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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 1

SUMÁRIO
ISBN 978-85-463-0257-4 | 2

LIELTON MAIA SILVA


SANDRA MARY DUARTE
ANTONIEL DOS SANTOS GOMES FILHO
(Organizadores)

Violência de Gênero
Resistência em Tempos de Crise no Brasil

Ideia
João Pessoa
2017

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 3

Todos os direitos reservados aos organizadores.

A responsabilidade sobre textos e imagens são dos respectivos autores.

Editoração/Capa
Magno Nicolau

Revisão
Luiz Carlos Cordeiro Lima

Conselho Editorial
Marcos Nicolau – UFPB
Roseane Feitosa – UFPB – Litoral Norte
Dermeval da Hora – Proling/UFPB
Helder Pinheiro – UFCG
Elri Bandeira – UFCG

V796 Violência de Gênero: resistência em tempos de crise no


Brasil. Lielton Maia Silva, Sandra Mary Duarte, Antoniel dos
Santos Gomes Filho (Organizadores). - João Pessoa: Ideia,
2017.
184p.:il.
ISBN 978-85-463-0257-4
1. Relações de Gênero 2. Violência de Gênero 3.
Políticas Sociais

CDU 36(043)

EDITORA
www.ideiaeditora.com.br
ideiaeditora@uol.com.br

SUMÁRIO
ISBN 978-85-463-0257-4 | 4

Sumário

PREFÁCIO6
Prof. Dr. Leandro de Oliveira

A P R E S E N T A Ç Ã O 31
Lielton Maia Silva
Sandra Mary Durte
Antoniel dos Santos Gomes Filho

CAPÍTULO I
AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA VIOLÊNCIA E O DEBATE NAS CIÊNCIAS
SOCIAIS 34
Miguel Ângelo Silva de Melo

CAPÍTULO II
ROMPENDO AS AMARRAS E TRILHANDO (DES)CAMINHOS: PSICOLOGIA E
VIOLÊNCIA DE GÊNERO NO CARIRI CEARENSE 66
Francisco Francinete Leite Junior

CAPÍTULO III
ENEGRECER, EM NEGRA SER: FIOS QUE TRAMAM E DESTRAMAM AS
ARTIMANHAS DA INVISIBILIDADE DA MULHER NEGRA 78
Jéssyca Diniz Medeiros

CAPÍTULO VI
TRAJETÓRIAS ESCOLARES DE TRAVESTIS NO MUNICÍPIO DE JUAZEIRO DO
NORTE-CE: VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS 97
Antoniel dos Santos Gomes Filho

CAPÍTULO V
GÊNERO E DIVERSIDADE SEXUAL NO DISCURSO DOCENTE 109
Jarles Lopes de Medeiros

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CAPÍTULO VI
REDE DE PROTEÇÃO ÀS MULHERES E A ATUAÇÃO DO/A ASSISTENTE SOCIAL
FRENTE À VIOLÊNCIA DE GÊNERO 124
Lais Almeida de Sousa
Antonia Cleidiana Diniz Pinheiro
Cicero Charlison Renan Alves

CAPÍTULO VII
A ATUAÇÃO DA EQUIPE INTERDISCIPLINAR DO CREAS FRENTE OS CASOS DE
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER NO MUNICÍPIO DE ICÓ-CE 140
Josué Barros Junior
Cicero Charlison Renan Alves
Antonia Cleidiana Diniz Pinheiro
Kerma Márcia de Freitas

CAPÍTULO VIII
VIOLÊNCIA DE GÊNERO E A QUESTÃO DA DIGNIDADE FEMININA EM
COMUNIDADES ISLÂMICAS 152
Allana de Freitas Lacerda

CAPÍTULO IX
“E DA COSTELA QUE O SENHOR DEUS TOMOU DO HOMEM, FORMOU UMA
MULHER, E TROUXE-A A ADÃO”: ENTRELAÇAMENTOS ENTRE CORPO, GÊNERO
E RELIGIÃO 164
Brennda Martinelli Pinho Silva
Tiago Deividy Bento Serafim

POSFÁCIO 180
Prof. Antônio Wilson dos Santos

OS ORGANIZADORES 181

OS AUTORES 182

SUMÁRIO
ISBN 978-85-463-0257-4 | 6

PREFÁCIO

Prof. Dr. Leandro de Oliveira


Antropólogo, Doutor em Antropologia Social pelo PPGAS/ Museu Nacional/ UFRJ,
Professor do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal
de Minas Gerais (PPGAN/UFMG)

Os subjugados têm uma possibilidade decente de reconhecer o Truque de


Deus e toda a sua brilhante - e, portanto, enceguecedora – iluminação.
(HARAWAY, 1995, p. 23)

P
refaciar uma coletânea de artigos de terceiros é sempre um privilégio, um risco
e um desafio. A leitora ou leitor se deparará, neste livro, com uma rede de
autores atuantes e articulados especialmente em torno do Sul Cearense, região
onde eu próprio morei e trabalhei durante algum tempo. Os textos aqui coligidos estão
dedicados a refletir, sob perspectivas muito plurais, a respeito de um assunto que me é
muito caro: a violência de gênero. Colocar este tema em discurso é algo que se reveste
de particular relevância na conjuntura política atual, que tem sido marcada por uma
guinada política para a direita, pelo retrocesso em direitos e políticas sociais, e pela
ascensão de conservadorismos e totalitarismos culturais. O volume congrega ensaios
situados nas interfaces entre Saúde Coletiva, Sociologia, Educação, Direito, Psicologia
e Serviço social, tendo a problematização sobre violência, gênero e sexualidade como o
pivô de uma discussão comum.
Creio que seria desnecessário frisar que é difícil fazer jus a contribuições
acadêmicas tão diversas. Minha relação com tais temas é, ela própria, localizada e
parcial: para citar uma célebre expressão de Donna Haraway (1995), não tenho a
pretensão de efetuar o “truque de Deus”, exercendo um olhar onisciente que a tudo
enxergue sem estar posicionado em lugar algum. Não é a palidez do avental branco da
objetividade e imparcialidade que assegura o valor de qualquer contribuição científica,
mas seu engajamento contingente no mundo, situado a partir de tais ou quais posições.
Manter a coerência com esta perspectiva demanda que eu esboce, aqui, uma espécie de
‘fala em primeira pessoa’, evidenciando o chão de terra batida em que se sustenta meu

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olhar sobre os artigos que integram este livro e sobre o campo a que seus autores
oferecem uma contribuição. Esta disposição em tentar trazer à tona minha própria
posição de sujeito provém também, em parte, da impressão que sinto de que esta seria
uma forma apropriada de expressar meu apreço e deferência pelos trabalhos aqui
compilados. Peço, portanto, licença para prosseguir nesta digressão.
Falo, antes de tudo, como um Cientista Social e Antropólogo, com formação na
área de Saúde Coletiva e certo interesse por história, que se dedicou ao longo dos
últimos vinte anos a aprender e a atuar no campo de estudos em gênero e sexualidade,
pesquisando questões referentes a corpo, família, religião, subjetividade e emoção em
contextos citadinos. Tive a oportunidade de atuar como docente em distintas unidades
da federação - incluindo meia década em que lecionei na Universidade Regional do
Cariri (URCA), antes de me instalar na cidade de Belo Horizonte – e sempre trabalhei
com estas mesmas temáticas. De modo geral, não tenho o hábito de explicitar que,
dentre as motivações para o engajamento neste campo de pesquisa, se encontram minha
própria orientação sexual e uma eventual identificação como “gay”. Pesquisadores e
estudantes da área costumam, jocosamente, afirmar que esta explicitação é
desnecessária, pois afinal ‘todo mundo sabe que homens heterossexuais não estudam
(homo)sexualidades’, ou algo parecido. Por essa lógica, aquilo que é dado como
evidente não precisaria ser comentado, e se chega a ser enunciado, é desconsiderado
como uma informação sobre a vida privada desde ou daquele pesquisador, comportando
talvez implicações metodológicas para o processo de entrada em campo, mas sem
grande relevância para as Políticas do Conhecimento. Ouvi uma variante desta frase da
boca de um aluno, há poucos dias, ao comentar com ele que eu fora convidado para
redigir este prefácio, e explicar que pretendia assinar o texto explicitando minha própria
orientação sexual. Anos atrás, em um grande congresso da área de Antropologia, lembro
de ter presenciado um colega antropólogo mencionar ironicamente que “pisar em um
GT de Antropologia da Sexualidade é quase o mesmo que sair do armário”, e devo ter
escutado trocadilhos parecidos incontáveis vezes, nestes círculos mais ou menos
restritos, ao longo dos últimos vinte anos. Contudo, embora esta representação circule à
boca miúda entre estudantes e pesquisadores na comunidade acadêmica, suas
implicações epistemológicas, metodológicas e políticas raramente são discutidas. A
piada, por mais que não deva ser levada ao pé da letra, é indicativa da percepção de que

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certos tipos de pesquisador definitivamente não se disporiam a se misturar com certos


tipos de tema (ainda que pesquisadoras do sexo feminino e socialmente definidas como
“heterossexuais” o façam com um pouco mais de facilidade e naturalidade).
Indiretamente, esse discurso sinaliza para uma invisibilização e silenciamento sobre a
orientação sexual dissidente da norma heterossexual no interior da comunidade
científica, como se a ciência fosse ou devesse ser sexualmente neutra, jamais marcada
pela sexualidade de seus praticantes (o que a tornaria, como tudo aquilo que
pressupomos não ser sexualmente marcado, par default heterossexual). Os estudos em
gênero e sexualidade seriam a exceção que confirma a regra: um pequeno e suspeito
território epistemológico, delimitado em oposição aos domínios mais abrangentes de
uma Ciência insípida, inodora e incolor. Refletir criticamente sobre este tema requer,
tão somente, que estendamos de forma mais ou menos sistemática às sexualidades
dissidentes um argumento bem reconhecido no campo dos estudos feministas da
ciência: que o pensamento e a atividade científicos são marcados pelo gênero (e, por
extensão, pela sexualidade) de seus praticantes (SCHIEBINGER, 2001). Se esta
intuição de fato procede, estaria se falando de uma conexão muito fundamental e
profunda entre “ciência” e “heterossexualidade compulsória” - noção cunhada em 1980
por Adrienne Rich (2010), em artigo no qual esta intelectual feminista argumenta que a
naturalização da heterossexualidade dissimula seus efeitos e seu caráter enquanto
instituição política. Não tenho a pretensão de elucidar esse imbroglio, mas o considero
uma boa provocação inicial para introduzir as questões que desejo pontuar nesta breve
apresentação.
Aprendi muito cedo que a orientação sexual que diverge da heterossexualidade é
uma informação pessoal cuja revelação é dotada de consequências, que podem nem
sempre ser ruins, mas que, com alguma frequência, o são. Daí deriva, acho, a tendência
persistente que tenho a omitir como irrelevante este pequeno detalhe biográfico, e a
tentar controlar - ciosa, ainda que nem sempre conscientemente - as formas de
visibilização, expressão e alusão que poderiam colocá-lo em foco nesta ou naquela cena,
tanto no cotidiano profissional quanto em minha própria vida privada. Como sugere Eve
Sedgwick (2007), o “dispositivo do armário” atinge pessoas homossexuais com um
conjunto de injunções contraditórias, que prescreve simultaneamente a exposição
compulsória e a manutenção do segredo sobre si. Esta situação configura, creio, uma

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espécie de duplo vínculo (BATESON, 1971): um paradoxo deflagrado por duas


prescrições contraditórias e mutuamente excludentes, que gerariam consequências
graves se não fossem ambas atendidas, e que despontam acrescidas de uma terceira
prescrição que te proíbe de ignorar as duas anteriores. Antes que algum leitor afoito
presuma que estou despudoradamente confessando alguma sorte de ‘violência
simbólica’ - no sentido que Bourdieu (2002) confere a esta noção - da qual eu teria sido
cúmplice ou vítima inadvertida, quero registrar que, a meu ver, matrizes de
constrangimento são antes de tudo campos de possibilidade dentro dos quais os agentes
se constituem e se movem (WERNECK, 2014). Alinho este argumento à posição
sustentada pela teórica feminista e pós-colonial Saba Mahmood (2006), em sua análise
sobre o engajamento de mulheres no avivamento de religiosidades muçulmanas no
Egito desde os anos 1970: agência não é sinônimo de oposição ‘externa’ ao poder; pelo
contrário, o termo circunscreve a capacidade para a ação como algo que
necessariamente emerge dentro de formas específicas e variáveis de sujeição. Imaginar
um lugar utópico de onde pesquisadores ou ativistas pudessem, imparcial e
objetivamente, denunciar o poder - sem estarem, eles próprios, sendo investidos,
formados e constituídos como efeito de tais e quais relações de poder - seria uma
modalidade especialmente prestidigitadora de Truque de Deus. Isto é, justamente,
aquilo que eu gostaria de evitar neste texto. De todo modo, dado que agora ‘o gato está
fora da bolsa’, não custa nada pensar um pouco a respeito deste assunto, considerando a
forma como ele matiza minhas próprias conexões parciais com as Ciências Sociais e
com os debates sobre sexualidade e violência de gênero.
Outra peculiaridade em minha trajetória pessoal é que cresci e residi, ao longo
da infância, juventude e parte da vida adulta, em uma favela localizada em um subúrbio
de periferia no Rio de Janeiro, contexto bastante marcado por preconceito sexual,
desigualdades de gênero e formas variadas de violência. Descobrir-se gay ou
homo/bissexual neste tipo de ambiente, e tornar-se um acadêmico partindo deste lugar
social, são experiências bem diferentes daquelas que são vividas por pessoas de
camadas médias urbanas. Durante o doutorado, em dias de confronto armado entre os
traficantes locais e o BOPE, era comum ter que aguardar dentro de casa que os tiros
“amainassem” (permanecendo agachado ou evitando estar perto de janelas) antes de
poder sair de casa, percorrer a pé a distância de quase dois quilômetros que separava

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Vila Aliança da parte mais nobre, mais urbanizada e menos conturbada do bairro de
Bangu, e enfrentar mais 30 km de viagem (cerca de 60 minutos) em pé num vagão de
trem superlotado, de modo a chegar à aconchegante sala de aula localizada no Museu
Nacional, na Quinta da Boa Vista. Eu e minha família naturalizávamos este tipo de
situação – afinal, o mundo é violento e injusto, não é mesmo? É desnecessário frisar que
muitas pessoas em minha comunidade de origem não tiveram sucesso em, ou sequer
acesso a, este tipo de oportunidade educacional. Uma convergência singular entre
fatores sociológicos e biográficos, projetos pessoais e coletivos possibilitou que eu me
tornasse a primeira pessoa em minha família a ter um diploma de graduação (e, algum
tempo mais tarde, me tornar o primeiro mestre, doutor e professor universitário). Liste-
se, à guisa de curiosidade: 1) que durante o ensino médio tive um namorado estudante
universitário, cujo exemplo e incentivo tornaram pensável para mim um projeto de
carreira acadêmica; 2) que a obtenção de bolsas de iniciação científica e de monitoria
em disciplinas contribuiu bastante para que eu não abandonasse a graduação; 3) que o
exercício de atividades musicais (que por vezes alimentava meus laços com redes e
pessoas mais ou menos conservadoras) me ajudou a ganhar uns trocados nessa mesma
época e, mutatis mutandis, também contribuiu para minha permanência na carreira
(entre fins dos anos 1990 e início dos anos 2000, cheguei a ser professor em uma Escola
de Música evangélica, além de ter dado aulas particulares, tocado em casamentos e
regido um ‘coral da terceira-idade’, obtendo assim minguados recursos que eram
sistematicamente redirecionados para minha formação como Cientista Social); 4) que
tenho uma tia paterna, servidora pública, que ajudou financeiramente a família após o
falecimento de meu pai (ocorrido quando eu tinha cerca de 14 anos e cursava o ensino
profissionalizante em eletrônica), ensejando condições materiais, simbólicas e
emocionais para que eu perseguisse um projeto de formação de médio prazo sem
submergir precocemente no mercado de trabalho. Papai, que era dependente de álcool e
que (posso afirmar em retrospectiva) tinha uma visão de mundo e atitudes um tanto
quanto sexistas e homofóbicas, se suicidou logo após ameaçar minha mãe de morte com
um facão de cozinha, motivado por ciúmes, enquanto esta se trancava dentro do
banheiro de casa para se proteger. Algum tempo após a morte dele, conheci meu
primeiro namorado, e acabei contando para meus familiares que estava tendo um
relacionamento amoroso com um homem. Guardei - senão até hoje, pelo menos durante

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muitos anos - uma mistura de mágoa e gratidão pelo modo como minha família reagiu a
minha orientação sexual, tanto nesta ocasião em particular quanto em meia dúzia de
outras posteriores. Não fui expulso de casa nem vítima de agressões físicas, e jamais
duvidei do zelo e do afeto que me eram endereçados; ainda assim, se sentir de tal
maneira a fonte de decepção e se ver alvo de censuras e desprezo por parte de seus entes
queridos é como viver, de um único golpe, o luto pela perda de todas as suas relações.
Aos leitores e leitoras heterossexuais, que podem nunca ter passado por algo parecido,
comunico: essa não é uma experiência particularmente confortável.
Talvez vocês estejam se perguntando porque, afinal, estão sendo obrigados a ler
estas ninharias biográficas, sentimentais e desinteressantes. Explico: se minha entrada
na academia tivesse se dado por outros caminhos, ou a partir de outros lugares, é bem
possível que meus interesses de pesquisa e alinhamentos teóricos fossem ao menos um
pouco diferentes do que são, e que talvez eu estivesse mais propenso a defender minha
posição nas trincheiras da Ciência empunhando o Olho de Deus como escudo e broquel.
Não me considero um ativista, apesar de minha simpatia por (e endosso público de)
agendas do movimento feminista, do movimento negro, dos movimentos LGBT e de
outras minorias; acredito que há pessoas muito mais bem capacitadas que eu para
exercer o tipo de ação e articulação que o ativismo demanda. Minha atuação tem se
dado no campo acadêmico, em torno de questões um pouco diferentes daquelas que
animam os próprios movimentos sociais, ainda que a fronteira entre os campos da
academia e da política não seja, de modo algum, precisa ou rígida. Ao longo de minha
trajetória, após compreender que “verdade” é uma coisa que colocaram na nossa cabeça
(a leitura de Michel Foucault, ainda na graduação, ajudou bastante), comecei a coar as
teorias com as quais tinha contato através da peneira de minha experiência vivida, filtro
este que não coincidia totalmente com os filtros preferencialmente adotados pela
geração de meus professores. Durante uma fase inicial de formação, me senti muito
atraído por aquilo que a antropóloga Mary Douglas (1982), de forma sucinta e muito
perspicaz, apelidou como “teorias em voz passiva”: explicações que atribuem a
responsabilidade por tais e quais atos a forças externas ao arbítrio individual. Se o
desejo dissidente estava atrelado a “papéis” sociais (McINTOSH, 1968; FRY e
MacRAE, 1983), o sujeito que o vivencia não podia ser culpabilizado por isto, já que o
desejo é aprendido e o papel é uma construção coletiva; de maneira análoga, o sexismo

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e a homofobia provinham da sociedade e da cultura, e as pessoas que os cultivavam


poderiam ser devidamente incentivadas a mudar de perspectiva. Fui bastante impactado
pela leitura, já no ano de 1995, do ensaio de Herbert Daniel (1983), cuja acidez e ironia
na crítica a convenções culturais servem, por si só, como justificativa para torná-lo uma
leitura interessante nos dias de hoje. Esta obra, que reli inúmeras vezes depois disto, foi
talvez o primeiro texto em que me deparei com a ideia de que a homossexualidade
dependia de um aprendizado cultural (do mesmo modo que, nas palavras do autor, os
papéis de “respeitável cidadão” e de “carrasco de viado” eram decorrentes de uma certa
pedagogia que podia se fazer presente até em anedotas e piadas). Anos depois, esta
retórica vintage começou a soar ligeiramente insatisfatória a meus ouvidos. Afinal, se
tudo é construído e se tudo é relativo, não seria mais simples deixar o mundo do jeito
como está, e tentar modificar somente a orientação sexual destas minorias descontentes
– do modo, aliás, como propõem certos discursos religiosos sobre a “cura da
homossexualidade”? Argumentos relativistas podem ter alguma serventia como
ferramenta analítica aqui ou acolá, mas se forem levados às últimas consequências,
conduzem a paradoxos – notadamente, dão margem à sustentação de uma ‘teoria-de-
tudo’ não-assumida, tão universalista e objetivante quanto aquelas teorias que possuem
uma pretensão mais escancarada à totalização (Haraway, 1995). O construcionismo
denega a naturalização e, ao fazê-lo, subestima seu poder na fabricação de ontologias. O
relativismo, que o acompanha, suscita todo um outro quinhão de problemas. Ele é
comprometido com uma concepção datada de cultura, que reifica a diferença em vez de
investigar conexões e formas de diferenciação. Esta noção clássica de cultura endossa a
premissa funcionalista de que os ‘sistemas’ sociais e simbólicos seriam totalidades
estanques, integradas e mais ou menos homogêneas, desconsiderando dissensos e
relações de poder interculturais e intraculturais, assim como o caráter poroso de toda e
qualquer “cultura”. Construcionismo e relativismo tratam como ‘equivalentes’
perspectivas que não apenas podem não se perceber enquanto tal, mas que podem
desfrutar de poder e eficácia desiguais quando confrontadas umas com as outras, neste
ou naquele contexto. Desconfiando deste tipo de abordagem, pendi simultaneamente em
(pelo menos) duas outras direções. Primeiro, como sinalizei acima, cultivei um interesse
pelas formas ativas de agência e criatividade que os sujeitos exercem, compreendidas
como parte integrante de relações de poder e não como um caminho para se libertar do

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poder. Isto demanda, dentre outras coisas, a elaboração de instrumentos analíticos que
deem conta daquelas situações em que os sujeitos alocam a responsabilidade por seus
atos a potências externas a si, recorrendo ativamente ao uso da voz passiva para dar
sentido a suas existências (DOUGLAS, 1982). Em termos mais simples,
‘conservadorismo’ não é inércia, nem atraso, nem ignorância; ele é uma forma de
agência (e precisa ser compreendido enquanto tal, especialmente se quisermos refletir
criticamente sobre ele). Segundo, desenvolvi uma maior atenção às condições de
possibilidade para a emergência de tais e quais tipos de pensamento e de crítica cultural,
incluindo aqui o discurso sobre sexualidades que tenho me dedicado a produzir e a
propagar. Esta segunda linha de questões se beneficiou do diálogo com uma bibliografia
que sinaliza que, para que certas práticas sejam reconhecidas como “violência”, é
preciso que alguma coletividade se sinta especialmente atingida ou ofendida por elas (a
despeito, em última instância, das percepções do agressor e da própria vítima): ver, por
exemplo, a reflexão de Luiz Roberto Cardoso de Oliveira (2008) sobre o “insulto
moral” que está subjacente à nomeação de tais e quais atos como “violência”; a análise
de Simião (2006) sobre a emergência e as formas particulares assumidas pela noção de
“violência doméstica” no Timor Leste; a interpretação da historiadora Lynn Hunt
(2009), sobre como a empatia desenvolvida pela burguesia do século XVIII com o
sofrimento de personagens imaginários, cultivada através da leitura de romances
epistolares, criou um solo propício para o florescimento do discurso dos Direitos
Humanos. Em geral, estudos afinados com este tipo de perspectiva fornecem subsídios
para se pensar como a violência é fabricada enquanto problema social em tais e quais
contextos históricos locais. Alguns trabalhos sugerem também que a academia está, de
uma maneira ou de outra, imbricada na produção de problemas ‘sociais’: Ramos e
Carrara (2006) evocam este argumento ao tratar da “violência contra homossexuais”;
Fry e Carrara (2016) o desenvolvem a partir de apropriações religiosas de teorias
científicas sobre sexualidade, destacando que há controvérsias públicas que incorporam
discursos antropológicos e incitam a novos posicionamentos dentro do próprio campo
da Antropologia. Inspirado por debates como estes, venho (desde meu ingresso no
doutorado, pra ser preciso) tentando esboçar uma espécie de genealogia dos saberes
neste campo em que me localizo, considerando como um cenário de controvérsias e
disputas políticas marcadas por gênero e sexualidade forma o pano de fundo contra o

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qual se delineiam novas modalidades de pensamento crítico dentro e/ou fora da


academia, e tentando situar minha própria prática acadêmica no interior desse cenário.
Preocupações epistemológicas semelhantes têm sido, de longa data, alvo da
atenção de antropólogas no campo de Estudos de Gênero, inclusive no Brasil - ver, por
exemplo, a reflexão de Franchetto, Cavalcanti e Heilborn (1981) sobre as relações entre
“antropologia da mulher”, pensamento feminista e ideologias individualistas, ou o
depoimento da antropóloga Marisa Correia (2001) sobre sua relação pessoal com o
feminismo. Curiosamente, nos Estudos sobre Sexualidade – área adjacente e entrelaçada
aos Estudos de Gênero - o assunto parece ser um pouco menos discutido. O
engajamento de pesquisadores homossexuais em “Estudos Gays e Lésbicos”, “Estudos
Queer” e equivalentes, é amplamente reconhecido e debatido no cenário internacional
(Weston, 1993; Kulick, 1995). Existe até mesmo um setorial da American
Anthopological Association dedicado exclusivamente a este campo: a antiga SOLGA,
“Sociedade de Antropólogos Gays e Lésbicas”, hoje rebatizada como “Associação pela
Antropologia Queer” (sem querer superestimar a relevância desta mudança de
nomenclatura, ela parece sugestiva de um deslocamento na ênfase em um tipo
específico de participante para a constituição de um estilo particular de Antropologia).
No Brasil, ao contrário, este assunto tende a permanecer como um verdadeiro ‘elefante
na sala de estar’, até bastante visível, porém raramente problematizado. Uma etnografia
que reconhece e sociologiza este protagonismo de pesquisadores gays e lésbicas na
pesquisa sobre sexualidades (e que o compreende como expressão de uma estreita
articulação entre ativismo político e pesquisa científica) é o trabalho da antropóloga
Nádia Meinerz com mulheres que mantêm parcerias homoeróticas (MEINERZ, 2011, p.
55-56). Trata-se, ironicamente, de um texto produzido por uma autora que não se
identifica como lésbica ou bissexual, e que constrói uma reflexão extremamente
provocadora sobre os desafios por ela enfrentados em situações de pesquisa, pelo fato
de não partilhar com suas interlocutoras este tipo de experiência e subjetividade. Outro
trabalho, assinado por um pesquisador que não “esconde” suas “preferências quanto a
relações amorosas e sexuais” (coincidentemente, meu antigo orientador de mestrado),
esboça um instigante panorama das conexões e tensões entre academia e ativismo
LGBT no Brasil (CARRARA, 2016). Contudo, discussões como estas são recentes e
raras - uma escassez especialmente flagrante se considerarmos o modo como

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proliferaram os debates antropológicos sobre a “presença do autor” no campo de


pesquisa e no texto etnográfico, que já acumulam mais de três décadas de existência
(CALDEIRA, 1988). Esta ausência se revela ainda mais notável se levarmos em conta o
fato paradoxal de que muitos destes pesquisadores gays e lésbicas que não
problematizam sua orientação sexual na escrita acadêmica também não veem o mínimo
problema em publicizá-la noutros contextos. Pesquisadores gays estrangeiros parecem
ter um pouco mais de propensão a trazer este assunto à baila - ver, por exemplo, o
comentário de Don Kulick (2008) sobre como o fato de ser gay facilitava a interação
com suas interlocutoras travestis na Salvador dos anos 1990, ou ainda, o sensível ensaio
sobre a biografia do sociólogo (homossexual) José Fábio Barbosa, que foi produzido
pelo historiador norte-americano James Green em coautoria com Ronaldo Trindade, por
ocasião da publicação da monografia histórica de José Fábio sobre o
“homossexualismo” em São Paulo (2005). A existência destes documentos e
interlocuções tão interessantes não deve encobrir o fato de que, entre o silêncio absoluto
e os comentários comedidos, costuma imperar um discurso que beira quase a cegueira
estrutural ante a sexualidade dos pesquisadores e suas implicações para o campo
científico e os processos de construção de conhecimento.
Ao levantar este problema, não estou propondo que devêssemos reagir ao duplo-
vínculo imposto pelo Armário da Ciência, prescrevendo, àqueles que estudam
sexualidade, a assunção compulsória de alguma orientação sexual e/ou ‘identidade de
gênero’ – fazer isto seria permanecer preso à lógica classificatória que institui este
double bind. Estou ciente também de que, do mesmo modo como tive, ao longo da vida,
algumas resistências pessoais a assumir posicionamentos públicos desta ordem, outras
pessoas podem ter seus próprios motivos para evitá-los, e isto não torna a contribuição
delas menos importante. O que me parece relevante, ou até mesmo urgente, é
reconhecer que as experiências particulares que marcam a trajetória de pesquisadoras e
pesquisadores oriundos de categorias sociais minoritárias podem deixar um imprint
sobre sua prática científica, e servir como um alicerce para modos específicos de fazer
epistemológico e de crítica cultural. Relendo minha própria trajetória a partir destas
questões, sinto-me tentado a afirmar que, ao longo dos últimos vinte anos (de forma
direcionada, ainda que não totalmente consciente), canibalizei ferramentas oferecidas
pelas Ciências Sociais no intuito de visibilizar experiências de minorias sexuais e de

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refletir criticamente sobre como ideias e práticas convencionais impactam suas vidas. É
evidente que a atenção que dediquei a estes temas provém de incômodos pessoais, mas
também de um campo de possibilidades que os ultrapassa e situa. Esta parcialidade e
engajamento com o mundo, longe de serem obstáculos à construção do conhecimento,
são justamente aquilo que assegura a produção de um saber menos subjetivo e menos
abstrato que as verdades científicas imparcialmente enunciadas do ‘Ponto de Vista de
Deus’ (Haraway, 1995).
Enquanto cursava a graduação e a pós-graduação, as referidas ideias e práticas
que me incomodavam se tornavam socialmente passíveis de queixa e acusação pública,
e cada vez mais, retratáveis com relativo sucesso como formas de violência, desrespeito
e/ou preconceito contra grupos minoritários. Mudanças culturais e políticas associadas
às reivindicações e reconhecimento de direitos por pessoas LGBT tiveram um papel
crucial nestes processos. A denúncia pública pressupõe a construção de uma retórica
regida por regras próprias, em que se desloca o foco da individualidade da vítima (que
pode ou não ser o próprio denunciante) para o pertencimento a uma categoria social
mais ampla; a denúncia bem-sucedida pressupõe também a existência de uma
sensibilidade coletiva minimamente predisposta a acolher esta queixa como algo
“normal” (BOLTANSKI, DARRÉ & SCHILTZ, 1984). Insistirei neste último aspecto:
desprovida de suporte coletivo, a indignação pessoal dificilmente é concebível; se
porventura chega a ser imaginada e verbalizada, simplesmente ninguém dá ouvidos a
ela. Sem este lastro social, o pensamento crítico não teria onde se amparar; ele é, ao
mesmo tempo, testemunha, dependente e colaborador das redes que lhe conferem
sustentação. É, portanto, a partir de um lugar muito particular que vos falo: não em
nome de ‘opiniões subjetivas’, nem em nome de um pertencimento identitário, e muito
menos de uma apreensão de realidades ditas ‘objetivas’, mas de uma perspectiva
científica provisoriamente ancorada em modos específicos e localizados de socialidade.
Àqueles que porventura considerarem que este tipo de abordagem é turvado por
ressentimento e subjetivismo, j’accuse: vocês se consideram mais neutros? A serviço de
que, ou de quem, opera vossa imparcialidade?
Em consonância com o exposto até aqui, gostaria agora de situar um pouco
melhor minha trajetória no interior de campos institucionais e político-culturais mais
abrangentes. Quando entrei para a graduação, em meados dos anos 1990, as “Paradas do

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 17

Orgulho” estavam começando a ser realizadas, ainda que eu inicialmente desconhecesse


este fato (e que depois, durante um bom tempo, o ignorasse solenemente). Somente uns
dez anos mais tarde estive, pela primeira vez, em uma parada gay – em 2007, na cidade
de Florianópolis, por ocasião da participação em evento acadêmico nessa localidade.
Compareci na parada sendo arrastado pela orelha por meu amigo Felipe Fernandes (hoje
professor nos cursos de doutorado, mestrado e bacharelado em “Estudos de Gênero” do
NEIM/ UFBA), uma interpelação pela qual guardo especial gratidão. Até esta ocasião,
eu tinha expressiva reticência em participar deste tipo de evento, e nunca pensara muito
sobre o assunto. Um desconforto com a ideia de poder vir a ser enquadrado como “gay”
em todas as situações em minha vida pessoal e privada (motivado pela sensação de que
isto poderia introduzir algum tipo de perturbação em minhas relações pessoais) convivia
com o receio, parcamente consciente, de que tal identificação pública poderia fechar
portas no mercado de trabalho (devido a preconceito por parte de gestores em
universidades privadas, bancas em concursos públicos ou empregadores de modo geral,
caso no fim das contas eu acabasse expelido ou à margem na academia e tivesse que
procurar trabalho em outra área). Paradoxalmente, apesar desta vigorosa resistência
inicial a me aproximar do movimento político organizado, minha trajetória acadêmica
inteira girou em torno da pesquisa com sexualidades dissidentes – algo que, nos idos
anos 1990, significava forçar ativamente a introdução deste assunto em um ambiente
universitário que não era de todo avesso, mas também não era especialmente receptivo a
ele. Ao menos em um período inicial, é possível caráter mais ou menos insulado que a
academia aparentava ter (quando contrastada à sociedade mais abrangente e, em
especial, a meus universos sociais de origem) facilitasse este tipo de engajamento mais
combativo. O jogo no mundo da universidade era outro, as regras não eram as mesmas –
e, de resto, quando entrei para a graduação eu não almejava nada além de obter um
título de licenciatura que me habilitasse a lecionar para o nível médio. Note-se, ainda,
que a popularização do acesso à Internet, que reconfigurou de modo bastante veloz as
fronteiras entre o público e o privado, iniciou-se somente nos últimos anos dessa
década; a própria plataforma lattes não existia até 1999, e a ideia de que atividades de
pesquisa ou mesmo uma eventual produção científica nos tornasse uma espécie de
persona pública, conhecida por tais produções, era algo longínquo num primeiro
momento.

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Nesta época, parte significativa do debate sobre (homo)sexualidades era


legitimada a partir de uma agenda de investigação sobre os impactos socioculturais da
epidemia de HIV/ Aids (fato, aliás, que ensejou minha posterior aproximação com o
campo da Saúde Coletiva). Não existiam disciplinas de graduação dedicadas ao tema
nas Ciências Sociais (pelo menos não na UERJ, onde estudei); o assunto era brevemente
mencionado, por alguns professores mais sensíveis, em cursos dedicados a pensar a
diversidade cultural no meio urbano, ou (também muito eventualmente) em alguma aula
de “teoria social” que discutisse Foucault ou Erving Goffman e afins. Esse sentimento
subjetivo de escassez de interlocução se devia, em parte, a uma má-compreensão do que
é a Antropologia: imaginá-la como discurso especializado em falar sobre diferenças e
grupos culturais específicos, desconsiderando totalmente o lugar e a importância da
empreitada comparativa que explora conexões, contrastes e aproximações entre temas e
grupos ditos ‘diferentes’ uns dos outros. De todo modo, é incontestável que boa parte
das leituras disponíveis sobre sexualidades dissidentes estava em idioma estrangeiro,
cuja leitura não era exigida na graduação – esta situação me motivou a aprimorar a
fluência em inglês e a aprender um pouco de francês, e possivelmente facilitou meu
posterior ingresso e sobrevivência na pós-graduação. Os materiais existentes em língua
portuguesa, por sua vez, eram uma espécie de ‘bibliografia cinzenta’: dissertações e
teses não-publicadas, empoeirando em bibliotecas ao lado de artigos em coletâneas
meio obscuras, esgotadas e com pequena tiragem. Encontrava-se alguma literatura sobre
gênero em periódicos, ainda que “gênero” neste caso significasse, via de regra, um
discurso sobre a experiência daquelas pessoas que hoje são às vezes nomeadas como
‘mulheres cisgênero heterossexuais’. Esta é, sem sombra de dúvida, uma imputação
extemporânea: nessa época a transexualidade ainda não era acionada como fundamento
identitário para a ação política e identificação coletiva, e na ausência deste contraste e
interpelação proveniente das margens, a noção de ‘cisgeneridade’ era rigorosamente
inconcebível. De todo modo, já havia uma ou outra revista científica dedicada
exclusivamente a falar sobre gênero, com destaque para a Estudos Feministas da UFSC
e os Cadernos Pagu da UNICAMP. Notem que, nestas eras não-tão-distantes, a Internet
ainda engatinhava; a localização de textos em periódicos dependia do acesso ao acervo
físico de alguma biblioteca bem servida, e (se você não tivesse absoluta certeza sobre o
que estava procurando) do dispêndio de horas literalmente ‘garimpando’ em sumários

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 19

de edições físicas, catálogos e estantes. Existiam ainda, claro, algumas comunicações


publicadas em anais de eventos, mas o acesso a estas costumava ser ainda mais
acidentado. Como numa paródia ruim das adaptações para o cinema de livros de Dan
Brown feitas por Ron Howard, colecionava-se indícios e perseguia-se pistas espalhadas
em acervos dispersos entre diferentes instituições, ou por vezes gentilmente ofertadas
por algum conhecido que possuísse fotocópia dos ditos textos, tentando solucionar um
enigma mal divisado.
Desde a segunda metade da década de 1990, havia um belo burburinho na esfera
pública em torno do direito à conjugalidade homossexual (debates em torno do PL
1151/1995 da então deputada federal Marta Suplicy, que reverberaram mais cedo ou
mais tarde na academia). Contudo, até 2004, eu pensava que esta fosse uma agenda
pequeno-burguesa encampada (senão exclusiva, majoritariamente) por gays de classe
média, em detrimento de problemas e violências cotidianos vividos por pessoas homo/
bissexuais moradoras de favelas e de outras periferias. Uma experiência que tive entre a
graduação e o início do mestrado (por volta de 2004, que nunca cogitei lançar em meu
lattes) ajudou bastante a modificar esta noção de senso comum. Falo da colaboração
pontual em uma pesquisa coordenada por Anna Paula Uziel, professora do Programa de
Pós-Graduação em Psicologia Social da UERJ, exercendo uma atividade relativamente
prosaica: transcrever gravações de entrevistas feitas com ativistas gays e lésbicas que
tinham adotado filhos. As motivações centrais que me impeliram a participar neste
projeto não eram das mais nobres: eu tinha contas a pagar, dívidas bancárias, e as
prestações de um óculos de grau com o qual eu presenteara um (outro) namorado (o
qual era bem menos escolarizado e bem mais pobre que eu, não desfrutando de qualquer
amparo material de sua família de origem, e que sofria enxaquecas recorrentes por ser
míope e não ter dinheiro para fazer um óculos). Contudo, lembro de uma conversa pelos
corredores do IMS/ UERJ com Anna, em que comentei - creio que em resposta a
alguma provocação feita por ela - que eu próprio nunca cogitara um dia adotar uma
criança, mas que desde o contato com aquelas entrevistas, a ideia subitamente tinha
entrado para o horizonte das coisas imagináveis. Mais relevante que o conteúdo ou os
resultados da pesquisa per si, é o fato de que minha perspectiva pessoal sofreu uma
ligeira dobra aqui, para a qual meu envolvimento nesta atividade pode servir como
índice e marco simbólico. Não somente aprendi que pode haver percursos plurais e

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afetos/ motivações intensos envolvidos nas experiências de parentalidade entre pessoas


LGBT; não somente aprendi a ser mais sensível a seu potencial na transformação de
convenções culturais, ou a ter mais deferência para com projetos pessoais de terceiros.
Mais que isto, me senti parcialmente contagiado pelas experiências e afetos registrados
naqueles depoimentos, e fiquei um bom tempo me perguntando porque, afinal de
contas, eu excluía a parentalidade do leque de alternativas possíveis para minha própria
vida. Se os saberes são de fato localizados, é razoável admitir que nossas localizações
não são impostas nem permanentes, mas também não são ‘livremente’ escolhidas a
nosso bel prazer: elas são constituídas e ocupadas em função de conexões e
oportunidades a que temos acesso em contextos contingentes, situados dentro destes
mesmos campos sociais que produzem constrangimentos e que restringem nossa
margem de manobra. Qualquer que seja o caminho que trilhemos, tais posições se
modificam nas novas conexões que estabelecemos com outros ao longo da vida.
Retornemos ao contexto. Por volta de 2003, o cenário político-cultural brasileiro
estava se transformando sensivelmente. A ascensão de um partido de esquerda à
Presidência da República ajudou a dar corpo, através de uma agenda bastante
abrangente de políticas públicas, para demandas da sociedade civil que vinham sendo
gestadas desde anos anteriores. O direito de pessoas transexuais de acesso via SUS ao
Processo Transexualizador foi formalmente assegurado em 2008 por duas portarias
Ministério da Saúde (n. 1707, GM/MS e n. 457, SAS/MS), ainda que o efetivo exercício
deste direito seja até hoje cercado de percalços. No legislativo, apesar do
conservadorismo predominante em questões de gênero e sexualidade (em boa medida
decorrente do compromisso de certas redes de políticos com bases eleitorais católica e
evangélica), ocorreram eventos e controvérsias dignos de nota – cite-se, por exemplo, os
intensos debates em torno do PLC 122/2006 (de autoria da deputada federal Iara
Bernardi, que criminalizava a homofobia, e que, após ter sua tramitação emperrada
durante quase uma década, acabou arquivado em fins de 2014) e a aprovação Lei Maria
da Penha, no próprio ano de 2006. Entre as ações mais ou menos pontuais do poder
executivo e as omissões sistêmicas do legislativo, o judiciário se mostrou neste período
como a instância em que direitos sexuais eram mais frequentemente disputados e
conquistados – vide, por exemplo, o julgamento em 2011, pelo STF, da Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132 e da Ação Direta de

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Inconstitucionalidade (ADI) 4277, cuja sentença concedeu o reconhecimento legal às


uniões entre pessoas do mesmo sexo, que o legislativo repetidas vezes negara. É
escusado dizer que estas ações do Estado não ocorrem gratuitamente. Elas emergem, de
forma direta ou indireta, enquanto resposta a reivindicações dos movimentos LGBT, e
se ampararam em conquistas prévias obtidas pelo movimento feminista e por outros
movimentos sociais. Está se falando, em última instância, de desdobramentos da
promulgação da Carta Magna de 1988, que inscreveu a promoção da igualdade e o
interdito à discriminação entre seus preceitos mais fundamentais (CARRARA e
VIANNA, 2008).
Evidentemente, este percurso de mudanças não ocorreu sem reveses. Em
instâncias estatais diversas uma manipulação muito eficiente de valores religiosos tem
comparecido na obstrução de demandas de minorias por reconhecimento; estes
agenciamentos convergem e por vezes se entrelaçam com a atuação em rede de
movimentos laicos de direita, como o Escola Sem Partido e o Movimento Brasil Livre.
Tem havido, nos últimos anos, um razoável rebuliço em torno do debate sobre gênero e
diversidade na Escola, que é repudiado por certos atores sociais como uma tentativa de
doutrinar os educandos através de um discurso que é nomeado por seus opositores como
“ideologia de gênero”. Esta é uma imputação bem peculiar, que deforma e inverte a
velha e batida noção marxista de “má consciência” ou “falsa consciência” - reduzindo
uma forma de pensamento crítico comprometido, com a transformação do mundo em
nome de valores igualitários (o debate acadêmico sobre gênero e sexualidade) a uma
representação enganadora sobre o mundo (“ideologia” inventada por “esquerdistas”).
Este artifício retórico sui generis tem a propriedade de catapultar a heterossexualidade
para fora do domínio da ideologia, seja através de sua naturalização pura e simples, seja
pelo expediente à autoridade moral da família e da religião como suporte para uma
valorização mais explícita. Certas teóricas feministas e alguns outros autores decerto
discordariam dessa perspectiva – ver, por exemplo, a engenhosa argumentação de
Wittig (1992), que denuncia o modo como todo um repertório de mitos (que se estende
desde discursos de mídia publicitários a discursos científicos supostamente ‘objetivos’)
é mobilizado para encobre o caráter compulsório das interpelações à heterossexualidade
com que somos bombardeados por todos os lados ao longo da vida. Trata-se aqui, para
ser mais preciso, de interpelações ao exercício de uma forma específica e restrita de

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“heterosexualidade”, vivida por pessoas ‘cisgênero’, preferencialmente dentro de um


casal e talvez mesmo mantendo algum grau de hierarquia de gênero entre os parceiros.
Tudo se passa como se valores sexuais/ familiares/ religiosos conservadores fossem os
únicos que não são artificiais, ou pior ainda (caso porventura se reconheça a
artificialidade de tais valores), como se a imposição do pensamento heterossexual às
gerações mais jovens fosse um direito absoluto e inquestionável da geração precedente.
Apesar do acirramento destas resistências conservadoras, e de reveses diversos
em embates públicos recentes, é inegável que temos assistido a significativas
transformações sociais, políticas e culturais. O deslocamento mais flagrante, decerto, é
aquele que torna certas ideias e práticas antes naturalizadas elegíveis doravante como
alvo possível para questionamento e crítica. Estas mudanças, que marcaram a
experiência de uma geração em que me incluo, tiveram repercussões interessantes sobre
a academia. A criação, em 2003, da Secretaria de Políticas Para as Mulheres (SPM) e do
Programa Brasil sem Homofobia, ao lado de fomentos diversos obtidos junto a
organizações internacionais, impulsionou o debate público e favoreceu uma guinada em
direção à institucionalização do campo de estudos sobre diversidade sexual e de gênero
no Brasil. A problemática das pesquisas, agora, já não era mais apenas o combate ao
HIV/ Aids. As “Paradas do Orgulho” haviam crescido bastante, 1 assim como a
produção acadêmica sobre diversidade de gênero (doravante sob a rubrica mais
abrangente da proteção aos direitos humanos, que inclui o direito à saúde mas
contempla temas como o combate à homofobia, o direito ao casamento, à adoção e à
expressão pública de afeto por casais homossexuais, alguns anos o direito de travestis e
transexuais a serem reconhecidas por seus nomes sociais, apenas para listar alguns
temas). A criação, no ano de 2002, do Centro Latino Americano em Sexualidade e

1
Cito um caso pontual, que me parece especialmente emblemático destas transformações. A Parada do
Orgulho de São Paulo, que consolidou-se historicamente como a maior do Brasil, contou no ano de 2003
com 800 mil participantes – mais que o dobro do número do ano anterior, que contabilizara cerca de 300
mil pessoas. Conforme registrado pela antropóloga Isadora França (2006), um dos fatores que concorreu
para essa expansão ímpar foi o elevado aporte de recursos obtidos pela APOGLBT, ONG organizadora da
parada, junto à multinacional Volkswagen. Note-se que este patrocínio foi resultado de acordo celebrado
com a empresa, depois que esta última lançou uma propaganda de um carro cujo teor, considerado
homofóbico, foi alvo de uma mobilização em repúdio articulada via Internet/ redes sociais (França, 2006,
p. 127-128). Estes acontecimentos sinalizam para o modo como acusações de preconceito sexual se
tornaram especialmente eficazes neste período, ensejando condições institucionais para uma maior
visibilidade e potencializando o poder de pressão das minorias sexuais. Ao mesmo tempo, é razoável
supor que o apoio econômico da Volkswagen só foi concedido porque esta se sentiu intimidada pelo poder
de pressão de que a APOGLBT já desfrutava previamente, através de sua capacidade de colocar em cena,
de modo bem sucedido, denúncias de preconceito contra minorias sexuais.

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Direitos Humanos (CLAM/ IMS/ UERJ, instituição inicialmente amparada com


recursos da Fundação Ford, responsável pela publicação de inúmeros livros e textos
abordando questões de gênero, sexualidade, poder e violência e, desde 2009, pela edição
do periódico Sexualid, Salud Y Sociedad) e da Associação Brasileira de Estudos da
Homocultura (rede interdisciplinar de pesquisadores dedicados ao estudo da
Diversidade Sexual e de Gênero, que ganhou particular visibilidade a partir de seu
segundo congresso, no ano de 2004) fizeram parte deste cenário de mudanças. Houve,
por sinal, uma expansão impressionante no número de grupo de estudos e no mercado
editorial voltado a estes temas. A criação de periódicos científicos dedicados
especificamente a estudos queer/LGBT, como as revistas Bagoas (fundada em 2007 na
UFRN) e PeriodiCus (iniciada em 2014 pelo “Grupo de Cultura e Sexualidade” CUS/
UFBA) pode ser tomada enquanto um indicador desta reconfiguração ocorrida no
campo intelectual.
Outra empreitada exemplar destes processos de mudança foi um projeto
coletivo, conduzido por pesquisadores de diferentes universidades e na época apoiado
pelo poder público, visando construir uma mediação entre o saber crítico produzido na
pós-graduação e a prática educacional no ensino fundamental. Refiro-me aqui à criação
dos cursos de aperfeiçoamento “Gênero e Diversidade na Escola”/ GDE, iniciativas de
formação online/ à distância que foram replicadas em inúmeras instituições e unidades
da federação. Tive a oportunidade de participar como professor em uma das primeiras
edições deste curso, ofertada pelo CLAM em 2009. Mantendo estreito diálogo com os
saberes das Ciências Sociais sobre gênero e sexualidade, de modo a tematizar as
diferenças entre homens e mulheres a partir de uma perspectiva politicamente situada
em prol da promoção dos Direitos Sexuais, o curso visava dar subsídios a professores da
rede fundamental de ensino para atuarem na promoção do debate sobre e respeito à
diversidade no ambiente escolar.
Espero ter deixado claro o bastante que o quadro que tracei deste campo é
colorido por minha localização dentro dele: compartilho, aqui, uma memória pessoal
sobre redes e iniciativas em que atuei diretamente ou às quais me vi conectado de
alguma maneira ao longo das últimas duas décadas. Se me inscrevo como sujeito
enunciador desta narrativa, não é com o intuito de reivindicar qualquer autoridade para
falar sobre tais e quais temas ou instituições, mas visando expressar a parcialidade de

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meu próprio engajamento intelectual. Ou, dito de outro modo: se eu fosse um intelectual
heterossexual conservador-de-direita, originário de uma família de elite ou de camadas
médias urbanas, meu discurso possivelmente teria um sotaque diferente.
Enquanto um pensador deste modo localizado, é com imenso prazer que recebo
esta coletânea de textos como uma contribuição a esta tradição político-intelectual
dentro da qual me alinho. Convém enfatizar o potencial que estas contribuições têm
para deslocar a posição dos centros de produção de saber em que esta linhagem se
ancora – usualmente, tradicionais Universidades situadas em grandes capitais – e tomar
parte em um recente processo de reconfiguração das geopolíticas do conhecimento.
Como sugere a socióloga transexual Raewyn Connell, na divisão convencional do
trabalho acadêmico em Ciências Humanas, tudo se passa como se o centro fornecesse a
mão-de-obra teórica e os interiores e periferias fossem mera fonte de dados a serem por
ela expropriados (CONNELL, 2012). Faço minhas aqui as ideias de um amigo muito
querido, com quem aprendi menos do que deveria e mais do que sou capaz de retribuir,
citando um texto que assino em colaboração com ele: a formação e atuação de quadros
de pesquisadores na região do Cariri Cearense tem contribuído para uma
descentralização e pluralização dos lugares de produção de saber científico (MARQUES
& OLIVEIRA, 2015). No momento em que pessoas com ancoragens biográficas em
lugares ditos “periféricos” - e a periferia deveria ser entendida de modo estrutural,
incluindo não somente instituições e territorialidades à margem das grandes capitais e
centros metropolitanos, mas também as vozes de mulheres negras, pessoas LGBT,
pensadores oriundos de camadas populares e outros sujeitos silenciados pela onisciência
do Olho de Deus - tomam a si o papel de produzir conhecimento em rede, uma sensível
perturbação é introduzida no campo da teoria social. Se tivermos como meta
desestabilizar o modo como os polos tradicionais de produção de conhecimento
constroem discursos sobre populações subalternas, me parece ser de crucial importância
construir alianças e promover a interlocução entre estes posicionamentos periféricos que
são, intrínseca e necessariamente, heterogêneos e plurais.
Antes de passar a palavra aos autores, antecipo para a leitora ou leitor alguns
pontos particularmente inspiradores dos artigos que ela ou ele encontrará logo adiante –
ou, pelo menos, os pontos que mais me interpelaram, na apropriação interessada que fiz
de seus conteúdos.

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O sociólogo Miguel Ângelo Silva de Melo, a partir de ampla revisão teórica,


sinaliza no primeiro capítulo para os sentidos plurais que a violência possui em distintos
autores e campos disciplinares, e constrói uma definição operacional em que a violência
é entendida como ação de alguém direcionada sobre terceiros e, de forma direta ou
indireta, gere "dano físico, psíquico ou estrutural" (p. 06, neste volume). O autor é
muito feliz em destacar que a violência não diz respeito somente a relações
interpessoais, mas possui aspectos estruturais evidenciáveis através de trabalho
analítico; a violência perpetrada através de instituições públicas pode decorrer tanto de
ação quanto de omissão. Com muita perspicácia, o texto sugere que a ausência de
tipificação de certos crimes como "violência homofóbica" pode ser tomada como
expressão de um desinteresse ativo por parte de agentes do Estado e de teóricos que
trataram de criminalidade. Miguel Ângelo mostra ainda como estes efeitos do poder
estatal interagem de modo complexo com outras formas convencionais de poder e de
violência que nunca chegaram a ser confiscadas pelo Estado, com consequências
significativas para mulheres e para pessoas LGBT.
Na sequência, o psicólogo Francisco Francinete Junior explora implicações dos
pensamentos de Michel Foucault e de teóricas feministas como Donna Haraway e
Judith Butler para a atuação profissional em sua área, notadamente no que tange ao
atendimento clínico a pessoas LGBT. Seu argumento central é de que a assistência
psicológica deve promover a autonomia da pessoa que a ela recorre, desconstruindo
tanto a patologização da orientação homossexual (que, desde 1999, é expressamente
proibida no Brasil por resolução do Conselho Federal de Psicologia) quanto a
patologização da diversidade de gênero, que persiste até hoje como critério de acesso ao
processo transexualizador. Nos termos de Foucault (1988), estes saberes biomédicos
atualizam formas de poder sobre a vida, cujos efeitos e modos de exercício o artigo
problematiza e critica.
A educadora e ativista Jéssyca Diniz Medeiros nos brinda, no terceiro capítulo
da coletânea, com uma belíssima reflexão sobre gênero, raça e violência, assinada a
partir de seu lugar de intelectual negra. Tematizando seu lento processo de
reconhecimento como mulher negra, a autora constrói uma reflexão sobre a
invisibilidade desta categoria coletiva. Evitando identificar-se como "feminista",
evidencia o deslocamento político e epistemológico que se configura quando mulheres

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negras contestam o lugar de objeto do discurso alheio e passam a enunciar uma fala
sobre si, em primeira pessoa. Denunciando os processos de apagamento e
desqualificação que atingem a mulher negra, seu discurso e suas reivindicações, o
ensaio nos convida a refletir criticamente sobre os impactos que o legado do
pensamento colonial exerce sobre subjetividades subalternas.
O pesquisador Antoniel dos Santos Gomes Filho, no capítulo IV, apresenta
resultados de seu trabalho sobre trajetórias escolares de travestis em Juazeiro do Norte,
evidenciando como o ambiente escolar pode ser marcado pela homofobia. Suas
interlocutoras - que, no período escolar, ainda se identificavam inicialmente como
"gays" e "homossexuais" - reportam como se viam alvo de injúria, "xingamentos" e
"piadas sem graça" por exibirem uma conduta e corporalidade que destoava das
convenções cultivadas por seus colegas de classe. Sem negligenciar a capacidade de
agência e resistência destas pessoas em um meio social avesso a estas formas de estar
no mundo, o texto oferece pistas para refletirmos sobre como o preconceito contra a
diversidade de gênero e a variação sexual obstruem o acesso a oportunidades
educacionais. A invisibilidade ou evasão pura e simples de travestis e transexuais na
escola se revelam aqui enquanto desafios para o enfrentamento à violência e a
promoção da igualdade de gênero.
O capítulo seguinte, de autoria do educador Jarles Medeiros, prossegue
refletindo sobre gênero e sexualidade na escola, deslocando o foco das experiências de
injúria vividas por alunos para as expressões de preconceito no discurso docente. O
trabalho mostra como profissionais de educação cultivam expectativas acerca das
formas ideias de corporalidade que educandas e educandos deveriam exibir.
Estereótipos acerca do masculino e do feminino se fazem acompanhar de uma
naturalização do preconceito sexual e de ideologias sexistas: injúrias, ou mesmo formas
de agressão física motivadas por homofobia, podem ser legitimadas como brincadeiras,
eximindo o sujeito de qualquer responsabilização por seus atos. De fato, o que está em
jogo aqui é a construção e denúncia de um determinado tipo de conduta como uma
forma inaceitável e denunciável de violência, entrando em tensão com perspectivas
culturais que a banalizam como mera expressão de jocosidade. Considerando que a
geração dos docentes pode ter uma resistência muito maior à diversidade que a geração
dos educandos, uma maior compreensão destas percepções vigentes entre docentes pode

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ajudar a repensar a prática de profissionais engajados com um projeto de educação


emancipadora.
No capítulo VI, Lais Sousa, Antonia Cleidiana Pinheiro e Cícero Alves falam a
partir de sua experiência na área de Serviço Social, debatendo a importância da atuação
dos assistentes sociais no enfrentamento à violência de gênero. O texto lembra como as
lutas do movimento feminista nos anos 1970 e a promulgação da Constituição de 1988
pavimentaram o caminho para políticas públicas dedicadas à prevenção e enfrentamento
da violência de gênero. Cientes destas transformações políticas que tornam o gênero
reconhecível como parte da Questão Social, os autores destacam os desafios colocados
para a efetivação destes direitos conquistados, incluindo aqui a naturalização de formas
de violência.
Este tema reaparece no capítulo VII, de autoria de Josué B. Júnior, Cícero Alves,
Antonia Cleidiana Pinheiro e Kerma M. de Freitas. O artigo expõe resultados de
pesquisa que investigou, a partir de entrevistas semiestruturadas, as concepções de
técnicos da equipe interdisciplinar atuante no Centro de Referência Especializado de
Assistência Social (CREAS) de Icó-Ce. Os autores destacam como seus interlocutores
aderiam de modo reducionista a uma definição jurídico-legal de violência, que acabava
não considerando aspectos sociais mais abrangentes, e percebia a emancipação dos
cidadãos como decorrência de informação e conhecimento sobre os próprios direitos. A
análise salienta ainda as dificuldades sentidas por parte dos respondentes na
implementação da atuação intersetorial entre distintos serviços estatais na proteção à
mulher. O texto, deste modo, evidencia limites na efetividade destas políticas públicas
de combate à violência, e a necessidade de se repensar estratégias e formas de atuação.
No capítulo VIII, a advogada e pesquisadora, Allana de Freitas Lacerda, nos
interpela com uma reflexão sobre os Direitos Humanos entre mulheres muçulmanas. O
texto, afinado com debates feministas sobre este tema, destaca resistências que são
colocadas à implementação dos Direitos Humanos entre estas populações, ciente de sua
intersecção com outros aspectos culturais como valores religiosos e familiares.
Por fim, o ensaio de, Brennda Martinelli P. Silva e Tiago Deividy B. Serafim
discute os modos como discursos religiosos e teológicos cristãos podem reiterar ou
contestar hierarquias de gênero. Partindo de um panorama das perspectivas religiosas

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conservadoras sobre este tema, os autores abordam a emergência da teologia feminista,


cujos discursos oferecem suporte para a emancipação e empoderamento das mulheres.
Encerro este breve comentário salientando que, mais do que uma boa leitura, o
presente trabalho documenta formas de interlocução e atuação em rede de pesquisadores
comprometidos com ideários e instituições democráticas que se encontram, hoje, sob
sério risco de desmantelamento, em função da atual conjuntura política em nosso país.
Considerando estes pontos, minha recomendação àquelas e àqueles que nos
acompanham nestas páginas, é que devorem e multipliquem estes conteúdos:
concordem ou discordem, reinventem ou transformem, mas procurem aplicá-los a suas
atividades profissionais ou na construção de novas questões de pesquisa. O discurso
científico, repousando em estantes de biblioteca ou esquecido em meio ao mar de
informações que circulam hoje através da Internet, é letra morta: compete a vocês,
leitores, se apropriarem dele e o colocarem para funcionar.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 29

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SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 31

APRESENTAÇÃO

Lielton Maia Silva


Sandra Mary Durte
Antoniel dos Santos Gomes Filho
(Os organizadores)

com muita alegria e sentimento de dever cumprido, que nós, Professor Lielton

É Maia Silva e Professora Sandra Mary Duarte, do curso de Psicologia; e,


Professor Antoniel dos Santos Gomes Filho, do curso de Administração da
Faculdade Vale do Salgado (FVS), apresentamos à comunidade acadêmica e social o
livro: Violência de Gênero: resistência em tempos de crise no Brasil.
A emergência das discussões sobre a Violência de Gênero no Brasil se faz
necessária no cotidiano da formação de futuros profissionais da psicologia, bem como
em outras áreas do conhecimento. Neste sentido, entendemos que urge sairmos das
águas dos mares que já conhecemos, proporcionadas pelo movimento disciplinar.
Arriscar-se em outros mares (des)conhecidos é preciso para pensar sobre a crise social,
econômica, política e educacional que atravessa o Brasil nos últimos anos, que, de
algum modo, contribui para o atual cenário da violência de gênero, que é visualizada
cotidianamente nas matérias de jornais, nos dados estatísticos oficiais, nas redes sociais,
nas ruas de nosso bairro e, muitas vezes, dentro de nossas casas.
Nós, organizadores, nos arriscamos em mares (des)conhecidos quando, no
primeiro semestre de 2017, ficamos responsáveis pela organização do VI Café Psi,
evento semestral do curso de Psicologia da FVS, que tem dentre seus objetivos ser um
espaço livre de discussão de temas contemporâneos no campo da psicologia. Em nossa
primeira reunião, percebemos que precisaríamos tirar nossos barcos das águas calmas e
serenas e partir para mares mais profundos e desconhecidos. Os mares da inter e
transdisciplinaridade estavam à nossa espera, já que buscávamos “[...] transpor a
mensagem inovadora dos diferentes campos do saber, a uma prática cotidiana [...]”

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ISBN 978-85-463-0257-4 | 32

(JUCÁ, 2015, p. 6)1, formulando assim um diálogo constante e permanente, onde as


trocas de saberes sobre as questões da violência de gênero permitissem aos participantes
do evento “contextualizar, concretizar e globalizar” (SOUZA; FOLLMANN, 2003)2 os
dizeres e saberes de cada área e produzissem novas conexões e olhares sobre os temas
debatidos de modo livre para (re)construir novos conhecimentos.
Finalizados os movimentos de organização, entre os meses de Março e Abril,
nos dias 19 e 20 de Maio de 2017, aconteceu, na Clínica Escola da FVS, o VI Café Psi,
que teve como conferencistas a Professora Doutora Luma Nogueira Andrade, da
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB); a
Professora Mestre Jéssyca Diniz Medeiros, pesquisadora da Universidade Federal do
Ceará (UFC); o Professor Mestre Francisco Francinete Leite Junior, do Centro
Universitário Doutor Leão Sampaio (UNILEÃO), e o Professor Mestre Antoniel dos
Santos Gomes Filho, da Faculdade Vale do Salgado (FVS), que concretizaram, através
de suas falas e do dialogo estabelecido com os discentes e docentes, após suas
conferências, o movimento inter e transdisciplinar, uma vez que licenciados em
ciências, pedagogia e música, psicólogo e gestor empresarial, se propuseram pensar a
violência de gênero sob múltiplos olhares.
A discussão iniciada no VI Café Psi, sobre a Violência de Gênero no Brasil, se
expandiu para outros espaços, através da articulação e convite de outros pesquisadores e
pesquisadoras da Faculdade Vale do Salgado (FVS), do Centro Universitário Leão
Sampaio (UNILEÃO), da Faculdade de Ciências Humanas do Sertão Central
(FACHUSC), da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), da Faculdade de Medicina do
ABC (FMABC) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), que contribuíram na
construção do presente livro. Profissionais do campo da Enfermagem, do Serviço
Social, do Direito, da Educação e da Psicologia se uniram através da apresentação de
seus estudos teóricos e práticos para ampliar os debates iniciados no VI Café Psi.
Finalizamos esta apresentação tecendo os agradecimentos à Faculdade Vale do
Salgado (FVS), na pessoa do Professor Wilson Santos, Diretor Administrativo, e da
Professora Kerma Márcia de Freitas, Coordenadora de Pesquisa e Extensão da FVS, que

1
JUCÁ, G. N. M. Prefácio. In: SILVA, M. F.; ARAÚJO, O. H. A. A educação sob a ótica da
transdisciplinaridade. João Pessoa: Ideia, 2015.
2
SOUZA, M. L.; FOLLMANN, J. I. Transdisciplinaridade e Universidade: uma proposta em
construção. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 33

deram apoio ao VI Café Psi e à publicação desta Coletânea. A Professora Doutora Luma
Nogueira Andrade da UNILAB que, diante de uma agenda tão lotada de compromissos
e ativismos em torno da causa LGBT, prestigiou-nos com sua presença e conferencia no
VI Café Psi. Ao Professor Leandro de Oliveira, da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), por aceitar o convite para prefaciar a presente coletânea. Aos
Professores e Professoras que contribuíram com seus estudos e pesquisas publicados
nesta edição. À coordenação do curso de Psicologia da FVS, na pessoa da Professora
Janaina Batista Pereira, e aos docentes e discentes que participaram do VI Café Psi da
FVS. Esperamos que as contribuições oriundas das palavras escritas neste livro possam
tocar e mudar a vida dos seus leitores, e que esta obra possa contribuir na formação de
profissionais de psicologia e outras áreas do conhecimento, concretizando, assim, os
movimentos inter e transdisciplinares que atravessam sua construção.

Icó-Ceará
Setembro de 2017

SUMÁRIO
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CAPÍTULO I

AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA VIOLÊNCIA E O


DEBATE NAS CIÊNCIAS SOCIAIS 1

Miguel Ângelo Silva de Melo


Faculdade de Ciências Humanas do Sertão Central (FACHUSC)
Centro Universitário Dr. Leão Sampaio (UNILEÃO)

“Os discursos que nos oprimem, lésbicas, mulheres e homens gays, em


particular, são aqueles que partem da premissa de que toda e qualquer
sociedade é fundada apenas por vivências heterossexuais, direcionadas por
homens heterossexuais [...]. Estes discursos nos oprimem, no sentido de que
eles impedem que falemos por nós. Estes discursos recusam-se a dar-nos voz
e oportunidades para criarmos as nossas próprias categorias”. (WITTIG,
1980 [1992], p. 22).

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O tema da violência faz parte da história do Brasil e, há muito tempo, já vem


sendo objeto de estudos pelas mais diferentes ciências sociais, humanas e jurídicas.
Dessa maneira, estudar a violência sob o foco historicista e abstrato não é objetivo do
presente trabalho, uma vez que este se volta para as representações da violência na
contemporaneidade, sendo que, em seu aspecto específico, está direcionado para a
questão do gênero, ou mais claramente, para a questão da orientação sexual e da
identidade de gênero. Devido aos episódios cotidianos da violência motivada pela
orientação sexual e pela identidade de gênero da vítima, no Brasil, percebe-se que não
se pode fechar os olhos para a constatação de que a violência é única, que se repete, e
que tem dinâmica própria, já que mudam os atores – sujeitos agressores e vítimas -
envolvidos nas interações e dinâmicas que originam conflitos de violência, mas a
violência continua lá sendo um fenômeno temeroso e real que atinge a todos os
indivíduos em sociedade.

1
Este artigo traz algumas considerações presentes no segundo capítulo de minha tese de Doutorado em
Sociologia, defendida em 15 de março de 2017 na Universidade Federal do Pernambuco (UFPE).

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A partir de estudos específicos sobre o fenômeno da violência - como o que aqui


se realiza - é possível constatar que ela está atrelada a fatos reais e, como um fato real,
deve ser estudada (TROTA, 1997). Isto pelo fato de se verificar que as avaliações da
violência, no entanto, podem ser observadas por distintos “focos”, o que implicará em
resultados variados, como, por exemplo, o olhar das ciências sociais é diferente do das
ciências da natureza, e estas têm prioridades próprias, o que diferenciaria a sua
abordagem, por partir de olhares totalmente distintos sobre à violência, se comparados
aos produzidos pelas ciências humanas (história ou educação) ou aos das ciências
jurídicas e, por sua vez, ao enfoque da violência lançado pela filosofia. Soma-se a isto o
fato de que todas as citadas ciências têm habilidades e competências para verificar tanto
os horizontes de tempo, quanto as linearidades epistemológicas, tornando possível, na
melhor das hipóteses, a partir de discussões anteriormente produzidas, contribuir com
argumentos e razões teóricas capazes de solucionar e objetivar debates específicos sobre
a violência (ZUNCZIK, 1995).
Entre os problemas a serem enfrentados pelas as ciências sociais, nas suas
distintas abordagens epistemológicas, está a temática da violência, a qual é dependente
de fatores, tais como: o ideológico, o político, o econômico e o científico. Com certeza,
estes fatores envolvem situações que determinarão o posicionamento e o tratamento da
violência em sociedade, exempli gratia, a criminalidade em todas as suas manifestações
nacionais e internacionais; os atos infracionais cometidos por crianças e adolescentes
em conflito com a lei, da mesma maneira que as lesões físicas (psíquicas e
institucionais) em que estas mesmas crianças, adolescentes, idosos e cadeirantes se
tornam vítimas, no cotidiano social das famílias e da sociedade; a violência intrafamiliar
de gênero contra a mulher; os ataques de racismo e intolerância religiosa; a exclusão
social, a fome e a pobreza; e, por último, a violência homofóbica. Por certo, estas são as
mais frequentes formas de violência, embora algumas se tornam bandeiras de luta,
tornando-se objeto de políticas públicas, enquanto outras permanecem no ostracismo e
na marginalização, por irem de encontro às cristalizadas e normatizadas ações de
políticas de segurança pública nacionais ao longo das últimas décadas do século XX no
Brasil.
De sorte que, aqui, será feito uso de abordagens teóricas e empíricas no âmbito
da sociologia. Desta forma, o estudo há de se voltar, adequadamente, para a

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ISBN 978-85-463-0257-4 | 36

investigação sobre a violência contínua e direcionada a sujeitos LGBT, ou seja, não será
realizada uma análise da violência absolutamente controlável por uma sociologia da
causa, mas por uma análise diversificada e dinâmica sobre a sociologia da violência
com fulcro nas interações simbólicas entre os sujeitos (TROTA, 1997). Dentro desta
perspectiva, se pergunta, afinal, o que é violência? A resposta a esta indagação está
diretamente relacionada à dificuldade em se limitar, em relacionar o termo a um tempo
determinado ou em esvaziar as simbioses que envolvem sociologicamente o termo
violência desde as análises teóricas dos clássicos e modernos da sociologia geral, tais
como: Karl Marx (1977), Emilie Durkheim (1978), Georg Simmel (1968), Max Weber
(1991), Hannah Arendt (1992), Norbert Elias (1980) entre outros. Todavia, a sociologia
da violência alemã - entre estes, Martin Herrnkind und Sebastian Scheerer (2003), Trutz
von Trota (1997), Wolfgang Sofsky (1997), Karl Wahl (1996), Michael Zunczik (1995),
entre outros – credita a Johan Galtung (1993) a reelaboração do termo, quando o
sociólogo teria, a partir de um episódio de violência pessoal - um ataque físico por ele
vivenciada - percebido as consequências e os danos psicológicos que a violência, em
sentido geral e específico, causa à vítima.
A partir das representações da violência física, o autor publica um artigo em
língua inglesa, em 1969, o qual, além de aprimorar o conceito de violência, também
diferencia as suas especificidades, bem como demonstra as formas, as estruturas e os
processos sociais que legitimam o seu exercício. Assim, espraiam-se os estudos sobre
violência a partir de Galtung, tendo como foco a violência física, psíquica e estrutural2,
alargando assim, o debate para todas as relações sociais que causam dor, sofrimento e
medo; atingindo, também, aspectos referentes ao estado mental das pessoas acometidas
pela violência. É óbvio que pode ser caracterizado como violentas, a partir desta
concepção, todas as relações de dominação e desigualdade social e os sintomas delas
advindos, tais como pobreza, doenças, fome, exclusão entre outros. A partir de Galtung,
surgiram tipologias das formas da violência em todas as searas científicas, quando

2
Neste sentido, Galtung (1971), acrescenta que a violência pessoal divide-se em física e psíquica, uma
vez que o autor observa que, na agressão física, existe além do desejo de agredir o corpo da vítima, a
possibilidade de que, a partir desta agressão, possam surgir eventuais danos de natureza psicológica; ou
mesmo, a agressão psicológica direta, com a mesma intenção de provar danos diretos ou indiretos na
vítima; já em relação à violência estrutural, Galtung, ressalta que esta forma advém do próprio sistema
social, ou seja, do Estado, Governo e Sociedade que produzem distintas formas de violência, que não
diferentemente da física e psíquica, podem causar sérios danos a pessoa por ela atingida. Este tipo de
violência é muito frequente nas interações sociais com desigualdade de poder.

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muitos sociológicos contemporâneos, seguidores dos clássicos da sociologia geral,


foram se aprofundando no estudo e, assim, eclodiram diversas escolas do pensamento
sociológico, como a de Chicago, a de Frankfurt, a de Hamburg, entre outras, que
findaram por contribuir com o surgimento da disciplina sociologia da violência.
Portanto, não é surpreendente que a violência deve ser entendida como um grito de
batalha política, na qual contraditórias formas de potência são instrumentalizadas pela
interação entre partes em conflito que se tornam adversárias, intencionalmente ou sem
intenção de se sobrepor umas às outras (ULRICH, 2003).
Por conseguinte, a fim de deixar explícito o entendimento do termo violência
para o presente estudo, é importante apontar que este será compreendido como toda
ação orientada por alguém para outrem, e que a esta outra pessoa cause, a esta outra
pessoa dano físico, psíquico ou estrutural, direta ou indiretamente. Pois, no centro do
presente entendimento sobre o núcleo do conteúdo da violência, está, portanto, a
incapacidade física, psíquica e estrutural, na qual a outra pessoa é deliberadamente
induzida. Desta forma, é irrelevante se a violência finda por causar de forma
generalizada, relativa ou superficial, alguma violação a objetos (coisas ou propriedade)
ou simples lesões corporais (como ferimentos ou escoriações) à pessoa, o que não reduz
o significado da ação violenta. Pois, não há dúvida de que uma significativa, se não a
maior, parte da violência ocorre como resultado dos processos de interação entre os
atores sociais em sociedade, muito embora se verifique que esta interação é fruto das
interações entre atores sociais e autoridades governamentais, muito frequente em ações
policiais, quando discutiremos o monopólio estatal da violência. (SCHUMANN, 1995).

O HODIERNO DEBATE NAS CIÊNCIAS SOCIAIS

Com a virada do século, acompanhando a esteira dos novos movimentos sociais,


eclodem, nos “quatro cantos do mundo”, novas formas de pensar, produtoras de um
Zeitgeist (“espírito da época”) cada vez mais complexo e heterogêneo, responsável não
apenas pela difusão de novos conceitos (categorias, epistemas, teorias e interpretações),
como também pelo estabelecimento de novas relações e dinâmicas sociais. (TAVARES
DOS SANTOS, 1999; ALVAREZ, 2003).
Estas novas formas de pensar impulsionaram, principalmente, em finais do

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século XX, a construção de mecanismos de libertação à opressão e dominação das


antigas, mas ainda persistentes, estruturas produtoras da violência e de desigualdade, a
exemplo do racismo, do sexismo, da homofobia, da intolerância religiosa dentre outras
práticas sistemáticas de exclusão social (KÜRZINGER, 1993; HAGAN, 1994). A
violência torna-se, neste novo cenário globalizado movido por transformações
morfológicas, um necessário e, ao mesmo tempo, fundamental instrumento de
dominação. Neste sentido, Tavares dos Santos (1999) sobre este processo, enfatiza que:

No plano dos processos econômicos, verifica-se a incorporação do


conhecimento científico e tecnológico à produção industrial, tal como os
efeitos da energia nuclear, da revolução da microeletrônica e das novas
tecnologias das comunicações, sendo que os conglomerados transnacionais
passam a conduzir a maior parte das atividades econômicas, sob a hegemonia
do capital financeiro internacional. Ao mesmo tempo, os acordos de
integração econômica supranacionais e regionais – tais como União
Europeia, o Nafta, o Asean e o Mercosul – dinamizam o processo da
globalização, em grande medida orientado pelas organizações internacionais
[...]. (IBID, 1999, p. 4).

Michel Foucault (1994) destaca, ao introduzir a ideia de microfísica do poder,


que as transformações movidas pela lógica contemporânea, produziram novas
necessidades de exploração e que estas, uma vez racionalizadas pelo capital, apresentam
novas exigências que são oriundas do processo de globalização, fundamental para se
entender a relação intrínseca entre a violência e as estruturas de poder:

O que existe de mais perigoso na violência é a sua racionalidade. Certamente


a violência em si mesma é terrível. Mas a violência encontra seu fundamento
mais profundo na forma de racionalidade que nos utilizamos [...]. Entre a
violência e a racionalidade, não há incompatibilidade (FOUCAULT, 1994,
pp. 38-39).

Dentro desta perspectiva, Foucault (1985) aponta que, durante os séculos XVII e
XVIII, o poder soberano dispunha sobre o direito de vida e de morte de seus filhos,
súditos e escravos, haja vista que esta prerrogativa, com o passar do tempo, no mundo
ocidental, passou por transformações nos mecanismos e nos próprios dispositivos de
poder, os quais justificavam “de fato, o direito de causar a morte ou de deixar viver”
(IBID., p. 128) apenas para a própria sobrevivência do soberano. Sylvio Gadelha (2015)
reconhece que, na virada entre os séculos XIX e XX, diferentes figuras advindas das
tecnologias do poder (biopolítica e biotecnologias) passaram também a interferir na

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produção das relações de poder, influenciando e determinando o desenvolvimento das


tecnologias e políticas do poder que passaram a remodelar a história das ordens
emanadas das estruturas das sociedades capitalistas do século XX.

OS DISPOSITIVOS DE PODER E O BIOPODER DA VIOLÊNCIA

De todo, percebe-se que nem todos os dispositivos de poder “foram confiscados


e absorvidos pelo aparelho de Estado”, posto que “não são necessariamente criados pelo
Estado, nem, se nasceram fora dele, foram inevitavelmente reduzidos a uma forma ou
manifestação do aparelho central” (MACHADO, in: FOUCAULT, 1986, p. XII).
Desta forma, observa-se que, a partir deste processo de transição tecnológico-
político-econômico, muitas mudanças ocorreram e determinaram as relações de
biopoder nas sociedades normalizadoras tanto nas práticas de poder, quanto nos
exercícios da lógica de dominação e de controle:

Uma outra característica deste desenvolvimento do biopoder é a importância


crescente assumida pela atuação da norma, às expensas do sistema jurídico da
lei. A lei não pode deixar de ser armada e sua arma por excelência é a morte;
aos que transgridam, ela responde, pelo menos como último recurso, com
esta ameaça absoluta. [...]. Não quero dizer que a lei se apague ou que as
instituições de justiça tendem a desaparecer; mas que a lei funciona cada vez
mais como a norma, e que a instituição judiciária se integra cada vez mais
num contínuo de aparelhos (médicos, administrativos etc.) cujas funções são
sobre reguladoras. (FOUCAULT, 1986, p. 135).

Sendo assim, a partir de Foucault (1986), entende-se biopoder, para a presente


investigação, como práticas de “governamentabilidade” perceptíveis nas contem-
porâneas sociedades, as quais são utilizadas para regulamentar e neutralizar não mais os
seus súditos, mas os indivíduos destas sociedades, os quais, no livre arbítrio de suas
razões, são seduzidos e persuadidos - a sujeitarem-se em suas individualidades - aos
dispositivos de poder disciplinar e as estruturas de biopoder do Estado. Por sua vez,
para o autor, biopoder sintetiza as relações de poder direcionadas à adesão às normas de
controle legitimadas e instrumentalizadas para, por um lado, administrar os corpos
(poder disciplinar) e, por outro lado, para gerir as inter-relações entre os indivíduos que
são sujeitados e subjugados pela dominação do direito na em sociedade:

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O sistema do direito, o campo judiciário são canais permanecentes de


relações de dominação e técnicas de sujeição polimorfas. O direito deve ser
visto como um procedimento de sujeição, que ele desencadeia, e não como
uma legitimidade a ser estabelecida. [...] em primeiro lugar: não se trata de
analisar as formas regulamentares e legítimas do poder em seu centro, no que
possam ser seus mecanismos gerais e seus efeitos constantes. Tratasse, ao
contrário, de captar o poder em suas extremidades, lá onde ele se torna
capilar; captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais,
principalmente no ponto em que, ultrapassando as regras de direito que o
organizam e delimitam, ele se prolonga, penetra em instituições, corporifica-
se em técnicas e se mune de instrumentos de intervenção material,
eventualmente violento (FOUCAULT, 1979, p. 182).

Por sua vez, destaca Foucault que não existe uma raiz do poder, ou região, na
estrutura das sociedades que centralize o poder, tendo em vista que ele [o poder] não
existe propriamente dito, pois o que existe são as relações e as práticas de poder que se
dão em instituições – como, a título de ilustração, nos quartéis, nas associações, nas
universidades, nos mercados, nos hospitais, nas fábricas/ empresas etc. – que
fundamentam a compreensão e identificação destas que ocorrem tanto nas relações da
esfera pública, quanto nas relações privadas, independente do Estado. (FOUCAULT,
1986). Assim sendo, destaca o autor, que não devemos reduzir a significância do poder,
atrelando-o ao Estado ou à soberania estatal, já que este não é o seu único senhor que
produz, a partir de sua existência, resultados de desigualdade e de mobilidade para o
poder:

Onipotência do poder: não porque tenha privilegio de agrupar tudo sob sua
invencível unidade, mas porque se produz a cada instante, em todos os
pontos, ou melhor em toda relação sobre um ponto e outro. O poder está em
toda parte; não porque englobe tudo, e sim porque provem de todos os
lugares (FOUCAULT, 1985, p. 90).

No centro de suas análises, Foucault acentua que não se deve postular que o
poder estaria recluso a uma estrutura funcional da soberania estatal, porquanto o mesmo
não está enraizado a uma instituição específica, tampouco está atrelado a indivíduos ou
a posições desempenhadas por estes em um Estado, mais do que isto, o poder tem uma
dinâmica própria, a qual, para o autor, “não é uma certa potência de que alguns
[indivíduos] sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa
sociedade determinada” (FOUCAULT, 1985, p. 89).
Assim, o referido autor sugere que o poder se emerge das mais distintas
proposições de força que, ao mesmo tempo em que prendem os sujeitos, os impedem de

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escapar das teias sociais providas por episódios que atravessam o tecido das relações de
controle social – tecnologias de poder -, que Foucault chamará de “Biopoder”:

[...] essa série de fenômenos que me parece bastante importante, a saber, o


conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que, na espécie humana,
constitui suas características biológicas fundamentais vai poder entrar numa
política, numa estratégia política, numa estratégia geral de poder. Em outras
palavras, como a sociedade, as sociedades ocidentais modernas, a partir do
século XVIII, voltaram a levar em conta o fato biológico fundamental de que
o ser humano constitui uma espécie humana. É em linhas gerais o que chamo,
o que chamei, para lhe dar um nome, de biopoder. (FOUCAULT, 2008, p. 3).

Provavelmente, o Biopoder, para ele, estaria no centro das novas tecnologias que
exercitam os dispositivos em torno do poder, não apenas no âmbito individual, o que
restringiria e controlaria o sujeito no exercício do poder, mas também nas mais distintas
relações entre os indivíduos em sociedade, as quais seriam regulamentadas por
dispositivos políticos de Biopoder: hábil para exercer o controle das tecnologias de
poder sobre as massas em diferentes contextos territoriais, ao sugerir que:

[...] a saber, o conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que, na espécie
humana, constitui suas características biológicas fundamentais vai poder
entrar numa política, numa estratégia política, numa estratégia geral de poder.
Em outras palavras, como a sociedade, as sociedades ocidentais modernas, a
partir do século XVIII, voltaram a levar em conta o fato biológico
fundamental de que o ser humano constitui uma espécie humana. É em linhas
gerais o que chamo, o que chamei, para lhe dar um nome, de biopoder
(FOUCAULT, 2008, p. 3).

A partir desta concepção de Biopoder, podemos conceber que a violência


contemporânea se espraia de maneira sutil, interagindo ao mesmo tempo com antigas e
novas redes sociais, buscando manter as relações de poder, ao impor seu modus
operandi, por dinâmicas sociais que institucionalizam a violência dentro das próprias
instituições de controle social. Esta perspectiva sugere, a partir das perspectivas das
ciências sociais, uma reflexão crítica sobre o monopólio estatal de controle social da
violência. (FOUCAULT, 1986).

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A VIOLÊNCIA, A VITIMOLOGIA E A SOCIOLOGIA DA VIOLÊNCIA DE


GÊNERO E DE ORIENTAÇÃO SEXUAL

Martin Herrnkind e Sebastian Scheerer (2003) apontam que a sociologia, assim


como a criminologia, teria a necessidade de rever as práticas e as estratégias de trabalho
das instituições formais de controle da violência, pelo fato de que o estudo destas não
deve ser restritivo às práticas tradicionais de policiamento ostensivo e/ou repressivo das
instituições do sistema de justiça e segurança criminal. Os autores constatam, ainda, que
a imposição da violência como mecanismo de repressão e contenção à própria violência
origina-se na própria concepção de sociedade e, por conta disso, deve ser objeto de
estudo das ciências sociais para compreensão do fenômeno da violência. Isto de maneira
tal que o entendimento dos mecanismos que compõem o problema da violência está
estreitamente interligado com distintas esferas de biopoder que disputam, de forma
desigual, forças de prestígio e valorização nas relações sociais entre o Estado e a
sociedade. Por fim, os autores destacam serem as vítimas destas organizações não
apenas reclusas à força licenciada e legitimada pelo Estado para a atuação destas
organizações no combate e monopólio da violência (IBID., 2003, p. XV), mas à
vitimologia, oriunda das diferentes formas de violência que se ramificam, em grande
parte, da força autoritária postergadas por estas instituições e seus atores com poder de
violência que dão efeito às práticas de desrespeito, de injustiça e de seletividade em
matéria penal-criminal, principalmente contra a comunidade LGBT, objeto da presente
investigação.
Em adição a isto, destaca-se que a violência, em lato sensu, afeta, mais
especificamente, aos já socialmente estigmatizados, rotulados e excluídos, uma vez que
ela os atinge cotidianamente, de forma legitima ou ilegítima, legal ou ilegal,
dependendo de como ela será analisada. Dentro desta perspectiva, observa-se que as
distintas formas de violência produzem, particularmente, “sujeitos não sujeitos”, uma
vez que o uso da violência institucional ou estrutural pode ser praticado com ou sem a
anuência do Estado, o que eleva a importância de se discutir a ilegalidade e a
ilegitimidade da violência em contexto de legalidade e legitimidade, bem como a
legalidade e a legitimidade em contexto de ilegalidade e ilegitimidade. No caso da
equação de legalidade e legitimidade da violência antiLGBT, percebe-se que esta pode

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 43

ser promovida e estimulada pelo Estado; já a segunda equação, pode não ser promovida
e tampouco ser estimulada pelo Estado, mas pode ser objeto de ações políticas
individuais de agentes no Governo; a terceira, por sua vez, pode ser apenas resultado da
influência cultural da sociedade nos atores sociais que exercem atividade pública, sem
nenhum respaldo nas normatizações estatais, tampouco nas políticas governamentais.
Desta forma, Rick Santos (2014), por sua vez, destaca que:

No século XX, os movimentos de liberação LGBT lutaram pela criação de


uma identidade pública, com direitos civis de igualdade; a conquista de nosso
século tem de ir além da inclusão num sistema de opressão. [...]. Dessa
maneira, a transgressão do gênero assume um aspecto político de expressão e
criação de identidades e espaços alternativos de SER e viver a Diferença no
cotidiano, ao combinar teoria e prática de resistência à heteronormatização
dos sujeitos, mesmos que estes se encontrem dentro de uma matriz de
opressão que os impossibilite de agir de modo independente do sistema.
(IBID., p. 149).

Em outras palavras, os sujeitos que, em virtude dos rótulos que lhes são
atribuídos, têm seus direitos – civis, políticos e sociais - frequentemente violados pela
atribuição do desvio advinda das relações discursivas que moralizam, excluem e
oprimem tanto o sexo, quanto as sexualidades3. Então, a violência ganha força,
passando a ser, a partir das políticas de segurança pública, associada às exigências do
poder – econômicas ou ideológicas e as estruturas que fazem parte do problema das
diferentes organizações de controle social no Brasil. No que concerne a isto, destaca-se
que essa ideia de abjeção de sujeitos enseja, também, a discussão de performance e da
questão do sujeito como resultado de estruturas discursivas, as quais serão recuperadas
em secção posterior, a partir da abordagem teórica pós-estruturalistas propostas por
Butler (1998; 2008) e Foucault (2006; 1999; 1986; 1985). Em virtude desta nova
morfologia social, as políticas de segurança pública tiveram que modificar e abandonar
suas dinâmicas impositivas de defesa da lei e da ordem “a todo custo”, por novas
estratégias de resolução de conflitos.
Sérgio Adorno e Fernando Salla (2007) corroboram com esta visão ao
relembrarem alguns incidentes históricos que atestam os desencantos e desarranjos das
políticas de segurança pública de controle da violência no Brasil, em virtude da sujeição

3
A este respeito, Foucault (1985) estabelece que estas relações provêm de quatro regras genealógicas da
moral, a saber: a) regra da imanência; b) Regra das variações contínuas; c) Regra do duplo
condicionamento; e d) Regra de polivalência tática dos discursos (FOUCAULT, pp. 93-97).

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criminal direcionada a alguns indivíduos pelas instâncias de controle.4 A sujeição


criminal é outro conceito muito importante para o entendimento sobre as representações
sociais da violência. Michel Misse (2014), ao analisar as estratégias de controle da
criminalidade e da violência, realizadas pelas instituições de segurança pública no
Brasil, aponta críticas para o processo de violência estrutural que se dá pela sujeição
criminal, que finda por atribuir estigmas e rótulos em alguns indivíduos ou grupos de
indivíduos, passiveis de se tornarem vítimas de futuras interações de violência. O
estigma atribuído define padrões, diferencia sujeitos e estipula rótulos de desviantes.
Isto se dá porque a sujeição criminal tem um efeito acusatório e condenatório que
antecede a própria instauração do inquérito policial, e consequentemente, do
procedimento penal:

Refere-se a um processo social pelo qual se dissemina uma expectativa


negativa sobre os indivíduos e grupos, fazendo-os crer que essa expectativa
não só é verdadeira como constitui parte integrante de sua subjetividade. O
conteúdo de sentido dessa expectativa não é apenas um atributo
desacreditador, como no estigma, nem decorre apenas de um processo de
rotulação de um comportamento desviante (como no desvio), antes de ser
determinante desses ou, ao menos, enlaçado a esses. [...]. Na sujeição
criminal, o crime é reificado no suposto sujeito autor de crimes. O rótulo e o
estigma são efeitos, ou se articulam à sujeição criminal, mas não lhes são
causas, não lhes são logicamente anteriores. (IBID., 2014, p. 204).

A ideia acima fornece subsídios para a problemática da violência homofóbica,


ideia central do presente estudo: primeiramente, quando esta especula que, em situações
sociais específicas, existe maior probabilidade de que conflitos e ações violentas
ocorram, independente da forma, (física, psíquica ou estrutural), as quais findam por
atingir e sujeitar alguns indivíduos, em virtude de características estigmatizadas - a ela e
ao grupo que ela representa - por outros indivíduos ou grupo de indivíduos em
sociedade.
Em segundo lugar, não se está afirmando, aqui, que exista uma anuência
objetiva, tampouco subjetiva, na postura do Judiciário e das Instituições de Controle
Social de Segurança Pública, nas fases de investigação policial ou do processo criminal,

4
O Massacre do Carandiru em São Paulo (1992), as chacinas da Candelária e de Vigário Geral no Rio de
Janeiro (1993), o Massacre de Eldorado dos Carajás no Pará (1996), a Operação Castelinho em São Paulo
(2002), a Chacina da Baixada Fluminense (2005), assim como a reação das forças de segurança aos
ataques do PCC, aliados à explosão da população carcerária, demonstram o fracasso da abordagem “lei e
ordem” ou “tolerância zero” no combate à violência e à criminalidade urbana.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 45

em casos que envolvam a violência letal de sujeitos LGBT, antes se salienta que a
ilegalidade destas ações pode ser legitimada por práticas de violência institucional de
alguns agentes que representam o aparelho estatal, uma vez que as antigas estruturas
hierárquicas das instituições de controle social dificultam a mudança de paradigmas,
como ainda impedem a inclusão de novas estratégias de mediar e arbitrar os conflitos,
verbi gratia, o diálogo com as minorias (LGBT), escutando suas demandas,
capacitando-se para lidar com a diversidade de vivências, reestruturando, assim, seus
conceitos e suas práticas, buscando uma nova representação e participação social em
suas estratégias de controle da criminalidade violenta por ações de homofobia.
O terceiro ponto analisa as mudanças de paradigmas nas pesquisas sobre a
violência e seus reflexos na vítima – a partir de pesquisas de vitimização - salvo
algumas exceções estaduais5, que ainda estão “desabrochando” no Brasil.
Principalmente, porque as ciências sociais vêm demonstrando um acentuado e crescente
interesse pelas pesquisas de vitimização, a partir do momento em que perceberam que
estas podem especificar e legitimar dados que vão além da simples distribuições da
criminalidade violenta, mostrando realidades em áreas específicas da sociedade (sejam
elas urbanas ou rurais), a partir do instante em que estas pesquisas conseguem
especificar quais grupos sociais são os mais vulneráveis à criminalidade violenta, e que
tipo de criminalidade vem sendo mais prevalente e incidente, merecendo uma agenda
política diferenciada.
Em quarto lugar, ressaltam-se as discussões advindas de Pablo Molina (1980) e
de Günter Kaiser (1993), ao apontarem o redescobrimento da “vitimologia” - ciência
que estuda não só a vítima, mas também o significado que atribui à figura do agressor.
O estudo da vítima a partir de uma perspectiva mais epistemológica e metodológica
pode fornecer à sociologia da violência e à criminologia grandes avanços no que diz
respeito ao comportamento do próprio agressor e da vítima (MELO, 2001)6. Os casos de
crimes de ódio, mais especificamente os crimes de violência homofóbica, não se fazem

5
Zelli, Marinho e Silva (2014) ressaltam que, mesmo sendo pouco difundidas, existem algumas poucas e
boas experiências sobre vitimização no Brasil, muito embora a área de abrangência destas pesquisas atinja
apenas algumas capitais ou regiões metropolitanas, em sua maioria concentrados na Região Sudeste do
Brasil.
6
Melo (2001), ao tecer notas sobre a história da vitimologia, acrescenta que o redescobrimento da vítima
se deu a partir do término da segunda guerra mundial. Melo, fazendo uso de sociólogos da violência,
destaca que, segundo Scheneider (1995), teria sido o advogado israelense Bejamin Meldsohn, quem teria
usado o termo pela primeira vez em 1947; já fazendo uso de outro renomado sociólogo, Schwind (1997),
este credita a Hans von Hentig a autoria do termo, ainda em 1934.

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presentes nos grandes tratados da sociologia da violência, nem criminologia tradicional,


tampouco da criminologia moderna. Fato é que estas investigações somente alcançam
visibilidade e despertam a esfera investigativa das ciências sociais (humanas e
aplicadas) e de saúde (médicas e biológicas), a partir de inícios da década de oitenta e
início dos anos noventa do século XX nos países de língua inglesa – EUA, Canadá,
Reino Unido e Austrália – e, pouco depois, nos países francófonos e de língua alemã.
Dessa forma, criminólogos e sociólogos da violência e do crime atestam – dentre
eles Saulo Carvalho (2015), Luís Zelli, Frederico Marinho e Braulio Silva (2014),
Alessandro Baratta (2011), Nestor Penteado Filho (2010), Roger Rios (2008), Barbara
Perry (2001), James Jacobs e Kimberly Potter (1998), Hans-Dieter Schwind (1997),
Heike Jung (1993), Günter Kaiser (1993) e Laércio Pellegrino (1987) entre outros -, que
os estudos da vitimologia, contribuíram e vêm contribuindo para a descoberta de novas
teorias e, consequentemente, para a desconstrução do preconceito e da violência em
suas diferentes formas, uma vez que a redescoberta da vítima, mediante reparação de
danos a seu favor, abririam novas possibilidades da interação entre o agressor e vítima,
o que, no que lhe concerne, tiraria a vítima da relação passiva e da situação de
neutralização de sua importância pelos agentes de controle social do Estado
(BARATTA, 2011).
Neste sentido, chega-se ao quinto ponto, pois não nos restam dúvidas de que a
vitimologia pode ajudar no desenvolvimento de estratégias preventivas e protetivas de
combate às injustiças sociais e as ações violentas motivadas pelo ódio, devendo
permanecer em posição de autonomia para com as outras ciências sociais (humanas e
aplicadas), principalmente em relação ao caráter atributivo valorativo e normativo da
ciência jurídica, como acrescenta Alba Zaluar (2004) ao apontar que:

O conceito de vítima sacrificial afirma que, diante de uma crise social, uma
vítima inocente é escolhida não por seus supostos crimes, mas porque tem
sinais próprios do monstruoso e passa a incorporar todo o mal que atinge a
coletividade. Esta descarrega naquela a sua violência sagrada, e, apesar de
dita num mito, tem um substrato real e concreto. Estas teorias têm recebido
severas críticas. (ZALUAR, 2004, p. 16).

Decerto, esta perspectiva vitimológica poderá produzir novas abordagens e


conhecimentos capazes de contribuírem para um melhor entendimento sobre as
necessidades vivenciadas pelas vítimas, diminuindo a dor, os desgastes provocados pela

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violência (física, psíquica, material e institucional), como também reduzir o sentimento


de injustiça e impunidade (PENTEADO FILHO, 2010). Embora, antes de tudo, tenham
os estudos acima que vencer as dificuldades e barreiras propostas pelos profissionais
das carreiras jurídicas, que dificultam a aplicabilidade das novas perspectivas e
abordagens de cunho epistemológico (BATISTA, 2011), quando estas fogem ao
imediatismo objetivista e dogmático, conforme dispõe Virgilio Donnici (1984, p. 162):

É muito difícil, no Brasil, fazermos uma Sociologia do Direito Penal, pois o


jurista brasileiro não admite nem considera válida a intervenção dos dados
das ciências sociais no campo do Direito, e, daí a dificuldade da Criminologia
para assentar-se nos nossos quadros jurídicos. [...] Nas Faculdades de Direito
ensinam-se um Direito Penal, somente dentro da norma penal, o que significa
um Direito Penal fora da realidade social, com esta nossa crescente violência
na criminalidade aquisitiva dos crimes contra ao patrimônio, sem falar na
altíssima taxa de homicídios dolosos do Rio e São Paulo.

Tais cuidados demonstram que as pesquisas de vitimização têm a potencialidade


para determinar e classificar a criminalidade. Assim, apresentam-se o sexto e último
ponto a ser considerado para mensurar a importância do estudo da vítima (conhecimento
da violência e dos processos de vitimização ou de revitimização).
Nessa medida, Tulio Kahn e Cristina Barbosa (2000) reduzem a quatro formas
as fontes de mensuração da criminalidade e da violência, a partir do estudo sobre a
vítima, ao ressaltarem que a observação vitimológica teriam legitimidade para fornecer
diagnósticos confiáveis tanto para a propositura de políticas públicas de controle da
criminalidade, como para auxiliar o complexo sistema de justiça criminal, a saber:

a) Registros das agências do sistema de justiça criminal (policias – boletins


de ocorrência e inquéritos; judiciais – processos prisionais – condenações; b)
os registros epidemiológicos do sistema de saúde; c) as pesquisas com as
vítimas de crimes – surveys de vitimização e d) as pesquisas com autores de
crimes – surveys de autoreportagem (KAHN; BARBOSA, 2000 APUD
ZELLI; MARNHO; SILVA, 2014, p. 227).

Por certo, a vitimologia pode fornecer grande contribuição para o esclarecimento


das inquietações jurídicas, a partir do momento em que pesquisas sobre a vítima podem
contribuir com subsídios para a análise dos seguintes pontos: a) número de crimes
cometidos; b) número de pessoas presas/detidas ou investigadas; c) tipologia dos crimes
e frequência dos mesmos; d) perfil do ofensor e da vítima; e) influência do contexto
cultural, social e econômico no crime; f) relação entre as características contextuais

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(cultural, social e econômico) dos ofensores e das vítimas; g) observação das


peculiaridades próprias do crime, tais como: etnia-raça, gênero e orientação sexual do
ofensor e da vítima; h) forma de atuação das agências de controle, bem como o preparo
para lidar com grupos vulneráveis específicos desde a participação primária pela polícia
repressiva e ostensiva; i) metodologias utilizadas para mensurar tanto o crime e a
violência; j) formato dos dados oficiais (boletins ou registros de ocorrência, inquéritos
policiais, procedimentos judiciais e execução penal); k) diálogo entre as agências
estatais de controle da criminalidade com as agências privadas (movimentos civis
organizados e academias com programas de pós-graduação) na divulgação das fontes
sobre a violência.

VIOLÊNCIA E SUAS DIFERENTES FACETAS: APROXIMANDO


CONCEITOS ABSTRATOS DA VIOLÊNCIA

Ao se iniciar o estudo sobre as definições operacionais da violência, deparamo-


nos com a dificuldade de aproximação para com o termo, pois o mesmo é cabível de
várias interpretações e manifestações. Dependendo da ciência que analise o fenômeno
da violência, seja geral ou específica, encontraremos sempre olhares diferenciados,
alguns bastante generalistas e outros bem particularizados. (BECKER, 1964;
CHAMBLISS, 1981; NORTHOOF, 1997). Somando-se a isso o fato de que o termo
violência gera diferentes perspectivas e argumentações teóricas, tanto por parte do autor
como por parte da vítima da violência propriamente dita (KÖRN/ MÜCKE, 2002;
ZALUAR, 2004). Nesta perspectiva, é de suma importância salientar que quanto mais
nos aprofundamos na leitura e procedemos a constantes revisões bibliográficas de cunho
interdisciplinar sobre o tema da violência, pois, mais evidente ficava que muitos dos
conceitos e definições existentes eram extremamente amplos e imprecisos, não
conseguindo enfatizar as transformações da sociedade. Não é errônea a afirmativa de
que inexiste um conceito generalista de violência, nem mesmo integralista, que seja
aceito por todas as supracitadas ciências, como irrefutável, estabilizado e/ou universal,
já que as definições operantes da violência sofrem constantes mudanças, relativizando
toda tentativa de se construir uma tipologia (CARVALHO, 2015; TAVARES DOS
SANTOS, 2014, 2009).

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 49

Por esse ângulo, o correto seria falar da existência de diferentes tipologias da


violência que, por peculiaridades teóricas ou abordagens metodológicas, promovem
singulares transformações tanto no uso e na forma de abordar o termo, como também na
representação social da violência a partir da interferência dos meios de comunicação
(PORTO, 2014, 2010; KUNCZIK, 1994; KEPPLINGER; DAHLEM, 1990). De acordo
com Fernando Santos (1998) e Célia Benvenho (2008), tanto a violência como a
criminalidade violenta sempre fascinaram a literatura, a filosofia, estando presentes e
fazendo parte da história e dos grandes eventos da humanidade. Desde os textos antigos,
verificamos tentativas de se produzir conhecimento sobre a violência, a qual tem sido
retratada como um problema que, de um lado, se manifesta em várias esferas da
sociedade; e, por outro, é cheia de facetas e, por isso, tem infinitas variedades,
assumindo distintas roupagens (TROTA, 1987), dificultando, assim, a sua erradicação,
fato este que para muitos, significaria uma utopia. (WAHL, 1996).
A propósito da dificuldade em descrever o fenômeno da violência, enumeram-
se, a seguir, algumas definições operacionais desde a etimologia do termo violentia7,
que expressa, por si mesmo, toda e qualquer forma de agressão física ou moral, direta
ou indireta, individual ou coletiva contra a pessoa, atingindo-lhe o bem jurídico de que é
titular, como a honra, a liberdade, a integridade física e a vida. Saulo Carvalho (2015)
entende que o uso da violência é uma relação natural e normal, porque se origina na
própria sociedade, quando define que:

A forma de anular o estado de guerra, corrupção do estado de natureza, é a


instituição do poder civil. A incerteza do gozo dos bens, face à possibilidade
de expropriação pela força, conduz a elaboração e um acordo. Os homens em
troca de segurança optam por limitar a sua liberdade, alienando certo domínio
ao repositório comum do Estado. (CARVALHO, 2015, p. 81).

Já Machado da Silva (2014) atribui uma intrínseca relação entre a violência e a


ordem social ao edificar as suas pressuposições sobre os limites abstratos e restritos da
violência, quando acrescenta que a violência:

[...] adquire o sentido de um atributo moral negativo aplicado a aspectos


dessas discussões, cujo conteúdo se define por um recurso à força material
tido como indevido ou injusto por participantes diretos e/ou observadores.

7
O termo violência é oriundo do latim violentia que significa: vis-força, emprego de força e recursos
pessoais ou estatais (MEC, 1978).

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[...]. Uma ordem não é apenas um estado da organização das relações sociais,
ela é sempre a expressão de eventuais disputas cujos extremos lógicos são a
aceitação ou a recusa plena [...] (MACHADO DA SILVA, 2014, p. 28).

Judy Körn e Thomas Mücke (2002) atestam, com base nesta perspectiva, ser a
violência um mecanismo caracterizador da ordem social, que pode ocorrer em diferentes
níveis da sociabilidade, tanto positiva como negativamente:

A violência é um comportamento, individual ou coletivo, que pode ser direta


ou indiretamente projetada por um fim que busque padrões normativos
funcionais que auxiliaram a manutenção da ordem e os objetivos
estabelecidos pelo grupo que ostenta o poder e a dominação sobre os demais.
(KÖRN; MÜCKE, 2002, pp. 15-16).

Essa característica conceitual compreende grande parte das situações que se


refletem pela utilização de ações acompanhadas por violência oral, corpora ou psíquica.
Assim, entendem Körn e Mücke que o comportamento violento não se define apenas
pela violação aos limites do outro, indo muito mais além, ao direciona-se com intenção
de atingir a subjetividade, prejudicando por completo os limites da personalidade da
vítima. Fica evidente que os autores demonstram que é impossível definir ou generalizar
o termo.
Segundo esses autores, primeiro a pessoa se depara com uma situação de
violência sem perceber, e, assim, ela passa a vivenciar os episódios de violência como
algo normal; depois, após o processo primeiro de aceitação da violência, surge uma pré-
disposição para a naturalização em sua execução; assim, em terceiro lugar, a violência
adquire um sentido cultural, a partir do momento em que ela se torna um “atrativo
psicológico” para o agressor e um “pesadelo traumatizante” para a vítima;
posteriormente, percebe-se que toda pessoa que age (tem atitudes de violência
frequentes), procura, sempre que questionada, encontrar uma forma de justificar sua
ação; e, em quinto lugar, a pressuposição de que foi a vítima quem mereceu o uso da
violência, quando isso acontece, percebe-se, por um lado, uma responsabilização da
vítima; e, por outro lado, vemos que ela, a violência real, é “mascarada” ou negada,
quanto à existência, à prevenção e à repressão desta são acrescidos outros fatores que
tentam descaracterizar a própria violência.
Alba Zaluar (1999), ao desenvolver o conceito de violência, busca
fundamentação na etimologia da palavra quando explica que:

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O termo vem do latim violentia que remete a vis (forca, vigor, emprego de
força física ou os recursos do corpo para exercer sua força vital). Essa força
torna-se violência quando ultrapassa um limite ou perturba acordos tácitos e
regras que ordenam relações, adquirindo carga negativa ou maléfica. É,
portanto a percepção do limite e da perturbação (e do sofrimento que
provoca) que vai caracterizar o ato como violento, percepção essa que varia
cultural e historicamente. (ZALUAR, 1999, p. 28).

Assim, a violência, que se remetia anteriormente a simples ações de força física


entre adversários, na maioria das vezes desiguais, poderá evoluir para atos de
vandalismo (violência contra coisas), abandonando a esfera pessoal até chegar à forma
de violência sexual, e, finalmente, no seu extremo, com o extermínio do oponente, a
partir da prática da violência contra a vida. A este tipo de ação chamamos de violência
institucional ou estrutural, conforme expõe Robert Northoof (1997), ao destacar que a
violência se estrutura por critérios ideológicos absurdos, onde a vítima da violência
estrutural, algumas vezes, sofre pela legitimidade do próprio Estado:

Violação ou ofensa à integridade corporal ou psíquica de alguém por outra.


Podendo estar legitimada pela lei ou pelos entes representantes do Estado que
vem a se pronunciar contra a produção objetiva ou subjetiva da mesma por
particulares de um Estado, quando estes buscam impor desejos de ordem
prática. [Tradução do autor.]. (NORTHOOF, 1997).

Desta forma, é importante ressaltar que a violência ocorre também a partir de


atos de omissão e discriminação por parte de instituições públicas, quando se recusam
ou deixam de atender um cidadão em virtude de suas características individuais,
culturais, gênero, etnia-raça, orientação sexual ou pertença religiosa. A violência pode
ser caracterizada quando se faz ou será feito algo ou alguma coisa contra alguém, que
não quer ou deseja esta ação. Esta perspectiva por si só já indica que um acontecimento
com uso da força se foi usado, no qual se foram ultrapassados os limites dos direitos da
pessoa humana. Por sua vez, Yves Michaud (1989) ressalta que haverá violência toda
vez que ocorrer:

[...] uma situação de interação, um ou vários atores agem de maneira direta


ou indireta, maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em
graus variáveis, seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral,
em suas posses, ou em suas participações simbólicas e culturais.
(MICHAUD, 1989, p. 10).

Da mesma forma, pode se complementar que a violência, nas suas múltiplas

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formas, conseguiu mudar não apenas a percepção individual sobre o fenômeno da


violência em si, como também majorou a amplitude do tema, tomando uma visibilidade
nunca vista. Pesquisadores das ciências médicas e representantes dos movimentos
sociais de promoção da saúde pública passaram a perceber que a violência é uma
epidemia e, como toda epidemia, deve ser tratada como objeto de saúde pública.
Influenciando a transformação e a construção de um novo cenário para o “tratamento”
da violência, levando as diferentes instituições da sociedade a intensificarem o debate
nas mais diferentes esferas de trabalho, como a Organização Mundial da Saúde (OMS),
que, em 2000, oficializou a violência geral e específica como parte integrante das
Agendas Políticas Internacionais a serem regionalizadas pelos estados membros da
Organização, conforme seu relatório mundial para o combate à violência como questão
de saúde:

Violência constitui-se a partir do uso intencional da força física ou do poder


real ou da ameaça contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo
ou uma comunidade, que resulte ou tenha qualquer possibilidade de resultar
em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou de
privação (KRUG, 2001, Apud. MELO, 2001, p. 5).

Neste sentido, a violência, mesmo não fazendo parte das tipologias de doenças,
das patologias ou das objeções higienistas das ciências médicas modernas, deve ser
vista como problema médico, biológico e, logo, problema de saúde pública e privada.
Uma vez que, mesmo sendo um problema social, a violência rapidamente penetra no
universo da saúde, provocando morte, lesões, traumas, agravos mentais (emocionais e
psíquicos) e materiais, diminui a vida de quem for por ela acometido, destrói
inteiramente, ou parcialmente, coletividades ou grupos subalternos, evidenciando assim,
ser um tema de saúde pública (MINAYO, 2005; 2003). Diante do desenvolvimento de
políticas públicas de combate e de prevenção à violência, o tema alcançou novos
patamares, fazendo com que agressores potenciais, habituais e/ou ocasionais, passassem
a modificar o modus operandi de suas ações e/ou agressões, o que levou a uma nova
organização das práticas de violência. Nota-se, então, que estas práticas se apresentam
de forma tanto objetiva como subjetivamente, muito embora encontramos diferenças
fundamentais e estruturais nas dinâmicas das ciências sociais que operacionalizam o
estudo analítico da violência.
Dentro das distintas óticas, tais como as correntes teóricas que veem a violência

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como produto do conflito pela competição, a sociologia da dominação de Max Weber


compreende a violência como parte do projeto centralizado nas organizações políticas e
da ordem administrativa estatal. (WEBER, 2009). Dentro desta perspectiva, ao abranger
as considerações sobre a violência na sociologia da dominação de Weber, verifica-se
que estas se direcionam, de um lado, para a análise do monopólio estatal da violência
enquanto condição essencial do Estado moderno; e, de outro, Weber partindo deste
monopólio, conduz as suas investigações para as relações de violência entre as religiões
e os movimentos religiosos. (IBID., 2009). O que não significa que, de acordo com
Weber, a violência seja o único meio ou recurso como estratégia de dominação política.
Pelo contrário, a sua sociologia da dominação pode ser entendida como uma tentativa de
demonstrar que o núcleo da dominação moderna, ou seja, a essência da racionalização a
dominação, baseia-se na limitação da violência como regra, somente possível, como a
burocratização do controle sobre a violência. (ADORNO; DIAS, 2014). Por certo, a
partir de Weber sugere-se, aqui, que a dominação da violência é um meio racional hábil
para impedir que a violência possa ser praticada sem motivo algum, isto é, a
racionalização da violência, contribuiria para que os episódios e cerimônias da violência
possam ser controlados desde a sua eclosão enquanto uma força irracional, e isso só é
possível através da educação como único mecanismo capaz de combater a violência.
(TROTHA, 1997). Sob esta visão, considera-se que as percepções weberianas, advindas
da sua sociologia da dominação funcionalista – monopólio estatal da violência -, podem
se tornar importantes recursos na resolução de conflitos e, respectivamente, de crimes
de ódio motivados pela orientação sexual e pela identidade de gênero da vítima, tendo
em vista que as variantes teóricas promovidas por Weber, embasam os argumentos do
movimento social LGBT, sob a necessidade de se criminalizar: de tornar criminosa a
ação motivada pelo ódio, em outras palavras, de uma forma normativa a este tipo de
modelo criminoso.
Estas concepções se tornaram fundadoras de uma sociedade organizada em
estruturas de desigualdade social8. Sob esta perspectiva, tanto em Emile Durkheim
(1978), como em Georg Simmel (1968), não é possível encontrar grandes ênfases na
construção de categorias que creditassem contribuições teóricas fundamentais em torno
da análise da violência, tendo em vista que Durkheim estava mais interessado em
8
Merton recicla a teoria da anomia de Durkheim e apresenta sua perspectiva sobre as estruturas sociais
que elevam as possibilidades de desvio;

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avaliar as estruturas da sociedade a partir da concepção de representações coletivas; já


Simmel direcionava suas atenções para investigar uma sociologia atenta às formas de
sociabilidade, ou seja, a violência e os conflitos advindos dela eram tratados de forma
secundária pelos dois clássicos da sociologia geral. Neste sentido, Tavares dos Santos
(2014) ressalta sobre as teorias do conflito que:

A violência é fundadora de uma sociedade hierárquica, desigual e dividida,


atingindo mais alguns grupos sociais do que outros: as práticas da violência
vão se inserir em uma rede de dominações de vários tipos – classe, gênero,
etnia, por categoria social, ou a violência simbólica – que resultam na
fabricação de uma teia de exclusões, possivelmente sobrepostas. (TAVARES
DOS SANTOS, 2014, p. 20).

Contrariando esta tendência, desenvolvem-se outras escolas de pensamento -


nascidas da criminologia crítica ou feminista e da sociologia do desvio - que percebem a
violência como mecanismo da interação da sociedade e manutenção das ordens
hierárquicas de poder. (PORTELA, 2014; 2014; CARVALHO, 2012). As teorias
interacionistas9, segundo Carvalho (2015), Zafaronni (2014b) e Baratta (2011),
propõem explicar os comportamentos tidos como transgressores das normas sociais que
impõe padrões de normalidade que acabam por estigmatizar ou etiquetar as condutas
que desviam das impostas:

A ruptura criminológica proporcionada pela teoria do etiquetamento


possibilitou inclusive a qualificação de inúmeras tendências da criminologia
crítica que, ao incorporarem as ferramentas de análise dos mecanismos de
criminalização primária (seletividade) e de criminalização secundária
(etiquetamento/ estigmatização), redirecionaram suas investigações para o
estudo dos comportamentos marginalizados. (CARVALHO, 2015, p. 72).

Nesta lógica, o fenômeno da violência está diretamente interligado à ideia de


destruição, sofrimento, dor e agressão direcionada por um processo de seletividade e
especificidade, atingindo os mesmos grupos sociais excluídos do projeto civilizatório.
Isto implica perceber a violência como um fator humano e social, formada a partir de
vivências e estruturas que fazem uso da força e do poder com intenção de dominar,
submeter e provocar danos (materiais ou imateriais) a outros indivíduos, grupos e

9
Sutherland separa-se das estruturas da escola de Chicago apresentado sua associação diferencial;
Foucault e Goffmann desenvolvem pressuposições acerca das instituições de controle e da relação entre
saber, poder e violência.

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coletividades. (BARATTA, 2011). Do outro lado, se concebe, também, que ambas as


teorias – do conflito e interacionista - da violência, antes de serem influenciadas pelas
relações sociais e humanas, devem ser compreendidas pelo fator histórico, ou seja, a
violência foi sendo edificada, ao longo do tempo, por relações específicas e particulares
entre sujeitos (agressores ou vítimas) de cada sociedade. (ZAFFARONI, 2014b).
A decisão sobre como e para quem a violência será direcionada, é, em regra,
inconscientemente acertada e, concomitantemente, será direcionada a partir do modelo
de aprendizagem ou a partir do modelo da aprendizagem pelo sucesso (influência de
programas de televisão, influência de amigos, irmãos ou pais). Embora não possamos
deixar de considerar as práticas de violência direcionadas pelo estímulo de ser proibida
(coação e sanção penal), como também, aquela direcionada a si mesmo.
A violência se inicia com frequência em doses pequenas na forma de violência
linguística (descontentamentos interiores, pequenas percas ou derrotas, experiências de
fracassos) ou xingamentos direcionados à vítima. Em amplo sentido, o uso da violência
verbal vem acompanhado da linguagem corporal e gestos obscenos, os quais intentam
demonstrar a indignação ou insatisfação com alguém ou alguma coisa. A violência
psíquica contra outra pessoa é na linguagem internacional definida como bullying,
embora, juridicamente, tenha-se estabelecido correlação com o termo assédio. O
Assédio é uma forma de terror psíquico, na qual determinados grupos sociais são alvos
de discriminação, preconceitos e exclusão social. Rivais potenciais são excluídos e
desacreditados através de instrumentos de assédio tanto no campo de trabalho como
também na progressão ou ascensão profissional. O assédio é uma corriqueira forma de
humilhação psíquica que influencia o subconsciente de uma determinada vítima e, em
muitas situações, estas supostas e pequenas alusões, ironias ou atitudes rudes de cinismo
e sarcasmo podem ferir a vítima até mais do que uma agressão física. (MELO et. al,
2016).
Em outras palavras: o assédio, caso seja direcionado de forma profunda e
prolongada no tempo, poderá chegar a causar no subconsciente da vítima, até mais
danos do que mesmo violência física. Sem sombra de dúvidas, a forma mais grave de
violência é a violência empregada contra a pessoa e, consequentemente, contra a vida:
ela estende-se desde pisadas (pontapés e chutes), beliscões, cascudos, murros, tapas,
arranhões, empurrões, puxões; além daquelas empregadas com a ajuda de outros

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instrumentos: garrafadas, pauladas, pedradas, gases (pimenta e para dormir), porrete e


soco inglês, facadas, tiros, torturas entre outras peculiaridades (MELO, 2001;
DWOREK, 1999).
Das formas de violência contra a pessoa, existem algumas muito específicas,
denominadas de violência sexual: estupro, atentado violento ao pudor, maus-tratos e
assédio sexual. Dentre todas as formas de violência, a mais desprezada, ou seja, a que
passa quase sempre despercebida pelo senso comum e pelo interesse acadêmico
(empírico, teórico e prático) é a violência estrutural, também chamada de violência
institucional do sistema10. Este tipo de violência - que oprime, hostiliza, machuca,
humilha, transtorna é algo praticado de forma muito sutil pelo Estado, ou seja, por seus
representantes legais que agem em seu nome.

VIOLÊNCIA INSTITUCIONAL MOTIVADA PELO GÊNERO OU PELA


ORIENTAÇÃO SEXUAL DA VÍTIMA

A violência institucional foi um dos maiores desafios e dilemas que encontramos


quando nos propomos a estudar a violência de gênero e de orientação sexual: desafio
porque é muito doloroso perceber que a função realizadora tanto por parte do sistema de
Justiça Criminal, como na esfera restritiva do Poder Judiciário é uma utopia investida de
argumentos imprecisos e que tentam mascarar a sutileza da própria violência: a)
deficiência e ineficiência das agências do complexo sistema da administração da justiça
penal (AZEVEDO, 2014), onde caminha em desarmonia com os preceitos e garantias
individuais; b) a ausência de interesse tanto por parte dos policiais lotados nas
delegacias como pelos técnicos do judiciário e chefes de secretaria em possibilitarem o
acesso do pesquisador aos inquéritos policiais e processos penais que envolvessem
homicídios letais com indícios de violência motivada pela orientação sexual das vítimas
(crimes homofóbicos); c) dificuldades encontradas em quebrar a “lei do silêncio” que
opera nos casos de difícil elucidação, mesmo tendo sido apontados nas diligências
indícios de autoria e materialidade do crime motivada por homofobia, tendem a ser
arquivados, impedindo o andamento dos inquéritos; d) casos que requereriam uma ação

10
Neste sentido, ver Arendt: “A violência destrói o poder, mas não o cria ou substitui, pois, o poder, para
ser gerado, exige a convivência, e a violência baseia-se na exclusão da interação/cooperação com os
outros” (IBID., 1992, p. 193).

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rápida da polícia investigativa são deixados de lado, em virtude de a vítima não ter
visibilidade pública, sendo, por isso, desprezados; e) casos em que, mesmo tendo o
pesquisador apresentados todos os indícios de se tratar de um crime com natureza
homofóbica, são transformados em crimes de latrocínio, para assim fugir ao julgamento
do tribunal do júri, entre outros motivos, a serem demonstrados a partir da análise dos
documentos.
A este respeito José Ratton, Valéria Torres e Camila Bastos (2011), em pesquisa
realizada com policiais militares, apontam que:

Todos os policiais entrevistados reconhecem que pressões externas


favorecem o andamento dos inquéritos. Os casos de maior repercussão, que
chamam a atenção da mídia e colocam a Polícia na berlinda, tendem a ser
priorizados por causa da pressão social por uma resposta da autoridade
policial. Na mesma linha, estão os casos em que a família cobra da Polícia
uma solução [...]. (IBID., p. 44).

As violências institucionais existem tanto em sociedades autoritárias e


totalitárias, como também nas que se autodenominam democráticas. Ratton, Torres e
Bastos (2011), apontam, a partir dos depoimentos dos policiais, que os casos de
criminalidade e de violência que adentram as delegacias na Região Metropolitana da
Grande Recife são selecionados com base em prioridades e urgências, o que demonstra
uma realidade que prioriza as ações e as práticas das diligências e missões policiais, por
graus corporativamente estabelecidos. Por conseguinte, percebe-se que esta forma de
seletividade criminal (SINHORETTO, 2014), em matéria de investigação policial, serve
de exemplo para a caracterização da violência institucional, que é influenciada pelas
categorias “interesse público” e “urgência na resolução do caso” (MISSE, 2014) de
modo que os casos, em que estas categorias não se fazem presente, vão sendo
empilhados, ou postergados, para o “depois”: prática comum no cotidiano forense11.
A violência estrutural ou institucional ocorre de contínuo dentro do próprio
sistema de segurança e justiça criminal, fato este que impede e dificulta a acessibilidade
e a efetividade de direitos individuais, sociais e políticos daqueles que, em virtude de
sua condição financeira e cultural, não obtêm por parte do Estado o tratamento

11
Essa realidade foi vivenciada na pesquisa de campo, ou seja, na fase de coleta do material, quando foi
necessária a visita a várias delegacias para ter acesso aos inquéritos policiais, uma vez que muitos destes
não se encontravam nos fóruns das comarcas visitadas.

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merecido, o que atesta a existência desigual no acesso ao sistema de justiça criminal,


posto que a violência estrutural se finda no desrespeito aos direitos humanos.
Luiz Antônio Machado da Silva (2014) ressalta que o termo violência está
atrelado ao conceito operacional de “ordem social”, o qual se dá a partir das disputas e
conflitos, em maior ou menor grau, que surgem quando os indivíduos passam a se
organizar para estabelecer uma vida social. O autor aponta ainda que os atores vão,
respectivamente, construindo relações de sociabilidade, ao mesmo tempo em que
interpretam e atribuem diferentes valores, sentidos e significados às ações com os seus
pares, ensejando em uma identificação negativa ou positiva das mesmas, levando à
concretização de ações que deságuam na percepção da violência como algo que é
socialmente produzido a partir da relação de dominação e submissão entre pessoas ou
grupos (IBID., p. 27). Machado da Silva (2014) complementa suas argumentações
enfatizando que a violência obtém o sentido material apenas com a utilização da força
para manutenção de alguma ordem social, entre os participantes da disputa - alguém que
ordena e outrem que aceita ou refuta -, quando a percebem como algo “indevido e
injusto”/ “devido ou justo”, o que Weber (2009; 1991) se referiria como elementos
“garantidores da ordem” a partir da autoridade de uma pessoa ou grupo dominante.
Maria Stela Porto (2014), seguindo semelhante raciocínio, atribui que a condição
da violência, enquanto fenômeno empírico, logra “estatuto de categoria analítico e
explicativo em decorrência de sua estreita dependência face às significações culturais
das distintas sociedades nas quais se manifesta” (IBID., p. 26). De maneira que ela - a
violência - adquire diante das subjetividades envolvidas no processo em conflito,
diferentes estruturas e nuances. Ao mesmo tempo em que criam raízes na conjuntura
social em observação, se pode também, a partir de um olhar sociológico atento,
qualificar a violência como algo que se apresenta por estruturas pluriformas, com
contornos e amplitudes próprias e específicas, dificultando a sua percepção enquanto
fenômeno singular a ser combatido ou “sistematicamente identificado” em sociedade
(Porto, 2014). Michaud corrobora com esta argumentação ao entender que:

Não somente o fato de o social se referir a alguns de seus aspectos por meio
da noção de violência é independente da violência real que aí circula, mas
rapidamente ocorre que essa representação, quando intervém é conflitual.
(MIACHAUD, 1978 apud. PORTO, 2014, p. 61).

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A partir das considerações de Machado da Silva (2014), Porto (2014) e


Michaud (1978), percebe-se que o conceito de violência é algo que deve ser analisado
muito cuidadosamente, já que ele, enquanto objeto de estudo teórico, se diferencia do
senso comum, ou até mesmo enquanto experiências empíricas vivenciadas, pelo fato de
que cada ator social atribui às suas experiências de violência, significados e valores
subjetivos, os quais sofrem influência de diferentes estruturas normativas12, que
atribuem, além dos valores individuais de cada membro envolvido no processo, valores
coletivos que passam a hierarquizar condutas e comportamentos socialmente aceitos ou
renegados pela mesma sociedade (MELO, 2001).
Mascaro (2010), ao interpretar a perspectiva sociológica e relacioná-la a
formas de violência à evolução social e política brasileira, percebe que há fatores
predisponentes entre a violência e a criminalidade urbana, as quais são, para ele,
cambiantes conforme as circunstâncias históricas, políticas e jurídicas, que precisam ser
conhecidas, para posteriormente, serem combatidas, tornando possível, assim, que se
reduza a sua intensidade e, consequentemente, se diminua as dimensões do fenômeno
em questão, uma vez que as formas de violência são reflexos da própria criminalidade,
como serão analisadas na próxima seção sobre os paradigmas nas teorias sociológicas
do crime e da violência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Existem muitas teorias e abordagens – sociológicas, antropológicas,


pedagógicas, filosóficas, jurídicas entre outras ciências - que se propõem a estudar
tanto a violência, quanto a criminalidade violenta. Isto de tal modo que, estas ciências,
concentram-se em suas especificidades, epistemológicas e metodologias próprias, com
objetivo de entender, reprimir e prevenir o fenômeno da criminalidade violenta ou das
condições sociais que propiciam o crime. (BARATTA, 2011). Neste sentido, tais
concepções teóricas levam em conta que o comportamento violento, assim como as
outras formas de comportamento desviante, não tem uma aparência ou formação
universal. Pelo contrário, elas variam em suas configurações e estruturas sejam nas
esferas social, cultural ou temporal de sociedade para sociedade.
12
Aqui poderíamos falar de normas sociais, culturais, religiosas e jurídicas envolvidas com a socialização
individual de cada membro da sociedade ou com cada grupo social em específico.

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Apesar destas circunstâncias, percebe-se que tanto a distribuição quanto a


exposição da criminalidade em sociedade está circunstanciada por aspectos sistêmicos e
multivariados, que fomentam o interesse das teorias sociológicas do crime e da
violência, a partir de suas análises concretas sobre os crimes violentos, com ou sem uso
da violência. Em uma sociedade consumista, a aquisição de bens é compulsoriamente
incorporada como meta desejável a ser universalizada por todos os cidadãos em
sociedade, tornando-se critério garantidor (ou não) do status social. Ao mesmo tempo,
constata-se que as formas e os meios para atingir estes objetivos não são legítimos para
todos os membros da sociedade de forma igualitária. Assim, as diferentes teorias e
abordagens científicas sobre a violência passaram a avaliar os processos sociais,
culturais e econômicos que construíram desvantagens, injustiças, preconceitos,
discriminação, opressão por distintas formas de poder e exploração, as quais estão, não
apenas presentes no cotidiano das interações entre os indivíduos, mas também nas
estruturas funcionais instrumentalizadas socialmente para a dominação.
Ao longo desta revisão sobre as teorias sociológicas do crime e da violência,
evidenciou-se que os processos de exclusão pela violência estão substanciados por
ideologias e por práticas que alimentam a “exclusão”, em suas mais distintas
especificidades, a saber: a misoginia, a homofobia, o racismo, a intolerância religiosa,
entre outras formas. (BORILLO, 2010). Por sua vez, destaca-se que muitas destas
teorias findam por mascarar, pela instrumentalização tanto da moralidade, quanto do
preconceito, os parâmetros hegemônicos que inibiram ou dificultaram o surgimento de
abordagens teóricas, tais como, a perspectiva androcêntrica da criminalidade, conforme
salienta Portella (2014).
Provavelmente, porque as tradicionais abordagens sociológicas e criminológicas
do crime, do criminoso, da criminalidade, do controle social e da vítima, não tinham em
vista a urgente necessidade de debater sobre outras categorias não hegemônicas que
estão imbricadas tanto ao crime, quanto a criminalidade.
A este respeito, a autora salienta que, por um lado, a sociologia da violência e a
criminologia crítica direcionaram seus esforços para a promoção de uma agenda de
segurança pública que não desconhecesse ou tornasse mínimo “a experiência das
mulheres” com a violência e que, muito menos, se distanciasse das “diferentes
perspectivas” oriundas “das desigualdades de gênero e da subordinação das mulheres”

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(PORTELLA, 2014, p. 160) pelo mito da investigação imparcial como aduz a socióloga
Alison Jaggar (1997); em contrapartida, Portella defende a emergência no
reconhecimento de competências capazes de aproximar as teóricas sociológicas do
crime e da violência das do gênero, ao propor a perspectiva das “interseccionalidades”,
a qual contribuiria com a ressignificação e análise de outros indicadores sociais para
além do gênero, a saber, as questões de orientação sexual, as de identidade de gênero e
as relações étnico-raciais.
Por certo, uma aproximação ao foco da sociologia crítica de cunho feminista ou
de cunho emancipatório LGBT, como virão nos capítulos seguintes, proporcionarão a
análise específica e aproximativa, de forma mais apurada, sobre as formas estruturadas
de opressão patriarcal e capitalista que dificultam o estudo da violência. Assim, este
artigo não pretendeu, em momento algum, esgotar o tema, mas apenas introduzir as
considerações teóricas que serão, ao longo deste livro, apresentadas. Nessa
conformidade, partiu de concepções generalistas sobre a violência, em abstrato, para
aproximar o conceito generalista aos debates analíticos, em específico que se seguirão.

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SUMÁRIO
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CAPÍTULO II

ROMPENDO AS AMARRAS E TRILHANDO (DES)CAMINHOS:


PSICOLOGIA E VIOLÊNCIA DE GÊNERO NO
CARIRI CEARENSE
Francisco Francinete Leite Junior
Centro Universitário Dr. Leão Sampaio (UNILEÃO)

E nós Psicólogos e Psicólogas o que podemos fazer? Discursos, teorias, frases de


efeito. Basta! Hoje mais do que nunca o falar toma os ânimos e afloram os desejos. A
voz tem pressa e não pede passagem... invade!!!! Vem como um vômito que resulta de
um não digerir. Digerir palavras, atos e fatos. Talvez impulsionado pela indignação,
pelo medo, pelo terror que me faz assumir de fato uma posição de Pesquisador Militante
ou Militante Pesquisador. Posição que me retira da Zona de Conforto, para chacoalhar
os artigos, livros, teses e dissertações, retirando o acumulo de poeira, que invisibiliza o
que realmente importa: O ser humano.
Mas, o que posso nomear de Ser Humano? O que de fato nos faz humanos?
Consciência, Liberdade, Autonomia ou Dignidade. Sabemos que há muita vida, muita
dor, muitas lágrimas nas experiências de sujeitos que vivem no avesso da norma...Por
isso, sinto a necessidade de demarcar e fincar no espaço acadêmico do Cariri Cearense
uma Psicologia que possa contribuir para o rompimento de suas próprias amarras e
abrir-se, de fato, para o humano. Humano este que muitas vezes é colocado na posição
de abjeto.
Mas o que seria abjeto? Compartilhando do pensamento de Judith Butler em
entrevista concedida a Prins e Meijer (2002) reconhecemos a contradição que existe
entre o “não ser” presente na definição do “ser abjeto”, e a sua própria existência como
ser “materializável” por um discurso de exclusão. Relaciona-se assim, a todo tipo de
corpos cujas vidas não são consideradas vidas e cuja materialidade é entendida como
não importante.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 67

Afinal, que vidas valem a pena ser vividas? E que vidas são passíveis de luto?
Butler (1999) já havia evidenciado a necessidade de legitimar as existências e que o
ideal normativo direciona tais vidas ao status de abjetas. Os corpos considerados abjetos
pela norma estão destituídos de sua humanidade e, por isso, são relegados à
invisibilidade.
Com a ideia de performatividade, Butler (1999) apresenta-nos os indivíduos
excluídos pela norma no mesmo patamar dos gêneros dominantes, ou seja, do ideal
normativo que tem caráter ilusório e não pode ser determinante na classificação de
identidades sexuais enquanto normais ou patológicas. O corpo não acata completamente
as normas que impõem sua materialização, nesse sentido, o corpo resiste tanto às
intenções do sujeito quanto às normas sociais.
Assim, Butler nos inquieta.... E nos provoca, a partir de seus escritos a pensar:
Por que????? Genis, Gisbertas, Dandaras e tantas outras “anônimas” são invisibilizadas.
Não podem apenas despertar lágrimas, mas sim funcionar como elemento propulsor de
indignação e visibilidade à causa, fortalecendo, pois, a criação e verdadeira efetivação
de dispositivos de atenção a população LGBTT. No entanto, não sobre a perspectiva
patologizante de base psicopatológica alicerçada nos DSMs e CIDs. Mas, acima de
tudo, baseado nos direitos da pessoa humana.
Deve-se ver para além do estabelecimento de critérios diagnósticos, o
rompimento das amarras sociais de discriminação e preconceitos. Nós, enquanto
Psicólogos(as), devemos instrumentalizarmo-nos, a fim de defender o que, por certo, a
Psicologia estabelece.
Para tanto, convoco-os a pensar a partir dos princípios fundamentais que
orientam nosso Código de ética, estabelecido pelo Conselho Federal de Psicologia
(CFP), onde:

I. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da


liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano,
apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos
Humanos.
II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de
vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de
quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão. (CFP,2005, p. 07).

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Diante disso, o que temos feito? Respeito e promoção da liberdade, da


dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano. É algo que, deveras, temos
feito? E sobre a contribuição para a eliminação de quaisquer formas de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão? Silêncio.... É o que nos
resta diante da vergonha e da “quietude”, da imobilidade, que nos fazem assistir inertes
as violências cotidianas.
Mais especificamente, o Conselho Federal de Psicologia também nos apresenta,
no que se refere à orientação sexual, seu posicionamento a partir da Resolução n°
001/99 de 22 de março de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos
em relação à questão da Orientação Sexual. Cabe ressaltar que esta resolução parte do
pressuposto de que o psicólogo é um profissional da saúde e que, na sua prática
profissional, independentemente da área em que esteja atuando, considera que a forma
como cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser
compreendida na sua totalidade e que a homossexualidade não constitui doença, nem
distúrbio e nem perversão. Reitera ainda que a Psicologia pode e deve contribuir com
seu conhecimento para o esclarecimento sobre as questões da sexualidade, permitindo a
superação de preconceitos e discriminações. Observamos os escritos da Resolução que
diz:

Art. 1° - Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão


notadamente aqueles que disciplinam a não discriminação e a promoção e
bem-estar das pessoas e da humanidade.
Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma
reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e
estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas
homoeróticas.
Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a
patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão
ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não
solicitados.
Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que
proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de
pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a
reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais
como portadores de qualquer desordem psíquica. (CFP,1999).

Tais artigos sintetizam nosso papel frente à diversidade pautado nos


princípios éticos da profissão, evidenciando a não discriminação e a promoção e bem-
estar das pessoas e da humanidade. Refletindo sobre o preconceito e o desaparecimento

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 69

de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou


práticas homoeróticas. Não havendo espaço, portanto, na Psicologia, para a
patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem ação coercitiva
tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Outro aspecto importante para ser mencionado é o processo
transexualizador, que nos convoca a repensar nossas práticas. Frente a essa realidade, o
Conselho Federal de Psicologia, mais uma vez se manifesta com uma Nota Técnica
sobre o processo transexualizador e as demais formas de assistência às pessoas trans.
Alicerçado em um compromisso firmado pelo Brasil, por ser signatário da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, a qual também estabelece que toda pessoa tem
capacidade para gozar direitos e liberdades, sem distinção de qualquer espécie, seja de
raça, seja de cor, sexo e outras. Não obstante, a Lei nº 8.080/1990 (que dispõe sobre as
condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o
funcionamento dos serviços correspondentes) institui os princípios do Sistema Único de
Saúde (SUS), dos quais se destacam o direito à universalidade de acesso aos serviços e
a integralidade da assistência.
Nesse sentido, a fim de garantir a efetividade dos princípios do SUS, as
diretrizes nacionais para a realização do Processo Transexualizador foram
regulamentadas pelo Ministério da Saúde (MS), por meio da Portaria nº457/2008, que
define como Unidade de Atenção Especializada no Processo Transexualizador a
unidade hospitalar que oferece assistência diagnóstica e terapêutica especializada aos
indivíduos com indicação para a realização do processo transexualizador, além de
considerar que o acompanhamento terapêutico possui as dimensões psíquica, social e
médico biológica, contemplando, portanto, a(o) psicóloga(o) como membro da equipe
multidisciplinar.
Diante do exposto, o Conselho Federal de Psicologia CONSIDERA que a
Psicologia tem o desafio de garantir à população trans o respeito à dignidade e o acesso
aos serviços públicos de saúde e compreende que a transexualidade e a travestilidade
não constituem condição psicopatológica, ainda que não reproduzam a concepção
normativa de que deve haver uma coerência entre sexo biológico/gênero/desejo sexual.
Em conformidade com esse pressuposto, estabelece a psicoterapia como
requerida, consistindo no acompanhamento do usuário no processo de elaboração de sua

SUMÁRIO
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condição de sofrimento pessoal e social, antes e após a tomada de decisão da cirurgia de


transgenitalização e demais alterações somáticas. O processo psicoterapêutico não se
restringe, portanto, à tomada de decisão sobre cirurgias de transgenitalização e demais
maneiras de modificação corporal. É objetivo da assistência psicológica a promoção da
qualidade de vida da pessoa por meio do acolhimento e do apoio, a partir da
compreensão de que a transexualidade, e outras vivências trans, são algumas das
múltiplas possibilidades de vivência da sexualidade humana. As(os) psicólogas(os)
devem considerar as inúmeras variáveis presentes no discurso de pessoas que pleiteiam
a cirurgia transexualizadora. As pessoas trans têm autonomia e podem buscar apoio e
acompanhamento psicológico na rede de saúde pública e privada, não só em centros de
referência específicos, de modo que a psicoterapia deve ser fundamental para a tomada
de decisão na realização do processo trans.
Posto isso, o Conselho Federal de Psicologia ORIENTA que: A(o) psicóloga(o)
considerará e respeitará a diversidade subjetiva da pessoa que livremente optar pelo
processo transexualizador, garantindo o direito constitucional à saúde, ao atendimento
humanizado e livre de discriminação por orientação sexual e identidade de gênero,
conforme assegura a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde, instituída pela Portaria
nº 675/GM, de 31 de março de 2006, e o Código de Ética Profissional da(o)
Psicóloga(o). O trabalho da(o) psicóloga(o) deve se pautar na integralidade do
atendimento psicológico e na humanização da atenção, não estando condicionado,
restrito ou centralizado, no procedimento cirúrgico de transgenitalização e demais
intervenções somáticas, aparentes ou não, conforme determinação da Portaria MS nº
1.707/2008.
A assistência psicológica não deve se orientar por um modelo patologizado ou
corretivo da transexualidade e de outras vivências trans, mas atuar como ferramenta de
apoio ao sujeito, de modo a ajudá-lo a certificar-se da autenticidade de sua demanda,
englobando todo o seu contexto social. É objetivo da assistência psicológica a promoção
da autonomia da pessoa, a partir de informações sobre a diversidade de gênero e
esclarecimentos sobre os benefícios e riscos dos procedimentos de modificação corporal
e social. O sujeito deve ter clareza de que a atenção é singular e flexível e que o projeto
terapêutico pode ser modificado de acordo com as necessidades de cada um. A(o)
psicóloga(o) deverá valer-se de pesquisas e estudos culturais na área de gênero e

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 71

sexualidade na tentativa de buscar um respaldo teórico para entendimento desse


contexto social para superação da heteronormatividade. O acompanhamento
psicológico, requerido pelo Ministério da Saúde, deve basear-se no acolhimento, e/ou
na escuta e/ou na avaliação psicológica, quando necessário, ao longo de todo o processo
transexualizador. No processo de avaliação psicológica, aspectos não correlatos a
vivência trans e/ou ao processo transexualizador, como traumas, transtornos
alimentares, dismórficos corporais e quaisquer características de desordens psíquicas
precisam ser devidamente consideradas com a finalidade de promoção da saúde do
sujeito. O termo de consentimento informado deve ser um instrumento de
esclarecimento ao usuário, no serviço público ou privado. A assinatura do termo pelo
usuário não exime o profissional ou o serviço de responsabilidade em relação a sua
prática.
No entanto, assim como estabelece a Nota Técnica, cabe-nos, com um olhar
interdisciplinar, apropriar-nos dos conceitos de corpo, gênero e sexualidade de forma a
ampliar a noção de humano. Iniciando pelo conceito de corpo, percebemos que este aqui
é tomado por algo que busca uma inteligibilidade na tentativa de nomeá-lo. Goellner
(2012) nos possibilita pensar o corpo como algo produzido na e pela cultura,
apresentando tal feito como um desafio e uma necessidade. Desafio porque acaba por
romper com o olhar naturalista sob o qual o corpo foi observado, explicado, classificado
e tratado, ao desnaturalizá-lo revela que o corpo é construído historicamente. Tal
percepção abre para a compreensão de que um corpo não é apenas um corpo é também
o seu entorno, sendo esse construído também pela linguagem, revelando muito da
identidade de tais sujeitos, dado a centralidade que o corpo adquiriu na cultura
contemporânea, sem logicamente esquecermos da materialidade destes corpos.
No entanto, tal corpo para Foucault (2009) está submetido à disciplina através de
um processo denominado por ele como docilização, que traz em si o controle das
atividades e a composição das forças sob a égide do bom adestramento, exercendo sobre
esse sujeito uma vigilância constante e hierárquica com forte conotação normalizadora.
Em meio a tal discussão, Tosta e Daltio (2012), apontam que os corpos são
legítimos de existirem e devem estabelecer uma coerência atrelando o corpo sexuado
com as práticas esperadas. Pensava-se que corpos dotados de pênis se referenciavam ao
masculino, gerando o sujeito “homem” que deveria interessar-se sexual e afetivamente

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por “mulheres”, assim como, corpos dotados de vagina se referenciavam ao feminino,


gerando o sujeito “mulher” que deveria interessar-se sexual e afetivamente por
“homens”, explicitando-se uma continuidade arbitrária. Porém, percebe-se que não
existe um imperativo biológico unívoco, uma relação causal única, interligando os
órgãos determinados a certas práticas.
Vemos assim um poder sobre a vida, ou melhor, o biopoder que atravessa os
sujeitos, submetendo-lhes a condição de subordinação e de resistência à norma
instituída. Seus corpos são condicionados, disciplinados e controlados de forma a servir
ao que a sociedade instituiu como modelo. Sendo criada a sociedade do belo, do
excesso, do exagero que imbuído nos corpos são expostos como objetos a serem
desejados e consumidos. Tem-se assim a disciplinarização dos corpos e regulação da
vida. Tal forma de controle possibilitou o surgimento de diversas tecnologias
anatômicas e biológicas, individualizante e especificante; um poder que não procura
mais matar, mas investir sobre a vida. Neste contexto que vemos surgir de forma rápida
uma gama de técnicas de sujeição dos corpos e controle das populações (REVEL,
2011).
Sabe-se que existe uma íntima relação entre poder e resistência aos processos de
normalização, em que tais sujeitos buscam fazer um deslocamento das margens ao
centro. A ideia de margem relaciona-se aos sujeitos que não ocupam a posição central
na sociedade, sendo colocado na condição de minoria, escória, aquilo que a sociedade
não deseja visualizar, fazendo-nos lembrar dos Anormais de Foucault.
Continuando com as discussões de Michel Foucault (1988), percebemos que
aponta que uma sociedade normalizadora como efeito histórico de uma tecnologia de
poder centrada na vida. A vida, como objeto político, surge como resistência aos
sistemas que tentam controlá-la e, nesse sentido, foi a vida e não o direito que se tornou
objeto das lutas políticas. A esse respeito, o autor afirma que o direito à vida, ao corpo,
à saúde, à felicidade, à satisfação das necessidades, o “direito” acima de tudo, acima de
todas as opressões ou “alienações”, de encontrar o que se é e tudo o que se pode ser,
esse “direito” tão incompreensível para o sistema jurídico clássico foi a réplica política
a todos esses novos procedimentos de poder que, por sua vez, também não fazem parte
do direito tradicional da soberania (FOUCAULT, 1988).

SUMÁRIO
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A despeito, Judith Butler (1999) chama a atenção para a necessidade de


legitimizar existências que o ideal normativo direciona ao status de abjetas. Daí ser tão
complexo, revelando a ambiguidade. Levando-nos a pensar: Que corpos importam? Que
corpos que se materializam e obtêm uma legitimidade social? Os corpos considerados
abjetos pela norma estão desconstituídos de sua humanidade e, por isso, são relegados à
invisibilidade.
Nesse sentido, o engajamento da autora de colocar além de um enquadramento
filosófico feminista e se concentrar em questões éticas, a fim de desvincular do caráter
patológico aqueles que apresentam complexidades de gênero e sexualidade não
absorvidas pelo ideal normativo; através da desmistificação das configurações sociais
excludentes, devolver-lhes o direito básico de uma existência legítima.
Com a ideia de performatividade, Butler (1999) apresenta os indivíduos
excluídos pela norma ao mesmo patamar dos gêneros dominantes, ou seja, o ideal
normativo tem caráter ilusório e não pode ser determinante na classificação de
identidades sexuais enquanto normais ou patológicas. O corpo não acata completamente
as normas que impõem sua materialização. Nesse sentido, o corpo resiste tanto às
intenções do sujeito quanto às normas sociais.
Sobre a noção de gênero, compreendemos como um sistema de relações que
pode incluir o sexo, mas não é diretamente determinado pelo sexo, nem determina
diretamente a sexualidade (SCOTT, 1995).
Portanto, segundo Scott (1995), o termo "gênero", além de um substituto para o
termo mulheres, é também utilizado para sugerir que qualquer informação sobre as
mulheres é necessariamente informação sobre os homens, que um implica no estudo do
outro. Esse uso rejeita a validade interpretativa da ideia de esferas separadas e sustenta
que estudar as mulheres de maneira isolada perpetua o mito de que uma esfera, a
experiência de um sexo, tenha muito pouco ou nada a ver com o outro sexo. Além disso,
o termo "gênero" também é utilizado para designar as relações sociais entre os sexos.
Implicado nas vivências dos sujeitos, a sexualidade, o sexo e a noção de gênero
convoca-nos a pensar numa relação íntima com o poder, ou seja, com os jogos de poder
e saber, cabendo à reiteração da compreensão de que as pessoas não têm discursos, ela é
permeada por discursos advindos de instituições e reproduzida pelos sujeitos,
provocando atravessamentos.

SUMÁRIO
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Tais influências são decorrentes da cultura, sendo percebido no movimento de


generificar o corpo. Thomas Laqueur (2001) enfatiza o quanto o papel da ciência foi
importante enquanto marcador que influencia as questões de gênero, corroborando para
a definição das posições e subjetividades assumidas. Os saberes da ciência acabam por
produzir verdades nos corpos numa tentativa de inteligibilizá-los.
Ressalta Laqueur (2001) “que a visão dominante no século XVIII, da diferença
anatômica entre dois sexos, acarretou mudanças no acesso de homens e mulheres à vida
política, econômica, cultural e na definição de papéis sociais distintos” (p.18); tais
diferenças delineariam as possibilidades e finalidades sociais de cada sexo. O contexto
para a articulação da concepção da diferença sexual entre homens e mulheres não era,
segundo Laqueur (2001), reflexo dos avanços nos conhecimentos científicos; era
político, atravessado por conflitos e lutas pelo poder e por posições na esfera pública.
Donna Haraway (2004) apresenta-nos o Gênero como um conceito desenvolvido
para contestar a naturalização da diferença sexual em múltiplas arenas de luta. Retoma
as abordagens marxistas tradicionais que não levaram a um conceito político de gênero
por duas razões principais: primeiro, as mulheres, como os povos “tribais” existiam de
maneira instável nas fronteiras do natural e do social nos escritos mais importantes de
Marx e Engels, de modo que seus esforços para explicar a posição subordinada das
mulheres foram minados pela categoria da divisão natural do trabalho, que se apoia
numa heterossexualidade inquestionável; segundo, Marx e Engels teorizaram a relação
econômica de propriedade como a base da opressão das mulheres no casamento, de
modo que a subordinação das mulheres pudesse ser examinada em termos das relações
capitalistas de classe, mas não em termos de uma política sexual específica entre
homens e mulheres.
Haraway (2004) complementa trazendo o Gênero enquanto problemática
individualista, dentro da ampla incitação à sexualidade, sendo essa uma característica da
sociedade burguesa, dominada pelos homens. Ressaltando assim que os conceitos e
tecnologias da “identidade de gênero” foram produzidos a partir de vários componentes.
Inclusive uma leitura de Freud; o foco na psicopatologia e somatologia sexual dos
grandes sexologistas do século dezenove (Krafft-Ebing, Havelock Ellis) e seus
seguidores.

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Em meio a este contexto, podemos tomar as discussões de Teresa de Lauretis


(1994), que defende a ideia de que os discursos (institucionais, artísticos (como cinema
e literatura), entre outros), em sua totalidade, contribuem para perpetuar as diferenças
estereotipadas impostas para diferenciar masculino e feminino. Suscita-nos a pensar
alguns pontos, tais como: afirmar ser o Gênero é uma representação” e se concretiza no
comportamento das pessoas; traz “A representação do gênero é a sua construção” e
evolui à medida que a sociedade também evolui; destaca que a construção do gênero é
ininterrupta. E, por fim, afirma que a construção do gênero também se faz por meio de
sua desconstrução.
Retomando Donna Haraway, percebemos que em seu texto “Um Manifesto para
os cyborgs: Ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de 80”, publicado em
1994, apresenta-nos a figura do cyborg. Esse é visto como um organismo cibernético
híbrido; máquina e organismo, uma ligação da realidade social com a ficção. Fazendo-
nos pensar o quão hibridizado estamos com as questões da tecnologia e o avanço das
ciências. Haraway (1994) coloca o cyborg como uma criatura num mundo pós-gênero,
evidenciando o trânsito, o borrado das fronteiras, antes tão demarcadas.
Diante disso, identidade e diferença requerem espaço para uma melhor
compreensão, possibilitando um exercício de desconstrução, entendida não como
destruição, mas como a possibilidade de uma retomada e abertura para
questionamentos. Silva (2007) apresenta-nos que a diferença e a identidade são
constituintes do sujeito e produzidas socialmente. Assim, afirma ser a identidade aquilo
que simplesmente se é na mesma linha de raciocínio a diferença é entendida como
entidade independente, ou seja, aquilo que o outro é. Dessa forma, a identidade e a
diferença são, nessa perspectiva, concebidas como autorreferenciada, como algo que
remete a si própria. A diferença, tal como a identidade, simplesmente existe. Portanto, a
identidade depende da diferença, a diferença depende da identidade, pois são
inseparáveis. Cabe também ressaltar que se faz necessário pensar a identidade como
pontos de apego provisório e não como instâncias imutáveis.
Partindo desse contexto, tem-se a possibilidade de pensar a sexualidade, sendo
essa compreendida como um constructo histórico e social, percebido por Michel
Foucault como um dispositivo. Afirmando que a sexualidade é um dispositivo
historicamente construído, uma vez que a sexualidade é um construto histórico-social

SUMÁRIO
ISBN 978-85-463-0257-4 | 76

que está submetida a múltiplos discursos sobre a manifestação e regulação da mesma.


Discursos esses que regulam, normatizam, instauram prazeres e produzem “verdades”.
A definição de dispositivo sugere a direção e a abrangência dos meios de “vigia” e
“coerção” social, como sendo um conjunto heterogêneo que envolve discursos,
instituições, organizações, leis, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais,
filantrópicas, ou seja, o dito e o não dito. (Foucault, 1993)
Tem-se assim a possibilidade de pensar que a sociedade exigiu/produziu formas
e modos de pactuações que acabaram por redefinir os processos sociais, através da
reprodução do olhar permeado por uma perspectiva moral e médica sobre a sexualidade,
inclusive sobre suas práticas e condutas. Sabe-se que para Foucault (1988) a ordem
sociossexual de uma cultura não está fundada somente na repressão, e sim na existência
do que ele denominou como dispositivo de sexualidade, que inclui atitudes e
instituições várias e, sobretudo, grandes estratégias de poder, incitando a falar do sexo
enquanto verdade do sujeito.
Assim, com base em Foucault, Jeffrey Weeks (2010) argumenta que a própria
ideia de “sexualidade” como um domínio unificado é essencialmente uma ideia
burguesa, desenvolvida como parte da autoafirmação de uma classe ansiosa para
diferenciar a si mesma da imoralidade da aristocracia e da promiscuidade supostamente
irrestrita das classes inferiores. Cabe ressaltar que os dispositivos agem sobre os sujeitos
constituindo e produzindo marcas (discursivas) sobre os corpos.
Por fim, finalizo estas palavras dando ênfase à necessidade de empoderamento
desta população invisibilizada e marginalizada, através da abertura dos profissionais,
principalmente dos(as) psicólogos(as). Além de ressaltar a importância dos movimentos
de resistência e não vitimização que ressignificam e reposicionam os sujeitos na luta
pelo direito de ser o que são. Tais reflexões nos fazem perceber que as trajetórias desta
população são marcadas por lutas e resistências, mostrando-nos que a vida dessas
pessoas pulsa e advém do prazer e do desejo, além da capacidade de transformação e
superação, mostrando-nos que o que verdadeiramente importa para a Psicologia deve
ser sempre a beleza da Complexidade e Diversidade da Existência Humana.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 77

REFERÊNCIAS

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CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução n° 001/99 de 22 de março de 1999. Disponível


em: <http://www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/legislacao/legislacaoDocumentos/.>.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução n° 010, de 21 de julho de 2005. Aprova o Código


de Ética Profissional do Psicólogo. Disponível em:
<http://www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/legislacao/legislacaoDocumentos/codigo_etica.pdf>.

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SUMÁRIO
ISBN 978-85-463-0257-4 | 78

CAPÍTULO III

ENEGRECER, EM NEGRA SER: FIOS QUE TRAMAM E


DESTRAMAM AS ARTIMANHAS DA INVISIBILIDADE DA
MULHER NEGRA
Jéssyca Diniz Medeiros
Universidade Federal do Ceará (UFC)

[...]me gritaram Negra!


Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
[...] E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro.
(Victória Santa Cruz)

INTRODUÇÃO- Preludio

A presente proposta pretende tratar assuntos relativos ao contexto baseado na


minha história de vida e formação, como também refletir a respeito dos contextos
sociais ao qual a formação (des)humana do negro ocorre, mais precisamente no tocante
e focando na mulher negra. Tentar refletir a respeito dos mecanismos sociais que
operam em função dessa manutenção da subalternidade e inferioridade, fundadas a
partir dos interesses e progressos da era moderna, e que, de algum modo, ainda são
operantes e potencializadas até hoje, não necessariamente na forma da violência física,
contudo e, principalmente, contidas e reformuladas através e pela violência simbólica.
Essa, por sua vez, opera e atua livremente disfarçada com sutileza e leveza, porém,
fortes e enérgicas o suficiente para manter estruturas de desnível social e desprestígio
perante a mulher negra. Espero desse modo, elucidar com precisão esses desafios em
torno da permanente existência e insistência do racismo velado. Ou ainda como
considera Figueiredo e Grosfoguel (2009), o “racismo a brasileira” e seu contexto

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 79

histórico social de diferenciar subalternamente a partir do fenótipo.


Perceber a operacionalidade sutil desse racismo e dessa estrutura, e que ainda é
herdeira do colonialismo europeu, que hoje é trajada e assumida pelo imperialismo
norte-americano regido pelo capitalismo do sistema-mundo, é o início de um fio
condutor que direciona, logo em seguida, a um complexo e difícil emaranhado, onde
segundo Castro-Gómez (2005), desde o século XVII, atuam conceitos tais como,
“barbárie e civilização, tradição e modernidade, comunidade e sociedade, mito e
ciência, infância e maturidade, pobreza e desenvolvimento”, entre outros, para atender a
uma demanda elitista e hegemônica, criadora de um imaginário de superioridades e
inferioridades, para atender a dispositivos de poder colonial. No entanto, é preciso ser
astuta e observadora, a fim de, pacientemente, fio a fio, nó por nó, trama a trama
perceber as constituições de manutenção e estratégias que fortemente se sustentam até
hoje.
O que, de fato esse, breve panorama teria com a situação de invisibilidade da
mulher negra? Muita coisa, ou ainda quase tudo, pois as dimensões sociais da
contemporaneidade, são, em muito, reflexos do processo iniciático do modelo de
imposição e subalternidade imposta a tudo, todos e todas que era tido como diferentes.
E, no tocante ao processo do negro, o ser mulher negra, é colocado perante a sociedade
como um certo desprestígio, deslegitimidade humana, sem deixar de colocar o fator da
não representatividade social.
Montando assim, uma composição desfavorável e ilegítima ao ser negra, é como
se fosse uma soma paradoxalmente negativa no aspecto a valores formulados, medidos
e pesados por eles, ou melhor, por ela: sociedade rabiscada, desenhada e emoldurada em
configurações patriarcais; machistas; branca; cristã; heteronormativa. Ao qual
determinam regras de condutas e ações de um padrão feito e elaborado ao seu
julgamento e medida, onde, tudo que não estiver nesses padrões, acarretará
desprestígios acrescido. Assim sendo, e tomando como exemplo, pegaremos o seguinte
fato: Mulher, negra, praticante de religiões afrodescendentes ou nativas, acima do peso,
militante de movimentos sociais, lésbica ou bissexual. Palavras essas, ou mais forte
ainda, formas de viver que anulam, excluem, invisibilizam, marginalizam, te violentam
física e simbolicamente.

SUMÁRIO
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O aparelho repressor e modelador da normalidade é cruel, mecânico e global,


com todos os atributos remanescentes historicamente ao peso e singularidade que foi
expresso ao uso do conceito de universalidade como excludente e em negação do outro,
para uma maior compreensão dessa perspectiva colonizadora do termo universalidade,
ou ainda do eurocentrismo como modelo ditador daquilo que seria universal, Hountodji
(2010) e Ramose (2011), chama a atenção no tocante ao contexto histórico do termo
enquanto uma égide atuante e com voga em interesses totalitarista e hegemônicos, não
deliberando assim os atributos específicos e singulares das particularidades.
Nesse caso, essas particularidades que seriam atribuídas a cada povo ou
civilização, são anuladas, tratadas como inferiores ou irrelevantes, pois, partindo da
lógica conclusiva do cristianismo, onde afirmavam por postulados a respeito da “origem
e destino da humanidade em última instância abrangem e aplicam-se a tudo o que
existe” RAMOSE (2010). Essa imposição do cristianismo, juntamente com as ideias
filosóficas de que só os seres humanos ocidentais eram dotados de razão, foram pilares
fundamentadores da criação subumana e, nesse caso, ser mulher e ser mulher negra, te
deslegitimava mais ainda.
É preciso entender, também, que ocorreu uma espécie de sutileza no tocante à
reflexão filosófica e científica, que foram fundamentais no processo de legitimação das
invasões, como também de escravização dos povos. Lander (2005) aponta que, na visão
e medida dos colonizadores, a essência ontológica dos povos invadidos eram tidos como
inferiores, principalmente no sentido racial, incapazes de se superar e tão pouco de
alcançar a modernidade. O filósofo Mbembe (2013, 2014), traz uma problemática
referente à “produção” da alcunha de Negro pelo colonizador, como um fator
degenerativo e insuficiente de alma, e de “uma tripla lógica de ossificar, envenenar e
calcificar”, onde, a partir daí, as teorias do racismo científico, que vão do séc. XVI até
XIX, legitimadas pela igreja, dão às pessoas do continente africano a “purificação da
alma” e libertação dos pecados através do trabalho escravizador.

O substantivo *Negro* é depois o nome que se dá ao produto resultante do


processo pelo qual as pessoas de origem africana são transformadas em
mineral vivo de onde se extrai metal. Essa é a sua dupla dimensão
metamórfica e econômica. Se, sob a escravatura, África é o lugar privilegiado
de extracção deste mineral, a plantação no Novo Mundo, pelo contrário, é o
lugar da sua fundição, e a Europa, o lugar da sua conversão em moeda.
(MBEMBE, 2014, p.78).

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 81

Essa violência e violação epistêmica e física, que gerou a escravização e


invenção do “outro” enquanto modelo irracional de humanidade, é/seria uma
contradição eurocêntrica sobre a sua própria presunção de seres racionais e dotados de
alma humana com permissão divina. Presunção essa que deixou uma herança simbólica
de inferiorizar; deslegitimar; invisibilizar; violência sistemática em várias vertentes
sociais; racismo; preconceito e uma contínua ação epistemícida, ou ainda de
simplesmente negar essas outras possibilidades. Essa universalidade é até hoje fruto de
uma epistemologia branca e objetiva enquanto medida eficaz daquilo que eles chamam
de educação e educar os seres. Num processo quase sempre de retirar aspectos fora do
que seria o comportamental correto, ao que eu chamaria de mutilações do
comportamento da pessoa.
A professora Silva (2010) coloca que o termo educação não existe em muitas
línguas ancestrais africanas, termo esse que entrou lá com a escola que o colonizador
organizou e implantou, em vez desse termo, tanto muitos países africanos e
afrodescendentes utilizam o tornar-se pessoa. Silva ainda aponta que esse termo,
historicamente, está encaixado nos aspectos voltados “a postura, valores,
comportamentos, conhecimentos reconhecidos pela classe social e grupo racial branco
que detém o poder de governar as sociedades” (2010). Ao me propor refletir essa
dimensão social do que seria educação, percebo que os componentes implícitos e
explícitos são detidos por um poder opressor e elitista, onde formulam os seus interesses
intelectuais e até comportamentais da condição de doutrinamento e pertença de suas
regras. Em vista disso, esse trabalho pretende pensar sobre educação não como um
termo colonial, mas como uma palavra culturalmente hibridizada de resistência de
corpos, de gênero e de psi (embora não tenham como tratar dessa grande área, por
tratar-se de um trabalho de grande fôlego conceitual).
Analisar esse percurso que trilhei, e até onde cheguei, fazem-me hoje refletir
sobre minha educação escolar, social, política e familiar, no aspecto de legitimação e de
sequência de moldes ditatoriais da “boa e correta” conduta. Não posso fazer essa
afirmação sem olhar ao meu redor e perceber o quanto ainda temos e somos
educados/“manipulados” nos padrões que a “civilidade” europeia oferta e configura
como adequada, a educação brasileira, que, ainda hoje, tem mecanismos educacionais e
um sistema de manutenção do status quo. Por relevância dessa afirmação, encontro as

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considerações da professora Gomes (2010), em um trabalho que versa a respeito das


intelectuais negras e negros, e as tensas dinâmicas de se manter social e racialmente (cor
da pele) no mundo acadêmico, devido às relações de diferenças e hierarquias sócias
serem dirigidas por tradições onde geralmente o negro era objeto de pesquisa, e não
sujeito ativo e escritor de sua própria história.
É interessante delinear a esse momento outro contexto histórico e conceituador
da diferença de valores simbólico. Hofbauer (2010) argumenta que uma das
fundamentações e construção ideológica para a colonização, é retirada do antigo
testamento da bíblia cristã, mais precisamente do livro Gênesis, onde lá é feita uma
igualação entre os termos “negro” e “escravo”. Mais à frente, ele coloca que a “cor da
pele” não estava ligada a teorias raciais ao início da colonização, contudo, essa ligação
era dada a um caráter moral e religioso, que, posteriormente, veio a ser usado enquanto
discurso de dominação. Atentar-me a esse contexto que, em muitos casos, não são
repassados historicamente à maioria da massa populacional, conservando, assim, uma
vertente histórica onde o povo negro sempre foi subordinado à força de trabalho
escravizado e, após isso, a trabalhos tidos como subalternizados.
Diante desse breve panorama de negação, exclusão e inferiorização, me perceber
enquanto mulher e negra, militante do movimento de mulheres negras, me propor a ser
educadora/pesquisadora, é para mim mais que um ato de assumir categorias, é, sem
dúvida, um ato político. Assim sendo, entender como me tornei educadora/professora?
Qual a educadora/professora que ainda pretendo me tornar? Ao buscar recordações
trago lembranças alegres, reluzentes, vitoriosas, algumas tristes, banhadas de lágrimas e
o mais importante sentimento de que todos esses percursos foram indispensáveis para
chegar aqui, para levantar as bandeiras que levanto, para ter minhas crenças (de vida e
acadêmicas), e para continuar caminhando e o mais importante, trilhando meus próprios
caminhos de vida e de escrita. Como expõe Josso (2004), as experiências de vida e
formação são hoje utilizadas enquanto abordagem biográficas e metodologias de
pesquisa,

[...] parece-me indispensável reconstituir a rede de acontecimentos interiores e


exteriores que marcaram a minha existência de ser pensante e reflexivo. Se esta
questão me remete para experiências que remontam mais ou menos longe no
meu tempo de vida, tenho razões para pensar que, para compreender este
caminho, é necessário situar a minha história particular em contextos coletivos
[...] que remete para a constituição de referenciais mais ou menos coerentes e
conscientes que estruturam a minha visão do mundo; outra, que reenvia para

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 83

modalidades de constituição de um conhecimento ou de uma referência teórica.


(JOSSO, 2004, p;115).

Ao falar sobre mim não estou apenas falando de uma unidade, mas sou parte do
contexto de jovens/mulheres negras que chegaram à graduação em uma instituição
pública federal, que chegam à pós-graduação/mestrado, que trilham um caminho
passando por vários obstáculos que nossa sociedade, cabendo ressaltar que esses
obstáculos nem sempre são num plano reto cartesianamente falando, mas, na maioria
das vezes, são postos em um plano de idas, vindas, círculos e abismos, tudo isso devido
ao processo e projeto político de mestiçagem e mito da democracia racial. Pois fazem
parecer que há oportunidades iguais para todos e todas, em vários níveis sociais,
deixando mais sútil e quase invisível o racismo e estruturação hegemônica de
desprestígio social à mulher negra.
Ressalto que dentro da minha trajetória de vida e formação passei por um
processo lento, por alguns motivos doloroso, mas que tiveram e tem funções de causa e
efeito, que me remeteram a uma visão ampla, um pensar crítico e uma postura
reivindicativa de viver e de (re)educar, esse processo foi o meu reconhecimento como
mulher negra. Nesse ponto, trago essa proposta escrita, a qual a mesma é composta por
inúmeros fragmentos de fala feitas por mim em palestras, rodas de conversa e debates
sobre contextos históricos de violência e desafios de ser mulher negra na
contemporaneidade. Essas dificuldades, entre tantas, como aponta Silva (2010), fazem
parte da reprodução e representação social, que se constituem como senso comum aos
que visualizam e transformam aquela “imagem” muitas vezes midiáticas, outras até em
livros didáticos, em norma.

DESENVOLVIMENTO - Adágio

Enegrecer; em negra ser; em ser; ser ou não ser? Os processos que operam em
decorrência da invisibilidade da mulher negra, caminham juntos com uma série de
fatores históricos e reverberantes da colonização, embora, em tempos contemporâneos,
temos que nos atentar a fatores da neocolonização e do novo dominador, é indispensável
pontuar que religião, moral, interesses econômicos, ciência e estado, sustentaram, por
muitos séculos, a condição de inferioridade da mulher e, de algum modo, deixaram

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essas funções a cargo de representações sociais, mídia e instituições como a própria


escola, de promoverem esse processo de invisibilizar e subalternizar essa constituição
do feminino na mulher negra. Cabe ainda, apontar que ocorreram processos políticos e
científicos no início do século XX, como mostra:

Um nítido exemplo disto estava presente nos discursos proferidos por


intelectuais brasileiros no I Congresso Universal das Raças, realizado em
Londres, em 1911. Os discursos políticos possuíam a “sugestão explícita de
deixar o afro-brasileiro propositalmente indefeso”, prevendo a extinção desde
componente étnico da sociedade para o ano de 2012. Tal possibilidade de
extinção dos negros da sociedade brasileira foi alimentada pelo ideal do
branqueamento dos “mulatos” através de um processo de eugenia. (Campos,
2008, p. 4).

Como eles tinham convicções cientificamente que a cor branca era superior em
todos os aspectos a cor negra, acreditavam de fato que haveriam uma extinção, tanto no
campo social físico como simbólico, embora o projeto político de extinção não vingou,
pois não tinha percebido que não eram apenas fatores fenótipos, porém genótipos.
Embora o processo de extinção não tivesse vingado, logo em seguida veio o processo de
branqueamento físico, também conhecido como processo de mestiçagem, outro projeto
político ideológico de extinção, essa no caso de um viés mais psicológico, como
podemos ver em Munanga (2008), “seu ideal inculcado através de mecanismos
psicológicos ficou intacto no inconsciente coletivo brasileiro, rodando sempre nas
cabeças dos negros e mestiços. ”, o autor ainda explica que uma das grandes
dificuldades da população se perceber por identidade negra, é justamente ao fato desses
dois projetos políticos de invisibilizar, deslegitimar e dividir através do ideário de
branqueamento do negro, eliminando assim o ditado “a união faz a força”. Pois, uma
vez que nem todos atentos ao fato de perceber em si essa identidade, politicamente
falando, não há assim o devido interesse de somar com aqueles que se percebem negros.
Após o fim da segunda guerra, tanto a teoria do racismo científico como o
projeto de mestiçagem tivessem perdido muita força, o ideário de branqueamento ainda
é muito forte em dias atuais, forte e paradoxalmente sutil, no tocante a como a mesma
entra imperceptível em nosso imaginário coletivo através da representação social
apresentada diariamente e impregnada de um discurso progressista econômico e de
moral hegemônica. Mas, de fato, qual seria/é o real motivo do ideário branqueamento?
A resposta é, diretamente, manter ou continuar mantendo um padrão hierárquico de

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superioridade social, assegurando assim interesses econômicos mais acessíveis à elite,


juntamente com a não mobilidade financeira, ou ainda ascensão social e econômica e
intelectual do negro, nos cargos e funções tidos como locais de prestígio.
Em Nascimento (1978), ele apresenta esse ideal nascido a partir do “medo”,
medo daquilo que seria diferente ou simplesmente o medo de uma certa aproximação
social de valores econômicos, desse modo, esse medo fortificou a proposta de extinção,
justificando assim, e sendo pano de fundo, para manter os locais sociais de privilégios
ao longo da história e, principalmente, ele atenta para o fator cruel de manter a
subordinação sexual das mulheres negras. Munanga (2008) traz também relevantes e
lamentáveis considerações a esse (des)respeito, com a causa da mulher africana e
afrodescendente, nas palavras do autor:

Visto dentro desse contexto colonial, a mestiçagem deveria ser encarada,


primeiramente, não como um sinal de integração e de harmonia social, mas
sim como dupla opressão racial e sexual, e o mulato como símbolo eloquente
da exploração sexual da mulher escravizada pelo senhor branco [...] por esse
motivo, as autoridades da colônia viam o casamento misto como uma
conjunção criminal de homens e mulheres de espécies diferentes que
geravam frutos considerados como desordem da natureza, para não dizer
desordem social. (MUNANGA, 2008, p.29).

Acrescentando essa lastimável subordinação física e psicológica da mulher


africana e afrodescendente, Nascimento acrescenta que:

A norma consistia na exploração da africana pelo senhor escravocrata e este


fato ilustra um dos aspectos mais repugnantes do lascivo, indolente e
ganancioso caráter da classe dirigente portuguesa. O costume de manter
prostitutas negro-africanas como meio de renda, comum entre os
escravocratas, revela que além de licenciosos, alguns se tornavam também
proxenetas. O Brasil herdou de Portugal a estrutura patriarcal de família e o
preço dessa herança fio pago pela mulher negra, não só durante a escravidão.
Ainda nos dias de hoje, a mulher negra, por causa da sua condição de
pobreza, ausência se status social, e total desamparo, continua a vítima fácil,
vulnerável a qualquer agressão sexual do branco. Este fato foi corajosa e
publicamente denunciado no Manifesto das Mulheres Negras, apresentado as
Congresso das Mulheres Brasileiras realizado na Associação Brasileira de
Imprensa, no Rio de Janeiro, em 2 de Julho de 1975: ... as mulheres negras
brasileiras receberam uma herança cruel: ser o objeto de prazer dos
colonizadores. O fruto covarde cruzamento de sangue é o que agora é
aclamado e proclamado como ‘o único produto nacional que merece ser
exportado: a mulata brasileira. ’ Mas se a qualidade do ‘produto’ é dita ser
alta, o tratamento que ela recebe é extremamente degradante, sujo e
desrespeitoso. (NASCIMENTO, 1978, p. 61 e 62).

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Tanto Nascimento quanto Munanga trazem aspectos históricos de exploração e


condições de tratamento desumanos, principalmente no tangente à mulher negra, e à
cruel conta que pagamos até hoje, pois embora o relato conste de Nascimento conste do
ano de 1978, em dias atuais a essa escrita, e eu enquanto mulher negra, afirmo que o
tratamento como objetificação ainda é forte e opressor, causador assim de situações
constrangedoras e deploráveis. Em plenos 2017, nossos corpos femininos ainda são
vistos e tratados como sinônimo de facilidade sexual, descartáveis e disponíveis, a
cultural mental de servidão à Casa Grande e ao senhor de engenho ainda são afinadas e
amoladas, como punhais sedentos e apresados, prestes a dilacerar a carne, mas sem
fazer um barulho sequer, sem ser sequer percebido. Montada e estruturalmente
fortificada por uma estrutura patriarcal elitista que parece não ceder, não ter fim, ser
resistente ao grito, à luta, à intelectualidade, ao empoderamento.
Tanto vale como é imprescindível mencionar que as teorias do racismo científico
emolduraram o imaginário sociocultural, não apenas brasileiro, mas a nível mundial de
que a questão cor era dotada de impureza de alma e sequer eram vistos como gente,
porém como seres subumanos, tal teoria foi legitimada e “abençoada” pela igreja, outra
instituição beneficiada secularmente pela força do trabalho e exploração. Essa teoria foi
desenvolvida no continente europeu, tendo assim representantes em vários países do
mundo, não diferentemente no Brasil, dois nomes muito “importantes” e responsáveis
por estudos e pesquisas, são o médico maranhense Raimundo de Nina Rodrigues e o
intelectual Sílvio Romero. Apesar de ocorrer algumas discordâncias entre ambos,
concordavam que o negro daria uma influência negativa hereditária e social ao processo
formativo de identidade nacional, como também uma sociedade cheia de distúrbios e
desequilíbrios psíquicos, assim como formularam a ideia de que seria então o povo
negro uma raça propícia às más condições da criminalidade.
Apenas por questões de contextualização e legitimação de escrita científica
foram citados os dois “intelectuais” acima (e como tratar a respeito de ambos é preciso
um folego mais resistente), com intuito de demostrar qual facilidade de acesso social e
de senso comum foi construída a imagem e presença do povo negro como degenerativa
e doente na sociedade brasileira. Essa mesma sociedade que evoluiu às duras custas do
trabalho escravizado e da exploração sexual, impregnada, pois, pelo desejo de progresso
e avanço social, querendo apagar as marcas de suas ações de violação e violência

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deixadas a rastro de sangue, em um dos capítulos mais duradouros, amargos e sim


insanos, do processo histórico de formação do povo brasileiro.
Tal processo deixou marcas dolorosas e ainda reverberantes, ao nos percebermos
(ser) mulher negra, ocorre uma espécie de dilatação “pupilar”, sendo que essa dilatação
é apenas um processo de entender os mecanismos históricos e científicos que nos tratou
e ainda insiste em transformar em objeto, mencionando ainda a ação de invisibilizar e
deslegitimar a cada oportunidade, o processo insiste em ser árduo e pesado, embora
expresso sutilmente, assim sendo, basta observar os seguintes aspectos: Nossos corpos
femininos são hipersexualizados, tratados como proposta de diversão e “convite” ao
turismo, nossa capacidade de raciocinar é negada; os homens negros também são
hipersexualizados, tratados como mão de obra barateada e, muitas vezes, terceirizada;
nossos jovens são em muito tratados como delinquentes; e nossas crianças, desde
pequenos, são expostos a uma mídia refinada, onde os super-heróis geralmente, ou em
sua maioria, são brancos, bem sucedidos, os cargos mais importantes à frente dos ecrãs
são de pessoas também brancas, as bonecas e bonecos, em sua grande maioria, do
mesmo modo.
Cabendo assim ao negro, nessa representação social, os papéis de desprestígios,
de loucura, delinquentes, sujos, ou ainda trabalhos onde não há prestígios sociais e tão
pouca visibilidade. É salutar elucidar que todas as formas de labuta são dignas, a
questão argumentativa para essa escrita é justamente expor que a representação social
do negro, não há quase sempre uma quebra ou ascensões sociais a cargos e posições
ditas de prestígios. Silva (2007), propõe que, ao vermos uma situação exposta por
representação, não significa necessariamente que na realidade aquele papel ativo seja
correspondente.

A representação social se constitui pelo processo da percepção e


internalização de estímulos distantes [...] a sua presença não é necessária,
porque um ser representado â consciência é atualizado, modelado, apesar da
sua ausência ou até de uma eventual existência. Dessa forma, a representação
de algo pode não ser do inicialmente percebido, mas do construído a partir de
elementos que a ele acrescentamos, no processo de modelagem e
reconstrução. (SILVA, 2007, p.93).

Essa representação social, podemos entendê-la como uma versão atualizada para
o senso comum, partindo da ideia de que a mesma vem redimensionar para as ações e

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funções sociais o comportamento ou ação que foi utilizado no livro, revista, novela, e
conteúdos ligados as classes sociais, tal projeto pode ser visto com bastante desapreço
por autores como Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala, em livros infantis do
escritor Monteiro Lobato, onde soube trabalhar muito bem, e com devido cuidado de
disseminar nas mentes infantis, um imaginário subalternizado, não intelectualizado e
servil da mulher negra. Em contrapartida, na educação básica, não se ouvi falar muito,
tampouco estudar, na academia não fica tão distante essa realidade. Quem são os
escritores e escritoras negras na literatura e outras áreas do conhecimento?
Assumir uma identidade étnica hoje no Brasil diante dos breves panoramas
apresentados, é mais que um ato político, mas sim um ato de sobrevivência e
resistência, compreendo que é muito complexo dar-se a essa realidade de identidade
étnica, como agir nas ações indiretas do racismo a brasileira? Como encarar diariamente
e ter que repetir outras tantas a mesma coisa, o mesmo processo social? Como não ficar
diante de interrogações de cargos, carreiras e status alcançados e ter que ficar
elucidando como chegou lá? Como se portar à porta eletrônica do banco que faz sinal
sonoro apenas para você? São essas interrogações mais que relatos do cotidiano de
negros e negras no Brasil, na verdade, são aqui provocações sociais de nos colocarmos a
perceber as diretrizes de formas de tratamento.
Mesmo que neguemos quem somos fenotipicamente, a mesma sociedade que
sugere delicadamente o branqueamento, ainda assim encontra meios de nos mostrar
quem somos e qual foi nosso papel social histórico, histórico esse onde contam apenas o
que querem contar, pois nunca me foi dito nos livros didáticos, nem professores, nem
mídia que o povo roubado eram reis e rainhas, príncipes e princesas, sacerdotes e
sacerdotisas, dentro outras funções sociais que cada comunidade de cada povo de cada
País africana exercia com liberdade.
A elite, em sua cômoda ação, apenas nos aponta seus mitos, entre eles aparece
mais um, é agora a vez do discurso da democracia racial, fortificado nas entrelinhas pelo
projeto de miscigenação, onde fazem questão de nos culpabilizar, justamente pelo
processo histórico criado por eles, reenviando, assim, a dura culpa de não termos nos
esforçado o suficiente seja lá para que for. Esse não mata tanto fisicamente, mas anula
da mesma forma e faz um trabalho psicológico longo e fortificado. Seriam esses mitos
medos? Gomes (2010) traz à reflexão o fator paradoxal da ascensão social do negro no

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Brasil, mesmo que ascendam de grupo, continuam a sofrer descriminação e encontram


obstáculos nas portas de estabelecimentos, instituições, e outras esferas de convivências
com brancos. Esse dado trazido pela autora é de meados dos anos 50, e embora já
tenham passado quase 50 anos desde a pesquisa, as formas de distinção continuam
quase que inalteradas, sem contar que a dupla cor da pele e cabelo são sempre
observados juntos.
É preciso resistir, mas, acima de tudo, é preciso primeiro se perceber como
pessoa (dotada de vida e características fenotípicas, sensoriais, emotivas, humanas).
Coloco isso remetendo-me a respeito da escrita visceral de Carolina Maria de Jesus,
Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, entre tantas outras que, com sua forte oralidade,
como, Aqualtune, Dandara dos Palmares, Negra Anastácia, Preta Tia Simoa, e quantas
milhares invisibilizadas e impossibilitadas de terem sido colocadas na história. E
refletindo de tantas outras falas femininas que ainda se encontram guardadas no âmago
da invisibilidade, e sequer sabem ainda que têm esse direito de pensar/expressar.
Do não ser ao enegrecer, do invisível à aquela que incomoda, que atrapalha, que
tem local de fala, que está aprendendo a gritar quando ninguém quer ouvir. Escrever
para mim é bem mais que um ato de liberdade, é um ato político em todos os sentidos,
principalmente de resistência e autodefesa.

IDENTIDADE COM O CANDOMBLÉ, E GRUPO DE MULHERES NEGRAS


DO CARIRI PRETAS SIMOA - Andante andantino.

Como foi tratado em linhas anteriores e gerais, essa escrita trata-se de uma
metodologia de história de vida e formação, com aspectos e traços fortemente
biográficos. Dessa forma, Josso (2004), uma vez colocados os caminhos intelectuais
que deram origem às questões teorizadas, e juntamente com a formação, surge a
fragmentação do registro pessoal aos conceitos de “educação, processo e
conhecimento”. Entendo essa metodologia como um híbrido entre itinerário de
conhecimento prático, teórico e itinerário de formação humana.
Diante disso, visualizo toda essa trajetória de vida percorrida, como até agora,
indispensáveis à pessoa, educadora e militante que sou hoje e que pretendo ser ainda,
como também me perceber em um processo não apenas religioso, contudo de

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espiritualidade, relevantemente por tratar-se de uma cultura religiosa onde não apenas a
mulher, mas o feminino em si, são fundamentalmente importantes. Não apenas como
sentido individual no social, porém como entendimento de um contexto social.
A esse momento, direciono a escrita aos locais e pessoas fundamentais para esse
enegrecer- em negra ser, não só do meu externo, mas principalmente de minha alma,
que são minha família, o candomblé, cujo sou iniciada e o grupo de mulheres negras do
Cariri-Pretas Simoa. À família, pelo apoio força e nunca me deixar desistir. Ao
candomblé, por ter reafirmado em meu ser essa luta diária e constante, minha
ancestralidade, minha fala, e por ter percebido isso justamente com as crianças, e nem
tanto com os adultos, pela vontade que elas representam em sair com suas
indumentárias, por nem sempre entenderem a violência simbólica, mas principalmente
por questionarem em suas escolas as normas em relação a negarem as nossas normas.
Isso é além de aprendizagem, é perceber o surgimento de seres políticos que querem
garantir seu local de fala.
A esse respeito, as palavras de Lani-Bayle (2008) me são fundamentais e até
funcionam como um espelho, quando fala que, ao longo da prática, a importância das
crianças como primeiros mestres no domínio no recordar e do proceder na memória e
que as gerações não precisam ser contemporâneas para dialogar.
Demorei alguns bons anos a perceber que o racismo nem sempre ataca
diretamente, muito pelo contrário, e como já foi citado mais acima, não me atentarei
muito a esse respeito. Mas, um ponto importante que preciso colocar, é nos situarmos no
tocante às lutas e locais de fala dos movimentos sociais. É sabermos que nem toda luta é
igual, nem toda violência e violação é a mesma. Então, percebi como essa violência
simbólica opera quando começo a participar do grupo Pretas Simoa, e notava que as
falas, os relatos, as experiências eram como descrições de uma de parte da minha
trajetória. Mas, como o delas é igual ao meu, se não estavam na minha infância, na
minha juventude, como e porque são tão parecidas e precisas os relatos? Foi lá que
aprendi que ser mulher e negra, mesmo quando não nos reconhecemos assim, a
sociedade, herdeira do colonialismo, trata-nos com a inferioridade e subjugação de
capacidades. Não há respeito, não há privilégios. É como se já tivéssemos nascido por
um erro, ao qual devemos ser castigadas por toda a vida.
O grupo foi e é para mim um local de identificação, de saber que mesmo quando

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sou vista pela sociedade como uma pessoa que me ponho no local de vítima, minhas
irmãs de luta passaram e passarão por situações parecidas: são aprendizados constantes
e precisos nesse processo de percepção do ser e não ser. As oficinas de formação, de
identidade e do feminino em sua constituição de força, coloca-nos diante de crianças
negras e meninas adolescentes, que vivenciam ou já vivenciaram, e é importante para
minha formação saber que, de algum modo, contribuo nessa formação, onde
apresentamos o conceito de raça negra, não apenas como uma segregação de contexto
histórico, embora esse conceito, nessa forma, já tenha caído. Levamos sim essa fala,
para apresentá-los o local social e representação que nos jogaram. E cabe,
importantemente, demonstrar-lhes que hoje o conceito de raça é mais que uma divisão,
mas sim um conceito usado politicamente de afirmação e formação de sujeitos e sujeitas
políticos.
Nós não somos mais objeto de estudo, somos sujeitas e escreviventes de nossas
ações e histórias, pelo nosso ponto sensório intelectual, nossa metodologia e nossos
campos de ação, não temos apenas corpos, temos rostos; não disponibilidade sexual,
temos sentimentos também; não somos criadas apenas para servir, mas para constituir
local social de representatividade. E assim, percebermos para mostrar aos nossos que
não existe brincadeira caso não nos seja agradável, que não precisamos sorrir caso o
“elogio” não nos soe bem.
Até o momento dessa escrita, não me mencionei enquanto e nem tratei a
respeito do feminismo. Isso por uma questão que pretendo brevemente elucidar sobre e
pelo motivo que não me posiciono, não me apresento e nem sou feminista. É importante
não tomarmos isso como uma desligitimação de luta, pelo contrário, o feminismo é sim
importante e preciso, até há algumas lutas nas quais caminhamos juntas e em busca de
direitos próximos. Se não para a causa feminina, para e pela causa daqueles e daquelas
que ainda não tem voz, e pedem auxílio.
Mas, a pontual causa da minha não identidade com esse movimento é por
questões históricas e até atuais de luta. A exemplo disso, percebo-me na fala de Pacheco
(2013), quando analisa e coloca a importância de notar que há sim especificidades e
grandes diferenças entre mulheres negras e brancas para o movimento feminista. E por
décadas, isso foi negado. É justamente sobre essas especificidades que nos movimentos
sociais chamamos de local de fala, garantido, sem deixar de pontuar também, que antes

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da fundação do movimento feminista, as negras escravizadas ou libertas já lutavam para


serem reconhecidas como pessoas, sustentavam suas casas: muitas trabalhando
principalmente nas casas das mulheres brancas e suas famílias tradicionais formadas e
herdeiras das tradições coloniais de exploração da força de trabalho. Ainda pela análise
de Pacheco (2013), onde fala que na lógica herdada patriarcal-escravista, há uma
apropriação não só dos trabalhos desprestigiados socialmente, mas também dos corpos
como mercadoria e objetivação. Nessas condições:

As reivindicações das negras não estavam em consonância com os projetos


políticos de emancipação do feminismo; havia um desencontro histórico
entre ambos. Enquanto as feministas brancas lutavam pelo direito ao aborto e
pelo celibato, as negras denunciavam o processo de esterilização contra as
mulheres negras e pobres; alegava-se a necessidade de planejamento familiar
e não de esterilização, principal ponto de reivindicação do MMN. Enquanto
algumas correntes do feminismo criticavam o casamento formal, a
constituição de família, as mulheres negras falavam de “solidão” e da
ausência de parceiros fixos, denunciando, assim, o racismo e o sexismo.

Quando chego em alguns locais de nível educacional e me apresento, observo o


estranhamento de algumas pessoas, inclusive até chegaram a me perguntar como
consegui passar em um programa de pós-graduação de mestrado em nível federal. Isso
pelo fato de a mulher negra não ter representação como estudante, coube-nos apenas o
papel de servir o lar da tradicional família brasileira e, à noite, ter os corpos violentados
pela virilidade fálica insaciável de mostrar e representar o seu papel histórico destinado
ao senhor do engenho. A professora Eliane Oliveira, em seu trabalho sobre a mulher
negra, professora universitária (2006), toca em um ponto muito preciso e delicado, onde
argumenta que o mundo acadêmico, até pouco, era um mundo masculino, em que a
mulher branca tem que se esforçar para mostrar que é capaz e a mulher negra tem um
desgaste maior por ter que mostrar duplamente essa capacidade de pertencer a tal local e
ainda é sobrecarregada para ser mulher e negra.
Após entrar no grupo de mulheres negras, foi que tomei conta de situações desse
tipo e sua diária participação no imaginário e verbalização social. Por esse motivo, e
alguns contatos onde não me senti pertencente, nem representada, é que não me declaro
feminista, mas considero o movimento feminista relevante e libertador para muitas
mulheres. Umas das percepções mais importantes que aprendi no grupo Pretas Simoa
foi pela voz e experiência de uma das irmãs, mulher negra, mãe, historiadora, militante.
Seu nome de guerra de Karla Agressilva, “ganhado” e apropriado devido a sua postura

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reivindicante, argumentativa e também de resistência, é interpretado como uma postura


agressividade, que é justamente uma característica dada a mulheres negras que não se
curvam perante o sistema de manipulação herdado pela colonização, onde a conduta
feminina é servil.
Karla Agressilva, em um dos seus pensamentos, traz a ideia de que há uma
desligitimação e repressão da mulher negra em três níveis bastante pontuais: 1-
Infantilização: justamente pelo fato de sermos mulheres e não termos nossos
questionamentos, argumentos, especificidades levadas a sério, tampouco como
reinvindicações consideradas adultas. 2- Animalização: Por questão da herança colonial
patriarcal, como também de uma de suas entrelinhas mais relevantes, o racismo
científico, sendo que, em virtude disso, nos é, muitas vezes, atribuído a categoria de
macaca. 3- Ridicularização: Onde nossas reinvindicações e atos de resistência são
desvirtuados e transformados em ilegítimos, esse também por motivos da raça. A esses
três fatores associo ainda o de vitimização, ainda que, de certo modo, ele esteja presente
e operante nas entrelinhas dos três, e a qual, em trabalhos posteriores, irei dissertar mais
a respeito.
Enegrecer- Em negra ser, a resistência e insistência de uma mulher e negra,
educadora, musicista, candomblecista, frente aos desafios cotidianos do mundo
contemporâneo, onde a condição sócio econômica educacional e cultural do negro ainda
é pouco vista e nem sempre problematizada com prioridade. Contemporaneidade em
que as favelas/comunidades ainda são em sua maioria descriminadas devido à maioria
da sua população ser preta, tempos em que o continente africano ainda é tratado pela
nossa escola como uma unidade cultural igual a todos os povos, tempos em que a culpa
da violência é atribuída às vítimas. Como objetos, “dignos de estar num quarto de
despejo”, Jesus (2013).

CONSIDERAÇÕES FINAIS- Alegre ma non tropo.

As minhas considerações, até o presente momento, estão baseadas em dois


processos: primeiro o da escrita e, em seguida, o da trajetória de vida, ou vice-versa,
pois tendo em vista que primeiro aprendi escutando ou pela experiência, para depois
aprender escrever, ainda não sei bem se faço a relação de ambos no sentido cronológico

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cartesiano (mais uma herança), ou no sentido cronológico atemporal das minhas


percepções. O meu enegrecer tem total relação com minhas descobertas e percepções
desde a infância, percorrendo a adolescência, e em constante transformação cotidiana.
Atentar-me a fatores históricos foi culminante para que eu retirasse de mim mesma uma
culpa social impregnada. Pensar o racismo sutil, e suas artimanhas, é estar afinado com
as construções, idealizações e manutenção de colonização, ainda mais quando
atribuímos a esse peso o conhecimento que se legitima por uma apropriação dos povos e
culturas e, logo em seguida, uma subjugação do conhecimento dos mesmos. Em todo
esse entorno, vem também as dimensões epistemológicas dessa consolidação do saber e,
junto a ela, a negação dos saberes pautados em uma oralidade e conceitos nascidos de
formulações empíricas.
O (des)cobrimento do “novo mundo”: O epistemicídio de dois continentes, uma
aculturação impositiva e eurocêntrica de violência física e simbólica, que deixou forte
pressão sobre a mulher e mulher negra, nego-me a afirmar que essa escrita acadêmica
foi conseguida por mérito, ou ainda por simples esforço, contudo, afirmo que a mesma é
para mim mais que um ato político, é um legitimo ato de guerra, guerra simbólica e
feroz contra um inimigo, as vezes, de força rígida e diária, mesmo que em muito
invisível, valendo considerar que essa afirmação a escrita, não é uma negação a força
exercida ancestralmente pela oralidade, contudo, atribuo a escrita para mim, enquanto
um poder simbólico e combatente das forças estruturais do racismo.
E como todas essas questões se encontram comigo, como fiz uma conexão sobre
minha trajetória, minha indignação diante do desrespeito ao feminino e meu interesse
em compreender essa história? Esse assunto ainda de fato estou conectando a cada dia,
relacionando a cada nova leitura, pois, para me permitir estar diante de um processo de
(des)construção ou entendimento do conhecimento ao qual me sinto pertencente, tenho
que primeiro, ou paralelamente, conhecer parte desse processo de colonialidade para
então pensar em um processo de descolonização e de apropriação de conhecimentos e
afrodescendentes.

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SUMÁRIO
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CAPÍTULO VI

TRAJETÓRIAS ESCOLARES DE TRAVESTIS NO MUNICÍPIO


DE JUAZEIRO DO NORTE-CE: VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS 1

Antoniel dos Santos Gomes Filho


Faculdade Vale do Salgado (FVS)
Universidade Federal do Ceará (UFC)

INTRODUÇÃO

O artigo apresentado nas próximas páginas é oriundo da investigação de


mestrado intitulada: Experiências educacionais e sociais de travestis no Ceará: um
estudo comparado em Juazeiro do Norte e Canindé, desenvolvido junto ao Programa de
Pós-graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará (UFC), sob a
supervisão do Prof. Dr. Gisafran Nazareno Mota Jucá.
As experiências apresentadas e analisadas neste estudo específico se restringem
aos materiais empíricos produzidos no município de Juazeiro do Norte, Ceará, que
emergiram a partir da metodologia da história oral, sendo esse método escolhido para o
estudo desenvolvido, pois de acordo com Gisafran Nazareno Mota Jucá e Ariane Araújo
(2015) ele supera as “barreiras impostas pela tradição acadêmica” no campo da história
e das ciências sociais, instaurando assim a necessidade de se explorar novos temas,
tendo como base o paradigma da transdisciplinaridade.
O município de Juazeiro do Norte é conhecido (inter)nacionalmente pelos
movimentos religiosos do catolicismo popular em torno da figura mítica do Padre
Cícero Romão Batista e a culto e devoção a Nossa Senhora das Dores. Como diz Zeny
Rosendahl (1996), o município investigado pode ser considerado uma cidade-santuário,
ou seja, um espaço sagrado tido por muitos/as romeiros/as que anualmente visitam
Juazeiro do “Padim Ciço”, e expressam sua devoção e fé nas romarias.
1
Ideias iniciais deste artigo foram submetidas e aprovadas sob o título: Experiências travestis na cidade
de Juazeiro do Norte-CE, para apresentação oral no 3º Seminário Internacional Desfazendo Gênero, em
Campina Grande-PB na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

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Participaram da pesquisa 03 pessoas que se reconhecem como travestis, maiores


de 18 anos, que residem e/ou estão constantemente no município. Além das entrevistas
realizadas, tendo como base a história oral, neste estudo também se fez uso de diários de
campo. Os nomes oficiais e sociais das participantes foram modificados, no intuito de
garantir preservar a integridade e manter o sigilo, deste modo foram adotados os
seguintes nomes fictícios: Laura (28 anos), Marcela (37 anos) e Íris (26 anos).
O material oriundo das entrevistas realizado com as informantes do estudo foi
analisado em três grandes categorias, a saber: (01) Corpo, (02) Educação e (03)
Experiências do Cotidiano, sendo esta última subdividida em: (01) Família, (02)
Religião e (03) Mercado de Trabalho. Para este estudo, o foco recaiu sobre a categoria
(02) Educação. Por conta disso, é apresentada uma breve discussão sobre a escola e
homofobia no Brasil, e posteriormente as experiências educacionais de Laura, Marcela e
Íris.

ESCOLA E HOMOFOBIA NO BRASIL

A sexualidade é um elemento que compõe a espacialidade escolar, isso implica


questionar e pensar sobre a capacidade dos/as educadores/as, na lida cotidiana desses
assuntos. Segundo Ivan Jairo Junckes e Joseli Maria Silva (2009, p. 151) muitos/as
educadores/as têm atitudes discriminatórias no que tange à sexualidade de seus alunos,
“[...] já que os/as profissionais de educação são seres que, ao adentrar na escola, não
esquecem seus valores morais e posições ideológicas.”, sendo estes, promotores da
discriminação e preconceito. Tal posicionamento também é ressaltado por Jarles Lopes
de Medeiros (2017), quando, em sua investigação sobre os discursos dos professores em
relação à sexualidade, aponta que as construções subjetivas dos valores e normas
psicossociais dos professores adentram as salas de aula, tornado estes indivíduos muitas
vezes agentes e reprodutores de preconceitos e discriminações em relação às questões
da sexualidade.
Na instituição escolar, há uma interconexão nos processos de normatização
corporal. Ivan Jairo Junckes e Joseli Maria Silva (2009) nos lembram de que o espaço
escolar está envolto de uma complexidade, pois, ao passo que há uma reprodução da
heteronormatividade, a escola também proporciona subsídios para pluralização social.

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Nesse sentido, o espaço e território escolar são “[...] muito mais do que um local onde
se ‘adquire’ conhecimento técnico e se é preparado para o trabalho; mais que isso, ele é
componente da existência das pessoas durante boa parte da vida” (ID. p. 151).
Quando não se enquadram nesta regra, as pessoas são deslocadas e excluídas do
seio social e escolar, logo:

A exclusão social propicia aos sujeitos dificuldades nas relações sociais,


gerando assim negação de direitos básicos e a não promoção da cidadania,
sendo atrelado a esses indivíduos e população preconceitos e estereótipos por
vezes negativo, já que os mesmos não estão sobre os padrões sociais
estipulados (GOMES FILHO; MELO; CRUZ, 2014, p. 3).

Isso nos indica que a escola não é um lugar de acolhimento às identidades não
normativas, e sim, “[...] um lugar de opressão, discriminação e preconceitos, no qual e
em torno do qual existe um preocupante quadro de violência a que estão submetidos
milhões de jovens e adultos LGBT [...]” (JUNQUEIRA, 2009, p. 15).
A ocupação populações LGBT, em especial das pessoas Ts, no espaço escolar é
atravessada por (des)caminhos, sendo que estas pessoas no seu dia a dia escolar são
“[...] submetidas a enfrentamentos constantes para permanecer na escola.” (ANDRADE,
2012, p.18). Porém, a pressão pela normatização do corpo e da sexualidade é tamanha
que estas pessoas acabam por abandonar a escola. Tal problema é tratado na ordem do
discurso da meritocracia, e como ressaltado por Luma Nogueira Andrade (2012; 2015),
dissemina-se no espaço escolar e social que a saída da travesti da escola foi escolha sua,
neste sentido, Berenice Bento nos diz que:

“[...] não existe indicadores para medir a homofobia de uma sociedade e,


quando se fala em escola, tudo aparece sob o manto invisível da evasão. Na
verdade, há um desejo de eliminar e excluir aqueles que contaminam o
espaço escolar. Há um processo de expulsão, e não de evasão.” (BENTO,
2011, p. 555).

Rogério Diniz Junqueira (2009) afirma que o contexto (homo/trans)fóbico, em


relação à sexualidade do outro no espaço escolar, cria e recria situações delicadas e
vulneráveis às pessoas LGBT, sendo que por vezes ocorre um processo de
internalização da (homo/trans)fobia, gerando na pessoa um sentimento de
autoculpabilização, de modo que a família, a comunidade, a sociedade e o Estado,
através de suas omissões, contribuem para esse quadro.

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Quando se pensa nessas omissões que colaboram para a violência no espaço


escolar e fora dele, mais uma vez podemos pensar nas questões curriculares e como a
sexualidade é tratada na escola, assim:

Quando a sexualidade é aborda na escola, geralmente, há um enfoque nas


Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) e nos meio contraceptivos,
como se não existissem outras categorias mais urgentes a serem discutidas,
como os estereótipos de gênero, o machismo e a homofobia. A questão do
prazer e da violência não é abordada [...] (GOMES FILHO et al. 2015, p. 4).

Em geral, os diálogos com os discentes que envolvem temas como práticas


sexuais e sexualidade são inseridas no campo da biologia, direcionando assim o assunto
para questões, que envolvem as patologias relacionadas com o sexo, as formas de
contracepção, etc. Tais questões são de fundamental importância para o
desenvolvimento de uma experiência e vivência sexual consciente e segura no âmbito
da saúde, no que diz respeito ao esclarecimento sobre as formas de contaminação de
DSTs, etc. Mas, para além dessa questão, o gênero e a sexualidade agregam outras
instâncias da vida, se alargam, e se entrelaçam no campo social, cultural, econômico e
político. São nessas instâncias que problemas como a violência e a homofobia se
instauram, tanto de modo individual como coletivo, sendo essas inter-relações muitas
vezes silenciadas no espaço escolar.
A homofobia é um tipo de violência que atinge as pessoas que fogem às normas e
regulações sociais heteronormativas. Para Daniel Borrillo:

A homofobia pode ser definida como a hostilidade geral, psicológica e social


contra aquelas e aqueles que, supostamente, sentem desejo ou têm práticas
sexuais com indivíduos de seu próprio sexo. Forma especifica de sexismo, a
homofobia rejeita, igualmente, todos aqueles que não se conformam com o
papel predeterminado para seu sexo biológico. Construção ideológica que
consiste na promoção constante de uma forma de sexualidade (hetero) em
detrimento de outra (homo), a homofobia organiza uma hierarquização das
sexualidades e dessa postura, extrai consequências políticas (BORRILLO,
2010, p. 34).

Para Leandro Colling e Gilmaro Nogueira (2015, p. 175), o termo homofobia,


em geral, é utilizado “[...] para descrever qualquer atitude e/ou comportamento de
repulsa, medo ou preconceito contra os homossexuais.”. A violência homofóbica atinge
tanto as pessoas e populações LGBT, como também os heterossexuais. Um exemplo foi

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 101

o espancamento sofrido por pai e filho no município de São João da Boa Vista-SP, onde
um grupo atacou os dois por acharem que eles eram um casal homossexual2. Mas, a
homofobia continua atingindo os LGBT no Brasil de modo preocupante e assustador,
segundo o antropólogo Luiz Mott:

Hoje no Brasil, a cada 27 horas um gay, travesti, transexual ou lésbica é


brutalmente assassinado, vítima da homofobia – ódio à homossexualidade.
Nosso pais é campeão mundial nestes crimes: nas últimas três décadas, 4.648
homicídios foram documentados. Metade dos assassinatos registrados ao
redor do mundo ocorre em nosso pais. Matam-se muitíssimo mais LGBTs no
Brasil do que nos 78 países onde ser gay ainda é crime (MOTT, 2015).

Retratando os dados sobre homofobia na escola buscamos nas pesquisas de


Miriam Abramovay et al. (2004) um lugar de observação sobre as agressões (físicas,
psíquicas, econômicas, etc...), sofridas por aqueles que têm outras formas de viver a
sexualidade para além da heterossexualidade, lembrando que muitas vezes tais
violências são tomadas como “naturais” e muitas vezes não entendidas como tal.

Quando se pergunta aos alunos sobre quais pessoas ele não gostaria de ter
como seu colega de classe, aproximadamente 1/4 dos alunos indicam que não
gostariam de ter um colega homossexual, sendo que os percentuais extremos
dessas respostas ficam entre 30,6% (Fortaleza) e 22,6% (Belém), o que
corresponde em números absolutos a 112.477 (Fortaleza) e a 43.127 (Belém).
Ressalta-se que os jovens do sexo masculino, em qualquer capital analisada,
rechaçam com maior intensidade a homossexualidade. Por exemplo, em
Porto Alegre, enquanto 42% dos rapazes indicam tal preconceito, no caso das
moças, baixa para 13%. São mais altas que no caso de alunos, as proporções
de pais que mencionam que não gostariam que homossexuais fossem colegas
de escola do seu filho. Tal indicador de rejeição está entre 47,5%, em
Fortaleza, e 22,2%, em Porto Alegre. Corroborando a tendência antes
analisada, os homens são mais preconceituosos, chegando, em Recife, a 60%
e, em Fortaleza, a 59,2% (ABRAMOVAY et al. 2004, p. 280).

Como podemos perceber, a homofobia, que está fora da escola, é reproduzida


nesse espaço. Como apontam os dados, os homens, sejam eles alunos ou pais, são mais
preconceituosos quando se trata de homossexuais dentro das salas de aula, já que estes
podem deslocar uma ideia de masculinidade viril e dominante. Os LGBT deslocam e
2
Para maiores informações sobre o crime ver matéria em:
< http://www.cartacapital.com.br/sociedade/pai-e-filho-sao-espancados-apos-se-abracarem>;
<http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/07/19/confundidos-com-casal-gay-pai-e-filho-
sao-agredidos-no-interior-de-sp-homem-perdeu-parte-da-orelha.htm>;
<http://g1.globo.com/brasil/noticia/2011/07/pai-abraca-filho-e-e-agredido-por-homofobicos-em-sp.html>.

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afrontam todos os “[...] componente valorizado pela heteronormatividade e pelos


arsenais multifariamente a ela ligados – centrados no adulto, masculino, branco,
heterossexual, burguês, física e mentalmente “normal”” (JUNQUEIRA, 2009, p. 14).
As “pedagogias da sexualidade” trabalham no objetivo de proporcionar uma
vida nos referenciais heterossexuais, por isso quando há uma violência contra um LGBT
no espaço escolar, essa é muitas vezes tomada como uma correção/sanção social por
sair da norma e como meio de voltar para ela, assim esse “heteroterrorismo” (BENTO,
2011) ,em diversas situações, inibe e coloca no “armário” as homossexualidades, as
travestilidades, as transexualidades, e outras formas de viver as sexualidades para além
da heterossexualidade.
Tais situações de heteroterrorismo e homofobia acontecem cotidianamente nas
diversas escolas Brasil a fora, sendo tais violências regularmente silenciadas e
invisibilizadas, ou como dizem as bichas: os pais, professores, alunos e alunas todos
vivem fazendo a Kátia3; o que é um grande problema a ser enfrentado e discutido em
todos os espaços sociais, sejam eles públicos ou privados.

EXPERIÊNCIAS EDUCACIONAIS DAS TRAVESTIS LAURA, MARCELA E


ÍRIS

Durante as entrevistas com as participantes da pesquisa, nos momentos onde


foram resgatadas as memórias sobre o período escolar, foi possível perceber algo em
comum entre Laura, Marcela e Íris, que na atualidade são pessoas travestis, porém,
quando estavam na escola, eram ainda homossexuais. Assim, os processos de
modificação corporal das informantes aconteceram ou após o término dos estudos, ou
após o abandono da escola. Como disse Laura:

Antoniel: Você acha que por conta de ser um menino gay foi mais fácil?

Laura: Com certeza, se eu fosse travesti eu não ia não, eu travesti, eu ia não!

Antoniel: Por que?

3
Fazer a Kátia na linguagem das bichas significa: ficar cego para uma determinada situação. Tal
expressão faz menção à cantora brasileira Kátia, que possui deficiência visual, e fez muito sucesso nos
anos 80.

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Laura: Por que eu não ia. Oxi, eu ia ser a palhaça da escola. Eu ia ser. Eu gay
fui, imagine travesti. Quando a professora chamasse meu nome de homem, e
eu dissese presente, ai todo mundo ia dizer, hã? Oxi com certeza. Eu não digo
hoje. Hoje tá diferente Antoniel. Hoje os heteros ... pode prestar atenção que
eles ... Eu vou ali no Maria Amélia [escola de ensino médio de Juazeiro do
Norte] meu sobrinho gay, misturado com os heteros, tudo amigo, tudo
falando, gesticulando, aqueles boyzinhos 16, 17, 18 anos, tudo assim,
querendo ... nam ta diferente. Na minha época era eles [heteros] de um lado e
eu do outro, tinha barreiras, eu fui muito assim ... muito preconceito em cima
de mim, na minha escolaridade do ensino fundamental até o ensino médio,
com certeza, com certeza4.

Em suas reflexões sobre as dificuldades de permanência das travestis na escola,


Laura aponta que as questões estéticas e financeiras que o trabalho sexual pode
proporcionar é um dos fatores que fazem com que as travestis saiam da escola. A fala de
Laura aponta que há muitas barreiras dentro da escola em relação à sexualidade, mesmo
que na atualidade tais barreiras venham se desfazendo, como ela apontou no caso do seu
sobrinho que é homossexual e que tem amigos heterossexuais, o que em seu tempo de
escola não era comum. Quando Laura afirma que havia muito preconceito contra ela,
por conta de sua homossexualidade na época, e quando dá ênfase quando informa que
não iria para a escola se fosse uma travesti já seria a “palhaça da escola”, indica como
os estigmas sociais em relação a sexualidades dissidentes estão incorporadas no espaço
escolar.
A trajetória escolar de Marcela também foi marcada por estigmas e preconceitos
por conta de sua forma de ser e estar no mundo fora dos padrões comportamentais para
um rapazinho.

Marcela: Na época que eu estudei não era muito bom, eu morava em Serra
Talhada-Pernambuco e lá eu era um menininho e o pessoal de lá não me
aceitava bem, eu nem ligava. Depois eu vim pra Juazeiro do Norte, eu já tava
fazendo a 8º série, ai eu terminei o primeiro grau, ai fiz o segundo grau na
escola normal, já foi só mulheres na sala, eu gostei. Depois que me formei
comecei a ensinar no colégio São Rafael, depois da minha formatura. Ainda
passei um ano e meio ensinando, depois não quis mais, ai fiz um curso de
prevenção [de doenças sexualmente transmissíveis], depois eu passei um ano
estudando prevenção, trabalhei numa ONG sobre homossexuais, trans,
travestis, bissexuais e todos os gêneros. Na época da escola eu já era aquele
rapazinho sem se assumir, mas já era uma menininha. No segundo grau não
teve problemas, até porque só era mulheres na sala e eu nem ligava. Mais
sempre existiu o ki ki ki das mulheres, elas comentavam que lá só era
mulheres, ai eu nem dei muita importância pra isso 5.

4
Entrevista realizada em 21/05/2016.
5
Entrevista realizada em 19/09/2016.

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A fala de Marcela é muito interessante, pois, como pode ser percebido, seu
discurso sobre a educação está imbuído de um olhar pedagógico e também dos
movimentos sociais, fruto de sua formação enquanto professora. Marcela relata que não
ligava para o preconceito que sofria desde sua infância até o período em que cursou o
segundo grau, em uma sala só com mulheres que colocavam como assunto de discussão
sua sexualidade. Menininho, rapazinho, palavras ditas no diminutivo pela informante,
sempre acompanhados de um risinho durante a entrevista, parecem apontar que
realmente Marcela se afastava cada vez mais de uma representação normal do menino e
do rapaz, o do meninão ou do rapagão, ou seja, o diminutivo lhe aproximava mais da
menininha, da menina, da meninona que ela sempre buscou.
Íris, em seu período escolar, relata que as artes sempre estiveram presentes em
sua trajetória escolar, e foi a partir dos projetos da escola que ela se tornou a pessoa que
é hoje, porém, no cotidiano em sala de aula era alvo de piadas e brincadeiras por conta
de seu jeito afeminado, deste modo, mesmo antes de vir a ter práticas sexuais com
outros homens, seus trejeitos femininos eram tomados como referenciais performáticos
para lhe atribuir um desejo homossexual. Nas lembranças de Íris, a escola é um misto de
momentos de felicidade e tristeza, de assujeitamentos e resistência às normas.

Íris: Então, vem muitas lembranças de muitas coisas, não só das perguntas
que você fez. É porque quando fala da escola, eu tenho muitas recordações
boas da escola, principalmente em relação a ... por exemplo, eu fiz o meu
ensino fundamental todo em uma escola só, que foi no SESI. E foi aquela
escola que praticamente abriu as portas pra eu ser a pessoa que eu sou hoje.
Uma pessoa que gosta tanto de música, dança, de teatro, por que eles tinham
muitos projetos dentro da escola que os alunos poderiam participar, e eu
acabava participando. Tipo, terças e quintas eu fazia aulas de dança, segunda,
quarta e sexta de teatro, então eu tenho lembranças que vem na minha cabeça
geralmente são essas, quando eu falo da escola. A gente ensaiando, fazendo
maquiagem. Tem tanta coisa que eu lembro.

Antoniel: Alguma situação especifica?

Íris: Tem uma lembrança horrível pra mim, em relação a essa coisa de artes.
É que eu participava de um grupo de coral e tinha uma seleção pra gente
cantar em coro, mas tinha os dias da gente cantar solo, então teve um dia que
teve uma competição e a gente tinha que ir pra lá e cantar uma música que a
gente escolhesse, pra ver quem tinha a melhor voz, quem era melhor no palco
e tudo. Eu acabei perdendo esse dia. Me preparei semanas, ensaiei uma
música que eu queria ter ido lá cantar, e no dia, não lembro o que aconteceu,
que no dia eu não pude ir, ai eu fiquei bem triste. Eu tenho uma lembrança,
assim ... da minha saída do ensino fundamental, daquela escola, e não foi
uma saída muito boa, que foi quando, é ... Sabe aquele momento que você
passa sua vida inteira escutando uma coisa de uma pessoa, de uma única

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pessoa e chega o momento que você não aguenta mais, e você explode. Tinha
umas meninas, umas três meninas que elas não eram da minha turma, mas
elas ficavam me xingando, soltando piadas sem graça. Por desde os meus 11
anos que eu comecei a pintar cabelo, fazer coisas diferentes. Ai, teve uma vez
que eu cheguei com o cabelo loiro na escola, uma criança de 11 anos com o
cabelo totalmente loiro, porque eu puxei umas luzes, ai eu não gostei das
luzes, ai eu coloquei uma tinta e ficou todo loiro, ficou bem estranho na
verdade, mas eu não queria que ninguém dissesse nada. Cheguei na escola e
essas criaturas fizeram um inferno por causa do meu cabelo, ai eu bati em
todas três, deixei uma nua inclusive. Uma delas eu derrubei, tinha uma
escada que tinha cinco degraus e uma rapinha e mais cinco degraus, era uma
escada bem louca e era perto da piscina , ai eu passei ela soltou uma piada, ai
eu derrubei ela de lá e deixei ela nua, no dia seguinte a diretora estava com
minhas transferências quando eu cheguei no outro dia, mas isso já foi no final
do ano6.

Como pode ser visto, a trajetória escolar de Íris na escola se apresenta como um
espaço ambíguo, pois, se de um lado as boas lembranças dos ensaios e aulas de música,
dança e teatro e dos professores e amigos/as que compartilhavam com ela estes
espaços, por outro lado a homofobia estava presente diariamente, através de “chacotas”
e “piadas de mal gosto” por parte de alguns colegas de escola, assim Íris criava
estratégias que envolviam ao que tudo indica momentos de assujeitamentos e momentos
de resistências. Como apontou Luma Nogueira Andrade:

As resistências ou assujeitamentos podem ser opostos e complementares


simultaneamente, pois mesmo ao se assujeitar as travestis estão fazendo uso
de táticas para permanecer na escola, promovendo uma crise na forma
tradicional como é conduzida esta em relação aos gêneros, introduzindo
mesmo que paulatinamente mudanças e aberturas no presente e no futuro
(ANDRADE, 2012, p. 247).

As considerações da autora citada, como podem ser vistas, dizem respeito às


travestis, mas podemos inferir estes processos a outros estilísticas da sexualidade,
inclusive para os homossexuais afeminados, como era o caso de Íris, assim, quando a
informante diz que passou um longo período escutando expressões homofóbicas durante
sua vida escolar, ela esteve se assujeitando à norma, tanto que em muitos momentos
tentou assimilar-se a ela como tática de permanência, chegando um momento onde seu
único meio de resistência foi a agressão àqueles que, por anos, lhe injuriavam.

6
Entrevista realizada em 01/03/2017.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste estudo, buscou-se apresentar as trajetórias/experiências das travestis


Laura, Marcela e Íris que habitam o município de Juazeiro do Norte-CE, esse
movimento deu-se através da metodologia da história oral, onde se utilizou de
entrevistas com as participantes para produção dos dados empíricos, com foco na
educação.
Como foi apresentado na seção: Escola e Homofobia no Brasil, o pais vive uma
verdadeira crise da violência de gênero que atinge principalmente as pessoas LGBT. Os
índices de violências físicas contra as pessoas LGBT, em especial contra as pessoas Ts
– Travestis, Transexuais e Transgênero são alarmantes e críticos, já que a cada 27 horas
um LGBT é assassinado, como lembra Luiz Mott (2015). Além da violência física,
também nos deparamos com a violência simbólica, que possui diversas faces, e que está
no cotidiano escolar. A pesquisa apresentada por Miriam Abramovay et al. (2004) nos
aponta bem como a homofobia está inserida nos espaços escolares, que são norteados
pelos moldes heteronormativos.
Se observamos as trajetórias de vida das travestis Laura, Marcela e Íris, podemos
ver que a homofobia marcou suas trajetórias escolares, fazendo com que estas pessoas
buscassem meios para resistir a uma ordem social que normatiza os corpos e os
comportamentos. A discriminação e o preconceito na escola ficaram evidentes na fala
de Laura, quando disse que se fosse travesti em seu período escolar não iria para a
escola, já que em sua experiência de homossexual foi marcada por uma exclusão, ela
acredita, inclusive, que se fosse uma travesti essa exclusão seria ainda maior. Marcela
disse que não ligava para o preconceito que sofria desde a sua infância até o ensino
médio normal, frente a esse posicionamento, pode-se pensar o quanto de energia
Marcela dispendeu para manter-se sempre firme e forte na escola, mesmo sabendo que o
seu modo de viver a sexualidade era foco de discussão por parte de outras estudantes.
Íris, em seu depoimento, mostra-nos como a escola pode ser um espaço que ora
proporciona momentos de felicidade e satisfação, ora pode ser um lócus de
“heteroterrorismos”, que silencia e invisibiliza as outras formas de viver a sexualidade.
Íris passou grande parte de sua trajetória escolar resistindo às “chacotas” e “piadas de

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mal gosto” e assujeitando-se a regras impostas pela escola, mas houve um momento
onde o meio de resistência foi a agressão àqueles que, por anos, injuriavam-lhe.
Portanto, diante dos debates teóricos apresentados, cruzados com os
depoimentos das travestis participantes da investigação, pode-se considerar que o
espaço escolar se constitui como um local onde a violência homofobia se faz presente,
promovendo processos de discriminação e preconceito contra as pessoas LGBT e até
mesmo com as pessoas heterossexuais que não se enquadram em um determinado
padrão de sexo-gênero. Pode-se inferir que a situação das pessoas Ts – Travestis,
Transexuais e Transgêneros ainda é mais agravada, já que suas corporeidades
desestruturam os padrões heteronormativos para os corpos. Frente a essas
considerações, é necessário que as pesquisas em gênero e sexualidade na educação, e no
espaço escolar, sejam fomentadas, para que se possam conhecer as realidades que
atravessam o Brasil nestes tempos de crise.

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em Educação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em
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BENTO, B. NA ESCOLA SE APRENDE QUE A DIFERENÇA FAZ A DIFERENÇA. In: Estudos


Feministas, v. 19, n. 2, p. 548-559, 2011. Disponível em: <
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GOMES FILHO, A. S. et al. “MENINAS PARA UM LADO, MENINOS PARA O OUTRO”:


QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADE NA ESCOLA. In: Anais do XV Encontro de Pós-
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<http://uol.unifor.br/oul/conteudosite/?cdConteudo=6131026>. Acesso em: 15 Ago. 2016.
GOMES FILHO, A. S.; MELO, M. A. S.; CRUZ, V. C. B. C. Modificação corporal das travestis e
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JUCÁ, G. N. M.; ARAÚJO, A. R. Perspectivas e possibilidades da história oral. In: MAGALHÃES


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CAPÍTULO V

GÊNERO E DIVERSIDADE SEXUAL NO DISCURSO DOCENTE 1

Jarles Lopes de Medeiros


Universidade Federal do Ceará (UFC)

INTRODUÇÃO

Este artigo discute as relações de gênero e suas interfaces com as diversidades


sexuais na escola, tendo como enfoque epistêmico o discurso docente. Trata-se de um
recorte da pesquisa de dissertação de mestrado2 do Programa de Pós-Graduação em
Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará (PPGE/UFC). O objetivo do
ensaio é suscitar reflexões acerca de como a instituição reforça e reproduz práticas
excludentes e violentas de homofobia e machismo. No entanto, esse espaço não é neutro
e passivo como se pensa. De acordo com Bourdieu (2009), a escola também cria
práticas violentas.
Durante os estudos realizados para esse trabalho, inúmeros acontecimentos
relacionados às discussões em torno da problemática me causaram inquietação. Como
pesquisador, não podia ficar imune às influências oriundas da realidade em que vivo.
Enquanto escrevia, lia o mundo a minha volta. As teorias estudadas foram validadas
pelos acontecimentos cotidianos que instigavam, cada vez mais, o aprofundamento da
discussão, numa busca sempre incompleta pela compreensão. Prova dessa relação
imbricada entre pesquisador e contexto social foram as incisões provocadas pelas

1
Ideias iniciais deste artigo foram submetidas e aprovadas para apresentação oral no XVI Congresso de
História da Educação no Ceará, realizado em Icó-CE pela Linha de História e Educação Comparada do
Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará (UFC).
2
Título da referida pesquisa: A escola e os professores diante da problemática da sexualidade: uma
perspectiva histórico-sociológica de análise dos discursos e das práticas educacionais.

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repercussões que o “Caso Dandara”3 e o “Estupro Coletivo”4 causaram nos estudos,


redimensionando práticas e concepções de pesquisa.
Levando em consideração a trajetória histórica da instituição educativa e o
contexto social no qual está inserida, bem como considerando a sua função dentro da
sociedade de formar determinado tipo de sujeito cívico, a escola se configurou como o
espaço ideal para discutir as questões propostas no estudo, como veremos ao longo da
narrativa. Mapear e analisar o discurso docente frente ao tema, tendo como norte a
manifestação da sexualidade dos alunos foi o caminho encontrado para se aproximar da
compreensão.
A discussão teórico-metodológica foi fundamentada em autores como Louro
(2000 e 2004), Foucault (2011), Goffman (2008), Bourdieu (2009), Parker (1991) e
Scott (2013), dentre outros. Em relação à utilização dos dados coletados em entrevistas
junto aos professores5 na escola, utilizou-se um diálogo entre a Análise do Discurso
(FOUCAULT, 2014) e a História Oral (JUCÁ, 2013 e 2014; AMADO e FERREIRA,
2008).
A História Oral permitiu que o sujeito entrevistado pudesse falar livremente
sobre as categorias de análise proposta neste recorte: relações de gênero e identidade
sexual. A partir dos estudos foucaultianos, foi possível ir além da fala dos sujeitos,
destacando um corpo discursivo. Ao longo do ensaio, algumas falas dos professores
entrevistados emergem do texto sempre que necessário. Esse recurso está ancorado no
uso da História Oral, onde a fala sujeito é ao mesmo tempo fonte e objeto de análise.
É importante deixar claro que não é objetivo do estudo criar um juízo de valor
em torno dos docentes e suas concepções, numa visão maniqueísta. Tampouco criar
uma cartilha apontando caminhos a serem seguidos sobre os enfrentamentos dos
dilemas oriundos da sexualidade na escola. Os objetivos se aproximaram da dimensão
humana, da prática educativa, de ouvir esses profissionais que geralmente são
silenciados, pois, de uma forma geral, não possuem direito a voz. Propiciar que os

3
Em 2016, a travesti Dandara foi espancada e morta na Cidade de Fortaleza. Disponível em:
http://g1.globo.com/ceara/noticia/2017/03/apos-agressao-dandara-foi-morta-com-tiro-diz-secretario-
andre-costa.html. Acesso em: Jun/2017.
4
Em 2016, uma garota de 16 anos foi vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro. Disponível em:
http://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2016/05/26/interna_nacional,766534/acordei-com-33-caras-
em-cima-de-mim-diz-garota-vitima-de-estupro.shtml. Acesso em: Jun/2016.
5
Ao todo, foram entrevistados nove professores que atuam no sistema de Educação Básica da rede
pública de ensino vinculado à Secretaria de Educação de Fortaleza (SME) no ano de 2015.

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professores exponham suas concepções sobre a relação entre sexualidade, diversidades


sexuais e questões de gênero é um dos caminhos para que se possa compreender a
realidade escolar.

GÊNERO, MASCULINIDADES E FEMINILIDADES

É consenso que numa sociedade machista as mulheres estejam em desvantagem


em termos de direitos e dignidades em relação ao homem. Aliás, nesse tipo de
organização social, todo o universo feminino, não somente as mulheres, mas também as
diversidades sexuais, tende a ser menosprezado, relegado à margem.
Pode parecer que o homem desfruta de um privilégio inesgotável. Porém,
Bourdieu (2014) destaca o risco ao qual o mesmo está submetido quando se trata das
vantagens masculinas, que tal privilégio “[...] é também uma cilada e encontra sua
contrapartida na tensão e contenção permanentes, levadas por vezes ao absurdo, que
impõe a todo homem o dever de afirmar, em qualquer circunstância, sua virilidade” (pp.
75-76). A fala professora Thelma ilustra essa padronização dos sujeitos em delimitações
binárias de gênero com um exemplo de uma aluna que não se enquadrava no que é
considerado feminino:

Eu tenho uma aluna que já é repetente e ela é lésbica assumidíssima. Ela


mostra que gosta de coisas de menino, gosta de futebol, gosta de tecnologias,
gosta de meninas e ela deixa isso bem claro, mostra fotos. Bom, ela teve um
episódio bem infeliz com os alunos da sala quando mostrou abertamente a
foto de uma menina com a qual namorava e aconteceu de todo mundo
zombar dela. Ela ficou muito triste, não conseguiu terminar a aula, saiu de
sala chorando. Hoje, os meninos continuam brincando, até na última aula
minha eles continuaram brincando, eu pedi para eles respeitarem. Pararam
mais, mas tem essa aversão ao que é diferente. [Thelma].

Esse episódio nos remete a uma reflexão em torno do que seria considerado
coisa de menino e coisa de menina. Embora Thelma possuísse uma visão crítica sobre
as questões de gênero e sexualidade, a espontaneidade com que ela fala “gostava de
coisas de menino”, ao mesmo tempo em que elenca as brincadeiras e jogos destinados
ao homem, demonstra o quão esses estereótipos impregnam as relações e as concepções.
Outra questão presente em seus discurso se relaciona com as diversidades sexuais,
consideradas pela própria professora como “diferente”, portanto, não natural. A

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afirmação “ela é repetente e é lésbica” pode soar que a justificativa da sua repetência
reside na orientação sexual da garota.
A linguagem possui um potencial revelador. Ela pode transmitir ideias
inconscientes ou, como dizem, no automático, sem uma reflexão crítica, porém, não
menos verdadeira. Garcia (1994) se referencia em Lacan ao informar que o inconsciente
fala por meio da linguagem, onde o sujeito fala mais do que sabe, não compreendendo
muitas vezes o que diz. Dessa fora, o inconsciente se configura como “[...] uma
linguagem articulada, mas nem por isso reconhecida” (118).
Esses e outros conflitos envolvendo as relações de gênero e diversidades sexuais
na escola, que, devido serem consideradas como diferentes, são percebidos pelo corpo
docente como naturais. Por isso, tem-se no silêncio uma atitude corriqueira no
enfrentamento de tais conflitos. Numa sociedade patriarcal, a qual tem no machismo o
violador das identidades de gênero, pessoas que não se enquadrem nos limites do
modelo binário do masculino e do feminino serão consideradas desvios.
Sobre as questões referentes ao comportamento sexual e às vestimentas
utilizadas por homens e mulheres, os professores foram, de certa forma, unânimes ao
destacar nas meninas uma forma incorreta de se vestir e lidar com o próprio corpo.

Elas adoram exibir o corpo. Quanto mais bonita, mais curto é o short para
mostrar a barriga. Os meninos são mais contidos. Aqui tem um aluno que ele
já malha na academia e ele faz questão de mostrar o braço trabalhado. Mas
eles são bem mais contidos. Você não ver um menino tentando levantar a
camisa para mostrar a barriga. As meninas não, elas qualquer coisa que tem
na escola se elas puderem usam um shortinho para mostrar a perna ou a
barriga, mostrar qualquer coisa que elas têm de bonito. [Leda].

Essa postura das alunas na escola destacada pelos professores desmonta a


imagem daquela criancinha cor de rosa contida e assexuada. Todo o policiamento em
torno do corpo da menina que existe nos primeiros anos de vida é sucumbido por um
corpo erotizado, contestador, o qual apresenta uma recusa em escondê-lo. Ao mesmo
tempo em que as meninas foram concebidas como vulgares e precoces, os meninos
foram apresentados como ingênuos e considerados pela maioria dos entrevistados como
uma presa fácil à sensualidade feminina.

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Eu não sei se sempre foi assim, mas pelo menos aqui, eu vejo que as meninas
falam mais de sexo, estão mais interessadas em sexo do que os meninos. Eles
são mais infantilizados em relação a isso. Eles estão presentes, mas o
pensamento é outro. [Artur].

As alunas foram consideradas precoces em suas sexualidades, sendo-lhes


atribuídas um sentido negativo. Os professores não falam sozinhos, suas ideias estão
alinhadas com a cultura machista mais ampla, na qual a mulher deve ser contida, bela,
recatada e do lar. Por meio da comparação, o feminino é considerado a partir do
masculino, como sendo esferas antagônicas do ser humano. Scott (2013) suscita a
reflexão a respeito desses papeis socialmente construídos ao apontar que:

Gênero representa uma pergunta a ser feita por qualquer sociedade, em


qualquer momento: como mulheres e homens estão sendo definidos um em
relação ao outro? Dito de outra forma, dada a impossibilidade de realmente
dizer o que as diferenças físicas entre os sexos significam, como as
sociedades têm tentado impor significados e mantê-los no lugar? Como os
indivíduos têm se imaginado não se encaixando nessas categorias? Gênero é,
em outras palavras, uma norma regulamentadora que nunca funciona
plenamente. Assim, as perguntas interessantes são: quem estabelece as
definições? Para que fins? Como elas são aplicadas? Como indivíduos e
grupos resistem às definições? Se usadas dessa maneira, como um conjunto
de perguntas cujas respostas não sabemos de antemão, o gênero ainda é uma
categoria útil de análise (162).

Apesar de ter demonstrado se sentir incomodada com os “exageros” das meninas


no que diz respeito à sensualidade e exposição do próprio corpo, a professora Louise
considera ser positivo esse grito feminino. Daí a importância da afirmação de Scott
(2013) de que gênero é uma categoria útil de análise, devendo ser concebida como algo
complexo e contínuo.

Eu acho que a mulher ou o homem, o ser humano, ele tem que se preservar,
ele tem um limite. Mas eu acho interessante essa segurança das meninas
também, eu acho massa! Ninguém vai agir com elas de forma que elas não
permitam. [Louise].

Para Bourdieu (2014), esse sistema hierárquico que subjuga a mulher não tem
sua origem no biológico, portanto não é natural. Trata-se de uma construção social que
vem se remodelando ao longo dos séculos, sendo validada pelas instituições sociais
como a família e a escola. Na entrevista com Louise, a cada resposta, era perceptível a

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sua abordagem feminista diante da problemática. Busquei explorar o tema ao máximo.


Sobre essas diferenças ela falou:

Eu tento mostrar que elas têm a capacidade intelectual igual ou superior à dos
homens. Mas quando parte para o lado da vulgaridade eu fico frustrada.
[Louise].

O professor Davi também apresentou uma concepção bastante sensível sobre a


categoria gênero. O seu discurso foi cuidadoso, em alguns momentos ele reformulava
suas opiniões. Exemplo disso foi quando perguntado sobre a suposta erotização precoce
das meninas em relação aos meninos. Em um primeiro instante, ele concordou com os
seus colegas de abordagem machista. Porém, ainda no tempo de maturação de sua
resposta, ele reformulou a sua compreensão e levantou pontos interessantes:

Refletindo bem eu acho que não tem diferença não. A sexualidade é bem
aflorada nos dois, só que os dois se comportam de forma diferente. As
mulheres mostram mais o corpo porque geneticamente os homens são
atraídos, sexualmente falando, pelo que eles veem nas mulheres, pelo físico.
A mulher é atraída mais pelo que ela enxerga no homem em termo de
comportamento. Os meninos se sentem mais atraídos pelo físico. A vitrine
delas não é bem o seu caráter, e sim o corpo. Ela quer desenvoltura, um cara
mais descolado, mais social, tem a ver com a influência social que aquele
menino vai ter dentro da roda de amigos que eles têm. E aí em termo de
afloramento sexual, na minha opinião, são os dois, os dois têm o mesmo
nível. Comportamentos diferentes, mas o mesmo afloramento sexual. [Davi].

Apesar da fala de Davi ser permeada de estereótipos, apresentado a sexualidade


feminina relacionada às questões afetivas e psicológicas, enquanto que a masculina é
mais concreta e física, ele destacou a necessidade de conceber ambas como processos
particulares. De uma forma geral, querem equiparar a sexualidade da mulher à do
homem, daí a origem do discurso que as consideram mais precoces. Importante destacar
que são sexualidades distintas, que se manifestam em corpos biologicamente diferentes,
com hormônios específicos e zonas erógenas subjetivas.
Outro reflexo desse descompasso entre o masculino e o feminino na escola é a
questão do comportamento. Não é incomum os alunos serem avaliados de acordo com o
seu gênero. Louro (2004) salienta que a escola naturalizou o machismo por meio de
normas e lições que, além de separar meninos e meninas, colocou-as em situações de
desvantagem, oferecendo maiores liberdades e mais espaços a eles.

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Após anos de escola, meninos e meninas são atravessados por um rígido


processo de ensino e aprendizagem que os colocarão em seus respectivos lugares,
enclausurados em um modelo binário de gênero. A autora destaca que os meninos são
considerados mais expressivos e conflituosos e que a comunidade escolar passou a
considerar isso natural, na ordem das coisas. Porém, os professores, de uma forma geral,
demonstraram se sentirem incomodados com o comportamento das meninas, levando
em consideração suas vestimentas, suas sexualidades e atitudes.
Como já dito, os professores não falam sozinhos. Fomos educados para
considerar o masculino como natural, mas nunca igual ao feminino. Louro (2004)
informa que a escola produz diferenças e desigualdades. Desde a sua fundação, separa
as pessoas em grupos e reforça os estereótipos de gênero, de etnia e de classe social.
Segrega sujeitos que antes viviam em coletividade, apontando um ideal comum, uma
padronização. "A escola que nos foi legada pela sociedade ocidental moderna começou
por separar adultos de crianças, católicos de protestantes. Ela também se fez diferente
para os ricos e para os pobres e ela imediatamente separou os meninos das meninas" (p.
57).
Essas questões são reproduzidas diariamente no cotidiano escolar, não só por
meio dos discursos oficiais contidos nos livros didáticos e nas legislações educacionais,
mas, principalmente, no silêncio diante de alguns temas. A condição da mulher
permanece em desvantagem quando comparada a do homem. Sob o enfoque
econômico, essa hierarquização entre os sexos se materializa na condição salarial, onde
o gênero do indivíduo é determinante em sua valorização. As mulheres, embora estejam
presentes oficialmente no mercado de trabalho desde o início da Revolução Industrial,
carregam em si os estigmas de uma sociedade patriarcal, onde as mesmas são
compelidas a permanecerem no âmbito privado, cuidando dos maridos e dos filhos.
Sobre o patriarcado, Frota (2004) destaca que os estudos de sociólogos e
historiadores têm se centrado na subjugação da mulher à dominação masculina, tendo
sua origem na apropriação pelo homem dos meios de produção do trabalho e da espécie
humana. Nesse sentido, existe uma relação entre o patriarcado e o capitalismo, embora
sejam sistemas diferentes. A professora aponta que Scott critica essa concepção, uma
vez que tem como foco as discussões de gênero numa abordagem econômica e de
produção.

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Existe uma estrutura social que nos forma a partir do nascimento para que
assumamos determinados comportamentos de gênero. A família seria esse primeiro
espaço onde aprendemos e assimilamos as primeiras regras de gênero. Ao chegarmos à
escola, já temos uma vasta bagagem à qual será validada e expandida por essa e pelas
demais instituições sociais. Professores e alunos estão imersos nessa névoa chamada
cultura patriarcal machista.
Diante do exposto, retomo Bourdieu (2014) quando sinaliza que a dominação
masculina é, antes de tudo, uma manifestação da violência simbólica. A relação entre o
masculino e o feminino é permeada pela questão do poder, transpondo nossos
pensamentos e incidindo na forma como lidamos com as masculinidades e
feminilidades.

DIVERSIDADE SEXUAL NO CHÃO DA ESCOLA: SILENCIO E


PRECONCEITO

O debate em torno das diversidades sexuais nos remete, novamente, à


problemática do masculino e do feminino, tendo na virilidade uma incisão que fere e
ofende os sujeitos. Para Bourdieu (2014), as características masculinas estão
relacionadas à força física, à coragem e à virilidade, enquanto que o feminino é
caracterizado por sentimentos de compreensão, amor e compaixão. Os que transpõem
tais demarcações incorrem no risco de serem considerados desvios.
A opressão entre o masculino e o feminino, contínua, é fundamentada na
virilidade, configurando-se como uma “[...] noção eminentemente relacional, construída
diante dos outros homens, para os outros homens e contra a feminilidade, por uma
espécie de medo do feminino, e construída, primeiramente, dentro de si” (p. 79). No
sistema patriarcal, existe uma aversão ao feminino, o que acaba refletindo não só nas
relações entre homens e mulheres, mas em todas as instâncias das diversidades sexuais.
A concepção de homossexualidade, que durante muito tempo esteve à margem
dos discursos científicos sobre a sexualidade humana saudável, ainda é permeada por
incompreensão e violência. Durante a Idade Média, foi considerada pecado, depois
sadismo e perversão. Em seguida, os discursos científicos passaram a se referirem a ela

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como desvio, invertidos ou os que não praticam o sexo normal, termos esses
encontrados na teoria de Freud (1972).
Fry (1982) destaca que a medicina teve uma atuação política no intuito de
converter os homossexuais em heterossexuais ao apresentar aquela como patologia no
século XIX. O discurso científico buscou compreender a sexualidade também para
controlá-la. Houve a ampliação do termo, mas isso não implicou necessariamente em
um respeito e acolhimento social. Essa condição humana foi considerada durante muito
tempo como uma patologia mental, o que refletia em sua nomenclatura:
homossexualismo.
Só mais recentemente, no dia 17 de maio de 1990, a Organização Mundial de
Saúde (OMS) desvinculou a homossexualidade de doença. Retirou-se o código 302.0 da
Classificação Internacional de Doenças (CID) que apontava a homossexualidade como
patologia, distúrbio e perversão. A partir de então, retirou-se o sufixo ismo, que
designava uma condição patológica (GUIMARÃES e ARAS, 2014).
Nesse sentido, é preciso relativizar a ideia de desenvolvimento e avanço
científico, uma vez que as relações entre os indivíduos continuam impregnadas de
estereótipos de gênero e as pessoas LGBTs são recriminadas e violentadas diariamente
por uma moral que supervaloriza o padrão heterossexual. Em 2015, foram registrados
319 mortes de pessoas LGBTs no Brasil motivadas pela homofobia6. Embora as
diversidades sexuais sejam reconhecidas como parte da condição humana, inclusas na
teia de relações que envolve a sexualidade, tendo estudos e pesquisas que contribuíram
para a despatologização desses sujeitos, o que se observa na contemporaneidade é um
discurso de resistência, intolerância e ódio contra as mesmas.
Parker (1991) atribui esse quadro de violência e exclusão o qual as pessoas
LGBTs estão sujeitas ao imperialismo heteromachista que ainda vigora em pleno século
XXI. Existe uma hierarquia entre os gêneros masculino e feminino, e, sobretudo, entre
as orientações sexuais: de uma lado, a heterossexualidade compulsória matrimonial com
fins reprodutivos, do outro, as sexualidades consideradas dissidentes. O autor destaca
que:

[...] a hierarquia do sexo põe em evidência uma série de práticas sexuais


possíveis numa espécie de continuum. Numa das extremidades desse
continuum encontra-se a sexualidade definida como “boa”, “natural” ou

6
Disponível em: < https://homofobiamata.wordpress.com/>. Acesso em: Jun/2016.

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“normal”: a norma da heterossexualidade reprodutiva, monogâmica,


conjugal, não comercial. Outras práticas sexuais são definidas como “más”,
“não naturais” ou “anormais” e empurradas para a outra extremidade do
continuum – o fundo da hierarquia. [...] O sexo apenas pelo prazer, a
promiscuidade sexual, a prostituição e a homossexualidade têm sido objeto
não apenas de estigma, mas muitas vezes de franca repressão destinada a
minimizar a ameaça que significam para a sexualidade normal (PARKER,
1991, p.150).

Durante as entrevistas, foi possível perceber diferentes posturas diante das


diversidades sexuais. As falas dos professores em diversos momentos podem parecer
contraditórias, mas se deve à dialética que envolve o tema. Para iniciar, destaco a de
Thelma quando informa que na escola não há distinção entre alunos pertencentes aos
grupos LGBTs:

Teve um aluno homossexual aqui, que eu não vou citar o nome, que é um
líder na sala dele. Ele é uma pessoa respeitada e por poucos votos deixou de
ganhar o conselho de classe. Inclusive tinham pessoas fazendo boca de urna
para sem ele pedir. Então, eu achei isso bárbaro. [Thelma].

Anteriormente, ao abordar a categoria gênero, a referida professora citou um


caso de uma garota que sofreu preconceito por parte dos colegas por ter assumido sua
orientação sexual. Durante a nossa conversa, essa professora não apresentou resistências
em relação ao tema, pelo contrário, mostrou-se aberta ao diálogo de forma bastante
sensível. Apesar de alguns professores apresentarem uma abertura ao discutir e aceitar o
tema dentro da escola, alguns observam que os alunos homossexuais são discriminados
e sofrem preconceitos por parte dos colegas. Outros docentes demonstraram não
interferirem nesses conflitos, como no caso da professora em questão citada
anteriormente.

Na sala de aula, em relação aos homossexuais, você ver os outros alunos


falarem muito “veado, fulano é veado”. Aí eu questiono: “como é o nome?”.
Isso é bullying. [Leda].

A grande maioria sofre bullying. Os que não sofrem são aqueles da


personalidade mais forte, ou os diretamente assumidos ou aqueles que
impõem respeito em alguém. Aqueles que têm a personalidade muito forte
são adotados pelo grupo, é como se o grupo estivesse exigindo dele toda hora
o respeito. Tem um aluno aqui que ele é afeminado, mas se diz não gay. Ele é
rejeitado pelo grupo, mas devido a sua formação religiosa ele não se deixa
abater. [Davi].

Eu nunca presenciei algo assim agressivo de querer bater porque é gay.


[Louise].

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Resumir o conflito com a afirmação de que se trata da prática do bullying incorre


no risco de encobrir a problemática com a naturalização. O processo de exclusão por
que passam as pessoas LGBTs na escola, como citado por alguns professores, está mais
relacionado com o estigma, e não à prática de bullying, embora se aproxime dessa
também.
As pessoas são constantemente categorizadas, tendo em suas particularidades
que a diferem do grupo o fundamento da exclusão. Para Goffman (2008), os estigmas
estão relacionados aos marginalizados socialmente, tais como LGBTs, prostitutas e
deficientes físicos e mentais. O estigma tem uma função depreciativa. O grupo
dominante tende a considerar anormais e estranhos os que não se enquadrarem no
padrão aceitável.

Enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele
tem um atributo que o torna diferente de outros [...]. Assim, deixamos de
considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estragada e
diminuída. Tal característica é um estigma [...] (GOFFMAN, 2008, p.12).

Dessa forma, a escola também é palco desse jogo de exclusão. Ao naturalizar a


heterossexualidade, estigmatiza as diversidades sexuais, silenciando-as. A prática do
bullying seria uma consequência do estigma, mas é mais condizente falar em violência
de uma forma geral, e não uma violência particular como é o caso da referida prática.
Portanto, o melhor caminho para superar esse quadro seria suscitar o debate sobre as
diferenças na escola. Porém, o que se observa é o silenciamento e a naturalização da
situação. Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, destaco um trecho da fala de
uma professora:

Eu acho que tem que prevalecer a maioria. Essa minoria aí (os homossexuais)
não tem que ganhar da maioria não! Nós, os héteros, que são a maioria, a
gente não pode aceitar que existam leis que venham a ser contrárias ao que
maioria deseja. Se eu tivesse uma filha que namorasse com outra mulher e
elas quisessem se casar, deus o livre ela morrendo primeiro, eu não iria ter
direito a nada, quem ia ter direito era a outra mulher com quem ela iria
conviver. Como mãe, eu não ia gostar porque eu alimentei, eu me dediquei
para formar aquela pessoa aí ela se encanta por uma outra que não contribuiu
com nada e se morrer primeiro ainda vai receber os bens dela. Não é a
minoria que tem que ditar as coisas não. Nós sempre trabalhamos assim,
maioria não é que ganha? Então porque é que a minoria está ganhando?
[Neusa].

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Em um primeiro momento, a fala da professora pode ser confundida com a de


uma mãe tomada pelo sentimento de ciúmes, não aceitando ter que dividir com o
cônjuge de sua filha os bens conquistados ao longo da vida, o que já seria
incompreensível. No entanto, no caminhar da entrevista, ao ser questionada se ficaria
insatisfeita no caso hipotético do matrimônio ser heterossexual, Neusa respondeu:

Claro que não! Porque aí seria uma relação normal, natural. A viúva teria
todos os direitos e é o certo! Eu penso assim. Não sei se eu estou errada. Eu
falei sobre essa questão porque eu tenho uma prima que ela é homossexual,
lésbica, e ela mora com a mulher e tudo mais. A minha tia, mãe dela, deve
pensar assim: “ora mais, eu lutei tanto, trabalhei tanto para ajudar essa
menina a se formar, a ter uma vida melhor, aí ela vai e se dedica totalmente a
uma criatura que a mãe nem gosta, nem aceita”. [Neusa].

Sem dúvidas, Neusa não fala sozinha. Existe um discurso maior que conduz as
pessoas rumo ao preconceito e à intolerância. De uma forma geral, quem não se
enquadrar em um determinado padrão será discriminado e interditado. As instituições
sociais, por meio de um processo educacional formal e informal, o qual se processa em
múltiplos espaços, busca homogeneizar os sujeitos, enquadrando-os em padrões de
cunho moral, étnico, religioso, identidade de gênero e orientação sexual.
Existe uma naturalização da homofobia. As agressões são classificadas, muitas
vezes, como brincadeiras. No mês de fevereiro de 2017, foi veiculada uma notícia em
que um garoto de 17 anos morreu em consequência de uma brincadeira por parte de
seus colegas de trabalho7. Ele recebia diariamente agressões verbais devido a sua
homossexualidade até que um dia foi imobilizado por dois colegas e teve uma
mangueira de ar introduzida no ânus, o que danificou seus órgãos internos levando-o a
óbito. Os agressores chamaram a família e socorro médico, informando que tudo não
passou de uma brincadeira. Porém, antes de morrer no hospital, o jovem informou que
não foi brincadeira, que já vinha sofrendo há meses.
Atitudes ingênuas podem estar carregadas de ideologias sexistas e homofóbicas.
Ao conceber as agressões físicas e simbólicas sofridas pelos alunos LGBTs como
brincadeiras, reforça-se o quadro de violência instituído na escola. Para Louro (2004), é
preciso “[...] estar atentas/os, sobretudo, para nossa linguagem, procurando perceber o
sexismo, o racismo e o etnocentrismo que ela frequentemente carrega e institui” (p. 64).

7
Notícia disponível em: < http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2017/02/antes-de-morrer-
garoto-negou-que-agressao-em-lava-jato-foi-brincadeira.html>. Acesso em: Fev/2017.

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A escola nos apresenta uma naturalização do modelo heteromachista que, além


de não se abordar a sexualidade, negligenciando seus mais variados aspectos, nega a
existência de uma diversidade sexual, acentuando os estereótipos de gênero ao separar
meninos e meninas nas horas das brincadeiras, na Educação Física, nas filas, nos jogos
de competição, etc. Estimula o preconceito e a homofobia ao não abordar o tema e ao
silenciar diante de tais situações, não discutindo o respeito às diversidades e os
preconceitos contra alguns grupos.
Contribui, dessa forma, para práticas como o racismo, a homofobia e o
machismo. Aliás, o racismo e o sexismo, de acordo com Freitas (2008), são dois pilares
que estão na base da escola e sociedade modernas, tendo a sexualidade como um
território de disputa. Torna-se fundamental suscitar reflexões sobre o assunto, a fim de
desnaturalizar práticas educativas que conduzam a esse quadro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Discutir gênero de diversidade sexual na escola requer uma atenção especial a


quem se encontra na linha de frente: professores e alunos. Oportunizar o direito à fala
aos professores foi essencial para elucidar a problemática. Foi possível ilustrar os
enfrentamentos atuais da escola com os referidos temas que surgem no cotidiano. Trata-
se de um pequeno recorte de uma realidade específica na Cidade de Fortaleza, porém,
pode servir de amostra como indicador de uma realidade mais ampla.
Seguramente, os professores não podem se despir de suas crenças ao entrarem
na escola. Eles carregam consigo suas concepções sobre assuntos diversos e muitas
dessas guiam suas práticas. Porém, é preciso perceber o limite entre essa subjetividade
que nos marca como seres humanos e uma ação pedagógica diretiva conduzida por
práticas repressivas de violência de gênero e de orientação sexual, dentre outras.

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CAPÍTULO VI

REDE DE PROTEÇÃO ÀS MULHERES E A ATUAÇÃO DO/A


ASSISTENTE SOCIAL FRENTE À VIOLÊNCIA DE GÊNERO
Lais Almeida de Sousa
Faculdade Vale do Salgado (FVS)

Antonia Cleidiana Diniz Pinheiro


Faculdade Vale do Salgado (FVS)

Cicero Charlison Renan Alves


Faculdade Vale do Salgado (FVS)

INTRODUÇÃO

A identificação social da mulher e do homem sempre foi construída com as


atribuições de papeis diferentes um do outro, e que a sociedade cumpre e quer que seja
cumprido. Onde essa sociedade define as áreas em que a mulher pode operar.
(SAFFIOTI, 1987). É evidente que a violência de gênero é frequente nos lares e, por
vezes, é tolerada pela vítima como forma de preservar a família. Tal situação afeta
muitos domicílios da sociedade brasileira. (OLIVEIRA, 2012). Durante muitos séculos,
a violência foi naturalizada, particularmente, a doméstica, de modo que estes atos
desumanos na grande maioria ficavam impunes (CORTIZO, GOYENECHE,2010). Em
todas as gerações, a mulher sempre foi considerada um ser subalterno à figura do sexo
masculino, tanto é que, nas sociedades primitivas, a única tarefa que competia à mulher
era a criação dos filhos e cuidados da casa. Desde então, o macho começa a impor sua
supremacia em relação ao sexo oposto, fazendo surgir a sociedade patriarcal,
consequentemente a dominação do homem nesta. (PORTO,2014). Por ser a Questão
Social matéria-prima do Serviço Social e a violência de gênero uma expressão da
mesma, o profissional de Serviço Social atua com esta problemática, assim o Centro de

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 125

Referência Especializado de Assistência Social deve ofertar serviços e recursos para que
esse profissional possa atuar, com o objetivo de superar a violência sofrida por estas.
Estudos mostram a gravidade do problema evidenciando a supremacia da
violência no âmbito familiar, mostrando também que o homem é o principal autor de
tais atos, onde é constatado que 92% da prática da violência é por parte do homem
(LISBOA,2014). No cenário brasileiro, a situação é bastante grave, já que uma pesquisa
da Fundação Perseu Abramo, relevou que, das 2.365 mulheres entrevistadas, uma em
cada cinco revela ter sofrido violência por parte do homem. Mostrou também que a
maioria são companheiros das vítimas (MADUREIRA, RAIMONDO, FERRAZ et al,
2014).
Nas últimas décadas, tem sido cada vez mais recorrente a luta dos movimentos
feministas buscando o reconhecimento por seus direitos, como fruto desses sucederiam
algumas conquistas significativas das quais se destacam a Constituição de 1988, a qual
traz em seu artigo 5° a igualdade entre homens e mulheres. No ano de 1994, registrou-se
outro importante marco para o enfretamento da violência, a Convenção Interamericana
para prevenir, punir, erradicar a violência contra a mulher. Já ano de 2006, é
promulgada a Lei 11.340, a qual cria mecanismos para prevenir e coibir a violência
doméstica contra a mulher, sendo a mesma um importante marco para o reconhecimento
dos direitos das mulheres no Brasil.

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA COMO UMA EXPRESSÃO DA QUESTÃO


SOCIAL

“A dominação masculina está presente no interior do mundo doméstico e


baseada na diferença biológica entre os sexos [...] entendidas como relações de poder
construídas historicamente, por meio de uma hierarquia/antagonismo de gênero1”
(TAVARES, 2010, p.123). Na antiguidade, gestar um filho do sexo masculino fazia
parte da cultura das famílias, esperava-se um homem para continuar a genealogia por
outras gerações. Assim, é perceptível a exclusão da mulher imposta pela sociedade, em

1
Conceito de gênero Para Butler (2008): o gênero não é construído por distinções biológicas, ou seja
feminino e masculino, mas sim como ambos se apresentam na sociedade, sendo a cultura o fator
determinante para definir o destino dos mesmos, corroborando com o conceito de que gênero é um
processo de construção.

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relação à espera e primazia de um filho homem, portanto, estas raízes corrompiam as


analogias de igualdade nessa conjuntura (OLIVEIRA, 2012). “Claramente a sociedade
está segmentada em homens dominadores e mulheres dominadas de outro, evidenciando
que o sistema patriarcal é o princípio estruturante da sociedade” (SAFFIOTI, 1987).
Desde os primórdios da humanidade, a figura feminina tem sido vista como um
ser inferior. Exemplo disso, está visivelmente exposto pela religião, quando os
ensinamentos bíblicos destacam Eva, gerada em decorrência da criação de Adão, sendo
definida como semelhante ao mesmo, assim entende-se que a mulher é caracterizada
como um ser rebaixado e imperfeito diante do sexo masculino e, por essa razão, é
imposta a submissão pelo homem (SILVA, 1992). A sociedade não está dividida entre
homens dominadores de um lado e mulheres subordinadas de outro. Há homens que
dominam outros homens, mulheres que dominam outras mulheres e mulheres que
dominam homens. Isto equivale a dizer que o patriarcado, sistema de relações sociais
que garante a subordinação da mulher ao homem, não constitui o único princípio
estruturador da sociedade brasileira (SAFFIOTI, 1987, p. 16).
As transformações advindas com a Revolução Industrial trazem resquícios da
valorização excedente do capital, isto reflete em uma grande precarização de trabalho,
pois haviam duras jornadas de trabalho. Além disso, as fábricas contavam com um
número bastante relevante de mulheres, já que sua mão-de-obra tinha menos custo para
o dono do capital (SANTOS, 2012). É importante salientar que o surgimento do século
XX foi permeado de incertezas, visto que se invadia por toda a Europa uma onda de
estagnação, ora mais intensa ora menos intensa, refletindo em tensões entre burguesia e
proletariado (MARTINELLI, 2000). Portanto, com o aparecimento da Revolução
Industrial, ou seja, com o surgimento da máquina a vapor houve uma significativa
adentrada da mulher no processo produtivo, todavia, a mesma continuou subalterna ao
homem e quase sempre exercendo dupla jornada de trabalho. (NASCIMENTO, 2014).
A partir dos anos 1970, o país passa por mudanças no modelo de produção, bem
como de organização. A reestruturação produtiva emerge como possível solução ao
momento de crise que era vivenciado, em meio a tal têm-se o início de diversos
movimentos feministas lutando por igualdade de gênero e o reconhecimento de direitos
(GUIRALDELLI, 2007). Historicamente, a figura feminina é indigesta, visto que as
mulheres foram afastadas de todas as tarefas consideradas masculinas, principalmente

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 127

as que envolvessem o raciocínio, pois naquela época, não eram associadas às mulheres a
aptidão para o pensamento lógico, assim permaneciam em espaços limitados sem que
pudessem mostrar as suas competências e desenvolturas (SILVA, 2014).
Algumas transformações ocorreram a partir do século XX, tais como a
colocação da mulher no mercado de trabalho florescida de novas relações conjugais, o
acesso aos campos do conhecimento (universidades), aos movimentos feministas que
buscaram e buscam a igualdade de gênero, famílias constituídas apenas com mulheres
executando o papel de chefe de família, e a autoridade para escolher procriar ou não, ou
seja, a conquista de novos papeis sociais (TAVARES, 2010). A participação das
mulheres nas lutas de classes e na organização política acentuava-se, o enfretamento de
discursos machistas e conservador do papel natural da mulher como mãe e esposa ganha
força (NASCIMENTO, 2014, p.51).
Cabe destacar que ainda há uma enorme desigualdade entre homens e mulheres,
de maneira que é real que os cargos de maior prestigio ainda são comandados por
homens, há também desvantagens em relação à remuneração entre ambos os sexos,
mesmo quando ocupam o mesmo cargo (NASCIMENTO,2014). A questão social não é
senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de
seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe
por parte do empresário e do Estado (IAMAMOTO E CARVALHO, 2013, p. 83-84).
O Serviço Social encontra na questão social o embasamento de sua
fundamentação como especialização do trabalho, sendo a mesma compreendida como o
conjunto de disparidades da sociedade capitalista madura (IAMAMOTO, 2014). De
acordo com Pastorini (2010):

“A ‘questão social’ está elementarmente determinada pelo traço e peculiar da


relação capital/trabalho, desta forma o sistema capitalista desde sua gênese
apresentava-se como um sistema selvagem onde manifesta-se da seguinte
forma: [...]a pauperização, a exclusão, as desigualdades sociais- são
decorrências das contradições inerentes ao sistema capitalista, cujos traços
particulares vão depender das características históricas da formação
econômica e política de cada país e/ ou região”. (PASTORINI, 2010, p.100,
101).

O capitalismo chega ao século XIX com sua forma histórica baseada na grande
indústria que o opera o trânsito da subsunção formal à subsunção real do trabalho ao
capital (SANTOS,2012, p.35). Verifica-se que, entre os anos de 1834 e 1847, mais de
metade dos trabalhadores [...] era mulheres e crianças também do sexo feminino,

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acrescendo o capitalismo (SANTOS, 2012, p. 36).” Calcula-se que o homem haja


estabelecido seu domínio sobre a mulher há cerca de seis milênios. Um nível
extremamente significativo deste fenômeno diz respeito ao poder político”. (SAFFIOTI
,1987, p.47). Vê-se que as transformações ocorridas com a transição do modelo de
produção capitalista pouco mudou a subordinação da mulher em relação ao homem. É
perceptível que a mesma adentrou de maneira tímida no cenário político, entretanto,
muitas são exploradas em atividades domésticas sem nenhuma proteção por parte do
Estado (SAFFIOTI, 1987).

A subordinação da mulher ao homem, contudo, não existe tão somente no


terreno político. Ela é marcada no campo econômico [...] a presença da
mulher é relativamente muito maior que a masculina nas atividades não
estruturadas segundo o modelo capitalista, no segmento comumente
conhecido como mercado informal de trabalho. (SAFFIOTI, 1987, p.48).

Historicamente, a sociedade brasileira perpassou por processo de dominação e


submissão em relação a mulher, tanto é que foi possível a construção social de
“machos” com características autoritárias e de segregação, de modo que a família
patriarcal foi a base de constituição de tal processo (OSTERNE,2001). “A sociedade
investe na naturalização deste processo. Isto é, tenta fazer crer que é atribuição do
espaço doméstico à mulher [...]. Desta forma, pode-se ver que existe uma cultura
arraigada na sociedade, na qual homens e mulheres devem desempenhar papéis
específicos a cada sexo” (SAFFIOTI, 1987, p.9). A mulher vive uma situação de desejo
da vontade de outrem, ora na condição de “puta”, ora de “santa” no papel de dona de
casa, mãe e esposa paciente e carinhosa. Portanto, a mulher torna-se vítima do
preconceito, seja esta considerada” exemplo” de esposa, ou quando a sociedade lhe
impõe a qualidade de anormal para com os padrões viventes na mesma. (SILVA,1992).
“A violência não é uma, é múltipla. De origem latina, o vocábulo, vem da
palavra vis que quer dizer força e se refere às noções de constrangimento e de uso da
superioridade física sobre o outro” (MINAYO, 2005, p.14). Em termos legais, a
violência doméstica é definida como ato de violência sofrida por mulheres no ambiente
doméstico e familiar, baseada no gênero, e que causa morte, lesão, sofrimento físico,
sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial (ALVES; OLIVEIRA;
MAFFACCIOLLI,2012, p.142). Segundo Teles e Melo (2003, p. 15):

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Violência, em seu significado mais freqüente, quer dizer uso dar força física,
psicológica ou intelectual para obrigar outra pessoa a fazer algo que não está
com vontade; é constranger, é tolher a liberdade, é incomodar, é impedir a
outra de manifestar seu desejo e sua vontade sob pena de viver gravemente
ameaçada ou até mesmo ser espancada, lesionada ou morta. É um meio de
coagir, de submeter outrem ao seu domínio, é uma violação dos direitos
essências do ser humano.

A concepção acerca da violência contra as mulheres é ampla, compreendendo


diversos tipos de violência, das quais englobam a violência doméstica, sexual, abuso e a
exploração sexual, assédio sexual no trabalho, assédio moral, tráfico de mulheres e a
violência institucional (BRASIL, 2011).

São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outra: I-


a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua
integridade ou saúde corporal; II- a violência psicológica, entendida como
qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima
ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise
degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões,
mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento,
vigilância constate, perseguição contumaz, insulto, chantagem,
ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro
meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; III- à
violência sexual, entendida como qualquer conduta que constranja a
presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante
intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou
utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que impeça de usar qualquer
método contraceptivo ou que force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à
prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que
limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV- a
violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure
retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos
de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos
econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades; V- a
violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia,
difamação ou injúria. (BRASIL, 2011).

A violência doméstica contra mulher, desde os primórdios da humanidade,


esteve presente nos lares de muitas famílias, porém, esta nem sempre foi entendida
como uma negação de direitos. Oliveira (2012, p.158) afirma:

Esta negação de diretos às mulheres atingiu níveis intoleráveis. A própria


Igreja Católica Medieval perseguiu mulheres supostamente “feiticeiras”,
acusadas de bruxaria, pois, segundo o entendimento vigente da época,
mulheres não eram susceptíveis ao intelecto, não podendo emitir opiniões,
tampouco questionar a própria estrutura social de cada país.

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“O homem era considerado um ser superior à mulher, isto de tal forma que a
mesma deveria acatar todas as ‘ordens’ do seu companheiro”. (SAFFIOTI, 1987, p.12).
Compreende-se que, na tentativa de inculcar nos seres humanos a ideologia da
‘inferioridade’ feminina, recorre-se, frequentemente, ao argumento de que as mulheres
são menos inteligentes que os homens.” Nesta colocação da autora, verifica-se que,
historicamente, a sociedade atribui a figura de submissão da mulher em relação ao
homem.” (SAFFIOTI, 1987, p.14). Segundo Porto (2014, p. 19):

O homem, desde a infância, foi sendo preparado para atitudes hostis, para
arrostar perigos e desafios, mesmo com o uso da violência. As próprias
atitudes lúdicas normalmente incitadas à infância masculina são relacionadas
ao uso da força, das armas, do engenho, ao passo que a mulher, pelo
contrário, foi historicamente preparada para a subserviência e a passividade.

Constata-se que existe um processo de exclusão social da mulher quanto aos


papéis por elas adotados, ou seja, há uma classificação do que é considerado
“adequado” para tais em sociedade, sendo assinaladas entre “santas” ou “putas”,
diferenciando as que convêm para ser mãe, mulher e esposa (SILVA, 1992).
Indubitavelmente, ainda existe um processo de naturalização da violência contra a
mulher, sendo possível constatar, através de ditados populares, como em briga de
marido e mulher ninguém mete a colher. (SILVA, 1992). É a partir dos anos 60 que a
nível mundial espalha-se a pílula anticoncepcional, o que possibilitou ao sexo feminino
poder escolher quando ter filhos e se os quer. Esta transformou o mundo subjetivo da
mulher, juntamente com a evolução do feminismo. (SARTI, 2010).
No Brasil e na América latino-americana do século XX, o feminismo enquanto
movimento social, tem características peculiares em relação às expressões do feminismo
nos Estados Unidos e Europa, na medida em que aqui se inseriu na oposição aos
governos autoritários [...] (SILVA,1992, p.82).
“O movimento feminista da década de 1970 lutou pelos direitos iguais entre
homens e mulheres, pela erradicação do preconceito, entre outro, assim foi peça
importante na consolidação e reconhecimento da mulher no país”. (BARSTED, 2001).
A violência doméstica não é episódica, pelo contrário, é recorrente, socialmente
tolerada e escondida pela vítima em nome da sacralidade da instituição familiar.
Infelizmente, essa manifestação desumana e preocupante que desenvolve-se no plano

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microssocial ganha, cada dia, mais adesão do interior de diversos lares brasileiros
(OLIVEIRA,2012, p.151).

A Lei Maria da Penha, então, surgiu para respeitar o dispositivo


constitucional que preconiza ideal assistência aos membros que compõe uma
família, conferir legitimidade aos movimentos feministas e cuidar da matéria
relativa aos direitos humanos das mulheres (OLIVEIRA ,2012, p.161).

“A violência doméstica é recorrente na sociedade brasileira, alcança mulheres de


diferentes níveis sociais, idades, cor, etnia, religião, nacionalidade entre outros, a mesma
é uma forma de imposição e controle do homem sobra a mulher” (SOUSA;
NOGUEIRA; GRADIM, 2013).

Em diferentes países da América Latina, estudos apontam um número


significativo de mulheres que afirmam ter sido vítimas de violência física
exercida por seu parceiro. Em alguns países, o percentual de mulheres que
afirmou ter sido agredida fisicamente por um homem chegou a 50%. O
menor percentual foi de 20%. No Brasil, particularmente, um número
estimado em 300.000 mulheres relataram terem sido agredidas fisicamente
por seus maridos ou companheiros a cada ano (BRASIL,2003).

“A construção social da inferioridade feminina faz com que o homem, por um


lado, desfrute de uma posição de poder em relação à mulher no mundo do trabalho e na
esfera das relações sociais [...]” (SILVA,1992, p.64). É necessário compreender a
violência contra a mulher como um fenômeno cultural, isto porque, em alguns países da
África e em outros de tradição muçulmanas, são realizadas mutilações do clitóris das
mulheres com o objetivo de que as mesmas nunca venham a ter prazer, compreende-se
que diariamente os diretos das mulheres são violados em diferentes níveis e dimensões
(SILVA, 1992). É certo que um dos maiores desafios do trabalho do/a Assistente Social
na contemporaneidade é esquematizar novas propostas que façam frente à questão
social (IAMAMOTO,2014).

Os assistentes sociais trabalham com a questão social nas mais variadas


expressões quotidianas, tais como os indivíduos as experimentam no
trabalho, na família, na área habitacional, na saúde, na assistência social
pública etc.[...] apreender a questão social é também captar as múltiplas
formas de pressão social, de intervenção e de re-invenção da vida construídas
no cotidiano, pois é no presente que estão sendo criadas formas novas de
viver, que apontam um futuro que está sendo germinado.( IAMAMOTO,
2014, p.28).

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O/a Assistente Social não tem sido um/a profissional autônomo, que exerça
independentemente suas atividades, dispondo das condições técnicas para o exercício de
seu trabalho e do completo controle sobre o mesmo, seja no que se refere à maneira de
exercê-lo ao estabelecimento do público ou clientela a ser atingida (IAMAMOTO;
CARVALHO, 2013, p.86). Vale salientar que o/a Assistente Social, assim como outros
trabalhadores, está condicionado às imposições do poder político, estando ligado às
expressões da “questão social” e as políticas públicas. Nessa lógica, este profissional
atuará com políticas públicas para as classes subalternas. (FREIRE; FREIRE;
CASTRO; 2010). Segundo (IAMAMOTO, 2014, p.201):

[...] A acumulação de capital não é parceirada eqüidade, não rima com


igualdade. [...] é possível atestar o crescimento da demanda por serviços
sociais, o aumento da seletividade no âmbito das políticas sociais, a
diminuição dos recursos, dos salários, a imposição de critérios cada vez mais
restritos nas possibilidades da população ter acesso aos direitos sociais,
materializados em serviços sociais públicos.

Como pode-se observar, o/a Assistente Social em seu cotidiano irá se deparar
com tais obstáculos, porém esses profissionais não devem ter uma visão messiânica ou
fatalista frente aos serviços prestados, já que não se pode acreditar que tudo será do jeito
que se deseja, mas é possível sim viabilizar direitos através do trabalho prestado por
esse profissional (IAMAMOTO, 2014). Portanto, é visível o aumento das demandas ao
Serviço Social, sendo que esta se dá por causa do significativo aumento das expressões
da questão social, como a pobreza, exploração do trabalho infantil, desigualdades
sociais como também a violência doméstica contra a mulher (IAMAMOTO, 2014). Vale
salientar que a questão social é a matéria-prima da atuação do/a Assistente Social e,
assim sendo, é necessário desenvolver uma prática onde seja indissociável a teoria da
prática, ou seja a práxis. Dessa forma, têm-se respostas qualificadas as expressões da
questão social, dentre elas a violência doméstica (IAMAMOTO, 2014).

POLÍTICAS PÚBLICAS DE ENFRETAMENTO A VIOLÊNCIA DE GÊNERO


EM TEMPOS DE CRISE DO CAPITAL

Um importante instrumento de prevenção à violência de gênero é o Serviço de


Proteção e Atendimento Integral à Família- PAIF, o qual dispõe sobre a prevenção e

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fortalecimento dos vínculos entre os indivíduos, através de ações ofertadas pelo Centro
de Referência de Assistência Social- CRAS. (BRASIL, 2009). É indispensável a
interação entre as políticas, para que aconteça a efetivação dos direitos, como forma de
prover as necessidades sociais da população (SCHÜTZ, 2009). A Carta Magna de 1988
e as Conferências Internacionais de 1990 requerem dos países que fazem parte da
organização a implementação de políticas voltadas ao público feminino para o
enfrentamento da violência, respeitando o princípio da dignidade humana (BARSTED,
2011). De acordo com a Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as
Mulheres:

A partir de 2003, as políticas públicas para o enfrentamento à violência


contra as mulheres são ampliadas e passam a incluir ações integradas, como:
criação de normas e padrões de atendimento, aperfeiçoamento da legislação,
incentivo à constituição de redes de serviços, o apoio a projetos educativos e
culturais de prevenção à violência e ampliação do acesso das mulheres à
justiça e aos serviços de segurança pública.(BRASIL, 2011, p. 7)

Vê-se que é imprescindível a articulação da Política de Assistência Social para


que os objetivos que a mesma se propõe que sejam alcançados, portanto a mesma deve
ser articulada com às demais políticas setoriais, somente desta forma é que às demandas
dos usuários serão atendidos (MONNERAT; ALMEIDA; SOUZA, 2014). Outro
equipamento bastante relevante para o enfrentamento da violência contra a mulher é
Centro de Referência Especializado de Assistência Social - CREAS. “O CREAS é um
equipamento estatal que presta serviços de proteção social especial de média e alta
complexidade, junto às famílias, seus membros e indivíduos, em seu contexto
comunitário, tendo por finalidade a orientação e o convívio sociofamiliar e comunitário,
em atendimento especificamente provocado pela violação de direitos” (SIMÕES,2012,
p.237, grifos nossos).
A Política Nacional de Enfretamento à violência contra a mulher versa sobre os
princípios, diretrizes e as ações para o enfrentamento de atos violentos e cruéis contra a
mulher, ou seja resguarda o direito à vida (BRASIL,2011). Verifica-se que o Brasil
evolui paulatinamente quanto a relevância de uma Lei especifica a qual contabilizasse
os dados relacionados a violência contra a mulher no país (OLIVEIRA, 2012). É
notável que houve avanços pela introdução do problema no alvo das políticas públicas,
todavia, não se apresentou como permanente resolução do mesmo, nem um

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compromisso oficial do Estado eficaz da violência contra a mulher (KISS, 2007). Já que
com a vitória do Neoliberalismo há uma reversão das políticas predominantemente
social democráticas, ou seja sua lógica agora vai está direcionada ao mercado, gerando
uma deficiência em tais políticas, limitando o acesso aos direitos amplamente
assegurados na Constituição de 1988. (FREIRE; FREIRE; CASTRO, 2010).

Em 1985, justamente na culminância da Década da Mulher, declarada pela


ONU, é inaugurada a primeira Delegacia de Defesa da Mulher e criado o
Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), por meio da Lei nº
7.353/85”. É notório que o Brasil evoluiu quanto a criação de políticas
públicas para previr e coibir a violência contra a mulher, como nos diz Jesus
(2015, p. 15) [...] O advento da Lei 11.340, de 7, de agosto de 2006,
constituiu avanço inovador do Brasil em sede de direitos humanos, como 18°
país da América Latina a aperfeiçoar sua legislação sobre a proteção da
mulher (BRASIL ,2011, p.15).

Baseada nos títulos da Constituição Federal e em outros pactos Internacionais é


criada a Lei Maria da Penha, de modo que a mesma entende a violência contra a mulher
como um ato de infligir os direitos humanos. Lei que assegura a proteção, a assistência
as vítimas, e penalidade aos que cometem tais atos (BRASIL, 2010). “Para efeitos dessa
Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão
baseada no gênero que lhe cause morte, lesão sofrimento físico, sexual ou psicológico e
dano moral ou patrimonial” (BRASIL, LEI 11.430/2006).

A Lei nº 11.340/06, denominada Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de


agosto de 2006, pelo Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva é
uma das mais importantes conquistas para a sociedade e das mulheres
brasileiras, tornando-se um direito das mulheres e dever do Estado.
(BRASIL, 2007, p. 08).

Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda,


cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à
pessoa humana sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem
violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e
social. (Artigo 2º, Lei Maria da Penha nº 11.340/2006). (Brasil, 2006).
Tal Lei foi uma resposta aos casos de violência doméstica contra a mulher. Foi a
partir do advento da referida Lei que os casos passam a serem julgados por juizados
especiais de violência doméstica e familiar contra a mulher (BRASIL, 2011). Porém,
esta Lei não conseguiu efetivar os resultados esperados, pois um texto legal, por si só,

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não modifica uma realidade fática sedimentar por séculos, embora a finalidade de toda
lei seja regrar o contexto ambiental ao qual foi endereçada, Porto (2015, p.26).

[...] O predomínio de aspectos culturais é que conduz tanto a ação dos


agressores, como à omissão das autoridades e da sociedade; dois
ingredientes- ação individual e omissão social ou pública- que colaboram
para a perpetuidade do ciclo nefando de violência contra a mulher. (PORTO,
2015, p.26)

Uma pesquisa realizada pela Organização Mundial de Saúde mostrou que entre
2006 a 2010, o Brasil está entre os dez países com maior índice de homicídios
femininos, revela também que tais crimes em sua maioria é praticado por homens com
alguma relação afetiva, estes são quase sempre praticados dentro da residência da vítima
(BRASIL,2003). “A situação brasileira se perpetua em grande parte graças a omissão e
ao pacto de silêncio que cercam a questão. Especialistas no atendimento às vítimas
estimam que, para 20 casos de violência no País, apenas um é denunciado” (JESUS,
2015, p.14). Ainda existe uma cultura de que a vítima é a responsável pela
representação legal, porém, a Lei 11:349 2006 prevê que o Estado ao saber do crime
deve tomar as medidas cabíveis, mas na realidade tal preceito ainda não se concretiza,
visto que é comum questionamentos por parte da autoridade sobre o registro ou não da
ocorrência (ABDALA; SILVEIRA; MINAYO, 2011).

O enfrentamento requer a ação conjunta dos diversos setores envolvidos com


a questão (saúde, segurança pública, justiça, educação, assistência social,
entre outros), no sentido de propor ações que: desconstruam as desigualdades
e combatam as discriminações de gênero e a violência contra as mulheres;
interfiram nos padrões sexistas/machistas ainda presentes na sociedade
brasileira; promovam o empoderamento das mulheres; e garantam um
atendimento qualificado e humanizado àquelas em situação de violência.
(BRASIL, 2011, p.25).

Para o enfretamento da violência doméstica, faz-se necessária a articulação entre


os entes Federativos, ou seja, Estados, Municípios e Distrito Federal, pois, do contrário,
o problema da violência persistirá, e até mesmo tenderá a ser naturalizada pela
sociedade (BRASIL, 2011). Para a Política Pública construir a rede antes de qualquer
coisa uma decisão política que exige estratégias processuais deliberadas, alianças,
“adquirindo uma configuração quase contratual”. (MONNERAT; ALMEIDA; SOUZA,
2014, p. 98). A definição de Rede está relacionada à articulação entre as instituições

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governamentais e não-governamentais, a qual objetiva melhores serviços para a


população, como também a qualificação dos mesmos. (BRASIL, 2011). Por ser um
problema que se expressa em várias dimensões, a violência contra a mulher precisa de
respostas sólidas por parte do Estado, uma vez que tal problema abrange as dimensões
de saúde, cultura, educação, segurança pública, assistência social dentre outras.
(BRASIL, 2011).

No âmbito do governo, a Rede de Atendimento à Mulher em situação de


Violência é composta pelos seguintes serviços: Centros de Referência de
Atendimento à Mulher, Núcleos de Atendimento à Mulher Casas-Abrigo
Casas de Acolhimento Provisório, Delegacias Especializadas de Atendimento
à Mulher (DEAMs) Núcleos ou Postos de Atendimento à Mulher nas
Delegacias Comuns, Polícia Civil e Militar, Instituto Médico-legal,
Defensorias da Mulher, Juizados de Violência Doméstica e Familiar, Central
de Atendimento à Mulher – Ligue 180, Ouvidorias, Ouvidoria da Mulher da
Secretaria de Políticas para as Mulheres, Serviços de Saúde voltados para o
atendimento dos casos de violência sexual e doméstica, Posto de
Atendimento Humanizado nos Aeroportos, Núcleo da Mulher da Casa do
Migrante ( BRASIL, 2011, p.30).

Percebe-se que a Lei 11:340/2006 foi de grande importância para o


enfrentamento da violência doméstica, mas é necessário que seja efetivado todo o
sistema de proteção à mulher, e não somente ações reprimidoras, mas sim práticas
voltadas ao empoderamento de todas as mulheres e nas diversas dimensões da vida
social (BRASIL, 2011). No campo da Assistência Social, ainda é difícil a consolidação
da assistência como um direito, de modo que suas práticas são fragmentadas e focalista
(COUTO, 2010). Porém, tratando das políticas públicas de atendimento à mulher, em
situação de violência doméstica, constata-se que, historicamente, sempre houve um
retrocesso um descaso quanto a estas situações (GROSSI; TAVARES; OLIVEIRA,
2008, p.268).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Discutir a violência doméstica é, antes de tudo, compreender que


tradicionalmente a mulher exerceu um papel de submissão e inferioridade com relação
ao sexo oposto, isso pode ser constatado na versão bíblica quando Eva é tida como
causadora do pecado, outro exemplo é o mito de Pandora onde mais uma vez a mulher é
culpabilizada pela maledicência vigente na sociedade, não sendo diferente nos tempos

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do Império, Colônia e República até os dias atuais. A violência doméstica contra a


mulher representa uma violação aos direitos humanos, uma vez que a mesma é
entendida como uma expressão da questão social, ou seja, fruto do sistema desigual de
acumulação do capital.
O enfrentamento à violência doméstica demanda do Estado políticas públicas à
garantir a proteção e efetivação dos direitos das mulheres vítimas de violência, como
também políticas cujo objetivo central seja o empoderamento das mesmas, já que
muitas vezes essas mulheres encontram-se fragilizadas acabando a tornar “natural” a
violência sofrida.
São perceptíveis avanços nos últimos anos quanto ao debate da violência
doméstica, desde os movimentos feministas da década de 1970, época na qual uma de
suas principais bandeiras eram pelo fim da violência contra a mulher, tais movimentos
acabaram culminando na criação da Lei Maria da Penha de 11 de agosto de 2006, a qual
visa prevenir e coibir a violência doméstica contra a mulher. Porém, passados dez (10)
anos de sanção desta, vê-se que sua efetividade é lenta e, por vezes, fragmentada.

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CAPÍTULO VII

A ATUAÇÃO DA EQUIPE INTERDISCIPLINAR DO CREAS


FRENTE OS CASOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A
MULHER NO MUNICÍPIO DE ICÓ-CE
Josué Barros Junior
Faculdade Vale do Salgado (FVS)
Faculdade de Medicina do ABC (FMABC)

Cicero Charlison Renan Alves


Faculdade Vale do Salgado (FVS)

Antonia Cleidiana Diniz Pinheiro


Faculdade Vale do Salgado (FVS)

Kerma Márcia de Freitas


Faculdade Vale do Salgado (FVS)
Universidade de Fortaleza (UNIFOR)

INTRODUÇÃO

É notório que a violência doméstica é frequente nos lares, ocasionalmente, é


tolerada pela vítima como forma de preservar a família. Tal situação afeta muitos
domicílios da sociedade brasileira. Durante muitos séculos, a violência foi naturalizada,
particularmente, a doméstica, de modo que estes atos desumanos na grande maioria
ficavam impunes (OLIVEIRA, 2012).
Em todas as gerações, a mulher sempre foi considerada um ser subalterno à
figura do sexo masculino, isto de forma tal que nas sociedades primitivas a única tarefa
que competia à mulher era a criação dos filhos e cuidados da casa. Desde então, o
macho começa a impor sua supremacia em relação ao sexo oposto, fazendo surgir a
sociedade patriarcal, consequentemente a dominação do homem nesta. (PORTO,2014).

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Estudos mostram a gravidade do problema evidenciando a supremacia da


violência no âmbito familiar, mostrando também que o homem é o principal autor de
tais atos, onde é constatado que 92% da prática da violência é por parte do homem
(LISBOA,2014).
Estudos populacionais e em serviços indicam maior risco de agressão às
mulheres por parte de pessoas próximas, como parceiros e familiares, do que por
estranhos. A violência física na vida adulta vinda de um parceiro, por exemplo, que é a
situação melhor estudada, atinge cerca de 20% a 50% das mulheres ao redor do mundo
ao menos uma vez na vida (NASCIMENTO, 2014)
No cenário brasileiro, a situação é bastante grave, já que uma pesquisa da
Fundação Perseu Abramo, relevou que das 2.365 mulheres entrevistadas uma em cada
cinco revela ter sofrido violência por parte do homem, mostrou também que a maioria
são companheiros das vítimas (MADUREIRA, RAIMONDO, FERRAZ et al, 2014).
Dessa forma, esse estudo teve como objetivo compreender a atuação da equipe
interdisciplinar do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS)
da cidade de Icó-Ce, frente aos casos de violência doméstica.

MÉTODO

Esse estudo foi do tipo exploratório descritivo, com abordagem qualitativa,


através da qual fora abordada o método dialético, que busca entendimento das práticas
exercidas pelos indivíduos inseridos na sociedade baseado na experiência e vivência dos
mesmos, ou seja através do empirismo (MINAYO, 2011).
A pesquisa foi realizada no Centro de Referência Especializado de Assistência
Social (CREAS) Fabilene Leandro Marcolino, situado na Rua Dr. Inácio Dias, no bairro
Centro, do município de Icó-Ce, o qual tem em sua estrutura física a sala de recepção,
uma sala dos auxiliares administrativos, uma sala dos técnicos, uma para atendimento
individual, um banheiro e a cozinha. Segundo dados do último censo do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município de Icó possui sessenta e cinco
mil quatrocentos e cinquenta e seis habitantes (65.456).
Os sujeitos participantes da pesquisa foram os técnicos de referência que atuam
no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de Icó-Ce. Fez-

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se uma busca de todos os técnicos da equipe interdisciplinar no total de quinze


participantes, sendo eles: por cinco Assistentes Sociais, dois psicólogos, quatro
orientadoras sociais, um advogado, dois técnicos e a coordenadora. Foi utilizado o
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e pós-esclarecido com os
profissionais, cumprindo assim os aspectos éticos necessários para a realização da
pesquisa. Como critérios de inclusão, o participante deveria estar atuando, nomeado ou
elegido como cargo comissionado, no referido espaço sócio ocupacional, para que
contribuam no melhor entendimento de como se apresenta a violência doméstica no
município de Icó-Ce. Não participaram da pesquisa o profissional que se recusou a
assinar o termo pós-esclarecido.
Para a coleta de dados, foi utilizado como instrumento a entrevista
semiestruturada, a mesma sendo composta por questões subjetivas, tendo em vista que é
o método mais utilizado para investigações na área das ciências sociais, sendo
caracterizada como um meio de interação social (GIL, 2014).
Para analisar os dados, foi utilizada como técnica a Análise de Conteúdo
Temática (ACT), realizar uma análise temática “[...] consiste em descobrir os núcleos de
sentido que compõem uma comunicação cuja presença ou frequência signifiquem
alguma coisa para o objeto analítico visado” (MINAYO, 2011, p.316).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A violência doméstica contra a mulher é um fato recorrente na sociedade, haja


vista que, historicamente, homens e mulheres desempenharam papéis específicos na
sociedade, de modo que ao homem cabia a tarefa de subsidiar a casa e à mulher as
tarefas do lar e cuidar dos filhos, tendo origem assim à cultura da sociedade patriarcal.
Dessa forma, a violência doméstica contra a mulher é reflexo das raízes
conservadoras e machistas, vigente em nossa sociedade. Os seguintes questionamentos
foram norteadores da pesquisa: O que é violência doméstica? Como se dá a atuação da
equipe interdisciplinar nos casos de violência doméstica? Quais as ações estratégicas
que a instituição desenvolve para o enfrentamento da violência doméstica? Como você
percebe a violência doméstica no município de Icó-Ce? Quando se constata um caso de
violência doméstica, quais são os procedimentos? De qual forma a equipe atua na

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perspectiva da emancipação dos sujeitos? Na sua percepção como se dá o trabalho


intersetorial da rede de proteção a mulher no município de Icó? Assim sendo, a
pesquisa tem por objetivo compreender como se dá a atuação da equipe interdisciplinar
do CREAS frente aos casos de violência doméstica no município de Icó-Ce.
Diante das exposições, surgiram as seguintes categorias:

Definição jurídica acerca da violência doméstica contra a mulher, emancipação e


efetivação

Nesta categoria, observou-se a definição da violência doméstica contra a mulher


na visão jurídica, em conformidade com a Lei 11.340/2006, emancipação e efetivação.

Juridicamente conceituando e levando em consideração a nova Lei Maria da


Penha em seu art. 5°, violência doméstica e familiar contra a mulher, será
qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão,
sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial (E1);

A violência doméstica é caracterizada pela ação ou omissão que ocasione


morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico, além de dano moral ou
patrimonial, ocorrido em espaço de convívio permanente ou esporádico de
pessoas, com ou sem vínculo familiar (E2).

A violência doméstica contra a mulher acontece dentro do âmbito familiar,


sendo invisível aos olhos da sociedade, pois mesmo que haja uma normativa que
assegure os direitos as mulheres vítimas de violência, estas acabam por omitir a situação
vivenciada, tendo em vista que existem questões afetivas, na maioria dos casos
financeiras, e o preconceito da sociedade machista, pois a mesma faz pré-julgamentos
de como a mulher deve ser perante o homem.
Diante das respostas, é perceptível que os participantes da pesquisa definiram a
violência doméstica de acordo com o artigo 5° da Lei 11.340 de agosto de 2006:
“Art.5° Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra
a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão,
sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial [...]” (BRASIL,
2006).
Verifica-se que os técnicos, os quais compõem a equipe interdisciplinar do
CREAS, ainda conceituam a violência doméstica sob uma ótica reducionista, ou seja

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apenas compreendendo na forma jurídica, sem considerar os aspectos sociais como um


fator determinante quanto sua predominância na sociedade.
Pode-se perceber que os entrevistados mostram que a emancipação dos sujeitos
ocorre quando estes se tornam conhecedores dos seus direitos, buscam a efetivação dos
mesmos para que haja a emancipação dos indivíduos enquanto cidadãos, assim, a
equipe trabalha nessa linha de conhecimento, efetivação e emancipação.

O Creas em trabalho conjunto com as demais unidades públicas destinadas ao


atendimento socioassistencial além da prevenção de situações de
vulnerabilidade e risco social, identificam e estimulam possíveis
potencialidades locais, modificando através de suas ações a qualidade de vida
das famílias que vivem nas localidades atendidas, visando a emancipação e
inclusão como cidadãos dos usuários, tendo acesso a seus direitos (E1);

A emancipação e falta de autonomia são demandas constantes no que tange a


violência doméstica, visto que o sistema familiar estar estabilizado. Promover
ações para realinhar o sistema, tratando algumas dissonâncias afetivas de
maneira a compreende-los e propor mudanças; como também disponibilizar
cursos profissionalizantes; são ações que fazem parte de um conjunto de
estratégias para viabilizar a emancipação emocional e financeira dos sujeitos
(E2);

Buscando o empoderamento dos sujeitos e suas famílias, e a orientação para


efetivação dos seus diretos (E3);

Na adoção da práxis profissional na atuação interventiva permite o respeito


de gênero humano de cada indivíduo, com isso trabalhamos as capacidades e
possibilidades enquanto homem genérico de ser autor da própria autonomia e
promotor da própria emancipação (E4).

A conquista dos direitos civis e políticos foi de extrema relevância para os


cidadãos, principalmente para a classe menos favorecida, a lei garante esses direitos
como forma de diminuir as desigualdades sociais existentes em sociedade.
A equipe interdisciplinar do CREAS, de acordo com as respostas dos técnicos,
por meio de estratégias que viabilizam a emancipação dos sujeitos através da busca pela
efetivação dos direitos dos mesmos, assim como afirmam Montaño, Deriguetto (2011,
p.130), “[...] a emancipação estaria representada praticamente por qualquer conquista de
direitos sociais ou políticos, ou de redução de certas formas de desigualdade”.

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O atendimento interdisciplinar à mulheres em situação de violência doméstica e


ações preventivas

Esta categoria irá discorrer sobre a atuação da equipe interdisciplinar nos casos
de violência doméstica contra a mulher. Segundo os profissionais, essa atuação acontece
de maneira articulada dentro do equipamento, com vistas a desenvolver ações para
retirar a mulher da situação de violência.

O CREAS oferta para família e indivíduo que se encontrem em situação de


risco pessoal e social, por violação dos direitos, intervenções especializadas
que buscam romper com o ciclo de violência. Acontecendo assim no
enfrentamento da violência doméstica, ofertando serviços de maneira
continuada e direcionada a superação da situação de violação dos direitos
(E2);

A atuação interdisciplinar ocorre de forma articulada dentro do equipamento


voltados para atendimento especializado dentro da Política de Assistência
Social, como o CREAS que atua dentro da perspectiva de direitos, buscando
a superação da violência doméstica. Desenvolvendo ações com o objetivo de
empoderamento da família (E3).

A equipe interdisciplinar do CREAS deve atuar de acordo com os serviços


ofertados pelo equipamento, ou seja:

acolhida; escuta; estudo social; diagnóstico socioeconômico; monitoramento


e avaliação do serviço; orientação e encaminhamentos para a rede de serviços
locais; construção de plano individual e/ou familiar de atendimento;
orientação sócio-familiar; atendimento psicossocial; orientação jurídico-
social; referência e contra-referência; informação, comunicação e defesa de
direitos; apoio à família na sua função protetiva; acesso à documentação
pessoal; mobilização, identificação da família extensa ou ampliada;
articulação da rede de serviços socioassistenciais; articulação com os serviços
de outras políticas públicas setoriais; articulação interinstitucional com os
demais órgãos do Sistema de Garantia de Direitos; mobilização para o
exercício da cidadania; trabalho interdisciplinar; elaboração de relatórios e/ou
prontuários; estímulo ao convívio familiar, grupal e social; mobilização e
fortalecimento do convívio e de redes sociais de apoio; dentre outros
(BRASIL, 2011).

Diante das respostas obtidas, pode-se perceber que são elaboradas estratégias
pela equipe visando atender a mulher vítima de violência de acordo com os serviços
ofertados pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social-CREAS, visto
que são de competências dos profissionais que compõem a equipe interdisciplinar a
execução dos mesmos.

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[...] ações para retirar a vítima da situação de violação dos direitos. São
exemplos: Atendimento Social, psicológico, jurídico; Escuta qualificada;
Visitas domiciliares; Encaminhamentos para rede socioassistencial e outros
setores, caso necessário. (Referência e contrarreferência) (E2);

As ações preventivas como campanhas, caminhadas, divulgação da temática


e do Serviço do CREAS, e também ação educativas, fortalecimento dos
vínculos familiares e comunitários(E3).

É relevante que a equipe interdisciplinar divulgue os direitos dos usuários com a


finalidade dos mesmos reconhecerem os seus direitos e mostrar para a população como
e onde buscar pela efetivação do que de fato é direito do cidadão, tendo em vista a
emancipação dos sujeitos.

Orientações básicas sobre os seus direitos [...] bem como em relação aos
diferentes tipos de violência e suas respectivas penalidades; à importância de
fazerem a denúncia e efetuarem um Boletim de Ocorrência; aos mecanismos
de proteção previstos na Lei Maria da Penha, esclarecendo as opções de
encaminhamento para as diferentes Instituições da Rede Socioassistencial.
Instrumentais Técnico-Operativos, como “Oficinas com Mulheres em
situação de violência” [...] divulgação de informações sobre a questão da
violência através de folders e cartilhas, contendo: os locais que oferecem
atendimento; explicação a respeito dos direitos das mulheres e dos
mecanismos de proteção previstos na Lei Maria da Penha; e orientação para
prevenir os desagravos e humilhações, entre outros aspectos (LISBOA, 2014,
p.50)

Assim, podemos observar de acordo com as respostas que os profissionais


desenvolvem ações de fortalecimento, e reconhecimento dos direitos dos usuários, neste
caso do público alvo dessa pesquisa, tendo em vista que a afirmação de Lisboa (2014)
em relação ao desenvolvimento das ações de orientação e divulgação sobre os direitos
das mulheres vítimas de violência e a prática dos profissionais estão em consonância.

A intersetorialidade e a relações de gênero impostas pela sociedade

De acordo com o mapa da violência 2015, o maior número de casos de violência


doméstica ocorre com maior frequência nos pequenos municípios, não nas capitais
(BRASIL, 2015), portanto, abordaremos nesta categoria a incidência da violência
doméstica contra a mulher no município de Icó-Ce.

[...] é notório que devido a desinformação e medo das vítimas de violência


doméstica, juntamente com atitudes machistas por parte dos homens

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agressores aliado a sensação de impunidade e descaso por parte dos poderes


constituídos, ainda existem muitos recorrentes casos de violência,
principalmente contra menores, mulheres e idosos[...] (E1);

A incidência desse tipo de violência é alta aqui no CREAS, acredito que a


forma como culturalmente são colocadas as relações de poder e gênero, tem
influência neste fato (E2);

Os papéis sociais construídos historicamente, na sociedade em relação a


autonomia e dominação masculina e a inferioridade e submissão feminina, são reflexos
da violência contra a mulher, ocorrendo desde os primórdios da humanidade até os dias
atuais.

O conceito de violência de gênero deve ser entendido como uma relação de


poder de dominação do homem e de submissão da mulher. Ele demonstra que
os papeis impostos às mulheres e aos homens, consolidados ao longo da
história e reforçados pelo patriarcado e sua ideologia, induzem relações
violentas entre os sexos e indica que a prática desse tipo de violência não é
fruto da natureza, mas sim do processo de socialização das pessoas (TELES,
MELO, 2003, p.18).

A violência contra a mulher na visão das autoras e dos entrevistados ocorre pela
dominação de gênero existente na sociedade e pela falta da devida aplicabilidade das
denúncias e das leis existentes, especificamente para os casos assim citados pelo
entrevistado um (1), quando o mesmo fala “a sensação de impunidade e descaso por parte dos
poderes constituídos”, está reafirmando o que (CORTIZO, GOYENECHE, 2010, p.107):

[...] apesar da existência de normas internacionais e locais específicos para


coibir e prevenir a violência doméstica contra a mulher, essas, por si só, não
garantem a sua efetivação. Temos casos onde, apesar das queixas, não são
instaurados inquéritos policiais para verificar a denúncia, demonstrando o
descaso e descrédito dos policiais que lidam com esta demanda e as decisões
judiciais preconceituosas e carregadas de subjetividade.

Os profissionais responderam que, no munícipio de Icó-Ce, existe um alto índice


de violência doméstica e afirmam, em consonância com os autores citados acima, que a
violência de gênero ocorre pelos papéis sociais desenvolvidos em nossa sociedade e
pelo descaso da aplicação das leis existentes, sendo esse um dos fatores pelos quais
muitas mulheres não denunciam o seu agressor.
Mesmo que a intersetorialidade seja norteadora para a articulação entre as
políticas públicas existem numerosas barreiras para a sua operacionalização
(TUMELERO, 2014), assim, abordaremos nesta categoria como se encontra a rede

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intersetorial de proteção à mulher do município de Icó-Ce, considerando as respostas


dos profissionais.

De maneira satisfatória; nos (CREAS), Delegacia, Promotoria de Justiça e


Poder Judiciário trabalhamos em parceria, isso fortalece o serviço e contribui
para eficiência do mesmo(E2);

Ainda as ações ocorre de forma fragmentada tendo como uma das


dificuldades a falha na articulação de forma efetiva e eficaz da
Intersetorialidade no Município. Como também a “inexistência” da Contra
Referência dos encaminhamentos enviados para a rede (E3);

Se dá de forma ainda muito precário, com falha, apesar que a legislação é


muito eficaz ( Lei Maria da Penha) , mas fica muito só no “papel”(E4).

A rede de proteção à mulher necessita de articulação nos serviços oferecidos


para que o trabalho possa ser executado de maneira a garantir resultados positivos. Por
isso, a intersetorialidade se faz necessária e de extrema relevância, visto que a
intersetorialidade é um guia para as ações desenvolvidas no âmbito das políticas sociais.
Podemos observar que existe uma divergência entre as respostas dos
participantes da pesquisa, o entrevistado dois (2) afirma que a intersetorialidade
acontece de maneira satisfatória, os entrevistados três (3) e quatro (4) afirmam que a
intersetorialidade nos serviços de proteção social do município acontecem de maneira
precária e fragmentada. Surge um questionamento de como se encontra a situação da
rede intersetorial do município, visto que um dos técnicos considera satisfatório o
trabalho articulado entre as redes de proteção social, e dois afirmam que a
intersetorialidade no município funciona de maneira fragmentada e precária.

Para Assistência Social o desafio da intersetorialidade se coloca tanto na


busca de articulação das iniciativas públicas, como da sociedade na
perspectiva da construção de uma rede protetiva no âmbito dessa política. Em
seu desenvolvimento as políticas públicas [...] apresentam-se setorializadas e
desarticuladas, respondendo a uma forma de gestão com características
centralizadoras e hierarquizadas [...] Essa forma de gestão da política vem
historicamente gerando fragmentação da atenção às necessidades sociais e
ações paralelas; além de divergências quanto aos objetivos e papel de cada
área, prejudicando particularmente os usuários, sujeitos das atenções dessas
políticas (YAZBEK, 2014, p.99)

A afirmação da autora possibilita o entendimento da fragmentação e


precariedade da intersetorialidade citada pelos entrevistados, mostrando esse problema
como algo construído historicamente relacionado às práticas assistencialistas executadas

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 149

nas políticas sociais desde o seu surgimento. Quando não há intersetorialidade entre a
rede de proteção a mulher e outros serviços de garantia de direitos, se torna inexistente a
articulação necessária para que haja efetivação dos direitos desse público.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Discutir a violência doméstica é, antes de tudo, compreender que, com o


decorrer da história, a mulher exerceu um papel de submissão e inferioridade com
relação ao sexo oposto, isso pode ser constatado na versão bíblica, quando Eva é tida
como causadora do pecado. Outro exemplo é o mito de Pandora, em que, mais uma vez,
a mulher é culpabilizada pela maledicência vigente na sociedade, não sendo diferente
nos tempos do Império, Colônia e República até os dias atuais. A violência doméstica
contra a mulher representa uma violação aos direitos humanos, uma vez que a mesma é
entendida como uma expressão da questão social, ou seja, fruto do sistema desigual de
acumulação do capital.
São perceptíveis avanços nos últimos anos quanto ao debate da violência
doméstica, desde os movimentos feministas da década de 1970, período em que uma de
suas principais bandeiras eram pelo fim da violência contra a mulher, tais movimentos
acabaram culminando na criação da Lei Maria da Penha de 11 de agosto de 2006, a qual
visa prevenir e coibir a violência doméstica contra a mulher. Porém passados quase dez
(10) anos de sanção desta, vê-se que sua efetividade é lenta e por vezes fragmentada.
Nesse estudo, foi possível compreender como a equipe interdisciplinar do Centro
de Referência Especializado de Assistência Social-CREAS atua nos casos de violência
doméstica contra a mulher, realizando o trabalho na perspectiva de enfrentamento desse
fenômeno, visando sempre a efetivação dos direitos desse público com estratégias
voltadas ao fortalecimento dos vínculos familiares, prevenir e buscar resolução para os
casos de mulheres vítimas de violência doméstica. Porém, diante desse contexto, note-
se à existência de grandes desafios ao enfrentamento de tal problemática, tendo em vista
que essa demanda requer empenho dos gestores, agentes públicos, e da sociedade civil,
de modo que as políticas públicas sejam pensadas e executadas não para os excluídos,
mas para que seja construída uma nova sociabilidade, tendo centralidade na
emancipação dos sujeitos.

SUMÁRIO
ISBN 978-85-463-0257-4 | 150

Identificou-se que os profissionais que integram a equipe interdisciplinar


desenvolvem atividades e estratégias de enfrentamento à violência doméstica contra a
mulher, de acordo com os serviços ofertados pelo equipamento CREAS, com visitas
domiciliares, escuta qualificada, entrevistas, entre outros. Outro ponto a ser destacado é
a rede intersetorial do município, pois sabemos que a intersetorialidade é norteadora nas
articulações entre as políticas públicas. Segundo a maioria dos participantes, a rede se
encontra fragmentada e, em decorrência disso, existem barreiras na execução das
atividades junto a outras políticas de proteção a mulher.
Pode-se observar que os profissionais da equipe atuam pautados somente nos
instrumentais existentes na instituição, deixando de considerar o indivíduo em sua
totalidade, desse modo, a “práxis” torna-se algo inexistente, portanto, supõe-se que os
mesmos utilizem a instrumentalidade, principalmente, os Assistentes Sociais, pois esse
profissional necessita ver além do que está posto, utilizando da sua criticidade para
intervir na realidade social.
Este trabalho buscou tecer reflexões acerca da atuação da equipe interdisciplinar
do Centro de Referência Especializado de Assistência Social- CREAS, de como se
apresenta a atuação frente aos casos de violência doméstica no município de Icó-Ce,
mostrando os limites e potencialidades para a efetivação dos direitos da mulher vítima
de violência e execução dos serviços no referido equipamento. Dessa forma, este
trabalho mostra que ainda há uma longo caminho a ser trilhado quanto à superação das
desigualdades de gênero na sociedade. Todavia, vê-se que as contribuições de teóricas
tem sido relevante para compreensão de tal fenômeno.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 151

REFERÊNCIAS

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Brasil. Brasília – 2010. Disponível em: http//www.spm.gov.br, Data do acesso: 13/02/2016.

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YAZBEK, Maria Carmelita. Classes Subalternas e Assistência Social. São Paulo: Cortez,2014.

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CAPÍTULO VIII

VIOLÊNCIA DE GÊNERO E A QUESTÃO DA DIGNIDADE


FEMININA EM COMUNIDADES ISLÂMICAS 1

Allana de Freitas Lacerda


Universidade Federal do Ceará (UFC)

INTRODUÇÃO

O contraste entre o homem e a mulher, a suposta superioridade masculina e sua


característica essencialmente racionalista em oposição a um ser passional e à
passividade feminina, ainda são questões que permeiam a trajetória histórica das
sociedades em relação às questões de gênero: marcada por embates, conflitos,
reivindicações, avanços e, em alguns casos, retrocessos.
A tentativa de conferir um certo espaço para a mulher não foi bem sucedida,
visto que a mesma ainda se encontrava numa posição ainda restrita ao espaço
doméstico, agora sob a justificativa racional de natureza biológica e não mais social,
como bem ressalta Rousseau apud Neri (2005). Ao facultar uma clara distinção de
gênero a uma “decisão” naturalística, Rousseau visava a não contestação e a aceitação
do curso e da ordem “natural” da vida.
Uma leitura contemporânea do texto da Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão de 17892, já prevê uma igualdade de direitos, embora seja no campo formal,
em âmbito jurídico, quando, na prática, não são contempladas as mulheres, como pode
ser visto no transcrito dos trechos, a seguir:

1
Ideias iniciais deste artigo foram submetidas e aprovadas para apresentação oral no XVI Congresso de
História da Educação no Ceará, realizado em Icó-CE pela Linha de História e Educação Comparada do
Programa de Pós-graduação em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará (UFC).
2
BIBLIOTECA VIRTUAL DE DIREITOS HUMANOS – USP. Declaração dos Direitos do Homem e
do Cidadão. Disponível em:<http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-
%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-
1919/declaracao-de-direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.html>. Acesso em: 25 ab. 2016.

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Os representantes do povo francês, reunidos em Assembléia Nacional, tendo


em vista que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do
homem são as únicas causas dos males públicos e da corrupção dos
Governos, resolveram declarar solenemente os direitos naturais,
inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que esta declaração, sempre
presente em todos os membros do corpo social, lhes lembre
permanentemente seus direitos e seus deveres; a fim de que os atos do Poder
Legislativo e do Poder Executivo, podendo ser a qualquer momento
comparados com a finalidade de toda a instituição política, sejam por isso
mais respeitados; a fim de que as reivindicações dos cidadãos, doravante
fundadas em princípios simples e incontestáveis, se dirijam sempre à
conservação da Constituição e à felicidade geral.

Em razão disto, a Assembléia Nacional reconhece e declara, na presença e


sob a égide do Ser Supremo, os seguintes direitos do homem e do cidadão:
Art. 1º. Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções
sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum. (grifo nosso).

Reivindicando uma igualdade em todos os campos, não só juridicamente, mas


social e politicamente, em 1791, Marie Gouze, conhecida como “Olympe de Gouges"
proclamou um texto jurídico a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã3”, em
resposta a não contemplação da mulher na Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão. Dentre os direitos demandados estão o da igualdade (art. 1º), liberdade (1º e
4º), propriedade (art. 17º), participação política (art. 6º) e empregos públicos (art. 6º),
reconhecimento de filhos fora do casamento (art. 11º), dentre outros. Contudo, é no
artigo 10º da sua Declaração e no pós-âmbulo que estão suas maiores críticas ao
governo, que questiona a capacidade e habilidade da figura feminina e à passividade de
outras mulheres:

Art. 10º. Ninguém deve ser molestado por suas opiniões, mesmo que sejam
de princípio; a mulher tem o direito de subir ao cadafalso; mas ela deve
igualmente ter o direito de subir à tribuna, contanto que suas
manifestações não perturbem a ordem pública estabelecida pela lei.

Pós-Âmbulo. Mulher, acorda! A força da razão faz-se ouvir em todo o


universo: reconhece teus direitos. O poderoso império da natureza já não
está limitado por preconceitos, superstição e mentiras. A bandeira da
verdade dissipou todas as nuvens da parvoíce e da usurpação. O homem
escravo multiplicou suas forças, precisou recorrer às tuas (forças) para
romper seus grilhões. Tornado livre, ele fez-se injusto em relação à sua
companheira.

3
GOUGES, Olympe de. Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Disponível
em:<https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=3&cad=rja&uact=8&ved
=0ahUKEwie8ZTA_6rMAhVNzGMKHQtxAjUQFggoMAI&url=https%3A%2F%2Fdialnet.unirioja.es%
2Fdescarga%2Farticulo%2F5175681.pdf&usg=AFQjCNHE2nN3ZHx_W9a1tShEP8KaTMLQFQ&sig2=
AcDFSIqn49CodV99KFzDfw&bvm=bv.120551593,bs.1,d.cWw>. Acesso em: 25 ab. 2016.

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[…] Quaisquer que sejam as barreiras que se vos possam opor, está em
vossas mãos superá-las; basta que o queirais. Tenhamos agora em conta o
pavoroso quadro do que vós fostes na sociedade; dado que, neste momento,
se trata de uma educação nacional, estejamos atentos para que nossos
sábios Legisladores pensem sãmente sobre a educação das mulheres.
(grifo nosso).

No século XIX, com Kant e Fichte (apud NERI, 2005), a luta pela igualdade
entre os gêneros ainda se entremostrou limitada. O primeiro justifica essa limitação em
virtude da mulher buscar somente “a reprodução da espécie e do casamento”, que seria,
em termos kantianos, a lei da espécie e a lei jurídica do casamento. Com Fichte, tem-se
uma “mulher meio”, que abdica de si mesma racionalmente para satisfazer o homem.
Dessa maneira, para ambos, a incapacidade de independência da mulher, em razão da
subordinação ao marido e ao casamento, são responsáveis por não possuir personalidade
civil, comportando a figura masculina à representação comum da cidadania e, no que
tange a mulher, fica restrita ao espaço doméstico.
Na modernidade, com Nietzsche, se tem uma discussão entre os gêneros mais
relacionada com uma luta de poder, ou seja, quem ganharia e perderia com a
emancipação da mulher (apud NERI, 2005).
No que se refere às representações do oriente, além de outras questões a elas
relacionadas, se apresentam as concepções ocidentais, ao que parece importante à
reflexão. Uma sociedade dita patriarcalista e conservadora, na qual a política e a religião
legitimam as situações de dominação, violência e exclusão da mulher islâmica, relegada
a um papel mínimo na sociedade, são questões a serem averiguadas, notadamente, se
interpretada à luz das ideias contemporâneas ocidentais.
A autora Neumann (2006) descreve a dificuldade da mulher em atingir as altas
esferas políticas ou promover mudanças nesses sistemas em virtude da interpretação das
leis serem da competência de certos grupos masculinos, os quais ela acusa de
conservadores, patriarcalistas e excludentes. Como ilustração, a autora apresenta a
seguinte circunstância (NEUMANN, 2006, p. 12):

Feministas muçulmanas argumentam que o Islã em si não é reacionário mas


sim a sua interpretação, que tende a manter o status quo, isto é, patriarcal e
excludente. Mas não se pode descartar por completo o fato de que o texto
sagrado deixa claro em determinadas passagens a condição de inferioridade
da mulher, “os homens são superiores às mulheres pelas qualidades com que
Deus os elevou acima delas e porque os homens gastam os seus bens a dotá-

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 155

las […]. O argumento de que o testemunho de uma mulher numa questão


referente a negócios por exemplo, seria considerado inferior ou não
qualificado, aparentemente é uma postura de tempos arcaicos. Mas segundo
o Corão o depoimento de uma mulher formada continua inferior mesmo em
relação a um homem iletrado.

As reivindicações feministas, contudo, por uma certa igualdade ou pelo menos


por uma dignidade mínima, são vistas com reticência nos países islâmicos: de um lado,
o argumento de que estariam contestando leis divinas já previamente estabelecidas; de
outro, tensionada pelo efeito dos direitos humanos ocidentais de igualdade e liberdade.

A DISCUSSÃO DO GÊNERO FEMININO NO OCIDENTE E NO “ORIENTE”

Nota-se o contraste entre o mundo ocidental e o mundo islâmico, bem como os


valores distintos das suas sociedades. As diferenças culturais com seus particulares
modos de enxergar o outro e viver no Mundo para as sociedades em geral, enseja ainda
discriminações gritantes à mulher, apesar de esse paradigma vir tentando ser substituído
paulatinamente, tendo em vista os fatos históricos irem mudando as necessidades
sociais. Como destaca Boaventura (2009, p. 6) que:

[…] Todas as culturas possuem concepções de dignidade humana, mas nem


todas elas concebem em termos de direitos humanos. […] Todas as culturas
são incompletas e problemáticas nas suas concepções de dignidade humana.
Se cada cultura fosse completa como se julga, existiria apenas uma só
cultura. Aumentar a consciência de incompletude cultural é uma das tarefas
prévias à construção de uma concepção multicultural de Direitos Humanos.

Efetivamente, para o Islã, a mulher ainda não goza dos mesmos direitos que os
homens, até mesmo porque a questão da igualdade entre os gêneros ainda não foi
superada, embora tenha havido avanços. Considerando aqui, ainda o plano jurídico
como norteador, convém citar a Convenção sobre a Eliminação de todas as formas de
Discriminação contra a Mulher de 1979, que mesmo tendo ampla adesão dos países, foi
a que mais apresentou reservas nos seus dispositivos, principalmente na cláusula
relativa à igualdade entre homens e mulheres no âmbito familiar. Nesse sentido, declara
Piovesan (2008, p. 194-195):

[…] Isso reforça o quanto a implementação dos direitos humanos das


mulheres está condicionado à dicotomia entre os espaços públicos privado,

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ISBN 978-85-463-0257-4 | 156

que, em muitas sociedades, confina a mulher ao espaço exclusivamente


doméstico da casa e da família. Vale dizer, ainda que se constate,
crescentemente, a democratização do espaço público, com a participação
ativa das mulheres nas mais diversas arenas sociais, resta o desafio de
democratização do espaço privado – cabendo ponderar que tal
democratização é fundamental para a própria democratização do espaço
público.

Em contraste com essa concepção de mulher submissa, como símbolo sexual e


da ideia de impureza e do pecado, iletrada, que deve pedir autorização para o homem
para qualquer atividade fora do âmbito do lar, e cujo uso do véu como uma obrigação
imposta pela religião, ou seja, o caso do suposto sofrimento da mulher muçulmana
sempre ser levada para o lado religioso, existe um outro lado manipulador, de questões
generalistas.
A noção de equivalência de direitos e de dignidade entre um homem e mulher
coloca em discussão a ideia de igualdade e paridade entre os sexos, não importando a
situação, ou mesmo a caracterização da vulnerabilidade e fragilidades femininas,
concepção essa que exige uma postura no momento da aplicação e reconhecimento dos
direitos, tratando-as de maneira distinta, diferentemente se fosse um caso envolvendo
uma figura masculina. Nessa linha de pensamento, Motahari (2008, p. 115)4 destaca
esses aspectos:

O fulcro desses argumentos é que a consequência inevitável dos homens e


mulheres compartilharem da honra e dignidade humanas é terem os mesmos
e idênticos direitos. Ora, onde devíamos pôr o dedo é na necessidade de
determinar com exatidão, sob o ponto de vista filosófico, qual é a
consequência inevitável do homem e da mulher compartilharem da dignidade
humana. Será imperativo concluir que cada um deles deve ter direitos
equivalentes aos do outro, de forma a não haver privilégio ou preferência a
favor de qualquer um dos dois, ou será preciso que os direitos do homem e da
mulher, além de terem equivalência e paridade, devem também ser
exatamente os mesmo e não deve ter a mínima distinção de trabalhos e
deveres? Sem dúvida, a partilha da dignidade humana pelo homem e pela
mulher implica que tenham direitos humanos iguais, mas como será possível
que haja identidade de direitos?

Se formos capazes de pôr de lado a imitação e a aderência cega à filosofia


ocidental, e nos dermos ao trabalho de pensar e refletir sobre as ideias
provenientes dos ocidentais, a primeira coisa a fazer é ver se a identidade dos
direitos é ou não uma condição necessária para igualdade de direitos.
Igualdade não é o mesmo que identidade. Igualdade significa paridade,
equidade, e identidade significa uniformidade, que os direitos sejam
exatamente os mesmos. [...]

4
MOTAHARI, Mortedha. Os direitos das mulheres no Islam. Elaboração, supervisão e apresentação
pelo Sheikh Taleb Hussein Al-Khazraji. São Paulo: Centro Islâmico do Brasil, 2008.

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Nesse sentido, ao analisar a condição da mulher, seja muçulmana ou não,


inserida numa sociedade ocidental e a percepção de uma universalidade dos direitos
humanos, será que podemos afirmar que o mundo ocidental pode ser considerado um
símbolo de igualdade de gênero, acesso e garantia de direitos para as mulheres no geral?
Não existe discriminação sexual, bem como racial ou religiosa? Uma resposta
afirmativa para essa última pergunta me parece ser inexata e incorreta, como é
observado nos seguintes fragmentos de periódicos:
1) Exame5:

Apesar dos avanços registrados na consolidação democrática nos últimos


anos na América Latina, a desigualdade de gênero ainda é um desafio,
admitiu nesta quarta-feira o secretário-geral da Organização dos Estados
Americanos (OEA), Luis Almagro.

Para o diplomata, os “maiores desafios para a legitimidade e a vigência da


democracia nas Américas são as desigualdades sociais e de gênero”, segundo
uma nota publicada com ocasião do Dia Internacional da Mulher.

Essas desigualdades, acrescentou, “limitam o potencial de desenvolvimento,


segurança e governabilidade na região”.

Para Almagro, “as mulheres das Américas enfrentam uma série de desafios: a
cobertura midiática sexista, os estereótipos de gênero e a divisão de gênero
do trabalho político”.

Entre os desafios, Almagro destaca, ainda, a assistência a mulheres “que


pertencem a grupos vulneráveis”.

2) ONU Mulheres6:

Hoje, nós estamos lançando a campanha “HeForShe” (ElePorEla). Eu estou


aqui porque preciso da sua ajuda. Nós queremos acabar com a desigualdade
de gênero – e para fazê-lo, precisamos do envolvimento de todo mundo. Esta
é a primeira campanha da ONU deste tipo: nós queremos tentar atrair o maior
número possível de meninos e homens para que eles sejam porta-vozes da
equidade de gênero. E não queremos só falar sobre isso, queremos ter certeza
que vai acontecer.

[...]

5
Notícia veiculada na revista Exame no ano de 2017 onde aponta o desafio da superação da desigualdade
de gênero e social. Disponível em: < http://exame.abril.com.br/mundo/desigualdade-de-genero-e-um-
desafio-para-a-democracia-diz-oea/>. Acesso em 25 mai. 2017.
6
Discurso de Emma Watson, embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres em 2014, no lançamento
da campanha HeForShe onde aborda a desigualdade de gênero. Disponível em:
<http://www.onumulheres.org.br/noticias/discurso-de-emma-watson-embaixadora-da-boa-vontade-da-
onu-mulheres-no-lancamento-da-campanha-heforshe/>. Acesso em 25 mai. 2017.

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Eu sou britânica e acredito ser direito uma mulher receber um salário igual ao
colega que exerce a mesma função. Eu acho correto que eu possa tomar
decisões sobre meu próprio corpo. Eu acho correto ter mulheres envolvidas,
como minhas representantes nas áreas políticas e nas decisões que influem
sobre a minha vida. Eu acho correto que, socialmente, receba o mesmo
respeito que os homens. Porém, é com tristeza que posso afirmar que não
existe um só país no mundo onde todas as mulheres possam esperar ter todos
estes direitos. Nenhum país do mundo pode dizer que alcançou a igualdade
entre os sexos.

Esses direitos iguais considero como sendo direitos humanos. Porém, devo
admitir, sou uma pessoa de sorte. Tenho uma vida privilegiada porque minha
mãe e meu pai não me amaram menos porque sou filha. Minha escola não
limitou minhas oportunidades porque eu sou menina. Minhas mentoras e
mentores não tiraram a suposição de que eu seria menos bem sucedida pelo
fato de poder me tornar mãe um dia. Todas estas pessoas foram
embaixadoras da igualdade de gênero na minha vida e me ajudaram a me
tornar a pessoa que sou hoje. Talvez elas nem saibam que são feministas
inadvertidas e inadvertidos que mudam o mundo de hoje. E precisamos,
justamente, de mais pessoas assim.

A QUESTÃO DA CIRCUNCISÃO FEMININA EM COMUNIDADES


ISLÂMICAS

Ao se analisar a busca por uma igualdade de gênero e a questão da inferioridade


no que se refere à posição da mulher muçulmana dentro da sociedade, percebem-se os
aspectos controversos que envolvem tal figura. Cumpre destacar, nesse contexto, alguns
trechos do livro de Malala e Lamb (2013, pp. 21 e 39), em que é possível verificar a
situação de inferioridade da mulher:

[…] No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha
mãe, e ninguém deus os parabéns ao meu pai. Para a maioria dos pachtuns, o
dia em que nasce uma menina é considerado sombrio. […] Foi sob o regime
de ZIA que a situação das mulheres paquistanesas se tornou ainda mais
restrita. (…) Mas o general Zia estabeleceu leis islâmicas que reduziram o
valor do testemunho de uma mulher nos tribunais, que passou a equivaler à
metade do testemunho de um homem. Logo nossas prisões estavam cheias de
casos como o da menina de treze anos que foi raptada, engravidou e acabou
trancafiada em uma cela sob a acusação de adultério, porque não conseguiu
quatro homens para testemunhar a seu favor. As mulheres não podiam nem
mesmo abrir contas bancárias sem a permissão de um homem. Nunca fomos
bons em hóquei, mas Zias fazia as jogadoras de hóquei feminino usarem
calças largas em vez de shorts, e proibiu às mulheres a prática de alguns
esportes.

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A questão é cultural, sendo a mulher o símbolo da dominação do homem.


Embora já existam correntes modernistas que defendam a emancipação da mulher, o
que se percebe ainda certos instrumentos, símbolos ou vestimentas, que seriam
utilizados para exercer controle sobre a figura feminina, como a burca, conforme
destaca Demant (2015, p.152):

[...] Esta situação não é redutível a fatores materiais, mas foi consequência de
uma contradição psicológica entre, por um lado, uma forte associação da
mulher à sexualidade e, por outro, a dependência da honra do homem do
controle desta sexualidade - sendo seu descontrole visto tanto como perigo
social quanto como atentado à identidade sexual e cultural do indivíduo
masculino. Tal contradição só foi solucionada com o enclausuramento do
objeto de desejo.

Dessa maneira, a mulher emancipada e principalmente, a mulher educada,


constitui um perigo para a sociedade masculina, pois não tem como controlá-la, além do
fato de se constituir como concorrente num mercado de trabalho já estreito. Nesse
sentido, Demant (2015, p. 156) ratifica esse pensamento ao dizer que foi “[...] a mulher
moderna colocada no mesmo patamar de perigos que os símbolos da presença ocidental
e as minorias que pactuam com o Ocidente”.
É nessa conjuntura que destaco a prática da circuncisão feminina em países de
maioria muçulmana, embora não seja uma prática ou costume islâmico, podendo ser
encontrada em nações não-muçulmanas, grupos indígenas e em diferentes regiões, como
a Ásia, África e Oriente Médio7-8.
Os defensores dessa prática se utilizam como um meio de dominação, sendo a
mulher vislumbrada como um símbolo sexual a ser protegido. A ideia é controlar o
“apetite sexual” da mulher para a mesma não cair na impureza ou executar hábitos
proibidos, se adaptando às necessidades masculinas, bem como uma forma de honrar
especialmente o marido (VENCHI, 2008, pp. 6 e 7). A autora ainda destaca (VENCHI,
2008, pp. 11 e 14):

7
THE FEMALE GENITAL CUTTING EDUCATION AND NETWORKING PROJECT. FGC around
the world. Disponível em: < http://www.fgmnetwork.org/intro/world.php>. Acesso em: 18 jun. 2017.
8
GLOBO (G1). Circuncisão feminina, o pesadelo das meninas na Indonésia. Disponível em: <
http://g1.globo.com/mundo/noticia/circuncisao-feminina-o-pesadelo-das-meninas-na-indonesia.ghtml>.
Acesso em: 18 jun. 2017.

SUMÁRIO
ISBN 978-85-463-0257-4 | 160

Em suma, implica em sua conversão em uma pessoa feminina completa na


passagem definitiva para a “maioridade social” com o casamento haveria
uma descontinuidade entre sexualidade feminina – fertilidade inapropriada ou
“inadequada”, causa de desordem ou ruptura na ordem muçulmana – e
fertilidade feminina – sexualidade “domesticada” após a circuncisão e o
casamento.

[...]

Se a sexualidade feminina é uma instância de perigo e subversão, assim


também é a presença feminina em um cargo público em um universo onde
política, sexo e gênero se encontram irremediavelmente atrelados.

Agradar o marido, honrar a família são expressões comumente utilizadas para


justificar atos que atentam contra a vida, liberdade de expressão e manifestação, bem
como à privacidade. As explicações utilizadas, como por exemplo, as supostas palavras
do profeta Maomé “Se você circuncidar, retire apenas uma pequena parte e refreie-se de
remover todo o clitóris. A mulher terá uma compleição mais brilhante e alegre, e isso é
bem-vindo para o marido, se o seu prazer for completo”, como bem destaca Venchi
(2008, p. 6), não são justificativas suficientes para tal ato, símbolo de status social e
controle masculino, responsáveis pela morte de diversas meninas e mulheres em razão
da falta de higienização e precariedade do método9.
Saliente-se ainda que a prática da circuncisão contraria os documentos jurídicos
que abordam os direitos humanos islâmicos, quais sejam os artigos I e VII da
Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos10, bem como o artigo 2 da
Declaração do Cairo sobre Direitos Humanos Islâmicos11, os quais transcrevo in verbis:

Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos:

I - Direito a vida:

[...]

9
A CIRCUNCISÃO FEMININA. Disponível em: < http://islamicchat.net/fgm.html >. Acesso em: 18
jun. 2017.
10
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP) – BIBLIOTECA VIRTUAL DE DIREITOS HUMANOS.
Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos – 1981. Disponível em:
<http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-n%C3%A3o-Inseridos-nas-
Delibera%C3%A7%C3%B5es-da-ONU/declaracao-islamica-universal-dos-direitos-humanos-
1981.html>. Acesso em: 18 jun. 2017.
11
DECLARAÇÃO DO CAIRO SOBRE DIREITOS HUMANOS ISLÂMICOS. Disponível em: <
http://adrianaferserol.blogspot.com.br/2014/02/declaracao-do-cairo-sobre-direitos.html>. Acesso em: 18
jun. 2017.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 161

b. Assim como durante a vida, também depois da morte a santidade do corpo


da pessoa será inviolável. É obrigação dos fiéis providenciar para que o corpo
do morto seja tratado com a devida solenidade.

VII – Direito a Proteção Contra a Tortura:

Ninguém será submetido à tortura de corpo e de mente, ou aviltado, ou


ameaçado de dano contra si ou contra qualquer parente ou ente querido, ou
será forçado a confessar o cometimento de um crime ou forçado a consentir
com um ato que seja prejudicial a seus interesses.

Declaração do Cairo sobre Direitos Humanos Islâmicos:

Artigo 2:

[...]

d) A segurança aos danos corporais é um direito garantido. O Estado tem o


dever de protegê-los, e é proibida a violação sem o prescrito motivo na
Sharia.

Percebe-se a existência de documentos jurídicos que preservam e asseguram a


vida e que condenam a tortura e a realização de danos corporais em contraste com a
permanência de hábito culturais, de cunho religioso contra a mulher. Infelizmente, a
violência de gênero e a discriminação contra a mulher é uma realidade a ser combatida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os contextos excepcionais de guerra, envolvendo conflitos religiosos ou civis, os


contrastes que se exacerbam quando considerados os valores e direitos defendidos pelas
sociedades islâmicas frente, por exemplo, ao impacto social e econômico da
globalização e/ou da concepção modernizadora defendida pelas sociedades ocidentais,
são assuntos que se avolumam e tornam-se importantes no campo acadêmico, bem
como na sociedade civil.
A questão da igualdade e situação de inferioridade da mulher são aspectos
controversos, sendo abordados nas legislações, nas teorias, nos discursos dos sujeitos e
nos periódicos. Destarte, podemos perceber que por envolver gênero, família, religião,
dentre outros aspectos culturais, implica-se, nesse sentido, a tensão posta a garantir
direitos e promover a cidadania. Valores religiosos podem impactar, colaborando ou
impedindo avanços, na execução, inclusive, de políticas públicas, em um nível que,
poucas vezes, é conhecido, em nível internacional.

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É nesse contexto que se destaca a prática da circuncisão em mulheres, prática


essa cultural e baseada nas supostas palavras do profeta Maomé como instrumento de
dominação, status social e controle sexual da mulher que visam à honra da família,
especialmente masculina. São costumes ultrapassados e com impactos irreversíveis no
corpo feminino diante da precariedade e perícia na prática da circuncisão.
No que se refere aos conteúdos divulgados pela mídia supramencionados,
percebe-se que a suposta igualdade de acesso e garantia de direitos humanos também
não é uma realidade verificada no âmbito das sociedades ocidentais. Trata-se de um
grande desafio a ser buscado por todos os países.
Saliente-se ainda que a noção de dignidade e direitos humanos iguais entre os
gêneros ainda não foi ultrapassada, embora tenha havido algumas conquistas jurídicas,
sociais e políticas nessa esfera.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 163

REFERÊNCIAS

A CIRCUNCISÃO FEMININA. Disponível em: < http://islamicchat.net/fgm.html >. Acesso em: 18 jun.
2017.

BIBLIOTECA VIRTUAL DE DIREITOS HUMANOS – USP. Declaração dos Direitos do Homem e


do Cidadão. Disponível em:<http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-
%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-
1919/declaracao-de-direitos-do-homem-e-do-cidadao-1789.html>. Acesso em: 25 ab. 2016.

DECLARAÇÃO DO CAIRO SOBRE DIREITOS HUMANOS ISLÂMICOS. Disponível em:


<http://adrianaferserol.blogspot.com.br/2014/02/declaracao-do-cairo-sobre-direitos.html>. Acesso em: 18
jun. 2017.

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http://g1.globo.com/mundo/noticia/circuncisao-feminina-o-pesadelo-das-meninas-na-indonesia.ghtml>.
Acesso em: 18 jun. 2017.

GOUGES, Olympe de. Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Disponível


em:<https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=3&cad=rja&uact=8&ved
=0ahUKEwie8ZTA_6rMAhVNzGMKHQtxAjUQFggoMAI&url=https%3A%2F%2Fdialnet.unirioja.es%
2Fdescarga%2Farticulo%2F5175681.pdf&usg=AFQjCNHE2nN3ZHx_W9a1tShEP8KaTMLQFQ&sig2=
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MOTAHARI, Mortedha. Os direitos das mulheres no Islam. Elaboração, supervisão e apresentação


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NERI, R. A Psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira, 2005.

NEUMANN, Maria Menezes. Por detrás dos véus: A mulher muçulmana e as revoluções turca e iraniana.
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2008.

SANTOS, Boaventura de Sousa (2009). Direitos humanos: o desafio da interculturalidade. Revista


Direitos Humanos, 2, 10-18. Disponível em:
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s2009.pdf>. Acesso em: 28 de abril de 2015.

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP) – BIBLIOTECA VIRTUAL DE DIREITOS HUMANOS.


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VENCHI, Mariane. Seduções e traições de gênero no Islã: a rainha de Sabá e o corpo feminino
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YOUSAFZAI, Malala; LAMB, Christina. Eu sou Malala: A história da garota que defendeu o direito à
educação e foi baleada pelo Talibã. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

SUMÁRIO
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CAPÍTULO IX

“E DA COSTELA QUE O SENHOR DEUS TOMOU DO HOMEM,


FORMOU UMA MULHER, E TROUXE-A A ADÃO”:
ENTRELAÇAMENTOS ENTRE CORPO, GÊNERO E RELIGIÃO
Brennda Martinelli Pinho Silva
Centro Universitário Dr. Leão Sampaio (UNILEÃO)

Tiago Deividy Bento Serafim


Centro Universitário Dr. Leão Sampaio (UNILEÃO)

INTRODUÇÃO

Historicamente construídas, as diferentes explicações sobre as desigualdades


entre o masculino e o feminino vêm ocupando divergentes discursos no decorrer dos
séculos. Uma dessas vias, segundo Sant’anna (2004, p. 120), abandona o corpo como o
objeto central de estudo e opta por, em meio de estudos acerca deste, compreendê-lo na
medida em que fornece subsídios para “o confronto com os paradoxos e percalços da
história”. Trata-se de, portanto, compreender as ambivalências e paradoxos que
constituem a história dos corpos, evidenciando a complexidade na qual estes estão
imersos.
A historicização dos corpos está intimamente ligada aos processos e às
construções materiais e simbólicas que caracterizaram e caracterizam as sociedades.
Desde os primórdios, constitui-se enquanto característica da civilização humana, a
exploração e colonização do homem pelo homem, conferindo às relações sociais um
caráter de expropriação do poder, ou seja, dominação. Convergentemente, as relações
de gênero não se encontram isentas dessa problemática.
Nesse sentido, compreender as marcas feitas nos corpos femininos implica,
necessariamente, imbricar a história de instâncias sociais. Destaca-se então, as

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instituições religiosas cristãs que, por meio de uma educação moral, incluíram as
mulheres e os seus corpos num sistema que criou padrões e referências femininas
pautadas na docilidade e submissão. Dessa forma, a religião católica constituiu,
juntamente com outros aparatos ideológicos, uma pedagogia de opressão baseada nas
desigualdades impostas às relações de gênero.
Cabe destacar a perspectiva da qual parte esse trabalho no tocante à análise
ideológica. Por ideologia, em sua perspectiva crítica, negativa e prática, entende-se, de
acordo com Guareschi (2013, p. 93) um sistema de representações que serve para “criar,
ou manter, relações assimétricas, desiguais, injustas”. Sendo assim, apesar de ser um
conceito complexo, a acepção tomada sobre essa estrutura fornece a possibilidade de
entender as implicações dessas relações ditas de dominação, baseada em ideologias
cristãs, sobre o domínio de corpos, identidades e subjetividades femininas.
Diante disso, cada vez mais amplamente discutidos, principalmente desde a
década de 60, quando as lutas pela emancipação feminina se intensificaram, os papéis
atribuídos socialmente aos gêneros têm sidos questionados em diversos âmbitos da
sociedade. O feminismo atinge a Igreja Católica. É nesse contexto que a Teologia
Feminista emerge na América Latina em meados das décadas de 70 e 80. Inicialmente,
aparece com resquícios da Teologia Feminista do Primeiro Mundo, mas já apresenta um
rompimento com esse paradigma, trazendo características singulares, sociais e culturais,
do território latino-americano. Assim, fomentando o pensamento crítico sobre o lugar da
mulher na sociedade e questionando esse discurso que se propunha hegemônico,
propagado principalmente por homens celibatários, a Teologia Feminista surge como
uma voz de resistência nesse ambiente eminentemente masculino, a Igreja Católica
(FURLIN, 2011).
Dessa forma, partindo de uma discussão qualitativa, desenvolvida através de
uma revisão de bibliografia sobre os eixos temáticos religião e relações de gênero, o
presente estudo objetiva compreender a relação entre o poder da Igreja Católica e o
reforço dos papéis socialmente designados ao feminino. Analisa as ideologias que,
durante o passar dos anos, estruturaram essas relações de dominação e contribuíram
para a docilização dos corpos femininos. Busca entender como estas ainda participam
da construção e reafirmação dessa opressão, que subjuga a mulher a ocupar a esfera do
privado e propaga formas de violência, quer sejam físicas quer simbólicas, que

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vilipendiam os corpos femininos cotidianamente. E, por fim, discute a Teologia


Feminista como enfrentamento a essa cultura androcêntrica (re)produzida pela Igreja
Católica.
Para atingir os objetivos propostos, o percurso metodológico apresenta e discute
no momento as ideologias da tradição judaico-cristã, que funcionam na difusão das
disparidades entre os gêneros. Em seguida, serão trazidos alguns apontamentos sobre os
reflexos dessa cultura de dominação propagada pela Igreja Católica nos corpos e
vivências relacionadas ao feminino. Como desfecho, serão expostos os efeitos da
Teologia Feminista no processo de desconstrução desse discurso hegemônico que
atravessa e constitui até hoje as diversas relações sociais entre homens e mulheres,
direta ou indiretamente.

IDEOLOGIAS DA TRADIÇÃO JUDAICO-CRISTÃ NA MANUTENÇÃO DAS


ASSSIMETRIAS ENTRE OS GÊNEROS

“E da costela que o Senhor Deus tomou do homem,


formou uma mulher, e trouxe-a a Adão.”
Gênesis, 2:22

A Bíblia1, reunião de livros sagrados para o cristianismo, no seu primeiro,


Gênesis, apresenta a história da origem e criação do mundo. O mito judaico-cristão
apresenta que, após a criação do mundo em sete dias, Deus criou o homem à sua
imagem e semelhança e ofertou a este tudo o que antes havia criado. No Jardim do
Éden, nome dado ao local no qual o homem se encontrava, essa criação percebeu que as
demais compunham um par, o macho e a fêmea. Melancólico diante dessa situação,
Adão, homem criado por Deus, o motivou a criar a mulher, com a função de ser
companhia do homem. Então, a fez o seu presente, retirando dele uma costela,
simbolizando que esta deveria permanecer sempre ao seu lado.
Com o passar do tempo, mesmo em meio a todas as características esplendidas
do lugar no qual vivia com o homem, a mulher entediou-se e resolveu explorar outros
lugares. Nessa expedição, opta por conversar com a serpente que vivia na árvore, dentre
as quais Deus havia proibido as suas criações de comer seus frutos, a Árvore do

1
Bíblia Sagrada Ave Maria – Edição Estudos. 7 ed. Editora Ave Maria, 2011. 2160 p.

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Conhecimento. A serpente, mal intencionada, oferece a Eva, mulher criada por Deus, o
fruto proibido, alegando o quão saboroso este era. Eva acaba por experimentá-lo e
oferece ao homem que também o prova.
Ao comer o fruto, ambas as criações perceberam que estavam nus, originando
nelas um sentimento de vergonha e medo do castigo do Criador. O último, ao ver a
desobediência, os castigou. Ambos foram expulsos do paraíso, o Jardim do Éden. À
Eva, foram conferidas as dores do parto e a submissão ao homem, características
perpetuadas por todas as próximas gerações. A Adão, foi dado a tarefa de dominar a
natureza e de prover a subsistência de si, de sua mulher e dos seus filhos, recebendo
também o poder de dominar a mulher, uma vez que esta causou máculas em todas as
gerações futuras e, por isso, precisava de orientação e controle.
A narrativa acima, baseada em trechos extraídos do livro Gênesis, aponta para o
registro da primeira história relacionada ao contexto de dominação do homem sobre a
mulher trazido pela tradição judaico-cristã. Compondo a Bíblia, esses capítulos
representam uma das estruturas doutrinárias que edificaram as bases ideológicas que
justificaram e justificam os papéis definidos socialmente para os homens e mulheres.
Consonante a esse pressuposto, Silva (2011, p. 20) afirma que este “[...] mito judaico-
cristão é repassado de geração em geração, sendo um dos responsáveis por santificar as
relações de poder e dividir os papéis sexuais, transformando as relações afetivas entre
homem e mulher em disputa pelo poder”.
O cristianismo possui raízes na sociedade judaica, agregando também valores
greco-romanos. Das formulações judaicas, cabe ressaltar a sexualidade em função da
procriação. Já constava nas sociedades gregas a dicotomia entre o masculino e o
feminino representando, respectivamente, força e fragilidade, dominador e dominado,
público e privado, ativo e passivo, comando e submissão (LIMA, 2011).
Amaral (2015) aponta que essas construções foram reproduzidas durante
diversos momentos da história com o passar dos séculos, legitimando o domínio do
masculino em detrimento do feminino, corroborando para a formação de uma sociedade
baseada no binarismo. Como exemplo disso, o autor apresenta que uma gama de
direitos sociais foi conferida aos homens, enquanto às mulheres foram postas à margem
desse cenário. Aos que desviavam e transgrediam a norma heterossexual, posta pelos
valores cristãos, também direitos foram negligenciados e anulados. Por fim, o autor

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aponta a atualidade dessa “gênese excludente”, evidenciando posições conservadoras


fundamentadas em preceitos judaico-cristãos.
Em convergência, Boehler (2014) afirma que a expropriação dos poderes
femininos relaciona-se com a dominação sexual imposta a esta e, consequentemente, a
sua subordinação e repressão frente ao masculino. Nesse campo, o controle simbólico
ou real de seus corpos é outorgado por ideologias, e a teologia, tanto quanto outras
doutrinações morais, tem constituído uma função substancial nesse processo: sua
manutenção.
Além da passagem dos textos sagrados citada, a doutrina cristã utilizou-se de
outros artifícios que subsidiaram uma assexualidade feminina, baseada num modelo
heteronormativo de relação, na qual à mulher corresponde exclusivamente a função de
reprodução e cuidados com o homem e a prole. A autora Althaus-Reid (2005) cita como
exemplo a mariologia, ou seja, a história da “mãe do salvador”, Maria, cuja virgindade
foi preservada e a sexualidade negada. Dessa forma, o modelo propagado é um ideal de
“pureza” e “castidade” a ser seguido pelas mulheres.
Tomando essas questões, Busin (2011) apresenta a relação antagônica entre o
modelo a ser seguido de feminilidade, Maria, e o a ser impugnado, Eva, afirmando que
esta primeira

[...] reporta à submissão, à fragilidade, à maternidade como destino, ao servir,


à dessexualiação e à desvitalização das mulheres como um ideal a ser
perseguido. Já o modelo a ser negado e recusado por ser causador das
desgraças da humanidade – Eva – reporta à liberdade de escolha, à
sexualidade com liberdade, à tomada de iniciativa, à curiosidade, à vontade
de saber. Esses modelos são antagônicos e funcionam de forma importante
para o controle dos corpos e da vida das mulheres (BUSIN, 2011, p. 118).

Uma análise realizada por Dias (1999) nos Documentos Pontifícios, desde o
papa Leão XIII até o João Paulo II, revelou que, nos seguimentos da Doutrina Social da
Igreja, os valores e condutas morais no discurso dos papas Leão XIII e Pio XI, mesmo
que esta primeira venha sofrendo alterações nas suas configurações e funções, conferem
à mulher responsabilidade única com a família, as tarefas domésticas e a maternidade.
Além disso, reafirmam a posição do homem enquanto o chefe de família e a
fecundidade como o fim último do matrimônio. Ademais, Bandini (2005, p. 74)
corrobora afirmando que as regras do “Concílio de Trento (1545-1563) atuaram por
todo período colonial não somente reforçando os valores da igreja, como, por exemplo,

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 169

o sacramento matrimonial, mas também legitimando a condição posta como superior do


homem em seu papel de pai, marido ou padre”.
O Concílio Vaticano II (1961) apresenta avanços acerca da temática, discutindo
questões principalmente relacionadas a uma paternidade responsável. Entretanto, tal
discussão não se constitui enquanto a quebra dos paradigmas eclesiais sobre o papel da
mulher na família, uma vez que o mesmo documento acaba por reafirmar a função
insubstituível da mulher no seio familiar e uma visão tradicional em relação à
sexualidade feminina (DIAS, 1999).
Em relação ao trabalho, nos documentos analisados por Dias (1999, pp. 362-
263), percebe-se a reprovação da inserção das mulheres no mercado de trabalho. Para a
autora, nos discursos de Leão XIII, Pio XI e Pio XII, “a saída de casa para se dedicar ao
trabalho e a outras atividades vinha entendida como um atentado não só contra a
mulher, mas também contra a família”. Mesmo que o homem e a mulher dispusessem
de igual dignidade, lhes eram conferidos papeis sociais diferentes na visão de João
XXIII.
O Vaticano II e o papa Paulo VI apresentam avanços para a questão da mulher e
o trabalho. Ambos reconhecem o trabalho feminino enquanto necessário para a
participação e inserção da mulher na vida política. No entanto, ainda é dever da mesma
que o seu trabalho e essa participação social sejam reconhecidos. Nesse período, o
Concílio ainda reafirma o imprescindível papel da mulher na função de procriação e
cuidado com a prole no tocante ao trabalho, mas o papa João Paulo II já reconhece a
independência social da mulher (DIAS, 1999).
Assim, o pensamento religioso cristão, por meio dessas e de outras construções
simbólicas, materializou o imaginário da sociedade Ocidental. Desde as suas origens,
pôs a procriação como condição necessária da sexualidade e a masculinidade em
posição superior à feminilidade, subjugando esta última à maternidade compulsória, à
assexualidade e à responsabilidade da criação dos filhos e dos cuidados ao marido,
constituindo sua vida ligada, exclusivamente, à esfera do privado.
Consonante, Rosado-Nunes (2006) afirma que a tradição cristã propaga uma
visão negativa da corporeidade, reforçando a compreensão dualista que preconiza o
espírito em detrimento do corpo. Dessa maneira, termina por reprimir a mulher à
responsabilidade pela reprodução de maneira secundária e periculosa. Desse último,

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surge a necessidade de controle sobre seus corpos. Tal expressão de pensamento conduz
as mulheres a uma visão específica, que a reduz a uma condição biologizante, pautando
uma maternidade compulsória. Por conseguinte, “a rejeição do recurso à biologia para
explicar o ordenamento social – e religioso – dos sexos leva a uma crítica radical da
organização das instituições religiosas, apontadas como androcêntricas, hierárquicas e
excludentes das mulheres” (p. 269).
Paixão e Rodrigues (2011) defendem que, nesse sentido, a religião passa por
metamorfoses ao constituir os diversos espaços sociais. Entretanto, continua presente
em seus discursos o controle social dos corpos de seus praticantes e, além disso, afeta
outras esferas da sociedade indiretamente. Assim, está presente na pedagogia cristã uma
rigidez no tratamento sobre os corpos femininos que evidencia, cada vez mais, a
necessidade de dialogar amplamente essas questões, compreendendo a emergência de
superar as fronteiras que cerceiam a liberdade destes, “os protagonistas das estruturas de
poder que redefinem as identidades” (p. 135).
Destarte, é perceptível que diversos desses exemplos sofreram transformações
no decorrer das últimas décadas. Vários discursos – biológicos, pedagógicos,
psicológicos – foram somados aos religiosos, propulsores da determinação de valores
morais, e colocados à disposição de justificativas e explicações que abarcassem as
relações assimétricas entre os gêneros que são, na verdade, produtos sociais, históricos e
sociais da humanidade. As lógicas patriarcais e androcêntrica ainda atravessam diversas
instâncias sociais, descarregando sobre as mulheres da contemporaneidade um acúmulo
de opressões ligadas ao momento da história que vivenciam. Dessa maneira, destaca-se
que as crenças religiosas ainda modelam os corpos femininos, influências essas que
serão discutidas a seguir.

IMPLICAÇÕES CONTEMPORÂNEAS DAS CONSTRUÇÕES IDEOLÓGICAS


CRISTÃS SOBRE AS RELAÇÕES DE GÊNERO

Talvez as marcas mais ferozes sobre os corpos feminismos feitas pela Igreja
Católica sejam as relacionadas à sexualidade. Paixão e Rodrigues (2011) discorrem
inicialmente sobre as diversas abordagens ao tema. As definições sobre a sexualidade
percorrem um caminho espectral entre o conservadorismo e proposições liberais.

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Dependendo do contexto histórico-cultural na qual está imersa, esta oscila em


consonância com a política e a economia, educação e religião. Assim, a vivência da
sexualidade se constrói durante o desenvolvimento humano e é experienciada em meio
às relações biopsicossociais que este estabelece, incluindo os atravessamentos das
crenças religiosas.
Para Rodrigues e Paixão (2011), a relação sexualidade-tradição cristã é
permeada pela ambivalência que, de um lado, traz a epistemologia da censura e, de
outro, o desejo. Nesse sentido, Groppelli (2005), apontando a relação sexual sob o viés
religioso, afirma que a união entre homens e mulheres deve ser regulada por uma moral
sexual desses indivíduos. A autonomia sobre o assunto é retirada dos sujeitos e cabe a
Igreja a regulação de suas vidas sexuais.
A normatização das relações sexuais é definida em cima de preceitos religiosos.
Cabe aos pares o sexo dentro do casamento, sacralizado pelo discurso cristão como
única maneira correta para o estabelecimento dessas relações. Recai sobre a mídia,
compreendendo-a como importante meio de veiculação de informação na sociedade
contemporânea, a responsabilidade de difundir os ideais cristãos sobre a sexualidade,
transmitindo os modelos corretos de sua expressão. Dessa forma, a afetividade aparece
como porta para as relações sexuais, entretanto, a vivência dessas não deve pautar-se na
“superficialidade” e “vulgaridade”, não devendo o homem e a mulher, portanto, deixar-
se levar pela cultura de erotização difundida, por vezes, pelos veículos midiáticos
(GROPPELLI, 2005).
Rigoni (2008) aponta que o surgimento dos métodos contraceptivos abre espaço
para um olhar sobre a sexualidade da mulher. Nesse sentido, insere-se outra
característica nesse paradigma, a beleza. A autora defende que, nesse contexto, a
religião assume um papel secundário na determinação da sexualidade feminina e a
mídia e o mercado acabam por assumir o controle. Paixão e Rodrigues (2011)
convergem com esse pensamento afirmando que, todavia, a mídia por vezes também é
dominada pelos discursos cristãos, ou seja, caso a primeira desvie dos pressupostos
pautados pela segunda, esta vitimizará aquela.
Relacionada a esta primeira, a questão do aborto também está presente nos
discursos oficiais cristãos. Rosado-Nunes (2017) afirma que a condenação do aborto por
parte da tradição cristã possui algumas constantes. O autoritarismo e a verticalização

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propagam a hierarquia católica sobre o tema. O argumento que sustenta essa ideia é a
defesa da vida, considerando que, desde a concepção, a existência humana deve ser
defendida enquanto um sujeito de direitos, inviabilizado qualquer ato de interrupção a
qualquer momento da gestação.

Assim, esses dois elementos – a sacralidade da vida humana e a condição de


pessoa do embrião – fundam a condenação incondicional do aborto,
integrando argumentos de ordem religiosa, moral e biológica. A autoridade
da Igreja em questões éticas associa-se à desconfiança em relação aos valores
morais da sociedade contemporânea e à proposição da universalidade de
princípios estabelecidos como inerentes à natureza humana (ROSADO-
NUNES, 2017, p. 23).

Não obstante, existe outro discurso que vai de encontro a este por parte da Igreja
Católica. Rosado-Nunes (2017) denomina este de contra-argumento que considera a
validade ética da interrupção gestacional em determinados contextos, evidenciando-se
dialógico e não dogmático. O primeiro recurso utilizado é um retorno à tradição cristã
que, no decorrer de sua história, não se demonstrou homogênea em relação à temática,
abrindo brechas para outras possíveis intervenções. O segundo e o terceiro criticam a
biologicidade da defesa da vida em função de, a partir da concepção, estar frente a um
ser humano e a absolutização desse princípio, respectivamente.
Outro ponto a se questionar é a análise tida como amoral realizada pela Igreja
Católica sobre a sociedade contemporânea. Conforme Rosado-Nunes (2017), nesse
sentido, o aborto seria uma das expressões de uma sociedade, completamente sem
fundamentação nos preceitos morais, não preparada para a infância. Entretanto, a autora
afirma que já está presente nos debates dentro das próprias instituições religiosas os
furos dessa afirmação, alegando que, ao contrário, cada vez mais estamos frente a uma
sociedade que cobra um cuidado redobrado com as crianças.
Tensões entre o Estado e a religião se formam. De um lado, a laicidade estatal e
o direito ao próprio corpo, de outro o poder da Igreja sobre as representações coletivas
e, consequentemente, os corpos femininos. Nesse sentido, Soares et al. (2011) aponta
que nas últimas décadas o tema do aborto tem sido amplamente discutido na sociedade,
juntamente com a necessidade de formular políticas de atenção às mulheres nessa
situação. Não obstante, essa problemática é atravessada por setores religiosos inseridos
no Estado brasileiro, evidenciando a urgência de questionar a consolidação da laicidade

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 173

do estado, como via para o desenvolvimento e efetivação de ações e políticas em


situação de abortamento.
Dessa forma, uma série de entraves presentes nessa tensão (Igreja-Estado) vem
dificultando a concretização de direitos sociais para as mulheres. De encontro ao Estado
laico, fundamentalismos morais e religiosos regulam o poder estatal e a capacidade
reprodutiva e a vida sexual das mulheres. Frente a isso, Soares et al. (2011) conclui
afirmando que, na busca pela equidade na sociedade contemporânea, apresenta-se como
primordial respeitar a autonomia e o direito a decisão sobre os próprios corpos dos
sujeitos, principalmente no que se refere à sexualidade e reprodução.
Em outro âmbito, discutindo sobre a violência de gênero, Souza (2007) defende
que a violência simbólica é um viés desta pouco discutido. A autora apresenta a
culturalização dos corpos como forma de reverter esse quadro, atentando para as
implicações das ideologias naturalizantes das disparidades entre os gêneros difundidas
pela Igreja Católica. Dessa forma,
“ela possui papel importante na conformação das identidades de gênero, conferindo
sentido aos sexos, construindo uma cosmovisão “generificada” orientadora de seus
seguidores e seguidoras” (SOUZA, 2007, p. 18).
Nesse sentido, as ideologias de gênero propagadas pela tradição cristã
sacralizam as desigualdades, encobrindo a relação entre o sagrado e a violência. A
materialização disso se dá em desde exemplos simples, como a ausência de
representatividade feminina nos cargos ativos no poder eclesiástico, até as situações que
abarquem uma maior complexidade, como as dificuldades em estabelecer políticas
públicas que englobem a questão do gênero (SOUZA, 2007).
Acerca da relação entre Estado e religião no desenvolvimento e cumprimento de
políticas públicas, Souza (2007) discute que, por vezes, o discurso religioso acaba por
influenciar nessa situação. A autora apresenta a diferença entre o direito à creche e o
acesso à camisinha feminina como exemplo. Fica fácil constatar esse primeiro é mais
fácil, uma vez que reproduz os preceitos da ética do cuidado dispostos sobre a mulher.
Diferentemente do segundo, que garante uma autonomia sexual a estas e, por isso,
recebe menores incentivos e financiamento governamental.
Assim, é perceptível que a Igreja Católica não tem sido protagonista na luta pela
aquisição de direitos femininos. Invés disso, vem reforçando ideias docilizantes e

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domesticadoras de seus corpos, influenciando, inclusive, o Estado. Destarte, Souza


(2007, p.19) conclui afirmando que

Em um contexto no qual o Estado se admite laico, não raras vezes a moral


sexual cristã se impõe sobre o tratamento que parlamentares, juízes, policiais
e médicos conferem a questões relacionadas às mulheres e seus direitos. A
alegação de “objeção de consciência” para justificar o não atendimento de
mulheres que buscam os serviços públicos de saúde nos casos de aborto
previstos na lei pauta-se freqüentemente no apelo à ética cristã.

Retomando o que foi disposto, percebe-se que, quer seja na concepção da


pluralidade de fatores que compõem a questão do aborto, quer seja na elaboração e
efetivação de programas e políticas públicas para as mulheres, o confronto com as
ideologias cristãs está presente. Tais ideias ilusórias que sustentam relações de
dominação entre o masculino e feminino acabam por também naturalizar posições que
legitimam a violência de gênero materializada ou simbólica, enraizada em preceitos
defendidos pelo poder cristão.
Essas discussões evidenciam a necessidade de assumir uma postura crítica frente
à dogmática cristã e suas influências nos demais seguimentos da sociedade. As
mudanças históricas propiciaram um terreno fértil para problematizar a questão dos
gêneros na cultura contemporânea. Todavia, faz-se necessário questionar-se sobre os
caminhos que a Igreja Católica tem percorrido nesse espaço-tempo, sendo urgente
avançar nesse debate buscando atender às singularidades postas pelo gênero feminino,
efetivando as mulheres enquanto sujeitos de direitos diante dos enfrentamentos
cotidianos.

A TEOLOGIA FEMINISTA E AS CONTRIBUIÇÕES PARA A SUPERAÇÃO


DA DOMINAÇÃO ANDROCÊNTRICA NAS RELIGIÕES CRISTÃS

Ampliando o debate sobre as temáticas referentes aos direitos femininos, as lutas


feministas se intensificaram em meados das décadas de 60 e 70 em diversos territórios
do mundo. Superando o foco no sufrágio, esse movimento passou a abarcar também
direitos reprodutivos e sexuais, acesso e condições de trabalho, desigualdades de fato e
as legais impostas às mulheres. Tais questionamentos surtiram efeitos em diversos
segmentos da sociedade, inclusive no âmbito religioso.

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 175

Ribeiro (2016) afirma que as perspectivas feministas têm dirigido esforços


substanciais na crítica ao universalismo, absolutismo e conservadorismo cristão
atravessado pelo viés androcêntrico e patriarcalista dos pressupostos teológicos. Nesse
contexto, mais precisamente nas décadas de 70 e 80, influenciada pela Teologia da
Libertação na América latina, emerge a Teologia Feminista no centro desses
questionamentos, pensando o recorte de gênero dentro das questões trazidas pelos
teólogos da libertação.
Faz-se relevante ressaltar que, apesar da Teologia da Libertação possuir uma
conexão com a Teologia Feminista, segundo Rosado-Nunes (2006), as defesas por
justiça social dessa primeira, inicialmente, não discutiam a igualdade entre os homens e
mulheres, ou seja, ainda mantinha-se alienada à questão do gênero. Nesse seguimento, a
relação entre a Teologia da Libertação e a Teologia Feminista possui especificidades,
nas quais essa segunda apresenta avanços na busca por equidade entre os gêneros.
Dessa forma, imbricar na produção teológica o conceito de gênero representa o
produto de uma teia complexa de desconstrução e reconstrução de ideias acerca do
feminino. Furlin (2011) afirma que, compreendendo que historicamente a Teologia foi
construída a partir de um viés androcêntrico, uma produção que se ancora na
perspectiva feminista e de gênero oferece possibilidades de superar explicações
naturalizantes e universalizastes das opressões, contribuindo para uma ressignificação
das representações que sustentam essas relações de dominação.

Nesse sentido, a Teologia Feminista integra uma grande rede de saberes que
emergiram em diferentes áreas acadêmicas problematizando e desconstruindo
os discursos hegemônicos androcêntricos. Saberes que emergem da
consciência de uma experiência compartilhada de dominação, invisibilidade e
discriminação vivida pelas mulheres (FURLIN, 2011, p. 140).

Ao elencar as contribuições da epistemologia feminista para a religião, Freire


(2005) afirma que esta forneceu críticas encorpadas na ressignificação do modelo
positivista de pesquisa, incorporando o gênero enquanto uma categoria de análise desse
fenômeno. Nessa continuidade, forneceu e propiciou o desenvolvimento de um
referencial teórico-metodológico fundamentado numa perspectiva emancipatória social
e de empoderamento feminino, voltado para as peculiaridades das realidades plurais das
mulheres.

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Nesse ínterim, o feminismo apresenta-se como uma forma de considerar a


complexidade das questões materiais da realidade. Por essa característica, Ribeiro
(2016) afirma que é possível questionar os discursos que se pretendem hegemônicos e
universalizastes marcados firmemente pela lógica patriarcalista na qual a história e a
cultura estão imersas. Assim, constrói-se enquanto possibilidade de compreender o
relativismo cultural, ultrapassar as barreias impostas pelo idealismo masculino,
valorizar as diferenças, historicizar os corpos dentro de uma ética plural que dê conta
das singularidades dos enfrentamentos femininos na sociedade contemporânea.
Por fim, compreende-se que as manifestações religiosas têm se reorganizado
frente ao momento histórico-cultural na qual estão ancoradas. Entretanto, uma
perspectiva misógina ainda encontra-se incrustada nessa produção de representações
que orientam as relações sociais, diretamente ou não. Reafirma-se, portanto, o avanço
em compreender a história a partir de uma visão que considere os gêneros e suas
particularidades, no qual as discussões da Teologia Feminista apresentaram e
apresentam fortes contribuições.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Compreender os produtos das ideologias cristãs na manutenção das relações de


dominação entre os gêneros que levam a uma subordinação do feminino implica,
necessariamente, realizar um apanhado histórico de como o poder das religiões cristãs
se constituiu sobre os corpos femininos. Esse movimento possibilitou perceber os
impactos dessas construções históricas sobre as relações contemporâneas que envolvem
as mulheres, seguidoras ou não dessa religiosidade. Além disso, esse epítome histórico
revelou também a constituição de uma voz de resistência ao patriarcalismo constituinte
da dogmática cristã, a Teologia Feminista, e os seus frutos para a sociedade
contemporânea.
Desenvolver estudos na temática de gênero representa uma contribuição para a
produção de saberes, científicos ou não, uma vez que amplia a perspectiva histórica da
questão tratada. Dessa forma, são discutidas as diferenças entre o masculino e o
feminino de maneira relacional, desnaturalizando discursos que sustentam relações de
dominação e desnudando o caráter ideológico por traz destes. Assim, as disparidades

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Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 177

entre os gêneros podem ser compreendidas a partir de suas qualidades históricas, nas
quais estão imbricadas características culturais de todas as sociedades.
As relações de poder e dominação estabelecidas na contemporaneidade são
constituídas por uma teia de processos que possuem uma origem histórica e que, com o
passar do tempo, se tornam cada vez mais complexas e multifacetadas. O recorte de
gênero fornece elementos para se pensar a submissão feminina, a docilização e controle
de seus corpos enquanto (re)produções de uma cultura patriarcalista e androcêntrica que
possui raízes em diversos pontos da história da humanidade, inclusive nas tradições
cristãs.
Em meio a isso, as tentativas de superar a dicotomia masculino/feminino
requerem uma contínua reflexão crítica que se pretende histórica, social e cultural,
abandonando vieses ideológicos naturalizantes e universalizantes que dissimulam às
necessidades femininas frente às questões sociais. Dessa forma, incutir o gênero,
interseccionando com outros seguimentos que dão brecha para opressões (classe, raça,
etc.) mostra-se como fundamental na luta por direitos, empoderamento e emancipação
social feminina, quer seja nos espaços religiosos, quer nos demais âmbitos sociais.

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SUMÁRIO
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POSFÁCIO

A
coletânea apresentada ao leitor, demostra os movimentos de fomento à
pesquisa científica que a Faculdade Vale do Salgado (FVS) procura
estimular junto a seus docentes e discentes no curso de Psicologia e dos
demais cursos de graduação e pós-graduação, que, nos últimos anos, vem se destacando
na Região Centro Sul do Ceará e no cenário nacional. A inciativa e articulação dos
Professores Lielton Maia, Sandra Duarte e Antoniel dos Santos representam e
materializam um projeto mais amplo de alargamento da pesquisa e extensão promovida
pela FVS, que se constituem em uma forma de aproximar a ações iniciadas em âmbito
acadêmico da comunidade, que tem nesta obra uma base para construção de um
pensamento crítico sobre as questões da Violência Social, tendo como corte especifico
as questões de gênero em perspectiva interdisciplinar, indicadas desde a apresentação e
visualizadas ao longo das leituras dos capítulos. Portanto, este livro representa um
momento importante para a divulgação científica de investigações produzidas na
Faculdade Vale do Salgado em articulação com outras Instituições de Ensino Superior
(IES) públicas e privadas do Ceará, Pernambuco e São Paulo, ampliando assim as teias
do conhecimento científico em torno do tema da violência.

Prof. Antônio Wilson dos Santos


Diretor Administrativo da Faculdade Vale do Salgado (FVS)

SUMÁRIO
Violência de Gêner o: Resistência em Tempos de Crise no Br asil | 181

OS ORGANIZADORES
Lielton Maia Silva – Professor do curso de Psicologia da
Faculdade Vale do Salgado (FVS). Mestrando em Ciências
da Saúde na Faculdade de Medicina do ABC (FMABC).
Bacharel em Psicologia pelo Centro Universitário Católica
de Quixadá (UNICATÓLICA). Especialista em Saúde
Pública e da Família pela Faculdade Kurios, e Saúde Mental
(UDESC). Atuou como Secretário de Saúde do município
de Ibicuitinga-CE, entre 2014-2016. Tem experiência
clínica na abordagem Cognitiva Comportamental. E-mail:
lieltonmaia@fvs.edu.br

Sandra Mary Duarte – Mestrado em Ciências da Educação


pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
(Portugal), Especialista em Educação (Gestão Escolar),
licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Educação,
Ciências e Letras do Sertão Central (1995) e bacharel em
Psicologia pela Faculdade Católica Rainha do Sertão
(2009). Desde 1997 é Professora da Secretaria da Educação
Básica do Estado do Ceará e Professora do Curso de
Psicologia da Faculdade Vale do Salgado - FVS. E-mail:
sandramary@fvs.edu.br

Antoniel dos Santos Gomes Filho – Professor do curso de


Administração da Faculdade Vale do Salgado (FVS). Mestre
em Educação Brasileira pelo Programa de Pós-Graduação
em Educação da Universidade Federal do Ceará, com área
de concentração em História e Educação Comparada.
Discente de Licenciatura em Filosofia na Faculdade Católica
de Fortaleza (FCF). Coordenador do Laboratório Interdisci-
plinar em Estudos Organizacionais e do Trabalho (LIEOT/
FVS). Professor-pesquisador do Núcleo de Estudos Compa-
rados em Corporeidades, Alteridade, Ancestralidade, Gêne-
ro e Gerações (NECA-GE/UFCA) e do Laboratório Interdis-
ciplinar em Estudos da Violência (LIEV/UNILEÃO). Espe-
cialista em Gestão de Recursos Humanos pela Faculdade de
Juazeiro do Norte (FJN). Tecnólogo em Gestão Comercial pelo Centro Universitário Dr.
Leão Sampaio (UNILEÃO). Licenciado em Pedagogia pela Faculdade Kurios (FAK).
E-mail: antonielsantos@fvs.edu.br / antoniel.historiacomparada@gmail.com

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OS AUTORES
Allana de Freitas Lacerda – Mestranda Acadêmica em Educação pela Universidade
Federal do Ceará (UFC) vinculada à Linha de Pesquisa em História da Educação
Comparada (LHEC) pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira.
Especialista em Direito e Relações Internacionais pela Universidade de Fortaleza
(UNIFOR). Graduada em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisa
nas áreas de Comércio Internacional, Métodos Alternativos de Solução de
Controvérsias, Estado do Vaticano, Direitos Humanos, História da Educação
Comparada, Direito das Mulheres, Minorias. Atualmente é Coordenadora do Grupo de
Estudos intitulado Islã, Direitos Humanos e Transconstitucionalismo - IDHT, vinculado
ao Grupo de Pesquisa em Filosofia dos Direitos Humanos cadastrado no CNPq sob
coordenação do Professor Doutor Regenaldo Rodrigues da Costa. Advogada. E-mail:
allana_lacerda@yahoo.com.br

Antonia Cleidiana Diniz Pinheiro – Possui graduação em Serviço Social pela


Faculdade Vale do Salgado (FVS).

Antoniel dos Santos Gomes Filho – Professor do curso de Administração da


Faculdade Vale do Salgado (FVS). Mestre em Educação Brasileira pelo Programa de
Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Ceará, com área de
concentração em História e Educação Comparada. Discente de Licenciatura em
Filosofia na Faculdade Católica de Fortaleza (FCF). Coordenador do Laboratório
Interdisciplinar em Estudos Organizacionais e do Trabalho (LIEOT/FVS). Professor-
pesquisador do Núcleo de Estudos Comparados em Corporeidades, Alteridade,
Ancestralidade, Gênero e Gerações (NECA-GE/UFCA) e do Laboratório
Interdisciplinar em Estudos da Violência (LIEV/UNILEÃO). Especialista em Gestão de
Recursos Humanos pela Faculdade de Juazeiro do Norte (FJN). Tecnólogo em Gestão
Comercial pelo Centro Universitário Dr. Leão Sampaio (UNILEÃO). Licenciado em
Pedagogia pela Faculdade Kurios (FAK). E-mail: antonielsantos@fvs.edu.br /
antoniel.historiacomparada@gmail.com

Brennda Martinelli Pinho Silva – Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário


Doutor Leão Sampaio (UNILEÃO). E-mail: brenndamartinelli@live.com

Cicero Charlison Renan Alves – É professor do Curso de Serviço Social da Faculdade


Vale do Salgado (FVS) desde (2011). Possui graduação em Serviço Social pela
Faculdade Leão Sampaio (2011), e pós-graduado em Direito Constitucional e
Administrativo. Tem experiência em Terceiro Setor, foi Assistente Social do SESC-
Crato-CE (2011). Coordenou o projeto de pesquisa: Democracia Participação social e a
Reforma agrária, na Faculdade Vale do Salgado (FVS, 2012), é Residente em Saúde
pública com ênfase em Saúde coletiva pela Escola de Saúde Pública do Estado do Ceará
(ESP-CE) (2013), Mestrando em Ciências da Saúde, Área de Concentração Saúde
Coletiva pela Faculdade de Medicina do ABC Paulista (FMABC - SP). Estuda Estado,

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Política Social, Sociedade civil, Democracia participativa, Saúde e Serviço Social. E-


mail: cicerocharlison@fvs.edu.br

Francisco Francinete Leite Junior – Mestre em Psicologia pela Universidade de


Fortaleza (UNIFOR). Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Doutor Leão
Sampaio/UNILEÃO. Graduado em História pela Universidade Regional do Cariri e
Docente de Psicologia pelo Centro Universitário Leão Sampaio – UNILEÃO. Professor
pesquisador do Núcleo de Estudos Comparados em Corporeidades, Alteridade,
Ancestralidade, Gênero e Gerações (NECAGE –UFCA/UNILEÃO/URCA/FJN).
Professor-pesquisador do Laboratório Interdisciplinar em Estudos da Violência
(LIEV/UNILEÃO). E-mail: francinetejunior@leaosampaio.edu.br

Jarles Lopes de Medeiros – Doutorando e Mestre em Educação Brasileira no


Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Ceará
(PPGE/UFC). Especialista em Psicopedagogia Institucional e Clínica (FALC, 2014).
Graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE, 2012) e
Licenciado em Língua Portuguesa e suas Literaturas (FGF, 2015). Pesquisador
colaborador do Grupo de Pesquisa Ética, Educação e Formação Humana. Áreas de
interesse e atuação: Ética, Educação, Sexualidade, Gênero, Diversidade Sexual, Família,
Formação Docente e Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). E-mail:
jarlles@hotmail.com

Jéssyca Diniz Medeiros – Mestranda em Educação no Programa de Pós-Graduação em


Educação da Universidade Federal do Ceará (PPGE/ UFC), vinculado à linha de
Educação, currículo e ensino. Graduada em Gestão de Saúde Pública URCA 2007.
Licenciada em Música (UFC). Graduanda em Pedagogia (IESA). É militante e uma das
fundadoras do Grupo de Mulheres Negras do Cariri Cearense - Pretas Simoa. Ex-
presidente do CMDCA-JN (Conselho Municipal de Direitos da Criança e Adolescente)
e atualmente membro Suplente. Contadora de histórias. Professora-pesquisadora do
Laboratório Interdisciplinar em Estudos da Violência (LIEV – UNILEÃO). E-mail:
jessycadiniz21@gmail.com

Josué Barros Junior – Doutorando em Ciências da Saúde pela FMABC, coordenador


Adjunto do Curso de Enfermagem da Faculdade Vale do Salgado, Docente do
Departamento de Graduação e Pós Graduação da Faculdade Vale do Salgado, possui
Graduação em Pedagogia e Bacharelado em enfermagem, Especialista em Terapia
Intensiva e Urgência e Emergência, Mestre em Ensino na Saúde. Enfermeiro
concursado na PREFEITURA MUNICIPAL DE UMARI-CE, Membro do comitê de
Ética e Pesquisa da Universidade Leão Sampaio e Presidente do Conselho Municipal da
Saúde de Umari-CE. E-mail: josuebarros@fvs.edu.br

Kerma Márcia de Freitas – Enfermeira pela Universidade de Fortaleza (2003).


Doutoranda em Saúde Coletiva pela Unifor. Mestre em Saúde Coletiva pela Unifor.
Especialista em Saúde da Mulher, Saúde da Família e Metodologia da Docência do
Ensino Superior. Atualmente Coordena o Curso de Bacharelado em Enfermagem da
Faculdade Vale do Salgado. Membro efetivo do Comitê de Ética em Pesquisa do Centro
Universitário Dr. Leão Sampaio. E-mail: kerma@fvs.edu.br

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Lais Almeida de Sousa – Graduada em Serviço Social pela Faculdade Leão Sampaio
(2011), Pós-graduada (Especialista) em Serviço Social pela mesma instituição (2014),
Professora do Curso de Serviço Social da Faculdade Vale do Salgado, Icó-CE desde
(2012). Possui experiência com Assistência Social. Compromissada com o projeto
ético-político e profissional da categoria. E-mail: laisalmeida@fvs.edu.br

Miguel Ângelo Silva de Melo – Doutor em Sociologia (UFPE), Mestre em Educação


Intercultural e Antropologia Social (Universidade de Hamburgo – Alemanha), Mestre
em Criminologia e Direito Internacional Público (Universidade de Hamburgo –
Alemanha), Pesquisador Líder do Laboratório Interdisciplinar de Estudos da Violência
(Centro Universitário Dr. Leão Sampaio – Juazeiro do Norte, CE). Bacharelado em
Direito. Licenciatura em Pedagogia pela Faculdade Kurios (FAK). Advogado.
Coordenador da Linha de Pesquisa Etnofilosofia, Etnodireito, Etnogênero. Diretor-
Presidente da ONG Instituto de Educação e Intervenção Afrobrasileira (ICIEAB).
Pesquisador Colaborador do Laboratório Interdisciplinar em Estudos Organizacionais e
do Trabalho (LIEOT/FVS). E-mail: crioulo.miguelangelo.melo@gmail.com

Tiago Deividy Bento Serafim – Possui Graduação em Psicologia pela Universidade


Estadual da Paraíba, com ênfase em Psicologia Clínica na Abordagem: Logoterapia.
Mestre em Ciências das Religiões na Universidade Federal da Paraíba na linha de
Pesquisa: Espiritualidade e Saúde. Pertencente ao Grupo: Nous: Espiritualidade e
Sentido. Coordena o Grupo de Estudo e Pesquisa em Morte, Espiritualidade e Saúde, do
curso de Psicologia da Faculdade Vale do Salgado. Atua principalmente nos seguintes
temas: Religiosidade, espiritualidade, sentido de vida, saúde. Desde 2013, é professor
do curso de Psicologia da Faculdade Vale do Salgado - FVS. Também atua com o
Psicólogo no CAPSad - Cajazeiras. E-mail: tiagodeividy@gmail.com

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