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INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO

FACULDADE MARTINS - FAMART


FELIPE TRINDADE SANTOS

ENTRE A CRUZ E A ESPADA: A CRISTANDADE NO ATUAL CENÁRIO


POLÍTICO BRASILEIRO

SÃO JOÃO DEL REI


2021
INSTITUTO NACIONALDE ENSINO
FACULDADE MARTINS - FAMART
FELIPE TRINDADE SANTOS

ENTRE A CRUZ E A ESPADA: A CRISTANDADE NO ATUAL CENÁRIO


POLÍTICO BRASILEIRO

Artigo Científico encaminhado ao Instituto


INE/FAMART, como requisito parcial para
obtenção do título de Especialista em Ciências da
Religião.

SÃO JOÃO DEL REI


2021
ENTRE A CRUZ E A ESPADA: A CRISTANDADE NO ATUAL CENÁRIO
POLÍTICO BRASILEIRO

Felipe Trindade Santos1

RESUMO

As eleições presidenciais de 2018 revelaram mais uma vez a ligação de distintos aspectos da
realidade com a religião. O que se percebe atualmente é que a tese de Friedrich Nietzsche sobre a
morte de Deus, sobre o desaparecimento da influência cristã na sociedade, ainda não se completou
no Brasil. A religião cristã continua a ser influência ou é usada como forma de influência para
estabelecer as relações sociais, políticas e econômicas na terra de Santa Cruz. Um olhar de relance
sobre o passado revela que a influência religiosa não é nenhuma novidade. Desde o suposto
descobrimento do Brasil, até a formação do Império e conseqüentemente da República, o que se
percebe é o constante entrelaçamento entre fé e política, com as devidas acentuações. O trabalho se
caracteriza por uma pesquisa bibliográfica com base em arquivos da Internet e em livros de biblioteca
pessoal. Por meio de um panorama histórico, esse trabalho demonstra que as eleições presidenciais
acentuaram o aspecto de cristandade que invade o atual cenário político ao vincular o voto e o
programa de governo a ideais acentuadamente religiosos em face de um Estado laico.

Palavras chave: Cristandade. Religioso. Protestantes. Política.

Introdução
O trabalho que se segue busca demonstrar como as instituições religiosas
cristãs estão inseridas na política atual de tal forma que buscam retomar a antiga
realidade da Cristandade, vivenciada na Europa e também nas Américas. Por meio
de uma série de pesquisas acadêmicas, o trabalho contará com uma série artigos e
dados jornalísticos que relatam o apoio dos religiosos, com maior incidência dos
protestantes, nas eleições de 2018 e também toda a ideologia que permeou tal
escolha. Por tratar-se de um artigo científico, a tese acerca da Cristandade será
desenvolvida mediante dados históricos que revelam que essa ligação da Fé com o
Estado não é algo novo na formação do Brasil, mas aconteceu desde os tempos da
colonização.

Esse caminho histórico se fará mediante um breve estudo da relação da


Igreja Católica com o Governo Colonial, Imperial, Militar e Republicano. Levando em
conta as circunstâncias das quais a atualidade se reveste, o percurso histórico não
pode descurar da influência do protestantismo no Brasil; algo inusitado para boa

1
Mestrando em Educação pela Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ),
graduado em Filosofia pela mesma Universidade(2009), graduado em Teologia pelo Instituto Santo
Tomás de Aquino (ISTA) em 2017. Email: philipus2010@yahoo.com.br
parte do público estudantil. Se antes o corpo eclesial protestante não possuía
relevância no meio social e nem procurava estruturar sua história, o final do século
XX expõe um crescimento maciço em meio à população brasileira, assim como
maior inserção no meio político.

Toda a trama do trabalho é importante num momento em que a religião


cristã dá mostras de recuperar seu espaço público por meios diferenciados. Tal
trama é envolvida por uma série de historiadores, de teólogos católicos e
protestantes, cientistas da religião e sociólogos que em muito contribuirão com o
enriquecimento da pesquisa.

1 Padroado no período colonial e imperial


O período colonial expressa bem esse universo misto que envolve a
formação do Brasil. As nações européias saíam em direção a outros lugares,
constantemente em busca de riquezas e mão de obra. Sob o pretexto da civilização
e da manutenção da fé, terras distintas e os povos que nelas habitavam foram
dominados, culturas foram extintas e riquezas foram extraídas. A dominação se
estabelecia por meios culturais, psicológicos persuasivos e ainda por meio da
coerção realizada pelas torturas e assassínios. Desse modo povos da Ásia, da
África e conseguintemente da América foram debelados. O que diz respeito à
história do Brasil e da América liga-se ao período das Grandes navegações, nas
quais Espanha e Portugal dispunham da dianteira, devido às crises vividas por
França e Inglaterra, como também pelos desafios impressos à toda Europa naquele
período: peste, princípios da reforma Protestante, lutas internas das famílias pelo
Papado, renascimento cultural, fim da escolástica entre outros. A península Ibérica
acabava de se libertar do domínio árabe e o catolicismo ali gozava de todo o
esplendor, com forte inspiração medieval, como se estivesse numa Europa de outros
tempos. Colonizar outros povos tornou-se uma obrigação política, mas imbuída de
um caráter de fé: era preciso levar a mensagem de Cristo para outros lugares.

No domingo, 8 de março de 1500, ano Jubilar da Igreja, houve solene missa


de despedida em Nossa Senhora de Belém no Rastelo, em Lisboa, com a
presença do rei dom Manuel I (1495-1521), cognominado “O Venturoso”.
Dom Diogo Ortiz(...) fez um sermão doutíssimo em que declarou o grande
zelo com que o rei pretendia chegar com suas armas(...) e de dilatar a fé de
Cristo. Após a Eucaristia teve lugar a benção da bandeira da Ordem de
Cristo. 2

A história do país já havia sido iniciada com os povos nativos, os índios,


contudo a expressão cultural marcada pela oralidade, pela transmissão da cultura
através dos ensinamentos diários e pelo realizar dos ritos, foi sendo supressa pela
cultura dominante, caracterizada pelo poder da escrita, da coerção e da religião
Cristã de inspiração católica. Foi assim que capitanias foram divididas levando em
conta a ligação das pessoas com a fé e o governo português periodicamente sendo
enviados civis com altos cargos e autoridades religiosas a fim de dilatar a fé e os
bons costumes.

O período alcunhado como Imperial continuou seguindo os moldes de tal


estratégia. Os monarcas de Portugal estabeleceram-se na nação com o propósito de
inicialmente prestigiar a colônia e posteriormente torná-la Império independente.
Dom João, Dom Pedro I e Pedro II foram herdeiros de uma Tradição portuguesa e
católica conhecida como Padroado. Essa expressão designa uma série de
prerrogativas atribuídas aos Reis de Portugal como representantes diretos da Igreja,
com o intuito de propagar a fé cristã católica promovendo evangelização das terras
nacionais e dominadas com o envio de missionários religiosos e sustentação dos
mesmos, bem como recebimento de parte do dízimo eclesiástico. O que se conclui
dessa ligação é que a cruz e a espada são parte integrante do domínio da coroa
lusitana, e por conseqüência, da coroa imperial no Brasil. Os chefes políticos são
investidos de poder divino, são considerados verdadeiros representantes de Deus. O
poder que possuem provém de Deus, tese que confirma a estreita ligação da realeza
com o sagrado, assim como todos os seus atos. Divergir do rei é divergir da vontade
de Deus.

1.2 A Cruz e a espada em tempos de República


Embora com algumas divergências, a Igreja seguiu sua ligação com os
chefes da República. Divergências porque o início da República gerou certa
instabilidade, dividindo opiniões acerca da legalidade e da sacralidade de tal
movimento. Muitos membros do Clero se apegaram à figura do Império e

2
João de Barros, escritor português contemporâneo ao evento in MATOS, Henrique
Cristiano José. Nossa História: 500 anos de presença da Igreja Católica no Brasil/ Período Colonial.
3 ed. São Paulo: Paulinas, 2011. (p. 22-23)
reconheciam no Imperador a expressão da vontade divina enquanto outros
acompanhavam as tendências liberais e acreditavam na possibilidade de autonomia
como fonte de crescimento. Mesmo com a separação da Igreja e Estado aprovada
em janeiro de 1890, na recém proclamada república, essa união acontecia de forma
camuflada. A laicidade do Estado foi sendo rompida por meio de uma aliança entre
líderes do Episcopado e os representantes da nação. Dom Sebastião Leme é figura
marcante nesse processo que insere a Igreja Católica na linha do Estado
protegendo os valores morais e cívicos da Pátria, ao mesmo tempo em que decisões
governamentais aprovavam o ensino religioso em escolas, a instituição da Padroeira
do Brasil, a presença dos governantes em Congressos Católicos, bem como seu
aparato na idealização e construção de projetos como o do Cristo Redentor no
Corcovado.

...ressurgiu com força a utopia de uma “nova cristandade” a ser conquistada


no Brasil. Na opinião dos bispos da época, a reconciliação da República
com a religião tradicional salvaria o país do eminente perigo de subversão
política e ideológica. Nesse clima foi traçado o ideal da neocristandade,
modelo de aliança entre Igreja e Estado, não mais em termos de
submissão, mas de cordial colaboração, juridicamente assegurada(...) como
representante do poder espiritual, apenas ela poderia fundamentar os
princípios de ordem e autoridade, sem os quais a nação fatalmente se
desintegraria, caindo em um caos social.3

A Igreja assombrada pelo fantasma do comunismo e pela difusão das idéias


divulgadas como sendo por ele defendidas(abolição da propriedade privada, fim das
famílias, ateísmo, etc), acabou por apoiar em grande maioria os feitos das Ditaduras
Militares impostas em boa parte da América Latina. Poucas exceções dentro do
clero buscavam denunciar os abusos cometidos em nome da Pátria. Os que se
colocavam contra os regimes eram perseguidos, difamados, torturados e até mortos.
Muitos membros do Clero, leigos e demais envolvidos em lutas sociais foram vítimas
da luta por direitos humanos e até hoje são reverenciados.

Dessa forma a Igreja chegou ao período democrático sempre apoiando


líderes que defendiam valores a ela associados como a defesa da família,
contrariedade ao aborto e aos métodos contraceptivos, bem como àqueles que a

3
MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa História: 500 anos de presença católica no
Brasil, período republicano e atualidade. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 2011. (pg 59 -60)
favoreciam com constantes doações e apoio explícito. Até aqui muito foi falado
sobre a influência do catolicismo, maioria ainda no Brasil, mas pouco dito sobre a
presença Protestante, hoje em número elevado.

2 Um outro caminho: cristãos protestantes na terra de Santa Cruz


Os Protestantes chegaram ao país por volta da segunda metade do século
XVI, fixando permanência em territórios do sudeste e, sobretudo do Nordeste. Eram
os calvinistas franceses que chegaram ao país por volta de 1555 e os calvinistas
holandeses por volta de 1630.

A primeira tentativa de invasão ocorreu na Bahia de Todos os Santos, em


1624, mas não teve o esperado êxito. Entrementes, a captura de uma frota
espanhola carregada de prata, em 1628, forneceu recursos suficientes para
novos ataques. De fato, em 1630, a Companhia das Índias Ocidentais
enviou poderosa esquadra a Pernambuco, dando início à ocupação
holandesa do Nordeste brasileiro, que duraria 24 anos. 4

Paulatinamente os protestantes vão ocupando sua importância histórica e


social no país. É bem provável que o protestantismo chegou ao país com os
ingleses nas suas relações estreitas com o governo Português Imperial. Afirmação
ratificada por Eduardo Guilherme de Moura, Mestrando em História pela UFSC,
como também afirmam os estudos de Émile Léonard, referência em História do
Protestantismo brasileiro. Uma confissão de fé Anglicana com base no modelo
calvinista e na estrutura ritual católica, sem muitas pretensões. A abolição da
escravatura traz uma oportunidade para contratação de mão de obra vinda da
Europa. É nesse ínterim que alemães, poloneses, italianos, holandeses, adentram o
país para fugirem das guerras civis e entre seus países de origem, para trabalharem
nas lavouras de café do Sudeste e Sul do País. Com eles chegam seus costumes e
sua forma de fé, já imbuída de uma vivência protestante. No seu artigo “Uma breve
análise historiográfica do protestantismo brasileiro e suas tendências atuais”,
Eduardo Guilherme aponta que duas formas de protestantismo ocorrem nesse
período: o protestantismo de imigração com influência luterana e o protestantismo
de missão com tendência evangelizante das Igrejas Presbiteriana, Congregacional e
Batista. No artigo intitulado “O Surgimento das denominações evangélicas no Brasil
e a presença política” os autores Rafael Bruno e Graciele Macedo relatam que esse
4
MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa História: 500 anos de presença católica no
Brasil/Período Colonial. 3 ed. São Paulo: Paulinas, 2011. (pg 258)
protestantismo de missão representa a primeira onda do chamado movimento
pentecostal, iniciado por dois suecos expulsos da Igreja Batista que fundaram a
Assembleia de Deus em Belém do Pará em 1911 e também por um Italiano de nome
Francescon que funda a Igreja Congregação Cristã no Brasil em 1910.

Na formação do povo brasileiro é importante enfatizar a força das Igrejas


Pentecostais, maioria protestante presente no país. Essas Igrejas se caracterizam
pela ligação íntima com o Espírito Santo, pelo dom de línguas e pelas orações que
conduzem ao êxtase. Segundo Rafael Bruno e Graciele, a segunda onda dessa
corrente se dá por volta de 1951 com a fundação da Igreja do Evangelho
Quadrangular, que se volta para a evangelização em massa com destaque pela
busca dos usos de meios de comunicação. A terceira onda está representada pela
fundação das Igrejas durante e após a década de 70: Universal do Reino de Deus,
Internacional da Graça, Sara nossa Terra, Renascer em Cristo, Mundial do Poder de
Deus. Estas últimas encontram apoio em grandes meios de comunicação na
televisão, estabelecem uniões com pessoas influentes no meio artístico nacional,
como também usam das possibilidades oferecidas pelas redes sociais com amplo
alcance.

Discorrendo sobre sua presença na política, os protestantes tiveram uma


tímida presença no período imperial de Dom Pedro II, assim como nos anos
subseqüentes da República instituída. Não raro alguns políticos são eleitos e tomam
parte no parlamento revezando entre luteranos, presbiterianos, metodistas e
congregacionalistas. Após a década de 80, com o gradativo restabelecimento da
democracia, as Igrejas evangélicas que estavam voltadas para o fortalecimento de
suas identidades, conversão de católicos e manutenção da vida eclesial, acabaram
por ingressar na política:

Um fato que influenciou a entrada da Assembleia de Deus na política foi o


lançamento do livro Irmão vota em Irmão, do assembleiano Josué Sylvestre.
A obra serviu como uma espécie de convocação dos evangélicos,
sustentada por preceitos bíblicos, procurando mostrar a importância da
entrada deste segmento religioso na política. A Igreja do Evangelho
Quadrangular (IEQ) seguiu o exemplo da Assembleia de Deus e, mesmo
contrariando a direção internacional da denominação, decidiu lançar
candidaturas oficiais.5

É perceptível um notável crescimento da bancada evangélica, que de início


desarticulada e ainda buscando valorizar os interesses de cada denominação, acaba
por formar a Frente Parlamentar Evangélica em 2003. Uma bancada que se une
para defender, segundo o professor Ricardo Mariano em aula inaugural do programa
de Pós-graduação em Sociologia Política da UFSC em março de 2019, “a família, o
paternalismo, o criacionismo, a contenção da sexualidade, do feminismo, do
homossexualismo e do aborto”. Note-se que o fim da década de 80 marca o fim da
Ditadura Militar e o início do processo de redemocratização.

A formação da Nova Constituinte marca o caráter laico do Estado, sem


tolher as liberdades de fé. A laicidade do Estado busca permitir a convivência das
pessoas com os distintos credos existentes e inclusive determina a liberdade
daqueles que nada crêem. O espaço da democracia garante, ou visa garantir a
liberdade de expressão e permite o amplo diálogo. Na formação do Congresso se
acentua o caráter da livre escolha, do voto cidadão que abre possibilidade para as
Igrejas evangélicas ganharem o espaço perdido e almejado ao longo de tantos anos,
para garantir, mesmo em meio ao caráter “arreligioso” da República, para
estabelecer as bases, que segundo eles, identificam formação do povo brasileiro.
Espaço agora timidamente assumido pelos católicos que antes envolvidos,
principalmente nas bases, na luta pelos direitos sociais na década de 90, atualmente
se vêem como líderes políticos, assim como os evangélicos, defendendo um novo
tipo de cristandade.

3 Brasil acima de tudo, Deus acima de todos


Foi com essa mimética e emblemática frase que o Executivo Federal e, boa
parte do Congresso Nacional, garantiu a vitória de um movimento político visto por
muitos comentadores políticos como de Extrema Direita. Essas eleições ocorridas
em 2018 demonstraram a insatisfação do povo com a classe política e ao mesmo
tempo a crença no “messianismo político” apresentado como alternativa única para a

5
GONÇALVES, Rafael Bruno; PEDRA, Graciele Macedo. O Surgimento das
Denominações Evangélicas no Brasil e a Presença na Política. Diversidade Religiosa, João
Pessoa, v. 7, n. 2, p. 88, 2017.
solução dos problemas do país. Essa expressão é de extrema importância e faz-se
necessária para compreender toda a argumentação desta pesquisa.

Do ponto de vista religioso o messianismo era um movimento próximo da


Época de Cristo que se resume na expectativa de um líder diferenciado, enviado por
Deus, para restabelecer a glória do povo judeu, então massacrado por diversos
povos, sem posse da terra e da sua identidade. Esse Messias é um líder político,
uma figura enviada por Deus para por fim ao sofrimento desse povo e inaugurar um
tempo de prosperidade, de recuperação daquela dimensão de felicidade do paraíso
perdido. Ao longo do tempo e com diferentes matizes, os povos encontraram na
figura de algumas pessoas a libertação dos males desse mundo. Em diversas
religiões aparecem pregadores, santos, monges, profetas que buscam introduzir o
mundo perdido no caminho da iluminação: Maomé, Jesus, Buda, Gandhi, Teresa de
Calcutá, entre outros. A eles acorriam pessoas de diversos lugares e classes sociais
para reencontrar, por meio dessas figuras marcadas pelo Sagrado, o equilíbrio
perdido.

Do ponto de vista político e social também acontece o mesmo fenômeno.


Diante de tempos difíceis marcados pela guerra, por epidemias, pela fome, pelas
incertezas próprias de uma mudança de época, o povo se encontra perdido,
desmotivado, desesperançado, sem a perspectiva de um futuro. É justamente
nesses períodos que líderes surgem com o intuito de unificar, de devolver a
esperança, de reacender a vontade de potência. Tais líderes são envolvidos por
uma capacidade de organização que a História os imortaliza: Padre Cícero, George
Washington, Nelson Mandela, Ricardo Coração de Leão, Luther King, Simon Bolívar
entre outros. Contudo, tais acontecimentos podem fazer eclodir as sementes de
Falsos profetas, capazes de alimentar os sonhos de um povo ou de um grupo,
encobrindo ideais tenebrosos sob o véu da capacidade de argumentação, da
autoridade, da ordem e de uma suposta liderança resumida apenas em tirania. Um
olhar para o passado pode elencar uma série de falsos líderes ou falsas ideologias
que subverteram a história da humanidade: Constantino, Hitler, Fascismo,
Movimentos Supremacistas Brancos, Stalin, Ditaduras militares entre outros.

Embora estejam separados didaticamente, os planos acima podem se reunir


como a história mesmo revela e podem trazer ora danos, ora contribuições. Se
atendo ao conceito de Cristandade, a história mostra a complexidade de relações
estreitas entre a cruz e a espada. A começar de Constantino e a liberdade de culto
dada aos cristãos. O imperador agia em nome da fé, mas continuava realizando
seus feitos sanguinários e utilizando das estruturas eclesiais para dominar as
pessoas. A História nos mostra ainda as peripécias dos reis cristãos na Europa
Medieval que colocavam os interesses da Igreja acima de tuso somente quando ela
cumpria sua função de apoio incondicional ao Rei e às suas empreitadas. Por que
não dizer das lutas entre os reis e príncipes católicos e protestantes reivindicando
territórios, tesouros e domínio de pessoas em nome de uma fé verdadeira em ambos
os lados. Por fim não se pode deixar de lado a própria experiência do Padroado no
Brasil dada às intromissões do Rei em assuntos religiosos, inclusive interditando
decisões do papa, ao controlar maior parte do dízimo destinado ao culto, ao
minimizar a ação religiosa reduzindo números e contendo gastos. Visível foi o
crescimento da Igreja Católica em termos de autonomia e missão após a formação
da República e a separação formal do Estado.

No entanto, o que muitos teólogos, cientistas políticos e cientistas do campo


da religião acenam é para uma intromissão da religião nos assuntos de Estado e
vice-versa. Sobressai nesse momento o conceito que melhor explica toda essa
situação: o novo modelo de Cristandade. Embora esteja ancorada em moldes
antigos, como bem determina o uso da expressão ao tratar da união dos interesses
religiosos cristãos aos políticos, como também a defesa inconteste de “bandeiras”
próprias do grupo, esse conceito se reveste de um aspecto distinto aqui no país:
uma cristandade agora assumida majoritariamente pelos protestantes, sobremaneira
pelos neopentecostais. Hoje, segundo o professor Ricardo Mariano, o país tem 30%
de sua população ligada ao movimento protestante. Eles conseguiram seu lugar no
espaço público e “ganharam terreno” enquanto a Igreja Católica e outros segmentos
religiosos se afastavam da vida política.

Essa Cristandade tem ganhado vida no País desde os embates dos


Deputados pastores com o Governo de esquerda que comandou o país durante
mais de 12 anos. Os interesses dessa Cristandade viram-se motivados na
reconstrução do país quando pautas sobre o aborto, união homoafetiva, discussão
de gênero, criminalização da homofobia, feminismo e direitos humanos foram sendo
abordadas e colocadas em discussão quando não apoiadas em leis reguladoras. A
título de exemplo é indispensável relembrar os estímulos que motivaram o
afastamento da presidente Dilma, resultados de uma série de críticas a essa política
inclusivista muito mais do que à crise econômica mundial que enfim havia chegado
ao Brasil.

As eleições presidenciais de 2018 constituíram-se como um verdadeiro


campo de guerra que resultava em lutas físicas, mas se pautaram muito mais numa
batalha midiática e psicológica. As Igrejas evangélicas travavam uma verdadeira luta
demonizando os governos de esquerda como destruidores da família, da moral e
dos bons costumes. A pauta mais colocada em discussão naquele período foi o
suposto “Kit gay” fomentado pelo Ministério da Educação, o que já se provou
inverídico pelos próprios meios de comunicação. Fato é que muitos líderes religiosos
e setores de ordem econômica estavam insatisfeitos com o governo em exercício.

Foi dessa forma que o “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” ganhou
uma ampla aceitação e concedeu espaço aberto para a eleição de Jair Messias
Bolsonaro como Presidente da República com uma série de apoiadores da política
tradicional brasileira. A campanha foi simples, realizada por meios das redes sociais,
mas o candidato e todos os partidários visitaram vários lugares do país com o
discurso de antipetismo e defesa dos valores tradicionais da família e da fé. Setores
evangélicos apresentavam-no como o candidato da fé, o enviado de Deus e parte da
denominada direita conservadora do catolicismo também o apoiou
incondicionalmente. Sua defesa desses ditos valores cristãos, sua formação militar
associado ao desejo de permissão do uso de armas como também a idéia de
progresso, ancorada num afrouxamento das políticas ambientais, representou todo o
apoio necessário das grandes bancadas do Congresso, assim curiosamente
chamadas: bancada da Bíblia, da bala e do boi.

Embora o a nação brasileira seja constituída pelo Estado laico, o desejo por
uma união de fé e política reside no inconsciente cristão. É preciso indagar uma
série de questões, até mesmo se as motivações são realmente cristãs ou se são
pela manutenção do poder e das consciências. Por que não indagar se a população
brasileira é realmente de maioria cristão ou se aceita ainda fé por convenção, mas
dela não carrega implicações no cotidiano. Uma coisa não pode ser negada: os
fantasmas do passado continuam a assombrar nos dias atuais.
Considerações Finais
O presente trabalho procurou se enveredar pelas vias da história e da
análise sociopolítica para demonstrar que mesmo em meio a um Estado
Democrático de Direito, regido pela laicidade, os grupos cristãos ainda tentam impor
a fé e um programa de administração que reivindique os dogmas de fé contidos em
suas diretrizes eclesiais. O que foi discutido ao longo do texto é que a relação entre
Cristianismo e Estado não é uma novidade no país. Mesmo que o país não declare
mais uma religião desde o início do período republicano, a história comprova
conchavos e tramas que demonstram o contrário.

Quando se está do lado dos vencedores tudo isso pode ser visto com muita
tranqüilidade, mas quando se está do lado dos ateus, dos membros de tradições
africanas, tradições indígenas ou mesmo dos excomungados da fé cristã, o
panorama pode ser outro. A História demonstra que os vencidos sempre são
esquecidos, deixados de lado, ou mesmo excluídos por compartilharem de ideais
distintos.

Ao longo de todo esse panorama é importante pensar se tudo isso


representa uma vitória da fé cristã ou uma vitória de interesses escusos ocultados
por uma roupagem de fé. O futuro revelará a verdade. Pode ser um futuro muito
próximo no qual situações acabem sendo desvendadas ou desmascaradas
mostrando a verdadeira face daqueles que usaram o nome de Cristo, ou um futuro
distante, escatológico, no qual os crentes afirmam que todas as obras serão
julgadas pelo justo juiz. Certo é que para ambos desvelamentos, o da vida ou o da
fé, a verdade, a justeza e a integridade serão apuradas.

REFERÊNCIAS

GONÇALVES, Rafael Bruno; PEDRA, Graciele Macedo. O Surgimento das


Denominações Evangélicas no Brasil e a Presença na Política. Diversidade
Religiosa, João Pessoa, v. 7, n. 2, p. 88, 2017.

LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de


eclesiologia e história social. São Paulo: ASTE, 1963.
MARIANO, Ricardo. Religião e política no Brasil: a ascensão da direita cristã.
Programa de Pós-graduação em Sociologia Política. Disponível em :
<https://www.youtube.com/watch?v=plRmttAXYgo>. Acesso em novembro de 2020.

MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa História: 500 anos de presença da Igreja
Católica no Brasil/ Período Colonial. 3 ed. São Paulo: Paulinas, 2011.

MATOS, Henrique Cristiano José. Nossa História: 500 anos de presença católica
no Brasil, período republicano e atualidade. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 2011.

MOREIRA, Gilvander Luís. Fé cristã e Eleições 2018: em quem Jesus não votaria.
São Leopoldo: Unisinos, 2018. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/78-
noticias/583320-fe-crista-e-eleicoes-2018-em-quem-jesus-nao-votaria>. Acesso em
16 de agosto de 2020.

NASCIMENTO, Sílvio Firmo. A religião no Brasil após o Vaticano II: uma


concepção democrática da religião. Barbacena: UNIPAC, 2005.

PAEGLE, Eduardo Guilherme de Moura. Uma breve análise historiográfica do


protestantismo brasileiro e suas tendências atuais. XXIII Simpósio Nacional de
História: Londrina, 2005. Disponível em: <https://anpuh.org.br/uploads/anais-
simposios/pdf/2019-01/1548206571_71feaa8aebee2bd99158ed222036de65.pdf>.
Acesso em 05 de janeiro de 2021.

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