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SOCIOLOGIA ECONÔMICA E O BRASIL: uma via aberta

Article  in  Revista Pós Ciências Sociais · January 2010

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Marcia da Silva Mazon


Federal University of Santa Catarina
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Sociologia econômica e o Brasil – uma via aberta

resenha | dossiê
Marcia da Silva Mazon*

MONDADORE, Ana Paula Carletto et al (Orgs.). Sociologia econômica e das finanças: um


projeto em construção. São Carlos: EdUFSCar, 2009. 380p.

O perigo que corre o autor que escreve o verbo se fez ação. Esta Sociologia Econô-
a partir das ciências sociais sobre os mer- mica brasileira está em marcha.
cados é o de não romper com o pacto par- Uma longa caminhada já foi percorri-
soniano. Ao querer falar da troca mercan- da e não foi sem dores. Perdemos, preco-
til, continuar falando sobre pobreza e da cemente em outubro de 2009, Cecile Raud.
sociedade como cindida em duas. Militante da construção de uma Sociologia
Deste mal não sofre a coletânea que Econômica do Brasil, ela organizou even-
nos é apresentada pelo NESEFI – Núcleo tos, publicou artigos e contribuiu na mobi-
de Sociologia Econômica e das Finanças lização de muitos pesquisadores em torno
da UFSCar. do tema. Defendeu ainda o reconhecimen-
O grupo em questão, sob a batuta de Ro- to da Sociologia Econômica como área de
berto Grün, propôs a organização de uma especialidade na Sociologia brasileira, para
rede de pesquisadores brasileiros de Socio- que ela saísse da sombra das ‘outras socio-
logia Econômica no primeiro congresso re- logias específicas’ no currículo Lattes.
alizado por eles em 2006, donde surgiram Este reconhecimento da área ganha novo
os artigos desta coletânea. O convite foi fôlego com esta coletânea. O dossiê propõe
aceito por vários pesquisadores e grupos, pensar a sociedade atual e a sedução provo-

* É doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política - UFSC.

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cada pelo mundo financeiro nas últimas dé- mia, ambos denominados como ‘novas ra-
cadas. A crise do estado de bem estar social cionalizações da produção’.
coloca em xeque a atuação seja do Estado O segundo artigo, seguindo a pista do
seja das empresas; confiável apenas o acio- isomorfismo empresarial, propõe um ma-
nista a conferir de perto o andamento de su- peamento do espaço de consultoria bra-
as aplicações. Este é o mundo da financeiri- sileiro. Começando pelos primórdios nos
zação. O confronto de diferentes matizes te- EUA no final do século XIX, as consulto-
óricas coloca em relevo a perspectiva insti- rias se iniciam como apoio às organiza-
tucional - caminho do meio entre estrutura e ções industriais norte-americanas, passan-
ação – a qual se desdobra e se refaz em dife- do no pós-guerra à assessoria no processo
rentes objetos empíricos. de reconstrução da Europa, acompanhan-
Qual a alternativa e as acomodações a do o impulso à penetração das multinacio-
esta nova ordem? nais no resto do mundo. A partir das úl-
Algumas respostas estão na primeira timas décadas elas situam-se na base do
parte do dossiê abordando a economia so- processo de construção e legitimação da
lidária e a responsabilidade empresarial. lógica financeira.
Nesta seção há uma reflexão teórica de A perspectiva histórica do acesso ao
escopo filosófico e analítico da economia crédito no Brasil e o monstro da burocra-
solidária, um artigo que trata dos sistemas cia que afasta pequenas empresas do setor
de trocas locais e reciprocidade, a proposta bancário é o tema do terceiro artigo. Em-
da expressão “práticas solidárias” no lugar bora uma parcela significativa da popula-
de “economia solidária”. Um artigo que ção que vive no fio da navalha tenha se
discute os dilemas das cooperativas dian- monetarizado, as pequenas empresas en-
te do universo de reestruturação econômi- contram barreiras para se manter no mer-
ca e flexibilização do trabalho, são os te- cado. No quarto artigo da seção II, discute-
mas em questão. Com relação às acomo- se a construção social do mercado de pro-
dações, um artigo que discute a responsa- dutos coloniais no estado de Santa Catari-
bilidade social de empresas públicas como na e os diferentes atores que apóiam/cons-
a Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa Eco- troem este mercado, tão bem como aqueles
nômica Federal. que são afastados destas iniciativas de In-
A segunda parte do dossiê mostra a fi- dustrias Rurais de Pequeno Porte.
nanceirização em processo: a lógica da pro- A parte III do dossiê propõe refletir so-
dução, do mundo do trabalho, como con- bre o novo balanço de forças entre Estados,
vergindo para uma lógica única do mun- bancos, elites e sindicatos, tanto quanto
do das finanças. O primeiro artigo da parte sobre quais são os novos aparatos cogni-
II trata das mudanças no ritmo e nas con- tivos na era da financeirização. O primeiro
cepções de empresa: a organização do tra- artigo discute os embates culturais em tor-
balho passa a ser decifrada como elemen- no da legimitação dos Private Equities co-
to financeirizável. O artigo mostra quais as mo irmãos das mudanças nos últimos anos
conseqüências deste processo, como inse- no Brasil. O artigo mostra o surgimento de
gurança, alteração no ritmo do trabalho e novas elites oriundas do sindicalismo e dos
os constrangimentos advindos deste ‘cons- movimentos sociais. Elas chegam reforçan-
tante desafio’ à competência e à autono- do o predomínio das finanças, mesmo que

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situadas ‘à esquerda’. A dinâmica do espa- ponto de vista das inflexões entre as bor-
ço cognitivo atual, conforme o autor, apa- das da Sociologia e a Economia e sugere
rece preenchida pela oposição governança a Sociologia Econômica muito mais como
corporativa x private equities. Este embate agenda de pesquisa do que campo teórico
dá novo fôlego à legitimação da ordem fi- em construção. É de Cecile Raud o artigo
nanceira, tanto como produto como gera- que apresenta um mapeamento das pes-
dor de novos enquadramentos cognitivos. quisas no âmbito da Sociologia Econômi-
O segundo artigo da parte III dedica-se ca no Brasil. Ela mostra como a crise eco-
à década de 90 e o momento de suspensão nômica dos anos 80 e as reformas liberais
do modelo de intervenção estatal no Banco estão no cerne das preocupações dos pes-
do Nordeste, agente financiador do desen- quisadores que se dedicam à área. O ter-
volvimento regional brasileiro. Neste pe- ceiro artigo desta seção aborda a questão
ríodo, o referido banco inaugura um no- da confiança a partir do sistema de crédi-
vo padrão de intervenção com redireciona- to – explorando os conceitos de incerte-
mento para uma atuação creditícia. O au- za e vulnerabilidade. Da pessoalidade aos
tor constata uma crise de identidade (e a dados quantitativos construídos em âmbi-
falta de êxito) entre agência de desenvolvi- tos contratuais, do intimismo a uma eco-
mento e a velha prática de instituição vol- nometria, o sistema de crédito alça à con-
tada apenas para grandes tomadores. dição de impessoalidade.
Fazendo uma mapeamento das novas Sem dúvida, a obra em questão trata-
instituições financeiras no Brasil após a se de uma contribuição valiosa à institu-
abertura ao capital externo, o terceiro ar- cionalização da Sociologia Econômica no
tigo convida a uma reflexão da dinâmica Brasil e material de consulta aos inician-
econômica e política no Brasil de hoje. A tes. Aos que reclamarem da não menção à
complexa trama de inter-influência ban- Sociologia Econômica na sua particulari-
cos e órgãos de representação de classe do dade específica das finanças nesta publica-
setor mostra o quanto eles estão presen- ção, lembro que não é necessário, ela já é
tes tanto na cena econômica como políti- das finanças.
ca: seu papel no controle da dívida públi-
ca, participação no financiamento de cam-
panhas eleitorais, entre outros.
A participação dos sindicatos como no-
vos atores no processo de financeirização é
também presente no quarto artigo da parte
III. A autora mostra o movimento de apro-
ximação por parte da União Européia e
sindicatos franceses dos modelos de fun-
dos de pensão norte-americanos.
A última parte do dossiê faz um balan-
ço da literatura e reflexões teóricas gerais
quanto à Sociologia Econômica e seu per-
fil brasileiro. O primeiro artigo da parte IV Recebido em:13/02/10
explora o pensamento social ocidental do Aprovado em: 20/04/10

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