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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CAMPUS ACADÊMICO DO AGRESTE (CAA)

NÚCLEO DE FORMAÇÃO DOCENTE

CURSO DE PEDAGOGIA – 3º PERÍODO

DISCENTE: MARIA DE FÁTIMA DANTAS SANTOS

DISCIPLINA: DIDÁTICA

SÍNTESE 7

FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não – cartas a quem ousa ensinar. São
Paulo: Olha D´água. 1997.

A obra intitulada “Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar” do
autor Paulo Freire, que durante sua vida foi educador, pedagogista e filósofo
brasileiro trata de várias questões referentes ao cotidiano e as lutas diárias
travadas pelos professores na sua prática docente. O livro é composto por doze
subtítulos, exceto introdução, que tratam de dez cartas aos professores sobre os
mais diversos assuntos e dois subtítulos que tratam das primeiras e últimas
palavras. Logo na introdução da obra, o autor explana os motivos de escrever o
livro e suas expectativas quando este for lido, dialogando também sobre
experiências suas com relação ao livro.

No subtítulo “Primeiras palavras: Professora-tia: a armadilha”, Freire


elucida sobre as relações do pensar, fazer, escrever, ler, pensamento,
linguagens, realidade, experimento a solidariedade e a total impossibilidade de
dicotomizá-los, ou seja, de utilizá-los e acreditar que estes são independentes,
sendo que os mesmos dependem uns dos outros, muitas vezes, para fazer
sentido. Exprimindo, pois, especificamente o título da obra, afirmando que seu
objetivo é “mostrar que a tarefa do ensinante, que é também aprendiz, sendo
prazerosa é igualmente exigente. Exigente de seriedade, de preparo científico, de
preparo físico, emocional, afetivo” (p.8), isto é, a “missão” do professor é exigente,
e sendo assim, exige dele valentia, por isso o “cartas para quem ousa ensinar”,
este papel (de ensinar) tornou-se algo em que necessita-se de coragem pra
assumir e um gosto por ensinar, há uma grande relação de afeto ao assumir esse
papel. O que não significa, porém, que os educadores devam viver para a
docilidade, a acomodação, não realizar greves, não lutar por seus direitos, por
exemplo. A tarefa de ensinar é uma tarefa profissional como qualquer outra, que
exige amorosidade, criatividade, porém que igualmente tem a capacidade de lutar
pelo que deseja. A partir dessa explicação, então, Freire nos explica a real razão
do título da obra. Não com a intenção de desmerecer nenhuma das figuras (tia e
professora), o autor explica pode-se ser tia com distância, sem querer ser tia,
porém ser professora não é algo feito à distância ou algo não escolhido, ser tia
não é profissão, ser professora sim e sendo professora e não tia, a educadora
tem certas tarefas, certa militância enquanto que a tia não. O que se entende, a
partir da explicação de Freire, é que comparar professora com tia tem sido como
o mesmo que afirmar que esta não deve brigar, não deve fazer greve, para não
prejudicar seus “sobrinhos”, uma boa tia não teria a coragem de cometer esse ato
de desamor para com seus amados “sobrinhos”. Em uma ainda subdivisão das
primeiras palavras, nomeada “Pacoteiros”, Freire elucida sobre os “pacotes”
criados com autoritarismo que os “sabichões e sabichonas” direcionam aos
professores e professoras com a intenção de amputar suas capacidades criativas
e criadoras, querendo possibilitar uma educação que não possibilita a formação
de mentes críticas, audazes e criadoras, não reconhecendo pois o papel dócil de
tia, a professora cria um modo de recusar as administraçõe pacoteiras. Em outra
subdivisão nomeada “Grandes obras e cidadania” o autor da obra explicita seu
entendimento por grandes obras e a questão da responsabilidade do professor
com a cidadania. O que se entende por grandes obras são aquelas referentes à
classe dominante, os grandes túneis, as grandes praças, o que é considerado
belo diante dos olhos dos que possuem poder, então tudo o que se refere às
classes populares não adentram essa realidade. Ainda em outra subdivisão
nomeada “Adocicar-amaciar”, Freire retoma a questão da nomeação professora-
tia, afirmando que sendo professor/professora, tia/tio temos todos os direitos de
lutar pelo que desejamos, porém professora é professora e tia é tia e não deve-se
aceitar a adocicação e amaciamento desta realidade.
Na primeira carta intitulada “Ensinar-aprender: Leitura do mundo- leitura da
palavra”, o autor defende a visão que não existe ensinar sem aprender, assim
como não existe aprender sem ensinar, pois ao mesmo tempo em que se ensina,
se aprende algo com quem está se ensinando e, consequentemente, quem
aprende torna-se ensinante. Porém, aprender també ao ensinar não dá o direito
ao ensinante de não se preparar com competência para exercer tal papel, é
necessário, então, estudar. Fazendo a relação, pois, com o estudar, o ler, o
observar, e o reconhecer as relações entre os objetos para conhecê-los, Freire
afirma que o ato de estudar é também o de ler, observar e reconhecer, ler em
especial além de palavras, contextos, ler o mundo. “Estudar é desocultar, é
ganhar a compreensão mais exata do objeto, é perceber suas relações com
outros objetos. Implica que o estudioso, sujeito do estudo, se arrisque, se
aventure, sem o que não cria nem recria.” (p. 23).

A segunda carta intitulada “Não deixe que o medo do difícil paralise você”,
explana sobre a dificuldade de lidar com o medo, defendendo a crença de que
não deve-se deixar levar pelo mesmo desistindo sem luta e esforço. Sobre o
medo de não entender algum texto quando lido, Freire afirma que é necessário
ver três pontos: “a) se minha capacidade de resposta está à altura do desafio, que
é o texto a ser compreendido; b) se minha capacidade de resposta está aquém e;
c) se minha capacidade de resposta está além.” (p.28) Estudar é um processo, às
vezes, doloroso, mas que traz consigo vitórias e alegrias. É preciso, por fim, que
os educandos possam ler e escrever analisando tramas sociais, utilizando isto
como construção de conhecimento.

A terceira carta intitulada “‘Vim fazer o curso do magistério porque não tive
outra possibilidade’ ” afirma que uma profissão de tanta beleza e importância não
deve ser escolhida a partir de frases com as que intitulavam o subtítulo. A prática
educativa é algo muito importante, pois lida com a vida e formação de crianças,
adolescente e adultos, então, não pode ser considerada apenas uma prática
enquanto “não aparece algo melhor” , é necessário seriedade para que nossos
educandos tornem-se presenças marcantes no mundo. Sem a convicção da
importância de nossos educandos não seremos capazes de lutar por nosso
salário e contra o desrespeito. Isso seria aceitar a condição de tia, de dócil.
Precisa-se entender, que “É urgente que o magistério brasileiro seja tratado com
dignidade para que possa a sociedade esperar dele que atue com eficácia e exigir
tal atuação.” (p.35), Freire ainda afirma que a educação pode não ser a alavanca
para a transformação social, mas, com certeza, sem ela não há como tal
acontecer.

A quarta carta intitulada “Das qualidades indispensáveis ao melhor


desempenho de professoras e professores progressistas”, Freire elucida algumas
características que, na sua visão, são necessárias em professores considerados
progressistas, a primeira delas é humildade, que não pode, neste caso, sem
confundido com acomodação, humildade tem o significado de ter a consciência de
que não sabe tudo, porém também não ignora tudo, é ouvir o outro, não por
obrigação, mas porque isso para seu papel de educador é necessário,
segundamente, o autor cita a amorosidade, pois sem esta a profissão perde todo
o seu significado, amorosidade não só com os alunos, mas com o próprio
processo de ensinar, seria a capacidade de ultrapassar todos os obstáculos que a
profissão de professora (e não de tia) impõe e ainda não desistir de seus alunos,
Freire, porém salienta, que este amor deve ser “armado” para que se possa lutar
pelo que deve ser conquistado. A partir da amorosidade, vê-se, segundo o autor,
outra qualidade: a coragem, entendida como superação do medo, tendo a
capacidade e domá-lo. Outra virtude é a tolerência, porém não a tolerância de ser
conivente com o errado e amaciar o agressor, mas de conviver e principalmente
aprender com o diferente. A capacidade de decisão também é citada por Freire
sendo uma das qualidades mais necessárias na prática docente, a decisão,
contudo, deve vir precedida de uma avaliação. “A segurança, por sua vez,
demanda competência científica, clareza política e integridade ética.” (p.40), isto
é, ser seguro a partir de uma fundamentação. Outra característica é a capacidade
de viver entre a paciência e impaciência, é necessário, então, um equilíbrio entre
eles, pois a paciência em excesso e sozinha, segundo Freire, leva a imobilismo, e
impaciência em excesso e sozinho leva a um ativismo cego. Por fim, temos a
virtude da alegria de viver, que seria a capacidade de apesar ter motivos para me
desaminar ainda ter coragem para lutar para a alegria da escola.

A quinta carta intitulada “Primeiro dia de aula” explana sobre algumas


dificuldades enfretadas pelas professoras em sala de aula, primeiramente
tratando da professora que se expõe pela primeira vez em uma sala de aula, que
apesar de cheia de teorias na mente conquista de sua formação inicial, se vê
paralisada, por vezes, pelo medo, que segundo Freire, é direito do educador,
porém este deve ter a capacidade de educá-lo, “de assumi-lo para superá-lo”
(p.44). E assumir o medo é uma atitude indispensável, aos alunos,
principalmente, como uma demonstração que os educadores também são
humanos, e que estes não são imunes ao medo. Outro ponto sobre a nova
experiência de uma jovem professora é a necessidade de fazer a “leitura” dos
seus alunos, identificando sua identidade cultural, podendo assim atender-lhes
nos aspectos que mais precisam. É necessário, ainda, a sensibilidade. Não
podem faltar atitudes que estimulem o carinho e a sensibilidade, estimulando
sempre a imaginação dos alunos desde o primeiro dia.

Na sexta carta nomeada “Das relações entre a educadora e os


educandos”, Freire nos apresenta suas análises sobre as relações de educadora
e educandos. É ressaltada a importância de dizer e fazer a mesma coisa, ou seja,
o famoso ditado “faço o que digo e não faça o que faça” não deve ser aceito no
âmbito da sala de aula. As crianças tem essa capacidade, segundo o autor, de
perceber que a sua professora faz o contrário do que sempre afirma, neste caso,
a relação educadora/educando é fragilizada. Outro ponto que não deve faltar na
relação com os alunos, segundo Freire, é “o da permanente disposição em favor
da justiça, da liberdade, do direito de ser. A nossa entrega à defesa dos mais
fracos, submetidos à exploração dos mais fortes” (p.52). São imprescindíveis
testemunhos de seriedade, disciplina, cuidado com o corpo. O professor, deste
modo, se porta como um ser democrático, um professor progressista.

A sétima carta nomeada “De falar ao educando a falar a ele e com ele; de
ouvir o educando a ser ouvido por ele” exprime a compreensão do autor sobre a
questão da importância de ouvir o aluno, de não apenas falar ao aluno e sim falar
com o aluno, levar em consideração suas opiniões e vivências. A autoridade
utilizada como modo de suprimir a vontade do outro deve ser deixada de lado,
segundo Freire, adequando-se a uma postura democrática. Conclui-se, portanto,
que “(...) é preciso e até urgente que a escola vá se tornando um espaço
acolhedor e multiplicador de certos gostos democráticos como o de ouvir os
outros, não por puro favor mas por dever (...)” (p. 60).
A oitava carta intitulada “Identidade cultural e educação” explana sobre a
importância da identidade cultural dos alunos e do educador/a e de suas
diferenças para o processo educativo. As relações contraditórias que, por vezes,
são criadas pelo embate de diferentes identidades traz uma grande riqueza à
prática pedagógica, o aluno se vê em torno de diversas identidades e será
influenciado por estas, não ficando apenas preso a suas convicções “inatas”.Em
relação à educadora, por sua vez, vê-se a necessidade de respeitar todas as
identidades que lhe aparecem no âmbito escolar, as educadoras devem conhecer
a realidade de seus alunos, “(...) o universo de seus sonhos, a linguagem com
que se defendem, manhosamente, da agressividade de seu mundo. O que sabem
e como sabem independentemente da escola” (p. 66).

A nona carta nomeada “Contexto concreto – contexto teórico” objetiva


explanar sobre a necessidade da união entre contexto prático e teórico na prática
educativa. Saber, então, que ambas unidas são de grande importância e as
mesmas desunidas trazem grandes prejuízos. Outro ponto a ser ressaltado é o
querer que a teoria se encaixe em qualquer contexto prático, sem analisar
realmente sua essência, de fato, para que qualquer intevenção teórica seja eficaz
é necessário a análise do contexto em que essa intervenção será efetuada, ao
mesmo tempo é interessante que esta prática seja iluminada sempre por uma
teoria.

Na décima carta intitulada “Mais uma vez a questão da disciplina”, Freire


afirma a relação da disciplina com o imobilismo, que esta não pode ser efetivada
em meio ao completo imobilismo da autoridade, como também não existe a
disciplina no imobilismo da liberdade. É interessante, desta maneira, um
movimento de ida e volta entre a autoridade e a liberdade. A democracia e atos
democráticos dependem dessa disciplina. Faltando-nos disciplina em casa, na
escola, na ruas é impossível que uma democracia de fato se efetue. O professor
deve, então, não só transmitir conteúdos, acreditando que somente isto é o seu
papel, deve ensinar e esta prática não se restringe somente à trasmissão de
conhecimentos, é a capacidade de transmitir o conhecimento e fazer o educando
se tornar produtor do que lhe foi ensinado, o professor para isso deve ser
preparado.
No subtítulo “Últimas palavras - Saber e crescer – tudo a ser”, Freire
explana sobre a relação entre saber e crescer, em que ambos andas unidos, pois
não se pode saber sem crescer, nem crescer sem saber. O saber é importante
para crescimento com a vontade de construir um mundo melhor para você mesmo
e para os outros, sendo um processo individual e coletivo, concomitantemente. O
mundo melhor também diz respeito, segundo Freire, libertar os oprimidos das
garras dos opressores.

O livro, de fato, serviu de grande enriquecimento na minha, particular,


formação docente. Freire através de sua linguagem única e com seus argumentos
bem fundados foi capaz de revelar diversos aspectos que passam despercebidos
na cotidianeidade do professor. Ao meu ver, a principal mensagem da obra é não
deixar que as professoras esqueçam o seu real papel de formadores humanos,
não podendo assim se limitar a visão de parentesco em que o papel de tia impõe.
Para que, realmente, a educação torne-se um dos meios de mudança da
realidade atual e que a profissão de educador tenha seu devido respeito,
professoras e professores devem assumir seus papéis de reais transformadores,
de lutadores, de pensadores e que formem também educandos com essas
características. A profissão de professor, com toda certeza, é de suma
importância, e contém vários desafios a serem enfretados porém, é necessário
que o professor se forme adequadamente e faça de sua prática um meio de
mudança.

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