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DIÁLOGO COM AS SOMBRAS

HERMÍNIO C. MIRANDA

Continuação dos estudos...


27/07/2021 Página | 1

Podemos, evidentemente, contar com a boa-vontade e a ajuda desses irmãos maiores,


e, por conseguinte, com a sua proteção carinhosa, não à custa de oferendas, de ritos
mágicos, de símbolos, de “trabalhos” encomendados, mas sim, com um
procedimento reto, no qual procuremos desenvolver em nós mesmos o esforço
moralizador, o aprendizado constante e a dedicação desinteressada ao semelhante.

Nunca somos tão pobres de bens materiais e espirituais que não possamos doar
alguma coisa ao companheiro necessitado, seja o pão ou a palavra de consolo e
solidariedade. É com estas atitudes que nos asseguramos da assistência de Irmãos
mais experimentados e evoluídos, não para nos livrar das nossas dores, nem para
cumprir mandados nossos ou atender às nossas menores exigências e súplicas, mas
para nos concederem o privilégio da sua presença amiga, da sua inspiração oportuna,
e da sua ajuda desinteressada, naquilo que for realmente proveitoso ao nosso espírito,
e não naquilo que julgamos o seja.

Nunca é demais enfatizar que a organização de um grupo de trabalho mediúnico


começa muito antes de dar-se início às suas tarefas propriamente ditas, com o estudo
sistemático das obras básicas, e das complementares, da Doutrina Espírita: as de Allan
Kardec, Léon Denis, Gabriel Delanne, Gustavo Geley, e certos trabalhos de origem
mediúnica, como os de André Luiz. Muita ênfase precisa ser posta no estudo dos
escritos que cuidam do complexo problema da mediunidade, suporte indispensável de
toda a tarefa programada.

Assim, é preciso insistir: a formação ou nascimento de um grupo é muito importante, e


deve ser cercado dos mesmos cuidados que precedem à formação e ao nascimento de
uma criança: ou seja, a educação dos pais.

Estão preparados para a tarefa? Desejam o filho? Dispõem-se aos sacrifícios e


renúncias que o trabalho impõe? Estão conscientes das suas responsabilidades, dos
percalços e das lutas que os esperam? Para que desejam o filho? Sonham fazer dele
um grande homem, no sentido humano, forçando-o a uma tarefa acima de suas forças,
para a qual não esteja preparado, ou se dispõem a criar condições para fazer dele um
ser digno, pacificado e amoroso? Estão prontos a receber a tarefa com humildade? E,
acima de tudo: estão prontos e dispostos a se doarem integralmente, sem reservas, ao
amor ilimitado, sem condições e sem imposições? O amor não exige recompensa. O
amor, dizia Edgar Cayce, não é possessivo; o amor é.

Se estamos com essas disposições, podemos começar. E começar pelo planejamento, e


não pela execução atabalhoada e sem preparo.
Examinaremos o assunto por partes e com as cautelas devidas.
Voltaremos às questões que formulamos acima, ao comparar o grupo nascente com
um filho. Antes, ainda no corpo desta conversa inicial, uma observação de caráter
pessoal: ao planejar a elaboração deste livro, julguei necessária uma pequena
introdução que situasse a obra em seu contexto próprio. Não foi preciso escrevê-la,
pois já estava pronta. “Reformador” de fevereiro de 1966 publicou um artigo intitulado
“Espiritismo sem sessão espírita?”, que a seguir transcrevo, por interessar aos Página | 2
objetivos deste livro.

*
“Encontramos, às vezes, confrades que não gostam de frequentar sessões espíritas. As
razões que os levam a essa decisão — creio eu — são respeitáveis, pois cada um de
nós sabe de si e do que, modernamente, se convencionou chamar de suas motivações.
É preciso, entretanto, examinar de perto essa posição e ver o que contém ela de
legítimo, não apenas no interesse da doutrina que todos professamos, mas também no
interesse de cada um.

De fato, há alguns problemas ligados à frequência de trabalhos mediúnicos.


O primeiro deles — e dos mais sérios — é o da própria mediunidade, essa estranha
faculdade humana sobre a qual ainda há muito o que estudar. Outra dificuldade
ponderável é a organização de um bom grupo que se incumba, com regularidade e
seriedade, das tarefas a que se propõe.

Há outros problemas e dificuldades de menor importância, mas creio que basta


considerarmos aqui apenas esses dois — o que não é pouco. A análise das questões
mais complexas quase sempre começa pelas definições acacianas e de vez em quando
é bom a gente recorrer a velhos conceitos para iluminar obstáculos novos.

O Espiritismo doutrinário nasceu das práticas mediúnicas, delas se nutre e delas


depende, em grande parte, o seu desenvolvimento futuro. O intercâmbio, entre o
mundo espiritual e este, somente assumiu expressão e sentido filosófico depois que
Kardec ordenou e metodizou os conhecimentos adquiridos no contato com os nossos
irmãos desencarnados. Parece claro, também, que o equacionamento e a solução das
grandes inquietações humanas vão depender, cada vez mais, da exata compreensão
do mecanismo das relações entre esses dois mundos que, no final de contas, não são
mais que um único, em planos diferentes. Logo, a prática mediúnica é, não apenas
aconselhável, como indispensável ao futuro da Humanidade.

Convém pensar também que a própria dinâmica da Doutrina Espírita exige esse
intercâmbio espiritual, em primeiro lugar para que se observe e estude o fenômeno da
mediunidade, suas grandezas, os riscos que oferece, as oportunidades de aprendizado
e progresso que contém, não apenas para o médium, mas para aquele que assiste aos
trabalhos e deles participa. É claro que a mediunidade tem um mecanismo muito
complexo e até agora poucos foram os cientistas dignos desse nome que se
dedicaram, realmente, a fundo e com a mente desarmada de preconceitos, ao estudo
dela.
Mas se não a observarmos em ação, como poderemos almejar compreendê-la um dia?
Só aprendemos a nadar pulando dentro dágua sob a orientação de quem já tenha, a
respeito, noções satisfatórias. Se é incompleto o conhecimento sem a prática
mediúnica, também o é o exercício desta sem o estudo daquilo que já se sabe sobre o
fenômeno. Evidentemente, precisamos estar atentos ao puro mediunismo sem
objetivos mais elevados, como também ao animismo de certos médiuns mais Página | 3
interessados nas suas próprias ideias que na transmissão daquilo que recebem dos
companheiros desencarnados.

Há riscos, sim. De mistificações por parte de pobres irmãos carecentes de


entendimento. De aceitação de inverdades sutilmente apresentadas sob fascinantes
roupagens. De aflições — embora passageiras — causadas pelo desfile das angústias
de irmãos sofredores.

Será, porém, que isso constitui motivo para nos privarmos das recompensas do
aprendizado, das alegrias que experimentamos ao encaminhar às trilhas da paz um
Espírito em crise?

Há um universo a explorar. Há uma Humanidade inteira clamando por ajuda,


esclarecimento, compreensão e caridade no chamado mundo espiritual. Seus dramas e
suas angústias não são puramente individuais. O Espírito que erra, invariavelmente
prejudica a alguém mais. Os erros que cometemos, prendem-nos a uma cadeia de
fatos e de seres que se estende pelo tempo a fora. Nunca o drama de um Espírito é
apenas seu. Há sempre, nesta vida ou em algumas das anteriores, elos que nos ligam a
outros seres e e outras dores. Aquele que odeia, muitas vezes já está maduro para o
perdão — basta uma palavra serena de esclarecimento, um gesto de tranquila
compreensão para libertar, não apenas o seu espírito da tormenta do ódio, mas
também o irmão que lhe sofre as agressivas vibrações, provocadas por antigas
mágoas. Aos que ainda desejam vingar-se de antiquíssimas ofensas, mostramos a
inutilidade do seu intento e os novos problemas com que virão agravar o seu futuro.
Ao que ainda se prende a superadas teologias, ajudamos a compreender a nova
realidade que tem diante de si. A todos os que erraram, consolamos com a nossa
própria imperfeição e com a certeza da recuperação.

Os que já atingiram elevados patamares de conhecimento e amor, ouvimo-los com


admiração e proveito. Muitos nos buscam apenas para trazer notícias das suas
próprias conclusões, da nova compreensão diante desse mistério sempre renovado da
vida. Multidões de seres que aqui viveram inúmeras vezes, como criaturas encarnadas,
lá estão à espera de ajuda e, no entanto, são tão poucos os grupos que se dispõem a
esse trabalho que tão altos dividendos paga em conhecimento e progresso espiritual.
No exercício constante dessa atividade, vemos, cada vez melhor, a solidez inabalável
da doutrina que nos legaram os Espíritos, através da lúcida inteligência de Kardec.
Crentes ou descrentes, católicos ou protestantes, todos nos vêm confirmar as
verdades mestras do Espiritismo: as de que o Espírito sobrevive à morte física, de que
reencarna, de que progride e aprende, tanto na carne como no Espaço; de que as leis
universais são perfeitas, iniludíveis, mas flexíveis, pois exigem reparação, ao mesmo
tempo que fornecem os recursos para o reencontro do Espírito com o seu próprio
destino. Nos dramas a que assistimos nas sessões mediúnicas, aprendemos a
contemplar a transitoriedade do mal, a amarga decepção do suicida, a crueza do
arrependimento daquele que desperdiçou o seu tempo na busca ansiosa das ilusões
mundanas, a inutilidade das posições humanas, o ônus terrível da vaidade, a tensa
expectativa de um novo mergulho na carne redentora, na qual o Espírito fica, pelo
menos, anestesiado nas suas angústias. Página | 4

Lições terríveis ministradas com lágrimas e gritos de desespero por aqueles que
assumiram débitos enormes diante da Lei; lições de doce tranquilidade e de serena
humildade dos que já superaram as suas fraquezas e vêm, sem ostentação, apenas
para mostrar como é o Espírito daquele que já venceu a si mesmo, na milenar batalha
contra as suas próprias deficiências. Muitas e variadas lições, aprendizado extenso e
profundo para todos os que desejarem realmente apressar os passos e encurtar a
caminhada que leva a Deus. Por que, então, desprezar esse trabalho magnífico que
tanta recompensa nos traz e também aos nossos irmãos do outro lado da vida?

Quanto à organização dos grupos, não será tão difícil assim. Há estudos sérios e muito
seguros de orientação doutrinária a respeito. É bom que o grupo seja pequeno, de
preferência familiar, composto de pessoas que se harmonizem perfeitamente e que
estejam interessadas num trabalho sério e contínuo. Que não se deixe desencorajar
por dificuldades ou pela aparente insignificáncia dos primeiros resultados, nem se
deixe fanatizar ou fascinar por pseudoguias. Aos poucos, demonstrada a seriedade de
propósitos, os trabalhos irão surgindo, sob a orientação de Espíritos esclarecidos. A
cada bom grupo de seres encarnados dispostos à tarefa, corresponderá um grupo
equivalente de Espíritos, num intercâmbio salutar de profundas repercussões, pois
Espiritismo é doutrina, mas é também prática mediúnica, e todos nós, ainda que nem
sequer suspeitemos disso, temos compromissos a executar, ajustes a realizar com
irmãos que nos aguardam mergulhados em ódios e incompreensões, que se
envenenam a si mesmos e a nós próprios.

“Lamentar a desgraça — dizia Horace Mann — é apenas humano; minorála é divino.”


*
E assim, creio que estamos prontos para entrar na matéria propriamente dita.
Rio de Janeiro (RJ), 1976
HERMÍNIO C. MIRANDA