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UFRGS – IFCH

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
Setor de História Antiga
ANTIGA II – AVALIAÇÃO III (25/02)
Professor: Anderson Zalewski Vargas
2016/2

TRABALHO DE CONCLUSÃO: A HISTÓRIA DA ROMA ANTIGA E O CINEMA.


Filme base: Spartacus, de Stanley Kubrick (1960).

 Cristian Bianchini de Athayde;


 Rafael Chies Paschoali.

Porto Alegre, fevereiro de 2017


SUMÁRIO

Proposta a respeito da avaliação final da disciplina............................................................................ -

Introdução................................................................................................................................................ 4

Capítulo I - Escravidão Antiga................................................................................................................ 7


1. Roma Antiga enquanto horizonte analítico: uma reflexão historiográfica.............................................

2. A Revolta de Espartaco sob a ótica da historiografia.........................................................................

13

Capítulo II - "Eu sou Spartacus!"...........................................................................................................16


1. O diálogo Cinema/História: a concepção de escravismo às luzes do épico dirigido por Stanley
Kubrick e relações com aquilo produzido pela
historiografia............................................................................16
2. O papel do Historiador no fazer uso de recursos complementares para fomentar reflexões..............

19

Conclusão.............................................................................................................................................. 22

Bibliografia............................................................................................................................................. 23
Proposta a respeito da avaliação final da disciplina

TRABALHO DE CONCLUSÃO: A HISTÓRIA DA ROMA ANTIGA E O CINEMA

 No que consiste:

. Avaliação, individual ou em grupo, de um dos filmes apresentados como opção tendo em


vista a bibliografia pertinente do semestre.

 Procedimentos básicos:

. Escolher um filme para ser avaliado;


. Selecionar e ler a bibliografia pertinente, anotando o necessário para a realização do
trabalho;
. Assistir ao filme, anotando o necessário para a realização do trabalho.

 Os filmes disponíveis:

. O declínio do Império Americano, de Denys Arcand (1986).


. A queda do Império Romano, de Arthur Mann (1964).
. Santo Agostinho- A Queda do Império Romano, de Christian Duguay (2010).
. Spartacus, de Stanley Kubrick (1960).

 Filme Escolhido – orientações específicas para o mesmo:

Spartacus, de Stanley Kubrick (1960)

Elementos mínimos do texto a ser elaborado:


. Quais as concepções sobre a escravidão em Roma na historiografia consultada;
. A visão historiográfica sobre a revolta de Espártaco;
. Como é concebida a escravidão no filme;
. O que dizer, escrever, sobre as possíveis relações entre a escravidão e a revolta de
Espártaco apresentados no filme e as ideias historiográficas sobre os mesmos temas para
um auditório de vestibulandos interessados em graduar-se em história?
Introdução

Sol Vivificador, que no teu carro refulgente


fazes nascer e encerras o dia, que renasces sempre diferente
e o mesmo, possas tu não contemplar nunca nada tão magnífico
quanto esta cidade de Roma!1

Em meados do fim do século VI a.e.c (por volta do ano de 509), uma comunidade já urbana,
originalmente habitante dos arredores do Monte Palatino na Península Itálica, conquista sua
emancipação política, econômica e militar frente uma realeza Etrusca dominante. Abre-se portanto, o
caminho para seu gradual desenvolvimento nos séculos posteriores, e por consequência, tem-se o
estabelecimento de sua hegemonia econômica, bélica e cultural sobre as demais comunidades então
subjugadas, passando a ser retratada como a caput mundi em sua plenitude, e cujo peso de seu nome
ainda hoje é reverenciado e adorado por muitos: Roma Antiga, a cidade eterna.
A formação da sociedade romana se dá sobre alicerces basilares fundamentalmente
aristocráticos, oriundos da influência dos Etruscos durante o período de dominação destes. Com o
surgimento da República em 508 a.e.c, tem-se portanto um escopo social, político e econômico
monopolizado por uma ordem 2 de Patrícios cuja legitimação de seus privilégios se funda em sua
tradição enquanto cavaleiros, inscritos em um grupo aristocrático fundiário e militar fechado e de
conotação sanguínea; contrapondo-se a esses, tem-se a ordem dos Plebeus, pobres e maioria da
população, que detêm a cidadania mas não os privilégios. Ambas estas ordens, ao longo do período
compreendido entre os séculos V e III a.e.c (até meados da 2° Guerra Púnica, datada de 218-101
a.e.c) protagonizarão uma série de lutas sociais, onde aqueles últimos objetivarão gradualmente dispor
de melhores condições econômicas e políticas; em um contexto onde a resolução dos problemas
internos era feita através do alargamento territorial e por conseguinte, do gradual fomento a uma
estrutura administrativa, econômica e política cada vez mais complexa, refletindo notoriamente nas
relações sociais de uma sociedade que cada vez mais se diferenciava e se afastava dos antigos dois
polos conflitantes. O resultado dessas lutas vem a ser a dissolução da estrutura social Arcaica,
concebendo como produto um novo rearranjo para com a organização social romana:

1
Segundo Horácio (17 a.e.c): “Alme sol, curru nítido qui diem/ promis et celas aliusque et idem/ nasceris,
possis nihil Roma/ uisieri maius!” apud PEREIRA, Virgínia. Crônica de uma morte anunciada: a queda de Roma. IN:
OLIVEIRA et ali. A queda de Roma e o alvorecer da Europa. Coimbra: Universidade de Coimbra, 2014.
2
Segundo Finley: “Uma ordem ou estado é um grupo juridicamente definido dentro de uma população. Possui
privilégios e incapacidades formalizadas em um ou mais campos de atividade – governamental, militar, legal, econômico,
religioso, conjugal – e situa-se em relação a outras ordens numa relação hierárquica. Idealmente, pertence-se a uma ordem
hereditariamente, como no exemplo antigo mais simples e claro, a divisão dos romanos, na fase mais recuada da sua
história, em patrícios e plebeus”. (FINLEY, M.I. A Economia Antiga. Porto: Afrontamento, 1980. P. 56-7).
4
Dadas estas condições, no século III a.C, a organização da sociedade romana
caracterizava-se por uma estratificação diferente da anterior [arcaica], a qual dava
por sua vez origem a novas relações entre as diferentes camadas sociais. A
estrutura da sociedade assentava numa complexa rede de fatores em que
pesavam os privilégios de sangue mas, também, as capacidades pessoais, a
posse de terras e de dinheiro, a influência política conferida pela qualidade
de membro do Senado e, em especial, pelo acesso aos cargos públicos,
além do estatuto conferido pela cidadania e pela liberdade pessoal, da
participação na produção agrícola ou noutros setores da economia e,
finalmente, das relações políticas das diferentes comunidades itálicas com
Roma. Fruto desse sistema de estratificação era a existência de toda uma
gama de camadas sociais. (ALFÖLDY, 1995, p. 47).

Delineia-se portanto, uma realidade de complexidades variáveis, onde a respectiva sociedade


romana vem se diferenciando cada vez mais face esse novo arranjo. Em um próximo momento,
posteriormente à Segunda Guerra Púnica contra Cartago (218-201), é comum firmar aqui um ponto
fundamental para o futuro desenrolar e declínio da República romana: as vitórias contra Cartago, a
ratificação da hegemonia bélica e econômica sobre o Mare Nostrum possibilitam à cidade de Roma
estender ainda mais os seus domínios, onde por sua vez passa a englobar recortes territoriais
versados por uma variedade na produção agrícola, locais fornecedores de matéria-prima de tipos
variáveis, bem como também, pelo fomento a cada vez maior utilização da escravidão vinculada ao
setor econômico em âmbito geral. Roma estrutura um mercado consumidor interno e externo capaz de
prover seu desenvolvimento e soberania ao longo do Mediterrâneo; todavia, como consequência a tal
contexto tem-se como reflexo em âmbito social o estímulo a uma maior diferenciação interna à
sociedade romana, oriunda desses novos fatores econômicos. Essa agudização das tensões e
conflitos sociais, inerente à sociedade romana, tem seu ponto fundamental no seio dos dirigentes,
ocasionando a divisão em famílias aristocráticas conflitantes. O resultado desse cenário vem a ser uma
crise política que acabará por culminar já no século II a.e.c em uma guerra civil, social (relacionada aos
socii), revoltas provinciais e de escravos, que serão os elementos fundamentais para a dissolução da
República e encaminhamento ao Império Romano. É nesse escopo geral que se situa o nosso objeto
de análise no presente trabalho: trata-se de uma revolta de escravos, a mais perigosa dentre todas na
história de Roma, ocorrida no período de 74 e 71 a.e.c, liderada por um gladiador Trácio de nome
Espartaco, cujo nome levou a alcunha de seu líder; eis portanto, o pano de fundo anterior à Revolta de
Espartaco.
Julgamos ser necessário este breve resumo, no tocante aos acontecimentos anteriores à
Revolta de Espartaco, justamente por conta da especificidade que vem a ser este trabalho e para situar
pontualmente no tempo e espaço aquilo que se pretende ser analisado. Nos capítulo posteriores,
palmilharemos à analisar a escravidão na Roma Antiga às luzes de um diálogo com os respectivos
5
momentos históricos justamente para prover uma melhor delineação das condições históricas que
antecederam a revolta mais perigosa de escravos na Roma Antiga; fazendo uso, exclusivamente, do
material produzido sobre a Revolta de Espártacos, tanto do ponto de vista historiográfico quanto
cinematográfico – sob o horizonte do fornecido por Kubrick em seu épico de 1960, Spartacus. Dividida
em duas partes, a respectiva explanação tem por objetivo primeiramente expor as principais
concepções historiográficas tanto a respeito da escravidão na Roma Antiga, quanto da respectiva
Revolta em questão (capítulo I); na sequência, a ótica será voltada para o universo cinematográfico, às
luzes de uma análise a respeito da forma como é demonstrada a escravidão em Spartacus, bem como
o diálogo entre o mesmo e aquilo que fora e vem sendo produzido no tocante à historiografia e o corpo
que esse diálogo pode tomar nas mãos de um docente que tem por objetivo a explanação desse
conteúdo aos seus discentes (capítulo II). Trata-se portanto, de um exercício analítico do fazer dialogar
História e Cinema, podendo por fim render frutos no futuro, em sala de aula, sob uma estratégia do
docente para com o fomento à reflexão e construção do conhecimento por parte dos alunos, um ponto
fundamental na construção do conhecimento histórico.

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Capítulo I – Escravidão Antiga

1. Roma Antiga Enquanto Horizonte Analítico: uma reflexão historiográfica.

Ao iniciarmos nossa análise no tocante à escravidão Antiga, tendo como pano de fundo o
mundo romano da antiguidade, vem a ser fundamental abrir nossa explanação com duas palavras
fundamentais para sustentar toda e qualquer argumentação referente aos estudos da antiguidade:
complexidade e variedade.
Qualquer estudo que se pretenda ter, como no nosso caso – e como em qualquer outro, seja
no campo das ciências humanas ou não -, enquanto horizonte metodológico algum aspecto a respeito
da sociedade romana antiga, deve-se estar muito atento e não negligenciar ambas as respectivas
palavras em seu processo de pesquisa. Uma vez que, qualquer historiador está inserido em uma
realidade onde se faz inscrito em uma gama de multiplicidades, de questões delicadas e densas para
com seu objeto de pesquisa – sejam elas de cunho epistemológico, metodológico, teórico ou ideológico
-, por conseguinte, faz-se necessário que aquele tenha ciência da complexidade que envolve todo esse
processo de pesquisa e produção do conhecimento histórico: atentando para suas complexidades, a
fim de evitar generalizações e simplificações que comprometam e/ou obscureçam possíveis
interpretações; também pois, e inerente ao ponto relacionado à complexidade, é de notória importância
que se levantem os argumentos e variantes interpretativas mais variadas possíveis, fazendo-as
dialogar entre si e exercer uma crítica constante a cada uma, para no fim obter uma síntese
argumentativa que se faça consistente e o mais próximo possível do que de fato possa ter ocorrido.
Para tanto, a título de exemplo é essencial a forma como Mohammed Nafissi – em seu artigo Classe,
Engaste (Embeddedness) e a Modernidade Da Atenas Antiga - tratando de uma temática análoga que
versa sobre discussões teóricas a respeito da Economia Antiga em Atenas, expõe e trabalha
fundamentando sua argumentação e a fazendo dialogar com as variantes interpretativas, conceituais
que foram produzidas ao longo dos últimos dois séculos, sobre o respectivo tema, chamando atenção
ao término de seu artigo:

Seguindo uma tendência crescente nos estudos recentes, este capítulo procurou
mostrar a complexidade dos desenvolvimentos atenienses e a inabilidade da
discussão sobre o tema em qualquer campo. Isso tem sido feito por alguns dos
principais protagonistas quando tratam igualmente de fenômenos complexos cujas
posições “oficiais” devem ser mais problematizadas do que assumidas. Os Finleys
encontrados aqui não esgotam Finley, mas, se eles encorajam a reconsideração de
afirmações sobre o modelo da economia antiga, [...], um razoável começo se iniciou.
Uma vez nesse caminho, porém, não se pode recuar [...] (NAFISSI, 2011, p. 155).
7
Portanto, ao abordar a temática da escravidão na Roma Antiga, do ponto de vista
historiográfico, é de suma importância ter em mente as ideias apresentadas anteriormente; uma vez
que, nessa perspectiva, se faz fundamental primeiramente identificar a escravidão em Roma enquanto
repleta de variantes ao longo da história da caput mundi, não sendo possível considerar que a mesma
fora única e homogênea: além da influência lógica do recorte histórico em questão – relacionada à
questões econômicas, políticas e sociais -, ela era múltipla também no interior de tais recortes, uma vez
que podemos encontrar uma dicotomia entre a escravidão urbana e no meio rural, entre a escravidão
doméstica e pública, entre gladiadores e escravos comuns trabalhadores, entre outras formas. No
presente trabalho, lançaremos mão de uma análise que visará abordar as formas e “naturezas” da
escravidão em Roma através de momentos; isto é, momentos nos quais através do diálogo com
eventos que potencializam alterações nas estruturas econômicas e sociais, podemos observar como a
escravidão vai ganhando conotações diferentes e mudando de formatação conforme se faz cada vez
mais inserida na economia romana. Nossa abordagem dará prioridade para o recorte que se faz
apresentar dos antecedentes às revoltas de escravos no contexto de crise da República Romana, onde
está, por sua vez, inserido o ponto central de nossa exposição, que vem a ser a Revolta de Espartacos
(74 – 71 a.e.c).
Em um primeiro momento, ao outono da Monarquia etrusca e primavera da República
romana, temos a escravidão inserida em uma organização social arcaica e limitada, uma vez que, “a
escravatura só pôde desenvolver-se na organização social patriarcal da época arcaica por lhe ser
atribuída uma função na família, núcleo da vida social e econômica” (ALFÖLDY, 1995, p. 26). Logo
pois, em virtude da conjuntura na qual estavam inseridos, suas funções podiam variar em diversos
aspectos, acabando também por desempenhar atividades semelhantes às dos homens livres; contudo,
apesar dessa aparente possibilidade de mobilidade econômica – e não social, uma vez que nessa
época as magistraturas eram monopolizadas pela ordem dos Patrícios, cuja fundamentação sanguínea
fechava esse grupo bem como as possibilidades de outros escalonamentos sociais ascenderem àquilo
que desde o início dignificava o cidadão romano, as funções e ofícios ligados ao Estado -, os escravos
não podiam possuir bens – em consequência de não serem considerados homens livres, portanto não
possuíam as condições normativas para erigir sob seu domínio nenhuma forma de propriedade, muito
menos fundiária -, sendo eles propriamente considerados como propriedades do pater famílias, chefe
do núcleo familiar. Por consequência dessa proximidade com seu senhor, o escravo poderia
estabelecer uma relação de proximidade com aquele, contribuindo para adquirir melhores garantias e
posição social dentro desse âmbito familiar, muitas vezes até melhor que de muitos homens livres;
também sua atuação nesse âmbito deve ser analisada com cuidado, pois, assim como nos demais
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momentos da escravatura romana, também a mesma era estratigráfica em suas atividades, podendo
os escravos serem de cunho agrícola nas pequenas e médias plantações da família, e também mais
particular, em âmbito domiciliar. Temos portanto, o “sentido da escravatura como instituição [que] era o
reforço da força de trabalho da família nas atividades domésticas (e também nos ofícios) e na
economia agrícola, principalmente após os êxitos da expansão romana a partir de finais do século V
a.C.” (ALFÖLDY, 1995, p. 27). Oriundos da venda e abandono de filhos, da mobilidade decrescente de
homens livres endividados, da subjugação de populações vencidas em guerras à condição de
escravos, e também da reprodução endêmica aos escravos – onde o elemento da hereditariedade se
fazia quase como um ordenamento jurídico para com a delimitação dessa “circunscrição escravista” 3 –
os escravos desse momento histórico não deixaram de se levantar contra seus senhores:
Os primeiros movimentos de escravos seguem quase sempre o mesmo esquema:
numa situação de crise para com a comunidade romana, os escravos e alguns
grupos de homens livres conspiram, planejando ocupar os montes da cidade, libertar
os escravos, matar os senhores e apoderar-se das suas mulheres e dos seus bens;
contudo, essa conspiração é sempre descoberta e neutralizada a tempo.
(ALFÖLDY, 1995, p. 28).

Nesse excerto nos é apresentado um ponto que é interessantíssimo: o que se refere a


negligência dos escravos quanto a qualquer tentativa de mudar a ordem social então vigente – e isso
será característico de todas as revoltas escravistas ao longo da vida de Roma. É muito comum, ao
palmilharem análises sobre a escravidão antiga greco-romana, que muitas argumentações façam
menções de exigências anacrônicas para com o sentido e a natureza das revoltas escravocratas
desses momentos históricos; ora pois, seria prepotência em demasia, enquanto agentes históricos de
um momento específico, influenciados por pensamentos e ideias específicas, que nós exigíssemos que
pessoas situadas há no mínimo dezesseis séculos atrás, considerando a queda da estrutura imperial
romana no século V de nossa era como limiar, tivessem o florescimento de ideias humanitárias, liberais
e individuais que nos são herança de séculos recentes. Cabe portanto, essa reflexão que casa com os
dois elementos citados aqui no início de nossa argumentação: a escravidão enquanto instituição
histórica, assim como a formação da consciência dos indivíduos, são frutos de momentos variados e
portanto dialogam com tais momentos produzindo características que são condicionadas em meio a
uma série de variáveis; não sendo, portanto, possível de embalar tais concepções e transplantá-las
para dado período sem exercer uma crítica epistemológica sobre o que se está fazendo, isso é

3
Nos utilizamos desse termo em virtude da complexidade que vem a ser conceituar os escravos antigos à
determinada nomenclatura. Mais uma vez, vem a ser crucial os apontamentos que o texto de Nafissi (2011) delineia; uma
vez que, como já elencado anteriormente, atenta justamente para essas complexidades conceituais e para como ao cunhar
determinada nomenclatura a determinado grupo social, estamos correndo o risco de cometer generalizações simplórias,
bem como falhas interpretativas para com o elemento de análise.
9
fundamental não só para historiadores e demais cientistas sociais, mas também para toda e qualquer
pessoa, trata-se de uma reflexão fundamental para evitar constrangimentos.
Em um segundo momento, como já mencionado de forma breve na introdução, ao longo dos
séculos V, IV e III (pré 2° Guerra Púnica, 218 até 201 a.e.c), Roma se torna palco de lutas sociais entre
seus dois principais polos antagônicos e conflitantes: Patrícios e Plebeus. Em síntese, os resultados da
resolução desses conflitos mediante expansão territorial e concessões jurídicas internas, acaba por,
por conseguinte, desenvolver as estruturas econômicas e políticas do conjunto romano, e por
consequência, tem profundo impacto na gradual dissolução da antiga organização social arcaica da
sociedade. Roma se tornava cada vez mais complexa, administrativamente, econômica e politicamente
e, de fato, a crescente utilização e comercialização de escravos serviu como pedra basilar na formação
dessa nova estrutura que se formava – onde por sua vez, teria como auge o momento posterior, isto é,
após a 2° Guerra Púnica e a consolidação de Roma enquanto potência hegemônica ao largo do
Mediterrâneo -; porém, todavia, deve-se lançar limitações sobre a real importância da escravatura
nesse contexto, uma vez que, por mais que seja manifesto a gradual desestruturação da organização
social arcaica, não podemos considerar que o mesmo tenha acontecido totalmente com as formas
patriarcais de escravidão: essas últimas continuaram existindo, agora com novas formas de
escravidão, que se arranjam conforme um novo contexto econômico e social; também, a própria Roma,
do ponto de vista econômico, estava longe de basear seu mercado interno e externo na dinâmica
escravista. Assim, para esse momento específico podemos lançar mão do seguinte excerto para uma
melhor síntese:

Os escravos ocuparam a posição mais baixa na sociedade romana desde a


desagregação da organização social arcaica até o início da época imperial. A sua
importância aumento durante o século IV a.C., em consequência do
desenvolvimento econômico e social de Roma, pois podiam ser utilizados como
força de trabalho, principalmente nos campos de proprietários de terras e
também dos camponeses ricos. As possibilidades de aquisição de escravos
eram maiores que anteriormente, mas foram abolidas as formas arcaicas [...]
Contudo, aumentou a importância do comércio de escravos com outros
povos e Estados [...] (ALFÖLDY, 1995, p. 54).

Contudo, considerando todas as complexidades inerentes à condição de escravo e também


salvo as especificidades a respeito de possíveis mobilidades, a situação destes, após a 2° Guerra
Púnica (218 - 201), se degrada consideravelmente, uma vez que, tal recorte em concomitante à Crise
da República Romana, vem a ser considerado o apogeu da escravatura romana: eis portanto, o nosso
terceiro momento.

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A 2° Guerra Púnica, grifou na história da Roma Antiga um fomento a certo processo incisivo
de modificações, que em um breve espaço de tempo, foram fundamentais para com profundas
adulterações na estrutura do Estado e da sociedade romana. Tratando-se de um arranjo pleiteado em
virtude das novas circunstancias estruturais dos múltiplos âmbitos da conjuntura romana;
circunstancias estas com raízes, como já mencionado, ligadas diretamente ao sucesso da segunda
campanha contra os cartagineses, derivando por exemplo da “decadência e [d]a proletarização do
campesinato itálico, [d]a formação de grandes propriedades fundiárias e [d]a utilização em grande
escala dos escravos na produção” (ALFÖLDY, 1995, p. 57). Por conseguinte, assim como em qualquer
realidade histórica, sempre existem consequências positivas e negativas amalgamadas entre si, e no
caso romano o seu ponto mais benéfico fora o grande desenvolvimento econômico e social promovido
por esse momento histórico; uma vez que, haviam de fato formado um verdadeiro império, isto é, uma
potência hegemônica tanto economicamente quanto militarmente ao largo da região mediterrânica,
abrangendo novos e grandes territórios cuja produção agrícola além de desenvolvida se caracterizava
por uma maior variedade, também, em paralelo, as grandes reservas de matérias primas, bem como de
mão de obra escrava, contribuíram fielmente para a consolidação de um grande mercado itálico
desenvolvido e rico, cujo resultado posteriormente será uma profunda alteração nas estratificação da
sociedade. Logo pois, a rápida transformação das estruturas econômicas e sociais alterou de forma
voraz a sociedade romana, contribuindo notoriamente para o aumento das tensões e conflitos sociais,
encaminhando a República para sua grande crise social e política, acabando por decretar o seu fim:

A sociedade romana encaminhava-se para uma crise que, em última análise, só


podia ser resolvida pela violência, Mas o uso da violência era condicionado pelas
leis engendradas pela própria estrutura da crise. A natureza dos vários conflitos
suscitados por numerosos problemas sociais e políticos, os interesses diferentes
das várias camadas e grupos sociais, além das múltiplas ligações entre as várias
camadas e grupos, tornavam impossível um movimento revolucionário generalizado
e mais ou menos homogêneo. A estrutura da crise levou, pelo contrário, a que ela se
manifestasse através de uma série de conflitos sociais e políticos sangrentos que
evoluíam paralelamente entre si e acabavam por aniquilar o inoperante quadro
político do sistema social, ou seja, a República. (ALFÖLDY, 1995, p. 79).

Disposto este pano de fundo geral, eis o momento de nos voltarmos para as caracterizações
da escravidão neste contexto. Nesse momento, podemos ver um crescente aumento na importância da
escravatura para com os meandros econômicos e sociais da sociedade, onde os escravos já são vistos
e delineados como figuras representativas do meio social, exercendo diversas funções seja no âmbito
urbano ou no campo. Temos portanto, o momento do apogeu do sistema escravista romano, onde tais
escravos continuam como anteriormente sendo privados de gozar de qualquer direito pessoal, tendo

11
suas condições físicas e psicológicas às quais eram submetidos variadas conforme o âmbito em que
estava inserido e função que exercia. É preciso, por conseguinte, atentar especial atenção para essa
complexidade que vem a ser as diferentes variante de escravidão, no campo e na cidade, uma vez
que, estes últimos podiam gozar de situações melhores e de longe menos degradantes que aqueles
que trabalhavam em minas e grandes propriedades, podendo vir a serem considerados libertos e
atuarem em prol de seus senhores através de interesses políticos – como se pode ver claramente no
momento de guerras civis e posteriormente durante o Principado e Império Romano 4; é claro que,
horizontalmente em tais âmbitos as relações entre escravos e senhores poderiam ser igualmente
escalonadas, existindo tanto escravos doméstico de grandes latifundiários que possuíam certos
privilégios, quanto escravos urbanos submetidos à degradações consideráveis. Eis portanto, um
excerto que nos apresenta de forma sintética e ao mesmo tempo ampla as diferenças entre escravidão
urbana e rural:

Consequentemente pode dizer-se que a fuga [dos escravos em âmbito rural], a


passagem para o inimigo e o assassínio dos senhores foram as formas de
resistência, próprias a todos os escravos e independente da sua situação. Os
escravos que tomaram parte na luta dos cidadãos livres eram na sua maioria
escravos empregados nas casas dos artesãos das cidades e próximos da plebe. Só
Mário tentou atrair os escravos dos campos, mas sua tentativa assustou não só os
seus inimigos como também os seus partidários. (STAERMAN, 1975, p. 192)

Nessa perspectiva, convém também elucidar a situação incrivelmente precária dos escravos
no campo, dado o gradual aumento da importância de sistema de produção, em concomitante ao
aumento da oferta e da procura por tal mão de obra, tem-se portanto “de uma maneira geral, [que] o
tratamento infligido aos escravos dos últimos tempos da República foi o pior, em comparação com
qualquer outra época anterior ou posterior da história de Roma” (ALFÖLDY, 1995, p. 73), fomentando
portanto o ódio nos escravos e estimulando esse antagonismo inerente entre escravos e senhores de
escravos no campo – por consequência, como vimos, ódio diretamente ligado às fugas de escravos,
onde estes “não se contentavam em fugir, mas também matavam seus senhores e destruíam os seus
bens” (STAERMAN, 1975, p. 179). Nesse cenário, temos portanto o advento das conhecidas revoltas
de escravos do fim da República – as mais importantes sendo, de fato, a Primeira Revolta na Sicília
(135 -132 a.e.c), a Segunda Revolta na Sicília (104 – 101 a.e.c, e para coroar, a mais significativa, a
Revolta de Espártaco (74 – 71 a.e.c) -; onde por sua vez, se fizeram oriundas da gradual evolução das
4
Para elucidar este ponto, convém reparar no papel que Quinto Cícero (106 – 43 a.e.c) pincela sobre a importância
do apoio escravo para com aspirações à candidatura à determinada magistratura pública: “Em seguida, você deve trabalhar
infatigavelmente para que cada pessoa que lhe é mais íntima (e sobretudo quem é de sua casa) o adore e deseje
ardentemente que você tenha o maior sucesso possível; aja do mesmo modo em relação aos membros de sua tribo, aos
vizinhos [...] sem esquecer, por último, de seus escravos [...]”. CICERO. Manual do candidato às eleições. Carta do bom
administrador público. Pensamentos políticos selecionados. São Paulo: Nova Alexandria, 2000.
12
mudanças sofridas pelo sistema escravagista romano, como visto, desde passagem do século III para
o II a.e.c., em paralelo às alterações estruturais na economia e sociedade romana deste momento
histórico. Tratavam-se, portanto, de levantes que tinham como núcleo de partida movimentos isolados
de escravos, onde, após suas primeiras vitórias aglutinavam rapidamente uma grande quantidade de
pessoas – escravos fugidos e pastores maltratados -, tornando-se verdadeiros movimentos de massa;
não objetivando nenhuma alteração na ordem social vigente, mas sim, a promoção de um Estado à
parte e contra o romano, onde os mesmos escravos se converteriam em senhores e passariam por sua
vez a possuírem escravos, logo, uma nítida proposta de inversão de papéis. Logo pois, “nunca
poderiam modificar a organização da sociedade romana; além disso, estavam de antemão condenados
ao fracasso, dado que careciam de apoio de outros grupos sociais, [e] de uma organização
revolucionária coerente [e efetiva]” (ALFÖLDY, 1995, p. 86). Portanto, em disposições gerais, as
principais consequências destas grandes revoltas de escravos foram paradoxais e certamente
esclarecedoras de muitas questões que norteiam o papel dos escravos nos tempos do Império, uma
vez que, nessa medida, serviram para alertar os proprietários de escravos de que o tratamento brutal e
desmedido para com a exploração de seus escravos não eram, de fato, um meio muito exequível de se
perpetuar uma economia escravista, seja em qualquer âmbito; por conseguinte, a situação dos
escravos começou a melhorar gradual e lentamente, tornando-se portanto ao longo do tempo um
núcleo social diferenciado e complexo internamente, onde por sua vez cada vez mais passaram a ter
importância em questões políticas. Eis portanto, uma breve análise sobre as características complexas
e variadas da escravidão no mundo romano antigo, onde por sua vez, se procurou elencas os três
momentos principais, as três variantes que se complementam e vão se modificando ao longo do tempo.

2. A Revolta de Espártaco sob a ótica da historiografia.

Tolere, contudo, a desonra das revoltas dos escravos; embora o Destino os faça de
joguete, trata-se afinal de uma espécie de homens de segunda categoria, dos quais
podemos dispor por causa de nossa liberdade. No entanto, como chamar a guerra
que Espártaco iniciou e conduziu? Escravos soldados sob generais gladiadores, os
mais vis comandados pelos piores, se constituiu no escárnio aliado à calamidade.
[...]
Ele chegou mesmo a celebrar funerais de imperator para seus comandantes mortos
em combate, ordenando aos prisioneiros que combatessem entre si perto da
fogueira, como se lavasse toda a desonra de seu passado, passando de gladiador a
patrocinador de jogos.

13
[...] Orgulhoso de suas vitórias, pensou (e isto basta para nossa vergonha!) em
atacar a cidade de Roma. Finalmente, todas as forças de nosso império são
preparadas contra esse gladiador e Licínio Crasso reivindicou a honra romana;
vencidos e postos em fugas estes... – tenho vergonha de chamá-los de inimigos –
refugiam-se no extremo da Itália. [...] Enfim, numa saída, correram eles em direção à
uma morte digna de homens de valor; e como convinha a um general gladiador, a
luta foi sem perdão: o próprio Espártaco, combatendo com muita bravura na primeira
fila, foi morto como um imperator. (III,20)5

É com essa longa, bela e paradoxal citação, excerto retirado de Floro (I/II e.c), que abrimos
caminho para a explanação da principal revolta de escravos em Roma, uma revolta que foi capaz de
fazer mobilizar um grande contingente de infantes e cavaleiros romanos – “todas as forças do império”
segundo Floro – para poder derrotar estes antigos escravos, que conquistaram sua liberdade à força.
Uma vez que, a contextualização o plano de fundo, bem como as caracterizações gerais das revoltas
de escravos em uma síntese geral, já foram elucidadas anteriormente, cabe aqui neste tópico fazer
uma explanação a respeito da história da Revolta de Espártaco, bem como de possíveis pontos
importantes que são alvos de discussão acerca das complexidades desse movimento de escravos.
Inserida entre o recorte histórico de 74 até 71 a.e.c, a Revolta que leva o nome do gladiador
trácio Espártaco acabou por pesar enormemente sobre as estruturas políticas e logísticas de uma
Estado romano envolvido em guerras importantes e cuja crise política e social já tinha se iniciado no
seio de sua sociedade agudamente estratificada. Uma rebelião que adquiriu êxitos bélicos notáveis,
organizada em torno de líderes dotados de aptidões militares e administrativas, após as primeiras
vitórias a Revolta convergiu para si, gradualmente, um número grande de escravos fugitivos e
camponeses miseráveis, passando a possuir um efetivo entre 200.000 e 120.000 homens, acabando
por se tornar um pesadelo ao Senado romano. Organizada em torno de Espártaco, Crixus e Oenomaus
– estes últimos erigidos como lugares-tenentes -, pouco a pouco foram ganhando terreno e fama,
derrotando os contingentes romanos de Claudius e Varinius, ambos pretores encarregados de colocar
um fim na revolta. Muito se especula, durante o apogeu de suas vitórias, possíveis divergências
internas entre os revoltosos acerca daquilo que deveria ser feito – bem como de outras questões -,
marchar sobre Roma diretamente ou cruzar os Alpes em direção aos lugares que fugiam da jurisdição
romana, tornando-se de fato livres; a questão é que houve uma divisão de tropas dentro do exército
dos revoltosos e os dois lugares-tenentes acabaram sendo mortos em confronto com os romanos.
Espártaco, por sua vez, continuou logrando êxitos e em uma decisão até hoje sem respostas concretas
e definitivas – assim como em todos os assuntos referentes ao conhecimento histórico - sobre o
porquê da mesma, o líder decide regressar ao sul ao invés de atacar a cidade de Roma diretamente,
optando talvez por adquirir um maior contingente bélico para execução de seu ato final; por
5
PINSKY, Jaime. 100 Textos de História Antiga. 4ed. São Paulo: Contexto, 1988 (1972), p.13.
14
conseguinte, fora designado o cônsule Crassus, futuro triúnviro, para acabar de vez com a revolta, e
este, após sofrer algumas derrotas, se alia a Pompeu e ao largo de algumas batalhas, acaba por
subjugar e derrotar Espártaco em regiões próximas a Lucrânia, ao sul da Itália. É manifesto que, assim
como qualquer assunto, a Revolta de Espártaco incentive uma variabilidade de interpretações
tangentes a pontos julgados importantes, como a composição daqueles que compunham tal Revolta,
como também os verdadeiros programas desses revoltosos, se tinham ou não “virtudes
revolucionárias” ... entre outros. Um exemplo de argumentação, utilizado pela chamada historiografia
burguesa, vem a ser o do historiador soviético A. Misulin, exposta por Staerman (1975):

Segundo ele [Misulin] não foi a desigualdade étnica, mas a sua desigualdade social
que perturbou a unidade dos partidários de Espártaco. [...] É muito mais difícil
vencer a desigualdade dos interesses dos diferentes grupos sociais. No exército de
Espártaco, havia de um lado o grupo dos escravos e, do outro, o grupo dos seus
“companheiros” [camponeses], que se lhes tinham juntado, os cidadãos pobres do
campo. Os primeiros eram lógicos para consigo mesmos e revolucionários até o fim.
Não se interessavam senão pela destruição da escravatura como sistema, só
combatiam contra os métodos de produção escravagista e contra a propriedade
escravagista. Foi por esta razão que os escravos deram o maior exemplo das
possibilidades de organização e de capacidade para conduzir a luta a termo,
serviram-se da organização da revolta como um meio particular de luta de classes e
constituíram a classe dirigente da revolução. (STAERMAN, 1975, p. 198).

Assim portanto, ilustrou-se apenas um exemplo de argumentação acerca das variantes


interpretativas a respeito desta Revolta, sempre possuindo limitações qualitativas e quantitativas
relacionadas às fontes utilizadas, correndo o risco de produzirem informações e conjecturas turvas e
falhas, desprovidas de conteúdo sustentador. Por conseguinte, independente das divergências
teóricas, existe um ponto que pode ser considerado consensual em meio às discussões acadêmicas: o
que se refere à importância da Revolta de Espártaco, bem como das demais ocorridas ao longo dos
séculos II e I antes de nossa era, em virtude de sua importância para com o gradual afrouxamento da
exploração degradante e compulsória que os escravos vinham sofrendo; “pensam que, apesar da
repressão, os proprietários escravagistas ‘ensinados por essa amarga experiência’ mudaram alguma
coisa na sua atitude em relação aos escravos” (STAERMAN, 1975, p. 202), uma vez que, o surgimento de
novos métodos de exploração agrícola, relacionados a uma gradual ruptura no que se refere às concepções e
atitudes inscritas no sistema escravocrata, logo pois, “a nova geração de proprietários escravagistas considerou
inadmissíveis e perigosos os velhos métodos de exploração e procurou vias para utilizar o trabalho dos escravos
(op. Cit., p. 623)” (STAERMAN, 1975, p. 202). Eis portanto, a concepção historiográfica em âmbito geral a
respeito dessa que fora a mais importante revolta do mundo romano antigo.

15
Capítulo II – “Eu sou Spartacus!”

1. O diálogo Cinema/História: a concepção de escravismo às luzes do épico


dirigido por Stanley Kubrick e relações com aquilo produzido pela historiografia.

“Este é seu filho. Ele é seu filho Espártaco, ele é livre, ele é livre, é livre. Vai se
lembrar de você Espártaco, porque vou contar, vou contar quem era seu pai e com
o que ele sonhou.” Spartacus (Kubrick, 1960).

O excerto acima, retirado de uma fala proferida por Varínia, esposa de Espártaco no épico,
momentos antes da morte do marido, além de ser o zênite emocional do filme, talvez possa ser
considerado o resumo das vontades que moviam todos os escravos na época de Espártaco: ser livre e
ter a sua família nascendo dessa maneira. Por conseguinte, e em virtude dos objetivos pretendidos,
deixando em segundo plano o heroísmo cinematográfico atribuído a Espártaco, que ainda era virgem
quando lhe foi oferecida uma escrava e que morreu agonizando na cruz diante do sofrimento da mulher
que o amava, os próximos parágrafos deste capítulo será mais focado na concepção de escravismo
apresentada pelo filme, dialogando tais ideias com excertos e análises sobre a escravidão em Roma:
um exercício analítico de comparação reflexiva entre História e Cinema.
Uma das primeiras impressões que podemos ter em relação ao escravismo na Roma antiga,
retratado pelo filme, vem a ser a possibilidade de mudança de categoria do escravo, de
escalonamento: logo na primeira cena, do primeiro ato do filme, Espártaco é escolhido por Lêntulo
Batiato, dono de uma escola de gladiadores, para treinar e vir a ser um gladiador romano, retirando o
escravo da função de recolhedor de pedras – degradante trabalho compulsório exercido nas minas
romanas – e transferindo o mesmo para uma situação que embora constrangedora e escravocrata,
possuía certas regalias que a condição do escravo campesino e das minas não podiam almejar; onde,
por sua vez se é dado banho, passado óleo e cortado os cabelos, oferecido mulheres para satisfação
dos prazeres, bem como toda uma sistemática que vise na medida do cabível o “bem estar” do futuro
gladiador. Significativa e denunciadora vem a ser o trecho de As Metamorfoses, de Apuléio, datado do
século II e.c. – onde, salvo as defasagens temporais, podemos utilizar tal excerto sem correr riscos de
anacronismo, uma vez que, a condição dos escravos no âmbito rural, desde o fomento à sua
importância incitado pela Segunda Guerra Púnica nunca deixou de se diferenciar completamente de
um tipo ideal reflexivo -, onde se narra a seguinte situação a respeito da condição do escravo rural:

16
Bons deuses! Que restos de humanidade havia lá! Suas peles pareciam
pintadas pela marca lívida das chicotadas; suas costas estavam cheias de
feridas, e mais cobertas do que vestidas de farrapos rasgados. Alguns
vestiam só um retalho que lhes cobria o púbis. Todos no entanto envergavam
túnicas, mas estavam tão rasgadas que revelavam seus corpos. Letras
estavam marcadas em suas testas, tinham os cabelos raspados pela metade,
e ferros nos pés. Sua tez era emaciada e descolorida, suas pálpebras
estavam avermelhadas por uma fumaça negra e ardente, que inflamava seus
olhos. E como lutadores que se cobrem de poeira ao combater, uma farinha
semelhante a cinza os tornava horrivelmente brancos." (IX, 10-12) 6

O gladiador, também é “ensinado a usar sua cabeça”, assim, portanto, podemos considerar
como um indício de distanciamento da caracterização do escravo como sendo um animal, inoperante e
mecânico – no entanto, é complexo exercer uma ideia fixa a esse respeito, uma vez que, também, sua
condição análoga a de um animal poderia derivar também da sua limitação em possuir posses, bem
como de, em virtude da não cidadania romana, isto poderia vir a ser um argumento que sustentasse
sua condição animalesca, não fazendo parte do “mundo humano romano” por excelência. Nessa
perspectiva das diferentes variantes de escravidão, bem como da relativa melhor situação de um
gladiador, a oportunidade de ascensão fica ainda mais clara na primeira conversa de Batiato com os
escravos, onde utiliza Marcellus como exemplo: antes, o próprio fora um escravo e agora era treinador
de gladiadores – passando a reproduzir aquilo que fora atentado contra ele em tempos atrás. Em
excertos de Satiricon, de Petrônio, pode-se perceber as diferentes potencialidades das funções dos
escravos, e também, em algumas situações, a preocupação dos senhores com as habilidades do
escravo e a possibilidade de transição deste entre tais funções:

Comprei para o garoto [escravo] alguns tratados legais, porque desejo que ele
possua algumas noções de direito, para dirigir os assuntos da casa. Isto é o
verdadeiro ganha-pão. Quanto à literatura, ele já tem a cabeça demasiado cheia
dela. Se ele não der para isso, já resolvi fazê-lo aprender alguma profissão útil,
como barbeiro ou leiloeiro, ou pelo menos advogado - uma atividade, enfim, que ele
só possa perder com a morte." (XLVI, p. 63).

Como exemplo também, no filme, o personagem Antoninus exemplifica bem as diferentes


funções de escravos e os preconceitos sobre elas, quando sua habilidade de canto, que o rendeu um
lugar dentro da casa do rico e influente político Crasso, é primeiramente desprezado por Espártaco,
que procurava algum escravo com habilidade em carpintaria ou culinária. O escravo, mágico e cantor
representa pois, também, os diferentes níveis de instrução entre os escravos; e a comunidade formada
pelos revoltosos, com relativos indicativos de igualdade e coesão geral, quando não se precisa que um

6
APUD: CARDOSO, Ciro F. Trabalho compulsório na Antiguidade. Rio de Janeiro: Graal, 1984.
17
minerador tenha a habilidade da leitura (assim como Espártaco também não a tinha) e se é
desnecessário que um agricultor saiba guerrear como um gladiador, apresenta um plano geral que
reflete essa diferenciação de aptidões interna aos escravos.
Em um excerto de Floro sobre a Revolta de Espártaco, já mencionado no capítulo anterior a
respeito desta última em específico, existe certa ambiguidade paradoxal para com a visão dos romanos
sobre os revoltosos que merece ser recobrada aqui, com grifos adicionais:

Orgulhoso de suas vitórias, pensou (e isto basta para nossa


vergonha!) em atacar a cidade de Roma. Finalmente, todas as forças de
nosso império são preparadas contra esse gladiador e Licínio Crasso
reivindicou a honra romana; vencidos e postos em fuga estes... - tenho
vergonha de chamá-los de inimigos - refugiam-se no extremo da Itália. Lá,
confinados num canto do Brúcio, sem possuir embarcações, procuram
evadir-se para a Sicília, tentando em vão [vencer] a violenta corrente do
estreito sobre jangadas de feixes de madeira e de conjuntos de botes. Enfim,
numa saída, correram eles em direção à uma morte digna de homens de
valor; e, como convinha a um general gladiador, a luta foi sem perdão: o
próprio Espártaco, combatendo com muita bravura na primeira fila, foi morto
como um imperator." (III,20)

Mesmo sendo uma “vergonha chamá-los de inimigos”, o autor do texto reconhece a dignidade
do exército revoltoso e o exalta, escrevendo que tiveram “uma morte digna de homens de valor” e que
o próprio Espártaco, nome odiado e temido entre senadores e senhores de escravos romanos, “foi
morto como um imperator”. Essa exaltação mostra que mesmo sendo às vezes tratado como um, o
escravo não era visto como um animal, pois nenhum animal recebe este reconhecimento ou é cogitado
para uma mudança de função, de barbeiro a advogado, como já mencionado no excerto de Satiricon
de Petrônio. No filme essa ambiguidade fica manifestada nas entrelinhas, em virtude principalmente do
reconhecimento por parte de Graco da superioridade do exército de Espártaco, bem como por
mediante uma espécie de “humildade” por parte do Senado romano, sendo manifesta pela necessidade
de evocar um grande efetivo bélico, comandado por um dos cônsules romanos, para defender a honra
desses últimos Por conseguinte, vem a ser muito complicado sustentar uma posição firme acerca da
verdadeira visão dos escravos revoltosos pelos dirigentes romanos, uma vez que, assim como mostra
tal excerto acima, esse plano vem a ser configurado por nuances e ambiguidades que redobram ainda
mais os historiadores a buscarem explicações e intepretações que busquem considerar e até mesmo
driblar essas questões.
Em Spartacus, também, podemos perceber aspectos culturais da sociedade que atentam para
a importância e diferenciação do escravo nesse plano; por exemplo, quando Marco Licínio Crasso,
político e general romano, resgata do campo de batalha Varínia, escrava e esposa de Espártaco, e a
18
leva para sua casa fazendo dela sua amante, bajulando-a com joias, roupas e uma nova vida na
sociedade romana, uma vida digna e honrada. Isto mostra, portanto, de forma singela e até mesmo
despretensiosa, como possíveis relações entre senhores e escravos podem interferir diretamente na
estrutura social romana, promovendo uma teia de relações complexas e muitas vezes fundamentais
para entender determinadas situações e acontecimentos. Esse argumento é tangenciado e defendido
por Fábio Duarte Joly (2005), alegando que o estudo da escravidão antiga na modernidade foi feito
basicamente sobre aspectos econômicos e que, pela escravidão ser uma instituição sócio-política, o
estudo pelo viés cultural e social explicaria de modo mais completo o panorama escravocrata da
antiguidade. Em uma cena do filme, em que logo depois de se revoltarem e se libertarem da escola de
Cápua, a primeira coisa que fazem os gladiadores é obrigar dois senhores, pertencentes ao patriciado,
a lutarem em pares na arena até a morte - coisa que eles foram e seriam obrigados a fazer -, mostra
como muitos escravos – aqui também é necessário evitar todo e qualquer tipo de generalização - não
pensavam em uma reforma no sistema socioeconômico em que viviam, mas sim desejavam inverter os
papéis com os senhores de escravos. Para Joly, esse desejo de inversão de papéis e o não
pensamento em uma reforma são entendidos através do âmbito cultural antigo, pois exatamente por
causa da onipresença da escravidão na cultura romana era possível a existência de um pensamento
de necessidade dela, e por sua vez vindo a ser impossível para eles, tanto escravos quanto senhores,
conceberem uma sociedade sem escravidão. Trata-se portanto, de um filme que salvo seus momentos
românticos e idealizadores, elucida de forma convincente muitas das relações exploradas e
fundamentadas pelos estudos de historiadores, contribuindo para, através do diálogo com outras
formas de apreensão de dado fato histórico, estimular reflexões e questões benéficas à produção do
conhecimento histórico.

2. O papel do Historiador no fazer uso de recursos complementares para fomentar


reflexões.

O docente é o artista de sua matéria. Eis uma daquelas frases que superficialmente parecem
mais um daqueles ditames clichês, vagos. No entanto, é esse o espirito que uma reflexão sobre as
possíveis formas de diálogo entre o ensino de determinada disciplina e as ferramentas exequíveis de
serem lançadas mão deve ter; uma vez que, nessa perspectiva, aquele que, naquele dado momento,
naquela sala de aula, é o agente ativo na transmissão de conhecimento específico a um público ainda
não familiarizado ou se sim, mais superficialmente, deve ser capaz de refletir e pensar nas formas
19
argumentativas e metodológicas as quais deve fazer uso para não só se fazer entender por parte dos
ouvintes, mas também para plantar sementes que fortaleçam o estímulo à busca por conhecimento por
parte destes últimos; nesse horizonte, se munir de artifícios que utilizem a literatura, música, teatro,
filmes vem a ser deveras enriquecedor.
Nessa perspectiva, e delimitando como nosso público alvo futuros graduandos no curso de
História, inseri-los nessas potencialidades reflexivas vem a ser um exercício desafiador e instigante.
Em se tratando da temática norteada até aqui, é fundamental primeiramente confrontar as pessoas
com suas visões tradicionais acerca tanto da escravidão romana quanto da Revolta de Espártaco em
específico, às luzes de uma reflexão acerca dos principais elementos encontrados no filme analisado,
como por exemplo: a forma como os escravos que trabalham nas minas são retratados ao início do
filme; as diferenças entre as variantes escravocratas, isto é, as ligadas diretamente às minas e às
grandes plantações, os doméstico, gladiadores e particulares; os momentos onde, através de
idealizações até certo ponto românticas e com vernizes contemporâneos, podemos relacionar a figura
de Espártaco com a de um ser ético, virtuoso, e, nesse sentido, exemplos não faltam – seja pelo seu
protagonismo heroico desde o início do filme; por seu cavalheirismo em não abusar da escrava que é
fornecida a ele, alegando também, ser virgem; o momento em que este manifesta ferozmente não ser
um animal, após sua revolta ao ver que os romanos jogavam com sua situação de aporia; sua bondade
para com as mulheres, seu romance com Vaniria; também, talvez o momento mais marcante ao nosso
ver, aquele no qual Espártaco depois de zombar de Patrícios que se enfrentavam analogamente à
gladiadores, momentos após ter tido suas primeiras vitórias junto aos revoltosos, faz um discurso
perante os seus alegando o porquê não devem agir semelhante aos romanos; o estabelecimento de
uma comunidade um tanto comunitária pelos revoltosos; ou então no final, onde ao serem perguntados
sobre quem seria Espártaco, os revoltosos restantes pós a batalha contra as tropas de Crasso
respondem um a um “Eu sou Espártaco”; entre outros momentos do filme. Através desse primeiro
contato, visa-se expor os discentes às argumentações e visões básicas fornecidas por uma obra
cinematográfica que está, além de tudo, longe de ser totalmente fidedigna ao conhecimento produzido
no campo acadêmico e voltada, de fato, a ser bem sucedida e gerar lucro aos envolvidos – mas que
não deixa de pincelar pontos em convergência com o produzido academicamente. Não se trata de
julgar qual vem a ser o correto, muito menos rebaixar aquele em prol da veneração à Historiografia:
trata-se portanto, de se fazer produzir no pensamento dos alunos, variados raciocínios e observações
acerca dos elementos de semelhança e divergência entre ambas as fontes, abrindo margem para
fomentar o interesse a um gradual estímulo à busca pelo conhecimento historiográfico, sempre
salientando a importância, mesmo do âmbito acadêmico, de se manter esse diálogo com as demais
formas de expor eventos e acontecimentos históricos. Mais uma vez, o elemento do diálogo vem a ser
20
crucial para o enriquecimento da forma como se produz e se apreende conhecimento. Portanto, em um
plano geral, se faria a apresentação do filme aos alunos, o levantamento de tais questões principais e
posteriormente se levantaria uma série de problemáticas e análises a partir do fazer dialogar História e
cinema, objetivando estimular ainda mais a vontade de tais alunos em seguir para a graduação no
curso de História.

21
Conclusão

Portanto, no presente trabalho, procurou-se construir uma teia argumentativa que tivesse
início na exposição do plano de fundo histórico do nosso ponto central de análise, a Revolta de
Espártaco e a escravidão na Roma Antiga; passando para uma reflexão acerca da importância de se
carregar duas palavras fundamentais ao longo do discernimento sobre as mais variadas explorações
no campo do conhecimento histórico; palmilhamos sobre os principais pareceres da historiografia a
respeito da escravidão no mundo romano em seus momentos históricos, bem como sobre uma
delimitação mais pontual que tange à Revolta de Espártaco; entramos no mundo do cinema, ao
analisarmos as concepções de escravidão elencadas pela obra de Kubrick, expusemos as relações
entre as duas fontes de conhecimento e apreensão de fatos históricos e, por fim, tratou-se de discernir
sobre a forma como a utilização de mecanismos à parte, como o recurso ao audiovisual, pode ser
fundamental para a promoção de futuras reflexões ricas e dinâmicas, prontas para estabelecer esse
ato de dialogar tão necessário na História. Eis portanto, uma sintetização final de três elementos
fundamentais para com a constante reflexão sobre o estudo de História: a complexidade, pluralidade e
o diálogo. Às luzes desses três pontos como pano de fundo conceitual e teórico para elaboração
argumentativa e para o tecer das estruturas do presente trabalho, se pretendeu elaborar um texto que
explorasse essas questões de forma breve, porém sucinta, tendo como ponto central o tópico da
escravidão em Roma. Como já afirmado anteriormente, muito mais que uma simples reflexão
comparativa entre duas formas de se conceber e mostrar os mesmos tópicos, a relação entre conteúdo
historiográfico e cinematográfico dialogam e servem também de ponto para instigar novas indagações,
novas problemáticas e críticas, contribuindo também para o se fazer História enquanto disciplina
acadêmica, um elemento enriquecedor do conhecimento.

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Bibliografia

ALFÖLDY, G. A História Social de Roma. Lisboa: Editorial Presença, 1995 (1989).

CARDOSO, Ciro F. Trabalho compulsório na Antiguidade. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

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STAERMAN, E. A luta de classe no final da República. In: ANNEQUIN, J. Formas de exploração do


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