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hoje

globais
Missões
Missões em
um novo tempo
Uma reflexão
Missões
globais
hoje

Bijoy Koshy

1
Missões em um novo tempo
Uma reflexão
Bijoy Koshy

2
Fevereiro de 2021

Interserve Brasil
Caixa Postal 53 CEP 36570-970
Viçosa, MG, Brasil

Site: www.interserve.org.br
E-mail: isbcomunica@gmail.com
Instagram: interservebr

Telefones para contato:


31 3892 3261
31 99800 3261

Arte e Diagramação: Kedma Muniz (kedmajulia130@gmail.com)

Fotos: Arquivo Interserve

Este texto foi escrito nas fontes Garamond, Ailerons e Reenie Beanie

Os capítulos a seguir foram originalmente publicados na revista Ultimato


(www.ultimato.com.br). Reprodução permitida.

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agradecimentos.
Por Vicente Carmo
Este e-book é formado por artigos publicados inicialmente na revista Ul-
timato durante o ano de 2020 na seção Caminhos da Missão. O sétimo
e último capítulo, escrito originalmente para a revista Go Magazine, foi
gentilmente cedido pela Interserve do Reino Unido. O autor dos artigos,
Bijoy Koshy, é o diretor internacional da Interserve, agência missionária in-
terdenominacional presente no Brasil há 17 anos, e no mundo desde 1852.
A Interserve envia profissionais cristãos dispostos a compartilhar sua fé in-
tencionalmente, através do serviço ao próximo entre os povos do mundo
árabe e Ásia. Os caminhos da missão têm como foco o cuidado da pessoa
como um todo - emocional, física e espiritualmente.

A diversidade do campo de atuação daqueles que servem é enorme, um


testemunho da preocupação de Deus com cada indivíduo em todos os as-
pectos da vida humana e da sociedade. A Interserve procura trabalhar com
objetivos em comum, buscando conectar a igreja global às comunidades
não alcançadas, ligando pessoas e recursos àqueles que deles necessitam,
com o fim de que vidas e comunidades sejam transformadas pelo encontro
com Jesus Cristo.

A ideia dos artigos chegarem até você em forma de e-book é reunir, em um


único material, uma reflexão rica e atual e dar continuidade à sua propaga-

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ção, tão relevante sobre missões no mundo de hoje. O desejo da Interserve
Brasil é cooperar para que a igreja brasileira possa estar preparada para os
novos desafios que se apresentam em tempos de pandemia.

Não há dúvidas de que o conteúdo desse e-book irá nos ajudar a ouvir a
voz de Deus sobre a maneira pela qual pensamos e fazemos missões. Aliás,
somos aqui convidados a ser, muito mais do que fazer. Agradecemos ao
Bijoy com quem temos aprendido muito e caminhado juntos em missões.
Agradecemos a Editora Ultimato e a Interserve do Reino Unido que nos
cederam os diretos autorais dos artigos.

Boa leitura! Seja você um líder ou não dentro de uma igreja ou organização,
você será desafiado a participar da missão de Deus, vivendo sua vida de tal
maneira, e em comunidade, que o Rei seja glorificado.

Viçosa, MG, fevereiro de 2021.

Vicente Carmo
Diretor Nacional Interino da Interserve Brasil

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Sumário.
10 1 - Missões globais hoje
13 2 - Missões globais hoje - parte 2
16 3 - A missiologia comunitária
19 4 - A obra de Deus não está suspensa, mesmo em meio
à pandemia
22 5 - Missões hoje: com gentileza e
humildade
25 6 - Uma viagem intencional para
a impotência
28 7 - Mudando a lente com a qual
vemos o mundo – existe um
“novo normal” em missões?

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PrefÁcio.
Por Tonica

Querido leitor,

O autor deste e-book, Bijoy Koshy, é indiano, médico, casado com Premi,
com quem tem dois filhos e dois netos. Envolveu-se com a Interserve na
Índia, foi diretor nacional, depois entrou na liderança internacio-
nal como diretor da região das Américas e Pacífico Norte (que re-
gião extraordinária!).

Na função de diretor desta região, tivemos uma boa cooperação e um gran-


de apoio para nosso ministério novo e crescente da Interserve no Brasil.
Bijoy fazia as longas viagens internacionais, ficava dias sem dormir por cau-
sa dos fusos horários, mas estava sempre disposto, acessível, amável.

Seu ensino era muito proveitoso e apropriado. Ensinou a equipe da Inter-


serve Brasil e professores e alunos do CEM (Centro Evangélico de Mis-
sões). Com o tempo, surgiram outras oportunidades em igrejas nas gran-
des capitais, num congresso dos Médicos de Cristo e no CBM (Congresso

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Brasileiro de Missões). Sua atitude sempre foi humilde, sábia, procurando
entender as pessoas de outras culturas, e disposta a cooperar.

Em 2015, foi escolhido como novo diretor internacional da Interserve.


O escritório fica em outro país, o que não facilita a vida e o visto de um
indiano. Precisou de muita graça e perseverança nas idas e vin-
das dele e da Premi.

Ficamos muito felizes quando se mostrou disposto a escrever uma série de


artigos para a seção Caminhos da Missão, da revista Ultimato. Mostrou-se
um pensador prático, bíblico, humilde e corajoso para questionar métodos
e estratégias missionárias que não seguiram o modelo bíblico de Jesus. Ele
nos encoraja a continuar caminhando, com firmeza, muita abertura sem-
pre para ouvir e aprender do outro, de pessoas dos povos a quem procura-
mos servir, com a necessidade de rejeitar toda atitude paternalista. Foram
artigos apropriados para nossa época e que também nos ajudam a olhar
adiante. Esses artigos se transformaram em capítulos do livro que o leitor
está visualizando.

No capítulo 4, ao escrever sobre o contexto da pandemia, Bijoy fala da ne-


cessidade de passarmos do fazer para o ser na missão, para que assim a glória
de Deus seja manifesta por meio do seu povo.

O capítulo 5 enfatiza a necessidade de servir com humildade e gentileza em


contraste com algumas atitudes do passado, frutos da cultura missionária
daquela época, de falar dos povos não alcançados como pagãos, inci-
vilizados e outras terminologias humilhantes. Há uma nova série de
perguntas feitas que são mais apropriadas e respeitosas, como,
por exemplo: o que Deus está fazendo naquele povo e como pode-
mos fazer parte disso?

O capítulo 6 é um desafio a uma viagem intencional para a impotência. De-


vemos seguir o exemplo de Jesus, que esvaziou a si mesmo e assumiu a for-
ma de servo. Quando servimos baseados em nossas capacidades, diplomas
e recursos oferecemos um serviço puramente humano. Quando

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nos esvaziamos, tornando-nos dependentes de Deus no reconhecimento
de nossa impotência, ele manifesta seu amor e poder em nossas vidas.

O último capítulo é bastante desafiador. Bijoy se une a outras vozes profé-


ticas da atualidade e reflete brevemente sobre três fatores que precisam ser
considerados com urgência no movimento missionário atual. Não deixe de
ler. Deus está falando e nós precisamos ouvi-lo.

Você pode ler cada capítulo de forma independente ou na sequência, como


desejar. De toda forma, vai aproveitar muito.

Que Deus o abençoe nesta leitura. Que ela gere profunda reflexão e sub-
missão ao Deus da missão, com discernimento e sabedoria para participar
com alegria nesta missão.

Carambeí, PR, fevereiro de 2021.

Antonia Leonora van der Meer (Tonica)

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1 Missões globais hoje
Os últimos quinze anos têm se caracterizado por imensas mu-
danças em quase todas as áreas da vida e da sociedade. A igreja e
o movimento missionário não ficam de fora: mudanças na de-
mografia da igreja, crescimento dos movimentos missionários
em países que até pouco tempo atrás eram “campos” missio-
nários, e muito mais. Por vivermos um momento de transição
na história e podermos ver o evangelho pelos olhos de nações
e pessoas com cosmovisões muito diferentes das
Não é tanto sobre o que dominavam a igreja no passado, precisamos
adicionar várias lentes através das quais devemos
que estamos ver as Escrituras e a missão.
fazendo, mas sobre o
Para começar, precisamos saber o que nos vem à
que Deus está
mente quando falamos de missões. Biblicamente,
fazendo neste mundo missões trata da Missão de Deus – Missio Dei.
Não é tanto sobre o que estamos fazendo, mas

¹Traduzido por Délnia Bastos. Publicado originalmente como artigo na


edição 381 de Ultimato.

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sobre o que Deus está fazendo neste mundo. Nós, como seres
humanos, precisamos reconhecer o incrível privilégio que nos
tem sido dado de ser parte da obra do reino – obra que não é
realizada por força nem por poder, mas pelo Espírito de Deus.

Em segundo lugar, nossa compreensão de missões deve ser mo-


delada em torno de Jesus. Ele, o enviado, nos revela qual é a nar-
rativa da missão do reino. Ela não se resume em morrer na cruz
ou salvar as pessoas de seus pecados, embora ambas sejam partes
importantes dessa narrativa. Pelas palavras de Jesus em João 17,
fica claro que ele vê sua missão como cumprida antes mesmo de
morrer na cruz ou ressuscitar. A missão de Jesus foi principal-
mente a revelação do Pai e o estabelecimento do reino do Pai.
Tudo o que Jesus disse e fez foi para esse fim. Em João 17, ele
finalmente pode dizer: “Eu te glorifiquei na terra, consumando
a obra que me confiaste para fazer” (v. 4); “Eu lhes fiz conhecer
o teu nome e ainda o farei conhecer” (v. 6, 26).

Essa tarefa de Jesus está estreitamente relacionada à narrativa da


obra de Deus no Antigo Testamento. Vez após vez (e de forma
mais proeminente nos livros proféticos, especialmente Jeremias
e Ezequiel), Deus proclama que tanto suas bênçãos a Israel
quanto sua punição serviriam para revelar quem ele é. “E sabe-
rás que eu sou o Senhor” é sua declaração repetida muitas vezes
a Israel; “E saberão que eu sou o Senhor”, diz Jeová a respeito
das nações.

A Bíblia também nos diz que é isso que a criação, da mesma


forma, está fazendo constantemente. Os céus declaram a glória
de Deus. A mensagem de quem Deus é ecoa em todos os cantos
do mundo pela criação. É importante, então, cuidar da criação –
ela é um testemunho fiel do caráter e da natureza de Deus, mes-
mo em lugares onde o evangelho ainda não chegou.

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Quão maravilhosamente esta narrativa se alinha com a definição
de vida eterna dada por Jesus! “E a vida eterna é esta: que te co-
nheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem
enviaste” (Jo 17.3). O entendimento de que missão é principal-
mente a revelação de quem Deus é para as nações muda como
vamos “fazer” missões. Não se trata mais apenas de afirmar ver-
balmente um conjunto de verdades. Trata-se de demonstrar tan-
to o que Deus fez como quem ele é. Seu caráter, sua natureza,
seu poder, sua soberania precisam ser revelados ao mundo. E ele
usará todas as áreas da nossa vida para fazer isso.

Como os antigos profetas, estamos prontos a nos deixar ser usa-


dos por Deus para revelar quem ele é para as pessoas ao nosso
redor? Isso requer rendição pessoal, de forma que o senhorio
de Jesus Cristo trabalhe em todas as áreas de nossa vida. Ao nos
rendermos, Deus demonstra sua própria natureza por meio
de nossas vidas, atraindo as pessoas para uma compreensão de
quem ele é. Esta é a missão de Deus.

Seu caráter, sua natureza, seu


poder, sua soberania
precisam ser revelados ao
mundo. E ele usará todas as
áreas da nossa vida para
fazer isso

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2 Missões globais hoje
parte 2
Como vimos no capítulo anterior, a missão de Jesus era tornar
o Pai conhecido. Da mesma forma, nossa missão está focada em
tornar Jesus conhecido. Assim como Deus usou cada área da
vida dos profetas antigos para se revelar às nações do mundo,
ele busca usar cada área de nossas vidas hoje para tornar Jesus
conhecido das nações.

Mas quem é esse Jesus? Por muito tempo comunicamos o evan-


gelho quase exclusivamente no conceito de Jesus como Salvador
do mundo – é uma parte significativa do evangelho, mas não é
a verdade completa. Em Lucas 2.11, o anjo disse aos pastores:
“Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o Salvador, que é Cris-
to, o Senhor”. A pessoa que nasceu é Cristo, o Senhor. Ele será
aquele que salva. Na nossa sociedade multicultural e pluralista,
que muitas vezes funciona de maneira sincrética, o evangelho é
²Traduzido por Antonia Leonora van der Meer (Tonica). Publicado origi-
nalmente como artigo na edição 382 de Ultimato.

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que Jesus Cristo é Senhor e ele vai nos salvar,
A narrativa de Jesus redimir e restaurar no relacionamento com
o Pai, segundo a sua imagem. Nossa apre-
como Rei faz muito mais sentação clara do evangelho, de que Jesus
sentido para pessoas nos chama ao reconhecimento dele como
que têm uma cosmovisão o Senhor e Rei desse mundo, nos afasta do
conceito de salvação do tipo “supermerca-
baseada nos conceitos de do”, onde pegamos as coisas que queremos
honra e desonra. Jesus é e deixamos nas prateleiras as coisas que não
nos agradam. Não é de admirar que o pacote
Rei, somos chamados a ser
do evangelho apenas como dádiva de salva-
leais a ele ção (sem condições) facilita o caminho para
o evangelho da prosperidade e de um mundo
livre de sofrimento e dor.

A verdade é que o evangelho trata-se do reinado de Jesus como


Rei da criação e do chamado a nos submeter a ele, permitindo
que o seu reinado governe nosso coração. É claro que isso só se
torna possível pela obra redentora de Jesus na cruz. A narrati-
va de Jesus como Rei faz muito mais sentido para pessoas que
têm uma cosmovisão baseada nos conceitos de honra e desonra.
Jesus é Rei, somos chamados a ser leais a ele. Nossas vidas ago-
ra são vividas em obediência ao Rei, que mostrou seu grande
amor por nós no calvário. Tudo trata da glória do Rei e do seu
reino. Nossas vidas devem ser vividas de tal maneira que o Rei
seja glorificado. Isso pode acontecer por meio das bênçãos que
Deus derrama sobre nós, mas também por meio de uma atitude
semelhante à de Jesus em tempos de enfermidades, tribulações,
dor, perseguição, tristeza e mesmo de morte.

Portanto, a missão de Deus é revelar-se como Rei de toda a cria-


ção. Em Efésios 1.20-21, Paulo af irma que Jesus levan-
tou-se da morte e está sentado à mão direita de Deus,
muito acima de todo governo e autoridade, poder e
domínio ou qualquer outro nome que possa ser dado

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– não só na presente era, mas também na era por vir. E Deus
colocou todas as coisas sob seus pés.

Quando Cristo se torna Senhor da nossa vida, é essa revelação


do seu reino que ele leva às nações. Cada área da nossa vida deve
ser submetida ao seu reino. Assim ele usa cada área da nossa vida
para revelar quem ele é. Quando ele nos transforma segundo
sua imagem e semelhança, o mundo começa a ver a face de
Cristo em nós. Mas temos esse tesouro em vasos de barro para
mostrar que esse poder, que a tudo excede, provém de Deus, e
não de nós (2Co 4.6-7).

Isso é o evangelho. Jesus é Rei, seu reino é estabelecido. Pessoas


de todas as nações, tribos e línguas são bem-vindas em seu reino,
quando vêm com arrependimento e se submetem a ele como o
Rei de suas vidas. Isso só pode ser alcançado recebendo a cruz
em nossas vidas – de fato, até se dispondo a morrer – para que
não sejamos nós que vivamos, mas ele em nós.

Quando refletimos na missão de Deus hoje, nos conscientiza-


mos mais uma vez que Deus quer nos usar para que pessoas
possam vê-lo em nossas vidas. Vamos buscar a graça de nos sub-
meter novamente ao seu senhorio e à sua obra transformadora
em nós, para que as nações possam conhecer que ele é o Senhor.

15
3 A missiologia
comunitária
As missões no presente seriam, basicamente, descritas como um
indivíduo recebendo um chamado de Deus para ir a um lugar
geográfico a fim de realizar uma obra. Ao nos voltarmos para o
estudo das Escrituras, começamos a reconhecer que essa é uma
maneira muito restrita de enxergar o modelo bíblico de missões.

Um estudo de 1 Pedro nos ajuda a colocar as coisas em perspecti-


va. Nessa epístola, Pedro começa listando todas as bênçãos incrí-
veis que fazem parte da vida de um crente: o novo nascimento,
a esperança viva e a herança eterna e imperecível. No entanto,
rapidamente no capítulo 2.4, ele começa a nos distanciar dessa
compreensão individualista. À medida que nos achegamos a ele,
à Pedra Viva, somos edificados em uma casa espiritual, que deve
ser um sacerdócio santo. Essa comunidade do povo de Deus é
“um povo escolhido, um sacerdócio real, um povo pertencente
³Traduzido por Gabrielle Costa de Jesus Lourenço. Publicado originalmen-
te como artigo na edição 383 de Ultimato.

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a Deus para que possamos declarar os louvores daquele que nos
chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.

A compreensão bíblica de missões não é muito sobre Deus es-


tar chamando pessoas para “fazerem” a missão, mas que ele está
criando para si mesmo um povo (comunidade de pessoas) por
meio do qual ele se revela às nações do mundo. No Antigo Tes-
tamento, Israel era a demonstração do agir de Deus no mundo.
Por meio de quem eram como comunidade, eles deveriam reve-
lar o caráter e a personalidade de Deus – sua graça, misericórdia
e justiça. Levítico e Deuteronômio não simplesmente descreve-
ram regras para que eles vivessem em sociedade. Eles deveriam
desenvolver uma cultura de vida e valores que demonstrasse às
nações ao seu redor a natureza de Deus. O Deus de Israel deve-
ria tornar-se visível nos sistemas e dinâmicas da sociedade e da
nação israelita. Então as nações saberão que eu sou Deus, brada
Jeová nas páginas do Antigo Testamento. Era disso que se trata-
va a missão. É claro que, dentro dessa dinâmica maior, estavam
abrigados os chamados individuais de Gideão, Josué e Davi.
No entanto, se reduzirmos as missões a uma série de chamados
individuais, nós perdemos o panorama geral daquilo que Deus
está fazendo no mundo.

Pedro diz que os caminhos de Deus não mudaram no Novo


Testamento. Ele ainda almeja construir uma comunidade de
pessoas que, no modo como vivem juntos e demonstram graça,
misericórdia e justiça em seus relacionamentos uns com os ou-
tros, revelará sua glória, sua natureza e seu caráter para os povos
deste mundo. De fato, essa parece ser a única maneira de en-
tender a oração de Jesus em João 17.21, quando ele declara
que é por meio da unidade do seu povo nele que o mundo
saberá que ele foi enviado por Deus.

A missiologia comunitária é a compreensão de que Deus se reve-


la principalmente na comunhão do seu povo. Que a unidade e a

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dinâmica da graça e do perdão, da igualdade e da justiça, da mise-
ricórdia e da generosidade revelem quem é Deus. O nosso
chamado individual continua sendo importante, porém
só encontra sentido nesse contexto mais amplo. Isto nos
convoca a sacrificarmos nossa individualidade e a nós mes-
mos, para que Cristo permaneça sendo a pessoa central na
mensagem do evangelho.
Missões é tudo sobre ele –
sua glória, seu senhorio e
O nosso chamado individual
seu reino. continua sendo importante,
porém só encontra sentido
nesse contexto mais amplo,
de povo de Deus

18
4 A obra de Deus não
está suspensa, mesmo
em meio à pandemia
Os três últimos capítulos enfatizaram alguns desafios que en-
frentamos em missões nos dias atuais. Fomos lembrados de que
as missões não estão necessariamente centradas no chamado
pessoal de um indivíduo para fazer uma certa tarefa. Missões é o
trabalho de Deus aqui na terra, conforme ele busca fazer-se co-
nhecido. Diz respeito à proclamação do senhorio de Jesus Cris-
to às nações do mundo. Trata-se de Deus construindo para si
um povo que, em sua dinâmica de unidade e amor, proclamará
à criação que Jesus foi enviado pelo Pai.

Nestes dias de pandemia, ouvi líderes de missões dizerem como


eles estão esperando que seja restabelecida alguma normalidade
antes de poderem continuar a fazer missões. Isso me mostra que
4
Traduzido por Gabrielle Costa de Jesus Lourenço. Publicado originalmen-
te como artigo na edição 384 de Ultimato.

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realmente temos nos afastado de uma compreensão bíblica do
termo. A verdade é que a pandemia do coronavírus não necessa-
riamente pegou Deus de surpresa. A obra do seu reino não está
suspensa. Mesmo em meio à pandemia, o seu reino continua a
crescer e a se espalhar. O Espírito Santo continua a transformar
vidas e comunidades. A questão é: podemos ver como isso está
acontecendo nos grupos e entre as pessoas onde Deus nos colo-
cou? Precisamos olhar de novo para os sinais do reino e redesco-
brir os valores e caminhos do reino.

Precisamos perceber que, na verdade, Deus não nos chamou


para fazer a missão. Missão é o que ele faz por meio de nós
quando somos seu povo, quando vivemos em fidelidade ao seu
senhorio em nossa vida, quando vivemos em amor e unidade
uns com os outros. O reino de Deus é um reino de retidão, de
justiça e de shalom. Quando esses aspectos do reino tornam-se
cada vez mais reais em vidas e em comunidades, conforme elas
encontram a pessoa de Jesus, a missão acontece.

O contexto da pandemia, com a sua proibição de atividade e a


exigência de distanciamento social, nos desafia a passarmos do
fazer para o ser da missão. Se Deus é o executor e nós somos
chamados, principalmente, a sermos seu povo, para que Deus
possa demonstrar sua glória, sua santidade e sua justiça por
meio de nós, então o nosso foco
O reino de Deus é um reino de como pessoas em missão começa
a mudar. Agora, o propósito de
retidão, de justiça e de shalom. Deus é que, por meio da sua igreja,
Quando esses aspectos do reino sua multiforme sabedoria possa se
tornam-se cada vez mais reais tornar conhecida aos governantes
e autoridades nos reinos celestiais,
em vidas e em comunidades, a de acordo com o seu propósito
missão acontece eterno que ele realizou em Jesus
Cristo, nosso Senhor (Ef 3.10-11).

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Precisamos reconhecer, mais uma vez, como
a presença do povo de Deus traz, de for-
ma misteriosa, a presença do Senhor
para a sociedade. Deus está trans-
formando-nos como indivíduos
e como comunidades. A mani-
festação dessa transformação
para a comunidade é uma
revelação de quem Deus é.
Mesmo que não possamos
fazer muitas coisas, Deus
está revelando-se para os
povos ao nosso redor. Nos-
sa maneira de viver, nossos
relacionamentos, nossas res-
postas às situações de crise, nossas
reações a circunstâncias desencora-
jadoras da vida – se tudo isso flui da
realidade do senhorio de Jesus sobre nós,
tais coisas servem para demonstrar (mesmo
em meio a essa situação de confinamento)
quem Jesus é, para os nossos vizinhos, para aqueles
que moram na nossa rua e para a sociedade em que ele nos
colocou.

Ele continua a fazer missões. Ele nos chama para vivermos


uma vida fiel.

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5 Missões hoje: com
gentileza e humildade
Um dos meus versos favoritos está em 1 Pedro 3.15-16: “Reve-
renciai a Cristo como Senhor em vosso coração, estando sempre
preparados para responder a qualquer pessoa que vos questio-
nar quanto à esperança que há em vós. Contudo, fazei isso com
humildade e respeito”.

Uma das áreas da vida em que nós, que estamos em missões,


precisamos nos arrepender é a área de atitudes – especificamen-
te nossa atitude em relação àqueles a quem somos chamados a
ministrar. Quando leio manuscritos e relatórios de missões do
início do século 20, me contraio ao me deparar com palavras
como “pagãos” e “incivilizados”. Missionários vieram com ati-
tudes superiores em relação aos “pagãos”. Ainda hoje usamos
termos que nos diferenciam e nos colocam “acima” daqueles
5
Traduzido por Délnia Bastos. Publicado originalmente como artigo na
edição 385 de Ultimato.

22
a quem ministramos. Refinamos
a linguagem, substituindo termos O que Deus está
como “pagãos” e “não alcançados”,
mas nossas atitudes permanecem fazendo nesses países
as mesmas. Missões ainda é sobre o e como posso fazer
que vamos dar aos outros, algo que
parte disso?
nós temos e os outros não. De forma
subconsciente, cresce em nós uma
atitude de superioridade – à medida em que pensamos de nós
mesmos como mais maduros do que aqueles a quem servi-
mos. Esta atitude resulta em preconceito e intolerância.

Isso chegou a tal ponto que, mesmo sem usar termos com pre-
fixos como ‘não’ (“não alcançados”) ou ‘des’ (“desfavorecidos”),
não nos sentimos mais motivados para missões. Descobri uma
diferença interessante no tipo de perguntas que me fazem. Em
grande parte do mundo ocidental vem a questão do impacto –
como eu posso impactar ou mudar o mundo? E, especialmente
de pessoas do mundo em desenvolvimento, há outro conjunto
de perguntas – o que Deus está fazendo nesses países e como
posso fazer parte disso?

As perguntas refletem nossa mentalidade. Por um lado, nossa


motivação para missões está centrada em nossa singularidade e
superioridade em uma determinada área da vida, uma contri-
buição que ninguém mais pode trazer. À medida que o mundo
em desenvolvimento recebe seus próprios profissionais e traba-
lhadores qualificados, à medida que cresce a experiência em
treinamento e aconselhamento, à medida que alcançam exce-
lência acadêmica semelhante à nossa, à medida que a igreja na-
cional em nossos países ‘alvo’ cresce em tamanho e maturidade,
nossa motivação para missões parece diminuir em sua intensi-
dade. Parece que não encontramos lugar em missões a menos
que haja pessoas que sejam inferiores a nós de alguma forma.

23
A outra questão reflete a verdadeira compreensão do porquê de
estarmos em missões. Deus está trabalhando e queremos saber
como podemos fazer parte desse incrível trabalho! Não vamos
para dar algo que as pessoas não tenham. Vamos para caminhar
ao lado delas enquanto todos nós, juntos, continuamos a cres-
cer em nosso conhecimento de Deus. Façamos isso com genti-
leza e humildade, recomenda Pedro.

Precisamos de uma profunda mudança de atitude. Uma que


flua da verdadeira humildade e do respeito pelas pessoas a quem
servimos. Isso só pode acontecer quando Jesus é realmente Se-
nhor da nossa vida e quando estamos prontos para considerar
os outros superiores a nós mesmos.

24
6 Uma viagem intencional
para a impotência
No capítulo anterior enfatizei a necessidade de os que traba-
lham na missão desenvolverem uma atitude transformada, que
se afaste de uma visão superior de si mesmos e lhes capacite a
caminhar genuinamente ao lado das pessoas a quem servem.

Precisamos reconhecer que as atividades missionárias do pas-


sado muitas vezes pegaram carona com algum tipo de poder
– colonial, militar, financeiro, acadêmico etc. Seria interessante
refletir sobre qual o tipo de poder que usamos hoje em missões.

Quando olhamos para a narrativa bíblica, vemos que aqueles


que foram enviados adotaram uma abordagem muito diferente
para a missão. Jesus, o enviado, é o exemplo perfeito dessa “via-
gem para a impotência”. Em Filipenses 2.5-8, Paulo conta sobre
6
Traduzido por Antonia Leonora van der Meer (Tonica). Publicado origi-
nalmente como artigo na edição 386 de Ultimato.

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a viagem que Jesus fez em preparo para sua vinda à terra: ele se
esvaziou de todo o poder divino – o melhor e maior tipo de po-
der! E ele se fez um nada. Pela sua vida, recebeu o poder do Pai.
Repetidamente, antes de realizar um milagre, Jesus elevava os
olhos ao céu e agradecia ao Pai por tê-lo ouvido.

Ou vejamos o exemplo de Paulo em 1 Coríntios 2.1-5: ele narra


como chegou aos coríntios, determinado a nada saber além do
Cristo crucificado para evitar que o evangelho chegasse a eles
em termos de sabedoria humana, em vez de pelo poder do Es-
pírito Santo. Há suficientes outros exemplos nas Escrituras de
como Deus levou seu povo (como Moisés) a uma viagem para a
impotência antes de usá-lo.

Eu gostaria de afirmar que o chamado para mis-


sões é acompanhado por um convite a essa viagem
É somente quando intencional de esvaziamento rumo à impotência.
estamos vazios de nós Que não ousemos ir às pessoas baseados em nos-
mesmos que podemos sos dons, capacidades, treinamentos, finanças,
qualificações acadêmicas ou mesmo experiência.
nos encher dele A viagem para a impotência nos aperfeiçoa no
processo de depender do poder e da força divi-
nos – porque quando somos fracos, sua força se aperfeiçoa
em nossa fraqueza.

Esse processo de esvaziamento também desenvolve em nós a


atitude de amor e serviço, capacitando-nos a considerar
outros melhores que nós mesmos. É somente quando
estamos vazios de nós mesmos que podemos nos en-
cher dele. Missão que se exerce em nosso próprio po-
der levará o evangelho em termos de sabedoria humana,
em vez de ser uma demonstração do poder do Espírito
Santo. A figura usada em 1 Coríntios – de queimar todas
aquelas obras que não pertencem ao reino – é bastante
séria. Podemos pensar que estamos fazendo grandes

26
milagres para Deus, mas sua palavra final para nós pode
até ser: “Não os conheço”.

As obras do reino não são feitas por força ou poder, mas pelo
Espírito Santo. Tudo o mais será queimado no último dia.

Deus deseja que a maneira como agimos seja totalmente na de-


pendência dele. Não significa que nossas capacidades, forças,
experiência e graus acadêmicos não tenham valor. Quer dizer,
simplesmente, que não podemos agir baseados no poder
que esses valores invariavelmente exercem num relaciona-
mento. Quando os entregamos diante do seu trono de gra-
ça, recusando-nos a nos apegar ao status, respeito e poder
que eles nos trazem, Deus vai usá-los em nossas vidas quan-
do e da maneira que quiser.

27
26
7
Mudando a lente com a
qual vemos o mundo –
existe um “novo normal”
em missões?
A pandemia virou nossas vidas de pernas para o ar. Um pequeno
vírus parou o mundo. Coisas que pensávamos que jamais pode-
riam ser interrompidas foram suspensas, não por alguns dias,
mas por meses. Enquanto, anteriormente, o principal pilar para
tomadas de decisão globais era o financeiro, esse foi substituído
– ao menos por hora – pela sobrevivência. Desse modo, a in-
sensatez de nossas buscas já era aparente para o observador. À
medida que procuramos um “novo normal”, meu argumen-
to é que, na verdade, os sinais do que deveria ser alterado já
eram evidentes antes da pandemia, mas optamos por ignorá-los.
A pandemia tornou dolorosamente óbvio para nós que a mu-
dança é inevitável. Janine Benyus, consultora de inovação, disse:
7
Traduzido por Gabrielle Costa de Jesus Lourenço. Retirado da revista Go
Magazine, de setembro de 2020. Usado com permissão.
28
“As respostas às nossas perguntas estão em todo lugar. Só preci-
samos mudar a lente com a qual vemos o mundo”. As palavras
de Jesus em Lucas 10:26, “Como você a lê?”, ecoa igual senti-
mento. Mesmo antes da pandemia, era óbvio que o contexto de
missões tinha mudado. Teremos espaço neste capítulo apenas
para olhar brevemente três fatores que determinarão as lentes
com as quais iremos estruturar missões no futuro.

Uma Igreja em Transformação

Atuamos hoje com estruturas e processos de missão que estão


baseados em princípios de cerca de 300 anos. Os princípios fo-
ram derivados de realidades, visão de mundo e cultura de um
grupo específico de pessoas. Nossa leitura das Escrituras (em
grande parte) através da lente do individualismo resultou em
uma certa compreensão da missão e da vocação. Esses proces-
sos e estruturas têm-nos servido bem e eficientemente durante
quase três séculos.

No entanto, a mudança do centro da igreja do Norte Global


para o Sul significa duas coisas. Em primeiro lugar, que as estru-
turas e funções que serviram o mundo de missões até agora não
são uma boa medida para pessoas com outra visão de mundo.
A interpretação e a compreensão da Escritura através de uma
lente diferente oferecem uma nova compreensão à missão e à
função. Em segundo lugar, no passado, o movimento evangé-
lico foi bem delineado do
“Ocidente cristão ao restan-
te”. Essa já não é a realidade. Em quase todos os países, exis-
Em quase todos os países, te uma igreja que tem de ser
existe uma igreja que tem de
levada em consideração – por
ser levada em consideração –
por menor e, aparentemente, menor e, aparentemente, mais
mais fraca que seja. O que fraca que seja
isso significa para nós que es-

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tamos envolvidos em missões? Significa que, mesmo antes da
pandemia (e agora de forma tão óbvia!), Deus estava nos mos-
trando que devemos permitir que a igreja nacional nos conduza
nas missões locais. Isso significará que a visão de mundo domi-
nante em missões será focada na comunidade, voltada para re-
lacionamentos e liderada localmente. Num futuro próximo, a
redução da presença de estrangeiros em um dado país significa
que teremos de estar “voltados aos nacionais” – ou fecharemos.
Essa é uma grande mudança que teremos de viver. É importante
reiterar que estar voltado ao nacional não significa que não haja
lugar para não nacionais em missões.

Economias em Colapso no Mundo em


Desenvolvimento

Se a Igreja agora está em grande parte no Sul Global8, então o


colapso de suas economias, já evidente antes e agora acelerado
pela pandemia, ressoa uma séria advertência para o futuro. Ao
mesmo tempo em que movimentos de missões novos e emer-
gentes começam a aumentar o envio de pessoal para o campo,
eles estão enfrentando uma crise financeira. Pela primeira vez
na história de missões (pelo menos nos últimos 300 anos), Deus
colocou recursos para missões em diferentes partes do mun-
do. A nossa cosmovisão compartimentalizada e individualista
de finanças talvez seja o maior obstáculo ao futuro de missões.
Com os recursos humanos vindo de lugares onde há menos fi-
nanciamento, e menos pessoas sendo enviadas dos lugares onde
os recursos financeiros estão, temos uma repentina dissonância
encaminhando a uma crise. Além disso, o atual modelo de indi-
víduos angariando fundos para missões de um grupo de pessoas

8
Sul Global ou novos países enviadores (NPE). Sul Global é uma ressigni-
ficação dos termos “terceiro mundo” e “países em desenvolvimento”, utili-
zando uma nomenclatura desassociada dos aspectos negativo e pejorativo,
comumente referindo-se às nações da África, Ásia e América Latina. Fonte:
FULANETTO, Felipe. Conceituação dos blocos culturais. AMTB Pesquisas,
2020.
30
ao seu redor provém de uma missiologia individualista, que está
em desacordo com a mentalidade de natureza comunitária que
impulsiona grande parte do Sul Global. Estamos, então, diante
de uma pergunta missiológica: Os recursos que Deus prometeu
à sua igreja são para as atividades missionárias de indivíduos, ou
para missões nacionais ou, ainda, para missões mundiais? Os re-
cursos de Deus, dados à igreja global para missões globais, foram
dados para ser compartilhados e usados conforme necessidade?
Há inúmeras questões que precisam ser abordadas nessa discus-
são, mas o resultado final terá de ser de partilha e generosida-
de. Olhando além das síndromes de dependência e controle,
podemos até começar a entender o que significa compartilhar
recursos sem precisar controlá-los. Será que somos capazes de
entender que a disponibilidade de recursos e o recebimento des-
sa generosidade não nos absolve da necessidade de cultivarmos
um estilo de vida sacrificial e de nos doarmos generosamente?

O atual modelo financeiro de missões depende fortemente da


disponibilidade e circulação no campo missionário de pesso-
as de áreas ricas em recursos. Com a possível permanência das
restrições sobre viagens e trabalho no futuro e com o aumen-
to da proteção do mercado de trabalho
Pela primeira vez na história em favor dos nacionais, o sonho de fazer
tendas como o caminho missionário para
de missões (...) Deus colocou o Sul Global também corre risco de ser
recursos para missões em atingido. Reconsideramos, então, a posi-
diferentes partes do mundo ção dos nacionais no ministério integral
como possivelmente a principal platafor-
ma do movimento missionário do futu-
ro. Além disso, aqueles que conseguirem chegar a um cam-
po transcultural e transnacional precisarão ser apoiados por
meio da generosa partilha de recursos feita pela igreja global
para missões globais.

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Isso representa um enorme desafio para nós enquanto agências
missionárias acostumadas a trabalhar em um modelo em que
as pessoas são recrutadas e enviadas de um país para outro. Não
temos o costume de recrutar habitantes locais nos países onde
atuamos. Nos próximos meses, estamos prestes a ver um grande
movimento dos nossos obreiros retornando dos países em que
servem para os seus países de origem. A pandemia mostra sinais
de que não diminuirá globalmente; e a possibilidade de ter, em
breve, a maioria daqueles que voltaram para seus países de ori-
gem retornando aos seus países de serviço é uma possibilidade
muito remota (atualmente). E isso nos leva ao terceiro fator a
ser considerado para o futuro.

O Movimento da Diáspora

Diáspora do Reino refere-se ao povo do reino de Deus que está


em um estado de diáspora: aqueles de nossa fé que se mudaram
para outros países (à parte dos seus países de passaporte) para
estudar, para trabalhar ou como refugiados.

Já temos alguns trabalhos desenvolvidos entre a diáspora dos


mundos asiático e árabe. Este deve se tornar um estilo de vida
normal em nossos ministérios. Além disso, talvez tenhamos que
sair para trabalhar em outros países não árabes, não asiáticos,
uma vez que continuaremos a ministrar àqueles que são fun-
damentais ao nosso chamado. No entanto, também precisa-
mos aceitar a presença da Diáspora do Reino nos países onde
servimos atualmente. A pandemia ameaça a continuação desse
grupo, mas devemos acompanhar de perto o seu movimento
assim que a pandemia começar a diminuir. No momento, nos-
sas categorias muito restritas de pertencimento – missionários,
equipe e (em alguns países) associados – não oferecem a essas
pessoas um lugar na agência missionária. Nossos modelos e es-
truturas terão que abrir espaço para elas. Isso significará uma
compreensão mais ampla de “pertencimento”, adotando um

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modelo comunitário construído como
um conjunto centrado em vez de um
conjunto limitado. Organizacional-
mente, o desafio será deixar nossos
silos operacionais para realmente
nos associarmos a (e sermos con-
duzidos por) nacionais em nossos
países, para removermos as distin-
ções de países de origem e países de
ministério, visando a encontrar for-
mas de nos engajarmos e incluirmos a
Diáspora do Reino em nossas agências
e de desenvolvermos modelos finan-
ceiros que são construídos não sobre a
propriedade de recursos da equipe (enti-
dade), mas sobre os princípios de partilha
e generosidade. A chave para tudo isso é o de-
senvolvimento de uma mentalidade de comuni-
dade, em vez de mentalidade de organização, de modo
que, como agências missionárias, estejamos centrados
no reino para a glória de Deus.

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