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UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL – FACULDADE DE DIREITO

DISCIPLINA: Direito das Obrigações


PROFESSORA: Dra. Janaína Rigo Santin
EMAIL: jrsantin@ucs.br
Ementa
Estudo da relação jurídica obrigacional. Modalidades das obrigações.
Transmissão das obrigações. Adimplemento e inadimplemento das obrigações.
Atos unilaterais.
Objetivo
Reconhecer, sistêmica e sistematicamente, os elementos e a base principiologia
do Direito das Obrigações, a partir da articulação entre as principais construções
teóricas e jurisprudenciais, instrumentalizando o acadêmico crítica e tecnicamente
para o desempenho da carreira jurídica. Promover a caracterização das
obrigações com suas modalidades simples e complexas. Examinar a transmissão
das obrigações e os negócios jurídicos advindos dos atos unilaterais. Analisar a
Norma Jurídica a partir da jurisprudência contextualizando o conteúdo aos
movimentos sociais contemporâneos. Refletir sobre os sistemas jurídicos acerca
do Direito Obrigacional. Assistir o estudante no desenvolvimento de sua
autonomia, em seus múltiplos processos de aprendizagem, inclusive na execução
de trabalhos discentes efetivos. Competências e Habilidades
C1: Compreender os conceitos básicos do Direito obrigacional, envolvendo
princípios, transmissão das obrigações, suas modalidades de pagamentos, assim
como os atos unilaterais referentes a esse sistema dinâmico e complexo.
H1: Identificar e descrever o Direito Obrigacional e seus desdobramentos.
H2: Manejar adequadamente a Norma Jurídica a partir da jurisprudência,
contextualizando o Direito Obrigacional.
H3: Capacitar o acadêmico a identificar, no conteúdo do direito das obrigações,
as formas das soluções dos conflitos pertinentes a essa matéria.
Conteúdo Programático
1. Princípios das obrigações
1.1 Relação obrigacional
1.2 Modalidades das obrigações: dar, fazer e não fazer
1.3 Modalidades complexas: alternativa, divisível, indivisível e solidárias
2. Transmissão das obrigações: cessão de crédito, assunção de dívida e cessão
do contrato
3. Cumprimento das obrigações: adimplemento e inadimplemento das
obrigações
3.1 Pagamento direto
3.2 Modalidades indiretas de pagamento
3.3 Modalidades de extinção sem pagamento
3.4 Inadimplemento: mora, perdas e danos, juros, cláusula penal e arras

Dra. Janaína Rigo Santin


4. Atos Unilaterais
4.1 Promessa de recompensa
4.2 Gestão de negócios
4.3 Pagamento indevido
4.4 Enriquecimento sem causa

Metodologia
Serão privilegiadas estratégias metodológicas de interrelação das dimensões
teórico-práticas, que envolvam o estudante e o comprometam diretamente com
seu processo de aprendizagem, reconhecendo-o como construtor do próprio
conhecimento. A prática contínua do diálogo pedagógico gerará as oportunidades
de ensino e de aprendizagem; para tanto, serão realizadas aula expositivo-
dialógico-dialéticas, conjugadas com atividades desempenhadas efetiva e
diretamente pelo estudante, sob supervisão, acompanhamento e orientação
docente, dizendo respeito à produção de trabalhos individuais e em grupo, vídeos,
leituras, elaboração de resenhas, resolução de questões, correlação e aplicação
de leis, doutrina, jurisprudência, bem como de temas afetos a disciplina, sendo
essas atividades desenvolvidas ao longo das aulas e nas TDE's - Trabalhos
Discente Efetivo.
O estudante deverá protagonizar atividades acadêmicas efetivas e de cunho
extraclasse (realizadas, portanto, fora dos horários destinados às atividades
presenciais), sob planejamento e orientação docente, a fim de continuar,
complementando e acrescendo, o processo iniciado em sala de aula. Para isso,
poderão ser empregados recursos tais como: áudio e vídeo, leitura de leis,
doutrina, jurisprudência, produção de materiais, individual ou conjuntamente,
elaboração de relatórios, resenhas e pareceres, resolução de questões, estudo de
casos, sala de aula invertida e outras atividades visando alcançar os objetivos
propostos ao componente curricular.
Nos TDE's cada docente, autonomamente, determinará a forma como essas
atividades serão desenvolvidas para que se promova a apropriação e produção
dos conteúdos. O domínio dos conceitos jurídicos básicos é pressuposto para a
pesquisa em qualquer área do Direito, mas sobretudo na área abrangida pelo
presente componente curricular. Assim, o avanço no campo da pesquisa pode
surgir naturalmente, a partir do interesse do estudante no aprofundamento de
questões que sejam suscitadas no decorrer do processo - seja sob orientação dos
docentes, seja a partir da aplicação em outros componentes de formação
específica do Curso de Bacharelado em Direito, a exemplo na participação em
Bancas de Trabalho de Conclusão de Curso e defesas de Mestrado e Doutorado.
Estratégias extensionistas promovidos pelos NID?s e Programas de Pesquisa da
Universidade poderão ser articuladas para aperfeiçoamento técnico e científico,
encadeando conteúdos trabalhados ao longo da disciplina e curso a demandas
emergentes da atividade dos operadores do Direito, instrumentalizando os
acadêmicos ao exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho.

Dra. Janaína Rigo Santin


Avaliação
A avaliação do desempenho do estudante na disciplina envolve três momentos:
- Prova Parcial com peso 6,0 (seis);
- Prova Geral (envolvendo todo o conteúdo ministrado) com peso 10,0 (dez); e
- Trabalho(s) com peso 4,0 (quatro).
Obrigatoriamente, pelo menos uma das verificações, a critério do professor, será
sem consulta. A Nota Final do aluno na disciplina será resultado da soma dessas
três notas dividida por dois. Para a aprovação na disciplina, o aluno deverá obter
Nota Final igual ou superior a 6,0 (seis) e, no mínimo, 75% de presença nas aulas.
Será oportunizada aos alunos que não atingirem a Nota Final mínima 6,0 (seis) a
recuperação, através da realização de nova prova, com peso 10 (dez), que
abrangerá todo o conteúdo da disciplina a ser realizada na última semana de aula.
Nesse caso, será considerada a nova Nota Final, resultado da média aritmética
entre a nota obtida pelo aluno até então e aquela obtida na prova de recuperação,
que deverá ser, no mínimo, igual a 6,0 (seis) para aprovação na disciplina. Em
caso de não comparecimento na prova parcial ou final por motivo médico do aluno
ou óbito de familiar em 1º grau, devidamente comprovado, será disponibilizado
nova data para prova substitutiva, sempre antes da próxima verificação. Nos
demais casos será possibilitado ao acadêmico a prova de recuperação.

Bibliografia Básica
FERNANDES, Alexandre Cortez. Direito civil: obrigações. Caxias do Sul, RS:
EDUCS, 2010. 317 p.
RIZZARDO, Arnaldo. Direito das Obrigações. 8. ed. rev. e atual. Rio de Janeiro:
Forense, 2015. Disponível em: <https://ucsvirtual.ucs.br/startservico/MIB/>.
VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil: Obrigações e Responsabilidade Civil. 18.
ed. São Paulo: Atlas, 2018. v. 2.

Bibliografia Complementar
GOMES, Orlando. Obrigações. 17.ed. rev., atual. e aum. Rio de Janeiro:
Forense, 2008. 331 p.
MARQUES, Cláudia Lima. Contratos no código de defesa do consumidor: o
novo regime das relações contratuais. 6. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2011. 1433 p.
MIRANDA, Pontes de. Tratado de direito privado. 2001. Campinas, SP:
Bookseller, 2001. v. 22 a 54.
MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de direito civil, v.4 : direito das
obrigações: 1ª parte. 40. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. Disponível em:
<https://ucsvirtual.ucs.br/startservico/MIB/>.
PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil. 2012. Rio de Janeiro:
Forense, 2012. v. 2.

Dra. Janaína Rigo Santin


ESQUEMA:

I. DIREITO OBRIGACIONAL

1) Conceito de Obrigação:
“Obrigação é a relação jurídica, de caráter transitório, estabelecida entre devedor e credor e
cujo objeto consiste numa prestação pessoal econômica, positiva ou negativa, devida pelo
primeiro ao segundo, garantindo-lhe o adimplemento através de seu patrimônio.”
Washington de Barros Monteiro
Código Civil – Parte Especial – Livro I– DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES. art. 233 e ss.
b) Importância e caracterização:
c) Fontes: contrato, ato ilícito, ato unilateral e lei

2. Princípios das Obrigações:


Princípio, segundo Celso Antônio Bandeira de Mello é: "mandamento nuclear de um
sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes
normas, compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e
inteligência, exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que
lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico"
KARL LARENZ, ao transpor o conceito ético de pessoa para a esfera do direito
privado, deduz três princípios fundamentais: autonomia privada, boa-fé e justiça
contratual. Na verdade, esses princípios, no plano jurídico, refletem a preocupação maior
de orientar toda a vida social pelos três valores fundamentais, que formaram o emblema da
Revolução Francesa e que mudaram a história: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

A) O valor liberdade reflete-se no princípio da autonomia privada. É a


possibilidade assegurada às pessoas pelo ordenamento jurídico de regular suas relações
mútuas dentro de determinados limites por meio de negócios jurídicos. Valoriza-se a
personalidade do homem e seu desenvolvimento dentro do meio social com
responsabilidade. Porém, o ordenamento jurídico coloca limites ao exercício dessa
liberdade através dos princípios da boa-fé e da justiça contratual compensatória.

B) O princípio da boa-fé objetiva nasce do valor fraternidade. Traça o limite ético e


social do homem dentro da sociedade, buscando tutelar a confiança recíproca que deve
existir, concretamente, entre todas as pessoas na sua vida de relação. O princípio da boa-fé
objetiva, como modelo de conduta social ou padrão ético que deve ter o homem reto
(honestidade, lealdade e probidade) e que se verifica concretamente na vida de relação.
É um modelo de conduta social, arquétipo ou standard jurídico, segundo o qual cada
pessoa deve ajustar sua própria conduta de acordo com aquilo que um modelo de ser
humano ideal, certo, honesto e probo faria no caos concreto.
Portanto, na boa-fé objetiva não se questiona a intenção do agente, seu estado
psicológico. O que se questiona são as circunstâncias concretas do caso, ou melhor, como o
ser humano normal, com uma conduta ética e proba agiria nessas circunstâncias.

Dra. Janaína Rigo Santin


C) O princípio da justiça contratual nasce da conjunção dos valores justiça e
igualdade. Representa o equilíbrio que deve existir nas relações sociais. De um lado,
afirma-se a necessidade de que situações iguais recebam o mesmo tratamento (justiça
distributiva). De outro lado, no plano das relações interindividuais, busca-se uma
equivalência entre as prestações da ir ajustadas em um contrato, bem como a justa
retribuição das cargas e riscos do negócio (justiça comutativa ou justiça contratual
compensatória). Evidentemente não se busca igualdade absoluta, pois cada parte defende os
seus interesses da melhor maneira possível.
Importa ressaltar também a relevante inserção no Código Civil de 2002 do princípio
da função social dos contratos, representa a eficácia coletiva dos contratos, possuindo um
viés axiológico. Humberto Theodoro Jr. (2004, p. 31) diz que “a função social do contrato
consiste em abrandar a liberdade contratual em seus reflexos sobre a sociedade (terceiros) e
não apenas no campo das relações entre as partes que o estipulam (contratantes)”. Ou seja,
função social do contrato é uma cláusula geral de ordem pública, com a finalidade de
proteger o instituto do contrato para que este atinja seu fim econômico-social, de circulação
de riquezas e manutenção da ordem social, com observância dos princípios constitucionais
da dignidade da pessoa humana, do desenvolvimento sustentável e da solidariedade.
A estrutura dogmática da relação obrigacional, refere-se, normalmente, aos direitos e
deveres nascidos da autonomia privada dos sujeitos da relação jurídica. Essa relação sofre,
porém, a incidência também dos princípios da boa-fé, da justiça contratual e do equilíbrio, e
da função social do contrato, que temperam o conteúdo do vínculo obrigacional e limitam a
autonomia privada.

II. RELAÇÃO OBRIGACIONAL

2.1 Sujeitos das obrigações: Duplo sujeito: elemento pessoal


a) Sujeito Ativo – credor – creditor-verbo credere (confiar, Ter fé, crer)
É a parte a quem deve ser fornecida, que tem direito de exigir a prestação, em suma, o
beneficiário da obrigação. *Pode ser qualquer pessoa, tanto natural quanto jurídica, capaz,
incapaz, casada ou solteira, nacional ou estrangeira. *O sujeito ativo pode ser individual ou
coletivo, como nas obrigações conjuntas ou solidárias. *Pode também ser um no começo da
relação jurídica e outro na execução, como nos casos de herança, salvo nas obrigações
personalíssimas. *Pode ser em favor de pessoa ou entidade futura, ou ainda não existentes,
como nascituros e pessoas jurídicas em formação. *Normalmente é conhecido e certo o
credor desde o início da constituição da obrigação, mas às vezes ele não se identifica
claramente, como cheques ao portador, bilhetes de rifas ou loterias, onde o credor será
sempre quem tiver a respectiva posse da coisa. Nesses casos o credor é pessoa incerta, que
se determina pela apresentação do título. Em outros casos, inexiste individualização do
credor, que, posteriormente, se determina, como uma bolsa de estudos em favor do aluno
que mais se distinguir no curso.
Em resumo, ao seu titular confere-se o direito de exigir a prestação, um direito de
crédito, fundando-se na confiança do devedor e na sua idoneidade financeira.

b) Sujeito passivo – devedor- debitor-verbo debere (carga, dívida, sujeição)


É o que deverá cumprir a prestação obrigacional, limitando sua liberdade, pois deverá
dar, fazer ou não algo em atenção ao interesse de outrem, que, em caso de inadimplemento,

Dra. Janaína Rigo Santin


poderá buscar, por via judicial, no patrimônio do devedor, recursos para satisfazer seu
direito de crédito. O sujeito passivo pode ser qualquer pessoa também, natural ou jurídica.
Pode ser único ou plural, se houver mais de um devedor, a prestação devida consistirá quer
em uma fração do objeto, quer na totalidade; nesse último caso, uma vez paga, competirá
ao que a cumpriu direito regressivo em relação aos codevedores quanto à parte
proporcional que lhes cabe. Como o credor, o devedor não precisa ser determinado de
modo certo, logo que nasce a relação. Exige-se que seja determinável, isto é, que haja a
possibilidade de sua ulterior determinação. Um exemplo são as obrigações derivadas dos
direitos reais, também chamadas ambulatórias. São obrigações a cargo de uma pessoa
enquanto proprietária de determinada coisa, ou titular de certo direito real de gozo sobre a
mesma. Transferindo-se a coisa, a obrigação acompanha o bem.

2.2 Objeto das obrigações: elemento material.


Examinado o elemento pessoal, cabe agora passar ao elemento material da obrigação, o
objeto, que o devedor tem de fornecer ao credor e que este pode exigir daquele. Se traduz
numa prestação, que consiste em dar, fazer ou não fazer alguma coisa.

2.2.1 Predicados do objeto da obrigação: possível, lícito, suscetível de estimação


econômica, com prestação determinada ou determinável.
a) possível: Deve ser possível física ou materialmente e legal ou juridicamente. Será nula a
obrigação se o objeto for impossível (art. 166 inc. II CC). Haverá impossibilidade física ou
material sempre que a prestação não puder ser obtida ou efetuada, por contrariar leis da
natureza, ultrapassar as forças humanas ou não existir. Estipulações desse tipo não obrigam
o promitente.
Haverá impossibilidade legal ou jurídica sempre que a estipulação se refira a objeto
proibido por lei, como a alienação de bens públicos (praça ou rua), de bens onerados com
cláusula de inalienabilidade, (art. 1911), cessão de herança de pessoa viva (art. 426).
Tenha-se presente que a impossibilidade deve ser real ou absoluta. Se se trata de mera
dificuldade, superável com algum esforço, deságio ou maior dispêndio não incide o objeto
em condenação, nem acarreta eventual exoneração do devedor. Se a prestação for
parcialmente impossível, não invalidará a relação obrigacional porquanto a parte possível
pode ser útil ao credor, que poderá exigi-la. Se a impossibilidade absoluta for temporária e
cessar antes do implemento da condição, não será causa de nulidade da obrigação.
b) licitude: a prestação deve ser lícita, isto é, conforme a moral, a ordem pública e aos bons
costumes. Ilícito ou impossível o objeto, nula será a obrigação (art. 166, II).
c) valor econômico: O objeto deve ser suscetível de avaliação pecuniária, se não representa
valor, deixa de interessar ao mundo jurídico. Ex. venda de um só grão de café, porque tal
quantidade, evidentemente, nada representa.
d) determinada ou determinável: sob pena de não haver obrigação válida. Determinada é
quando há perfeita individuação do objeto da prestação. Não é preciso que, ao surgir a
relação obrigacional, o objeto se encontre materializado. Pode vir posteriormente. É o que
acontece nos contratos aleatórios (art. 458-direitos de herança ignorada, riquezas de navio
afundado, compra de peixe que vier na rede do pescador, penhor de safras futuras). A
prestação, será então determinável.

Dra. Janaína Rigo Santin


2.3 Vínculo obrigacional
O vínculo jurídico que une os dois sujeitos por causa da prestação compreende de um lado
o dever da pessoa obrigada (debitum), e de outro a responsabilidade em caso de
inadimplemento (obligatio).
Separa, portanto, o débito do devedor da sua responsabilidade em caso de inadimplemento.
O devedor obriga-se, seu patrimônio responde. Se ele paga desaparece o vínculo, se não,
são executados seus bens pelo credor.
Geralmente, ambos elementos se reúnem na mesma pessoa, o devedor deve e responde pelo
cumprimento da obrigação. Todavia, às vezes, coexistem em pessoas diferentes, p.ex:
fiança ou hipoteca, para garantia de dívida de terceiro.
a) vínculo espiritual: O vínculo espiritual é constituído pelo comportamento que ao sujeito
passivo sugere a lei, no sentido de satisfazer pontualmente e espontaneamente a obrigação,
honrando seu compromisso e procedente de acordo com os mais elevados princípios do
direito, que mandam viver honestamente, dar a cada um o que é seu e não prejudicar a
ninguém.
b) vínculo material: O vínculo material constitui-se pelo poder que a lei dá ao credor (não
satisfeito) de acionar o devedor, promover contra ele execução de sentença, penhorar seus
bens e levá-los à hasta pública, assim obtendo, com o seu produto, valor correspondente à
prestação devida e não espontaneamente cumprida. Esse segundo elemento apenas se
projeta se o sujeito passivo não solve voluntariamente a obrigação assumida.

III. OBRIGAÇÃO NATURAL

a) Conceito:
Relação jurídica a que o legislador retirou a ação correspondente. Nem o credor tem
direito de exigir a prestação, nem o devedor está adstrito a solvê-la. Embora reúna todos os
elementos da obrigação civil, a lei nega-lhe eficácia e tutela judicial. É obrigação civil cuja
evolução não se completou, por não ter chegado a adquirir a indispensável tutela judicial,
ou que se degenerou, por haver perdido a ação que a resguardava. (Arts. 882 e 564, III CC).
Assim, a obrigação natural é relação não jurídica que adquire eficácia jurídica através
de seu adimplemento. Após o pagamento espontâneo do devedor, vem a ser atraída para a
órbita jurídica, porém com um único efeito, o direito de retenção.
No caso de execução ou pagamento parcial da obrigação natural, não autoriza o credor
a reclamar pagamento do restante. Ela não se transforma em civil pelo fato de ter sido paga
a dívida parcialmente. O cumprimento parcelado implica apenas reconhecimento também
parcial da obrigação.
b) exemplos de obrigação natural no direito brasileiro: dívidas prescritas, dívidas de
jogo, juros não convencionados.

V. OBRIGAÇÕES DE DAR COISA CERTA(Arts. 233 a 237 CC)

1. Conceito: A obrigação de dar coisa certa e específica consiste no vínculo jurídico pelo
qual o devedor fica adstrito a fornecer ao credor determinado bem, perfeitamente

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individuado, móvel ou imóvel, explicitando que a coisa certa há de constar de objeto
preciso, que se possa distinguir por características próprias, de outros da mesma espécie.

2.Princípios:
a) direito pessoal (jus ad rem) e não real (jus in re)
Só confere, a obrigação de dar, ao credor, um simples direito pessoal. Efetivamente,
antes da tradição, o objeto continua a pertencer ao alienante. Ver art. 1.267 CC, - o
domínio das coisas não se transfere pelos contratos. Só com a tradição, real ou
simbólica, o comprador adquire o domínio, ainda que tenha pago todo o preço.
b) Nemo aliud pro alio invito creditore solvere potest
O credor de coisa certa não pode ser obrigado a receber outra, ainda que mais
valiosa (art. 313 CC). O devedor não pode realmente liberar-se mediante entrega de
coisa diversa da ajustada, porque não lhe é lícito, unilateralmente, modificar o
objeto da prestação. Nem se pode substituir a coisa devida pelo respectivo valor. A
recíproca é verdadeira: O credor não pode exigir coisa diferente, ainda que menos
valiosa. O devedor não pode desobrigar-se por partes, se assim não convencionado.
A entrega parcelada só é possível mediante pacto expresso.
c) Acessorium sequitur suum principale
(art. 233 CC). O acessório segue o principal, salvo se compactuado entre as partes.
Tais acessórios não têm individualidade própria e por isso desprovidos são de
autonomia jurídica. Quem aliena um imóvel transmite simultaneamente o ônus do
imposto como acessório, além das servidões existentes. Questionado dispositivo só
deixará de ser observado em duas hipóteses: expressa declaração em contrário no
título da obrigação e exclusão resultante de circunstâncias evidentes (ex.
conhecimento do vício pelo adquirente).
d) Res perit domino (casum sentit domino)
Art. 492- A coisa se perde para o dono. O dano patrimonial do objeto da prestação é
a responsabilidade do dono.
e) Dever de conservação da coisa
O devedor, adstrito à entrega de coisa certa, é obrigado à conservá-la com todo
cuidado, zelo e diligência. É uma obrigação de meio, em que o devedor deve velar
pela conservação da coisa - art. 234 CC .

3. Disposições legais – Art. 234 a 236 CC


a) perda da coisa, antes da tradição, sem culpa do devedor – efeitos.
Art. 234. Apesar de sua diligência, pode a coisa se perder, sem a culpa do devedor,
antes da tradição, ou pendente à condição suspensiva. Nesse caso, fica resolvida a
obrigação para ambas as partes. A obrigação se desfaz e as partes dentro do possível
são postas no estado em que se encontravam antes do negócio. O vendedor devolve
o preço e sofre o prejuízo, já que até a tradição ele é o dono da coisa, e quem sofre o
prejuízo pela perda é o dono. (art. 492 CC – res perit domino)
b) perda da coisa, antes da tradição, por culpa do devedor – efeitos.
Se o negócio jurídico não pode ser mais cumprido por culpa do devedor, este
responde pelo equivalente ao valor real da coisa no momento da perda mais perdas e
danos. Art. 234, parte final; Art. 389 e 402 CC.

Dra. Janaína Rigo Santin


Impossibilitada a entrega da coisa certa urge a entrega ao credor de entidade
econômica equivalente, expressa em dinheiro, que é o denominador comum de
todos os valores, mais perdas e danos (Art. 947 CC).
c) deterioração da coisa, antes da tradição, sem culpa do devedor – efeitos.
(degradação física, diminuição material do valor respectivo)
Se a coisa se deteriora, não sendo culpado o devedor, poderá o credor resolver a
obrigação, ou aceitar a coisa, abatido ao seu preço o valor que perdeu. (art. 235). O
devedor não pode constranger o credor a receber coisa diversa da que havia sido
ajustada. Terá o credor a alternativa seguinte: dar como resolvida a obrigação, ou
aceitar a coisa deteriorada, deduzido o valor da depreciação sofrida.
d) deterioração da coisa, antes da tradição, por culpa do devedor – efeitos.
Poderá o credor exigir o equivalente, ou aceitar a coisa no estado em que se acha,
com direito a reclamar, em um ou em outro caso, indenização das perdas e danos.
(art. 236).

4. Direito aos melhoramentos e acrescidos.


(art. 237). Como o domínio só se transfere com a tradição, até a tradição, pertence ao
devedor a coisa, com os seus melhoramentos e acrescidos, pelos quais poderá exigir
aumento do preço. Como acessórios que são do principal, seguem seu destino,
incorporando ao patrimônio do titular, que pode, por essa razão, exigir aumento no preço.
Se o credor não anuir, poderá o devedor resolver a obrigação. Da mesma forma que o
proprietário arca com os ônus derivados da deterioração, beneficia-se com os
melhoramentos e acrescidos experimentados pela coisa.

VI. OBRIGAÇÕES DE RESTITUIR (Arts. 238 a 242 CC)

1) Conceito Obrigação de restituir:


A prestação consiste no ato de devolver determinado objeto, cuja propriedade já era do
credor, por título anterior ao ato gerador do vínculo obrigacional.

2) Distinção entre obrigação de dar e obrigação de restituir:


Difere da obrigação de dar coisa certa em que na de dar coisa certa a coisa pertence ao
devedor até a data da tradição e o credor recebe o que não lhe pertence. Na obrigação de
restituir, ao inverso, a coisa é de propriedade do credor, antes mesmo do ato gerador da
obrigação. Ou seja, a coisa encontrava-se legitimamente em poder do devedor,
pertencendo, porém, ao credor, que tinha sobre a mesma direito real.

3) Princípios:
As obrigações de restituir estão regidas pelos mesmos princípios das obrigações de dar.
O devedor não pode restituir coisa diferente daquele do negócio jurídico. O acessório segue
o principal, a coisa se perde para o dono, onde na de dar o prejuízo é da conta do devedor,
que é o proprietário, e na de restituir quem sofre é o credor.

4) Disposições legais:
a)perda da coisa, antes da tradição, sem culpa do devedor – efeitos. Art. 238 CC

Dra. Janaína Rigo Santin


Se a obrigação for de restituir coisa certa, e esta, sem culpa do devedor, se perder
antes da tradição, sofrerá o credor a perda, e a obrigação se resolverá sem
indenização, salvos, porém, a ele, os seus direitos até o dia da perda.
b)perda da coisa, antes da tradição, por culpa do devedor – efeitos. Art. 239 CC
Se a coisa se perder, por culpa do devedor, responderá ele pelo equivalente, mais as
perdas e danos.
c)deterioração da coisa, antes da tradição, sem culpa do devedor – efeitos. Art. 240
(degradação física, diminuição material do valor respectivo)
Se a coisa restituível se deteriorar sem culpa do devedor, recebê-la-á tal qual se
ache, o credor, sem direito a indenização. O dono, que é o credor, sofre o prejuízo.
Quem é o credor? O depositante, dono da coisa.
d)deterioração da coisa, antes da tradição, por culpa do devedor – efeitos. Art. 240
segunda parte.
Se o devedor omitiu, por exemplo, o dever de custodiar, cabe-lhe suportar as
conseqüências de sua desídia. Poderá o credor exigir o equivalente, ou aceitar a
coisa no estado em que se acha, com direito a reclamar, em um ou em outro caso,
indenização das perdas e danos.

5)Direito aos melhoramentos e acrescidos.


Os melhoramentos são de direito do dono, credor.
a) Melhoramentos ocorridos sem interferência do devedor.
Art. 241 - Se, no caso do art. 238, sobrevier melhoramento ou acréscimo à coisa, sem
despesa ou trabalho do devedor, lucrará o credor, desobrigado de indenização.
b) Melhoramentos ocorridos com interferência do devedor.
Entretanto, se para o melhoramento ou aumento empregou o devedor trabalho ou
dispêndio, equipara-se às benfeitorias, para efeito de ressarcimento pelo credor.
Deve-ser observar os preceitos relativos à posse, ou seja, averiguar se o devedor é
de boa ou má fé. (Art. 242 CC)

VII. OBRIGAÇÕES DE DAR COISA INCERTA (Arts. 243 a 246 CC)

1) Conceito:
Nessa modalidade de obrigação, o respectivo objeto ou conteúdo da prestação é
indicado genericamente no começo da relação, vindo a ser determinado por um ato de
escolha, no instante do pagamento. A coisa incerta será indicada, ao menos, pelo gênero
a que pertence e quantidade devida. (Art. 243 CC)
O pagamento é precedido de ato preparatório de escolha, que individualizará ou
determinará a coisa a ser entregue ao credor. Realizada a escolha, de acordo com as
condições estabelecidas no contrato ou segundo regras legais, a obrigação de dar coisa
incerta transmuda-se na obrigação de dar coisa certa.

2) Diferenças entre obrigações de dar coisa certa e dar coisa incerta


Dar coisa certa
- prestação tem desde logo conteúdo determinado
- o devedor libera-se entregando a própria coisa devida, já qualificada e individuada, o
que a distingue das demais de mesma espécie.

Dra. Janaína Rigo Santin


Dar coisa incerta
- a prestação não é determinada, mas determinável em meio a uma pluralidade
indeterminada de coisas ou objetos, desobrigando-se o devedor mediante entrega de
qualquer das coisas ou objetos incluídos no respectivo gênero.
- O pagamento é precedido de um ato preparatório de escolha, que individualizará a coisa
a ser entregue ao credor. Realizada a escolha, a obrigação de dar coisa incerta
transmuda-se em dar coisa certa, e a prestação passará a objetivar precisamente o ato de
entrega da coisa escolhida.

3) Disposições Gerais (Art. 243 CC)


A coisa incerta será indicada, ao menos, pelo gênero e quantidade.

4) Direito de escolha.
Nas coisas determinadas pelo gênero e quantidade, a escolha pertence ao devedor, mas não
poderá dar a coisa pior, nem será obrigado a prestar a melhor. (Art. 244 CC) A escolha
efetua-se mediante ato jurídico unilateral denominado concentração.
Concentração: que é a individuação da coisa manifestada no ato do pagamento ou
cumprimento da obrigação. Cabe ao devedor, se não houver pacto expresso em contrário.
Mas, em tal conjuntura, o devedor deve guardar o meio-termo, entre os congêneres de
melhor e pior qualidade. Para a escolha, não basta que o devedor separe o produto para
entregá-lo ao credor. É mister realize ainda o ato positivo de colocá-lo à disposição deste.

5) Princípio genus nunquam perit (Art. 246 CC) – genus limitatum e genus illimitatum.
O gênero nunca perece. O devedor não pode alegar perda da coisa antes da escolha para
exonerar-se do vínculo obrigacional. A liberação da obrigação não se dá nem por caso
fortuito ou força maior.
Genus limitatum – existe uma limitação. É circunscrita às coisas que se acham num
certo lugar, no patrimônio de alguém, ou sejam relativas à determinada época ou
acontecimento. Se o gênero é delimitado, o perecimento ou inviabilidade de todas as
espécies que o componham acarretará o fim da obrigação. Ou, se o gênero se reduz a
um número muito restrito de unidades, a obrigação deixará de ser genérica para ser
alternativa.
Genus illimitatum – não existe qualquer restrição à regra de “gênero nunca parece”.

6) Exercício do direito de escolha


Incumbe as partes estipular a quem compete a escolha. Se não o fizerem o art. 244 CC
determina pertencer ao devedor o direito de escolher.

VIII. OBRIGAÇÕES DE FAZER (Arts. 247 a 249 CC)

1) Conceito:
A prestação consiste na prática de um ato ou na realização de um trabalho pelo devedor
em proveito do credor.

2) Distinção entre obrigação de dar e de fazer:


a) quanto ao objeto

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-dar: consiste na entrega de algo certo ou incerto pelo devedor ao credor.
-fazer: consiste na prática de um ato ou serviço do devedor.

b) quanto à pessoa do devedor:


-dar: a pessoa do devedor está em plano secundário. É viável até o cumprimento por
terceiros, estranhos aos interessados (Art. 305 do CC). O que importa é a entrega da
coisa.
-fazer: (Art. 247 CC) é relevante a pessoa do devedor, pois a personalidade do obrigado
assume quase sempre especial significação. O erro sobre a pessoa raramente acarreta
anulabilidade do ato nas obrigações de dar, e quase sempre anula o consentimento nas
obrigações de fazer. (Art. 139, II CC)

c) quanto à execução:
-dar: geralmente comportam execução específica, pela entrega da coisa devida.
-fazer: geralmente não comportam execução específica, execução in natura, pois o
credor não pode constranger o devedor a fazer. A sentença pode condenar o devedor,
mas não obrigá-lo a fazer.

3) O princípio “nemo potest precise cogi ad factum”


Ninguém pode ser diretamente coagido a praticar o ato a que se obrigara. A sentença
pode ser condenatória, mas não pode coagir a pessoa a fazer a coisa.

4) Obrigações de fazer de natureza infungível e de natureza fungível


Infungível - Nas obrigações de fazer, ao serem contraídas, se leva em conta a pessoa do
devedor, onde o credor confia na sua reputação, capacidade, habilitação profissional,
idoneidade. Em tal hipótese, é óbvio que a obrigação só será satisfeita, executando o
próprio devedor, em pessoa, ato ou serviço prometido. A regra é a execução pelo
próprio devedor nas prestações infungíveis, mesmo não existindo cláusula expressa.
(Art. 247 CC).
Fungível - Execução por terceiro- Evidentemente, há casos em que indiferente será ao
credor a individualidade do devedor, como a pintura de uma parede, conserto de um
relógio. Pouco importa ao credor seja tal serviço executado por este ou por aquele
operário, contanto que se efetive o serviço desejado. Nesses casos, uma terceira pessoa
assume o encargo de executar a prestação prometida, à custa do devedor, ou o devedor
originário resolve o contrato, com ressarcimento das perdas e danos. Art. 249 CC.

5) Inadimplemento
(Art. 248 CC) Cumpre lembrar que a impossibilidade, suscetível de produzir efeito
liberatório, há de ser provada pelo interessado que a invoca. E ainda, para conter o
efeito liberatório, deve ser absoluta, permanente e irremovível. Se se trata de simples
dificuldade, a ser superada com maior esforço, não exonera o devedor. (Art. 106 CC)
Verificada a impossibilidade, cumpre averiguar se ela sobreveio sem culpa, ou por
culpa do devedor. No primeiro caso, resolvida fica a obrigação. No segundo caso, por
culpa, a impossibilidade foi intencionalmente provocada, e o obrigado deve suportar as
conseqüências de seu ato lesivo.
Nas prestações fungíveis, vigora o art. 249 CC. Nas obrigações infungíveis, vigora o
art. 247.

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6) Casos de urgência
Conforme art. 249, parágrafo único do CC, em casos de urgência, pode o credor,
independentemente de autorização judicial, executar ou mandar executar o fato, sendo
depois ressarcido.

IX. OBRIGAÇÕES DE NÃO FAZER (Arts. 250 a 251 CC)

1) Conceito
Obrigação de não-fazer é aquela pela qual o devedor se compromete a não praticar certo
ato, que poderia livremente praticar, se não houvesse se obrigado. É um direito pessoal,
incide sobre a pessoa.

Não fazer: Negativa:


-Natureza particular ou especial -inerente aos direitos reais, geral e abstrata
-Compromete-se o devedor, -a obrigação é vaga e indeterminada - não
especificamente, a abster-se da prejudicar direito alheio.
prática de determinado ato
-relação de direito pessoal, só -direito real, oponível erga omnes, atingindo
vincula o próprio devedor. todos indivíduos.

2) Princípio “nemo potest precise cogi ad factum”


Tudo o que a lei anteriormente estabeleceu para as obrigações de fazer se aplica por
igual às de não fazer.

3) Adimplemento e inadimplemento
Praticado pelo devedor o ato, a cuja abstenção se obrigara, o credor pode exigir dele
que o desfaça, sob pena de se desfazer à sua custa, ressarcindo o culpado perdas e
danos. (Art. 251 CC). Agora, se tornar-se impossível abster do ato a que se obrigou não
praticar, sem culpa do devedor, extingue-se a obrigação de não fazer. (Art. 250 CC)
Mora: Art. 390 CC - Nas obrigações negativas, o devedor fica constituído em mora,
desde o dia em que executar o ato a que se devia abster. Confunde-se a mora com o
próprio inadimplemento.

4) Execução das obrigações de não fazer


Importante verificar a possibilidade de o credor, em caso de urgência, mandar
desfazer ou desfazer o ato a que o devedor se obrigara, independentemente de autorização
judicial, sem prejuízo do ressarcimento devido. (art. 251, parágrafo único CC)

X. OBRIGAÇÕES ALTERNATIVAS (Arts. 252 a 256 CC)

1. Conceito e caracteres
Nas obrigações alternativas, várias prestações são contempladas na relação jurídica, mas o
devedor se libera com a satisfação de uma única. Em tese o devedor deve todas as
prestações, mas se exonera com a entrega de uma delas apenas.
a) multiplicidade de prestações

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b) fato de o devedor exonerar-se entregando apenas 1 delas.
Realizada a escolha, as demais prestações desligam-se do vínculo.

2. Obrigações alternativas e obrigações cumulativas


Alternativas: tem por objeto duas ou mais prestações com exoneração pela entrega de uma
delas. “ou”. É obrigação única, com prestação não individualizada, mas individualizável.
Feita a escolha, o vínculo obrigacional rescinde a prestação escolhida, liberando as demais.
Cumulativas: há pluralidade de objetos e o devedor deve todos eles. Há tantas obrigações
quantos os objetos. “e”.

3. Direito de escolha e concentração


Concentração: ato jurídico de escolha, pelo qual se determina o objeto da prestação. A
natureza jurídica da concentração é a de ato jurídico unilateral. Transforma a obrigação
alternativa em simples, onde efetuada a escolha, torna-se irrevogável e definitiva.
Comunicada esta escolha, ela cristaliza-se e não pode mais variar, o que ocorre até o
presente momento, a não ser por contrato das partes.
Com o ato da escolha, individualiza-se a prestação e as demais ficam liberadas, como se
desde o início fosse única a obrigação. As prestações são múltiplas, mas, efetuada a
escolha, quer pelo devedor quer pelo credor, individualiza-se a prestação e as demais ficam
liberadas, como se, desde o início, fosse a única objetivada na obrigação.

4. Inexecução

I- Escolha do Devedor
1. SEM CULPA DO DEVEDOR
a) impossibilidade de uma prestação: art. 253 CC – subsiste na prestação remanescente.
b) impossibilidade de todas as prestações: art. 256 CC – extingue a obrigação.

2. COM CULPA DO DEVEDOR


a) impossibilidade de uma prestação: art. 253 CC – subsiste na prestação remanescente.
b) impossibilidade de todas as prestações: art. 254 CC – paga o valor da que por último se impossibilitou mais
perdas e danos.

II – Escolha do Credor
1. SEM CULPA DO DEVEDOR
a) impossibilidade de uma prestação: art. 253 CC – subsiste na prestação remanescente.
b) impossibilidade de todas as prestações: art. 256 CC – extingue a obrigação.

2. COM CULPA DO DEVEDOR


a) impossibilidade de uma prestação: art. 255, primeira parte – o credor pode exigir a prestação remanescente
ou o valor da que se perdeu mais perdas e danos.
b) impossibilidade de todas as prestações: art. 255, segunda parte – o credor pode reclamar o valor de
qualquer uma das prestações, acrescido em ambos os casos de perdas e danos.

XI. OBRIGAÇÕES DIVISÍVEIS E INDIVISÍVEIS (Arts. 257 a 263 CC)

1) Noção e compreensão:
2) Distinção entre obrigações divisíveis e indivisíveis.

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Divisíveis: aquelas cujas prestações possibilitam cumprimento parcial ou fracionado.
Cada credor só tem direito a uma parte, podendo reclamá-la, independentemente dos
demais sujeitos. Por seu turno, cada devedor responde exclusivamente por sua quota,
liberando-se assim como o respectivo pagamento. Vale a regra geral (Arts. 1.297;
1.272; 1.326; 1.007 CC).
Indivisíveis: aquelas cujas prestações somente por inteiro podem ser cumpridas. Cada
credor pode exigir o cumprimento integral, como cada devedor responde pela
totalidade. Vários credores: indivisibilidade ativa. Vários devedores: indivisibilidade
passiva. (art. 259)

3) Disposições legais:
Art. 314 CC – Ainda que a obrigação tenha por objeto prestação divisível, não pode o
credor ser obrigado a receber, nem o devedor a pagar, por partes, se assim não se ajustou.
Art. 257 CC - Regra concursu partes fiunt – cada um só responde pela sua parte – regra
geral das obrigações divisíveis. Cada credor não pode exigir senão sua quota e cada
devedor não responde senão pela parte respectiva. A prestação é assim distribuída
rateadamente. Exceções à regra: indivisibilidade e solidariedade. Numa e noutra, embora
concorram várias pessoas, cada credor tem direito de reclamar a prestação por inteiro e
cada devedor responde também pelo todo.

4) Espécies de indivisibilidade (art. 258)


Indivisibilidade física ou material –A prestação é exigível por inteiro de um só dos
devedores, em virtude da natureza de seu objeto, insuscetível de ser repartido sem perda
do seu valor ou identidade. É a própria natureza da obrigação que a torna indivisível.
Indivisibilidade legal – a obrigação pode naturalmente ser divisível, mas a lei a torna
indivisível, em proveito do interesse social.
Indivisibilidade contratual (vontade das partes) – a indivisibilidade provém da
vontade das partes, embora em tese seja materialmente divisível.

5) Efeitos da indivisibilidade da prestação


a) caso de pluralidade de devedores
Havendo dois ou mais devedores de prestação indivisível, cada um será obrigado pela
dívida toda (Art. 259 CC). Exceção à regra concursu partes fiunt. Cada um dos
devedores só deve parte da dívida, todavia, em virtude da natureza indivisível da
prestação, pode ser compelido a satisfazê-la por inteiro.
Art. 259, § único CC - ao devedor que paga a dívida, cabe-lhe a prerrogativa de sub-
rogar-se no direito do credor, em relação aos outros coobrigados. A lei não só lhe defere
o direito de cobrar dos codevedores a parte a eles cabente, como ainda o mune das
garantias que asseguravam o direito ao credor original.
Art. 263 CC – a qualidade de indivisível da prestação é perdida no caso de a obrigação
ser resolvida em perdas e danos. Assim, a regra concursu partes fiunt que deixara
excepcionalmente de viger volta a incidir, e cada um dos devedores passa a responder
apenas por sua parte na obrigação.
b) caso de pluralidade de credores
Art. 260 CC - Cada um deles poderá exigir a dívida por inteiro. Mas o devedor ou os
devedores só se desobrigarão pagando: I) a todos os credores conjuntamente; II) a um,
dando caução de ratificação dos outros credores.

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6) Extinção das obrigações – Art. 262 CC.
Remissão- perdão da dívida por parte do credor. Se são vários os credores e um deles
perdoa a dívida, experimenta o devedor um lucro, pois foi para beneficiá-lo que ocorreu a
remissão. Portanto, os outros credores só poderão exigir a entrega do objeto in obligatione,
descontada a quota do credor remitente, pois, caso contrário, haveria um empobrecimento
sem causa do devedor, e um enriquecimento injustificado por parte dos credores
remanescentes (art. 385 a 388 CC)
Transação – contrato pelo qual, mediante concessões recíprocas, se previne ou termina
uma lide. Se um dos credores, em obrigação indivisível, transige com o devedor, faz
extinguir entre ambos a relação obrigacional. Mas como o ato não aproveita senão aos que
nele tomaram parte, mesmo que diga respeito a coisa indivisível, segue-se que aos demais
credores inibidos não ficam de cobrar do devedor comum, deduzindo-se a quota que
pertenceria ao credor transigente (Arts 840 a 850 CC).
Novação – uma nova relação jurídica surge para substituir a anterior. Celebrada entre um
dos credores e o devedor comum, extingue-se a dívida deste, não pelo total, naturalmente,
mas pela sua quota, podendo os demais credores reclamar a qualquer tempo as parcelas a
que tem direito (Arts. 360 a 367 CC).
Compensação – duas dívidas se extinguem em virtude das partes serem reciprocamente
credoras e devedoras uma das outras (Arts. 368 a 380 CC).
Confusão – desaparece a dívida por se reunirem na mesma pessoa as condições de credor e
devedor (Arts.381 a 384 CC).

7) Consequências jurídicas
Divisíveis
a) cada um dos credores só tem direito de exigir sua fração no crédito
b) cada um dos devedores só tem de pagar a própria quota no débito
c) se o devedor solver integralmente a dívida a um só dos vários credores, não se
desobrigará com relação aos demais cocredores
d) o credor que recusar o recebimento de sua quota, por pretender solução integral,
pode ser constituído em mora.
e) A insolvência de um dos codevedores não aumentará a quota dos demais

Indivisíveis
a) cada um dos credores pode exigir a dívida por inteiro
b) cada um dos devedores responde integralmente pela dívida
c) o devedor que paga integralmente o débito a um dos vários credores desonerar-
se-á em relação aos demais
d) o credor não pode recusar o pagamento por inteiro, sob pena de ser constituído
em mora

XII. OBRIGAÇÕES SOLIDÁRIAS (Arts. 264 a 285 CC)

1. Conceito: Art. 264 e 265 CC - Segunda exceção ao princípio concurso partes fiunt.
Existindo pluralidade de credores ou devedores, pode qualquer daqueles exigir a prestação

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total, como se fora único credor, ou pode qualquer destes ser compelido a solver a dívida
toda, como se fora único devedor
A solidariedade não se presume, resulta da lei ou vontade das partes. Se a lei não impõe e o
contrato não a estipula, inexiste solidariedade. Precisa ser expressa, por manifestação
equivalente das partes, explícita ou implícita. Na dúvida, presume-se não exista a
solidariedade.

Art. 268 CC - Enquanto algum dos credores solidários não demandar o devedor comum, a
qualquer daqueles poderá este pagar. Se ainda não existe cobrança judicial, pode o devedor
pagar a qualquer dos credores, à sua escolha. Mas o direito de escolha cessa desde que um
dos credores já tenha ingressado em juízo com ação de cobrança.

2. SOLIDARIEDADE PASSIVA

Várias são as obrigações que se encontram reunidas ou conglomeradas na obrigação


solidária. Cada devedor passa a responder não só pela própria quota, como também pelas
partes dos demais consortes. Passam a responder pela solução integral no montante da
dívida. Se ele vem a solver integralmente a prestação, pode recobrar dos outros as
respectivas porções, o devedor que pagou tem direito regressivo contra os demais. Se vários
devedores respondem pela solução do débito, a garantia de adimplemento é maior.

Art. 275 CC – “o credor tem direito a exigir e receber de um ou de alguns dos devedores,
parcial ou totalmente, a dívida comum; se o pagamento tiver sido parcial, todos os demais
devedores continuam obrigados solidariamente pelo resto.”. Pode o credor demandar o
pagamento a um, alguns ou todos, a sua escolha. Se um dos devedores for acionado
isoladamente, não pode invocar benefício de divisão, isto é, direito do réu de fazer citar o
outro, ou os outros codevedores, para juntos se defenderem e juntos serem absolvidos ou
condenados. Cada devedor responde, individualmente, por si e pelos outros, por toda
dívida. O credor que aciona um devedor isolado, conserva intacto seu direito quanto aos
demais, se não chega a receber a prestação. Recebida esta, integralmente, liberados ficam
todos. Se parcial o recebimento, assiste-lhe direito de obter a complementação não só do
demandado, como de qualquer dos outros coobrigados. Há inúmeros casos no direito
positivo: CC art. 154; 1460; 585, 680, 829, 942.

3. SOLIDARIEDADE ATIVA
Atributo externo da obrigação, em que concorrem dois ou mais credores e que a qualquer
deles autoriza receber integralmente a prestação devida. Solidariedade do sujeito ativo ou
titular do direito ou credor. O devedor libera-se pagando a qualquer dos credores, e o que
recebe se adstringe a pagar aos consortes a quota de cada um, retendo a sua parte. O credor
que recebe o pagamento responde perante os consortes pelas parcelas de cada um. O
cumprimento da obrigação pode ser reclamado por qualquer dos consortes. Realizada,
porém, a prestação, o credor deverá repassar aos demais.

4. SOLIDARIEDADE MISTA: Há presença concomitante de credores e devedores.

Art. 266 CC – A obrigação solidária pode ser pura e simples para um dos cocredores ou
codevedores, e condicional, ou a prazo, ou pagável em lugar diferente, para o outro. Assim,

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diferentes podem ser as relações jurídicas, referentes a cada titular, evidenciando a presença
de múltiplas obrigações a integrarem o conteúdo da obrigação solidária.

Falecimento do credor solidário: deixando herdeiros, cada um destes só terá direito a exigir
e receber a quota do crédito que corresponder ao seu quinhão hereditário, salvo se a
obrigação for indivisível (Art. 270 CC).

Falecimento do devedor solidário (art. 276 CC). Deixando herdeiros, nenhum destes será
obrigado a pagar senão a quota que corresponder ao seu quinhão hereditário, salvo se a
obrigação for indivisível. Em relação a cada um deles fragmenta-se a dívida, se divisível.
Mas todos reunidos serão considerados como um devedor solidário em relação aos demais
devedores. Respondem os herdeiros pela dívida do falecido desde que não ultrapasse as
forças da herança (Arts. 1.792; 1.821 e 1.997 do CC).

Conversão da prestação em perdas e danos: subsiste a solidariedade (art. 271 CC). A


unidade da prestação não é comprometida com sua transformação em perdas e danos.

Tornando-se inexequível a prestação por culpa de um dos devedores solidários, subsiste


para todos o encargo de pagar o equivalente; mas pelas perdas e danos só responde o
culpado (art. 279 CC). Se a inexequibilidade decorre sem culpa, por caso fortuito ou força
maior, extingue-se a obrigação.

Pagamento parcial: art. 277 CC – o pagamento parcial feito por um dos devedores e a
remissão por ele obtida não aproveitam aos outros devedores, senão até a concorrência da
quantia paga ou relevada.

Direito de regresso: o credor que tiver remitido a dívida ou recebido o pagamento,


responderá aos outros pela parte que lhes caiba (art. 272 CC). Extinta a obrigação quer
pelo meio direito (pagamento) ou indireto, responde o credor favorecido perante os demais,
pelas quotas que lhes couberem. Do recebimento decorre obrigação de prestar contas do
benefício. Tal divisão deve ser efetuada em partes iguais, se outra coisa não constar do
título da obrigação. Se houver nulidade da obrigação quanto a um dos cocredores, sua quota
deverá ser deduzida do todo e ele não participará do rateio.

5. Semelhanças entre solidariedade e indivisibilidade:


a) ambos, cada credor exige a dívida inteira e cada devedor responde pelo todo.
b) O credor que recebe responderá pela parte dos demais, e o devedor que paga tem direito
de regresso pelos outros.

6. Diferenças entre solidariedade e indivisibilidade:


a) quanto à fonte:
S- Oriundo de lei ou negócio jurídico. O credor pode exigir de qualquer devedor
solidário pagamento integral da prestação, porque qualquer deles é devedor do total.
Prima pela feição subjetiva, residindo nas próprias pessoas e advinda da lei ou título
constitutivo da obrigação (art. 265 CC)
I- Oriunda da lei, convenção ou natureza da prestação, sendo indivisível, a qual não
comporta resolução fracionária. Índole objetiva, repousa na própria coisa, que

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constitui objeto da prestação e resulta, em regra, da necessidade, da natureza da
coisa.

b) quanto às perdas e danos


S- perdurará mesmo que se converta em perdas e danos. (art. 271 CC).
I- cessará a obrigação caso se converta em perdas e danos, pois passará a ser uma
obrigação pecuniária, e por isso presume-se indivisível. (art. 263 CC)

c) quanto ao pagamento
S- sendo vários os credores, pode qualquer deles reclamar a dívida inteira, e o
pagamento a um dos credores libera o devedor, independente da prestação de
caução
I- o devedor só se desobrigará pagando a todos conjuntamente, ou a um deles apenas,
desde que autorizado pelos demais. Faltando a autorização só deverá pagar se
aquele que demanda o pagamento der caução de ratificação dos outros credores.
(art. 260 CC)

TRANSMISSÃO DAS OBRIGAÇÕES

I. CESSÃO DE CRÉDITO (Arts. 286 a 298 CC)

1. Conceito:
Negócio jurídico bilateral gratuito ou oneroso pelo qual o credor de uma obrigação
(cedente) transfere, no todo ou em parte, a terceiro (cessionário), independentemente do
consentimento do devedor (cedido) sua posição na relação obrigacional, com todos os
acessórios e garantias, salvo disposição em contrário, sem que se opere a extinção do
vínculo obrigacional. É um ato inter vivos pelo qual alguém se priva de um direito seu,
em favor de outrem, ou mediante o qual se transmite um crédito a um novo credor.
É uma alteração subjetiva, sem extinção da obrigação, logo não se confunde com a
novação.

2. Modalidades:
a) gratuita – assemelha-se à doação, pois implica liberalidade
b) Onerosa – é uma espécie de venda que o cedente faz ao cessionário, com a diferença
que a venda tem por objeto transmissão de uma coisa, e a cessão objetiva créditos ou
direitos de natureza econômica.
c) total – transferência da totalidade do crédito
parcial – transferência de somente parte do crédito.
d) convencional – decorre da livre e espontânea declaração de vontade entre cedente e
cessionário. Resulta da convenção entre as partes, contrato. Efetua-se a título oneroso
ou gratuito.
e) Legal – resulta da lei, independente da vontade das partes
Judicial – provém de sentença judicial condenatória, que venha a suprir declaração de
cessão por parte de quem era obrigado a fazê-la e o de assinação do credor de crédito do
devedor

Dra. Janaína Rigo Santin


f) pro solvendo – transferência de um direito de crédito, feita com intuito de extinguir
uma obrigação, que, no entanto, não se extinguirá de imediato, mas apenas se e na
medida em que o crédito cedido for efetivamente cobrado.
Pro soluto – há extinção da obrigação, se exonera, opera a transferência do crédito e a
liberação, exoneração do cedente. Quitação plena do débito do cedente para com o
cessionário. O cedente transfere seu crédito com a intenção de extinguir imediatamente
uma obrigação preexistente, liberando-se dela independentemente do resgate da
obrigação cedida.

3. Efeitos:
a) entre as partes contraentes (art. 288, 295 a 297 CC)
O cedente terá responsabilidade pela existência do crédito (295), e pela solvência do
devedor, havendo estipulação nesse sentido (arts. 295 e 296).

b) em relação ao devedor (arts. 290 a 292 e 294 CC)


O devedor é estranho, não participa da cessão, em que apenas intervém cedente e
cessionário, e por isto ela não vale em relação ao devedor, senão quando a este
notificada. A notificação serve, então, para dar-lhe ciência da transmissão do crédito,
bem como de vinculá-lo à nova relação jurídica. Pode ser judicial ou extrajudicial. É
indispensável, para saber-se que o crédito tem novo titular, para impedir que se faça o
pagamento ao credor primitivo, desconhecendo-se a cessão. Qualquer dos
intervenientes, cessionário ou cedente, pode efetuá-la. Se incapaz o devedor, fazer ao
representante legal. Se solidária, para todos os codevedores.
Antes da notificação: arts. 292, 1º parte e art. 298.
Depois da notificação: arts. 292, 2º parte, arts. 291 e 294.

c) em relação a terceiro (art. 286 e 288)


Para valer perante terceiros, a cessão deve ser celebrada:
I- ou por escritura pública
II- ou por instrumento particular, que contenha a indicação do lugar onde foi
passado, a qualificação do outorgante e do outorgado, a data e o objetivo da
outorga com a designação e a extensão dos poderes conferidos.

4. Responsabilidade do cedente: art. 295 CC


a) cessão a título oneroso
b) cessão a título gratuito, se o cedente tiver procedido de má fé

II. DA ASSUNÇÃO DE DÍVIDA (Arts. 299 a 303 CC)

1. Conceito:
Negócio jurídico bilateral pelo qual o devedor, com a anuência expressa ou tácita do
credor, transfere a terceiros os encargos obrigacionais, de modo que este assume sua
posição na relação jurídica, substituindo-o.

2. Pressupostos:
a) Existência e validade da obrigação transferida

Dra. Janaína Rigo Santin


b) Substituição do devedor sem alteração da substância do vínculo obrigacional
c) Concordância do credor:
d) Observância dos requisitos atinentes aos atos negociais, por ser esta a sua natureza
jurídica:

3. Espécies:
I- por expromissão: o devedor não participa da assunção de dívida. O negócio é feito
entre credor e terceiro (expromitente), mesmo contra a vontade do devedor, é este
liberado da obrigação, onde fica substituído pelo terceiro. O terceiro não assume a
dívida por ordem do devedor, mas assume espontaneamente. Pode ser:
a) Liberatória: quando há uma perfeita sucessão de débito, no sentido em que o devedor
é substituído e excluído da relação, ficando em seu lugar o terceiro que avençou com o
credor. Substituição do devedor da relação obrigacional pelo expromitente.
b) Cumulativa: quando o terceiro, expromitente, entra na relação obrigacional ao lado do
devedor primitivo. Haverá uma responsabilidade subsidiária do devedor originário, que
só responderá se o terceiro não tiver patrimônio para realizar o pagamento da dívida.
Solidariedade não se presume, apenas se convencionada expressamente.
II- por delegação: da qual participa o devedor. Se o ajuste se proceder entre devedor e
terceiro, dependendo da anuência do credor. Haverá um contrato entre terceiro e
devedor. O devedor-cedente designar-se-á delegante; o que transfere o débito,
delegado, e o credor, delegatário. Pode ser:
a) Liberatória: quando o delegante (devedor) se exonera do vínculo, e o delegado
(terceiro) assume toda responsabilidade pelo cumprimento da obrigação, sem responder
pela insolvência deste.
b) Cumulativa: quando o novo devedor entra na relação obrigacional unindo-se ao
primitivo devedor, que continua vinculado, mas o devedor primitivo não poderá ser
compelido a pagar senão quando o novo devedor deixar de cumprir a obrigação que
assumiu, inexistindo, portanto, entre eles, solidariedade, somente responsabilidade.

4. Efeitos:
Se o débito transferido é o mesmo primitivo, por haver identidade de relação jurídica e
objeto, ter-se-á a mesma obrigação, que não se extinguirá, passando ao novo devedor,
que assumirá a mesma posição do devedor originário. Assim, produz os seguintes
efeitos:
a) liberação do devedor primitivo, com subsistência do vínculo obrigacional: a não ser
se for cumulativa
b) transferência do débito a terceiro:
c) Cessação dos privilégios e garantias pessoais do devedor primitivo. (art. 302)
d) Sobrevivência das garantias reais que acendiam à dívida, com exceção das
constituídas por terceiro alheio à relação obrigacional, a não ser que ele consinta
na sua permanência. (art. 300)
e) Art. 301
f) Art. 303.

Dra. Janaína Rigo Santin


ADIMPLEMENTO E EXTINÇÃO DAS OBRIGAÇÕES

I. PAGAMENTO (Arts. 304 a 333 CC)

1. Acepções da palavra
É o cumprimento do vínculo obrigacional, a execução voluntária da obrigação ou a entrega
da coisa devida. Efeito natural da obrigação, o escopo para o qual ela tende. Emprega-se
igualmente a palavra solução ou cumprimento.
Mª Helena Diniz: tem-se o pagamento quando o devedor, por livre vontade ou, não sendo
compelido atende solicitação do credor, cumprindo exatamente a prestação devida, sem
nenhuma modificação relevante fundada em lei e sem modificações no vínculo
obrigacional. O pagamento vem a ser uma espécie do gênero adimplemento, ou seja, um
meio direto e voluntário de extinguir a obrigação.

2. Meios de solver as obrigações:


a) pagamento direto ou execução voluntária - entrega da prestação devida pelo devedor
ao credor.
b) Pagamento indireto (dação, novação, compensação, transação etc.) - É quando o
devedor propõe solução diferente para a obrigação e o credor aceita.
c) Extinção sem pagamento (prescrição, impossibilidade de execução sem culpa devedor,
implemento da condição ou advento do termo extintivo).
d) Execução forçada, em virtude de sentença.

3. Requisitos do pagamento:
a) existência de um vínculo obrigacional - sem uma obrigação anterior, nada seria devido
e, pois, não teria lugar o pagamento. Um eventual pagamento se revelará em pagamento
indevido, ensejando a repetição.
b) Intenção de solvê-lo - o pagamento exige, além do elemento material da prestação, o
elemento intencional. Sua falta não autoriza a liberação do devedor, eis que sendo feito por
erro, dá ensejo à repetição de indébito.
c) Cumprimento da prestação – prestação daquilo que é devido, satisfação exata da
prestação.
d) Pessoa que efetua o pagamento (solvens)
Pode ser qualquer interessado. Entre eles, está, em primeiro lugar, o devedor. Mas pode ser
também um terceiro interessado na solução da obrigação.
e) pessoa que o recebe (accipiens)
O pagamento deve ser feito ao credor ou a quem de direito o represente.

4. Elementos subjetivos do pagamento

A) De quem deve pagar, de quem pode pagar (solvens):


Art. 304 CC - qualquer interessado na extinção da dívida pode pagá-la, usando, se o credor
se opuser, dos meios conducentes à exoneração do devedor. Pode ser o próprio devedor e,
não sendo personalíssima, qualquer pessoa interessada na extinção da dívida, um terceiro
interessado, que está exposto à execução do credor.

Dra. Janaína Rigo Santin


Na primeira hipótese, a dívida se extingue definitivamente; na segunda, ela se extingue
apenas com relação ao credor, porque, em virtude da sub-rogação que se opera, continua a
subsistir entre o devedor principal e o terceiro interessado que pagou ao credor. (art. 346
CC). O terceiro deve ter capacidade para o pagamento; conhecimento da causa, de forma
que se realizado por erro, pode ser repetido o pagamento; e deve oferecer a coisa devida, e
não outra, e não pode ser pagamento parcial.
*Efeitos do pagamento feito pelo devedor: extinção total da dívida.
*Efeitos do pagamento feito por terceiro interessado.
- em relação ao credor: extingue-se o crédito, o direito do credor.
- em relação ao devedor: o devedor se exonera em relação ao credor em razão do
pagamento pelo terceiro; mas não se exonera do vínculo jurídico da obrigação, pois ele
não cumpriu o que devia, continua devedor, só que agora do terceiro, que tem a sub-
rogação de todos os direitos do credor.
- em relação ao terceiro: pelo fenômeno da sub-rogação, o terceiro se coloca no lugar do
credor. (art. 346, III CC).
*Efeitos do pagamento feito por terceiro não interessado.
Igual direito cabe ao terceiro não interessado, se o fizer em nome e por conta do devedor
(Art. 304, § único CC). Carvalho Santos afirma que quando o Código fala em terceiro não
interessado quer aludir àquele que não tem ligação alguma com o contrato, nada tendo a
temer com o não pagamento da obrigação, se o devedor for inadimplente.
I- terceiro não interessado pode pagar em nome do devedor. Entende a doutrina que
nesta hipótese houve uma liberalidade por parte do terceiro. A mera circunstância
de efetuar o pagamento não em seu nome, mas no do devedor, revela o propósito de
praticar liberalidade. É uma interpretação a contrario sensu do art. 305 CC.
II- Terceiro não interessado paga a dívida em seu próprio nome. Tem direito a ser
reembolsado, mas não se sub-roga nos direitos do credor (Art. 305). O pagamento
efetuado extingue a dívida original entre o credor e devedor, pois o credor recebe o
que lhe é devido. Mas, ao mesmo tempo em que a primeira dívida se esvai, pelo
pagamento, uma segunda (cuja fonte é o enriquecimento sem causa) surge entre
partes diferentes. Daí, por se tratar de uma nova relação jurídica, dispõe a lei que
quem pagou não se beneficia com a sub-rogação legal.
A lei nega a sub-rogação por dois motivos: pode ser que o pagamento consistia em
especulação, antes de um benefício; para não encorajar terceiro maldoso, inclinado a
formular contra o devedor exigências mais rigorosas que as do credor primitivo.

B. Daqueles a quem se deve pagar (accipiens)


O pagamento deve ser efeito ao credor ou a quem de direito o represente. A regra é que se
pague a quem está indicado no contrato ou seu representante, a não ser que for de acordo
das duas partes outra forma. Quem paga mal paga duas vezes.

Pagamento efetuado a representantes do credor:


O representante do credor pode ser legal, judicial ou convencional.

Pagamento a credor incapaz


Não vale pagamento cientemente feito ao credor incapaz de quitar, se o devedor não provar
que reverteu em benefício do menor – art. 310 CC. Se for absolutamente incapaz é nulo.

Dra. Janaína Rigo Santin


Relativamente poderá ser ratificado pelo representante legal ou pelo incapaz, cessada a
incapacidade (Art. 172 CC).
Tal ineficácia é decretada em benefício do incapaz, cuja lei quer prevenir o prejuízo. Mas
se reverteu o pagamento em proveito dele, cessa a nulidade. Quem deve provar é o solvens.
Se o devedor tinha razão suficiente para supor que tratava com pessoa capaz, ou se,
dolosamente, foi induzido a crer que desaparecera a incapacidade existente, prevalecerá o
pagamento desde que se prove o erro escusável do devedor ou dolo do credor. – art. 308
CC.

Pagamento feito a terceiro desqualificado:


Pagamento feito a terceiro desqualificado, que não seja credor ou seu representante, não
tem efeito liberatório, não exonerando o devedor. Quem paga mal paga duas vezes.
Todavia, se o credor ratificar pagamento realizado a terceiro não representante, a ratificação
convalescê-lo-á. Da mesma forma vale pagamento feito a terceiro não autorizado, se se
provar que reverteu em proveito do credor. Do contrário haveria locupletamento ilícito.

Pagamento feito ao credor putativo:


Art. 309 CC – credor putativo. – é aquele que se apresenta como verdadeiro credor aos
olhos de todos. Para que o credor seja putativo, e valha o pagamento deve existir: a) boa fé
do devedor, que deve acreditar pagar ao credor verdadeiro; b) o erro deve ser escusável,
pelo conjunto de circunstâncias; c) o título deve estar na posse do credor putativo, para que
se denote a veracidade, e que a boa-fé não seja posta em dúvida.

5. Objeto do pagamento e sua prova


O objeto do pagamento é a prestação devida pelo devedor ao credor. O credor de coisa
certa não pode ser obrigado a receber outra, ainda que mais valiosa, bem como não é
obrigado a receber em partes aquilo que combinou por inteiro.
Prova do pagamento: O devedor que paga tem direito de obter do credor um
documento hábil à demonstração de que o devedor efetuou o pagamento = recibo de
quitação (Art. 320 CC), podendo reter o pagamento enquanto não lhe for dada (Art. 319
CC). Quitação é a prova do pagamento. A quitação deverá apresentar o valor e a espécie da
dívida quitada, o nome do devedor, ou quem por este pagou, o tempo e o lugar do
pagamento, com assinatura do credor ou seu representante. Art. 322 CC- Quando o
pagamento for em quotas periódicas, a quitação da última estabelece presunção até prova
em contrário de estarem solvidas as anteriores. Presunção juris tantum. Nos débitos cuja
quitação consista na devolução do título, perdido este, poderá o devedor exigir, retendo o
pagamento, declaração do credor, que inutilize o título sumido (Art. 321 CC). Esta regra
também se aplica em casos em que o credor de má fé não devolve. Da mesma forma o
credor tem o direito de reter o título para provar obrigações não cumpridas.
Se o devedor fizer pagamento por conta não pode exigir o título, mas tem o direito de exigir
o registro no verso do título em que houve o pagamento por conta, pois o credor pode
endossar a terceiro, e receber toda a dívida, e o devedor ter de pagar tudo novamente ao
terceiro.
Caso o título for parar nas mãos do devedor por meios ilícitos ou clandestinos, cabe ao
credor o comprovar em juízo que não entregou voluntariamente o título e que não está

Dra. Janaína Rigo Santin


extinta a prestação. Senão, seria remissão da dívida (prazo 60 dias) – Art. 324, § único CC.
Referido prazo é de decadência e não de prescrição.

6. Lugar do pagamento
Art. 327 CC - O lugar do pagamento determina onde o devedor pode liberar-se e o credor
tem o direito de exigir. Em regra, será no domicílio do devedor, para favorecê-lo.
Justamente por ser um favor, pode o devedor renunciar-lhe, de sorte que, caso o credor não
apareça para procurar o pagamento, é lícito ao devedor dirigir-se ao domicílio daquele, para
efetuá-lo, ou fazer o depósito em caso de recusa de recebimento, caso não prefira aguardar
que o credor venha procurar-lhe.
a) obrigações querables e portables
querable: o credor tem o dever de ir buscar a prestação no domicílio do devedor.
portable: o pagamento deve ser oferecido pelo devedor no domicílio do credor, onde este
tem de recebê-lo.
b) exceções:
Diverso será o lugar do pagamento se assim convencionarem as partes, de forma
expressa ou tácita. O contrato faz lei entre as partes. Ainda, existem casos em que
circunstâncias especiais exigem outro lugar para o pagamento, como o trabalho em
determinada fábrica, ou a construção de um prédio em determinada localidade, onde o
pagamento será na fábrica, ou na edificação. A terceira exceção é de acordo com a
natureza da obrigação. P. ex.: representação teatral, cumpre-se a obrigação na casa de
espetáculos. Se houver designação de dois ou mais lugares, o art. 327, § único diz que
quem faz a escolha é o credor. Se for um imóvel, far-se-á no lugar em que ele se
encontra. (Art. 328 CC)

7. Tempo do pagamento:
Pagamento só pode ser exigido no dia do vencimento da obrigação. Fixada a data, nem o
devedor pode retardar a execução, nem o credor antecipar a exigência. Consonância do art.
331 com o art. 134 CC. O termo não afeta a existência da obrigação, mas somente sua
execução.
a) obrigações condicionais – subordina os efeitos (a exigência da obrigação) a um evento
futuro e incerto. Art. 332 CC.
b) exigibilidade antecipada - Art. 333 CC- Ao credor assistirá o direito de cobrar a dívida
antes de vencido o prazo estipulado no contrato ou marcado neste Código:
I - no caso de falência do devedor, ou de concurso de credores;
II - se os bens, hipotecados ou empenhados, forem penhorados em execução por outro credor;
III - se cessarem, ou se se tornarem insuficientes, as garantias do débito, fidejussórias, ou reais,
e o devedor, intimado, se negar a reforçá-las.
Parágrafo único. Nos casos deste artigo, se houver, no débito, solidariedade passiva, não se
reputará vencido quanto aos outros devedores solventes.

II. PAGAMENTO POR CONSIGNAÇÃO (Arts. 334 a 345 CC)

1. Conceito e natureza jurídica:


É um modo indireto de libertar o devedor da sua obrigação, consistente no depósito judicial
(ou em estabelecimento bancário, extrajudicialmente, se obrigação pecuniária) da coisa

Dra. Janaína Rigo Santin


devida, realizado pelo devedor com causa legal. É um instituto, matéria objetiva do CC,
constituindo matéria processual apenas a forma pela qual se efetua a consignação. É um
pagamento compulsório, meio especial de liberação do devedor.
O pagamento deve ser feito, em regra, ao próprio credor, ou a quem de direito o represente
(art. 308 CC), no lugar (art. 327 CC), no tempo (art. 331) e pelo modo convencionados.
Muitas vezes, porém, ocorrem fatos ou circunstâncias que impedem o pagamento direto ao
credor, ou este venha a se recusar a receber a prestação oferecida pelo devedor. A lei
faculta o recurso à consignação em pagamento para liberar o devedor (art. 334 CC)

2. Casos em que se justifica a consignação (Art. 335 CC)


Art. 335. A consignação tem lugar:
I - se o credor não puder, ou, sem justa causa, recusar receber o pagamento, ou dar quitação na devida forma;
II - se o credor não for, nem mandar receber a coisa no lugar, tempo e condição devidos;
III - se o credor for incapaz de receber, for desconhecido, declarado ausente, ou residir em lugar incerto ou de
acesso perigoso ou difícil;
IV - se ocorrer dúvida sobre quem deva legitimamente receber o objeto do pagamento;
V - se pender litígio sobre o objeto do pagamento.

3. Requisitos: Art. 336 CC


I – subjetivos:
a) credor ou a quem de direito o represente: réu na ação de consignação
b) Devedor, terceiro interessado ou não: autor da ação de consignação

II – objetivos:
a) existência de débito líquido e certo:
b) Oferta da totalidade da prestação devida:
c) expiração do prazo ajustado em favor do credor:
d) observação de todas as cláusulas estipuladas na relação obrigacional:
e) oferta no lugar do pagamento:

III. PAGAMENTO POR SUB-ROGAÇÃO (Arts. 346 a 351 CC)

1. Conceito:
Em sentido amplo, é colocar uma coisa ou pessoa em lugar de outra. Duas são,
portanto, as espécies de sub-rogação: real e pessoal.

2. Espécies de sub-rogação:
a) sub-rogação legal (Art. 346 CC)
I- Credor que paga a dívida do devedor comum ao credor, a quem competia
direito de preferência – Requisitos: aquele que paga seja também credor do
devedor; e que o crédito do accipiens desfrute de preferência sobre o do solvens.
II- Do adquirente do imóvel hipotecado que paga ao credor hipotecário, bem
como do terceiro que efetiva o pagamento para não ser privado de direito
sobre o imóvel
III- Terceiro interessado, que paga a dívida pela qual era ou podia ser obrigado, no
todo ou em parte.

Dra. Janaína Rigo Santin


b) sub-rogação convencional (Art. 347 CC)
I- iniciativa do credor – o credor recebe o pagamento de terceiro e expressamente lhe
transfere todos os seus direitos.
II- Iniciativa do devedor – quando terceira pessoa empresta ao devedor a quantia
precisa para solver a dívida, sob a condição de ficar sub-rogado nos direitos do
credor satisfeito. O devedor, com ou sem ciência do credor, obtém de terceira
pessoa empréstimo da quantia precisa para solver a dívida, convencionando a sub-
rogação do mutuante na posição do antigo credor.

IV. IMPUTAÇÃO DO PAGAMENTO (Arts. 352 a 355 CC)

1. Conceito: (Art. 352 CC)


Quando o pagamento se mostre insuficiente para saldar todas as dívidas do mesmo
devedor ao mesmo credor. Quando o devedor tem para com o credor diversas dívidas, todas
de coisas fungíveis entre si, vencidas e líquidas, surge o problema de saber em qual se
imputará o pagamento, quando a prestação oferecida não basta para extinguir todas as
dívidas. Imputação em Pagamento é a operação por via da qual, dentre vários débitos do
mesmo devedor para com o mesmo credor, se determina em qual deles se deve aplicar o
pagamento. É meio indireto de pagamento, visando operar a extinção do débito a que se
dirige.

2. Requisitos da imputação
a) pluralidade de débitos:
b) Identidade de sujeitos:
c) Igual natureza das dívidas:
d) dívidas líquidas e vencidas:
e) Possibilidade de a prestação ofertada resgatar mais de um débito:

3. Espécies de imputação
a) imputação feita por vontade do devedor: Art. 352 CC
Constitui norma geral, pois pretendendo a lei proteger o devedor, confere-lhe de início a
prerrogativa de escolher a dívida em que impugnará o pagamento. Mas sua escolha não
é livre, tem limitações legais.
• havendo capital e juros, o pagamento imputar-se-á primeiro nos juros vencidos, salvo
estipulação em contrário, ou se o credor passar quitação por conta do capital. Arts. 354
e 323 CC.
• Não pode o devedor imputar aquilo que paga numa dívida cujo montante seja maior,
pois o credor não pode ser compelido a receber por partes, se não foi ajustado. Art. 314
CC.
• O devedor não pode imputar dívida não vencida se o prazo estipulado era em proveito
do credor.
b) imputação feita por vontade do credor: Art. 353 CC
Quando o devedor não declara qual das dívidas quer pagar, renuncia ao seu direito,
competindo ao credor efetuar a imputação. Tal direito é exercido pela quitação, onde se
declara o crédito em que importou o pagamento ora quitado.

Dra. Janaína Rigo Santin


c) imputação derivada da lei: Art. 355 CC
Pode ocorrer que nem o devedor escolha a dívida em que quer imputar o pagamento
efetuado, nem o credor se valha, no ato da quitação. Nesta hipótese, a lei supre a
vontade falha das partes, ordenando imputação nas dívidas líquidas e vencidas em
primeiro lugar.
• dívida vencida
• dívida líquida
• sendo todas líquidas, na mais onerosa (ex. a que produz juros antes da que não produz,
a que os produz mais elevados, a que for garantida por direito real ou fiança, a garantida
por cláusula penal)
• em igualdade de ônus, na mais antiga (efeitos de vencimento)
• nos juros vencidos, de preferência ao capital
• na dívida existente no próprio nome do devedor, em relação àquela por ele
solidariamente devida
• nas comerciais, de preferência às civis.

V. DAÇÃO EM PAGAMENTO (Arts. 356 a 359 CC)

1. Conceito e natureza jurídica: Arts. 313 e 356 CC


A dação em pagamento é um acordo liberatório convencionado entre credor e devedor,
por via do qual aquiesce o primeiro em receber do segundo, para desobrigá-lo de uma
dívida, objeto diferente do que constituíra a obrigação.

2) Requisitos:
a) entrega pelo devedor ao credor de coisa dada com ânimo de efetuar um
pagamento. Animus solvendi – entrega de uma prestação por outra.
b) acordo entre o credor e o devedor verbal ou por escrito, expresso ou tácito.
c) diversidade entre a prestação devida e a entregue.

VI. NOVAÇÃO (Arts. 360 a 367 CC)

1. Conceito:
É a criação de uma obrigação nova para extinguir a anterior. É um modo de extinção de
obrigações, mas ao mesmo tempo que através dela a primitiva obrigação perece, uma
outra surge, tomando seu lugar. Tem duplo conteúdo:
Extintivo – referente à obrigação antiga;
Gerador – relativo à obrigação nova.

2) Espécies de novação (Art. 360 CC)


a) objetiva ou real: o elemento novo consiste no objeto ou causa da obrigação. Além
disso, pode-se modificar a natureza da prestação.
b) subjetiva ou pessoal (Art. 360, II e III do CC)
Implica mudança de um ou de ambos os sujeitos da obrigação, ativo ou passivo. O
elemento novo toca nos sujeitos da relação jurídica.

Dra. Janaína Rigo Santin


I - novação subjetiva passiva: se revela pela modificação da pessoa do devedor. Quando o
novo devedor sucede ao antigo, ficando este quite com o credor. Pode ser por delegação ou
por expromissão.
- delegação: a substituição do devedor opera-se com o consentimento deste. O primeiro
devedor encarrega o segundo de pagar ao credor em seu lugar. A novação se dá por
iniciativa do devedor, que delega terceiro para resgatar seu débito, com o que concorda
o credor. Ocorre como que uma transmissão do lado passivo da obrigação, por vontade
e deliberação do devedor, dependente, entretanto, da anuência do credor.
- expromissão: ocorre independentemente do consentimento do devedor, e é feita entre
credor e terceiro, que se põe na posição do devedor primitivo, que se exonera (Art. 362
do CC). Ajuste exclusivo entre credor e terceiro, que assume a dívida. Prescinde-se do
consentimento do devedor.
II- novação subjetiva ativa: é a pessoa do credor que muda, onde o primitivo credor,
através de nova obrigação, deixa a relação jurídica e toma-lhe o lugar o outro credor.

3. Pressupostos da novação:
a) existência da obrigação anterior:
b) criação de uma obrigação nova para extinguir a anterior:
c) elemento novo (aliquid novi)
d) animus novandi

4. Efeitos da novação.
O principal efeito da novação é extinguir a dívida anterior. Extinguindo-se esta, que
é a principal, extinguem-se os acessórios que guarnecem o crédito (Art. 364 do CC). Os
acessórios da obrigação anterior só passam para a obrigação nova se houver estipulação
expressa. Se o credor faz novação a um dos devedores solidários, extingue-se a dívida para
os outros devedores, e só permanece a obrigação para este devedor, (Art. 365 CC), mas ele
tem ação regressiva contra os demais, mas só pelo valor da dívida anterior. Entretanto, a
própria lei possibilita a sobrevivência dos acessórios, na obrigação nova, quando as partes
ajustem em tal sentido, mas este acordo entre as partes não pode vincular terceiros que não
consentiram.

VII. COMPENSAÇÃO (Arts. 368 a 380 CC)

1. Conceito (Art. 368 CC)


Aparece como meio de extinção das obrigações recíprocas, cujos credores são, ao
mesmo tempo devedores um do outro. Constitui um modo de simplificar os negócios, pois
permite a extinção de duas obrigações sem nenhum pagamento, evitando desse modo, a
inútil circulação de moeda; além de representar um elemento de garantia, pois cada um dos
credores recíprocos tem a assegurar seu crédito o próprio débito pelo qual é responsável.
Evita-se o risco oriundo de eventual insolvência do credor pago.
Para o CC brasileiro, a compensação é modo indireto de extinção das obrigações.

2. Espécies:
a) legal: é aquela que atua automaticamente, independente da manifestação das partes, por
força de lei, de pleno direito, desde que se encontrem presentes os requisitos

Dra. Janaína Rigo Santin


necessários à sua efetivação. Ocorrerá no instante preciso em que se constituírem
créditos recíprocos entre duas pessoas.
b) Voluntária ou convencional: decorre da manifestação de vontade das partes, que
declaram o desejo de verem extintas as suas obrigações recíprocas. Não passa de um
contrato. Pode não ter elementos necessários. A voluntária pode ser também facultativa,
quando consiste em renúncia unilateral, por meio da qual, na falta de um requisito
essencial para compensação legal, uma das partes, em favor da qual exclusivamente se
exigia aquele requisito, renuncia a vantagem de prevalecer-se dessa exigência e alega
compensação. O fato de a compensação legal não ocorrer não impede que as partes, por
acordo, supram essa falta de um ou mais requisitos.
c) Judicial: quando realizada em juízo pela autoridade judiciária nos casos legais, acha-se
incluída nos casos de compensação legal. Seria a proclamada pelo juiz quando o
devedor, executado por uma dívida, opusesse ao exequente um crédito, mesmo não
sendo líquido ou exigível, em que o juiz ordena a compensação.

3. Pressupostos:
a) reciprocidade das obrigações: Art. 368, 376 e 377 CC
O débito do devedor deve corresponder ao crédito deste contra o credor. Encontro de
direitos opostos.
b) liquidez das dívidas: Art. 369 CC
Só dívidas líquidas são compensáveis, que são as certas quanto à existência e
determinadas quando ao objeto. Deve-se ter a certeza da existência da dívida e a
determinação de sua quantia.
c) exigibilidade atual das prestações: Art. 369 CC
Deve-se ocorrer o respectivo vencimento normal ou antecipado. Em rigor, enquanto não
chega o termo de vencimento o devedor tem direito ao prazo, não podendo ser
compelido a dele abrir mão, por motivo de compensação (arts. 331, 332 e 333 CC)
Todavia, os prazos de favor, concedidos obsequiosamente pelo credor, não poderão ser
alegados pelo beneficiário para ilidir a compensação de sua dívida com a de seu
devedor (Art. 372 CC), de forma que os prazos de favor não obstarão a compensação.
d) fungibilidade dos débitos (mesma natureza e qualidade): Art. 369 CC
É preciso que as prestações não sejam apenas fungíveis, mas fungíveis entre si,
homogêneas. Caso contrário, não se compensam, pois para o credor deve haver a
indiferença entre receber uma ou outra das coisas, objeto da prestação.

4. Dívidas não compensáveis (Arts. 373; 375 e 380 CC)


Art. 373. A diferença de causa nas dívidas não impede a compensação, exceto:
I - se provier de esbulho, furto ou roubo;
II - se uma se originar de comodato, depósito ou alimentos;
III - se uma for de coisa não suscetível de penhora.
Art. 375. Não haverá compensação quando as partes, por mútuo acordo, a excluírem, ou no
caso de renúncia prévia de uma delas.
Art. 380. Não se admite a compensação em prejuízo de direito de terceiro. O devedor que
se torne credor do seu credor, depois de penhorado o crédito deste, não pode opor ao
exequente a compensação, de que contra o próprio credor disporia.

Dra. Janaína Rigo Santin


VIII. CONFUSÃO (Arts. 381 a 384 CC)

1. Conceito (Art. 381 CC)


Washington: confusão é a extinção de uma obrigação em razão da reunião em uma só
pessoa das qualidades de credor e devedor.
Sílvio Rodrigues: confusão é a neutralização de um direito em virtude da reunião em
uma única pessoa de duas qualidades incompatíveis.

2. Espécies: Art. 382 CC


a) total: extingue o montante da prestação. Normalmente na sucessão, em que o credor
que falece transmite a um único herdeiro, seu devedor, todo o legado.
b) Parcial: quando o credor não recebe a totalidade da dívida, por não ser o único herdeiro
do devedor, ou não lhe ter sido transferida integralmente.

IX. REMISSÃO DE DÍVIDAS (Arts. 385 a 388 CC)

1. Conceito e natureza jurídica:


Remissão é uma liberalidade do credor, consistente em dispensar o devedor de pagar a
dívida. Para que se mostre eficaz, preciso se torna que o remitente seja capaz de alienar
e o remitido capaz de adquirir. (Art. 386 do CC)
Cumpre não confundir remissão e renúncia. = natureza jurídica. Renúncia é o gênero,
remissão é espécie. Mas ambas equivalem com relação aos efeitos.

2. Modalidades:
a) total ou parcial:
b) expressa ou tácita:

DO INADIMPLEMENTO DAS OBRIGAÇÕES.


DAS CONSEQÜÊNCIAS DA INEXECUÇÃO DAS OBRIGAÇÕES

1. Não cumprimento das obrigações – obrigatoriedade dos contratos.


De acordo com o secular princípio da obrigatoriedade dos contratos – pacta sunt
servanda – os contratos devem ser cumpridos. Não cumprindo a obrigação, ou deixando
de cumpri-la pelo modo e no tempo devidos, responde o devedor por perdas e danos,
mais juros e atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos,
e honorários de advogado – art. 389.
São duas situações,
a) o devedor não cumpre a obrigação parcial ou totalmente.
b) devedor deixa de cumpri-la pelo modo e no tempo devidos – cumprimento imperfeitos

Dra. Janaína Rigo Santin


Em ambas a sanção é a mesma – o devedor responde por perdas e danos, cujo
pagamento se destina a recompor a situação patrimonial do credor, lesada pelo
inadimplemento.
Pressupõe culpa do devedor, ou inexecução voluntária (quando o obrigado deixar de
cumprir, dolosa ou culposamente, a prestação devida, sem a exclusão da culpabilidade
derivada do caso fortuito ou força maior, devendo, por isso, responder pelas perdas e
danos).
As perdas e danos não devem corresponder a um enriquecimento por parte do devedor. Se
completa a inexecução, completo o ressarcimento. Se parcial, a responsabilidade é
proporcional ao prejuízo experimentado.
Existe uma presunção de inadimplemento culposo, que poderá ser elidida pelo
inadimplente –393 (ocorrência de caso fortuito ou força maior).
Se não ocorre inadimplemento, total ou parcial, mas mora apenas, responderá o devedor
nos termos dos arts. 394 a 401. Sendo ainda proveitoso para o credor o cumprimento,
responderá pelos prejuízos decorrentes do retardamento.
Mora – demora no cumprimento
Inadimplemento – não cumprimento total ou parcial

2. Responsabilidade pelas dívidas – bens do devedor – art. 391

3. Obrigações negativas – mora ex re – devedor é inadimplente desde o dia que


executou o ato em que devia se abster

4. Contratos benéficos ou unilaterais; e onerosos ou bilaterais


a) benéficos – art. 392 primeira alínea. Nos contratos benéficos, responde por simples
culpa o contraente, a quem o contrato aproveite, e só por dolo, aquele a quem não favoreça.
– ex. comodato. Nos contratos unilaterais só uma das partes aproveita. Gera obrigações
para um só dos contratantes – doação pura, comodato, mútuo. Para o outro, há apenas
proveito. Este responde por simples culpa, mesmo levíssima, que obriga a indenizar. Ex.
comodatário, beneficiado pelo contrato, responde por perdas e danos se não conservar, em
razão de culpa leve ou levíssima, a coisa emprestada – art. 1251.
O outro, a quem o contrato não beneficia, mas somente lhe impõe deveres, só
responde por dolo (danos causados dolosamente ao outro, porque não se permite a
ninguém, deliberadamente, descumprir obrigação livremente contraída). Justo não seria que
a outra parte, a quem o contrato não aproveita, respondesse por simples culpa.
b) onerosos –art. 392 segunda parte. – Responde cada uma das partes por culpa, em pé de
igualdade, salvo exceções previstas em lei (ver art. 476 e 477). São prestações recíprocas.

5. Caso fortuito e força maior


Constituem excludentes da responsabilidade civil, contratual e extracontratual – art. 393
Está consagrado em nosso direito o princípio da exoneração do devedor pela
impossibilidade de cumprir a obrigação sem sua culpa. O credor não terá qualquer
direito à indenização pelos prejuízos decorrentes da força maior ou caso fortuito. É
lícito às partes afastarem tal dispositivo, convencionando devida a indenização em
qualquer caso.
Parágrafo único – o caso fortuito ou força maior verifica-se no fato necessário, cujos
efeitos não eram possíveis de evitar ou impedir.

Dra. Janaína Rigo Santin


Em regra, caso fortuito é empregado para designar fato ou ato humano alheio à vontade das
partes (ordem de autoridade pública, greve, motim, guerra). E força maior para os
fenômenos naturais ou físicos (raio, tempestade, terremoto).
Requisitos para configuração do caso fortuito e força maior:
a) fato deve ser necessário, não determinado por culpa do devedor (requisito subjetivo) pois
se há culpa não há caso fortuito; e reciprocamente, se há caso fortuito, não pode haver
culpa, na medida em que um exclui o outro. Subjetivo – ausência de culpa na produção do
evento
b) o fato deve ser superveniente e inevitável (requisito objetivo) ex. se o contrato é
celebrado durante uma guerra, não pode o devedor alegar depois dificuldades oriundas
dessa mesma guerra para furtar-se às suas obrigações; o fato deve ser irresistível, fora do
alcance do poder humano. (não pode ser removido pela vontade do devedor). Objetivo –
inevitabilidade do acontecimento, sendo impossível evitá-lo. Imprevisibilidade,
superveniência.
FORTUITO – alheio vontade partes, fato humano. Greve, ordem autoridade pública
FORÇA MAIOR – fenômenos físicos ou naturais. Raio, tempestade, terremotos

X. MORA

1. Conceito e requisitos
É o retardamento na execução da obrigação ou imperfeito cumprimento. Imputável
tanto ao devedor como ao credor. (Art. 394 CC).

2. Mora e inadimplemento absoluto: Art. 395 CC


Haverá mora quando a obrigação não foi cumprida no tempo, lugar e forma devidos ou
convencionados, mas ainda poderá sê-lo com proveito para o credor. Haverá
inadimplemento absoluto se, por causa do retardamento ou do imperfeito cumprimento,
não houver tal possibilidade, porque o bem objeto da lide pereceu ou se tornou inútil ao
credor. A mora pode ser purgada, não o podendo o inadimplemento absoluto. O novo
dispositivo legal é mais perfeito do que a anterior redação. Agora, ficou explícito que a
responsabilidade pela mora não se restringe apenas aos prejuízos, mas também aos
juros, correção monetária e honorários de advogado, o que se coaduna com o
princípio da reparação integral.

3. Espécies de mora:
a) Mora debitoris ou solvendi – MORA DO DEVEDOR
I - Requisitos:
1. existência de dívida positiva e líquida
2. vencimento
3. inexecução culposa por parte do devedor
4. interpelação judicial ou extrajudicial deste, se a dívida não é a termo, com data
certa.
II- Espécies
1. Mora ex re – Art. 397, caput, 390 e 398 CC - em razão de fato previsto na lei
2. Mora ex persona – Art. 397, § único. Não havendo prazo assinalado, começa a mora
desde a interpelação, notificação ou protesto. Depende de providência do credor

Dra. Janaína Rigo Santin


III – Efeitos
1. Responsabilização pelo devedor por todos os prejuízos causados ao credor (Art. 395
CC)
2. Possibilidade de o credor exigir a satisfação das perdas e danos, rejeitando a
prestação, se por causa da mora ela se tornou inútil (Art. 395, § único CC).
3. Responsabilidade do devedor moroso pela impossibilidade da prestação, mesmo
decorrente de caso fortuito ou força maior, se estes ocorreram durante o atraso,
salvo se provar isenção de culpa ou que o dano sobreviria, ainda quando a obrigação
fosse oportunamente desempenhada (Art. 399 e 393 CC).

b) Mora creditoris – MORA DO CREDOR


I - Requisitos:
1. existência de dívida positiva, líquida e vencida
2. o devedor se acha em condições de efetuar o pagamento – estado de solvabilidade
do devedor
3. o devedor se oferece para efetuá-lo
4. recusa por parte do credor injustificada, expressa ou tácita.
5. Constituição do credor em mora – mediante consignação em pagamento.
II- Efeitos: (art. 400 CC)
1. liberação do devedor, isento de dolo, da responsabilidade pela conservação da coisa.
2. Obrigação do credor moroso ressarcir ao devedor despesas efetuadas com
conservação da coisa
3. Obrigação do credor de receber a coisa pela sua mais alta estimação, se o valor
oscilar entre o dia estabelecido para o pagamento e o de sua efetivação.
4. Possibilidade de consignação judicial da coisa pelo devedor.

c) mora de ambos os contratantes

4. Purgação e cessação da mora


Purgar ou emendar a mora é neutralizar os seus efeitos. Aquele que nela incidiu corrige,
sana sua falta, cumprindo a obrigação já descumprida, e ressarcindo os prejuízos
causados à outra parte. (Art. 401 CC)

XI. PERDAS E DANOS

1. Conceito:
Quando o devedor não cumpre voluntariamente o que deve no tempo e pelo modo
devidos, responde por perdas e danos (além de atualização monetária, juros e
honorários advocatícios). (Art. 389 CC) O ressarcimento consiste em substituir, no
patrimônio do credor, soma correspondente à utilidade que ele teria obtido, se se
cumprisse a obrigação. Não pode jamais provocar lucro ao credor. Só vai até o ponto
que lhe recomponha a situação patrimonial.

Dra. Janaína Rigo Santin


2. Dano emergente e lucro cessante (Art. 402 e 403 CC)
Art. 402. Salvo as exceções expressamente previstas em lei, as perdas e danos devidas
ao credor abrangem, além do que ele efetivamente perdeu (DANO EMERGENTE), o que
razoavelmente deixou de lucrar (LUCRO CESSANTE).
Art. 403. Ainda que a inexecução resulte de dolo do devedor, as perdas e danos só
incluem os prejuízos efetivos (DANO EMERGENTE) e os lucros cessantes por efeito dela
direto e imediato, sem prejuízo do disposto na lei processual.

2. Extensão da indenização: Art. 402 a 405 CC


Percebe-se que o novo Código se preocupou com a reparação integral. A extensão na
redação dos arts. 403 e 404, em comparação com os dispositivos similares revogados é
marcante. O Art. 403, por exemplo, ressalva a hipótese de litigância de má-fé, quando faz
remissão à legislação processual. O art. 404, por seu turno, vem incluir a atualização
monetária, juros, custas e os honorários advocatícios como componentes das perdas e
danos. Também concedeu poderes ao juiz de, na resolução contratual, visando o
restabelecimento dos contratantes ao status quo ante conceder “indenização suplementar”,
caso os juros de mora não cubram o prejuízo e não tenha sido pactuada a pena convencional
(leia-se Cláusula Penal).

3. Termo inicial dos juros de mora.


O art. 405 do CC traz para o direito material uma norma que se encontrava em sede de
Direito formal (CPC). Mas as hipóteses de incidência desse artigo são limitadas à mora ex
persona, ou seja, quando se impõe a constituição prévia do devedor em mora. Não opera,
portanto, nas hipóteses de mora ex re, como por exemplo os juros que incidem sobre o
débito impago, os quais, como é sabido, têm como termo inicial o vencimento da parcela e
não a data da citação (art. 397 CC).

XII. JUROS LEGAIS

1. Conceito e classificação
São obrigações acessórias (Art. 95 CC)
Podem ser:
-Compensatórios (constituem um rendimento do capital emprestado). Rendimentos do
capital. Frutos produzidos pelo capital. Assim como o aluguel constitui o preço
correspondente ao uso da coisa, na locação representam os juros a renda do uso de
determinado capital. São geralmente convencionais – Art. 591 CC.
-Moratórios (representam uma pena imposta ao devedor pelo atraso no cumprimento da
obrigação, atuando como se fosse uma indenização pelo retardamento no
adimplemento). Podem ser convencionais ou legais – caso não convencionados.

2. Juros convencionais e legais


- Convencionais – as partes estipularão, para efeito de atraso no cumprimento da
obrigação, a taxa dos juros moratórios, até 12% anuais ou 1% ao mês. Para os
compensatórios pode-se convencionar também, e a taxa será a taxa de mercado para

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aquele tipo de contrato, visto estar limitada ao disposto no Código de Defesa do
Consumidor.
- Legais – incidem quando as partes não os convencionarem. São os juros moratórios,
os quais mesmo se não estipulados, serão sempre devidos, na taxa estabelecida por lei
que é de 1% ao mês – 407 CC
(Art. 161, § 1º do Código Tributário Nacional, combinado com o art. 406 do CC).

3. Incidência dos juros – Art. 407 CC


Ainda que se não alegue prejuízo, é obrigado o devedor aos juros da mora que se
contarão assim às dívidas em dinheiro, como às prestações de outra natureza, uma vez
que lhes esteja fixado o valor pecuniário por sentença judicial, arbitramento, ou acordo
entre as partes.

XIII. DA CLÁUSULA PENAL

1) Conceito:
Pacto acessório ou secundário em que se estipula pena ou multa aquele dos contratantes
que se subtrair ao cumprimento da obrigação ou que retardar o cumprimento da
obrigação. É obrigação acessória que adere a outro vínculo obrigacional. É um meio de
resolver e não como cumprir a obrigação.

2) Função:
a) funciona como meio de coerção, como força intimidativa, a fim de induzir o
devedor a satisfazer o prometido (intimidação) Meio de pressão, reforça o vínculo,
compelindo o devedor a honrar sua palavra.
b) fixa, ainda, antecipadamente, o valor das perdas e danos devidos à parte inocente,
no caso de inexecução do contrato pelo outro contratante. Determina com
antecedência o valor dos prejuízos resultantes do não cumprimento do contrato.
(ressarcimento). Instrumento de indenização, fixa a priori cifra que o contratante
terá de pagar, caso se torne inadimplente.

3) Espécies: a cláusula penal pode referir-se a: - 409 CC


a) inexecução completa da obrigação
Estipulada para o caso de total inadimplemento da obrigação. Converte-se em
alternativa em favor do credor (art. 410 CC).
b) inexecução de alguma cláusula especial
(Art. 411 CC) Terá o credor arbítrio de exigir a satisfação da pena cominada (multa),
juntamente com o desempenho da obrigação principal.
c) mora (411 do CC)
Ao credor cabe reclamar simultaneamente a pena convencional e a prestação principal.

4) Valor da cláusula penal


Art. 412 CC – não poderá exceder o da obrigação principal. Limite máximo, teto.

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5) Momento em que se torna devida
Incorre de pleno direito o devedor na cláusula penal, desde que, culposamente, deixe de
cumprir a obrigação ou se constitua em mora (Art. 408 CC). Se há prazo estipulado,
com o vencimento há a mora, ex re, ocorre de pleno direito, independentemente de
qualquer ato do credor. Se não há prazo prefixado, urge que o devedor seja
primeiramente constituído em mora, através de interpelação, protesto ou notificação ex
persona.

6) Redução da cláusula penal (Art. 413 CC)


Art. 413. A penalidade deve ser reduzida equitativamente pelo juiz se a obrigação
principal tiver sido cumprida em parte, ou se o montante da penalidade for
manifestamente excessivo, tendo-se em vista a natureza e a finalidade do negócio.

7) Prova do prejuízo
Para exigir a pena convencional não é necessário que o credor alegue prejuízo (art. 416
CC). Ainda que o credor não tenha sofrido dano com a mora ou a inexecução da
obrigação, total ou parcial, assiste-lhe o direito de reclamar a penalidade.

8) Indenização suplementar
Art. 416 parágrafo único CC. Ainda que o prejuízo exceda ao previsto na cláusula
penal, não pode o credor exigir indenização suplementar se assim não foi
convencionado. Se o tiver sido, a pena vale como mínimo de indenização, competindo
ao credor provar o prejuízo excedente. Trata-se de dispositivo original do CC/2002.

XIV. DAS ARRAS OU SINAL

1. Conceito:
Sinal ou arras é a quantia em dinheiro ou outra coisa fungível entregue por um
contratante ao outro a fim de assegurar um pontual cumprimento da obrigação.
As arras constituem a importância em dinheiro ou coisa dada por um contratante ao
outro por ocasião da conclusão do contrato com o escopo de firmar a presunção de
acordo final e tornar obrigatório o ajuste, ou ainda, excepcionalmente, como propósito
de assegurar para cada um dos contratantes o direito de arrependimento.
Asseguram eventual cumprimento da obrigação e eventual indenização dos danos. Tem
caráter acessório.

2. Natureza jurídica:
a) pacto acessório – não há arras num contrato principal, pois estas só aparecem se há um
negócio jurídico em razão do qual elas existem.
b) Caráter real – o acordo a respeito das arras deve existir, é essencial a entrega por um
dos contratantes de dinheiro ou de outra coisa. Não há arras sem entrega, não basta a
instrumentalização, comodato ou depósito, que não existem sem a efetiva entrega.

3. Espécies:
a) confirmatórios – Art. 417 CC. Tem tríplice função:

Dra. Janaína Rigo Santin


I- confirmação do contrato, que se torna obrigatório. A entrega deste sinal indica o
aperfeiçoamento do contrato e que se acha concluído, fazendo lei entre as partes.
II- Além disso, é a antecipação da prestação prometida pelo contratante, começo de
pagamento, e seu quantum é imputado no preço avençado, se do mesmo gênero da
obrigação principal. Art. 417 CC – as arras em dinheiro só são princípio de
pagamento se o que se deve na prestação for dinheiro, salvo estipulação em
contrário. Se deve café e dá como arras dinheiro, este não se une ao pagamento, e ao
prestar a obrigação, deve-se devolvê-lo a quem o deu. É possível também dar o sinal
de outra natureza o mesmo destino, como o devedor que deve soja, e a título de
arras dá a soja, será princípio de pagamento.
III- E é prévia determinação das perdas e danos pelo inadimplemento - (Art. 418 CC) –
“Se a parte que deu arras não executar o contrato, poderá a outra tê-lo por
desfeito, retendo-as; se a inexecução for de quem recebeu as arras, poderá quem as
deu haver o contrato por defeito, e exigir a sua devolução mais o equivalente, com
atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos, juros e
honorários de advogado”.
Indenização suplementar – art. 419 – a parte inocente pode pedir indenização
suplementar, se provar maior prejuízo, valendo as arras como taxa mínima. Pode, também,
a parte inocente, exigir a execução do contrato, com as perdas e danos, valendo as arras
como o mínimo da indenização.

b) Penitenciais – Art. 420 CC. Abrem espaço ao direito de arrependimento, e quem se


arrepende exerce um direito, e por isso o contrato é resolúvel. Mas à custa da perda do sinal
dado, ou sua restituição mais o equivalente. Em ambos os casos não haverá direito a
indenização suplementar. Pelo nosso direito as arras, em regra, são apenas confirmatórias
do negócio jurídico. Podem as partes, no entanto, convencionar o direito de
arrependimento, caso em que elas assumem caráter penitencial. Se é estipulado tal direito, é
porque as partes quiseram fazer resolúvel o contrato, atenuando-lhe, destarte, a força
obrigatória. Esse direito deverá ser exercido dentro do prazo que se estabelecer, e se não
houve, até o início da execução do contrato.
É, portanto, predeterminação das perdas e danos da parte inocente, funcionando as arras
como cláusula penal, independente de prova de prejuízo real.

Dra. Janaína Rigo Santin

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