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Análise Regional e Urbana:

Teoria, Métodos e Planejamento


Tópico 3 – Teorias do Crescimento Regional:
Teorias Keynesianas e Neoclássicas

Prof. Paulo Costacurta de Sá Porto


Prof. Dr. Veneziano de Castro Araújo
Profa. Dra. Ana Maria Barufi
Agenda
• 3. Teorias do Crescimento Regional: Teorias
Keynesianas e Neoclássicas
- Introdução
- Teorias Keynesianas
- Teorias Neoclássicas
Bibliografia
• Básica:
➔ Capello (2015), cap. 4 (pp. 85-91), 5 e 6
➔ Hoover e Giarratani (2006), cap. 11
Introdução
• Qual o impacto em Santa Catarina da abertura da
fábrica da BMW em Araquari em 2014?
• G1, 13 de outubro de 2014:
http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2014/10/bmw-
inaugura-sua-1-fabrica-no-brasil-em-araquari-sc.html
• Qual o impacto no ABC do fechamento da fábrica
da Ford em São Bernardo do Campo em 2019?
• Folha de São Paulo, 20 de fevereiro de 2019:
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/02/efeito-
cascata-com-fechamento-de-fabrica-da-ford-ameaca-ate-24-
mil-empregos.shtml
Introdução
• Crescimento Regional: processo de mudança da
economia regional
• Teorias do Crescimento Regional e do Desenvolvimento
Local: concentram-se nos aspectos espaciais do crescimento
econômico e da distribuição territorial da renda:
➢ Dada uma distribuição de recursos e atividades no espaço,
estas teorias buscam explicar a capacidade de um sistema
local (seja um estado, uma cidade, ou uma região) de
desenvolver as atividades econômicas ou atrair novas
atividades econômicas, e identificar os processos e as relações
externas que as fortalecem ou enfraquecem
➢ O subdesenvolvimento e os desequilíbrios regionais surgem
de diferentes capacidades para explorar e organizar os
recursos locais
Introdução
• Como avaliar o crescimento regional?
• Crescimento absoluto - alocação eficiente dos
recursos
– Crescimento da renda (absoluta e per capita)
– Crescimento do emprego (absoluto e %)
• Crescimento relativo - Mudanças na estrutura relativa
da economia regional: trajetória de crescimento
regional (convergência ou divergência)
– Variação no mix dos setores (% indústria; % de
serviços especializados)
– Crescimento da renda (%)
Introdução
• Questões relacionadas ao crescimento regional:
– Causas do crescimento: quais fatores influenciam?
– Qual o papel das relações externas da região com outras
regiões e países: comércio, movimentação dos fatores
(migração e investimento), e governo no crescimento?
– Papel da estrutura interna da economia regional: como
influencia o crescimento regional? ➔ fatores endógenos
– Convergência regional: quais fatores influenciam?
– Políticas públicas para o crescimento regional: como
promover o desenvolvimento econômico regional e local?
Introdução
• Causas do crescimento regional:
– Processo complexo de interações entre atividades dentro e
fora da região: ligações da região verticais (para trás e
para frente) e horizontais
– Papel das ligações para trás: aumento nas vendas dos
produtos faz com que haja um aumento na demanda por
insumos produzidos na região ➔ efeitos cumulativos
– Papel das ligações para frente: existência de insumos
permite a produção na região ➔ efeitos cumulativos
– Ligações horizontais: aumento na demanda por insumos
na região aumenta o custo destes insumos ➔ efeitos
estabilizadores
Teorias do Crescimento Regional
• Teorias do Crescimento Regional: buscam explicar o
crescimento econômico regional e identificar os fatores que
determinam o crescimento neste nível – três “filosofias”:
I) Teorias Keynesianas e Neoclássicas: Assumem que o espaço é uma
área geográfica discreta e uniforme, agrupada em torno de um vetor
fixo de características daquela unidade, que sintetizam a região ➔
espaço uniforme-abstrato
II) Teorias do Desenvolvimento Local: Assumem que o espaço gera
vantagens econômicas específicas através de mecanismos em larga
escala de sinergia e de feedback cumulativo (economias de
aglomeração) a nível local ➔ espaço diversificado-relacional
III) Nova Geografia Econômica e Crescimento Endógeno: Assumem
que o espaço gera economias de aglomeração, porém estilizado como
retornos crescentes de escala ➔ espaço diversificado-estilizado
Teorias do Crescimento Regional
• Teorias Keynesianas e Neoclássicas:
1) Demanda externa no curto prazo pelos produtos regionais se
traduz em aumento na demanda por insumos locais através das
ligações para trás; expansão da demanda externa aumenta a demanda
de outros produtos e serviços locais ➔ Teorias Keynesianas
2) Oferta de fatores no curto prazo determina o crescimento regional
através das ligações para frente; maior produtividade no uso dos
insumos (eficiência produtiva) e maior especialização regional na
oferta de produtos permite o crescimento de atividades produtivas da
região ➔ Teorias Neoclássicas
• Uso de modelos macro para explicar o crescimento regional
assumindo retornos constantes de escala; é explicado pelas
diferenças em dotações de fatores, demandas e estruturas produtivas
regionais
Teorias Keynesianas
• Principal expoente: Douglass North (1950s)
• Location Theory and Regional Economic
Growth, Journal of Political Economy 63(3),
pp.243-258, 1955
• O crescimento econômico de uma região se dá
devido à exportação de um produto para outras
regiões e países ➔ papel da demanda externa:
Teoria da Base Exportadora
Teoria da Base Exportadora
• O efeito do crescimento da demanda externa por um
produto regional vai além do crescimento no emprego
e na renda das pessoas empregadas no setor
• Devido à existência de uma interdependência na
produção e no consumo, o aumento na demanda
externa também gera um aumento de emprego e renda
em outras atividades da região:
– Um aumento na demanda externa pelos produtos regionais
se traduz em um aumento na demanda por insumos locais
através das ligações para trás e na renda e consumo
– A expansão da demanda externa aumenta a demanda para as
atividades de outros bens e serviços oferecidos localmente e
na renda e consumo dos trabalhadores ali empregados
Teoria da Base Exportadora
• Atividade econômica de uma região depende da demanda
externa (“básica”) para seus produtos e da demanda interna
(“não básica”) para seus produtos ➔ papel da demanda
externa:
➢ Os setores que atendem a demanda externa da região são os
setores "básicos" – a base da economia regional
➢ Os setores de suporte da região que atendem a demanda interna
são os setores “não básicos"
• Se a demanda externa para os produtos da região cresce, o
setor básico se expande, que por sua vez gera uma expansão
do setor não básico ➔ efeito multiplicador
• Teoria da base econômica foca no efeito multiplicador
agregado de renda e emprego do crescimento ou queda da
base econômica regional ➔ efeito cumulativo e estabilizador
Teoria da Base Exportadora
Questão de interesse: qual o ganho em renda e emprego de
um aumento das exportações regionais?
Modelo tradicional Keynesiano da demanda agregada:
Y = C + X – M, Y=renda, C=consumo, X=exportações;
X = X0 (exógeno), C = cY, M = mY
Assim, Y = ( 1 / 1 - (c-m)) X, onde:
( 1 / 1 - (c-m)) é o multiplicador de renda M0:
Deste modo, a renda regional é proporcional às exportações
(básicas) regionais: Y = M0*X
O multiplicador também pode ser calculado em termos de
emprego: Etotal = M0*Ebasico
Teoria da Base Exportadora
North (1955) descreve o processo de crescimento regional
pelo crescimento da demanda externa em “passos” ou
estágios, através dos quais uma economia regional
passaria à medida que fosse desenvolvendo sua base
exportadora:
1) O desenvolvimento econômico de uma região se dá em torno da
criação de uma base exportadora em torno de um produto:
O sucesso dessa base exportadora é o fator determinante da taxa
de crescimento econômico das regiões
Demanda externa por seus produtos é a principal explicação
para o crescimento em sua renda
Capital (local ou externo) inicia o processo de desenvolvimento
devido a um ou vários fatores locacionais:
Teoria da Base Exportadora
• 2) É vital examinar quais os fatores locacionais
(internos) que permitiram o desenvolvimento da
base exportadora:
– Custos dos insumos, capital, trabalho e terra
– Disponibilidade de infraestrutura (energia,
transporte, etc.)
– Políticas de governo (subsídios, impostos, etc.)
– Mudanças tecnológicas
Teoria da Base Exportadora
• 3) A base exportadora determina o nível de
renda e de emprego na região e o
desenvolvimento de outros setores voltados
ao mercado interno da região. Outras
influências importantes na região são:
– Distribuição da população
– Padrão de urbanização
– Padrão do mercado de trabalho
– Atitudes políticas e sociais das pessoas
Teoria da Base Exportadora
• 4) A dependência sobre a base exportadora é
reforçada através de:
– Investimento no setor da base de exportação
por capitais de fora da região
– Subsídios do governo
– Investimento em pesquisa e desenvolvimento
na inovação e na melhoria e redução de custos
Teoria da Base Exportadora
• 5) Crescimento econômico da base exportadora
é espalhado e desigual: aumento da demanda
externa e crescimento da base exportadora
resultam em efeitos múltiplos na região ➔
multiplicador
– Induz investimentos em toda a atividade econômica
regional (outros setores) ➔ renda e insumos
– Crescimento do mercado de trabalho
– Crescimento da demanda por infraestrutura
– Afeta as diferentes atividades de maneira desigual
Teoria da Base Exportadora
• 6) Através do sucesso da base exportadora, pelo efeito
multiplicador outros setores locais irão se desenvolver
➔ substituição de importações
– Devido a receita recebida da base exportadora
– Devido a vantagens locacionais
– Quanto maior o multiplicador, maior o efeito do
crescimento do setor exportador sobre o crescimento dos
outros setores
• 7) À medida que a região cresce, o capital acumulado
pela base exportadora se espalha para outros setores que
podem se tornar novos setores exportadores ➔ amplia a
base exportadora da região
➢ Aumenta a diversidade econômica de região
Teoria da Base Exportadora
Problemas do modelo:
1. As exportações são tratadas como um componente importante da
demanda agregada; o papel do investimento é negligenciado
2. Há risco de se criar regiões “sobre” especializadas: efeito
multiplicador pode trazer crescimento ou recessão
3. Presume-se que os fatores de produção estejam sempre disponíveis.
Mas, se não forem, pode causar aumento nos preços dos fatores
4. Tenta explicar a diversificação, mas não o movimento para uma
especialização com a produção de produtos com maior valor
agregado (exemplo: Milano; NY; São Paulo)
5. Não explica os fatores locais que geram economias de aglomeração
➔ ativos tangíveis e intangíveis e um sistema de governança
específico que reduz os custos de transação e aumenta a
competitividade e a inovação das empresas.
2) Teoria Neoclássica
• A oferta de insumos determina o crescimento regional
através das ligações para frente: uma maior
produtividade dos insumos e uma maior
especialização regional permite o crescimento de
atividades produtivas da região ➔ papel da dotação de
fatores da produção
• Fatores do lado da oferta regional podem proporcionar
vantagens na produção local: um sistema industrial
local avançado e complexo; serviços e infraestrutura
locais modernas; recursos naturais de maior qualidade
e tecnologias de produção avançadas
Teoria Neoclássica
• Duas abordagens:
1. Teoria do Comércio Inter-regional - baseada na teoria
neoclássica do comércio internacional:
➢ Regiões possuem estoques ou dotações de fatores diferentes, e/ou
diferentes níveis de produtividade tanto do capital como do
trabalho
➢ Assim, as regiões têm vantagens comparativas na produção de
alguns produtos, naqueles que podem ser ofertados com custos
relativamente menores de produção
➢ Tal região é mais eficiente na produção de tais produtos na qual
sua produtividade (e eficiência) relativa é maior.
➢ Assim, as regiões tendem a se especializar na produção (e,
portanto, na exportação) de produtos que são produzidos com
uma produtividade relativa maior ou que utilizam de maneira
mais intensiva os fatores abundantes naquela região
Teoria Neoclássica
Duas abordagens:
1. Teoria do Comércio Inter-regional - baseada na teoria
neoclássica do comércio internacional:
➢ Exemplo: regiões norte e sul; O norte tem um estoque de capital
relativamente maior, e o sul de trabalho; o vestuário usa
relativamente mais capital, vinho usa + trabalho; mesma função
de produção; o modelo assume que não há mobilidade de
fatores entre países (e regiões); bens são perfeitamente móveis
➢ Como o Norte tem relativamente mais capital, produz roupas,
que usa relativamente mais capital - o Norte exportará o produto
no qual tem vantagem comparativa (Sul - oposto: produz vinho)
➢ Suposição irrealista: na prática, os fatores podem se mover
entre as regiões, em direção à região de maior retorno (trabalho)
e capital
Teoria Neoclássica
• Duas abordagens:
2. Teoria Neoclássica do Crescimento Regional -baseada
no modelo neoclássico macroeconômico:
➢ Modelo visa explicar a especialização produtiva regional em
termos das diferentes produtividades dos fatores e,
consequentemente, das remunerações destes fatores
➢ Tal diferença nas produtividades realoca os recursos entre as
regiões: a região rica (que deterá um maior nível inicial de renda
per capita) se especializa produzindo produtos intensivos no uso
de capital
➢ Região pobre (que deterá um menor nível de renda per capita) se
especializa na produção de bens intensivos no uso de trabalho
➢ Assim, teremos inicialmente uma divergência no nível de renda
per capita entre a região rica e a região pobre, que cresce mais no
primeiro caso do que no segundo caso ➔ desigualdade
Teoria Neoclássica
• Duas abordagens:
2. Teoria Neoclássica do Crescimento Regional - suposição
que há mobilidade perfeita de fatores entre os países (e
regiões):
➢ A mobilidade dos fatores tende a eliminar os diferenciais de renda
per capita entre regiões ao longo do tempo
➢ O fluxo de trabalho para a região rica, que detém um maior salário
real, e de capital para a região rica, de maior retorno do capital real,
causam mudanças nas ofertas relativas dos estoques dos fatores,
enos retornos do trabalho e do capital
➢ A região rica vê seus retornos diminuir relativamente, e a região
“pobre” vê seus retornos subirem em termos relativos. Ocorre agora
uma convergência: diminuição da desigualdade entre regiões, em
termos de salário real, do retorno do capital, dos preços dos
produtos e, por conseguinte, da renda regional; ex. N e S Brasil
Teoria Neoclássica
• Teoria Neoclássica: Williamson (1965)
– Estuda a persistência do dualismo regional:
“problema norte-sul” – desigualdade de crescimento
regional nos países do “Norte” e nos países do “Sul”
– Há uma desigualdade regional em termos de renda
– Utiliza vários países na amostra do estudo
– Avalia a questão da convergência regional
Teoria Neoclássica
• Teoria Neoclássica: Williamson (1965)
– Hipótese: A desigualdade regional (isto é, a diferença
entre os níveis de crescimento da produção e da renda
entre as regiões) está relacionada ao estágio de
desenvolvimento econômico dos países’
– Em estágios iniciais do desenvolvimento econômico
(países menos desenvolvidos), existe uma
desigualdade regional grande (divergência regional)
– À medida que os países crescem e se tornam mais
desenvolvidos, esta desigualdade diminui e ocorre
uma convergência regional
Curva de Williamson: Trajetórias alternativas
relacionando desigualdade regional e desenvolvimento
econômico
Regional

A
Regional inequality
Desigualdade

B
Hipótese de
Williamson C

Economic development
Desenvolvimento Econômico
Concentração Desconcentração

Curva de Williamson: grau de disparidades regionais de desenvolvimento pelo índice Vw =


coeficiente de variação que mede as diferenças do PIB per capita de cada Estado em relação
ao PIB per capita do País, ponderadas pelas respectivas participações relativas no total da
população brasileira. Vw varia de 0,0 (perfeita igualdade inter-regional) a 1,0 (perfeita
desigualdade inter-regional).
Teoria Neoclássica
• Resultado: a mobilidade dos fatores tende a eliminar os
diferenciais de renda per capita; após uma divergência inicial, a
mudança na oferta dos fatores causa a mudança nos retornos do
trabalho e do capital, em direção a uma convergência
(diminuição da desigualdade entre regiões ) do salário real, do
retorno do capital, dos preços dos produtos e, por conseguinte, da
renda regional
• Problemas: há causas que atrasam ou impedem a movimentação
dos fatores (e a convergência regional): 1) persistência do atraso
de algumas regiões devido a atrasos (lags) no processo de ajuste
dinâmico (inércia, incerteza, custos de mudança, etc.)
• 2) Fatores históricos podem também dificultar o processo de
convergência regional, como a segmentação de mercados no
início do processo de desenvolvimento (Brasil colônia até o
império) ou a ausência de ligação de transportes (Vale do Ribeira,
SP)