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QUAIS SÃO AS CARACTERÍSTICAS DO CONHECIMENTO


CIENTÍFICO?

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Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

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Fonte: Shutterstock.

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PRATICAR PARA APRENDER

Provavelmente, você já se perguntou o que torna o conhecimento cientí co

diferenciado em comparação com outras formas de conhecimento, razão pela qual

diversas grandes potências reservam uma parcela de seu PIB para investir em

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ciência e tecnologia, mas não encontrou nenhuma explicação dentro de um


contexto histórico apropriado que detalhasse as principais características do
conhecimento cientí co.

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Sem um contexto adequado é impossível discutir o que é conhecimento cientí co,
bem como explicar quais seriam suas características e o porquê desse tipo de

Ver anotações
conhecimento ser único em sua espécie. Por causa dessa di culdade de
entendimento da ciência, você, em alguma parte de sua vida, perguntou: “Por que
os cientistas estudam planetas distantes em vez de concentrarem seus esforços
em problemas sociais vigentes, como a desigualdade social, a extrema pobreza e a
desnutrição?” ou “Por que investir milhões de dólares em pesquisas básicas?”

Com um pouco de tratamento losó co e história da ciência, seria possível


responder que diversos esforços coletivos promovidos dentro do contexto da

história da Era Espacial contribuíram direta e indiretamente para o surgimento de


tecnologias usadas no dia a dia, como travesseiros, painéis solares, satélites
arti ciais, detectores de fumaça e muitos outros. Poderia também ser respondido
que uma compreensão profunda da genética levou ao desenvolvimento de
alimentos transgênicos, que são ricos em proteínas, contribuem para a redução do
uso de agrotóxicos e auxiliam diretamente no combate à desnutrição em países do
continente africano.

Explicar a origem de todo esse processo de construção de conhecimento


enriquece a cultura à medida que revela como as características do conhecimento
cientí co auxiliam no progresso tecnológico, principalmente na produção de

vacinas em contextos de pandemias, como a da Gripe Espanhola e do novo


coronavírus (SARS-CoV-2).

Em uma sala de aula, um professor de Filoso a da Ciência escolhe três alunos com
o objetivo de atribuir a cada escolhido uma disciplina que alegue o status de
ciência: a primeira disciplina é a Astronomia (atribuída ao aluno A), a segunda
disciplina é a Sociologia (atribuída ao aluno B) e a terceira disciplina é a Psicanálise
(atribuída ao aluno C).

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Em seguida, os alunos são convidados a aplicar o ceticismo cientí co na disciplina

atribuída a eles para avaliar suas hipóteses e teorias, bem como questionar suas
bases analisando a possível compatibilidade com os resultados da ciência.

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Supondo que os alunos tiveram êxito no trabalho proposto, considere o resultado
a que cada aluno chegou:

Ver anotações
a. A astronomia é uma ciência porque suas teorias são compatíveis com os dados
disponíveis das melhores agências espaciais.

b. A sociologia é uma ciência porque suas teorias são baseadas em evidências.


Além disso, a sociologia consegue, com base no uso de modelagem
computacional, realizar predições sobre fenômenos sociais com alto nível de
acurácia.

c. A psicanálise não parece ser uma ciência, ou talvez seja uma pseudociência,
porque suas principais hipóteses não constituem uma teoria cientí ca. Mais
ainda, algumas alegações sobre possíveis entidades ou objetos não podem ser
testadas ou demonstradas empiricamente. Ela também tem outro ponto falho,
que consiste na ausência de uma formalização lógica adequada da qual seja
possível a extração objetiva do signi cado de um conceito central no campo.

Normalmente, o próprio aluno C poderia indagar sobre o motivo pelo qual a


psicanálise ainda mantém um local prestigiado em universidades públicas e
particulares, sendo que ela falha em cumprir os requisitos mínimos esperados de

um campo que alega produzir conhecimento cientí co.

Quais seriam os possíveis indicadores que revelariam o porquê de certas


pseudociências, como a psicanálise, ainda manterem algum prestígio na academia,
mesmo não cumprindo requisitos esperados de uma atividade que preza pela
verdade?

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A ciência é mais que um corpo de conhecimento, é uma forma de pensar, uma forma cética de interrogar o

universo, com pleno conhecimento da falibilidade humana. Se não estamos aptos a fazer perguntas céticas


para interrogar aqueles que nos a rmam que algo é verdade, e sermos céticos com aqueles que são

autoridade, então estamos à mercê do próximo charlatão político ou religioso que aparecer.
— Carl Sagan, entrevista de 1996.

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CONCEITO-CHAVE

Ver anotações
CONHECIMENTO CIENTÍFICO: SISTEMATICIDADE, FALIBILIDADE E
QUESTIONABILIDADE
Algumas características essenciais do conhecimento cientí co mostram como ele é
um conhecimento único em sua espécie, trazendo maior nível de con abilidade
em comparação com outros tipos de saberes no mundo contemporâneo. Um
aspecto central é seu princípio de sistematização, que é basicamente a forma

como seus enunciados são estruturados logicamente, evitando confusões da


linguagem ordinária, como contradições lógicas e polissemia.

A sistematização do conhecimento cientí co permite que seus enunciados não


entrem em contradição ao longo de uma explicação a respeito de algum fenômeno
da realidade, evitando a utilização de jargões desnecessários e, por vezes,
incompreensíveis, como sentenças que fazem parte de muitos sistemas losó cos
dos chamados lósofos do irracionalismo, como Friedrich Hegel e Martin
Heidegger.

A adoção de uma estrutura lógica dentro de enunciados cientí cos permitiu que
qualquer discurso ou método dialéticos fosse extirpado do conhecimento
cientí co, contrariando a crença popular de que a dialética é um elemento
indispensável na atividade cientí ca. Isso ocorre desde o surgimento da ciência
moderna, admitindo tacitamente o Princípio da Não Contradição de Aristóteles,
que assegura que a rmações contraditórias não podem ser verdadeiras ao mesmo
tempo. Portanto, a ciência evita o uso de proposições contraditórias, como “esse
círculo é quadrado”, “toda verdade é uma mentira” e “tudo é relativo”.

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A dialética é um conceito problemático desde Heráclito, signi cando em seus


primórdios a ideia de que existe um Princípio da Unidade dos Contrários, ou seja, a
ideia de que todas as coisas que existem possuem uma contraparte ou uma
entidade oposta (por exemplo, partículas e antipartículas). Muitos séculos depois, o

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lósofo Hegel buscou desenvolver a dialética dentro de seu sistema losó co,

Ver anotações
admitindo alguns pressupostos da tese original, como a ideia de que existe uma
unidade dos opostos e a noção segundo a qual todas as coisas mudam. No
entanto, Hegel foi muito pouco claro sobre o que ele queria dizer com “dialética”,
de modo que até hoje não existe um consenso entre lósofos sobre o que ela é:
uma lógica não clássica, que romperia com o Princípio da Não Contradição da
ciência moderna; uma ontologia das coisas; ou simplesmente ambas. Apesar do
extenso debate losó co sobre a dialética, ela não conseguiu ganhar espaço em
nenhuma ciência natural, social ou biossocial – nem mesmo na ciência formal, com
a lógica e a matemática.

Outro aspecto central do conhecimento cientí co é a falibilidade, que signi ca


que todo discurso cientí co é passível de correção, evitando assim qualquer tipo
de dogmatismo, como a estagnação de uma hipótese cientí ca e o culto à
autoridade. Esse conceito está presente na tese do lósofo da ciência Karl Popper
(2013), que estipulou que a falseabilidade ou refutabilidade é a condição para
re nar cada vez mais hipóteses e teorias cientí cas.

Esse princípio de falseabilidade é importante para a estruturação de hipóteses


iniciais ou primitivas, por polir a rmações destituídas de evidências cientí cas, mas
não é um critério de demarcação satisfatório para produzir conhecimento
cientí co. Na verdade, mesmo que alguns cientistas considerem que a ciência siga
o modelo popperiano, nenhum lósofo da ciência considera-o como um critério
satisfatório – especialmente porque a pseudociência também mantém um nível de
conciliação com o respectivo critério de demarcação.

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A falibilidade permite que a ciência progrida com novos dados e evidências,


fazendo também com que as teorias sejam cada vez mais (re)ajustadas à realidade,
produzindo um conhecimento diferenciado em comparação com os outros, sendo
então mais profundo e verdadeiro. Essa posição também é admitida por lósofos

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cientí cos – ou seja, lósofos que estão em dia com os resultados da ciência e

Ver anotações
tecnologia –, que assumem que a ciência produz um tipo de conhecimento mais
profundo e verdadeiro.

A ciência também mantém em seu núcleo um aspecto de questionabilidade ou


ceticismo, que signi ca dúvida metodológica e consiste na adoção do ceticismo
cientí co, que é o princípio segundo o qual todas as hipóteses e teorias devem ser
questionadas de forma metódica, responsável e cienti camente orientada. Isso
signi ca que a ciência não adota um tipo de ceticismo conhecido como radical, em
que tudo deve ser questionado, que advoga por um questionamento absoluto,
irresponsável, descontrolado e, portanto, dogmático. A questionabilidade
promovida na ciência é a que submete alegações e hipóteses destituídas de
evidências razoáveis à crítica de outros cientistas, promovendo um diálogo
construtivo, sadio e útil para o desenvolvimento da ciência.

O ceticismo cientí co não deve ser confundido com o negacionismo da ciência, que
é a posição que defende a rejeição completa ou parcial do conhecimento cientí co.
O negacionismo da ciência está atrelado a posições ideológicas de seus
praticantes, entrando em cena quando a ciência revela um fato em relação ao qual
a pessoa está em desacordo por alguma razão política, religiosa ou cultural. Alguns
exemplos de negacionismo da ciência incluem a negação de efetividade das
vacinas, a rejeição da circunferência da Terra, a depreciação das consequências
das mudanças climáticas e a resistência em aceitar a evolução biológica das
espécies através do processo de seleção natural.

OBJETIVIDADE, POSITIVIDADE, RACIONALIDADE E EXPLICABILIDADE

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No contexto do conhecimento cientí co, o conceito de objetividade não deve ser


confundido com objetivismo, que é doutrina ideológica e pseudo losó ca de Ayn
Rand. A objetividade se refere à pretensão clara e objetiva na formulação de
enunciados cientí cos, evitando o subjetivismo interpretativo, que é a noção

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segundo a qual é possível a extração de diversas interpretações e múltiplos

Ver anotações
signi cados de um determinado texto. Por conta de a linguagem cientí ca ser
diferente da linguagem ordinária, principalmente pela sua construção lógica e
sistematização, o subjetivismo não faz parte das proposições cientí cas.

A objetividade é atrelada a uma concepção positiva de ciência, cujo papel é o


acúmulo gradual de conhecimento por meio da con rmação empírica, em vez de
uma estrutura desordenada que desmorona a cada nova revolução cientí ca,
como defendeu de forma irresponsável o lósofo e historiador da ciência Thomas
Kuhn. Segundo Kuhn (2017), a ciência muda como a moda, de modo que o objetivo
da ciência não seria mais a verdade. No entanto, essa concepção ignora que todas
as revoluções cientí cas são sempre parciais, que elas nunca rompem totalmente
com o conhecimento anterior, como é o caso da mecânica clássica de Newton, que,
mesmo após o surgimento da teoria da relatividade geral e da mecânica quântica,
ainda permanece válida para calcular a trajetória de objetos terrestres e continua
sendo usada para enviar foguetes ao espaço.

A teoria da evolução de Charles Darwin também é outro exemplo dessa


característica positiva da ciência, pois ela foi atualizada com os dados da genética e
da biologia molecular, revelando um panorama ainda mais abrangente sobre a
evolução das espécies, explicando até a origem de certos traços comportamentais
nos seres humanos modernos. No entanto, a ciência não progride apenas com
base em experimentos, ela precisa de racionalidade.

A racionalidade presente no conhecimento cientí co pode ser explicada de duas


formas, pelo menos: a ideia de que todo discurso cientí co é debatível de forma
organizada (com o exercício do uso da razão) ou a ideia de que o raciocínio formal
é um alicerce na construção do conhecimento cientí co. A primeira ideia

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pressupõe tacitamente características anteriormente explicadas, como as noções

de sistematização e de objetividade, de modo que apenas com uma linguagem


compreensível, logicamente e objetivamente coerente, é possível discutir
racionalmente conhecimentos e problemas cientí cos, enquanto a segunda

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exprime a ideia de que a construção de conceitos lógicos e formais serve para

Ver anotações
representar objetos que possuem existência concreta, material e real na realidade,
como campos, partículas e cérebros.

De acordo com a última de nição, sem o raciocínio formal, o qual consiste na


ciência formal da lógica e da matemática, nenhum conhecimento seria possível,
pois são necessários sempre símbolos e expressões matemáticas não apenas para

representar objetos, mas também para quanti car os dados oriundos da


investigação cientí ca. Até mesmo a loso a contemporânea, como a loso a
analítica e a loso a cientí ca, trata o raciocínio lógico-matemático como essencial
para a produção de conhecimento losó co. No entanto, o conhecimento cientí co
busca trabalhar com o raciocínio formal visando fornecer uma explicação mais
adequada com base nos dados e nas evidências da investigação cientí ca, de
modo que não é um mero exercício lógico destituído de valor empírico.

A pretensão de elaborar cada vez mais proposições e teorias ajustadas à realidade


revela o aspecto de explicabilidade da ciência. Sem a pretensão de explicar a
realidade, ou algum de seus níveis em particular (físico, químico, biológico,
psicológico, social, arti cial, etc.), os cientistas não teriam qualquer motivo para
investigar o mundo e produzir conhecimento cientí co. A explicabilidade, portanto,
refere-se simplesmente ao papel da ciência em investigar o mundo e prover
conhecimentos cada vez mais profundos sobre as coisas.

ASSIMILE 

1. O conhecimento cientí co advoga pelo princípio de racionalidade, de


modo que seu discurso é universalmente compreensível.

2. O aspecto corretivo do conhecimento cientí co é sempre guiado pelas


evidências da realidade.

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3. Toda a atividade cientí ca cultiva o questionamento cético moderado ou


razoável, que é orientado pela evidência.

REVISIBILIDADADE, AUTONOMIA, ACUMULABILIDADE E

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VERIFICABILIDADE

Ver anotações
O conhecimento cientí co é justamente difícil de de nir por conta de suas diversas
características. Em comparação com o conhecimento religioso, por exemplo,
apenas o conhecimento cientí co tem como preocupação a revisibilidade de seus
conceitos e teorias mediante a investigação cientí ca. Enquanto o conhecimento
religioso admite múltiplas interpretações de um texto como igualmente válidas, o
que importa no conhecimento cientí co é a compatibilidade de seu corpo de
conhecimento com as evidências, independente do que um cientista pensa a
respeito. Pelo mesmo motivo, a ciência não deve ser comparada com a política,
pois seu conhecimento não é decidido como verdadeiro mediante uma votação
por decreto ou escolha da população. O conhecimento cientí co é tratado como
verdadeiro quando os resultados de uma investigação apontam numa
determinada direção.

Já a autonomia existente na ciência pode se referir ao âmbito individual e coletivo,


como quando um cientista tem liberdade para investigar - seguindo os protocolos
éticos da pesquisa cientí ca - e quando a ciência tem liberdade para investigar
problemas que contradizem anseios políticos. Por exemplo, quando os cientistas
sociais podem estudar livremente os impactos das desigualdades sociais nas
populações de baixa renda, ou quando o objeto de estudo são os efeitos
sistêmicos das mudanças climáticas, que, normalmente, contradizem interesses
privados de empresas ou políticos. Contraexemplo: quando os cientistas são
impedidos de investigar por conta de sua nacionalidade ou etnia, como ocorreu
com os físicos judeus durante a emergência do nazismo na Alemanha, ou quando
os pesquisadores são perseguidos pelo governo com a desculpa de serem

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in ltrados de uma potência mundial rival ou advogarem por uma suposta


ideologia contrária à aceita pelo Estado, como aconteceu no caso dos geneticistas
de plantas na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

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Mesmo com todas as di culdades que a história da ciência revela sobre o processo
de construção do conhecimento cientí co ao longo dos séculos, toda a experiência

Ver anotações
passada é traduzida em conhecimento sociológico, revelando que a ciência e a
política, embora sejam atividades completamente distintas, dependem de uma
relação amigável para prosperarem, seja para promover a investigação cientí ca
fornecendo recursos nanceiros do Estado, seja para usar os resultados cientí cos
na elaboração de políticas públicas mais justas.

A acumulabilidade do conhecimento cientí co é o que justi ca seu aspecto de


progresso, justamente porque exemplos de experimentos malsucedidos são
considerados, não apenas para re etir sobre os desa os metodológicos e
epistemológicos da ciência, mas também para aumentar o rigor necessário

durante a avaliação dos trabalhos que são submetidos para revistas cientí cas.
Mais ainda, os resultados negativos na ciência, com base no olhar sociológico,
podem revelar aspectos que foram negligenciados sistemicamente durante a
época de aceitação ou implementação de uma ideia. Por exemplo, a aplicação
política de ideias pseudocientí cas, que já não eram muito bem aceitas, no início
do século XX, como a eugenia e o darwinismo social, levou ao extermínio de
judeus, negros, pobres e pessoas com de ciência, sob o pretexto de “busca pela
pureza genética”.

A elucidação da pseudociência só foi possível graças ao princípio de


veri cabilidade da ciência, que é a ideia segundo a qual um enunciado, uma
hipótese ou uma teoria deve ser passível de ser colocada à prova. No entanto, o
conceito de veri cabilidade requer um contexto adequado por conta de sua
polissemia.

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A noção mais forte de veri cabilidade foi apresentada pelo lógico Rudolph Carnap,
durante a emergência do positivismo lógico do Círculo de Viena. Esse círculo era
formado por um grupo de cientistas e lósofos interessados nos problemas
losó cos, históricos e sociológicos da ciência. A despeito dos mitos que circulam

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sobre o círculo, eles defendiam teses bastantes heterogêneas, tinham

Ver anotações
preocupações políticas e sociais sobre a atividade cientí ca, não eram ingênuos e
nem reducionistas (não reduziam todo o conhecimento às ciências naturais) e
buscavam uma linguagem universal para a ciência. No entanto, a tese de Carnap
cou imensamente conhecida ao ponto de ser tratada equivocadamente como
representativa de todo o círculo.

A tese veri cacionista de Carnap postulava que uma proposição tem sentido se, e
somente se, existir alguma circunstância que permita sua veri cação. Se não
existisse alguma possibilidade de veri cação, a proposição seria considerada como
destituída de sentido e signi cado e, portanto, ela não faria outra coisa a não ser
trazer pseudoproblemas. Essa tese foi duramente golpeada, justamente por outro
lósofo que era simpatizante do círculo, mas que não fazia parte dele: Karl Popper.

Karl Popper enfatizou que a tese não era su ciente como um critério para
proposições, além de diversos outros problemas enumerados em sua obra A
Lógica da Pesquisa Cientí ca (2013), argumentando que a condição de
veri cabilidade não é su ciente para que uma proposição ou teoria seja
considerada cientí ca, mas simplesmente a condição de sua possível refutação.
Para Popper, uma teoria é cientí ca se, e somente se, existir alguma circunstância
que permita sua refutação. Se não existir nenhuma circunstância passível de
refutação, a teoria não é considerada cientí ca. Com isso, Popper lançou as bases
de sua hoje conhecida tese: o falseacionismo.

REFLITA

1. Dado o sucesso do conhecimento cientí co na explicação de diversos


fenômenos da realidade, o que torna a ciência um campo con ável?

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2. Dado o contexto de negacionismo anticientí co na sociedade


contemporânea, por que é importante adotar o ceticismo cientí co?

3. Por que a lógica é um elemento indispensável dentro do conhecimento

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cientí co?

Ver anotações
FACTUALIDADE, ANALITICIDADE E COMUNICABILIDADE
A ciência não se resume a uma atividade puramente empírica. Ela também
contempla disciplinas que lidam com aspectos formais do método cientí co, que
usam seu aspecto de racionalidade para investigar problemas matemáticos,
lógicos e semânticos. Para clari car essa abrangência, é necessária uma distinção
rápida sobre esses dois tipos de ciências: a ciência fática (ou factual) e a ciência
formal.

Como explica o lósofo Mario Bunge em seu livro La Ciencia, su Método y su


Filosofía (2014), a ciência fática lida com entes concretos ou materiais (como
campos, partículas, animais, pessoas), adequa-se aos fatos e possui consistência
empírica (como a física, a química, a biologia, a psicologia, a sociologia), enquanto a
ciência formal lida com entes ideais (como números, conceitos, axiomas), adequa-
se a um conjunto de regras e possui consistência racional (como a lógica e
matemática). No entanto, tanto a ciência fática como a ciência formal normalmente
se cruzam em um processo de enriquecimento contínuo.

A ciência formal fornece à fática a analiticidade essencial para sua sistematização,


formalização e objetividade. Com esse tratamento analítico, o conhecimento
cientí co se torna mais exato, porque evita-se a ambiguidade e a armadilha da
linguagem ordinária. Desse modo, justi ca-se a de nição de Bunge (2014) da
ciência como um tipo de conhecimento sistemático, racional, exato, veri cável e,
portanto, falível, sendo a melhor reconstrução conceitual do mundo do qual
fazemos uso.

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Finalmente, a ciência preza pela comunicabilidade, ou seja, os resultados


cientí cos são passíveis de serem comunicáveis de forma objetiva para quaisquer
pesquisadores ao redor do mundo. Mais ainda, os resultados podem ser
traduzidos na linguagem ordinária com o objetivo de visar à popularização da

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ciência e ao enriquecimento cultural através da atividade de divulgação cientí ca.

Ver anotações
EXEMPLIFICANDO

1. O conhecimento cientí co tem uma estrutura lógica ordenada, a qual


permite a extração de proposições objetivas.

2. O conhecimento cientí co visa explicar a realidade em sua totalidade,


adequando sua metodologia cientí ca para o estudo de cada nível
(físico, químico, biológico, psicológico, social e arti cial).

3. O conhecimento cientí co progride ao longo do tempo, ajustando suas


teorias às evidências, corrigindo imprecisões e mantendo seu aspecto
questionador frente a uma gama de hipóteses sobre o mundo.

Devido à natureza peculiar do conhecimento cientí co, suas diversas


características revelam o porquê de ele poder ser considerado como um tipo de
conhecimento mais profundo, verdadeiro e con ável. Embora muitos argumentem
que o aspecto autocorretivo seja uma sentença de risco, o que levaria a
duvidarmos cada vez mais do nível de verdade e profundidade desse tipo de
conhecimento, ignora-se que a requerida compatibilidade das teorias com as

evidências é o que aproxima a ciência da descrição mais precisa o possível da


realidade.

FAÇA VALER A PENA


Questão 1

O ceticismo cientí co é uma das características fundamentais da ciência e de toda


a atividade intelectual. O astrônomo e divulgador cientí co Carl Sagan escreveu
uma obra chamada O Mundo Assombrado Pelos Demônios (2006), em que ele

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descreve exemplos de aplicação do ceticismo cientí co na vida cotidiana. O


ceticismo, argumenta Sagan, é uma ferramenta indispensável para não deixar
enganar a nós mesmos.

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Qual é a de nição de ceticismo cientí co?

Ver anotações
a. Uma abordagem losó ca que adota a suspensão de juízo pela impossibilidade de provar algum
fenômeno.

b.  Uma abordagem niilista que considera a ciência isenta de valores. 

c.  A negação absoluta do conhecimento cientí co. 

d.  Uma abordagem que consiste na dúvida metódica ou razoável aplicada a situações e a rmações
destituídas de boas evidências. 

e.  A crença religiosa no poder da ciência.  

Questão 2

A veri cabilidade é a noção que advoga a preocupação com o teste experimental.


No entanto, essa posição não pode ser confundida com o veri cacionismo do
Círculo de Viena e nem com o falseacionismo do lósofo da ciência Karl Popper.

O que signi ca veri cacionismo?

a. Um critério de demarcação entre ciência e pseudociência.

b.  Um critério para veri car através da observação se certos enunciados são signi cativos. 

c.  Um critério ético para a ciência. 

d.  Um axioma matemático. 

e.  Uma lógica não clássica.  

Questão 3

A lógica é uma ciência formal, embora possa ser aplicada na ciência fática com o
objetivo de proporcionar melhor clareza e objetividade para os enunciados
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objetivo de proporcionar melhor clareza e objetividade para os enunciados


cientí cos. Seu uso evita a ambiguidade da linguagem ordinária, facilita o
entendimento conceitual e impede a contradição no conhecimento cientí co. A
dialética, por outro lado, tolera contradições e ambiguidades da linguagem

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ordinária. No entanto, ela ainda é considerada por muitos como uma ferramenta
essencial para a ciência, os quais acabam ignorando suas implicações com o

Ver anotações
Princípio da Não Contradição de Aristóteles e defendendo que ela serve como uma
técnica de comparabilidade entre ideias aparentemente distintas, a partir da qual,
de alguma forma, seria possível a extração de uma nova ideia ou hipótese.

Historicamente, qual pensador é considerado o pai da dialética?

a.  Friedrich Hegel.

b.  Friedrich Nietzsche. 

c.  Martin Heidegger.

d.  Aristóteles. 

e.  Heráclito.  

REFERÊNCIAS

BUNGE, M. La Ciencia, su Método y su Filosofía. [S.l.]: Editora Sudamericana,


2014.

CARNAP, R. The Logical Structure of the World and Pseudoproblems in


Philosophy. [S.l.]: Editora Open Court, 2003.

MARCONDES, D. Textos Básicos de Filoso a e História das Ciências: a revolução


cientí ca. [S.l.]: Editora Zahar, 2016.

POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Cientí ca. 2. ed. [S.l.]: Editora Cultrix, 2013.

SAGAN, C. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: a ciência vista como uma vela
no escuro. [S.l.]: Editora Companhia de Bolso, 2006.

https://colaboraread.com.br/integracaoAlgetec/index?usuarioEmail=vivianekleinn%40gmail.com&usuarioNome=VIVIANE+KLEIN&disciplinaDescricao=PENSAMENTO+CIENTÍFICO&atividadeId=3015150&atividad… 15/15

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