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TEMA/TÍTULO: O Ensino de Filosofia como problema filosófico

ACADÊMICO(A):
CERLETTI, Alejandro. O ensino de filosofia como problema filosófico. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
É a linha defendida por Kant.
I. O que é ensinar filosofia?
O presente texto se refere à possibilidade de um aprendizado filosófico, dado
através do ensino, mas também admite que se possa aprender filosofia sem que
alguém ensine.
Ensinar filosofia leva a ter que assumir algumas decisões teóricas, o fato é
dizer o que se ensina em nome dessa filosofia e como se o faz, mas isso não pode ser
resolvido didaticamente.
Quando tentamos dizer o que é a filosofia, somos conduzidos a ensinar uma
resposta, pois existem várias respostas a essa indagação, isso mostra que todo ensino
de filosofia é mais que didático ou pedagógico, é filosófico.
Mas a relação feita entre o “que” e o “como” é composto por etapas em que o
aluno passa do não saber ao saber, visto que aquele que não sabia aprendeu. O “que”
está relacionado aos conteúdos e o “como” é o bom senso pedagógico do professor
baseado na sua formação docente, no qual resolveu experiências ao longo de seu
trabalho de ensinar ou estudante.
O ensino de filosofia depende do ponto de vista filosófico, ou seja, como o
conteúdo é ensinado, tendo várias maneiras de como fazê-lo. A didática é uma
ferramenta universal para ensinar a filosofia em geral, sendo assim, não se
encontra uma relação entre a filosofia e o filosofar, e como se ensina.
A filosofia deveria se expressar de alguma maneira em seu ensino
estabelecendo uma continuidade entre o que se diz e o que se faz em um curso,
construindo um vínculo entre professores e estudantes em nome da filosofia e o
filosofar. Esse vínculo ocorre na aula, na hora de definir e caracterizar a filosofia, mas
isso é substancial a todo ensino.
A atividade de aspirar a alcançar o saber é o filosofar, como a tarefa de
ensinar e aprender, nunca poderiam estar desligadas do fazer filosofia. Filosofia e o
filosofar estão unidos como prática filosófica e como ensino de filosofia.
Portanto, podemos dizer que o ensinar filosofia é assumir uma posição
filosófica, com base nos filósofos, para filosofar com seus alunos. O ensino filosófico
consiste numa forma de intervenção sobre textos filosóficos, problemáticas filosóficas
tradicionais, dentre outras, mas sempre enfocadas numa perspectiva filosófica. O
perguntar filosófico é o elemento constitutivo fundamental do filosofar e, portanto, do
ensinar filosofia, ou seja, um ensino filosófico é aquele em que o filosofar é o motor
de tal ensino. O conteúdo a ensinar e a forma de fazê-lo estão unidos no ato de
ensinar.

II. O perguntar filosófico e a atitude filosófica.


O perguntar filosófico se diferencia de outras perguntas devido a sua
intencionalidade que se enraíza na aspiração do saber e não se conforma com as
primeiras respostas, pois pretende enriquecer a sentido do questionamento e
universalizar a dimensão das respostas. O perguntar filosófico não se detém nunca,
pois para um filósofo, o amor ou o desejo do saber nunca é preenchido.
Sabemos que essa inquietude filosófica se desloca ao conceito, o filosofo não
inventa questões do nada ele é um recriador, pensa as condições de suas perguntas
levando ao conceito que esse mundo apresenta.
Há um espaço comum entre os filósofos e aprendizes que será antes uma
atitude questionadora ou crítica do filosofar, permitindo que as afirmações
apresentadas como natural possam ser colocadas em dúvida, isso ocorrerá em sala,
quando o professor de filosofia exibir essa atitude de perguntar e perguntar-se
tentando encontrar respostas com seus alunos.
Dizer o que é ensinar filosofia, é basicamente ensinar a filosofar. O ensino de
filosofia não é algo que se possa resolver estando fora da questão, é uma atitude que
consiste em perguntar, problematizar, e de acordo com isso buscar respostas.

III. Repetição e criação na filosofia e em seu ensino.


A questão é avaliar como o novo, que supõe o pensar criativo, se inscreve no
horizonte de repetição de um conjunto de saberes e práticas é nos perguntar de que
maneira o ensino de filosofia incide nesse processo.
Não é possível criar a partir do nada, e que o que fazem os filósofos é bem
mais que recriar os seus temas e reconstruir os seus problemas. Aqueles que ensinam
filosofia verificam os velhos problemas e os reconstroem de tal modo que formem
parte de um presente de uma aula.
Em toda a filosofia há algo de repetição e algo de criação. O que define em
potência o filosofar são os elementos de novidade ante os de continuidade. Quem
filosofa pensará os problemas de seu mundo em desde ou contra uma filosofia, pois
filosofia em ato vai além do plano de uma simples repetição.
A filosofia é descrita por Alan Badiou como “repetição criativa”, ou seja, é o
suposto filosófico, condição de nosso ensino, ensinar filosofia filosoficamente nas
situações de ensino, é pôr em ato e não somente explicar a concepção de filosofia.
Desta forma o que a filosofia repete não é o conhecimento determinado e sim os
gestos de alterar a continuidade do que se diz.
O ensino de filosofia mostra duas dimensões: uma objetiva, a repetição, e
a outra subjetiva, criação. Quem ensina filosofia tem como desafio em sala de
aula transmitir informação para que ocorra uma mudança subjetiva além da
objetiva. O professor deve criar as condições para que os estudantes possam
tornar própria uma forma de interrogar e uma vontade de saber.
Portanto ensinar filosofia nunca é ter garantias que alguém aprenda a ser um
filósofo do modo como o professor deseja. O professor tem que cumprir sua dupla
tarefa de mestre e de funcionário do Estado submetido a uma estrutura em que abre o
mundo do saber e por outro lado o abandona. Por isso os professores de filosofia
ocupam o lugar difícil da transmissão de provocação e do convite, transmitem
saberes, provocam e convidam a pensar. Quem aprende filosofia cria, pois reordena
os conhecimentos adquiridos interpretando-os, se trata de algo subjetivo, que
estabelece uma nova relação com o mundo.
IV. Por que ensinar filosofia?
Partimos da sua utilidade, ou seja, ela não é considerada útil, mas supraútil,
por que não se ocupa com coisas particulares e sim no ser das coisas. Sua utilidade é
colocar-se a serviço de algo e a filosofia não seria serva de nada, mas determinaria ou
julgaria as próprias finalidades. A filosofia tenta definir uma atitude perante a
realidade, construindo um campo de problemas ali onde antes não existiam.
Portanto, o ensino de filosofia deveria contribuir para fazer dos estudantes
agentes críticos capazes de pensar, avaliar e poder decidir da melhor maneira as
condições a sua incorporação no mundo.

V. A formação docente: entre professores e filósofos.


Aprende-se a ser professor desde o momento em que se começa a ser aluno,
pois se é como docente o aluno que foi e em grande medida acaba-se por ensinar
como se foi ensinado.
Os saberes práticos que regulam a atividade profissional são adquiridos a
partir de experiências concretas das aulas e na vida institucional. O aluno em
licenciatura em filosofia percorre um trajeto como aprendiz e conteúdo específicos de
filosofia, conhecem e vivem o que todos os seus professores de filosofia consideram o
que é a filosofia e supões o que seja ensiná-la e aprende-la, pois de certa forma ao
lado de alguns conteúdos de filosofia aprenderam diversas formas de ensina-la.
O que interessa é que grande parte de nosso aprendizado que nos constitui
como filósofos docentes nunca é tematizado e suas influências são enormes, formam
parte de uma espécie de naturalização de nosso passado acadêmico, pois as leituras e
interpretações foram feitas pelo professor que se teve e ele nos transmitiu a sua forma
de ler o livro.
Portanto, a formação de um professor de filosofia corresponde a toda
formação em seu conjunto seja de disciplinas filosóficas, pedagógicas, dentre outras.
Basicamente a formação do docente em filosofia deveria resolver o problema de
ensinar filosofia em situações diversas, fazendo com que ele escolha seus métodos e
recursos para ensinar. A formação docente deveria ter como objetivo central que o
estudante pudesse construir ou encontrar sua forma de ser professor, que não pode ser
única e que muda no decorrer do tempo e da prática profissional, tornando-se sujeito
da educação e protagonista de sua própria formação.

VI. Ensino de filosofia, instituições educacionais e Estado.


O ensino de filosofia é levado adiante em instituições educacionais que
outorgam o espaço e um tempo definido junto com ensino de outras disciplinas. O
Estado aparece para regular, normatizar e assegurar laço social. As instituições
educativas não são lugares neutros, o seu cenário é composto por diversas disputas
políticas, econômicas, sociais e culturais, por isso é fundamental dizer que o ensino
de filosofia não livre estando limitado no que toca o institucional, que todo saber esta
exposto a ser interpretado e nisso a filosofia joga a sua condição de possibilidade.
Podemos afirmar que formação de valores não é o essencial do ensino de
filosofia, tão pouco oferecer ferramentas aos jovens para se adaptarem ao mundo de
hoje, mas é fundamental para formar sujeitos críticos capazes de questionar a
validade de algo que aparece inquestionável, se a tarefa é desmistificar a ilusão de
que certos saberes e práticas são naturais, mostrando as condições que fazem que se
apresentam de tal maneira.
VII. Em direção a uma didática filosófica.
Uma didática da filosofia não é oferecer respostas às perguntas que os alunos
não formularam, mas construir um âmbito para o filosofar, em certa medida fazer
seus alunos filósofos, promovendo neles uma atitude filosófica que eventualmente da
lugar ao desejo de filosofar. O filosofar depende de uma decisão subjetiva, que supõe
colocar em ato um pensamento. Não há planejamento de aula que possa dar conta da
invasão do pensamento do outro.
Cada situação de aula constitui um desafio filosófico inédito, o ensino
filosófico se constrói no diálogo do dia a dia, sendo necessário um plano. O professor
deverá ser o filosofo que cria e recria cotidianamente um conjunto de problemas
filosóficos, mas não fará sozinho e sim com seus alunos.
O que se pode fazer é um esquema de dois momentos: um problematizar e o
outro consiste na tentativa de resolução, ou seja, diferenciar didaticamente a
construção de um problema filosófico e a forma como resolvê-lo.
O esquema sugerido é formal e aberto, ao indica o que/como ensinar nem
como avaliar o acontecido, cabe ao professor atualizar e encarnar em cada curso uma
proposta concreta de problemas e uma tentativa de resolvê-los. O bom professor de
filosofia saberá significar a distância que há entre o que ele ensina e o que seus alunos
aprenderam.
Enfim ensinar filosofia é dar lugar ao pensamento do outro, ela não é uma
questão privada, se constrói no diálogo, cada um escolherá ser filosofa ou não
devendo saber que pode fazê-lo, não é um mistério, eis a tarefa fundamental do
professor de estimular à vontade.