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O DIRECTOR

ESPIRITUAL
DA�

ALMAS DEVOTAS E RRL!GIOSAS


t:XTR0\H!OO n�s ORRAS

S. IPRANCISOO DE BALES

Bispo e Príncipe de Genebra

!o 1 ::

NICTHEl\OY
Blaoola Typ. Baleaian"
1804

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COM APPROVAÇÃO DA AUCTORIDADE DIOSESANA

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PHEFAC.:\(l'

O a1dh 01· deste di1·ectorio espiritual foi


proeto-a1· as suas meditaçiJeB ao riquissimo
thesou.ro, que para o seu te11ipo e pm·a todas
tU idades deixou o sabio bispo de Genebra,
tllo visitado por divinas inapi1·açõea, to.o co·
nhecedo1· do espirito humano e das auas im­
mensas miBerias. Em t1et·dade quem quizer
escreve1· sobre estes assumptos da trida de­
vota nlio p6de fazer mais nem melhor do
que compilm· do 11mito que pensár·a o santa
bispo, um pouco, para alimentar aa almas
P sacim· aa sequidões. que as accommette111 .
Quando lançamos um olhar retrospectivo
,,obre esse notavel seculo decimo·aetimo,
que tllo 91·nnde l1tgar occupa na h istoria
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do mundo, apparecem-nos logo tres vultos


gigantescos, que assoberba1n todos os mais
personagens celebres dessa et·a historica.
De um lado vemos fJ. Vicente de Paulo,
o ardente apostolo da ca1-idade, dando tudo
q1Lanto possuía, dando-se a si proprio pelo
a.mm· do proximo, e fundando ob1·as pet··
d1traveis, qtte têm resistido a todas as
contra1·iedades do espfrito das trevas, ás
revoluções e aos cap1-iclws da soru. Ba·
quearam instituições secula1·es, as quaes
semelhantes aos alterosos carvalhos desa·
.fiavam ct j1tria das tempestades, a vio·.
lencia dos ventos e a acção destruidora
do tempo.
A revol1ição passando sobt·e a terra var­
rem tudo, desfazendo em pô as ruinas
venerandas. Não púde todavia abalar o
humilde edijlcio, que á caridade levantam
o coraçllo compassivo de S. Vicente de
Paulo.
Po1· outrapwrte deparanios o virtuoso J>rf'·
lado de Genebrà;,D assombroso petasador,
q1te rmtnindo a 11ie1lit4çlfo á acção, p1·odu·

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zirn esc1-iptos admil'aveis e jimdára obrns


permanentes , contra as quaes tambsm
vieram quebra1·-se os impetos ftwiosos da
revolução assoladora.
No meio destes d01is g1'andes santos e

fundadm·es encontra111os uma mulher, fraca


e humilde, que depois de have1· occupado
lugar distincto na sociedade, renunciou a
tudo e sob .a inspiraç4o de S. Francisco
de Sales veio fundar a ordem da Visitação.
À senhora de Ohantal é a iniciadora dessa
i1lBtituiçi1.o religiosa, que estava fadada
para os mais altos destinos, que igualmente
nllo pôde embai·gar· lhe o espirito do mal;
porque a tudo 1·esistiu e tão fundos são
os seus alicerces, que soube dominm· os
violentos ataques e as terríveis aggressões,
que ha mais de um seculo sem cessai· se
dirigem contra tudo quanto é santo e justo,
elevado e grandioso, sublime e superi01· ás
miserias da ten·a.
Sob uma tão illtistrada direcçllo a se·
nhora de Ohantal fez prodígios, e na sua
obra como em todas as Salesianas reali-

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zou-se tt celebre e caracte r istica divisa


do santo: flores fructusque �rennes:
semp1·e jM res fot·mosas, petennea jNctos
sttborosos.
Essa a rv ore vi'Daz n unca Iftwdeu a folha ,
minca deixou de florir, e primo1·osos pomos
a adornam de continuo eni toda a parte
01ide os seus enxertos foram levados.
Quando porém fosse possível que as
ob1· as de S. Francisco de Sales passassem
sob a sentença d' eu;terminio, que tantas vezes
tem proferido o tribunal arbit1·ario e iníquo
da revoluçlfo, deixando ao desamparo 08
indigentes, e p1·i vada da luz da verdadeira
educação a mocidade ; ha um monumento
que nada seria capaz de derrocar. Esse
m.onumento consiste nos liv1·os immorre­
douros devidos á penna suavissinia do
grnn de esc1·ipto1· e orad01·.
Volumosa é essa eollecçllo ; prove itos a a
leitura de todos esses livros, tão ltetuaes
hoje como ha niais de dttzentos annos, que
elle1J appareceram; mas entre esses lia um
que sobreleva a to1los, e que já não póde

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se1· e.vcedido. E' a Introduc�ão á •i da


\

de\•ota, obra cujo appa1·ecimento causára


a niai& profunda i111p1·essllo, cujas edições
successivas se esgotam hoje como na. datct
ein que fúm novidade, vef'tida em todcts
as linguas, occupando luga1· em todas as
liv1·arias, levando a consolaçllo a todas as
almas, se1·enando as consciencias, prepa·
i·ando a vida i»·esente para o transito á
vida futurn.
Quando Henrique IV de França, exci·
tado pela fama desse notavel esc1·ipto,
procurou avaliar por si proprio o g1·ande
merecimento, que se ap1·egoava; a sua ex·
pectativa ficou muito áquem da realidade,
que depm·ára, confessando que nunca sup ·
puzera poder escrever-se tao bem.
Foi tão forte a sua admiração, que de·
sejou c011hecer o author do·peregrino liv1·0,
e mandou convidal-o para vfr occupar um
alto logar em França; o illttstrndo prelado,
todavia, tinha demasiado amo1· ao seu re­
banho para desamparnl-o, e 1nodestia ex­
trem.a para aceitai· 11iais elevadas dis-

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tincções. Nem deixára Annecy, ntmi aba11-


donára a sua diocese, onde bastava o seu
nome e p1·esença para que o eri·o recuasse
espavorido e a funesta innovaçao do cal­
vinismo, fructo pernicioso da intitulada
l'eforma religiosa, nilo podesse progredir.
Tal era o prestigio do seu nome, a gran·
(leza da s·ua vfrtude, as excellencias do
se1t saber, que o protestantismo, nada po-
1lendo apresenta1· de comparavel, respei­
tosconente se vergava diante daftgm·a sym­
patltica e venel'anda do bispo, do santo,
<lo escriptor, do orador.
JiJ se nas famosas conferencict,B que elle
teve com o celebre corypheu do calvinismo,
de B�ze, nilo conseguiu 1·eduzir este espí­
rito obcecado, que tinha as idéas mais er­
roneas, como todos os protestantes, ácerca
da graça e do !iv1·e arbítrio, logro1i sem
enibco·go a sua estima, que nunca foi des­
mentidct a i 1id a no ardor da controversia.
fht�jugava-o a estat1wa colossal do pre­
lado, 1ut vfrtude puríssima, no sabe1· con­
!fü.llWutdo. na convfoçilo p1·of1inda.
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- IX -

EJ como se tudo isto não bastasse, via-se


S. Francisco dedicado a tratar dos empes­
tados, jogando �om a sua vida, sacriji­
canclo-se no exercicio do seu ministerio e
votando-se sem reserva ao bem tempo1·al e
espiritual do proxinw, sem distincçllo de
posição ou de crenças.
Quando se pretende <tpt·esentar ás almas
devotas uma collecção escolhida de medi­
tações para 1·obustecel-as e fazel-as pro­
gredir nas vias da santijicaçao, nilo ha
repositorio mais <tproveitavel do que os
pensamentos de S. Francisco de Bales.
No formoso livro da Introdncção á
vida devota de que já fallamos, no Tra­
tado do amor de Deus , e em q·ualquer
elos outros escl'iptos do santo, ha uma tal
abundancia de conceitos, apreciações e me­
ditações, que s6 se encont1'a embaraço na
selecçll.o.
Tendo lido o Trata.do do amor de Deus,
o rei da Inglaten·d, da Inglaterra já pro­
testa nti8ada, procurou os theologos e es.
criptores religiosos do anglicanismo pa1·a

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que apresentassem uma obn1 qualqiier q1te


se appro:l!ima&se da belleza, solidez e ele­
gancia desse livro, por aasim dizer inspi­
rado, que acabava àe emittir o sabio bi&po
de Genebt·a.
El' e'Vidente que a pt·ovocaçllo nllo en­
controu quem a levantasse, p01·que esse
ramo destacado da m·vore frondosa do
christianismo , deixando de recebe1· os
suecos e a seiva das t·aizes, que a ali-
1nentam, nada tem produzido, nada é in­
capaz de produt�ir.
O christianismo po1·ém que fundám o
tlivino Salvador, é semJJrefecmido e vivaz.
Elle continiía a pi·oduzir abundantemente,
e sempre s{fo pt·imorosos os seus fructos.
Ainda nos nossos dias e sob a inspiraçao
do vene1·ando bispo de Genebl"a, n6s vimos
fundar-se o grandioso instituto dos Sale­
sianos de Dom Bosco, que tendo começado
humilde e pob1·emente �m uni pequeno Ora­
lorio hoje se extende po1· toda a pat·te não
só no antigo continente, mas tambein no
novo. E1 assim cómo a obra da Visitação,

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�ujas constituiç-Oes p1·eparát·a S. f''rcmcisco


de Btiles, é o modelo para a educação das
mulheres, o instituto de Dom Bosco é a
perfe'ição no ensino dos homens, que hflo
de exercer as m·tes mecanicas e liberaes
e go1·'Dernar as sociedades.
Aasim tambeni quando se que>· encami­
nhat• aa almas para a vida espfritual, nflo
ha modelo superior aos methodos de SlLo
Ftancisco de Sales; e o author deste pe­
queno manual andou avisadamente cotnpi­
lando apenas e não compondo de novo, pois
por melho1· que produzisse, nll.o excederia
os excellentes fratados, que nos deixát•a o
bispo de Genebra, que o oraculo infaUivel
d-O Vaticano elevára aos alta1·es.
Segurança na doutrina, clareza na ex­
posição, elevaçll.o na idéa são caracteres
distinctivos de tudo quanto escrevera sao
Francisco de Sales.
No primm· da dicção, na mnenidade clo
cstvlo, na co1Tecção da linguagem, o sabio
escripto1· ig1ialou-se aos p1·imeiros a1tthores
do seculo de Luiz XIV a q1ie elle perten-

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cera, embm·a n{J,o se dilatOJJse a sua vidq,


até ao tempo do g1·ande rei, que déra 41 Ileu
nome á era em que governára a França
e poderosamente influi?-a nos destinos de
toda a Eui·opa.
S. Franc,isco de Sales vivem apenas
cincoenta e cinco annos, e tendo nascido em

1567 em A.nnecy, veio a fallecer em 1622.


O livr·inho, que se edita ago1·a, é ada·
ptado pai·a infroduzfr as almas nas vias
da meditação.
(}uem se apode1·a1· da doutrina destas
meditações e praticar os exe1·cicios que 11e
aconselham, adquirirá uni bom peculio. que
poderá anipl-iar com outras leituras e ,,obl"e­
tudo com a oraçl1o mental.
Para recommendal·o é bastante a appl"o­
vação que lhe concedeu o illustrado A.ntis­
tite portuense o Em.m" Cardeal D. A.me­
rico Ft'rreira dos Sltntos Silva.

CO.'.'ll'UE DE SA!llOUÃE:;.

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O DIRECTOR ESPIRITUAL
UAS

AL�IAS RELIGIOSAS

CAPITULO I
DA LIBERDADE no ESPIRITO

A liberdade do espirita, 6 alma que­


ri da , é um desapego, que o coração
christão tem de todas as cousas, para
seguir a vontade de Deus reconhecida.
Com tanto, que o nome de Deus seja
santificado, que sua Magestade reine
em nfis, e que a saa vontade seja feita,
o es ifi rito não se embaraça com mais
nada.
Primeiro signal da santa liberdade
do espirito: não ser aferrado ás con­
solações; mas em fazendo o seu dever
permanecer na indifferença.
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Seguudo sigual : o coração, que tem


·
esta liberdade , não põe a sua affeição
nos exercicios espiritu aes, de sorte,
que se por e nfermidade, ou por obe­
diencia está impedido d'elles, não con­
cebe por isso pezar algum; bem que
sej a necessario amai-os m u i to; mas não
aferrar-se a elles.
Terceiro signal: não perder a soa a­
legria; porque nenhuma priv ação en­
tristece aquella, que não tem o seu co­
ração apegado a parte alguma.
Os effeitos d' esta liberdade são: uma
grande suavidade de espfrito; uma
grande doçura, e condesoend encia em·
'
todo, o que não é peccado; um humor
suavemente llexival uas acçi>es de toda
a v irtude, e carid ade. Exemplo: inter­
rompei uma alma, que é apegada ao
exercicio da m editação, vêl-a-heis sahir
com melancolia, afadigada, assombrada.
Uma alma, que tem uma verdadeira li­
berdade, sabirá, com um rosto sereno,
e um coração gracioso, ao lugar, onde

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está a pessoa importuna, que a incom·


modou ; porque todo é um , ou servir
a Deus meditando, ou servil-o suppor­
tand o o proximo ; uma cousa, e outra
é vontade de Deus ; mas o supportar
o proximo é agora necessario.
Os exercicios desta li herda.de são
todas as occasiões, e cous as , que acon·
tecem contra a. nossa inc li n ação ; porque
toda a pessoa, que nas suas inclinações
não é afe r r ad a , não se i mp acie nta,
quando é d'estas distrahida.
Esta liberdade tem doas vícios con­
tra.rios: a instabilidade, e a violencia,
ou a dissolução e a escravidão.
A instabilidade, ou dissolução é um
certo excesso de liberdade: na mais
pequena occasião deixamos a nossa
regra e o nosso loavavel costume ; e
com isto o coração se dissipa e s e
perde.
A violencia, ou escravidão é uma
certa fali. de liber dad e , pela qual o
esp írito está opprimido, oa de desgo_s to,
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ou de cólera., quando não póde fazer


aquillo que determina; ainda. que possa
fazer cousa melhor.
E' preciso observar duas regras, para
não tropeçar n'este Jogai·; e é que nin ·
guem d e ve já.mais deixar os seus exer·
cicios, e as regras communs das vir­
tudes, se não vir a vontade de Deus
ela ou tra parte. Ora. a vontade de Deus
manifesta-se de tres modos: pela ne­
cessida.de, pela obediencia e pela ca­
rid11de.
A segunda regra é, que, quando se ha
ele usar da liberdade por caridade, deve
isto ser sem escandalo e sem injustiça;
como, se eu sei, que seria ma.is util em
algum outro officio, do que n'aquelle, a
que estou applioado, não devo usar da
liberdade mudando; porque escandali·
saria, e faria injustiça; por quanto sou
obrigado a permanecer aonde a ohe·
diencia me pô:i:.
Dous ou tres exemplos d'isto. O santo
l'1udeal Borromeo era o me.is exacto,
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iullexivel e austero, que é possivel i­


maginar; que nilo bebia senão itgna, e
não comia mais que pão: em vinte e
quatro annos não entron senão duaR
vezes em casa de seus irmãos enfermos,
e duas vezes no seu jardim; e comtodo,
este espirito tão rigoroso comia muitaR
vezes com os suissos, parR os ganhar,
e não punha difficuldade alguma em
heber mais alguns copos com elles em
cada comida, além do qne tinha be­
bido obrigado da sêde. Eis e.Ili um rasgo
de santa liberdade no homem mais ri­
goroso d'esta idade.
O bispo Spiridião comeu carne n a
quaresma com u m peregrino meio morto
de fome, pare. lhe tirar ('I seu escrupulo,
não tendo outra coµsa que comer. Eis
alli ama caritativa liberdade d'um santo
homem.
E o padre Ignacio de Loyola em
quarta-feira santa comeu carne, pela
simples determinação do medico, que
o julgava conveniente, para uma pe-

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quena doenra, que elle tinha: um es­
pirito de violecia ter-se-hia feito rogai'
tres dias.
Mas, depois de tudo isto, quero a­
presentar-vos om sol, am verdadeiro
espirito franco, e livre de todo o apego,
e que não tem outra vontade, senão a
de Deus. 'renho por muitas vezes pen·
sado qual era a maior mortificação !].os
santos, de cuja vida tenho conheci­
mento, e acho que esta: S ..João Baptista
esteve no deserto vinte e cinco aonos;
Deus sabe quanto este coração estava
cheio do amor do seu Salvador desde
antes de nascer, e qae elle teria de­
sejado gozar de sua santa presença;
e não obstante sujeito á simples von­
tade de Deus, oontio(1a em fazer o seo
offi.cio, sem vir uma só vez para vêr
Nosso Senhor, e espera qoe elle o
venha procurar; depois d'isto, e depois
de o ter baptizado, nll.o segue os seos
passos; mas fica a fazer o seo offi.cio.
Oh Deus! qoe mortificação de espi·

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rito, estar tão perto do seu Salvado!'


e não o vêr ! 'l'êl-o tão proximo, e não
gozar d'elle ! E que é isto, senão ter
o seu espirito desa.ferrado de tudo, e

de Deus mesmo, para fazer a vontade


de Deus, e servil-o! Este exemplo snf.
foca o meu espírito com a sua grandeza.

CAPITULO II
QUE COU8A. SEJA. VIVER SEGUNDO
O ESPIRITO

Viver segundo o espirito, 6 alma


querida,� pensar, falla.r e operar con·
forme as virtudes, que estão no espirita,
e não segundo os sentidos e senti
m entos, que estão na. carne. Quaes são
as virtudes do espiritof São a fé, que
nos mostra as v irtudes totalmente ele­
vadas acima dos sentidos ; a. esperança,
que nos faz aspirar aos bens invisiveis;
a caridade, que nos faz &lllar a Deus
sobre tudo, ELO nosso pro:rimo, como
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nós mesmos, não com um amor sensual,


natural e interessado ; mas com um amor
puro, e solido, que tem o seu fnncla­
mento em Deus. Vêdes, 6 alma que­
rida' O espírito humano encostado á
carne faz que muitas vezes não nos
entreguemos bastantemente nas mãos
1le Deus, e tenhamos desconfianças.
O espírito sustentado sobre a fé es­
força-se no meio das difficuldades ;
porque sabe bem, que Deus ama, ·sup­
porta, e soccorre os misera.veis, com­
tanto, que esperem n'elle. O sentido
humano quer ter parte em tudo, o que
se passa ; e ama-se tanto, que lhe pa­
rece, que nada é bom; se elle se não
entremette n1isso, o espírito pelo con­
trario inclina-se a Deus, e diz muitas
vezes, que, o que não é Deus, para elle
não é nada ; e assim como por caridade
toma parte nas cousas, que lhe são com­
munioadas, assim tambem por abne­
gação, e hUJDildade deixa de boamente
a sua parte nas que lhe são encobertas.
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Viver conforme o espirito é amar con­


forme o espirito: viver conforme a
carne é amar conforme a carne ; porque
o amor é a vida da alma, assim como
a alma é a vida do corpo. Uma alma
é muito hum àna, muito agradavel, e
eu a amo ternamente ; ella tambem me
ama, obsequeia-me muito, e por isto eu
a amo reciprocamente. Quem nl'l.o vê
que eu amo conforme o sentido, e a
carnet Uma alma é grosseira, asper" e
incivil ; e comtudo, tião por prazer, que
tenha n'ella, nem por intererse algum,
mas por agrado de Deus, ea a amo,
procuro, sirvo e acaricio: este amor é
segundo o espírito ; porque a carne não
tem aqui parte . ,
Sou de. mim mesmo desconfiado, e
por isso desejára, que me deixassem
viver segundo esta inclinação. Quem vê
que isto .não é viver segundo o espi­
ritoT Não por certo, ó alma querida.
.A.inda que eu de meu natural seja
timido e apprehensivo, todavia quero
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l rahalllar por vencei· estas paixões na·


turaes, e pouco a pouco fazer bem o
que pertence ao ca�go, que a obediencia
dimanada de Deus me impoz. Qaem não
vê que isto é viver segando o espírito'
Minha querida alma, viver segando o
espirito, é fazer acções, dizer palavras,
e formar pensamentos, que o espirito
de Deus exige de nós. E quando eu digo
formar pensamentos, entendo os pensa­
mentos volante.rios. Estou triste, e por
tanto não quero fallar : tanto os carre­
teiros como os papagaios fazem assim.
Estou triste; mas visto que a caridade
requer que eu falle, fal-o-hei: a s pes­
soas espirituaes o fazem assim. Despre­
zam-me, e entristeço-me, tambem os
pavões e os macacos o fazem. Despre­
zam-me, e alegro-me d' isso; assim fa­
ziam os Apostolos: Viver, pois, segundo
o espírito, é fazer o que nos ensina a

fé, a esperança e a caridade, seja nas


cousas temporaes, seja nas espirituaes.

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CAPI1TLO III
D.A. DEVOÇÃO E AMOR DE DEUS

Pare. ter uma verdadeira devoção é


preciso guardar os mandamentos de
Deus e da Igrej a, que estão orde­
nados para todos os christãos . Além dos
geraes é preciso observar cuidadosa­
mente os particulares que cada um tem,
pelo que respeita á soa vocação; e todo
aquelle que não o faz, ainda que fizesse
resuscitar os mortos, não deixa de estar
em peocado e de ser condemna.do se
morre n'este estado.
Como, por exemplo, é mandado aos
bispos, que visitem, ensinem, tornem
a. pôr no bom caminho e consolem as
suas ovelhas: se eu gasto todo o anno
em oração, e ainda que j ej ue toda a
minha vida, se não faço isto, perco-me.
Fiiça uma pessoa milagres no estado
de religião, se não prestar a obediencia
devida aos seus superiores é peor que
um infiel ; e assim os outros.
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Eis-ahi, pois, duas i-lortes de preceitot1


que é preciso observ ar cuidadosamente
para fundamento de toda a devoção. Ora
esta devoção consiste em os observar
com promptidão e de boa vontade : ora
para adquirir esta promptidão é p re ·
ciso fazer estas considerações.
A primeira é, que Deus o quer assim:
6 moito j usto que façamos a sua voo·
tade ; porque Dão estamos n'este mundo
senão para este fim : e eomo podemos
nós dizer, que somos seus, se não
queremos accommodar a nossa von­
tade á. sua7
A segunda consideração é, pensar na
natureza. dos preceitos de Deus, qoe
são doces e soaves ; não só os gerses,
mas ainda os particulares da devoção.
Que é, po i s , o que os torna enfadonhos?
Nada na verdade, senão a nossa pro·
pria vontade, qoe qoer reinar em nós,
coste o que custar : n'nma p al a v r a, é
porque nós queremo!'! servir a Deus;
n11u1 �· no�!'!" vontBdA, e nl\o Á. snB.

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Deus uão quer sacrifi.rio nenhum


contra a obediencia: manda-me Deus
que sirva as almas, e eu quero perma­
necer na contemplação. A vida contem­
plativa é boa ; mas não com prejuizo da
obediencia : não nos é permittido esco­
lher á nossa vontade ; devemos fazer o
que Deus quer: e se Deus quer, que
eu o sirva n'uma cousa, oão devo querer
servil-o em outra. Deus quer que Saul
o sirva em qualidade de rei, e capitão,
e Saul, o quer servil' em qualidade
de sacerdote: não ha duvida, que esta
é mais excellente que a.quella; mas com­
tudo Deus não se paga tl'ella, e elle
quer ser obedecido: é a nossa v i l na­
tureza, que quer que seja feita a sua
vontade, e não a de Deus . Ora á. pro·
porção que nós tivermos menos de von­
tade propria, a de Deus será. observada
mais facilmente.
Deve-se ponderar que não ha vocação
alguma, que não tenha. seus enfadoe,
suas amarguras e dissabores ; e o que
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é mais, se e:rneptuarmos as almas, que


estão inteiramente resignadas na. von­
tade de Deus, cada nma quereria de
boa. vontade trocar a soa condição pela
das outras.
Quem tem febre não acha lagar
algum bom : não tem estado n'oma
cama um quarto de hora, quando dese­
jaria estar n'ootra : não é a cama que
faz isto ; mas é a febre, que atormenta
o corpo em toda a parte. Quem nã.o
tem a febre_ da vontade propria, con­
tenta-se com todo, comtanto que Deus
sej a servido; nada se lhe dá da. qua­
lidade, em que Deus a emprega : com­
tanto, que cumpra a soa divina vontade,
tudo para ella é um. Mas isto não é
todo ; é preciso não só fazer a vontade
1le Deus; mas para ser devota, é pre­
ciso fa.zel-a com alegria. Se eu não
estivera em tal condição, talvez que,
sabendo o que sei, não qoizesse estar
n'el l a. ; mas estando, não só estou obri­
gada a fazer o que esta penosa vocação
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exige, mas ainda o devo fazer cow. a­


legria, e devo comprazer-me, e ale­
grar-me d'isto ; por quanto isto é dizer
com S. Paulo, que cada um persevere
na sua vocação diante de Deus. E' pre­
ciso, que cada u m leve a sua cruz, e
se renuncie a si mesmo, isto é, a sua
vontade propria. E u desejaria isto, ou
aquillo, estaria melhor aqui, e acolá,
isto sã.o tentações; Nosso Senhor sabe
bem o que faz ; façamos o que elle quer,
perseveremos aonde elle nos pôz. Ora
para vos aj u d:ardes a isto, servi-vos
d' estas considerações: lembrai-vos todas
as manhãs da obediencia, que Nosso Se­
nhor exercitou para com seu Pai, e por
este modelo esfori,;ai-vos em adquirir
um grande amor da vontade de Deus.
Em segundo Iogar, quando estiverdes
nas cousas, que vos dão pena, e que
vos importunam, considerai, que os
santos fizeram com moita alegria outl'as
cousas maiores, e mais impertinentes,
e animai-vos com o seu exemplo.
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..... 28 -
Deveis reflectir muitas vezes, que
tudo, o que fazemos, toma. o seu ver·
dadeiro valor da conformidade, qoe
temos com a vontade de Deus; de tal
sorte, que, se, quando como, e bebo,
ll faço, porque é vontade de Deus, que
eu o faça, sou ma.is agradavel a Deu!'!,
do que se padecesse a morte sem esta.
intenção.
Deveis dizer frequentemente a Nosso
Senhor: (-!ue quereis, que eu faça 1
Quereis que vos sirva no mais vil
ministerio da casa 7 Ah! eu me tenho
ainda por muito feliz: como vos sirva,
não me dá cuidado em que. E passando
a.o particular do que vos afflige, dizei:
Quereis que eu faça tal, e tal cousa!
Eu a farei de muito boa vontade; e
1.l'este modo vos humilhareis muito.
Oh meu Deus, que thesooro adquiri­
reis! maior sem duvida do que pode­
ríeis crêr.
E' necessario fazer a nossa devoção
amavel, util, e agradavel a todos. Os
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- zg_

enfermos amarão a vossa devoj.}ão, se


por ella forem com caridade consolados:
amal-a-ha a vossa familia, se fordes
mais humana nas conjuncturas, qu e
se oft'erecem, mais affavel em repre­
hender, e assim no mais; os vossos su­
periores, se vos virem mais sincera
para com elles, e mais suave na obe­
<liencia, que lhes deveis; os vossos i­
guaes, se reconhecerem em vós .mais
franqueza, e mais favor, mais condes­
cendencia com as suas vontades, que
não forem contrarias á de Deus: n'uma
palavra, é necessario, quanto vos fôr
possivel, fazer a vossa devoção attra­
ctiva, e agradavel.
Na verdade, ó alma querida, não
deveis deixar nunca a santa commn­
nhão, por nenhuma cousa, que seja;
porque nada levantará melhor o vosso
espírito, do que o seu Rei, nada o in­
fiammará. tanto, como o seu Sol, nada
o ha de temperar tão suavemente, como
o seu balsamo.

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- 30-

Continuai a servir esta suprema bon­


dade com sinceridade, e doçura d'es­
pirito; pois que ella vos convidou com
tanto amor, e suavidade.
'rende as vossas aft'eições muito sub­
mettidas á de Deus · , nosso grande Sal­
vador, e guardai-vos de nutrir alguma
com qualquer pretexto, que seja, que
não seja sellada com o sello do Rei ce·
lestial : não ameis, se é possivel, a von­
tade de Deu s ; porque ella é conforme
a vossa ; mas amai a vossa, quando, e
porque ella é conforme a de Deus.
Ouidai em vos fazer todos os dias
mais pura de coração. Ora esta pureza
consiste em pesar todas as cousas, e
pesai-as pelo peso do santuario, o qual
não é outra cousa, senão a vontade de
Deus. Nft.o ameis nada com excesso, eu
vol-o supplico, nem as mesmas virtudes,
as quaes ás vezes perdemos, levando-as
a um ponto excessivo. 0' Deus, que fe·
licidade sujeitar humilde, e exacta­
mente todas as nossas aft'eições 1\ do
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- 3t -

mais poro amor de Deus ! Ora a gloria


d'este santo amor consiste em abrazar
e consumir todo, o que não é elle
mesmo, para redozi.r, e converter todo
em si: exalta-se sobre a nova anniqui·
lação, e reina sobre o throno da nossa
escravidão. Todo, o que se faz por amor,
é amor; o trabalho, sim; a mesma morte,
quando a recebemos por amor, não é
senão amor. Sêde uma ovelhinha, uma
pombinha, toda simples, doce, amavel,
sem réplica, nem retorno. Amai, alma
querida, aquelle bom Deus, que vos
tem amado tanto: amai-o nos vossos
retiros, que fazeis para lhe orar, e para
o adorar: amai-o, quando o recebeis na
santa communhão, e quando elle vos
consola: mas amai-o especialmente,
quando vos acontecerem enredos, im­
portunações, seccuras, tribulações, e
contradicções; porque assim vos amou
elle no paraíso ; m as ainda testemunhou
mais amor para oomvosco no meio dos
açoutes, cravos, espinhos, e trevas do
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-32-

Ualvario. Notai, que será se m pre ver­


dade, que aquelles, que pretendem ter
parte com .Jesus Christo glorificado,
primeiro devem ter parte com Jesus
crucificado.
O grande bem das nossas almas é
sermos de Deus, e o grandíssimo bem é
sermos só de Deus.
Quem é só de Deus, nunca se entris­
tece de cousa alguma, senão de ter of­
fendido a Deus ; e a tristeza que d'ieso
concebe, se converte numa doce, e pro­
funda, mas tranquilla, e socegada hu­
mildade, e submissão, depois da qual
se anima na bondade divina, com uma
doce, e perfeita confiança, sem melan­
colia, nem enfado. Quem é só de Deus,
não procura, senão a elle : e porque o
não é menos na tribulação, do que na
prosperidade, fica· se em paz no meio
das adversidades. Quem não é senão
de Deus, pensa nelle muitas vezes no
meio das contrariedades desta vida.
Quem não é senão de Deus, deseja, que
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-33-
todos sa.iba.m, que ella o quer servir, e
que se quer ensaiar em fazer os exerci­
cios convenientes para ficar unida com
olle. Sêde pois toda de Deus, minha
alma. querida, e não sejais senão delle,
não desejando mais, do que agradar-lhe,
e ás suas creaturas nelle, e por a.mor
<'lelle e segundo elle.

CAPITULO IV
QtJ ALIDADES QUE DEVE TER A
VEROAOEIRA OEVOÇÃO

Fazei particular profissão de nutrir


o vosso coração n'uma devoção intima,
forte, e generosa: digo intima, de sorte
que nada se faça por costume; mas
por eleição, e applicação da vontade;
e se alguma vez a acção exterior pre­
ceder a affeição interior, em razão do
costume, que ao menos a afi'eição R
Riga logo. Fazei sempre bem as vossas
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-34-
acções exteriores, e fazei que ellas
nasçam das interiores, bem como o
fogo produz a cinza. e a cinza nutre
o fogo.
É nccessario, além d'isto, que a de­
voção seja forte, primeiramente em sup­
portar as tentações, que.nunca faltam á.·
quelles, que sinceramente querem servir
a Deus.
Em segundo lugar, forte em supportar
a variedade d'espiritos, que se acham
na. congregação, que é tambem um
grande ensaio para os espil'itos fracos,
que ahi possam encontrar-se.
Em terceiro lugar, forte para sup­
portar a si mesmo nas suas imperfei­
�ões, sem inquietar-se, nem desanimar,
e para emprehender a correcção d'ellas,
e melhora perfeita.
Forte em combater as suas imperfei­
ções, e paixões.
Forte em combater as palavras, e
juizos do mundo, que não fazem mais,
que perturbar.
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- 35 -

Forte em conservar-se independente


•Vaffeições, amizades, e inclinações par­
ticulares, afim de nli.o viver segundo
ellas, mas conforme a luz da verda­
deira piedade. Forte em conservar-se
independente de ternuras, doçuras, e
consolações, que nos provêm tanto de
Deus, como das creaturas, para não
nos deixarmos prender destas.
Forte para emprebender uma guerra
espiritual contra as nossas más in­
C'linações, humores, habitos, e pro­
_
pensões.
Finalmente é preciso, que ella seja
generosa, para se não espantar das dif·
ficuldades; mas para pelo contrario au­
gmentar por meio dellas o seu valor;
porquant.o não é valoroso aquelle, a
quem falta o valor nos trabalhos.
Digamos com a esposa: Puxai por
mim, nós corremos após de vós no cheiro
!los vossos perfumes. O divino Amante
das nossas almas nos deixa muitas
'l""ezes, como enviscadas nas nossas mi·
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- 36 -

serias, para que saibamos, que a nossa


soltura provém delle ; e para que, quando
a possuirmos, nos custe cara, como um
cloro precioso da. sua bondade. Diga­
mos-lhe pois: Nós corremos após de
vós ; porque, ainda que não corremos,
basta que, ajudando-nos Deus, cor­
reríamos.
Mas guardai- vos de vos desprezardes
reciprocamente : seja Martha activa;
mas não censure a Magda.lena : con­
temple a Magda.lena : mas não despreze
Martha ; porque Nosso Senhor defen­
derá aquella, que for censurada. Cos­
tumai-vos a ter um coração docil, e
flexivel, humilde, e facil em conde!'!·
cender em· tndo, o qne fôr licito, e em
mostrar em tudo a obediencia, e a
caridade, para imitardes a pomba, que
recebe todos os esplendores, que o sol
lhe llá. Beruaventurados os corações
flexiveis, porque nunca quebrarão.

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-37 -

CAPI'J'TJLO V

EFFI<:l'l'OS DO AMOR DE DEUS

Não fazer cousa algnma, senão para


gloria de Deus, e por seu santo amol':
d'aqni procedem o desprezo do mun do ,
e o esquecimento de s i mesma, o des­
terro de todos os vícios, e o concnrso
de todas as virtndes, a diminuição de
toda a imperfeição, a m odestia na pre­
sença, a doçnra no fallar, a affabilide.de
na conversação, ., respeito do rosto, a
simplicidade do coração, a mansidão
ne.s iojnrias, a humildade nos louvores,
a indifferença nas consas propostas se
não ha me.is honra de Deus nnma, do
qae na outra; a resignação nas adversi·
dades, a paciencia nos trabalhos, a paz
no meio das pertnrbações, a segul'ança
nos perigos, a alegria nas enfermidades,
o fervor n as orações, a perseverança nas
meditações, o conten tamento n a cruz.
Oh! que bella cousa é, não vível',
senão em Deus, não trabalhar, senão
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-38 -

em Deus, não se regosijar, senão em


Deus ! Daqui em diante, mediante a

graça de Deus, não quero mais ser nada


a n ingoem, nem que ninguem me seja
nada, senão nelle, e por ell�: eu procu­
rarei sempre contemplar as almas dos
proximos no sagrado peito do Salvador,
para me desfazer em doçura, e suavi­
dade para com elle. Ah! quem con­
templa o proximo fóra dalli corre risco
lle o nãQ amar, nem pura, .nem cons·
tante, nem igualmente: mas a.Ui, mas
uaquelle lugar, quem o não amaria,
quem o não supportaria, quem não sof­
freria as suas imperfeições, quem o a­
charia molesto, ou enfadonho! Elle a.Ui
está., e proximo, elle alli está. no seio e
no peito do divino Salvador; elle alli
está. como muito amado, tão amavel,
que o Amante morre d' amor por elle;
Amante, cujo amor está. na sua morte,
e a sua morte no seu amor.

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- 39 -

CAPITULO VI
DO A.llOR DO PROXJl\lO

Minha querida alma, não amamos nós


o bom Jesus! Ora, se o amamos, apas·
cent�mos as suas ovelhas, e os seus
cordeiros; eis aqui o signal do amor
fiel. Mas com que devemos nós ali­
mentar as suas ovelhas queridasf Com
o mesmo amor; pois ou ellas não vivem,
ou vivem d'amor. Mas como as devemos
amarf O glorioso S. Bernardo diz, que
a medida de amar a Deus é amal-o sem
medida, e que no nosso amor não deve
haver limite algum; mas devemos dei­
xai-o estender os seus ramos tão longe,
quanto lhe fôr possível. O amor de Deus
deve ter este primeiro lugar, depois
o amor do proximo: devemos amar
o proximo com toda a estensão do
nosso coração, e não nos contentarmos
com amal-o, como a nós mesmos, como
os mandamentos de Deus nos obrigam;
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- 40 -

mas devemos amal-o mais, do que nós


mesmos, para observarmos as regras da
perfeição evangelica, que exige isto de
nós. Amai-vos uns aos outros, diz Nosso
Senhor, assim como eu vos tenho am a.do :
isto é muito cousideravel ; porque isto
quer dizer, mais do que a. vós mesmos.
E assim como Nosso Senho1· sempre nos
preferiu a si mesmo , e o faz ainda todas
as vezes, que o recebemos no San­
tissimo Sacramento, fazendo-se nossa
vianda, assim tambem quer, que te­
nhamos um amor tal, que anteponhamos
sempre o proximo a nós: e assim como
elle fez por amor de nós tudo, o que se
póde fazel', excepto condemnar-se, pois
ilue, porque não podia peccar, que é
a unica cousa, que conduz á condem­
naoão, o não podia fazer ; quer tambem,
e a regra da. per feição o exige, que fa.
çamos todos uns pelos outros tudo , o
que pudermos, excepto condemnar-nos;
Illas fóra disto, a nossa. amizade deve
ser tão solida, e forte, que jáme.is
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- 4{ -
recosemos fazer, ou soffrer qualquer
cousa, qoe seja, por amor do nosso
proximo.
Ora esta cordial amizade deve t:iel'
acompanhada de duas virtude:s, uma
das quaes se chama a.tfabilidade, e outra
boa conversaç6.o: a affabilidade é aquella,
que derrama uma certa suavidade nas
occupações, e communicações sérias,
que temos reciprocamente; a boa con­
versação é aquella, que nos faz gra­
ciosos, e e.grada.veis nas recreações
menos sérias, que temos com o nosso
proximo.

CAPITULO VII
DA IMITAÇÃO Dl� NOSSO SENHOR

É v.erdade, 6 alma querida, que ne­


nhuma cousa nos póde dar uma mais
profunda tranquillidade neste mundo,
do que o contemplar frequentemente
Nosso Senhor nas soas afllicções. Alli
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- 42 -

veremos tantos desprezos, tantas ca­


lumnias, tanta pobreza, tanta indi·
gencia, tantas abjecções, pena.e, tor·
mentos, nudezas, injur ias , e tanta
amargura de toda a sorte, c;iue· em com­
paração de tudo isto, conheceremos,
que não temos razão em queixar-nos,
quando nós succede qualquer cousa, que
seja. Minha alma querida, um coração,
que a.ma muito Jesus Christo crucifi­
cado, a.ma. a sua morte, as suas penas,
os seus tormentos, os escarro s, com que
o sujaram, os vituperios, que lhe fizeram,
as suas fomes, suas sêdes, suas ignomi­
nias, e quando lhe acontece herdar
alguma pequena parte d'estas cousas,
salta de prazer, e as abraça amorosa­
mente.
1'odos os dias, fóra da oração, deveis
representar-vos Nosso Senhor entre os
trabalhos da nossa redempçli.o, e consi­
derar, que felicidade seria para vós o
participardes d'elles; vêr em que oc­
casião vos póde vir este bem, isto é,
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- 43 -

as contradicções, que podereis ter em


todos os vossos desejos, e desígnios,
especialmente naquelles, que vos pa­
recem mais justos, e depois com um
grande amor da cruz, e da Paixão de
Nosso Senhor, deveis exercitar-vos com
Santo André, dizendo : .. 0' boa cruz,
tão amada de meu Salvador, quando
me recebereis vós nos braços, para que
eu imite meu mestre' ,.
O amor paro de Nosso Senhor nunca
se pratica tão inteiramente, como no
meio dos tormentos ; porque amar a
Deus na doçura, os meninos pequenos
tambem fariam outro tanto ; mas amai-o
na amargara, eis-ahi o effeito da nossa
amorosa fidelidade.· Dizer, viva Jesus,
no monte Thabor, S. Pedro, bem que
grosseiro, teve valor para isso ; mas
dizer, viva Jesus, no Calvario , isto é só
para a Virgem, e para o amoroso fiel,
que lhe foi dado por filho.
O coração, que se une a Deus, nilo
póde deixar d'amar, e d'aceitar emtim
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- 44 -

suavemente as frechas, que a mão de


Deus dispára sobre elle. As palavras,
que Deus diz ao coração aftlicto, que
recorre á. sua bondade, são mais doces,
que o mel, mais suaves, que o balsamo
precioso para curar toda a @orte de
chagas.

CAPITULO VIII

EXEROIOIO SOBRE A. IMITAÇÃO DE


NOSSO SENHOR

Podereis muito bem tirar o motivo


do amor santo de todas as acções, que
o amabilissimo Jesus praticou durante
o curso de sua vida santíssima, d'este
modo. Quando se offerece alguma oc­
casião de exercitar a virtude, vêde bre ­
vementecomo Nosso Senhor a exercitou ,
em quanto vivia no mundo entre os
homens, e depois animai o vosso co·
ração com uma Rmorosa imitação. Ora
sus, direis vós, vamos, sigamos, imi ·
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-45-
temos o bom Jesus nosso Mestre. Por
exemplo, se é necessario orar, dar aos
pobre!!, dar um bom conselho, estar na
solidão, entrar em conversação, soft'rer
alguma cousa; lembrai-vos que Nosso
Senhor em diversas occasiões fez tudo
isto; .e depois excitando a vossa alma,
direis: Ah ! quando não houvesse outra
razão para fazer tudo isto, basta-me,
que o meu querido Mestre me tenha
mostrado o caminho: e isto se póde fazer
com um simples lance de olhos, e com
um unico suspiro: Eu, Senhor, e!l vos
pertenço.

CAPITULO IX
QUE f'OUSA "f: RELIGIÃO

O most�iro é um hospital de enfermo�


espiritnaes, que desejam ser corados;
e que para o serem se expõem a soft'rer
a sangria, a l anceta, a navalha, a tenta.
o fPrro, o fogo, e todas as amargnraEI
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- 46 -

dos remedios. 0' minha querida alma,


resolvei-vos bem a isto, e não deis
ouvidos a tudo o que o amor proprio
vos disser em contrario; wa8 tomai
dôce, amavel e amorosamente esta santa
pratica, e esta bemdita resolução, ou
morrer na cura, ou ser corada: e pois
que eu não quero morrer espiritual­
mente, quero ser corada; e para ser
curada, quero soffrer a cura, e a cor­
recção, e rogar aos medicos, que nllo
poupem o que eu devo soffrer para
sarar.
E guardai-vos muito de tomar oeca­
sião de vos perturbardes, de não po­
derdes tão depressa cozer a di versidade
dos sentimentos dos vossos humores.
Sabeis vós bem o que é o mosteiroT É
a academia da correcção exacta, onde
cada alma deve aprender a deixar-se
tratar, aplainar e polir; afim de que,
quando estiver bem lisa e aplainada,
possa ser mais j astamente collocada
com a vontade de Deus. O signal evi-
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- 47 -
dente da perfeição é querer a emenda;
porque o principal frncto da humil·
dade é o que nos faz confessar, qnc
temos necessidade de correcçll.o.

CAPITULO X
DA MORTIFICAÇÃO

Minha alma, o amor proprio não morre


jámais, senão com os nossos corpos! É
necessario, que sintamos sempre os
seus ataques sensiveis, ou as suas pra­
ticas secretas. Emquanto estamos neste
desterro basta que não consintamos
com um consentimento voluntario, deli­
berado, determinado, e continuado; as
inclinações molestas, que vós tendes,
são occasiões preciosas, que Deus vos
dá, de exercitardes bem a vossa fideli­
dadepara com elle, por meio do cuidado,
qne tendes de as reprimir: e logo que
sentirdes que ellas se tem desencami­
nhado, reparai o erro com alguma acção
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- 48 -

contra.ria, de doçura, humilda.de, e ca­


ridade pa.ra com as pessbas, a que
tendes repugnancia de obedecer, e de
vos submetter: porque emfim, já que
conheceis por que parte os vossos ini­
migos vos apertam mais, deveis res istir,
e fortificar-vos bem por esse mesmo
lugar : deveis sempre a.baixar a cabeça,
e caminhar ao revez de vossos cost um es
ou i n clinações, recommendar isto a
Nosso Senhor , e em tudo e por tudo,
adoçar-voe, não cuidando quasi noutra
cou sa., senão na pretensão d'esta vi­
r.toria.
Para isto é que devemos crucificar em
nós todas as nossas affeiçõ es , e espe­
cialmente as que são mais vivas, e que
movem mais , por meio de um continuo
11.frouxamento, moderação das acções,
que procedem d' e1las ; afim de que se
nilo façam por ímpeto da nossa natureza
impaciente, nem ainda por nossa von­
tade ; mas sim pela do Espíri to Sant<1:
e sobretudo devemos ter um coração
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- 49 -

dôce e amoroso para com o proximo, e


particularmente, quando elle nos é de
peso e de desgosto : porque então não
temos nelle outro motivo para o amar,
senão o respeito do Salvador, o qual
sem dnvida faz o amor tanto mais excel­
lente, e digno, quanto elle é mais puro,
e limpo de condições caducas.

CAPITULO XI

CONTRA O .TUIZO PROPRIO

Perguntais-me, minha alma querida,


se o estar enjeita á opinillo propria
é uma cousa muito contraria á. pel'·
feiçãoT Ao que respondo, que estar ou
não estar sujeito a ter opiniões proprias,
é ama cousa, qne não é nem boa nem
má, tanto assim qne isto é uma c_ o usa
natural. Cada um tem opiniões pro­
prias; mas isto não nos embaraça o
chegar á perfeição, comtanto que nos
não aferremos a ellas, o u que não

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- 50 -
as amemos , porque só o amor das
no s s as proprias o pi niões é qne é i n fi n i­
ta.mente contrario á perfeição : e isto é
o q u e eu tenho tant.as vezes dito, que o
a.mor do n osso proprio juízo, e a esti­
m açã o que d ' elle faze m o s , é a c ans a de
haver tão poucos p er fe i tos . Vós me
dizei s : Qoe se deve pois fazer pare. mor­
ti ficar esta incl i n açilo t É n ecessario
tirar-lhe o ali mento. Vem-vos ao pensa­
mento que não se faz bem em obrar
d' este modo, e que seria m elhor obrar
como vós tendes concebido T Desviai-vos
d'este pensamento, dizendo no vosso
i n terior : Ah ! que tenho eu de vêr com
tal cousa, se ella me n ão é p rej u dicial !
É sempre mni to melhor desviarmo-nos
Riroplesmente, rlo qu e procurar razões
para n o spe rsu adirmo ,i
n o nosso espírito,
que fazemos mal : por q u e em vez de o
fazermos, o nosso e nte ndim e n to , qua
está pre o ccupado d o seu joizo parti­
cular, nos e nganaria ; de sor te que en1
vez de destruir a nosSB opinião, 0011

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- !it -
il.aria. rRzões para a sustentar, e fazer
conhecer por boa. �} sempre mais nt.il
df"sprezal-a., se m a qnerermos contem­
pl a r, e Jançal · a de nós tão p rom pta­
m ente, q n ando a conh e ce mos, qnanto
menos sabemos o qne ella quer di zer .
Deve mos, quando por cari dade, 011
porobediencia somos obrigados a propôr
o nosso parecer ácerca da materi a , de
que se q u estiona, fazel-o s im p l es m ente ;
mas q u anto ao ma.is devemos fazer-nos
indifferentes, se será 011 não aceito : ás
vezes é ta mbem necessario dizer o que
nos pareõtl das opiniões dos outros, �
mostrar as razões em que funda m o s RS
nossas ; mas isto deve-se fazer m odesta
e h n m i l <l emente, s e m desprezar o pR·

recer dos outros, nem contestal-o para


fazerrqos a �m i ttir os nossos. Talvez per­
gun tarei s, se não é nutrir e sta im per­
feiçlo, procurar fa.llar ao depo is ti.cerca
il.o no880 sentimento com aquelJas que
foram do nosso parecer, quando não
se trata já de tomar resolução, por

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- 52 -

estar já decidido o que se deve fazer :


sem duvida que isso seria natril-a e
manter a nossa inclinação, e por conse­
quencia cahir na imperfeição ; porque
isto é um verdadeiro signal de qae nos
não submP.ttemos ao parecer dos outros
e que preferimos sempre o nosso parti­
cular : pois estando decidido o q ne se
propoz, não devemos fallar mais nisso,
nem tambem pensar, exceptnando se
fosse uma coasa notavelmente má ;
porque nesse caso se podesse achar-se
alguma invenção para impedir a exe­
cução, on pôr remedio, deveriamos fa ­
zei - o o mais caritativa. e insensivelmente
qne fosse possivel, afim de não per­
turbarmos ninguem, nem desprezarmos
o que elles tivessem achado bom.
O unico remedio para curar o j uizo
proprio é desprezar o qae nos vem ao
pensamento, appl icando- nos a alguma
coasa melhor : porque se quizermos dei­
xar-nos ir a dar attenção a todas as opi­
niões, que elle nos suggerir nos diversos
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- 53 -
encontros, e occasiões, que succederá
senlo uma continua distracção, e obs­
tacnlo das cousas mais a teis, e que são
proprias da nossa profissão, fazendo - not1
incapazes, e impossibilitando- nos para
fazera santa oração ; porque tendo dado
ao nosso espírito a liberdade de se dis­
tr�hir com taes trapaças, elle penetrará
sempre mais adiante, e nos produzirá.
pensamentos sobre pensamentos, opi­
niões sobre opiniões, e razões sobre ra·
zões, que nos importunarão grande­
mente na oraçlo. Por quanto a oração
não é outra cousa mais, do que urua
applicação total do nosso espírito com
todas as soas faculdades a Deus : ora
elle, estando cançado de indagar cousas
i nutei s , faz - se inteiramente menos
habil, e apto para a consideração dos
mysterios, sobre que queremos fazer
oração.
Verdade é, que nós não podemos im­
pedir o primeiro movimento de compla·
cencia, que nos vem, quando a nossa
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- 54 -

opioião é approvada e seguida ; porque


i sso não se póde evitar : mas não de·
vemos demorar-nos nesta complaceocia;
devemos louvar a Deus, e depois passar
adiante, t1em nos embaraçarmos com a
complacencia, nem tão pouco com um
pequeno sentimento de dôr, que uos
viria, se a nossa opinião não fosse s.e·
guida, e achada boa.
Eis ahi pois o que tinha para vos dizer
ácerca da primeira pergunta, na qual
vos tenho ensinado, que o ter opiniões
não é cousa contraria á perfeição ; mas
sim o ter amor ás nossas opiniões, e por
oonsequencia estimai-as. Porque se nós
não as estimassemos, não lhe teríamos
amor ; e se não as amassemos, não se
nos daria, de que fossem approvadas,
e uão diria.mos com tanta promptidão :
Julguem os outros, o que quizerem ; mas
quanto a mim. Sabeis vós o que quer
dizer esse quanto a mimf Nada mait1,
do que : Eu não me hei de sujeitar, assim
ltei de ser firme na minha resol ução. e
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- 55 -

na minha. opinião. Isto, como muitas


vezes tenho dito, é a ultima cousa, que
deixamos, e corutudo é uma. das cousas
mais necessarias de se deixar, e renu n ­
ciar, para adquirir a verdadeira per­
feição ; porque doutra sorte não adqui·
riremos a santa humildade, a qual nos
impede, e nos defende de fazermos de
nós estimação alguma, nem de tudo, o
que de nós depende ; e por tanto se não
temos em grande recommendação a pra­
tica d�ta virtude, pensaremos sempre
ser alguma cousa melhores do que somos.

C APITULO XII
DAS DIFFICULDADEB

E ' por ventura preciso, que vos i n­


quieteis, m inha alma querida, por causa
das difficuldades, que vos acontecem !
E' preciso, que m udeis d e postura t
Oh Deus ! não. Isto é o demonio que
auda e m roda do nosso espírito, esqua-
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- 56 -

llr in han do , e v olteando para vêr se acha


alguma. p o r ta aberta. Isto fazia elle
tambew oow Santo A n tão , com Santa
Catharina, e com uma i nfinidade dou­
tras uoas almas. Ah que ! Devemos af­
fligir-nos por tudo istof Não : Deus fará
levantar o cerco, quando fôr tem po . Oh
alma de pouca fé, que é o que vós temeis7
Nãu, nllo te m ai s : vós caminhais por
cima do m ar, ent1·e o vento, e a.s vagas;
mas caminhais com Jesus Christo, elle
vos dará a mão : ass eg urai - a bem, e ca­
minhai al egrem ente ; nlo philosopheis
ácei·ca do vosso mal. Não, Deus não vos
desawpara1·á., emquanto vós, p ara o não
perderdes, viveis nas v ossas santas re­
soluções. Vire-se embora o m ondo, es­
teja tudo em trevas, em fumo, em de­
sordem ; mas Deus está. comvosco. Mas
se Deus habita nas t revas , e na mon ­
tan ha de Sião to d a cheia de fumo, e
coberta de trovões, de rel am p agos e de
tumulto, não estaremos nós bem ao pé
delle T Sew duvida.
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- 57 -

Não sejais pois terna para comvosco


mesma ; as mães ternas estragam os
seus filhos : não sejais chorona., nem
queixosa ; não vos espanteis das impor­
tunações, e violencias, que sentis ; Deus
o permi tte para vos fazer humilde com
a verdadeira humildade, a.bjecta, e vil
aos vossos olhos. Isto não deve ser
combatido, senão com movimentos do
coração para Deus, com diversões do
espírito, da creatura para o Creador,
e com continuas atfeições da santis­
sima b1Jmildade, e simplicidade do
coração.
Sêde igual para com todas as pe1:1-
s.oas ; honrai-as, e nunca lhes causeis
o menor desgosto ; e não vos espanteis
das difficuldades, que se encontram ;
porque, al ma querida, que se p6de ter
precioso, sem um pouco de cuidado,
e de trabalho t Sobretudo trabalhai,
quanto poderdes, por supportar a parte
superior de vosso espírito, não vos
occupaudo com os sentimentos, e coo-
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- 58 -

solações ; mas com as resoluções, pro­


positos, e movimentos do cora�o, qne
a fé, a regra, os superiores, e a raião
vos inspirarem.

C A PITULO x m

DAS E N FERM I DADES

Pelo que respeita ais vossas enfermi­


dades, é preciso levar devota, e ami ·
gavelmente, a cruz de Nosso Senhor :
é preciso ser igualmente franca em
pedir, e tomar os remedios ; paciente,
doce, e valorosa em s npportar o mal.
Qnem pQde conservar a doçnra na
meio das dores, e desfallecimento, e
a paz entre os embaraços, e multipli­
cidade de occupações, chegon q u a.si á
perfeição.
Não façais longas orações no meio
das vossas enfermidades ; mas fazei que
as vossas enfermidades mesmo sejam
11 m a orac;ão, o ft'erecen d o a s áqaelle, que
-

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- 59 -

amou tanto as vossas enfermidades, que


uo dia das suas bodas, e do regosijo do
seu coração, se coroou dellas, e dellas
se glorificou.
Oh ! o amor sagrado vos ensinará., que
deveis, á i mitação do grande Amante,
estar na cruz com humildade, como
indigna de soffrer por Aquelle, qne
tanto soffren por nós, e com paciencia,
para não desej ar descer da cruz,
senão depois da morte, se assim for
vontade do Pai Eterno. E como po·
demos nós testemnnhar a verdadeira
fidelidade, qne devemos a Nosso Se­
nhor. senão entre as tribulações, e
contradicções, e no tempo das re·
pognancias T Esta vida mortal é de tal
sorte, que nos é preciso comer mais
absinthio, que mel.
Perguntais-me conío podereis servir a
Deus nas vossas enfermidades ! Ahi é
onde o podeis servir ainda melhor, offere ·
cendo-lhe os vossos trabalhos. Oh I que
grande gloria a de padecer bem 1 Qnando
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- 60 -

Nosso Senhor esteve na cruz, foi de­


clarado Rei pelos seus mesmos inimigos ,
e as almas, qoe estão na croz são de­
claradas rainhas. Não sabeis de que os
anjos nos tem invej a f Por certo que de
nenhuma outra cousa, senão de que nós
podemos padecer por Nosso Senhor, e
queellesj ãmais padecerão cousa alga ma
por elle. Mas sêde nas vossas enfermi­
dades, como Job nos seus trabalhos,
do qual está. dito : Em todas estas
cousas não peccoo ; mas esperou uo
seu Deus. A nimo, ó alma querida :
vêde o vosso esposo, o vosso Rei,
como está coroado de espinhos, e todo
lacerado sobre a cruz. Considerai que
a corôa da esposa não deve ser mais
suave, que a do esposo; assim diz elle :
A minha amada entre as outras filhas
é a rosa entre os espinhos. Este é o
laço natural desta flor, este é tambew
o mais proprio do esposo : acceitai mil
vezes no dia essa cruz, e beijai-a com
bom coração por amor daquelle, que
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- 61 -
vol-a envia. Men Deus, como v6s sereis
eternamente feliz, se soffrerdes por
De us esse pouco de males, que elle vos
envia ! Representai-vos muitas vezes o
Salvador crucificado bem defronte de
vós, e considerai, qual soffre mais
um pelo outro, e achareis o vosso mal
muito menor.
Que cuidais vós qne é o leito da tri­
bnlação T Não é outra cousa mais que a
escola da humilda.de : nelle aprendemos
as nossas miserias e fraquezas, e quanto
somos vãos, sensíveis e fracos. Ora
bem, minha alma, no leito da vossa
enfermidade tereis descoberto as im­
perfei ções da vossa alma.
Um dos grandes proveitos da afll icção
é de fazer-nos vêr o nosso nada, mas
não devemos, minha alma, turbar-nos
por isso ; não sem duvida ; mas de­
vemos podar, e aperfei9oar mais o
nosso espírito e recorrer a Deus.
Não vos aftlijais de estar doente sem
meditação : porque as tribulações de

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- 62 -

Nosso Senhor n!lo sã.o menor bem , do


que meditar : não cert.amente ; porque
é melhor estar na cruz de Nosso Senhor,
do que considerar nel la sómente, e eof­
frer com paciencia todos os incom­
modoe que se encontram na enfermi­
dade, sem vos queixardes, nem dardes
lngar ás vossas paixões, que então se
manifestam por pouca occasillo. Acon·
eelho-vos que nas vossas enfermidades
voe exerciteis muito no amor da a.ma­
hiliesima vontade de Deus, e na a.bne­
ização doe contentamentos exterioreEI,
na doçura, nos desgostos : este Rerá o

mai s excellente i,iacri ficio que podereiR


fazer.
Sêde firmé, e pratica.e nllo só o amor
fiel, ruas o amor terno, doce e sp.ave
para com as pessoas que estão ao redor
de vós : porque digo pela experiencia
que tenho, que nã.o nos t.irando a en·
fermh:lade a caridade, todavia nos tira
a soa.vida.de para com o pro.s:iruo, se
nos não aeantelamos.

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- 63 -
Pelo q ue toca ás vossas enfermidades,
tanto do corpo como do es pirito , de­
veis snpportal -as do cem en te, humilhan­
do-vos mnito diante de Denl!! , sem m e ·
lancolia, nem cobardia n e nhuma .

C A P I T U LO X I V

DAS CALUllfNIAS

Pelo que respeita ás c alnm nias , o


melhor mei o de reparar as rninas que
ellas fazem, é desprezar as li ngn as que
são instrumentos d.'ellas, e r espo n ­
der-lhes por meio d'nma santa e mo­
desta co mpaixão . A honra das pess o as
de hem está na prot.ecção de D e us , que
al gu mas vezes permitte que ella sej a
abalada, para nos fa ze r exercitar a pa­
ciencia ; mas nunca a deixa d er ribar , e
levanta-a p ro mp tame nté .
Tendes razão em não vos importar do
que dizem de vós. Quem é de Deus, não
deve pensar na soa repntaçll.o ; ist.o é

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- 64 -

i mpertinente. Qnanto a mim, diz Dadd,


eo soo abjecto e desprezado, e não me
tenho por isso esquecido das vossas
justi ficações. Disponha Deus da nossa
vida, e da nossa estimação, e da nossa
honra, como fôr soa vontade ; pois que
todo é sen. Se o nosso desprezo serve á
soa gloria, não devemos nós gloriar-nos
de sermos desprezados! Eo me glori o ,
dizia o A postolo, nas minh a s enfermi­
dades, a.fim de que habite em mim a
virtude de Jesus Christo. A humildade,
o consentimento e o desprezo.
Minha alma, guarde.e-vos muito de
corresponder aos que vos desprezam,
e faliam assim, senão por uma mui
invariavel humildade, doçura e lisura
d o coração : não vos defendais de ne­
nhum modo, minha alma mnito que­
rida : isto si.o e alavras proprias do E s ­
pírito Banto p o r S. Paulo. Algumas
vezes ha entre os servos e servas de
Deus tentações ; se nós estamos ani­
mados de amor, nós as supportaremos
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- 65 -
em paz. Deixae dizer todo o mundo o
qoe elle qoizer ; mas em somma, quem
mais amar, mais amado será ; e quem
fôr mais amado, será. mais glorificado :
amae bem a Deus, e por amor d'elle
t o das as creaturaa, e especialmente
aqoellas qoe vos desprezam : e não vos
afftijais, trabalhae em humilda.de e o
nosso Deus será. a vossa corôa.
E não vos inquieteis com as calumniaa ;
mas sabei, que sendo a vossa alma boa
e bem resignada nas mãos de Nosso
Senhor, todas as sortes de taes ataques
se dissiparão com o vento, como fumo ;
e quanto mais forte fôr o vento, mais
depressa desapparecerá.
Com nenhum remedio se cora tão
bem o mal da calumnia, como com a
diaeimulação, ou desprezando o des·
prezo, e mostrar pela nossa firmeza, que
os seus ataques não podem impecer-nos.
Ora pois, minha querida alma, quero
dizer-vos ama palavra que S. Gregorio
dizia a om bispo afll icto. Ah 1 diz elle,
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- 66 -

se o vosso coração estivesse no céo, os


ventos da inquietação não o moveriam
de modo nenhum : renuncie elle ao
mundo, e nada do que se passar da
parte do mundo lhe poderá. impecer.
Lançae-vos aos pés do Crucificado, e
vêde quantas injurias elle recebe : sup·
plicae-lhe pela mansidão, com que elle
n.s recebeu, que vos dê a força de sup·
portar esses pequenos motivos, que,
como a servo seu, vos cahirão em sorte.

C A PITULO XV
OOMO DEVE:\-I OS PORTAR-NOS Q U A N DO
NOS SUCCEDEM CONTRADICÇÕES.

Quando \'OS acontecerem contradi­


cções, ou afflicções da parte de alguern,
tende cautela de nll.o vos entregar ás
queixas; mas constrangei o vosso co ·
ração a soffrer tranquillamente; e se
vos succeder algum impeto de irnpa·
oiencia, logo que o advertirdes, tornae

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- 67 -
a pôr o vo88o coração em paz e 11uavi·
dadP, Deos ama as almas, que estão
ngitadas das ondas e das tempestades,
comtanto que recebam da sua mão o
trabalho, e como valentes guerreiros
procurem guardar a fidelidade entre os
assRltos e os combates.

C A P ITULO XV 1
DA PAClENOJ A

Costomae pouco a pouco a vivacidade


do vosso espirito á pacienoia, mansidão,
humildade e affabilidade, no meio das
parvoices, meninices e imperfeições de
uma grande parte da homanidade, que
é terna comsigo mesma, e inclinada a
molestar ao re<lor dos ouvi dos de seu
1noximo.
Entretanto vivei totalmente para
Deus; e pelo amor que elle vos tem,
sopportae as vossas affiicções. Final­
mente servir bem a Deus, não é estar
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- 68 -
sempre na consolação, sempre em sna­
vidade, sempre sem aversão, nem re­
pugnancia para o bem ; porque por esta
conta mnitos grandes santos não teriam
servido bem a Deus. Ser.vir a Deus é
te r caridade com o proximo ; ter nB
parte superior do espirito uma invio·
lavel resolução de seguir a vontade
de Deus ; ter uma humilissima humil·
dade e simplicidade para se confiar
em Deus, ·e levantar-se tantas vezes,
como se tem cabido ; soffrer-se a si
nas soas abjecções, e support.ar aR
out.ras nas soas imperfeições.

C A P I TU L O XV I I
O.AS TENTAÇÕES
De nenhum modo devemos responder
:\R te n taçõ e s , nem m o strar que ouvimos
o i nimigo . Se elle faz ruido no vosso

i n terior, tudo é um, pacienci a : deveis


prostrar-voR diante de Dens, e perma-
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- 69 -

necer aos sene pés ; elle ouvirá. bem,


qne vós quereis o sen soccorro, airida
qne não possais fallar. Não voe occu­
peis em arrazoar com o demonio, elle se
enfadará de gritar, e vos deixará em
paz. A h ! dizia Santo Antão, já. eu vos
vejo ; mas nll.o vos considero. Não,
minha querida alma, contemplemos o
nosso Salvador, que pos espera da parte
de lá de todos esses rui dos do inimigo, es ·

peremoe o seu eoccorro ; é para isso, que


elle permitte que as suas illueõee nos
façam terror : e deixemo e correr para
aqui, e para alli os phantasmae das ten·
taçõee ; interrompam ellas o nosso ca­
minho, quanto qnizerem : é bom signal,
quando o inimigo toca a caixa, e faz
bulha á porta ; porque é signal de que
não é delle aquillo que pretende. Notae
isto, para não entrardes em escrupulo.
Não vos occupeis tambem em combater
as tentações qne vos acontecerem, deba­
tenft.o ou disputando com ellas ; mas vi ·
rando e levantando simplesmente o vosso
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- 70 -

coração a Jesus Ohristo crucificado,


como se por amor fosseis beijar-lhe
o lado ou os pés. Nonca vi tentação
mais manifesta do que esta : Quebrar
os votos para jejuar : pensar que pres­
tamos para a solidão, sem servirmos
para a congrega9lo : querermos viver
na solidão , para melhor vivermos com
Deos : querermo!\ absoluta posse da
propria vontade, para melhor fazermos
a vontade de Deus. Qoe chimeras são
estas! Póde uma inclinação, oo para
dizer melhor, uma phantasia, e ima­
ginação melancolica, e extravagante,
desconfie.de., desgostosa, aspera, a.mar­
gosa, teimosa ser uma inspiraçlot Que
contra.dicção ! Cessar de louvar a Deus,
e calar-se por enfado nos officios di­
vinos, que a santa Igreja ordena,
porque o não podemos louvar a om
canto ! Qne extravagancia ! Isto nlo se
deve soffrer.
Poderemos algumas vezes nas te�ta­
ções recorrer á penitencia exterior ;
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- 7i -

porqne o sentimento da. dôr d�verte o


mal, e provoca. a misericordia de Deu s ;
e o demonio foge, quando vê qne se
maltrata a. soa partidaria, a. carne.

CAPITULO XVIII

DOS DESEJOS

E' bom desej ar muito, mas é preciso


dar ordem aos desej os, e fa.zel-os sahir
com efi'eito cada nm segundo o tempo
e a vossa possibilidade. Deus desej a
mais qoe t.enha.mos fidelidad� n a s cousas
pequenas, que elle põe em nosso poder,
do que ardor nas grandes, que não de­
pendem de nós.
Pratica.e as mortificações, que se vos
ofi'erecem mais freq � entemente ; porque
esta 6 uma occupação, que é preciso
fazer.
Beije.e frequentemente de todo o co­
ração as cruzes, que Nosso Senhor vos
envia, e que elle mesmo vos tem postr
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- 72 -

sobre os hombros, sem reparar quaei;


ellas são ; ellae são tanto mais preciosas,
quanto são mais vis.
Ha certos desejos, que tyrannisam o
coração, os quaes quereriam que nada
se oppnzesse aos nossos desígnios, que
não tivessemos trevas nenhumas ; mas
que tudo estivesse em plena luz ; que
não quereriam senão suavidade nos
nossos exercicios, sem resistencia, sem
distracção : elles não quereriam que
sentissemos, nem ainda uma tentação :
não se contentam de qne tomemos uma
vianda de bom sueco, e nutrição, se
ella. não fôr toda a.ssucarada e almis­
carada. Isto sã.o os desejos de uma per­
feição muito doce, d' estes nlLo nos é
preciso ter muitos. Crede-me, minha
l}Uerida alma, as �omidas doces geraDl
bichos nos meninos pequenos ; esta é a
razão por qne Nosso Senhor nol-as mis·
tnra com amargura. E' preciso ter um
grande valor, e não delicado ; nm valor,
o qual, em quanto puder dizer com toda

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- 73 -

a resolução : Viva Jesus sem reserva, se


oi.o embarace com doçura, nem amar­
gara, com luz, nem com trevas. Cami­
nhemos neste amor essencial, forte e
constante do nosso Deos.

CAPITULO X I X

DA ORAÇÃO NAS BECCU&AS

Nas vossas seccoras considerae na·


quelle grande desamparo, que Nosso
Senhor, e Mestre padeceo no Jardim
das Oliveiras, e vêde, qoe tendo este
filho amado pedido consolação a seu
bom Pae, e conhecendo, qoe elle lb'a
não queria dar, não coida mais nisso,
nem por isso se afadiga ; execota va­
lente e valorosamente a obra da nossa
redempção. Depois que tiverdes ro­
gado ao pae, que vos console, se não
é sua vontade fazei-o, não coideis mais
nisso, e esforça.e o vosso valor para

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- 74 -

fazer a obra da vossa salvação sobre


a cruz, como se nunca d'ella devesseis
descer.
Que quereis vós l E' preciso ver, e
faltar a Deus no meio dos trovões e
turbilhões de vento : é preciso vel-o na
sarça, no meio do fogo e dos espinhos ;
e para fazer isto, é verdade que é ne­
cessario descalçarmo - nos e fazermos
uma grande abnegação das nossas von­
tades. Mas a vontade divina, q ne vos
tem posto neste tormento, vos forta­
lecerá para isso.
Ora Deus quer que vós o sirvais sem
gosto, sem sentimentos, com repugnan­
cias, e convulsões de espírito. Este ser­
viço não vos dará gosto ; mas contenta a
Deus: não é do vosso gosto ; mas é do seu :
costnmae-vos pois ao trabalho, como se
sempre devasseis viver com elle, e não
cuideis mais D O vosso livramento.
Ah ! minha querida alma, nós DOS af.
feiçoamos sempre á doçura, suavidade
e consolação deliciosa : mas todavia a
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- 75 -

aspereza da se ceara é mais fructuosa ; e


ainda que S. Pedro gost.on da montanha
do Thabor, e fugiu da montanha do
Cal vario, esta não deixa de ser mais util,
do qne aquella ; o sangne, que foi der­
ramado numa, é m ais desejavel, qne a
claridade, que foi derramada na outra.
E notae que o conhecimento do nosso
nada não deve perturbar-nos ; mas sim
adoçar-nos, hnmilhar-nos e abater-nos :
o amor proprio é qnem nos faz impa­
cientar de nos vermos v i s, e na abjecção.
Dizei-me, minha querida alma, sabeis
vós bem que no nascimento de Nosso
Senhor os pastores ouviram os cantos
angelicos, e divinos dos espiritos ce­
lestes ; a Escriptnra assim o diz. Com­
tudo não se disse que Nossa Senhora,
e S. José, que estavam mais perto do
Menino, ouvissem a v oz dos anjos, ou
vissem essas lnzes milagrosas ; pelo con­
trario em lagar de ouvirem cantar os
anjos, ouviam chorar o Menino, e viram
a favor de alguma luz emprestada d'al-
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gume. vil alampada os olhos d' este


divino Menino, todos cobertos de la­
grimas, e tiritando com o rigor do frio.
Tende por certo, que a graça da m e ·
ditação não se pode adoçar com esforço
algum de espírito ; mas é preciso que
seja uma doce, e affei9oada perseve·
rança cheia de humildade.

CAPITULO XX

EXERCIOIO D E UNIÃO N.!S SECCUIU.:5

Primeiro ponto. Prostrada de joelhos,


profundamente humilhada diante de
Deus, adorareis a soa soberana bondade,
e considerareis oom attençã.o na soa
dulcíssima vontade, a qual desde toda
a eternidade vos nomeou pelo vosso
nome, e formou desigoio de vos salvar,
destinando-vos entre outras cousas o
presente dia, para que neste viesseis a
exercitar as obras de vida, e de sal­
vação, segundo o que esta\ dito por uru
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propheta : Eu te amei com um amor


eterno, e eis aqui por que te attrahi,
tendo piedade de ti.
Segundo ponto. Depois d'este verda·
deiro pensamento, unireis a. vossa von ­
tade á. do benignissimo Pae, com estas,
ou semelhantes palavras : Sêde sempre
cumprida, ó dulcíssima vontade de meu
Deus ! 0' desígnio eterno da vontade
de meu Deus, eu vos adoro ; eu vos con­
sagro, e vos dedico a minha vontade para
querer eternamente o que vós tendes
eternamente querido. Oh ! faça eu pois
hoje e sempre em todo a vossa divina
vontade, ó meu amado Crea.dor 1 Sim Pae
celestial, porque tal tem sido a vossa
vontade desde toda a. eternidade. Amen.
0' infinita, e ama.bilíssima. bondade,
sej a como vós o tend_es querido. 0'
vontade eterna, vivei, e reina.e em todas
as minhas vontades, e sobre todas as
minhas vontades agora, e para. sempre.
Teruiro ponto. Invocae depois o so·
corro divino d'este modo, por meio de
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aeclamações interiores, e do fnndo do


coração : 0' Deus, sêde em meu favor ;
eu sou vossa, salvae - m e ; . estendei a
vossa poderosa mão sobre esta pobre,
e misetavel desfallecid a de valor. Eis·
aqui, meu Deus, este pobre, e fraco co­
ração, que por vossa graça tem conce­
bido muitos e santos desejos de vos
servir ; roas, ai de mim l elle é mui
fraco, e pobre para os eft'ectuar sem
o vosso soccorro.
Quarto ponto. lovocae a Baotissim11.
Virgem Maria, o vosso Anjo da G uarda,
e toda a côrte do paraiso, para que o
Salvador vos sej a propí cio, se fõr snn.
vontade. Fazei pois assim uma viva e
poderosa união da vossa vontade com
a. de Deus ; P- depois entre todas as
Rcções do dia, tanto espirituaes, como
corporaes, fazei ainda frequentes reu ·

oiões, i sto é, renovae e coofirmae dP


novo a anião fei ta pela manhã, olhando
si mplesmente no vosso interior para R
bondade Divina, e dizendo por modo de
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consentimento : Sim, Senhor, eu o quel'o ;


ou tambem somente : Sim , Senhor ; sim,
meu Pae ; sim, sempre sim. Se qui­
zerdes , tambem podeis fazer o si gnal
da santa cruz, ou beijar a que trazeis,
ou algnma i m agem ; porque todo isto
significa que v ó s quereis enjeitar-vos {í.
providencia de Deus, qne a aceitais,
que a adorais e amais de todo o vosRo
coração, e qne nnis inseparavelmente
a vossa vontade â vontade suprema.
Qtiinto ponto. Mas estas aspiraçtíei;
do coração, estas palavras interiores
devem ser pronunciadas doce e tran­
qnillamente, firme e socegadamente ; e
a modo de dizer, devem ser dist.madaR
e fiadas na ponta do espírito. Porque
d'este modo eetas sagradas pal avras,
manando no espírito, o penetrarão mais
fortemente, do que se fossem ditas por
m odo de oração jacalatoria, e de í m ­
petos d o espírito. A experiencia vol - o
fará conhecer, se fordes simples e bem
humilde.
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- 80 -

CAPITULO XXI

SOBRE A PAZ DA ALMA E A HUMILDADE

Nada nos perturba senão o amor pro­


prio e a nossa propria estimação. Se
não temos as ternuras do coração, os
gostos e sentimentos na oraçã.o, eis-nos
abi tristes : se temos alguma difficnl·
<lade, se alguma cousa se oppGe aos
nossos designios, eis-nos ahi entregues
em a vencer e em nos livrarmos d'ella
com inquietação. E porquet Porque
queremos a virtude comendo assacar e
não repara.mos no doce Jesus, que,
prostrado por terra, súa sangue e agua
com aftlicção, por causa do penoso com­
bate, que sente no seu interior entre
os desejoll da parte inferior da sua
alma, e as resoluções da parte supe­
rior. Façamos, minha muito querida
alma, tres cousas, e teremos paz.
Primeira, tenhamos uma intenção
bem pura de querermos em todas as
cousas a honra e gloria de Deus.
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- 81 -

Segunda, façamos o que pudermos


para este fim.
Terceira, sabei que Deus se chRma o
principe da paz ; e que em toda a parte
onde é senhor absoluto, conserva tudo
em profunda paz. Todavia é verdade
qne antes que estabeleça a paz num
lugar, faz nelle guerra, separando o co·
ração e a alma das suas mais queridas,
familiares e ordinarias affeições, como
sã.o o desordenado amor de si mesma,
a confiança. em si mesma, a compla­
cencia em si mesma, e outras : mas
nisto mesmo se sente ainda alguma
paz, pela conformidade com a vontade
de Deus.
Repara.e em Nosso Senhor no Jardim
das Oliveiras : é ser Principe da paz
estar em paz no meio da guerra, e viver
em doçura no meio das amarguras. E
sabei que todos os pensamentos, que
nos dão inquietação e agitação de espi·
rit.o, de nenhum modo vem de Deus,
que é o Principe da paz : são ten-
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- 82 -

ta.çõee do inimigo, e portanto 6 ne­


ceesario comprimil-os e não fazer caso
delles.
E' necessario em todo e por todo
viver socegadamente na tristeza e na
alegria. Deve-se fugir do mal ; mas deve
ser socegadamente e sem nos pertur­
barmos. Devemos operar o bem ; mas
devemos fazel-o socegadamente ; aliás
afadigando-nos commetteriamos muitas
faltas : até mesmo devemos fazer a pe­
nitencia socegadamente. Vêde, dizia. um
Santo Penitente, que o meu amargosi8-
simo desgosto é na paz. Deveis desejar
amar a Deus, ou morrer ; ou a. morte,
ou o amor : porque a vida sem amor é
inteiramente peior que a morte : nunca
nós podemos testemunhar melhor a
nossa fidelidade, do que entre as con­
trariedades. Guarda.e-vos bem de deixar
converter o vosso coração em pertur­
bação e desassocego ; e assim mesmo
embarcada como estais sobre as vagas
e no meio dos ventos de muitos emba-

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- 83 -

raços levantae sempre os olhos ao ceu


e dizei a Nosso Senhor : 0' Deus, por
vós é que eu vogo e navego ; sêde minha
guia e meu piloto. E depois consolae-vos
que, quando estiverdes no porto, as
doçuras, que ahi haveis de auhar, farão
desapparecer os trabalhos padecidos
para lá. chegar. Ora cheguemos lá por
entre todas as tormentae, comtanto que
tenhamos o coração recto, boa intenção,
valor constante, os olhos em Deus e
nelle toda a noss à confiança : e não vos
aftlijais com as contrariedades, que
achareis na conversação ; porque isto
vos serve de exercício para praticardes
as mais preciosas e amaveis virtudes
que Nosso Senhor vos tem recommen·
dado. Crede-me, a verdadeira virtude
não se nutre no repouso exterior,
assim como os bons peixes se não
nutrem nas encharcadas aguas das
lagoas.
A humildade faz o nosso coração
doce para com os perfeitos, e im·
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- 84 -

perfeitos : para com aquelles, por res­


peito : para com estes, por compaixão.
A. humildade fe.z- oos receber os tra­
balhos com doçura, sabendo nós que
os merecemos, e os bens com reve ­
rencia, sabendo que os oi.o mere­
cemo s .
Exercitae-vos muito n o s actos de hu·
mildade, e de caridade para com o pro­
ximo, e vós vereis que com isto vos
a.cbareis bem. A Magdalena deve pri·
meiro lavar, b eijar, e enxugar 08 pés
de Nosso Senhor, antes que o commu­
nique coração a coração no retiro da
meditação ; deve derramar o oleo sobre
o seu corpo, antes que derrame o bal·
samo das suas contemplações sobre a
soa divindade.
Quando vos achardes enierma, ou en:
fadada, deveis aceitar, e amar a santa
abj ecção : desta sorte convertereis o
chumbo do vosso peso em ouro, e em
ouro mais fino, do que seria o das
vossas maia vivas alegrias do coração.
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- 85 -

Nunca nseis de palavras de qneixaa,


dizendo que sois miseravel, infeliz, e
cousas semelhantes. Meu Dens , minha
qoerida alma, deveis guardar-vos disto
em todo o modo : porque ellas pro·
cedem dum coração demasiadamente
abatido, e não são tanto impaciencias,
como iras.
Finalmente, minha querida alma, de·
sejais saber quaes são as melhores
abjecções. Eu vos digo que são a.­

quellas, qne nós não temos escolhido,


e que nos são menos agradaveis ; o u ,
para melhor dizer, aquellas, a que
nós não temos inclinação ; mas para
fallar claro, as rta nossa vocação e
profissão.
Caminhe.e sempre em sinceridade, e
humildade, sem reparar donde vindes;
mas com quem ides : ora eu entendo
que vós ides com o vosso Rei, com o
vosso Esposo, e com o vosso Deus cru ­
cificado. E' ir com o Esposo crncifi­
cado, o abater-se, humilhar--s e, despre-
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- 86 -

zar-se a si mesma até a morte de todas


as paixões, e eu digo ainda até a. .morte
de cru z ; mas notae, minha.querida alma,
que torno a dizer, que este abatimento,
esta humildade, este desprezo de si
mesma devem ser pratica.dos doce, so­
cegada, constantemente, e não só suave
mas ta.mbem alegre, e gostosamente.
Se se murmurar das vossas boas acções,
e vós o sentirdes, sej a humilde, e amo­
rosamente, e as murmurações se con­
verterão em bençãos.
Deus poz em vós os olhos , para se
servir de vós em cousa de consequencia,
e para vos trazer a um excellente modo
de vida : para isso vos chamou á. reli ·
gião ; tende logo respeito á. sua eleição,
e segui fielmente a sua intenção : anima.e
de continuo o vosso valor com a humil·
dade, e seja vossa humildade valoro11a_
Deus chama ao seu serviço tanto as
cousas, que existem, como as que não
existem, e serve-se do nada assim como
do muito, para a gloria do seu nome.
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- 87 -

Permanecei ua vossa abjecção, assim


como no aborrecimento da vossa excel­
lencia, e sêde valorosamente humilde
naqoelle, que na humildade da cruz,
executou a maior grandeza do seu
poder.
Sêde sempre muito pequena, e cada
dia fazei-vos pequena aos vossos olhos.
0' Deus ! que elevada grandeza não 6
esta pequenez ! Tende sempre dilatado
,
o vosso coração : como o amor de Deus
seja o vosso, deseja.e a gloria da vossa
pretensão, vivei sempre gostosa, e vi­
ctoriosa.
Vêde a variedade dos santos, que ha
na Jerusalém celeste, e pergunte.e-lhes,
como elles chegaram ao c6o ; e ouvireis
que os Apostolos chegaram principal­
mente pelo amor, os m artyres pela
constancia, os doutores pela meditação,
os confessores pelas m ortificações, as
virgens pela pureza do coração, e todos
geralmente pela humildade.

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- 88 -

CA PITULO xxn

D A. G E N E R O S I D A. D F.

Eu todo posso, dizia S. Paulo, na­


q uelle, que me conforta. A humilda.de
e a generosidade devem andar sempre
unidas : a humildade faz-nos desconfiar
de nós, e a generosidade faz-nos confiar
em Deus. Ha pessoas, que se enganam
com uma. falsa, e neecia humildade, que
lhes emb araça vêr em si as bondades,
que Deus nellas collocou : procedem
nisto muito mal ; porque os bens que
Deus depositou em nós, devem ser reco­
nhecidos , estimados, e muito honrados.
Oonhece-te a ti mesmo, deve entender-se
não só do conhecimento da nossa vileza,
e miseria ; mas tambem da excellencia,
e dignidade de nossa alma, as quaes são
capazes de ser unidas á soa divindade,
por soa bondade santa., que pôz em nós
um certo instincto, que nos faz tender,
e pretender sempre a esta união, na
qual consiste toda a nossa felicidade.
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- 89 -

A. humildade, que não produz a ge­


nerosidade, é i ndubitavelmente falsa ;
porque depois que ella tem dito : Eu
não posso nada, eu não sou mais que
um plll' o nada, deve dar logo lagar (i
generosidade, a qual diz : Não ha, neni
póde haver cousa, que eu não possa,
emqoanto ponho toda a minha espe­
rança em Deus, q u e tudo póde : e fun­
dada nesta c on fi ança, se abalança ani­
mosam ente a tudo o que lhe é orde­
nado, por difficil que seja. E se ella
emprehende a execução do preceito
com s im p licid ade de coração, Deus
antes fará. m i l agre, do que deixar de
lhe dar a possibilidade de c ompleta r a
soa empresa, porque ella confia nelle.
Dizei pois em vós mesmo : Se Deus mf'
chama a um estado de perfeição tão
alta, que é o que me póde impedir o
chegar a elle T pois qoe estou seguris·
sima de que aquelle, qae principiou a
obra da minha perfeição, a concluirá. :
porém isto deve ser sem presumpção, e

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- 00 -

não obsta para que procedamos sempre


com cautela, com o receio de cahirmos ;
mas uma tal confiança nos faz ainda
mais cuidadosamente vigilantes, em
fazer o que nos pode servir para adian­
tarmos a nossa perfeição.
Poderá facilmente acontecer que a
parte inferior queira perturbar-nos, e
emba1·açv a superior nos seus desi·
gnios ; mas uma alma generosa. zomba.
e não faz caso de tudo isto ; mas empre·
hende simplesmente o exercício, que lhe
foi imposto, sem dizer uma só palavra,
nem fazer acção alguma para testemu­
nhar o sentimento, que tem da sua inca·
pacidade.

C APITULO XXllI

D A TRA N QU I L L I D A D E

Emquanto estamos n o meio das oc·


cupe.ções, devemos cuidar na tranqui l ·
lida.de d o coração, e ter a nossa alma
tranqnilla na oração ; se ella qner voar,
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- 91 -

que vôe : se quer a.gita.r-se, que se


agite ; bem que tambem a tra.nquil­
J idade, e simples repouso da alma. eru
vêr a Deus, em querer a Deus, e em
gostar a Deus, seja extremamente ex­
cellente.
Exercitae muit-0 o vosso coração em
uma mansidão interior, e exterior, e
conservae-o em tranquillidade no meio
da multiplicidade de oceupações, que
se vos offerecem : guardae- vos muito
de fadigas, que sã.o a peste da devoção ;
e continuae a ter --0 vosso coração ele­
va.do, não olhando para este mundo,
senão para. o desprezar, nem para
o tempo, Renão para aspirar á eter­
nidade.
Sujei ta.e frequentemente a vossa von­
tade á de Deus, estando prompta a
adoral-o tanto quando vos enviar tri ­
bulações, como no tempo das conso­
lações. Sêde muito humana, e affavel
no meio das occupações, que tendes ;
porque todo o mundo espera de vós
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- 9! -
e11te bom exemplo . E' facil conduzir o
barco , qu ando os ventos o não impellem,
l:l p as sar uma v ida., que está li vr e
tl'impertinencias : mas uo mei o do t1
emb ar aços , assim como no meio dos
ventos , é diflicultoso s egui r a der­
ro ta ; esta é a razão, porque devenios
ter grande cuidado em nós mesmos,
uas nossas acç ões, e i n te n çõ es , e mos­
trar sempre. que o nosso coração é
bom, justo, humano, h u mi l de e ge­
n er oso .
Sêde m u i human a ; não vivais t1e­
gu ndo os vossos humo1·e11, e inclinações :
ruat1 sim segundo a razão e a devoção;
sêd e muito humilde para com todas.
Deveis te r uw grande cuidado e� re­
duzi r o vosso espírito ' paz, e tranqu il ­
Jidade, e em suft'ocar as más in c l i ­
nações, que tendes, attendendo á pratica
das v irtudes contrarias, e resolven­
do· vos a ser mais di l igente , attenta, e
active. na pratica das vir tud e s ; e notae
estas quatro palav ras , que v ou di z e r- vos .

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- 93 -
O vosso mal procede de temerdes mais
os vicios, do qne amaiil as virtndes : se
vós, minha qnerida alma, podesseis pro­
vocar nm pouco profnndamente o vosso
coração á prática de. mansidão, e da
verdadeira hnmildade, serieis valorosa ;
mas é preciso cuidar nisso a miado :
tome.e resolntamente eBBe cnidado, qne
Dens voa pagará com mil consolações ;
. e para isso não vos esqueçais de elevar
muitas vezes o vosso coração a Deus, e
01t . vossos pensamentos á. eternidade.
Se não sois favorecida, amae muito
esta abjecçã.o ; crêde·me, Deus vê com
prazer aquillo, que é desprezado, e
o abatimento consentido sempre lhe
foi mui to agradavel.
Deus é tão bom, qne visitará inte­
riormente a vossa aftlicção e a forti­
ficar6, e estabelecerá na solida humil­
dade, simplicidade e mortificação. Vivei
alegre , quanto vos fõr possivel, com
aquella alegria tra.nquilla, de qne é raiz
o amor da nosaa abje09ão.
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- 94 -

Vivei totalmente humilde, muito hu­


mana e totalmente apaixonada do sa·
grado amor do Esposo celesti al ; e não
vos turbeis de não notardes todas as
vossas faltas leves para vos confes­
sardes d' ellas : não, minha querida
alma ; porque assim como cabis moitas
vezes, 15em o conhecerdes, tambem sem
o conhecerdes, vos levantais muitas
vezes.
�as goardae-vos de vos afadigar ; por
quauto enrodilharieis com nós o vosso
fio, e embaraçarieis o vosso foso : cami·
nhemos sempre ; que, ainda que vamos
devagar, faremos grande jornad a : Deus
vos deixa ahi para soa gloria, e grande
proveito vosso ; elle quer que a vossa
miseria sej a o t.hrono da sua miseri­
cordia, e as vossas fraquezas o assento
do seu poder.
Amae a vossa abjecç!Lo. Mas eu tenho
o entendimento obscuro, e fraco para
todo, o que é bom. Bem estã, minha
alma querida ; mas se permaneceis hu-
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- 95 -
milde, e tranqnilla, humana, e firme no
meio d' essa obscuridade, se vos não im­
pacientais, se vos não afadigais, se vos
não turb ais com tudo isso ; m as com
bom coração, não digo eu alegremente,
mas sim franca, e firmemente abraçais
essa crnz, e permaneceis nessas trevas,
amareis a vossa abjecçl.o : porquanto,
qne ontra consa é ser abjocto, senão
ser obscuro e fraco ! Amae-vos como
tal, por amor d ' aqnelle, qoe como tal
vos qne r ; e vós amareis a vossa propria
abjecção, qne é um effi.caz meio para
alcançar a tranqnillidade.

CA PITULO XXIV

D A OBEDIENCa

Nosso Senhor disse a S. Pedro :


Quando to eras moço, cingias-te, e ias
para onde querias ; mas quando füres
velho, estenderás as toas mãos, e outro
te cingirá.
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- 96 -
Os novos aprendizes no amor de
Deus cingem-se a si mesmo ; tomam as
morti ficações, que bem lhes parece :
escolhem as suas penitencias, resigna­
ções, e devoções, e fazem a sua propria
vontade no meio da de Deus ; porém os
mestres velhos deixam-se ligar, e cingir
por outro, e se submettem ao j ogo, que
se lhes impõe, e vão por caminhos, por
onde, segundo a soa inclinação, não
quereriam. E' verdade, que estendem a
mio ; porque apesar da sua inclinação,
se deixam voluntaria.mente governar
contra a sua vontade, e dizem que m ais
vale obedecer, do que fazer offrendas ;
e eis-abi como elles glorificam a Deus
crucificando não só a sua carne, mas
ainda o seu espirto.
Tende pois o vosso coração aberto, e
dilatado para fazer bem todo o serviço,
que vos foi imposto : á medida, que
(por força da santa obediencia) empre­
henderdes muitas cousas por Deus, elle
vos ajudará., e comvosco far6 o v088o

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- 9i -

trabalho. 11e vós qnizerdes fazer com


elle o seu : ora o seu é a santificação, e
a perfeição das almas.
Trabalhae nisto humilde, simples e
confiadamente ; e nunca d ' aqui recebe­
reis distracção alguma, qne vos sej a
noci v a : não é j ustR a paz, que foge ao
trabalho, que requer a glori ficação 110
nome de Deus.
Muito vos enganais, m i nha querida
alma, se cuidais que R oração vos aper­
feiçôa sem a oberliencia, que é a virtud(ll
amada do Espo101 na qual, pela quAl,
e por amor da qual, el l e qni z morrer.
llnitos religiosos, e outros têm sido
santos sem oração ment.al ; mas sem
obediencia n e nhum.
Deve- s e amar a or&ção, maR deve-Bfl
amar por amor de Dens. Ora quem a
ama por amor de Deus, não quer d'ella
senão tanto, quanto Deus lhe quer dar ;
e Deus não lhe quer dar senil.o qu&uto
a obediencia. permitte. Tende pois n m
coração d e menino, a m a vontade de

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- 98 -

cera e um espirita nú, e despido de


toda a sorte de affeições, excepto da
ele amar a Deus ; e quanto aos meios d e
o amar, sêde indifferente : vivei soce­
galla, e santamente entre os trabalhos.
po1· amor de Deus.

CAPITULO XXV

DA BUB:llIBB.ÃO

Se vós não fizerdes como meninos


pequenos, nl!.o tereis parte no reino
dos céos.
Oh ! que grande bem é, minha que­
rida alma, ser ftexivel e facil de ser vol­
tada por qualquer mão ! Os santos não
têm ensinado esta pratica da submissão
da nossa vontade ; mas Nosso Senhor
mesmo, tanto pelo exemplo, como por
palavras.
Que outra cousa é o conselho da
abnegação de si mesma, senão renunciar
em toda a occasião a sua propria von-
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- 99 -

ta.de, e a MO proprio juizo particular,


para seguir a vontade alheia e sujei­
tar-se a todo, excepto sempre áqnillo
em que se offenderia a Dens T Mas, po­
clereis vós dizer, eu vej o claramente,
que aqnillo, qne querem que en faça,
procede d' uma vontade hnmana e d'nma
inclinação natural ; e º por tanto Deus
não inspirou minha mãe, ou minha
i rmã, que me mandassem uma tal
cousa. Não ; talvez que Deus lhe n ão
tenha inspirado isso ; mas sim a vós,
que o façais, e, faltando vós a isto,
contravindes á. determinação de fazer
' a vontade de Deus em todas as cousas
e por conseguinte ao cuidado que de­
veis ter da vossa perfeição. Devemos,
pois, para fazer a vontade de Deus, su­
jeitar-nos sempre a fazer aquillo que
exigem de nós, comtanto que não seja
contra a vontade do mesmo Senhor, a
qual elle nos tem significado da ma·
neira sobredita. Ora para dizer alguma
cousa da vontade das creatnras, esta
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- iOO -

póde-se tomar de tres modos : ou por


modo de afHicção, por modo de com­
placencia, ou tambem sem proposito
ou fóra de proposito.
D e- primeiro modo é necessario que
sejamos bem fortes para abraçarmos
de boamente estas vontades, que são
contrarias á. nelssa, que n ão quereria
ser contrariada ; e com tudo, de ordi­
uario, é necessario soffrer muito nesta
pratica de seguir as vontades dos ou­
tros que, pela maior parte, são diffe­
rentes da nossa.
Devemos pois receber por modo de
tormento a execução de semelhantes
vontades e servirmo- nos destas contra­
dicções quotidianas para nos fortifi·
carmos , acceitando-as com amor e
doçura.
Por modo de complacencia não é ne·
cessa.rio exhortaçã.o para nol-as fazer
seguir ; porquanto nós obedecemos de
muito boamente ás cousas agrada.veis ;
mas antecipamo-nos a estas vontades
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- 101 -

para lhes oft'erecermos as nossas sub ·


missões. Não é tambem a. esta sorte de
vontades que se exige que nos sujei·
temos ; porque disso de nenhum modo
duvidamos ; mas sim áquellas que são
fóra. do proposito, e das qua.es não sa·
bem os a '-razão, porque exigem isto de
nós : aqui é onde está. o merecimento.
Porquanto, por que razão hei eu de fazer
antes a. vontade de minha irmã, que a
minha T Não é a minha, nesta. leve oc·
casião, tão conforme á de Deus, como
a dellaf Porque devo eu crêr que, o
que ella me manda fazer, seja uma ins·
pi raçl.o de Deus e não o seja a vontade,
que me veio, de fazer outra cousa! Oh
Deus ! minha. querida alma, é nisto que
a Divina Magestade nos quer fazer ga·
uhar o premio da submissão ; porque
se nós conhecessemos sempre que os
outros têm razão para nos mandat·, ou
para nos rogar, que façamos isto ou
aquillo, não t.erlamos grande mereci·
ment-0 em o fazer, nem grande repu-
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- 102 -

guancia, porque toda a nossa alma cou ­


descenderia sem duvida de boa.mente
com isto ; mas sim. quando as razões
nos são occultas, quando a nossa von·
tade repugna, resiste o nosso .entendi·
mento e nós sentimos a contradicção.
Ora é nestas occasiões, que devemos
dobrar-nos e p o r - nos ao trabalho com
uma simplicidade toda de menino, sem
discursos, nem razões e dizer : Eu sei
muito bem que a vontade de Deus é
que eu faça antes a vontade do meu
proximo, do que a minha ; e portanto
vou executal-a sem reparar se é -.,· o n ·
ta.de d e Deus q u e me sujeite a fazer o
que procede de paixão ou inclinação,
ou, talvez verdadeiramente, de uma
inspiração ou ;movimento da razão. Por ·
quanto é necessario caminhar por todas
estas pequenas cousas em simplici dade.
Que apparencia, dizei-me haveria em
meditar uma hora para conhecer se é
vontade de Deus que eu faça isto, ou
aquillo, em cousas de pouca entidade,
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- 103 -

que não são dignas de consideração, e


principalmente se vejo que em o fazer
contentarei mui pouco o pl'oximo ! Nas
cousas de consequeneia não devemos
perder o tempo em consideral-as ; mas
devemos dirigir-nos aos nossos supe­
riores para saber delles o qoe havemos
de fazer : depois do qoe não devemos
pensar mais nisto, mas estar absolota­
mente pela sua opinião, pois que Deus
nol-os deu para dirigir a nossa alma. na
perfeição do seu amor.
Se pois devemos condescender assim
com a. vontade de cada um, muito mais
o devemos fazer com a dos superiores,
os quaes devemos ter e respeitar entre
nós como a pessoa do mesmo Deus :
tanto são elles os seus Jogar-tenentes ;
e por esta raz!i.o, ainda que nós conhe­
cessemos que elles tivessem inclinações
uatoraes e ainda mesmo paixões, por
movimento das quaes ordenassem al·
guma vez ou reprehendessem os. de·
feitos de seus inferiores, de nenhum
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- 104 -
modo deveria.mos admirar-nos ; porque
elles são homens como os mais e por
conseguinte suj eitos a ter inclinações
e paixões. Mas não é licito fazer juizo
de que o que elles nos mandam, parte
das suas paixões ou inclinações ; é u w a
cousa de que devemos guardar - n o s .
Oomtudo, sepalpavelmente conhecemos
que sej a. assim, não devemos deixar de
obedecer com toda a mansidão e amor,
e sujeitar-nos humildemente & contra·
dicção. Na verdade é cousa bem dura
ao amor proprio estar sujeito a todas
estas contrariedades. E' verdade ; mas
tambem nós não devemos satisfazer e
escutar este amor, mas só o santissimo
amor de nossas almas. Jesus que exige,
de todos que o amam, uma santa imi­
tação pela perfeita obediencia que elle
prestou nã.o só i\ j ustissima e santissima
vontade de seu Pae, mas tambem á de
1:1eu1:1 parentes e, o que é mais, de seus
inimigos, que sew duvida nos trabalhos
que lhe impozeram seguiram as suati
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- 105 -

pai:xõelS ; e não obstante o bom Jesus


uão deixou de se sujeitar a elles mansa,
humilde e amorosamente. E veremos
assaz que aquelle dito de Nosso Senhor
que ordena que cada um tome a sua.
cruz, se deve entender em receber com
bom coração as contradicções que 1:1e
uos fazem em todas às contrariedades
pela santa obediencia, bem que sej aru
leves e passageiras.

C APITULO XXVI

D A l'.! A NTA SIMPLICID A D B tJOM QUE


DEVEMOS D E IXAR·XOS DIRIGIR

Quereis, minha alma muito querida.,


que vos diga a simplicidade, com que
nos devemos deixar dirigir no interior,
assim por Deus como por nossos supe­
riores.
Almas ha que não querem, 1:1egundo
dizem, ser dirigidas senão pele espírito
de Deus, e lhes parece que todo o que
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- 1 0() -

imaginam são inspirações e moções do


Espírito San to , que as leva pela mão
e, como a meninos, as conduz em tndo
o que ellas querem ; no que por certo
se enganam muito. Porque, dizei ·me,
houve j amais uma vocação mais espe­
cial que a de S. Paulo, na qual Nosso
Senhor mesmo lhe fallou para. o con­
verter f E comtudo não o quiz instruir,
mas enviou-o a Ananias.
A direcção de Deus a nosso respeito,
minha. alma muito querida, não é outra,
senão a obedienci a ; porque fóra disto
tudo o m ais é engano. E' bem certo,
que não são todos dirigidos pelo mesmo
caminho ; mas tambem não pertence a
cada um de nós conhecer o caminho,
por que Deus o chama. : isto pertence
aos superiores, que têm luz de Deus
para o fazer . Não se deve diZ1lr que elles
não nos conhecem bem ; porque devemos
crer que a obediencia, e a submissão
são sempre os verdadeiros caminhos da
boa inspiração, e ainda qne póde suc-
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- 1 07 -

ceder que não tenhamos consolações


nos exerc1ctos, que nos obrigam a
fazer, e que tenhamos muitas nos ou­
tros ; não é pela consolação, que se
julga da bondade de nossas acções .
.Não devemos aferrar-nos á nossa sa­
tisfação propria ; pois seria o mesmo
que aferrarmo - nos ás fiôres, e não
aos fructos. Mais utilidade tirareis do
que fizerdes, segundo a direcção de
vossos superiores, que seguindo os
vossos instinctos interiores, que de
ordinario não provém senão do amor
proprio, que sob capa de bem procura
comprazer-se na vã estimação de si
mesmo.
Bem v erdade é, que o vosso bem
depende de vos deixardes dirigir, e
governar pelo espírito de Deus sem
reserva, e isto é o que pretende a ver­
dadeira simplicidade, que Nosso Senhor
recommendou tanto. Sêde simples como
as pombas, disse elle a seus Apostolos ;
mas não pá.ra aqui, dizendo-lhes mais :
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- 108 -

Se v o s uão fizerdes simples como um


menino , não entrareis no reiuo de
meu Pae.
Um menino, emquanto é peqneniuo,
está reduzido a nma grande simplici­
dade, a qual faz com que elle não tenha
outro conhecimento mais, que de sua
�ãe ; não tem mais qne um só amor, que
é o de sua mãe : e neste amor uma só
pretensão, que é o seio de sua mãe : em
estando recostado neste seio amado,
não quer mais nada.
A alma que tem a perfeita simplici­
dade, não tem mais que nm amor, que
é Deus ; e neste amor não tem mais que
uma só pretensão, que é a de repousar
no seio do Pae celestial, e alli como m e ·
nino d' amor fazer a s u a morada, dei­
xando inteiramente todo o cuidado de
si mesma a seu bom pae, sem qne j á­
mais se torne a embaraçar com cousa
alguma, senão com conservar-se nesta
santa confiança : nem ainda os desejos
das v irtudes, e das graças, qne lhe pa-

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- tem -
reciam necessarias, a i nquietam : não
despreza na verdade nada do que en­
contra no seu caminho ; mas tambem se
não afadiga em procurar outros meios
<le se aperfeiçoar além d'aquelles, que
lhe são prescriptos.
Mas de que servem tambem os im­
portunos, e molestos desejos das vir·
tudes, cuj a pratica nos não é neces·
!SariaT A. mansidão, o amor da nossa
abjecção, a humildade, a suave cari­
dade, a sinceridade com o proximo, a
obediencia são virtudes, cuja pratica
nos deve ser tão commum, quanto nos
é necessari a ; porque a occurrencia das
occasiões nos li frequente : mas quanto
a constaucia, a magni ficencia, e outras
virtudes taes, que talvez nunca teremos
occasião de praticar, não nos embara·
cemos com ellas ; e nem por isso se­
remos menos magnani mos, e generosos.
Perguntais-me como se devem dirigir
em todas as suas acções aquellas almas,
que são attrahidas á. oração, e a esta
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- i !O -

santa simplicidade, e a esta perfeita


deixação em Deos7 Respondo que não
só na oração, mas n a. direcção de toda
a. sua. vida. devem andar inviolavelmente
em espirito de simplicidade, deixando,
e remettendo todas a• soas aci;ües, e
successos á boa vontade de Deus, por
uma perfeita, e absolutissima confiança,
deixando-se á misericordia, e ao coidado
do amor eterno, que a di vina Providencia
lhes tem ; e d' este modo, conservar-se
firmes nesta disposição, sem consentir,
e distrahir-se a fazer reflexões em si
mesmas para vêr o que fazem, ou se
estão contentes. Ai ! as nossas satisfa­
ções e consolações não agradam aos
olhos de Deus ; mas só contentam este
miseravel amor, e cuidado, qne temos
de nós mesmos fóra de Dens, e da soa
consideração. Os meninos (na verdade)
que Nosso Senhor nos mostra, que devem
ser o modelo da nossa. perfeição, ordi­
nariamente não têm cuidado algum, es­
pecialmente na presença de seus paes,
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- Ul -
e mães ; estão cosidos com elles, sem
se virarem a considerar as suas satisfa­
ções, nem as suas consolações, que elles
recebem na boa fé, e gozam em sim­
plicidade, sem curiosidade alguma de
considerar nem as suas causas, nem
os seus effeitos ; occupando·os assaz o
amor, sem que possam fazer outra cousa.
Quem é bem attento a agradar amo­
rosamente ao Amante celeste não tem
nem coração, nem vagar de voltar a si
mesmo ; porque o seu espirito tende
continuamente para aquelle lado, para
onde o leva o amor.
Este e:x:ercicio da continua dei:x:ação
de si mesmo nas mãos de Deus com­
prehende exoellentemente toda a per­
feição dos outros e:x:ercicios em perfei­
tissima simplicidade e pureza ; e em
quanto Deus nos deixa 1) uso desta vir·
tude, não o devemos mudar.
As amantes espiritoaes, esposas do
Rei celestial, se puzeram verdadeira.­
mente de tempos em tempos, como as
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- 1 12 -
pombas, que estã.o junto das aguas mais
puras, para ver se estão bem compostas
á vontade de seu amante ; e i sto se faz
nos exames, por meio dos qnaes ellas
se limpam, purificam, e ornam o melhor,
que podem, não para ser perfeitas,
não para se satisfazer, não por desejo
do seu progresso no bem ; mas para obe·
decer ao esposo, pela reverencia., que
lhe têm , e pelo excessivo desejo que
têm de lhe dar gosto ; mas não por um
amor bem puro, bem lim po, e tiem
simples ; visto que se não plH'ificam,
para ser puras, não se ornam, para. ser
bellas ; mas s ó para agradar ao seu
amante, a quem , Re a fealdade fosse
ta.mbem agradavel, ellas a amariam
tanto, oomo R belleza : e se as pombas
simples nã.o põem cuidado, nem longo,
nem de algum modo afadigado em la·
var-se, e ornar· se ; porque a confiança,
que o seu amor lhes dá de 11er muito
amadas, ai nda que indignas ( a con ·
fiança digo, que seu amor lhes tlá. no
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- f l3 -
amor, e na bondade de seu amante)
lhes ti ra todo o cnidado de desconfiança
1le não ser assaz bellas ; o desej o
de amar antes do que de se ornar, e
preparar para o amor, lhes tira toda
a cnriosidade solicita, e as faz con·
tentar com uma doce e fiel preparação
feita amorosamente e de bom coração.
Collocae t-0do o vosso coração, vossaR
pretensões, vossos cuidados, e vossas
affeições 110 paternal seio <le Deus, e .
elle vos conduzirá, e leviuá aonde o seu
amor V(\S qner Ouçamos, e imitemos o
.

1li vino Sl\lvador, que como perfeitissimo


psalmista, canta os soberanos lances do
seu amor sobre a arvore da crnz, e os
conclue todos assim : Meu Pae, nas
vossa.� mãos ponho, e encommendo o
men espírito. Depois de termos dito
isto, minha qnerida al m a., qne mais resta
!'lenão expirar, e morrer da morte d'amor,
não vivendo ma.is para n ós, mas vivendo
em n ós Jesns·Christo ! Então cessarão
t.oda.s as inquietações do nosso coração,
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- f14 -

que provém do desej o , que o amor pro­


prio ·DOS suggere, e da ternura, que
temos em n6s, e por n6s, qoe nos faz
secretamente procurar afadigadament�
as satisfações, e perfeições de n6s
mesmos, e embarcar nos exercícios de
nossa vocação, com o vento d'esta sim­
ples, e amorosa confiança, sem conhe­
cermos o nosso progresso. Nós o faremC's
grande : sem andar, nos adiantaremos, e
.�em nos mover do nosso lugar, nos alon·
garemos, como fazem os que navegam
no mar alto com um vente favoravel .
Então são recebidos com doçura, e
suavidade todos os snccessos e vari e·
dades d' accidentes, que acontecem ; por
quanto quem está nas mãos de Deus,
e repo11sa no seu seio, quem se entrega
todo ao seu amor, e se reme tte á sua
boa vontade, que cousa o póde abalar,
e moverY
Na verdade em todas as occurrencias,
sem se pôr a discorrer sobre as cansas,
razões, e motivos dos soccessos, pro-
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- 1 15 -

nuncía do coraç!io esta santa condes­


cendencia do Sal vador : Sim meu Pae ;
pois que assim vos agradou .
Antes de acabar digamos uma palavra
da prudencia ; pois que Nosso Senhor
as aj unta ambas, dizendo : Sêde pru·
dentes, como as serpentes, e simples,
como as pombas. A verdadeira virtude
da prudencia deve ser verdadeiramente
praticada, tanto, que ella é como sal
espiritual, que dá gosto, e sabor a todas
as outras virtudes : mas os religiosos
a devem praticar de tal sorte, que a
vi rtude de uma simples confiança ex·
ceda a tudo ; porque elles devem ter
uma confiança totalmente simples, que
os faça ficar em repouso entre os braços
de seu Pae celestial, e de soa caríssima
Mãe, Nossa Senhora, devendo estar se­
guros de que elles os protegerão sempre
com o seu amabilíssimo cuidado ; pois
que elles se ajuntaram, para gloria de
Deus, e honra da Santa Virgem.

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- 116 -

CAPITT;LO XXVII
DA S I MPLI CID A DE R.l:!:LIGlü:;l.!

A simplicidade não é outra cousa


mais, do que um acto de caridade pura,
que não tem ou tro fim, senão adquirir
o amor de Deus ; e a nossa é simples,
quando, no q ue fazemos, não temos outra
pretensão . Isto éum acto de caridade
simples, que attende só a Deus, é uma
cousa necessaria e é a simplicidade.
virtude que é inseparavel da caridade
tanto, que ella olha direitamente a Deus,
e não pode soffrer mistura alguma de
interesse proprio ; aliás j á não seria sim­
plicidade : nem pode soffrer mist u ra ,
nem consideração alguma das creatnras :
Deus só tem aqui lugar.
A simplicidade desterra da alma o
cuidado , e i nq uietação, com que a lguns
procuram inutilmente quantidade d ' e ­
xercicios, e meios para poder amar a
Deus, como dizem, e lhes parece, que
se não fazem tudo o que os santos

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- l t7 -

ti zeram, uli.o podem esta r contentes.


Pobre gente ! A tormentam-se para achar
a arte de amar a. Deus, e não sabem que
não- ha. outra. mais do qne a.mal-o :
pensam qne ha certo artificio para ad­
quirir este amor, o qual todavia se não
encontra senão na simplicidade .
Depois que a alma simples tem feito
uma acção, qne ellaj ulga dever-se fazer,
uão pensa mais nisto ; e se lhe vem
á. lembrança o que dirão, ou pensarão
d'ella, corta primeiro todo isto, porque
não póde soffrer alguma distracção no
que pretende, qne é estar attenta ao seu
Deus, para augmentar assim o seu amor ;
a consideração das creatnras não a move

de modo algum ; porque ella tudo re­


fere ao seu Creador ; se é conveniente
dizer, ou fazer uma cousa, fal-a, �ucceda
depois o que Deus qnizer : como faça
a sua obrigação, de nada mais se lhe
dá. Sim, mas talvez torbar-se-ha ; não
se deve sempre temer tanto a pertnr­
haçll.o, m i nha querida alma : ella não

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- H8 -

1mccede senão na parte inferior da nossa


alma ; e não devemos de nenhum modo
aterrar-nos, quando não consentimos no
que ella nos suggere.
A simplicidade não se intromelite no
que os outros fazem, ou hão de fazer :
cuida em si, e ainda a seu respeito não
tem senão os pensamentos, que são ne­
cess ari os ; porque sempre foge dos
outros com promptidão. Esta virtude
tem um grande parentesco com a hu­
m il dade, a qual não consente qu e
tenhamos má opinião senão de nós.
Perguntl\is, como se deve observar a
simplicidade nas conversações, e recrea­
ções! Respondo, como noutra qualquer
acção ; bem que aqui é preciso ter uma
santa liberdade, e franqueza para nos
entretermos em ma.terias, que servem
ao espírito de al eg ri a, e recreação. E '
preciso ser muito sincera na conver­
sação, sem todavia ser inconsiderada,
tanto assim, que a simplicidade segue
sempre a re gra do amor de Deus : porém
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- 1 19 -

ainda que succedesse que disst1sseis al­


guma leve cousa, que parecesse não ser
bem recebida de todos, como quererieis,
nem por isso deveis occupar-vos em fazer
reflexões, e exames em todas essas pa­
lavras. Oh não ! porque é o amor proprio
sem duvida, o que nos faz indagar
as.sim, se o que temos dito, ou feito é
bem recebido ; mas a santa simplicidade
não corre apoz das soas palavras, nem
das suas acções, mas deixa o successo
d'ellas á. Divina Providencia, á qual se
sujeita soberanamente, e sem declinar
para a direita, nem para a esquerda,
segue simplesmente o seu caminho : e
se nelle encontra alguma occasião de
praticar alguma virtude, serve-se d'ella
cuidadosamente, como de um meio pro­
prio para chegar á sua perfeição, que é
o amor de Deus ; mas não se afadiga em
procurai-a : não a despreza tambem, nem
se perturba com cousa alguma, conser­
va-se socega.da, e tranquilla na con­
fiança, que tem, de que Deus sabe o seu
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- t20 -

desejo, e isto basta. Mas como se podem


conciliar duas cousas tão contrarias t De
uma parte dizem-nos que devemos ter
grande cuidado da nossa perfeição, e
adiantamento, e da outra defendem-nos
cuidar nisso. Não vos dizem, que não
cuideis no vosso adiantamento, não ;
·
mas, que não cuideis nelle com fadiga .

CAPl'l'ULO XX VlII

))0 MODO DE RECEBER .AS CORRECÇÕE8

Desejais, minha querida alma, saber


como se devem receber bem as cor-
1·ecc;ões, sem que nos tique sentimento,
ou seccura de coração. Impedir que não
se mova em nós o sentimento, nunca
poderá ser : ditosos de nós, se podes­
semos ter esta perfeição um quarto
d'hora antes de morrer. Mas que de­
v emos fazer neste tempo, para nos soce­
ga.rwost Devemos unir-nos mais cC>m
Nosso Senhor, rejeitar este sentimento,
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- 121 -

e fallar tl'o utra cousa cow Sua Mages­


tade. Mas o vosso sentimento não se
aplaca, antes vos suggere que v eJais a
sem- razão q u e vos fizeram. Oh Deus !
não é agora tempo de sujeitarmos o
nQsso j oizo para lhe fazer crêr, e con­
fessar que a correcção é boa, e que foi
feita bem a tempo T oh, não ! isto é pa.r a
depois que a nossa alma estiver soce­
gada, e tranquillizada ; porqoe emquanto
dura a perturbação, não devemos dizer,
nem fazer cousa alguma, senil.o perma­
necer firmes e resolutos a não consentir
na nossa páixão, ainda qoe · tivessemos
razão para o fazer : porque neste tempo
nunca nos faltariam razões, ellas se nos
apresentariam a montes ; porém não
devemos escutar oma só, por boa,
_que possa parecer, mas conservar-nois
j u n tos de Deus (como j á disse), distra­
hindo-nos, depois de nos termos hum i ·
lhado, e sujei tado diante de soa Divina
)fagestade, fallando-lbe d'outra coosa.
Mas nota.e este dito, que eu gosto muito

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- 122 -

de dizer por causa da sua utilidade : Hu­


milha.e-vos com uma h umilda.de mansa,
e pacifica, e não com uma humildade
afilicta, e perturbada. Porque por des­
graça nossa, cifferecemos a Deus actos
de humildade colerica,· e enfadonha, e
por este meio. não aplacamos os nossos
espiritos, e estes actos são infructuosos ;
mas se pelo contrario fizessemos estes
actos diante da Divina Bondade com
uma doce confiança, sahiriam o s total­
mente serenos e tranqnillos, e facil­
mente reprova.riamos todas as razões
o mais das vezes, e d' ordinario irracio­
naveis, qoe o nosso j uizo, e o nosso
amor proprio nos suggerem, e iria.mos
fallar áquelles, que nos fizeram a cor­
recção, ou contradicção com tanta faci­
lidade, como d' antes.
Vencer-vos· heis, dizeis vós, para lhes
fallar ; mas se elles vos não faliam, como
vós desej ais, isto renova a tentação ;
tudo isto nasce do mesmo mal, que
temos dito. Que tendes vós que vos
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- 123 -

fallew de uw w o d o , ou de out1·0, com


tanto que façais a vossa obrigação!
Pensado, e examinado todo bem, não
ha pessoa, que não tenha avenão á
correcção ; os mesmos santos a tiveram,
was não obravam nada. em favor do seu
sentimento, antes tiraram d'aqui utili­
dade, recorrendo á oração e á morti­
ficação.
Mas vós, w i oha querida alma, me di­
zeis que sim recebeis com bom coração
a correcção, como justa, e racionavel,
mas que isto vos causa uma certa con·
fusão a respeito do Superior ; porque
lhe déstes occasião de se affligir ; que
isto vos tira a confiança de chegar a
elle, não obstante que amais a abne­
gação, que v os vem da falta. Isto, minha
querida alma, faz-se por ordem do amor
proprio : talvez não saibais, q oe ha em
nós u m certo mosteiro, de qae o amor
proprio é o S opririor, e como tal impõe
penitencias, e essa pena é a penitencia,
q ue elle vos impõe pela falta. que com-
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- 124 -

meUcstes em ter molestado o Superior ;


porque talvez elle vos não esti mará
tanto, como faria, se vós não tivesseis
falhado : m as paciencia.

C A PITULO XXJX
"'!' O C A N T E .\. 8 A V E R S Õ E :-5

A. versões sll.o certas inclinações, q u e


alguma vez são natoraes, as qoaes
fazem que tenhamos ama certa pequena
repogoanci a ao accesso d' aqnelles, a
quem a s temos, que impede qu e amemos
a sua conversação ; i sto é, que não gos­
tamos d'el la, como gostariam.os da d'a·
quelles, a quem temos ame. inclinação
doc e , qne nol - os faz amar com um amor
sensivel : porqàe h a u ma certa alliança,
e correspondenci a , entre o nosso espi·
rito e o seu .
S e e u tenho aversão a con versar com
uma pessoa., que sei muito bem que é
de grande vi rtude, e com quem posso

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- 125 -

aproveitar ; não devo seguir a. minha


av ers ão, que me faz e vitar o encontre
d' esta pessoa : devo sujeitar esta incli­
nação á razão, que me deve fazer pro­
cura r a soa conversàção, ou a.o menos
permanecer nella com om espirito de
paz, e de trauquilli dade, quando a en­
contro.
Que remedio contra estas a v ersõ e s,
pois que ninguem , por p e r fei to que
sej a, está isento d' ellas ! Aquelles, qoe
são de O lll natnr&l aspero, terão aversão
áquelle, que fôr m u i to doce, e avaliarão
esta doçura por uma. gra nde molleza ;
bem que esta qu al i d ad e de doçura seja
a mais universalmente amada. O uuico
remedio para este mal (assim como
para toda a sorte de tentação) é uma
simples div e rsão, flUero d i zer, não cuidar
n is to ; mas a desgraça é que nós que­
remos conhecer bem, se temos, ou não
razão de ter aversão a alguma pessoa.
Oh ! nunca devemos occopar-nos em
i ndagar isto ; porque o nosso amor
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- {26 -

pro pri o , que nunca dorme, n os dou­


Nu§. tão bem a pilula, que ool-B fará
reputar boa ; quero dizer, q o e elle oo!I
fará vêr, que é verdade, que temos
certas razões, as qnaes nos parecerão
boas ; e approvada.s ellas pelo nosso
juízo, e pelo nosso amor proprio, não
haverá já meio que nos embarace o
j ulgai-as justas, e racionaveis. Oh ! na
verdade , devemos guardar - nos bem
d' isto. Estendo-me um pouco ·em fall a r
d' esta ma.teria, porque ella é d' im­
portancia.
Nunca temos razão de ter ave rsão,
muito m en o s de a nutrir : digo pois,
quando as a v er s õ e s , são natoraes, não
devemos fazer caso algum dellas ; mas
divertir-nos, sem dar mostras de nada,
e enganar assim o nosso espirito ; porém
é preciso combatei-as, e abatei - as,
quando vemos qu e o natural passa mais
adiante, e nos quer fazer apartar da
submissão, que devemos á razão que
nunca nos permitte fazer cousa alguma
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- 127 -

em favor de nossas aversões ; assim


como das nossas inclinações. quando
cllas são más, com receio de offender
a Deus. Ora quando em favor das nossas
aversões não fazemos outra cousa mais,
qne fallar um pouco menos agradavel­
m ente, do que faria.mos a uma. pessoa,
pela qual tivessemos grandes senti­
mentos d ' affei ção, não é isto consa
grande ; m as q ua s i não está. na nossa
mão ob! ar d'outra maneira. Quando es­
tamos movidos desta paixão, !leria in­
j m1tiça exigir isro de nós .

C APITULO XXX

D A COKVERSAÇÃO
Pelo que respeita. a conversação, tende·
cuidado da. doçura ; sêde sempre igual ,
paci en te , e doce em reprimir os ím p etos
do vosso natural, um pouco vivo, e ar­
dente : especialmente sêde humilde, e
sempre doce ; a.proveitae-vos das vossas
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- 128 -

penas, aceitando-as amorosamente por


amor daqoelle, qoe padeceo tanto por
amor de nós.
Entre dia nas vossas obrigações, vêde
se o vosso amor não está muit.o aferrado
a alguma consa, se n ão está desenca­
minhado, e se vós estais sempre ape­
gado a uma das mãos de Nosso Senhor.
Se vos achai s excessivamente embara­
çada, socegae a vossa alma, e ponde-a
outra vez em repouso : representae-vos
como Nossa Senhora empregava do ­
cemente uma lle suas mãos no tra·
halho, emquanto tinha Nosso Senhor
na ootra, ou no hrnço, quando elle era
menino.
No tempo de paz, e da tranquillidade,
multiplicae os actos de doçura : pois por
este meio costumareis o vosso coração
á mansidão.
Em segundo lugar trabalhae por ad·
quirir a suavidade de coração para com
o proximo, considerando-o como obra
de Deo!4, qne em fim ha de gozar, se
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- f29 -

aprouver á. bondade celestial, do pa·


raieo, que nos está. preparado. E nós
devemos supportar ternamente com uma
grande compaixão das suas fraquezas
espirituaes aquelles, a quem Deus sup ·
porta.
Deveis sustentar firmemente a cruz
de Nosso Senhor, para caminhar seguro
no meio dos perigos, que a variedade
de encontros, e conservações poderão
occasionar ao vosso coração ; de ma·
neira, que todos os vossos movimentos
sej am examinados pelo contrapeso da
unice. e amabilissima vontade daquelle,
a quem tendes consagrado todo o vosso
corpo, e o vosso coração: conserve.e bem
este coração, por amor do qual o coração
de Deus se entristeceu até a morte ; mor­
tificae- o nas suas alegrias demasiado
excessivas, e alegre.e-o nas suas morti·
ficações, e caminhe.e sempre esforçada·
mente de virtude em virtude, até che­
gardes ao supremo grau do amor de
Deus : mas nunca lá. chegareis ; porque
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- t30 -

este sagrado amor, assim como o seu


objeoto, que é uma suprema Bondade,
não tem limites.
E' muito preciso ter sempre firmes
em nós duas virtudes amadas, a doçura
com o prox:imo, e a amabilissima hn·
mildade para com Deus : e eu espero
que assim será ; porque este grande
Deus, que vos tomou pela mão, para
vos trazer a si , não vos ha de desam­
parar, até que vos colloque no seu Ta­
b ernaculo .
E' mister arrancar d'uma vez o cui­
dado das preeedencias, pois qne nunca
possuímos tanta honra, como quando a
desprezamos ; e porque isto inquieta o
coração, e nos faz commetter impru­
dencias contra a doçura, e humildade .
Minha querida alma, observa.e bem o
preceito dos santos, os quaes todos têm
advertido aquelles, qne o querem ser,
fallem pouco, ou nada de si mesmos, e
das suas cousas. Ora soa, permanecei
pois em paz : não é mister nem quebrar
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- t3t ..:..

as cordas, nem dei:nr a cithara, quando


conhecemos que desafinamos ; devemos
escutar para vermos donde nasce o des­
concerto, e at-esar, ou afrouxar socega­
damente a corda segundo requer a arte .
Derramae em todas as peças da vossa
conversação a sinceridade, e alegria,
assim interior, como exterior, e a do­
çura : e tambem sobretudo ame.e esses
queridos irmãos, com quem a propria
mão da Providencia Divina vos asso­
ciou, e uniu com laço celestial : sup ·

portae-os, amae-os, acariciae-os, e met­


tei· os no vosso proprio seio.

C A PITULO XXXI

DA DOÇURA
Fazei um particular exerci cio da do ·
çura e condescendencia com a vontade
de Deus, não nas cousas extraordina­
rias, mas principalmente nos pequenos
embaraços de cada dia ; prepara.e-vos
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- 132 -
para isto pela manhã, depois de jantar,
e depois de vesperas ; porém fazei isto
com espirito tranquillo, e alegre : se vos
succeder faltar, h umilhae-vos, e princi·
piae de novo.
Bêde mui benigna com.todos, mas es·
pecialmente com os nossos : não nos
afadiguemos, vamos do nosso \·agar,
sotl'rendo-nos uns aos outros : guarde­
mo-nos muito de que o nosso coração
nos escape. Ai de mim ! dizia David,
o meu coração me deixa. Mas nunca
o nosso coração nos desampara, se
nós o não desamparamos; tenhamol·o
sempre nas mãos, como Santa Catha·
rina de Sena.
Aconselho-vos que façais o mais doce
e prudentemente que vos fõr possivel,
aquillo, que vos fôr recommendado, sem
j ámais quebrar a paz com ninguem. De·
veis procurar aquillo, que virdes que
se póde fazer com amor, e deixar o que
se nã.o póde fazer sem debate. Quando
nos embaraçamos com muitas pessoas,
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- 133 -

não duvido que o nosso espirito sinta


aversões, e repngnancias ; porém, minha
querida alma, isto são outras tantas oc­
casiões de exercitar a verdadeir a vir·
tude da doçura ; porque 6 mister fazer
bem, santa, e amorosamente, o que de­
vemos a cada um , ainda que sej a contra
vontade, e sem gosto.
Ponde pois todas as manhãs o vo11so
coração em estado de humildade, de do­
çura, e de tranquillidade ; como tambem
depois de jantar, depois de graças, de­
pois de vesperae, e muitas vezes no dia.
Ora eu bem sei, que tendes muito fre ­
quentemente motivo para exercitar o
amor do desprezo, dos maus trata­
mentos, e da vossa propria abjecção
nas diversas occurrencias, que presen­
temente vos são frequentes : fazei o
bem : o grande ponto da humildade con·
siste em servirmos, honrarmos e tra­
tarmos nas occasiões, e a proposito,
com aquelles, que sabemos, que nos são
contrarios.
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·- i34 -

Não devemos ser cuidadosa.mente im­


portunos com aquelles, que nos têm a­
versão ; mas permanecer humildes, sub­
missos, doces, e tra.nquillos entre elles ;
isto é cousa admiravel. Porque, minha
querida alma, as humildades, que menos
vêmos, são as mais finas, e as mais se­
guras. Uma grande igualdade d'homor,
uma. contin�a doçura, e suavidade de
coração é mais rara, que a castidade
perfeita., e portanto mui para desej ar.

C A PIT F LO XX.XII
D A MODESTIA

Ha tres sortes de modestia. A pri­


meira é, a que se chama. modestia por
excelle'ncia ás outras ; tal é a decencia
lla nossa postura e é exterior e é muito
recommendavel por muitas razões : e pri­
JUeiramente porque nos subjuga muito ;
nlo ha virtude em que sej a preciso uma
tão p articular attençã.o, e o seu grande
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- t35 -

valor consiste em nos subjugar ; pois


tudo, o que nos sujeita por amor de
Deus, é de um grande merecimento, e
admiravelmente agradavel a Deus.
A segunda razão é porque ella nos
não subjuga só por certo tempo ; mas
sempre, e em todo o lngar, assim es­
tando sós, como acompanhados, e em
todo o tempo ; sim , ainda dormindo. Oh
meu Deus, quão modesta, e devotamente
nos deitariamos, se vos vissemos ! Cru­
zariamos sem duvida os braços sobre
os nossos peitos com uma grande de­
voção. A modestia pois subjuga-nos
sempre, e em todo o tempo de nossa
vida, em razão de que os anjos nos são
sempre presentes, e Deus mesmo, a
cujos olhos nós nos conservamos mo·
destos. É tambem muito recommen­
davel esta virtude em razão da edifi·
cação do pro:rimo ; e seguro-vos, que
a simples modestia exterior tem con·
\·ertido muitos . A modestia é uma pr6-
gação muda ; é uma virtude, que São
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- 136 -
Paulo recommenda. mnito particular­
mente, dizendo : Fazei que a vossa mo­
destla se manifeste diante de todos os
homens. Ora a virtude da modestia
observa tres cousas ; a saber : o tempo,
o lugar, e a pessoa. Porque dizei-me,
não seria importuno aquelle, que na
recrea9ilo não quizesse rir, senão como
se ri fóra d' este tempo ' Ha gestos, e
posturas, que fóra d'este tempo ser;am
immodestias, mas que aqui o nl.o sn.o.
Assim nlLo seria tambem avaliado por
leve, e immodesto aquelle, que quizesse
rir no meio das occupações sérias, e
c1ne alliviasse o seu espirito, como
muito racionavelmente se faz na re­
creação ' Tambem devemos observar o
lugar, as pessoas, e as conversações,
em que estamos ; mas especialissirue.­
mente a qualidade da pessoa.
A segunda virtude da. modestia é in·
terior, e faz na alma os mesmos effeitos,
que ella produz no corpo ; mantém em
tranqnillidade as potencias da nosaa
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- 1 37 -

alma, evitando a curiosidade do enten·


dimento, sobre o qual ella exercita o
seu cuidado, cortando tambem á. nossa
vontade a multidão doe desejos, fa·
zendo·a. applicar santamente á.qaelle
Ulli co, que Maria. escolhen, e que nunca
lhe será. tirado, que é a vontade de
agradar a Deus. Martha representa
muito bem a immodestia da vontade ;
pois que se afadiga, occupa todos os
servos de casa, anda d'uma para outra
parte sem parar ; tan to desej o tem de
tratar bem a Nosso Senhor, e p1ue­
ce-lhe que nunca. haverá promptas bas·
tantes iguarias para o regalar. Assim
a vontade, que não é regida pela mo­
destia, pRSSa d'um motivo a outro para
se mover a amar a Deus, e desejar
muitos meios de o servir ; e não oba·
tante não silo precisas tantas cousas.
Mais vale unirmo. nos e. Deus, como a
Magdalena, conservando-nos a eeas pés,
e pedindo-lhe, que nos dê o seu amor,
que pensar como, e por que meio o pode·
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- 198 -

remos adquirir. Esta modestia tem a von·


ta.de empregada. no exercioio dos meios
de sen adiantamento no amor de Deus,
segundo a vocação em que estamos.
Disse que esta virtude se occupa prin·
cipalmente em subjugar o nosso enten­
dimento ; e isto porque a curiosidade,
que naturalmente temos, é perigosis­
sima, e faz que nada saibamos perfei­
tamente ; tanto que não empregamos
assás tempo para a a11render bem.
As abelhas nunca param, em quanto
não têm rei, e não cessam de voar ;
porém logo que o rei nasceu, aj untam-se
ao redor d'elle. Assim desde que as
nossas almas têm escolhido Nosso
Senhor por unico, e soberano Rei, as
potencias, á. maneii·a de castas abelhtt.e
mysticas, se sooegam, pondo-se junto
ll' elle ; e j á.mais se.hem dos seus cor­
tiços, senão para a. colheita dos exerci­
cios da. caridade, que este santo Rei lhes
manda. praticar com o proximo, e logo
depois se tornam á m odestia., e a este
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- i 39 -

santo socego tão amavel, para. poupar,


e recolher o mel dos santos, e amorosos
pensamentos, e affeições, que tiram da
sua sagrada presença ; e d'este modo
evitam a. curiosidade do entendimento
com a simples attenção a. Deus, e tambem
a estupidez, e preguiça do espírito, com
os exercícios de caridade, que prati­
carem com o proximo, quando deverem.
Deve-se notar, que a modestia ex­
terior, da qual temos falia.do, serve de
muito á interior, e para adquirir a
paz, e tre.nquillidade da alma.
A prova se vê em todos os Santos
Padres, que fizeram grandissima pro­
fissão ela oração, porque todos elles
j ulgaram, que a postura mais modesta
ajudava muito neste exercicio, como
estar de joelhos, com as mãos erguidas,
ou com os braços em cruz.
A terceira modestia respeita ás pa·
lavras, e modo de conversar. Palavras
ha, que seriam immodestas em outro
qualquer tempo, que não fosse o da re-
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- 140 -

crea9ão, aonde justamente, e com boa


razão se <leve alliviar um pouco o espi·
rito : e quem não quizesse fallar, nem
deixai· fallar os outros nesse tempo,
sen ão de cousas altas, e elevadas, com­
metteria uma immodestia ; porque, não
dissemos nós, que a modestia attende
ao tempo, aos lugares, e á.s pessoas T
A este proposito lia eu o outro dia,
que S. Pacomio, antes d' entrar no de­
serto para fazer uma vida monastica,
teve grandes tentações ; os espiritos
malignos lhe appareciam frequente­
mente em diverBBs maneiras. O es·
criptor da sua vida diz, que indo elle
um dia buscar lenha, veio uma grande
multidão d'esses espiritos infernaes
para o espantar, os quaes se formaram ,
como soldat'los, que mettem guarda,
todos bem armadas, e gritavam uns
aos outros : fazAi lugar ao santo homem.
S. Pacomio, que conheceu muito bem
que isto eram ardis do espírito m a ­
ligno, pôz-se a rir dizendo : V ó s zom-
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- W -

bais de mim, mas se Deus quizer, hei


de sêl-o . Ora o diabo vendo que o não
tinha podido surprehender, nem fazer
entrar em melancolia, j ulgou que o
suqnehenderia com a alegria, pois que
elle se tinha rido da sua primeira em·
bosca.de. : foi·se pois amarrar o me. grande
quantidade de cordas a uma folha de
uma arvore, e muitos demonios se
puzeram a estas cordas, como para
puxar com grnnde violencia, gritando,
e sun.ndo, como se tivessem um grande
trabalho. O bom santo levantando os
olhos, e vendo esta loucura, se repre·
sentou Nosso Senhor crucificado na
arvore da cruz : elles vendo, que o
santo se applicava ao frocto da arvore,
e não 4. folha, fllgiram todos confusos,
e envergonhados. Ha tempo de rir, e
tempo de não rir : assim co m o tambem
tempo de fallar, e tempo de estar ca·
lado, como nos mostrou este glorioso
santo nestas tentações. Esta modestia
compõe o nosso modo de fallar, afim
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- ! 42 -
de que sej a agradavel, não !aliando
nem muito alto, nem muito baixo, nem
mui devagar, nem mui depressa, con­
servando- nos nos limites d'nma santa
mediania, deixando fallar os outros sem
os interrompermos (porque isto é cousa
de balburdia), fallando porém quando
nos couber, para evitarmos a grosseria,
e insufficiencia, que nos oi.o deixa ser
<le boa conversação. Tambem moitas
vezes nos achamos em oocasiões, em que
ú necessario dizer muito, calando, pela
modestia, igualdade, paciencia, e tran­
quillidade.

OAPITUJJO XXXIII
EXEROIOIO T>A PROPRU. ABNEGAÇÃO
Primefraponto. Permanecei invariavel
na resolução de vos conservardes na
simples presença de Deus, por uma
inteira abnegação, e entrega de vós
mesmo entre os braços de sua santís­
sima vontade.
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- f4.3 -

E todas as vezes, que achardes o vosso


espírito fóra d'esta agradavel morada,
tornae - o a conduzir docemente, sem
fazer todos os dias actos sensiveis do
enten(limento, nem da vontade : porque
este amor de simples confiança, esta. re·
missão, e repouso do vosso espírito n o
sei o paternaldaBondade Diviaaoompre­
hende tu do , o que se póde desejar a Deus.
Begun<lo ponto. Permanecei tambero
,sem vos clistrahirdes a reparar no q u e
fazeis, ou no que haveis de fazer, ou
no que vos succederá. em toda. a oc­
Cl�sião : não philosopheis á.cerca das
vossas oontradicções, e atHioções, mas
recebei todo da mão de Deus sem ex­
cepçlLo, com doçura, e paciencia, con­
formando-vos em tudo, e por tudo com
a sua muito adoravel vontade. Se ad·
vertia que em vós nasce algum cuidado,
ou desej o , despoje.e-vos <l'elle pro m p ta­
mente, e ponde· o em Deus protestando
que não quereis senão a. elle, e a sa­
ti sfação de sua boa vontade.
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- i 44 -

1.'erceiro ponto. Oonservae-vos pois em


a santissima soledade, e nudez com Jesus
Christo crucificado i deixae-vos reduzir
á amavel pureza, e desprendimento dos
meninos, para que o benigno Senhor vos
tome nos seus braços, para vos levar a seu
'
gosto á ultima perfeição do seu amor : a­
nimo, se elle vos privar ta.mbem algumas
vezes das consolações, e sentimento ela
sua presença; d' esta maneira é que a sua
presença. mesma. não occupa o vosso coi
ração ; mas elle só, á sua divina vontade.
Quarto ponto. Oh que bema.venturados
são os desprendidos, porque Nosso Se·
nhor os vestirá! Oh que bemaventurados
silo os que se despojam de todos os cui­
dados, salvo o de adquirir o amor de
Deus, e que frequentes vezes têm no seu
pensamento : Bem nada appa.reci neste
mundo, e sem nada. delle hei de sa.hir !
Oh que bemaventurado foi o antigo José,
que não tinha botão, nem colchete no seu
roupão : de sorte, que quando quizera.m
segurai· o por elle, o largou num instante !
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- 145 -

Quinto ponto . Admirae a sagrada


Amante dos Canticos, que reputa por
u ma grande felicidade estar privada de
toda a companhia, para estar só por só
com o seu Rei, e dizer· lhe : Possuo o
meu amado, e elle me possoe a mim.
Vêcle a gloriosa Virgem Maria, <l São
.Tosó caminhando para o Egypto : na
maior parte de sua devota viagem ni\o
viam ninguem mais, seull.o o seu doce
Jesus. Este é o fim da transfiguração
não vêr m ais nem Moysés, nem Elias ;
mas sómente Jesus.

C APITULO XXXIV
DA PF.RFEITA DEIXAÇÃO DE NÓR
MESMOS A DEUS

A dei:raçll.o de nós mesmos a Deus


ni\o é outra cousa mais, do que dar-lhe
totalmente a nossa vontade. A pratica
d'esta. deixação consiste nome. perfeita.
indi:ffe rença em receber toda a sorte de
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- 146 -

auccessos, como elles acontecerem por


ordem da providencia de Deu s. Ora,
pe.ra fazer esta deixaçio, é necessario
obedecer t\ vontade de Deus signi·
ficada, e á do seo gosto ; uma d' estas
cousas se faz por resignação ; e a outra
por moclo d'inditferença.
Este estado de deixaçll.o de nós
mesmos comprehende tambem a dei­
xação ao gosto de Deus em todas as
tentações, seccoras, aversões, e repo­
gnancias, que acontecem na vida es­
piritual ; porque em todas estas cousas,
quando não succedem por nossa culpa.
se vê o gosto de Deus. Finalmente a
deixaçll.o é a virtude das virtudes ;
esta é a nota da caridade, o cheiro da
humildade, e, como me parece, o me­
recimento da paciencia, e o fructo da
perseverança. Grande é esta virtude,
e só digna de ser praticada pelos filhos
mais mimosos de Deus. Meu Pae (diz
o nosso doce Salve.dor na cruz), em
vossa.a mi.os entrego o meu espirito ;
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- f47 -

se é vossa vontade, que esteja mais


tempo nesta cruz, para padecer mais,
sou contente ; eu entrego o meu espi­
rito na.e vossas mil.os. O mesmo devemos
nós fazer em todas as occasiõee, minha
querida alma, ou padeçamos, ou go·
zemos de algum contentamento, dei­
xando-nos conduzir assim conforme a
vontade divina, segundo o seu gosto,
sem nunca nos deixarmos preoocupar
da nossa vontade partic olar. Nosso
Senhor ama com um amor summamente
terno aquelles, que têm a dita de se
entregarem d'esta sorte ao seu seio
paternal, deixando-se governar pela
sua divina providencia, sendo total·
mente certo, que nada lhes será. en­
viado d'este seio paternal, que não
sej a muito amavel, e que elle não ha
de permittir que lhes aconteça cousa,
de qne lhes não faça resultar bem, e
utilidade, comtanto que tenhamos posto
nelle, como devemos, toda a nossa con·
fiança ; porque já.mais somos reduzidos
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- i 48 -
a tal extremo, que não possamos sempre
derramar diante de sua Divina Ma­
gestade os perfumes d'uma santa sub·
missão â. sua vontade santissima, e
d' uma continue. promessa de o que­
rermos servir, e de não o quererruoR
offender. O nosso bom Deus quer ás
vezes, que estas almas escolhidas o
sigam com grande trabalho do espirito
sem outro arrimo mais, que o da sua
divina vontade, que e.ssim o quer. E
eis- aqui, minha alma, como eu quero
que vós caminheis.
Uma alma, que se abnegou assi m ,
não tem mais que fazer, d o qne dei­
xar-se estar nos braços de Nosso Senhor,
como um menino no seio de sua mãe ;
o qnal, quando o põem no chll.o, pare.
oaminbar, caminha até que sue. mãe
torna a pegar nelle, e quando ella o
quer levar, o deixa fazer o que quer :
do mesmo modo esta alma amando
deveras a vontade de Deus, em tudo
o que lhe acontece, se deixa levar, e
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- t49 -

caminha fazendo toda.via com grande


cuidado tudo, o que é ela vontade si­
gni ficada i e apenas conhece e m si in·
cli nação propria, no mesmo instantf.
se faz morrer na vontade de Dens.
Poucas pessoas ha que cheguem a
eMte grau de perfeita deixação de si
mesmas ; mas todavia. todos devemos
procurar chegar a elle, . cada um se­
gundo a sua capacidade.

CAP l'l' U LO XXX V


1';XEROIOIO i>A ILA A Hlll lllA N A

Podeis servir-vos para o vosso retiro


espiritual dos pontos, que aqui vos
noto, os qoaes contemplam a divina in­
fancia de Nosso Senhor Jesus-Christo.
No domingo, contemplae-o nas pu·
rissimas entranhas de sua Mãe Ban­
tissima, e admirae como aquella im­
mensa grandeza se abateu assim por
nosso amor.
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- l50 -

Na segunda- feira, admira.e-o no pre­


sepio em summa. pobreza, deseja.e i ­
mitai-o.
Na terça-feira, vêde-o adorado dos
anj os, e dos pastores : fazei-lhe com
elles mil reverencias interiores.
Na quarta, considera.e que elle já
derrama o seu precioso sangue n a Cir­
comcfs!l.o : so � plicae-lhe que córte todas
as superfluidades de vossa alma.
Na quinta, occopae-vos em meditar
as mysteriosas oft"ertas, que os reis lhe
apresentam : oft"erecei- vos a elle e ado­
re.e - o com elles.
Na sexta · feira , contempla.e · o no
templo nos bra9os de soa Santis­
sima Mãe : da.e-lhe o vosso coração
11ara ser soa morada, e seu templo
sagrado.
No se.bbado, medita.e a sua fugida
para o Egypto : pedi-lhe a graça de
fugir bem do peccado, e de todo o
que lhe 6 desagradavel.

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- t5t -

C A P I TULO X X X V I
1'JXERUIOIO s o mm A p AIXlO DE
NOSSO SENHOR

No domingo, vêde como elle lava os


pés aos seus amados discipulos ; e
rogae-lhe que vos lave, e purifique de
toda a immundicie do peccado.
Na. segunda feira, contemplae-o no
Jardim das Oliveiras orando com todo
o fervor a seu Eterno Pae : pedi - lhe hu­
mildemente o dom da oração.
Na terça, medito.e com que suavidade,
e mansidão recebe o beij o do traidor
Judas : e pedi-lhe a caridade, e suavi·
de.de para com os inimigos.
Na. quarta, considerae-o preso, e
amarrado pelos judeus : pedi-lhe a pa.­
ciencia nas tribulações.
Na quinta, admirae como elle sem
resistencia alguma se deixa vestir como
louco em casa de Herodes : pedi- lhe
humildade, e desprezo de v ós mesma.
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- 152 -

Na sexta, contempla.e-o como volun­


tariamente, e com grande valor leva a
pesa.da carga da cruz aos hombros até
o monte Calva.rio : fazei muitos actos
de compaixão de snati incomprehen­
si veis dôres.
No sabbado, levantae os olhos ; vêde-o
estendido, encravado, e levantado ao
ar na arvore da cruz :. escuta.e cuida­
dosamente as suas deces palavras : ro­
ga.e-lhe que vos dê a g1·aça de vi ver,
e morrer em seu santo amor, pois que
elle morreu por vós.

C APJTUJ,O XX X VI I
UA 1-.:t:i'.rlM AÇlo, ltUlr. 81': 1n;vB l"A �EH D A l'i
UEUH.Al:l1 E COMO BE UI�VEM OBf:IJo:ll\' A U
L'OR E; U A ESJ>JWrn u ' A l\lOU.

Quem cleseja viver feliz, e perfei ta­


mente, deve acostumar - se a viver con­
forme a razão, regras, e obedieocia ; e
não segundo as inclinações, ou aver-
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- 153 -

sões, e honrar muito todas as cousas


da sua religião : porque se hoje des­
preza ama, amanhã desprezará outra,
e assim quebrado o laço todo irá. em
decadencia.
As regras, e observiincie.s religiosas
são a escada de Jacob, pela qual os
religiosos devem em vida angelica subir
a Deus por meio da caridade, e descer
a si mesmos pela humildade. Porque
ainda que ellas não obrigam a peccado
-eru razão da regra, comtudo raras
vezes deixamos de peccar desprezando
urn bem proprio para o nosso adian­
tamento ; e se necessariamente havemos
de dar conta de uma palavra ociosa,
quanto mais a daremos de termos tol'·
nado ocioso, e inutil o convite, que a
regi;a nos faz para o seu exercício, ao
qual nos temos obrigado'
A medida que o amor divino fizer
progresso numa alma religiosa, a fal'á
sempre mais exacta, e cuidadosa em
observar todas as regras, e constitui-
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- 15' -

ções ; ainda que não obriguem a pec­


cado : porque o amor é forte, como a
morte ; logo os attractivos do amor são
tão poderosos para fazer executar uma
boa resolução, como as ameaças da
morte.
O zelo (diz o sagrado Oantico) ó
duro, e firme como o ferro. As almas
pois que têm zelo, farão por virtude
d'elle tanto, e mais do que não fa­
riam por temor do inferno ; a suave
violencia do amor é muito mais agra­
davel do que o temor da condemnação
eterna.
Quem guarda os mandamentos, diz
Salomão, guarda a sua ai rua ; e quem
despreza a sua vida, morrerá.
Ora a vossa. vida, minha alma, é o
modo de vida em que Deus vos pôz :
não fallo dos votos ; porque é clarissimo
que quem viola absolutamente a regra,
e os votos essenciites, pecca mortal­
mente.

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- 155 -

CA P I T f T LO X X X V T T T

.\OERCA D A S D I F1•'JOULDADES1 QUE


SE ENCONTRA M NA DIRECÇÃO
Pelo que respeita á direcção : não
lamenteis a perda das vossas commodi·
·
dades espirituaes, e dos contentamentos
particulares das vossas inclinações, para
·cultivardes bem essas almas ama.das,
que vos ei;tão encarregadas : porque
Deus vos recompensará. no dia das vossas
boda.a espirituaes. A n tigamente, as es­
posas não traziam no dia de soas bodas
corôas, ou ramalhetes de ftôres, que
ellas mesmas não tivessem colhido,
atado e composto. Estas pequenas almas
são vossas : porém pedi a Deus, que vos
dê o espírito de doçura, e de simplici·
dade ; o espírito de amor, e humildade ;
o espírito de suavidade, e de pureza ; o
espírito d' alegria, e de mortificação :
tbdo isto é neoessario para bem diri·
gil· &S i pois o espirito de Deus 6 gene­
roso, suave e humilde.
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- 156 -

Ora vós sabeis, minha querida alma,


que o fogo, que Moysée viu no monte,
l'epreeentava o santo amor ; e que, assim
como as che.mmas se nutrem entre os
espinhos, assim tambem o exercicio do
amor sagrado se conserve. melhor no
meio das tribulações, do que nos eonten­
tamentos. Animo pois, minha alma, ca.·
minhemos ao longo d' estes baixos valles;
vivamos abraçados com a cruz com hu·
mildade, e paoiencia. Que nos importa
que Deus nos falle nos espinhos, ou no
meio de suas flôreet )las eu não acho que
elle j á.me.is fallasse entre tlôres ; n os de·
sertos, e nas sarças sim muitas vezes.
llaminhemoe pois, minha alma, e e.dian·
temos a. jornada no meio do mau tempo,
e da noite ; este é o modo de imitar a es­
posa, que não aoha no seu leito o seu
amado. Levantae ao céo os olhos, e vêde
que nem um só doe mortaee, que ahi são
immortaee, lá. foi senão por meio de
perturbações, e aftlicçõee continuas ; nas
vossas contradicções dizei m uitas vezes :
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- 1 57 -

É por e.qui o caminho do céo ; eu vejo o


porto, e estou certa de que as tempestades
n;ie não hão de impedir o chegar a elle.
Quando admoestardes, deveis usar
de amor, e de doçura : porque com isto
fe.zem e.s admoestações melhor effeito,
e d' outro modo podereis desconcertar
esses espíritos um pouco fracos.
Oh quanto sois ditosa, se caminhais
sempre pelo caminho da humildade com
gre.ndé animo, e se o vosso animo mr
e m Deus ! Vivei em santa alegria entre
as pessoas que vos rodeiam ; mostrae­
lhes um peito espiritual, e de boa viste.,
e de gracioso accesso, para que corram
a elle com alegri a. : ea nllo digo, minha
alma, que sejais aduladora, lisonjeira,
faceta ; mas sim doce, suave, amavel, af·
favel : em summa e.mae cordial, maternal,
e pastoralmente as almas que vos foram
confie.das, e fareis tudo, sereis tudo para
todas, mãe de todas , e de soe corro a todas;
esta unice. condição é bastante, e sem
ella nada baste..
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- 1 58 ..;...

OAPITULO XX.XIX
llOS MEIOS, COM Q,UE PODEMOS FIRMAR

O NOSSO OORAÇÃO l!�l\f DEUS, DE SORTE,


t1UE N A D A O POSSA DEBVIA H Il1ELLE.

Perguntais-me, ruinha estimadissima


alma, como fareis pe.re. enjeitar de tal
maneira o vosso espírito em Deus, que
nenhuma cousa o possa separar d'elle.
Doas cousas são neceesariae para isto,
a. saber, morrer, e ter conseguido a
salvação ; por quanto depois d'isto
já.mais haverá separação. Mas vós di ·
zeis, que não 6 ainda isto o que pedis,
mas sim o que poderíeis fazer para
evitar que a menor mosca apartasse,
como aparta, de Deus o vosso espírito ;
quereis dizer a menor distracção ; per­
doae-me, minha alm a ; a mais pequena
mosca da distracção não separa o vosso
espírito de Deus, como vós dizeis ;
porque nenhuma cousa nos aparta de
Deus, senl.o o peccado.
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- i59 -

Tenho observado, que muitas não


fazem differença de Deus ao sentimento
de De us, da fé ao sentimento da fé, o
que é um grande defeito : parece-lhes
que, quando não sentem Deus, não
estil.o na sue. presença, e isto é uma
ignora.ncia. Porque uma pessoa, que
vai padecer o martyrio por Deus, e
todavia por todo este tempo não pensar
em Deus, mas sómente na soa pena,
ainda que nil.o tenha o sentimento de
Dens, não deixa de merecer em at­
tençil.o á. soa primeira resolução, e do
fazer um acto de perfeito amor. Ha
muita differença entre a presença de
Deus (quero dizer e star na sua pre­
sença) e ter o sentimento de soa pre.
sença. ; só Deus nos póde conceder esta
graça; porque dar-vos meios para ad·
quir ir este sentimento, não é possivel.
Perguntais o que deveis fazer para
estar sempre com um grande respeito
diante de Deus t Oomo somos indi·
.gniBBimos d' esta graça, nlo ha ou tro
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- t60 -
meio para o fazer, senão como vós di­
zeis : considera.e , que elle é o nosso
Deus, e nós as suas crea.tnras frageis,
e indignas d'esta honra, como fazia
8. Francisco, que passou toda uma
noite perguntando a Deus d' este modo :
Quem sois vós, e quem sou eu T F i nal­
mente se IDA perguntais : Que po derei
eu fe.zer para adq uil'ir o amor de Deust
Dir- vos - hei : Querendo -o amar ; e que,
em l u ga r de vo� pfl rd es a discorrer, e
pergu ntar, o que fareis pare. unir a
Deus o vosso e spi ri to, tratei s de o
p r aticardes por meio de uma continua
a.pplicaçllo do vosso espírito a Deus, e
eu vos seguro, que muito me.is depressa
c ons e guireis a vossa pretensão por
este meio, do que por nenhum outro :
porque á medida. que nos dissipamos,
somos menos recolhidos, e por conse­
guinte menos cap azes de nos unirmos, e
aj untarmos com a Me.gesta.de Divina,
que nos quer todos sem reserva. Almas
ha que se occnpam tanto em discursar
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- 161 -

como farão, que nlo têm tempo de


obrar ; e com todo no que toca 6. nossa
perfeição, que consiste na união da
nossa alma com a Bondade divina, o
melhor é saber pouco, e obrar muito.
Parece-me que e.quelles, a quem per­
gunte.mos o caminho para o céo, têm
moita razão para dizerem, como os
que dizem, - que para ir a tal lugar, se
deve andar, pondo sempre nm pé
diante do outro, e que d'este modo se
chega aonde se pretende. Oaminhae
sempre, dizei e. estas almas desejosas
da sna perfeição : caminhae pelo ca­
minho da vossa vocação com simpli·
cidade, occupando-vos mais em obrar,
que em desejar : este é o caminho
mais breve.
Mais eis-aqui uma malicia, que me
deveis permittir que eu vos descobra,
8em todavia vos offender ; e é que vós
quereríeis que eu vos ensinasse uma
via de perfeição acabada de todo, de
maneira que não honveBSe ma.ia, do que
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- t62 -

plH-e. na cabeça, como farieis 6. vosBB


roupa, e que vos a.chaeseis por este
modo perfeita, e sem custo, quero
dizer, que vos désse a perfeição já.
feita ; pois o que digo que é necessario
fazer, não é do gosto da. natureza, nem
tambem o que quereria.mos.
Parece-vos que a perfeição é arte ;
e que se podessemos descobrir o se­
gredo d' ella, a teríamos logo sem tra­
balho. Por certo que nos enganamos ;
porque o maior segredo d'ella é obrar,
e trabalhar fielmente no exercício do
amor divino, se pretendemos unir-nos
com o Amado. Mas quizera que se
advertisse, que quando digo que é ne·
cessario obrar, intento sempre fa.llar
da parte superior de. nossa alma ; porque
e.e repugnanoias da inferior não devem
assustar- nos mais do que assnstam os
passageiros, os cães, que ladram de
longe.
Passemos agora a outra pergunta, a
saber, que fareis para fortalecer as
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- t63 -
vossas resoluções, e fazer que ellae
surtam eft'eito : não, minha alma, nllo
ha melhor meio, do que pôl·aB em
pratioa.
Desejais melhorar -voe! Em se oft'ere ·
cendo a occaeilLo, não a deixeis perder.
Quereis que voe diga por que razão
nós continuamos a ser ti.o fracos ! É
porque não queremos abster-nos das
viandas nocivas : desejarismos muito,
por exemplo, amar a correcçlo ; mas
queremos todavia ser estimados. Que
loucura ! Isto 6 impossivel : nunca sereis
forte em eupportar animosamente a
correcç!lo, em quanto comerdes a vi·
anda da estimação propria. Muito de·
eejá.ra ter a minha alma recolhida, e
comtudo não quero cortar por tantas
sortes de reflexões inuteis ; 6 impoesivel.
Meu Deus, bem. desejára eu ser firme­
mente invariavel nos meus exercicios ;
ruas tambem quizera que ellee me oi.o
cnetassem tant.o. Numa palavra, qui·
zera achar o trabalho já feito : 6 im·
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- f64 -

possivel emquanto a vide. dnrar; porque


sempre teremos qne trabalhar ; a festa
ela Purificação não tem oitava. Devemos
ter doas resoluções iguaes ; uma, de
vllr crescer no nosso jardim as mãs
ti.ervas, e outra de ter o valor de as
vêr arrancar, e de as arrancarmos nós
mesmos ; porque em quanto vivermos,
não morrerá o nosso amor proprio, que
é quem causa estas impertinen�s pro­
<lncções.

CAPITULO XL

DA FIRMEZA QUJ� DEVEMOS TER N08

DIVERSOS AOOIDEN'.L'EH DO MUNDO

Quando Deus disse : façamos o homem


á.nossa imagem e semelhança, deu-lhe
logo a razão e o uso d' elia, para discernir
o bem do mal, e as cousas que devem
ser escolhidas das que merecem ser
desprezadas. Por meio da razão de·
vemos considerar os snccessos da Pro·

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- i65 -

videncia Divina, para d'ellee tirarmos


proveito e para nos governarmos sempre
por ella noe diversos sncoessos da nossa
vida espiritnal, nos quaes a firmeza e
oonstanoia é absolutamente necessaria.
É um abuso grandissimo não querer
padecer ou sentir tentações e mudanças
nos nossos humores, quando não nos
governamos pela razão e nll.o queremos
deixar-nos governar. Deus den ao
'
homem a razão para se conduzir : não
obstante poucos são os que a deixam
dominar em si ; pelo contrario dei­
xam-se governar pelas suas paixões e
não pela razão : por iseo de ordinario
são intJ:ataveis, varios e mndaveis em
11eus humores : se têm desejo de se
deitarem cedo, ou mui tarde, fazem-no ;
se de passear, ou tambem de fazer al­
guma cousa, fazem-no ; se de a não
fazer, não a farão ; e assim no mais :
e por tanto são inconstantes e mndaveis
em seus humores : mas, tambem na
conversação, querem que todos se ac-
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- tM -
commodem com elles e nl\o querem
conformar-se com os outros : deixam-se
arrastar das suas inclinações e pe.rti­
cnle.res aft"ectos, e pervertem assim a
ordem, que Deus poz em n6s, que tudo
será. suj eito á. razão.
Se a razão não domina inteira.mente
em nós sobre toda.e a.e nossas poten­
cias, faculdades, humores, inclinações
e, finalmente, sobr� 'ado o que em nós
houver, haverá. uma continua alterna.­
tiva, inconstancia e mudança : umas
vezes tristes, outras alegres ; hoj e fer­
vorosos, ámanhã preguiçosos ; esta­
remos tranquillos uma hora e depois
inquietos dous dias. Numa palavra,
toda a nossa vida se passará. em ocio­
sidade e perda de tempo. Devemos logo
conduzir-nos pela razão, para que o
acontecimento das contrariedades que
poderiam sublevar os nossos espíritos,
sendo inprevisto nos não perturbe ; mas
conservemos a paz na desi gualdade das
cousas que nos acontecem : e sempre
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- 167 -

1mbmissos á direcção da razão que Deus


collooou em nós, e á. sua Providencia,
permaneçamos firmes, constantes e in­
variaveis na resolução, que temos to­
mado, de servir a Deus constantemente,
sem interrupção alguma. Deve-se dizer
e tornar a dizer mil vezes que a desi­
gualdade dos accldentes nunca deve
levar ae nossas almas á. desigualdade
elo humor ; porque a. desigualdade do
humor só provém das nossa.e paixões,
inclinações e affectos não mortUlcados,
os quaee não devem ter poder em nós
com prfljoizo da razão. Vêde a S. José,
quando, sem saber o mysterio, viu a
Santa Virgem pej ada : soft'reo esta
pena sem a mostrar no exterior ; não
se queixa, nem lamenta., nem 6 mais
aspero na soa conversação, não a de­
monstra a Nossa Senhora, nem• a trata
mal : Deus sabe o que elle podia fazer
neste caso.
Mas direis vós : É tão grande a
aversão, que tenho a esta peBBoa,
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- t68 -
que qnasi lhe não poderia fallar sem
grande custo ; esta acção m e desa­
grada muito : tudo 6 um, comtudo
não devemos entrar em variedade contra
ella, oomo fazem os . colericos ; mas
comportarmo-nos como Nossa Senhora
e S. Jos6 : devemos se r tre.nqnillos na
nossa pena e deixar a Nosso Senhor o
ouidado de ool-a tirar quando fôr sua
vontade.
Devemos ter grande cuidado <le nos
aperfeiçoar, e nã.o ter cuidado de uol!sa
perfeição ; mas dei :ii:a l- o inteiramente
a Deus ; quero dizer, que devemo1:1 ter
o cuidado que Deus q ut1r que tenhamo i:1
de nos aperfeiçoar e deixar-lhe t.o­
da.via. o cuidado da nossa perfeiçi,o.
Doos quer que tenhamos um cuidado
tranquillo e pacifico, que nos obrigue
a. fazer •o que j ulgam conveniente a ­
quelles que nos conduzem , e, quanto
ao mais, que repousemos no s eu s e i o
paternal, procurando, quanto n o s fô r
possivel, ter em paz a nossa alma ;
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- t69 -

porque a morada de Deus foi feita na


paz e no coração pac ific o e bem re­
pousado.
Ponhamos, pois, todo o cuidado em
não dei xar mos perturbar, e i nqui e tar
os nossos espíritos com cousa nenhuma.
Se nos pozerem numa oooopação, de
que não gostamos, nllo digamos : Se
me dão este emprego, oahfrei em mil
impacieuoias ; estou já ti\o d i 1:1trahi da,
a i nda o se re i ruai8 : mas 8e me deix asse m
ua minha oelliuha, estaria t!\o mod es ta
e tão recolhida ! Ide com toda a sim·
plicidade para on d e vos leva a obedi­
enoi a. ; porque Deus, que vos faz ir para
ahi, ahi vos conservará. ; e pelo coo·
trario, se ficais aonde vos chu.ma. a
vossa incliul\9!1.0, a vossa vontade pro­
pl'ia. vos fará morrer ahi. Abracemos
tudo com o bedien ci a , sem nnnoa allegar
escusas, porque Deus será. por nós e
nos fará. aproveitar mais na perfeição
do que se estivessemos sem fazer nada.

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- t70 -

CAPITULO XLC

DA DESAPROPRIAÇÃO E DESPOJO DE
TODAS AB OOUBAB

O despojo r, fsz .se por tl'es degraus :


o p ri meiro é o affecto do despoj o , que
:,ie faz em nós pela consideração da
belleza. d' este despoj o .
O segundo degrau é a resolução qut1
se segue a este affe cto , porque faoil ­
mente nos resolvemos a u m bem que
amamos.
O terceiro degrau é a pratica , que
é mais diflioultosa.
É verdade, minha querida alma,
que nlLo poderemos chegar ' per-,
feição , emq uanto conservarmos af­
fect9 a qualquer imperfeição, por pe·
quena que sej a ; sim, ainda quando
não fosse mais que um pensamento
i nutil ; e não podereis orêr quanto mal
isto causa a uma alma : por pequeno
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- t7t -

que o mal seja, 6 preciso cortai-o logo


no instante que o sentimos : devemos
examinar ma.duramente se é verdade,
como nos parece, que não temos a
nossa aft'eição apegada ; por exemplo,
dizer uma palavra para d'ella tir1i.rmoB
louvor. Tambem podereis çonhecer
se estais apegada a alguma cousa
quando não tendes commodidade de
fazer o que foi proposto ; porque se
lhe não tendes apêgo ficareis em re­
pouso ; e pelo contrario, se por isso
voe perturbais, 6 s i g na l de que tendes
posto nella a vossa aft'eição. Ora as
nossas aft'eições são tão Jlreciosas (pois
que as devemos empregar todas em
amar a Deus) que devemos ter grande
cuida.do de nil.o pôl-ae em cousas inu­
teie ; e uma falta, ainda a mais leve,
commettida com aft'ecto é mais opposta
á perfeição do que cem commettidas
inadvertidamente e eem a.ft'ecto.

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- i72 -

C A PITULO XLII
TRES LEIS DAS POMBAS APPLIOADAS
.ÁS A L MA S RELIGIOSAS

Não deve causar-nos admiração, se


o Sagrado Esposo compara a sna Es­
posa com a pomb a ; porque a alma ver­
dadeiramente de Deus deve ter as con­
dições da pomba, que são estas :
A primeira, que tudo o que faz é para
o pombo e nada para si : talvez tereili
observa.do que a pomba , emquanto
choca o� ovos, não se bole de cima
d'elles, por nenhum modo vai á colheita
para se t1ustentar ; o pombo toma este
cuidado. Oh que bella e proveitosa lei é
esta, de não trabalhar senão para Deus
e deixar-lhe o cuidado de nós mesmos !
Digo tambem pelo que respeita ao
espiritual, e adiantamento 'de nossas
almas na perfeição : felizes de nós se
quanto fizessemos fosse para. o nosso
amavel Jesus ; porque elle tome.ria cui­
dado dt' nós ; e i medida que a nossa
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- 173 -

confiança fosse maior, o seu cuidado se


estenderia tambem mais sobre nossas
necessidades : e nunca deveria.mos du­
vidar que Deus nos faltasse ; porque o
seu amor, para com a. alma que repousa
nelle, é infinito, e ella., desde esta vida,
goze. de uma tre.nqoillidade e de uma
paz tamanha, que não ba paz e tran­
qoillidade que com esta se possa com·
parar, nem socego igual ao seu neste
mundo ; mas só mente no céo, aonde
para sempre ha de gozar plenamente
dos castos abraços do seu Reposo ce­
lestial.
Vivei pois nesse santo socego ; grande
lastima é, na verdade, vêr um tão
grande numero d' almas, que procuram
a perfeição, persuadi ndo-se que todo
está. em conceber oma grande multidão
de desejos, e afadigando-se em buscar
agora um meio, e logo outro, para a
conseguir, e nunca estão contentes,
neJU tranquillas em si mesma.e, nem
acham nunca peesoae bastantes a quem

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- i74 -

fallar, e pedir meios proprios e novos :


nnma palavra., occnpam-se tanto em
falle.r da perfei9ão, que se esquecem de
praticar o seo principal meio, que é o
de se .retirarem socegadas, e pôrem toda
a. sua confiança naquelle, que é só,
quem póde dar acrescentamento ao que
alias tiverem plantado. Todo o nosso
bem depende da graça de Deus, no
qual devemos pôr toda a nossa coo ·
fiança. Uma boa obra, sendo feita com
tranquillidade de espirito, vale mais
que muitas feitas com fadiga.
A alma , que é verdadeiramente
pomba, quero dizer, que ama a Deus
ternamente, applica-se com toda a sim·
plioida.de sem fadiga aos meios, que lhe
são prescriptos, sem procurar outros,
p�r perfeitos que elles possam ser.
Porém eu vos supplico, minha alma, que
considereis um pouco na vida. d' estes
grandes santos religiosos, de um Santo
Antão, tão honrado de Deus e dos ho·
mens por · causa da ena grande santi·
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- t75 -

dade : dizei-me como chegou elle é sua


grande perfei ção e santidadé t Foi por
ventura á força de lêr, ou por meio d�
conferencias e de frequentes commu·
nhões, ou pela multidão das pr6gações'
Não ; mas sim servindo-se do exemplo
dos santos religiosos. Mas um S. Paulo,
primeiro Eremita, chegou acaso a ser
santo pol' meio da lição de bons li·
vros' Elle não os ti nha. Poi pelas com­
munhões e confissões que fe.ziat Elle
não fez mais que duas em toda a sua
vida .. Foi por meio das conferenciai;;
ou das prégações ' Elle não as tinha,
e não viu outro algum homem no de­
serto, excepto Santo Antão, que o foi
visitar no fim da sua vida. Sabeis o
que o fez santo ' Foi a fidelidade que
elle guardou em se applicar ao qne
emprehendeo no principie, ao que tinha
sido chamado, e não se occupando
com outra cousa.
Aquelles grandes santos religioso�,
que viviam debaixo da inspecção de
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- 176 -

S. Pacom� o , tinham por ventura livros'


Não. Prégações t Nenhuma. Tinham
conferencias' Nada. Confessavam · se
com frequencia T Algumas vezes nas
festas. O u viam muitas misse.s t -Aos do·
mingos e dias de festa, fóra d'isto
nada. ?t,las qne quer dizer, que tendo
tão poucos soccorros em comparação
de nós, se adiantavam tanto na per­
feição, e nós com tantos soccorros os
3eguimos de tão longe, e temos tão
pouco valor no serviço de Deus, se as
consolações nos não acompanham t leto
procede da nossa inconstancia : nós não
somos solidos como elles. Imitemos
pois estes bons religiosos, applican­
do-nos a\ nossa occmpaçllo, isto é, ao
que Deus requer de nós, segundo a
nossa vocação, e officio, com fervor, e
humildade, e cuidemos eó nisto não
presumindo achar meio algum de nos
aperfeiçoar melhor do que este.
A segunda lei da pomba é que ella
diz na ena linguagem : Quanto mais me

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- f17 -

tiram, mais eu faço . Que quer dizer


isto t Quer dizer que quando os 11e08
pombinhos estio um pouco crescidos ,
o dono d o pombal lh'os tira, e ella de
repente se põe a choc1u outros. E para
que melhor entendais o que voe digo,
tomae o exemplo de Job, louvRdo pela
bocca do mesmo Deus : jli.mais se deixou
vencer d' algnma amicção que lhe 80·
breviesee ; mas quanto mais Deus lhe
tirava, mais elle fazia. Qne não fazia
elle na ena primeira prosperidade t
Lêde a sua historia e sabêl·o-heis.
Vêde-o depois reduzido á ultima mi­
eeria : não se queixa· do bom Deus,
nem lhe escapa alguma impaciencia ;
mas diz com a pomba : Qnanto maia
me tiram, mais faço ; não, esmola.e ;
porque não tenho de quê : porém s6
neste acto de submissão e de paciencia
que fez, vendo-se privado de toda a
consolação, fez mais do que tinha feito
com todas as grandes caridades que
fazia no tempo da ena prosperidade ;

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- 178 -

e fez-se mais agradavel a Deus neste


só acto de conformidade e de paciencia,
do que se tinha feito em tantas e tão
boas obras, que tinha obra.do na sua
vida : porque era preciso ter u m amor
mais forte e generoso para este só acto,
do que para todos os ontros juntos.
Devemos pois fazM como elle, para
observarmos esta amavel e leda pomba,
deixando-nos despejar pelo nosso sobe·
rano senhor dos nossos pombinhos,
quero dizer, dos meios d'executar os
nossos desejos, quando fôr sua von·
tade privar-nos d'elles, por bons que
elles sejam, sem nos queixarmos, nem
lamentarmos já.mais, que nos fazem
prejnizo.
Mas devemos applicar-nos a dobrar,
nl.o os nossos desej os, nem os nossos
exercicios, mas sim a perfeição com
que os fazemos, procurando por este
meio ganhar mais com um só acto
(como indubitavelmente faremos), do
qae ganhariamos com cem outros, se·
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- i79 -

gundo a nossa propensão e a:tfecto.


Não vos aferreis pois ás consolações ;
eu vos torno a dizer : um só acto feito
com seccura de espirito vale mais que
muitos feitos oom uma grande ternura.
A terceira lei da pomba é que ella
chora do mesmo modo que se regosija :
canta aempre a mesma cantiga, assim
quando se allegra como quando se la ·
menta, isto é, quando quer queixar-se
e manifestar a sua dôr.
Esta santissima igualdade de espi·
rito é que eu vos desejo, minha que·
rida alma : nlo digo igualdade de
humor, de inclinação ; digo igualdade
de espirito : porque eu não faço, nem
desejo qoe vós façais caso dos emba·
raços qne faz a parte inferior da nossa
alma, que 6 a que causa as inquieta­
ções e extravagancias : mas digo que
devemos estar sempre firmes e reso­
lutos na parte superior do nosso espi­
rito, para seguirmos a virtude, da qual
fazemos pro6.sslo1 e sermos sempre OB

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- 180 -

mesmos na.e adversidades e nas pros­


peridades. Aqoi ainda o nosso bom Job
nos servirá de exemplo ; porque por
um mesmo tom entôa todos os seus
canticos. Lêde a historia da soa vida,
aonde vêdes tão estranhas mudanças.
Qoe dizia ellet Seja louvado o Nome
de Deus ; eis aqui o cantico de amor
qoe elle cantava em todas as occasiões :
O Benlaor m'o d1m, o Senhor m'o tirou,
bemdito srja o seu Banto Nome. Oh como
esta santa alma era uma casta e e.mo ·
rosa pomba, grandemente estimada do
seu querido e amado ! Obrae assim,
minha alma, e vivereis com uma grande
paz, que não será sujeita á. mudança,
pelo qoe respeita ás contrariedades que
acontecem diariamente.
Eis ahi pois as tres leis da pomba,
as qnaes são todas de amor, e não
obrigam senão por amor. O amor pois,
que temos a Nosso Senhor, nos solici­
tará para as observarmos, afim de que
possamos dizer com a bella pomba do
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- tBi -

Soberano Senhor : O men amado 6 meu,


e eu son toda sna, pois tndo o qne
faço 6 para lhe agradar ; elle tem sempl'e
o seu coração voltado para mim por
providencia, assim como eu tenho o
meu voltado para elle por confiança.
Tendo vós todo feito nesta vida po1
amor do vosso amado, elle vos levará
comsigo á soa gloria, aonde vereis t1

felicidade d' aq uelles, qoe, deixando todc•


o ç oidado soperftno e i nquieto, qul�
ordinariamente temos a nosso respeito,
e a respeito da nossa perfeição, se ti ­
verem entregado com toda a simplici ­
dade a cumprir a soa occnpaçli.o, en­
tregando - se inteiramente nas mãos da
Di viua Bondade, por amor da qnal
terão trallalhado. Tambem a felicidade
d'aquelles, que tiverem observado a
segunda lei, será maior ; porque ten·
do-se deixado despojar pelo Senhor
sem se afftigir, nem eu.fad ar, dizendo
sempre : Quanto maia me tfram, mai"
faço, ficando submis sos á vontade df,
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- t82 -

Deus, cantarão eternamente o Oantico


de j ubilo nas moradas eternas. Pro­
curae pois conservar cnida.dosamente
a continua e amabilissima igualdade
d' espirito.

CAPITULO XLIII

OOH.O DEVEMOS RECEBER. OS SANTOS


BACBAM.ENTOS

Os Sacramentos são os canaes, por


onde Deus desce a nós, assim oomo nós
pela oração subimos a elle.
Os Sacramentos são diversos, ainda
qne não tenham todos m e le que nm
mesmo fim e pretensão, qne 6 unir·nos
a Deus. Presentemente nllo fallaremos
senão de dous, a saber, do da Peni·
tencia e da Eucharistia.
E primeiramente 6 m nito necessario
qne saibamos, por qoe razão, recebendo
nós tantas vezes estes dons Sacra­
mentos, nllo recebemos tambem as
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- 183 -

graças, que ellee costumam produzir


nas almas, que estão bem preparadas,
visto que estas graças ai.o annexas aos
Sacramentos. Eu o direi numa palavra :
6 por falta da devida preparação ; e por
tanto é preciso saber como nos devemos
preparar bem, para recebermos estes
dona Sacramentos.
A primeira preparação pois é a pu­
reza de intenção : a segunda a attenção ;
a terceira a humildade.
Quanto a\ pureza d' intenção, é esta
uma cousa totalmente necessaria, não
só na recepção dos Sacramentos ; mas
tambem em todo o que fazemos. Ora a
intenção é pura, quando nós recebemos
os Sacramentos, ou fazemos outra qual­
quer coasa, para nos unirmos a Deus,
e para lhe sermos mais agradaveie sem
mistura alguma d' interesse proprio .
Conhecereis isto, s e quando desejais
commungar, e não vol·o permittem, ou
tambem se depois da commnnhlLo não
tendes consolação, e nem por iBBo dei -
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- i8' -

xais de ficar em paz, sem consentir nos


ataques, que vos poderiam vir : mas se
pelo contrario consentis na inquietação,
porque se vos recusou o commungar,
ou porque não tivestes consolação ;
quem não vê que a vossa. intenção era
impura, e que vós não procure.veis
unir-vos a Deus, mas '8 consolações ;
pois que a vossa união com Deus deve
fazer-se debaixo da santa obedienoia.
E do mesmo modo, se desejais a per­
feição com um desejo cheio d' inquie­
tação, quem não vê, que é o amor
proprio, que não quereria que em vós
1te visse imperfeição ! Se fosse pos-
1ivel, que podessemos ser agrade.veis
a Deus, sendo imperfeitos, assim como
1endo perfeitos, deveria.moe desejar
não ser perfeitos, afim de por este
meio nutrimos em 0611 a santissima
humildade.
A aegunda preparação é a attenção :
por certo, deveria.mos ir aos Sacra­
mentos com m uita attençlo tanto á-
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- 185 -

cerca da grandeza da obra, como a res·


peito do que cada Sacramento exige
de nós. Por exemplo, quando vamos á
confissão devemos levar um coração
amorosamente doloroso ; e á santa com ­
munhão , um coração ardentemente a­
moroso. Não entendo por esta grande
attenção, que não devamos ter dia·
tracção ; porque isto não está. na nossa
mão : mas quero dizer que devemo11
ter um cuidado particulariesim o em
não nos deixarmos distrahir volunta·
riamente.
A terceira preparação é a humil­
dade, que é uma virtude muito neces·
BBria para receber abundantemente as
graças, que decorrem pelos canaes dos
Sacramentos ; porque as aguas cos­
tumam correr mais ligeira e forte­
mente, quando os oanaes estão postos
em lugartis declives e inclinados para
baixo.
Mas, além d'estas tres preparaçlles,
quero-vos dizer numa palavra, que a
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- t86 -

principal é a total deixação de nós


mesmos á vontade de Deus, sujeitando
sem excepçl.o alguma a nossa, e todos
os nossos aft'ectos ao seu dominio. Digo
sem excepção, porque a nossa miseria
é ti.o grande, que sempre reservamos
alguma cousa. As pessoas, ainda as
mais espirituaes, de ordinario reservam
a vontade de ter virtudes. Oh ! o re­
servar as noss�s vontades, por boas
apparencias, que ellae tenham, oi.o é o
meio de fazer esta união ; porque Nosso
Senhor querendo dar · se · nos todo, quer
reciprocamente que nós nos demos in­
teiramente a elle, afim de qne a união
da nossa alma com sua Divina Mages­
tade seja mais perfeita, e possamos
dizer verdadeiramente com o mais per­
feito entre os christl.os : Vivo não en,
mas é Jesus, que vive em mim.
A segunda parte d' esta preparação
consiste em desoccupar o nosso coração
de todas as cousas, para que Nosso Se­
nhor o encha todo de si mesmo. Por
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- 187 -

cert.o, a cansa por qoe não recebemo&


a gr89a da santificação (pois que uma
só commonhão bem feita 6 capaz e
aofficiente para 001:1 fazer santos e per­
feitos) não provêm senão de não dei­
xarmos reinar em nós Nosso Senhor,
oomo soa bondade o deseja. Vem a nós
este Amante de nossas almas, e acha
os nossos corações cheios de desejos,
d' a1fectos e de vontadesinhaa : não é
isto o que elle procura ; porque elle os
quer achar desocoopados para se fazer
senhor, e go vernador d'elles. Para mos­
trar quanto elle o deseja, diz á sua sa·
grada Amante, que o ponha no seu
coração, como om sêllo, para que nada
possa entrar senão com permissão soa.
Talvez desejareis saber oomo pode·
reia conhecer se aproveitais pelo meio
da recepção dos Sacramentos. Oonhe­
cel-o-heis, se vos adiantais nas vir·
todes, que lhes são proprias, como se
tirais da confissão o amor da vossa
propria abjeoção e humildade ; porque
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- 188 -
estas são IH virtudes que lhe são pro-
1>rias ; e pela medida da humildade é
que se conhece sempre o nosso adian·
tamento. Não vêdes que está dito que
todo aqueUe que ae humilha, aerá ezal­
tado r Ser 1'X:altado, é ter-se adiantado.
Se pela santissima communhão vos fa­
zeis muito dôce (pois que esta é a
virtude que 6 propria a este Sacra-
10ento, que é todo dôce, todo suave e
todo mel) recebereis o fructo, que lhe
ó proprio , e assim vos adiantareis : mas
se pelo contrario vos não fazeis mais
humilde, nem mais dôce, merecereis
que se vos tire o pão, pois não quereis
trabalhar.
Perguntais, como podereis fazer um
acto de contrição em pouco tempo : eu
vos digo que qoasi não é preciso tempo
para o fazer bem, pois que não é mister
mais que prostrar- se diante de Deus em
espírito de humildade e de arrependi ·
mento de o ter o:ffendido.

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- {BQ -

CAPITULO XLCV

DO O F F I C! I O DIVINO

Desej ais que vos falle do Oftlcio D i ·


vino : e u tambam o quero, minha que ­
rida alma ; e vos digo primeiramente,
que é preciso preparar para o recitar
desde o instante, em que se ouve o
sino, que nos chama ; porque para todos
cs exercicios devemos fevar o espirita,
que lhes compete. Não seria justo ir ao
Oftlcio como á recreação : para a re·
creaçio devemos levar um espirito amo­
rosamente divertido, e para o Officio
um espírito seriamente amoroso.
Quando se diz, Deua in adjutorium,
devemos pensar, que Nosso Senhor nos
diz reciprocamente : E vós estae-me
tambem attentos.
Os que entendem alguma cousa o que
dizem no Officio, empreguem fielmente
este talento, segundo a vontade de
Deus, que lhe d.d., para ajudar a estar
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- i90 -

recolhidos, por meio doe bons aft'ectoe,


qne d' alli poderão tirar ; e os qoe
não entendem nada, estejam simples­
mente attentoe a Deus, ou tambom
façam amorosas j aculatorias, emquanto
o outro côro diz o seu verso, e ellee
fazem pausa.
Não é preciso repetir o Offici o , pelo
ter dito com distracção, comtanto qoe
ella não fosse voluntaria ; e ainda que
voe acbaseeie n õ fim d'nm Pealmo, sem
estardes bem certa se o tendes dito,
porque estivestes distrabida, sem o ad­
vertirdes, não deixeis de passar adian te,
humilhando-vos diante de Deus : porque
não se deve sempre crêr, que tivemos
negligencia, quando a distracção foi
longa ; porque poderá. succeder, qoe
ella vos dure por todo o tempo d'um
Officio, sem culpa vossa : e ainda que
ella tinha sido �ã, nlo deveis inquie­
tar-voa por iBBo, mas desapproval-a sim­
plesmente de quando em quando diante
de Deus. Deaejm eu que ningoem se
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- t91 -

inquietasse por causa dos maus senti­


mentos, que sent.e ; mas que se esfor·
çaase em não consentir ; pois que ha
muita dift'erença entre sentir, e con ­
sentir.

CAPITULO XLV

DA ORAÇÃO

Quereis que vos diga alguma cousa


da oração. Muitos se enganam m u ito,
cuidando que para a fazer bem li pre·
ciso muito methodo, e se afadigam para
descobrir uma certa arte, que lhes pa­
rece ser necessa.rio saber, não cessando
jl.mais de subtilisar, e metaphysicar
nas suas orações para verem como a
fazem, ou como a poderão fazer á sua
vontade, e cuitlam que se não deve
tossir, nem bolir em quanto ella dura,
com receio de que o espirito de Deus
se retire. Loucura grandissima por
certo ; como se o espirito de Deus fõra

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- {Q2 -
tão delicado, que dependeeee do me­
thodo, e posição dos que fazem oração.
Não digo que não devamos servir-noe
dos methodos prescriptos ; mas não de­
vemos cingir-nos a elles, como fazem
oe que cuidam, que não tem feito bem
as suas orações, se não fazem ae suas
considerações antes dos affectos, que
Nosso Senhor lhes d&, os qnaes não obs­
tante constituem o fim, para que fa­
zemos as considerações. Estas pessoas
são semelhantes áqnelles, que achan­
do-se no lugar aonde pretendem ir,
tornam a voltar, porque não foram pelo
caminho, que lhes ensinaram.
Todavia requer-se qne estej amos com
reverencia ; pois fallamos & Divina
Magestade, e visto que os Anjos, qne
são puros, tremem na sua presença.
Por#im, meu Deus ! dirão alguns, eu
não posso sempre ter aquelle senti­
mento da presença de Deus, que causa
na alma uma tamanha humiliaçlLo,
nem aquella reverencia aensivel, que
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- i93 -

tão dõce, e agradavelmente me faz


anniquilar diant.e de Deus. Oh ! não é
tambem d' esta que en intento fallar ;
mas sim d'aquella, qne faz que a parte
superior, e o cume do nosso espírito
esteja abatida, e humilde diante de
Deus, pelo reconhecimento da ena in­
finita grandeza., e da noese. profunda.
pequenez , e indignidade.
O modo mais seguro para meditar,
é não formar imaginação ; mas con­
servar-se ao pé da letra ; quero dizer :
meditar pura, e simplesmente o Evan­
gelho, e os mysterios de nossa fé,
entretendo- se familiarmente, e com
toda a simplicidade com Nosso Senhor
icerca do que elle obrou, e padeceu
por nós, sem representação alguma. Ora
este modo é muito mais elevado, e
melhor que o primeiro, se elle é mais
santo, e mais segnro ; esta é a razão
por que nos devemos conduzir facil­
mente a elle, por pouca inclinação,
que lhe tenhamos, observando em todo

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- 194 -

o grau de oração conservar o noaso


espirito numa santa liberdade, para
seguir as luzes, e movimentos, que
Deus lhe der. Mas pelo que respeita
aos outros tnodos de oração mais ele­
vados (se não é que Deus os dê absoluta­
mente) eu vos supplico, que ninguem
se ingira nelles por si mesmo, e sem
o conselho dos directores.

OAPITULO XLVI

DA PERFEIÇlO RBLIGIOSA

A nossa unica pretensão na religião,


minha querida alma, deve ser unir-no�
a Deus, como Jesus Ohristo se uniu
a seu Pae, quando esteve moribundo
na Cruz. Deus vos escolheu para
serdes sua esposa ; deveis saber como,
e o que é ser religioso. É estarmos
unidos com Deus pela continua mor­
tificação de nós mesmos, e não vi-

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- t95 -

vermos senão para Deus ; servindo


sempre o nosso proprio coração a sua
Divinà Magestade, e servindo-o conti·
nuamente os nossos olhos, nossa lingna,
nossas mlLos, e todo o resto do nosso
corpo.
Esta é a razão porque v6e vêdes,
que a religião vos fornece meios total·
mente proprios para este etreito, que
são a oração, 88 lições, o silencio,
retiro do proprio coração para se re·
pousar s6 em Deus , e contínuos ímpetos
do coração para Nosso Senhor : e
porque não poderíamos chegar a isto
senão por ama continua pratica de
mortificação de todas as noseas pai·
x6ee, inclinações, e humores, e aversões,
somos obrigados a vigiar continuamente
sobre nós mesmos, afim de fazermos
morrer todo isto. Entendei, minha que­
rida alma, que se o grão de trigo
cahindo na terra não morre, permanece
s6 ; mas se apodrece, produzirá o cen­
tnplo. A palavra de Nosso Senhor é to-
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- t98 -

talmente clara.; a sua santissima bocca


a pronnnoiou. Porém, meu D eu s 1 me
direis vós, não ê isto o qne eu esperava ;
pensava qne para ser bom religioso
bastava ter desejo de fazer bem a
oração, ter visões, e revelações, vêr a
Anjos em fórma hnmana, ser arrebatado
em extase, amar muito a lição dos livros:
e que ! en era, me pareoia, . tão vir·
tnoso, tão mortificado, tão humilde !
todo o mondo me admirava. Nilo era aer
hem humilde fallar tão docemente aos
oompanheiros, das cousas de devoçãof
Repetir os sermões, quando estavamos
em casa e tratar os de casa com do­
çura, especialmente quando elles nllo
contradiziamT Por certo, minha querida
alma, isto era bom para o mundo ; mM
a religtão qner que façamos obras dignas
da nossa. vocação, quero dizer : morrer
para nós mesmos em todas as ooneas,
tanto no que é bom á. n oss a vontade,
como nas cousas, que silo más, e
innteis.
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- t97 -

Peneais vós que os bous religiosos


do deserto, que chegaram a nma ta­
manha união com Deus, chegaram a
ella seguindo as soas inclina9õest por
certo que não . Mortificaram-se nas
cousas mais santas ; e bem que tivessem
grande gosto em cantar os divinos
canticos, lêr, e orar, e em outras cousas,
nlo o faziam para se contentar a si
mesmos : não; pelo contrario priva·
vam-se volnntariamente d' estes pra·
zeres, para se dar a obras de tra·
balho, e penosas. Bem verdade é, que
aa almas religiosas recebem mil soavi·
dadesr e contentamentos no meio das
mortificações, e exercicios da santa re·
ligião ; porque com ella.s é qoe o Es­
pirito Santo reparte especialmente os
seos dons : por tanto ellH não devem
procurar na B11onta religião senão a Deus,
e a mortificação dos seus humores, pai·
xões, e inclinações; porque se procuram
outra cousa, jamais acharão a conso­
lação, qoe pretendem : mas é preciso
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- 198 -

ter um valor invencível para não nos


enfadarmos comnosco mesmos, porque
sempre teremos que fazer, e tirar.
O oftioio das pessoas religiosas é cnl·
tivarem bem o seu espírito, para desar­
raigarem d' elle todas as más prodocções,
qne a nossa natnreza faz brotar todos
os dias, se bem que parece, qne sempre
ha qne fazer de novo : e assim como
o lavrador oi.o deve enfadar-se, pois
qne elle não merece ser taxado por
não ter recolhido nma boa qnantidade,
com tanto que todavia tenha tido cui·
dado de cultivar, e semear llem a terra ;
assim a pessoa religiosa não deve entris­
tecer-se, se não recolhe tão depressa
os fructos da perfeição, e das virtudes,
comtanto, que tenha uma grande fide·
lida.de em cultivar a terra do seu
coração, arrancando o que conhece
ser contrario a perfeição, que ella é
obrigada " procnrar ; pois que em
quanto não estivermos no céo, nunca
seremos perfeitamente corados.
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- 199 -

Qna.ndo a vossa Regra. vos diz : que


é. hora determinada. se pedem os livros,
pensais vós, que de ordinario vos. hão
de dar aquelles, que mais vos agradam7
De nenhnm modo. Não é esta a intenção
da Regra ; e assim nos outros exercícios.
Sentir-se-ha uma alma, segundo lhe
parece, muito inclinada a fazer oração,
a recitar o Officio, e a estar em retiro ;
mas dizem-lhe : minha alma, ide para
a. cozinha, ou tambem, fazei esta, ou
aquella cousa : eis-aqui uma mé. nova
para uma alma, que é mui devota. Digo
pois, que é ne!!essario morrer, para. que
Deus viva em vós ; porque é imposeivel
adquirir a união da. nossa alma com
Deus por outro meio, que não seja o
da mortificação. Estas palavras : (J ne·
ceuario nMnTer, são doras ; mas acom­
panhadas de uma grande suavidade ;
é para nos unirmos a Deus por esta
morte.
Deveis saber, que nenhuma pessoa de
j uízo lança vinho novo numa vasilha
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- 200 -
velha. O licôr do Amor Divino não
pode entrar aonde reina o velho Adão :
é necessariamente preciso destruil- o.
Porém como se ha de destruir T me di­
reis vós. Como, minha querida alma!
Pela obediencia pontual ás vossas Re­
gras. Eu vos asseguro da parte de Deus,
que, se fordes fiel em fazerdes o que
dias vos ensinam, haveis de chegar sem
duvida ao fim q�e deveis procurar, que
é unirdes- vos com Deus. Notae, que eu
digo faeer ; porque a per feição não se
alcança com os braços cruzados, é
preciso trabalhar sinceramente em nos
domarmos a nós meRmos, e v i 1.-er se­
gundo a razão, a Regra, e a obe�iencia,
e nlLo segundo as nossas inclinações.
Cami nhae pois, minha querida alma,
µela observa.nela pontual das vossas
Regras ; chegareis felizmente a Deus,
e elle vos conduzirá seguramente : mas
notae, que eu vos digo : Caminha.e pela
observancia pontual, e fiel. E, se vos
vier algum contentamento interior, e
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- 201 -

caricias de Nosso Senhor, ui.o Vt>l:I ai'el'·


reis a elle ; é isto como a berva-dôce
oonfeitada, que o botioario lança na
bebida amarga do enfermo : e é preciso,
que este para sarar tome o remedio
amargoso : e bem qne toma da mão do
botlcario estes grãos confeitados, é de
neoessidade preciso, qne ao depois
sinta as amarguras da purga. Vêd� pois
claramente qual é a pretensão, qne
deveis ter, para serdes digna alma de
de Nosso Senhor, e para vos fazerdes
capaz de o desposar no monte Oalvario.
Vivei pois toda a vossa vida, e forwae
todas as vossas acções segundo a vossa
Regra, e Deus vos abençoará. Toda a
vossa felicidade consiste na perseve­
rança, á qnal eu vos exhorto, minha
muito q oeriila alma, de todo o meu
c�ração, e sopplico á soa bondade, que
\'os encha de graçaa, e do seu Divino
amor neste mondo, e no outro nos dê
a toãos a sua gloria. Ãmen.

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- 202 -

C A PITULO XLV I I

MA.XI MAS PARA VIVER OONBTANTEMENTJ!:


:so J;x1;&cICIO DA \'rRTUDE

A primeira. maxima é de B. Paulo :


'fodo cede em bem d' aqoelles, que
amam a Deus. Pois que Deus pode, e
sabe tirar bem do ma.l, por amor de
quem farâ elle isto, senão 1>or amor
d' a.quelles, que· se lhe entregaram f
Sim, até mesmo dos peccados : teste·
munhas David, S. Pedro, e a Santa
Magdalena.
Se Deus vos lança nos olhos o lodo
da ignominia, é para vos do.r boa vista,
e para vos fazer um espectaculo de
honra.. Se Deus vos derriba por terra,
como a B. :Paulo, é para vos levantar
em gloria.
A segunda maxima, 6 que Deus é
nosso Pa.e ; porque ali'8 não mandaria,
que dissessemos : Padre-Nosso que es·
tais nos céos. E que temos nós que
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- 203 -

recear sendo filhos d'um tal Pae, sem


a providencia do qual jámais cahirá
nm só cabello de noBBa cabeça t 5i
maravilha, que sendo filhos de um
tal Pae, tenhamos, e possamos ter
cuidado mais, do que amal·o, e ser·
vil-o bem! Ouida em mim, disse elle
a Santa 0;1,tharina de Benna, e eu
cuidarei em ti.
A terceira maxima, é a que Nosso
Senhor ensinava aos seus Apostolo& :
Faltou-vos alguma cousa, quando vos
enviei sem sacco, e sem bordão ! E
elles diaseram : Não. Ora pois, quando
tivestes aftlicções, ainda no tempo, em
que não tínheis tanta confiança em
Deus, perecestes por ventura na ami­
cçãot Não. E por que razão não tereis
logo animo de sahirdes bem de todas as
outras adversidades ! Se Deus vos não
desamparou até agora, como vos ha
de desamparar d'aqui em diante, viEito
que quereis ser agora sua, mais do qu e
queríeis d' antes r Não receeis as futura•
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- 204 -

adversidades d' este mundo ; porque


talvez que ellas vos não succedam, e
se vos succederem, Deus vos alentará.
Elle manda a. S. Pedro, que ande por
cima. das aguas ; e B. Pedro, vendo o
vento, e a. tempestade, teve medo, e o
medo o fez ir ao fundo, e pediu soc­
corro a seu Mestre. Se Deus vos faz
caminhar pol' cima das ondas da ad­
versidade, não duvideis, não temais,
Deus está. comvo eco ; tende bom animo,
e sereis livre.
A. quarta maxima é a da eternidade.
Pouco me importa estar no meio d'est�t1
tormentos passageiros, comtanto que
esteja eternamente na gloria do meu
Deus. Nós vamos, 6 minha alma, para
a eternidede, e qnasi que jl. temos
nella um dos pés ; como ella nos seja
feliz, que importa qne estes instantes
de demora nos sejam molestos! E' pos­
sivel que saibamos, que estas nossas
tribulações de tres, ou quatro dias pro­
duzem tantas consolações eternas, e não
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- 205 -

queiramos supportal-ast Tudo, o que


não é para a eternidade, oi.o pode ser
mais que vaidade.
A quinta. ma.ri m a é a do Apostolo :
Deua me lim-e de que eu me glorie, aenllo

na Orue de meu Senhor Jeaua Ohmto.


Ponde no vosso coração Jesus Christo
crucifica.do, e vos parecerão roBBB todas
a.s cruzes d' este mundo. Os que estilo
picados da corõa. d' espinhos de Nosso
Senhor, que é a. cabeça., não sentem
u outra.a picadas.

FIM.
:I N D J: C E

Pag.
l'anAÇtO . . • • . � • , • , • . . , Ili
CAPITULO 1 - Da liberdade do e1plrito . . . 13
• li - Que couu 1eja viver 111gundo o
eapllUo . • • • • • • • • • • • . • . t9
G•••TVLO m·� D a devoçio e amor d e Deua . , 23
· ,-, . IV ,- Qualldadea que deve ter a verda·
detra devoçio • • • . • • • . . . • • 33
Car1T111.o V - Eft'eUoa do amor de Dc!ua • . 37
VI - Do amor do pro:i::lmo • • . • .' 89
Vil - De im i tação de Noaao Senhor • ·e"'
• VW - E:i::arcicio aob� a imitai;lo . de
NoalO Senhor • . . . • . . . 44
CAPrruLO I X - Que co u aa é rtlllgllo • 46
• X - Da mortiftoa"çio • • . 47
X I - Contra o julzo proprio 4!l
• X I I - Daa dln!cuhladea . . . sr.
• XW - 011 enfermidade. • . r.s
• XIV - DH calumniaa . . . • . na
• 1.V - Como d41V emo1 por&er·noa quando
nos auccedem con.dlcç3e11 . . flll
CA PITULO XVI - D• paalancia . . . IF
• XVll - Das ten&a�a . • . 118
• XVlll - Do• deaejoa . 71
XIX - Da oração oaa seccuraa 73
XX - Exerclclo de união na• aeccuru 7r.
• XXI - Sobre R paz da alma e a hu-
mildade . . , . . . . . . 80
1;H1 ruLo XXll - Da generoaidade . 88
• XXW - Da tranquillidade "º
l.XlV - Da obediencia Y�
XXV - Da aubmiaaão . • . • • 98
• XXVl - Da aaota aimplicidade com que
.tevemoa dei:i::ar-noa dirisir • . . . . . . !Oi

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- 008 -
• ' PQ4.
CA PITULO XXVll - Da simplicidade religiosa-"'� · jlti
" XX Vlll - Do modo de receber aa �or- . .
recçlSae . , . . . . . • . . . . . . . ·

CAPITULO XXIX - Tocan\e ·áa avaraõaa ·• .• . t2


• XXX - De convsraaçio . . : •: "··:� L-!!!
. • X X X I - Da dooura . . . . . . . ..�.:111
-... . • X XXll - Lia modeaila . • , . . . • . tJi.
XXXlll - E:rcrclclo da proprla'. .atine-
·
• .•,

goein . . . • . . • . . . . ..• : • . -_.., � U2


CAPITULO XXXIV - Da perfeito doh:aç#9. de �
me�mo• a Deu• . . • . . • . . • • ·; · •*
GAPJTDLO XXXV - Bxorclclo pV.· a aemana'' . · · tlll
• XXXVl - Exerclcio sobre a palxio de
No•IO Senhor . . . . . . . . , .. . . 1St
CAPITULO XXX Vil - Da o•timaçio, que se �ave
far.er rtaa reeraa, � como se devem ob•ervRr
por aue oapecle d' a11or . . , . . . . . ti2
CAPITDLO XXXVlll - Ácerca daa rtlllculdadea,
quo ª" encontram na dlrecoio • . . • • tll�
CA PITULO XX XIX - D� rnelo1, co111 que podemoe
firm ar o noaao coraoio ilr6 Deue, � sor1e,
que nart11 o poua dewvlar i.l' Ello_ . • . . tr.8
CAPITULO . XI. · -. Dli flrmeze que dn·aino! .... ª°' • . ..
dlver11011 ocu1i.l\ln&e11 do �Wldo • • . • • . • 106
CAPITULO XLI . . º• deuplji>prlil�ó e deapo)o de
Iodai 811 COU888 ; o , • . . . , • • • 170
CAPITULO XLll - Trea leia 'das pombas 1ppli­
cadaa 611 alm a11 l'llt lsiol!V . • . . . • • t72
CAP1T111.o XLIII - Como d�emoa recebei" oa
aanlo• 11aeram en&o a • . • • • . . • IS�
CAPITULO
·
XLIV - Do oficio divino • . . . • tllli
• XLV - Da oraolo . , . • • . . . . ' 191
" XL VI - Da perl'afolo raligloaa . . • t9-&
• XLVil - Muimu para viver constan-
temente no exercicio d111 Tirtudes . . . 202

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