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AGRESSIVIDADE INFANTIL NO AMBIENTE ESCOLAR: CONCEPÇÕES

E ATITUDES DO PROFESSOR
*
Maria Abigail de Souza
#
Rebeca Eugênia Fernandes de Castro

RESUMO. Ao se abordar o tema da agressividade infantil no ambiente escolar é preciso considerar a participação dos envolvidos neste
fenômeno: pais, crianças e professores. Tal abordagem vem sendo conduzida em projeto de pesquisa mais amplo, do qual o presente
estudo representa um recorte, ao enfocar apenas o ponto de vista dos professores. O objetivo é analisar as concepções e atitudes
relacionadas à expressão da agressividade infantil na escola. Realizou-se uma avaliação qualitativa, por meio de entrevistas individuais
semidirigidas com 15 professores de uma escola pública da periferia de São Paulo. As atitudes mais citadas como agressivas envolvem
rebeldia e agressão física entre alunos, sendo esta última a queixa que mais motiva o encaminhamento para ludoterapia. Em relação às
estratégias de manejo, predominam atitudes envolvendo diálogo e compreensão. Os dados sugerem que subsiste preocupação do professor
com as crianças, o que desperta nelas a esperança de obter atenção e cuidado.
Palavras-chave: alunos agressivos, professores, ludoterapia.

CHILDREN’S AGGRESSIVENESS AT SCHOOL: TEACHER’S


CONCEPTIONS AND ATTITUDES

ABSTRACT. The participation of all people, parents, children and teachers, involved in children aggressiveness in the
school environment is needed to study the phenomenon. This approach has been undertaken through a larger research,
including current study, which focuses on the teacher’s point of view. Teachers’ conceptions and attitudes about children
aggressive expressions in school are investigated. A qualitative assessment was undertaken. It comprised individual semi-
directed interviews with 15 teachers of a public school in a low-income population suburb in São Paulo SP Brazil. Most cited
aggressive attitudes include revolt and physical aggression among students. The latter complaint is the main reason that
motivates teachers to send children to play-therapy. Conflict administration strategies involve dialogue and comprehension.
Data suggest that concern by the teacher on children still exists in whom they hope to obtain attention and care.
Key words: Aggressive children, teachers, play-therapy.

AGRESIVIDAD INFANTIL EN EL AMBIENTE ESCOLAR: CONCEPCIONES Y


ACTITUDES DEL PROFESOR

RESUMEN. Al abordarse la agresividad infantil en el ambiente escolar, es necesario considerar la participación de los envolvidos en
este fenómeno: padres, niños, profesores. Este abordaje ha sido conducido en un proyecto de investigación más amplio, del cual este
estudio representa un recorte, al focalizar el punto de vista del profesor. El objetivo es analizar concepciones y actitudes relacionadas a
la agresividad infantil en la escuela. Se ha realizado una evaluación cualitativa, por medio de entrevistas individuales semi dirigidas
con 15 profesores de una escuela pública de la periferia de Sao Paulo. Las actitudes agresivas más citadas son rebeldía y agresión
física entre alumnos, siendo esta última la queja que más motiva la indicación para ludo terapia. En las estrategias de conducción
predominan actitudes envolviendo diálogo y comprensión. Los datos sugieren que subsiste preocupación del profesor con los niños, lo
que despierta en ellos la esperanza de lograr atención y cuidado.
Palabras-clave: Alumnos agresivos, profesores, ludo terapia.

O presente trabalho surgiu a partir da experiência realizado no ambiente escolar, e faz parte de um
de atendimento psicoterápico a crianças agressivas projeto de pesquisa mais amplo, de caráter preventivo.

* Professora Livre-Docente, Departamento de Psicologia Clínica, Universidade de São Paulo-USP.


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Mestre em Psicologia Clínica.

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 13, n. 4, p. 837-845, out./dez. 2008


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Este atendimento, oferecido de 1997 a 2007, projetando-os para fora. Com isso, o ambiente passa a
procurava proporcionar um trabalho ludoterápico a representar um perigo em potencial, já que se torna o
crianças que apresentavam queixa de agressividade e depositário de sentimentos fortes e destrutivos da
cujas famílias não tinham condições de levá-las à criança, despertando-lhe mais angústia. A autora
Clinica-Escola da USP ou a outros serviços gratuitos explica que o comportamento anti-social viria aplacar
de atendimento psicoterapêutico. Assim, a ludoterapia esta angústia, pois as represálias sofridas em função da
realizava-se na própria escola, em um espaço agressividade confirmariam a fantasia de um mundo
reservado exclusivamente para esta finalidade. perigosamente mau, e as punições também
Neste contexto, a queixa inicial de agressividade minimizariam a ansiedade e a culpa sentidas
sempre partia da coordenação e/ou dos professores das inconscientemente pelo fato de provocarem
crianças, sendo indicadas aquelas que constantemente sentimentos ruins no mundo externo. Klein (1970)
se envolviam em brigas corporais com os colegas, afirma que a capacidade de suportar ansiedade e
desrespeitando os adultos da escola, manifestando tolerar sentimentos de culpa, a etapa de
grande agitação e não realizando as tarefas escolares. desenvolvimento em que fatos traumáticos ocorreram
Considerando-se a necessidade de conhecer a e a história de vida constituem os fatores que
história da criança, a fim de obter elementos sobre seu diferenciam a criança “normal” daquela mais
desenvolvimento emocional, o processo terapêutico predisposta à personalidade anti-social.
incluía uma entrevista inicial com os responsáveis, Winnicott (1939/1987a), por sua vez, aprofunda
bem como entrevistas de acompanhamento ao final de as observações kleinianas, salientando a importância
cada semestre letivo. O mesmo procedimento era do ambiente para permitir a expressão e transformação
adotado com os professores da criança, uma vez que, da agressividade infantil. Partindo do princípio de que
antes mesmo da família, eles haviam sido os primeiros a agressividade, no início da vida, não traz consigo a
a expressar preocupação e mal-estar em função do intenção de destruir, o autor enfatiza a função da mãe
comportamento infantil. Neste contato com os na criação de condições para que a criança possa
professores constatou-se a importância de tolerar a ansiedade e a culpa provenientes das pulsões
compreender melhor a queixa, investigando as destrutivas. Tais condições são possíveis na medida
concepções e atitudes diante das manifestações de em que a mãe se mostre uma presença confiável,
agressividade das crianças, visto que a postura deles disponível, tolerante e constante, ou seja, como
parecia influenciar a evolução do processo alguém que cuida da criança suprindo-a não apenas de
psicoterapêutico. alimentação e conforto, mas também de segurança
emocional. Quando, ao contrário, não há condições
para a formação de um vínculo seguro e estável com a
ORIGENS DA AGRESSIVIDADE INFANTIL figura materna, a criança não consegue alcançar uma
organização interna madura o suficiente para integrar
A existência de impulsos agressivos é inerente à a própria destrutividade, necessitando cada vez mais
constituição do ser humano, como esclarecem os da continência ambiental a fim de controlar seus
psicanalistas Klein (1970) e Winnicott (1939/1987a). impulsos.
Segundo esses autores, o modo e as razões de a Para Winnicott (1956/1987b), as crianças que
agressividade se destacar no funcionamento psíquico - manifestam tendência anti-social são aquelas cujo
gerando a delinqüência e o comportamento anti-social desenvolvimento vinha caminhando bem até que, por
na vida adulta - constituem um processo que se inicia algum motivo, foi perdido algo que nutria sua
precocemente e está estreitamente ligado ao segurança psíquica. A agressividade constitui, então,
desenvolvimento infantil. um pedido, uma reivindicação ao ambiente para o
Para Klein (1970), a criança começa bem cedo a retorno ao ponto em que houve falha no
vivenciar os conflitos com suas pulsões destrutivas, já desenvolvimento, a fim de dar curso ao que foi
no final do primeiro ano de vida e início do segundo. interrompido. Seja na mentira, seja no furto ou na
Trata-se de uma experiência dolorosa, marcada por depredação, a manifestação da tendência anti-social
tensão, angústia, culpa e medo. Quanto menor a revela a necessidade de reconhecimento externo
capacidade da criança de tolerar estes sentimentos, daquilo que faltou e do suprimento dessa falta, vivida
maior a necessidade de bani-los de seu mundo interno, como experiência dolorosa. Deve-se considerar que

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uma criança agressiva não o é o tempo inteiro. Seus atenção e cuidados, porém este “pedido” acabava não
impulsos de destrutividade surgem nos períodos de sendo reconhecido ou compreendido pelos
esperança, ou seja, quando o meio lhe transmite educadores.
elementos de confiabilidade. Por isso mesmo Souza, Soldatelli e Lopes (1997), investigando o
Winnicott (1956/1987b) aponta a escola como psicodinamismo familiar de crianças agressivas,
ambiente propício à manifestação agressiva, nos casos comprovam os efeitos da privação emocional em
meninos com queixa de agressividade no ambiente
em que: 1) a criança não encontrou continência
escolar. As autoras demonstram que estas crianças
necessária aos seus impulsos no seio familiar e 2)
apresentam-se de forma agressiva na escola com o fim
apresenta esperança e confiança de que a escola possa de vivenciar aquilo que seus lares não puderam
cumprir essa função. oferecer: a possibilidade de uma expressão afetiva
Esta esperança, que surge de forma inadequada mais espontânea e o estabelecimento de limites.
através de comportamentos agressivos destrutivos, Kupfer (1998) analisa aspectos da cultura para
revela o que Winnicott (1956/1987b) aponta como um afirmar que o professor brasileiro não encontra mais
dos aspectos do “valor de incômodo da criança anti- uma rede de sustentação simbólica que lhe assegure o
social” (p. 132). No ambiente escolar, o valor de suporte da autoridade no exercício da profissão.
incômodo pode corresponder a um conjunto de Sugere, assim, que a agressividade na escola seja uma
elementos como o desafio às normas, o baixo reação à falta de limites simbólicos essenciais para o
desempenho acadêmico, o comportamento agitado e a aprendizado e crescimento humano, podendo
apresentar-se sob três diferentes naturezas: 1)
perturbação do ambiente. Isto parece se coadunar com
imaginária, dirigida ao professor, na forma de
as afirmações de Katz (1992), psicoterapeuta
pequenos ataques que o desqualificam, numa
americana especializada em atendimento a crianças agressividade miúda e cotidiana; 2) real, portanto
agressivas, sobre o fato de que estas crianças preferem próxima da ação psicótica, em que não há sentido para
brincadeiras envolvendo grande atividade motora, os atos, a exemplo da depredação pura e simples; e 3)
como decorrência da dificuldade de engajamento em simbólica, no sentido de restaurar a figura de
jogos simbólicos. Kernberg e Chazam (1993), autoridade perdida, como acontece em contextos
especialistas em psicoterapia infantil, registram que as escolares dirigidos pela lei de traficantes.
crianças com transtorno de conduta apresentam Esta agressividade, que se traduz em ataques
déficits em nível egóico nas seguintes áreas: atenção, rotineiros à instituição escolar, seus usuários e seus
controle de impulso, julgamento, modulação do afeto, representantes (professores e funcionários), tem sido
linguagem e tolerância à frustração. Observa-se que denominada de incivilidade (Charlot & Émin, 1997;
Debarbieux, 1998, 1999), justamente pelo fato de
estes déficits constituem importantes aspectos que
caracterizar-se por afrontas banais e aparentemente
concorrem para prejudicar o desempenho escolar.
gratuitas, deteriorando as relações nesse ambiente. Além
disso, são expressões constatadas em idade cada vez mais
precoce. Tremblay (2000), analisando estudos
AGRESSIVIDADE INFANTIL NA ESCOLA
longitudinais sobre a agressividade infantil, observa que o
aprendizado do comportamento de agressão física tem
A pesquisa de Freller (1993) reafirma o papel da
início nos anos pré-escolares, sugerindo intervenção
escola como provedora de continência para limitar e
preventiva nesse período. Charlot (2002) comenta que os
controlar a agressividade infantil. Seu estudo analisa a
registros de agressividade têm envolvido alunos a partir
história de sete crianças encaminhadas ao psicólogo
de oito anos de idade.
escolar com a queixa de indisciplina, as quais eram
consideradas desobedientes ou imaturas, com baixo
desempenho escolar e objeto de freqüentes CONCEPÇÕES E ATITUDES DOS PROFESSORES
reclamações de comportamento. Entrevistando não RELACIONADAS À AGRESSIVIDADE INFANTIL
apenas as crianças, mas também seus pais e
professores, a pesquisadora constatou que o O que os professores consideram agressivo?
comportamento dispersivo ou agitado destes alunos Muitos estudos têm enfocado esta pergunta, revelando
expressava rupturas vividas precocemente e reeditadas quais manifestações constituem queixa entre os
no ambiente escolar. Segundo a pesquisadora, estas professores, trazendo-lhes sofrimento. Os resultados
crianças mantinham a esperança de que a instituição demonstram que as manifestações mais citadas pelos
pudesse ir ao encontro de suas necessidades de docentes, registradas nas pesquisas com este público,

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constituem as agressões físicas e verbais entre alunos manifestações consideradas agressivas, mas também
(Anser, Joly & Vendramini, 2003; Batista & Pinto, as estratégias adotadas para manejar os conflitos e as
1999; Candau, 1999; Carlotto & Palazzo, 2006; formas de controle consideradas ideais.
Laterman, 2002; Ristum & Bastos, 2004) e as
agressões verbais dirigidas diretamente aos
professores (Batista & Pinto, 1999; Carlotto, 2002; MÉTODO
Hastings & Bham, 2003; Lopes, 2000; Meleiro, 2002).
São poucos os estudos que enfocam a implicação dos Participaram desta experiência 15 professores (um
professores nos conflitos observados em classe, bem do sexo masculino e 14 do sexo feminino) de uma
como a avaliação do manejo destas situações. escola pública de Ensino Fundamental da periferia de
Nessa perspectiva, destaca-se o trabalho de São Paulo, os quais tiveram alunos encaminhados para
Tricoli (2002), que avalia o estresse dos professores o atendimento psicoterapêutico oferecido pelo projeto.
como resultado de uma postura agressiva em sala de Estes professores foram submetidos a uma entrevista
aula. A autora afirma que docentes agressivos, que semidirigida, realizada individualmente, cujos itens
gritam para colocar ordem na classe, inspiram podem ser visualizados nas tabelas 1 e 2. Os dados
comportamentos semelhantes em seus alunos. Assim, coletados nas entrevistas foram categorizados sob dois
após um período de convivência, os alunos assumem pontos de vista: 1) a concepção dos professores sobre
atitudes tão agressivas quanto aquelas adotadas por a agressividade infantil no ambiente escolar, as
seus professores ou apresentam comportamentos mais estratégias de manejo adotadas e o papel da escola na
retraídos, em virtude do medo de punição. sua prevenção; 2) a avaliação dos professores sobre 20
Pesquisa realizada por Royer (2003) revela que os crianças encaminhadas para atendimento em função
docentes mostram-se inábeis perante a emergência de da queixa de agressividade, ressaltando-se que alguns
comportamentos problemáticos, recorrendo
deles encaminharam mais de uma criança.
costumeiramente a uma atitude punitiva, “parecendo
não saber como intervir de forma adequada” (p. 60).
Demonstra, ainda, que muitos professores tendem a RESULTADOS E DISCUSSÃO
recorrer ao álcool ou a determinadas drogas na
tentativa de minimizar o sofrimento, e que há uma
grande procura por serviços terapêuticos. Dados fornecidos pelos docentes em situação de
Para Silva (2006), a exemplo dos alunos entrevista
considerados agressivos, os professores também
Os 15 professores entrevistados atuavam
manifestam sua agressividade através de diferentes
basicamente nas primeiras séries do ensino
formas de evasão, com seu desinteresse pelo trabalho,
fundamental (67%) e contavam, predominantemente,
acomodação, mudança de escola, abandono do
com uma experiência de ensino que variava de 2 a 10
emprego e até da profissão.
anos (33%) e de 10 a 20 anos (33%). À exceção de um
Desse modo, constata-se que, se por um lado há
docente, todos os demais (93%) relataram
convergência na percepção do que é vivenciado como
experiências de enfrentar comportamentos agressivos
expressão agressiva pelos docentes, por outro também
em sala de aula.
é possível observar certa impotência e despreparo em
A Tabela 1 sintetiza as atitudes consideradas
relação ao manejo destas manifestações. A
pelos 15 professores como agressivas dentro de classe,
agressividade infantil, ainda que reflita a esperança de
assim como as providências adotadas diante destas
suprir necessidades muito precoces, também provoca
situações e as concepções sobre o que seria um aluno
hostilidade, desejos de retaliação ou mesmo de evasão
bem-adaptado, um professor bem-adaptado e um
por parte dos professores, o que demanda um
professor agressivo. A expressão “bem adaptado” foi
aprofundamento sobre as atitudes que os docentes
escolhida a partir da experiência-piloto de
assumem em sala de aula ao interpretarem as atitudes
aproximação com os professores, ao se constatar a
infantis como agressivas.
freqüente menção a este termo quando o educador
desejava transmitir a idéia de convivência ideal. É esta
OBJETIVO conotação que se encontra na tabela 1, ainda que se
saiba que o termo pode ser compreendido em analogia
Este trabalho tem por objetivo analisar com o conceito de inspiração piagetiana, que traduz a
concepções e atitudes de professores quanto à queixa conjunção dos processos de assimilação e acomodação
de agressividade infantil, observando não apenas as na aprendizagem.

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Tabela 1. Respostas dos Professores Sobre a Agressividade em Sala de Aula, Estratégias de Manejo e Condutas Bem
Adaptadas do Professor e do Aluno.
Categorias Respostas N %
Rebeldia com professor 13 87
Agressão física entre alunos 13 87
Agressão verbal entre alunos 4 27
Atitudes agressivas
Não cumprimento dos deveres escolares 3 20
Desatenção 2 13
Inquietação 1 7
Compreensivo, tenta resolver por si mesmo, evita diretoria 7 47
Compreensivo, chama a família 4 27
Estratégias de manejo
Tenta resolver, conversar, mas manda para a diretoria 3 20
adotadas
Tenta mudança de sala ou escola 3 20
Deixa que os alunos se entendam 1 7
Respeito ao professor 8 53
Caract. do aluno bem 53
Faz deveres 8
adaptado 27
Interessado 4
Respeito ao indivíduo (sociabilidade) 6 40
Caract. do professor Compreensivo, resolve problemas, tem paciência com as crianças (afetividade) 5 33
bem adaptado Estimula a participação dos alunos (ênfase no desempenho intelectual) 5 33
Não sei 1 7
Agride os alunos verbalmente 8 53
Caract. do professor Postura egoísta 6 40
agressivo Agride os alunos fisicamente 5 33
Postura intolerante 1 7

Observa-se que os professores sentem-se muito percebessem a polaridade relativa ao ódio nas atitudes
mais incomodados com a agressividade motora entre dos professores, provavelmente não buscariam mais
alunos e o desrespeito ao professor do que com a obter reconhecimento externo com seu
agitação do aluno ou a não-realização de tarefas. Este comportamento agressivo, pois, conforme Winnicott
dado é corroborado pelos resultados obtidos em outras (1939/1987a), o sintoma agressividade também pode
pesquisas (Batista & Pinto, 1999; Candau, 1999; ser visto como uma manifestação positiva de
Carlotto & Palazzo, 2006; Hastings & Bham, 2003; esperança, pois na falta dela viria a depressão. Neste
Laterman, 2002; Ristum & Bastos, 2004). caso, seria razoável pensar que os professores estejam
Em relação às estratégias de manejo da alimentando a esperança destes alunos de encontrar
agressividade do aluno, nota-se que a maioria tenta continência no ambiente escolar.
compreender, resolver por si mesmo (47%) ou ser Esta hipótese é corroborada na análise das
compreensivo e convocar a família (27%). Outras percepções sobre o “professor bem-adaptado”, pois
medidas são adotadas, como o encaminhamento à esta concepção apresentada pelos docentes também
diretoria (20%) ou mudança de sala (20%). No contempla os requisitos de compreensão, respeito e
entanto, as respostas predominantes são aquelas que estímulo à participação, refletindo a preocupação com
envolvem a compreensão, a esperança de continência os alunos tanto em relação aos aspectos intelectuais
e o acolhimento em relação à atitude agressiva, o que quanto aos socioafetivos. Essa concepção de
diverge dos resultados apontados pelos estudos com “professor bem-adaptado”, por menos que se
professores, em que os sentimentos de hostilidade e concretize na prática, permeia as expectativas dos
impotência constituem os aspectos preponderantes professores como um ideal de realização profissional.
(Anser, Joly & Vendramini, 2003; Aquino, 1999; Por isso mesmo, pode trazer elementos que devem
Tricoli, 2002). circular entre o dito e o não-dito na relação professor-
Diante deste resultado pode-se pensar que as aluno, delineando sinais que são captados como
manifestações agressivas das crianças despertam nos esperança. Destaque-se ainda que a visão do
professores não apenas sentimentos dolorosos ou “professor bem-adaptado” se coaduna com a do
destrutivos, mas também preocupações, o que reflete “aluno bem-adaptado”, dando prioridade a dois
uma atitude ambivalente. Parece ser justamente na requisitos que sustentam o enquadre da sala de aula:
percepção desta ambivalência que os alunos podem respeito às relações e cumprimento de tarefas. Deve-se
sentir-se parcialmente cuidados. Se as crianças só lembrar que todo enquadre – seja ele explícito ou não

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- reflete parâmetros e limites à atuação dos 1. São queixas freqüentemente encontradas na


participantes. O enquadre caracteriza tudo o que é literatura sobre meninos agressivos (Katz, 1992;
constante, desde o espaço até as regras de Kernberg & Chazan, 1993), que confirmam seu “valor
convivência. É essa constância que faz do enquadre de incômodo” no ambiente escolar, porquanto tais
fator de reasseguramento. A aula, a escola e a relação comportamentos rompem com as regras do enquadre
com o professor podem compor aquilo que se pode em sala de aula.
chamar de mundo conhecido, portanto, fator de 18
segurança propício à manifestação de reivindicações e 16
ao estabelecimento de limites. 14

Nº de crianças
12
A agressão verbal dirigida aos alunos (53%) e a
10
postura egoísta (40%) predominam na concepção de 8
“professor agressivo”. Deve-se destacar que esta 6
4
postura egoísta representava a falta de compromisso
2
com o exercício da função docente, na medida em que 0
significava não estar presente nas aulas, não oferecer Não faz Brigas Agressão Agitação, Agressão Agressão Só faz o
deveres frequentes física a inquietação verbal a verbal ao que quer
conteúdo e não ser dedicado. Aparentemente, estes com colegas colegas professor
professores apresentavam uma noção intuitiva de que colegas
Queixas
esta negligência no exercício profissional equivaleria a
uma atitude agressiva, que falha no provimento de um Figura 1. Queixas Relatadas Pelos Professores em
ambiente bom e reassegurador. Mais uma vez, pode-se Relação a 20 Crianças Consideradas Agressivas
fazer uma analogia com a relação “mãe-bebê”
postulada por Winnicott (1939/1987a), a qual teria um Quanto às estratégias adotadas, conforme a
efeito destrutivo para a criança caso não seja oferecido Tabela 2, todos os professores afirmaram ter
o alimento e a tranqüilidade necessária ao conversado com a criança sobre a queixa de
desenvolvimento. agressividade e, em 65% dos casos, chamaram os pais.
Estes mesmos professores tiveram a oportunidade A família não compareceu à escola em 25% dos casos
de encaminhar os meninos para atendimento de convocação, e em 40% sua participação não trouxe
ludoterápico. Ao justificarem o encaminhamento do mudanças para o comportamento da criança. É preciso
aluno sob sua responsabilidade que consideravam salientar que os professores costumavam acompanhar
“agressivo”, apresentaram com maior freqüência as a vida da criança em 60% dos casos, sabendo como
seguintes queixas: a dificuldade de realizar tarefas estava a família através do aluno ou, como geralmente
escolares, as brigas freqüentes e agressões físicas entre acontecia, por meio de queixas trazidas pela mãe.
colegas, e a agitação, como se pode observar na Figura

Tabela 2. Avaliação dos professores sobre a queixa de agressividade de 20 crianças


Categorias Respostas N %
Problemas em casa, família 15 75
Necessidade de chamar atenção para si 2 10
Motivo da queixa
Não sabe 2 10
Perda da avó, piora da saúde do pai 1 5
Atenção individualizada ao aluno 10 50
Conversar com aluno, mãe, família 5 25
O que poderia modificar o
Passar mais tempo na escola 1 5
comportamento
Não sabe, já fez o que pôde 2 10
Não sabe 2 10
Está tentando o que sugere 14 70
Contribuição do professor na Não tem paciência ou capacitação 3 15
mudança da criança Não tem tempo 2 10
Não sabe 1 5
Atividades, oficinas, material 5 25
Contribuição da escola Não se omitir ou expulsar, implicar pais 6 30
Não sabe 9 45

Para 75% das crianças avaliadas, os docentes casa ou na família. Apenas no caso de duas crianças os
atribuíram a queixa de agressividade a problemas em professores não souberam a que atribuir o motivo da

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queixa, evidenciando quanto procuravam considerar o objetivo conversar sobre a criança atendida,
contexto dos alunos, suas necessidades afetivas e seus principalmente para ouvir as observações a respeito de
problemas atuais ao efetuarem essa avaliação. Deve-se seu desenvolvimento e a apreciação sobre os efeitos
salientar que na experiência de trabalho com os da intervenção em andamento. Abria-se a
professores observava-se quanto estes eram solicitados possibilidade de o professor procurar o terapeuta para
a ouvir a família, com todas as suas queixas. É raro que conversar e tirar dúvidas se assim o desejasse, mas
os responsáveis por alunos que apresentam problemas esta conversa seria sempre comunicada ao aluno, que
de comportamento apareçam espontaneamente para teria a liberdade de escolher se estaria presente a ela
conversar com o professor. Entretanto, quando ou não. Vale assinalar que as crianças nunca
comparecem às convocações, depositam no docente desejavam participar destas conversas. Era dito ao
carga expressiva de angústia, despertando o sentimento professor e à criança que o que fosse falado no contato
tentador de “fazer alguma coisa”. Tendo em vista que com o professor seria imediatamente comunicado a
nem sempre é viável modificar certas contingências, esta última. Tal procedimento visava manter a
este sentimento é desencadeador de sentimento de confiança das crianças no terapeuta, visto que muitas
impotência e frustração. Para amenizar esta sensação de vezes elas o imaginavam como um “agente” da escola.
fracasso procurava-se sinalizar aos professores a Um caso ilustrativo de mudança de postura do
dificuldade que eles teriam ao assumir a dupla função professor, no sentido de maior engajamento, ocorreu
de educador e psicólogo junto a essas crianças e suas com uma professora de segunda série, cujo aluno
famílias, ressaltando assim a contribuição específica de vinha sendo atendido havia cerca de seis meses. Ao se
cada profissional. iniciar o trabalho, realizava-se uma entrevista com a
Sobre o que poderia modificar o comportamento professora, na qual se esclareciam os objetivos da
agressivo, metade das respostas apontou no sentido da ludoterapia e a forma de condução do processo.
atenção individualizada ao aluno, evidenciando uma Também foi realizada a entrevista de final de
percepção de que as dificuldades apresentadas pelas semestre, além de algumas conversas esporádicas nos
crianças consideradas agressivas exigem maior intervalos deste período, sobre questões da família da
disponibilidade e manejo específico, bem como a criança. Certo dia, ao ser o aluno convidado para a
impossibilidade de fazê-lo em sala de aula, juntamente sessão ludoterapêutica perante a professora, esta
com o restante da turma. Esta resposta é seguida pela indagou, em tom estranho e provocativo:
conversa com o aluno e família (25% do total de
respostas), sugerindo a compreensão da importância “E aí? Quando é que você vai falar comigo
da implicação familiar. sobre ele?”
Do ponto de vista da contribuição do professor
para a mudança da criança, os professores afirmaram A pergunta, emitida na frente da criança, causou
estar, na maioria das vezes (70%), aplicando o que mal-estar e despertou a sensação de menosprezo e
sugerem. O registro da falta de tempo (10%), de descrédito em relação ao atendimento, além de uma
paciência ou capacitação (15%) parece explicitar o certa cobrança por resultados. Foi marcada então uma
desgaste, o cansaço e a impotência mencionados na nova entrevista para tratar do assunto, em dia e horário
literatura (Camps & Vaisberg, 2003; Collingridge, diferentes do destinado à ludoterapia. Na data
2004; Lopes, 2000; Souza, 2001). combinada, a professora, ao ver o terapeuta, exclamou
Sobre a contribuição da escola, nota-se que mais em tom de surpresa e espanto: “Você veio só para
da metade (55%) das respostas indica o potencial de falar comigo?!!!”, fato que causou a impressão de que
ajuda que é atribuído à instituição, o que fortalece, ela não acreditava no compromisso assumido por parte
mais uma vez, o elemento de esperança captado pelas do outro, nem que pudesse ser valorizada.
crianças agressivas no ambiente escolar. Retomando-se as informações relativas ao
objetivo do atendimento, foi esclarecido o significado
Exemplos de repercussão do atendimento à criança do comportamento da criança, afirmando-se a
sobre as atitudes do professor importância do trabalho do professor como aliado do
A experiência de acompanhamento a professores processo terapêutico. A professora terminou por
cujos alunos são atendidos em ludoterapia fornece constatar que a criança apresentara melhora no
alguns indícios de seu engajamento, apesar de todas as desempenho acadêmico, passando a conseguir copiar
dificuldades vivenciadas. as lições em sala. No final do ano, quando a criança
Os contatos com os professores, realizados no deixou de comparecer à escola e a mãe mostrou-se
mínimo a cada início e final de semestre, tinham como avessa a conversar sobre o atendimento do filho, esta

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mesma professora ofereceu-se para mediar o contato, necessidades de atenção, afeto e firmeza nos
dizendo: educadores, esperançosas de contarem com
“Ela não entende o nosso trabalho”. Nesse parâmetros e limites que, geralmente, não foram
momento, percebeu-se quanto a intervenção passou a estabelecidos pela família.
ter outro sentido para a professora, com repercussão Os professores não se mostram indiferentes a essa
sobre a criança. demanda; ao contrário, cumprem papel ativo perante
Outro exemplo marcante refere-se a um aluno da as crianças mais agressivas, alimentando-lhes a
sétima série que também foi encaminhado para esperança de alcançar uma estabilidade interna.
atendimento com a queixa de agressividade, mas a Evidências dessa postura podem ser encontradas na
princípio recusou-se a participar. Com 14 anos de fala dos docentes, que assumem, apesar do desgaste,
idade, o garoto vinha comparecendo à escola com uma providências para o manejo da agressividade em sala
arma escondida sob a blusa, assustando e afligindo os de aula. Além disso, sustentam a crença em um
professores com sua postura desafiadora. O modelo de relação professor-aluno ideal, cujos valores
atendimento ainda não havia se iniciado quando uma estão pautados na tolerância, compreensão, respeito e
de suas professoras, conhecida por uma postura mais disponibilidade, anseios que devem ser transmitidos,
rígida em classe, encontrou-o na feira. de algum modo, na relação com as crianças.
Surpreendentemente, o garoto prontificou-se a Na experiência de atendimento preventivo a
carregar suas compras, oferta que foi aceita pela meninos agressivos no ambiente escolar, constata-se
docente. Depois deste contato, tudo mudou na relação ainda quanto a intervenção psicológica produz
entre eles em sala de aula. Ele a presenteou com um ressonância na escola, mais especificamente na
pote de mel e ela redobrou a atenção para com ele, relação professor-aluno, ajudando o docente a suportar
preocupando-se até mesmo em providenciar-lhe a manifestação agressiva em classe, pois ele pode
material escolar. Além disso, após algum incentivo de vislumbrar importantes ganhos e sutis mudanças
sua parte, ele aceitou participar da intervenção alcançadas no decorrer do trabalho clínico.
psicoterápica, sendo acompanhado desde então.
Não se pode deixar de mencionar a demanda de
uma supervisão quinzenal por parte da coordenação da REFERÊNCIAS
escola dirigida à coordenadora do projeto. Este
trabalho, realizado fora do ambiente escolar durante o Anser, M. A. C. I., Joly, M. C. R. A., & Vendramini, C. M. M.
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período de um semestre, representou importante escolar: visão do professor. Psicologia: Teoria e Prática, 5(2),
espaço de escuta sobre as mais diversas dificuldades 67-81.
de manejo da agressividade na escola, oferecendo Aquino, J. G. (1999). Confrontos na sala de aula: uma leitura
apoio e alguma orientação às educadoras. institucional da relação professor-aluno. São Paulo: Summus.
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ainda continua, mas agora no espaço institucional burnout dos professores. Em W. Codo (Coord.), Educação:
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CONCLUSÃO
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assinala Winnicott (1939/1987a, 1956/1987b), é uma
Carlotto, M. S. (2002). A síndrome de burnout e o trabalho docente.
reivindicação ao ambiente visando ao reconhecimento
Psicologia em Estudo, 7(1), 21-29.
e retorno a um período de privação crítica para a
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retomada do desenvolvimento emocional, a escola não État des savoirs. Paris: Armand Colin.
poderia deixar de vivenciar manifestações de
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relativamente estável, com regras claras, a escola Collingridge, D. S. (2004). A phenomenological inquiry into
configura um espaço de confiabilidade, constância e teachers´ experience of being hindered. Unpublished doctoral
segurança, muitas vezes ausente da história de vida de dissertation, Brigham Young University, Department of
algumas crianças. Assim, elas depositam suas Psychology, Utah, USA.

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O professor e a criança agressiva 845

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Endereço para correspondência : Maria Abigail de Souza. Av Professor Mello Moraes, 1721, bloco F, Cidade Universitária, CEP
05508-030, São Paulo-SP. E-mail: abigail@usp.br

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