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Ivy Morgan não tem se sentido como ela mesma

ultimamente. Ninguém pode censurá-la. Afinal de contas, ser


mantida em cativeiro por um Príncipe psicótico Fae,
empenhado em abrir permanentemente os portais para o Outro
Mundo, com certeza deixa algumas cicatrizes mentais.
Mas é mais do que isso. Algo sombrio e insidioso está se
espalhando por Ivy, mais poderoso do que ela jamais poderia
imaginar... e está interferindo entre ela e o homem por quem
ela se apaixonou profundamente, Ren Owens, membro da Elite
da Ordem.
Ren faria qualquer coisa para manter Ivy a salvo.
Qualquer coisa. Mas quando ele faz uma escolha que muda a
sua vida por ela, as consequências do seu ato têm repercussões
de grande alcance que ameaçam dilacerar as suas vidas.
Se Ivy quiser ter alguma esperança de sobreviver a isto,
ela deve colocar de lado a dor e a traição que sente, e trabalhar
não apenas com aqueles que ama, mas com um inimigo que
preferia matar a alguma vez confiar. A guerra está se
aproximando, e logo fica claro que o que Ivy e Ren pensavam
saber sobre a Ordem, sobre si mesmos, e até sobre os seus
inimigos, tem sido nada mais do que um conjunto de mentiras
perigosas e mortais.
Ivy sabe que deve ser mais do que corajosa para salvar
aqueles que ama – e, em última análise, para se salvar.
Porque por trás de cada Príncipe Fae maligno, há uma
Rainha...

Capítulo 1

O quarto estava tão escuro que eu não conseguia


distinguir nada além do fraco luar prateado que se infiltrava
entre a fenda das grossas cortinas. O ar estava parado e
envelhecido.
Mas eu sabia que eu não estava sozinha.
Eu nunca estava sozinha aqui.
Puxando-me para frente, eu analisei a escuridão. O metal
frio do colar cravou-se no meu pescoço, enquanto eu tentava
abrandar o meu coração, mas as batidas contra as minhas
costelas aumentaram até que a pressão se apertou no meu
peito.
Eu não conseguia respirar.
Eu não conseguia respirar neste...
Algo se aproximou da cama.
Eu não via nada, mas eu senti a ligeira agitação do ar.
Meu coração disparou na minha garganta, enquanto cada
músculo em meu corpo ficava tenso. Lá. Uma sombra
obscureceu a fina faixa de luar.
Ele estava aqui.
Oh Deus, ele estava aqui e não havia forma de sair disto.
Não havia nada que eu pudesse fazer. Este era o meu futuro, o
meu destino.
Meu estômago inchado doía enquanto eu me movia,
pressionando as minhas costas contra a cabeceira da cama. A
corrente se sacudiu de repente me jogando para o lado. Minhas
mãos voaram para fora. Eu agarrei a cama, mas não adiantou.
Um grito irrompeu, rapidamente perdido nas sombras do
quarto. Puxada para frente, eu fui arrastada pela cama em
direção a ele. Em direção a...
Meus olhos se abriram quando eu me lancei para cima e
para o lado, quase caindo da cama. Eu me segurei no último
segundo, puxando um bocado de ar – ar fresco que estava
levemente perfumado e me lembrou dos outonos no norte.
Imediatamente, eu empurrei a bagunça de cachos para
fora do meu rosto e esquadrinhei o quarto, parando na janela.
As cortinas estavam puxadas para trás assim como eu as
deixei antes de eu ir dormir. O luar entrava fluindo sobre o
pequeno sofá e a área de estar. O ambiente e o cheiro eram
familiares. Um alívio doce bateu através das minhas veias ao
vê-los.
Mas eu tinha que ter certeza de que o que acabei de
experienciar tinha sido um pesadelo e não a minha realidade.
Que eu não estava sendo mantida em cativeiro pelo Príncipe,
que estava determinado a engravidar-me para cumprir uma
profecia inconcebível que abriria todos os portais para o Outro
Mundo.
Lentamente, eu coloquei a minha mão sobre o meu
estômago.
Definitivamente não estava inchado.
Definitivamente não estava grávida.
Então, isso significava que eu definitivamente não estava
naquela casa com o Príncipe.
Eu levantei a mão trêmula arrastando-a pelo meu cabelo.
Foi apenas um pesadelo – um pesadelo estúpido. A certa
altura, eu tinha que me habituar com eles. Eu eventualmente
pararia de acordar em pânico.
Eu tinha que fazê-lo.
Meu estômago revirou, roendo-me enquanto eu tomava
uma respiração profunda. Com fome. Eu estava com fome, mas
eu podia ignorar a fome porque ignorar o vazio ardente em
minhas estranhas tinha funcionado até agora.
Exalando asperamente, eu deixei as minhas mãos caírem
na cama e engoli em seco. Eu estava bem acordada agora. Tal
como na noite anterior...e na noite anterior a essa.
Atrás de mim, a cama se mexeu e depois uma voz
profunda e sonolenta disse, — Ivy?
Os músculos em minhas costas se travaram. Eu não
olhei para trás de mim enquanto eu lutava para libertar as
minhas pernas do cobertor. O calor rastejou para as minhas
bochechas. — Eu sinto muito. Eu não quis acordar você.
— Não se desculpe. — O sono desapareceu da sua voz e
então a cama se mexeu mais uma vez, e eu sabia, sem olhar,
que Ren estava sentando-se. — Está tudo bem?
— Sim. — Eu limpei a minha garganta. Ele já tinha me
perguntado isso um milhão de vezes. Está tudo bem? E a
segunda pergunta mais popular – Você está ok? — Sim. Eu
apenas...acordei.
Um momento se passou. — Eu pensei ter ouvido você
gritar.
Maldição.
O calor rastejando ao longo do meu rosto se intensificou.
— Eu...eu não acredito que tenha sido eu.
Ele não respondeu imediatamente. — Você estava tendo
um pesadelo?
Eu tinha certeza de que ele já sabia a resposta para isso,
o que significava que deveria ser fácil admitir. Além disso, um
pesadelo não era grande coisa. Inferno, Ren de todas as
pessoas entenderia se eu estivesse passando por uma forma de
transtorno de estresse pós-traumático para acompanhar o
prato principal de Coisas que Estavam Meio que Fodidas Agora.
Especialmente porque ele também tinha passado algum tempo
de “descanso e relaxamento” com o Príncipe e seu alegre bando
de faes psicóticos.
Mas, por alguma razão, eu não conseguia admitir para
ele que eu estava tendo pesadelos, que às vezes quando
acordava eu pensava que ainda estava naquela casa,
acorrentada a uma cama.
Ren pensava que eu era corajosa, e eu era corajosa, mas
em momentos como estes, eu... eu não me sentia muito
corajosa.
— Eu estava apenas dormindo, — eu sussurrei, deixando
escapar um suspiro. — Você devia voltar a dormir. Você tem
coisas para fazer amanhã.
Ren estava deixando o que eu agora chamava de Hotel
dos Faes Bons para ver se ele poderia ajudar a localizar o
Cristal superespecial. Originalmente, esse Cristal pertencia aos
Faes Bons – da Corte de Verão. A Ordem o tinha tirado deles e
então Val o tinha roubado da Ordem, e agora o Príncipe o
tinha. Sem o Cristal, nós não poderíamos trancar o Príncipe de
volta no Outro Mundo.
— Ivy. Doçura. — A voz de Ren se suavizou quando ele
colocou uma mão no meu braço. O contato me abalou. — Fale
comigo.
— Eu estou falando com você. — Eu me afastei,
deslizando para fora da cama. No minuto em que meus pés
bateram no chão, eu comecei a me mover. O vazio roendo o
meu estômago cresceu. — Eu acho que eu vou malhar.
— Às três da manhã? — Ele soou incrédulo e eu não
podia culpá-lo por isso. Malhar no meio da noite parecia
estranho.
— Sim. Sentindo-me inquieta. — Deitar-me ao lado de
Ren agora, quando o meu estômago parecia da forma que fazia
e com a minha cabeça onde estava, não era uma opção.
As palavras de Faye na noite em que ela me ajudou a
escapar do Príncipe tomaram o momento oportuno para
circular através dos meus pensamentos. E se você continuar se
alimentando, você ficará viciada. Você provavelmente já está.
Ren sabia sobre as alimentações, sobre o fato de que eu
poderia ter matado alguém, mas ele não me culpava. Ele nem
acreditava que eu não o machucaria. Que eu não cederia a
uma parte de mim que tinha acordado enquanto era mantida
em cativeiro – uma parte de mim que era fae e agora sabia
como se alimentar e como podia fazer eu me sentir.
E como isso era fácil.
Ren confiava em mim, mas eu não.
Eu não podia permitir-me acreditar neste momento,
porque eu nunca, nunca me perdoaria se eu machucasse Ren
como eu sabia que tinha machucado outros. Minha boca ficou
seca enquanto as minhas mãos abriam e fechavam
inutilmente.
— Ivy?
Percebendo que eu tinha me perdido nos meus
pensamentos, eu pisquei rapidamente e concentrei-me. — Você
viu a academia que eles têm no porão? Até me motiva a subir
em uma esteira.
É claro ele tinha visto a academia.
Ren não tinha o corpo que tinha sem frequentar
assiduamente o interior de uma academia.
— Em vez de ir à academia às três da manhã, por que
você não volta para cama? — ele perguntou. — Nós podemos
assistir algum programa. Tenho certeza de que você perdeu
alguns episódios de The Walking Dead.
Eu tinha perdido um monte de episódios do meu
programa de zumbis favorito, o que era um saco, porque cada
vez que eu via Tink, ele ficava a segundos de dar um spoiler de
tudo. O mesmo com Supernatural.
Uma onda agridoce de desejo socou-me no estômago,
substituindo temporariamente as sombras remanescentes no
fundo da minha mente. Eu queria mergulhar de volta naquela
cama, aconchegar-me com Ren e adormecer em seus braços
1
ouvindo Rick Grimes se transformar em Rick Tator que todos
conhecemos e amamos. Essa seria a coisa normal de fazer, e
Deus sabe que eu queria tanto o normal por tanto tempo.
Isso era o porquê eu tinha me matriculado na faculdade,
embora eu já tivesse uma carreira. Bem, tinha uma carreira na
Ordem. Quem diria agora? Mas eu queria saber como era
acordar e ir para a escola ou para o trabalho sem me preocupar
sobre morrer em serviço ou descobrir que meus colegas de
trabalho tinham sido mortos. Normal significava ir a
restaurantes e ao cinema. Ficar e fazer maratonas de séries
sem me preocupar com o possível e iminente fim do mundo.
Normal significava que a minha melhor amiga não tinha
acabado sendo uma puta traidora e morta por causa das suas
escolhas e ações.
Normal era tão subestimado.
A lâmpada de cabeceira acendeu-se sem aviso. A luz
inundou o quarto, chegando aonde eu estava de pé. Algum
instinto bizarro rugiu para vida. Eu não sabia o porquê, mas eu
não queria ser vista neste momento. Eu afastei-me da luz, mas
quando o meu olhar encontrou aqueles olhos verdes-folhas, eu
congelei.
Ren Owens era... bom Deus, ele era lindo de uma forma
meio selvagem. Ele me lembrava os outonos no norte de
Virginia, todos dourados e cobre. Seu cabelo estava uma
bagunça selvagem castanho-avermelhado caindo sobre a sua
testa e implorando para ser escovado para trás. Pestanas
espessas e pesadas, que eu tinha reconhecidamente inveja, por
enquadrarem seus olhos impressionantes.
Suas maçãs do rosto eram largas e eram acompanhadas
por uma mandíbula dura e esculpida. O nariz de Ren era torto
e, de alguma forma, isso aumentava a beleza do seu rosto. Ele
tinha um par de lábios exuberantes que normalmente ficavam
inclinados em um sorriso e quando ele sorria formavam
covinhas profundas.
Aqueles cantos estavam retos agora, formando uma linha
sombria e definitivamente não havia covinhas.
Antes de tudo com o Príncipe acontecer, Ren dormia sem
camisa ou nu e nós não tínhamos sido capazes de manter
nossas mãos longe um do outro. Sério. Mesmo quando nós
estávamos feridos e com nossos corpos doendo, nós não
conseguíamos ignorar a química que queimava entre nós. Mas
desde que eu voltei – desde que nós nos reunimos – ele usava
uma camiseta para dormir, juntamente com cueca boxes ou
calças de pijamas.
Tudo que nós fizemos foi beijar.
Três vezes para ser exata e eles foram beijos castos e
doces, com gosto de uma necessidade mais profunda e contida.
Eu achava que os pesadelos eram a razão pela qual Ren
estava dormindo de roupa, porque aqueles pesadelos
começaram na primeira noite e tinha ocorrido todas as noites
depois disso.
E esses pesadelos pareciam como premonições. Um aviso
do que estava por vir, e eu não conseguia me livrar desse
pressentimento, nem mesmo quando o sol nascia e eu estava
rodeada de pessoas que não tinham desistido de mim – que se
preocuparam o bastante para irem ao inferno e me arrastarem
para fora.
Eu reprimi um estremecimento.
— Por favor. — Ele estendeu a mão para mim. Meus
olhos subindo pelas vinhas brilhantes da tatuagem em seus
braços que desapareciam sob a camiseta branca que ele usava.
— Volta para mim e fica comigo.
Minha respiração ficou presa ao redor do nó se
expandindo em minha garganta. Eu queria estar com ele.
Desesperadamente. Mas eu... eu precisava de espaço e eu
precisava... eu não sabia do que eu precisava. Eu apenas não
podia estar aqui.
— Talvez mais tarde, — eu disse finalmente me movendo.
Eu fui até a pequena cômoda onde algumas das minhas roupas
tinham sido guardadas. A culpa subiu pela minha garganta
como bile. — Se você ainda estiver acordado quando eu voltar,
nós podemos assistir alguma coisa.
— Você não voltou na noite passada.
Eu puxei um par de leggings. — Eu não fui capaz de
voltar a dormir, então eu não quis incomodá-lo.
— Você sabe que nunca irá me incomodar. Nunca. —
Houve uma pausa. — E eu não voltei a dormir. Eu esperei por
você. — O tipo de paciência, que eu não tinha, em seu tom de
voz. — Eu posso ir com você para a academia. Apenas me dê...
Chicoteando ao redor eu vi que ele já estava com suas
pernas fora da cama. — Não!
Ren congelou, seus olhos arregalando-se ligeiramente. —
Não?
Eu apertei as calças nas minhas mãos. — Eu quero dizer,
eu não quero que você se levante e sinta que precisa me fazer
companhia. Eu já acordei você. Você devia voltar a dormir.
Seus ombros se ergueram em uma respiração profunda.
— Não é grande coisa. Eu posso ir com você. — Ele ficou de pé,
levantando os braços sobre a sua cabeça se alongando. — Nós
podemos correr na esteira. — Ele abaixou seus braços. —
Quem perder tem que ir à cozinha e roubar uma caixa de
beignets que eles entregam todas as manhãs.
Meu coração estava batendo acelerado quando ele deu
passo em minha direção e então outro. O quarto não era muito
grande, por isso levou pouco tempo para ele estar na minha
frente.
— Eu apenas vou me trocar. Ou eu posso ir assim? O que
você acha? — ele brincou com um pequeno sorriso. — Não deve
ser muito confortável para correr.
Sangue zumbiu em meus ouvidos quando o meu olhar
caiu em sua boca. Meu estômago afundou quando Ren
estendeu uma das mãos para um dos meus cachos. Ele esticou
e soltou. Era um dos seus passatempos favoritos, e então, se as
coisas estivessem normais, ele abaixaria seus lábios para os
meus. Antecipação torceu enquanto um arrepio apertou seu
caminho descendo pela minha espinha. Um calor agradável
invadiu as minhas veias.
Mas será que eu queria beijá-lo? Ou eu... eu queria me
alimentar dele?
O fato de sequer ter que me perguntar era aterrorizante.
Eu dei um passo para trás e esbarrei na cômoda,
sacudindo-a.
Ren ficou imóvel como uma estátua. O silêncio conciso
encheu o espaço entre nós, quando eu ergui o olhar para ele
com os olhos arregalados. — Eu não vou machucar você, Ivy.
Você sabe disso, certo? Você está segura comigo. Sempre.
Oh Deus, ele achava que eu estava preocupada que ele
me machucasse? É claro que sim. Como eu poderia culpá-lo
por pensar isso, quando eu estava tão nervosa quanto um
viciado em cafeína quando ele estava perto de mim?
Meu rosto queimou quando eu afastei o olhar. — Eu sei
que você não me machucaria. Eu sinto muito...
— Pare de se desculpar, Ivy. Maldição. Apenas pare de
dizer que você sente muito.
Eu abri minha boca e fechei quando eu percebi que eu
estava prestes a pedir desculpas de novo.
Ren se afastou, me dando espaço. — Você não tem nada
porque pedir desculpas.
Eu não tinha, no entanto? Meio que parecia como se
houvesse uma lista tão longa quanto o meu braço pelo o que
me desculpar, começando com o fato de não ter reconhecido o
Príncipe disfarçado de Ren logo de cara. E havia mais – Deus,
havia muito mais, e quando minha cabeça estava correndo
para um milhão de lugares diferentes, era duro lembrar que
Ren não estava me culpando por nada disso.
Mas como ele não podia? Como ele podia dormir com ele
fazia à noite? Eu queria perguntar-lhe como ele estava
seguindo em frente, porque ele também tinha sido capturado.
Ele tinha servido de alimento – alimento em sua pior forma, e
tinha sido com essa fêmea fae. Breena. Ela tinha alegado que
ela e Ren... ela alegou muitas coisas, mas eu sabia que se
algumas delas fossem verdade, Ren não tinha sido um
participante voluntário.
Raiva substituiu o calor. Eu queria arrancar os olhos dela
fora de novo, e eu planejava isso. Logo antes de matá-la.
Lentamente. Dolorosamente.
Ren estava me observando de uma maneira que me fez
sentir como se ele visse direto dentro da minha cabeça, e se
esse fosse o caso, então ele provavelmente não gostou do que
viu. Seus ombros ficaram tensos e então ele exalou
asperamente. — Ok.
Alívio varreu sobre mim.
Seu olhar moveu-se rapidamente sobre mim, e eu pensei
que ele devia ter visto a maneira que minha postura se
afrouxou em resposta ao seu recuo. Sua mandíbula se apertou.
— Eu esperarei por você.
Eu sabia que ele esperaria.
E eu sabia que, no fundo, ele percebeu que não havia
motivo.

Capítulo 2

Meus tênis batiam na esteira, sacudindo a coisa toda


como se fosse um rebanho de vacas pisoteando a engenhosa,
mas eu ignorei o som. Minhas mãos balançavam em punhos
apertados ao meu lado. Os cachos que tinham escapado do
meu coque, agora se agarravam à minha nuca e minhas
têmporas. O suor escorria pela minha garganta e se agrupava
em áreas que eu nem queria tomar conhecimento.
Correndo.
Argh.
Eu odiava correr – inferno, detestava todas as atividades
físicas na maioria dos dias, mas sendo um membro da Ordem,
destinada no nascimento para caçar faes que se alimentavam
da humanidade, eu meio que tinha que estar em forma.
Mas eu não estava nesta esteira neste momento porque
era uma espécie de protetora predestinada da humanidade. Eu
estava apenas correndo, porque não havia nada mais para eu
fazer. Eu estava presa aqui, basicamente em prisão domiciliar
no Hotel dos Faes Bons. Desde que o maldito Príncipe do Outro
Mundo podia farejar-me como uma espécie de cão de caça, era
muito arriscado eu sair pelas ruas estreitas de New Orleans.
Minhas unhas cravaram-se nas palmas das minhas
mãos.
Faye, que tinha estado trabalhando disfarçada na
mansão do Príncipe, tinha explicado que o glamour ao redor do
Hotel dos Faes Bons esconderia a minha presença do Príncipe.
Que era o tipo de poder que os faes descendentes da Corte de
Verão tinham.
Uma Corte que a Ordem nos disse que não existia mais.
Meus lábios se afinaram enquanto eu aumentava a
velocidade, literalmente indo a lugar nenhum. A Ordem tinha
mentido sobre tanta coisa. Eles sabiam que havia faes bons lá
fora – faes que escolheram não se alimentar de humanos, que
viviam vidas normais, envelheciam e morriam como os
humanos. A Ordem já tinha trabalhado ao lado deles.
Daniel sabia disso?
Sendo o líder da Ordem no setor de New Orleans, Daniel
Cuvillier tinha de saber a verdadeira história da Ordem e dos
faes. Então, isso significava que ele também tinha mentido e,
por alguma razão, isso doía como uma cadela. Daniel era a
coisa mais próxima que tive de um pai desde que eu fui
enviada para New Orleans. Ele era um filho da puta genioso e
passava mais tempo me criticando do que me elogiando, mas
ele era... ele era Daniel e eu tinha confiado nele.
Todos na Ordem confiavam em Daniel – nós confiávamos
na própria Ordem.
Eu nem mesmo sabia o porquê eu estava estressada
sobre isso, por que no final das contas isso importava? Eu
duvidava que eu ainda fosse um membro da Ordem.
Depois de estar desaparecida em ação pelo último mês ou
mais, e com a Elite – o grupo super especial e secreto dentro da
Ordem – procurando pela Halfling, eu tinha certeza de que eles
pensavam que eu estava morta ou que eu era a Halfling que
eles andavam à procura.
Aquela que Ren tinha sido enviado para encontrar.
Eu engoli em seco o repentino aumento da náusea,
enquanto eu balançava a minha cabeça um pouco. Suor
respingou pontilhando o painel de controle. O problema era
que nós precisávamos da Ordem para abrir os portais para
podermos enviar o Príncipe de volta. Eu não tinha ideia de
como nós completaríamos a ato, o chamado ritual de sangue e
pedra. Tinha que ser feito no Outro Mundo. Como diabos nós
íamos conseguir que o Cristal, atualmente desaparecido,
entrasse no Outro Mundo com o sangue do Príncipe,
juntamente com o meu? Só de pensar nisso fez meu cérebro
doer e eu não estava pensando nesse tipo de vida neste
momento. Meu cérebro simplesmente não tinha espaço para
nada disso.
Ontem à noite, eu encontrei-me aqui depois de deixar
Ren no quarto. Eu estava aqui de novo, um punhado de horas
depois, porque correr geralmente fazia com que o meu cérebro
se desligasse. Quando eu corria assim, empurrando meu corpo
até que as minhas panturrilhas queimassem, minhas coxas
doessem e meu coração acelerasse, havia pouco espaço para
pensar e me debruçar nas semanas da minha vida que eu
tinha perdido – nas semanas que eu havia passado com o
Príncipe.
Eu normalmente não pensava sobre o vestido horrível
que ele me fez usar ou na forma como eu tinha sido
acorrentada a cama. Quando eu corria até os meus músculos
parecerem como borracha prestes a estourar, eu podia ignorar
a fome insidiosa que atormentava as minhas entranhas – o tipo
de fome que nenhuma quantidade de beignets ou lagostas
ajudaria.
Quando eu corria até o ponto que minhas coxas pareciam
blocos de cimento, eu não pensava sobre como o Príncipe tinha
me forçado a me alimentar de pessoas inocentes. Eu não ouvia
os gemidos que eles faziam quando os meus tênis batiam na
esteira. Eu não sentia a euforia que tinha vindo da
alimentação.
E quando eu corria até sentir que meu peito estivesse em
chamas, eu não tinha mais espaço restante para pensar sobre
o que aquela puta da Breena tinha feito com Ren. Ou o que o
Príncipe tinha feito comigo... tinha tentado fazer comigo.
Manter meus pensamentos bloqueados era a maior
prioridade neste momento, mas correr não estava funcionando
para mim agora.
Eu precisava me focar em algo – em qualquer coisa.
Meu olhar tremulou sobre a parede. Havia várias TVs
montadas, mas elas estavam todas desligadas. Eu nunca tinha
visto um fae fazendo exercícios aqui. Eu honestamente não
sabia se eles precisavam se exercitar.
Isso significa que eles não tinham coisas como doenças
cardíacas?
Porque eu até mesmo estava pensando...
A correia da esteira de repente parou embaixo dos meus
pés, me lançando para frente. Eu bati minhas mãos no
suporte, segurando-me a segundos de bater minha cabeça no
painel de controle.
— Jesus, — eu grunhi levantando o meu olhar.
Tink estava de pé ao meu lado, segurando o cordão de
emergência. — Boa tarde, Ivy-Divy. Eu estou feliz em ver que os
seus reflexos ainda estão no ponto.
Em pé, eu soltei os suportes e virei para ele enquanto eu
respirava fundo.
— Mas suas habilidades de observação são uma merda —
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ele adicionou, embalando com uma mão um sling cinza que
ele usava sobre seus ombros. — Eu cheguei bem na sua frente
e desliguei a coisa.
— Você é um imbecil. — Meu peito subiu e desceu
pesadamente.
Ele sorriu orgulhosamente. — Eu sou muitas coisas. Um
imbecil é uma delas.
Um dia destes eu ia assassinar Tink. E eu tinha um
monte de razões para agir como fosse a hora de Expurgar
quando se tratava dele. Começando com o fato de que, até
recentemente, eu pensava que Tink tinha aproximadamente o
tamanho de uma boneca Ken. Foi assim que eu encontrei o
maldito brownie no St. Louis Cemetery Nº 1, sofrendo com uma
perna quebrada e um rasgo em suas asas frágeis e
translúcidas. Ele tinha cerca de trinta centímetros de altura, se
tanto.
Eu consertei a perna dele com palitos de picolé e tinha
cuidado de sua pequena bunda punk de volta à vida, mesmo
que abrigar qualquer criatura do Outro Mundo pudesse me
matar. Eu realmente ainda não sabia o porquê eu o salvei. Eu
apenas me senti tão mal por ele, mas talvez uma parte minha
que era fae tivesse assumido, se importando com as criaturas
do Outro Mundo. Quem sabe? E como ele me agradeceu?
Gastando o meu dinheiro em pedidos bizarros e aleatórios
comprados pela Amazon Prime, escondendo de mim que eu era
uma halfling, e esquecendo de mencionar que ele escolheu ter
apenas trinta centímetros de altura. Que, na verdade, Tink era
muito, muito alto.
E totalmente anatomicamente correto.
Ver Tink do tamanho do tamanho de um homem nunca
deixava de me tirar o fôlego, porque eu nunca pensei em Tink
dessa maneira. Não só ele tinha me visto de calcinhas centenas
de vezes quando ele estava em tamanho miniatura, havia agora
muito mais de Tink, e...
E, no tamanho adulto, Tink era... quente.
Reconhecer isso me fez vomitar um pouco em minha
boca, mas era verdade. Quando ele era pequeno, ele era tipo
fofo, um pequeno rostinho lindo e ele era apenas Tink, e agora
que ele estava grande, aquele rostinho bonito tinha maçãs do
rosto largas e seu corpo era rasgado e...
Sim.
Eu fiz uma careta. Ver Tink assim ainda bagunçava a
minha cabeça, mas eu imaginava que fundo ele ainda era Tink,
e mesmo que eu ainda quisesse bater na sua bunda até o
Outro Mundo frequentemente, eu meio que... eu não sei...
amava ele.
Não que eu fosse dizer isso a ele.
O cabelo de Tink era tão loiro que era quase branco, e
hoje ele deixou-o espetado. Ele estava usando jeans e uma
camisa térmica. Ele deve ter pego uma das toalhas no caminho,
porque ele segurava uma em sua mão livre. Eu olhei para
dentro do sling, onde uma bolinha estava enrolada. Ele tinha
levado Dixon – o seu novo gatinho – para passear num sling,
que eu tinha quase certeza de que tinha sido feito para bebês
humanos...
Espere um segundo.
Meus olhos se estreitaram na camisa térmica que Tink
estava usando. — Você está usando uma camisa do Ren?
— Sim. Eu acho que isso vai conquistar a afeição dele.
Ajudar-nos a criar laços para que possamos ser como irmãos
de uma mãe diferente.
— Hum. Duvido. — Ren ia ficar furioso. — Isso também é
um pouco estranho.
— Por quê? Garotas compartilham roupas o tempo todo.
— Sim, a palavra-chave é compartilhar, Tink. Você
simplesmente pegou a camisa dele. — Eu não podia acreditar
que eu tinha que explicar isso. — A toalha é para mim?
— Sim. Parece como se você estivesse nadando em um
pântano. — Ele jogou-a para mim. — Mas pelo menos você não
parece mais ter estourado um olho.
— Obrigada, — eu murmurei, limpando o meu rosto com
a toalha. Quando eu escapei da mansão, um dos lacaios do
Príncipe tinha tentado sufocar a vida “amorosamente” de mim.
Eu tive um vaso sanguíneo estourado em meu olho durante a
luta. Era tão nojento pensar sobre isso quanto olhar para ele.
Valor, o lacaio do Príncipe, era, no entanto, um homem
morto. Ren o tinha eliminado. Aquele era um Ancião com o
qual não precisávamos mais nos preocupar.
— Eu não posso acreditar que você está na academia de
novo — Tink continuou, afastando-se.
— Por que você está aqui correndo tanto? Está se
preparando para o apocalipse zumbi iminente sobre o qual eu
não sei nada? Porque se você está, nós precisamos encontrar o
caipira mais próximo para nos tornarmos melhores amigos, um
que seja quente de uma maneira suja e robusta. Você sabe, o
tipo que provavelmente cheira a suor e homem, um com um
passado complexo que te faz odiá-lo no início, mas lentamente,
com o passar do tempo, você aprende a amá-lo.
Eu o encarei. — Você pensou muito nisso.
— Eu tenho. Eu gosto de estar preparado. Já que nós
estamos no sul, não deve ser difícil encontrar um. Então, por
que você está tanto na academia? — ele perguntou sem perder
o ritmo.
— O que mais eu tenho para fazer? — Eu coloquei a
toalha ao redor do meu pescoço, enquanto eu observava a
pequena bolinha no fundo do sling começar a se mexer.
— Eu não sei. — Tink deu um tapinha na parte externa
do sling e recebeu um pequeno miado em troca. — Você
poderia passar um tempo com alguns dos companheiros aqui.
Eles são muito legais.
— Você acha eles legais porque eles veneram você.
Seu sorriso era tão amplo que poderia ter partido o seu
rosto. — Bem, sim, há isso. Eles são espertos.
A maioria dos faes aqui nunca tinha visto um brownie. O
Príncipe e a Corte de Inverno basicamente mataram a espécie
de Tink.
— Você também poderia passar um tempo com Merle ou
Brighton, — ele adicionou. — Mamãe Merle está quase sempre
no pátio, cavando alguma coisa ou plantando algo. Ela é
interessante. Esquisita. Mas esquisita pode ser divertida, e
Merle é divertida. Eu gosto de Brighton. — Ele pausou. — Eu
não acho que ela gosta de mim. Na verdade, eu tenho certeza
de que ela tem medo de mim.
Eu arqueei uma sobrancelha. Tink gostava mesmo de
divagar.
— Ela meio que vai na direção oposta de onde quer que
eu esteja indo. — Seus lábios franziram. — Ainda nesta
manhã, eu estava na sala comum. Você sabe, a sala que você
nunca vai, mas, enfim, estou divagando. A sala tem todos
aqueles jogos legais e sofás e merdas assim. Eu estava lá,
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vencendo um jogo mediano de air hockey , e Brighton entrou,
fez contato visual comigo e depois caminhou direto para saída.
Eu não entendo o porquê. Eu sou super amigável e acessível.
Eu também sei que eu sou muito bonito para os padrões
humanos.
Decidi não apontar todas as formas que ele
provavelmente assustava Brighton, porque isso era um buraco
de coelho que eu não queria cair. Além disso, eu precisava de
um banho, porque eu me sentia como se estivesse nadando em
um pântano. Eu dei um passo fora da esteira, e quando o meu
pé bateu no chão, meu mundo inteiro vacilou.
— Uau.
Tink agarrou o meu braço, me estabilizando. A tontura
desapareceu tão rapidamente quanto apareceu. — Você está
bêbada? — Ele perguntou.
Eu bufei, me soltando. — Quem me dera. Eu não tomei
café da manhã, nem almocei ainda. Isso foi estúpido da minha
parte.
Tink ficou quieto enquanto ele me estudava. — Você acha
que pode estar exagerando?
— Exagerando o quê? Ficar sentada por aí em férias
prolongadas não solicitadas?
— Você não tem ficado sentada por aí. Você está se
exercitando. Sem parar.
— Eu não estou exagerando em nada. — Eu me afastei,
andando em volta das bicicletas ergométricas e passando pelas
4
esteiras de homens preguiçosos – os elípticos .
Tink estava bem atrás de mim. — Não que você precise
ser lembrada, mas você foi mantida em cativeiro por semanas
e...
— Você está certo. — Eu me virei para ele, enquanto a
raiva sempre presente irrompeu dentro de mim. — Eu não
preciso ser lembrada. Eu sei onde estive.
— Mas você sabe para onde está indo? — Ele perguntou
suavemente.
Eu abri minha boca, mas eu não tinha ideia de como
responder aquela pergunta. Onde eu estava indo? A raiva se
esvaiu, engolida pela confusão e uma sensação esmagadora de
impotência.
Deus, eu odiava esse sentimento, porque da última vez
que eu me senti dessa forma foi quando os faes mataram meu
namorado Shaun todos aqueles anos atrás. Eu tinha ficado
impotente então. Eu estava impotente quando o Príncipe
colocou um colar no meu pescoço e me conduziu ao redor com
uma corrente.
Eu ainda estava impotente, presa no Hotel dos Faes
Bons.
O pequeno Dixon colocou a sua cabeça cinzenta para fora
do sling e olhou ao redor com os olhos sonolentos de gatinho.
Tink estendeu a mão e coçou a orelha dele. — Ren deve estar
de volta em breve.
Meu estômago afundou como se eu estivesse em uma
montanha russa que estava prestes a cair em uma colina
íngreme. Eu não o via desde que eu saí no meio da noite.
— Eu o vi sair com a Faye.
Uma sensação quente e sufocante me cobriu, curvando-
se no meu estômago e se misturando com todas as outras
coisas ruins que eu estava passando. O mundo tinha um gosto
amargo na minha garganta, como se eu estivesse sofrendo de
indigestão.
Eu não sabia que ele tinha saído com a Faye. Ele tinha
dito alguma coisa sobre isso para mim? Eu não conseguia me
lembrar. Não que isso importasse. Eu quero dizer, eu não
suspeitava de alguma coisa ou algo parecido. Ren disse que me
amava, que ele estava apaixonado por mim, e eu acreditava
nisso. Totalmente. Eu apenas...
Eu não estava lá com ele. Alguém mais estava, e minha
cabeça – minha cabeça não estava bem.
— Eles saíram, tentando ver se eles poderiam localizar a
coisa do Cristal. —Tink ainda coçava a orelha do gatinho e
Dixon ronronava como um motor. — Você está presa aqui
enquanto o seu homem está lá fora, trabalhando para
consertar isso, deve ser uma porcaria para você.
Eu arrastei o meu olhar para o dele. — Sério? Você está
tentando me fazer sentir melhor? — Eu girei e fui para porta. —
Só para você saber, isso não está funcionando e você é
péssimo.
— Eu não estou tentando fazer você se sentir melhor, —
respondeu ele, me seguindo. — Estou apenas apontando o
óbvio.
— Não é necessário apontar o óbvio quando é óbvio, Tink.
Houve apenas meio segundo de silêncio. — Você não se
juntou a nós para jantar ontem à noite.
Pensando que essa tinha que ser a mais longa sala de
exercícios de todos os tempos, eu me apressei.
— Você não se juntou a nós para jantar na noite anterior
e antes disso, — ele continuou. — E isso significa que eu tenho
comido com Ren. Sozinho. Nós apenas podemos nos matar.
— Vocês ficarão bem. — Eu cheguei à porta, graças a
Deus.
— Onde você tem estado? — Ele perguntou. — Você
esteve aqui, mas você não esteve.
— Eu estou aqui, Tink. Eu apenas... — Eu não sabia
como responder isso porque as palavras me falharam. Como eu
poderia explicar que cada vez que eu estava perto dos faes eles
me encaravam com olhos desconfiados, quase temerosos? Eles
sabiam o que eu era. Eles sabiam porque o Príncipe tinha me
mantido em cativeiro. Eles sabiam o que eu simbolizava. —
Você sabe como eu sou com um monte de pessoas. Vocês
comem no refeitório. Eu não gosto de atividades em grupo...
Tink agarrou o meu braço, me impedindo de abrir a
porta. Ele me virou, e pela primeira vez, a sua expressão estava
cem por cento séria. — Comer no refeitório não é uma atividade
em grupo. — Seu olhar bateu sobre mim. — E não parece como
se você estivesse comendo sozinha também.
Eu ri disso. — Confie em mim, eu tenho comido. Muito.
Constantemente, na verdade. — E isso era verdade. Eu
precisava, porque se eu não o fizesse, a fome me afetava. — Eu
apenas...
— Tem corrido dezesseis quilômetros por dia, bebido
toneladas de água e não dormido?
Meus olhos se arregalaram. — Uau. Você está me
espionando?
— Eu estou prestando atenção. Ren também está. — Seu
olhar permaneceu preso ao meu. — Seu rosto parece diferente.
— O quê?
— Suas bochechas estão afundadas e você tem olheiras
sob seus olhos. Elas não estavam lá antes.
— Uau. Você está começando a me dar um complexo.
— Parece que você já tem um.
Desconfortável, eu puxei o meu braço e arranquei a
toalha do meu pescoço, atirando-a para o cesto de roupa suja
que estava perto. — Não há razão para prestar atenção em
mim. Ok?
— Ivy...
Antes que ele pudesse me parar, eu abri a porta e entrei
no corredor. Eu não estava no humor para essa conversa.
Assim como eu não estava no humor quando Ren falou sobre
isso, o que parecia como se fosse a cada cinco segundos.
Ren queria falar sobre as coisas – coisas sobre as quais
não queria pensar perto de ninguém, especialmente perto dele.
Apressei-me pelo corredor sabendo que Tink ainda estava
bem atrás de mim. Acelerando o meu ritmo, eu alcancei o final
e girei, parando imediatamente.
Tanner estava na minha frente.
Ele era o líder deste lugar. Eu meio que pensava nele
como um Rei dos Faes Bons, mas ele não era um rei. Pelo
menos não achava que ele era.
Quando eu o vi pela primeira vez, eu quase fiquei em
choque. Ele era o fae com a aparência de mais velho que eu
tinha visto na época. Linhas fracas de expressão gravadas na
pele prateada ao redor dos seus olhos e o seu cabeço era
grisalho.
Ele estava vivendo e envelhecendo, prova de que ele não
estava se alimentando, pelo menos não regularmente o
bastante para evitar o processo de envelhecimento.
— Aí está você. — Tanner sorriu, apertando as mãos na
sua frente. Ele estava sempre vestido como se estivesse indo
para um almoço de negócios – calça escura e camisa de botão
branca. — Eu estava procurando por você.
— Fantástico, — eu gorjeei, feliz pela distração. — O que
está acontecendo?
Tanner encarou Tink, seu olhar caindo para onde Dixon
estava. — Eu acabei de receber notícias emocionantes.
— Amazon Prime entregará aqui agora? — Tink
perguntou.
Eu rolei meus olhos.
Tanner continuou sorrindo, aparentemente enamorado
com o brownie supercrescido. — Não ainda, mas nós estamos
trabalhando nisso.
Eles estavam seriamente trabalhando nisso? Bom Deus.
— Eu estava procurando por você desde que eu soube
que Ren saiu com a Faye, — Tanner continuou, e eu tentei
ignorar a feia e estúpida pontada em meu peito. — Nós fizemos
contato com outro grupo que acreditamos que pode nos ajudar
a localizar o Cristal. Isso é uma ótima notícia, porque quando
eu verifiquei com Faye mais cedo, ela e Ren não estavam tendo
qualquer sorte na Flux.
Flux era um clube que sabíamos ser administrado pelos
Anciãos, especificamente Marlon St. Cryers, um grande
desenvolvedor da cidade. O Flux poderia possivelmente ser um
dos locais onde esse Cristal super especial estava escondido.
— Sério? — A excitação zumbiu através de mim, uma
vibração em meu sangue que não tinha estado lá no que
parecia uma eternidade. — Como?
— Eles estarão aqui em poucos dias, — ele disse. — E
eles têm um... um talento único para encontrar coisas que
estão perdidas.
— Talento único? — Tink meditou, e quando eu olhei
para ele, eu vi que Dixon tinha recuado para dentro do sling. —
Eu tenho alguns talentos únicos.
— E você acha que eles podem realmente ajudar? — Eu
cortei Tink antes que ele continuasse a detalhar aquilo que
nenhum de nós queria ouvir.
Bem, talvez Tanner quisesse. O que eu sabia?
Tanner assentiu. — Eu realmente acredito que sim. —
Seus olhos pálidos bateram sobre mim. — Eu tenho que tratar
de alguns assuntos. Eu espero vê-la no jantar hoje à noite.
— Claro, — eu murmurei.
Ele saiu naquele momento, deixando-me com Tink. Eu
virei-me para ele, me perguntando se Tanner tinha ajuda a
caminho, então porque é que Ren e Faye ainda estavam na
Flux? Ou lá fora, em geral? Mas, no momento que eu vi a
expressão de Tink, eu parei de pensar sobre isso.
Ele estava sério de novo. — Onde você está indo?
— Tomar banho.
— E depois disso?
Eu ergui um ombro. — Eu não sei. Provavelmente pegar
algo para comer.
— Ok. — Ele estendeu a mão em direção ao saguão do
Hotel dos Faes Bons. — Eu posso ir com você.
— Eu só vou pegar um lanche e relaxar no meu quarto.
Eu tenho certeza de que você tem coisas melhores para fazer,
— eu disse a ele, me afastando. — Como se você não tivesse
uma plateia inteira de faes mais do que prontos para acariciar
o seu ego e permitir que você os encante com histórias.
Não houve um lampejo de mudança em sua expressão.
Nenhum sorriso. Nenhum brilho presunçoso no olhar. — Você
está bem, Ivy?
— É claro, — eu disse com uma gargalhada. — Eu já
disse a vocês que eu estou bem.
E eu tinha dito isso a eles. Eu disse a Tink e Ren que eu
estava bem naquele dia no balanço – o dia que parecia há uma
eternidade, mas eu não estava bem.
Eu estava longe disso.

Capítulo 3

Com os braços cruzados sobre o peito, eu caminhei pelo


longo e estreito corredor da biblioteca do Hotel dos Faes Bons.
Estava no mesmo andar que o saguão e a academia, mas em
uma ala diferente. Eu a encontrei acidentalmente a alguns dias
atrás enquanto todos estavam jantando.
E, por que todo mundo jantava ao mesmo tempo? Será
que isso era uma estranha tradição da Corte Fae de Verão? Era
como estar no ensino médio, mas com pessoas atraentes e com
pele prateada... que nem mesmo eram pessoas.
Descruzando os meus braços, eu estendi a mão e passei
os meus dedos pelos grossos volumes. Alguns daqueles livros
tinham décadas, se não fossem mais velhos. Muitos estavam
em idiomas que eu não entendia. Mais atrás estavam os livros
mais novos e muitos do gênero de ficção como romance e
suspense. Eles até tinham uma atualizada e decente seção de
5
Young Adult .
Era para lá que eu ia, enquanto todos estavam sentados
no enorme prédio para o jantar. Pelo aroma que irradiava do
refeitório eu achava que eles estavam comendo carne assada.
Normalmente, isso me faria salivar, mas meu estômago torcia-
se desconfortavelmente.
Todos os dias eu estava morrendo de fome ou prestes de
vomitar, e parecia não haver meio-termo. Em que altura é que
isso pararia? Uma semana se passou desde a última vez que eu
tinha... eu tinha me alimentado. A fome tinha que desaparecer.
Eu devia provavelmente perguntar a alguém sobre isso.
Faye sabia o que eu tinha sido forçada a fazer, mas isso exigiria
que eu realmente falasse com ela – com alguém, o que, aliás,
não era assim que eu queria passar o meu tempo.
Alcançando o final do corredor, eu virei à direita e fui
mais adiante na biblioteca. Eu gostava daqui. Era silencioso, e
ninguém, nem mesmo Tink pensava em me procurar aqui. Eu
podia pegar um livro, encontrar um canto, sentar-me e ler.
E foi isso o que eu fiz.
Eu peguei um velho romance histórico, o tipo que tinha
um cara de peito largo e uma garota que parecia prestes a
perder o seu vestido. Eu encontrei um pequeno cubículo na
parte de trás e me enrolei em uma cadeira grande e confortável.
Levou alguns capítulos para eu me perder na história
sobre uma jovem mulher presa em uma disputa entre senhores
da guerra escoceses. Eu amava ler, mas era difícil concentrar-
me quando sentia que devia estar lá fora, fazendo mais –
fazendo alguma coisa.
Talvez isso fosse o que estava errado comigo? Talvez eu
simplesmente não estivesse acostumada a ficar sentada sem
fazer nada durante dias sem fim à vista. Por que quem sabia?
Eu poderia ficar sentada por aí durante semanas. Talvez até
meses.
Eu não conseguiria.
Exasperada com os meus pensamentos, eu voltei a me
concentrar no que eu estava lendo. Quando que eu consegui
que o meu cérebro se desligasse, eu fiquei absorta. Tão
envolvida em imaginar as colinas verdejantes e a névoa das
Terras Altas que eu não ouvi os passos se aproximando.
— Ivy.
Surpreendida com a voz profunda e suave como a do
pecado, quase derrubei o meu livro quando eu levantei o
queixo. O ar saiu dos meus pulmões quando o meu olhar se
conectou com os olhos da cor das folhas da primavera.
Ren.
Eu não esperava que ele me encontrasse.
— Ei, — eu disse encontrando a minha voz, enquanto eu
fechava o velho livro de bolso. Meu esconderijo já não era mais
um esconderijo. — O que você está fazendo aqui?
Suas sobrancelhas se ergueram por causa da minha
pergunta, e eu imediatamente desejei que eu não tivesse
perguntado aquilo. Ela saiu como se eu não quisesse ser
encontrada, e bem, eu não queria, mas eu também não queria
que Ren soubesse disso.
— Eu quero dizer, não é hora do jantar? — Eu
rapidamente adicionei, sentindo minhas bochechas
esquentarem. Era outra pergunta estúpida que eu me
arrependi imediatamente.
— Sim, é hora do jantar. — Aproximando-se, ele se
sentou na minha cadeira e esticou as suas longas pernas. — É
por isso que eu estava procurando por você.
Eu fiz a coisa toda de jantar nas primeiras duas noites
aqui, me forçando a comer através dos olhares de curiosidade e
desconfiança. Eu não sei como Ren fazia isso, mas essa era a
primeira noite que ele tinha vindo me procurar. Bem, até onde
eu sabia. Se ele tinha e apenas não conseguiu me encontrar,
ele não mencionou isso à noite.
— Eu acabei sendo pega na leitura deste livro, — eu
menti. — Eu espero que você não tenha interrompido o seu
jantar para me procurar.
Um olhar estranho que eu não consegui decifrar passou
sobre o seu rosto, mas desapareceu antes que eu pudesse
descobrir o que era. Ele abaixou os olhos para o livro. — Você
esteve aqui o dia todo?
— Hum, eu estou aqui há um tempo.
Ele mordeu seu lábio inferior. Um momento passou em
um silêncio estranho... bem, as coisas estavam estranhas entre
nós. E era tudo por minha causa. Eu sabia disso. Eu estava
tornando as coisas estranhas. O dia no balanço – o dia que eu
senti que, com Ren e Tink ao meu lado, tudo seria resolvido –
agora parecia como uma vida diferente.
Soltando um longo e lento suspiro, ele se inclinou para
frente, descansando seus cotovelos em seus joelhos. — Eu
voltei algumas horas atrás e procurei por você. A primeira coisa
que eu fiz, na verdade.
Meu coração apertou-se quando uma onda de culpa
abateu-se sobre mim. Sua pergunta não formulada pairou no
ar entre nós. Onde você estava? Boa pergunta. Eu deveria estar
disponível, esperando por ele. Qualquer coisa poderia ter
acontecido enquanto ele estava lá fora. O Príncipe, a Ordem –
qualquer coisa, e eu me preocupei, mas não me importei em
esperar por ele.
Eu encontrei um lugar para me esconder e foi o que eu
fiz.
Ren afastou seu olhar, focando em uma das prateleiras.
— Eu verifiquei a academia, as salas comuns, e o pátio.
Deveria saber que tinha que procurar aqui, sua nerd de livros.
— Seu sorriso foi breve. Ainda sem covinhas. — Eu pensei... eu
pensei que você estaria na sala comum ou algum lugar, você
sabe, facilmente encontrável.
A culpa aumentou, percorrendo as minhas veias como
ácido de bateria. — Eu sinto muito. Eu meio que perdi a noção
do tempo. — Eu enrolei meus dedos ao redor do livro. — Então,
o que aconteceu na Flux?
— Nós conseguimos entrar sorrateiramente. — A linha de
sua mandíbula suavizou um pouco. — Faye usou glamour nos
humanos. Não posso acreditar que o maldito lugar está aberto.
Havia um pessoal lá e alguns faes de baixo nível que nós
cuidamos.
Eu fiquei surpresa que a Flux estivesse aberta e
funcionando. A última vez que estive lá houve um massacre.
Corpos pendurados no teto e tudo. Uma visão que eu não
esqueceria facilmente.
— Nós não encontramos nada, — ele continuou. Faye
nunca tinha visto o Cristal na casa em que o Príncipe estava
escondido, então tinha que estar guardado em algum outro
local.
— Enquanto nós estávamos fora, decidimos verificar
alguns cemitérios. Nada suspeito lá.
— Tanner conseguiu entrar em contato com vocês? — Eu
abaixei o meu olhar quando ele olhou para mim.
— Sim. — Houve um momento de silêncio. — Disse que
alguém ou alguma coisa está vindo nos ajudar a localizar o
Cristal, mas eu acreditarei quando eu os ver, você sabe? Se
aquele Cristal não estava na mansão, então tem que estar em
algum lugar por aqui.
Eu assenti. — Como é trabalhar com Faye?
— Estranho, — ele respondeu, e agradecidamente não
houve uma pontada de ciúme. — Quem imaginaria que
estaríamos trabalhando ao lado dos faes?
— Nunca tinha cruzado a minha mente. — Eu não
apontei que tecnicamente ele estava namorando alguém que
poderia ser considerado fae desde que eu era uma halfling. —
Você acha que a Elite sabia?
Ren tinha sido criado no grupo secreto da Ordem,
destinado a ser um membro. — Eu nunca ouvi qualquer coisa
disso, mas a Elite tinha que saber. — Sua voz endureceu, e eu
olhei para cima. Ele estava focado em uma estante de livro de
novo. Seus lábios estavam curvados com desgosto quando ele
continuou, — Kyle tinha que saber.
Eu senti o mesmo desgosto. Kyle Clare dirigia o grupo da
Elite de onde Ren tinha vindo, ele era um idiota. Um gigante e
flamejante idiota que tinha assassinado Noah, o melhor amigo
de Ren.
Noah acabou por ser um halfling, deixando Ren entre o
seu dever e alguém que ele se importava. A mesma exata
posição que ele se encontrava comigo.
— Essa é a coisa que continua me irritando. — Ren
inclinou a cabeça para trás trabalhando seu pescoço de um
lado para o outro. — Por que eles mantiveram em segredo o
fato de que existiam faes bons aqui fora? Que eles trabalharam
lado a lado com eles?
— Eu não sei, — eu sussurrei. Esta parecia a pergunta
do ano.
O olhar de Ren encontrou o meu. — Nós tivemos
membros da Ordem morrendo nas fodidas ruas todas as
semanas lutando com os faes. Quantos morreram na noite em
que o portal foi aberto?
— Dezesseis, — eu respondi, um número que eu nunca
esqueceria.
— E o tempo todo havia esse lugar cheio de faes que
poderiam ter lutado ao nosso lado, que querem a mesma coisa
que nós. Isso é besteira.
Isso era um monte de coisas. Besteira era apenas uma
delas. — Eu estive pensando sobre isso. Eu apenas não posso
acreditar que não há uma razão. Eu não estou dizendo que seja
uma razão justificável, mas porque é que a Ordem levaria o
Cristal destes faes, e por que é que eles esconderiam sua antiga
aliança de todos nós? Tem que ser algo grande. — Eu olhei
para os corredores silenciosos. — E eu não posso acreditar que
foi apenas a Ordem. Especialmente porque que Tanner não tem
sido exatamente comunicativo sobre como isso aconteceu.
— Sim, sempre que eu falei sobre isso, ele se esquivou da
pergunta. Assim como a Faye. — Ele se inclinou, seu braço
escovando contra a minha perna dobrada. — E você sabe o que
sempre dizem. Há três lados em casa história.
— A Ordem. A Corte de Verão. E a verdade, — eu
respondi. — Você... você confia neles – nos faes daqui?
Quando o olhar de Ren encontrou o meu novamente, eu
não desviei. — Eu confio ou eu não teria desistido das adagas
para ficar aqui.
Tanner tinha pedido que nossas armas fossem entregues,
só por precaução. Nós entregamos, mas a estaca de espinhos
permanecia em nosso quarto, porque essas coisas eram raras e
era a única arma que podia matar um Ancião.
— Nós estamos vulneráveis, por isso eles tiveram muitas
oportunidades de nos eliminar. Eles não fizeram isso. Eles
garantiram que fôssemos alimentados, temos um teto sobre as
nossas cabeças, e nós estamos em um lugar seguro. Além
disso, eles ajudaram a te trazer para cá. — Ele tocou-me
levemente na minha mão com as pontas dos seus dedos. —
Você confia neles?
Meu olhar caiu para os dedos dele. Na verdade, havia
apenas duas pessoas no mundo inteiro em quem eu confiava
cem por cento agora. Ren e, tão louco quanto isso soava, Tink.
Eu aprendi de maneira mais difícil que, por mais que você
achasse que conhecia alguém, isso não significava que você
realmente o conhecesse. Val era a prova disso.
— Eu confio em você — eu disse.
Ren calmamente deslizou sua mão sob minha palma,
enfiando seus dedos nos meus. Minha respiração ficou presa
quando um nó de emoção inchou em meu peito. Lentamente,
eu fechei os meus dedos ao redor dos dele. Ele levou as nossas
mãos para a sua boca, colocando um beijo no topo da minha
mão. Um ciclone rodopiante de saudade e hesitação formou
uma confusão emaranhada dentro de mim. Eu queria subir em
seu colo e eu queria fugir.
Ele abaixou as nossas mãos até a sua coxa. — Vamos
jantar.
Sim estava na ponta da minha língua, mas não foi isso o
que saiu da minha boca quando eu soltei a minha mão. — Eu
já peguei algo para comer, mas você pode ir em frente. Eu vou
voltar para os homens de kilts.
Um músculo flexionou ao longo de sua mandíbula e sua
expressão se suavizou. — O que você comeu?
Lembrando a conversa com Tink, eu entrei em detalhes
exagerados do que eu tinha consumido hoje. Metade disso era
mentira. Depois que eu tomei banho, eu tinha comido uma
tigela gigante de Cheerios e um sanduíche de manteiga de
amendoim. Ambos tinham se instalado em meu estômago como
chumbo e houve alguns terríveis momentos em que eu achei
que ia passar o resto da tarde rezando para o deus da
porcelana.
Quando eu terminei, eu não tinha certeza se Ren
acreditou em mim ou não. — Certo, — ele prolongou a palavra.
— Então venha sentar comigo enquanto eu como.
A tensão penetrou nos meus músculos. Sabendo que o
refeitório estaria cheio de faes – de faes que sabiam exatamente
o que eu era e o que o Príncipe queria de mim – revirou o meu
estômago.
Eu pressionei de volta na almofada do sofá. — Eu acho
que eu vou apenas relaxar aqui.
Desapontamento cintilou através de seu rosto e eu tive
que afastar o olhar. — Ivy. — Houve uma pausa, enquanto eu
sentia o seu olhar intenso em mim. — Eu sinto sua falta.
— Eu estou aqui, — eu disse tentando suprimir a súbita
onda de irritação. Ficar irritada com ele não era certo. Ren não
estava fazendo nada de errado. Eu respirei fundo e forcei um
sorriso. — Eu não tenho outro lugar para ir.
— Você está aqui, Doçura. — Sua voz estava suave, mas
eu vacilei mesmo assim com o uso do apelido. Eu devia saber.
Quando o Príncipe estava disfarçado de Ren, ele nunca tinha
me chamado assim. — Fisicamente você está aqui, mas é só
isso.
Eu abri minha boca, mas eu não sabia como responder
aquilo porque ele estava falando a verdade. Ninguém precisava
estar atento para ver isso.
Ele esperou que eu respondesse e quando eu não fiz,
seus ombros se ergueram com uma respiração profunda. Ele se
levantou e quando ele falou, seu tom fez meu peito doer,
porque havia esse... imensurável abismo entre nós e
continuava crescendo, expandindo-se até que eu recear que
não houvesse ponte grande o suficiente para qualquer um de
nós cruzar. — Eu vou pegar alguma comida. Você sabe onde
me encontrar.
Pressionando meus lábios juntos, eu assenti.
Ren olhou-me fixamente por um momento, e eu pensei
que ele pudesse dizer alguma coisa, mas ele não disse. Ele
virou e se afastou, suas costas retas e rígidas. E eu fiquei ali
sentada, olhando o espaço em que ele tinha estado por muito
tempo depois que ele partiu.
Eu queria que ele ficasse.
Eu queria que ele me pegasse e me arrastasse para o
refeitório.
Mas eu também não queria nada além do que aquilo que
ele tinha acabado de fazer, que era me deixar sozinha com o
vazio.
Capítulo 4

À medida que o entardecer se transformou em noite,


desisti de ler e saí da biblioteca. Eu realmente não tinha um
plano para onde eu estava indo. Apreensiva, eu estava
perambulando pelos corredores enquanto evitava, bem, todo
mundo.
Eu sabia que não importava quanto tempo eu evitasse
voltar para o quarto, Ren estaria acordado. Ele apenas estaria
deitado lá, o olhar grudado na TV, se fosse nove ou duas da
manhã. Todas as noites ele esperava por mim enquanto eu me
trocava no banheiro, como se eu tivesse dezesseis de novo. As
cobertas em meu lado da cama puxadas para o lado. Eu subia
e me deitava, e alguns poucos segundos passariam e então ele
se enrolava em mim, segurando-me apertado contra o seu
peito.
O contato, o seu peito contra as minhas costas, seus
braços ao redor da minha cintura, sempre me esgotavam. Era
muito e quase não o suficiente ao mesmo tempo, mas era a
única coisa que me ajudava a dormir.
Ren era única razão pelo qual eu dormia.
Eu dormia as mingadas horas que eu conseguia todas as
noites por causa dele, porque ele esperava por mim. Porque ele
tinha sido nada além de paciente, e Deus, ele era um cara tão
bom. Perfeito. De verdade. Ele conseguia até dobrar lençóis e
quem conseguia fazer isso? Eu estava apenas tão... tão
apavorada em meter os pés pelas mãos.
Eu parei do lado de fora do pátio e encarei a centenas e
centenas de luzes penduradas acima.
Quando eu vi pela primeira vez o prédio da velha central
6
elétrica na Peters Street tinha parecido um dos muitos prédios
degradados e abandonados, mas isso era um glamour
poderoso. Agora eu via isso pelo que verdadeiramente era: um
edifício maravilhosamente renovado que rivalizava com
qualquer um dos hotéis mais elegantes de New Orleans. Faye
disse que eles poderiam abrigar centenas de faes que
procuravam um lugar seguro para se esconderem. O pátio era
lindo – pacífico. Era por isso que eu frequentemente vinha aqui
fora. Eu podia simplesmente sentar-me e ficar sozinha.
Eu podia pensar – pensar sobre todas as coisas que eu
não queria pensar sobre ao redor das outras pessoas.
Enquanto eu caminhava embaixo das lanternas de papel
e cordas de luzes cintilantes, eu me perguntava se era assim
em partes do Outro Mundo.
Isso era algo em que eu nunca tinha pensando antes.
Eu segui o caminho na direção ao que eu agora
considerava ser o meu balanço. Havia um frio fora de época no
ar, e os habitantes locais provavelmente pensavam que estava
muito frio. Eu teria amado isso, exceto que eu sabia que isso
era porque a Corte de Inverno estava se espalhando por New
Orleans.
Isso meio que tirava a diversão da onda de frio.
Parando no caminho, eu cruzei os meus braços sobre a
minha cintura e escutei. Foi estranho. Havia um som distante
de risos e conversas vindo do interior do Hotel dos Faes Bons.
Mas não havia sirenes. Não havia buzinas. New Orleans nunca
dormia e nunca ficava quieta. Não desta forma. Tinha que ser
os faes. Eles tinham talentos mágicos de bloqueio de som ou
algo assim.
Maldição, se eles pudessem engarrafar e vender isso?
Eu encontrei o meu caminho para o balanço e sentei-me,
usando a pontas dos meus dedos dos pés para me empurrar.
Descruzando os braços, eu coloquei as minhas mãos em
minhas coxas e fechei os meus olhos. Meu estômago revirou
fazendo-me respirar profundamente.
Eu estava tão malditamente famin...
Não.
Abrindo os meus olhos, eu exalei longa e lentamente. Eu
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olhei ao redor, absorvendo as íris completamente floridas,
enquanto eu ignorava o tremor rolando para cima e para baixo
em meus braços. Então, eu fiz o que eu fazia todas as noites.
Drake.
Cada músculo do meu corpo travava, apertando o meu
peito e garganta até eu pensar que poderia vomitar.
Drake. Drake. Drake.
Eu repetia o nome do Príncipe repetidamente em minha
cabeça. Eu continuava a dizê-lo até que alguma tensão
diminuísse e a pressão recuasse no meu peito. Eu dizia o nome
dele até que eu não quisesse mais vomitar.
Essas ginásticas mentais eram mais difíceis do que correr
em uma esteira. Dessensibilização. Por que como eu
enfrentaria Drake, se o mero pensamento do seu nome me
fizesse querer vomitar?
Tremendo quando o vento forte aumentou, eu olhei ao
redor do pátio. As flores se agitavam e as luzes balançavam. O
lugar estava tão vazio quanto eu me sentia, e maldição, eu
odiava aquilo – odiava isso.
Porque essa não era eu.
Não era quem eu era.
Então, o que no inferno eu estava fazendo aqui fora? Eu
devia estar lá dentro – eu devia estar falando com Ren. Nós
éramos um time. Parceiros. Amantes. Amigos. Eu precisava
falar com ele. Dizer a ele o que eu estava sentindo, porque se
eu conseguisse soltar aquelas palavras, eu sabia que ele me
ajudaria a entendê-las. Eu precisava dizer a ele sobre a fome
incessante.
Eu poderia falar com ele sobre isso. Eu poderia falar com
alguém, dizer a eles – dizer a Ren – que eu não me sentia como
eu mesma. De alguma forma eu tinha perdido quem Ivy
Morgan era.
Porque eu não podia continuar fazendo o que eu estava
fazendo, vagando sem rumo e me escondendo. Isso não era
bravura de forma alguma , mas, mais importante, não era
inteligente.
Eu conhecia o suficiente de psicologia básica, que eu
tinha estudado na Loyola, que, às vezes, falar com alguém era
o melhor remédio que havia por aí. Podia não consertar toda a
bagunça em minha cabeça, mas ia ajudar. Era o primeiro
passo em toda essa coisa de cura e lidar com o trauma. Colocar
o que eu estava sentindo em palavras era como cortar fora
aquela escuridão dentro de mim.
Eu encontraria Ren e falaria. Eu definitivamente diria
alguma coisa de raro valor.
Levantando-me do banco, eu corri para dentro e de volta
para o corredor, caminhando por várias portas fechadas
enquanto eu mantinha meu olhar longe dos faes que passaram
por mim. Nenhum deles jamais se aproximavam de mim
quando nós cruzamos os caminhos. A maioria nem olhava na
minha direção. Eu me perguntava se eles tratavam Ren da
mesma forma – se era porque nós éramos membros da Ordem
ou se era porque eu era a Halfling.
Essa era uma pergunta que provavelmente era melhor
deixar sem resposta.
Quando me aproximei de uma das grandes áreas
comuns, eu ouvi algo que me fez parar completamente.
Eu ouvi a risada de Ren.
Atraída de uma maneira que era quase incontrolável, eu
me movi ao longo da parede como uma verdadeira trepadeira.
Parando um pouco antes do amplo arco que conduzia para
dentro da sala, eu me levantei como a coisa toda de trepadeira
e espiei para dentro.
Tink foi a primeira pessoa que eu vi, eu estava meio que
chocada que ele estava na sala com um Ren risonho e não
assassino.
Tink estava sentado o braço do sofá, perto de uma
Brighton muito desconfortável. Seu cabelo loiro estava puxado
para trás em um rabo de cavalo, como sempre. Brighton tinha
trinta e poucos anos, mas ela parecia ser uma década mais
jovem, tendo essa qualidade de não demonstrar idade, assim
como a sua mãe.
Sentado ao lado de Brighton estava um fae que eu
conheci na noite em que escapei do Príncipe. Ele tinha cabelo
claro, então eu sabia que era Kalen. Tink alegou que ele não
podia distinguir Kalen de Dane, o outro fae que tinha
participado da Operação de Resgate da Ivy, mas Dane tinha
cabelo escuro, por isso eu não fazia ideia porque é que ele tinha
tanta dificuldade.
Ren estava sentado em uma cadeira, seu perfil para a
porta. Ele estava inclinado para trás, um tornozelo
descansando em seu joelho, uma bochecha plantada em seu
punho. Ele estava sorrindo e seus ombros estavam soltos. Seu
corpo todo parecia dessa forma. Ren parecia... relaxado.
Eu não o tinha visto assim desde... desde que eu disse a
ele que eu era a Halfling. É claro, a próxima vez que eu o vi não
tinha sido ele, mas o Príncipe fingindo ser ele. Ren tinha sido
capturado na mesma noite que eu dei a notícia a ele. Eu não
voltei a ver o Ren “real” até o Príncipe me levar para a cela onde
o tinham mantido preso.
Eu mordi o meu lábio, meu olhar deslizou dele para Faye.
Ela estava em sua forma humana. Cabelo escuro. Pele morena
brilhante. Bonita. Ela estava empoleirada no braço da cadeira
de Ren.
Eu comecei a sentir gosto de sangue em minha boca.
Soltando o meu lábio, eu cruzei meus braços quando
Faye sorriu para Ren como se eles fossem todos amiguinhos.
Eu quero dizer, não que eu estivesse com ciúmes, mas eu
imaginava que patrulhar juntos fosse uma ótima forma de criar
laços. Foi assim que Ren e eu ficamos próximos – ok, eu parei
aquela linha de pensamento antes que eu entrasse correndo na
sala comum, agarrasse Faye por seus cabelos, e a arrancasse
fora do braço da cadeira.
Tink aprovaria totalmente, pois ele amava drama de
todos os tipos.
Havia outros faes na sala com eles, alguns eu não
reconheci, mas meu olhar se arrastou de volta para Tink e Ren.
Eles pareciam tão... bem ajustados, como se fosse uma
noite normal, de qualquer dia da semana. Feliz até, e, o mais
importante, eles estavam à vontade. Nenhum deles estava
assim ao meu redor. Nem mesmo Tink. Certo, ele era Tink, mas
até ele, às vezes, parecia como se estivesse caminhando em
ovos ao meu redor.
Conversar com Ren sobre tudo ficou em segundo plano. A
última coisa que ele precisava neste momento era lidar com as
minhas besteiras emocionais, porque ele também tinha
passado por algumas coisas desagradáveis e ele precisava de
momentos como este. Momentos onde ele podia apenas relaxar
e ser normal e não se debruçar sobre o que aconteceu com ele –
conosco.
Eu não queria tirar isso dele.
Eu recuei e dei meia-volta, indo em direção aos
elevadores quando eu parei. Onde eu estava indo? Suspirando,
eu girei e caminhei de volta para o pátio. Depois de ficar
naquele maldito quarto da mansão do Príncipe por semanas,
eu não queria ficar enfiada em outro quarto. Estava frio lá fora,
mas eu preferia arrepios a quatro paredes e uma porta.
Seguindo para o pátio mais uma vez, eu deixei meus
dedos percorrerem todas as videiras frondosas que cobriam a
arcada. Fora deste lugar, as videiras e as flores estavam
começando a morrer por causa da onda de frio, mas tudo
estava vivo aqui. Encantado. Talvez aquele fosse o porquê eu
achava isso tão pacífico? Eu me movi mais para dentro do
jardim, mais longe do Hotel dos Faes Bons.
— Ei.
Surpreendida pela voz, eu girei com a testa franzida. Um
macho fae estava de pé a vários metros de mim. Eu não o tinha
visto antes, mas ele pareceu ter cerca da minha idade. Eu olhei
sobre meu ombro. É claro, ninguém estava lá. Eu encarei o fae,
surpresa desde que nenhum deles jamais falou comigo. — Eu?
As mãos do fae abriram e fecharam em seus lados. —
Você é a única pessoa parada aqui, certo?
Uau. Ok, essa era alguma atitude desnecessária. — Sim,
mas eu tenho um nome e não é “ei”.
Sua mandíbula apertou e aqueles pálidos olhos azuis
estavam praticamente em chamas quando ele deu um passo
para frente. — Eu sei qual é o seu nome, mas isso não importa.
Seu nome é irrelevante.
— Uau. — Eu soltei uma risada curta. — Como você é
simpático e afetuoso.
Ele ignorou o comentário. — Por que você está aqui?
Isso parecia uma pergunta estúpida. — Bem, é meio que
uma longa história, mas eu posso dar a você a versão para
imbecis se você quiser?
O fae zombou. — Nós todos sabemos o que você é e o que
isso significa. Isso é tudo o que nós precisamos saber.
Interiormente, meu corpo inteiro se encolheu, mas eu
mantive a minha expressão em branco enquanto eu me movia
na direção dele. De jeito nenhum eu o deixaria saber que isso
me incomodava. — Eu sabia que eu não devia ter atualizado o
meu status no Facebook para halfling.
Seus lábios afastaram-se. — Você fica aí como se isso
tudo fosse uma piada, em um lugar sagrado para nós,
enquanto coloca as nossas vidas em perigo? Eu estou contente
que você possa encontrar humor nisto.
Todas as respostas engraçadas morreram na ponta da
minha língua. — Como eu estou colocando suas vidas em
perigo? Olhe, apenas porque eu pertenço a Ordem não significa
que eu estou a segundos de matar todos vocês.
— Não tem nada a ver com você pertencer a Ordem ou
seus assassinatos indiscriminados da nossa espécie.
Soava incrivelmente como se isso tivesse a ver com a
Ordem.
Os olhos do fae se estreitaram. — Tem tudo a ver com
você ser a Halfling. O Príncipe eventualmente encontrará você
aqui. Nós todos sabemos disso. É apenas uma questão de
tempo, e quando ele a encontrar, ele não apenas levará você e
sairá. Ele assassinará todos nós, — o fae retrucou, esfriando o
meu sangue. — É assim tão engraçado agora, Halfling?
Meu sangue gelou. — Disseram-me que este lugar era
protegido...
— É, mas não por muito tempo. O glamour falhará. — O
sorriso de escárnio escorregou do seu rosto. — E é por isso que
nós não temos outra opção. Enquanto você estiver aqui, nós
estaremos todos em perigo. Minha família. Meus amigos. Eles
todos morrerão porque Tanner deu abrigo a você.
Eu não tive a chance de pedir a ele para explicar toda a
coisa da opção. Um passou quebrou um galho atrás de mim.
No fundo da minha mente eu me amaldiçoei por não ser
observadora – por não verificar a localização, não importa quão
sereno isso parecesse.
Eu fui treinada na Ordem desde o nascimento. Eu devia
saber melhor.
Mas era muito tarde.
Antes mesmo que eu pudesse registrar totalmente o que
estava acontecendo, uma dor muito forte e quente irrompeu ao
longo das minhas costas, irradiando pelo meu lado e pelas
minhas pernas, me fazendo cair de joelhos.

Capítulo 5

O tempo desacelerou para o passo infinito de tartarugas


quando o pegajoso calor úmido caiu em forma de cascata pelas
minhas costas. Uma dor chocante roubou o ar dos meus
pulmões, enquanto eu colocava uma mão para me firmar no
pavimento. Em um estado atordoado de descrença, eu plantei a
minha palma da mão em minhas costas.
Ofegando em um grito agudo, eu imediatamente me
arrependi da decisão. Puxando minha mão das minhas costas,
eu podia ver que ela estava coberta de tinta preta. Sangue.
Muito sangue. Isso fez o ar cheirar a metal.
Eu tinha sido... esfaqueada.
Puta merda, eu tinha sido esfaqueada!
Saindo do choque, eu me levantei e girei bem a tempo de
ver a luz da lua refletida em uma lâmina de aparência
desagradável arqueando bem acima de mim.
O instinto assumiu.
Eu peguei o braço do atacante e torci. O estalo de ossos
não me encheu de alegria como normalmente faria, porque o
movimento rasgou meu lado, enviando outra onda de dor
intensa através do meu corpo. Eu tropecei em sua esteira,
assim que o fae caiu para frente, soltando a lâmina enquanto
ele embalava seu braço quebrado em seu peito – um grande
peito.
A fae era uma fêmea.
— Você me esfaqueou! — eu arquejei.
Ela levantou a cabeça no exato momento que eu bati meu
joelho em seu queixo, estalando a cabeça para trás. Ela caiu
para trás, nocauteada ou morta, quando ela caiu de costas.
Eu estendi a mão para a minha cintura para pegar uma
adaga, lembrando-me rapidamente que eu não tinha armas.
Nós tínhamos prometido que não as carregaríamos. Malditos
todos...
Um corpo bateu em minhas costas, derrubando-me no
mato próximo. Pousando de costas, um grito saiu de dentro de
mim, rasgando o ar da noite. Meu corpo inteiro ficou rígido com
a dor, e por um segundo, apenas um maldito segundo, eu
fiquei imóvel.
E foi um segundo muito longo.
Eu fui virada de barriga para baixo. O peso caiu em cima
de mim. Joelhos se enterraram em minhas costas quando eu
caí através de folhas e flores. Sujeira e galhos cravaram em
meu rosto enquanto mãos forçaram a minha cabeça para
baixo. Minha boca se abriu, eu arrastei sujeira e Deus sabe o
que mais enquanto eu gritava de raiva.
Eu sabia melhor. Eu sabia melhor. As palavras
continuavam o ciclo. Havia dois faes, talvez mais, e eu virei as
minhas malditas costas para pelo menos um deles. Duas vezes.
Tão estúpida – mortalmente estúpida. Eu sabia melhor.
Eu me esforcei para erguer a minha cabeça da sujeira,
conseguindo tomar um gole de ar puro um momento antes que
meu rosto batesse para baixo mais uma vez com excessiva
força. Calor úmido explodiu através do meu rosto, enchendo a
minha boca quando eu tateei ao redor tentando agarrar uma
das mãos que estavam unidas e determinadas a me sufocar em
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um maldito arbusto-borboleta .
— Apenas desista, — disseme a voz em meu ouvido. —
Apenas desista e faça isso mais fácil para você.
Desistir significava ser sufocada em um arbusto e não era
exatamente assim que eu queria deixar este mundo, então isso
seria um grande e gordo “não”.
— Eu não posso deixar você viver, — ele continuou. — Eu
tenho que pensar na minha família. Nós temos esta
comunidade para proteger.
Levantando as minhas pernas, eu bati as minhas mãos
no arbusto – através do arbusto – e me empurrei para cima
com cada grama de força que eu tinha em mim. O espaço entre
o chão e eu aumentou. Cavando, eu grunhi enquanto virava o
meu corpo.
O fae foi junto para o passeio até que ele escorregou das
minhas costas, levando-me com ele. Eu pousei em seu peito.
Nós dois ficamos atordoados por um momento. Então, eu entre
em ação. Levantando o braço direito, eu baixei o meu cotovelo,
batendo no lado do bastardo. Uma costela cedeu. Talvez duas.
Ele grunhiu, braços caindo para o seu lado. Saindo de
cima dele, eu engatinhei para o lado, me levantando enquanto
eu erguia as minhas mãos.
Oh, merda.
Meus olhos se arregalaram quando eu encarei a minha
mão esquerda. Havia um ramo – um ramo filha da puta –
enfiado no centro da minha mão!
— Oh, meu Deus! — Eu gritei quando eu alcancei com a
minha outra mão, agarrando uma ponta sangrenta. — Puta
merda, há um ramo em minha mão!
— Devia ser na sua cabeça, — o fae murmurou.
— Rude, — eu ofeguei.
O fae girou para seus pés, movendo-se insanamente
rápido. Eu não tive uma chance de tirar o ramo, então eu dei
um passo para o lado e balancei a mão sem pensar. Minha mão
com o ramo bateu no rosto do fae. Ele caiu para o lado,
levando-me com ele. Eu caí de joelhos. O fae uivou quando o
sangue escorreu de sua boca aberta.
— Doce Jesus, — eu gemi. A minha mão com o ramo
tinha errado o seu olho, mas a minha mão estava agora presa à
sua bochecha. O ramo tinha atravessado a bochecha dele.
Tão enlouquecidamente nojento.
Arranquei a minha mão com o ramo, eu fiquei de pé e
agarrei a ponta do ramo. Tontura rolou através quando eu me
afastei. Eu tirei o ramo com um puxão, gritando enquanto a
queimação se espalhava por todo o meu braço. Náusea torceu o
meu estômago.
Depois que eu tirei o ramo fora, eu joguei-o para o lado.
Um momento depois, o maldito fae estava de pé, seu rosto
sangrento. — Bom Deus, — eu exclamei, abaixando a minha
mão arruinada. — Seu rosto está nojento.
O fae soltou um rugido e me atacou. Eu disparei para o
lado. Ou pensei fazer, mas meus reflexos estavam embotados.
Ele pegou a minha mão esquerda e apertou. Raiva e dor me
dominaram. Eu o puxei para frente, trazendo o meu joelho para
cima ao mesmo tempo. Eu o peguei no meio do corpo, mas mal
deixei ele sem fôlego. Com seu braço livre, ele me deu um tapa
muito forte.
Eu caí, batendo em um dos joelhos. — Merda.
Quando foi a última vez que um fae normal tinha me
batido dessa forma? Eu não conseguia me lembrar. Tinha sido
a anos.
O próximo golpe quase me deixou de costas, mas eu
empurrei recuperando o meu equilíbrio. O fae e eu estávamos
mano-a-mano, e sem nenhuma arma de verdade como uma
adaga de ferro, ia ser preciso criatividade e força para
sobreviver ao fae.
Mas passos estavam lentos. Os chutes que eu dava não
tinham nenhum poder real. Até meus socos estavam fracos e
irregulares. O tempo sem treinamento e combate havia cobrado
o seu preço. Eu não estava preparada. Minha cabeça não
estava no lugar certo.
Era por isso que eu estava tendo o meu traseiro chutado
por um fae normal.
Cada golpe que eu tomava ou rachava a pele ou minha
vontade. Cada nova explosão de dor parecia chocantemente
real demais. Cada vez que eu era derrubada, era mais difícil me
levantar.
Mas eu fiz.
Eu continuava a me levantar.
Arrastando-me de pé, eu limpei o sangue dos meus olhos.
Bem, um olho. O outro estava inchado e obscurecido. Só
passaram alguns minutos desde que eu fui literalmente
esfaqueada nas costas, mas os meus músculos pareciam como
de chumbo e os meus ossos pareciam frágeis.
E eu ainda estava sangrando.
Qualquer barulho que estávamos fazendo foi perdido em
qualquer maldito encantamento que os faes tinham no pátio.
Meus pés estavam pesados enquanto eu me arrastava pelo
caminho, mais perto da entrada.
Ren e Tink estavam a apenas alguns metros de distância,
mas eles podiam estar em outra cidade por tudo o que
importava.
Respirando pesadamente, eu girei procurando por
alguma arma. A faca estava perdida na escuridão, ao lado da
fêmea fae ainda deitada de bruços.
— Você se cansará. — Sangue e saliva escorriam da boca
do fae. — Você fica mais fraca a cada segundo que passa.
Como você lutou contra a nossa espécie e sobrevivido por todos
esses anos está além de mim.
— Dane-se, — eu mordi, balançando. Ou talvez tenha
sido o pátio que estivesse se movendo. Eu não tinha ideia. Essa
declaração me irritou, mas ele estava certo. Foco, Ivy. Eu tinha
que ser esperta. Eu estava fraca e cansada, e o backup estava
atualmente relaxando, tendo uma noite encantadora. Eu não ia
ganhar isso. Nem pensar.
Eu ia ter que enfiar o rabo entre as pernas e fugir.
— Você tem que morrer. — As palavras do fae eram
piegas. — Não é nada pessoal. Você apenas precisa morrer e
então o Príncipe não virá atrás de você.
— Morrer soa muito pessoal para mim. — A parte de trás
do meu pescoço fez cócegas. E eu pensei ouvir movimento no
pátio.
O fae atacou.
Mergulhando para evitar um soco no queixo, eu mudei
meu peso e chutei com meu pé. Eu consegui manobrar
atingindo as pernas do bastardo por baixo dele. Ele caiu em
um corpulento estalo, e eu não perdi tempo.
Eu peguei a pesada pedra de rio e bati no lado da sua
cabeça com tudo o que eu tinha em mim. O doentio triturar
sacudiu o meu corpo inteiro. Caindo de lado, eu deixei cair a
pedra ensanguentada.
Com a respiração pesada, eu apertei os meus olhos
contra o pátio que parecia estar de cabeça para baixo quando
eu me sentei – caí para trás – em minha bunda. Em meu peito,
parecia como se meu coração estivesse... gaguejando.
Ok.
Eu precisava me levantar.
Eu precisava sair e encontrar... eu precisava encontrar
Ren. Eu tinha que dizer a ele... O que eu tinha que dizer-lhe?
Tudo. Eu tinha que dizer a ele tudo.
Minha cabeça estava nadando, e eu estava deitada de
costas. Como é que isso aconteceu? Eu não tinha certeza, mas
eu sabia que se eu me continuasse aqui deitada, eu não me
levantaria de novo.
Eu morreria.
Você está morrendo. A voz que tinha sussurrado em meus
pensamentos foi um choque para o meu sistema. Eu estava...
eu estava morrendo. Todo o sangue espesso cobria o meu corpo
inteiro. Não havia sobrado muito.
Piscando lentamente, eu estremeci ao tomar um fôlego.
Isso foi por minha própria culpa. Eu não estava em forma para
lutar. Não comia direito. Não dormia. Eu deveria ter prestado
atenção. Eu deveria saber. Isso foi um erro amador, tal como
todos aqueles anos atrás quando eu matei o fae antes de ser
autorizada. Eu tinha feito todo mundo morrer e agora... agora
eu tinha me matado.
Não.
Eu não ia morrer. Eu apenas ia... dormir.
Eu podia dormir. Ren me encontraria. Eu acordaria e ele
estaria lá. Então, eu dormiria. Eu acho que dormi. Pelo menos
por um tempo.
Mas então o ar ficou preso na minha garganta e meus
olhos se abriram. As estrelas brilhavam intensamente. Eu
ainda estava aqui. Eu estava sozinha. Sem Ren, sem Tink.
Minha cabeça caiu para a direita. O fae ainda estava aqui,
embora, e pelo olhar dele, ele estava super morto.
Eu estava viva.
O alívio deu lugar a uma sensação de desapontamento
que eu não entendi, mas não conseguia focar no momento
porque eu precisava me levantar. Se eu não o fizesse, quem
ficaria de olho em Tink? Ren iria, mas ele se culparia.
Eu não podia deixar isso acontecer.
Cambaleando, eu oscilei instavelmente até que eu
consegui me virar. Eu caminhei em direção as portas, exceto
que parecia como se eu estivesse atravessando areia movediça
e eu não estava fazendo grandes progressos. Não, era lento e
irregular, e o mundo inteiro se mantinha piscando dentro e
fora. Eu tropecei nas pedras, rangendo os dentes enquanto eu
forçava uma perna em frente da outra. Se eu pudesse alcançar
as portas, entrar, e chegar a Ren...
Virando a esquina, eu tropecei no caminho e saí,
agarrando as treliças cobertas de trepadeiras. O brilho suave
das luzes do lobby infiltrava-se no caminho. Eu engoli o gosto
de sangue e continuei, os meus passos se tornando lentos.
Ren. Ren. Ren. Eu entoava o seu nome. Eu estava quase
lá. Apenas um pouco mais. Minhas mãos estavam dormentes.
Eu tinha perdido a sensibilidade nelas, mas estava tudo bem,
porque meus pés ainda estavam funcionando. Apenas um
pouco mais...
Uma sombra apareceu nas portas duplas e as abriu. A
sombra se tornou uma forma mais distinta e então a forma se
transformou em uma pessoa.
— Ren, — eu gritei, mas foi somente um sussurro
molhado. Eu tentei de novo, mas agora não houve som.
Ele apareceu como se ele tivesse sido chamado pelos
meus cânticos, e talvez tivesse, porque as portas foram abertas
e ele estava saindo, seu olhar varrendo o pátio.
Eu soube o momento em que ele me viu.
Ele parou. — Ivy
E eu soube o momento em que a luz de dentro me
alcançou.
Eu abri a minha boca, mas a minha língua não
funcionou.
— Ivy! — Pânico encheu sua voz quando Ren correu, seus
pés batendo no pavimento.
Algo pousou nas minhas costas, entre as minhas
omoplatas. Algo afiado e quente e tomou qualquer ar restante
em meus pulmões. Roubou a força que tinha me restado.
Eu caí, mas não senti o impacto. A fúria rolou de Ren em
ondas, enchendo o pátio e ofuscando o resto. Ele era um
borrão, passando por mim.
Minhas bochechas repentinamente descansavam contra
a pedra fria. Eu já não conseguia sentir os meus pés. Isso era
provavelmente ruim, mas eu não estava pensando sobre nada
mais. Houve um grito agudo, e um corpo pousou perto de mim,
a cabeça torcida em um ângulo antinatural. Era ela – a fae
fêmea.
Eu não a tinha matado.
Estúpida, eu sou estúpida.
Outro erro ridículo e amador.
— Ivy. Vamos, Ivy. — Mãos gentis me viraram para cima,
de costas. — Jesus Cristo.
O tom de sua voz me disse que eu devia estar
preocupada, mas eu não conseguia encontrar em mim a
capacidade para emergir daquelas emoções.
Uma mão segurou a parte de trás da minha cabeça. —
Doçura, olhe para mim. Por favor. — Ele me ergueu, e eu não
pesava nada. Flutuando. — Droga, abra os seus olhos e olhe
para mim. — Eu não estava olhando para ele?
Forçando os meus olhos a abrirem, eu encontrei-me
encarando o rosto marcante de Ren. Aqueles olhos vibrantes
que estavam escuros no luar, arregalados e intermináveis. Ele
estava tão pálido e havia tanta escuridão enchendo suas
feições. — Eu si...
— Não tente falar, — ele disse e ele estava se movendo
rápido, praticamente voando. — Apenas aguente, Ivy.
Mantenha os seus olhos abertos e em mim, ok? Fique comigo.
Mas eu precisava. Eu tinha que dizer. — Eu sinto...
muito.

Capítulo 6
O mundo tremulava para dentro e para fora como uma
lâmpada fraca. Eu tentei acompanhar o que estava
acontecendo. Eu sabia que Ren estava me carregando para
dentro. Eu podia sentir o seu ombro duro contra a minha
bochecha. Eu senti cada passo que ele dava. A escuridão deu
lugar a luz quente e brilhante.
— Eu preciso de um médico! — Ren estava gritando, a
sua voz estava afiada com pânico selvagem. — Jesus Cristo,
alguém! Eu preciso de um maldito médico!
Estava ficando difícil de manter os meus olhos abertos, e
eu pensei que talvez... talvez fosse muito tarde para um
médico. O mundo desapareceu de novo.
Quando eu dei por mim, eu estava deitada em uma
superfície macia que não tinha muito para dar e a sala era
extraordinariamente brilhante – muito brilhante. Eu demorei
alguns segundos para perceber que eu estava na enfermaria,
um lugar no porão do Hotel dos Faes Bons, e que eu tinha
certeza de que via pouca ação.
— Ren. — Seu nome borbulhou dos meus lábios.
— Eu estou aqui. — Ele cuidadosamente tocou a minha
bochecha com as pontas dos dedos, chamando a minha
atenção. — Porra, Ivy.
Havia outras vozes. A de uma mulher que eu não
reconheci. — Você vai sentir um beliscão, — ela disse,
segurando o meu braço direito.
Eu não senti qualquer coisa enquanto eu encarava os
olhos de Ren, me perguntando o porquê seu rosto parecia
turvo.
Mas então Tink estava repentinamente lá em pé ao lado
de Ren — O que aconteceu com você? Ivy? — Seus olhos
estavam arregalados de horror enquanto ele me examinava. —
Quem fez isso? O Príncipe?
Alguém arfou na sala. A mão fria em meu braço parou.
— Não, — Ren rosnou, e aquela palavra ecoou na sala
como um disparo. — Foi um fae que vive aqui.
— Dois, — eu consegui sussurrar.
— Isso não pode ser. — Aquele era Tanner, mas eu não
podia vê-lo. — Aqueles que vivem aqui não machucariam vocês
– não prejudicariam qualquer um de vocês.
O fato de eu estava sangrando de múltiplas facadas
provava ser diferente.
O ar na sala se encheu com estática, e os dedos de Ren
deixaram a minha bochecha. Eu já não conseguia ver o seu
rosto ou os seus olhos. Ele afastou-se, e eu não o vi se mover,
mas ouvi um corpo bater na parede.
— Não! — alguém gritou, e Tink girou. Houve um grito.
O que diabos estava acontecendo? Foi uma luta erguer a
minha cabeça e limpar a minha visão, mas eu consegui, bem a
tempo, ver que Ren tinha Tanner preso à parede com uma mão
ao redor da garganta do fae mais velho.
— Você disse que nós estávamos seguros aqui. — A voz
de Ren estava muito plana, muito fria. — Nós confiamos em
você.
— Vocês estão seguros aqui, — Tanner negou, seu tom
permaneceu calmo embora Ren estava a segundos de sufocar a
vida fora dele. — Nós nunca iríamos...
— Isto é uma óbvia besteira. —Ren o cortou. Os
músculos embaixo da sua camiseta escura estavam esticados
enquanto ele erguia Tanner. — Olhe para ela. — Um momento
passou e Ren gritou, — Olhe para ela!
Tanner deve ter olhado para mim, mas eu não podia ver
além do ombro de Ren.
— Ela parece como se estivesse segura? — Ren exigiu.
Tink afastou-se de onde eu estava deitada.
— Ela não parece, — Tanner replicou. — Eu entendo que
você está chateado. Eu estou também. Eu também estou
chocado... — Sua voz foi cortada quando Ren bateu ele de
costas contra a parede.
— Tink, — Faye gritou da porta. Quando ela chegou
aqui? — Você tem que fazer Ren se afastar de Tanner. Ele não
tem nada a ver com o que aconteceu com ela!
Tink sacudiu a cabeça. — Eu não estou parando merda
nenhuma, senhora. Ele só tem sorte de ser o Ren que tem a
mão ao redor do pescoço dele.
Isso era verdade. Eu tinha visto o que Tink era capaz.
Eu suguei uma respiração afiada quando Tink se virou
para mim. Ele nunca tinha parecido mais do Outro Mundo do
que ele parecia neste momento. Suas feições estavam afiadas e
brutais – animalescas. Mas quando ele ergueu a minha mão
arruinada pelo pulso, ele foi gentil. — Há um buraco em sua
mão.
Tink. Mesmo nos momentos mais terríveis, ele ainda era
o Capitão Óbvio.
— Ren, — Tanner começou limpando sua garganta. —
Você precisa entender...
— O que eu preciso é que você cale a boca e escute, —
Ren rosnou. — Eu vou fazer duas coisas dolorosamente claras.
Primeiro, você encontrará quem fez isso, quem estava envolvido
e sabia sobre isso, e o porquê. Então, você me dirá exatamente
quem são esses filhos da puta que serão mortos. E a segunda
coisa que é melhor você entender todo o caminho até os seus
ossos é, se Ivy não sair disso, dando risada, sorrindo para mim
quando ela sair dessa maldita sala, eu queimarei esse filho da
puta de edifício com todos vocês dentro.
Merda.
— Ren, — Faye se engasgou.
— Você entendeu? — Ren perguntou. — Diga-me que
você entendeu.
— Eu entendi, — foi a resposta baixa de Tanner.
Minha cabeça estava muito pesada para acompanhar. Eu
estava deitada de costas, encarando o teto suspenso e as luzes
ultra brilhantes.
— Eu me sinto esquisita, — eu sussurrei ou pelo menos
pensei que eu disse isso baixo. Meus lábios se moveram, mas
eu não ouvia as minhas palavras. Meu coração disparou em
meu peito. Sim, eu não me sentia bem.
Ignorando a onda de náusea após a explosão de dor, eu
gritei. — Ren.
Ele estava lá em um instante ao lado da minha cabeça.
As pontas de seus dedos estavam em meu queixo, lentamente
virando o meu rosto para ele.
Uma semente de pânico floresceu em meu âmago. —
Eu... eu não me sinto bem.
— O que você quer dizer, Doçura? — Seu olhar foi para o
outro lado da cama. — O que ela quer dizer?
Minha língua parecia pesada. — Eu não consigo... sentir
minhas pernas.
Ren amaldiçoou e começou a se afastar.
— Não! — O pânico se espalhou enquanto eu tentava
erguer a minha mão. Se ele saísse, eu não achava que eu o
veria de novo. — Não me... deixe.
Sua mão acariciou a minha testa. — Eu estou bem aqui
com você. Eu não estou saindo. Nunca. Você sabe disso, certo?
— Sua voz engrossou. — Nunca deixarei você.
— Há um maldito buraco na mão dela, — Tink apontou
de novo.
— A mão é a última das minhas preocupações, — a voz
feminina recuou. Houve uma pressão em meu lado. — Eu
preciso que você me ajude a rolá-la. Eu tenho que olhar as
suas costas.
Minha boca secou. Rolar-me soava ruim. — Não, — eu
grunhi. — Eu não...
— Eu sinto muito, Doçura, mas nós temos que fazer. —
Ren inclinou-se. Aqueles belos olhos verdes dele compunham
meu mundo todo. — Nós faremos isso rápido. Eu prometo. Mas
nós temos que fazer isso.
Não me foram dadas muitas opções. Ren cuidadosamente
agarrou o meu ombro direito enquanto ele segurava o meu
rosto com a outra mão. — Aguente, Doçura. Apenas aguente.
Eu não queria aguentar. Eu sabia que isso ia machucar –
doer muito, eu não achava que eu podia lidar com mais dor. Eu
estava no meu limite, entre a queimação na parte superior do
meu corpo e a dormência em minhas pernas.
Mãos pousaram em meus quadris. Tink. Era Tink. Meu
olhar selvagem encontrou o dele. — Eu tenho que fazê-lo, — ele
disse como se ele estivesse implorando. — Você pode me dar
um murro na garganta por isso mais tarde. Ok?
Eles me rolaram de lado.
Alguém gritou, e o som parecia como o de um animal
ferido sendo atropelado por um tanque. Levou um momento
para perceber que era eu – eu estava fazendo aquele som
horrível e irregular, e isso foi quando o mundo quis
desaparecer de novo, mas Ren não deixou.
— Mantenha esses belos olhos abertos para mim, Ivy. Eu
sei. Eu sinto muito, Doçura. Eu sinto muito. Eu sei que dói, —
ele disse, e ele se manteve falando enquanto suas mãos e dedos
se moviam ao longo das minhas costas, dos meus ombros até a
base da minha espinha. — Não vai demorar muito. Ok? A
doutora vai olhar você e fazer você se sentir melhor.
Minhas costas e o meu estômago estavam pegando fogo,
queimando através de meu peito. — Nós... temos... um médico?
— Nós temos. — Seu olhar se moveu sobre meu ombro
durante o mais breve segundo e então retornou para mim. —
Ela está quase terminando. Só mais alguns segundos. — Seus
lábios pressionados contra a minha testa. — Você está aí,
Doçura?
Eu pensei ter dito que sim. Eu sabia que meus lábios se
moveram, mas eu não ouvi. Eu não achava que Ren também,
mas então eu estava sendo deitada de costas e um pouco do
fogo do inferno estava diminuindo – tudo estava acalmando.
Eu desmaiei de novo, talvez por segundos, e quando eu
voltei, eu pensei que eu ouvi Ren dizendo, — Lá fora, ela disse
que ela sente muito. Por que é que ela diria isso?
— Eu não sei. — Eu achava que era Tink.
Eu senti Ren escovar o cabelo para trás da minha
bochecha e então seu rosto apareceu diretamente para mim.
Ele parecia que estava gritando, mas ele soava muito longe,
como se ele estivesse em pé no fim de um túnel.
— Eu estou aqui, — eu disse esganiçada. — Eu ainda
estou aqui.
— Sim, você está, Doçura. — Seu sorriso era fraco. —
Você está aqui.
— Não é bom, — a fêmea disse, aquela que eu imaginava
que era a médica. — Nada disto é bom.
— Não me diga, Sherlock. O que nós precisamos fazer? —
Tink exigiu.
— Eu não acho que você está me entendendo, — ela
replicou. — As lacerações nas costas são profundas – muito
profundas. Há definitivamente danos internos, e isso é o que eu
pude contar pelas feridas de facadas.
— Ok. Então conserte-a, — Ren ordenou.
A fae estava conectando algo no meu IV. — Eu não sou
cirurgiã. Eu não tenho experiência com esses tipos de
ferimentos...
— Então encontre um cirurgião, — Ren retrucou, as suas
mãos parada ao longo do topo da minha cabeça.
— Nós não temos cirurgiões aqui, — Faye respondeu
calmamente. — Nós raramente temos ferimentos como esses. E
quando nós temos, nós não usamos um médico para nos curar.
Os faes se alimentam para que eles possam se curar.
— Eu conseguirei alguém. — Tink recuou da cama. —
Apenas me dê meia hora.
Espere. O que ele ia fazer?
— Você não pode apenas buscar um médico, — Faye
argumentou. — Eu tenho certeza de que isso é chamado de
sequestro.
— Tenho cara de quem se importa? — Tink retrucou. —
Além disso, eu vou buscar um médico e depois vocês podem
usar glamour nele.
— Nós não acreditamos em fazer isso, — ela começou. —
Nós...
— Você está brincando comigo? — Ren cortou. — Eu não
me importo com o que você acredita. Se nós precisamos
conseguir um cirurgião, então nós vamos conseguir um fodido
cirurgião.
— Não há tempo, — a fêmea fae disse, e a sala inteira
ficou quieta. — Nós não temos tempo para isso.
— O quê? —Ren respirou, o seu olhar frenético.
Recusando-me até mesmo a piscar, eu olhei fixamente
para o rosto de Ren, deixando meu olho bom gravar cada linha
da sua mandíbula e a curva da sua bochecha em minhas
memórias.
Ele era ela tão bonito, por dentro e por fora, e às vezes eu
pensava que eu não o merecia e a sua – sua bondade. Não
quando eu desperdiçava um tempo tão precioso. Esta última
semana, nós podíamos ter feito tanto, preenchido uma vida
inteira digna de memórias.
— Eu posso dar sangue a ela. Nós temos um pouco disto
aqui, mas ela é uma halfling, — ela continuou. — Eu não tenho
ideia do que fará a ela – se isso ajudará ou prejudicará.
— Dê a ela o sangue, — Tink decidiu.
— Dar-lhe sangue só vai nos dar um pouco mais de
tempo, mas não o bastante, — a fêmea disse. — Sua pressão
sanguínea está caindo a cada segundo. O ritmo cardíaco dela
está muito alto. Ele perdeu muito sangue e continua a perder
sangue. Ela não estaria suficientemente estável para uma
cirurgia. Se ela não tivesse sangue fae nela, você nem mesmo
teria uma chance de dizer adeus.
Ren olhou fixamente para o outro lado da cama, o
músculo ao longo da sua mandíbula flexionando. — O que você
está dizendo?
Eu parei de ouvir naquele momento, porque eu acho que
já sabia o que ela estava tentando explicar a Ren. Eu não ouvi
as palavras dela, mas eu sabia que eu tinha razão. Estava no
olhar arregalado de Ren quando se virou para o meu. Eu sabia
o que ela tinha dito por causa da negação que rastejou em seu
rosto e na forma que suas mãos se espalharam contra a minha
testa fria. Eu não tinha que ouvi-la, porque eu ouvi o súbito
grito de Tink em objeção.
Eu estava morrendo.
Não em alguns dias. Nem em poucas horas. Eu estava
morrendo agora.
— Não. Não. Deus, não. — A voz de Ren veio para mim
quando ele se movia, suas mãos espalmadas em minha
bochecha. Ele pressionou sua testa contra a minha. A voz dele
era um sussurro esfarrapado. — Isso não está acontecendo.
Eu queria tocá-lo. Envolvê-lo em um abraço, confortá-lo,
mas eu estava muito cansada e meus braços estavam muito
pesados.
— Eu não estou deixar você morrer. Inferno não. — Ren
beijou a minha sobrancelha e quando ele se afastou, seus
lábios estavam manchados de vermelho – com o meu sangue.
Sua mandíbula apertou quando ele olhou através da cama. —
Mantenha ela viva até eu voltar com um médico.
Um médico não ia ajudar.
Vozes irromperam ao meu redor. Estavam implorando
para Ren ser realista e houve ameaças, a maioria delas vindo
de Ren. Tink tinha ficado quieto.
Houve uma respiração trêmula, eu afastei o meu olhar de
Ren porque eu não podia lidar com a dor que enchia o seu
rosto. Eu olhei ao redor da sala, pegando uma figura que
estava em pé atrás, contra a parede, onde Tanner estava.
Merle.
Ela estava nos olhando, seu rosto desprovido de emoção e
por alguma razão eu tive dificuldade de desviar o olhar, mas
depois eu não pude mais vê-la. Minhas pálpebras estavam
pesadas, mas eu ouvi Tink dizer suavemente, — Há outra
forma.
Capítulo 7

Meus cílios tremularam e luz suave rastejou pela


escuridão. Eu ainda estava no quarto para onde e Ren tinha
me levado, mas as luzes no teto tinham sido apagadas. Tudo
estava mais suave.
— Ei, você está de volta. — Ren tocou o meu queixo,
inclinando a minha cabeça um pouco para a esquerda. Eu o vi
e então meu peito se dividiu no meio. Seus olhos estavam
úmidos, grossos cílios molhados enquanto ele alisava os meus
lábios com o seu polegar. Ele estava chorando? Eu acho que
nunca o tinha visto chorar.
Seu sorriso não alcançou os olhos. — Eu estava ficando
um pouco preocupado. Eu achei... — Sua voz rachou. — Eu
pensei que eu tinha perdido você.
Eu pensei que ele tivesse, também. Eu não lembrava de
ter desvanecido novamente. A última coisa que lembrava foi de
Tink dizendo sobre haver outra forma e então houve mais nada
a não ser a escuridão me consumindo. Sem sonhos. Sem
pensamentos. Mas eu tinha a sensação de que só tinham
passado alguns minutos.
Neste curto espaço de tempo, a sala tinha esvaziado
completamente. Apenas Tink e Faye permaneceram com Ren.
Os dois estavam em pé a um passo da cama, e Tink estava
agarrando o ombro de Faye. Ela parecia como se estivesse a
segundos de fugir do quarto.
Meu olhar lentamente se moveu para Ren.
O sorriso fraco de Ren diminuiu enquanto seu polegar
temeu contra o meu lábio. — Eu preciso que você aguente
apenas um pouco mais, ok? Eu preciso que você faça isso por
mim. Você pode? — Minha boca se moveu ao redor da palavra
sim, mas eu não tinha certeza se a palavra saiu ou não.
Ele ficou mais perto, seu brilhante olhar verde capturou o
meu. — Eu amo você, Ivy. Você sabe disso? Há apenas você.
Haverá apenas você. Eu amo fodidamente tanto você e é por
isso que eu tenho que fazer isso. — Sua voz se quebrou de
novo, grossa e rouca. — Eu sinto muito, Doçura. Perdoe-me.
Pelo o que ele sentia muito? Confusão varreu através dos
meus pensamentos nebulosos. Perdoá-lo?
Tink praticamente empurrou Faye para frente. A fae,
normalmente graciosa e ágil, tropeçou. Parando ao lado da
minha cabeça, ela disparou um olhar sobre o seu ombro. — Eu
não concordo com isso. Se você soubesse o que ele fez a ela e
como isso...
— Eu sei, — Ren vociferou, erguendo o seu olhar do meu.
— Eu sei, mas eu prefiro que ela fique chateada e me odeie do
que morta. Faça agora.
Confusão deu lugar ao desconforto. O que estava
acontecendo? Eu tentei fazer a minha língua funcionar. Eu
queria saber o que estava acontecendo, mas então Ren se
abaixou, beijando a minha testa. Ele permaneceu, seus lábios
pairando sobre os meus.
Algo... alguma coisa escura e sedosa se mexeu na boca
do meu estômago.
— Tink, — Faye começou. — Você não quer fazer isso.
Nós não sabemos o que isso fará para...
— Se você não fizer isso, eu prometo a você que será uma
escolha de vida muito imprudente. — Tink ficou mais perto,
falando com uma voz dura que eu nunca tinha ouvido ele usar
antes. — Eu quis dizer isso, Faye. Eu gosto de você, mas eu
gosto de Ivy mais. Você a deixa morrer, está fazendo isso nos
seus últimos momentos de vida. Então, não me interprete mal.
— Vocês dois vão se arrepender disso. — Faye então
colocou uma mão em minha cabeça. — Você vai precisar contê-
la quando ela fizer, — ela disse a Tink, e quando ela falou de
novo, havia algo grosso e sedutor sobre seu tom. — Olhe para
mim, Ivy.
Eu não consegui evitar, exceto obedecer.
Minha cabeça deslocou-se e meu nariz escovou contra o
de Ren. O olhar de Faye prendeu-se ao meu. Seus lábios se
moveram e então eu estava caindo, deslizando e eu não estava
ressurgindo. Uma única palavra que ela falou ecoava mais e
mais.
Alimente-se.
Uma pequena parte do meu cérebro que ainda estava
funcionando normalmente, eu sabia o que tinha acontecido.
Faye tinha usado uma compulsão. Não importava que eu
soubesse disso. Era como resistir a atração por uma dose de
morfina. Sem chance de lutar. Houve uma explosão de pânico
que veio do medo de perder o controle, mas ela se dissipou
antes de se formar completamente.
— Ivy, — Ren sussurrou no espaço entre nossas bocas, e
então ele levemente beijou o meu lábio rasgado e sangrando, e
eu... eu não o beijei de volta, embora meus lábios tocassem o
dele.
Não, eu não beijei Ren de jeito nenhum.
Uma fome brutal irrompeu das minhas profundezas, uma
atrocidade roendo que ardia como fogo através do meu sangue.
Eu inalei.
O primeiro gosto da essência dele foi como sair para o
vento do inverno depois de um longo e infinito verão. Um gélido
frescor deslizou sobre a minha língua e espalhou para baixo em
minha garganta.
Sim.
Eu inalei de novo. Profundamente. Implacavelmente.
Ren empurrou uma mão perfurando o colchão fino ao
lado da minha cabeça. Os dedos ao redor da minha mandíbula
tremeram, mas eu estava agarrada e ele não estava se
afastando. Ren tinha gosto...
Ele era como uma sacudida de cafeína que acordava cada
parte do meu ser. Ele era como mergulhar de cabeça em um
lago gelado. Ele tinha sabor de vida.
Houve um flash de dor e então uma maravilhosa e
lânguida frieza acordando os meus sentidos. Eu empurrei a
minha mão arruinada da mesa, agarrando a parte de trás do
pescoço de Ren, segurando-o a mim.
Ele gemeu na minha boca, o som uma mistura de dor e
algo mais caloroso, mais quente. Algo que tinha gosto de verão
e sol. Prazer.
Eu continuei tomando dele, puxando a sua essência para
mim até que eu não tinha ideia de onde eu terminava e ele
começava. Eu estava cercada por sua essência fresca que
sempre me lembrava do ar fresco. Eu estava cercada por ele.
Eletricidade derramava-se em minhas veias. O ar crepitou... ou
talvez fosse a minha pele. Sim, era minha pele faiscando para
vida. Força encheu os meus músculos fracos. Tecidos se
juntaram. Meu coração outrora gaguejante agora batia
fortemente em meu peito.
A mão de Ren caiu do meu ombro. Seus dedos cavando,
rasgando a minha camiseta e pressionando a minha pele. Isso
não doía. Oh Deus não, parecia maravilhoso. Tudo parecia. A
sede sempre presente foi saciada, mas eu...
Eu queria mais.
A energia fluiu através de mim, do mais puro tipo. Meu
corpo estava no controle total. Eu estava no controle e nada e
nem ninguém mudaria isso. Como uma cobra atacando, eu
virei Ren para baixo de mim. Sua mão ainda agarrava meu
ombro enquanto eu montava os seus quadris. O mais doce fogo
consumiu o meu corpo. Minha boca estava fundida a dele,
assim como os nossos quadris. Um gemido ressoou através de
Ren, balançando-me, e eu respondi com o meu próprio. Um
tipo diferente de necessidade rugiu para vida. Imediatamente, o
meu corpo inteiro parecia tensionar e inchar.
Eu queria tudo dele em mim.
Alcançando entre nós, eu encontrei o botão de seu jeans.
Não levou nada para abri-lo. Minha mão voou para o meu.
O corpo inteiro de Ren empurrou embaixo de mim, mas
ele segurou, seus dedos abrindo e fechando em meu ombro.
— Afaste-a, — alguém ordenou asperamente. — Afaste-a
antes que ela o mate.
Matá-lo? Eu não queria matá-lo. Eu apenas o queria,
tudo dele, de todas as formas, porque ele era meu. Eu apenas
queria foder e me alimentar, e eu não queria nada entre nós...
A mão de Ren ergueu-se do meu ombro e enrolou ao
redor da minha nuca. Eu podia sentir seu braço tremendo
enquanto sua boca se movia contra a minha, fraco no início,
mas ainda me distraindo. Ren me beijou – me beijou enquanto
eu inalava. Sua mão apertou puxando o meu cabelo. A ponta
de sua língua contra a minha mudou tudo.
Eu parei de inalar quando uma explosão de desejo
queimou a minha pele. Beijar. Beijar era tão bom quanto a
alimentação, então eu toquei a minha língua contra a dele, seu
peito se inflou. Desejo afiado bombeou através de mim. Eu
sofria por ele. Latejava. Minha pele formigava com luxúria
quando meu quadril rolava contra o seu, tremendo quando eu
o senti, duro e grosso...
— Ren.
Um som animalesco irrompeu das minhas profundezas,
reverberando através da sala. Alguém estava perto, muito perto
de nós. Eu quebrei o contado, erguendo a minha cabeça.
— Saia, — Ren arfou, segurando a minha cabeça para a
dele, sinalizando com força. — Ela não me matará.
— Você está louco?
Eu rosnei um baixo ronronar de aviso quando eu virei a
minha cabeça para o lado. Eu não me importava com quem
estava perto, mas eu os rasgaria em pedaços se eles tentassem
ficar entre nós.
— Eu a tenho, — os lábios de Ren se arrastaram pelos
meus, capturando a minha atenção. Eu agarrei a frente da sua
calça, abrindo o zíper. — Maldição, saía agora.
Houve uma maldição e então uma voz que eu vagamente
reconheci. — É o seu desejo de morte.
— Vá, — Ren grunhiu quando eu encontrei o que eu
estava procurando, enrolando minhas mãos ao redor de seu
comprimento aquecido.
Alguém respondeu, mas foi perdido na necessidade
pulsando através das minhas veias. Eu ouvi a porta se
fechando e então Ren abriu o meu botão com as suas mãos
trêmulas.
— Tira de mim. — Sua voz estava rouca e áspera, um
chicote contra a minha pele sensível. — Tome o que você
precisar de mim.
As coisas se tornaram um borrão de mãos trêmulas e
pele escorregadia. Ren não estava me segurando tão apertado.
Sua mão tinha caído para a pele nua do meu quadril, mas ele
estava queimando através de mim, seus quadris se ergueram
quando eu parei para encontrá-lo. O ar cheirava a sangue e
sexo. Uma grande e terrível tensão estava queimando dentro de
mim enquanto eu devorava Ren, beliscando os seus lábios,
sugando e lambendo. Explosões de energia entrando em mim
enquanto eu erguia-me e deslizava para baixo nele.
— Beije-me, Doçura, — Ren grunhiu soando irregular. —
Beije-me, Ivy.
Eu não o estava beijando? Não. Eu estava me
alimentando de novo, perdida nas sensações que duelavam
enquanto eu perseguia outro êxtase, outra liberação.
A mão de Ren deu um espasmo contra meu quadril. —
Ivy. Por favor. — Ele estremeceu embaixo de mim. — Eu amo
você.
Eu amo você.
Aquelas três palavras circulavam mais e mais, fazendo
buracos através da névoa vermelha dos meus pensamentos. Eu
amo você. Meu coração se apertou. Eu amo você. Arrancando a
minha boca da dele, eu ergui-me e joguei a minha cabeça para
trás. A tensão em mim tornou-se insuportável. Eu gritei
quando uma selvageria tomou conta. Embaixo de mim, Ren
tremeu e gemeu enquanto ele socou seus quadris uma última
vez, extraindo um suspiro de mim. Sua liberação me encheu
levando-me ao limite. A mais intensa sensação derramou-se
sobre mim, como se cada nervo tivesse disparado ao mesmo
tempo em cada parte do meu corpo. Nunca nada me fez sentir
assim. Eu desmoronei contra o peito de Ren, meu corpo
tremendo.
A última coisa de que me lembro, antes de deslizar dentro
do nada que me aguardava, era da mão de Ren correndo no
centro das minhas costas e ele sussurrando aquelas três
palavras repetidamente.
— Eu amo você.

***

Quando eu abri os meus olhos de novo, percebi


rapidamente que eu estava naquela sala e eu estava deitada
sobre um corpo quente e duro.
Mudando lentamente, eu ergui a minha cabeça e olhei
para baixo. O rosto de Ren estava voltado para o meu. Seus
olhos estavam fechados e havia sombras escuras embaixo
deles. Elas pareciam contusões, e havia uma magreza em suas
maçãs do rosto que nunca tinham estado lá antes.
Minha boca secou, eu ergui minha mão e toquei a sua
bochecha. Sangue seco em meus dedos. — Ren.
Houve um movimento atrás de suas pálpebras, mas
aquelas pestanas não se ergueram. Meu olhar caiu para o seu
peito. Erguia-se com respirações irregulares e rasas. Eu rolei
sobre o pouco no espaço da mesa.
Eu... eu não me sentia bem.
Balançando as minhas pernas para fora da mesa, eu
fiquei em pé com as pernas fracas. Minhas mãos estavam
pegajosas quando eu abaixei e puxei a minha calça. O cós
estava rasgado, mas ela ficou no lugar. Ren ainda não tinha se
movido.
O que é que eu tinha feito?
No fundo da minha mente eu sabia, mas minha cabeça
parecia cheia de fumaça, meus músculos feitos de algo mais
fraco, e meus ossos pareciam frágeis.
E minha pele... minha pele parecia dormente.
— Eu não me sinto bem, — eu sussurrei para a sala
silenciosa.
Meu olhar virou ao redor e minha respiração ficou presa
em minha garganta quando as paredes sem janelas pareceram
encolher, apertando. Pressão apertou os meus pulmões. Eu
tropecei em direção à porta.
Ela abriu-se antes que eu a alcançasse. Tink estava em
pé na porta, o seu cabelo loiro claríssimo parecendo como se
ele tivesse passado horas correndo suas mãos através dele.
— Ivy. — Ele olhou para Ren. — Ele ainda está vivo.
Um tremor começou na base da minha espinha. É claro,
Ren ainda estava vivo. Eu não queria matá-lo. Eu queria...
— E eu ainda estou traumatizado pelo fato de que vocês
estavam prestes a consumar um live-action pornô bem na
minha frente. — Tink deu um passo dentro da sala. — Eu
esqueci como isso acontece depois...
— Eu não me sinto bem, — eu sussurrei quando meu
estômago se contorcia. Eu coloquei a minha mão contra ele,
puxando uma respiração superficial.
— Para ser honesto, você não parece bem.
Eu tentei dar um passo para o lado, mas minhas pernas
cederam. Tink se moveu tão rápido quanto um relâmpago, me
pegando. De alguma forma nós terminamos no chão, Tink
segurando o meu queixo. Seus olhos arregalados com
preocupação.
— Ivy, o que há de errado? — ele perguntou.
Tudo estava errado.
A dormência em minha pele se espalhou, penetrando nos
meus ossos e órgãos. — Eu não consigo.. .eu não posso sentir a
mim mesma.
Suas sobrancelhas se franziram. — Isso não faz sentido.
— Eu não consigo... — O entorpecimento repentinamente
ligou em mim. Começou como um zumbido, mas então ele
começou a queimar. — Minha pele – ela dói.
Tink encarou, e eu pensei ter visto o entendimento
rastejando em seu rosto, mas a queimação se intensificou. Eu
levantei a minha mão, metade esperando vê-la em chamas
enquanto um grito explodiu de mim.
— Merda, — Tink murmurou. — Merda. Merda.
Meu corpo inteiro empurrou contra o dele quando o fogo
se espalhou por toda a minha pele, começando pela base da
minha coluna vertebral e descendo pelas minhas pernas,
depois subindo pelo tronco e sobre os meus braços. Gritando,
os meus músculos se tornaram rígidos enquanto as minhas
costas se curvavam.
— Ivy. — Uma voz fraca e rouca rompeu a névoa de dor.
De olhos arregalados, o meu olhar virou para a direita.
Ren estava deslizando para fora da mesa. Ele deu um passo,
mas caiu de joelhos, rastejando o resto da distância. Seus
olhos sombreados se arregalaram com surpresa. — Ivy...
Dor que eu nunca tinha experienciado ou sabia que era
possível consumiu cada parte do meu corpo. Eu afastei-me de
Tink, mas ele me pegou pela cintura quando Ren agarrou o
lado do meu rosto. Seus lábios estavam se movendo, mas eu
não conseguia ouvir uma única coisa que ele estava dizendo.
Nada fazia sentido além da forma como o meu corpo estava se
dividindo por dentro.
Um barulho estridente surgiu de dentro de mim, do tipo
que normalmente teria levantado todos os pelos do meu corpo,
porque soava muito parecido como um de fae. A rigidez saiu de
mim e eu enrolei as minhas pernas para cima, ofegando
quando a maior parte de queimação sumiu.
Então, apenas quando eu pensava que isso tinha
acabado, o desejo mais intenso explodiu das minhas
entranhas. Era quase tão ruim quanto o fogo. Meu olhar se
moveu de Tink para Ren.
Necessidade enchendo-me.
Arregalando os meus dentes, eu empurrei em direção a
ele, mas Tink me pegou quando Ren caiu para trás em sua
bunda.
— O que está acontecendo com ela? — Pânico encheu a
sua voz. — Eu pensei que nós a tínhamos curado?
— Nós a curamos, — Tink grunhiu, torcendo-se enquanto
eu protestava com ele – com Ren. — Agora ela está arcando
com as consequências.

***

Horas borradas juntas, um caleidoscópio torcido de


necessidade afiada e desejo desmedido – luxúria por Ren e pelo
que estava dentro dele. Então a dor retornou, queimando
através do desejo, virando-me de dentro para fora.
O mundo ao meu redor desaparecia dentro e fora. Havia
Tink me segurando contra ele, enquanto eu sentia Ren
segurando o meu cabelo para trás do meu rosto. Ele estava
sussurrando para mim, mas não havia nada além do abismo
frio e agradável onde eu flutuava.
Então, aconteceu.
Sem aviso, um frio intenso tomou conta de mim. Tão
abruptamente frio que a minha pele parecia como se estivesse
ardendo. Uma sensação de formigamento atingiu cada
centímetro do meu corpo, como se cada parte da minha pele
estivesse sendo perfurada até a medula. Dor envolveu-me mais
uma vez, se tornando meu mundo, mas desta vez era como
fogo gelado.
— O que... o que está acontecendo? — eu ofeguei,
incapaz de ver através da dor. A sala – o mundo era branco.
— Você tomou muito. — A voz de Tink estava tensa. —
Você foi longe demais. Eu sinto muito, Ivy. Eu sinto muito.
Suas palavras não faziam sentido. Palavras em geral não
eram úteis para mim enquanto o fogo gelado aumentava. Gritos
rasgaram da minha garganta, um som muito diferente de
gritos.
Eu tive consciência de ser movida, e eu apenas sabia que
Tink estava não mais me segurando. Eu reconheci o cheiro de
Ren. Ele me segurou por toda parte, envolvendo os braços
trêmulos ao redor da minha cintura, suas pernas enganchadas
sobre as minhas. Minhas costas se curvaram e eu estiquei seu
braço até quase quebrá-lo.
Então... então era como uma corrida de fogo furiosa
sendo ensopada com água. A dor mal aliviou no começo, mas
lentamente, após um tempo, desapareceu como fumaça ao
vento. Depois da queimação, eu caí num familiar sono
profundo. Eu não tinha certeza de quanto tempo eu estava
fora, mas acordar foi difícil. Minhas pálpebras pareciam como
se tivessem sido costuradas, e foi uma luta abri-las.
A primeira coisa que eu vi foi o teto baixo. Enfermaria. Eu
estava na enfermaria. Por quê? Eu pesquisei em minhas
memórias, mas elas estavam nubladas e eu estava cansada
demais para percorrer as partes escuras e sombrias para
descobrir o que diabos estava acontecendo.
Mas eu sabia que eu não estava sozinha.
Exigiu esforço, mas eu consegui virar a minha cabeça
para a esquerda.
Tink estava sentado ao lado da minha cama em uma
daquelas cadeiras de metal. Ele tinha um tornozelo
descansando no joelho. Enrolado em seu colo estava Dixon. O
gatinho estava fazendo o que ele sempre fazia. Cochilando.
Aquele gatinho tinha a melhor vida de todas.
A última vez que eu tinha visto Tink, não tinha Dixon
com ele. E ele não estava sozinho. Ren estava com ele – Ren
estava me segurando.
— Ren, — eu resmunguei.
O olhar de Tink ergueu-se para o meu. Ele não disse
nada enquanto ele me encarava, e os primeiros caroços de mal-
estar se agitaram.
Eu tentei falar de novo, mas a minha boca rivalizava com
o Deserto do Saara. Eu limpei a minha garganta. — O que... o
que aconteceu?
Tink olhou para mim, um olhar solene. — A noite é
escura e cheia de terror.
Eu fiz uma careta. — O quê?
Ele ergueu seu ombro. — Eu sempre quis dizer isso a
alguém. Só me falta o vestido e o capuz vermelho da Lady
Melisandre.
Eu o encarei.
— Você sabe, — ele disse se inclinando para trás na
cadeira, — há outra coisa que eu queria dizer. Como quando as
pessoas têm más notícias? Meu carro simplesmente quebrou e
eu fiquei tipo, bam! Os Lannisters mandam os seus
cumprimentos, ou quando eu acabei ser demitido do trabalho,
bam! O Norte se lembra. Isso provavelmente faria de mim um
brownie de merda, mas eu não me importo.
Não tendo nenhuma ideia do porquê ele estava preso às
referências de Game of Thrones neste momento, eu tentei
sentar-me e percebi que não conseguia me mover. Confusa, eu
espreitei para baixo em meu corpo. Havia um cobertor branco
enfiada na minha cintura, mas isso não era o que estava me
mantendo no lugar.
Faixas brancas de algum tipo de tecido circulavam os
meus pulsos e tornozelos. Meu estômago caiu. Eu estava
amarada. — T-Tink, porque... eu estou...
— Amarada como se você estivesse envolvida em alguma
merda louca de BDSM? — Ele inclinou para frente, atento ao
Dixon. — Os Lannisters mandam os seus cumprimentos.
— Tink! — O pânico faiscou.
Seu olhar desviou e então se estabeleceu em mim. —
Você não lembra?
Eu tive uma perfurante suspeita de que eu não queria me
lembrar.
— Você foi atacada, — ele replicou.
Sim. Eu lembrava disso. Caminhar no pátio, cuidando do
meu próprio negócio. Dois faes me atacaram. — Eles me
esfaquearam, — eu sussurrei, cheia com raiva e horror. — Eles
realmente me esfaquearam.
— Sim, eles fizeram. Colocaram alguns buracos em você,
também. Você também tinha um buraco em sua mão, e
permita-me dizer, isso era desagradável. Eu podia olhar através
dele e ver o outro lado da sala.
Eu tentei ver a minha mão.
— Você está completamente curada agora. — Alcançando
a minha mão, ele bateu na minha mão esquerda. — Nenhum
buraco. Nenhuma ferida fatal de faca. Você está boa como
nova. — Ele pausou. — Melhor.
— Como...? — Eu parei. Mais memórias emergindo. Eu
estava morrendo. Como um enorme sangramento por causa
dos ferimentos internos fatais, mas eu não morri.
Eu repentinamente lembrei-me de Ren inclinado sobre
mim. Ele tinha me dito que ele me amava e que só havia eu,
apenas haveria eu, e ele...
Eu sinto muito, Doçura. Perdoe-me.
Perdoá-lo?
Meu coração começou a trovejar em meu peito. Pedaços
da noite começaram a cair juntos.
— Você na verdade dormiu por como para sempre, —
Tink continuou. — Bem, não para sempre, mas como por
quatro dias.
Quatro dias? Puta merda.
— Eu estava meio preocupado que você estivesse morta e
começaria a feder.
Imagens brotaram através de mim sobre Ren, movendo-
me contra ele em uma união sangrenta e selvagem de nossos
corpos. Nós tínhamos...?
— Onde está Ren? — Eu exigi, tentando sentar-me. — E
por que eu estou amarrada?
— Bem, veja você, essa é meio que uma longa história e
cheia de reviravoltas e provavelmente um furo de enredo ou
dois.
— Tink!
Seu olhar encontrou o meu e eu lembrei dele gritando
com Ren, porque – oh Deus, eu tinha me alimentado de Ren.
Eu tinha me alimentado dele.
O mal-estar explodiu em pleno pavor. — Onde está Ren?
— eu gritei. — Onde ele está Tink?
O pequeno Dixon se mexeu no colo de Tink. Ele envolveu
a mão em torno da cabeça do gatinho. — Acalme-se. Dixon
precisa da sua quinta cesta do dia.
Meus olhos se estreitaram. — Eu juro por Deus, Tink, se
você não me responder, eu vou te matar imediatamente.
— Veja, esse é o problema, e é por isso que você está
amarrada. É apenas por precaução. Agora que você está
acordada, Tanner estará aqui...
— Por que isso é uma precaução?
Ele não respondeu por um momento. — Você mudou, Ivy.
Nós não achávamos que isso aconteceria. Nós não tínhamos
forma de saber.
Meu pulso disparou. — O que diabos isso significa, Tink?
O brownie se encolheu. — Bem, vamos apenas dizer que
sua pele está meio brilhante agora.
Minha boca caiu aberta.
— Como um fae, — ele adicionou.
Capítulo 8

Levou vários minutos para eu processar o que Tink


estava dizendo, porque não havia maneira alguma de tê-lo
ouvido corretamente. — Minha pele está brilhando?
— Sim. Como um fae, — ele repetiu. — Você não está
totalmente prateada ou algo como isso, apenas parece que você
usou o mesmo tipo de loção que eu imagino que as strippers
usam.
Eu o encarei e então meu olhar disparou para o que eu
podia ver da minha pele. Eu estava usando mangas compridas
– uma camiseta que não era minha, mas eu não ia me focar
nessa porra neste momento – e com os meus malditos pulsos
presos, tudo o que eu conseguia vislumbrar era a parte de cima
da minha mão. A pele parecia normal. Eu apertei os meus
olhos quando consegui levantar a minha mão um centímetro. A
luz pegou...
— Puta merda! — Eu me engasguei, olhos arregalados.
Minha pele realmente brilhava como se eu tivesse passado
loção brilhante. — Puta merda, a minha pele está...
— Meio brilhante, sim, mas hei, poderia ser pior. Você
poderia parecer com o Edward na luz do sol, toda brilhante e
merda assim.
Meu olhar disparou para ele.
— É quase imperceptível. Assim como a coisa das
orelhas.
— Minhas orelhas? — eu guinchei.
— Sim. — Ele prolongou a palavra. — Elas estão um
pouco pontudas agora. Como as minhas. — Ele inclinou a
cabeça para o lado, mostrando as suas orelhas. —Nada que
alguém realmente ficaria de olho. Além disso, você tem todo
esse cabelo para cobri-las se você se sentir insegura.
Oh, meu Deus, eu não podia nem mesmo processar o que
ele estava dizendo. Eu gostava das minhas orelhas humanas
normais e arredondadas e ele estava me dizendo que eu tinha
orelhas pontudas e semelhantes às dos faes?
E a minha pele estava brilhando?
Tink estalou seus dedos chamando minha atenção. —
Olha, há mais boas notícias. Desde que você esteve fora por
alguns dias, você dormiu durante os piores efeitos.
Eu tomei uma respiração profunda, mas não fez nada
para acalmar o pânico em construção. — O que são os piores
efeitos que, de alguma forma, não incluem a minha pele
brilhando ou as minhas orelhas se tornando pontudas?
Dixon aproveitou o momento para esticar as perninhas
na frente dele. Tink estendeu a mão para baixo, coçando-o
atrás da orelha. — Bem, enquanto você dormia, você não
estava sempre dormindo. Às vezes você estava acordada.
Memórias vagas emergiram, flashes de raiva e desejo, da
necessidade de...
Eu respirei fundo apertando os meus olhos com força.
— Houve momentos em que você estava com fome, tipo a
fome de um zumbi desejando cérebros, — Tink disse
suavemente. — É por isso que você foi amarrada. Faye parece
pensar que o pior já passou. É como se você tivesse passado
por parte da desintoxicação e agora você está apenas tendo que
lidar com alguns desejos.
Eu lembrei-me.
Formaram-se nós em meu estômago. Eu lembrei-me de
Faye sussurrando a sua compulsão. Alimente-se. Essa palavra
tinha ecoado repetidamente e eu tinha me alimentado.
Meus olhos se arregalaram. — Ren está bem?
— Bem, você sabe...
— Ren está bem? — Eu exigi, respirando pesado.
Tink ergueu a mão da cabeça de Dixon. — Ren está bem.
Ele está vivo. Ele estava aqui, mas Tanner e Faye estavam
preocupados que você estar perto de um humano agora não
ajudaria a superar o desejo de sugá-los até secarem.
Alívio esmagou-me, mas uma emoção crua se construiu
por trás disso quando o que aconteceu verdadeiramente se
processou. — Você... vocês todos me fizeram me alimentar de
Ren.
— Nós não tínhamos uma escolha, Ivy. Você estava
morrendo e não havia nada mais que nós pudéssemos...
— Vocês deveriam ter me deixado morrer! — Eu gritei, e
Dixon saltou do colo de Tink. Eu tentei acalmar-me, mas o meu
coração estava alojado em algum lugar na minha garganta.
As sobrancelhas dele franziram-se. — Essa é uma coisa
fodida para se dizer, Ivy.
— É fodido que vocês me fizeram alimentar-me de Ren!
— Ele estava de acordo com isso, Ivy. Ren faria qualquer
coisa para salvar você.
— Até me forçar a fazer algo tão horrível? — Eu
perguntei, olhos embaçados. — Ren se voluntariar para isso
não o torna certo. Ele poderia ter morrido.
Sua expressão suavizou. — Mas ele está bem e você vai
ficar bem.
— Exceto que, aparentemente, a minha pele e as minhas
orelhas mudaram. Eu não estou bem. — E isso não era tudo.
Eu me alimentei de Ren e depois fizemos sexo – sexo sangrento
e louco.
— Bem, há isso. Nós não sabíamos que isso aconteceria,
mas...
— O Príncipe fez isso comigo. Ele me fez... — Minha voz
ficou presa. Raiva queimava através dos meus ossos e tecidos.
— O que vocês fizeram comigo?
— Nós salvamos você...
— O que vocês fizeram comigo? — Eu gritei.
Seus olhos se arregalaram. — Nós não... nós não
sabíamos, Ivy.
Eu não conseguia acreditar. Morte era uma porcaria.
Sim. Dãh. Mas eles forçaram-me a me alimentar contra a
minha vontade – me alimentar de Ren, e isso transformou-me
em Deus sabe o quê? Náusea rastejou pela minha garganta.
Como é que eu iria encarar Ren novamente?
— Como é que eu iria olhar para mim mesma de novo?
Lidar com o fato de ser a Halfling não era algo que eu tivesse
aceitado completamente e agora isso? Eu não poderia. Eu não
conseguiria lidar com isso.
— Vai ficar tudo bem.
— Saia de perto de mim, — eu sussurrei.
— Ivy, — ele arquejou.
Raiva violenta e medo amargo espiralaram como uma
tempestade dentro de mim, alimentando a força que eu não
percebi que tinha. Eu ergui meu braço esquerdo rasgando a
amarra no meio.
— Calma. —Tink se levantou, segurando Dixon perto em
seu peito enquanto ele se afastava da cama. — Ivy...
Arrancando o pano ao redor do meu outro pulso, eu me
sentei e virei-me para Tink. — Você precisa sair da minha
frente agora mesmo.
Tink ficou imóvel por um momento, e então ele saiu da
minha frente e deixou o quarto.

***

Eu não podia ficar sentada ou deitada nesta cama. Meus


pensamentos estavam correndo junto com o meu coração. O
que eles fizeram comigo?
Mãos trêmulas, eu quebrei as restrições ao redor dos
meus tornozelos e tirei as minhas pernas da cama. Eu fiquei
em pé, surpresa ao descobrir que eu não estava tonta.
Erguendo a minha mão esquerda, eu primeiro percebi a cicatriz
vermelha e irritada em cima. A mesma cicatriz que estava em
minha palma. Apertando a minha mão, eu podia facilmente
lembrar-me da dor lancinante do galho disparando através da
minha mão.
Agora quase nem doía.
Não havia como ignorar o brilho quando eu girei minha
mão e peguei o brilho suave da luz. Meu coração caiu. Milhares
de perguntas irromperam, mas eu já sabia quais seriam as
respostas.
Eu tinha me alimentado demais e isso me mudou?
Quem sabia que isso era possível? Ninguém. Ou talvez
todos, e eles simplesmente não me disseram nada.
Um tumulto de emoções subiu, selando a minha
garganta. Eu fechei os meus olhos com força. Eu não podia
acreditar nisto. Acima de tudo, eu era agora...
Eu não sabia o que eu era.
Com um suspiro trêmulo, eu abri os meus olhos. Meu
olhar moveu-se rapidamente pela sala. As paredes estavam
vazias, mas havia um banheiro à minha direita. Eu corri para
lá, acendendo a luz.
Eu parei em frente ao espelho oval sobre a pia de
porcelana, ignorando a bagunça de cachos ruivos e
emaranhados.
— Oh, Deus, — eu sussurrei.
A luz era mais brilhante aqui, e quando eu inclinei o meu
queixo para cima, o brilho da minha pele se intensificou. Meu
rosto parecia como se eu tivesse pego um daqueles
iluminadores em pó de alta qualidade e o espalhado por todo o
meu rosto.
Que era como o que eu normalmente parecia quando eu
tentava fazer o contorno.
Mas o Tink estava certo. Isso não era tão perceptível, não
para um estranho ou um ser humano normal que não tinha
ideia de que os faes eram uma coisa real, mas para mim?
Eu notei.
Mas isso não era tudo. Minhas feições estavam... mais
nítidas. Mas refinadas. Por outro lado, não era inteiramente
perceptível, mas o meu rosto estava diferente.
Agarrando a pia, eu inclinei-me e encarei o meu reflexo.
Havia apenas contusões fracas onde eu tinha levado os socos
que eu deveria ter sido capaz de desviar. Havia uma fina marca
vermelha em meu lábio inferior. Uma contusão arroxeada em
meu queixo.
Era quase como se já tivessem passado semanas desde a
luta em que me deram uma sova. Uma luta que eu deveria ter
sido capaz de lidar com um braço amarrado atrás das minhas
costas, mas eu tinha que ser honesta comigo mesma.
A minha cabeça não tinha estado no lugar certo – ainda
não estava, e eu não tinha comido ou dormido direito. Eu
estava fraca, e olha o que eu consegui?
Duas facadas e mais.
Meus olhos estavam mais pálidos? Eles sempre foram de
um azul mais claro, mas eles estavam quase... iridescentes
agora, o azul claro tão gritante contra a escuridão das minhas
pupilas.
Erguendo uma mão trêmula, eu empurrei o meu cabelo
para trás quando eu virei a minha cabeça para o lado.
Eu arfei.
As pontas das minhas orelhas estavam definitivamente
pontudas. Nada extremo, e de novo, uma pessoa normal
provavelmente não as notaria, mas aquelas não eram as
minhas orelhas.
Esta não era a minha pele.
Soltando o meu cabelo, eu encarei o espelho e mostrei os
meus dentes. Normais. Um suspiro de alívio balançou através
de mim. Pelo menos eles não pareciam estranhamente afiados
como a maioria dos faes, então foi isso que eu imaginei.
A porta do quarto se abriu, e eu me virei para o outro
lado. E se fosse Ren? Meu estômago se torceu. Eu não estava
pronta para vê-lo. Eu não sabia se alguma vez estaria pronta
para vê-lo, mas eu...
— Ivy? — a voz de Faye soou.
Definitivamente não era Ren. Uma onda de
desapontamento varreu sobre mim. Eu não queria vê-lo e, no
entanto, havia uma parte em algum lugar profundo dentro de
mim que queria que fosse ele. A mesma parte de mim que
queria que tivesse sido Ren sentado ali, esperando que eu
acordasse.
As coisas estavam estranhas entre nós antes. Agora, seria
muito estranho... se ainda restasse alguma coisa.
Suspirando, eu saí do banheiro. Faye estava sozinha,
encarando a cama e provavelmente as restrições partidas.
A raiva ressurgiu. — Você usou uma compulsão em mim.
Faye ergueu o seu queixo. — Eu não queria. Confie em
mim. Eu sei o que foi feito com você enquanto esteve com o
Príncipe. Eu disse isso a eles. Eles não queriam deixar você
morrer.
Eu lembrei-me da relutância dela e das ameaças de Tink.
— Talvez me deixar morrer fosse a coisa certa.
— Ivy, você não pode se sentir dessa forma.
Verdadeiramente.
— Você não sabe como eu me sinto, — eu disparei de
volta. — Você não faz a menor ideia.
Ela ficou quieta por um momento. — Você está certa.
Permitir que você morresse teria sido mais fácil.
Definitivamente resolveria os problemas com o Príncipe. Pelo
menos temporariamente.
Meu lábio enrolou-se. — Eu pensei que você disse que
toda vida humana fosse valiosa.
— E é. — Ela caminhou até a cadeira e sentou-se. — Mas
o que eu te obriguei a fazer você não foi natural. O que você se
transformou não é natural.
Eu respirei profundamente. — Bem, isso me faz sentir
muito melhor em relação a tudo.
— Eu não estou tentando fazer você se sentir pior.
— Então você deveria se esforçar mais, — eu retruquei.
Seus ombros ficaram tensos. — Eu sei que você está
chateada. Eu entendo. Eu simpatizo com isso, mas o que está
feito, está feito. Você está viva.
— A que custo? — eu perguntei, dando um passo
aproximando-me dela. — Você nem mesmo sabe o que eu sou.
Seu olhar se moveu sobre mim. — Eu imagino que as
alimentações enquanto você estava com o Príncipe e esta
última desencadearam a parte de você que é fae, tornando-a
mais dominante. Deve ser por isso que você tem mais
características faes. Sejam quais forem os genes fae que você
tenha em você agora, estão simplesmente mais fortes. Eu não
sei o que isso fez de você, mas você não é completamente fae.
Você ainda é Ivy”.
Ver a minha pele mais brilhante e ter orelhas pontudas
não me fazia me sentir como Ivy. — E isso era algo que você
sabia que aconteceria?
— Eu nunca vi isso, mas eu sabia que poderia. Eu não
estava pensando sobre isso naquele momento. Eu estava
salvando você, como Ren e Tink exigiram. — Ela fez uma
pausa. — Como você está se sentindo? Com fome?
Eu ignorei a pergunta. — Onde está Ren?
Seus cílios abaixaram. — Ele está atualmente
interrogando cada fae neste edifício para ver se tiveram alguma
coisa a ver com o ataque. Ele não está aqui com você porque
nós queríamos ter certeza de que era seguro para ele. Algo que
levou um tempo absurdo para convencê-lo.
Virando-me, eu enfiei a mão através do meu cabelo
gorduroso e desagradável. — Ele...
— Ele está bem, — ela disse um pouco mais baixo. — E
não parece que você o atacará, por isso ele estará aqui assim
que eu disser a ele que está tudo bem.
Eu fechei os meus olhos, sugando uma profunda
respiração e segurando.
Faye ficou quieta por um momento. — Eu sei que você
está zangada com ele, com todos nós, mas ele fez isso porque
ele ama você.
Mas ele ainda me amaria quando me visse? Quando ele
percebesse que eu estava me transformando cada vez mais em
uma fae? Quando ele realmente pensasse sobre o que ele tinha
feito, ao permitir que eu me alimentasse dele como a puta da
Breena tinha feito?
— Ivy?
Exalando, eu abri os meus olhos. Um nó de medo
rastejou para cima em minha garganta. — Eu mudei. Isso é
óbvio. Mas vocês não sabem o quanto. Como se eu vou precisar
me alimentar agora?
— Nenhum fae precisa se alimentar para sobreviver, Ivy.
É uma escolha. Você deve viver uma vida normal, mas você
deve ser mais forte do que antes. Pode haver outras coisas que
tenham mudado. A questão é que nós realmente não temos
precedentes para isso. Não é como se houvesse uma grande
população de halflings, para começo de conversa. Eu apenas
sei de um ou dois que se alimentaram de humanos e esses
halflings estavam no Outro Mundo. Nós apenas temos registros
da sua existência. Eles se transformaram, como você.
Eu virei, encarando-a quando uma coisa que ela disse me
chamou a atenção — Que outras coisas?
Faye olhou para a cama vazia e então seu olhar pálido
encontrou o meu. — Você se lembra quando eu falei sobre você
ficar... viciada?
Tudo em mim ficou imóvel. Eu tinha planejado falar com
ela sobre isso, mas bem, eu meio que fui esfaqueada até a
morte. — Sim. Eu lembro.
— Eu espero que você tenha dormido pela pior parte – o
desejo que vem depois da alimentação, mas isso permanecerá
por um tempo. Você vai ter essa necessidade.
Eu compreendi perfeitamente o que ela estava dizendo,
mas, mesmo assim, o ácido se derramou em meu estômago.
Essa necessidade já existia antes de eu ter me alimentado de
Ren.
— Você precisará ser cuidadosa, — ela aconselhou. —
Quando você estiver com Ren.
Ela não precisava explicar onde estava com isso.
Dobrando os meus braços sobre a minha cintura, eu andei em
um pequeno círculo. — Você fala como se a pele brilhante e as
orelhas pontudas não fossem grande coisa.
— Para mim, elas não são.
Eu disparei-lhe um olhar sombrio. — Bem, não me diga.
— Mal dá para notar, — ela adicionou. — As coisas
podem parecer esmagadoras agora, mas isso poderia ter sido
pior.
Por um momento, eu fiquei estupefata. — Sim, eu poderia
estar morta, e talvez isso estivesse destinado a acontecer.
O choque se espalhou pelo rosto de Faye. — Você não
está falando sério.
Será? Eu não tinha tanta certeza. Não era como se eu
tivesse um desejo de morte, mas eu... eu já não me sentia como
eu e não tinha nenhum controle. Nem sobre a minha vida, meu
destino, meu propósito, ou até mesmo o meu corpo.
E eu lembrei-me daquele momento de decepção quando
cheguei ao pátio e percebi que não tinha morrido.
Os nós em meu estômago se expandiram. Eu aumentei os
meus passos. — Eu quase morri numa luta que eu deveria ter
vencido. Eu fui forçada a me alimentar do meu namorado. —
Minha voz aumentou um pouco quando eu pensei sobre o que
fiz a ele depois, o que nós fizemos. — E eu acordei dias depois
para descobrir que meu corpo atualmente mudou. Sem
mencionar o fato de que eu fui mantida contra minha vontade
por um Príncipe fae psicótico. Não aja como se o que aconteceu
comigo fosse apenas um terça-feira normal. Meu mundo inteiro
mudou no momento que eu descobri que eu era uma halfling.
Quase tudo que eu sabia até aquela parte era uma mentira
fodida, mas quando eu me olhava no espelho, eu ainda parecia
comigo. Eu ainda era a Ivy. Quando eu me olho no espelho
agora, eu não me reconheço, e isso não é apenas por causa das
coisas físicas.
Simpatia rastejou em seu rosto, e essa era possivelmente
a pior coisa para ver. Tomando uma respiração profunda, eu
desviei o olhar. — Quanto tempo você acha que essa coisa de
sugar pessoas até secá-las vai durar?
Faye ficou quieta por um momento. — Eu não sei. Talvez
alguns dias. Algumas semanas.
Semanas? Os músculos em meus ombros se contraíram.
Eu não podia lidar com semanas. — Você nunca se alimentou?
— Nunca.
Parando, eu olhei sobre meu ombro para ela. — E Drake
nunca notou isso? Ele não achava que isso era suspeito?
Ela virou em minha direção. — Drake nunca realmente
prestou atenção em mim. Breena e Valor costumavam mantê-lo
ocupado quando ele não estava tentando convencê-la a vir para
o lado negro.
Eu fiz uma careta, pensando que algo sobre isso não
soava certo.
— Eu sei que você passou por muito, Ivy, e encontrar o
Cristal é a última das coisas em sua mente, mas eu queria te
dizer que os faes que estávamos esperando chegarão amanhã.
Houve um pequeno atraso na chegada deles aqui. Eles tiveram
que tomar cuidado para não levantarem suspeitas no Príncipe.
— Ela levantou e alisou os jeans. — Eu espero que você possa
se juntar a nós.
Em outras palavras, ela quis dizer que ela esperava que
eu me recompusesse há tempo suficiente para estar lá. Eu
assenti distraidamente, os meus pensamentos ficaram presos
no que a Faye tinha acabado de dizer.
Como é que o Príncipe nunca percebeu que ela não se
alimentava ao redor dele? Será que ninguém no time Príncipe
das Trevas acharia que isso era suspeito?
Porque eu certamente pensava que o fato de eles não
terem notado isso era loucamente suspeito.

Capítulo 9

Eu imaginei que a Faye não me considerou um risco, por


isso fui autorizada a deixar a enfermaria. Ela caminhou comigo
pelo hotel, e eu percebi que não era porque ela estava
preocupada que eu fosse começar a atacar os faes. Faye estava
comigo porque eu tive a minha bunda chutada. Ela era como
um guarda-costas que eu não queria e não deveria precisar.
Felizmente, ela me deixou no elevador, mas meus passos
diminuíram enquanto eu caminhava em direção ao quarto que
eu estava compartilhando com Ren. Meu coração estava
tropeçando em si mesmo quando eu parei em frente a porta.
Ele estava lá dentro? Trepidação encheu-me quando eu estendi
a mão para a maçaneta.
Deus, quando eu tinha começado a ser a merda de uma
covarde? Era ridículo. Respirando fundo, eu abri a porta e
entrei no quarto frio. A cama estava perfeitamente feita, mas
estava vazia e silenciosa. Parecia do jeito que eu a tinha
deixado, lisa e arrumada.
Eu sentia falta do meu apartamento.
Eu sentia falta de mim.
Exalando ruidosamente, eu fui ao banheiro. O peso
repugnante dos dias tinha se acumulado em minha pele e
cabelo, e eu acreditava que assim que tomasse um banho, as
coisas ficariam mais claras, elas fariam mais sentido, e talvez –
apenas talvez – eu me sentiria como eu mesma, apesar de tudo.
Eu mantive minha mente intencionalmente em branco
enquanto eu tirava a minha roupa, evitando o espelho
enquanto eu passava por ele até o chuveiro.
A última coisa que eu queria era saber se os meus seios
também brilhavam.
Eu esfreguei e esfreguei como se pudesse de alguma
forma eliminar o estúpido brilho. Quando terminei minha pele
parecia limpa e, na verdade, um pouco dolorida. Eu tinha
acabado de vestir um par de leggings e uma camiseta que Tink
tinha me dado de aniversário no ano passado – bonecos trolls
zumbis, é claro – quando a porta se abriu. Eu me virei, o ar se
alojando firmemente em minha garganta quando eu vi que era
Ren.
Ele parou completamente, seus olhos se arregalaram
levemente enquanto seu olhar vagava sobre mim da cabeça aos
pés, notavelmente ficando mais vidrado em minha camiseta do
que qualquer outra coisa, mesmo assim o choque estava lá. E
eu não sabia se era porque ele não estava esperando que eu
estivesse no quarto ou se era devido a minha nova aparência
brilhante.
Mas ele... ele parecia bem. Saudável e bonito daquele
jeito selvagem dele. Olhando para ele agora, eu podia quase
imaginar que eu não tinha me alimentado dele. Que eu não o
tinha visto com aquelas sombras miseráveis sob seus olhos ou
suas maçãs do rosto afundadas.
Eu lembrava o que tinha feito a ele, embora. Aquela
memória alimentou as palavras que separaram meus lábios. —
Como está o novo visual? — Minha voz gotejava com ácido. —
Eu pareço como uma vampira do Crepúsculo. — Virando a
minha cabeça, eu puxei os meus cachos molhados para trás. —
E olha! Não preciso de fantasia para o Halloween agora que eu
tenho estas orelhas pontudas super incríveis.
Sua cabeça inclinou-se para o lado enquanto ele me
encarava. — Você está linda como sempre.
Uma gargalhada dura explodiu de mim. — Sério?
— Sério, — ele disse. — Bonita e quente. A camiseta é um
pouco estranha, no entanto.
— Um presente de Tink, — eu expliquei, me perguntando
se Ren estava falando sério. Como ele poderia pensar que eu
era bonita quando eu realmente parecia ter sangue de fae em
mim agora?
— Imaginei. — Um sorriso irônico puxou a sua boca
cheia. — Deus, você não tem ideia de como me sinto vendo
você parada aqui na minha frente. Viva. Falando. Sexy mesmo
com uma camiseta que nunca deveria ter sido feita.
Eu o encarei. — A minha pele está brilhando e as minhas
orelhas são pontudas agora.
— Eu nem sequer notei. Tudo que eu prestei atenção foi
no fato de que você está em pé e respirando. — Seu olhar se
moveu rápido sobre mim de novo. — Mas agora que você
mencionou isso, eu meio que estou gostando disso.
Minha boca se abriu. — Como no mundo você poderia
gostar que eu parecesse mais como as criaturas que nós
nascemos para caçar e matar? Isso não faz sentido.
Ren pareceu surpreso. — Você não entende. Sua pele
poderia ser verde e suas orelhas do tamanho de OVNIS e eu
ainda acharia você absolutamente deslumbrante.
Naquele momento eu comecei a me perguntar se Ren
estava drogado.
— Eu estou prestes a soar brega pra caralho e eu estou
um pouco surpreso por ter até mesmo que dizer isso, mas não
se trata apenas da sua aparência. Não me entenda mal, isso é
um ótimo bônus, mas é você, Ivy. O que está no seu interior,
Doçura.
Uau.
Isso não era nada brega. Era... era na verdade uma bela
coisa para se dizer e algo que eu tão desesperadamente
precisava ouvir e queria acreditar.
O silêncio se estendeu entre nós e Ren se moveu.
Fechando a porta atrás dele com um chute, ele andou na
minha direção, determinação tensionando as linhas da sua
boca. Ren era mais de ações do que palavras. Ele ia provar que
ainda me achava bonita. Ele ia me tomar em seus braços. Ele
me beijaria e eu não sabia o que eu faria, do que eu era capaz.
Eu olhei para cima. — Não.
Ren imediatamente parou, suas sobrancelhas se
apertadas.
— Eu quero dizer, eu não sei se você deveria se
aproximar de mim neste momento. — A parte seguinte me
matou admitir. — Eu... eu não sei o que eu farei.
Compreensão irrompeu. — Eu confio em você.
— Você não deveria. — Eu afastei o olhar. — Você não
deveria ter confiado em mim antes.
— Eu confiei, e você não me machucou.
— Não machuquei você? — Eu me engasguei. — Eu me
alimentei de você. Eu vi como você parecia depois...
— Eu fiquei bem... eu estou bem. Eu fiquei apenas
cansado. Isso foi tudo.
— Mas não foi só isso o que eu fiz. — Minhas bochechas
queimaram quando a memória de rasgar as suas calças
ressurgiu.
— O que veio depois de sua alimentação? — Sua voz se
aprofundou. — Eu não tive um único problema com isso.
Aquilo foi ...
— Foi uma bagunça, — eu disse balançando a minha
cabeça. — Eu estava louca. Eu me alimentei de você e eu...
— Eu disse para você tomar de mim o que você precisava
e eu quis dizer isso. Eu daria a você o que você precisava, fosse
o que fosse.
— Você não achou isso errado? — Minha voz caiu para
um sussurro.
— Eu acho que a forma como chegamos a aquele
momento foi errada, mas o que nós fizemos sobre aquela mesa
não foi. Nunca é entre nós.
Enquanto eu o observava, eu sabia que ele acreditava
nisso, mas, ainda assim, eu me sentia como se eu tivesse feito
algo errado. Eu cruzei os meus braços sobre a minha cintura,
afastando o olhar.
Ele ficou quieto por um momento. — Eu encontrei a
Faye. Ela me disse que você tinha acordado e estava bem. Que
você tinha subido para o nosso quarto. Eu vim logo que eu
soube. Eu teria estado lá. Eu queria estar lá, mas...
— Eu sei. Eles queriam ter certeza de que eu não ia sugar
a vida fora de você. — Meus lábios torceram-se em um reflexo
grosseiro de um sorriso.
— Eu nunca acreditei que você faria isso. — O seu olhar
era firme quando ele estendeu a mão para o seu lado. Foi então
que eu percebi que ele estava carregando a estaca de espinhos.
Ele a soltou, colocando-a sobre a pequena mesa ao lado da
porta. Eu imaginava que a coisa toda de não carregar armas
estava fora de questão agora. — Nenhuma vez, Ivy.
— Sério? — Eu olhei para ele de novo e acolhi a mesma
raiva afiada que eu senti em relação a Tink, apesar de quão
boas foram as suas intenções. Estar com raiva era com certeza
muito mais fácil do que o rugido da confusão e a ansiedade
quase esmagadora.
— Você poderia ter feito isso, mas você não fez. Você
parou. — Ren deu um passo adiante e parou de novo. — Eu sei
que você vai parar sempre.
Ele podia acreditar nisso, mas eu não. — Você é um
idiota se você acredita nisso. Você nunca deveria ter
concordado que eu me alimentasse de você. Era muito
perigoso...
— Eu arriscaria de novo. — Outro passo para frente. —
Cem por cento, eu arriscaria tudo de novo para salvar você.
Descrença atravessou através de mim, assim como a
fúria. — Você sabe o que pode acontecer com humanos quando
eles servem de alimento. Nós tivemos que matá-los. Você teve!
— Como eu disse, eu arriscaria tudo de novo. — Ele
segurou o meu olhar. — Essa foi a minha escolha.
— A escolha nunca foi sua, Ren! Era minha, e foi tirada
de mim.
— Que escolha você tinha? — Ele parou, as narinas
dilatando. — Você estava morrendo, Ivy. Não havia tempo para
conseguir um cirurgião ou levar você a um hospital. Você
estava sangrando bem na minha frente. Não havia escolha,
porque permitir que você morresse nunca foi uma opção.
— Se você tivesse feito isso, pelo menos eu não teria sido
forçada a me alimentar de você, tal como o Príncipe me obrigou
a fazer! — No momento que as palavras saíram da minha boca,
eu desejei que eu não as tivesse dito.
O rosto de Ren empalideceu. — Você preferia estar morta,
Ivy?
Eu suguei uma respiração. — Eu não disse isso.
— Então, o que você está dizendo exatamente, e Doçura,
eu preciso que você seja realmente detalhista, porque eu estou
pensando o pior.
Eu me virei, passando as mãos através dos meus cabelos.
Eu não era estúpida. Se Tink e Ren não tivessem forçado Faye
a usar a compulsão, eu estaria morta. E eu não queria estar
morta.
Mas eu não queria ser isso.
Deus, eu apenas não queria nada disso.
— Ivy.
Ele falou o meu nome tão suavemente que eu reagi a ele
sem pensar. Eu o encarei, abaixando as minhas mãos.
— Quando eu encontrei você do lado de fora, eu pensei
que tinha chegado muito tarde. Quando eu carreguei você para
dentro daquele maldito quarto, eu estava coberto com o seu
sangue. Encharcado dele. — Enquanto ele falava, seu olhar
nunca deixou o meu. — E quando aquela médica fae disse que
você estava morrendo, parecia como se um pedaço de mim
morresse naquele momento.
Eu abri a minha boca.
— Deixe-me tirar isso fora e você pode gritar comigo e
ficar chateada o quanto você quiser, — ele insistiu, e fechei a
minha boca. — Eu nunca tive tanto medo do que naquele
momento. Eu ia te perder antes mesmo de te ter. E quando
Tink disse que poderia haver outra forma, era a única escolha
que eu tinha e eu fiz essa escolha sabendo que você poderia me
odiar por isso. Eu fiz essa escolha sabendo que eu poderia me
machucar. Eu fiz essa escolha sabendo que você poderia nunca
me perdoar por isso.
A voz de Ren engrossou. — Eu prefiro ter você zangada
comigo pelo resto da sua vida muito longa do que permitir que
a porra da estrela mais brilhante do mundo se apagasse. Você
pode me odiar hoje e amanhã, mas pelo menos você terá um
amanhã, e eu terei a maldita certeza de que você tenha um
punhado deles para ficar zangada comigo.
Oh Deus.
Eu não sabia como responder aquilo. Emoção subiu por
minha garganta. Lágrimas encheram os meus olhos. Eu dei um
passo para trás e então para o lado. Sentando-me na beira da
cama, eu me inclinei para frente, deixando cair as minhas
mãos em meu colo.
Ren não fez nenhum som, mas eu o senti se
aproximando. Ele ficou de joelhos na minha frente,
surpreendendo-me. Olhando para cima, ele colocou suas mãos
em cada lado dos meus quadris, perto, mas não me tocando. —
Eu lamento ter participado em te obrigar a se alimentar. Eu
odiei fazer isso, sabendo o que você passou. Eu odiei o fato de
não ter estado com você quando você foi atacada. Merda, — ele
disparou. — Quem me dera não ter me afastado de você na
noite em que você me disse que era uma halfling. Eu poderia
ter parado isso tudo.
Eu endureci. — Ren...
— Sim, você vai dizer que isso não foi minha culpa, mas
se eu não tivesse agido como um idiota e não tivesse sido
capturado, o Príncipe nunca teria sido capaz de se passar por
mim. Nada dessa merda teria acontecido.
Isso não era verdade. Mesmo se Ren tivesse aceitado
completamente o que eu era no momento que eu tinha dito a
ele, Drake encontraria outro caminho.
Ele era assustador e psicótico dessa maneira.
— E eu tenho que viver com isso pelo resto da minha
vida, — Ren adicionou, lentamente erguendo as suas mãos. Ele
encontrou as minhas, entrelaçando seus dedos através delas.
— E eu terei que viver com a escolha que eu fiz e a escolha que
eu tirei de você. Eu estou mais do que disposto a fazer isso,
mas eu não me arrependo por um segundo pela escolha que eu
tive que fazer para salvá-la, mesmo que isso signifique que você
me odeie.
No fundo, eu sabia a verdade e quão bagunçado isso era.
Se os sapatos estivessem em pés diferentes, e Ren fosse um
halfling e estivesse morrendo, eu teria feito o mesmo para
salvá-lo.
Eu teria tirado a escolha dele.
Eu teria afastado a sua vontade.
Eu o teria salvado, mesmo se isso me custasse o seu
amor.
Meu peito se apertou e eu sussurrei a coisa mais
verdadeira que eu poderia dizer naquele momento. — Eu não
odeio você.
Ren apertou as minhas mãos quando ele abaixou a sua
cabeça. Seus cachos caíram para frente e quando ele falou, sua
voz estava áspera. — Eu não posso perder você.
— Você não vai.
Ele levou as minhas mãos para a sua boca, beijando a
parte de cima de ambas. — Então, por que é que sinto como se
eu já tivesse perdido?
Assustada, eu puxei as minhas mãos, mas ele as
segurou. — Por que você acha isso?
Ele olhou para mim, seus olhos da cor da grama
orvalhada. — Você realmente tem que me perguntar isso,
Doçura?
Eu comecei a dizer que sim, mas as palavras morreram
em minha boca. Meus pensamentos correndo para encontrar
uma maneira de negar a razão pela qual ele se sentia daquela
forma, mas não encontrei nada. Não porque ele estivesse certo.
Não da maneira como ele pensava.
Porque não foi ele que me perdeu.
Fui eu mesma que me perdi.

Capítulo 10

Ren e eu não conversamos muito depois disso, mas ele


me convenceu a ir jantar com ele, e eu não tinha como inventar
uma desculpa.
Eu descobri então que Ren havia confiscado as adagas de
ferro em algum momento, e nós nos armamos para o caso de
alguém querer ir para um segundo round comigo.
— Há alguém mais envolvido no ataque? — Eu perguntei
enquanto prendia a adaga em meu quadril. Era uma sensação
boa tê-la de volta. Eu puxei a minha camiseta por cima do
cinto e da adaga.
— Não tanto quanto eu posso dizer, — Ren abriu a porta,
e nós começamos a descer o corredor. — E confie em mim, eu
tenho sido muito convincente quando se trata de como é
importante dizer a verdade.
Eu olhei para ele. Sua mandíbula estabelecida em uma
linha dura. — Então, você acha que foram somente aqueles
dois?
Ren assentiu quando ele bateu no botão para trazer o
elevador para cima. — Eu entrevistei quase oitenta por cento
dos faes daqui. Até agora, nenhum deles estava envolvido.
Oitenta por cento? — Maldição, você esteve ocupado.
As portas do elevador abriram, e ele deu um passo para o
lado, me permitindo entrar. — Tive que me manter ocupado
desde que eu fui banido do seu quarto. Era isso ou
enlouquecer.
Eu cruzei os braços sobre a minha cintura focando nas
paredes de painéis marrons. Eu não conseguia imaginar como
seria se Ren estivesse machucado e eu não fosse capaz de vê-
lo.
— Eu tenho algumas perguntas, — Ren inclinou-se
contra a parede atraindo o meu olhar. — Os faes disseram
alguma coisa para você?
Exalando lentamente, eu assenti. — Eles não vieram
atrás de mim porque eu sou um membro da Ordem. — Eu fiz
uma pausa. — Ou era. Quem sabe neste ponto. De qualquer
forma, eles fizeram isso porque eu era uma halfling e...
O que os faes me disseram veio rugindo de volta. Puta
merda, eu tinha esquecido que os faes tinham dito que o
Príncipe me encontraria aqui, que ele eventualmente romperia
o glamour.
Meu estômago afundou quando o elevador abriu no
andar principal.
— E o quê? — Ren deu um passo para fora.
Eu o segui, minha pele parecia como gelo. — Eles
estavam com medo. Foi só isso. — Meu olhar ergueu-se para o
dele. — Eles estavam apenas assustados.
— Eu não dou a mínima se eles estavam aterrorizados ou
não. — Seus olhos endureceram. — Você supostamente deveria
estar segura aqui. Você não estava.
As portas fecharam-se atrás de nós, mas nenhum de nós
se moveu. — E eu devia ter sido capaz de defender-me.
— Você não tinha uma adaga. Algo que não acontecerá
de novo.
— Com ou sem adaga, eu deveria tê-los derrubado ou me
escapado facilmente, — eu apontei, ainda desgostosa por isso
ter sido tão fácil para os faes. — Eu estava despreparada e não
estava prestando atenção.
Ren se aproximou de mim. — Você derrubou um deles,
Ivy. Sem uma arma. Depois de ter sido esfaqueada. Dê-se
algum crédito.
Meus lábios se ergueram, mas não se espalharam em um
sorriso real. Não quando as palavras dos faes estavam ecoando
em minha cabeça. — Eu preciso falar com Tanner rapidamente.
Eu vou te encontrar na cantina.
Sua cabeça inclinou-se. — Eu posso ir com você.
— Você não precisa. — Eu rapidamente dei um passo ao
redor dele. — Vai levar apenas alguns minutos. Eu já estarei lá.
Ren abriu sua boca, mas eu não dei a ele uma chance de
dizer nada. Eu desci correndo o corredor, aliviada quando eu
olhei sobre meu ombro e não o vi.
Não levou muito tempo para eu encontrar Tanner. Ele
estava em seu escritório, e quando eu entrei na sala, ele estava
sentado em uma poltrona em frente a Merle, tomando chá.
Merle tinha sido banida da Ordem décadas atrás, algo
que sempre me irritou, uma vez que ela tinha dado a sua vida e
um pouco mais a eles. Os rumores eram que ela tinha sido
capturada por um fae sem a proteção de trevo de quatro folhas
e sua mente tinha ficado um pouco fodida desde então, mas
quem é que sequer sabia se isso era verdade? Merle podia ser
estranha, mas ela era perspicaz cada vez que eu estava perto
dela.
E eu não pude evitar de me lembrar que ela estava no
fundo do quarto onde Ren tinha levado o meu corpo
sangrando. Seu rosto estava vazio de toda a emoção. Ela podia
ter algo a ver com isso?
Ela podia ser estranha, mas ela sempre pareceu gostar de
mim.
— Ivy. — Tanner colocou a sua xícara na bandeja e
sorriu, embora fosse óbvio que ele estava surpreso em me ver.
— Eu estou contente em ver que você está de pé e se movendo.
— Está mesmo? — Eu perguntei olhando incisivamente
para as costas de Merle. Ela não se virou.
— É claro. — Ele olhou e soou surpreendido pela
pergunta. — O que aconteceu com você foi indesculpável e você
tem as minhas mais sinceras desculpas pelo que ocorreu. Eu
prometi a você um santuário. Você não recebeu isso.
Antes que eu pudesse responder, Merle respondeu. — Ivy
é um membro treinado da Ordem. Dois faes comuns não
deveriam ter sido difíceis para ela lidar. No meu auge, eu
poderia eliminar quatro em um piscar de olhos.
Uau.
Meus olhos estreitaram-se nas costas dela. — Bem,
obrigada por você fazer isso soar como se ser esfaqueada fosse
minha culpa.
— Não foi sua culpa, — Tanner foi rápido em adicionar.
— Eu estou contente em ouvir que até agora Ren não
encontrou outros conspiradores. — Seu olhar caiu onde a
adaga criou uma leve protuberância ao longo do meu quadril.
— Embora eu entenda a razão pela qual vocês sintam a
necessidade de se armarem.
— Eu não estou aqui para falar sobre ser esfaqueada.
— Então para que você está aqui? — Merle encarou-me
sobre seu ombro quando eu caminhei para onde eles estavam
sentados. — Eu imagino que seja algo muito urgente, uma vez
que você esqueceu que era educado bater na porta.
Por mais que eu gostasse de Merle, eu tive que ignorá-la
nesta altura. — O Príncipe pode me encontrar aqui?
As sobrancelhas de Tanner se elevaram enquanto ele
inclinava-se para frente em sua poltrona. — Fora o que
aconteceu, você está segura aqui, Ivy. Eu posso assegurar a
você...
— Eu não estou perguntando se eu estou segura, — eu o
cortei. — Porque não importa o que você diga, isso obviamente
não é verdade. Eu estou perguntando se o Príncipe pode me
detectar aqui?
Ele olhou de relance para Merle, que calmamente tomou
um gole de sua pequena xícara de chá, e um momento passou
antes que ele respondesse. — Nossa presença aqui é
pesadamente encantada, até mesmo para outros faes. A menos
que eles saibam procurar e ver, eles não nos encontrarão.
Eu não era estúpida. — Isso não responde à pergunta,
Tanner.
Apertando as mãos, ele inclinou sua cabeça para o lado.
— O glamour não é infinito. Tudo tem um limite, Ivy. O
Príncipe não estava procurando por nós antes, mas, por esta
altura, eu tenho certeza de que ele sabe que nós existimos em
New Orleans. Ele estará procurando e ele é poderoso.
Meu coração se revirou em meu peito. — O que isso
significa, exatamente?
Merle abaixou a sua xícara. — O que ele está dizendo,
querida, é que o Príncipe poderia fazer um buraco através do
glamour. Isso não aguentaria contra a vontade dele.
Oh, meu Deus!. — Então, você basicamente está dizendo
que se ele de alguma forma descobrisse que o Hotel dos Faes
Bons estivesse aqui, ele poderia rasgar o glamour e entrar?
O sorriso escorregou do rosto de Tanner quando ele
assentiu. — Ele poderia, mas nós não temos razão para
acreditar que ele tomaria consciência de nós.
— E por quê? — eu exigi. — Têm centenas de faes aqui.
Qualquer um deles poderia dizer a coisa errada para o fae
errado.
— Eles sabem o que está em jogo, — Tanner replicou. —
Nenhum deles quer ser encontrado pelo Príncipe. Eles sabem o
que aconteceria com eles.
Mesmo que fosse esse o caso, isso não significava que
fosse improvável que o Príncipe jamais encontraria este lugar.
— Alguma vez lhe ocorreu que ele poderia ter alguém com a
Faye no time dele trabalhando como espião?
Os lábios de Tanner afinaram. Merle não respondeu, e eu
seriamente me perguntei se isso tinha cruzado por suas
cabeças. Se não, eles eram idiotas completos.
Pressão apertou o meu peito. — O que aconteceria se o
Príncipe entrasse aqui?
— Além dele levar você? — Merle levantou o queixo, seu
rosto sem rugas escondendo a sua verdadeira idade. — Os faes
daqui, sem se alimentarem, não são páreo para o Príncipe e
seus guerreiros. — O olhar de Merle era afiado. — Se ele vier,
eles não sobreviverão a qualquer ataque que ele possa lançar.
Eu fechei os meus olhos. Então, os faes que me atacaram
estavam certos. — Eu estar aqui é um perigo para todos eles.
— O fato de o Príncipe estar neste mundo é um perigo
para cada criatura viva, — Tanner disse, e, quando eu abri os
meus olhos, ele tinha se recostado em sua cadeira. — Os faes,
que consideram este lugar um paraíso, sabem disso.
— Eu estou pensando que alguns não estão felizes com
isso, — eu apontei.
Não havia nada que Tanner pudesse dizer em resposta.
— Então, deixe-me ver se eu entendi. Os faes estão
basicamente seguros enquanto o Príncipe não se tornar
consciente deste lugar? Mas se ele o fizer, ele encontrará uma
forma de entrar e matará todos os faes aqui por diversão?
Tanner empalideceu. — Isso é um improvável sim.
Improvável? Sim, certo. Eu sentia que que conhecia
Drake bem o bastante para saber que ele acabaria, mais cedo
ou mais tarde, encontrando este lugar. — Eu imagino que você
esqueceu de mencionar tudo isso em sua apresentação no
Hotel dos Faes Bons quando eu cheguei aqui.
— Ele não deixou de mencionar isso, querida. Ele
escolheu não fazê-lo. — Merle segurou meu olhar. — A
segurança daqueles que estão aqui é irrelevante perante a
missão de manter sua barriga vazia da semente do Príncipe.
Eu vomitei um pouco em minha boca. — Você poderia
nunca dizer algo assim de novo? Por favor?
— É a verdade, — ela replicou. — Aqueles faes estariam
mortos se o Príncipe descobrisse a localização, quer você
estivesse aqui ou não. Manter você fora das mãos dele é a
prioridade principal.
Isso era duro de engolir. Eu não gostei de saber que a
minha vida – ou, bem, o meu útero – tinha um valor mais alto
do que a de outras vidas. — Ou eu posso, você sabe,
simplesmente morrer. Isso iria resolver o problema.
Ela segurou o meu olhar. — Iria, no entanto, parece que é
difícil matá-la quando você pode se alimentar e se curar.
Eu respirei fundo. — Eu não escolhi fazer isso.
— Eu sei. — Alguma coisa cintilou sobre seu rosto.
Simpatia? Compaixão? Prisão de ventre? Quem sabe? — Eu sei
que você não teria feito essa escolha, mas há pessoas aqui que
fizeram essa escolha por você. E elas continuarão a fazê-lo,
para te salvar.
Ela estava certa. — Mas eu estar aqui significa que a
improvável hipótese de ele descobrir este lugar se aproxima
mais do território do provável.
— É irrelevante, querida, — Merle repetiu.
Eu pisquei para ela e depois virei-me para Tanner. —
Cada vez que alguém saí daqui – para o mundo lá fora, além do
glamour deste edifício, eles correm o risco de serem vistos por
algum dos lacaios do Príncipe. — Meu coração deu um pulo em
meu peito. — Assim como Ren e Faye quando saem para
procurar pelo Cristal. Eles poderiam ser vistos e seguidos.
— Faye é cuidadosa e ela está ciente do risco, — Tanner
declarou.
— E Ren?
Tanner não respondeu e um pensamento horrível me
ocorreu. Será que Ren sabia sobre o perigo de eu ficar aqui?
Não. Não havia forma de ele consentir em colocar os faes daqui
em perigo. Mas então eu pensei sobre o que ele tinha feito por
mim. Eu obviamente não sabia até que ponto ele iria para me
manter em segurança. — Você disse que eu ficar aqui não era
um problema.
— E não é Ivy. — Tanner pegou a sua xícara. — Nós
temos sobrevivido aqui mais tempo do que você imagina sem
sermos descobertos por aqueles que desejamos permanecer
escondidos. Nós continuaremos assim.
— As coisas são diferentes agora. Isso foi antes da
chegada do Príncipe.
Ele balançou a cabeça. — As coisas estão apenas mais
complicadas. — Um fantasma de um sorriso apareceu, um de
aprovação. — Eu aprecio a sua preocupação por meus irmãos e
irmãs, mais do que você imagina, especialmente depois do que
foi feito a você, mas nós estamos dispostos a assumir o risco
para ter certeza de que o Príncipe não abra aqueles portais,
destruindo o reino mortal, tal como a sua corte fez com nosso
mundo.
Nem todos os faes aqui estavam obviamente dispostos a
assumir esse risco.
— Eu não aprecio a sua preocupação, — Merle retorquiu.
— É equivocada e levará a decisões tolas.
— Você não se preocupa com os faes aqui? — Eu exigi.
Um pequeno sorriso apareceu, o tipo que me lembrava de
uma avó. — Você não quer que eu responda a essa pergunta.
— E nós não pediríamos a ela que respondesse a essa
pergunta, — Tanner adicionou.
Eu não podia acreditar que eles estavam
desconsiderando o risco envolvido ou o fato de que eles
pensavam que eu estaria de acordo com isso. Os habitantes
desse lugar eram faes, mas eles não estavam machucando os
humanos. Tal como Tink, eles estavam apenas tentando obter
algum tipo de vida. E Tink e Ren estavam aqui também. Eles
ficarem seguros era a maior prioridade para mim. — Eu não
estou bem com isso.
— Nós não esperamos que você esteja, — Merle
respondeu. — Nós apenas esperamos que você lide com isso.
Você cresceu na Ordem. Você sabe que, às vezes, você tem que
sacrificar muitos para proteger poucos. Você viveu essa vida
todos os dias desde que respirou. Siga com o programa, Ivy.
Isso não mudou.
Eu suguei o ar e virei-me para Tanner. — Vocês todos
percebem que é apenas uma questão de tempo até que o
Príncipe perceba que vocês estão me abrigando aqui. Não é se
ele perceber, é quando ele perceber. O que vocês farão então?
Quanto tempo é que o glamour se manterá contra ele?
Tanner deu um gole em seu chá. — Nós esperávamos ter
semanas. — Houve uma pausa quando seu pálido olhar
encontrou o meu. — Mas se tivermos sorte, nós teremos dias.
Horas, se não tivermos.
Capítulo 11

Siga com o programa?


Oh, eu ia mesmo seguir com o programa. Batendo a porta
atrás de mim, eu acendi a luz e caminhei em direção ao
armário estreito ao lado da cômoda.
Espiando a bolsa que Tink usou para empacotar algumas
das minhas coisas, eu peguei-a do chão do armário e joguei-a
na cama.
Dias? Horas? Semanas? Eles não tinham ideia de quanto
tempo nós tínhamos antes que o Príncipe encontrasse esse
lugar e atravessasse o glamour. Não era um evento improvável.
Era inevitável. Havia muitos faes aqui, muitas variáveis
desconhecidas em jogo. Comigo aqui, o Príncipe descobriria a o
Hotel dos Faes Bons, e não havia dúvida em minha mente que
a primeira pessoa que ele eliminaria seria Ren.
Pânico desenrolou-se na boca do meu estômago enquanto
eu encarava a bolsa. Com repentina clareza, eu sabia que eu
não podia dizer a Ren ou Tink o que eu planejava fazer.
Nenhum deles iria querer que eu fosse embora. Eles iriam me
impedir e o objetivo era mantê-los seguros.
Isso significava que eu tinha que partir sem eles.
Dor crua socou o meu peito enquanto eu virava para a
cômoda. Eu podia fazer isso? Eu poderia sair daqui sem me
despedir? Sem mais um beijo? Sem mais um eu te amo?
E o Tink?
Ele ficaria tão chateado, e provavelmente irritaria Ren ao
ponto de conseguir ser assassinado a sangue frio, mas Tink
entenderia. Ele sabia do que o Príncipe era capaz.
— Oh Deus, — eu sussurrei, pressionando a palma da
minha mão na testa. A parte de trás da minha garganta
queimou quando eu fechei os meus olhos.
O que é que eu estava fazendo?
O pânico se transformou em um tipo de dor que sugava a
alma. Eu tinha que deixá-los. Eu sabia disso. Era a única
forma de mantê-los seguros até que eles encontrassem o
maldito Cristal, ou eu... encontrar uma forma de enfraquecer o
Príncipe para que ele pudesse ser morto.
Abaixando a minhas mãos, eu abri meus olhos. Eles
estavam úmidos enquanto eu encarava a cômoda. Todo mundo
estava focado em enviar o Príncipe de volta para o Outro
Mundo, porque matá-lo era praticamente impossível, mas nada
era verdadeiramente impossível.
Alguém lá fora tinha que saber como enfraquecê-lo o
suficiente para que cortar a sua cabeça fosse viável.
Determinação de aço encheu-me quando eu avançava,
abrindo a gaveta. Desde que o Príncipe podia me sentir, ele
tinha que saber que eu ainda estava em New Orleans. Se eu
fosse embora, então ele me seguiria. Eu apenas tinha que me
manter em movimento até que descobrisse uma forma de
enfraquecer o bastardo o bastante para matá-lo. Enquanto eu
estivesse fora, Ren e Tink podiam trabalhar com Tanner para
encontrar o Cristal. Eles estariam seguros, e isso era tudo o
que importava.
A porta se abriu assim que eu peguei várias calcinhas da
gaveta. Girando, eu vi Ren em pé na porta.
Merda.
Eu imaginava que eu não poderia sair dali sem vê-lo ou
dizer adeus. Isso faria apenas a porra muito mais difícil.
Nada nele parecia relaxado quando o seu olhar se moveu
das minhas mãos para a bolsa aberta na cama. — Você não foi
ao refeitório. — Houve uma pausa. — O que você está fazendo,
Ivy?
O que eu estava fazendo naquele exato momento era ficar
congelada entre a cama e a cômoda, embalando as calcinhas
em meus seios. — Eu... eu estou fazendo as malas.
Entrando no quarto, ele fechou a porta atrás dele. —
Fazendo as malas para ir onde?
Eu abri a minha boca, mas eu não tinha ideia do que
dizer. Eu não planejava vê-lo antes de partir.
Suas sobrancelhas abaixaram quando ele se aproximou.
— O que você está fazendo, Doçura?
Engolindo em seco, eu olhei para a bolsa. Uma grande
parte de mim desejava que eu pudesse mentir, mas eu já tinha
mentido tantas vezes para ele. Por mais que isso fosse uma
droga, eu tinha que dizer a verdade. — Eu... eu preciso ir
embora.
— Ir embora? — Ele parou ao meu lado. — Ok. Eu sinto
que eu estou perdendo uma parte vital de alguma história. Algo
mais aconteceu? — Seus olhos brilharam um verde vívido. —
Alguém tentou atacar você de novo?
— Não houve um ataque entre o tempo que eu te deixei
no corredor e agora. — Eu coloquei as calcinhas na bolsa e
ergui o olhar para ele. — Você sabia que o Príncipe pode
atravessar o glamour daqui?
Sua expressão suavizou. — Você está segura aqui, Ivy.
Não importa o que aconteça. Eu vou fazer com que seja tão...
— Eu não estou preocupada com a minha segurança! —
Minha frustração aumentou. — Por que é que todo mundo
continua trazendo isso à tona, como se eu precisasse ser
cuidada? Eu levei uma surra. Eu quase morri, mas eu estou
vida e eu não estou assustada.
Confusão encheu seus marcantes olhos. — Eu não estou
dizendo que você está assustada, mas está tudo bem se você
estiver, Ivy. Ninguém poderia te censurar por isso.
Amaldiçoando baixinho, eu girei e peguei um punhado de
roupas íntimas. O problema era que eu não estava assustada.
Eu estava com raiva. Furiosa. Enfurecida o tempo todo, mas eu
não estava assustada. Não por mim mesma. — Eu não estou
com medo.
Houve uma pausa enquanto eu empurrava as minhas
roupas íntimas na bolsa. — Ivy...
Eu virei para ele. — Vocês sequer percebem que eu sou a
única aqui que o Príncipe não vai matar? A menos que ele
encontre outra halfling em algum outro lugar do mundo, alerta
de spoiler, eu estou sobrevivendo nesta história. Eu não posso
dizer o mesmo de todos vocês.
— Sim, e o que ele quer de você não é um passeio no
parque, Ivy.
Minhas mãos se apertaram. — Eu sei exatamente o que
ele quer de mim. Confie em mim. Eu consegui ingressos na
primeira fila para isso.
Ren recuou estremecendo. — Eu sinto muito. Foi
insensível da minha parte jogar isso dessa forma.
— Isso não importa. — Eu acenei dispensando isso. — Eu
não posso ficar aqui. Não quando o maldito Príncipe sabe que
eu ainda estou em New Orleans. Ele tem que estar lá fora
procurando por mim. É apenas uma questão de tempo antes
que ele siga um fae até aqui.
— Então, você está... deixando o único lugar que poderia
protegê-la dele para proteger os faes daqui?
— Sim. — Eu me movi para a cômoda, procurando por
camisetas. — Isso resume tudo muito bem. E não vamos
esquecer, não é como se todo mundo esteja feliz comigo aqui.
Não que eu possa culpá-los por não me quererem aqui. Se eu
for, eles ficarão seguros.
— Isso é absurdo.
— Eu não acho que você realmente acredita nisso.
— Eu serei sincero com você. Eu não dou a mínima para
os faes daqui.
Eu ofeguei quando eu o encarei. — Uau, Ren.
— O quê? — Seu peito subiu com uma respiração pesada
quando ele encontrou os meus olhos arregalados. — É a
verdade. Eu não desejo mal a eles. Exceto para os bastardos
que foram atrás de você, o resto parece ser legal, mas não há
escolha quando se trata entre você e eles.
Isso meio que me fez sentir toda quente e confusa em
meu peito por todas as razões erradas. — Não são apenas os
faes que estão em perigo por minha causa. Tink está. Você
está. — Pânico se espalhou em meu estômago, atingindo o meu
peito. — O Príncipe adoraria nada mais do que matar você.
Você sabe disso.
Um músculo pulsou em sua mandíbula. — Eu adoraria
nada mais do que ficar cara-a-cara com aquele fodido.
O horror se apoderou de mim. O mero pensamento de
Ren indo de igual para igual com o Príncipe me fez querer
gritar até minha voz desaparecer. — Você está falando sério?
Você sabe do que ele é capaz. Não é como lutar com um fae
normal ou mesmo um Ancião. O Príncipe...
— Eu sei do que ele é capaz, — Ren rosnou, seus olhos
brilhando. — Não subestime a força de meu ódio por aquele
filho da puta.
— Eu não estou, mas...
— Eu posso cuidar de mim mesmo. Tink também pode.
Você não estaria nos fazendo nenhum favor indo embora.
Agarrando as camisetas, eu andei até a cama. — Eu não
acho que estou fazendo um favor. Eu estou... — Fechando os
meus olhos com força, eu balancei a minha cabeça e tentei de
novo. — Eu não poderia viver comigo mesma se algo
acontecesse a você ou ao Tink. Você entende isso? Eu não
conseguiria lidar com isso.
— E nós nos sentimos da mesma forma sobre você. Eu
acho que você já sabe disso.
Eu sabia.
Vendo o que eles já tinham feito para me salvar. Ren
viveria com a culpa de me forçar a me alimentar pelo resto da
sua vida. Tink provavelmente não se sentia tão mal sobre isso,
mas tanto faz. Eles já estavam fazendo sacrifícios e escolhas
terríveis por minha causa.
Isso terminaria agora.
Sua voz estava mais próxima, mais uniforme. — Eu
entendo que você não quer colocar estas pessoas em perigo.
Que você queira proteger Tink e eu, mas Doçura, você está
apenas... você está reagindo por causa do que aconteceu a
você. Impulsivamente. Você não está pensando bem sobre isso.
Eu coloquei as minhas camisetas dentro da bolsa. — Eu
estou reagindo porque eu tenho que fazer alguma coisa. Eu não
posso ficar sentada à espera que ele invada este lugar ou que
um dos vinte por cento com quem você não falou possa ou não
querer me matar para proteger as suas famílias. Eu não vou
fazer isso.
Ren colocou uma mão gentilmente em meu ombro, mas
eu ainda saltei com o contato. Desta vez, embora, ele não
afastou a sua mão como ele normalmente faria quando eu
estava nervosa. Em vez disso, ele cuidadosamente me virou
para ele.
Eu inspirei profundamente. — Eu não posso ficar aqui,
Ren. Você sabe que eu não posso fazer isso. Eu não posso ficar
bem em colocar outras vidas em perigo, e eu sei que você não
está ok com isso também.
Parecia que ele estava prestes a discordar dessa última
afirmação. — Nós temos ajuda vindo. Faes que podem
encontrar o Cristal. Amanhã.
— Mas e se não funcionar? — eu perguntei — E se eles
não conseguirem encontrar o Cristal a tempo? E se
conseguirmos esse Cristal, como é que vamos prender o
Príncipe, e colocar o sangue dele e o meu sangue nisso no
Outro Mundo?
Sua mandíbula apertou. — Nós ainda não atravessamos
exatamente essa ponte...
— Este é o ponto. Eu nem mesmo acho que essa ponte foi
construída ainda, portanto, e se nós nunca a atravessarmos?
— Nós iremos, — ele disse, sua voz dura. — Mesmo que
eu mesmo tenha que construir essa fodida ponte com as
minhas próprias malditas mãos.
Eu suspirei. — Nós deveríamos nos concentrar em
encontrar uma forma de enfraquecê-lo. Tem que haver algo lá
fora, alguém que saiba.
Houve uma pausa. — É isso que você quer fazer lá fora?
Descobrir se é possível?
— Tem que ser possível. Ele tem que ter uma fraqueza, e
por mais difícil que seja matá-lo, tem que ser mais fácil do que
completar o ritual de sangue e pedra.
E eu sabia exatamente onde eu iria começar.
A Ordem e a Elite. Se algum dos dois grupos lá fora
tivesse alguma ideia, seriam eles, e já era hora deles
começarem a falar.
Um longo tempo passou. — Ok. — Seus ombros se
ergueram como se ele tivesse chegado a algum tipo de
conclusão. — Para onde nós iremos?
— Eu não pensei exatamente tão à frente, — eu admiti,
deixando de fora a coisa toda de visitar a Ordem. Eu não
poderia ficar em New Orleans por muito tempo. Minha visita a
eles teria que ser rápida e eu tinha uma sensação de que seria
sangrenta. Desta vez eu não estaria despreparada. Oh, inferno,
não. — Mas eu acho que eu tenho que ficar tão longe quanto
possível. Talvez Europa? Eu tenho algum dinheiro guardado.
Eu acho que posso sair antes que ele perceba onde eu estou.
— E então o quê? — Ele perguntou, colocando as minhas
bochechas em suas mãos fortes. Ele me levou até ele, contra o
seu peito. Um braço circulou a minha cintura. — Diga-me qual
é o próximo passo.
Relaxando por causa do seu toque, eu soltei um pequeno
suspiro. A fadiga invadiu os meus ossos e músculos. Eu não
queria deixá-lo. Deus, essa era a última coisa que eu
verdadeiramente queria fazer. — Eu não sei. Manter-me em
movimento até... descobrirmos como mandá-lo de volta para o
seu mundo ou conseguirmos matá-lo, mas eu estarei onde quer
que seja e você – você e Tink estarão seguros.
Tudo em Ren mudou em um instante. Um pequeno
tremor o atravessou e depois o seu corpo todo ficou imóvel. —
Espera. Você está planejando partir sem mim?
Uma leve carranca virou os cantos dos meus lábios para
baixo. — Eu não quero, mas se eu não estiver perto de vocês,
então vocês não estarão em perigo – bem, você estará em
menos perigo. O Príncipe irá para onde eu for. Você apenas
estará em... perigo normal, o que é muito melhor do que o
perigo do Príncipe psicótico.
Ren se afastou, inclinando a minha cabeça para cima
para que os nossos olhares se encontrassem. Seus lábios se
separaram em uma inalação afiada. — Você estava aqui
empacotando as suas coisas para partir sem mim. Era isso o
que você estava fazendo. Entendimento se infiltrou em seus
traços. — Puta merda. Se eu não tivesse entrado neste quarto,
você teria pelo menos parado para dizer adeus? Ou você estava
planejando sair sem dizer uma palavra?
Merda.
Eu não queria responder isso porque ele não entenderia a
minha resposta.
Ren deixou cair a sua mão e deu um passo para trás e
depois outro. — Merda, Ivy.
Oh, isso não era bom. — Eu não sei o que dizer.
— Eu acho que isso já diz tudo, — ele replicou, sua voz
rouca.
— Não – não, isso não diz nada. — Um tipo diferente de
pânico floresceu no centro do meu peito. Nada disso estava
indo como eu tinha planejado. Mas também, eu não tinha
planejado muito. Ren tinha razão sobre toda a coisa de
impulsividade. — Você não entende. Se eu tivesse...
— Você está certa. Eu não entendo, Ivy. Eu não posso
nem mesmo compreender como você poderia sair daqui sem
dizer nada para mim. — Seu olhar flutuou para o meu de um
modo que me fez pensar que ele não tinha certeza de quem ele
estava encarando. — Depois de tudo o que aconteceu, você
faria isso comigo?
Minha coluna ficou rígida. — Eu faria tudo para proteger
você. Assim como você faria qualquer coisa para me proteger,
certo?
— Você fodidamente está brincando comigo agora? — ele
explodiu. — Proteger-me inclui me estressar ainda mais?
Eu cruzei meus braços sobre o meu peito. — Bem, não...
— Ok. Que tal me enlouquecer de preocupação então? —
Ele deu um passo à frente, abaixando o queixo. — Será que
proteger-me também significa me deixar pensar que a pior
coisa aconteceu com você de novo? Que outro fae te pegou ou
pior?
Eu me sacudi. — Eu deixaria uma carta. Eu não iria...
— Uma carta? Você tem que estar brincando comigo. —
Erguendo uma mão, ele passou seus dedos pelos cabelos
bagunçados. — Eu devia saber. — Abaixando sua mão, ele riu
asperamente. — Você já fez isso antes.
— Como assim, eu já fiz isso antes? A última vez que eu
verifiquei, esta é a primeira vez que nos encontramos nesta
situação.
Seus olhos se arregalaram em descrença. — Não é.
Naquela maldita mansão você fez um acordo com aquele filho
da puta para me libertar.
Meus braços caíram para os meus lados. — Isto não é
como aquilo de forma alguma.
— Não é? Você colocou-se em perigo desnecessariamente,
— ele argumentou.
— O que é que eu deveria ter feito? — Eu gritei, lutando
contra as lágrimas. — Ele ia matar você, Ren. Você não
entende isso? O que mais eu deveria ter feito?
— Tudo menos concordar em entregar-se para aquele
monstro para me libertar! — ele gritou de volta, com o corpo
tenso.
O ar se alojou em minha garganta quando eu tropecei
para trás.
— Você acha que eu esqueci disso? — Ele balançou a
cabeça. — O inferno que eu vou te deixar sair daqui para fazer
isso de novo.
— Você vai me impedir? — Eu disparei de volta. —
Trancar-me neste quarto? Acorrentar-me na cama?
Um lado dos seus lábios se curvou em um sorriso sem
humor. — Não me tente, Ivy, porque você está seriamente
necessitando de alguém para fazer melhores escolhas de vida
para você.
Meu coração trovejou em meu peito. A fúria sempre
presente que tinha estado fervendo por dentro muito antes de
eu ter escapado do Príncipe irrompeu como um super vulcão.
— Sério?
— Sério. — Ele cruzou os braços. — Pelo menos assim eu
saberia que não te encontraria em uma pilha sangrenta em
algum lugar, ou que você não estaria andando por aí, sendo
capturada.
Eu surtei. — Então, isso não te torna melhor do que o
Príncipe!
Sangue foi drenado do rosto de Ren. Imediatamente, eu
soube que tinha ido longe demais. Prender alguém em qualquer
lugar não era legal, mas, Jesus, Ren não era nada como o
Príncipe.
O que estava errado comigo?
Algo tinha que estar para eu dizer isso a ele. Algo
horrível. Mas eu não tive a chance de alguma autodescoberta
profunda para desvendar exatamente o quanto a minha cabeça
estava bagunçada.
A expressão de Ren travou. — Tanner disse que os faes
devem estar aqui amanhã, você pode esperar até lá antes de
você fugir e fazer... — Ele afastou o olhar por um momento e
então se concentrou em mim. — O que quer que seja que você
ia fazer?
Eu estremeci. Seu tom estava tão incrivelmente distante –
frio. Eu nunca tinha ouvido ele soar desta forma comigo.
Nunca.
— Você ficará? — Ele perguntou, olhos esmeraldas
ardendo. — Fique até venham os que Tanner pensa que podem
localizar o Cristal? Se isso for um fracasso, então eu não direi
uma palavra. Prometa-me que ficará pelo menos até então. Por
favor.
Parte de mim não queria arriscar outra hora. Quem sabia
quando esses faes farejadores de Cristal mágico iriam
realmente aparecer. Eu não tinha dúvidas de que o Príncipe
descobriria este lugar, mas nós provavelmente tínhamos alguns
dias antes que isso acontecesse. Talvez até uma semana, mas
quando o Príncipe viesse, eu sabia que não haveria nem horas
antes que ele atravessasse.
Ren... Ren tinha dito por favor, e tudo que eu podia
pensar era nele dizendo aquela mesma palavra para mim, me
implorando para que eu aguentasse quando eu fui ferida.
Eu exalei irregularmente, sentando-me na cama. — Bem.
Eu ficarei até eles chegarem aqui, mas se eles não puderem
ajudar...
— Você está fora, — ele rosnou. — Entendi.
Meu olhar se moveu rápido para o dele. — Ren...
— Não, — ele me cortou, e meu estômago azedou. — Eu
não quero ouvir o que quer que esteja prestes a sair da sua
boca.
Eu endureci. Não havia como confundir a fúria gravada
em seu rosto ou em seu tom. Estava contida, mas presente,
como o olho da tempestade no meio de um furacão.
— Eu sei que você passou pelo inferno e você está
tentando lidar com isso. Maldição, eu sei que há uma grande
parte sua que ainda presa naquele inferno, especialmente
depois do ataque e do que nós fizemos para salvar você – o que
aconteceu entre nós depois. Eu sei que há uma grande parte de
você ainda lá, naquela casa. Isso é o que te faz acordar todas as
noites e é por isso que você passa o dia inteiro se escondendo
de mim – de todo mundo. É por isso você não fala comigo.
— Eu... eu falo com você, — eu disse sentindo minha
garganta apertar.
— Besteira, — ele disparou de volta. — Ver você sofrer e
não ter nenhuma pista de como te ajudar me mata – devora-me
todos os malditos dias. Essa dor é pior do que qualquer coisa
que eu passei naquela maldita casa.
— Você não conversou comigo! — Eu lembrei a ele. —
Não é como se você tivesse feito toda a coisa de cuidar e
compartilhar.
— Você não perguntou, Ivy.
O ar se alojou em minha garganta. Oh Deus, ele tinha
razão. Eu não... eu não tinha perguntado.
— Mas você quer saber agora? Bem. Como você já sabe,
eu consegui minha bunda capturada na noite em que você me
disse que era a Halfling. Eu estava preso na minha cabeça e
caminhei direto para uma maldita armadilha que aquele filho
da puta armou. Eu fui nocauteado, e, quando acordei, eu
estava em uma cela escura, algemado a maldita parede. Eu vi o
Príncipe primeiro e foi assim que eu soube o que ele ia fazer.
Depois de se alimentar e bater a merda fora de mim, ele se
transformou em mim. Então, ele deixou-me para Breena.
Meu estômago torceu.
— Aquela puta sabe como usar as unhas e os dentes.
A imagem de seu peito nu veio à tona. Sua pele tinha sido
rasgada e mordida. Eu podia saborear a fúria que senti ao vê-lo
e queria derramar sangue novamente. — Ela...?
— Se ela se forçou a mim? — Seus olhos brilharam. —
Mudaria as coisas se ela tivesse feito?
— Deus. Não. — Tudo dentro de mim estava retorcido. —
Não seria sua culpa. Eu não pensaria diferente de você ou nada
parecido.
Ren ficou quieto por um longo momento. — Ela mexeu
comigo, mas ela estava mais interessada em foder com a minha
cabeça do que com o meu corpo. Estou bastante confiante de
que ela na verdade tem nojo dos humanos e não se rebaixaria a
foder com um. Ela disse algo diferente?
Um pouco de alívio passou sobre mim, mas foi agridoce.
Saber que o que Breena tinha alegado acontecer entre eles era
falso não diminuiu as coisas horríveis que foram feitas a Ren.
— Ela disse, e eu nunca tive certeza se eu acreditava nela. Faye
disse que Breena não tinha, mas Faye mentiria para me
impedir de atacar a Breena. — Memória das provações de
Breena retornaram. — Ela sabia onde sua tatuagem da Ordem
ficava.
Três espirais entrelaçados estavam no mesmo lugar que
as minhas, perto do meu osso do quadril.
— Seu passatempo favorito era me despir e deixar as
minhas bolas congelando.
— Jesus. — Exalando irregularmente, eu sentei-me de
novo na cama. O cansaço retornou, atenuando a raiva até que
ela voltou a ferver.
O silêncio foi quebrado quando Ren disse, — Eu sei que
eu só tenho consciência de um décimo da merda que você
passou lá, e eu queria saber tudo. Cada maldita coisa horrível,
para que eu pudesse estar lá por você, mas eu esperei, porque
eu queria que você estivesse pronta – estar naquele ponto onde
você pudesse falar comigo. Por isso, me choca pra cacete o fato
de que você ia fugir sem mim, sem sequer me dizer. Que você
não me quer ao seu lado, aconteça o que acontecer.
Tudo o que eu estava prestes a dizer virou cinzas em
minha boca. Não era essa a minha intenção. De nenhum modo.
Ele engoliu em seco. — E sabe o que eu acabei de
perceber? Você tem fugido de mim esse tempo todo, não tem?
Nunca houve um “nós”. Há um “você” e então há um “eu” te
perseguindo.
Lágrimas rastejaram no fundo da minha garganta
quando eu me ergui, joelhos trêmulos. — Não foi assim. Ren,
isso...
— Não é? Talvez você queira pensar sobre isso. — Ele se
afastou, abrindo a porta. — A coisa mais fodida, Ivy? Você está
disposta a ficar, mas não por mim – não por nós. E isso não é
porque você está tentando me proteger. Você está me
abandonando. Você está nos abandonando – se é que
realmente houve um nós.
Capítulo 12

Eu pensei muito naquela noite.


Foi tudo o que eu fiz.
E, pela primeira vez, eu não passei a noite pensando
sobre o que tinha acontecido ou o que poderia ter acontecido
enquanto o Príncipe me manteve presa. Eu não estava nem
mesmo pensando sobre ser esfaqueada. Em vez disso, eu fiquei
ali deitada, com os meus pensamentos consumidos pelo o que
Ren tinha dito enquanto eu encarava o teto branco.
Ren tinha saído e não tinha voltado para o nosso quarto,
e eu não dormi, nem coloquei todas as minhas roupas de volta
na cômoda. Em vez disso, eu criei o meu próprio kit de
sobrevivência, guardando o equivalente a dois dias de roupas
na bolsa e colocando de volta no armário apenas no caso de
nós ficarmos sem tempo.
Depois eu esperei.
Parte de mim esperava que Ren retornasse, mas a outra
metade sabia que o que eu tinha planejado o cortou
profundamente e poucas horas não costurariam o buraco que
eu tinha aberto nele novamente. Eu não pretendia que tudo
acabasse daquela forma. Eu apenas não estava...
Deus, eu apenas não estava pensando direito.
Agora que eu estava aqui, totalmente sozinha, com nada
além da minha própria estúpida cabeça para me fazer
companhia, eu percebi que a coisa toda de sair com nenhuma
ideia para onde ir era incrivelmente estúpida e cruel. Tão
malditamente cruel, não apenas com Ren, mas também com
Tink.
Ren estava certo sobre o que a minha partida teria feito a
eles. Teria sido terrível, e embora eu tivesse a melhor das
intenções, com toda a honestidade, elas foram intenções de
pânico.
Eu cedi ao pânico, e a ideia de fugir era, pelo menos, para
fazer algo mais do que ficar sentada e girar os polegares.
Ou ser esfaqueada.
Você esteve fugindo de mim esse tempo todo.
Levou várias horas para eu trabalhar através da negação
dessa afirmação. Eu tinha fugido dele o tempo todo? Eu não
queria acreditar nisso, porque era tão horrível.
Deus, foi uma merda admitir isso para mim mesma, mas
era verdade. Mesmo no começo eu tinha feito tudo
excepcionalmente difícil para Ren. Não foi porque eu quisesse
ser um desafio. Quando eu conheci Ren, ele foi o primeiro cara
que eu estive interessada depois da morte de Shaun. Eu tinha
estado tão fechada, era tão estranho estar interessada em um
cara. As coisas tinham sido mais fáceis entre nós quando eu
finalmente me abri para ele – quando eu finalmente me permiti
me apaixonar por Ren.
Mas então eu descobri que eu era a Halfling.
Foi quando eu comecei a mentir para ele – quando eu
comecei a fugir. Talvez não fisicamente, mas definitivamente
mentalmente. Eu não tinha dito a ele sobre ver o Príncipe do
lado de fora do Cafe Du Monde. Eu escondi a verdade do que
eu era até eu praticamente deixar escapar para ele na maldita
rua. Ren tinha sido treinado desde o nascimento e ele era um
membro da Elite. Ele sabia cuidar de si mesmo, mas eu o
peguei de surpresa, trazendo seu maior medo à vida. Não
apenas isso, mas eu constantemente o excluía das decisões.
Não era como se eu tivesse de o incluir em tudo. Deus sabe que
Ren nunca esperou isso de mim ou de alguém, mas quando
você está com alguém, quando você os ama, você os incluiu.
Vocês são um maldito time.
Você não esconde as coisas deles. Você certamente no
inferno não mente, e você não os compara com um monstro.
Eu estraguei tudo mais de uma vez, e muito antes de o
Príncipe ter cravado as suas garras em mim.
Agora o abismo entre nós parecia verdadeiramente
insuperável.
Não é de admirar que Ren se sentisse da forma que se
sentia. Nós nunca realmente tivemos a chance de ter
normalidade em nosso relacionamento. Sair em encontros e
passar finais de semanas preguiçosos em casa, explorando um
ao outro e, inevitavelmente, irritar um ao outro. Nós não
tivemos a chance de ter brigas normais, sobre o que comer ou
se nós queríamos mais no futuro. Nós não tivemos a chance de
construir qualquer confiança entre nós, e foi por isso que eu
fiquei impressionada com a aceitação e paciência que ele tinha
tido até poucas horas atrás. Nós ainda éramos... novos no
“nós”, e nunca tivemos a chance para decolar completamente e
nos tornarmos qualquer coisa.
Tudo tinha sido rochoso no começo, irregular no meio, e
agora... possivelmente no fim... era uma catástrofe esperando
para acontecer.
Nós estávamos quebrados.
Não foi tudo por minha causa. Ren participou daquela
compulsão e permitir que eu me alimentasse dele não foi um
crime pequeno. Eu entendia o porquê ele fez isso. Eu até
mesmo entendia isso, mesmo assim aconteceu e ainda estava
entre nós. Mas, além disso? Eu era mulher o bastante para
saber que foi por minha causa.
E eu não tinha ideia se isto era reparável ou se Ren
queria reparar os danos, mas eu sabia que isso não importaria
se Ren terminasse morto ou se o Príncipe tivesse algum
sucesso quando se tratava de conseguir um bebê saudável.
Nosso relacionamento era a última das nossas preocupações.
Não que não parecesse que meu peito estivesse sendo rasgado
e meu coração arrancado de mim. Parecia. Doía tanto quanto
ser esfaqueada nas costas.
Eu precisava me concentrar, embora. Eu precisava
resolver a minha vida antes que eu pudesse até mesmo pensar
em colocar a minha casa em ordem.
O Príncipe ia me encontrar. Eventualmente. Porque,
naquele momento, eu era um alvo mais fácil para ele do que
encontrar outra halfling em algum lugar no mundo,
especialmente desde que a Elite tinha como dever principal
assassinar quaisquer uma que cruzasse o seu caminho.
Para que a coisa toda do bebê do Armagedon pudesse
funcionar, a criação do bebê entre o Príncipe e eu tinha que ser
consensual. Ele tinha que saber que isso nunca iria acontecer,
então o que o Príncipe poderia esperar conseguir? A única
razão que ele me fez concordar em ficar com ele, em estar com
ele, foi para libertar Ren.
Ele tinha uma garantia.
E Drake ainda tinha.
Foi nas primeiras horas da manhã que me ocorreu que
eu tinha estado errada sobre o Príncipe matando Ren à vista, e
foi essa percepção que me fez andar pela sala até o sol começar
a nascer.
O Príncipe não mataria Ren. Oh não, ele o usaria contra
mim, como ele já tinha feito antes. O Príncipe faria o mesmo
com Tink, se ele descobrisse a sua presença. Ele ainda tinha os
meios para me controlar. Tudo o que ele precisava era colocar
as suas mãos em um deles.
Parando na janela, eu levantei o meu olhar para as
estrelas desaparecendo.
Eu estava de volta à estaca zero.
Mesmo se eu saísse daqui, o Príncipe ainda iria atrás de
Ren, porque ele sabia que isso me atrairia de volta dos confins
da Terra. Ele faria o que ele fez antes, usaria Ren, e embora eu
soubesse o que estava em jogo, eu amava Ren. Eu não podia
ser a razão pela qual ele seria ferido. Não de novo. Nunca mais
depois de Shaun. Essa era a minha fraqueza.
Não Ren, mas o meu passado.
Tremendo, eu vi que havia somente três opções para
mim, e quando a última das estrelas desapareceu, eu sabia que
fugir não era uma delas.
Encontrar o Cristal e completar o ritual.
Descobrir como enfraquecer o Príncipe e matá-lo.
Ou seguir o caminho que impediu Tink de me dizer desde
o primeiro dia que eu era a Halfling. O mesmo caminho que
Ren e Tink tinham me tirado poucos dias atrás, que era o de
me retirar permanentemente da equação.

***

Eu parecia como merda quando eu encarei o espelho,


tendo tido apenas poucas horas de sono e ainda sem sinal de
Ren. O brilho saudável de ter sugado a essência dele perdeu-se
nas sombras escuras sob os meus olhos e, bem, a pele
levemente cintilante, que na realidade não era um brilho. Tink
tinha se enganado sobre isso. Eu também tinha.
Era um brilho prateado muito fraco que só tinha um
aspecto cintilante. Eu sabia disso porque estava em frente ao
longo espelho preso atrás da porta do banheiro, pelada durante
algum um tempo.
Antes de a minha pele começar a parecer que eu tinha
9
me coberto com uma sombra para os olhos da Urban Decay ,
olhar para mim completamente nua não era algo que eu fazia
frequentemente. Eu quero dizer, eu realmente não precisava
verificar as muitas cicatrizes e estrias, mas aqui estava eu.
Por quê? Porque eu tinha um novo lema de vida. Era
simples.
Me recompor.
Desde que me matar não era exatamente a minha melhor
opção e eu não podia ajudar a encontrar o Cristal, a única
coisa que me restava era descobrir uma forma de enfraquecer o
Príncipe.
Eu estava me forçando a aceitar que o meu corpo tinha
mudado. Era definitivamente um novo tom de pele, as minhas
feições estavam mais afiadas, mais definidas, e minhas orelhas
estavam pontudas, e, sim, meus olhos estavam... bem, eles
estavam meio legais. Eu quero dizer, o contraste entre as íris e
as pupilas estava meio impressionante. As pessoas
provavelmente pensariam que eles eram falsos. Eu podia lidar
com isso. Meu corpo tinha mudado, mas ainda continuava a
ser o meu.
Meu olhar caiu para baixo do meu umbigo.
Eu realmente precisava encontrar uma lâmina de
barbear. Ou uma cera.
Mas eu podia lidar com isso, porque eu tinha que lidar
com isso. Minha aparência podia ter mudado um pouco. Eu
posso ter levado uma surra alguns dias atrás. Eu posso ter
perdido um pouco de mim mesma quando Drake me manteve
prisioneira. Eu posso ter perdido um pouco de mim mesma ao
longo do caminho, mas eu ainda era Ivy.
Eu virei para o lado e suspirei.
E minha bunda ainda não era a coisa mais atraente do
mundo nua. Você teria pensado que a gene extra de fae me
daria um traseiro em forma de coração ou alguma coisa. Isso
eu não teria me queixado.
Tanto faz.
Girando para o outro lado, e passei as minhas mãos
sobre os meus lados e costas, meus dedos patinando sobre o
cume áspero de uma nova cicatriz.
Eu engoli em seco, encarando o espelho mais uma vez.
Eu mantive os meus olhos abertos enquanto eu alisava as
minhas mãos sobre a minha cintura e depois para cima, sobre
os meus seios. Minhas mãos permaneceram lá, segurando-os
em concha.
Tudo isso era... era meu.
Meu corpo não pertencia ao Príncipe. Ou ao Ren. Meu
corpo certo como o inferno não pertencia a alguma profecia
maldita. Era meu – pele prateada, orelhas pontudas, e todas as
cicatrizes eram minhas.
Percebendo que eu estava basicamente acariciando os
meus próprios seios, eu rolei os meus olhos e abaixei as
minhas mãos. Eu rapidamente me vesti, deixando o meu
cabelo puxado para cima porque eu não me importava com as
minhas orelhas. De jeito nenhum.
Agora eu ia procurar o Tink, que não foi tão difícil. Eu
apenas tive que procurar pela maior e mais barulhenta mesa
no refeitório.
Ele estava praticamente fazendo festa. Tudo o que podia
ver eram os seus cabelos chocantemente brancos no centro de
doze ou mais cabeças mais claras.
Ignorando a forma como meu ácido estomacal decidiu
ficar borbulhante por causa do cheiro de carne cozida, eu
entrei na cafeteria. Eu também precisava investir em alguns
10
Tums porque não ser capaz de comer era estúpido. Foi uma
das razões pelas quais eu tive a minha bunda chutada.
Cabeças se ergueram e seguiram o meu progresso.
Conversas pararam. Sussurros começaram.
Meus ombros começaram a se curvar para dentro sob o
peso dos seus olhares, mas eu mantive-me firme. A velha Ivy
não curvaria o seu queixo. ela não se importaria.
Então, a nova Ivy não se importaria.
Fixando o tipo de sorriso de escarnio em meu rosto que
sempre deixava Daniel puto, eu levantei o meu queixo e
aproximei-me da mesa de Tink. Só quando eu estava lá que eu
percebi duas coisas.
Tink não estava com o Dixon.
Eeee Ren estava na mesa.
Como no mundo eu não o tinha visto até então, mostrou
que eu também precisava realmente trabalhar as minhas
habilidades de observação, mas lá estava ele, sua cabeça
avermelhada estava inclinada sobre o prato de omelete de
claras de ovos e o que provavelmente era bacon de peru e
torradas de trigo integral. Porque Ren era saudável dessa
forma.
Vê-lo me atirou em um loop completo. Ele não voltou
para o quarto quando eu estive lá, mas ele tomou banho. Seu
cabelo ainda estava úmido e ele tinha se trocado. Ele estava
usando uma camiseta térmica preta, puxada até os cotovelos.
Eu não tinha ideia de onde ele tinha tomado banho desde que
ele não retornou para o quarto.
Uma centena de palavras subiram até a ponta da minha
língua. Eu queria pedir desculpas. Eu queria dizer-lhe que ele
estava certo. Queria pedir-lhe que me ajudasse a consertar as
coisas.
Mas eu não disse nada disso, porque aquelas eram coisas
que nenhum de nós precisava de uma audiência. Certamente
não eu, porque eu provavelmente cairia em lágrimas feias e
horrorosas.
Eu tinha a sensação de que ele sabia que eu estava lá
sem erguer o olhar. Talvez fosse a forma como as conversas na
mesa acalmaram, ou fosse seu sexto sentido estranho
chutando, mas seus ombros ficaram tensos e ele parou de
mastigar.
Tink, por outro lado, não tinha ideia que eu estava lá...
ou viva, porque parecia como se ele estivesse fodendo com os
olhos um fae macho na frente dele. Um nível impressionante de
foder com os olhos que eu podia tomar uma lição. Mas quando
eu vi os lábios de Tink se separarem e ele pareceu como se ele
estivesse a segundos de lamber seu lábio inferior, eu intervi.
Eu limpei minha garganta. — Tink.
— Ivy! — Tink virou-se para mim. Três pratos estavam
vazios à sua frente, o fae à sua frente esquecido. — Você está
aqui para comer conosco?
— Hum, não. Eu já comi. — Eu consegui engolir uma
banana descendo as escadas, então isso não era uma mentira.
Virando uma nova página e tudo mais. — Eu preciso falar com
você.
Ele suspirou pesadamente. — Olha, o fogo da noite
passada foi pequeno. Eu apaguei antes que se espalhasse, e eu
já pedi desculpas por isso. O quarto precisava de reforma de
qualquer maneira.
Eu forcei tirar os meus olhos de Ren. Ele ainda não tinha
reconhecido que eu estava aqui. — Não, não é... espera, houve
um incêndio a noite passada?
— Oh. — Tink recostou-se, cruzando os braços. —
Esqueça sobre isso. Sobre o que você quer falar?
Eu abri a minha boca e então decidi não questionar a
coisa toda do fogo, porque eu provavelmente não queria saber.
— Eu queria falar com você. — Eu espiei Ren.
Ele parou de comer, abaixou o garfo, mãos em cima da
mesa. — Em particular, Tink.
11
— Oh, coisas de Secret Squirrel . — Tink começou a
levantar. — Eu estou aqui para isso.
Ren olhou para cima naquele momento, seu olhar
agarrando o meu. — Oi.
Aquela única palavra simples, sem emoção. Vazia. — Oi,
— eu consegui coaxar.
Ele encarou-me por um momento, e eu trabalhei a
coragem para pedir-lhe para se juntar a nós. Mas então a sua
mandíbula apertou. Pegando o seu prato, ele se levantou e se
afastou da mesa. — Vejo vocês mais tarde.
— Espere... — Eu parei, porque não adiantou. Ren já
estava a meio caminho de cruzar a cafeteria. Vê-lo partir fez-me
sentir como se o meu peito estivesse aberto.
— Que diabos? — Tink perguntou.
Eu me virei para ele, piscando de volta a súbita onda de
lágrimas quentes e estúpidas. Eu amaldiçoei-me. Eu não tinha
planejado excluir Ren desta conversa. Eu apenas não tinha
esperado vê-lo, por isso eu perdi momentos preciosos ali
parada como uma idiota.
Operação “Me Recompor” teve um começo maravilhoso.
Eu respirei fundo. — Nós podemos sair para o corredor?
— Sim. — Uma careta estragou as feições de Tink. —
Certo.
Eu demorei alguns segundos para me recompor. Eu
precisava focar e não estar à beira do choro.
— O que aconteceu com você e Ren? — ele perguntou
quando nós estávamos no corredor. — Você é a razão pela qual
ele quase arrancou a minha cabeça esta manhã, quando eu
disse que ele parecia como merda? Porque o garoto parecia que
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tinha sido montado com força e posto de lado molhado .
Eu parei cruzando meus braços. — Eu nem mesmo quero
saber o que isso significa.
— Bem, isso significa ser fo...
— Tink, — eu estalei. — Eu não pedi para você vir aqui
para falar sobre o Ren.
— Mas eu quero falar sobre ele. Vocês mal falaram um
com o outro lá dentro. Isso é estranho.
Eu respirei fundo. — Eu sei. Nós tivemos uma briga na
noite passada, mas correr tudo bem. Vai ficar tudo bem.
— O quê? — Preocupação brilhou através do seu rosto. —
Como uma grande briga. Ou uma pequena? Meu Deus, vocês
dois terminaram? Com quem eu vou morar?
— Com quem você vai morar? — Eu fiquei boquiaberta
com ele. — Você não tem doze anos e você não é nosso filho.
— Mas eu preciso ser cuidado. Amado. Eu preciso ter
acesso a Amazon Prime.
— Então consiga um emprego, Tink. Você parece humano
o suficiente para fazer isso.
— Um emprego? — Absoluto horror encheu o seu rosto.
— A perda de sangue deve ter feito algo com o seu cérebro
porque você está fora da sua mente.
— Ok. Esta conversa desviou-se para um território sem
sentido. Está tudo bem. Continuando. — Eu lutei para
permanecer com paciência. — Olha, eu tenho algumas
perguntas que eu quero te fazer sobre o Príncipe.
Um fae andando perto de nós parou e ofegou. Sua pele
prateada se tornou um tom mais pálido de cinza.
Agarrando o braço de Tink, eu o puxei para a sala
próxima. Era pequena, com apenas uma mesa redonda e duas
cadeiras. — Sente-se.
Tink caminhou para a mais afastada da porta e se
sentou, esticando as suas pernas compridas. — Estar aqui com
você parece malicioso.
Eu balancei a minha cabeça quando eu fechei a porta
atrás de mim. — Há algo errado com você.
Ele sorriu. — Eu podia dizer a mesma coisa sobre você.
— Touché, — eu murmurei, sentando-me em frente a ele.
— Mas vamos analisar-nos mais tarde. Você uma vez me disse
que matar o Príncipe era impossível, mas nada é impossível.
Tink jogou um braço sobre o encosto da cadeira. — Bem,
sim tecnicamente não é impossível.
— Certo. — Eu descansei os meus braços na mesa. —
Nós sabemos que a estaca de espinhos enfraquecerá um
Ancião...
— Então você pode cortar a sua cabeça, — ele terminou
por mim. — Você pode fazer o mesmo com o Príncipe, mas
como você sabe de primeira mão, nem mesmo cortá-lo com
uma estaca é fácil.
— Não, não é. — O Príncipe havia chutado a minha
bunda cada vez que nós lutamos, e na última vez eu tinha uma
estaca de espinhos. — Portanto, a única maneira de matar o
Príncipe é enfraquecê-lo o suficiente para lutar com ele.
Tink assentiu lentamente.
— Ok, então tem que haver algo lá fora que o enfraqueça,
certo? Isso vai tornar mais fácil matá-lo”
— Sim. Uma estaca de espinhos. — Ele apertou os olhos.
— Mas você já sabe disso.
Eu bati a ponta dos dedos na mesa. — Tem que haver
algo mais que não exija ir de igual para igual com ele. Eu
preciso que você pense sobre isso, Tink.
Sua cabeça inclinou-se. — Eu tenho pensado sobre isso.
— Pense mais, — eu insisti. — Eu preciso que você
realmente pense sobre isso. Talvez haja algo pequeno. Talvez
não. Você esteve no Outro Mundo enquanto o Príncipe estava
lá. Talvez você tenha visto algo – ouviu alguma coisa.
Seu nariz se enrugou. — A única coisa que eu vi foi ele se
alimentando e transando. Um monte. Eu ouvi muitos gemidos
e gritos. Não gritos cheios de dor. Você sabe, o Príncipe sempre
foi um idiota, mas não um idiota tão grande quanto ele é agora.
Oh! Talvez sexo seja uma fraqueza dele.
Minhas sobrancelhas se ergueram.
Ele levantou um ombro. — Provavelmente não. Eu quero
dizer, por mais que ele estivesse fazendo isso, eu duvido que
isso o enfraquecesse. Provavelmente dá a ele força. Como cada
vez que ele goza, ele se ganha um bônus extra como Mario...
— Tudo bem, vamos nos mover da coisa toda do sexo. —
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Eu precisaria de um Brillo Pad para o meu cérebro mais
tarde.
Ele bateu um pé enorme sobre a mesa. — Por que é que
você está sequer perguntando sobre isso? Eu pensei que
estavam chegando alguns faes que poderiam ajudar a localizar
o Cristal?
— Eles estão, mas eu estou tentando planejar mais a
frente, caso eles não encontrem o Cristal, — eu expliquei. —
Além disso, nós vamos ter que conseguir algum sangue dele.
Nada disso será fácil quando lutar com ele em combate é quase
impossível.
Antes que Tink pudesse responder, a porta abriu sem
aviso, revelando Faye. — Nossos visitantes estão aqui.

Capítulo 13

Tink e eu seguimos Faye corredor abaixo, em direção ao


escritório de Tanner, que eu achava ser agora o local oficial da
reunião. Eu não tinha ideia onde estava Ren, se ele já estava lá
na sala, ou se estava vindo. Eu não gostei de como nós
estávamos separados, mas lidaria com esse problema mais
tarde.
Minha mão roçou a adaga em meu quadril quando Faye
parou em frente ao escritório de Tanner. Seu olhar seguiu a
minha mão. — Nosso convidado não quer te fazer mal.
Observando como convidados foi do plural para o
singular, eu encarei a porta. — Eu é que vou julgar isso.
— Não pode culpá-la por isso, — Tink entrou na conversa
cruzando os seus longos braços sobre seu peito.
Os cílios dela se abaixaram. — Não. Eu não posso. —
Houve uma pequena pausa. — Como você está se sentindo,
Ivy?
— Bem.
O olhar em seu rosto dizia que ela não acreditava em
mim, mas ela não insistiu. Virando, ela abriu a porta, e não
tendo ideia do que esperar, eu lentamente a segui.
— Santo gostoso dos gostosos, — Tink murmurou,
parando atrás de mim.
Eu sabia imediatamente o que tinha provocado a sua
reação.
Sentado em uma das cadeiras das laterais havia um
estranho que parecia como um... bem, um viking. Não do tipo
historicamente preciso, mas como um que enfeita as capas de
romances que eu leio. Ele era alto e largo, suas coxas amplas
como um tronco de árvore. Seu cabelo era uma gloriosa juba
loira, alcançando o comprimento que ultrapassava os ombros,
muito além da camiseta branca lisa que ele usava.
O estranho era incrivelmente bonito e ele definitivamente
não era um fae comum. O fae tinha o ar de um Ancião, um dos
mais perigosos faes. Até recentemente, nós acreditávamos que
não haviam restado Anciões em nosso mundo.
Nós estávamos errados.
Eu tinha uma sensação de que a Ordem tinha mentido
para nós.
Mas havia algo desconfortavelmente familiar sobre as
feições deste fae – sobre o ângulo das maçãs do rosto e a boca
expressiva. A testa era também. Algo sobre seu rosto e a sua
forma me lembrava...
Um calafrio percorreu a minha espinha.
Ele parecia Drake – uma versão mais quente do Príncipe
do Inverno. Eu olhei para a Faye, mas ela parecia
imperturbável enquanto ela tomava um assento no sofá perto
da janela. Ela tinha que ter visto as semelhanças. Um aviso de
que o estranho poderia se passar pelo primo de Drake teria
sido legal.
O ar se agitou ao redor do meu braço esquerdo. Minha
cabeça virou para o lado. Ren estava lá, tão quieto quanto um
maldito fantasma. Nossos olhares se encontraram, e meu
coração gaguejou. Quebrando o contato, ele se concentrou no
estranho. A única emoção que ele mostrava era o aperto em
sua mandíbula.
Será que ele viu o que eu vi?
— Quem é essa? — O estranho exigiu encarando-me
como se eu fosse um inseto sob um microscópio.
Tanner levantou-se por trás da escrivaninha, mas antes
que ele pudesse me apresentar, Tink deu um passo à frente,
vindo ficar ao meu lado. — Ela é a Buffy com o cabelo ruim.
Lentamente, eu virei-me e olhei para ele. — Buffy com o
cabelo ruim?
Ele assentiu ansiosamente, encarando o estranho. —
Sim, como se fosse uma combinação de Buffy e Beyonce, as
duas maiores mulheres de todos os tempos. Você é como a
Buffy. Fodona. Mas você não é Becky com o cabelo bom. Você
tem cabelo ruim. Nós todos sabemos disso.
Eu o encarei. — Meu cabelo não é ruim.
— Oh, é ruim. — Os olhos de Tink brilharam. — Você
definitivamente não é uma Becky.
— Eu acho que é um elogio não ser Becky, — Ren entrou
na conversa, e quando eu olhei para ele, diversão dançava em
seus olhos. — Mas tenho certeza que ser uma Becky não é
apenas uma questão de cabelo.
Eu odiava todos eles. Sério.
O estranho ergueu o seu queixo e então se levantou, suas
narinas infladas. — Você é aquela que pertence ao Príncipe do
Inverno.
Espera.
O quê?
Ren ficou tenso.
Ele realmente disse isso?
Ouvir isso se classificava lá em cima, como você ouvir
que tinha problemas de pressão na cabine enquanto estava em
um avião, a uns trinta mil pés de altura.
— Eu não pertenço a ele.
Uma sobrancelha loira se ergueu. — Você é a Halfling.
— E você é o fae a cinco segundos de levar um murro na
garganta.
Ele riu um som baixo, suave e quase sensual. — É assim
que você cumprimenta alguém que está aqui para ajudá-la?
— Você exigiu saber quem eu sou e depois me diz que eu
pertenço ao Drake...
O fae sibilou – exibindo os dentes afiados e realmente
sibilou. Minhas sobrancelhas se ergueram enquanto os seus
lábios se curvaram de desgosto. — Não fale o nome dele.
— Por quê? Ele não é o Voldemort.
— Voldemort? — Confusão encheu a sua expressão.
Eu o encarei por um momento e então balancei minha
cabeça. — Deixa para lá. Quem é você?
O fae inclinou a cabeça. — Eu sou Fabian. — O ar ao
redor dele brilhava como se centenas de vagalumes estivessem
voando. — Príncipe Fabian da Corte de Verão.
Minha boca se abriu. Príncipe Fabian? Faye e Tanner
certamente não mencionaram que um de nossos convidados
era um Príncipe.
Um Príncipe.
Um Príncipe que poderia engravidar uma halfling.
Eu inspirei de forma irregular.
Ren percebeu ao mesmo tempo que eu, porque ele estava
repentinamente ao meu lado.
— Relaxe, — Fabian disse. — Eu não tenho nenhum
interesse em engravidar você.
Eu pisquei.
Bem então, essa era uma forma direta de colocar isso.
— Fico feliz por ouvir isso. — O sorriso de Tink me
lembrou quando era o dia do Amazon Prime.
Tanner limpou a sua garganta. — Eu sinto muito. Eu sei
que isso deve ser um choque, que nosso convidado é um
Príncipe.
— Pode ter certeza de que é a porra de um choque, —
Ren grunhiu. — Você nunca mencionou que nós estávamos
esperando outro maldito Príncipe.
— Ou que nossos convidados eram realmente apenas um
convidado, — eu adicionei.
— Eu não viajei sozinho, — Fabian explicou, sentando-se.
— Meus cônsules não são necessários nesta reunião. Eles
estão descansando.
— Cônsules. Que chique, — eu murmurei.
O príncipe do Verão inclinou a sua cabeça.
Faye se deslocou no raio de luz do sol entrando pela
janela. — Nós não sabíamos se Fabian viria. Nós assumimos
que ele enviaria...
— Seus cônsules. Entendi, — eu cortei. — Eu não sabia
que havia ainda um Príncipe da Corte de Verão, vivo e com boa
saúde.
— Até recentemente, você não sabia que a Corte de Verão
ainda existia, — Tanner gentilmente me lembrou, seu tom leve.
Ele estava certo. Nós tínhamos acreditado que as cortes dos
faes tinham sido desmanteladas. Obviamente, nós estávamos
errados ou mentiram para nós. — Nossa Corte foi quase
destruída na guerra com a do Inverno. A segurança e a
localização da realeza remanescente não era algo que nós
tomamos de ânimo leve. Perdoe-nos por não te contar sobre
isso, mas nosso Príncipe não tem interesse em cumprir a
profecia.
— Mesmo que eu tivesse, você não é meu tipo. — Fabian
inclinou-se para trás, cruzando uma perna sobre a outra. — Ao
contrário do Príncipe do Inverno, a minha obrigação com o
nosso mundo não compensa rebaixar-me para procriar com
uma halfling.
Uau.
Eu fiquei aliviada em ouvir isso, mas eu também meio
que fiquei ofendida. Ele fez isso soar como se eu fosse um
organismo unicelular fedido.
— É bom saber. — Ren inclinou-se contra a parede,
parecendo relaxado, mas eu sabia que não. Ele estava bem
tenso. — Perdoe-nos por não estender o tapete vermelho. Nós
não temos exatamente a melhor impressão dos Príncipes do
Outro Mundo, especialmente porque você parece com o
Príncipe do Inverno.
Lá. Graças a Deus, eu não era a única vendo isso.
Fabian fez uma careta. — Eu não me pareço nada com
aquele bastardo.
— Bem, — eu disse. — Sim, você meio que parece. Ele
não parece Faye?
Ela assentiu. — Eu vejo uma semelhança.
— Eu vi o Príncipe do Inverno. — Tink fez uma careta. —
Ele não se parece com ele.
Eu balancei a minha cabeça. — A cor do cabelo é
diferente. Algo no rosto também é, mas sim... ele parece.
— Eu não sei, — Tink meditou, suas sobrancelhas
unidas.
O olhar do Príncipe do Verão pousou em Tink, o olhar
apreciativo. — Um brownie. Eu não vejo um da sua espécie há
mais de cem anos.
Tink sorriu amplamente. — E você nunca viu um brownie
como eu.
Eu revirei os meus olhos. — Você terá tempo de sobra
para afagar o ego de Tink mais tarde...
— E esperançosamente outras partes, — Fabian replicou
suavemente.
Oh Deus.
Ren se engasgou com o que parecia uma gargalhada.
— Sim, certo. Hum, ok. Então você é um Príncipe.
Quantos da corte real estão aqui, em nosso mundo, e todos
eles se sentem da mesma forma que você?
— Como não ter interesse em nunca te ver nua o
suficiente para ter relações sexuais? — ele perguntou.
Meus olhos se arregalaram. Jesus. — Sim. Isso. Obrigada
por dizer isso com tanta gentileza.
— Aqueles da corte que ainda estão vivos, e há poucos,
não tem desejo de cumprir a profecia. Tal como Tanner
afirmou. Nós viemos para cá para escapar do reinado do
Inverno, para viver as nossas vidas. Nós entendemos o que a
presença dele fará a esse mundo. Ele vai destruí-lo, tal como
ele e a sua Rainha fizeram com nosso mundo.
— Rainha? — Ren perguntou.
— Mab? — Eu virei-me para Tink, lembrando como ele
sempre dizia o nome dela.
Os olhos de Tink se arregalaram. — Mab não escolhe
lados. Ela não é Inverno nem Verão. Ela não é tão mesquinha
quanto Titania ou Morgana.
— Espera. Eu pensei que eram todas a mesma pessoa,
apenas com nomes diferentes? — Ren disse.
Eu pensava o mesmo, porque isso foi o que a Ordem nos
ensinou. Além disso, eu tinha a certeza de que Morgana era
completamente ficcional, uma parte dos contos do Rei Arthur.
Fabian riu sarcasticamente. — Se você acredita nisso,
então quem somos nós para corrigi-lo?
Deus, ele era tão prestativo.
— Seus nomes foram intercambiados através dos anos,
substituídos um pelo outro em vários mitos. — Tanner sentou-
se, descansando um braço na mesa. — Mas essas são mitos. A
verdade é que elas não são a mesma. Nossa política nunca foi
representada com precisão nas lendas que os mortais teceram.
Ren deu uma pequena sacudida de cabeça. — Você acha
que a Rainha está aqui também?
— Nós não sabemos se alguma Rainha veio para este
mundo, — Faye respondeu. — Vamos torcer para que
nenhuma tenha vindo. Isso é uma complicação que nenhum de
nós precisa.
Minha cabeça estava girando. — Mas e se uma delas
estiver?
— A Rainha Morgana ficou do lado da corte de Inverno
durante a guerra. Ela se tornou a Rainha deles. — Os lábios de
Fabian se curvaram em desgosto. — Se ela atravessou para
esse mundo, eu pessoalmente arrancarei a espinha das costas
dela.
Eu ergui as minhas sobrancelhas.
— Ela matou o meu irmão durante a Grande Guerra e
nos recusou a honra de enterrar o seu corpo. — Os olhos do
Príncipe queimavam com uma luz profana vindo de dentro. —
Ela está, como é vocês humanos dizem? Na pior?
— Parece certo. — Ren descruzou os seus braços. — Nós
temos qualquer evidência de que ela ou qualquer das Rainhas
estão envolvidas nisto?
— Não, — Faye respondeu. — Eu estive com o Príncipe.
Eu não vi Morgana ou quaisquer das outras Rainhas.
— Você sequer saberia como Morgana se parece? —
Fabian torceu-se em sua cadeira. — Ela é a rainha de muitos
rostos e aperfeiçoou a arte da traição. Seria preciso um da
realeza para reconhecer aquela cadela. — Ele pausou. — Ou,
coincidentemente, um brownie. Suas habilidades para verem
através do mais forte glamour é uma das razões pelas quais a
Corte do Inverno os perseguiu.
Em sua forma humana, um brilho de embotamento se
apossou da pele escura de Faye e ela olhou para baixo.
— Como nós a mataríamos se ela estivesse aqui? — Eu
perguntei.
— Da mesma forma que você mataria qualquer um de
nós, — o Príncipe do Verão respondeu. — Decapitação.
A linha de perguntas me trouxe de volta para minha
conversa mais cedo com Tink. — Mas ela obviamente precisaria
ser enfraquecida. O mesmo com Drake. — Eu ignorei a forma
como os lábios dele afinaram. — Como é que nós
enfraqueceríamos um de vocês o bastante para irmos de igual
para igual?
A sala ficou em silêncio enquanto Fabian me encarava de
onde ele estava sentado. — E por que você iria querer saber
como enfraquecer um da realeza?
Eu encontrei seu olhar ardente. — Para matar o Drake.
Dãh.
— Eu pensei que você precisava de ajuda para encontrar
o Cristal? — Fabian inclinou-se para frente, colocando ambos
os pés no chão. Foi então que eu percebi que ele não usava
sapatos. Estranho. — Não como matar o Príncipe do Inverno.
— Nós precisamos mesmo de ajuda para encontrar o
Cristal. — O olhar de Tanner saltou entre nós. — Ivy foi
capturada pelo Príncipe, a certa altura. Ela está
compreensivelmente um pouco... sanguinária quando se trata
dele.
— Ela não é a única, — Ren atirou.
— Eu não estou um pouco sanguinária, — eu esclareci.
— Eu estou muito sanguinária.
— Você acha que eu diria a você como enfraquecer o
Príncipe do Inverno? O que significaria que você saberia como
me enfraquecer? — Fabian riu. — Você é uma tola.
Aço escorreu em minha espinha quando eu dei um passo
à frente. — Você quer que nós confiemos em você cegamente e
ainda assim você não fará o mesmo? Nós não temos razão para
usar esse conhecimento contra você. Eu apenas quero matar o
Príncipe, porque eu serei amaldiçoada se eu perder semanas ou
meses ou o resto da minha vida olhando sobre meu ombro por
causa dele, perguntando-me se alguém que eu conheço está
seguro porque ele vai usá-lo para chegar até mim.
Fabian riu maliciosamente quando seu olhar gelado
pousou em mim. — Sua garotinha tola. Você fala como se você
fosse um floco de neve especial e único da espécie.
Ren bufou de onde ele estava em pé.
Eu disparei um olhar mortal para Ren antes de encarar
Fabian. — Você não sabe quem Voldemort é, mas você sabe o
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que um floco de neve especial quer dizer? Eu chamo isso de
besteira.
Fabian inclinou a sua cabeça para o lado. — Uma pessoa
sempre sabe quando encontra um floco de neve especial.
— Sim, e aqueles que chamam os outros de flocos de
neve são historicamente os verdadeiros flocos de neve.
— Paus e pedras, — Fabian murmurou. — Ou eu sou a
borracha e você é a cola. Tudo o que disser bate em mim e
volta para você Minha boca caiu aberta. Meu Deus, era como
ter uma conversa com um Tink rude.
Que, por sinal, estava praticamente tremendo de
excitação quando ele se inclinou sussurrando em meu ouvido.
— Eu gosto desse cara. Eu realmente gosto dele. Eu posso ficar
com ele?
O Príncipe do Verão o ouviu, e o interesse brilhou em
seus olhos azuis pálidos. — Eu nunca fui levado por um
brownie antes, mas... eu já ouvi coisas. Coisas interessantes.
Eu precisava tanto de um adulto agora, mas os adultos
estavam todos encarando o teto, fingindo que uma versão ao
vivo do Tinder Fae não estivesse acontecendo bem na nossa
frente.
Tink se endireitou. — Conte-me.
Fabian deu um passo em nossa direção. — É verdade
com os brownies tem um pê...
— Ok, — Ren interveio, aparentemente para o alívio de
Tanner pelo olhar em seu rosto. — Vamos voltar ao tópico.
Você estava falando sobre como a Ivy não é um floco de neve
especial.
Querida mãe da montanha, eu estava a dois segundos de
lançar as minhas adagas através da sala e esfaquear o Príncipe
do Verão em seu olho, dar um soco em Tink e jogar Ren pela
janela.
— Tudo bem, Fabio, — eu bati. — Você consegue
ultrapassar a parte de me insultar para dizer algo realmente
útil? Pelos menos uma vez?
Suas sobrancelhas se uniram. — Você é obtusa? Meu
nome não é Fabio. É Fabian.
Eu rolei meus olhos. — Tanto faz. — Eu não tinha
paciência para explicar quem Fabio era. — Apenas diga o que
você precisa dizer.
O sorriso malicioso do Príncipe do Verão aumentou. — O
Príncipe encontrou outra halfling e ele deixou New Orleans,
levando o Cristal com ele.
Capítulo 14

Todo o inferno soltou-se ao meu redor enquanto eu ficava


ali parada, no centro da sala, encarando o Príncipe do Verão.
Faye ficou em pé e Tanner também. Ren avançou, fazendo
perguntas, mas eu não ouvi o que ele estava dizendo. Tink
estava calmo, no entanto. Mais ou menos. Ele estava olhando
para Fabian novamente, da mesma forma que Ren olhava para
mim quando ele realmente gostava de mim.
Mas eu... eu fiquei tão chocada que não conseguia pensar
além das minhas emoções agitadas. Uma se destacou. Alívio.
Corria através de mim em ondas, deixando-me tonta.
Ren estava seguro.
Tink também estava.
Eu estava segura.
Bem, tão segura quanto qualquer um de nós, mas Drake
não estava mais mirando em mim.
Minha garganta apertou quando as lágrimas correram
para os meus olhos.
Tudo isso provavelmente significava que algo estava
errado comigo. Eu quero dizer, Drake ainda estava lá fora
comprometido e determinado a engravidar alguma pobre
halfling aleatória, mas ele não estava vindo atrás de mim.
Uma risada borbulhou na minha garganta, mas eu a
silenciei antes que escapasse, enquanto piscava para conter as
lágrimas de alívio. Ninguém entenderia.
Eu era uma pessoa tão terrível, mas eu não conseguia
evitar. Um peso ergueu-se dos meus ombros. Nós ainda
tínhamos que lidar com Drake, mas eu... eu me sentia livre.
— Eu pensei que a Elite tinha matado todos os halflings?
— A voz de Tanner ergueu-se sobre o barulho chamando a
minha atenção.
— A Elite caçou todos os halflings que eles foram capazes
de descobrir, — Ren respondeu, e eu me encolhi sabendo que
eu era um deles. — Isso não significa que eles tenham
apanhado todos os halflings do mundo todo. O Príncipe é
obviamente melhor em encontrá-los do que nós éramos.
— Eu não sei se isso é a verdade, uma vez que vocês
provavelmente mataram uma tonelada inteira deles, — Tink
apontou.
Ren disparou para ele um olhar sombrio antes de se virar
para Fabian. — Como você sabe disso?
— Assim como o Príncipe do Inverno tinha batedores à
procura de possíveis halflings, nós também temos nossos
próprios olhos neles. — Fabian bocejou parecendo entediado
com essa conversa toda. — Ele e o seu cônsul partiram dois
dias atrás.
Dois dias atrás? Enquanto eu estava desacordada porque
alguns faes tentaram me assassinar porque pensavam que o
Príncipe estava aqui? Outro riso quase histérico começou no
fundo da minha barriga.
— Vocês não tinham ideia de que eles estavam
procurando outras halflings? — Ren perguntou para Faye.
— Eu sei que Valor queria que o Príncipe procurasse
outra, mas tanto quanto eu sei, eles não estavam procurando
ativamente por uma. — Descrença coloriu seu tom. Em algum
ponto, ela tinha perdido a sua forma humana. — Onde ele foi?
Fabian esticou suas pernas, cruzando-as nos tornozelos.
— Isso nós não sabemos.
— Você aparentemente sabe todo o resto, mas você não
sabe isso? — eu exigi.
— Sim. — Seu olhar mudou para mim. — Isso é
exatamente o que eu estou dizendo. Era muito arriscado para
meus espiões seguirem.
Qualquer alívio que eu tivesse sentido quando eu
descobri que Drake não estaria procurando por mim começou a
desaparecer. — Então ele e essa Halfling poderiam estar em
qualquer lugar.
Ele ergueu um ombro em um elegante encolher de
ombros.
— Isso muda tudo, — Faye disse, sentando-se
pesadamente, sem a sua graça normal. — Eu não sabia nada
sobre os batedores ou que ele seria capaz de encontrar outra
halfling tão depressa.
— Isso não muda nada. — Todos os olhos se
concentraram em mim. O que eu disse era a verdade. Tudo
mudou para mim, mas nós ainda tínhamos a mesma missão –
uma mais urgente e desesperada agora. — Nós precisamos
encontrá-lo, mandá-lo de volta para onde pertence, ou matá-lo.
Ren girou para mim. — Você enlouqueceu?
— Desculpe-me?
— Você não precisa fazer nada além de manter sua linda
bunda aqui, — ele anunciou, como se ele não tivesse um desejo
de morte. — O Príncipe deve estar caçando outra halfling, mas
você ainda é uma halfling, Ivy.
— Não brinca, — eu cuspi de volta. — Mas apenas eu
posso dizer para onde minha bunda vai ou não vai.
Seus olhos estouraram em uma profunda tonalidade de
verde. — Se ele não está aqui, não há razão para você ir atrás
dele. A coisa mais esperta e segura é você ficar aqui.
— E o quê? Você vai atrás dele?
Sua mandíbula apertou. — Esse é o meu trabalho.
— E é o meu trabalho também!
Tink lentamente tocou meu braço. — Ele tem um ponto,
Ivy. — Ele estreitou seus olhos para Ren. — Ele é péssimo ao
fazer isso, mas ele tem razão.
— Obrigado, — Ren cortou antes de dar uma respiração
profunda. — Olha, eu entendo que é seu dever também, mas
você ainda está em risco. Ele poderia retornar a sua atenção
para você.
Cruzando os meus braços, eu levantei o meu quadril
movendo-me para a postura padrão de estar puta. — E eu
entendo que é seu dever, mas você percebe que a única forma
do Príncipe me controlar é através da sua bunda, certo?
Ren recuou, sua coluna enrijecendo.
— Sim. Vamos assimilar isso, amigo. — Eu estava como
um rolo. Não ia parar agora. — Você vai lá fora, e se ele não te
matar, ele vai te capturar. Usar você para que eu concorde em
fazer as coisas é provavelmente muito mais fácil do que
convencer alguma halfling aleatória a fazer sexo com ele.
— Na verdade, — Faye cortou, — se a Halfling não souber
o que ela é e o que ele é, não será nada difícil. Uma transa de
uma noite acontece o tempo todo.
Tanner se sentou pesadamente. — Isso é ruim.
— Ainda é muito arriscado para você ir. — Ren ignorou-
os. — Não estou tentando ser um idiota sobre isso, mas quanto
mais longe você estiver melhor.
— Então, eu devo ficar sentada e fazer o que exatamente?
Cuidar do jardim do lado de fora? Talvez frequentar aulas de
tricô?
— Pelo menos você estaria fazendo algo. — Um lado de
seus lábios se levantou. — Mãos ociosas são oficina do diabo,
ou assim eles dizem.
Eu ia bater nele.
Sério.
— Eu estou prestes a enfiar estas mãos ociosas pela sua
bunda acima, se você acha que eu me transformarei em um
fantoche.
— Você sabe o quê? — Ren inclinou-se para frente,
abaixando a sua voz. — Eu realmente posso gostar disso.
Meu corpo corou de raiva e algo totalmente diferente. Eu
ignorei o último, ficando bem na cara de Ren. — Eu não ficarei
para trás, Ren. Não vai acontecer.
— Você é impossível de argumentar. — Balançando sua
cabeça, ele passou sua mão através do seu cabelo. — Eu juro
por Deus.
— Parem de brigar, — Tink disse dançando de um lado
para o outro entre nós. — Isso me deixar ansioso.
— Isso me faz desejar que eu tivesse pipoca, — Fabian
adicionou.
Eu me virei para o Príncipe do Verão. — Por que é que
você está aqui? Você veio de quem sabe onde...
— Florida, — ele forneceu.
— Imaginei, — Ren murmurou baixinho.
— Você veio aqui apenas para nos dizer que Drake tinha
partido? Você não poderia, eu não sei, telefonar com esse
pedaço de conhecimento?
Tanner suspirou detrás da mesa.
— Vocês ainda precisam de mim. — Ele apertou seus
dedos juntos. — Afinal, como vocês planejam encontrar o
Cristal? Ou o Príncipe do Inverno, quando nós não sabemos
para onde ele foi? Mesmo se descobrirmos isso, ele será mais
esperto, escondendo a sua presença. Nós seremos capazes de
sentir um ao outro, mas ele não saberá que eu estou
trabalhando com vocês.
— Será que ele realmente pensaria que um príncipe de
uma corte que ele ajudou a erradicar está na mesma cidade
que ele para se juntar a ele para o jantar? — Ren exigiu,
levantando um bom argumento.
Um músculo vibrou ao longo da mandíbula de Fabian. —
O Príncipe do Inverno não me verá como uma ameaça. Se
houver algo, ele apenas ficará curioso. O olhar dele deslizou
para mim. — Essa será a fraqueza dele.
Encontrando o olhar direto do Príncipe do Verão, eu tive
a sensação de que não seria a única fraqueza a aprender.
— Nada disso verdadeiramente importa se nós não
soubermos para onde o Príncipe foi. — Faye ergueu as suas
mãos. — Nós podemos nos sentar aqui e discutir sobre quem
vai e quem vai ficar, mas nada disso importa. Nós não temos
ideia para onde ele foi.
— Esse é outro bom ponto, — Tink concordou.
Aqueles ao meu redor começaram a especular, mas isso
era tudo o que eles podiam fazer. Especular. O que não
significava nada. Nós não podíamos perseguir falsas pistas ou
suspeitas. Nós não tínhamos tempo para isso. Nós
precisávamos encontrar alguém que soubesse...
Então, isso me bateu.
— Eu sei quem provavelmente saberia onde Drake foi, —
eu disse, e todos os olhos viraram para mim. — Marlon –
Marlon St. Cyers. O empreendedor na cidade? — Eu adicionei
quando todos continuaram me encarando. — Ele é o Ancião
que estava trabalhando próximo a Drake. Ele deve saber para
onde ele foi.
Tanner virou-se para Faye. — Você acha que isso é
possível? Que Drake confiaria nele o bastante com essa
informação?
— Eles são próximos, então é possível. — Empolgação
brilhou em seus olhos pálidos. — Vale a pena conferir.
— Então isso é o que nós faremos. — Resolução encheu-
me. — Encontraremos o Marlon e faremos com que ele fale.

Capítulo 15
A reunião meio que desmoronou depois disso. Tanner
queria que todos “se acalmassem e ganhassem perspectiva”
antes de falarmos em sair para procurar Marlon. Ren me
lançou um olhar que me dizia que a nossa conversa – hum,
discussão – não tinha acabado antes dele sair da sala. O
Príncipe Fabian levantou-se fluidamente, e quando eu vi que
ele tinha mirado em Tink, eu fiz o meu caminho para o
corredor. Ren já tinha desaparecido.
Faye seguiu-me e quando eu olhei para ela a tensão não
havia desaparecido de seu rosto. — Você está bem?
— Sim. — Faye assentiu, mas ela ainda parecia um
pouco doente. — É apenas algo que Fabian disse sobre a
Rainha Morgana. Como eu não a reconheceria se eu a tivesse
visto. — Respirando fundo ela estendeu a mão para colocar o
cabelo atrás da orelha. — Apenas a possibilidade de estar perto
dela sem saber disso faz-me sentir como se alguém passasse
sobre o meu túmulo.
Minhas sobrancelhas se ergueram. — Ela é tão má
assim?
Faye parou me encarando. — O que tem sido contado
sobre ela nas fábulas para entreter as crianças é apenas isso.
Fábulas. — Ela deu um pequeno aceno com sua cabeça. —
Histórias da sua brutalidade são apenas sussurradas entres os
mais velhos da nossa espécie, suas crueldades mais horrendas.
Ela cometeu crimes tão graves que sua capacidade para criar
vida foi arrancada dela. De certa forma, ela é nosso bicho-
papão, algo que todos nós tememos. Seu ódio pela Corte do
Verão é superado apenas pelo seu ódio pelos seres humanos.
— Faye olhou para longe, engolindo em seco. — Se ela estiver
envolvida, os portais para o Outro Mundo seriam a menor das
nossas preocupações.

***

Após a conversa um pouco assustadora com Faye, eu


tentei encontrar Ren porque eu estava mais do que pronta para
uma segunda rodada da nossa discussão. Eu sabia que eu
tinha magoado ele na noite anterior, mas isso não mudava o
fato de que ele não tinha absolutamente nenhum direito de
tentar me dizer o que eu podia fazer.
Infelizmente, ele estava desaparecido, o que foi um
decepcionante porque me fez querer gritar mais com ele.
Eu gostaria de gritar com ele, na verdade. Isso fez-me
sentir... normal. E isso era meio bagunçado, mas tanto faz.
Como ele não estava em nenhum lugar que eu pudesse
encontrar, eu fiz a próxima melhor coisa. Eu fui para a
academia, mas eu não entrei na sala com as esteiras. Eu fui
para a sala menor, aquela com tatames grossos cobrindo o
chão e um saco de pancadas.
Foi lá que eu passei o resto do dia, passando por velhas
sessões de treinamento comigo mesma, como se eu tivesse
dezesseis anos de novo. Poucos meses atrás, eu ficaria
frustrada com a menção de que eu precisava praticar técnicas
evasivas ou trabalho de base, mas eu sabia melhor agora. Eu
precisava de toda a prática que conseguisse, especialmente se
eu planejava enfrentar o Príncipe do Inverno de novo.
Teria sido bom ter um parceiro, embora.
Eu me movia socando o saco, trabalhando com a adaga
de ferro. Eu não esfaqueava tão forte quanto eu podia, porque
eu duvidava que os faes aqui apreciariam o saco cheio de
cortes, mas eu ganhei velocidade quando a sensação agora
muito familiar fervia em meu estômago. Lembrando-me da
fome constante, mas era um desejo do mesmo tipo que eu
imaginava que um viciado passasse. Não era nem de longe tão
ruim quanto era antes, mas ainda estava lá, uma sombra
dentro de mim.
Suor escorria em meus olhos quando a porta se abriu e
uma lufada de ar frio entrou na sala. Arrancando a lâmina do
saco, eu me virei e vi Brighton.
Ela estava parada próxima a porta, uma mão enrolada
nas pontas do seu rabo de cavalo. — Sinto muito. Eu não
pretendia interromper.
— Está tudo bem. — Passando um braço sobre a minha
testa, eu embainhei a adaga. — E aí?
— Eu estava apenas andando por aí. Vi que você estava
aqui. — Ela fez um pequeno aceno de cabeça para a pequena
janela na porta. — Eu não te vejo desde... bem, desde que você
foi atacada. Você parece estar indo bem.
— Eu estou. Eu diria que fui sortuda, mas imagino que
ser parte fae é o motivo de eu estar bem. — Aquelas palavras
saíram da minha boca mais facilmente do que eu pensava. — A
coisa toda da alimentação salvou a minha vida.
— Foi o que eu ouvi. Se importa se eu me sentar ou é
uma distração?
— Sente-se. — Eu dei de ombros. — Eu terminei de
qualquer forma.
Ela puxou uma cadeira do meio e desdobrou-a. — Como
você está lidando com tudo? A coisa toda da alimentação?.
Eu comecei a dizer-lhe que eu estava bem, mas não foi
isso o que disse. — Eu honestamente não sei. — Eu caminhei
até onde ela estava sentada. — Eu quero dizer, eu estou feliz
por estar viva, mas saber o que eu fiz para estar aqui não
parece certo.
Ela olhou para mim. — Eu consigo entender isso.
Afastando o olhar, eu mordi o meu lábio inferior. — Você
sabe o que Ren e Tink fizeram?
Houve um momento de silêncio. — Eu ouvi dizer que eles
fizeram a Faye usar uma compulsão em você.
— Eles fizeram. Eu estava tão zangada com eles, mas...
— Você não está mais?
— Eu ainda estou. — Exalando bruscamente, eu me
sentei no tatame na frente dela. — E eu também não estou. Eu
entendo o porquê eles fizeram isso. Eu aprecio, mas eu não
estou bem com isso.
Ela dobrou os braços em seu colo. — Eu acho que a
pergunta é, você pode perdoá-los?
— Eu já perdoei, — eu disse, e essa era a honesta
verdade de Deus. — Eu meio que precisei, sabe? Porque eu
teria feito a mesma coisa para salvá-los.
Um leve sorriso apareceu nos lábios de Brighton. — Bem,
eu estou feliz que você ainda está viva.
Eu me perguntei se a mãe dela verdadeiramente sentia o
mesmo. Por outro lado, realmente não importava. — Eu
também. De qualquer forma. — Eu inclinei para trás em
minhas mãos. — Você ouviu algo sobre os nossos visitantes?
Brighton arregalou seus olhos enquanto ela acenava com
a cabeça. — Sim. Inacreditavelmente bizarro. Outro Príncipe? E
halfling?” Seus ombros se apertaram. — A fodida Ordem
mentiu para nós desde o primeiro dia.
Eu não pude evitar. Eu suprimi uma risada, porque ela
xingou, e eu não conseguia me lembrar de ouvi-la xingar antes.
— Eu quero dizer, quase tudo o que nós pensávamos ser
verdade acabou não sendo. — Seus lábios afinaram. — O que
mais nós achamos que sabemos que não é verdade?
— Deus. Poderia ser qualquer coisa. Mas deve haver uma
razão pela qual eles não nos contaram sobre os faes do Verão
ou as cortes reais. — Eu estiquei as minhas pernas. — E a
Ordem sequer sabe que o Príncipe partiu?
— Eu não tenho ideia, e neste ponto, é um risco até
mesmo entrar em contato com eles e descobrir. — Ela
recostou-se. — Mas nós vamos precisar fazer isso. Assim que
tivermos o cristal, nós precisaremos da ajuda deles para abrir
os portais.
— Ou nós mantamos o Príncipe. — Eu ignorei o seu
suspiro de surpresa. — Nós provavelmente precisaremos da
Ordem para isso também. Considerando que nós precisaríamos
de toda ajuda possível.
Brighton então apontou o óbvio. — Matar o Príncipe é
quase impossível.
— Quase impossível, — eu enfatizei. — Ele tem que ter
uma fraqueza além do seu ego, e o Príncipe do Verão sabe o
que enfraquece eles. — Eu torci o nariz. — Eu meio que
entendo o porquê ele não estaria tão colaborativo com essa
informação, mas se pudermos enfraquecê-lo, provavelmente
poderemos matá-lo.
Ela pareceu considerar isso. — Então, nós apenas temos
outros príncipes e princesas para nos preocupar, certo? Por
que quem sabe quantos da Corte de Verão estão aqui?
Eu bufei. — Certo? Nós apenas devemos acreditar que
todos eles estão com o lema “viva e deixe viver” fae hippie? —
Algo me ocorreu. — E eu seriamente duvido que a Príncipe do
Verão não se alimente. O poder praticamente pinga dele.
— Eu acho... — A porta da sala abriu-se, revelando Tink.
Ele tinha companhia.
— Merle e a equipe estão procurando por você. — Ele deu
um passo para o lado. — Disse a eles que você provavelmente
estava aqui ou na biblioteca, então eu decidi ser a escolta deles
porque eu sou legal assim. — Ele encarou Brighton e então
acenou para ela. — Oi!
Brighton pareceu afundar em sua cadeira quando ela
murmurou, — Olá.
Ele se afastou de nós. — Eu também encontrei a sua
filha. Eu sou tão prestativo.
Eu arqueei uma sobrancelha enquanto ele olhava para
ele. De pés atrás da Merle estava Tanner. Nenhum dos dois
parecia feliz.
Eu tirei as minhas mãos do chão, sentando reta. Eu
imaginava que eles estavam prontos para discutir os planos
para encontrar e interrogar Marlon. — O que está
acontecendo?
Merle invadiu a sala. Algo de metal pendia de sua mão.
espere. Aquilo eram... algemas? — Ren nos contou.
Um calafrio varreu-me.
—Contou o quê? — Tink fez uma careta quando seu olhar
deslizou sobre nós.
Os olhos de Merle eram como geleiras glaciais. — Ivy
planejava fugir.

Capítulo 16

Por um longo e bom segundo, fiquei chocada demais pelo


fato de Ren ter realmente me delatado para ter uma reação.
Puta merda, ele realmente foi para Merle e Tanner?
Eu ia chutá-lo até a próxima semana!
— O quê? — Tink gritou, sua voz ecoando pelas paredes
da pequena sala. — Você ia fugir?
— Não mais. — Merle ergueu as algemas.
O objetivo das algemas foi registrado com súbita clareza.
Eu me levantei. — Você vai me algemar? Você está louca?
O aperto de Merle aumentou nas algemas. — Minha
mente está tão afiada quanto um violino, garota.
Afiada quanto um violino? Isso nem mesmo fazia sentido.
Tanto faz. Ela deu um passo na minha direção, e minha mão
voou para a minha adaga. — Se você vier um centímetro mais
perto de mim, você descobrirá que essa adaga é mais afiada do
que um violino.
— Ivy, — Brighton ofegou, levantando-se da cadeira.
Merle ficou imóvel. — Você estava planejando fugir...
— Eu estava planejando partir quando eu pensava que o
Príncipe ainda estava aqui, o que é totalmente a minha
escolha. — Meus dedos apertaram ao redor do cabo da adaga.
— Mas tudo isso é um ponto discutível agora, não é?
— Foi isso o que eu estava tentando explicar para Merle.
— Tanner, sempre o mediador, ficou à minha direita.
— Ainda é perigoso. Não importa se ele encontrou outra
halfling para engravidar ou não. — Merle ergueu o queixo. —
Nós não precisamos da Ivy correndo por aí, também. Como Ren
disse mais cedo, ela precisa ficar aqui, onde o Príncipe não
está.
Eu lutei para manter a minha voz calma. — Primeiro, se
eu quiser sair daqui, eu irei. Ninguém vai me manter aqui
contra a minha vontade. Eu já fui por esse caminho e tenho a
bagagem para provar isso. Não vou para um segundo round.
Merle abriu sua boca, mas Tanner colocou uma mão em
seu braço, silenciando-a. — Isso é verdade. Nós não iremos
mantê-la contra a sua vontade. Ela pode sair daqui sempre que
ela quiser.
Eu apreciava o seu apoio, mas eu não tinha terminado.
— Em segundo lugar, você está seriamente exagerando neste
momento. — Os músculos do meu pescoço ficaram tensos. —
Quando eu soube que o Príncipe poderia atravessar o glamour
daqui, eu planejei sair. A minha presença aqui era um risco
muito grande para eu viver com isso, e eu não dou um foda-se
se você concorda com isso ou não.
Os olhos de Merle se arregalaram ligeiramente.
— Mas eu concordei em ficar até os convidados chegarem
aqui. Nada disso importa agora. Drake encontrou outra
halfling, e embora isso seja um grande alívio, isso não significa
que meu dever deixou de existir. — Quando ela começou a falar
de novo, eu a cortei. — Você realmente não quer ter essa
discussão comigo. Sério. Porque você não irá vencer.
Ela apertou a sua mandíbula.
— Mãe, — Brighton falou baixinho. — Você não pode
algemar Ivy. Isso não está certo.
— Às vezes o que é necessário nem sempre é o certo, —
ela replicou friamente.
Eu ignorei aquela profunda declaração do dia, porque,
garoto, eu já tinha peixes maiores para fritar no momento. Eu
mirei em Tanner. — Quando nós discutiremos sobre encontrar
Marlon?
Ainda focado em Merle, ele disse, — Nós já discutimos
isso.
Um rubor quente tomou conta de mim. — Vocês
discutiram?
Só então ele olhou para mim. — Algumas horas atrás.
Um grupo saí às nove da manhã para procurá-lo.
Eu vi vermelho. — E eu imagino que eu fui
covenientemente deixada de fora dessa reunião?
O olhar de Tanner se afastou.
Um riso amargo saiu de mim. — Mas eu aposto que Ren
não foi. Durante essa reunião, ele contou para vocês sobre o
meu plano de partir?
— Ele fez isso antes de Fabian e seus cônsules chegarem,
— Tanner respondeu. — Eu acredito que ele não quis que isso
acontecesse. — Ele olhou de relance para Merle. — Eu cometi o
erro de mencionar isso para Merle, que, assim como você pode
ver, teve uma forte reação.
Eu estava prestes a ter uma reação forte.
— Eu estarei com qualquer equipe que sair amanhã. —
Eu dei um passo ao redor de Tanner e Merle, silenciosamente
desafiando-a a colocar aquelas algemas perto de mim. — Eu
estou farta dessa conversa.
Eu não dei a eles a chance de responder, entrando no
corredor. Eu dei apenas cinco passos.
— Ivy. Espere. — Era Tink.
Inspirando profundamente, eu virei-me para dizer-lhe
que tudo o que ele tinha a dizer teria que esperar, mas eu vi o
olhar em seu rosto.
Sua expressão aflita. — Você ia me deixar?
Oh Deus. — Eu...
— Você realmente ia fazer isso? — Tink se aproximou,
seus olhos brilhando com emoção. — Por que você faria isso?
Correndo minhas mãos para baixo em meu rosto, eu
balancei minha cabeça. — Isso não importa. O Príncipe...
— Encontrou uma nova halfling e não já não quer saber
de você. Sim, eu estava lá. — As suas mãos abriam e fechavam
em seus lados. — Mas antes? Você estava planejando me
deixar – nos deixar. É por isso que Ren está tão chateado.
— Bem, há um monte de razões para ele estar chateado,
mas sim, essa é uma delas.
Tink encarou-me durante tanto tempo que me encheu de
desconforto. — Então, você ia partir sem me dizer.
Eu mudei o meu peso, desconfortável. — Eu descobri que
o Príncipe poderia atravessar o glamour. Eu... eu entrei em
pânico. Tudo o que eu podia pensar era sobre ele usar você ou
Ren. Eu pensei que se eu saísse, então vocês não estariam em
risco.
— Você não achou que nós teríamos surtado e saído à
sua procura? — ele exigiu.
— Eu realmente não pensei bem sobre isso.
— Não. — Dor encheu os seus olhos. — Você não pensou.
A vergonha se estabeleceu sobre mim como um cobertor
grosso. — Eu sei, e eu sinto muito. Eu faria... eu faria qualquer
coisa para proteger vocês dois.
— E nós faríamos qualquer coisa para proteger você, —
ele disse calmamente. — Você salvou minha vida, Ivy.
— Você salvou a minha, — eu o lembrei.
— E você gritou comigo por isso. — Quando eu comecei a
responder, ele continuou. — Eu entendo o porquê. Eu entendo.
Eu esfreguei a palma da minha mão contra meu quadril.
— Nós podemos... eu não sei? Recomeçar? Eu realmente sinto
muito. Era um plano estúpido...
— Um plano cruel e estúpido.
— Sim. — Eu suspirei. — Era.
Ele levantou seu queixo. — Eu já perdi a minha família
uma vez. Eu não quero perder a minha família de novo, Ivy.
Minha respiração ficou presa.
— E isso é o que você é para mim – você e até mesmo
Ren, — ele disse, e eu meio que desejei que Ren estivesse aqui
para ouvir isso. — Vocês dois são tudo que eu tenho. Se você
tivesse me deixado, isso teria me matado.
A culpa era um nó na minha garganta, com o qual eu
precisava viver. Eu dei um passo à frente, colocando a minha
mão em seu braço. — Eu sinto muito, Tink. Eu acabei
entrando em pânico, e eu sei que não é uma boa desculpa, mas
é a verdade. Eu entrei em pânico e eu não pensei sobre o que
isso faria com você e Ren. E isso foi errado, porque vocês dois
são tudo o que me resta. Vocês são... — Eu respirei fundo. —
Vocês são minha família.
Tink me estudou por um momento e depois saltou para
frente, enrolando seus longos braços ao meu redor. Ele me
abraçou – me abraçou apertado, e eu reagi sem pensar,
cruzando meus braços ao redor dele. Apertando meus olhos
contra o repentino fluxo de lágrimas, eu plantei o meu rosto
contra o seu peito.
Eu estava aprendendo que Tink dava ótimos abraços.
— Tudo está perdoado. — Tink murmurou em meu
ouvido. — Mas se você pensar em fazer algo assim de novo, eu
não perdoarei você.
— Ok, — eu sussurrei densamente.
— E eu entrarei na Amazon e pedirei alguma merda
estranha. Não apenas isso, vou tornar pública a minha lista de
desejos, o que quer dizer que será a sua lista de desejos, — ele
continuou. — Você não quer isso.
Meus lábios tremiam quando eu me afastei. — Eu não
quero isso.
— Bom.
Respirando fundo, eu olhei para a porta fechada da
academia. — Eu preciso encontrar Ren. Você tem qualquer
ideia de onde ele está?
— Eu acho que ele está na piscina.
Surpresa me encheu. — Há uma piscina?
Tink olhou para mim como se eu fosse estúpida. — Todo
o perambular ao redor que você tem feito e você não achou a
piscina ainda? Você não está vivendo a sua melhor vida.

***

Tink estava certo.


Eu não estava vivendo a minha melhor vida se não
soubesse que havia uma maldita piscina neste edifício, e
aparentemente havia uma no segundo andar. O leve cheiro de
cloro guiou o caminho, e com cada passo, minha raiva de mais
cedo ressurgia com a vingança de mil sóis ardentes.
Eu sabia que eu cometi um erro com a coisa toda de
partir. Ren estava certo. Tinha sido uma reação impulsiva, mas
ele correr para Tanner estava indo longe demais.
Era hora de uma reação forte que não incluía chorar e me
sentir como uma idiota.
Batendo as minhas mãos nas portas duplas, entrei na
sala e imediatamente parei. Meus olhos se arregalaram. A sala
era grande e iluminada devido às janelas do chão ao teto em
todos os lados. A piscina era uma daquelas enormes, tamanho
Olímpico, mas não foi a piscina que me deixou completamente
incapaz de me mover.
Foi Ren.
— Puta merda, — eu sussurrei.
Ele não me ouviu, porque ele estava no momento
deslizando embaixo d’água como algum tipo de deus do mar,
seu corpo elegante e rápido enquanto ele nadava. Ele estava
usando apenas o que parecia ser uma cueca boxer preta. Havia
uma pilha de roupas cuidadosamente dobradas em um banco
próximo e eu podia quase imaginá-lo ali dobrando o jeans e a
camiseta. Seus calçados estavam enfiados embaixo do banco.
A tatuagem da pantera nas costas se movia com ele, uma
obra de arte impressionante que de alguma forma era realçada
pela água cintilante. Músculos magros se flexionaram ao longo
das suas costas quando ele quebrou a superfície na parte mais
funda. Ele não me viu no início, o que foi ótimo porque me deu
mais tempo para apreciá-lo enquanto ele erguia seus poderosos
braços, afastando a água e os cabelos do seu rosto.
Minha boca secou quando a energia disparou do meu
peito para o meu núcleo. Ele era...
A cabeça de Ren balançou bruscamente na minha
direção. Aqueles olhos eram como joias de esmeraldas polidas,
colocadas perfeitamente atrás de cílios grossos e molhados.
Um silêncio tenso encheu a sala quando nos encaramos.
Foi ele que o quebrou.
— Ei, — ele disse, afastando-se do meio da piscina em
direção à borda onde eu estava.
Eu pisquei lentamente e em seguida coloquei os meus
hormônios em cheque. Ok. Ren era quente e ele parecia como
algum deus. Tanto faz. Eu não ia facilmente ser distraída. —
Eu estou tão chateada com você no momento, — eu disse a ele.
— Sério, — ele replicou secamente pousando um braço
pesado no cimento. Um lado de seus lábios se levantou. — É
diferente desta manhã quando você estava chateada comigo?
— Oh. — Eu ri duramente. — Você acha que isso é
divertido?
O sorriso não desapareceu. — Eu sempre te achei
engraçada, Doçura.
Ele fez agora? — Ok. Eu mostrarei a você algo que é
realmente engraçado.
Seu outro braço veio para cima e pousou no cimento. —
Você tem um público atento para isso.
Girando, eu caminhei em direção a pilha e peguei as
roupas dele.
— Ivy...
Eu girei e entrei no modo cadela total, disparando para o
final da piscina.
— Não ouse. Eu juro por Deus, Ivy! — Os músculos em
seus braços bombearam quando ele se ergueu da piscina. Ele
estava em seus pés em segundos. — Ivy...
— Muito tarde. — Eu atirei as suas roupas na piscina.
Ren girou, mas não havia como salvar as suas coisas.
Sua camiseta e calça tática pousaram com um splash
satisfatório. Ele olhou para elas por um momento.
— Porra, — ele cuspiu.
Eu o encarei, sorrindo como o Chapeleiro Maluco. — Isso
foi muito engraçado, não foi?
Seu olhar se estreitou pousando em mim. — Você perdeu
sua cabeça?
— Não, mas eu estou pensando que você perdeu.
— Eu sou o maluco? Você acabou de atirar as minhas
roupas dentro da piscina!
— E eu desejaria poder fazer isso de novo! — Eu
caminhei até ele. Como ele era um bom pé mais alto que eu, eu
tive que inclinar a minha cabeça para trás para olhá-lo. — Você
me delatou para o Tanner!
Entendimento brilhou em seu rosto e então ele rolou os
olhos. — Foi por isso que você atirou as minhas coisas na
piscina? Jesus, Ivy. — Ele tossiu uma risada curta. — Eu disse
ao Tanner esta manhã antes que o Príncipe da Corte do Verão
aparecesse.
— Oh, então porque você me delatou antes que isso se
tornasse irrelevante, está tudo bem?
Suas sobrancelhas se franziram. — Ele precisava saber
no caso de você não manter a sua promessa e fugisse.
Eu fiquei boquiaberta. — Você está falando sério?
Afastando seu cabelo molhado de seu rosto, ele se
afastou. — Tão sério quando você atirando as minhas coisas na
piscina.
— Eu estou prestes a atirar você na piscina, — eu surtei,
lutando para não deixar meu olhar desviar do seu rosto,
porque ele estava molhado e tinha um monte de pele dura em
exposição. — Você não tinha que dizer a ele.
Um músculo em sua mandíbula vibrou enquanto ele
afastava o olhar, e maldição, o meu olhar caiu. Seu peito era
estava todo molhado e duro, e água ainda corria por seus
abdominais tensos. O cós da sua cueca pendia indecentemente
baixo e ela deixava pouco para a imaginação. Encharcada, ela
se agarrava a cada centímetro longo e duro...
Espera. Ele estava duro?
Meus olhos se arregalaram.
Sim. Sim, ele estava.
— Meu rosto está aqui em cima, — Ren zombou.
Eu corei quando meu olhar sacudiu de volta para ele. —
Idiota.
— Não que eu me importe com você me encarando como
se você quisesse me morder, mas, neste momento, eu meio
preocupado que você realmente possa me morder.
Eu cruzei meus braços sobre o peito. — Eu prometi a
você que eu ficaria até que nós aprendêssemos sobre o Cristal,
e eu teria ficado. — Minhas mãos se enrolaram em punhos. —
Você poderia ter confiado em mim.
Balançando a sua cabeça, ele ergueu o olhar para o teto.
— Eu confio em você, Ivy. Eu confio que você sempre fará o que
menos espero.
Minha cabeça inclinou para o lado. — Você tem um
desejo de morte neste momento?
Ren afastou o olhar de novo, franzindo a testa enquanto a
sua calça passava flutuando por nós. — Eu lamento que você
não tenha gostado que eu dissesse a Tanner, mas eu senti que
ele precisava saber desde que ele nos deu abrigo – não o
melhor dos abrigos, mas um lugar mesmo assim. Quem sabe o
que aconteceria se você saísse, quais efeitos poderiam ter
repercutido neste lugar? Mas não, isso não é algo sobre o qual
você tenha pensado. — Seu olhar duro encontrou o meu. —
Você sabe, com o seu grande plano de fuga e tudo mais.
Maldito, ele tinha um pouco de razão, mas eu tinha
certeza como o inferno que eu não ia dizer isso. — Você sabe o
que a Merle fez?
— Eu não contei merda nenhuma para a Merle.
— Mas Tanner contou, — eu disse. — Ela apareceu há
alguns minutos com um par de algemas. Sim. Algemas.
— O quê? — Ele riu, desta vez o som mais leve, mais
genuíno. — Eu teria pago para ver isso.
— Você está falando sério?
Ele disse alguma coisa e riu de novo, e eu juro que minha
visão ficou branca de raiva. Explodindo para a frente, eu bati
as minhas mãos em seu peito.
Seu riso foi cortado quando ele perdeu o equilíbrio,
caindo na piscina.
Eu nem sei como o que aconteceu a seguir se passou. Os
braços de Ren se agitaram e ele deve ter agarrado meu braço,
porque a próxima coisa que eu soube foi que eu estava caindo
de lado na piscina.
Meu grito foi silenciado pela onda de água me engolindo
inteira. Eu afundei quase até o fundo, olhos apertados e boca
cheia de ar.
Puta merda, a água estava fria.
Usando meus pés contra o fundo, eu empurrei meu
caminho para cima, quebrando a superfície e ofegando por ar.
Eu pude ouvir o salpicar de água perto de mim, alertando-me
que Ren fez a mesma coisa. O impacto tinha soltado o meu
cabelo, e cobrindo o meu rosto com um véu vermelho
emaranhado. Usando um braço para nadar para o outro lado,
eu usei a outra mão para empurrá-lo para fora do meu rosto.
Ren virou-se na água na minha direção, seus olhos
arregalados de surpresa. — Você me empurrou na piscina.
— Você me puxou para a piscina! — Meus pés
alcançaram as escadas.
Ele me encarou por um momento e então fez a coisa mais
louca. Ren começou a rir – uma explosiva gargalhada profunda
enquanto ele se agarrava ao outro lado da piscina.
Algo na sua risada era... contagiante.
Meus lábios tremeram e então uma risadinha escapou.
Foi como se um dique se rompesse. Uma risada suave e eu
perdi o controle. Nossas risadas atingiram o teto e o meu
estomago ficou com câimbras com a força da risada, porque
isso – nós – era ridículo.
Eu estava ofegando por ar na hora que cheguei à parte
rasa e onde eu pudesse ficar em pé com a água alcançando o
meu peito. — Nós somos tão estúpidos... — Eu parei porque eu
acabei olhando para Ren. Ele estava apenas me encarando,
com a boca levemente aberta como se ele estivesse
testemunhado um eclipse total do sol. — O quê?
— Eu... — Ele balançou sua cabeça, suas bochechas
coradas. — Há muito, muito tempo que eu não te ouvia rir
assim.
Eu fiz uma careta, meus braços flutuando ao meu lado.
Os nossos olhares conectados à distância. — Isso... parece que
faz muito tempo. Foi legal rir assim. — Eu me senti como uma
tola por admitir isso, por isso as minhas bochechas coraram.
Ren se afastou da parede nadando para o centro da
piscina. — Foi bonito.
Eu mordi meus lábios enquanto eu o observava se
aproximar. — Sério?
— Sim. — Ele chegou a borda onde seu pé podia bater no
fundo. Um momento passou enquanto seu peito subia e descia
bruscamente. — Eu apenas gostaria de ouvi-la mais
frequentemente.
Minha respiração ficou presa quando uma bolha de
emoção inchou dentro de mim.
Ren parou de se mover. — E tudo o que eu quero é que
você sinta isso com mais frequência. No fim de tudo... isso é o
que eu desejo.
Eu abri minha boca para dizer a ele que havia coisas
mais importantes para se desejar, mas as palavras ficaram
presas na minha garganta porque eu queria isso também. Eu
desejava isso, também.
Eu podia sentir o meu rosto começar a se enrugar.
— Fale comigo, —Ren implorou calmamente, como ele
sempre fazia. — Fale comigo, Ivy.
Foi como se a ponta afiada de uma adaga se movesse em
um balão inflado. Eu me abri, cada pensamento e sentimento
saindo de mim, encharcando a minha pele e ameaçando me
puxar para o fundo.
Não havia como esconder, nem fingir. Não havia mais
espaço para mentir. Eu fechei os meus olhos. — Eu não... eu
não sei quem eu sou mais.
Capítulo 17

Lá.
Eu disse isso.
Eu disse em voz alta e disse a Ren. Não havia como voltar
atrás, não quando estava exposto dessa forma. De jeito
nenhum.
— Ivy. — Ele disse o meu nome como se isso o quebrasse.
Como se ele fosse um balão que também tinha explodido.
Eu mantive os olhos fechados porque eu não queria ver
seu rosto. — Desde o... o Príncipe, eu não me sinto como eu
mesma. Eu fiz coisas e eu sei – eu sei que ele me obrigou a
fazer aquelas coisas, mas me fez como se eu não fosse eu. —
Eu ergui minhas mãos da água, fechando-as em punhos. —
Agora eu nem sequer me pareço comigo, e eu tenho essa coisa
dentro de mim – essa necessidade que não existia antes – essa
fome. Eu apenas...
Pressionando os lábios, eu inalei bruscamente através do
meu nariz e abri meus olhos. Ren não tinha chegado mais
perto. Ele estava tão imóvel quanto uma estátua, mas ele
estava me observando, e eu sabia que ele não tinha desviado o
olhar. Nenhuma vez. — E eu fiquei presa na minha cabeça,
sabe? Apenas tentando dar sentido para cada maldita coisa
que aconteceu, então ficou difícil sair da minha cabeça. Foi por
isso que eu tive a minha bunda chutada por aqueles faes. Eu
não estava prestando atenção, e eu não tenho comido direito
e... e naquela noite eu disse a mim mesma que eu finalmente
conversaria com você. Eu te contaria o que estava acontecendo,
mas você... eu vi você com Tink e Faye numa das salas
comuns, e você parecia tão relaxado. Tão relaxado e normal
que eu não quis arruinar isso. Eu não quis tirar isso de você.
Ren fechou seus olhos, rosto tenso.
— Eu realmente planejava conversar com você, mas
então... então a coisa toda do esfaqueamento aconteceu. — Eu
respirei estremecendo. — Então, eu me alimentei e nós – você
sabe o que aconteceu. Depois eu descobri que o Príncipe era
capaz de atravessar o glamour, e eu simplesmente entrei em
pânico. Eu surtei e sim – sim! Meu plano era estúpido. Foi uma
reação instintiva. Você está certo. E Tink está certo, porque
também era muito cruel. E eu peço desculpas por não te dizer.
Eu estava fugindo, e foi errado, mas eu apenas queria ter
certeza de que vocês dois estavam seguros, porque você e Tink
são tudo o que eu tenho. Eu queria estar no controle, mas eu
simplesmente não pensei bem sobre isso.
Seus olhos estavam abertos de novo, sua expressão
tensa. Pálida. Foi duro olhar para ele, porque ele parecia como
eu me sentia.
— E eu... eu acordei esta manhã e disse a mim mesma
que eu era capaz de ficar bem. Eu ia conseguir me recompor.
Que isso estava sob o meu controle. Eu podia ignorar a fome.
Que o meu corpo era meu, meus pensamentos eram meus. Que
eu podia ficar bem com a pele levemente prateada e as orelhas
pontudas. Eu até usei meu cabelo para cima para provar isso.
— Eu estava divagando agora e eu não conseguia conter-me. —
Eu acordei esta manhã dizendo a mim mesma que eu estava no
controle, e então eu... eu realmente não estava.
Um tremor percorreu-me quando eu me afastei, colidindo
com a parede da piscina. — Você me disse que eu tinha que
ficar aqui, então Merle tentou me algemar por Deus sabe o que,
e tudo que eu queria era que as coisas fossem como elas eram
antes.
A mandíbula de Ren ficou tensa, e um momento muito
longo se passou. — Eu sinto muito.
Não esperando por essa resposta, eu pisquei.
Seu peito subiu com o que parecia uma respiração
pesada. — Eu não pretendia tirar isso de você hoje. Porra. —
Ele ergueu uma mão, correndo sobre sua cabeça, empurrando
as mechas molhadas de cabelo para trás. — Eu apenas queria
você segura, e se o Príncipe tivesse saído de New Orleans, então
você estaria segura aqui.
— Eu sei, — eu sussurrei, limpando as lágrimas nas
minhas bochechas. — Mas eu tenho que estar lá quando você
encontrar Marlon. Eu tenho que...
— Recuperar o controle. Eu sei. — Ele abaixou a mão
enquanto se aproximava, agitando a água. — Eu tornei isso
mais difícil para você enquanto eu pensava que eu estava
tornando mais fácil, fazendo a coisa certa.
— Ambos fizemos, — eu admiti rapidamente, e isso era
verdade. Ambos pensávamos que estávamos fazendo o que era
o melhor uma para o outro, mas, no final, nós estávamos
fazendo mais mal do que bem.
Ren desviou o olhar, sua mandíbula flexionando. — Sim,
mas eu te dei um esporro por planejar sair sem mim, e depois
virei-me e planejei fazer a mesma coisa.
— Mas você provavelmente quis me dizer primeiro, — eu
apontei.
— Isso não importa. — Os músculos em seus ombros
tensos. — Nós fodemos tudo, não foi?
Minha respiração parou novamente. Ele não estava
olhando para mim, e eu senti meu estômago cair como se eu
estivesse em uma montanha-russa. — Eu sei que você
provavelmente não quer fazer isso comigo mais. Eu sei que te
magoei e – inferno, você estava certo quando disse que eu estou
sempre fugindo. Você não precisa continuar me perseguindo.
Isso não está certo.
Eu engoli em seco quando a cabeça dele girou em minha
direção. — Nós nunca tivemos sequer a oportunidade de ter um
racionamento normal. Não me surpreende que isto não esteja
funcionando. Nós não podemos...
— O quê? — Ren cortou através da água como se tivesse
nascido nela. Em um piscar de olhos, ele estava bem na minha
frente e então duas mãos estavam tocando as minhas
bochechas, acariciando-as. — Vamos fazer uma pausa por um
segundo, porque eu quero deixar algo bem claro.
Nossos olhares travaram-se, e eu nem sequer consegui
formular uma resposta.
— Eu estava chateado com você. Você ainda
provavelmente está chateada comigo. Nós discutimos e temos
algumas coisas para resolver, mas isso é normal. O que
estamos lidando além de nós não é, mas ainda somos um
“nós”. — Seu olhar procurou o meu. — Eu ainda amo você. Eu
ainda estou aqui com você. Isso mudou para você?
Meu coração quase explodiu no meu peito. Eu não sabia
até esse momento o quanto eu precisava ouvir isso – para me
lembrar que isso era normal. Os casais brigavam. Às vezes eles
diziam coisas que eles desejavam não ter dito. Às vezes eles não
concordavam e faziam coisas que podiam magoar um ou outro.
Não era como se Shaun e eu nunca discutíssemos. Houve
ligações que terminaram abruptamente. Portas batidas na
cara. Eu apenas... eu apenas esqueci isso.
Eu esqueci que poderia haver um “nós” durante a
tempestade.
E foi isso que tornou isso diferente, tornou isso especial,
porque eu sabia que lá fora no mundo normal, havia pessoas
que nunca tinham passado do primeiro obstáculo, que
desistiram no momento que se tornou difícil ou exigia que
admitissem que eles estavam errados. E os nossos obstáculos
tinham sido altos. Eles ainda estavam lá, do tamanho de
arranha-céus, pairando sobre nós como a sombra do inverno
quando você está desesperadamente se agarrando ao verão.
— Eu ainda estou aqui, — eu disse, minha voz trêmula,
meu corpo inteiro tremendo. — Eu ainda estou contigo. Eu
ainda amo você. Eu nunca parei. Eu não posso.
Eu não sabia quem fez o primeiro movimento. Pode ter
sido eu. Talvez Ren. Mas qualquer que fosse a distância que
estava entre nós se evaporou e eu não sei se foi ele quem me
beijou ou eu quem o beijou. Ambos nos agarramos um ao
outro. Ren segurando as minhas bochechas. Eu segurando os
ombros dele, ficando na ponta dos pés.
E quando os nossos lábios se encontraram, foi o beijo
mais doce e mais suave. Um toque de nossas bocas que se
transformou em uma exploração lenta como se estivéssemos
nos familiarizando um com o outro, e... nós realmente
estávamos.
Sua pele nua contra as minhas mãos estava quente e
úmida enquanto uma das suas mãos deslizou para trás, seus
dedos escovando a minha orelha e se emaranhando em meus
cabelos. Meus lábios se separaram quando eu sussurrei seu
nome, e o beijou aprofundou-se quando ele estremeceu contra
mim.
Deus, eu sentia falta disso – da proximidade, da
intimidade. O que aconteceu entre nós depois que eu me
alimentei não foi intimidade. Foi apenas a necessidade feroz
nos guiando. Isso era diferente.
Minhas mãos deslizaram para baixo em seu peito, onde
seu coração batia tão selvagemente quanto o meu.
Ren se afastou para perguntar, — Está tudo bem?
Estava? Nós estávamos na piscina e nós estávamos
brigando minutos atrás. Qualquer um poderia entrar e nos
encontrar, mas ainda havia um “nós”, e eu não me importava.
Eu o queria. Eu precisava dele de uma forma que nunca tinha
experimentado antes, e nós estávamos beijando sem eu tentar
sugar a sua essência.
Eu precisava disso.
— Sim, — eu lhe disse, e eu pensei que deveria mostrar a
ele também.
Enganchando um braço sobre o seu pescoço e me
inclinando, eu levei a minha boca para a dele. Este beijo não foi
nada como o anterior. Não começou doce e lento. Oh, não.
Ren fez esse som no fundo da sua garganta que enrolou
os meus dedos dos pés e transformou meu sangue em lava
derretida. A mão na parte de trás da minha cabeça apertou e
sua outra caiu, seu braço enrolando ao redor da minha
cintura, selando nossos quadris juntos. O beijo aprofundou-se
e o primeiro toque da sua língua contra a minha foi como jogar
um fósforo na gasolina.
Ren empurrou, me prendendo entre o seu corpo e a
parede da piscina. Eu inclinei a cabeça quando a mão em meu
quadril deslizou para baixo em minha coxa. Ele levantou a
minha perna, curvando-a ao redor da sua cintura, e eu gemi
dentro do beijo.
Com ele usando nada além de cueca boxer e eu uma
legging fina, quase parecia como se não houvesse nada entre
nós. Quase. Eu podia sentir seu comprimento duro contra o
meu núcleo, e quando ele empurrou os seus quadris, eu pensei
que eu poderia ter um orgasmo naquele momento.
Meu corpo reagiu sem pensar. Eu não estava pensando
sobre a nossa briga, sobre como eu tinha mudado ou no que o
Príncipe tinha feito comigo. Não havia espaço para isso. Nós
estávamos nos beijando como se estivéssemos em uma seca e
tivéssemos acabado de conseguir água. Cada vez que eu rolava
os meus quadris, ele respondia e devolvia. Nossos corpos
estavam se movendo, agitando a água, e nossas mãos estavam
explorando, deslizando sobre a pele molhada. As dele estavam
embaixo da minha camiseta, deslizando sobre as minhas
costelas e para cima até o meu coração que estava acelerado
em meu peito.
Então, Ren parou.
Quebrando o beijo, ele colocou sua testa contra a minha
enquanto ele respirava fundo. Sua mão passou pela minha
bochecha agora. — Talvez... talvez nós devêssemos
desacelerar? — Sua respiração quente dançou sobre os meus
lábios. — Eu quero ter certeza de que você está pronta para
isso.
Meu coração apertou em meu peito da forma mais
maravilhosa. Eu toquei sua mandíbula quando eu abri os meus
olhos, procurando o seu olhar. Eu encontrei isso. — Eu estou
pronta. Mais do que pronta, e eu... eu não quero esperar.
Ren rosnou algo que soava um pouco como “obrigado
Deus” e então ele me beijou de novo. Nossas mãos se
atrapalhando com a água. Eu consegui libertá-lo, e de alguma
forma ele conseguiu levar a minha legging ensopada para baixo
dos meus joelhos. Foi um trabalho escorregadio, e nós
estávamos rindo, porque, puta merda, não era fácil trabalhar
com uma legging molhada, mas então o riso morreu.
O olhar de Ren segurou o meu com uma intensidade
completamente consumidora enquanto ele me levantava o
suficiente até eu o sentir entre as minhas coxas. Então os seus
lábios se moveram sobre os meus e ao longo da minha
mandíbula quando eu senti a sua mão contra mim. Um dedo e
eu quase disparei como um foguete.
— Deus, — eu arfei contra a sua boca enquanto eu
agarrava o seu braço.
Ele trabalhou a sua mão, pressionando a palma
diretamente contra o ponto mais sensível. Ele adicionou outro
dedo, e ambos gememos alto. Era demais, e quando ele
enganchou aquele dedo dentro de mim, o primeiro orgasmo me
bateu com tanta força que eu deixei cair a minha cabeça em
seu ombro para abafar o meu grito.
— Eu senti sua falta. — Sua voz estava rouca e irregular.
— Foda-se, eu senti tanto sua falta.
Emoção crua inchou enquanto meu corpo tremia. Ele
beijou seu caminho para baixo em minha garganta,
empurrando a minha cabeça para trás. — Eu senti falta de
você, — eu disse. — Eu senti falta de tudo isso.
— Não mais, — ele prometeu. — Nunca mais.
Então ele estava dentro de mim, da forma que eu queria,
sempre quis. No início foi um choque. Ren não era pequeno e
eu não podia espalhar minhas pernas com as legging embaixo
dos meus joelhos, e por alguma razão isso fez tudo muito
mais... uau. A fricção e o aperto eram incríveis.
Ele começou a se mover, uma mão presa na parte de trás
do meu pescoço, seu outro braço enrolado ao redor da minha
cintura enquanto ele bombeava em mim – um profundo e longo
impulso depois do outro.
O que nós estávamos fazendo, sabendo que podíamos ser
pegos a qualquer momento, era uma loucura, mas isso não nos
parou. Éramos apenas nós, nossos corpos se movendo juntos
até o frenesi, enviando a água para o outro lado.
— Inferno, Doçura, — ele grunhiu e eu senti isso se
construindo dentro de mim por toda parte, aquela tensão
terrível, uma bagunça de desejo e luxúria.
Ele nos lançou para trás, e então o cimento áspero estava
cavando em minhas costas quando ele pressionou em mim o
máximo que pôde, moendo-se contra mim até me empurrar
novamente para a beira do êxtase e então atirou-me
diretamente para isso. Eu gozei, gritando enquanto ele
enterrava a sua cabeça em meu pescoço, empurrando uma e
duas vezes antes de me seguir até o limite, o meu nome uma
forte explosão de ar naquele ponto estranhamente sensível
abaixo do meu pulso.
Eu estava mole em seus braços, minha bochecha
deslizou contra o seu peito, vagamente consciente dele de que
ele me puxava e me abaixava de modo que meus pés batessem
no fundo da piscina. Ele não se afastou, ainda me segurando
firmemente a ele.
Sua respiração desacelerou quando ele deixou seu queixo
cair no topo da minha cabeça. Por um tempo, nós ficamos
daquela forma, nenhum de nós falando. Éramos só nós e a
água ondulando.
Foi Ren quem quebrou o silêncio. Sua mão apertando ao
redor da parte de trás do meu pescoço. — Estamos bem?
Pela primeira vez em dias, eu não precisei pensar sobre
em como responder a essa pergunta. Eu sabia a resposta
imediatamente. — Nós ficaremos bem.

Capítulo 18
Ter relações sexuais não relacionadas com à alimentação
não resolveu todos os problemas que tínhamos e estávamos
encarando, mas com certeza me acalmou o suficiente para ser
capaz de falar sobre eles.
— Eu não sei como fazer relacionamentos, — eu admiti
de onde minha bochecha estava achatada no peito de Ren.
Depois da piscina, nós voltamos para nosso quarto e mudamos
para roupas secas. Bem, na maior parte. Ren vestiu uma calça
de moletom e eu tinha roubado uma das suas camisetas. Era o
bastante para cobrir todas as partes interessantes. Então nós
batemos na cama, ele de costas e eu de lado, pressionada
contra ele. Seu braço estava enrolado ao redor da minha
cintura, sua mão descansando em meu quadril. — Eu quero
dizer, eu achava que costumava saber. Eu tive com Shaun. Eu
imagino que acabei esquecendo como.
— Eu não acho que há uma forma de fazer um
relacionamento. — Sua mão estava imóvel, mas seu dedo se
movia lenta e continuamente. — E você sabe o que eu acho?
— O quê?
Ren moveu-se para seu lado, e quando eu dei por mim,
nós estávamos cara a cara. — Nós temos que nos dar um
tempo.
Meu olhar vagou sobre seu rosto. — Eu gosto do som
disso.
Seus lábios se curvaram de um lado quando ele arrastou
sua mão para meu lado. — Falando sério. Nós passamos por
muita merda. Nós vamos ultrapassar isso. Nós não vamos ser
perfeitos.
Dobrando minhas mãos entre nós, eu sorri um pouco. —
Você está muito perto da perfeição.
Ele pegou a ponta do meu cabelo e puxou um cacho,
esticando-o. — Não, eu não estou. Eu devia ter mantido a
minha boca fechada essa manhã. — Ele soltou o cacho,
observando se enrolar de volta. — Você tem todo direito de
estar chateada por causa isso.
Sim, eu tinha. — E você tem todo direito de estar
chateado por eu tentar sair sem vocês.
— Verdade. — Seu sorriso se espalhou quando ele tocou
a minha bochecha com um dedo. — Olha para nós
concordando em alguma coisa.
— Então, você não vai surtar quando eu me levantar pela
manhã e me preparar para ir procurar Marlon?
— Não. — Ele soltou um suspiro. — Não vai ser fácil, mas
eu lidarei com isso.
— Bom.
Ele arrastou seu dedo ao longo da minha bochecha. — E
você vai se manter conversando comigo, certo? Especialmente
quando você sentir que já não sabe quem você é? Você vai me
deixar ajudar a lembrá-la, certo?
Lágrimas imediatamente borraram a minha visão. Ren as
viu, porque sua mão parou com o polegar logo abaixo do meu
lábio.
— Certo? — ele persistiu.
— Certo, — eu murmurei engasgada.
Abaixando a mão, ele passou o polegar sobre o meu lábio.
— Prometa-me isso, Ivy.
Engoli o nó repentino na minha garganta. — Eu prometo.
Ele se inclinou, os seus lábios substituindo o polegar,
beijando-me suavemente. Quando ele se afastou, seu olhar
estava um pouco menos pesado. — Quando nós estávamos na
piscina e você estava me deixando realizar os seus sonhos...
— Uau.
Ele sorriu largamente então, e meu coração pulou uma
batida. Havia uma daquelas covinhas! E eu aposto que eu
pudesse ver o seu rosto inteiro, ambas estariam à vista em toda
sua glória. — Como você estava se sentindo? Além de estar
sendo tomada pelo êxtase?
Eu rolei meus olhos. — Eu me senti... normal. Como se
eu não pensasse sobre... — Calor rastejou em minhas
bochechas, mas eu não me permiti me calar. — Eu não estou
pensando sobre ele ou nada disso.
Se Ren tinha se preocupado sobre isso, ele não
transpareceu. — E sobre a coisa toda de sugar a minha
essência?
O calor em minhas bochechas se aprofundou, mas eu
empurrei o desconforto. — Eu não queria me alimentar. Nunca
cruzou pela minha mente.
— Isso é algo bom, certo?
— Sim, é apenas que... eu não sei se sempre será assim
ou se me baterá de novo – os desejos. — Eu forcei-me a
continuar. — Eu quero dizer, está lá. Não o tempo todo, mas é
como se fosse... indigestão.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Mas, mais grave do que azia, — eu adicionei.
Ren ficou quieto por um momento. — Você precisa
confiar em si mesma, Ivy. Eu sei que é mais fácil dizer do que
fazer, mas até mesmo quando você estava... morrendo, você
não queria se alimentar. E quando você estava se alimentando,
você parou. Essa parte de você não desapareceu. Eu nunca me
preocupei sobre você pular para cima de mim como se fosse
15
aquela coisa que grudava no rosto dos filmes Alien .
Eu ri suavemente. — Bom saber.
— Eu confio em você. — Seus olhos encontraram e
seguraram os meus. — Eu vou garantir que você comece a
confiar em si mesma.
Minha visão borrou de novo, e não ajudou quando ele
beijou a ponta do meu nariz.
— Agora, vamos para uma conversa mais séria.
Oh céus.
Ele se apoiou em um cotovelo. — Eu não tenho certeza se
você percebeu isso ou não, mas você é muito forte.
— É claro que eu sou, — eu murmurei.
Ele abaixou sua mão para a curva da minha cintura. —
Não, Ivy. Mais forte do que você percebe.
Eu fiz uma careta para ele.
— Quando você me empurrou na piscina, eu não estava
desequilibrado. Você não deveria ter sido capaz de fazer isso
tão facilmente.
Sem saber se deveria me irritar por aquela afirmação ou
não, minha careta aumentou. — Eu estive treinando desde que
eu lembro. Derrubar você não é tão difícil.
Ele riu para mim. — E eu tenho treinado desde que eu
posso me lembrar. Além disso, eu tenho uns quarenta e cinco
quilos a mais do que você. Quando você me empurrou, parecia
como se um caminhão tivesse batido em mim.
— Uau, — eu murmurei. — Isso não é lisonjeiro.
Rindo baixinho, ele ergueu sua sobrancelha para mim. —
Eu quero tentar algo, ok? Eu quero que você me prenda.
Eu encarrei ele. — Sério?
Ele assentiu. — Eu quero ver se você...
Ren não precisou pedir duas vezes. Sentando-me, eu
coloquei as minhas mãos em seus ombros e o empurrei na
cama. Eu me movi, montando nele.
— Ok. — Ele riu. — Você ficou feliz por isso.
Eu sorri. — Eu sempre estarei aqui para mostrar o seu
devido lugar.
Ele soprou um beijo para mim, e então seus músculos se
flexionaram sob as minhas palmas. Ele começou a erguer-se,
mas eu o empurrei, mantendo-o relativamente preso.
— Isso é o melhor que você consegue? Vamos, Ren. Pare
de brincar comigo.
— Eu não estou brincando com você. — Sua mandíbula
travou quando seu corpo se enrolou sob o meu. Ele ergueu os
ombros, mas eu exerci mais pressão, impedindo-o de se sentar.
— Jesus, — ele grunhiu, caindo para trás e perdendo os
centímetros que ganhara. — É sobre isso o que eu estava
falando.
Eu pisquei e então empurrei minha cabeça para trás. —
Você realmente não está brincando? Você não consegue sentar-
se?
— Não.
Eu não acreditei nele. — Tente de novo.
— Tanto faz. — Ren curvou o seu abdômen, e eu pude
sentir o poder e força em seu corpo. Ele não estava se
segurando, mas ele não estava conseguindo indo muito longe.
Seus músculos tremiam, — Viu?
Chocada, eu soltei e então ele disparou como um foguete,
agarrando um braço ao redor da minha cintura e antes que eu
caísse. — Puta merda.
— Sim. — Uma vez que ele tinha me mantido firme, ele
caiu de novo na cama. — É disso o que estou falando. Você é
mais forte do que eu.
Tudo que eu podia fazer era encará-lo. Eu sempre tinha
sido rápida e forte. Anos e anos de treinamento fizeram isso,
mas Ren tinha mais massa muscular. Eu não deveria ter sido
capaz de dominá-lo.
As covinhas apareceram em sua bochecha. — E isso é
quente como o inferno.
Eu inclinei minha cabeça para o lado e suspirei.
— O quê? Lembra daquela noite quando você me virou no
ar?
— Sim, eu lembro. Você tinha invadido o meu
apartamento, — eu repliquei secamente.
— Eu não invadi. As portas da varanda estavam
destrancadas.
Eu rolei meus olhos. — Você ainda entrou sem
permissão, Ren.
Ele esquivou-se disso. — De qualquer forma, eu acho que
você tem alguma força fae em você.
Sentando-me, eu deixei as minhas mãos descansarem em
seu abdômen. — Sabe, sendo uma halfling e tudo mais? Eu
realmente nunca fiquei doente ao crescer. Eu nunca quebrei
um osso, mas eu nunca tive essa força.
— Provavelmente a alimentação. — Suas mãos pousaram
levemente em meus quadris.
Pensei em quando eu acordei. — Faye disse que poderia
haver outras... mudanças em mim, e eu... eu parti as amarras
que eles tinham em mim. Eu tinha me esquecido disso.
— Amarras? — O riso desapareceu de seu rosto.
— Sim. Você não sabia? Aparentemente, eles estavam
preocupados que eu fizesse alguma coisa terrível. — Eu soltei
um longo suspiro, pensando sobre quando eu estava treinando
mais cedo. Eu não tinha entrado no modo bestial total com o
saco, por isso não teria percebido se eu estivesse mais forte do
que antes. — Talvez isso desparecerá.
— Talvez. — Ele inclinou a cabeça para o lado. — Mas
olhe para Faye ou Kalen e Dane. Eles não se alimentam e eles
são fortes.
E eu tinha mudado, fisicamente. Não havia como negar
isso. Ser mais forte não era ruim. De forma alguma.
Considerando a minha linha de trabalho e o que nós íamos
encarar, era uma benção.
Estranho.
Eu não tinha certeza de como me sentir sobre estar ok
com aquelas mudanças. Então percebi que eu poderia estar
bem com isso. Eu apenas tinha que me permitir estar ok.
Poderia ser assim tão fácil?
Eu me mexi e então fiquei imóvel, saindo completamente
da minha cabeça. Eu o ficando duro embaixo de mim. Minhas
sobrancelhas se ergueram. — Sério?
O sorriso torto apareceu. — Eu não sei se você lembra
disso ou não, mas você não está usando nada embaixo da
minha camiseta e você está montando em mim.
Um formigamento afiado irradiou de onde eu podia sentir
ele se apertando contra mim. — Bom ponto.
— E como eu disse, você me dominando é quente como o
inferno.
Eu ri ao me inclinar para a frente, maravilhando-me com
a forma que seu abdômen se apertou em resposta e como os
seus olhos se aprofundavam em um verde floresta; — Deve ser
legal ser um cara.
Seus olhos ficaram encobertos quando as pontas de seus
dedos rastreavam ao longo da borda da camiseta que eu estava
usando. — Isso é quando eu tenho você sentada no meu pau.
Um riso explodiu de mim, e eu fui abençoada com as
duas covinhas aparecendo em seu rosto. Seus dedos se
curvaram sob a bainha da camiseta. — Eu quero ver você.
Minha respiração ficou presa, porque eu sabia o que ele
quis dizer. Imediatamente, meu pulso trovejou. Eu estava
seriamente nua sob a camiseta dele.
— Eu posso?
Mordendo o meu lábio, eu assenti.
Ren levantou a camiseta, deslizando-a para cima pelos
meus lados e sobre a minha cabeça. Quando ele a jogou na
cama ao lado dele, eu estava completamente nua e não havia
como esconder o fato de que cada parte de mim tinha uma
tonalidade prateada.
E Ren estava absorvendo tudo.
Seu olhar travou com o meu e então deslizou para o sul,
a intensidade quase uma carícia física. Eu senti o seu olhar
enquanto deslizava sobre os meus ombros. Meus seios ficaram
pesados, os mamilos apertados e foi difícil ficar imóvel
enquanto seu olhar continuava a mover-se, sobre o ápice das
minhas coxas, até onde os meus joelhos estavam dobrados.
— Obrigado, — ele disse finalmente, sua voz em um tom
rouco.
Minha boca secou.
As pontas dos seus dedos se arrastaram sobre os meus
lados e quadris, para baixo pelo lado de fora das minhas coxas
e subindo pela minha barriga. Suas mãos pararam logo abaixo
dos meus seios. — Você é linda, Ivy. Eu já te disse isso, certo?
Eu encontrei a minha voz. — Sim.
Um meio sorriso apareceu quando seus dedos escovaram
sobre o inchaço dos meus seios. — Eu não acho que eu disse
isso o suficiente.
Eu suguei uma respiração superficial. — Você pode
continuar me dizendo. — Minha voz se engatou quando seus
dedos chegaram muito perto dos meus mamilos antes de se
afastarem. — Eu não me importo.
Ele mordeu seu lábio inferior, sugando-o entre seus
dentes. Partes de mim se apertaram em resposta. Seus dedos
circularam o centro dos meus seios, e a tortura de ele se
aproximar e depois se afastar era possivelmente a coisa mais
perversa que ele poderia fazer.
— Nós temos que acordar cedo amanhã. — Seu olhar
seguiu os seus dedos agora.
— Qual é... — Eu estremeci quando ele se aproximou
mais uma vez. — Qual é o plano?
— Faye está em vias de encontrar onde Marlon vive, uma
vez que eu não acho que ele esteja ficando mais naquele hotel.
— Suas mãos deslizaram para as minhas costelas, e naquele
ponto, eu estava ofegando com antecipação. — E desde que ele
só costuma estar na Flux à noite, nós realmente não temos
tempo para esperar por isso.
— Concordo. — Eu engoli tentando focar. — Quem vai
conosco?
As mãos de Ren ficaram na minha cintura, para o meu
desapontamento. — Não tenho exatamente certeza ainda.
Eu comecei a responder, mas Ren se sentou de repente.
Circulando um braço ao redor da minha cintura, ele inclinou
um pouco a cabeça enquanto me beijava. Foi breve, muito
breve, e então ele se afastou, seu olhar prendendo o meu.
No início eu não tinha ideia do que ele estava fazendo. Eu
podia dizer que ele queria levar isso adiante. Além do fato de
ele ter me despido, ele ainda estava duro embaixo de mim, e
não havia como confundir a intenção em seu olhar, mas ele
não estava fazendo qualquer movimento.
E então... então eu percebi o que ele estava fazendo, e eu
pensei que eu poderia desmoronar.
Ren não estava apenas esperando.
Ele estava me entregando as rédeas nisso, me dando o
controle completo.
— Eu amo você, — eu sussurrei, e então eu peguei isso,
mostrando a ele o que eu queria com suas mãos e então sua
boca.

***

— Pesquisei bastante, mas eu acho que descobri onde


Marlon vive, — Faye anunciou na manhã seguinte, enquanto
nos sentávamos ao redor da pequena mesa no refeitório.
Houve olhares, mas eu não os deixaria me atingirem.
Neste momento, eu não podia permitir que distrações estúpidas
me pegassem, e eu não ia. O fato de que Tink ter se sentado à
minha esquerda e Ren à minha direita ajudava.
— Desde que a sua nova casa foi concluída há cerca de
um mês, ele não está ficando no hotel, — ela explicou quando
eu peguei um pedaço de bacon. Meu apetite ainda não estava
de volta ao normal, mas eu precisava comer. — Ele na verdade
comprou uma casa antiga no Lake Vista. As obras de reforma
foram terminadas a poucas semanas atrás.
— Lake Vista? — Meus olhos se arregalaram. Puta
merda, esse era um dos bairros mais ricos e exclusivos de New
Orleans. Ser um fae Ancião do mal deveria estar funcionando
bem para ele.
16
— Sim. Sua casa está na Flamingo Street . — Virando o
laptop que ela tinha na frente para que pudéssemos olhar, nós
conseguimos ver uma casa enorme. — Legal, não é?
— Eu estou com inveja, — eu sussurrei, olhando a bela
casa histórica de dois andares com varandas. Faye a encontrou
em algum site imobiliário.
Tink se inclinou apertando os olhos, — Por que nós não
vivemos em um lugar como esse?
Eu olhei para ele. — Se você quer viver em um lugar
como esse, você realmente vai precisar conseguir um emprego?
— Eu não acho que exista um emprego para o qual eu
esteja qualificado que a ajudasse a pagar essa casa.
Ren bufou.
— De qualquer forma. — Eu mastiguei um pedaço de
bacon. — Tenho quase certeza de que o bairro é fechado.
— Com segurança, — Faye disse.
— Não deve ser um problema. — Ren pegou uma fatia de
pão de trigo e colocou-a no meu prato.
Faye fechou o laptop. — Nós não machucamos os
humanos.
— Não planejo fazer isso. — Ren olhou para onde Dane e
Kalen estavam sentados perto de Faye.
— Nós precisamos entrar naquele bairro com o mínimo
de problemas possível.
— E isso significa que você quer que usemos compulsão.
— Dane inclinou-se para frente, cruzando seus braços sobre a
mesa. — Eu não tenho problema com isso.
Faye suspirou.
Eu escondi o meu sorriso enquanto eu mordia o pão e
imediatamente me arrependi disso. Sem manteiga. Sem geleia.
Tinha gosto de papelão. Eu o soltei no prato e estendi a mão
para o meu café para lavar a falta de sabor. Como no mundo
Ren comia aquilo?
— Eu não também, — Kalen falou. — Mas eu duvido que
quem quer que esteja trabalhando no portão seja humano.
Marlon teria que ser um tolo se esse fosse o caso.
— Bom ponto. — Ren olhou para o pão descartado. — De
qualquer forma, nós vamos ter que ser rápidos e torcer como o
inferno para que ele esteja em casa.
— E então o quê? — Tink perguntou.
— Nós temos transporte que não levantará suspeitas
imediatamente, — Dane respondeu, inclinando a cabeça escura
para o lado.
— E então o quê? — Tink repetiu.
Eu ignorei Ren enquanto ele cutucava a coisa que ele
chamava de pão, empurrando-o para mais perto de mim. —
Então nós entramos na casa dele.
Tink inclinou a cabeça quando eu agarrei outro pedaço
de bacon. — Isso não vai ser exatamente fácil.
— Não. — Ren suspirou pesadamente quando ele
percebeu que não havia forma no inferno que eu colocaria
novamente aquele pão na minha boca. Ele o pegou do meu
prato. — É por isso que nós precisamos ser rápidos, porque
não há como eles não saberem quem nós somos.
— Mas eles não me conhecem. — salientou Tink. — Eu
poderia atacá-los de surpresa.
Eu dei-lhe um longo olhar. — Que não seja você. Você
está ficando aqui onde você ficará bem e seguro.
Tink fez uma careta. — Mas eu...
— Você devia ficar e fazer companhia para o Príncipe
Fabian, — Faye sugeriu. — Ele não vai conosco.
Os cantos dos lábios de Tink se ergueram. — Isso eu
posso fazer. Quando vocês irão sair?
Kalen verificou a hora em seu telefone.. — Assim que a
nossa pequenina halfling terminar o seu café da manhã.
Eu parei com o pedaço do bacon na metade do caminho
para a minha boca. — Pequenina halfling?
O fae riu.
— Você está pronta para isso? — Dane perguntou, não
todo sorrisos. — Não tentando ser uma idiota pela pergunta,
mas você está fora de serviço há um tempo e...
— E eu consegui meu traseiro chutado por dois faes não
muito tempo atrás, — eu terminei por ele. Eu olhei para Ren.
Ele tinha feito a mesma pergunta esta manhã, e eu não tinha
sido uma resposta fácil de responder. — Eu estou tão pronta
quanto eu poderia estar.
Aquela resposta não pareceu satisfazer Dane. — Se ele
estiver lá, vai haver muitos faes com ele, e ele não é um fae
normal...
— Ele é um Ancião. Eu sei. — Meus ombros ficaram
tensos. — Mas eu não sou a mesma Ivy que foi atacada no
pátio.
— Ela está pronta. — Ren encontrou o olhar de Dane.
Dane ficou quieto e então ele disse, — É melhor que ela
esteja.
Meus olhos se estreitaram, mas então Ren colocou seu
braço sobre os meus ombros enquanto ele se inclinava,
beijando a minha têmpora, e eu fiquei completamente
distraída. — Termine isso, — ele sussurrou, escovando o seu
nariz ao longo da curva da minha bochecha. — E então, com
sorte, nós saberemos exatamente onde aquele bastardo está
antes do almoço.

Capítulo 19

O meio de transporte era surpreendentemente inteligente.


Uma van de floricultura, exceto que não havia flores. Apenas
um banco correndo ao longo de um lado e o outro lado
contendo correntes aparafusadas na lateral.
Essa era uma verdadeira van de sequestros.
Kalen e Dane estavam na frente. Faye ficou por
preocupação de ser reconhecida, pois não sabíamos se havia
faes trabalhando nos portões ou se os faes possivelmente a
reconheceriam logo de cara. A coisa era, se houvesse faes no
portão, eles sentiriam o que Kalen e Dane eram imediatamente.
A van não devia atrair qualquer atenção até chegar ao portão,
mas não nos iria fazer passar por ele.
Estar do lado de fora do Hotel dos Faes Bons... Deus, era
difícil colocar em palavras, mas não tinha sido fácil para mim.
Enquanto Faye e os caras saíram pela abertura da parede atrás
do pátio como se isso não fosse um grande negócio, meu
estômago torceu-se como se estivesse cheio de víboras. Todo
mundo estava falando, mas eu não estava ouvindo. Eu parei na
abertura, meus pés incapazes de se moverem.
Ren tinha colocado sua mão no centro das minhas
costas. Ele não falou, mas eu sabia que ele sentia a minha
cautela. Estava provavelmente gravada em meu rosto. Com ele
ao meu lado, eu dei um passo para fora da proteção do pátio e
rapidamente percebi que estava mais quente do que da última
vez que estive do lado de fora. Clima mais normal para outubro
em New Orleans.
Foi estranho sair do pátio, para o mundo que existia além
do glamour do Hotel dos Faes Bons. Mesmo que eu soubesse
que Drake e seus lacaios estavam longe, eu estava meio que
esperando que eles aparecessem do nada.
Eles não fizeram.
Uma parte de mim ainda esperava que houvesse algum
tipo de armadilha, que o Príncipe repentinamente aparecesse e
nos dissesse que tínhamos sido enganados. A outra parte de
mim queria correr por aí, respirando todos os aromas bons e
maus da cidade.
Eu não consegui fazer a última parte. Não havia muito
tempo para processar que eu estava... livre.
— Nós estamos nos aproximando do portão. — Kalen
espiou através da janela aberta que separava a frente da van.
Sentado ao meu lado no banco, Ren assentiu. — Entendi.
Kalen fechou a porta, e eu exalei asperamente enquanto
eu corria minhas mãos sobre os joelhos da minha calça tática.
— Você está nervosa? — Ren perguntou baixinho.
Eu comecei a dizer não, mas então assenti. — Um pouco.
Faz um tempo desde que eu usei uma calça como essa.
Seu olhar passou rapidamente por mim. — Você parece
malditamente bem nela.
— Obrigada. — Eu disparei um sorriso para ele. Verdade
seja dita, ela estava mais solta do que deveria estar essa
manhã, mas me fez sentir bem usá-la.
Eu fiquei quieta quando a van parou, odiando não poder
ver nada, mas tanto Ren como eu ficamos tensos. Suas mãos
foram para a adaga de ferro em sua cintura e a minha foi para
onde eu tinha uma presa na minha coxa. Ren tinha a estaca de
espinhos dentro da sua bota.
— Olá, — nós ouvimos Dane falar. — Nós temos um
pedido de...
— Que diabos? — Exclamou uma voz desconhecida.
Merda.
Ren soltou a adaga no momento que nós ouvimos a porta
da van abrir, seguido por um grunhido de dor. Alguém
amaldiçoou e então houve silêncio.
Nós olhamos um para o outro, sabendo que isso poderia
significar uma coisa ou uma coisa realmente ruim.
Nós tivemos nossa resposta rapidamente.
A porta dos fundos se abriu, revelando Kalen com um
homem pendurado por cima do seu ombro. Ren disparou do
banco, alcançando-o.
— Um fae e este humano, — Kalen disse quando ele e
Ren deitaram o homem na parte de trás da van. — Ele está
fora, mas não morto. Glamourizado. Acho que o manteremos
ele aqui apenas no caso de alguém aparecer e o ver desmaiado
na cabine.
— Boa decisão. — Ren rolou o humano para as suas
costas. — E o fae?
— Nos reconheceu imediatamente. — A mandíbula de
Kalen endureceu. — O eliminei. — Ele olhou para onde eu
estava sentada. — Nós vamos agora para a casa. Vocês, caras,
estão prontos?”
Eu assenti. — Claro.
Kalen inclinou sua cabeça e então balançou-a. Fechando
a porta, a van voltou à vida uma vez mais enquanto Ren se
sentava ao meu lado, enquanto eu encarava o homem
inconsciente. Ele era sortudo por estar vivo.
— Você sabe o quê? — Eu disse soltando um longo
suspiro. — Se fosse a Ordem conduzindo essa missão, eles o
teriam nocauteado ou o teriam matado?
Ren não respondeu por um longo tempo. — Imagino que
isso dependeria de quem fosse.
— Sim. — Isso não parecia bem, porque embora eu
soubesse que não deveríamos matar humanos, acontecia.
Muito. — Eu suponho que sim.
Quando a van desacelerou até parar mais uma vez, Ren
estendeu a mão e colocou-a ao redor da minha nuca. — Ei.
Eu o deixei virar o meu olhar para o dele. — Sim?
— Eu amo você. — Ele me beijou então, movendo seus
lábios sobre os meus de uma forma que teve os meus dedos
dos pés se curvando dentro das minhas botas. — Você vai ser
cuidadosa?
Eu descansei minha testa contra a dele. — Você vai?
— Sim, porque eu quero ter você na cama mais uma vez
antes que tenhamos que pegar a estrada. — Ele mordeu o meu
lábio inferior. — Você gostou do som disso?
Eu gostei, então eu o beijei de volta. — Então é melhor
você ter certeza que você não se machucará.
Ele riu contra minha boca. — Nós damos conta disso.
— Nós daremos, — eu sussurrei, me afastando dele
quando eu ouvi a porta do lado do motorista abrir e fechar.
Saindo do banco, tivemos cuidado para não pisar no
pobre homem no chão enquanto nós nos agachávamos até a
porta traseira. Segundos depois, a porta se abriu e nós
pulamos para fora na luz do sol.
Não havia tempo a perder ou para pensar sobre o que eu
tinha que fazer e o que seria necessário de mim, porque eu já
sabia. Estava entranhado em meus ossos e músculos. Eu lutei
e cacei milhares de vezes.
Hoje não era diferente.
Eu tinha isso.
Ren e eu contornamos a traseira da van, logo atrás de
Kalen, bem a tempo de ver uma fêmea fae alta correr pelos
degraus largos de pedra. Dane a encontrou lá. Eu mal o vi se
mover, mas ele a pegou. Ela tropeçou para trás, choque
registrado em seu rosto por um momento, antes que suas
feições desmoronassem.
Eu subi os degraus, meu coração batendo forte com...
uma verdadeira antecipação para a batalha. Fazia tanto tempo,
mas essa mistura de medo e excitação poderia ser uma mistura
inebriante e perigosa. Ou poderia aguçar os sentidos.
E os meus sentidos estavam afiados.
Fechando minhas mãos em punhos, eu bati nas portas
duplas de bronze e então dei um passo para trás. Eu sabia,
sem olhar para trás, que os caras já estavam ali.
A porta se abriu um e houve um vislumbre de pele
prateada. Tudo o que eu precisava ver. Eu plantei minha bota
no centro da porta, dando um pontapé para abri-la ainda mais.
O fae atrás da porta deslizou para trás, perdendo o equilíbrio.
Ele caiu quando Ren voou passando por mim. O fae estava
morto antes que ele pudesse soar o alarme.
Mas o alarme não precisava ser soado.
Quando eu verifiquei a área aberta o foyer, eu vi vários
faes – pelo menos uns doze deles vagando, de pé e conversando
na sala de estilo átrio, ou vendo TV na sala de recreação atrás
da escada em espiral.
Com tantos faes, Marlon tinha que estar aqui.
— Oh, olha, — Ren se ergueu com graça fluída. — Uma
festa de boas-vindas.
— Sim. — Dane jogou uma adaga – uma adaga de ferro –
em suas mãos fae. Ele, como Kalen, estava usando luvas desde
que o mero toque de ferro chamuscaria a sua pele.
A festa de boas-vindas fez aquela coisa assustadora do
assobio que os faes realmente irritados eram conhecidos por
fazer. Então eles atacaram.
Havia uma pequena parte de mim que se perguntava se
talvez eu não estivesse pronta, mas a adrenalina pura
atravessou as minhas veias, anos de treinamento fazendo
efeito. Instinto assumindo.
Andando pelo azulejo espanhol, eu desembainhei minhas
adagas das minhas coxas e girei, batendo a ponta muito afiada
no peito de um fae à minha direita. Puxando a adaga, girei e
eliminei o fae à minha esquerda antes que o primeiro
terminasse de entrar em colapso.
Outro me atacou, e eu me abaixei, chutando e
arrancando as pernas do fae debaixo dele. Desloquei-me,
esfaqueando o fae em seu estômago. Erguendo-me, eu me
lancei à direita, desviando do que seria um hábil golpe no
queixo. Eu peguei o fae nas costas, direto entre as omoplatas.
Então eu girei, nem mesmo perdendo o fôlego.
Ren pegou um fae com suas mãos ao redor de seu
pescoço. Aqueles brilhantes olhos verdes dele estavam focados
em mim enquanto eu empurrava as adagas profundamente nas
entranhas do fae que ele estava segurando. — Tão fodidamente
quente.
Corando, eu ri.
— Se vocês caras terminaram de foder um ao outro com
os olhos, subam aqui, — Kalen gritou do meio da escada.
— Dê-nos mais um segundo, — Ren piscou para mim
enquanto ele girava, batendo com o ombro em um fae estava
atacando-o para trás.
Rolando meus olhos, eu fui para os degraus, subindo-os
de dois em dois. Kalen chegou ao segundo andar, ficando cara
a cara com um fae muito alto e careca. Inquietação percorreu a
minha coluna. O fae parecia com um dos Cavaleiros...
— Merda, — ele murmurou, e um segundo depois, o fae
levantou a mão. A adaga escapou do aperto de Kalen e bateu
na parede próxima, onde a lâmina tremeu com o impacto.
Um Ancião.
Sim. Ele era um dos Cavaleiros que tinha atravessado o
portal na noite que o Príncipe entrou em nosso mundo.
— Você escolheu o lado errado como de costume, Fae do
Verão. — O Ancião seguiu em frente ao mesmo tempo em que
passos subiam as escadas atrás de mim. — E você morrerá por
isso.
O Ancião balançou seu braço para o lado, e sem sequer
tocar em Kalen, ele atirou-o na parede. A parede de gesso
rachou e plumas de gesso voaram no ar. Kalen caiu de joelhos,
obviamente atordoado.
O Ancião virou-se para mim, inclinando a sua cabeça
para o lado. Curiosidade marcou as suas feições primeiro, e
então, compreensão. — Halfling?
— Oi! — Eu gorjeei lançando-me no ar. Eu girei,
chutando e pegando o Ancião em seu estômago. Eu pousei de
cócoras quando o Ancião tropeçou e perdeu o equilíbrio, caindo
de joelhos. A surpresa que encheu seu olhar refletia o que eu
senti. Um chute normal como esse talvez derrubasse um
humano por horas. Teria atordoado um fae normal, talvez o
jogado no chão, mas um Ancião? Isso o faria tropeçar.
Eu derrubei o Antigo.
Eu era mais forte.
Erguendo-me, eu sorri amplamente enquanto apertava as
adagas. — Surpresa. Eu não sou uma halfling comum.
— Você será uma halfling morta em breve. — Ele se
levantou.
— Oh, eu não sei sobre isso. — Pegando o olhar de Ren
pelo canto do meu olho, eu assenti. Nós tivemos que passar
pelo Ancião antes que Marlon escapasse. — Meio que já fiz isso.
Não colou.
O Ancião começou a levantar o braço, e eu sabia do que
ele era capaz. Eu disparei para frente, girando quando Ren
passou por nós. Eu peguei um vislumbre de Dane agarrando
Kalen pelo braço, erguendo-o quando o Ancião pegou a minha
perna. Ele me atirou para o lado. Eu rolei, preparando-me para
o impacto. Eu bati duro no chão, mas eu mantive as adagas e
respirei através da dor estridente.
— Não vou cair nessa de novo. — O Ancião começou a vir
na minha direção.
Eu saltei. — Mas você já fez.
Ele parou e então virou-se, mas já era muito tarde. Ren
disparou para frente, e o Ancião soltou um gemido gutural.
Arrancando a estaca de espinho do peito do Ancião, Ren sorriu
maliciosamente. — Imagino que você vai fazer a coisa de
morrer.
A boca do Ancião caiu aberta enquanto ele olhava para o
seu peito. Eu disparei passando por ele, lançando-o para fora
quando me juntei aos faes da Corte de Verão no fim do
corredor. Todas as portas estavam abertas, os quartos vazios.
Uma permaneceu fechada no final. Portas duplas. Obviamente,
o quarto principal.
Dane bateu com o ombro nas portas, e elas cederam se
abrindo. Eu vi Marlon imediatamente, de pé diante de uma
cama grande. Ele levantou o braço, e a sua mão não estava
vazia. Segurava uma arma.
Uma arma que estava apontada diretamente para Ren.
— Merda. — Meu coração se alojou em minha garganta.
Eu disparei para minha esquerda, jogando Ren para o lado
quando o tiro ecoou no corredor.
Ren nos pegou, atirando um braço ao redor da minha
cintura quando seus olhos se arregalaram um pouco. Ele se
endireitou quando seu olhar encontrou o meu. — Obrigada,
Doçura.
Assentindo, eu me afastei quando ouvi a arma disparar
de novo. Dane e Kalen estavam em Marlon. A bala tinha sido
disparada inofensivamente no teto.
— Uma arma? — Kalen cortou o outro braço de Marlon. A
arma caiu no chão quando Dane torceu o outro braço de
Marlon. — Isso é meio cafona.
— Eu imagino que você tem confiado demais em seus
guardas, porque isso foi muito fácil. — Dane sorriu levemente.
— Patético.
Marlon zombou quando Dane se moveu atrás dele. —
Você vai se arrepender disso. Quando o Príncipe ...
— O Príncipe não está aqui agora, está? — Eu entrei no
quarto. — Então, ele não vai fazer merda nenhuma.
O olhar de Marlon se estreitou em mim quando Dane
passou as algemas de ferro ao redor de seus pulsos e Kalen
forçou o outro braço de Marlon. — Você é aquela fodida
halfling.
— Essa sou eu. — Eu sorri, embainhando uma adaga.
— Sente-se, — Dane ordenou, e então se certificou que o
Ancião fizesse exatamente isso, forçando-o a se sentar no
banco com um pesado empurrão em seu ombro.
— Parecendo menos como uma halfling e mais com uma
fae, — Marlon cuspiu. — Isso é interessante.
— Eu estou. Essa é uma longa história, mas eu não estou
aqui para contar a você tudo sobre isso. — Eu prendi a outra
adaga na minha coxa. — Porque francamente, eu não me
importo o bastante para dizer a você.
Marlon sorriu, arreganhando os dentes. — Ele deveria ter
matado você. Ele devia ter ido em frente e fodido você e então te
matado.
Eu não tive a chance de responder isso.
Ren se moveu como uma cobra golpeando. Seu pulso
bateu no lado da mandíbula de Marlon, jogando-o para o lado.
Kalen pegou o Ancião quando Ren se ajoelhou, colocando o
rosto bem na frente no de Marlon. — Você realmente precisa
pensar sabiamente sobre o que diz para ela.
— Eu lembro de você. — Marlon riu e sangue vermelho-
azulado escorreu do canto da sua boca. — Você era o animal de
estimação dela.
Eu endureci. — Mal posso esperar para matar aquela
puta.
Marlon levantou uma sobrancelha escura quando seu
olhar mudou para mim. — Você acha que você vai matá-la? —
Ele riu de novo. — Você é uma idiota.
— Eu quase arranquei os olhos dela uma vez. — Raiva
fluiu quando eu dei um passo à frente. — Eu farei de novo.
Lentamente.
— É isso então? Ela arrancará os seus e comê-los como
um lanche.
Eu revirei os olhos. — Por que alguém ia querer comer
glóbulos oculares? Isso é nojento.
Kalen riu quando prendeu o cabelo de Marlon em um
punho, puxando a cabeça do Ancião para trás. — Onde o
Príncipe foi?
— Ele saiu? — Marlon replicou.
— Não brinque como se não soubesse. — Eu cruzei os
meus braços. — Você sabe muito bem que ele não está na
cidade. Ele saiu porque ele encontrou outra halfling. E você vai
nos contar para onde ele foi.
— É por isso que você reapareceu após a sua fuga
ousada? — Marlon bufou. — Você é tão corajosa.
Eu sorri maliciosamente. — Nós vamos descobrir o quão
bravo você é.
— Eu não contarei merda nenhuma para vocês, —
Marlon disse rosnando quando Kalen puxou o seu cabelo. —
Vocês podem muito bem me matar agora.
— Oh, você vai falar. — Inclinando sua cabeça para o
lado, Ren se endireitou, estaca de espinhos na mão. — Você
sabe o que é isso?
O olhar de Marlon se moveu sobre a estaca. Houve um
aperto ao redor de sua boca. — Eu sei.
— E você sabe o que isso pode fazer com você? Pode te
machucar. — Ren sorriu quando ele colocou a estaca
diretamente sobre o coração do fae. — Pode matá-lo.
— E o Príncipe também se ele souber que eu falei para
você. Eu morrerei de qualquer forma. — Marlon engoliu em
seco. — Matar-me não é uma ameaça.
Eu podia ver o sorriso frio enfeitando os lábios de Ren
quando ele puxou a estaca sobre o centro da garganta do
Ancião. — Morre é a parte fácil. Eu não farei isso fácil para
você.
E Ren não fez.
Não foi fácil ou limpo. Foi sangrento e confuso, e Marlon
aguentou muito mais tempo do que muitos teriam. Centenas
de cortes finos cobriam cada centímetro da sua pele exposta, e
algumas vezes, eu quis desviar o olhar, mas eu me forcei a não
fazê-lo. Não quando Ren empunhava a estaca e não se dava ao
luxo de fechar os olhos. Então eu me obriguei a assistir, e eu
não vacilei quando sangue espirrou de uma artéria vital ao
longo da garganta do Ancião, pontilhando o rosto de Ren e a
frente da minha camiseta. Eu não desviei o olhar nenhuma vez,
e foi assim que eu soube no fundo dos meus ossos que quando
Marlon pronunciou as palavras que nós estávamos esperando,
eram verdadeiras.
— San Diego, — Marlon ofegou. — O Príncipe foi para
San Diego.
Essas foram as suas últimas palavras.

Capítulo 20

Nós não tivemos muito tempo sozinhos quando voltamos


para o Hotel dos Faes Bons e nos encontramos com Tanner e a
equipe.
San Diego.
Levaria mais de um dia para chegar lá, cerca de vinte sete
horas, e nós tínhamos que dirigir desde que estávamos
carregando armas e isso exigiria que muitos humanos fossem
glamourizados para viajarmos de avião.
Ren e eu precisávamos tomar banho, já que nenhum de
nós queria pegar a estrada sujo de sangue, e provavelmente
não estaríamos prontos o mais rápido possível, porque foi ideia
de alguém – de Ren – tomar banho juntos, não que eu estivesse
reclamando.
Como eu poderia, quando foi Ren quem lavou as
manchas de sangue do meu rosto? Ou quando eu fiz o mesmo
por ele quando nós estávamos sob o fluxo de água constante?
Eu estava pensando sobre como nós precisávamos pegar a
estrada quando ele encontrou o seu caminho atrás de mim no
chuveiro. E quando a mão dele foi envolvida, e outras partes do
seu corpo, reclamar e criar estratégias em geral foi a coisa mais
distante em minha mente.
— Fizemos bem hoje, — ele sussurrou contra o lado do
meu pescoço.
— Fizemos.
Ele beijou o espaço debaixo da minha orelha. — Você foi
incrível, Ivy.
Um pequeno sorriso apareceu em meus lábios. — Assim
como você.
— Sim. — Ele levantou sua boca do meu pescoço quando
seus dedos deslizaram na minha parte mais sensível. — Não foi
minha...
Eu coloquei a minha mão sobre a sua, acalmando-o. —
Não foi o quê?
— Hoje não foi um dos meus melhores momentos.
Meu sorriso começou a desaparecer. — O que você quer
dizer?
Ele ficou quieto por um momento. — Eu sabia o que eu
tinha que fazer para Marlon falar. Eu sabia o que ele era. O que
ele nos teria feito se tivesse a chance. Mas ainda não gosto do
que eu tinha que fazer.
Meu peito apertou. — Mas você tinha que fazer.
Ren não respondeu, então eu comecei a me virar para ele,
mas a mão ao redor do meu pescoço me parou. Ele guiou
minha cabeça para trás, virando-a apenas um pouco, e então
ele me beijou, dispersando meus pensamentos. A mão entre as
minhas coxas deslizou para cima e seu braço cruzou a minha
cintura. Ele me levantou até a ponta dos dedos dos pés.
Eu ofeguei em sua boca quando ele me penetrou por trás,
empurrando tão fundo que eu pensei a princípio que eu não
aguentaria, mas ele provou que eu conseguia, de novo e de
novo. Nós estávamos uma bagunça escorregadia e ensaboada
quando eu joguei meus braços para fora, colocando as minhas
mãos no azulejo mochado na minha frente, enquanto Ren
mantinha um braço preso em volta da minha cintura e então o
outro entre as minhas coxas de novo. Ele trabalhou em mim
com seus dedos e seu pau, sua respiração quente no meu
pescoço, suas palavras queimando em meu ouvido. Quando eu
gozei, eu atirei a minha cabeça para trás contra o seu ombro,
tendo quase uma experiência extracorpórea.
Duas coisas me surpreenderam naquele momento.
Primeiro, eu não tinha acabado na minha bunda, e segundo,
mesmo depois de toda a coisa de sexo no chuveiro, Ren estava
pronto para ir de novo quando estávamos nos trocando.
Às vezes eu me perguntava se Ren era até mesmo
humano, mas eu imaginava que nós estávamos compensando o
tempo perdido.
E nós tínhamos muito o que fazer para compensar.
Nós estávamos prontos com minutos de sobra, e eu os
usei parando na porta antes de sairmos, bloqueando-a com o
meu corpo.
Ren arqueou uma sobrancelha, nossas mochilas em
ambas as mãos. — O que você está fazendo?
— Eu quero dizer algo e eu quero ter a sua total atenção.
Um lado da sua boca subiu. — Você sempre tem a minha
atenção total, Doçura.
— Eu sei, mas eu realmente quero isso agora. — Eu
respirei fundo. — O que você fez hoje para fazer Marlon falar
não deve ter sido fácil. Eu sei disso. Eu tive dificuldade em
assistir, mas fiz isso. Eu assisti. Isso não é o mesmo que fazê-
lo.
— Não. — Ele exalou bruscamente. — Não é.
— Mas você tinha que fazer isso, Ren. Nós precisávamos
saber para onde foi o Príncipe. Você fez o que você tinha que
fazer e você não deve perder um momento por causa disso.
Seu queixo afundou, e por um breve momento eu não
tinha certeza de que ele responderia. — Eu não irei.
Eu não tinha certeza se acreditava nele. — Você promete?
O olhar de Ren encontrou o meu. — Eu prometo.
— Vou fazê-lo cumprir essa promessa, — eu jurei.
Saltando para frente, estiquei-me e beijei o canto da sua boca.
Seus braços passaram ao meu redor e ele me segurou
firmemente em seu peito. Passaram-se vários momentos antes
que eu pudesse me forçar a me afastar dele. — É melhor irmos
andando.
— Sim. — Sua voz estava áspera. — Se nós não fizermos,
podemos nunca sair deste quarto, com bebê do apocalipse ou
não.
Eu corei enquanto eu me virava, abrindo a porta,
sabendo que ele cumpriria aquele muito agradável aviso. Nós
chegamos ao lobby para descobrir um grupo de tamanho
decente à nossa espera perto das portas que eu nunca tinha
visto antes abertas. Elas pareciam conduzir para a frente do
edifício.
Dane e Kalen estavam ao lado de Faye, os três
carregando mochilas pretas, por isso eu presumi que eles
faziam parte da nossa comitiva. Eu verifiquei o grupo, aliviada
ao ver que Merle não estava lá, mas um pouco nervosa com os
rostos que eu não conhecia.
Tink estava lá embora, em pé um pouco distante do
grupo. Havia uma mala bastante grande ao lado dele.
Pendurada em seu ombro estava uma... mochila da Mulher
Maravilha. Eu me separei de Ren, caminhando até ele. — Onde
foi que você conseguiu isso?
— Eu roubei de uma garotinha fae. — Ele parou. —
17
Hashtag Vida Bandida .
— O quê? — Minha boca caiu aberta.
— Eu estou brincando, — ele disse, e eu não tinha
certeza se acreditava nele ou não. — Comprei na Amazon a
alguns meses atrás. Fica bem com meu collant.
Eu o encarei quando Ren se juntou a mim, segurando
dois copos de papel de café. Ele entregou um com uma
piscadela. — Obrigada. — Então eu encarei Tink de novo. —
Por que você tem as suas malas aqui embaixo?
— Por quê? — Tink torceu seu nariz. — Nós não temos
ideia de quanto tempo vamos estar fora e eu não vou usar as
mesmas roupas.
— Você não vai, Tink. Você vai ficar...
— Eu não vou ficar aqui. Inferno não. Você vai para San
Diego, e eu também vou. Você precisa de mim.
A frustração estalou em mim. — Tink...
— Não venha com “Tink” para cima de mim, — ele
disparou de volta. — Eu entendo que você queira me manter
são e salvo, mas eu posso cuidar de mim mesmo.
Eu sabia que ele podia cuidar de si mesmo, mas eu ainda
não queria que ele se colocasse em perigo. — E o Dixon? Você
não pode levá-lo.
— Eu sei disso. Caçar o Príncipe e possivelmente matá-lo
não é o lugar para um adorável gatinho, — ele disse. —
Brighton vai cuidar dele por mim.
Minhas sobrancelhas se ergueram, e então eu balancei
minha cabeça enquanto me aproximava de Tink. — Eu não que
você em perigo.
Tink sorriu. — Ivy-divy, eu sei que sou bonitinho e
adorável, mas eu acho que você se esqueceu do que eu sou
capaz. Vocês, caras, precisam de mim nesta viagem.
Ren tocou levemente o meu braço, chamando a minha
atenção. — Por mais que doa admitir, Tink está certo. Nós
poderíamos usá-lo.
— Não tire isso de mim. — Tink abaixou sua voz. —
Vocês estão todos lá fora arriscando as suas vidas. Eu já passei
bastante tempo vendo vocês saírem e fazerem isso. É hora de
eu me voluntariar.
Eu queria discutir mais, mas Tink e Ren estavam certos.
Nós poderíamos usá-lo. Eu não podia tirar isso dele. Eu
suspirei. — Ok.
— Bom. — Tink olhou para Ren. — Espera. Vocês dois
pararam de brigar? Oh, minha Rainha Mab, vocês estão
apaixonados de novo!
Meus olhos se arregalaram enquanto eu olhava ao redor,
vendo que vários estranhos estavam nos observando com
destacado interesse. — Tink...
— Nós nunca estivemos separados, — Ren disse,
baixando o seu braço sobre os meus ombros.
A mochila azul e vermelha deslizou para o chão quando
ele bateu palmas como uma foca superexcitada. — Vocês estão!
Isso é incrível.
— Tink, — eu disse de novo, desta vez com um pouco
mais força por trás do seu nome.
— Graças aos senhores e senhoras das fadas, eu não
serei um produto de uma casa dividida.
— Pela última vez, nós não somos seus pais, Tink. — Eu
balancei a minha cabeça quando comecei a virar, mas parei. —
Pegue a sua mochila.
Ren se inclinou quando Tink pegou a mochila do chão. —
Você soa como a mãe dele.
— Cale-se, — eu sibilei.
— Aí estão vocês dois. — Tanner saiu do grupo. Ele não
olhou para mim como se eu não devesse estar ali. — Deixe-me
apresentar-lhes os cônsules de Fabian.
Os estranhos deram um passo à frente, e depois de um
borrão de nomes de faes muito parecidos, exceto pelo último
cara que foi apresentado como Fred, eu percebi que eu não
lembrava de um único nome a partir deste ponto.
Cada um sorriu e acenou com a cabeça gentilmente,
muito mais educados do que seu príncipe.
— Nós temos três veículos à sua espera do lado de fora,
— Tanner disse, e Faye deu um passo à frente, carregando
vários pacotes.
— Cada um de nós terá um telefone equipado com GPS
que será rastreado daqui no caso de algo acontecer e nós
precisarmos nos separar, — Faye explicou, entregando-me um
envelope.
Colocando o meu café na mesa ao lado, eu senti ao redor
do envelope, tocando quatro telefones separados. Eu imaginei
que Tink viajaria com Ren e eu. — Por que é que há quatro?
— Porque eu me juntarei a vocês.
Minha mandíbula apertou quando eu me virei. Fabian
tinha chegado, parecendo tão arrojado quanto uma maçaneta.
— Sim, você vai precisar encontrar um carro diferente para
viajar.
— Ivy, — Tink reclamou em voz baixa. — Ele estará
montado em mim.
Ren se engasgou com o seu café e virou-se, chiando
suavemente.
Eu girei para Tink. — Você quer talvez repensar o que
acabou de dizer?
— Oh, não. Eu disse isso certo.
— Se ele vai estar no carro conosco, ele não estará
montado em você enquanto nós estivermos lá dentro, ok? — Eu
não podia acreditar que eu realmente precisava falar aquelas
palavras. — Eu acho que eu vou descobrir com quem Faye
vai...
— Oh não. — Ren pegou a parte de trás da minha
camiseta. — Você não vai me deixar com eles.
Fabian se aproximou de Tink, olhando para mala. — O
que há na mala? Parece um pouco... volumosa para roupas.
Vindo a pensar sobre isso, o Príncipe do Verão estava
certo.
Agarrando a alça da grande mala, Tink olhou para
Fabian. — Nosso último recurso. Significa que esta mala não
deve ser aberta a menos que a merda tenha ido longe demais
para o sul, e nós estamos com a merda até o pescoço.
Ren me cutucou. — Hum, o que você acha que há na
mala?
— Eu não tenho ideia, mas eu acho que provavelmente
devíamos descobrir. — Eu comecei a ir em direção a ele, mas
eu as portas se abriram e a luz do sol entrou. Assim como hoje
mais cedo, eu fiquei assustada por um segundo ao saber que
poderia simplesmente caminhar para o lado de fora.
E era isso o que todo mundo estava fazendo. Eu segui
Ren para o lado de fora até onde Faye e sua equipe entraram
em um dos SUVs, o cônsul de Fabian entrou no que parecia ser
um sofisticado Porsche de algum tipo, o que nos deixou com
um SUV que era do tamanho de um pequeno tanque.
Nem tentei pegar as chaves de Ren.
Depois de carregar a traseira com as malas que Ren e eu
tínhamos feito às pressas antes de deixarmos o quarto, eu
andei até o banco do passageiro da frente. Tink me seguiu. —
Você acha que o Príncipe já encontrou a Halfling?
— Eu espero que não. — Eu abri a porta. — Porque isso
com certeza complica muito as coisas.
— Isso faz mais do que complicar as coisas. — Fabian me
observou de perto. — Se o Príncipe do Inverno a encontrou e
fez o que nós tememos, teremos que lidar com isso.
Eu endureci.
Os dedos de Ren passaram pela minha cintura enquanto
ele passava. — Nós iremos.
Lidar com isso.
Eu sabia o que isso significava. Eu detestava isso. Porque
poderia facilmente ser eu naquela situação – poderia ser eu
sendo lidada, tal como Merle tinha dito quando eu cheguei aqui
pela primeira vez. Mas se o Príncipe tinha encontrado a
Halfling e conseguido fazer a ação, nós tínhamos que impedir o
nascimento do bebê do apocalipse, e eu sabia que a equipe com
quem estávamos viajando não iria ter uma conversa muito
desconfortável com essa Halfling e esperar que ela se
voluntariasse para fazer o que seria a coisa certa neste caso.
Eu observei Fabian caminhar até o outro lado da SUV e
então o meu olhar percorreu os outros carros.
Eu sabia o que eles fariam. Eles eliminariam a mulher,
sem fazer perguntas. A ideia de matar uma mulher inocente e
seu filho me deixou doente. Eu não queria fazer isso. Eu não
queria que qualquer um de nós fizesse isso.
Assim, só nos restava uma opção.
— É melhor nós a encontrarmos primeiro, — eu disse,
preenchida com uma determinação de aço. — E ter a maldita
certeza que ela não engravide.

Capítulo 21

Nós nem tínhamos saído do estado da Louisiana e eu já


estava pronta para colar fita adesiva na boca de Tink e Fabian.
Algumas horas de viagem e eu aprendi duas coisas.
Fabian podia fazer tudo soar como se ele estivesse me
insultando. E Ren tinha essa habilidade mágica de se desligar
de todos e se concentrar na direção.
Esfregando a minha testa, eu olhava pela janela
enquanto nós descíamos a I-10. O exterior era um borrão de
edifícios e árvores, e de alguma forma a conversa no banco
traseiro tinha passado para mim e o meu cabelo.
— Eu não acho que ela pode honestamente escová-lo, —
Tink estava dizendo. Ele se inclinou para frente, por isso ele
estava no meio entre os assentos. — Porque quando ela escova,
apenas o transforma em um pufe gigante.
Contando até dez, eu dei uma olhadela em Ren. Um leve
sorriso apareceu em seus lábios, e, se ele não estivesse
dirigindo, eu poderia tê-lo esmurrado.
— Então ela não penteia de forma alguma? — Fabian
perguntou, soando genuinamente confuso.
Eu olhei sobre o meu ombro. — Eu penteio o meu cabelo,
seus imbecis.
Ren bufou — Eu já a vi fazer isso. Quando está molhado.
— Vamos falar sobre alguma outra coisa além do meu
cabelo, ok? — Eu sugeri antes que eu subisse no assento
traseiro como um macaco-aranha raivoso e estrangulasse todos
eles.
— Como o quê? — Tink se recostou. — Eu estou
entediado.
— Você já está entediado e ainda nos restam umas vinte
e tal horas, — eu o lembrei.
Tink gemeu. — Eu não vou conseguir.
— Eu poderia entretê-lo, — Fabian sugeriu. — Nós
poderíamos...
— Yep, não, — eu intervi, porque eu tinha a sensação de
que a sua versão de entretenimento para Tink não era tinha
classificação indicativa para menores de 13 anos e eu não
queria testemunhar nada disso. Meu olhar se concentrou no
Príncipe do Verão. Ele estava obviamente interessado em Tink,
mas os faes gostavam de tudo que caminhava e tinha um
buraco. Uma onda de proteção tomou conta de mim. — Vamos
falar sobre você, Fabian.
O Príncipe do Verão esticou um braço ao longo da parte
de trás do banco e inclinou a cabeça. — Eu não tenho
problemas com isso.
— É claro que não, — Ren murmurou baixinho.
Eu lutei com um sorriso. — Quantos anos você tem?
O Príncipe do Verão ergueu uma sobrancelha clara. Ele
parecia como se ele tivesse na casa dos vinte e poucos anos,
mas o instinto me dizia que essa não era a sua idade real. —
Mais velho do que algumas das árvores plantadas ao longo da
estrada.
Então minhas suspeitas estavam corretas. Eu olhei para
Ren e vi que ele estava ouvindo. — Então isso significa que
você se alimenta, porque com certeza você não está
envelhecendo como Tanner.
— Eu sou o Príncipe. Todos nós da realeza nos
alimentamos.
— Sério? — Eu disse, a minha mão enrolando em meu
colo. Isso era algo mais que Tanner não tinha divulgado.
— Você não gosta de ouvir isso. — Um sorriso malicioso
apareceu. — E você mesmo assim você se alimentou para
salvar a sua vida.
— Não foi uma escolha que eu tenha feito, — eu disse.
Tink se inclinou para frente de novo. — O que Fabian
está deixando de fora é que eles têm pessoas que se
voluntariam para servirem como alimento. Eles não são
forçados.
Minhas sobrancelhas ergueram. — Voluntariam ou estão
sob compulsão? Lembro-me das pessoas que Drake tinha
naquela casa. Algumas pareciam como se elas quisessem estar
lá, mas eu duvido que qualquer uma delas soubesse no que
elas estavam entrando.
Uma sombra cruzou a expressão de Fabian. — Aqueles
que nos permitem a honra de nos alimentarmos deles não o
fazem sob compulsão. Eles sabem o que nós somos. Eles
escolhem nos ajudar como nós os ajudamos.
Eu não acreditei nisso nem por um segundo. — E como
vocês os ajudam?
— Na minha comunidade, nós protegemos os mortais que
nos permitem a honra da alimentação. Não falta nada a eles.
Dinheiro. Cuidados de saúde. Segurança.
Meio que me lembrava de garotas de programa de luxo,
mas eu achei melhor manter essa parte para mim mesma. — E
eles sabem do que vocês são capazes? Como vocês podem
drená-los ao ponto deles se transformarem em criaturas
psicóticas e irracionais?
Seus olhos se estreitaram. — Nós nunca tomamos mais
do que nós precisamos. Se qualquer um dos meus súditos fizer
isso, ele será executado imediatamente.
— Sério? — O olhar de Ren passou pelo espelho
retrovisor. — Isso é muito hardcore para uma raça de seres que
sempre se colocaram em primeiro lugar.
— Como se vocês soubessem de qualquer coisa sobre a
nossa raça, — Fabian replicou. — Nós estamos por aqui há
muito mais tempo do que você imagina. Pense sobre isso.
— Eu estou pensando sobre isso, — ele replicou
secamente.
— Vocês não sabiam nada sobre a Corte de Verão ou que
nossas cortes fixaram residência aqui. Há uma razão para isso.
Nós não matamos. Nós não abusamos dos mortais. Acreditem
ou não, nós os vemos como iguais.
— Eu sei que isso soa difícil de acreditar, — Tink
interveio. — Mas ele está contando a verdade.
— Como você sabe? — Eu perguntei, olhando Tink.
Ele encontrou o meu olhar. — Por qual motivo ele
mentiria?
— Oh, eu não sei. Então, nós não o matamos? — Eu
ofereci.
O Príncipe do Verão bufou. — Eu não sou fácil de matar.
— Sim, de volta a isso. Se você é o perfeito exemplo de
um fae não homicida, que ama e valoriza os seres humanos,
então por que não nos diz como enfraquecer o Drake?
Ele riu, e o som era tão frio para um Príncipe do Verão. —
Você não confia em mim. Por que no mundo eu confiaria em
você? Você pode ser uma halfling e ele pode ser o Garoto
Maravi...
— Garoto Maravilha? — Ren torceu o nariz.
— Mas a Ordem já nos traiu uma vez, — Fabian
continuou, seu olhar duro. — O fato de estarmos trabalhando
com vocês agora para deter o Príncipe do Inverno coloca a mim
e o meu povo em incrível desvantagem. Você acha que eu
escolhi viajar com vocês apenas por causa dele? — Ele olhou
para Tink. — Alguém precisa manter um olho em vocês dois e
eu não arriscaria nenhum dos meus cônsules ao fazê-lo.
Tink não parecia incomodado com essa declaração.
— Como a Ordem traiu a Corte do Verão? — Ren
perguntou, deslizando uma mão sobre o volante. — Tanner
mencionou isso. Agora você. Nós estamos no escuro sobre o
que aconteceu.
— Vocês estão no escuro sobre muitas coisas, — o
Príncipe rosnou, e então sorriu quando eu jurei que podia
sentir vapor saindo dos meus ouvidos. — Você já pensou sobre
isso? — Seu olhar encontrou o de Ren no espelho. —
Realmente pensou sobre o porquê a Ordem e sua preciosa Elite
esconderam tanto de você – das próprias pessoas dispostas a
matar e morrer por eles sem remorso ou questionamento?
Algum de vocês questionou que talvez vocês estivessem
matando inocentes? Que nem todos os faes querem governar o
reino mortal? Algum de vocês alguma vez, em suas vidas
incrivelmente curtas, sequer se perguntou se vocês estavam
lutando do lado certo?
Desconfortável com toda a veracidade que ele falava, eu
me virei e olhei para o para-brisa. Um momento passou, e eu
olhei de relance para Ren. Um músculo vibrou ao longo da sua
mandíbula enquanto ele olhava para a frente. O que o Príncipe
de Verão tinha questionado também o incomodava.
Como não poderia? Ele estava certo. Nós matávamos e
morríamos por uma organização que tinha mentido para nós. E
aqui estávamos nós, julgando Fabian e sua espécie.
— O que eles fizeram? — Eu perguntei baixinho, incerta
se eu estava pronta para ouvir isso ou se eu queria ouvi-lo.
Fabian não respondeu por tanto tempo que eu pensei que
ele nunca iria responder, mas então ele fez. — Tudo que vocês
sabem é praticamente uma mentira.
Os nós dos dedos de Ren estavam brancos por causa da
força que ele estava apertando o volante. — Você vai nos
esclarecer?
— Nós não começamos essa guerra com os mortais, —ele
disse olhando para a janela enquanto Tink o observava
silenciosamente. — Não fomos nós que quebramos o tratado
entre as nossas espécies.
Uma carranca puxou minha teta. — Que tratado?
Ele sorriu de uma forma que eu imaginava que pais
faziam logo antes que eles desejassem que eles pudessem
treinar seus filhos. — Nós costumávamos ser capazes de viajar
mais livremente entre os nossos mundos. Alguns pegavam
humanos e os levavam de volta, mas confie em mim, quando
eles o faziam, eram geralmente pessoas que vocês nunca
sentiriam falta. Pessoas que mereciam seu destino.
Tink arqueou uma sobrancelha.
— Outros vinham de bom grado. — Ele ergueu um ombro
em um elegante encolher de ombros. — Afinal, somos bonitos e
os mortais são atraídos por coisas belas. Costumava haver
muito mais halflings.
Eu mordi meu lábio. Eu ainda não tinha ideia se era
minha mãe ou meu pai que era um fae. Eu provavelmente
nunca saberia.
— A Ordem foi criada desde que atravessamos a primeira
vez, e nosso tratado permaneceu em vigor por centenas de
anos. Eles caçavam os que matassem mortais neste mundo e
deixavam em paz os que não faziam, e quando nosso mundo
começou a desmoronar, e mais faes atravessavam, nós
trabalhamos juntos com a Ordem para garantir que o que
estava acontecendo com nosso mundo não acontecessem com o
de vocês. Nós confiamos a eles nossas fraquezas. Nós
compartilhamos nossos segredos e os ajudamos a selar os
portais, mas, no final, tudo o que lhes mostramos e ensinamos,
eles usaram contra nós. Não foi o fato deles terem tirado o
Cristal de nós que criou o racha entre as nossas duas espécies.
Foi Tanner disse isso a vocês? Eu tenho certeza que sim. Ele
não gostaria de sobrecarregar vocês com a verdade.
O interior do carro parecia congelado. — E qual é a
verdade?
Ele virou-se para a janela. — Uma vez que os portais
foram selados, a Ordem massacrou todos os faes que tinham
lutado ao seu lado, pegou o Cristal que nós usamos para fechar
os portais, e depois mataram o nosso Rei, enfraquecendo toda
a Corte do Verão e nos forçando a reclusão.
Eu ofeguei de surpresa.
— Nós já estávamos enfraquecidos, tendo perdido a nossa
Rainha e o meu irmão muitas décadas antes na luta contra a
Corte do Inverno, — ele continuou. — A Ordem sabia disso.
Nós confiamos neles.
— Por quê? — Eu perguntei um momento depois. — Por
que eles fizeram isso?
Fabian inclinou sua cabeça para o lado. — Essa é uma
pergunta que nós esperamos muitos anos para ser respondida.
Eu tenho a sensação de que nós teremos a resposta mais cedo
ou mais tarde.

***

Falar sobre o alcance da traição a sangue frio e o que era


equivalente a assassinato certamente matou a vibe no carro. A
única benção foi que calou Tink e Fabian pelas próximas horas
seguintes.
Eu passei a maior parte do tempo refletindo sobre o que
Fabian tinha dito. Inicialmente, eu queria negar tudo, porque
era difícil esquecer anos e anos de uma história diferente, mas
eu sabia que a Ordem tinha mentido. Nós vimos evidências
disso. A questão era sobre o quanto eles tinham mentido e por
que eles tinham se voltado contra os faes que os tinham
ajudado?
Eu não tinha as respostas, mas quando nós paramos
cerca de oito horas de viagem, em algum lugar no estado sem
fim conhecido como Texas, para abastecer e pegar algo para
comer, eu usei o breve tempo sozinha com Ren para obter seus
pensamentos enquanto ele abastecia. Tink e Fabian foram para
a loja de conveniência que era anexada ao uma lanchonete de
fast-food. Nosso comboio se juntou a eles com exceção do fae
chamado Fred. Ele ficou apenas encarando para fora da janela
de vidro da loja de conveniência, obviamente vigiando.
— O que você acha de tudo o que Fabian disse? — Eu
encostei-me contra a porta do passageiro, olhando com os
olhos semicerrados para a luz do sol.
— Honestamente? — Ele se moveu então ele estava de
frente para mim. — Eu não sei a razão pela qual ele mentiria.
Qual seria o ponto?
— Eu sei. — Eu suspirei quando eu ergui minha mão,
empurrando um cacho para fora do meu rosto. — E sobre a
coisa toda da alimentação?
— Ambos sabemos que há pessoas que apreciam a
alimentação. — Ele puxou o bocal da mangueira. — É bem
possível que eles tenham um harém de pessoas dispostas a dar
um pouco de si em troca de dinheiro e proteção.
Eu bufei. Harém de pessoas? Por alguma razão, eu
imaginei um monte de pessoas seminuas abanando o Príncipe
com folhas de palmeira.
— E para ser honesto, eu nem sequer sei qual é a minha
posição quanto a isso. Há uns meses? Eu teria sido muito
contra isso tudo, mas agora? Tudo mudou. — Colocando a
mangueira no lugar, ele escovou as mãos sobre a calça. — Eu
acho que nós precisamos abandonar algumas das nossas
crenças.
Eu assenti lentamente. — Eu acho que você está certo.
— Eu sempre estou certo, você não sabia?
Eu bufei. — Continue dizendo isso para si mesmo.
Sorrindo, ele parou na minha frente. — Processar tudo o
que nós estamos aprendendo sobre a Ordem não é fácil. Faz
você pensar sobre... sobre algumas das coisas que nós fizemos.
Meu estômago ficou instável. — Sim, faz.
Especificamente isso me faz pensar sobre quantos faes
inocentes eu posso ter matado no passado. Não era como se
todos os faes que eu caçasse tivessem sido pegos em flagrante.
Alguns tinham fugido de mim.
E eu os perseguia como... como um animal e os matava.
— Ei, — Ren disse suavemente, chamando a minha
atenção. Eu olhei para cima e vi a preocupação se acumulando
em seu olhar. — Onde sua cabeça está agora?
— Apenas pensando sobre quem eu cacei. Se eles eram
inocentes ou não. Como eu posso ter assassinado...
— Pare. — Ele se inclinou, olho no olho comigo. — Nós
não podemos voltar e mudar o que fizemos. Nós temos que
viver e lidar com isso. Não quer dizer que é mais fácil de lidar
com isso. Apenas significa que temos de fazê-lo.
Eu encontrei-me assentindo de novo, porque ele estava
certo. Nós não podíamos mudar o que nós fizemos ou não
fizemos. — Nós podemos apenas mudar o que nós vamos fazer.
— Exatamente, — ele replicou, olhando por cima do teto
da SUV. — Você quer ir comigo ou quer ficar aqui fora?
— Ficar aqui fora.
Ren abaixou seu queixo, beijando a minha têmpora e
então o canto da minha boca. — O que você quer que eu pegue
para você comer? E não diga nada. Você já não come há horas.
— Isso é autoritarismo.
Ele me beijou então e quando recuou, ele mordiscou o
meu lábio inferior de uma forma que enviou um choque por
todas as minhas partes interessantes. — O que você quer que
eu pegue para você?
— Um hamburguer e batatas fritas, — eu cedi.
— Ok, — ele murmurou antes de me beijar de novo, e
depois ele saiu andando pelo estacionamento.
Ele comprou um hamburguer e batatas fritas para mim,
e eu comi isso – tudo, exceto o tomate, porque eca. Ren pegou a
fatia molenga de mim e colocou em cima do seu hamburguer.
O hamburguer e as batatas fritas assentaram-se
estranhamente em meu estômago, e, em seguida, o desejo por
algo mais me bateu. Era quase como querer um cigarro depois
do jantar, mas eu concentrei-me em Ren, Tink e Fabian, que
estavam de todas as coisas discutindo sobre o limite de
velocidade, até que o desejo passou.
Em algum lugar no meio da noite, Tink caiu no sono e
Fabian também. Eu me ofereci para dirigir, mas Ren insistiu
em continuar. Eu terminei cochilando com a mão de Ren
descansando na minha coxa.
Foi o movimento repentino para frente e o braço de Ren
me batendo no peito que me acordou horas depois. Eu grunhi,
meus olhos se abrindo rapidamente.
Tudo que eu vi no início foi a estrada escura e o brilho
fraco de luzes traseiras. — O que está acontecendo?
— Faye parou lá na frente. — Ren estendeu a mão para o
celular enquanto Tink e Fabian se mexiam no banco de trás. —
Ela não devia ter parado.
Eu olhei para fora da janela e não vi literalmente nada
além da escuridão. — Onde nós estamos?
— Prestes a cruzar para o Arizona. — Ele levou o telefone
ao ouvido. — O outro grupo está à frente de...
As luzes acenderam a vários metros à frente, a
intensidade ofuscante cegante quando atravessou a escuridão.
Fabian inclinou-se subitamente entre os dois bancos da
frente. — O que...?
O ar da noite explodiu com disparos.

Capítulo 22

No início todos nós congelamos, tão chocados pelo som


rasgando o céu noturno. Os tiros não nos alcançaram, mas
isso não significava nada. As balas poderiam percorrer uma
grande distância.
— Alguém está atirando neles! — Tink quase se debateu
atrás de mim. — Deixe-me sair. Oh, minha Rainha Mab, deixe-
me sair! — Ele sacudiu a maçaneta da porta. — Eu vou matá-
los por atirar em meus novos amigos! Eu irei todo Tink
completo neles!
— Você acionou as fechaduras à prova de crianças? —
Eu perguntei.
— Pode apostar — Ren virou-se. — Eu preciso que vocês
dois fiquem neste maldito carro até sabermos com que diabos
estamos lidando.
Fabian se inclinou para a frente. — Eu sou um príncipe.
Eu posso...
Ren pisou no acelerador e jogou para a pista da esquerda
um segundo antes que eu visse o carro disparando em nossa
direção.
— Puta merda, — eu gritei agarrando a alça sobre a
janela.
O carro veio do nada – do maldito deserto! O motor do
SUV rugiu quando ganhamos velocidade, nos aproximando do
local onde Faye estava encurralada.
— Eu não dou a mínima para o que você é, — Ren disse.
— Mas se estamos sendo alvejados, então há uma boa chance
de eles saberem quem está nestes carros. Ou seja, não são
balas comuns naquelas armas.
O entendimento me bateu. — Você acha que é a Ordem?
— Quem mais estaria atirando em nós no meio da noite,
no meio do fodido nada?
— Se esse for o caso, então eles sabiam que nós
estávamos vindo. — No momento, nós não tínhamos tempo
para realmente nos aprofundarmos nesta teoria.
— Nós precisamos de você vivo, — Ren estava dizendo a
Fabian. — Tente ficar neste carro e não ser morto. Porque com
certeza uma bala na cabeça vai te derrubar por tempo o
suficiente para que eles tirem essa sua cabeça grande dos seus
ombros.
— Iria, mas eu sou mais rápido do que uma bala.
— Vocês dois podem apenas ficar onde estão? — Eu exigi.
— Pelo menos...
Nossa janela de trás explodiu sem aviso. Vidro disparou
através do carro. Girando em meu banco, eu vi a coisa mais
malditamente estranha do mundo.
Fabian tinha Tink preso no banco, cobrindo o corpo de
Tink com o seu. Ok. Fabian tinha acabado de ganhar uns
pontos de bônus, mas Tink estava machucado?
— Tink?
— Eu estou bem, — ele gritou, a voz abafada.
— Abaixe-se, Ivy. — Ren me pegou com uma mão,
puxando-me para baixo, e eu fiquei achatada no console
central.
— E você? — Eu protestei.
— Eu ficarei bem.
— Isso é tão...
— Tem uma arma no porta-luvas. — Ren esfregou as
minhas costas. — Pegue, mas fique abaixada.
Murmurando baixinho, eu me aproximei e abri o porta
luvas. Alcançando lá dentro, eu peguei a Glock. Era pesada na
palma da minha mão. Como membros da Ordem, nós também
éramos treinados em armas, mas nós não as usávamos
frequentemente, geralmente preferíamos o método mais
silencioso de apunhalar até a morte. — Eu posso atirar.
— Dê-me isso.
— Dane-se, — eu sibilei. — Você está dirigindo.
— Eu posso ser multitarefas. — Ele empurrou as minhas
costas ao mesmo tempo em que a minha janela se estilhaçou.
Ofeguei quando o vidro zuniu para as minhas costas. —
Ren.
Sua mão apertou a parte de trás da minha camiseta.
Pneus guinchando enquanto ele pisava no freio novamente. —
Eu estou bem. Passe-me a arma, Ivy.
Amaldiçoando baixinho, eu me soltei de Ren e voltei para
o meu banco. Eu girei em direção à janela quebrada, ignorando
o vidro triturado. Estendendo o meu braço, eu dei vários tiros
no sedan girando na nossa frente.
— Maldição! — Ren gritou, agarrando o meu ombro
novamente e empurrando-me para baixo. — Você perdeu a
cabeça?
— Você perdeu? — Eu exigi. — Você não pode dirigir e
atirar ao mesmo tempo. Você não é James Bond.
— Deixe-o ser James Bond, — Tink disse de onde ele
estava colado ao assento.— Deixe-o...
A janela de trás do lado direito explodiu, atingindo Fabian
com os cacos afiados de vidro voando para os lados.
Eu espreitei através dos bancos, notando que o sedan
estava agora atrás de nós quando passamos o carro em que
Faye estava. Ren cortou entre os dois, deixando a estrada. A
corrida ficou irregular enquanto ele desviava para a esquerda.
Eu senti o SUV subir em duas rodas enquanto girávamos.
— Eles estão atrás de nós de novo, — Fabian advertiu
calmamente. — Eu acredito que eles pretendem atirar em nós
até morrermos ou sofrermos um acidente.
Poeira entrava pelas janelas estilhaçadas. Fabian estava
certo. Eles estavam obviamente tentando nos matar.
Amaldiçoando novamente, eu me ergui enquanto Ren
gritava comigo. — Fique abaixado! — Eu gritei com Fabian.
Os olhos do fae se arregalaram quando eu levantei a
arma sobre sua cabeça e puxei o gatilho. O sedan atrás de nós
repentinamente virou para esquerda, oscilando até derrapar a
alguns metros de distância.
— Puta merda, — eu sussurrei. — Eu acho que eu acertei
o motorista.
— Essa é a minha garota, — Ren murmurou um segundo
antes de me puxar de volta para baixo.
Atirar no motorista não parou isso. Provavelmente havia
mais pessoas no carro. Faye e a equipe ficaram presos, porque
seus carros não se moveram. Quem sabia se eles até mesmo
estavam vivos? Nós precisávamos trazer as armas grandes. E
nós tínhamos uma – uma que nós precisávamos que estivesse
viva no final disto, mas uma que provavelmente desencadearia
o Kraken nestes bastardos.
— Pare o carro.
— O quê? — Ren demandou.
Eu saí debaixo da mão dele. — Pare o carro!
Ele me olhou de relance, e quem sabia o que ele viu em
meu rosto, mas ele uniu uma impressionante série de
palavrões antes de pisar no freio.
Eu encarei o banco traseiro. — Você pode eliminar quem
mais estiver naquele carro? E você consegue fazer isso sem ser
morto?
Fabian virou sua cabeça de Tink para mim. Ele sorriu. —
Eu sou capaz.
— Então faça. Eu darei cobertura.
Antes que Ren pudesse me parar, eu abri a porta e saí,
mantendo-me abaixada.
— O que diabos você está fazendo? — exigiu Ren
enquanto ele descia do SUV.
— Providenciando a distração necessária. Eu rastejei ao
longo da lateral do veículo. — Pare de se preocupar comigo. Eu
posso cuidar de mim mesma. Você precisa fazer o mesmo e isso
é conseguir uma maldita arma.
Ele me encarou por um momento, e então eu gostaria de
pensar que ele percebeu que ele não ia vencer esta discussão.
— Há algumas armas na parte de trás. Ivy...
— Eu pegarei uma delas apenas no caso disso correr mal.
— Erguendo-me, eu fui em direção ao sedan parado e abri fogo.
— Agora, Fabian!
A porta de trás explodiu e o Príncipe do Verão disparou
para fora. Ele passou por mim, com os cabelos arrepiados pelo
repentino e quente rodopiando pelo chão. Eu continuei
atirando até que fiquei sem munição, jogando a arma para o
lado enquanto Fabian soltava um rugido que nem mesmo
parecia remotamente humano... ou fae.
Um brilho amarelado ondulou de seu corpo, envolvendo-o
em uma luz até que parecia como se o sol tivesse nascido na
noite apenas para ele. À distância, eu ouvi Ren abrir o SUV,
mas eu não podia afastar os meus olhos de Fabian.
As portas do sedan abriram. Duas – não, três pessoas
voaram para fora. Eu pude vê-las erguendo as mãos. Armas.
Merda.
O ar ao redor de Fabian se distorceu e expandiu. Os pelos
por todo o meu corpo se ergueram enquanto eu me afastava
dele, assim que uma explosão de poder antinatural deixou o
seu corpo, disparando através da clareia e batendo no sedan.
O carro disparou para o ar, enviando as duas últimas
pessoas voando em diferentes direções. Eles aterrissaram em
baques de carne quando o carro explodiu em um estrondoso
crack, queimando em chamas como se uma maldita bola de
fogo o tivesse atingido.
— Puta merda, — eu tropecei para trás, estendendo a
minha mão para a adaga. Eu nunca tinha visto nada como
isso.
Fabian disparou para a frente, um borrão de velocidade,
alcançando a primeira pessoa no chão antes que eu pudesse
até mesmo piscar. Ele pegou o primeiro cara ao redor do
pescoço, quebrando-o em um piscar de olhos. Ele se virou para
o segundo homem – um homem que eu podia ver que estava
vestido todo de preto. O Príncipe do Verão colocou sua mão na
cabeça do homem.
E foi isso.
O homem derrubou a arma, gritando enquanto ele
recuava. Chamas irromperam sobre seu corpo como se ele
fosse uma vítima de combustão espontânea.
Fabian riu enquanto ele girava se concentrando no
terceiro homem, que ainda estava em pé. Ele virou para correr,
mas não foi muito longe. Fabian estava nele em um segundo, e
o cheiro de carne carbonizada me alcançou.
Eu continuei andando para trás até esbarrar no SUV. Eu
girei, encontrando Ren ali parado com uma arma na mão. —
Talvez... talvez nós devêssemos tê-lo deixado sair do carro mais
cedo.
— Bom Deus, — ele murmurou, olhos arregalados.
O tipo de poder do Príncipe poderia exercer era mais do
que assustador. Uma arma de destruição em massa com
orelhas pontudas, e aparentemente com um tesão por Tink. Se
ele era capaz disso, do que exatamente o Príncipe do Inverno
era verdadeiramente capaz?
Tink espiou pela janela. — Isso foi meio quente.
Literalmente. Figurativamente.
Eu girei para ele. — Eu acho que você deveria ser
realmente, realmente muito cuidadoso com ele.
— Nós precisamos chegar aos outros. — Ren entregou
outra arma para mim. — Ainda há tiros lá atrás.
Eu virei-me a tempo de ver Fabian eliminar os outros
homens que foram atirados do carro. Meu estômago revirou
quando eu encarei Ren. — Por favor, seja cuidadoso. Não leve
um tiro.
Ren me deu um sorriso diabólico. — Mantenha-se inteira,
porque quando isso acabar eu tenho um monte de ideias sobre
como eu quero trabalhar um pouco dessa adrenalina que a luta
nos dará.
Oh meu Deus.
Essa definitivamente era uma grande motivação para
ficar viva.
Esticando-me, eu agarrei seu queixo e trouxe sua boca
para a minha. Eu o beijei com tudo que eu tinha, e foi duro e
feroz. Quando eu me afastei, quase não queria deixá-lo ir. —
Eu amo você.
Sua mão roçou o meu quadril. — Prove para mim mais
tarde.
Então, Ren se foi, correndo pela lateral do SUV, em
direção aos faróis brilhantes.
Eu me virei para Tink. — Fique...
— Não. — Ele abriu a porta forçando-me a dar um passo
para trás. — Eu não sou uma criança, Ivy. Eu posso cuidar de
mim mesmo. Confie em mim.
— Eu sei que você não é uma criança, Tink. — Outra
sucessão de disparos rápidos ecoou pela estrada. — Mas isso é
realmente perigoso.
— Eu sei. — Ele fechou a porta atrás dele. — Mas eu
posso ajudar. Então, se você quiser cancelar a Amazon Prime,
faça-o, mas eu não ficarei neste carro enquanto todos vocês
arriscam as suas vidas.
Houve um grito, e eu pude ouvir passos batendo no chão.
Discutir com Tink só iria nos matar. — Fique perto de Fabian.
Um sorriso selvagem cruzou o seu rosto. — Não precisa
dizer duas vezes.
Quando Tink passou disparado por mim, eu me virei e vi
um homem correndo em minha direção. Eu não o reconheci,
mas ele era definitivamente humano. Ele ergueu uma mão, e a
luz da lua brilhou na adaga.
Um membro da Ordem.
Merda.
Ele avançou e eu abaixei-me. Pulando para cima, eu girei
e bati o meu pé em suas costas. Houve um triturar doentio que
me assustou.
O homem caiu, tremendo e tendo espasmos.
— O que...? — Eu tropecei para trás, chocada que um
simples chute nas costas iria... oh Deus.
Eu estava mais forte agora. Como eu poderia continuar
esquecendo isso?
O chute nas costas tinha quebrado a espinha do homem.
Meu estômago revirou quando eu girei, e eu não tive tempo
para realmente processar isso. Um segundo homem correu
para mim, e eu evitei o seu ataque. Ele rodopiou, mas eu
peguei o seu braço. Torcendo bruscamente, eu estremeci com o
estalido e desesperadamente ignorei o grito de dor do homem.
Ele soltou a adaga.
— Eu realmente não quero matar você, — eu disse,
colocando pressão no homem até que ele caiu de joelhos. Eu
realmente não queria. Matar humanos, bem, isso não era nada
como matar faes. Eles não desmoronavam como os faes faziam.
Em vez disso, era sangrento, bagunçado e ficava preso em você
muito tempo depois da ação. — Então, se eu o soltar, você vai
se comportar, certo?
O homem deu uma risada áspera. — É melhor você ir em
frente e me matar, porque se você me soltar, eu vou extirpar
você, sua cadela.
— Uau. — Eu aumentei a pressão pelo desrespeito. — Eu
estou segurando o seu braço quebrado, cara.
— Mate-me, — ele arfou. — Vá em frente e faça isso, sua
puta traidora!
Minha mandíbula apertou-se quando alguém gritou ao
longe. Houve um clarão de luz alaranjada, e eu assumi que era
Fabian que estava acendendo alguma pessoa da pior forma
possível. — Você é um membro da Ordem.
— Assim como você era, — ele disse, torcendo sua cabeça
para o lado. — Mas você nos traiu.
— Eu não traí merda nenhuma. Como vocês souberam
que nós estávamos aqui?
— Como você acha? Você... — Ele balançou agarrando a
adaga.
Eu amaldiçoei quando ele se arrastou para trás.
Soltando-me, eu pulei para fora do caminho. Ele tropeçou.
— Tudo que vocês pensam sobre mim está errado. Eu
não traí a Ordem. Eu estou tentando parar...
Ele veio para mim como um trem desgovernado, e o
instinto assumiu. Eu não queria matá-lo, mas eu também não
queria ser esfaqueada até a morte também. Eu já sabia o quão
ruim isso era.
Disparando para frente, eu empurrei a minha outra
adaga em seu peito, entre as costelas. Eu arranquei-a e
sussurrei, — Eu sinto muito.
Ele não falou quando caiu para frente.
Engolindo em seco, eu disparei ao redor do SUV em
direção aos faróis. Eu me mantive no escuro, correndo em
direção ao carro em que os cônsules do Príncipe estavam.
Buracos de bala cobriam todo o lado. As janelas tinham
desaparecido. Meus passos desaceleraram, e o hamburguer
que eu comi mais cedo quase acabou no chão.
Todos eles... eles estavam lentamente entrando em
colapso, seus olhos pálidos arregalados com terror e dor, a pele
descascando e descamando. Bocas se foram. Eles não podiam
fazer um som.
— Deus, — eu ofeguei, afastando o olhar da visão e então
voltando. Meu olhar encontrou o de Fred. Eu não sabia o que
dizer, mas eu vi... eu vi em seus olhos.
Ele estava implorando para mim.
Eu olhei para a minha adaga, sabendo o que ele queria –
sabendo que eu poderia terminar com isso para eles
rapidamente. Tudo dentro de mim se rebelou contra a ideia,
que era tão louca. Eu poderia matá-los durante uma luta, mas
eu estava tendo dificuldades em dar uma morte
misericordiosa? Era diferente, embora.
Brevemente fechando os meus olhos, eu forcei-me a
tomar coragem e então eu... eu fiz. Eu cuidei de todos eles, e
quando eu terminei eu queria acabar com tudo isso, porque
seus rostos doloridos e o conhecimento em seus olhos de que
eu estava os enviando de volta para um mundo que estava
morrendo me assombraria pelo resto dos meus dias.
Mas isso estava longe de terminar.
Eu virei-me, parando abruptamente quando eu vi Fabian
ali parado, encarando o carro. — Eu tinha de...
— Eu sei. — Seu olhar se moveu para mim. — Obrigado.
— Não diga... — Eu vi um movimento sobre o seu ombro
e reagi sem pensar, disparando a arma. Fabian girou com um
arquejo, quando outro membro da Ordem caiu.
— Não me agradeça por isso, — eu disse, então parti para
outro carro – para onde eu já não ouvia mais tiros.
Tink estava na frente, não tinha ficado perto de Fabian.
Ele estava ajoelhado perto de alguma coisa – alguém – e ele
estava sem camisa.
Faye – ele estava perto de Faye.
— Ela está...?
— Eu estou bem. Não fui atingida por uma bala, mas um
pedaço de vidro quase decepou o meu braço, — ela respondeu
com a voz tensa. Foi então que eu vi Tink estava enrolando a
sua camiseta no bíceps dela. — Eu me curarei. Dane está... ele
está morto.
A pressão aumentou em minha garganta. Merda. —
Kalen?
— Ele está com Ren, — Tink respondeu sem olhar para
cima. — Eu vou ficar com ela.
Eu comecei a avançar, mas parei. — Eu sinto... eu sinto
muito por Dane.
Faye fechou seus olhos.
Respirando fundo, eu comecei a correr. À frente estava
um caminhão, o tipo que tinha faróis auxiliares no teto. Eu
tomei cuidado para ser silenciosa, mas não fazia sentido. Havia
outro carro entre nós, um que parecia como se tivesse acabado
de chegar ao local. Não havia nenhuma parte de mim que
esperava que eles fossem do Time Não Nos Assassine. Eu sabia
melhor.
As portas se abriram e cinco desceram. Ótimo. Eu não
via armas, então pelo menos havia isso. Fabian estava de
repente atrás de mim.
As probabilidades começaram a parecer muito melhores.
Uma onda de adrenalina enrijeceu-me quando eu
disparei para frente, alcançando o primeiro membro da Ordem.
Ela mergulhou em mim, mas eu atirei-me embaixo do seu
braço, mais rápida do que ela podia rastrear. Eu fui para trás
dela, e eu fechei tudo dentro de mim. Eu não pensei sobre ela
ser uma humana ou que nós costumávamos estar do mesmo
lado. Eu não me perguntei se eles ainda estariam lutando
comigo se eles soubessem o quanto a Ordem tinha mentido. Eu
tinha que fazer isso. Eu não podia pensar sobre o fato que eu
estava puxando o gatilho e atirando nela direto no peito.
Girando, eu peguei outro com um chute nas costas, ele
caiu de joelhos. Eu abaixei a adaga, puxando-a de volta
quando eu acertei o alvo.
Ouvindo passos soando atrás de mim, eu girei e saltei
para o lado, escapando por pouco de uma adaga em meu peito.
Eu comecei rodar, mas o pescoço do homem partiu-se para o
lado. Ele caiu, revelando Fabian.
— Obrigada, — eu ofeguei.
— Eu te devia.
Fabian fez um trabalho rápido com os membros
restantes, abrindo o caminho para eu chegar onde eu esperava
que Ren ainda estivesse em pé. Eu me aproximei da grade do
caminhão quando uma forma deu um passo para fora. Eu
ergui a arma preparada para abrir um buraco através de quem
quer que fosse.
Kalen ergueu suas mãos. — Sou eu, apenas eu.
— Merda. — Eu abaixei a arma. — Eu poderia ter atirado
em você. Onde está Ren?
O fae sacudiu a cabeça. — Ele tem um deles.
Aparentemente, Ren foi o único que teve a inteligência de
deixar um deles vivo. Eu segui Kalen pela lateral do caminhão,
mantendo um olho atento para outros membros da Ordem.
Eu vi Ren e queria atacá-lo pelo alívio. Eu consegui não
fazer isso, principalmente porque ele tinha uma arma apontada
para alguém, e eu imaginava que um abraço não ajudaria a
situação no momento.
— Agora que a Ivy se juntou a nós, eu espero que você
mude de ideia e comece a falar, —a voz de Ren estava tão dura
quanto granito. — Ela tem muito menos paciência do que eu.
Eu sorri maliciosamente quando eu cheguei ao seu lado.
Meu olhar seguiu para onde a arma estava apontada, e eu tive
que olhar para baixo porque Ren tinha quem quer que fosse
ajoelhado. Eu ofeguei quando eu reconheci o homem de
cabelos escuros.
Todos os músculos em meu corpo travaram quando eu
abaixei o olhar para o homem que tinha assassinado o melhor
amigo de Ren. O homem que supervisionava a Elite e tinha
vindo para New Orleans me caçar.
Kyle Clare.
Capítulo 23

Kyle não mudou de ideia. Não que eu estivesse


totalmente surpresa. Como membros da Ordem, fomos
praticamente criados para manter a boca fechada se fôssemos
capturados pelo inimigo.
E para Kyle, nós éramos o inimigo.
Então, íamos ter que fazê-lo falar, como nós fizemos com
Marlon, e isso não era exatamente algo que eu estivesse
ansiosa por fazer. Mesmo se Kyle fosse um grande imbecil que
precisava de uma dose saudável de carma.
Como era apenas uma questão de tempo até que o nosso
pequeno confronto na interestadual fosse visto por alguma
pessoa inocente com uma sorte terrível, nós tínhamos que sair
da estrada e ir para algum lugar seguro onde nós pudéssemos
interrogar Kyle e descobrir como eles sabiam que nós
estávamos indo para San Diego.
Quem restou do nosso grupo foi amontoado no SUV,
incluindo um Kyle amarrado e amordaçado. Nós chegamos a
um motel de beira de estrada assustador onde eu normalmente
nem mesmo pensaria duas vezes em ficar, mas eles tinham
vagas e parecia o tipo de lugar que costumava ouvir gritos no
meio da noite.
Pagamos em dinheiro por três quartos e colocamos Kyle
no do meio, amordaçado e amarrado em uma daquelas
cadeiras desconfortáveis. Éramos apenas Ren e eu no quarto
com ele. Nós achamos que ter algum dos faes lá não o
incentivaria a cooperar.
Além disso, Kalen estava lá fora em algum lugar se
livrando dos nossos veículos danificados e conseguindo alguns
novos, e Faye estava descansando para que seu braço se
curasse. Eu imaginava que Kalen ia usar glamour em alguém
para lhe dar as suas chaves, e eu realmente não tinha espaço
no cérebro para decidir se isso estava certo ou errado.
Ren estava em pé diretamente na frente dele, braços
cruzados sobre seu peito. — Eu estou prestes a remover essa
mordaça e eu espero que você seja esperto o bastante para não
fazer muito barulho.
Kyle ergueu o olhar para Ren, e eu não tinha ideia se ele
ia ser esperto o bastante ou não.
— Nós queremos falar com você e precisamos que você
ouça, — Ren disse dando um passo à frente. — Nós estamos do
mesmo lado.
Um momento passou e então Kyle assentiu. Ren removeu
a mordaça e a primeira coisa que saiu da boca do homem mais
velho foi: — Nós não estamos do mesmo lado, garoto. Nós
deixamos de estar do mesmo lado no momento que você
percebeu o que ela era e você não a eliminou.
Eu arqueei uma sobrancelha. — Essa vai ser uma
conversa adorável.
O olhar escuro de Kyle disparou para mim. — Devia ter
ouvido o meu instinto da primeira vez que eu encontrei você.
Ouvindo histórias de você lutando com o Príncipe e
sobrevivendo? Besteira.
— Ao contrário daquilo em que você acredita, eu lutei
com o Príncipe e sobrevivi. Não apenas isso, eu fui sequestrada
em seguida contra a minha vontade e eu ainda assim sobrevivi.
— Eu segurei o seu olhar. — Eu não sabia que era a Halfling.
Ele zombou. — Como se isso importasse.
— Eu imagino que não, — eu meditei, — porque eu tenho
certeza de que você matou muitos halflings em seus dias,
pessoas que não tinham ideia do que elas eram ou o porquê
você as estava matando.
— Por que você não pergunta a ele quantos ele matou
antes dele encontrar você?
Ren ficou tenso na minha frente.
— Ele não teve bolas para finalizar Noah. Ou você,
aparentemente. — Kyle sorriu. — Mas ele matou...
— Cale-se, — eu bati.
— Pensei que você me queria falando? — Ele inclinou-se
para a frente até onde a corda, que Ren encontrou Deus sabe
onde, o deixou. — Como você se sente sabendo que a razão
pela qual ele veio para New Orleans foi para colocar uma bala
entre seus olhos de Halfling – para matar você. Mas eu acho
que você tem uma boceta de ouro, porque...
Ren se moveu tão rápido que eu quase não vi o seu
punho se conectando com o rosto de Kyle, batendo sua cabeça
para trás e deixando a cadeira sobre duas pernas. A mandíbula
de Ren estava tão dura que podia quebrar pedras enquanto ele
ficava ali parado olhando para Kyle.
Eu dei um passo à frente. — Só para você saber, eu gosto
da ideia da minha vagina ser de ouro. Isso não é um insulto.
— Sim, você não faria isso. — Kyle cuspiu um bocado de
sangue. — A iluminação daqui é uma merda, mas eu vejo você.
Tive a sensação de que eu sabia o que ele queria dizer e
eu percebi que eu não me importava. Isso me atingiu como um
trem em alta velocidade, mas era o que era. Eu sabia que tinha
um aspecto diferente. Eu sabia o que significa, e não me
importava. — Eu não dou a mínima para o que você vê.
— Como? Como você escondeu como realmente se
parecia? — ele exigiu. — Porque eu sei malditamente bem que
se Daniel visse você pelo que você realmente é, ele não estaria
ainda te defendendo.
Minha cabeça inclinou para o lado quando Ren olhou
para mim. — Daniel está me defendendo?
Por um momento, eu não pensei que Kyle ia responder.
— Ele não quer acreditar que você traiu a Ordem. Obviamente,
ele está errado.
— Eu não traí a Ordem. — Eu parei. Daniel ainda
acreditar em mim era surpreendentemente uma ótima notícia.
Meus lábios apertaram. — Bem, matar aqueles membros da
Ordem que nos atacaram provavelmente está no rank do
departamento de traição, mas nós estávamos nos defendendo.
Kyle olhou fixamente para mim. Seu olho esquerdo estava
inchando, um machucado que eu imaginava que tinha ocorrido
lá fora nos carros. — Você parece uma maldita fae. Você é
nojenta.
Golpeando como um raio mais uma vez, o pulso de Ren
se conectou no estômago de Kyle. O contato ecoou através da
sala. Ele pegou Kyle pelo ombro, impedindo a cadeira de
tombar para trás. — Eu acho que você quis dizer que ela é
bonita, mas eu entendo. Palavras nunca foram o seu forte.
— Cumprir o seu dever nunca foi o seu. — Kyle ergueu o
olhar para Ren e riu. — Certo?
Eles ficaram olho no olho. — Você sabe malditamente
bem que eu cumpri meu dever mais e fodidamente mais.
— Mas não quando contava.
— Você está errado. Quando conta, eu faço a coisa certa,
— Ren deu um passo para trás quando a cadeira se endireitou.
— Nós não estamos falando sobre o que eu deveria fazer. Como
você soube onde nós estávamos?
Kyle cuspiu sangue. — Vão se foder.
— Linguagem, — Ren murmurou abaixando seus braços
para os lados.
O líder da Elite riu e isso soou molhado. — Qual
informação você acha que vai conseguir de mim? Você e eu
sabemos como isso vai terminar.
Eu encarei entre os dois. — Como isso vai terminar?
O lábio superior de Kyle se ergueu. — Ele vai me matar.
Olhando para Ren, eu esperei que ele respondesse e
quando ele não fez, eu decido que era a hora de intervir. — Ok.
Vamos colocar esse trem de volta nos trilhos. Você sabia que o
Príncipe encontrou outra halfling?
Um músculo flexionou ao longo da mandíbula
rapidamente machucada de Kyle. — Sem merda.
— Então, alguma vez ocorreu a vocês que se o Príncipe
está a caminho de San Diego para outra halfling, que talvez eu
não estivesse a bordo de ficar grávida e conduzir o fim do
mundo como nós conhecemos?
Um outro momento passou. — Não muda o que você é ou
o perigo que você representa.
Eu exalei ruidosamente. — Ok. Eu darei isso a você. Mas
porque você acha que nós estamos indo para San Diego? Não
se atreva a dizer para se unir e encontrar com o Príncipe,
porque eu posso dar um soco em você, e adivinha só? Eu bato
com muito mais força do que Ren.
— Vocês estavam viajando com um bando de faes, — ele
replicou. — Tenho quase certeza que é óbvio.
— Nós estávamos tentando pará-lo, seu idiota filho da
puta. — Ren se moveu para ficar atrás da cadeira de Kyle. —
Mas vocês meio que atrapalharam, nos atrasando. É melhor
você torcer para que ele não a tenha encontrado.
— A Ordem de San Diego tem observado ele. Nós não
somos estúpidos.
Ren bateu as mãos nos ombros de Kyle, fazendo ele
pular. — Isso está em discussão.
Um pouco de esperança de que nós não estivéssemos
muito atrasados despertou em meu peito. — Eles ainda não
viram o Príncipe?
Kyle não disse nada.
— Isso não quer dizer que o Príncipe não esteja lá, e que
ele ainda não a encontrou. — As mãos de Ren se curvaram
cavando nos ombros do homem. — E enquanto você está aqui
latindo para as malditas árvores erradas, ele está exatamente
conseguindo o que ele quer.
— Você sabe que nós quase não temos tempo para
impedi-lo de ter sucesso, — eu tentei de novo argumentar com
o homem. — Você não tem que gostar do que eu sou. Você
pode pensar o que você quiser, mas agora deve ter percebido
que nós não estamos trabalhando com o Príncipe.
— Mas você está trabalhando com os faes.
— E essa não é a primeira vez que a Ordem trabalha com
os faes. — Ren sorriu quando Kyle estremeceu. — Você quer
falar sobre isso?
Kyle caiu em silêncio.
— Essa é a coisa interessante sobre tudo isso. — As mãos
de Ren deslizaram dos ombros para perto da garganta do
homem. — Você me fala sobre dever, mas todos vocês são um
bando de malditos mentirosos. Alguma vez vocês pensaram que
um de nós cruzaria com a Corte do Verão e aprenderia sobre
como a Ordem e a Elite trabalharam ao lado deles? Como é que
eles ajudaram a fechar os portais? Como eles não matam
humanos ou se alimentam deles?
Bem, exceto os da realeza. Eles se alimentavam, mas eu
pensei que era melhor mantermos isso para nós mesmos no
momento.
Os olhos dele brilharam. — Todos vocês foram treinados
para matar, não para fazer perguntas para os faes enquanto
compartilham chá e biscoitos.
Minhas sobrancelhas se ergueram. — A Ordem mentiu
para nós – para todos nós – e continuou a fazê-lo porque eles
pensaram que nenhum de nós jamais falaria e ouviria algum
dos faes do Verão?
— Funcionou até agora.
Eu o encarei por um momento, pasma. — Isso é
absolutamente estúpido.
Kyle me deu um sorriso malicioso sangrento. — Os
membros da Ordem nunca treinaram para falar e ouvir os faes.
Vocês foram treinados para atacar primeiro. Sempre.
— De novo, — eu disse. — Isso é estúpido e desleixado.
— Você sabe o que é estúpido? Você achar que vai
conseguir sobreviver a isso.
— Estou tremendo de medo. — Eu rolei meus olhos. —
Eu imagino que você colocou um comunicado sobre nós, e nós
fomos vistos. Foi por isso que você nos encontrou.
— Provavelmente no Texas, — Ren concordou, deslizando
uma mão ao redor do pescoço de Kyle. — Quando nós paramos
para pegar comida. Eu também imagino que o setor do sul da
California esteja procurando por nós.
O homem visivelmente engoliu em seco. Ele podia agir
como se ele fosse um durão de merda, mas ele estava com
medo.
Kyle respirou fundo quando Ren soltou e deu um passo
para trás. — Eu não tenho nada a dizer para todos vocês.
— Está tudo bem. — Eu sorri. — Porque você nos disse
algumas coisas que nós podemos usar.
Os olhos de Kyle se estreitaram. — Eu não te disse merda
nenhuma.
— Oh, você fez. — Eu ri suavemente quando o olhar de
Ren se elevou para o meu. — Você me disse exatamente quem
nós precisamos contatar. Daniel.
Seu olhar se arregalou com entendimento.
— Então... — Eu ergui minha mão, estendendo meu dedo
do meio. — Obrigada por isso.
Não havia palavras para descrever a satisfação que eu
senti quando o seu rosto empalideceu. — Vá em frente e me
mate.
— Eu amaria fazer isso com você. — Ren caminhou
passando por ele dando um tapinha na parte de trás da cabeça
no processo. — Mas o que é que isso faz, exceto provar que
você estava certo, que nós somos o inimigo?
Eu olhei para ele bruscamente, mas consegui ficar
quieta. Baseado no olhar no rosto de Kyle, ele ficou tão
surpreso quanto eu.
Ren sorriu para Kyle. — Deixando você viver
esperançosamente atravessará esse seu crânio grosso de que
estamos do mesmo lado. Eu não terei o seu sangue em minhas
mãos. Nem Ivy.

Capítulo 24

Abafando um bocejo, segui Ren até o quarto ao lado. Nós


amordaçamos Kyle antes de sairmos e ligamos a TV por
precaução. Ele não estava indo a lugar nenhum. A menos que
ele desenvolvesse super poderes especiais e conseguisse se
libertar de onde o deixamos...
Amarrado aos canos do banheiro.
— Você realmente ligará para Daniel? — Ren perguntou
parando em frente a cama que estava afundada no meio. Eu
me perguntei quantas pessoas tinham engravidado e morrido
na cama.
Então eu vomitei um pouco em minha boca e decidi que
eu não precisava pensar sobre isso. — Eu acho que ele é nossa
melhor opção se for necessário abrir os portais para enviar o
Príncipe de volta.
— É um risco. — Ele examinou o pequeno e sujo quarto
de hotel, suas sobrancelhas se ergueram ao ver TV que parecia
ter saído dos anos 80. — Ele pode não pensar que você o traiu,
mas quando...
Enquanto Ren se afastava, eu o observei desembainhar a
adaga e a estaca de espinhos. Ele as colocou na pequena mesa
de cabeceira perto da porta. Uma arma se juntou a elas.
— Quando ele vir como eu pareço agora? — Eu terminei
por ele.
Ren virou-se para mim. — Isso não deveria mudar uma
maldita coisa, mas pode mudar.
Mordi o meu lábio. — Eu sei. É por isso que é melhor eu
ligar para ele quando chegarmos em San Diego. Ligar para ele
agora é muito mais arriscado. Nós poderíamos deparar-nos se
com outro bloqueio na estrada, se eu estiver errada sobre ele.
— Nós poderíamos. — Ele tirou as suas botas. — Nós não
podemos ficar muito tempo aqui. Outros membros da Elite vão
estar à procura de Kyle. Nós provavelmente temos algumas
horas. Nós precisamos descansar e então pegar a estrada.
— Eu concordo.
— Eu acho que você está certa, — ele disse, correndo
uma mão sobre o seu cabelo bagunçado. — Nós entraremos em
contato com Daniel quando chegarmos a San Diego e...
seguimos a partir daí.
Eu assenti, observando-o enquanto puxava a camiseta
sobre a sua cabeça, mostrando aqueles abdominais e peito
definidos. Alguma coisa estava errada sobre o seu tom, e seu
olhar desviou do meu sempre que eles se encontravam.
— O que vamos fazer sobre o Capitão Idiota? Você
realmente planeja deixá-lo vivo?
Seus lábios se contraíram em um leve sorriso. — Nós
devíamos matá-lo. Eu quero matá-lo. Seriamente. Por muitas
razões diferentes. — Ele se sentou na beira da cama, e eu fiquei
surpresa quando a coisa não entrou em colapso. — Mas se
você ou eu o matarmos, apenas provará que ele está certo –
provará o que os outros membros da Ordem devem acreditar.
— Então, nós vamos apenas deixá-lo aqui?
Passando a mão através do seu cabelo de novo, ele
assentiu. — Eu acho que é a coisa certa a fazer.
Eu não achava que era a coisa certa a fazer, de forma
alguma. Deixar que Kyle vivesse significava que nós estaríamos
olhando sobre o ombro a cada minuto enquanto lidávamos com
Drake e tudo mais. Nós precisávamos falar sobre isso.
— Kyle está certo.
Piscando, eu fiz uma careta. — Certo sobre o quê?
Ren inclinou-se para frente, descansando seus braços em
suas pernas. — Sobre eu matar os halflings.
Todos os pensamentos sobre matar Kyle desapareceram.
— Ren...
— Você sabe quantos eu matei? — Ele abaixou seu
queixo e deu uma pequena sacudida de cabeça. — Eu sei.
Oh, não. — Isso não importa.
— Não importa? Eu meio que acho que importa. — Ele
ficou quieto por um momento. — Eu teria te matado se eu não
tivesse conhecido você – se eu tivesse descoberto que você era
uma halfling antes que eu soubesse quem você era.
Isso era difícil de ouvir, mas eu caminhei em direção a
ele. — Mas isso não foi o que aconteceu.
— Poderia ser. — Ele ergueu a cabeça, o seu olhar tão
perturbado que fez meu coração doer. — Eles eram como você,
Ivy. Alguns não eram membros da Ordem, mas outros eram, e
eles não tinham ideia do que eles eram. Não tinham ideia
porque estavam a segundos de morrer. Eles nem sequer
sabiam o que os atingiu.
Perdi o fôlego, e fiquei sem palavras.
— Às vezes eu não sei como você pode estar comigo, —
ele disse, e aquelas palavras quebraram o meu coração. —
Como você pode olhar para mim, me amar, sabendo o porquê
eu fui para New Orleans.
Eu engoli o caroço na minha garganta. — Bem, ajuda o
fato de que você não tentou me matar.
Ren não sorriu como eu tinha pensado que ele faria. Eu
me ajoelhei em frente a ele, colocando uma mão em sua perna
e acariciando o seu queixo com a outra. — Olhe para mim.
Lentamente, seu olhar se ergueu para o meu. — Eu estou
olhando para você, Doçura. Sempre estou, mesmo quando os
meus olhos não estão em você.
Meu peito apertou em resposta para aquelas palavras.
Deus, Ren era... ele era muito bondoso para tudo isso. Eu vi
isso com repentina clareza. Se ele não tivesse nascido dentro
desse mundo, ele provavelmente seria um médico, salvando
vidas, ou um professor conduzindo a juventude para um
amanhã melhor.
E talvez se eu não tivesse nascido nisso, eu também
seria... muito boa.
— Quem você era antes e o que você fez não é quem você
é agora e o que você vai fazer. — Eu arrastei meu polegar sobre
seus lábios. — Nós dois fizemos coisas que desejávamos não ter
feito, e eu gosto de pensar que nós não teríamos feitos essas
coisas se nós soubéssemos de forma diferente. Nós não somos
quem nós costumávamos ser.
Ren fechou seus olhos quando ele virou sua cabeça,
beijando minha palma, mas eu podia sentir a tensão rolando
para fora dele. — Nós matamos pessoas hoje – pessoas com
quem eu trabalhei no passado. Eu reconheci pelo menos três
deles.
Eu suguei uma respiração afiada.
— Eu sei que tínhamos de fazê-lo. Se não fizéssemos, eles
não pensariam duas vezes sobre nos matar. — ele estremeceu.
— Mas isso não torna nada mais fácil.
— Eu sinto muito, — eu sussurrei.
Ren não respondeu, e quando eu ergui olhar para ele, eu
soube então que o sangue de Kyle não podia estar nas mãos de
Ren. Não havia forma que eu pudesse insistir na questão de
matar Kyle.
O estresse continuou a sair dele, e eu decidi que eu tinha
que fazer alguma coisa. Qualquer coisa para aliviar os seus
problemas. Dormir ajudaria, e nós precisávamos disso, mas
tudo o que eu queria naquele momento era afastar a sua dor e
auto aversão, e havia apenas uma forma que eu sabia como.
Eu não pensei sobre o tapete fino e sujo quando eu caí se
joelhos no tapete entre suas pernas e estendo uma mão para o
botão da sua calça.
Ele endireitou-se, erguendo sua cabeça enquanto ele
pegava o meu pulso. — Ivy...
Eu o silenciei quando eu me estiquei o beijando
suavemente enquanto eu trabalhava em seu zíper. Eu o senti
então, já duro e tenso. Eu quebrei o beijo e abaixei enquanto o
meu olhar se movia para o dele.
— Por favor? — Eu sussurrei.
Ren soltou o meu pulso, levantando um dedo de cada
vez.
Puxando o zíper para baixo até o final, eu agarrei a sua
calça e cueca boxers. Ele ergueu seus quadris e eu fui capaz de
puxá-las para passar por seus joelhos e fora. Então eu o peguei
em minha mão, maravilhada com como ele podia parecer tão
suave quanto seda e ainda tão duro como aço.
Ele exalou bruscamente quando eu movi a minha mão da
ponta até a base e de volta para cima. Uma gota de líquido
brilhava. Seu corpo todo estremeceu quando eu movi meu
polegar ao longo da ponta, e meu olhar voou para o dele. Ele
me observava intensamente, seus lábios ligeiramente abertos
quando ele alcançou atrás da minha cabeça, encontrando o
pregador em meu cabelo e o tirando. Os cachos caíram pelos
meus ombros em uma bagunça emaranhada, e então sua mão
estava enfiada através deles, enrolando-se na parte de trás da
minha cabeça. Ele usou a mais leve pressão para me mostrar o
que ele queria.
O gosto salgado dele dançou sobre a minha língua, e os
meus ouvidos se empolgaram pelo som irregular que ele fez. Eu
não o soltei. Isso não era sobre jogos e brincadeiras. Isso era
tudo sobre tirar a sua mente dos lugares escuros que ela tinha
ido. Era sobre acalmá-lo. Eu o levei em minha boca, e embora
eu não tivesse uma tonelada de experiências com boquetes, eu
rapidamente aprendi que quando um cara gostava de você,
realmente não havia forma errada de fazer isso.
Bem, exceto provavelmente usar os dentes em uma
maneira não tão sedutora, mas tanto faz.
— Ivy, — ele grunhiu, seu corpo inteiro flexionou
enquanto eu sugava e me movia para cima, girando a minha
língua ao longo da cabeça. Ele xingou e seu corpo enrijeceu.
Calor me inundou, deslizando para baixo em meu corpo.
Eu doía por ele de uma forma diferente dos momentos
anteriores.
Eu o levei tão longe quanto eu podia, e isso parecia ser o
bastante baseado na forma que sua mão apertou ao redor da
minha cabeça e nos sons profundos que ele estava fazendo.
Então a sua mão deslizou para o meu pescoço e seu polegar
encontrou o meu pulso, aquele local estranhamente sensível
em mim, e ele gentilmente massageou a pele até que eu apertei
as minhas coxas juntas. Ele inchou contra a minha língua um
segundo antes que ele tentasse me afastar, mas eu não deixei,
não quando ele pulsou e grunhiu o meu nome.
Quando acabou, eu me sentei para trás um pouco
orgulhosa de mim mesma. Ou, eu tentei me sentar. Mas isso
não foi o que aconteceu. Ren se moveu rápido, me agarrando
embaixo dos braços e me erguendo. Eu arfei enquanto os dedos
dele trabalhavam rapidamente na minha calça, e antes que eu
até mesmo pudesse dizer “hum” ele tinha tirado a minha calça,
a minha calcinha e as minhas botas.
Jesus, ele era talentoso.
E forte – realmente forte.
Ren me levantou para a cama enquanto ele se sentava,
segurando-me para cima, até que uma parte muito particular
minha estivesse alinhada com a sua boca.
Ele não disse nada enquanto eu abaixava o olhar para
ele. Meu coração trovejando com a intensidade crua gravada
em seus traços marcantes. Atordoada, eu tranquei minhas
pernas para ficarem equilibradas quando ele agarrou meus
quadris – minha bunda, seus dedos cavando em minha carne.
E então sua boca estava em mim.
Sem aviso. Sem construção lenta. Lábios. Língua.
Sucção. Arrastando. Eu ofeguei, segurando em sua cabeça por
apoio. Ele me devorou, sua boca quente e molhada consumindo
tudo.
Eu tentei dizer o seu nome, mas eu perdi todo o controle
quando meu corpo espiralava apertado. Eu estava além do
discurso coerente, além de qualquer outra coisa do que o que
sua boca estava fazendo entre minhas pernas. Eu tive a
sensação de que ia morrer, isso estava morrendo, e então
aconteceu. Eu gritei, meu corpo se liquefez quando a liberação
bateu em mim, latejando e pulsando e sem fim.
E Ren me pegou.
Eu entrei em colapso em seus braços – flácida, saciada e
exausta. Eu mal o processei se torcendo para que ambos
estivéssemos deitados de lado, com a minha bochecha grudada
em seu peito. Nenhuma palavra foi dita por nós, e foi assim que
ele caiu no sono, me segurando perto como se ele temesse que
eu fosse flutuar para longe dele.
Mas eu não dormi.
Eu não podia enquanto a neblina prazerosa não
desaparecesse e eu pensasse no que tinha que fazer.
No que eu tinha que fazer por ele.

Capítulo 25

Ren ainda estava no chuveiro quando eu saí do quarto.


Eu disse a ele que iria verificar Kyle e garantir que ele estivesse
bem antes de pegarmos a estrada. Eu insisti nisso, porque eu
não queria Ren em nenhum lugar perto daquele bastardo.
Era cedo e o sol da manhã me fez estremecer enquanto
queimava o estacionamento. Eu não estava sozinha quando eu
dei um passo para o lado de fora.
Fabian estava na frente da porta em que Kyle estava
sendo mantido.
— Você esteve aqui fora a noite toda? — Eu perguntei.
— Dento e fora, — ele replicou sem expressão. — Queria
ter certeza de que ele ficaria onde ele precisava estar.
— Ele não vai a lugar nenhum. Confie em mim.
— Ele não irá.
A frieza em sua voz me enviou um calafrio descendo pela
espinha. Eu olhei ao redor, não vendo ninguém mais. — Onde
está Tink?
— Dormindo no quarto no final do corredor. Ele está com
Faye. — Ele inclinou a cabeça. — Por que você o chama assim?
Tink?
Eu ergui minhas sobrancelhas enquanto empurrava
meus cachos para fora do rosto. A pergunta me surpreendeu.
— Eu apenas... bem, ele nunca me disse o seu verdadeiro nome
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e fez-me lembrar da Tinkerbell .
A boca de Fabian se contraiu. — Interessante. — Houve
uma pausa. — Eu ouvi vocês na noite passada.
Meus olhos se arregalaram quando o calor floresceu em
meu rosto. Oh meu Deus, nós mal fizemos barulho! Bem,
houve gemidos – definitivamente gemidos de uma variedade
sexual. As paredes deste lugar tinham que ser tão finas quanto
um maldito tapete. — Eu não sei o que você está pensando que
ouviu, mas não éramos nós.
Ele fez uma careta enquanto me observava. — Eu ouvi
você e Ren falando com o homem lá dentro.
— Oh. Oh. — Eu soltei uma risada chocada. Deus. Agora
eu estava apenas envergonhada comigo mesma. — Continue
então.
Sua carranca desapareceu, mas seu olhar ainda era
pesado. — É por isso que eu estou esperando.
Meu olhar voou para o dele. Um breve momento passou,
um cheio de entendimento, e então Fabian deu um passo para
o lado. Eu estendi a mão para a porta.
— Eu ouvi vocês gemendo também, — Fabian adicionou.
— Você soou como um alce selvagem pastando.
Minha boca caiu aberta. — Um alce selvagem pastando?
— Sim. Isso está correto. Foi muito... perturbador.
Oh meu Deus, eu não soei como um alce selvagem.
Rosto em chamas, eu o empurrei e então abri a porta do
motel. O quarto estava silencioso, mas nós deixamos a luz do
banheiro ligada e eu podia vê-lo da entrada.
Ele estava cochilando, seu queixo descansando contra
seu peito, pulsos presos ao cano. O homem tinha sentidos de
gato, no entanto, porque eu dei um passo na sua direção e ele
acordou.
— Bom dia, — eu disse, fazendo meu caminho na direção
dele. — Eu teria trazido café e uma rosquinha, mas então eu
lembrei que eu não gosto de você.
Ele bufou, afastando o olhar. — Se você está aqui
finalmente para me matar, apenas acabe com isso, porque você
é fodidamente irritante.
— Eu não estou aqui para fazer isso. — Entrando no
banheiro, eu sentei-me no assento do vaso sanitário fechado.
— Eu quero falar.
— E eu quero usar esse vaso, então se você não vai, que
tal você mover sua bunda e me desamarrar.
Eu ri. — Não vai acontecer. Não ainda.
Seu olhar deslizou lentamente para mim. — Você sabe
que eles virão atrás de mim. Eles já devem estar lá fora, se
aproximando de todos vocês.
— Eu sei. — Eu cruzei uma perna sobre a outra. —
Então, nós não temos muito tempo.
— Você está quase sem tempo.
— Quase. — Meu olhar se moveu rapidamente para ele, e
eu vi um fino tremor que percorreu através dele. — Você não
pode não acreditar nisso, mas eu fui sequestrada pelo Príncipe.
Eu fui levada contra a minha vontade. Eu lutei para
permanecer viva e para não ceder. Você não tem ideia do que
eu tive que fazer para isso. — Minha garganta engrossou, mas
eu continuei. — Você pode me odiar. Você pode odiar Ren. Mas
nós éramos a melhor chance do mundo neste momento. Nós
estávamos do mesmo lado.
Um músculo apertou ao longo da sua mandíbula. —
Eram?
Eu não abordei isso. Não ainda.
— Você é casado? Tem filhos? — Eu perguntei.
— O quê? — ele perguntou rapidamente.
— Apenas curiosa. Muitos membros da Ordem se casam
uns com os outros. Tem filhos. Você se casou? — Eu descansei
meu queixo em minha palma. — Você não parece ter feito isso.
Sem uma aliança de casamento. Você é tudo sobre o trabalho.
Dever.
— Sim, — ele fervia. — Erradicar faes é meu dever.
— Mesmo aqueles que ajudaram a Ordem? A Corte do
Verão?
Kyle não respondeu.
— O que aconteceu? Por que você não me conta sobre
isso? Eu já ouvi o lado deles, mas eu sei que há mais. Tem que
haver para a Ordem se virar contra eles.
Pressionando seus lábios em uma linha fina, ele inclinou
sua cabeça para trás contra o fundo da pia.
Apertando a minha mandíbula, eu balancei a minha
cabeça. Eu queria chutá-lo no rosto, mas eu duvidava que isso
faria ele falar. — Não pode ser apenas porque eles eram faes.
Sua cabeça se virou na minha direção. — Não pode ser?
Eu fiquei imóvel.
— Não importa se eles estão se alimentando ou não ou se
eles ajudaram a Ordem. Eles são uma maldita abominação
infectando o nosso mundo – uma fodida doença. A Ordem não
podia ver isso, mas nós podíamos. — Seus olhos brilharam. —
Nós fizemos o que precisávamos fazer, como nós sempre
fizemos.
Ele estava falando sério? — Vocês – a Elite se virou
contra a Corte do Verão porque eles eram faes?
— Existe outra razão que eu desconheça?
— Puta merda, — eu sussurrei, chocada até meu âmago.
— Isso é tudo? Vocês os traíram. Os mataram. Pegaram o
Cristal deles. Vocês fizeram tudo isso porque eles eram faes.
Uau. Eu estou realmente sem palavras.
Ele amaldiçoou e me chamou de idiota, mas tudo o que
eu podia fazer era encará-lo. Não havia uma motivação
profunda, nenhuma agenda oculta. Apenas... intolerância e
medo. Se isso era o que a Elite era, então eles não eram... eram
nada melhores do que os faes que queriam dominar o mundo
mortal.
Eu não era nada como ele. Nem Ren era. No momento
que nós descobrimos que havia faes lá fora que apenas
tentavam viver o melhor das suas vidas sem prejudicar os
outros, nós fizemos uma trégua. Não foi fácil, mas nós
éramos...
Nós éramos seres humanos bons.
Na maioria dos dias.
Só não hoje, embora. Hoje eu não era uma boa pessoa.
Eu era a pior dos piores.
E eu estava ok com isso.
Kyle suspirou pesadamente. — Ele terá que me matar,
você sabe disso? Cedo ou tarde. Porque eu te encontrarei e
matarei você. Então ele virá atrás de mim, e se ele não me
matar, eu o matarei. Ele é um traidor.
Eu descruzei meus braços. Essa conversa tinha acabado.
— Ele não matará você.
Kyle sorriu maliciosamente. — Você é uma vadia burra se
você acha que esse é um movimento esperto.
— Adivinha o quê? Eu sou uma vadia, mas eu não sou
burra. — Eu fiquei em pé no banheiro. — Eu entendo o porquê
ele acha que te deixar viver ajudará a construir uma ponte com
a Ordem de novo. Ele é apenas esse tipo de pessoa. Uma boa
pessoa. Ele é melhor do que você.
— Ele está fodendo uma halfling, — Kyle cuspiu.
Eu soltei uma risada fria quando eu saí do banheiro. — E
ele ama isso. Muito.
Um olhar de nojo rastejou em sua expressão. — Ele
pagará por isso. Eu te prometo isso. Ele e eu nos veremos
novamente.
—Você está errado, muito errado sobre isso. — Eu parei
em frente da porta principal. — Ren não matará você mais
tarde. Eu não permitirei isso.
Ele riu. — O quê? Você fará isso? Então mentir para ele
sobre isso mais tarde? Meio difícil me matar quando vocês
todos estiverem lá fora.
— Não. — Eu esperei até que ele estivesse olhando para
mim e então sorri. — Eu não vou fazer isso também, porque eu
fiz uma promessa de não mentir mais para ele.
— Isso é doce, — ele cuspiu balançando a cabeça.
— É mesmo. — Eu coloquei uma mão em torno da porta
e comecei a abri-la. — Mas eu não disse que ninguém mataria
você, Kyle.
Eu dei um passo para o lado.
E então o Príncipe do Verão entrou.

Capítulo 26

Kalen havia encontrado para nós um grande SUV que


podia acomodar um time de futebol, então estávamos todos no
mesmo carro agora.
Todos nós que sobramos.
Um dia na estrada e já tínhamos perdido cinco pessoas.
Era difícil pensar sobre isso ou mesmo reconhecer.
Eu pensava que era o motivo de Faye e Kalen estarem tão
silenciosos na última fila dos fundos. Eu não conhecia Dale
bem, mas gostava dele mesmo se ele tivesse me chamado de
pequenininha halfling.
Fabian também estava quieto, e eu tinha certeza de que
isso tinha a ver com a perda de todos os seus cônsules. Cada
um deles tinha morrido naquele carro, crivados com disparos
de balas de ferro.
Eu mordi meu lábio, olhando para Ren. Ele não tinha
ideia do que eu tinha feito. Como planejado, nós saímos sem
Ren verificar Kyle e ele não tinha me perguntado como Kyle
estava. E eu não tinha perguntado a Fabian o que ele tinha
feito com Kyle, mas o Príncipe do Verão estava visivelmente
mais relaxado quando saímos.
Eu tinha certeza de que ele fez Kyle pagar por cada morte
que tinha acontecido.
Parte de mim ainda estava em estado de descrença sobre
o que Kyle tinha me dito. Foi a Elite que traiu a Corte de Verão,
simplesmente porque eles eram faes. Eu não queria acreditar
nisto. Eu queria que houvesse alguma razão que ajudaria a
entender o porquê a Elite tinha feito o que fez. Mas não havia
nada exceto intolerância e medo.
E tudo que eu podia esperar era que a intolerância e
medo não se estendesse tão longe até a Ordem. Eu sabia que
provavelmente iria, mas Kyle tinha dito que Daniel não queria
acreditar que eu tinha o traído. Nós tínhamos uma chance.
Meus dedos se enrolaram ao redor do telefone pré-pago.
Eu nem me lembrava de tirá-lo do meu bolso, mas tinha o
segurado por horas, o dispositivo quente em minhas mãos.
Ligar para Daniel era um grande risco, mas um que nós
íamos ter que assumir. Ele era a nossa única esperança para
abrir os portais para enviar o Príncipe de volta.
— Ei. — Tink inclinou-se para frente, entre os assentos,
sua voz baixa. — Eu estava pensando sobre algo.
Com Tink, ninguém poderia imaginar sobre o que poderia
ser. Eu virei-me para ele. — O quê?
— Você acha que é possível a Ordem já ter descoberto
quem é a halfling e tê-la com eles, eu não sei, em custódia
protetiva? — ele perguntou.
Um músculo ao longo da mandíbula de Ren vibrou. — A
Elite está em San Diego, isso é óbvio. Se eles descobriram
quem é a halfling, então eles não a teriam em custódia
protetiva.
Ren estava certo. A Elite a mataria imediatamente. Eles
não tentariam mantê-la segura.
— Isso é meio perturbador, — Tink comentou.
— Você está percebendo isso agora?
Ele olhou para mim. — É simplesmente errado.
Sim.
Sim, era.
Tink se sentou para trás, e quando eu encarei Fabian,
meu olhar encontrou o dele. — Se a halfling ainda estiver viva e
não comprometida, ela estaria sob a proteção da Corte de
Verão, — ele disse. — Nós não permitiríamos que a
machucassem.
— E se ela estiver comprometida?
— Então nós cruzamos essa ponte quando chegarmos a
ela – se nós chegarmos a ela, — Fabian respondeu, olhando
para fora da janela. Essa era uma resposta muito diferente de
quando nós começamos esta viagem. — Vamos esperar que
esse não seja o caso.
Eu não tinha certeza do quanta a esperança tinha
funcionado para nós no passado, mas eu estava disposta a
tentar. Não podia machucar. Nós passamos o resto da viagem
discutindo nosso plano de jogo para quando chegássemos em
San Diego. De acordo com Faye, Tanner tinha cuidado da
hospedagem. Nós ficaríamos em uma casa bastante isolada,
nos arredores de San Diego, em Del Mar. Eu não tinha ideia se
19
ele conhecia o dono ou se era algum tipo de coisa de Airbnb o
que me fazia querer rir. Faye sabia onde pegar as chaves da
propriedade, e apesar do quão séria nossa visita era, eu estava
animada por saber que era perto da praia. Eu queria caminhar
descalça na areia só uma vez.
Prioridades.
De lá, eu ligaria para Daniel com o telefone pré-pago. O
tipo de telefone que Tanner tinha nos fornecido era
criptografado e não rastreável, conectando-se por Wi-Fi ao
invés de torres de celular. Isso não significava que Daniel não
poderia nos rastrear via Internet se nós estivéssemos usando
um IP estático, então isso significava que nós precisávamos de
um Wi-Fi público apenas por garantia.
E a partir daí, bem, tudo que nós tínhamos era
esperança.
A esperança de que Daniel me ouvisse e concordasse em
se encontrar conosco. A esperança de que eles tivessem alguma
ideia de onde o Príncipe estava, e a esperança de que nós não
estivéssemos muito atrasados.

***

Nós chegamos em San Diego perto da hora do jantar e


paramos em um restaurante de fast food que tinha Wi-Fi
gratuito para fazer a ligação e pegar algo para comer.
Estacionamos na parte de trás do estacionamento, eu
fiquei no carro com Ren enquanto o resto entrou no
restaurante. Tink ia pegar algo para mim, não um, mas dois,
pedidos de frango frito, e eu estava feliz de informar que eu
estava realmente, realmente ansiosa para devorá-los.
Eu não tive nenhum desejo desde o último, então isso era
bom, eu pensei.
— Você está pronta para fazer isso? — O olhar de Ren
encontrou o meu. Ele estava inclinado para trás no banco do
motorista, seu braço apoiado ao longo da parte de trás do
banco.
Assentindo, eu dei uma respiração profunda. — Tão
pronta como jamais estarei. — Meus dedos pairavam sobre o
teclado numérico. Eu sabia que o número de Tanner de cor. —
E se ele não atender?
— Então você se manterá ligando até ele atender.
Eu assenti de novo. Meu estômago cheio de nós. E se
Kyle estivesse mentido? E se Daniel nem mesmo estivesse em
San Diego? Havia tantos riscos.
Ren tocou a minha bochecha chamando minha atenção.
Seu olhar procurou o meu. — Você tem isso.
— Eu tenho. — Eu tentei sorrir, mas parecia estranho. —
Daniel é como...
— O quê?
Eu balancei a cabeça levemente. — Ele é como um pai
para mim. Eu sei que isso soa estúpido...
— Não soa. — Ele passou o polegar sobre a minha
bochecha. — De modo nenhum.
O sorriso veio mais fácil dessa vez. — É que quando Kyle
disse que Daniel não acreditava que eu tivesse traído a Ordem,
isso realmente significou algo para mim, mas e se ele achar
isso? Eu quero dizer, Daniel pode ser um grande idiota, mas
isso seria... seria doloroso.
Ren se inclinou na minha direção, beijando o centro da
minha testa. — Eu desejaria que eu pudesse dizer algo que
tornaria isso melhor se esse fosse o caso, mas não há nada que
eu possa dizer, exceto se ele pensar isso de você então ele não
te conhece completamente.
Movendo a minha cabeça, eu beijei os seus lábios, e
quando eu me afastei tive que engolir o nó repentino em minha
garganta. — Eu preciso ligar para ele.
— Você precisa.
E isso foi o que eu fiz. Digitando o número dele, eu
apertei o botão do viva-voz e então esperei. Chamou uma, duas
vezes e no quarto toque eu comecei a me preocupar que ele não
ia atender.
Mas então ele atendeu, no quinto toque. — O quê?
Meu estômago caiu enquanto eu encarava o telefone.
Esse definitivamente era Daniel. Somente ele atenderia um
número desconhecido dessa forma.
Eu olhei para Ren, e ele assentiu.
— Daniel? — Eu disse, estremecendo quando minha voz
quebrou. — É a Ivy.
Minha introdução foi recebida com uma longa batida de
silêncio e então, — Você está viva.
Eu pisquei. — Sim, eu estou. Ren também está.
— Você vai me dizer onde esteve, o que você tem feito? —
ele perguntou.
— Eu quero dizer. É por isso que eu estou ligando para
você. Espero que você esteja onde eu estou.
— E onde é isso?
— San Diego. — O telefone ia rachar pelo quão apertado
eu estava segurando-o.
Houve outro trecho de silêncio. — Engraçado. É onde eu
estou.
Bem, pelo menos isso era uma boa notícia. Eu imaginava.
— Eu sei que você provavelmente não confia em mim, porque
Deus é o único que sabe o que você pensa, mas eu não traí a
Ordem. Eu estou aqui para parar o Príncipe. Assim como Ren.
— Você não sabe o que eu penso. Isso é provavelmente
uma coisa boa, mas é melhor você começar a falar e me contar
onde diabos você esteve. — Daniel parou. — Eu imagino que há
um monte de coisas que você precisa me dizer, garota.
Havia um monte de coisas que eu precisava dizer a ele,
mas eu começaria com a mais óbvia delas. — Eu sou a
Halfling.
Daniel ficou em silêncio.
— Você provavelmente já sabia disso, — eu continuei, um
pouco sem fôlego. — Mas eu não sabia até o Príncipe vir – bem,
eu na verdade descobri um pouco antes disso. Eu me cortei
com a estaca de espinhos, mas eu não sabia até então. Eu não
tinha ideia. Ren também.
Eu fechei meus olhos, odiando dizer o que tinha que
dizer. — O Príncipe sequestrou Ren e depois a mim. Ele me
manteve por um tempo, mas eu escapei – nós escapamos. E se
você seguiu o Príncipe até aqui, então você tem que saber que
ele não conseguiu o que ele queria de mim.
— Talvez eu saiba disso. — Houve uma pausa. — Talvez
não.
Instinto me disse que Daniel sabia que o Príncipe estava
atrás de outra Halfling. — Eu quero encontrar com você –
apenas Ren e eu. Nós precisamos conversar.
— Isso nós precisamos.
— E por conversar eu quero dizer que nós não queremos
entrar em uma armadilha, Daniel. Nós estamos do mesmo
lado.
— Por que você pensa que seria uma armadilha?
— Oh, eu não sei. — Eu abri os meus olhos e olhei a as
frondosas palmeiras se movendo na brisa. — Talvez porque um
comboio inteiro de membros da Ordem e da Elite tentou nos
matar no Arizona.
— O quê? — Ele exclamou.
Eu olhei para Ren, sem saber se a reação dele era
genuína. Isso foi quando Ren falou. — Você não sabia sobre
isso, Daniel?
— Bem, oi, Sr. Owens. Fico feliz em saber que eu estou
no viva-voz. Há mais alguém aí que queria dizer oi?
— Ninguém mais está conosco agora, — eu enfatizei a
última parte. — Mas nós não viemos sozinhos. Nós viemos com
reforços.
— Para quê?
— Para extirpar o Príncipe, para que diabos mais?
— Garota, você e esse tom. Cuidado, — Daniel avisou.
Por alguma razão, a repreensão me fez sorrir, porque isso
era tão... tão Daniel. — Desculpa.
Houve um pesado suspiro na outra extremidade. — Eu
não sabia sobre a coisa do Arizona. Eu imagino que foi Kyle. E
eu imagino que é o motivo pelo qual eu não tive notícias dele.
Eu podia sentir o olhar de Ren em mim. — Nós queremos
nos encontrar e falar.
— Por que eu devia pensar que isso não é uma armadilha
sua?
— Porque se eu estivesse trabalhando para o Príncipe, eu
não estaria preocupada sobre uma armadilha da Ordem. Eu
estaria grávida e ficando o mais longe possível de seu pessoal
quanto possível.
— Seu pessoal? — Ele soltou uma risada. — Pensei que
você era uma de nós?
— Eu sempre serei parte da Ordem, mas eu descobri
depois de tudo, que não é mais uma opção, — eu admiti. —
Nós estamos do mesmo lado, Daniel. Não importa que eu seja
uma halfling. Isso, eu juro.
Daniel ficou em silêncio por tanto tempo que eu comecei
a me preocupar que ele tivesse desligado, mas então ele disse,
— Bem. Nós nos encontraremos às onze horas esta noite, na
parte baixa do Gaslamp Quarter em frente ao Centro de
Convenções. Eu estarei próximo a placa.
Ele desligou em seguida, e eu encarei o telefone por
vários segundos antes de falar. — Bem, eu acho que correu
bem?

***

A casa em Del Mar não era realmente uma casa.


Era uma maldita mansão – uma mansão de arenito
palaciana que ficava no penhasco com vista para o Oceano
20
Pacífico, bem na Reserva Estadual de Torrey Pines .
Eu nunca tinha visto nada parecido. Jamais.
— Por que nós não vivemos em algo assim? — Tink
perguntou, arrastando a sua mala pelos amplos degraus.
Antes que eu pudesse responder, Fabian estava ao lado
de Tink. — Onde eu vivo deixaria este lugar com vergonha.
Os olhos de Tink se arregalaram. — Você tem Amazon
Prime?
— É claro. — Fabian sorriu.
Tink olhou para mim. — Eu estou me mudando.
— Hã-ham, — eu murmurei muito distraída pela casa e a
reunião próxima.
Faye estava liderando, abrindo as portas duplas. O
interior era igualmente impressionante. Um grande átrio e uma
elegante escada em espiral nos receberam.
— Eu estou reclamando os direitos sobre o quarto! —
Tink correu passou correndo por nós, carregando sua bagagem
contra o peito. Sua mochila da Mulher Maravilha batendo em
seu lado.
— Ele é sempre assim? — Fabian perguntou, olhando
para cima onde Tink já tinha desaparecido pelo corredor.
Kalen bufou enquanto passava com a sua mochila na
mão. Foi o primeiro barulho que ele fez desde que nós
entramos no carro.
— Muito, — eu disse para o Príncipe do Verão.
— Eu gosto. — Ele inclinou sua cabeça para o lado. —
Sua sede de vida é... contagiante.
— Você chama isso de sede de vida, eu chamo de
transtorno de hiperatividade. — Ren entrou carregando as
nossas malas.
Fabian ergueu um ombro em resposta.
Eu olhei para ele de perto. — Você está a fim de Tink –
como, realmente a fim dele?
O Príncipe do Verão torceu sua cintura, me encarando. —
Se você está preocupada que eu possa magoá-lo ou machucá-
lo, você não tem nada a temer.
Isso não era exatamente a resposta que eu estava
procurando. — Tink é como um irmão para mim – um
realmente estranho, frequentemente irritante, irmão. Eu sei
que você diz que não o machucará, mas se você o fizer, eu
descobrirei um modo de acabar com você. E não será
agradável.
Fabian riu. — Estranhamente, eu estou começando a
gostar de você.
Eu fiz uma careta, pensando que essa era uma resposta
estranha. — Tudo bem, então.
Ren estava sorrindo quando eu virei para ele. eu não
tinha ideia do que dizer sobre Fabian, que estava subindo a
escada, em busca de um quarto ou de Tink ou ambos.
Andando até nós, Faye tirou uma chave do aro e a
entregou para mim. — Você tem algumas horas antes que você
tenha que sair para a sua reunião.
Ren assentiu. — Eu preciso tomar um banho e de um
cochilo.
— Eu ainda não gosto da ideia de vocês irem lá sozinhos,
— Faye disse, cruzando seus braços. — Eu não gosto nada
disso.
— Nós não vamos estar sozinhos, — eu lembrei a ela. —
Você e Kalen vão vir, mas vocês não vão estar à vista.
Ren e eu não éramos tolos o bastante para ir sem
quaisquer reforços. Tal como eu sabia que Daniel não iria.
— Eu sei, mas não ser visto significa que nós não
teremos muito tempo para reagir, — ela argumentou.
Kalen se juntou a nós, seus olhos sombreados. — Se
algum membro da Ordem olhar para vocês de um modo que eu
não goste, eles estão acabados.
— Bem, Daniel vai provavelmente olhar para mim de uma
forma que você não gostará. Ele olha para todo mundo de um
jeito meio ruim, — eu expliquei. — Eu realmente não acho que
Daniel vá fazer algo.
Pelo menos eu esperava que não.
— É melhor ele não fazer, — Kalen disse.
Talvez Kalen devesse ficar para trás, mas ele girou e saiu,
desaparecendo dentro da enorme casa.
— Você acha que ele vai ficar bem com isso? — Ren
perguntou pensando da mesma maneira que eu. — Isso vai ser
arriscado o suficiente sem que nenhum dos lados se precipite.
Faye suspirou enquanto ele puxava seu cabeça para trás
do seu rosto. — Ele ficará.
— Ele era realmente próximo de Dane, não era? — Eu
perguntei.
Ela assentiu. — Ele era, mas nós... todos sabíamos para
o que nós estávamos nos inscrevendo quando saímos. — Ela
ergueu o queixo, mas seu lábio tremeu. — Não há maior honra
do que morrer pelo que é certo, pela Corte de Verão, pela
humanidade. — Sua voz quebrou um pouco. — Agora se vocês
me dão licença.
— Sim, — eu sussurrei, desejando que houvesse mais
coisas que eu pudesse dizer.
Ren cutucou-me com seu braço. — Vamos encontrar um
quarto.
Isso foi o que nós fizemos, e era um quarto legal no fim
do corredor no segundo andar. Um com uma parede inteira de
vidro e de frente para o oceano. Em uma hora, o sol se punha
sobre o oceano, e eu... eu queria ver isso.
Eu precisava ver isso.
— Uau. — Ren soltou nossas malas no banco em frente à
cama. — Este quarto é insana – a casa é insana.
— É — O meu olhar ficou preso na enorme cama king
size. — Você acha que Tanner conhece quem vive aqui?
— Eu acho que sim. Eu quero dizer, alugar um lugar
como este custaria uma fortuna. — Ren olhou para a enorme
TV montada diretamente em frente a cama. — Fabian disse que
ele tinha um lugar como este? Talvez eu deva tentar viver com
ele, também.
— Cala a boca. — Eu realmente sentia falta do meu
apartamento. Tink me disse que o aluguel tinha sido pago,
então meu lugar ainda estava lá. Graças a Deus.
— Eu vou pular no chuveiro. — Ren sorriu. — Quer se
juntar a mim?
Eu amaria nada mais do que fazer isso, mas a minha
cabeça estava em muitos lugares. — Eu acho que eu vou
checar a praia.
Um lado de seus lábios se ergueu. — Eu vou sentir a sua
falta.
Eu ri. — Bem, pelo menos não monopolizarei toda a
água.
— Verdade. — Ele estendeu uma mão na minha direção.
— Venha aqui por um segundo.
Eu fui até ele, colocando a minha mão na sua. Ele me
puxou para seu peito, enrolando um braço ao meu redor
enquanto ele me segurava apertado em seu peito. Ren não
disse nada quando ele inclinou sua cabeça para baixo e
encontrou a minha. Ele não precisava. Tudo que ele sentia
estava naquele beijo, e era provavelmente uma coisa boa que
eu não me juntasse a ele no banho, porque ele definitivamente
não descansaria depois.
— Não vou demorar, — eu prometi a ele.
Ele escovou seus lábios sobre minha testa. — Seja
cuidadosa.
— Sempre.
Saindo do quarto, eu voltei para o andar de baixo e
consegui encontrar a porta que levava a varanda... que me
levou a uma enorme piscina. Tipo maior do que aquela no
Hotel dos Faes Bons.
Minhas bochechas coraram, porque eu imediatamente
pensei sobre o que Ren e eu tínhamos feito naquela piscina.
Eu provavelmente nunca ia ser capaz de olhar uma
piscina da mesma forma de novo.
Alcançando o fim do pátio, eu vi o caminho que levava até
a praia. Eu tirei as minhas botas e meias e então enrolei as
pernas das minhas calças para cima. Eu não levei muito tempo
para percorrer a trilha íngreme. Eu parei, exalando
grosseiramente quando meus dedos afundaram na areia fria.
A temperatura estava mais fria do que eu esperava e
provavelmente tinha a ver com a presença do Príncipe do
Inverno aqui, mas as ondas douradas e a areia ainda eram
absolutamente lindas.
Eu caminhei pela praia, aproximando-me da costa
enquanto passava a mão e soltava o meu cabelo, deixando o
vento passar através dos cachos.
A água fria brincou com os dedos dos meus pés, e por um
momento, eu deixei minha cabeça vazia de todo o estresse, as
preocupações e os medos. Eu não queria pensar ou sentir nada
além do que estava testemunhando.
A água ficou um fogo laranja ardente quando o sol
beijava o oceano. Houve um momento em que parecia que o
mundo estava prestes a se incendiar, onde a água e o céu eram
uma impressionante variedade de vermelhos e azuis, e então o
sol desapareceu, deslizando muito além de onde os olhos
poderiam ver.
A respiração que eu puxei foi instável e a parte de trás
dos meus olhos queimaram. Eu nunca pensei que eu veria o
pôr do sol na costa do Pacífico, e foi realmente uma visão.
Eu recuei, fazendo o meu caminho até que eu tivesse
certeza de que as ondas não estavam me tocariam, e então eu
sentei-me na areia, consciente dos punhais ainda presos em
minhas coxas.
Eu não tinha ideia de quanto tempo passou enquanto eu
estava sentada lá, mas as estrelas cobriam o céu e estava
muito silencioso, tão pacífico com o único som das ondas
batendo e do tráfego distante.
Esta noite poderia correr bem. Daniel poderia acreditar
em nós e juntos poderíamos encontrar o Príncipe,
esperançosamente pará-lo antes que ele conseguisse pegar a
Halfling, e então nós mataríamos Drake ou o enviaríamos de
volta para o Outro Mundo. Ou hoje à noite poderia correr
extraordinariamente mal. Ren e eu poderíamos entrar em uma
armadinha, uma que não importasse quão rápidos Kalen e
Faye se movessem, eles não seriam capazes de parar.
Mas esta noite tinha que acontecer.
Um forte turbilhão de formigamentos dançou ao longo da
minha nuca. Eu me virei, não surpresa por ver a forma alta de
Ren fazendo seu caminho através da areia.
— Você devia estar descansando.
— Eu estava. — Ele se aproximou de mim. — Por cerca
de quinze minutos, e então eu olhei para fora da janela e vi
você sentada aqui fora.
Eu esqueci que havia uma vista do quarto. — Ren, nós
temos uma longa noite pela frente. Eu consegui dormir na
estrada.
— Eu sei. — Ele se sentou atrás de mim, abrindo as
pernas em ambos os meus lados. circulando seus braços ao
redor da minha cintura, ele me puxou contra o seu peito. —
Quando eu vi você aqui fora, eu pensei comigo mesmo, que eu
deveria te deixar sozinha, mas então fiquei tipo, eu não quero
isso.
Eu ri enquanto eu relaxava em seu abraço.
Ren ficou quieto por alguns momentos. — É bonito aqui
fora.
— É. Você devia ter visto o pôr do sol. Foi... incrível.
— Você moraria aqui?
Eu comecei a responder como eu faria a alguns meses
atrás, mas eu percebi que as minhas, que as nossas
circunstâncias não eram as mesmas. — Eu realmente gosto de
New Orleans, mas há algo sobre isto que é igualmente bom. Eu
poderia morar aqui.
— Eu também, — ele replicou. — Por outro lado, eu
estaria disposto a viver onde quer que você estivesse, mesmo se
fosse no Alaska.
— Sério? Alaska?
— Até no Alaska.
Eu ri de novo. — Você não tem que se preocupar que eu
escolha o Alaska.
Ren beijou a minha bochecha. — Graças a Deus.
Meu sorriso desapareceu dos meus lábios. — Você está
nervoso por causa desta noite?
— Seria estúpido não estar.
— Verdade.
Ren ficou quieto por um longo tempo e então ele disse. —
Eu sei.
Minha respiração ficou presa. Instinto me disse o que eu
precisava saber sem perguntar. Ele estava falando sobre Kyle, e
eu não sabia o que dizer. Não era como se eu pensasse que Ren
nunca descobriria, mas eu esperava que chegasse a vinte
quatro horas antes que ele fizesse.
— Eu sinto muito, — eu finalmente disse. — Eu não
podia deixar você fazer isso. Eu não podia fazer isso, mas ele
não podia viver. Ele viria atrás de você...
— Não se desculpe.
Eu comecei a virar-me em seu abraço. — Mas eu devia,
porque eu não contei a você. Eu deveria ter...
— Eu sei o porquê você não me disse. — Sua voz
continha uma borda áspera. — Querer deixá-lo vivo foi tolice.
— Não foi. — Eu respirei fundo. — E foi. Eu quero dizer,
eu entendi o porquê você queria deixá-lo vivo. Talvez provaria
aos outros membros que nós não os tínhamos traído, mas ele
continuaria vindo atrás de nós. Ele faria com que mais de nós
fossem mortos.
— Você está certa. E teria sido eu que o eliminaria.
Aquele filho da puta teria certeza disso, porque ele sabia – sim,
ele sabia que isso me afetaria.
— É por isso que eu não podia deixar isso acontecer, —
eu admiti calmamente.
Ele ficou em silêncio por um momento. — Você se
certificou que eu não... eu não carregaria sua morte em meus
ombros. Obrigado. — Ele passou a mão ao redor do meu
queixo, inclinando a minha cabeça para trás. Ele me beijou. —
Obrigado, Doçura.
Eu realmente não tinha ideia do que dizer para isso.
Nenhuma. Mas então Ren apertou seus braços ao meu redor de
novo e me segurou apertado, bloqueando a frieza do ar.
Ali mesmo naquele momento, eu enviei uma oração para
qualquer deus ou deuses que estivessem ouvindo para que
aquela reunião com Daniel acontecesse da forma que
precisávamos e que não fosse uma armadilha.
Porque se fosse, eu não planejava morrer hoje à noite. Eu
não planejava ver Ren ou Faye ou Kalen morrerem hoje à noite.
Isso significava que nós teríamos que matar, e eu não queria
isso também.
Mas eu iria se tivesse.
Capítulo 27

Ren e eu chegamos no Gaslamp District em San Diego,


trinta minutos antes do horário previsto, para que pudéssemos
explorar a área. Faye e Kalen também estavam conosco. Não
podíamos vê-los, mas sabíamos que estavam lá. Todos nós
estávamos armados, mas nossas armas estavam bem
escondidas.
Eu imediatamente entendi a razão pela qual Daniel tinha
escolhido este lugar. Era ao ar livre e repleto de pessoas. A rua
de bares e restaurantes alinhados lembrava-me do French
21
Quarter .
— Seria legal conferir alguns desses lugares. — Eu disse,
feliz quando eu senti cheiro de hamburguers grelhados no
carvão e meu estômago não se revoltou.
A mão de Ren apertou ao meu redor da minha. — Nós
devemos voltar quando isso tudo terminar. Nós poderíamos
tirar umas férias.
Eu sorri com o som daquilo – a ideia de fazer planos. Fez-
me sentir como se houvesse um futuro pela frente. Eu comecei
a dizer isso a ele, mas Ren falou de novo.
— Lá. — Ele amaldiçoou baixinho quando ele me puxou
para o lado, para fora do meio da calçada. — Daniel já está
aqui. E ele não está sozinho.
— O quê? — Eu não fiquei completamente surpresa que
Daniel tinha feito exatamente o que nós tínhamos, o que era
chegar mais cedo como uma tentativa de controlar a situação.
Eu segui o olhar de Ren, e levei um momento para encontrar
Daniel.
Ele estava sentado no centro de um banco, seus braços
esticados ao redor do encosto e suas longas pernas esticadas,
cruzadas nos tornozelos. Para um estranho ele parecia como
um cara normal, curtindo uma noite fresca. Atrás dele estava
Miles Daily, o homem encarregado caso Daniel caísse.
Meus ombros ficaram tensos. Eu nunca sabia onde eu
estava com relação a Miles. Ele era mais velho do que eu, talvez
em seus trinta anos, e completamente ilegível.
— Não posso culpá-lo por não vir sozinho, — Ren disse.
— E eu duvido que eles sejam os únicos dois aqui.
Eu examinei a pequena área do estacionamento, mas
apenas porque eu não via nenhum rosto familiar não
significava que todas as pessoas e todos os casais que eu via
não fossem membros da Ordem. Eles poderiam nos ter
cercados pelas dezenas, e nós não saberíamos, desde que nós
não conhecíamos nenhum dos membros de San Diego.
Eu ergui o olhar para Ren, apertando sua mão. — Você
está pronto? — Eu perguntei.
Meu olhar se focou onde Daniel estava sentado enquanto
ele acenou com a cabeça. Eu me estiquei e beijei seus lábios. —
Vamos fazer isso.
Ren soltou a minha mão enquanto nos atravessávamos a
rua. Meu coração estava acelerado em meu peito. Eu duvidava
que eles tentassem qualquer coisa em um lugar tão público,
mas eu já tinha me enganado antes.
— Olá, — Ren falou primeiro, saltando para a calçada. —
Há quanto tempo.
Daniel e Miles olharam para cima e para baixo, mas eu
sabia que eles tinham notado nossa aproximação antes daquele
momento. — Vocês estão adiantados, — Daniel disse.
— Assim como vocês, — eu repliquei.
— Pensei que você viria sozinho. — O olhar de Ren se
moveu rápido sobre o ombro de Daniel para o segundo em
comando. — Como você está indo, Miles?
O queixo de Miles se ergueu. — Não posso reclamar.
Se ambos estavam aqui, eu me perguntava quem estava
dirigindo a divisão em New Orleans. Eu estava prestes a
perguntar isso quando eu fiquei sob a luz do poste, mas eu não
tive a chance.
Os homens me viram, tipo, realmente me viram.
A expansão preguiçosa de Daniel mudou em um instante.
Ele puxou suas pernas e se sentou reto, seus olhos se
arregalando. Pela primeira vez na minha vida, eu vi uma reação
em Miles. Sua boca se abriu quando seu olhar passou sobre o
meu rosto.
— Vocês deviam ver as orelhas, — eu disse, tendo
deixado o meu cabelo solto.
Miles fechou a mandíbula.
— Que inferno? — Daniel exclamou. Ele parecia que
estava prestes a ficar de pé, mas não conseguia se mexer.
Ren deu um passo na minha frente, mas eu ergui o meu
braço, parando-o.
— Eu pareço diferente. Eu sei. É uma longa história.
Daniel ficou em pé e deu um passo na minha direção. Eu
pude sentir Ren ficar tenso. — Como? — Daniel perguntou, a
voz rouca. — Como isso é possível? Você não poderia ter
ficado...
— Isso é a coisa mais recente. — Eu comecei a me sentir
um pouco desconfortável com seu intenso escrutínio. — E eu
contarei a você tudo, mas eu acho... — Eu olhei de relance para
Ren, que parecia como se ele estivesse a segundos de se
certificar que eles estavam olhando alguém ou alguma outra
coisa. — Eu acho que nós devemos começar pelo começo.
— Sim. — A expressão de Miles suavizou, se tornando
ilegível. — Eu acho que você precisa fazer isso.
Então foi o que Ren e eu fizemos. Nós contamos tudo a
eles, começando com como eu descobri que eu era a Halfling,
como o Príncipe foi capaz de capturar Ren e eu, e como nós
fugimos. Eu até mesmo lhes disse sobre a alimentação forçada
e que tinha sido uma fae que tinha me ajudado a escapar. Nós
dissemos a eles como eu tinha sido atacada e como eu me
curei.
Foi Ren quem explicou isso em voz baixa. — Eu fiz a
escolha. Não foi Ivy. Se fosse, ela nunca teria concordado com
isso e ela não estaria aqui nesse momento.
Daniel pareceu um pouco surpreso quando ele se sentou
para trás enquanto Miles não mudou sua expressão.
— Ele salvou a minha vida – me alimentar salvou a
minha vida. — Eu mudei meu peso de um pé para o outro. —
Eu não fiquei bem com isso. Ren estava certo. Eu não teria
concordado com isso, e eu fiquei chateada com ele, mas eu
teria feito a mesma coisa para salvar a vida dele. É por isso que
eu... eu pareço desta forma agora. Faz a parte halfling em mim
mais forte, mas eu ainda sou Ivy. — Eu ergui o meu queixo
quando eu disse as últimas palavras. — Quem eu sou não
mudou.
— Meio difícil de acreditar nisso, quando eu estou
olhando para você e vendo que você mudou, — Miles disse.
— Só porque ela está mais bonita do que ela era antes,
não significa que ela ainda não é a fodona da Ivy lutando uma
boa luta, — Ren interrompeu.
Havia uma boa chance de eu me apaixonar por ele ainda
mais neste momento.
Miles inclinou sua cabeça para o lado, suas sobrancelhas
estalando juntas.
— Vocês todos não tem ideia do que nós atravessamos
para chegar onde nós estamos neste momento. Nenhuma ideia,
— Ren continuou, sua voz endurecendo. — E se nós realmente
estivéssemos trabalhando com o Príncipe ou contra a Ordem,
nós não estaríamos aqui. Não questionem a minha lealdade e é
melhor não questionar a dela.
— Isso é tudo? — Daniel perguntou soando cauteloso.
— É, — Ren respondeu.
Mais ou menos. Nós dissemos tudo – tudo, exceto onde
estava a Corte do Verão e que eles tinham vindo conosco. Eu
também não disse a eles sobre Tink.
— Por que vocês não me contataram – nos contataram?
— Raiva penetrou na voz de Daniel. — Nós tivemos pessoas lá
fora procurando por vocês. Ambos. Por semanas, até que nós
assumimos que ambos estavam mortos...
— Ou que nós tínhamos traído a Ordem, — eu terminei
por ele. — Nós não fizemos nada disso, mas era muito
arriscado entrar em contato com você. Eu ainda estava me
curando e a minha cabeça... — Inspirando fundo tentei
novamente. — Eu não estava pronta para falar contigo, nem
com ninguém.
O olhar de Daniel encontrou o meu por um breve
momento e então ele afastou o olhar.
— E o Kyle? — Miles perguntou. — Daniel mencionou
que vocês o encontraram no caminho para cá. Nós não temos
notícias dele.
— Ele está morto. — Eu fui a única a responder. — Ele
tentou nos matar, e se ele estivesse vivo, ele continuaria
tentando nos matar. Então, ele está morto – um mentiroso
morto.
— Palavras ousadas, — Daniel murmurou.
— Palavras verdadeiras. — Eu esperei até que um jovem
casal passasse por nós. — Você sabe como a Elite e a Ordem
uma vez fecharam os portais?
Miles não respondeu. Nem Daniel. — Eu sei que a Ordem
trabalhou com os faes para fechar os portais. Foi assim que
vocês conseguiram colocar as suas mãos no Cristal, e eu sei
que a Elite traiu aqueles faes – os faes que não caçavam os
mortais – os faes que caçavam outros da sua espécie que
faziam isso. — Eu não confundi as inalações afiadas. — Kyle
disse que foi a Elite que se virou contra eles, mas não havia
como a Ordem não saber. Eu sei que isso foi antes do nosso
tempo e as histórias teriam mudado ao longo dos anos, mas eu
estou viva por causa dos faes bons.
— É duro pensar que tais criaturas existem, — Miles
comentou.
— Você ficaria surpreso. — Ren o prendeu com um olhar
— pelo que você um dia pensou ser verdade. Eu fui treinado
pela Elite. Eu sei que eu fui treinado com um monte de
mentiras.
— E essa declaração é quase uma traição. — Miles deu
um passo ao redor do banco. — Você percebe isso.
— Ainda é a verdade. — Eu mantive um olho nele. — A
Ordem sabia que havia faes bons antes – que os faes tinham
nos ajudado. Por que é que nunca nos foi dito isso?
— O tratado entre as nossas espécies foi a muito tempo
atrás que já não importava mais como costumava, — Daniel
disse. — Se eu lembro corretamente, foi a Corte do Verão que
nos ajudou no passado, e depois que os portais foram
fechados, não havia mais Corte do Verão. Teria sido perigoso
para os nossos membros se eles soubessem que talvez – apenas
talvez – houvesse faes lá fora que não quisessem prejudicá-los
ou a outros mortais. Cada vez que eles hesitassem para
determinar se os faes que eles estavam lidando os machucaria,
estariam vulneráveis ao ataque.
— Eu entendo isso, mas nós deveríamos saber. — Minhas
mãos se fecharam em punhos. — Eles estavam lá, sempre
estiveram. Eles poderiam estar nos ajudando esse tempo todo.
— Eles poderiam. E muito mais dos nossos membros
teriam morrido tentando decifrar se aqueles eram faes bons ou
maus, — Daniel raciocinou. — E você se esqueceu que nós não
tínhamos razão para acreditar que esses faes do Verão ainda
estavam por aí. Disseram-nos que todos eles foram mortos.
— Massacrados seria uma palavra melhor. — Eu
entendia o que Daniel estava dizendo. Até fazia sentido, mas
não fazia isso ok, e nós todos teríamos que superar isso se nós
tivéssemos alguma esperança de derrotar o Príncipe. — Nós
podemos ficar aqui toda a noite e discutir sobre quem é o mais
dos traidores, e enquanto nós fazemos isso, eu imagino que
Príncipe fica um passo mais perto da Halfling que está em San
Diego.
— É por isso que vocês ainda estão aqui, certo? Se vocês
tivessem encontrado a Halfling, vocês já a teriam matado e
então não estaríamos tendo essa conversa, — Ren ergueu seu
queixo. — Nós estamos aqui para parar o Príncipe, assim como
vocês estão.
— Nós sabemos como enviá-lo de volta para o Outro
Mundo, — eu disse, e isso chamou a atenção deles. — Ele tem
o Cristal. Nós sabemos que há um ritual que selará de volta ao
Outro Mundo. E se nós não pudermos conseguir o Cristal e
completar o ritual, então nós o mataremos. Como não temos
ideia do que enfraquece o bastardo o bastante para eliminá-lo
com uma estaca de espinhos ou, você sabe, decapitá-lo, nós
vamos precisar da ajuda da Ordem.
— Nós vamos precisar de toda a ajuda que nós
conseguirmos, — Ren afirmou. — Nós precisamos trabalhar
juntos, e então vocês podem nos expulsar da Ordem. Nós
exilar. O que quer que seja. Mas agora, nós precisamos superar
tudo isso.
— Eu sei que é pedir muito, — eu disse. — Mas eu estou
pedindo a vocês que acreditem no que nós estamos te dizendo.
A boca de Daniel apertou e então ele exalou pesadamente
quando seu olhar encontrou o meu. — Eu te conheço a anos,
garota. Sei que você tomou muitas decisões estúpidas e idiotas.
Hum.
— Você é frequentemente imprudente e impulsiva, — ele
continuou e eu realmente não tinha certeza para onde essa
lista das minhas falhas flagrantes estava levando. — Mas eu
nunca soube que você era uma traidora. Eu acredito em você.
Alívio me bateu tão forte que eu quase caí. Eu olhei para
Ren e vi que seus ombros tinham relaxado. — Obrigada, — eu
disse, porque era tudo que eu poderia dizer. — E você?
— O júri ainda está discutindo isso, — Miles respondeu
depois de uma batida de coração. — Mas vocês dois estão
certos. Nós precisamos de todos que nós conseguirmos para
parar o Príncipe. Nós precisamos trabalhar juntos. Todos nós.
— Então o que vem depois? — Ren colocou uma mão na
parte de baixo das minhas costas.
Daniel ficou de pé. — Nós planejamos.
— Agora não é a hora. A céu aberto desse modo. — Miles
cruzou seus braços. — O setor de San Diego colocou-nos em
uma de suas casas no porto. Nós podemos nos encontrar –
todos nós. Isso quer dizer com quem vocês vieram.
— Nós estamos com os faes, — Ren respondeu. — Vocês
têm certeza de que os membros da Ordem vão ficar bem com
isso? A Elite?
— Ficarão bem em me ver? — Eu pressionei.
— Nós faremos com que eles fiquem bem, — Daniel
prometeu. — Nós todos precisamos colocar um monte de coisas
de lado se nós esperamos impedir o Príncipe de ter sucesso.
Eu encarei Ren.
Ele assentiu. — Nos diga onde e quando.

Capítulo 28

A casa em Del Mar estava silenciosa quando


regressamos. Já tínhamos contado tudo para Faye e Kalen,
mas não conseguimos encontrar Fabian ou Tink. Bem, nós
realmente não procuramos muito, imaginando que eles
estavam escondidos em um dos muitos quartos.
Ren tinha me parado quando eu me dirigi para as
escadas, agarrando a minha mão apertado e me puxando para
a parte de trás da casa, parando para pegar um cobertor suave
do encosto do sofá. Ele me conduziu para a varanda ao redor
da piscina, para uma das espreguiçadeiras confortáveis.
Foi aí que nós nos encontramos depois do encontro com
Daniel e Miles, nossas adagas na mesa ao nosso alcance e
nossos sapatos enfiados embaixo da espreguiçadeira. Eu estava
deitada de lado, entre as pernas dele e pressionada contra o
seu peito. O cobertor sobre nós, e ambos encaravam as estrelas
que cobriam o céu noturno, o zumbido baixo das ondas em
movimento era reconfortante e calmante.
Eu fiquei contente por ele ter me trazido aqui fora. Havia
algo tão normal sobre isso que eu desejava ter a habilidade de
desacelerar o tempo e fazer o tempo aqui fora durar para
sempre.
— Sim, — Ren disse finalmente, seus dedos se movendo
ociosamente através do meu cabelo. — Eu acho que eu poderia
viver aqui.
Um sorriso puxou os meus lábios. — Especialmente se
nós tivéssemos essa casa e vista.
— Verdade, — ele murmurou. — Mas tudo o que eu
preciso era ser capaz de ver as estrelas e ter você bem aqui,
como você está agora.
O riso se transformou em um sorriso. — Lá vai você,
sempre dizendo a coisa certa.
Seus braços se apertaram ao meu redor. — Eu nem
sempre digo a coisa certa. Eu acho que você sabe disso.
— Mas quando você faz, você compensa as coisas
estúpidas que saem da sua boca.
Ren gargalhou enquanto puxava um cacho de cabelo. Um
momento passou. — Eu acho que esta noite correu bem.
Eu fechei meus olhos. — Sim.
— Você não soa como se realmente acreditasse nisto.
Eu mordi meu lábio enquanto meu estômago torcia com
energia nervosa e algo mais. A... fome estava lá, mas era
manejável.
Ele soltou meu cacho de cabelo e seus dedos flutuaram
sobre minha bochecha. — O que você está pensando?
O impulso quase tinha me feito dizer nada, mas eu parei-
me antes que esse mal hábito assumisse. — Eu... eu estou me
perguntando se esta noite foi, você sabe, muito fácil. Você sabe
o que eu quero dizer? Eu posso estar sendo paranoica...
— Não. Você não está sendo paranoica. Considerando
todas as coisas, foi fácil.
Eu ergui minha cabeça para poder olhar para ele. — Você
acha que é uma armadilha?
A luz prateada da lua cruzou sobre as maças do seu
rosto. — Poderia ser, mas nós vamos estar preparados se for o
caso.
Nós iríamos, mas eu me mantive reprisando a reação de
Daniel mais e mais em minha cabeça. Tanto ele quanto Miles
ficaram chocados, mas eu tinha esperado mais uma luta para
convencê-los de que nós não tínhamos os traído.
Mas Daniel me conhecia. Ele podia não conhecer Ren tão
bem, mas ele sabia quem eu era no âmago. — Graças a Deus
que Daniel ainda estava aqui. Se ele não estivesse, eu não acho
que seríamos capazes de convencer Miles.
— Eu não tenho ideia de como ler aquele cara, — ele
admitiu.
— Não se sinta mal. Eu o conheço há anos e ainda não
consigo. — Aconchegando-me contra o seu peito, eu dobrei a
minha mão contra o seu lado. Meu estômago começando a se
acalmar, mas minha mente não estava nem perto disso. — Eu
estou... eu estou com fome.
— Eu tenho certeza de que há comida... — Ren parou. —
Você não está falando sobre comida, está?
— Não, — eu sussurrei, minha mão enrolando ao redor
da sua camiseta. Vergonha queimava na parte de trás da
minha garganta.
Os dedos de Ren continuaram se movendo ao longo da
minha bochecha. — Há algo que eu possa fazer para ajudar?
Eu engoli o nó repentino em minha garganta e fechei
meus olhos de novo. — Eu acho que não. Realmente não está
tão ruim. A... sensação está desaparecendo. Eu apenas – eu
não sei. Eu apenas queria dizer isso em voz alta.
O braço em minha cintura ficou mais apertado. — Eu
estou contente que você disse. Eu apenas queria que houvesse
algo que eu pudesse fazer para facilitar isso para você.
Um pouco da tensão diminuiu em meus músculos
quando a vergonha desapareceu. Ren não se incomodava por
isso. Pelo menos não o bastante para ter qualquer reação
mensurável. Eu não sabia como eu esperava que Ren reagisse,
mas ele não surtou e apenas sendo, bem, Ren fez mais do que
ele sabia. — Você está fazendo agora mesmo. Ajudando-me.
— Eu estou contente em ouvir isso, embora eu sinta que
eu não estou fazendo muito.
— Você está fazendo tudo. — Eu apertei-me ao lado dele,
soltando um suspiro. Eu precisava me focar novamente. —
Então, vamos dizer que nosso próximo encontro não seja uma
armadilha. Nós encontramos a Halfling antes do Príncipe, nós
ainda precisamos encontrar o Cristal ou nós precisamos
descobrir como enfraquecê-lo o bastante para matá-lo.
Encontrar a Halfling antes dele é apenas um pequeno passo na
direção certa.
— Mas é um passo. — Ren ficou quieto e vários minutos
se passaram antes que ele falasse de novo. — Há algo sobre o
qual nenhum de nós realmente falou.
— O quê?
— O ritual. — A tensão rastejou em seu corpo. — Eu
perguntei a Tanner e Faye sobre isso. Até a Merle. Nenhum
deles tinha quaisquer detalhes sobre como exatamente
devemos concluir o ritual com segurança.
— Você quer dizer, como é suposto eu conseguir o sangue
do Príncipe e o meu no Cristal enquanto estiver no Outro
Mundo? — Eu coloquei a minha mão em seu braço.
— Sim. Eu não gosto da ideia deste ritual, Ivy. Ninguém
está falando sobre ele, e você tem que estar no Outro Mundo
para completá-lo? — Sua mão enrolou ao redor da minha nuca,
seus dedos emaranhados em meu cabelo. — Eu não preciso
saber muito para saber que há uma tonelada métrica de merda
que pode dar errado nisto.
Um tremor percorreu seu caminho através de mim. —
Sim, como... ficar presa no Outro Mundo.
— Isso não acontecerá. — Sua voz estava dura.
Eu queria acreditar nisso. Eu tinha que acreditar nisso,
porque se eu não fizesse, a mera ideia de ficar presa no Outro
Mundo com um Príncipe muito irritado me aterrorizava. Mas
nós não tínhamos informações suficientes sobre este ritual,
como quanto tempo eu tinha entre começá-lo e retornar através
do portal.
Havia uma pequena parte minha, embora, que estava
curiosa sobre a possibilidade de ver o Outro Mundo, mesmo
que fosse por apenas alguns segundos.
— Eu acho que você está interessada em descobrir uma
maneira de enfraquecer o Príncipe, — Ren disse. — Lutar com
ele será perigoso, mas não é um risco tão grande quanto o
ritual. Nós apenas precisamos descobrir como.
A menos que Fabian começasse a falar, eu não tinha
certeza de como nós descobriríamos. Estava começando a
parecer como se nós não tivéssemos escolha em como isso
aconteceria.
Isso era se chegássemos ao ponto em que onde nós
tivéssemos uma.

***

— E você acha que isso é sensato? — Fabian perguntou


na manhã seguinte durante o café da manhã. Nós estávamos
sentados na ilha grande o bastante para acomodar dez
pessoas. — Que eles podem ser confiáveis?
— Tanto quanto nós podemos ser confiáveis. — Eu
descasquei uma banana. — Eles estão assumindo um risco nos
encontrando também.
— Mas há mais deles do que nós, — Kalen disse
repetindo o que ele tinha dito noite passada.
— Mas nós temos o Príncipe do Verão. — Ren caiu no
banquinho ao meu lado. — Tenho certeza de que ele pode lidar
com uma dúzia deles em cerca de cinco segundos se as coisas
correrem mal.
Eu arqueei uma sobrancelha enquanto eu mastigava
minha banana. — Vamos torcer para que não chegue a isso.
Fabian inclinou sua cabeça. — Eles não disseram nada
sobre o Príncipe do Inverno ou a Halfling?
— Não ainda. Eu estou esperando que eles nos atualizem
com coisas boas hoje... — Alguma coisa no canto do meu olho
chamou a minha atenção. Eu virei-me.
Puta merda.
Eu abaixei a banana enquanto Tink zumbia pela sala –
vinte centímetros de altura com asas diáfanas. Minha boca
caiu aberta. Ren seguiu meu olhar, e ele fez o mesmo som de
choque. Tinha sido um longo tempo desde que eu tinha visto
ele naquela forma que eu esqueci sobre o que eu estava
falando.
Ele voou através da cozinha, suas asas se movendo
silenciosamente, mas todo mundo estava o encarando. Faye
parecia como se ela fosse escorregar do banquinho enquanto
Kalen estava realmente – uau, ele estava na verdade
começando a sorrir.
O brownie estava usando calça escura, mas ele estava
sem camisa e descalço enquanto zumbia ao redor da luminária
e depois descia.
— Tink. — Meus olhos se arregalaram quando ele pairou
sobre o ombro de Fabian. — Você está... está no tamanho Tink.
— Ouvi dizer que nós faríamos uma excursão essa
manhã. Imagino que eu sou muito fofo para se matar nesta
forma. — Ele pousou no ombro largo do Príncipe do Verão. —
Além disso, eu sou menos intimidante nessa forma. Foi por
isso que o Ren não me matou de primeira.
— Não foi por isso que eu não te matei de primeira, —
Ren replicou secamente.
Eu observei Tink sentar-se no ombro de Fabian.
Kalen olhou para Faye e então de volta para Tink
novamente. — Eu nunca tinha visto um brownie com esta
forma.
— Você nunca viu um brownie antes de mim, — Tink
apontou quando ele chutou os pés na parte superior do peito
de Fabian. — Então qual forma é melhor para mim? Grande ou
pequeno?
Minhas sobrancelhas franziram.
— Eu acho... essa forma, — Kalen respondeu. — Sim.
Nessa forma.
— Eu não, — murmurou o Príncipe do Verão.
Tink se inclinou e pegou um pegou um pedaço do cabelo
do Príncipe. Ele puxou para trás e sussurrou algo na orelha de
Fabian que ganhou uma profunda gargalhada.
Eu realmente não queria saber o que era.
Eu terminei a minha banana e então estava na hora de
sair. Deslizando para fora do banquinho, eu segui Ren para o
foyer. Tink saiu do ombro de Fabian e voou até o meu. Ele
pousou equilibrando-se com uma mão contra a minha cabeça.
— Eu estou animado para encontrar os membros da
Ordem. — Ele se aproximou da minha cabeça.
— Por quê?
— Porque eu mal posso esperar para ver a cara deles
quando eles derem uma olhada em mim! — Sua risada era
mais como uma risada infantil. — Eles vão surtar.
Um sorriso apareceu em meus lábios. — Eles
provavelmente irão. Então, eu quero que você fique perto de
mim ou de Fabian, ok? Pelo menos no início.
— É claro – oh! — Ele girou em meu ombro, gritando
quando eu me aproximei da porta. Eu estremeci. — Fabian,
não esqueça a mala!
Ren se virou. — Sua mala?
— Sim. É o plano B.
— Nós temos um plano B que envolve a sua mala? — Ele
perguntou.
— Nós temos. — Tink lançou-se fora do meu ombro e
pousou na mala que Fabian estava arrastando.
Eu parei quando Faye e Kalen saíram. — Hum, talvez
você deva nós dizer o que está na mala, Tink?
— Minhas coisas. — Ele segurou a alça quando Fabian o
rolou e a mala pela porta da frente. Tink ondulou uma mão
para mim. — Minhas amigas.
— O que quer dizer com suas amigas? — Eu corri atrás
deles para o sol brilhante, — Tink!
— Está tudo bem. — Ele voou para fora da mala, e o
Príncipe levantou-a, colocando-a na parte de trás do SUV. —
Não se preocupe sobre isso, Ivy-divy.
Mas eu estava preocupada, realmente preocupada,
porque eu não tinha ideia do que o que diabos tinha naquela
mala. Eu comecei a ir atrás dele, mas Faye deu um passo na
minha frente.
Seus pálidos olhos azuis estavam cheios de preocupação
contida. — Eu sei que você confia nestas pessoas, mas se nós
entrarmos em uma armadilha...
— Se nós entrarmos em uma armadilha, então nós
lutamos. Eu espero que não seja o caso, mas nós não temos
quaisquer outras opções. Nós precisamos da ajuda deles.
Suspirando, ela afastou o olhar. — Nós precisamos.
Eu realmente esperava que Ren e eu estivéssemos
corretos. Que nós não íamos nos arrepender disso, mas nós já
estávamos até o pescoço e não havia como parar agora.
Kalen ficou atrás do volante com Faye no banco do
passageiro. Ren e eu pegamos a fila do meio e o Príncipe do
Verão ficou no banco de trás. Tink zumbia para frente e para
trás entre a nossa fila e a de Fabian, servindo como uma
distração completa enquanto fazíamos nosso caminho em
direção ao porto e a casa.
— Acho que é aqui, — anunciou Kalen. — Mas não é uma
casa.
Eu inclinei-me sobre Ren para espiar pela janela. Kalen
estava certo. O endereço nos levou ao que era um condomínio
22
ou um prédio de apartamentos no Ocean Front Walk . O
prédio tinha três andares.
— É o lugar certo. — Ren bateu o dedo na janela e
apontou para o que parecia ser um pátio cercado no nível
inferior.
Vários homens estavam em pé do lado de fora. Eles não
estavam vestidos como se eles estivessem prestes a caminhar
na areia da praia. Óculos de sol protegiam seus olhos, e seus
jeans e camisetas não faziam nada para esconder as adagas
que eu sabia que eles estavam carregando.
Eu estava disposta a apostar que a grade e a cerca eram
todas de ferro.
Minha frequência cardíaca acelerou quando eu me sentei
para trás. Todo esse prédio de apartamentos era controlado
pela Ordem?
Ren estendeu a mão, apertando meu joelho enquanto
Kalen estacionava em uma das vagas. — Vamos fazer isso.
Eu virei-me para onde Tink estava, que agora estava no
banco ao lado do Príncipe. — Sua mochila ainda está aqui? A
da Mulher Maravilha?
Suas sobrancelhas franziram. — Sim, na verdade. Está
na parte de trás.
— Ok. Eu quero que você entre nela.
O nariz de Tink enrugou. — Mas eu sufocarei!
Eu rolei meus olhos. — Eu não vou fechar
completamente o zíper. Eu acho que é apenas mais inteligente
se você ficar fora de vista no início.
— Bem. Tanto faz. Mas se eu sufocar, eu voltarei e
assombrarei você pelo resto da sua vida.
Ignorando isso, eu olhei para Fabian. — Você pode pegar
a mochila para mim? Por favor?
— Uau. Você disse por favor. — O Príncipe do verão se
virou. — Isso deve ter machucado a sua alma.
— Machucou, — eu murmurei e esperei Tink entrar na
mochila. Ele fez um show, é claro. Pisoteando todo o caminho e
reclamando quando Fabian puxou o zíper para cima, deixando
um espaço aberto de alguns centímetros no topo.
Eu peguei a mochila, surpresa por quão pesada estava.
— Lá está Daniel. — Ren acenou em direção a janela. —
Nós iremos sair primeiro e então o resto de vocês, ok?
Eles concordaram, e quando eu olhei para trás para
Fabian, ele assentiu. Ren desceu, e eu o segui deslizando pela
mesma porta. Uma vez em pé, eu deslizei a mochila nas
minhas costas.
Um segundo depois um pequeno punho pousou no
centro das minhas costas. Eu grunhi e virei a minha cabeça
sussurrando, — Pare com isso, Tink.
— Está muito quente aquiiiiiiii, — choramingou Tink.
— Cale-se, — eu sibilei me perguntando se nós devíamos
tê-lo deixado em casa quando Daniel saiu pelas portas de vidro
do pátio.
Daniel assentiu para Ren, mas como os outros membros
em pé no pátio, eles ainda estavam encarando o SUV. — Quem
está no carro? — Ele perguntou.
— Eles são faes. — Eu ignorei o chute rápido no meu rim.
— Nossos amigos. Eles estão tomando um grande risco por
virem aqui.
— E nós estamos correndo um grande risco por recebê-
los.
Eu examinei os membros da Ordem, vendo o exato
momento que eles perceberam que a minha pele tinha um tom
prateado. Eu os ignorei.
Ren se virou, fazendo um gesto para o restante se juntar
a nós. — Estes são Kalen e Faye, da Corte do Verão. Eles nos
ajudaram – tem nos ajudado.
Um músculo ao longo da mandíbula de Daniel pulsou
quando os dois faes lentamente se aproximaram de nós. Ele
não falou. Ele deu um curto aceno para eles, o que foi
retornado pelos dois faes.
— Pu-taaaaaa merda, — um outro membro da Ordem
sussurrou, e foi quando eu soube que Fabian estava agora
visível.
Fabian caminhou em direção a eles como se ele estivesse
saindo para uma caminhada matinal. A brisa ergueu seus
cabeços louros enquanto ele dava um passo ao redor da grade
de ferro.
— Este é Fabian, — eu disse. — Príncipe Fabian da Corte
do Verão.
Um suspiro audível não foi perdido. Nem o enrijecimento
dos membros da Ordem. Ou a forma que alguns estenderam
suas mãos para as adagas escondidas. Ren deu um passo mais
perto de Fabian, mas o Príncipe do Verão simplesmente sorriu.
— Vocês não estavam esperando a realeza, estavam? —
Fabian inclinou sua cabeça.
Daniel lançou-me um longo olhar. — Não, nós não
estávamos.
Eu ergui um ombro num encolher de ombros.
— Você deve entender uma coisa, e somente uma coisa.
— Fabian se aproximou, e eu juro que você não conseguia
ouvir nem o trânsito naquele momento. — Se você ameaçar
algum de nós, eu posso matar cada um de vocês antes que
vocês até mesmo saibam o que bateu em vocês. Eu não quero
que isso aconteça. Eu quero que nós trabalhemos juntos, como
nós fizemos antes, mas testem-me e vocês não sobreviverão as
consequências.
Tink bateu seu punho em minhas costas no que eu
imaginava que fosse uma concordância.
Bem, isso provavelmente não era o que Daniel queria
ouvir, mas ele exclamou, — Devidamente anotado. — Daniel
deu um passo à frente, indo de igual para igual com o Príncipe
do Verão. — E se qualquer um de vocês machucar algum dos
nossos membros, nós passaremos até o nosso último suspiro
matando cada um de vocês.
O sorriso de Fabian se espalhou. — Devidamente
anotado.
— Tudo bem, então. — Ren bateu palmas. — Agora que
temos isso resolvido, podemos continuar com isso?
Daniel sorriu maliciosamente. — Sigam-me.
O Príncipe do Verão arqueou uma sobrancelha para o
homem e então seguiu atrás de Daniel, seguindo-o através das
portas do pátio. Ren foi o próximo, e então Faye e Kalen. Eu me
juntei em seguida.
— Mochila legal, — um dos membros da Ordem bufou
enquanto eu passava.
Eu virei-me. — Ela é, não é?
Eu levei outro chute nas costas, e jurei que, quando isso
terminasse, eu jogaria Tink pela privada.
Dando um passo através do pátio, eu imediatamente
percebi que esse não era um edifício normal. Apenas parecia
assim pelo lado de fora.
Um corredor estreito conduzia até um espaço aberto que
eu assumi ser uma grande sala de reunião, uma que me
lembrava da sede no Quarter. Um grande mapa do que eu
imaginava que fosse San Diego e as cidades vizinhas na parede.
Havia várias mesas no estilo de cafeterias com bancos, e pelo
menos três dezenas de membros da Ordem.
Todos eles estavam em pé, olhando fixamente para nós
cinco.
A maioria dos seus olhares mostrava uma hostilidade
aberta. Apenas alguns pareciam curiosos. Eu vi Miles em pé ao
lado de uma mulher alta com pele escura, cuja expressão era
quase tão ilegível quanto a dele.
— Estas pessoas parecem amigáveis, — Ren disse
baixinho.
— Certo? — Eu sussurrei de volta.
Daniel fez uma rápida introdução, e quando ele chegou à
mulher eu aprendi que seu nome era Liz, e ela dirigia o setor de
San Diego da Ordem.
— Foi-nos dito que nós estamos todos lutando do mesmo
lado, — ela disse, cruzando os seus braços. — Como podem
imaginar, é difícil para nós aceitarmos isso.
— Assim como é difícil para nós aceitarmos o mesmo da
Ordem, — Faye replicou, em pé ao lado de Kalen. — Mas nós
estamos aqui.
— Nós também estamos. — Liz ergueu uma mão. Os
membros da Ordem sentaram-se quando seu olhar me
encontrou. — Então, você é a Halfling?
Eu ergui meu queixo. — Eu sou. A maioria me chama de
Ivy, embora.
Ela ignorou isso. — E foi você que o Príncipe manteve em
cativeiro, mas escapou?
Eu assenti.
Ela inclinou sua cabeça, e eu imaginei que fosse algum
tipo de aceno de “bom trabalho”. — O que está em sua
mochila?
Tink parou de se mexer, e Fabian virou-se para mim. —
Meu... meu amigo está na mochila.
Daniel ergueu suas sobrancelhas. — Seu amigo?
— Sim.
— Você tem um amigo na mochila? — ele persistiu.
Ren pressionou os seus lábios.
— Sim. — Cuidadosamente, eu deixei a mochila deslizar
para fora do meu braço. Eu me ajoelhei e a coloquei no chão.
Eu estendi a mão para o espaço entre os zíperes, e senti uma
pontada de dor. Eu puxei a minha mão de volta.
Tink mordeu o meu dedo!
Aquele pequeno bastardo!
— Comporte-se, — eu avisei, sacudindo a fisgada da
minha mão.
Uma suave risada veio de dentro da bolsa.
— Mas que diabos? — Daniel deu um passo à frente. — O
que há na mochila, Ivy?
— Uma dor na minha bunda, — eu murmurei enquanto
eu abria o zíper. — Saia.
Vários membros da Ordem ficaram em pé enquanto
outros tentavam ver sobre aqueles que se ergueram.
Suspirando, eu me endireitei enquanto uma pequena
mão saía da mochila, enrolando-se ao redor do material e então
outra.
Os olhos de Liz se arregalaram. — O que é...?
Cabelos loiros gelo espetados apareceram, e então uma
testa, seguida por dois olhos redondos. Então, porque Tink
sabia que todo mundo observava, ele lentamente ergueu as
suas asas para se fazerem visíveis.
Alguém amaldiçoou.
A boca de Liz caiu aberta, mas ela não falou.
— Isso é... — Daniel parou quando Tink ergueu uma mão
e mexeu os seus dedos.
— Que exibido. — Ren suspirou cruzando os seus braços.
Eu lutei contar uma risada. — Esse é Tink. Ele é um...
bem, ele é um brownie.
— Um brownie? — Liz balançou a sua cabeça. — Eles
estão no nosso mundo?
— Não. Apenas Tink.
Tink aproveitou o momento para voar para fora da
mochila e subir até o meu ombro. Ele pousou lá, pegando o
meu cabelo e... se escondendo atrás.
Eu resisti ao desejo de revirar meus olhos. — De
qualquer forma, ele estava em minha mochila. Ele é um...
carinha tímido.
Ren fez um som sufocado.
— Você tem um brownie? — Miles piscou rapidamente. —
Eu pensei que eles estavam...
— Todos mortos pela Corte do Inverno? — Fabian
respondeu por ele. — Quase todos eles foram. Tink é o único da
sua espécie neste mundo.
Tink espreitou ao redor da minha cabeça quando ele
cerrou os punhos em meu cabelo e sussurrou, — Eu pareço
adorável, não pareço?
— Algo como isso. — Eu limpei a minha garganta. — Eu
gostaria de contar a vocês um dia sobre como eu conheci Tink.
Um lampejo de admiração espreitou na expressão de Liz.
— Eu gostaria muito de ouvir essa história.
Eu sorri para isso. — Mas nós precisamos falar sobre o
Príncipe e a Halfling.
— Isso nós temos. — Liz observou Tink se mover para
meu outro ombro, o olhar de incredulidade ainda enchia a sua
expressão. Ela deu um pequeno aceno com sua cabeça. — Nós
não fomos capazes de descobrir quem é a Halfling, mas nós
sabemos onde o Príncipe está. Tanto quanto sabemos, ele não
fez contato com a Halfling.
Eu era realista demais para deixar a esperança assumir.
Só porque eles pensavam que o Príncipe tinha chegado até a
Halfling ainda não significava que isso não tivesse acontecido.
— E onde está o Príncipe?
— Ele está escondido em um dos resorts, — Miles
respondeu. — O Valencia.
Nunca tinha ouvido dele, mas eu estava apostando que
era legal. Soava como se fosse.
— E quantos faes ele tem com ele? — Kalen perguntou.
— Cerca de uma dúzia que vieram com ele, — Liz
respondeu. — Mas ele tem mais. Os faes daqui estão se
reunindo no resort.
— A Ordem não foi atrás dele? — Fabian franziu a testa.
— Há humanos no resort. Muitos que seriam pegos no
meio do fogo cruzado. Chamaria muito atenção. E os doze faes
que ele trouxe com ele são Cavaleiros, — a mandíbula de Liz
endureceu. — A Ordem é corajosa e estamos dispostos a
morrer pela nossa causa, mas não tolamente.
— E porque você acredita que ele não encontrou a
Halfling? — Ren perguntou.
— Nós tivemos sorte quando ele saiu de New Orleans. Ele
foi visto e fomos capazes de segui-lo, — Miles explicou.
Um dos membros da Ordem que estava nas mesas
respondeu. Ele tinha sido apresentado quando nós entramos
no início. Tenho quase certeza de que o nome dele era Rob. —
Nós fomos capazes de rastreá-lo quando ele entrou na cidade a
partir das placas daqueles que viajavam com ele. Ele chegou ao
resort, e nós estivemos de olho nele o tempo todo. Ele não saiu
uma única vez.
Alguma coisa... algo sobre isso não fazia sentido.
— Dois dos seus Cavaleiros vem e vão, parecendo estar
executando tarefas. — Liz foi até o mapa apontando para um
alfinete preto. — É aqui onde fica o resort. Nós achamos que a
Halfling está em algum lugar nesta área.
Um calafrio estranho percorreu seu caminho para baixo
na minha espinha quando eu ergui os olhos para Ren e depois
para Fabian, enquanto Tink se agarrava ao meu cabelo. O
Príncipe do Verão tinha dito que o seu pessoal percebeu que
Drake tinha deixado New Orleans. Marlon nos disse para onde
Drake foi, e enquanto isso, a Ordem tinha visto o Príncipe
partir.
Aquelas eram... eram muitas coincidências ou trabalho
desleixado por parte do Príncipe. O último era difícil de
acreditar desde que Drake havia conseguido passar
despercebida esse tempo todo, montando acampamento nos
arredores de New Orleans sem a Ordem descobrisse a sua
localização. Mas agora? Deus e todo mundo tinha visto ele. Eu
não gostava disso – não gostava disso nem um pouco.
Eu dei um passo para trás.
— O que está errado? — Tink perguntou falando
diretamente em meu ouvido. — Seus ombros ficaram
repentinamente tão tensos quanto um peru no Dia de Ação de
Graças.
Minha testa franziu. — Eu... eu não sei.
— Eles devem estar cientes de que vocês sabem que eles
estão aqui, — Faye falou sua expressão ficou azeda. — E eles
devem estar se perguntando o porquê vocês não atacaram
ainda.
Daniel assentiu quando ele ampliou a sua postura. — Eu
acho que eles acreditam que nós estamos com muito medo
para fazer isso.
— Esse não é o caso? — Fabian perguntou.
— Oooh, — Tink murmurou.
O líder do setor de New Orleans estreitou os seus olhos.
— Nós não estamos com medo. Nós somos espertos. Estamos
planejando.
— O que é que o plano implica exatamente? — Ren
perguntou.
— Nós sabemos que o Príncipe tem o Cristal. — Liz se
afastou do mapa. — Com a Halfling aqui, nós podemos
completar o ritual e enviá-lo de volta.
Ren endureceu, e repentinamente, o fato de os membros
da Ordem estarem tão dispostos a aceitarem a nossa presença
fazia sentido. Eles tinham percebido que precisavam de nós –
precisavam de mim para enviar o Príncipe de volta, mas algo
mais chamou a minha atenção.
— Esse ritual, — Miles disse. — Como é chamado?
— Sangue e pedra, — Fabian respondeu.
— É isso mesmo. Eu fiz um pouco de leitura sobre ele. —
O olhar de Miles encontrou o meu. — Você sabe o que é o
ritual?
— Eu sei que o meu sangue e o sangue do Príncipe
devem estar no Cristal, — eu disse, estremecendo quando Tink
pisou no meu cabelo o puxando, — E eu sei que precisa ser
completado no Outro Mundo.
Miles ergueu suas sobrancelhas. — Mas você sabe o que
acontece depois que você completar o ritual?
— Eu saio correndo do Outro Mundo? — Eu supus.
Alguém bufou, mas Miles deu um passo à frente, um leve
franzir de sobrancelhas marcando as suas feições. — Eu não
devo ter lido o ritual corretamente, mas pelo que eu consigo
lembrar, quem quer que tenha o sangue naquele Cristal fica
preso no Outro Mundo.
O medo explodiu em minhas entranhas. — O quê?
— Prenderá a ambos no Outro Mundo. Não apenas o
Príncipe. — Miles encarou Fabian. — Eu imagino que quem lhe
falou sobre o ritual se esqueceu de contar-lhe isso.
Capítulo 29

Atordoada, deixei meus braços caírem em meus lados.


Ele não podia estar dizendo a verdade. Uma grande parte de
mim estava em negação, porque isso significava que todos
eles... todos eles mentiram para mim.
— Não, —sussurrou Tink, e então mais alto, — isso não
pode ser verdade. Ele caminhou para a parte final do meu
ombro. — Não.
Eu não consegui me mover quando as coisas começaram
a se encaixar. Ninguém tinha sido acessível com as
informações sobre o ritual com Ren. Aqueles que sabiam sobre
o ritual estavam prontamente aceitando a mudança que eu
passei e confiando em mim – confiando em nós.
— Que porra é essa? — Raiva encheu o tom de Ren
quando ele se virou na direção de Faye e dos outros fae do
Verão. — Isso é verdade? Ivy ficaria presa no Outro Mundo?
Faye empalideceu e eu soube naquele momento que era
verdade, e foi como se o chão tivesse se aberto embaixo dos
meus pés. Meu peito ficou oco. — Isso faz sentido agora.
Ren virou-se para mim. — Isso não faz qualquer maldito
sentido.
— Mas faz. — Minha garganta engrossou e eu não
conseguia tirar os meus olhos de Faye. — Foi por isso que
vocês me ajudaram a escapar e garantiram que eu estivesse em
segurança. Não era pela gentileza em seus corações. Vocês
precisavam de mim – precisavam de mim viva ao menos até
vocês encontrarem outra halfling. Uma que tivesse uma chance
de chegar ao Outro Mundo com o Príncipe e completar o ritual.
Daniel e Miles, junto com o setor de San Diego,
observaram em silêncio. Eu não tinha ideia do que eles
estavam pensando.
— Você sabia que era necessário você estar viva para
completar o ritual. —Fabian virou-se na minha direção. — Isso
tinha que ter o sangue de uma halfling e do Príncipe do
Inverno. Você tem que estar viva para isso acontecer.
— Não brinca, — Ren retrucou. — Nós sabíamos disso.
Nós também sabíamos que o ritual tinha que ser completado
no Outro Mundo. Em nenhum momento alguém mencionou
que isso a prenderia lá.
— Isso é uma coisa muito grande para esquecer de dizer
a alguém, — Miles entrou na conversa.
— Nós não nos esquecemos, — Faye nos encarou, seus
olhos implorando pela nossa compreensão. — Nós tínhamos
esperança de encontrar outra forma para garantir que você não
ficaria presa lá.
Um riso chocado me escapou. — Vocês tinham
esperança?
— Isso é embaraçoso, — Liz murmurou baixinho.
— Isso é. — Ren veio na minha direção. — Nós estamos
saindo.
— O quê? — Eu me virei para ele, e Tink subiu de volta
no meu ombro, colocando uma mão no lado da minha cabeça
para se firmar.
— Nós terminamos com essa merda. — Seus olhos verdes
brilhantes encontraram os meus. — Fodidamente acabados.
Kalen começou a se aproximar dele. — Ren...
— Foda-se, não. — Ele disparou para o perigoso macho
fae um olhar de aviso, um que Kalen deu ouvidos ao parar. —
Nós não nos inscrevemos para isso. Ivy não se inscreveu para
isso. Ela não vai se sacrificar. Foda-se essa merda.
Será que eu tinha uma escolha?
Essa pergunta fez um arrepio percorrer a minha espinha.
Assim como eu temia na noite passada, só nos restava uma
outra opção. Encontrar uma forma de enfraquecer o Príncipe
tempo o bastante para matá-lo.
Traição misturada com raiva enquanto eu erguia o meu
queixo e encarava os membros da Ordem. — Vocês sabem
como matar o Príncipe?
Daniel e Liz trocaram olhares. Foi ela que falou. — Uma
estaca de espinhos...
— Nós sabemos que uma estaca de espinhos matará ele –
matará qualquer príncipe. — Eu olhei para Fabian, que
arqueou uma sobrancelha. — Mas vocês já lutaram com um
príncipe? Um Cavaleiro ou um Ancião?
Os lábios de Liz afinaram. — Nós não...
— Então vocês não percebem o quão incrivelmente difícil
é lutar contra um Ancião, e isso não é nada como encarar o
príncipe!, — eu disselhes. — Então, eu imagino que vocês não
tenham ideia de como enfraquecer o Príncipe.
— Nós temos um em pé bem na nossa frente que poderia
responder a essa pergunta, — Daniel apontou.
— Ivy, — Ren disse, a frustração mordendo em seu tom.
— Vamos...
Alguém do lado de fora gritou, e eu girei tão rápido que
Tink saiu do meu ombro e pairou ao meu lado.
A porta por onde tínhamos entrado explodiu das
dobradiças. Um corpo voou através do ar batendo no chão com
um forte golpe. Era um membro da Ordem, um dos homens
que tinha ficado do lado de fora. Sua garganta... Deus foi
extirpada, expondo o tecido.
— Merda. — Eu alcancei as minhas adagas. Membros da
Ordem dispararam de suas cadeiras, e tudo o que eu tinha
acabado de aprender desapareceu para segundo plano.
O sentimento de antes voltou, aquele que gritava sobre
tudo isso, do momento que o Príncipe saiu de New Orleans até
agora tinha sido muito fácil. Eu sabia no fundo dos meus ossos
que isso era uma armadilha e todos nós caímos direto nela.
Um outro corpo pousou perto, jogado no fundo do
corredor.
— Nós estamos sob ataque! — Liz gritou brandindo
armas. — Preparem-se!
— Recue, Tink. — Meu aperto nas adagas aumentou, e
eu rezei para Deus que ele ouvisse enquanto o ar gelado
entrava na enorme sala de reuniões escorrendo pelo chão.
Ren apareceu ao meu lado, estaca de espinhos na mão.
— Isso não é bom.
— Não. Não é.
Um rugido que balançou as paredes encheu meu
estômago de nós. Uma batida de coração depois, eles entraram
pela porta da frente. Kalen levantou o seu braço, deixando
adaga que ele segurava voar. Ela bateu no peito do primeiro
fae, o derrubando, mas então outro e outro entraram através
da abertura estreita, até que dezenas de faes estivessem na
sala conosco. A maioria não eram faes normais. A maioria eram
Anciãos – Cavaleiros do Príncipe.
— Merda, — eu sussurrei enterrando fundo uma mordida
de medo.
Nós os encontramos mano-a-mano.
O instinto assumiu o controle enquanto estacas zuniam
no ar, algumas caindo no chão empoeirado e outras atingindo
de verdade. Berros e gritos se misturaram com sons molhados
de rasgar e quebrar ossos. Foi um turbilhão de confusão, e eu
rapidamente perdi Tink de vista na multidão de corpos se
movendo rápido.
Ren derrubou o fae mais próximo, movendo-se com
fluidez e graça de um dançarino. Eu girei ao redor, empurrando
a minha estaca no fundo no peito do fae enquanto Fabian
começou a brilhar como o sol. E o vi caminhando para frente,
levantando um braço. Uma bola de luz fumegante se formou
em sua mão enquanto Daniel combatia um Cavaleiro.
Comecei a ir em direção a eles, mas fui interrompida por
um fae que me atacou. Eu me movi para o lado, minha bota
deslizando em algo molhado – sangue. Endireitando-me, eu
ergui o meu olhar e vi uma fae vindo na minha direção. Ela
disparou para mim, mas não me atacou. Então isso se
encaixou no lugar. Ela estava impedindo que eu me envolvesse.
Eles não estavam tentando lutar comigo. Eles sabiam que eu
era a Halfling e que eu... eu precisava estar viva, mas se
houvesse outra halfling, eu era dispensável.
Nada disso importava no momento.
Correndo na direção dela, eu peguei o seu braço
enquanto ela tentava se desviar. Ela gritou quando eu torci,
girando-a. Apunhalando a adaga em seu peito, eu a empurrei
enquanto eu a soltava. Ela já estava se dobrando quando ela
bateu no chão.
A temperatura caiu de novo e eu girei na direção da porta
aberta quando uma mulher alta e esbelta entrou na sala.
Breena. Aquela fodida puta estava aqui. Cada parte de meu
cérebro disparou enquanto eu vagava em sua direção. Se
alguém morreria hoje, seria ela. Eu jurei por Deus e aos bebês
lhamas de todos os lugares, que aquela puta iria cair.
Um outro membro da Ordem a alcançou primeiro. Era
Rob. Ele ergueu seu braço, mas ela foi mais rápida –
terrivelmente rápida. Sua mão voou e foi diretamente através
do peito do homem.
Meus passos derraparam quando a minha boca se abriu
de horror. Espera. Aquilo não fazia sentido. Isso não era
possível.
Breena puxou a mão de volta, e foi uma bagunça
sangrenta. O coração dele – ela segurava o coração de Rob. Mas
Breena não era uma Anciã. Ela era apenas uma fae normal.
Como isso era...
Meu coração cambaleou para a minha garganta quando
eu vi o Príncipe. Ele entrou através da porta quando Breena
deixou o órgão cair. Medo e raiva espiralavam dentro de mim
enquanto eu encarava o Príncipe.
Seu olhar varreu pela sala até que aqueles lábios
expressivos se ergueram em um sorriso malicioso. Ele tinha me
encontrado.
Drake sorriu. — Olá, Ivy. Faz um longo tempo.
Meu sangue se transformou em gelo quando um rugido
de raiva vermelha quente irrompeu atrás de mim. Ren. Isso
tinha sido Ren, fazendo com que todos os pelos do meu corpo
se erguessem.
Fabian virou-se, choque gravado na única palavra que ele
falou em uma língua que eu não entendia.
Os ombros do Príncipe ficaram tensos quando o seu olhar
foi de mim para o Príncipe do Verão. Algum tipo de emoção
passou pelo rosto de Drake enquanto ele encarava o outro
Príncipe.
Bom Deus, eles se pareciam tanto. Como se eles
pudessem ser...
— Não. — Fabian abaixou seu braço, e a luz brilhante
desapareceu dele enquanto ele tropeçava – na verdade tropeçou
um passo para trás. — Não. Meus olhos estão mentindo para
mim. Não é você. Você está morto.
Mas que diabos estava acontecendo? Sobre o que Fabian
estava falando, e por que eles estavam se encarando daquela
forma?
— Ivy! Ivy! — Tink voou perto do teto, suas asas se
movendo freneticamente enquanto ele gritava o meu nome de
uma forma que fez o pânico explodir dentro de mim. — Ela está
aqui! Ela está...
Aconteceu tão rápido.
A cabeça daquela puta da Breena girou, seu olhar seguiu
o voo de Tink. Um lampejo de surpresa apareceu em sua
expressão e ela jogou os seus braços para fora.
Uma onda de choque percorreu a sala. Atirando-me de
joelhos, erguendo-me no ar e me levando para trás. Houve um
vislumbre de Tink voando para trás e pousando com força em
suas costas. Uma névoa gelada invadiu a sala enquanto eu
rolava de lado. Eu tinha perdido uma das minhas adagas.
Aquele tipo de poder – não era normal.
— Ren! — Eu gritei quando eu fiquei de joelhos. — Ren...
— Aqui, — ele resmungou e, em uma fumaça branca
espessa, eu vi a sua mão. Os nós dos dedos estavam
ensanguentados enquanto eles envolviam os meus. Ren
apertou a minha mão e então soltou.
Uma risada suave atravessou a névoa – uma risada que
enviou um raio de medo direto para minha espinha.
Eu lentamente fiquei em pé, respirando pesadamente
enquanto eu agarrava a única adaga que tinha me restado. A
névoa gelada recuou revelando aqueles que ainda estavam em
pé.
Não eram muitos, mas eu vi Daniel e Miles em pé perto
de Kalen e Faye. Eu também vi Liz. Eu não vi Tink. Meu
estômago despencou.
Mas havia o Príncipe, seu peito se erguendo e abaixando
acentuadamente.
Ele não estava sozinho. Alguma coisa se ergueu como um
espectro alto e magro, e quando a névoa se dissipou eu vi uma
coroa de ossos, e eu sabia o que Breena era.
Ren gemeu. — Oh, inferno.
Atrás do Príncipe do Inverno estava uma Rainha sorrindo
com um sorriso sangrento.

Capítulo 30

—Merda, — eu sussurrei, enraizada no lugar onde


estava.
O aviso estridente de Tink fez sentido. Um brownie teria
visto Breena através de qualquer fachada que ela estivesse
usando. Ele tinha visto a Rainha e tentou nos avisar.
Mas era tarde demais.
A maldita Rainha estava diante de nós, ela parecia com
Breena, mas não era. Seu cabelo agora era uma prata fosca,
quase alcançando a sua cintura. Ela estava usando o rosto de
Breena, mas seu queixo era mais afiado, seus olhos eram mais
amendoados e seus lábios mais cheios. Seus olhos azuis eram
luminosos contra a cor de prata derretida.
E aquela coroa...
Realmente parecia como se fosse feita de ossos curvados
em um semicírculo afiado que se erguia em três únicas pontas,
sendo a do meio a mais alta.
Ela escovou a sua mão sobre o ombro de Drake, tirando o
seu olhar do Príncipe do Verão. — Foco, meu amor, — ela
murmurou. — Foco.
O Príncipe ficou imóvel.
Atrás deles três estavam três Cavaleiros e mais dois faes.
Nós derrubamos muitos, mas não o bastante – nem perto do
bastante com a Rainha aqui.
Alguém, algum corajoso tolo, correu para ela, brandindo
o que parecia ser uma estaca de espinhos. Um membro da
Elite. Ela pegou o braço do homem, e com um movimento de
seu pulso, quebrou o osso. O homem gritou enquanto ela o
puxava para ela. Ela era como uma cobra dando o bote,
enterrando sua boca na garganta dele. O grito do homem
terminou em gorgolejo quando sangue jorrou em uma névoa.
Ela ergueu a sua cabeça e soltou ele. Ele caiu no chão,
garganta arrancada enquanto ela nos encarava.
— Puta merda, — Miles ofegou atrás de mim.
Sangue escorreu em seu queixo quando ela inclinou a
sua cabeça. — Surpresa?
Eu suguei o ar. Um nó se formou em minha garganta.
Breena era a Rainha o tempo todo?
— O brownie? — ela falou. — Onde ele está?
Eu não tinha ideia de onde Tink estava, mas para onde
quer que ele tivesse ido, eu rezava que fosse bem longe daqui.
— Sua puta, — Fabian rosnou. — Sua mentirosa cadela
traidora.
— Cuidado, — ela disse passando o dorso da sua mão na
boca. — Eu acredito que você seja o último da sua corte?
Bem... — Ela riu quando ela encarou o ainda imóvel e
silencioso Drake. Ela colocou uma mão no peito dele. — O
último que sabe quem ele é.
As narinas de Fabian se arregalaram.
Espere. Era Drake...?
O olhar da Rainha se moveu para mim. — Olhe para
você. Eu devo dizer que as mudanças foram uma melhoria.
Mas não muito. — Aqueles olhos gelados encontraram Ren. —
E você? Ainda está tão gostoso quanto eu me lembro.
Fúria potente varreu sobre mim. — Você sabe do que eu
me lembro? Arrancar os seus olhos.
O sorriso sangrento se espalhou. — Sim, eu também me
lembro disso, e eu planejo retribuir esse favor muito, muito em
breve, nós ainda precisamos de você viva por um tempo.
Eu enrijeci enquanto a minha mão apertava a adaga de
ferro. — Nunca houve uma halfling aqui, houve?
— Não, sua pequena vadiazinha tola. Talvez possa haver
uma aqui. — Ela ergueu um ombro em um dar de ombros
estranhamente delicado. — Eu não tenho ideia. Você se
escondeu e precisávamos atrai-la para fora. — A Rainha riu
quando Ren amaldiçoou baixinho. —Afinal de contas, você
acha que teríamos sido tão óbvios sobre os nossos
movimentos?
Eu sabia disso.
Maldição, eu sabia.
Nós tínhamos sido enganados, e nós devíamos ter sabido
melhor. Agora nós estávamos presos aqui, todos nós, com
Drake ou quem quer que ele fosse, e a maldita Rainha.
— Por que San Diego? — Liz exigiu. — Por que aqui?
— Porque há o maior número de membros da Ordem.
Nenhuma outra cidade tem mais em um só local, — Daniel
respondeu. — Você eliminar a seção de San Diego, isso terá um
efeito cascata incapacitante.
Aconteceu tão rápido.
Vários membros da Ordem avançaram brandindo suas
adagas de ferro. Kalen gritou um aviso, mas era tarde demais.
Eles agarraram os ombros de outros membros enquanto
arrastavam a lâmina pelas suas gargantas.
Horror me pegou quando eu me virei e vi Daniel arrastar
a lâmina ao longo da garganta de Liz. — Não! — eu gritei, e
nem mesmo sabia o porquê. Era muito tarde.
As mãos de Liz voaram para sua garganta, tentando
estancar o fluxo de sangue, enquanto ela tropeçava e depois
caia de joelhos. Somente alguns segundos tinham passado e
então ela se uniu aos outros membros da Ordem no chão.
Meu olhar arregalado se voltou para Daniel enquanto
meu coração se partia. Eu não podia acreditar nisso. Daniel
tinha nos traído – a todos nós. Minha boca se abriu, mas eu
não tinha palavras enquanto eu encarava o homem que era a
coisa mais próxima de um pai para mim. Foi como a Val tudo
de novo, mas pior, muito pior.
— Filho da puta, — coaxou Miles, e pela primeira vez na
minha vida, eu vi uma emoção real em seu rosto enquanto ele
encarava Daniel em horror e descrença. — Como? Como você
pode fazer isso?
— Porque essa é uma guerra nós não venceremos, —
Daniel esfregou a lâmina em suas calças, limpando-a do
sangue. Seu olhar encontrou o meu. — Você nunca se
perguntou o porquê eu estava aceitando o que você se tornou?
Ou o que você fez com Kyle? Eu sabia que ele tinha ido atrás de
você. E eu sabia que um de vocês ou ambos matariam ele.
A próxima respiração que eu dei ficou presa. Eu tinha
questionado isso. Ambos questionamos, mas queríamos ter
esperança. Estúpidos. Nós todos tínhamos sido tão
malditamente estúpidos.
— Neste momento, através de toda cidade, os membros
da Ordem em reuniões terão o mesmo destino. E em New
Orleans? O mesmo, de acordo com o plano. Mas o que eu não
planejava era um brownie. — Os lábios da Rainha se curvaram,
mostrando os dentes afiados. — Onde ele está?
Respirando fundo, eu afastei tudo relacionado com
Daniel e encontrei olhar dela de frente. Eu teria que lidar com
essa nova traição mais tarde – se houvesse um depois. —Eu
não sei sobre o que você está falando.
— Ok. Você quer jogar um jogo. Eu amo jogos. — Ela
bateu palmas. — Esse é um jogo que eu gosto de chamar de
todo mundo morre. Exceto você. Eu ainda preciso de você, mas
o resto está prestes a morrer. — Seu olhar encontrou Faye. —
Começando por você.
O peito de Faye subiu com uma respiração instável, mas
ela se manteve firme enquanto Kalen dava um passo para mais
perto dela.
— Ou talvez não você. — A Rainha se adiantou. — Talvez
ele.
Meu coração deu um salto. Ela estava olhando para Ren.
— Se você tocar em um fio de cabelo de sua cabeça, você se
arrependerá disso.
— De alguma forma eu duvido disso. — Ela se moveu
mais rápido do que eu podia rastrear. Um segundo depois ela
estava em pé atrás de Ren, seus longos dedos ao redor do
pescoço dele. — Você gosta desse jogo, Ivy?
A mandíbula de Ren travou enquanto ele se mantinha
muito quieto, encontrando o meu olhar. Meu coração estava
batendo rápido, muito rápido enquanto eu ergui a adaga para a
minha garganta. Eu não hesitei. Nem por um segundo. — Se
você o machucar, eu cortarei a minha própria garganta e então
você realmente terá que encontrar outra halfling. O que você
acha desse jogo?
Seus lábios afinaram quando ela inclinou sua cabeça
para o lado. — Você se mataria para salvá-lo?
— Em um piscar de olhos.
— Ivy. — Ren ofegou.
Descrença encheu o rosto dela. — Você não iria...
O som de rodas de plástico deslizando sobre o chão de
madeira chamou a atenção de todos em direção a porta. Eu
não podia acreditar no que eu estava vendo no início. Eu
pisquei, pensando que eu estava vendo coisas, mas os meus
olhos não estavam mentindo para mim.
A mala de Tink rolou através do chão, deslizando ao
passar pelo Príncipe e parando apenas a uma curta distância
de Fabian. Então Tink zuniu dentro da sala, voando tão rápido
quanto um pequeno míssil em direção a mala. Agarrando o
zíper em suas pequenas mãos, ele arrastou-o ao longo da
costura. Um lado da mala se abriu e centenas de bonecas trolls
se espalharam pelo chão em um mar de cabelos azuis neon e
rosas quentes.
— O que no...? — Eu recuei um passo.
A Rainha inclinou sua cabeça para o lado enquanto ela
segurava Ren.
Todo mundo encarava porque havia centenas de bonecas
trolls rolando através do chão, em meio ao sangue, e, sim, era
realmente bizarro.
Voando para a frente, Tink pairou sobre o mar de
bonecas trolls e ergueu seus braços. — Levantem-se, meus
bebezinhos.
As bonecas tremeram no chão e então chocalharam.
Todas elas. Seus pequeninos corpos de plástico balançavam, e
em seguida seus corpos... já não eram mais de plástico. Suas
pernas dobraram. Seus braços se moveram. Suas cabeças
viraram, e seus olhos eram o mais pálido dos azuis, como todas
as criaturas do Outro Mundo.
Eu não tinha palavras.
As bonecas trolls levantaram-se em suas pernas curtas.
Suas bocas se abriram e um grito alto e estridente irrompeu
delas, erguendo todos os pelos ao longo dos meus braços.
Bem, eu teria os piores pesadelos pelo resto da vida por
causa disso.
— Puta merda, — eu sussurrei. — Em vez de ser o Rei da
Noite, ele é o Rei dos Trolls.
As cabeças das bonecas viraram-se para a Rainha.
Soltando um grito de raiva, a Rainha jogou Ren para o
lado, enviando-o deslizando vários metros através do chão. Ele
caiu em um joelho enquanto eu disparava para o seu lado,
agarrando sua mão e o puxando para cima.
— Nós precisamos sair daqui, — ele disse, seus olhos
arregalados nas bonecas. — Agora.
— Concordo.
Segurando apertado a sua mão, eu gritei para Tink
enquanto as bonecas pisoteavam através do chão, correndo em
direção a Rainha. Tink voou para o meu ombro enquanto eu
girava em direção a Faye e Kalen. O fae macho encontrou o
meu olhar e assentiu.
As bonecas alcançaram a Rainha, suas mãozinhas
agarrando o seu vestido. Elas subiram em suas pernas,
dezenas delas.
Ela gritou, arrancando uma da sua coxa. Sangue cobria a
sua pequena boca. Elas mordiam? Ela a esmagou em sua mão
enquanto gritava de raiva. Dezenas mais estavam subindo nela,
alcançando o seu estômago, cavando com as mãos e... bocas.
Os Cavaleiros começaram a ir em direção a ela, mas também
foram vencidos pelas bonecas. Elas os engoliram inteiros, como
um tapete de bonecas trolls comedoras de carne.
Eu ia precisar de terapia – anos de terapia.
Ren começou a ir em direção a porta e Tink pulou do
meu ombro para o dele, mas mãos pousaram em minhas
costas me puxando para longe de Ren. Minha mão escorregou
quando eu fui girada. Eu fiquei cara a cara com Daniel.
— Eu não posso deixar você ir, — ele disse, apertando a
sua mão. — Eu sinto muito, Ivy.
Eu não parei para pensar sobre o que eu estava fazendo,
mas meu peito doeu e meus olhos queimaram enquanto eu
apertava a adaga.
— Daniel, — eu disse, minha voz rouca.
Seu olhar encontrou o meu um segundo antes que eu
enfiasse a adaga fundo no centro do seu peito. A boca de
Daniel se abriu, mas não houve palavras. Nenhuma. Eu vi os
seus olhos embaçarem.
Exalando bruscamente, eu soltei a adaga enquanto eu
pestanejava lágrimas quentes. Eu empurrei quando outra mão
tocou meu braço. Eu virei-me para encontrar Miles ao meu
lado. — Nós precisamos ir, — ele disse. — Agora.
Incapaz de falar, eu consegui mover os meus pés. Nós
corremos através do chão, nossos pés escorregando e
deslizando no sangue. Na porta de entrada, eu percebi que
Fabian não estava conosco. Ele estava em pé em frente a
Drake, falando muito rápido para eu entender.
A Rainha estava no centro da sala, girando enquanto
enviava bonecas trolls malignas em todas as direções.
Fabian pegou a adaga caída. Eu parei, meu coração em
algum lugar em minha garganta. Era de ferro. Não matéria
Drake...
Fabian não esfaqueou o Príncipe do Inverno.
Ele cortou a sua própria palma da mão, retirando
sangue, e ele ergueu a palma da sua mão ensanguentada
arrastando pelo centro do rosto de Drake e pressionando
contra sua boca.
O corpo inteiro do Príncipe do Inverno sacudiu no que
parecia mil vagalumes ao redor dele, envolvendo seu corpo todo
em uma luz dourada cintilante. Somente um segundo ou dois
se passaram e então as ofuscantes luzes brilhantes
retrocederam.
O Príncipe do Inverno estava lá em pé, seus luminosos
olhos azuis arregalados e cegos. Era como se uma camada de
escuridão escorresse e deslizasse para longe. O cabelo preto
deu lugar ao dourado. Sombras se afastaram das cavidades
das suas bochechas. Suas feições eram as mesmas, mas ele
não era da Corte do Inverno. Ele era...
Que porra er...?
— Ivy! — Ren estava mais uma vez ao meu lado.
— Olhe, — eu sussurrei. — Olhe para ele.
Ren seguiu o meu olhar. — Mas que diabos?
O Príncipe recuou, seu olhar disparando sobre Fabian e
nós. Seu olhar encontrou o meu, e seu rosto inteiro se
contorceu como se ele estivesse com dor.
Eu esbarrei em Ren quando o Príncipe se virou e soltou
um som que era tão terrível quanto era inumano e primitivo. O
cheiro de ozônio queimado encheu o ar quando uma explosão
potente de energia rolou através do chão. Atingiu os Cavaleiros
primeiro.
Eles queimaram do nada, desintegrando-se no local.
A pele dos membros da Ordem que nos traíram
descascou. Seus ossos foram esmagados até o pó. O impacto
foi tão intenso que queimou as suas sombras no chão.
Ainda arremessando as bonecas trolls, a Rainha girou em
direção ao Príncipe. Seus olhos se arregalaram em choque, e
então a anergia bateu nela. Ela e as bonecas voaram para fora
dos seus pés e para trás. A Rainha bateu na parede... e a
atravessou.
— Eu acho que nós precisamos ir. — Ren agarrou o meu
braço e começou a recuar. — Como de verdade.
Afastando o olhar da cena bizarra, eu virei-me e corri pelo
corredor, alcançando o resto do grupo.
— E o Fabian? — Tink exigiu quando as portas do pátio
apareceram.
— Esqueça ele, — Ren respondeu.
— O quê? — Tink se lançou-se do ombro de Ren
— Oh, inferno não. — Eu peguei Tink no ar, envolvi as
minhas mãos ao redor da sua cintura. — Você não vai até lá.
— Mas...
— Não. — Eu segurei Tink apertado quando nós saímos
para o pátio. — E não se atreva a me morder ou mudar de
forma.
O rosto de Tink caiu, e eu ignorei isso quando eu corri
através do estacionamento. Kalen já tinha as chaves fora
enquanto ele corria para a porta do motorista. Faye se sentou
no banco da frente enquanto Miles entrava, indo para a
segunda fileira. Ren entrou e girou na minha direção,
estendendo a mão. Seu olhar passou por cima da minha
cabeça.
— Mas que inferno? — ele exigiu, começando a fazer seu
caminho para fora.
Eu me virei e minha boca caiu aberta.
Fabian invadiu através das portas, com ele estava Drake,
seu rosto ainda ensanguentado. — O que diabos você está
fazendo? — Eu estendi a mão para minha adaga, mas percebi
que eu não tinha mais nenhuma. — O que você está fazendo
com o Drake?
— Este não é o Drake. — Fabian segurava o braço do
Príncipe.
— Besteira! Eu sei quem ele é, mesmo com o cabelo mais
claro.
— Você está errada.
— Fabian, esse é o Príncipe do Inverno. — Faye desceu a
sua janela. — Eu o vi todos os dias. Esse é Drake.
O Príncipe do Inverno olhou de soslaio, protegendo seus
olhos enquanto ele balançava instavelmente em seus pés. —
Eu sou... — Ele parou, encolhendo-se como se alguma coisa ou
alguém tivesse se aproximado de seu rosto.
— Esse não é o Príncipe do Inverno. — Tink bateu no
meu punho. — Eu o vi antes, Ivy. Eu sei como Drake se parece.
Eu o vi no Outro Mundo, lembra?
Confusa, eu balancei a minha cabeça.
— Nós precisamos ir, — Kalen avisou. — Nós precisamos
dar o fora daqui.
— Deixe-nos entrar, — Fabian exigiu.
— De jeito nenhum. — Ren me empurrou para o banco.
— Eu vou matar esse filho da puta. Eu não me importo se ele
parece com o Príncipe da Praia agora.
Ren estava fora do SUV antes que eu soubesse o que ele
estava fazendo. Em um piscar de olhos, seu punho bateu na
mandíbula do Príncipe, virando sua cabeça para trás. Eu
disparei para frente, temor era um sabor amargo no fundo da
minha garganta. O Príncipe iria...
O Príncipe lentamente virou a sua cabeça para Ren. Seu
lábio partido. Ele não ergueu suas mãos ou qualquer coisa
quando o punho de Ren o atingiu de novo, pegando-o debaixo
do queixo, batendo sua cabeça para trás.
— Pare! — Tink gritou. — Você precisa parar, Ren!
Ren inclinou seu braço novamente para trás, mas Fabian
pegou o seu punho. — Bata nele de novo, e eu terei certeza de
que não reste nada de você.
Agarrando a parte de trás da camiseta de Ren com a
minha mão livre e o puxei de volta. Ele não se mexeu, não até
que eu enrolei meu braço ao redor da sua cintura. — Isso é o
bastante.
— Não. — Ren balançou a sua cabeça. — Isso não é nem
perto do suficiente.
— Ele não é o Drake! Olhem para ele. Ele é diferente, —
Tink gritou, e então o pequeno bastando enfiou seus dentes em
minha mão.
— Ai! — Eu soltei, puxando minha mão para trás e
balançando a picada. Tink voou para fora do carro, em direção
ao ombro do Príncipe. — Nós não temos tempo para isso, Tink.
Afaste-se do...
— Se vocês não deixarem ambos entrarem neste carro, eu
não irei!
Eu fiquei boquiaberta com o maldito brownie. — Você
está maluco?
— Você está? — Tink disparou de volta.
— Esse não é o Drake, — Fabian disse, sua voz soando
quebrada. — Esse é meu irmão.

Capítulo 31

A viagem de volta para Del Mar foi... estranha e tensa.


Provavelmente tinha a ver com o fato de que o Príncipe
que tinha sequestrado Ren e eu, que tinha tentado me seduzir
para provocar o fae apocalipse, e que era completamente um
assassino e psicótico, estava sentado no banco de trás do SUV
silencioso e olhando pela janela.
Entre isso, os exércitos de bonecas trolls, a traição de
Daniel, e o surgimento da Rainha, esta era oficialmente a pior
segunda-feira de todos os tempos.
Ren praticamente se sentou encarando o banco traseiro
durante todo o trajeto até a casa. O Miles também, e eu fiz o
mesmo.
Havia algo errado com o Príncipe.
Ele não falou. Ele não olhou para qualquer um de nós.
Ele nem mesmo respondeu qualquer um dos comentários
terríveis sobre ele. Ele apenas ficou ali sentado, e eu não
conseguia acreditar que estava no carro com ele e não tentava
assassiná-lo.
— Ele estava sob um encantamento, — explicou Fabian
encarando Drake. Estava claro que eles eram irmãos. Eu tinha
visto similaridades antes e agora, com a mudança de cor de
cabelo, era óbvio. — Nós acreditávamos que ele morreu na
Grande Guerra com a Corte do Inverno. Eu o vi cair, e eu não
consegui alcançá-lo. A Rainha Morgana levou o seu corpo. Nós
pensávamos que ela fez isso para nos negar a nossa tradição
funerária. Agora eu sei. Ela o colocou sob seu feitiço.
E agora sabíamos que era com a Rainha que nós
estávamos lidando. É claro, tinha que ser o bicho-papão de
todos os faes. Ótimo. Apenas a nossa fodida sorte.
— Então, você está dizendo que ele não é responsável por
nenhuma das suas ações por que ele estava sob um feitiço? —
Ren exigiu.
— Sim. — Fabian encara Ren. — Isso é exatamente o que
eu estou dizendo.
— Besteira, — ele grunhiu. — Esse bastardo...
— Estava sob o feitiço dela, — Fabian corta. — Tal como
um humano estaria sob um glamour. É um encantamento
poderoso que apenas um Rei ou uma Rainha podem fazer. Um
que é proibido.
Ren se inclinou para o encosto do banco. — Eu. Não. Me.
Importo.
— Eu sei que é difícil aceitar. Eu estou tendo um
momento difícil em aceitar isso também. Confie em mim, —
Faye disse, tendo se virado para trás em seu assento. — Mas
quando alguém da nossa espécie está sob um encantamento,
nós não podemos controlar o que fazemos. Seria o mesmo para
um mortal.
Miles ficou rígido. — Ele matou dezenas dos nossos
membros, seja por suas próprias mãos ou por seu comando.
— E o homem a quem você respondia traiu a todos nós e
aos seus próprios homens, — Faye o lembrou.
Eu fechei os meus olhos com força contra a verdade
daquelas palavras. Eu não podia nem mesmo pensar sobre o
que Daniel tinha feito ou que eu tinha o tinha matado.
Miles não respondeu aquilo, por que o que ele poderia
dizer? Eu abri os meus olhos. — Não é a mesma coisa, no
entanto. Nós não sabíamos o que Daniel estava fazendo ou a
quanto tempo ele estava fazendo isso. Nós sabemos o que ele
estava fazendo.
— Mas não era ele. — Tink pousou na parte de trás do
nosso banco. — Não era quem ele realmente é. Você viu o que
ele fez quando saiu do encantamento. Ele colocou aquela
Rainha Puta através de uma parede.
— Eu. Não. Me. Importo.
— Isso é besteira, — Ren murmurou.
— Deixe-me adivinhar. Ele não tem memória de todas as
merdas horríveis que ele fez? — Eu exigi.
A cabeça do Príncipe virou-se lentamente, e seus olhos
encontraram os meus. — Eu lembro de tudo o que eu fiz.
Todas as coisas.
Eu suguei uma respiração afiada enquanto um arrepio
dançou sobre a minha pele. Ele não... ele soava como o
Príncipe que eu conhecia, mas ao mesmo tempo, ele não soava.
Ele voltou a olhar pela janela.
— Isso não muda nada, — Ren disse.
— Muda tudo. — Fabian replicou. — Você verá. Dê-lhe
tempo. Você entenderá.
A risada de Ren foi dura. — Isso é inacreditável.
Era realmente. Tudo isso, mas aqui estávamos nós, e eu
precisava de uma distração, porque eu queria tirar a estaca de
espinhos da mão de Ren e bater com ela no peito do bastardo,
encantamento ou não.
Meu olhar moveu-se para Tink. — Você vai explicar sobre
as bonecas trolls?
Ele suspirou enquanto ele caminhava através do encosto
do banco, chutando algo que nenhum de nós podia ver. — Eu
odiei deixá-las lá. Elas eram meus bebês.
Bebês? Elas eram coisas de pesadelos. — Como você fez
elas se moveram? — Eu pensei sobre às vezes que eu as tinha
encontrado ao redor do apartamento. — Elas sempre foram
capazes de fazer aquilo?
— Bem, eu peguei uma gota do meu sangue e misturei
em seus cabelos, para poder reanimá-las.
Meus olhos se arregalaram.
— E eu tentei algumas vezes em casa. — Tink deu de
ombros enquanto ele olhava para mim. — Às vezes elas saíam.
Oh meu Deus.
Aquelas malditas bonecas estavam vivas!
— Homem, eu não sei o que eu acho mais fodido sobre
hoje, — Ren murmurou.
— A Rainha, — Faye respondeu. — Essa é a coisa mais
fodida.
— O que nós vamos fazer agora? — Miles perguntou.
Ninguém respondeu.
Porque ninguém tinha nenhuma resposta. Nós passamos
esse tempo todo acreditando que nós estávamos lindando com
um príncipe psicopata, mas agora nós tínhamos que lidar com
uma Rainha e ninguém estava preparado para isso.

***

Ren pegou minha mão, me segurando nos degraus


enquanto todos os outros faziam o seu caminho para a casa
espaçosa.
— Venha aqui, — ele disse.
Eu não tive muito de uma escolha. Não que eu precisasse
de uma. Segurando a minha mão, ele me puxou contra o seu
peito e enrolou seus braços ao meu redor.
Soltando um suspiro irregular, eu fechei meus olhos e
absorvi sua proximidade e calor. Um longo momento passou
antes que ele falasse.
— Eu sinto muito. — Ren beijou a minha testa e então
cada uma das minhas pálpebras. — Eu sei como você se sentia
sobre Daniel.
Eu estremeci. — Foi por isso que ele estava me aceitando
tão bem, aquilo em que eu me transformei. Merda. Eu pensei
que fosse... — Eu não pude terminar esse pensamento. Não
neste momento. — Eu não posso acreditar. Nunca em um
milhão de anos eu teria pensado que ele se viraria contra nós.
— Eu sei. — Ele arrastou a mão para o centro das
minhas costas, passando os dedos através do meu cabelo.
— Quando isso aconteceu? Ele sempre esteve
trabalhando com a Rainha? Ele sabia que ela estava aqui ou
ela chegou nele de alguma forma?
— Nós nunca vamos saber. — O braço na minha cintura
apertou. — Mas você fez a coisa certa lá atrás.
Eu tinha
Isso não tornava nada mais fácil.
Eu engoli em seco novamente. — Quando ela agarrou
você pela garganta, eu nunca tinha tido tanto medo em minha
vida.
— Tenho que admitir, eu não estava exatamente feliz. —
Ele pausou. — Mas você não parecia estar com medo. Você foi
realmente muito fodona em sua resposta.
— Eu teria feito isso. Eu juro...
— Eu sei, — ele sussurrou. — E isso me assusta.
— Você estava muito foda por si mesmo. Socando o
Príncipe e tudo.
— Eu quis rasgar a garganta dele, Ivy.
Eu estremeci. — Ele não... ele nem mesmo tentou pará-
lo. — Lentamente, eu ergui o meu olhar para o dele. — Ele não
retaliou. O Príncipe que eu conhecia teria feito isso, Ren. Você
sabe disso.
Ren afastou o olhar, um músculo pulsando ao longo de
sua mandíbula.
— O que nós faremos? — Eu sussurrei roucamente. —
Temos ele naquela casa e uma louca e realmente poderosa
Rainha prestes a fazer sabe Deus o quê. Nem sequer sabemos
quantos membros da Ordem restaram... — Minha voz rachou.
— Isso é... isso é aterrorizante.
Ele descansou seu queixo no topo de minha cabeça. —
Nós vamos resolver isso, — ele disse depois de um momento. —
Nós temos.
Eu não via como nós poderíamos. Se não sabíamos como
derrotar um príncipe, como diabos derrotaríamos a Rainha?
A mão em meu cabelo deslizou para a minha bochecha.
Ren ergueu minha cabeça, e meus olhos se fecharam. Ele me
beijou, e foi tão gentil e suave, e de alguma forma me lembrou
que ainda havia bondade ao meu redor. Que ainda havia nós
em meio a essa bagunça.
Abrindo os meus olhos, eu me afastei e coloquei as suas
bochechas nas mãos limpando uma mancha de sangue. — É
melhor irmos lá para dentro.
—Sim. É melhor.
Nós entramos na casa, e ambos ficamos rígidos ao ver o
Príncipe. Fabian colocou uma mão em seu ombro, afastando o
homem silencioso.
— Eu não gosto disso. — Ren cruzou seus braços
enquanto Fabian conduzia seu irmão em direção a cozinha. —
Em absoluto.
— Nem eu. — Eu observei Tink zunir atrás deles. Eu não
podia acreditar que o Príncipe tinha estado no carro conosco e
agora estava nesta casa conosco Havia tanta coisa para se
preocupar. — Estamos ao menos seguros aqui?
— Eu não acredito que Daniel sabia onde vocês estavam
ficando, mas isso não significa que eles não nos encontrarão.
— Miles passou a mão sobre a sua cabeça. — Merda. O que eu
vou dizer para a esposa dele?
— Você acha que ela sabia de suas ações? — Faye
perguntou.
— Eu queria dizer que não, mas, inferno, eu nunca vi
isso vindo de Daniel. Ela podia estar nisso também. — Ombros
tensos, ele afastou o olhar. — Eu preciso fazer contato com
alguém no setor de New Orleans. Eu preciso...
Ele precisava ter certeza de que eles estavam vivos.
Deus.
Eu não conseguia pensar naqueles que eu conhecia –
aqueles de quem gostava e de possivelmente estarem mortos.
Seu eu fosse cair naquele buraco infernal, provavelmente
nunca submergiria.
Miles virou-se para mim, e por um segundo nessa noite,
eu pude ver a emoção em sua expressão. Desta vez, foi um
momento de tristeza profunda. — O que você fez lá? Com
Daniel? Você teve que fazer.
Eu pisquei e engoli em seco contra a repentina
queimação.
— Eu apenas queria que você soubesse disso. — Miles
deu de ombro com um suspiro enquanto ele olhava para Faye e
Kalen. — Somos apenas nós agora.
Kalen ergueu seu queixo. — Nós não podemos ficar muito
tempo aqui. O Príncipe pode tê-la jogado através da parede,
mas isso não a teria matado. Não teria nem mesmo tirado ela
fora do ar por muito tempo.
— A Rainha. — Faye soltou um suspiro irregular. — Eu
não acredito. Esse tempo todo era a Breena.
— Como se eu não precisasse de mais motivos para odiá-
la. — Eu esfreguei meu quadril com minha mão. — O que eu
não entendo é se Breena sempre foi a Rainha, então como eu
fui capaz de dominá-la daquela vez?
— Eu acho que você a pegou de guarda baixa. — Um
fraco sorriso agraciou os lábios de Faye, mas desapareceu
rapidamente. — Eu não acho que ela nunca esperou que você
atacasse. Eu achava era apenas a arrogância de Breena. Na
verdade, era a arrogância da Rainha.
Eu ainda não conseguia entender como nós não
sabíamos que ela era a Rainha, mas, por outro lado, como um
membro da Ordem, Ren e eu fomos criados para acreditar que
não havia cortes, príncipes, rainhas. Nós fomos levados a crer
que eles não eram nada além de poeira.
Eu comecei a andar de um lado para o outro.
— Nós precisamos abordar algo mais importante no
momento, — Ren disse. — Que diabos nós vamos fazer com
ele? Será que vamos mesmo deixá-lo andar por aí? Ele...
— Eu sei, Ren. Mas eu estou dizendo-lhe que aquele
homem lá não é o Drake – não mais. — Faye disse sentando-se
em uma das cadeiras espessamente almofadadas. — Esse é o
irmão mais velho de Fabian. O herdeiro da Corte do Verão. Na
realidade, ele deveria ser o Rei.
Eu dei um curto aceno de minha cabeça. Eu nem mesmo
sabia o que dizer sobre tudo isso. — Onde está o verdadeiro
Drake? Eu estou assumindo que ele era real, não era? Tink
viu-o uma vez no Outro Mundo.
— Ele deve ter morrido na guerra, —Kalen respondeu. —
E a Rainha Morgana colocou o irmão de Fabian em seu lugar.
— E nenhum de vocês sabia disso? — Ren exigiu.
— Nós não crescemos no Outro Mundo, — Faye disse
balançando sua cabeça. — Nós nunca vimos Drake ou o irmão
de Fabian. Nós não teríamos descoberto. Nós víamos o que a
Rainha queria que víssemos. Alguém que podia se passar por
Drake. É o quanto poderoso o encantamento dela é.
Se Tink o tinha visto no Outro Mundo antes da Grande
Guerra, então que idade Tink realmente tinha? Cara. Mas isso
não era importante. — E se for um truque?
— Você não o viu? — Faye disse correndo para beira do
assento. — Ele não é o mesmo homem que eu detestava e
temia. Ele nem mesmo revidou quando Ren atacou. Só isso já
deveria ser prova suficiente.
Eu encontrei seu olhar. — Eu não me importo se ele é do
Time dos Faes Bons agora e para sempre, ele ainda é o homem
que eu detesto e temo.
Faye pressionou os seus lábios. — Eu posso entender o
porquê. Eu realmente faço. Mas ele atacou os Cavaleiros e a
Rainha. Você tem que confiar em mim quando eu digo...
— Confiar em você? — Eu ri quando eu parei de andar
ficando diante dela. — Vocês todos mentiram para mim desde o
início. Vocês sabiam que eu ficaria presa no Outro Mundo e
vocês deixaram de me dizer isso.
— Isso é uma bagunça, — Miles entrou na conversa.
Eu disparei um olhar para ele.
— Eu estou feliz por termos retornado para esse pequeno
pedaço de merda, — a voz de Ren endureceu como pedra. —
Não há como no inferno da Ivy completar esse ritual. De jeito
nenhum.
Faye ficou tensa.
— Eu apenas quero apontar que eu não sabia sobre isso.
— Kalen ergueu sua mão. — De forma alguma.
Eu olhei para ele.
Kalen deu de ombros. — Apenas dizendo.
— Nós esperávamos encontrar uma maneira de que você
não ficasse presa, Faye começou. — Nós...
— Você esperava que vocês encontrassem uma forma de
garantir que eu não ficasse presa? Você está falando sério? O
que você acha que me aconteceria se nós completássemos o
ritual e eu ficasse presa com a versão maligna do Príncipe?
— Nós não tínhamos escolha! — Faye se levantou
rapidamente, seus olhos ferozes. — Você é a única halfling que
conhecemos, a única que é forte o bastante para completar o
ritual. Que outras opções nós tínhamos? Abrir os portais
destruiria este mundo. Eu não estou sendo dramática ao dizer
isso. Destruiria tudo.
— Sacrificar um para salvar muitos? — Eu ri duramente.
— Nós esperávamos não chegar a isso.
Ren deu um passo à frente. — Você sabe quão mal eu
quero terminar com a vida de todos vocês neste momento?
— Eu tenho certeza de que você sim, Ren, mas como é
que isso vai nos ajudar? — Miles ergueu suas sobrancelhas. —
Somos só nós. E se você não confia neles, eu entendo isso. Mas
a última maldita coisa que eu alguma vez esperei fazer foi
encontra-me ao lado dos faes e concordando com eles.
— Você concorda com eles sobre o Príncipe? — Eu girei
para Miles. — Sério?
— Nós vamos precisar dele, não vamos? — Miles
encontrou meu olhar e então o de Ren.
— Se ele realmente não é Drake e ele é o irmão do outro
grande cara loiro, então nós vamos precisar de ambos para
derrotá-la, porque o que eu vi lá – o que eu vi ela ser capaz de
fazer - não é nada como eu já vi.
Eu dei um passo para trás surpresa.
— Então o que nós faremos? — Faye se sentou. — A
Rainha está aqui. Você tem alguma ideia do que isso significa
para os mortais e faes vivos?
— Oh, eu estou imaginando que o usual banho de
sangue está reservado para todos, — eu rebati.
— Eu sei o que nós precisamos fazer.
Nós todos viramos ao som da voz. Era ele. O Príncipe.
Formalmente conhecido como Drake, atualmente ainda o cara
que ocupa o primeiro lugar na minha lista de assassinatos.
O sangue tinha sido lavado do seu rosto e seu agora
cabelo loiro estava úmido e puxado para fora de seu rosto. —
Nós precisamos parar a Rainha.

Capítulo 32

Meu coração começou a bater forte enquanto eu olhava


para o Príncipe. Eu podia sentir a tensão saindo de Ren, mas
não era nada comparado a profusão de emoções que
atualmente travavam uma batalha dentro de mim.
Atrás dele estavam Fabian e Tink, que não estava mais
na pequena forma de Tink. Ele estava grande e, graças a Deus,
vestido.
— Vocês querem saber o que nós precisamos fazer, — ele
disse, sua voz agora mais como eu me lembrava. Profunda.
Estranhamente acentuada. Eu queria vomitar. — Nós devemos
pará-la.
— Não brinca, — eu cortei, e sua sobrancelha esquerda
se ergueu levemente. — Não há “nós” em nada disso.
Fabian exalou bruscamente. — Ele está...
O Príncipe ergueu sua mão para silenciar seu irmão. —
Ela tem todo o direito de estar zangada. De me odiar. Assim
como ele.
— Fico feliz que nós estamos na mesma página, — Ren
grunhiu, sua mandíbula tensa. — Está literalmente exigindo
cada grama do meu autocontrole não pegar essa estaca e enfiá-
la através do seu fodido olho.
Eu suguei uma respiração afiada quando meu olhar
disparou de Ren para o Príncipe. O rosto do último estava
impassível, de tal modo que Miles tinha que ter ficado
impressionado com a total falta de emoção.
— E eu não te impediria.
Surpresa disparou através de mim. O Príncipe não podia
estar falando sério. Não havia forma que ele ficasse ali parado e
deixasse Ren matá-lo.
— Sério? — Ren deu um passo à frente. — Vamos tentar
isso.
Fabian ficou rígido, mas foi Tink quem falou. — Caras, eu
entendi que você deseja esfaquear e estaquear até matá-lo, mas
você realmente precisa deixar isso para lá.
Eu o encarei. — Fácil para você dizer isso.
— Realmente isso não é fácil. — Tink encontrou meu
olhar. — Eu sei o que ele fez a você, mas quem ele é agora não
é o Príncipe que você conheceu.
Minha respiração ficou presa. — Não há como eu confiar
em nada do que ele tem para dizer. Enfeitiçado ou não, ele é o
Príncipe. Ele me manteve...
— Eu seu o que eu fiz a você. Desde o momento em que
eu vi você no corredor até depois que o encanto foi quebrado,
eu lembrei-me. Eu fecho meus olhos e eu vejo isso. Quando
estou em silêncio, eu ouço você...
— Isso é o bastante, — a voz de Ren foi um aviso baixo.
Seu olhar deslizou de mim para Ren. — Eu lembro o que
eu fiz a você, de como eu me transformei em vo...
— Sério. Você tem um desejo de morte? — As minhas
mãos estavam tremendo, por isso eu as apertei.
— Talvez, — ele murmurou e eu pisquei. — O que a
Rainha queria não é o que eu queria. Nunca foi. Eu não tenho
a intenção de seguir com o plano dela.
— Então você não quer me engravidar agora?
Sua mandíbula endureceu. — Sem ofensa, mas não.
Eu ergui minhas sobrancelhas. — Aliviada.
— Eu sei que não há quase nada que eu faça que fará
você acreditar em mim...
— Na verdade, há. — Uma ideia me ocorreu naquele
momento. — Como nós enfraquecemos um príncipe o bastante
para ser morto?
— Você tem...
— Irmão. — Fabian agarrou o ombro do seu irmão. — Se
você lhes contar, eles usariam isso contra você – contra nós.
— É um risco que devemos suportar, — o Príncipe
replicou sacudindo a mão do seu irmão. — Há duas formas de
nos enfraquecer. Se nossa mágica for virada contra nós, isso
pode nos machucar severamente, levando meses para nos
curarmos. E há que é bastante venenoso para nós se tocar na
nossa pele. Pior se invadir a nossa corrente sanguínea. E vocês
três carregam consigo.
— O quê? — Miles deu um passo à frente.
— Um trevo de quatro folhas, — o Príncipe respondeu, e
Fabian fechou os olhos. — Não é apenas venenoso para nós,
mas para os Cavaleiros e outros Anciãos.
Minha boca se abriu enquanto a minha mão subia para a
corrente ao redor do meu pescoço. O trevo revestido era como
parte do meu corpo, tal como uma parte de mim que eu nem
mesmo pensava sobre isso. — Você está falando sério?
Ele assentiu. — A maioria de vocês já carrega a nossa
maior fraqueza. Usem isso e a estaca de espinhos, e nós não
seremos tão difíceis de matar.
Apertando a parte de seu pescoço, Fabian afastou o
olhar.
— E a Rainha? — Kalen perguntou, falando pela primeira
vez desde que o Príncipe tinha o príncipe entrado. —
Enfraqueceria uma Rainha?
— Enfraqueceria. Normalmente. A Rainha Morgana
desenvolveu uma tolerância a isso ao longo do tempo. Não a
afetará.
— É claro que não, — eu murmurei cruzando meus
braços enquanto eu encarava Ren.
Ele ainda estava segurando a estaca de espinhos e ele
não tinha desviado o olhar do Príncipe. Nenhuma vez. Eu não
podia dizer como ele se sentia sobre nada disso, além da raiva
assassina claramente gravada em seu rosto.
— Qual é o plano da Rainha? —Faye perguntou
calmamente enquanto eu ainda estava presa sobre o fato de
que meu trevo de quatro folhas poderia enfraquecer os malditos
Anciãos e os Príncipe esse tempo inteiro.
— Ela ainda deve quer abrir os portais, certo? — Miles se
sentou no braço do sofá próximo.
— Ela não pode sem um príncipe disposto a cumprir as
suas demandas.
— E se ela encontrar um macho halfling e se envolver
tcheca-tcheca na butcheca? — Tink perguntou.
— A profecia nunca mencionou o que aconteceria se uma
Rainha ou Rei procriasse com um halfling, mas eu imagino que
funcionaria, — o Príncipe disse.
Fabian nos encarou. — Teria o mesmo efeito. Um Rei ou
Rainha não é deste mundo, assim como um halfling e uma
criança de tal união. Desfaria os selos.
Eu exalei asperamente. — Agora nós temos que nos
preocupar sobre a Rainha encontrar alguém e ficar grávida?
— Morgana não pode conceber, — o Príncipe respondeu.
— E como você sabe disso? — Ren desafiou.
— Não. Ele está certo. — Esperança brilhou nos olhos de
Faye. — Lembra? Eu disse isso a vocês.
Ela tinha dito. No dia em que eu conheci Fabian.
— A lenda que nos foi ensinada era que Morgana tinha
cometido um grande crime e para escapar de ter seus poderes
despojados, ela desistiu da sua capacidade de criar vida.
— Isso parece com um romance de fantasia muito ruim,
— Ren murmurou, e eu pisquei lentamente.
Tudo sobre isso soava dessa forma, mas isso não era
nada novo.
— Qual foi o grande crime que ela cometeu? — Tink
perguntou com interesse.
A mandíbula do Príncipe endureceu e o brilho em seus
olhos espelhava o que Ren estava emitindo. Eu tinha uma
suspeita de que qualquer que fosse a coisa que a Rainha tinha
feito, tinha envolvido o Príncipe.
— O que ela fará agora? — Eu perguntei, nos
assegurando de permanecer no tópico. — Eu duvido que ela
simplesmente vá chutar o balde e se esconder.
— Se seu plano original falhasse, ela tinha um reserva, —
o Príncipe explicou. — Ela voltaria para o Outro Mundo, e nós
devemos que detê-la.
Meus lábios se separaram enquanto eu o encarava. Não
havia forma que eu tivesse ouvido isso direito.
— Se ela voltar para o Outro Mundo, então por que nós a
impediríamos? — Kalen franziu o cenho.
— Você não entende, — Fabian falou. — Ela tem o
Cristal. Se ela o levar de volta para o Outro Mundo com ela, ela
será capaz de reabrir os portais a qualquer hora pelo seu lado.
— Ela retornará com qualquer exército que ela possa
reunir e há... criaturas em nosso mundo que causariam um
tipo de destruição que nenhum mortal jamais viu, — o Príncipe
exclamou. — Por puro despeito e vingança, ela devastaria
cidades. Milhões de pessoas morreriam.
— Espera. — Ren franziu a testa. — Os portais foram
selados...
— Eles foram quando nós atravessamos, eles não foram?
— O Príncipe encontrou seu olhar. — Eles podem ser reabertos
de novo. Não apenas os Anciões estão dispostos a terminar as
suas vidas para abrirem os portais mais uma vez, ela não
precisaria deles. Ela poderia reabrir os portais com o Cristal.
Eu lembrei quando ele atravessou. Essa era uma noite
que eu nunca esqueceria.
— Se ela sempre foi capaz de abrir os portais para o
Outro Mundo, então por que ela não fez antes? Por que não
apenas atravessar o seu exército ao invés de tentar engravidar
uma halfling?
— Porque ela apenas pode atravessar o portal por onde
veio, — ele disse. — E com o Cristal, ela não precisará esperar
até o Solstício de Inverno. O Cristal é forte o bastante para
abrir quaisquer portais.
Meus ombros tensionaram. Quase todos os portais do
Outro Mundo foram destruídos pelos brownies – todos, exceto o
de New Orleans. O bebê do apocalipse teria aberto todos os
portais, se eles estivessem destruídos ou não.
— Ela sabe que abrir todos os portais teria um impacto
maior do que apenas um. A Ordem não seria capaz de parar o
que quer cruzasse por todos aqueles portais ao mesmo tempo.
O Príncipe assentiu.
Entendimento penetrou na expressão de Ren. — Ela vai
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tentar atravessar os portais da casa ao lado da LaLaurie .
— Nós precisamos voltar lá antes dela. — O olhar do
Príncipe passou rapidamente sobre nós. — Nós temos que
matá-la. Se não o fizermos, ela levará o Cristal com ela e ela
voltará mais forte do que antes.
— E provavelmente muito mais chateada, — Tink
adivinhou.
— Como nós mataremos a Rainha? Você mesmo disse
que ela não pode ser enfraquecida pelos trevos, — Miles disse.
— Ela terá o que resta dos Cavaleiros com ela, mas se
vocês lidarem com eles, meu irmão e eu cuidaremos da Rainha.
Eu abri minha boca para interromper.
— Entre nós dois, nós devemos ser capazes de eliminá-la.
— Fabian ergueu seu queixo. — Ela é a mais poderosa da
nossa espécie, mas ela não é imparável. Não se nós
trabalharmos todos juntos.
Erguendo o olhar para Ren, eu encontrei os seus olhos.
Eu exalei lentamente. Embora ele tivesse nos dito o que o
enfraqueceria, confiar nele ainda era um grande risco.
— Vocês não têm nenhuma razão para confiar em mim e
eu não culpo vocês por isso, — o Príncipe disse, parecendo ler
meus pensamentos. — Mas vocês não têm outra opção.
E ele estava certo.
Nós não tínhamos outra opção senão confiar nele.

***
Nós íamos partir para New Orleans imediatamente, por
isso Ren e eu voltamos para o quarto onde passamos a noite
para pegar as nossas malas.
Ele fechou a porta atrás de nós. — Eu não gosto disso.
Não gosto nada disso.
Eu suspirei cansada, empurrando uma mecha do meu
cabelo para fora do meu rosto. Isso caiu de volta um segundo
depois. — Eu também.
— Mas aquele bastardo está certo. — Ele cruzou o
quarto, agarrando uma das minhas bolsas, praticamente
arrancando o zíper para abri-la. — Nós não podemos deixar a
Rainha levar o Cristal de volta para o Outro Mundo.
Ren estava certo.
No momento, Faye estava entrando em contato com
Tanner, informando-o sobre o que tinha acontecido e o que nós
tínhamos descoberto. Eles estavam nos esperando – todos nós
– retornarmos a New Orleans.
Nenhum de nós tinha certeza de quem poderia ser
contatado no setor de New Orleans que não estivesse
trabalhando para a Rainha, por isso, desta vez, nós não
entraríamos em contato com eles.
Eu acho que nenhum de nós estava confortável com nada
disso, mas, como o Príncipe disse, nós não tínhamos outra
opção senão continuar a percorrer o caminho em que
estávamos.
Eu mordi o meu lábio inferior. — Eu apenas...
Empurrando a camisa que ele usou no dia anterior
dentro da bolsa, Ren olhou por cima do seu ombro para mim.
O que quer que ele deve ter visto em meu rosto fez ele parar e
encarar-me. Um longo momento passou e então ele perguntou:
— Onde você está, Ivy?
Eu sabia o que aquela pergunta significava, e eu não
sabia como respondê-la. Andando até a cama, eu me sentei. —
Eu já não sei mais nada. — Eu lentamente balancei a minha
cabeça. — Cada vez que eu penso que sei alguma coisa – cada
vez que eu penso que eu tenho controle sobre o que está
acontecendo, tudo muda. Tudo.
Ren ficou em silêncio enquanto me observava.
Eu ergui minhas mãos, impotente. — Ele está no fim do
corredor. O Príncipe, mas... ele já não é mais ele. Pelo menos é
assim que parece. Mas o que nós sabemos? Poderia ser outra
armadilha. Olhe para Daniel. Nunca em um milhão de anos eu
teria acreditado por um segundo que ele seria capaz de nos
trair. Mas ele traiu. Então, o que nós sabemos? Poderia...
— Eu não acho que é uma armadilha, — ele disse, me
surpreendendo. Ren se ajoelhou na minha frente, colocando as
suas mãos em meus joelhos. — Eu não me importo se esse
bastardo não tinha ideia do que ele estava fazendo enquanto
ele estava sob o encantamento. Isso não quer dizer que eu não
acredito nele, mas eu não posso olhar para ele e não ver o que
ele te fez, o que ele queria fazer contigo. Não importa que foi a
Rainha o controlando. Eu prefiro enfiar uma estaca no peito
dele do que trabalhar com ele.
— Idem, — eu murmurei.
— Mas eu... porra, não acredito que eu vou dizer isso,
mas eu acredito nele – acredito no que ele disse sobre a
Rainha. Eu não sei o que diabos é a história deles, mas é
evidente que ele a odeia tanto quanto nós o odiamos.
Aquela última parte trouxe um sorriso irônico aos meus
lábios.
— Eu ainda não gosto dele, mas se nós vamos parar a
Rainha, nós precisamos dele, e nós precisamos de Fabian. —
Ele apertou os meus joelhos. — Mas nós temos uma escolha.
— Como? Como é que temos qualquer outra opção?
Aqueles impressionantes olhos esmeraldas encontraram-
se e seguraram os meus. — Nós partimos.
No começo, eu achei que não o tinha ouvido bem. — O
quê?
— Nós partimos, Doçura. Nós damos o fora daqui, não
dizemos a ninguém o que vamos fazer, e vamos para o mais
longe possível. Nós podemos até trazer Tink, se ele quiser ir. —
Um lado de seus lábios se ergueu. — Nós poderíamos viajar,
ver o mundo antes que inevitavelmente a merda chegue. Nós
poderíamos viver. Nós demos anos das nossas vidas para a
Ordem, para os nossos deveres. Nós não temos que dar-lhes
mais nenhum segundo.
Minha respiração ficou presa em minha garganta quando
um desejo selvagem ganhou vida dentro de mim. Nós
poderíamos fazer isso? Nós seríamos procurados pela Ordem,
mas afinal o que restava da Ordem? Muitos estavam mortos, e
o resto nem sequer sabíamos se poderíamos confiar. Será que
eles viriam à nossa procura enquanto a merda batia no
ventilador e se espalhava por toda parte? Provavelmente não.
Nós poderíamos viver – vidas normais até que nós tivéssemos
que encarrar o que aconteceria com o mundo.
— Nós temos uma escolha, Ivy. — Seu olhar não vacilou.
— O que você quiser fazer, eu estou com você. Cem por cento.
O ar se alojou em minha garganta. Era quase muito fácil
dizer sim, porque dizer sim seria melhor. Eu não tinha que me
preocupar sobre Ren ficar machucado ou morrer, porque não
havia maneira de enfrentarmos a Rainha e de não perdermos
alguém. Era estatisticamente impossível. Eu poderia fazer Tink
vir conosco. Nós estaríamos seguros e felizes, pelo menos por
um tempo.
Se eu fechasse os meus olhos, eu poderia quase nos ver –
os três viajando o mundo, visitando lugares que nós nunca
tivemos a chance de visitar. Nós não nos preocuparíamos sobre
parar a Rainha ou se nós poderíamos confiar no Príncipe.
Como Ren tinha dito, nós viveríamos tanto quanto nós
conseguíssemos.
Mas eu... eu não podia dizer sim.
As palavras nem mesmo se formaram na ponta da minha
língua. Não era sobre dever. Nem sequer se tratava de viver
vidas normais. Eu não tinha isso em mim, me afastar quando
eu sabia o que estava acontecendo – o que ia acontecer, e eu
sabia que Ren apenas faria isso por mim, se eu escolhesse me
afastar.
— Eu não posso, — eu sussurrei. — Eu não posso me
afastar. Eu sinto muito.
— Eu não pensei que você iria. — Levantando-se, ele
segurou as minhas bochechas. — Você é muito corajosa para
fugir e se esconder, mas nós temos essa escolha e nós temos a
escolha de ficar e lutar e chutar traseiros.
— Sim, nós temos.

Capítulo 33

Nós chegamos em New Orleans no início da manhã de


quarta-feira, tendo dirigido direto, parando apenas para
abastecer e fazer uma refeição rápida. Eu não sabia como
adormeci naquele carro, sentada entre Miles e Ren, mas eu
tinha a metade do meu tronco no colo de Ren. Ele adormeceu
também, com a cabeça contra a janela e a mão no meu quadril.
Quando acordei, encontrei Tink torcido no banco olhando para
mim.
— Oi, — ele sussurrou.
— Ei. — Eu sentei-me, acordando Ren enquanto eu
esfregava uma mão sobre o rosto. — Você estava me
observando dormir?
— Talvez.
Ren levantou seu braço para longe de mim enquanto ele
esticava o pescoço. — Você é uma aberração.
— Eu sou. — Tink riu. — Nós já chegamos, a propósito.
Apenas estacionando agora.
Eu olhei para Miles e vi que ele estava encarando o que
parecia ser um prédio abandonando.
— Eles me disseram que era um glamour poderoso, — ele
disse, sua voz rouca. — Eu não posso acreditar que isso esteve
aqui o tempo todo e eu não tinha ideia.
— Mais o menos como eu me senti. — Eu bocejei. —
Espera só até você ver o interior.
O SUV parou e as portas foram abertas. Fabian virou-se
em direção a Miles antes que ele descesse. — Está sendo
confiado a você algo que muitas poucas pessoas sabem. Você
trai os faes daqui, e eu pessoalmente terei certeza de que você
deseje estar morto.
Miles ergueu o olhar para Fabian. — Eu não tenho desejo
de trair estes faes se eles são o que você diz que eles são.
— Você verá que eu não menti.
Eu resisti a urgência de apontar que ele poderia não estar
mentindo sobre este lugar, mas os faes daqui ainda eram muito
mentirosos.
Fabian estudou Miles por um momento e então deu um
passo para fora do SUV. Sair do carro, depois de ficar sentada
por tantas horas foi doloroso enquanto todos saiam e eu
afastava as câimbras em meus músculos.
O glamour do edifício ainda estava intacto quando a
porta enferrujada se abriu. Nós corremos para dentro, saindo
da noite escura. Miles tinha a mesma expressão em seu rosto
que eu tinha na primeira vez que eu vi o poderoso glamour
desaparecer, revelando o luxuoso hotel em seu interior.
— Jesus, — ele murmurou, esfregando uma mão em seu
rosto enquanto ele absorvia o grande lobby.
— É muito para absorver, não é? — Eu virei para ele. —
E você não tinha ideia que os faes trabalharam com a Ordem
em algum momento?
— Eu ouvi as histórias, mas eu pensei que elas eram
rumores. Eu não acreditei que havia faes que não se
alimentavam. Apenas não achei que... — Ele parou de falar
quando ele viu Tanner se aproximar de nós.
E eu sabia o porquê ele tinha ficado em silêncio. Tanner
era a prova viva dos faes que não se alimentavam, atrás dele
estava Brighton e sua mãe.
— Merle? — Miles abaixou a mão enquanto ele encarava
a mulher.
— Parece que você viu um fantasma que atravessou seu
túmulo. — Merle ergueu suas sobrancelhas, e sua filha parecia
tomar uma respiração profunda. O cabelo de Brighton estava
solto, e foi provavelmente a primeira vez que eu tinha visto ela
usá-lo desta forma. Caía em ondas suaves e cachos soltos,
alcançando o meio das suas costas. Ela deu um pequeno
sorriso para Ren e eu.
Miles ficou boquiaberto para ela. — Você sabia sobre
isso?
— Ela já sabe há algum tempo. — Tanner parou em
frente a Miles, estendendo a mão. — Eu sou Tanner.
— Miles. — Um momento parrou e então ele balançou a
mão de Tanner. — Hum, prazer em conhecê-lo.
Tanner começou a responder, mas seu olhar mudou para
trás de nós. Ele soltou a mão se Miles e deu um passo para
trás. — Fabian? Esse é...?
— Sim. — Fabian ficou ao lado de Tink. — Este é meu
irmão.
Tanner empalideceu enquanto dava um passo ao redor de
Kalen e Faye, seus olhos arregalados e cheios de admiração. —
Nosso Rei.
— Rei? — Ren abaixou o olhar para mim, e eu dei de
ombros.
O Príncipe não demonstrou nenhuma resposta quando
Tanner se curvou diante dele. — É uma honra, — Tanner disse.
Eu fiquei esperando que ele beijasse a mão do Príncipe.
— Isso é estranho, — eu sussurrei para Ren.
— Tudo é estranho.
O Príncipe olhou para nós e então falou. — Nós devemos
começar a planejar.
— É claro. — Tanner se endireitou. — Por favor, venham
por aqui. Nós temos bebidas prontas.
Eu arquei uma sobrancelha quando Tanner girou em
seus calcanhares.
Merle olhou o Príncipe com repugnância e uma forte dose
de desconfiança. — Um encantamento, — ela murmurou. —
Tão clichê.
O olhar frio do Príncipe cintilou sobre ela. — Concordo.
Merle fez uma careta enquanto ela o olhava.
Seguindo Tanner, o Príncipe passou por Brighton. Eu
soube que ele tinha olhado em sua direção com base na
largura dos olhos dela e como ela deu um passo para trás,
colidindo com a parede.
Pobre Brighton.
Terminamos todos em uma grande sala de reuniões, e
havia bebidas. Café. Suco. Bagels. Frutas. Um maldito buffet
inteiro de frios. Eu não recebi esse tratamento quando eu
apareci.
Tanto faz.
Sentando-me no sofá, eu estendi as minhas pernas e
inclinei-me na almofada grossa. — Então, você sabe o que
estava acontecendo? — eu perguntei quando Tink se sentou no
braço ao meu lado.
Tanner assentiu enquanto ele se sentava na poltrona na
nossa frente. — Eu sinto muito em ouvir sobre a traição do seu
líder.
Mordendo o meu lábio inferior, eu suspirei através
daquela picada. — Assim como nós.
Ren se sentou perto de mim, sua perna pressionada
contra a minha. — E nós lamentamos muito também em ouvir
que você sabia que Ivy ficaria presa no Outro Mundo se ela
completasse o ritual.
As bochechas de Tanner se coloriram profundamente. —
Como eu tenho certeza de que Faye explicou, nós esperávamos
encontrar uma forma de contornar isso.
— Certo, — eu murmurei. Não era que eu não acreditasse
neles. Eu apenas não acreditava que havia uma forma, e eles
provavelmente sabiam disso lá no fundo. Eu era a
personificação viva do sacrifício de poucos para salvar muitos.
Eu poderia entender isso. Não quer dizer que eu estava de
acordo com isso.
— Não importa agora, não é? — Merle disse, virando-se
com uma xícara de café em suas mãos. Eu olhei ao redor, não
vendo Brighton. — Nosso Príncipe já não está interessado em
colocar uma semente em sua barriga.
Eu gemi, afundando ainda mais no sofá enquanto Tink
ria baixinho. Ren, no entanto, não achou o comentário tão
divertido.
Nem o Príncipe. — Não. Em vez disso, nós temos um
poderosa Rainha que é quase impossível de matar e não temos
quase tempo suficiente para planejar e preparar-nos para sua
tentativa de abrir o portal.
Merle sorriu para o Príncipe. — Ah, sim, isso é um
problema, mas não tão ruim quanto todos os portais se
abrirem ao mesmo tempo.
Ren suspirou. — Ambos soam tão terríveis. Nós todos
podermos concordar com isso. Quando você acha que ela
chegará aqui?
O Príncipe não se sentou ou comeu. Ele ficou em pé atrás
da cadeira em que Fabian estava sentado com os braços
cruzados. — Ela provavelmente chegará aqui esta noite. Ela
não vai perder tempo, não quando ela sabe que vai enfrentar
tanto Fabian quanto eu.
Eu exalei bruscamente. — Então, nós temos o quê? Doze
horas, mais ou menos?
— Isso estaria correto. Não demorará muito.
Ren ficou em pé. — Então nós precisamos nos preparar.
Descansar tanto quando nós pudermos. Todos nós.
— E então o quê? — Tink perguntou.
— Eu verei quem ainda sobrou da Ordem em que
possamos confiar, — Miles falou de onde ele estava em pé ao
lado do buffet de comida que ninguém estava tocando. — Eu
espero que ainda tenham restado alguns.
Eu lembrei do rosto de Dylan quando Val nos traiu. Eu
esperava que ele não tivesse cruzado para o lado negro, mas
nem mesmo sabia se ele ainda estava vivo. Ou se Jackie estava
ou qualquer dos outros membros da Ordem que eu conhecia.
— Você terá os nossos guerreiros mais habilidosos, —
Tanner disse. — Alguns já estão no portal. Ela não apareceu
ainda, mas eles estão lá e eles estão prontos.
— E vocês me têm, — Tink entrou na conversa.
Eu abri minha boca, mas Fabian me venceu. — Você deve
ficar para trás.
Minhas sobrancelhas se elevaram. — Pela primeira vez,
eu concordo com você.
Tink disparou do braço do sofá. — Isso é besteira. Eu
posso ajudar.
— Eu sei que você pode, mas se a Rainha de alguma
conseguisse pegar você e for capaz de controlá-lo, não haveria
esperança. — Fabian se levantou. — Nós precisamos que você
fique tão longe dela quanto possível. Nós também precisamos
de você aqui. É assim que você nos ajuda.
— Vocês sabem que eu posso ajudar. Vocês sabem quão
forte e poderoso eu sou. — A mandíbula de Tink ficou tão dura
quanto granito, mas pela primeira vez eu mantive a boca
fechada.
— A Rainha foi capaz de me controlar porque eu fui ferido
na batalha. Eu fiquei enfraquecido e ela se aproveitou disso. —
A voz do Príncipe estava pesada quando ele falou. — E, por
causa disso, eu me transformei em um monstro. Ela faria o
mesmo com você. Ela sabe o que significaria ter um brownie
sob o seu controle. Nós não podemos arriscar isso. Você não
pode.
Cruzando seus braços, Tink ficou em silêncio.
— Tink, — eu disse inclinando-me para frente.
Ele não se moveu por um momento e então ele virou para
mim. — Eu sei eu você quer que eu fique para trás.
— Eu quero. Nós precisamos de você. — Eu encontrei seu
olhar zangado. — Porque, se nós falharmos, precisaremos de
alguém para proteger os faes daqui. Eles serão a única coisa
que restará entre a Rainha e ela destruindo o mundo com o seu
exército. Você será a nossa última esperança.
Tink me encarou. — Como Obi-Wan?
Meus lábios se contraíram. — Sim, como ele.
Tanner girou em sua cadeira para que ele pudesse ver
Tink. — Você vai nos defender. Nós precisamos de você aqui.
Seu peito estufou. — Eu... eu farei isso. Eu terei certeza
de que nada aconteça aos que estão aqui. — Ele disparou para
meu lado e se ajoelhou para que ficássemos com o olhar
nivelado. — Mas você voltará. Todos vocês. — Ele esboçou um
sorriso em direção a Ren. — Mesmo ele.
— Nós voltaremos, — eu disse, fazendo uma promessa
que eu ia fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para
mantê-la. — Nós retornaremos.

***

Eu fechei a porta atrás de nós e me inclinei contra ela


enquanto Ren caminhava até a cômoda, desembainhando as
adagas ao longo do seu quadril. Eu fiquei quieta enquanto
observava ele, mas meu coração estava batendo forte.
Eu amava esse homem.
Eu o amava porque ele me perseguiu quando eu fugi. Eu
o amava porque ele nunca desistiu de mim, nem quando eu
estava sendo mantida prisioneira e nem quando eu me fechei
em mim mesma, excluindo todo mundo. Eu o amava porque ele
era um bom homem, e se eu quisesse dizer “que se dane tudo e
vamos sair agora mesmo”, ele estaria ali comigo. Eu o amava
porque eu sabia que ele estaria em pé perto de mim mais tarde,
pronto para lutar ao meu lado.
Eu simplesmente o amava.
Quando ele terminou de descarregar o que era um
número alarmante de armas para qualquer outra pessoa, ele
virou-se para mim.
Nós precisávamos dormir o dia todo.
Nós tínhamos que fazê-lo, porque nós precisávamos estar
bem descansados para o que nós iríamos encarar esta noite.
Nenhum de nós falou quando nossos olhares colidiram e
se conectaram. Não houve palavras. Não precisava haver. A
intenção encheu aqueles olhos verdes-musgos. Minha
respiração ficou presa quando uma emoção crua inchou a
minha garganta. Afastando-me da porta, eu caminhei na
direção dele.
Ren agarrou os meus quadris, erguendo-me do chão. Eu
enrolei minhas pernas ao redor da sua cintura. Suas mãos
fortes agarraram o meu traseiro enquanto ele trazia os meus
lábios para os dele. Houve uma qualidade selvagem e fora de
controle na forma como ele me beijou. Era carente e exigente,
de tirar o fôlego e desesperado enquanto ele me balançava
contra os seus quadris. Eu gemi em seu beijo enquanto eu
agarrava a sua camiseta, querendo ela fora e querendo-a fora
agora.
Ren me colocou no chão, inclinando ligeiramente
enquanto eu tirava a sua camiseta. Eu agarrei a sua calça, e
ele me ajudou chutando seus sapatos e tirando a calça e cueca
em tempo recorde.
— Nua, — ele grunhiu. — Agora.
Eu estremeci e depois fiz como ele ordenou, tirando as
minhas roupas. Ele ficou impaciente, ajudando com os sapatos
e calça, e em poucos minutos, eu estava nua e de costas, a
boca de Ren se movendo sobre a minha mais uma vez. Seu
comprimento duro balançando contra mim, e eu apertei os
seus ombros gemendo quando ele beliscou o meu queixo e o
lado do meu pescoço.
O que nós fizemos naqueles momentos...
Foi rápido e duro e bonito. Ele estava sobre mim e então
dentro de mim. Eu arqueei contra ele, latejando e doendo
enquanto ele assumia o completo controle. Luxúria e algo mais
poderoso me consumiu enquanto seus quadris se moviam
contra mim, fundo e lento no início.
Sua contenção se quebrou e ele começou a empurrar
mais fundo, mais forte e eu nunca me senti mais cheia, mais
desesperada por mais à medida que nossos corpos se moviam
freneticamente. Cada mergulho mais fundo e duro aumentou a
intensidade até chegar a um ritmo febril. Minhas pernas
apertaram ao redor dele, e então aquele sentimento requintado
dentro de mim se espiralou e se enrolou. Minha cabeça girou
enquanto ele se movia mais rápido, apertando seus quadris
contra os meus enquanto ele agarrava meu queixo, mantendo
minha boca na sua.
E então eu me despedacei, estilhaçando-me em milhares
de pequenos pedaços enquanto eu gritava em seu beijo. Jogada
tão alta pelas numerosas ondas de prazer, eu não achava que
eu pudesse aguentar mais, mas eu fiz. Mais e mais quando ele
se ajoelhou e me ergueu, me conduzindo com um abandono tão
imprudente que eu pensei que morreria. Enrolando um braço
ao redor da minha cintura, ele me ergueu em meus joelhos e
para seus lábios. Ele empurrou mais uma vez quando seus
braços se enrolaram ao meu redor, selando meu corpo com o
seu enquanto ele gozava, seu corpo grande estremecendo.
Meus músculos ficaram moles e inúteis quando ele me
abaixou, por isso eu estava meio espalhada em seu peito, e em
seguida nenhum de nós se moveu por um longo tempo
enquanto lutávamos para controlar a respiração.
Fui eu quem quebrou o silêncio. — Isso foi...
Seu peito ergueu com uma respiração pesada. — Eu sei.
Eu beijei a pele lisa do seu peito enquanto eu fechava os
meus olhos, me aconchegando nele.
— Ivy?
— Humm?
— Hoje à noite – assim que a Rainha se for? Eu quero
voltar para a minha casa. Eu quero que nós durmamos em
minha cama. Eu quero acordar amanhã na minha cama com
você.
Eu sorri, embora o meu estômago estivesse cheio de nós,
afugentando a felicidade lânguida. Planejar para mais tarde era
incrível, mas era também assustador como o inferno. — Eu
gostaria disso.
— Sim?
— Simm.
Ren puxou-me para mais perto do seu lado. — Bom.
Eu tentei sorrir de novo, mas eu não conseguia. Não
quando bolas de pavor e desconforto estavam se acumulando
em meu estômago. Nós teríamos uma esta noite?
Nós teríamos um amanhã?

***

Depois de dormir a maior parte do dia e descansar o


máximo possível, nossa equipe, menos Tink, chegou à casa ao
24
lado da infame LaLaurie Mansion pouco depois das sete. Nós
subimos a Royal, porque não havia forma que o SUV
conseguisse passar pela estreita rua sem extirpar os turistas.
Energia nervosa me enchia, algo que eu senti muitas
vezes antes, mas, desta vez, havia uma razão de qualidade
distinta. Saber que nós estávamos prestes a encarar a mais
perigosa fae conhecida trouxe um mundo inteiro de clareza
gritante.
Tudo mudou desde a última vez que eu caminhei na
Royal, mas, de certo modo, nada mudou. Eu ainda era a
mesma Ivy que andou por esta rua e entrou na casa há todas
aquelas semanas, preparada para lutar e morrer para proteger
a cidade. Eu ainda era ela. Sim, eu carregava uma pouco mais
de bagagem comigo. Sim, tinham mentido para mim e me
traído, mas eu estava mais forte. Eu estava mais preparada, e
eu estava pronta para proteger esta cidade de novo.
Pisar na calçada da Royal era como... Deus, era como se
finalmente tivesse voltado para casa. Tinha sido um longo
tempo desde que eu caminhei por estas ruas. Muito longo. Eu
olhei para a rua abaixo, observando as velhas construções e
calçadas lotadas de turistas e locais, e eu ouvi os risos e gritos,
buzinas e sirenes estridentes.
Casa.
Este era o lar – minha casa, nossa casa. Eu não deixaria
alguma Rainha Cadela trazer algum tipo de exército através
dos portais, destruindo esta cidade. Inferno não. A resolução
me encheu.
— Eu serei amaldiçoada se deixá-la vencer.
— O quê? — Ren perguntou, pisando no meio-fio.
Virando-me para ele, com um pequeno sorriso. — Apenas
pensando alto.
Ele me lançou um longo olhar enquanto os irmãos
passavam por nós. Pessoas paravam e os encaravam enquanto
eles viraram a esquina que costumava ser chamada de Hospital
25
Street . Não podia culpá-los. Os dois tinham mais de um
metro e oitenta de altura e pareciam conquistadores Vikings.
Faye e Kalen nos seguiam enquanto nós seguíamos atrás
dos irmãos. A casa era tão assustadora e degradada quanto eu
me lembrava, mas um fae do Verão estava em pé do lado de
fora desta vez, guardando a construção.
Isso era diferente.
Dias estranhos.
Entrando, não houve como reprimir o estremecimento
que o lugar sempre trouxe, mesmo com as salas cheias de
pessoas. Miles já estava lá, assim como vários membros da
Ordem.
Tão aliviada por ver Jackie, eu disparei para frente e dei-
lhe um rápido abraço. Obviamente surpreendendo-a porque
levou um momento para ela retornar o gesto.
Eu virei-me e olhei para Dylan. Ele deu um passo para
trás, e eu sabia que ele não ia aceitar a coisa do abraço. — Eu
realmente estou contente em ver vocês dois.
Jackie olhou-me intensamente enquanto Dylan encarava
as minhas orelhas. — O que aconteceu com você, Ivy?
— Longa história, — eu disse, ciente de que Ren estava
nos observando e definitivamente nos ouvindo. — Mas eu não
sou...
— Má? — Jackie sugeriu. — Halfling ou não, você sempre
foi um pouco má.
— Nenhuma palavra mais verdadeira alguma vez foi dita,
— Dylan disse.
Meus lábios torceram-se em um pequeno sorriso. —
Verdade.
— Realmente fodido sobre Daniel, no entanto, — Jackie
balançou sua cabeça. — Eu não teria acreditado, mas...
— Mas houve muitas mortes inexplicáveis na Ordem nas
últimas semanas, a maioria deles foi encontrado morto em
casa. — Um músculo saltou ao longo da mandíbula de Dylan.
— Membros habilidosos não são descuidados o suficiente para
serem seguidos até em casa. Assim que nós falamos com Miles,
começou a fazer sentido.
— A esposa de Daniel?
Os ombros de Jackie ficaram tensos. — Ninguém tem
notícia dela há semanas. Nós não sabemos se ela está morta ou
não, mas verificamos a casa deles depois de falar com Miles. A
bolsa dela estava lá, assim como seu telefone, mas ela não
estava.
— Isso não é um bom sinal, — eu disse.
— Nops, — Dylan concordou. — Não sabemos se ela
estava ciente do que Daniel estava fazendo ou não, mas no
final das contas isso realmente não importa. Nós perdemos
mais da metade dos nossos membros ativos daqui.
Uma bola de emoções encheu a minha garganta. Suas
mortes foram tão injustas, tão malditamente sem sentido. —
Então, a cidade está realmente ferrada se a Rainha atravessar
esse portal com uma horda de criaturas do Outro Mundo?
Jackie assentiu.
— Ei. — Ren acenou para os dois quando ele enrolou um
braço ao redor dos meus ombros. Abaixando sua cabeça, ele
beijou a minha bochecha, e meu coração apertou da melhor
maneira possível. Eu amava todos aqueles beijos rápidos, e eu
nunca me cansaria deles. Eu apenas esperava ter uma chance
de provar isso. — Eu vou subir as escadas.
— Ok. Eu já vou subir.
Ren caminhou em frente, examinando o interior. Nada
tinha mudado desde a última vez que estivemos aqui. Pelo
menos até onde eu me lembrava, mas o ar... sim, o ar estava
mais pesado. Eu não achava que tinha algo a ver com o portal
estar aqui, mas mais ainda com toda morte que ocorreu na
primeira vez que o portal foi aberto.
Eu tinha a horrível sensação de que esta noite nós
aumentaríamos aquele peso.
— Ivy.
Endurecendo ao som da voz do Príncipe, eu virei-me.
Tensão penetrava meus músculos quando meu olhar
encontrou o dele.
Ele parou na minha frente. — Você está pronta para esta
noite?
Eu levantei um ombro. — Tão pronta quanto eu posso
estar. Você está?
Houve uma contração em seus lábios, como se ele
desejasse sorrir, mas não soubesse como. — Tão pronto quanto
eu posso estar.
— Legal. — Eu comecei a me virar.
— Eu sinto muito, — ele disse, falando aquelas duas
palavras em voz baixa.
Minha respiração ficou presa enquanto eu o encarava
mais uma vez. — O quê?
— Eu sinto muito. Eu sei que minhas desculpas não
significam nada. As coisas que eu fiz para você, as coisas que
eu tentei fazer... — Ele parou, sua voz rouca. — Eu não pedirei
seu perdão por coisas que eu nunca poderei me perdoar, mas
eu sinto muito pela dor e terror que eu causei...
— Pare, — eu murmurei, brevemente fechando os meus
olhos. O amargo emaranhado de emoções enrolou-se em meu
coração. — Eu... eu aprecio o pedido de desculpas. Eu aprecio,
mas eu... — Eu pensei no que parecia uma vida atrás. — Uma
vez eu estive sob a compulsão dos faes. Como eu acabei sob a
compulsão foi minha culpa. Eu fui estúpida e eu paguei por
isso. Completamente sob o seu glamour eu deixei os faes
entrarem na casa onde eles mataram todos que eram
importantes para mim. Então, eu sei qual é a sensação de não
ter controle e fazer coisas que nunca faria, mas eu...
— Eu entendo, — ele simplesmente disse depois de um
longo tempo.
Meu olhar disparou para o dele, e eu pensei... eu pensei
que talvez ele entendesse o que eu nem mesmo conseguia
colocar em palavras. Não era que eu não entendesse que ele
não tinha controle. Ele até mesmo tinha estado sob um feitiço,
desprovido da escolha consciente ou vontade, e eu imaginava
que era pior do que qualquer coisa que Ren e eu tínhamos
sofrido. Eu entendi isso, mas era difícil. Que eu pudesse
entender como ele se tornou o Príncipe que me aterrorizou,
como ele não tinha sido responsável, mas todo esse
conhecimento não mudava o fato de que perdoar e esquecer
talvez nunca fosse possível.
O Príncipe me fez uma curta reverência e depois rodeou-
me, subindo as escadas, e eu fiquei ali parada, encarando o
lugar onde ele tinha estado.
Sugando uma respiração afiada, eu empurrei a bagunça
de memórias e emoções associadas à minha captura e subi as
escadas. Agora não era hora de me debruçar sobre isso. Eu
precisava ter a cabeça limpa se eu quisesse ter qualquer
chance de sobreviver a esta noite.
Miles me seguiu, e eu segui pelo corredor escuro e
estreito. Uma onda de arrepios se espalhou sobre a minha pele
quando eu me aproximei da entrada do quarto.
Enquanto eu atravessava a porta e encontrava Ren
parado perto de uma janela fechada ao lado de uma cadeira de
madeira, meu coração começou a chutar no meu peito, fazendo
uma dança errática.
— É como se estivéssemos em um círculo completo, não
é? — Eu disse a Ren.
Ele assentiu quando ele olhou para a porta do armário
selada – o portal. No momento, apenas parecia como qualquer
porta normal em uma velha casa de madeira com uma
maçaneta de cerâmica branca que provavelmente chocalhava.
Havia um espaço entre a parte superior da porta e a moldura.
Parecia um pouco torta.
— E é. — Ren parou quando um sorriso torto apareceu.
— De uma maneira realmente bagunçada.
Enrolando um braço ao redor dele, eu não me importava
o que parecia aos outros. Eu queria sentir sua pele tatuada sob
a minha por tanto tempo quanto eu pudesse.
Eu não sei quanto tempo tinha passado. Talvez alguns
minutos. Talvez uma hora. Parecia como se o tempo tivesse
desacelerado e também acelerado ao mesmo tempo.
Mas nós não tivemos que esperar muito.
O Príncipe ficou rígido e então virou para a porta de
entrada. Uma estranha quietude permeou o quarto. — Está na
hora.

Capítulo 34

Um arrepio percorreu minha espinha e minhas mãos


foram automaticamente para as estacas de ferro nas minhas
coxas. Os pelos em meu corpo ergueram-se. Ao meu redor, as
pessoas começaram a reagir à tensão peculiar que se infiltrou
na casa.
Dylan soltou um breve suspiro e isso saiu como uma
nuvem de névoa. — Sou só eu ou a temperatura caiu uns vinte
graus?
— Não é apenas você, — Ren replicou.
Gelo se formou sobre a moldura da porta e vazou pelas
paredes quando uma risada suave e altamente feminina surgiu
do andar de baixo.
— Eles estão aqui, — Jackie sussurrou, fios de seu
cabelo levantando-se.
— Uma horrível sensação de déjà vu deslizou sobre mim
quando eu ouvi os pés batendo e as tábuas do soalho
estalando. Nós estivemos aqui antes. Tudo começou aqui, e
tinha sido um banho de sangue.
Eu olhei para Ren.
Seu olhar encontrou o meu.
Ele piscou.
Um lado dos meus lábios se ergueu. — Eu amo você.
— Prove isso mais tarde.
— Eu provarei, — eu prometi enquanto o ar ficava preso
em minha garganta.
Os faes do Verão deram um passo à frente, erguendo as
bestas enquanto os faes da Rainha alcançavam o corredor, e
então eles estavam aqui.
O primeiro que atravessou a porta gelada foi um fae
comum, e Kalen pegou ele no peito com um golpe rápido e
limpo. E então havia outro, e Jackie pegou o próximo.
E então eles continuaram vindo, derramando-se através
da porta aberta como uma praga de gafanhotos. Havia tantos
que eles encheram a sala, e o chão tremeu como ossos secos e
furiosos sob o peso. A onda de faes da Rainha engoliu a nossa,
derrubando-os. Gritos rasgaram através do ar enquanto adagas
e dentes rasgavam a carne.
Eu forcei meus pulmões a inalarem e então eu deixei de
lado o medo e o pavor que sempre vinham com esse tipo de
batalha. Eu entrei em ação, como eu tinha sido treinada para
fazer – nascido para fazer. Eu peguei o fae mais próximo,
deslizando a adaga nele. Instinto assumiu. Eu girei e estendi o
braço e peguei outro fae exatamente quando Ren se lançou
para frente quando o primeiro Cavaleiro apareceu.
Eles não seriam fáceis de matar.
Se abaixando, ele pegou o Ancião no estômago com seu
ombro. A força do golpe amplo sacudiu o Ancião. Ele caiu de
costas com um grunhido de surpresa. Ren girou habilmente,
empurrando a estaca de espinhos dentro do peito do Ancião.
Ren girou, ombros tensos, a boca nada mais do que uma linha.
Eu me virei ao som de pés batendo. Um Ancião estava
olhando para mim, com os olhos cheios de ódio. Meus
músculos tensionaram como eles sempre faziam antes de
travar uma batalha com o inimigo que não ia ser derrubado
facilmente. Eu esperei o momento perfeito, sabendo que eu
tinha que ser esperta sobre isso. Ele tinha mais de músculos
do que eu, mas eu era mais forte do que da última vez que eu
estive nesta casa. Ele me alcançou, e eu me atirei debaixo do
seu braço. Pulando atrás dele, eu bati meus pés em suas
costas. Ele soltou um rugido de dor quando eu arrastei a adaga
ao longo da parte de trás do seu pescoço, usando tudo o que
havia em mim para cortar através dos ossos e tecidos. Sangue
pulverizou, pontilhando meu peito e rosto. Seu rugido terminou
em um gorgolejo quando a adaga perfurou para o outro lado.
Empurrando meu braço para a direita, eu cortei a cabeça dele.
Seu corpo caiu para frente e sua cabeça caiu para a esquerda,
pousando em um som de esguicho que revirou o meu
estômago.
Nojento.
Tão malditamente nojento.
Um grito áspero chamou a minha atenção, e eu girei ao
redor. Meu coração caiu como uma pedra. Ren estava cercado
por dois Anciões em suas costas e três faes à sua frente.
Sangue escorria do canto da sua boca enquanto ele desviava de
um golpe que provavelmente o derrubaria ou pior. Ele foi
empurrado para trás e um fae saltou em suas costas.
Literalmente. Como um maldito macaco aranha.
Eu disparei para frente e agarrei as costas da camiseta do
fae, tirando-o de Ren. Eu o atirei no chão e me abaixei,
empurrando a adaga profundamente em seu peito. Aquele fae
não existia mais quando me endireitei e olhei sobre o meu
ombro.
Ren tinha derrubado um dos Anciões com base no corpo
sem cabeça ao lado dele, mas ele ainda estava rodeado e havia
um corte feio ao longo da sua testa que tirou o meu fôlego. Eu
comecei a ir na direção dele logo quando peguei uma visão dos
Príncipes. Os dois irmãos estavam rasgando através dos faes
como se eles fossem nada além de papel. Eu não conseguia ver
Kalen ou Faye ou mais ninguém na bagunça. Eu esperava que
eles ainda estivessem de pé.
Agarrando a fae mais perto de Ren, eu a girei. Os olhos
da fae se arregalaram em choque quando a estaca atravessou
sua pele como uma faca quente na manteiga. Eu puxei a arma,
meu olhar já balançando em direção...
Um corpo bateu em mim. Desequilibrada, eu caí de lado.
Uma explosão de pânico me atingiu quando eu me ajoelhei. Eu
comecei a me levantar, mas a dor explodiu ao longo das
minhas costas quando uma bota desceu, tirando as minhas
pernas e braços debaixo de mim. Eu nem sabia como eu
consegui segurar as minhas armas quando meu queixo bateu
no chão de madeira.
Apertando a minha mandíbula em meio a dor, eu grunhi
quando dedos fortes afundaram em meus ombros, me virando
bruscamente. Eu nem mesmo tive uma chance de reagir. Uma
batida de coração depois, um Ancião estava em cima de mim,
mãos circulando a minha garganta. Meu oxigênio foi cortado
quando ele apertou, colocando pressão nos frágeis ossos. Ele ia
quebrar meu pescoço como um galho! Pânico explodiu em meu
estômago. Eu reagir sem pensar. Levantando ambos os braços,
eu enfiei as estacas nos lados do pescoço do Ancião. As mãos
do fae deixaram a minha garganta, mas era muito tarde para
me parar. Gritando, eu cortei através de sua medula espinhal.
Sangue jorrou enquanto o Ancião tremia e depois caiu para o
lado.
Rolando para longe, eu me levantei e girei de volta para
Ren. Eu me ergui atrás dos dois faes, batendo a minha estaca
nas costas de um. A outra girou para mim, gritando.
— Oi! — Eu chilreei, abaixando enquanto ela balançava
na minha direção. Eu me lancei para cima, chutando e tirando
as pernas debaixo dela. — Tchau!
Empurrando a adaga para baixo, eu extirpei a fae e então
me ergui. Deslizando embaixo do braço de Ren, eu fui direto
para o Ancião se aproximando dele. Virando a estaca, eu
balancei o braço cortando quando o corpo do Antigo pulou na
minha frente. Seus olhos se arregalaram e então chamas
irromperam das suas órbitas. Sua boca abriu e fogo se
arrastou lambendo ao longo das suas bochechas e descendo
por sua garganta. Ele se inclinou para frente...
Eu saltei para fora do caminho enquanto ele caia e meu
olhar se voltou para onde ele tinha estado. O Príncipe estava lá
em pé.
— Fogo? — Eu disse estupidamente. Eu tinha visto do
que Fabian era capaz, mas isso era algo mais.
O olhar do Príncipe se moveu rapidamente sobre mim. —
Você tem sangue... em toda parte.
— Sim, — eu sussurrei, tropeçando um passo para trás.
— Esse truque bacana teria sido útil cerca de um minuto
antes.
— Sinto muito. Estava ocupado. — Ele girou em direção a
porta.
Virei-me, encontrando a fêmea fae me atacando,
praticamente empalando a si mesma com a minha adaga. Eu
pisquei quando ela implodiu. — Bem então.
Depois eu vi Faye.
Ela pulou sobre uma cadeira com agilidade e girou como
uma dançarina. Apontando a besta ela disparou vários tiros,
um depois do outro. Cada flecha encontrou um alvo, atingindo
três faes. Quando eles caíram, eu finalmente vi Miles. Ele
estava machucado e ensanguentado, mas ainda de pé. Alívio
me encheu.
— Abaixem-se! — Fabian gritou.
Eu girei ao redor quando Ren apareceu ao meu lado.
Circulando um braço ao redor da minha cintura, ele me
arrastou para o chão apenas quando o ar ao redor explodiu
com cacos de gelo irregulares.
— O que diabos? — Eu ofeguei quando o que pareciam
ser pingentes de gelo disparavam no alto. Eles bateram nas
paredes, estilhaçando a madeira. Alguns atingiram a carne dos
faes e mortais, aqueles que não tinham sido suficientemente
rápidos.
Eu gritei quando Kalen caiu, um pingente de gelo
embutido em sua coxa. Ren amaldiçoou quando seus dedos se
curvaram nas costas da minha camiseta.
A risada suave, quase infantil, ecoou pelas paredes
quando eu olhava para a entrada e então havia palavras,
palavras antigas em uma língua que eu nunca tinha ouvido
antes. Elas correram sobre nós como uma corrente de água
fria, enviando um frio para baixo em minha espinha.
Eu girei, pressionando Ren quando uma sombra alta e
fina apareceu na entrada e então lá estava ela. A Rainha.
Ela entrou no quanto, seus olhos afiados disparando ao
redor e parando no Príncipe. Ela não segurava o Cristal. O
Antigo atrás dela o fazia.
Era do tamanho de uma bola de basquete, branco e como
se estivesse coberto de geada, mas, ao entrar no quarto, ele
começou a brilhar em um azul iridescente.
Fabian alcançou a Rainha primeiro, seu corpo começou a
brilhar da cor nascer do sol de verão. A Rainha sacudiu um
pulso, e então ele estava voando para trás, preso na parede
com pingentes de gelo irregulares, um em cada ombro, preso
ali como uma mosca.
—Bom Deus, — Ren murmurou.
O Príncipe a atacou, mas tudo o que ela fez foi voltar a
mexer o punho e ele estava derrapando para trás pelo chão.
— Desista e viva, — ela disse, sua voz cheia de fumaça e
sombras. — Fique no meu caminho e morra.
Ren e eu ficamos de pé quando o Príncipe se empurrou
para fora da parede.
Um estrondo baixo sacudiu o chão, ganhando som e
velocidade. Eu olhei para trás de mim quando Ren fez a mesma
coisa. Uma leve luz azul apareceu no fundo da porta.
— A porta! — eu ofeguei. — Ela está abrindo o portal.
A Rainha virou-se para onde estávamos, e ergueu sua
mão, mas Ren e eu já tínhamos visto do que ela era capaz. Nós
nos separamos, ele indo em uma direção e eu em outra.
Saltando sobre os corpos caídos, eu dei cinco passos
antes que eu fosse varrida dos meus pés e jogada para trás de
cabeça para baixo. Eu bati na parede. O impacto arrancou o ar
e uma estaca das minhas mãos. Eu fiquei atordoada por um
momento, incapaz de me mover.
A Rainha abriu caminho.
Assim facilmente.
Mesmo com dois príncipes, um exército de faes do Verão,
e os membros da Ordem restantes, ela tinha aberto um
caminho.
Fabian e o Príncipe tinham seriamente superestimado as
suas habilidades.
A Rainha avançou, o Cristal em seus braços. Estava
brilhando intensamente agora, tão brilhante que era doloroso
olhar. Eu mordi uma maldição, me levantando.
— Ajude-me.
Virei-me, vendo Fabian. Disparando em direção a ele, eu
alcancei os pingentes de gelo. Eles estavam profundos. — Sinto
muito.
Estremecendo, eu puxei um. Seu corpo inteiro sacudiu
quando eu soltei o primeiro pingente de gelo, mas ele não fez
um som até eu puxar o segundo para fora. Então ele gritou,
caindo de joelhos. Faye estava repentinamente ao seu lado,
pressionando sua mão na ferida dele, estancando o fluxo de
sangue.
O Príncipe girou em nossa direção, e foi quando o Ancião
que tinha entrado com a Rainha atacou o Príncipe,
empurrando seu ombro no estômago do Príncipe. Eles caíram
para trás, por dentro da parede. O drywall rachou e cedeu
enquanto o ar se enchia de pó. A parede balançou e metade se
estilhaçou quando eles caíram no outro quarto.
— Use-os, — Fabian ofegou, deixando sua cabeça cair
para trás. — Use-os contra ela.
Meu olhar caiu para os grossos pingentes de gelo. Eram
tão frios que queimavam a minha mão. eu olhei para cima. A
Rainha estava quase na porta. Com o coração na minha
garganta, eu girei, não dando-me tempo para pensar sobre o
que eu estava fazendo.
Correndo através da sala, eu alcancei a Rainha quando
ela se virou para mim. A surpresa cintilou sobre o seu rosto
quando eu ergui o meu braço, balançando o pingente para
baixo. Ela foi para o lado, e eu errei o seu peito.
Mas não perdi ela.
O pingente de gelo cortou seu ombro, afundando até o
osso. O impacto viajou todo o caminho pelo meu braço
sacudindo o meu corpo inteiro.
Gritando de dor e fúria, a Rainha me atacou. Eu nem
mesmo sabia se ela me batia com alguma parte dela ou se era
apenas o poder da sua fúria. De qualquer maneira, eu voei
para trás, batendo no chão e rolando vários metros. Ouvidos
ressoando, eu parei, lentamente percebendo que eu estava
agora desarmada.
Eu empurrei-me em meus cotovelos, respirando
pesadamente quando eu olhei através do quarto. A Rainha
estava também de joelhos, e rasgando o ombro do vestido
prateado. Sangue escuro manchava a frente dele.
A porta do armário se abriu e uma luz azul intensa se
derramou. Ela tinha aberto o portal. Maldição.
O vento aumentou, poderoso e forte. Um tremor sacudiu
o chão quando meus cachos soltos voaram em meu rosto. Eu
me levantei de joelhos, ignorando a dor nos ossos. Meu olhar
encontrou o da Rainha, e seu olhar se afastou de mim para a
esquerda. Eu olhei. O Cristal.
A Rainha tinha o deixado cair.
Rolando, eu me levantei quando meu estômago caiu. A
Rainha já estava de pé e ela estava mais perto. Meus pés
deslizaram sobre as tábuas ensopadas de sangue.
Ren girou e começou a avançar, mas era muito tarde. A
Rainha alcançou o Cristal primeiro. Eu gritei quando ela
colocou os dedos delgados ao redor dele. Erguendo-se, ela o
apertou contra o peito. Ela não olhou para mim. Ela não olhou
para Ren.
A Rainha olhou para o Príncipe, para onde ele estava
tropeçando de volta através da parede. — Eu verei você de
novo, meu amor.
Seu queixo se ergueu e ele rugiu com fúria quando ele
jogou seu corpo no Cavaleiro ao lado e correu em direção à
Rainha, mas ela era tão rápida quanto uma sombra. Ela girou
com seus pés descalços e correu. Nem mesmo tive a chance de
tomar outro fôlego antes que ela atravessasse o portal, o Cristal
nas mãos. A luz azul se esticou, formando grossos tentáculos.
Eles tocaram a Rainha e queimaram intensamente.
A luz azul se expandiu e saiu, circulando ao redor das
minhas pernas. Contraindo forte e rápido, arrancando minhas
pernas debaixo de mim. Eu bati no chão e então estava
deslizando através dele em direção à porta.
Realização bateu em mim como um trem em alta
velocidade. Sangue – eu estava coberta dele. Um pouco dele era
meu e isso significava...
Meu sangue devia estar no Cristal.
Eu estava prestes a ser sugada para o Outro Mundo,
juntamente com a Rainha.
— Ren! — Eu gritei, cavando no chão. Minhas unhas
rachando e quebrando. Outro grito me atravessou quando eu
fui puxada para além da abertura da porta. Braços agitados,
minhas mãos bateram na moldura. Meu olhar arregalado e não
havia nada além de escuridão atrás da luz azul. A força do
Outro Mundo puxando, esticando os meus braços até que eu
senti meus músculos começarem a rasgar. Meus dedos
deslizaram e eu não conseguia me segurar.
Mãos se prenderam as minhas, e meu olhar voou para
Ren. Oh Deus, ele estava lá, seus pés plantados em ambos os
lados da porta. Meu corpo se levantou do chão.
— Segure-se! — ele gritou, seu rosto tensionado enquanto
ele puxava.
— Ren, oh meu Deus, Ren! — Eu gritei, pânico e terror
escavando em meus ossos.
A força aumentou, erguendo Ren, e eu sabia que era
muito poderosa. Ia sugar nós dois através dela. Nós dois.
Não.
Eu não podia deixar isso acontecer com ele. Eu não
podia.
Meu corpo torceu-se então eu podia ver o seu rosto.
Nossos olhares colidiram. — Ren. Solte. Por favor! Por favor,
solte. Você tem que me soltar.
Horror encheu a sua expressão. — Nunca – Deus, nunca!
— Você precisa. — Esticados até os seus limites, meus
braços e ombros queimavam como se eles estivessem pegando
fogo. — Eu amo você, Ren. Eu te amo tanto, mas você precisa
soltar...
—Pare! — ele gritou, seu belo rosto contorcido com
angústia. —Eu não vou soltar.
Lágrimas nublaram os meus olhos. — Você tem. Você...
Braços circularam a cintura de Ren e então eu fui
puxada para fora da luz e para além do umbral da porta e para
o colo de Ren, enquanto nós caímos para trás. Eu olhei para
cima, sobre os ombros de Ren quando ele cruzou seus braços
ao meu redor.
O Príncipe.
Oh Deus.
O Príncipe tinha me puxado, nos libertado.
O vento soprava através do quarto e era arrancado e
sugado de volta através da porta. Torcendo-me nos braços de
Ren, meus olhos estavam arregalados quando a luz azul
brilhante pulsava uma e depois duas vezes, e então puxava
para dentro de si mesma até que havia apenas um ponto de luz
na escuridão, e, em seguida, não havia nada além de escuridão
arrepiante.
O portal para o Outro Mundo se fechou, selando-se com a
Rainha e o Cristal no seu interior.

Capítulo 35

Lentamente, levantamo-nos um de cada vez. O Príncipe


estava ajudando o seu irmão a se levantar, e Faye estava com
Kalen, um braço ao redor dos seus ombros segurando-o.
Miles estava perto de Dylan e Jackie. Todos nós
estávamos ainda vivos, mas nós...
— Nós falhamos, — eu sussurrei olhando para a porta
fechada. — Nós realmente falhamos.
O silêncio me cumprimentou quando Ren passou um
braço ao redor da minha cintura, me puxando para o seu lado.
Senti seus lábios escovarem a minha têmpora, mas uma
amarga decepção lavou sobre mim, quase me tirando as forças
que restaram.
Nós falhamos.
A Rainha tinha desaparecido, mas ela voltaria com um
exército cruel e monstruoso. Provavelmente em dias. Horas se
nós não tivéssemos sorte.
Eu tropecei de volta.
—Mas nós realmente falhamos? — Dylan perguntou. — A
Rainha desapareceu. Assim como todos os Anciãos...
— Nós não fazemos ideia se todos os Anciãos se foram,
mas nós tínhamos eliminado quase todos eles. — Miles
mancou para frente, pegando uma estaca caída. — Mas a
Rainha tem o Cristal no Outro Mundo. Ela pode voltar a
qualquer momento...
— Não vai ser por muito tempo, — a voz de Fabian estava
rouca. — Você a apunhalou com um dos pingentes de gelo,
certo?
Virando, nós olhamos para ele e minha boca ficou aberta.
Ele estava com uma cor fantasmagórica. Meu olhar disparou
para Kalen. Ele também estava. Ambos mal ficavam em pé,
todos os seus membros estavam tremendo. —Eu fiz. Eu a
atingi no ombro. Muito fundo, também.
O Príncipe olhou-me com muita atenção. — Você a
atingiu? Você tem certeza?
— Sim. Bateu no osso. O quê? — Eu me afastei de Ren.
— O que está acontecendo?
— Se ela foi ferida com a sua própria magia, ela irá... — O
Príncipe desacelerou, e então ele fez algo que eu não tinha
ouvido dele desde que o encantamento foi quebrado.
O Príncipe riu – um riso alto e profundo.
Ren caminhou para frente, seus movimentos rígidos. —
Você pode nos informar o que está acontecendo? Porque eu não
tenho certeza do que é engraçado agora.
— Nem eu, — Miles murmurou, embainhando à estaca
em seu quadril.
— Ser ferido por um daqueles pingentes de gelo levaria
algum tempo para qualquer fae se recuperar. Teria matado um
mortal. — O Príncipe voltou para o seu irmão, enrolando um
braço ao redor da cintura dele. — Mas para a Rainha ser ferida
com a sua própria magia é catastrófico. O mesmo para
qualquer um de nós.
— Então, o que isso significa? — Jackie exigiu, limpando
o sangue ao longo de sua bochecha. —Isso vai matá-la?
— Não. — O Príncipe levou Fabian até a porta. — Mas
isso vai enfraquecê-la enormemente ela por um longo tempo.
Eu não ousei deixar qualquer esperança crescer em mim
enquanto eu mancava atrás deles, mas eu lembrei-me que ele
mencionou isso quando ele nos disse o que os enfraquecia. —
Quanto tempo é muito tempo?
— Meses, — ele respondeu.
— Meses? Você está brincando comigo? Isso não é muito
tempo. — Era melhor do que semanas ou horas, mas ainda não
era suficientemente longo.
Ele parou e olhou sobre o seu ombro. — Meses no Outro
Mundo são anos no mundo mortal.
— Anos? — Ren repetiu. — Como no plural?
— No plural, — o Príncipe respondeu. — E enquanto ela
estiver fraca, ela não vai ser capaz de reunir qualquer exército.
Com seus poderes baixos e ferida, ela não ganhará nenhum
apoio. Não no Outro Mundo, onde somente os fortes e cheios de
poderes ganham apoio.
Meu coração estava disparado em meu peito. — Então, o
que isso significa exatamente?
— Significa que nós não falhamos, — ele replicou,
sorrindo levemente. Era caloroso, mas não alcançava os seus
olhos. Eu não achava que qualquer um dos seus sorrisos
alcançava. — Nós teremos anos para nos preparar para o
retorno dela.

***

Eu desci os degraus, minha cabeça uma mistura de


pensamentos e emoções conflitantes. Nós tínhamos falhado?
Sim? Não? Eu não tinha certeza, e eu estava malditamente
cansada de realmente pensar sobre isso e muito em êxtase que
nós estávamos todos vivos para bater em mim mesma sobre
não conseguir o Cristal ou matá-la.
Eu deixaria isso para amanhã.
Porque nós iríamos ter um amanhã.
— Ivy! — Tink gritou quando eu cheguei no final das
escadas.
Eu parei enquanto ele se afastava de Fabian e
completamente me atacava, enrolando seus longos braços ao
meu redor. — Você está viva!
— Sim, — eu chiei. — E eu pensei que você deveria
supostamente ter ficado no hotel.
— Eu fiquei, mas eu não podia esperar mais. Eu apareci
assim que todo mundo estava descendo as escadas. — Ele me
balançou para frente e para trás. — Eu saí sozinho e encontrei
o lugar!.
— Ele não estava sozinho, — eu ouvi Tanner dizer. — Ele
estava ficando preocupado, e, bem, nós não conseguimos pará-
lo.
Fechando os meus olhos, eu o abracei de volta, muito
feliz por estar abraçando-o de novo para ficar zangada por ele
não nos ouvir.
— O que está acontecendo? — Tink perguntou, e eu me
afastei quando Faye começou a explicar tudo.
Ren foi até os Príncipes, enquanto Tink estava tendo um
colapso nervoso, e eu vi que Tanner não tinha vindo sozinho.
Brighton estava com ele, permanecendo atrás. Ela estava
olhando para os dois Príncipes, seu lindo estava rosto pálido.
— Nós precisamos levar o meu irmão de volta para o
hotel, — o Príncipe disse. — Ele precisa descansar, assim como
Kalen.
Tink de afastou de mim, correndo para o lado de Fabian.
— Ele ficará bem?
— Ele ficará.
— O que nós podemos fazer para ajudá-los? — Eu
perguntei.
— Nada, — ele respondeu. — Tudo que nós podemos
fazer é esperar que os efeitos se desapareçam.
Olhando para os rostos pálidos e marcados de Fabian e
Kalen, eu me senti realmente mal por eles. — Quanto tempo?
— Muito tempo, — grunhiu Fabian. — Nós devemos ficar
bem... em poucas semanas.
Semanas? Meus olhos se arregalaram.
— Eu... eu trouxe o SUV. — Brighton limpou sua
garganta e então falou. — Eu posso levá-los de volta.
Eu respirei fundo e caminhei até onde os Príncipes
estavam. Ren já estava lá. — Ei, — eu disse, olhando entre os
dois. — Eu apenas queria te agradecer por, hum, nos salvar –
me salvar lá. Se não fosse você...
Ele me encarou. — Você não precisa me agradecer.
Nunca.
Eu me mexi desconfortável. — Mas eu quero. Nós
queremos.
— Ela está certa. — Os ombros de Ren ficaram tensos
enquanto ele estendia a mão para o Príncipe. — Obrigado,
Príncipe.
O olhar do Príncipe foi da mão de Ren para o seu rosto, e
então, depois de um longo momento, ele pegou a mão de Ren e
apertou-a. — De nada. — Soltando a mão de Ren, ele olhou
para mim. — E meu nome não é Príncipe. É Caden.

***

A fraca luz do sol penetrava sob as cortinas pesadas,


deslizando pelo chão do quarto em direção à cama. Eu não
tinha ideia de que horas eram desde que Ren aparentemente
não acredita em relógios, mas eu sabia que tinha que ser o
final da tarde.
Assim como nós falamos no dia anterior, nós não
tínhamos voltado para o Hotel dos Faes Bons na noite passada,
quando todos deixaram a casa na Royal Street. Nós tínhamos
vindo para a casa de Ren, porque nós... porque nós podíamos,
e agora parecia como se eu tivesse dormido para sempre, mas
quando eu olhei para as pequenas partículas de poeira
dançando no fluxo de luz, eu não tinha certeza se eu estava
pronta para acordar.
Apertando os meus olhos, eu virei os meus quadris
enquanto uma onda de inquietação tomava conta de mim. um
braço ao redor da minha cintura apertou, me puxando de volta
contra um peito duro e quente. — Você devia ainda estar
dormindo, — a profunda voz de Ren retumbou contra a pele do
meu pescoço.
Estendendo a mão para onde sua mão descansava contra
o meu estômago, eu enfiei os meus dedos através dos dele. —
Você não devia estar dormindo também?
— Você está acordada. — Ele beijou o lado do meu
pescoço. — Então, eu estou acordado.
Às vezes eu me perguntava se ele tinha um sistema
interno de alarme Ivy e se ele cobrava a si mesmo uma taxa
mensal por isso. Eu apertei a sua mão em troca. Houve uma
batida de silêncio e então ele me puxou de costas, e eu
encontrei-me encarando sonolentos e belos olhos verdes.
Cabelo castanho encaracolado caiu para frente,
escovando contra suas sobrancelhas enquanto ele se erguia em
um cotovelo sobre mim. — Eu não vou perguntar se você está
bem. — Ele empurrou uma mexa de cabelo enquanto seu olhar
procurava o meu. — Apenas não engarrafe isso tudo. Muita
coisa aconteceu, e mesmo que tenhamos anos até voltarmos a
enfrentar a Rainha, muita coisa ainda vai acontecer.
Eu engoli lâminas de barbear de emoção e sussurrei, —
Eu prometo que eu não irei.
Ren esperou enquanto ele me olhava fixamente.
Respirando fundo, eu exalei lentamente. — Você acha
que nós realmente teremos anos antes que a Rainha retorne?
As pontas dos dedos de Ren trilharam um caminho
através da minha bochecha, evitando os profundos hematomas
arroxeados e cortes em carne viva que tinham aparecido da
noite para o dia. — Baseado no que eles disseram, nós não
temos razão para acreditar que não seja o caso.
— Verdade, — eu murmurei. — Mas e se eles estiverem
errados?
— E se eles não estiverem? — Ele arrastou o polegar sob
o meu lábio inferior. — E se nós tivermos anos para viver e
para nos certificarmos de que estamos prontos quando ela
retornar? Anos, Doçura. Isso é um longo tempo. É muito tempo
de vida.
Um pouco do nó que descansava na boca do meu
estômago se soltou. Não desapareceu completamente, mas
tornou mais fácil respirar. Ren estava certo. Não havia razão
para que os irmãos estivessem errados. Nós poderíamos ter
anos. —Acabou, — eu disse, porque parecia que eu precisava
dizer isso. — Acabou, por agora.
Ren deu um beijo rápido na ponta do meu nariz. — Sim,
está tudo acabado, por agora.
Eu fechei meus olhos, deixando isso realmente afundar.
Ainda não parecia real. Que não estivéssemos vivendo segundo
a segundo, dia a dia.
Ele beijou a minha testa. — Você vai se preocupar sobre
isso, mas ficará mais fácil. — Desta vez ele beijou o canto dos
meus lábios e então suspirou pesadamente. — Mas você já
sabe disso.
Eu sabia.
Ultrapassar o fato de que a Rainha poderia e muito
provavelmente retornaria não ia ser fácil. Mas eu não podia
viver com medo. Uma quantidade saudável de medo era uma
coisa, mas nós...
Nós realmente não falhamos na noite passada.
Eu abri os meus olhos. — Quando ela voltar, nós vamos
estar prontos para matar aquela puta.
Ren riu. — É quente quando você fala sobre matar faes
maus.
Um riso escapou de mim, e pela primeira vez em um
longo tempo, eu deixei-me realmente olhar para o futuro. Eu
tinha praticamente uma vida inteira pela frente – uma vida
inteira com Ren. É claro, nós ainda tínhamos o nosso dever.
Qualquer um de nós poderia morrer na nossa próxima
patrulha, mas com a ajuda da Corte do Verão, não era mais
apenas a Ordem.
Nós poderíamos ter um futuro.
Poderia ser difícil de tempos em tempos. Mesmo não
tendo o desejo desde que eu saí da California, eu sabia que isso
voltaria para mim, mas, se voltasse, eu lidaria com isso. Nós
tínhamos um futuro – um que eu queria começar neste
momento – um futuro esperançoso e brilhante.
Eu ergui meu queixo, e sem palavras, Ren atendeu o que
eu estava procurando silenciosamente. Ren me beijou, e foi
profundo e consumidor e bonito de todas as formas que trouxe
lágrimas para os meus olhos. Tudo o que Ren sentia por mim
estava naquele beijo, em cada beijo, e quando ele puxou o
cobertor para fora de nós, ele escorregou por mim e deslizou
dentro de mim.
A forma que nossos corpos se uniram não foi nada como
na noite anterior, quando nós retornamos à casa de Ren e
imediatamente corremos para o chuveiro, lavando todo o
sangue. Aquilo tinha sido rápido e duro, como se tivéssemos
apenas uma forma de provar que ainda estávamos vivos – que,
no final de tudo, nós ainda tínhamos um ao outro. Isso era
diferente. Ren se movia demasiadamente lento, como se fosse a
nossa primeira vez.
A boca de Ren nunca deixou a minha. Nem quando nos
movemos juntos, nossos quadris empurrando e se separando.
Nenhuma vez quando as mãos deles ficaram enroladas com as
minhas, segurando-as em ambos os lados da minha cabeça.
Nem mesmo quando eu enrolei as minhas pernas ao redor da
sua cintura, levando-o tão longe quanto podíamos. Nós nos
beijamos como se estivéssemos bebendo um do outro, tomando
goles e depois engolindo.
Não houve lugar para palavras no quarto. Não havia
espaço para elas à medida que o ritmo dos nossos quadris
aumentava. Somente houve gemidos suaves e gemidos
profundos nos breves segundos em que nossas bocas se
separaram. O suor umedeceu nossos corpos, nossa pele
brilhava. Cada músculo em meu corpo parecia se contrair e
relaxar em ondas intermináveis.
Isso era... isso era fazer amor – doce e firme e abrasador.
A forma como ele arrastou cada beijo, cada impulso,
absolutamente me destruiu da melhor maneira possível. Eu
nunca me senti mais próxima de Ren, mais apaixonada do que
naquele momento.
Ren quebrou o beijo quando ele gozou, falando o meu
nome contra os meus lábios naquela forma gutural e profunda
que enrolou os meus dedos dos pés e me enviou para cair sobre
a borda do êxtase. Calafrios apertados tomaram conta de mim.
A liberação que fluiu por todo o meu corpo explodindo quase
todos os pensamentos para fora da minha mente, deixando
espaço apenas o prazer rolando.
Quando tudo acabou, apenas quando nossos corações
começaram finalmente a desacelerar e eu deitei enrolada em
seus braços, minha bochecha descansando em seu peito, nós
dois falamos.
— O que faremos agora? — Ren perguntou enquanto
uma mão passava preguiçosamente para cima e para baixo em
minha espinha.
Essa era uma pergunta carregada que eu sabia que ele
não estava perguntando sobre o que nós íamos fazer depois de
ter feito sexo alucinante. Eu sabia que ele estava pensando
grande, a longo prazo. — Eu não sei, — eu disse depois de um
momento. — Eu acho... eu acho que quero voltar para
faculdade.
— Sim? — Seus dedos se enroscaram em meus cabelos
antes de se soltarem.
Eu respirei profundamente. — Eu perdi a matrícula na
primavera, mas eu poderia começar no verão ou outono.
— Eu acho que é uma boa ideia.
Excitação floresceu no centro do meu peito,
desenrolando-se como uma rosa ao florescer pela primeira vez.
Eu parecia diferente, mas não o bastante para que os mortais
realmente notassem alguma coisa. Eu poderia facilmente estar
em público. Nada demais. — Eu realmente gostaria disso.
— Eu posso ir te visitar no campus, — ele sugeriu. —
Você sabe, apenas ser uma distração.
— Isso é realmente útil.
— Eu tento ser.
Rindo, eu passei meus dedos sobre os músculos tensos
do seu estômago. — E você?
Ele não levou um segundo para responder. — O que quer
que você queira fazer, onde quer que você esteja, isso é o que
eu farei – é onde eu estarei.
— Sério? — Eu levantei o meu queixo para poder ver o
seu rosto.
— Sério, — ele repetiu. — Mas eu pensei que nós
podíamos tirar umas férias. Eu acho que merecemos isso.
Não havia como parar o sorriso que atravessou meu
rosto. — Umas férias seriam incríveis.
Aqueles olhos verdes estavam brilhantes. — Para onde
você quer ir?
— Em algum lugar frio, — eu respondi imediatamente. —
Qualquer lugar onde haja neve e nós possamos fazer um
boneco de neve e beber chocolate quente e... fazer sexo em
frente a uma lareira crepitante.
— Eu acho que eu conheço alguns bons lugares na
minha terra natal, — ele respondeu. — E eu realmente amei
sua ideia de férias.
— Foi a parte do sexo, não foi?
— Possivelmente.
Eu ri enquanto eu me acomodava contra ele. Enquanto
eu estava deitada lá, surpresa me encheu quando eu percebi
que haveria um amanhã, uma semana, um mês, anos para
preencher. Por alguma razão, não tinha me ocorrido até aquele
momento que nós tínhamos um futuro real, excluindo se nós
não fôssemos, você sabe, mortos no trabalho ou atropelados
por um carro em alta velocidade. — Eu imagino que nós
realmente podemos fazer isso agora?
— Fazer o quê?
— Planejar. Nós podemos realmente planejar. — Eu
mordi o meu lábio. — Durante algum tempo, eu realmente
pensei que não haveria um futuro. Você sabe? Eu meio que
parei de pensar sobre... o amanhã.
A mão de Ren parou por um instante e depois começou a
se mover de novo. Ele ficou quieto.
— O quê? — Eu ergui minha cabeça, encontrando o seu
olhar.
— Você queria que eu te soltasse.
— Ren...
— Você queria que eu te soltasse e, se eu tivesse feito
isso, você teria ido embora.
— Eu não queria que você fosse arrastado para o Outro
Mundo comigo, Ren. Você está zangado sobre isso?
Um olhar incrédulo encheu os seus olhos verdes. — Há
uma parte de mim que está chateado sobre isso. Provavelmente
uma parte de mim vai ficar chateada por você estar disposta a
jogar fora a sua vida...
— Eu não estava disposta a atirar minha vida fora. — Eu
me sentei. — Aconteceu tão depressa, e eu percebi que você
seria sugado junto, e eu...
— Para me salvar. Eu sei. Eu entendi isso. — Sua mão
caiu no meu quadril nu. — Isso não significa que eu tenha que
gostar. — Seu olhar caiu. — Mas eu gosto disso neste
momento.
Eu revirei os meus olhos. — Pare de checar os meus
peitos.
Ele arqueou uma sobrancelha quando ele lentamente
movia seu olhar para o meu. — Você está seriamente me
dizendo para não fazer isso? Você ao menos me conhece?
Uma risada relutante me escapou.
— Eles são uma distração, Ivy. — Ele escovou seus dedos
sobre um peito, me fazendo sugar uma respiração afiada. —
Eles são realmente bonitos e eles parecem tão solitários neste
momento. Peitos bonitos nunca devem estar solitários.
Eu bati na mão dele.
Um riso brincalhão preencheu a sua boca exuberante e
então desvaneceu-se como se nunca tivesse estado lá. Sua mão
caiu para o seu peito, descansando sobre o seu coração. — A
ideia de perder você assustou a merda fora de mim, Ivy. Aquele
choque e raiva que eu senti, o choque e a raiva que eu ainda
sinto e provavelmente sempre sentirei, em certa medida, foram
alimentados pelo terror de saber que você poderia ficar presa
lá, com a Rainha e Deus sabe o que.
Um tremor percorreu seu caminho através de mim. O
mero pensamento de ficar presa no Outro Mundo com a
Rainha, mesmo uma Rainha gravemente ferida, era
aterrorizante, porque eu sabia por experiência própria o que
isso implicaria.
Não teria sido bonito.
— Nós já passamos por muita coisa, — eu sussurrei. —
Ambos temos que lidar com isso.
— Sim. Nós temos.
E eu sabia que nos próximos anos eu teria pesadelos.
Talvez tivesse até o dia em que morresse. Eu ainda acordaria,
cheia de pânico por estar lá, com uma corrente ao redor do
meu pescoço, ou por estar a alguns segundos de ficar presa no
Outro Mundo. Como o luto, esse tipo de pânico não ia
desaparecer facilmente.
Eu engoli contra o nós repentino em minha garganta, e
ele colocou um braço atrás de sua cabeça enquanto me
observava. — Eu quero que você saiba que eu não vou jogar
isso contra você. Não é nada disso. De verdade.
Eu sabia que ele não ia. Esse não era o seu estilo. — Eu
não quero que você se sinta mais assim.
— E eu não quero. Eu realmente não quero. — Ele fechou
seus olhos brevemente. — É apenas... quando eu penso sobre o
que poderia ter acontecido – o que quase aconteceu – isso é um
choque para o sistema. Leva-me de volta para aquele segundo,
mas não me mantém lá por muito tempo.
Empurrando meu cabelo sobre um ombro, eu coloquei a
minha mão sobre o seu estômago duro. — Eu entendo. Eu
faço. Eu disse antes, se tivesse sido você me pedindo para
soltar, eu ficaria chateada.
— Você teria me dado um soco direto nas bolas.
Um sorriso apareceu em meus lábios. Eu teria. Eu teria
feito isso até que ele não pudesse entrar com o seu belo rabo
no Outro Mundo.
A mão em meu quadril se moveu para as minhas costas.
Com a mais leve pressão, ele me trouxe de volta para o seu
peito, onde eu estava deitada antes. Ele beijou o topo da minha
cabeça. — E como eu disse antes, eu entendo o porquê você
pensa que era o que precisava acontecer. Eu odeio dizer isso,
mas eu entendo.
Eu pressionei os meus lábios em seu peito e depois atirei
o meu braço sobre a sua cintura, apertando-o com tanta força
que ele riu.
— Deus, — ele resmungou. — Você é desnecessariamente
forte.
Rindo, eu o apertei de novo, mas desta vez não com tanta
força.
Passaram-se alguns momentos e então Ren disse: — Eu
sei que eu já te disse isso antes, mas eu preciso dizer de novo.
Especialmente agora.
— Você acha que meus seios ainda estão solitários?
Ren riu. — Acredite ou não, essa não era a direção que
eu estava indo.
— Bem, isso é chocante.
— Eu sei. — Ele sentou-se então, levando-me com ele,
meu cabelo caindo sobre os meus ombros, e depois ficamos
cara a cara. Por um momento, como eu fazia com frequência,
eu ficava perdida ao encarar aqueles belos olhos. — Eu fiquei
assustado quando pensei que eu ia te perder, mas eu também
tão fiquei fodidamente impressionado com você.
Eu pisquei. — O quê?
Seus olhos procuraram os meus enquanto ele estendia a
mão entre nós, pegando os fios do meu cabelo e empurrando-os
para trás. — Você foi atrás dela com um pingente de gelo,
sabendo quão perigoso isso era. Você ainda fez de qualquer
maneira.
— Você teria feito a mesma coisa, — eu raciocinei.
— Esse não é o ponto. Ren acariciou a minha bochecha.
— Você fez uma escolha altruísta. Parte de mim quer te manter
trancada e preferivelmente acorrentada a uma cama por causa
disso, mas eu não acho que nunca fiquei mais fascinado ou
impressionado com alguém em minha vida.
O calor começou a invadir as minhas bochechas e se
espalhou pela minha garganta.
A mão de Ren escorregou e circulou ao redor da minha
nuca. — Eu amo você, Ivy. Eu acho que você é bela e sexy
como o inferno. Você é engraçada e tão malditamente
inteligente que às vezes eu não me sinto digno.
— Ren, — eu sussurrei, meus olhos se encheram de
lágrimas enquanto eu colocava a minha mão em seu peito.
— E eu fodidamente admiro você, — Ren continuou, sua
voz espessa. — Você é muitas coisas incríveis, Ivy, mas, acima
de tudo, você é tão malditamente corajosa.
Corajosa.
Aquela palavra de novo.
Uma palavra que significa muito para mim, e eu sabia
que Ren estava certo. Ele estava orgulhoso de mim, mas
melhor ainda, eu estava orgulhosa de mim mesma – do que eu
estava disposta a fazer e o que eu tinha feito.
Eu sorri enquanto me inclinava pressionando a minha
testa contra a dele. Eu era corajosa, e eu tinha a vida inteira
para ser corajosa. — Eu amo você, — eu sussurrei.
Os lábios de Ren se curvaram em um sorriso contra os
meus. — Prove isso.

O perigoso e perversamente sedutor mundo dos faes e a


Ordem continua com O Príncipe, um conto de 1001 Dark
Novellas em agosto de 2018.

Notas

[←1]
É um personagem fictício da história em quadrinhos em preto e branco The Walking
Dead.
[←2]
Sling (ou baby sling ou baby carrier) é um pedaço de tecido que suporta um bebê ou
outra criança pequena do corpo de um cuidador.
[←3]
Jogo de mesa. No Brasil foi popularizado como um brinquedo, mas em outros países
é levado a sério, onde são realizados campeonatos, inclusive o mundial. Uma mesa
de air hockey consiste em uma superfície grande e lisa, uma borda para prevenir
que o disco e os tacos saiam da área de jogo, e metas nas duas extremidades da
mesa mais distantes entre si.
[←4]
[←5]
YA – classificação de gênero de livros que em português é conhecido por jovem-
adulto, segundo a YALSA (The Young Adult Library Services Association) a faixa
etária abrangida vai de 15 a 29 anos.
[←6]
Rua Peters.
[←7]
[←8]
É uma planta nativa da África do Sul. Trata-se de um arbusto típico de clima
subtropical e resiste bem às temperaturas baixas e ao clima seco. Suas folhas são
exóticas e perfumadas e é chamado assim porque, durante a temporada de
primavera, atrai borboletas, além de beija-flores e outros insetos.
[←9]
Urban Decay, uma marca americana de cosméticos com sede em Newport Beach,
Califórnia, é uma subsidiária da empresa francesa de cosméticos L'Oréal. Os
produtos incluem cores para lábios, olhos e unhas, além de outros produtos para o
rosto e corpo.
[←10]
Marca de antiácido.
[←11]
As aventuras de um agente secreto chamado Esquilo Sem Grilo e de seu
companheiro, uma toupeira conhecida por Moroco Moleza.
[←12]
No original “rode hard and put away wet”. Expressão utilizada por vaqueiros e
significa que alguém não cuidou de um cavalo que está transpirando depois de um
dia difícil ou foi forçado a correr rapidamente (antes de ser colocado de volta na
baia, deve ser permitido ao cavalo esfriar). Também é utilizada para comparar a
aparência desgrenhada de uma pessoa com a de um pênis que ainda estava
molhado quando o homem se vestiu depois de ter participado de uma relação
sexual bruta.
[←13]
É um nome comercial para um esfregão, usado para a limpeza de pratos, e feito de
lã de aço impregnada com sabão. O conceito foi patenteado em 1913, quando as
panelas e frigideiras de alumínio substituíam o ferro fundido na cozinha; as novas
panelas escureceram facilmente.
[←14]
No original “special snowflake”. É uma expressão para alguém que se julga único e
especial, mas que na realidade não o é. Essa expressão ganhou popularidade depois
do filme Fight Club (Clube da Luta) com a seguinte frase: “Vocês não são especiais.
Vocês não são um belo e único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria
orgânica em decomposição como tudo no mundo.”
[←15]
[←16]
Rua Flamingo
[←17]
No original “Hashtag thug life”
[←18]
Sininho ou Tilim-Tim é uma fada originalmente criada por James Matthew Barrie e
apresentada em sua peça Peter and Wendy, em 1904. É descrita como travessa e
irritadiça, mas leal acompanhante de Peter Pan.
[←19]
Airbnb é um serviço online comunitário para as pessoas anunciarem, descobrirem e
reservarem acomodações e meios de hospedagem.
[←20]
A Reserva Natural Estadual Torrey Pines é uma reserva de 2.000 acres de parque
estadual costeiro localizado na comunidade de La Jolla, em San Diego, Califórnia, na
North Torrey Pines Road.
[←21]
Bairro francês.
[←22]
Calçadão em frente à praia em San Diego.
[←23]
Nome dado a residência de Delphine LaLaurie, também conhecida como Madame
LaLaurie (nascida Marie Delphine Macarty), foi uma socialite estadunidense e
suposta assassina em série, que, segundo a lenda, ajudou a torturar, mutilar e matar
cerca de 96 escravos negros. A mansão de LaLaurie fica localizada na 1140 Royal
Street em New Orleans.
[←24]
Mansão LaLaurie
[←25]
Rua Hospital.