seavey, “Globalizing Labor in Response to a Globalized Security Industry”, artigo apresentado
na Conferência “Policing Crowds”, Berlim, jun. 2006. Disponível em: <www.policing-crowds.org>.
Acesso em: 2 abr. 2016.
[59] Ben Hayes e Roche Tasse, “Control Freaks: ‘Homeland Security’ and ‘Interoperability’”, Different
Takes, n. 45, 2007, p. 2.
[60] Ben Hayes, Arming Big Brother: e EU’s Security Research Programme (Washington [DC],
Statewatch, 2006).
[61] Idem.
[62] Idem.
[63] Roger Keil, “Empire and the Global City: Perspectives of Urbanism after 9/11”, Studies in Political
Economy, n. 79, 2007, p. 167-92.
[64] O termo “urbanismo transnacional” foi cunhado por Michael Peter Smith em 1996 em seu livro
Transnational Urbanism: Locating Globalization (Oxford, Blackwell, 2001).
[65] Patrick Deer, “Introduction: e Ends of War and the Limits of War Culture”, cit., p. 2.
[66] Peter Taylor, World City Network: A Global Urban Analysis (Londres, Routledge, 2004).
[67] Patrick Deer, “Introduction: e Ends of War and the Limits of War Culture”, cit., p. 2.
[68] Ibidem, p. 1.
[69] Richard Florida, e Rise of the Creative Class (Nova York, Basic Books, 2002).
[70] Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism: On the Meaning
of Urbicide Today”, eory and Event, v. 10, n. 2, 2007.
[71] Todd Swanstrom, “Are Fear and Urbanism at War?”, Urban Affairs Review, n. 38, 2002.
[72] Roger Keil, “Empire and the Global City”, cit.
[73] Idem.
[74] Idem.
[75] Peter Andreas e omas Biersteker, e Rebordering of North America (Nova York, Routledge, 2003).
[76] Simon Dalby, “A Critical Geopolitics of Global Governance”, International Studies Association, 2000.
[77] Ver Matt Hidek, “Networked Security in the City: A Call to Action for Planners”, Planners Network,
2007; Katja Franko, “Analysing a World in Motion: Global Flows Meet ‘Criminology of the Other’”,
eoretical Criminology, v. 1, n. 2, 2007, p. 283-303.
[78] Amy Kaplan, “Homeland Insecurities: Reflections on Language and Space”, Radical History Review,
n. 85, 2003, p. 82-93.
[79] Idem.
[80] Idem.
[81] Paul Gilroy, “‘Where Ignorant Armies Clash by Night’: Homogeneous Community and the
Planetary Aspect”, International Journal of Cultural Studies, v. 6, n. 3, 2003, p. 266.
[82] Ibidem, p. 261.
[83] Lorenzo Veracini, “Colonialism Brought Home: On the Colonialization of the Metropolitan Space”,
Borderlands, v. 4, n. 1, 2005.
[84] Sally Howell e Andrew Shryock, “Cracking Down on Diaspora: Arab Detroit and America’s ‘War on
Terror’”, Anthropological Quarterly, v. 76, n. 3, 2003, p. 443-62.
[85] Jennifer Hyndman, “Beyond Either/Or: A Feminist Analysis of September 11th”, ACME: An
International E-Journal for Critical Geographies, fev. 2006
[86] Tim Watson, “Introduction: Critical Infrastructures after 9/11”, Postcolonial Studies, n. 6, 2003, p.
109-11.
[87] Idem.
[88] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, cit., p. 330-50.
[89] Tony Blair, declaração para a Press Association, 7 jul. 2005, citado em Angharad Closs-Stephens, “7
million Londoners, 1 London: National and Urban Ideas of Community in the Aftermath of the 7th July
Bombings”, Alternatives, v. 32, n. 2, 2007, p. 155-76.
[90] Angharad Closs-Stephens, “7 Million Londoners, 1 London”, cit.
[91] Paul Gilroy, “Multiculture in Times of War: An Inaugural Lecture Given at the London School of
Economics”, Critical Quarterly, v. 48, n. 4, p. 29.
[92] Idem.
[93] John Gray, “A Shattering Moment in America’s Fall from Power”, e Observer, Londres, 28 out.
2008.
[94] Achille Mbembe, “Necropolitics”, Public Culture, v. 15, n. 1, 2003, p. 11-40.
[95] Naomi Klein, e Shock Doctrine: e Rise of Disaster Capitalism (Londres, Allen Lane, 2007).
[96] O termo “novos espaços estatais” vem do título de mesmo nome da obra de vanguarda de Neil
Brenner, New State Spaces: Urban Governance and the Rescaling of Statehood (Oxford, Oxford University
Press, 2004).
[97] Kanishka Goonewardena e Stefan Kipfer, “Postcolonial Urbicide: New Imperialism, Global Cities
and the Damned of the Earth”, New Formations, v. 59, 2006, p. 23-33.
[98] Ver capítulo 9 deste volume e, também, Stephen Graham, “Switching Cities Off: Urban
Infrastructure and US Air Power”, City, v. 9, n. 2, 2005.
[99] Stefan Kipfer e Kanishka Goonewardena, “Colonization and the New Imperialism”, cit.
[100] UN-Habitat, State of the World Cities 2006/2007 (Nairóbi, Nações Unidas, 2006), p. xi.
[101] Frantz Fanon, e Wretched of the Earth (Nova York, Grove, 2004).
[102] Kanishka Goonewardena e Stefan Kipfer, “Postcolonial Urbicide”, cit., p. 28.
[103] Ver capítulo 11 deste volume.
[104] Eyal Weizman, Hollow Land (Londres, Verso, 2007).
[105] Idem, “Lethal eory”, LOG Magazine, abr. 2005, p. 74.
[106] Kanishka Goonewardena e Stefan Kipfer, “Postcolonial Urbicide”, cit., p. 28.
[107] Ibidem, p. 29.
[108] “O planejamento predatório é o processo intencional de desapropriação realizado pelo uso
simultâneo de táticas múltiplas, e muitas vezes de alcance global, de redesenvolvimento na sequência de
um trauma. […] O impacto do planejamento predatório abrange uma reação ao estresse traumático que
envolve choque na raiz e destruição de referências culturais.” Kiara Nagel e Kenney Bailey, “Rendering
the Invisible Visible: Cultural Architecture and Predatory Planning in Atlanta’s Sweet Auburn”, Progressive
Planning Magazine, n. 174, inverno 2008, p. 19-20. Disponível em: <www.ds4si.org/writings/rendering-
the-invisble-visible>. Acesso em: 13 jun. 2016.
[109] Um exemplo fundamental aqui foi a tentativa de reconstrução de Nova Orleans como uma cidade
turística e gentrificada enquanto se tentava negar a 250 mil afro-americanos o direito de voltar à cidade
depois do Katrina.
[110] Mustafa Dikeç, Badlands of the Republic: Space, Politics and Urban Policy (Oxford, Blackwell,
2007).
[111] Pierre Mesnard y Méndez, “Capitalism Means/Needs War”, cit.
[112] Shimshon Bichler e Jonathan Nitzan, “Dominant Capital and the New Wars”, Journal of World-
Systems Research, v. 10, n. 2, 2004, p. 255-327.
[113] Neil Smith, “ e Military Planks of Capital Accumulation: An Interview with Neil Smith”,
Subtopia Blog, 10 jul. 2007.
[114] David Harvey, e New Imperialism (Oxford, Oxford University Press, 2006) [ed. bras.: O novo
imperialismo, trad. Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves, São Paulo, Loyola, 2004].
[115] Para uma discussão perspicaz, ver George Steinmetz, “ e State of Emergency and the Revival of
American Imperialism: Toward an Authoritarian Post-Fordism”, Public Culture, v. 15, n. 2, 2003, p. 323-
45. Steinmetz defende que “a condição emergente [depois da recessão e da crise financeira global] não
marca um retorno ao Estado do Bem-Estar Social fordista-keynesiano, e sim uma transição na direção de
um estado policial aprimorado. Segurança no sentido disciplinar, não social, no foco na atividade
governamental atual”.
[116] Ver Jonathan Michel Feldman, “From Warfare State to ‘Shadow State’: Militarism, Economic
Depletion, and Reconstruction”, Social Text, n. 25, 2007, p. 143-68, e Marieke de Goede, “Beyond
Risk”, cit.
4
FRONTEIRAS ONIPRESENTES[1]

Fronteiras nacionais deixaram de ser linhas contínuas sobre a superfície da Terra e se tornaram
conjuntos não relacionados de linhas e pontos situados em cada país.[2]

O ato de mirar é um ato de violência mesmo antes que qualquer tiro seja disparado.[3]

Como é possível reconciliar a proliferação de duras fronteiras militarizadas


– não só em zonas de guerra como Bagdá ou a Faixa de Gaza, mas entre nações
e dentro de cidades do mundo todo – com a sensação de que as pessoas e as
coisas em todo o planeta estão se tornando cada vez mais móveis? Em outras
palavras, qual é a relação entre a proliferação das circulações transnacionais e
urbanas que envolvem a globalização e a profusão, em paralelo, do que Ronen
Shamir chama de “encerrar, cercar e confinar”[4] no mundo contemporâneo?
Neste capítulo, elaboro o argumento de que uma grande mudança está em
andamento no que diz respeito às fronteiras do nosso mundo – uma mudança
que deriva das transformações na natureza dos Estados-nação. No nosso
tempo, Estados-nação estão se afastando de seu papel como fiadores de uma
comunidade de cidadãos dentro de uma unidade territorial, encarregados de
policiar as conexões entre “interior” e “exterior”. Em vez disso, esses Estados
estão se tornando sistemas internacionalmente organizados voltados para tentar
separar as pessoas e circulações consideradas de risco ou malignas daquelas
consideradas livres de riscos ou dignas de proteção. Esse processo ocorre cada
vez mais tanto dentro quanto fora de fronteiras territoriais entre Estados-nação,
resultando em uma indistinção entre limites internacionais e urbanos/locais.
De fato, as duas parecem se fundir cada vez mais, para constituir uma
“multiplicidade” de pontos de controle[5] que se distribuíram pelas principais
linhas de circulação e geografias-chave de riqueza e poder, atravessando limites
territoriais entre Estados, além daqueles dentro e para além dessas fronteiras.

Binários westfalianos
A diluição das linhas que demarcam a aplicação da lei civil e o poder
militar, o interior e o exterior da nação, a paz e a guerra está ocorrendo por
causa de uma desconstrução gradual da chamada ordem westfaliana do Estado
moderno e liberal. “A promessa do Estado de tradição liberal era preservar a
ordem liberal no interior, enquanto se considerava que o universo exterior era
condenado a ser dominado por práticas governamentais decididamente não
liberais”, escrevem Didier Bigo e coautores. Com o policiamento organizado
para manter a paz dentro da nação, e a guerra organizada para além dela, “o
que era normal dentro das fronteiras nacionais era excepcional lá fora e vice-
versa”[6].
Embora cada nação ofereça seu próprio caso histórico único, o “nós”
nacional imaginado da nacionalidade ocidental foi amplamente naturalizado e
se tornou fundamentalmente oposto ao “eles” imaginado fora dos limites
territoriais da nação. Tornou-se possível construir uma imagem do mundo
baseada no binário naturalizado “doméstico” e “estrangeiro”[7]. Com muita
facilidade, mas não inevitavelmente, essa diferença se traduziu em alteridade.
Aqueles que estavam fora eram muitas vezes denegridos, enquanto a
superioridade étnica, racial ou cultural do “nós” nacional era afirmada.
Assim, a ordem internacional westfaliana se baseou, por um lado, na ideia
de que a defesa externa dos Estados-nação exige que as forças militares sejam
projetadas fora das fronteiras, contra a figura do inimigo, durante tempos de
guerra[8]. Por outro lado, Estados westfalianos também seguiam a lógica
interna do policiamento; a lei era mobilizada internamente para lidar com
criminosos e também com atores considerados ameaças para a ordem social[9].
Guerra securocrática
Na prática, esses esforços de separação sempre foram frágeis, confusos e
contraditórios. Agora, no entanto, a própria noção de distinção
interior/exterior está sendo radicalmente repensada. O mundo contemporâneo
está marcado por “uma fusão, uma desdiferenciação do universo do interno e
do universo do externo”, escrevem Bigo e Anastassia. “A diferença entre o
liberal e o não liberal, a norma e a exceção, não está mais fixada pelas fronteiras
nacionais. Os limites entre o interno e o externo estão se movendo.”[10] Ideias
de cidadania nacional, em vez de serem necessariamente apenas contrapostas ao
exterior e estrangeiro, agora são cada vez mais reposicionadas contra outras
consideradas exteriores ou para além da cidadania, quer estejam dentro, quer
além das fronteiras geográficas de fato dos Estados-nação. Essa reconfiguração
na natureza das fronteiras é alimentada pelo que Allen Feldman chama de
“guerras securocráticas”[11] – guerras sem data para acabar e não
territorializadas (contra as drogas, o crime, o terror, a imigração ilegal, ameaças
biológicas) organizadas ao redor de ideias vagas e abrangentes de segurança
pública, em vez de conquista de territórios. Seu propósito é manter a soberania
de Estado não por meio da guerra externa combinada com o policiamento
interno, mas pelo aumento do espectro de mobilidades e fluxos considerados
contaminantes das sociedades e ameaçadores da ordem social, tanto interna
quanto externamente. Desconhecidos e impossíveis de conhecer, esses perigos –
o terrorismo, a infiltração demográfica, a imigração “ilegal”, as doenças (a Sars,
a gripe aviária, a tuberculose) – são vistos como se estivessem à espreita nos
interstícios da vida urbana e social, se misturando a ela de modo invisível[12].

Eventos e normalidade
A fronteira virtual, quer esteja voltada para fora, quer para dentro da estrangeirice, não é mais
uma barreira estrutural, mas uma rede móvel, uma patogênese espacial flexível que se
movimenta pelo globo e pode se mover da exterioridade da fronteira transnacional para o
centro do Estado securocrático.[13]
Em sua raiz, as guerras securocráticas sem fim definido são uma tentativa
de policiar tanto as dicotomias subnacionais de lugares seguros e de risco
quanto as supranacionais, tanto dentro quanto além dos limites territoriais dos
Estados-nação[14]. Um componente importante é a distinção entre evento e
pano de fundo. Assim, “eventos de segurança” emergem quando “circulações
impróprias ou transgressoras”[15] parecem ameaçar a normalidade do
capitalismo transnacional. Tais eventos vão de incursões de patógenos[16],
terroristas ou indivíduos imigrantes até a criminalidade, commodities
pirateadas, lixo tóxico, transações financeiras malignas, códigos de computador
perigosos ou ideologias tóxicas.
A figura do terrorista lança uma grande sombra aqui, porque se considera
que os terroristas criam uma circulação imprópria de indivíduos, dinheiro e
drogas[17]. Discursos do governo garantem a vaga fusão dessas presenças e
mobilidades malignas, e o oportunismo político garante que a legislação contra
o terror seja aplicada a todo tipo de supostas ameaças. Em 2008, por exemplo,
no auge da crise financeira global, o governo britânico usou a recém-cunhada
legislação antiterror como argumento para confiscar os ativos financeiros
islandeses presentes no Reino Unido.
Ao mesmo tempo, a logística, o turismo, a imigração e o fluxo contínuo de
commodities e moedas que, em âmbito global, sustentam o capitalismo
neoliberal são representados como invisíveis, normais. São não eventos de
“circulação segura” que conectam arquipélagos transnacionais de espaços livres
de riscos. “A interrupção da economia moral de circulação segura é
caracterizada como um ‘evento de risco’ distópico”, sugere Feldman.

Ruptura do imputado bom funcionamento do aparato de circulação em que nada deve


acontecer. “Normalidade” é o não evento, que de fato significa a distribuição adequada de
funções, a ocupação de posições diferenciais e de perfis sociais adequados.[18]

Então, paradoxalmente, eventos que perturbam e destroem a circulação


normal – ataques terroristas, interrupções de fornecimento de energia, falhas
técnicas, alertas patogênicos, greves de trabalhadores – servem para revelar as
complexas arquiteturas de mobilidade, continuamente consideradas invisíveis
por sua própria normalidade[19].
Guerras securocráticas garantem a política do “novo normal”, baseada no
que Feldman chama de “simbiose entre medo internalizado e agressões
direcionadas ao outro”[20]. Elas reciclam e atualizam a demonização dos
tempos da Guerra Fria e da longa era da colonização racializada. Aqui, no
entanto,

o outro deixa de ser uma figura colonial, um proletário, uma minoria racial despossuída mas
batalhadora, um comunista, e reaparece como o traficante de drogas, a pessoa vivendo com
aids, o imigrante ilegal, o refugiado em busca de asilo e o terrorista.[21]

O crucial é que essas guerras invocam uma série conectada de limites


vulneráveis – do corpo, do lar, do bairro, da cidade, da nação, do ciberespaço,
do sistema de circulação – como sendo perigosamente transparentes e
enfrentando um ataque sem precedentes de uma gama de ameaças, rupturas ou
incursões móveis em proliferação. Essa condição de vulnerabilidade requer uma
cultura de constante vigilância, antecipação e preparo, conforme os cidadãos
são mobilizados como cidadãos-soldados para monitorar pessoalmente suas
paisagens cotidianas, para estar sempre de olho para o “incomum” sempre
esquivo e indefinido[22]. Como sugerem James Hay e Marc Andrejevic, “em
uma era de guerra flexível, todos precisam ser vistos tanto como suspeitos em
potencial quanto, portanto, necessariamente, espiões proativos”[23]. A paranoia
e a neurose estão incrustadas na geografia, com chamados para “redefinir” as
fronteiras nacionais[24], a definição de imigrantes “ilegais” como “invasores”[25],
o uso de comandos e controles em estilo militar para os fluxos civis, a
fortificação e o “endurecimento” de “alvos” humanos, domésticos, urbanos,
infraestruturais ou nacionais.
Todos os processos de monitoramento, claro, só são efetivos quando, assim
como no evento de segurança, invocam uma ideia de normalidade contra a
qual o anormal pode acontecer. É aqui que ideias de guerra securocrática fazem
uma polinização cruzada com mudanças mais amplas de logística e
monitoramento social, engendrando uma inclinação para a “seleção social” de
pessoas, lugares e circulações. Bancos de dados coletados no passado são
processados continuamente por algoritmos de computador para classificar,
perfilar, priorizar, excluir e antecipar o futuro. Isso é feito por uma série de
razões: maximizar a lucratividade (retirando serviços de consumidores “falidos”
ou não lucrativos; perfilando bairros como grupos geodemográficos);
customizar ou personalizar serviços (páginas sob medida no site da Amazon);
permitir que usuários premium desviem de congestionamentos (vias expressas
pedagiadas, serviços de callcenter que diferenciam a ordem de atendimento
com base nos registros da rentabilidade do cliente; mudanças “prioritárias” de
pacotes de internet); apoiar novos meios de gerenciamento de risco
individualizado[26]. Como essas novas tendências de consumo e rastreamento
digitalizado atravessam o interior e o exterior do Estado-nação, elas interligam
e facilitam mudanças mais amplas em direção à guerra securocrática.

Renovação autoritária
A “segurança nacional” está se tornando o ponto de vista através do qual a condição urbana é
enquadrada, julgada, analisada e, consequentemente, projetada.[27]

Conforme a transformação securocrática procede, os Estados de bem-estar


social estão sendo, ao mesmo tempo, redesenhados como sistemas de
gerenciamento de risco, voltados não para o bem-estar social das comunidades,
mas para o controle da localização, do comportamento e do futuro de
“anticidadãos” de suposto risco[28]. Phil Scraton chama isso de “renovação
autoritária”[29].
Interdições, encarceramentos a priori e uma rasteira criminalização de
massa começam a fragmentar normas legais já precárias de ação judicial, habeas
corpus, direito a recurso, legislação humanitária internacional e direitos
humanos de cidadania. Cada vez mais, as ideias sempre frágeis de cidadania
nacional homogênea se fragilizam e desintegram conforme diferentes grupos e
etnias são perfilados, peneirados e tratados por antecedência de modo
diferente. Os direitos de cidadania são desintegrados e “desfeitos”[30]. A lei é
usada para suspender a lei, abrindo a porta para emergências e “estados de
exceção” mais ou menos permanentes[31]. Fronteiras militarizadas, sistemas de
campos e de movimentação invisível e ilícita hoje atravessam nações e blocos
supranacionais. Os arquipélagos transnacionais de encarceramento, tortura e
morte que resultam disso revelam similaridades chocantes com aqueles que
sustentam as geografias globais de turismo, finanças, produção, logística,
poderio militar e o estilo de vida das elites. Os “inimigos internos”, as pessoas
consideradas de risco, sem valor ou fora de lugar – os afro-americanos de Nova
Orleans, os problemáticos moradores dos banlieues de Paris, os ciganos
acampados nos subúrbios de Nápoles ou Roma, os favelados às margens dos
pontos turísticos do Rio de Janeiro, os imigrantes sem visto, os pedintes, os
sem-teto, os vendedores de rua em toda parte – se tornam cada vez mais
descartáveis, agredidos, forçosamente excluídos.
Aqueles que não conseguem se sustentar em sistemas cada vez mais
privatizados e autoritários se tornam mais e mais demonizados, e sua vida, mais
e mais precária. “O clima neoliberal é tal que se tornou uma política urbana
aceitável não resolver os problemas dos bairros e populações pobres, e sim
eliminar esses locais por táticas sofisticadas ou brutais”, escreveu Guy
Baeten[32]. O “planejamento predatório” gera ciclos de especulação,
gentrificação, disparada no valor dos aluguéis e a dispersão física, sutil ou não,
tudo isso possibilitando a tentativa de substituição dos bairros pobres por
lucrativas zonas imobiliárias, corporativas, elitizadas ou turísticas[33].
Assim, as estratégias de gerenciamento de risco coletivas e mutualistas no
centro do bem-estar social keynesiano estão, em muitos casos, sendo
prejudicadas pela cultura individualizada de alocação de serviços, avaliação de
risco preventiva e rastreamento biográfico[34]. Sonhos utópicos de uma
sociedade de bem-estar social inclusiva se metamorfoseam nas realidades de
uma sociedade de exclusão baseada no controle punitivo e preventivo[35].
Bebendo na fonte do antiurbanismo de direita, um “orientalismo dos centros”
ressurgente[36] culpa patologias de indivíduos ou classes sociais das metrópoles
pós-coloniais por seus próprios fracassos. Tecnologias biométricas e genômicas
ajudam a projetar a trajetória futura de corpos individualizados[37], ao mesmo
tempo que as prisões se preocupam menos em reformar e reabilitar do que em
simplesmente armazenar ou remover subclasses de risco inteiras.
Polícia militar
Enquanto o poder disciplinar isola e confina territórios, medidas de segurança levam a uma
abertura e globalização. Enquanto a lei quer coibir e prescrever, a segurança quer intervir em
processos correntes para direcioná-los.[38]

Conforme a política de segurança se concentra na antecipação e na


elaboração de perfis como meios de separar pessoas e circulações que oferecem
risco das que não o oferecem, dentro e fora dos limites territoriais das nações,
um processo complementar está em andamento. O policiamento, o
cumprimeiro da legislação civil e os serviços de segurança estão se fundindo em
um grupo vagamente organizado e internacional de “forças de segurança”
(para)militares. Uma “policialização das forças militares” ocorre em paralelo
com a “militarização da polícia”[39]. Os militares cada vez mais fazem uso de
espaços urbanos domésticos, assim como os grandes departamentos de polícia
urbana, como o de Nova York, constroem cadeias globais de escritórios nas
grandes cidades de outras nações soberanas para lidar com as circulações
transnacionais[40]. “O policiamento de alta intensidade” e a “guerra de baixa
intensidade” ameaçam se fundir, desafiando as restrições legais históricas ao uso
de força militar dentro de nações ocidentais[41].
No processo, tanto a polícia quanto as forças militares de Estado cada vez
mais se preparam para colocar supostos inimigos e riscos na mira tanto dentro
quanto fora dos limites do território nacional. Na ausência de um inimigo
uniformizado, os próprios grupos urbanos se tornam o inimigo principal. A
“figura generalizada do inimigo”, então, “efetivamente se vira do avesso”,
comenta Susanne Krasmann[42]. As operações do policiamento militarizado e
das Forças Armadas “policializadas” administram os limites ao redor dos
complexos arquipélagos de privilégio e poder – onde aqueles que não
representam risco e precisam de proteção vivem, trabalham e se divertem –,
bem como garantem o cumprimento das regras nos arquipélagos emergentes de
descarte, armazenamento e encarceramento humanos. Uma próspera gama de
organizações de segurança e militares privadas – voltadas em grande parte para
as supostas necessidades de segurança dos grupos poderosos e abastados –
fornece uma camada adicional de proteção securitizada (Figura 4.1).
Turnover
Nº de Funcionários de Funcionários da
País (milhões de
empresas segurança privada polícia (1997)
€/ano)

não
Dinamarca 413 5.000 12.230
disponível

França 3.000 1.356 107.000 227.000

Alemanha 3.000 4.000 145.000 263.000

não
Grécia 400 5.000 39.350
disponível

Itália 800 1.100 45.000 279.000

não
Polônia 6.000 200.000 102.000
disponível

Espanha 990 2.367 90.000 180.000

Turquia 4.000 1.300 82.000 175.000

Reino
2.000 1.300 220.000 185.000
Unido

Ano 1970 1980 1990 1997 1998 2002 2005

Empresas 325 542 835 2.065 2.100 3.000 3.000

Funcionários 47.400 61.700 105.000 121.329 138.000 145.000 200.000

Turnover (bilhões €) 0,3 0,51 1,2 2,0 5,1 4,0 6,0

4.1 Na página anterior, os mundos em ascensão da segurança privada pela Europa. Acima, um quadro
detalhado da Alemanha.

Conforme esses processos avançam, o uso de força militar dentro das


nações se torna muito mais comum. Agências de segurança locais, urbanas e
internacionais convergem. As práticas de cumprimento da lei se tornam mais
militarizadas, com simulações de “guerras urbanas” domésticas e de conflitos
“de baixa intensidade”, o uso de drones não tripulados, equipes da força tática,
“armas não letais” e reconhecimento por satélite militar para administrar as
cidades de um país. Na Austrália, por exemplo, uma revisão política de 2006
estabeleceu a “segurança doméstica” como a nova “atividade central” das Forças
Armadas australianas. Portanto, missões especiais do Exército australiano agora
incluem “segurança de eventos especiais” (convenções, cúpulas, eventos
esportivos) e responder a “terrorismo na cidade toda”[43]. Enquanto isso, nos
Estados Unidos, as autoridades federais pediram às polícias municipais que
assumissem mais responsabilidades pelos controles de imigração
internacionais[44].
Ao mesmo tempo, técnicas de guerra expedicionária são cada vez mais
utilizadas em desafios de estilo policial. Teorias da criminologia são absorvidas
enquanto exércitos empregam antropólogos para explicar o terreno cultural de
cidades ocupadas. Finalmente, a presença colonial militarizada agora deve, por
antecedência, distinguir o insurgente, o terrorista e o simples elemento de risco
dos milhões de pessoas que não impõem risco ou impõem menos risco,
quando na realidade as pessoas são, para todos os efeitos, idênticas e
indistinguíveis.

Arquiteturas de controle
Conforme a função de policiamento da fronteira é prejudicada ou interrompida, deve ocorrer
um policiamento mais generalizado da população.[45]

Essa complexa diluição é sustentada por um complexo conjunto paralelo


de arquiteturas e controles que se concentram em postos de controle, muros e
zonas de segurança, integrados a sistemas de rastreamento e monitoramento
computadorizado (biometria, circuito integrado de câmeras, mineração de
dados, chips de radiofrequência, GPS). Assim, escrevem Louise Amoore
Stephen Marmura e Mark Salter:

além das características geofísicas tradicionais, a fronteira assumiu atributos virtuais,


“desterritorializados” também. Castelos, cidades muradas, longas muralhas fronteiriças foram
substituídos por comunidades fechadas, vastas zonas de demarcação e administração por
“controle remoto”.[46]
O ponto aqui é simples: se o poder contemporâneo tanto nas cidades
“domésticas” quanto nas das “zonas de guerra” é uma questão de tentar separar
os espaços, as zonas, os privilégios e mobilidades reservados àqueles que são
livres de risco (que precisam de proteção) das populações e infiltrações de risco
que os cercam, então a única maneira possível de fazer isso é por antecipação,
digitalmente e com um alto grau de automação tecnológica. Como resultado, o
processo militarizado de definir alvos se torna crucial, e algoritmos dos
softwares que policiam de modo contínuo a “esfera dos dados” legíveis por
computador em busca de comportamentos, circulações, pessoas ou presenças
com potencial nocivo assumem o poder político e soberano.
Esse processo “reinscreve a geografia imaginativa do “outro” pervertido,
atípico, anormal dentro dos espaços da vida diária”, escreve Amoore[47]. Aqui,
em uma intensificação da lógica do controle militarizado, a inimizade
imaginada adentra o código que move as simulações computadorizadas de
normalidade, ameaça e guerra securocrática. Sistemas eletrônicos misturam
sensores, bancos de dados e redes de comunicação, prometendo a possibilidade
de serem “ativados e desativados para distinguir entre amigo e inimigo”[48].
Eles cobrem a gama completa, da identificação automática de movimentos
humanos “de risco” em uma plataforma de metrô, passando por transações
eletrônicas ou padrões de uso de internet incomuns, até sistemas
automatizados de definição de alvos em drones não tripulados. Dessa forma,
tecnologias de segurança introduzidas para um grupo, problema ou propósito
específico ameaçam evoluir para sistemas generalizados, interoperáveis
polivalentes.

Enclaves agitados
A fortaleza […] existe em duas zonas: uma de realidade física (muros e muralhas), e também
uma zona de virtualidade (preocupada com os movimentos ou fluxos de informação e
inteligência).[49]

A guerra securocrática envolve a reconfiguração de cidades em expansão,


conforme cada vez mais espaços dentro delas são transformados em ambientes
que se assemelham a campos amparados por forças de segurança privadas;
limites enrijecidos, impermeáveis ou militarizados; sistemas de segurança de
alta tecnologia e conexões infraestruturais customizadas com as outras partes.
As geografias urbanas se tornam cada vez mais polarizadas, e cidades vivenciam
uma militarização palpável, enquanto as elites separatistas lutam para se
recolher em cápsulas fortificadas.
O geógrafo Stephen Flusty notou que os enclaves urbanos, como ele
coloca, estão se tornando mais “agitados” e “irascíveis”[50]. Também mais
voltados para dentro, eles militarizam o esforço de demarcar e policiar suas
fronteiras com o exterior urbano. Fica bastante claro para os intrusos
considerados ilegítimos que devem ir embora ou então enfrentar sérias
consequências.
Enclaves urbanos com bordas enrijecidas, notáveis entre os “produtos
espaciais” do neoliberalismo transnacional, são difíceis de não ver hoje em dia.
As zonas econômicas especiais, estabelecidas para seduzir corporações a usar
mão de obra local barata e disciplinada em suas atividades de manufatura e
logística, cada vez mais operam como universos quase autônomos, removidos
de suas cidades e nações de origem[51]. Enclaves financeiros offshore, além de
centros hipergentrificados das principais cidades globais, como Londres, se
apresentam como utopias para os super-ricos. Surgem enclaves de “turismo de
guarnição” envoltos por cercas de arame farpado mais comuns em bases
militares, em especial quando localizados em nações em desenvolvimento
dominadas pela miséria massificada, como o Haiti[52].
Projetos de navios de cruzeiro gigantescos, como o Freedom Ship, são
anunciados como verdadeiras cidades marítimas. Repleto de passarelas sobre o
deque, galerias comerciais e até pistas de patinação no gelo, o Freedom Ship
promete oferecer aos über-ricos do mundo os confortos da separação territorial
permanente, mas móvel.
Mesmo algumas áreas centrais abertas da cidade estão sendo reorganizadas
como colchas de retalhos de business improvement districts privados[53] (BIDs)
[a], comprometidos com a agenda política das empresas locais e muitas vezes

equipados com suas próprias organizações de segurança. Voltados para a


melhoria da qualidade de vida dos consumidores mais endinheirados, esses
empreendimentos de segurança são encarregados de excluir pessoas que não
“pertencem”. Levando a lógica dos “shopping centers sem muros” ainda mais
longe, alguns distritos no centro das cidades, como a área da Paradise Street,
em Liverpool, hoje se tornaram completamente privatizados. Nas ruas urbanas
privatizadas, donos de corporações agora podem estipular direitos de acesso e
estilos de gerenciamento de segurança típicos de ambientes puramente
comerciais.
No Reino Unido, por exemplo, a disseminada equação da privatização com
“renascimento urbano” ou “revitalização” em cidades desindustrializadas levou
à transferência por atacado de ruas e distritos para corporações. Em um
levantamento sobre a tendência, Paul Kingsnorth, do jornal e Guardian,
descobriu que

de parques a passeios para pedestres, de praças a mercados públicos, os espaços públicos estão
sendo comprados e fechados, muitas vezes com pouca consulta ou publicidade. O aumento do
número de espaços públicos em poder de corporações significa que as normas legais agora
legitimam o consumo enquanto proíbem pedintes, sem-teto, artistas de rua, skatistas, ciclistas e
atividades políticas.[54]

Essas tendências estão intimamente ligadas ao crescimento da política de


policiamento urbano de “tolerância zero”. Regimes de segurança se concentram
em conquistar a “urbanidade controlada”, que envolve a remoção, demonização
ou encarceramento de consumidores fracassados; a instalação de novos meios
de controlar o acesso ao espaço; e a criação de instalações para
empreendimentos de lazer urbano, turismo e megaeventos esportivos. O foco
do policiamento se volta cada vez mais para os crimes de “qualidade de vida” –
comportamentos e indivíduos considerados fora de lugar e transgressores
dentro das geografias em polarização das cidades de alta desigualdade.
No entanto, mais do que isso, a política social, o desenho urbano e o
policiamento contribuem com o que Jock Young chamou de “sociologia de
revanchismo”: uma gama de instrumentos criados para humilhar e diminuir
por meio de estereótipos e bodes expiatórios de indivíduos fracassados,
comunidades fracassadas e mundos sociais transgressores[55].
Assim, o mobiliário das ruas é redesenhado como uma forma de inibir o
conforto dos sem-teto. Os subsídios de bem-estar social são reduzidos para
punir grupos considerados irresponsáveis, desrespeitosos, preguiçosos ou de má
aparência. O tratamento punitivo dado aos “ilegais” é justificado retratando-os
não como essenciais às economias bem-sucedidas do Ocidente, mas como
contágios criminosos e invasivos que ameaçam uma ideia de nação definida em
termos limitados. No processo, cada vez mais, o policiamento judicial “se torna
uma variação de contrainsurgência conforme o crime passa a ser
crescentemente administrado e delineado como um modo de circulação
econômica clandestina”[56].
Essas transformações levaram o filósofo Gijs van Oenen a propor que o
período atual está marcado por um afastamento do ideal urbano moderno de
cidadania interativa rumo ao que ele chama de uma “visão de segurança
interpassiva”. Para ele, a marca disso é uma cultura urbana em que “a busca
principal não é pelo encontro ou pelo confronto, mas pela segurança”[57]. Van
Oenen argumenta que essa mudança ajuda a explicar a proliferação de
seguranças urbanos, conforme os cidadãos terceirizam “a preocupação com
comportamentos civilizados”[58]. No entanto, a passividade não deve ser
superestimada: por exemplo, muitas iniciativas de segurança estatal atuais
recrutam ativamente os olhos dos cidadãos para policiar os espaços cotidianos
das cidades em busca de sinais de algo incomum.
Enquanto isso, centros comerciais-financeiros estratégicos cada vez mais
estão rodeados por muros citadinos em estilo medieval, bem como zonas de
segurança criadas com câmeras de circuito interno inteligentes, pontos de
checagem e bloqueios. Além de serem reorganizados por meio da instalação de
pontos de checagem, centros estratégicos, como Washington e Nova York,
tiveram seus mobiliários de rua e seu paisagismo redesenhados como meios
dissimulados de reforçar a proteção antiterror de alvos visados[59] (Figura 4.2).
Muitos distritos diplomáticos estão sendo reformados de maneira semelhante.
Em ações que lembram a Guerra Fria, o governo dos Estados Unidos também
encorajou alguns de seus principais complexos de escritórios centrais a se
proteger em edge cities[b]. Deborah Natsios expressa a preocupação de que,
nesses locais, “o espaço civil está coincidindo com o espaço de segurança estatal
– uma threatscape”, ou seja, um domínio-chave do multifacetado campo de
batalha informacional de tecnologias de controle militar e “guerras de rede”.
Esses “acessórios de segurança de mourões, arame farpado, vidro blindado ou
protegido por filme, câmeras de circuito fechado e sinalização de confronto”
nos complexos militarizados em áreas suburbanas abastadas são apenas
“indícios externos de tecnologias mais disfarçados sendo utilizados para
administrar o meio civil”, escreve ela[60].
4.2 Pesquisa de Jeremy Nemeth sobre urbanismo em zonas internacionais e pontos de passagem, no estilo
de Manhattan. As imagens (a) e (b) mostram a situação em Nova York; o mapa (c) mostra espaços
públicos que foram limitados ou completamente fechados dentro e ao redor de “zonas de segurança” em
ascensão no distrito governamental civil ao redor da prefeitura (retratado na 4.2b) e no distrito financeiro
ao redor de Wall Street (retratado na 4.2a).

Assim, o desenho urbano se torna saturado daquilo que Trevor Boddy


chamou de “uma arquitetura de desconforto” conforme os contratempos são
aumentados, as estradas, fechadas, barreiras e mourões são inseridos nos
perímetros, e fontes e detalhes da paisagem são projetados para funcionar como
“armadilhas” desmoronáveis para interceptar caminhões-bomba[61]. Em alguns
casos de grande visibilidade, em especial o da prolongada reconstrução do
“Marco Zero” em Lower Manhattan, o projeto da base inteira dos prédios
consiste em maçicos bunkers de concreto desenhados para acomodar explosões
em vez de pessoas. “Por razões de segurança o projeto [da base da ‘Torre da
Liberdade’] foi transformado em nada além de um bunker: uma estrutura de
mais de sessenta metros de altura que consiste em titânio e aço inoxidável”,
observa Adrian Parr[62].

Urbanismo de ponto de passagem


O novo bunker é uma passagem de um ponto a outro.[63]

É claro que o endurecimento dos enclaves urbanos não começou no dia 12


de setembro de 2001. Esses processos estão estabelecidos há tempos, têm
genealogias profundas e são anteriores à Guerra ao Terror. Como Barbara
Hooper sugere, a sensação de vertigem criada pela reestruturação econômica,
cultural e política das cidade globais há muito tempo “produziu uma
preocupação potencializada em relação às fronteiras; uma situação de luta por
espaços e sentidos; um ambiente de medo que se manifesta como racismo e
xenofobia nefastos”, no qual determinados indivíduos são marcados como
“portadores perigosos da desordem, incubadores e agentes de contágio na
epidemia global da diminuição do poder ocidental”[64].
Esses locais estão prontos para a proliferação de arquiteturas sociais de
secessão urbana. As últimas décadas testemunharam a difusão de comunidades
fechadas horizontais e verticais, em particular; seu crescimento foi
especialmente rápido em cidades marcadas pela hiperdesigualdade e pelas
ansiedades das classes alta e média em relação a ruas abertas. Nos Estados
Unidos, por exemplo, mais da metade das novas moradias em partes do sul e
do oeste hoje é construída em comunidades planejadas e fechadas[65]. Em
cidades como São Paulo, Manila, Bogotá e Jacarta, faz tempo que as elites se
agruparam em enclaves fortemente militarizados, conectados por frotas de
carros blindados e, no caso de São Paulo, pela forma máxima de secessão
urbana: mais de 70 mil voos de helicóptero por ano na área central da
cidade[66]. Comunidades fechadas também estão se proliferando no Reino
Unido. Na África do Sul pós-apartheid, conforme o crime e o medo do crime
aumentam, a arquitetura do fechamento das ruas e do cercamento de bairros
surgiu dos escombros dos sistemas de segregação em larga escala do
apartheid[67].
Essas arquiteturas operam “na falsa esperança de criar rigidez e garantir a
diferença”[68] em meio às volatilidades e polarizações da vida na cidade
contemporânea. É por meio delas que se materializa o “outro”: quanto mais se
constroem espaços domésticos capsulares e luxuosos, com seu fascínio mítico
da certeza, da homogeneidade, da ordem e do controle, mais eles estão sendo
cercados por configurações de tentativas de afastamento da cidade aberta
perigosa, racializada e muitas vezes tomada pela pobreza. Comunidades
fechadas, então, encarnam a guerra securocrática com tanta força quanto a
militarização das fronteiras internacionais. Mas elas funcionam em uma escala
diferente e complementar. Ambas as arquiteturas de exclusão, nas palavras de
Vincenzo Ruggiero, “associam outros lugares com o que é contaminado, sujo,
ofensivo à moral e ao olfato”[69].
Aliás, o afastamento para moradias cada vez mais defendidas, enclaves
cercados e vidas interiorizadas parece intimamente ligado à condução de meios
explicitamente militarizados de administrar o universo público mais amplo da
cidade. Rowland Atkinson e Sarah Blandy apontam para a crescente
“agorafobia do sujeito urbano contemporâneo e a necessidade de encontrar
conchas para habitar, de modo que a segurança, a vida do lar e o projeto de eu
sejam plenamente garantidos”[70]. Eles também sugerem que os residentes de
enclaves murados em sociedades hiperdesiguais costumam usar forças
extralegais contra pessoas que consideram transgressoras de seus limites. O
resultado é um tipo de guerra social e civil para controlar o espaço doméstico,
que se torna integrado às rotinas sociais dos lares[71].

Colônias flutuantes, gulags globais


Abu Ghraib, Guantánamo e outras prisões militares estado-unidenses marcam o tipo de
expansão penal que ocorre no contexto das guerras sem fim: guerras contra as drogas, o crime e
o terror.[72]

Não se pode esquecer que, muito além da proliferação dos enclaves


urbanos fortificados ou agitados, há os arquipélagos de encarceramento –
cercados pelo que há de mais avançado em limites urbanos –, que também
estão aumentando em um ritmo impressionante pelo mundo. Essa proliferação
de prisões está ocorrendo conforme os sistemas legais e de policiamento cada
vez mais punitivos e autoritários não apenas criminalizam, mas também
removem por completo grandes segmentos de grupos indesejados. Conforme
as diásporas pós-coloniais levaram o “exterior” colonial para o “interior”
metropolitano, zonas em que a pobreza urbana se intensifica muitas vezes
falharam em manter mercados normais de serviços, habitação e trabalho,
permitindo que lugares como os banlieues franceses se tornassem, nas palavras
de Alain Joxe, “confins puramente militares de novo”[73].
Claro, o controle militarizado também engloba o encarceramento penal.
Em muitas nações, pesadas sentenças prisionais agora são impostas para crimes
menores, incursões ligadas à qualidade de vida, protestos e simples pobreza.
Grupos inteiros de populações urbanas estão sendo criminalizados e
encarcerados para proteger o resto da população de seu comportamento futuro
previsto[74]. Aliás, como defende Zygmunt Bauman, em vez de ser organizado
para a reabilitação social, o confinamento funciona cada vez mais como “uma
alternativa ao emprego; uma forma de eliminar, ou neutralizar, uma parcela
considerável da população que não é necessária como produtora”[75].
As sociedades mais neoliberais e hiperdesiguais estão chegando a um
estágio que Jonathan Simon chama de “hiperencarceramento”[76]. Nos Estados
Unidos – talvez o exemplo mais extremo –, em 2008, mais de 2,3 milhões de
pessoas muito pobres estavam encarceradas em um crescente gulag de centros
de correção, alimentando um complexo industrial-prisional privatizado em
expansão (Figura 4.3)[77]. Isso representa um aumento de quase 1.000% desde
1950. Com 5% da população do mundo, em 2004-2005 os Estados Unidos
contavam com exatos 24% de seus prisioneiros. Mais de 1 milhão desses
internos eram negros[78]. Enquanto mais de um em cem adultos estado-
unidenses estavam atrás das grades em 2008, exatos um em cada nove homens
negros estado-unidenses entre 20 e 34 anos estavam encarcerados[79].
4.3 No alto, população encarcerada em presídios federais nos Estados Unidos, 1910-2004, e, embaixo, a
proliferação geográfica desses presídios entre 1950 e 2005.

De muitas formas, a tendência ao hiperencarceramento nos Estados


Unidos pode ser mais bem compreendida como um processo de guerra
governamental dentro do solo norte-americano. Essa guerra tem como alvo
classes raciais e sociais inteiras e seus distritos urbanos; enquanto isso, a nação
se torna uma incomparável “democracia penal”[80].
Aqui, temos outro poderoso exemplo do efeito bumerangue foucaultiano.
A explosão do encarceramento nos Estados Unidos acompanha a construção de
um sistema global de rendição, encarceramento e tortura extraordinários dos
“outros”, ambos os sistemas usando técnicas similares[81], empresas de
segurança privada, formas de abuso[82] e suspensões legais. Brady omas
Heiner sugere que esse “arquipélago estado-unidense” funciona tanto como
matriz quanto como circuito. “É um circuito à medida que suas técnicas
carcerárias e seus meios de administração são criados, normalizados e
refinados”, e é organizado “em um ciclo de retroalimentação que circula entre
os ‘espaços negros’ coloniais estado-unidenses nacionais e estrangeiros”[83],
escreve ele.
Assim, cada vez mais, os interiores e exteriores coloniais estado-unidenses
são mutuamente organizados. Em uma dinâmica negligenciada da
globalização, eles se indiferenciam em um arquipélago transnacional de
subjugação que combina o que Heiner chama de aspectos “macrogeográfico” e
“microarquitetônico” do urbanismo militar. Ele escreve:

Tendo sido usadas com o propósito de colonizar o interior racializado dos Estados Unidos e
refinadas pelo complexo industrial-prisional, as técnicas de encarceramento e tortura estão
sendo sistematicamente reimplementadas no exterior pelos militares estado-unidenses e por
regimes mercenários terceirizados para colonizar suas populações racializadas no exterior.[84]

Judith Butler chama esse complexo de nova prisão de guerra[85]. Nos


primeiros quatro anos da Guerra ao Terror, mais de 80 mil pessoas no mundo
todo foram detidas sem julgamento pelos Estados Unidos[86]. Em março de
2007, o número de civis detidos sem julgamento no Iraque pelas forças estado-
unidenses ficou em mais de 17 mil[87]. Em setembro do mesmo ano, depois da
“escalada” de tropas estado-unidenses em Bagdá, o número aumentou para
23.508. Mais 21.327 iraquianos foram encarcerados pelas forças de segurança
do Iraque. Espera-se que até mesmo essas somas aumentem
consideravelmente[88].
Brady omas Heiner argumenta que a construção dessa prisão de guerra
transnacional tem o efeito de abrir caminho para o investimento de capital
estado-unidense no exterior e neutralizar a resistência, em outras terras, à
evolução da administração colonial dos Estados Unidos[89]. De fato, em
resposta às revelações de tortura sistemática em Abu Ghraib e Guantánamo,
Amy Kaplan prevê um futuro dominado por uma “colônia flutuante”
normalizada em que a segurança nacional “vai depender cada vez mais da
proliferação desses espaços móveis e ambíguos entre o doméstico e o
estrangeiro”[90].
Enquanto isso, nas cidades em expansão do Sul global, a guerra
securocrática com frequência tem sido lançada contra assentamentos informais,
que costumam ser demolidos, eliminados ou cercados por fronteiras
militarizadas por causa da ameaça que parecem representar ao corpo político, à
saúde pública ou à conquista do objetivo da cidade de ser considerada global,
de tecnologia avançada, moderna ou atraente para o mundo mais amplo[91].
Como Loïc Wacquant destaca ao analisar a violência de Estado contra as
favelas do Rio ou de São Paulo, muitos governos estão recorrendo a uma
estratégia de “contenção punitiva” em relação a cidades informais – “o
gerenciamento das populações despossuídas e desonradas da cidade polarizada
na era do neoliberalismo triunfante”[92].
Para Wacquant, as cidades brasileiras, em especial, funcionam como um
“revelador histórico de todas as consequências do descarte penal do detrito
humano de uma sociedade inundada por insegurança social e física”. Ele
argumenta que, além do mais, como “pistas de teste” para o Estado neoliberal,
as favelas do Brasil, os guetos afro-americanos dos Estados Unidos, os banlieues
franceses e outros espaços para o descarte ou o armazenamento dos excedentes
da humanidade sob o capitalismo são os locais onde exemplares de guerra
securocrática estão “concretamente sendo desenvolvidos, experimentados e
testados”[93]. Naomi Klein alegou que os experimentos de Israel em encarcerar
a população inteira de Gaza e da Cisjordânia têm um papel similar[94]. Da
mesma forma, na cidade indiana de Chandigarh, os moradores das favelas
agora precisam “fornecer os detalhes como suas impressões digitais, fotografias,
reconhecimento facial, reconhecimento de voz, assinatura, formato da mão”
para um sistema de identificação biométrico que não cobre o restante da
população da cidade[95].
Em casos extremos, forças paramilitares mobilizadas para guerras
securocráticas internas tentam impor novas fronteiras biopolíticas internas
baseadas na negação de direitos de cidadania ou da lei humanitária
internacional a minorias racializadas[96]. Há uma lista cada vez mais longa de
exemplos de estados de exceção intraterritoriais resultantes, dos quais a postura
de ignorar sistematicamente os afro-americanos pobres e descartáveis de Nova
Orleans talvez seja o mais impressionante[97]. O ataque aos moradores dos
banlieues de Paris adentrando o centro da cidade, desde os grandes protestos de
2005, é outro exemplo revelador, marcado por um disseminado discurso de
que “bárbaros” estariam dentro dos portões não só da cidade, mas da cidade-
ícone da modernidade ocidental[98]. Um terceiro exemplo relevante é o uso de
táticas de atirar para matar, em estilo israelense, na aplicação de novas políticas
de fronteiras internas, que resultou na morte de Jean Charles de Menezes em
uma estação de metrô de Londres em 22 de julho de 2005[99]. Finalmente, na
Itália, a mobilização, o registro e a tentativa de eliminação de indivíduos
ciganos e roma e seus acampamentos pelo governo Berlusconi pós-2008
revelam o risco de tomadas neofascistas em democracias liberais do começo do
século XXI[100].

Faces do terror
Por meio de práticas que imitam as técnicas de contrainsurgência urbana
nas ruas de Bagdá, sistemas de infraestrutura e distritos inteiros agora estão
sujeitos ao escrutínio remoto, visual e eletrônico. Como modelo da nova
“sociedade de monitoramento”, o Reino Unido tem ampliado os limites, de
forma mais notória ao espalhar sistemas de circuito interno de monitoramento
avançados. Ainda que esses sistemas públicos de circuito interno de
monitoramento estejam sendo instalados rapidamente em cidades ao redor do
mundo, eles cobrem as cidades britânicas com mais intensidade do que
qualquer outra nação. Para funcionar, as 4,5 milhões de câmeras de circuito
interno instaladas no Reino Unido[c] contam de maneira esmagadora com o
poder de decisão dos operadores humanos. Indícios consideráveis de sua
ineficiência, combinados com seu custo extraordinário[101], não impediram
que esses sistemas fossem divulgados como amigáveis “olhos nos céus”,
afastando uma miríade de ameaças à vida urbana britânica. Apesar do fato de
essas câmeras terem sido obviamente impotentes para evitar que homens-
bomba cometessem atrocidades nos sistemas de transporte de Londres em 7 de
julho de 2005, essa projeção de um escrutínio ostensivamente benigno (e quase
divino) sob uma enorme quantidade de olhos eletrônicos de fato se intensificou
durante a Guerra ao Terror.
Depois dos primeiros experimentos de software de reconhecimento facial
em Newham, Birmingham, Tameside, Manchester e em outros lugares, tem
ganhado força uma transição para os circuitos internos de monitoramento
digital, que utilizam algoritmos de computador para fazer buscas
automatizadas de pessoas ou comportamentos estipulados. Mais uma vez, essa
mudança exemplifica o efeito bumerangue, pois faz um paralelo com
experimentos de reconhecimento facial e circuitos de monitoramento
inteligentes usados para pacificar insurgências urbanas no Iraque (ver a
discussão da iniciativa “Combat Zones at See” no capítulo 5, p. 233-6)[102].
Embora grandes obstáculos técnicos ainda impeçam que sistemas de
monitoramento com reconhecimento facial operem efetivamente ao ar livre nas
ruas das cidades, pesquisas e progressos consideráveis estão sendo feitos para
lidar com os problemas. Isso é parte de uma exploração muito mais ampla,
muitas vezes financiada com o apoio da Guerra ao Terror dos Estados
Unidos/Reino Unido, do uso de sistemas “inteligentes” de câmeras de circuito
interno para rastrear milhões de pessoas no tempo e no espaço. No jargão da
indústria, isso se chama “rastreamento espaçotemporal multiescala” com base
em “análises de vídeo inteligentes”[103].
Esse rastreamento avançado depende de conectar “ilhas” de circuitos
internos de primeira geração a extensos sistemas integrados e utilizar
algoritmos de computador para buscar incessantemente comportamentos,
movimentos, objetos e pessoas categorizados como perigosos ou nocivos.
Computadores, não operadores de câmera, fazem a observação de fato.
Quando reconhece uma figura humana em um determinado local, por
exemplo, um sistema como esse pode construir uma avaliação das atividades
“normais” de pessoas naquele local ao longo do tempo. Um comportamento ou
evento que seja “incomum” ou “anormal” no local, como a chegada de um
ciclista a um estacionamento dominado por carros, seria então
automaticamente identificado e marcado como ameaça potencial.
Desde setembro de 2001, lobistas e grupos de indústrias declararam
amplamente que “se nossa tecnologia [de reconhecimento facial] fosse
empregada [nos aeroportos dos Estados Unidos em 11 de setembro], a
probabilidade é que [os terroristas] tivessem sido reconhecidos”[104]. Como
consequência, câmeras de circuito interno com reconhecimento facial
colonizaram com rapidez pontos de passagem facilmente monitoráveis, em
especial controles de segurança e passaporte dos aeroportos e eventos esportivos
de alta visibilidade. Essa tecnologia, os lobistas prometem, vai rastrear “de
verdade” indivíduos malignos, em tempo real e remotamente, superando seus
esforços de se disfarçar. Um relatório da Visionics, uma fabricante líder,
prometeu que suas tecnologias de reconhecimento facial não fariam menos do
que “Proteger […] a Civilização das Faces do Terror”[105]. Seduzida por essa
hipérbole, a Interpol anunciou em outubro de 2008 estar no processo de
desenvolver um sistema internacional de circuito interno com reconhecimento
facial para integrar a triagem nas principais fronteiras[106].
O investimento e a pesquisa dramaticamente intensificados em câmeras de
circuito interno com reconhecimento facial após o 11 de Setembro exploraram
com perfeição a ideia do que Kelly Gates chama de “‘outro’ inimigo, amorfo,
racializado e fetichizado que penetrou tanto o território nacional quanto o
imaginário nacional”[107]. Foi dada a largada para o desenvolvimento de
sistemas apropriados para os “novos ‘outros’ ‘não identificáveis’ da nação” –
pessoas com “aparência do Oriente Médio”[108]. Assim, a busca tecnófila por
um sistema expandido e difundido de rastreamento dos rostos
biometricamente escaneados de suspeitos corre em paralelo com a ideia,
propagada pelo pânico moral que invadiu a mídia nacional, “de que certos
rostos podem ser, inerentemente, ‘faces do terror’ – de que indivíduos
personificam o terror ou o mal no rosto”. Isso, segundo Gates, só pode
“invocar um discurso paranoico de alteridade racializada”[109].
A perspectiva de câmeras de circuito interno “inteligentes” buscando
continuamente elementos “anormais” ou “ameaçadores” em cidades e nações
inteiras pode, no fim das contas, prefigurar o colapso do consagrado conceito
de anonimato urbano. Se as muitas dificuldades técnicas que atualmente
limitam o uso dessas tecnologias forem enfrentadas com sucesso, os agentes de
segurança e da lei logo poderão, remota e secretamente, identificar indivíduos
por meio de bancos de dados e rastreá-los sem interrupção, não importa aonde
forem. Para Phil Agre, uma mudança para o rastreamento em larga escala
usando câmeras de circuito interno com reconhecimento facial conduziria a
uma “tremenda mudança no conceito que nossa sociedade tem de pessoa
humana”: para ele, as pessoas “deparariam com estranhos as chamando pelo
nome”[110] no que antes costumavam ser encontros anônimos nas ruas e
espaços comerciais da cidade.
Como se pode imaginar, regimes autoritários como a China não perderam
tempo em explorar essas novas tecnologias. O plano governamental chinês
Escudo Dourado tenciona formar bancos de dados com imagens faciais do 1,5
bilhão de pessoas da nação e conectá-los a sistemas de rastreamento com
câmeras de circuito interno que abranjam todas as principais cidades. É
provável que Shenzen sozinha, com seus cerca de 10 milhões de pessoas, tenha
2 milhões de câmeras[111]. Da mesma forma, o governo britânico está
encurtando a rédea. Um relatório do Ministério do Interior do Reino Unido
anunciou uma pesquisa para “determinar os requisitos da polícia e a viabilidade
para um banco nacional de imagens faciais”[112] que se conectaria com bancos
de dados equivalentes de íris, DNA e impressões digitais e seria alimentado por
bancos de dados existentes de imagens biométricas de passaporte. Como
exames de DNA já estão sendo mobilizados em casos de infrações menores no
Reino Unido (Figura 4.4), a clara preocupação é que um banco de dados
biométrico nacional abrangente pode se tornar um meio através do qual tanto
a guerra securocrática quanto a renovação autoritária vão operar.
“CUSPIR e CORRER?
Você vai ser pego mesmo assim. DNA.
Todo ônibus, bonde e terminal de integração têm kits para teste de DNA. Cuspa em um funcionário e
você será localizado – e processado. Mesmo que nós não saibamos qual é sua aparência. E seus
antecedentes vão ficar na base nacional de DNA.
PARA SEMPRE.
CUSPIR? Não está com nada.
Mal comportamento não leva você a lugar nenhum.”

4.4 Aviso sobre o uso de exames de DNA para impedir comportamentos antissociais no transporte
público em Sheffield, Reino Unido.

“Linhas do Equador políticas” urbanas


A tendência à biometria nas fronteiras das cidades tende a ser mais
avançada nos lugares onde fronteiras internacionais entre países ricos e pobres
atravessam e formam complexos urbanos. Esses lugares apresentam instâncias
paradigmáticas de guerra securocrática, uma vez que as densas
interdependências da vida citadina apresentam uma tensão contínua com a
constituição do “outro” racializado e o endurecimento das fronteiras entre o
privilégio e a pobreza.
O complexo urbano mutuamente dependente de San Diego-Tijuana, por
exemplo, é seccionado por uma fronteira em rápida militarização entre os
Estados Unidos e o México. Isso é um exemplo do que Teddy Cruz chama de
“linha do Equador política” separando o Norte global e o Sul global. Aqui, no
entanto, ela funciona como uma caractetística arquitetônica de uma metrópole
em rápido crescimento, em vez de ser uma abstração geopolítica. Essa fronteira
urbana-nacional-global está sendo demarcada por uma “‘cerca virtual’ que
consiste em uma série de sensores, detectores de movimento, câmeras de raios
infravermelhos, torres de observação e drones aéreos” fornecidos pela Boeing e
pela empresa de defesa israelense Elvit[113].
As bordas urbanas da “fortaleza Europa” revelam arquiteturas semelhantes
de tentativa de controle. A Cruz Vermelha estimou em 2007 que entre 2 mil e
3 mil africanos se afogam todo ano tentando atravessar da África para a
Espanha continental e as ilhas Canárias[114]. Considerando esses números, não
é uma surpresa que os críticos rotulem as fronteiras militarizadas ao longo da
linha do Equador política entre o Norte e o Sul do mundo de “muros invisíveis
da morte”[115]. Como Ben Hayes e Roche Tasse escreveram,

A União Europeia agora está “protegida” daqueles que fogem da pobreza e da destruição por
um aparato formidável que inclui minas terrestres posicionadas ao longo da fronteira entre
Grécia e Turquia, navios armados e aeronaves militares que patrulham o Mediterrâneo e a costa
da África ocidental, além de uma polícia de fronteira pronta para atirar e cercas de arame
farpado ao redor dos enclaves espanhóis de Ceuta e Melilla no Marrocos.[116]

Somados a isso, drones não tripulados estão sendo mobilizados por meio de
um consórcio liderado pela Dassault Aviation, a maior fabricante da Europa de
aeronaves de combate, para mirar em “imigrantes ilegais”[117].
“Exércitos pop up”, zonas internacionais móveis
Muros, isolamento e encarceramento preventivo chegam a novos extremos
durante os “estados de emergência” que hoje são instaurados quando
acontecem cúpulas políticas, eventos esportivos globais e espetáculos de alta
visibilidade. Aqui, imitando os chamados “rings of steel” [anéis de aço] ao redor
de centros financeiros como o de Londres, estratégias de segurança
transformam distritos da cidade em “ilhas de segurança” temporárias e móveis
cheias de forças paramilitares, cordões militarizados e até mísseis terra-ar
(SAM)[118] – semelhantes à área internacional militarizada de Bagdá conhecida
como green zone [zona verde], criada para proteger as forças de ocupação e os
jornalistas ocidentais da escalada de violência do lado de fora.
Exemplos marcantes em que essas zonas internacionais móveis foram
criadas incluem a “batalha de Seattle” em 1999, os confrontos de Gênova em
2001 e as revoltas do Fórum Econômico Mundial em Cancún em 2003. Esses
casos demonstram o uso de táticas militares de comando e controle para
organizar as geografias rigidamente definidas do que Steve Herbert chamou de
“estado de zoneamento de protesto”[119], em que “a expressão de discordância
em grandes eventos é controlada com uma estratégia territorial: ela é banida de
algumas áreas e confinada a outras”. Zonas especiais são determinadas – zonas
de “acesso restrito” e “sem protestos”. Cordões da polícia militarizada, muitas
vezes complementados com detenções preventivas e a proibição do direito ao
protesto, tentam – com frequência de maneira violenta – confinar os
manifestantes por longos períodos em espaços onde têm pouca exposição à
mídia e poucas oportunidades de comunicar sua mensagem política[120]. O que
o urbanista Robert Warren cunhou de “exércitos pop up”[121] são uma
característica das batalhas urbanas quase medievais que hoje envolvem as
cúpulas do G8, do FMI e do Banco Mundial. Em Gênova, essas forças,
influenciadas por ideologias e talvez indivíduos fascistas, mataram um
manifestante e causaram ferimentos graves em muitos outros como punição
coletiva[122].
Gan Golan aponta que essa militarização da polícia, corroborada por
relatos manipuladores da mídia que representam os manifestantes apenas como
hordas de anarquistas ou terroristas violentos, ameaça desfazer a relação
histórica entre a democracia e as cidades. Como seus dados demonstram, o
policiamento das grandes demonstrações urbanas nos Estados Unidos hoje em
dia rotineiramente invoca estados de emergência preventivos como a base para
a revogação de direitos constitucionais, a prisão de manifestantes antes que
qualquer crime seja cometido e a detenção de jornalistas suspeitos de serem
solidários a eles[123]. O policiamento de protestos rotineiramente faz uso de
toda uma gama de técnicas espaciais preventivas, além de técnicas de
intimidação cuidadosamente orquestradas.
De muitas maneiras, essas operações são semelhantes àquelas que agora
protegem grandes eventos esportivos como as Olimpíadas ou a Copa do
Mundo[124]. “Mobilizações políticas de massa e grandes eventos esportivos e de
entretenimento agora resultam automaticamente em condições de lei marcial”,
comenta Robert Warren[125]. No entanto, a formação de cordões, muros e
cercos, muitas vezes para cidades inteiras ou sistemas de cidades dentro dos
quais os espetáculos são realizados, é tanto uma questão de gestão das marcas
globais e da transmissão televisiva quanto de manter os riscos à margem[126].

Colonizar o futuro
O comandante militar precisa ser capaz de viver no futuro.[127]

Agora que tanto a guerra quanto a securitização urbanas estão se


organizando ao redor da mira permanente em comportamentos e riscos futuros
por meio da análise de registros de monitoramento antigos, o poder político
está se concentrando cada vez mais nos algoritmos de computador necessários
para transitar pela massa de dados. Além de aumentar a diluição das distinções
militar-civil e interior-exterior, o desenvolvimento desses algoritmos “levou a
lógica da prevenção para os espaços mais prosaicos e mundanos”[128]. A atual
integração de chips de radiofrequência a bilhetes de transporte público, cartões
de fidelidade de lojas, produtos de consumo e passaportes, por exemplo, gera
rastros detalhados de movimentos das pessoas – uma vantagem para a
mineração de dados para segurança. Em muitos casos, a formação de enclaves
urbanos é acelerada e enrijecida por essas tecnologias.
Algoritmos de computador que continuamente mineram fluxos de dados
“possibilitam que se imagine uma economia global de pessoas, objetos e
moedas móveis, a ser reconciliada com o retrato de um Estado-nação
securitizado pós-11 de Setembro”, escreve Louise Amoore[129]. Essas técnicas
funcionam pela identificação de associações “ocultas” entre pessoas, grupos,
transações e comportamentos. Elas produzem, como destaca Amoore, uma
“forma de ‘culpa por associação’ na qual indivíduos, transações e circulações de
risco são assinalados e identificados”. Seus resultados muito reais incluem o
congelamento de ativos financeiros, o controle de remessas financeiras de
imigrantes, listas de pessoas impedidas de voar e o encarceramento ou detenção
extraordinária em fronteiras[130].
Um elemento crucial aqui é a adaptação de práticas comerciais de
mineração de dados e análises de previsão. Como em circuitos internos de
monitoramento “inteligentes”, algoritmos vasculham massas de dados
capturados em busca de padrões que indiquem o incomum ou anormal, e
então procuram pessoas, transações ou fluxos “alvo” que tenham essas
características[131].
Essas imagens alimentam movimentos altamente controversos na direção
do que as forças militares dos Estados Unidos chamam de “consciência
preditiva de campo de batalha”[132]. Um caso infame foi a proposta
apresentada em 2003 pelo então conselheiro nacional de segurança, almirante
John Poindexter, de criar um escritório de Total Information Awareness (TIA)
[Conhecimento Total de Informação]. Essa proposta foi “feita para combater o
terrorismo por meio da mineração de dados e análise de conexões, e pela
exploração de tecnologias como ‘assinaturas biométricas humanas’ e ‘análise de
rede humana’”. Em termos práticos, isso significava que o TIA “tentaria
identificar terroristas conectando bancos de dados, para então procurar
atividades suspeitas em registros financeiros, médicos, oficiais e de viagem de
milhões de estado-unidenses”[133].
A proposta do TIA foi rejeitada pelo Congresso dos Estados Unidos em
2003 por causa da enorme controvérsia gerada. No entanto, os programas que
o compõem ainda estão em andamento: eles foram apenas dispersos por outros
escritórios com menos visibilidade. Um desses programas, uma série
abrangente de “centros de fusão” local e regional nos quais se vai empreender a
mineração de dados contínua de conjuntos de dados diversos e
inimaginavelmente vastos, já está sendo estabelecido[134].
Também ficou claro que a mineração de dados geográficos corrobora a
vigilância preventiva interna e externa. Esse sistema – o sistema de
perfilamento geográfico Rigel, desenvolvido pela Environmental Criminology
Research Inc. (Ecri) de Vancouver – foi usado para procurar atiradores em
Washington, DC, em 2002. Em 2004 a Ecri foi agraciada com um contrato
com o programa National Technology Alliance (NTA) [Aliança Nacional de
Tecnologia] do governo estado-unidense, a fim de ampliar o sistema Rigel para
auxiliar na Guerra ao Terror. No fim de 2007, o Departamento de Polícia de
Los Angeles causou verdadeira comoção ao anunciar um grande programa para
mapear agrupamentos geográficos de muçulmanos na cidade a fim de realizar
análises sistemáticas de risco.

Fronteiras biométricas
Se um corpo se torna uma senha, ele deixa de ser um corpo?[135]

Além de todas as tecnologias de segurança anteriores que diluem as


separações entre interior/exterior e civil/militar, existem as tecnologias
biométricas de reconhecimento de íris, voz, passo, impressão digital e mão.
Assim como no caso do circuito interno de segurança de reconhecimento
facial, o objetivo aqui é superar a confusão, a camuflagem e o anonimato da
cidade com tecnologias que objetivamente determinam a identidade por meio
do exame físico das características supostamente únicas de cada corpo humano.
No entanto, isso é obscurecimento e mito políticos. “A tecnologia biométrica,
em sua forma atual”, escreve Heather Murray, “serve para categorizar corpos
em uma perigosa lógica discriminatória que não pode ser divulgada como
‘verdadeira’ nem ‘objetiva’”[136].
Em 2004, as forças estado-unidenses no Iraque começaram a usar táticas de
estilo israelense como muros, métodos de isolamento, a formação de zonas
militares sem restrições para o uso de armas de fogo ao redor de distritos
urbanos recém-cercados e a punição de famílias de supostos combatentes com
a ameaça de demolição de suas casas. As forças de ocupação também instalaram
postos de controle e sistemas com cartão de identificação dentro de vilas e
cidades. Em dezembro de 2004, um repórter da NBC chamado Richard Engel
observou que toda a população de Fallujah[137] – isto é, aqueles que haviam
sobrevivido à devastação quase completa da cidade por dois ataques estado-
unidenses naquele ano – teria “suas impressões digitais tiradas, faria varreduras
de retina e então receberia um cartão de identificação, que lhes permitiria
transitar ao redor de suas casas ou para centros de auxílio humanitário, que
estão sendo construídos”. Ele também comentou, quase de passagem, que
“fuzileiros navais serão autorizados a usar força letal contra aqueles que
desobedecerem as regras”[138].
Como parte da “destruição criativa” radical causada pela guerra no Iraque,
novas cidades-modelo deveriam surgir das ruínas. Elas estariam “repletas de
infraestrutura de segurança de alta tecnologia centrada em estratégias de
identificação biométrica para administrar os cidadãos que voltassem”[139],
coletivamente apelidadas pelos militares estado-unidenses de “biometric
automated toolkit” (BAT) [kit de ferramentas biométricas automatizadas].
Desde 2004, os BATs são usados “em operações [no Iraque e no Afeganistão]
para manter um banco de dados de terroristas, insurgentes, trabalhadores locais
e detentos”[140]. De acordo com um relatório do Corpo de Fuzileiros Navais
dos Estados Unidos, o uso de BATs significa que, em

uma questão de segundos, um fuzileiro naval trabalhando em um portão ou posto de controle


pode coletar dados biométricos de um indivíduo, buscar no banco de dados computadorizado
e procurar a correspondência com muitos outros registros que já estejam no banco de dados.
[141]

Desde abril de 2007, tecnologias biométricas andam lado a lado com a


tentativa de reconstrução de Bagdá como um arquipélago que inclui dez
enclaves em estilo palestino cercados por barreiras antiexplosão e organizados
em torno de linhas étnicas ou sectárias, acessíveis apenas por pontos de
passagem com controle militar ou biométrico (Figura 4.5)[142]. Porta-vozes
militares estado-unidenses cinicamente chamaram esses enclaves de
“condomínios fechados” e invocaram paralelos com os enclaves ultraplanejados
para os ricos que dominam os bairros residenciais suburbanos e semirrurais nos
Estados Unidos[143]. “Estão fazendo isso na Flórida, e os idosos parecem
gostar”, brincou um líder de pelotão, o sargento Charles Schmitt, enquanto
seus homens davam os toques finais em um novo muro.
4.5 Mapa da reestruturação de Bagdá em 2008 (no alto), enclaves sectários separados por muros e postos
de controle; e (embaixo) um mapa detalhado do sistema no bairro Sadr City.

No entanto, a efetividade das técnicas biométricas, mesmo em termos


militares, é altamente questionável. É irônico que a guerra tenha brutalizado
tanto os iraquianos do ponto de vista físico que “as mesmas partes do corpo
necessárias para provar a identidade possam estar danificadas demais para
oferecer uma leitura correta”[144]. Além do mais, como Andrew Hom refletiu
na publicação Military Review, os sistemas biométricos estado-unidenses no
Iraque foram drasticamente contraproducentes, uma vez que generalizaram a
humilhação e impuseram identidades singulares pelo racionalismo tecnológico,
no lugar de um envolvimento significativo com a “história social e o sentido
semântico”. Ele questiona se esses sistemas não representariam simplesmente
uma forma de “imperialismo ontológico e epistemológico”[145].
John Measor e Benjamin Muller enfatizam que “a destruição gratuita do
inimigo de alguém é uma norma finamente velada da modernidade, sem
contar a subsequente reorganização e repovoamento desses espaços/lugares
arruinados”[146]. Assim, a coleta de traços biométricos “puros” dos corpos
ocupados significa que a antiga problemática colonial do biopoder se tornou
mais gerenciável. O posto de controle biométrico, então, “evita a necessidade
de ficar frente a frente com o ‘outro’”; em vez disso, o “outro” “é apenas
rearticulado, por meio das aplicações biométricas, à identidade suspeita”[147].

Homelands globais
O poder em si se torna nômade.[148]

Com as guerras globais de segurança pública, a classificação e o monitoramento do espaço


patogênico se ampliaram e transformaram em estratégia geopolítica.[149]

O último aspecto marcante do uso de tecnologias de controle para tentar


obter fronteiras onipresentes é o esforço feito pelos Estados Unidos para
expandir a securitização nacional para a escala global. Assim como ideias de
segurança internacional estão “voltando para casa” para reorganizar a vida
urbana doméstica, tentativas de classificar populações, atividades e circulações
como sendo de risco ou sem risco estão “saindo por aí” para colonizar as
infraestruturas, sistemas e circulações que sustentam o capitalismo
transnacional.
Sendo assim, a mobilidade está sendo cada vez mais policiada no que James
Sheptycki chama de “espaço informacionalizado”[150], uma dinâmica que,
claro, acompanha a lógica bushiana da guerra preventiva, colonial,
securocrática para amparar a segurança doméstica antecipando e exterminando
ameaças, conforme elas se constroem em nível global[151]. Muitos elementos do
aparato de segurança das nações agora desafiam antigas separações westfalianas
de segurança “interna” e “externa” estabelecidas ao longo das linhas tradicionais
civis/militares e geopolíticas. “Os discursos que os Estados Unidos e seus
principais aliados têm feito, afirmando a necessidade de globalizar a segurança,
assumiram uma intensidade e um alcance inéditos”, escreve Didier Bigo. “Essa
globalização supostamente vai tornar as fronteiras nacionais efetivamente
obsoletas e forçar os demais atores na arena internacional a colaborar.”[152]
No fim das contas, há um ponto importante em que as fronteiras deixam
de ser linhas geográficas e filtros entre Estados (sempre uma ideia
hipersimplificada) e, em vez disso, emergem como agrupamentos cada vez mais
interoperáveis de tecnologias de controle espalhados pelas infraestruturas,
circulações, cidades e pelos indivíduos do mundo. Em vez do simples bloqueio
de limites territoriais, o imperativo é a antecipação permanente, canalizando e
monitorando os fluxos de modo que os adequados possam ser distinguidos dos
inadequados. No processo, as fronteiras são transformadas “de uma linha
bidimensional sobre um espaço absoluto que divide dentro e fora, para uma
zona transicional, definida por formas excepcionais de governo que diluem
categorias, jurisdições e espaços estabelecidos”[153].
Inescapavelmente, a tentativa de securitizar o sustento do capitalismo
transnacional é, ao mesmo tempo, urbana e global, uma reação ao fato de que
uma rede de cidades globais orquestra os processos estratégicos do capitalismo
pelo espaço transnacional, de que o alcance da cidade agora “se amplia para
uma escala global”[154]. É possível ver cidades mundiais como “máquinas
fluidas” – “arranjos” no espaço e no tempo construídos para organizar um
universo vasto e em geral oculto de conexão, processo e fluxo[155]. Ao mesmo
tempo, vimos que essas cidades, como os centros dominantes do poder
corporativo e financeiro do complexo industrial-securitário-militar mundial,
são os “cérebros” da própria máquina de guerra global.
Peter Taylor e seus colegas na Universidade de Loughborough mapearam as
redes transnacionais de “cidades globais” (Figura 4.6), assinalando centros
dominantes (cidades globais “alfa”), centros secundários (cidades globais
“beta”) e cidades periféricas que funcionam como passagens entre regiões e a
economia mundial (cidades globais “gama”). São os fluxos entre essas cidades
que estão no cerne do movimento rumo à securitização.
4.6 A “Rede de Cidades Globais”, como delineada pelo Centro de Pesquisa de Globalização e Cidades
Globais da Universidade de Loughborough.

De modo similar, defensores da segurança de fronteira transnacional


argumentam que esforços tradicionais de criar e instaurar fronteiras territoriais
são um problema, não uma solução[156]. Uma razão são os atrasos e custos que
geram ao interromper fluxos legítimos e necessários que alimentam o
capitalismo global. Outra é o fracasso em permitir que fluxos e pessoas sejam
perfilados, localizados e rastreados antes de chegarem até alvos vulneráveis e
estratégicos em e ao redor das cidades globais do Norte. Assim, em vez de
apenas policiar trânsitos pelas fronteiras territoriais, como no conceito
westfaliano, as arquiteturas de controle e guerras securocráticas emergentes
buscam colonizar o que os analistas de segurança chamam de as várias
“costuras” entre a guerra e o crime, entre o policiamento, a inteligência e a
atividade militar, e entre o exterior e o interior de territórios nacionais. Ao
tentar estabelecer sistemas de monitoramento antecipatório que se equiparam
às principais arquiteturas de circulação – finanças eletrônicas, comunicação via
internet, viagens aéreas, portos marítimos e comércio –, elas oscilam
continuamente entre a escala do corpo humano, da cidade, da nação e do
capitalismo transnacional.
São de grande importância aqui as novas ideias de segurança nacional
estado-unidense, expressas nas ideias de “defender adiante” e “defesa global em
profundidade”[157]. A nova doutrina de segurança se baseia no argumento de
que, não importa quanto dinheiro, tecnologia ou isolamento militar seja usado
no problema de filtrar os limites que separam a nação norte-americana do resto
do mundo, tais ideias geopolíticas de segurança são consideradas cada vez
menos úteis em um mundo em que os fluxos continuamente passam pelas
cidades e regiões dos Estados Unidos através de uma miríade de conexões e
sistemas infraestruturais[158].
Assim, a segurança nacional é cada vez mais vista como um “jogo remoto”.
Como diz o almirante da Marinha estado-unidense Timothy Keating, “Não
queremos que [ameaças de segurança identificadas] entrem no nosso espaço
aéreo, no nosso território ou perto da nossa costa no domínio marítimo”[159].
Em vez disso, ele afirma, o Estado de segurança nacional estado-unidense está
“trabalhando intensamente com outros comandantes regionais de combate
para destruir, capturar ou matar os bandidos e interromper seus ataques” muito
antes de chegarem às margens continentais da América do Norte[160].
Essa abordagem ajuda a tratar do problema de que os “imperativos da
segurança nacional e o comércio global são de muitas maneiras projetos
conflitantes”[161] se a segurança nacional apenas focar em erigir barreiras – que
se traduzem em custos e atrasos – para interromper as circulações que ligam os
Estados Unidos e o resto do mundo. “A prosperidade dos Estados Unidos – e
boa parte de seu poder – depende de seu pronto acesso às redes norte-
americanas e globais de transporte, energia, informação, finanças e de mão de
obra”, afirma Stephen Flynn. “É autoprejudicial para os Estados Unidos adotar
medidas de segurança que os isolem dessas redes.”[162]
Defensores da nova doutrina também enfatizam que ameaças terroristas já
estão “dentro da linha”[163] de circulações transnacionais que ligam as cidades
estado-unidenses tão intimamente ao resto do mundo. Os próprios terroristas
já vivem nos Estados Unidos e em outras cidades do Ocidente, onde as
ferramentas usadas em seus ataques estão à mão, e seus alvos são a miríade de
estruturas e pessoas que constituem as próprias cidades. Mesmo quando os
terroristas estão localizados em periferias coloniais, e não nos Estados Unidos
em si, o acesso aos circuitos transnacionais da internet, do transporte de
contêineres, da logística e das viagens aéreas permitem que eles planejem
ataques a cidades estado-unidenses a qualquer instante.

Conter a insegurança[164]
Tentativas de expandir iniciativas de segurança nacional dos Estados
Unidos por sistemas mundiais continuam em ritmo acelerado. Um foco é a
série de enclaves que, em conjunto, orquestram divisões globais de trabalho e
os fluxos comerciais resultantes[165]. A Container Security Initiative (CSI)
[Contêiner Iniciativa de Segurança], por exemplo, cobre os principais portos
marítimos e os fluxos que os conectam[166]. O objetivo da CSI é “ampliar as
fronteiras [dos Estados Unidos] e fazer uma triagem prévia de contêineres em
zonas de segurança criadas especialmente para isso antes que eles sejam
carregados em portos estrangeiros”[167]. Esse é um componente-chave do
esforço geral em “garantir a segurança de toda a cadeia de fornecimento
marítimo, do portão da fábrica em um país estrangeiro até o destino final do
produto, nos Estados Unidos”[168].
O conceito condutor aqui é o de que o Departamento de Segurança
Interna dos Estados Unidos precisa controlar, policiar e rastrear movimentos
dentro do que é considerado um “invólucro de segurança global”[169]. Em
2003, 15 dos 25 maiores portos de contêineres concordaram, sob considerável
pressão dos Estados Unidos, em estabelecer um sistema de controle que, em
tese, permitiria rastrear os contêineres continuamente, reduzir o potencial para
adulteração deles em trânsito e minimizar os atrasos para inspeções em portos.
Essa campanha de securitização se funde perfeitamente na “fortificação” dos
espaços portuários dos Estados Unidos e oferece uma justificativa para a
suspensão dos direitos trabalhistas e à privacidade normais em nome da
segurança nacional[170]. A redefinição dos portos dos Estados Unidos e do
Canadá e dos waterfronts[d] urbanos como espaços de segurança nacional
fundamentais significa que eles estão sendo fisicamente securitizados como
espaços de exceção, alistados em sistemas nacionais de poder governamental e
rerregulamentados de maneiras que prejudicam dramaticamente os direitos
trabalhistas dos funcionários dos portos. Assim, “a segurança nacional, pelo
menos nos portos, é conceituada como quase intercambiável com a segurança
dos fluxos do comércio internacional”[171].

Regime biométrico global


O globo encolhe para seus donos; para os desalojados ou despossuídos, o migrante ou
refugiado, nenhuma distância é mais impressionante do que os poucos metros em que se cruza
uma fronteira ou um limite.[172]

Nos setores aéreo e aeroportuário, os esforços de segurança nacional dos


Estados Unidos têm como objetivo garantir que o “segurança da fronteira [seja]
a última linha de defesa, não a primeira, na identificação de ameaças
potenciais”[173]. O sistema dos sonhos oferece fronteiras interoperáveis
“inteligentes”, controle de fronteiras globalizado e gerenciamento preventivo de
risco[174]. Nesse sentido, os Estados Unidos desenvolveram o programa US-
Visit – US Visitor and Immigrant Status Indicator Technology [Tecnologia de
Indicação de Status do Visitante e do Imigrante nos Estados Unidos] – para
viagens aéreas, mais um uso de tentativas biométricas de “objetivamente” filtrar
corpos e identidades, enquanto nações parceiras são compelidas a ajustar seus
sistemas de passaporte aos padrões biométricos definidos pelos Estados
Unidos[175].
Na Enhanced Border Security and Visa Act [Lei de Vistos e Aumento de
Segurança de Fronteiras] de 2002, por exemplo, o Congresso dos Estados
Unidos impôs a exigência de que os 27 países do US Visa Waiver Program
(VWP) [o programa de isenção de vistos] começassem a usar passaportes de
leitura ótica que incorporassem tanto tecnologia biométrica como de
radiofrequência (RFID). Nações ou blocos que não fazem essas mudanças
radicais são ameaçados com a perda desse cobiçado status no VWP. “O uso da
vantagem da isenção de visto estado-unidense para promover o uso, pelos
parceiros, das novas tecnologias de identificação com fins de segurança
nacional pode se provar um paradigma para o futuro”, escrevem Richard Pruett
e Michael Longarzo, da US Army War College [Escola de Guerra do Exército
dos Estados Unidos][176].
Assim, a arquitetura dos pontos de passagem de aeroportos estrangeiros
revela símbolos tanto de sua própria soberania quanto da dos Estados Unidos.
Uma mudança para fronteiras internacionais organizadas biometricamente,
estruturadas de acordo com o que os Estados Unidos estipulam, tem como
foco a separação dos “corpos móveis […] em elites cinéticas e subclasses
cinéticas”[177]. No caso das subclasses, um processo de “prevenção punitiva”
determina o perfil de indivíduos já considerados de risco e tenta imobilizá-los
antes que possam viajar para os Estados Unidos; ele “incorpora um leque de
tecnologias disciplinares, punitivas e militaristas cujo objetivo é impedir [sua]
chegada à fronteira física”[178]. Aqueles que atravessam fronteiras e não passam
pelos sistemas de verificação e pontos de passagem são criminalizados. Em
contraste, as elites cinéticas podem cada vez mais desviar completamente dos
controles de imigração optando por esquemas de controle biométrico como o
sistema Privium, do aeroporto de Amsterdã, ou o sistema SmartGate, na
Austrália, que preventivamente definem seus corpos como seguros e legítimos.
O princípio central aqui é a identificação automatizada de perfis de risco,
começando no momento da reserva inicial dos aspirantes a passageiros, de
modo que aqueles considerados malignos ou impróprios possam ser
interceptados antes mesmo do embarque para os Estados Unidos[179]. Na
iniciativa de fronteira inteligente do Reino Unido, por exemplo, 53 variáveis
são automaticamente verificadas em busca de sinais de “risco” ou
“anormalidade”[180], em um programa desenvolvido principalmente pela
empresa de defesa estado-unidense Raytheon, fabricante dos mísseis de
cruzeiro Tomahawk. “A aparência verificada de uma ameaça de segurança”,
escreve Louise Amoore, “sempre já foi calculada pelo desempenho algorítmico
de regras de associação”. Essas regras destacam dados que implicam um risco
possível – A passagem foi paga em dinheiro? Qual é o padrão anterior de
viagem? O indivíduo é um viajante frequente? Que refeição foi pedida? – e, por
sua vez, definem o tratamento do passageiro quando ele ou ela tentar embarcar
na aeronave.
A fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá é um forte estudo de caso
de múltiplos circuitos sendo construídos para processar elites cinéticas e
subclasses cinéticas de maneiras bem diferentes. Aqui, a consagrada “pista
expressa” do E-ZPass na rodovia urbana é traduzida nas arquiteturas do que
podemos chamar de nação E-ZPass – mas apenas para uma minoria
privilegiada. O programa experimental Nexus, por exemplo, permite que
viajantes regulares da classe executiva entre o Canadá e os Estados Unidos
sejam perfilados e pré-liberados, recebam um cartão de identificação
biométrico especial sem fio e, assim, passem por uma fila prioritária, desviando
do congestionamento e do atraso habituais na fronteira. Câmeras escaneiam a
íris para verificar a conexão entre o motorista e o cartão. Para esses viajantes
privilegiados e ostensivamente livres de risco, até mesmo a travessia de
fronteiras cada vez mais militarizadas se torna “uma simples formalidade
técnica”[181].
Enquanto viajantes frequentes ou da classe executiva com sorte suficiente
de participar do que Matthew Sparke chamou de uma espécie de
“paracidadania transnacional” atravessam o espaço transnacional com
facilidade, as subclasses cinéticas que não podem fazer parte disso ou são
consideradas de risco se tornam alvos, enfrentam assédio, encarceramento e
têm seus direitos legais e humanos diminuídos. Assim, esse status tem
desdobramentos “de modo geral mais opressivos e mais imprevisíveis”,
incluindo a maior ameaça de imobilidade, representada pelo encarceramento
ou pela tortura. Sparke escreve:

É preciso destacar que, além de representar exclusões cada vez mais ofensivas dos privilégios da
cidadania e dos direitos civis, aqueles que sobrevivem nesse lado oculto e sombrio do […]
privilégio às vezes, ironicamente, também vivenciam movimentações rápidas: movimentação
rápida para centros de detenção, movimentação rápida entre centros de detenção e, no fim das
contas, movimentação rápida transnacional, para fora dos Estados Unidos, às vezes para o
encarceramento em outros lugares.[182]

A mobilização da biometria como medida de “verdadeira” identidade em


zonas de guerra urbanas, bem como em rearticulações mais amplas de nação,
cidadania e circulação, funciona como um poderoso bumerangue foucaultiano.
Nesses domínios sobrepostos, a política se estreita conforme todos os
indivíduos são considerados suspeitos, alvos, que podem “ser legitimamente
submetidos a essas tecnologias disciplinares”[183] como “outros”
potencialmente ou de fato criminalizados. Essa convergência entre zona de
guerra e zona doméstica exemplifica o que John Measor e Benjamin Muller
chamam de uma “norma global em evolução de identidade securitizada”, que
desestabiliza separações convencionais entre política interna e estrangeira.

Ponto de passagem cibernético


Nossa última “homeland global” de interesse se concentra nos esforços
estado-unidenses de monitorar o tráfego global de internet, mesmo quando o
tráfego não tem origem nem termina nos próprios Estados Unidos. É de
grande relevância aqui o fato de que uma grande proporção do trânsito de
internet do mundo passa pelos Estados Unidos (Figura 4.7). Esse esquema é
um legado da história do sistema: como a internet foi inventada no país e as
tarifas internacionais de telefone são mais baratas nos Estados Unidos, a
maioria esmagadora do tráfego de internet passa por

alguns comutadores telefônicos principais e talvez uma dúzia [de pontos de internet] em
cidades litorâneas perto dos extremos dos cabos submarinos de fibra ótica, em especial Miami,
Los Angeles, Nova York e a região da baía de São Francisco.[184]

Isso significa que “a NSA [National Security Agency, a agência de


segurança nacional] poderia reunir uma quantidade alarmante de ligações
telefônicas simplesmente escolhendo as instalações certas”[185].
4.7 Boa parte do tráfego internacional de internet do globo passa por alguns “hotéis de telecomunicação”-
chave nos Estados Unidos, simplificando de modo drástico os esforços da NSA de um monitoramento
global da internet.

O que é ainda mais inacreditável: essas instalações não passam de alguns


prédios, conhecidos como “hotéis de telecomunicação”, que hospedam os
principais centros de conexão de internet e telefonia do planeta todo. “É
preciso cuidar de cerca de três ou quatro edifícios”, revela Stephen Beckert, da
TeleGeography, uma consultoria de pesquisa. “Em Los Angeles fica o 1
Wilshire; em Nova York, 60 Hudson; e em Miami, o NAP of the
Americas”[186]. Obviamente, a situação oferece aos Estados Unidos uma grande
oportunidade de mineração de dados, fusão de dados e outros esforços de
monitoramento, e as instituições de segurança estado-unidenses não perderam
tempo em explorar esse potencial: o Restore[187] Act de 2007 afirma que a
NSA é livre para monitorar esse tráfego como quiser, mesmo quando tanto a
origem quanto o destino das informações estiverem fora das fronteiras dos
Estados Unidos[188].
Impulsionada pelo medo de que a internet seja usada para coordenar e
financiar ações terroristas e seja apropriada como arma de “terror cibernético”
para destruir ou prejudicar sistemas eletrônicos que sustentam as nações
capitalistas desenvolvidas[189], a NSA lançou ações que cobrem todo o globo
para monitorar cada pacote de dados transmitido pela internet. Outras
iniciativas são direcionadas para o monitoramento de transações financeiras
globais para (mais uma vez) identificar preventivamente padrões de atividades
“incomuns” ou “ameaçadores”[190].

Medieval digital
Parecemos estar voltando a tempos neofeudais […] em que os limites da civilização, dignidade
e esperança não coincidem mais com os limites da nação.[191]

Em 2007 o influente analista de segurança estado-unidense John Robb


publicou Brave New War [Admirável Nova Guerra], um dos diversos livros
sobre “segurança” que tomaram as listas de best-sellers dos Estados Unidos
desde 2001. Nele, o autor previa que a década seguinte provavelmente seria
dominada por uma série de ataques terroristas “Cisne Negro” – grandes e
imprevisíveis, no estilo dos de 11 de Setembro – em cidades estado-unidenses,
combinados com o uso periódico de técnicas de terror cibernético por
insurgentes espalhados pelo mundo, cujo objetivo é derrubar redes de
infraestrutura de energia, comunicação, transporte, finanças e saúde nos
Estados Unidos. Cidadãos estado-unidenses urbanos então mergulhariam com
regularidade em uma existência pré-moderna de desconexão e escuridão. Robb
conclui com um cenário da vida urbana nos Estados Unidos em 2016.
O que o autor antecipa é que, combinadas com um distanciamento radical
das estruturas de segurança centralizadas e burocráticas de governos nacionais e
locais, essas tendências trariam uma “diminuição do aparato de segurança
[nacional]”[192]. Ele previu que isso se juntaria ao “desenvolvimento de um
sistema de segurança totalmente novo e descentralizado” envolvendo o
governo, empresas privadas e indivíduos. Essas tendências significariam que “a
segurança vai se tornar uma questão de onde você mora e para quem você
trabalha” – de maneira semelhante ao sistema de saúde estado-unidense.
Conforme a provisão de segurança do Estado-nação é substituída por mercados
de segurança desiguais e muito localizados, organizados por meio de
corporações militares em ascensão, “multinacionais e indivíduos saudáveis
serão os primeiros a contratar companhias militares privadas […] para proteger
suas casas e estabelecer um perímetro de proteção ao redor da vida cotidiana”,
Robb sugere. “Redes de transporte paralelas – uma derivação das aeronaves
fretadas […] [–] vão atender esse grupo, levando seus membros de um ponto
de acesso seguro e bem-definido ao próximo”. Membros da classe média, ele
imagina,

virão em seguida, tomando a tarefa para si por meio da formação de coletivos nos bairro
suburbanos para compartilhar os custos de segurança […] Esses “bairros residenciais
blindados” vão usar e gerenciar conexões de comunicação e geradores de backup; serão
patrulhados por auxiliares da polícia civil que receberam treinamento corporativo e vão se
vangloriar de seus próprios sistemas de reação de emergência de primeira linha.[193]
E todos os demais? “Eles terão de se virar com os restos do sistema
nacional”, previu Robb. “Vão gravitar para as cidades, onde serão submetidos
ao monitoramento constante e a serviços marginais ou inexistentes. Para os
pobres, não haverá refúgio.”[194]
Como a maior parte da não ficção política sensacionalista pós-11 de
Setembro nos Estados Unidos, o livro de Robb conta uma história apocalíptica
e enganosamente simples que exagera dramaticamente eventos
contemporâneos. E, no entanto, indícios contemporâneos de fato sugerem a
emergência de grupos de segurança organizados em nível internacional cujo
objetivo é remover os livres de risco daqueles que impõem risco, levantando
grandes questões sobre a futura geografia política do nosso mundo. Certamente
a visão de Robb não pode ser desconsiderada por completo. Serão os
arquipélagos tridimensionais de fragmentação, conexão, fortificação e
militarização na linha do apartheid, tão visíveis em Gaza e na Cisjordânia, um
modelo sombrio do futuro? A indiferenciação de arquipélagos de exceção
internos e externos vai “desmontar” o papel dos Estados-nação como principais
tijolos econômicos e fiscais do capitalismo global? As cidades ricas e os setores
enriquecidos das cidades vão gradualmente se afastar e desconectar dos
territórios residuais e das pessoas a seu redor – em uma versão generalizada da
relação de exploração rigidamente controlada de, digamos, Cingapura e seus
grotões subdesenvolvidos na Malásia e na Indonésia? Estruturas transnacionais
de policiamento, monitoramento e de cumprimento da lei vão continuar a se
fortalecer, ao ponto de ofuscar ou engolir o legado de Estados de segurança
nacional? Como a quebra[195], fragmentação e polarização impostas pelo novo
urbanismo militar vão se refletir, e ser sustentadas, pela política, pelas
sociedades civis e pelas paisagens das cidades em crescimento do mundo? Onde
vão parar as ideias de cidadania nacional nesse contexto?
É especialmente importante refletir se as tendências atuais rumo a
fronteiras onipresentes significam que nosso planeta enfrenta, como Nezar
Alsayyad e Ananya Roy propuseram, uma espécie de “modernidade medieval”
(computadorizada) que está promovendo a “emergência de formas de cidadania
[que são] fundamentalmente voltadas para a proteção [e se] localizam em
enclaves urbanos”[196]. Esses processos desafiam a ideia estabelecida de
cidadania moderna como “constituída por uma série de direitos individuais
abstratos embutidos no conceito de Estado-nação”[197]. Da mesma forma,
Allen Feldman se pergunta se a produção arquitetônica e espacial da identidade
estado-unidense, hoje com tanta frequência organizada por meio do que ele
chama de “fortalezas sacralizadas e blindadas de comodificação segura, sejam
elas shopping centers, condomínios fechados ou torres comerciais”, ajuda a
“determinar cidadania por quem [é agraciado] com salvo-condutos”.
Em vez de usar o termo “medieval” para significar uma simples inversão da
ideia iluminista de progresso e um retorno ao “retrocesso” social, como
atualmente defendem John Robb e outros formadores de opinião de
direita[198], Alsayyad e Roy sugerem algo de modo geral mais sutil – e mais
convicente.
Dentro das geografias urbanas transnacionais do capitalismo, eles veem a
coexistência de modalidades de “nacionalismo moderno, enclaves medievais e
brutalidade imperial”[199].
Assim, Estados-nação não definham simplesmente em um futuro
completamente globalizado. Em vez disso, áreas cercadas que parecem
acampamentos e circulações privatizadas emergem dentro, através e entre o que
se convencionou ver como cidades e nações. Essa complexidade de enclaves,
agrupamentos e pontos de passagem radicalmente “complica toda a questão de
progresso e retrocesso, o moderno e o pré-moderno”[200]. Também nos força a
ter cautela em relação às teleologias usuais, que declaram que os “outros”,
bárbaros e orientalizados – que vivem em suas áreas urbanas neste mundo do
presente –, de fato vivem no “passado selvagem”.
Processos de fragmentação e securitização urbana existiam muito antes do
11 de Setembro. Conforme esses processos se aceleram, as políticas da geografia
e da segurança se tornam quase fractalmente recortadas e preenchidas com
agrupamentos superpostos e muitas vezes contraditórios ou antagônicos. Em
vez de resultar em uma mudança de uma sociedade de disciplina baseada no
fechamento (a sociedade panóptica de Foucault) para uma sociedade de
sistemas de monitoramento descentralizados (a sociedade de controle de
Deleuze), o que está surgindo é uma sociedade organizada por agrupamentos
de pontos de passagem urbanos e infraestruturais. Esses agrupamentos fazem
uso tanto de arquiteturas quanto de tecnologias eletrônicas, atuando em
paralelo; seu propósito é estipular a legitimidade – quer da presença, quer da
circulação – antes da movimentação. Dessa forma, tanto as cidades quanto a
cidadania se tornam progressivamente reorganizadas com base nas ideias de
mobilidade, direitos e acesso provisórios – em vez de absolutos.
Para corroborar seus argumentos, Alsayyad e Roy empregam um amplo
leque de exemplos: comunidades abastadas fechadas, assentamentos informais
regulamentados, uma gama em proliferação de instalações de encarceramento e
cidades-campo de tortura onde a “violência é constantemente usada em nome
da ordem e da paz”[201]. Também mencionam o governo urbano insurgente
que está surgindo em lugares como cidades controladas pelo Hezbollah, no
Líbano, a Gaza controlada pelo Hamas e outras repúblicas islâmicas em nível
de bairro que estão sendo declaradas por grupos religiosos
fundamentalistas[202]. A essa lista, é possível acrescentar a proliferação de
arquiteturas de segurança que se assemelham a acampamentos militares e
sustentam centros financeiros globais, zonas de processamento de exportação,
enclaves turísticos, enclaves financeiros offshore, núcleos de logística, portos,
cidades aeroportuárias, complexos de pesquisa e “tecnopolos”, além das
militarizações urbanas temporárias impostas por megaeventos esportivos e
cúpulas políticas.
Todos esses exemplos, afirmam Alsayyad e Roy, envolvem “sistemas
privados de administração que operam como feudos medievais, impondo
verdades e normas que muitas vezes são contrárias à legislação nacional”[203].
Como nos tempos medievais, o resultado é o surgimento da cidade moderna
como o que Holston e Appadurai chamaram de “colmeia de jurisdições”, um
“corpo medieval [de] membros sobrepostos, heterogêneos e, cada vez mais,
privados”[204]. Permeando tudo isso estão as tecnologias biométricas,
mobilizadas para rastrear, identificar e controlar o acesso.

Diferença e ilusões de controle


Por que o mundo todo se tornou uma fronteira a ser, simultaneamente, afastada, aberta para
colonização estado-unidense e, ao mesmo tempo, vedada, protegida da incursão estrangeira?
[205]
É tentador concluir este capítulo com um toque apocalíptico. Mas essa
tentação precisa ser evitada, porque fronteiras e estratégias de fronteira
inevitavelmente se mantêm permeáveis e contraditórias – em especial nas
grandes cidades. Sonhos tecnófilos de ordem perfeita e de poder perfeito,
fatalmente, vão falhar em proporcionar os níveis desejados de controle
geográfico e social. Enclaves fortificados muitas vezes são cercados e engolidos
pela grande massa e pulsação da mistura urbana nas cidades grandes e em
rápido crescimento. A densidade e a imprevisibilidade da vida na cidade com
frequência inundam estratégias simples de determinação de limites. Além do
mais, as ideias de “segurança” que envolvem a transição para fronteiras
onipresentes muitas vezes são, na melhor das hipóteses, tênues, mesmo para
aqueles que organizam ou se beneficiam do movimento em direção à
securitização.
Apesar da predileção do complexo militar-de segurança por jogar dinheiro
em pesquisa e desenvolvimento em busca de “balas de prata” tecnológicas –
como a tecnologia necessária para possibilitar as diversas estratégias de fronteira
exploradas neste capítulo –, na prática, as balas muitas vezes vão parar longe do
alvo. Elas deixam de funcionar, falham o tempo todo, não atingem os
resultados antecipados e não fazem nada em relação às raízes da sensação de
insegurança. Sem investimentos enormes e contínuos de trabalho e recursos, as
fronteiras onipresentes não conseguem ser nem remotamente eficientes. Os
complexos agrupamentos através dos quais elas funcionam são, na verdade,
muito precários. Com frequência, elas apenas tratam os sintomas – em vez das
causas – das crescentes inseguranças enfrentadas pelo número cada vez maior
de pobres urbanos do mundo, vivendo como vivem em sociedades levadas a
extremos ainda maiores de hiperdesigualdade pelos sistemas falhos da
neoliberalização.
Então, é crucial enfatizar que a imaginação e as fantasias de controle
perfeito e separação absoluta entre os que impõem riscos e os que não os
impõem, entre o “evento” de segurança e a “normalidade”, continuam sendo
exatamente isso: imaginação e fantasias. Como as ideias de guerra robotizada
discutidas no próximo capítulo, esses discursos são alimentados com fetichismo
tecnológico e devaneios de onisciência e controle todo-poderoso. Mas os
esforços para empregar novas tecnologias de controle inevitavelmente envolvem
uma miríade de improvisações confusas, que se estendem por diversas
geografias e sempre exigem controle a distância. Mesmo esforços maiores por
integrar grupos de sistemas de monitoramento anteriormente separados não
produziram um Big Brother que tudo vê nem um único “panóptico global”.
Em vez disso, temos uma multidão de Little Brothers – um “omnóptico”
abrangendo múltiplos sistemas de monitoramento de escopo, escala,
efetividade e alcance diversos, que às vezes interagem, mas com muita
frequência – apesar da badalação –, não.
Além do mais, as novas fronteiras tecnológicas tendem à pane tecnológica,
à ineficácia, aos erros e aos efeitos não intencionais. Paul Edwards destaca que a
experiência real da tecnologia de informação militar muitas vezes resulta no
“mundo de softwares absolutamente irritantes, montados de qualquer jeito e
que travam com frequência, mas, ainda assim, funcionam até que bem na
maior parte do tempo”[206]. Em vez de um sistema que tudo vê e tudo sabe, o
que acontece nas salas de controle que se proliferam está marcado por práticas
restritas, contingentes e desajeitadas. Em muitos casos, os sonhos tecnológicos
fracassam simplesmente porque a tecnologia falha ou não consegue interagir
com uma série de outras tecnologias, ou porque os operadores não conseguem
lidar com a complexidade do sistema. Assim, “a geometria do controle nunca
está completa”, como afirma Michael Shapiro[207]. E, como sugere Hille
Koskela, o que se segue é que “o espaço urbano vai sempre se manter menos
conhecível e, portanto, menos controlável do que o espaço panóptico
restrito”[208].
Também é preciso lembrar que todos os enclaves fortificados não são tão
solipsísticos quanto parecem. Eles precisam ser amparados por conexões
(muitas vezes ocultas) em toda parte, exigem migrações e mobilidades
múltiplas para funcionar. Feldman destaca, por exemplo, que muitos “edifícios
cercados […] dependem de pequenos exércitos de mão de obra imigrante não
registrada”[209]. Quando ocorrem repressões hiperzelosas a “imigrantes ilegais”,
como aconteceu próximo aos condomínios fechados de Long Island em 2008,
os moradores riquíssimos desses enclaves logo descobrem que suas casas não
estão limpas, seus parques não foram podados, seus filhos não têm babá e,
ironicamente, suas fronteiras não estão sendo policiadas. Então, é paradoxal
que o colapso desses serviços revele como a “imigração ilegal” opera em
geografias de trabalho e fronteiras militarizadas complexas e transnacionais –
sustentando economias, cidades e normas sociais de modo invisível. No
entanto, esses imigrantes têm vidas extremamente perigosas. “Contanto que se
mantenham nos bastidores, seus músculos e suas habilidades são muito
apreciados”[210], escrevem Carlos Decena e Margaret Gray, mas, quando se
tornam visíveis, em especial em zonas residenciais suburbanas, isso com
frequência gera polêmicas, demonização, violência e remoção.
Com frequência, também, o uso das fronteiras e das novas tecnologias de
segurança é simbólico, em contraste com a abertura radical de muitos lugares a
conexões em outras partes. Processos que tornam espaços “seguros” estão
sempre carregados de teatralidade; a simbologia e a performance ao mesmo
tempo tranquilizam e semeiam ansiedade. David Murakami Wood e Jonathan
Coafee[211] destacam que algumas práticas de securitização temporária – ao
redor de grande cúpulas ou eventos esportivos, por exemplo – são em certo
sentido teatrais, na medida em que seu propósito é tanto encenar performances
de poderio militar e de segurança com muita visibilidade quanto impedir
protestos, terrorismo ou agitações. A antropóloga Cindi Katz também enfatiza
a simbologia de soldados camuflados parados, entediados, nas ruas de Nova
York depois do 11 de Setembro. “Claro, esse é o objetivo”, ela escreve. “O
terrorismo banal está suturado – e garantido – na performance da segurança do
ambiente cotidiano.”[212]
Essas performances de segurança tampouco se referem apenas ao
policiamento de supostos riscos. Francisco Klauser destaca que enormes
sistemas de fortificação temporária que cercam eventos como as Olimpíadas ou
a Copa do Mundo também são esforços no sentido de construir exemplares
novos e altamente vendáveis de “soluções de segurança” de primeira linha e
geram exposição midiática global para culturas de marca específicas[213].
Finalmente, todos os limites e todas as fronteiras sempre enfrentam tensões
com tentativas diárias de transgressão e resistência. A ordem e experiência de
uma cidade específica é “determinada, ao menos em parte, pela consequência
não intencional e cumulativa de todos os controles de fronteira”[214]. Como
demonstrado no filme Minority Report – a nova lei, que retrata um futuro
distópico dominado pelo monitoramento preventivo, existem sempre
complexas “tensão[ões] entre as máquinas de captura e a micropolítica da
fuga”[215]. Aliás, escreve John Kaliski, comentando sobre a curiosidade do
padrão,

muitas das transações sociais que estão formatando a essência da cultura ocorrem nos mesmos
locais mais sujeitos aos olhos do globalismo. A cultura do shopping center, enclaves fechados
(sejam bairros residenciais ou casas ocupadas por usuários de drogas), gravações onipresentes e
o monitoramento de todos os aspectos da vida cotidiana não parecem limitar as expressões e
mutações sempre novas e em evolução surgidas de reuniões inesperadas.[216]

Consequências
Contudo, alertas tão importantes não são desculpa para complacência. Em
vez disso, eles tornam os custos, impactos e políticas das fronteiras onipresentes
mais fáceis de desenredar. Assim, emerge uma panóplia de questões:
Em que ponto, pergunta Adrian Parr, “um ambiente urbano deixa de atuar
como tal?”[217] Fronteiras onipresentes ameaçam extinguir o potencial político
e cultural do que Adrian Parr chama de “cacofonia da vida civil”? Bülent Diken
e Carsten Bagge Laustsen, por sua vez, perguntam: o apelo das tecnologias de
segurança e da arquitetura de acampamento ajuda a criar “ilhas de ordem” em
meio ao “mar” urbano de violência, desespero e horror[218]?
Estariam as cidades, então, se tornando pouco mais do que uma série de
“campos” interconectados organizados por meio de pontos de passagem
militarizados e monitorados, onde todas as presenças e circulações são pré-
escaneadas e pré-aprovadas por cálculos eletrônicos contínuos? O que acontece
com o “direito à cidade”[219] e a política da cidadania urbana em um mundo de
fronteiras onipresentes que ameaçam tornar a vida urbana cada vez mais
passiva, consumista, monitorada e organizada por algoritmos? Essas tendências
vão prejudicar fatalmente os papéis das cidades como os principais centros de
inovação política, cultural, social e econômica? A penetrante onda de segurança
“infantiliza o corpo social” da cidade, como Adrian Parr sustenta, ao impor um
poder paternalista-autoritário que reivindica “o status privilegiado de ser o
único que sabe como dizer ‘não’ ao terrorismo”[220]? E a tendência à guerra
securocrática – e, portanto, às fronteiras onipresentes – inexoravelmente aponta
para uma política transnacional fascista de modo geral, como Naomi Wolf
argumenta[221]?
Como as geografias do dissenso democrático são afetadas pelo
“resfriamento” geral da cultura política e pela afirmação de poder executivo
sobre o escrutínio democrático, que estão tão intimamente associados às
tendências discutidas acima? Como as diferentes tradições de cultura política
urbana e as diversas tradições de poder militar e policial contribuem para dar
forma a trajetórias específicas dentro de tendências mais amplas em direção à
tentativa de implantar fronteiras onipresentes? Finalmente, serão os processos
de fronteiras onipresentes o resultado da política industrial tanto quanto são
uma reação a ameaças reais – isto é, estariam os Estados e blocos
supranacionais (como a União Europeia) lançando suas próprias máquinas de
securitização como marcos industriais, uma maneira de auxiliar seus próprios
atores corporativos a competir efetivamente dentro dos mercados de segurança
global em ascensão?
A segunda série de questões levanta preocupações sobre a relação entre a
corrida em direção a fronteiras onipresentes, a construção da diferença e o
processo da criação de “outros”. Aqui, confrontamos o argumento de que
construções de zonas e fronteiras representam tentativas soberanas de criar
ilusões de diferença em vez de responder à diferença e a seus supostos riscos.
Nesse sentido, Guillermina Seri afirma que “as características concretas do que
é capturado sob a proteção do poder soberano e do que é excluído importam
pouco. O que é crucial é o fato de que a distinção é feita”[222].
As fronteiras onipresentes, defende Guillermina, “dizem respeito à criação
da ilusão de diferenças, ainda que na verdade possa não haver nenhuma”. Ela
sugere que essas produções “virtuais” de diferença e conflito antagônico agora
são “cruciais para a definição de zonas seguras e zonas sem lei”. Assim, práticas
de guerra securocrática e fronteiras onipresentes se autorrealizam, de modo que
a construção de zonas de segurança e insegurança, organizadas dentro e através
de fronteiras onipresentes, na verdade envolve “a tarefa crítica de recriar perigos
e ameaças”. Para Seri, isso permite

a canalização dos movimentos de “povos” e “investidores” em um cenário mundial em que


territórios estatais cada vez mais lembram suas fronteiras, a paisagem social das fronteiras
reemerge nas áreas centrais metropolitanas, e a exceção mancha de maneira irregular, mas
progressiva, o mapa-múndi.[223]

Dessa forma, a guerra securocrática produz as mesmas “ferramentas do


poder soberano”.

Segurança cosmopolita
Uma questão final surge aqui, o que abre caminho para considerações
levantadas ao final deste livro. Para além e acima de todas as preocupações, os
alertas e as crises, precisamos considerar como uma contrapolítica de segurança
bem-sucedida pode ser mobilizada – uma contrapolítica que resista e
reposicione a violenta guinada em direção à biopolítica de prevenção, exceção e
extrema polarização. Essa contrapolítica deve não só desafiar as mitologias que
sustentam a guerra securocrática e as fronteiras onipresentes, mas também
confrontar os complexos transnacionais que se alimentam do mantra difundido
da “segurança” militarizada que permeia mais e mais cada canto da vida
urbana.
No contexto atual, é profundamente subversivo fazer esta pergunta
simples: Quais poderiam ser as características de uma política de segurança que
genuinamente trate dos riscos e das ameaças reais que a humanidade enfrenta
em um mundo em rápida urbanização, propenso ao esgotamento de recursos, à
insegurança cada vez maior em relação a água e alimentos, ao colapso da
biodiversidade, à hiperautomobilização, a crises financeiras e ao aquecimento
global – e que trate dessas ameaças de um ponto de partida cosmopolita, em
vez de xenofóbico e militarista? Quais seriam as características de uma política
de segurança em que os aspectos humanos, urbanos e ecológicos da segurança
estejam em primeiro plano, em vez das maquinações e imaginações vulgares
que cercam as constelações de Estados e corporações transnacionais integrados
por meio de relações dúbias ou corruptas em um complexo de mídia-
segurança-indústria-militar abrangente e em expansão?
A concepção de tal contrapolítica claramente deve começar com a
contestação da mobilização cada vez mais ampla de fronteiras e estratégias de
segurança “duras” – isto é, lucrativas –, questionando-se se elas resultam em
alguma coisa além de exacerbar um círculo vicioso de medo e isolamento, e
uma busca pelo Santo Graal da certeza por meio da onisciência tecnológica
combinada com as arquiteturas de afastamento. Como escreveu Bryan Turner,

O crescimento de sociedades de enclave torna a busca por valores e instituições cosmopolitas


uma questão urgente, mas a tendência atual de levantar muros contra os despossuídos e os
marginalizados parece ser inexorável.[224]

Ideias cosmopolitas de segurança precisam estar abertas à diferença –


devem, aliás, ser forjadas nela. Precisam atuar contra a tradução habitual da
diferença como objetificação, “outro” e violência. Precisam afirmar a
restauração de direitos dentro dos estados de re-cepção como forma de superar
as soberanias assassinas exercidas pelos estados de ex-ceção que cada vez mais
caracterizam o capitalismo neoliberal[225]. Finalmente, nossa contrapolítica
precisa rejeitar a fronteira onipresente da mobilidade, circulação e vida social
tanto dentro quanto fora dos limites territoriais dos Estados “homeland”. Em
resumo, é preciso rejeitar a guerra securocrática.
Um ponto de partida útil é fornecido pelo trabalho do filósofo Adrian Parr,
que reivindica que uma política contrária àquela da fronteira onipresente
comece ampliando os “parâmetros desse debate de uma forma que não mais
encare o exterior como assustador e fonte de contaminação, contra o qual o
interior se congela de modo defensivo a fim de conter e afastar invasões”[226].
No capítulo final vamos voltar em detalhes aos desafios de criar uma
contrapolítica viável.

[1] O termo foi usado pela primeira vez por Dean Wilson e Leanne Weber no artigo “Risk and
Preemption on the Australian Border”, Surveillance & Society, v. 5, n. 2, 2008, p. 124-41.
[2] Paul Andreu et al., “Borders and Borderers”, Architecture of the Borderlands (Londres,
Wiley/Architectural Design, 1997), p. 57-61.
[3] Samuel Weber, Targets of Opportunity: On the Militarization of inking (Nova York, Fordham
University Press, 2005), p. 105.
[4] Ronen Shamir, “Without Borders? Notes on Globalization as a Mobility Regime”, Sociological eory,
v. 23, n. 2, 2005, p. 199.
[5] Karine Côté-Boucher, “ e Diffuse Border: Intelligence-Sharing, Control and Confinement along
Canada’s Smart Border”, Surveillance & Society, v. 5, n. 2, 2008, p. 153.
[6] Didier Bigo e Anastassia Tsoukala (orgs.), Illiberal Practices of Liberal Regimes, the (In)Security Games
(Paris, L’Harmattan, 2006, Coleção Cultures & Conflits).
[7] Para saber como isso ocorreu no caso estado-unidense, ver: David Campbell, Writing Security: United
States Foreign Policy and the Politics of Identity (Minneapolis [MN], University of Minnesota Press, 1998).
Campbell enfatiza que, no caso do tratamento dos povos indígenas em nações coloniais como os Estados
Unidos, o “estrangeirismo” também pode habitar espaços geográficos dentro da nação.
[8] Susanne Krasmann, “ e Enemy on the Border: Critique of a Programme in Favour of a Preventive
State”, Punishment Society, n. 9, 2007, p. 301.
[9] Idem.
[10] Didier Bigo e Anastassia Tsoukala (orgs.), Illiberal Practices of Liberal Regimes, the (In)Security Games,
cit.
[11] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, Interventions: International Journal of
Postcolonial Studies, v. 6, n. 3, p. 330-50.
[12] Simon Jenkins, “Oh! What a Lovely War on Terror”, e Guardian, Londres, 14 set. 2007.
[13] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, cit.
[14] Ibidem, p. 333.
[15] Idem.
[16] Ver, por exemplo, Harris Ali e Roger Keil, Networked Disease (Blackwell, Oxford, 2008).
[17] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, cit., p. 333.
[18] Idem.
[19] Ver capítulo 9 deste volume e também Stephen Graham e Simon Marvin (orgs.), Disrupted Cities:
When Infrastructures Fail (Nova York, Routledge, 2009).
[20] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, cit., p. 331.
[21] Idem.
[22] James Hay e Marc Andrejevic, “Towards an Analytic of Government Experiments in ese Times:
Homeland Security as the New Social Security”, Cultural Studies, v. 20, n. 4-5, 2008, p. 341.
[23] Idem.
[24] Engin Isin, “ e Neurotic Citizen”, Citizenship Studies, v. 8, n. 3, 2004, p. 217-35.
[25] Ver Kathleen Arnold, “Enemy Invaders! Mexican Immigrants and US Wars Against em”,
Borderlands, v. 6, n. 3, 2007.
[26] Ver Stephen Graham, “Software-Sorted Geographies”, Progress in Human Geography, v. 29, n. 5,
2005, p. 1-19.
[27] Adrian Parr, “One Nation under Surveillance”, Journal of eoretical Humanities, v. 11, n. 1, 2006,
p. 100.
[28] Anne-Marie Singh, “Private Security and Crime Control”, eoretical Criminology, v. 9, n. 2, 2005,
p. 153-74. Jock Young, Exclusive Society: Social Exclusion, Crime and Difference in Late Modernity
(Londres, Sage, 1999); ver Daryl Meeks, “Police Militarization in Urban Areas: e Obscure War against
the Underclass”, Black Scholar, v. 35, n. 4, 2003, p. 33-41.
[29] Phil Scraton, “Streets of Terror: Marginalisation, Criminalisation and Authoritarian Renewal”,
Statewatch, 2006.
[30] Um bom exemplo disso é o esforço estado-unidense de forçar o governo do Reino Unido a exigir
que os cidadãos britânicos de ascendência paquistanesa peçam vistos para visitar os Estados Unidos,
necessidade que inexiste para os demais cidadãos britânicos. Ver Jane Perlez, “US Seeks Closing of Visa
Loophole for Britons”, e New York Times, 2 maio 2007. Ver também Seyla Benhabib, “Disaggregation
of Citizenship Rights”, Parallax, v. 11, n. 1, 2005, p. 10-8.
[31] Ver Giorgio Agamben, State of Exception (Chicago, Chicago University Press, 2005) [ed. bras.:
Estado de exceção, trad. Irene D. Poleti, São Paulo, Boitempo, 2004].
[32] Guy Baeten, “ e Uses and Deprivations of the Neoliberal City”, em Bavo (org.), Urban Politics
Now: Re-Imagining Democracy in the Neoliberal City (Roterdã, nai010, 2008), p. 48.
[33] Ver Kiara Nagel, “Predatory Planning”, Design Studio for Social Intervention. Disponível em:
<ds4si.org/predatoryplanning>.
[34] Ver Rowland Atkinson e Gesa Helms (orgs.), Securing an Urban Renaissance (Bristol, Policy Press,
2007).
[35] Jock Young, Exclusive Society, cit.
[36] Guy Baeten, “ e Uses and Deprivations of the Neoliberal City”, cit., p. 49.
[37] Nikolas Rose, “ e Biology of Culpability: Pathological Identity and Crime Control in a Biological
Culture”, eoretical Criminology, n. 4, 2000, p. 5-34.
[38] Giorgio Agamben, “Security and Terror”, eory and Event, v. 5, n. 4, 2002, p. 1-2.
[39] Allen Feldman, “Securocratic wars of public safety”, cit., p. 334.
[40] Deborah Natsios, “Watchlisting the Diaspora”, artigo apresentado na conferência Targeted Publics,
Centre de Cultura Contemporània, Barcelona, out. 2008.
[41] Ver Gilberto Rosas, “ e ickening Borderlands: Diffused Exceptionality and ‘Immigrant’ Social
Struggles during the ‘War on Terror’”, Cultural Dynamics, v. 18, n. 3, 2006, p. 335-49.
[42] Susanne Krasmann, “ e Enemy on the Border”, cit., p. 304.
[43] Michael Head, “Militarisation by Stealth”, Overland, n. 188, 2007, p. 68-70.
[44] Ver Jennifer Ridgley, “Cities of Refuge: Immigration Enforcement, Police, and the Insurgent
Genealogies of Citizenship in US Sanctuary Cities”; Urban Geography, v. 29, n. 1, 2008, p. 53-77.
[45] Elia Zureik e Mark Salter, “Global Surveillance and Policing: Borders, Security, Identity”, em Elia
Zureik e Mark Salter (orgs.), Global Surveillance and Policing: Borders, Security, Identity (Cullompton
[Devon], Willan, 2005), p. 4.
[46] Louise Amoore, Stephen Marmura e Mark Salter, “Editorial: Smart Borders and Mobilities: Spaces,
Zones, Enclosures”, Surveillance & Society, v. 5, n. 2, 2008, p. 96.
[47] Louise Amoore, “Algorithmic War: Everyday Geographies of the War on Terror”, Antipode, v. 41, n.
1, jan. 2009, p. 49-69.
[48] Anne Bottomley e Nathan Moore, “From Walls to Membranes: Fortress Polis and the Governance of
Urban Public Space in 21st Century Britain”, Law and Critique, v. 18, n. 2, 2007, p. 178.
[49] Idem.
[50] Steven Flusty, “Building Paranoia”, em Nan Ellin (org.), Architecture of Fear (Princeton, Princeton
University Press, 1997), p. 47-59; Steven Flusty, Building Paranoia: e Proliferation of Interdirectory Space
and the Erosion of the Spatial Justice (Los Angeles, Ram Distribution, 1994).
[51] Ver Keller Easterling, Enduring Innocence (Cambridge [MA], MIT Press, 2005).
[52] Rory Carroll, “Paradise and Razor Wire: Luxury Resort Helps Haiti Cling onto Tourist Trade”, e
Guardian, Londres, 7 ago. 2008.
[53] Ver, por exemplo, Kevin Ward, “‘Creating a Personality for Downtown’: Business Improvement
Districts In Milwaukee”, Urban Geography, v. 28, n. 8, 2007, p. 781-808.
[a] Parcerias público-privadas em que as empresas de uma região recolhem uma taxa a ser reinvestida
naquela área em serviços como limpeza e segurança urbanas e promoção de negócios. (N. T.)
[54] Paul Kingsnorth, “Cities for Sale”, e Guardian, Londres, 29 mar. 2008.
[55] Jock Young, e Vertigo of Late Modernity (Londres, Sage, 2007), cap. 3.
[56] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, cit., p. 335.
[57] Gijs van Oenen, “Languishing in Securityscape”, Open, n. 6, 2004, p. 7.
[58] Idem.
[59] Ver Leonard Hopper e Martha Droge, Security and Site Design (Nova York, Wiley, 2005).
[b] A expressão edge city foi popularizada a partir do início da década de 1990 pelo jornalista estado-
unidense Joel Garreau. Literalmente, significa “cidade-borda”, ou “cidade na borda”. A realidade que se
quer designar com essa expressão é aquela dos grandes complexos residenciais (condomínios fechados) e
comerciais (centros comerciais, shopping centers) autossegregados que funcionam, no fundo, como
megabolhas de proteção e “vida/consumo entre iguais” no entorno de grandes cidades. No Brasil,
Alphaville, na Grande São Paulo, seria provavelmente o mais claro exemplo de edge city. (Nota de Marcelo
Lopes de Souza)
[60] Deborah Natsios, “Towards a New Blast Zone: Washington D.C.’s Next-Generation Hunting
Forest”, em Architectures of Fear (Barcelona, Centre de Cultura Contemporània de Barcelona, 2007).
[61] Boddy usa essa expressão para destacar o contraste com a “arquitetura do conforto” (architecture of
reassurance), tão usada no planejamento de parques temáticos e espaços urbanos tematizados. Ver Martin
Boddy, “Architecture Emblematic: Hardened Sites and Softened Symbols”, em Michael Sorkin (org.),
Indefensible Space: e Architecture of the National Security State (Nova York, Routledge, 2007), p. 277-
304.
[62] Adrian Parr, “One Nation under Surveillance”, Angelaki: Journal of eoretical Humanities, v. 11, n.
1, 2006, p. 99-107.
[63] Paul Virilio e Sylvere Lotringer, Pure War (2. ed., Los Angeles, Semiotex(e), 2008), p. 210.
[64] Barbara Hooper, “Bodies, Cities, Texts: e Case of Citizen Rodney King”, em Edward W. Soja
(org.), Postmetropolis: Critical Studies of Cities and Regions (Oxford, Blackwell, 2000), p. 368.
[65] Ver Setha M. Low, Behind the Gates: Life, Security, and the Pursuit of Happiness (Nova York,
Routledge, 2003).
[66] Tom Phillips, “High above São Paulo’s Choked Streets, the Rich Cruise a New Highway”, e
Guardian, Londres, 20 jun. 2008.
[67] Claire Bénit-Gbaffou, “Unbundled Security Services and Urban Fragmentation in Post-Apartheid
Johannesburg”, Geoforum, v. 39, n. 6, 2008.
[68] Jock Young, e Vertigo of Late Modernity, cit., p. 5.
[69] Vincenzo Ruggiero, Crime and Markets: Essays in Anti-Criminology (Oxford, Oxford University
Press, 2000), p. 1.
[70] Rowland Atkinson e Sarah Blandy, “ e City, Public Space and Home: e Nesting of Scales of
Security and Strategies of Defensive Social Engagement”, artigo não publicado.
[71] Idem, Domestic Fortress (Manchester, Manchester University Press, no prelo).
[72] Michelle Brown, “‘Setting the Conditions’ for Abu Ghraib: e Prison Nation Abroad”, American
Quarterly, v. 57, n. 3, 2005, p. 990.
[73] Alain Joxe, Empire of Disorder (Los Angeles, Semiotext(e), 2002), p. 197.
[74] David Rose, “Locked up to Make Us Feel Better”, New Statesman, Londres, 19 mar. 2007.
[75] Zygmunt Bauman, Globalization: e Human Consequences (Cambridge, Polity, 1998), p. 111-2
(grifos do autor) [ed. bras.: Globalização: as consequências humanas, trad. Marcus Penchel, Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, 1999].
[76] Jonathan Simon, “ e ‘Society of Captives’ in the Era of Hyper-Incarceration”, eoretical
Criminology, v. 4, n. 3, 2000, p. 285-308.
[77] N. C. Aizenman, “New High in US Prison Numbers: Growth Attributed to More Stringent
Sentencing Laws”, Washington Post, 29 fev. 2008.
[78] Brady omas Heiner, “ e American Archipelago: e Global Circuit of Carcerality and Torture”,
em Gary Backhaus e John Murungi (orgs.), Colonial and Global Interfacings: Imperial Hegemonies and
Democratizing Resistances (Newcastle, Cambridge Scholars Publishing, 2007), p. 99.
[79] N. C. Aizenman, “New High in US Prison Numbers”, cit.
[80] Joy James (org.), Warfare in the American Homeland: Policing and Prison in a Penal Democracy
(Durham [NC], Duke University Press, 2007).
[81] Michelle Brown, por exemplo, diz que “as semelhanças institucionais entre Abu Ghraib e o aumento
das prisões ‘de segurança máxima’ nos Estados Unidos marcam um padrão especialmente perigoso na
exportação da punição”. Michelle Brown, “‘Setting the Conditions’ for Abu Ghraib”, cit., p. 997.
[82] Ver Hazel Trice Edney, “Experts Say US Prisoners Are Subjected to Iraqi-Style Abuse”, e
Wilmington Journal, 8 jun. 2004.
[83] Brady omas Heiner, “ e American Archipelago”, cit., p. 84.
[84] Idem.
[85] Judith Butler, Precarious Life (Londres, Verso, 2004), p. 53.
[86] Suzanne Goldenberg, “More than 80,000 Held by US since 9/11 Attacks”, e Guardian, Londres,
18 nov. 2005.
[87] Walter Pincus, “US Expects Iraq Prison Growth Crackdown Likely to Mean More Inmates at 2
Detention Centers”, Washington Post, 14 mar. 2007.
[88] Derek Gregory, “‘ e Rush to the Intimate’: Counterinsurgency and the Cultural Turn in Late
Modern War”, Radical Philosophy, n. 150, 2008.
[89] Brady omas Heiner, “ e American Archipelago”, cit., p. 85.
[90] Amy Kaplan, “Violent Belongings and the Question of Empire Today: Presidential Address to the
American Studies Association, Hartford, Connecticut, October 17, 2003”, American Quarterly, v. 56, n.
1, 2004, p. 14.
[91] Stephen Graham, “Postmortem City: Towards a New Urban Geopolitics”, City, v. 8, n. 2, 2004.
[92] Loïc Wacquant, “ e Militarization of Urban Marginality Lessons from the Brazilian Metropolis”,
International Political Sociology, v. 2, n. 1, 2008, p. 56.
[93] Idem.
[94] Naomi Klein, e Shock Doctrine: e Rise of Disaster Capitalism (Londres, Allen Lane, 2007).
[95] “Biometric Test: Residents Stage Demonstration”, e Times of India, Mumbai, 30 mar. 2006.
[96] Ver Giorgio Agamben, Homo Sacer: Sovereign Power and Bare Life (Stanford, Stanford University
Press, 1998) [ed. bras.: Homo sacer: o poder soberano e a vida nua, trad. Henrique Burigo, Belo Horizonte,
Editora UFMG, 2010].
[97] Henry Giroux, “Reading Hurricane Katrina”, College Literature, v. 33, n. 3, 2006, p. 172.
[98] Jason Burke, “Bustling Gateway to Paris Becomes the Brutal Frontline in a Turf War”, e Observer,
Londres, 20 abr. 2008.
[99] Nick Vaughan-Williams, “ e Shooting of Jean Charles de Menezes: New Border Politics?”,
Alternatives, n. 32, 2007, p. 177-95.
[100] Ver Seumas Milne, “ is Persecution of Gypsies Is Now the Shame of Europe”, e Guardian,
Londres, 10 jul. 2008.
[c] Dados de 2010. (N. E.)
[101] Ver, por exemplo, Stephanie Leman-Langlois, “ e Myopic Panopticon: e Social Consequences
of Policing rough the Lens”, Policing and Society, v. 13, n. 1, 2002, p. 43-58, e e Nacro Report on
CCTV Effectiveness, 1999. Disponível em: <www.crimereduction.homeoffice.gov.uk/cctv>. Acesso em: 3
abr. 2016; e Kate Painter e Nick Tilley (orgs.), “Surveillance of Public Space: CCTV, Street Lighting and
Crime Prevention”, Crime Prevention Studies, v. 10 (Nova York, Criminal Justice Press, 1999).
[102] Os programas Next Generation Face Recognition (NGFR) [Reconhecimento Facial de Próxima
Geração] do Pentágono também estão tentando desenvolver sistemas que funcionariam nas ruas abertas
da cidade ou em “ambientes não estruturados” usando os avanços do que a Defense Advanced Research
Projects Agency (Darpa) [Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa] chama de “imagens e
técnicas de processamento tridimensionais, análise de expressão e reconhecimento facial de imagens
multiespectrais e infravermelho”. O objetivo aqui é produzir sistemas de reconhecimento facial que
resistam a diferenças no tempo entre imagens faciais (envelhecimento) e variações de pose, iluminação e
expressão. Tanto as forças especiais dos Estados Unidos quanto a Darpa, por exemplo, estão
desenvolvendo sistemas de circuitos de câmeras com reconhecimento facial tridimensional, criados para
serem usados nas ruas abertas das cidades em vez de nos “pontos de passagem” dos aeroportos.
Bumerangues foucaultianos em potencial, eles podem vir a ser usados “pelos militares, pelos agentes da lei
e pelo setor comercial do mercado”. Todas as citações foram retiradas do Arquivo SITIS, “3-D Facial
Imaging System”. Disponível em: <www.dodsbir.net>.
[103] Ver Arun Hampapur et al., “Smart Video Surveillance”, IEEE Signal Processing Magazine, mar.
2005, p. 38-51.
[104] Tom Colasti, CEO da Visage Technology, citado em Kelly Gates, “Identifying the 9/11 ‘Faces Of
Terror’”, Cultural Studies, v. 20, n. 4, p. 424.
[105] Ibidem, p. 426.
[106] Owen Bowcott, “Interpol Wants Facial Recognition Database to Catch Suspects”, e Guardian,
Londres, 20 out. 2008.
[107] Kelly Gates, “Identifying the 9/11 ‘Faces Of Terror’”, cit., p. 424, 434.
[108] Ibidem, p. 424, 436.
[109] Ibidem, p. 424.
[110] Phil Agre, “Your Face Is Not a Bar Code: Arguments against Automatic Face Recognition in Public
Places”, Whole Earth, n. 106, 2001, p. 74-7.
[111] Naomi Klein, “Police State 2.0”, e Guardian, Londres, 3 jun. 2008.
[112] Citado em Ian Brown, Privacy & Law Enforcement, relatório para o Information Commissioner
Study Project do Reino Unido, 2007.
[113] Ben Hayes e Roche Tasse, “Control Freaks: ‘Homeland Security’ and ‘Interoperability’”, Different
Takes, n. 45, 2007, p. 2.
[114] Graham Keeley, “Grim Toll of African Refugees Mounts on Spanish Beaches”, e Observer,
Londres, 13 jul. 2008.
[115] Sebastian Cobarrubias et al., “Delete the Border! New Mapping Projects, Activist Art Movements,
and the Reworking of the Euro-Border”, artigo apresentado no Congresso da Associação dos Geógrafos
Estado-Unidenses, Chicago, 2006.
[116] Ben Hayes e Roche Tasse, “Control Freaks”, cit.
[117] Idem.
[118] David Murakami Wood e Jonathan Coaffee, “Security Is Coming Home: Rethinking Scale and
Constructing Resilience in the Global Urban Response to Terrorist Risk”, International Relations, v. 20, n.
4, 2006, p. 503-17.
[119] Steve Herbert, “ e ‘Battle of Seattle’ Revisited: Or, Seven Views of a Protest-Zoning State”,
Political Geography, n. 26, 2007, p. 601-19.
[120] Don Mitchell e Lynn Mitchell Staeheli, “Permitting Protest: Parsing the Fine Geography of Dissent
in America”, International Journal of Urban and Regional Research, n. 29, 2005, p. 796-813.
[121] Robert Warren, “City Streets – the War Zones of Globalization: Democracy and Military
Operations on Urban Terrain in the Early 21st Century”, em Stephen Graham (org.), Cities, War and
Terrorism, (Oxford, Blackwell, 2004), p. 214-30.
[122] Nick Davies, “ e Bloody Battle of Genoa”, e Guardian, Londres, 17 jul. 2008.
[123] Gan Golan, Closing the Gateways of Democracy: Cities and the Militarization of Protest Policing (Tese
de Doutorado, Cambridge [MA], Massachusetts Institute of Technology, 2005).
[124] Ver Kimberly Schimmel, “Deep Play: Sports Mega-Events and Urban Social Conditions in the
US”, e Sociological Review, v. 54, n. 2, 2006, p. 160-74. Além dos enormes esforços de segurança,
eventos olímpicos estão associados a níveis bélicos de despejos e remoções. Por exemplo, nos preparativos
para os jogos de 2008, em Pequim, estimou-se que “mais de 1,25 milhão de pessoas [foram] forçadas a se
mudar por causa da construção da estrutura olímpica; estimava-se que o número chegaria a 1,5 milhão
até o fim de 2007”. Bryan Finoki, “An Olympic Distraction”, 17 jul. 2008. Disponível em
<subtopia.blogspot.com>. Acesso em: 3 abr. 2016.
[125] Robert Warren, “ e Military Siege of Urban Space as the Site of Local and Global Democratic
Practice”, artigo apresentado na Conferência de Policiamento de Multidões, Berlim, 2006.
[126] Francisco Klauser, “Fifa Land™: Alliances Between Security Politics and Business Interests for
Germany’s City Network”, em Deborah Natsios et al., Architectures of Fear, cit.
[127] Paul Phister e Igor Plonisch, “Joint Synthetic Battlespace: Cornerstone for Predictive Battlespace
Awareness”, artigo não publicado, Rome [NY], Air Force Research Laboratory/Information Directorate,
p. 1.
[128] Louise Amoore, “Algorithmic War”, cit.
[129] Idem.
[130] Idem.
[131] Colleen McCue, “Data-mining and Predictive Analytics: Battlespace Awareness for the War on
Terror”, Defense Intelligence Journal, v. 13, n. 1-2, p. 47-63.
[132] Idem.
[133] Richard Pruett e Michael Longarzo, “Identification, Friend or Foe? e Strategic Uses and Future
Implications of the Revolutionary New ID Technologies”, artigo não publicado, US Army War College,
Strategy Research Project, Pensilvânia, US Army War College Carlisle Barracks, 2006.
[134] Todd Masse, Siobhan O’Neil e John Rollins, “CRS Report For Congress Fusion Centers: Issues
and Options for Congress”, 6 jul. 2007, Order Code RL34070.
[135] John Measor e Benjamin Muller, “Securitizing the Global Norm of Identity: Biometric
Technologies in Domestic and Foreign Policy”, 17 set. 2005. Disponível em: <Dahrjamailiraq.com>.
Acesso em: 3 abr. 2016.
[136] Heather Murray, “Monstrous Play in Negative Spaces: Illegible Bodies and the Cultural
Construction of Biometric Technology”, Communication Review, v. 10, n. 4, p. 359.
[137] Em uma tentativa de “colocar em ordem aquilo que está ‘fora’ da norma”, nas palavras de Measor e
Muller, planejadores de guerra estado-unidenses identificaram Fallujah como um estado de exceção que
requeria “soluções” extremas. “Fallujah, com sua longa história de resistência ao controle central só
potencializada com a experiência da ocupação estado-unidense, claramente refutou as tentativas estado-
unidenses de controlar a cidade. Essas tentativas fizeram com que as forças militares dos Estados Unidos a
identificassem cada vez mais como única e excepcional em seu papel de insurgência”. John Measor e
Benjamin Muller, “Securitizing the Global Norm of Identity”, cit.
[138] Citado em John Measor e Benjamin Muller, “Securitizing the Global Norm of Identity”, cit.
[139] Idem.
[140] Idem.
[141] Corporal Chris Prickett, II Força Expedicionária da Marinha, “Coming to Your Town Soon?
Tracking Locals with the BAT of an Eye”, Marine Corps News, 28 mar. 2005.
[142] Mitchell M. Zais, “Iraq: e Way Ahead”, Military Review, jan.-fev. 2008, p. 112.
[143] Spencer Ackerman, “Tear Down is Wall”, e Guardian, Londres, 24 abr. 2007.
[144] Russell B. Farkouh, “Incorporating Biometric Security into an Everyday Military Work
Environment”, SANS GIAC GSEC Practical Version 1.4b, Option 1, 2004.
[145] Andrew R. Hom, “ e New Legs Race: Critical Perspectives on Biometrics in Iraq”, Military
Review, jan.-fev. 2008, p. 88.
[146] John Measor e Benjamin Muller, “Securitizing the Global Norm of Identity”, cit.
[147] Idem.
[148] Ver Bülent Diken e Carsten Bagge Laustsen, e Culture of Exception: Sociology Facing the Camp
(Londres, Routledge, 2005), p. 64.
[149] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, cit, p. 330-50.
[150] James Sheptycki, “ e Global Cops Cometh: Reflections on Transationalization, Knowledge Work
and Policing Subculture”, British Journal of Sociology, v. 49, n. 1, 1998, p. 70.
[151] Marieke de Goede, “Beyond Risk: Pre-Mediation and the Post- 9/11 Security Imagination”,
Security Dialogue, jul. 2007.
[152] Didier Bigo, “Globalized-in-security: e Field and the Ban-opticon”, em John Solomon e Naoki
Sakai (orgs.), Translation, Philosophy and Colonial Difference (Hong Kong, Hong Kong University Press,
2005), p. 1.
[153] Deborah Cowen, “Securing Systems: Struggles over Supply Chains and the Social”, artigo não
publicado, 2006, p. 3.
[154] Edward Soja, “Borders Unbound: Globalization, Regionalism and the Postmetropolitan
Transition”, em Henk van Houtum, Olivier Framsch e Wolfgang Zierhofer (orgs.), B/Ordering Space
(Londres, Ashgate, 2005), p. 40.
[155] Laurent Gutierrez e Valerie Portefaix, Mapping HK (Hong Kong, Map Books, 2000).
[156] Deborah Cowen, “Securing Systems”, cit., p. 2.
[157] Antulio Echevarria e Bert Tussing, From “Defending Forward” to a “Global Defense-In-Depth”:
Globalization and Homeland Security, Strategic Studies Institute, 2003. Disponível em:
<www.strategicstudiesinstitute.army.mil>. Acesso em: 3 abr. 2016.
[158] Deborah Cowen e Neil Smith, “After Geopolitics? From the Geopolitical Social to Geoeconomics”,
Antipode, v. 41, n. 1, 2009, p. 22-48.
[159] Donna Miles, “With Ongoing Terror Fight Overseas, Northcom Focuses on Homeland”,
Securityinnovator.com, 17 nov. 2006.
[160] Idem.
[161] Deborah Cowen e Neil Smith, “After Geopolitics?”, cit.
[162] Stephen Flynn, “ e False Conundrum: Continental Integration versus Homeland Security”, em
Peter Andreas e omas Biersteker (orgs.), e Rebordering of North America (Nova York, Routledge,
2003), p. 11.
[163] Antulio Echevarria e Bert Tussing, From “Defending Forward” to a “Global Defense-In-Depth”, cit.
[164] Esse termo bebe na fonte da ideia de Deborah Cowen de “conter insegurança” publicada em sua
contribuição a um livro editado por mim, Disrupted Cities: When Infrastructures Fail (Nova York,
Routledge, 2009).
[165] Ver Keller Easterling, Enduring Innocence (Cambridge [MA], MIT Press, 2006).
[166] Esse sistema organiza 90% do comércio global por meio de cadeias globais de fornecimento e da
logística avançada e é responsável pela entrega de 95% do comércio exterior que adentra os Estados
Unidos.
[167] “When Trade and Security Clash”, e Economist, Londres, 4 abr. 2002.
[168] Jon Haveman e Howard Shatz, Protecting the Nation’s Seaports: Balancing Security and Cost (São
Francisco, Public Policy Institute of California, 2006).
[169] IBM, Expanded Borders, Integrated Controls, material de marketing.
[170] Deborah Cowen e Neil Smith, “After Geopolitics?”, cit.
[d] O que o termo inglês waterfront (atualmente muito popular no vocabulário do planejamento e da
gestão urbanos mundo afora) designa é um espaço situado em frente a um grande corpo d’água – mar, rio
ou lago/lagoa – e que, por sua localização potencialmente atraente do ponto de vista da (re)valorização
capitalista do espaço, muitas vezes tende a receber atenção especial de administrações locais e investidores.
O discurso internacional em torno da “revitalização” ou “requalificação” espacial (e que, mais
genericamente, refere-se ao que se chama de “gentrificação”) tem considerado esse tipo de área uma
oportunidade prioritária para o capital imobiliário e grandes negócios em geral. Em escala mundial, talvez
o exemplo mais famoso de waterfront seja a área das docas de Londres (Docklands); no Brasil, o projeto
do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro, seria o principal exemplo. Como Stephen Graham mostra,
porém, não é apenas do ponto de vista econômico que os waterfronts vêm recebendo, em alguns países,
maior atenção, mas também da perspectiva da “segurança nacional”. (Nota de Marcelo Lopes de Souza)
[171] Deborah Cowen, “Securing Systems”, cit., p. 7.
[172] Homi Bhabha, “ e ird Space: Interview with Homi Bhabha”, em J. Rutherford (org.), Identity:
Community, Culture, Difference (Londres, Routledge, 1990), p. 208-24.
[173] Accenture Digital Forum, “US DHS to Develop and Implement US-Visit Program”, 2004, p. 4.
Disponível em: <www.digitalforum.accenture.com>. Acesso em: 3 abr. 2016.
[174] Ben Hayes e Roche Tasse, “Control Freaks”, cit., p. 2.
[175] Mark Salter, “ e Global Visa Regime and the Political Technologies of the International Self:
Borders, Bodies, Biopolitics”, Alternatives, n. 31, 2006, p. 167-89.
[176] Richard Pruett e Michael Longarzo, “Identification Friend or Foe? e Strategic Uses and Future
Implications of the Revolutionary New ID Technologies”, US Army War College, Strategy Research
Project, Pensilvânia: US Army War College Carlisle Barracks, 2006. Disponível em:
<www.strategicstudiesinstitute.army.mil>. Acesso em: 3 abr. 2016.
[177] Dean Wilson e Leanne Weber, “Surveillance, Risk and Preemption on the Australian Border”,
Surveillance & Society, v. 5, n. 2, p. 125.
[178] Idem.
[179] Karine Côté-Boucher comenta que essas estratégias de “controle remoto de fronteira”, que estão
levando as funções da fronteira para dentro de países estrangeiros, têm uma longa história. Elas “eram
usadas na administração estado-unidense da imigração chinesa já no início do século XX”. Karine Côté-
Boucher, “ e Diffuse Border: Intelligence-Sharing, Control and Confinement along Canada’s Smart
Border”, Surveillance & Society, v. 5, n. 2, 2008, p. 142.
[180] Louise Amoore, “Algorithmic War”, cit. Entre os 34 dados dos passageiros exigidos pelos acordos
União Europeia-Estados Unidos de registro do nome do passageiro (PNR) e do sistema de informação de
passageiro avançado (Apis), desafiados legalmente pela Corte Europeia de Justiça em 2006, estão
informações de cartão de crédito, ficha criminal e escolha de refeição do voo. Os dados são extraditados
para os Estados Unidos em menos de quinze minutos da saída do voo da Europa.
[181] Karine Côté-Boucher, “ e Diffuse Border”, cit., p. 157.
[182] Matthew Sparke, “A Neoliberal Nexus: Economy, Security and the Biopolitics of Citizenship on
the Border”, Political Geography, v. 25, n. 2, 2006, p. 167-170.
[183] John Measor e Benjamin Muller, “Securitizing the Global Norm of Identity”, cit.
[184] Ryan Singel, “NSA’s Lucky Break: How the US Became Switchboard to the World”, Wired, São
Francisco, 10 out. 2007.
[185] Stephan Beckert, diretor de pesquisa na TeleGeography, citado em Ryan Singel, “NSA’s Lucky
Break”, cit.
[186] Ryan Singel, “NSA’s Lucky Break”, cit.
[187] “Restore” significa “Responsible Electronic Surveillance at is Overseen, Reviewed and Effective”
[monitoramento eletrônico responsável que é supervisionado, revisto e eficiente].
[188] Ryan Singel, “NSA’s Lucky Break”, cit.
[189] Ver capítulo 9 deste volume.
[190] Ver Louise Amoore e Marieke de Goede, “Transactions after 9/11: e Banale Face of the
Preemptive Strike”, Transactions of the Institute of British Geographers, n. 33, 2008, p. 173-185.
[191] Ghassan Hage, Against Paranoid Nationalism: Searching for Hope in a Shrinking Society (Sidney,
Pluto Press, 2003), p. 18.
[192] John Robb, Brave New War: e Next Stage of Terrorism and the End of Globalization (Nova York,
Wiley, 2007), p. 185.
[193] Idem.
[194] Ibidem, p. 186.
[195] Stephen Graham e Simon Marvin, Splintering Urbanism (Londres, Routledge, 2001).
[196] Nezar Alsayyad e Ananya Roy, “Medieval Modernity: On Citizenship and Urbanism in a Global
Era”, Space and Polity, v. 10, n. 1, 2006, p. 1-20.
[197] Idem.
[198] Ver, por exemplo, Stephen Kobrin, “Back to the Future: Neomedievalism and the Postmodern
Digital World Economy”, Journal of International Affairs, n. 51, 1998.
[199] Nezar Alsayyad e Ananya Roy, “Medieval Modernity”, cit., p. 17.
[200] Idem.
[201] Ibidem, p. 13.
[202] Idem.
[203] Idem.
[204] James Holston e Arjun Appadurai (orgs.), Cities and Citizenship (Durham [NC], Duke University
Press, 1999), p. 13.
[205] Robby Herbst, “Hinting at Ways to Work in Current Contexts”, em uma entrevista com Brian
Holmes, Journal of Aesthetics and Protest, v. 1, n. 4, 2005.
[206] Paul Edwards, em Jordan Crandall (org.), Under Fire 2: e Organization and Representation of
Violence (Roterdã, Witte de Witte, 2005), p. 58.
[207] Michael Shapiro, “Every Move You Make: Bodies, Surveillance, and Media”, Social Text, v. 23, n. 2,
2005, p. 29.
[208] Hille Koskela, “‘Cam Era’ – e Contemporary Urban Panopticon”, Surveillance and Society, n. 1,
2003, p. 292-313.
[209] Allen Feldman, “Securocratic Wars of Public Safety”, cit., p. 330-50.
[210] Carlos Decena e Margaret Gray, “ e Border Next Door: New York Migraciones”, Social Text, v.
24, n. 3, 2007, p. 1-12.
[211] David Murakami Wood e Jonathan Coaffee, “Security Is Coming Home”, cit., p. 503-17.
[212] Cindi Katz, “Banal Terrorism”, em Derek Gregory e Allan Pred (orgs.), Violent Geographies (Nova
York, Routledge, 2006), p. 349-62.
[213] Francisco Klauser, “Fifa LandTM: Alliances between Security Politics and Business Interests for
Germany’s City Network”, cit.
[214] Mats Franze, “Urban Order and the Preventive Restructuring of Space: the Operation of Border
Controls in Micro-Space”, e Sociological Review, v. 49, n. 2, 2001, p. 202-18.
[215] M. J. Shapiro, “Every Move You Make: Bodies, Surveillance, and Media”, Social Text, v. 23, n. 2,
2005, p. 29.
[216] John Kaliski, “Liberation and the Naming of Paranoid Space”, em Stephen Flusty (org.), Building
Paranoia: e Proliferation of Interdictory Space and the Erosion of Spatial Justice (Los Angeles, Los Angeles
Forum for Architecture and Urban Design, 1994).
[217] Adrian Parr, “One Nation Under Surveillance”, cit., p. 99.
[218] Bülent Diken e Carsten Bagge Laustsen, e Culture of Exception, cit., p. 73.
[219] Don Mitchell, e Right to the City: Social Justice and the Fight for Public Space (Nova York,
Guildford, 2003).
[220] Adrian Parr, “One Nation under Surveillance”, cit., p. 105.
[221] Naomi Wolf, “Fascist America, in 10 Easy Steps”, e Guardian, Londres, 24 abr. 2007.
[222] Guillermina Seri, “On Borders and Zoning: e Vilification of the ‘Triple Frontier’”, artigo
preparado para ser apresentado no encontro da Associação de Estudos Latino-Americanos, Dallas, mar.
2003. Disponível em: <http://lasa.international.pitt.edu/Lasa2003/SeriGuillermina.pdf>. Acesso em: 17
jun. 2016.
[223] Idem.
[224] Bryan Turner, “ e Enclave Society: Towards a Sociology of Immobility”, European Journal of
Social eory, v. 10, 2007, p. 301.
[225] Stephen Legg, “Beyond the European Province: Foucault and Postcolonialism”, em Jeremy W.
Crampton e Stuart Elden (orgs.), Space, Knowledge and Power: Foucault and Geography (Aldershot,
Ashgate, 2007), p. 265-89.
[226] Adrian Parr, “One Nation under Surveillance”, cit., p. 106.
5
SONHOS DE UM ROBÔ DA GUERRA

As pessoas me dizem que os iraquianos não são os vietnamitas. Não há selvas nem pântanos
onde se esconder. Eu respondo: “Que nossas cidades sejam nossos pântanos e nossas edificações
sejam nossas selvas”.[1]

A disseminada adoção da doutrina da guerra urbana entre as forças


militares ocidentais acontece após séculos durante os quais seus planejadores
observaram o provérbio de 3,5 mil anos de Sun Tzu de que a “pior política é
atacar cidades”[2]. Também acontece após a Guerra Fria, durante a qual o
discurso militar ocidental enfatizava o completo extermínio urbano por meio
do uso de armas nucleares contra os inimigos, junto com enormes conflitos
“aéreo-terrestres” liderados pelas superpotências que ocorreriam não dentro das
cidades, mas na planície do norte da Europa, dentro e acima das áreas entre as
zonas urbanas, contornando-as. Enquanto as forças ocidentais lutavam diversas
batalhas nas cidades do mundo em desenvolvimento durante a Guerra Fria
como parte de conflitos mais amplos contra movimentos de independência ou
guerras “quentes” por procuração, esses conflitos eram considerados por
teóricos militares do Ocidente como espetáculos secundários atípicos em
relação aos combates nucleares e aéreo-terrestres projetados pelas
superpotências.
Em consequência, a doutrina já marginal de guerra urbana recebeu pouca
atenção durante a Guerra Fria e se tornou extremamente periférica dentro da
retórica militar ocidental. Nas raras ocasiões em que a doutrina militar da
Guerra Fria abordava de maneira explícita a guerra urbana, as forças estado-
unidenses tendiam a (atenção à linguagem caracteristicamente eufemística)
“lidar com a área urbana destruindo ou isolando a cidade”[3], usando as
mesmas táticas desde a Segunda Guerra Mundial. Isto é, os Estados Unidos ou
ignoravam ou tentavam sistematicamente aniquilar determinadas cidades.
Em contraste, hoje em dia, as batalhas institucionais travadas dentro das
Forças Armadas estado-unidenses e suas instituições de pesquisa associadas
sobre a melhor maneira de responder a operações de insurgência em grandes
áreas urbanas estão entre as mais importantes na política militar dos Estados
Unidos[4]. Concepções dominantes sobre a atuação militar estado-unidense,
que ignoram a urbanização do conflito, são agora bastante contestadas, e os
perigos observados na realização de “operações militares em áreas urbanas”
estão sendo amplamente debatidos e abordados.
As pesquisas militares dos Estados Unidos sobre os desafios envolvidos
nessas transformações superam de longe as de todas as demais nações
combinadas. As repercussões das sangrentas insurgências urbanas iraquianas se
avultam nesses debates. Em uma substanciosa revisão da doutrina de guerra
urbana estado-unidense preparada em 2003, o major Lee Grubbs fez a
audaciosa declaração de que

conforme o plano para o Iraque evolui, fica claro que os inimigos das Forças Armadas dos
Estados Unidos aprenderam um método para mitigar o domínio das Forças Conjuntas (norte-
americanas) no monitoramento e conflito de longo alcance. O inimigo vai buscar a cidade e as
vantagens de se misturar com não combatentes.[5]

Uma característica especialmente importante do discurso militar estado-


unidense sobre a urbanização domina os debates: como a escala e a
complexidade tridimensional das cidades no Sul global podem minar as
vantagens hegemônicas e dispendiosas dos Estados Unidos em monitoramento,
definição de alvos e assassinato a distância por meio de sistemas de armas “de
precisão” aéreas e espaciais. O presente capítulo analisa a visão dos teóricos
militares estado-unidenses de que a rápida urbanização do mundo estaria
prejudicando significativamente o domínio militar e tecnocientífico dos
Estados Unidos. Em seguida, examina o que chamo de “virada urbana” da
guerra de alta tecnologia: o surgimento, dentro das Forças Armadas estado-
unidenses, de sonhos tecnófilos de poderio perfeito, especificamente da
adaptação da guerra de alta tecnologia à tarefa de controlar a microgeografia
das cidades do Sul global.

Sonhos frustrados
Depois de ver o Iraque ocupado de perto e in loco durante 2003 e 2004, posso relatar o
seguinte: a nave espacial da RMA [revolução em assuntos militares] dos sonhos de Rumsfeld
fez um pouso forçado no deserto.[6]

Estratégias militares visando projetar, sustentar e aprofundar o poder


geopolítico dos Estados Unidos no período pós-Guerra Fria contaram com a
“transformação” do poder militar estado-unidense por meio da chamada
Revolution in Military Affairs (RMA) [revolução em assuntos militares].
Concentrada em tecnologias de “invisibilidade”, alvos “de precisão”,
computadores em rede e geoposicionamento por satélite, a RMA foi
amplamente celebrada por planejadores militares dos Estados Unidos como o
caminho para manter o domínio do país.
A interconexão é crucial para a RMA. O uso de sensores e computadores
em rede para estabelecer um “sistema de sistemas” de tecnologias militares
estado-unidenses significa que uma forma de guerra verdadeiramente “voltada
para uma rede” deveria ser possível na atualidade. Isso permitiria que as forças
dos Estados Unidos dominassem adversários de modo contínuo por meio de
um monitoramento e de uma “percepção situacional” próximos à onipotência,
por meio de um poder de fogo aéreo devastador e que faz uma seleção precisa
de alvos, e por meio da supressão e degradação da comunicação e do poder de
combate de qualquer e de todas as forças oponentes[7]. Teóricos da RMA
imaginam as operações militares dos Estados Unidos como uma gigantesca
“rede corporativa” integrada – um sistema just-in-time[a] de guerreiros
ciborgues que segue muitos dos princípios de administração da logística e de
rastreamento tecnológico que tanto dominam os modelos de negócios
contemporâneos[8].
Um argumento crucial em favor da RMA é a redução do risco da realização
de operações militares – isto é, do risco para as forças estado-unidenses. Por
consequência, tais intervenções se tornam mais comuns, mais agressivas e mais
preventivas. E tornam-se a base da estratégia dos Estados Unidos. Essas
percepções foram fundamentais para o lançamento da “guerra preventiva” dos
mandatos Bush como parte de uma Guerra ao Terror pós-11 de Setembro
corrente e irrestrita e, antes disso, para influentes pronunciamentos do
neoconservador Project for a New American Century [Projeto para um Novo
Século Estado-Unidense] defendendo que as forças do país precisavam ser
repensadas para a era pós-Guerra Fria de modo que pudessem “lutar e vencer
decisivamente múltiplos e simultâneos cenários de guerra”.
“Hoje é possível usar o poderio militar dos Estados Unidos com uma
chance muito reduzida de sofrermos baixas ou de perdermos equipamento”,
escreveu o teórico militar estado-unidense Raymond O’Mara em 2003. Ao
reduzir as baixas estado-unidenses a níveis insignificantes, afirmou ele, o
posicionamento militar estava se tornando, do ponto de vista político, muito
menos problemático. Como resultado, as Forças Armadas dos Estados Unidos
tiveram de se “adaptar ao seu novo papel de ferramenta de escolha, em vez de
ferramenta de último recurso”[9].
A linguagem tecnófila pode aludir à RMA como condutora de uma
estratégia de risco reduzido, “limpa” e aparentemente indolor do domínio
militar dos Estados Unidos, mas essa imagem supõe que as redes vastas e
integradas de sensores e armas funcionariam sem interrupção. Além do mais, as
escalas globais de fluxo e conexão dominam o discurso: controle tecnológico,
monitoramento onipresente, percepção situacional em tempo real e interações
digitais na velocidade da luz são amplamente retratados como processos
intrinsecamente capazes de dotar as forças militares dos Estados Unidos de um
“domínio de espectro total” em escala planetária, independentemente do
terreno geográfico a ser dominado.
Nesse sentido, o discurso da RMA tem sido, marcadamente, não
geográfico. Poucos registros foram feitos das especificidades dos espaços e dos
terrenos geográficos habitados por adversários dos Estados Unidos no período
pós-Guerra Fria, ou das mudanças acarretadas pela urbanização. Um axioma-
chave da retórica da RMA é a nova habilidade estado-unidense de executar
estratégias globais para domínio geopolítico por meio de uma “não
territorialidade radical”[10].
Em resposta à negligência da RMA em relação à urbanização global e
incitada pelas catastróficas e sucessivas insurgências urbanas no Iraque desde a
invasão de 2003, uma gama cada vez mais poderosa de contradiscursos
emergiu dentro das Forças Armadas dos Estados Unidos. Esses contradiscursos
se concentraram no colapso das fantasias originais da RMA de controle
planetário ao serem confrontadas com as microgeografias das cidades
iraquianas e as complexas insurgências da nação. “Em algum ponto do
caminho da dominação militar global sem atrito, os Estados Unidos se viram
presos em um conflito de guerrilha urbana radicalmente assimétrico”, escreve
Christian Parenti. De repente,

a fantasia militar do país se transformou em um pesadelo militar: um desajeitado exército de


alta tecnologia de garotos norte-americanos fracos atolados em cidades iraquianas combatendo
uma insurgência de baixa tecnologia e determinada.[11]

Mesmo assim, longe de recuar das fantasias tecnófilas, a maior parte dos
contradiscursos militares sugere apenas que o militarismo de alta tecnologia
estado-unidense seja redirecionado para a tarefa de se voltar às complexas
geografias das cidades, em vez dos domínios de poder aéreo e espacial. Os
pronunciamentos dos defensores de uma “virada urbana” da RMA têm tido
duas características principais.

Falhas de sinal
Simplificando, as paredes tendem a ficar no caminho da comunicação dos campos de batalha e
das tecnologias de sensor de hoje em dia.[12]

Em primeiro lugar, os proponentes da virada urbana sugerem com


veemência que o terreno urbano em países pobres do Sul global é um grande
nivelador entre as forças de alta tecnologia dos Estados Unidos e seus
adversários de baixa tecnologia, em geral organizados informalmente e mal
equipados. O terreno complexo e congestionado que fica abaixo, dentro e
acima das cidades é visto como um conjunto de campos de batalha físicos que
limitam a eficiência de bombas guiadas por GPS, sistemas de monitoramento
aéreos e espaciais, e armas automatizadas, de “precisão” e “em rede”.
Um importante documento do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados
Unidos, por exemplo, afirmava em 1997 que “o ambiente urbano nega as
habilidades do atual equipamento de comunicação estado-unidense”[13].
Aliás, os princípios e as tecnologias da guerra “redecêntrica” se desfazem de
modo drástico nas cidades. Densos ambientes de concreto reduzem as
vantagens de uma força de alta tecnologia sobre uma de baixa. Phillip
Misselwitz e Eyal Weizman alertam:

Prédios mascaram alvos e criam cânions urbanos, que diminuem a capacidade da força áerea.
[Como resultado] é difícil enxergar no campo de batalha urbano; é muito difícil se comunicar
nele, porque as ondas de rádio costumam ser prejudicadas [e, portanto], é difícil usar armas de
precisão porque é difícil obter localizações de satélite de GPS precisas.[14]

Em suma, afirma o pesquisador britânico Aidan Harris, “as tecnologias


tradicionalmente atribuídas ao fenômeno atual da Revolução em Assuntos
Militares terão um impacto insignificante nas Operações Militares em Terreno
Urbano”[15].
Muitos comentadores estado-unidenses das guerras urbanas defendem que
a urbanização do campo de batalha reduz a habilidade das forças dos Estados
Unidos de conquistar a onisciência vertical (Figura 5.1) e de combater e matar
a distância (sempre o modo preferível, por causa do medo das baixas
combinado com o desejo de supremacia tecnológica). As cidades oferecem
riscos potencializados para as forças estado-unidenses lutarem em guerras
preventivas e expedicionárias. “Dos fluxos de refugiados até a densa geografia
urbana, as cidades criam ambientes que aumentam exponencialmente a
incerteza”, afirma o estudo dos Fuzileiros Navais de 1997[16]. Portanto,
operações militares em cidades são vistas como eventos traiçoeiros, semelhantes
a um cavalo de Troia, que podem permitir que insurgentes fracos e mal
equipados obtenham vitórias sobre a superpotência militar mundial
remanescente.
5.1 Interrompendo sonhos de supremacia vertical: imagem de uma parte de Bagdá feita por satélite
militar estado-unidense.

A urbanização da insurgência
Forças de oposição vão se camuflar no barulho de fundo do ambiente urbano. Dentro do
ambiente urbano, não é a arma em si, e sim a cidade que maximiza ou silencia a eficiência de
uma arma. Em becos claustrofóbicos e desfiladeiros urbanos, é impossível controlar os civis ou
caracterizá-los como aliados ou não. Armas escondidas sob um manto, num carrinho de bebê
ou enroladas em um tapete podem passar por agentes de segurança sem serem detectadas.[17]
A segunda característica principal do discurso da virada urbana tira o foco
da escala nacional – os desafios apresentados pelos “Estados fracassados” – para
a escala urbana, os desafios militares e políticos de grupos insurgentes bem
armados escondidos em áreas urbanas em rápido crescimento e controlando-os.
Um elemento importante é o influente conceito de “cidades selvagens” – áreas
urbanas de alta desordem no Sul global que são controladas por violentas
milícias não governamentais de diversos tipos –, elaborado pelo comentador
das Forças Armadas dos Estados Unidos Richard J. Norton[18].
Alguns protagonistas nesse debate defendem que a falência de armas e
sensores de alta tecnologia, causada pelo “caos da dissimulação” criado pelas
cidades, está levando diretamente a uma tendência maior entre adversários
políticos estado-unidenses de se refugiar dentro de cidades. “A tendência de
longo prazo em combates em área aberta é de domínio elevado pelas forças dos
Estados Unidos”, escreve um dos maiores comentadores de guerra urbana
norte-americanos, Ralph Peters. Ele prevê que

o conhecimento do campo de batalha [pelas forças estado-unidenses] pode se provar tão


completo, e as armas “de precisão” tão amplamente disponíveis e eficientes, que sistemas de
combate inimigos com base no solo não vão conseguir sobreviver nos desertos, nas planícies e
nos campos que testemunharam tantas batalhas importantes da história.[19]

Como resultado, defende Peters, os “inimigos [dos Estados Unidos] serão


forçados a ir para as cidades e outros terrenos complexos, como áreas
industriais e alastramentos intermunicipais”[20].
Encorajando o que Jennifer Taw e Bruce Hoffman, teóricos do Rand
Corporation[b], chamaram de “urbanização da insurgência”[21], há um
incentivo fundamental: a ideia de que os insurgentes que exploram as
geografias materiais das cidades do Sul global podem forçar militares dos
Estados Unidos a se aproximar fisicamente e, assim, expô-los a índices de
ferimento e morte muito mais altos do que os esperados pela doutrina RMA.
De acordo com o relatório dos Fuzileiros Navais de 1997:

As armas [que esses insurgentes] usam podem ter trinta ou quarenta anos ou ser feitas de
ferragens. Mas, a pouca distância, muitas de suas ineficiências são eliminadas. A arma mais
eficiente só precisa explorar as vulnerabilidades que o ambiente urbano cria.[22]
Por último, comentadores militares consideram a enorme e explosiva escala
das megacidades do Sul global como em conflito com a escala em diminuição
das forças militares profissionais do Ocidente. Como, por natureza, operações
urbanas inevitavelmente mobilizam muitos soldados, tentativas tradicionais de
ocupar essas cidades se tornam cada vez mais insustentáveis – na ausência de
aumentos radicais no uso de soluções de alta tecnologia para substituir a força
humana.

Sonhos recuperados
Está na hora de pedir para Sun Tzu se sentar… Em vez de temer a cidade, precisamos nos
apropriar dela.[23]

Então, claramente, existe uma percepção disseminada de que a urbanização


intensificada de áreas no Sul global que as Forças Armadas dos Estados Unidos
veem como suas áreas dominantes de operação está prejudicando radicalmente
esforços estado-unidenses mais amplos de transformação tecnocientífica.
Assim, de modo quase previsível, uma vasta gama de novas iniciativas
tecnocientíficas emerge, com o objetivo de adaptar a RMA especificamente a
geografias desses tipos de área urbana. Tendo a insurgência urbana no Iraque
como eixo, uma mudança está ocorrendo – da celebração da morte da
geografia por causa das novas tecnologias para o desenvolvimento de sistemas
de monitoramento, comunicação e determinação e acompanhamento de alvos
criados sob medida para as delicadas geografias físicas e humanas das cidades
do Sul global. Um clássico efeito bumerangue de Foucault, essa transformação
se sobrepõe ao esforço mais amplo (discutido no capítulo anterior) de construir
fronteiras onipresentes nas zonas urbanas do mundo e ressoa nele.
É preciso ler essa guerra urbana de alta tecnologia e esses programas de
contrainsurgência dos Estados Unidos como sintomas do desejo – sonhos
tecnófilos e compulsões fetichistas de domínio e controle, ajustados aos novos
imperativos da guerra de contrainsurgência e ao declínio do poderio
econômico e político estado-unidense. Esses programas e essas fantasias
também refletem tendências antigas e de raízes profundas dentro da cultura
militar estado-unidense de buscar superarmas de conquista absoluta que
possam aniquilar todos os inimigos – se possível, a distância[24]. Logo, a
tecnologia superior é uma chave-mestra, a bala de prata.
Mas como o fiasco do Iraque demonstra, armas desse tipo não conseguem
lidar com o pântano de problemas políticos gerados por ideologias de guerra
urbana colonial preventiva, ou pela resistência a elas. Populações que lutaram
com bravura para se livrar dos grilhões do colonialismo ocidental dificilmente
ficarão indiferentes à ocupação colonial estado-unidense, por mais alta que seja
sua tecnologia. Aliás, o próprio design e o uso dessas armas de alta tecnologia
desenvolvidas para dominar cidades ocupadas têm chances de inflamar, em vez
de intimidar, insurgências e resistências contra a ocupação. De muitas
maneiras, as novas guerras “assimétricas” dos Estados Unidos lidam com o que
Jonathan Schell chamou de “mundos inconquistáveis”[25] – formações sociais,
políticas e urbanas em que ideias de dominação tecnológica e militar são meros
exemplos do que Parenti, seguindo mais ou menos a mesma linha de
pensamento, chama de “tecnofetichismo ilusório”[26]. Logo, dizem o coletivo
Retort e coautores, os planejadores militares por trás da invasão do Iraque
estavam claramente “tão deslumbrados com a Revolução em Assuntos Militares
que nunca lhes ocorreu que nenhuma Revolução em Assuntos de Ocupação a
acompanhava”[27].

Um novo projeto Manhattan?


Fetichismo? Talvez. Mas esse é o nexo entre um vasto complexo industrial-
militar-tecnológico em expansão que se alimenta do comedouro dos
orçamentos de defesa dos Estados Unidos e uma ampla e arraigada
tecnocultura estado-unidense que acalenta fantasias de armas do futuro e
ficções científicas com esperanças de um espetáculo de alta tecnologia que
demonstre impressionantes obstinação, persistência e adaptabilidade. A
tendência atual é a adaptabilidade: o ajuste de ideias de dominação global pela
transformação militar de alta tecnologia às realidades microgeográficas de
guerra de contrainsurgência urbana prolongada e assimétrica.
Um exemplo excelente pode ser encontrado em um grande relatório
publicado pelo Defense Science Board (DSB) [Conselho de Defesa da Ciência]
do Pentágono em dezembro de 2004[28]. Uma das muitas tentativas iniciais de
extrair lições militares da insurgência urbana no Iraque, esse relatório pediu um
“novo Projeto Manhattan”, invocando o famoso codinome usado nos anos
1940 para descrever o gigantesco programa que desenvolveu bombas atômicas
usadas para destruir Hiroshima e Nagasaki. O relatório do DSB clamava por
uma concentração similar de recursos militares no que considerava a prioridade
estratégica chave para o século XXI: o desvelamento tecnológico de cidades e
da vida urbana em um mundo em rápida urbanização. Especificamente, o
relatório cogitava a possibilidade de explorar tecnologias computadorizadas de
onipresença para desenvolver um sistema de monitoramento enorme,
integrado e de alcance mundial, sob medida para penetrar a mobilidade e a
complexidade cada vez maiores da vida urbana. Esse sistema, dizia o texto,
tornaria os alvos militares estado-unidenses novamente rastreáveis e
destrutíveis. Assim, o propósito do novo Projeto Manhattan seria “localizar,
identificar e rastrear pessoas, coisas e atividades – em um ambiente de um em
um milhão – para dar aos Estados Unidos as mesmas vantagens em uma guerra
assimétrica [que] o país tem hoje em uma guerra convencional”[29]. Em 2005,
as ideias do relatório do DSB estavam (temporariamente) cimentadas como
uma de oito áreas principais de desenvolvimento descritas na estratégia do
Pentágono para uma “Guerra Longa”, uma renovação da linguagem militar
relacionada ao combate ao terrorismo.
As habilidades hegemônicas dos Estados Unidos para monitorar a Terra
dos domínios distantes e verticais do ar e do espaço demonstraram, na
avaliação do DSB, “pouca capacidade de descobrir, identificar e rastrear” o que
ele chamava de “alvos de guerra não convencionais”, tais como “indivíduos e
grupos insurgentes ou terroristas que operam se misturando à sociedade mais
ampla”[30]. O que era necessário, afirmava o relatório do DSB, eram sistemas
de monitoramento militar íntimos e persistentes que penetrassem nos detalhes
da vida urbana cotidiana, tanto em território nacional quanto estrangeiro. Seria
preciso pouco menos do que um redimensionamento abrangente do
monitoramento militar; “eram necessários ISR [inteligência, monitoramento e
reconhecimento, na sigla em inglês] mais íntimos, terrestres, do século
XXI”[31].
O olhar atento do poder militar hegemônico, defendia o relatório, não
devia apenas colonizar as escalas planetárias de monitoramento; devia penetrar
as intricadas geografias locais dos campos de batalha urbano e infraestrutural.
Tal transformação seria tanto temporal quanto geográfica. E afirmava ainda:

O monitoramento de pessoas, coisas e atividades requerido para alimentar os bancos de dados


necessários para a identificação, a localização e o rastreamento vai exigir uma persistência além
da típica [de muitos dos sistemas de monitoramento militares e de segurança] da atualidade.
[32]

Esses novos sistemas, locais e globais ao mesmo tempo, devem, então, estar
“sempre ligados” – possibilitando, via “algoritmos de correlação de indícios e de
tentativa e erro”[33], retomar memórias através de bancos de dados que
registram o histórico de movimentos e associações de coisas, atividades e
pessoas, bem como antecipar, de modo que eventos e comportamentos
ameaçadores e “anormais” possam ser detectados e abordados antes de um
ataque.
Os novos “meios terrestres e próximos” de monitoramento, inteligência e
determinação de alvos se concentram nas técnicas de mineração de dados e
rastreamento discutidas no capítulo anterior. Por meio de impressões digitais
ou da palma da mão, escaneamento de íris, DNA, reconhecimento facial, de
voz, ou até mesmo de odor e passos, sensores biométricos vão verificar e
codificar a identidade das pessoas conforme elas atravessam fronteiras[34].

Zonas de combate que enxergam


Os novos modos de conceber o monitoramento próximo envolvem
conjuntos disseminados e interligados de sensores “pairantes” e “embutidos”,
superando todos os limites e as interrupções que os ambientes das megacidades
colocam no caminho de uma guerra “redecêntrica” bem-sucedida. Robert
Ackerman sugere, por exemplo, que esses grupos de sensores serão criados para
observar “mudanças” em vez de “cenários” – para rastrear automaticamente
situações dinâmicas, em vez de absorver o tempo todo dados de ambientes
imutáveis. Em outras palavras, algoritmos serão criados para funcionar apenas
quando mudanças definíveis ocorrerem, contra um pano de fundo de
normalidade. Comportamentos e padrões “anormais” seriam então avaliados
como alvos[35].
Um grande exemplo desse processo é o projeto reveladoramente intitulado
Combat Zones at See (CTS) [Zonas de Combate que Enxergam], liderado
pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (Darpa) dos Estados
Unidos. Lançado no início da insurgência iraquiana em 2003, o CTS

explora conceitos, desenvolve algoritmos e oferece sistemas para a utilização de grandes


números (na casa dos milhares) de câmeras de vídeo algorítmicas para fornecer os sensores
“próximos” necessários para operações militares em terrenos urbanos.[36]

Ao instalar câmeras de circuito interno computadorizadas em cidades


ocupadas inteiras, os organizadores do projeto imaginam que, quando
utilizadas, as CTS vão alimentar “análises de padrão de movimento na escala de
cidades inteiras” com o rastreamento de quantidades enormes de carros e
pessoas por meio de algoritmos de computador inteligentes ligados ao
reconhecimento de placas de carros e fotos escaneadas de rostos humanos.
O CTS é uma reação direta aos efeitos de interrupção causados pelos
ambientes citadinos em relação a formas mais antigas de guerras em rede com
base no ar e no espaço. Seus planejadores imaginam que, quando desenvolvido,
ele “vai gerar, pela primeira vez, as informações de reconhecimento,
monitoramento e alvos necessárias para fornecer apoio próximo, contínuo e
constante a operações militares em terreno urbano”[37]. Um fator-chave será a
geração de ideias eletrônicas de “normalidade” nas rotinas da vida urbana; na
ausência de um conceito do que é o normal, é claro, o anormal não pode ser
identificado nem transformado em alvo. Assim como a mineração de dados, os
históricos de movimento e associação serão usados para imaginar
continuamente o futuro próximo e, assim, nas palavras da Darpa, permitir que
“operadores proporcionem habilidades em tempo real de avaliar ameaças de
força em potencial”[38].
Após uma série de protestos de grupos de direitos humanos estado-
unidenses, a Darpa enfatizou que, enquanto os testes iniciais de rastreamento
urbano de massa deveriam acontecer em uma base militar dentro dos Estados
Unidos (Fort Belvoir, Virgínia), o uso do CTS só ocorreria em “campos de
batalha urbanos estrangeiros”[39]. Porém, os tipos de tecnologia inteligente de
monitoramento por vídeo mobilizados para o programa CTS são efetivamente
idênticos àqueles usados na construção de zonas de segurança em cidades como
Londres e Nova York[40].
Claro, a Darpa também conta com outros programas. Um deles, o
VisiBuilding, é dedicado ao desenvolvimento de sensores através dos quais
forças terrestres e veículos aéreos não tripulados podem captar remotamente as
pessoas e os objetos dentro de uma construção. O programa equivalente da
Marinha, Transparent Urban Structures, busca usar estereótipos “geotípicos”
sobre as estruturas e atividades internas dentro de lares iraquianos (ou outros) –
estereótipos gerados por simulações virtuais do país[41] – em contraste com os
quais seria possível destacar automaticamente ameaças e riscos possíveis. De
novo, essa determinação de alvos funciona por escaneamento automatizado
para o “anormal” em contraste com um estado de normalidade derivado de
suposições e retratos estereotipados, feitos por antropólogos militares, de
normas e da cultura urbanas iraquianas.
Outros braços do establishment de pesquisa em defesa dos Estados Unidos
estão desenvolvendo novos radares aéreos construídos em aeronaves gigantes
criadas para vagar permanentemente sobre cidades ocupadas, fazendo uma
abrangente mineração de dados. Esse sonho de onisciência envolve ligar
conjuntos de bancos de dados de movimentos e históricos passados na cidade
com o monitoramento de atividades presentes a fim de antecipar ataques
futuros e reagir àqueles que foram realizados. Uma aeronave desenvolvida pela
Darpa é movida pela ideia de “rebobinar a história” depois de um ataque por
um carro-bomba ou dispositivo explosivo improvisado (IED), revelando, desse
modo, os responsáveis. Esse dirigível ficaria preso acima de uma cidade por um
ano ou mais. Sua própria estrutura é um enorme aparato de radar de
radiofrequência desenvolvido para adentrar as estruturas urbanas e registrar os
históricos de movimento. Os sensores fundem informações de celulares,
aparelhos de rádio e TV, além de circuitos internos de monitoramento
inteligentes, scanners biométricos e uma miríade de chips de radiofrequência
implantados no campo de batalha como “poeira inteligente”. Isso, sugere a
retórica, vai permitir que as Forças Armadas dos Estados Unidos realizem a
“localização avançada de alvos” dentro da cidade dominada[42].

Rumo a robôs matadores autônomos


Líderes militares estão desenvolvendo uma visão das futuras operações táticas em que os
adversários terão de decidir se vão enviar tropas de carne e osso para combater parafusos,
porcas, circuitos e sensores.[43]

Entre imaginar e projetar sistemas e “encontrar alvos” automaticamente


dentro de uma cidade, desenvolver sistemas de armas robotizadas criadas para
matar ou destruir aqueles alvos sob uma supervisão humana cada vez menor é
um passo curto. Assim, o segundo elemento principal da virada urbana de
guerras de alta tecnologia se concentra no desenvolvimento de armas robóticas
aéreas e terrestres que, quando conectadas aos tipos de monitoramento
persistente e identificação de alvos recém-discutidos, serão usadas para
contínua e automaticamente destruir supostos alvos em fluxos de mortes
automatizadas potencialmente infinitos.
Essas ideias da virada urbana da RMA são uma característica fundamental
das mais recentes fantasias de onipotência e onisciência das Forças Armadas dos
Estados Unidos. Aqui a fixação é com o uso de robôs para sustentar o
monitoramento “sensível”, feito sob medida para as microgeografias detalhadas
das cidades do Sul global. Grandes quantidades de fantasias de “ciência
situacional” dignas de um deus estão emergindo, todas sugerindo que a virada
urbana vai, por fim, ajudar a supervisionar e aplacar as megacidades
intrinsecamente incontroláveis do inimigo.
A virada urbana da RMA também enfatiza a compatibilidade de novas
infraestruturas de monitoramento com máquinas de assassinato automatizadas.
O que é previsto é “uma guerra global perpétua realizada não por seres
humanos que morrem, se rebelam ou voltam para casa feridos ou loucos, mas
uma guerra travada por uma mão de obra que já está morta, cristalizada em
máquinas”[44]. Um exemplo revelador disso advém da discussão de uma
operação urbana estado-unidense modelo num futuro próximo, descrita pela
revista Defense Watch durante um debate sobre o programa Zonas de Combate
que Enxergam, da Darpa. O autor logo dispara: “nosso pessoal vai deparar com
um espetáculo impressionante à custa dos malfeitores”[45].
Nesse cenário, enxames de sensores em micro e nanoescala conectados em
rede são lançados na cidade-alvo, impregando-se nela e, assim, fornecendo
fluxos contínuos de informação para um leque de armas automatizadas. Em
conjunto, esses sistemas produzem mortes e destruição de alvos contínuos: um
tipo de operação de contrainsurgência em que comandantes e soldados estado-
unidenses fazem pouco além de supervisionar os sistemas de assassinato
automatizados a uma distância segura – isto é, segura para si mesmos.
“Diversos ventiladores em grande escala são posicionados fora dos limites
urbanos de uma cidade-alvo que nossos rapazes precisam dominar”, começa a
descrição da Defense Watch. “Quando do sinal apropriado, o que parece ser
uma nuvem de poeira emana de cada ventilador. A nuvem é soprada para a
cidade, onde ela rapidamente se dissipa.” Então um enxame de veículos não
tripulados coloniza a cidade. “Os pequenos drones mergulham em áreas
selecionadas determinadas pela análise inicial de dados transmitidos pelo
enxame disseminado pelo ventilador.” Em pouco tempo os enxames de
sensores móveis produzem “uma imagem visual e de áudio detalhada de cada
rua e prédio da cidade toda”. Além da cidade física, “todo [indivíduo] hostil foi
identificado e localizado. Desse ponto em diante, ninguém na cidade se move
sem o conhecimento pleno e absoluto do centro tático móvel”[46].
Então, o monitoramento automatizado se funde perfeitamente na matança
automatizada.

Veículos aéreos e terrestres não tripulados agora podem ser vetorizados diretamente para alvos
selecionados para derrubá-los, um por um. Os combatentes inimigos espertos o bastante para
fugir, na verdade são retirados de seus locais pelas unidades não tripuladas, podendo então ser
capturados ou mortos por figuras humanas que são guiadas diretamente para suas localizações,
com o conhecimento pleno e total de suas fortificações e defesas individuais.[47]

Esses sonhos de controle e eliminação contínuos, automatizados e


robotizados de alvos urbanos não estão exatamente restritos ao universo da
especulação futurista. Em vez disso, assim como o programa CTS, eles
alimentam a pesquisa contemporânea de armas cujo objetivo é desenvolver
veículos terrestres e aéreos que não só navegam e se movem de modo robótico,
mas que, com base em “decisões” realizadas por algoritmos, selecionam e
destroem alvos. Tomadores de decisão humanos são deixados de fora.
Como parte de uma mudança mais ampla em direção a veículos robóticos
que alimenta grandes competições como o Urban Challenge[48], o Exército dos
Estados Unidos prevê que um terço de todos os veículos militares terrestres
estado-unidenses serão totalmente robotizados em 2015. Em um artigo de
2004, a jornalista de defesa Maryann Lawlor[49] discute o desenvolvimento de
veículos terrestres e aéreos “de combate mecanizado e autônomo”, bem como o
que ela chama de “combatentes táticos e autônomos” em fase de criação para a
Força Aérea estado-unidense. A autora aponta que esses veículos estão sendo
desenhados para usar software de reconhecimento de padrão para “alvos em que
o tempo é um fator crítico”. Isso envolve conectar com rapidez sensores a
armas automatizadas, de modo que os alvos que forem automaticamente
captados e “reconhecidos” por bancos de dados possam ser rápida, contínua e
automaticamente destruídos. No jargão militar estado-unidense, essa doutrina
é amplamente chamada de “comprimir a cadeia de morte” ou “guerra sensor-
atirador”[50].
De acordo com Lawlor, a equipe de desenvolvimento do “enxame de
sistemas não tripulados” no Diretório Conjunto de Desenvolvimento e Teste
de Conceito do Comando de Forças Conjuntas dos Estados Unidos, cuja base
fica em Norfolk, Virgínia, fez tanto progresso que “robôs autônomos,
integrados e em rede podem vir a ser a norma, em vez da exceção, em
2025”[51]. A essa altura, ela prevê, “podem ser desenvolvidas tecnologias […]
que permitiriam que máquinas captassem um relato de tiroteio em um
ambiente urbano a menos de um metro, triangulando a posição do atirador, e
atirassem de volta em uma fração de segundo”. Lawlor argumenta que tais
sistemas de guerra robótica vão “ajudar a salvar vidas tirando os humanos do
caminho do perigo”[52]. Aparentemente, apenas os militares estado-unidenses
entram na categoria de “humanos”.
O Project Alpha [Projeto Alfa] já está desenvolvendo um robô armado que
dispara automaticamente quando detecta fogo inimigo em uma cidade
ocupada. O objetivo desse soldado-robô é, “se conseguirmos chegar a menos de
um metro, matar a pessoa que está disparando”, relata Gordon Johnson, líder
da equipe do componente unmanned effects [bens não tripulados] do projeto.
“Então, essencialmente, o que estamos dizendo é que qualquer um que dispare
contra nossas forças vai morrer. Antes que possa soltar a arma e correr, ele
provavelmente já estará morto.” Os futuros insurgentes urbanos “vão dar seu
sangue e suas entranhas para matar máquinas?”, Johnson se pergunta.
“Imagino que não.”[53]

Robôs matadores no Iraque, no Afeganistão e na


Palestina
Em 2007, esse tipo de fantasia estava rumando aos primeiros estágios de
implementação. As zonas de teste foram fornecidas pelas ruas das cidades do
Iraque e da Palestina[54]. Em junho de 2006, por exemplo, os primeiros robôs
terrestres armados controlados remotamente na história da guerra – os
chamados Swords[55], armados com metralhadoras – foram enviados para
Bagdá[56]. Soldados conseguiam disparar remotamente as armas do sistema de
até um quilômetro de distância. Estima-se que, em 2008, as Forças Armadas
dos Estados Unidos tenham enviado 4 mil Swords e outros robôs armados para
o Iraque e o Afeganistão[57].
“Muitas pessoas temem que robôs armados vão perder o controle no
campo de batalha”, admite um release do Armament Research, Development
and Engineering Center [Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Projeto de
Armamentos dos Estados Unidos], descrevendo os testes do sistema Swords[58].
Em uma tentativa de confortar, o release enfatiza que os robôs ainda

empregam “um homem no ciclo”, em que estão sempre sob controle direto de um soldado
[que] emite comandos para o robô e as armas por meio de uma unidade de controle de
operação. Comandos para disparadores de foguetes e granadas são transmitidos através de um
sistema de controle e disparo remoto recém-desenvolvido.[59]
O coronel Terry Griffin, chefe do programa conjunto de robôs do Exército
e dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos – encarregado de posicionar a
próxima máquina armada, conhecida como Gladiator –, afirma que o primeiro
trabalho da máquina será debandar grupos de “indesejáveis”. Ele descreve três
estágios de intensificação durante o processo: primeiro, “o robô emite um aviso
por alto-falante. Ele dispara balas de borracha. Finalmente, ele começa a atirar
com a metralhadora”[60].
Esses programas não são exclusividade dos pesquisadores dos Estados
Unidos. Em 2007, o Exército israelense anunciou que “a fronteira entre Israel e
a Faixa de Gaza seria a primeira ‘fronteira automatizada’ do mundo, com
atiradores robôs capazes de disparar contra intrusos, graças a imagens
retransmitidas para uma sala de controle”[61]. Enquanto isso, as Forças
Armadas israelenses já contam com uma torre de disparo robotizada e
controlada remotamente, como parte do sistema See-Shoot [ver-atirar]
desenvolvido pela entidade estatal Rafael, para usar força letal ao longo da
fronteira de quase sessenta quilômetros com a Faixa de Gaza. “Combinado a
um dispositivo de localização de direção e sensores de detecção acústica
desenvolvido pela Rafael, [ele] essencialmente se torna uma arma robotizada
antiatiradores para veículos sobre rodas ou esteira”, de acordo com a
correspondente de Tel-Aviv do Defense News. “Cada estação equipada com uma
metralhadora atua como uma espécie de atirador robotizado, capaz de atuar em
uma zona proibida de quase 1,5 mil metros de profundidade.”[62] As armas e
seus longos sensores estão “ligados por fibra ótica a uma rede de comando que
também é capaz de extrair informações de sensores terrestres existentes,
aeronaves tripuladas e drones elevados”[63].
Apesar de o Exército de Israel enxergar uma mudança de longo prazo em
direção à verdadeira automatização dos disparos, de início os soldados
israelenses deverão aprovar as decisões de disparo do See-Shoot. “Pelo menos
nas fases iniciais de sua aplicação, vamos ter de manter o homem no processo”,
observou um comandante não identificado das Forças de Defesa de Israel.
“Não queremos correr o risco de cometer erros trágicos e de alto custo político
com um sistema letal.”[64]
No entanto, isso não tranquiliza os grupos de defesa de direitos humanos,
que estão profundamente preocupados com a incipiente robotização das armas
letais de fronteira. Sarit Michaeli, que trabalha para o Centro de Informação
Israelense pelos Direitos Humanos nos Territórios Ocupados, relata que entre a
retirada de Israel de Gaza, em 1995, e junho de 2007, catorze palestinos
desarmados foram mortos pelas forças de segurança israelenses a distâncias
entre cem e oitocentos metros da cerca da fronteira. Além do mais, ela afirma,

houve muitos casos em que pessoas sem intenções hostis nem terroristas foram baleadas ao se
aproximar do perímetro da cerca. Algumas tentavam entrar em Israel em busca de trabalho,
outras sofriam de deficiências, e outras ainda eram crianças que podem ter vagado pelas áreas
proibidas.[65]

Michaeli defende que, “de uma perspectiva dos direitos humanos, a


tecnologia aqui não é tão importante quanto a necessidade de avaliar cada
ameaça potencial caso a caso”[66]. Porém, é improvável que uma ética de
discernimento tão complexa esteja entre as capacidades de matadores de
fronteira totalmente robotizados.

Soluções de cadeia de mortes


Assim como com os robôs terrestres, a transição de drones armados
pilotados para sistemas de armamentos aéreos completamente autônomos, sem
o que os militares chamam de um “humano no processo”, já está em
andamento. O surgimento do Low Cost Autonomous Attack System (Locaas)
[Sistema de Ataque Autônomo de Baixo Custo] da Força Aérea dos Estados
Unidos, por exemplo – um produto do enorme programa de Sistemas de
Combate do Futuro – é uma bomba a jato “a distância” criada para
“autonomamente buscar, detectar, identificar, atacar e destruir defesas com
mísseis de teatro, sistemas de mísseis terra-ar e alvos blindados/de interdição de
interesse militar”[67]. Ele será equipado com um sistema de radar a laser, além
da habilidade autônoma de reconhecimento de alvos que vai possibilitar a
busca por e a identificação de alvos dentro de uma área de 85 quilômetros
quadrados[68].
Essas munições vão depender de algoritmos de computador desenvolvidos
para separar automaticamente “alvos” de “não alvos”. O objetivo final, de
acordo com um engenheiro de veículos aéreos não tripulados (Vant) de
combate da Raytheon, é o que ele chama de “solução de cadeia de mortes”,
baseada em cada veículo procurar e destruir alvos continuamente por conta
própria[69]. Em 2002 John Tirpak, editor executivo da Air Force Magazine,
previu que humanos seriam necessários para tomar decisões de disparar armas
contra alvos apenas “até que os Vant de combate estabeleçam um registro de
confiabilidade em descobrir os alvos certos e empregar as armas corretamente”.
Então, vai-se confiar que “as máquinas façam até isso”[70].
Tanto no domínio aéreo quanto no terrestre, assim, muitos esforços já
estão sendo feitos para estabelecer as tecnologias e os protocolos éticos que
permitam que robôs armados, equipados com inteligência artificial, “decidam”
de maneira autônoma disparar suas armas contra os alvos. Esses esforços se
concentram em drones armados não pilotados que disparam contra os alvos
automaticamente; robôs terrestres armados que operam de maneira
independente; e mísseis, bombas e munições projetados para pairar sobre um
distrito ou cidade por dias direto, “observando” e procurando alvos para
atacar[71].
Vamos considerar a visão do Exército dos Estados Unidos em relação a
robôs matadores autônomos como descrita com clareza em uma convocação de
2007 para propostas de desenvolvimento:

Sistemas não tripulados armados estão começando a ser enviados para os campos de batalha
atuais, e serão muito comuns no Campo de Batalha do Futuro. Isso vai levar diretamente à
demanda por sistemas capazes de funcionar de maneira autônoma por períodos prolongados e
também capazes de atacar alvos hostis de modo colaborativo, seguindo regras de engajamento
específicas. [No momento, a] decisão final de ataque ao alvo [está] sendo deixada para o
operador humano [mas] o ataque totalmente autônomo, sem intervenção humana, também
deve ser considerado, em condições definidas pelo usuário.[72]

Todo um universo de softwares de “reconhecimento automatizado de alvo”


está evoluindo neste momento, com a intenção de permitir que o computador
dos robôs compare continuamente as assinaturas eletrônicas de “alvos” com
aquelas armazenadas em bancos de dados eletrônicos. Antes que o robô Swords
dispare suas balas no Iraque, escreve Jörg Blech no Der Spiegel,
ele precisa da permissão de dois operadores humanos […]. No entanto, o mais lógico é que
decisões de vida e morte sejam cada vez mais transferidas para a máquina – assim que os
engenheiros descobrirem como resolver o problema da distinção entre amigos e inimigos.[73]

Entomologia armada
Ainda mais assustadora, a ideia de enxames de minúsculos veículos aéreos
ou até insetos robóticos armados está sendo amplamente explorada em teorias e
pesquisas militares mais visionárias. Insetos robotizados como Black Widow,
Wasp e Hornet, que pesam cerca de quarenta gramas e têm poucos centímetros
de comprimento, já estão sendo desenvolvidos para imitar os mecanismos de
voo de insetos biológicos. Esses sistemas têm como objetivo ser usados por
“unidades terrestes lutando em operações militares em terrenos urbanos” e
“podem voar sobre prédios, entrar em cômodos, ver quem está ali, que armas
tem ou não”[74].
Olhando para o futuro, o tenente da Força Aérea dos Estados Unidos
Daryl Hauck especula que, em menos de vinte anos, a combinação de
nanotecnologia e tecnologia genética vai trazer à tona uma nova era de guerra
biológica, operando em escalas nano ou microscópicas. Para ele, tal
convergência tecnológica possibilitaria que enxames de microrrobôs voadores
tenham como alvo o DNA de um indivíduo (determinado por meio de bancos
de dados de DNA) injetando “armas” biológicas ou genéticas na corrente
sanguínea do indivíduo. “Dispositivos únicos que parecem microdentes
poderiam caber em um vaso sanguíneo [humano] para transportar e inserir
material genético em células”, ele escreve[75]. Esse comentário parece ter saído
diretamente do roteiro de um filme de ficção científica distópico. No entanto,
o lançamento do programa Hybrid Insect [Inseto Híbrido] pela Darpa em
2006 significa que, como afirma Nick Turse, “pesquisadores já estão criando
insetos com eletrônicos no interior. Estão criando mariposas e besouros
ciborgues que podem ser controlados remotamente”[76]. De acordo com a
Darpa, esse programa tem como “objetivo desenvolver interfaces inseto-
máquina muito bem planejadas, colocando sistemas micromecânicos dentro
dos insetos durante seus primeiros estágios de metamorfose”.
Em resumo, a ficção científica agora é realidade. Colocar microeletrônicos
dentro da pupa produz um inseto ciborgue que pode ser controlado
remotamente depois de deixar o casulo. Além de transportar sistemas de
microvigilância capazes de permear, e habitar de modo permanente, qualquer
cidade adversária, imagina-se que esses sistemas de enxame possam, finalmente,
usar o tipo de arma de microescala imaginado pelo tenente-coronel Hauck.
Nesse contexto, Nick Turse pede aos leitores que “imaginem um mundo em
que qualquer inseto passando pela sua janela possa ser um espião de controle
remoto, carregando equipamento de monitoramento”. Ainda mais inquietante,
ele escreve, “é a ideia de que essas criaturas possam ser armadas, e a
possibilidade, de acordo com um cientista intimamente familiarizado com o
projeto, de que esses insetos ciborgues possam ser armados com ‘armas
biológicas’”[77].

Império robótico/tecnofilia e desejo


A expressão máxima de soberania reside […] no poder e na capacidade para ditar quem pode
viver e quem deve morrer.[78]

Os discursos, fantasias e representações que cercam a “virada urbana” da


RMA apontam esmagadoramente para a representação de cidades inteiras
como meros campos de batalha físicos a serem controlados e dominados por
meio da tecnologia. Eles revivem a esperança sedutora de remover os membros
das Forças Armadas estado-unidenses dos combates sangrentos, frente a frente
e assimétricos vistos nas cidades iraquianas. Eles tornam civis urbanos, e a
cidadania urbana, invisíveis – ou melhor, civis urbanos são reconstruídos como
“vida nua”[79] habitando as paisagens urbanas reconstituídas como coleções de
alvos físicos e militares. Finalmente, esses discursos estão repletos de fantasias
racistas de onipotência colonial, caracterizadas pelo antigo sonho militar de
guerras automatizadas e ciborguizadas[80] em que sistemas distanciados de
monitoramento, determinação de alvos e extermínio ganham domínio total
sobre as complexas paisagens tridimensionais de megacidades do futuro do Sul
global. O efeito desses discursos é “eliminar o vínculo entre atos e suas
consequências”[81].
No entanto, sonhos de onipotência e mortes robotizadas precisam ser
examinados com cuidado e atenção. Levanto dois alertas.
O primeiro é de que as forças militares estado-unidenses e seu complexo
associado de pesquisa e desenvolvimento há tempos nutrem fantasias de
superarmas que concretizariam de maneira determinista seus sonhos de
domínio e onipotência. Esses sonhos tecnófilos em geral têm evoluído em
paralelo com discursos mais amplos de ficção especulativa, geopolítica popular
e entretenimento de massa. O “fanatismo tecnológico” de ambos tem raízes
profundas na cultura política, popular e militar dos Estados Unidos[82].
Como Jeremy Black sugere, precisamos, portanto, ter cuidado e interpretar
a RMA e sua “virada urbana” não como uma reação quase racional das elites
militar e política dos Estados Unidos às mudanças nas condições geopolíticas, e
sim como “sintomática de um conjunto de suposições culturais e políticas que
nos dizem mais sobre a sociedade moderna ocidental do que sobre qualquer
avaliação objetiva de opções militares”. Além do mais, é possível identificar os
ingredientes do complexo coquetel criado a partir dessas “suposições culturais e
políticas”. Dois deles, como apontou Michael Sherry, são a aversão a perdas
fatais e o fanatismo tecnológico que tanto domina a recente tradição militar
estado-unidense[83]. Eles se misturam com ideologias mais recentes que
sugerem que a guerra contemporânea está se soltando no tempo e no espaço, e
que o capital tecnológico, em vez da mão de obra, é a única maneira de os
Estados Unidos “vencerem” as guerras de hoje[84]. Corroborando tudo isso há o
ainda mais disseminado “fetiche da máquina endêmico ao modo capitalista de
produção”[85] – com seus conceitos de produção just-in-time das “cadeias de
morte”, “percepção situacional” perfeita e controle onipotente do espaço
geográfico.
Acrescente a esses ingredientes o fascínio disseminado entre os militares
estado-unidenses por distopias de guerras futuras de cyberpunks e outras formas
de ficção científica – um fascínio muito explorado pelo complexo barroco
comercial-militar-de entretenimento-monitoramento-correção, que, por sua
vez, se beneficia da propagação e do consumo de uma grande oferta de
fantasias, romances, filmes, videogames e programas de armas militares
tecnófilos[86].
Para temperar esse coquetel letal, temos as figuras orientalistas
profundamente enraizadas do Ocidente. Por meio da mídia ocidental, tanto a
elite militar quanto a política consideram os espaços urbanos longínquos da
Ásia, da África e do Oriente Médio lugares de extrema e intrínseca perversão,
que requerem a mobilização da mais recente tecnociência ocidental em atos de
purificação, exposição e (tentativa de) controle.
O segundo alerta é este: precisamos nos lembrar de que as “forças militares
estado-unidenses” estão longe de ser um único ator. Todos os discursos,
projetos e programas analisados neste capítulo continuam sendo extremamente
contestados. Dentro do vasto complexo institucional que abrange as Forças
Armadas dos Estados Unidos, as indústrias militar e de segurança e os grupos
de lobby associados, grandes batalhas políticas ocorrem constantemente.
Alimentadas pelo pesadelo atual no Iraque, bem como, por exemplo, pelos
fracassos de Israel contra o Hezbollah no Líbano em 2006, essas batalhas
esquentam no debate sobre se, mesmo em termos militares, esses sonhos de
onipotência, conquistados por meio de uma versão urbana da RMA ou da
guerra organizada em rede, têm algum grau significativo de realismo. Para
completar, essas batalhas são complicadas por antigas rivalidades entre áreas.
Muitos no Exército e no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos,
em particular, são profundamente céticos de que os horrores e a “névoa de
guerra” em operações urbanas sangrentas como a insurgência iraquiana possam
ser tecnologizados, mediados e saturados com monitoramento sensível e
sistemas de abordagem de alvos em um grau minimamente próximo do
encontrado nas fantasias discursivas que movem os programas discutidos
anteriormente[87]. Muitos teóricos militares se preocupam, em especial por
causa do fiasco no Iraque, que as Forças Armadas estado-unidenses façam
demonstrações profundamente ingênuas de fé cega na nova tecnologia militar e
que sua “superioridade tecnológica possa se provar menos resiliente do que se
imagina”[88]. John Gentry, crítico da política de defesa dos Estados Unidos,
sugere, por exemplo, que o fetichismo tecnológico do Pentágono produz
sistemas que são “caros, têm capacidades limitadas, estão sujeitos a falhas
crônicas tanto técnicas quanto causadas pelo operador e são vulneráveis a
ataques”[89].
O fetichismo e o triunfalismo militar-tecnológico também costumam ser
usados para mascarar um nível alarmante de ignorância política e cultural,
entre as elites militar e política, sobre os locais e as pessoas distantes contra os
quais os Estados Unidos se lançam em guerras. Como declara um editorial de
2001 da Foreign Policy,

o GPS, drones não tripulados, bancos de dados inigualáveis e computadores portáteis – muito
foi feito com os recursos tecnológicos disponíveis para o establishment militar e diplomático dos
Estados Unidos. Mas o que você faz se estiver tentando travar uma guerra em ou contra um
país onde não se conhece a população local, não se fala a língua e não se consegue encontrar
mapas confiáveis?

Ele então convida os leitores “às linhas de frente da guerra contra o terror,
que está propensa a acontecer em primeiro lugar em ‘Estados pantanosos’ sobre
os quais os Estados Unidos sabem pouco”[90].
Não obstante essas precauções e qualificadores, tais sonhos de identificar
clinicamente e eliminar cirurgicamente apenas os “combatentes” dentro das
cidades, por meio de algoritmos de computador “autônomos”, “scans cerebrais”
e sistemas de armamentos automatizados, continuam sendo perigosamente
ilusórios e profundamente perturbadores. Aqui confrontamos mais uma
decorrência muito problemática: a de que a agência do software possa servir
como a grande “inteligência”, estipulando automaticamente quem deve morrer
e quem deve viver, enquanto membros das Forças Armadas norte-americanas
devem ser levados o mais longe possível do risco de morte ou ferimento.
Quatro objeções principais podem ser feitas a esses desdobramentos.

Mitos de precisão
Para críticos da guinada dos Estados Unidos em direção ao uso de robôs
armados, os alertas acima não deixam espaço para complacência. É verdade que
a virada urbana na RMA está sendo motivada por discursos muitas vezes
selvagens e fanstáticos, mas seus efeitos tendem a ser bastante materiais e
profundos. Como demonstramos, enormes esforços tecnocientíficos para
possibilitar que as forças militares estado-unidenses saturem as cidades do Sul
global com monitoramento em tempo real e sistemas de alvo e execução já
estão em andamento nas e acima das ruas urbanas do Iraque, da Cisjordânia e
de Gaza. O poder soberano de matar já está sendo delegado ao código de
computador.
Se esses sistemas vão um dia funcionar como imaginado, então, não é a
questão. A própria existência de projetos quase imperiais de lançar exércitos de
veículos matadores aéreos e terrestres autônomos em cidades superpovoadas –
projetos organizados pelo poder militar dominante do mundo e seu aliado
próximo, Israel – vai, se concretizada, levar ao aumento de mortes civis. A
probabilidade desse cenário cresce com a emergência de novos sistemas de
algoritmos que se tornam os agentes contínuos e autônomos, de fato, de
assassinatos; aumenta ainda mais conforme “as cadeias de mortes” são
“comprimidas”, “sensores” são conectados automaticamente a “atiradores”, e
sonhos de “domínio persistente da área” chegam à sua expressão plena por
meio da Guerra Longa contra inimigos urbanos à espreita.
Robôs matadores controlados remotamente foram envolvidos em uma
litania de crimes de guerra. Incursões têm sido feitas roboticamente contra
espaços adversários mesmo quando esses espaços, em teoria, recaem em
Estados-nação que são aliados dos Estados Unidos, como é o caso das
contínuas incursões de drones armados enviados ao espaço territorial do
Paquistão sem a autorização do governo paquistanês. Em 13 de janeiro de
2006, por exemplo, um drone Predator armado, pilotado por uma base aérea
nos limites de Las Vegas, foi enviado para assassinar um alto líder da Al Qaeda,
Ayman al-Zawahiri, na região de população pashtun do Paquistão. O ataque
matou catorze aldeões, incluindo cinco crianças, e incitou protestos em massa
nas principais cidades do Paquistão[91]. Em junho de 2008, um ataque de
drone Predator no Afeganistão matou onze soldados paquistaneses, incitando
mais revolta. Em outubro de 2009, o projeto newamerica.net estimou que
muito mais de mil paquistaneses tinham sido mortos por ataques de drones
estado-unidenses[92].
Além dessas mortes “acidentais”, existem cada vez mais indícios de que
forças israelenses e estado-unidenses administram enormes punições coletivas
contra aqueles que tentam atacar seu aparato militar de dominação vertical.
Por exemplo, no distrito de Shiyyah, em Beirute, no ano de 2006,
enquanto revirava os escombros de um prédio de apartamentos bombardeado
minutos antes por aviões de guerra israelenses, matando ao menos dezessete
civis, o celebrado jornalista do e Independent Robert Fisk se perguntava por
que aquele edifício específico tinha sido destruído. No fim das contas, Fisk
descobriu que, antes da explosão dos mísseis, um drone israelense tinha
sobrevoado o distrito. “Sem aviso, alguém […] disparou na direção do céu com
um rifle [e] não muito tempo depois, os dois mísseis caíram sobre a casa de
inocentes”. A moral da história? “Não atire em drones.”[93]

Tentações políticas da guerra robotizada


O império consegue se manter apenas com a intimidação e [o] trabalho morto [incorporados
em robôs]? Ou ele requer trabalhadores mortos, isto é, soldados enviados da metrópole para
controlar as zonas selvagens e talvez voltar para casa em sacos de cadáveres?[94]

A segunda objeção à tecnofilia militar dos Estados Unidos é: discursos que


pedem que os soldados estado-unidenses sejam retirados das ruas de zonas de
guerra urbanas introduzem o risco de justificar o uso de sistemas de assassinato
automatizados, colocando assim civis urbanos do Sul global na mira de uma
hegemonia já zonza pelas fantasias de guerra de alta tecnologia. Pelo menos um
tenente-coronel da Força Aérea dos Estados Unidos admitiu por escrito que
robôs armados são “uma opção muito atraente para políticos confrontados com
decisões sobre uso de força, devido a requisitos de avanço reduzidos e à
possibilidade de zero […] baixas aliadas”[95]. Como expõe Tim Blackmore, no
caso de veículos aéreos não tripulados, continua havendo o risco de que “a
máquina se perca”. Mas não seria uma perda muito dramática, porque a
tripulação de fato do veículo estará em outro lugar: “em solo, escondida por
muros, por bunkers protegidos ou pela distância (os controladores podem
operar o artefato de outro continente)”. Acima de tudo, “não vai haver viúvas,
nem constrangedores prisioneiros de guerra”[96]. E com o dramático declínio
do poder econômico e financeiro dos Estados Unidos desencadeado pela crise
financeira global, fantasias de contrainsurgências automatizadas nas “zonas
erodidas” do mundo podem se tornar ainda mais atraentes do que antes.
Uma boa estratégia para obter ampla aprovação para a guerra automatizada
é reduzir as cidades do Sul global, com toda a sua complexidade e humanidade,
a meros espaços físicos cujas geografias representam uma ameaça ao domínio
vertical das forças estado-unidenses. Esse discurso leva diretamente à
desumanização dos residentes das cidades e dos cidadãos, e torna sua vida,
morte e cidadania insignificantes.
Parece inevitável que a mudança rumo aos robôs matadores autônomos
“reduza ainda mais os custos, tanto fiscais quanto humanos, da escolha de
declarar uma guerra”[97].
Logo, o desenvolvimento e o uso de robôs armados podem de fato
aumentar consideravelmente a propensão dos Estados com eles armados de
promover guerras. “Robôs não precisam ser recrutados, treinados, alimentados
nem receber pagamento extra por entrar em combate”, escreve Steve
Featherstone. “Quando são destruídos, não há benefícios em caso de morte a
serem pagos. Enviá-los para terras hostis também não requer o gasto de capital
político”[98]. Em menos de duas décadas, ele prevê, “robôs vão nos dar a
habilidade de realizar guerras sem nos comprometer com o custo humano de
efetivamente lutar em uma guerra”[99].
A possibilidade de enviar enxames de robôs armados e não armados para
“pairar” persistentemente sobre regiões do mundo consideradas “locais
problemáticos” claramente combina bem com a mais recente tendência do
Pentágono em relação à Guerra Longa. O perigo aqui é abrir mão do poder
soberano do Estado de matar e delegá-lo a peças de silício e titânio e códigos de
software – para executar atos de morte que não só se desprendem dos tempos e
espaços demarcados das guerras tradicionais, mas também ficam
convenientemente longe do olhar inconstante da grande mídia.

Fantasias de guerra humanizada


Sugerir que robôs podem ser programados para ser “armas de precisão” que podem evitar danos
colaterais é um autoengano da pior espécie. Vai haver consequências não intencionais e, sem
dúvida nenhuma, uma grande quantidade de funerais.[100]

Em terceiro lugar, as tentações políticas de usar exércitos robotizados


armados são aprofundadas pelo argumento de que os “combatentes robôs”
eticamente equipados e escrupulosos do futuro podem, de alguma forma, ser
mais “humanos” do que os combatentes humanos. Ronald Arkin, do Georgia
Institute of Technology, está desenvolvendo uma série de regras éticas para os
robôs assassinos estado-unidenses. Ele afirma que, equipados com uma
“consciência de software”, robôs de combate não cairiam na tentação de
cometer atrocidades contra civis. Assim, “os robôs poderiam se comportar de
maneira mais humanizada do que os seres humanos”, porque poderiam
selecionar o enquadramento ético mais adequado para uma dada missão e
então desobedecer comandos que a contradissessem[101].
Mas esses argumentos deixam de considerar uma questão essencial. É
apenas pelo uso de bancos de dados pré-definidos de “alvos” que os robôs
armados serão capazes de disparar de modo autônomo. O ato político de mirar
e matar, então, será fortemente moldado pelas assinaturas eletrônicas de
supostos inimigos e hostilidades – assinaturas que foram identificadas,
padronizadas e traduzidas para um código de software por programadores
humanos.
Considerando que os “alvos” agora estão inseparavelmente misturados à
massa urbana de vida civil em território nacional e estrangeiro, a definição
antecipada de pessoas condizentes a serem alvos de robôs matadores
autônomos inevitavelmente vai levar a erros e à morte e ao ferimento de muitas
pessoas que por acaso estiverem no caminho dos alvos ou que forem, até onde
os sensores dos robôs entenderem, essencialmente idênticas a esses alvos. “Na
prática, a menos que os insurgentes carreguem armas reconhecidas, é
simplesmente impossível diferenciar entre eles e pessoas inocentes tocando a
própria vida em paz”, escreve Edward Luttwak[102].
Os perigos estão mais que claros. Sistemas de sensoriamento e de
extermínio automatizados têm a probabilidade de enxergar a tudo e a todos
como alvos reais ou potenciais em um campo de batalha que engloba tudo.
Eles vão agir de acordo com essa perspectiva se um dia tiverem autonomia da
supervisão humana. John Armitage sugere que sistemas de matar
automatizados de alta tecnologia serão propensos a erros generalizados e, às
vezes, fatais, inevitavelmente destruindo os “alvos” errados de tempos em
tempos. Ele cita o exemplo do abatimento do voo 655 da Iran Air pelo sistema
de defesa aérea altamente automatizado Aegis a bordo do USS Vincennes, em
1988, que resultou na morte de todos os civis na aeronave[103].

Robôs armados e as leis da guerra


Conforme avançamos no campo de possibilidade, passando de armas avançadas para armas
semiautônomas e, então, armas completamente autônomas, precisamos entender as
implicações éticas envolvidas em construir robôs que podem tomar decisões independentes.
[104]

Chegamos à principal e última objeção: a de que atribuir crimes de guerra


a humanos vai se tornar cada vez mais perto de impossível, como se preocupa o
filósofo Robert Sparrow:

É uma condição necessária para lutar em uma guerra justa sob o princípio de jus in bellum [as
leis da guerra justa que governam as ações militares] que alguém possa ser legitimamente
responsabilizado pelas mortes que ocorrerem no decorrer da guerra.[105]

Sparrow considera a perspectiva bastante real de robôs autônomos


cometerem a atrocidade de matar civis não armados. “Quem deveríamos julgar
por um crime de guerra nesse caso?”, ele pergunta. “O próprio robô? A(s)
pessoa(s) que o programou(aram)? O oficial que ordenou seu uso? Ninguém?”
A conclusão dele é clara: “como essa condição [para a guerra justa] não pode
ser atendida em relação às mortes causadas por um sistema de armas
autônomo, não seria ético, portanto, empregar esses sistemas numa
guerra”[106].
O major do Exército estado-unidense David Bigelow oferece um cenário
de guerra robotizada para o ano de 2025. Ele apresenta uma guerra de baixa
intensidade contínua em que robôs armados e independentes lutam na
interseção de um mundo desenvolvido – devotado fanaticamente à preservação
e à continuidade da vida humana e seduzido por sonhos de imortalidade – e
um mundo em desenvolvimento densamente povoado e tomado por conflitos,
onde a vida é mais barata do que nunca. Nesse tipo de guerra global,
caracterizada pelo “uso extensivo de robôs militares pelas nações desenvolvidas,
[…] forças no mundo subdesenvolvido voluntariamente sacrificam dúzias de
seus próprios soldados em troca da vida de um único soldado inimigo”[107].
Antecipando a polêmica midiática global que seria causada caso um robô
armado trabalhasse com forças australianas em Mogadíscio, Somália, matando
civis desarmados, Bigelow conclui que a solução não é impedir que os robôs
assassinos autônomos surjam. Em vez disso, ecoando trabalhos atuais sobre o
desenvolvimento de softwares éticos para armas robotizadas, ele propõe que
robôs futuros sejam “desenvolvidos para filtrar [suas] decisões por um
enquadramento moral sólido”[108]. Esse processo “de filtragem” parece dúbio,
no entanto, e de forma alguma lidaria com as preocupações expressas por
Robert Sparrow. A posição de Sparrow sem dúvida é clara: é urgente que
sistemas de armas verdadeiramente autônomos sejam considerados antiéticos e
tornados ilegais pela lei internacional.

[1] Tariq Aziz, à época ministro das Relações Exteriores do Iraque, citado em Christopher Bellamy, “If
the Cities Do Not Fall to the Allies, ere May Be No Alternative to Siege Warfare”, e Independent,
Londres, 28 mar. 2003.
[2] Sun Tzu, e Art of War (Londres, Filiquarian Publishing, 2006) [ed. bras.: A arte da guerra, trad.
Sueli Barros Cassal, Porto Alegre, L&PM, 2006].
[3] Lee Grubbs, In Search of a Joint Urban Operational Concept (Monografia, Fort Leavenworth [KA],
School of Advanced Military Studies, 2003), p. viii.
[4] Alice Hills, Future Wars in Cities: Rethinking a Liberal Dilemma (Londres, Frank Cass, 2004).
[5] Lee Grubbs, “In Search of a Joint Urban Operational Concept”, cit., p. 56.
[6] Christian Parenti, “Planet America: e Revolution in Military Affairs as Fantasy and Fetish”, em
Ashley Dawson e Malini Johar Schueller (orgs.), Exceptional State: Contemporary US Culture and the New
Imperialism (Durham [NC], Duke University Press, 2007), p. 101.
[7] Ver John Arquilla e David Ronfeldt (orgs.), Networks and Netwars (Santa Monica [CA], Rand, 2001).
[a] Método de gestão característico dos sistemas flexíveis de produção que determina conforme a
demanda em que quantidade e com quais especificações algo deve ser produzido e transportado. (N. T.)
[8] Chris Hable Gray, “Posthuman Soldiers and Postmodern War”, Body and Society, v. 9, n. 4, 2003, p.
215-26.
[9] Raymond O’Mara, “Stealth, Precision, and the Making of American Foreign Policy”, Air and Space
Power Chronicles, jun. 2003. Disponível em: <www.au.af.mil/au/cadre/aspj/airchronicles/cc/omara.html>.
Acesso em: 18 jun. 2016.
[10] Mark Duffield, “War as a Network Enterprise: e New Security Terrain and Its Implications”,
Cultural Values, n. 6, 2002, p. 153-65.
[11] Christian Parenti, “Planet America”, cit., p. 89.
[12] Mark Hewish e Rupert Pengelley, “Facing Urban Inevitabilities: Military Operations in Urban
Terrain”, Jane’s International Defence Review, ago. 2001, p. 13-8.
[13] US Defense Intelligence Agency, “ e Urban Century: Developing World Urban Trends and
Possible Factors Affecting Military Operations”, Defense Intelligence Reference Document (DIRC),
Quantico (VA), Marine Corps Intelligence Agency, 1997.
[14] Phillip Misselwitz e Eyal Weizman, “Military Operations as Urban Planning”, em Anselme Franke e
Eyal Weizman (orgs.), Territories: Islands, Camps and Other States of Utopia (Berlim, KW Institute for
Contemporary Art, 2003), p. 272-5.
[15] Aidan Harris, “Can New Technologies Transform Military Operations in Urban Terrain?”, artigo,
Universidade de Lancaster, mar. 2003.
[16] US Defense Intelligence Agency, “ e Urban Century”, cit.
[17] Idem.
[18] Richard J. Norton, “Feral Cities”, Naval War College Review, v. 65, n. 4, 2003.
[19] Ralph Peters, “ e Future of Armored Warfare”, Parameters, v. 27, n. 3, 1997, p. 50-60.
[20] Idem.
[b] Grande think tank estado-unidense originalmente criado para fazer pesquisa militar. (N. E.)
[21] Jennifer Taw e Bruce Hoffman, e Urbanization of Insurgency: e Potential Challenge to US Army
Operations (Santa Monica [CA], Rand, 1994).
[22] US Defense Intelligence Agency, “ e Urban Century”, cit.
[23] Robert Leonhard, “Sun Tzu’s Bad Advice: Urban Warfare in the Information Age”, Army Magazine,
v. 53, n. 4, 2003.
[24] H. Bruce Franklin, War Stars: e Superweapon and the American Imagination (Boston, University of
Massachusetts Press, 1990).
[25] Ver Jonathan Schell, e Unconquerable World: Power, Nonviolence, and the Will of the People
(Londres, Penguin, 2005).
[26] Christian Parenti, “Planet America”, cit., p. 88-104.
[27] Iain Boal et al., Afflicted Powers: Capital and Spectacle in a New Age of War (Londres, Verso, 2006), p.
187.
[28] Defense Science Board (DSB), Transition to and from Hostilities (Washington [DC], Office of the
Undersecretary of Defense, 2004), p. 163.
[29] Ibidem, p. 163.
[30] lbidem, p. 153.
[31] Ibidem, p. 2.
[32] Ibidem, p. 159.
[33] Idem.
[34] O relatório do DSB privilegia combinações de escaneamento de íris e impressões digitais com o
reconhecimento facial como “oferecendo uma conjunção razoavelmente eficiente de rapidez, precisão e
facilidade de implantação e custo” (idem).
[35] Robert Ackerman, “Persistent Surveillance Comes into View”, Signal Magazine, maio 2002.
[36] Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa), Combat Zones at See Program: Proper
Information, 2003, p. 6. Disponível em: <www.darpa.mil>. Acesso em: 14 jun. 2016.
[37] Idem.
[38] Ibidem, p. 11.
[39] Revista Defense Watch, “Combat Zones that ‘See’ Everything”, 2004. Disponível em:
<http://argee.net/Defense%20Watch.html>. Acesso em: 27 maio 2016.
[40] Ver capítulo 9 deste volume.
[41] Ver capítulo 6 deste volume.
[42] Edward Baranoski, “Urban Operations, the New Frontier for Radar”, DarpaTech, Washington (DC),
2005.
[43] Maryann Lawlor, “Robotic Concepts Take Shape”, Signal Magazine, nov. 2003.
[44] Christian Parenti, “Planet America”, cit., p. 89.
[45] Revista Defense Watch, “Combat Zones that ‘See’ Everything”, cit.
[46] Idem.
[47] Idem.
[48] Ver capítulo 10 deste volume.
[49] Maryann Lawlor, “Robotic Concepts Take Shape”, cit.
[50] Adam Hebert, “Compressing the Kill Chain”, Air Force Magazine, v. 86, n. 3, 2003, p. 34-42.
[51] Maryann Lawlor, “Robotic Concepts Take Shape”, cit.
[52] Idem.
[53] Citado em Maryann Lawlor, “Robotic Concepts Take Shape”, cit.
[54] Steve Featherstone, “ e Coming Robot Army: Introducing America’s Future Fighting Machines”,
Harper’s Magazine, Nova York, fev. 2007, p. 43-52.
[55] Swords significa “Special Weapons Observation Reconnaissance Detection System” [Sistema de
Armas Especiais de Detecção, Reconhecimento e Observação – a palavra sword, em inglês, significa
“espada” – N. T.].
[56] Jörg Blech, “Attack of the Killer Robots”, Der Spiegel on-line, ago. 2007.
[57] Charli Carpenter, “Autonomous Weapons and Asymmetric Conflict”, Complex Terrain Laboratory,
ago. 2008. Disponível em: <www.terraplexic.org>. Acesso em: 27 maio 2016.
[58] Armament Research, Development and Engineering Center (Ardec), “Ardec Provides Glimpse of
Possible Future Warfare”, press release, 2007. Disponível em: <www.pica.army.mil/>. Acesso em: 27 maio
2016.
[59] Idem.
[60] Jörg Blech, “Attack of the Killer Robots”, cit.
[61] Arieh Egozi, “Automated Border”, Ynetnews.com, 6 out. 2007.
[62] Barbara Opall-Rome, “Israeli Arms, Gear Aid US Troops”, Defense News, Springfield (VA), 29 mar.
2007.
[63] Defense Update.com, “Elbit Expands Range of Autonomous Ground Vehicles”, 2007.
[64] Barbara Opall-Rome, “Israeli Arms, Gear Aid US Troops”, cit.
[65] Idem, “Robots to Guard Israeli Border Kill Zone”, Defense News, Springfield (VA), 2007.
[66] Idem.
[67] Robert Sparrow, “Killer Robots”, Journal of Applied Philosophy, v. 24, n. 1, 2007, p. 63.
[68] Idem.
[69] Chuck Pinney, UAV Weaponization (Washington [DC], Raytheon, 2003), p. 16.
[70] John Tirpak, “Heavyweight Contender”, Air Force Magazine, v. 85, n. 7, jul. 2002.
[71] Ver Robert Sparrow, “Killer Robots”, cit., p. 63.
[72] Small Business Innovation Research (SBIR), “Multi-Agent Based Small Unit Effects Planning and
Collaborative Engagement with Unmanned Systems”, solicitação 07.2, tópico Ao7-032, 2007, p. 57-68.
[73] Jörg Blech, “Attack of the Killer Robots”, cit.
[74] Tim Blackmore, “Dead Slow: Unmanned Aerial Vehicles Loitering in Battlespace”, Bulletin of
Science, Technology and Society, v. 25, n. 3, 2005, p. 199.
[75] Daryl Hauck, “Pandora’s Box Opened Wide: Micro Unmanned Air Vehicles Carrying Genetic
Weapons”, artigo, Air War College, Air University, Maxwell (AL), 2004, p. 21.
[76] Nick Turse, “Weaponizing the Pentagon’s Cyborg Insects: a Futuristic Nightmare that Just Might
Come True”, Tom Dispatch, 30 mar. 2008.
[77] Idem.
[78] Achille Mbembe, “Necropolitics”, Public Culture, v. 15, n. 1, 2003, p. 11.
[79] Giorgio Agamben, State of Exception (Chicago, Chicago University Press, 2005) [ed. bras.: Estado de
exceção, trad. Irene D. Poleti, São Paulo, Boitempo, 2004].
[80] Charles Gannon, Rumors of War and Infernal Machines: Technomilitary Agenda-Setting in American
and British Speculative Fiction (Liverpool, Liverpool University Press, 2003).
[81] Simon Cooper, “Perpetual War Within the State of Exception”, Arena Journal, n. 21, 1º jan. 2003,
p. 109.
[82] Michael Sherry, e Rise of American Air Power: e Creation of Armageddon (New Haven [CT], Yale
University Press, 1987).
[83] Idem.
[84] Jeremy Black, War: A Short History (Londres, Continuum, 2007), p. 97 [ed. port.: Guerra, uma breve
história, trad. João von Zeller, Alfragide, Dom Quixote, 2013].
[85] Christian Parenti, “Planet America”, cit., p. 93.
[86] James Der Derian, Virtuous War: Mapping the Military-Industrial-Media-Entertainment Network
(Boulder [CO], Westview, 2001).
[87] Ver Frank Hoffman, “Transforming for the Chaordic Age”, Marines Corps Gazette, v. 86, 2002, p.
47.
[88] John Gentry, “Doomed to Fail: America’s Blind Faith in Military Technology”, Parameters, v. 32, n.
4, 2002. Frank Hoffman, “Transforming for the Chaordic Age”, cit., p. 47.
[89] John Gentry, “Doomed to Fail”, cit.
[90] “It’s All Pashto to em”, Foreign Policy, n. 127, 2001, p. 18.
[91] James Rupert, “CIA Takes Calculated Risk in Pakistan”, Newsday, Nova York, 23 jan. 2006.
[92] Declan Walsh, “US Bomb Kills 11 Pakistani Troops”, e Guardian, Londres, 12 jun. 2008.
[93] Robert Fisk, “What Do You Say to a Man Whose Family Is Buried under the Rubble”, e
Independent, Londres, 9 ago. 2006.
[94] Christian Parenti, “Planet America”, cit., p. 97.
[95] James Dawkins, “Unmanned Combat Aerial Vehicles: Examining the Political, Moral, and Social
Implications” (Monografia, Maxwell [AL], School of Advanced Air and Space Studies, 2005).
[96] Tim Blackmore, “Dead Slow”, cit., p. 199.
[97] Steve Featherstone, “ e Coming Robot Army”, cit., p. 50.
[98] Ibidem, p. 43-52.
[99] Idem.
[100] Daniel Davis, “Who Decides: Man or Machine?”, Armed Forces Journal, nov. 2007.
[101] Citado em Jörg Blech, “Attack of the Killer Robots”, cit.
[102] Edward Luttwak, “Dead-end: Counterinsurgency Warfare as Military Malpractice”, Harper’s
Magazine, Nova York, fev. 2007, p. 33-42.
[103] John Armitage, em Jordan Crandall (org.), Under Fire 2: e Organization and Representation of
Violence (Roterdã, Witte de Witte, 2005), p. 89.
[104] David Bigelow, “Fast forward to the Robot Dilemma”, Armed Forces Journal, nov. 2007.
[105] Robert Sparrow, “Killer Robots”, cit., p. 63.
[106] Idem.
[107] David Bigelow, “Fast forward to the Robot Dilemma”, cit.
[108] Idem.
6
ARQUIPÉLAGO DE PARQUE TEMÁTICO

Um arquipélago oculto de oitenta a cem minicidades está sendo


rapidamente construído mundo afora – longe dos principais corredores
metropolitanos do planeta. Situadas em bordas obscuras das cidades e em áreas
rurais, essas construções ficam nas entranhas de bases militares e zonas de
treinamento. A vasta maioria se localiza nos Estados Unidos e revela um
contraste marcante com os bairros residenciais e centros comerciais dos
arredores. Outras estão emergindo nos desertos do Kuwait e de Israel, no
interior do sul da Inglaterra, nas planícies da Alemanha e nas ilhas ao redor de
Cingapura.
Algumas dessas cidades estão repletas de varais com roupas secando, burros
perambulando, pichações em árabe, gravações repetindo sem parar o chamado
à oração e até imitações de minaretes e mesquitas. Outras ostentam distritos de
favelas e redes subterrâneas de esgoto com máquinas aromatizantes embutidas
capazes de produzir, quando solicitado, o cheiro artificial de cadáveres
apodrecendo ou de esgoto não tratado. Outras ainda são povoadas
ocasionalmente por grupos itinerantes de árabe-americanos, levados até lá em
veículos comunitários para andar de um lado ao outro em vestimentas árabes e
fingir.
Além desses habitantes temporários, poucos dos que chegam a ver ou
adentrar esses novos complexos urbanos não são militares. Despercebidos pelo
desenho urbano, pela arquitetura e pelo urbanismo, e invisíveis nos mapas,
esses locais constituem uma espécie de sistema global obscuro de simulações
militares urbanas, ocultos nos interstícios das áreas metropolitanas reais em
rápido crescimento do planeta.

Destruição ensaiada
Em vez de monumentos ao dinamismo e ao crescimento, essas “cidades”
são parques temáticos para a prática de destruição, aniquilamento e violência
colonial urbanas. Construídas por especialistas militares estado-unidenses com
a ajuda de empresas militares, designers de parques temáticos, empresas de
videogame, cenógrafos de Hollywood e especialistas em efeitos especiais, são
áreas de treinamento para ataques a cidades distantes e reais. Esses locais são
pequenas cápsulas de espaço criadas para simular de alguma forma o que o
teórico militar Richard Norton rotula pejorativamente de cidades “selvagens”
em desenvolvimento no Terceiro Mundo e no mundo árabe – as zonas de
guerra atuais e futuras de facto das forças ocidentais, os ambientes estratégicos
que dominam a geopolítica contemporânea[1].
Eyal Weizman[2] enfatiza que a doutrina militar israelense e ocidental
atualmente destaca a necessidade de não apenas adentrar, e de não só tentar
controlar, grandes áreas urbanas, mas também de reorganizar fisicamente
espaços colonizados da cidade, de modo que armas de alta tecnologia e
sistemas de monitoramento possam funcionar em favor do invasor. Weizman
chama isso de “design por destruição”. Nas palavras dele, “a guerra urbana
contemporânea é realizada dentro de uma arquitetura construída, real ou
imaginária, e por meio da destruição, construção, reorganização e subversão do
espaço”[3].
Acompanhando a mutação pós-Guerra Fria da doutrina militar ocidental
para o remodelamento urbano planejado e à força, o propósito dessas “cidades
de treinamento” de guerra urbana simulada é permitir que as Forças Armadas
dos Estados Unidos, de Israel e de países ocidentais aprimorem suas habilidades
de destruição urbana planejada. Depois de intensos treinamentos nesses locais,
as unidades seguem para cidades reais no Iraque, na Palestina, no Líbano e em
outros lugares para realizar as chamadas Military Operations on Urban Terrain
[operações militares em terreno urbano] – as Mout.
Assim como o resto do mundo, as áreas de treinamento militar estão
rapidamente se tornando urbanas. O coronel omas Hammes, escrevendo
para a Marine Corps Gazette dos Estados Unidos em 1999, foi um dos muitos
planejadores de defesa que na época afirmaram a necessidade de construir
novas imitações de cidade porque os campos de treinamento militar dos
Estados Unidos estavam desatualizados em relação ao “alastramento urbano
que domina as regiões críticas do mundo hoje em dia”. Seguindo essa linha,
escreveu:

Sabemos que vamos combater principalmente em áreas urbanas. Ainda assim, realizamos a
vasta maioria dos nossos treinamentos em zonas rurais – as colinas do campo Pendleton, os
desertos de Twenty Nine Palms, as matas do campo Lejeune, as selvas de Okinawa, no Japão.[4]

A reação militar estado-unidense tem sido dramática. O Exército dos


Estados Unidos sozinho tinha planos de construir 61 cidades de treinamento
de guerra urbana pelo mundo entre 2005 e 2010. Enquanto algumas são
pouco mais do que um conjunto de contêineres portáteis, criados para
propiciar treinamento básico de guerra urbana quando transportados pelo
mundo, outras são espaços complexos que imitam distritos inteiros ou grupos
de vilarejos, além do interior adjacente, instalações de infraestrutura e até
aeroportos. Os principais exemplos de espaços mais complexos incluem Fort
Carson, no Colorado (que em 2006 incluía três imitações diferentes de vilas
iraquianas); o Joint Readiness Training Center em Fort Polk, na Luisiana; Fort
Benning, na Geórgia; o principal espaço do Corpo de Fuzileiros Navais em
Twenty-Nine Palms, na Califórnia; e Fort Richardson, no Alasca.
Ao lado de uma vasta gama de simulações de cidades ocidentais
desenvolvidas como áreas para a prática de reações policiais e militares a
ataques terroristas, agitação civil ou colapsos infraestruturais, esses simulacros
de áreas do Terceiro Mundo oferecem um arquipélago de “cidades” que imitam
a urbanização de guerras e conflitos reais pelo mundo. Bryan Finoki escreve
que esses espaços

são tentativas de lidar com a calamidade em um parque de diversões de agitação, insurgência e


seu enfraquecimento. Arquiteturas ao mesmo tempo elaboradas e artísticas, [elas são]
projetadas com o único propósito de serem conquistadas e reconquistadas.[5]
As cidades de treinamento de guerra urbana incorporam intensamente
tanto as geografias urbanas imaginadas que estão no coração da Guerra ao
Terror quanto as reais. Poderosas materializações do que Derek Gregory
denominou nosso presente colonial[6], elas precisam ser compreendidas como
parte de um esforço muito mais amplo de simulação física e eletrônica de
cidades árabes ou do Sul global, motivado pelas razões, muito conectadas entre
si, de guerra, lucro e entretenimento. De fato, esses complexos de treinamento
assumem seu lugar em uma constelação muito mais vasta de simulações de
cidades e paisagens urbanas árabes que, bebendo na fonte de tradições e
fantasias orientalistas, também estão emergindo em videogames, simuladores
de realidade virtual militar, filmes, infográficos e livros. Juntos, eles apresentam
um único e enorme truque discursivo: a construção das cidades árabes e do
Terceiro Mundo como mundos labirínticos estilizados, puramente físicos, que
são, de alguma forma, ao mesmo tempo intrinsecamente terroristas e de modo
geral desprovidos da sociedade civil que caracteriza a vida urbana normal[7]. O
resultado é que as cidades árabes emergem como pouco mais do que pontos
receptores de artilharia e de incursões coloniais militares estado-unidenses, reais
ou fantásticas.
Além do mais, quando as culturas e sociologias de cidades árabes são
inseridas nessas simulações de guerra urbana, o clichê orientalista e a
desumanização de alta tecnologia ainda são a norma[8]. Algumas dessas
simulações, por exemplo, foram “povoadas” por figurantes recrutados na área,
que precisam usar keffiyehs e recebem ordens de resmungar frases
estereotipadas. Enquanto isso, o povoamento de cidades simuladas
eletronicamente é gerado apenas por softwares de computador, que criam
“multidões” a serem atacadas. De qualquer jeito, essas constelações de
simulacros urbanos fazem o importante trabalho geopolítico de reduzir de
modo contínuo os complexos mundos social e cultural da urbanidade do Sul
global a meros alvos, meros campos de batalha, que existem com o único
propósito de serem atacados em campanhas urbanas contra o “terror” ou pela
“liberdade”.
A construção de simulações físicas de lugares que serão alvos e serão
destruídos não é nada novo para os militares, é claro. Tampouco é nova a
relação próxima entre jogos, brinquedos e a guerra, ou a mobilização dos
efeitos especiais de Hollywood em um esforço de guerra. Na Guerra Fria, por
exemplo, bombas atômicas e termonucleares eram detonadas com regularidade
perto de lares suburbanos simulados, com direito a cercas brancas e famílias
nucleares de manequins posicionados ao redor da mesa fazendo uma refeição
de mentirinha.
Mesmo antes, durante a Segunda Guerra Mundial, o campo de testes de
Dugway, em Utah, foi o local da construção de uma vila que replicava de
maneira bastante exata os prédios de apartamentos de Berlim, bem como de
um conjunto de casas japonesas feitas de madeira e papel de arroz[9]. Os
prédios berlinenses foram construídos pelo luminar modernista Eric
Mendelsohn, recém-exilado da Alemanha. As casas japonesas foram criadas por
Antonin Raymond, um arquitero tcheco-americano com experiência no Japão,
que vasculhou os Estados Unidos em busca de tábuas de abeto russo autêntico.
Essas construções foram queimadas repetidas vezes pelo Corpo de Guerra
Química do Exército dos Estados Unidos, que então conseguia adaptar a
composição e o projeto das bombas incediárias para melhor cumprir a tarefa de
reduzir a cinzas cidades japonesas e alemãs. Para garantir a precisão, móveis
alemães de verdade mobiliavam os apartamentos, e os prédios eram
umedecidos para imitar o clima temperado de Berlim.

Bagdá está em toda parte


As cidades de treinamento de guerra urbana do século XXI têm uma
relação diferente com a violência política do que os lares suburbanos castigados
por bombas atômicas ou os prédios de apartamentos e as estruturas de papel
incendiados do século XX. A simulação não é mais criada para explorar a
aniquilação completa por meio da guerra total. Agora, o propósito é aprimorar
as habilidades de ocupação, guerra de contrainsurgência e reforma urbana por
meio da guerra expedicionária e colonial.
Surge aqui um concurso de beleza urbano bizarro e invertido – uma
imagem espelhada das conhecidas campanhas de marketing através das quais
cidades reais se exibem por meio da gentrificação, do planejamento cultural e
da divulgação promocional. No caso das cidades de treinamento, as marcas de
sucesso são decadência, colapso e sordidez. Um coronel comandante de
esquadrão chamado James Cashwell relatou recentemente, depois de um
exercício em uma dessas cidades, localizada na base aérea George, na
Califórnia, que “a vantagem da base é que é feia, destroçada, todas as janelas
estão quebradas [e árvores] estão caídas nas ruas. É perfeito para replicar uma
cidade destruída pela guerra”[10]. Ted Leza, que administra o campo de
treinamento estado-unidense de Baumholder, na Alemanha, pondera que os
soldados que usam seu espaço pediram diversas vezes que ele fosse ocupado por
diferentes animais, mortos e vivos, para ajudar a simular a vida nas cidades
iraquianas. Assim, além de táxis brancos e laranja no estilo de Bagdá, bem
realistas, uma cópia de ponto de táxi e um mercado, os controladores de
Baumholder estão “tentando conseguir isso para eles. Não sei se vamos
conseguir um camelo. Talvez um burro, cabras… algo assim”[11]. Áreas de
treinamento de guerra urbana também integram sistemas multissensoriais que
projetam efeitos especiais de guerra nas estruturas, nas ruas e nos prédios falsos.
Manuel Chaves, que administra o conjunto de efeitos especiais construído no
campo em Fort Wainwright, Alasca, diz:

Temos uma grande variedade de efeitos especiais olfativos que podemos usar. Por exemplo,
café, torta de maçã, cadáveres, borracha queimada, fumaça de diesel. Posso fazer nove prédios,
nove cheiros diferentes. Em geral, se é um prédio em chamas, colocamos algo bem ruim, como
corpos carbonizados.[12]

Um complexo bem diferente, construído (com ironia não intencional) a


partir de uns 23 mil contêineres de transporte de bombas de fragmentação
descartados durante a Guerra do Vietnã, está surgindo em Yodaville, no deserto
do Arizona (Figura 6.1). Esse local, que foi inaugurado em 1998, é a primeira
cidade simulada do Sul global criada especificamente para bombardeios
urbanos reais e treinamento de apoio próximo[13]. Diz-se que o complexo
conta com 178 “prédios”, 131 alvos humanos, 31 veículos-alvo e postes de
iluminação. De acordo com um relatório do Rand, do chão ele parece “um
monte de contêineres marítimos alvejados”; do ponto de vista dos pilotos de
caça que o atacam com munições de fragmentação e precisão, no entanto, é
“convincentemente urbano”[14]. Mark Shaffer, um repórter do Arizona
Republic, comenta que o local tem

definitivamente [um ar de] Terceiro Mundo. Um campo de futebol falso está pintado, em
verde, na beira da cidade. As ruas são estreitas. Há uma grande favela. E por falar em clima, o
deserto escaldante está tomado por cascavéis e um ou outro cacto ou chaparral.[15]

6.1 Yodaville Target Complex, no Arizona: uma simulação de cidade árabe usada em treinos de
bombardeio aéreo, construída com contêineres utilizados para transportar bombas de fragmentação para
o Vietnã nos anos 1960.

Aparentemente, grupos de milícia de direita locais – que nunca perdem


tempo em tirar conclusões conspiratórias – estão convencidos de que o
complexo Yodaville está sendo usado para treinar forças dos Estados Unidos e
das Nações Unidas em prol do que costumam chamar de Nova Ordem
Mundial. Como o local fica a onze quilômetros da fronteira entre Arizona e
México, os bombardeios são interrompidos pelo menos duas vezes por semana
para que os imigrantes recém-chegados possam ser retirados antes que a
artilharia recomece[16], ainda que as remoções nem sempre sejam meticulosas.
Um homem chamado Madzukes – supostamente um fuzileiro naval estado-
unidense – pergunta durante um vídeo dos Fuzileiros Navais no YouTube se
“dessa vez algum dos que pularam a fronteira saiu correndo de Yodaville depois
de um lançamento de foguetes”[17].

“Hollywood nem se compara a nós!”


Uma das cidades de treinamento de guerra urbana mais importantes para
as forças terrestres dos Estados Unidos fica em Fort Knox, Kentucky, onde um
complexo da Mout de doze hectares chamado Zussman Village foi construído
por US$ 13 milhões[18]. O espaço pode acomodar centenas de atores
“insurgentes” – que usam keffiyehs na cabeça e estão armados com AK-47s e
granadas lançadas por foguete –, além de 1,5 mil membros das Forças Armadas
e seus tanques, veículos blindados e helicópteros. Conta também com
simulações de ferros-velhos, mesquitas, cemitérios, postos de gasolina, esgoto,
subestações de energia elétrica, trilhos de trem e pontes. Está equipado até com
estações de rádio e TV que fazem transmissões em hebraico, árabe ou russo.
Uma ostensiva favela do Terceiro Mundo está sendo construída perto da
ferrovia.
Para simular um ambiente destruído pela guerra, o espaço Zussman está
deliberadamente imerso em poeira e lama. O mato é alto, e o sistema de esgoto
sem manutenção está cheio de gambás e ratos vivos, além de cobras de
borracha compradas em lojas de brinquedos locais. Odores simulados podem
ser produzidos quando solicitado. Em cinco dos prédios, sistemas embutidos
de pirotecnia que imitam os usados nos estúdios de filmagem de Hollywood
podem emitir vapor de propano em bolas de fogo aéreas, para “queimar” os
prédios quando solicitado. A Ware Corporation, que instalou a pirotecnia,
afirma que, quando se entra no local,
explosões ensurdecedoras chacoalham seu corpo. Guerrilhas armadas, o cheiro de esgoto
aberto, o caos e a confusão de civis na rua e prédios queimando com grandes explosões
flamejantes esperam aqueles soldados que treinarem no Zussman Village”.[19]

Daniel Hawkins, o engenheiro de efeitos especiais do Zussman, se


vangloria:

Hollywood nem se compara a nós. Qualquer cenário que você imaginar pode ser criado aqui.
Prestamos atenção aos menores detalhes – tudo, do nosso esgoto “smell’o’vision”[a] até quartos
de hotel totalmente mobiliados. Também temos diversas “surpresas” armadas, como explodir a
ponte, derrubar um poste ou lançar um boneco de teste de trás de um móvel em um prédio.
[20]

Andy Andrews, administrador do Zussman, recorda o planejamento do


espaço:

Queríamos que fosse sujo e repugnante – como a guerra de verdade o é. Gás natural não era
uma opção porque a chama é azul e [os planejadores] queriam fogo amarelo/laranja de madeira
queimando. Consideramos usar propano líquido porque produzia a cor certa, uma chama
pronunciada e duradoura. No entanto, simplesmente não era uma opção segura e, naquela
época, havia um novo código [de saúde e segurança] sendo implantado para efeitos
pirotécnicos que podiam ser usados diante de uma plateia… No fim das contas, propano
vaporizado funcionou. Era mais fácil de controlar e, como o propano se mantém próximo ao
solo, era mais fácil e mais seguro criar o efeito cogumelo ou bola de fogo. O propano disparava
no ar e fazia barulho no chão, criando um efeito espetacular.[21]

O maior complexo de guerra urbana dos Estados Unidos está surgindo no


Centro de Treinamento de Prontidão Conjunta em Fort Polk, Luisiana. Ele se
compara a um espaço semelhante sendo construído em Fort Irwin, Califórnia,
cujo comandante teria afirmado que “a realidade que criamos no Centro de
Treinamento de Prontidão Conjunta é como um grande reality show de
televisão”[22]. Em Fort Polk, dezoito imitações de vilarejos iraquianos estão
sendo construídas no que a revista Wired apelidou de “o parque temático mais
violento do mundo”[23]. Esse complexo, que abrange quase 40,5 mil hectares, é
detalhado até as bancas de kebab e simulações de valas comuns – estas, criadas
enterrando pilhas de ossos e carne em putrefação dos açougues locais. Durante
os exercícios – que só em 2005 tiveram a participação de 44 mil soldados
destinados ao Iraque – o complexo é “habitado” por 1,2 mil personagens,
vestindo roupas em estilo árabe e interpretando membros de tribos, policiais e
civis iraquianas[24]. Duzentos deles eram árabe-americanos, a maioria do
próprio Iraque. Roteiristas estão a postos para desenvolver “perfis de
personagem” para cada participante, conforme cada um esteja programado
para ser “amigo”, “neutro” ou “hostil” em relação às forças estado-unidenses.
“Antes, os atores eram moradores locais com sotaques sulistas que diziam
‘você atropelou minha cabra’. Agora você entra em um vilarejo ‘curdo’, e o
‘prefeito’ é do norte do Iraque”, conta o brigadeiro-general Mike Barbero,
comandante da base[25]. Agora, alguns participantes fazem o trabalho por US$
220 ao dia em período integral. Durante os exercícios, o repórter Vince Beiser,
da Wired, descobriu que “reina uma atmosfera apatetada de Feira da
Renascença” no local. “As pessoas caem no riso falando trechos de bobagens em
árabe ‘aladdinês’: ‘Yaahabla blanabla!’, cumprimenta um. ‘Mohammed Jihad!’,
vem a resposta.”[26]

“Este é o nosso playground”


É ali, nesse mundo paralelo, que a ocupação dos territórios palestinos é simulada por gerações
de soldados israelenses, repetidas vezes.[27]

No entanto, o simulacro de cidade árabe mais ambicioso e polêmico já


construído até o momento, de longe, não é uma instalação estado-unidense.
Ostensivamente, é israelense: o centro Baladia, na base israelense de Tze’elim,
no deserto de Neguev (Figura 6.2). Considerando que o local foi financiado
com auxílio estado-unidense, construído entre 2005 e 2006 pelo Corpo de
Engenheiros do Exército dos Estados Unidos e é usado por fuzileiros navais
estado-unidenses, talvez “israelo-estado-unidense” seja uma descrição mais
correta.
6.2 A simulação de cidade palestina Baladia, no deserto de Neguev, construída para os israelenses pelo
Exército estado-unidense. No alto: visão panorâmica da escala das “instalações”. Ao centro: simulação de
uma rua palestina. Embaixo: um “buraco de minhoca” que permite às forças israelenses praticar sua
movimentação através das paredes de cidades e campos de refugiados palestinos.

Com o custo de US$ 40 milhões e uma área de cerca de 19 quilômetros


quadrados, Baladia tem 472 estruturas de concreto completas e 6 quilômetros
de estradas. É uma das primeiras imitações de cidade de guerra urbana que se
aproxima da escala de uma área urbana real. Baladia foi construída
explicitamente para generalizar “lições [militares] aprendidas” das incursões
regulares de Israel em cidades e campos de refugiados palestinos desde 2002, e
disponibilizá-las para todas as Forças Armadas de Israel, bem como para as
forças de nações aliadas. O complexo simula uma cidade palestina
completa[28], dividida em quatro “blocos” e equipada com instalações de
monitoramento para acompanhar o “combate”.
A estrutura de equipamentos de Baladia é impressionante. Ela simula
prédios de apartamentos, um mercado, uma mesquita e uma “casbá” de
concreto. Seu cemitério “também faz as vezes de campo de futebol,
dependendo do cenário operacional”; sua “reserva natural” esconde lançadores
de foguetes como os do Hezbollah. As ruas estão cheias de carros queimados,
pneus queimados e armadilhas de explosivos falsas[29]. Além do complexo
sistema de monitoramento, há um sistema de áudio elaborado que reproduz o
barulho de helicópteros, disparos de morteiro, chamados para orações e vinte e
tantos outros sons distintos. Um toque distinto é o leque de bonecos
mecânicos, como as caricaturas de árabes barbados que estão programadas para
surgir em janelas e esquinas durante exercícios de balística. Baladia tem até
“buracos de minhoca” pré-fabricados: trata-se de aberturas feitas
rotineiramente nas paredes de prédios por soldados israelenses para que possam
atravessar as cidades e os campos de refugiados palestinos e, ao mesmo tempo,
evitar a vulnerabilidade de estar na rua. Assim como nos complexos estado-
unidenses, “centenas de soldados, em sua maioria mulheres de 19 e 20 anos,
formadas em programas de língua e cultura árabe, [atuam como] civis e
guerreiros inimigos”[30].
A escala do complexo permite rearranjos flexíveis, possibilitando criar a
simulação de uma cidade específica contra a qual as Forças de Defesa de Israel
[IDF, na sigla em inglês] ou outras forças estejam planejando uma operação.
Assim, Baladia pode facilmente ser reconfigurada para se tornar “Gaza”, o
“Líbano”, a “Cisjordânia” ou a “Síria”. “Este é o nosso playground para treinar o
que for necessário”, declarou o tenente-coronel Arik Moreh, segundo em
comando da base. Em 2007, por exemplo, o Líbano e a Síria eram as principais
preocupações de Israel. Logo, escreveu Barbara Opall-Rome,

uma engenharia criativa [foi] necessária para transformar a área no que oficiais das Forças de
Defesa de Israel ali chamam de Hezbollahlândia. Durante uma visita no fim de maio [de
2007], planejadores das IDF estavam ocupados transformando grandes partes da cidade de
Baladia em Bint Jbeil, um bastião do Hezbollah a partir do qual forças xiitas extremistas
cobraram um preço alto das tropas terrestres das Forças de Defesa de Israel no verão anterior,
na Guerra do Líbano.[31]

Em 2006, os fotógrafos israelenses Adam Broomberg e Oliver Chanarin


fizeram um estudo detalhado de Baladia (cujo nome alternativo é,
estranhamente, “Chicago”). A pesquisa os levou a concluir que ela “não se
baseava em uma cidade específica, mas em um espaço ‘árabe’ genérico, criado
pelos próprios soldados, extraído de sua própria experiência íntima das
minúcias das cidades árabes”. Os fotógrafos relatam que muita atenção foi dada
aos detalhes: “Foram feitas pichações em árabe nas paredes: ‘eu amo você,
Ruby’ e ‘Brasa vermelha, quente como sangue’”[32].
Baladia revela contorções de simulação e negação. Broomberg e Chanarin
sugerem:

Essa convenção de usar o nome “árabe”, em vez de “palestino”, efetivamente ofusca a


identidade, e nesse sentido Chicago como uma cidade-fantasma evidencia a linha de negação
que perpassa boa parte do discurso israelense sobre as relações com a Palestina, cidades como
Ramallah e Nablus.

Depois de sua visita final ao complexo, os fotógrafos falaram sobre suas


características profundamente perturbadoras:

É difícil especificar o que no local é tão aflitivo. Talvez seja a combinação de vicariedade e
violência. É como se os soldados tivessem adentrado o domínio privado do inimigo enquanto
ele estava dormindo ou tinha saído para almoçar… É uma intrusão ameaçadora da intimidade.
[33]

Em dezembro de 2006, o complexo também estava recebendo visitas


regulares de comandantes militares estado-unidenses. Durante uma dessas
visitas, o tenente-general H. Steven Blum, chefe do Escritório da Guarda
Nacional dos Estados Unidos, elogiou:

Trata-se de um lugar de primeira categoria que os israelenses construíram. Provavelmente


deveríamos ter um centro como esse. Nesse ínterim, precisamos explorar as oportunidades de
treinar aqui… Não poderia ser mais realista, a menos que as pessoas pudessem de fato morar
ali.

Para o tenente-general Blum, Baladia oferece uma aproximação muito


maior das geografias urbanas árabes do que as imitações de cidade que ele
encontrou nos Estados Unidos:

É a réplica mais realista e abrangente da espécie de área urbana típica dessa região do mundo
que eu já vi. É simplesmente um centro de treinamento esplêndido para todas as nuances, a
percepção situacional e as condições do campo de batalha que os soldados encontram nessa
parte do mundo.[34]

Em meados de 2007, enquanto o complexo era rotineiramente utilizado


pelas forças israelenses, o uso pelas forças estado-unidenses já estava sendo
explorado. Israel Moskovic, comandante tanto do complexo quanto da divisão
de Gaza das IDF, relatou que Baladia logo receberia unidades do Exército e da
Marinha dos Estados Unidos para treinamento antes que fossem enviadas para
o Iraque: “Isso foi algo desenvolvido por nós em cooperação com o Exército
dos Estados Unidos; nossa intenção é que se torne um valioso centro de
conhecimento que também beneficie nossos aliados norte-americanos e outros
amigos”[35]. De início, Israel tinha oferecido a contratação das instalações de
“Chicago” a forças ocidentais que precisassem de treinamento em guerra
urbana. No entanto, apesar da cooperação próxima das Forças de Defesa de
Israel com essas forças em termos de treinamento e equipamento, começando
com a invasão de 2002 de cidades da Cisjordânia, essas ofertas foram
rejeitadas. Não obstante, os operadores de “Chicago” continuaram confiantes
de que os militares ocidentais acabariam indo treinar ali, e em 2007 ficou claro
que os Fuzileiros Navais estado-unidenses fariam uso de Baladia, apesar do
medo inicial de que isso gerasse publicidade negativa.

Cidades-fantasma de guerra
Apesar da recente proliferação de centros de treinamento de guerra urbana,
oficiais seniores do Pentágono estão convencidos de que esses espaços são
totalmente inadequados para a tarefa de treinar as forças estado-unidenses para
conter futuras insurgências urbanas em megacidades em rápido crescimento.
Como resultado, o Congresso dos Estados Unidos pediu ao Rand Corporation,
há muito tempo o think tank militar da nação, que explorasse outras opções. O
relatório de quatrocentas páginas resultantes foi publicado em 2006[36].
O relatório começa com a premissa de que

as Forças Armadas dos Estados Unidos até o momento não conseguiram reproduzir de maneira
adequada os desafios que seus soldados, marinheiros, fuzileiros navais e membros das Forças
Aéreas enfrentam nas cidades do Iraque e do Afeganistão.[37]

Primeiro os pesquisadores do Rand avaliam os centros de treinamento de


guerra urbana existentes em termos de oferecerem ou não as características
arquitetônicas e infraestruturais mais desafiadoras encontradas quando se
realizam operações militares em cidades grandes do Sul global. As que
apresentaram os melhores resultados, como as instalações de Twenty-Nine
Palms dos Fuzileiros Navais, na Califórnia, ou a bilionária imitação de cidade
iraquiana do Exército em Fort Irwin, têm “entulho/escombros/sujeira”,
“favelas/barracos/complexos murados”, “centros subterrâneos” e “estruturas
governamentais/hospitais/prisões/abrigos”[38].
Para lidar com a necessidade de simulações físicas mais realistas de cidades
e distritos inteiros, a equipe do Rand recomenda a construção de quatro novas
cidades de guerra urbana que incluiriam mais de trezentas estruturas cada uma,
uma localizada na região de Kentucky/Carolina do Norte/Geórgia, outra em
algum lugar do sudoeste dos Estados Unidos, uma terceira em Fort Polk, na
Luisiana, e a quarta em Fort Hood, no Texas.
O Rand também explorou a possibilidade de apropriação de cidades-
fantasma inteiras no território continental dos Estados Unidos – cidades que
foram desindustrializadas e praticamente abandonadas. O relatório afirma que
“o uso de cidades abandonadas [para treinamento de guerra urbana] avançou
da fase de concepção para o que pode ser considerada a fase de testes e de
desenvolvimento iniciais”[39]. Um desses lugares é Playas, uma cidade de
mineração de cobre praticamente abandonada no canto sudoeste do Novo
México (Figura 6.3) que já foi usada para treinamento dos esquadrões
antibombas suicidas do Departamento de Segurança Interna dos Estados
Unidos. Steve Rowell, do Center for Land Use Interpretation [Centro de
Interpretação de Uso da Terra] em Culver City, na Califórnia, escreve:

No decorrer do tempo, cidades acabam morrendo. Apesar disso e apesar da recessão econômica
nos Estados Unidos, as indústrias de defesa e preparo para desastres estão florescendo,
invertendo essa tendência em algumas das áreas mais remotas da nação. A Guerra ao Terror
está redefinindo a pastoral estado-unidense de maneira inesperada.
6.3 Playas, Novo México, uma cidade-fantasma convertida em espaço de treinamento de guerra urbana e
ações antiterrorismo.

No caso de Playas, esse novo papel é de “um subúrbio residencial estado-


unidense genérico sob uma simulação de ataque” e, no futuro, de uma cidade
árabe simulada na qual militares podem aprimorar suas habilidades de guerra
expedicionária[40].
A cidade inteira de Playas foi alugada do Instituto de Minas e Tecnologia
do Novo México, que a comprou explicitamente para ser usada como espaço
de treinamento para guerra urbana. No entanto, exercícios de balística
provavelmente não serão possíveis em Playas, “uma vez que os donos da cidade
considerariam os custos de reparos estruturais proibitivos”, de acordo com o
relatório da Rand[41]. Os pesquisadores sugerem que Playas seria aprimorada
como centro de treinamento se suas estruturas fossem reconstruídas seguindo
as linhas árabes – se, por exemplo, a arquitetura da cidade fosse “modificada
para incluir áreas muradas como as que as tropas estado-unidenses no Iraque e
no Afeganistão precisam, às vezes, isolar e evacuar”[42].
Apesar de Playas ser chamada de “cidade-fantasma”, alguns moradores
remanescentes persistem. Enquanto a cidade desgastada ganha a vida sendo
atacada e agredida repetidas vezes pelo poder militar, seus habitantes,
aparentemente gratos por esse novo nicho econômico, o fazem principalmente
como figurantes nos exercícios de guerra urbana e terrorismo. “Estamos felizes
que coisas estejam acontecendo por aqui”, comentou Linda McCarty, residente
de Playas, com o USA Today. “Até o New Mexico Tech assumir” – que foi
quando a cidade foi redesignada para o treinamento de guerra urbana – “era
muito triste.”[43] Atualmente, a população de Playas conta com cerca de 25
famílias, e a maioria dos adultos trabalha no programa de treinamento como
personagens[44].
O potencial de áreas metropolitanas reais nos Estados Unidos para servir
de zonas de treinamento de guerra urbana tampouco foi ignorado pelo Rand.
O think tank recomenda uma nova gama de exercícios de guerra urbana nos
moldes dos exercícios Urban Warrior e Project Metropolis, nos quais fuzileiros
navais “invadiram” Little Rock, no Arkansas, Chicago, em Illinois, Oakland,
na Califórnia, e Charleston, na Carolina do Sul, entre 1999 e 2002[45]. Em
1999, em um exercício precursor do tratamento dado a Fallujah cinco anos
mais tarde, o Urban Warrior em Oakland chegou até a envolver o exame
biométrico de “combatentes da resistência”[46].
Esses exercícios serão ainda mais necessários no futuro, segundo o Rand,
porque “nenhum centro de treinamento urbano construído e nenhuma
simulação, por muitos anos vindouros, serão capazes de apresentar a
heterogeneidade e a complexidade de uma megalópole moderna”[47]. Esses
exercícios se concentram em aprender a desabilitar as infraestruturas elétrica,
de comunicação, transporte e água de uma cidade real. A experiência de
Oakland em março de 1999, por exemplo, envolveu grandes desembarques
anfíbios e aéreos, a fim de gerar interesse de recrutamento, além de realizar
exercícios em hospitais abandonados e redes de esgoto.
Para o Rand, apesar de recriarem alguns dos desafios que as forças dos
Estados Unidos enfrentam na ocupação de cidades do Sul global, todas essas
propostas vão ficar aquém da abordagem em escala dessas cidades. Portanto,
para lidar com esse problema, a proposta mais ambiciosa do Rand é a
construção de um complexo “megaMout” – que abranja quatrocentos
quilômetros quadrados e incorpore uma cidade completa de novecentos
prédios – na base dos Fuzileiros Navais em Twenty-Nine Palms, Califórnia[48].
O Rand imagina que esse complexo, orçado em US$ 330 milhões em 2011,
vai permitir que uma brigada inteira simule, com níveis inéditos de realismo, o
controle de uma cidade iraquiana ou árabe de grande porte. Pela primeira vez,
elementos da Força Aérea serão completamente integrados às forças terrestres;
haverá instalações portuárias e industriais também. Além disso, operações
terrestres e até fogo de artilharia agora serão possíveis.

Diorama de destruição
Enquanto simulações físicas de treinamento de guerra urbana contam
pesadamente com a expertise de designers de Hollywood e de parques temáticos,
uma gama cada vez maior de simulações eletrônicas têm conexões próximas
com as indústrias em expansão de videogames e eletrônicos. Cada vez mais,
simulações físicas e eletrônicas de cidades árabes estão sendo combinadas. De
acordo com Scott Malo e Christopher Stapleton, do Laboratório de
Convergência de Mídia na Universidade da Flórida Central, a teoria é de que
“a tecnologia dos parques temáticos de hoje em dia acrescenta a natureza
emocionante da atividade e do estímulo do corpo inteiro. E se os parques
temáticos e os videogames combinarem suas forças?”[49].
Um desses projetos, um espaço de uma casa chamado Urban Terrain
Module, foi criado em Fort Sill, Oklahoma. Ele funde as mais recentes
tecnologias de simulação eletrônica com dioramas físicos de ambientes urbanos
“árabes” destruídos. Esse módulo, situado em um grande estúdio de mídia, está

totalmente decorado no estilo do Oriente Médio. Há uma imagem pendurada na parede, os


vestígios destroçados de um pequeno vaso estão sobre uma pequena mesa circular perto da área
da cozinha. Como num espetáculo da Broadway, paredes e outros elementos cenográficos
podem ser trocados de acordo com o que o treinamento pedir.[50]

Construído com a ajuda de profissionais de dramaturgia de Hollywood,


esse espaço pode gerar “humanos virtuais” simulados eletronicamente – que
parecem “árabes” reais, com a pele morena condizente –, programados para
“povoar” os espaços com telas eletrônicas dentro do diorama físico destruído e
servir de alvos para as sessões de treinamento dos militares estado-unidenses
“imersos” no módulo. Também fazem parte da mistura a parafernália cênica
familiar de simulações de explosões, fumaça e uma paisagem de deserto
computadorizada. Os designers do projeto defendem que as recriações
eletrônicas de Fort Sill são tão convincentes que os limites entre os elementos
virtuais e os físicos são cada vez mais indistinguíveis para os soldados que são
treinados ali[51]. Uma brochura promocional distribuída em uma grande
conferência de simulação militar afirma que esse tipo de pacote de inteligência
artificial “permite aos treinadores que manipulem a reação do personagem
durante o processo, transformando multidões em turbas violentas com um
toque no teclado”[52]. Para uma dose extra de realismo, os truques de
Hollywood dos “artistas de ferimentos de guerra” são usados junto com os
alvos humanos digitalizados. Em um centro semelhante, dentro do único
estúdio de TV e cinema de San Diego, fuzileiros navais amputados voltando
do Iraque “saem para patrulhar com seu pelotão” pelos espaços híbridos, físicos
e virtuais, da simulação de cidade iraquiana, relata Stu Segall, dono do estúdio.
“Uma bomba explode, e fingimos que eles perdem uma perna.”[53]
Os operadores de Fort Sill imaginam que as simulações logo serão
modificadas para projetar dados reais de satélite e de mapeamento digital do
Iraque e de outras áreas de guerra urbana, de modo que, como declara o diretor
de projeto, o coronel Gary Kinne, “indivíduos possam treinar no terreno que
de fato vão ocupar um dia – talvez em um futuro teatro de guerra”[54]. Odores
simulados como aqueles usados nas instalações físicas também são cogitados.

Jacarta, 2015
Simulações muito maiores, e puramente eletrônicas, de megacidades do
mundo em desenvolvimento estão se tornando grandes espaços para os jogos
de guerra através dos quais as forças estado-unidenses agora imaginam a futura
guerra de contrainsurgência em grande escala. No mais importante jogo de
guerra urbana simulada eletronicamente – Urban Resolve 2015 –, uma grande
faixa de vinte quilômetros quadrados de Jacarta, capital da Indonésia, foi
digitalizada com precisão e simulada “geoespecificamente” em três dimensões,
incluindo o interior dos 1,6 milhão de prédios da cidade, 109 mil “veículos” e
“civis”, e a infraestrutura subterrânea. Uma Bagdá virtual foi reproduzida de
modo semelhante. Ambas as cidades foram imaginadas por uma gama de
supercomputadores como futuros “ambientes tóxicos para ideologias
extremistas” que necessitam de uma sólida resposta militar dos Estados
Unidos[55]. Enquanto isso, o complexo vital de segurança e defesa em Suffolk,
Virgínia, foi simulado como um local de grande mobilização de segurança
nacional antiterrorismo.
Entre 2003 e 2008, a Urban Resolve serviu de base para uma série de
intensas simulações militares em dezenove bases militares distintas, envolvendo
mais de 1,5 mil participantes e fazendo uso de alguns dos supercomputadores
militares mais sofisticados dos Estados Unidos. As simulações projetavam áreas
de grandes guerras urbanas envolvendo as forças estado-unidenses em 2015,
cheias de uma gama imaginada de novos sensores, sistemas de monitoramento
e armas voltadas especificamente para o tipo de atividade que pode levantar a
“névoa da guerra” em uma megacidade. As forças opositoras, programadas para
lutar de modo autônomo dentro da megacidade virtualizada, foram equipadas
com tecnologias projetadas para estar disponíveis no mercado aberto em 2015
– incluindo seus próprios veículos robóticos.
Como parte da ordem de “replicar a geografia, as estruturas e os
comportamentos culturalmente relevantes da população do mundo real”[56], a
Urban Resolve simulou até os ritmos diários da Jacarta e da Bagdá virtuais: à
noite, as vias ficavam quietas; nos horários de pico dos dias de semana, o
trânsito se acumulava nelas. Nos horários das preces diárias, o tráfego de
veículos e de pessoas aumentava perto das mesquitas. Os habitantes
virtualizados iam ao trabalho, paravam para almoçar, visitavam restaurantes,
bancos e igrejas – aparentemente alheios ao fato de estarem vivendo em uma
grande zona de guerra[57].
Participantes do Urban Resolve 2015 projetaram suas concepções de guerra
futura em uma reprodução totalmente virtualizada de Jacarta ou Bagdá. A
cidade se tornou puro campo de batalha, uma área de recepção de artilharia
futura. Enquanto observava os participantes durante um exercício em outubro
de 2006, o relações-públicas militar Bryan Axtell comentou como “linhas de
fogo atravessam becos e telhados enquanto uma mão delicadamente move o
controle ergonômico de armas e a outra dança sobre uma caixa cheia de botões
vermelhos iluminados e controles de joystick”[58].
O Urban Resolve 2015 propiciou um importante contexto experimental
para o desenvolvimento das futuras armas de alta tecnologia estado-unidenses
voltadas para insurgências urbanas. Ele correspondeu, aliás, a um teste para as
fantasias tecnófilas de dominação robótica discutidas no capítulo 5. Como
parte do exercício de outubro de 2006, por exemplo, drones armados
“sobrevoando” Jacarta estavam equipados com versões imaginárias de armas de
“energia direcionada”, ou laser, as quais de fato estavam sendo elaboradas pelo
setor de pesquisa e desenvolvimento militar. Aparentemente, a importância das
descobertas do Urban Resolve foi tanta que “levou à revisão de todo o plano do
Departamento de Defesa dos Estados Unidos” para futuras guerras urbanas[59].
Não obstante toda a tecnologia de ponta, o Urban Resolve ainda parece
demonstrar uma “sensação curiosamente hermética”[60]. Ashley Dawson, que
visitou uma das simulações, notou que dominavam os postos dos participantes
“homens brancos, carecas e com longos bigodes – o mesmo tipo de agentes
antiquados e figurões das Forças Especiais que controlam a verdadeira
ocupação do Iraque com efeitos tão desastrosos desde 2003”[61]. Por trás de
tudo isso, tanto no Urban Resolve quanto em outras partes, Dawson
diagnosticou uma “negação bitolada do fato de que é a própria ocupação dos
Estados Unidos que está criando um ambiente tóxico em Bagdá”[62].

Um exército de gamers 1
As tropas da atualidade receberam seu treinamento básico quando crianças.[63]

A simulação de cidades árabes como pouco mais do que espaços que


recebem poder de fogo militar dos Estados Unidos vai muito além dos confins
das Forças Armadas. Assim como os militares fazem uma polinização cruzada
com a indústria de entretenimento eletrônico[64], as simulações eletrônicas de
cidades árabes são usadas tanto no treinamento militar estado-unidense como
em videogames comerciais de sucesso. Em 2008, as forças dos Estados Unidos
tinham adotado formalmente 23 videogames com propósitos de treinamento
interno. Em especial, America’s Army e o equivalente para o Corpo de Fuzileiros
Navais dos Estados Unidos, Full Spectrum Warrior[65], foram desenvolvidos em
uma parceria entre suas respectivas forças e empresas de entretenimento, em
parte com base em simulações de treinamento urbano.
Tanto America’s Army quanto Full Spectrum Warrior – entre as franquias de
videogames mais populares do mundo em 2008 – “lançam o jogador no
mundo do fetiche mais recente da indústria de games: a guerra urbana
moderna”[66]. Ambos têm como foco os desafios militares que em tese estão
envolvidos na ocupação e pacificação de cidades árabes orientalizadas e
estilizadas. Os jogadores precisam passar por um treinamento básico em uma
simulação eletrônica do Mount McKenna, um dos maiores centros de
treinamento militares de guerra urbana dos Estados Unidos. Andrew Deck
afirma que a proliferação de videogames de guerra urbana que se baseiam em
intervenções militares estado-unidenses de fato em curso em cidades árabes “fez
surgir um culto de xenófobos ultrapatriotas cujo maior prazer é destruir,
independentemente de quão racista, imperialista e frágil for a lógica” da batalha
simulada[67].
America’s Army, em particular, foi considerado “um passo monumental na
cultura de consumo militar do século XXI”[68]. Em 2008, o videogame –
divulgado sob o slogan “Cidadãos. Países. Videogames. O Exército dos Estados
Unidos garante a liberdade de todos eles” – foi baixado mais de 38 milhões de
vezes, mais de 8 milhões delas por usuários registrados[69]. A “missão” do jogo,
escreve Steve O’Hagan,

é massacrar malfeitores, com algo sobre “liberdade” […] como pano de fundo […]. Esses games
podem ser ultrarrealistas até no calibre das armas, mas quando as balas atingem a carne, as
pessoas desabam serenamente num amontoado. Sem sangue. Nem ferimentos de saída. Sem
gritos.[70]

Roger Stahl comenta que “às vezes uma névoa de sangue escapa de um
ferimento invisível, mas as vítimas nem se debatem nem gritam. Os corpos
tendem a desaparecer como se arrebatados para o paraíso”[71].
Jogos como America’s Army e Full Spectrum Warrior moldam o soldado
estado-unidense como um agente hipermasculinizado de violência (justa e
honrosa), enquanto constroem o “outro” árabe estilizado como uma ameaça
existencial indistinta e não específica a noções vagas de “liberdade” e “Estados
Unidos”. Essas duas construções, claro, são complementares, inseparáveis:
“[…] ao articular o ‘outro’, o Exército se constitui concomitantemente”,
escreve Abhinava Kumar[72]. Representações desse “outro” vago, ameaçador,
racializado e evidentemente mau reforça geografias imaginárias que igualam
cidades árabes a “terrorismo” e à necessidade de “pacificação” ou “limpeza” por
meio de invasões e ocupações militares estado-unidenses. Borrando ainda mais
os limites já confusos que separam a guerra do entretenimento, esses
videogames demonstram que a indústria do entretenimento dos Estados
Unidos “assumiu uma postura de cooperação com uma cultura de guerra
permanente”[73].
Nos videogames de guerra urbana, as cidades árabes são, notavelmente,
representadas apenas como “coleções de objetos, não grupos de pessoas”[74]. E,
quando pessoas são representadas, quase sem exceção não apenas são árabes,
mas aparecem na figura de terroristas obscuros, sub-humanos, radicalizados,
absolutamente externos, a serem aniquilados repetidas vezes em “ações”
higienizadas – seja no entretenimento, seja no treinamento militar, ou em uma
versão indistinta de ambos. America’s Army, por exemplo, simula a guerra
contra o terror em cidades árabes densamente povoadas no país fictício do
Zekistão. Quase todos os prédios são escuros, sombrios, em chamas e
desenhados em uma versão estilizada da arquitetura islâmica.
Mais uma vez, as cidades árabes servem apenas como ambientes para
atividades militares. A militarização de locais, artefatos e espaços cotidianos da
cidade simulada é completa:

Carros são usados como bombas, transeuntes se tornam vítimas [ainda que morram sem
derramar sangue], casas se tornam quartéis-generais, apartamentos se tornam postos de
observação e tudo o que possa ser jogado na rua se torna uma proteção adequada.[75]

Até certo ponto, as reais geografias físicas de cidades árabes estão sendo
digitalizadas para oferecer campos de batalha tridimensionais para esses
videogames. Um desenvolvedor de jogos, a Forterra Systems, que também cria
jogos de treinamento para as Forças Armadas, se vangloria: “Construímos
[digitalmente] uma parte da área central de uma grande capital do Oriente
Médio em que temos uma presença significativa hoje”[76].
O propósito principal desses jogos, porém, são relações públicas: eles são
um meio de recrutamento poderoso e extremamente econômico. “Como o
Pentágono gasta cerca de US$ 15 mil em média seduzindo cada recruta, o jogo
precisa resultar em apenas trezentos alistamentos por ano para recuperar os
custos”, afirma Stahl[77]. De fato, 40% daqueles que se alistam no Exército já
tinham jogado America’s Army[78]. O videogame também serve de base para um
sofisticado sistema de monitoramento através do qual os esforços de
recrutamento do Exército são direcionados. Na linguagem de marketing dos
desenvolvedores militares, America’s Army foi criado para alcançar uma
sobreposição considerável “entre o público gamer e os segmentos-alvo de
recrutamento militar do Exército”, a fim de abordar “públicos com
conhecimento tecnológico e dar ao Exército uma vantagem de comunicação
estratégica única” (Figura 6.4).
6.4 Dados por trás do desenvolvimento de videogames de guerra urbana pelas Forças Armadas dos
Estados Unidos.

O mais impressionante de tudo é que America’s Army foi cuidadosamente


projetado como um dispositivo de recrutamento por explorar o fato de que
“gamers veteranos demonstram um desempenho melhor em certas habilidades
militares que requerem alto grau de atenção visual”. Em outras palavras, as
Forças Armadas dos Estados Unidos consideram que jogar videogame é uma
forma eficaz de treinamento preparatório[79]. Além disso, não há nenhuma
tentativa de disfarçar esse fato. Um artigo na revista Defense Horizons, por
exemplo, argumenta que “videogames criam melhores soldados e marinheiros
de modo mais rápido, seguro e barato”[80].
O grupo lobista Empowered Muslim Youth argumenta que focalizar
crianças e jovens por meio desses jogos resulta numa forma de lavagem cerebral
cultural. O grupo defende que
Esses jogos visuais são uma oportunidade perfeita para preparar psicologicamente e até treinar
mentalmente crianças para combater em uma batalha. Não há dúvidas de que [se trata de] uma
tática bem pensada, criada por oficiais do alto escalão do governo.[81]

Ex-psicólogo do Exército dos Estados Unidos, o tenente-coronel David


Grossman parece concordar. Ele falou sobre como o uso de videogames e
simuladores de treinamento eletrônicos similares ajudam a doutrinar soldados a
matar mais prontamente em combates reais. Segundo ele, a ausência de
“sangue, vísceras e emoções” nesses jogos ajuda a “ensinar as crianças a associar
prazer à morte e ao sofrimento humanos. Nós as estamos recompensando por
matar pessoas. E as estamos ensinando a gostar disso”[82].

Morte em desaparição
A força das realidades virtuais cresce a cada dia. Em paralelo com a busca
das grandes corporações de videogame e entretenimento eletrônico por
construir versões físicas de seus produtos na forma de parques temáticos e
shopping centers, as Forças Armadas dos Estados Unidos querem capitalizar a
imensa popularidade de seus próprios videogames com a expansão do
movimento de recrutamento. Um resultado é a Virtual Army Experience – um
espetáculo itinerante de cerca de 1.860 metros quadrados apresentado em
rodeios, corridas e feiras de automóveis, apresentações aéreas e eventos
“patrióticos” que permite a recrutas em potencial vivenciar uma versão
propagandística de vinte minutos da vida militar[83]. “Apenas os soldados
conhecem a sensação de lutar em uma zona de combate, mas agora os civis têm
a oportunidade de sentir virtualmente um gostinho da ação”, anunciou a Army
News Service no lançamento do espetáculo itinerante, em fevereiro de 2007[84].
Os “convidados” recebem plaquetas de identificação do Exército falsas, são
longamente entrevistados e então recebem o briefing de sua “missão”, que é
conduzir um comboio de seis Humvees fortemente armados para uma cidade
árabe e arrancar de lá um líder terrorista[85]. Ao redor dos seis veículos há
reproduções virtuais de cidades, retiradas do videogame America’s Army. Os
participantes usam armas fornecidas. Assim como em um jogo de atirar, os
alvos “morrem” quando atingidos: “Quando morrem, os malfeitores caem sem
derramar sangue e desaparecem. Eles surgem o tempo todo – no alto de silos,
saindo de prédios”[86]. Um recruta em potencial na DigitalLife Expo de 2007
tem a seguinte recordação:

A ação começou um pouco devagar com um ou dois civis correndo para se esconder dentro de
casa antes de serem detonados com uma bala perdida. Conforme nossos Humvees começaram
a avançar, apresentaram-se vários graus de inimigos que surgiam de esquinas, corriam pela rua
ou ficavam no alto de um prédio. A experiência de atirar, em si, foi bem sólida. A arma dava
um coice razoável e, como era real, o peso foi cobrando seu preço com o passar do tempo
dentro do caminhão.[87]

Mas até mesmo militares veteranos estado-unidenses já expressaram repulsa


por essa recente virtualização de mortes militares. Um grupo chamado
Democracy for Missouri, que protestou no evento, apresenta uma imagem da
experiência que é bem diferente da descrita acima: “Esse cenário obsceno
coloca os sujeitos em fila para participar de uma guerra virtual com vídeos em
360° e barulhos de explosão realistas. Os gritos de mulheres e crianças não
faziam parte da ‘experiência’”[88].

Estresse virtual
As Forças Armadas estado-unidenses de fato se esforçaram em se
concentrar mais em representações virtuais de cidades árabes do que em suas
realidades sociais. Esse movimento chega até ao uso de jogos de guerra de
realidade virtual para tratar veteranos da Guerra do Iraque que sofrem de
estresse pós-traumático.
O Instituto de Tecnologias Criativas na Universidade do Sul da Califórnia,
que desempenha um papel fundamental no cruzamento entre guerra e
entretenimento, adaptou as simulações de imersão em cidades árabes estilizadas
do Full Spectrum Warrior como base para o tratamento de soldados
traumatizados. Os pacientes se submetem a simulações dos mesmos eventos
que mais os traumatizaram: estar dentro de veículos e helicópteros com minas
ou bombardeados; vivenciar ataques de morteiros dentro de complexos; ser
atacado durante patrulha em ruas iraquianas. Em resumo, eles são colocados
em “cenários [de realidade virtual] que se parecem com a situação em que os
eventos traumáticos ocorreram inicialmente”. Assim, a experiência em zona de
guerra é refeita no que é chamado de “terapia de exposição ao Iraque virtual”,
uma abordagem que está sendo usada em centros de treinamento nos Estados
Unidos. Dadas as semelhanças do programa com videogames, seus designers
esperam que ele “seja bem recebido pela geração atual de combatentes de
guerra”[89].
É aqui, então, que o ciclo de imersões urbanas orientalizadas para uso
militar dos Estados Unidos se completa. Além de dominar o recrutamento, o
treinamento, o entretenimento e o combate, os mundos pixelizados e fora da
realidade construídos pela guerra urbana simulada agora são convocados a
ajudar os soldados que tentam lidar com as realidades que de fato enfrentaram
enquanto combatiam fisicamente nas ruas de cidades do Iraque. Talvez a tarefa
seja permitir que os soldados coloquem os horrores reais da guerra mais uma
vez no pano de fundo sem substância das intermináveis simulações de violência
e alteridade que permeiam cada vez mais a cultura ocidental. James Spira,
psicólogo da Marinha com experiência com a abordagem do instituto,
enfatizou que os atendentes que usam o sistema precisam se certificar de que
“não seja realista demais, para não gerar mais traumas”[90].

As comunidades fechadas por excelência


Bases são o Estado encarnado.[91]

Assim como cópias de cidades árabes estilizadas ocupam o interior dos


Estados Unidos, cópias de cidades estado-unidenses estilizadas, em um paralelo
raramente discutido, agora ocupam as franjas do Império. Como Mark Gillem
mostrou[92], as cerca de setecentas bases militares dos Estados Unidos no
exterior (localizadas em mais ou menos 140 dos 195 países do mundo[93],
hospedando o poder imperial e geográfico da nação) cada vez mais se parecem
com cápsulas projetadas com esmero dos subúrbios residenciais estado-
unidenses prototípicos implantados em nações estrangeiras. “O governo dos
Estados Unidos dispersou seus soldados pelo globo para proteger o fluxo do
império”, escreveu Gillem. E as bases habitadas por esses soldados estão
tomadas por campos de golfe, conjuntos de lojas, drive-thrus de franquias de
redes de fast-food, gramados aparados e simulações perfeitas de escolas estado-
unidenses, batalhões de bombeiros, sobrados com garagem, hotéis, bares,
estacionamentos e cinema – tudo isso seguindo o modelo de adensamento
urbano extremamente baixo dos subúrbios dos Estados Unidos e cercado não
apenas por cercas de arame farpado, mas também pelo aparato de guerra.
A arquitetura e o planejamento das bases estado-unidenses refletem a rígida
aplicação das normas de urbanismo dos Estados Unidos. Isso permite aos
militares do país, onde quer que estejam posicionados no mundo, que “tenham
a mesma visão familiar de ‘lar’”. Como disse o major Leslie Triano sobre sua
vida na Base Aérea de Kunsan, “Às vezes, é bom voltar para os Estados Unidos
quando se está no meio da Coreia”[94].
Ao permitir que militares estado-unidenses e suas famílias morem em um
simulacro completo de um subúrbio residencial dos Estados Unidos enquanto
absorvem grandes parcelas de terreno estrangeiro, as bases possibilitam que
membros das Forças Armadas se desvinculem quase totalmente do mundo para
além dos portões. Gillem afirma que o novo modelo imperial de uso de terra
que corrobora a proliferação global de bases dos Estados Unidos implica
“evitação[95] – transferindo bases militares para complexos isolados mas bem
equipados, criados para impedir o contato com os moradores locais”[96].
Gillem escreve que os militares estado-unidenses

estão vivendo uma experiência de diáspora e estão tentando se definir tomando como
referência sua pátria distante, uma característica comum de comunidades diaspóricas. Eles têm
casas diversas, mas estão tentando reconciliar diferenças pelo design. Aonde quer que esses
soldados vão, estão presos ao país – às mesmas subdivisões de terrenos, às mesmas franquias de
restaurante e aos mesmos shopping centers vazios.[97]

O trabalho de Gillem sugere que o vasto arquipélago de campos e bases


militares estado-unidenses talvez seja considerado o exemplo máximo de
conjunto transnacional de comunidades fechadas em estilo ballardiano. Sem
dúvida, essa percepção já é comum entre membros das Forças Armadas dos
Estados Unidos.
O site comunitário da Joint Task Force Guantanamo [Força-Tarefa
Conjunta de Guantánamo], por exemplo – onde 7 mil militares organizam a
base que contém o campo de tortura mais famoso da Guerra ao Terror –, de
fato promove o complexo declarando que “sol, areia e uma comunidade unida
fazem da estação naval uma das melhores ‘comunidades fechadas’ no
Caribe”[98]. Enquanto isso, a tenente-coronel Goyette, da Base Aérea de
Holloman, no Novo México, admite que segundo seus familiares, que
visitaram a base recentemente, “algumas pessoas pagariam para morar em uma
comunidade fechada tão boa quanto essa”. Ao considerar os argumentos deles,
ela se convenceu disso:

Você tem uma academia gratuita com uma quantidade incrível de opções, atendimento médico
e odontológico com custo reduzido, boas escolas muito perto de casa, filmes por um dólar,
valores baixos para praticar golfe, custos baixos de mantimentos e dá para ver aeronaves muito
legais o dia todo. […] Não é uma forma interessante de olhar para o lugar onde moramos?
Meu marido e eu gostamos muito da sensação de segurança que temos vivendo na base.
Enquanto ainda vejo meus filhos brincando no jardim da entrada, sei que não preciso me
preocupar com tiroteios nem tráfico de drogas na calçada. Não preciso me preocupar com
membros de gangues morando na casa ao lado, trazendo atividades perigosas para o bairro.[99]

Brinquedos de guerra
Hoje em dia, simulações militares também ocorrem nos espetáculos e nas
paisagens fantasiosas em proliferação que dominam o consumo e o turismo
urbanos nos Estados Unidos (e em outras partes), salpicando suas visões
temáticas em telas digitais e nos usos da realidade aumentada na arquitetura.
Em 2006, por exemplo, o Exército dos Estados Unidos cogitou uma proposta
de um empreendedor privado de complementar o principal museu militar do
campo de Fort Belvoir, na Virgínia, com um parque temático e centro de
simulação de 50,5 hectares e US$ 100 milhões, acompanhado de um enorme
complexo hoteleiro. De acordo com o Washington Post, a proposta prometia
que os visitantes poderiam “controlar o mais novo tanque M-1, sentir a
emoção de um soldado paraquedista em queda [ou] pilotar um helicóptero
Cobra”[100].
A empresa de desenvolvimento Universal City Property Management, com
sede em Orlando, argumentou que o complexo colocaria os visitantes “em um
mundo interativo no qual [poderiam] sentir em primeira mão como é defender
a liberdade estado-unidense”. Os visitantes poderiam “vivenciar as maiores
batalhas de todos os tempos em uma apresentação multissensorial em 4D”. No
entanto, a proposta levantou muitas críticas de que “seria uma zombaria da
experiência militar” e logo foi descartada. Desde então, o Exército está
buscando outro “conceito de visita temática” para acompanhar o museu[101].
Como as experiências nesses simuladores estão se tornando cada vez mais
indistintas daquelas dos “pilotos” dos drones armados usados nas frequentes
incursões assassinas da CIA no Oriente Médio e no Paquistão, no entanto,
uma indiferenciação mais problemática entre o interior metropolitano e as
fronteiras coloniais está surgindo. Esses pilotos de fato estão posicionados em
“cavernas” de realidade virtual, instaladas em trailers anônimos nas bases aéreas
de Nellis e Creech, nas bordas daquele que é o epítome da simulação: Las
Vegas.
Aqui, a onipresença de videogames e simulações virtuais se funde com a
realidade de armas e matanças muito reais. Um jornalista da revista Wired
comenta que o piloto de drones Predator soldado Joe Clark, em certo sentido,

estava se preparando para o trabalho desde criança: ele joga videogames. Muito. No
alojamento, ele passa seu tempo livre com um Xbox e um PlayStation. [Depois do
treinamento,] quando foi parar pela primeira vez diante dos controles de um Vant Shadow, ele
descobriu que a operação de apontar e clicar funciona quase do mesmo jeito. “Você olha para a
tela. Você diz para ela virar para a esquerda, ela vira para a esquerda. É bem simples”, diz Clark.
[102]

Essa mistura está se intensificando. Os mais novos sistemas de controle do


Predator dos fabricantes de armas Raytheon usa deliberadamente o “mesmo
sistema de Hotas[b]” que um videogame. O designer do Vant da Raytheon
defende que “não há por que reinventar a roda. A geração atual de pilotos foi
criada à base de PlayStation [da Sony], então criamos uma interface que eles
vão entender imediatamente”[103]. Acrescente-se a isso o fato de que muitos
dos videogames mais recentes retratam os mesmíssimos Vants armados usados
em incursões assassinas. Que os simuladores de treinamento para drones
armados “sejam considerados tão realistas que seria difícil distinguir, sem
conhecimento prévio, entre eles e as estações terrestres reais” aumenta ainda
mais a indiferenciação entre simulação e realidade[104]. Uma matéria da
Technology.com explica que esses simuladores, “com 1 terabyte de memória,
reproduzem terrenos e localizações reais do mundo, como o Afeganistão e o
Iraque”[105].
Outro controlador de Vant, entrevistado por Robert Kaplan em 2006,
apontou as extremas justaposições geográficas envolvidas em “pilotar” drones
armados do outro lado do planeta estando em uma caixa de metal nas bordas
de Las Vegas. “Dentro daquele trailer fica o Iraque; dentro de outro, o
Afeganistão”, ele explicou, afirmando que “se você quiser apertar o gatilho e
abater malfeitores, pilota um Predator”[106]. Como outro piloto-operador de
Predator admitiu, talvez na maior justaposição do subúrbio residencial
doméstico e da projeção distante de violência colonial, “no fim da jornada de
trabalho, você volta para a vida nos Estados Unidos”[107].
Nesse contexto, a principal questão que os militares enfrentam é o
contraste extremo entre o trabalho hiper-real de matar a distância de dentro de
trailers e o mundo familiar da nação urbana que fica do lado de fora da
porta[108]. Kaplan escreve:

Dentro dos trailers, as equipes sequer têm a sensação de voar que se tem em simuladores de
voo. A verdadeira tensão para esses pilotos vem do conflito com tudo o que está do lado de fora
dos trailers. Para além de Nellis fica o mundo banal de cônjuges, filhos, lição de casa e partidas
de futebol, sem contar o absurdo de uma cidade onde até postos de gasolina têm caça-níqueis.
O ato de apenas entrar ou sair de um dos trailers é tremendamente desorientador.[109]

Mas a fusão entre armas e brinquedos – que, claro, sempre estiveram


intimamente associados – está se acelerando ainda mais. Além de definir a
produção de brinquedos, filmes e videogames que encorajam crianças a se
tornar recrutas em potencial, as armas militares dos Estados Unidos agora
retribuem imitando brinquedos e videogames. Alguns equipamentos militares,
como vimos com o Predator, agora têm consoles que copiam o do PlayStation
2.
O robô de monitoramento urbano Dragon Runner, agora utilizado pelo
Corpo de Fuzileiros Navais, é outro exemplo[110]. Seu controle de seis botões
também imita o do PlayStation 2, da Sony. O major Greg Heines, do
Laboratório de Combate dos Fuzileiros Navais, enfatiza que o design foi assim
definido porque “é isso que esses fuzileiros navais de 18 e 19 anos jogam
praticamente a vida toda, [então eles] aprendem [a controlar o Dragon
Runner] em poucos minutos”[111]. Em março de 2000, a emergência dos
PlayStations como controles de armas chegou a ter um efeito imprevisível: eles
foram classificados pelo governo do Japão como um “‘produto multiúso
relacionado a armas convencionais’, uma mudança que reduziu
consideravelmente os níveis de exportação [, o que] levou a uma escassez global
dos consoles”[112].

Sim cities
Junto com o boom da chamada segurança interna desde o 11 de Setembro,
o planejamento de guerra urbana agora dá ênfase igual tanto a simular Los
Angeles quanto a simular Bagdá. Imagina-se a projeção de forças para
“recuperar” as cidades dos Estados Unidos das revoltas civis ou de protestos
sociais da mesma maneira que os desafios de ocupar cidades árabes. As
manifestações de Los Angeles de 1992 aparecem com tanta frequência nas
apresentações em PowerPoint sobre “lições aprendidas” das Forças Armadas dos
Estados Unidos quanto Mogadíscio, Bagdá, Jenin ou Grozny.
Enquanto isso, dúzias de simulações físicas de distritos de cidades nacionais
estão se juntando às simulações de cidades árabes. É nesses lugares que
autoridades e membros da Guarda Nacional praticam operações contra
desordem civil, ataques terroristas e desastres naturais. Como aponta o Center
for Land Use Interpretation:

Outra arquitetura está surgindo na paisagem em expansão do preparo. Simulacros condensados


dos nossos ambientes urbanos existentes estão se formando dentro de nossas comunidades,
onde os reagentes a emergências, em pequena ou grande escala, praticam suas habilidades de
lidar com desastres, [e onde] a polícia lida com deterioração civil, roubos, situações hostis,
saques, protestos e atiradores.[113]

Simulações militares também estão ajudando a produzir cidades estado-


unidenses de outra maneira, mais direta: sua criação envolve grandes fatias da
economia do país, especialmente em áreas metropolitanas de alta tecnologia.
Grande parte dos principais novos polos de alta tecnologia nos subúrbios, que
abrigam o que Richard Florida chama de “classe criativa”[114] dos Estados
Unidos – como o “Beltway”, em Washington, D.C., o “Triângulo da Pesquisa”,
na Carolina do Norte, o “Corredor da Alta Tecnologia”, na Flórida, ou o
“cluster[c] de tecnologia limpa” de San Diego –, é em grande parte sustentada
pela produção de violência simbólica tanto contra as cidades centrais dos
Estados Unidos quanto contra as cidades árabes. Nessas áreas – que são não
apenas as fundições do homeland security state, mas também os locais das
universidades mais militarizadas e corporativizadas – está sendo forjada a
convergência muito lucrativa e em rápido crescimento entre jogos eletrônicos e
simulações militares. A centena de grandes empresas de simulação militar de
Orlando, por exemplo, gera cerca de 17 mil empregos, e elas começam a
ofuscar até a Disney como motores econômicos locais. Por trás das fachadas
limpas e dos gramados aparados, milhares de engenheiros de software e
profissionais de videogames projetam suas fantasias eletrônicas orientalizadas
no mundo por meio de um complexo cada vez mais integrado das indústrias
militar, acadêmica, de entretenimento e de mídia.
A importância das indústrias de simulação militar não se perde para
aqueles incumbidos do desenvolvimento das economias urbanas locais. O
município de Suffolk, na Virgínia, por exemplo, hoje tem orgulho de declarar
que um “cluster de nível mundial de empresas de ‘modelos e simuladores’
firmou raízes ao redor de um centro de pesquisa da Universidade Old
Dominion e do Comando de Forças Conjuntas dos Estados Unidos”[115]. Para
auxiliar a continuidade do crescimento desses setores, parcerias entre governos
locais e desenvolvedores econômicos estão surgindo para determinar “como o
estado da Virgínia poderia melhorar seu apoio ao JFCOM [sigla para
Comando das Forças Conjuntas] e à missão dele”. Essa convergência
econômica ganha força com a Virginia Modeling and Simulation Initiative
(Vimsim) [Iniciativa de Modelos e Simulações da Virgínia], que será
direcionada para “estimular o desenvolvimento de uma indústria de alta
tecnologia única, com potencial para rendimentos de muitos bilhões de
dólares”. A Lockheed Martin já inaugurou um grande complexo de simulação
na área. Seu CEO, Vance Coffman, afirmou em 2003: “Como um centro de
alta tecnologia em expansão, com relações próximas com grandes instalações de
defesa, de segurança nacional e de outros importantes clientes, Suffolk é a
locação ideal para nosso novo centro”[116].

Mundos que se autorrealizam


Todos os esforços para introduzir estética na política culminam numa coisa – guerra.[117]

A complexa constelação de simulações de cidades árabes e do Sul global


discutida aqui tem uma atuação poderosa em conjunto. As várias manifestações
físicas, eletrônicas e físico-eletrônicas operam juntas, assim como ocorre com
todos os simulacros, fazendo ruir a realidade com artifícios, de modo que os
limites simples entre os dois efetivamente desapareçam[118].
Seguindo o que Jean Baudrillard notoriamente enfatizou, é melhor
considerar as simulações mencionadas não como “cópias” do mundo “real”,
mas como construções hiper-reais – simulações de coisas que não existem – por
meio das quais a guerra e a violência são construídas, legitimadas e
desempenhadas. “A simulação não é mais de um território, de um ser de
referência ou de substância; é a geração de modelos de um real sem origens
nem realidade: um hiper-real”, escreve Baudrillard[119]. Assim, a questão não é
que essas simulações são menos “reais” do que as coisas que supostamente
representam. Em vez disso, elas oferecem espaços através dos quais a violência
da “Guerra ao Terror” pode ser gerada e desempenhada, e adquirem seu poder
com base na dissociação radical de qualquer conexão significativa com lugares
reais (ou, o que é menos comum, pessoas reais) que afirmam representar.
No processo, esses simulacros “participam da construção de um discurso de
segurança que se autorrealiza”[120]. Camadas e circuitos múltiplos de simulação
funcionam coletivamente para evacuar a possibilidade de autenticar o que
possa de fato ser “real”. James Der Derian escreve:

Desde o 11 de Setembro simulações (modelos, planejamentos de conjuntura, exercícios de


treinamento e games de guerra) e dissimulações (propaganda política, desinformação,
ciberguerra, disfarces e mentiras) [produziram] um corredor de espelhos, reduzindo a “verdade”
sobre a “Guerra Global ao Terror” a uma regressão infinita de representações que [desafiam] a
validação.[121]

Como os mundos da ameaça e do risco são projetados por esse coletivo de


simulacros, a perpetração da violência de Estado e da guerra colonial emergem
do mesmo coletivo como necessárias, justas e honrosas. Mais simulações se
tornam necessárias para, por sua vez, melhorar a efetividade dessa violência,
seduzir e treinar mais recrutas, lidar com sua destruição psicológica quando
voltam para casa e assim por diante. Segue-se a isso que a própria noção de
“segurança”, ao menos como construída pelo coletivo de simulacros militares,
se torna possível apenas por meio da guerra permanente. Segundo Abhinava
Kumar, “A guerra torna a segurança possível criando aquilo que precisa ser
protegido, e o que torna a guerra possível [é a] mecanização dos soldados, o
obscurecimento do inimigo e a higienização da violência”[122].
A midiatização da guerra contemporânea é tal que o “combate” de guerras
de fato ocorre tanto em salas de TV, cinemas e nas imagens do YouTube ou do
PlayStation quanto nas ruas e becos reais de cidades que são zonas de combate.
Conforme as distinções já vagas entre mídia e tecnologia civis e militares se
dissolvem, o coletivo de simulacros militares passa a permear uma série de
mídias simultaneamente. Assim, antes considerados bastante distintos,
múltiplos domínios de mídia estão no processo de se fundir e interpenetrar no
e por meio do coletivo de simulacros militares – um processo ao mesmo tempo
confuso, perturbador e em evolução extremamente rápida. Como escreve
Roger Stahl:

Vemos que vários gêneros que no passado eram considerados separados estão forjando alianças
novas e estranhas. [Como resultado,] o noticiário de guerra parece um videogame; videogames
reencenam as notícias. Simuladores de treinamento militar oficiais fazem uma transição para os
mercados de entretenimento comerciais; videogames comerciais passam a ser usados em
exercícios de treinamento militar. Anúncios vendem videogames com retóricas patrióticas;
videogames são mobilizados para divulgar o patriotismo. O negócio da diversão opera em
proximidade com as Forças Armadas para reproduzir ferramentas de violência estatal; o
negócio da violência estatal, por sua vez, capitaliza os momentos de lazer para fins
institucionais.[123]

Um exército de gamers 2
Como vimos, as tecnologias de videogame estão se fundindo cada vez mais
com as tecnologias de armas. Experiências associadas ao controle e uso de
armas reais estão começando a se misturar tão completamente com as
associadas aos simuladores militares dessas armas, bem como com os
videogames que oferecem outras simulações ainda de experiência no uso dessas
armas, que os usuários podem ter dificuldades de definir que universo estão
habitando em um dado momento.
Projetando as tendências atuais, Bryan Finoki, autor do excelente blog
Subtopia, especula sobre um futuro próximo em que “videogames se tornam a
principal interface para a condução da guerra da vida real”, conforme
simuladores de realidade virtual usados em videogames convergem por
completo com os simuladores usados nos exercícios de treinamento militar. O
ponto de partida de Finoki é a existência quase de videogame dos “pilotos” de
Predator em Las Vegas, com seus controles semelhantes aos de um PlayStation.
Ele especula, de forma irônica até certo ponto, se os futuros jogadores de
videogame poderiam “se tornar heróis de guerra condecorados graças a suas
habilidades de coordenação visual-motora, que acabariam dominando os
gatilhos da guerra controlada remotamente e organizada em rede”[124].
No que talvez seria o bumerangue foucaultiano máximo, essa tendência
finalmente destruiria quaisquer distinções remanescentes entre o público
doméstico e as mortes virtuais na fronteira colonial. Nas palavras de Finoki,

Agrupamentos casuais de corpos nacionais em sofás espalhados pelos Estados Unidos se


tornariam os novos postos de comando para um alastramento intercontinental de guerra
robótica. Bons e velhos lares estado-unidenses poderiam “adotar um robô de guerra” no
exterior, enquanto o pequeno Johnny o controla com o novo joystick que ganhou como
presente de Natal.[125]
Guerra reencantada: o fim da morte
O coletivo de simulacros militares é o principal produto do que Der
Derian chamou de “rede militar, industrial, de mídia e entretenimento”[126],
dedicado ao “desaparecimento do corpo, à estetização da violência e à
higienização da guerra”[127]. Essa remoção do dano da guerra atua sobre todo
um espectro de simulações – desde as usadas nas mortes de fato, passando por
aquelas usadas para treinamento, até aquelas usadas para o simples
entretenimento. Todas são variações sobre o axioma do que Der Derian chama
“Guerra Virtuosa”, que envolve “a habilidade técnica e o imperativo ético de
ameaçar e, se necessário, executar a violência a distância, com fatalidades
mínimas ou nulas” (do “lado nacional”, fique claro)[128].
Como resultado, paradoxalmente, uma “indústria expressamente devotada
à morte avança, como que por mágica, sem mortes”[129], e, assim, o complexo
de simulações discutido aqui desempenha um papel gigantesco e talvez
dominante no que foi batizado de “reencantamento” contemporâneo com a
guerra[130]. O coletivo de simulacros militares é especialmente sedutor à
medida que consegue “reintroduzir a corporalidade à guerra – cidades
cibernéticas são repovoadas, faz-se com que humanos virtuais respirem”,
enquanto também consegue “limpar” todos os indícios de mortalidade
verdadeira[131].
A negação da morte vai ainda mais longe de guiar simulações físicas,
eletrônicas e mistas em uma miríade de campos de treinamento, videogames,
filmes[132] e feiras de recrutamento. Por meio do que, num eufemismo, foi
chamado de “operações de administração de percepção”, isso também se
estende para o banimento oficial de imagens de caixões de membros mortos
em serviço e à cuidadosa construção de um noticiário de propaganda política
em estilo hollywoodiano, cujo objetivo é ser usado pela muitas vezes
complacente grande mídia. Ficou claro agora, por exemplo, que o Pentágono
conta com técnicas de simulação para ajudar a forjar material para suas
“notícias” orquestradas. Essa tática é vista como apenas um elemento no
espectro aparentemente infinito de “operações de informação” ou “operações
psicológicas” necessário para sustentar o “domínio do espectro total” ou
“domínio de informação”, por parte dos Estados Unidos, em um mundo
altamente midiatizado e globalizado[133]. No começo de 2002, por exemplo, a
administração Bush considerou criar um Escritório de Influência Estratégica
que deliberadamente “plantaria notícias em organizações de mídia por meio de
interesses externos que poderiam não ter vínculos óbvios com o
Pentágono”[134]. Uma instância notória desse tipo de enganação foi, claro, o
“resgate” encenado de Jessica Lynch[135].
Essas simulações – e supressões – midiáticas são, ocasionalmente,
combinadas com o ataque violento a canais de mídia que de fato apresentam
imagens dos mortos pela guerra ao mundo, como o bombardeio de abril de
2003 da sucursal da Al Jazeera em Badgá por uma aeronave estado-unidense,
cinco meses depois de destruir o escritório da rede em Cabul com um míssil. A
ação de abril resultou na morte de um jornalista. Um blogueiro ultrajado
escreveu:

Com alta tecnologia de precisão de “mira” envolvendo satélites e laptops e o conhecimento da


localização da Al Jazeera por mais de dois anos, querem que acreditemos que a estação de TV,
que fica em um bairro residencial e tem três antenas de satélite no telhado, foi um acidente.
[136]

No entanto, nem mesmo isso representou o fim da campanha contra a Al


Jazeera: posteriormente, Tony Blair e George Bush cogitaram seriamente
bombardear a sede da emissora no Catar[137].

“Cidadãos-soldados virtuais”
Além da produção de campos infinitos de violência repetitiva, simbólica,
higienizada e preparatória, o coletivo de simulacros militares força seus
convidados e participantes a se conformar aos rituais de combate urbano
restringindo a gama de ações possíveis a um e apenas um tipo: ataque militar
hipermasculinizado. Os soldados consomem simulacros diversos e os usam
como base para o tratamento real que dão aos espaços e aos habitantes das
cidades do Sul global que de fato patrulham, atacam e ocupam. Eles vivem no
mundo estilizado de videogames das Forças Armadas estado-unidenses
enquanto passam seu tempo de lazer em acampamentos em Bagdá. E até
enfrentam seus traumas psicológicos mergulhando em mais um simulacro
eletrônico urbano, enquanto as ruas reais demais das cidades do Iraque se
tornam mais distantes, em uma memória profundamente perturbadora.
Uma grande preocupação aqui é que uma vida inteira de condicionamento
a fazer guerra contra inimigos virtuais em cidades árabes pixelizadas vá
influenciar seriamente o comportamento ético dos soldados quando forem
recrutados e despachados. Soldados formados e treinados com jogos de
computador e simulações de guerra urbana, com suas pessoas bidimensionais
que morrem repetidas vezes mortes higienizadas e sem sangue, talvez se
comportem na guerra real como fazem em jogos simulados – com resultados
letais. Escreve Cheryl Seal:

Quando fico sabendo de uma notícia em que um garoto de 22 anos diz não ter ficado muito
incomodado por ter que “se livrar de uma menina” (matar uma civil), alarmes e sinos
disparam. Se isso não grita “desconexão” em alto e bom som, o que o faria?[138]

Enquanto isso, cidadãos se tornam o que Roger Stahl chama de “cidadãos-


soldados virtuais”[139], presos em uma cultura em rede e sem limites de guerra
permanente em que tudo “se transforma de maneira grotesca” nos campos de
batalha. A experiência de infância de brincadeiras militarizadas se transforma
cada vez mais em atos adultos de guerra conforme brinquedos e armas se
fundem. O processo de militarização se aprofunda, marcado pela “recodificação
do campo social com valores e ideais militares”[140].
O que emerge ao fim, alinhado com temas mais amplos abordados neste
livro, é o “remapeamento das linhas tradicionais entre o campo de batalha e o
fronte nacional”[141]. A parte mais perturbadora desse processo é a maneira
como ele barra a possibilidade de envolvimento democrático. Stahl escreve: “As
condições para essa deliberação dependem de uma demarcação clara entre o
papel político do cidadão e o papel apolítico do soldado. Enquanto o papel do
cidadão é deliberar, o do soldado é receber ordens”. Se os soldados-cidadãos se
habituam à participação pessoal em uma cultura de guerra permanente contra
um “outro” orientalizado e virtualizado, questões sobre a necessidade dessa
violência vão se afastar cada vez mais na paisagem cultural. No final, alerta
Stahl, a integração “do soldado-cidadão virtual em uma fantasia higienizada de
guerra é uma sedução cujos prazeres se fazem sentir à custa da capacidade de
envolvimento crítico em questões de poderio militar”[142].

[1] Richard Norton, “Feral Cities”, Naval War College Review, v. 65, n. 4, 2003, p. 97-106.
[2] Phillip Misselwitz e Eyal Weizman, “Military Operations as Urban Planning”, em Anselm Franke e
Eyal Weizman (orgs.), Territories: Islands, Camps and Other States of Utopia (Berlim, KW, Instituto de
Arte Contemporânea), p. 272-5.
[3] Eyal Weizman, “Lethal eory”, LOG Magazine, abr. 2005, p. 74.
[4] omas Hammes, “Time to Get Serious about Urban Warfare Training”, Marine Corps Gazette,
Quantico (VA), abr. 1999.
[5] Comunicação pessoal.
[6] Derek Gregory, e Colonial Present (Oxford, Blackwell, 2004).
[7] Ibidem, p. 201-3.
[8] Ibidem, p. 229-30.
[9] Mike Davis, Dead Cities (Nova York, New Press, 2002), p. 65-84.
[10] Citado por J. R. Wilson, “Army Expands Home-Based Mout Training”, Military Training
Technology.com, mar. 2003.
[11] Citado em Terry Boyd, “Training Site Replicates Iraqi Village”, Stars and Stripes, 26 jul. 2006.
Disponível em: <www.stripes.com>. Acesso em: 21 jun. 2016.
[12] Associated Press, “Urban Combat Training Center Will Be Army’s Largest”, 24 dez. 2002.
[13] Mark Shaffer, “Yodaville Exists for Bombing Runs – Arizona’s Newest Town Inviting Target”,
Arizona Republic, Phoenix, 23 ago. 1999.
[14] Russell Glenn et al., “Preparing for the Proven Inevitable: An Urban Operations Training Strategy
for America’s Joint Force” (Santa Monica [CA], Rand, 2006). Relatório para o secretário de Defesa dos
Estados Unidos.
[15] Mark Shaffer, “Yodaville Exists for Bombing Runs”, cit.
[16] Idem.
[17] O vídeo foi removido do YouTube desde então.
[18] Roxana Tiron, “Army Training Site Brings to Life the Horrors of War”, National Defense Magazine,
jul. 2001.
[19] Ware Corporation, “Zussman Village, Fort Knox, Kentucky”, resumo do projeto, sem data.
Disponível em: <www.wareinc.com/about-us/literature-media/case-studies>. Acesso em: 20 jun. 2016.
[a] Sistema que emitia cheiro durante a projeção de um filme para que o espectador pudesse ter a
experiência olfativa do que se passava na tela. (N. T.)
[20] Ware Corporation, “Zussman Village, Fort Knox, Kentucky”, cit.
[21] Idem.
[22] Citado em Full Battle Rattle, vídeo para streaming on-line, dirigido por Tony Gerber e Jesse Moss,
2009. Disponível em: <www.fullbattlerattlemovie.com>. Acesso em: 3 abr. 2016.
[23] Vince Beiser, “Baghdad, USA”, Wired, São Francisco, v. 14, n. 6, 2006.
[24] Ann Scott Tyson, “US Tests New Tactics in Urban Wargame”, Christian Science Monitor, Boston, 9
nov. 2004.
[25] Idem.
[26] Vince Beiser, “Baghdad, USA”, cit.
[27] Adam Broomberg e Oliver Chanarin, Chicago (Londres, SteidlMack, 2006).
[28] Arieh O’Sullivan, “Army Inaugurates Warfare Village”, Jerusalem Post, 13 jan. 2005.
[29] Barbara Opall-Rome, “Marines to Train at New Israeli Combat Center”, Marines Corps Times,
Springfield (VA), 25 jun. 2007.
[30] Idem.
[31] Idem.
[32] Adam Broomberg e Oliver Chanarin, Chicago, cit., p. 23.
[33] Idem.
[34] Idem.
[35] Barbara Opall-Rome, “Marines to Train at New Israeli Combat Center”, cit.
[36] Russell Glenn et al., “Preparing for the Proven Inevitable”, cit.
[37] Ibidem, p. xv.
[38] Ibidem, p. 243.
[39] Ibidem, p. 63.
[40] Steve Rowell, “Playas, New Mexico: A Modern Ghost Town Braces for the Future”, e Lay of the
Land, Culver City, Center for Land Use Interpretation, n. 28, 2005. Disponível em: <www.clui.org>.
Acesso em: 2 jun. 2016.
[41] Russell Glenn et al., “Preparing for the Proven Inevitable”, cit., p. 6.
[42] Idem.
[43] Mimi Hall, “War on Terror Takes Over a ankful Town”, USA Today, 13 mar. 2005.
[44] Richard Stolley, “Postcard: Playas”, Time, Nova York, 3 abr. 2008.
[45] Elizabeth Book, “Project Metropolis Brings Urban Wards to US Cities”, National Defense Magazine,
abr. 2002.
[46] John Lettice, “Marine Corps Deploys Fallujah Biometric ID Scheme”, e Register, Londres, 12 set.
2004.
[47] Russell Glenn et al., “Preparing for the Proven Inevitable”, cit., p. 83.
[48] Ibidem, p. 152.
[49] Scott Malo e Christopher Stapleton, “Going Beyond Reality: Creating Extreme Multimodal Mixed
Reality for Training Simulation”, artigo apresentado na Conferência Interservice/Treinamento, Simulação
e Formação para a Indústria (I/ITSEC), 2004.
[50] Associated Press, “Army Unveils New, Ultra-Real Simulation”, 20 dez. 2004.
[51] Heidi Loredo, “Hollywood Magic Prepares Marines for Combat”, Marines.Com, jul. 2004.
Disponível em: <www.marforres.marines.mil>. Acesso em: 21 jun. 2016.
[52] Idem.
[53] Idem.
[54] Idem.
[55] James Winnefeld, diretor do Diretório de Experiências Conjuntas do Comando de Forças
Conjuntas, citado em Ashley Dawson, “Combat in Hell: Cities as the Achilles’ Heel of US Imperial
Hegemony”, Social Text, v. 25, n. 2, 2007, p. 170.
[56] Bryan Axtell, “Urban Warfare Experiment Draws Many Players”, USJFCOM Public Affairs,
Arlington (VA), 24 out. 2006. Disponível em: <www.jfcom.mil>. Acesso em: 2 jun. 2016.
[57] Peter Wielhouwer, “Preparing for Future Joint Urban Operations: e Role of Simulation and the
Urban Resolve Experiment”, Small Wars Journal, Bethesda (MD), jul. 2005.
[58] Idem.
[59] Maryann Lawlor, “Military Changes Tactical inking”, Signal, Fairfax (VA), out. 2007.
[60] Ashley Dawson, “Combat in Hell”, cit., p. 170.
[61] Idem.
[62] Idem.
[63] William Hamilton, “Toymakers Study Troops, and Vice Versa”, e New York Times, 30 mar. 2003.
[64] James Der Derian, Virtuous War: Mapping the Military-Industrial-Media-Entertainment Network
(Boulder [CO], Westview, 2001).
[65] Ver o site dos videogames, disponíveis, respectivamente, em <www.americasarmy.com> e
<www.fullspectrumwarrior.com>. Acessos em: 2 jun. 2016.
[66] Steffan DelPiano, “Review of Full Spectrum Warrior”, GamesFirst.com, 2004. Disponível em:
<gamesfirst.com>. Acesso em: 22 jun. 2016.
[67] Andy Deck, “Demilitarizing the Playground”, No Quarter, 2004. Disponível em:
<www.artcontext.net/crit/essays/noQuarter/>. Acesso em: 2 jun. 2016.
[68] Roger Stahl, “Have You Played the War on Terror?”, Critical Studies in Media Communication, v. 23,
n. 2, 2006, p. 122.
[69] Susan Kathy Land, “Best Practices for Software Engineering: Using IEEE Software and System
Engineering Standards to Support America’s Army: Special Forces”, apresentação, 2007. Disponível em:
<www.dau.mil/>. Acesso em: 2 jun. 2016.
[70] Steve Hagan, “Recruitment Hard Drive”, e Guardian Guide, Londres, 19-25 jun. 2004, p. 12-3.
[71] Roger Stahl, “Have You Played the War on Terror?”, cit., p. 130.
[72] Abhinava Kumar, “America’s Army Game and the Production of War”, YCISS Working Paper, n. 27,
mar. 2004, p. 8.
[73] Andy Deck, “Demilitarizing the Playground”, cit.
[74] Derek Gregory, e Colonial Present, cit., p. 201.
[75] Steffan DelPiano, “Review of Full Spectrum Warrior”, cit.
[76] Andy Deck, “Demilitarizing the Playground”, cit.
[77] Roger Stahl, “Have You Played the War on Terror?”, cit., p. 123.
[78] Idem.
[79] Citado em Tim Lenoir, “Taming a Disruptive Technology: America’s Army, and the Military-
Entertainment Complex”, apresentação no Simpósio sobre a Coevolução de Inovações de Negócios e
Tecnologia, Boulder (CO), 24-25 set. 2003.
[80] J. C. Herz e Michael R. Macedonia, “Computer Games and the Military: Two Views”, Defense
Horizons, n. 11, abr. 2002. Disponível em: <www.ndu.edu>. Acesso em: 2 jun. 2016.
[81] David Axe, “America’s Army Game = Brainwashing?”, Danger Room (Wired Blog Network), 29 jan.
2008. Disponível em: <blog.wired.com/defense>. Acesso em: 2 jun. 2016.
[82] Citado em David Leonard, “Unsettling the Military Entertainment Complex: Video Games and a
Pedagogy of Peace”, Studies in Media & Information Literacy Education, v. 4, n. 4, 2004.
[83] Exército dos Estados Unidos, “Virtual Army Experience Fact Sheet”. Disponível em:
<http://www.quadcityairshow.com/vae/pdf/VAE_FactSheet.pdf>. Acesso em: 24 jun. 2016.
[84] Hannah Hayner, “Virtual Experience Lets Civilians Act as Soldiers”, US Army News, 27 fev. 2007.
[85] Idem.
[86] John Kessler, “At Six Flags, War Is a Virtual Reality Experience”, Atlanta Journal-Constitution, 4 dez.
2008.
[87] Wire.ggl.com, “DigitalLife 2007: e Virtual Army Experience”, 29 set. 2007.
[88] Democracy for Missouri.org, “Democracy for Missouri confronts the ‘Virtual Army Experience’ at
Recruitment…”, sem data.
[89] Rick Rogers, “Military to Try Virtual Combat Stress Remedy”, e San Diego Union-Tribune, 17
mar. 2005.
[90] Idem.
[91] Iain Boal et al., Afflicted Powers: Capital and Spectacle in a New Age of War (Londres, Verso, 2006), p.
189.
[92] Ver Mark Gillem, America Town: Building the Outposts of Empire (Minneapolis [MN], University of
Minnesota Press, 2007).
[93] Em março de 2008.
[94] Mark Gillem, America Town, cit., p. 73.
[95] Ibidem, p. 263.
[96] O site do autor, <markgillem.com>, forneceu uma descrição do livro.
[97] Mark Gillem, America Town, cit., p. 74.
[98] Ver “Community”. Disponível em: <www.jtfgtmo.southcom.mil>. Acesso em: 2 jun. 2016.
[99] Carmen Goyette, “Perspective: Holloman Air Force Base or Gated Community?”, Holloman US Air
Force Base News, Alamogordo (NM), 22 mar. 2007.
[100] Timothy Dwyer, “Army Ponders Amusement Venue, Hotel at Ft. Belvoir”, e Washington Post, 8
ago. 2006.
[101] Matthew Barakat, “Army Shoots Down Proposal for Military eme Park in VA”, USA Today, 8
ago. 2006.
[102] Noah Shachtman, “Attack of the Drones”, Wired, São Francisco, v. 13, n. 6, 2005.
[b] Sigla para “hands-on stick and throttle” – em tradução livre, “manche e manete com comandos de fácil
acesso”. Trata-se de um sistema em que os botões normalmente espalhados no painel de controle do avião
são agrupados junto às alavancas de controle de aceleração e direção. (N. T.)
[103] Paul Richfield, “New ‘Cockpit’ for Predator?”, C4ISR Journal, Springfield (VA), 31 out. 2006.
[104] “Learning to Fly… UAVs”, Technology.Com, sem data.
[105] Idem.
[106] Robert Kaplan, “Hunting the Taliban in Las Vegas”, e Atlantic Monthly, Washington (D.C.), 4
ago. 2006.
[107] Citado em Richard Newman, “ e Joystick War”, U.S. News, Washington (D.C.), 19 maio 2003.
[108] Em outra reviravolta na fusão entre zona de guerra e regiões fronteiriças urbanas nacionais, depois
de uma considerável resistência das autoridades de segurança de aviação federais dos Estados Unidos,
drones pilotados receberam autorização de segurança para patrulhar a fronteira do país com o México.
Experimentos para ver se drones maiores podem defender os aeroportos estado-unidenses contra mísseis
disparados por humanos também estão em andamento. Mas, até o momento, drones domésticos
permanecem não armados.
[109] Robert Kaplan, “Hunting the Taliban in Las Vegas”, cit.
[110] Nick Turse, “Bringing the War Home: e New Military-Industrial-Entertainment Complex at
War and Play”, Tom Dispatch, 17 out. 2003.
[111] Idem.
[112] Roger Stahl, “Have You Played the War on Terror?”, cit., p. 112.
[113] Center for Land Use Interpretation, “Exhibition Review: Emergency State: First Responders and Law
Enforcement Emergency Training Architecture”, 2004. Disponível em: <www.clui.org>. Acesso em: 2 jun.
2016.
[114] Richard Florida, e Rise of the Creative Class (Nova York, Basic Books, 2003).
[c] O termo inglês cluster (agrupamento, aglomerado) é usado, nos países anglófonos, em diferentes
contextos. Ele foi traduzido, em português, já há muitas décadas, como “agrupamento”, mas com uma
finalidade muito distinta daquela de Stephen Graham neste livro. Se, na Estatística, a expressão “análise
de agrupamentos” identifica uma técnica bem conhecida de análise multivariada, na linguagem da
Geografia Econômica e da Economia Regional e Urbana os complexos locais e regionais de empresas
articuladas (sobretudo industriais) têm sido chamados de clusters empresariais, clusters industriais etc.
(Nota de Marcelo Lopes de Souza)
[115] “SimCity will be Huge”, Suffolk News Herald, 10 maio 2005.
[116] Idem.
[117] Walter Benjamin, “ e Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction”, em Hannah Arendt
(org.), Illuminations: Essays and Reflections (Nova York, Schocken, 1968), p. 241 [ed. bras.: Walter
Benjamin, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, trad. Gabriel Valladão Silva, Porto Alegre,
L&PM, 2014]. Agradeço a Marcus Power pela referência.
[118] Jean Baudrillard, e Gulf War Did Not Take Place (Bloomington [IN], Indiana University Press,
1991).
[119] Idem, Simulacra and Simulation (Ann Arbor [MI], University of Michigan Press, 1994) [ed. port.:
Simulacros e simulação, trad. Maria João de Costa Pereira, Lisboa, Relógio d’Água, 1991].
[120] Abhinava Kumar, “America’s Army Game and the Production of War”, cit., p. 8.
[121] James Der Derian, texto para a conferência do Simpósio de Dis/Simulação de Guerra e Paz,
Providence (RI), 6-7 jun. 2004.
[122] Abhinava Kumar, “America’s Army Game and the Production of War”, cit., p. 8.
[123] Roger Stahl, “Have You Played the War on Terror?”, cit., p. 123.
[124] Bryan Finoki, “War Room”, Subtopia, 20 maio 2006.
[125] Idem.
[126] James Der Derian, Virtuous War, cit.
[127] Citado em Derek Gregory, “‘ e Rush to the Intimate’: Counterinsurgency and the Cultural Turn
in Late Modern War”, Radical Philosophy, n. 150, 2008.
[128] James Der Derian, Virtuous War, cit.
[129] Derek Gregory, “ e Rush to the Intimate”, cit.
[130] Christopher Coker, e Future of War: e Re-Enchantment of War in the Twenty-First Century
(Oxford, Blackwell, 2004).
[131] Derek Gregory, “ e Rush to the Intimate”, cit.
[132] Como afirma David Robb, “De muitas formas, Hollywood está mergulhada nas forças militares”, e
os militares “sabem que quando imagens positivas são retratadas em filmes e programas de televisão,
ocorrem picos de recrutamento. Os militares estão realmente pressionando para aparecer na tela… Esses
filmes (que recebem auxílio do Pentágono) deveriam vir com um aviso: ‘Este filme foi formatado e
censurado pelas Forças Armadas para atender metas de recrutamento’”. Citado em César Soriano e Ann
Oldenburg, “With America at war, Hollywood follows”, USA Today, 2 ago. 2005.
[133] Derik W. Crotts, “Operational Implications of Public Affairs – Factors, Functions, and Challenges
of the Information Battlefield”, Iosphere, inverno 2006.
[134] James Dao e Eric Schmitt, “Pentagon Readies Efforts to Sway Sentiment Abroad”, e New York
Times, 19 fev. 2002.
[135] Em 23 de março de 2003, a soldado Jessica Lynch e nove colegas de sua 507ª Companhia de
Manutenção foram resgatados de um hospital iraquiano pelas Forças Especiais estado-unidenses. O
Pentágono relatou que Lynch tinha sido “capturada depois de disparar contra iraquianos até sua munição
acabar, atingida por uma bala, esfaqueada, amarrada e levada para um hospital em Nassíria”. Lá, ela foi
resgatada por uma ousada incursão das Forças Especiais dos Estados Unidos uma semana depois. Mais
tarde, Lynch recebeu uma Estrela de Bronze, e suas ações foram celebradas como “o momento mais
heroico – talvez o único momento heroico – na guerra no Iraque”. A história parecia quase perfeita
demais, hollywoodiana demais. E era. Lynch, sob supervisão cuidadosa em um hospital iraquiano, na
verdade foi “resgatada” por forças especiais que tinham tanto equipamento de mídia e filmagem quanto
armas. Não havia soldados iraquianos presentes. Médicos iraquianos forneceram um bom atendimento a
Jessica Lynch. E ela não tinha sido nem baleada nem esfaqueada, e sim se ferido quando seu veículo
capotou. O dr. Anmar Uday, que assistiu ao evento, contou a John Kampfner, da BBC, que “foi como
um filme de Hollywood. Eles gritaram ‘vão, vão, vão’; com armas e cartuchos sem balas, cartuchos e o
barulho de explosões. Fizeram um espetáculo para o ataque estado-unidense ao hospital – filmes de ação
como os de Sylvester Stallone ou Jackie Chan”. Além disso, o material da filmagem do resgate foi editado
para a versão final a ser lançada nos noticiários por um antigo assistente de Ridley Scott que trabalhou no
filme que retratou as operações militares de 1993 em Mogadíscio, Falcão Negro em Perigo. Em maio de
2003, Robert Scheer contou ao LA Times que a “fabricação já tinha sido celebrada em um especial da
A&E e logo se tornaria um filme da NBC”. Ver <www.bbc.co.uk> e Stan Winer, Between the Lies
(Londres, Southern Universities Press, 2004), p. 180-1.
[136] Jonathan Metcalfe, “ e Hype Dimension ‘Defenders of Freedom’”, sem data. Disponível em:
<www.cassiopaea.org>. Acesso em: 2 jun. 2016.
[137] Tom Regan, “British Paper: Bush Wanted to Bomb Al Jazeera”, Christian Science Monitor, Boston,
23 nov. 2005.
[138] Cheryl Seal, “Was the Excessive Violence of US Troops in Iraq Fuelled by Military-Funded
Computer Games?”, Baltimore lndymedia.org, 2003.
[139] Roger Stahl, “Have You Played the War on Terror?”, cit., p. 123.
[140] Idem.
[141] Ibidem, p. 130.
[142] Ibidem, p. 125.
7
LIÇÕES DE URBICÍDIO[1]

Nos Estados Unidos, Palestina e Israel são considerados questões de política interna, não
externa.[2]

Regimes totalitários e grupos terroristas usam constantemente a violência como um meio de


engenharia política em grande escala; é mais impressionante quando países democráticos,
como Israel e os Estados Unidos, o fazem, em geral em flagrante desconsideração pelas lições
da história contemporânea.[3]

Em abril de 2002, em uma dramática mudança de estratégia, a Força de


Defesa de Israel – a IDF – atacou uma área de 40 mil metros quadrados no
centro do campo de refugiados de Jenin, no norte da Cisjordânia. Um relatório
da ONU estimou que 52 palestinos foram mortos no ataque, metade deles
civis. A Operação Escudo de Defesa (Homat Magen, em hebraico) envolveu
grandes operações militares contra todas as principais cidades palestinas. Cerca
de 140 blocos habitacionais multifamiliares foram completamente destruídos;
aproximadamente 1,5 mil foram danificados; algo como 4 mil residentes, de
uma população de 14 mil, ficaram desabrigados. Além da destruição em Jenin,
outras grandes demolições ocorreram durante a operação em Nablus, Hebron e
Ramallah. A destruição de infraestrutura material, bem como de instalações
culturais e administrativas, também foi generalizada.
Tudo isso solapou as declarações oficiais israelenses de que a Operação
Escudo de Defesa havia sido desenvolvida puramente para desmantelar a
“infraestrutura terrorista” por trás dos ataques suicidas palestinos, que tinham
deixado dezenas de civis mortos nas ruas de cidades de Israel nos dois anos
anteriores. Em vez disso, os indícios sugerem que o verdadeiro propósito da
invasão era se aproveitar do contexto favorável da Guerra ao Terror estado-
unidense para atacar as bases urbanas de um proto-Estado palestino.
Aprendendo com os reveses no Líbano nos anos 1980, os israelenses parecem
ter como alvo “a infraestrutura social, a infraestrutura do bem-estar, da qual os
combatentes surgiram e com que suas famílias contam”, como afirma o analista
da IDF Dov Tamari. O termo apropriado para essa estratégia foi cunhado mais
ou menos simultaneamente, no começo da década de 1990, tanto por Marshall
Berman quanto por um grupo de arquitetos bósnios: “urbicídio”, a destruição
ou o assassinato deliberado de uma cidade.
A Operação Escudo de Defesa foi apenas a primeira de uma longa sucessão
de iniciativas, operações, esquemas de treinamento e utilização de novas armas
por meio dos quais o Estado de Israel está reestruturando suas Forças Armadas
a fim de que sua função de fato, em vez de destruir as forças militares de
Estados árabes vizinhos, seja controlar e aplacar de modo persistente civis e
insurgentes não governamentais em cidades palestinas e árabes densamente
povoadas. Essa mudança de Estado versus Estado para Estado versus civis
urbanos foi alimentada por sugestões de pensadores estratégicos israelenses de
que a urbanização espontânea em Gaza e nos Territórios Ocupados, a qual
acompanhou o rápido crescimento demográfico recente da população
palestina, apresenta um risco para os consagrados objetivos do sionismo,
ameaçando superar os esforços do governo israelense de promover a imigração
de judeus tanto para Israel em si quanto para seus assentamentos.
Nesses debates, as cidades palestinas, em vez de serem compreendidas
como espaços fundamentais da sociedade civil e da esperança de uma vida
melhor para os palestinos, são retratadas como meras “armas” geopolíticas que
minam o frágil poder territorial do Estado sionista. Assim escreveu Arnon
Soffer, proeminente geógrafo de direita israelense que realizou muitas análises
para a IDF:

O processo de urbanização ao redor das fronteiras israelenses vai resultar em uma vasta
população árabe, sofrendo com a fome e a pobreza, cercando o Estado judaico. É grande a
probabilidade de que essas áreas se tornem terreno fértil para o crescimento de movimentos
islâmicos radicais.[4]
Aprendendo com Jenin
Apenas algumas semanas antes do lançamento da Operação Escudo de
Defesa, participei de um congresso sobre “guerra urbana” organizado por Soffer
na Universidade de Haifa, em Israel, em parceria com a influente Rand
Corporation[5]. Repleto de oficiais superiores e especialistas em guerra urbana
do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, da IDF e do Exército
britânico, junto com representantes da Rand, o congresso fazia parte de uma
série que oferecia a oportunidade de compartilhar dicas práticas sobre combate
de guerra e operações de contrainsurgência em cidades.
Catapultado a um canto escuro da pesquisa urbana que eu – um urbanista
com mais de uma década de experiência em pesquisa – não sabia que existia,
fiquei à época impressionado com o fato de que especialistas estado-unidenses,
israelenses e britânicos no campo emergente da guerra urbana fossem amigos
tão próximos que pareciam constituir um corpo social transnacional. Assim,
ficou claro que há muito tempo existe uma intensa troca de tecnologia,
experiência, treinamento e doutrina entre as três nações (e, de fato, além delas).
O que foi chocante na ocasião, e se tornou ainda mais espantoso desde então,
foi que a tecnologia, a doutrina e a competência militares e de segurança de
Israel logo foram mobilizadas e generalizadas como parte da Guerra ao Terror
global dos Estados Unidos.
A Operação Escudo de Defesa se revelou um exemplar especialmente
influente de um novo tipo de guerra, mobilizando forças militares
governamentais de alta tecnologia contra insurgentes em áreas densamente
urbanizadas[6]. Complementando as lições negativas apresentadas pela derrota
dos Estados Unidos em Mogadíscio e pela humilhação da Rússia durante suas
tentativas de aniquilar Grozny, capital da Chechênia, em meados dos anos
1990, as lições dos “sucessos” de Israel foram amplamente interpretadas como
uma combinação de monitoramento e ataque de alta tecnologia com técnicas
de guerra urbana da Segunda Guerra Mundial para a eliminação de espaços e
penetração no centro de cidades resistentes. O teórico militar australiano
Michael Evans escreve:
Em operações em Jenin em abril de 2002, os israelenses misturaram a preparação para campo
de batalha da era da informação, por meio de drones e Vants de reconhecimento de vanguarda,
com técnicas da era industrial de abrir túneis em paredes para evitar receber fogo de enfiada nas
ruas. […] tratores Caterpillar D9 blindados, equipados com “arado para minas”, foram
empregados para limpar a área de construções fortificadas, IEDs [dispositivos explosivos
improvisados] e armadilhas explosivas, permitindo assim que esquadrões de tanques de
infantaria manobrassem pelas ruas com mais facilidade.[7]

Ao aprender diretamente com essas novas guerras urbanas, os militares


estado-unidenses trabalharam com afinco para melhorar sua habilidade de
pacificar e controlar as cidades que consideravam o foco principal de seus
adversários. Instigado por congressos como o de Haifa, Evans destaca que
“pesquisadores da Rand Corporation concluíram significativas análises teóricas
voltadas às peculiaridades técnicas e táticas envolvidas na condução de
operações militares dentro de cidades”[8].
O empenho dos Estados Unidos em demonstrar, e imitar, a experiência
israelense durante a Operação Escudo de Defesa já estava em curso quando os
tratores atacaram o campo de Jenin. Aliás, “observadores” das Forças Armadas
dos Estados Unidos já estavam no local, obtendo em primeira mão uma
perspectiva da doutrina israelense em ação. As informações provariam ser úteis
durante o planejamento detalhado para a invasão de cidades iraquianas em
abril do ano seguinte. Eyal Weizman escreve que

um soldado paraquedista que participou na batalha de Jenin me contou que havia oficiais
estado-unidenses (usando uniformes da IDF) presentes como espectadores em meio ao entulho
do campo de refugiados enquanto os últimos estágios da “batalha” transcorriam.[9]

Em 17 de junho de 2002, o US Army Times divulgou que

enquanto as forças israelenses estavam envolvidas no que muitos chamaram de uma campanha
brutal – alguns diriam até criminosa – para destruir os militantes e células terroristas palestinos
nas cidades da Cisjordânia, oficiais militares estado-unidenses estavam em Israel vendo o que
conseguiam aprender com aquele combate urbano.[a]

O tenente-coronel Dave Booth – que supervisionou intercâmbios sobre


guerra urbana entre fuzileiros navais estado-unidenses e a IDF na época –
relatou em outro artigo, desta vez no Marine Corps Times, que o Corpo de
Fuzileiros Navais queria “aprender com a experiência israelense em guerra
urbana e as grandes operações recentes de ‘busca e destruição’ de insurgentes
palestinos na Cisjordânia”[10].
O Laboratório de Combate de Guerra dos Fuzileiros Navais dos Estados
Unidos em Quantico, Virgínia, logo se aproveitou dessas trocas detalhadas, que
culminaram na ida a Israel, entre 17 e 23 de maio de 2002, de uma delegação
do Estado-Maior Conjunto para “fazer mudanças na doutrina de combate
urbano das forças com o objetivo de refletir o que funcionava para os
israelenses”. No começo de junho, houve uma grande conferência sobre guerra
urbana entre especialistas de Israel e do Pentágono em um encontro do Grupo
Consultivo de Políticas de Defesa em Washington.
Apenas alguns meses depois, em setembro de 2002, o Estado-Maior
Conjunto estado-unidense definiu uma nova doutrina para operações urbanas,
levando em consideração as lições aprendidas em Jenin e em outras partes, com
vista a um ataque iminente ao Iraque. Seymour Hersh observou em uma
edição de dezembro de 2003 da revista New Yorker que

de acordo com oficiais militares e de inteligência dos Estados Unidos e de Israel, as tropas e
unidades de inteligência israelenses têm trabalhado em proximidade com seus pares estado-
unidenses na base de treinamento das Forças Especiais em Fort Bragg, Carolina do Norte, e em
Israel para ajudar nos preparativos para as operações no Iraque.[11]

Em dezembro de 2003, Julian Borger também relatava no Guardian que


“de acordo com duas fontes, ‘consultores’ israelenses tinham visitado o
Iraque”[12].
O general Vane, à época secretário do Estado-Maior para Doutrinas,
Conceitos e Estratégias do Comando de Doutrina e Treinamento do Exército
dos Estados Unidos, admitiu em julho de 2003 que a experiência de Israel
tinha sido essencial quando as forças estado-unidenses tentaram enfrentar a
proliferação de insurgências urbanas nas ruas das cidades do Iraque que se
seguiram à rápida derrota das forças militares do Estado em 2002: “A
experiência [israelense] continua nos ensinando muitas lições. E continuamos
avaliando essas lições e nos dedicando a elas, implantando-as e incorporando-as
de modo apropriado a nossos conceitos, nossas doutrinas e nosso
treinamento”[13].
Assim, surgiu uma complexa interdependência – baseada na cópia, na
parceria, no comércio e na retórica de mútuo consenso – entre as políticas de
segurança urbana e o urbanismo militar de Israel, de um lado, e a Guerra ao
Terror global dos Estados Unidos, do outro. Aqui, foi fundamental a leitura do
governo Bush de que conflitos geopolíticos centrais no mundo emanavam do
Oriente Médio e operavam através dele – um “novo ambiente estratégico [que
foi] caracterizado, antes e acima de tudo, pelas ameaças assimétricas que
vinham de Estados ilegítimos e redes terroristas, movidos por ideologias
niilistas cujo objetivo era a ampla destruição a qualquer custo”[14].
Por meio desses circuitos de exemplificação e imitação, a experiência em
Israel – resultante do Estado de segurança por excelência, organizado com base
no confinamento de cidades colonizadas inteiras – está rapidamente sendo
exportada para o mundo todo. Além de copiar o discurso de Israel sobre a
necessidade de suspender a lei internacional por causa dos desafios únicos de
uma “nova guerra”, as Forças Armadas dos Estados Unidos também têm
reproduzido amplamente a experiência e a doutrina das forças israelenses de se
reinventar para lidar com os desafios da guerra urbana colonial e de
contrainsurgência.
Todos esses circuitos íntimos de intercâmbio e apoio mútuo são,
obviamente, reforçados por um contexto estratégico comprovado pelo tempo:
o imperialismo dos Estados Unidos no Oriente Médio, por sua vez, fornece
enorme apoio político e financeiro ao projeto de colonização sionista israelense.
A relação também oferece aos estado-unidenses um ativo estratégico em uma
região que fornece a maior parte de seu abastecimento externo de petróleo – e,
presumivelmente, vai fornecer boa parte dele no futuro (Figura 7.1)[15]. Como
consequência, defende Bashir Abu-Manneh,

a dinâmica império estado-unidense/colonialismo israelense é circular. O apoio dos Estados


Unidos reforça o colonialismo e a ocupação de Israel, que reforçam a militarização israelense do
Estado e da sociedade, geram novas justificativas ideológicas e políticas, e criam novos
fanatismos religiosos, levando a mais resistência palestina e a mais intervenções dos Estados
Unidos na região.[16]
Ano Total Auxílio militar Auxílio econômico Outros

1949-1996 68.030,9 29.014,9 23.122,4 15.893,6

1997 3.123,1 1.800,0 1.200,0 132,1

1998 3.080,0 1.800,0 1.200,0 80,0

1999 3.010,0 1.860,0 1.080,0 70,0

2000 4.131,8 3.121,0 949,1 62,8

2001 2.876,1 1.975,6 838,2 62,3

2002 2.850,6 2.040,0 720,0 90,7

2003 3.745,1 3.086,4 596,1 62,7

2004 2.687,3 2.147,3 477,2 62,8

2005 (estimativa) 2.612,2 2.202,2 357,0 53,0

2006 (estimativa) 2.563,5 2.280,0 240,0 43,5

Total 98.719,6 51.326,4 30.780,0 16.613,0

7.1 Auxílio total, militar e econômico dos Estados Unidos para Israel, 1949-2006 (em milhões de
dólares).

Dado o contexto – até mesmo estimativas muito conservadoras do auxílio


militar e econômico dos Estados Unidos a Israel determinaram um total de
US$ 108 bilhões em 2006, e os termos do financiamento são extremamente
favoráveis –, é difícil discordar da conclusão de Abu-Manneh de que “Israel é
um caso único no Oriente Médio; ele é financiado pelo imperialismo sem ser
explorado economicamente por ele”[17].

Militarismo mútuo: Israel e a Guerra ao Terror


Depois dos ataques de 11 de Setembro, Ariel Sharon, então primeiro-
ministro de Israel, logo reiterou a visão de mundo do governo Bush e tentou
tirar vantagem dela em favor de seu país. Depois dos atentados, ele anunciou
um dia de luto e declarou que “a luta contra o terror é uma batalha
internacional do mundo livre contra as forças da escuridão que tentam destruir
nossa liberdade e nosso estilo de vida. Juntos, podemos derrotar essas forças do
mal”[18]. Para tirar o máximo de vantagem política dos ataques, Sharon sugeriu
que, finalmente, os estado-unidenses sabiam como era vivenciar o terror
urbano. Conforme escreveu James Brooks em dezembro de 2002: “[o governo
israelense] nos explicou [que] enfrentamos um inimigo comum e implacável,
deixando não dita a mensagem de que nós, estado-unidenses, precisamos
endurecer e começar a trabalhar para valer contra o terror”[19]. Aliás, Sharon e
outros líderes israelenses ansiaram por uma série de guerras lideradas pelos
Estados Unidos para derrubar não apenas Saddam Hussein no Iraque, mas
também os regimes no Irã, na Síria e na Líbia[20].
Assim, Israel desempenhou um importante papel, ainda que em grande
parte oculto, na campanha de propaganda política enganosa em torno das
“armas de destruição em massa” inexistentes do Iraque – uma premissa
fundamental para a invasão. Um general aposentado israelense mais tarde
admitiu que a “inteligência de Israel foi um parceiro pleno na imagem
apresentada pela inteligência estado-unidense e britânica a respeito das
potencialidades não convencionais do Iraque”[21]. Também está claro que as
supostas ameaças representadas por essas armas na verdade não ameaçavam
nem os Estados Unidos, nem o Reino Unido. Philip Zelikow, membro do
Conselho Consultivo de Inteligência Internacional de George Bush entre 2001
e 2003, relevou em 2004 que a então “ameaça real” representada pelo Iraque
não estava voltada para os Estados Unidos, e sim “contra Israel”[22].
A fusão retórica impecável de Al Qaeda, Saddam Hussein e palestinos que
ocorreu nessa ginástica geopolítica significou repetidas negativas de que a
resistência e a violência palestinas, voltadas contra um agressor colonial de
longa data, talvez fossem mais legítimas do que o ato de transformar cidades
estado-unidenses em alvos por parte de uma Al Qaeda alimentada pela
ideologia islamista. Logo depois dos ataques a Nova York, Edward Said
argumentou que Israel estava

explorando de maneira cínica a catástrofe estado-unidense ao intensificar sua ocupação militar


e opressão em relação aos palestinos [e, além do mais, representando] a ligação entre os
bombardeios do World Trade Center e do Pentágono e os ataques palestinos [de homens-
bomba] em Israel [como] uma conjunção absoluta de “terrorismo mundial” em que Bin Laden
e [o então líder palestino Yasser] Arafat são entidades intercambiáveis.[23]
Sharon, em particular, igualou diversas vezes Osama bin Laden e a Al
Qaeda à Autoridade Palestina, ao Hamas e ao Hezbollah libanês.
Bush logo retribuiu o favor de Sharon buscando integrar à Guerra ao
Terror a intensificação da opressão colonial de Israel, ao retratar o Islã radical
como um inimigo comum da civilização de ambos os Estados[24]. James
Brooks sugere que os políticos estado-unidenses

logo empregaram diversos dispositivos discursivos que, antes do 11 de Setembro, eram mais
comumente encontrados na caixa de ferramentas política (doméstica e internacional) de Israel.
De repente, todo tipo de questões domésticas e internacionais foram redefinidas como parte da
“Guerra ao Terror”, exigindo soluções novas e drásticas que eram, claro, necessárias para a
“segurança” e, muitas vezes, altamente lucrativas para determinados interesses corporativos.[25]

Foi nesse contexto que Sharon lançou a Operação Escudo de Defesa,


ajustando radicalmente as estratégias mais amplas de repressão contra as
cidades em rápido crescimento da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Além de se
concentrar no inimigo civilizacional dos Estados Unidos e de Israel, isso criou
uma espécie de placa de Petri para o desenvolvimento do novo urbanismo
militar. Ilan Berman escreveu em 2004:

Desde as táticas e do treinamento até a intensa proteção da infraestrutura, para políticos e


líderes militares estado-unidenses: Israel tem habilidade para dar uma grande contribuição para
a evolução da agenda política estratégica dos Estados Unidos ajudando o país a se adaptar a
novas realidades militares.[26]

Esse ciclo de militarismo mútuo não é de todo surpreendente: a ideia


inicial da “guerra global contra o terror” veio de Israel. Um de seus principais
arquitetos foi o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ao lado de, entre
outros, Richard Perle – grande ideólogo neoconservador, sionista radical e um
dos principais conselheiros de Bush –, ele redigiu, em 1996, um influente
relatório intitulado “A Clean Break: A New Strategy for Securing the Realm”
[Uma ruptura seca: uma nova estratégia para a segurança do domínio]. O texto
defendia abandonar amplamente os acordos de Oslo de 1993, que eram o
legado do ex-primeiro-ministro Yitzak Rabin, assassinado em 1995. Em seu
lugar, Israel e os Estados Unidos deveriam firmar uma parceria agressiva.
O cenário imaginado era usar uma intervenção militar agressiva para
reorganizar de maneira forçosa a geopolítica do Oriente Médio, removendo os
governos da Arábia Saudita, da Síria, do Líbano, do Iraque e do Irã e
substituindo-os por regimes clientelistas no processo – tudo sob o “princípio de
prevenção”[27]. Essa estratégia, explicava o relatório, resultaria tanto em um
“Grande Israel” geograficamente expandido quanto no controle estado-
unidense da maior parte das reservas de petróleo do Oriente Médio. Jonathan
Cook afirma que essa “busca obstinada de objetivos catastróficos”, usando as
guerras preventivas dos Estados Unidos e de Israel para instigar “o colapso
social, uma série de guerras civis e a divisão de Estados árabes”, teve um grande
papel em formatar a agenda política neoconservadora de Washington e a
posterior Guerra ao Terror de Bush[28].
Uma guerra preventiva para retirar Saddam Hussein do poder no Iraque
era de fato uma proposta central do relatório. “Israel pode dar forma a seu
ambiente estratégico, em cooperação com a Turquia e a Jordânia,
enfraquecendo, contendo e até repelindo a Síria”, defendia o texto. Ele também
sugeria que “esse esforço pode se concentrar na remoção de Saddam Hussein
do poder no Iraque – um importante objetivo estratégico israelense em si
mesmo – como meio de frustrar as ambições regionais da Síria”[29].

Orientalismos casados
Pode-se dizer que a guerra começa quando um país se torna uma ficção patriótica para sua
população.[30]

A definição, pelos Estados Unidos e por Israel, de seus respectivos “outros”


árabes como alvos foi, acima de tudo, alimentada pela arma de guerra mais
poderosa de todas: a apresentação criativa da geografia e da hostilidade em
apoio à violência e à militarização. Essas concepções na geografia são atos do
que os antropólogos chamam de “violência simbólica”. Longe de serem eventos
paralelos ao “verdadeiro” trabalho de guerra e segurança, elas são, como vimos
no capítulo 3, os meios pelos quais as geografias da segurança e da violência são
continuamente levadas a cabo e legitimadas[31].
A demonização dos palestinos como “outros” bárbaros e intrinsecamente
terroristas no discurso político e cultural israelense ressoa com demonizações
maniqueístas semelhantes de árabes e muçulmanos nos Estados Unidos. Ambas
ecoam, e reproduzem, imagens orientalistas bem estabelecidas que representam
árabes – e seus espaços – como primitivos, malignos, não civilizados,
irracionais, preguiçosos, patológicos, exóticos, pervertidos e antimodernos (se
comparados, claro, aos estado-unidenses ou israelenses e seus espaços, que são
considerados o extremo oposto). Assim, o desafio conjunto estado-unidense-
israelense é empregar estratégias militares e geopolíticas que possam proteger e
policiar a fronteira entre modernidade, liberdade e o “novo barbarismo”.
Operando fora da “civilização”, esse barbarismo perverso conta com a “guerra
assimétrica” para atacar e aterrorizar a cada oportunidade[32].
Um elemento central desse ponto de vista é uma “mentalidade árabe” ou
“cultura árabe” universal – uma entidade simples e homogênea obcecada com
violência, honra, orgulho, vergonha, martírio ou vingança. O livro e Arab
Mind (1973), de Raphael Patai, se baseia nessas representações. Durante os
anos George W. Bush, foi uma bíblia para comentadores e políticos
neoconservadores[33]. A obra também foi muito lida nas Forças Armadas dos
Estados Unidos e ajudou a inspirar as técnicas de humilhação e tortura sexuais
praticadas em Abu Ghraib e em outros lugares[34].
Uma ideia relacionada, corrente no setor dominante dos “estudos sobre
terrorismo”, é a de que os árabes e muçulmanos que são suficientemente
motivados para realizar atos de terrorismo contra os Estados Unidos ou Israel
são indivíduos patológicos que enfrentaram infâncias traumáticas – e não,
como defende um argumento muito mais convincente, pessoas radicalizadas
pela duradoura experiência da opressão, humilhação e violência colonial
perpetrada pelos Estados Unidos ou por Israel.
Soma-se a essa mistura explosiva a desumanização de árabes por atacado,
tanto na cultura estado-unidense quanto na israelense. No seu ponto extremo,
dentro da cultura política ultranacionalista de direita que sustenta tanto o
Partido Republicano quanto o Likud, essa desumanização ajuda a lançar árabes
e muçulmanos em massa no que Giorgio Agamben chama de “vida nua” – uma
existência meramente zoológica, desprotegida por bastiões filosóficos ou legais
de cidadania ou humanidade[35]. Quando direitos são acordados, isso em geral
ocorre em um quadro de referência que coloca pessoas de ascendência árabe
como menos que completamente humanas – a percepção disseminada de que
palestinos são o que Omar Barghouti chama de “humanos relativos”, isto é,
sujeitos indignos de plenos direitos políticos, legais, religiosos, econômicos ou
culturais[36].
Claro, a ampla demonização é crucial para o recrutamento e para a
doutrinação dos soldados. Autores como Patai, que essencializam toda uma
“raça” transnacional, são populares tanto na cultura militar de Israel quanto na
dos Estados Unidos. Um comandante de companhia estado-unidense, o
capitão Todd Brown, disse ao New York Times em dezembro de 2003 que suas
ações eram motivadas pela visão fundamentalmente pataiana de que “você
precisa entender a mente árabe. A única coisa que eles entendem é a força –
força, orgulho e evitar a humilhação”[37].
Confrontar essas ideias é parte do desafio enfrentado por soldados estado-
unidenses e israelenses que têm objeções às novas guerras urbanas de seus
países. Por exemplo, Assaf Oron, um dos reservistas israelenses que recusaram
ordens de integrar a Operação Escudo de Defesa em 2002. Ele fala de sua raiva
sobre ouvir repetidas vezes das elites políticas e militares e da mídia israelenses
que Israel-Palestina se caracteriza por “uma tribo de seres humanos, de puro
bem – os israelenses –, e uma tribo de seres sub-humanos, de puro mal”. Para
Oron, ao colocar os palestinos

sob o nosso comando, nós nos permitimos espezinhá-los como sujeira, como se fossem
cachorros. [A sociedade israelense] criou uma realidade totalmente alucinatória, em que os
verdadeiros humanos, membros da Nação de Senhores, podem se deslocar em liberdade e com
segurança, enquanto os sub-humanos, a Nação de Escravos, foram jogados nos cantos e
mantidos invisíveis e sob o controle das nossas botas da IDF.

É muito representativo que ele acredite que seja tão necessário quanto
radical enfatizar sua crença de que “os palestinos são seres humanos como nós.
Que conceito, hein? E, antes de tudo, antes de tudo, precisamos tratá-los como
seres humanos sem exigir nada em troca”[38].
Claro, discursos políticos formais tanto nos Estados Unidos quanto em
Israel há muito tempo são reforçados e normalizados por representações
padronizadas de árabes na cultura popular ocidental, em especial em filmes e
videogames, que reiteram incessantemente a sugestão de que todos os atos
soberanos de força e poder do Ocidente ou de Israel são, por definição, nobres,
legítimos e humanizados, enquanto todos os atos do “outro” árabe não estatal
são, por definição, obscuros, demoníacos, bárbaros, terroristas e
monstruosos[39]. Filmes de Hollywood que retratam encontros de estado-
unidenses ou israelenses com terroristas árabes muitas vezes enfatizam uma luta
épica entre a “civilização” ocidental, moderna e democrática, de um lado, e o
“barbarismo” primitivo muçulmano, de outro. Assim, emerge o que Carl
Boggs e Tom Pollard diagnosticaram como

uma narrativa grandiosa, hipócrita e egocêntrica que enquadra a violência política como um
monopólio dos “outros” nacionais/culturais, cujo modus operandi – em geral ataques locais –
contrasta com as ações militares “legítimas” de governos poderosos que lançam ofensivas com
mísseis de alta tecnologia e bombardeios.[40]

Essa mensagem, finalmente, penetra a própria linguagem da repressão e da


guerra colonial: “eles nos ‘raptam’, ao passo que “nós os ‘prendemos’” destaca
Alastair Crooke[41]. Também permeia as representações visuais do noticiário de
guerra: cidades árabes são retratadas como mapas abstratos vistos do alto, com
“alvos” esquemáticos ou em forma de imagens de satélite. Em contraste, uma
massa de detalhes pessoais, no nível do solo, é mostrada quando cidades
estado-unidenses ou israelenses são atacadas; o espectador vivencia experiências
de envolvimento empático com as vítimas, cujos corpos mutilados e em
sofrimento são o centro da atenção[42].

Estados de exceção recíprocos


Os desafios de segurança de Israel são as preocupações de segurança dos Estados Unidos em
menor escala.[43]
Um componente central da renascença de alta tecnologia de Israel – o que
Naomi Klein chamou de “Estado de apartheid do desastre persistente”[44] – é a
convergência gradual entre doutrina militar estado-unidense no pós-invasão ao
Iraque e as consolidadas técnicas israelenses de repressão, encarceramento e
fragmentação forçosa da geografia nos Territórios Ocupados. No que diz
respeito à Guerra ao Terror, as primeiras justificativas do governo Bush para os
assassinatos preventivos extrajudiciais foram claramente influenciadas por
justificativas similares israelenses. É central, aqui, a declaração de que “essa
guerra ‘não tinha precedentes’ e, assim, constituía uma terra nulla jurídica”[45],
como observa a pesquisadora de direito internacional Lisa Hajjar. Ela aponta
que tal afirmação tem um precedente israelense direto, que data do começo da
Segunda Intifada palestina[46].
As ideias estratégicas de “prevenção” e “guerra preventiva” são cruciais aqui.
Ao lançar sua Guerra ao Terror global, o governo Bush fez uso direto da
Segunda Intifada “como um modelo saliente – e de algumas formas explícito –
para o ‘novo paradigma’” de combate de guerra dos Estados Unidos. Isso se
baseou na observação de que ambas envolvem o conflito “assimétrico”, ao opor
forças militares estatais poderosas e equipadas com alta tecnologia a grupos e
indivíduos sem Estado e não estatais que operam dentro de densas
concentrações de civis urbanos[47].
A obsessão da administração Bush com a prevenção foi especialmente
influenciada pela Operação Escudo de Defesa. Azmi Bishara sugeriu que a
ideia toda de “guerra contra o terror”, em particular a invasão preventiva do
Iraque, representou o que ele chamou de “doutrinas de segurança israelenses
globalizadas”, que incluem a compreensão do terrorismo como o “inimigo
principal”[48]. Dividindo o mundo em dois grupos hermeticamente separados
de “terroristas” e “não terroristas”, a Casa Branca de Bush seguiu uma antiga
estratégia de Israel: possibilitar coalizões de conveniência, com toda sorte de
aliados dúbios, para consolidar seu poder soberano contra um inimigo
generalizado e demonizado cujas reivindicações geopolíticas são radicalmente
deslegitimadas e cujo status sub-humano significa que negociações políticas
nunca serão necessárias.
Dentro da Guerra ao Terror, a construção de zonas cinzentas jurídicas e
geográficas como meio de justificar a suspensão das normas da lei internacional
também encontra um precedente direto na prática israelense nos Territórios
Ocupados. Aqui, de acordo com Darryl Li, “Israel realiza uma campanha
assídua para negar a aplicabilidade da lei internacional aos territórios, em
especial no que ela interfere nos processos de engenharia demográfica”[49].
Hajjar proporciona uma discussão especialmente esmiuçada sobre as
similaridades das práticas estado-unidenses e israelenses aqui. Ela escreve:
“Comparando as legalidades alternativas dos Estados Unidos e de Israel, pode-
se encontrar algumas semelhanças claras” na justificativa legal detalhada para o
Estado de exceção e a irrelevância da legislação humanitária internacional
(LHI). Hajjar enfatiza que a descrição do Estado de Israel do status da
Cisjordânia e da Faixa de Gaza como sui generis, a fim de garantir que a LHI
não se aplique de fato, é legalmente indistinguível das afirmações dos Estados
Unidos de que essa lei era inaplicável quando da invasão do Afeganistão por se
tratar de um “Estado falido”[50]. Ela também destaca que tanto o governo dos
Estados Unidos quanto o de Israel muitas vezes defenderam que o fato de seus
inimigos não terem Estado automaticamente significa que eles não têm
nenhum direito sob a LHI. Em ambos os casos, é um artifício jurídico usado
para legitimar o encarceramento em massa sem julgamento. Além do mais,
ambos os Estados fazem uso de leis nacionais para autorizar práticas legais que
infringem as regras e normas da LHI, uma forma de “domesticar” a lei
internacional com fins questionáveis[51].

Israel e a “palestinização” do Iraque


No fim de 2003, quando a tarefa militar dos Estados Unidos no Iraque
rapidamente se transformava do simples desafio de destruir forças militares
oficiais infinitamente inferiores para o desafio de pacificar complexas
insurgências urbanas, o envolvimento direto de Israel na formatação da
doutrina, dos armamentos e do pensamento militar das forças de ocupação
estado-unidenses aumentou de maneira considerável – com retornos
proporcionais para a economia israelense. Como Hajjar afirma: “O que de
início foi chamado de ‘conflito armado convencional’ se tornou um ‘conflito de
contrainsurgência’ que passou a ter semelhanças marcantes com as operações de
Israel na Segunda Intifada”[52]. Makram Khoury-Machool descreve esse
processo como a palestinização do Iraque[53].
Em uma análise detalhada das lições das práticas israelenses para as forças
especiais dos Estados Unidos, o pesquisador omas Henriksen, da Hoover
Institution, é inequívoco quanto à imitação direta da política de Israel no
desenvolvimento da estratégia, da doutrina e do armamento estado-unidenses
para a Guerra ao Terror:

As ações militares da Força de Defesa de Israel foram – e são – um cadinho para métodos,
procedimentos, táticas e técnicas para os Estados Unidos, que agora enfrentam um adversário
igualmente fanático do outro lado do mundo na Guerra Global ao Terror. [As experiências
israelenses] oferecem um registro histórico e um laboratório para táticas e técnicas para
empreender contrainsurgências ou operações antiterroristas no contexto dos Estados Unidos
pós-11 de Setembro.[54]

Em agosto de 2004, enquanto complexas insurgências explodiam nas


cidades iraquianas, Toufic Haddad pôde observar que “as técnicas estado-
unidenses no Iraque” já eram “inconfundivelmente semelhantes àquelas usadas
por Israel nos Territórios Ocupados em 1967”[55]. Para ele, isso se devia “à
ativa cooperação entre consultores militares israelenses e os estado-unidenses
no território”. Seu diagnóstico de similaridades foi de fato impressionante, e
merece ser reproduzido na íntegra aqui:

O uso de técnicas agressivas de guerra urbana com ênfase em unidades especiais, buscas de casa
em casa, campanhas de detenção em grande escala (quase 14 mil iraquianos estão hoje na
cadeia) e tortura; a criação de um sistema elaborado de torres de guarda, bases militares, pontos
de checagem, arame farpado e trincheiras para monitorar, controlar e restringir o transporte e a
movimentação; a evacuação de vastas áreas de terra próximas a estradas; o uso de tratores
blindados para destruir a casa de militantes suspeitos; a aniquilação de campos inteiros nos
quais militantes possam buscar refúgio; o aumento da relevância de atiradores de elite e drones
não tripulados; e a tentativa de criar redes de colaboração para obter informação da população
local sobre atividades de resistência – tanto militares quanto políticas.[56]

Na esteira do argumento disseminado de que as insurgências urbanas no


Iraque significavam que as forças estado-unidenses estavam de fato enfrentando
uma versão potencializada da Segunda Intifada, a US Army War College
[Faculdade de Guerra do Exército dos Estados Unidos] realizou uma grande
oficina chamada “Shifting Fire” [Ajuste de Ângulo de Disparo, em tradução
livre] em 2006. Seu objetivo explícito era examinar a experiência de Israel nos
Territórios Ocupados de modo a extrair lições para os Estados Unidos sobre os
desafios de administrar a propaganda política e outras “operações de
informação” em uma guerra de contrainsurgência. O conflito entre Israel e
Palestina foi até usado como “procurador” para a invasão estado-unidense do
Iraque, porque

possibilitava um debate mais livre das questões-chave e evitava colocar os participantes na


posição de ter de discutir especificamente operações lideradas pelos Estados Unidos ou os
aspectos mais políticos da atual diretriz desse país no Iraque e no Afeganistão.[57]

Dividir e governar
A imitação estado-unidense das práticas israelenses tem uma relação
próxima com o status da Faixa de Gaza pós-retirada como uma espécie de
laboratório das forças militares israelenses para novas técnicas de controle,
pacificação e guerra de contrainsurgência – sem ocupação – urbanos. Gaza se
tornou um “espaço onde Israel testa e refina diversas técnicas de administração,
fazendo experiências contínuas em busca do equilíbrio ideal entre controle
máximo sobre território e responsabilidade mínima por sua população não
judaica”, escreveu Darryl Li[58]. A Faixa de Gaza é especialmente interessante
para as forças dos Estados Unidos porque a estratégia de Israel ali se baseia na
ideia de “controle a distância” por meio de fronteiras militarizadas, invasões
sucessivas, ataques assassinos e monitoramento aéreo, em vez do controle pela
presença contínua de exércitos de ocupação. “O cerco na Faixa de Gaza é
realizado com menor efetivo militar e menor ‘fricção’ (isto é, contato direto)
com a população civil, implicando menor exposição a ataques e menor
potencial para publicidade negativa”, escreve Li[59]. Depois da construção da
barreira divisória na Cisjordânia, existem evidências de que Israel está tentando
instigar um regime de controle como o de Gaza ali, transformando cada
enclave palestino em uma “mini-Gaza” sob uma abordagem muito mais
hermética em relação ao “cerco”.
Não resta muita dúvida de que as tentativas estado-unidenses, no começo
de 2007, de reconstruir à força as geografias urbanas de Bagdá e outras cidades
problemáticas do Iraque, a fim de reduzir as oportunidades de insurgentes se
movimentarem e realizarem ataques, tinham influência direta da experiência
israelense nos Territórios Ocupados. Algumas cidades foram completamente
cercadas por arame farpado e muralhas. Documentos de identificação
biométricos se tornaram obrigatórios para todos os adultos. Finalmente,
enormes complexos urbanos murados, com “zonas-tampão de segurança”
associadas, foram instituídos em 30 dos 89 distritos oficiais de Bagdá como um
prelúdio para a limpeza étnica de cada um[60].
omas Henriksen, da Hoover Institution, admite que as forças estado-
unidenses no Iraque copiaram diretamente a experiência de Israel com postos
de controle[61]. O autor comenta que “eles se provaram eficazes, assim como as
patrulhas rodoviárias, para limitar o terrorismo. Assim, uma quase saturação do
território parece eficaz”. No entanto, ele também admite que houve problemas
em “expandir” a doutrina israelense, desenvolvida nas cidades pequenas e de
alta densidade demográfica em Gaza, para as geografias urbanas muito maiores
e mais complexas do Iraque[62].
Nas cidades e nos distritos urbanos recém-cercados do Iraque, os civis logo
se viram vivendo no que Robert Fisk chamou de “uma prisão de ‘população
controlada’”. Para ele, assim como nos Territórios Ocupados, essas ideias de
segurança “exigem colocar [a população supostamente ameaçadora] atrás de
um muro”. Isso, por sua vez, requer sua própria geografia de “zonas-tampão de
segurança” evacuadas, por meio das quais separações artificiais podem ser
impostas em complexas geografias urbanas. A melhor maneira de proteger uma
barreira, Li explica,

é por meio de uma “zona-tampão” deserta, cujo vazio permite que poucos soldados monitorem
áreas relativamente vastas e reajam com rapidez, firmeza e intensidade a quaisquer supostos
invasores, enquanto se encontram protegidos por posições fortificadas.[63]

Quando as “zonas-tampão” ou “de segurança” estão “evacuadas”, escreve Li,


“elas se tornam efetivamente áreas de ‘tiro livre’”. Nos Territórios Ocupados,
“os palestinos adentram [essas áreas] por sua conta e risco, e dezenas, se não
centenas, morreram ao fazer isso”[64].
Essa divisão das cidades e dos distritos urbanos iraquianos pelas forças
estado-unidenses inevitavelmente ecoa a construção de enormes barreiras de
concreto na Cisjordânia e as fronteiras cada vez mais militarizadas e as zonas de
“atirar para matar” dentro e ao redor da Faixa de Gaza. Postos de controle,
zonas-tampão, documentos de identificação obrigatórios, punições coletivas,
encarceramentos em massa sem julgamento, prisão de parentes de suspeitos e a
destruição associada de paisagens e construções consideradas abrigos de
inimigos – todos esses são sinais diretos de imitação da política israelense
(enquanto também trazem à tona guerras de contrainsurgência anteriores na
Argélia, no Vietnã e em outros lugares).
Essas semelhanças não passaram despercebidas aos residentes urbanos do
Iraque, quando encontraram essas novas geografias “de segurança” familiares,
mas chocantes. “Não vejo diferença entre nós e os palestinos”, gritou um
homem chamado Tariq para Dexter Filkins, repórter do New York Times, em
dezembro de 2003. “Nós não esperávamos nada desse tipo depois que Saddam
caiu.”[65] Reidar Visser foi especialmente crítico da maneira como o
arquipélago de enclaves cercados estabelecido em 2007 reafirmou a identidade
e a violência sectária, em vez de trabalhar contra elas:

Quando os ocidentais vão entender que a maior parte dos iraquianos – com exceção de muitos
curdos e alguns poucos parlamentares barulhentos de outras comunidades – vê o sectarismo
como uma perversão, e não como uma base legítima para organizar o país política e
administrativamente?[66]

É um tanto bizarro que a justificativa dos Estados Unidos para as políticas


anti-insurgência pós-2007 de murar e cercar cidades e distritos urbanos inteiros
reflita uma fantasia geográfica antiga, um bumerangue foucaultiano: o uso, por
parte dos colonizadores, de uma terminologia extraída de suas cidades de
origem para justificar o planejamento militar nas cidades que colonizam. Em
um artigo de setembro de 2006 para a Army Magazine, por exemplo, Dennis
Steele escreveu sobre a cerca de arame farpado ao redor da cidade iraquiana de
Taramiyah. Discutindo a obrigatoriedade de os residentes usarem identificações
biométricas para passar pelo único posto de controle da cidade, ele deixa de
mencionar as semelhanças com a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Em vez disso,
o autor sugere que a cidade tinha se tornado uma “comunidade fechada” que,
como diversas áreas residenciais afluentes nos limites de cidades dos Estados
Unidos, estava se beneficiando de uma característica altamente desejável –
segurança. Para ele:

é a versão iraquiana de uma comunidade fechada – sem imóveis de luxo, sem piscinas no
quintal, sem clube de campo, mas com o mesmo propósito: manter os maus elementos do lado
de fora e dar à comunidade uma sensação de segurança.[67]

Letalidades “não letais”


Considerando que o novo urbanismo militar tende a empregar forças
militares de alta tecnologia contra massas vastas e densas de civis, a cooperação
entre os Estados Unidos e Israel também se estende para o campo em ascensão
das chamadas armas não letais. Pretensamente, esses sistemas – que estão
rapidamente sendo adotados por forças militares, policiais e híbridos de força
militar e policial – são criados para facilitar o controle de populações urbanas
em massa e para dispersar protestos sem resultar na morte de civis. A suposta
“função desses armamentos é deter, confinar, tirar de atividade, paralisar,
confundir, interromper, neutralizar, distrair, dispersar, isolar, tirar do foco ou
impedir a entrada de pessoas ou veículos [em uma determinada área]”, nas
palavras de Ro’i Ben-Horin[68].
As forças estado-unidenses e israelenses já colaboram intensamente entre si
para o desenvolvimento de uma vasta gama dessas “armas não letais”.
Invertendo a mão do processo em que os Estados Unidos adotam as
tecnologias de guerra urbana de Israel, as forças israelenses estão cada vez mais
decididas a se beneficiar dos principais programas estado-unidenses de pesquisa
conduzidos pelo Joint Non-Lethal Weapons Directorate (JNLWD) [Diretório
Conjunto de Armas Não Letais], do Pentágono. Considera-se que as forças de
Israel requerem o que o Jaffe Center for Strategic Studies chama de “‘cesto’ de
meios não letais”. Como se pode imaginar, esse cesto não é feito de vime – ele
inclui irritantes substâncias malcheirosas, ruídos, infravermelho e ultrassom,
agentes indutores de vômito, luzes estroboscópicas, bombas de efeito “moral” e
“projéteis não penetrantes”[69].
Além da cooperação para o desenvolvimento dessas armas “não letais”,
tanto os Estados Unidos quanto Israel hoje em dia fazem uso rotineiro de
armas muito similares em suas operações de guerra urbana ou de “baixa
intensidade”. Ambos, por exemplo, agora usam as chamadas armas sônicas, que
emitem feixes de som tão altos que tornam a presença prolongada em uma área
definida insuportavelmente atordoante e nauseante. Essas armas “podem causar
danos irreversíveis ao aparelho auditivo”[70]. O sistema israelense –
adequadamente chamado de “O Grito” – tem sido amplamente usado contra
pessoas que protestam contra a construção do muro de separação na
Cisjordânia[71]. O equivalente estado-unidense – o dispositivo acústico de
longo alcance – foi amplamente usado no Iraque, bem como na Califórnia e na
Nova Orleans pós-Katrina. Para que fique claro como essas novas armas estão
sendo usadas em todo um espectro de “operações urbanas” em território
nacional e estrangeiro, foi relatado em junho de 2008 que a polícia britânica
estava usando um dispositivo semelhante em Polzeath, um pequeno vilarejo da
Cornualha, para impedir grupos de adolescentes em férias de se reunir. O
sistema – o “Mosquito” – faz uso deliberado de uma frequência que só pode ser
ouvida por jovens[72].

Guerras de tratores
As forças estado-unidenses também foram muito além de imitar a doutrina
israelense ao reformular suas forças de modo que o combate urbano contra
insurgentes se tornasse o modus operandi de fato. Como vimos no capítulo 6, as
forças de Israel e dos Estados Unidos estão colaborando em muitos programas
conjuntos de treinamento de guerra urbana. Esses programas culminaram na
construção, por engenheiros do Exército estado-unidense, de uma cidade
palestina falsa – Baladia – no Negev, na qual ambas as forças militares podem
aprimorar suas habilidades.
Além disso, uma gama cada vez maior de equipamento israelense –
desenvolvido para amparar a doutrina de incursões profundas em cidades
palestinas, combinada com dominação aérea por meio de drones armados e
sistemas de monitoramento – pode ser encontrada nas listas de compras dos
exércitos dos Estados Unidos e de outros países ocidentais. Barbara Opall-
Rome, correspondente do Defense News, escreveu sobre uma conferência em
Tel-Aviv em março de 2004 que essas compras, ainda que em geral ocultas em
uma nuvem de sigilo, eram amplas e custosas:

De sensores do tamanho de bolas de tênis que podem ser atirados ou disparados dos rifles de
atiradores no esconderijo de terroristas até dispositivos para combate urbano que atravessam
paredes, equipamentos inventados para as guerras antiterror de Israel na Faixa de Gaza e na
Cisjordânia estão sendo cada vez mais colocados nas mãos dos combatentes estado-unidenses.
[73]

No evento, o major A. P. Graves-Buckingham, da Divisão de Tecnologia


do Laboratório de Combate do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos
em Quantico, declarou que “os israelenses estão muito à frente dos demais em
alguns nichos e campos bem interessantes”[74]. Essas aquisições também estão
levando a parcerias corporativas de pesquisa e desenvolvimento estado-
unidenses e israelenses. A Rafael e a General Dynamics, por exemplo, estão
desenvolvendo em conjunto uma série de mísseis de mão criados
especificamente para destruir construções urbanas, além de novos sistemas de
proteção para veículos de combate nas cidades[75].
A compra mais dramática e amplamente notada de equipamento de guerra
urbana feita pelos Estados Unidos, no entanto, foram doze tratores D9
Caterpillar, os mesmos que criaram tamanho caos no centro de Jenin e de
outras cidades palestinas desde meados dos anos 1990 (e que ficaram famosos
por matar a manifestante pela paz Rachel Corrie na Faixa de Gaza em 2003). A
decisão de comprar os D9s dos israelenses – ou, talvez seja mais correto dizer,
comprá-los de volta, uma vez que o maquinário básico é fabricado nos Estados
Unidos pela Caterpillar – declaradamente ocorreu depois de uma série de
exercícios de treinamento das forças estado-unidenses na base Adam da IDF
perto de Modi’in[76].
Até o momento, as forças dos Estados Unidos no Iraque evitaram
demolições em massa por D9s como as de Jenin, cientes do impacto na
imagem que poderia ser causado por paralelos desconfortáveis com a prática
israelense. Em vez disso, no caso de Fallujah em 2004, elas basicamente
isolaram o centro simbólico da resistência e arrasaram a cidade inteira com
bombardeios e artilharia de massa. No entanto, alguns comentadores militares
estado-unidenses lamentam que não se tenha explorado o poder dos D9s
durante grandes embates urbanos. Escrevendo para uma publicação do
Comando de Operações Especiais Conjuntas dos Estados Unidos em 2007,
omas Henriksen diz:

Mesmo que os tratores tenham funcionado bem em combates urbanos em proximidade, as


forças estado-unidenses no Iraque não recorreram a eles no ataque a Fallujah (novembro de
2004) ou em outros ataques urbanos. Em vez disso, durante a ofensiva em Fallujah, as forças
estado-unidenses contaram com artilharia e intensos ataques aéreos às posições dos militantes,
destruindo assim bairros inteiros. Essa estratégia de tábula rasa induzida por bombardeios mais
tarde resultou em recriminações e reavaliações.[77]

Em lugar disso, os D9s têm sido usados principalmente para limpar


“zonas-tampão” de segurança, obstáculos e bombas de beira de estrada – uma
tarefa essencial para possibilitar que patrulhas estado-unidenses penetrem em
áreas residenciais grandes e densas como Sadr, em Bagdá. Porém, de vez em
quando, táticas que lembram as usadas na Faixa de Gaza ou na Cisjordânia se
tornam evidentes[78].

Dronespaço
A eficiência [da política de assassinato aéreo de Israel] é impressionante. O Estado de Israel
transformou o assassinato preventivo em uma verdadeira arte. Quando uma criança palestina
desenha um céu hoje, ela não o faz sem um helicóptero.[79]

O desenvolvimento, pela CIA e por forças de operações especiais, de


programas de assassinato de alvos na Guerra ao Terror também é uma imitação
direta da política israelense de “prevenção” por meio de execuções
extrajudiciais, em geral por helicópteros ou drones não tripulados, pilotados
remotamente e equipados com mísseis[80]. Graham Turbiville escreveu no
relatório de 2007 já mencionado:
No ambiente de segurança pós-11 de Setembro, o estabelecimento de líderes e núcleos
militares insurgentes e terroristas como alvos das forças e dos recursos de inteligência dos
Estados Unidos avançou de muitas maneiras – algumas relatadas publicamente e visíveis – e foi
acompanhado por sucessos notáveis.[81]

Entre teóricos de operações especiais estado-unidenses, as práticas


israelenses são enaltecidas como dignas de repetição, especialmente quando
ataques assassinos dos Estados Unidos são realizados em territórios de supostos
aliados, como o Paquistão, bem como em território inimigo. Turbiville escreve:

Sem dúvida, a ação [assassina] de Israel contra a Palestina, o Hezbollah e outros líderes
terroristas e infraestruturas de apoio desde a independência constitui o padrão-ouro em razão
do exame operacional e conceitual sistemático que recebeu do governo, das forças militares e
dos órgãos de segurança israelenses.[82]

Embora assassinatos tenham sido explicitamente proibidos por uma norma


do Executivo desde 1977, os Estados Unidos começaram a empregar essa tática
de novo em novembro de 2002[83]. Argumentos à maneira israelense foram
invocados para justificar o assassinato do primeiro alvo, Ali Qaed Sinan al-
Harithi, no Iêmen, por um drone Predator, um ataque que também matou
cinco outras pessoas. Ainda que a ofensiva tenha ocorrido em um país que não
estava em guerra com os Estados Unidos (isto é, o Iêmen), oficiais defenderam
que o assassinato extrajudicial era legítimo porque Harithi era supostamente
membro da Al Qaeda e era impossível prendê-lo[84].
Em dezembro de 2003, os assassinatos por drones estado-unidenses estavam
sendo combinados com ações agressivas das forças de operações especiais na
Síria, na tentativa de matar jihadistas supostamente a caminho do combate no
Iraque. Especialistas de guerra urbana da IDF ajudam a treinar essas forças em
Fort Bragg, na Carolina do Norte[85]. Além de uma forte reação de ativistas
antiguerra e de especialistas em legislação humanitária, alguns oficiais de
inteligência dos Estados Unidos vituperaram tanto a política em si como a
direta imitação de Israel. Um ex-alto oficial de inteligência estado-unidense
comentou com Julian Borger, do Guardian:

É É É
É basicamente um programa de assassinato. É isso que está sendo conceituado aqui. É loucura,
insano. Aqui estamos – já estamos sendo comparados ao [então primeiro-ministro de Israel]
Sharon no mundo árabe, e acabamos de confirmar isso trazendo os israelenses e criando
programas de assassinato.[86]

Ainda assim, em 2008, as forças dos Estados Unidos estavam lançando


com regularidade ataques assassinos semelhantes em território paquistanês e
sírio.
Mais uma vez, a prática israelense na Faixa de Gaza foi um exemplo
fundamental. Depois da retirada de Israel da região em 2005, assassinatos por
drones se tornaram um mecanismo básico para o novo modelo de “controle
externo” sem a ocupação por exércitos permanentes, um modelo que
influenciou de maneira profunda a política estado-unidense. Essas táticas estão
“claramente correlacionadas com o isolamento e a segregação territorial”[87].
No entanto, assassinatos aéreos são apenas um elemento de uma estratégia
muito mais ampla do que os planejadores israelenses chamaram de “dominação
de área urbana” – outra doutrina influente[88]. Aliás, ainda que isso raramente
seja divulgado, os esforços dos Estados Unidos e de Israel no sentido de
aperfeiçoar o drone armado e não tripulado estão muito integrados. As
Indústrias Aeronáuticas Israelenses (IAI), por exemplo, estão desenvolvendo
drones Pioneer para o Exército e a Marinha dos Estados Unidos, e ajudam
empresas estado-unidenses como a TRW Avionics and Surveillance Group na
manufatura de outros drones para as forças militares do país[89].
Em 2007, novos mísseis israelenses desenvolvidos especificamente para
ataques com drones já estavam sendo comprados para equipar a nova geração
de drones armados da França[90]. As forças estado-unidenses, britânicas e
cingapurenses encomendaram drones armados Hermes, fabricados pela empresa
de armas israelense Elbit. O mais controverso é que a Elbit foi agraciada com
um grande contrato do Departamento de Segurança Interna dos Estados
Unidos para patrulhar a fronteira com o México e mirar imigrantes que
passarem por essa zona cada vez mais militarizada[91]. Em 20 de julho de 2004,
a patrulha da fronteira dos Estados Unidos afirmou que tinha havido “42
detenções [de imigrantes] diretamente atribuíveis ao monitoramento por
Vants”[92]. Ainda em 2004 já se estava considerando que essas patrulhas
também seriam estendidas à fronteira dos Estados Unidos com o Canadá.

Ataques a distância para a “Guerra Longa”


A mudança nas práticas tanto de Israel quanto dos Estados Unidos – da
ocupação, uma atividade horizontal, para o monitoramento e os assassinatos
verticais – traz consigo uma nova geometria de ocupação e de definição do
“outro”. Escreve Eyal Weizman:

Assim, a geografia da ocupação desenhou uma volta de noventa graus. O “Oriente” imaginário
– o objeto exótico de colonização – não estava mais além do horizonte, e sim sob a tirania
vertical vinda dos ares da civilização ocidental, que administra de maneira remota seus
sofisticados e avançados sensores, plataformas tecnológicas e munições no alto.[93]

Influenciados pela prática israelense, esses ataques verticais e das forças


especiais são um elemento emergente importante tanto da estratégia quanto
das táticas estado-unidenses. Eles são vistos como perfeitamente adequados
para as Forças Armadas dos Estados Unidos, que buscam desenvolver uma
doutrina para o que o Pentágono, desde 2005, chama de “a Guerra Longa” – o
uso global mais ou menos permanente de ataques preventivos e drones armados
contra supostos adversários, como aqueles realizados no Paquistão e na Síria no
fim de 2008. Argumentos para uma mudança rumo ao “controle a distância”
por meio de ataques, assassinato de alvos e o monitoramento persistente por
drones não tripulados e satélites foram significativamente reforçados pelo
desastroso fracasso da invasão militar do Iraque como um todo.
De acordo com o que Henriksen, da Hoover Institution, escreveu em
2007, “áreas negadas” e “espaços ingovernáveis” – onde “estratégias de
constrainsurgência estado-unidenses” não podem ser utilizadas – agora “se
prestam ao estilo de guerra de Israel”[94]. Ele prevê que

os Estados Unidos podem descobrir que […] precisam despachar comandos de ataques,
capturar terroristas em busca de informações privilegiadas, assassinar líderes diabólicos e atacar
fortalezas insurgentes com poder aéreo, mísseis ou Forças de Operações Especiais a partir de
bases ao redor do globo, em vez de realizar enormes programas de pacificação e esforços para a
construção de nações em terras inóspitas.[95]

Aqui, Henriksen sugere que tanto Israel quanto os Estados Unidos fariam
bem em recorrer à guerra contínua por meio de ataques aéreos “preventivos” e
programas de assassinato de longa distância, em vez de invasões em grande
escala. Sendo assim, para ele, os Estados Unidos precisariam buscar moldar sua
estratégia na de Israel cada vez mais:

[Tanto] a sociedade israelense quanto a estado-unidense dariam maior apoio a contra-ataques


mais contidos, lançados em nome da prevenção, da dissuasão e da retribuição, do que a guerras
ofensivas em grande escala como a intervenção de Israel no Líbano em 1982 ou as invasões do
Iraque e do Afeganistão pelos Estados Unidos.[96]

Vender o Estado de segurança


Não é coincidência que a emergência de Israel como laboratório global de
militarismo e segurança urbanos esteja tão associada ao dramático
renascimento de sua economia nacional. Entre 2000 e 2003, a economia
israelense viveu uma grande recessão. Isso se deveu tanto ao impacto do
colapso global das ações de internet quanto à Segunda Intifada, ou Intifada de
Al Aqsa, que começou em setembro de 2000 e ficou marcada por devastadores
ataques suicidas contra cidades israelenses e outros espaços civis. Escrevendo
em 2003 na Strategic Assessment, a publicação do Centro Jaffee de Estudos
Estratégicos, pró-Israel, Imri Tov caracteriza o começo dos anos 2000 como
“um dos piores períodos econômicos na história do país” e afirma que no ano
em que escrevia “o conflito chegou ao seu auge […], no qual os dois lados
estão tentando exaurir um ao outro”. Tov acreditava que a Intifada tinha
desempenhado um importante papel na criação da recessão de 2003, em
especial por ter causado danos materiais equivalentes a um valor entre 50
bilhões e 60 bilhões de shekels (10-13 bilhões de dólares) até então[97].
No entanto, desde aquela recessão, a economia de Israel, cada vez mais
caracterizada pela alta tecnologia, se direcionou aos desafios de vender sistemas
de segurança e maquinários de guerra urbana de ponta para um mercado
global que cresce em ritmo acelerado, usando em benefício próprio sua
condição de “comprovado em campo de batalha”. Essa abordagem tem sido tão
bem-sucedida que, de acordo com Jane’s Defence Weekly, Israel arrecadou mais
de US$ 3,5 bilhões em vendas de armas só em 2003 e estava exportando armas
e equipamento de segurança no mesmo nível que a Rússia[98]. Em 2004, a
revista Business Week chamou Israel de um dos “centros de inovações em
ascensão” do mundo por causa de sua força em comunicações de alta
tecnologia, chips, softwares e sensores – todos fortemente derivados de pesquisa
e desenvolvimento militares. Entre a retração econômica de 2002 e 2005, o
investimento industrial estrangeiro em Israel cresceu de US$ 1,8 bilhão para
US$ 6,1 bilhões[99].
Se os serviços pós-venda forem incluídos, Israel é hoje o quarto maior
exportador de armas e equipamentos de segurança (se não forem, é o quinto).
O país hoje comercializa o equivalente a US$ 1,2 bilhão em produtos de defesa
e segurança para os Estados Unidos todo ano[100]. A rápida integração dos
setores de tecnologia de segurança israelense e estado-unidense recebeu uma
ajuda poderosa de consideráveis investimentos cruzados e casos de propriedade
cruzada entre indústrias de alta tecnologia em ambas as nações. Israel, por
exemplo, hoje figura mais empresas na bolsa Nasdaq do que qualquer um dos
países desenvolvidos da Europa. Em janeiro de 2008, estavam listadas mais de
75 companhias israelenses, totalizando US$ 60 bilhões em valor[101].
Desde os ataques de 11 de Setembro, e o concomitante aprofundamento
na integração da estratégia israelense aos aspectos de guerra urbana da Guerra
ao Terror, o capital israelense, com considerável apoio dos governos de Israel e
dos Estados Unidos, levou suas capacidades, sua expertise e seus produtos para
além dos mercados mais óbvios que giram em torno da guerra urbana. Esses
aspectos foram habilmente projetados na direção da arena muito mais ampla e
em eterna expansão da securitização global, da guerra securocrática, da
“segurança interna” e do contraterrorismo. Trata-se de uma estratégia
distintamente vantajosa. É tal a infinita variedade das maneiras como os
espaços cotidianos e as infraestruturas das cidades podem ser considerados
inseguros no mundo contemporâneo que quase toda empresa de alta
tecnologia – biotecnologia, computação, telecomunicações, eletrônica, novos
materiais – pode facilmente se projetar como uma empresa “de segurança”.
Em sua fala durante um café da manhã de negócios promovido em
Tacoma, no estado de Washington, em maio de 2007, para estabelecer vínculos
entre indústrias de alta tecnologia de segurança de Israel e dos Estados Unidos,
Bernel Goldberg, diretor executivo do Washington Israel Business Council, foi
inequívoco nessa questão:

Como maior prioridade nacional de Israel, a segurança interna é mais do que apenas uma
commodity de exportação. A autoconfiança de Israel criou uma indústria de segurança
diversificada e de ponta, trazendo inovação para as tecnologias existentes, bem como
desenvolvendo novas tecnologias.

Goldberg também declarou que

Israel obteve seu renome mundial de fornecer as melhores soluções em segurança e continua a
se associar aos principais atores mundiais para proteger aeroportos, portos marítimos, prédios
governamentais, instituições financeiras, centros de recreação, eventos internacionais e mais.
[102]

Empresas israelenses conseguiram usar esse contexto e essa reputação para


se reposicionar melhor e mais rápido do que as empresas de outras nações no
contexto pós-11 de Setembro. Seus sistemas, padrões e práticas estão
emergindo rapidamente como exemplos globais, a serem imitados, copiados ou
apenas comprados. Como resultado, “o longo histórico de gastos públicos de
Israel na guerra ao terror produziu padrões, metodologias e conceitos que só
agora estão emergindo ao redor do mundo”[103].
Essas tendências melhoraram de modo dramático a lucratividade das
indústrias de tecnologia e defesa de Israel[104]. Em fevereiro de 2008, o Israel
High-Tech Investment Report pôde relatar que

depois da guerra no Líbano em 2006, Israel viveu um de seus melhores anos econômicos.
Investimentos de capital de risco chegaram aos montes e podem alcançar US$ 1,7 bilhão.
Investimentos estrangeiros foram fortes. A Bolsa de Valores de Tel-Aviv subiu quase 30%. O
ano de 2007 ficou marcado como aquele em que Israel se tornou o quarto maior fornecedor de
defesa do mundo.[105]
Um exemplo global
De fato, a própria identidade e a “marca” israelense associadas às novas
técnicas e tecnologias de militarização urbana têm sido um grande argumento
de venda. Como observa Naomi Klein:

Muitos dos empreendedores mais bem-sucedidos do país [agora estão] usando o status de Israel
como um Estado fortificado, cercado por inimigos furiosos, como uma espécie de showroom
24 horas – um exemplo vivo de como gozar de relativa segurança em meio à guerra constante.
[106]

Para os visitantes, esse “showroom” é a essência do urbanismo


hipermilitarizado – uma visão da vida urbana em que cada movimento, cada
ação, requer escrutínio e a negociação de pontos de passagem arquitetônicos ou
eletrônicos para provar o direito de acesso de alguém. Aliás, a sociedade urbana
israelense inteira incorporou todo tipo de arquitetura de segurança e de prática
de intense profiling[b] que em geral são reservadas a aeroportos e as generalizou
para todo um sistema de cidades e infraestruturas cotidianas. Um relatório da
Future Warfare Series, da Força Aérea dos Estados Unidos, avaliando as lições
que os Estados Unidos podem aprender com Israel, destaca que, neste país,

quase todos os restaurantes de alto nível têm segurança privada na entrada, incluindo
detectores de metal e sensores de bombas. Todos os prédios públicos, incluindo shopping
centers e estações de trem e ônibus, têm guardas armados e detectores de metal nos portões.
[107]

Uma brochura promocional do governo israelense sobre a indústria de


segurança interna (HLS [na sigla em inglês]) argumenta que essa experiência
coloca a nação “na vanguarda das indústrias globais de segurança e de HLS”.
Ela afirma que essas indústrias “foram desenvolvidas para servir uma nação
forçada a lutar por sua existência e a se manter vigilante contra ameaças
contínuas”; por isso, “sistemas e soluções de segurança feitos em Israel foram
testados repetidas vezes”. O resultado, continua o texto promocional, é que “de
sua perspectiva única, os fabricantes de HLS e de segurança do país adquiriram
uma experiência incomparável e um renome mundial no desenvolvimento de
soluções de segurança de ponta”[108].
Assim, Israel conseguiu orientar suas técnicas de hipermilitarização de
modo a acompanhar e explorar as tendências globais de militarização de
espaços, infraestruturas e locais cotidianos. Os principais mercados aqui não
são meramente as tecnologias mais formais de controle e extermínio: fronteiras
militarizadas, drones não tripulados, armas desenvolvidas para uso em densas
áreas urbanas, mísseis para assassinato preventivo. Em vez disso, incluem todo
um leque de monitoramento urbano e guerra securocrática – softwares de
identificação de passageiros, biometria, câmeras de rua “inteligentes”, sistemas
para postos de controle – “exatamente as ferramentas e tecnologias que Israel
usa para confinar os territórios ocupados”[109].
Empresas israelenses como a Rafael enfatizam que sistemas urbanos
cotidianos agora são espaços de “conflito de baixa intensidade” que exigem
uma securitização radical (que usem sua expertise e tecnologia, claro). A
brochura de marketing “de soluções de segurança nacional antiterror”
prossegue:

Em situações de guerra, os sistemas Rafael oferecem uma defesa contra forças militares intrusas
e unidades terroristas e de inteligência. Em tempos de paz, esses sistemas impedem que
imigrantes ilegais, contrabandistas, traficantes de drogas e terroristas atravessem a fronteira.
[Em conflitos de baixa intensidade, essas] tecnologias funcionam como um escudo contra a
intrusão de unidades de espionagem ou terroristas. Também oferecem identificação inteligente
de pedestres, veículos e cargas em postos de controle fronteiriços.[110]

Em 2006, pela primeira vez, empresas israelenses exportaram mais do que


o equivalente a US$ 1 bilhão em equipamentos e serviços criados
especificamente para necessidades de segurança interna – 20% a mais do que
em 2005. David Arziof, diretor do Instituto de Exportação de Israel (IEI), um
órgão governamental, estimou que as exportações aumentariam mais 15% em
2007[111]. O mercado estado-unidense de segurança interna, de US$ 39
bilhões, se avulta nessas exportações em crescimento, assim como se avultou o
crescimento global projetado dos mercados de segurança interna: de US$ 46
bilhões em 2005 para US$ 178 bilhões em 2015 (em que os Estados Unidos
representam metade do mercado global)[112].
Joint ventures
Complexas joint ventures entre empresas e governos centrais e locais estado-
unidenses e israelenses estão emergindo. O objetivo é aumentar a integração
entre companhias de segurança dos dois países e generalizar de modo lucrativo
a experiência de Israel. Movida pela percepção de que “os Estados Unidos,
assim como toda a comunidade internacional, têm muito a aprender com os
esforços de Israel na arena da segurança nacional”[113], a HR 3871 – a Lei da
Fundação de Segurança Nacional Estados Unidos-Israel – foi apresentada em
março de 2004 na Câmara dos Deputados estado-unidense. Esse projeto
propunha “alocar US$ 25 milhões para pesquisa e desenvolvimento de novas
tecnologias de segurança interna a serem conduzidos em conjunto por
empresas estado-unidenses e israelenses”[114]. Os principais objetivos do
projeto são desenvolver novos produtos de segurança para os mercados de Israel
e dos Estados Unidos e estimular empresas de segurança nos dois países a lidar
com os mercados globais e atingir “efeitos econômicos positivos em ambos os
Estados”[115].
Outro esforço relacionado surgiu da Fundação de Ciência e Tecnologia
EUA-Israel (Usistf [na sigla em inglês]), uma organização conjunta estado-
unidense e israelense fundada para promover o desenvolvimento de alta
tecnologia. Em 2004 ela criou uma iniciativa para incentivar empresas nos
Estados Unidos e em Israel a desenvolver sistemas de segurança novos e
abrangentes para proteger prédios e infraestruturas fundamentais[116].
Governos locais nos Estados Unidos também veem no registro de empresas
de segurança israelenses uma maneira de reforçar seu próprio desenvolvimento
econômico como espaços férteis de pesquisa e desenvolvimento nas lucrativas
indústrias de segurança em ascensão. Em janeiro de 2008, por exemplo, a
autoridade de desenvolvimento econômico local para o condado de Fairfax,
Virgínia – uma área dentro da enorme concentração de capital de defesa e
segurança estado-unidense ao redor de Washington, DC –, recebeu uma
delegação de altos representantes das principais empresas de defesa e segurança
de Israel. Esse evento “de alcovitagem”, financiado em parte pelo Instituto de
Exportação de Israel, foi “um evento criado para demonstrar as tecnologias
israelenses e as oportunidades de estabelecer sociedade com sistemas de
integração, empreiteiras, investidores e outros parceiros em potencial nos
Estados Unidos”[117]. Eventos semelhantes ocorreram em 2007 na
Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles e em Maryland.
O objetivo declarado da conferência de Fairfax era convencer as principais
empresas israelenses a estabelecer escritórios estado-unidenses na região (para se
somar às 65 que, em 2007, já tinham filiais em e ao redor de Washington, DC)
e instigá-las a firmar joint ventures com empresas estado-unidenses com base
ali. Gerald Gordon, presidente e CEO da autoridade de Fairfax, descreveu a
lógica com clareza:

A segurança nacional abrange uma gama tão enorme de serviços, considerando a necessidade
de proteger nosso espaço aéreo e nossas fronteiras terrestres e aquáticas. Não temos experiência
suficiente para cobrir tudo [nos Estados Unidos], e Israel deve ser o primeiro lugar a se
procurar por isso. Por causa das fortes alianças entre os dois países, a conferência ganha uma
segunda camada sobre como se envolver com contratos governamentais.[118]

As empresas israelenses presentes no evento em Fairfax demonstram até


que ponto a experiência detalhada de securitização e repressão nos Territórios
Ocupados está no coração do empenho global de Israel em ser o exemplo
mundial de urbanismo militar. A DefenSoft™ Planning Systems, por exemplo,
promove sua experiência incomparável de “planejamento de zonas de
proteção”. Um contrato recente cobrindo “aeroportos, portos marítimos,
campi industriais, zonas urbanas e outros espaços de infraestrutura urbana”
envolveu o planejamento do uso de novos sensores ao redor da Faixa de
Gaza[119]. A Mate-CCTV, que recebeu subsídios da Fundação de Pesquisa e
Desenvolvimento Industrial Binacional de Israel e dos Estados Unidos, oferece
“monitoramento inteligente por vídeo”, incluindo uma função automatizada
de “observação de comportamento”. A especialidade da Suspect Detection
Systems é um sistema que, de acordo com os fabricantes, automaticamente
“identifica más intenções em controles de fronteira e outros postos de
controle”[120].
Essas joint ventures já estão garantindo grandes contratos no setor de
securitização estado-unidense e global. A empresa israelense Elbit, por
exemplo, está trabalhando com a Boeing sob um controverso contrato do
Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos. O objetivo é
construir um sistema de monitoramento de alta tecnologia ao longo da
fronteira com o México, local que está em rápida militarização, usando sua
experiência em “proteger as fronteiras de Israel” para “garantir a segurança dos
estado-unidenses”[121]. O presidente da Elbit, Tim Taylor, declarou que

as forças estratégicas e tecnológicas que trazemos para o projeto vão ajudar a restaurar a
segurança e a proteção que os estado-unidenses conheceram por tanto tempo. Detectar
ameaças ao longo de cerca de 9.650 km de fronteira nos Estados Unidos não é tarefa para
experimentações.

O “atirar para matar” se torna global


Com a difusão global dos equipamentos e serviços israelenses para
securitização e militarização urbanas, outra imitação da doutrina antiterror de
Israel está em andamento. Em 2005 veio à tona que a Polícia do Capitólio em
Washington, DC, tinha se tornado o primeiro departamento de polícia do país
a adotar a política de “atirar para matar” para lidar com suspeitos de serem
homens-bomba. Isso se associava à doutrina de “reconhecimento de padrão de
comportamento”, concebida como meio de “identificar e isolar o tipo de
comportamento que pode preceder um ataque”[122]. Tanto a política de atirar
para matar quanto as técnicas de reconhecimento de padrão de
comportamento têm uma longa história em Israel, e desde 2001 especialistas
israelenses têm treinado agentes da lei e de segurança mundo afora em sua
implantação.
A International Association of Chiefs of Police (IACP) [Associação
Internacional de Chefes de Polícia], uma organização global que apoia o
treinamento e a cooperação entre polícias, tem sido fundamental nessa rápida
difusão internacional da doutrina israelense no que diz respeito a atirar para
matar e ao reconhecimento de padrão de comportamento. No dia seguinte aos
devastadores ataques suicidas no metrô e nos ônibus de Londres, a IACP
lançou suas diretrizes para lidar com potenciais homens-bomba, instruindo
“policiais a procurar determinadas características comportamentais e físicas,
semelhantes àquelas identificadas nas orientações de reconhecimento de padrão
de comportamento”. Também promoveu “o uso de força letal, encorajando
agentes a mirar a cabeça do suspeito e atirar para matar”. A IACP realizou uma
série de eventos de treinamento em Israel para possibilitar que agentes da lei
dos Estados Unidos e do Reino Unido aprendessem essas práticas[123].
As implicações dessa imitação emergiram durante as investigações que se
seguiram ao assassinato de um jovem brasileiro, Jean Charles de Menezes, na
estação de metrô de Stockwell, em Londres, pela polícia antiterrorismo em 22
de julho de 2005. No escândalo subsequente, tornou-se muito evidente a que
ponto a política contraterrorista israelense de atirar para matar tinha se
difundido em outros Estados.
Ao lidar com a nova ameaça de atentados suicidas depois dos ataques do 11
de Setembro, a Polícia Metropolitana de Londres logo introduziu nas práticas
de policiamento civil a ideia altamente militarizada de força letal preventiva.
Barbara Wilding, à época assistente do chefe de polícia e chefe do grupo da
polícia metropolitana encarregado de homens-bomba, revelou que, depois do
11 de Setembro, o grupo “logo visitou Israel, o Sri Lanka e a Rússia” em busca
de políticas a serem reproduzidas. A divisão antiterrorismo da polícia
metropolitana de Londres então desenvolveu sua própria reação, “baseada
principalmente na experiência da polícia de Israel, que é instruída a atirar na
cabeça em caso de [um suposto] perigo iminente à vida”. Essa política foi
chamada Kratos, que significa “força” ou “resistência”, em homenagem ao
mítico herói espartano. Sem debate, o Parlamento Britânico a aprovou em 22
de janeiro de 2005[124].

Economias de guerra permanente


Claramente, Israel não tem mais motivo para temer a guerra.[125]

Como este capítulo demonstrou, está em curso a integração entre


complexos industriais-de segurança e complexos industriais-militares de Israel e
dos Estados Unidos. Ainda mais do que isso, os emergentes complexos
industriais-militares-de segurança das duas nações estão umbilicalmente
unidos, a ponto de hoje ser razoável considerá-los uma única entidade
diversificada e transnacional.
Alimentados pelas ideologias similares de guerra permanente de ambos os
Estados – dentro dos conceitos infinitamente flexíveis e extensíveis de guerra
antiterror –, os processos de exemplificação, experimentação, imitação e
justificação estão, por sua vez, consolidando ainda mais as economias de guerra
permanente de Israel e dos Estados Unidos. Os complexos industriais-
militares-de segurança de ambos os países hoje se concentram em expandir o
domínio econômico corporativo por meio da permanente transformação de
civis e de espaços infraestruturais e urbanos cotidianos em alvo. Enquanto isso,
a ampla privatização, o neoliberalismo e a fragmentação social estão reduzindo
radicalmente os benefícios sociais tanto de cidadãos quanto de soldados[126].
A bolha industrial de segurança dos Estados Unidos e de Israel – um raro
ponto de crescimento em meio a uma retração econômica global – se baseia
firmemente na generalização de doutrinas e tecnologias forjadas durante o
longo confinamento e repressão das cidades palestinas pelas forças militares e
de segurança israelenses. Assim, existe o perigo de o hipermilitarismo urbano
israelense ser normalizado em escalas transnacionais, levado pela Guerra ao
Terror estado-unidense enquanto esta ataca cidades e a vida citadina cotidiana
em território doméstico e estrangeiro. No fim, a economia israelense se
beneficia enormemente, enquanto Israel adquire o status de exemplo sem igual
da tendência global de securitização e militarização urbanas.
Três pontos são dignos de ênfase aqui. O primeiro, os exemplos israelenses
oferecidos, vendidos e mobilizados – tecnologias não apenas físicas, mas
também arquitetônicas de controle; novos meios eletrônicos de detecção,
monitoramento, ataque, cerceamento, encarceramento e assassinato; além das
instâncias reveladoras de seus usos apresentados aqui. Eles demonstram o que
acontece quando uma força militar define como seus adversários e alvos a
população civil comum de cidades e se mobiliza de modo permanente contra
eles, movida por ideologias encapsuladas em termos como guerra “assimétrica”,
“de baixa intensidade” ou “de quarta geração”, ou “operações militares fora do
contexto de guerra”. Inevitavelmente, o resultado é a alavancagem da
militarização e, mais importante, a negação ou eliminação sistemática de
possibilidades, reações e políticas que não envolvam ação, controle e expansão
de forças militares e de segurança.
Em segundo lugar, diferentemente da retórica tanto de Israel quanto dos
Estados Unidos, esses exemplos de novo urbanismo militar não estão sendo
mobilizados para vencer uma guerra. Em vez disso, como defende Naomi
Klein, sua generalização e circulação servem primariamente para corroborar
uma nova estrutura político-econômica que a autora chama de “complexo do
capitalismo de desastre”[127]. Tal constelação se beneficia da representação de
tudo e de todos como alvos – permanentemente. E lucra com a tábula rasa
geográfica e o quadro político-econômico limpo que resultam da guerra e do
colonialismo urbicidas. Ela também garante lucros consideráveis e a exploração
enorme de recursos, possibilitados por guerras e catástrofe social. Klein escreve:

Essa receita de guerra mundial infinita é a mesma que o governo Bush ofereceu como
perspectiva de negócios para o complexo capitalista do desastre emergente depois do 11 de
Setembro. Não é uma guerra que pode ser vencida por qualquer país, mas vencer não é o
objetivo. O objetivo é promover a “segurança” dentro de Estados fortificados, reforçada por
infinitos conflitos de baixa intensidade fora de seus muros.[128]

A preocupação de Klein é que “Bagdá, Nova Orleans e Sandy Springs


ofereçam lampejos do tipo de futuro confinado construído e administrado pelo
complexo do capitalismo de desastre” – ou seja, que esses novos complexos
urbanos militarizados se tornem ainda mais generalizados. Mas, como este
capítulo demonstrou, e como a própria Klein parece concordar, é a situação de
Israel e da Palestina que proporciona os maiores exemplos, modelos e ideias por
trás do novo urbanismo militar, uma vez que ali

um país inteiro se transformou em uma comunidade fechada e fortificada, cercada por um


povo confinado vivendo em zonas de exclusão permanentes […]. Na África do Sul, na Rússia e
em Nova Orleans, os ricos constroem muros ao redor de si mesmos. Israel levou esse processo
de descarte [dos pobres urbanos] um passo além: construindo muros ao redor dos pobres
perigosos.[129]

No entanto, as conexões profundas e recíprocas entre o complexo do


capitalismo de desastre de Israel e o dos Estados Unidos significam que,
embora mais extremado, Israel não está sozinho. Em vez disso, como vimos,
toda uma gama de empreendimentos conjuntos, missões comerciais
ultramarinas, intercâmbios de treinamento, exercícios e imitações legais,
políticas e militares significam que o “caso extremo” de confinamento nacional
em Israel e na Palestina está em vias de ser exportado e transformado em algo
normal. Aliás, o perigo é que o complexo de segurança-militar de Israel esteja
perdendo sua peculiaridade, conforme é absorvido por circuitos transnacionais
de investimento, propriedade, exemplificação e parceria econômica.
O terceiro ponto envolve as consequências do papel central desempenhado
pela experiência militar, tecnológica e política israelense no contexto da
mudança global em direção ao novo urbanismo militar. Precisamos insistir
nesse ponto por causa da força central que sustenta a disseminação global dos
modelos israelenses de urbanismo militar: o poder consolidado e sem igual do
lobby de Israel na conformação da política externa dos Estados Unidos. Para
John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, e seu colega Stephen Walt, da
Escola Kennedy de Governo da Universidade Harvard, o lobby de Israel nos
Estados Unidos foi um fator-chave na desastrosa política externa da
administração Bush. Os autores escreveram em 2006 que

O ímpeto geral da política dos Estados Unidos na região [Oriente Médio] se deve quase
inteiramente às políticas internas da nação e, em especial, às atividades do “lobby de Israel”.
[…] A tentativa [resultante] de transformar a região em uma comunidade de democracias
ajudou a produzir uma insurgência resiliente no Iraque, um forte aumento nos preços
mundiais de petróleo e [em 2006] bombardeios terroristas em Madri, Londres e Amã.[130]

Mearsheimer e Walt também enfatizam que, longe de enfrentar um grupo


unificado de inimigos “malignos”, Israel e os Estados Unidos na verdade
enfrentam ameaças terroristas muito diferentes.

As organizações terroristas que ameaçam Israel (por exemplo, o Hamas ou o Hezbollah) não
ameaçam os Estados Unidos, exceto quando esse país intervém contra eles (como no Líbano
em 1982). [Acima de tudo], o terrorismo palestino não é uma violência aleatória direcionada
contra Israel nem contra “o Ocidente”; é, em grande parte, uma reação à prolongada campanha
israelense para colonizar a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.[131]

Finalmente, há poucas dúvidas de que o tratamento dispensado pelos


Estados Unidos a Israel é um catalisador poderoso, talvez o mais poderoso,
para o recrutamento islâmico. “O apoio incondicional dos Estados Unidos a
Israel facilita para extremistas como Bin Laden mobilizar apoio popular e atrair
recrutas”, defendem Mearsheimer e Walt[132]. Tornando-se inescapavelmente
cúmplices dos crimes perpetrados contra civis palestinos nos cercos coloniais
israelenses à Cisjordânia e a Gaza, os Estados Unidos também enfrentam uma
batalha impossível de vencer contra a opinião pública no mundo árabe.

[1] O título deste capítulo vem de um artigo meu: “Lessons in Urbicide”, New Left Review, n. 19, 2003,
p. 63-77. O conteúdo aqui, porém, é uma extensão radical daquele texto, que se concentrava apenas nas
consequências das operações militares israelenses em Jenin que fizeram parte da Operação Escudo de
Defesa em 2002.
[2] Edward Said, “ e Imperial Bluster of Tom Delay: Dreams and Delusions”, Counter Punch, 20 ago.
2003.
[3] Pankaj Mishra, “In Search o f Monsters to Destroy”, e Guardian, Londres, 4 out. 2008.
[4] Arnon Soffer, Israel, Demography 2000-2020: Dangers and Opportunities (Haifa, Universidade de
Haifa, 2001), p. 92.
[5] Ver Rand.org, “Rand Urban Operations Team Hosts Conference in Israel”, abr. 2002.
[6] Michael Evans, City without Joy: Urban Military Operations into the 21st Century, (Canberra, Australian
Defence College, 2007), Occasional Series 2. Disponível em:
<www.defence.gov.au/adc/publications/occasional/publcnsoccasional_310310_citywithoutjoy.pdf>.
Acesso em: 29 jun. 2016.
[7] Idem.
[8] Idem.
[9] Eyal Weizman, em Jordan Crandall (org.), Under Fire 1: e Organization and Representation of
Violence (Roterdã, Witte de Witte, 2004), p. 83-4.
[a] O link consultado pelo autor já não está disponível. (N. E.)
[10] Christian Lowe, “Trading Tactics”, Marine Corps Times, Springfield (VA), 10 jun. 2002.
[11] Seymour M. Hersh, “Moving Targets: Will the Counter-Insurgency Plan in Iraq Repeat the
Mistakes of Vietnam?”, e New Yorker, Nova York, 15 dez. 2003.
[12] Julian Borger, “Israel Trains US Assassination Squads in Iraq”, e Guardian, Londres, 9 dez. 2003.
[13] Citado em Dexter Filkins, “A Region Inflamed: Strategy – Tough New Tactics by US Tighten Grip
on Iraq Towns”, e New York Times, 7 dez. 2003.
[14] Chuck Freilich, “‘ e Pentagon’s Revenge’ or Strategic Transformation: e Bush Administration’s
New Security Strategy”, Strategic Assessment, Jaffee Center for Strategic Studies, Tel-Aviv, v. 9, n. 1, abr.
2006.
[15] Bashir Abu-Manneh, “Israel in US Empire”, New Formations, n. 59, 2006, p. 34-55.
[16] Ibidem, p. 48.
[17] Ibidem, p. 37.
[18] Joel Beinin, “ e Israelization of American Middle East Policy Discourse”, Social Text, v. 21, n. 2,
2003, p. 125.
[19] James Brooks, “Israelization of America”, Antiwar.Com, 7 dez. 2002. Disponível em:
<www.antiwar.com>. Acesso em: 27 jun. 2016.
[20] Patrick Buchanan, “Whose War?”, e American Conservative, Washington (DC), 24 mar. 2003.
[21] Shlomo Brom, “An Intelligence Failure”, Strategic Assessment, Jaffee Center for Strategic Studies, Tel-
Aviv, v. 6, n. 3, nov. 2003, p. 9.
[22] Emad Mekay, “Iraq: War Launched to Protect Israel – Bush Adviser”, InterPress Service, 29 mar.
2004. Disponível em: <ipsnews.net>. Acesso em: 27 jun. 2016.
[23] Edward Said, “Collective Passion”, Al-Ahram, Cairo, 20 set. 2001, p. 20-6, citado em Derek
Gregory, “Defiled Cities”, Singapore Journal of Tropical Geography, v. 24, n. 3, 2003, p. 307-26.
[24] Joel Beinin, “ e Israelization of American Middle East Policy Discourse”, cit., p. 125.
[25] James Brooks, “Israelization o f America”, cit.
[26] Ilan Berman, “New Horizons for the American-Israeli Partnership”, Journal of International Security
Affairs, n. 4, 2004, p. 78.
[27] Ver Jonathan Cook, Israel and the Clash of Civilisations: Iraq, Iran and the Plan to Remake the Middle
East (Londres, Pluto, 2008), cap. 3.
[28] Idem.
[29] Grupo de Estudo para uma Nova Estratégia Israelense para 2000, “A Clean Break: A New Strategy
for Securing the Realm”, relatório, Institute for Advanced Strategic and Political Studies,
Jerusalém/Washington (DC), 1996.
[30] Donald E. Pease, “Between the Homeland and Abu Ghraib: Dwelling in Bush’s Biopolitical
Settlement”, em Ashley Dawson e Malini Johar Schueller (orgs.), Exceptional State: Contemporary US
Culture and the New Imperialism (Durham [NC], Duke University Press, 2007), p. 62, 65.
[31] Luiza Bialasiewicz et al., “Performing Security: e Imaginative Geographies of Current US
Strategy”, Political Geography, v. 26, n. 4, 2007, p. 405-22.
[32] Dag Tuastad, “Neo-Orientalism and the New Barbarism esis”, Aspects of Symbolic Violence in
the Middle East Conflict(s)”, ird World Quarterly, v. 24, n. 4, p. 591-9.
[33] Raphael Patai, e Arab Mind (Nova York, Hatherleigh Press, 1973).
[34] Pankaj Mishra, “In Search of Monsters to Destroy”, cit.
[35] Giorgio Agamben, Homo Sacer: Sovereign Power and Bare Life (Stanford, Stanford University Press,
1998) [ed. bras.: Homo sacer: o poder soberano e a vida nua, trad. Henrique Burigo, Belo Horizonte,
Editora UFMG, 2010].
[36] Omar Barghouti, “Relative Humanity: e Fundamental Obstacle to a One State Solution”, ZNet,
16 dez. 2003.
[37] Dexter Filkins, “A Region Inflamed”, cit.
[38] Assaf Oron, “An Open Letter to Jewish Americans”, Courage to Refuse, mar. 2002. Disponível em:
<www.seruv.org.il>. Acesso em: 27 jun. 2016.
[39] Jasbir Puar e Amit Rai, “Monster, Terrorist, Fag: e War on Terrorism and the Production of
Docile Patriots”, Social Text, v. 20, n. 3, 2002.
[40] Carl Boggs e Tom Pollard, “Hollywood and the Spectacle of Terrorism”, New Political Science, v. 28,
n. 3, 2006.
[41] Alastair Crooke, “New Orientalism’s ‘Barbarians’ and ‘Outlaws’”, e Daily Star, Beirute, 5 set.
2006.
[42] Derek Gregory, “Who’s Responsible?”, Zmagazine, Woods Hole (MA), 3 maio 2004.
[43] omas Henriksen, “ e Israeli Approach to Irregular Warfare and Implications for the United
States”, Joint Special Operations University, relatório 07-3, Hurlburt Field (FL), e Joint Special
Operations University Press, 2007. Disponível em: <www.dtic.mil/cgi-bin/GetTRDoc?
AD=ADA495467>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[44] Naomi Klein, Shock Doctrine: e Rise of Disaster Capitalism (Londres, Allen Lane, 2007).
[45] Lisa Hajjar, “International Humanitarian Law and ‘Wars On Terror’: A Comparative Analysis of
Israeli and American Doctrines and Policies”, Journal of Palestine Studies, v. 36, n. 1, 2006, p. 32.
[46] Idem.
[47] Ibidem, p. 22.
[48] Azmi Bishara, “On the Intifada, Sharon’s Aims, ‘48 Palestinians and NDA/Tajamu Strategy”,
Between the Lines, v. 3, n. 23-24, set. 2003. Disponível em: <www.azmibishara.com>. Acesso em: 10 jun.
2016.
[49] Darryl Li, “ e Gaza Strip as Laboratory: Notes in the Wake of Disengagement”, Journal of Palestine
Studies, v. 35, n. 2, 2006, p. 48-9.
[50] Lisa Hajjar, “International Humanitarian Law and ‘Wars On Terror’”, cit., p. 32.
[51] Ibidem, p. 37.
[52] Ibidem, p. 34-5.
[53] Makram Khoury-Machool, “Losing the Battle for Arab Hearts and Minds”, openDemocracy, 2 maio
2003. Disponível em: <www.opendemocracy.net>. Acesso em: 28 jun. 2016. É importante salientar que
esse processo tem mão dupla: além da imitação direta da IDF por parte das forças militares estado-
unidenses, também envolveu as várias insurgências e milícias iraquianas que imitam diretamente as táticas
do Hamas ou do Hezbollah.
[54] omas Henriksen, “ e Israeli Approach to Irregular Warfare and Implications for the United
States”, cit.
[55] Toufic Haddad, “Iraq, Palestine, and US Imperialism”, International Socialist Review, n. 36, 2004.
Disponível em: <www.isreview.org>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[56] Idem.
[57] Deirdre Collings e Rafal Rohozinski, “Shifting Fire: Information Effects in Counterinsurgency and
Stability Operations”, relatório do workshop, Carlisle (PA), US Army War College, 2006. Disponível em:
<www.carlisle.army.mil>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[58] Darryl Li, “ e Gaza Strip as Laboratory: Notes in the Wake of Disengagement”, Journal of Palestine
Studies, v. 35, n. 2, 2006, p. 38.
[59] Ibidem, p. 43.
[60] Robert Fisk, “Divide and Rule – America’s Plan for Baghdad”, e Independent, Londres, 11 abr.
2007.
[61] omas Henriksen, “ e Israeli Approach to Irregular Warfare and Implications for the United
States”, cit.
[62] Idem.
[63] Darryl Li, “ e Gaza Strip as Laboratory”, cit., p. 45.
[64] Idem.
[65] Dexter Filkins, “A Region Inflamed”, cit.
[66] Reidar Visser, “Baghdad Zoo: Why ‘Gated Communities’ Will Face Opposition in the Iraqi
Capital”, Historiae.org, 23 abr. 2007. Disponível em: <www.historiae.org>. Acesso em: 28 jun. 2016.
[67] Dennis Steele, “ e Gated Community: Giving an Iraqi Town a Second Chance”, Army Magazine,
Arlington (VA), set. 2006, p. 26-9.
[68] Ro’i Ben-Horin, “Non-Lethal Weapons: eory, Practice, and What Lies between”, Strategic
Assessment, Jaffee Center for Strategic Studies, Tel-Aviv, v. 3, n. 4, 2001.
[69] Idem.
[70] Neil Davison e Nick Lewer, “Bradford Non-Lethal Weapons Research Project (BNLWRP)”,
relatório de pesquisa n. 8, Centre for Conflict Resolution, Department of Peace Studies, Bradford, 2006,
p. 33.
[71] Xeni Jardin, “Focused Sound ‘Laser’ for Crowd Control”, Day to Day, National Public Radio, 21 set.
2005. Disponível em: <www.npr.org>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[72] Steven Morris, “Police Clamp Down on Beach ‘Snob Yobs’”, e Guardian, Londres, 26 jun. 2008.
[73] Barbara Opall-Rome, “Israeli Arms, Gear Aid US Troops”, Defense News, Springfield (VA), 29 mar.
2004.
[74] Essas aquisições estado-unidenses incluem granadas Simon para abrir portas, disparadores de mísseis
para helicópteros, um sistema automático para localizar e atacar atiradores em cidades, drones de
monitoramento não tripulados Hunter e Pioneer, novos sistemas de rádio desenvolvidos para superar
interferência urbana e uma série de “kits” criados para proteger veículos blindados quando atuando em
ambientes urbanos. Ver Barbara Opall-Rome, “Israeli Arms, Gear Aid US Troops”, cit.
[75] Defense Update.com, “Trophy Active Protection System”, sem data.
[76] Margot Dudkevitch, “IDF Teaches US Soldiers Guerrilla Response”, Jerusalem Post, 18 ago. 2004.
[77] omas Henriksen, “ e Israeli Approach to Irregular Warfare and Implications for the United
States”, cit.
[78] Ed Blanche, “West Bank East: Americans in Iraq Make War the Israeli Way”, Daily News, Beirute, 6
dez. 2003.
[79] Avi Dichter, da Agência de Segurança de Israel, citado em Jon Elmer, “Maple Flag, the Israeli Air
Force, and ‘the New Type of Battle We Are Being Asked to Fight’”, Briarpatch Magazine, Regina (SK), 3
dez. 2005.
[80] Para uma análise brilhante da guinada de Israel para o assassinato aéreo, ver Eyal Weizman, Hollow
Land (Londres, Verso, 2007), p. 237-58.
[81] Graham Turbiville, “Hunting Leadership Targets in Counterinsurgency and Counterterrorist
Operations, Selected Perspectives and Experience”, Joint Special Operations University, relatório 07-6,
Hurlburt Field (FL), e Joint Special Operations University Press, 2007, p. 8. Disponível em:
<jsoupublic.socom.mil>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[82] Ibidem, p. 11.
[83] Lisa Hajjar, “International Humanitarian Law and ‘Wars on Terror’”, cit.
[84] Idem.
[85] Julian Borger, “Israel Trains US Assassination Squads in Iraq”, cit.
[86] Idem.
[87] Darryl Li, “ e Gaza Strip as Laboratory”, cit., p. 34.
[88] Ralph Sanders, “Israel Practice New Concepts for Airborne, Urban Area Domination”, Defense
Update, Qadima, n. 1, 2006.
[89] Idem.
[90] Pierre Tran e Barbara Opall-Rome, “French UAV to Carry Israeli Missiles”, Defense News,
Springfield (VA), sem data. Disponível em: <www.rafael.co.il>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[91] Israeli Weapons.Com, “Hermes 450 in US Service”, 2004. Disponível em: <israeli-weapons.com>.
Acesso em: 28 jun. 2016.
[92] Idem.
[93] Eyal Weizman, “ anotactics”, em Michael Sorkin (org.), Indefensible Space: e Architecture of the
National Security State (Nova York, Routledge, 2007), p. 325.
[94] omas Henriksen, “Security Lessons from the Israeli Trenches”, Policy Review, n. 141, 2007.
[95] Idem.
[96] Idem, “ e Israeli Approach to Irregular Warfare and Implications for the United States”, cit., p. 40.
[97] Imri Tov, “Economy in a Prolonged Conflict: Israel 2000-2003”, Strategic Assessment, Jaffee Center
for Strategic Studies, Tel-Aviv, v. 6, n. 1, 2003. Disponível em: <www.tau.ac.il>. Acesso em: 10 jun.
2016.
[98] USA Today, “US Military Employs Israeli Technology in Iraq War”, 24 mar. 2003.
[99] Bernel Goldberg, “Introduction to WTCTA Breakfast Series: Israeli Investment and Trade
Opportunities with the Pacific Northwest”, Tacoma (WA), 4 maio 2007.
[100] Naomi Klein, “Laboratory for a Fortressed World”, e Nation, Nova York, 14 jun. 2007.
[101] Donald Snyder, “Israel’s Technology Creates an Investment Goliath”, Fox Business.com, 16 jan.
2008.
[102] Bernel Goldberg, “Introduction to WTCTA Breakfast Series”, cit.
[103] Fairfax County Economic Development Authority, “Special Event: United States-Israel HLS
Technologies Conference and B2B (Business to Business) Meetings between Israeli and US Companies”,
16-18 jan. 2007. Disponível em: <www.fairfaxcountyeda.org>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[104] Naomi Klein, “Laboratory for a Fortressed World”, cit.
[105] Joseph Morgenstern, “ e Economy Is on a Roll!”, Israel High-Tech & Investment Report, v. 23, n.
1, jan. 2008. Disponível em: <www.ishitech.co.il>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[106] Naomi Klein, “Laboratory for a Fortressed World”, cit.
[b] Uso de características e comportamentos para criar generalizações sobre uma pessoa ou um grupo. Em
geral, esse perfil (étnico, de gênero ou outro) pode ser usado para determinar se essa pessoa ou esse grupo
está envolvido em atividades ilegais consideradas de risco. (N. T.)
[107] Jeffrey Larsen e Tasha Pravecek, “Comparative US-Israeli Homeland Security”, e
Counterproliferation Papers, Future Warfare Series, n. 34, Maxwell (AL), United States Air Force
Counterproliferation Center, Air University, 2006.
[108] Ver Instituto de Cooperação Econômica e de Exportação Israelense, sem data. Disponível em:
<www.export.gov.il>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[109] Naomi Klein, “Laboratory for a Fortressed World”, cit.
[110] Rafael Corporation, “Anti-Terror Homeland Security Solutions”, brochura, sem data. Disponível
em: <www.rafael.co.il>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[111] Ali Kravitz, “US Homeland Security Market Beckons”, Jerusalem Post, 18 jan. 2007.
[112] James J. Carafano, Jonah J. Czerwinski e Richard Weitz, “Homeland Security Technology, Global
Partnerships, and Winning the Long War”, e Heritage Foundation, Washington (DC), 5 out. 2006.
Disponível em: <www.heritage.org>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[113] Consuella Peckett, “United States and Israeli Homeland Security: A Comparative Analysis of
Emergency Preparedness Efforts”, Counterproliferation Papers, Future Warfare Series, n. 33, Maxwell (AL),
United States Air Force Counterproliferation Center, Air University, 2005, p. 150.
[114] Ibidem, p. 147.
[115] Ministério de Segurança Pública do Estado de Israel, “Israel-USA Homeland Security
Cooperation”, sem data. Disponível em: <www.mops.gov.il>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[116] Joe Charlaff, “Joint Israeli-American Initiative to Streamline Homeland Security Management”,
Israel 21c, 28 nov. 2004. Disponível em: <www.usistf.org>. Acesso em: 10 jun. 2016.
[117] Fairfax County Economic Development Authority, “Special Event”, cit.
[118] Ali Kravitz, “US Homeland Security Market Beckons”, cit.
[119] Press release da DefenSoft.
[120] Fairfax County Economic Development Authority, “Special Event”, cit.
[121] Laura Goldman, “Israeli Technology to Keep US Borders Safe”, Israel21c, 15 out. 2006.
[122] Adrian Friedman, Vrinda Grover et al., Irreversible Consequences: Racial Profiling and Lethal Force in
the “War on Terror”, Nova York, New York University School of Law, Center for Human Rights and
Global Justice, 2006, p. 5.
[123] Ibidem, p. 13.
[124] Nick Vaughan-Williams, “ e Shooting of Jean Charles de Menezes: New Border Politics?”,
Alternatives, v. 32, n. 2, 2007, p. 185.
[125] Naomi Klein, Shock Doctrine, cit., p. 440.
[126] Jonathan Nitzan e Shimshon Bichler, “Cheap Wars”, Tikkun, Berkeley (CA), ago. 2006.
[127] Naomi Klein, Shock Doctrine, p. 440-1.
[128] Idem.
[129] Ibidem, p. 441-2.
[130] John Mearsheimer e Stephen Walt, “ e Israel Lobby and US Foreign Policy”, artigo n. RWP06-
011, Chicago/Cambridge (MA), University of Chicago/Harvard University, mar. 2006, p. 1, 5.
[131] Ibidem, p. 5.
[132] Idem.
8
DESLIGANDO CIDADES

Os moradores de cidades correm um risco específico quando seus complexos e sofisticados


sistemas de infraestrutura são destruídos ou se tornam inoperáveis, ou quando ficam isolados
de seus contatos externos.[1]

Se quiser destruir alguém hoje em dia, invista contra sua infraestrutura. Não é preciso ser um
Estado-nação para fazer isso; e, se seu adversário mantiver alguma capacidade de retaliação, é
melhor que você não o seja.[2]

Aquiles urbano
Em nosso planeta em rápida urbanização, a vida cotidiana da crescente
população de urbanoides é cada vez mais sustentada por sistemas vastos e
incognoscivelmente complexos de infraestrutura e tecnologia. Ainda que
muitas vezes passem despercebidos – pelo menos quando funcionam –, esses
sistemas permitem que a vida urbana moderna exista. Seus encanamentos,
dutos, servidores, fios e túneis sustentam os fluxos, as conexões e os
metabolismos que são intrínsecos às cidades contemporâneas. Através de sua
interminável agência tecnológica, esses sistemas ajudam continuamente a
transformar o natural em cultural, social e urbano, criando assim o pano de
fundo oculto da vida urbana moderna cotidiana. Eles são a sustentação
fundamental dos processos da vida citadina.
Ao manter os fluxos de água, lixo, energia, informação, pessoas,
commodities e signos, as infraestruturas urbanas contemporâneas incorporam
sonhos iluministas de controle social da natureza. Essas infraestruturas são pré-
requisitos para qualquer ideia de civilização moderna. E, no entanto, ao mesmo
tempo, a dependência contínua da população urbana em relação a sistemas de
infraestrutura enormes e complexos cria vulnerabilidades inevitáveis.
Paradoxalmente, é no momento em que ocorre o blecaute, em que cai o
servidor, quando os funcionários do metrô entram em greve ou os
encanamentos de água deixam de funcionar, que a dependência das cidades em
relação a sua infraestrutura se torna mais visível. “Para a maioria de nós, esse
desenho é inevitável. Até ele falhar”, escreve Bruce Mau[3]. Isso se aplica de
modo mais contundente às cidades mais ricas e tecnologicamente avançadas.
Em contraste, em boa parte do chamado mundo em desenvolvimento, a
interrupção da infraestrutura é a regra, em vez de um evento especial.
O potencial para a violência catastrófica contra cidades e contra a vida
urbana anda lado a lado com a mudança da vida urbana rumo a uma
dependência ainda maior de suas infraestruturas modernas – rodovias, metrô,
redes de computação, sistemas de água e saneamento, redes de eletricidade,
transporte aéreo. Esses sistemas podem ser facilmente atacados e transformados
em agentes de terror instantâneo, de caos debilitante ou até de
desmodernização. Assim, cada vez mais, em sociedades altamente tecnológicas,
dominadas por interconexões e circulações sociais abstratas, tanto a guerra de
alta tecnologia quanto o terrorismo têm como mira o que John Hinkson
caracteriza como “os meios da vida, não os combatentes”[4]. Nas palavras de
John Robb,

a maioria das redes com que contamos na vida citadina – comunicações, eletricidade,
transporte, água – são extremamente vulneráveis a interrupções intencionais. Na prática, isso
significa que um número muito pequeno de ataques a centros fundamentais de uma rede [de
infraestrutura] pode provocar o colapso de toda uma rede.[5]

A interrupção ou destruição de um ponto em uma rede de transporte,


comunicações, abastecimento de água ou de eletricidade tende a afetar com
rapidez todo um sistema, e como esses sistemas funcionam juntos – os
engenheiros dizem que estão “fortemente interligados” –, o corte em um tende
a ter um rápido “efeito cascata” nos outros. Além disso, como todos os
“grandes sistemas” que sustentam sociedades urbanas avançadas operam à base
de energia elétrica, os moradores das cidades se tornam “reféns da
eletricidade”[6]. Em um blecaute, não é só a luz elétrica que falta. Sistemas de
água e esgoto movidos a eletricidade sofrem em geral uma interrupção; o
transporte público costuma parar; o processamento e a distribuição de
alimentos costumam ser desativados; o sistema de saúde se torna quase
impossível; a internet deixa de funcionar; alguns prédios se tornam
efetivamente inabitáveis, de tão conectados a dispositivos e equipamentos
elétricos.
Em uma sociedade urbana intensamente em rede, sempre conectada e de
funcionamento ininterrupto, os urbanoides – em especial aqueles que vivem
no mundo industrial desenvolvido – são tão dependentes dos sistemas em rede
infraestruturais e computadorizados que uma interrupção não é um simples
inconveniente. Na verdade, aproxima-se do ponto em que, nas famosas
palavras de Bill Joy, “desligar se torna suicídio”[7]. Os processos de globalização
econômica, que estendem espaços de produção, pesquisa, alimentação de
dados, consumo, transbordo, capitalização e descarte de detritos mundo afora,
estreitam ainda mais os laços do que já é fortemente interligado, por causa da
dependência de combinações cada vez mais complexas de sistemas de logística,
informação e infraestrutura – que operam just-in-time, em uma sincronia
íntima – para simplesmente funcionar.
No entanto, é preciso lembrar que a dependência absoluta da vida humana
das infraestruturas em rede existe em cidades modernas em todo o planeta, não
apenas nas cidades “high-tech”. Isso se revela em detalhes aterrorizantes quando
governos, ao realizar suas campanhas de “poder aéreo”, de maneira deliberada
deseletrificam sociedades urbanas inteiras, supostamente como meio de coagir
líderes e forçar populações inteiras a abandonar de súbito sua resistência. O
bombardeio estratégico raramente obtém esse efeito, se é que obtém. Como
vamos ver, os efeitos da deseletrificação urbana são tão pavorosos quanto
prosaicos: a morte em massa dos jovens, dos mais fracos, dos doentes, dos
idosos, durante períodos prolongados e em geografias estendidas, quando
sistemas de água e saneamento entram em colapso e doenças transmitidas pela
água correm soltas. Não é uma surpresa que essa estratégia tenha sido chamada
de “guerra à saúde pública”, um ataque que pode ser resumido como
“bombardeie agora, morra depois”.
Assim, em toda parte, a vida urbana cotidiana é assombrada pela ameaça
da interrupção: o blecaute, o congestionamento, a conexão cortada, o defeito
técnico, o fluxo interrompido, o aviso de rede indisponível. Durante esses
momentos, relativamente normais em cidades do Sul global, mas muito menos
nas do Norte global, as grandes construções de infraestrutura se tornam um
monte de tralha inútil – ruínas temporárias (ou talvez não) dos sonhos do
Iluminismo e da Modernidade. A vida cotidiana das cidades se transforma em
uma grande luta contra a escuridão, o frio, a imobilidade, a fome, o
isolamento, o medo do crime e da violência, e – se houver ameaça de doenças
transmitidas pela água – uma degeneração rápida e catastrófica da saúde
pública. O fluxo técnico constante das cidades modernas é suspenso. A
improvisação, os reparos e a busca por meios alternativos de se manter
aquecido e em segurança, de beber água limpa, de se alimentar, de se
movimentar e de descartar resíduos logo se tornam os imperativos primordiais.
De repente, os bastidores da vida urbana cotidiana, em geral ocultos, se tornam
claros e palpáveis para todos.
É óbvio que “capacidades letais espantosas podem ser criadas simplesmente
sabotando os usos cotidianos” de uma série de infraestruturas urbanas
comuns[8]. Assim, o ato de usar sistemas e tecnologias em geral menosprezadas,
ignoradas ou vistas como artefatos banais do dia a dia se torna carregado de
ansiedade e imaginários geopolíticos. Riscos impensáveis associados a conflitos
geopolíticos internacionais permeiam a tecnologia cotidiana. O conflito
“assimétrico” pós-Guerra Fria transforma componentes da cultura material
urbana em armas em potencial, capazes de causar morte, destruição, caos ou
colapso econômico.
A intensificação das interconexões econômicas, no entanto, significa que
Estados também exercem um enorme poder por meio da ameaça, ou da
execução, de cortes da infraestrutura. O status da Rússia como poder
ressurgente sob Putin se deve menos a suas ambições territoriais ou seu poderio
militar do que à sua constante ameaça de interromper e, de vez em quando, à
interrupção de fato do fornecimento de energia para o sul da Ásia e a Europa,
regiões que dependem cada vez mais das enormes reservas russas.
É claro que a ansiedade em torno dos riscos de interrupção, destruição ou
“armamentização” da infraestrutura não é novidade. Desde as próprias origens
da vida urbana, a guerra e a violência política têm como alvo os sistemas de
apoio tecnológico e ecológico das cidades. Aliás, esse era um forte ponto de
ataque na guerra de cerco medieval. Durante a Segunda Guerra Mundial,
planejadores de bombardeios tentavam obter “paralisias estratégicas” por meio
da destruição de sistemas de transporte, infraestruturas de fornecimento de
água e redes de eletricidade e comunicação. E existem, claro, os carros-bomba
– um clássico de toda campanha de insurgência e de terrorismo há pelo menos
quatro décadas. Mas os ataques urbanos aumentaram dramaticamente. Hoje
em dia, tanto governos quando outros agentes atacam e exploram as
infraestruturas urbanas cotidianas com uma sofisticação considerável e um
poder letal.

Infraestruturas e terrorismo
A tecnologia faz surgir seu próprio tipo de terrorista.[9]

A maior parte da atenção, até o momento, se voltou a como insurgentes e


terroristas não ligados ao Estado podem aumentar consideravelmente seu
potencial de destruição se apropriando ou atacando os sistemas integrados que
sustentam a vida urbana moderna. Como sugere o cientista político Tim Luke,

as arquiteturas operacionais do urbanismo moderno, por sua própria estrutura, projetam,


utilizam e dedicam como parte essencial do equipamento necessário para a produção
econômica coisas que, ironicamente, são grandes ativos para a destruição.[10]

Nesses casos, como escreve John Hinkson, “‘a civilização tecnológica’ é que
é o alvo […], e a contradição é que é a tecnologia dessa civilização o que será
usado contra ela”[11].
Além de construções urbanas icônicas, os principais alvos terroristas são as
infraestruturas do “capitalismo rápido”. Como bases materiais da circulação
global, infraestruturas contemporâneas “repudiam territórios fixos, espaços
sagrados e limites rígidos em favor de fluxos instáveis, dos não lugares que são
palco das práticas de consumo e das fronteiras permeáveis”[12]. Esses “grandes
sistemas”, no entanto, estão sempre abertos à violência assimétrica de atores
não estatais que nunca poderiam ter a esperança de enfrentar o poderio militar
ocidental. As maneiras particulares como os grandes sistemas de infraestrutura
se atravessam nas cidades globais parecem predominar nas estratégias de ataque
dos terroristas contemporâneos. Para Hinkson, esse tipo de cenário precisa

ser compreendido em relação aos modos de vida socialmente esparsos e cada vez mais assolados
pela pobreza em regiões, e entre certos setores sociais, que estão passo a passo sendo
transformados em satélites dependentes e disfuncionais dos centros metropolitanos.[13]

Os exemplos mais óbvios aqui, claro, foram os devastadores ataques aéreos


do 11 de Setembro. De fato, os responsáveis por eles desenvolveram enormes
mísseis de cruzeiro cheios de combustível, em estilo camicase, a partir de
apenas quatro dos muitos milhares de aviões comerciais que voavam sobre e
entre as cidades estado-unidenses naquela hora do dia. Quatro aeronaves – das
mais ou menos 40 mil que carregam cerca de 2 milhões de pessoas por dia
acima do território dos Estados Unidos – foram apropriadas e traduzidas em
armas catastróficas com a ajuda de alguns poucos estiletes. Mas, na verdade, os
ataques foram propiciados por uma vasta gama de circuitos tecnológicos
associados à modernidade ocidental globalizada: operações financeiras
eletrônicas, especulação da bolsa de valores, computadores, redes de mídia,
tecnologia aeronáutica. E o objetivo desses ataques era a destruição desses
circuitos[14].
Alvos estratégicos e simbólicos no coração metropolitano do poder
econômico e militar dos Estados Unidos foram destruídos nos ataques do 11
de Setembro. Milhares de pessoas foram assassinadas em apenas algumas horas.
Esses efeitos superam de longe o poder de todo o regime nazista ou japonês
durante a Segunda Guerra Mundial inteira. Quando as torres do World Trade
Center sucumbiram, uma destruição com poder próximo ao de uma pequena
bomba nuclear inverteu a presunção gravitacional e arquitetônica dos arranha-
céus modernistas. Usar apenas alguns elementos específicos da infraestrutura
cotidiana como armas gerou falhas e interrupções infraestruturais em grandes
áreas de Manhattan, da Costa Leste estado-unidense e do mundo. Mas os
circuitos visuais da mídia se mantiveram funcionando: uma infraestrutura
global testemunhando o uso da infraestrutura global como arma urbicida.
Outros exemplos poderosos foram os ataques posteriores a trens, ônibus e
metrôs de Madri e Londres de 2003 e 2005, e os numerosos e aterrorizantes
ataques suicidas a ônibus israelenses lotados entre 2000 e 2002. O bombardeio
aos vagões do metrô de Moscou por terroristas chechenos em fevereiro de 2004
e o ataque a gás dos trilhos subterrâneos de Tóquio pelo grupo Aum Shinrikyo
em março de 1995 também exploraram os sistemas de mobilidade do dia a dia
com um efeito assassino. Enquanto isso, na Índia, como parte de uma
avalanche recente de atrocidades urbanas, os terroristas às vezes atacam
deliberadamente os sistemas de energia elétrica que abastecem os enclaves de
alta tecnologia, os quais abrigam as conhecidas indústrias de software e call-
center globais da cidade[15].
Ataques como esses promoveram uma ansiedade generalizada acerca das
vulnerabilidades de toda forma de infraestrutura básica que, por definição,
permeiam a vida cotidiana de cada urbanoide moderno (Figura 8.1). Por
exemplo, o envio de esporos de antraz foi realizado por meio do sistema de
correios estado-unidense logo após os ataques de 11 de Setembro e matou
cinco pessoas. Ou considere-se o caso dos atiradores de Washington que, em
outubro de 2002, transformaram simples estradas e postos de combustível nos
subúrbios residenciais da área conhecida como Beltway e ao redor deles em
campos de extermínio, matando dez pessoas. Ou a possibilidade de mau uso de
material nuclear, ou ainda o envenenamento ou a contaminação em massa dos
sistemas de produção de alimentos dos quais as sociedades urbanas dependem
tão completamente – como demonstrou o escândalo chinês das fórmulas
lácteas para bebês em 2008. Considere-se também o medo disseminado de que
a natureza computadorizada das sociedades avançadas possa se tornar o
calcanhar de Aquiles delas conforme “ciberterroristas” remotos e desconhecidos
lançam códigos malignos em sistemas fundamentais com um toque em um
teclado distante, provocando uma espécie de “Pearl Harbor eletrônico” no
processo.

No alto: “O caso do atirador de Washington é um forte lembrete de que obter dados confiáveis no
momento oportuno é fundamental para uma ação policial proativa”; embaixo: “Não é possível
salvaguardar recursos vitais sem monitoramento constante”.
8.1 Ansiedade e infraestrutura: a exploração do medo em anúncios de revista.

Ao reagir a esses tipos de ameaças formulando políticas sobre a


“infraestrutura fundamental”, os Estados-nação e os governos municipais
enfrentam problemas quase intransponíveis na tentativa de ir além de gestos
puramente simbólicos como colocar policiais armados em aeroportos ou
barreiras de concreto ao redor de estações ferroviárias. Isso porque enfrentam o
fato inevitável de que, para de fato funcionar como infraestrutura, os grandes
sistemas técnicos de hoje em dia precisam necessariamente estar abertos a um
gigantesco fluxo de uso e interação que nunca pode ser controlado, mesmo
com as tecnologias de informação e monitoramento mais sofisticadas. Luke
escreve:

Como a maior parte dos mecanismos, das estruturas e das conexões no capitalismo mundial
precisa ser essencialmente insegura para ter um funcionamento ideal, a defesa contra as
inseguranças de todos os que vivem em meio a esses grupos interconectados em grandes
sistemas movidos pelo mercado não é nem certa nem definitiva.[16]

Em última instância, os custos, os atrasos e as reduções de capacidade que


acompanham iniciativas de segurança infraestrutural prejudicam os lucros:
grandes empresas, que de tantas formas hoje são constituídas por meio de
sistemas de infraestrutura transnacionais para movimentar matérias-primas,
commodities, capital, informação, mídia e força de trabalho de maneira rápida e
eficiente pelo mundo. De acordo com Luke, securitizar completamente a
infraestrutura e suas circulações acrescentaria “um custo enorme ao balanço
corporativo que poucas empresas estão dispostas a pagar”[17].
Claro, terroristas e insurgentes não ligados a governos têm consciência
plena dos custos da interrupção. De muitas formas, como John Robb ilustra no
influente blog Global Guerrillas[18], a maior vantagem política e econômica
deles em um mundo interconectado vem da manipulação, destruição ou
interrupção das redes infraestruturais fortemente interligadas que sustentam o
capitalismo global urbanizado. Robb cataloga uma incidência cada vez maior
do que ele chama de “guerra de código aberto” – uma infinidade de ataques de
insurgentes e terroristas cujo objetivo é provocar grandes interrupções nos
sistemas ao se concentrar em gargalos e instalações de fornecimento
fundamentais, especialmente no abastecimento de petróleo e na geração de
eletricidade.
Robb destaca as tentativas devastadoras, por parte de uma grande variedade
de grupos insurgentes no Iraque, de cortar as fontes de energia e petróleo em
Bagdá como forma de prejudicar a legitimidade do governo nomeado pelos
Estados Unidos. Esses grupos, com regularidade,

destroem múltiplas torres em série e removem fios de cobre para revendê-los, a fim de financiar
suas operações; fazem emboscadas contra equipes de reparo para atrasar radicalmente os
consertos; e [também] atacam os gasodutos e encanamentos de água que abastecem as usinas
de energia elétrica.[19]

Táticas semelhantes emergem em outros lugares. No Afeganistão, em 2008,


o Talibã ameaçou destruir as torres de telefonia celular do país a menos que os
operadores as desativassem à noite – uma forma de impedir que informantes
revelassem as atividades noturnas às forças de ocupação[20]. No delta do Níger,
gangues e grupos de insurgentes, alguns dos quais protestando contra as
condições catastróficas enfrentadas pelos habitantes nativos, conseguiram atacar
companhias petroleiras transnacionais com sucesso. De acordo com Robb, o
grupo comandado por Henry Ok, que foi preso em fevereiro de 2008,
“conseguiu orquestrar a paralisação da produção de mais de meio milhão de
barris por dia de petróleo da Nigerian/Shell ao longo de mais de dois anos,
com um valor total de mercado de US$ 29 bilhões”[21].

Desmodernização projetada: o poderio aéreo dos


Estados Unidos
Precisamos estudar como degradar e destruir as possibilidades de nossos adversários de
transmitir seus produtos, serviços e suas informações militares, políticos e econômicos […]
Infraestruturas, que definem tanto as linhas de comunicação tradicionais quanto emergentes,
representam alvos cada vez mais lucrativos para a força aérea. [A visão de] aviadores deveria se
concentrar nas linhas de comunicação que vão, cada vez mais, definir as sociedades modernas.
[22]
Um fator insuficientemente reconhecido da doutrina militar estatal é a
ênfase na desmodernização e na imobilização sistemáticas de sociedades inteiras
classificadas como adversárias. Aliás, essa estratégia tem um impacto maior do
que o do terrorismo infraestrutural. A destruição das infraestruturas urbanas
cotidianas ao redor do mundo deriva esmagadoramente da violência formal dos
Estados-nação.
Em conformidade com seu status hegemônico atual (ainda que vacilante),
um único Estado-nação – os Estados Unidos – domina a guerra infraestrutural.
A doutrina estado-unidense sobre essa questão deriva da busca das Forças
Armadas por uma dominação de abrangência global por meio de um poder
verticalizado e com base na informação, associado a uma preocupação com
minimizar as vítimas estado-unidenses, independentemente das perdas assim
causadas nas forças e sociedades opositoras. Esse é o sonho de “dominação do
espectro total”, obtido por meio dos frutos de alta tecnologia da chamada
revolução em assuntos militares – bombardeios furtivos, alvos definidos por
GPS, bombas “de precisão”. Os objetivos de paralisar sistematicamente
sociedades adversárias por meio da destruição ou interrupção das
telecomunicações civis e das redes de energia e transporte são incapacitar a
resistência militar e, ao mesmo tempo, coagir psicologicamente os civis
urbanos[23].

A sombra da modernização
Por trás dos ataques estado-unidenses a infraestruturas civis está a crença de
que sujeitar sociedades a bombardeios aéreos sistemáticos é uma forma de
desmodernização – o extremo oposto das teorias de modernização pós-Segunda
Guerra Mundial. Se essas teorias veem o “desenvolvimento” como algo que
possibilita às sociedades “progredir” ao longo de eras sucessivas, definidas por
sua infraestrutura – da era do carvão até a era da eletricidade, e depois até a era
nuclear, a era da informação e assim por diante –, então o bombardeio é visto
como algo que leva as sociedades “para trás”, invertendo essa cadeia de estágios
econômicos. Na mesma toada, assim como a partir do fim do século XX os
programas de desenvolvimento para as nações “em desenvolvimento” em geral
empregaram economistas e engenheiros civis, os programas de bombardeio
também têm recorrido amplamente a esses especialistas para garantir que a
destruição seja bem-sucedida em provocar as reversões desejadas. Um
engenheiro civil que prestou consultoria a respeito dos alvos de bombardeio
estadunidense durante a invasão ao Iraque em 2003 comentou que
“trabalhando com imagens de satélite e outras formas de inteligência,
fornecemos aos pilotos coordenadas muito específicas sobre o melhor lugar
para bombardear [pontes iraquianas], de um ponto de vista estrategicamente
estrutural”[24].
Para alguém que compartilhe a visão linear simples de que as novas
tecnologias e infraestruturas são determinantes em render os frutos de uma
nova era econômica para sociedades inteiras, é provável que a devastação
sistemática da tecnologia e da infraestrutura represente uma simples reversão
desses processos, uma reversão que em pouco tempo derruba os adversários. Se
a tecnologia pode conduzir as sociedades rumo ao futuro, sua destruição pode
jogá-los de volta ao passado.
Não é possível deixar de ver a relação íntima entre a teoria de
modernização e desenvolvimento, por um lado, e a teoria de desmodernização
e bombardeio de infraestruturas, por outro, quando se descobre que às vezes os
mesmos especialistas são responsáveis por ambas. A figura mais digna de nota
aqui é Walt Rostow, talvez o economista estado-unidense mais influente
durante a Guerra Fria.
Do lado da modernização, sua obra seminal e Stages of Economic Growth
[Os estágios do desenvolvimento econômico] delineou o modelo de
desenvolvimento mais importante do fim do século XX: um modelo
unidirecional por meio do qual sociedades “tradicionais” conseguiram alcançar
as “pré-condições para a decolagem econômica” e então gozaram dos frutos da
modernização através do “impulso para a maturidade” e, finalmente, atingiram
uma “era de consumo de massa”[25].
No entanto, Rostow também desempenhou um papel fundamental na
desmodernização. Ele participou das pesquisas estado-unidenses sobre
bombardeio estratégico do Japão e da Alemanha [na Segunda Guerra Mundial]
e, entre 1961 e 1968, foi um influente consultor de segurança nacional para os
governos de John F. Kennedy e de Lyndon B. Johnson[26]. O lobby incessante
de Rostow nesse segundo papel foi crucial para o aumento gradual da extensão
e da intensidade do bombardeio sistemático das infraestruturas civis do Vietnã
do Norte, na campanha conhecida como Rolling under [Trovão
Retumbante]. Bombardear países era visto como um meio de fazê-los “recuar
diversos ‘estágios de crescimento’”[27], nos termos de seu modelo de
desenvolvimento, e também de solapar o desafio comunista ao poder dos
Estados Unidos[28]. Rostow, um anticomunista feroz, via a erradicação do
comunismo como necessária porque o considerava uma forma repelente da
modernização. Para ele, o “comunismo é mais bem compreendido como uma
doença da transição para a modernização”[29].
De tão disseminada que é hoje, chega a ser um clichê essa noção mais
ampla de que o bombardeio, como uma forma de desmodernização punitiva,
pode inaugurar uma reversão direta do progresso tecnológico e econômico
linear concebido pelos modelos econômicos liberais convencionais. Curtis
LeMay, a força por trás do sistemático bombardeio incendiário do Japão
urbano na Segunda Guerra Mundial, fez um célebre incentivo para que a Força
Aérea dos Estados Unidos, que ele liderava à época, bombardeasse “o Vietnã do
Norte até levá-lo de volta à Idade da Pedra”. Ele acrescentou que a Força Aérea
precisava “destruir […] toda obra humana no Vietnã do Norte”.
Embora a repercussão das teorias de modernização esteja em declínio, a
sombra escura delas, a teoria de desmodernização, está mais popular do que
nunca nas Forças Armadas est