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22/07/2021 Filosofia epicurista enquanto medicina da alma | by Breno Serson | Medium

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Filosofia epicurista enquanto


medicina da alma
Breno Serson Jun 23, 2020 · 5 min read

Este post busca lançar luz sobre a antiquíssima e original filosofia de


Epicuro, à medida em que possa contribuir para a felicidade e o bem-viver
das pessoas do século XXI. Epicuro fundou sua escola filosófica em um
Jardim perto de Atenas, há mais de dois milênios, logo após a morte de
Alexandre, o Grande, ocorrida em 323 a. C.

Mas como uma filosofia tão antiga poderia nos fazer mais felizes?
Primordialmente porque para Epicuro, filosofar é buscar a felicidade
humana, a eudaimonia, nesta vida finita e não investigar o Ser, o Não-Ser
ou o Nada, nem tampouco manipular formalismos lógico-matemáticos e
abstrações teológicas ou metafísicas.
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Não: a filosofia epicurista almeja a eutimia, o estado de espírito harmonioso


ideal, compondo a ausência de dores no corpo com a ataraxia, ausência de
temores e imperturbabilidade da alma. Epicuro nomeia este estado
composto de prazer (hedonê) e o descreve como inerente e conforme à
natureza do ser humano. Enfim faz dele o centro de sua filosofia, dita
hedonista. Seu ideal é o plácido destemor de fruir de tudo que se nos
apresenta até a nossa morte; seu melhor ambiente é um belo jardim alheio
à cidade, cercado de bons amigos, a filosofar e a viver frugalmente.

Enquanto a medicina almeja a ausência de sofrimentos no corpo, a filosofia


epicurista pode ser descrita como uma medicina da alma, buscando o
equilíbrio e a justa medida dos humores da psychê. No dizer de Porfírio (séc.
II d. C.), “vã é a palavra do filósofo que não cura nenhum sofrimento
humano. Assim como a medicina não teria sentido se não afastasse as
doenças do corpo, não há tampouco sentido na filosofia se ela não afasta o
sofrimento da mente”.

Diógenes Laércio, também no séc. II d. C., nos diz que o entendimento


correto da filosofia epicurista nos permite “dirigir toda escolha e rejeição
visando a saúde do corpo e a imperturbabilidade da alma e por isto é a
realização suprema de uma vida feliz”.

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Focando no conceito de “temores” ou medos da alma, apresentarei Epicuro


como um desfazedor sistemático de angústias, augúrios, crenças vazias e
variados temores que tornam nosso viver ser mais sofrido do que é
inevitável, como na doença, na dor ou em uma pandemia.

Podemos mesmo divisar em Epicuro um original psiquiatra da alma grega:


os ideais do bom, do belo e do justo norteiam os prazeres que devemos
buscar ou nos abster, numa lógica de custo/benefício chamada “cálculo
hedonista”. Como médico, discípulo do deus Apolo, visa a saúde do corpo
físico (sarkós) e da alma (psychê) como um todo, ao longo de uma vida
mortal.

Nas poucas cartas, máximas e aforismas de Epicuro que chegaram até nós,
podemos identificar os principais temores das pessoas do seu tempo (300 a.
C.), afinal não tão dessemelhantes dos nossos do século XXI. O grego quer
combatê-los com o seu filosofar inédito e assim buscar viver
prazerosamente:

(i) temor do divino

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(ii) temor da dor e da morte

(iii) temor do Destino e ao que seríamos fadados

(iv) temor de si (culpa, remorso)

(v) temor dos outros (injustiça, conflito, vingança, violência)

Como vimos em posts anteriores, para os temores (i) e (ii) aplica-se a


terapia filosófica chamada de tetrapharmakon: nada deves temer dos
deuses, que são indiferentes a nós; o prazer é factível e a dor é suportável ou
mortal; a morte é mera cessação das sensações, nela não há risco, é mero
final indolor.

A fim de combater o temor (iii), Epicuro concebe um universo onde átomos


se entrechocam sem propósito, onde existe previsibilidade, como no peso
dos corpos que caem, mas sobretudo acaso; se é assim, nada é Destino e se
os deuses são indiferentes a nós, não há a quem dirigir súplicas ou
sacrifícios. Enfim, não há o que temer do futuro, “o que será, será, e… não
está (totalmente) previsto”.

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Epicuro, enquanto afirma que o prazer é o bem supremo, reitera que “não é
possível viver prazerosamente sem viver com prudência, retidão e justiça”.
Graças a uma conduta sábia, reta, ética e virtuosa são evitados pelo
epicurista os temores de si mesmo e dos outros (iv e v), nas variadas formas
da culpa, remorso, receio ou golpe do longo braço da Justiça, ainda que
tardia, além das agressões, desonras e vinganças, imaginadas ou
concretizadas.

Pratica-se tal ética por princípio, mas também por utilidade, quando se
almeja a ataráxia — a ausência de temores na alma — já que para Epicuro,
“o justo desfruta plena serenidade; o injusto, porém, está cheio da maior
preocupação”. A minha leitura seria: cabeça muito leve sobre o travesseiro;
nada dever moralmente nem injustiçar ninguém em nenhum sentido; nem
mesmo e tampouco à própria consciência, dentro do possível.

Mesmo só buscando agir eticamente e de boa-fé, os homens e mulheres à


nossa volta, com seu poder de querer e/ou praticar o mal, nos causam um
temor latente e constante. Contra este temor, Epicuro convoca a razão, o
lógos no interesse de todos, ao nos predispormos a não praticar nem sofrer
injustiça. Se podemos estabelecer pactos ou contratos de não-agressão
mútua, vamos com menos temor pelas ruas e estradas. Este é o contrato
social fundamental e natural aos humanos, segundo o nosso filósofo. É
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claro que este sabe que existem e sempre existirão os salteadores,


espertalhões e facínoras; evita-os o quanto pode.

Mas em nossas relações humanas é muito mais reassegurador, sempre que


possível, instituir políticas de boa vizinhança e de solidariedade, que
possam se fundar na philía pelo nosso próximo, humano como nós, capaz
de agressão mas também de empatia e amor. A palavra grega philía, usada
com frequência nos textos epicuristas, traduz-se sobretudo por amizade,
mas também por amistosidade, afinidade, amorosidade e humanidade no
trato com o nosso semelhante, mesmo sendo um escravo ou prisioneiro. É
algo distinto do moderno sufixo –filia, de cunho patológico, como em
hemofilia ou pedofilia.

Numa notável progressão de afinidades e prudentes escolhas, o epicurista


afasta-se inicialmente do malfeitor e tende a estabelecer o pacto racional de
não causar nem sofrer mal de outros que lhe são apenas indiferentes. A
priori é tolerante com o que lhe é diverso nos costumes e crenças, recebe
bem o estranho ou estrangeiro, como os antigos nobres na Odisséia de
Homero, preocupando-se com seu bem-estar e desejando ouvir sua
narrativa.

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Por afinidades estabelece e cultiva amizades verdadeiras, amigos nos quais


confia e com quem pode contar, cuja companhia proporciona e multiplica
prazeres, sem quaisquer temores. Tais amizades constituem o summum
bonum, bem supremo e ápice da philía e são, segundo Epicuro, os frutos
mais saborosos do viver prazeroso.

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