Você está na página 1de 221

Psicopatologia e Transformação

11

Um Esboço Fenômeno-Estrutural
1,
94
m
m
GUILHERME PERES MESSAS

Psicopatologia eTransformação
Um Esboço Fenômen(}-Estrutural

::;;S~~
~~?
~
~
Casa do Psicólogos
© 2004 Casa do Psicólogo Livraria e Editora Ltda.
É proibida a reprodução tota.l ou parcial desta publicação, para qualquer
fina lidade, sem autorização por escrito dos editores.

J" edição
2004

Editores
lngo Bernd Giintert e Myriam China/li

Assistente Editorial
Sheila Cardoso da Silva

Produção Gráfica & Editoração Eletrônica


André Cipriano

Capa
William Eduardo Nahme

Revisão
Adriane Schirmer

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Messas, Guilhenne Peres


Psicopatologia e transfonnação: um esboço fenômeno-
estrutural/ Guilerme Peres Messas.- São Paulo: Casa
do Psicólogo®. 2004.

Bibliografia.
ISBN 85-7396-3 19-0

I. Me~sas. Guilhcnne Peres- Crítica e interpretação


2. Psicopatologia L Tftulo

04-3!!14 CDD-150.1
Índices pa•·a catálogo sistemático:
I . Psicopatologia e transfom1ação: Psicologia 150. I

Impresso no Brasil
Printed in Bra=il

Reservados todos os direitos de publicação em língua portuguesa à

~~~Casa do Psicólogo® Livraria e Editora Ltda.


~~~ Rua Mournto Coelho, 1.059- VU.a Madalena- 05417.011 - São PaulotSP- Brasil
~ Tci./Fax: (li) 3034.3600- E-mail: casadopsicologo(g'casadopsicolugo.com.br
~ http://www.ca5auopsicologo.com.br
A Cristiane, Pedro Henrique e Mariana:
será sempre para eles.

A Paulino Tarraf, por ter me ensinado a


ver o que apenas relatei neste livro.
SUMÁRIO

PREFÁCIO: RETOMAR A TRANSFORMAÇÃO E TRANSFORMÁ-LA:


PRÓLOGO A UMA REINVENÇÃO DA PSICOPATOLOGIA
PROF. DR. D AVID CALDERONI .. .. .................... . .................. 9

APRESEI\'TAÇÃO •••••••••••••••••••••••••••• ••••••••• ••••••••••••••••••••• 23

Th7RODUÇÃO ••••••••••••••••••••••••• ••••••••••••••••••••••••••••••••••••• 25

PRIMElRA PARTE ••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• 31


O eixo da estabilidade ........................................................ 34
O eixo das transformações ................................................. 46

SEGUNDA PARTE •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• 75


Primeiro Segmento: antecedentes históricos ........................ 77
Segundo Segmento: categorias fundamentais para urna
psicopatologia da transformação ................................... 79
Terceiro Segmento: estudos sobre a consciência ................. 84
Quarto Segmento: estudos sobre o movimento psíquico ... 122
Quinto Segmento: estudos sobre a interpessoalidade ........ 144
Sexto Segmento: uma análise formal das transformações .. 168
Sétimo Segmento: épuras de uma psicopatologia .............. 184
8 Psicopatologn cTraosforrução: um Esboço Fmômcoo-Esuutural

POSFÁCIO •••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••• 189


Da importância do manejo da assimetria em quadros
mais graves ................................................ ................. 189
Das dificuldades na construção de uma interpessoalidade
num temperamento viscoso .......................... ............... 191
Da arquitetônica de alguns casos psicossomáticos ...... ...... 193
Da radical exterioridade da psicose .................................. 195
Da paranóia e sua espacialidade ....................................... 197
Da paranóia e fragmentação de conteúdos ........................ 198
Das dificuldades formais diante da paranóia ...................... 199
Das dificuldades na transformação da paranóia ................. 200
Da influência da ritmicidade na geração de conteúdos
e da sua importância .................................................... 205
Da visão da análise formal diante de uma brusca
mudança clínica ........................................................... 206
PREFÁCIO: RETOMAR A
TRANSFORMAÇÃO E TRANSFORMÁ-LA:
PRÓLOGO A UMA REINVENÇÃO DA
PSICOPATOLOGIA

O Prof. Dr. Gui lherme Peres Messas convidou-me a escrever


algumas palavras iniciais sobre este seu primeiro livro que vem à luz.
Sinto-me sumamente grato, dada a excelência intelectual e ética do
autor, materializada em tão fecunda e original realização científica e
clínica.
Procurarei aqui tecer breves considerações, no intuito de intro-
duzir alguns traços essenciais que pude aprender neste trabalho de
mestre.

Das elaborações de Messas:


diretriz, movimento e âmbito

Tomemos como ponto de partida a sucinta e complexa diretriz


que guiou as elaborações de Messas: desenvolver, em suas palavras,
"as operações conceituais e caregoriais necessárias para a cons-
trução orgânica de uma ciência das transformações".
Destaco e anuncio, de início, que a consecução de tal escopo
passa por uma leitura cultivada e crítica da história da psicopatologia,
dentre cujas tradições dois grandes campos político-epistemológicos
são discriminados e contrapostos: o paradigma da estabilidade e o
paradigma da transformação.
Assinalo, em seguida, a altíssima exigência simbólica que o autor
nesses termos se impõe: trata-se de repen sar ("'operações
conceituais ..."), rediLer (" ...e categoriais"), captar essencialidades
lógicas e ontológicas (" ...necessárias") e apresentá-las em ato na fonna
de idéias, palavras e fatos desenvolvendo-se e inter-relacionando-se
lO Psicopatologia e Transformaç.io: um Esboço Fenômen<H!strutural

numa arquitetura vital internamente diferenciada (" .. .para a cons-


trução orgânica"), sob a égide do mais duro crivo que a razão oci-
dental ditou à imaginação (" ...de uma ciência"), tomando, quanto à na-
tureza do seu campo próprio e do seu objeto específico, o árduo partido
de Heráclito contra Parmênides (" ...das transformações").
A remissão a estes dois filósofos pré-socráticos é, em parte,
anacrônica e descabida, tendo em vista que ambos compartiam uma
oposição entre aparência e essência, superada pela tradição
fenomenológica a que Messas se alia. Todavia, a referência torna-se
pertinente na medida em que, implicitamente, este retoma daqueles,
e em cheio, a concepção de kínesis.
Se, nesta perspectiva, cruzarmos a problemática e a
conceitografia congênitas à aurora do pensamento ocidental com as
questões de fundo do presente trabalho, diremos que Messas se dá
como tarefa simbolizar a transformação, articulando lógos (pensa-
mento e linguagem), práxis (o fazer teórico e clínico como ação
ético-política vi ando ao outro como potência de auto-alteração) e
ldnesis (movimento como mudança de qualidade, quantidade, lugar,
tempo e ânimo).
Se nos perguntarmos agora em que âmbito de análise e de sínte-
se a construção deste escrito se move, podemos destacar três coor-
denadas intrinsecamente articuladas: o tempo-espaço fenomênico
(relativo à manifestação e à observação dos fatos psicopatológicos),
o tempo-espaço epistemológico (relativo à proposição e à crítica das
noções psicopatológicas) e o tempo-espaço histórico-cultural (relati-
vo aos fundamentos sociopolíticos e aos sentidos éticos com que
sucessivas abordagens psicopatológicas definem e operam sobre um
campo de objetos).

Filiações críticas
"A divisão entre dois grandes grupos de fenômenos patoló-
gicos, os processos e os desenvolvimentos, mostra a importân-
cia que Jaspers conferiu à dimensão evolutiva, temporal, da
patologia psíquica". Situando assim em Jaspers o momento
metodológico inaugural do paradigma da transformação em
Guilbtrmt Pucs Mcssas 11

Psicopatologia- vista a partir daí como um campo cuja não-unidade


decorre tanto do caráter não-uno do psiquismo como da diferença
entre a compreensão subjetiva do humano e a explicação objetiva do
natural - Messas vai explicitando uas outra filiações e a um tempo
mostrando como contribuíram para especificar, modular e aparelhar
o sentido em que o próprio conceito de transformação foi sendo por
ele autoralmente apropriado: com a psicopatologia fenômeno-estru-
tural de Minkowski, concebe ''a transformação contínua como
estofo estrutural da consciência", a interrupção de cujo fluxo vital
é assimilada à origem e natureza mesma da patologia; em Bion, re-
conhece e recolhe a introdução de "novos elementos lingüísticos
para qual~ficar o analista na observação do movimento
ininterrupto do psiquismo"; e, na neurologia clínica de Goldstein,
encontra e recebe "imperecível influência" do estudo de totalida-
des hierarquicamente estruturadas.
Conquanto nesses nomes radiquem a matrize maiore da tra-
dição fenômeno-estrutural em que o nosso autor se reconhece, o
leitor poderá acompanhar, nos desvelamentos genético-reflexivos deste
escrito, a presença constituinte de outros psicopatologistas (como,
por exemplo, os estudiosos das constituições) que. como apoio ou
contraponto, participam da formação do pensamento teórico-clínico
de Messas.

Ciência do singular e heterogeneitúzde fenomênica


Apontava em Jaspers o momento metodológico inaugural do
paradigma da transformação em psicopatologia, a cuja tradição
Messas se alinha, alinhavando e fazendo despontar daí a sua pró-
pria contribuição. De fato, a inovação científica operada por Messas
apóia-se significativamente no círculo hermenêutica de Jaspers,
noção que este explicitou da seguinte maneira:

"No entender genético é aprofundado o 'círculo


hermenêutica': desde os fatos típicos especiais deve ser
entendido o todo, que por sua vez é condição para a
compreensão daqueles fatos especiws. "
12. Psico~tologi2 t Transformação: um Esboço Fmômtno-Estruturu

Deste postulado de Jaspers, Messas retira conseqüências


capitais:

"O círculo hermenêutica sustenta epistemologicamente a


produção das transformações. Partes e todo, em sua
dinâmica de reciprocidades, ao não serem jamais
hegemônicos entre si, abrem um diálogo onde o fenômeno
do novo poderá surgir. Este novo, heterogêneo à totalidade
vigente até então, será embrião e aríete, ao mesmo tempo,
da transformação psíquica, ordenando-se numa relação
de tensão com essa mesma totalidade. Relação essa que
virá a ser capital para a compreensão da biografia, assim
como da patologia sobre ela incidente. "
Para dar uma idéia, em extensão e profundidade, da inovação
científica que Messas encaminha a partir de Jaspers cumpre reto-
mar em Aristóteles os fundamentos da ciência ocidental.
Aristóteles circunscreve o conhecimento científico à investiga-
ção e à demonstração da inclusão necessária do indivíduo singular
(um) na espécie particular (alguns) e da espécie particular no gêne-
ro universal (todos), e considera aquilo que o indivíduo tem de singu-
lar como um acidente não-científico.
Decorre daí a tese paradigmática de toda a ciência ocidental:
só há ciência do universal. Isso porque, não podendo ser incluí-
das no conjunto das qualidades necessárias que definem essencial-
mente uma espécie particular e um gênero universal, as qualidades
que fazem com que um indivíduo seja singular são consideradas
inespecíficas e inessenciais - inespecíficas, porque não há distin-
ção específica entre indivíduos da mesma espécie; inessenciais,
pois concernem a qualidades singulares sem as quais, por exemplo,
um homem continua pertencendo à espécie humana e ao gênero
animal.
Nessa perspectiva, pintor seria uma qualidade inessencial e
inespecífica de van Gogh e, como tal, não-necessária para
compreendê-lo nos quadros de uma ciência psicopatológica
aristotélica.
Guilbtrmr Ptt.s Mess.u I3

Transposta para a psicopatologia, o paradigma aristoteliano da


ciência do universal determina o modo de operação teórico e prático
da noção de normalidade, circun crevendo o campo próprio e o objeto
específico da ciência psicopatológica mediante a produção de catego-
rias e conceitos pautados por uma lógica de classes e relações excludente
das singularidades, lógica que se efetiva e se efetua na atividade
diagnóstica e terapêutica. Por es a via, o saber psicopatológico pode
ser utilizado para dessubjetivar uma pessoa ao reduzi-la à condição de
objeto de um diagnó tico pautado pela aferição de desvios da Norma
- nome paradoxalmente substantivo de uma realidade secundária e
ab trata que se sobrepõe de fora a dentro àquela efetivamente exis-
tente. A tal per pectiva, importa essencialmente o quanto van Gogh se
afasta da maneira con iderada normal de julgar (há delírio?), de per-
ceber (alucinação?), de sentir (mania?), de falar (maneirismo?), de
querer (compulsão?), de mover-se (tiques?), de conviver (descon-
fiança?), etc. A norma opera como medida externa da essência do
humano e a pergunta é pela adequação do indivíduo a ela.
Sumamente contrastante, na teoria e na prática, apresenta-se a
posição de Messas:

"Sem deixar de, em momento a lgum, manter-nos


radicalmente tributários de uma tradição, pensamos que,
para a observação psicopatológica, vigora o mesmo
princípio que rege a psicopatologia nos pacientes. Nestes,
o indivíduo s urge como síntese e arranjo únicos das
possibilidades con tidas na espécie biológica e 110
coletividade social. Nada indica que uma ciência da mente
possa prescindir das concepções individuais. O indivíduo,
retomando a tradição em que se insere, renova-a, dando
va::zão à inviolá vel condição de transformação e expansão
contínuas que singulari::a o existir humano. "
Veja mos, e ntão, qual a crítica que, no seu movimento de
singularização, Messas endereça a Jasper :

"(.. .) a despeito da profunda reflexão lógica relativa às


articulações das diversas psicopatologias, a obra de
Jaspers pouco se preocupou com uma reorgani::açào
14 Psioopatologia cTransformação: um Esboço Fenômeno-Estrutural

categoria/ dos construtos com que elas operaram. Com


exceção do monumental capítulo sobre biografia e de
algumas declara ções expressas re lati vas à dificuldade
conceitual inerente a uma c iência que estuda a
transformação contínua, Jasp ers aceitou as categorias
construídas p ela psicopatologia clássica. "
Prosseguindo o acompanhamento de sua autoconstituição auto-
ral, tomemos agora em conta alguns aspectos da primeira crítica
categorial de Messas, de modo a aprender a recusa üminar subjacente
às sua · propostas originais:

"(. .. ) condições bastante diversas do ponto de vista


etiológico, de evolução ou gravidade, como esquizofrenia,
ansiedade ou transtorno factício, recebem todos igual status
conceitual.· serão todos transtornos.

O exame da categoria transtorno é, portanto, fundamental


para a compreensão da psiquiatria e psicopatologia
contemporâneas.

[. . .]

A homogeneização de diversos fenômenos através da categoria


transtorno não é, entretanto, a única operação conceitual
arquitetada pela psicopatologia contemporânea ... "
Dessa maneira, aquilo que Messas se recusa a sacrificar no altar
das definições operacionais hoje hegemônicas é a heterogeneidade
fenomênica, pois seria perder de vista os signos diferenciais de "con-
dições bastante diversas do ponto de vista etiológico, de evolu-
ção ou gravidade'·. Noutras palavras: fiel a si mesmo e à tradição
fenomenológica que abraçou (e aqui Bleuler dá o ar de sua força
inspiradora), Messas não quer perder, mas, sim. ampliar as condições
caregoriais para a observação psicopatológica das alterações mentais
profundas, fundamento da evolução dos quadros clínicos, os quais re-
querem "lentes conceituais" diacríticas aptas a captar suas nuanças,
diferenças e qualidades estruturais específicas:
Guilhum( Paes Mc:ssas 15

"A vida individual. p eculiar e cambiante, é o objeto por ex-


celência do in vestigadO!: Irredutível em sua busca pela diferen-
ciação individual, [... ] o pesquisador da transformação indaga
a biografia do sujeito, subordinando as formações sindrõmicas
à organização histórica singular do indivíduo."
A e sência a ser perquirida pelo inve tigador clínico não conceme
então a univer ais abstrato exteriores ao sujeito, mas, sim, às nor-
mas e medidas que a sua natureza singular (ou ~ ua constituição,
modulada por ''fatos e reações a fatos") deixa como marca em seu
percurso existencial e relaciona! :

"Com mais vagar e acuidade, o olhar do psicopatologista


abre-se para ver o desenho singular rca /i:::ado pelas
entradas e sa ídas do uso da interespacialidade. a
geometria deste diálogo entre a consciência do paciente e
sua consciência. Constata a experiência estética única que
brota de sua parceria terapêutica, as esculturas que os
sentimentos reali:::am no ar à medida que entram e saem do
interespaço. As circunvoluções que as transições entre
fenômenos de consciência cunham no interespaço, as
discretas mudanças de timbre que um sentimento toma ao
sair de uma consciência e penetrar noutra. Estruturada
numa composição harmônica, cada consciência mari:::a um
novo sentimento que se lhe agrega, incorpora-o à sua
moda, culturali.:::a-o, por assim di:::e1: Quiçá seja esta a mais
cintilante experiência que a intetpessoalidade (se não toda
a prárica do convívio com o mental) possa ofertar: o
fenômeno irredurive/mente humano - no sentido mais radical
da palavra - de extasiar-se com a gênese do infinitamente
individual e qualitativo, do irreprodutível e incomparável
de uma pessoa manifestando-se diante de nós. "

Nat11reza do método de Messas


Num movimento final desta leitura hipotético-crítica, proponho
delimitar e caracterizar a natureza do método próprio com que
16 Psioopatologil t Transformaçio: um Esboço Frnômtne>-Estrutural

Me as vai desenhando o seu estilo de expressão, de investigação


e de pensamento, tomando em consideração a seguinte passagem:

"Uma última consideração, a respeito da fonte destas


reflexões. Fortemente inspirado na leitura dos autores que
serão apresentados nas próximas páginas. todo este
esboço, no entanto, ancora-se única e exclusivamente na
experiência cotidiana da clínica, no contato proveniente
do tratamento de pacientes. Absolutamente nenhuma
ambição filosófica se depreende destas considerações,
tampouco qualquer validade para além de um ambiente
de investigação psicopatológica direta. "
Sendo a clínica apresentada por Messas como origem, motivo,
destino e limüe do seu modo de r~flexào, proponho qualificá-lo como
método clínico e, em meu prisma, dividi-lo em uma terapêutica do
interespaço, uma dialética das categorias e uma poética do dis-
curso científico, tendo em vista, respectivamente, as coordenadas
fenomênica, epistemológica e histórico-cultural com que di visei o seu
âmbito espaço-temporal de análise e síntese.

Terapêutica do interespaço
À lu z dos corolários que Messas extrai do círcu lo
hermenêutica j as periano, pudemos te ntar esboçar o modo co m
que nosso autor subverte o paradigma científico de Aristóteles ao
considerar o indi vi dual único não somente objeto de ciência, mas,
bem mai que isso, motor primordial da ciência c·embrião e
aríete,.) - posição cuja centralidade é patenteada a mancheias.
Por exemplo:

''Toda a linha mestra deste ensaio rege-se por uma busca


do indivíduo pulsando único no interior de mistificações
ideológicas coletivi:::antes ... ·:
Ora, pressupondo, já por seu prefixo, um entre-dois (no mini-
mo), que re lação teri a a noção de interespaço com a primazia
conferida ao singular?
Gwlhume Pues Messas 17

Messas re ponde:

"Nas ciências da mente, acima de tudo, o movimento deve


ser entendido como alternativa de relação, como um
diálogo com um referencial que é assumido como ponto de
reparo. [ ..]

Depreende-se desta condição um pressuposto vila! para o


estudo do movimento psíquico: sua interpessoalidade
essencial. Tudo aquilo que extrairemos da investigação
do movimento é, portanto, caudatário de uma contínua e
incontornável expenencia de interpessoalidade.
modalizada sob um aspecto singu/01:"
Longe de ser neutro, homogêneo e exterior a corpos isolada-
mente considerados, o interespaço é constituído pelo movimento
psíquico interpessoal, formando contexto de afetação e desafetação
que o conformam como realidade qualitativa e quantitativa singular.
Sendo a tendência ao movimento o pressupo to vital da ciência da
transformação, a inércia deixa de ser a regra e pode assumir, como
no exemplo seguinte, a condição de fato patognomônico em que se
ancora uma prescrição quanto à técnica terapêutica:

"A cessação da movimentação é característica dos quadros


psicóticos negativos graves (catatônicos ou hebefrênicos)
ou depressivos melancólicos avançados, onde a empatia
interconsciente tende a ser inviablli=ada. deixando o
psicopatologista perseguido por um sentimento de
angustiante tédio diante do paciente. A ausência de
movimentação, com a subseqüente inutili=ação da
interespacia/idade, são a base estrutural desta vivência
extrema de tédio angustiado. Nestas situações de máxima
interrupção do movimento psíquico, os comportamentos
do paciente mais devem ser entendidos como fragmenros
incompletos de consciência, automatismos vácuos, do que
como uma movimentação propriamenre dira. Inglória a
tarefa de buscar interpretação de conteúdos nestes
quadros. A dramaticidade da pu/veri=ação formal é o Jato
18 Psicopatologia cTransformaçio: um Esboço Fenômeno-Estrutural

em si mesmo, aquém de qualquer síntese conteudística.


Paradoxalmente, no entanto, esta imobilização protege a
consciência do paciente. "
Digna de nota, nesta passagem, é a presença de uma
psicopatologia da percepção clínica (a rarefação do interespaço
captada pela impotência da empatia interconsciente marcada pela
angústia e pelo tédio). É que a categoria do interespaço traz neces-
sariamente à consideração psicopatológica as ações e reações
centrípetas e centrífugas que informam e enformam o sujeito da
atividade clínica.
Outro exemplo dá a ver como o conceito de interespaço permi-
te uma preciosa ponderação quanto aos diferentes sentidos e efeitos
da indicação de neurolépticos em quadros psicóticos diversos (para-
nóia, hebefrenia, catatonia, depressão melancólica), ressituando as
relações entre nosologia, psicoterapia e psicofarmacologia:

"[. . .] o uso de neurolépticos em psicoses pode ser


reexaminado, pois apresenta drásticas diferenças de
finalidade de acordo com o caso, que vão muito além da
mera constatação comportamental da redução da psicose.
A ação neuro/éptica pode objetivar uma imobilização da
movimentação de conteúdos, protegendo o todo
consciente de uma autoflagelação involuntária. De
maneira semelhante às imobilizações ortopédicas que,
congelando funcionalmente o membro ferido , dão as
condições para que este venha a se movimentar num
futuro menos arriscado. O tratamento farmacológico de
psicoses paranóides deve ter este intuito. Diversamente
são as ambições de uma terapêutica para um psiquismo
absolutamente imóvel, como acima mencionado. Nestes
casos, a cominuição da consciência é o objeto de
tratamento e qualquer ato terapêutico deve perseguir a
reativação da movimentação num primeiro instante.
Apenas com esta reativação se poderá reconhecer o
panorama de interespacialidade que vigorará. Em um
caso, enfim, a farmacologia procura congelar. No outro,
Guilherme Peres Mesw 19

acelerat: Em muitas ve=es, com os mesmos fármacos. A


conclusão mais importante que se extrai destas
considerações é a de que todas estas diferenças
assentam-se sob a questão da interespacialidade. É
unicamente a permeabilidade ou não da interespa-
cialidade que irá determinar a posição, deletéria ou não,
que a movimentação de conteúdos ocupará na totalidade
da consciência. No limite, é quem determinará se haverá
movimentação. A debilização da interespacialidade é o
busílis da questão das chances de uma consciência
mover-se. encontrar outras formas, expandir-se,
hwnani=ar-se. Na construção psicoterápica da interes-
pacialidade deverá residir, enfim. como norte último, as
expectativas do psicopatologista. ·•

Dentre as precisas e preciosas distinções que Messas traça


em sua arquitetônica categoria!. encontram-se as do campo do sen-
timento, fundamentais para a clínica. Dentre estas, destacaria aqui
uma categoria oposta à emoção-choque que deforma, mas não trans-
forma. Trata-se da afetividade-contato. Considero que esta última,
por excelência, designa a sintonia afetiva propícia ao trabalho
terapêutico interespacial:

"Esta tripla face da ação da afetividade-contato - a


tonalidade positiva de seus estados psíquicos, sua
necessária atualidade inter-humana e seu valor
estruturante da consciência - Ira= importantes
conseqüências. Posto considerarmos a afetividade-
contato como ancoradouro das múltiplas experiências
qualitativas da consciência. imediatamente posicio-
naremos a dualidade interpessoal íntima neste mesmo
ponto. A relação íntima, naquilo em que permite um
gênero muito singular de experiência afetiva, qualita-
tivamente diferente de outras vivências da consciência,
coloca-se como núcleo duro da capacidade desta
consciência em revigorar-se, transformar-se, abrir-se a
movimentos de expansão."
20 Psicopatola&ia cTrmsfollJUçio: um Esboço FmõOJCOO-Estrutural

Dialét ica das categorias


Do ponto de vista epistemológico, Messas reparte o modus
operandi das construções categoriais segundo duas vertentes:
• alinhadas ao paradigma da estabilidade, situam-se as constru-
ções categoriais apoiadas numa causalidade extrínseca ao fenô-
meno psicopatológico, estabelecendo uma relação linear e
unívoca entre o a priori das causas determinadas e o a posteriori
dos efeitos necessários, num desdobramento de umas em ou-
tros, as variações cingindo-se a uma lei de tudo ou nada sem que
o tempo propicie quai quer inovações e ensinamentos;

• alinhadas ao paradigma da transformação, situam-se as cons-


truçõe categoriais apoiadas numa causalidade intrínseca ao fe-
nômeno p icopatológico, em cuja conformação preponderam não
somente as variáveis constitucionais, mas as complexas e
imprevisíveis relações que estas assumem com os ''fatos e rea-
ções a fatos", ou seja, com a história do sujeito.
Cada um desses paradigmas dá ensejo à construção de uma
detalhada e intrincada rede de categorias em tensão e movimento, as
categorias da estabilidade comunicando-se e por vezes permutando-
se com as da transformação, numa arquitetura dialética complexa e
fina, erigida de molde a comunicar os achados nacionais correlativos
à casuística que vêm instrumentando a argúcia clínica do autor. Re-
comendo fortemente aos leitores (entre os quais continuarei a me
incluir) o seu estudo minucioso. Têm-se revelado de grande potência
heurística em minhas reflexões metapsicológicas e de grande utilida-
de em meu trabalho terapêutico. A propósito disso, menciono uma
distinção que toma compreensível, a meu ver, a insubsistência tem-
poral e relaciona! de arroubos drogadictos:

"Não devemos aqui adrnitir uma conjiisão entre


expressividade e emoção. A expressividade amplifica
conteúdos sem perder uma dimensão de inferioridade
(ainda que tampouco perdendo uma dimensão de
exterioridade) e sem comprometer a linha do tempo da
Guilbcnnr Ptrts Messas 21

totalidade da consciência. A emoção invade paroxisti-


camente a consciência, despreocupando-se de limites entre
interi01·idade e exterioridade, desprezando mesmo esta
questão. Arrasta todos os elementos desta, mutila a
temporalidade e, deste modo, não se alinha entre os
auxiliares da movimentação psiquica. Dentro destas
ambigüidades essenciais a expressividade é, inegavelmente,
ao mesmo tempo um aliado abnegado e imprescindível da
expansão da consciência individual e um servidor agudo
das imposições da cultura."

Poética do discu.rso científico


Por meio das passagen antecipadas, decerto o leitor já terá
observado as virtudes literárias do escrito que o espera. Justamente
por isso, cabe uma precisão. Ao falar de poética, não me refiro à
beleza exterior da expressão, mas, sim, à sua força interna para pro-
duzir (poíesis) forma<; sensíveis no leitor. Longe do adorno expletivo,
tal potência discursiva tem a fundamental função de estimular, con-
vocar, ambientar e municiar a imaginação conceitual do culturantes
a que se destina. Além di so, a qualidades a serem captadas por
uma ciência do ingular ão infinitamente mais extensa do que as da
ciência do universal, visto que a esta última só interessa as pertinen-
tes ao gênero. Ora, além das qualidades que o indivíduo possui em
comum com os de seu gênero e/ou espécie, multiplamente mais nu-
merosas são as qualidades próprias e exclusiva de sua essência
singular. Concebo, portanto, a poética do di curso científico como o
trabalho fundamental de gerar efeitos de sentido que informem e
enfonnem órgãos dos sentido voltado à percepção das afecções
recíprocas entre es ências singulares.
Devolvendo, agora em definitivo, a palavra ao nosso autor, creio
que a citação eleita como fecho destas notas permita vislumbrar o
movimento construtivo da prosa científico-poética de Mes as, em que
a refundação de uma conceitografia fenômeno-estrutural deságua numa
arquitetônica de formas sensíveis indissociável de uma ética do bem-
(con)viver:
22 PsicopatologÍ2 t Truufollll2Çio: um l!sboço Ftn6mmo-l!wutural

" ... toda produção estética que favoreça a penetração de


vivências para o interior da consciência, que permita à cons-
ciência aprimorar-se nos detalhes, nas nuanças, nos volteios
da realidade; e que, na mesma linha, obedeça a um ritmo de
sucessões de relevos, de alternâncias de destaques e, sobretu-
do, de sofisticada atenção às formas, atua como emulador de
uma inlerpessoalidade pródiga em constituir o rico, o belo, o
móvel, o potente e, quiçá, o feliz."

Prof. Dr. David Calderoni


Coordenador do Programa de Psicopatologia
do Núcleo de Políticas e Estratégia da
Universidade de São Paulo
APRESENTAÇÃO

"Ars longa, vila brevis"

A história da psicopatologia é a história da busca por paradigmas.


Desde suas primeiras formulaçõe nos moldes contemporâneo , em
fins do século XIX, até a composição de manuais diagnóstico e
estatístico , presente em inicio deste século, o que temos assistido é
mais a um embate entre uma di ver idade de paradigmas do que a um
linear avanço por meio de posições consensuais.
Diferentemente das ciência e práticas intimamente vinculadas
à tecnologia, não se pode dizer que, na psicopatologia, exista enorme
diferença entre passado e presente, com o abandono de concepções
inadequadas e sua gradual substituição por outras mais próxima da
realidade. Enfantten·ib/e das ciências, a meio caminho das ciências
humanas e naturais, a história da psicopatologia não pode ser conta-
da em termos da noção de progresso, mas, sim, como uma dialética
de opções - veladas ou abertas - por posições epistemológicas.
Essa condição particular da psicopatologia Lhe deixa em uma
situação de constante dilema. Dilema que, por sua própria essência,
jamais atingirá um armistício definitivo, pois a realidade psicopatológica
não é única e monoütica. Pelo contrário, as categorias com que se
apreende os fenômenos psicopatológicos e, conseqüentemente, o
recorte e definição mesmos do que é psicopatologia sempre depen-
deram e dependerão da perspectiva epistemológica escolhida. Em
última análise, tratamo de opções culturais e filosóficas.
Karl Jaspers reconheceu essa condição ímpar desde o início. E,
com incomum profundidade, norteou o projeto de sua imortal
"Psicopatologia Geral" pela ordenação metodológica, ou seja, diante
da impossibilidade de erigir-se a "verdadeira" psicopatologia, ao pen-
sador profundo cabe a tarefa de ordenar as diversas psicopatologias
a partir de seus respectivos métodos, de suas posturas epistemológicas,
de seus loci filosóficos, enfim.
24 Psioopatologia cTransfonnaçio: um &boço Fcnômcoo-Estrutunl

Este livro se inspira por idêntica percepção, qual seja, da


inviabilidade essencial da procura por uma psicopatologia "verdadei-
ra" e da necessidade de recolocar os problemas da seara
psicopatológica desde um olhar reflexivo metodológico. Os
paradigmas constróem seus métodos. Os métodos constróem suas
categorias e conceitos. As categorias fazem a sua psicopatologia.
Investigando essas questões a partir de um olhar que entende a his-
tória da psícopatologia com uma oscilação pendular entre um
paradigma da estabilidade e um paradigma da transformação, o livro
procura aprofundar-se no tema dissolvendo falsos dilemas e toman-
do posições epistemológicas que, em seu limite, encontram reverbe-
rações políticas e culturais.
Optando pelo paradigma da transformação, a reflexão contida
no livro examina as conseqüências da radicalização dessa opção
voluntária na construção de uma ciência psicopatológica. Como afir-
mado acima, jamais haverá uma psicopatologia definitiva. Existirão,
contudo, retomadas, releituras e redelineamentos de certas tradições.
A fecundidade de um veio intelectual é inesgotável e depende do
esforço cotidiano daqueles que se auto-oferecem como herdeiros de
uma linha genealógica. Que este livro sirva, pois, como mais uma
pedra no edifício da já extensa tradição a que pertence.
INTRODUÇÃO

"Le cheminement de la pensée procede d'un ejfort


co/lectif, c/zacun des chercheurs ne faisant
qu 'un pas dons une seu/e direction"

Eugeoe Minkowski

Este ensaio nasce de um antigo desejo, concebido no anos


formativos de atividade psiquiátrica. Naquele período, as eventuais
convicções prévias (em geral extraídas de concepções culturalmen-
te disseminadas) a respeito do que era a psiquiatria e a psicopatologia
abalaram-se com profundidade. O contato com as distintas perspec-
tivas e versões da psiquiatria e psicopatologia diluiu a esperança de
encontrar um terreno seguro neste policromático saber. No reverso
desta diluição, incutiu um intenso anseio de refletir sobre os distintos
vértices da composição psicopatológica e, guiado por esta reflexão
intelectual esclarecedora e desmisti ficadora, poder escolher um pon-
to de vista. No início, estas páginas tiveram como única ambição
uma breve reflexão sobre o tema do paradigma em psicopatologia.
Dividindo as escolas em dois grandes eixos paradigmáticos - estabi-
lidade e transformação- pensávamos em esboçar as diferenças fun-
damentais com que cada um deles marcava suas psicopatologias.
Entretanto, à medida que a análise da Psicopatologia Geral de Karl
Jaspers (interpretada esta como repre entante inaugural de uma po-
sição epistemológica voltada para a apreensão da transformação em
psicopatologia) e proces ava, foi surgindo a necessidade da amplia-
ção do projeto inicial, passando de ta reflexão acerca das posições
epistemológicas para um ensaio propositivo, uma tomada de posição
e radicalização de perspectivas.
Assim, o ensaio dividiu-se em duas partes. Na primeira, realiza-
mos um exercício analítico, cotejando construções psicopatológica.
inspiradas por um eixo epistemológico da e tabilidade, majoritárias
26 Psíoop;ttologi2 t Truufoonaçjo: um Esboço Fcn6meno&:ruturu

no pensamento contemporâneo, com categorias assentadas na


P icopatologia Geral de Karl Jaspers. Na segunda, passaremos a
assumir uma atitude prepositiva, sustentando a viabilidade e
pertinência de uma radicalização na aventura científica de construir
uma psicopatologia informada por um paradigma da transformação.
Para isto, há que se realizar uma primeira circunscrição daquilo que
entendemos por transformação. Inicialmente, transformação não deve
ser entendida como uma variação superficial em comportamentos
ou fenômenos observáveis por sua face externa. Tampouco a obser-
vação da transformação corresponde às mudanças nos estados sub-
jetivos referidos pelos pacientes. Transformação não eqüivale, por-
tanto, aos resultados clínicos de um tratamento. Antes, os resultados
de um tratamento clínico em geral fornecem as condições mínimas
necessárias pru·a um processo de transformação. A transformação
pode assentar-se sobre o tratamento clínico, não necessariamente
identificando-se com este. Rigorosamente falando, comportrunentos
observáveis e estados subjetivos situam-se no perímetro de possibili-
dades oferecido pela transformação, como característica essencial
da mente humana. São, na melhor das hipóteses, pontos de reparo
para o acesso à transformação em seu sentido mais radical.
Mais adiante, em momento adequado, teremos condições de
melhor desenvolver nossa definição de transformação. Por ora,
limitamo-nos a afirmar que a transformação deve ser entendida como
uma capacidade da essência humana, uma marca da espécie, de
cuja integridade depende a vitalidade da mente e talvez de todo o
organismo. O próprio existir humano é fluxo, mutação intrínseca,
expansão, crescimento, alargamento. Compreendida desta maneira,
a transformação contínua e inelutável a que se submete o psiquismo
humru10 é o objeto por excelência de uma ciência da mente, sua
própria razão de ser. Encontrar, por meio dos comportamentos
observáveis e das vivências relatadas, o próprio pulsar da transfor-
mação e, a partir disto, revelar seus estados patológicos, deve ser,
em nossa compreensão, o escopo de uma psicopatologia voltada à
transformação.
Dividiremos, em nome de um mínimo de didatismo, ainda que
necessariamente às cu tas do risco de simplificações, esta segunda
Guilhmnt Pucs Mesw 27

parte em sete segmentos. Após uma apresentação (extremamente


simplificada, apenas à guisa de homenagem) dos antecedentes his-
tóricos, dos autores que, dentro do campo do estudo da mente hu-
mana, enveredaram com profundidade pela questão da transforma-
ção psíquica, desfilaremos as demais etapas. Nesta visita aos ante-
cedentes, não partiremos para uma exaustiva compilação de autores
e obras, fato que se desviaria dos objetivos agora propostos, mas nos
limitaremos à sumária apresentação de quais autores melhor e com
mais profundidade influenciaram a produção deste ensaio. É ante
uma declaração de filiação intelectual do que uma revisão de autores
e pensamentos.
Os seis segmentos subseqüentes constituem o núcleo propriamente
dito da proposta psicopatológica. No egundo segmento, examinare-
mos o tema das categorias fundamentais para uma psicopatologia
da transformação. Investigaremos como o reconhecimento do movi-
mento e da mutação exige cena ingularh.lades conceituai do
psicopatologista, sem as quais toma- e considerável o risco da apreen-
são do movimento inviabilizar-se. No terceiro segmento, realizaremos
estudos sobre a consciência, nos quais analisaremos a questão da
forma da consciência, refletindo acerca da importância de um detalha-
do conhecimento da con ciência para de velar a transformação. No
quarto segmento, uma vez e boçada uma arquitetônica da consciên-
cia, passaremos a buscar investigar as matrizes da transformação, pro-
pondo estudos sobre o movimento psíquico, em que investigare-
mos como a forma da consciência de enha suas movimentações. A
análise da consciência e do movimento conflui necessariamente, no
quinto segmento, para o estudos sobre a interpessoalidade. Nes-
tes, a argumentação realiza um movimento elíptico. retomando a ques-
tão da consciência e dos movimentos, agora dentro da óptica da
interpessoa.lidade. A panir da tríplice síntese constituída por consciên-
cia-movimento-interpessoalidade nos encontramos em condiçõe de
estudar a transformação em si, por meio da propo ta de uma análise
formal das transformações, o sexto egmento do projeto. Esta tem
como objetivo estabelecer metodologicamente as prescrições funda-
mentais para uma per pectiva da transformação. Jamais como um
algoritmo enrijecido, mas como reflexões abertas a continuadas
28 Ps1ropatologia cTransfonnaç3o: um Esboço Fcnômcoo-l!strutural

reformulações. Por fim, como sétimo e último segmento, lançamos,


como mera indicação de caminhos para a continuidade do trabalho,
um olhar an1plo e genérico sobre as conseqüências que o paradigma
desenvolvido possa trazer pam a compreensão psicopatológica. lf'ddu-
zido nas épuras de uma psicopatologia. Tardiamente, incluímos, à
guisa de posfácio, algumas análises formais das transformações, em
forma de epigramas. Sem a ambição de estabelecer um modelo defmi-
tivo sobre este gênero de análise, estes epigramas abrem uma janela
sobre a necessária condição fragmentária da investigação das trans-
fonnaçõe , deixando à mostra suas incompletudes essenciais.
A exposição nuclear do tema dá-se em cinco segmentos (con-
ceitos fundamentais, consciência, movimento, interpessoalidade e análise
formal das transfmmações), e obedece a dois pressupostos de uma
compreensão epistemológica transformista. O primeiro deles é o de
que a mudança apenas pode ser estudada de modo científico se cons-
ciência e movimento forem apreendidos simultaneamente. Quaisquer
intentos científicos que busquem captar a vitalidade mental por apenas
uma das duas vertentes arriscam-se fatalmente a incluir-se no eixo da
estabilidade. Uma psicopatologia demasiadamente voltada à cons-
ciência e seus fenômenos (subjetivos e objetivos) perde-se num
imobilismo estéril. Por outro lado, a consideração exclusiva da movi-
mentação psíquica, desprezando a consciência, pode conduzir a
psicopatologia a um mecanicismo rígido e, sobretudo, de provido da
centelha de criatividade fundamental para a penetração intrapsíquica.
Consciência e movimento, em simultaneidade, por sua vez, oferecem
as condições ideais para um olhar disposto a mergulhar nas complexi-
dades de um objeto que se move continuamente. O segundo pressu-
posto é o da ligação umbilical e indissociável destes cinco segmentos,
que expomos em separado. Todos eles são, na realidade, facetas de
uma mesma totalidade, perspectivas enviesadas de uma realidade que,
desdobrando-se em várias, permanece uma só. Deste modo, a com-
preensão total do ensaio só se dá no fim, que, por sua vez, remete ao
início e. assim sucessivamente, numa circuitaria em espiral que tem na
obra de Jaspers sua inspiração gloriosa e mais fecunda. As etapas não
se justapõem, não se situam em linearidade lateral, são todas parte de
um edifício articulado, prenhe de interdigitações, que desvela vagaro-
samente suas significações.
Guilhumc Peres Mcssas 29

Uma última consideração, a respeito da fonte destas reflexões.


Fortemente inspirado na leitura dos autore que serão apresentados
nas próximas páginas, todo este esboço, no entanto, ancora-se única
e exclusivamente na experiência cotidiana da clínica, no contato pro-
veniente do tratamento de pacientes. Absolutamente nenhuma am-
bição filosófica se depreende destas con iderações, tampouco qual-
quer validade para além de um ambiente de investigação
psicopatológica direta.
I, •
PRIMEIRA PARTE
t Jt<
Guilherme Perrs Mesus 33

Uma das mais complexas dificuldades para a constmção de uma


ciência psicopatológica reside no dimensionamento das relações en-
tre o estável e o mutável. A psicopatologia situa-se numa posição
ímpar no espectro das especificidades epistemológicas. Não obede-
ce exclusivamente às leis da ciência natural, naquilo em que elas
permitem um conhecimento seguro capaz de antecipar e me mo pro-
duzir fenômenos. Tampouco se filia exclusivamente às ciências hu-
manas, com suas peculiares indeterminações causais e variaçõe
interpretativas. Mais precisamente, a psicopatologia adere simulta-
neamente aos dois campos do aber: é ciência natural e ciência hu-
mana. As soluções para a compreensão da psicopatologia parecem
repousar no exame dos egredos deste singular amálgama, que fu
dela ciência com estatuto único na seara do conhecimento humano.
Numa síntese pictórica, poderíamos sugerir que o fato psicopatológico
situa-se num plano cartesiano no qual projeta-se sobre dois eixos
ortogonais. Num dos eixos, deve ser compreendido a partir do tempo
em suas manifestações mutáveis. No outro eixo enquadra-se no exa-
me das relações causais, com seus anseios de estabilidade. O intuito
deste capítulo é o de refletir acerca da construção das categorias
psicopatológicas a partir desta identidade carte iana nodal dos fatos
patológicos do psiquismo; serão examinadas também as conseqüên-
cias e dificuldades encontradas pela psicopatologia em virtude deste
duplo estatuto, assim como as soluções que vem propondo para
equacionar suas complexidades. Tal análise de modo algum ambi-
ciona esgotar o tema, mas, contrariamente, apenas indicá-lo, à guisa
de intróito para as discu ões dos capítulos seguintes.
A intuição de um caráter duplo fundamental da psique humana
já se encontra expressa na Psicopatologia Geral de Karl Jaspers 1•
Sua definição tripru1ite da psicopatologia entre fenomenologia, psi-
cologia compreensiva e psicologia explicativa, seguindo a tradição
alemã que, desde Dilthey, separara as ciências humanas das ciências
naturais, indica a necessidade de um olhar múltiplo sobre este saber. A
divisão entre dois grandes gmpos de fenômenos patológicos, os pro-
cessos e os desenvolvimentos, mostra a importância que Jaspers con-
feriu à dimen ão evolutiva, temporal, da patologia psíquica. Entretanto,
a despeito da profunda reflexão lógica relativa às articulações das
34 Psico(ntologia f Trarufollll2Ç3o: um Esboço Fmõ~Ilf1l0-Estrutural

diversas psicopatologias, a obra de Jaspers pouco se preocupou com


uma reorganização categoria] dos construtos com que elas opera-
ram. Com exceção do monumental capítulo sobre biografia e de al-
gumas declarações expressas relativas à clificuldade conceitual ine-
rente a uma ciência que estuda a transfom1ação contínua, Jaspers
aceilou as categorias construídas pela psicopatologia clássica. Ape-
sar desta cena escassez, sua obra pode ser entendida como pioneira,
dentro da história da psicopatologia. na tentativa de circunscrever as
complexidades dos fato psicopatológicos.
Como havíamos proposto, dois eixos suportam os fatos
psicopatológico . Em um deles examinam-se as relações causais. esta-
tisticamente determináveis e desejavelmente estáveis entre duas variá-
veis. No outro, as categorias devem apreender o escoamento continuo e
irrevogável do tempo e refletir sua variabilidade imanente. A história da
psicopatologia (suborclinada a toda a história da cultura ocidental, com
um especial recrudescimento nas três úJtimas décadas) revela uma franca
hegemonia das atenções científicas para com o eixo da causalidade es-
tável, em flagrante detrimento do eixo da temporalidade mutável. Exa-
minaremos cada eixo em separado, com especial ênfase nas caracterís-
ticas de cada um no que conceme à construção de categorias.

0 EIXO DA ESfABUJDADE

As relações causais buscam, por excelência, a estabilidade. Uma


cadeia de fatos deve associar-se temporalmente a uma outra cadeia
de fatos de modo tal que suas relações, uma vez conhecidas de ma-
neira estável, permitam uma certa previsibilidade de fatos futuros.
De um modo geral, poderíamos afirmar que praticamente todo o gran-
de avanço científico-tecnológico experimentado pela medicina a partir
do pós-guerra insere-se no e inspira-se pelo eixo das estabilidades.
O reconhecimento e descrição de inúmeras entidades patológicas
corporais, conectadas logicamente às suas causas fisiopatológicas,
abriu caminho irreversível para uma atuação potente e eficaz da ciên-
cia médica. Este modelo, hegemônico na medicina geral, foi mais
recentemente transposto para a p iquiatria, esperançosa de atingir o
mesmo grau de eficácia objetiva observada na medicina geral.
Guilherme Peres Mcsw 35

Já nas palavras de abertura do DSM-IV~ (manuaJ diagnóstico


que, de certo modo, sintetiza as construções categoriais da
psicopatologia contemporânea) a nova profissão de fé epistemológica
é exposta de modo a excluir ambigüidades:

"A finalidade do DSM-IV é oferecer descrições claras de


categorias diagnósticos, a fim de permitir que clínicos e
investigadores diagnostiquern, comuniquem, estudem e
tratem pessoas com vários transtornos mentais ".
Clareza e universalidade são condições fundamentais para o
reconhecimento de condições causais estáveis e estabelecidas. Os
manuais diagnósticos levam ao extremo esta atitude, determinando
uma série de entidades nosológicas isolada : os transtornos. Assim,
condições bastante diversas do ponto de vista etiológico, de evolução
ou gravidade, como esquizofrenia, ansiedade ou transtorno factício,
recebem todos iguaJ status conceituaJ: serão todos transtornos.
O exame da categoria transtorno é, portanto, fundamental para
a compreensão da psiquiatria e psicopatologia contemporâneas. Com
exceção das categorias delirium e demência (de demarcada origem
biológica cerebraJ), todas as demais são entendidas como transtor-
nos (o nome esquizofrenia mantém-se sem o termo transtorno como
antecedente. No entanto, do ponto de vista formal, em nada difere
daquilo que é significado como transtorno). As fraquezas e imperfei-
ções -consideráveis, a propósito - observadas na construção teóri-
ca dos transtornos vêm sendo amplamente discutidas. escapando ao
objetivo deste ensaio. Para nossa intenção basta apontar como a
categoria transtorno, nos moldes em que vem sendo empregada,
permite a expressão máxima das relações de cau aJidade peculiares
às ciências naturais. A solução epistemológica para incorporar o
modelo médico à psicopatologia foi uma cirurgia lingüistica, destina-
da a pavimentar o caminho para a viabilização desta incorporação.
Apenas com a universalização de critérios, iniciada simbolicamente
pelo artigo de Kendell e colaboradores, em 197 J3. e culminando na
acepção atual dos transtornos pôde-se produzir largos experimentos
em áreas biológicas de ponta como genética, neuroimagem ou
psicofarmacologia. A indefinição conceituaJ ou, mais precisamente,
36 Psicopatologia eTI'2Jl5fornuçio: um Esboço Ftnõmmo-l'.strutural

a variabilidade transcultural na interpretação clínica das categorias


clássicas, sempre constituiu o mais sólido obstáculo para o desenvol-
vimento de uma agenda biológica em psiquiatria.
As duas últimas décadas assistiram a uma notável expansão do
conhecimento biológico na psiquiatria, ao lado de uma definitiva am-
pliação do poder de fogo da psicofarmacologia. Em termos político-
científicos, vimos a ascensão do modelo biológico-reducionista como
padrão-ouro para a psiquiatria. Este modelo, baseado na causalidade
etiológica e fisiopatológica, exigiu uma cirurgia conceitual na
psicopatologia, preparando-a lingüisticamente para a execução de
seus propósitos. Este exemplo contemporâneo revela a flexibilidade
essencial da psicopatologia, sua sensibilidade às pressões ideológi-
cas de um tempo histórico.
A homogeneização de diversos fenômenos por meio da catego-
ria transtorno não é, entretanto, a única operação conceitual arqui-
tetada pela psicopatologia contemporânea. A própria operacionalidade
das categorias em suas relações de reciprocidade conhece uma nova
perspectiva. Nas suas primeiras ambições de estabelecer-se como
ciência sólida, por intermédio do quadro categorial proposto por
Kraepelin, a categoria dementia praecox buscava permitir a obser-
vação da degeneração mental ao longo do tempo. Dividindo dois
grandes grupo de insanidades, as lentes categoriais da linguagem
queriam, sobretudo, reconhecer os degt"terados, para os quais pou-
ca esperança terapêutica havia, separando-os daqueles que se man-
teriam preservados evoluti varnente. As relações de causalidade não
são a inspiração epistemológica do cientista no momento de descrever
suas síndromes ou denominar as alteraçôes com que se defrontava.
Na primeira reforma categoria! mais consistente da era pós-
kraepeliniana - a obra de Bleuler, influenciada pelos trabalhos de
Freud - o modus operandi das construções categoriais se refonnula.
Tomando como exemplo o caso da esquizofrenia, termo criado e
consagrado por Bleuler, o acento epistemológico desvia-se da evolu-
ção clínica para as próprias alterações mentais. A procura por alte-
rações fundamentais, mais profundas e efetivamente responsáveis
pelo quadros clínicos caracteriza não somente o trabalho conceitual
de Bleuler como o de toda a tradição fenomenológica a ele posterior.
Guilb~rm~ Paes Mcssa.s 37

Tampouco aqui as relaçõe causais, estáveis e etiológicas, são


a preocupação fundamental destas obras classificatórias. Vincula-
das à poderosa tradição humanística proeminente na cultura centro-
européia na primeira metade do éculo XX, as articulações e
especificidades intrínsecas ao psiquismo patológico sobrepujaram o
interesse pelos movimentos causais, extrínsecos ao psiquismo.
A tradição psicanalítica, que teve maior ou menor influência so-
bre o pen amemo psiquiátrico do século XX ao longo das décadas,
cunhou suas categorias segundo atitudes epistemológicas próprias.
A grande divisão categorial da psicanálise, o binômio neurose-psico-
se, tampouco se orienta conceitualmente pela necessidade de detecção
causal. Ainda que os conceitos da psicanálise tenham experimenta-
do um relevante deslizamento de sentido com a evolução desta ciên-
cia, não é exagero notar que as suas lentes conceituais focam acima
de tudo o desenvolvimento psicológico humano, seus trajetos, avan-
ços e retrocessos, suas patologias, e não a inve tigação de causas
estáveis, lineares. Antes, abrem caminho para que uma complexa
articulação de fatos e reações a fatos seja responsável pelos fenô-
menos psicopatológicos.
De qualquer modo, seja nas construções kraepelinianas,
bleuerianas, fenomenológicas ou psicanalíticas (e, de certo modo, mesmo
nas comportamentais) as categorias não são entendidas como provi-
das de significado nítido, claro, universal e isento de ambigüidades. A
própria amplitude de termos (as diversas neuroses, as variantes das
psicoses) ou sua utilização no plural (as esquizofrenias de Bleuler)
indicam que estes reúnem fenômenos heterogêneos e que apenas po-
dem ser agrupados dentro de uma mesma categoria por suas caracte-
rísticas mais genéricas e, mesmo neste caso, considerando uma certa
impreci ão conceitual destas. Em grandes linhas, as categorias na his-
tória da psicopatologia mais ilustram tendências, frouxos agrupamen-
to , do que nitidez conceitual à moda das ciências da natureza.
Com a instituição do DSM-IV, visando à facilitação das pesqui-
sas científicas, cada categoria psicopatológica assume um caráter
de individuajjdade e autonomia em relação às demais. Os transtor-
nos não são doravante sugestõe diagnósticas com fronteiras
conceituais porosas entre si; passam a ser entidades clínicas defini-
38 Psito)»tologia eTraruformaçio: um Esboço Fenômeno-Estrutural

das por critérios comportamentais translúcidos e, acima de tudo, agora


subordináveis e adaptáveis ao pensamento etiológico reducionista
preponderante na biologia do corpo. Esta operação lingüística de dupla
face- a eleição do termo transtorno e sua emancipação epistemológica
- correlaciona-se a uma exigência científica de causalidade. Mais
precisamente, a operação lingüística corresponde ao ajuste conceitual
imprescindível para a implantação da agenda da causalidade biológi-
co-reducionista. Entretanto, ao pensarmos em causalidade, ainda li-
damos com algo suficientemente amplo para não permitir uma com-
preensão aguda dos fenômenos em foco.
Uma certa concepção de causalidade é a matriz na qual se ge-
ram os novos conceitos psicopatológicos: a causalidade linear. Cer-
tamente, quase tudo em ciência investiga, em última análise, rela-
ções de causalidade. Dos traumas psíquicos da psicanálise nascente
às alterações cerebrais dos quadros demenciais o que está em jogo é
o conhecimento de causalidades. A causalidade linear é, no entanto,
um subgrupo das relações causais, organizada para o reconhecimen-
to de relações estáveis e universais entre os dois termos de uma
observação. O conhecimento científico linear de um termo promove
uma associação inequívoca com o outro termo, permitindo urna ex-
plicação de fatos passados ou a produção de fatos futuros. O futuro
e o passado subordinados ao saber humano, nas duas pontas de wna
equação. Nos moldes da ciência física, inspiradora e condutora do
desenvolvimento tecnológico, a psicopatologia reorienta-se
conceitualmente para projetar-se para dentro da revolução
tecnológica, erigindo como seus emblemas a genética molecular e a
neuroimagern, zonas de intersecção entre mente e tecnologia.
Já numa visão genérica, podemos sustentar que o quadro
conceitual da psicopatologia ajustou-se com demasiada rapidez e
irreflexão (e uma certa dose de ingratidão intelectual para com sua
tradição filosófica) a fim de incorporar os novos saberes moleculares
e imagenológicos. Simplificou e configurou seus termos de sorte tal
que se pudesse estabelecer um conhecimento biológico estável, de-
purado de incertezas e tecnologicamente idêntico às correntes nu-
cleares das ciências oficiais. Dois conjuntos de evidências empíricas
revelam, entretanto, a impossibilidade de uma expansão tão larga
Guilhtrmt Pua MtSSa.S 39

das causalidades lineares sobre a psicopatologja, ao menos por estas


vias. Em primeiro lugar, a dimensão estatística do fenômeno de duplo
diagnóstico, denominado co-morbidade. A instalação de categorias
autônomas de transtornos mentais naufraga na inegável necessidade
de que diversos transtornos sejam invocados para descrever um úni-
co caso clínico. A abundância de co-morbidades mais indica uma
imperfeição da nitidez das fronteiras de definição dos conceitos com
que operamos do que uma real associação de transtornos separados,
autônomos e apenas casualmente simultâneos na unidade dos caso
clínicos. O excesso de co-morbidades praticamente aniquila, do pon-
to de vista lógico, as ambições do DSM-IV.
Em segundo lugar, proveniente do próprio coração da ciência
molecular, constatamos a inoperância das categorias dos manuais
estatísticos na delimitação de causalidades biológjcas. Um único exem-
plo (inúmeros outros poderiam seguramente ser apresentados) des-
vela a face do problema: uma mesma variante genética (chamada
polimorfismo genético) do gene do receptor doparninérgico subtipo
3 (DRD3) pode estar implicado causalmente na dependência de
cocaína, álcool, esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar,jogo patoló-
gico, sensibilidade à discinesia tardia no uso de neurolépticos 4 ou
nenhum destes diagnósticos. Ora, e um único fator biológico objeti-
vamente determinável pode estar presente em tal miríade de condi-
ções aparentemente heterogêneas entre si, duas hipóteses parecem
plausíveis: ou este fator é um mero marcador indireto de algum outro
ainda não-identificado ou sua atuação não se dá linearmente sobre
as categorias estudadas (os transtornos), mas sobre outras catego-
rias, intermédias, estas sim ordenadas numa linearidade causal bioló-
gica. O estado atual da ciência empírica não permite a opção por
qualquer uma das alternativas. Estabelece, entretanto, no mínimo, a
impotência das associações Uneares entre dois tennos tais quais for-
malizadas até então.
Se a investigação por causalidades lineares não se mostra
operante por meio dos conceitos manipulados pelas últimas três edi-
ções do DSM, o valor e a fertilidade deste gênero de investigação
não sofrem, como a priori epistemológico, um abalo definitivo. A
inadequação de conceitos canhestramente construídos em nada ex-
40 PsioopatologiJ eTransforr112çio: um Esboço Ftnômeno-EstrutunJ

clui a possibilidade de que setores da ciência psiquiátrica possam


submeter-se às ordenações da linearidade. Com poderio talvez mais
estrito do que aquele obtido na medicina do corpo, a zona de
linearidade ainda deve ser entendida como parte relevante do intri-
cado edifício da psicopatologia, desde que se liberte de amarras
epistemológicas estrangeiras e heterogêneas às suas exigências.
Sobretudo no que conceme à incorporação, extremamente tardia e
recente, da farmacologia à psiquiatria; a tal ponto recente que ainda
aguarda um ordenamento epistemológico que lhe permita sair do
emaranhado conceitual em que se encontra, situação que facilita usos
ideológicos espúrios. É, portanto, na renovação das categorias
psicopatológicas que deveriam residir os esforços dos pesquisadores
interessados nas causalidades lineares em psiquiatria e psicopatologia.
A frustração com os resultados até agora obtidos não deve edificar-
se em obstáculo intransponível para uma agenda biológica de
linearidades. As próprias complexidades inerentes aos fenômenos
psicopatológicos permitem a simultaneidade de diversas perspecti-
vas de pensamento. O uso inadequado e anacrônico de conceitos
gerados para campos de saber com outras características é, verda-
deiramente, o empecilho mais espesso para sua implantação e de-
senvolvimento legítimos.
A própria ânsia da ciência pelo encontro de maior densidade
heurística já vem promovendo evoluções no terreno dos conceitos.
Duas perspectivas vêm se mostrando as mais promissoras. A pri-
meira delas. trabalhada embrionariamente pela psiquiatria biológica,
é a de endofenótipo. Ainda que o termo guarde exageradas liga-
ções umbilicais com sua matriz genético-molecular (fenótipo é um
conceito da genética), o uso adequado de sua significação pode pro-
porcionar um novo olhar sobre os fatos psicopatológicos. Endofenótipo
significa uma condição fisiológica objetivamente mensurável, de su-
posta maior influência determinística biológica. Assim, por exemplo,
uma maior sensibilidade biopsicológica às agressões ambientais pode
se constituir num endofenótipo. A condição em si não é patológica,
mas fornece condições de base para o favorecimento da eclosão da
psicopatologia. Alguns exemplos, extraídos de distintas condições
psicopatológicas, nos bastam para ilustrar a utilização da noção de
Guilherme Peres Messas 41

endofenótipos, ao mesmo tempo em que revelam a fluidez e amplitu-


de com que ainda se emprega o termo.
Inicialmente, dois exemplos concernentes à esquizofrenia. Um
estudo de adoção, realizado em população dinamarquesa (Kinney et
ai., 1997)5, encontrou significativa elevação de distúrbio de pen-
samento nos esquizofrênicos e seus parente biológicos em relação
aos parentes adotivos, independentemente da expressão aberta do
fenótipo esquizofrênico. Em outro estudo de adoção, Wahlberg et ai.
(1997)6 observaram que, quando a fanu1ia adotiva apresentava índi-
ces de desvio de comunicação baixos, os filhos de pais biológicos
esquizofrênicos apresentavam um índice de transtorno de pensamento
menor que os controles. De modo oposto, índices elevados de desvio
de comunicação entre pais adotivos levavam filhos de pais
esquizofrênicos a um considerável incremento no índice de transtor-
nos de pensamento. Com este trabalho propuseram ser exatamente
o controle genético da sensibilidade ao ambiente o fator a ser
transmitido hereditariamente.
Distúrbio de pensamento no primeiro caso e sensibilidade ao
ambiente no egundo são exemplos de endofenótipos. Condições não
necessariamente vinculadas a um desfecho patológico, porém, con-
soante às evidências empíricas, mais próximas a uma causalidade
linear, diretamente influenciada pela atuação biológica.
O terreno das dependências químicas mostra situações emelhan-
tes. Indicações vêm sendo estabelecidas de que ex-dependentes de
cocaína, abstinentes de longa data, possuam um metabolismo diferen-
cial de doparnina, geneticamente influenciado (Knob]jch et ai., 1992)1;
estas diferenças metabólicas gerariam quadros clínicos de fissura mais
proeminentes, elevando a chance de uma recaída no uso da droga.
Igualmente, variantes fisiológicas, influenciadas geneticamente, do si -
tema de recompensa cerebral começam a ser investigados como im-
portante endofenótipo dentro das dependências químicas.
A segunda perspectiva na determinação de novas categorias
procura estabelecer uma espécie de máximo denominador comum
das categorias com que hoje operamos nas pesquisas psiquiátricas
subordinadas ao DSM-IV. Reduzindo a diversidade categoria) a am-
plas categorias (ou dimensões categoriais) que sejam como troncos
42 Psioopatoi0&12 t Transfonnaç2o: um Esboço F(J)ôm~rutural

comuns, originários. dos di versos transtornos. Krueger ( 1999)8, exa-


minando padrões de co-morbidade em 8.098 sujeito , encontrou es-
truturas comuns que podem ser dispostas em duas amplas dimen-
ões: internalização e externalização. A investigação de uma even-
tual relação causal entre estas categorias e variantes genéticas
moleculares constitui uma intrigante tarefa a ser cumprida pelos in-
vestigadores do setor.
Um outro exemplo da estratégia de categorias dimensionais é a
obra de Robert Cloninger9 • Este autor propõe quatro distintas dimen-
sões do temperamento. Estas dimensões seriam direta e linearmente
articuladas a distintos sistema neurofisiológicos sendo, portanto, por
definição, a região conceitual mais próxima de influências ou deter-
minações genética . Suas dimensões (evitação de dano, dependên-
cia de recompensa. busca de novidade e persistência) estão sendo
largamente investigadas em campo, com resultados controversos,
até me. mo no território da genética molecular.
Os exemplos se multiplicariam indefmidamente. A indpiência
do campo epistemológico, levando a que diver os autores investi-
guem sob ópticas idiossincráticas, com chaves conceituais próprias e
muitas vezes incomparáveis entre si, é mostra de que ainda há muito
cantinho a er percorrido para o estabelecimento das causalidades
em psicopatologia. Entretanto, esta série de ilustrações indica a insu-
ficiência das categorias psicopatológicas propostas pelas três últi-
mas edições do DSM; ou, na melhor das hipóteses, sugere sua
inadequação para a tarefa a que se propõe. Composta por um mosai-
co irrefletido e apressado de filiações epistemológicas. a grade conceitual
do DSM entorpece a visão aguda indispensável ao cientista.
Examinamos até agora como a psicopatologia vem, informada
pelo modelo biológico-reducionista, procurando se formatar a uma
necessidade epistemológica rastreadora de causalidades lineares.
Examinaremos agora uma exclusão característica desta epistemologia
reducionista, sem o que uma análise das conseqüências da domina-
ção do pensamento hegemônico em psicopatologia restaria demasia-
do incompleta. Trata-se da exclusão da noção de totalidade. A fina-
lidade deste ensaio impede uma notação histórica factuaJ acerca da
trajetória da noção de totalidade na medicina e, mais recentemente,
Guilbum~ Puts Messa.s 43

na psiquiatria. Minimamente, entretanto, vale o registro de que a no-


ção de totalidade foi o mote inspirador da mediei na clássica 10 e
renascentista, apenas cedendo espaço a outra epistemologia - a
reducionista- com o advento da microbiologia de Pasteur, no século
XIX. Jamais desapareceu da cultura ocidental, pennanecendo coesa
no perímetro de influência da homeopatia, por exemplo.
Para a análise da exclusão da noção de totalidade faz-se ne-
cessária a apresentação sucinta das formas que o pensamento das
totalidades assumiu na psiquiatria. A categoria de constituição é a
que melhor expressa esta modalidade de pensamento na psicopatologia
e psiquiatria. Diversas obras, por intermédio de diversos autores, para
ficarmos apenas nos clássicos, e tudaram as constituições psicológi-
cas. Em alguns casos, como em Kretschmer, estas constituições as-
sumiram uma característica biopsicológica, com a delimitação de ti-
pos com peculiaridades psicológicas e biológicas simultâneas. Nou-
tros casos, como em Bleuler, a atenção se manteve nas característi-
cas psicológicas, com seus traços tendo sido estudados em relação a
bipolaridades essenciais: hiperestesia-indiferença afetiva, nos
esquizóides; hipomania-depressão nos sintônicos e lentificação-
explosividade nos epileptóides. Não se tratando aqui de historiar as
obras dos estudiosos das constituições, nosso interesse reside na in-
dicação dos modos pelos quais construíram suas categorias, orien-
tando-se pela noção de totalidade.
As constituições são características individuais inatas que não
apenas podem influenciar-se geneticamente como centralizam e dão
significado a diversas condições (patológicas ou não) que devem ser
entendidas a partir da própria idéia de constituição. Já Minkowsk.i
lembrava como tanto o esquizóide quanto o sintônico podiam, na sua
conduta, dar mostras de bondade ou caridade; eles o fariam, entre-
tanto, de modo diferente, um de maneira quente, intuitiva, "simpá-
tica··. com um sentimento profundo de medida; o outro, de uma
maneira mais fria e distante, antes por um sentimento de dever que
única e exclusivamente por um sentimento. Os exemplos se multipli-
cariam ao infinito, transitando num terreno para além da linha divisória
entre o normal e o patológico. As constituições são uma totalidade na
medida em que deixam suas marcas em quaisquer manifestações dos
44 PsirotutologiJ eTransformação: um Esboço Fenômeno-Estrutural

sujeitos. Favorecem alguns elementos psíquicos ou comportamentais;


elevam o risco para determinadas patologias; limitam a atividade hu-
mana em alguns pontos ou ampliam suas possibilidades em outros.
Numa primeira visão, a noção de constituição pode ser entendi-
da como apenas uma variante das categorias temperamentais, tais
quais sustentadas por Cloninger, ou do binômio internalização-
extemalização, apresentado acima. As dimensões do temperamento
ou de intro/extroversão guardam, entretanto, ainda em si uma
epistemologia reducionista. Não é falso que sejam fenômenos
subjacentes àqueles observados na clínica e parecem determinar-se
fortemente pela herança biológica. No entanto, suas categorias são
elementos unitários da realidade, atomisticamente entendidos, sem
jamais se estruturarem em uma totalidade. São modelos que se es-
forçam pela redução do todo às partes; não procuram formular inte-
lectualmente o trajeto que vai das partes ao todo. Mais parecem
refletir um reducionismo cientifico tardio, voltado para estancar a
sangria das insuficiências empíricas do modelo adotado do que uma
alteração epistemológica efetiva, orientada pela observação das to-
talidades. A própria hipótese de CJoninger, responsabilizando cada
sistema de neurotransmissão por cada uma das dimensões do tem-
peramento, numa relação unilinear, é o exemplo cabal da opção
atomfstica, reducionista, levada ao extremo.
O paradigma das constituições, quaisquer que venham a ser suas
atualizações empíricas na visão dos diversos autores, segue sempre
a mesma linha-mestra: busca estabelecer tipoJogias constitucionais,
estruturas estáveis psicofisiológicas ou comportamentais que se man-
tenham medianamente inalteradas no decorrer das vidas individuais.
Deste modo, a epistemologia constitucional desloca o eixo das inves-
tigações causais das categorias psicopatológicas às categorias da
constituição. As causalidades lineares estáveis não mais se referem
à psicopatologia com seus transtornos, mas às constituições e suas
totalidades estruturadas.
Dado não serem as constituições fatos patológicos em si, o pensa-
mento constitucional reinterpreta a condição dos fenômenos
psicopatoJógicos. Se nos transtornos do DSM as unidades patológicas
recebiam status de autonomia recíproca, vinculando- e diretamente
Guilhume Peres Mow 45

às suas circunstâncias fisiopatológicas, numa conexão direta entre


causa e efeito, no modelo constitucional a psicopatologia refere-se
não às etiologjas últimas, mas às tipologias constitucionais subjacentes.
A simplicidade lógica da epistemologia reducionista linear dá lugar a
um pensamento de ordem mais complexa. A psicopatologia deve ser
procurada nas interdigitações dos tipos constitucionais, na sua dialética
com a reaJjdade que se lhes opõe; com isto, as categorias do patoló-
gico apenas obtêm sentido na sua relação de gravitação com o en-
quadre constitucional que lhe origina e sustenta. Desaparece a auto-
norma dos transtornos; a autononua transita para a esfera das cons-
tituições. Uma con eqüência deriva desta alteração de foco. No
momento em que os transtornos, como concebidos no DSM, rece-
bem o timbre de secundários, o centro das atenções do pesquisador
de causalidades desliza do estudo dos transtornos para o das consti-
tuições. Com isto, o interesse não mais recai sobre uma ciência do
patológjco. mas sobre uma ciência dos indivíduos e sua variação
fenomênica, sempre do ponto de vista das totalidades. O modelo
constitucional redescobre a integralidade do indivíduo, ainda que
subsurruda a uma categoria totalizante tipológica, em oposição à
multiplicidade pulverizada da patologia. O doente em sua inter-rela-
ção com o meio circundante, idiossincrática e singular coloca-se sob
as lente da ciência, deslocando a doença em sua unidade etiológica.
Esta perspectiva também reproblematiza o entendimento do que
é patológjco, dissolvendo as fronteiras claras e nítidas dos transtornos
do DSM e, pem1eabilizando a significação de cada categoria, ressitua
a psicopatologia na confusão e ambigüidade conceituais que lhe são
históricas. O adoecer mental abandona a categorização de transtorno à
moda DSM (uma unidade íntegra e encerrada em si mesma) para tor-
nar-se uma alteração- ora quantitativa, ora qualitativa- das constitui-
ções. A vinculação etiológica dos fenômenos psicopatológjcos é me-
nos importante que a sua vinculação constitucional. Em outras pala-
vras, importa agora conhecer como se dá a passagem das variantes
constitucionais às patologias psíquicas. Estes trajetos, de desvio gra-
dual ou de brusca ruptura, são os objetos científicos por excelên-
cia. Os descaminhos e especificidade de cada tipo constitucional
no favorecimento de patologias ou facilitação de desenvolvimentos
saudáveis passam a ser o norte conceitual desta epistemologia mais
46 Psicopatologia t Trao.sfonnaç2o: um Esboço Fcn6mcno-Estrulural

complexa para a psicopatologia Epistemologia que acaba por exigir


um abandono das aspirações científicas causais estáveis e lineares,
importadas do reducionismo biológico, e um conseqüente enfrentamento
direto das essencialidades do psiquismo. Epistemologia que exige, en-
fim, uma ciência que contemple a transformação psíquica As opera-
ções conceituais e categoriais necessárias para a construção orgânica
de uma ciência das transformações é o que veremos a seguir.

0 EIXO DAS TRANSFORMAÇÕES


A presença, tácita ou afirmada, dos movimentos inerentes ao
psiquismo sobre o eixo do tempo é constante e dominante na
Psicopatologia Geral jasperiana. Por todo o corpo da obra as sínte-
ses e análises progressivas no tempo são a sua própria justificativa.
Entretanto, a despeito desta ordenação lógica fundamentada no tem-
po e na dialética, a exploração psicopatológica propriamente dita das
transformações restou largamente inacabada. O projeto arquitetônico
da Psicopatologia Geral, mais voltado às articulações da heteroge-
neidade metodológica da área, mostrou a necessidade da compreen-
são temporal dos fenômenos e até realizou alguns ensaios categoriais,
como veremos agora. Ensaios notáveis, alguns, como a distinção entre
processo e desenvolvimento, de consistente influência sobre toda a
psicopatologia posterior; insuficientes, no entanto, para estabelecê-
los como um paradigma definitivo de uma ciência empírica orientada
pelo eixo das transformações.
A despeito de seu caráter esquemático, uma exposição das ca-
tegorias propostas por Jaspers é fundamental, por constituir genuíno
esforço de alçar o tempo, em suas transformações contínuas, como
ordenador de um conjunto de conceitos em psicopatologia. Suas pro-
postas, contidas no capítulo sobre biografia da Psicopatologia
Geral 11 , devem assim ser entendidas mais como uma abertura ainda
inexplorada de perspectivas para um desenvolvimento do conheci-
mento do que a confluência de saber empírico já amadurecido.
Jaspers divide em dois grandes grupos as categorias biográ-
ficas fundamentais : as categorias biológicas e as categorias
histórico-vitais, cada uma apresentando divisões internas, que apre-
sentaremos neste momento.
Guilham( Pua Maw 47

As categorias biológicas dividem-se em idade e séries típicas de


curso. As séries típicas de curso, por sua vez, dividem-se em ata-
ques, fases, períodos e processos. Um cotejo direto entre a interpre-
tação do fenômeno biológico adotada por Jaspers e aquela concreti-
zada pelo DSM recentemente examinada revela evidente distin-
ções, maximizadas em duas características. Em primeiro lugar, ori-
entado pela noção de biografia, Jaspers interessa-se pelo fenômeno
biológico como fonte de constante transformação, endogenamente
motivada, do organismo. As idades são a comprovação de que o
organismo transforma-se continuamente e de que sua transforma-
ção não apenas pode ser objeto de conhecimento como também pode
figurar como digna de uma epistemologia própria, atenta para seus
coloridos e vicissitudes. Na leitura reducionista e linear das causali-
dades, o acontecer biológico é desenhado em seus contornos de es-
tabilidade, gerando relações de etiologia fisiológica. O conhecimento
projeta-se sobre o passado ou, mais precisamente, em um presente
que se mumificou num passado filogenético coagulado em tempos
imemoriais. No olhar biográfico, o fenômeno biológico dirige-se
inexoravelmente a transições, gerador de instabilidades e desequillbrio,
manancial de confusão e indeterminações. O conhecimento precipi-
ta-se nas fendas do futuro.
A segunda característica distintiva da formulação jasperiana da
biologia é conseqüência da primeira. Posto que o organismo trans-
forma-se e dirige-se para um futuro que, para ele, organismo, é des-
conhecido e apenas visualizado em suas virtualidades, as definições
categoriais perdem sua nitidez de significação.

"O puramente biológico, quando exploramos a alma do


homem, está somente nos limites, se pode captar unicamente
através de outros fenômenos. Se discutirmos, portanto, o
acontecer biológico, teremos que projetar o olhar sempre
ao não-biológico, do mesmo modo em que na discussão
da história da vida necessitamos do olhar retrospectivo
ao biológico, sem o qual não pode existir nem por um
momento nenhurna realidade da alma". 12
48 Psicopatologia cTra115formação: um Esboço Fcnômcoo-EsLrutural

A clareza conceitual- irmã gêmea da inocência epistemológica


-já não é mais possível. A linha temporal dissolve limites de campos
etiológicos e esperanças de unidades categoriais estáveis. Onde quer
que haja biologia, já haverá história e, inversamente, nos recônditos
íntimos da história haverá sempre inflexões do biológko. O tempo,
em sua trajetória única e exclusiva para cada indivíduo, mescla a
experiência psíquica num amálgama que já se torna irreversível às
suas partes constituintes que, assim, passam a ser apenas limites
ideais, incognoscíveis direta e puramente. O anseio por uma biologia
depurada da história só é admissível numa epistemologia que sub-
traia a dimensão temporal da experiência mental humana. Na pers-
pectiva jasperiana, o biológico não pode submeter-se aos ditames do
pensamento etiológico, enquadramento vital para a epistemologia
biológico-reducionista; o biológico em Jaspers é um espectro de pos-
sibilidades virtuais reduzido, em suas atualizações conscientes ou não,
a escolhas ditadas pelo curso biográfico. Em última análise, não há
um fato biológico insular, opaco ao cinzel do tempo. A biologia em
Jaspers é a matéria-prima do tempo.
Cravadas sobre o eixo da transformação temporal, as catego-
rias biológicas, portanto, devem orientar a expressão de suas mani-
festações a partir da mesma perspectiva. Assim, a linha demarcatória
que confere significação aos fenômenos não é mais, como nos pos-
tulados do DSM, a clareza conceitual, mas a sua relação com a
reversibilidade. Ataques e fases são, por definição, reversíveis em
relação ao tempo biográfico, ao passo que, nos processos, o psiquismo
assume um aspecto novo, irreversível às condições anteriores. A
noção de reversibilidade - e sua antípoda, a irreversibilidade - é
fundamental na biologiajasperiana. Do ponto de vista ontológico, um
fenômeno normal como a puberdade ou a velhice, assemelha-se aos
quadros processuais, à medida que ambos injetam fatos novos no
psiquismo, levando a uma reconfiguração e reacomodação definiti-
vas da totalidade psíquica.
Aqui uma distinção conceitual há que ser estabelecida, com vis-
tas a esclarecer uma possível confusão entre o trabalho de dois pes-
quisadores oriundos de distintas escolas psicopatológicas. A noção
de reversibilidade, como operante no pensamento jasperiano, guarda
Guilbmnc Peres Mcws 49

apenas semelhanças superficiais com aquela situada na obra de


Kraepelin, na formulação da demência precoce a partir de sua evo-
lução. A reversibilidade em Jaspers define as marcas impressas pela
biologia- ou pela endogeneidade biológica- sobre a linha temporal
biográfica. A despeito do caráter irreversível dos quadros proces-
suais, este não se aferram a conseqüências evolutivas e de prog-
nóstico. Indicam tão-somente que a ação biológica feriu de modo
definitivo o psiquismo. lntroduzern um biológico irreversível na vida
da consciência, mas nada vaticinam a respeito de ta consciência.
Jaspers interessa-se genuinamente pelas singularidades desta cons-
ciência temporal e não pela sua degenerescência. O interesse
kraepeliniano pela evolução é de natureza essencialmente diversa.
Concebido a partir de urna inspiração biológico-hereditária positivista
(mais aparentada às concepções de Morei do que às das
normatizações contemporâneas da biologia), o tempo não é a matriz
das diver idades idiossincráticas da existência individual, corno em
Jaspers, mas o marcador indireto das diferenças qualitativas subs-
tanciais entre os homens. Para Jaspers, o tempo histórico di tingue
os homens a partir de suas tendências biológicas cunhadas pela li-
berdade de consciência. Para Kraepelin, o tempo é uma espécie de
olhar translúcido que permite deslindar, por meio das aparências
evolutivas, quais homens são superiores a outros. Aqueles de má
evolução, agrupados a posteriori na categoria demência precoce,
serão os possuidores de herança genética desfavorável, independen-
temente da influência das pressões psico- ócio-ambientais
intervenientes. A evolução kraepeliniana investiga degenerados bio-
logicamente determinados. Sua dimensão organizacional erá o asilo
segregador de degenerados e seu braço político mais pronunciado as
políticas de higiene social que culminaram -e forneceram munição
intelectual - nas execuções nazistas. Em suma, salvo por identida-
des epidérmicas no que conceme ao interesse pelo fenômeno do
tempo, uma psicopatologia iluminava a liberdade, enquanto a outra, a
subordinação em relação ao biológico.
A epistemologia jasperiana, conduzindo o fator temporal à con-
dição de condutor supremo do psiquismo humano, define de modo
peculiar as articulações da psicopatologia com o acontecer biológico,
50 Psicorntologi.a t Truuformação: um F.sboço Ftnõmmo-Estnuunl

interpondo uma sólida cunha intelectual entre o determinismo


positivista kraepeliniano e o determinismo molecular reducionista da
virada deste século. Lamentavelmente, Jaspers, em sua trajetória
individual, abstém-se de desenvolver as conseqüências deste fértil
posicionamento reflexivo, deixando, no entanto, um legado de intui-
ções lógicas ainda inexplorado pelos psicopatologistas e psiquiatras
posteriores, filosoficamente desencontrados na função de solidificar
heuristicamente as produções sobretudo da psicofarmacologia, vin-
culada de modo umbilical à biologia. Uma reinterpretação da biolo-
gia pode ser um ponto de partida para uma reinterpretação dos fatos
biológicos disperso no vórtice caótico engendrado pela psiquiatria/
psicopatologia contemporâneas.
As categorias histórico-vitais diferem em essência das cate-
gorias biológicas por seu caráter de inelutável irreversibilidade. Se,
da perspectiva biológica, os fatos que se projetam sobre a biografia
podem desaparecer sem o registro de sua presença, do ponto de
vista histórico-vital todo fenômeno limita a biografia, ordenando seu
desenvolvimento posterior num certo sentido ou obstruindo outros
caminhos. Toda vivência deposita-se na história da consciência como
camadas geológicas que, ao se sobreporem, vão definindo a textura
e espessura dessa consciência. Desse modo, mesmo vivências pre-
térita , como veremos adiante, de conectadas experiencialmente da
consciência, colaboram ativamente para sua sustentação atual. Nes-
sa lógica, os acontecimentos de extração biológica revelam uma du-
pla face. Se por um lado desaparecem no fundo perdido do passado,
por outro, permanecem como camada vívida do estofo biográfico
individual. Este estatuto duplo do fato biológico, incompatível com o
pensamento reducionista, facultaria, por si só, todo um reexame de
determinadas categorias do DSM, sobretudo aquelas que procuram
determinar estabilidades no interior da personalidade, nos chan1ados
transtornos de personalidade. Neste grupo, acima de tudo, o
determinismo biológico reducionista encontra suas aporias mais
intransponíveis, seus resultados mais incompreensíveis. O de loca-
mento do foco científico das condições biológicas estáveis subjacentes
aos transtornos de per onalidade às duplas influências simultâneas
do biológico sobre o curso da vida permitiriam entender o porquê da
Guilhumr Pues Mrss.u 51

diversidade etiológica encontrada nestes transtornos e das fraquezas


conceituais em suas definições.
Quatro noções contidas nas categorias histórico-vitais indicam a
importância concedida por Jaspers ao tempo na mente humana. São
elas: as primeiras vivências, a adaptação, a crise e, por flm, o
desenvolvimento da personalidade, sendo que, de certo modo, a
última categoria é a resultante das possibilidades extraídas das três
primeiras que, por sua vez, funcionam como momentos constituintes
do edifício total do desenvolvimento.
A categoria de primeira vivência relaciona-se, nas suas arti-
culações com a transformação temporal, de maneira análoga às ca-
tegorias biológicas, no que concerne à modalidades de sua apreen-
são; uma primeira vivência apenas pode ser examinada, ou
rememorada, a partir de um tempo que já não mais lhe pertence. A
noção de primeira vivência apenas adquire sentido não no instante
em que factualmente ocorre, mas desde um olhar do futuro que, ao
debruçar-se sobre ela, aí encontra suas raíze . Assim como nas ca-
tegorias biológicas, uma primeira vivência não pode ser definida em
si mesma, encerrada num perímetro conceitual definido. Apenas as
possibilidades contidas no presente fornecem olhos para enxergar
aquilo que, um dia, foi não apenas passado como se instituiu como
embrião do presente atual. Desse modo, uma via de dupla mão arti-
cula a primeira vivência, imersa necessariamente na memória do
passado e no presente, sempre atual e instantâneo. Num dos senti-
dos, as primeiras vivências circunscrevem as virtualidades de desen-
volvimentos vivenciais posteriores, ao registrarem impressões que
acabam por delimitar o território do possíveis desenvolvimentos,
facilitando a ocorrência de determinadas vivências e excluindo
outras. No sentido inverso, o ponto presente do desenvolvimento re-
corta as vivências pretéritas, enaltecendo algumas e submergindo
outras no vácuo da amnésia, acabando por constituir uma história
marcada pela óptica do presente. Esta característica nodal da pri-
meira vivência em suas intersecções entre passado e presente ge-
ram inevitavelmente uma zona de obscuridade conceitual, na qual o
conceito mais deve er entendido como um pressuposto teoricamen-
te envolvido na gênese da especificidade biográfica do que uma ca-
tegoria límpida e objetivamente observável.
52 Psiropatolo&ia r Tnnsfor=ção: um Esboço Fmõm~tural

A categoria de adaptação, talvez pela sua relativa insensibilida-


de ao tempo gerador das transformações, conheceu maior
palatabilidade na história da psicopatologia, sobretudo nos últimos
tempos quando, como vimos, o eixo da estabilidade foi reconhecido
como reino único do saber. A adaptação, diversamente da primeira
vivência, na qual o poder dissolutivo do tempo biográfico desfigura o
conhecimento claro de seu significado, procura reduzir sua amplitu-
de temporal a períodos em que as articulações entre fato e reação
possam ser inteligíveis com maior clareza e favoreçam, portanto,
uma maior comunicabilidade. Em outras palavras, a categoria adap-
tação requer um complemento nominal, um pólo diante do qual a
adaptação faz-se necessária; adaptar-se a algo, a alguém, a alguma
condição. Situando frente a frente adaptando e adaptado numa mes-
ma extensão temporal, a categoria de adaptação é, dentro dos con-
ceitos do eixo da transformação, aquele que guarda uma maior se-
melhança com os do eixo da estabilidade. Semelhança devida à limi-
tação territorial imposta à temporalidade da transformação, reduzin-
do-a à sua máxima compreensividade lógica. Não é, portanto, mero
acidente histórico o fato de que a psicologia comportamental- baseada,
em última análise, em pressupostos de ação e reação numa síntese
adaptativa - ampliou suas fronteiras de importância científica na
psiquiatria e psicopatologia mundiais exatamente no período de as-
censão das categorias DSM que, inclusive, elegeu-a como paradigma
para a construção do conceito de transtorno. Obrigada a comprimir
sua psicopatologia em um tempo estável, a psiquiatria teve como
limite extremo de sua competência em investigar transformações a
categoria de adaptação; ou, num outro sentido, a categoria de adap-
tação figurou como concessão única (talvez inevitável) da
psicopatologia estável à realidade mutável da mente humana. Diante
da temporalidade por demais fugidia da psicanálise, mai aproxima-
da da noção de primeira vivência, e de uma historicidade demasia-
damente biológica, como no determinismo kraepeliniano, o manual
diagnóstico opta pela temporalidade em seu sentido mais estrito, mais
ordenado e depurado do excesso de variáveis históricas: a adapta-
ção. Essa temporal idade mínima da adaptação, entretanto, permite-lhe
compor-se em diversos mosaicos epistemológicos. Se serviu como peça
Guilh~rme Pttes Meno! 53

para o reducionismo molecular contemporâneo, não menos pode ajus-


tar-se ao edifício jasperiano, exercendo função numa síntese maior
que veremos adiante, na análise do desenvolvimento da personalidade.
A noção de crise, por sua vez, preserva-se das dificuldades
encontradas pelas duas anteriores sem, no entanto, manter-se isenta
de relevantes dificuldades para seu manejo dentro do ordenamento
axial das transformações. A crise não se perde nas brumas do pas-
sado, como a primeira vivência, sem, entretanto, prescindir estrutu-
ralmente das emanações desse passado. Tampouco reduz a
temporalidade a um interregno de máxima mensurabilidade, como no
caso do conceito de adaptação; esta condição, entretanto, de modo
algum impede que a crise seja circunscrita a um certo período de
tempo. O fundamental para a incorporação da categoria crise na
coluna vertebral biográfica não reside tanto nas uas articulações
com a temporalidade, ma , sim, na sua interpenetração com a outra
escora conceitual da epistemologia da transformação jasperiana: a
noção de totalidade. Profundamente ancorada na tradição filosófi-
ca alemã, a organização estrutural do pensamento jasperiano revela
em sua ossatura um núcleo duro dialético. O pensamento dialético,
fundamentado em suas instâncias de sínteses e análises progressi-
vas, é o leitmotiv de toda a Psicopatologia Geral, numa arquitetônica
majestosa de formações hierárquicas cuja análise escapa ao escopo
deste ensaio. No que conceme diretamente às categorias biográfi-
cas que ora examinamos, a dialética jasperiana sustenta-se nestes
dois pilares conceituais, a temporalidade (inspiradora das noções de
primeira vivência e adaptação) e a totalidade, numa estruturação
que veremos a seguir. Se nos fosse permitida uma licença intelectual
redutora que transmutasse a complexidade do pensamento
jasperiano em uma fórmula, poderíamos sugerir que a transforma-
ção biográfica na Psicopatologia Geral é a articulação da tempo-
ralidade com a totalidade.
Neste ponto, em nome de uma melhor compreensão da noção
de crise em sua perspectiva funcional dentro da biografia, assim como
de uma maior abrangência dos conceitos atuantes no eixo da trans-
formação jasperiano, faz-se nece sário um desvio da rota expositiva.
Antes de aprofundarmo-nos no exame da crbe, mergulharemos na
54 Psicopatola&~ cTransformação: um Esboço Fm6mcno-Estrutur.~l

análise da noção de totalidade. A despeito de sua não-inclusão den-


tre as categorias biográficas num sentido estrito, a pervasividade do
conceito ao longo de toda a obra autoriza-nos com certo conforto a
situar neste momento sua exposição. Atuante sobre a psicopatologia
desde qualquer parte, é, entretanto, entre a noção de crise e a de
desenvolvimento da personalidade que a totalidade mostra- e mais
neces ária e esclarecedora para a iluminação de toda a organização
do pensamento; é o locus de onde, em parceria com o tempo, ela
incensa de vitalidade todo o organismo epistemológico.
A categoria totalidade, familiar ao pensamento dialético. refere-
se a uma ação sintética. A ordenação estruturada de diversas partes
faz emergir um novo fenômeno, posterior do ponto de vista cronoló-
gico às partes constituintes, mas, como síntese totalitante, irredutível
às mesmas partes constituintes. A totalidade emerge da estruturação
das partes e delas depende para sua existência. Ontologicamente,
entretanto, possui autonomia. De um certo modo, a noção de totali-
dade em Jaspers assemelha-se em diversos pontos a outro conceito
que atingiu maior popularidade no universo da psicopatologia: a es-
trutura. Não seria, no entanto, o caso aqui de dissecar semelhanças
e diferenças entre ambos os conceitos, ou mesmo procurar alongar
descritivamente uma análise do conceito de totalidade em Jaspers.
A apreensão intuitiva, derivada do senso comum. nos basta para o
prosseguimento do ensaio. Imprescindível, por outro lado, é a posi-
ção intelectual assumida por Jaspers ao situar a totalidade em sua
relação com as partes constituintes. Essa posição acarretará notá-
veis conseqüências, como veremos mais à frente, seja do ponto de
vista epistemológico, como da perspectiva pragmática, criando um
espaço conceitual virtual para que as novas contribuições terapêuti-
cas possam ser incorporadas ao pensamento psicopatológico sem
qualquer comprometimento à sua lógica interna e coesão histórica.
Sem o risco de injustificadas concessões às hipérboles, podemos sus-
tentar que. filosoficamente falando, a solução encontrada por Jaspers
para compor as partes com o todo na dinâmica da transformação
contínua da mente humana é, ao mesmo tempo. sua maior contribui-
ção intelectual à psicopatologia e a maior contribuição de um intelec-
tual para a psicopatologia. Referimo-nos ao círculo bermenêutico.
Guilherme Peres Mcsw 55

A filiação filosófica ao círculo hermenêutica é expressa com


todas as letras na introdução da PsicopatoJogia Geral:
"Não se pode derivar o todo dos elementos (mecanismo),
nem os elementos do todo (hegelianismo) . Há, na verdade,
uma polaridade: deve-se ver o todo através dos elemen-
tos, os elementos desde o todo. Não existe o caminho da
síntese compreensiva do todo pelos elementos, nem o
caminho da derivação compreensiva dos elementos desde
o todo, mas sim existe o círculo. (..) No entender genético
é aprofundado o 'círculo hermenêutica ': desde os jàtos
típicos especiais deve ser entendido o todo, que por sua
vez é condição para a compreensão daqueles fatos
especiais ". 13

A condição humana, mental ou corporal, gera, como que es-


pontaneamente, totalidades que unificam e subordinam uma série
de fenômenos parciais. Uma vez unificados, estes fenômenos pas-
sam a pertencer cientificamente a uma dupla conexão simultâ-
nea: às causalidades mecânicas, estáveis, e às subordinações es-
truturais da totalidade. A noção de círculo hermenêutica não sa-
crifica uma ordem em favor da hegemonia da outra, não congela
a realidade psíquica seja na causalidade reducionista, seja na com-
preensão estruturante. Antes, cria um espaço virtual em contínua
expansão no qual as estabilidades mecânica e estrutural sinteti-
zam-se e eparam-se em dimen ões infinitas, produzindo novas
totalidades ou autonomizando insuspeitas unidades mecânicas. A
tradição de pensamento ocidental exageradamente tatuada pelas
efígies da estabilidade enxerga um corte radical no qual existe
apenas uma fissura na superfície. As diferenças epistemológicas
entre um pensamento estrutural e um reducionista mecânico justifi-
cam-se nas camadas superficiais. Uma perfuração analítica mais
profunda encontra e revela à luz um bloco rígido de identidades e
semelhanças. Totalidade e mecanismo, estritamente tomados, in-
terrompem ambos o vigor da transformação contínua; operam em
um espaço de determinações restritas, umbilicalmente ligado ao
eixo da estabilidade.
56 Psioopa1ol<lgU • Trnuformaç3o: um Esboço Ftnômelll)-l'.struturJI

O círculo hermenêutica ustenta epistemologicamente a produ-


ção das transformações. Partes e todo, em sua dinâmica de recipro-
cidades, ao não serem jamais hegemônkos entre si, abrem um diálo-
go em que o fenômeno do novo poderá surgir. Este novo, heterogê-
neo à totalidade vigente até então, erá embrião e aríete, ao mesmo
tempo, da transformação psíquica, ordenando-se numa relação de
tensão com essa mesma totalidade. Relação essa que virá a ser ca-
pital para a compreensão da biografia, assim como da patologia so-
bre ela incidente.
Introduzimos a noção de totalidade com vistas à conversão da
categoria crise em membro das categorias biográficas histórico-vi-
tais. Como havíamos sustentado, a crise extrai seu significado fun-
damental da sua articulação com a noção de totalidade. Com a breve
exposição introdutória dessa noção, cabe agora refletir acerca da
dinâmica da relação entre ambas. A crise é. por defini ção,

"(. ..) o momento em que o todo sofre uma transmutação.


da qual o indivíduo sai transformado, seja com nova
origem de uma decisão. seja na decadencia" 11
Uma fenomenologia da crise, portanto, deve destoar do con-
ceito prosaico de fenomenologia. Deve interessar-se menos pela
apreensão vivencial dos conteúdos emergentes na vigência da crise
e mais pelos pontos de ruptura com a totalidade que a crise produz.
O indivíduo em cri e vive um colorido indrômico psicopatológico, do
qual e queixa e em raL.ão do qual sofre; porém, nas estruturas pro-
fundas subjacentes às manifestações sindrômicas fenomenicamente
apreensíveis, um abalo sobre a totalidade de seu psiquismo se de en-
volve. A crise surge como um ponto de inflexão de toda a biografia,
de cujas soluções dependem a expansão mental ou a falência exis-
tencial. Orienta-se sobre uma linha inexorável. um ponto de não-retor-
no no qual a única solução é o dimensionamento do futuro. O conceito
de crise rompe radicalmente com a tradição epistemológica da estabi-
lidade, para quem uma reversibilidade ao ponto anterior de estabilida-
de faz parte do patrimônio de expectativas do psicopatologista. Na
crise haverá necessariamente a inovação. a eclosão do inexi tente,
para o bem ou para o mal do desenvolvimento biográfico.
Guilherme Peres Mcsw 57

A crise, operando sobre a linha da transformação, abrange e


engloba a serniologia psicopatológica. A arquitetônica da índrome
psicopatológica subordina-se em valor ao reconhecimento da ocor-
rência de uma crise. A sfndrome são como que variações de um
mesmo tema quando se in erem num contexto de crise. Esta é, por
excelência, a categoria a ser diagnosticada e a partir da qual gravitará
a terapêutica. A constituição de um eixo de transformação reorienta
a hierarquia das categorias em psicopatologia. Não se trata unica-
mente de estabelecer diferenças clínicas entre transtornos ou até
mesmo de aferir sua gravidade. Trata-se, antes, de identificar se
determinada condição de sofrimento psíquico remete à totalidade
biográfica e se, por conseqüência, traz em si o germe da reconstru-
ção ou o veneno da decadência. A crise inspira-se no passado, na
medida em que as ações pretéritas gestaram a síntese representa-
da na totalidade presente; por esta inspiração, religa-se às catego-
rias biológicas e às primeiras vivências, as primeiras instaladas num
passado da espécie e as segunda informadas pelo pa. ado pesso-
al. Porém, a crise também deságua no futuro. à proporção que seu
efeito desestruturante libera os elementos que irão figurar nas no-
vas formulações do futuro. Acolhimento e ruptura concomitantes
em relação à temporalidade biográfica, a noção de crise é o último
degrau conceitual antes da íntese maior de todas as outra cate-
gorias, consubstanciada na categoria de desenvolvimento da per-
sonalidade .
A análise das categorias biográficas que vimos exercendo até
agora revela um rasgo anatômico peculiar, que define diferenças
intransponíveis entre ua estrutura (das categoria ), fundada na
epistemologia da transformação, e a estrutura dos transtornos dos
manuais diagnósticos, conforme sua fundamentação no eixo da esta-
bilidade. As categorias biográficas adquirem sentido a partir de sua
estruturação íntima, do trânsito de significação entre seu conceitos,
das modalidades em que cada categoria se acopla à outra. A totali-
dade orgânica da categoria é a fonte de seu dinamismo. As cate-
gorias do eixo da estabilidade. opacas e refratárias a um diálogo
entre si, constituem-se, como vimos, fixando unidades autônoma ,
extraindo sua significação exclusivamente de seu e nraiLamento na
58 Psioo~tologia r Transformação: um Esboço Fenômmo-E.struturu

etiofisiopatologia, entendida esta como encerrada em movimentos


mecânicos estáveis. O eixo da transformação subverte este esque-
leto calcificado da linhagem da estabilidade, promovendo um irredutível
e vital intercâmbio das categorias entre si. A unidade categoria! au-
tônoma estável cede a vez às unidades estruturadas numa dinâmica
de contínua motilidade e mutabilidade. As categorias já não mais
podem justapor-se; elas devem compor-se.
Desse modo, o investimento no conhecimento biográfico passa
pela atenção à harmonização das categorias que o compõem e, como
examinaremos mais à frente, lidando com a questão do esboço pro-
priamente dito do paradigma, deverá conduzir ao reencontro da indi-
vidualidade pessoal como ordenação peculiar e idiossincrática de cada
biografia. As categorias biográficas harmonizam-se numa miríade
quase infinita de alternativas anatômicas apenas cognoscíveis, em
última análise, pelo minucioso exame do caso individual. Isto não nos
impede, no entanto, de uma análise das possibilidades lógicas de
estruturação dos componentes do eixo biográfico.
Assim, categorias biográficas e histórico-vitais projetam-se e
interdigitam-se continuamente, orientados por uma dinâmica de sín-
teses e oposições com variados graus de estabilidade e poder de
aglutinação. O conjunto dessa intensa movimentação entre as cate-
gorias, dotando-se e subtraindo-se alternativamente de sentido, é reu-
nido sob a categoria de desenvolvimento dialético. O desenvolvi-
mento da personalidade, dissecado até a exposição de seu arcabouço
ósseo, é a dialética da personalidade, a dança fértil e infinita de
todas as suas categorias parciais. O desenvolvimento é, portanto,
uma noção sintética que busca perseguir todas as diversas sínteses
operadas, operantes e que operarão no percurso vital de um indiví-
duo. A dialética do desenvolvimento gera totalidades estruturantes
que favorecem algumas categorias, excluem outras e promovem cri-
ses. As diversas categorias, por sua vez, abalam as totalidades
estruturadas com seus influxos particulares, reposicionando totalida-
des e reordenando a linha biográfica. No desenvolvimento da perso-
nalidade, enfim, reencontramos o círculo herrnenêutico, a seiva
dialética que mantém viva toda a capacidade humana de progressão
estampada no eixo da tran forn1ação.
Guilhfrmc Peres Mcsw 59

Examinamos até agora algumas categorias biográficas propos-


tas por Jaspers, de onde inferimos que, independentemente da sua
validade ou abrangência de toda a amplitude do fenômeno biográfico
(não é o que está em discussão), sua vitalidade semântica e funcio-
nal deriva de suas articulações internas. Uma constelação de cate-
gorias mais do que uma grade delas. Esse caráter orgânico dos con-
ceitos solicita que outra categoria, tradicionalmente autônoma nas
psicopatologias ordenada pela estabilidade, venha a ser alinhada na
mesma composição. Referimo-nos à noção de mecanismo.
Já é longa a história da noção de mecani mo em psicopa-
tologia. Desde as nascentes da psicanálise, a compreensão de
que um certo funcionamento mecânico está presente nos recôn-
ditos extraconscientes (na linguagem psicanalítica: inconscientes)
humanos foi se firmando como verdade indiscutível. Discutíveis e
polêmicas vêm sendo as especulações acerca da tipologia e
abrangência desses mecanismos. Em sua vertente mais ortodoxa
a psicanáli e estabeleceu como função precípua dos mecanismos
a defesa do ego contra pressões instintuais inferiores, enumeran-
do assim diversos mecanismos de defesa. Dentre estes, conhe-
ceram maior sucesso e penetrância no meio psicanalítico os me-
canismos ligados à capacidade de cisão do ego, responsáveis se-
cundariamente pela dinâmica de projeção, introjeção e identifica-
ção projetiva. Estabelecendo um diálogo medular entre os egos
de analista e analisando, a análise destes mecanismos indica o
caminho das pedras para a decifração das veredas do crescimen-
to psíquico, encravadas num espaço intersubjetivo catali ador
desse crescimento. Inútil e ocioso enveredar por uma exposição
da relevância da descoberta dos mecanismos inconscientes para
a psicopatologia e terapêutica sobretudo psicanalíticas. A própria
dimensão que a psicanálise atingiu na cultura diz tudo. Nossa ta-
refa consiste em buscar situar o deslizamento de função que o
conceito de mecanismo sofre ao incorporar-se a uma psicopa-
tologia da transformação.
O mecanismo, por si só, não se ordena para uma trajetória de
transformação; produz um determinado movimento circunscrito, de
contornos definidos, uma ação que lhe é característica sem, no
60 PstOOpllOiogia ( Truufonnaçio: um l!sboço Fatómmo-Esuutur1l

entanto, deixar de assumir ares de neutralidade ontológica. Há me-


canjsmos francamente ligados à preservação natural da saúde men-
tal e outros vinculados ao parasitismo da patologia no psiquismo. A
nosso ver, um dos erros de posicionamento por vezes adotado por
um pensamento psicanalítico apressado con iste em procurar destindar
na própria anatomia dos mecanismos seu caráter patológico ou sau-
dável. Assim, a cisão ou negação serviriam mais a um uso defensivo
do ego, ao passo que a sublimação pertenceria a uma e~ fera evolutiva,
aviúnhada da saúde mental. Ordenou- e, por esta lógica, uma pro-
gre são evolutiva do mecanismos, passando do primitivo patológico
ao diferenciado saudável. A despeito de uma ligeira facilitação clíni-
ca e ordenamento da condução terapêutica que esta progressão aca-
bou por permitir, parece-nos que seus efeitos deletérios suplantaram
os positivos.
A identificação dos movimentos da mente humana. no curso único
biográfico, a uma omatória progressiva de mecanismos favoreceu
- sobretudo com a crescente simplificação que a incorporação da
psicanálise pela cultura produziu - a sobreposição da própria psica-
nálise a uma ciência dos mecanismos inconscientes. Drenar a abun-
dância e complexidade psicanalíticas à solide.t: de um quadro ordena-
do de mecanismos é inaceitável concessão à epistemologia da esta-
bilidade. Insidiosamente, a cultura implificadora do reducionismo
inseriu-se também no caudaloso leito psicanalítico, averiguando em
que formulação conceitual melhor se hospedaria. Seguramente, a
noção de mecanismo, ainda que de índole complexa, é a que melhor
se encaixa num modelo de conhecimentos estáveis, universalizáveis
e de fácil comunicabilidade.
A rique.t:a da noção de mecanjsmo provém exatamente da sua
intricada implantação bifásica no eixo da biografia. da qual depende,
a nos o ver, o caráter nocivo ou positivo do mecanjsmo. A forma de
implantação determina a valência do papel do mecanismo, não a sua
anatomia. O mecanismo remete, simultaneamente, ao todo momen-
tâneo do psiquismo e à sua sustentação biológica. É, por ac;sim dizer,
uma categoria andrógina, presente no rol do biológico e do histórico-
vital. Novamente ne se ponto Jaspers oão exaure as possíveis conse-
qüências deste encaixe do mecanismo no quebra-cabeça biográfico.
Guilhrnne Peres Messas 61

Dissolvida em outras seções da obra, a categoria de mecanismo nem


mesmo consta do vocabulário da biografia sem, entretanto, mais uma
vez, desautorizar sua inclusão profícua nesta.
Inicialmente, o mecanismo dialoga com o todo momentâneo do
psiquismo numa relação de proporcionalidade inversa. Equacionado
matematicamente, quanto maior a presença ponderai do mecanismo
no psiquismo total, maior sua vulnerabilidade e menores sua estabili-
dade e, em última análise, saúde. Numa condição extrema, uma tota-
Jidade psíquica reduzida a uma função mecânica atinge o grau máxi-
mo de vulnerabilidade. Transitando para a linguagem psicanalítica, é
como se a mente se toma se, nessas situações, apenas seus meca-
nismos de defesa. A hegemonia dos mecanismos em relação aos
demais componentes da totalidade psíquica (com destaque para a
afetividade, com ua função estabilizadora) parece-nos a explicação
mais plausível para uma longa série de observações psicopatológicas,
que vai dos quadros dissociativos histriônicos ou esquizóides às
lentificações obsessivas e compulsões dos dependentes químicos,
passando pelas flutuações afetivas dos ciclotímicos. Depauperados
da espessura hígida natural do psiquismo, estes paciente são como
que abandonados à sorte endógena dos mecanismos que, na sua di-
nâmica inerente, acabam por constituir os quadros clínicos acessí-
veis ao psicopatologista. Numa metáfora geológica, a Iixiviação das
camadas exteriores do solo psíquico, de maior estabilidade, deixa
expostas camadas profundas instáveis, sujeitas às inconstâncias
tectônicas do subsolo. O mecanismo, portanto, permanece isento do
qualificativo patológico; o qualificativo transfere-se à sua despro-
porcionalidade hegemônica, invasora da totalidade psíquica.
A análise das conversações do mecanismo com a face históri-
co-vital exige para ua complementação o exame da sua valência
simultânea vertida para a biologia. Se os mecanismos unem-se à
historicidade biográfica, compondo-se num mosaico individualizado
que permite a emergência de unidades mecânicas autônomas para o
interior da biografia, no mesmo ato envolvem-se na trama dos sub-
terrâneos biológicos. Retomando a noção de que o biológico orçado
em termo de uma epistemologia da transformação define-se pelas
projeções de uma endogeneidade irredutível sobre a linha biográfica,
62 Psioopatologia <Transformaçio: um l!sboço Fmômtoo-l!st.rutu11l

o mecanismo deve er reinlerpretado a partir da formalização que


confere a esta endogeneidade. A compreensão desta relação entre
mecanismo e endogeneidade passa pelo reinvestimento, agora am-
plificado pelas lentes de um olhar microscópico, sobre as categorias
biológica , as fases, ataques e processos. Estas três categorias fo-
ram apresentadas, até agora, pelo seu valor de face concernente à
sua reversibilidade, ou seja, pela sua ação sobre a temporalidade.
Agora, no interstícios de sua microscopia, serão defirudas pela sua
mecâruca oculta. Deste modo, uma fase maníaca pode dinamizar-se
por um mecanismo de negação, o início de um processo esquizofrênico
pode inspirar-se por um mecanismo dissociativo, um ataque de an-
siedade por um mecanismo projetivo, e assim por diante. As irrupções
do biológico sobre a consciência dinamizam-se por um arcabouço de
mecanismo que, embora incognoscíveis diretamente, de sua
virtualidade extraconsciente comandam os movimentos expressos
na consciência pelas síndromes clínicas. Onde houver
macroscopicamente interferência biológica haverá microscopicamen-
te uma pulsação de mecanismos. Apenas o estudo individual dos
casos poderá revelar quais conexões idiossincráticas vigoram entre
uma certa manifestação clíruca e um determinado mecanismo. As
multiplicidades possíveis de associação entre mecani mos e catego-
rias biológicas são, a nosso entender, a mais sólida explicação para a
infinita variedade de apresentações patoplásticas, incoercíveis, após
dois séculos de tentativas, à restrição em categorias sólida e estavel-
mente definidas. O recrutamento diverso e individualizado. pelos in-
divíduos, de mecanismos, conduz à composição singular que cada
quadro acaba por apresentar. Neste sentido, a precisão diagnóstica
deve escapar de duas facilitações enganadoras: o diagnóstico pelo
mecanismo e o diagnóstico pela síndrome clínica. Deve aprofundar-
se, para atingir densidade, na especificidade do mosaico que cada
paciente compõe entre suas categorias biológicas e seu esqueleto de
mecanismos.
Temos já uma topografia de categorias psicopatológicas
estruturadas a partir de uma concepção da realidade psíquica volta-
da para a investigação da transformação, tal qual formulada em
Jaspers. Todas estas categorias apenas podem ser reconhecidas se
tomada pelo seu vínculo umbilical com a transformação, de onde
Guilhume Peres MISSaS 63

extraem sua substancialidade. A própria transformação, condutora e


agregadora de conceitos psicopatológicos, deve, porém, examinar
suas condições de possibilidade, indagando as origens e conforma-
ções de sua força motriz. Se as categorias até agora estudadas reve-
lam a face externa, diretamente veriticável, da transformação psí-
quica, as duas noções a serem introduzidas traduzem sua face ocul-
ta, acessível ao conhecimento por suas manifestações indiretas, com
indisfarçável obscuridade e sujeitas às inquietantes idiossincrasias
hermenêuticas dos observadores. Sua exclusão, no entanto, impedi-
ria a coerência lógica interna da compreensão biográfica e mesmo
de uma epistemologia da transformação. Os conceitos de instinto,
como origem do movimento psíquico, e de oposição e tensão
dialéticas, como sua forma, situam-se na dimensão motriz do per-
curso biográfico, constituindo seu subsolo dinâmico, a fonte de seu
movimento.
A primeira observação a ser realizada é, num âmbito mais gené-
rico, a comparação do tratamento re ervado em cada um dos eixos
epistemológicos aos conceitos diretamente ligados ao movimento. A
grade horizontal das categorias da estabilidade simplesmente exclui,
sem qualquer espécie de justificativa intelectual, conceitos ligados a
um movimento que culmine na transformação psíquica. Fortemente
sustentada por uma psicologia do comportamento avessa às
indeterminações de significados e definições, a agenda da estabilida-
de fixa a noção de instinto à sua face comportameotal, hipertrofiando
e tomando begemônico o termo impulso. A distinção fenomenológica
clássica entre instinto (movimento operando desde uma dimensão
extraconsciente e apenas em seus limites acessível à consciência e.
portanto, irredutível a uma apreensão exclusivamente consciente) e
impulso (movimento presente já na consciência e visando a um de-
terminado objeto ou ação verificáveis pelo comportamento) é dissol-
vida em caráter definitivo. O instinto é subsurnido no impulso que,
por sua vez, é cada vez menos definido em lermos de uma invasão
afetiva da consciência, direcionada a objetos, como na visão
fenomenológica. O impulso gradativamente vai se tomando uma mera
determinação comportamental, descrito em função de sua
exterioridade. Os transtornos de impulso do DSM-IV fendem-se em
diversas subcategorias de enhadas de acordo com o comportamento
64 Psioopatolozia c Transformação: um Esboço Fenômeno-Estrutural

que expressam: é a inadequação adaptativa do impulso que lhe con-


fere o estatuto de patológico, sua operacionalidade e funcionalidade
comportamentais. Compartimentam-se em uma lógica ordenada por
uma espécie de status social de cada categoria. Des e modo, uma
série de condições vinculadas à incapacidade do sujeito de interrom-
per um uso imprudente ou nocivo de ubstâncias químicas não se
inclui no grupo de transtornos de controle do impulso, constituindo o
grupo das dependências quirnicas. Excetuadas a intoxicação aguda,
abstinência e tolerância (ou seja, o componentes francamente bio-
lógicos envolvidos no uso de substâncias), dificilmente poderíamos
deixar de ver nos pacientes dependentes as seguinte características:

"(.. .)fracasso em resistir a um impulso ou tentação de


executar algum ato perigoso para si próprio ou para
terceiros. Na maioria dos transtornos (...) o indivíduo sente
uma crescente tensão ou excitação antes de cometer o ato e
então experimenta praze1; gratificação ou alívio no momento
de cometê-lo, podendo ou não haver arrependimento, auto-
recriminação ou culpa ao impulso". 15

Ora, com ares alva acima, o que oporia uma dependência de


cocaína à cleptomania ou jogo patológico de figurarem no mesmo
agregado de transtornos? Justificativas externas à psicopatologia,
como a alta prevalência e elevada morbimortalidade das dependên-
cias na sociedade deveriam ser irrelevantes para a construção de
uma psicopatologia, ficando reservadas à sua função na inspiração
de políticas públicas.
Os instintos, como instância extraconsciente, são banidos da
psicopatologia oficial, circunscrevendo-se à teoria e práxis da psica-
nálise, nas quais permanecem como importante ponto de referência
intelectual. Com este banimento é aniquilada também a função
instintual acoplada à transformação psíquica. Se os instintos são for-
ças motrizes do desenvolvimento psíquico exatamente por operarem
desde fora da consciência, o encarceramento nesta dos instintos,
transmutados em impulso, não mai permitem qualquer ação
transformadora. Os impulsos passam a agir numa lógica binária de
adequação-inadequação ou controle-descontrole que se desinteressa
Guii!Krmt Pms MtsSaS 65

pela transformação. Os impulsos movem-se pela consciência, proje-


tam-se para o meio ambiente; fazem-no, entretanto, segundo scripts
previamente determinados, trilhos rígidos que fazem fenecer sua fun-
ção criadora, desarticuladora e reprodutora. Em suma, a solução
encontrada pela epistemologia da estabilidade para o movimento foi
dúplice. De um lado, expurgo conceitual absoluto, lançando no ostra-
cismo o instinto extraconsciente; de outro, a anexação categoria! in-
tegral do instinto ao impulso, com a sua conseqüente adequação a
uma psicologia do componamento.
O instinto jasperiano floresce numa arquitetônica de hierarquias,
ancorada sobre seus pontos de origem e finalidades, determinando
três estratos instintivos: os instintos somático-sensoriais; os instintos
vitais e os instintos intelectuais. Os instintos somático-sensoriais, como
fome, sede ou instinto sexual, têm todos como característica comum
uma correlação corporal; permitem, ainda que de modo difuso, uma
localização assentada na experiência corporal. Os instintos vitais e
os intelectuais carecem de uma localização corporal determinada,
apontando todos à integralidade da existência. Vontade de poder,
impulso de auto-afirmação ou a entrega a verdades religiosas, éticas
ou estéticas figuram entre esses instintos. A exposição dos conteú-
dos de cada instinto, a despeito de sua riqueza e fonte de polêmicas,
não nos interessa aqui tanto quanto o fato de organizarem-se em
uma hierarquia dos instintos, em que

"(..) se pode realizar cada grupo anterior sem o sucessivo,


rnas não o sucessivo sem o anterior". 16

Desse modo, tomado como exemplo, o instinto sexual jamais


pode ser interpretado como fundamental para o movimento do
psiquismo global. A inserção do instinto sexual sobre o movimento
psíquico dá-se sempre a partir da estrutura hierarquizada da trama
instintual, ou seja, em condições mentais sãs, não há uma sexualida-
de instintiva pura, por assim dizer. As manifestações do instinto se-
xual trazem a marca da valência instintiva existencial do indivíduo,
em todos os seus recônditos. Novamente aqui, nas categorias
instintuais, reencontramos o círculo hermenêutica, no qual instin-
tos parciais interligam-se a uma rede de totalidade estruturada
66 Psicopatologia ~ Trmsfo~o: um Esboço Fcnômmo-Estrutu~l

dos instintos. É característico do pensamento dialético jasperiano que


um mesmo fenômeno seja reencontrado diversas vezes, em distintos
planos e intersecções entre planos. Assim, o círculo hermenêutica
dá a configuração estruturante das categorias biográficas e, simulta-
neamente, organiza as categorias instintuais.
Uma nota deve ser feita cotejando a formulação jasperiana em
relação às formulações psicanalíticas sobre a economia instintual.
Independentemente da discussão acerca até mesmo da validade dos
estratos propostos por Jaspers, é nítida a vinculação entre a hierar-
quia dos instintos e sua mobilidade. Exatamente por serem múltiplos
e organizados em camadas que os instintos podem transformar-se
ao longo de sua ação motriz sobre a biografia. A redução da plêiade
de instintos a doi (instinto de vida e instinto de morte) ou mesmo a
um (formulações da libido única) assemelha-se perigosamente às
construções reducionistas do eixo da estabilidade. Dois instintos,
irredutíveis e atuando desde a base de todos os fenômenos psíquicos
são, do ponto de vista formal, análogos a genes ou alterações fisioló-
gicas como fatores etiológicos dos transtornos. Em ambas as situa-
ções, as condições a priori e a posteriori já são conhecidas, obtu-
rando um possível espaço vital disponível para as transformações.
Tomemos como exemplo a noção de sublimação. Nas concepções
psicanalíticas mais ortodoxas, a ublimação é entendida como um
desdobramento evolutivo, na sua mais alta alçada, do instinto sexual.
Em vez de encontrar seu meio de descarga diretamente no impulso
sexual, o sujeito com melhores e mais amadurecidos recursos psíqui-
cos lança mão do mecanismo de sublimação, pelo qual os estímulos
de origem sexual assumem uma corporeidade mais abstrata, favore-
cendo o convívio do aparelho mental com as imposições externas
provenientes da cultura e consigo mesmo. A sublimação transforma
o instinto sexual, dá-Lhe outra configuração mental e funcional sem,
no entanto, distorcê-lo em sua essência; a sexualidade segue sendo a
substância da sublimação. A falha da capacidade de utilização da
sublimação, por seu turno, deve ser compreendida como uma parada
no desenvolvimento psíquico. Parada ou regressão intimamente liga-
das à psicopatologia. Em síntese, uma reta é claramente traçada,
tendo como ponto de partida o instinto sexual corporalmente alojado
Guilherme Paes Maw 67

e, como ponto de chegada, a sublimação deste instinto. Condições de


início e chegada conhecidas a priori.
A organização i nstintual jasperiana favorece uma maior liberda-
de e indeterminação em ambos os pontos da trajetória do desenvolvi-
mento. A sublimação não pode mais ser reduzida a uma modalidade do
instinto sexual. Antes, o desenvolvimento psíquico saudável promove
uma reorganização da hierarquia de instintos, com maior predomínio
de instintos vitais ou intelectuais sobre os somático-sensoriais. O
psiquismo maduro move-se majoritariamente pela pressão instintual
de estratos superiores (onde se incluiria a sublimação) sem, no en-
tanto, deixar de receber influxos somático-sensoriais. O instinto se-
xual não se sublima no seu desenvolvimento; verdadeiramente, a
participação somático-sensorial na totalidade instintual mingua e su-
bordina-se a uma orientação não-corporal, prenhe de significados
para a existência global. Em tal arquitetônica de instintos, nem ponto
de partida nem ponto de chegada são construções determinadas a
priori. O limite do conhecimento apriorístico esgota-se em zonas
globais, difusas. Sabe-se que na origem da vida prevalecem os ins-
tintos somático-sensoriais, sem a necessária primazia dos sexuais.
Esta depende mais de variantes constitucionais do que de determina-
ções de espécie. Também se sabe que a maturidade e a cultura fa-
vorecem a expressão e o eventual predomínio dos instintos vitais ou
intelectuais, sem, no entanto, que seja acessível antecipadamente o
conhecimento de quais instintos vicejarão com maior intensidade. A
patologia não mais deve referir-se a uma parada ou regressão dentro
de um trajeto progressivo familiar; refere-se, sobretudo, a variantes
na composição enlre o somático e o vital-existencial que geram
maior ou menor competência para a lide com as complexidades ine-
rentes à vida humana. Novamente, apenas o exame singular do caso
clínico faculta ao investigador o reconhecimento qualitativo dos ins-
tintos presentes em uma determinada biografia. Em resumo, da capo
a/ fine, o desenvolvimento instintual enraíza-se na insegurança
categorial, na imprecisão de seus conceitos.
A dialética, em sua dinâmica de oposições, tensões e sínteses, é
a forma do movimento psíquico, a condição de possibilidade estrutu-
ral para que os instintos façam valer sua presença sobre a biografia.
68 Psicopatologia cTrnuforma~o: um Esboço Fcnômcno-Estrutural

Cada instinto atua sobre o psiquismo sustentado por uma base dinâ-
mica de oposições:

"A vida da alma e seus conteúdos estão cindidos em


oposições". 17
O valor superior da dinâmica de oposições na compreensão
jasperiana da vida psíquica é afirmado com clareza:

"Não somente existem oposições, mas toda a existência


move-se através delas. As oposições estão Ligadas umas
às outras como origem de movimento constante. Este
movimento se chama dialético". 18
Jaspers avança ainda mais em sua ciência do movimento, pro-
pondo uma tríplice divisão dentro das próprias oposições dialéticas.
Em primeiro lugar, as oposições podem transformar-se umas nas
outras, como a tristeza em alegria ou o ódio em amor. Numa segunda
situação, a oposição pode ser resolvida pela exclusão de um dos
termos em favor do outro. Em terceiro lugar, e mais fundamental
para a compreensão do movimento, é possível uma síntese entre
oposições.

"Na síntese entram as oposições em uma tensão construtiva,


em cada momento se torna possível um todo em solução
harmônica que tem certamente que passar em seguida ao
novo movimento, mas que avança pelo caminho da
construção pela riqueza e magnitude da realização na
coesão das oposições tensas". 19
Um movimento contínuo, um avanço de ínteses temporária
a sínteses temporárias, provocando um deslizamento medular do
saber em relação ao tempo futuro, privilegiando este em suas rela-
ções de proporção com o tempo passado. As dificuldades de uma
ciência afeita à clareza conceitual (aferrada, portanto, à estabilida-
de ancorada no passado) em encontrar categorias lingüísticas para
apreender o mutável (projetado no tempo futuro) tampouco esca-
pam ao autor.
Gutlb~nn~ Peres Mcssu 69

"(. .. ) o descontentamento, inclusive a indignação ou


rebelião da razão fixadora que quer saber o que tem por
diante como terreno firme ; e. portanto, também a
inconveniência da definição terminológica onde a
realidade é dialética". 20
Com esta última citação podemos fechar o largo círculo de ca-
tegorias Ligadas à biografia, iniciado com as categorias biológicas e
que se encerra com a proposição categoria( dialética. A indefinição
tenninológica afirmada na citação é a marca identificatória de todo o
circuito que percorremos. Se no eixo da estabilidade cada categoria
figurou como uma unidade taxonômica centrada significativamente
em suas próprias fronteiras e, por isso, independente em suas rela-
ções recíprocas, tal clareza e soberania são insuficientes para a in-
vestigação da transformação. Na epistemologia da mutabilidade, as
categorias imbricam-se e arquitetam-se entre si de modo tão íntimo
e permeável que nos permite aftrmar que seu significado individual
deriva de suas inter-relações recíprocas. A bem dizer, a complexida-
de de uma realidade em contínua expansão impede a unicidade e
simplicidade das categorias que a apreendem. As categorias do eixo
da transformação ora sobrepõem-se, ora anexam-se, ora justapõem-
se umas à outras, com diversos significados de acordo com cada
especificidade de suas articulações.
A comparação termo a termo entre categorias da estabilidade e
categorias da transformação é, portanto, impossível e mesmo inde-
sejável. As primeiras, ao servirem a um propósito científico de co-
nhecimento imutável e seguro, florescem em suas unidades autôno-
mas. As últimas, instrumentalizando o anseio pelo conhecimento da
mutação, florescem unicamente em sua ação significante conjunta
e interpenetração visceral. Assim, duas características nodais ex-
cluem em definitivo a possibilidade de identificação entre as catego-
rias do dois eixos. Em primeiro lugar, a necessária relação entre
transformação e indefinição conceitual. Apenas com a anuência da
psicopatologia a uma construção categoria] de significação poli valente
e fugidia (não confundir com superficial, apressada ou irresponsá-
vel) esta aflflTiou-se como competente para olhar a transformação e
70 PsicopatoiO&U ~ Transfonnação: um Esboço Ftnõmroo-Esuutural

o desenvolvimento. A capacidade da psicopatologia em permitir a


um fenômeno sua múltipla filiação a mais de uma categoria facultou
que estes fenômenos, deslizando entre categorias, culminassem em
sínteses totalizantes que são o próprio esplrito da progressão biográ-
fica. Metaforicamente, poderíamos dizer que cada fato psicopatológico
projetado sobre a linha biográfica decompõe-se num prisma de cate-
gorias. Cada uma delas observa e revela, simultaneamente, uma di-
mensão do fato sem, entretanto, jamais esgotá-lo. O percurso bio-
gráfico funciona como a oscilação da luz no interior do caleidoscó-
pio, numa sucessão contínua de categorias, de valência temporária,
cuja síntese final, o todo biográfico, jamais pode ser resumido à soma
das categorias. O diagnóstico biográfico final e definitivo é, portanto,
irrealizável, impossível de fato, condenando- e aos limites impostos
pela situação fluida e instável das categorias que o constituem.
Todos os esforços tax.onômicos que partiram, como petição de
princípios, de uma noção de uma unidade categoria! estrita,
erradicaram ab ovo - voluntária ou involuntariamente- a experiên-
cia da transformação. A relação entre unidade autônoma, clareza
conceitual e estabilidade é estreita e vital. Todas as três subsistem
apenas pela constituição de uma sólida amarra entre si. Apenas o
anseio pela estabilidade pode justificar a clareza conceitual e a for-
mulação de unidades tax.onômicas autônomas. A clareza conceitual,
por sua veL, só é validada numa atmosfera de estabilidade que per-
mita sua associação definitiva com uma unidade autônoma. Por fim,
a unidade autônoma só se mantém nesta condição pela inexistência
de territórios ambíguos proporcionada pela clareza conceitual basea-
da na e tabilidade. Em resumo, a transformação cresce na indefinição
e polivalência; a e tabilidade, na clareza e soberania categoriais.
Em segundo lugar, estabilidade e transformação diferem em ter-
mos do objeto de estudo. A delimitação conceitual clara de armoniza-
se com as idiossincrasias do sujeito individual. Este, moldado pelas
ações de sua história pessoal ungidas pelas possibilidades biológicas,
torna-se único em demasia para as aspirações de uma sabedoria
homogênea. A clareza de conceitos harmoniza-se, por outro lado, à
unificação pela patologia, pela síndrome clínica, pelas quantificações
epidemiológicas. Como, ademais, em toda a medicina, a agenda da
Guilherme Peres Mcsw 71

estabilidade vai exigir uma grade sindrômica (os transtornos, como


vimos acima) para a validação de sua existência; para a estabilidade
o indivíduo é a síndrome. Na agenda da transformação, pelo contrá-
rio, o excesso de clareza interrompe a agudeza do olhar. A vida indi-
vidual, peculiar e cambiante, é o objeto por excelência do investiga-
dor. Irredutível em sua busca pela diferenciação individual, em opo-
sição à extrema diferenciação nas identidades coletiva , o pesquisa-
dor da transformação indaga a biografia do sujeito, subordinando as
formações sindrômicas à organização h i tórica singular do indivíduo.
Clareza e compartilhamento da coletividade diagnóstica da síndrome,
por um lado, e multiplicidade de significaçõe e encerramento indivi-
dual, do outro lado, formam um quadro de diferenças objetais irre-
conciliáveis entre um paradigma da estabilidade e um da transforma-
ção. Em uma palavra, na psicopatologia a estabilidade descobre
o coletivo, enquanto a transformação inventa o indivíduo.
Uma objeção poderia ser-nos levantada no que diz respeito à
análise comparativa entre categorias da estabilidade e da transfor-
mação. Ao introduzirmos as categorias do eixo da transformação
teríamos reunido um grupo heterogêneo de fenômenos tais como
idade (uma categoria biológica), crise (uma categoria histórico-vital)
ou instintos (um conjunto de categorias ausentes da consciência e
jamais apreensívei diretamente). Uma tal composição heterogênea
de categorias enriqueceria ficticiamente o eixo da estabilidade, con-
fundindo riqueza e complexidade com exagero e pletora desneces-
sários. Ainda na lógica dessa objeção, o eixo de e tabilidade ficaria
prejudicado ao ser examinado exclusivamente por categorias homo-
gêneas entre si, os transtornos. Homogeneidade por uma parte e
heterogeneidade por outra invalidariam as análises acima exercidas.
Esse gênero de objeção, entretanto, padeceria de falta de substân-
cia. A heterogeneidade aparente das categoria biográficas amplia-
das é, na realidade, constituinte da arquitetônica complexa da trans-
formação. Analogamente, a homogeneidade categoria! é também cons-
tituinte fundamental do edifício da estabilidade. Numa proposição ma-
temática, poderíamos sustentar que a heterogeneidade está para o eixo
das transfonnações assim como a homogeneidade está para o eixo da
estabilidade.
72 PsÍCOp.110lctu r Trmsformaçâo: um Esboço ffilômmo-Esúutural

Temos, assim, um duplo panorama. De um lado, as operações


realizadas para sustentar o edifício da estabilidade. Do outro, uma
visão abrangente das categorias vertidas para a apreensão das trans-
formações, tais quais formuladas na Psicopatologia Geral jasperiana.
Nesta, idades, fases, períodos, processos, primeiras vivências, cri-
ses, desenvolvimento da personalidade, mecanismos e instintos,
estruturando-se e ree truturando-se em totalidades, dão o aparato
conceitual com que o psicopatologista pode enxergar uma realidade
psíquica em eterna transformação. Onde cada fato psicopatológico,
como propusemos, desdobra-se prismaticamente em uma simulta-
neidade de categorias. Todo e qualquer fato é, ao mesmo tempo,
membro pertencente a mais de uma categoria, por um determinado
período de tempo que pode o cilar de poucos segundos a toda uma
vida. Neste terreno pantanoso de categorias escorregadias impõe-
se-nos uma questão: ainda é possível prosseguir nestes sendeiros
abertos por Jasper , retomar e ampliar seu pontos de vista, acres-
centar novos e lementos ao seu olhar? Em suma, coloca-se ao
psicopatologista o desafio de, herdeiro de uma tradição ainda viva e
pulsátil, retomar uma mesma perspectiva, procurando dar mais al-
guns passos na direção vislumbrada por Jasper . É o que nos inspira
nas ponderações que seguem.

Referências
1
Jaspers, K. Psicopatología General. Fondo de Cultura
Económica. Mexico, 1993.
~ Associação Psiquiátrica Americana. Critérios Diagnós ficos do
DSM-IV. Referência Rápida. Editora Artes Médicas. Porto Ale-
gre, 1995.
3
KendelJ R, Cooper J, Gourlay A, Copeland J, Sharpe L ,
Gurland B . Diagnostic criteria of american and british
psychiatrists. Are h Gen Psychiatry (25), p. 123-1 30, 197 I. A
partir deste artigo, no qual demonstrou-se a. consi tentes dife-
renças na realização do ato diagnóstico entre americanos e ingle-
ses, iniciaram-se esforços de universalização de critérios.
Guilhcrm~ Pues Mruas 73

4
Messas G. Análise do papel do polimorfismo Bal f (Ser9GI;~
do gene do receptor dopaminérgico subtipo 3 (DRD3) na de-
pendência de cocaína. Tese (doutorado). Faculdade de Meclicina
da Universidade de São Paulo. São Paulo. 2001. Na introdução
desta tese apresentamos os diferentes papéis sugeridos para o
polimorfismo deste receptor.
s Kinney D, Holzman P, Jacobsen B, Jansson L, Faber B,
Hildebrand W, KaseJI TI, ZimbaJi t M. Thought disorder in
schizophrenic and control adoptees and their relatives. A.rch
Gen Psychiatry (54), p. 475-479, 1997.
6 Wahlberg K-E, Wynne L, Oja H, Keskitalo P, Pykalainen L, Lahti
I, Moring J, Naarala M, Sorri A , Seitamaa M, Uisky K., Kolassa J,
Tienrai P. Gene-environment interaction in lhe vulnerability to
schizophrenia: findings Jrom the .flnnish adoptive family study
of schizophrenia. Am J Psychiatry (I 54), p. 355-362, 1997.
7
Knoblich G, Faustman W, Zarcone V, Curtis D, Stewart S,
Mefford I, King R. fncreased CSF HVA with craving in
long-term abstinent cocaine abusers. Biol Psychiatry (32),
p. 96-100, 1992.
8
Krueger R. The structure of common mental disorders. Arch
Gen Psychiatry, (56), p. 921-926, 1999.
9
Svrakic N, Svrakic O, Cloninger R. A general quantitative
theory of personality development: fundamentais of a self-
organizing psychobiological complex. Development and
Psychopathology, (8), p. 247-72, J996.
10
Lain-Entralgo P. La Medicina Hipocrática. Alianza Editorial.
Madrid, 1987.
11 Jaspers K. op. cit. p. 743-780.
12
Idem, p. 753-754.
13
Idem, p. 37.
14
Idem, p. 772.
74 Psioopatologia eTransformação: um Esboço Fenômeno-Estrutural

15
Associação Psiquiátrica Americana. Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais. Texto revisado. 4a edição.
Artmed. São Paulo. 2002.
1
6 Jaspers K. op. cit. p. 361.
17
Idem, p. 383.
18
Idem, p. 384.
19
Idem, ibidem.
20 Idem, ibidem.
SEGUNDA PARTE
Guilherme Pao: Mews 77

PluM:Emo SEGMENTo: ANrECEDENTES msróRicos


Três grandes obras dentro do campo dos estudos da mente soube-
ram ocupar-se do complexo tema do movimento e da transfonnação, de
modo tal a figurarem como modelo para investigações no a<;swlto. Numa
exposição meramente cronológica, a primeira delas é a obra de Karl
Jaspers, sobre a qual não mai devemos nos estender. Tal é a relevância
de sua obra que a analisamos na primeira parte como paradigma de uma
epistemologia da transformação. Em segundo lugar, merecem destaque
os trabalhos de Eugene Minkowski, que receberan1 uma síntese no seu
extenso Traité de Psychopathologie 1• Fortemente influenciado pelas
concepções ftlosóficas de Bergson, sobretudo no que conceme à noção
de consciência como tluxo, M.inkowski desenvolveu uma psicopatologia
especialmente assentada em um olhar transforrnista. Sua p icopatologia
fenômeno-estrutural demonstra, com raro brilho e agudeza intelectuais,
como a capacidade de transformação contínua é o próprio estofo estru-
tural da consciência. Em conseqüência desta concepção, Minkowski
faz surgir diante de nossos olhos a profunda identificação entre patologia
mental e interrupção do tluxo vital da consciência. A agilidade de seu
pensamento em sua habilidade em revelar-nos o simples por detrás do
complexo e a coragem de ua obra em investigar a fundo as estruturas
fenomenológicas da consciência faL.em com que seu Tratado de
Psicopatologia possa situar-se como uma das principais obras do século
XX em psicopatologia. A maior parte dos conceitos com que trabalhare-
mos ao estudar a consciência deriva diretamente do gênio de Minkowski,
acrescidos de novas intelecções a que fomos conduzidos por nossas
pesquisa . Pensamos que uma rigorosa citação de toda<; as fontes
rninkowskianas (e o cotejamento das concepções apenas inspiradas no
autor) tomaria o ensaio enfadonho e demasiadamente acadernicista.
Desta forma, a referência ao Traité permanece como contínua por
todo este ensaio, como um convite para um mergulho no pensamento
do fabuloso autor. A terceira obra cujo porte é de inestimável valor
não vem exatamente dos estudos em psicopatologia, mas da seara
da psicanálise. Trata-se da obra de Bion. Dentro da tradição e escopo
psicanalíticos, e retomando o pensamento de Freud e Melanie Klein,
Bion introduz novos elementos lingüísticos para qualificar o analista
na observação do movimento ininterrupto do psiquismo. Esta genial
78 Psicopatologia eTruuf01maçjo: um Esboço Peoômen<>-F.nrutural

obra de criação de uma nova linguagem, intricada e hermética, para


acessar um objeto também fugidio e irregular, é talvez a mais ousada
tentativa intelectual de abordar a transformação como fenômeno. As-
sim como para as obras de Jaspers e Minkowsk.i em seus campos
específicos de saber, poderíamos sustentar que a psicanálise nunca
mais foi a mesma após o pensamento de Bion. Mas não avançaremos
mais nestas idéias.
Antes da exposição das propostas para uma psicopatologia da
transformação e do movimento, um último apontamento. De modo
algum buscamos, ao situar nestes três autores os antecedentes deste
trabalho, entender as páginas que seguem como uma síntese das suas
obras. Tal empreitada derivaria facilmente para um sincretismo eclético
que, como aqueles fetos mutantes reservados às aulas de anatomia,
seriam incompatíveis com a vida O que apresentaremos são, antes,
propostas e conclusões sob nossa inteira responsabilidade intelectual,
apenas ancoradas nos anos de leitura atenta destes autores e, acima
de tudo, da experiência clínica cotidiana, do embate diário com os pa-
cientes. Assim entendida, a utilização ou mesmo a criação dos concei-
tos pode deslizar em relação à significação que possam ter recebido
nos autores. Sem deixar de, em momento algum, manter-nos radical-
mente tributários de urna tradição, pensamos que, para a observação
psicopatológica, vigora o mesmo princípio que rege a psicopatologia
nos pacientes. Nestes, o indivíduo surge como síntese e arranjo únicos
das possibilidades contidas na espécie biológica e na coletividade social.
Nada indica que urna ciência da mente possa prescindir das concep-
ções individuais. O indivíduo, retomando a tradição em que se insere,
renova-a, dando vazão à inviolável condição de transformação e ex-
pansão contínuas que singulariza o existir humano.

Referência
1
Minkowski E. Traité de Psychopatologie. PUF, Paris, 1966.
Guilherme Peres Mesw 79

SEGUNDO SEGMENTO: CATEGORIAS FUNDAMENTAIS PARA UMA


PSICOPATOLOGIA DA TRANSFORMAÇÃO

Analisamos na primeira parte como inexiste uma suposta neu-


tralidade de perspectiva dentro da psicopatologia. Ao dividirmos as
opções epistemológica da ciência psicopatológica em dois eixos -
da estabilidade e da transformação - renetimos acerca das conse-
qüências conceituais de cada opção. A eleição ou construção das
categorias com que opera uma ciência deriva da perspectiva com
que olha o cientista. A linguagem é mais um instrumento que serve a
um certo olhar do que um inocente iluminador de um mundo obscuro
que, uma vez ilwninado, revela seus segredos de modo seguro. Re-
fletiremos neste momento acerca das categorias que possam funda-
mentar uma vertente da p icopatologia otientada para a transforma-
ção. Deste modo, daremos aqui ao termo categoria a acepção de
chaves para a abertura e decifração da realidade; as categorias não
são a realidade, são as condições de possibilidade, o subsolo lingüístico
da formação e constituição da realidade pelo observador.
A primeira reflexão que se coloca ao exame das categorias da
transformação consiste no estudo do gênero das articulações entre
os fatos e as categorias que os apreendem. Posto não haver relação
simples e necessária entre fato e categorias lingüística , faz-se nus-
ter conhecer sob que condições a linguagem pode aceder aos fatos
em contínua transformação. Ainda na primeira seção, revendo a obra
de Jaspers, deparamo-nos com a inevitável noção de polivalência
categoria! dos fatos psicopatológicos. A decomposição prismática
de cada fato, projetado concomitantemente sobre diversas categorias,
assim como seu de üzamento ao longo des as categorias, foram exa-
nl.inados naquele momento. Neste espaço, exanl.inaremos como esta
poli valência se comporta em relação ao deslocamento temporal, seu
eixo fundamental. Um fato psicopatológico qualquer, independente-
mente de sua importância, insere-se imediatamente nas três dimen-
sões temporais. Pertence inicialmente a uma organização etiológica
do pensamento, possui uma causa, é algo consumado que foi produ-
zido por algo também necessariamente consumado. Neste sentido,
o fato psicopatológico situa-se numa valência histórica, enraíza-se
80 Psicopatologia ( Transformaçjo: um Esboço Fmôm(oo-Est.rutural

no passado. Essa dimensão pretérita é a de maior palatabilidade ao


pensamento majoritário na cultura, interessado na previsão e contro-
le de eventos e, por extensão, a razão de ser das psicopatologias da
estabilidade. Em segundo lugar, o fato psicopatológico reside obriga-
toriamente na dimensão presente. Ainda que conheçamos em deta-
lhes a gênese de um certo fato, sua apreensão apenas pode ser
exercida a partir de uma presentificação ocorrida no instante do con-
tato com o paciente. Portanto, o fato psicopatológico instala-se (ou
mesmo aprisiona-se) sempre num status de presente, que nos permi-
te seu conhecimento. Em terceiro lugar, o fato psicopatológico apre-
senta uma valência de futuro. Neste sentido, o fato é o embrião ou a
perspectiva parcial de algo que pertence à temporalidade do futuro.
Nesta valência, seu conhecimento é sempre uma expectativa, uma
aposta sobre o que virá, uma abertura para o reino movediço das
possibilidades. De longe, para a ciência ocidental, esta valência é a
que acan·eta as maiores dificuldades. Um valor de futuro, a parte de
um todo ainda em formação, é o saber mais escorregadio que a
poli valência categoria! dos fatos psicopatológicos exige do pesquisa-
dor atento e aberto para as vicissitudes do movimento psíquico. O
ato intelectual do psicopatologista, ao empregar suas ferramentas
categoriais, deve levar em conta a validade transitória de seus acha-
dos, dissolvidos nesta irradiação tripartite de cada fato.
Daí a necessidade e inevitabilidade da noção de indeterminação
essencial dos fatos psicopatológicos. O fato científico puro, em
suas formulações cartesianas de clareza consubstanciadas nas
psicopatologias mais recentes de índole comportarnentaJ-descritiva,
não pode ser ambição do psicopatologista; antes, deve ser anátema.
Ao trabalhar com seu pensamento, por meio da articulação das cate-
gorias de sua ciência, o psicopatologista voltado à transformação
deve manter em mente que cada categoria possui, em torno de si,
uma franja de insubordinação conceitual, uma zona de significação
instável, que pode passar de um significado a outro de modo
imprevisível, escorregadio. Ora um conceito apreende uma certa face
do fato, ora apreende outra face do mesmo fato; o fato desliza, se
oculta e se revela com certo grau de autonomia. O p icopatologista
não deve encarcerar suas categorias. Deve soltar-se em suas
Guilherme Peres Mcssas 81

ondulações, deixar-se levar por suas indeterminações característi-


cas para delas extrair a maior profundidade possível. Indeterminação
essencial e polivalência categoria! são, portanto, os qualificativos de
gênero da articulação entre fato psicopatológico e realidade lingüísti-
ca categoria!. Em definitivo, um cientista da transformação devere-
conhecer que seus conceitos se articulam frouxamente com a reali-
dade cambiante.
Uma vez dadas as limitações destas condições de indetermi-
nação, ordenam-se categorias que funcionam como as chaves bási-
cas para a apreensão da transformação. Todo o restante das análi-
ses, propostas e pesquisas no restante deste ensaio devem ter, como
substrato arqueológico, estas categorias-matrizes ou unidades
básicas de conhecimento, que descreveremos a seguir. A noção
de progressão é a primeira delas. O movimento não se dá ao olhar
do investigador como bloco único, monolítico. Ao contrário da reali-
dade estática, que pode ser reconhecida de um único golpe de olhar
- como a apreciação de uma fotografia - a realidade mutável exige
uma atitude expectante do examinador, uma esper:-t pela progressão
dos fatos ou fenômenos. A modulação e ondulação da observação
sobre a linha do tempo vão deixando um rastro de fatos que, cosidos
pela memória, permitem ao psicopatologista o reconhecimento da
progressão do psiquismo. Nesta progressão, o cientista acessa a re-
alidade móvel primeira, o vigor íntimo do psiquismo que procura es-
tudar. Para além dos fatos que observa, o psicopatologista deve in-
vestigar as características da progressão que faculta a existência
própria desses fatos. A atenção para a progressão é a chave primei-
ra para decifrar a transformação.
Aberto o pertuito categoria) da progressão, as categorias de tran-
sição entre fenômenos subjetivos e de heterogeneidade sur-
gem como conseqüência. Estas duas categorias pressupõem a pro-
gressão, enriquecidas de uma característica suplementar que as
antagoniza reciprocamente. No interior do movimento em progres-
são, a transição entre fenômenos subjetivos é a observação das va-
riantes que o mesmo fato pode apresentar. Por exemplo, manifes-
tando- e ora como sentimento de tristeza, ora como alucinação
auditiva de perseguição ou inquietação psicomotora, um mesmo
82 Psicop~tologu eTrnuform~çio: um Esboço Ftnõmeno-Estrutural

fenômeno subjetivo (chamemo-lo aqui, temporariamente e à guisa


de exemplo, de interrupção do fluxo existencial) assume diversas
formas fenomênicas sem que deixasse de ser o mesmo. Caracteriza
a noção de transição a idéia de identidade, de semelhança por detrás
do movimento. Em outras palavras, a progressão transforma o fenô-
meno para que ele se mantenha, do ponto de vista de conteúdo, se-
melhante a si mesmo na manifestação anterior. A situação oposta
descreve a noção de heterogeneidade. Nesta, o observador procura
distinguir, dentro da progressão, aquilo que é dissonante em relação
ao quadro fenomênico vigente. A beterogenidade é, portanto, a cate-
goria que pennite visualizar a diferença, o botão da transformação, a
dessemelhança entre fenômenos. Claro fica que todo tipo de compo-
sição existe entre estas duas últimas categorias. Posto ser a progres-
são infinita, a própria transição progride para zonas de heterogeneidade,
onde deixa de transitar para a identidade, assim como a
heterogeneidade, completando um segmento de transformação, pode
confluir para uma zona de transição, onde reencontra o já experi-
mentado. A própria condição ontológica da transformação mental
faz com que as categorias tenham articulações ininterruptas de
alternância entre si.
Relações de irnbricamento e alternância que, por sua vez, reve-
lam a categoria-matriz seguinte, a noção de estrutura hierarquizada.
A noção de estrutura hierarquizada é praticamente auto-explicativa.
Uma arquitetônica que se organiza em distintos níveis, compondo
uma totalidade que, por sua vez, dispõe-se em camadas interligadas,
talvez seja a melhor definição para a estrutura hierarquizada. O fun-
damental para a relevância da categoria neste terreno é sua ubiqili-
dade. A transformação apenas viabiliza-se ao assumir a forma de
uma estrutura hierarquizada. Um conhecimento que aloja categorias
lado a lado, numa topografia plana, não permite a pesquisa do mo-
vimento, da transformação, como vimos na investigação do eixo da
estabilidade. Por todos os territórios por onde nossas propostas se
projetam figura o arcabouço de uma estrutura hierarquizada. A aná-
lise que acabamos de realizar, concernente às categorias de progres-
são, transição e heterogeneidade, é viva ilustração desta afirmação.
Todas se articulam numa estrutura que se submete a uma hierarquia.
Guilberm~ Pua Mruas 83

Hierarquia esta que, de seu lado, move-se conduzindo a novas estru-


turas sem que jamais este fluxo possa ser seccionado. Todo fato que
existe num objeto científico móvel é, definitivamente, parte de uma
estrutura organizada em estratos hierárquicos.
Esta organização hierarquizada determina, por sua vez, a neces-
sidade do reconhecimento, por parte do psicopatologista, da mudan-
ça qualitativa entre níveis hierárquicos. Se na transição entre
fenômenos existe uma mudança apenas lateral, uma reacomodação
dos fenômenos no interior do mesmo nível hierárquico, na mudança
qualitativa, haverá, entre o fenômeno anterior e o posterior, uma di-
ferença de qualidade, uma ascensão de nível de complexidade, fa-
zendo com que, em relação à totalidade do psiquismo, este fenômeno
assuma um novo significado.
Por fim, como última categoria-matriz, agregamos às demais a
noção de penetrabilidade da realidade psíquica. Uma investiga-
ção acurada e paciente da realidade é condicionada pela capacidade
do investigador de penetrar no psiquismo do investigado. Diver a-
mente dos objetos inanimados redutíveis ao equacionamento mate-
mático, e que podem ser compreendidos por seu valor de face, a
mente humana é permeável ao contato de outra mente. Rigorosa-
mente dizendo, talvez fosse mais preciso dizer realidade interpsíquica,
quando procuramos descrever o psiquismo de alguém que investiga-
mos corno psicopatologista. Qualquer construção científica que bus-
que a mobilidade da mente apena se sustenta pela penetrabilidade
de seus conceitos, pela capacidade destes atingirem o universo ínti-
mo de um psiquismo aberto à comunicabilidade essencial humana. A
exclusão da penetrabilidade facilita a redução da psicopatologia aos
comportamentos visíveis, viabiliza uma psicopatologia da estabilida-
de, mas não serve em nada aos nossos propósitos transformistas.
Temos assim o conjunto de categorias que escudariam a cons-
tituição de uma psicopatologia da transformação, sempre extraindo
sua vitalidade de uma ação sincrônica e simultânea. Como condi-
ções de possibilidade, ela surgem como virtualidades, como pano
de fundo e sustentação para as análises psicopatológicas propria-
mente ditas que faremos a seguir. Entretanto, sem sua dissecção e
exposição - condicionadas pela essencial falta de clareza e
84 Psioopatologia cTraruformaçio: um Esboço Fenômeno-Estrutural

ilirnitações nas definições - as pesquisas subseqüentes arriscar-se-


iam a flutuar num vácuo de desenraizamento conceitual. Como fa-
róis dentro da escuridão da noite científica, a elas poderemos e deve-
remos recorrer sempre que nos faltar o norte intelectual e as dificul-
dades no trajeto parecerem insuperáveis. Passemos à psicopatologia
propriamente dita.

ThRCEffiO SEGMENTO: ESTIJDOS SOBRE A CONSC~CIA


As investigações dos estados da consciência, suas característi-
cas e sua patologia sempre foram uma preocupação primeira da
fenomenologia. Buscar delimitar as fronteiras da psicopatologia por
meio da dissecção das diferenças qualitativas experimentadas pela
consciência patológica em relação à consciência sã é talvez o maior
legado da tradição fenomenológica. O conhecimento da consciência
tendo como método sua investigação direta e empática, precedendo
a formulação de qualquer modelo teórico, segue sendo objetivo deste
fértil campo do saber humanístico. O aprofundamento destes estu-
dos mostra a importância de distinguir entre os aspectos da forma e
os do conteúdo da consciência. Os seus conteúdos são mais direta-
mente experimentados pelo paciente ou pela observação do
psicopatologista. São, por assim dizer, mais proximamente identifica-
dos com e pelo senso comum e, na maioria das vezes, o motivo que
leva o paciente a procurar auxilio dentro da tradição fenomenológica
mais estrita não existe, rigorosamente falando, transtornos de con-
teúdo. Os conteúdos da experiência humana não seriam, por si só,
submetidos à noção de normal ou patológico. São conteúdos tout
court, e pertencem à história individual ou mesmo à história humana.
Deverão ser examinados como pertinentes ao tema do movimento
psíquico. Conteúdos e movimento alinham-se num mesmo eixo,
assim como forma e consciência estarão alinhados sobre outro eixo.
A questão fulcral da psicopatologia remete, portanto, à noção de
forma da consciência. Nela residem as atenções do investigador no
que tange à dissecção das condições patológicas da mente. A cons-
ciência possui uma arquitetônica própria que dá as condições for-
mais para que os seus conteúdos se atualizem e presentifiquem. Ain-
da além, dentro da peculiaridade mental de mutação contínua, é o
Guilhmne Peres Mesw 85

arcabouço formal da consciência que permitirá que novos conteúdos


eclodam na consciência e que outros se dissipem no passado. Em
suma, é a forma da con ciência que permitirá sua transformação ou,
ao contrário, alquebrada em sua coluna vertebral, fará cessar este
fluxo natural, constituindo as condições para a erupção da
psicopatologia. As relações entre forma e conteúdos da consciência
prometem infirutas possibilidades de combinações, na vigência da
saúde mental. Os diferentes conteúdos vivenciados pela consciência
reconfiguram freqüentemente a arquitetônica desta, dentro do limi-
tes da normalidade. As im, a reação a um fato muito feliz pode am-
pliar a participação dos aspectos corporais da consciência, produzin-
do lágrimas ou aceleração da freqüência cardíaca. Alguém numa
situação de introversão e circunspecção pode ver ampliada a partici-
pação do pensamento na consciência fazendo com que, por exem-
plo, a mesma reação ao fato feliz assuma uma característica mais
ideoafetiva, sendo experimentada como um bem-estar afetivo e urna
lufada de memórias prazerosas. A consciência em estado saudável
recebe pressões formalizantes sobretudo das peculiaridades consti-
tucionais do indivíduo. Assim, ainda dentro do pequeno exemplo aci-
ma utilizado, constituições mais voltadas ao exterior tenderiam a ex-
pressar a reação a algo bom de modo majoritariamente psicocorporaJ,
ao passo que constituições mais introvertidas teriam preferência na-
tural pela expressão ideoafetiva. Esta característica da consciência
de, segundo as possibilidades que lhe são oferecidas pelas constitui-
ções ou, num nível mais genérico (no qual a fisiologia corporal pos a
ser incluída), de acordo com o patrimônio genético de cada indivíduo,
poder dar maior ou menor relevo aos seus componentes, chama-se
agenciamento constitucional. Esta noção é fundamental nas
ciências da mente contemporâneas para solucionar aparentes com-
plexidades que, se examinadas com as lentes agudas da reflexão,
revelam-se simples. As últimas décadas (em especial a década de
1990: a década do cérebro) impactaram o mundo na busca tecnológica
das causas das doenças mentais. centradas sobre a idéia de causas
cerebrais. A súmula dos resultados revela achados incon istentes e
irregulares que, em vez de serem entendidos como decorrentes da
falta de maior aparato tecnológico, melhor descreveriam a realidade
se fossem interpretados a partir de diferentes noções. O paradigma
86 i'ficop2tologia eTru~sformaç;io: um Esboço Fmõmeno-Estrutural

da transformação, ao inverter a lógica do pensamento rude e simplista


contemporâneo, aponta como primárias as alterações da mente e
apenas secundárias as características constitucionais nos diversos
matizes que atinge. A ponte lógica que uniria as alterações primárias
às secundárias seria exatamente o agenciamento constitucional. A
arquitetônica da mente, patológica ou saudável, opera como uma fôrma
que recruta elementos para seu preenchimento, seja na cultura, seja
nos substratos bioconstitucionais.
Deste modo, o estudo da arquitetônica da consciência faz-se
necessário seja para o estabelecimento de uma psicopatologia, seja
para um esclarecimento melhor das dificuldades conceituais encon-
tradas pela psiquiatria, em sua agenda biológica. Em suma, conhecer
a consciência, em suas formas e relevos peculiares, é a primeira e
inadiável tarefa dentro de uma reflexão psicopatológica.

A estrutu,ra hierarquizada da consc-iência


A forma geral da consciência é o de uma estrutura hierarquizada,
uma articulação orgânica entre diversos niveis ou estratos, consti-
tuindo uma totalidade. Foge ao nosso intuito um minucioso arrola-
mento, invariavelmente de caráter especulativo, acerca de todos os
possíveis niveis hierárquicos da forma consciente, ou de todos os
componentes que possam preencher estes nfveis. Este gênero de
discussão, guardado seu valor erudito, pouco acrescentaria em vita-
Lidade e profundidade ao nosso ensaio e às suas fmalidades de ape-
nas esboçar um paradigma para a transformação. Sem, portanto,
nenhuma ambição de proposta definitiva e numa franca atitude de
abertura para novas composições e rearranjos conceituais, pensaría-
mos que um modelo que hierarquizasse a estrutura da consciência
em três níveis permitiria fecundas observações psicopatológicas. As
passagens de nível dão-se no sentido, do ponto de vista da vivência
consciente, do menos ao mais diferenciado. Assim, o primeiro nivel
apenas em eu limites pode ser experimentado pela própria consciên-
cia, o segundo já é francamente experimentado, mas com caracte-
risticas inerentes de imprecisão e o terceiro conhece o maior grau de
precisão vivencial.
Guilbmne Pm:s Mc::s:sa:s 87

Num primeiro nível, a estrutura propriamente dita, as condições


que, além e aquém do que pode ser observado no ou vivido junto ao
paciente, dão o arcabouço mais íntimo para sustentação e viabilização
da experiência consciente. Neste nível, cuja cognição exige do
psicopatologista uma certa paciência epistemológica, encontramos
uma estrutura tripartite, composta pelos elementos espaço, tem-
po e contato vital com a realidade. A existência de uma consciên-
cia na experiência humana exige como pressuposto estes três ele-
mentos estruturais, sem os quais não se pode afirmar a ocorrência
do psiquismo saudável tal qual vivenciado pelo adulto. A presença
destes elementos estruturantes é de tal modo básica e subjacente às
vivências conscientes que, de hábito, sua existência apenas nos é
acessível nas condições de patologia. Quando emerge a patologia,
com sua ação de fragmentação ou imobilização, a consciência
distorce-se e revolve-se a tal ponto que conseguimos observar suas
camadas geológicas profundas e invisíveis em condições nonnais.
Portanto, o reconhecimento da estrutura trinária da mente tem como
peça fundamental a investigação dos fatos psicopatológicos.
Nas palavras de Minkowski, a vida mental se determinaria pela

"( ..)faculdade de afirmar nosso eu ( . .) em relação ao


espaço e ao tempo". 1
Uma espacialidade básica, que permitira a deterrninação de fron-
teiras de um eu, núcleo a partir do qual este, por assim dizer, troca
informações com as diversas modalidades do não-eu, ou do ambiente.
Ambiente composto seja pelas influências da cultura, num extremo,
até a presença vivenciada do corpo biológico, no outro extremo. A
fronteira do eu espacializado deterrnim1, assim, a vivência de intimida-
de com a realidade, daquilo que nos pertence como identidade e
patrimônio básico e daquilo que nos atinge como exterioridade, como
algo distinto de nós mesmos. Uma temporalidade estrutural, que deter-
mina a abertura simultânea da consciência e de seus conteúdos às três
dimensões, de passado, presente e futuro. A combinação geométrica
destas três dimensões faculta à consciência a experiência de fluxo, de
uma corrente que a atravessa, partindo do passado, atingindo sua
coloração máxima no presente e dirigindo-se inexoravelmente a
88 Psicopatologú r Transformação: um Esboço Fmõmrno-l!stnllural

um horizonte sempre inatingível, o futuro. Um contato vital com a


reaüdade que permita que esta seja sentida pela consciência como
algo familiar, algo que faça com que exista uma ressonância harmô-
nica entre mundo e consciência. A vivência consciente, como aber-
tura ao mundo real, sustenta-se, em instância pré-reflexiva, em um
ambiente de comunicabiJidade com este mundo, sem a qual toda sua
experiência pareceria estranha, isolada, inacessível. A consciência
não experimenta a realidade de modo neutro, indiferente. Lá onde
houver consciência já haverá familiaridade, uma certa tepidez aco-
lhedora de algo que nos é próprio, previamente destinado a nosso
ser. Este a priori estrutural da consciência é sua capacidade intrín-
seca de vitalização do contato com o real. Tempo, espaço e contato
vital ordenam--;e numa estrutura tripartite, ou seja, não se situam em
e tâncias isoladas, alojados em uma relação de vizinhança. Em todo
momento são as várias faces de uma mesma estrutura, os diferentes
vértices que um mesmo núcleo oferece àquele que Jhe lança olhares
a partir de múltiplas perspectivas, ousando investigar suas complexi-
dades. Essa estrutura tripartite se arquiteta na primeira totalidade da
consciência: o eu. Este é a primeira síntese, uma totalidade nuclear a
partir da qual todas as análises que seguirão farão entido e em redor
da qual gravitarão.
O nível e trutural propriamente dito da con ciência po sibilita e
sustenta a viabilidade do segundo nível, constituído pela afetividade.
A noção de afetividade funciona como uma ampla categoria no inte-
rior da qual transitam os múltiplos componentes deste estrato. A imen-
a variedade semântica a que vem sendo submetido o conceito na
história da psicopatologia faz com que, apenas com o intuito de orde-
nar sua utiliL.ação, valha a pena uma exposição da significação com
que será por nós empregado. A sua acepção a mais etimológica é a
que melhor nos serve. Afetividade é aquilo que afeta, aquilo que
move, que fere a consciência, que promove uma alteração de seu
estado. A afetividade confere à consciência a experiência da quali-
dade. Anteriormente a uma experiência de quantidade, a afetividade
cria relevos na consciência, fazendo com que certas experiências
solicitem aproximação e recorrência (as vivências prazerosas), en-
quanto outras exijam afastamento e repetência (as desprazerosas).
Guilht/llle Peres Mcsw 89

A afetividade é aquilo que faz com que se mantenha um canal de


comunicação entre consciência e realidade, sua dança de significa-
dos pré-reflexivos, movidos pelo timbre e tonalidade de cada fato
consciente. A afetividade multiplicar-se-á em diversas manifesta-
ções, sendo uma delas, no entanto, mais competente em sustentar a
ocorrência das demais. Trata-se da afetividade-contato.
A afetividade-contato é, por sua vez, também uma categoria
complexa, composta por diversos fenômenos diferenciados que guar-
dam, entretanto, uma peculiaridade di tintiva que os faz agrupar-se à
categoria. Tudo aquilo que, de ordem afetiva, produz-se na inter-
relação humana dual poderá filiar-se à noção de afetividade-contato.
Esta é a pos ibilidade da vivência inter-humana por excelência, a
capacidade natural de abalar-se por aquilo que emana do encontro
humano em sua modalidade mais próxima e íntima: a relação a dois.
Com isto não queremos sustentar que a relação dual seja por si só
sinonímia de relacionamento humano ou que seja a única a merecer
o respeito do investigador da mente. No limite, todas as forma
relacionais humanas têm eu valor e suas especificidades. Entretan-
to, parece-nos lícito reconhecer, a partir da experiência cünica, a
afetividade-contato e a relação dual como centros de criação e sus-
tentação do nível afetivo, nas suas variadas forma de manifestação.
A afetividade-contato permite a geração de estados de con ciência
elaborados e sutis, constituídos a partir do caráter ínúmo, exclusivo e
de intensa atenção redproca, próprio das interpessoalidades duais.
Vivências de placidez, de acolhimento, de compreensão, ou mesmo
de uma tolerante discordância, experimentadas na vigência e como
derivação direta do contato interpessoal dual, são conseqüências
básicas da afetividade-comato. Sabemos que alguém possui uma
afetividade-contato hfgida quando, em nosso encontro interpessoal,
experimentamos e fazemos experimentar estados sentimentais ou
emocionais. Quando, enfim, efetivamente existe um contato, uma
movimentação entre dois psiquismos. É importante ressaltar o fato
de que, em seu sentido genuíno, a afetividade-contato atualiza-se na
vigência do contato interpessoal. A experiência de um bem-estar na
convivência com alguém, situado no passado, não se submete, por
definição, à noção de afetividade-contato. Como fato mnêmico, tal
90 l'lirop.1tologia t Traruformação: um Esboço FmômtlliH!strottml

experiência aproxima-se mais de um sentimento positivo autônomo,


independente do contato, do que sentimento extraído da afetividade-
contato. A afetividade-contato funciona como raiz genética de di-
versos sentimentos positivos. Entretanto, sua presença deverá ser
sempre atual, real, ação inter-humana encravada na dimensão ex-
clusiva do presente. A ação afetiva recíproca inter-humana dual,
imersa num contínuo presente vivo que se desdobra em si mesmo
enquanto vigorar a dualidade, é componente imprescindível da
afetividade-contato.
Outro aspecto relevante da afetividade-contato concerne à sua
função estruturante da consciência. A sua interpessoalidade terna e
plácida pavimenta as condições para um alongamento têmpora-es-
pacial da experiência consciente. O contato dual estende o tempo
vivenciado, permitindo que alternâncias de sentimentos e pensamen-
tos possam ser estabelecidas, levando, no final das contas, a que o
indivíduo possa enfrentar a face complexa e ambígua da própria
realidade. Na dimensão espacial, a expansão facultada pelo contato
conduz à possibilidade de diferenciação da consciência, do desenvol-
vimento integral e maturação de experiências que, na ausência de
um espaço expandido, restariam na condição de fragmentos de
vivências, parcializadas e inconstantes, presas fáceis da patologia
psíquica.
Esta tripla face da ação da afetividade-contato - a tonalidade
positiva de seus estados psíquicos, sua necessária atualidade inter-
humana e seu valor estruturante da consciência - traz importantes
conseqüências. Posto considerarmos a afetividade-contato como
ancoradouro das múltiplas experiências qualitativas da consciência,
imediatamente posicionaremos a dualidade interpessoal íntima neste
mesmo ponto. A relação íntima, naquilo em que permite um gênero
muito singular de experiência afetiva, qualitativamente diferente de
outras vivências da consciência, coloca-se como núcleo duro da ca-
pacidade desta consciência em revigorar-se, transformar-se, abrir-
se a movimentos de expansão. Os fatos mentais conscientes tradi-
cionalmente envolvidos na produção da transformação psíquica en-
contram seu vigor operacional sobretudo na sua ancoragem na
afetividade-contato. Tomemos como exemplo o entusiasmo. É quase
lugar-comum a afmnação de que o entusiasmo é uma das principais
Guilhume Peres Mcssas 91

correntes que impelem ao futuro , à expansão. Experimentando o


mundo como abertura de enormes possibilidades, o entusiasmado
capacita-se para uma projeção no desconhecido, no ainda não gera-
do, no obscuro. Escorado por uma atmosfera de bem-estar e força, o
entusiasmado propulsiona-se no nada extraindo deste, a partir de uma
ação continuada temporal, as novas composições do futuro. A expe-
riência do entusiasmo, auto-suficiente e vertical, não se constitui,
entretanto, num todo homogêneo. Uma dissecção cuidadosa do en-
tusiasmo revela a silenciosa, porém radical, presença solidificadora
da afetividade-contato. O entusiasmo que prescinde da afetividade-
contato deriva rapidamente para a euforia, vivência que, sobretudo
em estados duradouros, habita perigosamente nas fronteiras das con-
dições mentais patológicas. A usual observação psiquiátrica da difi-
culdade dos pacientes maníacos (ou mesmo hipomaníacos) em man-
ter uma vinculação relaciona! estável pode, assim, receber uma ex-
plicação suplementar. Se, de um lado, o quadro de agitação inviabiliza
a estabilidade, por outro, observado com maior atenção, a ausência
do peso estabilizador da afetividade-contato fragmenta a vivência
total da consciência entusiasmada em instantes euforizantes patoló-
gicos. Diversamente, o entusiasmo assentado no contato interpessoal
dual mantém hígida sua dimensão mais humana, diretamente vertida
para a transformação e expansão. As relações entre afetividade-
contato e transformação podem, assim, ser vislumbradas. No nivel
qualitativo consciente- a esfera da afetividade- a afetividade-con-
tato tem função axial para o movimento orgânico da mente. Os di-
versos sentimentos, humores e emoções, que se compõem e decom-
põem-se sucessivamente, conseguem efetivamente progredir
vetorialmente se se articularem com a afetividade-contato, como se
esta viga interpessoal de sustentação fosse a exigência essencial de
um quantum de humanidade no movimento. A fratura ou asfixia,
por mil motivos, da base dual, lança as qualidades sentimentais e
emocionais da consciência no vácuo, numa ausência caótica de órbi-
ta que, sem o norteamento da afetividade-contato, recebem o timbre
da doença ou do sofrimento mental. Em última análise, o psiquismo
recebe seu combustível essencial (ao menos no interior da consciên-
cia) da afetividade-contato e é, portanto, nesta que deve buscar seus
insumos para o contínuo reabastecimento.
92 PsiropatologiJ eTransfomução: um Esboço Fenõmeno-F.strulural

Uma segunda característica decorrente desta posição da


afetividade-contato remete à questão da atividade da consciência. O
pensamento da estabilidade - voluntariamente ou não - credita à
consciência uma certa isenção em relação à atividade. Nas concep-
ções mais alinhadas ao comportamentalismo dos manuais de diag-
nóstico não há uma efetiva colocação de um problema como o da
atividade da consciência. O comportamento e sua funcionalidade são
os objetos de pesquisa e temas como a ativação do comportamento
não são colocados em discussão. Nas concepções estabilizantes li-
gadas à psicanálise a atividade do psiquismo decorre da economia
pulsional, ou seja, dos dinamismos que não se encontram na própria
consciência. A questão da atividade da consciência é, assim,
escamoteada em favor da abrangência da atividade da mente como
um todo. Em momento algum as considerações a propósito da
instintualidade do psíquico fraquejam em importância; entretanto, a
não-colocação declarada do tema da atividade da consciência con-
duz, por omissão, a uma paradoxal exérese da consciência do quadro
de totalidade psíquica, no que conceme às suas atividades.
Um paradigma voltado à transformação não deve satisfazer-se
com uma consciência passiva, exclusivamente impelida desde seu
exterior. O exame da consciência encontra um ponto de constante
ativação na presença da afetividade-contato. O contato dual, sem-
pre instantâneo em sua atualização, mantém a consciência em esta-
do de atividade. A noção de que os impulsos seriam urna possível
fonte de atividade da consciência tampouco nos parece suficiente.
Estes mais seriam a expressão, o desdobramento na consciência de
força instintuais - contidas no patrimônio da espécie - exógenas à
própria textura da consciência. As condições dos chamados trans-
tornos de impulso revelam com maior clareza a veracidade desta
posição. Uma consciência desvitalizada de sua afetividade-contato
fica à mercê da pressão instintual, é por ela arrastada. A consciência
é instintual apenas nas fissuras patológicas. Na vitalidade da saúde
da afetividade-contato, os impulsos transmutam-se, junto aos senti-
mentos e emoções, em agentes da contínua transformação psíquica.
Assim sendo, a afetividade-contato, alojada como fonte da
a ti vidade da consciência, reorienta a interpretação de saúde e,
Guilhum( Pms M(SW 93

imediatamente, também de terapêutica. Nas inclinações do paradigma


da estabilidade, levado ao extremo, o indivíduo encontra seu ponto
saudável quando a consciência é capaL de atuar passivamente, afer-
rada à normatização estatística e conduzida pelas forças
extraconscientes que lbe recheiam o subsolo. Num paradigma da
transformação arquitetado em hierarquias, há saúde quando a cons-
ciência se torna competente em ininterruptamente ativar-se na
interpessoatidade dual. O estado saudável depende, portanto, por
causa das feições instantâneas da afetividade-contato, de um ativo
exercício da consciência de, reiteradamente, buscar fortalecer sual>
interdigitações duais. Em suma, o estado de saúde é fruto do exercí-
cio ativo, de um projeto voluntário de ampliação da permeabilidade
interpessoal, e não um mero ponto médio de adaptação
comportamental ou a realização completa de um desenvolvimento
libidinal previsto a priori. Na ativação da consciência consiste a
terapêutica, e esta se dá pelo trabalho de marchetaria de construção
da afetividade-contato. Mas não nos alonguemos, já que não deve-
mo examinar o problema da terapêutica.
Sintetizemos, pois, aquilo que encontramos ao analisar a
afetividade-contato. Afetividade geradora de sentimento tênues
e prazerosos, dócil no seu alongamento têmporo-espacial da cons-
ciência, é sempre atualizada em um contatO interpessoal dual.
Em virtude deste caráter de instantaneidade, de imersão no pre-
sente, exige uma atividade do indivíduo para sua produção. Pro-
dução esta que sempre remete ao bipessoal. Sua posição axial na
articulação estrutural do segundo nível de experiência consciente
faz com que tenha função primária na modulação ou geração das
qualidades que examinaremos a seguir. Em conseqüência disto,
não haverá análise psicopatológica aprofundada que possa fazer
vistas grossas às implicações contidas no reconhecimento da
afetividade-contato. Também como decorrência, não haverá te-
rapêutica eficaz sem levar em consideração seu fortalecimento e
manutenção. No âmbito global da consciência, todo componente
apenas logra engrenar-se nas rodas da transformação se ampa-
rado na solidez estabilizadora e humaniLadora fornecida pela
afetividade-contato.
94 Psicopatologia eTransformação: um Esboço Fen6111tll0-E.strutunl

A afetividade-contato, como ponto de intersecção entre dois


psiquismos, terá fundamental papel no que concerne ao diagnóstico
em psicopatologia. Estabelecendo íntima e interativa interface entre
a consciência do paciente e a do investigador, a afetividade-contato
consiste no objeto de maior valor heurístico a ser apreendido cientifi-
camente, aquela certeza primeira inviolável a partir da qual pode-se
construir hipóteses mais amplas. O tema da produção metodológica
do diagnóstico em psiquiatria é por demais extenso para que caiba no
espaço desta reflexão (uma proposta metodológica para a apreen-
são da transformação será apresentada mais adiante). A hegemonia
de paradigmas da estabilidade do pensamento científico do pós-guerra
busca apoiar suas conclusões diagnósticas desde o vértice da obser-
vação dos comportamentos ou, subordinadamente, dos auto-relatos
da vivências dos pacientes, recolhidas por check-/ists. Ambos pas-
sam por máximas expressões da cognoscibilidade de um psíquico
que, em si mesmo, jamais seria acessível. A objetividade radical do
comportamento ou a subjetividade apenas empática e indiretamente
apreensível dos relatos dos pacientes seriam pólos inevitáveis de uma
equação que não conheceria meio-termo. O pensan1ento da trans-
formação, entretanto, constata que uma cognoscibilidade direta do
psiquismo alheio se dá na vigência da afetividade-contato. Nesta, a
consciência do examinador associa-se à do examinado, facultando a
chan1ada ressonância afetiva, uma experiência qualitativa dual de
penetração psíquica radical, sincrônica e harmônica. Um importante
diferencial há que ser estabelecido neste momento. As vivências
emocionais, mnêmicas e sentimentais surgidas na consciência do
examinador secundariamente ao contato com o paciente não se cons-
tituem necessariamente numa experiência proveniente da afetividade-
contato. Podem, é bem verdade, derivar da afetividade-contato e,
com isto, fornecer valiosas indicações relativas à vida mental do pa-
ciente; entretanto, também podem surgir em completa desvinculação
da afetividade-contato, funcionando então como conteúdos mentais
exclusivos do psicopatologista, em nada informativos sobre o psiquismo
do paciente. Assim, à guisa de exemplo, um devaneio do
psicopatologista no contato com o paciente pode ter significados dis-
tintos. Ora representa, via afetividade-contato, a ressonância no
Guilhtnnt Pcrc:s Mc:ss.u 95

examinador de uma interioridade onírica e fantasiosa do paciente.


Ora, por outro lado, pode apenas resultar de uma distração por
parte do psicopatologista, de um desinteresse por um psiquismo
inacessível.
Afetividade-contato e ressonância tampouco são sinônimos. Na
realidade, a ressonância, o viver a dois um fenômeno harmônico,
pressupõe a afetividade-contato, ou seja, uma experiência sólida e
estável na dualidade interpessoal. Assim sendo, na ordenação dos
freqüentes enigmas que o psicopatologista tem de enfrentar na sua
atividade cotidiana, nem comportamento nem relato subjetivos de-
vem surgir como primários. O desenvolvimento de sua capacidade
de reconhecer as condições da afetividade-contato do paciente, por
meio de seu mergulho na interpessoalidade, é o objetivo supremo do
psicopatologista di posto a acompanhar os percursos da transforma-
ção psíquica. Com esta habilidade hipertrofiada, o psicopatologista
reduz as chances de falsos reconhecimentos diagnósticos, de tomar
canhestramente transições entre fenômenos subjetivos meramente
superficiais por alterações profundas na hierarquia consciente do
paciente. No limite, dela depende a sua competência de efetivamen-
te realizar psicopatologia.
A compreensão do segundo nível da hierarquia consciente - o
nível das qualidades afetivas- como também submetido à noção de
estrutura hierarquizada exigiu que examinássemos com mais vagar a
categoria de afetividade-contato. Como esta foi situada no ponto de
sustentação, o eixo humano por excelência, da arquitetônica afetiva,
sua atenta observação permite que adentremos agora com maior
clareza pelos apontamentos que seguem. A consciência enraíza-se,
como sugerimos, numa rede umbilical de interdigitações duais, que
traz a chancela da singularidade humana. Outras experiências, en-
tretanto, de extração biológica, endógena ou ainda humanística, vêm
adensar a espessura do segundo nível. A emoção-choque, para
retomar, recriando, a feliz expres ão minkowskiana, também se aloja
nos estratos qualitativos da consciência, guardando considerável di-
ferença essencial em relação aos estados da afetividade-contato. A
emoção invade a consciência num arrebatamento súbito, numa onda
paroxística acompanhada de comemorativos biológicos. Assim, a
96 PsioopatologiJ t Trmsformação: um Esboço Fcncimmo-Estnnural

experiência do pânlco (patologia extrema da emoção) invade a cons-


ciência a tal ponto que não permite um olhar relativizante apazigua-
dor, um antídoto interno capaz de dominar o medo e os tremores, a
sudorese, a palpitação e a dispnéia. Uma onda indomável sobre a
consciência, ora mais psíquica, ora mais corporal, nas diversas
titulações dos dois elementos, talvez eja a melhor caracterização da
emoção. Uma outra singularidade da emoção refere-se ao seu
posicionamento diante da interpessoalidade dual. A emoção pode
originar-se de um sentimento criado na interpessoalidade. Entretan-
to, contrariamente à afetividade-contato, a emoção, por seu feitio
paroxístico e ilimitado, provoca um contrachoque, uma propulsão de
afastamento em relação ao psiquismo oposto. Por exemplo, uma gran-
de emoção no reencontro com alguém querido há tempos de nós
afastado pode ser entendido como um impetuoso movimento de apro-
ximação. Entretanto, do ponto de vista da consciência, o que ocorre,
no momento da emoção, é um isolamento apaixonado do indivíduo
em si mesmo, mesmerizado pela força sorvedoura de suas memórias
e reminiscências. Efetivamente, apenas num segu ndo momento,
abrandada a tempestade da emoção, o reencontro poderá reproduzir
a afetividade-contato de outrora, sua fertilidade e dócil encantamen-
to. Em síntese, a emoção-choque isola a consciência, submerge-a
em seus próprios conteúdos psicocorporais, tende a tomar impermeá-
vel a membrana viva e porosa do contato da afetividade.
O exame da situação da emoção em referência à interpes-
soalidade dual não esgota, entretanto, a investigação das junturas
entre esta experiência paroxística e a interpessoalidade. Se a emo-
ção obscurece a luminosidade do contato dual, ela instiga quase o
oposto nas interpessoaJidades múltiplas. O carátercaleidoscópico das
relações múltiplas - em situação de presentificação - fornece es-
treito espaço para a utilização da afetividade-contato, ampliando deste
modo as funções da emoção-choque. A emoção é, por assim dizer, a
unidade lingüística básica das relações coletivas, das emanações
qualitativas dos grupos humanos. Ela cimenta com maior facilidade
ligações grupais do que duais e este fato não pode deixar de ser
considerado na abordagem de indivíduos constitucionalmente mais
sujeitos às emoções, assim como no desenho de seus projetos
Guilhmn~ Puts M~s 97

terapêuticos, nos quais as atividades em grupo podem assumir im-


portante papel, sobretudo nos momentos iniciais do tratamento. Nes-
tes indivíduos, os encontros grupais são menos uma oportunidade de
fomentar a socialização do que a reprodução, em situação protegida,
das necessidades minimas (uma espécie de hábitat natural) de tais
pacientes para conseguir acessar e comprometer-se com um trata-
mento continuado. Como se a linguagem da emoção, exacerbada
nestes casos, fosse a única via de acesso disponível para a ativação
da afetividade-contato.
Outra característica da emoção que merece análise é a sua
reatividade. Híbrido de experiências biológicas e psíquicas, a emo-
ção dialoga intensamente com o exterior, amplifica as reações da
consciência a este. A emoção é, por excelência, provocada por al-
gum fato exterior que, uma vez tendo ferido a consciência, transfor-
ma-a em inundação e paixão. Se na afetividade-contato reina um
trânsito contínuo e discreto de sentimentos a dois, na emoção há um
átimo de interpessoalidade, ou algum outro contato com o meio ex-
temo, seguido de violenta reação e isolamento da consciência. Se na
afetividade-contato a consciência, por definição, contactua com o
mundo externo, na emoção este mundo externo é fonte de inumerá-
veis e incontornáveis tormentos. Em síntese, reatividade, paroxismo,
inundação da consciência e coletividade interpessoal marcam a ex-
periência da emoção.
O humor, por sua vez, diferencia-se da emoção já peJo perfil de
suas relações com o exterior. Uma notícia boa pode provocar-nos
reações imediatas de emoção ou bons sentimentos, em geral acom-
panhados de memória e pensamentos afins. Entretanto, uma vez
absorvida esta boa notícia, o estado da consciência tende a retomar
a uma certa linha de base. Esta linha de base é o humor. O humor
conhece uma relativa independência em relação às informações pro-
venientes do exterior; seu fluxo segue, em certa medida, uma rota
autônoma, possui um peso inercial . Esta inercialidade e a relativa
autonomia do humor fazem até mesmo com que ele possa a vir a ser
o filtro da experiência emotiva ou sentimental. Retomando o exem-
plo acima, poderíamos propor que a notícia boa apenas o será se o
humor permitir. Todos conhecemos como dias de bom ou mau humor
98 Psicopatologia f Trmsformaçio; um Esboço Fa!ômfoo-Eslrulural

fazem com que interpretemos de modo diverso os fatos da realidade.


A autonomia relativa do humor, se o faz independente do meio psico-
sócio-cultural externo, o faz, por outro lado, mais intimamente ligado
à corporeidade, que será examinada mais adiante. Parte do estado
de humor da consciência influencia-se pelas flutuações biológicas
orgânicas. Uma noite de sono maldormida ou o período pré-mens-
trual podem, por si sós, sem nenhuma relação com o meio externo,
comprometer as qualidades do humor. O humor situa-se, em termos
de reatividade, numa eqüidistância entre afetividade-contato e emo-
ção. A primeira é uma capacidade da consciência e, neste sentido,
não reage ao meio externo; a segunda é pura relatividade friável. O
humor dialoga com este meio sempre, no entanto, em períodos mais
longos, com menor mutabilidade e maior duração temporal. Nas suas
modulações adaptativas com a realidade externa, desenha ondula-
ções na superfície afetiva da consciência, passando de estados posi-
tivos a estados negativos. Em condições normais, a trajetória ondu-
lante dos humores não deve sofrer bruscas alterações nem tampouco
rudes movimentos perceptíveis. Assim, o humor pode ser definido
como a experiência qualitativa, mas indefinida e difusa da consciên-
cia. Não assume o front da afetividade, permanece como que seu
pano de fundo, a harmonia musical que prepara o terreno, ornamenta
e sustenta o encadeamento das linhas melódicas da consciência.
Harmonia que convida a algumas melodias e faz improváveis ou-
tras, que ocupa toda a consciência sem jamais estar em algum lu-
gar definido.
Aqui há que se estabelecer novamente uma clivagem qualitati-
va, uma mudança de plano, agora no interior da can1ada afetiva.
Afetividade-contato, como capacitação para o inter-humano dual, e
humor, como tonalidade relativamente estável e autônoma da cons-
ciência, permitem que a emergência de novos fenômenos se faça,
com o aprimoramento do grau de definição destes. Se estes dois
componentes, estruturados na linha de base fundacional da
afetividade, não determinam definições vivenciais, temos na expe-
riência do sentimento a maior nitidez de perfis dentro da afetividade.
Os sentimentos expressam a mais alta complexidade ontológica da
camada afetiva. Ora são autônomos, brotando de esferas jamais
Guilherme Per.s M..w 99

acessíveis à perscrutação empírica (o sentimento da proteção divina,


por exemplo, que em nada se assemelha ao sentimento de proteção
humana), ora francamente reativos como o sentimento de injustiça
diante da extrema pobreza, por exemplo. Ora são estáveis como o
entimento de amor, em que, operando desde dentro da consciência,
faz-se valer enormemente sem fazer-se notar; ora inconsistentemente
instáveis como o sentimento de indiferença. Por vezes produzem-se
na interpessoalidade dual, como o sentimento de calidez tênue de
que falamos acima; por outras, gerando-se em outras
interpessoalidades ou mesmo na ausência de interpessoalidades hu-
manas, como nos sentimentos que experimentamos pelos animais. O
continente heterogêneo dos sentimentos, aparentado das diversifica-
ções promovidas pelas culturas, não deve submeter-se, por defini-
ção, à idéia de limites. Mesmo a mais extensa compilação de estados
sentimentais jamais frearia a possibiJjdade de que a história humana
ou as biografias individuais conduzissem, ainda que por mero acaso,
à produção de novas gradações, de insuspeitas nuanças de senti-
mentos humanos. Examinar os diferentes sentimentos parece-no
tarefa impo sível (além de ociosa para nosso objetivo), algo como
retirar a água do mar incansavelmente, buscando um dia esgotá-lo.
Para nossa tarefa, basta-nos examinar as características da vivência
do sentimento.
O sentimento é, acima de tudo, uma experiência do eu conscien-
te. Toma forma à medida que o eu é capaz de delimitar uma qualida-
de específica e de diferenciá-la de outras. "Eu sinto" é uma proposi-
ção aflrmativa que melhor sumariza a vivência do sentimento. De
modo diverso, as construções da linguagem relativas aos outros cons-
tituintes da consciência que examinamos dispõem o eu em lugares
menos definidos. "Eu afeto" só faz sentido por sua transitividade, por
sua relação com um objeto que é afetado. Da mesma maneira, "eu
sou afetado" já inclui uma presença objetal estranha ao eu. No caso
da emoção e do humor esta diferença amplia-se ainda mais. Apenas
a forma "eu me emociono" é aceitável como relativa ao eu, sem
excluir uma reflexividade, uma saída do eu. Para os verbos relativos
ao humor, sequer uma forma gramatical tendo o eu como sujeito é
pertinente. Na melhor das hipóteses, "eu estou humorado" caberia,
100 Psicopatologia t Transformação: um Esboço Fcnômtoofutnuural

revelando o aspecto indefinido e nebuloso das projeções do humor


sobre o eu. Assim, o sentimento é a expressão qualitativa de maior
clareza e definição compondo a consciência; é, portanto, um sinal
direto de uma maior maturação e elaboração do psiquismo conscien-
te. A nitidez amplificada dos estados sentimentais qualifica a cons-
ciência para investir com mais segurança sobre um mundo sempre
obscuro e secreto, lhe dá proteção e amparo nas suas empreitadas.
Este acréscimo do poderio da consciência implementado pelo
sentimento se identifica com o maior grau hierárquico do psíquico
afetivo. De modo diverso à emoção e ao humor, no sentimento a
proporcionalidade da vivência consciente em relação a seus correlatos
corporais atinge o ápice (não faz sentido aqui qualquer comparação
com a afetividade-contato, posto que esta é o próprio radical do sen-
timento). O sentimento seria, por assim dizer, a mais psíquica das
afetividades, a mais depurada das corporeidades que lhe fornecem
base. Por este fato, a capacidade da consciência em produzir, repro-
duzir, compor e decompor sentimentos é um dos itens que o
psicopatologista deve manter em mente como sinalizador da vitalida-
de psíquica. O psiquismo empobrecido compromete o delineamento
formal do conjunto dos sentimentos, comprimindo a afetividade em
seus estratos mais indefinidos. Neste momento, uma rápida análise
das relações entre sentimento e sensação é importante. A sensação
refere-se a uma localização no espaço corporal de algo qualitativo
que se projeta no eu, não pertencendo a este (e, deste ponto de vista,
análoga à percepção, sendo que nesta o espaço que prevalece é o
externo. A estabilidade profunda da percepção, indiferente às natu-
rais mutações do psiquismo, assim como sua peculiaridade de alte-
rar-se apenas em graus avançados de psicopatologia fazem com que,
neste ensaio, ela não venha a ser examinada diretamente). Por exem-
plo, uma dor que nos incomoda, mesmo se suficiente para atormen-
tar-nos o dia todo, não constitui para nós um sentimento, não a senti-
mos como claramente colada ao eu, mais nos parece algo como a
emoção, uma excrescência do eu. Entretanto, sensação e sentimen-
to podem fundir-se de modo complexo. A vivência de angústia faz
parte de tal hibridização. O relato do paciente angustiado, de um
sentimento de tristeza localizado no peito, incita-nos à dúvida da
existência de uma linha divisória entre sensação e sentimento, nas
Guilhume Pms Messas 101

situações-limite. Ainda assim, mesmo experimentando uma sensa-


ção horrível, o angustiado é capaz de discernir a presença de um
estado do eu (e não sobre o eu) dissolvido na sensação. A complexi-
dade das relações entre sentimento e sensação, suas ocultações re-
cíprocas e traduções herméticas, exige do psicopatologista um olhar
atento, no aguardo dos instantes em que este emaranhado peculiar
possa abrir-se um pouco, permitindo separar seus constituintes uni-
tários. Em alguns grupos de pacientes em especial, como os idosos,
esta é uma verdade ainda mais candente, já que as confusões entre
sentimento e sensação podem chegar ao ponto de enevoar quase
que por completo a lucidez diagnóstica.
Prosseguindo no exame das características do sentimento depa-
ramos com a sua interioridade. A nitidez ontológica do sentimento
transita em um espaço que é todo interior. Com isto não queremos
dizer que o sentimento não seja empatizável, que não produza resso-
nância. Pelo contrário, é o sentimento o conteúdo empatizável por
excelência. É mesmo este traço empatizável do sentimento que dá a
prova de sua interioridade. Apenas a empatia, a penetração de nosso
psiquismo no psiquismo alheio, permite que o sentimento seja conhe-
cido. Quaisquer elementos de objetividade externa não fornecem in-
dícios confiáveis do estado sentimental, ficam sujeitos a falsifica-
ções, voluntárias ou não, que mais podem servir a objetivos espúrios
de comunicação do que a um efetivo diagnóstico de sentimentos.
O próprio relato obtido diretamente com os pacientes acerca de
seus sentimentos não pode ser tomado ao pé da letra como verídico.
Mesmo intuitivamente, quando ouvimos as autodescrições sentimen-
tais de alguém, realizamos uma espécie de checagem destes relatos
com aquilo que, por empatia, parece-nos refletir o exato estado sen-
timental deste alguém. Nestas situações, toma-se mais legítima a
aceitação da realidade exarada da empatia do que aquela apreendi-
da pelas palavras do emissor. Em suma, faz parte da constituição
própria humana o fato de que o sentimento seja essencialmente
interioridade e que, por extensão imediata, que seu mais radical re-
conhecimento se fonnule pela prática do aprofundamenlo empático.
Uma ciência dos sentimentos apenas secundariamente poderia es-
tabelecer-se pelas objetividades dos auto-relatos ou observações
102 Psioopatologia ( Trn~sformação: um Esboço Ftnômroo-Estrutu12l

neutras intelectuais. Ainda que submetido aos riscos da subjetivida-


de e seus hermetismos, uma ciência dos sentimentos apenas encon-
tra seus alicerces na irredutível experiência da empatia, exercida
diretamente no contato afetivo com os pacientes.
A característica da interioridade determina os limites da frontei-
ra entre a experiência do sentimento e aquela da expressividade.
Deste ponto em diante, abandonamos também o grau hierárquico
máximo do sentimento e retomamos a um plano abaixo, sempre no
interior da camada afetiva. O sentimento ocorre num perímetro in-
temo à consciência, enquanto a expressividade é como que o avesso
desta experiência, sua transformação de recolhimento interior em
exposição tridimensional. O sentimento oculta-se em si mesmo e neste
processo aninha-se numa posição apenas acessível pela penetração
empática. A expressividade revela-se continuamente, renega seu
direito de interioridade buscando a melhor forma plástica para se
fixar. Portanto, a expressi v idade persegue efígies tridimensionais, cujo
valor de face externo sobrepuja a do espaço interno. Encontrará,
destarte, no corpo seu principal ancoradouro. Numa sentença
simplista, a expressividade se definiria como um sentimento
corporificado, uma inversão radical do vetor do sentimento. Tanto
sentimento quanto expressividade dão espessura às camadas quali-
tativas da consciência. Não nos parece abusivo propor que um sen-
timento de tristeza equivalha à expressão de choro; que ambos mani-
festem, simultaneamente, estados de dor mental ou descontentamento,
completando-se em suas dimensões de interioridade e exterioridade.
Ainda mais, que estas duas dimensões possam dialogar e produzir-se
mutuamente. De um certo modo, não há sentimento desprovido de
expressividade, assim como uma expressividade que não veicule
qualquer sentimento. Um estado sentimental de tristeza pode levar
ao choro assim como o contato com o choro de alguém pode levar-
nos à tristeza. A expressividade, contudo, ao exteriorizar aquilo que
o sentimento preserva reservado, aproxima-se perigosamente da
coletividade objetiva e afasta-se do pensamento. A expressividade,
em suas manifestações externas, subordina a tal ponto o qualitativo
da consciência à objetivação exterior que pode comprimir o espaço
subjetivo interno, transformando a própria consciência em objeto. O
preço a ser pago pelo máximo de comunicação objetivada será a
Guilhtrmr Peres Messas 103

raquitização do sentimento empatizável, definindo certas condições


patológicas que têm como carro-chefe a histeria. Na histeria, toda
ação é entimento e todo sentimento é ação, em tal imbricamento
que o próprio pensamento costuma padecer. Mais fundamental ain-
da é o relato do padecimento da histeria. Numa certa faixa de segu-
rança, a expressividade favorece e delineia a empatia. Para além
desta faixa, o contato com nossos pacientes histéricos mostra como
a máxima expressividade pode transmitir a ausência de empatia, a
nossa incapacidade de encontrar algum terreno empatizável dentro
do impacto expressivo do histérico.
O histórico das modalidades de relacionamentos entre sentimen-
tos e expressividade é extenso e, em tese. inconclusivo no que
concerne a seus pontos saudáveis e patológicos. Entretanto, pode
ser instrutivo no que tange às suas diferenças ponderais na composi-
ção da arquitetônica da consciência. Se os sentimentos abrem mati-
zes na consciência, permitindo sua detalhada apreciação qualitativa
da realidade, a expressividade fmja uma lâmina de gume duplo. Erige-
se, por um lado, em cimentadora da consciência na medida em que
situa a corporeidade na esfera sentimental, enquanto possibilita que
o corpo possa tomar parte de uma experiência qualitativa mais sofis-
ticada. Por outro lado. atrai o sentimento (interior e subjetivo por
índole) para o mundo exterior, para o coletivo objetivo, de onde as
leis imperiosas tendem a ser nocivas para o bom andamento da evo-
lução psíquica.
A investigação da expressividade introduz a necessidade de pro-
longar o estudo das relações da corporeidade com a consciência.
Afirmamos acima que o principal valor construtivo da expressividade
para a consciência consistia no acoplamento da corporeidade ao campo
sentimental. Esta frase, entretanto, apenas recheia-se de sentido após
a pesquisa de como a corporeidade e a consciência compõem-se ou,
até mesmo, "se" ambas conseguem compor-se. Há, portanto, que se
buscar um primeiro esboço das diversas corporeidades existentes.
Em primeiro lugar, num ponto extremo de uma distribuição espectral,
encontra-se uma corporeidade que é puro mecanismo biológico, ina-
cessível à consciência. A consciência não é competente para, num
auto-exame, introverter-se a ponto de deparar-se diretamente com
104 Psicopatologia t Transformação: um Esboço Fenômtn~Estrutural

toda a fisiologia corporal, incluída a fisiologia cerebral. Em condições


desligadas de sofrimento, esta corporeidade se relaciona com a cons-
ciência por meio de sua ausência. O corpo fisiológico saudável é um
negativo oculto à consciência, um desaparecimento e desconheci-
mento de si mesmo que talvez melhor reflita o florescimento desta
consciência. Quanto menor a presença do corpo fisiológico sobre a
consciência, maior a chance desta transformar-se e expandir-se se-
guindo sua vocação natural.
Esta corporeidade apenas se relaciona efetivamente com a cons-
ciência nas suas derivações patológicas. Um estado febril que nos
deixa desanimados em nossa visão de mundo ou indispostos para a
continuidade dos projetos pessoais. Uma doença ortopédica que tor-
na nosso corpo obstáculo sólido à execução cotidiana da vida. Uma
doença metabólica que debilita nossa consciência em suas fontes
energéticas. Milhares de exemplos individuaJizados poderiam ser ar-
rolados, sempre guardando a peculiaridade desta primeira definição
de corporeidade. Nestes, a condição de silêncio do corpo por detrás
da consciência abala-se, o corpo toma-se, por diversas vias, empeci-
lho à agilidade da consciência. Nesta dimensão, enfim, encerram-se
as inúmeras situações nas quais a corporeidade exime-se de qual-
quer significação, de qualquer relação interna com as topografias da
consciência. Numa palavra, onde a corporeidade é a animalidade
biológica em si mesma, aquém da iluminação consciente. Em nosso
entender, neste território não existe a possibilidade de uma ciência
psicossomática. Algumas correntes psicossomáticas contemporâ-
neas buscam excluir este território do campo vital humano. Para
estes pesquisadores, tudo na vida humana é simbólico, tudo refere a
uma realidade última, incognoscível ou metafísico-religiosa, que pode
ser vislumbrada para aJém da mecânica biológica físico-química. Ainda
que estas psicossomáticas tenl1am gerado uma prosa inspirada e
instigante, por vezes reinterpretadora da realidade como um todo,
nada no contato diário com pacientes autoriza pensar que possamos
encontrar simbolismos em tudo. A busca excessiva de simbolismos
no corpo, pelo contrário, tende a antepor sólidos óbices à visualização
da transformação psíquica. Interpretações precoces, demasiadamente
generalizadoras ou distantes da empatia momentânea com o pacien-
te preenchem, em geral, a prática desta hiperhermenêutica do corpo.
105

O respeito perplexo diante das insondáveis prolixidades da


corporeidade em suas interdigitações com a consciência parece-nos
ser a melhor atitude do pesquisador atento à transformação. Antes
de passarmos à segunda apresentação da corporeidade, faz-se mis-
ter um derradeiro apontamento referente ainda a esta corporeidade-
negatividade. Sua negatividade, oculta de modo incontornável da
consciência, constitui os pontos de reparo nos quais esta atuará, im-
pondo-lhe limites e contornos. O fenômeno mais dramático desta
ação limitadora da corporeidade é oferecido pela percepção. É bas-
tante complexa a que tão das imbricações entre percepção e
corporeidade. Para aquele que percebe, o mundo revela-se, antes de
tudo, embebido de significação, de maneira tal a fazer desaparecer a
materialidade contida em seu ato perceptivo. Quando ouvimos o dis-
curso de alguém, se a Ungua nos for familiar, entendemos diretamen-
te idéias, pensamentos e argumentos, sem atentarmos para a pre-
sença material das ondas sonoras emitidas pelo orador. Do mesmo
feitio, na admiração de uma obra de um grande pintor, diretamente
captamos a intenção arústica do autor. Apenas secundariamente, e
por um esforço volitivo, nos deteremos a perscrutar a materialidade
primária das tintas empregadas no trabalho. Enfim, a percepção re-
vela-nos um mundo tão intensamente constituído que não apreende-
mos ua materialidade a priori. Igualmente, a intensa condensação
de corporeidade já prese nte e m nossos atos perceptivos é
escamoteada pelo vigor de suas projeções na consciência. Percebe-
mos o mundo com sentidos que são determinados incondicionalmen-
te pelas circuitarias neurológicas de nossa espécie. A amplitude de
nossa audição ou o alcance de nossa visão são imposições que esca-
pam à nossa capacidade decisória e devem ser rastreadas na ordem
da filogenética. Entretanto, são exatamente estas injunções compuJ-
sórias da corporeidade animal que irão definir as cores, tons e sabo-
res com que a consciência preparará seus componentes.
Analogamente, o peso corpóreo e a densidade de nossos ossos defi-
nem nossas expectativas em relação ao trânsito no ambiente. Esta
corporeidade surda, refratária à investigação introvertida da consciên-
cia é, contudo, uma negatividade "ativa", atuante de forma
ininterrupta em nossa vida real. Deve-se distingui-la da corporei-
dade de negatividade absoluta, já que, a despeito de ambas não
106 PstoopatologU cTransfonnaçio: um &baço Fm611K110-F.struturu

cooperarem com a experiência interna da consciência, esta outra


negatividade possui um status especial, no papel de configurador da
experiência perceptiva.
Numa segunda definição, há uma corporeidade que é vicariância
da consciência, que atua nas suas fissuras. Esta é a primeira acepção
na qual, de fato, pode-se olhar a corporeidade a partir da consciên-
cia. Na definição anterior, a corporeidade é unicamente investigável
objetivamente, ou seja, em suas lógicas de fenômeno biológico físi-
co-químico. Nesta definição, a consciência é o campo a partir do
qual encontraremos a corporeidade. Passa a fazer parte da
arquitetônica da consciência, ainda que em suas fissuras. Agora a
corporeidade assumirá algum papel lá onde a consciência não pos-
sua amplitude ou espessura para se presentificar. No vácuo da sua
incapacidade em agenciar qualquer elemento que seja, surge esta
corporeidade-vicariância. Nesta, diversamente do fenômeno de
agenciamento, no qual a consciência recruta soldados para uma ba-
talha, o que verdadeiramente existe é o não-recrutamento, a
inexistência de soldados. Tampouco nesta acepção vale postular a
ocorrência de uma ordem de significação na corporeidade. O signifi-
cado pressupõe um passo avante, uma orientação da corporeidade a
uma certa finalidade que é, em última análise, concernente à forma
total da consciência. Nas relações de vicariância esta finalidade sim-
plesmente inexiste. A corporeidade-vicariância não exprime nada
ou, mais precisamente, ela expressa a ausência de conteúdos a se-
rem expressos, o esvaziamento e aplainamento dos relevos da expe-
riência consciente. Neste sentido, não há como interpretar ou buscar
sigrtificar esta corporeidade, como remetê-la a uma totalidade men-
tal. Há sim que buscar utilizar a capacidade da consciência em reto-
mar sua siUmeta, em que faça sentido alguma dotação de significado.
Segundo nossa apreciação, este é o território genuíno da
psicossomática. Anteriormente, na definição primeira, não há como
se definir uma psicossomática; permanecemos aquém dela, restritos
a uma ciência somática. Posteriormente, onde a corporeidade é agen-
ciada pelos projetos da consciência, já a ultrapassamos. Onde o cor-
po significa algo já nos encontramos no interior de uma ciência da
mente, atenta às variadas manifestações do psíquico. Espremida entre
Guilherme Peres Mcssa.s 107

estes dois pontos há uma zona sombreada na qual efetivamente an-


seia-se por uma investigação p icossomática. Nela, a corporeidade
não é mera biologia nem tampouco franco agencian1ento significati-
vo. Nela, a corporeidade as ume uma posição inguJarmente distinti-
va e sensível, em tal intensidade diferenciada que justificaria a pro-
mulgação de uma ciência psicossomática. A psicossomática da "vida
não vivida", na frase clássica de Weizsacker e que menos atenção
vem recebendo dos psicopatologistas e estudiosos da psicos omática.
Uma terceira corporeidade define-se pelo tema do agenciamento.
A consciência, como arquitetônica e projeto, arregimenta por meio
de seus constituintes as diferentes texturas que irão compor sua for-
ma cambiante. Neste sentido, duas corporeidades podem ser
identificadas, ambas unidas sob a categoria de corporeidade-
agenciamento. Inicialmente, uma corporeidade determinada pela
experiência do corpo concreto, ocupante de um lugar no espaço,
subjetiva e objetivamente constatado, e responsável por uma certa
mas a. Este corpo, que em momento algum deixa de pertencer ao
universo biológico físico-quúnico, assume agora um novo papel. Re-
crutado pela consciência para preencher seus relevos, esta
corporeidade mecânica é, simultaneamente, núcleo de significação.
Serve aos propósitos da consciência, é o estofo das reentrâncias e
saliências que a anatomia consciente desenha no seu desfile temporal.
Rigorosamente falando, esta corporeidade não pode ser alinha-
da dentro do conjunto da psicossomática que mencionamos acima,
no qual existe uma ausência de significado. Esta corporeidade mais
se identifica com os próprios estudos da consciência; é parte con ti-
tuinte desta, vivamente incorporada aos seus intentos, distinguindo-
se dos demais componentes da afetividade exclusivamente por seu,
digamos, excesso de materialidade. Nesta perspectiva, esta
corporeidade-agenciamento poderia ser definida como a zona de maior
estabilidade material da consciência, seu ponto de extrema visibilida-
de objetiva. Se o sentimento acontece num pico de interioridade sub-
jetiva e a expressividade revela uma dupla face, interna e externa de
uma só vez, a corporeidade-agenciamento é a externalidade objetiva
máxima que a consciência pode oferecer. Esta afirmação, contudo,
solicita um exame das condições de cognoscibilidade desta
108 Psico~tolozja eTruufonnação: um Esboço fm6meno-&trutural

corporeidade, já que facilmente pode-se confundir com a corporeidade-


vicariãncia. Desde já, afmnamos que neste diagnóstico diferencial
reside uma das mais complexas - se não a mais, não seria exagero
dizer- dificuldades de toda psicopatologia. A questão impõe-se na
seguinte formulação: "Quais garantias tem o investigador de estar
diante de uma corporeidade-agenciamento e não de uma
corporeidade-vicariância, ao examinar o caso concreto de uma
afecção física de um paciente?". Dado que, em última análise, a
anexação ou não da corporeidade à consciência é acessível por um
ato interpretativo do psicopatologi ta, não haverá uma resposta defi-
nitiva e irrevogável a este questionamento. As chances de erro nas
duas vias não serão desprezíveis. Ora a hermenêutica vazia de um
fenômeno corporal desprovido de função de agenciamento leva a
um afastamento das reais necessidades do paciente; ora a impaciên-
cia para com o diagnóstico de uma função de agenciamento deságua
num reconhecimento ilegítimo de vicariância em que haveria ação
da consciência. Nas duas situações de erro a profundidade da
interação entre psicopatologista e paciente compromete-se.
Entretanto, uma análise mais minuciosa das singularidades de
cada corporeidade pode, se não facilitar a tarefa, ao menos oferecer
uma espécie de prova dos nove da correção da rota que escolher-
mos traçar. A corporeidade-vicariância, atuante nos segmentos de
erosão da consciência, encerra-se em si mesma do ponto de vista
ontológico. Ela é o que é, nada mais do que é e, com o renascimento
promovido pela terapêutica psíquica, submerge novamente à sua
condição natural de subsolo vegetativo da experiência consciente.
Vicariante nas ero ões da consciência ela toma-se, no retomo desta,
mera não-consciência. O mesmo não se passa com a corporeidade-
agenciamento. Posto ser esta um elemento recrutado pela consciên-
cia, fica sujeita às regras ditadas por sua (da consciência) contínua
transformação. Detalhando melhor, esta corporeidade pode orien-
tar-se pelo conceito de transição entre fenômenos. A progressão da
corporeidade-vicariância conduz à sua própria extinção; a progres-
são da corporeidade-agenciarnento, por sua vez, conduz, pela via da
transição, a fenômenos afetivos outros, detectáveis nas suas eclosões
emotivas, humoradas ou sentimentais. Assim sendo, a observação
cuidadosa da progressão das corporeidades fornece-nos a pista mais
Guilhmnt Ptm Messas 109

valiosa para seu diagnóstico diferenciaL Uma progressão que pode


conduzir à produção de experiências de ordem afetiva indica a pre-
nhez de valência consciente de um fenômeno corporal, ao passo que
a vacuidade da progressão sugeriria uma função vicariante. Mas
não nos adiantemos, pois o estudo do movimento não compete a esta
seção. Para concluir o tema do diagnóstico diferencial entre as
corporeidades, vale lembrar que mesmo a análise das progressões
não esgota a dificuldade do exercício. Facilmente imperfeições po-
dem surgir e identificações espúrias se sucedem. Apenas a radical
penetração, por via empática, do psiquismo do paciente poderá for-
necer algum indício definitivo- se isto for possível- da agudeza do
diagnóstico.
A corporeidade agenciada pela consciência torna-se, portanto,
instrumento desta. São as pressões formais desta última que convo-
carão a concretude da corporeidade. Dois elementos devem ser di-
ferenciados no que concerne aos aspectos essenciais desta
concretude corporal. Em primeiro lugar, a concretude manifesta-se
como motricidade. Os movimentos do corpo, ordenados por um pro-
jeto da consciência, são, ao mesmo tempo, ferramentas da ação cons-
ciente e expressividade. Toda ação corporal motriz revela uma certa
quantidade de expressividade, ainda que diversa da expressividade
encontrada anteriormente e descrita como o reverso do sentimento.
A motricidade sobrepõe-se à expressividade naquilo em que expres-
sa uma ação da consciência, mesmo que desprovida de uma dimen-
são sentimental. Em outras palavras, quando dirigimo-nos ao traba-
lho, nossa motricidade revela um projeto de vida, ainda que, naquele
exato momento, nossos passos não traduzam qualquer estado senti-
mental. Em segundo lugar. a corporeidade manifesta-se como fisio-
logia. Poderíamos dizer que a fisiologia organiza-se em duas zonas
distintas. Numa delas. como já vimos, onde não há relacionamento
com a consciência, a fisiologia presta-se à manutenção das condi-
ções de vida. Na outra zona, a fisiologia, sem perder suas funções no
todo corporal orgânico, pode ocupar-se dos projetos da consciência,
envolvendo-se na dialética entre esta e a realidade. Essa função
ambígua da fisiologia é responsável pelos intrincados mistérios que
envolvem esta ciência quando estuda não as reações in vitro, mas a
realidade viva dos sistemas orgânicos. Decifrar estes enigmas da
110 Psico~tologia cTransfo11111ção: um Esboço Ftnt'lmmo-Estrutural

fisiologia requer a inclusão dos problemas da mente, recaindo nas


dificuldades que acabamos de examjnar em relação à psicossomática
e hermenêutica do corpo.
Tendo situado os contornos da concretude da corporeidade, pas-
semos a pesquisar a segunda vertente do agenciamento corporal.
Esta segunda vertente introduz uma agenda que talveL eja a mais
relevante no que tange às relações entre corporeidade e consciên-
cia. Trata- e da irredutibilidade endógena constitucional. Não é tare-
fa simples a definição de que vêm a ser as constituições. Brotando
do fundo intangível da con ciência, as constituições são como que o
patrimônio de alternativas mentais que uma corporeidade abstrata-
mente concebida oferece quando das solicitações da consciência.
Imaginemos um exemplo. Um determinado relevo arquitetônico de-
para-se com um impa se exi tencial. As condições para o desenvol-
vimento da vida afiguram-se hostis, as perspectivas de futuro som-
brias e as referências de pas ado esquálidas. A consciência, pres-
sionada por estas condições externas, procura agenciar seus ele-
mentos para atacar a questão. Elementos de extração afetiva, so-
bretudo. No entanto, no instante da convocatória de seus elementos
a consciência encontrará, em primeira instância, algo que não lhe é
autodefinido, que não pertence a si mesma, proveniente da endo-
genicidade irredutível: as constituições. Assim, uma constituição com
tendências sintônicas com a realidade ou fornecerá propostas
euforizantes ou insumos depressivos. Uma constituição explosiva
tenderá a alertar a consciência para soluções agressivas ou compul-
sivas. Os inúmeros exemplos possíveis confluiriam para um ponto de
convergência no qual o ponto comum seria a oferta, desde o interior
endógeno- zona limítrofe entre consciência e pura corporeidade-
de tendências de respostas ao ambiente. As constituições não são,
portanto, elementos afetivos e tampouco determinam de modo
irrevogável o timbre do membros da camada afetiva. Há constilui-
ções mais favoráveis à ocialização e outras mais propu! ionadoras
de i olarnento. Entretanto, toda e qualquer constituição é capaz de
permitir a geração de quaisquer experiências afetivas. Não haveria,
assim, uma patologia constitucional em si mesma. Na pior das
hipóteses poderíamo postular a facilitação de certas patologias por
Guilbume Peres Mesw 111

algumas constituições. Sintetizando, as constituições não determi-


nam a consciência, como um posicionamento cientffico afoito pode-
ria supor. São, e nisto consiste sua notável importância, a mais íntima
das corporeidades com que a consciência deverá lidar, a região
fronteiriça onde se fundem características da pura corporeidade com
a pura consciência. Quando a consciência abre os olhos e mira a
corporeidade, o primeiro objeto que encontra - e encontrará por to-
dos os seus dias -é a constituição.
Este caráter de corporeidade íntima que marca as constitui-
ções traz uma conseqüência que não poderíamos deixar de men-
cionar. Todo o aparato tecnológico - via farmacologia - que as
últimas décadas viram ser incorporado à psiquiatria sustenta-se
nos dados científicos informados pelas neurociências. Farmaco-
logia e neurociências instigaram-se mutuamente nas ambições de
realizar uma década do cérebro. As neurociências têm, como saber
neurológico, um assentamento radical nos conhecimentos do sis-
tema nervoso central. Por veze com tal radicalismo excludente
que se pretendeu entender a própria psicopatologia como um
epifenômeno das neurociências. Ora, se os resultados extraídos
ao cabo da década do cérebro estão longe de ser majestosos, há
que se procurar onde podem ter ocorrido exces os de otimismo
ou inconveniências de perspectiva. Talvez um dos caminhos ina-
dequados que se tenha tomado possa ter derivado de uma confu-
são epistemológica grave, que confundiu corporeidade com cons-
ciência, igualando ambas ou, mais precisamente, buscando redu-
zir a segunda à primeira. Se estudarmos a neurofisiologia, o cére-
bro corporal, talvez fosse mais preciso (ainda que menos
hiperbólico) limitar a pretensão de nossas conclusões à seara da
corporeidade e não estendê-la à consciência como um todo. O
exame aprofundado da consciência mostra como a corporeidade
mais íntima da mente está revelada nas constituições. Lamentá-
vel o fato de que pouco se estudou a neurociência das constitui-
ções, em desenhos que, limitados necessariamente, talvez esti-
vessem mais próximos da honestidade intelectual científica. A
consciência transborda em muito a corporeidade constitucional.
Uma agenda que investigasse sistematicamente as relações das
112 Psioo~tologia t Trmsform:ação: um Esboço Fmlímc:oo-Estrutunl

constituições com as neurociências no âmbito das etiologias e,


acima de tudo, na esfera da terapêutica farmacológica, parece-nos
ser a principal contribuição a ser realizada pelos neurocientistas.
Por toda a espessura da camada afetiva desliza o seu integrante
mais móvel. Sem exagero, talvez pudéssemos afirmar que os impul-
sos são a mobilidade em si da camada afetiva. Seu feitio mercurial
faz com que seja tarefa inglória buscar situá-lo em algum sítio defini-
tivo, alojá-lo de maneira estável na estratificação dos afetos. Por
todas as parte em que houver afetos haverá uma certa porção im-
pulsiva. Os impulsos são a experiência vivida do movimento, a dire-
ção da força motriz que experimentamos em cada afeto. Bons sen-
timentos nos propulsionam a uma aproximação com o objeto sentido;
mau sentimento conduzem-nos à sua rejeição. Impulsos corporais
atraem-nos para sua satisfação, como a saciedade da fome ou da
sede. A intensidade das emoções agita-nos vigorosamente, da pers-
pectiva impulsiva. Uma grande paixão ou uma pronunciada raiva
imantam nosso comportamento de modo às vezes arriscado. Mesmo
os estados de humor favorecem tais comportamentos impulsivos, ora
intensificando-os, ora atenuando-os. Em toda experiência reconhe-
cemos uma dose de impulsividade, em graus infindáveis de comple-
xidade. Um impulso de saciedade reconhece com clareza seus obje-
tivos e busca satisfazê-los. Um impulso sexual não pode ser entendi-
do como simples, unitário, desprovido de di ver as tendências impul-
sivas simultâneas. Ligadas à ânsia de satisfação sexual incorporam-
se motivações de ordem sentimental ou mesmo cognitiva que pro-
movem uma síntese impulsiva difícil de ser reduzida a seus compo-
nentes originai<; isolados. Na realidade da consciência, os impulsos
dissolvem-se nas dimensões da afetividade, representando seu lado
móvel experimentado. Apenas um esforço didático como este que
realizamos poderia supor que efetivamente houvesse como dissecar
um impulso em estado puro. Há, portanto, que procurar reconhecer
as índoles impulsivas das diferentes vivências, sem deixar de manter
em mente a radical diferença entre o movimento impulsivo e o movi-
mento psíquico que examinaremos mais adiante. Não devemos
adiantar-nos nesta diferenciação, porém, por ora, basta-nos frisar
que os impulsos são a experiência de movimento da consciência e,
Guilbcrm< Pa.s M<SSa.S 113

como tal, não necessariamente implicam-se na movimentação do


psiquismo como um todo. Em muitas ocasiões, importante que se
diga, funcionarão até mesmo como imobilizadores do psiquismo.
No terceiro nível da consciência encontra-se a cognição. Como
emergência derradeira e mais complexa da integração ativa de todos
os componentes anteriore , a consciência conhece a realidade. Uma
pesquisa profunda das bases do que é conhecimento derivaria nossa
análise na direção de uma filosofia do conhecimento pura, para as
fundações deste; um campo, enfim, que deixaria de investigar a pró-
pria consciência e escaparia de nossa área de competência. Interes-
sa-nos analisar, neste espaço, as variantes formais pelas quais a cons-
ciência pode conhecer. As ciência cognitivas da época contempo-
rânea vêm exercitando-se neste estudo. Seja pela via da
neuropsicologia ou da neurolingüística, em que se examinam as cor-
relações das imperfeições cognitivas funcionais e seus substratos
cerebrais, intensos esforços perseguem a dissecção do emaranhado
multifacetado da cognição. Suas definições categoriais seguem, na
sua globalidade, a finalidade do estudo das relações funções cognitivas-
funções cerebrais e, como projeto científico, instalam-se no eixo das
estabi üdades.
Procuraremos aqui determinar qual campo conceitual serviria
com rigor ao eixo das transformações. Para isto ha que se retomar a
categoria de hierarquia que percorreu toda a dimens3o da afetividade.
O estudo dessa hierarquia inaugura-se com a divi são entre os com-
ponentes formais da cognição e aqueles que funcionam como auxi-
liares operacionais desta, inferiores do ponto de vista hierárquico. O
pressuposto da hierarquia é também aqui indispensável para o reco-
nhecimento das transformações, e a grande ausência nas constru-
ções das ciências cognitivas. Comecemos pelos aspectos operacionais
da cognição, representados pela memória e atenção.
A atenção delimita um campo dentro do qual poderá haver uma
cognição, uma zona estável na qual e ta cognição residirá no tempo
necessário para que execute suas habilidades. Do mesmo modo, a
memória atualiza e mantém acessíveis informações históricas que irão
permitir à cognição, em sua operação, um encadeamento coerente
sobre o fio do tempo, sem o que se arriscaria a submergir numa
114 Psioopatologia ( Trn1Sfo11112ção: um Esboço F(I)Ôm(J)()-Esuutural

eternidade instantânea, num sucedâneo de instantes inconclusivos e


incompetentes para a vinculação ao fluxo total da consciência. Aten-
ção e memória restringem um campo e, portanto, são os alicerces da
cognição propriamente dita. Corno nível fundante da cognição co-
municam-se diretamente com a esfera da afetividade. São como a
face voltada para a cognição das experiências afetivas, a duplicidade
na unidade, corno a luz que se duplica em partícula e onda. Seus
recortes modulam-se, logicamente, pela contínua ritrnlcidade da
afetividade implicando em que, onde quer que investiguemos memó-
ria e atenção, reconheceremos as digitais da afetividade. Uma peri-
gosa pressa das ciências cognitivas, em busca sobretudo das
objetivações exigidas pela epistemologia majoritária, viabiliza o estu-
do de memória e atenção depuradas da afetividade. A despeito da
possibilidade da execução de estudos que, sem esta simplificação,
deparariam com obstáculos quase intransponíveis, os efeitos colaterais
dessa decisão não são desprezíveis. A afirmação tácita da existên-
cia de funções de memória e atenção de modo isolado acabou por
comprometer dois universos de estudos. De um lado, relegou os es-
tudos da afetividade a um certo ostracismo, já que seriam
indeterminados demais para se ajustarem à precisão científica pre-
tendida. De outro lado, que nos interessa mais, promovem uma iden-
tificação exagerada entre cognição e memória-atenção, excluindo
todo um campo de saberes sobre o pensamento. Para atingirmos o
pensamento - nível supremo da cognição - há que hierarquizar a
cognição, e, para hierarquizar a cognição, é inevitável situar memó-
ria e atenção num plano apenas basal, inferior ao vigor permitido
pelo pensamento em suas modalidades mais complexas. A identifi-
cação redutora entre atenção-memória e cognição facilita a tarefa,
mas mutila as riquezas da realidade humana.
Acima da memória e atenção, e por elas sustentado e informa-
do, habita o pensamento, a experiência de nitidez máxima de toda a
consciência. Nitidez que, por sua vez, desdobra-se numa nova hie-
rarquia. O pensamento, no decurso de seu desdobramento, encon-
tra-se com diversos objetos, que se apresentarão sob distintas mo-
dalidades. Cindindo, com vistas a uma facilitação didática, aquilo
que na realidade surge como pólos de uma experiência única,
fende-se em duas a experiência do pensamento. Em primeiro lu-
Guilherme Peres Messas 11 5

gar, o pensamento-imaginação, no qual a intedoridade do eu co-


nhece e produz urna realidade subjetiva que assume urna forma
plástica singular. Plástica, pois o fenômeno da imaginação ocupa
um espaço tridimensio11al; singular, pois esta Lridimensionalidade
aparece num espaço interior exclusivo, inatingível imediatamente
pelo psiquismo alheio.
Em segundo lugar, um pensamento-conceito, no qual a
interioridade subjetiva encontra a clareza pela via da sucessão de
unidades categoriais que dão o acesso imediato- despido da rea-
lidade imagética - ao compartilhamento racional. Este perfil de
compartilhamento diferencia uma modalidade de pensamento de
outra. Se o pensamento-imaginação é restrito, ao menos direta-
mente, à consciência que imagina, o pensamento ·t::onceito, quando
formula-se, promulga editos concebidos na esfera do coletivo. Com
isto não queremos dizer que, ao pensarmos, no i~olamento de nos-
sas vidas, estamos deixando de realizar um ato solitário e individual.
Neste sentido, a execução de um pensamento 6 necessariamente
um ato solitário. O que postulamos é que a operação conceitual
racional ancora-se numa experiência lingüística que não é determi-
nada pelo indivíduo e sim pela coletividade err. que este vive. A
linguagem conceitual implanta-se no interior da consciência racio-
nal corno projeções tentaculares da dimensão coletiva, como impo-
sições silenciosas desta que, ainda que não o percebamos, define
as categorias com que o pensamento pensa e a consistência daqui-
lo que pretendemos racional. A experiência dos sonhos, a despeito
de não caracterizar exatamente um pensamento-imaginação, dá um
exemplo cabal da diferença entre ambos os pensamentos. Nos so-
nhos, imaginamos involuntariamente com vivacidade conteúdos que
se reduzem à nossa interioridade, que em seus aspectos plásticos
jamais puderam ser compartilhados pelas consciências alheias. A
imaginação separa, individualiza, enquanto a razão conceitual igua-
la, submete-nos a uma ordem, seja cultural, como na linguagem,
seja nos decretos da realidade concreta, ou s~ja, com facilidade
podemos nos imaginar voando e este ato imaginativo será, em si,
realidade. Entretanto, do ponto de vista da raz~o conceitual, a rea-
lidade anatômica de nosso corpo impede-nos, de uma vez por to-
das, aspirações semelhantes.
116 Psico]ntologia eTDnsfomução: um Esboço Fencillltll()-EstrutuDI

Há, entretanto, um ponto de convergência, um canal de diálogo


entre os dois pensamentos, que se dá no fenômeno da metáfora.
Nesta, fundem-se as possibilidades indívidualizadoras da imaginação
com as coletivizadoras dos conceitos racionais. Nela, no mesmo ato
de pensamento, o imaginário reveste-se de conceitualidade e o con-
ceito desdobra-se em coordenadas espaciais. Aquele objeto interno
exclusivo transita até a regra externa, sem deixar de ser parte inte-
grante das duas dimensões. Reside exatamente neste ponto a força
comunicativa da metáfora, ao escapar de dois agrilboamentos simul-
tâneos. De um lado, impede que o eu perca-se e imole-se no solipsismo
irresistível da imaginação pura. Num estado de pura imaginação o eu
isolar-se-ia a ponto de perder seus portos de troca com a solidarieda-
de da realidade. Envolvido pelos objetos imaginários o eu,
gradativamente, perderia sua capacidade de freqüentar o coletivo e,
em última instância, claudicaria numa trajetória de enfraquecimento
atrófico. Fechar-se em si mesmo não é vocação humana. Por outro
lado, a metáfora rejeita a padronização coletiva da racionalidade,
daquilo que se impõe peremptoriamente como real. Os conceitos na
metáfora desenham uma certa imagem, perfazem contornos plásti-
cos que, como numa produção fantasmagórica, dão figuração exter-
na ao intangível da interioridade imaginária. A metáfora-como numa
bolografia- tenta reproduzir, num espaço interno e pelo manuseio de
conceitos frios, o calor da intimidade do eu.
Esta análise da metáfora como convergência de duas modalida-
des de pensamento, porém, seria injusta para com o pensamento-
conceito, pois nos deixaria com a inadequada impressão de que este
seria uma mera dobradura da realidade coletiva para o interior do eu,
um plenipotenciário repressor enviado pelas codificações totalitárias
do coletivo. Também nos deixaria com pendores a concluir pela ima-
ginação como modalidade libertadora do indivíduo por excelência.
Ambas as assertivas não são verdadeiras. Verdadeira sim é a repro-
dução, na dinâmica dos pensamentos, do dilema humano relativo ao
antagonismo entre indivíduo e coletividade. Duplica os conflitos do
eu individual, tentando firmar-se como idêntico a si mesmo contra
um vetor coletivo que lhe pesa sob os ombros com toda a força da
gravidade. A metáfora seria apenas uma das soluções possíveis para
Guilbenne Peres Mcsw 117

esta contenda. Uma outra solução, atrelada às potencialidades do


pensamento-conceito, exige que três atributos deste ejam apresen-
tados. Atributos de fundamental importância para a construção do
eu individual. Em primeiro lugar, sua capacidade articuJatória. O
pensamento-conceito desliza sobre o eixo temporal, posicionando uma
sucessão de unidades categoriais. Estas unidades, no entanto, possu-
em o dom- que as distingue dos demais componentes da consciên-
cia - de, ao sucederem-se umas às outras, articularem-se entre si,
deixarem um rastro integrativo registrando suas passagens, de modo
a que a última possa referir-se à primeira e esta àquelas que lhe
antecederam. No fenômeno da articulação de conceitos há como
que uma permanência das categorias que vai para além de sua pre-
sença atual. A articulação forma elos de uma cadeia e não justapo-
sições laterais. Os componentes da afetividade, ainda que possam
influenciar seus sucessores, uma vez substituídos no tempo atual,
não mais deixam marcas de suas presenças. Um sentimento passa-
do, deslocado da consciência, não é mais uma presença dentro des-
ta. Somente um ato de memória poderá voltar a evocá-lo e insistir
em uma articulação. Articulação que, ao cabo desta operação, já
estaria no âmbito do pensamento-conceito. O poderio articulatório
do pensamento-conceito permite que haja uma expansão do territó-
rio do pensamento. Ao articular categorias, acrescendo-as e com-
pondo-as, sem permitir evasões, o ato de pensamento acumula um
volume, uma extensão continuada de suas fronteiras que lhe dá um
caráter de interminável. Se os demais componentes da consciência
acatam as limitações de ordem têmpora-espaciais que lhes são pres-
critas, o pensamento-conceito é a negação do limite, a ampliação
extensiva e incansável dos domínios do eu. Mesmo o pensamento-
imaginação não é capaz de tal desdobramento expansivo. Nele, a
consciência encontra uma forma interior tridimensional que, é verda-
de, não é insensível à vontade do eu pensante. Os objetos de nossa
imaginação são mais manipuláveis por nós mesmos do que os obje-
tos de nossa percepção. No entanto, o encadeamento das imagens
não se articula como o encadeamento dos conceitos. Há uma suces-
são lateral de imagens, uma substituição de umas pelas outras. Não
há efetivamente um crescimento do eu; na melhor das hipóteses -o
que já não é pouco- há um enriquecimento do patrimônio imagético
118 Psico~tologia t Transformação: um Esboço Ftnômcno-Estrutural

do eu. Depreende-se daí que, como expansão contínua, o pensamen-


to-conceito ocupará posto maior nas preocupações do psicopatologista
estudioso dos movimentos psíquicos.
O segundo atributo deriva exatamente da capacidade articulatória
e sua vocação para o crescimento. Refere-se, mais precisamente, à
direcionalidade deste crescimento. Há várias direções para onde um
crescimento pode se orientar e o mesmo se dá com o pensamento-
conceito. Uma delas, no entanto, deve ser destacada pela sua fun-
ção medular no crescimento psíquico. Em afmação completa com a
camada fundante da consciência, o pensamento-conceito penetra a
realidade. Se a penetrabilidade da realidade psíquica é a condição
de possibilidade para que possa existir consciência, o pensamento-
conceito é a maximização extrema desta penetrabilidade. O pensa-
mento-conceito, trabalhando por meio de sua concatenação de cate-
gorias, perfura as resistências da superfície da realidade, atinge suas
entranhas, abre perspectivas insuspeitas, revela conteúdos imprová-
veis e disseca emaranhados compactos. Como uma sonda que, ao
percorrer os espaços íntimos do organismo permite ao médico defi-
nições diagnósticas vedadas à observação epidérmica, o pensamen-
to age na microscopia da realidade, nos vãos inóspitos dos interstícios
desta realidade, na qual outros elementos não conseguem chegar.
Num movimento de sístole, projetando-se desde uma consciência
vocacionada para a transformação, o pensamento-conceito mergulha
radicalmente na realidade externa, transfixando-a e desvelando-a em
suas obscuridades íntimas. Num movimento de diástole, o pensamen-
to-conceito retoma à totalidade da consciência em que se enraíza e,
como o pescador que, tendo passado sua rede em alto-mar volta à
segurança da praia, examina os elementos contidos nesta viagem.
Destes elementos de realidade recolhidos no périplo do pensamento a
consciência retirará os insumos para sua movimentação. Mas, ainda
uma vez, avançaríamos em demasia na análise dos movimentos, o que
apenas faremos na seção seguinte. Por ora, basta-nos encontrar o
majestoso porte que o pensamento-conceito confere à consciência.
O terceiro atributo já nos é conhecido da análise da afetividade.
Trata-se da interioridade. Investigamos como o sentimento
viabiliza uma experiência qualitativa majoritariamente interior ao
eu consciente. Estudaremos agora como esta experiência interior
Guilhumc Per.. Mwas 119

atinge sua maior amplitude com o pensamento-conceito. Este, arti-


culado e penetrante, na produção de si mesmo, vai desenhando uma
cadeia categoria! que é encampada integralmente pelo espaço inte-
rior. O pensamento conceitual realiza uma obra dupla, portanto. En-
quanto perfura a realidade externa amplia a espacialidade interna. O
sentimento não tem poderes para tanto. Circunscreve um espaço
interno qualitativo, fechado, porém, nesta interioridade. Quando sen-
timos algo por alguém, aquilo que entimo é uma reverberação da
outra presença dentro de nós. Quando pensamos neste alguém, nos-
so pensamento introduz-se nesta alteridade, alongando nossa
interioridade para superar-se a seus limites anteriores. Uma
interioridade em expan ão também definiria o pensamento-conceito.
Capacidade articulatória, penetrabilidade e interioridade, em ação
sinérgica, propõem a mais significativa solução da consciência hu-
mana para o dilema indivíduo-coletivo. O pensamento-conceito,
corporificado por elementos categoriais advindos do coletivo, dese-
nha trajetórias individuais na realidade, sulcando-a de maneira
idiossincrática e irreprodutível.
Mas ainda não atingimos o poderio total do pensamento na per-
cussão e constituição da realidade. Incursionando nos interstícios do
real, o pensamento depara-se com uma diversidade de objetos, em
variados graus de conhecimento. Dentre estes, o pensamento co-
nhece com maior clareza quando vê diante de si totalidades. Quan-
do pensamento e totalidade encaram-se frente a frente, sem inter-
mediários, o aparato cognitivo humano tem seu florescimento extre-
mo. O conhecimento conhece, enfim, totalidades, sínteses que, num
único golpe, surgem à sua frente configurando e ordenando frag-
mentos esparsos de realidade e coligindo-os numa formatação signi-
ficativa. Há, no entanto, que se estabelecer o papel do pensamento
diante das totalidades sintéticas que vai encontrando peJo caminho.
Estas totalidades urgem após um e forço percutivo do pensamento
na caixa de ressonância da realidade, são uma atividade deste pen-
samento e, portanto, não uma realidade dada, inerte, aguardando re-
velação. O pensamento con tituí, constrói as totalidades com que
depara e esta ação sintética resgata em definitivo a autonomia da
consciência individual em relação ao coletivo.
120 Psicopatologia t Truuformaçio: um Esboço Fcnómenc>&uutural

Já em seu percurso, como vimos, o pensamento trilha veredas


personalizadas, faz uso personalizado dos instrumentos conceituais
da coletividade. No entanto, no momento das sínteses, estaremos já
um pas o adiante e, qualitativamente, em um estrato supremo da
cognição. Não apenas os recortes da realidade marcam a consciên-
cia individual, mas, agora, a própria organização das totalidades
sintéticas significativas pertence à criação individual. Em suma, a
orientação mesma da consciência em relação à realidade é uma cons-
trução individual e, em decorrência, um ato de liberdade. Não de
uma liberdade caracterizada pelo abandono do coletivo- pois esta
se assemelharia à loucura - mas de uma liberdade marcada pela
superação do coletivo. A consciência pensante reside num nível
qualitativo acima do coletivo. Transpassando. pela via conceitual, o
coletivo, a consciência produz, voluntária ou involuntariamente, as
sínteses que lhe servirão de ancoragem significativa de sua própria
existência. Os desenhos peculiares deste patrimônio de totalidades
são a impressão digital da consciência individual, a marca indelével
de sua si ngularidade. Em breve, desvelamos aqui, na constituição
das totalidades sintéticas, o indivíduo em grau máximo.
Retomemos por um momento a trajetória realizada. Trabalha-
mos, estudando a consciência, num eixo vertical ascendente. Parti-
mos das condições estruturais de onde emerge a primeira totalidade,
o eu consciente. Saímos, assim, de uma base na qual o humano esbo-
ça suas primeiras formulações, zona em que todas as con ciências
igualam- e como projeto humano. Atingimos, a seguir, o nível da
afetividade, no qual a consciência colore-se, matizando-se por uma
infirtidade de variantes qualitativas. Neste nível, as consciências indi-
viduais recebem o mundo ainda com um certo grau de indiferenciação,
de atitude passiva. Qua e que poderíamos dizer que nesse estrato a
consciência se deixa pennear pelas qualidades que a experiência
humana oferece nas suas aberturas para o mundo externo. No ter-
ceiro nível, da cognição, detectamos como a consciência pode as-
sumir uma postura ativa e penetrar na realidade que a envolve. Por
fun, numa dimensão última encontramos como a atividade da cons-
ciência acaba por erigir uma realidade individualizada e original ,
si ngular em cada indivíduo. Portamo, nessa trajetória ascenden-
te, visualizamos o surgimento da consciência individual como
Guilhcnnc Peres Mcsw 121

produção última, mais complexa e acabada, da experiência humana.


Sintetizando nível a nivel o patrimônio da espécie e da cultura, o
humano revela-se a si mesmo como obra maior da realidade de sig-
nificações em que escreve sua biografia.
Este percurso vertical direcionado para o indivíduo acaba por
determinar uma arquitetônica própria, um edifício estratificado orgâ-
nico, uma totalidade, enfim. Assim, a consciência é uma totalidade,
possui uma arquitetônica individualizada, e todo investimento psico-
lógico e psicopatológico sobre ela conduz à de coberta (ou reconhe-
cimento) destas totalidades pessoais, como veremos mai adiante,
no capítulo sobre a análi~e formal das transformações. Não há que
se confundir a totalidade formal da consciência com aquilo que cha-
mamos de sua estrutura têmporo-espacio-vital. Esta é a condição
necessária para a eclosão de uma consciência e, neste sentido, é
uma estrutura comum, carimbo de identificação da experiência hu-
mana. Aquela, pelo contrário, é a forma única e mutável com que
cada indivíduo se diferencia dos demais. A totalidade formal é dúctil
e criativa, a estrutura, rígida e estável. A totalidade, enfim, é o locus
da transformação; a estrutura, seu escudo.
Acabamos de rascunhar a totalidade consciente, numa perspec-
tiva estática, num registro, diríamos, anatômico. Como no organi mo
biológico, para cada anatomia corresponde uma fisiologia, um estudo
desta anatomia em ação funcional. É obre o estudo dos movimentos
psíquicos que nos debruçaremos a seguir.

Referências
1Minkowski E. Le temps vécu. PUF, 1995. A frase citada situa-se
na página 216.
2A citação de Viktor von Weizsacker, assim como uma análise de
seus fundamentos, está pre ente na página 142 de: Mishara A. A
Phenomenologica/ Critique of Commonsensical Assumplions in
DSM-111-R, in Sadler J, Wiggins O. and Schwatz M. Philosophical
Perspectives on Psychiatric Dignostic Classification. The Johns
Hopkins University Press. Baltimore, 1994.
122 Psullj»Lolopa eTransformação: um Esboço Ftn61!1(oo-futruturtl

Q UARTO SEGMENI'O: ESilJOOS SOBRE O MOVIMENTO PSÍQUICO


De um certo modo, pode-se dizer que a modernidade inaugura-
se com a introdução do movimento como centro temático. Quando o
finnamento fixo ptolomaico é abalado pela dinâmica celestial de
Copérnico, a humanidade as ombra-se. O universo humano,
arregimentado ao redor da morada dos homens, a Terra, sendo esta
aspirante à perfeição divina, não podia conceber uma movimentação
enão como instrumento ideal rumo à perfeição inamovível. A ciên-
cia de Copérnico - e depois de Galileu - concebeu e revelou uma
realidade móvel, instável, ainda que detenninada por leis estáveis. A
descoberta da dinâmica celestial traz duas conseqüências estupefa-
cientes para a cultura de então. Em primeiro lugar, a análise mate-
mática dos movimentos mostra que o centro estável a partir do qual
há movimento pode não estar onde parece estar. Em segundo lugar,
a credibilidade dos sentidos, responsável pela fmneza da convicção
da estabilidade da Terra, fica suspensa. A introdução do movimento
na modernidade ocidental inviabiliza as expectativas de uma segu-
rança a respeito daquilo que é estável e, mais importante ainda, de-
monstra a relatividade do movimento.
O movimento não é mais aquela trajetória objetiva que parecia
ser e passa a poder ser considerado movimento em relação a algo,
gerando uma novidade paradigmática que culminaria, já no século
XX, na teoria da relatividade. Nas ciência da mente, acima de tudo,
o movimento deve ser entendido como alternativa de relação, como
um diálogo com um referencial que é assumido como ponto de repa-
ro. Em definitivo, o movimento psíquico precisa de um observador
externo que seja capaz de revelar-lhe suas próprias entranhas, opa-
co a partir de uma auto-observação, da mesma maneira que os olhos
são incapazes de enxergar-se a si mesmos. Quaisquer conclusões a
que o indivíduo chegue como fruto de uma ação introspectiva arris-
ca-se fortemente às mesmas ilusõe dos entidos da escolástica
meclieval.
Depreende-se de ta condição um pressuposto vital para o estu-
do do movimento psíquico: sua interpessoalidade essencial. Tudo
aquilo que extrairemos da investigação do movimento é, portanto,
Guilhwne Peres Messu 123

caudatário de uma contínua e incontornável experiência de inter-


pessoalidade, modalizada sob um aspecto singular. Já no estudos da
consciência encontramos esta interpessoalidade, em primeira instân-
cia, como avalista, por meio da afetividade-contato, das densidades
da experiência consciente de um paciente. Recorremos à no a ca-
pacidade empática, como pesquisadores, para um diagnóstico mais
certeiro, quando temos que nos afrontar com a multiplicidade astuta
dos fenômenos psicopatológicos. Lá, entretanto, se a empatia
interpessoal funciona como a prova dos nove de nossas afirmações,
ela não tem a dimensão que terá aqui. No exame da consciência, os
relatos do paciente, suas autodescrições ou as observações
comportamentais objetivas também são elementos relevantes para
nosso diagnóstico. A interpessoalidade é apenas uma delas; a mais
profunda, é bom que se diga, mas ainda assim tem uma função parcial.
No estudo do movimento, a interpessoalidade é a tal ponto es-
encial que ua ausência aniquilaria a possibilidade de ambicionar-
mos o conhecimento do movimento psíquico. O papel primordial da
interpessoalidade expressa-se sob duas per pectivas. O primeiro deles
refere-se à gênese e dinâmica do movimento. O segundo, à direção
deste movimento. No entanto, a expan ão das hipóteses acerca do
papel da interpessoalidade na análise do movimento não pode ser
realizada neste momento. Para que estas po sam conectar- e
logicamente à nossa exposição, faz-se necessária a introdução de
todo um campo de inve tigações anterior, ub tanciado nas investi-
gações sobre os conteúdos.

Investigações sobre os conte1ídos


A idéia de movimento é tradicionalmente ligada à de linearidade.
Dentro da linhagem da física tradicional, movimentar-se consiste em
mudar de posição no espaço. Este espaço é tomado como homogê-
neo, linear, um plano espacial, poderíamo dizer. Sobre este espaço
podemos conceber trajetórias e resumi-las numa formulação mate-
mática, sempre subentendendo um espaço linear. Numa outra tradi-
ção, ligada sobretudo à psicologia do desenvolvimento, estudam-se
mudanças qualitativa estruturais. A criança em certa idade recebe
e apreende a realidade de modo estruturalmente diferente do que o
124 P5tcopatologil t Transformaç2o: um úboço Fmômmo-Esuutunl

fará anos depois. Esta análise dos fenômeno do de envolvimento


intere a-se sobretudo pela investigação e diagnóstico das mudan-
ça qualitativas denominadas fases. As duas compreensões de mo-
vimento avalilam distintos campos do saber e historicamente apre-
sentaram escasso diálogo.
Entretanto, resta um terreno intermediário a ser examinado que
precisa ser distinguido dessas duas formulações. Neste, o movimen-
to apre enta, s imultaneamente, as características de linearidade e de
mudanças qualitativas. Este terreno intermediário híbrido parece-nos
ser o mais fértil para a procura pelo genuíno movimento psíquico.
Inicialmente, o movimento psíquico é linear, pois existe efetivamen-
te um deslocamento, uma transição dos fenômenos ob erváveís na
consciência. Em seus segmentos de linearidade, o movimento res-
tringe-se a uma circulação no interior de uma totalidade, sem abalar
a manutenção desta totalidade. Esta é a região causal por excelên-
cia, a área em que mais claramente são possíveis as determinações
causais, mais precisos seus resultados e previsões. O movimento
destina-se a preencher continuadamente uma totalidade e, assim, pode
ser identificado à sua própria dinâmica. As ciências do corpo, menos
submetidas à pressão de totalidades do que as ciências da mente,
aproveitaram -se largamente desta particularidade, motor de seu
floresc imento exponencial dos últimos dois século . O reconheci-
mento de movimentos fisiológicos lineares permitiu ampla manipula-
ção da fisiologia corporal e, em conseqüência, controle e mesmo
erradicação de doenças inúmeras. As ciências da mente, igualmen-
te, ancoradas em paradigma de estabilidade, esforçam-se por atin-
gir tais saberes fisiológicos. No entanto, há uma assimetria entre as
relações totaJidade-partes constituintes, se compararmos o corpo à
mente. No corpo, a despeito da totalidade do organismo, as partes
constituintes apresentam uma relativa autonomia. A prova mais can-
dente desta autonomia é o transplante de órgãos. Malgrado as rea-
ções auto-imunes do organismo contra o tecido transplantado, é cada
vez mais viável que urna parte nova e estrangeira seja agregada ao
todo organísmico. A fisiologias dos órgãos individuais con eguem
impor- e à atuação da totalidade. No caso da mente, esta relação é
consideravelmente mais desviada no sentido do poderio da totalida-
de. Como vimo , a consciência arquiteta-se em um todo com radical
Guilhumt Paes MtsW 125

força agregadora, praticamente, nas condições saudáveis, inexistindo


autonomias parciais. Portanto, a diminuta autonomia das linearidades
do movimento psíquico faz com que sejam insuficientes estudos uni-
camente lineares.
O movimento psíquico, no entanto, também é estruturado, pois
a todo o momento gravita em tomo de urna totalidade significati-
va. Em termos rigorosos, apenas no componente estruturado do mo-
vimento pode-se falar em transformação. A transformação consiste,
já na sua etimologia, em mudança de forma, em pas agem a uma
nova totalidade. O movimento, portanto, não conflui necessariamen-
te para a transformação, pode ustentar também a invariância. Para
o aprofundamento do tema movimento e totalidade, assim como suas
interdigitações com a linearidade, há que se introduzir a noção de
conteúdo. A consciência, corno vimos, arquiteta-se numa forma.
Esta forma, por sua vez, desdobra-se em duas regiõe , estabelecen-
do uma relação do gênero figura-fundo. Uma zona de maior desta-
que, realçada sobre uma base silenciosa. Consideraremos conteúdos
estes instantâneos da consciência, estas condensações temporárias
da sua forma, em que um conjunto de elementos recebe destaque.
Um conteúdo é, portanto, a emergência de um relevo de um seg-
mento da consciência (ou o foco de atenção momentâneo desta) que
conhece a maior proeminência em um determinado período de tem-
po. Neste sentido, também os conteúdos ajustam-se à concepção
de totalidade que vimos empregando. Mais precisamente, uma
totalidade consciente temporária assentada sobre uma ou-
tra totalidade - a arquitetônica da consciência. Os conteúdos
igualmente são consciência, mas numa forma voltada à movimenta-
ção. Inconsistente pensar que haja uma diferença radical, ontológica,
entre conteúdos e forma da consciência. Ambos derivam do mesmo
tecido, com um único distintivo. A arquitetônica da consciência man-
tém uma totalidade estratificada e, ainda que e teja sujeita a grandes
variações formais (a própria transformação), traz intacta a marca de
ser uma integralidade regular. Os conteúdos, por sua vez, geram uma
irregularidade, um abaulamento nesta totalidade, cunham nela wna
profundidade tridimensional que faz com que alguns elementos pas-
sem à frente da cena enquanto outros aguardem na coxia. É apenas
esta a linha que separa a forma da consciência de seu conteúdo.
126 PsiropatologU t Truuform2çio: um Esboço Ftncimtoo-Estrutunl

Contudo, é esta ligeira nota que os conteúdos agregam à forma da


consciência a responsável pela capacidade de todo seu majesto o
edifício mover-se. Não é gratuito que - tomando os extremos como
exemplo- o pensamento seja a instância mais plástica da consciên-
cia e a corporeidade a mais rígida. Tal fato se deve à índole do pri-
meiro de gerar conteúdos com a maior riqueza e variabilidade e à da
segunda de expressar-se em poucos conteúdos. O pensamento, em
ua autogêne e e infinita criatividade, faz deslizar seguidamente con-
teúdos, arranja e rearranja as figuras da consciência, enquanto a
corporeidade alça-se como conteúdo empre por meio de prescri-
ções ditadas pela e pécie biológica. É da natureza do ato de pensar a
circunscrição de um campo atencional que, reduzindo o pensamento
a um único foco, realce uma porção de realidade. Na corporeidade,
esse destaque sói ocorrer apenas como esforço voluntário, já que, na
marcha cotidiana, a corporeidade resta silenciosa por detrás da cons-
ciência. Esta observação conduz a uma hierarquização dos conteúdos,
de acordo com o seu grau de clareza. Inúmeros são os conteúdos da
consciência; porém. no pensamento, estes conteúdos atingem seu
grau máximo de clareza: são, por assim dizer, conteúdos por exce-
lência. Permitem, dentro da relação figura-fundo, a mais desviada
preponderância possível no sentido da figura. O pensamento fortale-
ce intensamente a figura e esmaece os contornos do fundo, agracia
os conteúdos com foro privilegiado. Deste desequilíbrio funcional,
desta libertação parcial que os conteúdos experimentam no pen-
samento deriva sua maior afeição pela mobilidade, seu livre trân-
sito e ua posição de liderança na transfonnação da totalidade a
que pertencem.
Dada esta definição de conteúdo, algumas peculiaridades de-
vem ser observadas. Inicialmente, os conteúdos são totalidades em
uma dinâmica dialética, de modo a que duas espécies de movimento
ocorram em seu interior. O primeiro deles - centrípeto - é o movi-
mento comprometido com a manutenção da integridade do conteú-
do. Os conteúdos organizam tais movimentos de forma a que estes
lhe sirvam de substrato, de modo análogo à função do sangue no
organismo biológico. A totalidade do organismo movimenta o sangue
para que este mantenha a totalidade do organismo. Relacionam-se
numa circularidade. O segundo gênero de movimento per egue a
Guilherme Peres Mesw 127

desestabilização da integridade do conteúdo. Age como uma força


centrífuga que, por sua pressão, procura desfigurar um determinado
conteúdo, rompendo uma totalidade, para produzir outra. Neste
ponto reside uma caracteristica de incomensurável valor para a ob-
servação de conteúdos. Estes se sucedem, a1tando de uma totalida-
de a outra, sem que haja zonas de ausência de conteúdo. O
movimento centrífugo comprime o conteúdo até que este se trans-
forme em outro. Um conteúdo submetido a uma pressão centrifuga
desfigura-se paulatinamente até que e desintegra. O momento zero
da desintegração de um conteúdo corresponde simultaneamente ao
fim de um conteúdo e ao início do outro. Inexistem, portanto, não-
conteúdos. Existirão, na realidade, conteúdos com prevalência
centripeta, mais facilmente reconhecíveis, e conteúdos com supre-
macia centrífuga, disformes e distorcidos, no limite irreconhecíveis.
Essa dinâmica de alternância dialética estende-se interminavelmen-
te, interrompendo-se com a morte. A concepção primordial que de-
vemos reter da questão da dialética dos conteúdos é o seu aspecto
de totalidade. Por esta razão, sempre o movimento psíquico transita-
rá por totalidades. Ora conflitando-se com estas, procurando esfacelá-
las para gerar outras, ora aninhando- e nas totalidades, dando-lhes
estofo parct ua permanência, as totalidade são o trilho por onde
pode existir alguma genuína movimentação do psíquico. Esta dialética
tem como conseqüência o fato que, inevitavelmente, todo movimen-
to psíquico é linear e estruturado ao mesmo tempo, podendo ser abor-
dado por uma dinâmica- em suas zonas de linearidade- e por urna
psicologia do desenvolvimento - nos seus saltos qualitativos. Mais
importante do que determinar qual o olhar que deve perseguir o mo-
vimento psíquico é saber reconhecer em que momentos o movimen-
to é centrífugo e em quais centrípeto, onde ele será geração do novo
e onde, conservação do antigo. O psiquismo, em ua rota
expansionista, oscila entre a progressão e a conservação. Orienta-se
por uma complexa penduJação entre estes doi pontos extremos, que
culmina com sua transformação.
Daí depreende-se a segunda peculiaridade dos conteúdos, resu-
mida numa analítica de suas fases. Três fase estabelecem-se. Na
primeira delas encontra- e um conteúdo estável. A somatória de suas
128 Psirop.1tolopa eTransformaçio: um Esboço Fmôllltii0-Esuutu11l

movimentações é zero e o conteúdo conhece um período de estabili-


dade. Por uma certa amplitude temporal o conteúdo é idêntico a si
mesmo. Duas outras fases determinam-se a partir do afastamento
deste período de estabilidade. A segunda e terceira fases não se
ordenam, portanto, em seqüência cronológica. Numa egunda fase,
um conteúdo recém-iniciado ainda tateia um caminho para sua es-
tabilização. O conteúdo seria instável pela parcimônia de seu
arcabouço ósseo, de seu aprumo calcário. Numa terceira fase o
conteúdo perde vigor, pois começa a desmantelar-se. Seus elementos
constituintes fraquejam e a capacidade de manter-se em seu esta-
do de totalidade míngua. A detecção precoce das instabilidades
dos conteúdos pode ser indispensável para o bom andamento não
só do diagnóstico como da terapêutica. Saber detectar a senescência
de um conteúdo e a transição para outro pode amortecer os efeitos
de ta transição obre a forma da consciência, essência da terceira
peculiaridade.
Nesta, há que e estabelecer uma analítica da dialética entre
conteúdos e consciência. Aqui devemos nos estender um pouco mais.
Afirmamo anteriormente que os conteúdos alternam-se entre si,
produzindo uma dinâmica de fusões e fraturas que sempre serão
marcadas por uma positividade. Ou, em outras palavras, sempre ha-
verá conteúdo. Ora, e os conteúdos são condensações da consciên-
cia, os movimentos próprios dos conteúdos deixarão suas
marcas no tecido global da consciência. Determina-se, assim,
um campo de conhecimento, relativo às modalidades com que a flui-
dez dos conteúdo marca as estratificações da consciência. A partir
da perscrutação de te campo é que poderemos de aguar numa cer-
ta compreensão de psicopatologia, que deve apenas ser esboçada no
término deste en ·aio. Lancemos, inicialmente, wn olhar macroscópico
sobre o tema. Os conteúdos, sujeitos a forças vetoriais centrífugas e
centrípeta , executarão abalos na consciência, além do estado de
estabilidade, quando a consciência, temporariamente, repousará so-
bre os relevos dos conteúdo . Tração e compressão são as duas
ações maiore que o conteúdo projetam obre a consciência.
Imantando elementos para a manutenção de sua totalidade, os
conteúdos tracionarão constituinte da consciência, arrancando-lhes
Guilhmn( Pms Mwa.s 129

de sua arquitetônica anterior - também orientada por um conteúdo-


para dirigi-los a uma nova composição. Como um arquiteto que de-
vesse, dentro de uma reforma, utilizar os mesmos materiais para
distintas e novas funções, o materiais da con ciência irão continua-
mente dobrar-se aos desígnios de um inconstante arquiteto. A tração
de elementos da consciência expande o tecido destes elementos,
aumentando, por um lado, a visibilidade de sua tessitura, o teor de
seus tons ou a elasticidade de suas fibras. Por outro lado, testa a
resistência destas fibras, convidando-as a uma perigosa aproxima-
ção de seu ponto de ruptura. Em outras palavras, no acme de vi ibi-
lidade de um elemento da consciência espreita seu maior risco de
fratura. Aquilo que o psicopatologista vê com maior clareza é aquilo
que está mais próximo de perder sua forma.
No extremo opo to da tração os conteúdos necessitarão da com-
pressão de elementos da consciência para cumprir seus propósitos.
Determinados constituintes da con ciência, desvocacionados para
a incorporação pelos conteúdos. são pressionado para desapare-
cer ou coagular. O peso dos conteúdos faz mitigar tais compo-
nentes, desalojando-o do olhar do psicopatologista. Perigosa-
mente, a compressão pode inviabilizar o retorno destes elemen-
tos para a consciência quando novamente solicitados. Como
tecido necrosado e calcificado, as novas trações podem, em vez de
revitalizar estes elementos da con ciência, apenas reproduzir fenô-
menos psicopatológicos.
Entretanto, tração e compressão são instâncias extrema da
manipulação dos conteúdos sobre o tecido da consciência e, como
tal, momentos de grande risco de eclosão de fatos psicopatológicos.
Não é por mero acaso que as síndromes psicopatológicas de maior
gravidade - como as esquizofren.ias - costumam irromper em mo-
mentos de dramática tração ou compressão da consciência. A ado-
lescência, recebendo inOuxos vultosos do ambiente (naquilo que
concerne às novas adaptações da consciência a um novo universo, o
mundo adulto), e da corporeidade (a notória invasão hormonal con-
cluindo a maturação sexual), tracionam ou comprimem ao máximo a
consciência fazendo com que esta, à mínima variação de conteúdo,
possa romper na psicose ou coagular na esquizoidia.
130 Psicn~tologja t Truuformaçio: um Esboço FcnôOJCilO-Estrutural

Instâncias moderadas da ação dos conteúdos sobre a consciên-


cia devem ser examinadas. A expansão e retração do tecido da
consciência podem capitanear processos mais graduais de mudança
que culminem em evoluções sadias, em vez de rupturas cominutivas.
Entenderemos por expansão a gradual ampliação e intensificação de
um determinado componente da consciência, e por retração o movi-
mento idêntico e paulatino no sentido inverso. Gerar expansões e
retrações e procurar amortecer o impacto de trações e compressões
é o interminável papel de educadores e psicoterapeutas.
Passemos, agora, do macroscópico ao âmbito microscópico e
investiguemos como estas projeções dos conteúdos atuarão em cada
componente da consciência. V101os, ao estudar a consciência, como
pensamento e sentimento vinculam-se diretamente às experiên-
cias de interioridade do eu psíquico. São mesmo as manifestações
mais claras deste. A expansão do eu dá-se, portanto, majoritaria-
mente pela ampliação do pensamento e do sentimento. Esta imanência
da consciência confere ao pensamento (por todo o restante do en-
saio, deve-se entender por pensamento o pensamento-conceito) e ao
sentimento a maior elasticidade dentre os componentes da consciên-
cia e, em decorrência, a maior resistência à tração e a melhor res-
posta aos aguilhões da compressão. O par pensamento-sentimento,
em situações de extrema tração, possui recursos para não fragmen-
tar-se. O sentimento, em seus estados hígidos, é competente para
sentir estranhezas, mal-estares difusos, dúvidas e medos, diante da
aproximação de novos conteúdos. A latitude dos sentimentos possi-
bilita que estes criem um estado de suspensão que irá, exatamente
por sua propriedade de manter-se em suspenso por um certo lapso
de tempo, abrir caminho para que um novo conteúdo consiga se es-
tabilizar. Experiências positivas, como emulação, esperança ou fé
também podem ser recrutadas pela consciência para tecer uma rede
elástica que, como as fibras uterinas na gestação, gerencie um
estiramento delicado da consciência à espera do parto de um novo
conteúdo.
O pensamento, por sua vez, age em sincronia com o sentimento,
delimitando uma região de mobilidade máxima da consciência. Nesta
região a efetividade do pensamento complementa as características
Guilherme Peres Mesw 13 1

do sentimento. Este oferece uma elasticidade primária, uma capaci-


dade de alongar-se por extensões insuspeitas ou reduzir-se sem mor-
tificar-se. A oscilação do sentimento seria, no entanto, ineficaz se
prescindisse da potência sintética do pensamento. As sínte es reali-
zada pelo pensamento ancoram e protegem as ondulações das fi-
bras do sentimento. Em cada ato sintético o pensamento ordena e dá
forma a uma porção de sentimento, definindo-a por intermédio de
um conceito. Um conceito, ao formular-se, transforma um sentimen-
to vago e incômodo em clareza e satisfação; que, por sua vez, nova-
mente se dilatarão ou encurtarão de forma a solicitar uma nova sín-
tese operada pelo pensamento conceitual. Nessa dialética, pensa-
mento e sentimento necessitam-se reciprocamente de modo vital.
Um sentimento desconectado da ação sintética conceitual arrisca-se
em demasia a duas condições. Ora a uma pulverização da capacida-
de de sentir, como se esta se esgotasse pela penúria de oxigenação
proveniente do pensamento; ora a uma rápida transição para vivências
outras que não o sentimento que, como veremos a seguir, não des-
frutam da sua capacidade elástica. Por outro lado, um pensamento
desenraizado da espessura sentimental flutua na realidade como se
perdido no vácuo. A força propu] ora do pensamento na geração de
sínteses novas no interior da realidade advém de seu implante no
sentimento. A experiência sentimental norteia e oferece critérios de
validade para as infinitas hipóteses lançadas pelo pensamento. Nada
mais exemplar desta situação do que a hipertrofia cognitiva de certos
autistas, na qual a atrofia da camada sentimental impede um uso pene-
trante do pensamento (ou, mais adequadamente, impede qualquer uso).
Delimitamos, assim, uma região híbrida, um círculo de pensa-
mento-sentimento no qual a consciência pode melhor acolher as vi-
cissitudes dos conteúdos. Quando os conteúdos tangem a consciên-
cia por este canal encontram as melhores condições fisiológicas para
desenvolver suas fases constituintes. Nestas situações estaremos o
mais próximo possível do vigor psíquico. Entretanto, tais condições
não ocorrem na freqüência ou amplitude que desejaríamo . Amiúde,
os conteúdos devem encontrar outros componentes da consciência
na sua trajetória inviolável, conflagrando empecilhos e solicitando
oluções que pas aremos a pesquisar.
132 Psioopatologia ~ TruJSfonnação: um Esboço Fm6m~no-&trutural

Os conteúdos podem ativar emoções, exigindo que deslindemos


as singularidades funcionais desta. A emoção se distingue por sua
hiperelasticidade. Seu perfil paroxístico produz grandes ondas na to-
talidade da consciência que, como vimos, apresentam curta duração.
A hiperelasticidade emocional dificulta o livre trânsito dos conteú-
dos. Em sua fase estável, os conteúdos acoplam-se bem às emo-
ções. Poderíamos mesmo dizer que as emoções favoreçam a estabi-
lidade do conteúdo. Seu estreito lapso de tempo ajusta-se melhor a
um conteúdo que não solicite maiores amplitudes. No entanto, as
primeiras pressões provenientes da movimentação dos conteúdos
acabam por gerar tal reatividade emocional que, como o ricocheteio
de uma fibra elástica, açoitam o conteúdo, repelindo-o para seu esta-
do de estabilidade. Este fenômeno se observa nas duas frentes de
movimentação de conteúdos. Quando estes, em neoformação, ane-
lam por novos espaços na consciência, a hiperelasticidade emocio-
nal, por sua força excessiva, pode destruir os ainda frágeis indicativos
de expansão desta consciência. No seu período de desvitalização, a
hiperelasticidade atua no sentido inverso. O afastamento e abandono
de segmentos de conteúdo ficam prejudicados, pois a emoção
hiperelástica apenas aparentemente perde seus elementos. Na reali-
dade, estes, uma vez distanciados da consciência, acumulam sua maior
potencialidade elástica, tendendo a retomar com a maior força de
invasibilidade. Em suma, a emoção busca, por sua essência, reter a
movimentação de conteúdos, promovendo um solo difícil para novos
enraizamentos, tendendo a uma atitude conservadora da consciên-
cia. Esta ambigüidade marca de modo indelével as emoções: uma
aparente propulsão apaixonada para o futuro - se observada na su-
perfície - e um radical conservadorismo - quando investigada nos
interstícios.
As relações entre conteúdo e expressividade devem pautar-
se pelo perfil desta última no que tange à proporção interioridade/
exterioridade. A expressividade, mescla de sentimento e corpo, fica
a meio caminho do que vimos no exame do sentimento e do que
veremos na corporeidade. Possui a mesma plasticidade intensa do
sentimento e a mesma inacessibilidade da corporeidade. Apresenta
uma face interior voltada para a intimidade do eu, que favorece a
mobilização de conteúdos. Entretanto, sua face voltada para o
Guílhmnc Pcm Mcws 133

coletivo exterior relaciona-se de maneira complexa com o movimen-


to psíquico. A relevância da exterioridade na expressão e sua subor-
dinação à cultura estabelecem uma triagem externa de conteúdos. A
emergência de um novo conteúdo pode ser obstaculizada pela
expressividade à medida que esta se informe exageradamente pela
exterioridade. O espaço exterior, que é um espaço de todos, aprecia
alguns conteúdos mais do que outros, conduzindo a uma
indisponibilização da consciência no que se refere à mobilidade de
conteúdos. Quanto mais expressiva a consciência, maior sua propor-
ção exterior e menor sua capacidade de fleJtibilizar-se para qualquer
conteúdo. Em outra linguagem, poderíamos dizer que a consciência
mais expressiva e menos entirnental fica mais sujeita às repressões
da coletividade. Repressões aqui não no sentido de uma exclusão
inconsciente, mas de uma eleição inadvertida e irrefletida daquilo
que, como conteúdo, terá acesso facilitado à totalidade consciente.
A coletividade ordena os relevos da consciência, homogeniza-os,
procura reduzi-los a uma norma, a uma média. Nesse ent.ido, a co-
letividade assume um papel aparentado àquele jogado pelos próprios
conteúdos. São ambos agenciadores de relevos da consciência e,
portanto, nas dimensões da expressividade, assumem uma posição
de conflito na qual o coletivo leva vantagem em relação aos conteú-
dos psíquicos do indivíduo. Se no par sentimento-pensamento a
plasticidade da consciência fica a serviço do movimento psíquico, na
expressividade esta plasticidade oferece-se mais à cultura, à incor-
poração do indivíduo por esta.
A análise da expressividade, entretanto, não pode resumir-se a
esta simples equação. Pois, se por um lado essa face exterior
desfavorece a expressão da intimidade conteudfstica, por outro lado,
a capacidade da expressividade em exteriorizar o sentimento íntimo,
em lhe dar contornos humanos, escapando de um solipsismo
aterrorizante, atua no sentido oposto. Ao encampar de uma só vez
sentimento e corpo a expressividade é capaz de fornecer âncoras
para os conteúdos emergentes. Aquilo que apenas inicia como con-
teúdo carece ainda de densidade para manter-se ou deslizar para o
interior da consciência. A vivência sentimental, fugidia por excelên-
cia, acolhe o conteúdo, mas pode ser incompetente para retê-lo. Neste
134 Psicopatologia eTransformaçio: um Esboço Feoômero-E.strutu!ll

sentido, mesmo o mais agudo pensamento pode ser incapaz para


fixar um conteúdo que encontrou ou gerou. Neste momento incipiente,
a expressividade fixa o conteúdo, como que o tatuando no corpo
externo e objetivo da consciência. Promove um marco histórico,
irreversível, um referencial sólido indicativo da presença de um novo
conteúdo. Este referencial atrai continuamente sentimento-pensa-
mento, como um centro imantado, até que um conteúdo possa esta-
belecer-se por si mesmo. Ainda nesta linha de raciocínio, a
expressividade relaciona-se com a temporalidade de modo diverso
do par pensamento-sentimento, dando condições novas para o
florescimento de conteúdos. Sentimentos e pensamentos transitam
por uma atmosfera de fluxo contínuo da consciência. Seu valor para
a higidez psíquica deriva mesmo deste traço, já que levam ao prolon-
gamento máximo dos limites da consciência e, em conseqüência, à
facilitação da movimentação de conteúdos. Este fluxo contínuo, no
entanto, apresenta um pendor para o aplainamento relativo de seus
componentes, ou seja, uma série de sentimentos/pensamentos arti-
culados tem uma relativa identidade de valor, são sempre sentimen-
tos/pensamentos. No caso da expressividade, há uma enorme
assimetria entre seus momentos. Isto quer dizer que um momento
expressivo é radicalmente diferente de seu momento seguinte, não-
expressivo ou menos expressivo que o anterior. A expressividade
acentua enormemente sua presença relativa, determinando uma
temporalidade repleta de acentos e destaques, desigual e heterogê-
nea. Uma temporalidade acidentada, diríamos, diferente da
temporal idade em forma de planície do pensamento/sentimento. Essa
temporal idade permite que um segmento de conteúdo possa serdes-
tacado ao máximo do todo da consciência, como se um foco de luz
fosse projetado unicamente sobre ele. Assim, um conteúdo iniciante
que possa ser captado pela expressividade (se con eguir escapar às
pressões da coletividade), conhecerá um destaque singular, uma
amplificação no interior da consciência que, indubitavelmente, favo-
recerá sua mobilização. Não devemos aqui admitir uma confusão
entre expressividade e emoção. A expressividade amplifica conteú-
dos sem perder uma dimensão de interioridade (ainda que tampouco
perdendo uma dimensão de exterioridade) e sem comprometer a li-
nha do tempo da totalidade da consciência. A emoção invade
Guilhrnnt Ptre. Mwu 135

paroxisticamente a consciência, despreocupando-se de limites entre


interioridade e exterioridade, desprezando mesmo esta questão. Ar-
rasta todos os elementos desta, mutila a temporalidade e, deste
modo, não se alinha entre os auxiliares da movimentação psíquica.
Dentro destas ambigüidades essenciais a expressividade é, inega-
velmente, ao mesmo tempo, um aliado abnegado e imprescindível
da expansão da consciência individual e um servidor agudo das im-
posições da cultura.
Da expressividade passamos às paragens limítrofes da cons-
ciência, onde esta faz fronteiras com a não-consciência. Humor e
corporeidade definem perfis próprios na dinâmica dos conteúdos.
O humor, por seu aspecto dissolvido e secundário na configuração
da consciência, pouco pode atuar efetivamente na modu lação da
movimentação, salvo em seus aspectos patológicos. Tonalidades de
humor favorecem ou dificultam o trânsito de conteúdos, mas, em
condições saudáveis, não chegam a repelir avanços ou facilitar emer-
gências. Na realidade, os conteúdos apenas tangenciarn os humores
na sua movimentação, rapidamente aderindo a componentes de
maior definição, como os que acabamos de examinar. A
índiferenciação humoral é, por essência, inábil em conduzir conteú-
dos. O caráter intético dos conteúdos não se harmoniza com o ca-
ráter difuso dos humores. No limite, apenas em tese se pode dizer
haver uma relação entre humor e movimentação de conteúdos.
Corporeidade e conteúdos tecem um dédalo de relações de
inestimável relevância para a compreen ão da movimentação psí-
quica, sujeito às mais herméticas situações. Sua freqüente coloca-
ção como problema no cotidiano da prática psicopatológica faz com
que se deva ter em mente ao menos as articulações fundamentais
deste labirinto. A corporeidade-mecanismo, no ponto extremo de
uma corporeidade independente da consciência, escapa, em seu es-
tado puro, de qualquer relação com conteúdos. Os mecanismos bio-
lógicos, dentro de um círculo de normalidade, seguem seu destino
imposto pela história da espécie sem dialogar com os conteúdos que
passeiam pelo psiquismo. Não os consultam em suas decisões fisio-
lógicas previamente programadas. Unicamente quando e tes meca-
nismos agem em zonas de agenciamento é que se coloca a questão
136 Psicopatolopa cTruufornução: um Esboço Fcoõ~tural

da dialética dos movimentos. A corporeidade-agenciamento, corno


membro ativo da con ciência, manife ta-se em cada deslocamento
de conteúdos, com suas duas dimensões anteriormente estudadas, a
concretude e a endogeneidade. A concretude recebe os conteú-
dos por meio de expressões comportamentais ou fisiológicas. O
comportamentos, misto de expressão e motricidade, conferem enor-
me visibilidade aos conteúdos. Dão a oportunidade rara de permitir
ao examinador encontrar os conteúdos de seu examinado à luz do
dia, revelado, facilitando a tarefa das profundas submersões do pen-
samento constituinte. Os conteúdos atingem urna plasticidade
tridimensional motora que os aproximam da relação com a
expressividade, mas ainda amplificados pela objetividade e clareza
que apenas um comportamento expresso pode oferecer. Entretanto,
novamente aqui o excesso de visibilidade paga seu preço, ao
desbalancear a proporcionalidade com a interioridade. Os comporta-
mento corporais, se facilitam a exegese de um conteúdo, congelam
esta num só tema. Hipertrofiam um certo conteúdo, fixando-o num
ponto e colhido pelo comportamento e impedindo a observação de
seu de lizamento. A análise de comportamento é facilitada e
empobrecida ao me mo tempo. Facilitada pela clareza de um con-
teúdo e tável diante de nossos olhos. Empobrecida pelo fechamento
de perspectivas a respeito da movimentação desse conteúdo. Em
outra linguagem, o psicopatologista deve ficar extremamente atento
diante da interpretação de um comportamento, pois a sua aparente
docilidade pode ocultar um congelamento da movimentação psíquica
e o excesso de observação e análise de um comportamento pode
ervir aos propósitos de desviar atenção dos caminhos discretos pe-
los quais e move um conteúdo. Esta característica da concretude
da corporeidade observa-se também na dimensão fisiológica. Uma
certa fisiologia interpretável em termos da consciência pode manter-
se um tempo exagerado sob as atenções do examinador que, bus-
cando ignificado nesta, perde de vista as oscilações do conteúdo.
Sejamos mais claros. Neste ponto, a corporeidade não interrompe o
fluxo dos conteúdos. Apenas facilita em demasia o reconhecimento
de seu pontos estáveis, exigindo muita atenção para que não se
perca a orientação da movimentação. O tratamento de pacientes
com elevada tendência às ações concreta mo tra o e forço que e
Guilherme Pucs Mesw 137

deve fazer para encontrar a movimentação psíquica por detrás da


série de fatos comportamentais ou fisiológicos que nos vêm aos olhos
amiúde. O pensamento conceitual do psicopatologista dígladia conti-
nuamente com a concretude do paciente, visando a encontrar seus
pontos de abertura para a visualização de pequenas movimentações.
Estaríamos, no entanto, simplificando em dema ia as relações
da concretude corporal com os conteúdos, minorando suas possíveis
feições nocivas. À corporeidade-agenciamento pode também caber
um papel de imobilizador de conteúdos. Ou mesmo, diríamos que na
corporeidade encontram-se as melhores condições materiais para as
imobilizações. Por essência, a corporeidade é o ponto de maior inér-
cia de toda a consciência, sua região de menor elasticidade. Espessa
e rígida, a corporeidade acolhe parcamente conteúdos em sua matriz
e, quando os acolhe, encerra-os em seu interior, concedendo-lhes a
mínima motilidade. Metaforicamente, diríamos que a corporeidade
enterra conteúdos, não necessariamente desvitalizando-os, mas sub-
metendo-os à sua frieza cérea peculiar. Uma vez captados pela
corporeidade-agenciamento os conteúdos desacelerarão e, de acor-
do com o peso relativo da corporeidade em uma consciência, desa-
guarão num enrijecimento de toda a consciência.
Esses apontamentos identificam concretude e endogeneidade
corporais. De maneira assemelhada à concretude, a endoge-
neidade também tem força imobilizadora. Um conteúdo captado por
uma endogeneidade maniaca, por exemplo, pode deflagrar fases
psicopatológicas cujo significado seja apenas a imobilização do
trânsito de conteúdos. Há também aqui uma demanda de atenção
continuada por parte do psicopatologista para não encontrar
hermetismos onde apenas há deserto. A interpretação significativa
de crises ou fases endógenas pode sim revelar a marca da ação de
conteúdos, sobretudo em suas fases iniciais (onde caberia determi-
nar urna psicogenia). Entretanto, o restante da fase endógena pode
estar unicamente operando como um congelador de conteúdos, na
forma de imobilização ou enrijecimento da consciência, impedindo o
livre fluxo destes. Neste sentido, não cabe sequer urna a:frrrnação do
gênero reação de defesa, pois aquilo que efetivamente ocorre é uma
implantação de conteúdos em uma zona da consciência de extrema
138 P1ico~tol~ t Truufornução: um E.sboço Fmômmo-Estrutunl

rigidez. Parece-nos que a melhor explicação para o fenômeno esteja


no excesso de corporeidade endógena na consciência e não numa
dinâmica de defesas psicológicas.
Mas esta reflexão introduz a questão da autonomia da
corporeidade, último ponto a ser investigado da corporeidade e ponto
de convergência entre corporeidade-agenciamento e corporeidade-
vicariância. Até aqui estudamos como a corporeidade agenciada pela
consciência participa do trânsito de conteúdos. Seqüestrando-os ou
não, esta relação se dá sempre dentro de uma dialética entre conteú-
dos e consciência. No entanto, há um território no qual a corporeidade
autonomiza-se em constituir nenhuma significação para o todo da
consciência (ao qual demos o nome de corporeidade-vicariância).
Neste, pode-se dizer que não estamos na fisiologia fechada em si
mesma nem tampouco na consciência. Esta zona se relaciona de
modo singular com o trânsito de conteúdos, pois, simultaneamente,
há e não bá conteúdos transitando. Há conteúdos à medida que estes
podem ativar autonomias corporais, os transtornos psicossomáticos,
por exemplo. Não há conteúdos desde que esta sua movimentação
aciona algo fora do todo da consciência, autônomo em relação a
esta. Fisiológico e não fisiológico ao mesmo tempo e psicológico e
não psicológico ao mesmo tempo. Um conteúdo, iniciando sua traje-
tória na consciência, pode deflagrar um processo fisiológico corpo-
ral. Este processo, no entanto, segue um trajeto independente, não
mais acolhendo aquele conteúdo, vivendo à parte da totalidade da
consciência. Uma república autônoma, fora do projetos e conteú-
dos da consciência, mas convivendo em seu interior. Uma peça solta
da engrenagem, diríamos, na qual a corporeidade pode assumir uma
autonomia estéril, alijada da movimentação dos conteúdos sem
se alijar da consciência.
A quarta e última peculiaridade retoma a terceira, num regis-
tro novo. Trata-se da análise das relações dos conteúdos com a
totalidade da consciência. Examinamos analiticamente aquilo que,
na realidade empírica do psiquismo, ocorre de maneira sintética.
Os conteúdos, ao movimentar-se pela consciência, movem-na
como um todo, jamais como partes justapostas e com reações
individuais. Cada elemento consciente, como vimos, traz uma
Guilherme Peres Messas 139

virtualidade de maneiras de incorporar conteúdos em sua dialética.


Os indivíduos empíricos, entretanto, compõem estes elementos em
mosaicos singulares. Estas totalidades reagirão, portanto, de modo
individualizado e irreprodutível à pressão de conteúdos. Uma in-
vestigação das idiossincrasias de cada totalidade transcende este
momento da reflexão, pois desembocaria na análise individual de
casos. Devemos reter, no entanto, que a consciência reage em blo-
co e que os conteúdos atingem-na nas partes. Esta assimetria es-
sencial da dinâmica entre conteúdos e consciência é o mérito por
excelência a ser examinado pelo psicopatologista. Em suas condi-
ções saudáveis, assim, para cada movimentação de conteúdos ha-
verá um momento primário de desestabilização da arquitetônica
consciente, instabilizada pelo golpe em uma de suas partes. Em um
segundo momento, a totalidade consciente procura reordenar-se,
reencontrando uma nova arquitetônica que seja complacente para
admitir o volume de um novo conteúdo.
Uma dialética rege também esta relação. Uma deformação da
totalidade consciente seguida de uma distensão, sempre um nível
acima Depreende-se daí o risco maior de psicopatologia nos mo-
mentos de deformação e a importância da assimilação de novas to-
talidades nos momentos de distensão. A totalidade da consciência,
ao servir à mutação de conteúdos, promove uma alternância de su-
premacias de seus elementos, de sua configuração figura-fundo .
Cada elemento que ascende à posição privilegiada ressalta-se em
relação aos demais, jamais em situação solitária. Como um solista
num concerto, suas manifestações acompanham-se de toda a or-
questra consciente, que lhe serve de sustentação. A mutação das
relações figura-fundo é a marca indelével das articulações entre for-
ma e conteúdo, entre consciência e movimento. Uma figura em
destaque temporário, projetada sobre um segundo plano he-
terogêneo, constituída por um conteúdo em transição contí-
nua que, por sua vez, pressiona a formação de uma nova fi-
gura emergindo da heterogeneidade do segundo plano que,
em seguida, dará as condições para a transição para um novo
conteúdo. Esta seria a unidade rítmica circular (um rondó) da com-
posição da transformação.
140

Com isto, a despeito das infinitas composições possíveis e,


portanto, das inúmeras dinâmicas de evolução dessas totalidade ,
algumas relações podem ser vislumbradas, sempre de caráter
geral, como indicativos para a análise de casos, consubstanciadas
no conceito de balanceamento. Uma totalidade compõe-se de
elementos heterogêneos, com divergentes ela ticidades e inércias,
como acabamos de ver. Para a sanidade da consciência, mais
importante do que uma hipertrofia de seus elementos mais plásti-
cos é a harmonização de heterogeneidades. Aparentemente um
pensamento ou sentimento bastante desenvolvidos bastariam para
avalizar a vitalidade plástica da consciência, já que postulamos
serem estes seus constituintes mais moldáveis e afeitos à expan-
são. Entretanto, este pressuposto não é real, pois se olvida da
relação figura-fundo. Por exemplo, o pensamento, no papel de
figura expoente, necessita de um balanceamento com outros ele-
mentos que, mesmo dotados de menor elasticidade, são funda-
mentais para a manutenção da totalidade. Um pensamento
hegemônico, ditatorial, pode esfacelar a totaJjdade da consciên-
cia, retirando-lhe as cores ou a graça, culminando numa
automatização ou esgotamento do próprio pensamento. A capa-
cidade da totalidade consciente de manter-se num equilfbrio har-
mônico dá a condição ótima para o acolhimento de conteúdos e,
em última análise, para a movimentação psíquica.
Em conseqüência, a totalidade da consciência apresentará uma
tendência ao balanceamento, uma elasticidade intrínseca que ultrapas-
sa as elasticidade individuais de seus componentes. Para além da
característica de cada elemento em relação aos conteúdos, estes te-
rão de dialogar com esta espécie de tendência associativa da totalida-
de consciente, uma propriedade sua para manter-se viva Diante de
pressões exageradas em um de seus componentes, a tendência ao
balanceamento fará com que a totalidade procure, por si só, estados
harmônicos novos que sejam capazes de desafogar essas pressões.
Esta tendência à manutenção da harmonização de heterogeneidades
pode explicar as novas composições formais que a totalidade cons-
ciente experimenta ao longo do tempo e que acabam por viabilizar a
vida mental. O todo, enfim, procura-se manter como todo.
Guilbumt PatS Mwas 141

Abandonamos aqui os estudos sobre conteúdos, retornando ao


tema do movimento, com vistas a conclui-lo. Esta retomada do mo-
vimento na realidade também poderia ser classificada como uma
quinta e tardia peculiaridade dos conteúdos. As duas se sobrepõem.
Apenas inverteremos nosso olhar para o lado oposto do horizonte
que mirávamos. Observamos as projeções dos conteúdos sobre o
tecido da consciência, numa mirada que partia dos conteúdos e ca-
minhava para a consciência, num grau crescente de clareza
fenomenológica/empírica. Agora, faremos o oposto. Partindo dos já
mutantes conteúdos, percorreremos uma trajetória retrógrada, rumo
a um terreno ainda menos acessível ao olhar direto do investigador.
Refletiremos acerca das inter-relações entre conteúdo e instinto. Já
vimos o tema dos instintos dentro do tratamento dado por Jaspers.
Discutimos igualmente sobre as diferentes perspectivas que uma vi-
são da estabilidade ou da transformação abrem sobre o assunto. Em
qualquer formulação, entretanto, os instintos, como origem do movi-
mento, espreitam inacessíveis como fonte última de um conhecimen-
to necessariamente indireto. Aqui devemos examinar como se arti-
culam instintos e conteúdos. Os instintos, como propulsão irredutível
de qualquer movimento, como gênese derradeira, não atuam dire-
tamente sobre a consciência. Apenas uma concepção simplista e
linear de consciência poderia admitir o oposto. Um instinto, constru-
tivo ou destrutivo (dentro da bipolaridade freudiana) , corpóreo ou
espiritual (dentro da terminologia jasperiana) exige um termo inter-
mediário, um revestimento f01mal que lhe franqueie o acesso à cons-
ciência. Este termo intermédio são os conteúdos. Os conteúdos, por-
tanto, seriam uma totalização instintual, uma atualização de algo in-
tangível por essência e que jamais seria cognoscíveJ diretamente. Os
conteúdos seriam, em outras palavras, a encarnação minima a que
um instinto precisa se submeter para transitar na esfera dos huma-
nos. Entretanto, como os conteúdos são dobras instáveis da cons-
ciência e não totalidades absolutas, dada num universo paralelo ape-
nas aguardando uma descoberta pelo pensamento, os instintos de-
vem ser entendidos como indeterminação pura. Se os conteúdos são
a primeira cognoscibilidade da mente e, como conseqüência, sua
primeira determinação, aquilo que resta por detrá destes submer-
ge em definitivo numa indeterminação, numa zona de caos. Por
142 Psicoj»tolo&U f TIIIISfonnação; um Esboço Fmõmmo-E.strutural

este encaminhamento do raciocínio, quaisquer digres ões concernentes


a instintos, por mais ricas e criativas que sejam, devem antes perten-
cer à metafísica do que à psicologia ou psicopatologia. O incognoscível,
mesmo na condição de fonte última, é, como Deus, inacessível ao
p icopatologista, que deve resignar- e a examinar as totalizações
conteudísticas deste primum movens insondável. Tampouco a movi-
mentação bifásica dos conteúdos deve ser traduzida em termos de
instintos. São imanências dos conteúdos, tendências intrínsecas que
não exigem um con truto auxiliar tão genérico e mitológico como os
instinto . A realidade é em demasia complexa para reduzir-se a dois
ou mais instintos. A simplicidade cabe, é verdade, na fisiologia do com-
plexo. Mas somente em territórios restritos, segmentares, e não como
princípios gerais de funcionamento, ordenando tudo aquilo que se vê.
Uma efetiva contribuição ao desenvolvimento de um paradigma da
transformação deve, assim, limitar-se a examinar os instintos como
uma possibilidade intelectual especulativa e, aferrada a princípios de
olhar o movimento sem simplificações, limitar sua ciência ao estudo
dos conteúdos, já suficientemente obscuros por índole. Pensamos que
aqui tenhamos encontrado os limites inferiores de um paradigma.
Ainda assim, cabe um exame acerca das origens do movimento.
Não em termos de uma economia instintual, mas relativamente à sua
própria essência. No início desta seção encontramos o movimento
como relativo, derivado de uma interpessoalidade inarredável. Neste
momento, este nos surge como originário de duas fontes. Em primei-
ro lugar, há uma movimentação psíquica que expressa o desenvolvi-
mento e expansão interior de cada indivíduo. Como uma potencialidade
que floresce em ação, e ta espécie de movimentação gera conteú-
dos que dirigem a consciência para sua individualidade máxima, o
encontro mais claro e límpido dela consigo mesma, a sua auto-reve-
lação como corolário de um processo interno. O termo crescimento
talvez melhor reflita a essência desta movimentação. Em egundo
lugar, existe uma movimentação reativa, a respo ta do psiq uismo às
olicitações colidianas, subordinadas por princípios de adaptação.
Adaptação que de modo algum significa subordinação à dominação,
mas, pelo contrário, capacitação para manter as condições de um
crescimento efetivo.
Guilhc:rm~ Pues Mcsw 143

Crescimento e adaptação estariam, portanto, nas origens do


movimento, deslocando as dificuldades na investigação desta (das
origens) de instintos metafísicos para uma dificuldade diagnóstica. A
questão não é mais se há ações instintuais, mas se há crescimento ou
mera adaptação. As relações entre crescimento e adaptação devem
igualmente pautar-se por uma dialética que busca equHfbrios. Um
excesso de crescimento, desatento para sua adaptação, pode gerar
condições para uma ruptura do tecido da consciência, independente-
mente da situação fornecida pelo meio externo. Inversamente, ex-
cessiva adaptação pode desfavorecer o crescimento, naquilo que este
tem de desadaptador. Não é questão neste espaço de desenvolver
mais uma dialética, mas de sublinhar como o dinamismo interior do
próprio psiquismo é, por si só, fator gerador de dificuldades à sanida-
de mental. Os fatos do mundo externo, relevantes muitas vezes, ape-
nas acrescentam-se a fenômenos já complexos.
Estas considerações voltadas à essência da movimentação
fazem com que o psicopatologista deva ampliar seu cabedal de
atenções para com o psiquismo do paciente. Paralelamente às ob-
servações da alteração continua de conteúdos, signo do vigor da mo-
vimentação psíquica, deve reservar preocupações para um reconhe-
cimento de crescimentos ou adaptações. Tanto numa como em outra
condição o psiquismo move-se, apenas originário de distintas fontes
e encaminhando-se a diferenciadas finalidades. Em suma, o diag-
nóstico de movimentação ainda não é o bastante para uma captação
ampla do psiquismo, pois nada revela concernente a indicações de
crescimento. Apenas a paciente observação da progressão dos mo-
vimentos poderá revelar se estamos diante de um processo de cres-
cimento (com suas conseqüentes mudanças qualitativas) ou frente a
uma adaptação (que não conduz obrigatoriamente a mudanças qua-
litativas). Numa linguagem próxima da pragmática, diríamos que
quando o paciente fala, e novos conteúdos surgem, devemos man-
ter-nos atentos para detectar se estes conteúdos referem-se a fa-
tos recentes de nossa relação com ele, caracterizando uma adapta-
ção (como uma resposta a certos temas que não puderam manifes-
tar-se) ou, na forma de crescimento, ocorre algo que transcende
estes fatos recentes.
144 Psicotntol~ cTrmsfornução: um Esboço Fcnõmtno-E.suuturu

Entretanto, esta investigação sobre as origens do movimento peca


pela simplificação. Buscando escapar às simplificações metafísicas
do gênero da hipótese instintual, nos debruçamos sobre as essências
dos movimentos, encontrando crescimento e adaptação. Porém, no
início desta eção havíamos postulado que a interpessoalidade es-
sencial innuencia a gênese e a dinâmica do movimento. Estas duas
asseverações, não demonstradas até o presente momento, uma vez
ampliadas, reformam inelutavelmente o tema da origem do movi-
mento. Em tal grau de intensidade, que todo um capítulo deve er
reservado à interpessoalidade. Passemos a ele.

QUINro SEGMENTo: FSI1JDOS soBRE A INI'ERPESSOALIDADE

A interpessoalidade figurou como referência secundária nas duas


seções proposilivas anteriores. Na investigação da consciência, apa-
receu como alicerce da afetividade-contato, esta última dimensão
fulcral da totalidade consciente. No estudo dos movimentos, foi apre-
sentada como capital, sem que maiore explicaçõe fossem estendi-
das ao leitor. Esta seção tenciona destacar a interpessoalidade, des-
locando-a ao papel de protagonista dos dois temas já mencionados.
Esta intenção de examinar com exclusividade a interpesOsoalidade
segue critérios meritórios. Se até o pre ente momento desta dis-
ertação a interpessoalidade recebeu citações sumárias apenas, tal
fato não se deveu a uma irrelevância intrfnseca. Pelo contrário, o
excesso de valor faz. com que tenha sido impossível- ou, improdu-
tivo, na melhor das hipóteses- submetê-la às limitações dos capí-
tulo anteriores.
A introdução da interpessoalidade como as unto traz em eu
bojo complicações adicionais à linha de raciocínio percorrida. A
partir do instante em que passemos a pensar sobre a inter-
pessoalidade inaugura-se uma nova dimensão no ensaio.
Expliquemo-nos. Consciência e movimento articulam-se, do ponto
de vista da exposição temática, horizontalmente. Ambos são unida-
des autônomas de exposição. Cada um tem suas especificidade e,
ao serem colocados lado a lado, somam-se, provocando uma adi-
ção de conhecimentos. O mesmo não ocorre com a interpessoalidade.
Esta, indicada brevemente nos dois capítulos, refere-se a ambos e,
Guilhume Peres Messas 145

simultaneamente, transcende-os, ultrapassa-os, delimitando um campo


novo de estudos. No instante em que falarmos da interpessoalidade
estaremos, de uma só vez, reilumlnando os temas da consciência e
dos movimentos, retomando-os a partir de uma nova perspectiva.
Esta nova perspectiva, entretanto, não se agrega aditivamente ao
previamente explanado. Para além disto, reorganiza integralmente
tudo aquilo que foi dito, dá-lhe uma nova significação. Como se,
numa nova síntese dialética, ao debruçarmos sobre o antigo objeto.
passássemos agora a uma mudança qualitativa, a um nível superior
de compreensão, sem o qual a compreensão anterior restaria muti-
lada por incompletude. Estaremos, assim, diante de uma enigmáti-
ca característica de um paradigma aberto às complexidades da
transformação. Tudo aquilo que examinamos até agora é, ocioso
dizer, verdadeiro. Porém, tudo aquilo que examinamos até agora
também é falso. Falso não por estar incompleto pela falta de algu-
mas informações que, se adscritas ao conjunto das reflexões, as
tomariam completas. Mas por não contar com uma nova totalidade
que, uma vez acrescida, modifica radicalmente o sentido do antes
examinado. Seguiria a questão do porquê não começar o ensaio
pela síntese superior, pela interpessoalidade e daí, por dedução,
chegar até as partes inferiores, consciência e movimento. A res-
posta a esta questão estaria no fato de que a interpessoalidade
como tal não existe fenomenologicamente na consciência de um
paciente e, deste ponto de vista, é uma ficção criada pelo observa-
dor. O real mundo da psicopatologia é, para o paciente, uma reali-
dade de partes - sua consciência -, que, para ele, são um todo.
Enfim, o estudo da transformação necessariamente deve deparar
com partes que são totalidades e totalidades que são partes. simul-
taneamente. A todo momento, portanto, os conhecimentos encon-
trados são verdadeiros e incompletos, totais e parciais, inequívocos
e confusos. Do me mo modo, rigorosamente falando, não há ponto
de referência sólido o suficiente para determinar qual síntese é a
última, qual a totalidade derradeira que ordena todas as demais. Si-
tuaremos a interpessoalidade como totalidade acima da consciência
e dos movimentos psíquicos do paciente. A prática diária de trata-
mentos autoriza-nos tal postulado. No entanto, devemos humilde-
mente resignarmo-nos ao fato de que nenhuma sustentação objetiva
146 Psiropatologia t Transformação: um Esboço Fcoômtoo-Est.rutun.l

desta escolha possa ser afirmada e que, por fim, outras ancoragens
poderiam ser escolhidas. E, com modéstia, observar que não tere-
mos explicação para a constatação de que haja uma completude e
uma incompletude habitando nossas pesquisas, a todo o momento e
por toda parte.
Estas dificuldades, entretanto, não colocam óbice intransponíveis
ao desenvolvimento do bom pensamento investigativo. Pelo contrá-
rio, fustigam-lhe para o mergulho nas complexidades da realidade
móvel. Deveremos, assim, retomar a análise dupla que acabamos de
encerrar. Pesquisaremos a consciência desde um ângulo da
interpessoalidade, redescobrindo-a como consciência. Igualmente,
reconvocaremos o movimento para, renovado pela interpessoalidade,
desvelar recônditos insuspeitos e novas obscuridades. Com uma di-
ferença. Centrados na interpessoalidade, toparemos freqüentemente
com zonas de interdigitação entre os dois campos estudados. A
interpessoalidade, como nova síntese, não mais permite que cons-
ciência e movimento sejam reciprocamente impermeáveis. Pelo olhar
da interpes oalidade descobriremos a delgada película permeável que
separa os dois compartimentos, apenas aparentemente isolados.
Característica iniludível da realidade móvel que uma totalidade nova,
ao emergir, crie um diálogo onde antes havia silêncio.

lnterpessoalidade e Consciência
A consciência é, por definição, uma experiência do "para si".
Capacidade de identificar-se consigo mesma, a consciência reconhe-
ce-se como portadora ou receptora de objetos que possuem uma vali-
dade à medida que se dirigem a ela. Unificada por uma totalidade
mínima têmporo-espacio-vital, consubstanciada no eu consciente, a
consciência é unitária por excelência. Um fechamento em si mesmo
com uma ampla fronte de abertura para o mundo definiria também a
consciência. Deste modo, consciência e indivíduo obrepõem-se. In-
concebível uma consciência sã sem a idéia de indivíduo e, igualmente,
um indivíduo são desprovido de consciência. A integridade do indiví-
duo, empiricamente óbvia, faz pensar a composição arquitetônica da
consciência como um tecido inconsútil, completo ontologicamente, e
Guilherme Peres Mesw 147

dialogando com suas exterioridades a partir deste posicionamento.


Ficaria sujeita a influências destas exterioridades sem, entretanto, ja-
mais perder sua integridade imune a soluções de continuidade.
Este pressuposto, no entanto, é verdadeiro e falso. Verdadeiro
na medida em que as fragmentações da consciência em suas bases
estruturais são sinônimos de doença mental e que esta é, em sua
realidade última, urna dissolução do indivíduo consciente. Falsa na
medida em que a integridade da consciência também se sustenta
num estado de interconsciência. Esta afirmação deve ser detalhada.
A interconsciência deriva, em última análise, da posição estrutural
do contato vital com a realidade. Este, como condição de possibilida-
de da consciência, abre-se em duas dimensões. Uma delas já exami-
namos, ao estudarmos a importância radical da afetividade-contato
na produção dos elementos da consciência. Na outra delas. o conta-
to vital permite a produção da interconsciência O contato vital é a
membrana que decidirá, de acordo com sua higidez, se haverá ou
não interconsciência, se a estrutura de uma consciência será capaz
de aliar-se a outra.
Há, primeiro, que se buscar delimitar aquilo que é interconsciência,
pois esta revela um feitio peculiar. Inicialmente, interconsciência não
é a consciência do outro, o patrimônio de vivências que experimenta-
mos nos contatos inter-humanos. lntegralmente, este patrimônio per-
tence à esfera da consciência. Portanto, a interconsciência não se
encontra na consciência do indivíduo, a despeito de não deixar de ser
um fenômeno de consciência. A interconsciência seria uma totalida-
de que emerge a partir da interpessoalidade dual. já mencionada.
Porém, quando examinamos anteriormente a interpessoalidade dual,
o fizemos como campo da afetividade-contato, matriz de sentimen-
tos favoráveis ao bom andamento da consciência. Aqui, a
interpessoalidade dual inclui o sujeito que observa, acresce a con -
ciência do observador à consciência do observado. Numa relação
não aditiva, a interconsciência tampouco será a somatória das duas
experiências conscientes. Síntese das duas consciências, a
interconsciência é uma totalidade nova que organiza o tecido da cons-
ciência, sem que possa ser experimentada jamais como experiência
consciente pelo observado. Como numa magia inexplicável, um
segmento de uma consciência individual se situa, tem seu /ocus
148 PsicopatologU eTransformação: um l!.sboço Fm6meno-Estrutunl

natural, em uma outra consciência individual. E ainda além, ocupa


um espaço tridimensional no interior desta outra con ciência. Ne ta
acepção, a interconsciência é uma nova forma da consciência indivi-
dual, operante como agenciadora da totalidade consciente. Com
arquitetônica peculiar, agora dependente das características das duas
consciências envolvidas no proces o, a interconsciência recruta ambas
as consciências para seus projetos. Aparentemente confuso, este con-
ceito pode ser exemplificado pelas mais simples das observações coti-
dianas. Todos sabemos que experimentamos diferente sentimentos
de acordo com cada relação íntima que estabelecemos. Algumas pes-
soas proporcionam-nos, ainda que inadvertidamente, algumas
vivências que jamais experimentamos com outras, compondo uma
série infinita de combinações inter-humanas, responsável pela rique-
za da vida mental.
A interconsciência é uma ampliação da espacialidade estrutural
da con ciência, por meio do prolongamento da espaciaJidade de um
indivíduo, infiltrando-se para o interior de uma outra consciência indi-
vidual. O espaço básico de uma consciência saudável é um
intere paço, algo vividamente penetrando no espaço básico de outra
consciência. Apenas nas deformações psicopatológicas tal
interespaço se fechará, produzindo um real encarceramento espa-
cial da con ciência. Nas ondulações típicas do cotidiano, este
interespaço apre enta uma peculiaridade fundamental, qual seja, a
mobilidade. A interespacialidade amplia-se ou retrai-se, à moda das
variações da maré, seguindo as necessidade de espaço estrutural
de uma consciência. Do ponto de vista do observador, este fluxo e
refluxo da interconsciência espacial é facil e diretamente verificável.
Grandes pressões emocionai ou sentimentais experimentadas pelo
psicopatologista no contato terapêutico, registradas como uma com-
pressão de seu próprio espaço vivenciado, geralmente derivam de
uma extrema utiliLação, voluntária ou não, por parte do paciente, da
intere pacialidade da consciência. A literatura psicanalítica de cre-
ve com especial clareza estes fenômenos ao dizer que determinados
pacientes esvaziam seus conteúdos mentais para o interior do ana-
lista. Complexa em sua formulação, a interespacialidade é primária
em seu diagnóstico. Sem exagero, afLrmarfamos que a interconsciência
Guilhmne Pem Mess.u 149

é aquilo de mais tangível e, num certo sentido, de maior objetividade


dentro da psicopatologia. Objetividade entendida aqui não como con-
fluência consensual de diversas opiniões, como nas ciências natu-
rais, mas como clareza maior que um sujeito observador pode atingir,
no ato de examinar seu campo de estudos.
Esta modalidade de objetividade traz complexidades que preci-
sam ser examinadas. O deslocamento abusivo do sujeito individual
como fonte de conhecimento para a arte, excluindo-o deste papel
dentro da ciência, promove uma atmosfera de estranhamente cada
vez que deparamos com a noção de uma objetividade incti vi dual. Como
se uma verdadeira objetividade devesse ser chancelada por um su-
frágio universal, uma maioria de opiniões. Não podemos conceder-
nos, neste ponto da história da ciência psicopatológica, o direito a
inocências simplificadoras. Aquilo que, num regime político-social,
sob o nome de democracia, exige um campo de objetividades
consensuais, em que os conflitos entre diferentes são resolvidos pela
concepção da maioria, não deve ser estendido irrefletidamente para
uma seara heterogênea como a psicopatologia. As ambições
cartesianas de uma ciência única fazem parte de tempos idos. Na
dimensão do social, a opinião da maioria deve ter valor fundante; na
dimensão da psicopatologia individual, a objetividade da intimidade,
da visão privilegiada do psicopatologista, que se reflete na profundi-
dade de suas observações, deve ser o selo de qualidade das afmna-
ções científicas. Portanto, ilusório achar que ao utilizar- e de um
critério de outro campo de conhecimento, reconhecidamente valori-
zado pela cultura contemporânea, a psicopatologia possa encontrar
sua verdade mais sólida, sua acolhida integral pela cuJtura. As dis-
cussões a respeito da validade de uma impressão individual de um
psicopatologista são, quando de boa-fé, ociosas. Conduzirão a nada.
Serão, no máximo, um ato de subordinação da psicopatologia a inte-
resses e hábitos a ela alheios.
Contudo, o fato de uma objetividade individual do pesquisador
ser válida e mesmo intrínseca à essência da psicopatologia não ex-
clui uma outra discussão, referente às dificuJdades que esta particu-
laridade acarreta. Para a investigação destas dificuldades, há que se
determinar o gênero de fenômenos que se observam desde uma pers-
pectiva da interconsciência, tarefa que passamos a executar. No
150 l'sicopatologú r Tnnsfor=çjo: um ~ Ftnõmm<Hlsuutunl

exame da consciência, terceiro segmento da segunda pru1e deste


estudo, concebemo por toda a parte a consciência como uma
vivência individual, organizada em uma totalidade estruturada em
estratos. Assim, as vivências dirigem- e à unidade do indivíduo. Aqui,
transforma-se esta característica e surge a inevitabilidade da análise
da polaridade das vivências. Da perspectiva da interconsciência,
as vivências apresentam uma face dupla, com uma cara voltada para
cada pólo individual, uma experiência vivencial do ob ervado e, si-
multaneamente, do ob ervador. Como se até agora houvéssemos in-
vestigado a face lumino a da lua e, a partir deste ponto, pas ássemos
a estudá-la integralmente em sua forma esférica, incluindo aquilo
que, do ponto de vista do setor iluminado, consiste numa face escura,
jamai ele aces ível, mas parte indivisível e vital de eu corpo.
Há dois tipos de polaridades das vivências, a simétrica e a
assimétrica. A polaridade simétrica, por definição, consiste na
emelhança das vivências. independentemente da face em que as
encontremos. A experiência do paciente e a do p icopatologista ten-
dem a assemelhar-se qualitativamente. Esta semelhança, para ser
mais bem investigada, solicita a dissecção de suas relações com ou-
tra particularidade da inte-rconsciência, a ressonância afetiva. Para
que possamos saber se uma qualidade afetiva assemelha-se à nossa
temo de, obviamente, experimentar uma afinação- a ressonância-
entre nossa consciência e a consciência do paciente. Entretanto, res-
sonância e simetria não são, de modo algum, inônima , pois expe-
riências simétricas podem fraquejar em ressonância, sobretudo em
condiçõe psicopatológicas.
Nas melhores condiçõe de imetria, esta e a ressonância se
igualam. A capacidade empática do psicopatologista permite-lhe cons-
tatar que aquilo que ele experimenta e aquilo que o paciente vive são
semelhantes. Este diagnóstico exige, portanto, de uma só vez, uma
dupla atividade do psicopatologi ta. Uma atenção introvertida para
reconhecer sua própria experiência e suas reverberações, e uma
atenção empática para reconhecer a qualidade da vivência do pacien-
te. Para e ta egunda ação o relato do próprio paciente pode servir
como reforço ao diagnóstico. Vivêm:ia como o riso ou o luto têm
grande força simétrica, tendem a arrastar para si as duas cons-
ciências em contato, transformar ambas num canto em uníssono,
Guilherme Peres Mcsw 151

aproximar as identidades entre os indivíduos envolvidos na


interconsciência.
Entretanto, a simetria pode ter de se enfrentar com situações de
dificuldades de ressonância. Aparentemente uma contradição em
termos, já que a simetria deve ser precedida ontologicamente pela
capacidade, via ressonância afetiva, de uma experiência simultânea
entre os dois pólos pessoais. Contudo, a noção de totalidade resgata
a possibilidade de existência de uma simetria não-ressonante.
Analogamente aos estudos da consciência, também no exame da
interconsciência, ocorrerá uma organização totalizante, um todo
interconsciente que pennanece como ponto de referência para cada
componente parcial. Assim sendo, uma experiência da
interconsciência, de acordo com as bases estruturais de cada cons-
ciência participante, assume aspectos diversos. Expliquemo-nos
melhor, tomando como exemplo uma inve tigação de um suposto
paciente com fortes características esquizóides. Neste, a base afetiva
interpessoal, de baixa reatividade, faz com que as emoções ou mes-
mo sentimentos mais elaborados tenham tons pastéis, apenas per-
ceptíveis ou, muitas vezes, idiossincraticamente vivenciados. Uma
certa vivência deste paciente pode, por sua própria base esquizóide,
apresentar pequena capacidade de ressonância afetiva. No entanto,
a acuidade do psicopatologista, além da sua perspicácia diagnóstica,
pode concluir pelo caráter simétrico da experiência, ou eja, utilizan-
do uma base afetiva diver a do paciente (a sua própria), o
psicopatologista é capaz de, metaforicamente dizendo, ampliar e dar
vigor à frágil vivência esquálida do paciente, funcionando como um
revelador da simetria (ou não) desta.
No que concerne às relações da polaridade simétrica com a
totalidade da interconsciência, podemos dizer que esta solicita uma
idêntica participação de cada espacialidade individual. Ao vivermos
algo que se assemelha com aquilo que o outro vive, utilizamos, a
priori, um idêntico volume de nossa consciência. Os conteúdos pro-
jetam-se sobre as duas consciências, implicando numa participação
igualitária de ambas as consciências. Portanto, numa situação de
polaridade simétrica existe a maior capacidade da interconsciência
de divisão dos movimentos dos conteúdos entre as consciências. Como
152 Psioopatol<>&u eTruufonnação: um Esboço Fc:n6meno-Estrutunl

se cada con ciência divictisse com a outra o peso dos conteúdos,


facilitando ao máximo a tarefa mútua. Nesta situação, a
interconsciência conhece seus momentos de maior repouso e
distensão arquitetônica. Por outro lado, a polaridade simétrica exige
que ambas as consciências tenham um lastro mírúmo de elasticidade,
que já possuam uma capacidade de dispor igualmente de uma certa
espacialidade estrutural. Em outras palavras, a polaridade simétrica,
se de uma parte relaxa e distende a interconsciência, por outra já
exige desta uma certa maturidade, um quantum de resistência e
firmeza nem sempre pre entes em consciências menos maduras ou
ainda em desenvolvimento.
A polaridade assimétrica define-se, no oposto da simétri-
ca, como dessemelhança de experiências. Aquilo que uma das
consciências experimenta não corresponde àquilo que a outra vive.
O reconhecimento e manejo de uma polaridade assimétrica, por par-
te do psicopatologista, requerem complicações adicionais, já que lhe
falta a facilitação dada pela ressonância afetiva clara e manifesta da
polaridade simétrica. O olhar duplo do psicopatologista, simultanea-
mente voltado a si mesmo e ao paciente, enfrenta a dificuldade su-
plementar da síntese de desannonias. Experimentar algo e empatizar
com o paciente que experimenta algo diverso é um exercício de com-
plexa execução, exigindo constante prática e dedicação do
psicopatologista. De complexa execução, mas imprescindível para a
avaliação das condições fundamentais do psiquismo de seu paciente.
Dois gênero de polaridades assimétricas podem ser identificados.
Em um deles, ocorre uma assimetria essencial. Nesta relação, é
peculiar às próprias vivências que esta sejam experimentadas cti-
versamente pelos participantes da intercon ciência. O modelo pri-
mordial de uma assimetria essencial é a relação pai -filhos. O
patrimônio de experiências paternas em largos pontos desassemelha-
se com as vivências dos filhos, em suas relações recíprocas. O fato
da distância etária perrrútir diferentes graus de maturidade não é
capaz de explicar toda a dimensão do fenômeno. Mesmo em idades
adultas mantém-se a assimetria entre pais e filhos. Do mesmo modo,
o fato de que, ao tornarmo-nos pais, possamos experimentar aquilo
que nossos pais viveram em relação a nós (agora voltado para nos-
sos filhos) em nada altera a verdade de que, em nossa relação com
Guilherme Pms Mesw 153

nossos pais, continuamos a obedecer a assimetrias. As assimetrias


essenciais independem em certo grau das características da
interconsciência em questão, são intrínsecas às vivências.
Em contraste, as assimetrias contingentes derivam da
arquitetônica da interconsciência. Nestas, o caráter assimétrico não
é definitivo e ordena-se por peculiaridades outras que não a própria
vivência. Duas assimetrias contingentes precisam ser delimitadas.
Em primeiro lugar, as assimetrias de crescimento. Nestas condi-
ções, não patológicas, mas passíveis de um salto à patologia, a
assimetria é a própria condição do movimento psíquico. A descrição
desta compete ao próximo subitem, pois faz parte do conjunto da
análise do movimento. Em segundo lugar, mais pertinente a este es-
paço do ensaio, situam-se as assimetrias por imposição da
interconsciência. Não é questão neste ensaio, em virtude de suas
dimensões, de investigar todas as qualidades emergentes nas
interconsciências, ainda que tal análise fosse extremamente rica e
fundamental para uma psicopatologia. Basta-nos apontar esta condi-
ção, geralmente ligada a situações patológicas, nas quais a assimetria
se dá por causa da enorme rigidez da consciência do paciente, aliada
a uma capacidade intacta de lançar mão da interespacialidade. Toda
a movimentação psíquica do paciente é compelida a ser executada
na consciência do psicopatologista, como se apenas a este coubesse
o árduo papel de viver a vida daquele. Uma simplificação existencial,
enfim, às custas de uma sobrecarga da consciência alheia, pela via
da interespacialidade. A literatura psicanalítica, desde a introdução
formal do conceito de identificação projetiva em 1946 por Melanie
KJein, vem permitindo que tal fenômeno possa ser explorado cientifi-
camente, revelando os modos pelos quais detenninados pacientes
utilizam-se de maneira consistente desta interespacialidade. A des-
peito de sua ligação com condições de sofrimento ou de escassez de
recursos psíquicos, essas assimetrias não se vinculam necessaria-
mente à patologia, não são um sinônimo desta. Pelo contrário, por
vezes o uso excessivo da interespacialidade é a única alternativa que
a consciência do paciente guarda para evitar uma situação de ruptu-
ra na psicose. Uma consciência rígida, enfraquecida, ou em demasia
subordinada às forças da corporeidade endógena, pode ser aliviada
do peso intolerável dos conteúdos projetando-os todos no psiquismo
154 Psicopatolo&U eTrunformaçio: um Esboço Fmômtn~Hlsuurural

do psicopatologi ta. Este uso excessivo da interespacialidade -


inde ejável por princípio - pode, ao ser mantido no tempo, ser
capaz de su tentar em estabilidade mínima consciências bastante
comprometidas, próximas do limiar psicótico. É função do
p icopatologi ta reconhecer o possível papel positivo de uma
assimetria por imposição da interconsciência. Este reconhecimen-
to fará com que ele evite interpretações que forcem a saída dessa
posição assimétrica, que geraria sobrecarga do tecido consciente do
paciente e ri co de piora clínica. Em determinadas situações, tolerar
uma enorme a. simetria é o únko preceito a seguir.
Com isto concluímos a investigação das relações entre inter-
pessoalidade e consciência, sem deixar de mencionar que esta aná-
lise poderia ser expandida para a retomada do estudo do comporta-
mento de cada parte das consciências individuai com o todo da
interconsciência. As im, poderíamos indagar como, na afetividade,
as emoções, sentimentos ou pensamento se comportam, em ambas
as consciências, na vigência da interconsciência. Examinaríamos
a características que cada um assumiria facilitando ou compri-
mindo a amplitude da interconsciência. Entretanto, a expansão des-
tas análises ultrapassaria os limite deste ensaio já que, em razão
da enorme complexidade que enceta (enumerar todas a combina-
ções possíveis que as interpessoalidades podem arregimentar cons-
titui tarefa hercúlea, se apenas possível), se situaria de maneira mais
apropriada numa análise aprofundada de caso individual. Para nosso
esforço, de ambições apenas genéricas, nos limitamos a levantar a
relevância do tema.

lnterpessoalidade e Movimento
A interpessoalidade investe-se de uma função ainda mais rele-
vante no que concerne ao estudo do movimento psíquico. Esta im-
portância central foi por nós anunciada ao iniciarmos a investigação
do movimento. Naquele momento, havíamo sustentado a in-
dis ociabilidade do movimento à interpessoalidade, remetendo a uma
análise posterior mais detida, já que àquela altura apenas o movi-
mento psíquico em seus princípios nos interessava. É chegada a hora
Guilherme Peres Messas 155

da análise mais detalhada da relação entre os dois termos. Esta se


fará a partir da exposição dos papéis que a interpessoalidade execu-
ta em relação ao movimento.
Dois papéis indispensáveis jogam a interpessoalidade na produ-
ção da movimentação do psiquismo. Estes serão investigados em
separado apenas pelo intuito de clareza expositiva. Na reaüdade, as
duas funções dão-se simultaneamente em cada ato de movimenta-
ção, são uma dupla reverberação de um mesmo passo. Em primeiro
lugar, a interpessoalidade participa de e fundamenta a dinâmica do
movimento, subsidiando as condições ótima para a ua fluidez,
naquilo em que, na palavras de Jaspers, consiste na forma do movi-
mento. A forma do movimento é dialética, orientada por uma
nonnatização de oposições e fusões, como já examinamos. Entre-
tanto, essa dialética jamais foi reconhecida na psicopatologia
jasperiana como uma dialética da interpessoalidade. Não ob tante,
é no perímetro da interpessoalidade, no diálogo íntimo entre duas
consciências que o movimento psíquico haure ua dinamização mais
poderosa e incessante. Na sua consagração à interpes oalidade a
dialética realiza sua vocação móvel de modo mais amplo e fértil.
Devemos aqui retomar a questão dos conteúdo para, sem ex-
cluir as observações anteriormente propostas, anaüsá-las em um ní-
vel acima. Até o presente momento vimos como o conteúdo , em
sua dinâmica intrínseca- contida na analítica de suas fases- proje-
tam-se sobre o tecido da consciência. Esta afirmação renova-se com
a seguinte proposição: os conteúdos nascem em um estado de cisão
essencial, de modo tal que po sam ser experimentados inicialmente
na consciência do observador, antes mesmo de figurarem na cons-
ciência do observado. Em condições favoráveis de interpessoalidade,
em que há uma volumosa interconsciência, este fenômeno se toma
mais acentuado, permitindo que, por meio das assimetrias de cresci-
mento, o psicopatologista reconheça em i mesmo conteúdos de seu
paciente ainda alheios a este. A interpessoalidade, portanto, situa-se
nas fontes originárias do movimento p íquico, atuando como um
catalisador continuado e vigoroso. A interconsciência estimula a
movimentação do p íquico em virtude de sua competência em atrair
e coletar os elementos conteudísticos, em mantê-los em suspensão
156 Psioopatologil ~Transformação: um Esboço Fcnômmo·Estnuural

na consciência do observador e, por fim, e como conseqüência,


facilitar a retomada deste conteúdos pela consciência do pacien-
te. Talvez a melhor metáfora para o papel da interpessoalidade no
dinamismo do movimento p íquico seja a da incubadora. Oferece as
melhores condições para que o de envolvimento de um novo ser se
faça, na ausência de condiçõe normais, sem modificar suas caracte-
rísticas essencirus. A interpessoalidade- pela via da interconsciência
- dilata o espaço necessário para que um conteúdo possa atingir
plenamente sua maturação, diminuindo suas fragmentações e
distorções. Uma vez preparado e maturado na consciência alheia,
um conteúdo pode transitar para a consciência do paciente, para
quem a vivência é de um conteúdo que acaba de nascer.
Esse papel de dinamizador do movimento acrescenta um novo
valor à interpessoalidade, para além dos outros já examinados até
agora. A interpessoalidade mimetiza um campo magnético, trazendo
para i o vetor do movimento, acelerando-o a partir de seu interior.
Esta função de acelerador do movimento psíquico exige que dedi-
quemos especial atenção para as assimetrias de crescimento. Elas
podem ser os mais fidedignos- ou, multas vezes, os únicos- indica-
dores dos trajetos por que se move o psiquismo. O auto-exame, por
parte do psicopatologi ta, de suas vivências assimétricas reveste-se
de suma importância. Não mais diagnóstica, na investigação
psicopatológica, mas, no seu oposto, como prospecção terapêutica,
sondando as vitalidades psíquicas do paciente.
A atuação primordial da interconsciência nas fundações do mo-
vimento de conteúdos pode ser interrogada ainda mais, revelando
sua microscopia. Dado serem os conteúdos conden ações formais
momentâneas da consciência, figuras sobre um fundo, as transições
entre conteúdos requerem uma certa plasticidade da totalidade cons-
ciente, qualidade que permite que reacomodações constantes sejam
feitas na sua arquitetônica. No entanto, múltiplas circunstâncias -
estruturais ou contingentes- impedem a boa plasticidade da cons-
ciência. A interconsciência, ao dilatar a consciência, eleva imediata-
mente sua plasticidade. Cabe aqui desvelar exatamente o que pro-
duz este efeito plástico. Trataremos novamente da
interespacialidade. Já vimos como a espacialidade sustenta, junta-
mente com o tempo e o contato vital, a totalidade da consciência.
Guilhumt Pc:rts Mnw 157

Vimos também como a interespacialidade é substrato estrutural da


interconsciência. Devemos agora pousar nossa atenção sobre como
o movimento de conteúdos ancora-se na interespacialidade.
A primeira nota a se tomar sobre o tema são as relações entre
a ausência de interespacialidade e a interrupção da movimentação
psíquica. Fragmentações ou congelamentos psicopatológicos proe-
minentes não são capazes de constituir uma interespacialidade ver-
dadeira. O imbricamento entre a psicopatologia da consciência e a
perda da interespacialidade é tal que, a rigor, somos incapazes de
determinar uma causalidade unilinear entre ambos. A tradição
psicopatológica tende a acentuar os aspectos conscientes da patolo-
gia, colocando naquilo que é mais exótico e distorcido a matriz do
patológico. Entretanto, uma observação acurada revela uma
circularidade da fratura psicopatológica. Na doença mental, ocorre
um encistamento da consciência em si mesma, um isolamento pato-
lógico que, como conseqüência, impermeabiliza a interespacialidade.
Entretanto, de modo semelhante, a subtração primária da
interespacialidade deforma o todo consciente, dando visibilidade à
psicopatologia. Nesta alteração bifronte radical, a mobilidade dos
conteúdos tende a cessar ou assume um aspecto paradoxal.
A cessação da movimentação é característica dos quadros
psicóticos negativos graves (catatônicos ou hebefrênicos) ou
depressivos melancólicos avançados, nos quai s a empatia
interconsciente tende a ser in viabilizada, deixando o psicopatologista
perseguido por um sentimento de angustiante tédio diante do pacien-
te. A ausência de movimentação, com a subseqüente inutilização da
interespacialidade, são a base estrutural desta vivência extrema de
tédio angustiado. Nestas situações de máxima interrupção do movi-
mento psíquico, os comportamentos do paciente mais devem ser en-
tendidos como fragmentos incompletos de consciência, automatismos
vácuos, do que como uma movimentação propriamente dita. Inglória
a tarefa de buscar interpretação de conteúdos nestes quadros. A
dramaticidade da pulverização formal é o fato em si mesmo, aquém
de qualquer síntese conteudística. Paradoxalmente, no entanto, esta
imobilização protege a consciência do paciente. Em sofrimentos
menos radicais, em que se mantém uma certa movimentação de
158 Pnmpatolopa c r rarufol'lJUÇio: um Esboço Fmômcoo-Estrutunl

conteúdos, não estribada na interespacialidade, emergem fenôme-


nos marcados pela marca do bizarro. O mais notável deles é o delírio
paranóico. O paranóico delirante não imobiliza integralmente eus
conteúdos. Sua consciência preserva uma nesga de plasticidade que
faz com que algumas sínteses se executem. Há uma transição entre
estados de consciência organizados, a totalidade da consciência ain-
da vive. Contudo, à medida que esta movimentação faz face a uma
interespacialidade impérvia. os conteúdos não logram apoiar-se na
interconsciência, abrigando-se nas facilidades que esta concede.
Apóiam-se, na falta de melhor, intensamente na própria consciência
já fraturada pela patologia, acionando o conjunto de fatos paranói-
cos. Esta hiperutilização da consciência pela movimentação inade-
quada de conteúdos justifica as inúmeras reativações a que estão
sujeitas as terapêuticas de paranóicos psicóticos. Cada vez que se
move o psiqui mo, para o bem ou para o mal, a precariedade da
su tentação na intere pacialidade faz reativar o delírio, trazendo a
dolorosas con eqüências associadas. O reconhecimento desse fato
exige que aquele que conduz o tratamento de paranóias psicóticas
deva ser extremamente parcimonioso com a estimulação precoce da
movimentação psíquica (provocada, por exemplo, por interpretações
mais profundas e penetrantes) de seus pacientes. Desejada em de-
senvolvimento normais, a movimentação psíquica em interespa-
cialidades impérvias pode dificultar a evolução do tratamento, em
virtude do excessivo número de recaídas, sendo que cada recaída
pode ainda mais atrofiar a capacidade integrativa do todo conscien-
te. Aquilo que mai faz desabrochar a existência muta-se, aqui, na-
quilo que mais rapidamente pode levá-la à mutilação.
A partir deste ponto de vista, o uso de neurolépticos em psicoses
pode ser reexaminado, pois apresenta drásticas diferenças de finali-
dade de acordo com o caso, que vão muito além da mera constatação
comportamental da redução da psicose. A ação neuroléptica pode
objetivar uma imobilização da movimentação de conteúdos, prote-
gendo o todo consciente de uma auto-flagelação involuntária. De
maneira emelhante às imobilizações ortopédicas que, congelando
funcionalmente o membro ferido, dão a condições para que este
venha a se movimentar num futuro menos arriscado. O tratamento
Guilhmnt Ptrts Mtsw 159

fannacológico de psicoses paranóides deve ter este intuito. Diversa-


mente são as ambições de uma terapêutica para um psiquismo abso-
lutamente imóvel, conforme mencionado. Nestes casos, a cominuição
da consciência é o objeto de tratamento e qualquer ato terapêutico
deve perseguir a reativação da movimentação num primeiro instante.
Apenas com esta reativação e poderá reconhecer o panorama de
interespacialidade que vigorará. Em um caso, enfim, a farmacologia
procura congelar. No outro, acelerar. Em muitas vezes, com os mes-
mos fármacos. A conclusão mai importante que e extrai destas
con iderações é de que todas estas diferenças assentam-se sob
a questão da interespacialidade. É unicamente a penneabilidade
ou não da interespacialidade que irá determinar a posição, deletéria
ou não, que a movimentação de conteúdos ocupará na totalidade da
con ciência. No limüe, é quem determinará se haverá movimenta-
ção. A debilização da interespacialidade é o busílis da que tão das
chances de uma consciência mover-se, encontrar outras formas,
expandir-se, humanizar-se. Na construção p icoterápica da interespa-
cialidade deverá residir, enfim, como norte último, as expectativas do
psicopatologista.
A segunda nota debruça-se sobre os diálogos estabelecidos en-
tre movimentação e interespacialidade. Os conteúdos, ao movimen-
tarem-se para o interior de outra consciência, podem encontrar duas
situações. Ora deparam com uma inlere pacialidade já efetivada,
competente em assumir esses conteúdos, ora, a despeito da existên-
cia de uma permeabilidade interespacial. esta ainda não apresenta
uma amplitude geométrica tal que possa comportar as necessidades
da dinâmica conteudística. Esta última condição que investigaremos
neste instante.
A interespacialidade, dotada de uma capacidade de atração na-
tural pelos conteúdos, tende a desviar para si aqueles que, mesmo
numa fase inicial, demonstram ser demasiadamente amplos para a
plasticidade da consciência do paciente. Entretanto, a própria dimen-
são da interespacialidade pode mostrar-se insuficiente para acomodá-
los. Nestas ocasiõe , dramáticas do ponto de vista da condução de
um tratamento, a interespacialidade deverá dilatar-se e, mais impor-
tante, esta dilatação deverá ocorrer inicialmente na espacialidade
160 Pticopatologi2 cr ransformação: um Esboço FmbfiM'oo-Estrutural

estrutural do p icopatologista. O fato de que esta dilatação é exigida


do terapeuta pode ser muito custoso afetivamente para este, pois,
anteriormente a esta dilatação (dependente, em última análi e, da
proporção entre sua própria plasticidade intrínseca e a pressão de
tração dos conteúdos nascentes), fica obrigado a uma experiência
afetiva impactante. Deve vivenciar- no que, da perspectiva empática,
mai e as emelha a uma experiência da espacialidade psicótica- a
invasão de um conteúdo sobre um espaço ainda não constituí-
do. As vivências neste estados incorporam- e como uma tatuagem
na con ciência do psicopatologista, arrastam e arranham seu tecido
consciente, assumindo duas feições principais. Inicialmente provo-
cam-lhe ora emoçõe muito fortes (como raiva do paciente ou culpa
por uma má condução do caso), ora sentimentos incorpóreos e difusos
(avizinhados de experiências de inspiração paranóica, indefinidos mal-
estares que ainda não se tomaram sentimento espacializados) ou,
se mais crítica , alterações psicossomáticas, como perda de sono ou
variações fisiológicas. A egunda feição é a comportamental, uma
compre ão para tomar alguma decisão a respeito do caso, alguma
ação que possa mitigar os estados anteriormente descritos.
A invasão de um conteúdo ainda não espacializado merece enor-
me cuidado em seu manejo. Diferentemente dos casos de au ência de
interespacialidade, no. quais o objetivo, em última análise, é tentar
ampliar esta, aqui já temos a interespacialidade e esta vem sendo utili-
zada adequadamente pelo paciente. O problema passa a residir na
capacidade e paciência do p icopatologista em compor dentro de si
um alojamento para tais conteúdos. O sofrimento do terapeuta nestas
condições é, ao mesmo tempo, intenso e solitário. Inten o pelas dores
que este parto incontornável encerra. Solitário pela impossibilidade
essencial de compartilhar a vivência com o paciente. Este egue cego
ao turbilhões envolvendo a consciência do psicopatologi ta-terapeuta.
Qualquer erro de manejo (interpretações precoces, por exemplo) nes-
tas horas pode ser fatal, obstruindo a via da interpessoaüdade e dificul-
tando a mobilidade da consciência do paciente. A psicopatologia mais
repre entativa desses arranjos distorcidos são os transtornos de per-
sonalidade. Nestes, em geral, o paciente pemutem-se duas alterna-
tivas nada auspício as. Ora reduzem a interpessoalidade, vivendo num
encerramento comportamental ou endógeno de difícil acesso
Guilherme Pms Mossas 161

terapêutico. Ora utilizam a via da interpessoalidade, aumentando as


esperanças dos terapeutas; porém, este uso é maciçamente emprega-
do, comprimindo a espacialidade do terapeuta, convidando-o para a
desistência do tratamento. O paradoxo no manejo destes casos - e
sua resistência em serem incorporados amplamente pela psiquiatria -
patenteia-se exatamente em que quanto maior a ação terapêutica (ou,
de acordo com o caso, as únicas chances de sucesso) maior o incômo-
do parapsicótico do psicopatologista. É exatamente sufocando sua
espacialidade estrutural que o terapeuta consegue imantar uma longa
série de comportamentos desajustados ou fases endógenas. O desafio
interminável consiste em manejar, em si mesmo, estas invasões inde-
sejáveis, mas inevitáveis.
A terceira nota registra os fatos dados em uma interespacialidade
já estabelecida. Nela, há livre tráfego de conteúdos pela interes-
pacialidade, inserções e retrações na utilização deste espaço estru-
tural. O exame a ser feito é acerca do reconhecimento desta vitali-
dade. O patente uso da interespacialidade é acessado diretamente
pelo psicopatologista a partir da sua vivência íntima de variações
contínuas na pressão dos conteúdos sobre seu espaço estrutural.
Substituem-se vivências dóceis às experiências mais tensas, momentos
de maior distração a outros de muito apelo atencional, instantes de
experiências corporais a horas de sentimento vivo. Com mais vagar
e acuidade, o olhar do psicopatologista abre-se para ver o desenho
singular realizado pelas entradas e saídas do uso da interespacialidade,
a geometria deste diálogo entre a consciência do paciente e sua cons-
ciência. Constata a experiência estética única que brota de sua par-
ceria terapêutica, as esculturas que os sentimentos realizam no ar à
medida que entram e saem do interespaço. As circunvoluções que
as transições entre fenômenos de consciência cunham no
interespaço, as discretas mudanças de timbre que um sentimento
toma ao sair de uma consciência e penetrar noutra. Estruturada
numa composição harmônica, cada consciência matiza um novo
sentimento que se lhe agrega, incorpora-o à sua moda, culturaliza-
o, por assim dizer. Quiçá seja esta a mais cintilante experiência que a
interpessoalidade (se não toda a prática do convívio com o mental)
possa ofertar: o fenômeno irredutivelmente humano- no sentido mais
radical da palavra - de extasiar-se com a gênese do infinitamente
162 Psicopatologia eTrtruformação: um Esboço Feo6m~&trutural

individual e qualitativo, do irreprodutível e incomparável de uma pes-


soa manifestando-se diante de nós. A graça da geração no movi-
mento, do movimento gerado no inter-humano.
A riqueza destas variações obtidas em sua própria consciência
apenas pode ser atingida pela análise individual de casos, pelo cuida-
do em destacar suas nuanças, a presença ponderai de cada biogra-
fia, sua propensão a privilegiar certas formas em detrimento de ou-
tras. A história das empreitadas psicopatológicas pela via da análise
de casos já é longa. Mais valorizadas nas psicopatologias qualitativas
- fenomenológicas ou psicanalíticas - desprezadas como anedóticas
pela contemporaneidade quantitativa, a história da psicopatologia ainda
aguarda investimentos intelectuais que componham o psicopatológico
como um desfile de formas da interespacialidade. De uma geometria
do interespaço, de um conhecimento de formas, no sentido estético
da palavra, que possa, talvez, alçar a psicopatologia a uma posição
que não lhe é ilegítima. Posição de estudar a incrustação da mente
no corpo, da criatividade na matéria, da geração da qualidade, do
belo e do profundo naquilo que é mera fisiologia, prosaica determina-
ção da evolução biológica. Enfim, a psicopatologia, como obra de
análise do individual reverberado no interpessoal, tem linhagem cul-
tural para libertar-se com fluidez do laboratório da ciência natural
para o teatro da linguagem estética. Buscar avançar em sua autono-
mia como conhecimento do indivíduo, já que este, inefável em última
análise, clama por uma linguagem que o autorize.
A quarta nota colabora como síntese e detalhamento diacrônico e
transversal das anteriores. Diacrônico, pelo caráter progressivo em
que as três notas se alinham. O estado de interespacialidade impérvia
pode progredir para a franca interespacialidade. A ambição maior da
terapêutica é mesmo, pode-se dizer sem exagero, constituir (ou resti-
tuir) a penetrabilidade essencial da interpessoalidade, roubada-lhe pela
patologia intensa. O acompanhamento longitudinal da permeabilização
de espaços estruturais indica o vigor de um determinado tratamento,
dando critérios mais espessos do que meramente a avaliação vivencial
ou comportamental. A produção da permeabilidade é, portanto, uma
atividade das consciências envolvidas no par, uma ação voluntária e
árdua, urna gestação a ser conduzida até o fim.
Guilhffllle Peres Messas 163

Transversal, pelo perfil heterogêneo da interespacialidade em cada


interpessoalidade. Na realidade dos casos, em toda interpessoalidade
encontram-se zonas impérvias, regiões de interespacialidade inelástica
e áreas de interespaço complacente. A face visível do sofrimento
mental é determinada pela excessiva preponderância do menos com-
placente sobre o mais. Contudo, em toda patologia mental há alguma
saúde e, contrariamente, em toda higidez escondem-se refratariedades.
Fazer pender este balanço para o lado da interespacialidade ancha é
tarefa da qualquer terapêutica que, portanto, de modo algum pode pres-
cindir de um uso contínuo da interpessoalidade. Como dinarnizador e
sustentáculo do movimento, vem dela a maior força geracional de
porosidades no interespaço, a maior chance de florescimento das for-
mas marcantes da interpessoalidade, as circunstâncias para, enfrm, o
movimento fazer-se como tal.
Ao refletirmos sobre o papel dinâmico da interpessoalidade na
movimentação psíquica constatamos - na terceira nota - o caráter
estético assumido pelo trânsito de conteúdos pela interpessoalidade.
No postulado desta índole estética, tomamos como pressuposto im-
plícito a noção de que algo singular, não submisso às ordenações
causais regulares da reprodutibilidade científica, vigorasse. Uma ex-
periência de abalo estético, de elevação da consciência do nível da
previsão e controle ao da criação e geração epifânicos. Naquele
momento, sinalizávamos para uma alteração qualitativa da rota
discursiva até então percorrida, processo que ampliaremos neste es-
paço, reservado ao segundo papel da interpessoalidade no movimento.
As considerações sobre o pendor estético da interpessoalidade
inauguram aquilo que culmina com o encerramento do tríptico cons-
ciência-movimento-interpessoalidade. Ao longo de sua composição,
uma linha mestra lógica manteve-se. Nesta, a despeito das constan-
tes indicações do valor inestimável da análise individual de casos
para o aprofundamento de uma psicopatologia, as reflexões foram
sempre de aspecto genérico. Examinamos como uma longa série de
fenômenos manifesta-se ou comporta-se, como se oferecem para a
edificação de um paradigma da transformação. Sua fonte na prática
clínica cotidiana foi declarada desde o início sem que, no entanto,
efetivamente uma investigação individual ocupasse algum espaço.
164 Psioopatol~ cTrunfoi'!Daçjo: um Esboço Fcn6mroo-Est.ruturtl

Como ambição de um esboço paradigmático, esta generalização é


não apenas tolerável, mas mesmo incontornável e imprescindfvel.
Em outras palavras, para a construção do idiossincrático, deve-se
reconhecer a caracterfsticas do geral. Geral entendido não como
finalidade em si (como nas ciências sustentadas pela estatfstica, em
que exatamente o geral é o foco de interesse), mas como matéria-
prima do indivíduo, o estofo disponível para esculpi-lo. Nesta acepção,
o geral não se encerra em si mesmo, mas desliza unidirecionalmente,
rumo ao indivíduo. O estudo do geral é a construção da maquete que
prenuncia a obra m~estosa da especificidade singular humana. Im-
buídos por este espírito, deslizamos do geral para o individual, numa
trajetória que não e completa neste ensaio, pois este se limitará a,
no próximo capítulo, deslindar uma metodologia para investigar o in-
dividual e seus segmentos. Esta tarefa de partir do geral para o indi-
vidual tampouco é passível de ser esgotada. Renova-se diariamente
num novo caso, numa nova análise, numa nova inspiração: pode ape-
nas ser aproximada, tangenciada, como veremos na próxima seção.
Na investigação do segundo papel da interpessoalidade no mo-
vimento encontramos o limite do geral e sua superação, as fronteiras
nas quais uma observação genérica precisa ser substitufda por outra,
de ordem singular. Portanto, o fim deste trfptico é, à vez, a aurora do
capítulo seguinte, sua derivação necessária. Nele, convi vem os olha-
res do genérico e os prenúcios do individual. O segundo papel da
interpessoalidade refere-se à direção do movimento. Em seu
nascedouro, o movimento origina-se nas insondáveis fontes da ex-
pansão do ser, sobre a qual já refletimos. Em sua forma, dialetiza-
se na interpessoalidade. Resta investigar sua orientação, os
sendeiros para os quais ruma, quais as direções que toma, e por
que o faz. Estas respostas apenas podem se encontradas na seara
da interpessoalidade.
A consciência movimenta-se, continuamente produzindo, dissol-
vendo e reproduzindo conteúdo . Esta movimentação tem como resul-
tante uma ampliação da sua capacidade em conter os conteúdos, uma
maturação de sua elasticidade, abrigada e estimulada pela interes-
pacialidade, como vimos. No entanto, a condução da movimentação
da totalidade consciente não pode ser creditada exclusivamente ao
seu crescimento e adaptação. Quando investigamos o movimento,
Guilhumt Pues Messas 165

propusemos estas duas fontes como originárias da expansão da


consciência, escapando à modelagem dual totiexplicativa dos instin-
tos. Devemos agora, dentro de idêntico posicionamento intelectual,
acrescentar o tema da direção do movimento. Desde já, de modo
algum há que se entender direção numa acepção finalista, como se
todo o crescimento estivesse já contido em algum ponto do ser, espe-
rando apenas a ação da seta do tempo para apresentar-se. Não há
que buscar fmalismos metafísicos no crescimento da consciência ou
de todo o psiquismo; tampouco os resultados de efeitos instintuais
devem ser procurados por toda parte. Antes, esta movimentação
baseia-se num princípio de indeterminação, com a permissão de
utilizarmos um termo consagrado em outra área. O crescimento, como
propulsão interior, e a adaptação, como resposta interior e biografi-
camente inspiradas, apenas iniciam e vivificam esta movimentação.
A direcionalidade desta é parcialmente decidida em suas fontes e
em parte indeterminada, à espera de fatores que a façam assumir
uma direção. Uma vez arraigada na interpessoalidade, será a ação
desta que direcionará as formas que esse movimento passará a exi-
bir. Em outras palavras, a consciência move-se como potência indi-
vidual, mas orienta seus caminhos como obra interpessoal. As pro-
priedades dessa orientação são o tema das próximas linhas.
A consciência do psicopatologista acolhe conteúdos do pacien-
te, em todas as suas fases. Estes conteúdos preenchem espacial-
mente sua consciência, levando-a a uma certa configuração, a diver-
sos matizes sentimentais e de pensamento. A direção da movimen-
tação pela interpessoalidade será conseqüência desta experiência do
psicopatologista, combinada com aquilo que sua empatia fornece a
respeito do estado das configurações conscientes do paciente; será
fruto dessa síntese ininterrupta, sob dois aspectos distintos.
O primeiro aspecto deve retroceder ao tema da interespa-
cialidade. Cada interpessoalidade produz, involuntariamente, uma certa
interespacialidade que irá favorecer a gênese de certas vivências às
custas da atrofia de outras. Permanece a observação do senso co-
mum que experimentamos sentimentos ou pensamentos diferentes
de acordo com as pessoas com quem nos relacionamos. A aparição
de um certo patrimônio de conteúdos no decorrer de um tratamento
166 Psícopatologia t Transformação: um &boço Fenômeno-Estrutural

é, deste modo, secundária à interespacialidade subjacente, e não pode


ser creditada estritamente à movimentação individual da consciência
do paciente. Nela coexistem, inseparáveis, elementos das duas cons-
ciências, das possibilidades contidas na interespacialidade estrutural.
Portanto, as peculiaridades das interespacialidades reduzem o cam-
po de vivências da consciência em movimentação, conduzem o cresci-
mento interior relativamente indeterminado a figuras determinadas
como conteúdos. Como matriz da irreversibilidade biográfica, todo
novo conteúdo sintetizado traz a marca genética de duas consciên-
cias que, ao criá-lo, excluem uma infinita série de indeterminações.
A movimentação gera uma linha de vivências sempre orientada pela
interpessoalidade; não como um ato voluntário- ou mesmo sujeito à
clareza da racionalidade - mas como uma misteriosa gênese
provocada pela união de dois psiquismos. Nestas operações, ambas
as consciências contemplam perplexas o resultado de seus encon-
tros profundos, aquilo que emerge desde seus recônditos inacessí-
veis e, sobre os quais, nada há a fazer senão procurar gerenciar
estes frutos incontroláveis. Neste aspecto, a direção do movimento,
liderada pela interpessoalidade, é uma direção aquém da vontade e
do pensamento, infensa à racionalidade. Há algo do ser irracional
contido no humano na geração deste movimento.
Prenhe de humanidade, em seu sentido mais exuberante, é o
segundo aspecto da direção da movimentação. Este aspecto é se-
cundário temporalmente ao primeiro, necessita deste para sua atua-
lização. A consciência do psicopatologista, cônscia dos conteúdos
simultaneamente presentes na consciência do paciente (pela via da
empatia e do relato do próprio) e em si mesma, adensada pelas suas
freqüentes incursões na biografia do paciente e atenta para a pro-
fundidade necessária em cada ato hermenêutica, deverá eleger, num
instante irreprodutível e inadiável, qual será a porção de indeterminação
a ser alçada ao status de conteúdo. Dissequemos o raciocínio. Todo
movimento orienta-se numa certa atmosfera de indeterminação.
Descrita estruturalmente, esta indeterminação consiste num exces-
so de homogeneização da consciência, num aplainamento dos rele-
vos figura-fundo caracteósticos dos conteúdos. Um conteúdo, em
seus estágios iniciais de movimentação, é incompetente para eleger
claramente sua forma final, sua figura definitiva. Nestes estágios
167

iniciais, a indetenninação coexiste com incipientes relevos. Nestes


momentos, apenas um ato hermenêutico, gerador de conteúdos,
proferido pelo psicopatologista, pode ser capaz de provocar o apo-
geu da determinação da figura conteudística. Ressaltemos a impor-
tância desta ação proveniente da interpessoalidade. No momento
em que o pensamento do psicopatologista destaca, dentro de uma
gama de possibilidades dormentes na indeterminação, uma certa re-
gião, conferindo-lhe relevo, este passa a ser um conteúdo e, como
tal, irreversível e redirecionador da movimentação subseqüente. Cada
conteúdo gerado puxa para si a direção de toda a movimentação,
como se, numa encruzilhada, ao escolhermos um determinado cami-
nho, abandonamos as oportunidades de escolhermos outros, passa-
mos apenas a aprofundanno-nos naquele. A fala do psicopatologista,
ao sublinhar algum elemento da consciência do paciente, vai além de
mero apontamento. Na mais humana e rica das conduções da
interpessoalidade, cada pensamento do psicopatologista é um gera-
dor de movimentação, o criador de conteúdos que lá estavam ape-
nas como potencialidade. Não apenas aqueles que são comunicados
ao paciente, mas também aqueles que permanecem em seu sigilo
interior. Mesmo estes já consistem numa direção tomada pelo par,
numa edificação de caminho que, ainda que guardados em uma úni-
ca consciência, revelam a orientação que a biografia individual toma.
O tema do individual em antítese do geral deve ser reconvocado
aqui, fechando estas investigações sobre a interpessoalidade. O
direcionamento do movimento a partir de uma função genética da
interpessoalidade eleva ao grau máximo de singularidade a movi-
mentação, prenunciando as complexidades da transformação e inse-
rindo um perfil humano nos interstícios da mobilidade. Congregam-
se em cada deslocamento do psiquismo, nesta derradeira síntese, a
arquitetônica da consciência do paciente, sua plasticidade constituin-
te, as peculiaridades de seu crescimento e adaptação, sua capacida-
de em estabelecer interpessoalidades com interespaço patente, a
complacência à interespacialidade da consciência alheia (ou seja, do
psicopatologista, além das demais relações íntimas de cada pacien-
te), a própria espacialidade estrutural alheia, como produtora de al-
guns conteúdos e, por fim, toda a história vital do psicopatologista e
sua bagagem cultural, capacitando-o para destacar geneticamente
168 Psicopatologg t Trmsformação: um Esboço Fcn6mmo-Esuutunl

conteúdos nascentes na consciência do paciente. Destaque e gênese


que, em última análise, têm como padrão-ouro de sua veracidade a
própria espessura da interpessoalidade. Em suma, a interpessoalidade
é quem dá a garantia da progressão e diferenciação do individual,
ua primazia sobre o geral e coletivo. O individual só se gesta no
in terpessoal.
Como caução da movimentação psíquica genuína, a interpes-
soalidade reveste-se de inesgotável relevância. Da habilidade na sua
construção depende a competência na composição da arquitetônica
do indivíduo. Algumas palavras sobre a prática da interpessoalidade
encerram esta secção. A interpessoalidade não é mera dádiva da
espécie, regalo da evolução. Sua afinação é um ato de cultura. Mas
de uma cultura amadurecida na práxis da fmja de um certo gênero
de indivíduos. Caudatária por excelência da tradição ocidental, toda
produção estética que favoreça a penetração de vivências para o
interior da consciência, que permita à consciência aprimorar-se no
detalhes, nas nuanças, nos volteios da realidade; e que, na me ma
linha, obedeça a um ritmo de sucessões de relevos, de alternâncias
de destaques e, sobretudo, de sofisticada atenção às formas, atua
como emulador de uma interpessoalidade pródiga em constituir o
rico, o belo, o móvel, o potente e, quiçá, o feliz.

SEXTO SEGMENro: UMA ANÁIJSE FORMAL DAS TRANSFORMAÇÕES

A tríplice trilha palmilhada até agora conflui naturalmente para a


transformação. A consciência como forma arquitetônica, o movi-
mento como dilatações e condensações especiais desta forma, e a
interpessoalidade como espacialidade magnética e genética das alte-
rações desta forma, têm no seu cômpito, com a força de uma foz de
três caudalosos rios, a noção de transformação. Movimento para
além da forma, no rigor de sua etimologia, a transformação é o
conceito que congrega e unifica as dissonâncias de cada caminho
percorrido, sintetizando-lhes em uma instância emergente, em uma
nova totalidade. A transformação indaga concomitantemente a for-
ma e sua superação, aquilo que espacialmente atualizou-se numa
alternativa formal ao nada e aquilo que temporalmente forçou esta
forma para um futuro que lhe dissolve as entranhas, que lhe decom-
Guilherme Peres Messas 169

põe os arcabouços e instiga-lhe a reencontrar-se e recompor-se mais


além. A indefectível seta do tempo transpõe e flete os anseios
estabilizantes da forma, sua imperial tendência à imobilidade (o todo
sempre procura manter-se todo) e, seditora contumaz, eleva uma
parte elementar à condição de desestabilizadora da forma vigente.
A transformação, portanto, entrelaça os fios do tempo e do es-
paço, desenhando um mosaico cambiante, de tortuosos caminhos e
íngremes labirintos, por onde deve passar aquele que almeja reco-
nhecer a vida - sobretudo a vida mental - em seu hábitat natural,
sem as mistificações simplificadoras forjadas nas ideologias da esta-
bilidade. O tempo-trans da transformação perpassa estruturalmen-
te todas as análises proferidas, concernentes ao movimento. Onde
houver movimentação, haverá uma concessão temporal, um alvará
do tempo para o livre trânsito dos conteúdos móveis. O realce tem-
porário dos conteúdos sobre o fundo homogêneo da fonna consiste
numa ação do tempo desagregador e construtor. Desagregador na
medida em que desfigura a permanência formal, faz com que um
certo elemento - urna parte- subleve-se contra a totalidade da cons-
ciência, desobedeça a suas prescrições de ordenação. Construtor na
atividade de, rebento de sua insurreição solitária, promover uma nova
totalidade, urna nova incorporação da parte insurgente que culmina-
rá na produção de, ainda uma vez mais, totalidades. O espaço-for-
ma da transformação subsiste dialeticamente nas suas evoluções.
Ora interpõe-se como solidez, como anseio de manutenção formal,
permanência de urna feliz escultura tridimensional que precisa ser pre-
servada (sendo a vida a mais relevante das formas a serem preserva-
das); ora, como plasticidade estrutural, complacência com as forças
renovadoras do tempo. Nesta derivação, a interpessoalidade congrega
as mais valiosas porções de valências de plasticidade. As mais fér-
teis oportunidades de modelagem da espacialidade estrutural da
consciência. A ação da transformação, por fim, como declaração
de princípios, como plano voluntário de progressão para além do ins-
tante, fitando um horizonte inelutável da contínua geração de formas.
A transformação requer, portanto, urna consciência que desliza,
r1ecessariamente desequilibrando-se, para uma nova consciência.
Uma forma que caminha para uma nova forma, para além da forma.
170 Psioo~Utolo&ia eTruufonnaçio: um Esboço Fenômeoo-Estrutml

O ponto nodal de um paradigma da transformação incrusta-se


assim, diamante solitário, na perseguição metodológica da for-
ma que se arroja rumo à trans-forma. Karl Jaspers aflrmou que
"Todo progresso no conhecimento (. . .) é sempre um
progresso simultâneo no método". 1
Um progresso na investigação da transformação clama por um
método de análise formal das transformações. Uma análise que
se qualifique para examinar - para retomarmos a grade lingüística
preponderante até agora- as contrações e retrações que a totalida-
de manifesta em suas metamorfoses está na base de qualquer
metodologia das u·ansfonnações. A apresentação dos fundamentos
de uma análise formal das transformações segue duas etapas. Na
primeira delas, expõem-se seus procedimentos genéricos, suas fei-
ções macroscópicas e objetivos diagnósticos maiores, consistindo
numa metodologia para as totalidades e num método para os conteú-
dos em movimento. Na segunda, sua operacionaHdade cotidiana, o
conjunto de prescrições pelas quais devem orientar- e seus passos
na investigação singular de um caso clinico. Poder-se-ia acrescentar
que, para a primeira etapa, o psicopatologi ta é solicitado em sua
formação humanística genérica, na acurácia da afinação de sua ca-
pacidade empática e estética, de seu entranhamento com o mundo.
Na segunda, uma vez capacitado, em sua dedicação às vicissitudes
de um caso individual, em seu gosto pelas misteriosas
imponderabilidades emanadas do irreprodutível biográfico.

Primeira etapa: 11ma metodologia para as totalidades


Uma análi e formal das transformações deve, portanto, inicial-
mente, refinar-se na ausculta das totalidades. A transformação pres-
supõe a totalidade, adquire sentido apenas como ultrapassagem de
uma totalidade por outra; a cegueira diante do reconhecimento das
totalidades cassa o direitos do exame profundo das transformações.
As análises que, tangenciando a realidade, não percutem a totalidade,
jamais atingem a transformação em eu âmago, arriscando-se a to-
mar por metamorfose aquilo que é mera imitação, por mutação
Guilhume Peres Messas 171

aquilo que é permanência maquiada. Nessa dimensão, a análise


refere-se a uma habilidade em desvendar o espaço, as formas que a
consciência e interconsciência nele desenham, o volume tridimensional
que ocupam. Se fosse concebível servirmo-nos das grandes artes
como metáfora para os dois grandes procedimentos analíticos da
transformação, ponderaríamos que a arquitetura está para o conhe-
cimento das totalidades assim corno a música (como veremos a se-
guir) para os conteúdos em movimento.
Entretanto, não serão às artes nossos pedidos de auxHio para o
enfrentamento com as totalidades. Antes, à boa tradição científica,
nos sítios nos quais se inspirou para fitar algo além da mera visibilida-
de óbvia. Prestação de votos de respeito e fonte de renovada inspi-
ração, ao mesmo tempo. Render uma homenagem consistente a um
autor e, em concomitância, ordenar um pensamento científico, é um
exercício de difícil execução, facilmente escapando ou para uma
exposição encomiástica, subordinada, do primeiro ou para uma utili-
zação espúria de suas palavras para um projeto pessoal. Apenas um
grande autor pemilte, pela dimensão de sua obra, a dupla figuração
em um pensamento que lhe é alheio, pois apresenta um paradoxo
diacrítico das grandes mentes. Ao mesmo tempo em que é capaz de
fazer emergir um enorme edifício conceitual, articulado e com
revérberos em diversas áreas da reflexão humana, jamais se calcifica
num sistema totioperante, explicativo de todos os polimorfismos do
humano. Constituir uma gigantesca sistematização sem montar um
sistema faz de um pensador o contínuo artífice do progresso científi-
co. Estas palavras iniciais introduzem a imperecível influência da
obra de Kurt Goldstein em quem quer que venha a se interessar pelo
estudo das totalidades.
Estudioso da neurologia, talvez sua "A Estrutura do Organis-
mo"2 seja a mais completa peça científica voltada à investigação
das totalidades, a mais radical tentativa empírica - sustentada por
ampla casuística e robustecida por densa teia reflexiva- de visualizar
a aventura humana (e, por extensão, suas desventuras patológicas)
como um projeto total. De uma totalidade jamais concebida como
metafísica, imaterial, mas como uma imanência complexa da nature-
za humana. De sua longa obra, extrairemos a suma metodológica, a
172 Psioopatolopa cTrtruformaçio: um Esboço Fcni>mcno-Estrutun.l

organização de parágrafos em que resumiu os procedimentos para o


acesso às totalidades, com o perdão pelo alongamento das citações.
Da maior e melhor filiação fenomenológica, pen amos que a extra-
ção deste excerto de seu organismo teórico, ao contrário de mutilá-
lo, resgata sua força congregante, seu poder em resumir toda uma
obra. Passemos à prescrição goldsteiniana, sempre grifada em itáli-
co. As considerações acrescentadas em cada item (sem grifo) são
de nossa inteira responsabilidade, inspirações à sombra de um gran-
de mestre, transpo ições do seu pensamento orgarúsrnico para uma
proposta psicopatológica:

"A primeira exigência metodológica é a seguinte: É


necessário ter em conta todos os fenômenos que apresenta
um organismo, por exemplo um doente, e, na descrição
que dele fazemos, não dar, de início, a preferência a
nenhum dentre eles (os fenômenos). Inicialmente, não há
fenômenos importantes nem fenômenos insignificantes. ( ..)
O exame imparcial e repetido de um caso mostra sempre e
novamente que a alteração particularmente chocante de
uma operação não é necessariamente aquela que nos fará
compreender o transtorno funcional que a ela subja::. ". 3
Nesta exigência metodológica confluem os pensamentos de
Goldstein e de Minkowski (neste, postulado em seu "Tempo Vivi-
do"4), na crença de que uma verdadeira alteração, inscrita, portanto,
no corpo de urna totalidade, não se dá imediatamente ao olhar do
investigador. Enganosarnente em seus ardis, a natureza da consciên-
cia nem sempre revela quando expõe, manifesta quando se expres-
sa. Apenas um esforço continuado de investigação, paciente, resig-
nado às dificuldades constituintes, pode aguardar o momento exato
no qual a genuína fratura da totalidade pode ser desvelada, abre-se
como um mistério revelado às custas do suor da reflexão penetrante.
O conhecimento que se alça às totalidades vai tecendo com os
variados fios fenomênicos uma túnica improjetada, uma coleção de
tecidos policromáticos que, apenas uma vez constituidos, surgem aos
olhos do projetista como fato consumado, como totalidade estabili-
zada, como forma prenhe. As cintilações hiperbólicas de algumas
Guilhrnn( Pms Masas 173

linhas não podem iludir o psicopatologista, que deve manter em men-


te que nem tudo que reluz é ouro ou, noutra proposição, nem tudo
que parece mais patológico é primário ou são as nascentes da san-
gria do sofrimento psíquico.
Atando esta primeira prescrição ao novelo lingüístico que vem
nos norteando até então, concebemos que, numa perspectiva ampla,
as três trilhas confluentes do paradigma devem ser examinadas (como
os fenômenos, no sentido de Goldstein) sem privilégios relativos. A
arquitetônica da consciência, a movimentação dos conteúdos e
a dupla abertura da iuterpessoalidade deverão ser tratadas ;,
totum, de um só golpe. O procedimento analítico circunscreve a
totalidade consciente, acresce a ela o diagnóstico da movimentação
conteudistica e, na mesma fórmula, agrega a avaliação bimodal da
interpessoalidade. Sem que qualquer uma delas eja, a priori, elevada
à condição de fundamental. Porém, aqui, diferentemente da arquitetu-
ra, a forma resultante desta síntese não se oferece passivamente aos
olhos, não transborda em clareza, como na obra arquitetônica.
Retomando a Gold tein, o acesso a este conhecimento se dá por

"(..) um ato criador sempre repetido (..) uma espécie de


'visão' no sentido de Goethe, visão que não perde jamais
contato com a realidade". 5
É esta visão, esta aparição formal que se presentifica na mente
do psicopatologi sta, o momento a ser perseguido na síntese
diagnóstica. Apenas após este considerável e extenuante (ai nda que
exultante intelectualmente, a jóia da coroa da perscrutação do huma-
no) exercício, o p icopatologista pennite-se uma síntese, um grito de
heureca, revelador das articulações hierarquizantes da verdade
psicopatológica, do ponto da composição trinária na qual reside
a fratura primária. Esta atitude estóica, de permitir-se levar por
uma ignorância auto-imposta, por uma inocência disciplinada e
metodológica, afasta o espírito científico das imantaçõe enganado-
ras provenientes de duas fontes principais. Em primeiro lugar, das
tendências modísticas do seu período. Épocas de privilégio
comportamentalista privilegiam a observação do comportamento, eras
mais afeitas ao olhar psica nalítico atentarão primordialmente à
174 Psicopatologia t Tr:uuformaçio: um Esboço Fmô~tural

interpessoalidade, proeminências fenomenológico-existenciais real-


çarão as vivência conscientes, e assim por diante. Em egundo lu-
gar, dos relevos dados pelo paciente ao seu quadro psicopatológico.
Ensime mado pela própria expiação do sofrimento, o acento dado
pelo paciente àquilo que vive não necessariamente condiz com a
observação estruturada do psicopatologista. Um olhar em demasia
guiado por aquele acento pode falsear a já complexa percussão das
zonas de en urdecimento das caixas de ressonância da mente.
O procedimento igualitário de Goldstein permite que a atenção
do psicopatologista roce por todos os aposentos do labirinto trinário
do psiquismo humano, espreitando com seu olhar arguto em qual
deles merece acampar com ua parafernália terapêutica. De modo
algum isto quer dizer que em todos os momentos toda as unidades
da composição trinária devem estar, simultaneamente, na mente do
psicopatologista. Esta demanda culminaria numa impossibilidade de
conhecimento, numa pletora de observações estéril para dar relevos
à realidade. Contrariamente, apenas nos instantes de radical desco-
nhecimento, de perda de suas pistas conceituais é que o
psicopatologista recorre a esta bússola metodológica que, zerando o
direcionamento de seus rumos, reordena-o melhor para a continuida-
de de sua infinila jornada.

"A segunda exigêucia metodológica é a de elucidar os


fenômenos eles-mesmos". 6
Caudatária fiel da linhagem fenomenológica mais castiça, esta
prescrição arregimenta elementos para afugentar a ligeireza das hi-
póteses genéticas, das buscas apressadas pelas causas que obnubilam
a freqüentação dos fenômenos eles-mesmos, daquilo que existe por
si mesmo. À formação do psicopatologista, como um ato de trans-
missão cultural, cabe a perpetuação desta atitude de contato genuíno
com a realidade. O frenético acento científico nas cau as hipertrofia
o vértice reducionista do psicopatologista, desviando a permanência
de seu olhar curioso do fenômeno para aquilo que produz o fenôme-
no. Portentoso e eficaz nas ciências da natureza - domadoras do
mundo - este pendor enfraquece a capacitação de quem averigua o
psíquico. Longe de nós sustentar que apena na residência do fenô-
meno deve-se fixar a atenção psicopatológica. Harmônica às suas
Guilherme Peres Messas 175

ambições, a atitude metodológica do psicopatologista necessita das duas


fases. Precisa demorar-se longamente no reconhecimento das coisas
tais quais são para, num segundo tempo, eleger, dentro da multidão das
causas possíveis, aquelas que geraram o fenômeno habitado.
Esta atitude novamente aproxima o método do patriarcado da es-
tética. A empatia, plenipotenciária da estética nas construções da
psicopatologia, multiplica-se numa miríade de atos conscientes do
psicopatologista voltados ao aprofundamento na experiência do pa-
ciente. Um aprofundamento no ser do paciente que faz com que os
fenômenos por ele vivenciados possam ser aproximados, tangenciados
em seu fugidio fulgor. Jamais açambarcados em defmitivo, o conhe-
cimento dos fenômenos eles-mesmos, quando amplificado ao máxi-
mo, reduz ao núnimo a chance de conceitualizações metafísicas ou
especulações causais entorpecidas e estultificadas, os tumores mais
malignos da psicopatologia contemporânea.

Primeira etapa: Uma metodologia para os conteúdos


em movimento
Uma análise fonnal das transformações optará, em segundo lu-
gar, por uma investigação da totalidade consciente e de suas partes
constituintes em suas trajetórias de movimentação e geração, seus
momentos de totalidades estáveis e de panes em proeminência (os
conteúdos). Como método, almeja cozer e descozer ambas a instân-
cias- consciência e movimento, em última análise- procurando sínte-
ses temporárias, indagando os recônditos formais nos quais se dá a
transformação, os timbres que esta encerra, a te situra que fornece à
consciência. Analisar formalmente uma transformação é, acima de
tudo, observar quando a emergência de um conteúdo deixa de provo-
car uma certa configuração da totalidade consciente e passa a apre-
sentar outra, revelando a existência e vigência de uma nova totalidade,
do vigor da potência de transformação. Ampliemos esta última aftr-
mação, pois, em seu bojo- as relações entre totalidade da con ciência
e emergência de conteúdos -estão reunidas as mais fidedignas condi-
ções para o diagnóstico de uma transformação. Para conduzir esta
exposição, retomemos, pela última vez, o bulário goldsteiniano.
176 Psicopatologia eTransformação: um Esboço ~nômeoo-Estrutural

"Nossa terceira exigên cia metodológica é de não


considerar nenhum fenômeno sem referência ao organismo
e à situação na qual o observamos". 7
Se nos fosse concedida a liberdade de certa livre hermenêutica
desta prescrição, para além dos intuitos do autor, poderíamos encon-
trar aqui, em outras palavras, nossa definição de conteúdos. Estes,
entendidos como a figuração de uma forma obre um fundo, como
um acidente, uma dobradura da forma sobre si mesma, jamais po-
dem ser considerados amputados de sua globalidade, sua camatura
essencial na forma que o acolhe e gera. Em decorrência, não haverá
conteúdos em si, i olados da forma que os circunda. A idéia de um
conteúdo puro deve ser abandonada, substituída pela de um conteú-
do em relação com a forma total da consciência. A emergência de
um conteúdo indica, portanto, uma certa disponibilidade especial do
tecido da consciência para sua presentificação. Por um lado, apenas
certas te situras consciente permitirão determinados conteúdos; por
outro, todo e qualquer conteúdo apresenta, tatuado em eu corpo, a
efígie da forma con ciente vigente. Esta dupla observação justifica o
postulado de algumas Linhas acima da produção de novos conteú-
dos como traço patognomônico da transformação. Apenas na
ocorrência de verdadeiros processos de transformação surgem -
genuinamente- novos conteúdos. A produção de um novo conteúdo
já pressupõe que a plasticidade intacta da totalidade consciente trans-
formou-se, adquiriu novos relevos, abrindo espaço para uma nova
condensação conteudística. Que, enfim, houve transfonnação, vo-
cação insuspeita do humano.
Esse estado de coisas, entretanto, acresce substancial respon-
sabilidade ao método, criando-lhe uma pedrego a dificuldade, resu-
mida no ato diagnóstico de um novo conteúdo. Simple à primeira
vista, o diferencial entre a emergência de um novo conteúdo e as
falsificações mistificadoras dos antigos não se abre ao psicopatologista
com qualquer chave geral. As saídas para a questão do reconheci-
mento de novos conteúdos (e, portanto, da verdadeira transforma-
ção, para além de meras constatações comportamentais) ficam con-
finadas a duas soluções que, desejavelmente, não devem excluir-se,
mas somar-se. Recorran1os ao auxJ1jo sinalizado acima pela metáfora
Guilbennt Pues Mesw 177

de que a música (e a poesia, no que tem de ritmo) pontifica no reino


da metodologia dos conteúdos móveis. Primeiramente, as peculiari-
dades formais da consciência, no reconhecimento de um novo con-
teúdo. Duas sustentaçõe escudam a constatação de um novo con-
teúdo. De maneira alguma excludentes, pelo contrário, é de ejo do
psicopatologista que ambas pos am sempre se fundir numa mesma
peça. Ou o relato do paciente de que está experimentando algo novo,
distinto formalmente daquilo que experimentava antes, ou a empatia
do psicopatologista com uma nova tonalidade conteudística. A pri-
meira delas requer do paciente alto grau de intro pecção, com rique-
za de patrimônio léxico e cuidados para com seu próprio mundo in-
temo. A segunda requer o mesmo, agora do psicopatologista. De
qualquer maneira, interessa-nos aqui como este reconhecimento se
dá. À moda da decomposição dos acordes da música, esta detecção
foija-se no desmembramento dos conjuntos figura-fundo proporcio-
nados pelos conteúdos examinados, projetados sobre a consciência/
interconsciência. É a maneira como estes conjuntos se harmonizam
que determina se um conteúdo é novo ou mera far a do antigo. Uma
exemplificação- dentre as inúmeras possíveis- deve vir em nosso
socorro. Um paciente nos procura por queixa depressiva. Tem um
longo histórico de pequenos insucessos que, somados, conferem uma
aura de fraca. so à sua vida, que real imenta um circuito vicioso de
derrotas e autocomiserações. Inicia-se o tratamento, no qual sobres-
saem lamúrias contínuas sobre a própria biografia de insucessos. O
conteúdo do pensamento raramente afasta-se da litania queixosa.
Entretanto, duas reordenações figura-fundo, dois novos acordes se
manifestam. Em primeiro lugar, o moto-contínuo das lamúrias- figu-
ra em primeiro plano - desprega-se da endogeneidade responsável
pelo ímpeto pessoal. Ainda queixoso, o paciente, contudo, passa a
conseguir iniciar a realização de pequenos projetos pe soai . Peque-
nos, de pouca relevância sobre a biografia em declive, mas suficien-
tes para um desacoplamento da corporeidade à conteudística
depressiva. Em termos de consciência, podemo diagnosticar uma
transformação da totalidade, uma expansão da plasticidade às cus-
tas de uma ampliação da espacialidade estrutural. O paciente ainda
experimenta-se depressivo, porém a totalidade em que este conteú-
do emerge já é outra, está para além da forma inicial. Em segundo
178 Psicopatologia eTransformaçio: um Esboço FenômeocH!st:rutural

lugar, a pressão dos conteúdos para o interior da interpessoalidade


diminui radicalmente. Uma certa tensão contínua, uma iminente rup-
tura avalizada por uma insinuante acusação de inoperância terapêu-
tica passa a dar lugar a um crescente sentimento de amizade, uma
facilitação da palpitação das qualidades positivas do paciente no in-
terior do psicopatologista. Em termos de interconsciência, igualmen-
te podemos diagnosticar uma mudança de totalidade, um uso mais
flexível das entradas e saídas da interpessoalidade, facultando uma
maior amplitude de sentimentos do psicopatologista. Os sentimentos
ameaçadores de ruptura permanecem, mas edulcorados por uma
sólida permanência de sentimentos dóceis, compondo um acorde que
toma rombo o açoite da fratura Este exemplo foi destacado especial-
mente pelo caráter de manutenção da queixa depressiva, por parte
do paciente. Um diagnóstico apressado penderia para a indagação
de um insucesso da parceria, uma negação da transformação. Uma
aguda investigação dos movimentos dos conteúdos, na sua composi-
ção com a forma global, areja o investimento psicopatológico, abrin-
do novas janelas para a real percussão da transformação.
Em segundo lugar, o ritmo da movimentação. Aqui devemos, de
uma só vez, afastar em definitivo a sombra de uma asa negra que
possa ter permanecido no capítulo referente ao movimento psíquico
e destacar - pela via de uma reconvocação - o majestoso pensa-
mento de Jaspers. Durante toda a exposição concernente ao exame
dos movimentos dos conteúdos, um murmúrio inquietador manteve-
se atormentando a placidez do desenvolvimento de nossas argumen-
tações. Ao debruçarmo-nos sobre a movimentação, no sas conside-
rações podem parecer ter resvalado em demasia para um aspecto
de normatização. Toda a linha mestra deste ensaio rege-se por uma
busca do indivíduo pulsando único no interior de mistificações ideoló-
gicas coletivizantes, processos que têm (como demonstramos na aná-
lise sobre o mecanismo no primeiro capítulo) na busca de leis
determinísticas o seu carro-chefe intelectual. Em outras palavras,
buscamos antes os caminhos pelos quais o indivíduo possa usar algu-
mas leis em seu proveito do que o contrário. Entretanto, esta decla-
ração de princípios não pôde ser explicitada à altura do segundo
capítulo, devendo ser encetada agora. Para tal, mais uma vez nos
Guilherme Peres M.csw 179

socorremos das soluções jasperianas, mais propriamente na sua con-


cepção de forma do movimento. Nesta, o movimento não deve ser
acompanhado corno mecanismo, mas como composição fonnal. É
nesta acepção que se deve tomar toda a segunda seção e, igualmen-
te, entender o tema do ritmo como conhecimento da transformação.
Esta análise se dá no âmbito da investigação das diferenças entre
mecanismo e ritmo, no que conceme a seus aspectos temporais.
Para o mecanismo, o tempo é um inimigo a ser combatido, um em-
pecilho a ser superado, urna homogeneidade virtual que e antepõe a
uma trajetória previamente estabelecida. Sabedor de seus pontos de saída
e chegada, o investigador do mecanismo tem no tempo apenas uma
linha por onde as determinações exercem seus poderes. Não é gratuito
que a grande empresa tecnológica (empresa, aliás, bem-sucedida e glo-
riosa) seja a da redução do tempo, da superação de limites temporais.
Disperso em praticamente todos os cantos da cultura contemporânea, o
anseio da realização das mesmas tarefas no menor tempo possível tam-
bém obteve sua acolhida nas ciências biológicas e, mais recentemente,
nas ciências da mente, obviamente, para a execução deste exercício,
mutada em ciência comportamental. A própria noção de eficácia- caput
da contemporaneidade- sustenta-se primordialmente na vitória sobre o
tempo. Ainda uma vez, não seria ocioso lembrar a enorme contribuição
que esta perspectiva trouxe para a ciência do corpo (e também, com
limites, para a da mente), não sendo os eventuais abusos cometidos su-
ficientes para incriminar esta aventura radical de nossa época. Com
exceção de um. O inclemente suplício de Crono -nosso mal-du-siêcle
- macerou a experiência do ritmo.
Para o ritmo, o tempo é a matriz de sua construção, o insumo
para seu estabelecimento como- mais uma vez- arquitetônica. Neste
ponto podemos levar aos extremos nossa análise formal. Também
no tempo a forma deve ser investigada, é a encarnação fundamental
da transformação. Não um tempo inimigo, vápido. mas um tempo a
ser desenhado, marchetado com relevos especiais, diferenciado e
instituído como obra do indivíduo. O tempo do ritmo é o tempo do
indivíduo, sua impressão digital quadridimensional sobre a realidade
móvel. A incineração do ritmo, visando ao coroamento do anti tempo,
se controla a matéria, anula o indivíduo, este filho legítimo do tempo
180 Psioopatologia • Tru~sformação: um Esboço F<nôm<oo-l!strutural

ritmado. Inúmeras situaçõe ligada à psicopatologia poderiam des-


ftlar como exemplo. De tacando uma delas apenas, poderíamos lem-
brar as dificuldades que os temperamento esquizóides, hiper ensí-
veis por excelência, experimentam com a cegueira para uma inves-
tigação rítmica. Em vez de reconhecer-se sua ritmicidade lenta, re-
pleta de pausas e retomadas da mesma melodia, como uma forma
intrínseca de seu movimento, as psicopatologias supliciantes do ritmo
tendem a interpretar eus movimentos como patológicos ou, taJvez
ainda pior, imaturos. Posicionar as linhas rítmicas velozes de indiví-
duo facilmente adaptáveis ao mundo do mecanismo sobre o ritmo
largo e majestoso, por vezes até solene, dos esquizóides é uma ini-
qüidade digna de figurar na eterna composição infernal dantesca. A
competência para acompanhar a arquitetônica do ritmo de um pacien-
te deve, enfim, também constar do requisitos mínimos para uma
profunda execução da partitura psicopatológica.
Como conseqüência, o reconhecimento de novos conteúdos é
também uma concessão do ritmo. A transformação, muitas vezes
inacessível num primeiro momento em sua cara formal, pode reve-
lar-se por seu desenho rítmico. Alterações no andamento rítmico da
consciência do paciente, modificações na pressão rítmica do próprio
psicopatologista, reduções ou ampliações das pausas, prefigurações
rítmicas nas quais antes havia caos, são apenas alguns vislumbres
das possibilidades e abrangência da análi e rítmica como instrumen-
to da investigação das transfonnações.
Com isto, terminamos a exposição da primeira etapa da análise
fonnal da transformação, apresentando seus elementos genéricos,
sempre en quête da forma e de suas re-formas e trans-formas.

Segunda etapa: a microscopia da metodologia


A investigação minuciosa e atenta de casos individuais surge como
a confluência natural do que acabamos de examinar, na sustentação
de um paradigma da transfonnação. No paradigma da estabilidade,
em que a etiologia é o objetivo último do cientista, a reunião da casuística
pela quantidade de casos emelhantes tratados estatisticamente, é o
método mais aceito. De modo diverso, o paradigma da transformação
Gu.ilhtrmt Pms Mtws 181

exige um método que qualifique para o acompanhamento das transfor-


mações. Entretanto, a afirmação da primazia da anáüse de casos como
metodologia é por demais imprecisa para a operação microscópica,
cotidiana, desejadn. Há, por princípio, infindáveis modos de se proce-
der a uma análise de caso. Aquilo que procuraremos apontar nas pres-
crições abaixo procura ao máximo escapar de generalizações
globalizantes, seja do gênero biológico ou mesmo bibliográfico, que
tendem a enrijecer a compreensão formal de um indivíduo a grandes
perfis ordenando a compreensão de toda uma vida. Antes, seguem a
preocupação de fornecer as melhores chances de circunscrição, por
parte do psicopatologista, dos momentos de mutação de um psiquismo,
da identificação mais atinada dos átimos em que este se movimenta e
flerta com novas formas. Passemos a elas:
Em primeiro lugar, a análise formal das transformações é sempre um
exercício inacabado. Em virtude do caráter inesgotável das mutações no
psiqui mo, não faz sentido imaginar um método que pudesse esgotar o exa-
me de um caso, levando-o a um conhecimento completo da sua evolução. A
noção de que a investigação de um caso pudesse conduzir ao reconheci-
mento de mecanismos básicos definitivos deste é apenas meia-verdade.
Cada caso efetivamente apresenta singularidades que se repetem; e tas
singularidades, entretanto, devem ser entendidas como a projeção da reali-
dade psíquica mais voltada ao passado, ao território do já conhecido. Jamais
a análise das transformações deve aferrar-se unicamente ao terreno daquilo
que, mecanicamente observado, traz um convite para o encerramento con-
victo da análi e, seu congelamento nas dimensões pretéritas e presentes.
Assim sendo, a análise formal das transformaçõe , em sua ação empírica,
deve determinar um segmento temporal para ua execução. O segmento
temporal é a unidade em que se executa esta análise, a única circunscrição
na qual suas descobertas serão genuinamente verdadeiras, as fronteiras
de sua validade. A análise percorrerá o movimento da transforma-
ções neste segmento, utilizando-se das categorias e objetivos genéri-
cos apresentados (assim como das categorias apresentadas como ca-
tegorias fundamentais), Limitando suas conclusões a este período.
Como conseqüência desta característica de limitação das con-
clusões a segmentos temporais, prescreve-se, para a profunda in-
vestigação da realidade em transformação, a ação contínua do
método, ou seja, não existe um desligamento entre método e os
182 Psicop2tologi2 eTransfo11112çio: um Esboço ~nõmenD-F.strutural

resultados dele derivados. Diferentemente da realidade estável, na


qual o emprego de um método conduz a conclusões que podem er
admitidas autonomamente (por exemplo, o reconhecimento de uma
causa vira! para uma determinada doença mantém-se o mesmo in-
dependentemente dos métodos bioquímicas que levaram a e te diag-
nósuco), na realidade em transformação os resultados vigoram pelo
período em que se exerce o método. Uma vez suspensa ou interrom-
pida a ação do método, aqueles conhecimentos não mais se mantêm
válidos com o mesmo valor inicial. Por exemplo, uma determinada
interpretação de um comportamento de um paciente apenas tem valor
no momento em que a análise deste compo1tamento seja realizada
durante o segmento temporal submetido ao olhar do método. Um
comportamento similar, em outro segmento temporal, pode ter de ser
interpretado de modo até mesmo antagônico. Com isto, não quere-
mos dizer que não haja verdades estáveis no psiquismo, ou que o~
conhecimentos psicodinâmicos ou neurofisiológicos não sejam ne-
cessários, mas, sim, que mesmo as verdades estáveis, ao configura-
rem-se numa estrutura hierarquizada, tem valência distintas de acordo
com o segmento temporal a que pertencem. O real conhecimento
destas valências só pode ser atingido pela ação contínua do método,
sua presença incansável buscando deslindar cada mudança ou
flutuação de significação, cada rearranjo da estrutura global que con-
fere valor a todos os eus componentes. A análise formal das trans-
formações não pode deixar-se iludir pelas ideologias unificadoras e
globalizantes de ciência. Qualquer ambição de uma ciência global do
psiquismo, capaz de articular lógica e definitivamente os fatos men-
tais de todos os indivíduos, descartando o valor idiossincrático de
cada um deles, não consegue refletir, no nível da psicopatologia, a
realidade que busca investigar. A árdua tarefa da análise formal da~
tran fom1ações é decifrar, dentro de cada segmento temporal e para
cada caso individual, como se compõem dois campos heterogêneos:
a zona estável, responsável pelos comportamentos e vivências que
se repetem, ou pelas características fisiológicas que a biologia impõe
à espécie, e a zona mutável, na qual reinam as indefinições próprias
da hermenêutica. Esta tarefa exige uma ação contínua do método.
A terceira prescrição básica para a execução da análise formal
das transformações é a imersão do sujeito investigador no objeto
Gualhtnnt Pcns Mtsw 183

investigado. A peculiaridade essencial das transformações de ne-


ces itarem da penetrabilidade psíquica para sua vitalização faz com
que o método constitua-se, para lançar mão das palavras de Minkowski,
em uma psicopatologia a duas vozes. Os relatos e análises dos
casos devem incluir a experiência da imersão do psicopatologista, da
captação, por meio da interpessoalidade, dos trajetos, invasões e re-
cuos, que o psiquismo do paciente percorre no desdobramento de suas
transformações. Sempre tendo como objeto o psiquismo do paciente, a
dinâmica intrín eca da transformação exige, por vezes, que a atenção
recaia sobre a consciência do psicopatologista, nas ocasiões em que
este se toma o palco para o drama da mente do paciente.
A quarta e última prescrição amarra as partes genérica e mi-
croscópica, reproduzindo o núcleo da primeira nas atividades da se-
gunda. Em todo e qualquer segmento temporal analisado, o psicopa-
tolog1sta faz e refaz o percurso programático da primeira parte, em
todo segmento de enha, cria e recria suas visões da trinariedade
mutante do psiquismo de seu paciente, uas sínteses diagnósticas
temporárias. Tal trabalho de Sísifo, de perseguir um conhecimento
que lhe foge inelutavelmente das mãos, talvez neste ponto atinja seus
maiores desafios e o maior grau de complexidade. Nestas análises
realizadas no interior de um segmento temporal, o psicopatologista
deve escolher, desprovido de qualquer bússola que não seja a sua
profundidade de mirada, onde recai o acento de eu empreendimen-
to científico fugaz e radical. Entre arquitetônica da consciência,
movimentação dos conteúdos e a dupla abertura da inter-
pessoaüdade, nesta tríplice projeção da realidade móvel do psiquismo
que deve decifrar, o psicopatologista tem de escolher - para aquele
interregno - se seu diagnóstico deve remeter à situação total (a vi-
são da totalidade), compreendendo os três elementos, ou deve deter-
se em algum deles em especial, ou seja, em cada ato analítico, um
diagnóstico deve ser estabelecido. Diagnóstico que deve obrigatoria-
mente escolher qual combinação dos três elemento melhor reflete
a situação momentânea e, mais precioso ainda, qual diagnóstico
formal abre as melhores janelas para identificar a transformação.
Nessa dimensão apical do conhecimento de um indivíduo, profundi-
dade de análise e capacidade de identificação da transformação se
identilicam. Dentre as várias possibilidades diagnósticas possíveis - a
184 Psicopotologi. eTranúornuçio: um Esboço Ftoomeno-Estrutural

própria polivalência categoria! do conceito favorece este caráter


polissêmko- o mais nobre dos trabalhos do psicopatologista é disse-
car e apresentar íntegro o núcleo de toda esta complexidade de alter-
nativas hermenêuticas no qual reina a mobilidade e a plasticidade.
Dentre todas as verdade verdadeiras, a verdade mais móvel, a LOna,
enfim. em que todo um psiquismo abre-se para a mutação.
Tendo concluído a reflexão metodológica, podemos fazer ecoar
a manife tação jasperiana, dizendo que uma psicopatologia deriva
imediatamente de eu método subjacente, é uma ressonância deste.
Assim, uma vez posta a análise formal das transformações, uma
indicação de suas conseqüências psicopatológicas poderá ser vis-
lumbrada, concluindo todo o ensaio.

Referências
Jaspers K. op. cit. p. 30.
Goldstein K. La structure de I 'organisnze. Gallimard, 1983.
Idem. p. 21-22.
4
Minkowski E. Le temps vécu. Esta noção se encontra de-
senvolvida entre as páginas 207 e 254.
Goldstein K. op. cit. p. 313.
6
Idem. p. 21.
7
Idem. p. 23-24.

SÉTIMO SEGMENTO: ÉPURAS DE UMA PSICOPATOLOGlA


O projeto de ex.tensi va e empiricamente apresentar uma
psicopatologia da transformação, em seu funcionamento por meio
das análises formais de casos individuais é. como já dissemos, tarefa
para outro ensaio. Entretanto, não poderíamos encerrar e te e boço
sem, ao menos, examinar as épuras desta psicopatologia, as proje-
ções planas de um edifício multi facetado e intricado. Exposição que
permitisse, ao menos, uma visualização de sobrevôo daquilo a ser
Guilbtrm( Pua Mcssas 185

desenvolvido em outra parte. Com o perdão pelo pecado da genera-


lização, este demônio que procuramos exorcizar da capo a/ fine da
obra (resta-nos o consolo de que, aqui, é identificado e fichado como
demônio e não como o deus da sabedoria), temos brevemente nestas
épuras um epílogo na forma de exórdio.
Se a consciência, interconsciência e seus movimentos são uma
totalidade, uma forma móvel individualizada, arquitetada em relevo
irreprodutível e cambiante, toda psicopatologia que procure aprumar-
e como verdadeira deve buscar as fissuras patológicas em doi sítios,
condicionando duas grandes áreas: as alterações por imobilização
e as alterações por enrijecimento. Não há que se sobrepor estes
dois grupos à divisão psicose-neurose, empregada por diversas es-
colas e, portanto, submetida a um certo deslizamento de sentido que,
porém, nunca deixou de traduzir, na primeira, um malogro de toda a
personalidade (com o comprometimento do senso de realidade) e, na
segunda, um sofrimento parcial da personalidade integral (sem com-
prometimento da noção de realidade). Tal molde bimodal da
psicopatologia, a despeito da sua utilidade na aferição da gravidade
dos quadros patológicos, ainda baliza-se demasiadamente num
paradigma de estabilidade, num anseio de trabalhar com grandes gru-
pos estanques, perfilados de acordo com uma aglomeração sindrôrnica.
Psicóticos e neuróticos não se articulam diretamente com imobiliza-
dos e enrijecidos, e, o que é verdadeiramente importante, chamam a
atenção para fenômenos distintos e acabam por induzir objetivos
terapêuticos inassimiláveis.
Em páginas das mais memoráveis e criativas de toda história da
psicopatologia, Eugene Minkowski concebeu e elaborou o termo
transtornos por imobilização•. Reunindo e analisando sob a mes-
ma categoria fenômenos aparentemente heterogêneos como a ava-
reza e a paranóia (o primeiro um fenômeno neurótico e o segundo
psicótico, na linguagem da estabilidade), Minkowski vai nos mos-
trando suas semelhanças estruturais.
"Procedendo do dinamismo, a vida humana comporta uma
propulsão para o porvir e assim, sobre o caminho que ela
percorre, um crescimento do ser ''2.
186 Psocopat.ologia eT11rurormação: um Esboço Fenõmeno-l'.suutu11l

Na avareza,

"(. . .) nos encontramos na presença de uma fixação


patológica que, destacando o fenômeno da posse do
dinamismo da vida, faz dele um centro de imobilização na
qual vem se estagnar a pessoa inteira. É um dos planos de
e/i vagem sobre o crescimento do ser "3 .
Igualmente. no paranóico, instala-se um
"(.. .)fator de degradação por imobilização"~.

marcado pela
"(. ..) sua fixidez, sua irredutibilidade, sua cronicidade ( ..) •os.
Em ambas as condições, a incapacidade para a transformação,
para o fluir das formas, para a renovação e geração de conteúdos.
Nesta análi e magistral (lamentavelmente de pouca influência sobre
as gerações de psicopatoJogistas que lhe sucederam), Minkowsld
interessa-se primordialmente pela imobilização formal da con ciên-
cia, entendendo a emergência de conteúdo como secundárias à
anquilo e fundamental As alterações por imobilização (preferi-
mos o termo alteração ao transtorno, utilizado por Minkowsld, em
virtude das acepções que este acabou por receber, e que examina-
mos na primeira parte deste Livro) compreenderiam, portanto, as ob-
servações p icopatológicas da ausência de movimentação e tran -
formação, variando a presença ponderaJ de elementos da consciên-
cia ou da interconsciência.
As alterações por enrijecimento não excluem a movimentação,
não obstruem as metamorfose da consciência e interconsciência Sua
nocividade re ide pontualmente na perda da plasticidade da campo i-
ção trinária. A consciência move-se, projeta- e na interconsciência,
condensa novo conteúdos sem, no entanto, a fluidez natural destas ope-
rações. Como se a cada nova emergência de um conteúdo houvesse
uma excessiva Lração da arquitetônica da consciência. perigosamente
recrutando elementos desnecessários à geração daquele conteúdo e apro-
ximando-se de efetivas imobilizações. Talvez o exemplo mai ilustrativo
dessa perda de plasticidade venha dos quadro endógenos motivado
Guilherme Peres Messas 187

por fatores externos, biográficos, positivos. Um fato bom e esperado


na vida - promoção no emprego - gerando uma depressão endógena,
uma ou várias crises de pânico. Este novo fato exige novos sentimen-
tos. Passadas as euforias iniciais (emoção mais do que sentimento)
um rearranjo na vida se faz premente. Sentimentos de insegurança
acerca das novas responsabilidades, de dúvidas concernentes ao tra-
tamento de subordinados, de medo sobre o próprio rendimento, infiltram-
se sorrateiramente na consciência do indivíduo. Em condições de
enrijecimento, estes conteúdos não assumirão uma forma sentimental,
não cumprirão todo o ciclo de um conteúdo. Pelo contrário, tracionarão
regiões menos plásticas, a corporeidade endógena, por exemplo, subs-
tituindo aquilo que poderia vir a ser um sentimento de insegurança pela
experiência endógena de depressão, com todos os comemorativos cor-
porais e biológicos. Interpretações que coloquem mecanismos ou con-
teúdos como primários nestes casos parecem-nos distanciar-se enor-
memente da realidade do paciente. O paciente não deprime porque
um mecanismo de defesa contra o medo lhe conduz; tampouco o faz
por algum instinto de morte que resolva florescer em má hora; muito
menos pelos simbolismos dos conteúdos que passam a vigorar em seu
inconsciente. Antes de qualquer conteudistica, metafísica ou simbolis-
mo, o paciente adoece por um enrijecimento fom1al, uma incapacidade
de sua consciência em desestabilizar-se temporariamente, em
condensar-se por um lapso de tempo na produção de conteúdos, estes
pseudópodes tentaculares da consciência humana.
A análise paciente e aguda destas deformações em cada vida
individual, em cada momento distinto de uma biografia, em cada seg-
mento temporal de uma existência única e singular é a tarefa diária
de um psicopatologista da transformação.

Referências
Minkowski E. Traité. p. 706-729.
2 Idemp. 706.
3 Idem p. 710-71 I.
4
Idem p. 718.
Idem p. 720.
-~v~ ~
'~-~~.
~1111

J.
PosFÁCIO

DA IMPORTÂNCIA DO MANEJO DA ASSIMETRIA


EM QUADROS MAIS GRAVES

Quadros psicopatológicos mais graves exigem do p icopatologista


a incômoda posição de ter de administrar situações de intensa
assimetria. À sua consciência de detenninados fatos ou conteúdos
não corresponde uma consciência semelhante no paciente. Este,
imobilizado ou enrijecido em sua arq uitetônica, tende a mobilizar re-
cursos corporais comportamentais ou endógenos para responder às
suas necessidades existenciais. Desse panorama assimétrico decor-
re uma equivalente assimetria na mobilidade p íquica do par pacien-
te-psicopatologista. É sobre a necessidade e inevitabilidade do
enfrentamento dessa assimetria para garantir o bom diagnó tico e a
boa condução terapêutica que trata esta reflexão.
O paciente, bastante emijecido, com pequenos avanços ao lon-
go de muitos meses de tratamento, sofre um pequeno revés familiar,
na forma de adoecimento de um de seus pais. Não apresenta nenhu-
ma queixa ou manifestação de preocupação sobre o tema. Entretan-
to , a observação empática revela uma dupla manifestação de
enrijecimento patológico (vale lembrar que a hipótese citada, que
sugere o adoecimento materno como causa do enrij ecimento, é
apenas uma das possíveis hipóteses. Outras seriam igualmente váli-
das, como sói ocorrer quando se busca estabelecer a causalidade de
fenômenos mentais. Sua função aqui é unicamente a de introduzir o
tema). Em primeiro lugar, fenomenologicamente, a ampliação da im-
portância relativa da corporeidade endógena. Seu sono, já de hábito
alterado (para o lado da sonolência), perde ainda mais seus relevos,
praticamente atingi ndo um estado de sonolência. Seu pensamento
recrudesce em uma característi ca que já apresentava anteriomlen-
te: um desligamento de sua inserção na camada afetiva. Como se
190 Plicopatologia ~ Transformaçio: um Esboço f't-nômeno-EslruiUral

gravitasse no vácuo, o pensamento gera imagens e conceitos varia-


do que mais expressam um estado de entorpecimento afetivo do
que uma penetração da realidade. Não se pode afirmar a existência
da perda do contato vital com a realidade - não há uma psicose -
mas, digamos, de uma perda da sustentação afetiva da camada
cognitiva. Reforça esta hipótese a notável distratibilidade do pacien-
te, mitigada às cu tas de medicação neuroléptica.
Concomitantemente (é importante ressaltar o a pecto de
concomitância, visto que os dois a pectos simultâneos ão face<> de
uma me ma moeda) ocorre uma redução no investimento interpess.oaJ,
expresso na dificuldade em comparecer à psicoterapia e ao silêncio
e e vaziamento da consulta médica. Amplia-se o tédio, o vaL.io na
consciência do psicopatologista, atrofia a interespaciaJidade. O con-
tato psíquico tende a abreviar-se, a restringir-se a um mínimo de
informações fornecidas em espírito de relatório. É sob estas condi-
ções que devemos abordar o tema da assimetria.
Neste caso clinico, com intensas tintas esquizóides. a assimetria
surge, sobretudo, no encarceramento do pensamento-conceito den-
tro da con ciência do psicopatologista. A con trução de hipóteses
acerca do que ocorre na vida do paciente, a tradução - capitaneada
pelo poder sintético do pensamento- de emoções difusas em senti-
mentos mais aptos a conter e desenvolver conteúdo , permanece
exclusiva da consciência do psicopatologista. Este é capaL. de tran -
formar- e, de gerar novas arquitetônicas dentro de si a partir das
pre sões do contato com o paciente. Porém, o compartilhar simétri-
co destas experiências fica bastante comprometido. Numa descri-
ção mais fenomenológica, pode-se dizer que apenas há simetria na
vivência do vazio. Neste foco, paciente e psicopatologi ta iguaJam-
se. Separam-se radicalmente a partir daí, no enrijecimento corporal
e fantasioso a que o paciente fica relegado.
Considerar essa assimetria como fato p icopatológico é funda-
menLaJ para a compreensão do paciente e, como conseqüência, para
eu projeto terapêutico. Como fato psicopatológico. essa assimetria
é a expressão interpessoal de um enrijecimento exu·emo, próximo da
ruptura psicótica, da fratura das estruturas de fundamentação da
vitaJização da realidade. A mobilidade inerente ao psiquismo pa sa a
Guilhume Peres Messas 19 1

residir em apena um dos pólos da bipessoalidade. E ta interpreta-


ção da as imetria como intrínseca à psicopatologia leva à atenção
em cuidado para evitar, como projeto terapêutico, do uso exagera-
do, por parte do psicopatologista, do pensamento-conceito. O radical
enrijecimento da consciência do paciente pode não acolher o efeito
sintético do pensamento e, ainda mais, pode tracioná-la perigosa-
mente peito do ponto de ruptura. Em outras palavras, um pensamen-
to muito poderoso e penetrante neste momento arrisca-se a piorar o
quadro.
O projeto terapêutico deve focar a reconstrução da interes-
pacialidade. É por esta via que a consciência esquizóide !lexibiliza-se
melhor. Lembrando o papel superior da afetividade-contato na higidez
da consciência, são os passos voltado ao alargamento desta frente
de contato que deverão nortear a condução do caso. O esforço no
convencimento (neste ponto, sim, por meios de explicações racio-
nais, pela ação do pen amento) do paciente ou de sua famflia da
importância da sustentação psicoterápica é fundamental para uma
flexibilização de dificuldades de ordem esquizóide, como neste caso.
O desânimo, de parte do paciente e famflia, diante da parcimônia de
resultados obtidos, constitui grande obstáculo à boa continuidade do
trabalho. No entanto, o mero trabalho farmacoterápico não costuma
ser suficiente. Neste caso, conseguimos uma melhora nada despre-
zível nos automatismos cognitivos; no entanto, as alterações mais
ligadas à corporeidade (hiperfagia, hiper onia. tabagismo contumaz)
pouco se transformaram com a farmacoterapia. Pennanece empre
um desafio, nos isolamentos esquizóides congelados. fazer vicejar a
interpe soalidade.

DAS DIFICULDADES NA CONSTRUÇÃO DE UMA


INTERPESSOALIDADE NUM TEMPERAMENTO VISCOSO
Os efeitos e dificuldades da medicação com finalidades
antidepressivas sobre a mobilidade da consciência pode ser bem
ilustrado por um caso em que prepondera um temperamento com
tendência à viscosidade. Tendência esta que se expressa, nas con-
dições normais de vida. por uma aderência a quaisquer conteúdos
192 Psicopalologia t Truttformaçõo: um Esboço Ftnômtno-Estrulural

já nascidos, vinculados, portanto, à estabilidade, ao passado, à fa-


mília, à beleza das antigas tradições. O caráter proeminente de e
conteúdos faz pensar num discreto enrijecimento formal, uma ligei-
ra rigidez na produção de novos e incompletos conteúdos.
Assim, a medicação promove uma flexibilização formal, uma
facilitação na criação de novas formas, que podem ser observadas
sob variadas perspectivas. Em primeiro lugar, aparentemente mais
óbvio, a medicação atua na produção de um bem-estar sentimental,
numa minoração de sentimentos angustiados, por vezes fixados numa
verdadeira angústia corporificada. Neste ponto, o sentimento de bem-
estar não deve ser interpretado unicamente como uma substituição
da angústia depressiva por uma afetividade positiva. Na realidade, a
análise formal mais aprofundada indica que a ampliação da flexibi-
lidade da consciência é o fenômeno de base, do qual o bem-estar é
meramente decorrência.
A demon stração desta afirmação vai-se revelando à medida
que outros componentes da consciência da paciente vão sendo
examinados. A corporeidade, por exemplo, submete-se a uma al-
teração nos seus ciclos. Um padrão de ligeiro alongamento do
sono matinal é observado. Também aqui o que nos interessa não
é a variação quimicamente determinada pela ação do fármaco
so bre o ciclo sono-vigília. Antes, pelo menor acoplamento da
corporeidade às esferas valorativa da consciência. A paciente
relata que o fato de acordar tarde sempre teve em sua família um
sentido pejorativo, um desvalor, uma concessão inconcebível à
preg uiça e à indolência. Ora, o peso deste enrijecimento da con -
ciência favorecido por um conjunto de valores reduz-se pelo efei-
to da terapêutica farmacológica. Não há , efetivamente, urna mu-
dança da apreciação valorativa da paciente, mas, sim, do seu po-
derio de enrijecimento, da capacidade destes valores congelarem
a consciência. Como se as possibilidades estruturais do eu cons-
ciente adquirissem latitude e força com a maior plasticidade da
totalidade em que se ancoram. Uma afetividade mai s móvel, en-
fim, cerzida a uma corporeidade mais flexível, concedendo maior
liberdade de criação ao eu individual. Na liberdade do indivíduo, o
cerne e objeto do tratamento.
Guilherme Peres Mems 193

Entretanto, a evolução do quadro exige que reflitamos sobre as


relações entre flexibilidade e interpessoalidade. Com a passagem do
tempo, manifestou-se uma perda desta plasticidade recentemente
adquirida, com o retorno do padrão anterior de afetividade e
corporeidade. Para além das necessárias interpretações relativas à
medicação ou às mudanças socioambientais, inevitavelmente pre-
sentes em cada recaída ou sucesso terapêutico, propomos um outro
ponto para a reflexão. Ponto relacionado ao papel representado pela
interpessoalidade no transcurso desses movimentos de ampliação e
retração da plasticidade. Nossa impressão é a de que houve pouca
ampliação das fronteiras da interpessoalidade no curso do período de
boa evolução. Desde o início, um bom contato estabeleceu-se, com
considerável ressonância e penetrância de vivências. Entretanto, o
fortalecimento espacial desta face interpessoal não se deu, por moti-
vos que não cabem ser aqui examinados em detalhes, mas que po-
dem ser compreendidos mais pelo temperamento hiperestável do que
por um fator mais profundo ou estrutural. Em outras palavras, moti-
vos mais ligados à dificuldade em viver novos conteúdos do que pro-
blemas formais e, portanto, suscetíveis de uma condução em proces-
so de psicoterapia.
Aquilo que pretendemos reter nesta reflexão é unicamente que
a flexibilização da totalidade consciente (bem-sucedida farmaco-
logicamente) pode instabilizar-se ou perder-se caso não consiga
infiltrar-se no interior da interpessoalidade. O que traz uma dificulda-
de suplementar ao tratamento, pois, se, na corporeidade, é possível
uma zona de ação linear química, suportando o despertar da consci-
ência, na interpessoalidade a constituição de um interespaço acolhe-
dor segue outras lógicas, da ordem do humano, inacessível nas suas
irnprevisibilidades últimas e que solicita de quem conduz o tratamen-
to paciência e dedicação.

DA ARQUITETÔNICA DE ALGUNS CASOS PSICOSSOMÁTICOS


É sabida a dificuldade intrínseca da abordagem psicológica dos
casos ditos psicossomáticos. Farta teorização neste terreno já foi
realizada. Uma colaboração da perspectiva arquitetônica é o que
pretendemos neste estudo.
194 Psicopatologia eTruuformaçio: um Esboço Fenômeno-Estrutural

Estes pacientes podem apresentar uma consciência muito dócil.


O contato é gentil, as informações colaborativas e abundantes; não
se nega o paciente a fazer emergir em ambas as consciências do par
a necessidade de um projeto terapêutico. Lidamos, assim, aparente-
mente, com uma consciência flexível, dotada de espessura suficiente
para acolher a complexidade variável dos conteúdos atinentes à pro-
gressão da vida. Em alguns destes casos, no entanto, um exame
mais atento vai permitindo dissecar imperfeições formais relevantes.
O paciente alonga-se no discurso, transborda seus limites, força
para o interminável as fronteiras do fim do contato. Sempre ancora-
do por conteúdos pertinentes ao caso e compreensíveis, os seus
movimentos psíquicos pressionam a forma da consciência rumo a
uma ruptura. Observada acuradamente, esta pressão acaba tendo
como conseqüência o achatamento do relevo da consciência.
Assim, todos os conteúdos terminam por aplainar-se, num ligeiro
entorpecimento, para que nenhum deles atinja uma magnitude
afetivamente perigosa.
Essa arquitetônica de nivelamento amortecedor, a que fica sub-
metida a consciência do paciente e, por extensão interpessoal, a do
psicopatologista, exige deste muita atenção, para que seja capaz de
deslindar a presença de conteúdos importantes. Estes conteúdos, em
geral, se conden am em espaços microscópicos de enorme valência
afetiva, que tendem a brotar, em primeiro lugar, na camada afetiva
do psicopatologista. Grandes e icta.is sentimentos de culpa, pena ou
medo podem ser, na afetividade do psicopatologista, indicativos de
um contato profundo com o psiquismo do paciente, para além do
chapamento arquitetônico.
As dificuldades resultantes desta topografia para a constitui-
ção de um tratamento não são poucas. Resta ao psicopatologista
um espaço de manobra bastante restrito. De um lado, uma aproxi-
mação interpsíquica demasiadamente veloz pode inundar a consciên-
cia do paciente com estes conteúdos encarcerados, promovendo
uma vivência intolerável. Por outro lado, um exagerado afastamen-
to destes conteúdos pode manter a consciência em estado de en-
torpecimento. A habilidade solicitada do psicopatologista consiste
em operar sem jamais perder de vista o estado momentâneo da
Guilbumc Pucs Mcss.as 195

consciência do paciente, buscando detectar algum momento óti-


mo para que uma ação terapêutica lance seus embriões (pela via
da produção de uma interespacialidade). As considerações ex-
cessivas por ortodoxias literárias (enquadramentos muito rígidos
do atendimento, por exemplo) na condução destes casos pode ser
fatal para seu desfecho.

DA RADICAL EXTERIORIDADE DA PSICOSE


Algumas psicoses têm, por conta da incapacidade da consciên-
cia patológica em experimentar o vazio, uma situação de radical
exterioridade. A possibilidade de uma vivência de intimidade do eu,
delimitando um espaço interno e um espaço real externo, permanece
em condições de mera virtualidade. Toda emergência factual da cons-
ciência dá-se num espaço estrutural de exterioridade. Tais fatos per-
correm um amplo espectro de possibilidades, que vão desde a
exterioridade do próprio pensamento (as vivências de influência) à
hipersensibilidade no contato interpessoal. Não escapa a esta condi-
ção o próprio delírio que, na posição de uma crença íntima, torna-se,
por causa desta exterioridade, fácil e diretamente apreensível pelo
examinador. O conteúdo da crença não determina essencialmente
seu caráter delirante. O fato dessa experiência singular ser
hegemônica na consciência e absolutamente exterior à intimidade do
eu é que singulariza a vivência delirante. Enfim, nada, nesta forma
patológica, se passa num espaço interior ao eu .
Assim sendo, para a adequada aferição da evolução terapêuti-
ca, o psicopatologista deve destacar especial atenção às variações
da exterioridade da forma da consciência do paciente. Esse aspecto
é mesmo mais importante, em termos do bom andamento do caso, do
que a diminuição dos conteúdos delirantes. A observação de certas
transições é imprescindível:
1. A passagem da vivência integral de ruptura espacial da
intimidade para o surgimento de fragmentos de intimidade do
eu. Esse período co tuma corresponder, numa visão mais superficial,
ao momento em que o paciente, por possuir já um pequeno eu interior,
ainda vazado e inconsistente, passa a falar sobre o conteúdo delirante.
196 PsicopatolO&U eTransfolliUÇ2o; um Esboço Fen6lllCOO-Esuutural

Fala reveladora de uma experiência de pensamento daquilo que, ante-


riormente, era pura vivência integral, era apenas algo vivido, para reto-
mar as palavras de Minkowski. Prescreve-se aguda atenção neste
período, para evitar-se uma convidativa interpretação inadequada do
fenômeno, tomando por retrocesso aquilo que é avanço;
2. As primeiras manifestações de um espaço interno
irnpérvio. Neste momento, a afetividade do paciente pode dar mos-
tras de um aspecto taciturno e reservado, dificultando ligeiramente o
contato. No entanto, este período não deve ser confundido com o
tédio próprio da psicose, proeminente nos períodos iniciais do trata-
mento. Neste, exi te uma dissolução da interespacialidade do par
paciente-psicopatologista, com um entorpecimento afetivo bilateral.
Naquele, há uma maior definição do uso do espaço mental do
p icopatologi ta pelo paciente, gerando mais uma atmosfera afetiva
de atenção e apreensão do que tédio. Essa distinção entre os senti-
mentos que experimenta o psicopatologista diante do paciente psicótico
é a melhor aferição da constituição de um espaço interno por parte
deste último. Algumas frases podem ser indicativas igualmente da
vivência de interioridade, em suas nascentes: "Não quero mais te
contar as coisas, quero pensá-las comigo mesmo". "O tratamento
não é para ficarmos falando tudo o que achamos; é para ir pensando,
ir acertando e errando''. Do ponto de vista comportamental, uma
maior privacidade dentro de casa e maiores cuidados com a aparên-
cia podem indicar a mesma interioridade. Como na observação nú-
mero 1, não se deve confundir este período evolutivo como retroces-
so paranóide. Mais uma vez, a atenta apreensão da interespacialidade
é, em última análise, o instrumento competente para um diagnóstico
diferencial entre progressão e regressão.
Note-se como a transformação formal não é necessariamente
acompanhada pari passu por variações de conteúdos de pensa-
mento. Um exemplo clínico, de características paranóides, ilustra a
afirmação:
Num primeiro tempo, o paciente vive integralmente uma expe-
riência de perseguição. A convicção e o pavor envolvem todas as
manifestações de sua consciência. Agitação motora, insônia, sudorese,
violência e alucinações compõem o quadro.
Guilhtmlt Pms M~ms 197

Num segundo tempo, o paciente fala continuamente sobre a ação


de seus perseguidores; os componentes motores e autonômicos es-
tão bastante reduzidos. sobressaindo proporcionalmente a. dimen-
sões ideoafeti vas.
Num terceiro momento, após vários anos de tratamento, o pa-
ciente vai tornando-se mais silencioso e reservado. A dimensão cor-
poral praticamente inexiste, para além de seus limites naturais. A
afetividade mais estável e menos emocional, mais apta a ensaios
entirnentais. O componente idéico de perseguição é raramente apre-
sentado; entretanto, quando o é, mo tra-se inalterado em suas for-
mulações patológicas .
Podemos ver assim como. sem qualquer alteração no aspecto
conteudistico delirante, processa-se uma notável progre. ão fonnal.
Os conteúdos, antes experienciados na íntegra no espaço do coleti-
vo, da não-intimidade, passam a ser coletado numa vivência de inti-
midade. A construção desta interioridade vivenciada vai di solven-
do, da perspectiva fom1al. a qualidade essencial da psicose, qual seja,
ua radical exterioridade.

DA PARANÓIA E SUA ESPACIALIDADE


A experiência da paranóia ilustra-nos com singular clareza a
essencial vinculação genética entre o espaço consciente vazio e a
vivência do eu. A vivência da posse de um eu apenas ocorre quando
já estiver estabelecida a capacidade de experimentação de um espa-
ço vazio.
O paciente paranóico possui uma consciência repleta de fatos:
ora uma ação, ora a medicação, ora o médico, ora uma projeção de
ensações corporai . Se mais grave, agrega-se toda a lógica e orde-
nação de uma construção delirante. De qualquer modo, a consciên-
cia paranóica salta por entre uma infinidade de objetos que, como os
escombros de um edifício ou a solidez de uma rígida arquitetônica,
obliteram qualquer e paço vazio. Essa obliteração do espaço vazio é
o principal obstáculo para a emergência de um eu vivenciado mais
amplo, competente para enfrentar as solicitações e imposições da
realidade.
198 Psicopatolo&u t T!:lllsformaç>o: um Esboço Ftn611ltllo-Estrutunl

Em conseqüência desse fato, uma das mais importantes dificul-


dade do psicopatologista no tratamento da paranóia é encontrar -
antes de tudo, em si mesmo - uma cabeça de ponte de espaços
vazios para alicerçar seu tratamento. O sentimento de dúvida, em
geral e premido entre o tédio e a convicção, pode ser um indicativo
do bom encaminhamento do tratamento. Não uma dúvida pungente,
intensa e ictal, mais afiliada à dramati cidade das angústias do pa-
ciente; ao contrário, uma dúvida vivenciada como dócil suspensão de
qualquer geração completa de conteúdos na consciência, como uma
expectativa da formação de algo futuro. A dúvida que nada mais é
que a face ideoafetiva (e, portanto, mais visível) do surgimento de
um espaço vazio constitutivo do eu vivenciado.

DA PARANÓIA E FRAGMENfAÇÃO DE CONTEÚDOS


A rigidez na forma paranóica impede o fluxo natural dos
conteúdos conscientes. A alternância contínua do conteúdos
em movimento não é acompanhada por transformações na for-
ma da consciência. Os conteúdos, portanto, devem ser encontra-
do , em geral em aspecto fragmentado, na dimensão perceptiva
ou em outras consciências.
Dado que as alterações perceptivas e a fragmentação proje-
tada na consciência do psicopatologista sempre surgem como pri-
mordiais à atenção, deve- e manter um olhar atento aos movi-
mentos oriundos dos familiares dos pacientes paranóicos. Em doi s
aspectos fundamentais, que guardam a bipolaridade essencial da
paranóia:
L. de um lado, sobretudo no início do tratamento, os familiares
são os agentes da realidade, trazendo elementos comportamentais
indicativos da pervasividade do congelamento paranóico;
2. de outro lado, principalmente nos momentos em que existe
alguma superação da rigidez paranóica, os familiares podem apare-
cer como agentes da compressão enrijecedora, característica da
convicção paranóica, impedindo que paciente e terapeuta pos ' am
experienciar a dúvida e a incerteza. Este fenômeno sói ocorrer
nas emergências da dúvida e da incerteza quando, a despeito do
Guilhume Pms Mews 199

sofrimento contido nesses dois sentimentos, sua valência Oexibilizante


da consciência é bem-vinda e salutar para a transformação psíquica.
A ação familiar não se dá voluntariamente e tampouco, neces aria-
mente, como fTuto de alguma patologia de seus membros ou de seu
funcionamento. Antes, parece-nos mais que um hábito calcificado,
proporcionado pelos anos de convívio paranóico, gera tal aversão a
sentimentos meno definidos.

DAS DIFICULDADES FORMAIS DIANI'E DA PARANÓIA


A experiência da totalidade paranóica, em seu afã de exclusão
absoluta da dúvida e da incerteza, leva a uma compre são bilateral
dos psiquismos do par psicopatologi ta-paciente. De um lado, a re-
petição contínua e monotemática da consciência do paciente. De
outro, o e magamento e desvitalização, na consciência do
psicopatologista, da fundamental as ociação entre incerteza e paz
de espírito, imprescindível para um estado de saúde mental. Assim,
inevitavelmente. restam ao psicopatologista duas alternativas desa-
gradáveis:
L a experiência da manifestação de suas convicções, em geral
embasadas sobre asserções de ordem literário-científicas. Nesta alter-
nativa, por vezes o psicopatologista perspicaz se sente muito asse-
melhado ao paciente, tendo de dar voz a verdade inabaláveis e cotejá-
las às verdades do paciente;
2. a experiência do tédio conseqüente à cantilena paranóica do
paciente.
O espaço-tempo da consciência paranóica fragmenta-se em
formas antípodas que se assemelham estruturalmente: por um lado,
a expansão espacial absoluta da convicção, reduzindo a zero a flui-
dez temporal e comprimindo o psiquismo do psicopatologista. Doutra
parte, o esvaziamento espacial completo do tédio, impedindo sequer
a vivência do tempo e entorpecendo o psiquismo do psicopatologista.
Em ambas as situações, as condições formais necessárias para a
vivência consciente de conteúdo em transformação estão fortemente
comprometidas, caracteriLando aquilo que Minkowski chamou de um
transtorno por imobilização.
200 Psicopatologú eTransfomuçio: um Esboço Fen6meno-Estrutur1l

DAS DIFICULDADES NA TRANSFORMAÇÃO DA PARANÓIA


A alteração formal da psicose paranóide recua a espacialidade
do eu a tal ponto que a maioria dos conteúdos é experimentado como
pertencente ao não-eu, ao ambiente. O excesso de pre ença relativa
do ambiente na con ciência toma-o hostil e agressivo, poderoso em
demasia. próximo em exagero da experiência do eu. No limite, a
compressão da espacialidade do eu altera me mo a neutraJidade da
percepção ou até a autonomia da corporeidade. Nestas condiçõe , já
se pode com maior tranqüilidade afirmar a vigência de um quadro
psicótico.
Nos estados paranóicos, entretanto, a consciência do paciente
pode o cilar de forma de compre são da e pacialidade do eu em
rupturas formai ( em psicose) a formações abertamente psicóticas.
A capacidade do psicopatologista em discernir - na fenomenologia
global confu a e inquieta apresentada pelo paciente - zonas de
e pacialidade íntegra (sob compressão) daquelas fraturada é fun-
damental para a boa condução terapêutica do caso. A ação terapêu-
tica deve ficar atenta para dois objetivos simultâneos:
1. orientar os cuidados farmacológicos e psicoterápicos para a
Lona apenas comprimida pela paranóia;
2. multiplicar o cuidados para não atingir - sobretudo nos atos
psicoterápicos - a zona fraturada p icótica.
Uma incúria em relação à zona íntegra, na qual pode haver tran -
formação do psiquismo, assim como uma exagerada luta contra as
alteraçõe · formais -hipersensíveis nas psicoses paranóides - pode
conduzir o tratamento a uma contínua batalha entre p icopatologista
e paciente acerca de verdades e convicçõe . Baralha que. no mais
das vezes, leva a um recrudescimento da fixação patológica da cons-
ciência do paciente. Dentro desta linha de raciocínio, a progressão fa-
vorável do tratamento exige do p icopatologi ta tolerância para a coe-
xistência de duas e pacialidades estruturais distintas na consciência do
paciente. Uma, de índole rígida, paranóica, porém ainda vitalizada e
sobre a qual mantém-se a po sibi lidade de eficácia terapêutica. A
outra, autônoma e desvitalizada, funciona como uma cicatriz no
interior da consciência. A expansão bem-sucedida da consciência
Guilh~nn~ Peres Messas 20 1

paranóica psicótica consiste em ampliar a zona hígida, diminuindo a


importância relativa da zona cicatricial. Essa ampliação da
espacialidade estrutural da consciência do paciente pode ser
visualizada pelo acompanhamento das transformações
fenomenológicas que se passam no nível hierárquico imediatamente
acima do estrutural: o estrato afetivo.
Num primeiro período, a afetividade do paranóico oscila entre o
vazio afetivo secundá.Iio à fratura da consciência e a intensa e aguda
ansiedade derivada do radical recolhimento da espacialidade para-
nóica. A experiência do paciente varia entre a estranheza de fenô-
menos jamais experimentados na vida pré-patologia e a hipercerteza
e hiperconvicção da afetividade na paranóia. Tal composição afetiva
torna-se inacessível sem uma competente a continuada investida
psicofarmacológica.
Já num segundo período, com o avanço da relação terapêutica e
apoiados pela ação farmacológica, começam a surgir embriões de
novas alternativas de afetividade, ainda matizadas pela falta de elas-
ticidade do tecido paranóico. Duas características marcam a
neogênese afetiva sobre a maceração paranóica. Em primeiro lugar,
a extrema instabilidade destes componentes afetivos. A rigidez
da espacialidade paranóica impede que os novos elementos afetivos
permaneçam e enraízem-se na consciência. São fugazes, logo desa-
parecem, exigindo do paciente e psicopatologista extrema atenção
para reconhecê-los e paciência para aguardar seu retorno. Os pe-
ríodos de desaparecimento dos novos elementos afetivos podem ser
marcados por agitação do paciente e desesperança do psicopatologista,
duas situações muito inimigas da transformação da paranóia.
Em segundo lugar, o agenciamento de novos componentes
afetivos pela forma patológica imobilizada. Assim, um estado de
tranqüilidade pode se tomar intolerável, pois acaba sendo vivenciado
como uma ação dos agentes persecutórios contidos no delírio. Uma
certa tristeza pode ser vivida como uma vitória do perseguidor deli-
rante. Uma pequena alegria desliza rapidamente para um estado
eufórico para-maníaco de supremacia e triunfo sobre o persegui-
dor. Enfim, a forma patológica imobilizada (a zona desvitalizada)
rapidamente imanta e incorpora para si as novas formações afetivas,
202 Psioopatol~ cTmuformação: um E.!boço Fmólllt1KH!suutural

privando-as de Oorescerem em uma totalidade flexivel para recebê-


las. Também e ta incorporação patológica de nova formas poten-
cialmente sãs pode gerar grande desânimo no psicopatologista.
Este segundo tempo afetivo indica, no entanto, movimentação
na zona preservada da consciência e deve ser conduzido paciente-
mente pelo psicopatologista. Evitando grandes solavancos, buscando
abortar (psico e farmacologicamente) rupturas radicais, o psicopa-
tologista vai auxiliando o paciente na flexibilização e exten ão de sua
estrutura espacial, visualizadas na dimensão afetiva pelo gradual alon-
gamento da permanência de elementos afetivos e pelas incipientes
autonomias des es novos afeto , logrando lá e cá escapar à mesme-
rização paranóica.
As indicações mais precisas de uma vívida transformação em
processo surgem, no entanto, quando essa transformação atinge o
nível hierárquico mais rico e sofisticado: o pensamento. Transforma-
ções operando nos conteúdos de pensamento são fortes indicações
de que uma já consistente flexibilização reparadora esteja presente
nos estratos estrutural e afetivo. O comprometimento estrutural e
afetivo é de tal magnitude nas psico es paranóides que, com fre-
qüência, a temática do pensamento fixa-se em um ou alguns poucos
pontos, ligado à construção delirante. Os temas são empobrecidos,
invariávei também no tempo, e tagnados em certas pas agen bio-
gráficas. A presença, portanto, de uma heterogeneidade do pen a-
mento em relação ao bloco homogêneo da patologia, deve ser enca-
rado como sólido sinal de recuperação da totalidade da consciência.
Um exemplo clínico ilustra bem essa heterogeneidade no
renascimento psíquico. Paciente psicótico paranóide,jovem, há mais
de quatro anos em tratamento. Afetividade notadamente paranóide,
com eventuais alterações formais perceptivas. Tema persecutório
e, tável e único, com mínima variações ao longo dos anos. Duran-
te o tratamento houve flexibilizações na afetividade. com o
surgimen to de bons sentimentos, também em relação ao
p icopatologi ta, e alguns ganhos e.xistenciai in távei , empre
comprometidos pela atuação da paranóia.
Extrema redução da espacialidade do eu, a ponto de que as
mudanças em sua vida, positivas e negativas, sejam interpretadas
Guilherme Peres Mesw 203

como ações do peceguidor. Em suma, há um enorme aplainamento


dos relevos da realidade, associado a uma atrofia do eu, de modo tal
que o paciente reconhece em tudo sinais persecutórios, indistinta-
mente. Essa vivência hegemônica se sustenta afetivamente pela con-
vicção inabalável, peculiar a esses quadros. O pensamento, compri-
mido pela afetividade congelada hegemônica, tem espaço apenas
para expressar e reconhecer certezas, excluindo a incerteL.a e a dú-
vida. Tudo o que ocorre na realidade deve ajustar-se ao enquadre
lógico estrito que reduz a amplitude do pensamento.
É nesta situação mental do paciente que devemos entender a
relevância do fato ocorrido em um determinado encontro. Após uma
pequena discussão que tivemos, dizemos ao paciente uma fra e am-
bígua, pois seu conteúdo é unicamente de auto-defesa; porém, sua
validade inter-relacionai traz ambiguidades que poderiam ser vividas
como ataque pelo paciente. Vivemos esta discussão sem maiores
dificuldades, deixando-a para trás como vencida. Entretanto, ao fim
do horário, o paciente pede-me para fazer uma última pergunta, e
lança: "Aquela frase sua foi para me agredir?'", com ares de ansiosa
dúvida.
Três características mostram uma fundamental heterogeneidade
em relação ao congelamento paranóico:
l. Em primeiro lugar. na camada afetiva, a erupção do senti-
mento de dúvida. A vivência da dúvida pressupõe uma consciência
suficientemente elástica para tolerar em seu tecido a presença de
algo temporário, fugaz, ainda em caráter emb1ionário. Entretanto, o
contato freqüente com o paciente permite-nos afirmar que a vivência
de dúvida já havia aparecido anteriom1ente em sua consciência, sem-
pre em caráter temporário. A vivência sentimental da dúvida não
recompõe necessariamente a vitalidade do pensamento; porém, a
reconstrução do pensamento exige a presença da capacidade de du-
vidar. As duas outras características revelam a recomposição do
pensamento.
2. Em segundo lugar, o paciente promove. por meio de eu pen-
samento, uma checagem da realidade. A realidade vivenciada, já em
recuperação, é incorporada ao pen amemo sem submetê-lo. O pen-
samento não é assim mais um subproduto da consciência imobilizada
204 Psicopatologi2 cT11nsfonn~o: um Esboço Fm6mtno-Estrutunl

patológica. Ao inquirir sobre a verdade da realidade, o pensamento


passa a querer constitui-la. O pensamento inicia o aprendizado de
que a realidade é parcialmente imposta a ele e parcialmente por ele
con tituída. Surge em embrião a singularidade preciosa da vida men-
tal saudável: a relativa autonomia da consciência em relação às de-
terminações - internas e externas - que buscam moldá-lo. Começa
a ressurgir no paciente a liberdade emblemática do ser humano.
3. Em terceiro lugar, e derivado imediatamente do exposto aci-
ma, o pen amento do paciente começa a buscar relevos na realidade
que perscruta e constitui. De uma realidade homogênea e plana, na
qual tudo é agressão, o pensamento passa a procurar o que é efeti-
vamente agres ão. Ao começar a reconhecer as reai agressõe , o
paciente abre espaços para experimentar o que não é agressivo.
Toda uma esfera de possibilidades humanas tenta se viabilizar. Tudo
aquilo que, em termos de conteúdo, freqüenta a consciência humana,
conferindo-lhe valor (o bom, o mau; o agressivo, o dócil; o desejado,
o repudiado), tem nesta capacidade de reconhecer relevos na reali-
dade sua condição estrutural de existência. Estabelece-se assim uma
relação assimétrica entre afetividade e vida valorativa. A afetividade
dá as condições básicas para a emergência da vida valorativa; não é,
no entanto, condição suficiente. A vida valorativa pode dar- e ape-
nas no momento em que um ato de pensamento (permeado, é claro,
pela afetividade) constitui, constrói a realidade, sulcando relevos to-
pográficos. A afetividade não constrói os valores. O contrário, en-
tretanto, pode ocorrer. O pensamento valorativo pode manter sua
capacidade de estabelecer valores hierarquizados, mesmo num esta-
do de penúria afetiva, como que a esperar que o valore acabassem
por criar seu preenchimento afetivo. A história das religiões e das
organizações totalitárias abunda em exemplos de uma
hipervalorização intelectual vazia de afetividade.
Deste modo, pudemos observar o grau de complexidade envol-
vido na transformação de uma condição paranóica, sobretudo quan-
do complicada pela ruptura psicótica. Todos os planos hierárquicos
da consciência do paciente precisam ser recuperados, numa lenta
temporal idade que permita a reconstrução do plano imediatamen-
te dependente do anterior. Seja qual for o percur o realizado pelo
205

paciente em suas idiossincrasias derivadas das corporeidades cons-


titucionais e das biografias, o ponto culminante deve passar pelas
heterogeneidades que examinamos ao final, ou seja, pela capacidade
do pensamento em agir sobre a realidade, em constituí-la, em vez de
submeter-se a ela. Todo o trabalho terapêutico deve ter isso como
meta a ser atingida.

DA INFL~NCIA DA RITMICIDADE NA GERAÇÃO


DE CONTEÚDOS E DA SUA IMPORTÂNCIA
O ritmo extremamente largo da geração de conteúdos na cons-
ciência de um paciente e uma lentidão intrínseca e constituinte de
seu psiquismo podem causar dificuldades diagnósticas e de condu-
ção de caso ao psicopatologista, posto que as transfonnações levam
muito tempo para sua manifestação.
O paciente segue o tratamento por mais de um ano com escas-
sas queixas, limitadas a dificuldades funcionais na busca de um em-
prego. Refere experiências de nervosismo e ansiedade nas situa-
ções em que deve se submeter a entrevistas profissionais, ligadas ao
receio de ter de explicar porque sua vida profissional não prosperou.
Em síntese, um quadro clínico compatível com um diagnóstico, na
linguagem dos manuais, de fobia social. Entretanto, o contato empático
com o paciente exigiu sempre prudência para afirmar uma crença
exagerada neste diagnóstico. O esvaziamento da interpessoalidade e
a lentidão dos movimentos do psiquismo do paciente sugeriam que o
aspecto ansioso, ainda que presente, não poderia ser tomado como
único ou mesmo hegemônico. Numa perspectiva topográfica, poder-
se-ia dizer que momentos ansiosos freqüentes dissolviam-se numa
lentidão global do psiquismo.
A vagarosidade rítmica, no entanto, mais parecia derivar da
constituição própria de seu psiquismo do que de condições patoló-
gicas. Como conseqüência, sua consciência tarda em produzir con-
teúdos (também na esfera da interpessoalidade), deixando o
psicopatologista com poucos elementos para produzir um rápido
diagnóstico. Instigado a desenhar ao menos um esboço diagnóstico,
o psicopatologista pode aferrar-se em demasia a certos aspectos
Z06 Psiropatologia cr raosformaçio: um l!sboço Fm6mcro-E.suutunl

disfuncionais (os intomas fóbicos ociai , por exemplo), incapaci-


tando- e para acolher um diagnóstico mais profundo, sustentado na
sua análi e tripartite.
Es, e elemento diagnóstico pode surgir apenas meses ou anos
depois do início do tratamento, como no caso deste paciente, quan-
do, de súbito, revela seu gosto por submeter-se aos outros. Uma
vez de posse desta informação, pudemos, olhando em retrospecto
a evolução da interpessoalidade, deslindar importantes conteúdos de
produção de relações de submissão e sofrimento a que o paciente
sujeita- e e conclama os outros a sujeitá-lo. A morosidade rítmica
formaJ con tituinte de seu psiquismo mascarou, por longo tempo, a
produção destes conteúdos na consciência do psicopatologista, dei-
xando a atenção diagnóstica fixamente voltada ao colorido sindrômico
que, reavaliado com maior profundidade, constitui apenas camada
superficial, a epiderme de seu desarranjo psíquico.

DA VISÃO DA ANÁLISE FORMAL DIANTE DE UMA BRUSCA


MUDANÇA CLÍNICA
A anáJise fonnaJ tripartite pode fornecer alguma lógica na com-
preensão de determinadas mudança observáveis durante um tra-
tamento. Vejamos essa situação. A paciente, adolescente, vem a
nosso serviço na vigência de quadro p sicótico. Indecifrável num
primeiro momento, a evolução da condição aguda permite-nos, re-
trospectivamente, a opção por um diagnóstico de mania psicótica. A
imobilização psicótica retrocedeu, deixando o par psicopatologista-
paciente diante de um percur o de mobilização psicoterápica.
Numa perspectiva ampla. suficiente para nosso propósito aqui,
destacamos que a afetividade da paciente manteve por largo período
um certo entorpecimento, acompanhado por pouca impulsão para o
pensamento, traduzido em diáJogos empobrecidos, inso sos, de pou-
ca relevância afetiva. Correspondentemente, a interespacialidade
conheceu insistente esvaziamento, deixando pouco espaço para o
pensamento criativo do psicopatologista. Com o transcurso do tra-
tamento, certo nascimentos manifestaram-se, um lento, porém
consistente, brotar de sentimentos na interconsciência, ainda que com
Guilhtrmt Puts Mmu 207

escassa constituição de sínteses pelo pensamento. Poderíamos cliz.er


que a timidez e fluidez dos entimentos não faziam volume suficiente
para a eclosão do nível cognitivo, para sua transformação qualitativa
de experiência vivida em íntese geracional conceitual. Es a evolu-
ção gradual seguia uma linha, no sentido de uma lenta ampliação da
capacidade plástica do psiquismo da paciente, comandada pela
interpessoalidade e equilibrada sobre o tênue manto de sua afetividade
sentimental.
Entretanto, razões externas à operacionalidade do tratamento
elÚgiram a redução da freqüência dos encontro . De emanais pas-
saram a quinzenais. Nenhuma alteração e trutural decorreu dessa
mudança de periodicidade. Nenhuma psicose, enftm, avizinhou-se
ou passou a rondar o caso. Contudo, uma reconfiguração formal
inocultável presentificou-se, registrada nos cuidadoso diários que a
paciente escreve e que tem por hábito trazer para leitura conjunta.
Nas palavras da própria paciente: "Desde a data X meu diário pas-
sou a só falar de alegrias. Antes. contava tristezas e, repentinamen-
te, pa sou a contar alegria " . A data da mudança de padrão aprolÚ-
ma-se do período de redução de periodicidade do tratamento. Efeti-
vamente, esses diários, sempre relatando e tados de tristeza e soli-
dão, passam a referir-se a bons fatos e boas experiências. Bons
augúrios trazem-nos essas novas e não é neces ário insistir no quan-
to foram bem-vindas.
Uma investigação mais atenta, porém, reserva um tanto de pru-
dência para condu ões em demasia simplistas dentro do otimismo.
Esse estado de e pírito anotado surge quando se esvazia a profundi-
dade da interespacialidade, quando e mitiga a sua produção sema-
nal . A camada afetiva perde seus tons menores e ombrios e tende a
polarizar-se num otimismo que, se por um lado nos felicita, por outro
nos preocupa por seu caráter delgado e hegemonizante. A brusca
mudança no padrão arquitetônico faz-nos pensar que os sentimento
mais profundos, de coloração depressiva, su. tentavam-se por sua
implantação na interespacialidade. A atrofia desta redut. a espessura
da afetividade, reduzindo suas po sibilidade e componentes a es-
cassos recursos, condensados na superficialidade alegre. Deparamo-
nos com um enrijecimento do tecido consciente da paciente, por
208 Psicopatologu c Transformação: um Esboço Fcnômcno-Estrutunl

intermédio da perda de alternativas sentimentai e da hegemonia so-


litária superficial. Uma investidura di agnóstica que não leve em con-
sideração esta análise formal incorre no risco de tomar por melhora
aquilo que é enrijecimento (sem, mais uma vez, deixar de considerar
uma real melhora contida neste fenômeno) e de virar as costas para
aquilo que é risco, interpretando-o como índice de proteção.
No entanto, poder-se-ia ser-nos objetado que estamos exage-
rando na observação do risco, enaltecendo a vertente de enrijecimento
em detrimento das virtudes de mobilidade reveladas nos novos fatos.
Ou ainda, que os novos relatos sejam um mecanismo de defesa ma-
níaco, uma reação do psiquismo da paciente a uma desatenção tera-
pêutica para com ela. Talvez as duas proposições sejam verdadeiras
sem que, entretanto, toquem o âmago da questão. O relato seguinte
mostra qual aporte de lógica a proposta formal pode oferecer.
A paciente traz um desenho em que apresenta um casal, no
plano frontal, e uma terceira pessoa, num plano de fundo, chorando.
Diz ser um desenho obre adultério, no qual destaca que o casal está
indiferente ao sofrimento da figura humana do fundo. Salta aos olhos
uma interpretação concernente ao seu sentimento de ter sido traída
(por nós e pela família) quando da variação de freqüência de trata-
mento. A proposição, lançada por nós, deste pensamento, é negada
pela paciente, que diz não ter experimentado nada oeste entido. Do
ponto de vista da análise formal, duas conclusões se extraem deste
segmento de diálogo. A primeira é que, para além de um mecanismo
de negação, a paciente não apresenta amplitude e flexibilidade senti-
mentais para experimentar esse conteúdo de modo afetivo. Surge o
conteúdo, porém, este nasce, e mantêm-se, na esfera da imaginação
plástica. Não um mecanismo, mas um enrijecimento impede sua
eclosão como conteúdo entimental, franqueando o aces o para uma
síntese conceitual. Um enrijecimento que impede que a totalidade
da consciência reaja à formação do conteúdo imaginário. Na con-
dição de máxima flexibilidade e capacidade de transformação, a
emergência de uma condensação de conteúdo arrasta consigo toda
a consciência. A consciência móvel apresenta-se de modo orgânico
para um novo conteúdo, se dá integralmente, aciona todas as suas
camadas para dar boas-vindas ao novo conteúdo. A consciência
Guilherme Pms Mtws 209

enrijecida apenas reconfigura-se em fugaz dobradura, diante dos


convites de um novo conteúdo.
Entretanto, toda trajetória normal de uma consciência nas pro-
gressões de conteúdos passa por etapas em que estes aparecem em
relâmpagos intermitentes, indicando que nem tudo que e dá na nova
experiência da paciente é danoso e inspira cuidados. A segunda con-
clusão aponta para a vitalidade de seu psiquismo, naquilo em que
gera as condições para que conteúdos sejam semeados na
interpessoalidade. Se por um lado sua consciência rígida na alegria
impede a emergência radical de um conteúdo, estes surgem com
facilidade em nossa consciência, são dóceis ao cinzel do pensamento
conceitual, achegados à aventura hermenêutica. A facilidade com
que seu psiquismo oferece elementos para o nosso faz pensar em
uma mobilidade intacta de seu ser, de uma inveterada abertura para
a transformação, de uma grande valência pela interpessoalidade
geralriz.
E ste livro parte do princípio de que a
cliversidade de orientações psicopato-
lógicas observadas ao longo da história
seja devida a distintas posições episte-
mológicas assumidas por seus autores.
Uma psicopatologia, seus conceitos e
suas conclusões dependem, portanto, do
paradigma que a sustenta, declarada ou
tacitamente. Optando por um paradigma
da transformação (como pólo oposto de
um paradigma da estabilidade) a refle-
xão contida no livro de Guilherme Peres
Messas examina as conseqüências da ra-
clicalização da opção voluntária na cons-
trução de uma ciência psicopatológica.
Psicopatologia e transformação reto-
ma, relê e redimensiona certa tradição.
Partindo de uma análise epistemológica
dos antecedentes históricos dessa psico-
patologia, apresenta propostas para a ca-
tegorização fundamental de uma psico-
patologia da transformação, desdobrada
empiricamente em estudos sobre a cons-
ciência, sobre o movimento psíquico,
sobre a interpessoalidade e em uma aná-
lise formal das transformações.

ISBN 85-7396-319-Q
GUILHERME PERES MESSAS

Méclico psiquiatra. Mestre e doutor


pela. Faculdade de Meclicina da USP,
onde é atualmente pesquisador.
Exerce também a função de
supervisor do curso de especialização
em Dependências Quimicas da
Unidade de Pesquisa em Álcool e
D rogas (UNIAD) da Escola Paulista
de Meclicina, além de ser professor do
Programa de Psicopatologia do
Núcleo de Politicas e Estratégia da
Universidade de São PauJo. Atua em
clinica privada e dedica-se ao
aprofundamento dos estudos em
psicopatologia.

mess as@ ne tpoint.com.br


GUILHERME PERES MESSAS

Médico psiquiatra. Mestre e doutor


pela Faculdade de Medicina da USP,
onde é atualmente pesquisador.
Exerce também a função de
supervisor do curso de especialização
em Dependências Quimicas da
Unidade de Pesquisa em Álcool e
Drogas (UNIAD) da Escola Paulista
de Medicina, além de ser professor do
Programa de Psicopatologia do
Núcleo de Políticas e Estratégia da
Universidade de São Paulo. Atua em
clínica privada e dedica-se ao
aprofundamento dos estudos em
psicopatologia.

m essas@netpoint.c om.br
A históri• d• psicop•tologi> é •
sucessão da busca por paradigmas.
D esde suas primeiras formulações
nos moldes contemporâneos, em fins
do século :xiX. até a composição dos
manuais diagnóticos e estatísticos
presentes em inícios deste século, o
que temos assistido é mais a um
embate entre uma diversidade de
paradigmas do que a um linear avanço
por meio de posições consensuais.

Diferentemente das ciências e práticas


intimamente vinculadas à tecnologia,
não se pode dizer que, na psicopato-
logia, exista enorme diferença entre
passado e presente, com o abandono
de concepções inadequadas e sua
gradual substituição por outras mais
próximas da realidade.
Enjant terrible das ciências, a meio
caminho das ciências humanas e
naturais, a história da psicopatologia
não pode ser contada em termos da
noção de progresso, mas, sim, como
uma dialética de opções - veladas ou
abertas - por posições epistemoló-
gicas. Jamais haverá uma psico-
patologia definitiva. Existirão,
contudo, retomadas, releituras e
redelineamentos de certas tradições. A
fecundidade de um veio intelectual é
inesgotável e depende do esforço
cotidiano daqueles que se dedicam a
herdar uma linha genealógica. Que
este livro sirva, pois, corno mais uma
pedra no edifício da já extensa
tradição a que pertence.

Você também pode gostar