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Bentham, Senior e Say

Aula 10
13/07/2021
Origens Sociais das Premissas da Teoria da
Utilidade

• Vamos apresentar cinco características


particularmente importantes do capitalismo e
como elas têm sido percebidas pelos que
seguem a tradição da utilidade em teoria
econômica.
Origens Sociais das Premissas da Teoria da
Utilidade
• Primeiro, a especialização do trabalho e o isolamento
dos produtores levaram os indivíduos a considerar-se
não como parte integrante de um todo
socioeconômico interligado e interdependente, mas
como unidades isoladas, atomizadas, cada qual
preocupada com sua própria sobrevivência contra as
forças impessoais e imutáveis do mercado. Os
indivíduos sentiam-se, em grande medida, solitários,
isolados e alienados, em sua condição de seres
humanos; os outros não eram vistos como
integralmente ligados, como companheiros que
compartilhavam a mesma natureza humana, mas, tão
somente, como muitas facetas, aspectos ou
manifestações das forças impessoais do mercado.
Origens Sociais das Premissas da Teoria da
Utilidade
• Em segundo lugar, aceitando o caráter competitivo e
egoísta da natureza humana, como é que os pensadores
que seguiam a tradição da utilidade concebiam a base ou
fonte essencial da motivação humana? Passaram a achar,
cada vez mais, que todos os motivos humanos eram
causados pelo desejo de obter prazer e de evitar a dor. Essa
crença chama-se utilitarismo e é a base filosófica da teoria
do valor-utilidade e da moderna economia neoclássica
(embora, no século XX, os economistas neoclássicos
tenham feito muito esforço para disfarçar, conforme
veremos, a base utilitarista de suas teorias). O utilitarismo
foi formulado de modo mais clássico e característico nos
escritos de Jeremy Bentham, que analisaremos a seguir.
Origens Sociais das Premissas da Teoria da
Utilidade
• Em terceiro lugar, a especialização econômica criava,
necessariamente, uma dependência completa, tanto
individual quanto social, do funcionamento, com êxito,
do mercado. Os produtores especializados não
poderiam viver se não conseguissem vender suas
mercadorias em troca de moeda e comprar a variedade
de mercadorias de seus produtores especializados,
necessária para eles se manterem. Portanto, um
mercado que funcionasse com relativa liberdade era
parte necessária do modo de produção capitalista –
muito embora pudesse ser desnecessário para modos
de produção anteriores ou para modos de produção
futuros.
Origens Sociais das Premissas da Teoria da
Utilidade
• Em quarto lugar, o pré-requisito mais
importante da especialização produtiva era a
criação e a acumulação de ferramentas,
maquinaria e fábricas novas e mais complexas,
quer dizer, a acumulação de capital.
• Em quinto lugar, à medida que o sistema de mercado
capitalista foi se desenvolvendo, foi aumentando a
concorrência entre os capitalistas. Auferir lucros não era um
fato casual, relaxante e romântico. Cada capitalista tinha de
enfrentar concorrentes que queriam vender a preços mais
baixos que os seus, colocá-lo fora do mercado e destruí-lo
economicamente. Auferir lucros dependia de conseguir certo
grau de controle calculado, racional e previsível sobre as
matérias-primas, o trabalho, os gastos de produção e de
transporte e as vendas finais no mercado. A escrituração por
partidas dobradas, sistemas complexos de contabilidade, leis
uniformizadas e codificadas de propriedade privada,
compromissos contratuais e leis comerciais surgiram, de
modo geral, no período inicial do capitalismo e eram
indispensáveis na busca, pelo capitalista, de controle dos
processos de produção e de troca.
Jeremy Bentham e a Utilidade
Jeremy Bentham e a Utilidade
• Jeremy Bentham, um inglês cuja carreira como
autor e teórico social influente durou mais de 60
anos – do início da década de 1770 até 1832 –
escreveu muitos artigos, ensaios e folhetos sobre
tópicos econômicos.
• O trabalho que exerceu a influência mais forte
sobre a teoria econômica do século XIX foi “An
Introduction to the Principles of Morals and
Legislation”, publicado em 1780.
• Esse livro contém uma apresentação bem
elaborada da filosofia social utilitarista, que
deveria se tornar a base filosófica da economia
neoclássica nas últimas décadas do século XIX.
Jeremy Bentham e a Utilidade
• O Capítulo 1 da Introdução começa com a
seguinte afirmativa:
“A natureza colocou a humanidade sob o domínio
de dois mestres soberanos, a dor e o prazer. Só
eles podem mostrar o que devemos fazer, bem
como determinar o que faremos… Eles nos
governam em tudo o que fazemos, em tudo o
que dizemos, em tudo o que pensamos… O
princípio da utilidade reconhece essa sujeição e a
aceita como o fundamento (de sua teoria social)”.
Jeremy Bentham e a Utilidade
• Assim, ele começou por afirmar que toda
motivação humana, em todas as épocas e
lugares, pode ser reduzida a um único princípio: o
desejo de maximizar a utilidade.
• “Utilidade quer dizer a propriedade de qualquer
objeto que tenda a produzir algum benefício,
vantagem, prazer, bem ou felicidade (tudo isso,
no caso, equivale à mesma coisa) ou (o que de
novo equivale à mesma coisa) a impedir danos,
dor, mal ou infelicidade à parte cujo interesse
esteja sendo considerado”.
Jeremy Bentham e a Utilidade

• Todas essas diversas motivações – segundo


Bentham – eram meras manifestações do
desejo de prazer e de evitar a dor. Como a dor
era meramente o prazer negativo, o princípio
da utilidade, de Bentham podia ser expresso
também como “toda atividade humana é
derivada do desejo de maximizar o prazer”.
Nassau Senior (1790-1864)
Nassau Senior (1790-1864)

• Nassau Senior (1790-1864), como Bentham e


Say, foi um importante precursor da moderna
economia neoclássica. Como Say, ele
selecionou cuidadosamente certas ideias dos
economistas clássicos anteriores, modificou
algumas delas e acrescentou ideias próprias
para apresentar uma justificativa teórica
coerente do status quo do capitalismo do
século XIX.
Nassau Senior (1790-1864)

• Suas ideias sobre a metodologia apropriada


para a teoria econômica, o lugar da utilidade
na explicação do valor e a justificativa moral e
intelectual do lucro e da renda da terra
constituem as áreas mais importantes em que
ele influenciou a tradição neoclássica
posterior.
Nassau Senior (1790-1864)
• Senior era um advogado com grande interesse
em questões sociais, econômicas e políticas.
• Não acreditava que a teoria da população, de
Malthus, pudesse levar, legitimamente, à
conclusão de que os trabalhadores sempre
estivessem no nível de subsistência. Acreditava,
isso sim, que os aumentos de produtividade
poderiam ser acompanhados por
aperfeiçoamentos do caráter moral dos
trabalhadores e que, com isso, o padrão de vida
da maioria dos operários subiria.
Nassau Senior (1790-1864)

• Contudo, suas ideias se modificariam em


1830.
• Senior convenceu-se de que as leis para os
pobres e a assistência dada pelo governo aos
pobres e desempregados eram as principais
causas da pobreza e uma grande ameaça à
própria existência do capitalismo inglês.
Nassau Senior (1790-1864)
• Para melhorar o padrão de vida dos operários,
seria preciso um aumento de sua produtividade
ou uma diminuição do número de operários
pelos quais fosse dividido o fundo dos salários.
Senior afirmava que havia duas maneiras de
aumentar a produtividade do trabalho: primeiro,
pela remoção de todas as restrições ao livre-
comércio e à acumulação de capital e, segundo,
pela abolição das leis para os pobres, que tinham
“transformado os salários não em uma questão
de contrato entre o patrão e o operário, mas em
um direito de um e em um imposto sobre o
outro”
Nassau Senior (1790-1864)
• Senior não estava mais preocupado com a
miséria causada pela pobreza, mas com “a
ameaça de uma classe operária ousada recorrer a
greves, violências e combinações (sindicatos),
uma ameaça aos fundamentos não só da riqueza,
como também da própria existência”. O grande
perigo, na opinião de Senior, era que os
sindicatos lutassem para manter e ampliar a
noção de que os salários deveriam refletir as
necessidades da família de cada operário e não o
livre jogo das forças da oferta e da demanda.
Nassau Senior (1790-1864)
• As leis dos pobres eram baseadas em um sistema
de remuneração familiar para os desempregados
e os carentes. Essas leis, segundo Senior,
diminuíam o incentivo dos empregados para o
trabalho e provocavam a atitude arrogante dos
operários, achando que suas famílias tinham
direito a existir, mesmo que eles não
encontrassem ou não pudessem encontrar
emprego. I sso criou uma relação “que não era
natural” entre capitalistas e trabalhadores.
Jean-Baptiste Say (1767-1832)
e a Utilidade
Jean-Baptiste Say e a Utilidade
• Na introdução a sua obra intitulada Um Tratado
de Economia Política, Say elogiou Smith por suas
contribuições à Economia Política e, depois,
concluiu com uma passagem que é a chave para a
compreensão de quase todos os seus escritos:
“Depois de ter mostrado… o progresso que a
ciência da Economia Política deve ao Dr. Smith,
talvez não fosse inútil indicar… alguns pontos em
que ele errou… Ele atribui a capacidade de
produzir valores apenas ao trabalho do homem.
Isso é um erro”
Jean-Baptiste Say e a Utilidade
Say afirmava que o preço ou o valor de troca de
qualquer mercadoria dependia inteiramente de
seu valor de uso ou utilidade:
“O valor que a humanidade atribui aos objetos se
origina do uso que deles possa fazer… Tomarei a
liberdade de associar o termo utilidade à
capacidade de certas coisas satisfazerem os
vários desejos da humanidade… A utilidade das
coisas é a base do seu valor e seu valor constitui
riqueza…”
Jean-Baptiste Say e a Utilidade
Rejeitando a noção de que o trabalho era a fonte
do valor e insistindo em que só a utilidade criava
valor, Say não só se desviou visivelmente das
ideias de Smith e de Ricardo, como também
inseriu a orientação da utilidade no contexto de
uma abordagem metodológica e de uma filosofia
social, que mostram ser ele, juntamente com
Nassau Senior, os mais importantes precursores
da tradição neoclássica que veio a dominar a
economia em fins do século XIX e no século XX.
Nos escritos de Smith e Ricardo, está claro que
as rendas do trabalho são fundamentalmente
diferentes das rendas baseadas na
propriedade dos meios de produção.
Reconhecendo a fonte dessa diferença, eles
foram levados a concluir que o conflito de
classes caracterizava o capitalismo. Vimos,
porém, que, quando eles retornaram à
abordagem da troca ou da utilidade da teoria
econômica, foram levados a concluir que o
capitalismo de livre-mercado era,
intrinsecamente, um sistema de harmonia
social.
Say resolveu esse dilema rejeitando
completamente a perspectiva da produção ou
a abordagem da teoria do valor-trabalho em
teoria econômica. Com base nesse arcabouço
de utilidade, obliterou totalmente a distinção
teórica entre a renda das diferentes classes
sociais. Em vez de ver o processo produtivo
como uma série de trabalhos humanos
visando à transformação de matérias-primas
em bens usáveis, Say garantiu a existência de
diferentes “agentes de produção”, que se
combinavam para produzir as mercadorias.
A Lei dos Mercados, de Say

• Um aspecto importante dos escritos de Say


era sua crença de que um mercado livre
sempre se ajustaria automaticamente, em um
equilíbrio em que todos os recursos – inclusive
o trabalho – estariam plenamente utilizados,
quer dizer, em um equilíbrio com o pleno
emprego, tanto do trabalho quanto da
capacidade produtiva.
Jean-Baptiste Say
• Vimos que Smith e Ricardo já argumentaram
argumentado que um mercado livre e em
concorrência criaria, automaticamente, o
pleno emprego, essa crença no automatismo
do mercado passou, depois, a ser conhecida
como Lei de Say.
• Os economistas que rejeitaram essa “lei”
foram, entre outros, Malthus, Karl Marx e
John Maynard Keynes.
Jean-Baptiste Say
• Em uma longa e famosa troca de cartas com
Malthus, Say defendeu a ideia de que nunca
poderia haver superprodução geral ou depressão
que acarretasse desemprego involuntário.
• Argumentava que uma economia de mercado era
uma economia em que produtores especializados
trocavam seus produtos. A moeda não tinha
qualquer importância intrínseca, a não ser como
meio de facilitar a troca.
Jean-Baptiste Say
• Say argumentava que ninguém produziria se não
quisesse trocar o que produzisse pela produção
de outra pessoa. Portanto, uma oferta cria uma
demanda da mesma magnitude. “Produção abre
caminho para produção”, afirmava ele. Se isso era
verdade para cada produtor tomado
individualmente, teria de ser verdade para os
agregados da oferta e da demanda, quer dizer, a
oferta agregada teria de ser igual à demanda
agregada.
Jean-Baptiste Say
• Ele argumentava que poderia haver uma
superprodução temporária de algumas
mercadorias, mas isso resultaria do fato de
não ter sido atingido o equilíbrio do mercado.
Alguns preços seriam muito baixos e outros,
muito altos. Nesse caso, haveria
superprodução das mercadorias cujos preços
estivessem muito altos e, ao mesmo tempo,
uma falta das mercadorias cujos preços
estivessem muito baixos.

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