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Paulo Costacurta de Sá Porto

Carlos J. Pereira

Análise Econômica
Micro e Macroeconomia

2a Edição, revisada e ampliada

Santos, SP
Editora Leopoldianum
2020
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Ao meu pai, José de Sá Porto,


e à minha esposa Regina

Aos meus pais, Raul Anastácio Pereira


e Aniela Schubert Pereira

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação


pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio, seja
eletrônico, mecânico ou fotocópia, sem expressa autorização
dos autores.

Revisão: Paulo Costacurta de Sá Porto; Carlos J. Pereira


Capa: Elcio Prado
Planejamento Gráfico / Editoração: Editora Leopoldianum

Ficha Catalográfica
Sá Porto, Paulo Costacurta de; Pereira, Carlos J.
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia
3a Edição, revisada – Santos: Editora Universitária
Leopoldianum, 2020

ISBN 978-85-60360-21-5

1. Economia 2. Administração 3. Comércio Exterior

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

ÍNDICE

PARTE I
INTRODUÇÃO À ECONOMIA

Capítulo 1 – Introdução às Ciências Econômicas 08


Capítulo 2 – Conceitos Básicos 16

PARTE II
INTRODUÇÃO À MICROECONOMIA

Capítulo 3 – Oferta e Demanda 37


Capítulo 4 – Aplicações da Oferta e Demanda 64
Capítulo 5 – Escolha do Consumidor 90
Capítulo 6 – Custos de Produção 100
Capítulo 7 – Estruturas de Mercado 111
Capítulo 8 – Eficiência de Mercado e o Governo 128

PARTE III
INTRODUÇÃO À MACROECONOMIA

Capítulo 9 – Produção, Inflação e Desemprego 138


Capítulo 10 – Sistemas Financeiro e Monetário 151
Capítulo 11 – Macroeconomia de Curto Prazo 163
Capítulo 12 – Inflação, Desemprego e Crescimento 192
Capítulo 13 – Economia Aberta 202
Capítulo 14 – Crescimento Econômico e o Longo Prazo 223

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

APRESENTAÇÃO

O objetivo do livro é apresentar os principais conceitos e


fundamentos da teoria econômica de maneira acessível e
intuitiva, habilitando os estudantes a compreender e elaborar
análises econômicas. O livro-texto é destinado aos cursos de
Administração, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas,
Comércio Exterior, e Relações Internacionais, entre outros, e
é leitura obrigatória para economistas, administradores e
demais interessados em aprimorar e expandir o conhecimento
na área. Caso o professor necessite de material de apoio e de
material de resolução dos exercícios propostos, estes podem
ser requisitados diretamente aos autores por email, nos
endereços saporto27@gmail.com; cjpe45@gmail.com.

Os Autores

Sobre os autores:

Paulo Costacurta de Sá Porto é pesquisador e professor do


curso de Ciências Econômicas e pesquisador do Programa de
Pós Graduação em Economia e Desenvolvimento da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus Osasco,
além de especialista em Desenvolvimento Econômico
Regional. Foi professor e coordenador de curso em instituições
de ensino como Università di Genova (Itália), UniSantos,
Ibmec Rio, Facamp e Faculdade Trevisan. Trabalhou nas áreas
de gestão estratégica e consultoria em empresas como Vale,
Standard & Poor’s DRI, Price Waterhouse, Fundação CPqD e
Valor Econômico. É doutor em Economia, mestre em Economia
e em Gestão Pública e Relações Internacionais, e engenheiro
eletrônico, com pós-doutorado em economia.

Carlos J. Pereira é professor dos Cursos de Graduação em


Administração, Ciências Contábeis, Ciências Econômicas,
Engenharia Civil, Nutrição, Relações Internacionais; e
professor e coordenador dos Cursos MBA em Comércio

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Exterior e Negócios Internacionais e MBA em Gestão


Portuária-Infraestrutura, Logística e Negócios, da UniSantos-
Universidade Católica de Santos. Foi professor de
administração, cenários, contabilidade, custos, economia,
impostos diretos e indiretos, finanças, comércio exterior,
logística, e política comercial externa brasileira, em cursos de
graduação e pós/MBA, na Universidade Mackenzie, FAAP-
Fundação Armando Álvares Penteado, Faccamp-Faculdade
Campo Limpo Paulista (coordenou o Curso de Graduação em
Ciências Contábeis), Faculdade Ítalo-Brasileira, Faculdade
Drummond, Faculdade Módulo Paulista, FACIG-Faculdade de
Ciências de Guarulhos, Faculdade de Administração Zumbi dos
Palmares, FATECBS-Faculdade de Tecnologia da Baixada
Santista, UNIP-Universidade Paulista, UNISANTA-
Universidade Santa Cecília. Trabalhou nas áreas de
controladoria e gestão geral, por mais de 40 anos em
empresas como Perstorp (em 1980-81, na Inglaterra),
Inspectorate, General Electric, Selko, Loctite, Fila.

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

PARTE I - INTRODUÇÃO À ECONOMIA

Capítulo 1 – Introdução às Ciências Econômicas

V
ivemos em um mundo muito diferente daquele em que
nossos avós e bisavós viveram. É possível hoje comprar
um livro pela Amazon.com no exterior e recebê-lo em
sua casa no Brasil alguns dias apenas após o pedido ter sido
feito. Podemos receber uma remessa de dinheiro que nos é
presenteada por um parente residente na Europa facilmente,
talvez em poucas horas. Podemos ir visitar este parente e
chegar lá amanhã, depois de uma viagem relativamente curta.

Tudo isso seria impossível há alguns anos atrás, ao menos


nessa velocidade na qual hoje é possível. E o que mudou desde
então? São duas as características principais do mundo de
hoje. A primeira delas é o aprofundamento do processo de
globalização. A definição do Dicionário Houaiss, para este
fenômeno recente é a de que a globalização é o processo pelo
qual a vida social e cultural nos diversos países do mundo é
cada vez mais afetada por influências internacionais em razão
de injunções políticas e econômicas. É o intercambio
econômico e cultural entre diversos países, devido à
informatização, ao desenvolvimento dos meios de
comunicação e transporte, à ação neocolonialista de empresas
transnacionais e à pressão política no sentido de abdicação de
medidas protecionistas. Espécie de mercado financeiro
mundial financeiro mundial criado a partir da união dos
mercados de diferentes países e da quebra das fronteiras
entre esses mercados. Integração cada vez maior das
empresas transnacionais, num contexto mundial de livre
comércio e de diminuição da presença do Estado, em que as
empresas podem operar simultaneamente em muitos países e
explorar em vantagem própria as variações nas condições
locais. Processo de percepção e aquisição mais sintético do

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

que analítico, característico da estrutura mental ou psíquica


da criança.

A segunda característica é a reestruturação produtiva, pela


qual o modo de produção capitalista passa. Está relacionada
às mudanças sofridas na maneira pelas quais o sistema de
produção capitalista produz os bens e serviços, na qual agora
é possível produzir de modo mais flexível, alocando as partes
do processo de produção entre as várias regiões e países do
mundo, controlando à distância a produção e os seus
processos de gestão; os tipos de emprego nos vários setores
da economia também se deslocam para outras regiões do
planeta; e a especialização na produção de bens e serviços
muda de maneira significativa.

Neste contexto de globalização e de reestruturação produtiva,


os fatos econômicos que acontecem fora do país nos afetam
de uma maneira impensável há apenas alguns anos atrás. O
que ocorre na economia brasileira também afeta os outros
países e são levado em conta nas decisões de investimento,
consumo, exportação e viagens de cidadãos estrangeiros.
Assim, o entendimento do que acontece no âmbito da
Economia é cada vez mais importante, não só para o
economista, mas, também para profissionais de outras áreas
(como, por exemplo, os profissionais de Administração de
Empresas, Ciências Contábeis, Relações Internacionais, e
áreas afins) e também ao cidadão comum.

Mas o que é Economia? De acordo com a definição do


“Novíssimo Dicionário de Economia” de Paulo Sandroni
(1999), Economia é “a ciência que estuda a atividade
produtiva. Focaliza estritamente os problemas referentes ao
uso mais eficiente de recursos materiais escassos para a
produção de bens; estuda as variações e combinações na
alocação dos fatores de produção (terra, capital, trabalho,
tecnologia), na distribuição de renda, na oferta e procura e
nos preços das mercadorias. Sua preocupação fundamental

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

refere-se aos aspectos mensuráveis da atividade produtiva,


recorrendo para isso aos conhecimentos matemáticos,
estatísticos e econométricos.” Economia é a ciência que estuda
as relações humanas denominadas econômicas. Assim,
podem-se utilizar os termos Economia ou Ciências
Econômicas como sinônimos. Já o termo Análise
Econômica refere-se à utilização dos conceitos e das teorias
elaboradas no campo das Ciências Econômicas para buscar um
entendimento e uma interpretação adequada dos
acontecimentos econômicos.

De outra maneira, podemos definir Economia também como o


estudo da forma pela qual a sociedade administra os seus
recursos escassos. Recurso é tudo aquilo que uma sociedade
tem disponível em um determinado momento para satisfazer
suas várias necessidades. A Economia estuda a escassez
porque os bens e serviços são escassos, isto é, não há oferta
ilimitada destes, portanto a sociedade não pode ter tudo que
deseja, e cada indivíduo não pode ter um padrão de vida tão
alto como gostaria. Os recursos são escassos porque há
limitações de recursos quanto aos seguintes aspectos:
quantidade e qualificação da mão de obra que produz os vários
bens e serviços; quantidade de recursos naturais disponíveis
na Economia; quantidade dos instrumentos ou máquinas
usados na produção; e conhecimento técnico e científico usado
na produção.

Mas como tomar as decisões que irão decidir quais serão e


quem irá executar as tarefas necessárias para a alocação de
recursos em uma sociedade? Em algumas sociedades, há um
planejamento central de como os seus recursos serão
utilizados, sendo que o governo decide sozinho como alocar
todos os recursos na economia. Neste modo centralizado de
produção, a propriedade dos recursos é do governo.
Entretanto, na maior parte dos países hoje os recursos são
alocados pelos atos combinados de governos, empresas e
milhões de pessoas; este é o modo capitalista de produção.

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Neste caso, os recursos na economia sempre pertencem a


alguém, isto é, a propriedade é privada.

Neste sentido, Economia é a ciência que estuda como as


pessoas tomam decisões econômicas, tais como: o quanto
trabalham, consomem, poupam e investem. Estuda também
como se dão as interações que determinam a alocação dos
recursos e o valor destes em um determinado momento,
como, por exemplo, o preço do tomate na feira livre. Estuda
também as forças e tendências que afetam a economia de um
país, como o número de desempregados, a mudança nos
preços dos produtos em um dado momento, e o quanto é
produzido por um país em um ano.

Microeconomia e Macroeconomia

Quanto ao objeto de estudo da Economia, Sandroni afirma que


o estudo da Economia “pode ter por objeto a unidade de
produção (empresa), a unidade de consumo (família) ou então
a atividade econômica de toda a sociedade. No primeiro caso,
os estudos pertencem à microeconomia e, no segundo, à
macroeconomia.” A Microeconomia é o estudo de como as
empresas e as famílias realizam decisões econômicas, e como
elas interagem nos mercados. Por outro lado, a
Macroeconomia é o estudo das variáveis econômicas
agregadas, seus comportamentos e as relações que guardam
entre si. Enquanto a Microeconomia se preocupa com variáveis
econômicas como preço, custo e lucro de um determinado
produto produzido por uma dada empresa, a Macroeconomia
cuida de variáveis econômicas como inflação, desemprego e
Produto Interno Bruto, ou PIB (vide Tabela 1 abaixo).

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Tabela 1 – Brasil: PIB, População, Taxas de Inflação e de Desemprego,


2000-2019

Produto População Inflação Desemprego


Ano
Interno Bruto* Residente (IPCA - %) (%)
2000 2.151.117 169.799.170 5,97 12,0
2001 2.176.642 172.460.470 7,67 12,2
2002 2.217.949 174.736.628 12,53 12,2
2003 2.217.361 176.731.844 9,30 12,3
2004 2.304.111 178.550.319 7,60 11,5
2005 2.392.956 180.296.251 5,69 9,8
2006 2.509.601 182.073.842 3,14 10,0
2007 2.655.750 183.987.291 4,46 9,3
2008 2.799.218 186.110.095 5,90 7,9
2009 2.913.819 188.392.937 4,31 8,1
2010 3.079.133 190.755.799 5,91 6,8
2011 3.208.182 192.432.504 6,50 6,0
2012 3.311.176 194.107.401 5,84 5,5
2013 3.411.058 195.760.815 5,91 5,4
2014 3.476.328 197.437.816 6,41 4,8
2015 3.378.945 199.158.657 10,67 6,8
2016 3.281.592 200.803.898 6,29 12,0
2017 3.325.571 202.417.084 2,95 12,7
2018 3.373.782 208.494.900 3,75 12,3
2019** 3.407.520 210.147.125 4,31 12,0

* R$ de 2010 (milhões)

** Previsão

Fonte: Ipeadata

Outra distinção importante que deve ser feita com relação às


Ciências Econômicas é a diferença entre economia positiva e
economia normativa. A economia positiva é o ramo da

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

economia que se preocupa com a descrição e explicação dos


fenômenos econômicos. Ela foca nos fatos observáveis e nas
relações de causa e efeito e inclui o desenvolvimento e teste
de teorias econômicas. A economia positiva seria então ciência
e assim se preocupa com o comportamento econômico.
Enquanto ciência, evita juízos de valor econômicos. Por
exemplo, uma teoria econômica positiva pode descrever como
o crescimento da oferta monetária afeta a inflação, mas não
fornece nenhuma instrução quanto a qual política deveria ser
adotada. A ideia é a de que a economia pode ser neutra e livre
de ideologias políticas. Já na economia normativa, os
economistas prescrevem como o mundo deveria ser, de
acordo com seus valores e suas visões particulares culturais,
de ética e de política. Por exemplo: O Banco Central deveria
reduzir o valor da taxa de juros nominais. Assim, a economia
positiva é algumas vezes definida como a economia "do que
é", enquanto a economia normativa discute o que "deveria
ser".

Frequentemente, o economista é chamado para opinar ou dar


explicações sobre os acontecimentos econômicos, utilizando
muitas vezes as visões positivas e normativas mencionadas
acima. Note, entretanto que a economia está inserida em um
contexto maior de sociedade, que envolve vários grupos de
pessoas que tem interesses diversos em influenciar na
alocação dos recursos daquela sociedade. Isto é, a economia
sofre o tempo toda a influência do estudo da política, que
está relacionada à estrutura e aos processos de governo de
uma sociedade que tente assegurar segurança, justiça e
direitos civis aos seus cidadãos. À medida que sofre influência
desta, pode ter seus resultados afetados sensivelmente pelo
modo com que esta opera. Além disso, a economia funciona
no contexto da cultura daquela mesma sociedade, isto é, seu
conjunto de conhecimentos, crenças, leis, moral, costumes e
hábitos e aptidões adquiridos pelo homem em família e como
membro que faz parte de tal sociedade. Argumenta-se assim
que o modo pelo qual a cultura de um país se desdobra

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

também afeta o modo pelo qual as relações econômicas se


desenvolvem em tal país.

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Exercícios – Capítulo 1

1. Explique o que são globalização e reestruturação produtiva.

2. Qual a principal diferença entre o modo centralizado de


produção e o modo capitalista de produção?

3. Defina o que é Economia, de acordo com suas várias


definições alternativas.

4. Defina o que é microeconomia e macroeconomia.

5. Qual a diferença entre economia positiva e economia


normativa?

6. Como a economia interage com o estudo de outras ciências


sociais e humanas e com o campo de outras áreas como a
política e a cultura de uma sociedade?

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Capítulo 2 – Conceitos Básicos

N
este capítulo iremos introduzir uma série de conceitos
básicos importantes antes de iniciarmos nossa análise
econômica da Microeconomia. Antes disso, é
importante introduzir a metodologia da análise científica e sua
aplicação para as Ciências Econômicas. No método
científico, observações empíricas são feitas sobre o
funcionamento de um determinado fato econômico. Na
sequencia formula-se uma teoria que tenta explicar o
funcionamento de tal fato econômico, isto é, visa explicar a
relação entre as forças que afetam o fato econômico. Cria-se
assim uma hipótese teórica sobre o comportamento do
fenômeno observado. Na continuação, faz-se um teste
daquela hipótese usando as observações empíricas ou dados
mencionados anteriormente, que confirmam ou não a
explicação daquela teoria. Caso esta não seja confirmada,
muda-se a hipótese da teoria e então esta é testada
novamente pelas observações empíricas. O processo é
repetido até a teoria chegar a um grau de explicação da
realidade suficientemente robusto.

Quando aplicamos esta metodologia para a Economia, é


comum utilizarmos os modelos econômicos, que são
explicações teóricas dos fenômenos econômicos. Tais modelos
são desenvolvidos na tradição da economia positiva. Num
modelo econômico, além de se criar hipóteses teóricas (que
são as relações econômicas entre as variáveis) a serem
testadas pelos dados econômicos, faz-se algumas
simplificações da realidade, chamada de suposições. Uma
suposição é um fato que é assumido como sempre verdadeiro
em determinado modelo. Por exemplo, observamos que as
pessoas e os governos compram produtos, que as empresas
realizam gastos para poder produzir produtos, uma parte dos
quais podem ser vendidos no exterior, mas também outra
parte destes pode ser comprada no exterior. Podemos criar

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

uma teoria para tentar explicar tal fato, na qual o conjunto de


bens e serviços produzidos por uma sociedade (Y) em
determinado momento será consumido pelas famílias (C) e
pelos governos (G), ou será investido pelas empresas na
produção de outros bens e serviços (I), ou será exportado a
outros países (X), ou é importado de outros países (M). Assim,
nosso modelo é o seguinte: Y = C+G+I+X-M. Porém, Ao
criarmos tal modelo, fazemos a simplificação de que não é
possível estocar bens e serviços.

Com esta simplificação, renegamos assim um aspecto da


realidade e assumimos que isto não acontece para podermos
simplificar o modelo e testá-lo. Enquanto as suposições
enfraquecem a capacidade de explicação dos modelos, elas
são necessárias para podermos criar modelos que explicam
alguma coisa e ao mesmo tempo tenham um tamanho
suficientemente pequeno: neste exemplo, se não tivéssemos
assumido que não é possível estocar bens e produtos,
teríamos que incluir os estoques no modelo, e assim a
produção de bens e serviços, além de ser consumida por
famílias e governos, investida pelas empresas exportada ao
exterior ou importada do exterior, poderia ser contabilizada
nos estoques das empresas, famílias e governos, no país e no
exterior. O modelo seria bem mais complexo, e talvez
impossível de ser testado!

Um bom exemplo de modelo econômico é o diagrama do fluxo


circular da renda (vide Figura 1 abaixo), que iremos utilizar
nos próximos capítulos. Observamos inicialmente que as
pessoas compram produtos das empresas e que estas
contratam pessoas e materiais para produzir tais produtos, em
um ciclo sem fim. Como explicar tal fato? Neste modelo
econômico, temos dois mercados, o de bens e serviços (ou
produtos) e o de fatores da produção (ou insumos). Há
também dois grandes elementos (ou polos) atuantes nestes
mercados, as empresas e as famílias, que são os agentes
econômicos que tomam as decisões e realizam os atos

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

econômicos no modelo. As empresas vendem seus produtos


no mercado de bens e serviços (os fluxos de produtos são
representados por setas vermelhas) e recebem suas receitas
destas vendas (que são fluxos de dinheiro, e são
representados por setas azuis). Já as famílias compram os
produtos que necessitam no mercado de bens e serviços
(setas vermelhas), pagando-os pelas suas despesas (setas
azuis). As empresas contratam mão de obra, terra e capital no
mercado de fatores da produção (fluxos de fatores também
são representados por setas vermelhas), pagando-os os seus
rendimentos que são os salários, aluguéis e lucros (fluxos
azuis de dinheiro). Já as famílias fornecem tais fatores ao
mercado de fatores da produção (fluxos vermelhos), e
recebem por isso suas rendas (fluxos azuis).

Note que todos estes fluxos giram de maneira circular e


interminável. Note também que há simplificações no modelo:
não existe governo (e, portanto não há cobrança de
impostos), e os bens e serviços não podem ser enviados ao
exterior (ou seja, não há exportação nem importação). Apesar
das suposições, ainda assim este modelo tem uma capacidade
robusta de explicar a realidade que nos dispomos a explicar
com ele, qual seja, que a economia “roda” num movimento
sem fim de trocas entre empresas e famílias nos mercados de
bens e serviços e de fatores de produção.

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Receitas Mercado de Despesas


Bens
Bens & Bens &
e Serviços
serviços serviços
vendidos comprados

Empresas Famílias

Insumos para Terra, trabalho


produção Mercado de e capital
Fatores
Salários, de Produção Renda
aluguéis, e
lucros

Figura 1 – Modelo Econômico: Diagrama do Fluxo Circular da Renda

Sistema econômico

Um conceito chave em Economia é o de sistema econômico,


que é um modo de produção e distribuição de bens e serviços
que satisfaçam as necessidades de certa sociedade. No início
dos tempos, os sistemas econômicos eram bem simples; por
exemplo, nos anos 1500 a produção era artesanal, onde
tipicamente o produtor ou artesão exercia todas as etapas da
produção: um artesão que fazia sapatos produzia a sola, o
salto, os parafusos e a tinta que tingia os sapatos. Já na
Revolução Industrial os sistemas econômicos tornaram-se
mais complexos, nos quais as várias etapas de produção vão
sendo separadas e executadas por diferentes pessoas e
empresas. Hoje estas várias etapas são executadas inclusive
por várias empresas diferentes localizadas em países
diferentes. Um computador, por exemplo, é montado por uma

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

rede global de empresas, na qual as várias etapas de


transformação são executadas em uma complexa divisão do
trabalho entre países com diferentes capacidades tecnológicas
e econômicas. Assim, antes da sua montagem final na China,
um computador americano tem as placas de circuito integrado
montadas na Indonésia, recebe um CD ROM da Malásia, tem
o desenho e serviço de montagem executado em Taiwan,
recebe o software indiano, tem seu desenvolvimento de
processo na Cingapura, e recebe um monitor japonês.

Um sistema econômico é também uma divisão social do


trabalho de modo que os vários setores produtivos produzam
todos os produtos que uma sociedade necessita. Tais produtos
são criados e produzidos para satisfazer as necessidades
humanas. Tais necessidades humanas podem ser
classificadas como individuais e coletivas. As coletivas refere-
se às necessidades que são satisfeitas de maneira coletiva,
como as redes de saúde, de transportes, de telecomunicações,
e de educação básica. Já as necessidades individuais são
satisfeitas de maneira individual. Estas podem ser
necessidades básicas, como aquelas que se não são
satisfeitas comprometem seriamente o funcionamento da vida
do ser humano (como alimentação ou vestuário),
necessidades espirituais, como a cultura e a religião, e
necessidades de luxo, como aquelas que se não satisfeitas
não comprometem seriamente a qualidade de vida do ser
humano (como um automóvel, seja ele um Fusca ou um Audi
A4). Note que a classificação das necessidades individuais
como básica ou de luxo é um conceito relativo, já que um
produto pode ser básico ou de luxo dependendo das
circunstâncias.

Os produtos que uma sociedade necessita são classificados em


bens e serviços. Os bens são os produtos tangíveis que têm
características físicas, tais como um automóvel ou um lápis.
Já os serviços são produtos intangíveis, tais como um
trabalho de consultoria ou um programa de computador.

20
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Utilizaremos neste livro o termo produto para nos referir tanto


a bens quanto a serviços.

Uma classificação para os tipos de produtos os divide em bens


livres e econômicos. Um bem livre é aquele no qual não há
esforço humano na sua produção, já que são bens criados pela
natureza. Como exemplo de bens livres: a água, o ar, a luz e
o calor do sol. Já um bem econômico requer para sua
obtenção esforço humano. Neste caso temos a produção dos
bens industriais e serviços, e a maioria dos agrícolas. Quanto
às suas principais características, note que os bens
econômicos são objetos de propriedade (isto é, o
proprietário do bem tem o direito e o monopólio do consumo
daquele bem), são relativamente escassos (isto é, sua
produção é limitada aos recursos disponíveis) e têm valor
(expresso pelo preço do bem) o qual reflete sua escassez.

Os bens e serviços econômicos podem ser classificados em


três tipos segundo sua finalidade ou destino: a) bens de
consumo, os quais satisfazem diretamente a necessidade de
consumo dos homens; b) bens intermediários, os quais são
usados como insumo no processo de produção de outros bens;
e c) bens de capital, os quais são destinados à produção
futura de outros bens e são usados como maquinário no
processo de produção de outros bens. Enquanto um
automóvel é um bem de consumo (que satisfaz diretamente a
necessidade de locomoção) e o aço é um bem intermediário
(utilizado na produção de vários produtos como geladeiras,
fogões e automóveis, entre tantos outros), uma máquina de
costura é um bem de capital utilizado pela indústria têxtil na
produção de roupas e tecidos.

Produção e consumo

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Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Numa divisão social do trabalho de um sistema econômico, a


produção é definida como a execução de atividades que criam
produtos que tenham como finalidade satisfazer as
necessidades humanas. Já o consumo de produtos é o ato de
satisfazer tais necessidades humanas. Ao se fruir ou utilizar
tal produto, o consumidor estará satisfazendo sua necessidade
humana que fez com que a sociedade houvesse decidido
anteriormente produzir aquele produto.

Nos sistemas econômicos das sociedades modernas, os atos


de produção e consumo estão desvinculados, isto é, não
são realizados no mesmo tempo e espaço, como nas
sociedades tradicionais (o homem da caverna caçava –
produzindo assim o alimento – e consumia o fruto da caça
imediatamente). Como estes estão desvinculados entre si,
tanto no tempo (produz-se agora para consumir depois)
quanto no espaço (produz-se em local diferente do consumo),
a produção e o consumo são ligados pelos atos de compra e
venda. A venda é o ato de vender em um mercado um
produto anteriormente produzido (o produtor transfere o
produto ao comprador), e a compra é o ato de comprar um
produto levado ao mercado (o comprador recebe o produto).
O mercado assim é o local (físico ou virtual) onde os vários
atos de compra e venda são simultaneamente executados.
Note que um ato de compra é sempre ligado a um ato de
venda, sendo que uma compra sempre corresponda a uma
venda. No Diagrama do Fluxo Circular da Renda da Figura 1
os produtos comprados pelas famílias são, ao mesmo tempo,
vendidos pelas empresas no mercado de bens e serviços. Do
mesmo modo, a compra por parte das empresas de insumos
é simultânea à venda de seus fatores de produção (trabalho,
capital e terra) no mercado de fatores de produção.

Note que outra implicação da separação entre produção e


consumo é que, para se efetuar as várias transações
simultâneas de compra e venda, tornou-se necessário um

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Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

instrumento de intermediação entre o comprador e o


vendedor, a moeda ou dinheiro. Como a pessoa que
consome não é mais a mesma que produz, a moeda serve: i)
como meio de troca para que se possa “fechar” as várias
operações de compra e venda de bens e fatores de produção.
O uso da moeda simplifica bastante o ato da troca econômica;
ii) para atribuir valor aos vários esforços relativos na
produção dos diferentes produtos e possibilitar a troca dos
vários produtos; e iii) como unidade de conta, na qual é o
instrumento que as pessoas usam para anunciar valores
(preços) e fazer contas. O preço de um produto ou um fator
de produção é o seu valor determinado pelo esforço relativo
na sua produção. Um bem econômico que requer mais esforço
na sua produção tem um valor maior (“custando” assim mais
moedas) que um produto que requer um esforço relativo
menor de produção (“custando” assim menos moedas),
requerendo assim mais unidades de moeda na sua compra do
que o outro produto. Note também que as transações de
compra e venda do Diagrama do Fluxo Circular da Renda da
Figura 1 são acompanhadas de fluxos de moeda no sentido
contrário ao do fluxo de bem ou serviço ou fluxo de fator da
produção. Para concretizar uma compra de um determinado
produto, as famílias pagam as empresas com moeda no
mercado de bens e serviços. Da mesma maneira, as empresas
pagam as famílias com moeda a compra dos fatores de
produção no mercado de fatores.

Produção e Aparelho Produtivo

Mencionamos anteriormente que um sistema econômico é


uma divisão social do trabalho que possibilita que os vários
setores produtivos produzam os vários produtos que a
sociedade necessita. A divisão social do trabalho é a divisão
das atividades produtivas em tarefas específicas e
especializadas, que permite uma maior eficiência da produção.
Para se atingir tal eficiência, o processo de produção deve ser

23
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

organizado. A organização da produção nos sistemas de


produção capitalistas é dividida em dois grupos: 1. Os
empresários, que são os organizadores ou gestores da
produção, e contratam os fatores de produção buscando
utilizá-los na produção dos produtos necessitados pela
sociedade, vendendo tais produtos de volta para a sociedade
e esperando receber um valor a mais do que foi gasto
inicialmente na compra dos fatores de produção (chamado de
lucro), absorvendo o risco de que isto não venha a acontecer;
e 2. Os trabalhadores, que são os executores da produção e
que vendem aos empresários sua mão de obra ou capacidade
de executar o trabalho, recebendo como pagamento a
remuneração do uso de sua mão de obra (os salários).

O processo de produção pode ser definido como a


transformação e a interação de elementos básicos (ou fatores
da produção) em uma unidade produtiva, que, através do uso
de uma tecnologia, gera um produto final a ser utilizado para
a satisfação de uma necessidade da sociedade. Ele é ilustrado
na Figura 2 abaixo.

Em primeiro lugar, o lócus ou local do processo de produção é


na unidade produtiva, isto é, a firma ou empresa. Esta
exerce a atividade produtiva (como uma fábrica, uma escola,
etc.) e gera o produto final. Nesta definição note que a unidade
produtiva pode ser tanto uma fábrica, que produz um bem
tangível como um automóvel, quanto uma universidade, que
produz um serviço como o ensino universitário. As unidades
produtivas podem variar quanto aos seguintes fatores: 1.
Tamanho (uma unidade grande, pequena ou média); 2. Forma
jurídica (pública, privada, ou uma cooperativa); 3. Atividade
(produção têxtil, produção de ensino, etc.); e 4. Setor
(agricultura, indústria, ou serviços).

24
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

UNIDADE PRODUTIVA
TRABALHO
BENS E
RECURSOS NATURAIS SERVIÇOS
TECNOLOGIA

CAPITAL

Y = f ( L, RN, K)

Figura 2 – Processo de Produção e Função de Produção

Em segundo lugar, temos os elementos básicos da unidade


produtiva, que são os fatores de produção ou insumos
utilizados na produção. Os principais insumos para a produção
são os seguintes: 1. Trabalho (ou mão de obra), relacionado
ao esforço humano na produção; 2. Recursos naturais,
relacionados aos recursos retirados da natureza, diretamente
extraídos da natureza (como o minério de ferro) ou
processados (como o aço); e 3. Capital, relacionado ao
conjunto de instrumentos utilizados para diminuir o esforço e
aumentar a eficiência do homem na produção. Tanto uma
máquina como os recursos financeiros são exemplos de
insumos de capital.

Em terceiro lugar, a tecnologia é componente do processo de


produção, definida como o estado atual de conhecimento
técnico-científico à disposição dos organizadores da produção.
É o conhecimento de como produzir o produto final dado o
conjunto de insumos disponíveis. Neste sentido, é como se
fosse uma “receita” para a produção de um bem, especificando

25
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

as quantidades de insumos para conseguir uma quantidade de


produto. A função de produção indica qual a quantidade
máxima de produto que pode ser produzida dada uma
determinada quantidade de fatores produtivos e uma
determinada tecnologia. Por fim, o produto final é o
elemento que é produzido pelas unidades produtivas para
satisfazer as necessidades de uma sociedade.

Um aparelho produtivo de um país é o conjunto de todas as


suas unidades produtivas. É constituído de três grandes
setores, que são: primário, que é constituído pelas
atividades em contato com a natureza (como agricultura,
pesca e pecuária); secundário, que é constituído pelas
atividades de transformação de bens através de processos
físicos ou químicos (como a indústria extrativa mineral,
manufatureira, de construção civil e de utilidade pública); e
terciário, que é constituído pelas atividades de prestação de
serviços (como o comércio, transportes, seguros, governo,
educação e saúde).

O aparelho produtivo é constituído por dois grandes fluxos,


conforme pode ser visualizado no diagrama do fluxo circular
da renda da Figura 1. Em primeiro lugar, há o fluxo de
produto, também chamado de fluxo “real”, é composto pela
circulação de bens e serviços produzidos na economia em um
determinado período de tempo (as setas vermelhas). Em
segundo lugar, há o fluxo de renda, também chamado de
fluxo “nominal”, se refere aos pagamentos aos fatores
produtivos usados no processo de produção, tanto os salários
aos proprietários do fator trabalho quanto os pagamentos de
lucros e aluguéis aos proprietários dos fatores capital e
recursos naturais (as setas azuis). Os fluxos reais são
compostos por fluxos de bens e serviços, enquanto os fluxos
nominais são compostos por fluxos de dinheiro, referentes aos
pagamentos aos fatores produtivos usados no processo de
produção. Por exemplo, um fluxo real pode ser a venda de

26
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

computadores, enquanto o fluxo nominal pode ser o


pagamento pela compra dos mesmos computadores.

Definimos anteriormente o mercado como o local onde se dão


simultaneamente os vários atos de compra e venda dos
produtos. Do ponto de vista dos fluxos do aparelho produtivo,
podemos definir mercado como o local onde os fluxos reais e
nominais do aparelho produtivo se encontram. É o local onde
os detentores da renda vão satisfazer suas necessidades
comprando o produto que necessitam. Assim, se definirmos o
fluxo real de produto como oferta de um produto, e o fluxo
nominal de renda como demanda, mercado é o local onde a
demanda encontra a oferta.

Note que, com relação aos fluxos do aparelho produtivo, a


todo fluxo real corresponde um fluxo nominal, transitando em
sentido inverso ao fluxo real. No mercado de bens e serviços,
o ato de compra das famílias está ligado ao fluxo real de
entrada de mercadorias e um fluxo nominal de saída de
dinheiro (a despesa) na direção inversa. Já o ato de venda das
empresas está ligado ao fluxo real de saída de mercadorias e
um fluxo nominal de entrada de dinheiro (a receita) na direção
inversa. No caso do mercado de fatores de produção, o ato de
compra das empresas está ligado ao fluxo real de entrada (ou
compra) de insumo e um fluxo nominal de pagamento pelo
uso do insumo (salário, aluguel, ou lucro) na direção inversa.
Já o ato de venda das famílias está ligado ao fluxo real de
saída (ou venda) de insumo e um fluxo nominal de
recebimento pela prestação de serviço do insumo (renda) na
direção inversa.

Ainda no diagrama do fluxo circular da renda da Figura 1,


notamos que os fluxos reais de produto e de fatores de
produto e os fluxos nominais de renda e pagamento dos
produtos formam um grande ciclo, o ciclo produtivo. Para se
uma “rodada” inteira de produção e consumo de um
determinado produto, um fluxo “inicia” o ciclo na compra de

27
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

fatores no mercado de fatores de produção por parte das


empresas, ao mesmo tempo em que elas pagam as famílias
pelo uso de seus fatores de produção. Depois as empresas
produzem os produtos demandados e os vendem no mercado
de bens e serviços, e assim um fluxo “termina” na demanda
de produtos por parte das famílias que pagam às empresas a
compra dos produtos por elas demandados. Note também que
o ciclo produtivo é dinâmico: o pagamento dos produtos
vendidos pela firma (o lucro) em um ciclo produtivo é usado
para contratar novos fluxos de fatores da produção, que irão
gerar novos fluxos de produto, e assim um novo ciclo
produtivo inicia.

Preços, Mercados e Condicionantes

Preço foi definido anteriormente como o valor de um produto


ou um fator de produção determinado pelo esforço relativo na
sua produção. Reflete a escassez na sua produção, sendo o
termo de relação de troca entre produtos ou fatores de
produção em uma economia. Em termos dos fluxos do
aparelho produtivo do Diagrama do Fluxo Circular da Renda,
o fluxo real de bens ou insumos é trocado pelo fluxo nominal
de moeda por meio do sistema de preços existentes. A
determinação dos preços dos produtos (e também dos
fatores de produção) é dada pelos donos dos produtos (os
empresários), baseados em seus custos, sua taxa de lucro e
em seu poder de mercado.

O custo de produção de um determinado produto é o


pagamento dos insumos (fatores de produção) pela utilização
destes na produção por meio do seu sistema de preços. Os
empresários pagam o preço da mão de obra (os salários) e
da terra (os aluguéis), e a soma destes pagamentos constitui
seu custo. Já o lucro é o pagamento ao insumo capital, e é o
montante de valor a mais do que foi gasto inicialmente na
compra dos fatores de produção que o empresário espera

28
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

receber em cada ciclo de produção. O lucro é também a receita


proveniente da venda de bens subtraída dos gastos com
insumos pelo empresário. Já á taxa de lucro é a razão do lucro
recebido sobre a receita. O lucro é necessário, pois o
empresário o utiliza para financiar o próximo ciclo produtivo,
possibilitando os gastos futuros com insumos. E poder de
mercado se refere à capacidade que um dono de produto ou
insumo tem de influenciar a formação de seu preço. Há um
maior grau de poder de mercado e, por conseguinte, de
habilidade de aumento em um preço quando há, por exemplo,
poucos ou apenas um produtor de um determinado produto.
O poder de mercado está relacionado, como já veremos, à
estrutura de mercado.

Os diversos mercados de produtos são moldados por


condicionantes, que são os fatores que influenciam e
modificam o comportamento de tal mercado. São quatro:
tecnologia disponível; mercado de fatores; estrutura de
propriedade e de renda; e estrutura de mercado. A
tecnologia disponível condiciona os mercados à medida que
sua utilização influencia o preço dos fatores de produção e o
uso destes. Quando definimos tecnologia anteriormente,
mencionamos que esta é o conhecimento de como produzir o
produto final dado o conjunto de insumos disponíveis, sendo
uma “receita” para a produção de um produto, especificando
as quantidades de insumos para conseguir uma quantidade de
produto, dada a tecnologia.

O coeficiente de utilização de um insumo é igual à


quantidade daquele insumo dividida pela quantidade de
produto produzida com aquele insumo. Tal coeficiente é
específico para cada tecnologia disponível. Se multiplicarmos
este coeficiente pelo volume de produto final, determinamos
a procura total de cada fator de produção. Mas e se a demanda
total por um fator for maior (ou menor) que a oferta? Cria-se
escassez (ou abundância) relativa do fator, e o preço do fator
sobe (ou cai) de acordo. Num país em um estágio de

29
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

desenvolvimento mais avançado, a demanda e a oferta por


fatores tende a ser equilibrada. Já num país em
desenvolvimento, a oferta do fator mão de obra tende a ser
abundante e a oferta do fator o capital tende a ser escassa.
Neste sentido, o preço da mão de obra (salário) tende a ser
mais baixo e do capital (lucro) tende a ser alto. Assim, o uso
de uma tecnologia poupadora de mão de obra, tipicamente
utilizada em países desenvolvidos, quando utilizada em um
país em desenvolvimento, tende a aumentar a abundância de
mão de obra (desemprego) e a diminuir seu preço (salário).

O mercado de fatores também condiciona os mercados de


produtos, influenciando na formação do preço dos produtos.
Quanto ao papel do fator capital, cabe aqui fazer uma
distinção (não feita na análise do Diagrama do Fluxo Circular
da Renda) entre o capital próprio (do empresário) e do
capital de terceiros (emprestado de outros donos), cujas
remunerações pagas são chamadas respectivamente de lucro
e juros. Se o lucro é a receita proveniente da venda de bens
subtraída dos custos totais da produção e determina os
investimentos das firmas, nenhum empresário racional estará
disposto a investir seu capital próprio em nenhum projeto
produtivo se a taxa de lucro decorrente desta inversão for
inferior à taxa de juros vigente no mercado, pois, se este fosse
o caso, o empresário estaria melhor se emprestasse o capital
próprio a outras pessoas e recebesse a remuneração deste
empréstimo na forma de juros.

Já o fator mão de obra condiciona os mercados de produto à


medida que seu preço é influenciado pelo estoque de mão de
obra, pela qualificação desta, e pela tecnologia usada na
produção. Quanto maior o estoque disponível, ou
quantidade total de pessoas disponíveis para emprego
imediato, menor o preço deste fator. Já uma maior
qualificação da mão de obra tende a remunerar melhor
este fator. E a tecnologia empregada também impacta o
preço da mão de obra, já que, conforme já vimos, uma

30
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

tecnologia poupadora de mão de obra (ao contrário de uma


tecnologia intensiva no uso de mão de obra) tende a utilizar
menos deste fator derrubando assim seu preço.

Quanto ao fator recursos naturais, faremos a análise usando


o recurso natural mais indispensável na produção, a terra,
lembrando que a análise para outros recursos naturais é
similar. O preço da terra é condicionado pelo seu estoque
disponível e pela estrutura de propriedade. O estoque de
terra influencia seu preço dependendo da quantidade total de
recurso disponível para uso imediato e da quantidade
disponível de longo prazo. Em vários lugares, como na região
próxima ao mar em cidades costeiras, por exemplo, a
tendência de longo prazo dos preços dos terrenos é de alta, já
que tais terrenos são recursos escassos cuja oferta é fixa e
não pode ser aumentada ao longo do tempo. A estrutura de
propriedade da terra em um determinado país influencia
também o preço desta, à medida que uma estrutura mais
concentrada de terra (caracterizada por muitas terras
concentradas na propriedade de poucas pessoas, estrutura
conhecida como latifúndio) tende a aumentar seu preço,
enquanto uma menor concentração da terra disponível
(estrutura conhecida como minifúndio) tende a diminuir o
preço da terra.
O terceiro condicionante sobre os mercados de produtos é a
estrutura de propriedade e de renda. Quanto à estrutura
de propriedade dos recursos, seja o capital, os recursos
naturais ou a força de trabalho, o fator preponderante é o
grupo de famílias que detém uma parcela da propriedade dos
fatores de produção. Este é medido pela porcentagem de
pessoas que concentram certa porcentagem da propriedade
do capital, dos recursos naturais e do volume da força de
trabalho. Quanto menor for a porcentagem de pessoas que
detém a propriedade dos fatores de produção, mais
concentrada é a estrutura de propriedade de uma sociedade.
E se a estrutura de propriedade é concentrada, há poucos
donos de terra e o preço da terra tende a ser maior.

31
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

De outro lado, a estrutura de renda também é importante,


e é relacionada aos grupos de famílias que detém uma parcela
da renda obtida pelo capital, pelos recursos naturais e pela
força de trabalho medida. A influência da estrutura de renda
é medida pela porcentagem de pessoas que concentram certa
porcentagem da renda, e quanto menor for a porcentagem de
pessoas detida por uma determinada parcela da renda, mais
concentrada é a estrutura de renda daquela sociedade. A
estrutura de renda é particularmente importante, pois ela
influencia também a estrutura de demanda de uma
sociedade, isto é, o tipo de produto que uma sociedade irá
consumir de maneira preponderante. Quanto mais renda um
grupo de famílias detiver, menor será o volume desta renda
destinado a bens básicos e maior parcela será destinada aos
bens de luxo; por outro lado, se um grupo de famílias detém
pouca renda, uma maior proporção será gasta em bens
básicos.

Finalmente, o quarto condicionante sobre os mercados de


produtos é a estrutura dos mercados de produto.
Voltaremos a ver este conceito em um capítulo futuro, mas
estrutura de mercado se refere às características de um
mercado que influenciam a maneira como a comercialização
ocorre. Tais características estão relacionadas com o tipo de
interação entre compradores e vendedores em um mercado
específico (isto é, como se dá a concorrência naquele
Mercado). A estrutura de mercado depende de dois fatores:
do número de produtores, e da característica do produto
comercializado. Quanto ao número de produtores, se há vários
produtores, prevalece a livre concorrência e cada produtor não
tem nenhuma influência sobre o preço do produto (caso da
concorrência perfeita). Neste caso há um baixo poder de
mercado da empresa sobre a formação do preço do seu
produto. Mas, na maior parte dos mercados, há apenas poucos
produtores ou até somente um, que, tendo poder de
influenciar o mercado, determinam os tipos e qualidades dos

32
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

produtos e influenciam a formação de preços (alto poder de


mercado). Aqui temos um caso de concorrência imperfeita.
Quanto à característica do produto, o produto pode ser
homogêneo ou diferenciado. Um produto homogêneo é um
produto padronizado, sendo que o mesmo produto ou um
produto muito semelhante é fornecido por todas as empresas
em um mercado (como o caso do arroz, ou da gasolina, por
exemplo). Em muitos casos vezes as empresas oferecem um
produto diferenciado, que é um produto não padronizado,
que podem ser similares mas que não são idênticos, de modo
que as empresas podem cobrar um preço maior pelas
características diferenciadas que o produto possa ter (como,
por exemplo, um automóvel). Quando há diferenciação de
produto, há um alto poder de mercado e a empresa influencia
o preço de seu produto; quando o produto é homogêneo, há
um baixo poder de mercado e a firma pouco ou não influencia
o preço.

33
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Exercícios – Capítulo 2

1. Marca; qualidade; status; “ambiente”; nome (de uma


pessoa) associado ao produto; e reputação (ou imagem) são
características de um produto que servem como fonte de
diferenciação para tal produto, que por sua vez dá poder de
mercado ao produtor daquele produto. Nos exemplos abaixo,
diga se há ou não diferenciação de produto, e, em caso
afirmativo, mencione qual a fonte de diferenciação:
a) lanche do Mc Donald’s b) vidro automotivo comum c) vidro
automotivo temperado d) palestra do Bill Clinton e) almoço
num restaurante de quilo f) almoço no Terraço Itália g) calça
jeans h) calça jeans Diesel i) pacote de cenoura j) par de tênis
k) tênis Adidas

2. Por outro lado, se um produto é homogêneo, isto é, as


características do produto não variam de acordo com o
produtor que o produz (o produto é percebido como sendo o
mesmo, independente de quem o produziu), não há como
diferenciar o produto e o seu produtor não terá poder de
mercado. Há, entretanto, em alguns casos, a possibilidade de
tornar diferenciado um produto homogêneo, usando
estratégias como a propaganda, investimentos na melhoria do
produto e dos seus processos produtivos, etc. Dentre os
exemplos abaixo, diga se o produto é homogêneo ou não, e,
em caso afirmativo, mencione qual seria uma estratégia de
torná-lo um produto diferenciado (se é que isto é possível no
caso deste produto):
a) feijão preto b) gasolina no posto ao lado da UniSantos c)
cenoura d) lanche feito na padaria da esquina e) lanche do
Gordão f) bijuteria g) bijuteria da Morana h) alface da feira i)
automóvel 1.0 j) automóvel BMW k) uma palestra sua sobre
Macroeconomia

3. Além das características do produto, outra fonte importante


de poder de mercado é o número de empresas em um
mercado. Quando há uma ou poucas empresas em um

34
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

mercado, diz-se que cada produtor naquele mercado tem


poder de mercado. Nos exemplos abaixo, diga se há poder de
mercado e como o governo poderia tentar diminuir o poder de
mercado das empresas atuantes naquele mercado (se é que
lhe parece possível):
a) cenoura na feira b) aviões regionais c) automóveis de luxo
d) postos de gasolina em Santos e) postos de gasolina em
Itanhaém f) produtores de petróleo no mundo g) produtores
de chocolate no Brasil h) feijão i) produtores de diamante no
mundo

4. Por que é importante que um determinado produtor tenha


poder de mercado? O que este permite ao produtor que não
seria possível se este não tivesse poder de mercado?

5. Os fatores que influenciam e modificam o comportamento


de um mercado são chamados de condicionantes de um
mercado. O mercado de fatores é um dos condicionantes do
mercado de produtos.
a) Explique como o fator mão de obra pode condicionar o
mercado de produtos.
b) O estoque disponível e a estrutura de propriedade afetam
o preço dos recursos naturais (que por sua vez também afeta
o mercado de produtos). Como? Dê um exemplo de cada um.
Qual a tendência histórica do preço de recursos naturais como
a terra em regiões litorâneas? Por que?
c) O estoque de capital afeta o mercado de produtos, à medida
que quanto menor for seu estoque, maior será seu preço. Além
disso, o lucro e os juros (retorno sobre o capital próprio e de
terceiros, respectivamente) condicionam o mercado de
capitais e, por conseguinte, o mercado de produtos. Como?

6. Explique como a estrutura de renda em um país pode


condicionar o mercado de produtos naquele país.

35
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

7. Como uma tecnologia poupadora de mão de obra pode


afetar o mercado de mão de obra e o mercado de produtos de
um país?

8. O aparelho produtivo de um país se modifica à medida que


ele se desenvolve economicamente. Mostre como se dá este
processo quando um país passa pelos vários estágios de
desenvolvimento (de país subdesenvolvido se torna um país
em desenvolvimento, e depois um país desenvolvido). Quais
setores predominam em cada estágio de desenvolvimento?

9. Uma moeda serve como meio de troca em uma economia,


para atribuir valor aos vários produtos trocados na economia
e como unidade de conta. Em situações de altíssima inflação
(isto é, os preços crescem muito rapidamente na economia)
estes papéis da moeda podem não funcionar mais e as
pessoas podem recusar o intermédio da moeda na economia.
Explique.

10. “O lucro tem um papel fundamental na dinamização do


ciclo produtivo”. Explique esta frase.”

11. Quais destas indústrias fazem parte do setor terciário do


aparelho produtivo?
a. pecuária e comércio b. transportes e siderurgia
c. construção civil e governo
d. seguros e educação e. saúde e pesca

12. Os condicionantes de um mercado são, além de mercado


de fatores e estrutura de propriedade, os seguintes:
a. preço dos insumos e estrutura de renda
b. tecnologia disponível e estrutura de mercado
c. preços dos insumos e preço do capital (juros)
d. estrutura de mercado e preço dos substitutos
e. preços dos recursos naturais e preços dos insumos

36
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

PARTE II – MICROECONOMIA

Capítulo 3 – Oferta e Demanda

V
ejamos agora o estudo da microeconomia. Nesta visão
de análise econômica focamos no comportamento dos
tomadores de decisões individuais (os agentes
econômicos, como famílias, empresas e governo) e avaliamos
suas escolhas e suas interações quando se encontram para
negociar bens e serviços em mercados específicos (como o de
bens e serviços, ou o de fatores da produção).

Vimos no último capítulo que o mercado é o local onde se dão


simultaneamente os vários atos de compra e venda dos
produtos, e onde os fluxos reais e nominais do aparelho
produtivo se encontram, de acordo com o Diagrama do Fluxo
Circular da Renda. Vimos que o fluxo real de produto é a oferta
de um produto e o fluxo nominal de renda é a demanda pelo
produto, e que mercado é o local onde a demanda encontra a
oferta. Vimos também que o preço é o valor de um produto ou
um fator de produção determinado pelo esforço relativo na sua
produção e que o fluxo real de bens ou insumos é trocado pelo
fluxo nominal de moeda por meio do sistema de preços
existentes. Assim, o sistema de preços ajusta a oferta de
algum modo à demanda. Só falta entender como a oferta e a
demanda se ajustam pelos preços. Para tal, é necessário
introduzir um novo modelo econômico, o modelo de oferta e
demanda, no qual a demanda e a oferta em conjunto
determinam os preços (ou valor do produto) e as quantidades
produzidas e consumidas (quanto é vendido e comprado de
cada produto) nestes mercados.

37
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Análise dos mercados

A economia de um país é o conjunto de todos os seus


mercados. O mercado é o local onde os detentores da renda
vão satisfazer suas necessidades comprando o produto, ou
alternativamente, é o local onde o fluxo real de produto (a
oferta) encontra o fluxo nominal de renda (a demanda).
Enquanto os compradores (ou consumidores) determinam a
demanda, os vendedores (ou produtores) determinam a
oferta. Mas para se analisar um mercado temos que definir em
detalhe alguns parâmetros. Em primeiro lugar, deve-se definir
qual é o produto em questão. Dependendo do produto,
famílias, empresas ou governos podem ser tanto os
vendedores quanto os compradores. No mercado de aviões de
guerra, os governos são os compradores e as empresas
fabricantes destes aviões são os vendedores. Já no mercado
de títulos de dívida pública, as famílias e as empresas (e até
governos de outros países) são os compradores enquanto o
governo é o vendedor. No mercado de trabalho, as empresas
e o governo são os compradores e as famílias são as
vendedoras.

Em segundo lugar, é necessário escolher a área geográfica


do mercado no qual os vendedores e compradores se
encontram. Um mercado pode ser uma feira de sábado de
manhã, onde produtos hortifrutigranjeiros são vendidos em
uma dada rua em um bairro de uma determinada cidade.
Neste caso os compradores são em sua maioria pessoas
residentes naquele bairro enquanto os vendedores são
produtores de vários bairros da cidade e alguns até de outras
cidades. Ou o mercado pode ser o da venda de automóveis de
uma determinada marca em uma dada cidade. Neste caso
temos tipicamente um só vendedor e vários compradores
moradores daquela cidade. O mercado pode ser de dimensão
nacional, como o de uma empresa produtora de fornos para
assar pão que vende para padarias em todo o país, ou um
mercado de dimensão internacional, como no caso do mercado

38
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

de aviões regionais, onde duas empresas (a brasileira Embraer


e a canadense Bombardier) vendem seus aviões para
empresas de aviação em todo o mundo.

Finalmente, é preciso avaliar o modo de competição entre


vendedores e compradores naquele mercado. Em muitos
casos, compradores ou vendedores individuais têm influência
significativa sobre o preço vigente no mercado. No mercado
internacional de minério de ferro, por exemplo, as empresas
siderúrgicas chinesas são as maiores compradoras e, na
negociação pelo preço do produto com os grandes produtores
de minério (entre eles a brasileira Vale), têm (atuando em
grupo) algum poder de influenciar o preço final do produto. No
mercado de aço no Brasil, poucas empresas produzem aço
laminado e têm poder de influência sobre a formação do preço
deste produto. Assim, a estrutura de mercado é o tipo de
interação que se dá entre compradores e vendedores em um
mercado específico e está relacionada ao grau de competição
em um mercado. O grau de competição (ou poder de
mercado) é a forma da concorrência naquele mercado
específico. Quanto à forma da concorrência, há os mercados
de competição imperfeita, onde compradores ou
vendedores individuais têm alguma influência sobre o preço
do produto, e os mercados de competição perfeita (ou
mercados competitivos), onde compradores ou vendedores
individuais não têm influência e têm de aceitar o preço como
dado pelo mercado.

Em capítulo posterior veremos como se dá a análise


microeconômica dos mercados de competição imperfeita. Por
agora, vamos nos ater à análise dos mercados de competição
perfeita. O modelo de oferta e demanda foi criado para
explicar como os preços e a quantidade de produto são
determinados em mercados de competição perfeita. O
mercado competitivo é caracterizado pela presença de muitos
compradores e vendedores; pelo impacto mínimo que cada
comprador e vendedor individual têm sobre os preços de

39
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

mercado; e pela ausência de controle da oferta ou da demanda


por um ou por poucos agentes econômicos.

Modelo de Oferta e Demanda: Análise da Demanda

Comecemos nossa análise do modelo de oferta e demanda


pelo ponto de vista dos compradores, isto é, pela demanda.
Tendo em mente a necessidade de um comprador individual,
podemos definir demanda por um produto como a
necessidade de um produto que as pessoas querem e podem
comprar. Há demanda (ou procura) por um produto quando
há a necessidade ou interesse do comprador de se consumir
aquele produto e é possível para aquele comprador comprar
aquele produto. Um comprador que deteste anchovas, por
exemplo, não demandará aquele produto pois não tem
interesse em consumir tal produto, ainda que possa comprá-
lo. Por outro lado, enquanto a maioria de nós deseja comprar
um automóvel Audi esportivo, e não o fará por restrições de
renda que nos impossibilita de comprá-lo, algumas pessoas
têm a demanda por tal automóvel, pois desejam e podem
comprá-lo. Já a quantidade demandada é definida como a
quantidade de produto que um comprador deseja e pode
comprar a um determinado preço do produto. Assim, a
quantidade demandada é a quantidade da demanda de certo
produto por um indivíduo.

Na definição de quantidade demandada notamos que o preço


aparece nesta, e deve influenciá-la de algum modo. Mas
como? Observe que quando um produto é mais caro ou se
torna subitamente mais caro, as pessoas reagem comprando
menos dele. Ou seja, quando o preço de um produto sobe, a
sua quantidade demandada cai, e vice-versa. Esta é a Lei da
Demanda: há uma relação inversa (negativa) entre preço e
quantidade demandada, ou, de outro modo, quando o preço
de um produto sobe e todas as outras coisas permanecem
inalteradas, a sua quantidade demandada cai, e vice-versa. É

40
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

necessário aqui assumir que as outras coisas permanecem


inalteradas para que possamos entender separadamente o
efeito do preço sobre a demanda de um produto.

Podemos mostrar graficamente a relação inversa entre o preço


de um produto e sua quantidade demandada em uma curva
de demanda. A curva de demanda é uma linha inclinada para
baixo relacionando preço com quantidade demandada.
Podemos também exibir a relação entre preço e quantidade
demandada de maneira numérica. O esquema de demanda
é uma tabela que mostra a relação entre o preço de um bem
e a quantidade demandada. Se, por exemplo, for possível
anotar a demanda por minério de ferro de uma empresa
siderúrgica chinesa, a curva de demanda e o esquema de
demanda daquela empresa seriam algo semelhante ao exibido
na Figura 3. A um preço de $2,00 por tonelada, a siderúrgica
chinesa consumiria uma quantidade demandada de 6
toneladas. Se, entretanto, o preço fosse de $1 por tonelada, a
quantidade demandada aumentaria para 12 toneladas, e
assim por diante.

41
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Preço
Minério
($/ton)

$3,00 Preço Quant.


$0,00 18
2,50 0,50 15
1,00 12
2,00
1,50 9
1,50 2,00 6
2,50 3
1,00
3,00 0
0,50

Quantidade
0 3 6 9 12 15 18 Minério (tons)

Figura 3 – Curva de Demanda e Esquema de Demanda por Minério de


Ferro (exemplo hipotético)

Vimos como relacionar preço e quantidade demandada de um


produto para um consumidor em particular e construir uma
curva de demanda para este consumidor. E se, no entanto,
desejarmos construir uma curva de demanda para o mercado
como um todo? A demanda de mercado refere-se a soma
de todas as demandas individuais para um bem ou serviço em
particular. Graficamente, as curvas de demanda individuais
são somadas horizontalmente para obter-se a curva de
demanda do mercado. Uma soma horizontal é feita da
seguinte forma. Para cada preço, soma-se a quantidade
demandada na curva de demanda de um consumidor
individual com a quantidade demandada na curva de demanda
de outro consumidor individual, e isto é repetido até
somarmos todos os consumidores naquele mercado. Se em
um mercado houver duas empresas idênticas à siderúrgica
chinesa do exemplo anterior, para construir-se a curva de

42
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

demanda do mercado deve-se no ponto de $2 por tonelada,


por exemplo, somar a quantidade demandada de cada firma
(6 toneladas), de modo que a soma horizontal da quantidade
demandada para aquele preço é igual a 12 toneladas (6 + 6).
Isto é repetido para cada preço na curva até construir-se a
curva inteira de demanda de mercado.

Determinantes da Demanda

A demanda por um determinado produto é influenciada por


vários fatores. Antes de vê-los, é importante distinguir entre
variações na demanda e variações na quantidade demandada.
Uma variação na quantidade demandada é causada por
mudanças no preço de mercado do produto. Como já vimos
na explicação da Lei da Demanda, tudo o mais constante,
quando o preço de um produto sobe a sua quantidade
demandada cai. Isto é representado na curva de demanda por
um movimento na linha da curva de demanda. Isto é ilustrado
na Figura 4 abaixo. Um evento que aumente o preço de um
produto como, por exemplo, a cobrança de um novo imposto
sobre a venda de minério, faz com que haja um ajuste na
quantidade demandada de uma maneira que há um
movimento ao longo da curva de demanda (do ponto A ao
ponto B) até um ponto onde a quantidade demandada é
menor.

43
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Preço
Minério
($/ton)

B
$2,00

1,00 A

D
0 12
6 Quantidade Minério
(tons)
Figura 4 – Impacto de um Aumento no Preço sobre a Quantidade
Demandada de Minério de Ferro (exemplo hipotético)

Já uma variação na demanda é dada por mudanças em


outros fatores que não seja o preço (os quais listamos abaixo).
Tal variação é representada por um movimento da curva de
demanda para a esquerda ou para a direita. Isto é ilustrado
na Figura 5. Um evento que aumente a renda do consumidor
(quando ele ganha na loteria, por exemplo) faz com que este
tenha maior poder de compra do que antes, e possa, dado um
preço, aumentar a quantidade demandada daquele produto, o
que faz com que sua curva de demanda se desloque para a
direita. Já um evento que reduza a renda de um consumidor
(quando ele perde seu emprego, por exemplo) faz com que
este tenha menor poder aquisitivo, e, dado um preço, tenha
que diminuir a quantidade demandada daquele produto, o que
faz com que sua curva de demanda se desloque para a
esquerda.

44
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Preço
Minério
($/ton)

Aumento na
demanda

Diminuição na
demanda

D’’ D D’
0 Quantidade
Minério
(tons)
Figura 5 – Impacto de um Aumento e de uma Diminuição na Renda
sobre a Quantidade Demandada de Minério de Ferro (exemplo
hipotético)

Quais são então os fatores que causam variações na


demanda? O primeiro deles é, como acabamos de ver, a renda
(ou a riqueza) do consumidor. Renda é definida como a
quantia em dinheiro que uma pessoa recebe em um
determinado período de tempo. Riqueza é o valor total de
tudo o que uma pessoa possui em um determinado período no
tempo, descontado o valor das dívidas que esta possua. Tudo
o mais constante, um aumento na renda ou na riqueza do
consumidor faz com que este, a um determinado preço,
escolha comprar mais (aumenta a quantidade demandada) de
um produto e sua curva de demanda se desloca para a direita.
Se a renda diminui, o oposto ocorre e a curva de demanda se
desloca para a esquerda.

45
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Cabe aqui abrir um parêntese e mencionar que a análise


anterior vale para os bens normais. Um bem normal é um
produto que as pessoas demandam mais com o aumento de
sua renda ou riqueza. Se você ficar mais rico e demandar um
automóvel mais caro ou roupas mais caras, então estes dois
produtos são bens normais. Em contraste, um bem inferior
é aquele que as pessoas demandam menos com o aumento
da renda ou riqueza. Roupas ou casas de menor qualidade são
exemplos de bens inferiores, à medida que os compradores
preferem substituir a demanda destes produtos por outros
produtos de melhor qualidade quando eles se tornam mais
ricos, diminuindo assim sua quantidade demandada.

O segundo fator que causa variações na demanda é o preço


de bens relacionados ao produto em questão. Há dois tipos
de bens relacionados: bem complementar e bem substituto.
Um bem complementar é um bem que é usado juntamente
com outro bem. Por exemplo, café e açúcar são bens
complementares. Tudo o mais constante, a queda no preço de
um bem complementar aumenta a demanda do produto em
questão (já que a demanda do bem complementar aumenta)
e a sua curva de demanda se desloca para a direita, e o oposto
ocorre quando o preço do bem complementar aumenta. Já um
bem substituto é um bem que pode ser usado em lugar de
outro e desempenha mais ou menos a mesma função. Por
exemplo, carne bovina e carne de frango são bens substitutos.
Tudo o mais constante, a queda no preço de um bem
substituto reduz a demanda do produto em questão (já que a
demanda do bem substituto aumenta) e a sua curva de
demanda se desloca para a esquerda, e o oposto ocorre
quando o preço do bem substituto aumenta.

Outro fator que impacta a demanda de um produto são os


gostos por um produto. Gosto por um produto é o conjunto
de características daquele produto que influencia a atitude do
consumidor em relação a um produto. Quando os gostos
mudam em favor de um produto, as pessoas gostam mais

46
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

daquele produto, a quantidade demandada pelo produto


aumenta e a curva de demanda se desloca para a direita. O
oposto ocorre quando os gostos mudam de maneira
desfavorável ao produto, e a curva de demanda se desloca
para a esquerda. Variações na população também explicam
variações na demanda por um produto. Um aumento na
população de uma determinada região normalmente causa um
aumento da quantidade demandada de um produto naquela
área e a curva de demanda se desloca para a direita.
Finalmente, as expectativas com relação a eventos futuros
também causam variações na demanda por um produto. Se
as pessoas esperam que o preço de um ativo como a ação da
Petrobrás irá subir no futuro, elas poderão antecipar e comprar
mais desta ação agora, aumentando já no presente a
quantidade demandada e deslocando para a direita sua curva
de demanda. O oposto ocorre com expectativas que causam o
adiamento da compra de um ativo, por exemplo, achando que
no futuro o seu preço irá cair, diminuindo já no presente a
quantidade demandada e deslocando para a esquerda a curva
de demanda do ativo.

Modelo de Oferta e Demanda: Análise da Oferta

Passemos agora para o ponto de vista dos vendedores, isto é,


para a oferta. A oferta de um produto é aquilo que as
empresas estão dispostas e prontas a vender. Já a
quantidade ofertada é a quantidade de um bem que os
vendedores estão dispostos e prontos a vender. Só podemos
falar em quantidade ofertada de um produto daquilo que as
empresas possam efetivamente oferecer no presente. Se uma
empresa como a Petrobrás anuncia a descoberta de enormes
campos de petróleo na camada de pré-sal a milhares de
metros abaixo da superfície, mas ainda não tem a capacidade
de retirar e processar o petróleo destes campos, então não
podemos contar ainda com este petróleo como oferta efetiva
de petróleo hoje. Do mesmo modo, se produtores de café

47
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

fazem estoque do produto, não estando dispostos a oferecê-


los no mercado, tais estoques também não fazem parte da
quantidade ofertada atual.

Note também que a quantidade ofertada é a quantidade da


oferta de certo produto. Do mesmo modo que a demanda,
notamos que o preço deve influenciar a oferta de alguma
maneira. Observamos que quando um produto é mais caro ou
se torna subitamente mais caro, os vendedores gostariam de
oferecer mais do produto ao novo preço (mais alto). Assim,
quando o preço de um produto sobe, a sua quantidade
ofertada aumenta, e vice-versa. Esta é a Lei da Oferta: há
uma relação direta (positiva) entre preço e quantidade
ofertada. Isto é, quando o preço de um produto sobe e todas
as outras coisas permanecem inalteradas, a sua quantidade
ofertada aumenta, e vice-versa.

A relação direta entre o preço de um produto e sua quantidade


ofertada pode ser vista em uma curva de oferta. A curva de
oferta é uma linha inclinada para cima relacionando preço
com quantidade ofertada. Já um esquema de oferta é uma
tabela que mostra a relação entre preço e a quantidade
ofertada de maneira numérica.

Na Figura 6 abaixo temos um exemplo de curva de oferta e de


esquema de oferta para uma empresa mineradora brasileira
produtora de minério de ferro. A um preço de $1 por tonelada
de minério, a mineradora brasileira ofertaria uma quantidade
ofertada de 1 tonelada. Se, entretanto, o preço fosse de $2
por tonelada, a quantidade ofertada aumentaria para 6
toneladas.

48
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Preço
Minério
($/ton)

$3,00 Preço Quant.


$0,00 0
2,50 0,50 0
1,00 1
2,00 1,50 3
2,00 6
1,50 2,50 9
3,00 12
1,00

0,50
Quantidade
Minério
0 1 3 6 9 12 15 18 (tons)

Figura 6 – Curva de Oferta e Esquema de Oferta por Minério de Ferro


(exemplo hipotético)

No esquema de oferta anterior, mostramos a relação entre


preço e quantidade ofertada de produto para um produtor em
particular. Para construirmos a curva de oferta para o mercado
como um todo procedemos tal como fizemos na análise da
demanda. A oferta de mercado refere-se à soma de todas
as ofertas individuais para um produto, e, para obtê-la
graficamente, somamos horizontalmente as curvas de
oferta individuais. Para cada preço, soma-se a quantidade
ofertada na curva de oferta de um produtor individual com a
quantidade ofertada na curva de oferta de outro um produtor
individual, e isto é repetido até somarmos todos os produtores
naquele mercado.

49
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Determinantes da Oferta

Tal como no caso da demanda, a oferta de um determinado


produto é influenciada por vários fatores. Vamos em primeiro
lugar discutir as diferenças entre variações na oferta e
variações na quantidade ofertada. Uma variação na
quantidade ofertada é causada por mudanças no preço de
mercado do produto. Como vimos no caso da Lei da Oferta,
tudo o mais constante, quando o preço de um produto sobe a
sua quantidade ofertada aumenta. Isto é representado na
curva de oferta por um movimento na linha da curva de oferta.
Isto é ilustrado na Figura 7 abaixo. Um evento que aumente o
preço de um produto como, por exemplo, a cobrança de um
novo imposto sobre a venda de minério, faz com que haja um
ajuste na quantidade ofertada de uma maneira que há um
movimento ao longo da curva de oferta até um ponto onde a
quantidade ofertada é menor.

Preço
Minério
($/ton) O
B
$3.00

A
1.00

Quantidade
Minério
0 1 12 (tons)

Figura 7 – Impacto de um Aumento no Preço sobre a Quantidade


Ofertada de Minério de Ferro (exemplo hipotético)

50
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Uma variação na oferta é dada por mudanças em outros


fatores que não seja o preço (vide abaixo). Tal variação é
representada por um movimento da curva de oferta para a
esquerda ou para a direita. Isto é ilustrado na Figura 8. Um
evento que diminua o custo dos insumos ao produtor (quando
os impostos sobre insumos são reduzidos, por exemplo) faz
com que este possa ter um lucro maior para produzir seus
produtos, e possa, dado um preço, aumentar a quantidade
ofertada daquele produto, o que faz com que sua curva de
oferta se desloque para a direita. Já um evento que aumente
o custo dos insumos ao produtor (quando os impostos sobre
insumos são aumentados, por exemplo) faz com que este
tenha seus lucros diminuídos, e tenha que, dado um preço,
diminuir a quantidade ofertada daquele produto, o que desloca
a curva de oferta para a esquerda.

Preço
Minério
($/ton) O’’ O O’

Diminuição
da oferta

Aumento
na oferta

Quantidade
Minério
0 (tons)

Figura 8 – Impacto de um Aumento e de uma Diminuição no Custo dos


Insumos sobre a Quantidade Ofertada de Minério de Ferro (exemplo
hipotético)

51
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Quais são então os fatores que causam variações na oferta? O


primeiro deles é o preço dos insumos. O aumento no preço
de qualquer insumo utilizado na produção torna o custo de
produção maior e torna o lucro menor. Tudo o mais constante,
um aumento no preço dos insumos do produtor faz com que
este, a um determinado preço, escolha vender menos (diminui
a quantidade ofertada) e sua curva de oferta se desloca para
a esquerda. Se o preço dos insumos diminui, o oposto ocorre
e a curva de oferta se desloca para a direita.

O segundo fator que causa variações na oferta é o


aparecimento de avanços tecnológicos com relação à
produção de um produto. Um avanço tecnológico ocorre
quando uma empresa consegue produzir um dado nível de
produção de uma maneira nova e mais barata. Ao utilizar uma
máquina nova de extração de minério, uma mineradora pode
ter seus custos de produção barateados. Os avanços
tecnológicos que reduzem os custos aumentam a oferta de um
produto e desloca a curva de oferta para a direita.

Outro fator que influencia as variações na oferta é a


lucratividade de bens alternativos. Quando uma empresa
pode trocar a produção facilmente de um produto para outro
sem ajustes muito significativos, ela pode trocar a produção
de um produto para outro produto alternativo. Dois produtos
alternativos são, por exemplo, automóveis e caminhonetes.
De modo geral, quando um produto alternativo se torna mais
lucrativo (porque seu custo caiu ou teve algum avanço
tecnológico) a quantidade ofertada tende a cair e a oferta do
produto em questão de desloca para a esquerda.

Um quarto fator que causa variações na oferta de um produto


é a variação na sua capacidade produtiva. A capacidade de
produção dos produtores depende do número de produtores
existentes e pelas instalações e equipamentos que cada
empresa possui. Se a capacidade produtiva dos produtores se
eleva, os produtores querem vender uma quantidade maior de

52
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

produto a um dado preço, e a curva de oferta se desloca para


a direita. Finalmente, as expectativas com relação a eventos
futuros também causam variações na oferta por um produto.
Se a empresa espera que o preço de seus produtos vá subir
no futuro, esta tenderia a deixar a produção e suas vendas
para o futuro, causando já no presente uma diminuição na
quantidade ofertada e deslocando para a esquerda sua curva
de oferta.

Análise Conjunta de Oferta e Demanda

No mercado a demanda encontra a oferta. E o que acontece


quando as duas se encontram? As duas partes têm objetivos
diferentes. O comprador quer pagar o menor preço possível
enquanto o vendedor quer receber o maior preço possível.
Como é possível conciliar estes interesses? Usando o exemplo
anterior do mercado de minério de ferro, observemos as
curvas de demanda da siderúrgica chinesa e da mineradora
brasileira. Se o preço de mercado fosse $1, teríamos
problemas: a este preço os chineses demandam 12 toneladas
enquanto os brasileiros querem oferecer apenas uma
tonelada. Já a um preço de $3, a siderúrgica demanda zero
toneladas e a mineradora quer oferecer 12 toneladas, e
também não haveria negócio. Mas olhando estes números,
parece que deve haver algum ponto de negociação entre $1 e
$3 que satisfaça tanto ao comprador quanto ao vendedor. De
fato, a $1,50 a quantidade demandada é de nove toneladas e
a quantidade ofertada é de três toneladas, e a negociação está
mais próxima de fechar. Finalmente, a $2 a quantidade
demandada e a quantidade ofertada são iguais a seis
toneladas e a negociação se encerra, com ambas as partes
felizes!

A este ponto no qual a negociação entre compradores e


vendedores se torna possível chamamos de ponto de
equilíbrio. O ponto de equilíbrio é um estado de preço e

53
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

quantidade de um produto no qual, uma vez atingido, não


mudará, a menos que haja que algum fator externo também
mude. Neste ponto temos um preço de equilíbrio e uma
quantidade de equilíbrio. O preço de equilíbrio é o preço que
iguala oferta e demanda. Graficamente, é o preço em que as
curvas de oferta e demanda se cruzam. Já a quantidade de
equilíbrio é a quantidade que iguala a oferta à demanda.
Graficamente, é a quantidade em que as curvas de oferta e
demanda se cruzam (ponto Q na Figura 9 abaixo). Assim,
sempre que queremos encontrar o preço e a quantidade de
equilíbrio em um mercado competitivo, devemos desenhar em
conjunto as curvas de oferta e de demanda. O ponto de
equilíbrio será o ponto de interseção entre as duas curvas.

Preço
Minério
($/ton
O
$3,00

2,50

2,00 . Q

1,50

1,00
D
0,50 Quantidade
Minério
0 1 3 6 9 12 (tons)

Figura 9 – Análise Conjunta da Oferta e da Demanda por Minério de


Ferro (exemplo hipotético)

54
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Note que somente no ponto de equilíbrio tanto a demanda


quanto a oferta são satisfeitas. Em qualquer outro ponto
haverá uma entre duas possíveis situações de desequilíbrio,
excesso de oferta ou excesso de demanda. O excesso de
oferta (ou excedente) ocorre sempre que o preço do produto
está acima do preço de equilíbrio do mercado, e a quantidade
ofertada excede a quantidade demandada. Já um excesso de
demanda (ou escassez) é uma situação na qual o preço do
produto está abaixo do preço de equilíbrio do mercado, e a
quantidade demandada excede a quantidade ofertada (veja
ambas as situações ilustradas na Figura 10). Quando há um
excesso de oferta, a tendência é que os vendedores baixem o
preço para aumentar as vendas, movendo assim o mercado
em direção ao equilíbrio. Já no caso do excesso de demanda,
os vendedores irão aumentar o preço em função do excesso
de compradores para tão poucos bens, movendo o mercado
em direção ao equilíbrio.

Preço
Minério
($/ton)
O
$3,00 Excesso de oferta

2,50

2,00

1,50

1,00 Excesso de demanda


0,50 D
Quantidade
Minério (tons)
0 1 3 6 9 12

Figura 10 – Análise de Situações de Excesso de Oferta e de Excesso


de Demanda por Minério de Ferro (exemplo hipotético)

55
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Mencionamos anteriormente que o ponto de equilíbrio é


estável e, uma vez atingido, não mudará, a menos que haja
algum fator externo que mude. E se algum fator externo
mudar? Mudanças de políticas de governo ou eventos
climáticos ou políticos tipicamente acontecem de maneira
inesperada e afetam a curva de demanda, a curva de oferta
ou ambas, e o ponto de equilíbrio de mercado certamente
mudará. Para avaliar mudanças no equilíbrio de um mercado
é necessário seguir alguns passos. Em primeiro lugar, deve-
se avaliar se o evento afeta a curva de demanda, a curva de
oferta ou ambas. Em segundo lugar, avalia-se em qual direção
a curva em questão se desloca. Finalmente, utiliza-se um
diagrama de oferta e demanda para ver como o deslocamento
altera o equilíbrio.

Preço
Minério
($/ton)

2,50

2,00
1,50

D’’
D D’
0 3 6 9 Quantidade Minério (tons)

Figura 11 – Análise de Mudanças na Demanda por Minério de Ferro


(exemplo hipotético)

56
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Os efeitos de mudanças na curva de demanda no ponto de


equilíbrio de um mercado são ilustrados na Figura 11. Note
que qualquer mudança que desloque a curva de demanda para
a esquerda (por exemplo, uma queda nas compras de aço, o
qual utiliza minério como insumo) faz diminuir o preço de
equilíbrio e reduzir a quantidade de equilíbrio do mercado em
questão, e que qualquer mudança que desloque a curva de
demanda para a direita (por exemplo, um aumento nas
compras de aço, o qual utiliza minério como insumo) faz subir
o preço de equilíbrio e aumentar a quantidade de equilíbrio do
mercado em questão. Mudanças na curva de demanda são
tipicamente causadas por mudanças em algum dos
determinantes da demanda.

Preço
Minério
($/ton)

O’’
O
O’

2,50
2,00
1,50

0 1 3 6 9 Quantidade Minério (tons)

Figura 12 – Análise de Mudanças na Oferta de Minério de Ferro


(exemplo hipotético)

57
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Os efeitos de mudanças na curva de oferta no ponto de


equilíbrio de um mercado são ilustrados na Figura 12. Note
que qualquer mudança que desloque a curva de oferta para a
esquerda (como um aumento do custo dos insumos da
mineradora, por exemplo) faz aumentar o preço de equilíbrio
e reduzir a quantidade de equilíbrio do mercado em questão,
e que qualquer mudança que desloque a curva de oferta para
a direita (como uma redução nos custos de insumos da
mineradora) faz diminuir o preço de equilíbrio e aumentar a
quantidade de equilíbrio do mercado em questão. Mudanças
na curva de oferta são tipicamente causadas por mudanças
em algum dos determinantes da oferta.

Exercícios – Capítulo 3

1. Calcule a demanda de mercado para um sanduíche do


McDonald’s, cujo esquema de demanda para três
consumidores é dado abaixo:

Preço (R$) Caio Bruna Lucila


0,00 5 10 4
0,50 5 9 4
1,00 5 8 3
1,50 5 7 3
2,00 5 6 2
2,50 5 5 2
3,00 5 4 1
3,50 5 3 1
4,00 5 1 0

2. Considere o mercado do trigo. Suponha que as curvas de


oferta e de demanda por trigo sejam QS = 1944 + 207P, e QD
= 3244 - 283P, respectivamente, onde Q e P sejam a
quantidade e preço do trigo, respectivamente. Qual será o

58
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

preço do trigo no livre mercado e que quantidade será


produzida e vendida pelos agricultores neste caso?

3. Biscoitos e requeijão são considerados bens


complementares.
a) Observa-se que o preço de equilíbrio do requeijão e a
quantidade de equilíbrio dos biscoitos aumentaram. O que
poderia ter provocado esta alteração – uma queda no preço
da farinha ou uma queda no preço do leite? Explique.

b) Suponha que o preço de equilíbrio do requeijão aumentou


mas a quantidade de equilíbrio dos biscoitos caiu. O que
poderia ter provocado esta alteração – um aumento no preço
da farinha ou um aumento no preço do leite? Explique.

4. Refrigerante e pizza são frequentemente considerados bens


complementares porque em geral são consumidos na mesma
ocasião. Se isto é verdade, quando o preço do refrigerante
aumenta, o que acontece, no mercado de pizza, com a oferta,
a demanda, e a quantidade e o preço de equilíbrio? Mostre
graficamente.

5. Carne bovina e carne de frango são frequentemente


considerados bens substitutos, porque em geral o consumo de
um produto é substituído pelo consumo do outro quando há
variações de preço ou quantidade do primeiro produto. Se isto
é verdade, quando o preço da carne bovina na União Europeia
aumentou (por conta da doença da “Vaca Louca”, que assolou
o Reino Unido em meados dos anos 1990), o que aconteceu,
no mercado de frango europeu, com a oferta, a demanda, e a
quantidade e o preço de equilíbrio? Mostre graficamente.

6. Com relação ao referendo sobre a proibição da


comercialização de armas de fogo no Brasil, que foi votado em
2005 e que teve como resultado a proibição das vendas de
armas de fogo, com a proibição, no curto prazo supõe-se que
a oferta de armas de fogo deve se manter a mesma, enquanto

59
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

que a demanda por armas de fogo se ajustará, até uma


quantidade de equilíbrio muito menor que a anterior,
entretanto diferente de zero. Num gráfico de demanda e
oferta, mostre a situação de equilíbrio antes e depois da
proibição da comercialização de armas de fogo. O que
acontece com o preço e a quantidade de equilíbrio?

7. Suponha que o mercado de automóveis de luxo esteja em


equilíbrio. Quais seriam os efeitos para esse mercado caso
ocorresse uma queda acentuada na renda dos consumidores
da Classe A de consumo? E se caísse acentuadamente a renda
dos consumidores da Classe E de consumo?

8. Para responder a questão, leia o trecho do texto “Grandes


Danos à Produção de Petróleo nos EUA”, publicado no Valor
Econômico em 29/09/2005:
“O furacão Rita provocou mais danos às plataformas de
petróleo no Golfo do México do que qualquer outro que já
passou pela região. A lenta recuperação das refinarias
atingidas pelo Rita e pelo Katrina vai manter os preços dos
combustíveis em alta no mundo pelo resto do ano, preveem
analistas de mercado. Além de danificar plataformas, o Rita
atingiu seriamente ao menos quatro grandes refinarias na
fronteira entre o Texas e a Louisiana. Na área do Golfo do
México, mais de dez refinarias importantes desses Estados
ainda têm de reiniciar suas operações. A grande questão agora
é quanto tempo levará para que voltem a operar a plena
carga. Hoje, cerca de 10% da capacidade de refino dos EUA
está paralisada. O preço do petróleo fechou ontem com alta
expressiva. Os contratos para entrega em novembro
negociados em Nova York subiram US$ 1,28, para US$ 66,35
dólares o barril.”

Qual dentre os efeitos abaixo deve ter acontecido


imediatamente após a devastação do furacão Katrina
(explique):
a) O preço dos automóveis a álcool e bicombustível deve cair.

60
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

b) A procura por automóveis a álcool e bicombustível deve


diminuir.
c) O preço dos automóveis a álcool e bicombustível deve subir.
d) A procura por automóveis a álcool e bicombustível deve
aumentar.
9. Para responder a questão, leia o trecho do texto “Usiminas
Investe em Tecnologia para Atender Indústria do Petróleo”, (A
Tribuna, 18/09/2009): “De olho na exploração do petróleo e
gás na Bacia de Santos, a Usiminas decidiu investir R$650
milhões para instalar na usina de Ipatinga, em Minas Gerais,
uma tecnologia que vai possibilitar a produção de aços mais
resistentes para atender as necessidades dos equipamentos
de exploração no pré-sal.”.

Num gráfico de demanda e oferta, mostre a situação de


equilíbrio no mercado de aço resistente antes e depois da
introdução da inovação tecnológica pela Usiminas. O que
acontece com o preço e a quantidade de equilíbrio?

10. Levando em conta a diferença entre bens normais e bens


inferiores, analise o que acontece com a quantidade
demandada de equilíbrio nos mercados de automóveis
compactos e de viagem de transporte via ônibus quando
ocorre um aumento de renda forte para as classes C, D e E
(como realmente ocorreu nos últimos quinze anos no Brasil).

11. “O mercado imobiliário em Santos já está com os preços


pressionados, e a tendência é piorar com cada anúncio de
novas descobertas do pré-sal e com a chegada da Petrobrás a
Santos em 2012”. Comente esta frase, utilizando os
determinantes da demanda.

Para as questões 12 e 13 abaixo, considere o seguinte trecho


do artigo “Preço do álcool deve continuar a subir” (A Tribuna,
29/09/2009): “A vantagem do carro a álcool é o preço do
combustível. Mas a alta de preços do produto comercializado
pelas usinas, que vem acontecendo desde o início do mês,

61
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

continua a refletir nas bombas. Sem dar sinais de trégua, a


tendência é de que o preço do litro continue a subir por tempo
indeterminado.... (Houve) um crescimento de 1,29% (no
preço do álcool), entre 30/08 e 26/09, enquanto a gasolina,
no mesmo período, subiu 0,41%.... O consumidor encontrava
o litro do álcool variando entre R$ 1,249 e R$ 1,499. Segundo
o setor, os motivos para a aceleração nos preços foram as
exportações brasileiras de açúcar em maior quantidade, em
razão do período de quebra de safra na Índia, e a chuva que
prejudica a qualidade da cana.”.

12. Qual é o impacto provável da alta continuada dos preços


do álcool nos preços e nas quantidades nos mercados de
gasolina e de automóveis movidos a álcool? Explique.

13. Como o aumento das exportações brasileiras de açúcar, a


quebra de safra na Índia, e a chuva em maior quantidade
podem ter impactado o preço do álcool?

14. Para responder a questão, considere a explicação de um


economista sobre o mercado acionário: “O mercado de ações
é um conjunto de mercados individuais perfeitamente
competitivos em que são negociadas as ações de firmas
específicas. Os investidores tipicamente escolhem entre
comprar ações ou ativos de renda fixa. Já os fundos de ações
são complementares às ações. O mercado acionário tem uma
especificidade: as mudanças observadas nos preços de uma
ação – em alguns minutos, alguns dias ou alguns anos – são,
em quase todos os casos, causadas por deslocamentos da
curva de demanda. Expectativas de maiores lucros futuros,
expansão econômica e menores taxas de juros causam um
deslocamento da curva de demanda para a direita. Já a curva
de oferta é vertical, com a oferta de uma ação sendo constante
em um dado momento.”

Explique e mostre em um gráfico o impacto provável de um


crescimento da economia brasileira (que aumenta a renda dos

62
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

agentes econômicos atuantes no mercado acionário) nos


preços e nas quantidades nos mercados de ações, de renda
fixa e de fundos de ações.

15. Além de ser um condimento, o catchup é um complemento


dos cachorros-quentes. Se o preço do cachorro quente subir:
a) o que acontecerá com a oferta, a demanda, e a quantidade
e o preço de equilíbrio no mercado de catchup? b) E o que
acontecerá com a oferta, a demanda, e a quantidade e o preço
de equilíbrio no mercado de tomate (insumo usado na
produção de catchup)?

16. 1) Trace curvas de oferta (O) e demanda (D) para o


mercado do automóvel popular Gol 1.0. Indique o preço e
quantidade transacionada de equilíbrio (Po e Qo,
respectivamente). Suponha agora que o governo, como
resultado dos acordos do Mercosul, elimine as tarifas de
importação para outros carros populares. Indique que efeito
isso poderia ter no mercado do Gol 1.0: o que ocorre com a
oferta, a demanda, e o preço e quantidade de equilíbrio?

17. 1) Utilizando os conceitos de bens normais e bens


inferiores, analise o que acontece com o preço e com a
quantidade demandada de equilíbrio nos mercados de
automóveis compactos e de viagem de transporte via ônibus
quando ocorre um aumento de renda forte para as classes C,
D e E (como realmente ocorreu nos últimos quinze anos no
Brasil).

63
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Capítulo 4 – Aplicações da Oferta e Demanda

V
imos no capítulo anterior o modelo básico de oferta e
demanda e algumas de suas aplicações à análise dos
fatos econômicos que ocorrem todos os dias. Fatos que
ocorrem de maneira externa a um mercado o impactam,
afetando seu preço e quantidade de equilíbrio. Vejamos agora
mais algumas aplicações do modelo básico de oferta e
demanda na análise econômica, em particular, como decisões
de governo tais como alterar impostos, criação de subsídios e
a imposição de preços mínimos ou máximos, podem afetar o
funcionamento dos mercados. Veremos também o conceito de
elasticidade, que é uma medida quantitativa de como
compradores e vendedores respondem a mudanças nas
condições de mercado; veremos também aplicações deste
conceito à análise econômica.

Oferta, Demanda e Políticas Econômicas do Governo

Em um mercado competitivo, as forças de mercado


estabelecem o equilíbrio de preços e de quantidades. O
equilíbrio pode ser eficiente, de modo que os preços e
quantidades em um mercado reflitam os desejos do
consumidor (sua curva de demanda) e as possibilidades do
vendedor (sua curva de oferta), mas o ponto de equilíbrio final
pode, em alguns casos, gerar descontentes. Por exemplo,
após uma geada forte que danifique as plantações de café no
país, seu preço de equilíbrio pode se tornar alto, de modo que
quem toma cafezinho na padaria toda manhã reclame de seu
novo preço. E, em alguns casos mais críticos, o governo pode
achar que há justificativa para uma intervenção de sua parte
para tentar influenciar a formação de um determinado preço.
Como as políticas governamentais afetam o equilíbrio entre
oferta e demanda?

64
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Um governo afeta a formação de preços na economia


principalmente através de controles de preços e da criação de
impostos ou subsídios. Um controle de preços é utilizado
quando o governo acredita que o preço de mercado está sendo
injusto ou com os compradores ou com os vendedores e é o
estabelecimento de um valor máximo ou mínimo para a
variação do preço de um produto. Imposto é um valor pago
pelo consumidor ou pelo produtor além do preço de um
produto. Já um subsídio é uma contribuição financeira por
parte do governo que beneficia o consumidor ou o produtor ao
reduzir o preço de um produto.

Controle de preços

Um controle de preço resulta em políticas de preço máximo ou


de preço mínimo. Um preço máximo é um teto legal máximo
para o preço de um produto, isto é, um limite máximo para a
subida de um preço do qual ele não pode ultrapassar. Por
exemplo, em 1986 o governo brasileiro lançou o Plano
Cruzado, um conjunto de medidas econômicas que, visando
combater o aumento generalizado de preços na economia,
congelou os preços de todos os bens e serviços nos níveis de
27 de fevereiro de 1986, o qual funcionaria como um teto para
os preços. Já um preço mínimo é um piso legal mínimo para
o preço de um produto, isto é, um limite mínimo para a queda
de um preço do qual ele não pode ultrapassar. Um salário
mínimo, que dita legalmente o menor salário que um
empregador tem que pagar ao empregado, é um exemplo de
piso; o salário mínimo vigente no Brasil em maio de 2009 é de
R$465,00.

Se um preço máximo for imposto a um determinado mercado,


dois resultados são possíveis: 1. O preço máximo é
estabelecido acima do preço de equilíbrio. Neste caso, o
equilíbrio não será afetado, e o teto não tem efeito sobre o
preço de mercado, e resulta na manutenção do equilíbrio; 2.

65
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

O preço máximo é estabelecido abaixo do preço de equilíbrio.


Neste caso, o equilíbrio será afetado e o teto terá efeito sobre
o preço de mercado, resultando em escassez ou excesso de
demanda pelo produto. Os dois casos são ilustrados na Figura
13.

Preço
Minério
($/ton)

2,50 Teto de $2,50

2.00

1,50 Teto de $1,50

0 3 6 9 Quantidade Minério (tons)

Figura 13 – Efeito de um Preço Máximo (Teto) sobre o Mercado de


Minério de Ferro (exemplo hipotético)

Em equilíbrio, o preço do minério de ferro é de $2 por tonelada


e a quantidade é de seis toneladas. O governo pode impor um
teto para conter um excesso de procura pelo minério de ferro,
impondo que o preço de mercado seja de $2,50 no máximo,
por exemplo. Neste caso, como o preço de equilíbrio está
abaixo do teto tanto compradores quanto vendedores irão
ignorar o teto e continuar negociando abaixo, no preço que
iguala a oferta à demanda, isto é, $2. Note, entretanto, que
se o governo colocar um teto de $1,50 como preço máximo
para o produto, o ponto de equilíbrio em $2 não pode mais ser
atingido. A um preço de $1,50, os compradores irão querer
comprar nove toneladas, mas os vendedores irão querer

66
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

vender somente três toneladas. As primeiras três toneladas


serão vendidas a $1,50, mas os outros compradores que
gostariam de levar o produto irão ficar sem o produto.
Portanto, teremos neste caso um excesso de demanda ou uma
escassez de seis toneladas (9 - 3).

Se tivermos a imposição de um preço mínimo ao mercado de


um dado produto, dois resultados são possíveis: 1. O preço
mínimo é estabelecido acima do preço de equilíbrio. Neste
caso, o equilíbrio será afetado e o piso terá efeito sobre o preço
de mercado, resultando em excedente ou excesso de oferta
pelo produto; 2. O preço mínimo é estabelecido abaixo do
preço de equilíbrio. Neste caso, o equilíbrio não será afetado,
e o piso não tem efeito sobre o preço de mercado, e resulta
na manutenção do equilíbrio. Os dois casos são ilustrados na
Figura 14.

Preço
Minério
($/ton)

2,50 Piso de $2,50

2,00

1,50 Piso de $1,50

0 3 6 9 Quantidade Minério (tons)

Figura 14 – Efeito de um Preço Mínimo (Piso) sobre o Mercado de


Minério de Ferro (exemplo hipotético)

67
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Como no caso anterior, o preço de equilíbrio o minério de ferro


é de $2 por tonelada e a quantidade de equilíbrio é de seis
toneladas. Suponha que o governo impõe um piso para tentar
garantir uma receita mínima aos vendedores de minério de
ferro, fixando o preço de mercado em $2,50 no mínimo. Neste
exemplo, o ponto de equilíbrio em $2 não pode mais ser
atingido. A um preço de $2,50, os compradores irão querer
comprar só três toneladas, mas os vendedores irão querer
vender nove toneladas. As primeiras três toneladas serão
compradas a $1,50, mas os outros vendedores que gostariam
de vender outras seis toneladas do produto não conseguirão
fazê-lo. Teremos então neste caso um excesso de oferta ou
um excedente de seis toneladas (9 - 3). Note, entretanto, que
se o governo colocar um piso de $1,50 como preço mínimo
para o produto, como o preço de equilíbrio está abaixo do piso
tanto compradores quanto vendedores irão ignorar o piso e
continuar negociando acima, no preço que iguala a oferta à
demanda, isto é, $2.

Impostos e Subsídios

Outro tipo de ação governamental que afeta os mercados é a


imposição de impostos e de subsídios. Como já dissemos,
imposto é um valor pago ao governo sobre a negociação de
um produto. Com o dinheiro arrecadado com impostos o
governo paga os serviços públicos fornecidos à população tais
como saúde, segurança, educação, transporte, cultura,
pagamentos de salários de funcionários públicos, etc. O
dinheiro arrecadado com impostos também é usado para
investimentos em obras públicas (hospitais, rodovias,
hidrelétricas, portos, universidades, etc.). Os impostos podem
incidir sobre os compradores ou sobre os vendedores. No
primeiro caso temos um imposto sobre o consumo, como o
IPVA. No segundo caso, temos um imposto sobre a
produção, como o IPI.

68
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Os efeitos dos impostos sobre um mercado se dão de acordo


com o tipo de imposto. Um imposto sobre os consumidores faz
com que a curva de demanda se desloque para a esquerda em
montante igual ao imposto (Figura 15). O imposto aumenta o
preço pago pelo consumidor e ao mesmo tempo reduz o preço
líquido recebido pelo produtor. A diferença entre o preço pago
pelo consumidor e o preço recebido pelo produtor é o valor do
imposto que é recebido pelo governo.

Preço
Minério
($/ton)
O
Preço
consumidor
2,30
Preço sem 2,00 Imposto $0,50
Imposto 1,80

Preço
produtor

D
D’

0 4 6 Quantidade Minério (tons)

Figura 15 – Efeito de um Imposto sobre o Consumo sobre o Mercado


de Minério de Ferro (exemplo hipotético)

Já um imposto sobre o produtor desloca a curva de oferta para


a esquerda em montante igual ao imposto (vide Figura 16).
Do mesmo modo que o imposto sobre o consumidor, o imposto
sobre o produtor aumenta o preço pago pelo consumidor e ao
mesmo tempo reduz o preço líquido recebido pelo produtor. O

69
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

governo recebe a diferença entre o preço pago pelo


consumidor e o preço recebido pelo produtor.

Preço
Minério
($/ton)
Preço O’
comprador

2,30 O
Preço sem 2,00 Imposto $0,50
Imposto 1,80

Preço
vendedor

0 4 6 Quantidade Minério (tons)

Figura 16 – Efeito de um Imposto sobre a Produção sobre o Mercado


de Minério de Ferro (exemplo hipotético)

Finalmente, um subsídio é, como mencionamos, uma


contribuição financeira por parte do governo que beneficia o
consumidor ou o produtor, e que reduz o preço de um produto.
O subsídio pode ser sobre o consumidor ou sobre o produtor.
Como exemplo do primeiro caso, temos uma redução no preço
do pão, por exemplo, produto de consumo básico dos
cidadãos. Já no segundo caso, temos os subsídios à produção
ou á exportação, onde o produtor recebe um valor em dinheiro
para cada unidade produzida ou exportada. A análise sobre os
efeitos dos subsídios sobre os mercados é idêntica à análise
dos impostos. Note que o subsídio ao consumidor faz com que
a curva de demanda se desloque para a direita em montante
igual ao subsídio. Já um subsídio sobre a produção desloca a
curva de oferta para a direita em montante igual ao subsídio.

70
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Elasticidades

Já sabemos que um aumento no preço de um produto faz com


que a quantidade demandada caia, e, ao mesmo tempo, faz
com que a quantidade ofertada aumente. Mas quanto? Se o
preço subir, a quantidade demandada cai pouco ou muito? E
a quantidade ofertada, sobe bastante ou pouco? Para
responder estas e outras questões relacionadas, é necessário
introduzir o conceito de elasticidade. Elasticidade é uma
medida quantitativa de como compradores e vendedores
respondem a mudanças nas condições de mercado. Em termos
gerais, uma elasticidade avalia como a mudança em uma
variável (preço, por exemplo) afeta quantitativamente outra
variável (quantidade demandada, por exemplo). As
elasticidades mais importantes são: a elasticidade-preço da
demanda; a elasticidade-renda da demanda; e a elasticidade-
preço da oferta. Após vermos estas definições, veremos
algumas aplicações do conceito de elasticidade à análise
econômica.

Elasticidade-preço da demanda

A elasticidade-preço da demanda é o percentual de


mudança na quantidade demandada dado um percentual de
mudança no preço, e é uma medida de quanto a quantidade
demandada de um bem responde a mudanças no preço do
bem. Esta é calculada como uma mudança percentual da
quantidade demandada dividida por uma mudança percentual
do preço. Se, por exemplo, o preço do minério de ferro
aumenta de $2,00 para $2,20 e a quantidade comprada cai de
10 para oito toneladas, a elasticidade-preço da demanda é
calculada da seguinte forma:
(8 − 10)
 100 − 20 %
10 = = −2
( 2,20 − 2,00) 10 %
 100
2,00
71
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Variações da curva de demanda pela elasticidade-preço


da demanda

No exemplo anterior, vimos que a elasticidade-preço da


demanda é igual a –2. Mas o que quer dizer isso? Quer dizer
que, se o preço subir em um por cento, a quantidade
demandada diminui em dois por cento. Mas isto é pouco ou
muito? Podemos dizer que a demanda por um produto é
inelástica quando a quantidade demandada não responde
fortemente a mudanças no preço. Neste caso, para um
aumento de um por cento no preço, a quantidade demandada
cai em menos de um por cento e a elasticidade é maior que -
1 (ED > -1). No limite, a demanda será perfeitamente
inelástica se a quantidade demandada não responde a
mudanças no preço. Neste caso, para um aumento de um por
cento no preço, a quantidade demandada não cai e a
elasticidade é zero (ED = 0). Já no caso da demanda elástica
a quantidade demandada responde fortemente a mudanças no
preço. Neste caso, para um aumento de um por cento no
preço, a quantidade demandada cai em mais de um por cento
e a elasticidade é menor que –1 (ED < -1). No limite, a
demanda será perfeitamente elástica se a quantidade
demandada aumenta de uma maneira extremamente forte em
função de qualquer mudança de preço, e a elasticidade se
aproxima ao menos infinito (ED = -). Finalmente, em um
caso especial a demanda será elástica unitária se a
quantidade demandada muda na mesma percentagem que a
variação no preço. Neste caso, para um aumento de um por
cento no preço, a quantidade demandada cai em um por cento
e a elasticidade é igual a -1 (ED = -1).
Inclinação da curva de demanda

72
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Como a elasticidade-preço da demanda mede o quanto a


quantidade demandada responde ao preço, ela se relaciona
estreitamente à inclinação da curva de demanda. Na Figura 17
abaixo mostramos como a inclinação da curva de demanda
está relacionada à variação na elasticidade para os casos de
demanda inelástica e demanda perfeitamente inelástica. No
primeiro caso, note que a curva de demanda é bem inclinada
verticalmente e que um aumento de 25% no preço (aumento
de $2,00 para $2,50) causa uma queda de apenas 16% na
quantidade demandada (queda de seis para cinco toneladas).
A elasticidade neste caso é –0,64 (16% dividido por 25%). No
segundo caso, a curva de demanda é vertical e que um
aumento de 25% no preço (aumento de $2,00 para $2,50)
deixa a quantidade demandada inalterada (0%). A
elasticidade neste caso é zero (0% dividido por 25%).

Preço
Minério
($/ton) Demanda
Perfeitam.
Inelástica

2,50

2,00

Demanda
Inelástica

5 6 Quantidade Minério (tons)

Figura 17 – Curva de Demanda para os casos de Demanda Inelástica


e Perfeitamente Inelástica para o Mercado de Minério de Ferro
(exemplo hipotético)

73
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Já na Figura 18 ilustramos como a inclinação da curva de


demanda está relacionada à variação na elasticidade para os
casos de demanda elástica e demanda perfeitamente elástica.
No primeiro caso, note que a curva de demanda é bem
inclinada horizontalmente e que um aumento de 25% no preço
(aumento de $2,00 para $2,50) causa uma queda de 50% na
quantidade demandada (queda de seis para três toneladas). A
elasticidade neste caso é –2 (50% dividido por 25%). No
segundo caso, ao preço de $2,00, os consumidores comprarão
qualquer quantidade. A qualquer preço acima de $2,00 a
quantidade demandada é zero, e a um preço abaixo de $2,00
a quantidade demandada é infinita, e a elasticidade neste caso
é menos infinito.

Preço
Minério
($/ton)

2,50
Demanda
Perfeitam.
2,00 Elástica

Demanda
Elástica

Quantidade
3 6 Minério
(tons)

Figura 18 – Curva de Demanda para os casos de Demanda Elástica e


Perfeitamente Elástica para o Mercado de Minério de Ferro (exemplo
hipotético)

74
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Não iremos ilustrar graficamente o caso de demanda elástica


unitária, no qual a elasticidade é igual a menos um, mas note
que é um caso intermediário entre as demandas elástica e
inelástica, e que um aumento de 25% no preço, por exemplo,
causa uma queda de exatamente 25% na quantidade
demandada.

Determinantes da elasticidade-preço da demanda

As elasticidades são valores fixos para uma determinada faixa


de preço e de quantidade. Num dos casos ilustrados na Figura
18 anterior, a demanda era elástica já que a elasticidade era
igual a –2, e refletia o fato de um aumento de 25% no preço
(aumento de $2,00 para $2,50) ter causado uma queda de
50% na quantidade demandada (queda de seis para três
toneladas). Entretanto, se o preço aumentar ainda mais, a
quantidade demandada pode cair de maneira ainda mais
acentuada, e a elasticidade se torna ainda menor do que –2.
Em outras palavras, a cada aumento de preço o consumidor
se torna mais arredio ao produto e diminui mais fortemente a
demanda. Assim, a elasticidade só é constante para uma
determinada faixa de preço e de quantidade, e varia de acordo
com a faixa de preço e de quantidade em questão.

Posto isto, quais são então os determinantes da elasticidade-


preço da demanda? Em primeiro lugar, o fato de o produto ser
necessário ou supérfluo. Vimos anteriormente que uma
necessidade humana individual pode ser básica (se não é
satisfeita, compromete seriamente o funcionamento da vida
do ser humano), espiritual e de luxo (se não for satisfeita não
compromete seriamente a qualidade de vida do ser humano).
Os bens necessários e supérfluos satisfazem as necessidades
humanas básica e de luxo, respectivamente. Em geral, os
consumidores tendem a considerar bens necessários como
inelásticos à demanda. Como exemplo de bem necessário
temos comida, combustível, roupa e consultas médicas. Do

75
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

outro lado, os consumidores tendem a considerar bens


supérfluos como elásticos à demanda. Veleiros, carros-esporte
e casacos de pele são exemplos de bens supérfluos.

Outro determinante da elasticidade-preço da demanda é a


disponibilidade de substitutos próximos. Quando o preço
de um produto aumenta, procuramos alternativas de
substitutos. Se for fácil encontrar substitutos próximos,
poderemos diminuir as compras do nosso produto e comprar
o substituto; neste caso, a demanda de nosso produto é
elástica. Se for difícil encontrar substitutos próximos, não
poderemos reduzir as compras e a demanda será inelástica.
Por fim o horizonte de tempo considerado também
influencia a elasticidade-preço da demanda. A facilidade com
que poderemos substituir um produto por outro depende do
período de tempo em que estamos analisando. Em geral,
teremos demandas inelásticas no curto prazo (período mais
curto de tempo, como alguns meses) e elásticas no longo
prazo (período mais longo de tempo, como a partir de um
ano). A demanda tende a ser mais elástica quanto maior o
horizonte de tempo, pois é mais fácil encontrar substitutos
quando os consumidores têm mais tempo para procurá-los.

Elasticidade-preço da demanda e receita total

A receita total (ou gasto total) é o valor total pago pelos


compradores e recebidos pelos vendedores. Esta é calculada
como o preço do bem multiplicado pela quantidade de vendas:
RT = P x Q. O conceito de elasticidade-preço da demanda
serve para explicar o efeito de um aumento no preço na receita
arrecadada por uma empresa ou por um órgão de governo (no
caso da prestação de um serviço público, por exemplo).
Quando o preço de um produto, a quantidade demandada
deste produto será menor (pela Lei da Demanda). Mas não
implica que as pessoas gastarão menos com o produto; depois
do aumento de preço a quantidade comprada cai, mas cada

76
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

unidade comprada custa mais. A receita total, que é o produto


do preço pela quantidade, pode cair ou subir, dependendo da
elasticidade-preço da demanda.

Note que a área abaixo da curva de demanda e abaixo do


ponto de equilíbrio é a receita total das vendas de um produto
(Figura 19). Neste caso, note que a receita aumentou de $12
($2 vezes seis no exemplo) para $12,50 ($2,50 vezes cinco)
mesmo com o aumento de preço. Assim, com uma curva de
demanda inelástica, um aumento no preço leva a uma
diminuição proporcionalmente menor na quantidade
demandada. Portanto, a receita total (isto é, a área abaixo da
curva) aumenta. Já no caso de uma curva de demanda elástica
(que não ilustraremos graficamente aqui), um aumento no
preço provoca uma redução proporcionalmente maior na
quantidade demandada e, portanto, a receita total diminui.

Preço Preço
Minério Minério
($/ton) ($/ton)

2.50

Receita = $12.5
2.00
Receita = $12
D D
0 6 Quantidade 0 5 Quantidade
Minério (tons) Minério (tons)

Figura 19 – Curva de Demanda e Receita Total para o Mercado de


Minério de Ferro (exemplo hipotético)

77
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Outras elasticidades

Vejamos agora a definição de elasticidade-renda da


demanda. Esta mede o quanto a quantidade demandada de
um bem responde a alterações na renda do consumidor. Ela é
calculada como uma mudança percentual na quantidade
demandada dividido pela variação percentual na renda. Se,
por exemplo, a renda de um consumidor aumenta de R$1000
para $1500 e a quantidade comprada de certo produto
aumenta de 10 para 20 unidades, a elasticidade-renda da
demanda é calculada da seguinte forma:

Como para bens normais, rendas maiores implicam em um


aumento na quantidade demandada, a elasticidade-renda será
positiva. Já para bens inferiores, rendas maiores implicam em
queda na quantidade demandada e sua elasticidade-renda
será negativa. Com relação a bens necessários e supérfluos,
em geral os consumidores tendem a considerar bens
necessários como inelásticos à renda, e tendem a considerar
bens supérfluos como elásticos à renda.

Vejamos agora a definição de elasticidade-preço da oferta.


Esta é a mudança percentual na quantidade ofertada
resultante de uma mudança percentual no preço, e é uma
medida de quanto a quantidade ofertada de um bem responde
a uma mudança de preço de um bem. A elasticidade-preço da
oferta é calculada como uma mudança percentual na
quantidade ofertada dividida por uma mudança percentual no
preço. Se, por exemplo, o preço do minério de ferro aumenta
de $2,00 para $2,20 e a quantidade ofertada sobe de 10 para

78
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

12 toneladas, a elasticidade-preço da demanda é calculada da


seguinte forma:

Assim como no caso da elasticidade-preço da demanda,


também no caso da elasticidade-preço da oferta há variação
na curva de oferta dependendo da elasticidade-preço da
oferta. A oferta de um produto é inelástica quando a
quantidade ofertada não responde fortemente a mudanças no
preço. Neste caso, para um aumento de um por cento no
preço, a quantidade ofertada sobe em menos de um por cento,
a elasticidade é menor que um (ES < +1) e a curva de oferta
é bem inclinada verticalmente. No limite, a oferta será
perfeitamente inelástica se a quantidade ofertada não
responde a mudanças no preço. Neste caso, para um aumento
de um por cento no preço, a quantidade ofertada não sobe, a
elasticidade é zero (ES = 0) e a curva de oferta é vertical. Já
no caso da oferta elástica a quantidade ofertada responde
fortemente a mudanças no preço. Neste caso, para um
aumento de um por cento no preço, a quantidade ofertada
sobe em mais de um por cento, a elasticidade é maior que um
(ED > +1) e a curva de oferta é bem inclinada
horizontalmente. No limite, a oferta será perfeitamente
elástica se a quantidade ofertada aumenta de uma maneira
extremamente forte em função de qualquer mudança de
preço, a elasticidade se aproxima de mais infinito (ED = +)
e a curva de oferta é horizontal. Finalmente, em um caso
especial a oferta será elástica unitária se a quantidade
ofertada muda na mesma percentagem que a variação no
preço. Neste caso, para um aumento de um por cento no

79
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

preço, a quantidade ofertada sobe em um por cento e a


elasticidade é igual a um (ES = +1).

Podemos também determinar quais são os determinantes da


elasticidade-preço da oferta. Em primeiro lugar, a
capacidade de alterar a quantidade produzida de
determinado bem; se os produtores não conseguem aumentar
a oferta de um bem (como a oferta de casas de frente para o
mar na orla da praia), tal oferta é inelástica. Por outro lado, a
oferta de bens manufaturados em geral como carros é
tipicamente elástica. Outro fator de influência é, como no caso
da elasticidade-preço da demanda, o horizonte de tempo. A
oferta é inelástica no curto prazo e elástica no longo prazo (é
possível aumentar a produção).
Aplicação de Elasticidade: Incidência Tributária

Uma aplicação do conceito de elasticidade é no caso de


incidência tributária: quando um imposto é criado, qual a
proporção do imposto que recai sobre os compradores e sobre
os vendedores? A resposta depende das elasticidades-preço
de demanda e de oferta. Quando a oferta é mais elástica que
a demanda, o imposto recai mais sobre o consumidor
(comprador) e menos sobre o produtor (vendedor). Quando a
demanda é mais elástica que a oferta, o imposto recai mais
sobre o produtor e menos sobre o consumidor. Na Figura 20
abaixo, a oferta é mais elástica que a demanda; percebemos
isto pela maior inclinação vertical da curva de demanda (que
denota a inelasticidade) e pela relativa maior inclinação
horizontal da curva de oferta. Assim, o imposto cai mais
pesadamente sobre o consumidor e menos sobre o produtor.
O oposto ocorre quando a demanda é mais elástica que a
oferta: o imposto cai mais pesadamente sobre o produtor e
menos sobre o consumidor.

80
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Preço
Minério
($/ton)

Preço
comprador
O

imposto
Preço sem
Imposto
Preço
produtor

0 Quantidade
Minério (tons)

Figura 20 – Incidência Tributária entre Consumo e Produção no


Mercado de Minério de Ferro (exemplo hipotético)

81
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Exercícios – Capítulo 4

1. O governo decidiu que o preço de livre mercado do café é


muito baixo e quer melhorar a vida dos produtores de café.
a) Suponha que o governo imponha um preço mínimo
compulsório ao mercado de café. Use um diagrama de oferta
e demanda para mostrar o efeito desta política sobre o preço
e a quantidade vendida de café. Há escassez ou excesso de
café?
b) Os produtores reclamam que o preço mínimo reduziu sua
receita total. Isso é possível? Explique.
c) Em resposta às queixas dos produtores, o governo concorda
em adquirir todo o excesso de café pelo preço mínimo.
Comparado ao preço mínimo básico, quem se beneficia com
esta nova política? Quem perde?

2. Considere as seguintes políticas governamentais, cada uma


das quais se destina a reduzir o crime violento mediante a
redução do uso de armas. Ilustre cada uma destas políticas
com um diagrama de oferta e demanda do mercado de armas:
a) Um imposto sobre os compradores de armas
b) Um imposto sobre os vendedores de armas
c) Um preço mínimo para as armas
d) Um imposto sobre munições

3. Suponha que a demanda por fertilizantes agrícolas possa


ser expressa pela equação QD = 5.000 - 120P e que a oferta
de fertilizantes agrícolas pela equação QS = 1000 + 80P em
que Q está mensurado em toneladas por ano e P está
mensurado em reais por tonelada. Qual será o efeito caso o
governo imponha um teto máximo de preço a R$ 10 por
tonelada de fertilizantes?

82
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

4. Grande parte da demanda de café do Brasil vem de outros


países. A demanda agregada (isto é, a demanda no país mais
a demanda do exterior) é Q = 3244 - 283P. Sabemos também
que a demanda doméstica é QD = 1700 - 107P e a oferta
doméstica é QS = 1944 + 207P. Suponha que a demanda por
exportação de café sofra uma queda de 40%.
a) Os cafeicultores estão preocupados com essa queda na
demanda de exportação. O que deve acontecer com o preço
do café sob o livre mercado? Os cafeicultores têm razão de
estar preocupados?
b) Agora, suponha que o governo do Brasil queira adquirir
anualmente uma quantidade de café que seja suficiente para
elevar seu preço até o nível de $3,50 por saca (como ele
realmente fez nos anos 1920). Com essa queda na demanda
da exportação, qual seria a quantidade de café que o governo
teria que comprar a cada ano? Quanto isto custaria ao
governo?

5. “O governo fez o melhor: como a falta de energia elétrica


era inevitável, foi melhor colocar um teto para o preço da
energia elétrica para forçar assim um racionamento de energia
elétrica natural”. Comente esta frase, que um membro do
governo Fernando Henrique Cardoso possa eventualmente ter
dito quando da ocasião do racionamento de energia elétrica
que houve no Brasil em 2001.

6. Com relação ao tabagismo, estudos mostram que a


elasticidade-preço da demanda por cigarros é igual a - 0,4. Se
um maço de cigarro custa hoje R$ 2 e o governo quer reduzir
o seu consumo em 20%, para quanto deve aumentar o preço
do maço de cigarro?

83
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

7. Imagine que executivos em viagem e turistas têm a


seguinte demanda por passagens da ponte aérea Rio-São
Paulo:

Quantidade Quantidade
demandada demandada
Preço (R$) (executivos) (turistas)
150 2100 1000
200 2000 800
250 1900 600
300 1800 400

a) Quando o preço das passagens sobre de R$ 200 para


R$250, qual é a elasticidade-preço da demanda (i) dos
executivos e (ii) dos turistas? E quando o preço aumenta de
novo para R$ 300?
b) Por que os turistas teriam uma elasticidade diferente da dos
executivos?

8. No metrô de São Paulo, foi observado que, após um


aumento das tarifas de R$1,00 para R$ 1,80, o número de
passageiros caiu em cerca de 100,000, representando uma
queda de 5% em relação ao mês anterior.
a) Use estes dados para estimar a elasticidade-preço de
demanda das passagens de metrô.
b) De acordo com sua estimativa, o que acontece com a
receita da administração do metrô quando as passagens
aumentaram de preço?

9. Dois motoristas vão a um posto de gasolina. Antes de olhar


para o preço, cada um deles fala com o atendente: O primeiro
diz: “Coloque 10 litros no tanque.” O segundo diz: “Quero
R$10 de gasolina.” Qual a elaticidade-preço da demanda de
cada um dos motoristas?
10. Os medicamentos têm demanda inelástica e os
computadores apresentam demanda elástica. Imagine um

84
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

avanço tecnológico que duplique a oferta dos dois produtos


(isto é, a nova quantidade ofertada a cada preço é o dobro da
anterior).
a) O que acontece com o preço e a quantidade de equilíbrio
em cada um dos mercados?
b) Que produto registrará a maior variação de preços?
c) Que produto registrará a maior variação de quantidade?
d) O que acontece com a despesa total de consumo de cada
produto?

11. Duas curvas de demanda foram desenhadas para


representar a demanda por café. Elas se interceptam ao preço
corrente de mercado. Uma curva é mais íngreme que a outra.
É mais provável que (explique):

a) A curva mais íngreme represente a demanda por café a


longo prazo, enquanto a curva mais horizontal represente a
demanda por café a curto prazo.
b) A curva mais íngreme represente a demanda por café a
curto prazo, enquanto a curva mais horizontal represente a
demanda por café a longo prazo.
c) A curva mais íngreme seja a que tem o preço mais elástico,
então a curva mais horizontal é a que representa o preço atual
de mercado.
d) A curva mais íngreme seja positivamente mais inclinada.

12. Uma empresa farmacêutica pretende lançar dois novos


produtos, um medicamento antidepressivo e um medicamento
antirrugas. Em um teste de simulação, a empresa avaliou qual
seria o comportamento dos dois mercados se a oferta dos dois
produtos subitamente dobrasse (isto é, a quantidade ofertada
a cada preço é o dobro do que era anteriormente). Notando
que um medicamento antidepressivo tem usualmente uma
demanda inelástica, e um medicamento antirrugas tem
usualmente uma demanda elástica:
a) O que acontece com o preço e a quantidade de equilíbrio
em cada um dos mercados?

85
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

b) Em sua opinião, qual produto apresentaria uma maior


variação na quantidade durante a simulação? Qual produto
apresentaria uma maior variação no preço? Justifique.
c) O que acontece com a receita total da empresa para cada
um dos produtos? E com a despesa total dos consumidores de
cada produto?

13. Hotéis à beira da praia têm oferta inelástica enquanto que


a oferta de automóveis é elástica. Imagine que um aumento
de população duplica a demanda pelos dois produtos (isto é,
a quantidade demandada a cada preço é o dobro do que era
anteriormente). O que acontece com a despesa total de
consumo de cada produto?

14. A demanda por gasolina é mais elástica ao preço a longo


prazo que a curto, porque a longo prazo:
a) Os consumidores teriam uma maior possibilidade de
trocarem seus carros que a curto prazo.
b) Os consumidores teriam uma menor possibilidade de
trocarem seus carros que a curto prazo.
c) Os consumidores teriam um maior desejo de dirigirem
carros maiores que a curto prazo.
d) Os consumidores teriam uma maior possibilidade de
mudarem seus hábitos ao volante que a curto prazo.

15. Em sua opinião, qual política de combate às drogas é mais


efetiva: uma política de redução da oferta das drogas (por
exemplo, um combate maior aos traficantes) ou uma política
de redução da demanda por drogas (por exemplo, uma
campanha de educação contra as drogas nos meios de
comunicação)? Para responder, note que a demanda por
drogas é, em geral, inelástica. Note também que uma política
efetiva reduz a quantidade consumida e o gasto total com
drogas.

16. Suponha que a demanda por fertilizantes agrícolas possa


ser expressa como QD = 5.000 - 120P, e que a oferta de

86
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

fertilizantes agrícolas possa ser expressa como QS = 1.000 +


80P, onde Q é dada em milhares de toneladas por ano e P em
dólares. Qual será a elasticidade do preço da demanda quando
o mercado estiver em equilíbrio?

17. Se uma regulamentação do governo estabelecer um teto


máximo para um determinado bem, o tamanho dessa
deficiência será mais notado em qual das seguintes
alternativas?

a) Tanto a demanda quanto a oferta são muito inelásticas.


b) Tanto a demanda quanto a oferta são muito elásticas.
c) A demanda é muito elástica, mas a oferta é muito inelástica.
d) A demanda é muito inelástica, mas a oferta é muito
elástica.

18. Suponha que 1.000 potes de sorvete sejam vendidos nos


calçadões a um preço unitário de US$ 1 e que um aumento de
preço na ordem de 10% faça com que a quantidade
demandada caia 5%. Qual a elasticidade-preço da demanda?

19. Na década de 1970, a economia mundial passou por uma


grave crise causada por um aumento substancial nos preços
do petróleo. Ao restringir conjuntamente a quantidade
oferecida de petróleo no mercado internacional, os países
exportadores de petróleo causaram um aumento de 400%%!
Nesta ocasião, os consumidores de petróleo tiveram uma
imensa dificuldade em responder a este “choque de oferta”.
Anos depois, em meados da década de 1980, os países
exportadores de petróleo tentaram novamente restringir a
quantidade oferecida de petróleo no mercado internacional,
mas desta vez tiveram bem menos sucesso em aumentar o
preço internacional do petróleo: este só aumentou em 5%%!
Como explicar tal fenômeno? Para responder, note que a
elasticidade-preço da demanda de certo produto pode variar
com o tempo.

87
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Para as questões 20 e 21 abaixo, considere o seguinte trecho


do artigo “Consumidor paulistano tem dificuldade em
encontrar móveis verdes” (G1, 30/11/2009):
“Ser ecologicamente correto é uma tarefa quase impossível
para o consumidor paulistano que quiser aproveitar a
diminuição do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI),
anunciada pelo ministro da Fazenda na última quarta-feira
(25). Além de zerar o imposto para móveis, Guido Mantega
também prorrogou o desconto que já existia para materiais de
construção (... como a madeira usada nos móveis). A
dificuldade está nos dois tipos de produto. A oferta de móveis
populares que tenham selo garantindo a origem da madeira é
praticamente inexistente. Na construção civil, há apenas duas
lojas em São Paulo que vendem tábuas aprovadas pelo FSC
(Conselho Brasileiro de Manejo Florestal)... Para verificar o
quanto é difícil encontrar móveis com esse selo, a
reportagem... percorreu de ponta a ponta a Rua Teodoro
Sampaio, na Zona Oeste de São Paulo, onde se concentram
dezenas de lojas que vendem esses produtos. Móveis
certificados só foram encontrados fora da rua Teodoro
Sampaio, em uma das maiores redes de venda de móveis de
São Paulo. Entretanto, a oferta é pequena e o preço é salgado.
Uma cadeira de eucalipto, por exemplo, sai por R$ 285,
enquanto uma mesa de garapeira de 130 por 65 cm custa R$
565... Quanto à madeira usada em construção,... o “selo
verde” é ainda mais raro do que nos móveis. Das duas lojas
que vendem madeira bruta certificada em São Paulo, apenas
uma é voltada para o consumidor final.”.

20. Quanto aos determinantes da elasticidade da demanda, a


demanda por móveis verdes é elástica ou inelástica? Responda
para cada um dos três determinantes da elasticidade da
demanda.

88
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

21. a) A cadeira de eucalipto, de acordo com o texto, sai por


R$ 285. O que acontece com a receita do produtor deste tipo
de cadeira se o preço aumentar para R$ 400, por exemplo, se
houverem substitutos próximos para este tipo de produto? E
se estivermos considerando um horizonte de curto prazo (um
mês, por exemplo)?
b) Um economista notou que, a um preço de R$ 565, um
vendedor de móveis da rua Teodoro Sampaio vendeu 100
mesas de garapeira. Entretanto, ao aumentar o preço para
R$600, o mesmo vendedor conseguiu vender 80 unidades.
Neste caso, a demanda por mesas de garapeira é elástica ou
inelástica? Explique.

22. O governo adotou uma política de um preço máximo de


R$ 40 para os ingressos de shows de música. Se a grande
maioria dos shows custa hoje no mínimo R$ 50, essa política
fará com que mais ou menos pessoas possam assistir shows
de música (comparado com o número de pessoas que vão
assistir aos shows hoje)? Explique.

23. Os economistas observaram que durante épocas de


declínio na atividade econômica os gastos com refeições em
restaurantes caem mais do que os gastos com alimentos para
consumo em casa. Como o conceito de elasticidade pode
ajudar a explicar este fenômeno?

24. 4) Estudos mostram que a elasticidade-preço da demanda


por automóveis populares é igual a -2. Se um automóvel
popular custa hoje R$ 40.000 e o governo quer aumentar o
seu consumo em 10%, para quanto deve cair o preço do
automóvel popular?

89
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Capítulo 5 – Escolha do Consumidor

J
á vimos em capítulos anteriores que a demanda de um
mercado é construída a partir das demandas individuais
para aquele produto em particular. Vimos também como
relacionar preço e quantidade demandada de produto para um
consumidor em particular e construir uma curva de demanda
para este consumidor. Mas o que motiva as escolhas de cada
consumidor de modo que ele tenha uma curva de demanda
particular? Para isto é necessário entender sobre as escolhas
econômicas dos consumidores, quais objetivos estão tentando
atingir e as restrições que eles enfrentam para se conseguir
atingir tais objetivos. Este é o modelo econômico de
escolha do consumidor, também conhecido como a teoria
da decisão do consumidor.

Antes disso, note que, para entender melhor o processo de


escolha do consumidor, é necessário fazer a suposição de
racionalidade dos indivíduos. Sob esta hipótese, os
indivíduos possuem um entendimento amplo dos fenômenos
econômicos e usam todo o conjunto de informações
disponíveis para tomar suas decisões. Diante de várias
possibilidades de ação, eles avaliam o benefício (o que ele
ganha com ela) e o custo (o que ele perde com ela) de cada
possível ação e escolhem aquela que lhes dão o maior
benefício líquido (a maior diferença entre benefício e custo).
Tais benefícios e custos são os incentivos (positivos e
negativos, respectivamente) econômicos para a escolha
daquela ação, e é por isto que se diz que a economia é a
“ciência dos incentivos”. Veremos que nem sempre esta
hipótese se verifica na prática (como na presença de
assimetria de informações), mas na maioria das vezes é
razoável supor que os consumidores são racionais. Dito isto,
vamos dividir o problema de escolha do consumidor em duas
partes: o que este pode comprar (restrição orçamentária) e o
que este deseja (preferência do consumidor).
Restrição Orçamentária

90
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Seria ótimo que pudéssemos comprar tudo que quiséssemos


e quando quiséssemos. Mas a realidade nos restringe o acesso
aos produtos devido ao fenômeno já discutido da escassez.
Assim, as pessoas têm restrições orçamentárias que
limitam a capacidade do indivíduo de consumir, tendo em vista
os preços que ele deve pagar por diversas mercadorias e
serviços. A maneira gráfica de se mostrar uma restrição
orçamentária é através de uma linha do orçamento, a qual
indica todas as combinações de dois produtos para as quais o
consumidor pode comprar com um orçamento limitado a
dados preços. Na Figura 21 abaixo vemos a linha de
orçamento de uma siderúrgica chinesa (reta AB) que necessita
comprar minério de ferro e outros insumos para a sua
produção de aço. A linha mostra todas as combinações
possíveis de compra de minério e de outros insumos em um
determinado mês considerando um orçamento mensal de $5
milhões e o preço de $20.000 por tonelada de minério de ferro
e de $10.000 por tonelada de outros insumos.

91
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Quantidade
Outros 60 G
Insumos (tons)

50 B

40

C E
30

D
20

10

H A F
Quantidade
Minério (tons)
5 10 15 20 25 30

Figura 21 – Linha de Orçamento e Variações na Linha de Orçamento


devido a Mudanças na Renda e nos Preços para uma Siderúrgica
Chinesa (exemplo hipotético)

Note no exemplo que o total máximo de dinheiro gasto é igual


à renda total mensal disponível da siderúrgica chinesa. Se a
siderúrgica comprasse somente minério ela poderia comprar
até 25 toneladas ($5 milhões divididos por $20.000), que é o
ponto A da Figura 21. Se ela comprasse somente outros
insumos, ela poderia comprar até 50 toneladas ($5 milhões
divididos por $10.000), que é o ponto B da Figura 21. Mas,
para produzir aço ela necessita de minério e de outros
insumos. Quanto comprar de cada um? A linha de orçamento
dá apenas as combinações possíveis dado a renda disponível
e os preços atuais dos produtos. Se, por exemplo, a
siderúrgica operar no ponto C, comprando 10 toneladas de
minério de ferro e 30 toneladas de outros insumos, gastando
na primeira compra $ 2 milhões ($20.000 vezes 10 tons.) e $
3 milhões na segunda compra ($10.000 vezes 30 tons.), ou

92
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

seja, um total de $5 milhões (o valor de seu orçamento). Note


que o ponto D é um ponto possível de compra de minério e
outros insumos (assim como todos os pontos abaixo da linha
de orçamento), porém não se utiliza todo o orçamento
disponível naquele mês. Note também que o ponto E é um
ponto impossível de compra de minério e outros insumos
(assim como todos os pontos acima da linha de orçamento),
já que para sua compra ultrapasse-se o limite do orçamento
disponível naquele mês.

Os efeitos de modificações na renda e nos preços sobre


a linha de orçamento são ilustrados também na Figura 21. Um
aumento da renda causa o deslocamento paralelo da linha do
orçamento para a direita (mantidos os preços constantes). A
nova linha de orçamento é a linha tracejada FG, e agora o
ponto E torna-se um possível ponto de compra. Por outro lado,
uma redução da renda causa o deslocamento paralelo da linha
do orçamento para a esquerda (mantidos os preços
constantes). Com relação a modificações nos preços, quando
o preço de um produto aumenta, a linha do orçamento sofre
uma rotação para a esquerda em torno do intercepto do outro
produto. Se o preço do minério de ferro aumenta de $20.000
por tonelada para $50.000, a quantidade máxima de compra
de minério torna-se 10 toneladas, e a nova linha de orçamento
é a curva BH; note que pontos antes possíveis de compra
(como os pontos A, C e D) tornam-se impossíveis nesta nova
curva. Se o preço de um produto diminui, a linha do orçamento
sofre uma rotação para a direita em torno do intercepto do
outro produto.

Preferências

Para entender a escolha da nossa siderúrgica chinesa de


quanto comprar de cada produto (minério ou outros insumos),
além da restrição de orçamento, é necessário entender suas
preferências. Em primeiro lugar o conceito de utilidade é
definido como o prazer ou satisfação obtida a partir do

93
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

consumo de bens e serviços. Uma das suposições do modelo


econômico de escolha do consumidor é que este, ao fazer tais
escolhas, tenta maximizar a sua função de utilidade. Uma
função de utilidade é uma representação gráfica que mostra
o quanto de utilidade o consumidor obtém do consumo de um
dado produto. Já utilidade marginal é entendida como a
mudança na utilidade total que um indivíduo obtém por
consumir uma unidade adicional de um produto. A lei da
utilidade marginal decrescente afirma que, à medida que
o consumo de um bem ou serviço aumenta, a utilidade
marginal diminui. Assim, ao consumirmos cada vez mais de
um produto, a utilizada marginal de consumir uma unidade
deste produto diminui. Vemos as ilustrações destes conceitos
na Figura 22 abaixo.

Curva de
Utils (número) Utilidade
70

50

30

10 Quantidade
Minério (tons)
5 10 15 20 25
Utils (número)

30
Utilidade
Marginal
10
Quantidade
Minério (tons)
5 10 15 20 25

Figura 22 – Função de Utilidade e Utilidade Marginal para uma


Siderúrgica Chinesa (exemplo hipotético)

94
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Se plotarmos em um mesmo gráfico a utilidade que se obtém


do consumo de dois produtos, temos as curvas de indiferença
de um consumidor. Uma curva de indiferença representa
todas as combinações de duas categorias de bens que
satisfazem igualmente ao consumidor. O mapa de
indiferença mostra a relação entre as curvas de indiferença.
Na Figura 23 mostramos o mapa de indiferença da siderúrgica
chinesa. Note que em cada curva de indiferença, qualquer
ponto nela dá o mesmo nível de utilidade ao consumidor, ou
seja, a utilidade de se consumir 20 toneladas de minério e 10
toneladas de outros insumos (ponto C) é a mesma de se
consumir 10 toneladas de minério e 40 toneladas de outros
insumos (ponto E). Já quando passamos de uma curva de
indiferença para outra à direita desta, o nível de utilidade
aumenta, e preferimos qualquer ponto nesta nova curva de
indiferença (como o ponto F, por exemplo) do que qualquer
ponto na curva mais à esquerda.

Quantidade
Outros
Insumos (tons)
G

E
40

D
25

C F
10 U=20
U=15
U=10
Quantidade
10 15 20 Minério (tons)

Figura 23 – Curvas de Indiferença e Mapa de Indiferença para uma


Siderúrgica Chinesa (exemplo hipotético)

95
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Escolha do Consumidor

Vejamos como o consumidor atinge o objetivo de escolha que


concilia a maximização de sua utilidade com a sua restrição
orçamentária. O ponto de escolha do consumidor acontece
quando cruzamos o seu mapa de indiferença com a sua
restrição orçamentária, no ponto que uma curva de
indiferença tangencia a linha de orçamento. Juntemos as
curvas de indiferença da siderúrgica chinesa ao seu orçamento
(vide Figura 24). No ponto C uma curva de indiferença
tangencia a linha de orçamento, e neste ponto (20 tons de
minério e 10 tons de outros insumos) a utilidade é maximizada
respeitando a restrição orçamentária do consumidor. Note que
o ponto C é preferível ao ponto H; embora ambos estejam na
linha de orçamento, o ponto C está em uma curva de utilidade
que produz maior utilidade que a curva de utilidade do ponto
H.

Quantidade
Outros
Insumos (tons) B
50 G

E
40
H

D
25

C F
10 U=20
U=15
U=10 A
Quantidade
10 15 20 25 Minério (tons)

Figura 24 – Escolha de Consumo de Minério de Ferro e de Outros


Insumos para uma Siderúrgica Chinesa (exemplo hipotético)

96
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Consumidor e Construção da Curva de Demanda

Agora vejamos finalmente como derivar a curva de demanda


de um consumidor individual a partir das suas escolhas de
consumo (Figura 25). Vimos que, continuando com o exemplo
da siderúrgica chinesa, a um preço de $20.000 por tonelada
de minério de ferro a firma escolhe usar 20 toneladas de
minério e 10 toneladas de outros insumos; (ponto A na Figura
25). Este ponto corresponde ao Ponto A’ na curva de demanda
(preço de $20.000 e quantidade produzida de 20 toneladas).
Suponha agora que o preço do minério cai para $10.000 por
tonelada; a linha do orçamento sofre uma rotação para a
direita se expandindo no eixo da demanda por minério de
ferro, e agora a empresa consome mais tanto minério quanto
outros insumos: 22 e 38 toneladas, respectivamente, no ponto
B da Figura 25, onde a nova linha orçamentária tangencia uma
curva de indiferença acima. Esta escolha corresponde ao Ponto
B’ na curva de demanda (preço de $10.000 e quantidade
produzida de 22 toneladas). Se o preço do minério cair ainda
mais, para $5.000 por tonelada, teremos uma nova rotação
da linha do orçamento para a direita se expandindo no eixo da
demanda por minério de ferro, e o consumo de minério e de
outros insumos aumentam, para 30 e 40 toneladas,
respectivamente (ponto C na Figura 25). Esta linha
orçamentária tangencia uma curva de indiferença ainda mais
acima. Este ponto de escolha corresponde ao ponto C’ na
curva de demanda, com preço de $5.000 e quantidade
produzida de 30 toneladas. Ao finalmente ligarmos os pontos
A’, B’ e C’ teremos a curva de demanda individual por minério
de ferro.

97
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Quantidade
Outros Insumos
(tons) F
50

C
40 B
38 E
30
D
A
10

3
G Quantidade
20 2225 30 70 100 Minério (tons)

Preço Minério
($Mil / ton) A’
20

Curva de
Demanda
por Minério
10 B’
C’
5
Quantidade
20 2225 30 Minério (tons)

Figura 25 – Derivação da Curva de Demanda por Minério de Ferro a


partir da Escolha de Consumo de Minério de Ferro e de Outros
Insumos para uma Siderúrgica Chinesa (exemplo hipotético)

Exercícios – Capítulo 5

1. Quando um consumidor tenta elaborar suas as escolhas


econômicas dos consumidores, qual é a principal restrição que
ele enfrenta? Como funciona esta restrição?

2. A linha de orçamento dá as combinações possíveis de


consumo de dois produtos dado a renda disponível do
consumidor e os preços atuais dos produtos. O que acontece

98
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

com ela: a) quando a renda do consumidor diminui? b) quando


a renda do consumidor aumenta? c) quando o preço de um
produto cai? d) quando o preço de um produto sobe?

3. Explique os conceitos de utilidade; função de utilidade;


utilidade marginal; lei da utilidade marginal decrescente.

4. No modelo de escolha do consumidor, por que é que se faz


a suposição de que quando o consumidor faz suas escolhas ele
tenta maximizar a sua função de utilidade?

5. Explique os conceitos de curva de indiferença e de mapa de


indiferença.

6. Como o consumidor obtém o ponto de escolha, atingindo o


objetivo de uma escolha que concilia a maximização de sua
utilidade com a sua restrição orçamentária?

7. Como se deriva a curva de demanda de um consumidor


individual a partir das suas escolhas de consumo?

8. Uma família tem uma renda de R$ 10.000 por ano e gasta


esta renda basicamente com aluguel de moradia e alimentos.
Os alimentos custam R$ 2 por unidade e o aluguel custa R$ 1
por ano. Se a família divide igualmente os R$ 10.000 entre
alimentos e aluguel de moradia:
a) Desenhe a linha de orçamento desta família,
mostrando o ponto de escolha de consumo de
alimentos e de aluguel.
b) Se o preço do aluguel subir para R$ 2, desenhe a nova
linha de orçamento da família, mostrando a nova
escolha de consumo entre alimentos e aluguel.
c) Se o governo der uma complementação à renda da
família (Bolsa Família) de R$ 5000, desenhe a nova
linha de orçamento da família, mostrando o novo ponto
de escolha de consumo de alimentos e de aluguel.
Capítulo 6 – Custos de Produção

99
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

N
o capítulo anterior vimos como as decisões do
consumidor criam a curva de demanda para um
produto. Vejamos agora o outro lado do mercado: como
as atividades das empresas dentro de um setor influenciam e
geram a curva de oferta de um produto? O ramo da economia
que estuda o funcionamento dos mercados pelo lado da
produção (do ponto de vista das empresas) é a organização
industrial (ou economia industrial). Empresa (também
chamada de unidade produtiva ou firma) é uma organização
especializada na produção de um ou vários bens ou serviços,
de propriedade de pessoas particulares ou de governos. E
produção já foi definida antes como a execução de atividades
que criam produtos que tenham como finalidade satisfazer as
necessidades humanas, ou, alternativamente, é definida como
o processo de combinar insumos para fazer produtos. Mas o
objetivo da empresa é fazer produtos? Não, o objetivo
econômico das firmas é a maximização dos seus lucros.

Note que a empresa recebe dinheiro da venda de seus


produtos (definido antes como receita), mas note que, para
produzir tais produtos, ela incorre em vários gastos para
viabilizar a produção, como a compra e manutenção de
maquinário, compra de materiais usados na produção, e mão
de obra para trabalhar na produção. A soma destes gastos
incorridos pela firma na produção é o seu custo de produção,
ou simplesmente, seu custo. Lucro foi definido antes como a
receita total proveniente da venda de bens subtraída dos
custos totais da produção. A receita total é a quantia que a
empresa recebe pela venda de sua produção, isto é, o produto
entre o preço recebido e a quantidade vendida (ou seja, RT =
P. Q), e o custo total é a quantia que a empresa paga para
comprar insumos usados na produção (seus custos de
produção). Assim, o objetivo da firma é receber o máximo
possível da venda de seus produtos (maximizar a receita)
enquanto tenta deixar seus custos de produção no menor nível

100
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

possível que possibilite a produção (minimizar o custo). Isto


é, o objetivo é maximizar o lucro.

Na definição de custos de produção incluem todos os custos


de oportunidade envolvidos na obtenção dos bens e serviços.
O custo de oportunidade de se obter alguma coisa é o custo
total de que se abre mão para obter esta coisa. Por exemplo,
o custo de oportunidade de ir à universidade tentar obter um
diploma de nível superior envolve custos do pagamento das
mensalidades e o custo com moradia e alimentação, por
exemplo. Devemos incluir também o custo do tempo gasto nos
estudos, em termos dos salários não recebidos ao se
frequentar a universidade em tempo integral (assumindo,
claro, que este estudante não está trabalhando para pagar
seus estudos).

Nesta definição de custo de oportunidade devemos incluir


todos os tipos de custo, sejam os custos explícitos como os
custos implícitos. Os custos explícitos são os custos que
exigem um desembolso monetário da empresa, como a
compra de insumos para a produção. Já os custos implícitos
envolvem os custos de insumos que não exigem um
desembolso monetário, como o custo do capital financeiro
investido (o quanto poderíamos obter se houvéssemos
investido o dinheiro em um produto financeiro, como títulos
do governo, ao invés de empregar o capital financeiro na
produção).

Função de Produção

A empresa utiliza uma função de produção para executar a


produção, que apresenta a relação entre a quantidade de
insumos empregados para obter um bem e a quantidade
produzida. Como já definimos antes, para cada combinação
diferente de insumos, a função de produção nos informa a
quantidade máxima de produtos que uma empresa pode obter

101
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

durante um determinado período. É uma função matemática


que relaciona a quantidade de produto com os fatores
produtivos, como trabalho (L), recursos naturais (RN) e capital
(K). A equação se lê: Y é função de L, RN e K.

Y = f ( L, RN, K),

em que Y representa a quantidade de produto produzida, e L,


RN e K a quantidade de fatores produtivos, trabalho, recursos
naturais e capital, respectivamente. A equação se lê: Y é
função de L, RN e K.

Quantidade
Produzida
(tons)

140

120

100

80

60

40

20
10
0 1 2 3 4 5 Número de trabalhadores

Figura 26 – Função de Produção de uma Empresa

Ilustramos na Figura 26 uma função de produção que


relaciona a produção ao fator trabalho. Note que ao
aumentarmos a quantidade de trabalho a produção aumenta;
a este aumento na produção decorrente do uso de uma
unidade adicional do insumo chamamos de Produto

102
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Marginal. Note, porém, que o Produto Marginal é


decrescente, isto é, o produto marginal de um insumo declina
à medida que a quantidade do insumo aumenta. Quanto
adicionamos trabalhadores à produção, a quantidade
produzida aumenta bastante no início, mas esta quantidade
aumenta cada vez menos quando novas unidades de trabalho
vão sendo adicionadas.

Custos

Vamos analisar todos os custos típicos de uma empresa. Já


vimos que o custo total de produção é a quantia que a
empresa paga para comprar insumos usados na produção. O
custo total de produção (CT) é a soma do custo fixo (CF) com
o custo variável (CV), isto é, CT = CF + CV. Custo fixo é
aquele que não varia com a quantidade produzida, como por
exemplo, o custo da compra de uma máquina. Já o custo
variável é aquele que varia com a quantidade produzida,
como, por exemplo, o custo da compra de materiais usados
na produção. Assim, CV = f (Q), isto é, o custo variável é
função da quantidade produzida. Estes custos são ilustrados
na Figura 27.

Cabe notar que a divisão dos custos totais entre custos fixos
e custos variáveis depende do horizonte de tempo
considerado. Em um horizonte de curto prazo, os custos fixos
não podem variar, já que a empresa sofre restrições quanto à
oferta destes. Por exemplo, ao montar um fábrica de
automóveis a compra das máquinas é um custo fixo, e, uma
vez feita, não é possível variar a quantidade comprada deste
insumo. Já no longo prazo, até os custos fixos se tornam
variáveis e podem ser comprados de outras fontes. Se no
longo prazo a fábrica de automóveis deseja se expandir, por
exemplo, ela pode comprar mais máquinas de vários
fornecedores diferentes para a expansão da produção.

103
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Custo de
Produção (R$)
20

18 CT
16 CV
14

12

10

2 CF
0 Quantidade
0 2 4 6 8 10 12 14 16 (tons)

Figura 27 – Custos de Produção de uma Empresa

Do ponto de vista do cálculo dos custos de produção é mais


útil calcular tais custos por unidade de produto, o que
chamamos de custo médio, que é o custo típico de uma
unidade de produto. Podemos também calcular o custo fixo
médio (CFM), que é igual ao custo fixo dividido pela
quantidade produzida, o custo variável médio (CVM), que é
a divisão do custo variável pela quantidade produzida, e o
custo total médio (CTM), que é igual ao custo total dividido
pela quantidade produzida. Assim, CTM = CFM + CVM.
Finalmente é importante entender o conceito de custo
marginal (CM) de produção: este mede o aumento dos custos
totais decorrentes da produção de uma unidade adicional. É
calculado dividindo a variação do custo total pela variação da
produção, isto é, CM = CT / Q (onde  denota a variação de
uma dada variável). Ilustramos os custos médios de uma
empresa e seu custo marginal na Figura 28.

104
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Custo de
Produção (R$)
3,5

3,0

2,5
CM
2,0

1,5
CTM
CVM
1,0

0,5

CFM
0 Quantidade
0 2 4 6 8 10 12 14 16 (tons)

Figura 28 – Custos Médios e Marginal de uma Empresa

Para entender as curvas de custos da empresa listamos na


Tabela 2 a produção e os custos da padaria do Manuel. Os
dados da tabela abaixo estão plotados nos gráficos das Figuras
27 e 28. Inicialmente note que o custo fixo (CF) é sempre igual
a R$2, daí a curva horizontal na Figura 27. Já o custo variável
(CV) é zero quando não há produção e sempre sobe à medida
que a produção aumenta. Já a curva de custo total (CT) tem
o mesmo formato que a CV. O custo fixo médio (CFM) sempre
cai, pois este é igual à divisão de um número fixo (CF) por
outro que sempre aumenta (quantidade). Já o custo variável
médio (CVM) e o custo total médio (CTM) caem a pequenos
valores de produção, atingem um mínimo e depois sobem à
medida que a produção sobe.

105
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Tabela 2 – Quantidades (Q) e Custos de Produção da Padaria do Manuel *


Q CT CF CV CTM CFM CVM CM
0 2,00 2,00 0,00 - - - -
1 3,00 2,00 1,00 3,00 2,00 1,00 1,00
2 3,80 2,00 1,80 1,90 1,00 0,90 0,80
3 4,40 2,00 2,40 1,47 0,67 0,80 0,60
4 4,80 2,00 2,80 1,20 0,50 0,70 0,40
5 5,20 2,00 3,20 1,04 0,40 0,64 0,40
6 5,80 2,00 3,80 0,97 0,33 0,63 0,60
7 6,60 2,00 4,60 0,94 0,29 0,66 0,80
8 7,60 2,00 5,60 0,95 0,25 0,70 1,00
9 8,80 2,00 6,80 0,98 0,22 0,76 1,20
10 10,20 2,00 8,20 1,02 0,20 0,82 1,40
11 11,80 2,00 9,80 1,07 0,18 0,89 1,60
12 13,60 2,00 11,60 1,13 0,17 0,97 1,80
13 15,60 2,00 13,60 1,20 0,15 1,05 2,00
14 17,80 2,00 15,80 1,27 0,14 1,13 2,20

* As quantidades estão em toneladas, e custos estão em Reais. Os dados


são fictícios.

Há duas propriedades gráficas importantes das curvas de


custos. Em primeiro lugar, note que as curvas de custo total
médio (CTM), de custo variável médio (CVM) e de curva de
custo marginal (CM) têm forma de U. Ou seja, a baixos valores
de produção tais custos caem até atingir seus valores
mínimos, a partir do qual eles começam a subir. Note que cada
curva atinge seu mínimo em momentos diferentes, sendo que
o custo marginal atinge seu mínimo em primeiro lugar. Em
segundo lugar, a curva de custo marginal (CM) cruza a curva
de custo total médio (CTM) no ponto em que o custo total
médio é mínimo. A quantidade produzida neste ponto que
minimiza o custo total médio é chamada de escala eficiente
de produção. Note que o CM também cruza a curva de custo
variável médio (CVM) em seu mínimo.

106
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Finalmente, um conceito importante relacionado aos custos da


empresa é o de economia de escala. Há economia de escala
na produção quando o custo total médio no longo prazo cai
com os aumentos da produção. Há deseconomias de escala
na produção quando o custo total médio no longo prazo sobe
com o aumento da produção, e há retornos constantes de
escala na produção quando custo total médio se mantém
constante enquanto a produção aumenta (vide Figura 29).

Custo Total
Médio ($)

CTM

Economias Retornos constantes Deseconomias


de escala de escala de escala

0 Quantidade
(tons)

Figura 29 – Economias de Escala e Custo Total Médio de uma Empresa

Exercícios – Capítulo 6

107
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

1. Qual a definição de custo de oportunidade? O que são


custos explícitos e custos implícitos? O que diferencia o custo
de oportunidade do custo contábil?

2. Defina custo fixo, custo variável e custo total de produção.


Defina também custo fixo médio, custo variável médio e custo
total médio de produção, bem como custo marginal.

3. Suponha que a função de custo total de uma empresa no


curto prazo possa ser escrita como CT = 2500 + 100Q. Qual
o custo fixo? Qual o custo médio fixo? Qual o custo variável?
Qual o custo médio variável?

4. Quais as duas propriedades gráficas importantes das curvas


de custos? Explique-as.

5. Defina escala eficiente de produção, economias de escala,


deseconomias de escala e retornos constantes de escala. O
que acontece com o custo total médio de produção quando há
economias de escala?

7. Até recentemente, você trabalhou para uma firma de


desenvolvimento de software com um salário anual de
R$36.000. Agora, você decide abrir sua própria firma, sai do
emprego, retira R$10.000 de uma conta de poupança (que
paga 5% de juros) e usa o dinheiro para comprar o hardware
mais atual para usar na sua firma. Você também converte um
quarto de sua casa que estava sendo alugado por R$250 por
mês, em um escritório para sua nova firma de software.
Depois, você aluga alguns equipamentos de escritório por
R$3.600 por ano e contrata dois programadores por apenas
um período, com salário de R$25.000 por ano, e paga R$50
por mês com a conta de luz de seu novo escritório.
a) Quais são os custos explícitos anuais totais da firma?
b) Quais são os custos implícitos anuais totais da firma?

108
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

c) Ao final do seu primeiro ano, seu contador informa que suas


vendas totais do ano somaram R$55.000. Ele o parabeniza
pelo ano lucrativo. Sua parabenização é justificada? Por que?

8. Liste quais dos insumos abaixo podem ser classificados


como custos fixos e como custos variáveis no horizonte de
tempo de curto prazo (tipicamente de um mês):
a) pneus para uma empresa automotiva
b) automóveis para uma empresa de aluguel de automóveis
c) galpão para uma indústria do setor metalúrgico
d) mão de obra de limpeza para uma escola
e) tornos mecânicos para uma empresa metalúrgica

9. Usando a ideia de economia de escala, explique as fusões


entre várias empresas que produzem produtos similares que
ocorreram nos últimos anos no Brasil e no mundo.

10. Na tabela abaixo, foram apurados os custos totais de


produção no curto prazo e no longo prazo de uma empresa:
Q CT1 CT2 CFT CVT CFM CVM CM
0 0 350
1 300 400
2 400 435
3 465 465
4 495 505
5 560 560
6 600 635
7 700 735
a) Como saber qual das duas curvas, CT1 ou CT2, é a curva de
custo total de curto prazo e qual é a de longo prazo?
b) Em qual nível de produção Q os custos são iguais no curto
e no longo prazo?
c) Preencha os dados para as outras curvas de custos (fixo
total, variável total, fixo médio, variável médio, e marginal)
de curto prazo da tabela qualquer.

109
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Capítulo 7 – Estruturas de Mercado

O
s custos de produção das empresas determinam a
curva de oferta do produto em um determinado
mercado. Vimos que o objetivo da empresa é maximizar
o lucro, maximizando a receita e minimizando o custo. Mas a
questão permanece: em que ponto o preço e a quantidade
produzida maximizam o lucro da empresa? Em primeiro lugar,
vimos que a demanda do mercado restringe a atuação da
empresa. Seria ótimo cobrar um preço altíssimo por um
produto, mas é necessário saber se há demanda para aquele
produto naquele preço. Em segundo lugar, a função de
produção e os custos de produção também restringem a
capacidade da empresa de colocar qualquer preço para seus
produtos. Seria também ótimo colocar um preço bem baixo
para atrair a demanda, mas se o preço estiver abaixo dos
custos, a empresa não irá sobreviver naquele mercado por
muito tempo.

Além destes dois fatores (demanda e custos), a maximização


dos lucros depende das condições de competição do mercado,
ou seja, daquilo que foi definido anteriormente como
estrutura de mercado. Esta foi definida como o tipo de
interação entre compradores e vendedores em um mercado
específico. Quanto ao tipo de interação ou forma da
concorrência em um mercado, os mercados podem ser de
concorrência imperfeita (ou competição imperfeita), onde
compradores ou vendedores individuais têm algum poder de
influência sobre a formação do preço do produto, e os
mercados de concorrência perfeita (ou mercados
competitivos), onde compradores ou vendedores individuais
têm de aceitar o preço como dado pelo mercado. Veremos
neste capítulo o mercado de concorrência perfeita, além dos
três tipos de mercados de concorrência imperfeita: monopólio,
oligopólio e concorrência monopolística.

110
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Concorrência perfeita

As características de um mercado perfeitamente


competitivo são as seguintes: 1. Existe um grande número
de compradores e vendedores no mercado, de modo que cada
um compra ou vende apenas uma pequena fração da
quantidade total do mercado. Deste modo, nenhum
comprador ou vendedor tem influência sobre o preço do
produto alterando a quantidade que compra ou vende; 2. Os
vendedores oferecem um produto padronizado ou
homogêneo, de modo que não é possível cobrar um preço
maior por características diferenciadas que o produto possa
ter; e 3. As empresas podem entrar e sair com facilidade do
mercado quando elas quiserem, não existindo maiores
dificuldades (ou barreiras à entrada) para a empresa entrar
ou sair do setor, como, por exemplo, os altos investimentos
para iniciar as operações produtivas. Neste tipo de mercado,
os compradores e vendedores têm que aceitar o preço que o
mercado determina e por isso são chamados de tomadores
de preços.

O objetivo de uma empresa é a maximização dos lucros, de


modo que esta visa maximizar a diferença entre a receita total
e o custo total. Já definimos o conceito de receita total
anteriormente como o produto entre preço e quantidade. Já a
receita marginal (RM) é a variação na receita total de uma
empresa decorrente da venda de uma unidade adicional do
bem. Isto é, RM=RT/Q (onde  denota a variação de uma
dada variável). E, como definimos anteriormente, o custo
marginal é o aumento dos custos totais decorrentes da
produção de uma unidade adicional. É calculado pela divisão
da variação do custo total pela variação da produção, isto é,
CM = CT / Q. Enquanto a receita marginal de se produzir
mais uma unidade for maior que o seu custo marginal,
compensa a empresa produzir mais uma unidade pra se tentar
maximizar o lucro. Por outro lado, se o custo marginal de se
produzir mais uma unidade for maior que a sua receita

111
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

marginal, não compensa produzir aquela unidade a mais, e é


melhor diminuir a produção em uma unidade. Deste modo, a
empresa vai maximizar o lucro (ou a diferença entre receita
total e custo total) se ela produzir uma quantidade na qual a
receita marginal é igual ao custo marginal.

Como no mercado perfeitamente competitivo os compradores


são tomadores de preços, eles compram qualquer quantidade
pelo preço vigente no mercado. Por este motivo, a curva de
demanda é uma linha horizontal na qual o preço é um valor
constante e igual ao preço do mercado (demanda
perfeitamente elástica). Do mesmo modo, neste tipo de
mercado a receita marginal é igual ao preço de mercado.
Assim, em um mercado competitivo a empresa maximiza o
lucro produzindo a quantidade na qual o preço de mercado
é igual ao custo marginal (vide Figura 30).

Preço
($)

CM

CTM
P=RM P = RMG
(Demanda)
CVM

Quantidade
(tons)

0 Q*

112
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Figura 30 – Preço e Quantidade Ótimos em um Mercado Competitivo


Monopólio

Um mercado de competição imperfeita tem as seguintes


características: 1. Poucos ou apenas um comprador ou
vendedor, de modo que cada um compra ou vende uma fração
significativa da quantidade total do mercado. Assim, eles
podem afetar o preço do produto alterando a quantidade que
compra ou vende; 2. Muitas vezes os vendedores oferecem
um produto não padronizado ou diferenciado, de modo que
eles podem cobrar um preço maior pelas características
diferenciadas que o produto possa ter; e 3. É difícil entrar e
sair do mercado, havendo barreiras à entrada (e à saída) da
empresa no setor.

A empresa é considerada monopolista se é a única


vendedora de um produto que não tem substitutos próximos.
O mercado no qual a firma de monopólio opera é chamado
mercado monopolista. O termo monopólio é utilizado para
um mercado de apenas um vendedor. Se o mercador tiver
apenas um comprador, o chamamos de monopsônio.

Barreiras à entrada são características de um mercado que


impedem a livre entrada de empresas do setor. As três
barreiras mais comuns são as seguintes: 1. Economias de
escala. Como já vimos na Figura 29, existe economia de
escala na produção quando o custo total médio no longo prazo
cai à medida que produção aumenta, e a curva de custo total
médio inclina-se para baixo sempre. Isto ocorre quando há um
custo fixo alto, o qual implica em custo médio total declinante.
Neste caso, quanto mais a firma produzir, menor será seu
custo unitário, e a escala eficiente será mais alta. Há uma
tendência de que haja poucas ou uma firma só neste tipo de
mercado. Quando as economias de escala persistem até o
ponto em que uma única firma esteja produzindo para todo
mercado, há um monopólio natural: devido a economias de
escala, uma firma pode produzir com um custo médio por

113
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

unidade inferior ao que podem produzir duas ou mais


empresas. No monopólio natural, se o governo não intervier,
o mercado evolui naturalmente para um monopólio; 2.
Barreiras criadas pelo governo. Em alguns casos o
interesse público é mais bem atendido se tivermos uma única
empresa oferecendo o produto para todo o mercado, como os
serviços de utilidade pública, como luz e água, ou em setores
onde patentes e leis de propriedade intelectual sejam
necessárias. O governo cria então uma barreira à entrada de
outras empresas, assegurando por lei que o mercado
permaneça um monopólio; e 3. Controle de um recurso
escasso. Algumas empresas são monopólios por controlar
toda a produção de um insumo necessário para produzir um
bem, como o caso da empresa sul-africana De Beers, que
comprou a maior parte das minas de diamante do mundo,
detendo assim um monopólio na produção de diamante
acabado.

O caso do monopolista é bem diferente da empresa de um


mercado de concorrência perfeita. No segundo caso, a curva
de demanda é uma linha horizontal e igual ao preço de
mercado, que é constante e tomado como dado. O preço é
também igual à receita marginal neste caso. Já no caso do
monopólio a curva de demanda é descendente, e o produtor
monopolista enfrenta a demanda do mercado, que, como
sabemos, diminui quando o preço aumenta. O preço cai à
medida que a quantidade vendida aumenta, mas esta cresce
mais rápido que a queda dos preços; assim, a receita total
aumenta e a receita marginal diminui, e é sempre menor do
que o preço. Enquanto a empresa competitiva é tomadora de
preço, a monopolista é formadora de preço.

Como o monopolista maximiza seu lucro? Em dois passos: 1.


o monopólio maximiza o lucro ao produzir a quantidade na
qual a receita marginal equaliza o custo marginal; 2. Em
seguida, ele usa a curva de demanda para achar o preço que
induzirá os consumidores a comprarem a quantidade. No

114
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Ponto A da Figura 31 temos que RM = CM, e a quantidade Q*


é a ótima. Para aquela quantidade subimos então até a curva
de demanda e marcamos o preço ótimo P* (ponto B).

Preço
($)

CM
B
P*

CTM
A
D
D

Quantidade
RM (tons)

0 Q*

Figura 31 – Preço e Quantidade Ótimos em um Mercado de Monopólio

Ao compararmos o caso do monopólio e da competição


perfeita, para a empresa competitiva o preço (P’ na Figura 32)
é igual ao custo marginal (P = RM = CM). Já no caso do
monopólio o preço excede o custo marginal, pois o preço (P*
na Figura 32) é maior que a receita marginal sempre (isto é,
P > RM = CM). Assim, o lucro do monopolista será sempre
maior que a empresa da competição perfeita (dado pela
diferença entre custo total médio e preço, ou o retângulo
BCDP* na Figura 32). Além disso, a quantidade produzida no
caso do monopólio será sempre menor que a quantidade de
competição perfeita (Q* < Q’). Este último fato, a ineficiência
produtiva do monopólio, tem, via de regra, justificado a
intervenção do governo, que cria regras para forçar que um

115
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

monopólio produza a quantidade produzida que uma empresa


competitiva produziria.

Preço
($)

CM
B
P*

CTM
P’
A A’
D
C D

RM
Quantidade
0 Q* Q’ (tons)

Figura 32 – Comparação de Preço e Quantidade Ótimos em Mercados


Competitivo e de Monopólio

Este último fato, a ineficiência produtiva do monopólio, tem,


via de regra, justificado a intervenção do governo, que cria
regras para forçar que um monopólio produza a quantidade
produzida que uma empresa competitiva produziria.

O conjunto de regras criadas pelo governo para corrigir a


ineficiência produtiva de um monopolista é chamada de
regulação, a qual são limitações na ação de um monopólio
que buscam induzi-lo a produzir a quantidade eficiente que
uma empresa em mercado competitivo produziria. Tal
limitação pode consistir de ações delineadas por um agente
regulador do governo, como a fixação pré-definida de tarifas
de serviços ou produtos. Exemplos de setores que são

116
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

regulados no Brasil são os setores de telecomunicações, luz,


água e esgoto, gás, etc. Cada um destes setores tem um órgão
regulador que gerencia as tarifas pela prestação destes
serviços, como, por exemplo, a ANEEL (Agência Nacional de
Energia Elétrica), a qual regula os monopólios regionais
fornecedores de energia elétrica.

Oligopólio

Outro tipo de mercado de concorrência imperfeita é o


oligopólio. Um oligopólio é um mercado com um pequeno
número de vendedores. Além disto, tal como no caso do
monopólio, também há barreiras à entrada neste mercado.
Muitas vezes no oligopólio o produto não é padronizado (e sim
diferenciado). Em particular, um duopólio é o oligopólio de
apenas 2 membros. O mercado com um pequeno número de
compradores é chamado de oligopsônio.

As empresas em um oligopólio são interdependentes, isto é, a


ação de uma empresa impacta as outras do oligopólio. Por
exemplo, há poucas empresas produtoras de minério de ferro,
e empresas como Vale, BHP Billinton e Rio Tinto dominam a
maior parte de sua produção. Se a Vale, por exemplo, diminui
o preço do minério de ferro para aumentar suas vendas, é de
se esperar que as outras também o façam; e esta redução de
preços das outras empresas também afetará a Vale, por sua
vez.

É por isto que, em um oligopólio, a melhor situação para


qualquer de seus membros é cooperar com os outros e agir tal
como um monopolista, produzindo menores quantidades e
cobrando preços acima do custo marginal a fim de maximizar
seus lucros. Em um conluio, as empresas oligopolistas
cooperam entre si na definição de preços, envolvendo uma
comunicação explícita ou implícita de seus membros. Uma
forma de conluio é a ação de um cartel, um grupo de

117
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

empresas que selecionam um preço comum para maximizar


os lucros totais do grupo. Um exemplo famoso de cartel é o
dos países produtores de petróleo, a OPEP, que
periodicamente se encontra para combinar os níveis de
produção de petróleo de cada um de seus membros visando
influenciar os preços (e assim os lucros) do produto.

Para controlar a ação dos oligopólios é necessária a criação


por parte do governo de políticas públicas que os controlem,
já que a cooperação entre oligopolistas é indesejável do ponto
de vista da sociedade, pois isto leva a uma produção mais
baixa e preços mais altos que o mercado competitivo. Assim,
o governo criou uma política de defesa da concorrência, que
é uma série de normas e leis (as leis antitruste) que visam
controlar a restrição à produção e as tentativas de
monopolizar o mercado e de combinar preços por parte dos
oligopólios. No caso do Brasil, o aparato governamental que
aplica as normas da concorrência aos oligopólios inclui o CADE
(Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que julga as
infrações à ordem econômica, e a SEPRAC (Secretaria de
Promoção da Produtividade e Advocacia da Concorrência), que
promove a difusão da cultura de concorrência, dá apoio
técnico a outros órgãos de governo, e prepara estudos e
outras atividades informativas;

Como se dá a otimização do lucro em um mercado


oligopolístico? Para entendê-la, utiliza-se a Teoria dos Jogos,
que é o estudo de como as pessoas se comportam em
situações estratégicas. Decisões estratégicas são aquelas
em que cada pessoa, ao tomar suas decisões, tem que
considerar como os outros responderão às suas ações. Como
o número de empresas em um mercado oligopolístico é
pequeno, estas empresas devem agir estrategicamente na
hora de decidir seus preços e produção (e, portanto, seu
lucro). Cada empresa sabe que o seu lucro depende não só de
quanto ela produz, mas também de quanto as outras
empresas produzirem. Na Teoria dos Jogos, as empresas

118
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

interagem e decidem em conjunto seus níveis de produção e


de preços de modo a aperfeiçoar seus lucros. O Equilíbrio de
Nash é uma situação de equilíbrio na qual os atores
econômicos, após interagirem estrategicamente, escolhem
suas melhores estratégias dadas as estratégias dos outros.

A análise do Equilíbrio de Nash em um mercado oligopolístico


exige uma análise matemática mais elaborada, mas o
resultado resumido da determinação do equilíbrio de Nash que
maximiza o lucro para o caso do duopólio é tal que cada
empresa escolhe um nível de produção superior à quantidade
produzida se fosse um monopólio, e um nível de produção
menor do que se fosse um mercado competitivo (Q entre Q*
e Q’ na Figura 32). Consequentemente, o nível de preços de
equilíbrio para um duopólio é menor que o preço de monopólio
e maior que o preço do mercado competitivo (P entre P’ e P*
na Figura 32).

Concorrência Monopolística

Um mercado de concorrência monopolística tem algumas


características de competição perfeita e outras de monopólio.
Em primeiro lugar, é um mercado onde há vários vendedores.
As várias empresas estão competindo pelos mesmos
consumidores. Há também livre entrada e saída de empresas
no setor (isto é, não há barreiras significativas à entrada). Por
outro lado, há diferenciação de produto, isto é, há muitas
empresas vendendo produtos similares, mas que não são
idênticos. Exemplos: restaurantes, hotéis, livros, CDs, etc. Em
uma dada cidade, pode haver milhares de restaurantes, todos
buscando atrair os milhares de clientes interessados. As
barreiras à entrada neste setor, ainda que não sejam
pequenas, não são significativas na maioria dos casos. O que
diferencia os restaurantes uns dos outros é a diferenciação de
produto: cada restaurante vende um produto diferenciado
(embora o produto seja similar, comida) de um modo

119
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

importante, seja na qualidade da comida servida, nas receitas


utilizadas, na atmosfera do local, etc.

No caso da competição monopolística, ao invés de as


empresas serem tomadoras de preço, por causa da
diferenciação de produto as empresas têm poder de mercado
e assim se deparam com uma curva de demanda decrescente.
Porém, como há a possibilidade de encontrar substitutos
similares, a demanda é elástica e assim inclinada
horizontalmente e mais inclinada que o caso do monopólio
(embora não seja horizontal como no caso da competição
perfeita). Além disso, no mercado de concorrência
monopolística existe o markup, que é a diferença entre preço
e custo marginal. Como para a empresa competitiva o preço é
igual ao custo marginal, o markup é zero. Já para a empresa
de concorrência monopolística (assim como nos casos de
monopólio e oligopólio) o preço excede o custo marginal
(sendo o markup positivo). Assim, ao preço exceder o custo
marginal, cada unidade extra vendida ao preço de mercado
significa um lucro maior para a empresa, tal como no mercado
monopolístico.

A empresa de um setor onde há concorrência monopolística


maximiza o lucro de uma maneira diversa aos casos já vistos.
Como no caso do monopólio, o preço excede o custo marginal,
e a maximização do lucro exige que a receita marginal seja
igual ao custo marginal. Também como no monopólio, a
demanda decrescente faz com que a receita marginal seja
sempre menor que o preço. Mas como em mercados
competitivos o preço é igual ao custo médio total (devido à
competição). Assim, o lucro máximo ocorre no ponto em que
a receita marginal seja igual ao custo marginal e, ao mesmo
tempo, que o preço seja igual ao custo médio total (ponto A
na Figura 33).

120
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Preço
($)

CM
P* CTM

RM D Quantidade
(tons)

Q*

Figura 33 – Preço e Quantidade Ótimos em um Mercado de


Concorrência Monopolística

Para finalizar a discussão sobre estruturas de mercado, note


que, para os mercados de produtos agrícolas, estes tendem a
ter competição perfeita, uma vez que, em sua grande maioria,
estes produtos são homogêneos e costumam exibir um grande
número de competidores. Porém, para alguns produtos
agrícolas é possível observar uma oligopolização em seus
mercados, com poucas empresas dominando a produção; em
outros casos, há a tentativa de diferenciação de produto,
como, por exemplo, no caso da produção de alguns tipos de
café “gourmet”, diferenciando-se pela qualidade ou pela
marca. Note também que no caso dos produtos industriais:
tendem a ter competição imperfeita, em geral pela presença
de grande economia de escala (devido à presença de altos
custos fixos) e/ou pela quantidade limitada de empresas
fornecedoras. Note também, que em alguns casos, existem,

121
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

as “commodities” industriais, como a produção mundial de


aço, que, embora a existência de altos custos fixos, e a
tendência de se formarem oligopólios, há uma concorrência
grande mundial devido à presença de siderurgias de baixo
custo provenientes principalmente de países asiáticos.

Já quanto aos serviços, o padrão de concorrência depende se


o serviço considerado é especializado ou generalizado. Para os
serviços especializados, nos quais o grau de elaboração e
sofisticação é maior (como por exemplo, os serviços de
neurocirurgia, de finanças internacionais e de consultoria
empresarial) o produto geralmente é diferenciado e estes
mercados tendem a exibir uma competição imperfeita. Já no
caso de serviços generalizados, nos quais o grau de
elaboração e sofisticação é menor (como, por exemplo, os
serviços de varejo), o produto geralmente é homogêneo e o
Mercado tende a ser de competição perfeita.

Exercícios – Capítulo 7

1. Quais são os três fatores dos quais depende a otimização


dos lucros? Explique-os.

2. Quais são as características de um mercado perfeitamente


competitivo?

3. Para maximizar o lucro, qual deve ser a quantidade


produzida por uma empresa em um mercado competitivo?
4. Quais são as características de um mercado de competição
imperfeita?

5. Como determinar se uma empresa é considerada


monopolista em um determinado mercado?

6. Explique as barreiras à entrada mais comuns.

122
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

7. Como o monopolista maximiza seu lucro?

8. Explique a “ineficiência produtiva do monopólio”.

9. Defina oligopólio, duopólio, conluio, cartel e markup.

10. Como a empresa maximiza o lucro no caso do duopólio?

11. Quais são as características de um mercado de


concorrência monopolística?

12. Como a empresa maximiza o lucro no caso de concorrência


monopolística?

13. Suponha que a curva de custo marginal de um produto


seja: CM = 20 + 2Q para uma empresa em um mercado
competitivo, cuja produção, Q, é vendida por um preço, P, de
100. Quanto a empresa produzirá para poder maximizar seu
lucro?

14. Na questão anterior, se a curva de custo total do produto


for CT = 600 + 20Q + Q2, qual é o lucro maximizado?

15. Suponha que a curva de custo marginal de um produto é


dada por CM = 20 + 3Q para uma empresa em um mercado
competitivo, cuja produção, Q, é vendida por um preço, P, de
110. Quanto a empresa produzirá para poder maximizar seu
lucro? Se a curva de custo total for CT = 100 + 10Q + Q2, qual
é o lucro maximizado? Qual a receita total? Qual a receita
média?

16. A Indústria Fac-Camp é especializada em eletrônica de


precisão. Sua mais recente invenção promete revolucionar a
indústria de eletrônicos e eles já fizeram e venderam 75 dos
dispositivos milagrosos. Eles estimaram os custos médios de
produção, os quais estão na tabela abaixo:

123
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Unidade Custo Médio


74 R$ 10.000
75 R$ 12.000
76 R$ 14.000

Um cliente da Fac-Camp acabou de lhe oferecer R$ 150.000


para eles produzirem a 76ª unidade. A Fac-Camp deve aceitar
a oferta e fabricar o dispositivo adicional? Explique.

17. Os dados de demanda e de custo total médio para uma


empresa monopolista do setor de livros estão na tabela abaixo
(preço, receitas e custos são dados em R$):

Quantidade Preço CTM* Receita Receita Custo Custo


de Cópias Por Livro por Livro Total Marginal Total Marginal
100.000 100 20,00
200.000 80 15,00
300.000 60 16,66
400.000 40 22,50
500.000 20 31,00
*CTM = Custo Total Médio
a) Preencha os dados que faltam de receitas e custos.
b) Qual deve ser a quantidade de livros e o preço cobrado pela
empresa a fim de maximizar o lucro da empresa?

18. Se a curva de demanda de um monopolista é dada por P


= 20 - 4Q, onde P é o preço e Q é a quantidade demandada.
A receita marginal é dada por RM = 20 – 8Q e o custo marginal
é CM = Q2. Quanto esta firma deve produzir para maximizar
seu lucro? A que preço?

19. Em um duopólio (oligopólio com duas firmas), a produção


de cada firma depende da produção da outra firma. Se a

124
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

produção da firma 1 for Q1 = (a – c – Q2)/2b, e a produção da


firma 2 for Q2 = (a – c – Q1)/2b, onde a, b, e c são números,
a determinação da produção de cada firma é determinada em
conjunto, resolvendo as duas equações simultaneamente e
encontrando o valor de Q1 e Q2. O resultado encontrado para
Q1 e Q2 em equilíbrio é chamado de equilíbrio de Cournot-
Nash. Resolva as duas equações simultaneamente e encontre
Q1 e Q2 de equilíbrio.

20. Sejam os quatro tipos de estrutura de mercado:


concorrência perfeita, monopólio, oligopólio e concorrência
monopolística. Dependendo da estrutura do mercado no qual
a firma opera, está terá nenhuma, pouca ou bastante
motivação para realizar investimento na propaganda de seus
produtos. Este está relacionado com a possibilidade que uma
firma tenha de aumentar sua participação nas vendas em um
determinado mercado. Identifique a estrutura de mercado
provável de cada um dos mercados abaixo no Brasil, e
mencione se as firmas participantes de tal mercado realizarão
nenhum, pouco ou grande investimento em propaganda,
explicando a motivação de tal investimento:
a) distribuição de energia elétrica no estado de São Paulo
b) restaurantes na cidade de São Paulo
c) fazendas produtoras de alface no Brasil
d) produção de automóveis no Brasil
e) usinas de álcool e açúcar no estado de São Paulo
f ) fazendas produtoras de milho no Brasil

21. Há dois vendedores de cachorro-quente bem em frente à


sua universidade. Digamos que apenas um deles oferece o
produto com um molho especial, tentando assim diferenciar o
seu produto diante do produto do rival. Digamos que, após um
tempo, os consumidores de cachorro-quente ali continuaram
a escolher o cachorro-quente pelo preço, de modo que este
vendedor percebeu que não estava valendo a pena aumentar
seu custo com a adição do molho. Como você pode

125
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

caracterizar o mercado de cachorro-quente em frente à sua


universidade quanto à estrutura de mercado? Explique.

22. Já no outro lado da avenida em frente à sua universidade


existem duas lojas de bebidas importadas. Um deles começou
a trazer (e expor na vitrine da loja) novas bebidas importadas,
tentando diferenciar o seu produto diante do produto do rival.
Como os consumidores de bebidas importadas costumam
escolhe-las pela qualidade, este vendedor percebeu que
estava aumentando suas vendas e que esta estratégia estava
valendo a pena. Como você pode caracterizar o mercado de
bebidas importadas em frente à sua universidade quanto à
estrutura de mercado? Explique.

23. Quais são as características de um mercado de monopólio?


O que é um monopólio natural? O que é regulação de uma
empresa monopolista?

24. Se a curva de demanda de um monopolista é dada por P


= 60 - 4Q, onde P é o preço e Q é a quantidade demandada.
A receita marginal é dada por RM = 20 + 8Q e o custo marginal
é CM = Q2. Quanto esta firma deve produzir para maximizar
seu lucro? A que preço?

25. Suponha que a curva de custo marginal é dada por CMg =


40 + 4Q para uma empresa em um mercado competitivo, cuja
produção, Q, é vendida por um preço, P, de 240. Quanto a
empresa produzirá para poder maximizar seu lucro? Se a
curva de custo total for CT = 2500 + 10Q + Q2, qual é o lucro
maximizado? Qual a receita total?

126
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Capítulo 8 – Eficiência de Mercado e o Governo

N
este último capítulo referente à análise
microeconômica, veremos o conceito de eficiência
econômica e a importância deste conceito para a análise
e o funcionamento dos mercados. Depois veremos o que
acontece quando há falhas na eficiência econômica e o que o
governo pode fazer para resolver o problema da ineficiência
econômica.

Inicialmente nos perguntamos: o que é um mercado eficiente?


Devido ao trabalho do economista italiano Vilfredo Pareto
surgiu o conceito de melhoria de Pareto, como uma ação
que melhora pelo menos uma pessoa sem prejudicar nenhuma
outra pessoa. A eficiência econômica é uma situação
econômica onde não há como reorganizar a produção ou
alocação de produtos de uma maneira que uma pessoa
melhore sem que a outra piore; isto é, a eficiência econômica
(ou eficiência de Pareto) é uma situação em que cada melhora
de Pareto possível já ocorreu, não havendo mais a
possibilidade de obter uma melhoria de Pareto. Assim, na
eficiência de Pareto a situação econômica é tal que a produção
ou alocação de produtos já foi feita de maneira que todas as
pessoas tiveram suas situações melhoradas.

Note, entretanto, que uma situação de eficiência econômica


não significa uma situação de justiça; pode ser que uma
alocação econômica seja a mais eficiente do ponto de vista
econômico, mas que, ao mesmo tempo, esta situação esteja
ligada a uma distribuição de renda e de propriedade que seja
concentrada em poucas famílias. A questão do objetivo de
justiça quanto à distribuição dos recursos na sociedade pode
ser modificada pela política (ação de governo); isto é, a
sociedade pode decidir quem faz o que e quando com os
recursos de que ela dispõe. Mas a análise econômica pode
mostrar se uma dada situação econômica é eficiente ou não.

127
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Por que um mercado deve ser eficiente? Para que uma dada
distribuição de recursos da sociedade seja utilizada da melhor
maneira possível. Embora seja muito difícil que uma sociedade
seja completamente eficiente em termos econômicos, tentar
chegar mais próximo da maximização do objetivo de
eficiência econômica é importante.

A eficiência econômica pode ser dividida em eficiência


produtiva e eficiência alocativa. A eficiência produtiva
ocorre quando é impossível produzir mais de um bem sem
produzir menos de algum outro bem. Neste caso os recursos
estão sendo utilizados da maneira mais produtiva possível, e,
se queremos aumentar a produção de um bem, devemos
necessariamente realocar os recursos e diminuir a produção
dos outros bens. A curva que relaciona a produção de um
produto e a produção de outros bens em uma economia é
chamada de fronteira de possibilidades de produção, ou
FPP (Figura 34). Nesta curva ilustra-se a troca que se deve
fazer para produzir um bem em termos do outro. Em todos os
pontos da curva (como os pontos A, B ou C), para se produzir
mais aço laminado é necessário produzir menos dos outros
tipos de aço, isto é, em todos os pontos desta curva há
eficiência produtiva. Nos pontos abaixo da FPP (ponto D), há
ineficiência produtiva, e é possível aumentar a produção de
um bem sem prejudicar a produção dos outros bens.

Além da eficiência produtiva, outra condição para a existência


de eficiência econômica é a eficiência alocativa, que ocorre
quando não existe alteração na quantidade consumida de
nenhum bem por nenhum consumidor que seria uma melhoria
de Pareto. Enquanto a eficiência produtiva cuida da otimização
dos recursos de produção, a eficiência alocativa garante que
os bens “certos” estão sendo produzidos e que os bens estão
sendo distribuídos para aqueles que mais o valorizam, com
quantidades eficientes dos diferentes bens sendo oferecidos à
sociedade.

128
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Quantidade de
Outros Tipos
de Aço (tons)

D C

A
Quantidade de
Aço Laminado
(tons)

Figura 34 – Fronteira de Possibilidades de Produção para uma


Empresa

Podemos relacionar a eficiência alocativa às curvas de


demanda e de oferta de um produto. Na Figura 35, vemos que
a altura da curva de demanda do mercado em qualquer
quantidade nos mostra o benefício marginal para um
consumidor da última unidade de um bem consumido. Já a
altura da curva de oferta de mercado em qualquer quantidade
mede o custo marginal para alguma empresa da última
unidade produzida. Note que, se a quantidade for igual a Q’,
os consumidores estão dispostos a pagar P’ (benefício
marginal) enquanto o custo marginal de se produzir uma
unidade a mais é P’’, portanto o benefício marginal excede o
custo marginal e compensa produzir mais. Este processo vai
até o ponto A, no qual o benefício marginal iguala o custo
marginal, Q* é a quantidade economicamente eficiente e P* é
o preço eficiente.

129
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Preço
($)

O = CM

P’

P* A

P’’
RM D
Quantidade
Q’ Q* (tons)

Figura 35 – Eficiência Alocativa para uma Siderúrgica Chinesa


(exemplo hipotético)

Uma falha de mercado ocorre quando um mercado é


ineficiente, ou quando um equilíbrio de mercado falha em
aproveitar cada melhoria de Pareto. Quais são as situações
nas quais ocorrem falhas de mercado? Primeiro, voltemos à
Figura 32, onde comparamos o mercado de monopólio ao de
concorrência perfeita. Nos mercados de competição imperfeita
em geral (como o monopólio), a firma cobra um preço (P*)
maior que o custo marginal e que o preço de competição
perfeita (P’), e produzem uma quantidade de bens (Q*) menor
que a quantidade economicamente eficiente (Q’). Assim, as
estruturas de mercado de competição imperfeita são
consideradas falhas de mercado. Já os mercados de
competição perfeita são sempre economicamente eficientes.
O governo só intervém para corrigir este tipo de falha de
mercado em alguns casos, como as leis antitruste que regulam
os oligopólios e monopólios.

130
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Além dos mercados imperfeitos, há outras situações de falhas


de mercado como a presença de externalidades, de bens
públicos e de informação imperfeita. Externalidade é um
subproduto de um produto ou atividade que afeta alguém não
imediatamente envolvido na transação. Quando uma empresa
polui um rio, as pessoas que se banham no rio ou o serviço de
água da cidade têm que lidar com um subproduto da produção
da empresa, a poluição. Quando o subproduto é prejudicial, a
externalidade é negativa; se o subproduto é benéfico, a
externalidade é positiva.

Um mercado que tenha uma externalidade negativa


associada à produção ou ao consumo de um produto é
ineficiente. Em condições de equilíbrio de mercado, o custo
marginal para todas as partes excede o benefício marginal
para todas elas. O governo corrige esta ineficiência cobrando
um imposto igual à diferença entre o custo marginal social e o
custo marginal privado, o qual corrige a externalidade
negativa e torna tal mercado eficiente (Figura 36).

Preço
($) bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbb

CMS

O
P*

PM

Quantidade
Q* QM (tons)

Figura 36 – Correção de uma Externalidade Negativa

131
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Do mesmo modo, é ineficiente também um mercado que


tenha uma externalidade positiva associada à produção ou
ao consumo de um produto. Em condições de equilíbrio de
mercado, o benefício marginal para todas as partes excede o
custo marginal para todas elas. Também aqui a ação
governamental corrige a falha de mercado, criando um
subsídio igual à diferença entre o benefício marginal social e o
benefício marginal privado, tornando o mercado eficiente.

Preço bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbb
($)

O
PM
P*

BMS

Quantidade
QM Q* (tons)

Figura 37 – Correção de uma Externalidade Positiva

Outra situação de falha de mercado é a presença de bens


públicos. A maior parte dos bens em nossa economia é
negociada nos mercados, e, para estes bens, os preços são os
sinais que indicam as decisões de compradores e vendedores.
Porém, o que acontece quando um bem (como uma praia) não
tem um preço? Neste caso as forças de mercado estarão
ausentes, e os mercados não poderão garantir que o bem será
produzido e consumido nas quantidades adequadas. Isto é,

132
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

haverá uma falha de mercado. Para entendermos o que são


bens públicos, note que há quatro tipos de bens baseados em
duas características: 1. o bem é excluível? Isto é, é possível
impedir o consumo de alguém?; e 2. o uso do bem é rival?
Isto é, o uso do bem por uma pessoa impede o uso por outra
pessoa? Dependendo da resposta para as duas perguntas,
teremos os quatro tipos de bens, conforme podemos ver na
Figura 38: bens privados são excluíveis e rivais (a maior parte
dos bens); bens públicos não são nem excluíveis nem rivais
(ex. segurança pública); recursos comuns são rivais mas não
excluíveis (ex. peixes ou praia); e monopólios naturais são
excluíveis mas não rivais (TV a cabo).

O Bem é Rival?
Sim Não
Bens privados Monopólio natural
• Roupas • Bombeiros
Sim • Comida • TV a cabo
• Estradas c/ pedágio • Estrada c/pedágio
O Bem é congestionadas sem trânsito
Excluível? Recursos comuns Bens públicos
• Peixes • Defesa pública
Não • Meio ambiente • Conhecimento
• Rodovia s/ pedágio • Rodovia sem pedágio
congestionada sem trânsito

Figura 38 – Bens Excluíveis e Bens Rivais

Os bens excluíveis poderão ser fornecidos pelo mercado


privado de maneira eficiente. Já os bens não excluíveis têm
um problema adicional que é o problema do carona: como
o bem é não excluível, as pessoas têm um incentivo de evitar
o seu pagamento esperando que outros paguem os custos do

133
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

fornecimento do bem e usufruam dele quando ele for


finalmente fornecido. O problema do carona impede que os
mercados privados forneçam os bens públicos; neste caso o
governo pode prover o bem público e pagá-lo com os recursos
da arrecadação de impostos. Para decidir se irá provê-lo ou
não, o benefício total para todos que usam o bem deve ser
comparável aos custos de prover e manter o bem público. Para
tal o governo faz uma análise custo-benefício que estima o
custo total e o benefício total para a sociedade como um todo
da produção de um bem público.

Um caso interessante é o do uso de recursos comuns, que são


bens rivais mas não excluíveis. Quando alguém utiliza
recursos comuns (como a pesca de peixes nos rios), esta
pessoa diminui a possibilidade de outra pessoa se aproveitar
deste recurso. Os recursos comuns tendem a ser usados
excessivamente se não se cobra pelo seu uso, criando uma
externalidade negativa, na qual o custo marginal para a
sociedade excede o benefício marginal para as pessoas que se
beneficiam do recurso comum. A solução para o problema do
recurso comum é a cobrança de impostos da mesma maneira
que no caso das externalidades negativas.

Finalmente, há falhas de mercado na presença de informação


imperfeita. Ocorre em dois casos: 1) Informação
assimétrica, como no caso em que uma das duas partes em
um mercado (comprador ou vendedor) não dispõe de toda a
informação necessária para fazer com que os mercados
funcionem de maneira eficiente. Por exemplo, a informação
sobre a qualidade de um produto pode ser assimétrica, onde
o vendedor conhece bem a qualidade do produto enquanto o
comprador não tem como conhecê-la no momento da compra,
somente tendo conhecimento completo após a compra. Isto
acontece na venda de automóveis usados, por exemplo; 2)
Risco moral, como quando uma pessoa contrata outra para
executar uma tarefa mas é capaz de acompanhar
parcialmente o resultado da execução da tarefa. A solução

134
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

para os dois casos não necessita de intervenções de governo


podendo ser o uso de mecanismos de mercado, como a criação
de um seguro de garantia de qualidade no primeiro caso, e de
incentivos financeiros no segundo caso.

Exercícios – Capítulo 8

1. Explique o conceito de eficiência econômica e a importância


deste conceito para a análise dos mercados.

2. Mostre a diferença entre uma situação de eficiência


econômica e uma situação de justiça. Como o objetivo de
justiça quanto à distribuição dos recursos na sociedade pode
divergir do objetivo de eficiência econômica?

3. Por que um mercado deve ser eficiente? Associe à sua


resposta os conceitos de eficiência econômica, eficiência
produtiva e eficiência alocativa.

4. O que é fronteira de possibilidades de produção? Como este


conceito está associado à ideia de eficiência produtiva?

5. Em quais situações ocorrem falhas de mercado? Explique


resumidamente cada uma delas.

6. Como o governo pode corrigir as situações de ineficiência


econômica decorrente de cada tipo de falha de mercado?

7. O que é externalidade? Explique a diferença entre a


externalidade negativa e a externalidade positiva.

8. O que são bens públicos? Por que tipicamente um bem


público não é fornecido pelo mercado de maneira eficiente?

9. Como o problema do carona pode criar problemas para o


fornecimento de bens não excluíveis na sociedade?

135
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

10. Explique como podem existir falhas de mercado derivadas


da presença de informação imperfeita.

11. Dê dois exemplos de bens privados, bens públicos,


recursos comuns e monopólio natural.

12. Na existência de externalidade negativa na produção de


um determinado bem, pode-se dizer que:
a) em qualquer nível de produção, o custo social é menor do
que seria sem a externalidade negativa;
b) a curva de oferta de mercado está acima da curva de custo
social;
c) a quantidade socialmente ótima é menor do que a
quantidade de equilíbrio de mercado;
d) o pagamento de subsídios à produção do bem serve de
incentivo para compensar à sociedade pela existência da
externalidade;
e) o custo de produção do bem é menor para a sociedade do
que para o produtor.

13. Justificando a intervenção do Estado na economia, uma


das razões é a existência de externalidades. A respeito de
externalidades, pode-se afirmar que:
a) só ocorrem quando há bens públicos envolvidos;
b) uma pessoa com uma doença transmissível deve ser
isolada, pois causa externalidades;
c) a única maneira de resolver o problema da poluição
atmosférica pela indústria é proibindo terminantemente a
emissão de gases tóxicos;
d) os ruídos dos bares à noite são uma externalidade para os
vizinhos, o que só pode ser resolvido proibindo o ruído nos
bares;
e) na vida real só há externalidades negativas.

136
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

PARTE III – MACROECONOMIA

137
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Capítulo 9 – Produção, Inflação e Desemprego

I
niciamos agora a análise econômica da macroeconomia,
que é o estudo das variáveis agregadas da economia. A
Macroeconomia agrega todos os bens e serviços e aborda
a produção total ao invés da produção de aço ou de minério
de ferro, por exemplo. Considera o emprego total na
economia, ao invés do emprego em um dado setor. Interessa-
se pela variação dos preços na economia e não pelo preço dos
automóveis. A Macroeconomia responde as seguintes
questões: Por que a renda média é alta em alguns países e
baixa em outros? Por que os preços sobem rapidamente em
certos períodos de tempo enquanto eles são estáveis em
outros? Por que a produção e o emprego se expandem em
certos anos e se contraem em outros? A sociedade, incluindo
os economistas, concorda em relação a três importantes
metas macroeconômicas: crescimento econômico rápido,
pleno emprego e estabilidade de preços. Mas será possível
conciliar as três metas ao mesmo tempo? Para tentar
responder esta pergunta é necessário entender melhor alguns
conceitos chave para a Macroeconomia, como produção,
inflação e desemprego, entre outros.

Produção e PIB

Comecemos pela produção: Produto Interno Bruto (ou PIB)


é a medida de produção, renda e despesa em uma economia.
O PIB é o valor total de mercado de todos os bens e serviços
finais produzidos dentro de um país em um dado período de
tempo.

No modelo do diagrama de fluxo circular de renda da Figura


1, o PIB, que é o valor dos bens e serviços produzidos, é igual
à receita das empresas obtida no mercado de bens e serviços.
O PIB é também o valor dos bens e serviços comprados, que

138
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

é igual também às despesas pagas pelas famílias. Além disso,


o PIB é igual à renda recebida pelas famílias como pagamento
pelo uso de seus insumos no mercado de fatores da produção.
O PIB é igual também à soma dos salários, lucros e aluguéis
pagos pelas empresas pela compra de insumos para a
produção.

Como medir o PIB? Usando a definição de PIB acima, em


primeiro lugar, avaliamos a produção pelo seu preço de
mercado (e não preços históricos ou descontados da inflação).
Em segundo lugar, avaliamos apenas o valor dos produtos
finais e não os bens intermediários (assim, o valor é contado
apenas uma vez). Incluímos tanto os bens (tangíveis, como
comida, roupa ou carros) quanto os serviços (intangíveis,
como corte de cabelo, limpeza de casa ou consultas médicas).
Só incluímos bens e serviços produzidos correntemente e não
transações envolvendo bens produzidos no passado. Medimos
o valor de produção dentro da região geográfica do país, sem
contar, por exemplo, a produção de empresas nacionais
executada no exterior. Finalmente, medimos o valor da
produção que ocorre dentro de um período específico de
tempo, usualmente um ano, um trimestre ou um mês.

O que é contabilizado no PIB? Na medição do PIB incluímos


todos os itens produzidos na economia e vendidos legalmente
nos mercados. Não contabilizamos no PIB a maior parte dos
itens que são produzidos em casa e nunca entram no mercado,
produzidos na chamada economia informal, por ser de difícil
medição. Excluímos também do PIB todos os bens produzidos
e vendidos ilegalmente como drogas e carros roubados, a
chamada economia ilegal.

Quais são os componentes do PIB? O PIB (denotado aqui por


Y) é a soma de quatro componentes: Consumo (C),
Investimento (I), Gasto do governo (G), e Saldo da Balança
Comercial (X-M), onde X são as exportações e M são as
importações do país. O consumo é igual aos gastos das

139
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

famílias com bens e serviços. O investimento é igual aos


gastos das empresas em equipamentos e outros ativos. O
gasto do Governo é igual às compras do governo em bens e
serviços. E o saldo da Balança Comercial é igual à exportação
líquida de um país, ou a diferença entre exportações e
importações. Assim, temos que:

Y = C + I + G + (X-M)

Assim, o PIB indica a renda e o gasto total de uma economia.


Note que esta equação que define o PIB através de seus
componentes é uma identidade contábil que vem das contas
nacionais, e mostra em um determinado momento qual ou
quais componentes podem estar fazendo a produção de um
país crescer (sem estabelecer, entretanto, uma relação de
causalidade entre as variáveis envolvidas). Voltaremos a esta
equação na análise macroeconômica de curto prazo.

Note também que o PIB é uma medida da riqueza econômica


de um país ao informar tudo o que se produz de riqueza em
um determinado período. Outra medida de riqueza é o PIB per
capita, que é o PIB dividido pela população de um país, a qual
nos mostra o bem estar médio neste país. Há outros
indicadores de bem estar econômico, como o IDH (Índice de
Desenvolvimento Humano), que é uma média de vários
indicadores de bem estar de um país, como PIB, e os níveis
de educação, saúde e habitação (Tabela 3).

140
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Tabela 3 – PIB, PIB per Capita e IDH, 2013, Países Selecionados *


País PIB PIB per capita IDH
01 Noruega 512 100.818 0,944
02 Austrália 1.560 67.458 0,933
03 Suíça 685 84.815 0,917
04 Países Baixos 853 50.793 0,915
05 Estados Unidos 16.768 53.042 0,914
06 Alemanha 3.730 46.268 0,911
41 Chile 277 15.732 0,822
49 Argentina 609 14.715 0,808
57 Rússia 2.096 14.611 0,778
79 Brasil 2.245 11.208 0,744
91 China 9.240 6.807 0,719
118 África do Sul 350 6.617 0,658
135 India 1.876 1.498 0,586
185 Rep. Centro Africana 1 333 0,341
186 Congo 32 484 0,338
187 Níger 7 415 0,337
* PIB em bilhões de dólares americanos, e PIB per Capita em dólares
americanos per capita. IDH varia entre zero e um. Fonte: ONU

Como o PIB é medido na moeda de um país, e o valor ou poder


de compra das moedas varia com o tempo, é impossível
comparar a produção de dois pontos no tempo sem fazer
algum tipo de conversão. Há uma distinção entre PIB nominal
e PIB real. O PIB nominal avalia a produção de bens e
serviços a preços correntes, isto é, os preços de mercado
vigentes hoje. Já o PIB real avalia a produção de bens e
serviços a preços constantes, isto é, a preços corrigidos das
variações da moeda. Usamos o PIB real para fazermos
comparações do valor dos produtos produzidos hoje com o de
dez anos atrás, por exemplo. Neste caso utilizamos a série
histórica de dados do PIB nominal ajustando-o para PIB real,
usando algum índice de preços.

141
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Custo de Vida e Inflação

Na discussão de PIB nominal versus PIB real, percebemos a


importância dos indicadores macroeconômicos que medem a
variação dos preços. Como os preços dos bens e serviços
variam no tempo, torna-se necessário ter uma medida de
como a variação no custo de vida afeta a renda dos
consumidores. A inflação é uma situação na qual há um
aumento de preços na economia. Já em uma deflação os
preços diminuem com o passar do tempo. A taxa de inflação
representa a variação percentual de preço em relação a um
período anterior (veja a inflação no Brasil na Tabela 4).

Tabela 4 – Taxa de Inflação no Brasil, 1980 a 2017 *


Ano Inflação Ano Inflação
1980 99,7 1999 8,4
1981 93,5 2000 5,3
1982 100,3 2001 9,4
1983 178,0 2002 14,7
1984 209,1 2003 10,4
1985 239,1 2004 6,1
1986 59,2 2005 5,0
1987 394,6 2006 2,8
1988 993,3 2007 5,2
1989 1.863,6 2008 6,5
1990 1.585,2 2009 4,3
1991 475,1 2010 6,5
1992 1.149,1 2011 6,1
1993 2.489,1 2012 5,8
1994 929,3 2013 5,9
1995 22,0 2014 6,4
1996 9,1 2015 10,7
1997 4,3 2016 6,3
1998 2,5 2017 2,9
* IPCA/IBGE, % ao ano. Fonte: Ipeadata

Como medir a inflação? Há mais de um indicador que mede a


variação do custo de vida no Brasil. O Índice de Preços ao

142
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Consumidor (IPC) é uma medida do aumento de preços de


bens e serviços comprados por um consumidor típico. Algumas
das principais instituições no Brasil a medir o IPC são o IBGE
(com o IPCA) e a FIPE-USP. Há outros indicadores de inflação
para os consumidores, como, por exemplo, o IGP e o IGP-M,
medidos pela FGV. Existe também índice de inflação que mede
a variação dos preços no atacado, isto é, os preços dos
insumos que as empresas compram, como o IPA da FGV.
Quando o IPC aumenta, isto significa que uma família típica
tem que gastar uma parcela maior da sua renda para manter
o mesmo padrão de vida.

Como o IPC é calculado? Em primeiro lugar, escolhe-se um


período (mês ou ano) e faz-se a determinação de uma cesta
de produtos. Através de pesquisas com o consumidor, anota-
se quais produtos são mais importantes para uma família
típica e o peso deste produto nos gastos totais, e tais produtos
farão parte da cesta. O IBGE, por exemplo, conduz de tempos
em tempos pesquisas para notar diferenças nos padrões de
consumo, e eventualmente revisa a lista de produtos que
entram na cesta do IPCA. Depois os preços dos produtos são
pesquisados; mensalmente o IBGE conduz pesquisas de
aumentos de preços do IPCA. Os dados de preços são então
utilizados para se calcular o custo da cesta de bens e serviços.
Um período base é escolhido para compor o índice para servir
de base de comparação com os outros períodos (o qual terá
índice igual a 100), e o índice de preço é calculado.
Finalmente, a taxa de inflação é calculada, como a mudança
percentual no índice de preço no período corrente em relação
ao período anterior. A taxa de inflação e o índice de inflação
podem ser calculados do seguinte modo:

Inflação (em %) = ((PF – PI) / PI ) * 100, onde PF é o preço


final e PI é o preço inicial, e

Índice Final = (( (PF – PI) / PI ) + 1) * Índice Anterior

143
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Emprego e Desemprego

O terceiro grande indicador macroeconômico é a taxa de


desemprego, que avalia a proporção da população que não
está trabalhando mas que poderia estar empregada. O índice
de desemprego dá uma medida da parcela da população
economicamente ativa (PEA) que está sem um emprego
mas que é capaz e está disposta (isto é, está ativamente
procurando um emprego) a se empregar. A PEA inclui todas
as pessoas que podem trabalhar pela legislação e são capazes
de trabalhar. Fora do cálculo do desemprego estão os
trabalhadores desencorajados, que são os trabalhadores
que gostariam de ter um emprego, mas desistiram de procurá-
lo. Assim, o índice de desemprego é calculado pela divisão do
número de desempregados pela força de trabalho, onde a
força de trabalho é o número de trabalhadores empregados
mais o número de trabalhadores desempregados.

Os economistas classificam o desemprego segundo quatro


categorias, cada uma decorrente de uma causa diferente e
com consequências diferentes. Em primeiro lugar, há o
desemprego friccional, que é o desemprego experimentado
por pessoas que estão entre empregos ou que estão entrando
pela primeira vez no mercado de trabalho ou voltando a ele
após uma ausência. Há também o desemprego sazonal, no
qual a desocupação é relacionada a alterações do clima,
padrões turísticos ou outros fatores sazonais. Por exemplo, em
uma cidade turística há mais contratações de mais mão de
obra durante os meses de verão para dar assistências ao fluxo
sazonal de turistas, sendo que em outras épocas do ano o
desemprego é maior.

Já o desemprego estrutural é relacionado ao descasamento


entre as habilidades dos trabalhadores e as necessidades dos
empregadores ou entre a localização das duas partes. Por
exemplo, em uma cidade na qual várias empresas de aço
fecharam as portas a maior parte dos trabalhadores tem

144
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

conhecimento daquele setor, e podem estar desempregados


pela dificuldade de se recolocar em outros setores que
demandam outros conhecimentos. Finalmente, há o
desemprego cíclico, que é a desocupação causada por
variações da produção no decorrer do ciclo de negócios. Este
tipo de desemprego ocorre quando a economia entra em uma
fase de queda de produção (chamada de recessão), na qual
a taxa de desemprego aumenta. Muitos trabalhadores perdem
o emprego e têm dificuldade de encontrar um novo trabalho.
Uma situação de pleno emprego da economia ocorre quando
não há desemprego cíclico. Entretanto, a taxa de desemprego
total ainda assim não é zero, pois ainda há níveis positivos de
desemprego friccional, sazonal e estrutural.

Indo Mais Fundo: Economia Solidária: inclusão e justiça


social

O conceito de economia solidária envolve uma profunda


preocupação com os direitos fundamentais do ser humano e
com a justiça social. Tal justiça social prega a igualdade de
direitos a partir do entendimento de que os meios de produção
são de posse coletiva dos que trabalham com eles, em regime
de autogestão, no qual os trabalhadores, de forma coletiva e
amplamente democrática, tem igual direito em relação aos
demais participantes do empreendimento, normalmente uma
cooperativa. Cada sócio ou membro tem direito a um voto.

Pequenas cooperativas não precisam ser organizações


complexas, como ocorre com as cooperativas médias e
grandes, nas quais é preciso que existam níveis hierárquicos
de acordo com as características de cada uma delas. Fica
evidente que estas não conseguem trabalhar sem a figura de
um presidente, responsável pela gestão; tesoureiro e funções
similares, cada um administrando sua área específica, como
suprimentos, recursos humanos, etc. Sempre considerando
que as decisões desses níveis hierárquicos superiores
precisam atender aos anseios e reclamos do coletivo, pois o

145
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

não atendimento das necessidades emanadas do coletivo leva


à substituição pelo próprio coletivo da entidade.

Esta relação é diversa da existente nos demais


empreendimentos, nos quais os gestores têm autoridade para
demitir os demais trabalhadores; já na economia solidária o
coletivo é quem demite os gestores, quando descumprem as
intenções e determinações emanadas do coletivo.

A competitividade da economia capitalista, na qual os


ganhadores acumulam vantagens, enquanto os perdedores
acumulam desvantagens, passa longe da economia solidária,
pois nessas os participantes da atividade econômica buscam a
cooperação entre si.

Na economia capitalista o lucro pertence àquele que é o


empreendedor e dono do capital é não igualmente ente os que
participam do empreendimento, como ocorre na economia
solidária, por que ela busca eliminar desigualdades ao mesmo
tempo em que trabalha em benefício da inclusão social,
especialmente dos menos desamparados.

Por isso é que a economia solidária só prospera quando a


organização é feita para que os associados produzam,
comercializem, consumam e poupem igualitariamente.
Para isso, de forma exemplificativa, pode-se dizer que em uma
cooperativa de produção todos os sócios tem a mesma parcela
do capital total e o mesmo direito de votar e serem votados.
Quando há necessidade de nomear diretores ou gerentes, a
escolha é feita por todos e os designados são responsáveis
perante os demais. Assim, não há competição entre os sócios,
ocorrendo progresso e acumulo de lucro ou capital, ele é
igualmente repartido entre todos.

Em princípio, a ideia da Economia Solidária é tornar a


sociedade, em sua totalidade menos desigual. Pressupondo
que todas as cooperativas trabalhassem em estreita

146
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

cooperação, o desempenho econômico tende a ser desigual;


seja por motivação reinante em cada cooperativa; forma de
gestão mais ágil e arguta; diferencial de produto, fazendo com
que a sociedade preferisse comprar de uma ao invés de outra,
entre outras possibilidades.

Teríamos ainda, empreendimentos ganhadores e perdedores;


o que destroçaria o âmago da Economia Solidária. As
eventuais vantagens e desvantagens precisariam teriam que
ser, de tempos em tempos, igualadas, cabendo ao poder
estatal a compensação entre elas dos resultados econômicos
e financeiros superavitários para os empreendimentos
deficitários, através de mecanismos como subsídios, créditos
ou impostos reduzidos, entre outras possibilidades.

Desta forma o lucro seria repartido entre os que o geram, e


não aos donos das empresas. A tendência, com esta
sistemática, seria a redução da pobreza. Para se entender
como isto ocorreria, os empresários da economia solidária
efetuariam suas compras de outras empresas da economia
solidária, fortalecendo os participantes desse mercado, por
estarem em mercado protegido, permitindo eficiência, ganhos
de produtividade e credibilidade no amplo mundo de negócios.
As cooperativas de produção surgem na França, em 1848,
época de revoluções, por lá, quando os capitalistas
abandonaram suas fábricas. A partir da segunda metade do
século XIX e no século XX o cooperativismo se desenvolveu e
fortificou-se. A partir de 1980 ocorreu grande desemprego ao
redor do mundo, pelas novas tecnologias que estavam
surgindo, ao mesmo tempo em que ocorria a globalização. Foi
quando novas formas de autogestão são elaboradas e passam
a ser denominadas de economia solidária. No Brasil o
Professor e Economista Paul Singer se tornou referência
internacional no tema, por ter sido um profundo estudioso do
tema.

147
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Exercícios – Capítulo 9

1. Considere as seguintes três metas macroeconômicas:


crescimento econômico rápido; estabilidade de preços; e
pleno emprego. É possível conciliar as três metas? É possível
conciliar duas delas? Seja possível ou não, explique.

2. Entre três das medidas da riqueza econômica de um país:


PIB, PIB per capita e IDH (Índice de Desenvolvimento
Humano), qual é a melhor forma de medir a prosperidade de
uma nação ou região? Por que?

3. Encorajar os trabalhadores desencorajados seria uma forma


de diminuir os desempregos estrutural e cíclico?Como?

4. É possível que os preços estejam subindo no Brasil, no


estado de São Paulo e na Baixada Santista, e estejam caindo
em um município da Baixada Santista? Explique.

5. Quais grupos ou classes de produtos tipicamente entram na


cesta de produtos para o cálculo do Índice de Custo de Vida
(ICV) de um município?

6. Por que devemos anotar os preços de preferência sempre


no mesmo dia, no mesmo horário e para os mesmos tipos de
produtos quando coletamos preços para o cálculo do Índice de
Custo de Vida (ICV) de um município?

7. O que o governo pode fazer, se é que pode fazer algo, para


reduzir o desemprego friccional, sazonal e estrutural?

8. Em alguns países da Europa Continental o desemprego


cíclico é alto (se comparado com o de outros países como os
EUA), mesmo em épocas de maior crescimento econômico. A
legislação destes países é apontada como a culpada por este
fato, que dificultaria a contratação e dispensa de mão de obra
pelas empresas, encarecendo o processo; assim, as empresas

148
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

contratariam menos mão de obra do que poderiam fazer. Qual


sua opinião sobre a visão destes analistas? E se não for
possível mudar a legislação (por dificuldades políticas, por
exemplo), o que o governo pode fazer para diminuir o
desemprego cíclico naqueles países?

9. Para solucionar o problema do desemprego cíclico, o


governo francês propôs “dividir os empregos em dois”:
contratar-se-ia duas pessoas para uma mesma vaga, sendo
que cada uma delas trabalharia metade do tempo e ganharia
metade do salário. Qual sua opinião sobre esta proposta como
forma de diminuir o desemprego cíclico? Esta proposta poderia
ser implementada no Brasil? Explique.

10. “Quando o desemprego está baixo, uma firma que queira


contratar mais empregados pode ser forçada a atraí-los de
outras firmas por meio da oferta de uma remuneração maior.
Isso pressiona os salários para cima, e pode elevar a inflação
no futuro”. Comente esta frase, no contexto da possibilidade
de conciliação de metas macroeconômicas.

Para as questões 11 e 12 abaixo, considere o seguinte trecho


do artigo “Felicidade Interna Bruta” (A Tribuna, 30/09/2009):
“O presidente da França, Nicolas Sarkozy, está defendendo a
adoção de um novo padrão para medir o desempenho da
economia. Em vez de comparar tudo com o Produto Interno
Bruto (PIB), que corresponde à renda nacional, quer que
prevaleça o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB). A ideia
é incorporar aos padrões produtivos valores de vida, como
tempo de lazer, qualidade ambiental, desfrute de valores
culturais, transporte confortável e aposentadoria saudável. O
primeiro a sugerir o conceito de FIB, em 1972, foi Jigme
Singye Wangchuck, então rei do Butão. Para ele, o país não
deve apenas perseguir prosperidade. Essa deve ser partilhada,
tem de considerar a preservação das tradições de um povo,
que deverá contar com um governo justo, moderno e
responsável. Embora o Butão tenha uma das rendas per capita

149
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

mais baixas do planeta (de US$ 1900), a expectativa de vida


cresceu de 47 anos para 66 anos entre 1984 e 2005.”.

11. Mostre, citando evidências do texto, porque o FIB seria


uma medida melhor que o PIB, o PIB per capita e o IDH para
medir a prosperidade de uma nação ou região.

12. Indicadores como o PIB, o PIB per capita e, mais


recentemente, o IDH já medem a prosperidade de uma nação
há algum tempo. Se uma proposta séria de substituir estes
indicadores pelo FIB for implantada, quais seriam alguns dos
fatores que poderiam dificultar o uso do FIB como medida de
prosperidade de uma nação? Explique.

150
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Capítulo 10 – Sistemas Financeiro e Monetário

O
sistema financeiro é parte importante da
macroeconomia. É ali que as empresas buscam as
oportunidades para financiar os investimentos que
visam aumentar sua capacidade produtiva. Quando a empresa
necessita de investir, ela pode usar recursos próprios
(proveniente dos seus lucros) ou usar capital de terceiros
(chamado de empréstimos). Se a empresa necessita de
emprestar para financiar seus investimentos, ela utiliza a
poupança de terceiros. Assim, poupança é o montante de
recursos na economia não utilizados no consumo pelas
famílias.

Assim, as empresas necessitam de utilizar a poupança para


financiar o aumento da produção de uma dada economia. O
sistema financeiro consiste de instituições de vários tipos
que ajudam a promover o encontro da poupança das famílias
com o investimento das firmas, movendo assim os recursos
financeiros dos poupadores para os tomadores de
empréstimos. Nesse sentido, o sistema financeiro é um
intermediário entre poupadores e tomadores.

As instituições financeiras podem ser agrupadas em duas


categorias: mercados financeiros e intermediários financeiros.
Os mercados financeiros são instituições nas quais os
poupadores provêm fundos aos tomadores. Já os
intermediários financeiros são instituições financeiras que
permitem o encontro entre poupadores e tomadores. Entre os
mercados financeiros temos o mercado de títulos de dívida e
o mercado de renda variável (como a Bolsa de Valores). Já
entre os intermediários temos os bancos e as corretoras de
valores. Um título de dívida é um certificado de dívida que
especifica obrigações do emissor do título em relação ao
proprietário do título. As principais características do título de
dívida são o termo do título, que é o período de tempo até a

151
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

maturação ou expiração do título, o prêmio do título, que é a


taxa paga pelo emissor, e o risco de crédito, que é a
probabilidade de que o emissor não seja capaz de honrar o
pagamento do valor principal do empréstimo ou dos juros
cobrados pelo empréstimo. Se o emissor do título for o
governo, temos um título de dívida pública; se for uma
empresa privada, temos um título de dívida privada.

Já no mercado de renda variável (como a Bolsa de Valores)


são vendidas ações das empresas. Uma ação representa um
direito à propriedade de uma empresa e assim sobre os seus
lucros. A venda da ação por parte da empresa a fim de
levantar recursos financeiros é chamada de equity financing.
Em comparação aos títulos de dívida pública, as ações
oferecem maior risco e maior potencial de retorno. A Bolsa de
Valores é o principal mercado de ações. Podemos acompanhar
diariamente os dados da Bolsa acompanhando o
preço de cada ação, o volume de ações vendidas e os
dividendos, que são os lucros pagos pelas empresas aos donos
das ações (ou acionistas).

Entre os intermediários financeiros, os bancos tomam


depósitos à vista de pessoas físicas e outros poupadores e
usam os depósitos para emprestar a quem necessita. Os
bancos pagam juros aos depósitos de conta corrente poupança
e cobram juros maiores sobre os empréstimos concedidos às
empresas, obtendo seu lucro pela diferença entre o que o
banco recebe sobre os empréstimos e o que o banco paga aos
depositantes (esta diferença é chamada de spread
bancário). Já um fundo mútuo é um fundo de cotas que são
vendidas ao público de uma seleção de ações, títulos de dívida,
etc. No Brasil há uma grande diversidade de fundos
administrados por diferentes instituições financeiras. Os
fundos mútuos permitem que investidores possam investir
pequenas quantias e diversificar seus investimentos. Outras
instituições financeiras são as corretoras, sociedades de
crédito, os fundos de pensão e as seguradoras.

152
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Poupança e investimento

Lembre-se que o PIB indica a renda e o gasto total de uma


economia: Y = C + I + G + (X-M). Rearranjando a equação,
temos: Y – C – G = I + (X-M). O lado esquerdo da equação é
a renda total da economia descontado os gastos de consumo
das famílias e dos gastos do governo, e é chamada de
poupança nacional (S). Portanto S = Y – C – G. Note
também que S – I = (X-M) ou S – (X-M) = I. Assim, a diferença
entre a poupança nacional e o investimento é igual aos
recursos que vêm de fora, isto é, a poupança externa.
Alternativamente, o investimento é dado pela diferença entre
a poupança nacional e a externa.

Se assumirmos por um minuto que estamos em uma economia


fechada, isto é, onde não há trocas financeiras com o resto do
mundo, temos que: S = I . Isto é, a poupança é igual ao
investimento. Assim, o investimento disponível em uma
economia é igual à poupança nacional. O mercado financeiro
faz com que a poupança nacional seja transformada em
investimentos das empresas.

E se, além disso, adicionarmos ao modelo a variável T como


sendo os tributos (impostos) cobrados pelo governo da
atividade econômica, temos: S = Y – C – G, e teremos também
que S = (Y – T – C) + (T – G). Se chamarmos o primeiro termo
de poupança privada, isto é, Y – T – C, e se chamarmos o
segundo termo de poupança pública, isto é, o termo T – G,
teremos que a poupança nacional é igual à soma das
poupanças privada e pública. A poupança privada é a quantia
da renda que os lares têm depois do consumo e do pagamento
dos tributos, e a poupança pública é o total de tributos
arrecadados pelo governo menos os seus gastos. Se T>G, o
governo tem um superávit orçamentário, e se G>T, o governo
tem um déficit orçamentário.

153
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Os mercados financeiros coordenam a transformação da


poupança em investimento através do mercado de fundos
emprestáveis. Fundos emprestáveis referem-se a toda
renda que as pessoas têm para poupar e emprestar ao invés
de gastar com consumo. A oferta de fundos emprestáveis
vem de pessoas que têm uma renda sobrando e querem
emprestar. Já a demanda por fundos emprestáveis vem
dos lares e empresas que querem tomar fundos para realizar
investimentos ou consumir. A taxa de juros é o preço do
empréstimo e representa o valor que os tomadores pagam
pelos empréstimos e o valor que os poupadores recebem.
Como os mercados financeiros funcionam de forma similar a
outros mercados na economia, o equilíbrio de oferta e
demanda por fundos emprestáveis (Figura 39) determina a
quantidade total emprestada e o preço dos fundos
emprestáveis, a taxa de juros real. Esta é a diferença entre
a taxa de juros nominal, que é a taxa de juros paga pelos
bancos e não corrigida pela inflação, e a taxa de inflação.

154
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Taxa
Juros
(%) S

9,0

0 6.500 Q (em R$ bilhões)

Figura 39 – Determinação da Taxa de Juros no Mercado Financeiro

Note também que as políticas do governo afetam a poupança


e o investimento através dos efeitos destas políticas no
mercado de fundos emprestáveis. Variações na tributação e
nos gastos do governo afetam tais mercados e, por
conseguinte, a taxa de juros e a quantidade de fundos
alocados para poupança e investimento. Por exemplo, uma
queda na tributação (ou diminuição nos impostos), faz com
que aumente a oferta de fundos emprestáveis. Neste sentido,
a quantidade demandada de empréstimos aumenta e os juros
em equilíbrio diminuem. Assim, a curva de oferta de fundos
emprestáveis se desloca para a direita. No caso de um
aumento nos gastos do governo (e o consequente déficit
orçamentário), este reduz os fundos emprestáveis disponíveis.
Esta queda no investimento decorrente chama-se de
expulsão ou “crowding out”, diminuindo a quantidade de
fundos disponíveis aos tomadores privados. Assim, em

155
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

equilíbrio a taxa de juros real sobe e a quantidade de equilíbrio


de fundos reduz, e a curva de oferta de fundos emprestáveis
se desloca para a esquerda.

Sistema monetário

É impossível falar em sistema financeiro sem falar em sistema


monetário e moedas. Moeda (ou dinheiro) é um ativo que as
empresas e famílias regularmente usam nas atividades
econômicas, e é o meio de pagamento usado na economia.
Como vimos no capítulo 2, as funções básicas da moeda na
economia são três: meio de troca, unidade de conta e reserva
de valor. Enquanto meio de troca, a moeda é aceita como
forma de pagamento e faz a mediação entre compradores e
vendedores. Como unidade de conta, é o instrumento que
as pessoas usam para anunciar preços e fazer contas. E como
reserva de valor, moeda é aquilo que as pessoas usam parar
transferir poder aquisitivo do presente para o futuro
(poupança).

Mas o que vale como moeda? Apenas ativos, ou coisas de


valor detidas pelas pessoas, podem ser tratados como moeda.
Assim, moeda corrente e depósitos à vista são ativos; já
direitos de tomar empréstimos não são ativos. Moeda
corrente é o conjunto de notas de papel e moedas em poder
do público. Já depósitos à vista são os saldos em conta
corrente que uma pessoa mantém em um banco. Além disso,
apenas ativos aceitos de forma generalizada são considerados
como moeda. Moeda corrente e cheques são usados como
moeda enquanto depósitos de conta de poupança não são.
Finalmente, somente ativos líquidos são tratados como
moeda. Um ativo é líquido quando pode ser facilmente
convertido em meio de troca da economia e a um baixo custo.
Um ativo ilíquido pode ser convertido em moeda após um
intervalo de tempo ou a um custo considerável. Enquanto
moeda corrente, saldos em conta corrente e cheques são

156
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

ativos líquidos, ações, casas e títulos de dívida pública não são


ativos líquidos.

Como medir o estoque de moeda na economia? Isto depende


da definição da medida de moeda. Há quatro definições de
moeda, que depende dos ativos que estão incluídos na
definição, sendo que estes ativos devem ser aceitos como
forma de pagamento e relativamente líquidos. O termo
“relativamente líquido” depende de uma definição de liquidez,
indo da definição mais líquida à menos líquida. As medidas
de moeda são quatro: M1, M2, M3 e M4. M1 é a definição
mais líquida de oferta de moeda, indo até a menos líquida, que
é M4. A definição de M1 é uma medida padrão de oferta de
moeda, que inclui moeda corrente, depósitos à vista nos
bancos e cheques de viagem. M2 é a soma de M1 com os
depósitos de investimento, com depósitos de poupança e com
títulos emitidos por instituições privadas (como CDBs
bancários, letras de câmbio e letras hipotecárias). Já M3 é a
soma de M2 com quotas de fundos de renda fixa com
operações compromissadas registradas no Selic. Finalmente,
M4 é a soma de M3 com os títulos de dívida pública (federal,
estadual e municipal) de alta liquidez.

O Banco Central é a principal autoridade monetária de um


país. Suas funções são a de supervisionar o sistema bancário,
de regular a quantidade de dinheiro na economia, e de
executar a política monetária do país. O Banco Central do
Brasil (Bacen) está sediado em Brasília e possuí escritórios
regionais em Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto
Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo.

A quantidade de dinheiro em circulação pode afetar a


macroeconomia. Vejamos como. Política monetária é o
conjunto de medidas que definem o controle da oferta de
moeda e consequentemente das taxas de juros. No Brasil, as
diretrizes da política monetária e a taxa de juros de referência
da economia (Selic) são estabelecidas pelo Comitê de Política

157
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Monetária (Copom), órgão composto por membros da


Diretoria Colegiada do Bacen; já a política monetária é
executada pelo Bacen.

Para executá-la, o Bacen dispõe de alguns instrumentos de


política monetária: operações de mercado aberto (“open
market”); mudanças no depósito compulsório; e mudanças
nas taxas de redesconto (taxas de juros de empréstimos do
Bacen aos bancos). Quanto às operações de mercado aberto,
o Bacen altera a oferta de dinheiro, que é a quantidade de
dinheiro na economia, através das operações de open-market.
O Bacen compra e vende títulos de dívida pública do governo
brasileiro no mercado aberto. Para aumentar a oferta
monetária, o Bacen compra títulos do público, e para diminuir
a oferta monetária, ele vende títulos ao público.

Quanto às mudanças nas taxas de redesconto, se a taxa é


baixa e o prazo é longo, os bancos podem se expor a riscos
maiores, aumentando os empréstimos e, por consequência, a
quantidade de dinheiro em circulação. Se a taxa é alta e o
prazo é curto, os bancos precisam exigir riscos menores,
diminuindo os empréstimos e, por consequência, a quantidade
de dinheiro em circulação.

Quanto às mudanças no depósito compulsório, note que os


bancos podem influenciar a oferta monetária com sua
quantidade de depósitos. Reservas são depósitos que os
bancos receberam de seus depositantes e que não
emprestaram a outras partes. Por lei os bancos são obrigados
pelo Bacen a reter uma parte dos depósitos como reserva, que
é chamada de depósito compulsório, e emprestam ao
público o restante dos depósitos. A proporção do depósito
compulsório pode ser mudada pelo Bacen, e é a variação desta
que influencia a quantidade de oferta da moeda na economia.

Veja como os bancos podem influenciar a quantidade de


moeda na economia, através do fenômeno da criação de

158
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

dinheiro. Este é o poder que os bancos comerciais possuem


de “multiplicar” o dinheiro em circulação através dos
empréstimos. A oferta monetária é afetada pelos depósitos
nos bancos e pelos empréstimos efetuados pelos bancos. Os
depósitos nos bancos são registrados como ativos e passivos
no balanço dos bancos, enquanto os empréstimos se tornam
ativos para os bancos. Quando um banco aceita depósitos, ele
coloca uma parte em reservas (a parte do depósito
compulsório), e empresta o restante. Quando um banco
empresta dinheiro, esta quantia acaba sendo depositada em
outro banco. Isto cria mais depósitos e mais reservas. Este
efeito vai continuando na economia e é chamado de efeito
multiplicador dos bancos. Pelo efeito multiplicador, quando
um banco faz um empréstimo, a oferta de dinheiro na
economia aumenta. Quanto dinheiro é criado na economia? O
multiplicador monetário é a quantidade de dinheiro que o
sistema bancário gera para cada unidade monetária em
reserva. Ele é dado por M = 1/R, onde R é igual ao depósito
compulsório imposto pelo Bacen. Se, por exemplo, o depósito
compulsório em um dado momento é de 20%, R = 20% ou
0,2 e M= 1/0,2 = 5. Note que o Bacen diminuir a necessidade
de depósito compulsório para 10% (ou 0,1), o multiplicador
aumenta para 1/0,1 ou M = 10.

Oferta e demanda monetária

Vejamos agora como funciona o mercado monetário. A oferta


monetária é determinada pelo Bacen. Através de operações
do tipo open-market, por exemplo, o Bacen controla
indiretamente a oferta monetária. Esta curva relaciona a
taxa de juros (isto é, o preço da moeda) com a quantidade de
moeda que o Bacen coloca na economia. Já a demanda
monetária está relacionada à necessidade das pessoas de
utilizar moeda como meio de troca nas suas transações. A
quantidade de dinheiro que o público necessita depende dos
preços de bens e serviços. Assim, o equilíbrio no mercado
financeiro é tal que o nível de preços se ajusta para equilibrar

159
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

os níveis de demanda e oferta monetária (ponto A na Figura


40). Este equilíbrio nos diz que a taxa de juros tem de ser tal
que as pessoas fiquem dispostas a possuir uma quantidade de
moeda igual à oferta de moeda existente.

Taxa
Juros
(%) M M’

A
9

B
6
D
0
2.500 6.500 Quantidade
Moeda (R$ Bilhões)

Figura 40 – Determinação da Taxa de Juros no Mercado Monetário

O efeito de uma injeção de moeda na economia (seja pela


compra títulos de dívida pública ou pela diminuição do
depósito compulsório) ou de um aumento na renda é ilustrado
também na Figura 40. Um aumento na oferta monetária
desloca a curva de oferta monetária para a direita de modo
que no novo equilíbrio a quantidade de moeda carregada pelo
público é maior e a taxa de juros de equilíbrio é menor. Do
mesmo modo, um aumento na renda das pessoas faz com que
a demanda por dinheiro aumente, deslocando a curva de
oferta monetária também para a direita.

160
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Exercícios – Capítulo 10

1. Se a poupança nacional (S) é igual à diferença entre a renda


total da economia (Y) e os gastos de consumo das famílias (C)
e dos gastos do governo (G), e a poupança externa é igual aos
recursos que vêm de fora da economia nacional (isto é, é igual
a (X-M), ou seja, a diferença entre exportações e
importações), mostre que o investimento (I) feito pelas
empresas em um determinado momento é igual à diferença
entre a poupança nacional e a poupança externa.

2. Se considerarmos os impostos cobrados pelo governo da


atividade econômica (T), se a poupança privada é a quantia
da renda que os lares têm depois do consumo e do pagamento
dos tributos, e se a poupança pública é o total de tributos
arrecadados pelo governo menos os seus gastos, mostre que
a poupança nacional (S) é igual à soma da poupança privada
com a poupança pública.

3. Qual o efeito de uma redução nos gastos do governo no


equilíbrio do mercado de fundos emprestáveis?

4. Qual o efeito de um aumento nos impostos pelo governo no


equilíbrio do mercado de fundos emprestáveis?

5. O Bacen decidiu aumentar a oferta de dinheiro e comprou


um título de R$ 1000 de um cidadão qualquer, que deposita o
cheque neste valor em sua conta no Bradesco. Imagine que a
taxa de depósito compulsório seja igual a 0,2, ou 20%.
a) Acompanhe o efeito desta mudança em três bancos:
Bradesco (onde foi feito o depósito inicial), Itaú (onde o
depósito seguinte foi feito) e Unibanco (onde o último depósito
foi feito). Em quanto muda a oferta de dinheiro em cada uma
destas três rodadas?
b) Qual será a variação final dos depósitos à vista no sistema
bancário como um todo?

161
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

6. Imagine que a taxa de depósito compulsório seja


novamente igual a 0,2, ou 20%. Se forem injetados R$ 20
bilhões a mais em reservas no sistema bancário através de um
compra de títulos no mercado aberto, em quanto poderão
aumentar os depósitos à vista? E se a taxa de depósito
compulsório fosse igual a 0,1, ou 10%?

7. Uma política monetária expansiva por parte do BC faz com


que a oferta de moeda na economia aumente. Já em uma
política monetária restritiva o BC faz com que a oferta de
moeda na economia diminua. Como o BC pode implementar
uma política monetária expansiva através do uso dos seus
instrumentos de política monetária? Como implementar uma
política monetária restritiva?

8. Para cada situação abaixo, determine se a oferta de dinheiro


aumentará, diminuirá ou se manterá inalterada.
a) Os depositantes em conta corrente nos bancos ficam
preocupados com a segurança das instituições financeiras.
b) O Bacen reduz a taxa de depósito compulsório.
c) A economia entra em recessão e os bancos têm dificuldades
para encontrar tomadores com bom nível de crédito.
d) O Bacen vende R$ 100 milhões ao Bradesco.

9. Por que a curva de demanda por dinheiro tem inclinação


descendente? Por que a curva de oferta de dinheiro é vertical?

10. “Para debelar a crise que seguiu a mudança cambial de


janeiro de 1999, O Bacen começou a vender títulos do governo
e, por isso, a taxa de juros aumentou”. Comente
esta frase, indicando se a frase pode ser verdadeira ou não, e
explicando-a.

162
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Capítulo 11 – Macroeconomia de Curto Prazo

C
omo se dá a variação do Produto Interno Produto (PIB)
ao longo do tempo em uma economia? A resposta é:
depende! Pode variar devido a mudanças na demanda
por bens e serviços. Uma vez que as pessoas queiram comprar
mais, as empresas se ajustam aumentando sua produção, por
exemplo. Mas, como veremos, para que as empresas possam
produzir, devem contratar mais insumos, contratar novos
trabalhadores, adquirir novas tecnologias de produção etc., e
isto pode levar tempo! Assim, uma resposta melhor à
pergunta anterior seria: depende do tempo. Se estivermos
falando em um horizonte de tempo de curto prazo
(tipicamente alguns poucos anos), as variações no PIB de ano
para ano são devidos a movimentos na demanda.

Entretanto, se estivermos falando em um horizonte de tempo


de longo prazo (tipicamente uma década ou mais tempo), as
mudanças no PIB se dão de acordo com movimentos na
quantidade de fatores, seja a quantidade de trabalhadores e a
de capital (capital físico ou humano) utilizado na produção, e
com a adoção de novas tecnologias de produção.

Vamos iniciar nossa análise pela macroeconomia de curto


prazo. Neste modelo, a demanda por bens e serviços
determina a produção. E, como veremos, variações no PIB
estão relacionadas a mudanças nas taxas de juros e nos
preços na economia. Tais variações podem gerar ciclos
econômicos: em determinados períodos de tempo, o PIB
pode expandir (fases de expansão e de desaceleração), e
em outros pode diminuir (fases de recessão e de
recuperação), que pode culminar na fase de expansão do
ciclo seguinte (Figura 41).

163
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Figura 41 – Ciclos macroeconômicos de curto prazo

Componentes da Demanda Agregada: Determinantes

Vimos no Capítulo 9 que o PIB (Y) é dado por quatro


componentes: consumo (C), investimento (I), gasto do
governo (G) e saldo da balança comercial (X-M), que é a
diferença entre exportações (X) e importações (M). Se no
curto prazo a demanda é igual à oferta, veremos que o
equilíbrio no mercado de bens e serviços é determinado em
conjunto com o equilíbrio no mercado monetário, que
determinam a produção e a taxa de juros no curto prazo
(modelo de curto prazo IS-LM de economia fechada).

Já vimos no Capítulo 10 o equilíbrio no mercado monetário;


vejamos agora o equilíbrio no mercado de bens e serviços.
Como dissemos, no curto prazo a demanda agregada (isto é,
o conjunto de todos os bens e serviços demandado pela
população) é igual á produção. Assim, podemos dizer que a
curva de demanda agregada é dada por:

164
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Y = C + I + G + (X-M)

Vejamos em maior detalhe o papel dos componentes da


demanda agregada para entender a influência de cada
componente na demanda agregada final. Comecemos com o
consumo. Este é determinado principalmente pela renda
real disponível das famílias, isto é, a renda real que sobra
depois que os consumidores pagam seus impostos. Quanto
maior a renda real disponível, maior o consumo. A renda real
é a renda das pessoas descontada da inflação. Esta renda é
dada pelos seus salários, pelo dinheiro disponível oriundo de
investimentos e poupança pessoal e pela quantidade de
crédito que as pessoas têm disponível. Note que o crédito é
influenciado pela taxa de juros real na economia: Quanto
maior a taxa de juros real, o crédito para o consumidor se
torna mais caro, e menor será a renda real.

O investimento das empresas é influenciado negativamente


pela taxa de juros real na economia, isto é, quanto menor os
juros reais, maiores serão os investimentos. É influenciado
também pelo aumento do consumo das pessoas hoje, isto é,
quanto maior o consumo hoje maior o investimento hoje para
garantir uma maior produção maior amanhã que atenda ao
crescimento da demanda. Já o gasto do governo, em geral,
é limitado pelo quanto o governo consegue arrecadar em
impostos e quanto o governo consegue emitir em títulos da
dívida pública. Finalmente, a demanda agregada aumenta com
o crescimento das exportações e com a queda das
importações. Finalmente, quanto ao saldo da balança
comercial, tanto as exportações quanto as importações variam
com as diferenças na taxa de câmbio. Esta é o preço da
moeda de um país em relação ao preço da moeda de outro
país. Se a moeda do país perde valor com relação a outras
moedas (isto é, se desvaloriza), as exportações deste país
aumentam e suas importações diminuem; o oposto ocorre se
a moeda se valoriza com relação a outras moedas. Além disso,
as exportações crescem com a demanda no exterior pelos

165
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

produtos de exportação do país; já as importações crescem


com a demanda no país por produtos produzidos no exterior.

Indo Mais Fundo: O Papel do Crédito na Determinação


do Consumo no Brasil*

O consumo é hoje a força mais importante na formação no PIB


do Brasil. Ele representa 61% da demanda final contra 20%
dos gastos do governo, 15% dos investimentos e cerca de 4%
do saldo da balança comercial. O consumo é função de duas
variáveis principais: renda real das famílias representada pela
massa total dos salários, e crédito bancário. É influenciado
fortemente pelo pagamento de dívidas das pessoas junto ao
sistema bancário. O pagamento de dívidas ganhou
importância nos últimos anos com a expansão do crédito às
pessoas físicas. Segundo o Banco Central, o brasileiro gastava
ao final de 2011 pouco mais de 20% de sua renda mensal com
juros e amortizações de suas dívidas junto a bancos, cartões
de crédito e cerca de 3% a 4% com outros compromissos
como a compra de bens.

Essa maior alavancagem financeira faz com que as variações


da renda real, gerada pela flutuação da inflação, tenham um
impacto muito grande nos gastos correntes da população e,
portanto, na formação do PIB. Por exemplo, no segundo
semestre de 2011, um choque de mais de 30% nos preços das
commodities chegou ao consumidor: a inflação medida pelo
IPCA de 12 meses passou de menos de 5% em agosto para
7,3% em setembro! A elevação brusca e inesperada da
inflação fez com que o valor real dos salários despencasse e
colocou o consumidor em dificuldade para honrar seus
compromissos. Nessa situação, o consumo sofreu e a
inadimplência junto aos bancos aumentou. O Banco Central
reagiu ao aumento da inflação aumentado os juros, o que
agravou a situação do devedor. Os bancos reduziram seu
apetite para emprestar, e o consumidor parou de gastar,

166
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

principalmente em itens de maior valor, e aumentou sua


poupança para normalizar sua situação junto a seus credores,
uma vez que os registros de atrasos do devedor circulam entre
os credores. Assim, o consumo menor desacelerou a
economia.

Já no início de 2012 vivia-se o ciclo contrário: a inflação caia


para apenas 2,4% ao ano em março, os salários reais
aumentavam e o dinheiro voltava a sobrar. A reação dos
consumidores tem sido a de pagar suas dívidas atrasadas e só
depois voltar às compras. Isso deverá acontecer nos próximos
meses. Também os bancos irão mudar de comportamento e,
com a queda da inadimplência que está se iniciando, vão voltar
a emprestar ao consumidor. Assim, é de se esperar que o PIB
volte a crescer forte no futuro próximo.

* Baseado no artigo “Uma Nova Dinâmica da Economia” (Luiz Carlos


Mendonça de Barros, Folha de S. Paulo, 06/04/2012).

Determinação de Juros e Produção: Modelo IS-LM

O equilíbrio no mercado de bens e serviços será tal que


diminuições na taxa de juros farão com que a demanda
agregada aumente e, por conseguinte, a produção aumente.
O oposto ocorre com a demanda agregada e a produção se a
taxa de juros aumenta. Esta relação entre juros e produção no
mercado de bens é chamada de relação IS. Na Figura 42
mostramos esta relação. Esta nos dá em cada ponto de curva

167
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

um equilíbrio de juros e produção no mercado de bens.

Taxa
Juros
(%)

B A C
i
IS’’

IS
IS’
0
Y’ Y Y’’ Produção

Figura 42 – Curva IS, e variações desta curva no Mercado de Bens e


Serviços

Já as variações nos componentes da demanda agregada que


provoquem o aumento do nível de equilíbrio da produção para
um nível dado da taxa de juros (tais como aumento no
consumo, nos investimentos, aumento nos gastos do governo,
uma queda dos impostos, aumento das exportações ou queda
das importações pela mudança no câmbio) faz com que a
curva IS se desloque para a direita. Em contraste, variações
nos componentes da demanda agregada que provoque uma
diminuição da produção para um nível dado da taxa de juros
faz com que a curva IS se desloque para a esquerda (vide
Figura 43).

168
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Vimos no capítulo anterior o equilíbrio no mercado monetário


como a taxa de juros que equilibra os níveis de demanda e
oferta monetária. Se a renda das pessoas aumenta, por
exemplo, a necessidade de moeda aumenta e a quantidade de
moeda de equilíbrio é maior, mas a taxa de juros de equilíbrio
também é maior (Figura 40 anterior). Assim, um aumento da
demanda por dinheiro aumenta a demanda por produto e, por
conseguinte, a produção. Podemos assim construir, no
mercado de moeda, uma curva que relaciona os juros e
produção, que é chamada de relação LM (vide esta relação
na Figura 43).

Taxa
Juros
(%)

B A C
i

LM’ LM LM’’
0
Y’ Y Y’’ Produção

Figura 43 – Curva LM, e variações desta curva no Mercado de Moeda

Um aumento na oferta de moeda por parte da autoridade


monetária provoca uma queda da taxa de juros para um nível
dado de equilíbrio da produção faz com que a curva LM se
desloque para a direita. Esta curva se desloca para a esquerda

169
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

se a autoridade monetária diminuir a oferta monetária que


causa um aumento na taxa de juros para um nível dado de
equilíbrio da produção (Figura 43).

O equilíbrio conjunto no mercado de bens e serviços por um


lado e no mercado monetário por outro lado dá origem ao
modelo de curto prazo IS-LM. Vimos que qualquer ponto
da curva IS, de inclinação descendente, corresponde ao
equilíbrio no mercado de bens. Vimos também que qualquer
ponto na curva LM, de inclinação ascendente, corresponde ao
equilíbrio no mercado monetário. Para termos um equilíbrio
nos dois mercados simultaneamente (equilíbrio simultâneo) é
necessário que exista um ponto no qual a taxa de juros e
produção satisfaça tanto a curva IS quanto a curva LM, isto é,
a taxa de juros e a produção na qual a curva IS cruza a
curva LM (ponto A na Figura 44).

Taxa
Juros
(%)

C
i’’

A
i
B IS’’
i’
IS
LM IS’
0
Y’ Y Y’’ Produção

Figura 44 – Equilíbrio nos Mercados de Bens e de Moeda, e Mudanças


na Curva IS: Modelo IS-LM

170
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Qualquer variação nos componentes da demanda agregada


causa deslocamentos na curva IS. Por exemplo, um aumento
do consumo faz com que a demanda agregada aumente e
desloque a curva IS para a direita. O novo equilíbrio está no
ponto C na Figura 44, no qual a produção é maior e os juros
de equilíbrio também são maiores. Já uma diminuição dos
investimentos causada pela expectativa futura de aumento
nos juros faz com que a curva IS se desloque para a esquerda,
levando o equilíbrio para o ponto B, no qual tanto a produção
quanto os juros de equilíbrio são menores.

Taxa
Juros
(%)

B
i’

A
i
C
i’’
IS
LM’ LM LM’’
0
Y’ Y Y’’ Produção

Figura 45 – Equilíbrio nos Mercados de Bens e de Moeda, e Mudanças


na Curva LM: Modelo IS-LM

Já variações nas condições vigentes no mercado de moeda


fazem com que a curva LM se desloque, alterando assim o
equilíbrio. Um aumento na quantidade de moeda, por
exemplo, causa uma queda nos juros e desloca a curva LM
para a direita, de modo que a produção de equilíbrio é maior
e, ao mesmo tempo, os juros de equilíbrio são menores. Já

171
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

uma diminuição na quantidade de moeda provoca um


aumento nos juros, deslocando a curva LM para a esquerda,
de modo que a produção de equilíbrio é menor e os juros de
equilíbrio estarão em um nível maior que antes (Figura 45).

Política Fiscal e Monetária

Veremos agora como as políticas de governo afetam a


demanda agregada e consequentemente as taxas de juros e
produção no curto prazo. Política macroeconômica de um
governo é o conjunto de instrumentos para atingir suas metas
macroeconômicas. Mencionamos no início do Capítulo 9 que
as três metas mais importantes de política macroeconômica
que um país possa ter são: aumento do crescimento
econômico, aumento da geração de empregos e redução da
inflação. Para tentar atingir estes objetivos ao mesmo tempo,
o governo utiliza os instrumentos de política
macroeconômica disponíveis. Os principais instrumentos de
política macroeconômica que o governo utiliza para afetar os
mercados de bens e de moeda são a política monetária e a
política fiscal (além da política cambial, que veremos no
capítulo 13). Usando o modelo IS-LM de economia fechada,
veremos como o governo afeta o equilíbrio nestes dois
mercados utilizando os instrumentos de política
macroeconômica.

Uma maneira de o governo afetar a demanda agregada na


economia é através da mudança no seu nível de gastos ou da
mudança no nível de impostos cobrados na economia.
Política fiscal refere-se aos instrumentos que o governo
dispõe para arrecadação de tributos (política tributária) e
controle de suas despesas (política de gastos). A outra
maneira importante de o governo influenciar o equilíbrio na
economia é através da mudança no estoque de moeda
disponível ao público. Política monetária refere-se aos
instrumentos de atuação do governo sobre a quantidade de
moeda, do crédito e das taxas de juros. Conforme já vimos, o

172
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

governo afeta o mercado de moeda através das emissões de


moeda, da variação no nível dos depósitos compulsórios, da
variação na taxa de redesconto, e da compra e venda de
títulos de dívida pública no mercado aberto (open market). É
importante salientar que o controle dos instrumentos de
política macroeconômica pertence ao governo central de um
país (ou governo federal no caso do Brasil), de modo que o
governo regional (ou estadual) e municipal não dispõe de
instrumentos que afetem a demanda agregada ou quantidade
de moeda no país.

Quais são os efeitos das políticas fiscal e monetária sobre os


mercados de bens e de moeda? Em primeiro lugar, note que
a política fiscal afeta o mercado de bens enquanto a
política monetária afeta o mercado de moeda. Vejamos
o efeito de uma política fiscal expansionista, seja pelo
aumento dos gastos públicos ou pela redução dos impostos.
Um aumento dos gastos públicos aumenta diretamente a
demanda agregada, e uma redução dos impostos aumenta a
renda disponível das pessoas e o consumo e, por conseguinte,
a demanda agregada. Assim, uma política fiscal expansionista
desloca a curva IS para a direita, aumentando a produção e
os juros de equilíbrio (ponto C na Figura 44 anterior). Já uma
política fiscal contracionista tem o efeito oposto sobre a
demanda agregada: uma queda dos gastos públicos diminui
diretamente a demanda agregada, e um aumento dos
impostos diminui a renda disponível das pessoas e o consumo
e, por conseguinte, a demanda agregada. Uma política fiscal
contracionista desloca a curva IS para a esquerda, diminuindo
a produção e os juros de equilíbrio (ponto B na Figura 44
anterior).

Vejamos agora o efeito de uma política monetária


expansionista, dada pelo aumento da quantidade de moeda
na economia, que pode ser obtida por uma redução da reserva
compulsória ou da compra de títulos no mercado aberto, por
exemplo. O aumento de moeda provoca a diminuição dos

173
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

juros, deslocando a curva LM para a direita, de modo que a


produção de equilíbrio é maior e os juros de equilíbrio são
menores (ponto C na Figura 45 anterior). Já uma política
monetária contracionista, dada pela diminuição da
quantidade de moeda na economia, que pode ser obtida pelo
aumento da reserva compulsória ou da venda de títulos no
mercado aberto, por exemplo. A diminuição na quantidade de
moeda causa um aumento dos juros e desloca a curva LM para
a esquerda, de modo que a produção de equilíbrio é menor e
os juros de equilíbrio estarão em um nível maior que antes
(ponto B na Figura 45 anterior).

É possível também que o governo opte pelo uso de uma


combinação de políticas macroeconômicas. Na prática, o
governo usa as duas políticas para tentar atingir seus
objetivos macroeconômicos. Por exemplo, para compensar o
efeito adverso de uma política fiscal contracionista, pode-se
utilizar uma política monetária expansionista. Na Figura 46,
podemos notar o efeito da política fiscal contracionista, que
reduz o PIB e as taxas de juros, deslocando a curva IS para a
esquerda. A política monetária expansionista também tem o
efeito de reduzir os juros, ao mesmo tempo em que causa um
aumento na produção, deslocando a curva LM para a direita.
O efeito líquido é tal que os juros caem sensivelmente
enquanto os efeitos sobre o PIB é tal que este se mantém em
um nível maior que o nível inicial (ponto B na Figura 46).

174
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Taxa
Juros
(%)

A
i

LM B
i’ IS
LM’ IS’
0
Y Y’ Produção

Figura 46 – Efeitos da Combinação de Políticas Macroeconômicas

Mas enfim, como é que um governo pode atingir os três


objetivos macroeconômicos, aumento do crescimento
econômico, aumento da geração de empregos e redução da
inflação? Note que estes objetivos são conflituosos, isto é,
para se atingir um objetivo deve-se sacrificar o outro. Por
exemplo, o objetivo de redução da inflação pode ser atingido
por uma política fiscal de diminuição dos gastos públicos ou do
aumento da carga tributária. Mas, para se atingir o
crescimento econômico e a geração de empregos, deve-se
fazer a política fiscal oposta, isto é, o aumento dos gastos
públicos ou a diminuição da carga tributária. Do mesmo modo,
para se conseguir uma redução da inflação, deve-se utilizar
uma política monetária contracionista através do aumento da
reserva compulsória ou da venda de títulos no mercado

175
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

aberto. Mas para se conseguir um aumento do crescimento


econômico deve-se utilizar uma política monetária
expansionista, através de uma redução da reserva
compulsória ou da compra de títulos no mercado aberto.

Mercado de Trabalho

Para terminarmos nosso estudo sobre os equilíbrios


macroeconômicos de curto prazo, é necessário avaliar mais
um mercado agregado, o mercado de trabalho. As flutuações
econômicas são variações da produção e do emprego em
relação ao nível máximo de produção e do emprego que a
economia pode produzir em um determinado momento com o
seu estoque atual de trabalho, capital e recursos naturais. A
economia está em recessão se ela está produzindo e
contratando mão de obra a um nível menor que o nível
máximo que ela pode produzir naquele momento, chamado de
nível de pleno emprego. A economia está em um boom se
ela está produzindo e contratando mão de obra a um nível
maior que o nível de pleno emprego.

O mercado de trabalho determina o nível de emprego da mão


de obra disponível para as empresas e a taxa de salário.
Faremos a suposição que há apenas um único tipo de mão de
obra, independente do grau de qualificação, escolaridade,
gênero etc. Neste mercado, tal qual os outros mercados
agregados, temos uma demanda e uma oferta. A demanda
por trabalho reflete o produto marginal do trabalho, que é o
benefício da contratação de mais um trabalhador para a
produção. A curva de demanda por trabalho relaciona o
número de trabalhadores contratados (isto é, o nível de
emprego) com o pagamento do uso deste trabalho (isto é, a
taxa de salário). Assim, a curva de demanda por trabalho
nos diz o maior salário que as empresas estão dispostas
a pagar para contratar um dado número de
trabalhadores. Como o benefício da contratação de mais um

176
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

trabalhador diminui à medida que aumenta o número de


trabalhadores contratados, os salários pagos diminuem com o
aumento do emprego e esta é uma curva descendente.

Já a oferta por trabalho reflete as decisões do trabalhador


em relação à escolha entre trabalho e outras atividades (como
estudar em tempo integral ou lazer). Em cada ponto desta
curva, ela nos diz o número de trabalhadores que
conseguimos atrair a uma determinada taxa de salário (os
outros prefeririam lazer ou fazer um curso de especialização,
por exemplo). Assim, a curva de oferta de trabalho nos diz
o salário que precisa ser pago para atrair um dado
número de trabalhadores. A salários cada vez maiores
atraímos mais trabalhadores, e esta curva é ascendente.
Ambas as curvas de demanda e oferta de trabalho estão
ilustradas na Figura 47.

Taxa
Salarial
($)
O
B E
22
A
20
18
C F
D

30 50 70 Emprego
(milhões de pessoas)

Figura 47 – Equilíbrio no Mercado de Trabalho

177
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

O equilíbrio nesse mercado se dá pela igualdade entre a oferta


e a demanda de mão de obra. No equilíbrio cada trabalhador
é pago de acordo com a sua contribuição marginal para a
produção de bens e serviços, e o número de trabalhadores
contratados são exatamente aquele número de pessoas que
aceitam trabalhar àquela taxa de salário. Na Figura 46, o
ponto A de equilíbrio no mercado de trabalho é tal que 50
milhões de pessoas são contratadas a um salário real de R$
20 por hora. No nível de equilíbrio no mercado de trabalho,
todas as oportunidades de uma negociação benéfica para
empresas e trabalhadores naquele mercado são exploradas.
No equilíbrio o nível de emprego da mão de obra utilizada é o
nível máximo de produção naquele momento, já definido como
o nível de pleno emprego.

Já em uma recessão, o mercado de trabalho fica em


desequilíbrio, e o benefício da contratação de um empregado
a mais (R$ 22, ponto B na Figura 47) supera o custo de
oportunidade para o trabalhador em questão (R$ 18, ponto C
na Figura 47). Assim, em uma recessão há incentivos para
aumentar o nível de emprego porque os benefícios às
empresas superam os custos aos trabalhadores, até irmos ao
ponto A de equilíbrio na Figura 46. Do mesmo modo, em um
boom, o mercado de trabalho também fica em desequilíbrio,
pois o custo de oportunidade para um trabalhador a mais (R$
22, ponto E na Figura 47) supera o benefício da contratação
de um empregado a mais (R$ 18, ponto F na Figura 47).
Assim, em um boom há incentivos para reduzir o nível de
emprego porque os custos às empresas superam os benefícios
de contratar aquela quantidade de trabalhadores, até
voltarmos ao ponto A de equilíbrio na Figura 46.

178
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Demanda Agregada e Oferta Agregada

Tendo visto o equilíbrio nos mercados de bens, de moeda, e


de trabalho, vejamos agora o papel do nível de preços na
determinação da produção, e como esta última influencia o
nível de preços. Introduzimos agora o modelo de demanda e
oferta agregada, que, utilizado em conjunto com o modelo
IS-LM, dá o equilíbrio em três mercados: bens e serviços;
moeda; e trabalho. Nesta situação de equilíbrio geral, a
demanda agregada é igual à oferta agregada.

Em primeiro lugar, note que a curva de demanda agregada


(DA) indica a produção de equilíbrio para qualquer nível de
preços. Cada ponto na curva de DA é um ponto de equilíbrio
de preços e produção, e cada ponto corresponde a pontos
de equilíbrio no mercado de bens e no mercado de
moeda. A curva de DA é construída observando o modo pelo
qual o nível de preços afeta a produção. Se os preços
aumentarem, as compras de bens e serviços tornam-se mais
caras e as pessoas necessitam de ter uma maior quantia de
moeda para realizar as mesmas compras. Assim a demanda
por dinheiro aumenta, e a taxa de juros no mercado de moeda
aumenta. Com juros maiores, o investimento das empresas
diminui e assim a produção total diminui. Portanto, a um nível
de preços maior a produção é menor, e por isso a curva de DA
é descendente (Figura 48).

Se um ponto na curva de DA corresponde a equilíbrios no


mercado de bens e no mercado de moeda, variações em um
destes mercados causam variações na curva de DA (vide
também a Figura 48). Em primeiro lugar, uma variação no
nível de preços corresponde a um movimento na linha da
curva de DA. Já mudanças nas variáveis do mercado de
bens e do mercado de moeda causam um deslocamento
da curva de DA. Por exemplo, no mercado de bens, um
aumento nos gastos de consumo, nos investimentos, nas
compras do governo e nas exportações líquidas (exportações

179
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

menos importações) causam um deslocamento da curva de


DA para a direita. Já no mercado de moeda, um aumento na
oferta de moeda também causa um deslocamento da curva de
DA para a direita. Deslocamentos da curva de DA para a
esquerda são causados por uma diminuição nos gastos de
consumo, nos investimentos, nas compras do governo e nas
exportações líquidas (no mercado de bens), bem como por
uma diminuição na oferta de moeda (no mercado de moeda).

Preços
($)

P’ B
A D
P
P’’
C
DA’
DA

Q’ Q Q’’ Q0 Produção
(R$ bilhões)

Figura 48 – Curva de Demanda Agregada e Variações desta Curva

Já a curva de oferta agregada (OA) nos dá o efeito da


produção no nível de preços, e nos diz a quantidade total de
bens e serviços que as empresas produzem e vendem, a um
nível de preços dado condizente com o custo unitário das
firmas e seus percentuais de lucro (o markup) para qualquer
nível de produção no curto prazo. A curva de OA é construída
observando o modo pelo qual a produção afeta o nível de
preços. Quando a produção aumenta, o custo unitário de

180
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

produção aumenta. Com um percentual dado de markup, as


empresas cobrarão preços mais elevados, elevando o nível de
preços. Assim, a curva de OA é ascendente (Figura 49).

Cada ponto na curva de OA é um ponto de equilíbrio de


preços e produção, e corresponde a pontos de equilíbrio
no mercado de trabalho. Ao contrário da curva DA,
mudanças nas variáveis do mercado de bens e do
mercado de moeda causam um movimento na linha da
curva de OA, e variações no nível de preços causadas
por variações no custo unitário das firmas (tais como
variações nos custos do trabalho (salários, por exemplo) e
outros insumos das firmas, nos preços mundiais do petróleo,
variações no clima e mudanças tecnológicas) causam um
deslocamento na curva de OA (Figura 49). Um aumento no
PIB causado por um aumento dos gastos do governo (que
afeta a curva de demanda agregada) faz com que haja um
movimento para cima ao longo da curva de AO (por exemplo,
do ponto A ao ponto C na Figura 49). Já um aumento dos
custos dos insumos (como um aumento nos salários, nos
preços do petróleo, ou variações climáticas como uma geada
que destrua plantações de café) faz com que a curva de OA se
desloque para a esquerda (por exemplo, do ponto A ao ponto
D na Figura 49). Por outro lado, deslocamentos da curva de
OA para a direita são causados por uma queda nos custos dos
insumos (como uma queda nos salários, nos preços do
petróleo, ou uma boa safra agrícola) ou a adoção de novas
tecnologias (como os computadores pessoais ou a internet).

O equilíbrio macroeconômico de curto prazo em todos


os mercados é uma combinação de nível de preços e PIB
condizente com as curvas de DA e OA, na qual a demanda
agregada é igual à oferta agregada e se dá no ponto em que
as curvas de DA e OA se cruzam, como o ponto A na Figura
50 abaixo. Para qualquer outra combinação de níveis de
preços e produção, pelo menos uma condição para o equilíbrio

181
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

deixará de ser satisfeita, e a economia estará em


desequilíbrio.

Preços OA’
($)
OA
D
P0
P’’
C
P
A
P’
B

Q’ Q Q’’ Produção
(R$ bilhões)

Figura 49 – Curva de Oferta Agregada e Variações desta Curva

O equilíbrio macroeconômico de curto prazo só mudará


quando houver deslocamento da curva de DA, de OA, ou de
ambas. Choque de demanda é um evento que cause um
deslocamento da curva de DA. Um choque de demanda
positivo desloca a curva de DA para a direita, e aumenta
tanto o PIB quanto o nível de preços no curto prazo. Já um
choque de demanda negativo desloca a curva de DA para
a esquerda, e diminui tanto o PIB quanto o nível de preços no
curto prazo. Choque de oferta é um evento que cause um
deslocamento da curva de OA. Um choque de oferta
positivo desloca a curva de OA para baixo, aumentando o PIB
e reduzindo o nível de preços no curto prazo. Já um choque
de oferta negativo desloca a curva de OA para cima,
reduzindo o PIB e aumentando o nível de preços no curto

182
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

prazo. Vemos também na Figura 50 um choque de demanda


positivo, que desloca a curva de DA para a direita do ponto de
equilíbrio A para o novo ponto de equilíbrio B, no qual tanto o
nível de preços e de produção são maiores que o equilíbrio
anterior. Note que pontos como os pontos C (na nova curva
de DA) e D (na curva de OA) não são pontos de equilíbrio
macroeconômico de curto prazo.

Preços
($) OA

B D
P’
P C
A

DA’
DA

Q Q’ Produção
(R$ bilhões)

Figura 50 – Equilíbrio Macroeconômico de Curto Prazo e Variação


deste por um Choque de Demanda Positivo.

Por exemplo, uma política monetária expansiva irá deslocar a


curvar LM para a direita no mercado de moeda, o que irá por
sua vez deslocar a curva de demanda agregada para a direita
na Figura 50, deslocando o ponto A de equilíbrio para o ponto
B. Neste novo equilíbrio, o nível de produção será maior que
o nível anterior, mas o nível de preços de equilíbrio também
será maior (como pode ser visto na Figura 50). Note também
que uma política fiscal expansiva irá deslocar a curvar IS para

183
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

a direita no mercado de bens e serviços, o que por sua vez


também irá deslocar a curva de demanda agregada para a
direita na Figura 50, deslocando o ponto A de equilíbrio para
o ponto B. Política monetária restritiva e política fiscal
restritiva terão o efeito proposto, isto é, irão deslocar a curva
de demanda agregada para a esquerda, causando uma queda
no nível de produção e de preços de equilíbrio.

Em suma, mudanças no mercado de bens e serviços e no


mercado de moeda afetam a curva de demanda agregada,
enquanto mudanças no mercado de trabalho (salários) e nas
condições de oferta agregada (como variação nos preços dos
insumos ou na tecnologia disponível) afetam a curva de oferta
agregada. É possível utilizar o modelo IS-LM em conjunto com
o modelo de demanda agregada para avaliar o efeito de
mudanças nas condições econômicas nos juros, produção e
nível de preço (equilíbrio macroeconômico conjunto de curto
prazo em todos os mercados).

Indo Mais Fundo: Economia Circular - o uso


parcimonioso dos escassos recursos naturais

A Economia Circular é um conceito que demonstra enorme


preocupação com o uso racional dos recursos naturais. Prega
a necessidade de redução dos consumos, da reutilização,
recuperação e reciclagem de materiais e energia. A evolução
da economia, especialmente a industrial, graças à evolução
tecnológica, que proporciona ampla gama de produtos com
volumes inimagináveis dois séculos antes, em modelo que
consiste em produção e consumo descartável ou linear. A
partir das matérias primas os produtos são manufaturados,
vendidos, consumidos ou utilizados, e, depois, descartados
como lixo.

Apesar de ser um modelo de sucesso do ponto de vista


econômico, pois supre o mercado consumidor com produtos a

184
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

preços acessíveis, e gera prosperidade material para boa


parcela da população. Mas, a extração-transformação-
descarte mostra-se, há bom tempo, inviável, quando se
projeta o futuro.

A Economia Circular, que consiste em trocar o conceito de fim


de vida da economia linear, por novos processos ou fluxos
circulares de reutilização, restauração e renovação, em
processo integrado, para que ocorra a dissociação entre o
crescimento econômico e aumento proporcional no consumo
de recursos naturais, que se entendia ser algo que não poderia
ser alterado.

Mas, ao mimetizar sistemas naturais, ela vale-se de novos


tipos de transações e de relações empresariais, alterando
responsabilidades e lucros das empresas, ditando a
necessidade de priorizar a performance dos serviços e
produtos oferecidos ao consumidor; os proprietários passam a
ser usuários, via contratos de serviços, ao pagar uma taxa
pelo uso; por sua vez o produtor ou intermediário mantém
inalterado o seu direito de propriedade; o gerenciamento de
ativos, com ênfase no valor focará os processos de reparação,
manutenção, reuso e renovação; sendo que o
compartilhamento passa a ser o novo direito de propriedade.

A Economia Circular propõe estratégia para otimizar o valor


dos materiais e componentes durantes seu ciclo de vida útil:
a)reduzir o uso da matéria prima e recursos não renováveis,
substituindo-os por renováveis e insumo de base biológica; b)
circular resíduos e subprodutos através do seu reuso e
reciclagem inicialmente na mesma cadeia industrial ou em
outras indústrias; c)estender a vida útil dos produtos e ativos
durante e após seu uso, de forma a preservar e maximizar o
seu valor.

Imagem: Proposta da Economia Circular.

185
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Beatriz Luz (org.). Economia circular: Holanda-Brasil: da


teoria à prática. Rio de Janeiro: Exchange 4 Change Brasil,
2017.

A Economia Circular pretende estimular o crescimento e


desenvolvimento econômicos, em vez da destruição e
desvalorização, embasada na ideia dos metabolismos da
natureza. Assim sendo os paradigmas vigentes desde a
Revolução Industrial são quebrados.

Além de a energia ser renovável, a sustentabilidade dos


sistema precisa que ocorra a preservação da biodiversidade e
a inclusão social, por estar baseado no fato de que sistemas
injustos que privilegiam uns em detrimento de outros não são
viáveis em longo prazo. Por isso é preciso que se tenha nova
forma de projetar, produzir e consumir.

O conceito de fazer mais com menos, resposta sustentável


clássica usada atualmente. A Economia Circular, parte do
princípio que a eficiência atrapalha a efetividade. por isso
propõe que fazer bem (efetividade) versus fazer melhor
(eficiência), deve ser a sua ideia central. A Economia Circular
não se limita a gerar novos empregos e novos modelos de
negócios, traz benefícios ao meio ambiente, ao usar os
recursos naturais em escala decrescente de utilização desses.
Ela não se resume, portanto, a gestão de resíduos e
reciclagem, vai além, ao propor, de forma ampla redesenho
de processos, produtos e novos modelos de negócios, até a
otimização de recursos naturais, através da maior e mais
eficiente circulação de produtos, componentes e materiais nos
ciclos de produção e/ou biológicos.

186
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Exercícios – Capítulo 11

Para os exercícios 1 a 12 abaixo, mostre graficamente e


calcule os juros e a produção de equilíbrio, no novo ponto de
equilíbrio simultâneo nos mercados de bens e serviços e
monetário (modelo IS-LM), após o acontecimento dos
seguintes fatos:

1. Política monetária expansiva por parte do governo (Bacen).

2. Aumento de tarifas de importação para os produtos de


exportação brasileiros por parte dos parceiros comerciais do
Brasil.

3. Lançamento por parte do governo (vários ministérios) de


um programa de recuperação da infraestrutura de portos,
aeroportos e rodovias.

4. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva.

5. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva. Além disso, para conter a crise o
governo (Bacen) lança uma política monetária expansiva.

6. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva. Além disso, para conter a crise o
governo (Ministério da Fazenda) lança política de redução do
IPI aos produtos de consumo durável (automóvel e linha
branca).

7. A queda do dólar em relação ao Real faz com que as


exportações brasileiras percam competitividade e diminuam.

187
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Além disso, para conter o efeito da queda do dólar, governo


(Bacen) lança uma política monetária restritiva.

8. A queda do dólar em relação ao Real faz com que as


exportações brasileiras percam competitividade e diminuam.
Além disso, para conter o efeito da queda do dólar, governo
(Bacen) lança uma política monetária expansiva.

9. A proximidade do final da crise econômica traz otimismo


aos consumidores que resolvem consumir mais.

10. Com a proximidade do final da crise econômica, o governo


(Ministério da Fazenda) resolve dar um final na política de
redução do IPI aos produtos de consumo durável (automóvel
e linha branca).

11. Aumento da oferta de crédito ao consumidor por parte dos


bancos.

12. Por conta do crescimento das vendas pela Internet (de


maneira geral), as firmas investem mais em hardware e
software para poder vender mais pela Internet.

Para os exercícios 13 a 31 abaixo, mostre graficamente e


calcule o nível de preços, de juros e de produção de equilíbrio,
no novo ponto de equilíbrio simultâneo nos mercados de bens
e serviços, mercado monetário e mercado de trabalho (modelo
de demanda e oferta agregada), após o acontecimento dos
seguintes fatos:

13. Política monetária expansiva por parte do governo


(Bacen).

14. Aumento de tarifas de importação para os produtos de


exportação brasileiros por parte dos parceiros comerciais do
Brasil.

188
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

15. Lançamento por parte do governo (vários ministérios) de


um programa de recuperação da infraestrutura de portos,
aeroportos e rodovias.

16. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva.

17. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva. Além disso, para conter a crise o
governo (Bacen) lança uma política monetária expansiva.

18. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva. Além disso, para conter a crise o
governo (Ministério da Fazenda) lança política de redução do
IPI aos produtos de consumo durável (automóvel e linha
branca).

19. A queda do dólar em relação ao Real faz com que as


exportações brasileiras percam competitividade e diminuam.
Além disso, para conter o efeito da queda do dólar, governo
(Bacen) lança uma política monetária restritiva.

20. A queda do dólar em relação ao Real faz com que as


exportações brasileiras percam competitividade e diminuam.
Além disso, para conter o efeito da queda do dólar, governo
(Bacen) lança uma política monetária expansiva.

21. A proximidade do final da crise econômica traz otimismo


aos consumidores que resolvem consumir mais.

22. A proximidade do final da crise econômica o governo


(Ministério da Fazenda) resolver dar um final na política de

189
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

redução do IPI aos produtos de consumo durável (automóvel


e linha branca).

23. Aumento da oferta de crédito ao consumidor por parte dos


bancos.

24. Por conta do crescimento das vendas pela Internet (de


maneira geral), as firmas investem mais em hardware e
software para poder vender mais pela Internet.

25. Um aumento de 300% no petróleo (choque de oferta


negativo) no Brasil e no mundo, como aconteceu nos anos
1970.

26. Por conta do choque negativo de oferta que aconteceu nos


anos 1970, o governo (Bacen) promove uma política
monetária restritiva.

27. Idem ao exercício 14, mas o governo (Ministério da


Fazenda) promove uma política fiscal restritiva.

28. Idem ao exercício 14, mas o governo (Bacen) promove


uma política monetária expansiva.

29. Melhoras consecutivas nas safras de cana de açúcar nos


anos 1980 (choque positivo de oferta) aumentam
significativamente a oferta de álcool combustível no Brasil.

30. Idem ao exercício 17, mas o governo (Ministério da


Fazenda) promove um aumento dos gastos de governo.

31. Idem ao exercício 17, mas o governo (Ministério da


Fazenda) promove uma diminuição dos gastos de governo.

32. Para os itens a. e b. abaixo, mostre graficamente e calcule


o nível de preços, de juros e de produção de equilíbrio usando
o modelo IS-LM em uma economia fechada e o modelo de

190
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

demanda e oferta agregada, após o acontecimento dos


seguintes fatos:

a) Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva. Além disso, para conter a crise o
governo (Bacen) lança uma política monetária expansiva.
b) Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,
empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva. Além disso, para conter a crise o
governo (Ministério da Fazenda) lança política de redução do
IPI aos produtos de consumo durável (ex. automóveis).
c) Dois economistas discordam quanto à resposta ideal de um
governo a uma crise econômica que provoca uma recessão em
um país. Enquanto o primeiro afirma que uma política
monetária expansiva é melhor, o segundo prefere uma política
fiscal expansiva. Se o parâmetro de comparação for menores
taxas de juros, menores níveis de preços, e maiores níveis de
produção de equilíbrio, qual dos dois economistas tem razão?
Usando seus resultados nos itens a. e b. anteriores, explique.

191
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Capítulo 12 – Inflação, Desemprego e Crescimento

V
imos no capítulo 10 uma discussão introdutória sobre o
sistema monetário e seus atores, bem como os
instrumentos do Banco Central para atuar no mercado
de moeda. Avaliamos também como funciona tal mercado e
como se compõe sua demanda e oferta. Veremos agora como
o mercado monetário influencia o fenômeno da inflação,
introduzido no capítulo 9: o que determina se uma economia
apresentará inflação? Veremos também porque a inflação é
um problema para a sociedade (isto é, os “custos” da
inflação). Na sequencia veremos a relação entre a inflação, o
desemprego e o crescimento econômico.

Determinantes da inflação

No Brasil dos anos 1980 e 1990 a inflação (já definida


anteriormente como uma variação positiva no nível dos
preços, enquanto deflação é uma variação negativa nos
preços) apresentou-se de maneira cada vez mais acelerada.
Tendo atingido 99% ao ano em 1980, a inflação no período
chegou a atingir 2489% ao ano em 1993! Após várias
tentativas de lançamento de planos de estabilização dos
preços, somente com o advento do Plano Real em 1994 os
preços começaram a se estabilizar em patamares menores. De
fato, nos anos 2000 a inflação média foi de 7% ao ano, tendo
atingido. Afinal, o que determina a inflação?

Iniciamos esta discussão com a apresentação da teoria


quantitativa da moeda, conhecida como “teoria clássica da
moeda”, pois foi desenvolvida por alguns dos primeiros
pensadores da economia. A teoria busca apontar os
determinantes de longo prazo do nível de preços e da inflação.
Em primeiro lugar, conforme vimos no capítulo 9, o nível de
preços mede o preço de uma cesta de bens e serviços em uma

192
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

economia. Se P for o valor de uma cesta, medida pelo IPC, por


exemplo, temos também que a quantidade de bens e serviços
que pode ser comprada com um real (R$ 1) naquela economia
é igual a 1/P. Assim, se P é o preço dos bens e serviços medido
em termos de moeda, 1/P é o valor da moeda em termos de
bens e serviços. Logo, quando o nível de preços geral sobe, o
valor da moeda diminui.

Em segundo lugar, é necessário entender o que determina o


valor da moeda. Conforme vimos no capítulo 10, a moeda, tal
qual qualquer outro produto, terá o seu valor determinado no
mercado monetário pela interação entre a demanda e a oferta
de moeda. Tal interação determinará seu preço, (ou valor) a
taxa de juros na economia, e a quantidade de moeda de
equilíbrio. Também conforme vimos, a oferta é determinada
pelo Banco Central, e será uma curva vertical, dado que este
último oferece moeda em quantidades fixas na economia. Já
a curva de demanda por moeda é descendente, e determinada
pela necessidade de utilizar moeda das pessoas para realizar
suas compras. Isto é, como as pessoas usam a moeda como
meio de troca, a demanda por moeda reflete o valor dessa
moeda, e a quantidade de moeda que elas usarão dependerá
dos preços dos bens e serviços: se estes forem mais elevados,
mais moeda será exigida nas trocas e mais moeda será
necessária na carteira das pessoas.

Assim, o valor da moeda, como vimos acima, é dado por 1/P.


Se trocarmos o preço da moeda na Figura 40 do capítulo 10
(os juros) pelo valor da moeda 1/P, temos na Figura 51 abaixo
o equilíbrio no mercado monetário. Quanto menor for o valor
da moeda (vide eixo vertical esquerdo), isto é, quanto menor
for 1/P), maior será a quantidade de moeda em equilíbrio
necessário, e vice-versa. Para a discussão abaixo, incluímos
também um eixo vertical à direita que inclui o nível de preços,
que é o inverso do valor da moeda (1/P). Isto é, quanto maior
o valor da moeda no eixo vertical esquerdo, menor será o nível
de preços, e vice-versa. No equilíbrio a quantidade demanda

193
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

por moeda é igual à oferta de moeda (ponto A). Se o Banco


Central aumentar a oferta de moeda sem um aumento de
demanda por moeda correspondente, isto leva a economia
para outro equilíbrio (ponto B), no qual o valor da moeda é
menor o nível de preços é maior. Portanto, um aumento na
oferta de moeda resulta em um aumento do nível de preços e
em uma maior taxa de inflação.

Valor da Nível de
Moeda, Preços
(1/P) (P)
M M’

A 1/9
9

B
6 1/6
D
0
6.500 6.500 Quantidade
Moeda (R$ Bilhões)

Figura 51 – Equilíbrio Macroeconômico de Curto Prazo e Variação


deste por um Choque de Demanda Positivo.

É possível chegar neste resultado também pela teoria


quantitativa da moeda. Considere que existe uma velocidade
da moeda, definida como a rapidez com que a moeda (uma
moeda de um real, por exemplo) se desloca pela economia,
da carteira de uma pessoa para a outra. Para se calcular a
velocidade da moeda, divide-se o valor nominal da produção
(PIB nominal) pela quantidade de moeda na economia. Assim,

194
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

V = (P * Y)/ M , onde Y é o PIB Real da economia. Assim:

M * V = (P * Y), que é a equação quantitativa da moeda.

Esta equação relaciona a quantidade de moeda (M) necessária


para se adquirir os bens produzidos com o valor nominal da
produção (P * Y). Nota-se que a velocidade da moeda é
relativamente estável ao longo do tempo, para a grande
maioria dos países. Se isto ocorre, quando o Banco Central
altera a quantidade de moeda (M), ele modifica de maneira
proporcional no valor nominal da produção (P x Y). Como
veremos no capítulo 14, a produção de bens na economia é
determinada pela oferta de fatores de produção (capital físico
e humano, trabalho e recursos naturais) e pela tecnologia de
produção disponível. Assim sendo, se a velocidade for
constante, quando o Banco Central altera a oferta de moeda
(M), esta não afeta a produção real (Y), que é conhecido como
o princípio da neutralidade da moeda: um aumento na
quantidade de moeda aumenta a taxa de inflação, mas não
afeta as variáveis reais da economia (como a produção). Mas
como a oferta M afeta o produto P * Y (o produto nominal da
produção), então alterações na quantidade de moeda se
refletem em alterações em P (nível de preços). Assim,
concluímos que, quando o Banco Central aumenta demais a
oferta de moeda, o resultado é uma alta taxa de inflação.

O problema da alta inflação

Por que alguns países passam por períodos de tempo com alta
inflação, sendo em alguns casos de superinflação ou até
hiperinflação? Se variações na quantidade de moeda causam
variações no nível de preços e na inflação, podemos presumir
que os Bancos Centrais de tais países emitem tanta moeda
que o nível de inflação cresce de maneira ilimitada. Por que
eles fazem isso? Tais países estão usando a criação de moeda
para pagar os gastos de governo. Se estes gastos crescem de

195
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

maneira proporcionalmente maior que o aumento na


arrecadação de impostos, os governos recorrem a este
expediente para conseguir financiar o déficit nas suas contas.

Quando o governo aumenta suas receitas por meio de emissão


de moeda, temos o caso do conhecido imposto
inflacionário. Diferentemente dos impostos tradicionais, que
são cobrados dos agentes econômicos, este “imposto” aparece
na emissão extra de moeda que faz com que a moeda que as
pessoas carregam nos seus bolsos perca valor. Há vários
custos que as pessoas têm que pagar quando a economia
passa por um processo de inflação muito alta. Em primeiro
lugar, as pessoas necessitam de utilizar mais moeda para
adquirir os mesmos produtos que compravam, e, por isso,
demandam de seus empregadores reajustes em seus salários
para dar conta do aumento dos preços dos produtos. Estes
empregadores, por sua vez, sofrem com isso um aumento de
seus custos, que têm que ser repassados para os preços finais
de seus produtos, o que realimenta o aumento geral dos
preços e da inflação. Em segundo lugar, as empresas têm um
custo extra de remarcar seus preços de maneira cada vez mais
frequente, à medida que a inflação vai aumentando. Esta
espiral inflacionária vai se realimentando cada vez mais, até,
no limite, o custo da inflação se torna muito alto ao se atingir
um estado de hiperinflação, no qual o aumento da inflação
é tão rápido que se torna fora de controle.

Para resolver o problema da hiperinflação, note que, conforme


vimos no capítulo 9, a taxa de juros real é definida como a
diferença entre a taxa de juros nominal e a taxa de inflação
esperada. Assim, como a taxa de juros real é uma variável
real, pelo princípio da neutralidade da moeda, quando o Banco
Central aumenta a quantidade de moeda, teremos um
aumento na taxa de inflação na mesma proporção, mantendo
os juros reais inalterados, isto é, o aumento na taxa de
inflação irá no longo prazo aumentar a taxa de juros nominal
da economia. Tal resultado é conhecido como efeito Fisher.

196
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Seu resultado principal é que a taxa de juros nominal se ajusta


à taxa de inflação esperada. Embora no curto prazo, os juros
nominais podem variar de maneira diversa, no longo prazo
eles se ajustam à taxa de inflação. Logo, em períodos de alta
inflação, espera-se que os juros nominais também estejam
muito altos.

Para sair da espiral inflacionária, o governo deve resolver o


problema que desencadeou o processo inflacionário, isto é, o
crescimento de suas despesas maior que o aumento de suas
receitas. À medida que o ajuste nas contas fiscais vai se
dando, a necessidade extra de se emitir moeda vai caindo, e
o governo vai podendo diminuir a taxa de juros nominais, que,
por sua vez, pelo efeito Fisher, também causa uma diminuição
na taxa de inflação. O processo pode ser longo no tempo, mas
é a única maneira de se resolver o problema da alta inflação.

Inflação e desemprego

Discutiremos a partir de agora a relação entre inflação e


desemprego. Já vimos que o principal determinante da
inflação é o crescimento da oferta de moeda, enquanto o nível
de desemprego é dado pelo equilíbrio no mercado de trabalho,
o qual é influenciado por uma série de fatores que afetam a
demanda e a oferta de mão de obra. Já quanto à relação entre
as duas variáveis, na metade do século XX o pensamento
dominante era que no curto prazo, existe uma “troca” entre a
taxa de inflação e a taxa de desemprego. Assim, quanto maior
for a taxa de desemprego menor é a taxa de inflação e vice-
versa. A esta relação inversa entre as duas variáveis é a curva
de Phillips.

Para explicar tal troca, note que, quanto maior a taxa de


desemprego, menos renda é gerada na economia, pois menos
empregos são gerados e porque os empregos criados pagam
menores salários. O resultado é uma menor demanda por bens

197
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

e serviços, que diminui o poder das empresas de aumentar os


preços de seus produtos. Há também uma maior competição
entre as empresas pela demanda que resta, o que aumenta o
incentivo para que tais empresas reduzam seus preços.

Figura 52 – Inflação e desemprego nos EUA, 1950-2010, variação


anual percentual ante ao ano anterior. Fonte: randomwalk.com.br

Os dados de inflação e desemprego em países como os EUA


durante os anos 1950 e 1960 confirmavam esta tese,
conforme pode ser visto na Figura 52. Esta mostra a variação
percentual ante ao ano anterior, em vermelho para o
desemprego e em azul para a inflação. São marcadas em cinza
as recessões pelas quais os EUA passaram entre 1950 e 2010.
Nota-se que enquanto o desemprego diminuía, a inflação
aumentava e vice versa, e, de fato, nos anos 1950 e 1960 a
curva de Philips funcionou bem.

Entretanto, como explicar que tanto a inflação quanto o


desemprego subiram significativamente durante os anos
1970? Naquele período a economia americana sofreu dois

198
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

choques de oferta, nos quais o preço do petróleo subiu


significativamente, o que fez a curva de oferta agregada
encolher, ocasionando um aumento no nível de preços
(conforme vimos no capítulo 11). Da mesma maneira, durante
a primeira metade dos anos 1980 e entre 1990 e 2000, ambas
as taxas de inflação e de desemprego caíram. Deste modo, foi
necessário mudar a teoria da curva de Philips tradicional para
dar conta destas novas evidências do comportamento da
relação entre inflação e desemprego. Na versão recente
(curva de Philips modificada), a variação da taxa de
inflação é relacionada à diferença entre a taxa de desemprego
e a taxa natural de desemprego. Esta última é definida
como a taxa de desemprego para a qual uma economia tende
no longo prazo, sendo compatível com o estado de equilíbrio
de pleno emprego e com a uma taxa de inflação constante.
Isto é, na taxa natural de desemprego não há variações na
taxa de inflação. Portanto, de acordo com a curva de Philips
modificada, quando a taxa de desemprego supera a taxa
natural de desemprego, a taxa de inflação diminui, e vice
versa.

Desemprego e crescimento econômico

Finalmente, falta relacionar as variáveis taxa de desemprego


e o nível da atividade econômica. Estas variáveis são unidas
pela lei de Okun, a qual propõe uma relação inversa entre
desemprego e o Produto Interno Bruto (PIB), ou,
alternativamente, uma relação direta entre emprego e o
crescimento do produto. Assim, quanto maior for o
crescimento econômico menor é o desemprego ou maior é o
nível de emprego, e vice versa. A lei de Okun é, na verdade,
uma observação empírica que se verifica com muita
regularidade, seja para países desenvolvidos ou em
desenvolvimento. Para o caso do Brasil, a relação entre
desemprego e PIB é ilustrada na Figura 53.

199
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Figura 53 – Desemprego e PIB no Brasil, 1983-2018, variação anual


percentual ante ao ano anterior. Fonte: randomwalk.com.br

200
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Exercícios – Capítulo 12

1. Quais são os determinantes da inflação?

2. Utilize o princípio da neutralidade da moeda para


demonstrar que um aumento na quantidade de moeda
aumenta a taxa de inflação, mas não afeta as variáveis reais
da economia.

3. Qual é a única maneira de se resolver o problema da alta


inflação? Explique.

4. O que é o “imposto inflacionário”? Explique como funciona.

5. O que é hiperinflação? Explique.

6. Explique como funciona o Efeito Fisher.

7. A Explique como funcionam a curva de Phillips e a curva de


Phillips modificada.

8. O que é a lei de Okun? Como funciona para o caso do Brasil?

201
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Capítulo 13 – Economia Aberta

N
os capítulos anteriores, vimos o modelo
macroeconômico de curto prazo, que visa explicar as
flutuações de produção, juros, emprego e preços no
curto prazo. O foco era na economia de um determinado país,
e as relações deste com o resto do mundo se davam através
das exportações e das importações. Veremos neste capítulo o
modelo macroeconômico de economia aberta (modelo IS-LM-
BP), que é uma extensão do modelo IS-LM (modelo mais
completo) e que permite a análise das variações dos
agregados macroeconômicos no curto prazo tendo em vista as
relações econômicas com os outros países do mundo. Utilizado
em conjunto com o modelo de demanda e oferta agregada, tal
modelo nos fornece um equilíbrio macroeconômico de curto
prazo em todos os mercados (bens e serviços, moeda,
trabalho e câmbio).

Uma economia fechada é aquela que não interage com as


outras economias no mundo, não havendo transações
econômicas internacionais entre esta economia e as outras. Já
uma economia aberta é aquela que interage com as outras
economias no mundo. Esta interação se dá de duas formas.
Em primeiro lugar, os agentes econômicos de uma dada
economia compram e vendem bens e serviços nos mercados
mundiais, gerando um fluxo de comércio internacional
entre o país e o mundo. Em segundo lugar, os agentes
econômicos de uma dada economia compram e vendem
capital nos mercados financeiros internacionais, gerando um
fluxo de finanças internacionais entre o país e o mundo.
Quanto maior forem os fluxos de comércio internacional e de
finanças internacionais entre o país e o mundo, mais aberta é
a economia daquele país. Um modo de medir a abertura de
um país é através do cálculo do grau de abertura, que é
calculado como a soma das exportações e importações
dividido pelo PIB do país. O grau de abertura do Brasil

202
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

recentemente é de uma economia relativamente fechada se


comparada a de vários países, embora a economia brasileira
seja hoje muito mais aberta se comparada a outros períodos
de nossa história (vide tabela 5).

Tabela 5 – Grau de Abertura, países selecionados, 2013 *.


País PIB Exportações Importações Grau Abertura
Taiwan 475 305 268 120,6
Coréia do Sul 1.304 557 514 82,1
Alemanha 3.730 1.493 1.233 73,1
Chile 277 77 74 54,5
China 9.240 2.210 1.950 45,0
Noruega 512 154 86 46,9
França 2.806 578 659 44,1
Itália 2.149 474 435 42,3
Índia 1.876 313 467 41,6
Rússia 2.096 523 341 41,2
Japão 4.919 697 766 29,7
Estados Unidos 16.768 1.575 2.380 23,6
Brasil 2.245 244 293 23,9
* * PIB, Exportações e Importações em bilhões de dólares americanos.
Grau de abertura em %. Fonte: FMI, e elaboração do autor.

Antes de abordarmos em maior detalhe o modelo de


macroeconomia aberta, no qual assumimos que as economias
dos países são abertas, vejamos o comércio internacional,
que, conforme já mencionado, é definido como a troca
internacional de bens e serviços entre os países. Tais trocas
podem ser exportações, que são as vendas de bens e
serviços para um outro país, e importações, que são as
compras de bens e serviços vindos de outro país.

Por que os países comercializam entre si? Principalmente


porque o comércio internacional gera ganhos de eficiência e
de especialização na produção dos vários produtos. Em

203
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

primeiro lugar, os países exportam e se especializam na


produção de bens e serviços nos quais conseguem produzir
com custos menores (teoria das vantagens comparativas).
Além disso, exportam produtos que utilizam de maneira mais
intensiva os recursos (como terra, capital ou trabalho) que
dispõe para a produção (teoria da dotação de fatores).
Finalmente, os países exportam produtos diferenciados que
são produzidos em larga escala e trocados por outros produtos
diferenciados (teoria do comércio intraindústria).

Há forte evidência de que os países ganham em participar do


comércio internacional. De fato, em 1980 o comércio mundial
total somava 2 trilhões de dólares; já em 2018 este somava
quase 20 trilhões de dólares, um aumento de 10 vezes no
período! Isto apesar de vários países adotarem políticas
restritivas ao comércio. Política comercial de um páis é o
conjunto de medidas que este adota para promover ou
restringir o comércio internacional. Estas medidas podem ser
de vários tipos, tais como a tarifa, que é um imposto sobre
as importações. Há também várias barreiras não arifárias,
que são outras restrições ao comércio, tais como a quota (que
é um limite máximo para a quantidade importada de um
produto) e os subsídios (que são pagamentos feito pelo
governo para estimular as empresas exportadoras).

Os governos dos páises usam de políticas comercias


liberais (para estimular o aumento do seu comércio
internacional, por exemplo) ou protecionistas (para proteger
as empresas nacionais da concorrência das importações, por
exemplo). Nos últimos anos e desde o final da Segunda Guerra
Mundial, um aparato institucional foi construído para remover
as barreiras ao comércio internacional e estimular o aumento
do comércio mundial. Foi criado o Acordo Geral sobre
Tarifas e Comércio (GATT, da sigla em inglês), que tinha o
objetivo de liberalizar o comércio entre os países. Em 1995 o
GATT foi substituído pela OMC (Organização Mundial do
Comércio). Tanto o GATT quanto a OMC promoveram a

204
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

liberalização do comércio através de negociações


comerciais, nas quais os governos de vários países
participantes (do GATT e da OMC) concordavam em fazer uma
redução mútua de suas tarifas e barreiras não tarifárias, e
concediam os benefícios a todos países participantes.

Finalmente, cabe mencionar que o aumento do comércio


internacional do período pós-guerra se deve em grande parte
às negociações comerciais realizadas no âmbito do GATT e da
OMC. Note-se também que as negociações comerciais podem
ser feitas dentro de um conjunto menor de países ou em
blocos de países. São as negociações regionais:nestas, um
subconjunto de países negocia a remoção das várias barreiras
comerciais existentes entre eles. Entre os vários blocos
regionais criados recentemente, podemos mencionar o
Mercosul (bloco formado entre Brasil, Argentina, Paraguai e
Urugual), União Européia (bloco de 27 países europeus), Nafta
(bloco entre Canadá, México e Estados Unidos), entre vários
outros blocos importantes.

Macroeconomia de Economia Aberta: conceitos

O Balanço de Pagamentos de um país é um registro das


transações econômicas entre os residentes daquele país e o
restante do mundo. O balanço de pagamentos tem dois
componentes: a Conta Corrente (ou Transações Correntes) e
a Conta de Capital (ou Transações de Capital).

A Conta Corrente inclui todos os fluxos de produto de um


país com o resto do mundo e tem por sua vez três
componentes: 1. Balança Comercial; 2. Balança de Serviços;
3. Transferências Unilaterais. A Balança Comercial inclui o
saldo entre exportações e importações de bens. Já definimos
antes exportações (X) e importações (M) anteriormente. Já
o saldo da balança comercial (X-M) é o valor das
exportações menos o valor das importações. O saldo da

205
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

balança comercial pode estar em uma situação de déficit


comercial, na qual o saldo da balança comercial (X-M) é
negativo e as importações são maiores que as exportações,
ou numa situação de superávit comercial, na qual o saldo
da balança comercial (X-M) é positivo e as exportações são
maiores que as importações. A Balança de Serviços inclui os
fluxos de entrada e saída de serviços, desde os serviços de
Transportes e Seguros; de Viagens Internacionais; de Rendas
de Capital (como o pagamento de juros e remessas de lucros);
e outros serviços, tais como os serviços de consultoria, o
pagamento de royalties e patentes, etc. Já na conta de
Transferências Unilaterais são incluídas Doações e
Remessas de migrantes.

Na Conta de Capital incluímos todos os fluxos financeiros de


um país com o resto do mundo e inclui: 1. Conta de
Investimentos, na qual incluímos os fluxos de Investimento
Direto Externo (IDE), que são os fluxos financeiros utilizados
na aquisição de ativos para aumentar a produção de um país
(como a aquisição de uma empresa), e os fluxos de
Investimentos em Carteira (ou Portfólio), que são os fluxos
financeiros utilizados na compra de ativos financeiros de renda
variável (tais como ações na Bolsa de Valores); e 2. Conta de
Empréstimos/Amortizações, na qual incluímos os fluxos de
Bônus, que são os fluxos financeiros de compra e venda de
títulos de renda fixa do governo ou de empresas, e os fluxos
de Crédito Bancário, que são os fluxos financeiros de
pagamento de amortizações e empréstimos bancários.

A reserva cambial de um país é igual ao estoque de moeda


estrangeira que um país detém, que decorre da participação
daquele país nas transações econômicas internacionais. O
saldo global do balanço de pagamentos é igual à soma do
saldo da conta corrente com o saldo da conta de capitais. Se
o saldo global do balanço de pagamentos é positivo, há uma
variação positiva das reservas cambiais do país; em

206
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

contrapartida, se tal saldo é negativo, há uma diminuição das


reservas cambiais do país.

A taxa de câmbio é o preço da moeda de um país em relação


à moeda de outro país. A taxa de câmbio do real em relação
ao dólar americano, por exemplo, é de 2 reais para cada dólar
em um determinado momento, ou US$1=R$2. Podemos
alternativamente definir a taxa de câmbio do dólar americano
em relação ao real, que, no exemplo dado, será de cinquenta
centavos de dólar para cada real, R$1=US$0,50. As pessoas
trocam a sua moeda pela de outro país nos mercados
cambiais. Existe o mercado de câmbio “spot”, no qual a
compra e a venda de moedas estrangeiras é efetuada
imediatamente e ao preço vigente no mercado naquele
instante. Há também o mercado de câmbio futuro, onde se
pode comprar moeda estrangeira para ser entregue em uma
data futura por um preço fixado hoje. A taxa de câmbio
trocada em mercado cambial é chamada de taxa de câmbio
nominal.

Política Cambial é o conjunto de medidas e ações do governo


que influem no comportamento do mercado de câmbio e da
taxa de câmbio. Um regime cambial é um arranjo que um
governo adota no qual se dá a conversão da moeda do país
com relação às outras moedas. Há dois arranjos básicos:
regimes cambiais fixos ou flutuantes. A diferença básica entre
esses dois regimes é que, enquanto no caso do regime de
cambio fixo a taxa de câmbio é definida pelas autoridades
monetárias nacionais, e o governo intervém no mercado de
cambio de modo a manter a taxa sempre fixa, no regime de
câmbio flutuante essa mesma taxa é formada no mercado
cambial, através dos movimentos de oferta e demanda por
ativos em moeda estrangeira, sem intervenção do governo.
Dentro desta última categoria há um regime de cambio
flutuante “sujo”, no qual o governo intervém no mercado de
câmbio de maneira não transparente (isto é, não previsível
pelo mercado), atuando no mercado sempre que desejar

207
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

manter a taxa de câmbio em um valor desejado. Em um


regime de cambio flutuante administrado, há uma política
transparente de intervenção (isto é, clara e previsível) no
mercado cambial. Dentro deste último caso, há um regime de
câmbio de Bandas Cambiais se houver um valor máximo e
um valor mínimo de taxa de câmbio (banda cambial) de tal
maneira que o governo intervém no mercado para manter o
câmbio dentro desta banda predeterminada.

Como a taxa de câmbio é determinada em um mercado de


câmbio flutuante? Pelo equilíbrio entre as forças de demanda
por moeda estrangeira e da oferta de moeda estrangeira. A
demanda por câmbio existe porque as famílias e as
empresas necessitam de trocar moeda do país por moeda
estrangeira para se engajar em operações de comércio
exterior, ou para viajar ao exterior, ou para adquirir ativos no
exterior, por exemplo. A curva de demanda por câmbio, tal
como em outros mercados, é uma curva descendente: quanto
menor a taxa de câmbio, maior a quantidade demandada por
câmbio. Já a oferta de câmbio existe pois as famílias e as
empresas que se engajam em operações de comércio exterior,
ou em viagens ao exterior, ou em aquisição de ativos no
exterior necessitam trocar a moeda estrangeira que possuem
pela moeda de seu país. A curva de oferta por câmbio, assim
como na análise de outros mercados, é uma curva
ascendente: quanto maior a taxa de câmbio, maior a
quantidade ofertada de câmbio. A taxa de câmbio de
equilíbrio é determinada pelos níveis de câmbio e de
quantidade de câmbio que igualam a demanda por câmbio
com a oferta de câmbio (ponto A na Figura 54).

208
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Taxa
Câmbio
(R$/$)
O O’

2,20 B
A
2,00
1,80 C
D’
D

50 65 70 Quantidade
Dólares($ bi)
Figura 54 – Equilíbrio no Mercado de Câmbio e Variações neste
Equilíbrio sob Regime Cambial Flutuante

O que afeta a demanda por câmbio? Em primeiro lugar, o


gosto dos consumidores domésticos por produtos
importados. Em segundo lugar, o nível de preços relativos
entre o preço dos produtos produzidos domesticamente e no
exterior. Em terceiro lugar, o PIB e a renda doméstica. Em
quarto lugar, as taxas de juros relativas entre os juros
domésticos e do exterior. Finalmente, as expectativas de
variação futura da taxa de câmbio também afetam o
equilíbrio. Aumento no PIB ou na renda doméstica, no nível de
preços relativos, e na taxa de juros relativa fazem com que a
curva de demanda por câmbio se desloque para a direita
(ponto B na Figura 54). Já a oferta de câmbio é influenciada
em primeiro lugar pelo gosto dos consumidores
estrangeiros por produtos domésticos. Em segundo lugar,
pelo nível de preços relativos entre o preço dos produtos

209
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

produzidos domesticamente e no exterior. Em terceiro lugar,


pelo PIB e a renda no exterior. Em quarto lugar, as taxas
de juros relativas entre os juros domésticos e do exterior.
Finalmente, as expectativas de variação futura da taxa de
câmbio também afetam o equilíbrio. Aumento no PIB ou na
renda estrangeira, no nível de preços relativos, e na taxa de
juros relativa fazem com que a curva de oferta de câmbio se
desloque para a direita (ponto C na Figura 54).

Se a taxa de câmbio de equilíbrio aumentar em relação a um


momento anterior (passar, por exemplo, de 2 reais para cada
dólar para 2,20 reais por dólar), dizemos que agora é possível
comprar menos moeda estrangeira em relação à moeda do
país e dizemos que houve uma depreciação da moeda do
país. Se, ao contrário, a taxa de câmbio de equilíbrio diminuir
em relação a um momento anterior (mudar de 2 reais por
dólar para 1,80 real por dólar, por exemplo), dizemos que
agora é possível comprar mais moeda estrangeira em relação
à moeda do país e dizemos que houve uma apreciação da
moeda do país. Quando a taxa de câmbio varia em um regime
cambial flutuante, a moeda de um país irá se apreciar (seu
preço sobe) e a do outro país irá de depreciar (seu preço cai).
Por exemplo, se o cambio real-dólar mudar de mudar de 2
reais por dólar para 1 real por dólar, o dólar se depreciou e o
real se apreciou, passando de 0,50 dólares por real para 1
dólar por real.

Como a taxa de câmbio varia ao longo do tempo? Vimos que


tanto a demanda por câmbio quanto a oferta de câmbio são
influenciadas pelas taxas de juros relativas entre os juros
domésticos e do exterior e pelas expectativas de variação
futura da taxa de cambio. No curto prazo, estes dois
fatores serão as forças dominantes sobre a taxa de
câmbio, à medida que os fluxos de investimento irão fluir de
um país a outro em busca de taxas de juros maiores que
remunerem melhor tais investimentos, ou para países onde se
espera que o câmbio mova-se de maneira favorável. No

210
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

médio prazo, a força dominante será a variação no PIB


doméstico e do PIB estrangeiro. Há uma tendência de um
país cujo PIB cresça mais rápido experimente uma
depreciação de sua moeda, e de que um país cujo PIB cresça
mais devagar experimente uma apreciação de sua moeda.

Taxa
Câmbio
(R$/$)
2,40

2,20

2,00

1,80

1,60
Ago Out Dez Fev Abr Jun Tempo
08 08 08 09 09 09

Figura 55 – Mercado de Cambio Brasileiro sob Regime Cambial Flutuante,


Agosto de 2008 a Agosto de 2009. Fonte: Advfn (www.advfn.com)

E em um prazo ainda maior (longo prazo), o que acontece ao


câmbio? As flutuações de curto prazo no câmbio podem se dar,
conforme já vimos, pelo efeito de variações no PIB, no
diferencial de juros e nas expectativas cambiais. Estas
flutuações do câmbio podem ir a uma direção que não seja à
tendência do câmbio no longo prazo. Na Figura 55 vemos
variações erráticas no cambio real-dólar no curtíssimo prazo,
tendo, porém há uma tendência de apreciação do real (e,
claro, de depreciação do dólar) no longo prazo. De acordo com
a teoria da paridade do poder de compra (PPC), a taxa de

211
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

câmbio entre dois países se ajustará no longo prazo até que o


preço médio dos bens seja aproximadamente o mesmo em
ambos. Se, por exemplo, uma cesta de produtos custa R$ 400
no Brasil e US$ 200 nos EUA, e se os preços não mudarem, a
taxa de cambio nominal se ajustará para 2 reais por dólar,
pela paridade do poder de compra. A esta taxa 400 reais
podem ser trocados por 200 dólares, de modo que o preço da
cesta é o mesmo para os residentes dos dois países. Mas e se
no curto prazo a taxa de cambio nominal fosse de um real por
dólar?

Neste caso compensaria trocar no banco 200 reais no banco


por 200 dólares, comprar a cesta nos EUA e trazê-la ao Brasil.
Assim pagaríamos 200 reais pela cesta ao invés de 400 reais,
tendo até lucro nesta transação. Entretanto, para se comprar
mais cestas de produtos nos EUA a demanda por dólares
aumentaria e a taxa de cambio se elevaria, até que atingisse
o valor de 2 reais por dólar. Neste valor, haveria paridade do
poder de compra e esta oportunidade de se ganhar com a
diferença de preços nos dois países não existiria mais. Assim,
no longo prazo, pela PPC a moeda de um país com maior
inflação se depreciará em relação à de um país com
inflação menor. No país de maior inflação os preços estão
em ascensão e, à medida que a cesta de produtos se torna
mais cara, apenas uma depreciação de sua moeda será capaz
de restaurar a paridade de poder de compra. Note, entretanto,
que a teoria da PPC tem algumas limitações. Em primeiro
lugar, muitos bens não são facilmente comercializáveis de um
país para outro. Vários serviços não são produtos
comercializáveis, isto é, não podem ser exportados ou
importados, de modo que o efeito acima de variação do
cambio para ajuste a cesta de preços de dois países fica
dificultado no caso destes produtos. Bens comercializáveis não
são sempre substitutos perfeitos quando são produzidos em
diferentes países. Em segundo lugar, se os custos de
transporte forem altos as possibilidades de negociar mesmo
os bens comercializáveis ficam reduzidas. Além disso,

212
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

barreiras ao comércio, tais como tarifas ou cotas de


importação, diminuem a possibilidade de os comerciantes
forçarem a taxa de cambio para a taxa de PPC. Nos três casos,
a teoria da PPC fica bastante prejudicada.

Modelo IS-LM-BP

Finalmente, apresentaremos o modelo IS-LM-BP, um modelo


macroeconômico de economia aberta mais completo e que é
a extensão (para uma economia aberta) do modelo IS-LM que
vimos nos capítulos anteriores. Vimos que a curva IS é a
relação entre juros e produção no mercado de bens e serviços,
e nos dá em cada ponto um equilíbrio de juros e produção
naquele mercado. Já a curva LM relaciona os juros e produção
no mercado de moeda, e em cada ponto temos um ponto de
equilíbrio de juros e produção naquele mercado.

Vamos introduzir agora a curva BP: ela representa os pontos


de juros e produção que satisfazem a condição de equilíbrio
externo de um país, no qual o saldo global do balanço de
pagamentos (BP), que é a soma do saldo da conta corrente
com o saldo da conta de capitais, é igual a zero. Os pontos
acima da curva BP representam superávits (BP>0) no Balanço
de Pagamentos (como o ponto A na Figura 56), e pontos
abaixo da curva BP representam déficits (BP<0) no Balanço
de Pagamentos (ponto B na Figura 56). Já os pontos na curva
BP estão em equilíbrio (BP=0). Somente um ponto que esteja
nas três curvas ao mesmo tempo é um ponto de equilíbrio
simultâneo dos três mercados (ponto C na Figura 53), que
está em equilíbrio interno (curvas IS e LM) e equilíbrio
externo (curva BP) ao mesmo tempo.

213
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Taxa
Juros
(%)

LM
A

C
i BP

IS
0 Y Produção

Figura 56 – Equilíbrio nos Mercados de Bens, de Moeda e de Câmbio:


Modelo IS-LM-BP

O movimento de capitais entre países depende das decisões


dos agentes econômicos internacionais de alocação destes
capitais entre dois países, por exemplo. Esta decisão por sua
vez depende do diferencial entre as taxas de juros dos dois
países. Assim, dada uma taxa de juros internacional, a entrada
de capitais em um país será maior quanto maior for sua taxa
de juros. A inclinação da curva BP depende do grau de
mobilidade de capitais, isto é, da forma como estes
respondem a variações na taxa de juros. Há três possibilidades
(veja os exemplos na Figura 57): 1) Sem mobilidade de
capitais. Neste caso incluímos países (talvez a Coréia do
Norte, Cuba ou Haiti) que não tem acesso algum ao mercado
internacional de capitais. Não há movimentação de capitais, e
o equilíbrio do BP reduz ao equilíbrio da conta corrente. Neste
caso haverá apenas um nível de produção e renda que
equilibra a conta corrente (independente dos juros), e a curva
BP será portanto vertical; 2) Plena mobilidade de capitais.

214
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Neste caso incluímos países que têm livre acesso ao mercado


internacional de capital à taxa de juros internacional
prevalecente (a maioria dos países desenvolvidos e
emergentes). Aqui qualquer déficit em conta corrente é
financiado à taxa de juros internacional, e qualquer superávit
em conta corrente pode ser facilmente aplicado no mercado
de capitais internacional. Assim, o saldo em conta corrente é
irrelevante, e a taxa de juros internacional determina o
equilíbrio do BP, sendo esta curva horizontal neste caso; e 3)
Mobilidade imperfeita de capitais. Nesse caso
intermediário, o acesso ao mercado de capitais existe mas o
país é capaz de influenciar a formação das taxas de juros
internacionais. Além disso, seu nível de produção também
afeta o equilíbrio de seu BP. Portanto neste caso, a curva BP
é inclinada positivamente, tal como a curva LM.

Taxa
Juros
(%)
BP
Sem BP
mobilidade Mobilidade
Imperfeita

LM

C
i BP
Plena
mobilidade

IS
0 Y Produção

Figura 57 – Exemplos de grau de mobilidade de capitais e a curva BP:


Modelo IS-LM-BP

215
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

O caso de mobilidade de capitais mais comum hoje em dia é


o de plena mobilidade de capitais; de agora em diante
utilizaremos somente este caso para a análise do modelo IS-
LM-BP; note, porém, que a análise dos outros dois casos de
mobilidade de capitais pode ser feita de maneira análoga.

Uma segunda variável importante em nossa análise é o regime


cambial. Conforme já vimos, os dois casos mais importantes
de regimes cambiais são o câmbio fixo e o câmbio flutuante.
Os efeitos de cada regime cambial sobre produção e juros são
diferentes. Avaliaremos tais efeitos para dois casos de políticas
governamentais: 1) Política monetária expansiva; e 2) Política
fiscal expansiva.

a) Política monetária expansiva com câmbio fixo. Aqui o


aumento na base monetária traduz-se num deslocamento da
curva LM para a direita. O ponto de equilíbrio temporário é o
ponto B na Figura 55, no qual os juros são mais baixos que os
juros internacionais i e a produção é maior que antes. Porém,
neste ponto a economia está em desequilíbrio externo (BP<0);
os juros estão abaixo do mercado internacional, e há portanto
uma saída de capitais do país e uma queda na oferta de moeda
estrangeira. Como o câmbio é fixo, para equilibrar a paridade
entre moeda nacional e estrangeira, o Banco Central diminui
a base monetária através de uma política monetária restritiva,
que desloca a curva LM para a esquerda; os juros e a produção
voltam aos níveis originais (ponto A na Figura 58).

216
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Taxa
Juros
(%)

LM

A LM’
i BP
I’
B

IS
0 Y Y’ Produção

Figura 58 – Exemplo de política monetária expansiva com câmbio fixo


e plena mobilidade de capitais: Modelo IS-LM-BP

b) Política fiscal expansiva com câmbio fixo. Neste caso


o aumento nos gastos (ou queda nos impostos) do governo
traduz-se num deslocamento da curva IS para a direita. O
ponto de equilíbrio temporário é o ponto B na Figura 56, no
qual os juros são mais altos que os juros internacionais i e a
produção é maior que antes. Porém, neste ponto a economia
está em desequilíbrio externo (BP>0); os juros estão acima
do mercado internacional, e há portanto uma entrada de
capitais do país e um aumento na oferta de moeda
estrangeira. Como o câmbio é fixo, para equilibrar a paridade
entre moeda nacional e estrangeira, o Banco Central aumenta
a base monetária através de uma política monetária
expansiva, que desloca a curva LM para a direita, até o ponto
em que os juros voltam aos níveis originais, mas a um nível
de produção maior (ponto C na Figura 59).

217
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Taxa
Juros
(%)

LM
B
I’ LM’
A
C
i BP

IS’
IS
0 Y Y’ Y’’ Produção

Figura 59 – Exemplo de política fiscal expansiva com câmbio fixo e


plena mobilidade de capitais: Modelo IS-LM-BP

c) Política monetária expansiva com câmbio flutuante.


Aqui o aumento na base monetária traduz-se num
deslocamento da curva LM para a direita. O ponto de equilíbrio
temporário é o ponto B na Figura 57, no qual os juros são mais
baixos que os juros internacionais i e a produção é maior que
antes. Porém, neste ponto a economia está em desequilíbrio
externo (BP<0); os juros estão abaixo do mercado
internacional, e há portanto uma saída de capitais do país e
uma queda na oferta de moeda estrangeira. Como o câmbio é
flutuante, há uma pressão para desvalorizar a moeda local, a
qual estimula o aumento das exportações e a diminuição das
importações; assim, a curva IS se desloca para a direita, até
o ponto em que os juros voltam aos níveis originais, mas a um
nível de produção maior (ponto C na Figura 60).

218
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

Taxa
Juros
(%)

LM

A LM’
C
i BP
I’
B

IS’
IS
0 Y Y’ Y’’ Produção

Figura 60 – Exemplo de política monetária expansiva com câmbio


flutuante e plena mobilidade de capitais: Modelo IS-LM-BP

d) Política fiscal expansiva com câmbio flutuante. Neste


caso o aumento nos gastos (ou queda nos impostos) do
governo traduz-se num deslocamento da curva IS para a
direita. O ponto de equilíbrio temporário é o ponto B na Figura
61, no qual os juros são mais altos que os juros internacionais
i e a produção é maior que antes. Porém, neste ponto a
economia está em desequilíbrio externo (BP>0); os juros
estão acima do mercado internacional, e há portanto uma
entrada de capitais do país e um aumento na oferta de moeda
estrangeira. Como o câmbio é flutuante, há uma pressão para
valorizar a moeda local, a qual estimula a diminuição das
exportações e o aumento das importações; assim, a curva IS
se desloca para a esquerda, e os juros e a produção voltam
aos níveis originais (ponto A na Figura 61).

219
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Taxa
Juros
(%)

LM
B
I’ LM’
A
i BP

IS’
IS
0 Y Y’ Produção

Figura 61 – Exemplo de política fiscal expansiva com câmbio flutuante


e plena mobilidade de capitais: Modelo IS-LM-BP

Para terminar, note que nos exemplos acima avaliamos o


efeito das políticas de governo sobre a produção e os juros de
equilíbrio. Se necessitarmos analisar também os efeitos sobre
os preços, é necessário utilizar em paralelo o modelo de
demanda e oferta agregada, lembrando que os efeitos sobre
as curvas IS e LM são igualmente transmitidos à curva de
demanda agregada (DA) daquele último modelo.

Exercícios – Capítulo 13

Para os exercícios 1 a 20 abaixo, mostre graficamente e


calcule o nível de preços, de juros e de produção de equilíbrio,
no novo ponto de equilíbrio simultâneo no mercado de bens e
serviços, no mercado monetário e no mercado de câmbio

220
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

(modelo IS-LM-BP), e no mercado de trabalho (modelo de


demanda e oferta agregada). Resolva cada exercício em duas
partes: i) se tivermos o regime de câmbio fixo e plena
mobilidade de capitais; ii) se tivermos o regime de câmbio
flutuante e plena mobilidade de capitais. O que acontece com
o nível de preços, de juros e de produção de equilíbrio após o
acontecimento dos seguintes fatos:

1. Política monetária restritiva por parte do governo (Bacen).

2. Política monetária expansiva por parte do governo (Bacen).

3. Aumento de tarifas de importação para os produtos de


exportação brasileiros por parte dos parceiros comerciais do
Brasil.

4. Lançamento por parte do governo (vários ministérios) de


um programa de recuperação da infraestrutura de portos,
aeroportos e rodovias.

5. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva.

6. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva. Além disso, para conter a crise o
governo (Bacen) lança uma política monetária expansiva.

7. Por conta da crise mundial deflagrada no final de 2008,


empresas decidem postergar seus projetos de expansão da
capacidade produtiva. Além disso, para conter a crise o
governo (Ministério da Fazenda) lança política de redução do
IPI aos produtos de consumo durável (automóvel e linha
branca).

221
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

8. A queda do dólar em relação ao Real faz com que as


exportações brasileiras percam competitividade e diminuam.
Além disso, para conter o efeito da queda do dólar, governo
(Bacen) lança uma política monetária restritiva.

9. A queda do dólar em relação ao Real faz com que as


exportações brasileiras percam competitividade e diminuam.
Além disso, para conter o efeito da queda do dólar, governo
(Bacen) lança uma política monetária expansiva.

10. A proximidade do final da crise econômica traz otimismo


aos consumidores que resolvem consumir mais.

11. A proximidade do final da crise econômica o governo


(Ministério da Fazenda) resolver dar um final na política de
redução do IPI aos produtos de consumo durável (automóvel
e linha branca).

12. Aumento da oferta de crédito ao consumidor por parte dos


bancos.

13. Por conta do crescimento das vendas pela Internet (de


maneira geral), as firmas investem mais em hardware e
software para poder vender mais pela Internet.

14. Um aumento de 300% no petróleo (choque de oferta


negativo) no Brasil e no mundo, como aconteceu nos anos
1970.

15. Por conta do choque negativo de oferta que aconteceu nos


anos 1970, o governo (Bacen) promove uma política
monetária restritiva.

16. Por conta do choque negativo de oferta que aconteceu nos


anos 1970, o governo (Ministério da Fazenda) promove uma
política fiscal restritiva.

222
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

17. Por conta do choque negativo de oferta que aconteceu nos


anos 1970, o governo (Bacen) promove uma política
monetária expansiva.

18. Melhoras consecutivas nas safras de cana de açúcar nos


anos 1980 (choque positivo de oferta) aumentam
significativamente a oferta de álcool combustível no Brasil.

19. Após o choque positivo de oferta de álcool combustível no


Brasil, o governo (Ministério da Fazenda) promove um
aumento dos gastos de governo.

20. Após o choque positivo de oferta de álcool combustível no


Brasil, o governo (Ministério da Fazenda) promove uma
diminuição dos gastos de governo.

Para as questões 21 e 22 abaixo, considere o seguinte trecho


do artigo “Especulação com juros” (Celso Ming, em A Tribuna,
22/11/2009): “De todos os lados espocam reclamações de que
os juros no chão, lá nos Estados Unidos, provocam distorções
no mercado financeiro e estimulam a especulação com juros.
São as chamadas operações de arbritagem ou carry trade.
Basicamente, consistem em levantar empréstimos onde os
juros estão muito baixos (estão perto de zero nos EUA e no
Japão) e reaplicar os recursos onde são mais altos, caso do
Brasil... O efeito mais perverso dessa prática é a forte entrada
de dólares nos países que sofrem essa especulação e,
simultaneamente, a valorização de suas moedas... Analistas e
exportadores denunciam que a brutal diferença entre os juros
é uma das principais responsáveis... pela excessiva
valorização do real diante do dólar. Há um mês, o governo
Lula instituiu um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)
de 2% na entrada de capitais destinados a aplicações em
renda fixa e em ações. (Porém) as estatísticas sobre o fluxo
de moeda estrangeira sugerem que essas práticas (de carry
trade) não são tão relevantes quanto se diz. A forte entrada
de moeda estrangeira e a valorização do real são mais

223
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

explicáveis pela confluência de três fatores: a força das


exportações de commodities..., o forte interesse estrangeiro
pelas ações brasileiras e os Investimentos Diretos
Estrangeiros. Se os efeitos relevantes não são os dólares que
chegam (pelo carry trade) e podem sair, e sim os dólares que
entram e deixam de sair, perdem sentido as políticas
destinadas a conter a entrada de moeda estrangeira, como a
cobrança do IOF.”.

21. Segundo o artigo, “... a forte entrada de moeda


estrangeira e a valorização do real são mais explicáveis pela
confluência de três fatores: a força das exportações de
commodities..., o forte interesse estrangeiro pelas ações
brasileiras e os Investimentos Diretos Estrangeiros”.
a) Em quais grandes e pequenas contas do balanço de
pagamentos brasileiro registramos estes três fluxos de
entrada de moeda estrangeira?
b) Supondo que o balanço de pagamentos brasileiro estivesse
inicialmente em equilíbrio, qual seria o efeito destes três fluxos
de investimento sobre o saldo global do balanço de
pagamentos?

22. Também segundo o artigo, “... o efeito mais perverso


dessa prática (de carro trade) é a forte entrada de dólares nos
países que sofrem essa especulação e, simultaneamente, a
valorização de suas moedas”.
a) Com um regime cambial flutuante e com plena mobilidade
de capitais, mostre graficamente e calcule o efeito da
valorização cambial (que afeta exportações e importações)
sobre o nível de preços, de juros e de produção de
equilíbrio usando o modelo IS-LM-BP e o modelo de demanda
e oferta agregada.
b) Se o câmbio fosse fixo, e ainda com plena mobilidade de
capitais, mostre graficamente e calcule o efeito da valorização
cambial sobre o nível de preços, de juros e de produção de
equilíbrio usando o modelo IS-LM-BP e o modelo de demanda
e oferta agregada.

224
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

23. Por que os países comercializam entre si?

24. O que é política comercial? Defina também tarifa, barreiras


não arifárias, quota e subsídios.

25. O que são políticas comercias liberais e protecionistas?

26. Como o GATT e a OMC promoveram a liberalização do


comércio internacional nas últimas décadas?

27. O que são negociações regionais (ou integração econômica


regional)? Mencione alguns exemplos recentes.

225
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Capítulo 14 – Crescimento Econômico e o Longo Prazo

A
té agora vimos como a produção se comporta no curto
prazo, bem como o efeito de políticas de governo sobre
ela. Mas tais políticas, como a política monetária ou a
política fiscal, só têm efeito no curto prazo, ou seja, em
períodos de poucos meses ou de até um ano. O crescimento
da produção tem uma dinâmica diferente quando se considera
o longo prazo, ou seja, quando levamos em conta períodos de
5, 10, ou até 30 anos. Veremos neste capítulo a dinâmica do
crescimento econômico no longo prazo, seus determinantes e
o que pode ser feito em termos de políticas de governo para
influenciar no processo de crescimento econômico. Veremos
também como tais fatores agem no espaço, gerando o
desenvolvimento econômico das regiões.

Por que é importante se preocupar com o crescimento da


produção no longo prazo, isto é, com o crescimento
econômico? O padrão de vida de uma população é a
qualidade de vida que ela tem em termos de disponibilidade
de bens e serviços, e este padrão depende da habilidade
daquela população em produzir bens e serviços. Dentro de um
país pode haver grandes mudanças no padrão de vida ao longo
do tempo. A evolução do padrão de vida de um país está
relacionada com a evolução de seu crescimento econômico. O
crescimento econômico é o aumento da produção de bens
e serviços de um país ao longo do tempo, e implica na
mudança do padrão de vida deste país.

Ao viajarmos pelo mundo, ou mesmo dentro de um país,


podemos observar como o padrão de vida da população varia
sensivelmente de um lugar para o outro. Temos países com
alto padrão de vida, como Estados Unidos, Japão, Alemanha,
Holanda e Coréia do Sul; em outros países, o padrão de vida
é muito baixo, tais como Guiné Equatorial, Burundi, Sudão e
Bangladesh. Dentro de um país como o Brasil, um país

226
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

considerado de renda média alta, há estados com alto padrão


de vida, como São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal,
e outros de padrão de vida bem mais baixo, como Maranhão,
Piauí e Amapá.

No capítulo 9 vimos o uso do PIB per capita como medida da


riqueza econômica de um país; mencionamos como tal
indicador mede também o bem-estar médio das pessoas em
um país. Mencionamos o uso do IDH (Índice de
Desenvolvimento Humano) como outro possível indicador para
medir o bem-estar médio da população de um país. Usaremos
aqui como medida de padrão de vida e de crescimento
econômico de um país o PIB per capita, que é o PIB dividido
pela população. Para compararmos o padrão de vida da
população de diversos países, calculamos o PIB real dos vários
países em uma mesma moeda e dividimos pela sua população,
podendo assim comparar seus padrões de vida e a variação
destes ao longo do tempo. Quando a produção cresce mais
rápido que a população, o PIB per capita se eleva e,
consequentemente, o padrão de vida daquela população. Se a
produção cresce mais lentamente que a população, o PIB per
capita e o padrão de vida caem.

Há países, como a Coréia do Sul e o Japão, que eram


considerados pobres em 1950, tiveram uma elevação
acentuada no padrão de vida nos últimos 50 anos, tornando-
se países ricos do ponto de vista do PIB per capita (vide Tabela
6). Outros, como Venezuela e Argentina, eram países que
estavam entre os países mais ricos em 1950, e tiveram um
aumento bastante lento no padrão de vida no mesmo período,
tendo caído sensivelmente no ranking. Países grandes como
Brasil, Índia e China, que estavam entre os ditos pobres em
1950, também evoluíram significativamente e hoje estão
entre os países de renda média alta. Entre os países
desenvolvidos de 1950, vários continuaram a evoluir (tais
como Estados Unidos, França, Alemanha e Noruega) e ainda
se mantém na lista dos países de alto padrão de vida.

227
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Finalmente, entre os países mais pobres de 1950, vários deles


(como Bangladesh e Etiópia) tiveram uma evolução muito
pequena em seu padrão de vida, e continuam na lista dos
países de menor padrão de vida até hoje.

Tabela 6: PIB per capita, 1950 e 2013, países selecionados *.


PIB per PIB per
País capita 1950 capita 2013
Noruega 4.969 100.818
Estados Unidos 9.573 53.042
França 5.221 42.503
Alemanha 4.281 46.268
Japão 1.873 36.800
Itália 3.425 35.925
Taiwan 876 20.925
Coréia do Sul 922 25.977
Venezuela 7.424 14.414
Chile 3.827 15.732
Argentina 4.987 14.715
Brasil 1.673 11.208
África do Sul 2.251 6.617
China 614 6.807
Índia 597 1.498
Bangladesh 551 958
Tanzânia 427 695
Etiópia 277 505
* PIB per Capita em dólares americanos. Fonte: Banco Mundial

Função de Produção e seus componentes

Como explicar estas variações entre países no padrão de vida?


Veremos que tais variações estão relacionadas à
produtividade de um país. Para tal, vejamos um modelo

228
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

econômico de macroeconomia de longo prazo. Assim como a


empresa tem uma função de produção na microeconomia, há
na macroeconomia a função de produção de um país, que
relaciona a quantidade produzida em um país no longo prazo
com a tecnologia disponível no país, com as quantidades de
capital físico, de capital humano e de recursos naturais
disponíveis naquele país. Assim, temos que:

Y = A F(K, H, N),

onde Y é a quantidade de produção, A é a tecnologia


disponível, K é a quantidade de capital físico, H é a quantidade
de capital humano, N é a quantidade de recursos naturais, e
F() representa a função de produção de como os recursos
produtivos são combinados naquele país para gerar seu
Produto Interno Bruto.

Portanto, os fatores que influenciam a função de produção de


um país são o capital físico, o capital humano, os recursos
naturais e o conhecimento tecnológico. Capital físico é o
estoque de equipamentos e estruturas que são usadas na
produção de bens e serviços, tais como ferramentas de reparo,
máquinas e robôs utilizados na produção, galpões, edifícios,
computadores, escolas, etc. Os trabalhadores são mais
produtivos se dispõem de todo este ferramental para
trabalhar. Uma quantidade maior e ferramentas mais novas e
atualizadas permitem que o trabalho seja executado com
maior rapidez e precisão. A produção de capital físico será
utilizada pelos vários setores da economia (os bens de capital,
que mencionamos no capítulo 2).

Já o capital humano refere-se ao acúmulo de habilidades e


conhecimentos que os trabalhadores adquirem através da
educação formal (escola primária e secundária, e
universidade), treinamento e experiência de trabalho. Embora
esses elementos sejam mais intangíveis que os elementos que
compõe o capital físico, tal como este o capital humano

229
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

aumenta a habilidade de um país produzir bens e serviços. A


produção de capital humano exige insumos sob a forma de
professores, instrutores e o tempo dos estudantes utilizado
para tal. Note também que, diferentemente da função de
produção da microeconomia, que utiliza capital e trabalho
como insumos na produção, aqui substituímos o trabalho pelo
capital humano, uma definição mais ampla que leva em conta
não só a quantidade de mão de obra usada na produção mas
também a qualidade desta mão de obra.

Os recursos naturais são insumos usados na produção que


são providos pela natureza, tais como terras, água e minerais.
Há dois tipos de recursos naturais: os recursos renováveis,
que são aqueles cujo estoque pode ser renovado (como as
florestas), e recursos não renováveis, cujo estoque não
pode ser renovado (como o petróleo e o carvão). Enquanto
uma árvore que é derrubada pode ser replantada (e assim
renovar o estoque da floresta), um recurso não renovável
como o petróleo, quando é utilizado, não pode ser recriado
(levaria milhões de anos para a natureza repor tal estoque).

Já o conhecimento tecnológico é o entendimento técnico


de como produzir bens e serviços. Em um determinado
período no tempo, há tecnologias que realizam as atividades
da maneira mais eficiente possível e outras menos eficientes,
dentro de um estoque dado de tecnologias disponíveis para a
produção de bens e serviços. Avanços em pesquisa e
desenvolvimento (ou P&D) permitem a criação de novas
tecnologias (mais avançadas que as existentes anteriormente)
que fazem com que a produção possa ser feita de maneira
mais eficiente ainda ou em maior quantidade. Note também
que o conhecimento tecnológico pode ser de conhecimento
comum ou de conhecimento proprietário. No primeiro
caso, depois que a tecnologia é utilizada, todos ficam a par
dela e a podem utilizar. Neste caso se encaixa a tecnologia de
linha de montagem, que, uma vez utilizada em uma empresa
do setor automotivo, pôde ser utilizada pelas outras empresas

230
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

do setor e de outros setores. Já no segundo caso, a tecnologia


é conhecida apenas pela empresa que a descobriu, como a
fórmula da Coca-Cola, a qual somente esta empresa pode
utiliza-la e a mantém sob a forma de segredo industrial. Note
também que algumas tecnologias são proprietárias apenas por
um período de tempo, como é o caso de algumas drogas
farmacêuticas, cuja patente (que é a licença de explorar de
maneira exclusiva a produção de uma determinada droga)
dura alguns anos, sendo que após este período a droga fica
liberada para a produção por outras empresas concorrentes.

Assim, para a promoção da produção e do crescimento


econômico, é necessário aumentar o uso dos fatores da função
de produção, tanto o capital físico, quanto o capital humano e
o uso dos recursos naturais, e são necessários avanços na
tecnologia. Vejamos cada um destes fatores separadamente.
Em primeiro lugar, promove-se o crescimento econômico
aumentando o uso do estoque de capital físico. Mas a variação
do capital físico no tempo é, por definição, o investimento
em capital físico das empresas. Assim, para o crescimento
da produção é necessário o aumento do investimento por
parte das empresas (tal como acontece no modelo da
macroeconomia de curto prazo).

Tal como o capital físico, o aumento do estoque de capital


humano (ou investimento em capital humano) aumenta a
habilidade de um país produzir bens e serviços, por isso é
necessário incrementar o investimento também em capital
humano. O aumento do estoque dos recursos naturais (ou
aumento no investimento em recursos naturais) também
promove o crescimento econômico. Por fim, o avanço do
conhecimento tecnológico, através da invenção ou
descoberta de novos insumos, produtos ou métodos de
produção, faz com que a economia se torne mais eficiente e
produtiva, isto é, consiga produzir mais com a mesma
quantidade de insumos. Quanto maior a velocidade do avanço
tecnológico, maior a taxa de crescimento e elevação do padrão

231
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

de vida. A velocidade do avanço tecnológico depende


principalmente dos gastos totais em pesquisa e
desenvolvimento (P&D), por parte das empresas e também
por parte de órgãos, públicos ou não (como institutos de
pesquisa e universidades, por exemplo).

Indo Mais Fundo: A Economia Criativa e o Brasil *

Desde que as Nações Unidas publicaram o Relatório de


Economia Criativa de 2010, já se dizia que as indústrias
criativas (ICs) estavam entre os setores mais dinâmicos da
economia mundial, oferecendo novas oportunidades de alto
crescimento para os países em desenvolvimento. Mesmo em
um contexto no qual quase todas as regiões e países foram
afetados pela recessão global de 2008 a 2009, a economia
criativa foi uma boa opção de crescimento.

De acordo com o conceito da UNCTAD, as ICs são setores cujos


produtos involvem ciclos de criação, produção e distribuição
de produtos e serviços que utilizam criatividade e capital
intelectual como insumos primários; constituem um conjunto
de atividades baseadas em conhecimento, focadas, entre
outros, nas artes, que potencialmente gerem receitas de
vendas e direitos de propriedade intelectual; constituem
produtos tangíveis e serviços intelectuais ou artísticos
intangíveis com conteúdo criativo, valor econômico e objetivos
de mercado; posicionam-se no cruzamento entre os setores
artísticos, de serviços e industriais; e constituem um novo
setor dinâmico no comércio mundial.

Os setores que englobam a economia criativa, de acordo com


a FIRJAN (2019), constituem quatro grandes setores e treze
subsetores (em parênteses):

● Consumo (Design; Arquitetura; Moda; e Publicidade &


Marketing)

232
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

● Mídias (Editorial; Audiovisual)


● Cultura (Patrimônio e Artes; Música; Artes Cênicas; e
Expressões Culturais)
● Tecnologia (Pesquisa e Desenvolvimento;
Biotecnologia; e Tecnologia da Informação e das
Comunicações)

No Brasil e no mundo este setor tem sido um dos mais


dinâmicos. No mundo, a produção passava de 2,4 trilhões de
dólares em 2017. E, segundo a FIRJAN (2019), o setor já
representa cerca de 2,7% do PIB do Brasil, o equivalente a R$
171,5 bilhões em 2017. Deste total, 43% representava a
participação do setor de consumo, 37% de tecnologia, 12%
de mídias e 8% de cultura. As ICs contaram com 837,2 mil
profissionais formalmente empregados em 2017, o que
representava 1,8% no total do mercado de trabalho no país.
E em 2017 as ICs contabilizaram 245 mil estabelecimentos.
Os estados que detém a maior participação neste setor na
economia local são os estados de São Paulo (4% do PIB
paulista), Rio de Janeiro (3,8% do PIB carioca) e o Distrito
Federal (3,1% do seu PIB.

A contribuição das ICs para o crescimento econômico é uma


questão importante que atrai uma atenção cada vez maior.
Nas discussões de políticas públicas de promoção do
crescimento, o pressuposto é que há uma grande contribuição
das ICs para o crescimento de toda a economia, contribuindo
significativamente também para o emprego dos jovens e do
crescimento nos municípios menores. Além disso, ao operar
no entroncamento entre as artes, negócios, tecnologia e
ecologia, presume-se que as ICs beneficiam outras indústrias
por meio de efeitos indiretos. Do mesmo modo, as ICs criam
efeitos positivos em outras áreas da sociedade, como
educação, inclusão social e vida comunitária.

Finalmente, nos últimos anos, tem crescido também o


interesse no desenvolvimento liderado pelas ICs no campo do

233
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

crescimento econômico regional. A ideia básica é que a cultura


e a criatividade são as principais forças que impulsionam o
desenvolvimento urbano e regional. A discussão nas esferas
acadêmica, de políticas públicas e das empresas é cada vez
mais intensa. Parte da suposição básica de que a economia
cultural e criativa é uma força importante que molda as
economias baseadas no conhecimento e é propícia ao
desenvolvimento regional sustentável, com mais empregos
criados e maior coesão social.

* Baseado em 1) UNCTAD. Relatório de Economia Criativa


2010: economia criativa, uma opção de desenvolvimento.
Brasília: Secretaria da Economia Criativa/Minc; São Paulo:
Itaú Cultural, 2012; e em 2) FIRJAN, Mapeamento da Indústria
Criativa no Brasil. Rio de Janeiro: Federação das Indústrias do
Estado do Rio de Janeiro, 2019.

Produtividade e políticas públicas

Mencionamos o PIB per capita como forma de se medir o


padrão de vida de um país. Outra forma de se medir o padrão
de vida é pela produtividade daquele país. A produtividade
é calculada pela divisão da quantidade produzida por unidade
de trabalho. Se dividirmos a função de produção pela
quantidade de trabalhadores disponíveis em uma economia
(que é igual à sua quantidade de trabalho, isto é, o número
total de trabalhadores capazes e dispostos a se empregar, que
chamaremos doravante de L), teremos como resultado a
produção por trabalhador, isto é, a produtividade. Assim:

Y/ L = A F(K/L, H/L, N/L),

onde Y/L é a produção por trabalhador (ou produtividade da


economia), K/L é o capital físico por trabalhador, H/L é o

234
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

capital humano por trabalhador, e N/L é o volume de recursos


naturais por trabalhador.

Quais são os fatores que determinam a produtividade em


uma economia (Y/L)? Esta depende do capital físico por
trabalhador (K/L), capital humano por trabalhador (H/L), e
recursos naturais por trabalhador (N/L), assim como do
estágio de desenvolvimento da tecnologia (A). Assim, para a
promoção do aumento da produtividade na economia, é
necessário aumentar o uso dos fatores da função de produção,
tanto o capital físico quanto o capital humano e o uso dos
recursos naturais, bem como promover o avanço da tecnologia
(exatamente como no caso da promoção do crescimento
econômico de um país).

Por último, qual é o papel do governo na promoção do


crescimento da produção e da produtividade na economia?
Como vimos, se quisermos promover o aumento do
crescimento econômico e da produtividade, é necessário
aumentar o uso dos fatores da função de produção (capital
físico, capital humano e recursos naturais) e promover o
avanço tecnológico. No caso do capital físico, aumentos na
acumulação de seu estoque aumenta a possibilidade de uma
economia produzir novos bens e serviços no futuro próximo.
Entretanto, como existem trocas (tradeoffs) na economia
(pois os recursos são escassos), dedicar mais recursos para a
produção de bens de capital implica em uma diminuição na
produção de bens de consumo no período atual, isto é, é
necessário um país poupar mais e consumir menos de sua
renda corrente. Assim, entre as políticas que promovem o
investimento em capital físico podemos mencionar as políticas
que fomentam o aumento da poupança interna de um país.
Note, entretanto que parte deste aumento de poupança pode
ser externa, isto é, advir de investimentos de empresas
estrangeiras em um país (isto é, o investimento direto
externo, ou IDE). Além disso, políticas de redução de
impostos sobre as empresas e de subsídios para os

235
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

investimentos também ajudam no aumento do estoque de


capital físico.

Entre as políticas para a promoção do investimento em capital


humano podemos mencionar as políticas de apoio à educação
e ao treinamento. É importante aumentar a quantidade de
vagas em escolas e universidades, mas também aprimorar
constantemente a qualidade do ensino destas. Pesquisas
sobre a relação entre salários e nível de instrução mostram
que os salários das pessoas com um maior nível de instrução
é tipicamente bem maior que daquelas com menor nível de
instrução. No caso de países menos desenvolvidos, a diferença
entre estes níveis salariais é ainda maior. Outra política
importante é a criação e o aperfeiçoamento de centros de
treinamento para o desenvolvimento das várias habilidades
necessárias aos trabalhadores que buscam encontrar um
emprego nas diferentes áreas que as empresas necessitam.

As políticas mencionadas no parágrafo visam melhorar a


qualidade da mão de obra. Quanto à quantidade de mão de
obra, podemos citar políticas que visam o aumento do
emprego, seja pelo estímulo à demanda ou à oferta de
trabalho. Políticas de redução de impostos (que aumenta a
remuneração do trabalho) e de corte de benefícios do governo
ao trabalhador (que aumenta o sacrifício de não se estar
trabalhando) promovem a oferta de trabalho. Já uma política
de subsídios para empresas que contratem mais trabalhadores
promove a demanda por trabalho.

Para a promoção do investimento em recursos naturais, não


existem políticas específicas para os recursos não renováveis,
já que não é possível aumentar seu estoque e,
consequentemente, o seu uso. Mas é possível implementar
políticas de regulação do seu uso e de substituição do uso de
recursos não renováveis por recursos renováveis. Para a
promoção do uso de recursos renováveis, é possível, por

236
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

exemplo, promover a redução de impostos ou a oferta de


subsídios na produção destes insumos.

Para promover o avanço tecnológico, há várias políticas de


criação e disseminação do conhecimento científico e
tecnológico, tais como: políticas de transferência de pesquisa
básica e de desenvolvimento de produtos (P&D) gerada em
universidades e centros de pesquisa, que podem passar o
novo conhecimento ali criado para empresas e população; e
políticas de apoio para que as empresas gerem
constantemente conhecimento a ser utilizado na criação e
aperfeiçoamento de seus produtos, como os subsídios para a
P&D interna à empresa. É o avanço tecnológico que tem sido
o principal propulsor do padrão de vida ao longo da história.
Finalizando, cabe notar que, além das políticas específicas
para o uso de cada fator e do avanço tecnológico, políticas
sistêmicas que agem em toda a economia e promovem o
aumento da produtividade generalizado também devem ser
utilizadas, tais como a manutenção da estabilidade política e
da segurança pública, a criação e a manutenção de sistemas
nacionais de saúde básica, de transportes e de infraestrutura
de saneamento básico, e as regras de regulamentação dos
vários setores que compõem a economia.

Desenvolvimento regional

Outro aspecto importante sobre o desenvolvimento econômico


é que as atividades econômicas surgem, crescem e se
desenvolvem no espaço. As empresas precisam levar em
consideração a escolha da sua localização, de forma
semelhante à escolha dos fatores de produção e da tecnologia.
Da mesma maneira, as pessoas escolhem a localização de
suas residências levando em conta fatores como a localização
dos empregos e as atividades de varejo próximas. Cabe notar
também que a distribuição de recursos, atividades econômicas
e atividade institucional e social é desigual no espaço. A

237
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

economia regional e urbana incorpora a dimensão espaço


na análise econômica, analisando questões como: quais
fatores afetam a localização das atividades econômicas e
residências? Quais fatores influenciam no crescimento
econômico e na competitividade das regiões? Quais políticas
públicas de planejamento do desenvolvimento regional e
urbano devem ser promovidas para um funcionamento mais
eficientes das cidades?

Para entender o papel da variável espaço na economia, é


importante desenvolver o conceito de região, que é uma
entidade ou área ou (sub)espaço geográfico de um território
nacional, de modo que alguma descrição ou análise pode ser
feita sobre os atributos daquela entidade, com a finalidade de
gestão e de formulação de políticas públicas. A região, que é
um território contínuo e delimitado (portanto tem fronteiras
com outras regiões e com outros países), pode ser um
território recortado em diversos tamanhos, tal como um
estado, macrorregião, região metropolitana, município, zona
(dentro de uma cidade), bairro ou mesmo uma avenida ou
rua.

Quais fatores afetam a localização das atividades


econômicas no espaço? Vários fatores: a distância da
atividade econômica aos seus principais mercados e
fornecedores de insumos (medido pelo custo de
transporte); a ação de políticas locais de governo tais
como a existência de subsídios e desconto no pagamento de
impostos para as atividades que promovam o
desenvolvimento local; e a presença de atributos locais que
favoreçam o crescimento da atividade naquele local, tais como
a presença de infraestrutura (portos, aeroportos, estradas
de rodagem e de ferro, etc. malha viária adequada, etc.), de
educação formal (universidades, institutos de pesquisa,
instituos de treinamento de mão de obra, etc.). e até de
atributos de qualidade de vida (tais como clima ameno,

238
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

presença de atividades culturais, recreativas e de artes, baixo


nível de criminalidade, etc.).

Quais são os fatores que influenciam o crescimento


econômico regional? Também aqui mais de um fator
influencia: a existência de demanda externa à região pelos
produtos produzidos localmente; e a oferta local de fatores
utilizados na produção, tais como capital humano (qualificado
ou não), “capital “físico” (máquinas e crédito), recursos
naturais (como abundância de terra e água) e a existência de
infraestrutura local (como rodovias, ferrovias, portos,
aeroportos, Tecnologias de Informação e Comunicações, e
infraestrutura viária, deesgoto, água e luz).

Cabe notar também o papel do governo local no crescimento


regional, através da criação de políticas de
desenvolvimeno regional. Aqui são incluídas políticas
tradicionais de governo local como o fornecimento de produtos
e serviços locais; a criação de legislação favorável de uso do
solo; e a presença de descontos de impostos e fornecimento
de subsídios e de crédito. Entretanto, é importante salientar o
novo papel do governo na indução do desenvolvimnto local.
Neste novo papel, o Estado Empreendedor promove novas
políticas de indução do crescimento, tais como: a criação de
parcerias público-privadas (PPPs); a promoção da maior
visibilidade da localidade para os investimentos do setor
privado (liderança “proativa”); a melhoria da governança local
(processos de gestão local mais transparentes e menos
propensos à corrupção); e a promoção do planejamento do
desenvolvimento local sustentável, através da elaboração de
Plano de Desenvovlvimento local. Neste plano, com a
participação dos vários segmentos da sociedade local, o
governo local cria estratégias e projetos específicos para os
componentes urbano, econômico e social, usando
metodologias modernas de planejamento estratégico
sustentável.

239
Paulo C. de Sá Porto; Carlos J. Pereira

Exercícios – Capítulo 14

1. Observe os dados da Tabela 6 anterior. Note que o país de


maior PIB per capita em 1950 são os EUA, e que a Noruega o
ultrapassou em 2013. Dos países da tabela, calcule, para os
anos de 1950 e 2013, o PIB per capita de cada país como
porcentagem do PIB dos EUA. Quais países estão se
aproximando dos EUA (além da Noruega) e quais estão se
afastando?

2. Para os itens abaixo, explique o efeito de cada um deles


sobre a produção, padrão de vida e produtividade do Brasil no
longo prazo:
a) Diminuição do imposto IPI sobre a maioria dos produtos
b) Diminuição do seguro desemprego
c) Aumento do programa Bolsa Família do Governo Federal
d) Criação de subsídio para o investimento em pesquisa e
desenvolvimento (P&D) para empresas brasileiras
e) Aumento da imigração de trabalhadores qualificados para o
Brasil
f) Criação de subsídio para a troca do uso de gasolina (recurso
não renovável) por etanol (recurso renovável) para toda a
frota nacional de veículos
g) Programa de apoio para as prefeituras que queiram
implantar Parques Tecnológicos (área que concentra
empresas, centros de pesquisa, universidades e laboratórios,
os quais criam um ambiente favorável e disseminam as
inovações tecnológicas)

3. O que é padrão de vida? O que é crescimento econômico?


O que é função de produção de um país? O que é
produtividade?

4. Explique como funciona a dinâmica de longo prazo do


crescimento econômico de um país.

240
Análise Econômica – Micro e Macroeconomia

5. Quais são os determinantes do crescimento econômico de


um país? Explique-os.

6. Como promover o aumento da produtividade na economia?

7. O que o governo pode fazer em termos de políticas públicas


para fomentar o processo de crescimento econômico e da
produtividade?

8. O que é economia criativa? Qual o seu papel no


desenvolvimento de um país ou de uma região?

9. Defina região. De quais questões trata a Economia Regional


e Urnana?

10. Quais fatores afetam a localização das atividades


econômicas no espaço?

11. Quais são os fatores atrativos que influenciam o


crescimento econômico regional?

12. Qual é o pepel tradicional e o novo papel do governo nas


políticas de desenvolvimento regional e local?

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