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1ª Edição Eletrônica

LUIZ LYRIO
Autor

Edição Eletrônica: L P Baçan

Agosto de 2005

Direitos exclusivos para língua portuguesa:


Copyright © 2005 do Autor

Ilustração da capa: Inside a Trap - Simona Parini


Midi: O que será (à flor da pele) - Chico Buarque de
Hollanda

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SUMÁRIO

O AUTOR
APRESENTAÇÃO
PRÓLOGO
A LIBERTAÇÃO E A PAZ
A VIDA É BELA, MAS...
AGORA, VOU TE COMER, GOSTOSA!
ALICE NO PAÍS DAS ARMADILHAS
CORPO FECHADO
DE VOLTA AO PRESENTE
DIÁLOGO
FASE RUIM
MAL-ENTENDIDO
MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU
O FÍGADO!
NÃO ACREDITO EM DEMÔNIOS
NOS TEMPOS DA MADALENA
O LER, O SABER E O PODER
O VELHO E A MOÇA
QUEIXUMES DE UM "OUTRO" APAIXONADO
SEM DONO
AUTOR

Luiz Lyrio, professor e escritor, é


natural de Belo Horizonte. Formado em
História pela UFMG, lecionou durante trinta
anos em várias escolas da rede pública e
particular. Criou e dirige ESTALO, a
revista, que, já em seu quarto número,
divulga contos, crônicas e poemas de
autores mineiros e de outros estados.
Colabora com o jornal O ESPIGAO, do
bairro Caiçaras-BH. Lançou os livros GRÊMIO LIVRE: UM
EXERCÍCIO DE CIDADANIA (1998), NOS IDOS DE 68 (2004)
e MARCAS DE BATOM (2OO4). Seus e-mails são
revistalo@yahoo.com.br e revistalo@click21.com.br.
Apresentação, como se madrinha fosse...

Luiz Paulo Lyrio de Araújo pertence a uma


geração de resistência à repressão, nos Anos de
Chumbo. Todos os sobreviventes têm alguma seqüela,
mas bravamente, desde então, lutam por um Brasil
melhor, usando armas, muitos deles, como a palavra.
Outros, entrincheiram-se no Humor. Lyrio ambas
sobejamente: até as vivências familiares, de
estudante e as de preso político, enquanto, rapazinho,
militante jovem e convicto, suavizam-se ao toque de
seu olhar satírico, irônico.
Seu Primeiro Livro, "Nos Idos de 68", tem essa
característica. Sob o primoroso selo "Anomelivros", de
Belo Horizonte, onde nasceu e mora, essas memórias
revelam maturidade e coragem de se expor sem
reservas. Sobre esse professor de História, no
prefácio, o poeta Rogério Salgado, com ele, um dos
diretores de "Estalo, a Revista", define, com maestria:
"Um terno guerreiro"...
Dotado de ótima memória, Luiz Lyrio gosta de
contar suas histórias da História, o que vem fazendo
em palestras e saraus. Certa feita, um canal de TV da
capital mineira, num certo 31 de março, convidou-o,
por telefone, a participar de mesa, num programa
especial. Aguardou. Depois o avisaram de que ele fora
preterido porque não sofrera tortura. Contou-me isso
às gargalhadas. Na verdade, os "telefones" o
deixaram, até hoje, com a audição reduzida.
Certamente se referiam aos que apanharam "como
boi", no dizer da pintora e poeta Neuza Ladeira, outra
sobrevivente.
Para seu segundo livro, "Marcas de Batom",
escrevi o prefácio, do qual ele cita um trecho, neste
livro eletrônico. Juntos, em saraus, lemos várias
crônicas e contos divertidos e /ou dramáticos. Aqui,
reúne vários textos em prosa. Pelo título de um deles,
que nomeia a presente edição, pode-se notar sua
criatividade. Adora trocadilhos, donde esse achado:
"Alice no País das Armadilhas".
Preservado o bom humor, ainda sofre no
entanto, reflexos dos Anos de Chumbo. De quando em
vez, deprime-se, para logo depois, rir. E muito. Sua
risada é límpida e espontânea qual a de uma criança.
Grande coração, grande inspiração. E ainda escreve
alguma poesia.
Carta feita, fiz um pequeno conto e o dediquei a
ele, pois o protagonista, de quem falo, teimou em ter
suas características(leia abaixo)
E aqui, rompo o fio do prefácio: passo a ponta à
mão do leitor, para que reenrole o novelo. Sei que vai
gostar.
Clevane Pessoa de Araújo, 03/08/2005, Belo
Horizonte, MG.

O homem que cuidava das avezinhas

O homem que cuidava dos pássaros está em um


hospital público, no andar psiquiátrico. É professor,
poeta, cronista, em qualquer ordem. Até noutro dia,
cuidava de pássaros que caíam feridos num comitê
político onde ia todas as tardes, escrever textos para
ganhar uns míseros trocados do candidato a alguma
coisa, por certo, não a cuidador do povo.
Esse homem que respira seu próprio prana de
poesia pura, estava endividado. Tomava dinheiro
emprestado, a juros, daqui, para pagar ali. Na
verdade, queria saldar a dívida com seu editor.
Escreveu suas experiências sobre estudante que foi
preso – embora não torturado – na Ditadura Militar.
Era o ano de 2004, dirão mais tarde e fazia quarenta
anos que o golpe militar acontecera.
Depois da noite de autógrafos, saía diariamente
com sua pesada pasta e ia tentar vender seus livros.
Muitas vezes, gastava mais que se tivesse ficado
em casa: era preciso requisitar uma mesa onde se
encontrasse, pedir uma cerveja ao menos e voltar
para casa de táxi.
O homem que gostava de pássaros, chegou a
cuidar de um beija-flor. Um dia chegou e a pequena
ave havia se recuperado o suficiente para ir embora.
Estava acostumado a registros de perda. Apenas
pegou uma cadernetinha surrada em sua mente
brilhante e anotou mais uma.
A bem-amada, também gostava de pássaros e
estava criando um pardal, avezinha da rua que não
quer saber de aproximações. mas caíra em seu oitão
ainda implume e acabara por aceitar os cuidados.
Depois de crescidinho, ficou meio estragado: não
andava em bandos, chegava sozinho à procura de pão.
E entrava em casa, para acordá-la cedinho, indignado
porque ela dormia até mais tarde... Ela havia
pendurado um bebedouro desses de flores de plástico.
Lavava-o bem e trocava a água, para evitar fungos
que fizessem mal ao beija-flor vindo de uma árvore
em frente.
O homem que cuidava de pássaros andou meio
enciumado, querendo até virar beija-flor, até que ela,
meiga/mente, lhe disse que colocara no bichinho o
nome dele. Viu naquilo o desejo oculto de cuidar dele,
o homem, o que por ora era impossível...
A bem-amada ia viajar e ele sentiu-se sem chão.
Se fosse ave, poderia voar, mas não! Então começou a
tomar Lexotan, esse remédio enganador, com pinga
pura. Queria, com isso, que todos acabassem por
saber aquilo que não andava a revelar: que devia
muito. Contou a ela, por telefone, que ficara muito
humilhado ao tentar tomar novos empréstimos e iam
lhe mostrando, na telinha do computador, que ele
(ainda) devia aqui e ali...
Ela tentava animá-lo: Hoje, todos que são
inadimplentes, não precisam se envergonhar. A culpa
é do governo...
O homem que sabia como ninguém cuidar de
passarinhos, havia votado nesse Governo e a
decepção agravava sua saúde mental.
Ao receber recados de que a mistura fatal –
Pinga&lexotan – estava acontecendo, lixando seu
esôfago, destruindo o ácido estomacal, obnubilando
sua mente embora nunca embotando sua
sensibilidade, a amada, sentindo-se agora mal-amada,
quando viu que o amor não valia tanto assim nesses
casos, avisou-o: "Pare, senão você vai ficar de língua
de fora".
Ele queria morrer e a conquistara com a vida de
seus olhos e a mágica de seu sorriso... Como ela
conviveria com esse contraste, alguém rir um riso tão
risonho e em dado momento, procurar o auto-
extermínio?
O homem que sabia dar vida a pássaros
doentes, não sabe voar, não sabe como sarar porque
não morreu e as dívidas continuam. Professor, poeta,
cronista, contista, fez da palavra uma bandeira, mas
suas palavras literárias não conseguem pagar suas
dívidas ou convencer quem quer que seja a lhe
emprestar dinheiro para viver com dignidade.
O Governo lhe deve uma indenização pelas
experiências durante a Ditadura. Ele tomou as
primeiras providências. Pensa nelas enquanto está
internado. Entre agudos e crônicos, todos doentes
brasileiros que devem algo a alguém. Os donos do
Poder terão conhecimento disso?
Um contista, cronista, diretor de revista
literária, cronista, articulista, namorante, poeta – em
qualquer ordem – está nesse minuto internado em um
hospital público. Na ala de psiquiatria. Junto a outros
inadimplentes. Faz parte dos que não resistem a
pressões de dívidas monetárias. Só o Brasil resiste,
capengando. Alguns homens, não.
Sentado na cama ou andando aqui e ali, o
homem que nunca deixou as avezinhas sem ajuda,
acende seus olhinhos ornitólogos e se alegra: há
muito material importante ali, para escrever. Quando
sair da internação, já que não lhe autorizaram portar
lápis ou caneta, passíveis de se transformarem em
armas de auto-extermínio... Um escriba sem suas
ferramentas!
Isso enche de esperança o coração da mal-bem-
amada, quando fala com ele ao telefone. Se ele reunir
interesse suficiente para escrever um livro novo,
talvez a Vida lhe estenda os braços. E ele volte a
salvar bichinhos alados. Então, no ninho desse
coração orvalhado, quebram-se dois ovos. De dentro
para fora, e as avezitas começam a piar chamando o
homem para cuidá-las...
Clevane Pessoa - 16/11/2004
Belo Horizonte-MG Brasil
PRÓLOGO

"E neste tempo, enquanto era manchada a


dignidade das almas brasileiras, poetas vislumbravam
nas estrelas do céu , que dias melhores estariam por
vir. Luiz Lyrio, com sua sensibilidade à flor da pele,
era um desses poetas, um terno guerreiro". (Rogério
Salgado – prefácio de NOS IDOS DE 68))
"Os cronistas germinam do cotidiano, num
modo peculiar de registrar sua época, muitas e tantas
vezes com um senso de humor que deleita ou usando
de ironia, no caso do Luis Lyrio, a fina ironia
configurada no dizer e no estilo. Os contistas contam
algo mais profundo – falando de si ou de outrem –
com maior elaboração e/ou complexidade. Ao ler os
textos de Luiz Lyrio encontramos os dois gêneros
literários de forma bastante expressiva." (Clevane
Pessoa)
Após estas palavras de dois exigentes críticos
literários, o grande poeta Rogério Salgado e a
brilhante poetisa, cronista e contista Clevane Pessoa,
pouco me resta a dizer. Os contos e crônicas aqui
contidos abordam tanto a realidade como o fantástico
imaginário popular. Talvez porque seja extraída
diretamente do cotidiano, minha ficção é cheia de
altos e baixos, e o trágico e o cômico se misturam,
como na chamada vida real (muitas vezes mais
fantasiosa do que a ficção). Se conseguir divertir, e,
ao mesmo tempo, levar o leitor a refletir sobre a
nossa mais que insana realidade, me sentirei
plenamente realizado como escritor.

22/07/2005
Mini-crônica para um mundo em chamas

A LIBERTAÇÃO E A PAZ

A libertação da mente humana passa,


obrigatoriamente, pelo descarte da noção de que todo
confronto é resultante de uma luta do bem contra o
mal.

Quando descobrimos que, num conflito, estão


envolvidos vários lados, e não apenas dois, já damos
um largo passo no sentido de nos tornarmos interior e
verdadeiramente livres.

Quando nos capacitamos a enxergar que, na


maioria das lutas, todos os lados são a seu modo, tão
bons e tão maus quanto os outros, conseguimos
atingir o ápice da capacidade de compreender o
mundo.

Livres da obrigação de tomar partido ao lado de


um suposto bem em luta contra um suposto mal,
tornamo-nos aptos e viver, a julgar, a perdoar, a
celebrar e a fazer prevalecer a paz na terra para todos
os homens.
A VIDA É BELA, MAS...

Tomo um cafezinho na cozinha. Preparo-me


para sair, quando ouço a vizinha repreendendo a
filhinha que soltou um pum:
— Já pensou se você arranjar um namorado e
fizer isto na frente dele? Ele nunca mais vai querer
saber de você!
— Pois tomara que eu não arranje nenhum
namorado! Eu gosto é de peidar! – retruca a
menininha.
Saio de casa e pego meu carro. Tenho que ir a
Venda Nova socorrer uma amiga professora
endividada que precisa que eu a leve ao centro de BH
antes das dezesseis horas. Entro na Cristiano Machado
e sigo em direção a Venda Nova. Penso na vida. A vida
é bela. E engraçada. Rio da menininha que prefere
peidar a arranjar namorado. Faz sentido. Se não
dormisse sozinho em meu quarto, se dormisse com
uma namorada, eu também não poderia soltar puns
sonoros. Começo a me preocupar. Será que,
ultimamente, não estou me empenhando muito para
arranjar namorada só para soltar meus poderosos
puns impunemente?
Paro de pensar bobagens e volto minha atenção
para a Cristiano Machado. Na pista, uns trezentos
metros à minha frente, um cãozinho bonito, peludo,
esperto e saltitante disputa espaço com os carros. A
cena é rápida. Ele tenta ser mais ligeiro do que um
caminhão e tem seu salto bruscamente interrompido.
Não escuto nada, nenhum ganido. O rádio do meu
carro está alto. A cena se parece com aquelas que
você assiste, quando tira o som da TV. Uma pancada
do caminhão na cabeça do pobre cãozinho e ele cai.
Tbenta se levantar só uma vez e morre. Inerte, aquele
corpo canino tão belo e cheio de energia vira, em
menos de três segundos, um cadáver. A vida se esvai
num piscar de olhos. E o que era vivo está morto. Fico
chocado. Penso na nossa fragilidade. Na facilidade de
se destruir o que levou anos sendo construído e
exercitado. Gosto mais de cachorros do que de certas
pessoas. Quando comparo, vejo mais humanidade nos
primeiros. E sofro mais com a morte de cachorros,
ainda que desconhecidos, do que com a morte de
determinadas pessoas conhecidas. Mas, a morte, não
importa se de um cão ou de um ser humano, é, por si
só, impressionante. Não. Eu não gostaria de, de
repente, virar um cadáver que iria, daí a alguns dias,
apodrecer e se decompor. Vem-me à cabeça a idéia de
que sou o único ser humano que não se conforma com
a morte. Bobagem! Se assim fosse, não existiriam
religiões. E eu seria o primeiro a fundar uma.
"Ninguém quer a morte. Só saúde e sorte".Lembro do
Gonzaguinha, que também já se foi.
Na Cristiano Machado, o cãozinho inerte parece
um cachorrinho de pelúcia. Os carros desviam dele
para evitar sujar os pneus. Ninguém cogita de ver se
ele ainda está vivo. Ninguém se dispõe a retirá-lo da
pista. Inclusive eu, que, parado num posto de
gasolina, apenas observo. Arranco meu carro e
acompanho os outros carros. Todos seguem seu
caminho em direção a Venda Nova.
Ao redor do cãozinho morto, há pouco esperto e
saltitante, a vida continua.
AGORA, VOU TE COMER, GOSTOSA!

Não sei. É difícil fazer tal afirmação sem ainda


ter te experimentado da forma adequada. Mas,
sempre tive um forte palpite de que foste a namorada
mais gostosa que já tive. E, a cada dia que passava, ia
crescendo em mim a idéia fixa de te comer. Sim,
comer-te virou uma obsessão para mim.
Todas as noites, ao colocar minha cabeça no
travesseiro, ficava a imaginar como devia ser delicioso
te devorar. E foi inevitável: passei a fazer planos.
Comecei pelas coxas. Planejei prepará-las naqueles
espetos giratórios da minha churrasqueira. Ah, tuas
coxas! Temperando-as com sal grosso, devem ser
deliciosas, principalmente quando chegarem ao ponto
certo, nem mal, nem passadas demais. .
Não pretendo devorar teus pés. Eu os
embalsamarei e guardarei de lembrança para
masturbar-me olhando para eles, nas noites em que
estiver sozinho no meu quarto. Ao contrário de quase
todo o resto do teu corpo, teus pés despertam em mim
um outro tipo de apetite. Hoje, é um dia de fazeres
grandes descobertas: teu namorado, além de
antropófago, é pedólatra.
Também não comerei tuas mãos. Com essa tua
mania de querer ter corpo de modelo, elas ficaram um
tanto descarnadas. Não gosto de ficar chupando
ossinhos descarnados nos churrascos que faço com
minhas namoradas. Sou muito amigo de um crocodilo
que vive no zoológico e, discretamente, darei para ele
tuas mãos. Sempre que faço churrasco, levo algumas
coisas para ele. É sempre bom ser amigo de um
crocodilo.
Tua barrigada darei para o Rex. Noto como ele
fareja tua barriga quando sobe em ti, fazendo festa. É
um farejar faminto, de desejo de devorar aquela parte
do teu corpo tão sedutora por fora (Que belo umbigo
tens!), mas que, por dentro, é recheada de tripas,
estômago, rins, útero e outras partes que não me
apetecem muito, mas que o Rex adora e come com um
apetite voraz.
Teus braços também irão para o espeto giratório
da minha churrasqueira. Teus seios, porém, pretendo
cozinhá-los com muito cuidado para que não passem
do ponto, perdendo a maciez. Tuas nádegas se
transformarão em suculentos bifes.
Da tua cabeça, apenas duas partes pretendo
comer cruas: teus olhos verdes e estes teus lábios
carnudos. Espero que eles sangrem bastante. Nunca
te contei antes, mas tenho um forte lado vampiro.
Quando cortar tua jugular. Ah, quando cortar tua
jugular! Garanto que não desperdiçarei uma gotinha
de sangue sequer!
Teu coração guardarei para a minha próxima
pescaria na represa de Furnas. Pedacinhos de coração
são uma excelente isca para peixes de água doce.
Teu cérebro, bem cozido, devorarei com um
objetivo todo especial. Acredito que, quando se
devora um cérebro humano, herda-se as qualidades
do ser comido e descobre-se também seus segredos
mais recônditos. Já tuas costelas, preparadas com um
quiabo bem babento, comerei apenas pelo prazer
gastronômico. Assim como o teu fígado.
Bom, deixemos de conversa. Este papo todo,
contigo amarrada e amordaçada no chão da minha
cozinha, enquanto eu preparo os temperos e espero a
churrasqueira chegar ao calor ideal para assar tua
carne, não tem por objetivo apavorar-te, fazendo com
que me fites com esses olhos de terror. Nem é meu
objetivo traumatizar-te. Se bem que ficarás
traumatizada por pouco tempo, já que procurarei ser
bem rápido e objetivo no preparo da minha lauta
refeição. Esta conversa é apenas para que aprendas
que não se deve ouvir amigas invejosas, como aquela
tal de Iara, que disse que eu não gosto de ti. Claro que
gosto de ti! E muito! Fui criado acostumado a ter do
bom e do melhor. Da mesa farta de meus pais só
faziam parte as melhores iguarias. Não te comeria, se
não te adorasse...
ALICE NO PAÍS DAS ARMADILHAS

Alice é alegre, mas não é feliz. Toda sorrisos,


cheia de simpatia para distribuir para as pessoas
normalmente emburradas e estressadas, Alice deve
trazer um grande alívio para quem sofre junto com
ela. Principalmente, para quem convive com ela
dentro da Detenção Feminina em São Paulo.
Do alto dos seus sessenta e sete anos, a velha
ex-traficante tem pleno domínio da realidade. Na
reportagem feita por um programa de TV, Alice nos
deu um banho de sabedoria. Mais dez minutos no
vídeo e até teria nos convencido de que traficar é
natural. Porque Alice é assim mesmo. Transpira a
alegria de viver e a serenidade de quem não se deixa
afogar pela culpa. Culpar-se por quê? Culpa é para
quem tem escolha. Quem não tem opção não pode se
dar ao luxo de carregar consigo este sentimento.
Ainda mais que a culpa é tão avassaladora quanto a
droga. Ou, talvez, pior do que ela. Pelo menos, destrói
tanto quanto e também joga as pessoas abaixo do
nível do chão.
Alice conta com naturalidade que teve que
traficar para sustentar os filhos. Que foi presa várias
vezes e, não achando emprego por ser ex-presidiária,
teve que traficar de novo. Como o farão várias de suas
companheiras de presídio quando ganharem de novo a
liberdade. Alice cobra da sociedade e dos governos
ações mais efetivas para ajudar os ex-detentos a se
reintegrarem à sociedade. E, do alto do seu sorriso
sereno e dos seus quase setenta anos, mostra como
somos omissos. E que, com nossa omissão, jogamos
nossos filhos, nossos vizinhos e pessoas que cruzam
diariamente nosso caminho nos braços do tráfico e do
crime. E depois reclamamos que a violência está
próxima demais de nós. Quantas vezes – perguntaria
Alice se tivesse mais dez minutinhos que fosse na TV
– você negou ajuda a um ex-detento? Não, não
estamos falando de emprego, que emprego Alice já
disse que ninguém dá.
Alice vive no país das armadilhas. A cada dia
que passa, cada um só quer saber de si. Ninguém
ajuda ninguém. A não ser para ganhar audiência. Sem
saída, milhões de pessoas ficam à mercê dos chefões
do crime. Ou roubam ou traficam. Ou traficam ou
roubam. E, eventualmente, matam. Quando dão sorte,
morrem abatidas pela polícia ou por grupos rivais.
Quando não, pegam cadeia. Como Alice. Velha Alice
que pegou muita cadeia por esta vida afora. Não
sabemos se Alice agradece a Deus por ter sobrevivido
tanto tempo. Aliás, nem sabemos se deve.
Mas, o sorriso de Alice, a sabedoria de Alice e a
sinceridade de Alice são dádivas divinas. Com certeza,
Deus, que dizem escrever certo por linhas tortas, não
pôs Alice no mundo à-toa. Devíamos prestar mais
atenção ao que ela tem a dizer. Se assim o fizermos,
talvez paremos de falar tantas bobagens quando
abordarmos a questão da violência e da criminalidade
neste país.
Fale mais, Alice! Cumpre sua missão! Fale e nos
mostre um caminho, porque nós, pobres e ignorantes
mortais guiados por ricos, corruptos e ignorantes
líderes, estamos perdidos. Ao contrário de você, que
aprendeu com a vida, apesar (e, talvez, por isso
mesmo) de apanhar tanto dela.

Crônica que recebeu prêmio de Destaque em Concurso


promovido pela Academia Cachoeirense de Letras no ano de
2005.
CORPO FECHADO

Ninguém tinha mais medo de morte matada, lá


pelas bandas do Mata Cobra, do que o tal de Zé Pedro.
E não era um medo infundado. O pai e o avô de Zé
Pedro tinham morrido tocaiados pelos jagunços do
fazendeiro Bode Véio, que expulsou o resto da família
de Zé Pedro das terras que ela ocupava na divisa com
a Fazenda do Corcunda. Aliás, foi assim Véio, cujo
nome de batismo era Juvercino Pereira dos Santos,
tornou-se o maior latifundiário da região: matando
quem se recusasse a vender suas terras para ele.
Zé Pedro lembrava-se bem do dia em que
trouxeram os corpos do avô e do pai para a casa onde
morava com a mãe e mais seis irmãos todos com
menos de dez anos. Sua mãe desabou quando viu os
dois defuntos. Socorrida, desatou a chorar. Seu choro
durou cinco
dias ininterruptos, ao final dos quais a mulher
veio a falecer desidratada. Bem que, durante o velório
e nos dias seguintes aos enterros, os vizinhos e
parentes tentaram alimentar e fazer a mulher beber
alguma água, mas, apaixonada como era pelos dois
homens, a perda para ela fora irreparável. E ela
preferiu morrer a continuar a viver num mundo
desabitado por aquelas duas criaturas.
Sem pai nem mãe nem avô, Zé Pedro e seus
irmãos foram para pertinho do povoado do Mata
Cobra, morar com uma velha tia que vivia de fazer
mandingas. A mulher unia e desunia casais, dizia, só
fechando os olhos e rezando, onde achar bois perdidos
no mato e desfazia feitiço feito por gente que mexia
com magia negra. Temente a Deus, entretanto, dona
Maria Lôra só fazia seus feitiços se tivesse absoluta
certeza que estava fazendo o bem. Não se importava,
porém, em prejudicar alguém se isso viesse a trazer a
felicidade de um vivente que ela considerava bom. E
gabava-se de ser boa conhecedora da índole humana,
sabendo, só de bater o olho, quem era bom e quem
era mau. Muito solicitada para fazer trabalhos de todo
o tipo para os moradores da região, só tinha uma
coisa que dona Maria Lôra sabia como fazer bem, mas,
nunca tinha feito: feitiço para fechar o corpo de
alguém.
Muita gente procurava a velha com este fito,
mas, ela desconversava e dizia que Deus dava a hora
de cada um e não seria ela que iria contrariar a
vontade do Todo-Poderoso. Além disso, — isso ela não
dizia para ninguém – Maria Lôra se recusava a fazer o
feitiço porque ele era muito perigoso, como tudo que
desafia as leis da natureza.

O tempo foi passando e Zé Pedro e seus irmãos


foram crescendo. Quando tinha quinze anos, Zé Pedro
perdeu o irmão mais velho, de novo de morte matada.
Foi numa briga no bar do Tito, ocasionada pelo
atrevimento do Fuinha, que mexeu com a Zica, xodó
do sobrinho mais velho de dona Maria Lôra. Furioso e
enciumado, o irmão mais velho de Zé Pedro investiu
sobre o Fuinha, que escorou o corpo do rapaz com um
facão, O facão cortou tudo que o rapaz tinha de
recheio e não teve jeito. O moço morreu antes mesmo
de chegar o Chico da Farmácia.
Dona Maria Lôra chorou muito. E Zé Pedro, além
de chorar, passou a ter mais medo ainda de morrer de
morte matada. Na noitinha seguinte ao enterro do
irmão, ele chegou perto da tia e fez-lhe a pergunta
que há muito calava em seu peito:
— Tia, a sinhora sabe fazê algum feitiço pra
fechá o corpo da gente?
— Sei sim, fio. – Nunca a mulher revelara isto
para nenhum ser vivente. – Mas é muito perigoso. Faz
muito mal para a pessoa que tenta ferir o corpo do
protegido. E pode fazê mal até para pessoa que tivé o
corpo fechado. Só sua tia conhece esse ritual. E ele é
muito poderoso. Nunca faia!
— Tia...Eu queria que a sinhora fechasse meu
corpo. Num quero morrê de morte matada ingual meu
pai, meu avô e o Jordélio...
— Melhor num tocá nesse assunto mais, menino!
Eu já disse que é perigoso!
— Tia, num tem nada mais perigoso que a
morte. Se a sinhora num fechá meu corpo, eu num vô
nunca mais vivê em paz. É capaz até deu me matá pra
me livrá dessa sina!
— Meu fio, pensa bem no que cê tá me pedindo!
É perigoso! É perigoso pros seus inimigo...
— Os meus inimigo que se dane!
— Num fala desse jeito!
— Tá, tia, descurpe...Mas então fecha meu
corpo!
— Tá bom! Ta bom! Eu já perdi meu pai, meu
cunhado, minha irmã e, agora, o meu sobrinho mais
véio. Chega de morte! Vô fechá o corpo docê primeiro.
Dispois, daqui um tempo, eu fecho o dos seus irmãos.
Só que cê vai tê que fica sete dia trancado no quarto,
bebendo só água e se alimentando só duma sopa que
eu vô prepará procê.
— Tia, eu aceito quarqué coisa pra ficá com o
corpo fechado!
— Então, tá certo, fio. Amanhã a gente começa o
ritual...
E assim foi feito. Num ritual complicado que
durou sete dias e sete noites de muita reza e
sacrifício, Zé Pedro teve o corpo fechado por sua tia
bruxa.

Dona Maria Lôra não teve tempo de fechar o


corpo dos outros sobrinhos, conforme prometera para
Zé Pedro. Morreu de pneumonia sete dias depois de
completar o ritual com o sobrinho. A pneumonia,
porém, foi só um pretexto que o Criador usou para
levar para o purgatório aquela bruxa boa que havia
desafiado a morte, livrando o sobrinho da sina de
morrer aos vinte e cinco anos, varado por bala de
carabina.
E, enquanto dona Maria Lôra penava no
purgatório, Zé Pedro tornou-se um homem. Um
homem com o corpo fechado.
Só aos vinte e cinco anos, Zé Pedro foi entender
porque o feitiço era tão perigoso para quem tentasse
ferí-lo. Foi quando ele deu um corretivo no Coré. Coré
ficou inconveniente quando bebeu umas pingas e
começou a brincar de passar a mão nas bundas dos
homens que conversavam no balcão do bar do Tito. Zé
Pedro não gostou da brincadeira e colocou o Coré para
fora do bar a pontapés. Coré foi em casa , buscou a
carabina e, mesmo meio tonto, ficou firme, frente a
frente com Zé Pedro, apontando a arma para a cabeça
do sobrinho de dona Maria Lôra. Quando Coré puxou o
gatilho, o tiro saiu pela culatra. A bala atravessou-lhe
a testa e Coré caiu mortinho na mesma hora.

Foi depois do incidente com Coré que Zé Pedro


se convenceu de que o feitiço de Maria Lôra era
poderoso e realmente lhe fechara o corpo. Agora, ele
entendia o que sua tia quisera lhe dizer quando falara
que o feitiço era muito perigoso para os seus inimigos.
Sabendo-se protegido, Zé Pedro, enfim, tomou
coragem para colocar em prática o plano de vingança
que, em suas fantasias de infância, arquitetara contra
o latifundiário Bode Véio. Mataria dois coelhos com
uma cajadada só: acabaria com o fazendeiro que
causara a morte de seus pais e de seu avô e tomaria
para si aquele mundão de terras que aquele velho
solitário possuía.
Zé Pedro, apesar de confiar no feitiço de Maria
Lôra, não era besta de ir sozinho enfrentar a
jagunçada de Bode Véio. Assim, ele recrutou vinte
jagunços dos bons, aos quais prometeu um pedaço de
terra, e o bando armado partiu em direção à Fazenda
do Capeta, que era o nome que os habitantes do Mata
Cobra deram à fazenda onde morava o latifundiário
Juvercino Pereira dos Santos.
Antes que os homens de Zé Pedro pudessem
entrar na propriedade, a cerca de cem metros da
porteira, deu-se o encontro dos dois bandos de
jagunços. Zé Pedro ordenou à sua jagunçada que não
atirasse, mas, quando os homens de Bode Véio
levantaram as armas e o próprio fazendeiro apontou
sua garrucha na direção de Zé Pedro, a jagunçada do
sobrinho da bruxa desobedeceu a sua ordem e
começou a atirar. Foi um massacre. Os homens de
Bode Véio começaram a atirar uns nos outros,
enquanto eram fustigados pela artilharia da
jagunçada de Zé Pedro. Até o latifundiário apontou
sua garrucha contra a própria cabeça e estourou seus
miolos. Cessado o tiroteio, abaixada a fumaceira, os
corpos de toda a jagunçada de Juvercino Pereira dos
Santos e o do próprio verme jaziam espalhados pelo
chão. Do lado do bando de Zé Pedro não houve
nenhuma baixa. Só Fussu de Bembem levou um tiro de
raspão dado de mau jeito pelo seu companheiro de
bando Jacinto. Coisa boba, de nenhuma gravidade.
Daí a uma semana, chegou ao Mata Cobra o
delegado do distrito de Pássaro Branco. O Dr. Etelvino,
porém, era daqueles delegados de interior que não
gostam muito de encrenca. Ele dava uma boiada para
não entrar numa briga e sonhava morrer bem
velhinho, de aposentadoria. Assim, ele aceitou a
versão dada pelo povo do Mata Cobra de que houvera
uma rebelião de parte da jagunçada de Bode Véio
contra os maus tratos que o malvado infligia aos seus
empregados. Numa guerra entre jagunços rebelados e
jagunços fiéis ao fazendeiro, os próprios homens de
Bode Véio, segundo os moradores do Mata Cobra
contaram para o Dr. Etelvino, teriam se matado uns
aos outros, não sobrando vivalma, nem o próprio
fazendeiro, para contar a história. A única testemunha
do fato fora o moleque Eunápio, que, trepado numa
mangueira, presenciou todo o entrevero. Depois de
dois dias no Mata Cobra, o delegado deu o caso por
encerrado e voltou para Pássaro Branco.
Zé Pedro, então, mandou chamar o Bené do
Cartório e o instruiu para que passasse escritura de
parte das terras de Bode Véio para a sua jagunçada e
para seus cinco irmãos. A maior parte das terras,
porém, ele mandou registrar no nome dele. A partir de
então, Zé Pedro passou a ser o mais poderoso
latifundiário da região do Mata Cobra.

O rico latifundiário José Pedro Antunes teve


uma existência relativamente tranqüila, depois que
Bode Véio morreu. Enfrentou algumas emboscadas,
principalmente armadas por forasteiros que, tendo
ouvido falar que ele tinha o corpo fechado, tentaram
eliminá-lo em busca de fama. Zé Pedro tinha pena dos
pobres, que se matavam com bala ou se atiravam do
alto dos lajedos onde subiam para tocaiá-lo. Sentia
principalmente pelos mais jovens, que acabavam
tendo existência curta por causa de um capricho. Mas,
o homem do corpo fechado não sentia remorso algum
por estas mortes. Ele não podia se responsabilizar por
algo que fora resultante da maldade dos infelizes que
queriam acabar com ele, sem mesmo conhecê-lo.
Depois da guerra contra Juvercino Pereira dos
Santos, ele procurou sempre a paz e continuou sendo
um bom cristão, temente a Deus e freqüentador da
igreja católica, onde batizou os dez filhos que teve
com a Zica, por quem se apaixonou e se casou, dez
anos após a morte de Jordélio.
Aos quarenta e cinco anos, quando já havia
vivido vinte anos a mais do que os que Deus lhe dera
na Terra, Zé Pedro ficou doente. Seu estômago foi
ficando ruim e, como não deu importância ao fato, ele
foi convivendo com uma úlcera que, com o tempo,
virou câncer. Zé Pedro foi definhando e, cada vez
mais, sentia fortes dores, vomitava sangue e tinha
dificuldades para se alimentar. Até que não teve mais
jeito. Sua teimosia não lhe valeu de mais nada e seu
filho Celestino acabou convencendo-o a ir para a
capital, para se tratar.
Quando o médico da capital resolveu internar Zé
Pedro para fazer os primeiros exames, começaram os
incidentes desagradáveis. E os primeiros incidentes
aconteceram na sala de endoscopia do hospital.
Quando a enfermeira veio com a injeção para sedar o
paciente, inexplicavelmente, a moça aplicou a injeção
em sua própria coxa, e, grogue, foi conduzida até um
leito por uma colega. Zé Pedro, nessas alturas dos
acontecimentos, fraco e com fortes dores, bem que
tentou dizer alguma coisa para alertar o pessoal do
setor, mas, pensaram que ele estava delirando, e
ninguém lhe deu atenção. Outras tentativas de sedar o
paciente foram feitas sem sucesso. Com várias
enfermeiras fora de combate, as duas enfermeiras que
sobraram e o médico responsável pela sala de
endoscopia chegaram à conclusão que estavam diante
de um fenômeno inexplicável e levaram Zé Pedro de
volta para o seu quarto.Os médicos, então, desistiram
da endoscopia e, diante da gravidade do estado de
saúde do paciente, resolveram operá-lo mesmo sem
saber o que encontrariam quando abrissem a barriga
do fazendeiro.
Zé Pedro foi levado para a sala de cirurgia em
estado gravíssimo. Diante dos incidentes ocorridos na
sala de endoscopia, os médicos optaram por anestesiá-
lo usando apenas medicamentos que pudessem
empurrar goela abaixo do paciente. Porém, quando
um cirurgião pegou o bisturi, aconteceu o inusitado. O
médico abaixou sua mão e, num rasgo só, abriu sua
própria barriga. Teria feito estrago maior em si
mesmo, se os colegas não o desarmassem e, na certa,
o cirurgião teria ido desta para melhor, se não tivesse
recebido atendimento médico de imediato. Diante do
desagradável incidente, os médicos resolveram adiar
a cirurgia de Zé Pedro para o dia seguinte.
Só que, no dia seguinte, Zé Pedro não precisou
mais de cirurgia. De madrugada, sem dizer um ai e,
provavelmente, ainda dormindo sob o efeito da
medicação que lhe fora ministrada na sala de cirurgia,
Zé Pedro Antunes faleceu.

Um dos sofrimentos que Maria Lôra penou no


purgatório foi acompanhar passo a passo todo o
sofrimento do sobrinho. Desde o primeiro momento
em que Zé Pedro entrou no hospital até à sua morte,
todos os fatos foram levados ao conhecimento da
bruxa do Mata Cobra. Um anjo lhe disse que o
sofrimento do seu sobrinho era para purgar o pecado
que o jovem Zé Pedro tinha cometido ao se submeter
a um ritual que desafiava a vontade do Criador. Maria
Lôra, desde que soubera dos fatos ocorridos na sala
de endoscopia, pedira ao Senhor que a deixasse voltar
à Terra para desfazer seu feitiço, mas, o Todo
Poderoso, ainda muito aborrecido com ela, disse-lhe
que ela tinha que ficar onde estava, pagando pelo seu
erro e deixando o sobrinho sofrer as conseqüências de
seu atrevimento.
No momento da morte de Zé Pedro, porém, o
Senhor, conforme Ele mesmo havia planejado, deixou
Maria Lôra socorrer o sobrinho. É que o poderoso
feitiço fechara tão bem o corpo do infeliz que sua alma
não encontrara saída para abandonar aquela carcaça
imprestável e ir para o purgatório pagar o resto dos
seus pecados. Só Maria Lôra sabia com desfazer o
feitiço, abrindo o corpo do fazendeiro para que seu
espírito pudesse, enfim, abandonar o plano terreno.
Assim, Maria Lôra desceu á Terra e, como
precisava de sete dias para desfazer o fechamento do
corpo de Zé Pedro, levou o cadáver do falecido para a
velha casa , agora abandonada, onde ela morara com
seus sobrinhos até o dia da sua morte.
Quando Celestino chegou no hospital, o alvoroço
foi grande. Seu pai havia desaparecido como por
encanto. Os médicos, enfermeiros e funcionários que
estavam de plantão naquela noite foram chamados à
sala do diretor do hospital, mas ninguém soube
explicar como aquele homem tão enfermo e debilitado
poderia ter abandonado o seu leito e desaparecido. O
caso foi parar na polícia e depois na imprensa, que
especulou, mas também não soube explicar o
mistério. Falou-se em cura milagrosa, seqüestro para
exigir resgate e em roubo de cadáver para vender
para alguma faculdade de medicina. Um repórter mais
chegado ao bizarro levantou até a hipótese de que o
corpo de Zé Pedro tivesse sido roubado e violado por
algum necrófilo.
Na sétima noite após o sumiço do pai, Celestino
teve um sonho. Uma velha, que se dizia sua tia-avó,
disse-lhe que fosse até a velha casa abandonada onde
seu pai morara antes da guerra contra Bode Véio e
buscasse o corpo de Zé Pedro para encomendar sua
alma e lhe dar um enterro decente.
Logo que acordou, Celestino vestiu-se, acertou
sua conta de hotel e tomou o rumo do Mata Cobra.
Chegou lá à tardinha e não perdeu tempo. Pegou três
jagunços da Fazenda do Capeta, agora chamada de
Fazenda dos Antunes, e foi para a casa abandonada
onde, outrora, Maria Lôra morara com os sobrinhos.
Quando arrombaram a porta, Celestino e os
jagunços que estavam com ele não tiveram
dificuldade para achar o corpo de Zé Pedro. Ele estava
em cima da mesa da sala. A carcaça do pai de
Celestino, apesar de passados oito dias da sua morte,
não exalava mau cheiro. No ar, predominava forte um
cheiro de flor de defunto. Celestino, então, mandou
chamar o Simão Perneta, que providenciou um caixão
e uma coroa de flores. Antes do enterro do sobrinho
de Maria Lôra, foi realizada uma missa de corpo
presente para encomendar sua alma.

Zé Pedro ainda passou um bom tempo no


purgatório, acabando de pagar seus pecados,
principalmente os que cometeu na guerra contra Bode
Véio. Estes pecados eram coisa para se pagar pela
eternidade no inferno, mas o senhor levou em conta
como atenuante o fato de que Bode Véio, além de ser
ruim como a peste, tinha assassinado o pai e o avô de
Zé Pedro. Além do mais, cheio de sabedoria, o Criador
jamais iria condenar Zé Pedro ao mesmo castigo
imposto ao latifundiário Juvercino, este sim
condenado a penar no inferno por toda a eternidade.
Hoje, dona Maria Lôra e seu sobrinho vivem
felizes no paraíso. E os segredos do poderoso feitiço
para fechar e abrir o corpo de um ser vivente jamais
chegou ao conhecimento de nenhuma outra bruxa.
Ainda mais que dona Maria Lôra, que aprendera muito
com o sofrimento dela e do seu sobrinho, resolveu
cumprir a promessa que fez ao Criador de nunca mais
revelar este segredo para nenhum mortal. Muito
menos para um que fosse dado a lidar com bruxaria.
DE VOLTA AO PRESENTE

"Eu vou voltar aos velhos tempos de mim.


Vestir de novo o meu casaco marrom".(M. Valle)

— Fala pro Zé da Bicicleta pra vim buscá a


lavagem. Minha lata tá cheia.— É o recado esdrúxulo
que encontro na minha secretária eletrônica. Estamos
agora em 1999 e acabo de voltar do Congresso da
UBES, realizado em Goiânia, onde fui, como expositor,
divulgar meu primeiro livro.
No primeiro momento, ignoro o recado. Não sei
quem é o Zé da Bicicleta. Nem tampouco sei quem se
interessaria pela lata de lavagem da senhora que ligou
aflita. Depois, começo a viajar. E se for uma
mensagem em código? Talvez, o Zé da Bicicleta seja o
vizinho dos fundos, que sempre sai de bicicleta de
manhã. E, como ficaria muito desconfortável e
inadequado carregar uma lata de lavagem na bicicleta,
talvez a lavagem seja droga. A mulher poderia estar
com muita droga, correndo perigo, ou, "minha lata tá
cheia" significasse "a droga chegou".
Caio na real, Que bobagem! Que fantasia besta!
Volto ao passado e lembro que, em 68, usamos alguns
códigos. "Manoel" e "Luzia", por exemplo, tinham um
código específico para suas cartas, quando queriam
comunicar alguma coisa que fosse perigoso que
chegasse ao conhecimento da repressão. Assim, o
agente federal ou estadual que dava plantão nos
correios para ler as cartas alheias deve ter encontrado
algumas frases sem sentido entre as juras de amor do
casal apaixonado. Se tentou decifrá-las, não teve
sucesso. Nosso código era perfeito, apesar de
constituído por poucos vocábulos, e acredito que ele,
provavelmente, pensou que aquelas frases não
passavam de delírios decorrentes do estado febril que
acomete as pessoas apaixonadas.
Pisando de novo no chão duro e incerto de
1999, como já disse no início dessa crônica, acabo de
voltar do Congresso da UBES em Goiânia.
Não. Se o leitor acha que fui em busca do
passado, tentando resgatar o horizonte perdido,
enganou-se redondamente. O Congresso do qual
participei, como expositor, teve poucos pontos
comuns com os da época da Ditadura. Primeiro, fomos
em vários ônibus especiais, com faixas nas laterais
dos mesmos e bandeiras do PC do B, PT, PSTU, e
outros Ps desfraldadas nas janelas, coisa inimaginável
nos idos de 68. Naquela época, clandestinos,
viajávamos (ao contrário dos barulhentos e alegres
secundaristas de hoje) macambúzios, sorumbáticos e
tensos, com o coração disparando toda vez que o
ônibus parava numa barreira. Quando entravam os
policiais ou os soldados do exército no ônibus, nos
sentíamos perdidos, apesar de procurarmos manter a
calma, para não chamarmos a atenção daqueles que
identificavam os passageiros considerados suspeitos.
Os congressos de hoje, orgulhosamente
considero isto conquista da minha geração, são uma
festa constante, com os jovens gritando slogans,
palavras de ordem, dançando e batucando, num
gostoso carnaval político-ideológico. Nos anos 60, não
usávamos microfones e nos manifestávamos e
conversávamos baixinho, para não produzir sons que
pudessem chamar a atenção da repressão. Isto sem
falar que, hoje, os congressos se dão em locais
próprios para esse tipo de evento, cedidos pelos
governos municipais ou estaduais, ou pelo próprio
governo federal. Coisa inimaginável em 68, onde se
usava salões paroquiais, conventos de padres, salões
de festas, ou até sítios.
No alojamento em que fiquei, junto com os
meninos, uma escola pública de Goiânia, a mesma
saudável baderna acontecia. Numa das manhãs, um
maluco nos acordou tocando um tambor. Na noite
seguinte, teve festa até alta madrugada. Em 68, não
podíamos fazer barulho nos alojamentos. Não porque
não quiséssemos. Nossa preocupação não era a de
não incomodar os companheiros. Era a de não acordar
a polícia.
Mas, especificidades próprias de um lapso de
trinta e um anos à parte, o fervor e a responsabilidade
dos jovens me emocionou. E me fez lembrar dos idos
de 68.
E a emoção aflorou ainda mais forte, quando
conheci um senhor um pouco mais velho que eu. Ele
apareceu no terceiro dia do Congresso. Desenvolto,
recebia os cumprimentos dos jovens e não-jovens que
freqüentavam o Centro de Convenções de Goiânia.
Logo percebi que ele tinha aquela aura que identifica
as pessoas especiais e, principalmente, os velhos que
têm um passado. Ele dirigiu-se à minha mesa, folheou
um livro e puxou conversa. Começamos a conversar e
ele logo se identificou. No meio do barulho do
microfone, do carnaval político-ideológico e da
"guerra" entre tendências políticas, fiquei sabendo
que ele foi um sobrevivente da Guerrilha do Araguaia.
E, apesar de ter tentado repetir várias vezes, não
consegui ouvir com nitidez o seu nome. Por isso, para
mim, ele ficou sendo, como o chamavam os
secundaristas de 99, o "seu Zé do Araguaia".
Trocamos algumas histórias (ou alguma
História). Mas, de tudo que ele me contou, o que mais
me (nos) emocionou foi a história do Idalísio, irmão
de um grande companheiro meu de 68. Segundo ele,
Idalísio saiu com alguns companheiros e se perdeu na
mata. Sozinho, acoitou-se na casa de um camponês e
foi denunciado. Cercado pelo exército, resistiu até
acabar sua munição. Ai, o exército invadiu a casa e o
matou. Morreu como herói, assegurou-me o "Zé do
Araguaia".
Contei-lhe então que só soube da morte do
Idalísio em 84, quando li seu nome na lista de mortos
e desaparecidos, no livro "Brasil Nunca Mais".
— Levei mais de dez anos para saber da morte
do meu amigo. E mais quinze para saber como ele
morreu. A Ditadura nos tirou até esse direito: o de
chorar no tempo certo a morte dos nossos
companheiros. – Comentei com ele.
Nesse momento, enquanto tentava, com o
indicador, remover uma lágrima teimosa do canto do
meu olho esquerdo, notei que "seu Zé do Araguaia"
também se emocionara. Vi isso nos seus olhos.
Ficamos ali os dois, no meio daquela juventude
alegre, barulhenta e politizada, fitando um o
sentimento do outro, até que alguém o abraçou e o
levou para o meio da plenária.
A partir daí, minha imaginação fez uma viagem
tardia, uma viagem que deveria ter sido feita há
alguns anos. Imaginei o Idalísio naquela casa,
cercado. Seu coração teria batido forte e ele teria tido
a certeza de que chegara a sua hora? O que ele
sentiu? O que sente alguém que sabe que vai morrer
dentro de alguns minutos? Medo, pavor, ou não dá
tempo para sentir nada? Atirando, resistindo, ele
sabia qual seria o seu destino. Quem conhecia o ódio
aos comunistas, o despreparo, o descontrole
emocional que tomava conta dos que, seja do
exército, da polícia ou da marinha, não importa,
participavam de ações contra nós, sabia que, se
resistisse, principalmente armado, iria morrer. E eu
não tenho dúvidas: Idalísio soube que ia morrer. Não
ia ver a Revolução triunfando. Não ia mais participar
de um governo revolucionário que iria acabar com a
fome e a miséria no país. Será que ele pensou nisto?
Ou só atirava, atirava, sem pensar? E quando acabou a
munição e eles entraram arrombando, gritando,
atirando, as balas penetrando em seu corpo, a dor e o
sangue escorrendo? O que sentiu? De quem se
lembrou? Dos companheiros? Da família? Do Deus
capitalista e vingativo? Ou do Deus que se posicionava
ao lado dos pobres e oprimidos, no qual, talvez,
secretamente cria, influenciado pelo irmão padre,
membro da ala mais avançada da Igreja e limitado
fisicamente numa cadeira de rodas?...
— Quanto custa?
— Ahn?
A jovem e bela secundarista interrompeu minha
viagem.
— Quanto custa, o livrinho?
Voltei à tona e respondi à moça, que,
provavelmente, se assustou. Não com o preço do livro.
Mas com minha expressão transtornada.
DIÁLOGO

— Taquinho?
— Sim. Sou eu. É você, Saulo?
— Eu mesmo. Liguei pra conversar um pouco. Tô
na pior...
— Eu também, cara. Imagina que meu nome foi
pro SPC só porque não paguei três prestações do
carro...
— A Madalena me abandonou. Deixou um bilhete
dizendo que ia morar com o Otávio...
— Que absurdo, cara! Os caras te tomam o carro
e ainda mandam seu nome pro SPC...
— Ela escreveu no bilhete que estava farta de
todo dia eu chegar em casa cansado e não dar
assistência. E também que, se não fosse o Otávio
quebrar o galho dela...
— .O pior é que eu já tinha pago trinta e quatro
prestações! Só faltavam quatorze e a financeira não
quer devolver a grana que eu paguei. Querem que eu
pague de uma vez todas as prestações que faltam pra
me devolver...
— Imagina que a piranha já vinha me traindo há
um tempão. E ainda tem coragem de dizer no bilhete
que a culpa é minha e que eu devia...
— Veja só, Taquinho, se eu não dou conta nem
de pagar uma prestação com a merreca que eu ganho,
como vou pagar todas de uma vez? Esse pessoal é...
— Saulo, sinceramente, eu não nasci pra ser
corno. Dói, cara! E como dói! É foda a gente trabalhar
feito um cão, dar tudo do bom e do melhor para uma
mulher e depois...
— Toda vez que eu estou pendurado num
ônibus, minha cabeça até esquenta de tanto ódio que
eu fico daquela financeira! Pô, eu paguei trinta e
quatro prestações! Meu dinheiro não é água não! Eles
deviam pelo menos...
— Pior é o desgraçado do Otávio! O cara se dizia
meu amigo, freqüentava minha casa, tomava cerveja
comigo e depois apronta uma dessas! Quando penso
nele dá vontade de...
— Tanto corrupto e ladrão nesse país e logo eu
tenho que levar ferro! Não é justo! E fica tão difícil
trabalhar sem carro e ainda....
— Se eu fosse um cara estourado, violento,
matava os dois! Juro que matava! Onde já se viu um
cara que se diz amigo seu e uma mulher que se diz
honesta...
— Dá vontade de ir lá na financeira e roubar o
carro do gerente daquela merda, só pra ele ver como é
bom a gente ficar sem carro! Ah, mas eu vou contratar
um advogado! Eles estão fazendo isto comigo porque
estão achando que eu sou...
— Se eu não fosse tão honesto, eu poderia ter
arranjado uma amante também. Afinal, a Madalena
tava ficando cada vez mais acabadinha. Não sei o que
o crápula do Otávio viu nela que...
— Eu podia fazer como aqueles caras lá dos
Estados Unidos. Podia pegar umas três armas
carregadas e sair descarregando no pessoal daquela
financeira fudida. Mas eu não sou...
— Agora, os dois se merecem! O Otávio também
não é grandes coisas. Você já reparou no tamanho da
barriga dele? O cara parece mais um...
— Ô taquinho, agora eu vou ter que desligar.
Estão ligando da financeira pro meu celular e pode ser
que eles estejam querendo fazer alguma proposta de
negociação.
— Vou ter que desligar também. Estão batendo
lá no portão e pode ser a Madalena que se arrependeu
e resolveu voltar.
— Tá legal, cara. Foi muito bom conversar com
você. Estou mais aliviado.
— Eu também. É bom ter um amigo como você
para ouvir a gente nas horas difíceis. Um abraço.
Tchau!
— Tchau, amigo! Me liga mais tarde para a gente
se falar mais...
FASE RUIM

Saio de casa aborrecido. Estou chateado sem


saber porque. Remexo em minha memória acabo me
lembrando. Realmente, uma coisa me aborrece. E
muito. Não. Não estou falando do menino da minha
vizinha. O tolinho, no auge dos seus três aninhos,
apenas me alertou, quando, apontando para a minha
barriga, perguntou inocentemente:
— Moço, cê comeu muito? A minha mãe falou
que quem come muito fica assim...
Claro que dei uma resposta para o menino. Uma
resposta constrangida e cheia de culpa, mas dei:
— Comi sim, meu filho. Comi demais...
O menino não tem culpa de nada, apesar de ter
sido severamente repreendido pela mãe. Eu mesmo,
até que ri da situação. O que me incomoda não é estar
gordo. O que me incomoda é ser professor da rede
púbica..
Após dois anos afastado da sala de aula, achei
que ia voltar e encontrar as coisas melhores. Mas não.
As coisas estão piores. Para reassumir meu posto na
sala de aula, tive que me transferir de escola. E, ao
apresentar-me na minha nova escola, novamente fui
muito mal recebido. E tudo porque, de novo, havia um
contratado que, com a minha chegada, ia perder o seu
precário e inseguro emprego. O diretor da escola para
onde fui transferido quis me encaixar (no bom
sentido, é claro) com metade das minhas aulas de
manhã e a outra metade à noite. Não concordei, bati o
pé para ficar com meu cargo completo de manhã e,
com isso, já cheguei na escola ganhando a antipatia
do meu novo chefe.
No primeiro dia de trabalho, em reunião com os
novos colegas, descubro que não posso adotar livro
didático. Os alunos não têm como compra-lo e o
governo não fornece livro de História para aluno do
ensino médio. Ótimo! – Penso – Farei uma apostila e,
se tiver tempo, talvez até produza alguns textos.
Vã pretensão! Descubro também que a escola
não tem papel para fornecer ao professor que quer
elaborar sua apostila. Serei, então, obrigado a deixar
uma cópia de cada apostila no xerox, para que os
alunos mandem tirar cópias e paguem por elas. É o
único jeito que funciona, asseguram-me meus
colegas. Se eu quiser, também posso tirar quarenta
cópias do texto, pagas por mim, e distribuir para os
alunos, recolhendo ao final de cada aula.
No primeiro dia de aula, levo um texto com
quarenta cópias que tirei na papelaria perto da minha
casa. O texto aborda a questão da violência. Faço uma
discussão com os alunos, dou um trabalho e decido
passar, nas aulas seguintes, "Uma Onda no Ar" para
as minhas turmas.
Alugo a fita e levo para a escola. A TV da escola,
única que lá existe, é um cacareco (Atenção jovens:
cacareco, para nós mais velhos, é um trem véio). Ela
só fica no volume máximo. Chamo vários funcionários
da escola, mas ninguém sabe mexer na TV. Falam que
ela está estragada. Um aluno, porém, enfia um
araminho no buraco onde devia ficar o botão de
controle de volume e consegue colocar a TV num
volume suportável. Assistimos a uns vinte minutos de
fita que, percebo, prende a atenção dos alunos.
No dia seguinte, volto com a fita e não encontro
a TV na escola. Foi levada para o conserto e ninguém
me dá notícia de quando ela volta. Vou ter que
replanejar tudo. Faço a discussão do trabalho que dei
anteriormente com os alunos, encerro o assunto e
decido iniciar o conteúdo de História no dia seguinte.
Juro para mim mesmo que eles não vão me
fazer desistir. Eles vêm tentando fazer com que eu
desista há trinta e dois anos. Se fiquei dois anos fora
da sala de aula., foi movido por motivos pessoais.
Jamais foi por causa deles. É uma conspiração. Fazem
isto para que professores desistam de ir trabalhar e os
alunos, com isso, fiquem de horário vago na escola.
Assim, o estado economiza, ao mesmo tempo em que
ninguém pode acusar o governo de estar negando ao
aluno o sagrado direito à educação.
Meus pés doem. A maioria das salas de aula não
tem cadeira para o professor (algumas não têm nem
uma mesa decente). São quatro horas em pé. Tenho
pés chatos, peso cento e dez quilos e tenho uma
prótese de platina no lugar do fêmur. Ficar em pé
tanto tempo provoca-me dores quase insuportáveis.
Mas, prometo de novo para mim mesmo: não
desistirei. Por mais que eles tentem, não me farão
desistir.
Um dia, perguntaram a Getúlio Vargas:
"Quantas horas são?". E ele respondeu: "Duas e dez".
Isto me faz pensar que, se até os grandes homens
falam e fazem coisas sem grande importância, por que
logo eu tenho que bancar o diferente? Sei lá. Às vezes,
penso em largar tudo e abrir uma banca de revistas
usadas. Mas aí, quando lembro que estou
descapitalizado e que meu estoque está zerado,
desisto da idéia e volto ao firme propósito de jamais
desistir. Por mais que eles conspirem para isto...
MAL-ENTENDIDO

— Alô. É da casa do amor?


—É
— Eu queria falar com a Ágda...
— Com a Magda?
— Não! Com a Ágda. Ágda. Começa com A, de anta.
— O que adianta?
— Não é adianta! É A... de Anta. Como a senhora... —
Pensou alto.
— Peraí, agora eu entendi! O senhor me chamou de
anta!
— Mas, que diabo! A senhora é surda?
— O que que o senhor tem contra os curdos? Por
acaso, é o Saddam?
— Minha senhora, aí é ou não é a Casa do Amor?
— Claro que é!... Eu já falei que é!...
— E a senhora é puta?
— Claro que escuto! Escuto muito bem! Só que meu
aparelho não tá legal, tá dando uma chieira. Não dá
pra ouvir direito...
— Tá bom! Tá bom... Mas já que a senhora tá com
problema de audição...
— Tição?! Quem é tição? O senhor é racista também?
— Ai, meu saco!...
— Olha o respeito!
— E eu queria só tirar o atraso...
— Criar um caso? Quer dizer que o senhor ligou só pra
criar um caso?
— Minha senhora, já que tá tão difícil a comunicação
entre nós...
— Isso eu entendi. E concordo plenamente!...
— Pra simplificar as coisas, eu vou querer a foda com
a senhora mesmo...
— Mas, eu não entendo nada de moda!...
— Não é moda, sua anta! É foda! Efe... o... dê... a!
— Será que eu ouvi o que penso que ouvi? Afinal, o
senhor pensa que pode ir ligando para uma casa de
família...
— Que casa de família, minha senhora?! Aí é ou não é
a Casa do Amor?
— Claro que é! E o senhor é um covarde que se
esconde atrás do anonimato...
— Dorinato, Nonimato, não me mato, sei lá! Aqui não
tem ninguém com esse nome que a senhora falou aí...
— Ih!... Seu telefone agora também tá com ruído? Eu
disse que o senhor se esconde atrás do anonimato pra
ofender uma mãe de família!
— Se a senhora é uma mãe de família, por que
resolveu ser puta? Ora bolas! A senhora tem que
escolher: ou é puta ou mãe de família!
— Agora quer por minha filha no meio...
— Que filha?... Peraí, sua filha tem quantos anos?
— Olha, meu senhor, já que o senhor não me respeita,
respeite pelo menos minha filha!
— Ah!... Agora eu entendi! A senhora está querendo é
um cachê mais gordo!... Diz! Vai! Diz aí quanto é mãe
e filha juntas! Eu pago! Eu pago o quanto for! Eu tô
abonado. Ganhei uma grana no bicho ontem...
— Olha, moço, se eu não estivesse desconfiada de que
isso é uma pegadinha da televisão, eu já teria
desligado há muito tempo...
— Claro que isso não é uma pegadinha! Aliás, esse
papo tá começando a ficar excitante. Se a senhora
estivesse aqui ao vivo e a cores, ia pedir pra senhora
dar... uma pegadinha!
— Meu senhor, mas o senhor não tem limites mesmo!
No princípio, até pensei que o senhor era um dos
amigos do meu marido, mas...
— Ih!... Lá vem outra proposta! Não! A senhora pode ir
tirando o cavalinho da chuva! A senhora, sua filha e
seu marido, nem pensar! Tenho alergia a homem!
— O que que o senhor disse? O ruído do telefone tá
aumentando...
— EU DISSE – Gritou o "cliente" — QUE EU NÃO
QUERO TRANSAR COM A SENHORA, SEU MARIDO E
SUA FILHA!!!
— Não! Agora eu ouvi! O senhor ofendeu toda a minha
família! Nenhum ator de pegadinha falaria esses
horrores! Muito menos um amigo do Walmor! Vou
desligar!
— Peraí! Peraí, minha senhora! Quem é o Walmor?
— Meu marido, o dono da casa...
— Ah, o cafetão!...
— Não. Ele ainda não é capitão. É só cabo... Mas um
dia ele chega lá!...
— E a senhora gosta muito do cabo?
— Claro!
— Mas chifra ele por grana... Que vergonha!
— O que o senhor disse?
— Nada. Deixa pra lá. Olhe, a senhora já esticou esse
papo muito. E eu só tô na linha ainda porque esse
papo tá me dando um tesão danado!...
— É, seu tarado? Agora, eu entendi. Pois saiba que eu
só tô na linha até agora porque eu achei que o senhor
era um amigo do Walmor metido a engraçadinho...
— Mas, o que a levou a pensar que eu sou amigo do
corno do seu marido?
— Ah... Graças a Deus, aquela chieira no aparelho deu
um tempo! Quando o senhor ligou, o senhor não
perguntou se era da casa do Walmor?
— Não.
— O que?
— Claro que não! Eu perguntei se era da Casa do
Amor. CASA DO AMOR! – Berrou.
— O que é isso, Casa do Amor?
— É uma zona, um prostíbulo, uma casa de encontros,
um pu...
— Chega! Chega, seu indecente! Já entendi! Mas, pra
qual número o senhor ligou?
— 44343232.
— Estranho, é daqui mesmo. Mas, que eu saiba, minha
casa nunca foi uma zona. O Walmor, de vez em
quando, até diz que tá uma zona, mas aí, eu largo a
preguiça de lado, dou uma arrumada...
— Minha senhora,— interrompeu o "cliente" que,
mesmo tardiamente, percebeu que algo estava errado
— aí não é a Casa do Amor e sim a casa do Walmor?
— É. Mas o número é o mesmo que o senhor me falou.
Onde o senhor arranjou esse número?
— Num anúncio do jornal "Galpão". Tá aqui, ó: "Casa
do Amor – Ágda e suas amigas levam você ao paraíso.
Atendemos homens, mulheres e similares. Promoção:
10% de desconto à vista ou 28 dias no cheque. Fone:
44343232".
— Pois é, moço. Pois o anúncio saiu errado. Não tem
nenhuma Ágda aqui. Minha irmã se chama Magda,
mas ela só vem aqui uma vez por semana pra me
ajudar na faxina. E meu marido, o Walmor – mentiu –
é super musculoso e campeão de Karatê! Se ele
tivesse atendido... Ah, se ele tivesse atendido!...
— Minha senhora, mil desculpas! Esqueça tudo que eu
falei. Agora, se quer uma dica, ligue pro Galpão e
reclame!
— Claro que eu não vou só reclamar! – Declarou ela,
agora sim, muito puta. — Vou processar aqueles
incompetentes!
— E esse foi apenas o primeiro de muitos telefonemas
que a família recebeu de homens, mulheres e
similares em busca do prazer. O Walmor processou o
jornal e, no juizado de pequenas causas, a honra e o
sossego da família do Walmor valeram apenas um
salário mínimo. Tendo esperado quase um ano pelo
desfecho da causa, Walmor aceitou a mísera
compensação, juntou à "indenização" parte do seu
13o salário e comprou um aparelho de telefone novo.
Daqueles que vêm com bina...
MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O
FÍGADO!

"Rasga-lhe o peito o demônio,


tombando a velhinha aos pés do altar."
(Vicente Celestino)

No segundo semestre de 68, ficava cada vez


mais difícil mobilizar a massa. Acuadas pelo medo,
vítimas da propaganda avassaladora da Ditadura que
visava desgastar e colocar no descrédito os
movimentos populares, as pessoas comuns
começaram a tapar os olhos, os ouvidos e as bocas.
Melhor não se comprometer, pensava a maioria das
pessoas, principalmente as de classe média que já
sonhavam com os benefícios que já começavam a
vislumbrar para si, mesmo antes do "milagre
brasileiro". Passada a revolta com a morte do Edson
Luís e de outros estudantes e a febre de contestação
que varreu o país, a omissão e o medo tomaram conta
de grande parte da massa que participara das
mobilizações do primeiro semestre de 68. A segunda
parte do glorioso ano passou a ser palco das ações da
militância mais comprometida.
Eu, porém, não me conformava com a situação.
Membro da AP, uma organização que propunha uma
revolução popular com ampla participação das massas
para se chegar ao poder, eu estava disposto a tudo
para dar a minha contribuição no sentido de fazer as
massas retornarem ao movimento estudantil.
E foi com este espírito que saí de casa naquela
manhã. Teríamos que convocar uma assembléia dos
estudantes do Colégio Estadual Central e era vital que
aquela assembléia não se resumisse a uma reunião de
meia dúzia de gatos pingados da AP, do Partidão e da
POLOP. Eu queria que a assembléia fosse numerosa,
com ampla participação dos estudantes do Estadual.
Caminhando para o Colégio, ao passar diante de
uma banca de jornal, veio-me a idéia luminosa. Foi
quando vi, em exposição, uma enorme manchete que
ocupava quase toda a primeira página do "Noticias
Populares", um jornal sangrento da época: MATOU,
BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O FÍGADO!
O estalo foi imediato e a idéia já nasceu pronta.
Sem titubear, comprei um exemplar do jornal e fui
mais animado para o Estadual Central. Chegando lá,
cola, tesoura e papel pardo, e – pronto! – nasceu o
cartaz que certamente todos leriam. Afinal, este era
um dos motivos pelo qual mobilizávamos pouco os
estudantes naqueles dias: nossas formas de
comunicação estavam saturadas e a maioria das
pessoas nem liam mais nossos avisos.
O cartaz foi sucinto e objetivo. No alto, colei a
manchete da primeira página do "Noticias Populares":
MATOU, BEBEU O SANGUE E DEPOIS COMEU O
FÍGADO! Embaixo, em letras menores, mas não
pequenas, escrevi:
"Assembléia, amanhã, às 10 horas, perto da
rampa.
Pauta: Próximos passos do movimento
secundarista. Participe!"
Colado estrategicamente na entrada da cantina,
o cartaz foi um sucesso. Ninguém que passou naquele
dia na cantina do Estadual deixou de lê-lo.
E a assembléia também foi um sucesso. Foi a
que teve o maior número de participantes no segundo
semestre de 1968.
NÃO ACREDITO EM DEMÔNIOS

Não acredito que exista um ser tão terrível


como o Demônio, tal como é descrito por diversas
religiões. Se o Todo-Poderoso realmente ama sua
criação, certamente não iria permitir termos que
tolerar, além da maldade que campeia sobre a Terra
em carne e osso, a existência de entidades imortais
que ainda iriam tumultuar ainda mais o caos em que
vivemos.
O mal, no plano terreno, já está muito bem
representado por homens cruéis e desprezíveis. É
muito difícil acreditar na existência de seres mais
intoleráveis e cruéis, por exemplo, do que o
Presidente da nação mais poderosa do mundo, que
manda matar indiscriminadamente mulheres, velhos e
crianças, em nome da liberdade. Não podem superar
nenhum demônio aqueles que mandam assassinar
defensores da natureza e dos direitos humanos,
líderes sindicais, trabalhadores, religiosos e fiscais no
cumprimento do dever. Será que pode existir uma
entidade pior do que aqueles que, ao invés de
protegerem a sociedade como deveriam pela profissão
que exercem, promovem chacinas terríveis, inclusive,
para não deixar testemunhas de seus crimes,
executando crianças, inocentes, jornalistas e até
colegas de profissão? Que Diabo ainda poderia ser
pior do que as pessoas que matam velhos que
trabalharam a vida interia para surrupiar o pouco que
possuem? Ou do que aqueles que se apoderam de
recursos públicos que, uma vez utilizados de forma
correta, poderiam livrar da morte, da miséria e do
sofrimento, milhões de pessoas? Qual a entidade que
ainda poderia ser mais nociva do que aqueles que
inventam artefatos capazes de destruir o mundo
inteiro? Ou mais cruel do que aqueles que poluem e
destroem o planeta, comprometendo a sobrevivência
das gerações futuras? Existiria demônio mais terrível
do que o filho que assassina seus pais ou do que o pai
que elimina toda a sua família?
Não. Não acredito que, além de termos que
aturar toda esta escória que habita e exerce,
oficialmente ou não, o poder em nosso planeta, Deus
tenha nos condenado a conviver com criaturas vindas
das trevas para tornar ainda mais difícil a nossa
existência no plano terreno. Os demônios que
realmente existem têm nome, endereço, registro de
nascimento, documento de identidade, carne, sangue
e vísceras.
E o mais provável é que, que ao findar a
existência dos nossos pobres diabos humanos, Deus
os destrua, num trabalho incansável que ele realizará
até nos livrar definitivamente daqueles que hoje nos
envergonham de fazer parte da espécie humana.
NOS TEMPOS DA MADALENA

Esta história passou-se em 1971, quando eu


morava numa republica no Santo Antônio chamada
"Boteco da Madalena".
Na época, nós, os moradores do "Boteco da
Madá", também conhecidos como "Família Carau",
vivíamos inventando as mais diversas maneiras de
nos divertir e passar o tempo. Nosso cotidiano era
pesado. Tínhamos aulas do curso do Premem de tarde
e de noite, e um monte de trabalhos para fazer de
manhã e nos fins de semana. Por isso, inventávamos
tanta moda.
Num belo dia, quando não tínhamos mais o que
inventar para descansar a cabeça, o Jura apareceu
com um joguinho daqueles em que os competidores
disputam uma corrida cheia de punições, obstáculos e
recompensas. Nestes joguinhos, para sair do lugar,
cada competidor joga e anda tantas casas quanto sair
no dado.
Quando o Jura apareceu com o jogo, logo me
interessei e quis jogar com ele. Mas, tinha um detalhe.
Não havia nenhum dado na casa. Porém a nossa
vontade de jogar era tanta, que deixamos a preguiça
de lado e resolvemos ir para o centro da cidade
comprar um dado.
Fomos muito mal atendidos em todas as lojas
pelas balconistas. Além de não encontrar o que
procurávamos, começamos a sentir que as moças nos
atendiam sempre com a cara muito fechada e com
uma vontade muito mal-disfarçada de nos dar uma má
resposta.
Só depois de passarmos por uma meia dúzia de
lojas, é que atinei para a mancada que estávamos
dando:
— Ô Jura, cê percebeu o que estamos fazendo?
— Não. O que?
— O que estamos perguntando para as moças?
— Se elas têm dado.
— Pois, é. Tá pegando muito mal chegar pra
moça e perguntar: "Cê tem dado?" Por isso é que elas
tão torcendo o nariz pra gente.
— Pó, cara, é mesmo! Sabe que eu não tinha
pensado nisto? – O Jura pensou um pouco. – Mas, por
outro lado, é isso mesmo que temos que perguntar. Se
as moças estão com maldade na cabeça e deturpando
o que estamos falando, o problema é delas. A gente
quer saber é isto mesmo: se elas têm dado pra
vender...
— Piorou...
— Pois eu vou continuar perguntando do mesmo
jeito. Não tenho preconceito!
Quando chegamos em outra loja, permaneci
calado e o Jura perguntou:
— Moça, cê tem dado?
— Tenho, moço, mas o meu é muito
pequenininho...
— Eu quero ver assim mesmo.
Eu não sabia onde esconder a cara. Tive um
incontrolável ataque de riso e saí imediatamente da
loja, fingindo não ter nada a ver com o Jura. Ri um
bocado lá fora e, quando me senti aliviado daquela
incontrolável vontade de gargalhar, voltei para dentro
do estabelecimento. Encontrei o Jura examinando o
dadinho que nos custou quase nada. O Jura pagou e
nos entreolhamos. A vontade de rir voltou quando a
moça nos chamou:
— Olha, qualquer coisa que precisarem, estou ao
dispor de vocês. Meu nome é Sandra.
Eu e o Jura nos entreolhamos novamente e
concluímos juntos que a moça não só tinha dado como
também simpatizara conosco.
O LER, O SABER E O PODER

Em tempos passados, nas principais sociedades


humanas, somente uma casta de privilegiados sabia
ler. O acesso à leitura e ao saber era privilégio
daqueles que se colocavam a serviço do Estado e,
portanto, a serviço das elites dominantes. A maioria
da população, nestas sociedades, analfabeta e
ignorante, era presa fácil da manipulação dos ricos e
poderosos. Ao mesmo tempo, a magia da palavra
escrita foi descoberta desde o início da civilização
humana. Não foi à-toa que os primeiros marketeiros
da história da humanidade criaram o slogan "É
verdade porque está escrito".
Passados alguns milênios de Civilização, toda a
tecnologia colocada a serviço da humanidade não
tirou o poder mágico da palavra escrita. O saber ler
democratizou-se e acabou tornando-se habilidade
também das chamadas "classes inferiores".
Entretanto, num primeiro momento, o acesso à leitura
pelos dominados trouxe grandes prejuízos para os
donos do poder. As "classes inferiores" não só
passaram a absorver, como também passaram a
produzir saber. Desvendando a crueldade do jogo
sórdido que os condenava à miséria e à submissão, os
intelectuais provenientes ou simpatizantes das classes
exploradas passaram a articular um modelo de
sociedade totalmente distanciado dos interesses dos
grupos dominantes.
Entretanto, após um período historicamente
efervescente, marcado por uma rica produção de um
saber contestador e revolucionário, recentemente, os
grupos que se consolidaram como dominantes após a
Revolução Francesa, retomaram o controle da
situação. Donos, agora, de um poder globalizado e
tendo em suas mãos formas evoluidíssimas de
controle da mente humana, as elites dominantes do
século XXI não se descuidam de nada, quando se trata
de garantirem seu poder. Os mínimos detalhes são
importantíssimos. E, o pior, é que eles passam
desapercebidos para a maioria dos mortais comuns.
Uma das formas de engessamento da mente
humana são as regras impostas "para uma boa
comunicação escrita". De repente, só textos curtos
comunicam. Textos longos são considerados
cansativos. Na realidade, disseminou-se a idéia de que
ler é chato. Porém, a verdade é que a televisão e a
Internet ajudaram a criar uma massa de semi-
analfabetos de tipo novo. Ao ver um texto mais longo,
este tipo de semi-analfabeto vira a página e parte á
procura de mensagens sucintas, gravuras ou, de
preferência, de fotos de mulheres e homens seminus.
Estamos todos submetidos à ditadura da
objetividade. A enxurrada de textos curtos e objetivos
ampliou, nos últimos anos, o imenso exército de
criaturas humanas com conhecimento precário e
superficial da realidade, e, o pior, qualitativamente
desinformadas, apesar da imensa quantidade de
"informações" que recebem. Como não se consegue
abordar responsavelmente nenhum assunto sério com
poucas palavras, textos "enxutos", na maioria das
vezes, são secos demais. Não é à-toa que os grandes
problemas do mundo atual, quando seriamente
abordados, dão origem a longos tratados. Quando se
quer julgar alguém que cometeu um crime, consome-
se páginas e páginas nos processos. E ninguém se
forma na faculdade lendo "textículos" e folheando
livros especializados em busca de gravuras. Há um
quase consenso na sociedade de que quem vai exercer
qualquer tipo de poder tem que ter lido e estudado
muito. Já quem está destinado a obedecer... ,
A leitura, como no passado, voltou a ser
privilégio dos que servem aos poderosos. E, hoje,
quem controla o ler, o saber e o poder são os grandes
mídias de plantão que, assíduos leitores de tratados
extensos, elaboram textos curtos e objetivos para
manipular um numeroso e acomodado rebanho de
semi-analfabetos de tipo novo.
O VELHO E A MOÇA

O velho maldisse seu joelho esquerdo e


caminhou arrastado até seu quarto. Gordo, o peso dos
seus cento e vinte quilos piorava ainda mais a lesão
do joelho, multiplicando a dor que sentia ao caminhar.
Deitar-se na cama foi fácil. Bastou jogar o corpo
sobre o colchão. Difícil seria levantar-se mais tarde. A
cada dia que passava, o velho sentia mais dificuldade
para se levantar. E o pior é que, apesar de toda a sua
indisposição e decadência física, ele ainda sentia um
certo afogueamento entre as pernas. O que, com
certeza, era uma vingança da natureza pelo descaso
dele com o corpo belo e saudável que ganhara ao vir
ao mundo. A bem da verdade, o velho não seria tão
velho, se tivesse se cuidado melhor ao longo de sua
existência.
Nosso personagem escolhera uma hora muito
imprópria para se separar de sua esposa. No estado
em que se encontrava, jamais encontraria uma mulher
normal que estivesse disposta a carregar o pesado
fardo de conviver e, principalmente, dividir a mesma
cama com ele. Se ele, pelo menos, fosse rico ou
remediado...Mas, não. Após uma carreira gloriosa
como jogador de futebol de vários clubes, inclusive
dois clubes do exterior, o velho mal conseguia se
manter com dignidade. Não soubera administrar o
dinheiro que ganhara. O deslumbramento, a
imaturidade e o perfume enjoativo das prostitutas
profissionais e amadoras falaram mais alto e, agora, o
velho dependia da gratidão dos filhos que, se não o
queriam por perto, pelo menos ajudavam a pagar o
quarto de hotel onde vivia.

A moça parecia linda e tinha um corpo


escultural do qual cuidava como podia e como a
profissão lhe permitia. Não era prostituta, se bem que
seu estilo de vida, agora, não diferisse muito do estilo
de vida de uma garota de programa.
A bem da verdade, ela começara a sua vida
profissional vendendo o corpo. Como levava jeito para
o palco e para a dança, acabou sendo "promovida" a
dançarina de strip-tease na boite-bordel onde
trabalhava, não sendo dispensada, porém, por seu
"agente", de fazer pelo menos um programa por noite,
após a apresentação do seu número. Uma noite, ela
foi descoberta por um picareta que produzia um
programa erótico de quinta categoria numa pequena
estação de TV local. A partir daí, como foi muito
"boazinha" com seu futuro "chefinho", a moça deu um
importante passo em sua carreira, tranformando-se
na nova apresentadora do programa produzido por
seu descobridor.
Depois que evoluiu de garota para
apresentadora de programa, nossa jovem mudou de
vida. Abandonou definitivamente a mais antiga das
profissões, estudou muito, passou no vestibular,
entrou para uma faculdade de jornalismo e, tentando
conciliar sua vida de estudante com os compromissos
notívagos decorrentes da sua nova profissão, passou a
sonhar com o dia em que seria (re)conhecida por
outros atributos que não aqueles relacionados com as
coisas da sensualidade.
E foi para se dedicar mais aos estudos que a
moça passou a dividir um quarto com uma colega de
classe, naquele pequeno hotel perto de sua faculdade.
Quis o acaso que ela escolhesse, justamente, um
quarto ao lado do quarto do velho.
Enquanto moraram naquele pequeno hotel, o
velho e a moça nunca se falaram. Seus horários não
combinavam e lembravam aquela letra do Chico que
fala do funcionário e da dançarina. Só um dia, eles se
viram na copa do hotel e, mesmo assim, trocaram
apenas um olhar e um sorriso, no momento em que
ele tentava fechar a geladeira ao mesmo tempo em
que ela tentava abrí-la. Depois disso, nunca mais, o
velho e a moça se viram nesta vida.

O velho, já há algum tempo, sempre que dormia,


vinha tendo o mesmo sonho. No sonho, ele não era
mais um velho. Tinha um corpo jovem e belo e
caminhava, como na sua juventude, lépido e bem
disposto. E visitava sempre um belo lugar, cheio de
pessoas felizes que pareciam se amar profundamente.
Foi no dia do episódio da geladeira que o velho,
em seu sonho, encontrou a moça. A princípio, nosso
personagem não reconheceu a jovem, já que ela se
apresentava sem a roupa e a maquiagem pesada do
seu cotidiano. Só depois de se aproximar e conversar
com ela, foi que o velho percebeu que a moça tinha a
mesma aparência da jovem que dormia no quarto ao
lado do dele e que ele via depois da meia-noite na TV,
quando perdia o sono.
A moça do sonho do velho era uma pessoa pura
e sem ambições. Assim como o ancião deixara para
trás toda a sua decadência física, no sonho do velho, a
moça deixara para trás todo o peso da culpa e das
decepções que tivera ao longo de sua curta existência.
Transformara-se, naquele local agradável onde o
velho se refugiava todas as noites, numa mulher doce
e cheia de vida, que sempre tinha coisas interessantes
para dizer. Com o tempo, as conversas que o velho
tinha com a moça foram se tornando cada vez mais
ricas e prazerosas. A cada retorno daquele homem em
fim de jornada àquele recanto maravilhoso, a moça se
revelava uma criatura cada vez mais bela em sua
totalidade. Um dia, o velho chegou a uma conclusão
incontestável: apaixonara-se, perdidamente, pela
linda personagem dos seus sonhos. Sem nenhuma
dúvida, era ela a mulher da sua vida.
Inicialmente, o velho pensou em ficar acordado
até mais tarde. Quando a moça chegasse, ele se
declararia para sua vizinha de quarto. Entretanto,
depois que se olhou no espelho e viu a moça na TV,
chegou à conclusão que ele e sua vizinha do mundo
real não eram as mesmas pessoas do mundo dos
sonhos.
Naquela mesma madrugada, ao fechar os olhos
para dormir, ele decidiu se declarar para aquela figura
maravilhosa que habitava seus sonhos.

O valho percorreu ansioso seu paraíso,


procurando por sua amada. Não demorou muito e ele
encontrou a jovem. Ao sentar-se a seu lado, sentiu
uma forte emoção que quase o impediu de falar:
— Eu precisava te dizer uma coisa...
— Eu sei. – Interrompeu a moça, facilitando as
coisas para seu interlocutor. – Eu também te quero...
Os dois se beijaram calma e ardentemente,
iniciando o ritual que antecede à realização plena do
amor entre um homem e uma mulher. Foi aí que
perceberam algo que, até então, não haviam notado.
Eles estavam nus. E haviam estado nus o tempo todo,
em todos os sonhos, Aliás, todos que habitavam
aquele lugar não usavam roupas. E, para aquelas
pessoas, este era um fato extremamente natural.
O velho e a moça viveram um ato de amor como
nunca tinham experimentado. Foi um ato duradouro,
pleno, que não se acabava com o orgasmo. No amor
dos dois, o orgasmo, que durava o tempo que
quisessem, não significava o fim transitório do desejo,
que, perfeitamente controlável, jamais se tornava
uma obsessão. O desejo permanecia vivo o tempo
todo nos dois, mas sem escravizá-los. Tanto que eles
só se desligaram sexualmente quando, de comum
acordo, decidiram que era hora de repousarem
abraçados se olhando nos olhos.
Nesse momento, uma angústia profunda tomou
conta de ambos. O tempo estava passando e eles
tiveram a consciência de que, com a chegada da
manhã, eles acordariam e experimentariam o choque
do reencontro com o mundo real. Cada um teria
novamente que carregar o peso de suas dores físicas e
morais. Ele retornaria ao seu velho corpo cansado e à
sua vidinha difícil e sem graça de sempre. Ela voltaria
ao mundo podre e pobre de amor do seu cotidiano de
mulher-objeto.
Os dois tiveram, então, a mesma vontade. O
desejo imenso de permanecerem ali, naquele paraíso.
Foi aí que o velho e a moça descobriram que, para se
comunicarem, não precisavam mais emitir sons.
Comunicavam-se, agora, somente com o olhar. E tanto
o olhar do velho quanto o olhar da moça diziam um
amor extraordinário que jamais consideraria a
hipótese de deixarem aquele lugar.

Quando a jovem que dividia o quarto com a


moça acordou, teve um choque ao tentar despertar
sua amiga. A moça jazia em sua cama, gelada e morta,
mas com um sorriso de felicidade nos lábios.
Poucas horas depois, a mulher que arrumava os
quartos do hotel abriu a porta do quarto do velho e se
deparou com o cadáver também sereno e sorridente
do ancião.
O fato teve grande repercussão na imprensa.
Investigações exaustivas, entretanto, não chegaram a
lugar nenhum. Até hoje, nem a polícia nem a imprensa
conseguiram decifrar o mistério das mortes do velho e
da moça que eram vizinhos de quarto naquele
pequeno hotel do bairro Paraíso.
QUEIXUMES (*) DE UM "OUTRO" APAIXONADO

Morro de ciúmes dele. E não é porque ela, um


dia, o amou. Não. Seria ridículo, nesta fase da minha
vida, ter ciúmes do passado de alguém. Meus ciúmes,
porém, não são infundados. São ciúmes reais,
palpáveis.
Por exemplo, no seu cotidiano de esposa, ela o
vê mais do que a mim. Clandestino para as pessoas
próximas dela, às vezes sinto-me o outro, quando, na
realidade, hoje, o outro devia ser ele. E ele nem seria
um outro no sentido tradicional do amante, já que eles
não cultivam mais nenhum tipo de amor,
principalmente nenhum tipo de expressão maior do
amor, que se concretiza no amor sensual, erótico.
Não. Ela não transa com ele. Aliás, nem o namora.
Mas, mesmo assim, ele se faz muito mais presente na
vida dela do que eu.
Morro de inveja daquele que ela ainda chama de
"meu marido". Ele chega quando quer, entra em sua
casa (que ele ainda julga dele), entra, a todo o
momento, em sua vida (que ele ainda julga
entrelaçada à dele), enquanto eu, pobre clandestino,
apesar de usufruir o amor pleno dela, não tenho
nenhum poder sobre seu tempo, nem sobre o espaço
onde ela passa a maior parte do seu tempo.
Um dia, prometi a ela que seria paciente. E sou
paciente. E, se não me dirijo diretamente a ela, se falo
dela na terceira pessoa, é porque, quando prometo
uma coisa, cumpro. Se, no momento, me queixo, que
isto fique só entre nós, caro leitor. Se bem que faz
parte de mim não esconder nada dela. Aliás, faz parte
de mim não. Faz parte do amor. Ele não admite
mentiras, subterfúgios, enganos nem desenganos.
Não devo queixar-me, ela diria. Afinal, tenho o
amor dela. É comigo que ela (re)vive plenamente
como mulher Mas o ciúme tem disso. Principalmente
quando sinto mais falta dela, ele se manifesta. Uma
coisa é você falar para sua cabeça que ela não deve
cultivar sentimento negativos, em especial, o ciúme e
a inveja. Outra coisa é querer que seu coração ouça
estas sábias palavras.
Não é que eu duvide do amor dela. Mas a
distância entre as três palavras mágicas (eu te amo) e
as escolhas dela é muito grande. Principalmente
quando as escolhas em questão envolvem decidir
entre satisfazer os meus desejos ou os caprichos dele.
Ou vice-versa.
Hoje, ainda não a vi. Mas, ele sim. Já a viu, já
deixou com ela suas lembranças, já expressou seu
sentimento de posse, já tomou satisfações, já a fez
relembrar o passado, já a aborreceu, já a fez deprimir-
se, já teceu sua teia, enquanto eu, aqui sozinho nesta
noite de sexta-feira, apenas tive direito a dois
telefonemas, dois beijos à distância e um "eu te amo"
(o que já seria muito em outras circunstâncias,
especialmente se eu não estivesse mordido de ciúmes
e inveja).
Não! Chega! Eu prometi! Vou ligar a televisão,
assistir de novo a um filme que vi recentemente e
pensar só nos momentos que ela passou comigo
(doces momentos que jamais trocaria pelos momentos
constantes, porém gelados, que ele passa com ela).
Vou ver o Programa do Jô, passar por e-mail um
recado bem amoroso (assinado pela amiga "Selma")
para ela e torcer para que, um dia, a gente leia estes
meus queixumes com saudades do tempo em que
éramos não mais felizes, mas mais comedidos e
discretos.

(*) Queixas impregnadas de ciúmes


SEM DONO

Hoje ela me ligou e me tirou o sono. É muito


difícil dormir, quando uma mulher linda te liga
dizendo que quer transar com você, nem que seja por
telepatia ou em sonho.
E fica ainda mais difícil dormir, quando você
sabe que ela está cheia de sensualidade e sem dono.
E não pensem que eu gostaria de ser o dono
dela. Pelo contrário. Se assim o fosse, acho que teria
ciúmes de mim mesmo. Seria como ter que conviver
vinte e quatro horas por dia com um odiado rival.
Acho que, se eu fosse dono dela, eu me dividiria em
dois. Um seria eu mesmo. Outro seria o dono dela. E
os dois não se dariam bem. Viveriam às turras.
Detesto qualquer um que se arvore a ser dono dela.
Inclusive, eu mesmo.
Ah, e como me excita sabê-la sem dono! Sem
dono ela fica mais bonita, mais amor, mais sexo.
Livre, ela fica mais mulher. Sem dono, ela, leonina,
vira uma leoa e eu, virginiano, torno-me um (re)
desvirginador voraz. Sem dono, a alma dela me seduz
de uma forma sexualizada e eu fico imaginando,
enlouquecido, como seria se eu pudesse penetrar sua
alma, como faço em seu corpo. Seria divino, se eu
pudesse gozar em sua alma, encharcando-a com
espermas espirituais. Que loucura! Mas, é assim que
eu fico: louco, quando ela está sem dono.
Exorcizo meus pensamentos malucos. Esqueço
da fantasia sobre a alma e lembro-me do corpo dela.
Queria tê-lo agora. Mas, às vezes, as coisas não
podem ser como eu quero. É muito tarde para
atravessar a cidade. Melhor conformar-me em ficar na
imaginação, lembrando-me do corpo dela, agora sem
dono, como eu gosto, e, de preferência, nu. Imagino-a
nua e isto me excita. Mas, fico só na excitação. Não
ousaria traí-la. Nem com a minha própria mão. Não
agora, que ela já não tem mais dono.
Parece loucura, mas é assim que a desejo. Sem
dono. E, por mais que possa parecer contraditório e
incompreensível (ela, tenho certeza, compreende), só
assim consigo ser dela plenamente. A verdade é que,
agora, ela me possui. E, sem dono, ela é plenamente
minha dona. Senhora de mim, ela reina absoluta em
todas as posições possíveis e imagináveis,
proprietária exclusiva do meu pênis, da minha língua,
das minhas mãos, de todo o meu corpo e, até, da
minha alma.
Porque é assim que a amo. Sem dono.
É assim que eu gosto de ser dela...