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Cecilia Rodrigues Ribeiro

AS CONFISSÕES DA CARNE: rais desse livro, publicado recentemente e que


o trabalho póstumo de Foucault já propicia debate nos corredores acadêmicos.
O projeto História da sexualidade trata-
ria dos séculos XVI e XVII, assim como His-
tória da Loucura (1961), As palavras e as coi-
sas (1966) e O nascimento da clínica (1963).
Cecília Rodrigues Ribeiro* O senso comum é o de que o século XV seria
(https://orcid.org/0000-0001-9557-6640)
considerado o ponto de partida da doutrina
cristã. Mas Foucault refusa essa ideia e faz um
retorno a marcos mais distantes da história (sé-
FOUCAULT, M. Les aveux de la chair. Paris:
culos II, III e IV) como primórdios das bases
Gallimard, 2018.
da interdição da sexualidade. É esse retorno no
tempo, à doutrina grega e cristã, de que trata
Les aveux de la chair, uma temporalidade que
não é a usual do autor, mas que vai ao encon-
tro de outras reflexões próprias de sua teoria.
É o caso dos seminários em Nova York (1980),2
Em 1976, Foucault lança a primeira ver- que já apresentam as linhas gerais inéditas do
são de seu projeto de escrever a História da livro, mas ainda não tão extensas ou profundas
sexualidade, inicialmente prevista para seis quanto na publicação (entrevista com Frédéric
volumes. Ele questionava o porquê de a socie- Gros, 20183). Também, já existem esboços des-
dade atual se concentrar em tantas relações sa teoria do quarto volume da História da se-
em torno da sexualidade, razão para conceber xualidade, no livro Os anormais (1974-1975).
esse projeto, que daria continuidade ao da his- Além de suas bases e influências, o ma-
tória da loucura e do sistema carcerário (Cf. nuscrito do livro já existia. Assim, o texto es-
Foucault, 1977). Três livros foram publicados: tava completo, e sabe-se que Foucault estava
A vontade de saber (1976), Uso dos prazeres trabalhando na revisão com vistas à publica-
(1984) e O Cuidado de Si (1984). Em 2018, 35 ção. Infelizmente, a terceira parte do livro ele
anos após sua morte, um quarto livro da His- não corrigiu. Foucault não mudaria a arquite-
tória da sexualidade foi publicado: Les aveux tura geral do texto, afirma Frédéric Gros (en-

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de la chair. O autor havia pedido para não lan- trevista, 2018); ele completaria, sem dúvida,
çarem nenhum livro póstumo, mas, quando a algumas passagens. O livro é um retorno à
obra é maior que o homem, a sociedade se vê governamentalidade pastoral, o que permitiu
no direito da posse intelectual, explica Henri- a Foucault fazer um estudo sobre o governo.
-Paul Fruchaud1 (2018). Porém Les aveux de la chair não constitui uma
Sem entrar no mérito da discussão que continuidade da teoria do governo: é um texto
não nos cabe sobre os direitos do autor, discuti- centrado no sujeito.
remos brevemente, nesta resenha, as linhas ge- A doutrina do cristianismo e suas rela-
ções com a sexualidade é o grande tema, di-
1

vidido em três partes: a formação de uma ex-


*
EHESS – École des Hautes Etudes en Sciences Sociales.
Paris 7 – Université Paris Diderot. periência nova (criação, procriação, batismo,
54 Boulevard Raspail, 75006. Paris. cecilia.rodrigues.ribei-
ro@gmail.com
1
Henri-Paul Fruchaud é sobrinho de Foucault e está envol- 2
Seminários na New York University, que continuam sem
vido na publicação de sua obra póstuma. Em uma entrevista publicação.
não publicada, ele fala em nome da família, que detém os
direitos autorais das obras do autor: “Imaginem se a viúva de 3
Frédéric Gros é um filósofo francês especialista em Fou-
Mahler tivesse seguido seu pedido e queimado sua obra-pri- cault. Também esteve presente na entrevista (não publica-
ma, a 10ª sinfonia? da) de lançamento do livro em Paris.

http://dx.doi.org/10.9771/ccrh.v32i86.26215 453
RESENHA

penitência e a arte de dirigir a consciência); tizado, embora ele não seja suficiente para a
ser virgem (virgindade, continência, a arte da salvação. Ele está diretamente ligado, através
virgindade e sua relação com a consciência de da relação entre a remissão dos pecados e a
si mesmo); ser casado (o dever dos casais, o verdade, à penitência que, por sua vez, é uma
bem e o mal do casamento e a libidinização manifestação de si. Foucault parte de textos de
do sexo). A grande novidade é que o filósofo Tertullien para explicar que a grande ressalva é
se recusa a afirmar que a censura sexual teve o medo que a humanidade deve ter em relação
início no cristianismo. As interdições sexuais a si mesma, ou seja, de sua própria fraqueza
datam de uma moral antiga, e os cristãos vão de espírito. Como combatê-la? Através da dis-
repeti-la e transformá-la. Seria, assim, a filo- ciplina da penitência. A forma de autentificar
sofia pagã de base que iniciaria a censura; o essa disciplina é a confissão. Falar a verdade
que muda é o formato. Partindo da análise de face a Deus (então, face a seus intermediários:
textos de Clément d’Alexandrie, ele explica a os servidores da igreja) é a forma essencial
“arte de viver cristãmente” conforme citado para a purificação, para uma economia de sal-
por Foucault (2018), cujos ensinamentos são vação da alma. O lamento e o arrependimento
oriundos de Deus e aplicados no quotidiano devem ser compartilhados, pois é dessa forma
do sujeito. A união legítima entre duas pessoas que o perdão pode se operar. São as confissões
deve ser seguida pelo desejo de procriação e, sinceras que mudam, nos séculos III e IV, as
dessa forma, o casamento é uma racionalidade sentenças dos condenados, e Cristo ocupa o
(em oposição ao prazer) cuja finalidade única papel de advogado em prol dos arrependidos.
é a de reprodução. Essa noção ou definição da Essa filosofia se transformará em arte, em uma
conduta social das uniões não é exclusiva nem técnica de dirigir consciências. No texto eco-
originária do cristianismo, mas Clément acen- am os cursos dos anos 80 no Collège de France
tua essa distinção clara entre prazer e procria- (O governo dos vivos, 1979-1980).
ção no que tange à finalidade do casamento. A A estrutura monástica, no ocidente, se
criação do homem é uma manifestação divi- organiza em torno da verbalização da verdade:
na, uma forma de sinergia com o criador, e o qualquer fantasia que atravessa a mente deve
excesso (adultério e toda relação fora do casa- ser analisada para se descobrir sua origem. É
mento) seriam formas de transviar essa relação uma duplicação da cena interior conduzida
divina. A moderação é uma questão-chave: o ao exterior que contribui para o exercício da
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homem cristão deve ser mestre de seus desejos obediência. Atravessar a sexualidade para se
e não deve se entregar às impulsões do corpo, encontrar é a chave da construção da subjeti-
assegurando o respeito e o pudor. vidade moderna. Esse exercício foi feito pelo
É um constante exercício sobre si mes- cristianismo com o intuito de governar o sujei-
mo e uma purificação de si que encaminham à to. A própria prece do Credo se torna metáfora
salvação, uma forma de experiência que resul- para afirmação dos dogmas aos quais o sujeito
ta no problema da carne. Parodiando o autor, a adere: renúncia da vontade, da consciência e
“carne” é uma forma de experiência, uma for- da verdade de si mesmo.
ma de conhecimento de si mesmo, da transfor- A segunda parte do livro é consagrada
mação de si em prol da anulação do mal, bus- ao conceito de virgindade. A renúncia volun-
cando a manifestação da verdade suprema. As- tária da sexualidade é vista como continência
sim, se o cristianismo não inventou a restrição a ser buscada. A abstenção não tange somente
sexual, ele orquestrou, por meio da disciplina aos atos, mas também – e essa é a grande en-
dos monastérios, a constituição do código se- genhosidade do cristianismo – ao pensamento.
xual em torno do casamento e da procriação. A valorização da virgindade é paralela à santi-
Uma das formas de purificação é o ba- ficação do sujeito. Cipriano explica que a vir-

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gindade está ligada à purificação do batizado da sexualidade, pois é Santo Agostinho quem
pois a extinção dos desejos da carne conserva vai formatar as relações culturais atuais sobre
intacta a purificação recebida no contato com desejo, libido e interdições. Ele vai responder
a água benta. Ela deve ser praticada como um à questão central da vida dos jovens casados: o
elo positivo com Deus, e não somente como ato e a consciência do sexo com seu parceiro e
simples abstenção da carne e do mal. Resumin- sua finalidade.
do: a virgindade deve ser incorruptível, pois, As exigências morais tornaram-se uni-
assim, a felicidade seria eterna e a verdade se versais, e a célula familiar é criada no final
tornaria suprema. Sob a iluminação divina, a do século IV. Adão e Eva são frutos da mesma
virgindade se liga, desse modo, à imortalida- substância, que é recordada a cada procriação:
de, pois ela salva a alma, preparando-a para o a virgindade é a vida angélica (mais cobiçada),
aniquilamento do julgamento final. É um tra- porém o casamento é elevado à união entre a
balho espiritual, uma escola de “livre arbítrio” igreja e seu salvador. O autor enumera uma sé-
pela qual o século IV redigirá tratados e mé- rie de princípios a serem obedecidos no casa-
todos louvando a coragem, a independência e mento. A singularidade dessa nova época é que
o sacrifício (em oposição à felicidade estável a procriação não é a única virtude e objetivo do
do casamento). A virgindade, como escolha, casamento: o controle do desejo e da luxúria dos
ultrapassa a simples ideia de abstinência e de casais repousa na base da vida a dois. Foucault
diferenças sexuais: seria uma unidade que se é claro no anúncio normativo: o casamento tem
aproxima do divino, desprovida de gênero se- o objetivo de impedir a fornicação, o sexo sem
xual. Ser virgem transforma, assim, o indiví- controle e preservar a moral e a continência. Ele
duo em um ser angelical, o que, em uma eco- é, essencialmente, um limite, uma economia
nomia temporal, atinge outros patamares da social da concupiscência. O casamento conver-
existência na terra e no céu. A virgem é a espo- te-se em lei obrigatória. Além da normatização,
sa de Deus, prometida a Cristo, como descreve ele é judicial: os casais têm uma dívida sexual
Gregório de Nysse segundo a obra de Foucault entre si a pagar. O acesso ao corpo do outro é
(2018). A sexualidade é, dessa forma, colocada um dos direitos e deveres do casamento, exa-
no centro do sujeito, particularmente quando tamente para que se controle o sexo libertino,
o indivíduo se indaga sobre a virgindade. característico da humanidade depois da queda.
Nota-se, nessas linhas do livro, a presen- Assegura-se, com o casamento, o limite e da vir-

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ça do artigo Le combat de la chasteté (1982), no tuosidade do outro. É uma simetria entre a vida
qual figuram os temas da virgindade, da mas- monástica e a vida marital.
turbação e da fornicação. A virgindade é um Foucault se confronta com o poder teóri-
combate que pressupõe uma relação do indi- co do discurso de Agostinho, que tenta provar
víduo consigo mesmo interrogando permanen- a presença da sexualidade no paraíso. Segun-
temente, suas ideias pessoais: a busca da alma do Foucault, esse é o ponto que explica a for-
pura passa pela constante vigilância. A forni- matação da sexualidade ocidental. A libido é o
cação e a gula são elementos-chave a serem excesso que se adiciona depois da queda: o ato
suprimidos (assim como o orgulho e os outros sexual é preenchido pela vontade. Mas essa
pecados capitais), porém a luxúria adquire um vontade escapa ao controle no momento do or-
valor de causalidade mais direta na fórmula, gasmo. Dessa forma, a humanidade é fruto de
pois imagens, memórias e desejos do espírito um ato libidinal. A sexualidade é uma desobe-
são proscritos, assim como os atos do corpo. diência em si, porque o ser humano desobede-
A terceira e última parte do livro resul- ceu a Deus no paraíso. Um ponto crucial, nes-
ta da análise dos escritos de Agostinho. É o sa análise, é que o sexo se metamorfoseia em
grande momento de virtuosidade da história luxúria após a queda, ou seja, ele está ligado

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RESENHA

à condição de mortalidade do homem. Destar- sa, uma disciplina metodológica rigorosa. Os


te, o sexo se configura no desejo, na queda, na temas prioritários de sua pesquisa ainda se
morte e na procriação, quer seja analogicamen- encontram aqui presentes: o saber, o poder (a
te, por consequência, ou por meio de um des- governamentalidade) e o sujeito.
ses elementos. O ser humano é, por natureza,
social (natureza divina pois Deus criou os dois
Recebido para publicação em 10 de abril de 2018
gêneros), e o casamento é altamente desejado: Aceito em 26 de agosto de 2019
ele é a ligação com o outro, ele produz mem-
bros para a sociedade e prolonga essa ligação,
ele determina as relações sociais. O sacramen- REFERÊNCIAS
to, a fidelidade e as crianças são os bens do ca-
samento, os quais, por sua vez, transmutam a FOUCAULT, M. Histoire de la folie à l’âge classique. Paris:
Gallimard, 1961.
parte libidinal e excessiva do sexo e do desejo FOUCAULT, M. Naissance de la clinique. Paris: Gallimard,
em moderação (leia-se moderação da libido). 1963.
Entender a castidade do casal que vive FOUCAULT, M. Les mots et les choses. Paris: Gallimard,
1966.
sua sexualidade no casamento, delatar a obri-
FOUCAULT, M. Michel Foucault dans l’émission «Les
gação da verdade presente no governo pasto- après-midi de France Culture» le 11/01/1977. Entrevista
concedida a Paula Jacques. 1977. Disponível em: https://
ral e elaborar a teoria da economia da concu- www.franceculture.fr/philosophie/michel-foucault-
propos-de-son-livre-histoire-de-la-sexualite-tome-1.
piscência é o grande legado de Foucault, quer Acesso em: 29 mar. 2018.
ele tenha terminado o texto por mãos próprias FOUCAULT, M. Le combat de la chasteté. Communications:
ou não. Nesse sentido, para pesquisadores fi- sexualités occidentales. Contribution à l’histoire et à la
sociologie de la sexualité, v. 35, p. 15-25, 1982.
éis que admiram Foucault ou mesmo para o FOUCAULT, M. Les anormaux: cours au Collège de France
leitor ávido de análises sobre a sexualidade e (1974-1975). Paris: Gallimard, 1999.
sua evolução na sociedade ocidental, o livro FOUCAULT, M. Du gouvernement des vivants: cours au
college de france (1979-1980). Paris: Gallimard: Seuil,
não deixa a desejar. Como sempre, o filósofo 2012.
é didático, um pesquisador minucioso e que FOUCAULT, M. Les aveux de la chair. Paris: Gallimard,
2018.
nos demonstra, com uma bibliografia exten-
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Cecília Rodrigues Ribeiro – Doutoranda em Antropologia pela EHESS - École des Hautes Etudes en
Sciences Sociales & pela Université Paris Diderot (USPC, Paris 7). Mestra em Sexualidade e Traumatismo
(USPC - Université Sorbonne-Paris-Cité, Paris 7). Atualmente, integra o LIAS - Linguistique,
Anthropologique, Sociolinguistique (Institut Marcel Mauss, IMM - CNRS/EHESS).

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