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LITERATURA BRASILEIRA

Introdução
Este livro tem por intenção traçar os portugueses as leis, costumes e va-
um panorama de nossa literatura, deli- lores de sua sociedade, marcados pela
neando o caminho percorrido por esta forte influência do cristianismo.
na busca de sua identidade, enfatizando Considerei, entretanto, o nosso
seus principais autores e comentando Quinhentismo como marco inicial da Li-
aspectos relevantes de algumas das teratura Brasileira, ainda que esta se
obras que compõem o sistema literário realize nos moldes portugueses sob a
brasileiro. influência do Classicismo e, sobretudo,
Destina-se, sobretudo, a estudan- de Camões.
tes de Ensino Médio, professores e aos Aos poucos nossa literatura vai
que iniciam seus estudos relacionados sofrendo transformações e passando
à literatura brasileira. a trabalhar com temas e “formas” que
Obviamente, ele não esgota o as- melhor expressam os sentimentos e a
sunto, devido à amplitude e complexida- realidade brasileiros.
de do mesmo, mas pode ser considera- Outro problema encontrado foi afir-
do um ponto de partida para reflexões mar com exatidão o início e o término de
posteriores. um período literário. Na verdade, esta
Ao iniciar o trabalho, deparei-me com tarefa é impossível, já que as transfor-
uma dificuldade: a impossibilidade de de- mações estéticas ocorrem de forma lenta
limitar com precisão o início de uma litera- e gradual, porém, pode-se estabelecer
tura efetivamente brasileira, pois o con- critérios para separar as escolas literá-
ceito de “começo” nela é muito relativo, rias. Procurei seguir um método comu-
como bem ressaltou Antônio Cândido em mente utilizado pelos estudiosos da área:
sua Iniciação à Literatura Brasileira. a publicação de obras decisivas para a
As literaturas que a preconizaram configuração dos movimentos. Eviden-
(portuguesa, francesa) foram se cons- temente, as transformações históricas
tituindo concomitantemente com a for- e sociais refletem-se no campo das ar-
mação dos respectivos idiomas. De tes; por isso não dispensarei uma con-
modo diverso, porém, no caso brasileiro textualização de cada período literário,
temos uma transposição da Língua Por- enfatizando as mudanças na sociedade
tuguesa, já constituída, para um outro brasileira no decorrer dos tempos.
ambiente. Além da língua, vieram com T. O. L.
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Quinhentismo
A história da literatura brasileira tem
início em 1500, com a Carta de Pero Vaz de Literatura
Caminha, escrivão da frota de Pedro Álva-
res Cabral, enviada a D. Manuel I, comuni-
Informativa
cando a descoberta das terras brasileiras.

Este período inicial de nossa literatura Os primeiros textos em terras bra-


é conhecido por Quinhentismo, porém sileiras de que se tem notícia são “infor-
tal denominação refere-se à cronologia mações” de viajantes e missionários eu-
(século XVI), não possuindo uma cono- ropeus, descrevendo a natureza e os
tação estética. Pode ser utilizada também primeiros habitantes de nossa terra: os
para o Classicismo, período literário marca- índios.
do por uma mentalidade renascentista e
Estes escritos não podem ser clas-
cultivado na época em Portugal. No entan-
sificados como textos literários, pois são
to, como nosso estudo centra-se na litera-
crônicas históricas, refletindo a visão de
tura brasileira, utilizaremos esse termo
mundo e a linguagem dos colonizadores.
para denominar o primeiro período históri-
co da mesma. Faz-se necessário, entre- Dentre os textos de origem portu-
tanto, ressaltar que este período constitui- guesa escritos nesta época destacam-
se mais como uma literatura sobre o Bra- se: a Carta de Pero Vaz de Caminha a el-
sil, produzida no Brasil, do que uma lite- rei D. Manuel; o Diário de Navegação de
ratura efetivamente de autoria brasileira. Pero Lopes e Sousa, escrivão de Martim
Afonso de Sousa; o Tratado da Terra do
Nesta época, Portugal desenvolvia
Brasil e a História da Província de Santa
a crônica histórica e informativa, devido
Cruz a que Vulgarmente Chamamos Bra-
às grandes navegações, conquistas e
sil de Pero Magalhães Gândavo; a Nar-
descobertas ultramarinas. Predominam
o desejo de expansão do cristianismo e rativa Epistolar e os Tratados da Terra e
o anseio de conquista e domínio. da Gente do Brasil do jesuíta Fernão Car-
dim; o Tratado Descritivo do Brasil de
Podemos dividir as obras deste perío- Gabriel Soares de Souza; os Diálogos
do entre as que se enquadram na litera- das Grandezas do Brasil de Ambrósio
tura informativa, da qual fazem parte os Fernandes Brandão; as Cartas dos Mis-
textos sobre o Brasil, transmitindo ao euro- sionários Jesuítas escritas nos dois pri-
peu informações da terra e da gente que meiros séculos de catequese; o Diálogo
aqui vivia, e as que integram a literatura sobre a Conversão dos Gentios de Pe.
jesuítica, reunindo os escritos dos jesuí- Manuel da Nóbrega e a História do Bra-
tas envolvidos com a catequese. sil de Frei Vicente de Salvador.
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A feição deles é serem pardos, ma-


Fragmentos da Carta de neira de avermelhados, de bons nari-
Pero Vaz de Caminha zes, bem-feitos. Andam nus, sem ne-
nhuma cobertura. Nem estimam de co-
Então lançamos fora os batéis e brir ou de mostrar suas vergonhas; e
esquifes1; e vieram logo todos os capi- nisso têm tanta inocência como em mos-
tães das naus a esta nau do Capitão- trar o rosto. Ambos traziam os beiços de
mor, onde falaram entre si. E o Capitão- baixo furados e metidos neles seus os-
mor mandou em terra no batel a Nicolau sos brancos e verdadeiros, de compri-
Coelho para ver aquele rio. E tanto que mento duma mão travessa, da grossura
ele começou de ir para lá, acudiram pela dum fuso de algodão, agudos na ponta
praia homens, quando aos dois, quando como furador. Metem-nos pela parte de
aos três, de maneira que, ao chegar o dentro do beiço; e a parte que lhes fica
batel à boca do rio, já ali havia dezoito entre o beiço e os dentes é feita como
ou vinte homens. roque de xadrez, ali encaixado de tal
sorte que não os molesta, nem os estor-
Eram pardos, todos nus, sem coi- va no falar, no comer ou no beber.
sa alguma que lhes cobrisse suas ver-
gonhas2. Nas mãos traziam arcos com (...)
suas setas. Vinham todos rijos sobre o Esta terra, Senhor, me parece que
batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal da ponta que mais contra o sul vimos
que pousassem os arcos. E eles os pou- até outra ponta que contra o norte vem,
saram. de que nós deste porto houvemos vista,
será tamanha que haverá nela bem vin-
Ali não pôde deles haver fala, nem
te ou vinte e cinco léguas por costa.
entendimento de proveito, por o mar que-
Tem, ao longo do mar, nalgumas partes,
brar na costa. Somente deu-lhes um
grandes barreiras, delas vermelhas,
barrete vermelho e uma carapuça3 de
delas brancas; e a terra por cima toda
linho que levava na cabeça e um som-
chã e muito cheia de grandes arvore-
breiro preto. Um deles deu-lhe um som-
dos. De ponta a ponta, é toda praia
breiro de penas de ave, compridas, com
parma5, muito chã6 e muito formosa.
uma copazinha pequena de penas ver-
melhas e pardas como de papagaio; e Pelo sertão nos pareceu, vista do
outro deu-lhe um ramal grande de conti- mar, muito grande, porque, a estender
nhas brancas, miúdas, que querem pa- olhos, não podíamos ver senão terra
recer de aljaveira4, as quais peças creio com arvoredos, que nos parecia muito
que o Capitão manda a Vossa Alteza, e longa.
com isto se volveu às naus por ser tar-
de e não poder haver deles mais fala, Nela, até agora, não pudemos saber
por causa do mar. que haja ouro, nem prata, nem coisa algu-
ma de metal ou ferro; nem lho vimos. Po-
(...) rém a terra em si é de muito bons ares,
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assim frios e temperados, como os de Vocabulário:


Entre Douro e Minho, porque neste tempo 1
Batéis e esquifes: pequenas embar-
de agora os achávamos como os de lá.
cações que serviam às naus, espé-
Águas são muitas; infindas. E em cies de canoas.
tal maneira é graciosa que, querendo-a 2
Vergonhas: órgãos sexuais do cor-
aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem po humano.
das águas que tem. 3
Barrete e carapuça: coberturas para
Porém o melhor fruto, que nela se a cabeça utilizadas pelos marinhei-
pode fazer, me parece que será salvar esta ros; gorros.
gente. E esta deve ser a principal semente 4
Ramal e aljaveira: “ramal” é o colar
que Vossa Alteza em ela deve lançar. ou rosário; “aljaveira” é uma concha
marinha utilizada pelos tupinambás
E que aí não houvesse mais que ter
para formar colares.
aqui esta pousada para esta navegação
de Calecute, bastaria. Quando mais dis-
5
Parma: arredondada.
posição para se nela cumprir e fazer o 6
Chã: lisa, plana.
que Vossa Alteza tanto deseja, a saber,
acrescentamento da nossa santa fé. Incumbido por Pedro Álvares Cabral
da tarefa de comunicar a D. Manuel o
E nesta maneira, Senhor, dou aqui a “achamento” da nova terra, o escrivão
Vossa Alteza do que nesta vossa terra da frota Pero Vaz de Caminha escreve
vi. E, se algum pouco me alonguei, Ela me a carta, relatando com fidelidade a rea-
perdoe, que o desejo que tinha, de vos lidade observada.
tudo dizer, mo fez assim pôr pelo miúdo.
A linguagem da carta é simples, di-
E pois que, Senhor, é certo que, as- reta; o texto assemelha-se a um diário de
sim neste cargo que levo, como em outra viagem pela riqueza de detalhes; Des-
qualquer coisa que de vosso serviço for, creve a terra descoberta e sua gente,
Vossa Alteza há de ser de mim muito além das primeiras atitudes dos futuros
bem servida, a Ela peço que, por me fa- colonizadores.
zer singular mercê, mande vir da ilha de Há uma clara intenção exploratória
São Tomé a Jorge de Osório meu genro – das terras brasileiras, sobretudo em re-
o que d’Ela receberei em muita mercê. lação a suas possíveis riquezas natu-
rais, decorrente do pensamento mercan-
Beijo as mãos de Vossa Alteza
tilista português da época. Além disso,
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha de
identifica-se um desejo de cristianização
Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia
do povo indígena, considerado despro-
de maio de 1500.
vido de espiritualidade e fé.
(PEREIRA Paulo Roberto. Os três únicos testemunhos
do descobrimento do Brasil, Rio de Janeiro: Lacerda, Percebe-se o espanto do homem
1999.) branco diante de um “outro” ser que
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lhe causa estranheza. A nudez do índio Enfatiza, as vantagens da colônia,


é enfatizada como demonstração de sua além de descrever minuciosamente a
pureza e ingenuidade. O deslumbramen- natureza e a gente que aqui se encon-
to diante da nova terra transmite-nos a trava.
sensação de uma “visão do paraíso”,
estudada por Sérgio Buarque de Holanda Capítulo CVII
em Visão do Paraíso: Os Motivos Edê-
nicos no Descobrimento e Coloniza- Em que se declara que bicho é o
ção do Brasil1 . Tal visão é influenciada que se chama preguiça.
por uma mentalidade medieval, de valo- Gabriel Soares de Sousa
res essencialmente cristãos.
Nestes matos se cria um animal mui
estranho, a que os índios chamam aí, e os
Pero de Magalhães portugueses, preguiça, nome certo mui
acomodado a este animal, pois não há
Gândavo (? – ?) fome, calma, frio, água, fogo, nem outro
perigo que veja diante, que o faça mover
Pero de Magalhães Gândavo era uma hora mais que outra; o qual é felpudo
professor de Humanidades e amigo de como cão d’água, e do mesmo tamanho; e
Camões. Escreveu o Tratado da Terra tem a cor cinzenta, os braços e pernas
do Brasil provavelmente no ano de 1570, grandes, com pouca carne, e muita lã; tem
sendo publicado postumamente em umas unhas como cão e muito voltadas; a
1826. Já sua História da Província de cabeça como gato, mas coberta de
Santa Cruz a que Vulgarmente Chama- gadelhas que lhe cobrem os olhos; os
mos Brasil foi publicada em Lisboa no dentes como gato. As fêmeas parem uma
ano de 1576. Capistrano de Abreu con- só criança, e trá-la, desde que a pare, ao
sidera seus textos “uma propaganda da pescoço dependurado pelas mãos, até
imigração”, pois enfatizam os bens e o que é criada e pode andar por si; e parem
clima da colônia. em cima das árvores, de cujas folhas se
mantêm, e não se descem nunca ao
chão, nem bebem; e são estes animais
Gabriel Soares tão vagarosos que posto um ao pé de uma
árvore, não chega ao meio dela desde pela
de Sousa (1540 – 1592) manhã até as vésperas, ainda que esteja
morta de fome e sinta ladrar os cães que a
O Tratado Descritivo do Brasil querem tomar; e andando sempre, mas
(1587) de Gabriel Soares de Sousa é muda uma mão só muito devagar, e depois
obra de grande importância para o estu- outra, e faz espaço entre uma e outra, e
do e compreensão deste período. da mesma maneira faz aos pés, e depois à

1
Sérgio Buarque de Holanda, Visão do Paraíso. Os motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil,
Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.
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cabeça; e tem sempre a barriga chegada à Coimbra, vindo a integrar a Companhia de


árvore, sem se pôr nunca sobre os pés e Jesus em 1544. Veio para o Brasil com
mãos e se não faz vento, por nenhum caso Tomé de Sousa, primeiro governador-ge-
se move do lugar onde está encolhida até ral, anos depois. Posteriormente, foi no-
que o vento lhe chegue; os quais dão uns meado primeiro Superior e primeiro Pro-
assobios, quando estão comendo de tar- vincial da Ordem no Brasil. Juntamente
de em tarde, e não remetem nada, nem fa- com Anchieta, fundou em 25 de janeiro de
zem resistência a quem quer pegar deles, 1554 São Paulo de Piratininga. Ambos de-
mais que pegarem-se com as unhas à ár- dicaram-se à catequese de índios e colo-
vore que estão, com que fazem grande nos portugueses. Escreveu as Cartas do
presa; e acontece muitas vezes tomarem Brasil (1886) e um Diálogo sobre a Con-
os índios um destes animais, e levarem-no versão do Gentio.
para casa, onde o têm quinze e vinte dias,
sem comer coisa alguma, até que de pie-
dade o tornam a largar; cuja carne não co- José de Anchieta
mem por terem nojo dela.
(1534 – 1597)
(Tratado descritivo do Brasil, São Paulo: Nacional/
Edusp, 1971, p. 256.)
Padre José de Anchieta nasceu em
1534 em Tenerife, Ilhas Canárias. Estu-
dou desde a infância com os frades
A literatura jesuítica dominicanos, iniciando o estudo do latim
com sete anos de idade. Em 1553, ainda
noviço da Companhia de Jesus, veio
Os jesuítas produziram uma literatu- para o Brasil e fundou um colégio em
ra repleta de informações, tal como as Piratininga, São Paulo, com o objetivo de
crônicas dos viajantes, porém de cará- realizar seu apostolado. Foi, portanto, o
ter pedagógico e moralizante. Merecem primeiro professor desta cidade e, pro-
destaque no século XVI os nomes de vavelmente, o maior humanista clássico
Manuel da Nóbrega, com o Diálogo so- do Brasil. Escreveu crônicas, corres-
bre a Conversão do Gentio, Fernão Car- pondências, sermões e poesias em por-
dim, com seu Tratado da Terra e da Gen- tuguês, castelhano, tupi e latim, nas quais
te do Brasil, e principalmente José de percebe-se sua intensa vida espiritual.
Anchieta, com suas poesias e autos. Estes textos possivelmente eram reci-
tados, cantados, dialogados ou mesmo
encenados. Além de poesia religiosa de
Padre Manuel da cunho místico, realizou uma poesia que
exaltava a nova terra e louvava a ação
Nóbrega (1517 – 1570) colonizadora dos portugueses. Dentre
as poesias, sobressaem-se Em Deus,
Nóbrega nasceu em Portugal em 1517. meu criador, Do Santíssimo Sacramen-
Realizou seus estudos em Salamanca e to e A Santa Inês, de caráter religioso, e
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Feitos de Mem de Sá governador do Do pé sacro monte


Brasil, de cunho laudatório, bendizendo meus olhos levantando
o Novo Mundo e enfatizando a coloniza- ao alto cume,
ção portuguesa. Escreveu oito autos,
vi estar aberta a fonte
dos quais podemos destacar Na Festa
do verdadeiro lume,
de São Lourenço, representado em
1583, em Niterói, pela primeira vez. Es- que as trevas de meu peito
tas peças sofreram grande influência todas consume.
de Gil Vicente, precursor do teatro em
Correm doces licores
Portugal. Em 1595, publicou a Arte de
Gramática da Língua Mais Usada na das grandes aberturas
Costa do Brasil, a primeira gramática de do penedo.
língua indígena brasileira. Veio a falecer Levantam-se os errores,
em Reritiba, Espírito Santo, em 1597. levanta-se o degredo
e tira-se a amargura
Em Deus, meu criador
do fruto azedo!
Não há cousa segura. (NAVARRO, Eduardo de Almeida. Anchieta: vida e
Tudo quanto se vê pensamentos, São Paulo: Martin Claret, 1997.)

se vai passando. A linguagem segue a tradição me-


A vida não tem dura. dieval espanhola e portuguesa, carac-
O bem se vai gastando. terizada pela “medida velha” (versos de
sete sílabas poéticas).
Toda criatura
passa voando. Nada, exceto Deus, pode trazer se-
gurança ao homem, pois todas as coisas
Em Deus, meu criador, terrenas são passageiras e a vida do ser
está todo meu bem humano caracteriza-se pela brevidade.
e esperança, Apenas o amor divino constitui-se como
esperança deste, além de fonte de ale-
meu gosto e meu amor
gria e bem-aventurança, pois é infinito.
e bem-aventurança.
A fé mostra-se como único meio de
Quem serve a tal Senhor
superar as adversidades da vida, pois
não faz mudança.
desvia a atenção do homem dos bens
Contente assim, minha alma, terrenos, transitórios e muitas vezes gera-
dores de sofrimento, para algo mais subli-
do doce amor de Deus
me e permanente: a comunhão com Deus.
toda ferida,
O poeta volta-se para o alto, numa
o mundo deixa em calma,
tentativa de ficar mais próximo da divin-
buscando a outra vida, dade, fonte dissipadora das trevas, do
na qual deseja ser pecado, dos males que atormentam os
toda absorvida. homens.
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A presença divina consegue fazer Este dá vida imortal,


frutificar aquilo que já não parecia dar este mata toda fome,
fruto, muda a concepção das coisas, porque nele Deus e homem
transforma nossa maneira de ver o mun-
se contêm.
do e enche-nos de esperança e alegria.
Tirada a “amargura do fruto azedo”, o É fonte de todo bem,
homem encontra sua felicidade plena,
da qual quem bem se embebeda
pois fica completamente saciado.
não tenha medo da queda
Do Santíssimo Sacramento do pecado.

Ó que pão, ó que comida, Ó que divino bocado,


ó que divino manjar que tem todos os sabores!
se nos dá no santo altar Vinde, pobres pecadores,
cada dia! a comer!

Filho da Virgem Maria, Não tendes de que temer,


que Deus-Padre cá mandou senão de vossos pecados.
e por nós na cruz passou Se forem bem confessados,
crua morte, isso basta,

e para que nos conforte qu’este manjar tudo gasta,


se deixou no sacramento porque é fogo gastador,
para dar-nos, com aumento, que com seu divino ardor
sua graça, tudo abrasa.
(...)
esta divina fogaça (NAVARRO, Eduardo de Almeida. Anchieta: vida e
pensamentos, São Paulo: Martin Claret, 1997.)
é manjar de lutadores,
galardão de vencedores
esforçados, Influências
deleite de namorados, posteriores da
literatura
que, co’o gosto deste pão,
deixam a deleitação
transitória. informativa
Quem quiser haver vitória
A literatura informativa emprestou
do falso contentamento
muitos de seus temas e formas para
goste deste sacramento períodos literários posteriores, como o
divinal. Romantismo e o Modernismo.
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A Carta de Pero Vaz de Caminha, maneira. Através deste jogo intertextual,


apesar de caracterizar-se mais como um Oswald dialogou com o passado, com-
relato, uma crônica de viagem, possui pondo um texto de nova significação.
muitas qualidades literárias, as quais in- Um bom exemplo é o poema a seguir,
fluenciaram poetas modernistas como da obra Pau-Brasil, já observado por
Oswald de Andrade, na composição de Affonso Romano de Sant’Anna em seu
Pau-Brasil e Mário de Andrade, ao reali- estudo:
zar sua glosa, em Macunaíma, na “Carta
pras Icamiabas”. A descoberta
Oswald de Andrade realizou o que Seguimos nosso caminho por este
Affonso Romano de Sant’Anna chama de [mar de longo
“apropriação parodística” , pois subver- Até a oitava de Páscoa
teu o sentido original do texto ao recortar Topamos aves
as frases da carta e dispô-las de outra E houvemos vista de terra

Resumo do Quinhentismo
Momento sócio-cultural • Destacamos a literatura informativa –
descrição das terras brasileiras, em
• É o momento das grandes navega- tom de deslumbramento, e a literatura
ções e descobertas: em busca de jesuítica –– obras que exaltam a fé cris-
riquezas, as nações européias en- tã, visando à conversão dos índios.
viam expedições marítimas, que as
põem em contato com outras cultu- Autores e obras
ras. Portugal é uma das principais • Pero Vaz de Caminha: Autor da
potências marítimas e possui colôni- Carta, documento de inestimável
as ou relações comerciais na Amé- importância por ser a primeira des-
rica, Ásia e África. crição do Brasil.
• Dois objetivos distintos (e até con- • Padre Manuel da Nóbrega: Impor-
traditórios) guiam as navegações tante figura do início da colonização
portuguesas: a expansão do cristia- e da catequese dos índios, escreveu
nismo e o desejo de conquistas e de Cartas do Brasil (1886) e Diálogo
enriquecimento. sobre a Conversão do Gentio (1557).
Características literárias • José de Anchieta: principal
humanista clássico do Brasil. Escre-
• A literatura produzida no Brasil do veu poemas religiosos que exalta-
século XVI não possui traços pró- vam a colonização e a primeira gra-
prios. Apenas descreve as carac- mática do tupi. Obras: Na Festa de
terísticas do território recém-desco- São Lourenço (1583). Arte de Gramá-
berto. É uma literatura sobre o Brasil tica da Língua mais Usada na Costa
e não uma literatura do Brasil. do Brasil (1595).

Afonso Romano de Sant’anna, Paródia, Paráfrase E Cia, São Paulo: Ática, 1991, p. 51.
2
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Barroco
O Barroco inicia-se com a publica- so e o profano, a metafísica e a racio-
ção do poema épico Prosopopéia, de nalidade, de modo a conciliar as pers-
Bento Teixeira, em 1601, e tem seu térmi- pectivas medieval e renascentista.
no em 1768, ano em que Cláudio Manuel
Este movimento caracteriza-se por
da Costa publica suas Obras Poéticas,
um profundo dinamismo, audácia, imagina-
marcando o princípio do Arcadismo.
ção e exagero. Apesar da existência de
Inicialmente, o termo Barroco expres- um espírito pagão, que valoriza o humano,
sava um fenômeno específico da pintura, instável e finito, ainda há um forte sentimen-
da escultura e da arquitetura, referente to religioso. Dois processos expressivos
aos séculos XVII e XVIII, comumente con- marcam este período: o cultismo e o
siderado monstruoso e de mau gosto. Pos- conceptismo. Um diz respeito ao som e à
teriormente, passou a ser valorizado e re- forma, criando imagens e sensações que
conhecido nas diversas manifestações superam as sugestões da realidade; já o
artísticas. outro centra-se no significado da palavra,
privilegiando o pensamento, a razão.
A Espanha foi o primeiro país a culti-
var a estética barroca, tendo Portugal re- Os escritores trabalham desde as-
cebido forte influência desta, já que se en- suntos triviais até grandes temas, mui-
contrava dominado pela mesma na época. tas vezes utilizando-se de vocábulos
raros, derivados do latim. Preocupam-se
Caracterizado por uma mentalidade
com a beleza, fazendo uso de recursos
pós-renascentista, se por um lado o ho-
da tradição clássica e renascentista,
mem barroco convive com valores medie-
beirando o exagero. Preferem sugerir
vais e cristãos, por outro participa das no-
luzes, cores e sons, transmitindo as con-
vidades pagãs e terrenas advindas do
tradições do ser humano, a nomear dire-
ressurgimento do espírito greco-latino.
tamente as coisas e os seres.
Dessa forma, ele vive em conflito, oscilan-
do entre a razão e a fé, o misticismo e o Cultivam tanto a prosa como a poe-
erotismo, entre o prazer da vida e os mis- sia, principalmente por meio da oratória
térios da morte, entre o material e o espiri- religiosa, merecendo destaque o Padre
tual. Tal estado de conflito interior do ho- Antônio Vieira. Além desta, realizam a
mem barroco pode ser percebido pelo oratória acadêmica, com objetivos his-
uso de artifícios e figuras de linguagem, tóricos ou laudatórios.
que demonstram a tensão entre o homem
A comédia e o drama sobressaem-
e o mundo.
se, tendo Lope de Vega como mestre,
O espírito da Contra-Reforma influen- tanto em Portugal como no Brasil. Entre
ciou o pensamento barroco, que buscou nós, seu grande seguidor é Manuel Bote-
reaproximar o homem e Deus, o religio- lho de Oliveira.
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O principal tema trabalhado trata de cultivo e produção das terras e no modo


uma questão fundamental para o ser hu- de vida. Já o segundo é composto pela
mano: a vida e a morte. Decorre daí a outra metade do século e o terceiro agru-
sensação de brevidade e transitorieda- pa as primeiras décadas do século XVIII,
de da vida humana, claramente percep- em que a Bahia constitui-se como princi-
tível em seus aspectos físicos. Diante pal centro político, econômico e religioso.
da fugacidade de sua existência, o ho-
mem barroco tem dois caminhos: ou orien-
ta-se pelo estoicismo, tornando-se indi-
ferente aos bens terrenos, ou pelo epi-
Poesia
curismo, valorizando o momento presen-
te, enfatizando a importância de se apro-
veitar a juventude, guiando-se pelo carpe Bento Teixeira (1561 – 1600)
diem. Tal percepção da vida faz com
que o homem arrependa-se de seus pe- Acredita-se que Bento Teixeira te-
cados e coloque-se diante da misericór- nha nascido em 1561 no Porto. Veio cedo
dia divina. Contudo, percebe-se na mai- para o Brasil e formou-se no Colégio da
oria das vezes mais um medo da transi- Bahia, onde ensinou as primeiras letras.
toriedade do tempo, da morte e do infer- Exerceu também a profissão de advoga-
no do que propriamente uma alegria e do. Depois fugiu para Pernambuco, por
prazer de viver. ter sido responsável pelo assassinato
de sua esposa, e refugiou-se no Con-
A mulher foi outro tema cultivado
vento dos Beneditinos, em Olinda. Foi
pelos escritores barrocos. Ela é requisi-
processado e preso pela Inquisição por
tada a aproveitar a vida e usufruir os
sua ligação com o judaísmo, mas reali-
prazeres de sua mocidade e muitas ve-
zou declaração como cristão-novo em
zes comparada à rosa, devido a sua
1594 em Olinda. Em 1595 foi preso e en-
beleza passageira.
viado a Lisboa para julgamento, ocasião
Vale ressaltar que a literatura bar- em que renunciou solenemente ao juda-
roca não permanece a mesma de 1601 a ísmo. Quatro anos depois foi condenado
1768, mas altera-se de acordo com o a prisão perpétua, conseguindo licença
desenvolvimento sócio-econômico bra- para ficar solto. Faleceu no ano de 1600.
sileiro. Segundo Massaud Moisés3 , a
Prosopopéia
época barroca pode ser dividida em três
momentos, do primeiro fazem parte os Prosopopéia é um poema em oita-
cinqüenta anos iniciais do século XVII, vas heróicas, construído de modo muito
momento em que Portugal foi incorpora- semelhante a Os Lusíadas, com o obje-
do pela Espanha e os holandeses ocu- tivo de louvar o donatário da capitania
param o nordeste. Nesta fase Pernam- de Pernambuco, Jorge de Albuquerque
buco era a capital que mais progredia no Coelho.

3
Massaud Moisés, História da literatura brasileira, p.72.
— 171 —

Bento Teixeira buscava elevar os Pernambuco de todos é chamado.


feitos dos heróis portugueses nas ter- De Para’ná, que é Mar; Puçá, rotura,
ras brasileiras e africanas.
Feita com fúria desse Mar salgado,
O texto, contudo, não se caracte- Que sem no derivar cometer
riza como criação de grande significa- [míngua,
ção para a literatura, merecendo ser
Cova do Mar se chama em nossa
lembrado mais por sua importância his-
[língua.
tórica.
No fragmento transcrito a seguir, o XX
autor realiza a descrição do Recife e Pera entrada da barra, à parte
Pernambuco: [esquerda,
XVII Está ua lajem grande, e espaçosa,
Pera a parte do Sul, onde a pequena Que de Piratas fora total perda,
Ursa se vê de guardas rodeada, Se ua torre tivera suntuosa.
Onde o Céu luminoso, mais serena Mas quem por seus serviços bons
Tem sua influição, e temperada. [não herda,
Junto da nova Lusitânia ordena, Desgosta de fazer cousa lustrosa,
A natureza, mãe bem atentada, Que a condição do Rei que não é
[franco,
Um porto tão quieto, e tão seguro,
O vassalo faz ser nas obras
Que pera as curvas naus serve de
[manco.
[muro.
XXI
XVIII
Sendo os Deuses à lajem já
É este porto tal, por estar posta [chegados,
Ua cinta de pedra, inculta e viva,
Estando o vento em calma, o Mar
Ao longo da soberba e larga costa, [quieto,
Onde quebra Netuno a fúria esquiva. Depois de estarem todos
Entre a praia e pedra descomposta, [sossegados,
O estanhado elemento se deriva Por mandado do Rei, e por decreto,
Com tanta mansidão, que ua fateixa Proteu no Céu, cos olhos
Basta ter à fatal Argos aneixa. [enlevados,
Como que investigava alto secreto.
XIX
Com voz entoada, e bom meneio,
Em o meio desta obra alpestre, e dura,
Ao profundo silêncio larga o freio.
Ua boca rompeu o Mar inchado,
(TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia, Rio de Janeiro:
Que na língua dos bárbaros escura, I. N. L., 1972)
— 172 —

Em cuja fé protesto de viver;


Gregório de Matos
Em cuja santa lei hei de morrer,
(1636 –1696) Amoroso, constante, firme e inteiro:

Em 1636 nasce na Bahia o poeta Neste transe, por ser o derradeiro,


Gregório de Matos Guerra, cuja poesia
Pois vejo a minha vida anoitecer,
destaca-se pela relevância histórica e
literária. É, meu Jesus, a hora de se ver
Estudou no Colégio da Companhia A brandura de um pai, manso
de Jesus até 1650. Depois foi para Coim- [cordeiro.
bra e graduou-se em Direito em 1661.
Casou-se e iniciou sua atuação na ma- Mui grande é vosso amor, e o meu
gistratura. Satirizou políticos e outras fi- [delito:
guras da sociedade, o que provocou sua Porém, pode ter fim todo o pecar;
expulsão de Lisboa. Por volta dos cin-
qüenta anos, encontrando-se viúvo, re- Mas não o vosso amor, que é
tornou à Bahia. Passou a ter uma vida [infinito.
boêmia e a advogar pequenas causas. Esta razão me obriga a confiar
Casou-se novamente, teve filhos e rece- Que por mais que pequei, neste
beu proteção de bispos e governadores. [conflito,
Na Bahia, foi novamente persegui-
Espero em vosso amor de me
do por causa de suas sátiras, sendo
[salvar.
desterrado para Angola, de onde retor-
nou em 1695. Partiu então para o Reci- (MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira
fe, onde faleceu um ano depois. através dos textos, p. 40)

Escreveu poesias sacras, líricas e


Este soneto expressa a atitude do
satíricas. Entretanto, não se pode afir-
poeta ao perceber que a morte se apro-
mar com certeza se as poesias atribuí-
das a Gregório de Matos são realmente xima. Ele se dirige ao Cristo crucifica-
de sua autoria, já que eram conserva- do, buscando o perdão de seus peca-
das em cópias manuscritas e compila- dos e almejando a salvação na outra
das em coleções, de acordo com um cri- vida.
tério hoje desconhecido. Pode-se relacionar o conteúdo do
Por causa de suas sátiras ferinas texto ao histórico de Gregório de Ma-
ficou conhecido como “Boca do Inferno”. tos. Sabendo que não teve uma condu-
Poesia Sacra ta aprovada pela Igreja, devido a sua
vida desregrada e boêmia e suas sáti-
A Jesus Cristo crucificado,
ras muitas vezes carregadas de lin-
estando o poeta para morrer
guagem de baixo calão, o poeta realiza
Meu Deus, que estais pendente em neste poema uma espécie de oração
[um madeiro, em que se coloca na presença divina.
— 173 —

A linguagem do texto é persuasiva A temática da brevidade da vida é


e tenta convencer Cristo de que deve retomada neste soneto de Gregório de
perdoá-lo e conduzi-lo à Vida Eterna, já Matos.
que Ele é bondoso e possui misericórdia
infinita. Dessa forma, por mais que o Há uma sucessão de antíteses,
poeta tenha pecado, deseja provar que figura muito comum na estética barro-
merece salvar-se. ca, em que se contrapõem palavras ou
frases a outras de sentidos opostos.
O poema mostra nitidamente a preo-
cupação do homem barroco com a vida Eis alguns exemplos: dia e noite, luz e
espiritual, após perceber a efemeridade escuridão, alegria e tristeza, firmeza e
e as ilusões da vida material. inconstância.

A instabilidade das coisas mate-


Poesia Lírica
riais é perceptível na própria natureza:
À instabilidade das cousas do do nascer ao pôr do sol pouco tempo
mundo se passa e assim os dias se sucedem
rapidamente.
Nasce o Sol, e não dura mais que
[um dia, A formosura, ou seja, a beleza da
Depois da luz se segue a noite vida e o frescor da juventude logo se
[escura, esvaem e dão lugar às impiedosas mar-
cas do tempo.
Em tristes sombras morre
[a formosura, O poeta enfatiza: “na formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. não se dê constância / e na alegria, sin-
ta-se tristeza”. Parece, com isso, alertar-
Porém, se acaba o Sol, por que nascia? nos de que não devemos dar excessivo
Se formosa a luz é, por que não dura? valor aos bens materiais e aos praze-
Como a beleza assim se transfigura? res do mundo, pois tudo isso é passa-
Como o gosto, da pena assim se fia? geiro.

Mas no Sol, e na luz, falta a firmeza; Poesia Satírica


Na formosura, não se dê constância:
E na alegria, sinta-se tristeza. Descreve que era naquele tempo a
cidade da Bahia
Comece o mundo enfim pela
[ignorância, A cada canto um grande
[conselheiro,
Pois tem qualquer dos bens
[por natureza, Que nos quer governar cabana e
[vinha;
A firmeza somente na inconstância.
Não sabem governar sua cozinha,
(Moisés, Massaud. A literatura brasileira
através dos textos, p. 44-45) E podem governar o mundo inteiro.
— 174 —

Em cada porta um bem freqüente A crítica a uma sociedade cheia de


[olheiro vícios ao lado de uma visão conserva-
Que a vida do vizinho e da vizinha, dora e preconceituosa em relação aos
negros e às camadas menos favore-
Pesquisa, escuta, espreita e
cidas aparecem em outros poemas satí-
[esquadrinha,
ricos de Gregório de Matos.
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados, Botelho de Oliveira


Trazendo pelos pés aos homens (1636 – ?)
[nobres,
Posta nas palmas toda a picardia. Manuel Botelho de Oliveira nasceu
na Bahia em 1636. Formou-se em direito
Estupendas usuras nos mercados, pela Universidade de Coimbra.
Todos os que não furtam, muito Publicou em 1705 Música do Par-
[pobres: naso, reunindo poemas em português,
Eis aqui a cidade da Bahia. castelhano, italiano e latim e duas comé-
(MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira
dias em espanhol (Hay amigo para ami-
através dos textos, p. 46-47) go e Amor, Engaños y Elos).

O poeta realiza a descrição da Bahia


do século XVII, em que conselheiros que
mal sabem governar sua cozinha dese-
Prosa
jam a vida de todos controlar. De modo
semelhante a estes agem os olheiros,
pois tudo sabem da vida alheia, ficando Padre Antônio Vieira
muito atentos ao que se passa para logo
discutirem na Praça da Sé e no Terreiro (1608 – 1697)
de Jesus.
Padre Antônio Vieira nasceu em
Neste poema aparece uma visão Lisboa em 1608. Veio cedo com os pais
preconceituosa em relação aos mula- para a Bahia, passando a estudar no
tos, considerados inferiores à nobreza Colégio dos Jesuítas. Em 1623 entrou
detentora de poder. Tal preconceito pode para o noviciado da Companhia de Je-
estar relacionado ao fato de o escritor sus. Logo demonstrou uma aptidão para
pertencer a uma família de nobres de- a oratória, o que fez com que seus su-
cadentes. periores lhes dessem a tarefa de ensi-
nar Retórica aos noviços de Olinda.
Finalmente faz-se uma crítica à rea- Foi ordenado em 1634 e iniciou
lidade da exploração, desonestidade e suas pregações. Em decorrência do mo-
hipocrisia, em que só enriquecem os vimento português da restauração da
aproveitadores e ladrões. independência, vai para Portugal. De-
— 175 —

monstra fidelidade a D. João IV, o novo Sermão da sexagésima


monarca, que lhe prestigia e respeita
muito. Chega a ser nomeado para vári- Há de tomar o pregador uma só
as embaixadas diplomáticas no estran- matéria, há de defini-la para que se co-
geiro. nheça, há de dividi-la para que se dis-
tinga, há de prová-la com a Escritura,
No ano de 1652 passa a dedicar- há de declará-la com a razão, há de
se à catequese e à conversão dos ín- confirmá-la com o exemplo, há de am-
dios no Maranhão. Passados nove anos plificá-la com as causas, com efeitos,
volta à Lisboa, sendo severamente cri-
com as circunstâncias, com as conve-
ticado por suas idéias sebastianistas.
niências que se hão de seguir, com os
Depois vai para Roma, vindo a tornar-
inconvenientes que se devem evitar;
se orador oficial do salão literário da
há de responder às dúvidas, há de sa-
Rainha Cristina da Suécia. Defende os
tisfazer as dificuldades, há de impug-
cristãos novos diante da Inquisição,
nar e refutar com toda a força de elo-
tendo o direito de pregar cassado pela
mesma. qüência os argumentos contrários, e
depois disto há de colher, há de aper-
Em 1681 volta ao Brasil e redige tar, há de concluir, há de persuadir, há
suas obras: Sermões, História do Fu- de acabar. Isto é sermão, isto é pregar,
turo, Esperanças de Portugal, Clavis e o que não é isto, é falar de mais alto.
Prophetarum, além das cartas. Entre Não nego nem quero dizer que o ser-
seus sermões destacam-se o Sermão mão não haja de ter variedade de dis-
da Sexagésima, realizado em 1655 na cursos, mas esses hão de nascer to-
Capela Real de Lisboa, e o Sermão da
dos da mesma matéria e continuar e
Primeira Dominga da Quaresma, pro-
acabar nela. Quereis ver tudo isto com
ferido em 1653 no Maranhão. Neste últi-
os olhos? Ora vede: uma árvore tem
mo, tenta convencer os colonos de que
raízes, tem troncos, tem ramos, tem fo-
devem libertar os índios, os quais são
lhas, tem varas, tem flores, tem frutos.
comparados aos hebreus quando es-
Assim há de ser o sermão: há de ter
cravos do Faraó.
raízes fortes e sólidas, porque há de
Alfredo Bosi4 ressalta em seus es- ser fundado no Evangelho; há de ter
tudos que Vieira esteve também atento um tronco, porque há de ter um só as-
ao sofrimento dos negros, ao contrário sunto e tratar uma só matéria. Deste
do que muitos autores divulgam. Tal pre- tronco há de nascer diversos ramos,
ocupação de Vieira fica perceptível no que são diversos discursos, mas nas-
Sermão XIV do Rosário, dirigido à Ir- cidos da mesma matéria, e continua-
mandade dos Pretos de um engenho dos nela. Estes ramos não hão de ser
baiano e realizado em 1633.
secos, senão cobertos de folhas, por-
Morre em 1697 em Salvador. que os discursos hão de ser vestidos

4
Alfredo Bosi, História concisa da literatura brasileira, p.45.
— 176 —

e ornados de palavras. Há de ter esta regras da parenética (prática da ora-


árvore varas, que são a repreensão tória sagrada).
dos vícios; há de ter flores, que são as
sentenças; e por remate de tudo isto Primeiramente deve realizar-se o
há de ter frutos, que é o fruto e o fim a exórdio ou intróito do sermão, esco-
que se há de ordenar o sermão. De lhendo um tema, definindo-o e a partir des-
maneira que há de haver frutos, há de te expondo a tese que se pretende defen-
haver flores, há de haver varas, há de der; em seguida, passa-se ao desen-
haver folhas, há de haver ramos, mas volvimento ou argumentação, que de-
tudo nascido e fundado em um só tron- ve ser embasada nas Sagradas Escritu-
ras e desenvolvida a partir de um raciocí-
co, que é uma só matéria. Se tudo são
nio lógico, expondo-se causas, conseqü-
troncos, não é um sermão, é madeira.
ências, além de argumentos convincen-
Se tudo são ramos, não é sermão, são
tes; finalmente, ao término do sermão, ten-
maravalhas. Se tudo são folhas, não é
ta-se persuadir os ouvintes, o que cons-
sermão, são verças. Se tudo são va-
titui a peroração ou epílogo.
ras, não é um sermão, é feixe. Se tudo
são flores, não é um sermão, é rama- Em seguida, Vieira compara a estru-
lhete. Serem tudo frutos, não pode ser; tura do sermão à de uma árvore, elen-
porque não há frutos sem árvore. As- cando as partes que a constituem.
sim que nesta árvore, a que podemos
chamar árvore da vida, há de haver o Carta
proveitoso do fruto, o formoso das flo-
Ao rei D. Afonso VI
res, o rigoroso das varas, o vestido
das folhas, o estendido dos ramos, mas 1657-abril 20
tudo isto nascido e formado de um só Senhor, os reis são vassalos de
tronco, e esse não levantado no ar, se- Deus, e se os reis não castigam os seus
não fundado nas raízes do Evangelho: vassalos, castiga Deus os seus. A cau-
Seminare semen. Eis aqui como hão sa principal de se não perpetuarem as
de ser os sermões, eis aqui como não coroas nas mesmas nações e famílias é
são. E assim não é muito que se não a injustiça, ou são as injustiças, como
faça fruto com eles. diz a Escritura Sagrada; e entre todas
Sermões: problemas sociais e políticos do Brasil, p. 37-8. as injustiças nenhumas clamam tanto ao
céu como as que tiram a liberdade aos
No Sermão da Sexagésima, Padre
que nasceram livres, e as que não pa-
Vieira expõe a arte da pregação, ou seja,
gam o suor aos que trabalham; e estes
do discurso convincente, que conse-
são e foram sempre os dois pecados
gue persuadir o ouvinte.
deste Estado, que ainda têm tantos de-
No trecho anteriormente transcrito fensores. A perda do Senhor rei D. Se-
ele reforça alguns elementos a serem bastião em África, e o cativeiro de ses-
seguidos, que julga importantes na cons- senta anos que se seguiu a todo o rei-
trução de um bom sermão, seguindo as no, notaram os autores daquele tempo
— 177 —

que foi castigo dos cativeiros, que na neste mesmo ano tirou Deus a Sua Ma-
costa da mesma África começaram a jestade o primogênito dos filhos e a
fazer os nossos primeiros conquista- primogênita das filhas. Senhor, se alguém
dores, com tão pouca justiça como a pedir ou aconselhar a Vossa Majestade
que se lê nas mesmas histórias. maiores larguezas que as que hoje há
nesta matéria, tenha-o Vossa Majestade
As injustiças e tiranias, que se têm por inimigo da vida, e da conservação
executado nos naturais destas terras, da coroa de Vossa Majestade.
excedem muito às que se fizeram na
África. Em espaço de quarenta anos se Dirão porventura (como dizem) que
mataram e se destruíram por esta costa destes cativeiros, na forma em que se
e sertões mais de dois milhões de índi- faziam, depende a conservação e au-
os, e mais de quinhentas povoações mento do Estado do Maranhão; isto, Se-
como grandes cidades, e disto nunca se nhor, é heresia. Se, por não fazer um
viu castigo. Proximamente, no ano de pecado venial, se houver de perder Por-
1655, se cativaram no rio das Amazo- tugal, perca-o Vossa Majestade e dê por
nas dois mil índios, entre os quais mui- bem empregada tão cristã e tão gloriosa
tos eram amigos e aliados dos portugue- perda; mas digo que é heresia, ainda
ses, e vassalos de Vossa Majestade, politicamente falando, porque sobre os
tudo contra a disposição da lei que veio fundamentos da injustiça nenhuma cousa
naquele ano a este Estado, e tudo man- é segura nem permanente; e a experiên-
dado obrar pelos mesmos que tinham cia o tem mostrado neste mesmo Estado
maior obrigação de fazer observar a do Maranhão, e que muitos governado-
mesma lei; e também não houve casti- res adquiriram grandes riquezas e ne-
go: e não só se requer diante de Vossa nhum deles as logrou nem elas se logra-
Majestade a impunidade destes delitos, ram; nem há cousa adquirida nesta terra
senão licença para os continuar! que permaneça, como os mesmos mora-
dores dela confessam, nem ainda que
Com grande dor, e com grande re-
vá por diante, nem negócio que aprovei-
ceio de a renovar no ânimo de Vossa
te, nem navio que aqui se faça que tenha
Majestade, digo o que agora direi: mas
bom fim; porque tudo vai misturado com
quer Deus que eu o diga. A El-Rei Fa-
sangue dos pobres, que está sempre cla-
raó, porque consentiu no seu reino o
mando ao céu.
injusto cativeiro do povo hebreu, deu-lhe
Deus grandes castigos, e um deles foi
tirar-lhes os primogênitos. No ano de
1654, por informação dos procuradores As Academias
deste Estado, se passou uma lei com
tantas larguezas na matéria do cativeiro
dos índios, que depois, sendo Sua Ma- O Brasil, assim como Portugal, teve
jestade melhor informado, houve por bem a vida intelectual no século XVIII associa-
mandá-la revogar; e advertiu-se que da a sociedades literárias.
— 178 —

Nas academias discutiam-se as- dos Felizes, que durou de 1736 a 1740,
suntos diversos e recitavam-se com- localizada no Rio de Janeiro; a Acade-
posições. Dentre as academias que mia dos Seletos, também ambientada
se formaram podemos destacar a Aca- no Rio, porém no ano de 1752, e a
demia Brasílica dos Esquecidos, fun- Academia dos Renascidos, fundada
dada em 1724 na Bahia; a Academia em 1759 na Bahia.

Resumo do Barroco

Momento sócio-cultural figuras de linguagem, inversões sin-


táticas e exageros, tornando-se, por
• A Contra-reforma, movimento da Igre- vezes, obscura.
ja católica contra o protestantismo, • Duas tendências dominam o barroco:
tem grande influência sobre o pen- o cultismo ( culto à forma perfeita e
samento barroco, sendo uma das ao jogo de palavras) e o conceptismo
causas da dualidade da época. ( jogo de idéias e argumentos).
• O barroco procurou conciliar o ho-
mem e o divino, o sagrado e o profa-
Autores e obras
no, o medieval e o renascentista. Daí
a profunda angústia do pensamento
da época. • Bento Teixeira: autor da obra inau-
gural do barroco brasileiro, Proso-
• O Domínio espanhol sobre Portugal popéia (1601), poema épico com for-
(1580-1640) impulsionou a influên- te influência de Camões.
cia do barroco sobre Portugal e Bra-
sil, pois a Espanha foi o primeiro país • Gregório de Matos: principal nome
cultor da estética barroca. do barroco brasileiro e até hoje obje-
to de polêmicas. Deixou obra lírica,
Características literárias satírica e religiosa, reunida em livro
somente após sua morte.
• A característica maior do Barroco é • Padre Antônio Vieira: maior ora-
a contradição. Expressa a dualidade dor e escritor sacro da língua portu-
de um homem que oscila entre fé e guesa, deixou magnífica obra, em
prazer, celestial e terreno. que se destacam os Sermões (1679-
• A literatura barroca é rebuscada, ba- 1718, 15 volumes), História do Fu-
seada em uso abusivo de antíteses, turo (1718) etc.
— 179 —

Arcadismo
Ao remontarmos à segunda me- região mitológica da Grécia em que se
tade do século XVIII, encontramos a concretizou o ideal da vida rústica e
Europa em um importante momento de em harmonia com a natureza. Os es-
mudanças culturais. No ano de 1751 critores idealizavam a vida campestre,
foi publicada na França a Enciclopé- autodenominavam-se “pastores” e di-
dia, tendo como principais responsá- rigiam-se às mulheres como pastoras.
veis D’Alambert, Diderot e Voltaire, que
A importância atribuída à nature-
visavam compilar todo o conhecimen-
za em grande parte deve-se à figura
to científico da humanidade adquirido
de Rousseau, que propôs o retorno à
ao longo dos anos.
natureza, origem de todo bem. Traba-
A razão foi muito valorizada pe- lhou com a figura do “bom selvagem”,
los enciclopedistas, que enxergavam homem ainda não corrompido pela so-
nela uma possibilidade de progresso ciedade. Como bem enfatizou Antônio
social e cultural. No ano de 1789 ocor- Cândido 5 em Formação da Literatura
reu a Revolução Francesa e, como Brasileira, no século XVIII o herói lite-
conseqüência, assiste-se à queda da rário por excelência é o homem natu-
monarquia. ral, demonstrando toda a nobreza e ter-
nura do ser humano, como enxergava
Tais transformações compõem o
Rousseau.
que chamamos de Iluminismo, movi-
mento renovador que enfatiza a razão Os árcades criticam os exageros
como único guia infalível da sabedo- verbais do Barroco, propondo uma li-
ria e caracteriza o universo como uma
teratura mais simples e natural, em
máquina governada por leis inflexíveis
consonância com o pensamento do sé-
que o homem não pode desprezar,
culo XVIII. Enfatizam a importância dos
não havendo milagres ou intervenção
sentimentos, da clareza nas idéias, da
divina para modificar a ordem da na-
retomada da naturalidade dos escrito-
tureza.
res clássicos, sobretudo Teócrito e Vir-
O Arcadismo em Portugal teve iní- gílio. Tanto o campo intelectual como o
cio em 1756, com a fundação da Arcá- afetivo devem ser constituídos tendo
dia Lusitana. Esta procurava estrutu- como base a simplicidade. Por retoma-
rar-se da mesma forma que a Arcádia rem o equilíbrio dos clássicos antigos,
Romana, criada em Roma em 1690. A recebem a denominação de neoclás-
denominação Arcádia remonta a uma sicos.

Antônio Cândido, Formação da Literatura Brasileira, v. 1, p. 56


5
— 180 —

A poesia deve ter seu cerne na ver- grupo de letrados, alguns deles ex-es-
dade e ser verossímil, ou seja, transmitir tudantes da Universidade de Coimbra,
algo que parece possível e encontra-se reuniram-se e tiveram importante papel
próximo da realidade. Dessa forma, ela na Inconfidência Mineira.
pode ser considerada bela, pois imita o
A literatura procurava distanciar-se
mundo físico e moral, como propunha a
dos moldes portugueses, apesar de ainda
mimesis aristotélica, que resultou na es-
realizar a imitação dos clássicos. Somado
tética da imitação.
a isso, tentava buscar uma identidade bra-
Apesar de ainda valorizarem a reli- sileira, valorizando o índio como um herói,
gião e a monarquia, voltam-se para as- caso dos poemas épicos O Uraguai, de
suntos mais ligados à vida material, tais Basílio da Gama e Caramuru, de Santa
como a virtude civil e a obediência às leis Rita Durão. Tal literatura possuía uma vi-
da natureza como forma de harmonia so- são crítica da realidade brasileira, como
cial. Dessa forma, envolvem-se mais com podemos perceber no poema satírico Car-
a política e acreditam na instrução e no tas Chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga.
amadurecimento cultural como indicado-
Os poetas árcades passaram a tra-
res da felicidade humana. Influenciados
balhar temas universais, além de reno-
pela Ilustração (outro nome para o Ilumi-
var as técnicas artísticas. Com isso, a
nismo), vêem na razão e na ciência mei-
literatura brasileira foi se consolidando,
os para transformar a sociedade.
à medida que aumentava a consciência
O Arcadismo no Brasil iniciou-se em literária.
1768 com a publicação das Obras Poé-
A divulgação da literatura no país ocor-
ticas, de Cláudio Manuel da Costa e teve
ria nas Academias, sessões literárias pas-
seu término em 1836, com a obra Suspi-
sageiras e não muito densas. Após a
ros poéticos e saudades, de Gonçalves
vinda da Família Real, em 1808, a ativida-
de Magalhães, quando começou o Ro-
de intelectual cresceu e tornou-se mais
mantismo.
amadurecida. Foi difundido o primeiro jor-
O século XVIII no Brasil é tido como o nal – O Correio Brasiliense – e as pri-
século do ouro, pois há forte atividade de meiras revistas foram publicadas, como
extração mineral. Após a descoberta de O Patriota; estabeleceram-se novas es-
ouro e diamante, o eixo político deslocou- colas; houve a fundação da Imprensa
se para o Sul e a capital deixou de ser a Régia e a abertura da Biblioteca Real.
Bahia, passando a ser o Rio de Janeiro.
Portugal tinha como objetivo explorar sua
colônia, por isso aumentava os impostos Cláudio Manuel da Costa
sobre a extração dos minérios. (1729 – 1789)
Os Estados Unidos obtiveram sua
independência, além disso propagavam- Cláudio Manuel da Costa nasceu em
se idéias liberais, trazidas por estudan- 1729, em Minas Gerais. Estudou no Rio de
tes brasileiros. Como conseqüência, um Janeiro e posteriormente cursou Direito
— 181 —

em Coimbra, partindo depois para Lisboa A coletânea de seus sonetos for-


e recebendo influências árcades. Alme- ma um cancioneiro, marcado pela pre-
jou a fundação de uma Arcádia ou Colô- sença de várias figuras femininas, pas-
nia Ultramarina, porém esta não teve êxi- toras em sua maioria inacessíveis.
to. Voltou para o Brasil, participou da In-
confidência Mineira, foi preso e morreu A natureza é a paisagem que propi-
no cárcere em 1789. Acredita-se que te- cia o refúgio dos infortúnios da vida, além
nha se enforcado por ter confessado e de permitir a lembrança das alegrias vi-
revelado a culpabilidade de seus amigos. venciadas no passado.
Utilizou o pseudônimo de Glauceste Sa-
túrnio, tendo por amada a pastora Nise. XXVIII

Antes de 1768 Cláudio Manuel da Faz a imaginação de um bem


Costa já havia publicado alguns traba- [amado,
lhos. No volume intitulado Obras são Que nele se transforme o peito
encontrados sonetos, éclogas, epísto- [amante;
las e outras peças líricas. Escreveu
Daqui vem, que a minha alma
também teatro e o poema épico Vila
[delirante
Rica, publicado em 1839.
Se não distingue já do meu cuidado.
Sua obra é composta de poesia
lírica e épica. A poesia lírica é marcada Nesta doce loucura arrebatado
pela influência de Camões e assumem
relevância o sentimento amoroso e a Anarda cuido ver bem que distante;
descrição da natureza. A vertente épi- Mas ao passo, que a busco, neste
ca é trabalhada no poema Vila Rica, [instante
que narra a fundação e história da ci-
Me vejo no meu mal desenganado.
dade.
Segundo Alfredo Bosi 6, Cláudio Pois se Anarda em mim vive, e eu
Manuel da Costa foi o “primeiro e mais [nela vivo,
acabado poeta neoclássico”, apresen- E por força da idéia me converto
tando ampla formação humanística e
sendo bastante influenciado pelas lite- Na bela causa de meu fogo ativo.
raturas portuguesa e italiana.
Como nas tristes lágrimas, que verto,
Apresentou, no início de sua pro-
dução literária, características do Bar- Ao querer contrastar seu gênio
roco, como o estilo cultista. Uma das [esquivo,
obras, desse período foi o Minúsculo Tão longe dela estou, e estou tão
Métrico. [perto.

6
Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira, p. 61.
— 182 —

LXIV A narrativa é composta pela trajetó-


ria dos bandeirantes pelo sertão, desco-
Que tarde nasce o sol, que
berta das minas, fundação de Ouro Pre-
[vagaroso!
to, além das revoltas. Tais ações épicas
Parece, que se cansa, de que a um caminham paralelamente a ações líricas
[triste que envolvem a busca pela realização
Haja de aparecer: quanto resiste amorosa por parte dos índios, que em
A seu raio este sítio tenebroso! geral não obtêm êxito. Destacam-se as
figuras de Garcia, Albuquerque e a indí-
Não pode ser, que o giro luminoso gena Aurora.
Tanto tempo detenha: se persiste
Canto X
Acaso o meu delírio! se me assiste
Ainda aquele humor tão venenoso! Trajando as galas da maior
[decência
Aquela porta ali se está cerrando; Nos poços do senado o herói entrava.
Dela sai um pastor: outro assobia, Da cor da Tíria púrpura talhava
E o gado para o monte vai A farda militar, cingia-lhe o lado
[chamando.
A rica espada, que já tem provado
Ora não há mais louca fantasia!
Mil vezes o furor do irado Marte;
Mas quem anda, como eu, assim
E a mão, que os prêmios liberal
[penando,
[reparte,
Não sabe quando é noite, ou
E dispõe os castigos, já sustenta
[quando é dia.
O castão que os poderes representa.
(MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira
através dos textos, pp. 90 e 95.)
Estão o plano os esquadrões
Vila Rica [formados,
Monta a cavalaria, e cinge os lados;
Vila Rica é um poema composto
por dez cantos, estruturados em ver- O centro ocupa a infantaria: tudo
sos decassílabos de rima emparelhada. Respira a grandeza um novo estudo.
O autor faz uso da mitologia, além de Brilha o asseio e a ostentação; a idéia
incorporar em seu texto alegorias, so-
nhos, previsões e vaticínios. Crê, que dos Céus na vista se recreia,
Vendo nos recamados fios de ouro
Assim como Os Lusíadas, o poe-
ma divide-se em cinco partes: proposi- Que o sol retrata ali o seu tesouro.
ção, invocação, dedicatória, narrativa e
epílogo. Apesar da influência camoniana, Desta arte entrando vai na régia
o poema tem fortes características ár- [sala,
cades. Senta-se; mede a todos, e assim fala:
— 183 —

Felizes vós, feliz também eu devo Nas paredes as férteis, dilatadas


Chamar-me neste dia; pois que Montanhas do país, e aqui lhe pinta
[escrevo
Por ordem natural, clara e distinta
Com letras de ouro o meu e o nome
A diferente forma do trabalho,
[vosso.
Com que o sábio mineiro entre
Entre as vitórias, e entre as palmas
[o cascalho
[posso
Seguro descansar: enfim caída Busca o loiro metal; e com que passa

Vejo de toda a rebeldia erguida, Logo a purificá-lo sobre a escassa


E vassalos de um rei, que mais vos Tábua ou canal do liso bolinete;
[ama, Com que entre a negra areia
Buscais acreditar a vossa fama [ao depois mete
Com o dote imortal, que a nação preza Todo o extraído pó nos lígneos vasos,
De uma fidelidade portuguesa. (Que uns mais côncavos são,
[outros mais rasos)
De meus antecessores longe o susto,
E aos golpes d’água da matéria
Goze-se a doce paz, e um trato justo [estranha
De amizade, e de fé de hoje em diante O separa e divide; alta façanha
Acabe de apagar o delirante De agudo engenho a máquina
Fanático discurso, que ainda excita [aparece,
De algum vassalo a dor; não se limita, Que desde a sua altura ao centro
[desce
O régio braço: a todos se dilata,
Da profunda cata, e as águas chupa.
A todos favorece, acolhe, e trata,
Sem outra distinção mais, do que Vê-se outro mineiro, que se ocupa
[aquela, Em penetrar por mina o duro monte
Que demanda a virtude ilustre e bela. Ao rumo oblíquo, ou reto; tem de
[fronte
Disse; e solenizando a ação, Da gruta que abre, a terra que
[procura [extraíra;
Se lavre logo a sólida escritura, Os lagrimais das águas, que retira
Onde o foral da vila se estabelece. Ao tanque artificioso logo solta;
Trazida a terra entre a corrente
Em tanto o pátrio gênio lhe oferece [envolta
Por mão de destro artífice pintadas Baixa as grades de ferro; ali parados
— 184 —

Os grossos esmeris são depurados, Que inda nos lembra o mísero tributo,
Deixando ao dono em prêmio da Que pagam nossos pais, que já
[fadiga [tiveram
Os bons tesouros da fortuna amiga. A morada do Éden, e não puderam
Guardar por muito tempo a lei
Entre serras est’outro vai buscando [imposta.
As betas de ouro; aquele vai trepando
(Ó natureza ao Criador oposta!)
Pelo escabroso monte, e as águas
[guia Os pássaros se vêem de espécie
[rara,
Pelos canais, que lhe abre a pedra
[fria. Que o Céu de lindas cores emplumara,
Não menos mostra o gênio As feras e animais mais esquisitos
[a agricultura Todos no alegre mapa estão descritos;
Tão cara do país, onde a dura Os olhos deleitando, e entretendo
Força dos bois não geme ao braço O herói, que facilmente está crendo,
[armado
Ao ver, que destra mão dar-lhes
Derriba os matos, e se ateia logo [procura
Sobre a seca matéria o ardente fogo.
A vida, que lhes falta na pintura.
Da mole produção da cana loira
Mas já lavrado estava, e já firmado
Verdeja algum terreno, outro se doira; O termo, que escrevera o bom
O lavrador a corta, e lhe prepara [Pegado;
As ligeiras moendas; ali pára Quando mais que a eleição
[podendo o acaso,
O espremido licor nos fundos cobres:
Manda o herói que se extraiam
Tu, ardente fornalha, me descobres, [d’entre um vaso
Como em brancos torrões é já tornado Os nomes dos primeiros, a quem toca
A estímulos do fogo o mel coalhado. Reger a vara que a justiça invoca.
A ti te chama a sorte, ó grande Melo,
O arbusto está, que o vício tem
[subido E tu, Fonseca, em nobre paralelo
A inevitável preço, reduzido Cedes nos anos teus à precedência;

A pó sutil o talo e a folha inteira. Da que contemplas provida


[influência;
Não menos brota a oriental figueira
Seguem-se àqueles dois um
Com as crescidas folhas, e co’fruto, [Figueiredo,
— 185 —

Um Gusmão, um Faria, e te concedo de Seixas, jovem de dezesseis anos a


Que sejas tu, Almeida, o que quem dedicou suas liras. Faleceu no ano
[completes de 1810 em Moçambique. Escreveu poe-
sia lírica e satírica.
O número na ação, em que completes.
Durante o arcadismo brasileiro, fo-
Ansioso o povo às portas ram muito utilizadas as liras, composi-
[esperava ções poéticas em que se repetia a cada
estrofe um refrão. Tal procedimento foi
Pela alegre notícia, e já clamava;
utilizado por Tomás Antônio Gonzaga em
Viva o senado! viva! repetia Marília de Dirceu, em que o eu-lírico de-
Itamonte, que ao longe o eco ouvia. monstra toda sua paixão pela pastora
Marília. A obra é constituída de duas par-
Enfim serás cantada, Vila Rica, tes: uma possui confidências amorosas,
descrições da amada, planos e sonhos
Teu nome impresso nas memórias
de felicidade conjugal; a outra contém
[fica.
poemas redigidos na prisão, mostrando
Terás a glória de ter dado o berço o sofrimento físico e moral do poeta.
A quem te faz girar pelo universo. Como exemplo de poesia satírica te-
(CÂNDIDO, Antônio e CASTELLO, José Aderaldo. mos as Cartas Chilenas. Estas circula-
Presença da Literatura Brasileira, p. 97-101.) vam em Vila Rica no período que antece-
deu a Inconfidência Mineira, na forma de
manuscritos anônimos. Há uma forte críti-
Tomás Antônio Gonzaga ca a Luís da Cunha Meneses, governador
(1744 – 1810) de Minas, identificado pelo pseudônimo
satírico de Fanfarrão Minésio. O emis-
Tomás Antônio Gonzaga nasceu em sor das cartas é Critilo (Tomas Antônio
1744 no Porto, em Portugal. Estudou Direi- Gonzaga) e o receptor Doroteu (possi-
to, graduando-se em 1768 na Universida- velmente Cláudio Manuel da Costa).
de de Coimbra. Regressou ao Brasil em As liras de Tomás Antônio Gonza-
1782 e passou a exercer cargos na juris- ga demonstram bem o ideal de aurea
dição de Vila Rica (hoje Ouro Preto). Nes- mediocritas, da vida em equilíbrio, sem
ta mesma época iniciou sua amizade com exageros, em harmonia com a nature-
Cláudio Manuel da Costa e seu romance za. Esta torna-se locus amenus, lugar
com Maria Joaquina Dorotéia de Seixas. ameno para o homem que foge da reali-
Em Vila Rica atuou como juiz, depois foi dade que o oprime.
preso ao lado de outros inconfidentes. Foi
degredado para Moçambique e casou-se Através da paisagem, o homem ex-
com uma viúva. Adotou Dirceu como seu pressa o universo de sensualidade e
pseudônimo e Marília foi o pseudônimo desejo, reprimido pelo decoro das fun-
utilizado para sua amada Maria Joaquina ções civis.
— 186 —

Lira I Graças, Marília bela,


Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Graças à minha Estrela!
Que viva de guardar alheio gado;
Os teus olhos espalham luz divina,
De tosco trato, d’expressões
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
[grosseiro,
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Te cobre as faces, que são cor de
Tenho próprio casal, e nele assisto; [neve.
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
E mais as finas lãs, de que me visto. Ah! Não, não fez o Céu, gentil
Graças, Marília bela, [Pastora,
Graças à minha Estrela! Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Marília bela,
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Graças à minha Estrela!
Dos anos inda não está cortado:
Os Pastores, que habitam este monte, Leve-me a sementeira muito embora
Respeitam o poder do meu cajado: O rio sobre os campos levantado:
Com tal destreza toco a sanfoninha, Acabe, acabe a peste matadora,
Que inveja até me tem o próprio Sem deixar uma rês, o nédio gado.
Alceste: Já destes bens, Marília, não preciso:
Ao som dela concerto a voz celeste; Nem me cega a paixão, que o
Nem canto letra, que não seja minha. [mundo arrasta;
Graças, Marília bela, Para viver feliz, Marília, basta
Graças à minha Estrela! Que os olhos movas, e me dês
[um riso.
Mas tendo tantos dotes da ventura,
Graças, Marília bela,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Graças à minha Estrela!
Depois que o teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser Irás a divertir-te na floresta,
[senhora. Sustentada, Marília, no meu braço;
É bom, minha Marília, é bom ser dono Ali descansarei a quente sesta,
De um rebanho, que cubra monte, Dormindo um leve sono em teu
[e prado; [regaço:
Porém, gentil Pastora, o teu agrado Enquanto a luta jogam os Pastores,
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um E emparelhados correm nas
[trono. [Campinas,
— 187 —

Toucarei teus cabelos de boninas, Apenas, Doroteu, o nosso chefe


Nos troncos gravarei os teus as rédeas manejou do seu governo,
[louvores. fingir nos intentou que tinha uma alma
Graças, Marília bela, amante da virtude. Assim foi Nero.
Graças à minha Estrela!
Governou aos Romanos pelas regras
Depois que nos ferir a mão da da formosa justiça, porém logo
[Morte, trocou o cetro de ouro em mão de
Ou seja neste monte, ou noutra [ferro.
[serra, Manda, pois, aos ministros lhe dêem
Nossos corpos terão, terão a sorte [listas
De consumir os dois a mesma de quantos presos as cadeias
[terra. [guardam:
Na campa, rodeada de ciprestes, faz a muitos soltar e aos mais alenta
Lerão estas palavras os Pastores: de vivas, bem fundadas esperanças.
“Quem quiser ser feliz nos seus Estranha ao subalterno, que se
[amores, [arroga
Siga os exemplos, que nos deram o poder castigar ao delinqüente
[estes.”
com troncos e galés; enfim, ordena
Graças, Marília bela,
que aos presos, que em três dias
Graças à minha Estrela! [não tiverem
(GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu, assentos declarados, se abram logo
Rio de Janeiro: Ediouro, 1997, p. 17-19.)
em nome dele, chefe, os seus
[assentos.
Cartas Chilenas
Aquele, Doroteu, que não é santo,
Poema satírico não concluído, Car-
mas quer fingir-se santo aos outros
tas Chilenas mostra de forma crítica a
[homens,
atuação do governador da Capitania das
Minas, Luís da Cunha Meneses, de 1783 pratica muito mais do que pratica
a 1788. quem segue os sãos caminhos da
[verdade.
Entenda-se aqui o Chile como Mi-
Mal se põe nas igrejas, de joelhos,
nas Gerais e Santiago como Vila Rica.
Os nomes também são disfarçados, abre os braços em cruz, a terra beija,
como Fanfarrão Minésio, que represen- entorta o seu pescoço, fecha
ta o Governador. [os olhos,
— 188 —

faz que chora, suspira, fere o peito


Basílio da Gama
e executa outras muitas macaquices,
estando em parte onde o mundo
(1740 – 1795)
[as veja.
José Basílio da Gama nasceu no
Assim o nosso chefe, que procura
ano de 1740, em Minas Gerais. Estudou
mostrar-se compassivo, não no Colégio dos Jesuítas no Rio de Janei-
[descansa ro e posteriormente no Seminário Epis-
com estas poucas obras: passa a copal de São José. Mudou-se para Por-
[dar-nos tugal, não conseguindo prosseguir seus
estudos; voltou para Lisboa; depois foi
da sua compaixão maiores provas.
para Roma, de onde regressou e foi jul-
Tu sabes, Doroteu, qual seja o crime gado pelo Tribunal da Inquisição. Degre-
dado para Angola, conseguiu a atenua-
dos soldados que furtam aos ção da pena por intermédio do Marquês
[soldados, de Pombal. Faleceu em Lisboa, em 1795.
e sabes muito bem que pena incorram Destaca-se em sua obra o poema
aqueles que viciam ouro e prata. épico O Uraguai (1769), que tematiza a
guerra iniciada pelos portugueses e es-
Agora, Doroteu, atende e como
panhóis contra os índios, incentivados
castiga o nosso chefe em um sujeito pelos jesuítas nos Sete Povos das Mis-
estes graves delitos, que reputa sões, Uruguai.
ainda menos do que leves faltas. Ao observarmos a estrutura do poe-
ma, percebemos que este não possui
Apanha um militar aos camaradas estrofação e é composto de decassílabos
brancos, ou seja, versos de dez sílabas
do soldo uma porção. Astuto e destro,
sem rimas, sendo formado por cinco can-
para não se sentir o grave furto, tos. Além disso, é composto de cinco
mistura nos embrulhos, que lhes deixa, partes: proposição, invocação, dedica-
tória, narrativa e epílogo. Não utiliza a lin-
igual quantia de metal diverso.
guagem mitológica, mas o maravilhoso,
Faz-se queixa ao bom chefe deste desviando-se dos moldes camonianos.
[insulto, O autor realiza uma crítica aos je-
sim, faz-se ao chefe queixa, mas suítas, representados pelo padre Bal-
[debalde, da, que é mostrado como um vilão, inimi-
que este Hércules não cinge go de Pombal e falso amigo dos índios.
[a grossa pele Além disso, descreve a natureza ameri-
cana e exalta o indígena, o que provo-
nem traz na mão robusta a forte clava
cou forte admiração por parte dos es-
para guerra fazer aos torpes Cacos. critores do século XIX. De modo seme-
(Apud CÂNDIDO, Antônio e CASTELLO, José Aderaldo. lhante aos índios, o Marquês de Pombal
Presença da Literatura Brasileira, p. 128-130.) é louvado e visto como herói.
— 189 —

O Uraguai Subjugou do Uraguai, e no seu sangue


Dos decretos reais lavou a afronta.
Em 1750 foi assinado por Portugal e
Espanha o Tratado de Madrid, de forma a Ai tantas custas, ambição de império!
reorganizar o Tratado de Tordesilhas, de E Vós, por quem o Maranhão pendura
1494. Este dividia o mapa-múndi como Rotas cadeias, e grilhões pesados,
uma linha imaginária a 370 léguas de Herói, e Irmão de heróis, saudosa,
Cabo Verde. Por não terem cumprido o [e triste,
acordo, Portugal e Espanha criaram um
Se ao longe a vossa América vos
novo documento. Contudo, não conse-
[lembra,
guiram realizá-lo de modo pleno, já que a
Colônia do Santíssimo Sacramento fica- Protegei os meus versos. Possa
va para Espanha e os Sete Povos das [entanto
Missões do Uruguai para Portugal. Os Acostumar ao vôo as novas asas,
sacerdotes que ali estavam recusavam Em que um dia vos leve. Desta sorte
se tornar cidadãos portugueses. Por Medrosa deixa o ninho a vez primeira
isso, Gomes Freire de Andrada coman-
Águia, que depois foge à humilde
dou uma expedição para os Sete Povos.
[terra.
Ao se aproximarem do rio Uruguai, E vai ver de mais perto no ar vazio
encontraram Cacambo e Sapé, guerrei-
O espaço azul, onde não chega o raio.
ros indígenas. Travam uma luta, que pro-
voca a morte de Sapé. Este aparece a (Apud Massaud Moisés, A literatura brasileira
através dos textos, p. 105.)
Cacambo em sonho e incentiva-o a in-
cendiar o acampamento dos inimigos. De-
pois Balda, líder dos jesuítas, envenena
Cacambo, que morre. Lindóia, sua mulher, Santa Rita Durão
guiada pela feiticeira da tribo, prevê seu (1720 – 1784)
futuro e o de Lisboa em chamas. Após o
incêndio, as tropas dirigem-se a Sete Po-
Frei José de Santa Rita Durão nas-
vos. Os jesuítas e indígenas preparam-se
ceu em 1720 em Minas Gerais. Estudou no
para incendiar as missões e Lindóia mor-
Rio de Janeiro no Colégio dos Jesuítas,
re picada por uma cobra, evitando, dessa
depois foi para Portugal. Fez parte da Or-
forma, casar-se com o inimigo.
dem de Santo Agostinho e doutorou-se
Fumam ainda nas desertas praias em Teologia pela Universidade de Coimbra,
Lagos de sangue tépidos, e impuros, onde posteriormente foi professor. Redi-
Em que ondeiam cadáveres despidos, giu o poema épico Caramuru, imitando di-
retamente Os Lusíadas. A obra apresen-
Pasto de corvos. Dura inda nos vales
ta algumas características já encontradas
O rouco som da irada artilharia. nos cronistas e poetas dos séculos XVI a
Musa, honremos o Herói, que o povo XVIII, tais como o louvor à terra e ocorrên-
[rude cia de longas enumerações descritivas.
— 190 —

Possui uma visão do índio mais en- Vendo avançar-se a nau na via
quadrada nos moldes jesuíticos e colo- [undosa,
niais do que propriamente iluministas.
E que a esperança de o alcançar
O indígena encontra-se diante do [perdiam:
elemento colonizador e missionário, que Entre as ondas com ânsia furiosa
tenta persuadi-lo a modificar suas ati-
Nadando o esposo pelo mar seguiam,
tudes e postura diante da vida e abando-
nar práticas contrárias à moral e à reli- E nem tanta água que flutua vaga
gião portuguesas, tais como a antropo- O ardor que o peito tem, banhando
fagia. [apaga.
Diogo Álvares, o Caramuru, é o
herói do poema. O termo, segundo o pró- XXXVII
prio autor, significa “filho do trovão”. Este
coloniza e ensina a doutrina cristã aos Copiosa multidão da nau francesa
índios, considerados bárbaros. Corre a ver o espetáculo
Caramuru [assombrada;
E ignorando a ocasião da estranha
Caramuru é composto por dez can-
[empresa,
tos e dividido em cinco partes: proposi-
ção, invocação, dedicatória, narrativa e Pasma da turba feminil, que nada:
epílogo. Assim como Camões em Os Uma, que às mais precede em
Lusíadas, faz uso do maravilhoso pa- [gentileza,
gão e do cristão. A narrativa gira em
torno do personagem Diogo Alves Cor- Não vinha menos bela, do que irada:
reia, o Caramuru, que naufraga e con- Era Moema, que de inveja geme,
segue escapar da morte. O texto carac-
E já vizinha à nau se apega ao leme.
teriza-se pela descrição da terra brasi-
leira, suas riquezas, fauna e flora. Além
XLII
disso, traz informações sobre os índios
e sua cultura. Destacam-se os perso-
nagens Diogo Alves Correia, o Caramu- Perde o lume dos olhos, pasma e
ru, Paraguaçu (sua esposa), Moema, [treme,
Sergipe, Gupeva. Pálida a cor, o aspecto moribundo,
Com mão já sem vigor, soltando
Canto VI [o leme,
XXXVI Entre as salsas escumas desce
[ao fundo:
É fama então que a multidão formosa Mas na onda do mar, que irado
Das damas, que Diogo pretendiam, [freme,
— 191 —

Tornando a aparecer desde 1776, atuando como Ouvidor de São João


[o profundo: del-Rei, Minas Gerais. Posteriormente
atuou com fazendeiro e minerador. En-
“Ah! Diogo cruel!” disse com mágoa,
volveu-se com a Inconfidência Mineira,
E sem mais vista ser, sorveu-se foi preso em 1789, exilado em Angola em
[n’água. 1792 e veio a falecer um ano depois.

XLIII Escreveu poemas nos quais se per-


cebe a importância dada à ilustração e o
Choraram da Bahia as ninfas belas, gosto por um governo forte e progressista.
Que nadando a Moema
[acompanhavam;
E vendo que sem dor navegavam
Silva Alvarenga
[delas, (1749 – 1814)
À branca praia com furor tornavam:
Nem pode o claro herói sem pena Manoel Inácio da Silva Alvarenga
[vê-las, nasceu em Vila Rica, Minas Gerais, em
Com tantas provas, que de amor 1749. Estudou em Minas e no Rio de
[lhe davam; Janeiro, vindo a graduar-se em Direito
em Coimbra no ano de 1776. Exerceu a
Nem mais lhe lembra o nome de
profissão no Rio de Janeiro, onde tam-
[Moema,
bém lecionou Retórica e Poética. Foi co-
Sem que ou amante a chore, ou laborador da revista brasileira O Patrio-
[grato gema. ta de 1812 a 1813. Escreveu poesia líri-
ca marcada pela leveza e musicalidade.
(Apud Massaud Moisés, A literatura brasileira
através dos textos, p. 111-112.) Faleceu no Rio de Janeiro, em 1814.

Souza Caldas (1762 – 1814)


Outros autores
Em 1762 nasceu no Rio de Janeiro
Antônio Pereira de Souza Caldas. Estu-
dou na Universidade de Coimbra, onde
Alvarenga Peixoto graduou-se em 1789. Foi preso e pro-
(1744 – 1793) cessado pela Inquisição. Ordenou-se
padre em Roma em 1790. Retornou ao
Rio em 1808, ficando conhecido por suas
Inácio José de Alvarenga Peixoto idéias liberais e eloqüência.
nasceu em 1744, no Rio de Janeiro. Gra-
duou-se em Coimbra em 1767, exerceu o Escreveu poemas profanos e sa-
cargo de Juiz e regressou ao Brasil em grados, traduziu salmos de Davi e redi-
— 192 —

giu um livro em forma de cartas, que


veio a se perder. Faleceu no Rio de Ja-
Monte Alverne (1784 – 1858)
neiro em 1814.
Frei Francisco do Monte Alverne
José Bonifácio (1763 – 1838) nasceu em 1784 no Rio de Janeiro. Em
1808 ordenou-se franciscano em São
José Bonifácio de Andrada e Silva Paulo. Foi pregador e professor de Filo-
nasceu em Santos em 1763. Concluiu sofia. Em 1816 foi para a corte, como
seus estudos em leis e em filosofia na- professor de Filosofia e Retórica e pre-
tural na Universidade de Coimbra. Em gador da Capela Real, a seguir Imperial.
1819 regressou ao Brasil, tendo signifi- Influente orador, divulgou o ecletismo
cativa ação política, o que resultou num espiritualista e demonstrou intenso patri-
exílio, de 1823 a 1829. Enfatizou a impor- otismo. Muito valorizou as emoções, não
tância da virtude, do desprezo pela vida desprezando a razão. Em 1836, cego,
terrena e pelos prazeres passageiros; isolou-se, vindo a pregar novamente em
exaltou a liberdade e combateu a tirania. 1854, a pedido de D. Pedro. Faleceu em
Faleceu em 1838 no Rio de Janeiro. 1858.

Resumo do Arcadismo
Momento sócio-cultural dismo é o bucolismo (exaltação da
• O centro sócio-econômico da colô- vida no campo, idealizada como tran-
qüila e feliz).
nia desloca-se do Nordeste para o
• Uso da mitologia clássica e dos prin-
Centro-sul, devido à descoberta de
cípios renascentistas: racionalismo,
ouro e diamantes em Minas Gerais.
equilíbrio, clareza.
• Ocorre um surto de urbanização em
Minas e Rio de Janeiro (que se torna Autores e obras
a nova capital da colônia), e aumen-
ta o número de intelectuais. • Cláudio Manuel da Costa: partici-
• Influenciada pelas idéias iluministas pante da Inconfidência Mineira, dei-
e pela Revolução Francesa, ocorre xou Obras Poéticas (1768) e o épi-
a Inconfidência Mineira, rebelião que co Vila Rica (1839).
intentava a independência do Brasil. • Tomás Antônio Gonzaga: outro
poeta que participou da Inconfidên-
Características literárias cia. Deixou obra muito influente, onde
• O Arcadismo opõe-se ao Barroco, os destaques são Cartas Chilenas
procura eliminar da arte os exces- (reunidas entre 1845-1863) e Marília
sos praticados pela literatura barro- de Dirceu (1792).
ca. Esse objetivo produziu uma arte • Basílio da Gama: escreveu O
simples, sem exageros formais, que Uraguai (1769), poema épico que
pretendia retratar a natureza de critica a ação dos jesuítas e enaltece
modo direto. Outra marca do Arca- o marquês de Pombal.
— 193 —

Romantismo
No século XVIII, há uma renovação No lirismo romântico são recorren-
nas formas de expressão, na escolha tes os temas de amor, religião, sentimen-
dos temas e na busca de modelos e to da natureza e da sociedade. O amor
fontes de inspiração, o que se denomi- procura livrar-se das conveniências e
na Pré-Romantismo e tem sua origem na convenções e a mulher deixa de ser ape-
Alemanha e Inglaterra. nas pura, tornando-se sedutora.
Tal renovação assume grandes pro- Insatisfeito com a realidade em que
porções no século XIX, adquirindo liberda- se encontra, o romântico foge do conví-
de formal e sentimento de contempora- vio em sociedade e cria um mundo imagi-
neidade, resultando no Romantismo. nário, em que a natureza expressa seus
O movimento romântico expressa estados de alma. Muitas vezes busca a
os anseios, dúvidas e inquietações inte- contemplação divina e em determinados
riores do artista, deixando transparen- momentos chega ao panteísmo.
tes suas grandezas e fraquezas. Deus é entendido como resposta aos
Através da experiência individual do questionamentos, refúgio e paz. Através
homem romântico, inserido em uma nova de sua contemplação, o homem percebe o
estrutura social, religiosa e econômica, atin- quanto é pequeno diante de sua grandeza.
ge-se a universalidade, ou seja, a partir de
Durante o período que envolve os
um contexto nacional, restrito a uma deter-
anos de 1833 a 1836, vários intelectuais
minada realidade, trabalham-se sentimentos
brasileiros, entre eles Gonçalves de Ma-
e valores universais do ser humano.
galhães, Manuel de Araújo Porto Alegre e
O romântico não mais encontra o equi- Francisco de Sales Torres Homem foram
líbrio em sua vida interior e a intuição e a para a Europa com o objetivo de apro-
fantasia passam a prevalecer em detrimen- fundar seus estudos. Em 1836, fundaram
to da razão. De modo diverso aos clássi- em Paris a Niterói-Revista Brasiliense de
cos, o romântico demonstra o desequilíbrio Ciências, Letras e Artes, a fim de divulgar
do mundo contemporâneo, perceptível na a cultura brasileira e esboçar idéias sobre
tristeza, aspirações vagas, desejo de mu- a construção de uma identidade nacional.
dança social, anseio de liberdade e nacio- A revista teve apenas dois números. No
nalismo. Atribui grande importância aos primeiro, Gonçalves de Magalhães publi-
sentimentos, o que o torna egocêntrico. Em cou o ensaio Discurso sobre a história
determinados momentos dedica-se ao da literatura do Brasil, com o propósito de
amor, já em outros busca o isolamento e a realizar a nacionalização da literatura bra-
identificação com a natureza. Nutre sua re- sileira através do resgate de sua paisa-
ligiosidade e cultiva o patriotismo. gem e cultura.
— 194 —

No Brasil, o Romantismo tem início vés das ricas descrições da terra bra-
em 1836, com a publicação de Suspiros sileira que encantara o colonizador por-
Poéticos e Saudades, do mesmo Gon- tuguês.
çalves de Magalhães.
Em Portugal os escritores românti-
Após a vinda da família real para o cos procuravam retomar o passado his-
Brasil, em 1808, o Rio de Janeiro pas- tórico medieval. Já os autores brasilei-
sou a ter hábitos semelhantes aos da ros retomaram a época colonial reali-
sociedade aristocrática européia. Além zando a idealização do índio, que pas-
disso, D. João VI tomou medidas que sou a ser o nosso herói. Entretanto, o
possibilitaram o nosso crescimento cul- índio brasileiro possuía a mesma per-
tural, tais como a abertura dos portos, a feição física e moral do cavaleiro medi-
criação de bibliotecas e de escolas su- eval europeu. Além do passado históri-
periores e a permissão para o funciona- co, os românticos buscavam as paisa-
mento de tipografias. gens e civilizações exóticas. O Brasil
A economia brasileira era essen- dirige seu olhar à Europa e ao Oriente.
cialmente agrária e apoiada no latifún- Há, portanto, uma evasão temporal e
dio, escravismo e exportação, tendo espacial. Além disso, preferem a noite,
como detentores do poder a nobreza pois esta possibilita o sonho, a imagina-
fundiária e o alto clero. ção, enfim, a manifestação do incons-
ciente.
No período imperial, o Brasil pos-
suía grande número de analfabetos.
Dessa forma, havia um restrito público
leitor, mas este era ávido por uma litera- Poesia
tura que viesse ao encontro de seus
dramas sentimentais.
Os românticos rompem com a ri-
O movimento romântico possuía gidez formal, preferindo a liberdade de
forte ligação com a política e defendia a criação. A expressão de seus senti-
liberdade, assim como a construção de mentos não pode ficar presa a esque-
uma pátria brasileira. Percebia-se um mas rítmicos regulares, tais como o so-
forte anseio de criação de uma literatu- neto. Por isso, praticamente não o uti-
ra essencialmente brasileira, com estilo lizam.
próprio. Por isso, alguns temas eram tra-
tados de modo diverso ao da literatura Percebe-se o emprego dos versos
portuguesa. livres e de estrofes regulares e irregu-
lares. Além disso, dá-se importância à
A natureza expressava o universo musicalidade.
interior do poeta ou personagem, seus
sentimentos, aspirações e frustrações. Os estudiosos costumam dividir a
Além disso, refletia o nacionalismo atra- poesia romântica em três fases.
— 195 —

lhães. Em 1832 concluiu seus estudos em


Primeira Fase: Medicina e publicou seu primeiro livro: Poe-
nacionalista ou sias, ainda preso aos moldes árcades.
Após um ano foi para a França, onde tomou
indianista contato com a estética romântica. Em 1836
fundou a Niterói Revista Brasiliense e pu-
blicou Suspiros Poéticos e Saudades, mar-
Durante a primeira fase, os auto- cando uma nova fase em nossa literatura.
res empenhavam-se na definição de uma Regressa ao Brasil em 1837 e auxilia na
temática nacional. Dessa forma, acaba- campanha pelo teatro brasileiro. Exerce o
ram por redigir obras de valor documen- magistério no Colégio Pedro II, atua como
tal, como é o caso do prefácio de Suspi- secretário de Caxias em duas presidências
ros Poéticos e Saudades de Gonçalves e ingressa na carreira diplomática em 1847.
de Magalhães. Foi muito prestigiado, pois liderou um grupo
literário relacionado ao mundo oficial. Entre-
Um dos principais temas aborda-
tanto, de acordo com Antônio Cândido7
dos na poesia deste período foi o nacio-
deve-se ressaltar menos seu valor literário
nalismo, expresso através da valori-
e dar mais ênfase a seu papel histórico, ex-
zação dos índios como heróis nacionais
presso em seus ensaios literários, em que
(indianismo) e da exaltação da terra
demonstra clara compreensão do Roman-
brasileira.
tismo. Faleceu em Roma no ano de 1882.
Outra temática foi a do saudosis- Entre suas obras estão: Poesias (1832),
mo, caracterizado pela recordação do Urânia (1862), Cânticos Fúnebres (1864);
passado individual (infância e adolescên- Antônio José ou O Poeta e a Inquisição
cia). O momento da infância era entendi- (1839), Olgiato (1841) – teatro; Fatos do
do como um período seguro, sem preo- Espírito Humano (1858); A Alma e o Cére-
cupações, pleno de pureza e inocência. bro (1876), Comentários e Pensamentos
(1880) – prosa doutrinária.
Trabalhou-se também a religiosi-
dade, precisamente o cristianismo me-
dieval, e alguns elementos do pessi- Gonçalves Dias
mismo resultante do mal-do-século.
(1823 – 1864)

Gonçalves de Magalhães Filho de um comerciante português e


de uma mestiça, Antônio Gonçalves Dias
(1811 – 1882) nasceu em 1823, próximo a Caxias, no
Maranhão. Em 1838 foi para Coimbra estu-
No ano de 1811 nasceu no Rio de Ja- dar Direito. Escreveu, então, suas primei-
neiro Domingos José Gonçalves de Maga- ras poesias. No ano de 1844 formou-se e

Antônio Cândido, Presença da Literatura Brasileira: história e antologia, v. 1, p.168.


7
— 196 —

voltou para o Maranhão, mas dois anos de- Minha terra tem palmeiras,
pois vai para o Rio de Janeiro, atuando co- Onde canta o Sabiá;
mo professor de Latim e História do Brasil
no Colégio Pedro II e redator da revista As aves, que aqui gorjeiam,
Guanabara. Seus escritos abrangem poe- Não gorjeiam como lá.
sia, teatro, etnografia e historiografia. Fale-
ceu em 1864, quando retornava de uma Nosso céu tem mais estrelas,
viagem à Europa, no naufrágio do “Ville de Nossas várzeas têm mais flores,
Boulogne”. Foi, segundo Massaud Moi-
Nossos bosques têm mais vida,
sés8 , o primeiro poeta realmente brasileiro
no que diz respeito à sensibilidade e à Nossa vida mais amores.
temática.
Em cismar, sozinho, à noite,
Realizou estudos na Amazônia so-
Mais prazer encontro eu lá;
bre a cultura indígena e enriqueceu seus
poemas com a mesma, além de acres- Minha terra tem palmeiras,
centar termos de língua indígena. Onde canta o Sabiá.
Escreveu Primeiros Cantos (1846), Minha terra tem primores,
Leonor de Mendonça (1847), Segundos
Cantos e Sextilhas de Frei Antão (1848), Que tais não encontro eu cá;
Últimos Cantos (1851), Os Timbiras Em cismar – sozinho, à noite –
(1857), envolvendo teatro, composições Mais prazer encontro eu lá;
lírico-amorosas e indianistas, poesia épi-
ca e medieval, além de um Dicionário da Minha terra tem palmeiras,
Língua Tupi (1858) e Obras Póstumas Onde canta o Sabiá.
(seis volumes), organizadas por Antônio
Henriques Leal. Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Canção do exílio
Sem que desfrute os primores
Kennst du das Land, wo Citronen Que não encontro por cá;
[blühen,
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
In dunkeln Laub die Gold-Orangen
[glühen? Onde canta o Sabiá.
Kennst Du es wohl? – Dahin, dahin!
Coimbra – Julho 1843.
Möcht’ich ... ziehn.
(Apud CÂNDIDO, Antônio e CASTELLO, José Aderaldo.
Goethe9 Presença da Literatura Brasileira, v.1, p. 180.)

Massaud Moisés, A literatura brasileira através dos textos, p. 122.


8

9
Esses versos compõem a “Canção de Mignon” de Goethe e foram traduzidos do seguinte modo por Manuel
Bandeira: “Conheces o país onde florescem as laranjeiras? / Ardem na escura fronde os frutos de ouro... / Conhecê-
lo? – Para lá, para lá quisera eu ir!”.
— 197 —

Em sua popular Canção do exílio, Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Gonçalves Dias exalta sobremaneira o Um quê mal definido, acaso podem
Brasil, enfatizando sua paisagem e con-
Num engano d’amor arrebatar-nos.
trapondo-a à paisagem européia.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Demonstra forte nacionalismo, che- Devaneio, ilusão, que se esvaece
gando a exagerar na descrição da na-
tureza brasileira e não demonstrando Ao som final da orquestra, ao
senso crítico em relação à realidade. [derradeiro
Clarão, que as luzes no morrer
Se Se Morre de Amor! [despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o
Meere und Berge und Horizonte zwischen
[chamam,
[den
D’amor igual ninguém sucumbe à
Liebenden – aber die Seelen versetzen
[sich
[perda.

aus dem staubigen Kerker und treffen Amor é vida; é ter constantemente
[sich im Alma, sentidos, coração – abertos
Paradiese der Liebe. Ao grande, ao belo; é ser capaz
Schiller, Die Räuber [d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Se se morre de amor! – Não, não se
Compr’ender o infinito, a
[morre,
[imensidade,
Quando é fascinação que nos
E a natureza e Deus; gostar dos
[surpreende [campos,
De ruidoso sarau entre os D’aves, flores, murmúrios
[festejos; [solitários;
Quando luzes, calor, orquestra e Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
[flores
E ter o coração em riso e festa;
Assomos de prazer nos raiam
[n’alma, E à branda festa, ao riso da nossa
[alma
Que embelezada e solta em tal
Fontes de pranto intercalar sem
[ambiente
[custo;
Nos ouve, e no que vê prazer
Conhecer o prazer e a desventura
[alcança!
No mesmo tempo, e ser no mesmo
Simpáticas feições, cintura breve, [ponto
Graciosa postura, porte airoso, O ditoso, o misérrimo dos entes;
— 198 —

Isso é amor, e desse amor se morre! A mesma vida circulava em ambos;


Que será do que fica, e do que longe
Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós Serve às borrascas de ludíbrio e
[sentimos; [escárnio?
Temer qu’olhos profanos nos Pode o raio num píncaro caindo,
[devassem Torná-lo dois, e o mar correr entre
O templo, onde a melhor porção da [ambos;
[vida Pode rachar o tronco levantado
Se concentra; onde avaros E dois cimos depois verem-se
[recatamos [erguidos,
Essa fonte de amor, esses tesouros Sinais mostrando da aliança antiga;
Inesgotáveis, d’ilusões floridas; Dois corações porém, que juntos
Sentir, sem que se veja, a quem se [batem,
[adora, Que juntos vivem, – se os
Compr’ender, sem lhe ouvir, seus [separam, morrem;
[pensamentos, Ou se entre o próprio estrago inda
[vegetam,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos
Se aparência de vida, em mal,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
[conservam,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Que busca achar no berço a
Isso é amor, e desse amor se morre! [sepultura!

Se tal paixão porém enfim Esse, que sobrevive à própria ruína,


[transborda,
Ao seu viver do coração, – às gratas
Se tem na terra o galardão devido Ilusões, quando em leito solitário,
Em recíproco afeto; e unidas, uma, Entre as sombras da noite, em
Dois seres, duas vidas se procuram, [larga insônia,
Entendem-se, confundem-se e Devaneando, a futurar venturas,
[penetram Mostra-se e brinca apetecida imagem;
Juntas – em puro céu d’êxtases puros: Esse, que à dor tamanha não
Se logo a mão do fado as torna [sucumbe,
[estranhas, Inveja a quem na sepultura
Se os duplica e separa, quando [encontra
[unidos Dos males seus o desejado termo!
— 199 —

O Canto do Piaga
Segunda Fase:
I
O Mal-do-século ou
Ó Guerreiros da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
Geração Byroniana
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Mais precisamente entre as décadas
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi. de 1840 e 1850, o romantismo atinge seu
ponto culminante e mais egocêntrico com
Essa noite – era a lua já morta – o Ultra-Romantismo ou mal-do-século.
Anhangá me vedava sonhar; Esta fase recebeu forte influência de poe-
Eis na horrível caverna, que habito, tas europeus, principalmente do inglês
George Gordon Byron (1788 – 1824), mais
Rouca voz começou-me a chamar.
conhecido como Lord Byron. Este criou
Abro os olhos, inquieto, medroso, heróis sonhadores, que viviam grandes
aventuras e contestavam as convenções
Manitôs! que prodígios que vi!
morais e religiosas aceitas pela burguesia.
Arde o pau de resina fumosa, Byron teve uma vida conturbada, defen-
Não fui eu, não fui eu, que o acendi! deu a liberdade, integrou diversos movi-
mentos revolucionários e veio a morrer na
Eis rebenta a meus pés um Grécia, juntamente com os gregos que al-
[fantasma, mejavam a independência na luta contra
Um fantasma d’imensa extensão; os turcos. Em vários países teve imitado-
res e admiradores. No Brasil, vários escri-
Liso crânio repousa a meu lado.
tores da segunda geração tinham profun-
Feia cobra se enrosca no chão. da admiração por sua figura; por isso esta
geração também é conhecida como byro-
O meu sangue gelou-se nas veias,
niana. Álvares de Azevedo parece ter si-
Todo inteiro – ossos, carnes – do o poeta que mais se inspirou em Byron
[tremi, para escrever seus poemas, além de citá-
Frio horror me coou pelos membros, lo com freqüência em seus versos.
Frio vento no rosto senti. Nesta fase, a produção poética bra-
sileira acentua o subjetivismo, trabalha com
Era feio, medonho, tremendo,
os temas do amor e da morte e, sobretu-
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi. do, com as questões do tédio existencial.
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
O ultra-romântico fecha-se em si
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi! mesmo, pois se vê insatisfeito com a rea-
(Apud MOISÉS, Massaud. A Literatura Brasileira lidade circundante. Dessa forma, por ve-
através dos textos, p. 127-129.) zes parte para o devaneio, para o erotis-
— 200 —

mo obsessivo ou mesmo demonstra sen- Cântico do Calvário


sação de melancolia e tédio diante da
vida. Devido a seu estado depressivo, À memória de meu filho
anseia a morte, pois esta se mostra como morto a 11 de dezembro de 1863.
a única solução para seus problemas.
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias
Fagundes Varela [conduzia

(1841 – 1875) O ramo da esperança. – Eras a


[estrela
Que entre as névoas do inverno
Luís Nicolau Fagundes Varela nas-
[cintilava
ceu em 1841 na fazenda Santa Rita, muni-
cípio de Rio Claro, no estado do Rio de Apontando o caminho ao pegureiro.
Janeiro. Sua infância foi vivida em diver- Eras a messe de um dourado estio.
sos lugares: Catalão, Goiás, Angra dos Eras o idílio de um amor sublime.
Reis, Petrópolis e Niterói. Com dezoito anos
Eras a glória, – a inspiração, – a pátria,
veio para São Paulo e iniciou a Faculdade
de Direito. Entretanto, dedicava-se mais à O porvir de teu pai! – Ah! no entanto,
vida boêmia do que aos estudos. Em 1862 Pomba, – varou-te a flecha do destino!
casou-se e após um ano teve um filho, Astro – engoliu-te o temporal do norte!
Emiliano, que morreu aos três meses, fato
Teto, – caíste! – Crença, já não vives!
inspirador do Cântico do Calvário. No ano
de 1865 vai para o Recife a fim de dedi- ......................................................
car-se aos estudos, porém sua esposa, Não mais! A areia tem corrido, e o
que ficara na casa de seus pais, vem a [livro
falecer, provocando seu retorno a São De minha infanda história está
Paulo e à Faculdade de Direito. Casa-se [completo!
novamente, vai para a fazenda Santa Rita
Pouco tenho de andar! Um passo
e em seguida para Niterói. Busca, no de-
[ainda
correr de sua vida, refúgio para suas afli-
ções ora no álcool e na vida boêmia, ora E o fruto de meus dias, negro, podre,
na natureza. Em 1875 morre, deixando as Do galho eivado rolará por terra!
obras Noturnas (1861), O Estandarte Au- Ainda um trenó, e o vendaval sem
ri-verde (1863), Vozes da América (1864), [freio
Cantos e Fantasias (1865), Cantos Meri-
Ao soprar quebrará a última fibra
dionais (1869), Cantos do Ermo e da Ci-
dade (1869), Anchieta ou O Evangelho Da lira infausta que nas mãos
nas Selvas (1875), Cantos Religiosos [sustenho!
(1878) e Diário de Lázaro (1880). Tornei-me o eco das tristezas todas
— 201 —

Que entre os homens achei! O lago Ave banhada em mares de


[escuro [esperança,
Onde ao clarão dos fogos da Rosa em botão, crisálida entre luzes,
[tormenta Foste o escolhido na tremenda ceifa!
Miram-se as larvas fúnebres do Ah! quando a vez primeira em meus
[estrago! [cabelos
Por toda a parte em que arrastei Senti bater teu hálito suave;
[meu manto Quando em meus braços te cerrei,
[ouvindo
Deixei um traço fundo de agonias!...
Pulsar-te o coração divino ainda;
Oh! quantas horas não gastei, Quando fitei teus olhos sossegados,
[sentado
Abismos de inocência e candura,
Sobre as costas bravias do Oceano,
E baixo e a medo murmurei: meu
Esperando que a vida se esvaísse [filho!
Como um floco de espuma, ou como Meu filho! frase imensa, inexplicável,
[o friso Grata como o chorar de Madalena
Que deixa n’água o lenho do Aos pés do Redentor... ah! pelas
[barqueiro! [fibras
Quantos momentos de loucura e Senti rugir o vento incendiado
[febre
Desse amor infinito que eterniza
Não consumi perdido nos desertos,
O consórcio dos orbes que se
Escutando os rumores das florestas, [enredam
E procurando nessas vozes torvas Dos mistérios do ser na teia augusta!
Distinguir o meu cântico de morte! Que prende o céu à terra e a terra
Quantas noites de angústias e [aos anjos!
[delírios Que se expande em torrentes
Não velei, entre as sombras [inefáveis
[espreitando Do seio imaculado de Maria!
A passagem veloz do gênio horrendo
Cegou-me tanta luz! Errei, fui homem!
Que o mundo abate ao galopar
[infrene E de meu erro a punição cruenta
Do selvagem corcel?... E tudo Na mesma glória que elevou-me aos
[embalde! [astros,
A vida parecia ardente e douda Chorando aos pés da cruz, hoje
[padeço!
Agarrar-se a meu ser!... E tu tão
[jovem, (Apud CÂNDIDO, Antônio e José CASTELLO, Aderaldo.
Presença da Literatura Brasileira: história e antologia v.1,
Tão puro ainda, ainda n’alvorada, p. 255-258.)
— 202 —

zem parte de suas Obras, em dois volu-


Junqueira Freire mes, a Lira dos Vinte Anos, sua melhor
(1832 – 1855) criação, Pedro Ivo, Macário (teatro), A
Noite na Taverna (contos macabros),
No ano de 1832, nasceu em Salva- entre outros escritos.
dor, Bahia, Luís José Junqueira Freire. A poesia de Álvares de Azevedo
Estudou no Liceu Provincial e posterior- por vezes segue a linha do humor ne-
mente ingressou na Ordem Beneditina, gro, caso dos poemas da segunda par-
em 1851. Após ter professado, no ano te da Lira dos Vinte Anos.
seguinte, adotou o nome de Frei Luís de
Santa Escolástica Junqueira Freire. Em Percorrem suas poesias experiênci-
1854, deixou a vida religiosa e permane- as mais fruto da imaginação do que efeti-
ceu na casa de seus pais, dedicando-se vamente consumadas no plano sensorial.
à criação literária. Escreveu Inspirações
A mulher em determinados momen-
do Claustro (1855), Elementos de Retó-
tos aparece idealizada, semelhante a um
rica Nacional (1869, póstumo) e Obras
anjo; em outros surge numa atmosfera
Poéticas (1944, póstumo). Faleceu em
de erotismo e sensualidade. Contudo,
1855. Seus escritos abrangem poesia de
em ambos os casos ela permanece ina-
meditação filosófica e religiosa, poesia
cessível, distante do poeta.
lírico-amorosa e poesia social (nativista e
antilusitana), em que são marcantes a crise Freqüentemente faz uso da evasão,
religiosa e a angústia de infinito. Enxerga fugindo da realidade para um mundo de
a morte como última possibilidade de paz. sonhos e fantasias. Demonstra em seus
poemas tristeza, amargura, tédio e melan-
colia. Teme a morte, mas ao mesmo tempo
Álvares de Azevedo ela é bem-vinda, pois significa alívio para
as dores do corpo e da alma, como pode
(1831 – 1852) ser percebido no poema a seguir.

Manuel Antônio Álvares de Azeve- Lembrança de Morrer


do nasceu em São Paulo em 1831. Após
dois anos, muda-se com a família para o No more! o never more!
Rio de Janeiro, onde faz o curso primário Shelley
e secundário. Regressa para São Paulo
em 1848 e inicia a Faculdade de Direito. Quando em meu peito rebentar-se
Entre seus amigos estão Bernardo Gui- [a fibra
marães e Aureliano Lessa, que integra- Que o espírito enlaça à dor vivente,
vam a Sociedade Epicuréia, iniciada em
1845 com o objetivo de repetir a vida boê- Não derramem por mim nem uma
mia de Byron. Morre no ano de 1852, de [lágrima
tuberculose, aos vinte anos de idade. Fa- Em pálpebra demente.
— 203 —

E nem desfolhem na matéria impura Se uma lágrima as pálpebras me


[inunda,
A flor do vale que adormece ao vento:
Se um suspiro nos seios treme ainda
Não quero que uma nota de alegria
É pela virgem que sonhei... que
Se cale por meu triste [nunca
[passamento. Aos lábios me encostou a face linda!
Eu deixo a vida como deixa o tédio
Só tu à mocidade sonhadora
Do deserto, o poento caminheiro
Do pálido poeta deste flores...
– Como as horas de um longo
Se viveu, foi por ti! e de esperança
[pesadelo
De na vida gozar de teus amores.
Que se desfaz ao dobre de um
[sineiro; Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Como o desterro de minh’alma
[errante, Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses Descansem o meu leito solitário
[tempos Na floresta dos homens esquecida,
Que amorosa ilusão embelecia. À sombra de uma cruz, e escrevem
[nela:
Só levo uma saudade – é dessas — Foi poeta – sonhou – e amou
[sombras [a vida. –
Que eu sentia velar nas noites
Sombras do vale, noites da montanha
[minhas...
Que minha alma cantou e amava
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
[tanto,
Que por minha tristeza te definhas! Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!
De meu pai... de meus únicos
[amigos, Mas quando preludia ave d’aurora
Poucos – bem poucos – e que não E quando à meia-noite o céu repousa,
[zombavam
Arvoredos do bosque, abri os
Quando, em noites de febre [ramos...
[endoudecido,
Deixai a lua pratear-me a lousa!
Minhas pálidas crenças (Apud MOISÉS, Massaud. A Literatura Brasileira através
[duvidavam. dos textos, p. 162-163.)
— 204 —

Lira dos Vinte Anos tristeza, a emoção e a ironia, a moral e


o erotismo.
Lira dos Vinte Anos é uma obra
estruturada em três partes. Já na terceira parte da obra, tra-
balha basicamente com os mesmos ele-
Na primeira delas, o poeta sonha mentos da primeira: amor, sonhos,
com o amor e realiza um prenúncio da pessimismo.
morte. São constantes as imagens no-
turnas e relacionadas ao mar. Além Diversas características do mo-
vimento romântico, sobretudo da se-
disso, Álvares de Azevedo busca des-
gunda geração, podem ser identifica-
pertar a sensibilidade do leitor através
das na obra: exposição dos estados
dos sentidos.
da alma, fuga espaço-temporal da re-
A figura da mulher também se faz alidade, procura do amor, vida boêmia,
presente, idealizada e envolta num cli- imagens noturnas, mulher, morte. Utili-
ma de erotismo e sensualidade, povo- za muitas palavras ligadas ao sonho
ando a imaginação e os sonhos do po- (sono, devaneios).
eta. Este é submisso à mulher amada,
A obra tem forte relação com a
que se assemelha a um anjo e mostra-
vida do poeta, pois este, ao mudar-se
se cada vez mais distante.
para São Paulo a fim de estudar Direi-
A insatisfação com a realidade vi- to, não conseguiu adaptar-se ao am-
vida pelo poeta, repleta de tristezas e biente que encontrou, passando a vi-
sofrimentos, provoca nele um imenso ver isolado e melancólico e buscando
desejo de morte. Esta é uma imagem em sua fantasia a satisfação que a
recorrente em seus poemas, pois é vida real não lhe proporcionava. Daí
vista como a solução para os proble- deriva a vida boêmia e desregrada que
mas terrenos e fim de todo sofrimento. figura em seus versos, conseqüência
de suas leituras de poetas como By-
Um dos cenários de seus poemas ron, Musset e Vitor Hugo e de sua gran-
é a pátria, que aparece através da na- de capacidade imaginativa.
tureza. Além desta, o poeta faz referên-
A seguir são transcritos mais dois
cias à Itália, pois a considera um país
poemas da Lira dos Vinte Anos: “É ela!
de grandes realizações amorosas.
É ela! É ela! É ela!”, que compõe a se-
Por outro lado, na segunda parte gunda parte da obra e demonstra a
aparecem como características a re- ironia e sarcasmo do poeta ao des-
volta, a ironia, o sarcasmo e o humor. crever sua amada, uma lavadeira que
“roncava maviosa e pura” e “Seio da
O poeta apresenta ao leitor sua virgem”, que integra a terceira parte
angústia interior e as contradições de da obra e expõe o desejo pela mulher,
um ser que oscila entre a alegria e a agora idealizada e inacessível.
— 205 —

É ela! É ela! É ela! É ela! São versos dela... que amanhã


[decerto
É ela! é ela – murmurei tremendo,
Ela me enviará cheio de flores...
E o eco ao longe murmurou – é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura – Trem de febre! Venturosa folha!
A minha lavadeira na janela! Quem pousasse contigo neste seio!

Dessas águas-furtadas onde eu Como Otelo beijando a sua esposa,


[moro Eu beijei-a a tremer de devaneio...
Eu a vejo estendendo no telhado É ela! é ela! – repeti tremendo;
Os vestidos de chita, as saias Mas cantou nesse instante uma
[brancas; [coruja...
Eu a vejo e suspiro enamorado! Abri cioso a página secreta...

Esta noite eu ousei mais atrevido Oh! meu Deus! era um rol de
[roupa suja!
Nas telhas que estalavam nos
[meus passos
Mas se Werther morreu por ver
Ir espiar seu venturoso sono, [Carlota
Vê-la mais bela de Morfeu nos Dando pão com manteiga às
[braços! [criancinhas
Se achou-a assim mais bela, – eu
Como dormia! que profundo sono!...
[mais te adoro
Tinha na mão o ferro do
[engomado... Sonhando-te a lavar as camisinhas!

Como roncava maviosa e pura!... É ela! é ela! meu amor, minh’a alma,

Quase caí na rua desmaiado! A Laura, a Beatriz que o céu


[revela...
Afastei a janela, entrei medroso... É ela! é ela! – murmurei tremendo,
Palpitava-lhe o seio adormecido... E o eco ao longe suspirou – é ela!
Fui beijá-la... roubei do seio dela (Álvares de Azevedo, Melhores Poemas de Lira dos
Vinte Anos, São Paulo, Núcleo, 1994, pp. 74-75)
Um bilhete que estava ali metido...
Seio da virgem
Oh! decerto... (pensei) é doce
[página Quand on te voit, il vient à maints
Une envie dedans les mains
Onde a alma derramou gentis De te tâter, de te tenir...
[amores; Clément Marot
— 206 —

O que eu sonho noite e dia, Dormem nessas rosas puras


O que me dá poesia E se acordarão num ai!”
E me torna a vida bela,
Que lírio, que nívea rosa,
O que num brando roçar
Ou camélia cetinosa
Faz meu peito se agitar,
Tem uma brancura assim?
É o teu seio, donzela!
Que flor da terra ou do céu,
Oh! quem pintara o cetim Que valha do seio teu
Desses limões de marfim, Esse morango ou rubim?
Os leves cerúleos veios
Quantos encantos sonhados
Na brancura deslumbrante
Sinto estremecer velados
E o tremido de teus seios?
Por teu cândido vestido!
Quando os vejo, de paixão Sem ver teu seio, donzela,
Sinto pruridos na mão Suas delícias revela
De os apalpar e conter... O poeta embevecido!
Sorriste do meu desejo?
Donzela, feliz do amante
Loucura! Bastava um beijo
Que teu seio palpitante
Para neles se morrer!
Seio d’esposa fizer!
Minhas ternuras, donzela, Que dessa forma tão pura
Votei-as à forma bela Fizer com mais formosura
Daqueles frutos de neve... Seio de bela mulher!
Ai!... duas cândidas flores
Feliz de mim... porém não!...
Que o pressentir dos amores
Repouse teu coração
Faz palpitarem de leve.
Da pureza no rosal!

Mimosos seios, mimosos, Tenho no peito um aroma

Que dizem voluptuosos: Que valha a rosa que assoma

“Amai, poetas, amai! No teu seio virginal?...

Que misteriosas venturas (Ibid, pp. 88-90)


— 207 —

de então, deveria fazer uma peregrina-


Joaquim de Sousa ção ritual. Quando esta se encerrava,
Andrade (Sousândrade) os “reques” (sacerdotes) o sacrifica-
vam, flechando-o, arrancando seu co-
(1833 – 1902) ração e recolhendo seu sangue em va-
sos sagrados.
Joaquim de Sousa Andrade nas-
Quando as estrelas, cintiladas a esfera,
ceu em 1833 no Maranhão. Graduou-se
em Letras pela Sorbonne, além de ter Da luz radial rabiscam todo o
estudado engenharia de minas. Fez di- [oceano,
versas viagens pela Europa e pelas re- Que uma brisa gentil de primavera,
públicas latino-americanas, vindo a per- Qual alva duna os alvejantes
manecer por longo tempo nos Estados [panos,
Unidos. Voltou a São Luís, onde minis-
trou aulas de grego. Morreu na miséria e Cândida assopra, - da hora Adamantina
praticamente desconhecido em 1902. Velando, nauta do convés, o Guesa
Sousândrade (como preferia assi- Amava a solidão, doce bonina
nar) publicou as Harpas selvagens, Que abre e às doiradas alvoradas
Eólias, O Guesa errante, O novo Éden. [reza.
Após sua morte foram encontrados Ora, no mar Pacífico renascem
manuscritos inéditos: as Harpas d’ouro
e as Liras perdidas. Os sentimentos, qual depois de
[um sonho
Iniciou sua produção poética na
Os olhos de um menino se
segunda geração romântica, prolongan-
[comprazem
do-a pela terceira geração. Produziu um
trabalho original e inovador, mantendo Grande-abertos aos céus de luz
poucas ligações com seus contempo- [risonhos.
râneos. Demonstrou forte preocupação Vasta amplidão – imensidade -iludem,
social. Côncavos céus, profunda
[redondeza
O Guesa Do mar em luz – Quão amplos se
[confundem
O poema O Guesa errante (ou sim-
plesmente O Guesa) constitui seu prin- Na paz das águas e da natureza!
cipal trabalho, no qual utilizou uma tradi- Nem uma vaga, nem florão d’espuma,
ção religiosa dos incas para elaborar
Ou vela ou íris à grandiosa calma,
um quadro poético da América. Entre os
incas, o guesa era um garoto afastado Onde eu navego (reino-amor de
dos pais e criado para o sacrifício ritual [Numa)
ao deus sol, sendo educado no templo Qual navegava dentro da minha
deste deus até os quinze anos. A partir [alma!
— 208 —

Eis-me nos horizontes luminosos! Ó Lamartine! os cândidos países


Eu vejo, qual eu via, os mundos Vejo, os longos além-mundos
[Andes, [sonhados,
Terríveis infinitos tempestuosos, Onde os fortes revivem, que
Nuvens flutuando – os espetác’los [felizes
[grandes – São da tribo e dos seus sempre
Eia, imaginação divina! Abrazo [lembrados.
Do pensamento eterno – ei-lo As regiões formosas, onde as almas
[magnífico Habitam, dos guerreiros, que
Aos Andes, que ondam alto ao [lutaram
[Chimborazo, A existência, onde estão no Deus
Aos raios d’Ínti, à voz do mar [das calmas
[Pacífico! E’i tranqüilos na glória
Ondam montanhas, rebentadas curvas [descansaram!
Lançando umas sobre as outras, Caem trevas dos céus; anfiteatros
[êneas, turvas, Vão densas nuvens removendo
Ante o manto extensíssimo de prata [à proa;
De uma nuvem, quão límpida e Do relâmpago as armas, nave e
[quão grata! [mastros
Ondam ermos, rochedo alto e selvagem; E tudo, ameaçam co’o trovão que
S’estende o cortinado, a áurea [atroa.
[teagem; Tarde este céu despertam, que nos tomam
Sempre véu-luz à cada negra vaga Pelo inimigo invasor, e as cataratas
Desses abismos, onde até se Rompem hiemais em Guaiaquil e
[apaga [assomam
Do dia o resplendor mais fulguroso Ao Guesa, em vez de amor,
De revérbero à ausência; e mais [sombras ingratas.
[rareia Diria-se que os gênios da revolta
Cerúleo, tão sagrado, tão saudoso – Apagam toda aurora, toda estrela
Névoa, espiritual, etérea areia! Mesmo em céu do Equador –
Pureza criadora! ao pensamento
“Satânea escolta,
O místico velame, que não arde,
Sustai o corso em minha pátria
Doce qual as solidões do sentimento [bela!”
Ouvindo voz celeste que nos (Apud Massaud Moisés, A Literatura Brasileira através
[brade – dos textos, p. 208-209.)
— 209 —

À sombra das bananeiras,


Casimiro de Abreu
Debaixo dos laranjais!
(1839 – 1860)
Como são belos os dias
Casimiro José Marques de Abreu Do despontar da existência!
nasceu no Rio de Janeiro em 1839. Seu - Respira a alma inocência
pai era um abastado fazendeiro e nego-
ciante português. Viveu sua infância no Como perfumes a flor;
campo, deixando-o com o intuito de es- O mar é – lago sereno,
tudar Humanidades em Nova Friburgo. O céu – um manto azulado,
Antes de concluir seus estudos, foi para
O mundo – um sonho dourado,
o Rio de Janeiro, a pedido do pai, exer-
cer o comércio, não obtendo grande A vida – um hino d’amor!
êxito. Em seguida seguiu para Lisboa,
iniciando-se como poeta e dramaturgo. Que auroras, que sol, que vida,
Retorna ao Rio, trazendo consigo os Que noites de melodia
manuscritos das Canções do êxito, que, Naquela doce alegria,
juntamente com outros escritos, integram
Naquele ingênuo folgar!
sua única obra poética: Primaveras, de
1859. Um ano depois vem a falecer de O céu bordado d’estrelas,
tuberculose. A terra de aromas cheia,
Evocou a pátria e a infância com As ondas beijando a areia
lirismo saudosista. Idealizou a mulher, E a lua beijando o mar!
em um misto de sentimentalidade e ero-
tismo. Entre outros temas, trabalhou os Oh! dias da minha infância!
seguintes: Deus, natureza e morte. Pos- Oh! meu céu de primavera!
suía linguagem simples e marcada pela
Que doce a vida não era
musicalidade.
Nessa risonha manhã!

Meus Oito Anos Em vez das mágoas de agora,


Eu tinha nessas delícias
Oh! souvenirs! printemps! aurores!
V. Hugo De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida, Livre filho das montanhas,
Da minha infância querida Eu ia bem satisfeito,
Que os anos não trazem mais! Da camisa aberto o peito,
Que amor, que sonhos, que flores, - Pés descalços, braços nus -
Naquelas tardes fagueiras Correndo pelas campinas
— 210 —

À roda das cachoeiras, Tenho medo de mim, de ti, de tudo,


Atrás das asas ligeiras Da luz, da sombra, do silêncio ou
Das borboletas azuis! [vozes,
Das folhas secas, do chorar das
Naqueles tempos ditosos
[fontes,
Ia colher as pitangas,
Das horas longas a correr velozes.
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar; O véu da noite me atormenta em
Rezava às Ave-Marias, [dores,
Achava o céu sempre lindo, A luz da aurora me intumesce os
Adormecia sorrindo [seios,
E despertava a cantar! E o vento fresco do cair das tardes
(...) Eu me estremeço de cruéis receios.
Oh! que saudades que tenho
É que esse vento que na várzea –
Da aurora da minha vida,
[ao longe,
Da minha infância querida
Do colmo o fumo caprichoso
Que os anos não trazem mais!
[ondeia,
- Que amor, que sonhos, que flores,
Soprando um dia tornaria incêndio
Naquelas tardes fagueiras,
A chama viva que teu riso ateia!
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais! Ai! se abrasado crepitasse o
[cedro,
Amor e Medo
Cedendo ao raio que a tormenta
I [envia,
Quando eu te fujo e me desvio cauto Diz: - que seria da plantinha
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela, [humilde
Contigo dizes, suspirando amores: Que à sombra dele tão feliz
“- Meu Deus! que gelo, que frieza [crescia?
[aquela!”
A labareda que se enrosca ao
Como te enganas! meu amor é [tronco
[chama Torrara a planta qual queimara
Que se alimenta no voraz segredo, [o galho,
E se te fujo é que te adoro louco... E a pobre nunca reviver pudera
És bela – eu moço; tens amor – Chovesse embora paternal
[eu medo!... [orvalho
— 211 —

Minh’alma é Triste
Laurindo Rabelo
Mon coeur est plein – je veux pleurer!
Lamartine
(1826 – 1864)
IV
Laurindo José da Silva Rabelo nas-
Minh’alma é triste como o grito agudo ceu em 1826 no Rio de Janeiro. De ori-
Das arapongas no sertão deserto; gem mestiça e humilde, cursou a Esco-
la Militar, porém optou por Medicina, vin-
E como o nauta sobre o mar sanhudo,
do a formar-se na Faculdade da Bahia.
Longe da praia que julgou tão perto! Ficou muito conhecido por seus repen-
tes e solos de violão; compôs quadras,
A mocidade no sonhar florida
publicadas em 1853 intituladas Trovas.
Em mim foi beijo de lasciva virgem: Serviu no Exército durante alguns anos
- Pulava o sangue e me fervia a vida, como oficial médico e permaneceu como
professor adido à Escola Militar pouco
Ardendo a fronte em bacanal
antes de sua morte, em 1864. Utilizou
[vertigem.
fontes populares de forma criativa e
De tanto fogo tinha a mente cheia!... simples.
No afã da glória me atirei com ânsia...

Terceira Fase:
E, perto ou longe, quis beijar a s’reia
Que em doce canto me atraiu
[na infância.
Condoreira
Ai! loucos sonhos de mancebo
[ardente! Os poetas da terceira geração ro-
Esp’rança altas... Ei-las já tão rasas!... mântica voltam sua atenção para a
- Pombo selvagem, quis voar decadência da monarquia e para as lu-
[contente... tas abolicionistas. Entre os temas re-
correntes figura o sofrimento dos es-
Feriu-me a bala no bater das asas!
cravos, merecendo destaque no trata-
Dizem que há gozos no correr mento desta questão o baiano Castro
[da vida... Alves, que ficou conhecido como “o
poeta dos escravos”. Esta geração é
Só eu não sei em que o prazer chamada de condoreira devido ao sim-
[consiste! bolismo do condor, ave que voa a gran-
- No amor, na glória, na mundana lida, des alturas, transmitindo-nos a sensa-
Foram-se as flores – a minh’alma ção de liberdade. Além disso, os poetas
[é triste! nesse momento demonstram altivez e
(Apud Massaud Moisés, A Literatura Brasileira através grandiloqüência, características que se
dos textos, p. 172-177.) assemelham à ave.
— 212 —

Neste período, merecem destaque Poeta eloqüente, faz uso de forte


os oradores, com seus discursos per- sugestão visual e auditiva, além de hipér-
suasivos nos teatros ou nas praças boles e antíteses. Procurou comunicar-
públicas. A poesia torna-se uma forma se diretamente com o povo, com quem
de protesto político e de denúncia das identificava seus sentimentos.
injustiças sociais. O intimismo amoroso
ainda se faz presente, mas os poetas
O navio negreiro
passam a assumir um tom profético de
um mundo novo. O navio negreiro, conhecido poe-
ma de Castro Alves, mostra o sofrimento
dos negros ao serem transportados da
Castro Alves África para o Brasil em sujos navios,
nos quais chegavam a permanecer por
(1847 – 1871) cerca de três meses. Devido às condi-
ções precárias a que eram submetidos,
Antônio Frederico de Castro Alves muitos não resistiam e morriam no ca-
nasceu em 1847 na Bahia, onde reali- minho.
zou seus estudos secundários. Poste-
riormente ingressou na Faculdade de Este poema foi declamado por Cas-
Direito do Recife, mas não chegou a tro Alves pela primeira vez no dia 7 de
concluí-la. Apaixonou-se pela atriz Eu- setembro de 1868, numa comemoração
gênia Câmara, a quem escreveu uma da Independência do Brasil.
peça teatral, e com ela viveu por algum
tempo, não tardando a separar-se, o que I
lhe trouxe grande desânimo. Foi colega ‘Stamos em pleno mar... Doudo no
de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Sal- [espaço
vador Mendonça. Morreu de tuberculo-
se em 1871. Brinca o luar – dourada borboleta –

Escreveu Espumas Flutuantes E as vagas após ele correm...


(1870), Gonzaga ou A Revolução de Mi- [cansam
nas, teatro (1876), A Cachoeira de Pau- Como turba de infantes inquieta.
lo Afonso (1876), Os Escravos (1883).
Tais obras demonstram fortes tra- ‘Stamos em pleno mar...
ços da personalidade do autor, como a [Do firmamento
exaltação da natureza brasileira e a de- Os astros saltam como espumas
dicação às causas humanas e sociais, [de ouro...
entre elas o abolicionismo.
O mar em troca acende as ardentias,
Merece destaque a figura da mulher,
- Constelações do líquido tesouro...
não idealizada, mas envolvida por uma
atmosfera de erotismo e sensualidade. (...)
— 213 —

IV Outro, que de martírios embrutece,


Era um sonho dantesco... o Cantando, geme e ri!
[tombadilho
Que das luzernas avermelha o No entanto o capitão manda
[brilho, [a manobra.

Em sangue a se banhar. E após fitando o céu que se


[desdobra
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Tão puro sobre o mar,
Legiões de homens negros como
[a noite, Diz do fumo entre os densos
[nevoeiros:
Horrendos a dançar...
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Negras mulheres, suspendendo Fazei-os mais dançar!...”
[às tetas
E ri-se a orquestra irônica,
Magras crianças, cujas bocas
[estridente...
[pretas
E da ronda fantástica a serpente
Rega o sangue das mães:
Faz doudas espirais...
Outras, moças, mas nuas e
[espantadas, Qual num sonho dantesco as
[sombras voam!...
No turbilhão de espectros
[arrastadas, Gritos, ais, maldições, preces
[ressoam!
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se Satanás!...
E ri-se a orquestra, irônica,
[estridente... V

E da ronda fantástica a serpente Senhor Deus dos desgraçados!


Dizei-me vós, Senhor Deus!
Faz doudas espirais...
Se é loucura... se é verdade
Se o velho arqueja, se no chão
[resvala, Tanto horror perante os céus?!
Ouvem-se gritos... o chicote estala. Ó mar, por que não apagas
E voam mais e mais... Coa esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Presa nos elos de uma só cadeia, Astros! noite! Tempestades!
A multidão faminta cambaleia, Varrei os mares, tufão!
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro Quem são estes desgraçados
[enlouquece, Que não encontram em vós
— 214 —

Mais que o rir calmo da turba


Que excita a fúria do algoz?
Prosa
Quem são? Se a estrela se cala, Durante o Romantismo houve um
Se a vaga à pressa resvala significativo desenvolvimento da prosa
de ficção brasileira, sobretudo do ro-
Como um cúmplice fugaz,
mance, devido à existência de um públi-
Perante a noite confusa... co consumidor e de autores que iam ao
Dize-o tu, severa Musa, encontro das aspirações do mesmo.
Musa libérrima, audaz!... Diversos temas foram trabalhados,
destacando-se nitidamente o desejo de
São os filhos do deserto, criação de uma arte nacional. Dessa for-
ma, o romance romântico tornou-se um
Onde a terra esposa a luz.
modo de investigação da realidade bra-
Onde vive em campo aberto sileira.
A tribo dos homens nus... O teatro também se desenvolveu
São guerreiros ousados neste período, marcado por clara inten-
ção nacionalista e pelo aparecimento de
Que com os tigres mosqueados
um público urbano ligado ao comércio e
Combatem na solidão. à burocracia do governo imperial.
Homens simples, fortes, bravos... Com a consolidação do romance
Hoje míseros escravos, como texto preferido pelo público e a
tentativa de integrá-lo ao projeto nacio-
Se luz, sem ar, sem razão...
nalista do Romantismo, algumas tendên-
São mulheres desgraçadas, cias foram desenvolvidas. Entre estas
se destacam o romance de costumes, o
Como Agar o foi também. romance regionalista, o romance histó-
Que sedentas, alquebradas rico e o romance indianista. Merecem
destaque entre os romancistas desta
De longe... bem longe vêm.
fase Joaquim Manuel de Macedo, Manu-
Trazendo com tíbios passos, el Antônio de Almeida, José de Alencar,
Filhos e algemas nos braços, Bernardo Guimarães, Visconde de Tau-
nay e Franklin Távora. Já no teatro deve-
Nalma – lágrimas e fel...
se ressaltar a produção de Martins Pena.
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite do pranto José de Alencar
Tem que dar para Ismael.
(1829 – 1877)
(...)
(Apud Antonio Candido e José Aderaldo Castello, José Martiniano de Alencar nasceu
Presença da Literatura Brasileira, pp. 264-270.) em Mecejana, Ceará, em 1829. Realizou
— 215 —

seus estudos elementares e secundári- mascarar e denunciar certos aspectos


os no Rio de Janeiro e em 1843 mudou- da realidade social e individual, fazendo
se para São Paulo, a fim de cursar a dele, apesar da idealização romântica,
Faculdade de Direito. Já formado, em um modesto precursor de Machado de
1850 retorna ao Rio de Janeiro e atua Assis”.
como advogado e jornalista, além de
Entre seus escritos estão os ro-
dedicar-se ao funcionalismo e à política.
mances O Guarani (1857), Cinco Mi-
Faleceu em 1877.
nutos (1860), As Minas de Prata (1862),
Inicia sua carreira literária com as Lucíola (1862), Iracema (1865), O Gaú-
crônicas reunidas sob o título de Ao Cor- cho (1870), A Pata da Gazela (1870), O
rer da Pena (1856). Publica nesse mes- Tronco do Ipê (1871), Sonhos d’Ouro
mo ano artigos que criticam o poema épi- (1872), Til (1872), Ubirajara (1874),
co A Confederação dos Tamoios, de Gon- Senhora (1875), O Sertanejo (1875). Há
çalves de Magalhães. Além das críticas, também as peças teatrais A Noite de
propõe um programa de uma literatura na- São João (1857), O Rio de Janeiro –
cional, criada a partir das tradições indí- Verso e Reverso (1857), O Demônio
genas e da descrição da natureza, não Familiar (1858), As Asas de um Anjo
deixando de respeitar uma rigorosa cons- (1860), Mãe (1862), O Jesuíta (1875),
ciência estética. além de crônica, ensaio, biografia e dou-
trina política.
Pode-se dividir a obra de Alencar
em três fases. Na primeira, de 1856 a
O Guarani
1864, publicou alguns significativos ro-
mances e quase todos os seus textos
No ano de 1857, periodicamente os
teatrais. A segunda fase vai de 1866 a
folhetins do Diário do Rio de Janeiro
1869 e é composta somente por escritos
abrigavam em suas páginas parte do
políticos. Já na terceira fase, de 1870 a
enredo de O Guarani, que era aguarda-
1875, publica oito livros de ficção, mar-
do com grande expectativa pelo público
cando um novo momento em sua criação
leitor da época e encarado por este como
literária. literatura de entretenimento.
Em sua obra é indissociável a rela- A obra é composta de cinqüenta e
ção entre o ser humano e o mundo. De- quatro capítulos e estruturada em qua-
monstra forte percepção da realidade tro grandes partes: Os aventureiros,
social, chegando à descrição realista dos Peri, Os Aimorés e A Catástrofe.
costumes, das relações entre as pes-
soas e da vida interior. Segundo Antonio O tempo e o espaço são apresenta-
Candido e José Aderaldo Castello10, Alen- dos ao leitor na primeira parte. A ação
car demonstrou “a capacidade de des- ocorre em 1604, inicio de nossa coloni-

10
Antonio Candido e José Aderaldo Castello, Presença da Literatura Brasileira, p. 194.
— 216 —

zação. O cenário, descrito logo no início morte e, no final do romance, a narra-


da obra, é a selva, merecendo destaque ção sugere que ambos se unem, simbo-
por parte do autor o rio Paquequer, aflu- lizando a formação da nacionalidade
ente do Paraíba do Sul. Em meio a esta brasileira.
natureza surgirá o bravo índio Peri. Além
da selva, o espaço envolve a casa do O fragmento a seguir compõe o pri-
Paquequer, fortaleza semelhante a um meiro capítulo de O Guarani, em que o
narrador descreve a selva, principal ce-
castelo medieval, onde vive D. Antônio
nário do romance.
de Mariz, nobre valoroso, de conduta
regrada, que se estabeleceu no Brasil
depois da derrota dos portugueses em Primeira Parte: Os Aventureiros
Alcácer-Quibir e a anexação das coroas
portuguesa e espanhola no reinado de I – CENÁRIO
Felipe II.
De um dos cabeços da Serra dos
Aparecem nitidamente na obra dois Órgãos desliza um fio de água que se
elementos fundamentais caracteriza- dirige para o norte, e engrossado com
dores da colonização portuguesa: a in- os mananciais que recebe no seu curso
tenção catequizadora (Peri converte-se de dez léguas, torna-se rio caudal.
ao cristianismo) e o desejo de riqueza É o Paquequer: saltando de casca-
fácil. ta em cascata, enroscando-se como
Alencar demonstra sua visão do uma serpente, vai depois se espregui-
processo de colonização, em que no- çar na várzea e embeber no Paraíba,
que rola majestosamente em seu vasto
bres portugueses, ao lado de aventu-
leito.
reiros, estabelecem-se no país, trazen-
do hábitos e costumes que pouco a pou- Dir-se-ia que, vassalo e tributário
co se estendem aos índios. desse rei das águas, o pequeno rio, al-
tivo e sobranceiro contra os rochedos,
Nesse contexto sobressaem-se as
curva-se humildemente aos pés do su-
figuras de Ceci e Peri. Ceci, filha de D.
serano. Perde então a beleza selvática;
Antônio, é uma jovem bela, angelical e
suas ondas são calmas e serenas como
que demonstra nobreza de espírito. Peri
as de um lago, e não se revoltam contra
constitui-se um modelo de herói, pois
os barcos e as canoas que resvalam
demonstra possuir grandes virtudes, tais
sobre elas: escravo submisso, sofre o
como lealdade, força e coragem. Além
látego do senhor.
disso, faz lembrar o mito do bom selva-
gem de Rousseau, pois aparece como Não é neste lugar que ele deve ser
um ser humano de natureza essencial- visto; sim três ou quatro léguas acima
mente boa, não corrompido pela socie- de sua foz, onde é livre ainda, como o
dade. Por diversas vezes salva Ceci da filho indômito desta pátria de liberdade.
— 217 —

Aí, o Paquequer lança-se rápido A esplanada, sobre que estava


sobre o seu leito, e atravessa as flores- assentado o edifício, formava um semi-
tas como o tapir, espumando, deixando círculo irregular que teria quando muito
o pêlo esparso pelas pontas do roche- cinqüenta braças quadradas; do lado
do, e enchendo a solidão com o estampi- do norte havia uma espécie de escada
do de sua carreira. De repente, falta-lhe de lajedo feita metade pela natureza e
o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio metade pela arte.
recua um momento para concentrar as
suas forças, e precipita-se de um só Descendo dois ou três dos largos
arremesso, como o tigre sobre a presa. degraus de pedra da escada, encontra-
va-se uma ponte de madeira solidamen-
Depois, fatigado do esforço supre- te construída sobre uma fenda larga e
mo, se estende sobre a terra, e adorme- profunda que se abria na rocha. Conti-
ce numa linda bacia que a natureza for- nuando a descer, chegava-se à beira
mou, e onde o recebe como em um leito do rio, que se curvava em seio gracio-
de noiva, sob as cortinas de trepadei-
so, sombreado pelas grandes game-
ras e flores agrestes.
leiras e angelins que cresciam ao longo
A vegetação nessas paragens os- das margens.
tentava outrora todo o seu luxo e vigor;
(...)
florestas virgens se estendiam ao longo
das margens do rio, que corria no meio (José de Alencar, O Guarani, São Paulo: Ática, 1996,
das arcarias de verdura e dos capitéis p. 15-16.)

formados pelos leques das palmeiras.

Tudo era grande e pomposo no


cenário que a natureza, sublime artista, Visconde de Taunay
tinha decorado para os dramas majes- (1843 – 1899)
tosos dos elementos, em que o homem
é apenas um simples comparsa.
Alfredo d’ Escragnolle Taunay nas-
No ano da graça de 1604, o lugar ceu no Rio de Janeiro em 1843. Formou-
que acabamos de descrever estava se em Letras no Colégio Pedro II e em
deserto e inculto; a cidade do Rio de Ciências Físicas e Matemáticas na Es-
Janeiro tinha-se fundado havia menos cola Militar. Participou como engenheiro
de meio século, e a civilização não tive- militar da Guerra do Paraguai. Chegou
ra tempo de penetrar o interior.
ao cargo de Major, porém deixou o exér-
Entretanto, via-se à margem direita cito, passando a dedicar-se ao magis-
do rio uma casa larga e espaçosa, tério e à política. Abandonou-a em 1889,
construída sobre uma eminência, e pro- exercendo a função de Senador por le-
tegida de todos os lados por uma mura- aldade à Monarquia. Faleceu em 1899
lha de rocha cortada a pique. no estado natal.
— 218 —

Escreveu obras de ficção (A Mo-


cidade de Trajano – 1871; Inocência
Bernardo Guimarães
– 1872; Lágrimas do Coração – 1873; (1825 – 1884)
posteriormente divulgado com o título
de Manuscrito de uma mulher; Histó- Bernardo Joaquim da Silva Guima-
rias Brasileiras – contos – 1874; Nar- rães nasceu em Ouro Preto, Minas Ge-
rativas Militares – contos – 1878); li- rais, em 1825. Graduou-se em Direito
vros que tratam da guerra e do sertão em São Paulo e atuou como jornalista,
(Cenas de Viagem – 1868; Diário do juiz e professor. Faleceu em 1884 na
Exército – 1870; A Retirada da Lagu- cidade natal.
na – 1871; Céus e Terras do Brasil –
Escreveu poesia (Contos da Soli-
1882); depoimento e autobiografia (Re-
dão – 1852; Poesias – 1865; Novas
miniscências – 1908; Memórias –
Poesias – 1876; Folhas de Outono –
1948); Teatro (Por um triz Coronel –
1883); ficção (O Ermitão de Muquém –
1880; Amélia Smith – 1886; Da mão à
1869; Lendas e Romances – 1871; O
boca se perde a sopa – 1874); entre Garimpeiro – 1872; Lendas e Tradições
outros. da Província de Minas Gerais – 1872;
O Seminarista – 1872; O Índio Afonso -
Dentre seus romances podemos
1873; A Escrava Isaura – 1875; Maurí-
destacar Inocência, obra do regiona- cio ou Os Paulistas em São João d´El-
lismo romântico que nos apresenta o Rei – 1877; A Ilha Maldita, O Pão de
sertão mato-grossense, com sua lin- Ouro – 1879; Rosaura, a Enjeitada –
guagem, usos e costumes, além de dis- 1883; O Bandido do Rio das Mortes –
cutir o papel social da mulher nas cultu- 1904) e teatro (A voz do Pajé – 1914).
ras sertaneja e urbana.
Bernardo Guimarães expressou em
sua poesia o mundo exterior, demons-
Inocência trando a vivência no meio paulistano,
porém, vale mencionar como elementos
Inocência era filha única de Perei- mais relevantes de sua obra poética o
ra, mineiro viúvo. Nutria uma paixão por encanto pela vida, a natureza e o pra-
Cirino, curandeiro que fingia ser médico zer. Além disso, construiu textos dota-
dos de musicalidade e demonstrou forte
e que estava em sua casa a pedido do
preocupação com a métrica.
pai, a fim de tratar da saúde dela. Contu-
do, a jovem estava prometida a Manecão, A natureza causava-lhe grande fas-
rústico vaqueiro. Inocência e Cirino vi- cínio e, ao contrário de outros românti-
vem um romance, que é descoberto por cos, o autor de Folhas de Outono apre-
Tico, um anão que observava a moça. senta-a não como um espelho de seus
Manecão mata Cirino e passado algum estados de alma, mas como cenário
tempo Inocência morre. evocativo de sensações e sentimentos.
— 219 —

Ao descrever os quadros naturais, oportuno falar de uma naturalidade em


relaciona a vivência afetiva à experiên- Bernardo Guimarães do que propriamen-
cia proporcionada pela natureza. Des- te em naturalismo.
sa forma, acentua-se nele a saudade e
a busca pela solidão e o isolamento, a
fim de reencontrar o equilíbrio que o cam-
O Seminarista
po pode proporcionar. Descreve rios,
animais e outros elementos da paisa- Considerado pela crítica o melhor
gem que evoca e acaba por relembrar de seus livros, O Seminarista retrata o
antigos amores. sentimento amoroso de um jovem padre
por uma amiga de infância. Eugênio e
O satanismo e a perversidade tam- Margarida entregam-se ao amor, porém
bém fizeram parte de sua poesia, ao a moça morre e ele enlouquece.
lado de um tom melancólico e triste. En-
tretanto, este cedeu lugar à serenidade, Bernardo Guimarães mostra o con-
a um aguçado senso de humor e a uma flito interior de Eugênio, que oscila entre
atitude otimista diante da vida, traço im- uma disposição espiritual e um anseio
portante de sua obra. amoroso, mais precisamente a contra-
dição entre carne e espírito.
No que diz respeito ao texto narra-
tivo, Bernardo Guimarães adotou como I
principais cenários para seus romances
os sertões mineiro e goiano, caso das A uma légua, pouco mais ou menos,
importantes obras O Ermitão do Mu- da antiga vila de Tamanduá, na província
quém, O Seminarista, O Garimpeiro, O de Minas Gerais, e a pouca distância da
Índio Afonso, A Filha do Fazendeiro. estrada que vai para a vizinha vila da
Formiga, via-se, há de haver quarenta
Observa a vida sertaneja, com anos, uma pequena e pobre casa, mas
seus tipos humanos, marcados por con- alva, risonha e nova. Uma porta e duas
dições psíquicas e sociais peculiares. janelinhas formavam toda a sua frente.
As paixões amorosas são tratadas
Um estreito caminho, partindo da
de forma natural e por diversas vezes
porta da casa, cortava o vargedo e ia
aparecem vinculadas a manifestações
atravessar o capão e o córrego, por uma
fisiológicas. Com a mesma naturalidade
pontezinha de madeira, fechada do ou-
os instintos se fazem presentes, sendo
tro lado por uma tronqueira de varas.
as heroínas marcadas não tanto pela
Junto à ponte, de um lado e outro do ca-
beleza, mas pela sensualidade.
minho, viam-se duas corpulentas pai-
Apesar de apontar para alguns neiras, cujos galhos, entrelaçando-se no
elementos do naturalismo, como bem ar, formavam uma arcada de verdura, à
ressaltou Antônio Cândido11 seria mais entrada do campo onde pastava o gado.

Antônio Cândido e José Aderaldo Castello, Formação da Literatura Brasileira, v. 2, p. 215.


11
— 220 —

Era uma bela tarde de janeiro. Dois - Pois vamos lá com isso, Margari-
meninos brincavam à sombra das pai- da, exclamou Eugênio, vindo ao chão de
neiras: um rapazinho de doze a treze um salto, e ambos foram ajuntar as pou-
anos e uma menina, que parecia ser cas vacas que ali andavam pastando.
pouco mais nova do que ele.
- Arre! Com mil diabos!... que bezer-
A menina era morena, de olhos rada mofina! – exclamou o rapaz tan-
grandes, negros e cheios de vivacida- gendo os bezerros. – Por que é que es-
de, de corpo esbelto e flexível como o tes bezerros da tia Umbelina andam
pendão da imbaúba. sempre assim tão magros?
O rapaz era alvo, de cabelos cas- - Ora! Pois, que é que você quer?
tanhos, de olhar meigo e plácido e em Mamãe tira quase todo o leite das va-
sua fisionomia como em todo o seu ser cas, e deixa um pinguinho só para os
transluziam indícios de uma índole pa- pobres bezerros. Por isso mesmo qua-
cata, doce e branca. se nenhuma cria pode vingar, e algum
A menina, sentada sobre a relva, que escapa mamãe vende logo.
despencava um molho de flores silves-
- E por que é que ela não te dá uma
tres de que estava fabricando um rama- bezerrinha? aquela vermelhinha estava
lhete, enquanto seu companheiro, atra-
bem bonita para você...
cando-se como um macaco aos galhos
das paineiras, balançou-se no ar, fazia - Qual!... não vê que ela me dá!... e
mil passes e piruetas para diverti-la. eu que tenho tanta vontade de ter a mi-
nha vaquinha. Há que tempo Dindinha
Perto deles, espalhados no var-
prometeu de me dar uma bezerra e até
gedo, umas três ou quatro vacas e mais
hoje estou esperando...
alguns reses estavam tosando tranqüi-
lamente o fresco e viçoso capim. - Mamãe?... ora!... é porque ela se
O sol, que já não se via no céu, to- esqueceu... deixa estar, que eu hei de
cava com uma luz de ouro os topes abau- falar com ela... mas não, eu mesmo é
lados dos altos espigões; uma aragem que hei de te dar uma novilha pintada
quase imperceptível mal rumorejava pe- muito bonitinha que eu tenho. Assim como
las abas do capão e esvoaçava por assim, eu tenho de me ir embora mesmo,
aquelas baixadas cheias de sombra. que quero eu fazer com a criação?

- Vamos, Eugênio. São horas... va- - Como é isso?... – exclamou Mar-


mos apartar os bezerros e tocar as va- garida com surpresa.
cas para a outra banda. - Pois você vai-se embora?...
Dizendo isto, a menina levanta-se
- Vou, Margarida; pois você ainda
da relva, e, atirando para trás dos om-
não sabia?...
bros os negros e compridos cabelos,
sacudiu do regaço uma nuvem de flores - Eu não; que me havia de contar?
despencadas. Para onde é que você vai, então?
— 221 —

- Vou para o estudo, Margarida; - Está dito, Margarida; prometo que


papai mais mamãe querem que eu vá há de ser você a primeira pessoa que
estudar para padre. hei de confessar; antes disso, não con-
fesso pessoa nenhuma, nenhuma des-
- Deveras, Eugênio!... ah! Meu
Deus!... que idéia!... e é muito longe esse ta vida; eu te juro, Margarida.
estudo? - Muito bem! muito bem! está dito.
Agora me conta, Eugênio; quando é que
- Eu sei lá; eles estão falando que
eu vou para Congonhas... você vai-se embora?
- É para o mês que vem...
- Congonhas!... ah! já ouvi falar nes-
sa terra; não é onde moram os padres - Ah! meu Deus! pois já tão depres-
santos?... ah! meu Deus! isso é muito sa! e você não há de ficar com saudade
longe! de mim!...
- Qual longe!... tanta gente já tem - Se fico!... muita, muita saudade,
ido lá e vem outra vez. Mamãe já man- Margarida: - quando penso nisso fico
dou fazer batina, sobrepeliz, barrete e tão triste, que me dá vontade de chorar.
tudo. Quando tudo ficar pronto, eu hei
- E eu, pobre de mim!... como vou
de vir cá vestido de padre para você
ficar tão sozinha! com quem é que eu
ver que tal fico.
hei de brincar daqui em diante?... não
- Tomara eu ver já!... você há de sei como há de ser, meu Deus!...
ficar um padrinho bem bonitinho!
(...)
- E quando eu for padre, você há (Bernardo Guimarães, O Seminarista, São Paulo, Ática,
de ir por força ouvir a minha primeira 1973, p. 7-9.)
missa, não há de, Margarida?...
- Se hei de!... e também mais um A Escrava Isaura
coisa, que hei de fazer... adivinha o que
é?... Dentre os livros de Bernardo Gui-
marães, A Escrava Isaura foi o que ob-
- O que é?... fala.
teve mais popularidade, apesar de pe-
- Mamãe costuma dizer, que eu já car por alguns exageros românticos.
estou ficando grande, e que daqui a um
Retrata a história de uma escrava
ano bem posso me confessar, e para
branca, educada com refinamento e que
isso anda me ensinando doutrina; mas
sofria com as injustiças e crueldades
eu não tenho ânimo de me confessar a
de um senhor.
padre nenhum... Deus me livre! tenho
um medo... uma vergonha! mas com você Uma imponente fazenda em Cam-
é outro caso estou pronta, e por isso pos, no Recife, compõe o cenário deste
não quero me confessar enquanto você romance, que aborda a questão abolicio-
não for padre... nista, muito discutida na época.
— 222 —

Segundo Antônio Cândido12, pos-


Joaquim Manuel suía uma visão da sociedade e do ho-
de Macedo mem estreita e superficial, além de pou-
co senso estético.
(1820 – 1882)
Joaquim Manuel de Macedo nasceu A moreninha
em São João do Itaboraí, Rio de Janeiro,
em 1820. Graduou-se em Medicina, po- Carolina e Augusto se amavam e já
rém não chegou a atuar como médico. haviam até jurado eterna felicidade em
Exerceu o magistério no Colégio Pedro sua infância, porém o pai do rapaz se
II, foi deputado e jornalista. Faleceu no opunha ao relacionamento. Apesar dis-
Rio de Janeiro no ano de 1882. so, após alguns contratempos o casa-
mento se consuma e assiste-se a um
A sua obra de maior importância é A
final feliz.
Moreninha (1844), pois se tornou um mar-
co para o romance brasileiro, além de ob- VI
ter grande sucesso junto ao público. Tra-
balha neste romance a posição da mu- Augusto com seus amores
lher, considerada na época meio de enri- (...)
quecimento ou qualificação através do ca-
samento, já que as moças costumavam D. Carolina, pelo contrário, havia
casar levando um dote a seu futuro mari- rejeitado dez braços. Queria passear
do. Contudo, transmitiu uma visão con- só. Um braço era uma prisão e a engra-
servadora, reforçando nas mulheres a çada Moreninha gostava, sobretudo, da
idéia de que eram destinadas ao casa- liberdade. Ela queria correr, saltar e en-
mento e só através dele encontrariam a treter com as outras diante de todos, e
felicidade. Além de romances, escreveu daqui a pouco ser a última no passeio,
contos, novelas, teatro, poesia, relatos viva, com os olhos brilhantes, ágil, e com
biográficos, sátiras de costumes, crôni- seu pezinho sempre pronto para a car-
cas e obras de caráter didático. Eis algu- reira; inocente para não se envergonhar
mas de suas obras: O Moço Loiro (1845), de suas travessuras e criada com mimo
A Luneta Mágica; O Cego (1849); O Novo demais para prestar atenção ao conse-
Otelo (1860); A Nebulosa (1857); Me- lho de seu irmão, estava em toda a par-
mórias do Sobrinho de meu Tio (1868). te, via, observava tudo, e de tudo tirava
Sua prosa assemelha-se à fala diá- partido para rir-se. Em contínua hostili-
ria, estando seus romances muito pró- dade com todas aquelas que passea-
ximos da narrativa oral. Além disso, pro- vam com moços, de cada vista d’olhos,
curava observar o mundo a sua volta e de cada suspiro, de cada ação que per-
retratava-o com certa simplicidade. cebia, tirava motivo para seus epigra-

Ibid, p. 127.
12
— 223 —

mas; e, inimigo invencível, porque não - Não, minha senhora, o único par-
tinha fraco por onde fosse atacado, era tido que eu procuro e tenho conseguido
por isso temido e arriscado. Deixemo-la, tirar, é o sossego de que há algum tem-
pois, correr e saltar, aparecer e desapa- po gozo.
recer ao mesmo tempo; nem à nossa pena - Como?
é dado o poder de acompanhá-la, que
ela é tão rápida como o pensamento. - É uma história muito longa, mas que
eu resumirei em poucas palavras. Com
Finalmente, o pobre Augusto en- efeito, não sou tal qual me pintei durante
controu uma senhora que teve piedade o jantar. Não tenho a louca mania de
dele. Estão afastados do resto da com- amar um belo ideal, como pretendi fazer
panhia, e conversavam. Vamos ouvi-los. crer; porém, o certo é que eu sou e que-
- Com efeito, disse a srª d. Ana, ro ser inconstante com todas e conser-
devo confessar que me espantei ouvin- var-me firme no amor de uma só.
do-o sustentar com tão vivo fogo a in- - Então o senhor já ama?
constância do amor.
- Julgo que sim.
- Mas, minha senhora, não sei por - A uma moça?
que se quer espantar!... é uma opinião.
- Pois então a quem?
- Um erro, senhor!... ou, melhor ain-
- Sem dúvida bela?...
da, um sistema perigoso e capaz de pro-
duzir grandes males. - Creio que deve ser.
- Pois o senhor não sabe?...
- Eis o que também me espanta!
- Juro que não.
- Não senhor, nada há aqui que
- O seu semblante?
exagerado seja; rogo-lhe que por um
instante pense comigo: se o seu siste- - Não me lembro dele.
ma é bom, deve ser seguido por todos; - Mora na corte?...
e se assim acontecesse, onde iria as- - Ignoro-o.
sentar o sossego das famílias, a paz
- Vê-a muitas vezes?
dos esposos, se lhe faltava a sua base
– a constância?... - Nunca.
- Como se chama?
Augusto guardou silêncio e ela con-
tinuou: - Desejo sabê-lo.
- Que mistério!...
- Eu devo crer que o sr. Augusto
pensa de maneira absolutamente diver- - Eu devo mostrar-me grato à bon-
sa daquela pela qual se explicou; con- dade com que tenho sido tratado, satis-
sinta que lhe diga: no seu pretendido fazendo a curiosidade que vejo muito
sistema, o que há é muita velhacaria; avivada no seu rosto; e, pois, a senho-
finge não se curvar por muito tempo di- ra vai ouvir o que ainda não ouviu ne-
ante de beleza alguma, para plantar no nhum dos meus amigos, o que eu não
amor-próprio das moças o desejo de tri- lhes diria, porque eles provavelmente
unfar de sua inconstância. rir-se-iam de mim. Se deseja saber o
— 224 —

mais interessante episódio de minha rárias. Faleceu em 1861 no naufrágio


vida, entremos nesta gruta, onde prati- do vapor Hermes, próximo de Macaé.
caremos livres de testemunhas e mais
Memórias de um Sargento de Milí-
em liberdade. cias constituiu sua única obra de desta-
Entraram. que pela originalidade. Foi publicada em
folhetins anônimos e depois em dois
Era uma gruta pouco espaçosa e volumes (1854-55).
cavada na base de um rochedo que do-
minava o mar. Entrava-se por uma aber- Trata-se de um romance de costu-
tura alta e larga, como qualquer porta mes que retrata as camadas populares
ordinária. Ao lado direito havia um bando do Rio de Janeiro na época de D. João
de relva, em que poderiam sentar-se a VI, com suas festas religiosas, os ajus-
gosto três pessoas; no fundo via-se uma tes matrimoniais, além de expor os hábi-
pequena bacia de pedra, onde caía, gota tos pouco castos do clero.
a gota, límpida e fresca água que do alto
O protagonista é Leonardo, filho
do rochedo se destilava; preso por uma
enjeitado de Leonardo Pacata e de Ma-
corrente à bacia de pedra, estava um
ria da Hortaliça, que fora criado pelo
copo de prata, para servir a quem qui-
padrinho e depois pela madrinha e des-
sesse provar da boa água do rochedo.
de cedo dava demonstrações de traqui-
Foi este lugar escolhido por Augus- nagem. Amava Luisinha, mas esta se
to para fazer suas revelações à digna casara com José Manoel. É preso pelo
hóspeda. Major Vidigal, depois ganha a liberdade
e torna-se praça. Algum tempo depois
O estudante, depois de certificar-
retorna à prisão, novamente é liberto e é
se de que toda a companhia estava lon-
promovido a sargento de milícias. José
ge, veio sentar-se junto da sr.ª d. Ana,
Manuel morre e Leonardo casa-se com
no banco de relva, e começou a história
Luisinha.
dos seus amores.
Joaquim Manuel de Macedo, A Moreninha, São Paulo,
Melhoramentos, 1963, pp. 64-67.
Frânklin Távora
(1842 – 1888)
Manuel Antônio de Almeida
(1831 – 1861) João Frânklin da Silveira Távora nas-
ceu em 1842, em Baturité, Ceará. Estu-
dou Direito em Pernambuco e transferiu-
De origem humilde, Manuel Antônio
se para o Rio de Janeiro. Trabalhou como
de Almeida nasceu em 1831 no Rio de
funcionário e co-diretor da Revista Bra-
Janeiro. Cursou a Escola de Belas Ar-
sileira, a qual fundou. Faleceu em 1888
tes, porém não chegou a concluí-la. Em
no Rio de Janeiro.
1855 formou-se médico, mas não exer-
ceu a profissão. Foi jornalista e funcio- Escreveu ficção (O Cabeleira –
nário público e freqüentou as rodas lite- 1876; O Matuto – 1878); teatro (Um
— 225 —

Mistério de Família) e crítica (Cartas a de teatro e folhetins anônimos intitulados


Cincinato – 1870). de Semana Lírica, ganhando prestígio
junto ao público. Dirigiu-se a Londres em
Teatro 1847 como funcionário da Embaixada.
Tempos depois adoeceu de tuberculose
e faleceu no Brasil em 1848.
Martins Pena Escreveu muitas comédias: O Juiz
de Paz na Roça; Quem casa, quer
(1815 – 1848) casa; Um Segredo de Estado.
Luís Carlos Martins Pena nasceu no Utilizou-se da linguagem coloquial
Rio de Janeiro em 1815. Estudou comér- e explorou o contato de tipos roceiros
cio entre 1832 e 1834. Escreveu peças com a Corte.

Resumo do Romantismo
Momento sócio-cultural Autores e obras
• Recém independente, o Brasil pro- • Gonçalves Dias: considerado o pri-
cura afirmar sua individualidade meiro poeta genuinamente nacional,
como nação, busca o reconhecimen- deixou obra vasta, destacando-se Pri-
to perante outras nações. meiros Cantos (1847), Os Timbiras
• Ascensão da burguesia e de seus (1857), Últimos Cantos (1851).
valores: liberdade individual e libera- • Álvares de Azevedo: maior nome
da geração mal-do-século. Escreveu
lismo. Porém, logo surge insatisfa-
Lira dos Vinte Anos (1853), Noite
ção com o cotidiano da vida burgue-
na Taverna (1855), Macário (1855).
sa, o que gera um sentimento de
• Castro Alves: expoente da gera-
tédio e desencanto com o mundo, ção condoreira, denunciou a escra-
expressos pela arte romântica. vidão, defendeu a liberdade e exal-
Características literárias tou a mulher. Deixou Espumas Flu-
tuantes (1870), A Cachoeira de Pau-
• Negação dos valores pregados pelo
lo Afonso (1876).
Arcadismo: a arte deve ser subjeti- • José de Alencar: defensor de uma
va, emotiva, sua força deve estar literatura realmente brasileira, que ali-
no conteúdo; o artista expõe seu asse consciência nacional ao rigor
mundo interior. estético. De sua vasta e influente
• O culto à forma é rejeitado. Em nome obra, destacamos O Guarani
da liberdade de expressão o artista (1857), Iracema (1865), Ubirajara
dispõe da forma como bem entende. (1874), O Sertanejo (1875).
• Os temas principais do Romantismo • Manuel Antônio de Almeida: dei-
(introversão, tédio, nacionalismo, xou Memórias de um Sargento de
amor, morte) são tratados de forma Milícias (1855), importante retrato do
sentimental e imaginativa. Rio de Janeiro do período joanino.
— 226 —

Realismo-Naturalismo
A economia açucareira encontra- enunciar a noção de evolução. Todavia,
se em decadência e esta situação agra- foi Darwin quem expôs os processos
va-se ainda mais com a extinção do trá- pelos quais a evolução das linhagens
fico negreiro em 1850. Com isso, o eixo determina a das populações. O avanço
econômico desloca-se para o Sul e há da medicina e das ciências biológicas é
um ambiente favorável ao pensamento percebido em sua obra A Origem das
liberal, abolicionista e republicano. O país Espécies (1859).
recebe influências do Positivismo e Evo-
lucionismo. Com tais idéias em voga, há um
campo propício para o desenvolvimento
O Positivismo foi criado por Augusto de uma nova estética literária: o Realis-
Comte (1798-1857) com o Curso de Fi- mo, que se opõe ao Romantismo, con-
losofia Positiva, obra em seis volumes, trapondo-se ao caráter espiritualista e
publicada entre 1830 e 1842. Nela de- idealizador do mesmo.
fende a importância crucial da Ciência
para a vida do homem em sociedade. O Realismo tem início no Brasil em
Propõe o abandono da Teologia e da 1881, com a publicação de Memórias
Metafísica e sugere a busca do conhe- Póstumas de Brás Cubas, de Machado
cimento “positivo” da realidade, ou seja, de Assis. Paralelamente ao Realismo,
concreto, objetivo e obtido através da caminha o Naturalismo, que principia
análise e experimentação. no mesmo ano, com a publicação de O
Mulato, de Aluísio de Azevedo. O Rea-
A filosofia positiva influenciou ou- lismo-Naturalismo tem seu término em
tros pensadores, entre eles Proudhon, 1902, com o surgimento de Os Sertões,
que forneceu a base para as idéias so- de Euclides da Cunha, e Canaã, de Gra-
cialistas por meio de seus escritos em ça Aranha, obras que marcam o princí-
jornais e obras como Filosofia do Pro- pio de um novo período literário: o Pré-
gresso (1835) e Sistemas das Contra- Modernismo.
dições Econômicas (1846). Além des-
te, Hipólito Taine baseou-se nas idéias Os escritores desse período pro-
de Comte para apresentar a sua teoria curam descrever os costumes e as re-
determinista da obra de arte, condicio- lações entre os seres humanos com
nada a alguns fatores: herança, meio e maior realidade.
momento histórico.
O Naturalismo pode ser conside-
O Evolucionismo é uma teoria fun- rado como o Realismo levado até as
damentada na idéia de evolução dos últimas conseqüências. Procura dar ex-
seres vivos. Lamarck foi o primeiro a plicações científicas para o comporta-
— 227 —

mento e as atitudes dos personagens. cantil e em seguida no Diário do Rio de


Estes são encarados como produtos Janeiro, não deixando de colaborar com
de fatores externos, biológicos ou so- a imprensa da Corte. Passou a ser fun-
ciais: meios físicos, raça e hereditarie- cionário público a partir de 1875. Exer-
dade. Os escritores analisam as con- ceu os cargos de Primeiro-Oficial da
seqüências das doenças, taras, vícios Secretaria da Agricultura, Diretor da Di-
na formação da personalidade. Soma- retoria-Geral do Comércio e Diretor-Ge-
do a isso, observam a influência da na- ral da Viação. Fundou, com outros es-
tureza, meio social, família e educação critores, em 1897, a Academia Brasilei-
nos personagens. ra de Letras, da qual foi presidente até
sua morte em 1908.
Os realistas eram anti-românticos,
objetivos e racionalistas. Postulavam a Cultivou quase todos os gêneros
primazia da razão sobre o sentimento e literários, compondo extensa e fecunda
a arte compromissada, engajada. Enxer- obra, da qual fazem parte os romances:
gavam a Ciência como a solução para Ressurreição (1872), A Mão e a Luva
os problemas do homem. (1874), Helena (1876), Iaiá Garcia
(1878), Memórias Póstumas de Brás
Faziam de seus romances um la-
Cubas (1881), Quincas Borba (1891),
boratório em que objetivavam provar a
Dom Casmurrro (1899), Esaú e Jacó
teoria de que determinados persona-
(1904), Memorial de Aires (1908).
gens, vivendo num certo meio e em da-
das circunstâncias e com determinada Foi o maior escritor do período e um
carga genética obrigatoriamente agiri- dos mais importantes, senão o de maior
am de uma determinada forma. importância, da literatura brasileira. Em
seus livros fazia profundas reflexões
sobre o ser humano e sua condição, os
Machado de Assis mistérios da alma humana, além de ser
(1839 – 1908) refinadamente irônico.

Filho de um pintor mulato e uma la- Memórias Póstumas de


vadeira portuguesa, Joaquim Maria Ma- Brás Cubas
chado de Assis nasceu em 1839 no
Morro do Livramento, Rio de Janeiro. O romance Memórias Póstumas de
Ainda em tenra idade ficou órfão e foi Brás Cubas foi publicado inicialmente
criado pela madrasta. Aprendeu a ler em folhetim na Revista Brasileira, do
numa escola pública e teve aulas de fran- Rio de Janeiro, em 1880. No ano poste-
cês e latim com um padre amigo. Contu- rior, foi publicado na forma de livro. É
do, logo teve de trabalhar para auxiliar narrado em primeira pessoa por um morto
no sustento da família. Tornou-se, en- que tenta refazer a história de sua vida,
tão, um autodidata. Foi tipógrafo e revi- recordando os momentos marcantes da
sor. Em 1858 ingressou no Correio Mer- infância até a morte, não necessaria-
— 228 —

mente seguindo uma ordem linear, mas um autor defunto, mas um defunto au-
acompanhando o fluxo das lembranças. tor, para quem a campa foi outro berço;
Entre outras coisas, recorda a paixão a segunda é que o escrito ficaria assim
adolescente pela prostituta Marcela e o mais galante e mais novo. Moisés, que
grande amor de sua vida: Virgília, espo- também contou a sua morte, não a pôs
sa de Lobo Neves. no intróito, mas no cabo: diferença radi-
cal entre este livro e o Pentateuco.
Brás Cubas sempre almejou a imor-
talidade. Não obteve os meios para con- Dito isto, expirei às duas horas da
segui-la em vida: não se casou, não teve tarde de uma sexta-feira do mês de agos-
filhos, não foi político, tampouco reali- to de 1869, na minha bela chácara de
zou grandes contribuições científicas, Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro
apesar de sua tentativa, o emplasto. anos, rijos e prósperos, era solteiro, pos-
Entretanto, após sua morte, consegue suía cerca de trezentos contos e fui
realizar seu intento escrevendo uma acompanhado ao cemitério por onze
obra póstuma. amigos. Onze amigos! Verdade é que
não houve cartas nem anúncios. Acres-
O capítulo a seguir é o primeiro do ce que chovia – peneirava – uma chuvi-
livro, em que o narrador apresenta-se nha miúda, triste e constante, tão cons-
como um “defunto autor” e inicialmente tante e tão triste, que levou um daqueles
reflete sobre a própria construção da fiéis da última hora a intercalar esta en-
narrativa, discutindo como deveria genhosa idéia no discurso que proferiu
começá-la. Em seguida, relata sua mor- à beira de minha cova: - “Vós, que o
te e reconstrói o quadro de seu enterro, conhecestes, meus senhores, vós po-
mostrando com sutileza e ironia os jo- deis dizer comigo que a natureza pare-
gos de interesse e as atitudes dissimu- ce estar chorando a perda irreparável
ladas dos indivíduos e desmascarando de um dos mais belos caracteres que
a hipocrisia da sociedade. Merece des- têm honrado a humanidade. Este ar som-
taque a caracterização psicológica dos brio, estas gotas do céu, aquelas nu-
personagens, realizada com maestria vens escuras que cobrem o azul como
pelo escritor. um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua
CAPÍTULO I e má que lhe rói à natureza as mais ínti-
mas entranhas; tudo isso é um sublime
ÓBITO DO AUTOR louvor ao nosso ilustre finado.”
Algum tempo hesitei se devia abrir Bom e fiel amigo! Não, não me arre-
estas memórias pelo princípio ou pelo pendo das vinte apólices que lhe deixei.
fim, isto é, se poria em primeiro lugar o E foi assim que cheguei à cláusula dos
meu nascimento ou a minha morte. Su- meus dias; foi assim que me encaminhei
posto o uso vulgar seja começar pelo para o undiscovered country de Hamlet,
nascimento, duas considerações me le- sem as ânsias nem as dúvidas do moço
varam a adotar diferente método: a pri- príncipe, mas pausado e trôpego como
meira é que eu não sou propriamente quem se retira tarde do espetáculo. Tar-
— 229 —

de e aborrecido. Viram-me ir umas nove diante chegou a ser deliciosa. A vida


ou dez pessoas, entre elas três senho- estrebuchava-me no peito, com uns ím-
ras, minha irmã Sabina, casada com o petos de vaga marinha, esvaía-se-me a
Cotrim, a filha, - um lírio do vale, - e... consciência, eu descia à imobilidade fí-
Tenham paciência! daqui a pouco lhes sica e moral, e o corpo fazia-se-me plan-
direi quem era a terceira senhora. Con- ta, e pedra, e lodo, e cousa nenhuma.
tentem-se de saber que essa anônima, Morri de uma pneumonia, mas se
ainda que não parenta, padeceu mais lhe disser que foi menos a pneumonia,
do que as parentas. É verdade, pade- do que uma idéia grandiosa e útil, a cau-
ceu mais. Não digo que se carpisse, não sa da minha morte, é possível que o lei-
digo que se deixasse rolar pelo chão, tor me não creia, e todavia é verdade.
convulsa. Nem o meu óbito era cousa Vou expor-lhe sumariamente o caso.
altamente dramática... Um solteirão que Julgue-o por si mesmo.
expira aos sessenta e quatro anos, não
parece que reúna em si todos os ele- (Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás
Cubas, São Paulo: Globo, 1997, p. 1-3.)
mentos de uma tragédia. E dado que sim,
o que menos convinha a essa anônima
era aparentá-lo. De pé, à cabeceira da Quincas Borba
cama, com os olhos estúpidos, a boca
entreaberta, a triste senhora mal podia Quincas Borba já havia aparecido
crer na minha extinção. como personagem em Memórias Pós-
“Morto! morto!” dizia consigo. tumas, expondo suas idéias referentes
ao Humanitismo a Brás Cubas. Em Quin-
E a imaginação dela, como as cego-
cas Borba, a figura do filósofo e louco
nhas que um ilustre viajante viu desferi-
reaparece, morando em Barbacena, Mi-
rem o vôo desde o Ilisso às ribas africa-
nas Gerais. O protagonista procura ex-
nas, sem embargo das ruínas e dos tem-
por os princípios do Humanitismo a Ru-
pos, - a imaginação dessa senhora tam-
bião, ingênuo provinciano que se torna
bém voou por sobre os destroços pre-
seu enfermeiro.
sentes até às ribas de uma África juve-
nil... Deixá-la ir; lá iremos mais tarde; lá O sistema filosófico de Quincas
iremos quando eu me restituir aos pri- Borba pode ser sintetizado na luta de
meiros anos. Agora, quero morrer tran- duas tribos pela sobrevivência, simboli-
qüilamente, metodicamente, ouvindo os zada por um campo de batatas que
soluços das damas, as falas baixas dos ambas disputam. O personagem extrai
homens, a chuva que tamborila nas fo- sua concepção do Humanitismo: “Ao
lhas de tinhorão da chácara, e o som vencido, ódio ou compaixão; ao vence-
estrídulo de uma navalha que um dor, as batatas”. Demonstra com objeti-
amolador está afiando lá fora, à porta de vidade e certa frieza que a sobrevivên-
um correeiro. Juro-lhes que essa or- cia e a ascensão social cabe aos mais
questra da morte foi muito menos triste fortes, os vencedores, seja quais fo-
do que podia parecer. De certo ponto em rem os meios que utilizem para tanto.
— 230 —

Após expor suas idéias a Rubião, - Foi no Rio de Janeiro, começou


Quincas Borba morre e faz dele seu ele, defronte da Capela Imperial, que era
herdeiro universal, com apenas uma então Real, em dia de grande festa; mi-
condição: cuidar de seu cão, que carre- nha avó saiu, atravessou o adro, para ir
gava o nome do dono. ter à cadeirinha, que a esperava no Lar-
go do Paço. Gente como formiga. O povo
Rubião, por sua própria trajetória queria ver entrar as grandes senhoras
de vida, comprova a tese do Humani- nas suas ricas traquitanas. No momen-
tismo. Herdeiro de grande fortuna, dei- to em que minha avó saía do adro para ir
xa-se enganar pelo ambicioso casal à cadeirinha, um pouco distante, acon-
Palha, Cristiano e Sofia. Enquanto Cris- teceu espantar-se uma das bestas de
tiano propõe negócios a Rubião, Sofia uma sege; a besta disparou, a outra imi-
faz com que ele nutra por ela vãs es- tou-a, confusão, tumulto, minha avó caiu,
peranças. Aos poucos Rubião começa e tanto as mulas como a sege passa-
a dar indícios de loucura e perde toda a ram-lhe por cima. Foi levada em braços
sua fortuna, ao passo que o casal pros- para uma botica da Rua Direita, veio um
pera nos negócios e enriquece, após sangrador, mas era tarde; tinha a cabe-
tê-lo enganado. Dessa forma, Macha- ça rachada, uma perna e o ombro parti-
do vai compondo a sociedade burgue- dos, era toda sangue; espirou minutos
sa do Segundo Reinado, trabalhando depois.
questões como a loucura e o abando-
no e mostrando como os mais fortes - Foi realmente uma desgraça, dis-
sobressaem-se em relação aos mais se Rubião.
fracos. - Não.
O trecho seguinte apresenta uma - Não?
conversa de Rubião com Brás Cubas, - Ouve o resto. Aqui está como se
em que este lhe apresenta a filosofia do tinha passado o caso. O dono da sege
Humanitismo, explicando-a a partir do estava no adro, e tinha fome, muita fome,
acontecimento que provocou a morte de porque era tarde, e almoçara cedo e
sua avó. pouco. Dali pôde fazer sinal ao cocheiro;
este fustigou as mulas para ir buscar o
CAPÍTULO VI
patrão. A sege no meio do caminho
- Para entenderes bem o que é a achou um obstáculo e derribou-o; esse
morte e a vida, basta contar-te como obstáculo era minha avó. O primeiro ato
morreu minha avó. dessa série de atos foi um movimento
de conservação: Humanitas tinha fome.
- Como foi?
Se em vez de minha avó, fosse um rato
- Senta-te. ou um cão, é certo que minha avó não
Rubião obedeceu, dando ao rosto morreria, mas o fato era o mesmo;
o maior interesse possível, enquanto Humanitas precisa comer. Se em vez de
Quincas Borba continuava a andar. um rato ou de um cão, fosse um poeta,
— 231 —

Byron ou Gonçalves Dias, diferia o caso - Mas que Humanitas é esse?


no sentido de dar matéria a muitos ne-
- Humanitas é o princípio. Há nas
crológios; mas o fundo subsistia. O uni-
cousas todas certa substância recôn-
verso ainda não parou por lhe faltarem
dita e idêntica, um princípio único, uni-
alguns poemas mortos em flor na cabe-
versal, eterno, comum, indivisível e
ça de um varão ilustre ou obscuro; mas
indestrutível, - ou, para usar a lingua-
Humanitas (e isto importa, antes de tudo),
gem do grande Camões:
Humanitas precisa comer.
Uma verdade que nas cousas anda,
Rubião escutava, com a alma nos
olhos, sinceramente desejoso de enten- Que mora no visíbil e invisíbil.
der; mas não dava pela necessidade a Pois essa substância ou verdade,
que o amigo atribuía a morte da avó. esse princípio indestrutível é que é
Seguramente o dono da sege, por muito Humanitas. Assim lhe chamo, porque re-
tarde que chegasse a casa, não morria sume o universo, e o universo é o ho-
de fome, ao passo que a boa senhora mem. Vais entendendo?
morreu de verdade, e para sempre. Ex-
plicou-lhe, como pôde, essas dúvidas, - Pouco; mas, ainda assim, como é
e acabou perguntando-lhe: que a morte de sua avó...

- E que Humanitas é esse? - Não há morte. O encontro de duas


expansões, ou a expansão de duas for-
- Humanitas é o princípio. Mas não,
mas, pode determinar a supressão de
não digo nada, tu não é capaz de enten-
uma delas; mas, rigorosamente, não há
der isto, meu caro Rubião; falemos de
morte, há vida, porque a supressão de
outra cousa.
uma é a condição da sobrevivência da
- Diga sempre. outra, e a destruição não atinge o princí-
Quincas Borba, que não deixara de pio universal e comum. Daí o caráter
andar, parou alguns instantes. conservador e benéfico da guerra. Su-
põe tu um campo de batatas e duas tri-
- Queres ser meu discípulo?
bos famintas. As batatas apenas che-
- Quero. gam para alimentar uma das tribos, que
- Bem, irás entendendo aos pou- assim adquire forças para transpor a
cos a minha filosofia; no dia em que a montanha e ir à outra vertente, onde há
houveres penetrando inteiramente, ah! batatas em abundância; mas, se as duas
nesse dia terás o maior prazer da vida, tribos dividirem em paz as batatas do
porque não há vinho que embriague campo, não chegam a nutrir-se sufici-
como a verdade. Crê-me, o Humanitismo entemente e morrem de inanição. A paz
é o remate das cousas; e eu, que o for- nesse caso é a destruição; a guerra é a
mulei, sou o maior homem do mundo. conservação. Uma das tribos extermina
Olha, vês como o meu bom Quincas a outra e recolhe os despojos. Daí a
Borba está olhando para mim? Não é alegria da vitória, os hinos, aclamações,
ele, é Humanitas... recompensas públicas e todos os de-
— 232 —

mais efeitos das ações bélicas. Se a Dom Casmurro


guerra não fosse isso, tais demonstra-
ções não chegariam a dar-se, pelo mo- Dom Casmurro foi publicado em
tivo real de que o homem só comemora 1899 e tem como personagens principais
e ama o que lhe é aprazível ou vantajo- Bentinho e Capitu, que desde a infância
so, e pelo motivo racional de que nenhu- comportam-se como dois apaixonados.
ma pessoa canoniza uma ação que vir- Contudo, a mãe do garoto queria sua or-
tualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou denação, o que não ocorre porque o agre-
compaixão; ao vencedor, as batatas. gado José Dias intervém. Bentinho e
Capitu casam-se e vivem por muito tem-
- Mas a opinião do exterminado? po felizes, mas sem filhos, tendo por
- Não há exterminado. Desaparece amigos Escobar, colega de seminário de
o fenômeno; a substância é a mesma. Bentinho, e Sancha, sua esposa. Final-
Nunca viste ferver água? Hás de lem- mente conseguem ter um filho: Ezequiel.
brar-te que as bolhas fazem-se e des- Este, ao crescer, passa a imitar as pes-
fazem-se de contínuo, e tudo fica na soas que o rodeiam, entre elas Escobar.
mesma água. Os indivíduos são essas Isso provoca grande ciúme e frustração
bolhas transitórias. em seu pai, que procura não demonstrá-
los. Após a morte de Escobar, Bentinho
- Bem; a opinião da bolha... acredita mesmo que Capitu o tenha traído
e que Ezequiel seja filho de Escobar. Re-
- Bolha não tem opinião. Aparente-
solve suicidar-se, depois muda de idéia e
mente, há nada mais contristador que
expulsa a mulher e o filho de casa. Pas-
uma dessas terríveis pestes que devas-
sados alguns anos, Capitu falece na Eu-
tam um ponto do globo? E, todavia, esse
ropa e o jovem Ezequiel na Ásia.
suposto mal é um benefício, não só por-
que elimina os organismos fracos, inca- O que mais nos chama atenção no
pazes de resistência, como porque dá romance é o fato de não podermos afir-
lugar à observação, à descoberta da mar com exatidão se Capitu realmente
droga curativa. A higiene é filha de po- traiu ou não Bentinho, pois é ele quem
dridões seculares; devemo-la a milhões nos narra a história, envolvendo-nos
de corrompidos e infectos. Nada se per- com o véu de seu ciúme patológico e
de, tudo é ganho. Repito, as bolhas fi- obcecação pela esposa.
cam na água. Vês este livro? É D. O trecho a seguir mostra-nos a fi-
Quixote. Se eu destruir o meu exemplar, gura de Capitu, sob o olhar atento e des-
não elimino a obra que continua eterna lumbrado de Bentinho:
nos exemplares subsistentes e nas edi-
ções posteriores. Eterna e bela, bela- CAPÍTULO XXXII
mente eterna, como este mundo divino e
supradivino. OLHOS DE RESSACA

(Machado de Assis, Quincas Borba, São Paulo: Globo, Tudo era matéria às curiosidades
1997, p. 6-9.) de Capitu. Caso houve, porém, no qual
— 233 —

não sei se aprendeu ou ensinou, ou se E se não fosse preciso alguém para


fez ambas as cousas, como eu. É o que vencer já, e de todo, não se lhe falaria.
contarei no outro capítulo. Neste direi Eu já nem sei se José Dias poderá influir
somente que, passados alguns dias do tanto; acho que fará tudo, se sentir que
ajuste com o agregado, fui ver a minha você realmente não quer ser padre, mas
amiga; eram dez horas da manhã. D. poderá alcançar?... Ele é atendido; se,
Fortunata, que estava no quintal, nem porém... é um inferno isto! Você teime
esperou que eu lhe perguntasse pela com ele, Bentinho.
filha.
- Teimo; hoje mesmo ele há de falar.
- Está na sala penteando o cabelo,
- Você jura?
disse-me; vá devagarzinho para lhe pre-
gar um susto. - Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.
Fui devagar, mas ou o pé ou o es- Tinha-me lembrado a definição que
pelho traiu-me. Este pode ser que não José Dias dera deles, “olhos de cigana
fosse; era um espelhinho de pataca oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o
(perdoai a barateza), comprado a um que era oblíqua, mas dissimulada sabia,
mascate italiano, moldura tosca, argoli- e queria ver se se podiam chamar as-
nha de latão, pendente da parede, entre sim. Capitu deixou-se fitar e examinar.
as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Só me perguntava o que era, se nunca
Um ou outro, a verdade é que, apenas os vira; eu nada achei extraordinário; a
entrei na sala, pente, cabelos, toda ela cor e a doçura eram minhas conheci-
voou pelos ares, e só lhe ouvi esta per- das. A demora da contemplação creio
gunta: que lhe deu outra idéia do meu intento,
imaginou que era um pretexto para mirá-
- Há alguma cousa?
los mais de perto, com os meus olhos
- Não há nada, respondi; vim ver longos, constantes, enfiados neles, e a
você antes que o Padre Cabral chegue isto atribuo que entrassem a ficar cres-
para a lição. Como passou a noite? cidos, crescidos e sombrios, com tal
expressão que...
- Eu bem. José Dias ainda não falou?
- Parece que não. Retórica dos namorados, dá-me
uma comparação exata e poética para
- Mas então quando fala? dizer o que foram aqueles olhos de
- Disse-me que hoje ou amanhã pre- Capitu. Não me acode imagem capaz de
tende tocar no assunto; não vai logo de dizer, sem quebra da dignidade do esti-
pancada, falará assim por alto e por lon- lo, o que eles foram e me fizeram. Olhos
ge, um toque. Depois, entrará em maté- de ressaca? Vá, de ressaca. É o que
ria. Quer primeiro ver se mamãe tem a me dá idéia daquela feição nova. Trazi-
resolução feita... am não sei que fluido misterioso e
energético, uma força que arrastava
- Que tem, tem, interrompeu Capitu. para dentro, como a vaga que se retira
— 234 —

da praia, nos dias de ressaca. Para não


ser arrastado, agarrei-me às outras
Raul Pompéia
partes vizinhas, às orelhas, aos bra- (1863 – 1895)
ços, aos cabelos espalhados pelos
ombros, mas tão depressa buscava as Raul d’Ávila Pompéia nasceu em
pupilas, a onda que saía delas vinha 1863 no Rio de Janeiro, onde realizou
crescendo, cava e escura, ameaçando seus estudos secundários. Cursou Di-
envolver-me, puxar-me e tragar-me. reito em São Paulo e no Recife. Seguiu a
Quantos minutos gastamos naquele carreira jornalística e defendeu o
jogo? Só os relógios do céu terão mar- abolicionismo. Lecionou mitologia na Es-
cado esse tempo infinito e breve. A eter- cola de Belas Artes e foi diretor da Bibli-
nidade tem as suas pêndulas; nem por oteca Nacional.
não acabar nunca deixa de querer sa-
ber a duração das felicidades e dos De temperamento questionador e
suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem- inquieto, suicidou-se na noite de Natal
aventurados do céu conhecer a soma de 1895, com apenas trinta e dois anos
dos tormentos que já terão padecido no de idade.
inferno os seus inimigos; assim também Escreveu crônicas, contos, remi-
a quantidade das delícias que terão go- niscências, poemas em prosa e roman-
zado no céu os seus desafetos aumen- ces, publicados nos jornais em que tra-
tará as dores aos condenados do in- balhou, sendo a maioria apenas recen-
ferno. Este outro suplício escapou ao temente compilada em livros. Todavia,
divino Dante; mas eu não estou aqui há ainda obras não editadas em livros.
para emendar poetas. Estou para con-
tar que, ao cabo de um tempo não mar- Entre suas obras estão Uma Tra-
cado, agarrei-me definitivamente aos gédia no Amazonas (1880), O Ateneu
cabelos de Capitu, mas então com as (1888), Canções sem Metro e As Jóias
mãos, e disse-lhe, - para dizer alguma da Coroa (ambas edições póstumas,
cousa, - que era capaz de os pentear, publicadas em 1900 e 1962, respectiva-
se quisesse. mente).

- Você? Seu romance de maior relevância é


O Ateneu.
- Eu mesmo.
- Vai embaraçar-me o cabelo todo,
O Ateneu
isso sim.
- Se embaraçar, você desembara- Raul Pompéia inspirou-se nos seus
ça depois. anos de internato no Colégio Abílio para
escrever seu romance O Ateneu.
- Vamos ver.
Machado de Assis, Dom Casmurro, São Paulo: Globo. Tendo como subtítulo “Crônica de
1997, pp. 52-54. Saudades”, o romance possui como eixo
— 235 —

as experiências de Sérgio, narrador- num gesto, das ilusões de criança edu-


personagem já adulto, que recorda sua cada exoticamente na estufa de cari-
infância no internato de Aristarco Argolo nho que é o regime do amor doméstico,
de Ramos. diferente do que se encontra fora, tão
diferente, que parece o poema dos cui-
Não há um enredo propriamente
dados maternos um artifício sentimen-
dito, mas uma sucessão de episódios
tal, com a vantagem única de fazer mais
que denunciam a hipocrisia e falsidade
sensível a criatura à impressão rude do
presentes no colégio, culminando com o
primeiro ensinamento, têmpera brusca
incêndio do Ateneu.
da vitalidade na influência de um novo
A escola aparece como um espe- clima rigoroso. Lembramo-nos, entretan-
lho da sociedade, mostrando através to, com saudade hipócrita, dos felizes
da figura dos alunos e, sobretudo, do tempos: como se a mesma incerteza de
diretor Aristarco, como as relações so- hoje, sob outro aspecto, não nos hou-
ciais giram em torno dos interesses eco- vesse perseguido outrora e não viesse
nômicos. de longe a enfiada das decepções que
nos ultrajam.
Alem disso, os maiores sobrepõem-
se aos menores, ou seja, os mais fortes Eufemismo, os felizes tempos, eu-
ocupam posição privilegiada em relação femismo apenas, igual aos outros que
aos mais fracos. nos alimentam, a saudade dos dias que
correram como melhores. Bem conside-
O Ateneu soma aos elementos re-
rando, a atualidade é a mesma em todas
alistas-naturalistas a técnica impres-
as datas. Feita a compensação dos de-
sionista, em que se procura mais ofe-
sejos que variam, das aspirações que
recer um quadro das emoções e sen-
se transformam, alentadas perpetua-
sações vivenciadas do que propriamen-
mente do mesmo ardor, sobre a mesma
te discutir os acontecimentos e suas
base fantástica de esperanças, a atua-
causas.
lidade é uma. Sob a coloração cambian-
O fragmento transcrito a seguir te das horas, um pouco de ouro mais
compõe o primeiro capítulo do livro, em pela manhã, um pouco mais de púrpura
que o personagem central deixa a “es- ao crepúsculo – a paisagem é a mesma
tufa de carinho”, característica da vida de cada lado beirando a estrada da vida.
familiar, e adentra no internato, passa-
Eu tinha onze anos.
gem para a vida adulta, com todos os
sofrimentos e contradições. Freqüentava como externo, duran-
te alguns meses, uma escola familiar do
I
Caminho Novo, onde algumas senhoras
“Vais encontrar o mundo, disse-me inglesas, sob a direção do pai, distribu-
meu pai, à porta de Ateneu. Coragem íam educação à infância como melhor
para luta.” Bastante experimentei depois lhes parecia. Entrava às nove horas,
a verdade deste aviso, que me despia, timidamente, ignorando as lições com a
— 236 —

maior regularidade, e bocejava até às bandeiras, escolhida amostra da força


duas, torcendo-me de insipidez sobre dos estados, em proporções de micros-
os carcomidos bancos que o colégio cópio, que eu fazia formar a combate
comprara, de pinho e usado, lustrosos como uma ameaça tenebrosa ao equilí-
do contato da malandragem de não sei brio do mundo; que eu fazia guerrear
quantas gerações de pequenos. Ao em desordenado aperto, - massa tem-
meio-dia, davam-nos pão com mantei- pestuosa das antipatias geográficas,
ga. Esta recordação gulosa é o que mais encontro definitivo e ebulição dos se-
pronunciadamente me ficou dos meses culares ódios de fronteira e de raça,
de externato; com a lembrança de al- que eu pacificava por fim, com uma fa-
guns companheiros – um que gostava cilidade de Providência Divina, intervin-
de fazer rir à aula, espécie interessante do sabiamente, resolvendo as pendên-
de mono louro, arrepiado, vivendo a cias pela concórdia promíscua das cai-
morder, nas costas da mão esquerda, xas de pau. Força era deixar à ferru-
uma protuberância calosa que tinha; gem do abandono o elegante vapor da
outro adamado, elegante, sempre reti- linha circular do lago, no jardim, onde
rado, que vinha à escola de branco, talvez não mais tornasse a perturbar
engomadinho e radioso, fechada a blu- com a palpitação das rodas a sonolên-
sa em diagonal do ombro à cinta por cia morosa dos peixinhos rubros, dou-
botões de madrepérola. Mais ainda: a rados, argentados, pensativos à som-
primeira vez que ouvi certa injúria cres-
bra dos tinhorões, na transparência
pa, um palavrão cercado de terror no
adamantina da água...
estabelecimento, que os partistas de-
nunciavam às mestras por duas iniciais Mas um movimento animou-me, pri-
como em monograma. meiro estímulo sério da vaidade: distan-
ciava-me da comunhão da família, como
Lecionou-me depois um professor um homem! ia por minha conta empe-
em domicílio. nhar a luta dos merecimentos; e a confi-
Apesar deste ensaio da vida es- ança nas próprias forças sobrava. Quan-
colar a que me sujeitou a família, antes do me disseram que estava a escolha
da verdadeira provação, eu estava per- feita da casa de educação que me de-
feitamente virgem para as sensações via receber, a notícia veio achar-me em
novas da nova fase. O internato! Des- armas para a conquista audaciosa do
tacada do conchego placentário da die- desconhecido.
ta caseira, vinha próximo o momento de Um dia, meu pai tomou-me pela mão,
se definir a minha individualidade. Amar- minha mãe beijou-me a testa, molhando-
guei por antecipação o adeus às pri-
me de lágrimas os cabelos e eu parti.
meiras alegrias; olhei triste os meus brin-
quedos, antigos já! os meus queridos (...)
pelotões de chumbo! espécie de museu (Raul Pompéia, O Ateneu, São Paulo: Ática, 1990,
militar de todas as fardas, de todas as p. 11-12. )
— 237 —

Outros personagens compõem o ambi-


Aluísio Azevedo ente do cortiço: Pombinha, moça pura e
(1857 – 1913) humilde que se torna prostituta; Jerô-
nimo, português que vem morar no cor-
tiço com a mulher Piedade e a filha, mas
Aluísio Tancredo Gonçalves de acaba se envolvendo com a sensual Rita
Azevedo nasceu em São Luís do Mara- Baiana. Ambos são vítimas do determi-
nhão em 1857. Após concluir os estu- nismo social.
dos primários passa a trabalhar no co-
mércio. Em 1881, transfere-se para o O trecho a seguir apresenta-nos o
Rio de Janeiro e dedica-se ao jornalismo cortiço através da zoomorfização dos
e à literatura. Em seguida segue a car- personagens, que se assemelham a
reira diplomática. Falece em Buenos animais em sua descrição: “uma aglo-
Aires em 1913. meração tumultuosa de machos e fême-
as”, “o prazer animal de existir”. Além
Escreveu romances de grande in- disso, os elementos sensoriais (sons,
teresse social: O Mulato (1881), Casa cheiros e imagem) dão mais vivacidade
de Pensão (1884), O Coruja (1885), O e verossimilhança à cena.
cortiço (1890).
III
O cortiço Eram cinco horas da manhã e o cor-
tiço acordava, abrindo, não os olhos,
Publicado em 1890, O Cortiço cons- mas a sua infinitude de portas e janelas
tituiu o romance de maior importância de alinhadas.
Aluísio Azevedo e que melhor condensa
os ideais naturalistas. Um acordar alegre e farto de quem
dormiu de uma assentada, sete horas
Os personagens são lavadeiras, de chumbo. Como que se sentiam ainda
operários, prostitutas, indivíduos margi- na indolência de neblina as derradeiras
nalizados que vivem num ambiente po- notas da última guitarra da noite antece-
bre e promíscuo. O cortiço determina- dente, dissolvendo-se à luz loura e ten-
lhes o comportamento. ra da aurora, que nem um suspiro de
saudade perdido em terra alheia.
Destaca-se a figura de João Ro-
mão, português dono do cortiço, de uma A roupa lavada, que ficara de vés-
pedreira e uma venda. Enriquece à cus- pera nos coradouros, umedecia o ar e
ta da exploração dos empregados, que punha-lhe um farto acre de sabão ordi-
moram em seus casebres e fazem dívi- nário. As pedras do chão, esbranqui-
das ao comprar fiado em sua venda. É çadas no lugar da lavagem e em alguns
ajudado por sua empregada e amante pontos azuladas pelo anil, mostravam
Bertoleza, escrava fugida. Ambicioso, uma palidez grisalha e triste, feita de
usa de todos os meios para ficar rico. acumulações de espumas secas.
— 238 —

Entretanto, das portas surgiam ca- cansavam, era um abrir e fechar de cada
beças congestionadas de sono; ouvi- instante, um entrar e sair sem tréguas.
am-se amplos bocejos, fortes como o Não se demoravam lá dentro e vinham
marulhar das ondas; pigarreava-se gros- ainda amarrando as calças ou as saias;
so por toda a parte; começavam as xí- as crianças não se davam ao trabalho
caras a tilintar; o cheiro quente do café de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no
aquecia, suplantando todos os outros; capinzal dos fundos, por detrás da es-
trocavam-se de janela para janela as talagem ou no recanto das hortas.
primeiras palavras, os bons dias; reata-
O rumor crescia, condensando-se;
vam-se conversas interrompidas à noi-
o zunzum de todos os dias acentuava-
te; a pequenada cá fora traquinava já, e
se; já se não destacavam vozes dis-
lá dentro das casas vinham choros aba-
persas, mas um só ruído compacto que
fados de crianças que ainda não an-
enchia todo o cortiço. Começavam a fa-
dam. No confuso rumor que se forma-
zer compras na venda; ensarilhavam-
va, destacavam-se risos, sons de vo-
se discussões e resingas; ouviam-se
zes que altercavam, sem se saber onde,
gargalhadas e pragas; já não se falava,
grasnar de marrecos, cantar de galos,
gritava-se. Sentia-se naquela fermen-
cacarejar de galinhas. De alguns quar-
tação sangüínea, naquela gula viçosa
tos saíam mulheres que vinham pendu-
de plantas rasteiras que mergulham os
rar cá fora, na parede, a gaiola do papa-
pés vigorosos na lama preta e nutriente
gaio, e os louros, à semelhança dos
da vida, o prazer animal de existir, a
donos, cumprimentavam-se ruidosamen-
triunfante satisfação de respirar sobre
te, espanejando-se à luz nova do dia.
a terra.
Daí a pouco, em volta das bicas era (...)
um zunzum crescente; uma aglomera-
(Aluísio Azevedo, O cortiço, São Paulo: Ática, 1975.
ção tumultuosa de machos e fêmeas. p. 28-29. )
Uns, após outros, lavavam a cara, inco-
modamente, debaixo do fio de água que
escorria da altura de uns cinco palmos.
O chão inundava-se. As mulheres pre- Outros autores
cisavam já prender as saias entre as
coxas para não as molhar; via-se-lhes a
tostada nudez dos braços e do pesco-
ço, que elas despiam, suspendendo o Inglês de Sousa
cabelo todo para o alto do casco; os
homens, esses não se preocupavam em (1853 – 1918)
não molhar o pêlo, ao contrário metiam a
cabeça bem debaixo da água e esfrega- Herculano Marcos Inglês de Sou-
vam com força as ventas e as barbas, za nasceu no Pará em 1853. Graduou-
fossando e fungando contra as palmas se em Direito em São Paulo. Colaborou
da mão. As portas das latrinas não des- para a Revista Nacional de Ciências,
— 239 —

Artes e Letras. Dedica-se à política e de amor, em que se consuma o rapto da


chega a ser presidente das províncias esposa de um alferes, a qual passa a
do Sergipe e Espírito Santo, entre 1881 viver com ele e com quem tem duas fi-
e 1882. Exerce o magistério em univer- lhas. Deixa a Marinha a fim de trabalhar
sidade e luta pela democratização do na Tesouraria da Fazenda. Em 1892 vai
ensino primário. Colabora na fundação para o Rio de Janeiro, onde morre
da Academia Brasileira de Letras, em tuberculoso em 1897.
1897. Faleceu no Rio de Janeiro em
Escreveu Vôos Incertos (1886),
1918.
Judite e Lágrimas de um Crente (1887),
Escreveu O Cacaoalista (1876), A Normalista (1893), No País do Ianques
História de um Pescador (1876), O (1894), Bom-Crioulo (1895), Cartas Li-
Coronel Sagrado (1877), O Missioná- terárias (1895), Tentação (1896).
rio (1891) e Contos Amazônicos (1892),
sua obra de maior relevância.
Domingos Olímpio
Adolfo Caminha (1860 – 1906)
(1867 – 1897) Domingos Olímpio Braga Cavalcanti
nasceu no Ceará em 1860. Graduou-se
Adolfo Ferreira Caminha nasceu em em Direito no Recife. Foi promotor públi-
Aracati, Ceará, em 1867. Devido à seca co em Sobral e posteriormente transferi-
de 1877 muda-se para Fortaleza e em do para o Pará, onde ficou até 1890, ano
seguida para o Rio de Janeiro em 1883, em que se mudou para o Rio de Janeiro.
onde adentra para a Escola da Marinha. Passou a dedicar-se à carreira jornalística
Defende idéias abolicionistas e republi- e entre 1904 e 1906 dirigiu Os Anais,
canas. Como guarda-marinha em 1886 revista por ele fundada. Nesta revista
viaja para os Estados Unidos, onde se publicou seus romances O Almirante e
inspira para escrever seu livro de crôni- O Uirapuru. Em 1903 publica Luzia-Ho-
cas No País dos Ianques (1894). Re- mem, seu romance de maior importân-
gressa ao Ceará e envolve-se num caso cia. Faleceu no Rio de Janeiro em 1906.

Resumo do Realismo-Naturalismo
Momento sócio-cultural abolicionista desgastam o governo
de D. Pedro II, que perde continua-
mente o apoio dos grandes proprie-
• O Segundo Reinado está em crise: a
tários rurais.
Guerra do Paraguai (que custou
muitas vidas e dinheiro ao país) e a • O eixo econômico e de poder deslo-
cada vez mais intensa campanha ca-se para o Sul, devido à decadên-
— 240 —

cia da economia açucareira e à ex- biológicos, além de conduzido pelo


pansão da lavoura de café. papel que a sociedade lhe dá.
• Os meios intelectualizados do país
sofrem influência das teorias Autores e obras
cientificistas, como o positivismo, o
evolucionismo e o determinismo. • Machado de Assis: um dos fun-
dadores da Academia Brasileira de
Letras, é considerado o maior escri-
Características literárias tor da literatura brasileira. Sua obra
estuda a condição humana com muita
• As principais características do Rea- profundidade. Escreveu Helena
lismo são: objetividade, racionalismo, (1876), Iaiá Garcia (1878), Memó-
texto cuidadoso e objetivo, enga- rias Póstumas de Brás Cubas
jamento (a arte quer modificar uma (1881), Quincas Borba (1891), Dom
realidade injusta), crítica aos valo- Casmurro (1899), Esaú e Jacó
res religiosos e burgueses e ao (1904), Memorial de Aires (1908),
monarquismo. além de mais de duzentos contos.
• O retrato que os realistas fazem da • Raul Pompéia: autor crítico, que de-
sociedade é objetivo e implacável. Re- nunciou as instituições superadas
alizam análise psicológica dos perso- do Império. Sua obra mais importan-
nagens, por vezes muito profunda. te é o romance O Ateneu (1888),
baseado em sua experiência em co-
• Os autores naturalistas levam os
légio interno.
princípios realistas ao extremo. Sua
abordagem do homem e da socieda- • Aluísio Azevedo: introdutor e prin-
de pode ser chamada de biológica: cipal nome do Naturalismo no Brasil,
mostram o ser humano condiciona- escreveu O Mulato (1881), Casa de
do por patologias, taras e impulsos Pensão (1884), O Cortiço (1890).
— 241 —

Parnasianismo
No plano da prosa, a reação contra nos. Este último preconizou a teoria da
o Romantismo constituiu o Realismo. Já “arte pela arte”, ou seja, a idéia de que a
no plano da poesia, o combate ao senti- palavra deveria ser encarada como um
mentalismo produziu o que chamamos objeto e a estética teria que ser busca-
de Parnasianismo. da através de engenhoso trabalho e não
simplesmente por meio da inspiração. A
O movimento parnasiano iniciou-se
beleza seria, dessa forma, a única fina-
em 1882, com a publicação das Fan-
lidade da arte.
farras, de Teófilo Dias e prolongou-se até
aproximadamente 1922, quando recebeu Vale ressaltar que, além da Fran-
severas críticas dos modernistas. ça, o Brasil foi o único país em que se
manifestou o Parnasianismo.
O nome Parnasianismo tem sua ori-
gem no Parnasse Contemporain, uma A arte de escrever poesia foi com-
antologia de escritos de diversos poe- parada ao trabalho do escultor, pintor e
tas franceses que reagiam contra as até mesmo do ourives, pela paciência e
tendências românticas, organizada por atenção aos detalhes, que devem pos-
Lemerre em 1866. suir os poetas. Para tanto, deveriam
atentar para a rigidez formal, cuidando
Parnaso era o nome de um monte
da versificação, rima, sonoridade (ob-
grego, dedicado na Antiguidade às Mu-
tida através das aliterações e asso-
sas e a Apolo. De acordo com a mitolo-
nâncias).
gia, neste lugar havia a fonte Castália,
cujas águas inspiravam os poetas. O Os mais importantes poetas parna-
vocábulo Parnaso também foi utilizado sianos brasileiros compõem a “tríade
com o sentido de “grupo de poetas”, parnasiana”. São eles: Alberto de Olivei-
“antologia” e até mesmo de “poesia”. ra, Raimundo Correia e Olavo Bilac. Me-
Os escritores inspiravam-se em recem destaque também Vicente de Car-
Leconte de Lisle, que iniciou a descri- valho, Francisca Júlia e Artur de Aze-
ção objetiva do mundo e dos objetos, vedo.
utilizou temas da história antiga e dos
povos orientais e teve grande preocu-
pação com a forma, construindo versos Alberto de Oliveira
com ritmo, vocabulário raro e elementos (1857 – 1937)
sensoriais.

Baudelaire e Théophile Gautier tam- Antônio Mariano Alberto de Olivei-


bém muito influenciaram os parnasia- ra nasceu em Palmital de Saquarema,
— 242 —

Rio de Janeiro, em 1857. Estudou Medi- Vaso Grego


cina, mas deixou-a para estudar Farmá-
Esta de áureos relevos, trabalhada
cia, em que se graduou, porém não che-
gou a seguir carreira. Exerceu as fun- De divas mãos, brilhante copa,
ções de Diretor Geral da Instrução no [um dia,
Rio de Janeiro, entre 1893 e 1898, e de Já de aos deuses servir com
professor de Português e Literatura Bra- [cansada,
sileira. Auxiliou na fundação da Acade-
mia Brasileira de Letras e em 1924 foi Vinda do Olimpo, a um novo deus
chamado de “Príncipe do Poetas Brasi- [servia.
leiros”. Faleceu em 1937 em Niterói.
Era o poeta de Teos que a
Sua obra poética envolve, entre [suspendia
outros livros: Canções Românticas
Então, e, ora repleta ora esvasada,
(1878), Meridionais (1884), Sonetos e
Poemas (1885), Versos e Rimas (1895). A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.
Iniciou sua produção poética como
romântico, mas identificou-se com o
Parnasianismo, passando a seguir o ide- Depois... Mas o lavor da taça
al de “arte pela arte” e a enquadrar-se [admira,
na rigidez métrica que a escola literária Toca-a, e do ouvido aproximando-a,
propunha. [às bordas
Os poemas a seguir ilustram bem o Finas hás de lhe ouvir, canora e
caminho percorrido pelo escritor, que [doce,
não tinha grandes preocupações soci-
ais nem temáticas, mas buscava cons- Ignota voz, qual se da antiga lira
truir uma poesia bela, seguindo os mol- Fosse e encantada música das
des parnasianos, como o rigor na forma [cordas,
e a utilização de elementos da mitologia
clássica. Constrói uma poesia com Qual se essa voz de Anacreonte
musicalidade, fazendo uso de assonân- [fosse.
cias e aliterações. Além disso, faz refe-
rências à natureza, dotada de vida e Vaso Chinês
colorido, e menciona seu desejo de amar,
Entranho mimo aquele vaso! Vi-o,
resquício do Romantismo.
Casualmente, uma vez, de um
Os poemas “Vaso Grego” e “Vaso [perfumado
Chinês” mostram a descrição de obje-
tos. Os parnasianos costumavam tam- Contador sobre o mármor luzidio,
bém descrever figuras mitológicas, ce- Entre um leque e o começo de um
nas históricas e paisagens. [bordado.
— 243 —

Fino artista chinês, enamorado, Sei que um frêmito de asas


Nele pusera o coração doentio [multicores
Em rubras flores de um sutil Se ouvia. Eram insetos aos
[lavrado, [cardumes
Na tinta ardente, de um calor A rebolir, fosforescendo no ar.
[sombrio. Era a Criação toda, aves e flores,
Mas, talvez por contraste à Flores e sol, e astros e vaga-lumes
[desventura, A amar... a amar... E que ânsia em
Quem o sabe?... de um velho mim de amar!
[mandarim (Poesias, Rio de Janeiro, Garnier, 1912)
Também lá estava a singular figura;

Que arte em pintá-la! a gente


[acaso vendo-a, Raimundo Correia
Sentia um não sei quê com aquele (1850 – 1911)
[chim
De olhos cortados à feição de Raimundo da Mota Azevedo Cor-
[amêndoa. reia nasceu no litoral do Maranhão, a
(Apud Massaud Moisés, A Literatura Brasileira através bordo de um navio, em 1850. Graduou-
dos textos, p. 241) se em Direito em São Paulo no ano de
1882. Exerceu o cargo de Juiz durante
muito tempo na Província do Rio de Ja-
De “Alma em Flor”
neiro, em Minas Gerais e na Capital. Foi
II secretário das Finanças de Minas Ge-
rais em 1892 e professor de Direito em
Sei que um perfume intenso em
Ouro Preto, no mesmo ano. Foi eleito
[tudo havia.
para a Academia Brasileira de Letras e
Era, enfeitada e nova, a laranjeira, nomeado Segundo Secretário da Le-
E o pomar verde pela vez primeira gação do Brasil em Lisboa em 1897.
Florido; era na agreste serrania, Regressou à Pátria, exerceu novamen-
te a magistratura e o magistério. De
Com os botões de ouro e a saúde frágil, realizava um tratamento
[espata luzidia de neurastenia na França, quando mor-
Rachando ao sol, a tropical reu em 1911.
[palmeira;
São suas obras: Primeiros Sonhos
Era o sertão, era a floresta inteira
(1879), Sinfonias (1883), Versos e Ver-
Que em corimbos, festões e luz sões (1887), Aleluias (1891), Poesias
[se abria. (1898) e Lucindo filho (1898).
— 244 —

Demonstrava busca angustiada Vai coa sombra crescendo o vulto


pela transcendência e espírito românti- [enorme
co. Apesar disso, é classificado como Do baobá... E cresce n’alma o vulto
parnasiano por causa do apuro formal.
De uma tristeza, imensa,
Sua poesia é repleta de suges- [imensamente...
tões vagas e imprecisas e de musica-
lidade, assemelhando-se à poesia sim-
Fetichismo
bolista.
Escreveu poemas com temas mo- Homem, da vida as sombras
ralizantes e tom pessimista. Costuma- [inclementes
va utilizar como cenário a natureza e Interrogas em vão: - Que céus
ambientes noturnos, criando uma at- [habita
mosfera de magia e mistério. Deus? Onde essa região de luz
[bendita,
Banzo Paraíso dos justos e dos crentes?...

Visões que n’alma o céu do exílio Em vão tateiam tuas mãos trementes
[incuba,
As entranhas da noite erma, infinita,
Mortais visões! Fuzila o azul Onde a dúvida atroz blasfema e
[infando... [grita,
Coleia, basilisco de ouro, ondeando E onde há só queixas e ranger de
O Níger... Bramem leões de fulva [dentes...
[juba...
A essa abóbada escura, em vão
Uivam chacais... Ressoa a fera tuba [elevas

Dos cafres, pelas grotas Os braços para o Deus sonhado,


[retumbando, [e lutas
Por abarcá-lo; é tudo em torno
E a estralada das árvores, que
[trevas...
[um bando
De paquidermes colossais derruba... Somente o vácuo estreita em teus
[braços;
Como o guaraz nas rubras penas E apenas, pávido, um ruído
[dorme, [escutas
Dorme em nimbos de sangue o sol Que é o ruído dos teus próprios
[oculto... [passos!...
Fuma o saibro africano (Poesias completas, v.1, São Paulo, Companhia Editora
[incandescente... Nacional, 1948)
— 245 —

Mal Secreto quarto ano, mas deixou-a para estudar


Direito em São Paulo, não chegando, mais
Se a cólera que espuma, a dor uma vez, a concluir o curso. Exerceu as
[que mora funções de jornalista, funcionário públi-
N’alma, e destrói cada ilusão que co e inspetor escolar. Extremamente
[nasce, patriota, é de sua autoria a letra do hino
Tudo o que punge, tudo o que à bandeira. Teve participação em cam-
[devora panhas cívicas, em defesa do serviço
militar obrigatório e contra o analfabetis-
O coração, no rosto se
mo. Faleceu no Rio em 1918.
[estampasse;
Escreveu poesia (Poesias – 1888,
Se se pudesse, o espírito que Poesias Infantis – 1904, Tarde – 1919)
[chora, e prosa (Crônicas e Novelas – 1894,
Ver através da máscara da face, Ironia e Piedade – 1916, A Defesa Na-
cional – 1917, Bocage – 1917), além de
Quanta gente, talvez, que inveja
livros didáticos.
[agora
Nos causa, então piedade nos Foi hábil no manejo da métrica e dos
[causasse! versos, construindo poemas de rara per-
feição formal, porém “superficiais como
Quanta gente que ri, talvez, visão do homem”, como ressaltaram An-
[consigo tônio Cândido e José Aderaldo Castelo13.
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa! Profissão de Fé
O poeta compara seu trabalho ao
Quanta gente que ri, talvez existe, do ourives, que grava com paciência
Cuja ventura única consiste imagens no ouro. Da mesma forma o
escritor cria seus poemas; atentando
Em parecer aos outros venturosa!
para a versificação e as rimas.
(Poesia completa e prosa, Rio de Janeiro, José Aguilar,
1961, p. 135-136) Le poète est ciseleur,
Le ciseleur est poète.
Olavo Bilac Vítor Hugo

(1865 – 1918) Não quero o Zeus Capitolino,


Hercúleo e belo,
Olavo Brás Martins dos Guimarães
Bilac nasceu no Rio de Janeiro em 1865. Trabalhar no mármore divino
Cursou a Faculdade de Medicina até o Com o camartelo.

13
Ibid, p. 377.
— 246 —

Que outro – não eu! – a pedra corte E que o lavor do verso, acaso,
Para, brutal, Por tão sutil,
Erguer de Atena o altivo porte Possa o lavor lembrar de um vaso
Descomunal. De Becerril.
Mais que esse vulto extraordinário, E horas sem conto passo, mudo,
Que assombra a vista,
O olhar atento,
Seduz-me um leve relicário
A trabalhar, longe de tudo
De fino artista.
O pensamento.
Invejo o ourives quando escrevo:
Porque o escrever – tanta perícia,
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo Tanta requer,
Faz de uma flor. Que ofício tal... nem há notícia
De outro qualquer.
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo: Assim procedo. Minha pena
O alvo cristal, a pedra rara, Segue esta norma,
O ônix prefiro. Por te servir, Deusa serena,
Por isso, corre, por servir-me, Serena Forma!
Sobre o papel Deusa! A onda vil, que se avoluma
A pena, como em prata firme
De um torvo mar,
Corre o cinzel.
Deixa-a crescer; e o lobo e a espuma
Corre; desenha, enfeita a imagem, Deixa-a rolar!
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem Blasfemo, em grita surda e horrendo
Azul-celeste. Ímpeto, o bando
Venha dos Bárbaros crescendo,
Torce, aprimora, alteia, lima
Vociferando...
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima, Deixa-o: que venha e uivando passe
Como um rubim. - Bando feroz!

Quero que a estrofe cristalina, Não se te mude a cor da face


Dobrada ao jeito E o tom da voz!
Do ourives, saia da oficina
(Poesias, São Paulo: Francisco Alves, 1946,
Sem um defeito: pp. 5-10)
— 247 —

Via-láctea In Extremis
Nunca morrer assim! Nunca
“Via-láctea” compõe a segunda
[morrer num dia
parte do livro Poesias, constituída de
trinta e cinco sonetos. A temática cons- Assim! de um sol assim!
tante destes é o amor. Tu, desgrenhada e fria,
XX Fria! postos nos meus os teus
[olhos molhados,
Olha-me! O teu olhar sereno e
E apertando nos teus os meus
[brando
[dedos gelados...
Entre-me o peito, como um largo
[rio E um dia assim! de um sol assim!
De ondas de ouro e de luz, [E assim a esfera
[límpido, entrando Toda azul, no esplendor do fim da
O ermo de um bosque tenebroso [primavera!
[e frio.
Asas, tontas de luz, cortando o
Fala-me! Em grupos doudejantes, [firmamento!
[quando
Ninhos cantando! Em flor a terra
Falas, por noites cálidas de [toda! O vento
[estilo,
Despencando os rosais,
As estrelas acendem-se, [sacudindo o arvoredo...
[radiando,
Altas, semeadas pelo céu E, aqui dentro, o silêncio... E este
[sombrio. [espanto! e este medo!
Nós dois... e, entre nós dois,
Olha-me assim! Fala-me assim! [implacável e forte,
[De pranto
A arredar-me de ti, cada vez
Agora, de ternura cheia, [mais, a morte...
Abre em chispas de fogo essa
[pupila... Eu, com o frio a crescer no
[coração, - tão cheio
E enquanto eu ardo em sua luz, De ti, até no horror do derradeiro
[enquanto [anseio!
Em seu fulgor me abraso, uma Tu, vendo retorcer-se
[sereia [amarguradamente,
Soluce e cante nessa voz A boca que beijava a tua boca
[tranqüila! [ardente,
(Poesia, Rio de Janeiro: Garnier, 1902) A boca que foi tua!
— 248 —

E eu morrendo! e eu morrendo, Escreveu poesia (Ardentias –


1885; Relicário – 1888; Rosa, Rosa
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo
de Amor – 1902; Poemas e Canções
[o céu, e vendo
– 1908; Versos da Mocidade – 1909)
Tão bela palpitar nos teus olhos, e prosa (Páginas Soltas – 1911; Luizi-
[querida, nha – 1924).
A delícia da vida! a delícia da vida!

(Apud Antônio Candido e José Aderaldo Castelo, Francisca Júlia


Presença da Literatura Brasileira, pp. 384-385)
(1874 – 1920)

Outros autores Francisca Júlia da Silva Munster


nasceu em São Paulo em 1874 e fale-
ceu no mesmo estado em 1920. Escre-
veu Mármores (1895) e Esfinges (1903)
e foi fiel seguidora dos rígidos princípios
Vicente de Carvalho parnasianos.
(1866 – 1924)
Artur de Azevedo
Vicente Augusto de Carvalho nas-
ceu em Santos em 1866. Graduou-se (1855 – 1908)
em Direito em 1886. Exerceu as fun-
ções de advogado, político, juiz e de- Irmão de Aluísio Azevedo, ficou
sembargador. Defendeu idéias republi- mais conhecido como jornalista e come-
canas e abolicionistas; foi também fa- diógrafo. Retrata com fidelidade a soci-
zendeiro e negociante. Faleceu em São edade carioca do final do século, mar-
Paulo em 1924. cada pela vida boêmia.

Resumo do Parnasianismo

O Parnasianismo é a expressão do realismo no plano da poesia, com uma


produção objetiva, direta, que nomeia os objetos e seres sem exageros senti-
mentais. Assim, muitas das características realistas são aplicadas ao
Parnasianismo.
— 249 —

Simbolismo
A publicação das obras Missal e Os poetas fecham-se numa “torre
Broquéis de Cruz e Sousa em 1893 de marfim” e fazem culto do vago e do
marca o início do movimento simbolista, misterioso.
que se estende até 1902, com a publi-
cação de Os Sertões, de Euclides da
Cunha e Canaã, de Graça Aranha. Cruz e Sousa
Diferentemente do Parnasianismo, (1861 – 1898)
seu contemporâneo, não se assemelha
em nenhum aspecto ao Realismo-Natu-
João da Cruz e Sousa nasceu em
ralismo. Aproxima-se do Romantismo por
Santa Catarina em 1861, filho de escra-
seu caráter subjetivo.
vos negros. Concluiu o curso secundá-
Os simbolistas procuram recupe- rio no Ateneu Provincial Catarinense e
rar a unidade entre o material e espiritu- passou a exercer a função de profes-
al, assim como os românticos. Contudo, sor. Faleceu em 1898, vítima de tuber-
diferem destes por buscá-la aqui mes- culose.
mo na terra e não em uma vida após a
morte. Escreveu Tropos e Fantasias
(1885), Missal (1893), Broquéis (1893),
Acreditam na idéia do místico sue- Evocações (1898), Faróis (1900), Últi-
co Swedenborg de que tudo que existe mos Sonetos (1905).
no mundo natural depende do mundo
espiritual e, portanto, todos os elemen- Além de ter introduzido o Simbolis-
tos da natureza são correspondências. mo no Brasil, Cruz e Souza foi o escritor
Os objetos do mundo real constituem mais significativo desse movimento em
símbolos do mundo espiritual e devem nosso país.
ser decifrados.
Recebeu influência dos realistas,
Influenciados também por Mallarmé, compondo textos marcados por profun-
consideram a poesia como expressão do pessimismo e materialismo, e dos
dos mistérios da existência humana e parnasianos, demonstrando excessiva
buscam a sugestão através do uso do preocupação com a forma.
símbolo. Este é usado para revelar um
estado de alma.
Antífona
A música é tida pelos simbolistas
como a arte que melhor realiza a suges- Neste poema encontramos elemen-
tão. Por isso, elaboram textos que ex- tos tipicamente simbolistas: vaguidão,
pressam musicalidade. fluidez, utilização de objetos litúrgicos
— 250 —

(“incensos dos turíbulos das aras”), ima- de Virgens e de Santas


gens diurnas e noturnas, símbolos que [vaporosas...
despertam sensações e nos sensibili- Brilhos errantes, mádidas
zam para o transcendente. [frescuras
O poeta procura despertar os sen- e dolências de lírios e de rosas...
tidos do leitor: “Indefiníveis músicas su-
premas, harmonias da Cor e do Perfu- Indefiníveis músicas supremas,
me”. Chama a atenção deste para o Mis- harmonias da Cor e do Perfume...
tério de seus versos e, sobretudo, para Horas do Ocaso, trêmulas,
o Mistério da própria existência huma- [extremas,
na. Aparecem figuras oníricas: “Do So-
Réquiem do Sol que a Dor da Luz
nho as mais azuis diafaneidades”.
[resume...
A imagem da mulher surge sensu-
al, mas também idealizada: “Forças ori- Visões, salmos e cânticos serenos,
ginais, essência, graça de carnes de surdinas de órgãos flébeis,
mulher, delicadezas”. [soluçantes...
Composto de imagens fortes e vi- Dormências de volúpicos
brantes e permeado de musicalidade, o [venenos
poema termina com a imagem da morte: sutis e suaves, mórbidos,
“Tropel cabalístico da Morte”. [radiantes...
Alfredo Bosi, em seus estudos14,
Infinitos espíritos dispersos,
ressaltou que a utilização constante das
maiúsculas confere valor absoluto a inefáveis, edênicos, aéreos,
certos termos. Podemos citar alguns, no fecundai o Mistério destes versos
poema em questão: “Formas”, “Amor”, com a chama ideal de todos os
“Virgens”, “Santas”, “Cor”, “Perfume”, [mistérios.
“Ocaso”, “Dor”, “Luz”, “Mistério”, “So-
nho”, “Verso”, “Morte”. Do sonho as mais azuis
[diafaneidades
Ó Formas alvas, brancas, Formas
que fuljam, que na Estrofe se
[claras
[levantem
De luares, de neves, de neblinas!... e as emoções, todas as
Ó Formas vagas, fluidas, [castidades
[cristalinas... da alma do Verso, pelos versos
Incensos dos turíbulos das aras... [cantem.

Formas do Amor, constelarmente Que o pólen de ouro dos mais


[puras, [finos astros

14
Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira, p. 274.
— 251 —

fecundem e inflame a rima clara e


[ardente...
Alphonsus de Guimaraens
Que brilhe a correção dos (1870 – 1921)
[alabastros
sonoramente, luminosamente. Afonso Henriques da Costa Guima-
raens nasceu em Ouro Preto em 1870.
Forças originais, essência, graça Após a morte de sua prima e namorada
Constança, fica doente e vem para São
de carnes de mulher, delicadezas...
Paulo em 1891. Inicia o curso de Direito
Todo esse eflúvio que por ondas e passa a relacionar-se com poetas sim-
[passa bolistas. Já casado, exerce o cargo de
do Éter nas róseas e áureas juiz em Minas Gerais, até sua morte, em
[correntezas... 1921.
Escreveu Setenário das Dores de
Cristais diluídos de clarões álacres,
Nossa Senhora e Câmara Ardente
desejos, vibrações, ânsias, (1899), Dona Mística (1899), Kiriale
[alentos, (1902), Pauvre Lyre (1921), Pastoral aos
fulvas vitórias, triunfamentos acres, Crentes do Amor e da Morte (1923), A
os mais estranhos Escada de Jacó (1938).
[estremecimentos... O tema mais recorrente em sua
Flores negras do tédio e flores poesia é a morte da amada, objeto de
[vagas sua idealização. Além deste, também
são freqüentes a devoção religiosa e a
de amores vão, tantálicos,
morte.
[doentios...
O poema a seguir é um dos mais
Fundas vermelhidões de velhas
famosos do escritor, contendo uma lin-
[chagas
guagem simples e pleno de musicalidade.
em sangue, abertas, escorrendo Nele utiliza redondilhas maiores, influ-
[em rios... ência da tradição lírica medieval. Ismália
pode ser considerada símbolo do an-
Tudo! vivo e nervoso e quente e seio do ser humano pela transcendência.
[forte, A morte é encarada como meio de as-
nos turbilhões quiméricos do censão e liberação.
[Sonho,
passe, cantando, ante o perfil Ismália
[medonho Quando Ismália enlouqueceu,
e o tropel cabalístico da Morte... Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
(Apud Antônio Candido e José Aderaldo Castelo,
Presença da Literatura Brasileira, pp. 395-396) Viu outra lua no mar.
— 252 —

No sonho em que se perdeu, Escreveu apenas duas obras: Eu


Banhou-se toda em luar... (1912) e Eu e Outras Poesias (1919),
porém de grande valor literário.
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar... Sua poesia é marcada por um tom
pessimista e pela utilização de um voca-
E, no desvario seu, bulário científico e uma linguagem agres-
Na torre pôs-se a cantar... siva.

Estava perto do céu, Oscila entre elementos parnasianos


Estava longe do mar... (apuro formal) e simbolistas (musica-
lidade), sendo poeta de difícil classifica-
E como um anjo pendeu ção estética e também considerado pré-
modernista.
As asas para voar...
Queria a lua do céu, Como podemos perceber nas poe-
Queria a lua do mar... sias que se seguem, carece de um sen-
tido existencial e demonstra profunda
As asas que Deus lhe deu angústia diante da vida, que caminha
para o destino fatal: a morte e a desinte-
Ruflaram de par em par...
gração. Daí o sofrimento e a sensação
Sua alma subiu ao céu, de impotência em relação ao destino.
Seu corpo desceu ao mar...
(Clássicos da Poesia Brasileira, São Paulo: Klick Psicologia de um vencido
Editora, 1997, pp. 165-166)
Eu, filho do carbono e do
[amoníaco,

Augusto dos Anjos Monstro de escuridão e rutilância,


Sofro, desde a epigênese da
(1884 – 1914) [infância,
A influência má dos signos do
Augusto de Carvalho Rodrigues [zodíaco.
dos Anjos nasceu no engenho Pau
D’Arco, no estado do Paraíba, em 1884. Profundissimamente
Formou-se no Liceu Paraibano e, poste- [hipocondríaco,
riormente, graduou-se em direito no Re-
Este ambiente me acusa
cife em 1905. Foi professor em João
[repugnância...
Pessoa, depois se transferiu em 1910
para o Rio de Janeiro e em 1913 foi para Sobe-me à boca uma ânsia
Leopoldina, Minas Gerais, onde atuou [análoga à ânsia
como promotor e professor. Faleceu um Que se escapa da boca de um
ano depois. [cardíaco.
— 253 —

Já o verme – este operário das Foi tua companheira inseparável!


[ruínas –
Acostuma-te à lama que te espera!
Que o sangue podre das
[carnificinas O Homem, que, nesta terra
[miserável,
Come, e à vida em geral declara
[guerra, Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Anda a espreitar meus olhos para
[roê-los, Toma um fósforo. Acende teu
E há de deixar-me apenas os [cigarro!
[cabelos, O beijo, amigo, é a véspera do
Na frialdade inorgânica da terra! [escarro,
(Clássicos da Poesia Brasileira, São Paulo: Klick A mão que afaga é a mesma que
Editora, 1997, p. 175) [apedreja.

Versos Íntimos Se a alguém causa inda pena a


[tua chaga,
Vês?! Ninguém assistiu ao
[formidável Apedreja essa mão vil que te
[afaga,
Enterro de tua última quimera.
Escarra nessa boca que te beija!
Somente a Ingratidão – esta
[pantera – (Ibid, p. 177)

Resumo do Simbolismo
Momento sócio-cultural vida, mas sem nomear esses misté-
rios. Deve sugeri-los, utilizando o som
• O fim do século XIX é de profundo
e o símbolo.
pessimismo e desânimo. A civiliza-
• Em suma, a poesia simbolista é mis-
ção industrial produz desencanto e
tério e imprecisão.
vazio, vazio este que leva o homem
a procurar o espiritual e o absoluto. Autores e obras
Características literárias • Cruz e Sousa: o mais importante
simbolista brasileiro (e um dos maio-
• Essa ânsia pelo absoluto leva os sim- res do mundo). Escreveu Missal
bolistas a tentarem unificar matéria (1893), Broquéis (1893), Faróis
e espírito por meio de uma arte que (1900), Últimos Sonetos (1905).
é pura sugestão, fluidez e musica- • Alphonsus de Guimaraens: autor
lidade, negando a poesia fria dos de obra mística e que idealiza a ama-
parnasianos. da morta. Deixou Setenário das Do-
• Para os simbolistas a poesia deve res de Nossa Senhora (1889), Kiriale
expressar os mistérios da alma e da (1902), A Escada de Jacó (1938).
— 254 —

Pré-Modernismo
No Brasil do começo do século XX, renovadoras, apresentando novas con-
os proprietários rurais de São Paulo e cepções estéticas e temáticas.
Minas Gerais compõem a elite dominan-
Marcam o início deste período, que
te da República Velha, que vai de 1894 a
não pode ser considerado uma estética
1930. A economia tem por base a dupla
literária, as obras Os Sertões, de Eucli-
“café com leite”, ou seja, centra-se na
des da Cunha, e Canaã, de Graça Ara-
lavoura cafeeira e na pecuária.
nha. Estende-se até 1922, quando ocor-
Por outro lado, há um aumento da reu a Semana de Arte Moderna e princi-
industrialização e um crescimento da piou o Modernismo no Brasil.
classe operária. Cada vez mais imigran-
tes europeus dirigem-se ao centro-sul e
os negros, recém-libertados, compõem Euclides da Cunha
a classe marginalizada em vários pon- (1866 – 1909)
tos do país.
Com a ascensão do café de São Euclides Rodrigues da Cunha nas-
Paulo, a cultura canavieira do Nordeste ceu em Cantagalo, Rio de Janeiro, em
entra em decadência. 1866. Após os estudos secundários,
cursou a Escola Politécnica, mas aban-
Ex-escravos, imigrantes e proleta- donou-a por motivos financeiros e mu-
riado integram a camada menos favore- dou-se para a Escola Militar, saindo des-
cida da sociedade, ao contrário da clas- ta como tenente e engenheiro. Seguiu
se conservadora, detentora de dinheiro também a carreira jornalística, que lhe
e poder. Este quadro gera uma série de propiciou a ida, como correspondente
revoltas por várias regiões do país. En- do jornal O Estado de São Paulo, para o
tre os acontecimentos estão: No nor- arraial de Canudos, no sertão baiano.
deste - fenômeno do cangaço, fanatis- Em seguida vai para São José do Rio
mo religioso centrado na figura do pa- Pardo, onde escreve Os sertões, publi-
dre Cícero, guerra de Canudos; no Rio cado em 1902 e responsável por sua
de Janeiro – revolta contra a vacina obri- notoriedade. Entrou para a Academia
gatória contra a febre amarela e Revolta Brasileira de Letras e foi professor de
da Chibata; em São Paulo – greves ope- Lógica no Colégio Pedro II, em 1909.
rárias; no sul – Guerra do Contestado. Morreu assassinado nesse mesmo ano.
Nesse contexto desenvolvem-se Escreveu também Peru versus Bo-
tendências conservadoras ainda influ- lívia - 1907, Contraste e Confrontos -
enciadas pelo Realismo-Naturalismo, 1907, À Margem da História - 1909, Ca-
Parnasianismo e Simbolismo e atitudes nudos (Diário de uma Expedição) – 1939.
— 255 —

Os Sertões va-o a postura normalmente abatida,


num manifestar de displicência que lhe
Os Sertões analisam o conflito dá um caráter de humildade deprimen-
ocorrido entre 1896 e 1897 em Canu- te. A pé, quando parado, recosta-se
dos, no sertão da Bahia. Influenciado invariavelmente ao primeiro umbral ou
pelo determinismo positivista, Euclides parede que encontra; a cavalo, se so-
da Cunha dividiu a obra em três partes: freia o animal para trocar duas pala-
“A terra”, que faz a descrição dos as- vras com um conhecido, cai logo sobre
pectos físicos do sertão baiano, onde um dos estribos, descansando sobre a
ocorreu o conflito; “O Homem”, que apre- espenda da sela. Caminhando, mesmo
senta o sertanejo como resultado da a passo rápido, não traça trajetória
mestiçagem, enfatizando a figura do retilínea e firme. Avança celeremente,
beato carismático Antônio Conselheiro num bambolear característico, de que
como produto do meio físico e social e parecem ser o traço geométrico os me-
“A luta”, em que narra o desenvolvi- andros das trilhas sertanejas. E se na
mento do conflito e a destruição do ar- marcha estaca pelo motivo mais vulgar,
raial de Canudos. para enrolar um cigarro, bater o isquei-
ro, ou travar ligeira conversa com um
O escritor utilizou extenso e raro amigo, cai logo – cai é o termo – de
vocabulário, por diversas vezes extraí- cócoras, atravessando largo tempo
do da linguagem científica, explorou as numa posição de equilíbrio instável, em
possibilidades sintáticas da língua e pro- que o seu corpo fica suspenso pelos
curou intensificar e engrandecer os fa- dedos grandes dos pés, sentado sobre
tos de sua narrativa. os calcanhares, com uma simplicidade
a um tempo ridícula e adorável.
III
É o homem permanentemente fati-
O sertanejo é, antes de tudo, um gado.
forte. Não tem o raquitismo exaustivo
dos mestiços neurastênicos do litoral. Reflete a preguiça invencível, a
atonia muscular perene, em tudo; na
A sua aparência, entretanto, ao palavra remorada, no gesto contrafeito,
primeiro lance de vista, revela o contrá- no andar desaprumado, na cadência
rio. Falta-lhe a plástica impecável, o de- langorosa das modinhas, na tendência
sempeno, a estrutura corretíssima das constante à imobilidade e à quietude.
organizações atléticas.
Entretanto, toda esta aparência de
É desgracioso, desengonçado, tor- cansaço ilude.
to. Hércules-Quasímodo, reflete no as-
pecto a fealdade típica dos fracos. O Nada é mais supreendedor do que
andar sem firmeza, sem aprumo, quase vê-la desaparecer de improviso. Naquela
gingante e sinuoso, aparenta a trans- organização combalida operam-se, em
lação de membros desarticulados. Agra- segundos, transmutações completas.
— 256 —

Basta o aparecimento de qualquer inci-


dente exigindo-lhe o desencadear das
Lima Barreto
energias adormidas. O homem transfi- (1881 – 1922)
gurou-se. Empertiga-se, estadeando no-
vos relevos, novas linhas na estatura e Afonso Henriques de Lima Barreto
no gesto; e a cabeça firma-se-lhe, alta, nasceu no Rio de Janeiro em 1881. Con-
sobre os ombros possantes, aclarada cluído o curso secundário, ingressou na
pelo olhar desassombrado e forte; e cor- Escola Politécnica, mas deixou-a para
rigem-se-lhe, prestes, numa descarga assumir a Diretoria do Expediente da
nervosa instantânea, todos os efeitos Secretaria da Guerra.
do relaxamento habitual dos órgãos; e
Vítima de depressão e alcoolismo,
da figura vulgar do tabaréu canhestro,
foi internado duas vezes no Hospício
reponta, inesperadamente, o aspecto do-
Nacional. Faleceu em 1922 de colapso
minador de um titã acobreado e potente,
cardíaco.
num desdobramento surpreendente de
força e agilidade extraordinárias. Estão entre suas obras Recorda-
ções do Escrivão Isaías Caminha
Este contraste impõe-se ao mais
(1909), Triste Fim de Policarpo Qua-
leve exame. Revela-se a todo o momen-
resma (1915), Numa e a Ninfa (1915),
to, em todos os pormenores da vida ser- Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá
taneja – caracterizado sempre pela inter- (1919), Bagatelas (1923), Os Bruzun-
cadência impressionadora entre extre- dangas (1923), Clara dos Anjos (publi-
mos impulsos e apatias longas. cação póstuma em 1948).
É impossível idear-se cavaleiro mais Com um estilo simples, Lima Barreto
chucro e deselegante; sem posição, procurava escrever para as camadas
pernas coladas ao bojo da montaria, tron- populares, conscientizando-as sobre a
co pendido para a frente e oscilando à situação de exploração a que eram sub-
feição da andadura dos pequenos ca- metidas, além de fazer uma crítica a pre-
valos do sertão, desferrados e maltra- conceitos de qualquer espécie.
tados, resistentes e rápidos como pou-
cos. Nesta atitude indolente, acompa-
nhando morosamente, a passo, pelas Triste Fim de Policarpo Quaresma
chapadas, o passo tardo das boiadas,
O romance divide-se em três par-
o vaqueiro preguiçoso quase transfor-
tes, todas relacionadas à vida do per-
ma o campião que cavalga na rede
sonagem central: o quixotesco Policarpo
amolecedora em que atravessa dois ter-
Quaresma, subsecretário no Arsenal de
ços da existência.
Guerra. Extremamente patriota e nacio-
(...) nalista, valoriza o violão, a modinha e o
(Euclides da Cunha, Os Sertões, Rio de Janeiro: folclore e anseia pelo estabelecimento
Francisco Alves, 1995, pp. 129-131) do tupi como língua oficial.
— 257 —

Tido como louco, vai para o hospí- podia levar um trem de vida superior
cio. Em seguida dedica-se à agricultura. aos seus recursos burocráticos, go-
Na revolta contra o Marechal Floriano, zando, por parte da vizinhança, da con-
apresenta-se para servi-lo, chefia uma sideração e respeito de homem abas-
guarnição, mas é preso como traidor e tado.
condenado à morte.
Não recebia ninguém, vivia num
I isolamento monacal, embora fosse cor-
tês com os vizinhos que o julgavam es-
A LIÇÃO DE VIOLÃO quisito e misantropo. Se não tinha ami-
Como de hábitos, Policarpo Qua- gos na redondeza, não tinha inimigos,
resma, mais conhecido por Major Qua- e a única desafeição que merecera,
resma, bateu em casa às quatro e quin- fora a do doutor Segadas, um clínico
ze da tarde. Havia mais de vinte anos afamado no lugar, que não podia admi-
que isso acontecia. Saindo do Arsenal tir que Quaresma tivesse livros: “Se não
de Guerra, onde era subsecretário, era formado, para quê? Pedantismo!”
bongava pelas confeitarias algumas O subsecretário não mostrava os
frutas, comprava um queijo, às vezes, livros a ninguém, mas acontecia que,
e sempre o pão da padaria francesa. quando se abriam as janelas da sala de
Não gastava nesses passos nem sua livraria, da rua poder-se-iam ver
mesmo uma hora, de forma que, às três as estantes pejadas de cima abaixo.
e quarenta, por aí assim, tomava o bon-
Eram esses os hábitos; ultimamen-
de, sem erro de um minuto, ia pisar a
te, porém, mudara um pouco; e isso pro-
soleira da porta de sua casa, numa rua
vocava comentários no bairro. Além do
afastada de São Januário, bem exata-
compadre e da filha, as únicas pesso-
mente às quatro e quinze, como se fos-
as que o visitavam até então, nos últi-
se a aparição de um astro, um eclipse,
mos dias, era visto entrar em sua casa,
enfim um fenômeno matematicamente
três vezes por semana e em dias cer-
determinado, previsto e predito.
tos, um senhor baixo, magro, pálido,
A vizinhança já lhe conhecia os com um violão agasalhado numa bolsa
hábitos e tanto que, na casa do Capitão de camurça. Logo pela primeira vez o
Cláudio, onde era costume jantar-se aí caso intrigou a vizinhança. Um violão
pelas quatro e meia, logo que o viam em casa tão respeitável! Que seria?
passar, a dona gritava à criada: “Alice,
E, na mesma tarde, uma das mais
olha que são horas; o Major Quaresma
lindas vizinhas do major convidou uma
já passou.”
amiga, e ambas levaram um tempo per-
E era assim todos os dias, há qua- dido, de cá para lá, a palmilhar o pas-
se trinta anos. Vivendo em casa pró- seio, esticando a cabeça, quando pas-
pria e tendo outros rendimentos além savam diante da janela aberta do es-
do seu ordenado, o Major Quaresma quisito subsecretário.
— 258 —

Não foi inútil a espionagem. Sen- se em Direito e foi promotor em Areias.


tado no sofá, tendo ao lado o tal sujei- Herdou a propriedade dos avós e tor-
to, empunhando o “pinho” na posição nou-se fazendeiro, mas depois se mu-
de tocar, o major, atentamente, ouvia: dou para São Paulo. Comprou a Revista
“Olhe, major, assim”. E as cordas vi- do Brasil e iniciou a Editora Monteiro
bravam vagarosamente a nota ferida; Lobato. De 1927 a 1931 trabalhou como
em seguida, o mestre aduzia: “É ‘ré’, adido comercial do Brasil nos Estados
aprendeu?” Unidos. Ao retornar, fundou a Compa-
Mas não foi preciso pôr na carta; a nhia Petróleo do Brasil e liderou a campa-
vizinhança concluiu logo que o major nha do ferro. Em 1941 é preso e após
aprendia a tocar violão. Mas que cousa? sua saída exila-se na Argentina, onde
Um homem tão sério metido nessas ma- fica por algum tempo. Faleceu em 1948.
landragens! Escreveu Urupês (1918), Idéias de
Jeca Tatu (1919), Cidades Mortas (1919),
(...)
Negrinha (1920), O Macaco que se Fez
(Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma, São Homem (1923), entre outras obras.
Paulo: Ática 1990, p. 19-20)
Ao compor seu conhecido perso-
nagem Jeca Tatu, denunciou as maze-
Monteiro Lobato las sociais do interior paulista por meio
(1882 – 1948) da caricatura do caboclo.
Produziu extensa e rica obra para
José Bento Monteiro Lobato nasceu crianças, que o consagrou como maior
em Taubaté, São Paulo, em 1882. Graduou- autor infanto-juvenil do país.

Resumo do Pré-modernismo
Momento sócio-cultural Autores e obras
• Parte do Brasil se industrializa e se • Euclides da Cunha: jornalista, es-
urbaniza rapidamente. Milhares de creveu Os Sertões (1902), obra-pri-
imigrantes europeus se estabelecem ma que relata a guerra de Canudos.
no país. Enquanto o Centro-sul se
• Lima Barreto: escritor simples e ob-
moderniza, conflitos em regiões como
jetivo, denunciou os vícios e precon-
Canudos expõem a miséria de gran-
ceitos da sociedade brasileira. Escre-
de parte do país.
veu Triste Fim de Policarpo Quares-
Características literárias ma (1915), Clara dos Anjos (1948).
• Esse período é uma transição para o • Monteiro Lobato: denunciou muitos
Modernismo e não possui os traços problemas nacionais, em obras como
de uma escola literária. Vemos o iní- Urupês (1918), Idéias de Jeca Tatu
cio de tendências e temas que se (1919), Cidade Mortas (1919), Negri-
firmam no Modernismo. nha (1920).
— 259 —

Modernismo
O movimento modernista teve início fase (1945 até a atualidade), também
em São Paulo, com a Semana de Arte conhecida como Pós-Modernismo.
Moderna, em 1922. Logo em seguida ex-
pandiu-se por todo o país, renovando a
idéia de literatura e de escritor.

Os autores desse período deseja-


Antecedentes e a
vam expressar-se livremente, privilegi-
ando como tema a realidade brasileira.
Semana de Arte
A linguagem torna-se mais coloqui-
Moderna
al, semelhante à nossa fala, e afasta-se
dos moldes portugueses.
Descontentes com a literatura pro-
Os acontecimentos da modernidade duzida no Realismo-Naturalismo, Parna-
passam a receber maior enfoque, so- sianismo e Simbolismo, os escritores
bretudo os que se referem à civilização pré-modernistas já tinham dado indícios
industrial, com suas máquinas e seu rit- de renovações na linguagem e no modo
mo acelerado de vida, percebido tam- de enxergar a situação social brasileira.
bém nas cenas quotidianas.
Alguns jovens intelectuais brasilei-
Por diversas vezes, os autores fa- ros tomaram contato com as Vanguar-
zem uso do humor em seus textos, in- das Européias (Futurismo de Marinetti,
troduzindo algo novo na literatura, pois Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo,
até então o humorismo era considerado Surrealismo) e foram por elas influenci-
de mau-gosto e fora dos padrões esté- ados, como se fez perceber na Sema-
ticos. na de Arte Moderna. O Manifesto Futu-
rista, de Marinetti, publicado em Paris
O Modernismo apresentou três fa- em 1909, foi também publicado no Bra-
ses distintas: 1ª. fase – destruidora sil, no mesmo ano, nos jornais A Repú-
(1922-1930) – marcada pela ruptura com blica, do Rio Grande do Norte e Jornal
as tradições literárias, “poema-piada”, de Notícias, da Bahia.
profundo nacionalismo, primitivismo,
aversão ao nosso passado histórico; Oswald de Andrade em 1912 via-
2ª. fase – edificadora (1930-1945) – jou à Europa e, influenciado pelas ten-
caracterizada pela construção de uma dências na arte e literatura européias
literatura renovadora, que origina a fic- do momento, retornou ao Brasil e divul-
ção nordestina e regional e o romance gou-as, propondo mudanças na arte e
urbano, psicológico e introspectivo; 3ª. literatura brasileiras.
— 260 —

O pintor Lasar Segall em 1913 fez Bandeira e Ribeiro Couto. Além disso, Mário
uma exposição, influenciada pelas Van- de Andrade fez uma pequena palestra
guardas Européias, em São Paulo. Em sobre a exposição de artes plásticas, se-
1914 foi a vez de Anita Malfatti, ocasião guido do bailado de Yvonne Daumerie e
em que recebeu severas críticas de do concerto de Guiomar Novais.
Monteiro Lobato. Já no ano de 1915 Ro-
No dia 17, Villa Lobos fez um con-
nald de Carvalho colaborou com a publi-
certo e foi muito vaiado.
cação da revista Orpheu, que marca o
início do Modernismo na literatura portu-
guesa.

Em 1917 várias obras renovado-


Conseqüências da
ras foram publicadas: Há uma gota de
sangue em cada poema, de Mário de
Semana de Arte
Andrade; Juca Mulato, de Menotti Del
Picchia; Nós, de Guilherme de Almeida;
Moderna
Carrilhões, de Murilo Araújo.
Em 1922, a revista Klaxon foi pu-
No ano de 1922, centenário da In- blicada, paralelamente ao surgimento da
dependência, o país vivia um período de corrente dinamista, ligada ao Futuris-
intenso desenvolvimento urbano e in- mo e à corrente primitivista, relacio-
dustrial, favorável ao evento ocorrido nada ao inconsciente e às raízes primi-
na semana de 11 a 18 de fevereiro, no tivas brasileiras.
Teatro Municipal de São Paulo. Foram
expostos quadros e esculturas e acon- Escrito por Oswald de Andrade em
teceram recitais e conferências. Paris, o Manifesto Pau-Brasil é publi-
cado no Correio da Manhã em 1924.
Graça Aranha e Ronald de Carva- Desejava-se a produção de uma poesia
lho foram os conferencistas da noite de autenticamente brasileira e de exporta-
13 de fevereiro, quando poemas foram ção, valorizando estados primitivos da
declamados por Guilherme de Almeida e cultura brasileira.
pelo próprio Ronald de Carvalho, além
da apresentação de peças musicais por O manifesto mais radical da primei-
Villa Lobos e Ernani Braga. ra fase modernista foi o Manifesto An-
tropófago, publicado na Revista de An-
No dia 15, Menotti de Picchia discur- tropofagia, em 1928. Caracterizava-se
sou e contou com a presença de Guilher- pela devoração da cultura européia, que
me de Almeida, Ronald de Carvalho, Elísio deveria ser reelaborada de forma autô-
de Carvalho, Oswald de Andrade, Rena- noma.
to Almeida, Luís Aranha, Mário de
Andrade, Agenor Barbosa, Moacir de Houve também o Manifesto Verde-
Abreu, Rodrigues de Almeida e Sérgio Amarelo, que criticava o “nacionalismo
Milliet. Foram lidos poemas de Manuel importado” de Oswald de Andrade. Foi
— 261 —

liderado por Menotti de Picchia, Cassiano sos livres e abandonam as formas fi-
Ricardo e Plínio Salgado e marcado pela xas, como o soneto. A linguagem colo-
defesa de um nacionalismo ufanista, quial é recorrente, assim como a au-
tendendo para o conservadorismo. O sência de pontuação. Combatem valo-
grupo autodenominou-se Escola de res tradicionais; valorizam elementos
Anta e identificou-se com o Integralismo. do cotidiano e do progresso; reescre-
vem textos do passado, com lirismo ou
parodiando-os; as linguagens da poe-

Primeira Geração sia e da prosa aproximam-se; são em-


pregados períodos curtos e utiliza-se a

do Modernismo metalinguagem.

(1922-1930)
Mário de Andrade
Durante as primeiras décadas do
(1893 – 1945)
século XX, ocorrem algumas mudanças
na economia brasileira. A industrializa- Mário Raul de Morais Andrade nas-
ção cresce, sobretudo em São Paulo. ceu em São Paulo em 1893. Formou-se
Importa-se mão-de-obra, tanto para a no Conservatório Dramático e Musical,
lavoura cafeeira como para as indústri- onde posteriormente lecionou História
as. O anarquismo é trazido pelos italia- da Música. Trabalhou como professor
nos, provocando protestos, reivindica- de piano, jornalista e funcionário públi-
ções e greves, ou seja, lutas por melho- co. Em 1934 passou a dirigir o Departa-
res condições de trabalho. Mas a eco- mento de Cultura da Prefeitura de São
nomia ainda centrava-se na cafeicultu- Paulo, permanecendo até 1937. Um ano
ra paulista e na pecuária mineira. Entre depois se transferiu para o Rio de Ja-
os anos de 1922 a 1930 intensifica-se o
neiro. Foi crítico literário, professor de
Tenentismo, cria-se a Coluna Prestes e
Estética na Universidade do Distrito Fe-
o Partido Comunista é considerado ile-
deral e idealizou a Enciclopédia Brasi-
gal pelo governo.
leira do Ministério da Educação. No ano
Em 1929 o preço do café no mer- de 1940 retornou a São Paulo, onde foi
cado internacional cai, devido à quebra funcionário do Serviço do Patrimônio
da Bolsa de Nova Iorque, e muitos fa- Histórico e faleceu em 1945.
zendeiros vão à falência. Imigrantes são
Além da literatura, Mário de Andra-
presos pela participação em greves.
de era um amante e estudioso da músi-
Getúlio Vargas é candidato à presidên-
ca, das artes plásticas e do folclore
cia da República.
brasileiro. Desejava construir os alicer-
Durante a primeira fase modernis- ces de uma cultura verdadeiramente
ta, os escritores fazem uso dos ver- nacional.
— 262 —

Escreveu poesia (Há uma gota de senta o pensamento primitivo, passan-


sangue em cada poema – 1917; do por uma série de mágicas transfor-
Paulicéia Desvairada – 1922; Losango mações, sempre guiado pelo prazer e
Cáqui – 1926; Clã do Jabuti – 1927; pelo medo. Tinha por meta a busca da
Remate de Males – 1930; Poesias – muiraquitã, pedra talismã presente de
1941; Lira Paulistana – 1946); ficção sua companheira Ci-Mãe do Mato (já
(Amar, Verbo Intransitivo – 1927; transformada na estrela Beta do Cen-
Macunaíma – 1928; Contos Novos – tauro), que o gigante Venceslau Pietro
1946); ensaio (A Escrava que não é Pietra havia furtado. Macunaíma vem
Isaura – 1925; O Empalhador de Pas- para São Paulo com este objetivo, acom-
sarinho – 1944); crônica (Os filhos de panhado pelos irmãos Maanape e Jiguê.
Candinha – 1943); musicologia e folclo- O personagem passa tranqüilamente por
re; História da Arte; cartas. espaços e tempos diversos. Ao término
do livro, Macunaíma transforma-se na
constelação Ursa Maior.
Macunaíma

Fruto de anos de pesquisa sobre o I. Macunaíma


folclore nacional, o texto foi redigido em
No fundo do mato-virgem nasceu
uma semana no ano de 1926, mas veio
Macunaíma, herói de nossa gente. Era
a público apenas dois anos depois.
preto retinto e filho do medo da noite.
Estruturado em dezessete capítu- Houve um momento em que o silêncio foi
los e um epílogo, o texto é classificado tão grande escutando o murmurejo do
pelo próprio Mário de Andrade como rap- Uraricoera, que a índia tapanhumas pa-
sódia, termo aplicado à música. Rapsó- riu uma criança feia. Essa criança é que
dia musical é uma composição que tem chamaram de Macunaíma.
como base melodias populares ou fol-
clóricas. O livro é classificado como rap- Já na meninice fez coisas de sara-
sódia, pois reúne motivos populares, pantar. De primeiro passou mais de seis
folclóricos e culturais brasileiros. anos não falando. Si o incitavam a falar
exclamava:
A obra demonstra a preocupação
modernista de aproximar-se da lingua- -Ai! que preguiça!...
gem falada, agrupando termos de diver-
e não dizia mais nada. Ficava no
sas regiões e de diferentes origens (po-
canto da maloca, trepado no jirau de
pulares, indígenas).
paxiúba, espiando o trabalho dos ou-
O trecho a seguir integra o primeiro tros e principalmente os dois manos que
capítulo do livro, em que o protagonista tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na
da história, Macunaíma, “o herói sem força de homem. O divertimento dele era
nenhum caráter”, nos é apresentado. decepar cabeça de saúva. Vivia deita-
Seu nome, de origem indígena, significa do mas si punha os olhos em dinheiro,
“o grande mal”. O personagem repre- Macunaíma dandava pra ganhar vintém.
— 263 —

E também esperava quando a família ia a 1912 viajou à Europa, de onde retornou


tomar banho no rio, todos juntos e nus. com idéias renovadoras na arte e na
Passava o tempo do banho dando mer- literatura. Formou-se em Direito em 1919.
gulho, e as mulheres soltavam gritos Foi amigo de Mário de Andrade e Di Ca-
gozados por causa dos guaimuns diz- valcanti, com quem planejou as mudan-
que habitando a água doce por lá. No ças literárias. Faleceu em 1953 na cida-
mucambo si alguma cunhatã se aproxi- de natal.
mava dele para fazer festinha, Macu-
Escreveu poesia (Pau Brasil – 1925,
naíma punha a mão nas graças dela,
Primeiro Caderno de Poesia do Aluno
cunhatã se afastava. Nos machos guspia
Oswald de Andrade – 1927, Poesias
na cara. Porém respeitava os velhos e
Reunidas - 1945); romances (Os Con-
freqüentava com aplicação a murua a
denados – 1922, Memórias Sentimen-
poracê o torê o bacorocô a cucuicogue,
tais de João Miramar – 1924, Serafim
todas essas danças religiosas da tribo.
Ponte Grande – 1933); teatro (A morta –
Quando era pra dormir trepava no 1937, O Rei da Vela – 1937); ensaios
macuru pequenininho sempre se esque- (Ponta de Lança – 1945); memórias (Um
cendo de mijar. Como a rede da mãe Homem sem Profissão – 1954).
estava debaixo do berço, o herói mijava A poesia de Oswald de Andrade
quente na velha, espantando os mos- comporta elementos das vanguardas
quitos bem. Então adormecia sonhando européias, sobretudo o Cubismo e o
palavras feias, imoralidades estram- primitivismo do Dadaísmo. Realiza uma
bólicas e dava patadas no ar. crítica à sociedade brasileira, com hu-
mor e estilo coloquial.
Nas conversas das mulheres no
pino do dia o assunto eram sempre as A “Poesia Pau-Brasil”, resultou
peraltagens do herói. As mulheres se riam numa poesia “de exportação”, incorpo-
muito simpatizadas, falando que “espinho rando “antropofagicamente” a cultura
que pinica, de pequeno já traz ponta”, e estrangeira, como faziam os índios an-
numa pajelança Rei Nagô fez um discur- tropófagos com seus inimigos, a fim de
so e avisou que o herói era inteligente. absorverem suas qualidades.

(...)
Manifesto Antropófago
(Mário de Andrade, Macunaíma, São Paulo: Klick
Editora, 1999, p. 13)
(fragmentos)
Só a Antropofagia nos une. Social-
mente. Economicamente. Filosoficamente.
Oswald de Andrade *
(1890 – 1953) Única lei do mundo. Expressão mas-
carada de todos os individualismos, de
José Oswald de Sousa Andrade todos os coletivismos. De todas as reli-
nasceu em São Paulo em 1890. De 1911 giões. De todos os tratados de paz.
— 264 —

* (...)
Tupi, or not tupi that is the question. A luta entre o que se chamaria
Incriado e a Criatura – ilustrada pela con-
* tradição permanente do homem e o seu
Tabu. O amor cotidiano e o modus-vivendi
Contra todas as catequeses. E con-
capitalista. Antropofagia. Absorção do
tra a mãe dos Gracos.
inimigo sacro. Para transformá-lo em
* totem. A humana aventura. A terrena
finalidade. Porém, só as puras elites con-
Só me interessa o que não é meu.
seguiram realizar a antropofagia carnal,
Lei do homem. Lei do antropófago.
que traz em si o mais alto sentido da
* vida e evita todos os males identifica-
dos por Freud, males catequistas. O que
(...) se dá não é uma sublimação do instinto
Tínhamos a justiça codificação da sexual. É a escala termométrica do ins-
vingança. A ciência codificação da Ma- tinto antropofágico. De carnal, ele se
gia. A Antropofagia. A transformação torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o
permanente do Tabu em totem. amor. Especulativo, a ciência. Desvia-
se e transfere-se. Chegamos ao avilta-
*
mento. A baixa antropofagia aglomera-
(...) da nos pecados de catecismo – a inve-
De William James a Voronoff. A ja, a usura, a calúnia, o assassinato.
Transfiguração do Tabu em totem. An- Peste dos chamados povos cultos e
tropofagia. cristianizados, é contra ela que estamos
agindo. Antropófagos.
*
*
(...)
(...)
Antes dos portugueses descobri-
rem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a Contra a realidade social, vestida e
felicidade. opressora, cadastrada por Freud – a
realidade sem complexos, sem loucura,
* sem prostituição e sem penitenciárias
do matriarcado de Pindorama.
(...)
Somos concretistas. As idéias to- Oswald de Andrade
mam conta, reagem, queimam gente nas Em Piratininga.
praças públicas. Suprimamos as idéias Ano 374 da Deglutição do Bispo
e as outras paralisias. Pelos roteiros. Sardinha.
Acreditar nos sinais, acreditar nos ins-
trumentos e nas estrelas. Revista de Antropofagia, Ano I, Nº 1,
* maio de 1928.
— 265 —

Pneumotórax
Manuel Bandeira
(1886 – 1968) Febre, hemoptise, dispnéia e
[suores noturnos.

Manuel Carneiro de Sousa Bandei- A vida inteira, que podia ter sido
ra Filho nasceu no Recife, Pernambuco, [e que não foi.
em 1886. Realizou os estudos secun- Tosse, tosse, tosse.
dários no Rio de Janeiro, no Colégio
Pedro II. Iniciou o curso de Engenharia Mandou chamar o médico:
em São Paulo, mas devido à tuberculo-
se que contraíra teve que deixá-lo. Em - Diga trinta e três.
busca de melhora, foi para diversos lu- - Trinta e três... trinta e três...
gares, entre eles a Suíça. Iniciada a Pri- [trinta e três...
meira Guerra, retorna ao Brasil, vindo a - Respire.
publicar em 1917 seu primeiro livro, A
......................................................
Cinza das Horas. Além de escritor, foi
também jornalista, inspector do ensino - O senhor tem uma escavação
secundário, professor no Colégio Pedro [no pulmão esquerdo
II e na Faculdade Nacional de Filosofia, [e o pulmão direito infiltrado.
vindo a aposentar-se em 1956. Foi mem- - Então, doutor, não é possível
bro da Academia Brasileira de Letras. [tentar o pneumotórax?
Faleceu no Rio de Janeiro em 1968.
- Não, a única coisa a fazer é
Escreveu poesias (Carnaval – [tocar um tango argentino.
1919, Libertinagem – 1930, Estrela da (Apud Massaud Moisés, A literatura brasileira através
Manhã – 1936, Estrela da Tarde – 1963, dos textos, p. 417)
Estrela da Vida Inteira – 1966) e prosa
(Itinerário de Pasárgada – 1954, Frauta
de Papel – 1957).
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Soube adequar muito bem a poesia
à linguagem coloquial da primeira fase Do lirismo bem-comportado
modernista, além de manejar com per- Do lirismo funcionário público com
feição os versos livres, dotando-os de [livro de ponto expediente
ritmo. Tornou-se um “clássico” entre os [protocolo e manifestações de
modernistas, pois expressava com sim- [apreço ao sr. diretor
plicidade os sentimentos mais profun-
Estou farto do lirismo que pára e
dos do ser humano. Não se submeteu a
[vai averiguar no dicionário o
formas literárias fixas, mas produziu uma
[cunho vernáculo de um vocábulo
obra poética rica em lirismo, mesmo ao
tratar de fatos do cotidiano. Abaixo os puristas
— 266 —

Todas as palavras sobretudo os Estavam todos voltados para a vida


[barbarismos universais Absortos na vida
Todas as construções sobretudo Confiantes na vida.
[as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os Um no entanto se descobriu num
[inumeráveis [gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Estou farto do lirismo namorador
Este sabia que a vida é uma
Político [agitação feroz e sem finalidade
Raquítico Que a vida é traição
Sifilítico E saudava a matéria que passava
De todo lirismo que capitula ao que Liberta para sempre da alma
[quer que seja fora de si mesmo. [extinta.

De resto não é lirismo (Ibid, pp. 422-423.)

Será contabilidade tabela de


[co-senos secretário do amante
[exemplar com cem modelos de Outros autores
[cartas e as diferentes maneiras
[de agradar à mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos Cassiano Ricardo


O lirismo dos bêbedos
(1895 – 1974)
O lirismo difícil e pungente dos
[bêbedos
Cassiano Ricardo Leite nasceu em
O lirismo dos clowns de São Paulo em 1895. Cursou Direito em
[Shakespeare São Paulo e Rio de Janeiro. Integrou o
grupo “Verde – amarelo”, liderado por
- Não quero mais saber do lirismo
Plínio Salgado. Colaborou para a impren-
[que não é libertação.
sa e atuou como diretor-geral da Secre-
(Ibid, pp. 417-418.) taria de Estado dos Negócios do Gover-
no de São Paulo e como chefe do Escri-
Momento num café tório Comercial do Brasil em Paris. Foi
membro da Academia Brasileira de Le-
Quando o enterro passou tras. Faleceu em 1974 no Rio de Janeiro.
Os homens que se achavam
Escreveu poesias (Dentro da Noite
[no café
– 1915, A Frauta de Pã – 1917, Sonetos
Tiraram o chapéu maquinalmente – 1952) e prosa (O Brasil no Original –
Saudavam o morto distraídos 1936, Marcha para o Oeste – 1943).
— 267 —

período de grandes mudanças no cená-


Antônio de rio mundial, provocadas inicialmente
Alcântara Machado pela quebra da Bolsa de Valores de Nova
Iorque.
(1901 – 1935)
A queda do preço do café, nosso
Antônio Castilho de Alcântara Ma- principal produto de exportação, provo-
chado d’Oliveira nasceu em São Paulo ca a ruína econômica da elite.
em 1901. Graduou-se em Direito, mas
atuou como jornalista. Foi redator e co- Vargas assume o poder e inicia-
laborador da Revista de Antropofagia e se a chamada Era Vargas, que vai até
da Revista Nova. Após 1932, dedicou- 1945.
se à política e transferiu-se para o Rio
Alguns acontecimentos marcantes
de Janeiro, onde faleceu em 1935.
do período: Revolução Constitucio-
Fez uso da linguagem telegráfica, nalista, criação do DIP – Departamento
exata e objetiva e incorporou em seus de Imprensa e Propaganda, início da
textos o vocabulário ítalo-brasileiro, co- Segunda Guerra Mundial.
mum nos bairros italianos de São Paulo,
os quais também utilizou em sua obra. Os escritores procuram estudar a
realidade social e cultural brasileira. A
Observou atentamente a paisagem literatura torna-se mais madura e tem
urbana paulista, com suas modificações consciência de sua identidade.
sociais, econômicas e culturais.
Escreveu Pathé Baby (1926), Brás, Ao contrário da primeira fase, em
Bexiga e Barra-Funda (1927), Laranja que a poesia foi predominante, a prosa
da China (1928), Anchieta na Capitania de ficção destaca-se, abrangendo a
de São Vicente (1928), Comemoração prosa regionalista, urbana e intimista.
de Brasílio Machado (1929), Mana Ma-
ria (edição póstuma de 1936), Cava-
quinho e Saxofone (edição póstuma de
1940).
Prosa de Ficção

Segunda Geração
Prosa Regionalista
do Modernismo
(1930-1945) O grupo regionalista ou nordestino,
organizando-se a partir das idéias de
Gilberto Freyre, retomou uma tendência
A segunda geração modernista ini- iniciada no Romantismo: retratar a reali-
cia-se em 1930 e estende-se até 1945, dade brasileira.
— 268 —

Apesar da escolha de uma deter- e memórias, como A Terra dos Meninos


minada região geográfica como ponto Pelados (1939), Infância (1945) e Me-
de partida para a elaboração de seus mórias do Cárcere (1953).
livros, os escritores regionalistas não
Graciliano realiza ao mesmo tempo
escreveram textos exclusivamente pre-
análise social e investigação psicológi-
ocupados em mostrar as particularida-
ca, adotando um estilo clássico e uma
des desta ou daquela região, mas obras
linguagem clara e enxuta.
universais, realizando uma importante
análise da psicologia humana e anali-
sando dramas humanos e sociais. Vidas Secas
A maioria das obras regionalistas O trecho a seguir é extraído do ro-
analisa a realidade social nordestina,
mance Vidas Secas, obra estruturada
mas há também obras que exploram a
em treze capítulos, independentes entre
região Sul do país e a Amazônia. si. Tanto o primeiro como o último capítu-
Destacam-se como regionalistas: lo mostram a família fugindo da seca e
Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, em busca de melhores condições de vida.
José Lins do Rego e Jorge Amado. Aparecem quatro personagens huma-
nos: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais
novo e o menino mais velho, cada qual
Graciliano Ramos merecendo um capítulo. Graciliano mos-
tra a dificuldade de comunicação entre
(1892 – 1953) eles, somada à miséria do meio físico.
Além destes, merece destaque a cadela
Graciliano Ramos nasceu em Ala- Baleia, personagem humanizado que au-
goas, em 1892. Realizou seus primeiros xilia o grupo na caça, é companheira das
estudos em Maceió e em seguida foi para crianças nas brincadeiras e dos adultos
o Rio de Janeiro, onde passou a traba- no trabalho. A ela também é dedicado
lhar como revisor de provas tipográfi- um capítulo, transcrito em parte a seguir:
cas. Retornou a Alagoas, foi comerci-
Baleia
ante e depois prefeito. Em 1930 exer-
ceu o cargo de diretor da Imprensa Ofi- A cachorra Baleia estava para mor-
cial do Estado. Foi preso, em 1936, acu- rer.Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe
sado de subversão. Passados alguns em vários pontos, as costelas avulta-
anos, retorna ao Rio de Janeiro. Em 1953 vam num fundo róseo, onde manchas
visita a URSS, onde vem a falecer. escuras supuravam e sangravam co-
bertas de moscas. As chagas da boca
Escreveu Caetés (1933), São
e a inchação dos beiços dificultavam-
Bernardo (1934), Angústia (1936), Vi-
lhe a comida e a bebida.
das Secas (1938), Dois Dedos (1945),
Insônia (1945), Histórias Incompletas Por isso Fabiano imaginara que ela
(1946), além de diversos livros infantis estivesse com um princípio de hidrofo-
— 269 —

bia e amarrara-lhe no pescoço um rosá- Ela também tinha o coração pesa-


rio de sabugos de milho queimados. Mas do, mas resignava-se: naturalmente a
Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se decisão de Fabiano era necessária e
nas estacas do curral ou metia-se no justa. Pobre da Baleia.
mato, impaciente, enxotava os mosqui-
tos sacudindo as orelhas murchas, agi- Escutou, ouviu o rumor do chumbo
tando a cauda pelada e curta, grossa que se derramava no cano da arma, as
na base, cheia de roscas, semelhantes pancadas surdas da vareta na bucha.
a uma cauda de cascavel. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi (...)


buscar a espingarda de pederneira, li-
Uma noite de inverno, gelada e ne-
xou-a com o saca-trapo e fez tenção de
voenta, cercava a criaturinha. Silêncio
carregá-la bem para a cachorra não
completo, nenhum sinal de vida nos ar-
sofrer muito.
redores. O galo velho não cantava no
Sinhá Vitória fechou-se na camari- poleiro, nem Fabiano roncava na cama
nha, rebocando os meninos assustados, de varas. Estes sons não interessavam
que adivinhavam desgraça e não se can- Baleia, mas quando o galo batia as asas
savam de repetir a mesma pergunta: e Fabiano se virava, emanações famili-
ares revelavam-lhe a presença deles.
- Vão bulir com a Baleia? Agora parecia que a fazenda se tinha
Tinham visto o chumbeiro e o pol- despovoada.
varinho, os modos de Fabiano afligiram-
Baleia respirava depressa, a boca
nos, davam-lhes a suspeita de que Ba-
aberta, os queixos desgovernados, a
leia corria perigo.
língua pendente e insensível. Não sabia
Ela era como uma pessoa da famí- o que tinha sucedido. O estrondo, a pan-
lia: brincavam juntos os três, para bem cada que recebera no quarto e a via-
dizer não se diferençavam, rebolavam gem difícil do barreiro ao fim do pátio
na areia do rio e no estrume fofo que ia desvaneciam-se no seu espírito.
subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das
cabras. Provavelmente estava na cozinha,
entre as pedras que serviam de trempe.
Quiseram mexer na taramela e abrir Antes de se deitar, Sinhá Vitória retira-
a porta, mas Sinhá Vitória levou-os para va dali os carvões e a cinza, varria com
a cama de varas, deitou-os e esforçou- um molho de vassourinha o chão quei-
se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a mado, e aquilo ficava um bom lugar para
cabeça do mais velho entre as coxas e cachorro descansar. O calor afugenta-
espalmou as mãos nas orelhas do se- va as pulgas, a terra se amaciava. E,
gundo. Como os pequenos resistissem, findos os cochilos, numerosos preás
aperreou-se e tratou de subjugá-los, corriam e saltavam, um formigueiro de
resmungando com energia. preás invadia a cozinha.
— 270 —

A tremura subia, deixava a barri- 1934, Fogo Morto – 1943 e Usina – 1936);
ga e chegava ao peito de Baleia. Do “Ciclo do cangaço, misticismo e seca”
peito para trás era tudo insensibilidade (Pedra Bonita – 1938 e Cangaceiros –
e esquecimento. Mas o resto do corpo 1953) e obras independentes, como Ri-
se arrepiava, espinhos de mandacaru acho Doce – 1939 e Eurídice – 1947. Tal
penetravam na carne meio comida pela denominação foi posteriormente aban-
doença. donada pelo autor, mas continuou sendo
utilizada pelos críticos.
Baleia encostava a cabecinha fa-
tigada na pedra. A pedra estava fria, Grande parte dos livros apresenta
certamente Sinhá Vitória tinha deixado um caráter memorialista, fazendo refe-
o fogo apagar-se muito cedo. rências à infância e à adolescência.

Baleia queria dormir. Acordaria fe- A linguagem utilizada é espontânea


liz, num mundo cheio de preás. E lambe- e marcada pela oralidade.
ria as mãos de Fabiano, um Fabiano
Fogo Morto
enorme. As crianças se espojariam com
ela, rolariam com ela num pátio enorme, Publicado em 1943, Fogo Morto é o
num chiqueiro enorme. O mundo ficaria último livro do “ciclo da cana-de-açúcar”,
todo cheio de preás, gordos, enormes. composto pelas obras Menino de Enge-
(Graciliano Ramos, Vidas Secas, São Paulo: Martins
nho (1932), Doidinho (1933) e Bangüê
Editora, 1969, pp. 127-134) (1934).
Nestes romances, José Lins do
Rego mostra uma sociedade marcada
José Lins do Rego pelo poder dos latifundiários, senhores
(1901 – 1957) de engenho. Os problemas sociais são
apresentados, como o autoritarismo e a
reação a este: a rebeldia.
José Lins do Rego nasceu no en-
genho Corredor, Município do Pilar, na Escrito em terceira pessoa, Fogo
Paraíba, em 1901. Graduou-se em Direi- Morto mostra a trajetória dos habitantes
to no Recife e foi promotor em Minas do engenho Santa Fé, do Coronel Lula.
Gerais. Em seguida transferiu-se para Os engenhos passam por um pro-
Maceió, com novas funções, passando cesso de decadência, pois vêm sendo
a conviver com Graciliano Ramos, Jor- substituídos pelas usinas, com isso tam-
ge de Lima e Rachel de Queiroz. Após bém sofrem os que dependem do açú-
nove anos transferiu-se para o Rio de car e não acompanham as mudanças.
Janeiro, onde morreu em 1957.
O romance é estruturado em três
Segundo o próprio escritor, sua obra partes. Na primeira, o narrador concen-
de ficção pode ser dividida em: “Ciclo da tra-se no tempo presente e mostra per-
cana-de-açúcar” (Menino de Engenho sonagens conflitantes e uma sociedade
– 1932, Doidinho – 1933, Bangüê – organizada em estratos sociais.
— 271 —

O protagonista é o mestre José É casado com Amélia, filha do Ca-


Amaro, artesão que só trabalhava para pitão Tomás que toca piano encantado-
quem o respeitasse, mesmo que não ramente.
recebesse pagamento. Aos poucos, o engenho vai entran-
Veio para o engenho de Santa Fé do em decadência. O Coronel Lula não
com o pai, que fugiu de Goiânia após ter permite que sua filha Neném namore e
praticado um crime de morte. O pai tam- ela torna-se uma solteirona.
bém era artesão e gozava de grande Amélia conforma-se com seu des-
prestígio, coisa que o filho não possuía. tino e protege a família, por meio das
Assim como o pai, ocupava as terras galinhas que cria e da venda dos ovos.
sem pagar, o que resulta em sua expul-
Olívia, a outra filha do Capitão To-
são pelo dono do engenho. Contudo, ele
más, não sofre, devido à sua loucura.
desobedece e continua morando ali com
sua mulher e filha. O Coronel Lula deixa o comando de
suas terras, não moderniza suas má-
A mulher lhe tem nojo e a filha está
quinas e cada vez mais o engenho vai
enlouquecendo, ao passo que ele tem
se estagnando. Um dia chega por lá o
imenso orgulho de si mesmo, por ser
Capitão Antônio Silvino, cangaceiro muito
homem branco, de respeito e livre.
respeitado no sertão e apoiado pelo
Sofre muito com a sensação de in- mestre José Amaro.
ferioridade, de prestígio perdido. Passa Na terceira parte, o tempo nova-
então a ajudar Antônio Silvino, famoso mente é o presente, inserindo apenas
cangaceiro, e seu bando. É a maneira um novo personagem: o Capitão Vitorino,
que encontra para vingar-se contra os homem honesto e corajoso, que passa
grandes. a herói do romance. Defende os injusti-
Angustiado, desconta sua insatis- çados, quaisquer que sejam eles. Des-
fação batendo na filha e maltratando a sa forma, dirige-se a Coronel Lula inter-
mulher. A primeira é internada em Reci- cedendo por José Amaro e não aprova
fe, devido à sua loucura. Já a mulher a atitude do cangaceiro em relação ao
tempos depois o deixa em meio à soli- senhor de engenho.
dão e profunda tristeza, resultando no Entretanto, com o passar do tempo
suicídio do marido. vai perdendo a satisfação de viver e a
Na segunda parte, a narração vol- vontade de lutar por seus ideais.
ta-se para o passado do engenho de
Santa Fé, quando o Capitão Tomás era o (fragmento)
proprietário. A velha deixou o quarto e saiu para
O protagonista agora é Lula de Ho- o fundo da casa. Vitorino fechou os
landa Chacon, herdeiro do engenho de olhos, mas estava muito bem acordado
Santa Fé, homem calado, extremamente com os pensamentos voltados para a
orgulhoso e apegado ao prestígio. vida dos outros. Ele muito tinha que fa-
— 272 —

zer ainda. Ele tinha o Pilar para tomar para ficar ali como uma pobre. Podia ter
conta, ele tinha o seu eleitorado, os seus ido. Ele, Vitorino Carneiro da Cunha, não
adversários. Tudo isto precisava de seus precisava de ninguém para viver.Se lhe
cuidados, da força do seu braço, de seu tomassem a casa onde morava, armaria
tino. Lá se fora o seu compadre José a sua rede por debaixo dum pé de pau.
Amaro, com o negro Passarinho, o cego Não temia a desgraça, não queria a rique-
Torquato. Todos necessitavam de Vitorino za. Lá se foram os três homens que liber-
Carneiro da Cunha. Fora à barra do tribu- tara, a quem dera toda a sua ajuda. O
nal para arrastá-los da cadeia. Que lhe tenente se enfurecera com o seu poder.
importava a violência do tenente Maurí- Nunca pensara que existisse um homem
cio? O que valia era a petição que, com a que fosse capaz de enfrentá-lo como fi-
sua letra, com a sua assinatura, botara zera. A sua letra, o papel que assinara
para a rua três homens inocentes. Ele era com o seu nome, dera com a força do
homem que não se entregava aos gran- miserável no chão. Era Vitorino Carneiro
des. Que lhe importava a riqueza de José
da Cunha. Tudo podia fazer, e nada te-
Paulino? Tinha o seu voto e não dava ao
mia. Um dia tomaria conta do município. E
primo rico, tinha eleitores que não vota-
tudo faria para que aquele calcanhar-de-
vam nas chapas do governo. O governo
judas fosse mais alguma coisa. Então
não podia com a sua determinação. Ele
Vitorino se via no dia de seu triunfo. Ha-
sabia que havia muitos outros tenentes
veria muita festa, haveria tocata de músi-
Maurícios na dependência e às ordens
do governo. Todos seriam capangas, guar- ca, discurso do dr. Samuel, e dança na
da-costas do presidente. Mas Vitorino casa da Câmara. Viriam todos os chalei-
Carneiro da Cunha mandava no que era ras do Pilar falar com ele. Era o chefe, era
seu, na sua vida. As feridas que lhe abri- o mais homem da terra. E não teria as
am no corpo nada queriam dizer. Não ha- besteiras de José Paulino, aquela tole-
via força que pudesse com ele. Os pa- rância para com o sujeitos safados, que
rentes se riam de seus rompantes, de só queriam comer no cocho da munici-
suas fraquezas. Eram todos uns pobres palidade. Com Vitorino Carneiro da Cu-
ignorantes, verdadeiros bichos que não nha não haveria ladrões, fiscais de feira
sabiam onde tinham as ventas. Quando roubando o povo. Tudo andaria na cor-
parava no engenho, quando conversava reta, na decência. Delegado não seria
com um Manuel Gomes do Riachão, via um mole como José Medeiros. Quem se-
que era melhor ser como ele, homem sem ria o seu delegado? Que homem iria en-
um palmo de terra, mas sabendo que era contrar na vila para ser o seu homem de
capaz de viver conforme os seus dese- confiança? O escrivão Serafim era muito
jos. Todos tinham medo do governo, to- mole, o capitão Costa apanhava da mu-
dos iam atrás de José Paulino e de Quinca lher, Salu da venda era capaz de roubar
do Engenho Novo, como se fossem car- a ração dos presos, Chico Frade bebia
neiros de rebanho. Não possuía nada e demais. E ele precisava de um homem
se sentia como se fosse senhor do mun- para delegado.
do. A sua velha Adriana quisera abando- (José Lins do Rego, Fogo Morto, São Paulo: Klick
ná-lo para correr atrás do filho. Desistiu Editora, 1997)
— 273 —

a residir na União Soviética e nas Demo-


Rachel de Queiroz cracias Populares. É membro da Acade-
(1910 – ) mia Brasileira de Letras e suas obras já
foram vertidas para mais de trinta línguas.
Rachel de Queiroz nasceu na For- Entre seus escritos estão Jubiabá
taleza, Ceará, em 1910. Após a seca de (1935); Mar Morto (1936); Capitães de
1915 mudou-se com os pais para o Rio Areia (1937); Terras do Sem-Fim (1942),
de Janeiro e em seguida para Belém do Gabriela, Cravo e Canela (1958), Dona
Pará. De volta a Fortaleza, formou-se Flor e seus dois maridos (1966).
no curso normal, em 1925. Seguiu a car- Suas obras denunciam a situação
reira jornalística e em 1930 publicou o do trabalhador rural e das camadas po-
livro O Quinze, que trata da seca de pulares e são ambientadas geralmente
1915. Depois voltou a residir no Rio de na Bahia. Apesar da grande aceitação
Janeiro, onde se encontra, atuando no por parte do público, muitas obras tive-
jornalismo e na literatura. ram sua qualidade literária contestada
Escreveu João Miguel (1932); Ca- pelos críticos.
minho de Pedras (1937); As Três Marias
(1939); Dora, Doralina (1975), Memorial
de Maria Moura (1993) – romances; Prosa urbana
além de teatro e crônicas.
Demonstra forte preocupação so-
cial e realiza análise psicológica dos Érico Veríssimo
personagens . Aborda temas relaciona- (1905 – 1975)
dos à política e ao papel da mulher na
sociedade, entre outros. Érico Veríssimo nasceu em Cruz
Alta, Rio Grande do Sul, em 1905. Foi
Jorge Amado funcionário de banco e sócio de uma
farmácia. Após a falência desta, atuou
(1912 – ) como secretário e redator da Revista
do Globo. Passou em seguida a dedi-
Jorge Amado nasceu na Bahia, em car-se também à Literatura e à tradu-
1912. Estudou Direito e atuou como jorna-
ção. Exerceu posteriormente o cargo de
lista em Salvador. Em 1931 mudou-se para
Diretor do Departamento de Assuntos
o Rio de Janeiro. Teve participação no
Culturais da União Pan-Americana. Fa-
movimento de frente popular da Aliança
leceu em 1975 em Porto Alegre.
Nacional Libertadora, o que provocou sua
prisão em 1936 e 1937. Entre os anos de Escreveu Caminhos Cruzados
1941 e 1943 residiu em Buenos Aires. Em (1935), Música ao Longe (1936), Um Lu-
1945 foi eleito deputado federal em São gar ao Sol (1936), Olhai os Lírios do
Paulo. Após 1947, deixou o país e pas- Campo (1938), O Tempo e o Vento (1949-
sou a morar na França. Chegou também 1961), Incidente em Antares (1971).
— 274 —

Os romances de Érico Veríssimo Coisas – 1962) e prosa (Confissões de


proporcionam uma leitura agradável e Minas – 1944, O Gerente – 1945).
sem dificuldades, pois apresentam uma
Alguns temas foram recorrentes na
linguagem simples e enredos atraentes.
obra de Drummond: o cotidiano, a preo-
Entretanto, foi muitas vezes criticado e
cupação social e política, as reminiscên-
acusado de realizar análises sociais e
cias (terra natal, família, amigos), o amor
psicológicas superficiais.
e a metalinguagem (reflexão sobre o pró-
Os principais temas abordados são prio ato de escrever).
a vida urbana e seus problemas, a fun-
O poeta analisou o homem moder-
dação social do Rio Grande do Sul e
no e seus sentimentos com sensibilida-
questões políticas.
de e muitas vezes com ironia. Percebe
as injustiças do mundo (guerras, violên-
cia) e as transforma na matéria de sua
Poesia poesia.
Os poemas a seguir fazem parte
da obra Sentimento do Mundo.

Carlos Drummond Poema de Sete Faces


de Andrade Quando nasci, um anjo torto
(1902 – 1987) desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche
Carlos Drummond de Andrade nas- [na vida.
ceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902. As casas espiam os homens
Graduou-se em Farmácia em Belo Hori-
que correm atrás de mulheres.
zonte. Retornou a Itabira, onde foi pro-
fessor de Português e Geografia. No- A tarde talvez fosse azul,
vamente em Belo Horizonte, segue a car- não houvesse tantos desejos.
reira jornalística e atua como funcioná-
rio público. Foi oficial de gabinete do Mi- O bonde passa cheio de pernas:
nistério da Educação, chefiou a secção pernas brancas pretas amarelas.
de História da Divisão de Estudos e Tom- Para que tanta perna, meu Deus,
bamento da Diretoria do Patrimônio His- [pergunta meu coração.
tórico e Artístico Nacional. Integrou o gru-
po modernista de A Revista. Faleceu no Porém meus olhos
Rio de Janeiro em 1987. não perguntam nada.
Escreveu poesia (Alguma Poesia –
O homem atrás do bigode
1930, Brejo das Almas – 1934, Senti-
mento do Mundo – 1940, A Rosa do Povo é sério, simples e forte.
– 1945, Claro Enigma – 1951, Lição de Quase não conversa.
— 275 —

Tem poucos, raros amigos No meio-dia branco de luz uma


[voz que aprendeu
o homem atrás dos óculos e do
[bigode. a ninar nos longes da senzala – e
[nunca se esqueceu
Meu Deus, por que me chamava para o café.
[abandonaste
Café preto que nem a preta velha
se sabias que eu não era Deus
café gostoso
se sabias que eu era fraco.
café bom.
Mundo mundo vasto mundo,
Minha mãe ficava sentada
se eu me chamasse Raimundo
[cosendo
seria uma rima, não seria uma
olhando para mim:
[solução.
- Psiu... Não acorde o menino.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração. Para o berço onde pousou um
[mosquito.
Eu não devia te dizer E dava um suspiro... que fundo!
mas essa lua
Lá longe meu pai campeava
mas esse conhaque
no mato sem fim da fazenda.
botam a gente comovido como
[o diabo. E eu não sabia que minha história
(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo, era mais bonita que a de
Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 11-12)
[Robinson Crusoé.
(Ibid, p. 13-14)
Infância
A Abgar Renault
No Meio do Caminho
Meu pai montava a cavalo, ia para
[o campo. No meio do caminho tinha uma
[pedra
Minha mãe ficava sentada
[cosendo. tinha uma pedra no meio do
[caminho
Meu irmão pequeno dormia.
tinha uma pedra
Eu sozinho menino entre
[mangueiras no meio do caminho tinha uma
[pedra.
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba Nunca me esquecerei desse
[mais. [acontecimento
— 276 —

na minha vida de minhas retinas Dele se encante mais meu


[tão fatigadas. [pensamento.
Nunca me esquecerei que no
Quero vivê-lo em cada vão
[meio do caminho
[momento
tinha uma pedra
E em seu louvor hei de espalhar
tinha uma pedra no meio do [meu canto
[caminho
E rir meu riso e derramar meu
no meio do caminho tinha uma
[pranto
[pedra.
Ao seu pesar ou seu
(Ibid, p. 34)
[contentamento.

E assim, quando mais tarde me


Vinícius de Moraes [procure

(1913 – 1980) Quem sabe a morte, angústia de


[quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem
Marcos Vinícius de Melo Moraes
[ama
nasceu no Rio de Janeiro, em 1913. Gra-
duou-se em Direito em 1933, ano em que Eu possa me dizer do amor (que
publicou seu livro de poesia O Caminho [tive):
para a Distância. Foi crítico, censor ci-
nematográfico, jornalista e diplomata. Que não seja imortal, posto que é
Veio a falecer em 1980. [chama
Mas que seja infinito enquanto
Escreveu Novos Poemas (1938), [dure.
Elegias (1943), Pátria Minha (1949),
entre outras obras. (Apud Antonio Candido e José Aderaldo Castello,
Presença da Literatura Brasileira, p. 410)
Tematizou a oposição entre maté-
ria e espírito; o amor; o desejo; o cotidi-
ano e questões políticas. A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças


Soneto de Fidelidade Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
De tudo, ao meu amor serei atento
Cegas inexatas
Antes, e com tal zelo, e sempre,
[e tanto Pensem nas mulheres
Que mesmo em face do maior Rotas alteradas
[encanto Pensem nas feridas
— 277 —

Como rosas cálidas Motivo


Mas oh não se esqueçam
Eu canto porque o instante existe
Da rosa da rosa
e a minha vida está completa.
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária Não sou alegre nem sou triste:

A rosa radioativa sou poeta.


Estúpida e inválida
Irmão das coisas fugidias,
A rosa com cirrose
não sinto gozo nem tormento.
A anti-rosa atômica
Atravesso noites e dias
Sem cor sem perfume
no vento.
Sem rosa sem nada.
(Ibid, pp.416-417) Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,

Cecília Meireles - não sei, não sei. Não sei se fico


ou passo.
(1901 – 1964)
Sei que canto. E a canção é tudo.
Cecília Meireles nasceu no Rio de
Tem sangue eterno a asa ritmada.
Janeiro em 1901. Órfã desde tenra idade,
recebeu educação da avó materna. Con- E um dia sei que estarei mudo:
clui o curso primário em 1910 e inicia a - mais nada.
Escola Normal, vindo a formar-se em 1917.
(Apud Massaud Moisés, A literatura brasileira através
Atua como professora, escritora e jorna- dos textos, p. 452)
lista. Foi grande divulgadora da cultura
brasileira no estrangeiro. Faleceu em 1964.
Escreveu Mar Absoluto (1945);
Reinvenção
Romanceiro da Inconfidência (1953); A vida só é possível
Canções (1956); Giroflé, Giroflá (1956);
Ou isto ou aquilo (1964), e outras obras, reinventada.
envolvendo literatura adulta e infantil,
Anda o sol pelas campinas
ensaios, antologias e biografias.
e passeia a mão dourada
A escritora escreveu uma poesia
repleta de musicalidade, demonstrando pelas águas, pelas folhas...
influências simbolistas. Além disso, co- Ah! tudo bolhas
loca em questão a fugacidade do tempo
e a precariedade das coisas, o que re- que vêm de fundas piscinas
sulta numa profunda melancolia. de ilusionismo... – mais nada.
— 278 —

Mas a vida, a vida, a vida, O vento vem vindo de longe,


a vida só é possível a noite se curva de frio;
reinventada. debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços. Chorarei o quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
Projeto-me por espaços
e o meu navio chegue ao fundo
cheios da tua Figura.
e o meu sonho desapareça.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura. Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
Não te encontro, não te alcanço...
meus olhos secos como pedras
Só – no tempo equilibrada,
e as minhas duas mãos quebradas.
desprendo-me do balanço
(Ibid, p.456)
que além do tempo me leva.
Só – na treva,
Fico: recebida e dada. Outros autores
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
Murilo Mendes
reinventada.
(1901 – 1975)
(Ibid, p.453)
Murilo Monteiro Mendes nasceu em
Juiz de Fora, Minas Gerais, em 1901.
Canção Realizou os cursos primário e secundá-
Pus o meu sonho num navio rio em sua cidade e em Niterói. Em 1920,
já no Rio de Janeiro, passa a atuar como
e o navio em cima do mar;
funcionário do Ministério da Fazenda.
- depois, abri o mar com as mãos, Em seguida, trabalhou no Banco Mer-
para o meu sonho naufragar. cantil e tempos depois em um cartório.
Faleceu em Lisboa em 1975.
Minhas mãos ainda estão molhadas
Escreveu Poemas (1930), Histó-
do azul das ondas entreabertas,
ria do Brasil (1932), Tempo e Eternida-
e a cor que escorre dos meus dedos de (1935), Mundo Enigma (1945), entre
colore as areias desertas. outros.
— 279 —

Católico, encontrou no cristianismo


a resposta para os problemas políticos Terceira
e ideológicos do mundo moderno. Inte-
grou o grupo espiritualista da segunda
Geração do
geração, ao lado de Vinícius de Morais
e Cecília Meireles.
Modernismo
Utilizou em suas poesias o humor e (1945 até a
a ironia e abordou temas ligados ao cris-
tianismo, enfatizando a efemeridade da
atualidade)
vida e a figura de Cristo, enfocada do
ponto de vista humano.
Alguns historiadores e críticos
costumam chamar o período literário
subseqüente a 1945 de Pós-Modernis-
Jorge de Lima mo, já outros o consideram como a ter-
(1893 – 1953) ceira fase modernista, posição que ado-
tamos.
Jorge Matheos de Lima nasceu em
Alagoas, em 1893. Estudou no Colégio Com o término da Segunda Guer-
dos Irmãos Maristas em Maceió. Em se- ra Mundial, os escritores voltam-se no-
guida, iniciou seus estudos em Medici- vamente às questões internas do país.
na, na Bahia, vindo a formar-se no Rio A nova geração procurou negar
de Janeiro. Retornou a Maceió em 1915, os valores modernistas das gerações
onde iniciou sua carreira como médi- anteriores e trazer novos elementos à
co. Dedicou-se à literatura, influencia- literatura. Caracteriza-se pela discipli-
do inicialmente pelo Parnasianismo e na formal e retomada de valores tradi-
Simbolismo. Em 1935 converteu-se ao cionais na poesia. Os escritores valo-
catolicismo e publicou com Murilo Men- rizam a palavra, tanto no que diz res-
des Tempo e Eternidade. Foi também peito à semântica quanto à sonoridade.
professor universitário e político. Fale-
ceu em 1953 no Rio de Janeiro.

Escreveu poesia (XIV Alexandri- João Cabral de Melo Neto


nos – 1914, Invenção de Orfeu – 1952), (1920 – 1999)
romance (O Anjo – 1934, Calunga –
1935), ensaio, história e biografia.
João Cabral de Melo Neto nasceu
Tematizou o negro e o folclore, a em Recife, Pernambuco, em 1920. Rea-
religiosidade como solução para os pro- lizou os estudos primários e secundári-
blemas mundanos e a ligação entre o os em sua cidade, não chegando ao
homem e o universo, utilizando elemen- curso superior. Após trabalhar numa
tos bíblicos e profanos. companhia de seguros na Associação
— 280 —

Comercial de Pernambuco e no Depar- deram então de me chamar


tamento de Estatística do Estado, trans- Severino de Maria;
feriu-se para o Rio de Janeiro. Foi diplo-
como há muitos Severinos
mata e realizou funções consulares em
Assunção, Barcelona e Dakar. Foi mem- com mães chamadas Maria,
bro da Academia Brasileira de Letras. fiquei sendo o da Maria
Faleceu em 1999. do finado Zacarias.
Entre suas obras estão Pedra do Mas isso ainda diz pouco:
Sono (1942), O Cão sem Plumas há muitos na freguesia,
(1950), Morte e Vida Severina (1956),
por causa de um coronel
Uma Faca Só Lâmina (1956).
que se chamou Zacarias
Escreveu poemas sem retórica ou
e que foi o mais antigo
derramamentos sentimentais, não dei-
xando de transmitir emoção. Todavia, senhor desta sesmaria.
esta é mais contida, já que seleciona Como então dizer quem fala
cuidadosamente os vocábulos, compon- ora a Vossas Senhorias?
do uma linguagem precisa, exata. Vejamos: é o Severino
Os trechos a seguir fazem parte da da Maria do Zacarias,
obra inspirada em composições medie-
lá da serra da Costela,
vais, Morte e Vida Severina, “auto de
Natal pernambucano” que tem como tema limites da Paraíba.
a trajetória de Severino. O personagem Mas isso ainda diz pouco:
é um homem do sertão que busca me- se ao menos mais cinco havia
lhores condições de vida e sai em dire- com nome de Severino
ção ao Litoral. Por onde passa depara-
filhos de tantas Marias
se com a morte, o que o faz até pensar
em desistir da própria vida. Entretanto, já mulheres de outros tantos,
no Litoral, assiste ao nascimento de um já finados, Zacarias,
menino, trazendo alegria e esperança a vivendo na mesma serra
todos os homens ali presentes.
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
Morte e vida severina
iguais em tudo na vida:
O POETA EXPLICA AO LEITOR QUEM É na mesma cabeça grande
E A QUE VAI que a custo é que se equilibra,
-O meu nome é Severino, no mesmo ventre crescido
não tenho outro de pia. sobre as mesmas pernas finas,
Como há muitos Severinos, e iguais também porque o sangue
que é santo de romaria, que usamos tem pouca tinta.
— 281 —

E se somos Severinos tinha apenas dois meses, seus pais imi-


iguais em tudo na vida, graram para São Paulo. Realizou os cur-
morremos de morte igual, sos primários e secundários no Recife.
Cursou Direito no Rio de Janeiro, vindo
mesma morte severina:
a formar-se em 1944. Casou-se com
que é a morte que se morre um diplomata e afastou-se do país por
de velhice antes dos trinta, diversas vezes, não deixando, porém,
de emboscada antes dos vinte, de escrever. Faleceu no Rio de Janeiro
de fome um pouco por dia em 1977.
(de fraqueza e de doença Escreveu romances (O Lustre –
é que a morte severina 1946, A Cidade Sitiada – 1949, A Maçã
ataca em qualquer idade, no Escuro – 1961, A Paixão Segundo
e até gente não nascida). G. H. – 1964, Uma Aprendizagem ou O
Livro dos Prazeres – 1969, Água Viva
Somos muitos Severinos
– 1973, A Hora da Estrela – 1977); con-
iguais em tudo e na sina: tos (Laços de Família – 1960, A Le-
a de abrandar estas pedras gião Estrangeira – 1964, A Via Crucis
suando-se muito em cima, do Corpo – 1974); crônicas e livros in-
a de tentar despertar fantis.
terra sempre mais extinta, A autora produziu uma obra de
a de querer arrancar ficção fundamentalmente introspecti-
algum roçado da cinza. va, centrada na intimidade dos perso-
Mas, para que me conheçam nagens.
melhor Vossas Senhorias A prosa aproxima-se da poesia e
e melhor possam seguir é muitas vezes marcada pelo fluxo psi-
a história de minha vida, cológico dos personagens. Estes, a
passo a ser o Severino partir de fatos do cotidiano, aparente-
mente sem importância, descobrem-se
que em vossa presença emigra.
e encontram a própria razão de existir.
(João Cabral de Melo Neto, Morte e vida severina, Rio
de Janeiro: Nova Fronteira,1994, pp.29-30) Um bom exemplo disso é o conto a
seguir, pertencente ao livro Laços de
Família.
Clarice Lispector
(1925 – 1977) Uma galinha
Era uma galinha de domingo. Ainda
Clarice Lispector nasceu em Tchet- viva porque não passava de nove ho-
chelnik, Ucrânia, em 1925. Quando ela ras da manhã.
— 282 —

Parecia calma. Desde sábado en- gante num beiral de telhado e enquanto
colhera-se num canto da cozinha. Não o rapaz galgava outros com dificuldade
olhava para ninguém, ninguém olhava tinha tempo de se refazer por um mo-
para ela. Mesmo quando a escolheram, mento. E então parecia tão livre.
apalpando sua intimidade com indiferen-
Estúpida, tímida e livre. Não vitorio-
ça, não souberam dizer se era gorda ou
sa como seria um galo em fuga. Que é
magra. Nunca se adivinharia nela um an-
que havia nas suas vísceras que fazia
seio.
dela um ser? A galinha é um ser. É ver-
Foi pois uma surpresa quando a vi- dade que não se poderia contar com ela
ram abrir as asas de curto vôo, inchar o para nada. Nem ela própria contava con-
peito e, em dois ou três lances, alcançar sigo, como o galo crê na sua crista. Sua
a murada do terraço. Um instante ainda única vantagem é que havia tantas gali-
vacilou – o tempo da cozinheira dar um nhas que morrendo uma surgiria no mes-
grito – e em breve estava no terraço do mo instante outra tão igual como se fora
vizinho, de onde, em outro vôo desajei- a mesma.
tado, alcançou um telhado. Lá ficou em Afinal, numa das vezes em que
adorno deslocado, hesitando ora num, parou para gozar sua fuga, o rapaz
ora noutro pé. A família foi chamada com alcançou-a. Entre gritos e penas, ela
urgência e consternada viu o almoço foi presa. Em seguida carregada em
junto de uma chaminé. O dono da casa triunfo por uma asa através das telhas
lembrando-se da dupla necessidade de e pousada no chão da cozinha com
fazer esporadicamente algum esporte e certa violência. Ainda tonta, sacudiu-
de almoçar vestiu radiante um calção de se um pouco, em cacarejos roucos e
banho e resolveu seguir o itinerário da indecisos.
galinha: em pulos cautelosos alcançou
o telhado onde esta hesitante e trêmula Foi então que aconteceu. De pura
escolhia com urgência outro rumo. A afobação a galinha pôs um ovo. Sur-
perseguição tornou-se mais intensa. De preendida, exausta. Talvez fosse pre-
telhado a telhado foi percorrido mais de maturo. Mas logo depois, nascida que
um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma fora para a maternidade, parecia uma
luta mais selvagem pela vida a galinha velha mãe habituada. Sentou-se sobre
tinha que decidir por si mesma os cami- o ovo e assim ficou respirando, aboto-
nhos a tomar sem nenhum auxílio de sua ando e desabotoando os olhos. Seu
raça. O rapaz, porém, era um caçador, coração tão pequeno num prato soleava
adormecido. E por mais ínfima que fos- e abaixava as penas enchendo de tepi-
se a presa o grito de conquista havia dez aquilo que nunca passaria de um
soado. ovo. Só a menina estava perto e assis-
tiu a tudo estarrecida. Mal porém con-
Sozinha no mundo, sem pai nem seguiu desvencilhar-se do aconteci-
mãe, ela corria, arfava, muda, concen- mento despregou-se do chão e saiu aos
trada. Às vezes, na fuga, pairava ofe- gritos:
— 283 —

- Mamãe, mamãe, não mate mais a campo, embora a pequena cabeça a


galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nos- traísse: mexendo-se rápida e vibrátil,
so bem! com o velho susto de sua espécie já
mecanizado.
Todos correram de novo à cozinha
e rodearam mudos a jovem parturiente. Uma vez ou outra, sempre mais ra-
Esquentando seu filho, esta não era nem ramente, lembrava de novo a galinha que
suave nem arisca, nem alegre nem tris- se recortara contra o ar à beira do te-
te, não era nada, era uma galinha. O lhado, prestes a anunciar. Nesses mo-
que não sugeria nenhum sentimento es- mentos enchia os pulmões com o ar im-
pecial. O pai, a mãe e a filha olhavam já puro da cozinha e, se fosse dado às
há algum tempo, sem propriamente um fêmeas cantar, ela não cantaria mas fi-
pensamento qualquer. Nunca ninguém caria muito mais contente. Embora nem
acariciou uma cabeça de galinha. O pai nesses instantes a expressão de sua
afinal decidiu-se com certa brusquidão: vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no
- Se você mandar matar esta gali- descanso, quando deu à luz ou bicando
nha nunca mais comerei galinha na mi- milho – era uma cabeça de galinha, a
nha vida! mesma que fora desenhada no começo
dos séculos.
- Eu também! jurou a menina com
ardor. Até que um dia mataram-na, come-
ram-na e passaram-se anos.
A mãe, cansada, deu de ombros.
(Clarice Lispector, Laços de Família, Rio de Janeiro:
Inconsciente da vida que lhe fora Francisco Alves, 1993, pp. 43-46)
entregue, a galinha passou a morar com
a família. A menina, de volta do colégio,
jogava a pasta longe sem interromper a Guimarães Rosa
corrida para a cozinha. O pai de vez em
quando ainda se lembrava: “E dizer que
(1908 – 1967)
a obriguei a correr naquele estado!” A
galinha tornara-se a rainha da casa. João Guimarães Rosa nasceu em
Todos, menos ela, o sabiam. Continuou Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908.
entre a cozinha e o terraço dos fundos, Graduou-se em Medicina, seguindo por
usando suas duas capacidades: a de um tempo a carreira de médico. Foi tam-
apatia e a do sobressalto. bém diplomata e embaixador. Faleceu no
Rio de Janeiro em 1967.
Mas quando todos estavam quie-
tos na casa e pareciam tê-la esqueci- Entre suas obras estão Sagarana
do, enchia-se de uma pequena cora- (1946); Corpo de Baile (1956); Grande
gem, resquícios da grande fuga – e cir- Sertão: Veredas (1956); Primeiras Es-
culava pelo ladrilho, o corpo avançan- tórias (1962); Tutaméia (Terceiras Es-
do atrás da cabeça, pausado como num tórias) (1967).
— 284 —

O escritor expôs, a partir do sertão Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse


mineiro, as questões humanas mais pro- – o oh-homem-oh – com cara de ne-
fundas. Portanto, sua obra tem caráter nhum amigo. Sei o que é influência de
universal. fisionomia. Saíra e viera, aquele homem,
para morrer em guerra. Saudou-me seco,
A linguagem utilizada é fruto de in- curto pesadamente. Seu cavalo era alto,
tensa construção formal, agrupando re- um alazão; bem arreado, ferrado, sua-
gionalismo, termos científicos, arcaísmos, do. E concebi grande dúvida.
expressões estrangeiras e marcada pela
oralidade. Além disso, o autor de Gran- Nenhum se apeava. Os outros, tris-
de Sertão: Veredas soube explorar com tes três, mal me haviam olhado, nem
precisão os vocábulos. olhassem para nada. Semelhavam a
gente receosa, tropa desbaratada, so-
O conto a seguir faz parte do livro pitados, constrangidos – coagidos, sim.
Primeiras Estórias e trabalha a ques- Isso por isso, que o cavaleiro solerte
tão da palavra, com seus múltiplos sig- tinha o ar de regê-los: a meio-gesto,
nificados, conotações. Ela pode pro- desprezivo, intimara-os de pegarem o
vocar lutas, gerar discórdia, trazer rai- lugar onde agora se encostavam. Dado
va, ou mesmo abrandar situações, ser que a frente da minha casa reentrava,
motivo de alegria e prazer ao ser ouvi- metros, da linha da rua, e dos dois la-
da. Guimarães coloca frente a frente dos avançava a cerca, formava-se ali
dois homens: um iletrado, temido no lu- um encantoável, espécie de resguar-
gar por causa de seus feitos, que de- do. Valendo-se do que, o homem obri-
seja saber o significado de um vocábu- gara os outros ao ponto donde seriam
lo, e um letrado, que o deixa ciente do menos vistos, enquanto barrava-lhes
sentido deste, tomando o cuidado de qualquer fuga; sem contar que, unidos
não deixá-lo insatisfeito ao responder assim, os cavalos se apertando, não
à pergunta... dispunham de rápida mobilidade. Tudo
enxergara, tomando ganho da topogra-
fia. Os três seriam seus prisioneiros,
Famigerado não seus sequazes. Aquele homem,
Foi de incerta feita – o evento. Quem para proceder da forma, só podia ser
pode esperar coisas tão sem pés nem um brabo sertanejo, jagunço até na
cabeça? Eu estava em casa, o arraial escuma do bofe. Senti que não me fi-
sendo de todo tranqüilo. Parou-me à cava útil dar cara amena, mostras de
porta o tropel. Cheguei à janela. temoroso. Eu não tinha arma ao alcan-
ce. Tivesse, também, não adiantava.
Um grupo de cavaleiros. Isto é, ven- Com um pingo no i, ele me dissolvia. O
do melhor: um cavaleiro rente, frente à medo é a extrema ignorância em mo-
minha porta, equiparado, exato; e, mento muito agudo. O medo O. O medo
embolados, de banda, três homens a me miava. Convidei-o a desmontar, a
cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. entrar.
— 285 —

Disse de não, conquanto os costu- podia ser para cada momento. Tivesse
mes. Conservava-se de chapéu. Via- aceitado de entrar e um café, calmava-
se que passara a descansar na sela – me. Assim, porém, banda de fora, sem
decerto relaxava o corpo para dar-se a-graças de hóspede nem surdez de
mais à ingente tarefa de pensar. Per- paredes, tinha para um se inquietar, sem
guntei: respondeu-me que não estava medida e sem certeza.
doente, nem vindo à receita ou consul-
ta. Sua voz se espaçava, querendo-se – “Vosmecê é que não me conhe-
calma; a fala de gente de mais longe, ce. Damázio, dos Siqueiras... Estou vin-
talvez são-franciscano. Sei desse tipo do da Serra...”
de valentão que nada alardeia, sem Sobressalto. Damázio, quem dele
farroma. Mas avessado, estranhão, per- não ouvira? O feroz de estórias de lé-
verso brusco, podendo desfechar com
guas, com dezenas de carregadas mor-
algo, de repente, por um és-não-és. Muito
tes, homem perigosíssimo. Constando
de macio, mentalmente, comecei a me
também, se verdade, que de para uns
organizar. Ele falou:
anos ele se serenara – evitava o de
– “Eu vim preguntar a vosmecê uma evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tré-
opinião sua explicada...” guas de pantera? Ali, antenasal, de mim
Carregara a celha. Causava outra a palmo! Continuava:
inquietude, sua farrusca, a catadura de
– “Saiba vosmecê que, na Serra,
canibal. Desfranziu-se, porém quase
por o ultimamente, se compareceu um
que sorriu. Daí, desceu do cavalo; ma-
moço do Governo, rapaz meio estron-
neiro, imprevisto. Se por se cumprir do
doso... Saiba que estou com ele à reve-
maior valor de melhores modos; por es-
lia... Cá eu não quero questão com o
perteza? Reteve no pulso a ponta do
Governo, não estou em saúde nem ida-
cabresto, o alazão era para paz. O cha-
péu sempre na cabeça. Um alarve. Mais de... O rapaz, muitos acham que ele é
os ínvios olhos. E ele era para muito. de seu tanto esmiolado...”
Seria de ver-se: estava em armas – e Com arranco, calou-se. Como ar-
de armas alimpadas. Dava para se sen- rependido de ter começado assim, de
tir o peso da de fogo, no cinturão, que evidente. Contra que aí estava com o
usado baixo, para ela estar-se já ao ní- fígado em más margens; pensava, pen-
vel justo, ademão tanto que ele se per- sava. Cabismeditado. Do que, se resol-
sistia de braço direito pendido, pronto veu. Levantou as feições. Se é que se
meneável. Sendo a sela, de notar-se, riu: aquela crueldade de dentes. Enca-
uma jereba papuda urucuiana, pouco de rar, não me encarava, só se fito à meia
se achar, na região, pelo menos de tão esguelha. Latejava-lhe um orgulho inde-
boa feitura. Tudo de gente brava. Aque-
ciso. Redigiu seu monologar.
le propunha sangue, em suas tenções.
Pequeno, mas duro, grossudo, todo em O que frouxou falava: de outras,
tronco de árvore. Sua máxima violência diversas pessoas e coisas, da Serra,
— 286 —

do São Ão, travados assuntos, inse- ba, no aperfeiçoado: o que é que é, o


qüentes, como dificultação. A conversa que iá lhe perguntei”?
era para teias de aranha. Eu tinha de
Se simples. Se digo. Transfoi-se-
entender-lhe as mínimas entoações,
me. Esses trizes:
seguir seus propósitos e silêncios. As-
sim no fechar-se com o jogo, sonso, no – Famigerado?
me iludir, ele enigmava. E, pá:
– “Sim senhor...” – e, alto, repito,
– “Vosmecê agora me faça a boa vezes, o termo, enfim nos vermelhões
obra de querer me ensinar o que é mesmo da raiva, sua voz fora de foco. E já me
que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... olhava, interpelador, intimativo – aperta-
falmisgeraldo... familhas-gerado...? va-me. Tinha eu que descobrir a cara. –
Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem
Disse, de golpe, trazia entre den- que eu me carecia noutro ínterim, em
tes aquela frase. Soara com riso seco. indúcias. Como por socorro, espiei os
Mas, o gesto, que se seguiu, imperava- três outros, em seus cavalos, intugidos
se de toda a rudez primitiva, de sua pre- até então, mumumudos. Mas, Damázio:
sença dilatada. Detinha minha resposta,
não queria que eu a desse de imediato. – “Vosmecê declare. Estes aí são
E já aí outro susto vertiginoso suspen- de nada não. São da Serra. Só vieram
dia-me: alguém podia ter feito intriga, comigo, pra testemunho...”
invencionice de atribuir-me a palavra de Só tinha de desentalar-me. O ho-
ofensa àquele homem; que muito, pois, mem queria estrito o caroço: o verivérbio.
que aqui ele se famanasse, vindo para
– Famigerado é inóxio, é célebre”,
exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexa-
“notório”, “notável”...
tória satisfação?
– “Vosmecê mal não veja em minha
– “Saiba vosmecê que saí ind’hoje grossaria no não entender. Mais me diga:
da Serra, que vim, sem parar, essas seis É desaforado? É caçoável? É de ar-
léguas, expresso direto pra mor de lhe renegar? Farsância? Nome de ofensa?”
pregunta a pregunta, pelo claro...”
– Vilta nenhuma, nenhum doesto.
Se sério, se era. Transiu-se-me. São expressões neutras, de outros
usos...
– “Lá, e por estes meios de cami-
nho, tem nenhum ninguém ciente, nem – “Pois... e o que é que é, em fala
têm o legítimo – o livro que aprende as de pobre, linguagem de em dia-de-se-
palavras... É gente pra informação tor- mana?”
ta, por se fingirem de menos ignorânci-
– Famigerado? Bem. É: “importan-
as... Só se o padre, no São Ão, capaz,
te”, que merece louvor, respeito...
mas com padres não me dou: eles logo
engambelam... A bem. Agora, se me faz – “Vosmecê agarante, pra a paz
mercê, vosmecê me fale, no pau da pero- das mães, mão na Escritura?”
— 287 —

Se certo! Era para se empenhar a Guimarães trabalha diferentes te-


barba. Do que o diabo, então eu sincero mas: infância, violência, loucura, culpa,
disse: memória, amor; realizando desde a abor-
dagem psicológica, passando pela fan-
– Olhe: eu, como o sr. me vê, com
tástica, mística, lírica até a satírica.
vantagens, hum, o que eu queria uma
hora destas era ser famigerado – bem Pequenos fatos do cotidiano des-
famigerado, o mais que pudesse!... pertam no leitor a sensibilidade para as
coisas simples da vida e provocam a
– “Ah, bem!...” – soltou, exultante.
reflexão sobre o grandioso mistério da
Saltando na sela, ele se levantou de existência.
molas. Subiu em si, desagravava-se, num Na maior parte dos contos o cená-
desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez rio é o campo, provavelmente reminis-
aqueles três: – “Vocês podem ir, compa- cências da infância e juventude do au-
dres. Vocês escutaram bem a boa des- tor em Minas Gerais. Já os personagens
crição...” – e eles prestes se partiram. em geral são loucos ou crianças, criatu-
Só aí se chegou, beirando-me a janela, ras que encaram de modo peculiar a
aceitava um copo d’água. Disse: – “Não realidade e demonstram maior sensibili-
há como que as grandezas machas duma dade para o misticismo e a metafísica.
pessoa instruída!” Seja que de novo, por Conseguem transformar episódios coti-
um mero, se torvava? Disse: – “Sei lá, às dianos em momentos intensos, de reve-
vezes o melhor mesmo, pra esse moço lação epifânica e mudança de vida.
do Governo, era ir-se embora, sei não...”
Mas mais sorriu, apagar-se-lhe a inquie-
tação. Disse: – “A gente tem cada cisma Grande Sertão: Veredas
de dúvida boba, dessas desconfian- Romance publicado em 1956, mes-
ças... Só pra azedar a mandioca...” Agra- mo ano da publicação de Corpo de Bai-
deceu, quis me apertar a mão. Outra vez, le, Grande Sertão: Veredas é a obra
aceitaria de entrar em minha casa. Oh, mais importante de Guimarães Rosa e já
pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pen- foi traduzida para diversas línguas.
sava no que o trouxera, tese para alto
rir, e mais, o famoso assunto. A narrativa é centrada no discurso
de Riobaldo, narrador-personagem que
(Guimarães Rosa, Primeiras Estórias, Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1988, p. 13-17)
conta sua experiência de vida a um
interlocutor, que em momento algum se
Primeiras Estórias manifesta.

Publicada em 1962, Primeiras Es- Ex-jagunço do norte de Minas,


tórias é uma obra que reúne vinte e um Riobaldo agora vive próximo ao Rio São
contos, estruturados em pequenas nar- Francisco como fazendeiro e tem o hábi-
rativas que têm como fio condutor um to de rezar e conversar com as pessoas
único acontecimento. que por ali passam, contando casos es-
— 288 —

tranhos, histórias de vingança, de per- sociais dos sertão; o das reflexões, em


seguição, de luta e também de amor. que Riobaldo retoma seu passado e res-
gata sua própria vida; o plano mítico, ca-
Apesar de jagunço, Riobaldo rece-
racterizado pelos conflitos que se mos-
beu educação formal, o que pode ser
tram através das forças da natureza.
percebido em suas reflexões metafísi-
cas e na oralidade fluente. A leitura do texto dá-nos realmente
a impressão de um relato oral, pela lin-
O narrador-personagem conta vá- guagem e recursos sintáticos utilizados.
rias histórias, conservando sempre a Contudo, o discurso sertanejo é enri-
inquietação em questionar a existência quecido por diversos regionalismos, ar-
ou não do diabo. Pouco a pouco o leitor caísmos, estrangeirismos e neologismos,
vai desvendando o motivo desta preo- resultado de estudos e pesquisas do
cupação: ela está relacionada a um pro- autor. Dessa forma, a obra assume um
vável pacto feito por Riobaldo com o dia- caráter dual, oscilando entre o coloquial
bo, quando, na juventude, ele almejava e o erudito, caráter também presente no
vencer seu inimigo Hermógenes. Dessa conteúdo da mesma: ao discutir a exis-
forma, o futuro de sua alma depende da tência ou não do diabo ou mesmo ao
existência ou não do diabo. apresentar personagens como Diadorim,
mulher que se traveste de homem, as-
Ao relatar seus casos, o narrador
sumindo o papel de um jagunço.
mistura acontecimentos vividos e imagi-
nados, adquirindo a narrativa o ritmo frag- (fragmento)
mentário e não linear das lembranças.
— Nonada. Tiros que o senhor ou-
A linguagem tem para o narrador viu foram de briga de homem não, Deus
um papel fundamental: o de examinar esteja. Alvejei mira em árvores no quin-
sua vida e tentar entendê-la, além de tal, no baixo do córrego. Por meu acerto.
purgar-se de suas culpas. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em
Merece destaque a personagem minha mocidade. Daí, vieram me chamar.
feminina Diadorim, que exerce forte atra- Causa dum bezerro: um bezerro bran-
ção sobre Riobaldo, mas por outro lado co, erroso, os olhos de nem ser – se viu
traz-lhe grandes preocupações. Isso -; e com máscara de cachorro. Me dis-
porque o narrador pensa que Diadorim seram; eu não quis avistar. Mesmo que,
é um homem, o bravo guerreiro Reinaldo, por defeito como nasceu, arrebitado de
beiços, esse figurava rindo feito pes-
vindo a descobrir a verdadeira identida-
soa. Cara de gente, cara de cão: deter-
de dessa personagem apenas ao térmi-
minaram – era o demo. Povo prascóvio.
no da luta em que ela é morta por Her-
Mataram. Dono dele nem sei quem for.
mógenes.
Vieram emprestar minhas armas, cedi.
Segundo os críticos, podemos iden- Não tenho abusões. O senhor ri certas
tificar três planos no romance: o da vida risadas... Olhe: quando é tiro de verda-
dos jagunços, mostrando os aspectos de, primeiro a cachorrada pega a latir,
geográficos, econômicos, políticos e instantaneamente – depois, então, se vai
— 289 —

ver se deu mortos. O senhor tolere, isto executa; razão que o Simpilício se em-
é o sertão. Uns querem que não seja: presa em vias de completar de rico.
que situado sertão é por os campos- Apre, por isso dizem também que a bes-
gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de ta pra ele rupeia, nega de banda, não
rumo, terras altas, demais do Urucuia. deixando, quando ele quer amontar...
Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, Superstição. Jisé Simpilício e Aristides,
então, o aqui não é dito sertão? Ah, que mesmo estão se engordando, de assim
tem maior! Lugar sertão se divulga: é não-ouvir ou ouvir. Ainda o senhor es-
onde os pastos carecem de fechos; onde tude: agora mesmo, nestes dias de épo-
um pode torar dez, quinze léguas, sem ca, tem gente porfalando que o Diabo
topar com casa de morador; e onde cri- próprio parou, de passagem, no Andre-
minoso vive seu cristo-jesus, arredado quicé. Um Moço de fora, teria apareci-
do arrocho de autoridade. O Urucuia vem do, e lá se louvou que, para aqui vir –
dos montões oestes. Mas, hoje, que na normal, a cavalo, dum dia-e-meio – ele
beira dele, tudo dá – fazendões de fa- era capaz que só com uns vinte minutos
zendas, almargem de vargens de bom bastava... porque costeava o Rio do
render, as vazantes; culturas que vão Chico pelas cabeceiras! Ou, também,
de mata em mata, madeiras de grossura, quem sabe – sem ofensas – não terá
até ainda virgens dessas lá há. O gerais sido, por um exemplo, até mesmo o se-
corre em volta. Esses gerais são sem nhor quem se anunciou assim, quando
tamanho. Enfim, cada um o que quer passou por lá, por prazido divertimento
aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é engraçado? Há-de, não me dê crime,
questão de opiniães... O sertão está em sei que não foi. E mal eu não quis. Só
toda a parte. que uma pergunta, em hora, às vezes,
clareia razão de paz. Mas, o senhor
No demo? Não gloso. Senhor per- entenda: o tal moço, se há, quis mangar.
gunte aos moradores. Em falso receio, Pois, hem, que, despontar o Rio pelas
desfalam no nome dele – dizem só: o nascentes, será a mesma coisa que um
Que-Diga. Vote! não... Quem muito se se redobrar nos internos deste nosso
evita, se convive. Sentença num Aristi- Estado nosso, custante viagem de uns
des – o que existe no buritizal primeiro três meses... Então? Que-Diga? Doidei-
desta minha mão direita, chamado a Ve- ra. A fantasiação. E, o respeito de dar a
reda-da-Vaca-Mansa-de-Santa-Rita – ele assim esses nomes de rebuço, é
todo o mundo crê: ele não pode passar que é mesmo um querer invocar que ele
em três lugares, designados: porque forme forma, com as presenças!
então a gente escuta um chorinho, atrás,
e uma vozinha que avisando: - “Eu já Não seja. Eu pessoalmente, quase
vou! Eu já vou!...” – que é o capiroto, o que já perdi nele a crença, mercês a
que-diga... E um Jisé Simpilício – quem Deus; é o que ao senhor lhe digo, à puri-
qualquer daqui jura ele tem um capeta dade. Sei que é bem estabelecido, que
em casa, miúdo satanazim, preso obri- grassa nos Santos-Evangelhos. Em oca-
gado a ajudar em toda ganância que sião, conversei com um rapaz semina-
— 290 —

rista, muito condizente, conferindo no sossegos, estou de range rede. E me


livro de rezas e revestido de paramenta, inventei neste gosto, de especular idéia.
com uma vara de maria-preta na mão – O diabo existe e não existe? Dou o dito.
proseou que ia adjutorar o padre, para Abrenúncio. Essas melancolias. O se-
extraírem o Cujo, do corpo vivo de uma nhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas
velha, na Cachoeira-dos-Bois, ele ia cachoeira é barranco de chão, e água
com o vigário do Campo-Redondo... Me se caindo por ele, retombando; o senhor
concebo. O senhor não é como eu? Não consome essa água, ou desfaz o bar-
acreditei patavim. Compadre meu Quele- ranco, sobra cachoeira alguma? Viver é
mém descreve que o que revela efeito negócio muito perigoso...
são os baixos espíritos descarnados,
Explico ao senhor: o diabo vige den-
de terceira, fuzuando nas piores trevas
tro do homem, os crespos do homem –
e com ânsias de se travarem com os
ou é o homem arruinado, ou o homem
viventes – dão encosto. Compadre meu
dos avessos. Solto, por si, cidadão, é
Quelemém é quem muito me consola –
que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é
Quelemém de Góis. Mas ele tem de mo-
o que digo. O senhor aprova? Me decla-
rar longe daqui, na Jijujã, Vereda do Buriti
re tudo, franco – é alta mercê que me
Pardo... Arres, me deixe lá, que – em
faz: e pedir posso, encarecido. Este caso
endemoninhamento ou com encosto – o
– por estúrdio que me vejam – é de minha
senhor mesmo deverá de ter conhecido
certa importância. Tomara não fosse...
diversos, homens, mulheres. Pois não
Mas, não diga que o senhor, assiado e
sim? Por mim, tantos vi, que aprendi. Rin-
instruído, que acredita na pessoa dele?!
cha-Mãe, Sangue-d’Outro, o Muitos-Bei-
Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião com-
ços, o Rasga-em-Baixo, Faca-Fria, o
põe minha valia. Já sabia, esperava por
Fancho-Bode, um Trecizizno, o Azinha-
ela – já o campo! Ah, a gente, na velhice,
ve... o Hermógenes... Deles, punhadão.
carece de ter sua aragem de descanso.
Se eu pudesse esquecer tantos no-
Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem
mes... Não sou amansador de cavalos!
espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver,
E, mesmo, quem de si de ser jagunço se
então era eu mesmo, este vosso servi-
entrete, já é por alguma competência
dor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo re-
entrante do demônio. Será não? Será?
gula seu estado preto, nas criaturas, nas
De primeiro, eu fazia e mexia, e pen- mulheres, nos homens. Até: nas crian-
sar não pensava. Não possuía os pra- ças – eu digo. Pois não é ditado: “menino
zos. Vivi puxando difícil de difícel, peixe – trem do diabo”? E nos usos, nas plan-
vivo no moquém: quem mói no asp’ro, tas, nas águas, na terra, no vento... Es-
não fantaseia. Mas, agora, feita a folga trumes... O diabo na rua, no meio do re-
que me vem, e sem pequenos desas- demunho...
sossegos, estou de range rede. E me ( Rosa, João Guimarães. Grande Sertão:Veredas, Rio
que me vem, e sem pequenos desas- de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, pp.1-4)
— 291 —

Resumo do Modernismo
Momento sócio-cultural Grande (1933), O Rei da Vela (1937).
• Manuel Bandeira: deixou obra líri-
• As máquinas e o ritmo acelerado da
ca, precisa e simples, mas muito bem
civilização industrial se incorporavam
construída. Destacam-se Libertina-
à paisagem brasileira.
gem (1930), Estrela da Manhã
• Problemas sociais antigos continuam
(1936), Itinerário de Pasárgada
sem solução, produzindo tensões e
(1954), Estrela da Vida Inteira (1966).
conflitos graves. Os meios intelec-
• Graciliano Ramos: expoente do ro-
tuais sentem que é preciso reformar
mance regional e de análise psicológi-
o Brasil, mergulhado numa contradi-
ca. Principais obras: São Bernardo
ção grave: ao mesmo tempo em que
(1934), Angústia (1936), Vidas Secas
se modernizava, mantinha uma or-
(1938), Memórias do Cárcere (1953).
ganização social arcaica.
• Carlos Drummond de Andrade:
Características literárias considerado o maior poeta da litera-
• A 1ª fase é a de ruptura com o pas- tura brasileira, deixou obra que ex-
sado. Humor, uso do coloquial, pressa a angústia do homem con-
primitivismo, vanguardas, tudo é vá- temporâneo. Destaques: Alguma Po-
lido para criar uma literatura em esia (1930), Sentimento do Mundo
sintonia com os novos tempos. (1940), A Rosa do Povo (1945), Cla-
• na 2ª fase se estabelecem o roman- ro Enigma (1951), Boitempo (1968).
ce regionalista, que retrata uma certa • João Cabral de Melo Neto: um dos
região do país, e a prosa intimista, poetas brasileiros mais importantes,
que estuda o homem urbano. deixou obra sem exageros sentimen-
• a 3 ª fase nega algumas das pro- tais, precisa e seca. Destaques: Pe-
postas da 1ª e retoma o uso cuida- dra do Sono (1942), O Cão sem Plu-
doso e consciente da palavra. O mas (1950), Morte e Vida Severina
número de correntes literárias e au- (1956), Museu de Tudo (1975).
tores cresce, o que torna difícil clas- • Clarice Lispector: autora de obra
sificar essa fase. voltada ao intimismo e ao mergulho
na psique dos personagens. Princi-
Autores e obras pais obras: A Cidade Sitiada (1949),
• Mário de Andrade: deixou uma obra A Paixão segundo G. H. (1964), Água
vasta e muito influente, onde os des- Viva (1973), A Via-Crúcis do Corpo
taques são Paulicéia Desvairada (1974), A Hora da Estrela (1977).
(1922), Macunaíma (1928), Contos • Guimarães Rosa: usando o sertão
Novos (1946), Lira Paulistana (1946). mineiro como cenário, criou obra que
• Oswald de Andrade: incorporou ele- investiga temais universais. Desta-
mentos das vanguardas européias em ques: Sagarana (1946), Corpo de Bai-
seus poemas. Escreveu Memórias le (1956), Grande Sertão: Veredas
Sentimentais de João Miramar (1924), (1956), Tutaméia (Terceiras Estó-
Paul Brasil (1925), Serafim Ponte rias)(1967).
— 292 —

Tendências Contemporâneas
(1960 até a atualidade)
A partir das décadas de 50 e 60, A influência das diversas lingua-
muitos autores falam em Pós-Modernis- gens na poesia está diretamente relaci-
mo ou tendências contemporâneas. Isso onada aos elementos visuais que pas-
porque ainda se fazem presentes mui- sam a compor as grandes cidades e os
tas características modernistas, porém meios de comunicação de massa.
há várias inovações.
O autor faz questão de ressaltar
Segundo Domício Proença Filho, a que “poesia visual” engloba “toda espé-
arte pós-modernista aproxima a arte eru- cie de poesia ou texto que utilize ele-
dita e a arte popular; é marcada pela mentos gráficos para se somar às pala-
intertextualidade (diálogo entre obras); vras, em qualquer época da história e
realiza uma mistura de estilos; demons- em qualquer lugar; já ‘poesia concreta’ é
tra forte preocupação com o momento um estilo de poesia visual que nasce
presente; faz uso da ironia e da metalin- num dado momento histórico, com ca-
guagem. racterísticas bem definidas.”
O movimento concretista tem sua
origem em 1952, na revista “Noigan-
Poesia dres”, mas inicia-se oficialmente em
1956, com a Exposição Nacional de Arte
Concreta, que aconteceu em São Paulo.
Foi o primeiro movimento literário no Brasil
Concretismo e outros a utilizar recursos visuais, inovando a
idéia de poesia.
movimentos
O Concretismo prioriza os recur-
Segundo Philadelpho Menezes, no sos gráficos das palavras, enfatizando
século XX várias linguagens passam a a comunicação visual entre o texto e o
influenciar a poesia: a tipografia, o de- leitor. Há um abandono dos versos e do
senho, as artes gráficas, a fotografia, o lirismo e o espaço do papel é aproveita-
cinema, a publicidade. Esta passa a uti- do, assim como o conteúdo sonoro e
lizar elementos visuais, criando a cha- visual das palavras. O significado cede
mada “poesia visual” e a valorizar mais sua importância ao valor concreto do
a oralidade da palavra falada, originan- poema. Este, por sua vez, permite mui-
do a “poesia sonora”. tas possibilidades de leitura.
— 293 —

Os principais poetas concretistas Dois e dois: quatro


são Augusto de Campos, seu irmão
Como dois e dois são quatro
Haroldo de Campos e Décio Pignatari.
sei que a vida vale a pena
Paralelamente à poesia concreta embora o pão seja caro
ocorreu a chamada poesia social, que
e a liberdade pequena
resistiu ao formalismo da primeira e cri-
ticou a alienação dos movimentos van- Como teus olhos são claros
guardistas. Retomou os versos e utili-
e a tua pele, morena
zou uma linguagem mais simples, ten-
do como tema a realidade social. Pode- como é azul o oceano
mos citar alguns nomes: Ferreira Gul- e a lagoa, serena
lar, Thiago de Mello e Affonso Romano
de Sant’Anna. como um tempo de alegria
A literatura também sofreu grande por trás do terror me acena
influência do Tropicalismo, movimento
e a noite carrega o dia
no campo da música que, assim como o
no seu colo de açucena
Manifesto Antropófago de Oswald de
Andrade, propunha a incorporação de - sei que dois e dois são quatro
quaisquer culturas, sem preconceito.
sei que a vida vale a pena
Nos anos 70 muitos poetas cons-
truíram uma poesia denominada “mar- mesmo que o pão seja caro
ginal”, pois não tinha sua impressão e e a liberdade, pequena.
distribuição realizada por editoras, mas (Ferreira Gullar, Os melhores poemas de Ferreira
por meio de mimeógrafos ou off-set. Gullar, São Paulo: Global, 1994.)
Alguns autores iniciaram sua produ- Observe com atenção o poema de
ção poética como “marginais”: Chacal, Décio Pignatari:
Paulo Leminski, Cacaso, Chico Alvim.
Utilizaram linguagem coloquial e procu-
raram aproximar poesia e vida. Além
disso, demonstraram fortes influências
concretistas.

Já outros escritores trilharam di-


ferentes caminhos na poesia, não se
enquadrando nas tendências já men-
cionadas. São eles: Adélia Prado, Ma-
nuel de Barros, José Paulo Paes, Ar-
naldo Antunes, Orides Fontela e Fer-
nando Paixão.
— 294 —

Agora veja o poema “Luxo”, de Augusto de Campos, de 1965:

Prosa de grande importância na atualidade,


além de Jorge Amado: João Ubaldo Ri-
beiro, que escreve de modo a recriar a
linguagem.

Realismo Urbano
Romance Psicológico
Os romances de ambientação ur-
bana tematizam a violência e a margina- O romance psicológico possui um
lidade nas grandes cidades. tom intimista e centra-se nas inquieta-
Podemos citar como principais au- ções interiores dos personagens, tra-
tores Rubem Fonseca, com seus con- balhando temas do cotidiano, relaciona-
tos; Dalton Trevisan, com parte de sua dos à família e à afetividade.
obra e João Antônio, com seus contos.
A literatura intimista aproxima-se do
Dentro do realismo urbano há o ro- diário ou das memórias, trabalhando os
mance-reportagem, que parte de episó- grandes conflitos existenciais, muitas
dios verídicos e utiliza recursos como a vezes beirando o pessimismo.
ironia e a paródia. Destacam-se José
Louzeiro e Ignácio de Loyola Brandão. Uma autora que merece destaque
é Lygia Fagundes Telles.

Prosa Regionalista
Crônica
A prosa regionalista retrata as re-
giões brasileiras e suas particularida- Pequenas histórias, baseadas em
des humanas e sociais. A região Cen- fatos do cotidiano, são exploradas por
tral é explorada por Bernardo Ellis e José autores como Stanislaw Ponte Preta,
J. Veiga; a região Sul por Moacyr Scliar Rubem Braga, Otto Lara Resende, Fer-
e a região Norte por Márcio de Souza. A nando Sabino e Luís Fernando Verís-
Bahia, particularmente, tem um escritor simo.
— 295 —

car. Nele, o autor retrata uma época re-


Teatro mota de nossa história, em que o Brasil
O ano de 1943, em que é encenada a era habitado somente pelos índios.
peça Vestido de noiva, de Nelson Ro- Alencar realizou estudos sobre an-
drigues, é tido como o marco inicial do tea- tropologia indígena, a fim de melhor res-
tro moderno no Brasil. gatar este universo e, conseqüentemen-
Nelson Rodrigues merece destaque te, nossas próprias origens.
por suas peças de caráter psicológico, Paralelamente à narrativa, organi-
abordando temas como suicídios, atrope- zam-se notas do autor, resultantes de
lamentos, casos de adultério, sempre pe- leituras dos cronistas e que dão embasa-
netrando na intimidade dos personagens. mento teórico ao texto.
Gianfrancesco Guarnieri abordou a
Nestas notas, Alencar faz severas
temática social e engajou-se politicamente.
críticas aos cronistas, tentando mostrar
É de sua autoria Eles não usam black-tie.
que estes procuravam enxergar os índi-
Já as peças de Plínio Marcos enqua- os à luz de suas idéias e tradições. Com
dram-se no “realismo crítico”, como é o ca-
isso, não compreenderam a nova cultura
so de Navalha na carne.
da qual se aproximavam e perceberam
Também as peças de Chico Buarque, os índios a partir de seus próprios hábi-
como Roda viva, e as de Jorge Andrade (A tos e costumes, calcados numa visão
moratória, Pedreira das almas) são de etnocêntrica do mundo.
caráter realista.
Por outro lado, as peças de Ariano (fragmento das notas)
Suassuna inserem-se no “regionalismo de Os historiadores, cronistas e via-
inspiração crítica”, adotando elementos jantes da primeira época, senão de todo
cômicos e caricatos e trabalhando com te- o período colonial, devem ser lidos à luz
mas populares ou folclóricos. de uma crítica severa. É indispensável
De “inspiração popular” são as peças sobretudo escoimar os fatos compro-
de Dias Gomes, além de denunciarem in- vados, das fábulas a que serviam de
justiças sociais. mote, e das apreciações a que os sujei-
tavam espíritos acanhados, por demais
Leituras Obrigatórias imbuídos de uma intolerância ríspida.

(Literatura Brasileira) Homens cultos, filhos de uma socie-


dade velha e curtida por longo trato de
da UNICAMP 2001- séculos, queriam esses forasteiros
achar nos indígenas de um mundo novo
2002-2003 e segregado da civilização universal
uma perfeita conformidade de idéias e
costumes. Não se lembravam, ou não
Ubirajara
sabiam, que eles mesmos provinham de
José de Alencar bárbaros ainda mais ferozes e grossei-
Publicado em 1874, Ubirajara foi o ros do que os selvagens americanos.
último dos romances indianistas de Alen- (p. 11)
— 296 —

As críticas estendem-se aos mis- O tempo dos acontecimentos é uma


sionários, que, segundo Alencar, enca- época que antecede o descobrimento e
ravam os índios como “feras humanas” o contato dos índios com os brancos. O
a serem domesticadas. De modo diver- espaço envolve as proximidades dos
so, o autor de O Guarani procura anali- rios Tocantins e Araguaia.
sar a sociedade indígena de um ponto Em meio à floresta, surge o perso-
de vista filosófico, observando o “ou- nagem Jaguaré, assim chamado por ter
tro” apenas como diferente, não como vencido todos os animais, inclusive o
um inferior a ser subjugado. jaguar. Bravo caçador, ele almeja trans-
(fragmento das notas) formar-se em um guerreiro. Após gran-
de combate, vence o inimigo Pojucã e
Releva ainda notar, que duas clas- torna-se o “senhor da lança”, o guerrei-
ses de homens forneciam informações ro Ubirajara. Passa a líder dos araguaias,
acerca dos indígenas: a dos missionári- assim como fora seu pai Camacã, além
os e a dos aventureiros. Em luta uma com de ter o reconhecimento da tribo por sua
a outra, ambas se achavam de acordo bravura e heroísmo.
nesse ponto, de figurarem os selvagens
como feras humanas. Os missionários (fragmento)
encareciam assim a importância da sua O guerreiro chefe enrista desdenho-
catequese; os aventureiros buscavam samente a lança e caminha para Jaguaré.
justificar-se da crueldade com que trata- Não vai como o guerreiro que marcha ao
vam os índios. (p. 12) combate, mas como o matador que se
prepara para imolar a vítima.
Com isso, procura desfazer certos
preconceitos em relação ao comporta- — Guerreiro chefe, Jaguaré não te
mento indígena, como o que diz respeito quer matar como a serpente que ataca
à poligamia, encarada pelos cronistas o descuidado caçador. Dez vezes já, se
europeus como promiscuidade sexual quisesse, ele te houvera ferido com tua
ou imoralidade conjugal. própria mão.
— Abandona a glória do guerrei-
Outro preconceito que busca des-
ro, que não é para ti, nhengaíba. Pojucã
mistificar é o ritual antropofágico, mos-
te concederá a vida e te levará cativo à
trando que este significa uma incorpo-
taba dos Tocantins para que tu cantes
ração da bravura e da força do inimigo,
as suas façanhas na festa dos guer-
não um gesto vingativo como se costu-
reiros.
mava pensar.
— Cativo serás tu, mas não para
Além disso, Alencar mostra os va- cantar os feitos dos guerreiros. Tu ser-
lores cultivados pelos índios, tais como virás na taba dos araguaias para ajudar
a lealdade e o heroísmo. as velhas a varrer a oca.
Segundo o autor, a obra pode ser Arremessou-se Pojucã avante e
classificada como lenda, já que é um desfechou o golpe; mas a lança rodara
texto mítico que narra a origem da co- e foi o chefe tocantim quem recebeu no
munidade indígena dos ubirajaras. peito a ponta farpada.
— 297 —

Quando o corpo robusto de Pojucã ele também demonstrara interesse por


tombava, cravado pelo dardo, Jaguaré Jandira, a doce virgem de sua própria
d’um salto calcou a mão direita sobre o comunidade.
ombro esquerdo do vencido, e brandin-
(...)
do a arma sangrenta, soltou o grito do
triunfo: Jurandir, conduzido pela virgem,
— Eu sou Ubirajara, o senhor da caminhou ao encontro de Itaquê e disse:
lança, o guerreiro invencível que tem por — Grande chefe dos Tocantins,
arma a serpente. Reconhece o teu ven- Jurandir não veio à tua cabana para re-
cedor, Pojucã, e proclama o primeiro dos ceber a hospitalidade; veio para servir
guerreiros, pois te venceu a ti, o maior ao pai de Araci, a formosa virgem, a
guerreiro que existiu antes dele. quem escolheu para esposa. Permite que
— Se meu valor, que serviu para ele a mereça por sua constância no tra-
aumentar a tua fama, merece de ti uma balho, e que a dispute aos outros guer-
graça, não deixes que Pojucã sofra mais reiros pela força de seu braço.
um instante a vergonha de sua derrota. Itaquê respondeu:
— Não, chefe tocantim. Tu me — Araci é a filha de minha velhice.
acompanharás à taba dos araguaias A velhice é a idade da prudência e da
para narrar o meu valor. A fama de sabedoria. O guerreiro que conquistar
Jaguaré precisa de um prisioneiro como uma esposa como Araci terá a glória de
o grande Pojucã na festa da vitória. gerar seu valor no seio da virtude. Itaquê
— Tu és crel, guerreiro da lança; não pode desejar para seu hóspede
mas fica certo que se tua arma traiçoei- maior alegria.
ra feriu-me o peito; o suplício não ven- Desde esse momento, Jurandir não
cerá a constância do varão tocantim, foi mais estrangeiro na taba dos Tocan-
que sabe afrontar as iras de Tupã e tins. Pertencia à oca de Itaquê, e devia,
desprezar a vingança dos araguaias. como servo do amor, trabalhar para o
(pp. 26-27) pai de sua noiva.
Em seguida, o jovem guerreiro vai Os guerreiros, cativos da beleza
em busca de mais uma conquista: sua de Araci, conheceram que tinham de
esposa. Araci, virgem tocantim, filha do combater um adversário formidável; mas
chefe Itaquê, já havia tocado seu cora- seu amor cresceu com o receio de per-
ção. Dirige-se à tribo tocantim e é rece- der a filha de Itaquê.
bido com hospitalidade, reconhecido
como um enviado de Tupã. Passa en- Jurandir tomou suas armas e des-
tão a se chamar Jurandir, “trazido pela ceu ao rio. Era a hora em que o jacaré
luz do céu”, e a disputar a posse de bóia em cima das águas como o tronco
Araci, “a estrela do dia”, com os guer- morto; e a jaçanã se balança no seio do
reiros da tribo inimiga. Além de Araci, nenúfar.
— 298 —

O manati erguia a tromba para pas- O velho tapir rompeu a serpente


tar a relva na margem do rio. Ouvindo o como se rompe uma corda de piaçaba;
rumor das folhas, mergulhou na corren- mas não pôde abalar o braço de Jurandir,
te, mas já levava o arpéu do pescador, mais firme do que o tronco do guaribu.
cravado no lombo.
O estrangeiro tornou à cabana com
Jurandir não esperou que o peixe a caça. Nenhum dos guerreiros da taba,
ferido desenrolasse toda a linha. Puxou- nem mesmo o velho Itaquê, pôde agüen-
o para terra; e levou-o ainda vivo à caba- tar com as duas mãos a fera bravia.
na de Itaquê, onde três guerreiros custa-
ram a deitá-lo no jirau. Então Jurandir obrigou o animal a
agachar-se aos pés de Araci e disse:
As mulheres cortaram as postas de
carne e os guerreiros cavaram a terra — O braço de Jurandir fará cair as-
para fazer as grelhas do biaribi. sim, a teus pés, o guerreiro que ouse
disputar ao seu amor a tua formosura,
Jurandir partiu de novo e entrou na estrela do dia. (pp. 59-60)
floresta. Ao longe reboavam os gritos
dos caçadores que perseguiam a fera. Após a luta contra os tapuias, as
duas nações unem-se, originando a na-
Pelo assobio o guerreiro conheceu ção dos ubirajaras, que habitava as
que era um tapir. O animal zombara dos margens do Rio São Francisco na épo-
caçadores e vinha rompendo a mata ca do descobrimento. Ubirajara recebe
como a torrente do Xingu. as duas jovens (Araci e Jandira) como
As árvores que seu peito encontra- esposas, tornando-se senhor supremo.
va caíam lascadas. O outro sol rompia, quando os ta-
Jurandir estendeu o braço. O velho puias estenderam pela campina a multi-
tapir, agarrado pelo pé, ficou suspenso dão de seus guerreiros.
na carreira, como o passarinho preso no Na frente assomava Agniná, a mon-
laço. Nunca, até aquele momento, encon- tanha dos guerreiros, ainda mais feroz do
trara força maior que a sua. que o irmão, o terrível Canicrã.
Uma vez descer à lagoa para beber. De um lado e do outro seguiam-se os
A sucuri, que espreitava a caça, mor- chefes, cada um à frente de seus guer-
deu-a na tromba. Ele fugia, esticando a reiros.
serpente; e a serpente encolhendo-se, o
arrastava até à beira d’água. Ubirajara escolheu mil guerreiros
araguaias e mil guerreiros Tocantins, com
Assim tornou uma, duas, três ve- que saiu ao encontro dos tapuias.
zes. Mas o tigre urrou de fome. O velho
tapir disparou pela floresta; e a sucuri Depois que desdobrou sua batalha
com a cauda presa à raiz da árvore arre- pela campina, o chefe dos chefes cami-
bentou pelo meio. nhou só para o inimigo.
— 299 —

Quando chegava a meio do campo, Caiu Agniná do primeiro bote; após


os tapuias levantaram a pocema de guer- ele caíam aos dois os chefes tapuias,
ra, que atroou os ares, como o estrépido como caem os juncos talhados pelo dente
da cachoeira. afiado da capivara.

Um turbilhão de setas crivou o longo Então o herói soltou seu grito de triun-
escudo do herói, que ficou semelhante fo, que era como o rugido do vento no
ao grosso tronco de juçara, eriçado de deserto:
espinhos.
— Eu sou Ubirajara, o senhor da lan-
Ubirajara embraçou o escudo na al- ça, o guerreiro invencível que tem por arma
tura do ombro, e com o pé brandiu sete uma serpente.
vezes a corda do grande arco gêmeo.
“Eu sou Ubirajara, senhor das na-
As setas vermelhas e amarelas su- ções, o chefe dos chefes, que varre a
biram direitas ao céu e perderam-se nas terra, como o vento no deserto.”
nuvens.
O herói estendeu a vista pela campi-
Quando voltaram, Agniná e os che- na, e não descobriu mais o inimigo, que
fes que obedeciam a seu arco, tinham sumia-se na poeira.
cada um fincado na cabeça o desafio do
Ubirajara lançou-lhe seus guerrei-
formidável guerreiro.
ros, que tinham fome de vingança; po-
Enfurecidos mais pelo insulto do que rém o terror de sua lança dava asas aos
pela dor, arremessaram-se contra o inimi- fugitivos.
go que os esperava coberto com seu vas-
Desde esse dia nunca mais um tapuia
to escudo.
pisou as margens do grande rio.
Agniná era o primeiro na corrida e o
Ubirajara voltou à cabana, onde o
primeiro na sanha. Após ele vinham os
esperava Araci.
outros a dois e dois, lutando na rapidez.
A esposa despiu as armas de seu
Quando o esposo de Araci viu que guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o ma-
eles se estendiam pela campina, como dois cio cotão da monguba, e cobriu-o do bál-
ribeiros que se aproximam para confundir samo fragrante da embaíba.
suas águas; o herói empunhou a lança de
duas pontas e soltou seu grito de guerra, Encheu depois de generoso cauim a
que era como o bramir do jaguar, senhor taça vermelha feita do coco da sapucaia;
da floresta. e aplacou a sede do combate.

Seu pé devorou o espaço; e a lança Enquanto nas grandes tabas se pre-


de duas pontas girou em sua mão, como a parava a festa do triunfo e o herói repou-
serpente que enrosca-se nos ares, sil- sava na rede, Araci foi ao terreiro e voltou
vando. conduzindo Jandira pela mão.
— 300 —

— Jandira é irmã de Araci, tua es- fatores hereditários, do meio e do mo-


posa. Ubirajara é o chefe dos chefes, mento histórico.
senhor do arco das duas nações. Ele
Do cientificismo originam-se a lin-
deve repartir seu amor por elas, como
guagem precisa e objetiva, as descri-
repartiu a sua força.
ções exatas e a valorização dos deta-
A virgem Araguaia pôs no guerrei- lhes. Além disso, o narrador retrata com
ro seus olhos de corça. impessoalidade e frieza as personagens
e a realidade que as circunda.
— Jandira é serva de tua esposa;
seu amor a obrigou a querer o que tu A narração é realizada em terceira
queres. Ela ficará em tua cabana para pessoa, por um narrador-onisciente, que
ensinar a tuas filhas como uma virgem observa atentamente os fatos e os des-
Araguaia ama seu guerreiro. creve de modo linear, à medida que vão
se desenrolando.
Ubirajara cingiu o peito, com um e
outro braço, a esposa e a virgem. Tendo como cenário o mar, a histó-
ria tematiza a perversão sexual entre
— Araci é a esposa do chefe marinheiros.
tocantim; Jandira será esposa do chefe
Araguaia; ambas serão as mães dos Amaro é o “bom crioulo”, negro forte
filhos de Ubirajara, o chefe dos chefes, e robusto, que é atraído por Aleixo, jovem
e o senhor das florestas. grumete branco e frágil, seu oposto.

*** (fragmentos)
Com efeito, Bom-Crioulo não era
As duas nações, dos araguaias e
somente um homem robusto, uma des-
dos tocantins, formaram a grande na-
sas organizações privilegiadas que tra-
ção dos Ubirajaras, que tomou o nome
zem no corpo a sobranceira resistência
do herói.
do bronze e que esmagam com o peso
Foi esta poderosa nação que domi- dos músculos.
nou o deserto. A força nervosa era nele uma qua-
Mais tarde, quando vieram os cara- lidade intrínseca sobrepujando todas as
murus, guerreiros do mar, ela campeava outras qualidades fisiológicas, empres-
ainda nas margens do grande rio. (pp. tando-lhe movimentos extraordinários,
92-94) invencíveis mesmo, de um acrobatismo
imprevisto e raro.

Bom-Crioulo Esse dom precioso e natural desen-


Adolfo Caminha volvera-se-lhe à força de um exercício
continuado que o tornara conhecido em
Como um típico romance naturalis- terra, nos conflitos com soldados e ca-
ta, Bom-Crioulo submete o destino de traieiros, e a bordo, quando entrava em-
seus personagens ao determinismo dos briagado.
— 301 —

Porque Bom-Crioulo de longe em lon- abrutalhado, uma grande pinta de san-


ge sorvia o seu gole de aguardente, che- gue no olho esquerdo, o rosto largo de
gando mesmo a se chafurdar em bebe- um prognatismo evidente, não se inco-
deiras que o obrigavam a toda sorte de modava com o juízo dos outros. – Não
loucuras. lho dissessem na cara, porque então o
negócio era feio... A chibata fizera-se
Armava-se de navalha, ia para os para o marinheiro: apanhava até morrer,
cais, todo transfigurado, os olhos darde- como um animal teimoso, mas havia de
jando fogo, o boné de um lado, a camisa mostrar o que é ser homem!
aberta num desleixo de louco, e então
era um risco, uma temeridade alguém Sua amizade ao grumete nascera,
aproximar-se dele. O negro parecia uma de resto, como nascem todas as gran-
fera desencarcerada: fazia todo mundo des afeições, inesperadamente, sem pre-
fugir, marinheiros e homens da praia, cedentes de espécie alguma, no momen-
porque ninguém estava para sofrer uma to fatal em que seus olhos se fitaram pela
agressão... primeira vez. Esse movimento indefinível
que acomete ao mesmo tempo duas na-
(...)
turezas de sexos contrários, determinan-
Diziam uns que a cachaça estava do o desejo fisiológico da posse mútua,
deitando a perder “o negro”; outros, po- essa atração animal que faz o homem
rém, insinuavam que Bom-Crioulo torna- escravo da mulher e que em todas as
ra-se assim, esquecido e indiferente, dês espécies impulsiona o macho para a fê-
que “se metera” com o Aleixo, o tal gru- mea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmen-
mete, o belo marinheiro de olhos azuis, te ao cruzar a vista pela primeira vez com
que embarcara no sul. – O ladrão do ne- o grumetezinho. Nunca experimentara se-
gro estava mesmo ficando sem-vergo- melhante cousa, nunca homem algum ou
nha! E não lhe fossem fazer recrimina- mulher produzira-lhe tão esquisita impres-
ções, dar conselhos... Era muito homem são, desde que se conhecia! Entretanto,
para esmagar um! o certo é que o pequeno, uma criança de
quinze anos, abalara toda a sua alma,
O próprio comandante já sabia da-
dominando-a, escravizando-a logo, na-
quela amizade escandalosa com o pe-
quele mesmo instante, como a força mag-
queno. Fingia-se indiferente, como se
nética de um ímã. (...) (pp.15-16, 21)
nada soubesse, mas conhecia-se-lhe no
olhar certa prevenção de quem deseja Já na terra, os dois passam então
surpreender em flagrante... a se encontrar num quarto alugado pela
Os oficiais comentavam baixinho o prostituta quarentona D. Carolina. Esta
fato e muita vez riam maliciosamente na também sente atração pelo jovem mari-
praça d’armas entre copos de limonada. nheiro, pois ele significa a possibilidade
do amor desinteressado ou mesmo de
Tudo isso, porém, não passava de uma relação maternal, coisas nunca per-
suspeitas, e Bom-Crioulo, com o seu todo mitidas a ela.
— 302 —

O protagonista passa então a de- Tremia numa crise formidável de de-


senvolver um ciúme doentio, porém ja- sespero, os olhos congestionados, um
mais suspeitando da possibilidade de suor frio a porejar-lhe da testa negra e
uma traição com a prostituta portugue- reluzente.
sa. Este ciúme cada vez maior resulta
num impulso irracional: o assassinato O pequeno estacou suspreendido:
de Aleixo. Com isso, Bom Crioulo perde
— Sou eu mesmo, rugiu Bom-Criou-
sua própria razão de existir e permane-
lo, sou eu mesmo! Pensavas que era só
ce no mesmo nível de um animal, agindo
puramente pelo instinto, em detrimento meter-te com a portuguesa, hein? Olha
da razão e dos sentimentos. para esta cara, olha como estou magro,
como estou acabado... Olha, olha!
O autor trabalha com naturalidade
o tema do homossexualismo e mostra o E apertava bruscamente o outro,
quanto a profissão exercida por certos sacudindo-o como se o quisesse atirar
homens, como os marinheiros, acaba ao chão.
por brutalizá-los e deixar como única
válvula de escape a afetividade, resul- — Vê lá se me conheces, anda! Olha
tando na perversão sexual. bem para esta cara!

As cenas sexuais, assim como ou- O efebo debatia-se, pálido, aterrado:


tros aspectos da realidade (epilepsia,
castigos corporais, crimes) são descri- — Me largues! Não me provoque,
tos com frieza, ousadia e de modo minu- senão eu grito!
cioso, através de uma linguagem erudi- — Anda pr’aí, grita, se és capaz!
ta, permeada de elementos coloquiais,
Grita, safado, sem-vergonha... mal-agra-
como palavrões e gírias de bordo.
decido!
(fragmento)
Sua voz tomava uma inflexão volup-
Aleixo ia saindo porta fora, tranqüi-
tosa e terrível ao mesmo tempo; a pala-
lamente, apertado na sua roupa azul e
vra saía-lhe gaguejada, estuporada e trê-
branca de marinheiro, a camisa decota-
mula.
da, a calça justa.
O negro teve um daqueles ímpetos — Grita, anda!
medonhos, que o acometiam às vezes;
O outro mudava de cores, recuava
garganteou um — oh! rouco, abafado,
trôpego, a língua presa, quase a chorar,
comprimido, e, ligeiro, furioso, perdido de
coléra, sem dar tempo a nada, precipi- numa aflição de culpado, o olhar azul
tou-se, numa vertigem de seta, para a submisso refletindo a imagem do negro:
rua. Não via nada, não enxergava nada, — Me largue, repetiu. Eu lhe peço:
tresvairado, como se de repente lhe hou- me largue!
vesse fugido a luz dos olhos e a razão
do cérebro. Precipitou-se, e, esbarrando Transeuntes olhavam-nos de ban-
com o grumete, fintou-o pelo braço. da e voltavam-se para os ver naquela
— 303 —

posição, rosto a rosto, juntinhos, agarra- numa ânsia de novidade. Latiam cães.
dos misteriosamente. Porque Bom-Criou- Um movimento cheio de rumores, uma
lo não falava alto, que todos ouvissem, balbúrdia! Circulavam boatos aterrado-
não dava escândalo, não fazia alarme: res, notícias vagas, incompletas. Inven-
sua voz era um rugio cavernoso e histé- taram-se histórias de assassinato, de
rico, um regougo abafado, longínquo e cabeça quebrada, de sangue. Cada
profundo. olhar, cada fisionomia era uma interro-
gação. Chegavam soldados, marinhei-
— Grita, anda, grita pela vaca da ros, policiais. Fechavam-se portas com
Carolina! estrondo.
— Me solte — continuou o efebo Alguma cousa extraordinária tinha
trêmulo, acovardado. Me largue! havido porque, de repente, o povo re-
cuou, abrindo passagem, num atropelo.
— Não te largo, não, cousinha ruim,
não te largo, não! Bom-Crioulo, este que — Abre! abre! diziam soldados er-
aqui está, não é o que tu pensas... guendo o refle.

— Mas eu não fiz nada! Me solte, De cima, das casas, mãos aponta-
que é tarde! vam para baixo.

Os olhos do negro tinham uma ex- E D. Carolina, que também chegara


pressão feroz e amargurada, muito ru- à janela com a vozeria, com o barulho,
bros, cruzando-se, às vezes, num es- viu, entre duas filas de curiosos, o grumete
trabismo nervoso de alucinado. ensangüentado...

Um sujeito parou defronte, a olhá- — Jesus! Meu Deus!


los; vieram depois outras pessoas, ou- Uma nuvem escureceu-lhe a vista,
tros curiosos; um marinheiro da Capi- correu-lhe um frio pelo corpo, e toda ela
tania, um italiano carregado de flan- tremia horrorizada, branca, imóvel.
dres, um guarda-municipal, crianças,
mulheres... Muitas vistas dirigiam-se para o
sobradinho.
Houve logo um fecha-fecha, um tu-
multo, um alvoroço. Trilaram apitos; vo- Aleixo passava nos braços de dois
zes gritavam — rolo! rolo! e a multidão marinheiros, levado como um fardo, o
crescia no meio da rua, procurando lu- corpo mole, a cabeça pendida para trás,
gar, empurrando, abrindo caminho, pre- roxo, os olhos imóveis, a boca entrea-
cipitando-se, formando um grande círcu- berta. O azul-escuro da camisa e a cal-
lo de gente ao redor dos dois marinhei- ça branca tinham grande nódoas ver-
ros, invisíveis agora. melhas. O pescoço estava envolvido
num chumaço de panos. Os braços ca-
Os bondes paravam. Senhoras vi- íam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa
nham à janela, compondo os cabelos, frouxidão de membros mutilados.
— 304 —

A rua enchia-se de gente pelas Gaetaninho


janelas, pelas portas, pelas calçadas.
O conto tem como cenário a Rua
Era uma curiosidade tumultuosa e fla-
Oriente, no Brás, onde as crianças so-
grante a saltar dos olhos, um desejo
nhavam em andar de carro, pois o má-
irrestível de ver, uma irrestível atração,
ximo que conseguiam era transitar de
uma ânsia!
bonde.
Ninguém se importava com “o ou-
tro”, com o negro, que lá ia, rua abaixo, Beppino já andara, na ocasião da
triste e desolado, entre baionetas à luz morte de sua tia Peronetta, no trajeto
quente da manhã: todos, porém, todos para o Araçá. Agora quem alimentava o
queriam “ver o cadáver”, analisar o sonho era Gaetaninho, que chegou a
ferimento, meter o nariz na chaga... sonhar com a morte da tia Filomena e
depois, com um pouco de culpa, com o
Mas, um carro rodou, todo lúgubre, enterro de Seu Rubino, funcionário da
todo fechado, e a onda dos curiosos foi Companhia de Gás.
se espalhando, se espalhando, té cair tudo
na monotonia habitual, no eterno vaivém. Um dia o menino consegue realizar
seu sonho, porém de modo trágico: ele
Observe-se o fecho corriqueiro, ba- morre atropelado por um bonde e é le-
nal, cotidiano — muito próximo do ro- vado no carro da frente no cortejo até o
mance contemporâneo (NE). cemitério.

Brás, Bexiga e Barra Funda Carmela


Antônio de Alcântara Machado
Carmela e Bianca são duas jovens
Publicada em 1927, a obra reúne costureiras que trabalham na Rua Ba-
onze pequenos contos, ambientados nos rão de Itapetininga. Carmela é bonita, ao
três bairros paulistanos, de ocupação contrário de Bianca, e namora Ângelo,
ítalo-brasileira. entregador da Casa Clark.
O imigrante, sobretudo o italiano, é Um dia, um homem “traquejado” apa-
retratado como alegre e trabalhador, dis- rece dirigindo um carro Buick, chama
posto a melhorar de vida. Bianca e pede que marque um encontro
dele com Carmela, próximo à Igreja de
O autor utilizou a linguagem telegrá-
Santa Cecília. A amiga comparece ao
fica, precisa, clara e objetiva, e a lin-
encontro, que dá origem a muitos outros,
guagem cinematográfica, mostrando as
com direito a passeio de carro. Bianca
cenas com dinamismo, fazendo cortes
tece comentários com Ernestina a res-
e deixando de lado as descrições.
peito dos fatos e afirma ironicamente, ao
Além de registros coloquiais, apa- ser questionada sobre o Ângelo, que es-
recem elementos da fala do paulistano te é para casar. Não deixa de ter uma
oriundos da influência do imigrante. certa inveja da sorte da amiga...
— 305 —

Tiro-de-guerra nº 35 “Eu estava louco,


O personagem central deste conto Seu delegado!
é Aristodemo Guggiani, nacionalista ex-
Matei por isso,
tremado, cujo prazer era cantar o Hino
Nacional no grupo escolar da Barra Fun- Sou um desgraçado!”
da. Depois passa a trabalhar na oficina
mecânica do cunhado. Após uma briga
A sociedade
com este, começa a exercer a função
de cobrador de ônibus da linha Praça do A esposa do Conselheiro José Bo-
Patriarca-Lapa. Depois de um tempo não nifácio de Matos e Arruda não admitia a
se tem mais notícia de Aristodemo, que possibilidade de sua filha se casar com
se tornara soldado do “Tiro-de-Guerra”. um “carcamano”. Esta, contudo, namo-
No primeiro ensaio para o Sete de Se- ra Adriano Melli. Certo dia, o pai do ra-
tembro briga com um alemão por este paz, Salvatore Melli, resolve visitar o pai
ter desrespeitado a pátria brasileira. de Teresa Rita, o Bonifácio. Propõe en-
Volta, então, a ser cobrador na mesma tão a ele uma “sociedade”, na qual o
linha Praça do Patriarca-Lapa, porém Salvatore ajudaria com o capital e Boni-
pede demissão da Companhia Auto- fácio com alguns terrenos sem uso.
viação Gabrielle d’Annuzio e passa a Adriano tornar-se-ia o gerente da firma.
trabalhar na Sociedade de Transportes Passados seis meses, Adriano fica
Rui Barbosa Ltda, sendo reconhecido noivo de Teresa e desaparecem todos
por seu patriotismo. os empecilhos.

Amor e sangue Lisetta


Nicolino era namorado de Grazia, Este conto tem como personagem
porém o romance terminou quando um central uma criança: a menina Lisetta. Um
dia ele olhou para outra moça. dia, ao andar de bonde com a mãe admira
Na barbearia em que trabalhava, um urso de pelúcia “felpudo”, “amarelo” e
Nicolino escutou uma notícia a respeito “engraçadinho” no colo de uma menina
de um crime passional. Inspirado pela rica. Esta, de propósito, começa a mexer
mesma, foi ao encontro de Grazia, que no brinquedo, virando-o de um lado para
realmente não mais queria o namoro. En- outro e instigando cada vez mais a vonta-
tão Nicolino assassinou-a e justificou- de da menina de tocá-lo. Contudo, isso
se à polícia dizendo: não foi possível, já que a menina rica não
deixou e a mãe a impediu com beliscões e
“— Eu matei ela porque estava lou- a promessa de uma surra, que de fato se
co, seu delegado”. concretizou. O irmão de Lisetta, Ugo, com-
Esta frase, registrada nos jornais, pra um urso para ela. Apesar de ser pe-
resultou numa música de grande reper- queno e de lata, a menina fica muito con-
cussão: tente e não deixa ninguém mexer nele.
— 306 —

Corinthians (2) vs. Palestra (1) de apenas nove anos. O menino encan-
ta a todos e tem seu nome mudado para
Grande parte do conto centra-se Januário. Passa então a estudar no Gi-
num jogo de futebol entre Corinthians e násio de São Bento. O Coronel, muito
Palestra no Parque Antártica, onde es- contente, pensa em deixar sua herança
tão Miquelina e Iolanda. para o italianinho.
Rocco é grande jogador do Pales-
tra e namorado de Miquelina, enquanto O monstro de rodas
Biagio joga no time oposto e também já
havia namorado a moça. Esta, depois O “monstro de rodas” a que o con-
que acabou o namoro com ele, nunca to faz referência é o carro responsável
mais dirigiu-se à Sociedade Beneficen- pelo atropelamento de uma menina mo-
te e Recreativa do Bexiga e deixou de ir radora da Barra Funda. Dona Nunzia, a
às reuniões dominicais, passando a tor- mãe, não se conforma, enquanto uma
moça negra reza o terço.
cer pelo Palestra.
A moça pede a Rocco que marque O autor faz questão de ressaltar
Biagio. Assim ele procedeu e no segun- alguns episódios comuns em enterros:
do tempo fez um pênalti, que possibilitou por um lado, o respeito de homens den-
a Biagio marcar o segundo gol do Corin- tro do bonde tirando o chapéu e, por
thians e garantir a vitória. Miquelina não outro, a indiferença de Nino, preocupa-
se conforma, assim como a torcida do do em contar o número de “trouxas” que
tirariam o chapéu até que o enterro che-
Palestra, que responsabiliza Rocco. Ela
gasse ao cemitério.
decide então retornar às reuniões da
Sociedade no Bexiga.
Vale ressaltar que o conto utiliza
Armazém Progresso de São
Paulo
uma linguagem coloquial, típica dos cam-
pos de futebol: O “Armazém Progresso de São Pau-
“Alegoá-goá-goá! Alegoá-goá-goá! lo” pertence a Natale, comerciante italia-
Urrá-urrá! Corinthians!” no muito esforçado e trabalhador. Ao
lado de sua mulher, Dona Bianca, traba-
“O’... lh’agasosa!”
lhava com esmero e prosperava.
“Go-o-o-o-ol! Corinthians!”
Na confeitaria da frente, o portu-
guês vendia cebolas a preço baixíssimo
Notas biográficas do novo e tinha grande estoque das mesmas.
deputado
Natale fica sabendo através da mu-
O Coronel Juca Peixoto de Faria é lher que as cebolas subiriam de preço e
um rico fazendeiro casado com Dona pede ao fiscal que lhe confirmara a notí-
Nequinha. Os dois, entretanto, não têm cia que se mantenha calado, se quiser
filhos. Ao saberem do falecimento do ser recompensado. Dona Bianca sonha
compadre João Intaliano, resolvem aco- com a ascensão econômica, representa-
lher o filho deste, o órfão Gennarinho, da por um palacete na Avenida Paulista.
— 307 —

Nacionalidade Angústia
Este conto também tematiza a ques- Graciliano Ramos
tão do nacionalismo exagerado, agora
de um italiano: o barbeiro Tranquillo Zam- Angústia foi publicada em 1936,
pinetti, da Rua do Gasômetro. após a publicação de São Bernardo, em
1934, ano em que começou a escrever
Contudo, sua maior tristeza eram
a obra quando diretor da Instrução Pú-
seus filhos Lorenzo e Bruno, que não
blica de Alagoas. Contudo, a prisão de
conservavam o mesmo fervor em rela-
ção à pátria do pai, nem mesmo queriam Graciliano Ramos durante o regime do
falar o italiano. Estado Novo leva-o à interrupção do li-
vro, vindo a publicá-lo contra seu dese-
A guerra européia encontrou Tran- jo, já que não o tinha revisado como gos-
quillo Zampinetti proprietário de quatro taria.
prédios na Rua do Gasômetro, dois na
Rua Piratininga, cabo influente do Parti- A obra tem a marca do estilo de
do Republicano Paulista e dileto compa- Graciliano: extrema concisão e busca
dre do primeiro subdelegado do Brás; o do essencial, eliminando tudo que não
Lorenzo interessado na firma Vanzinello se mostra necessário.
& Cia. e noivo da filha mais velha do
major Antônio Del Piccolo, membro do O autor realiza análise psicológica
diretório governista do Bom Retiro; o dos personagens, mostrando suas an-
Bruno vice-presidente da Associação gústias, aflições, temores íntimos. Para-
Atlética Ping-Pong e primeiro anista do lelamente, observa a situação social dos
Ginásio do Estado. (p.71) mesmos, a influência do ambiente sobre
suas vidas, a exploração dos mais for-
Tranquilo inscreveu-se para um em-
tes sobre os mais fracos.
préstimo de guerra, sendo contestado
por Dona Emília. A rudeza e hostilidade do cenário
O barbeiro conseguiu mais dois pré- nordestino refletem-se na expressão
dios na Rua Santa Cruz da Figueira, fe- dura, incisiva, sem lirismos ou derrama-
chou o salão e passou a sócio coman- mentos sentimentais.
ditário da Perfumaria Santos Dumont.
Luís da Silva é o narrador-perso-
Bruno forma-se em Direito, dando nagem, atormentado pela situação de
grande satisfação ao pai, e ao irmão miséria em que vive. Escreve seu diário
Lorenzo, já casado e com um filho. íntimo a partir de sua memória, que or-
O primeiro serviço profissional do ganiza racionalmente os fatos, e por
Bruno foi requerer ao exmo. sr. dr. Mi- outro lado, partindo das alucinações que
nistro da Justiça e Negócios Interiores o afligem. Dessa forma, o tempo da nar-
do Brasil a naturalização de Tranquillo rativa não é linear, mas caminha de acor-
Zampinetti, cidadão italiano residente em do com as lembranças e devaneios do
São Paulo. (p. 73) narrador.
— 308 —

O protagonista é um funcionário As letras tinham cara de gente e


público, não realizado em sua vida pro- arregaçavam os beiços com feracidade.
fissional e desgostoso de sua vida A mulher que lava garrafas e o homem
afetiva. Há algum tempo era noivo de que enche dornas agitavam-se na pa-
Marina, mas não podia casar-se porque rede como borboletas espetadas e for-
as condições financeiras não lhe permi- mavam letreiros com outras pessoas que
tiam. lavavam garrafas, enchiam dornas e
faziam coisas diferentes. A datilógrafa
Marina sonhava, tinha ambições
dos olhos agateados tossia, as filhas
que as condições do noivo não permiti-
de Lobisomem encolhiam-se por detrás
am, mas não desmanchava o relaciona-
das outras letras. Antônia arrastava as
mento. Vale lembrar que o casamento
pernas grossas cobertas de marcas de
era extremamente valorizado na época,
feridas, a mulher da Rua da Lama cru-
ainda que não alicerçado no amor e con-
servando a mulher numa posição sub- zava as mãos sobre o joelho magro e
missa. curvava-se para esconder as pelancas
da barriga escura. Um choro longo su-
Ao mesmo tempo que procura con- bia e descia: — “Que será de mim? Va-
servar o noivado com Luís da Silva, ain- lha-me Nossa Senhora.” Um moleque
da que sem perspectivas, Marina envol- morria devagar, mutilado, porque havia
ve-se com Julião Tavares, filho de rico arrancado os tampos da filha do patrão.
comerciante. Fazia um gorgolejo medonho e vertia pi-
No decorrer da narrativa, crescem che das chagas.16.384. O cego dos bi-
o ódio e o ciúme de Luís da Silva por lhetes batia com o cajado na parede. —
causa do triângulo amoroso. Uma das “Afastem esta cadeira.” Seu Ivo estava
formas de vingar-se é atormentando os de cócoras, misturado às outras letras.
pais de Marina, D. Adélia e seu Ramalho, A calça rasgada e o paletó sujo eram
dizendo o que pensava a respeito das cor de piche. Cirilo de Engrácia, carre-
atitudes da moça. gado de cartucheiras e punhais, encos-
tava-se a uma árvore, amarrado, os
Luís da Silva persegue Marina, sua cabelos cobrindo o rosto, os pés com
ex-noiva, motivo de suas aflições e per- os dedos para baixo. A sentinela cochi-
turbações interiores. Ela está grávida e lava no portão do Palácio. Um ventre
tenta resolver a situação através de um enorme crescia na parede, uma criatura
aborto, já que Julião Tavares havia lhe mal vestida passava arrastando a filha
abandonado e estava com uma amante. pequena, um brilho de ódio no olho úni-
Aumenta ainda mais o ódio de Luís da co. Sinha Terta gemia: — “Minha santa
Silva pelo rival, culminando com o ato Margarida...” O dono da bodega, triste,
criminoso. fincava os cotovelos no balcão engordu-
Em seguida, o narrador passa a vi- rado. As crianças faziam voltas ao re-
ver numa profunda crise, alucinado, bei- dor da barca de terra e varas. A rapari-
rando a loucura. ga pintada de vermelho espalhava um
— 309 —

cheiro esquisito. O engraxate escutava dos pés mortos que não tocavam o chão,
histórias de capoeiras. O homem acabo- vinha deitar-se na minha cama. Fernando
clado cruzava os braços, mostrando Inguitai, com o braço carregado de vol-
bíceps enormes. O mendigo estirava a tas de contas, vinha deitar-se na minha
perna entrapada e ensangüentada. As cama. As riscas de piche cruzavam-se,
moscas dormiam, e o mendigo, com a formavam grades. — “José Baía, meu
muleta esquecida, bebia cachaça e ria. irmão, há tempo!” As crianças corriam
Passos na calçada. Quem ia entrar? em torno da barca. — “José Baía, meu
Quem tinha negócio comigo àquela hora? irmão, estamos tão velhos!” Acomoda-
Necessário Vitória fechar as portas e vam-se todos. 16.384. Um colchão de
despedir o hóspede incômodo que não paina. Milhares de figurinhas insignifi-
se arredava da sala. Mas Vitória conta- cantes. Eu era uma figurinha insignifi-
va moedas, na parede, resmungava a cante e mexia-me com cuidado para não
entrada e a saída dos navios. A placa molestar as outras. 16.384. Íamos des-
azul de D. Albertina escondia-se a um cansar. Um colchão de paina.
canto, suja de piche. Todo aquele pes-
(...)
soal entendia-se perfeitamente. O ho-
mem cabeludo que só cuidava da sua
vida, a mulher que trazia uma garrafa Manuelzão e Miguilim
pendurada ao dedo por um cordão, Guimarães Rosa
Rosenda, cabo José da Luz, Amaro va-
Manuelzão e Miguilim, assim como
queiro, as figuras do reisado, um vaga-
as obras No Urubuquaquá, no Pinhém
bundo que dormia nos bancos dos jar-
e Noites do Sertão, inicialmente era par-
dins, outro vagabundo que dormia de-
te integrante do livro Corpo de Baile,
baixo das árvores, tudo estava na pa-
publicado em 1956.
rede, fazendo um zumbido de carapa-
nãs, um burburinho que ia crescendo e Compõem a obra duas novelas:
se transformava em grande clamor. José “Campo Geral” e “Uma Estória de Amor”.
Baía acenava-me de longe, sorrindo,
mostrando as gengivas banguelas e Campo Geral
agitando os cabelos brancos. —“José
Baía, meu irmão, estás também aí?” José Esta novela tem como personagem
Baía, trôpego, rompia a marcha. Um, principal Miguilim, um garoto de oito anos
dois, um, dois... A multidão que fervilha- que morava na mata do Mutum com a
va na parede acompanhava José Baía e família.
vinha deitar-se na minha cama. Quitéria, Dos irmãos, Miguilim era o mais ve-
Sinha Terta, o cego dos bilhetes, o con- lho. Depois vinha Dito, irmão que tinha a
tínuo da repartição, os cangaceiros e maturidade de um adulto e fazia refle-
os vagabundos, vinham deitar-se na xões sobre as coisas da vida. Para tris-
minha cama. Cirilo de Engrácia, estica- teza de todos, acabou morrendo de té-
do, amarrado, marchando nas pontas tano.
— 310 —

Tomé era o irmão caçula. Havia ain- do Grivo. — “Dá lembrança a seo Aris-
da as irmãs Drelina e Chica e Liovaldo, o teu... Dá lembrança a seo Deográcias...”
mais velho, que morava com o tio Os- Estava abraçado com Mãe. Podiam sair.
mundo.
Mas, então, de repente, Miguilim
O pai de Miguilim era Nhô Bernardo parou em frente do doutor. Todo tremia,
Caz, que nutria grande ciúme pela es- quase sem coragem de dizer o que ti-
posa, devido à traição com o tio Terêz, nha vontade. Por fim, disse. Pediu. O
que é expulso de casa. doutor entendeu e achou graça. Tirou
Além de Tio Terêz, a mãe tem um os óculos, pôs na cara de Miguilim.
caso com Luisaltino, trabalhador da la- E Miguilim olhou para todos, com
voura, assim como o pai. Este, louco de tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos
ciúme, mata Luisaltino e enforca-se. escuros de cima do morro, aqui a casa,
Posteriormente Tio Terêz casa-se com a cerca de feijão-bravo e são-caetano;
a mãe e volta a morar com a família. o céu, o curral, o quintal; os olhos re-
Outra personagem que se destaca dondos e os vidros altos da manhã.
é a vovó Izidra, magra e que se irritava Olhou, mais longe, o gado pastando perto
com tudo. do brejo, florido de são-josés, como um
algodão. O verde dos buritis, na primei-
Miguilim preocupava-se com seu ra vereda. O Mutum era bonito! Agora
estado de saúde. Achava que ia morrer, ele sabia. Olhou Mãitina, que gostava de
pois estava muito magro. o ver de óculos, batia palmas-de-mão e
No entanto, ele não morre, mas tem gritava: — “Cena, Corinta!...” Olhou o re-
uma revelação que transforma sua vida. dondo de pedrinhas, debaixo do jeni-
Um dia o doutor José Lourenço vem ca- papeiro.
çar na Vereda do Tipã e põe óculos no Olhava mais era para Mãe. Drelina
menino, percebendo sua dificuldade
era bonita, a Chica, Tomezinho. Sorriu
para enxergar. Ele, então, passa a ver
para o Tio Terêz: — “Tio Terêz, o senhor
todas as coisas com mais nitidez e en-
parece com Pai...” Todos choravam. O
contrar beleza no Mutum, em cada ele-
doutor limpou a goela, disse: — “Não sei,
mento da natureza, em cada pessoa.
quando eu tiro esses óculos, tão fortes,
Descoberta sua miopia, Miguilim desco-
bre-se a si mesmo e admira a grandeza até meus olhos se enchem d’água...”
do mundo e sua própria existência. Miguilim entregou a ele os óculos outra
vez. Um soluçozinho veio. Dito e a Cuca
(fragmento) Pingo-de-Ouro. E o Pai. Sempre alegre,
Miguilim... Sempre alegre, Miguilim... Nem
O doutor chegou. — “Miguilim, você
sabia o que era alegria e tristeza. Mãe o
está aprontado? Está animoso?” Miguilim
beijava. A Rosa punha-lhe doces-de-lei-
abraçava todos, um por um, dizia adeus
te nas algibeiras, para a viagem. Papaco-
até aos cachorros, ao Papaco-o-Paco,
o-Paco falava, alto, falava.
ao gato Sossõe que lambia as mãozi-
nhas se asseando. Beijou a mão da mãe (...)
— 311 —

Uma Estória de Amor o dia já estava pronto para amanhecer,


céu já se desestrelando. No seguinte,
Novela narrada em terceira pessoa,
na rompidinha do dia, a vaqueirama se
“Uma Estória de Amor” tem como prota- formou. O Vaqueiro com o Fazendeiro
gonista Manuel Jesus Rodrigues, o Ma- — adepartes. Fazendeiro mais atrás, na
nuelzão, administrador da fazenda de sua besta queimada. O Vaqueiro vinha
gado Samarra. Este velho vaqueiro vi- guiando. Jogou o Cavalão adiente, foi
via de um lugar para outro, conduzindo bater onde estava o Boi... O Cavalo go-
boiada, vindo a fixar-se num só lugar vernava.”
apenas no final da vida.
— Seo Camilo, a estória é boa!
O personagem realiza uma festa de
inauguração de uma capelinha construí- — Manuelzão, sua festa é boa!
da a fim de homenagear sua mãe. São
— Simião, me preza um laço dos
mostrados os preparativos, os sertane-
seus, um laço bom, que careço, a quan-
jos advindos de várias regiões, a che- do a boiada for sair...
gada do padre e a festa.
— Laço, lação! Eu gosto de ver a
A novela valoriza a tradição oral,
argola estalar no pé-do-chifre e o trem
misturando casos e questionamentos
pular pra riba!
metafísicos, como a busca de Manuelzão
pela razão de sua existência. — Aprecio, por demais, de ajudar
numa saída de gado. Vadiarmais os com-
Várias estórias se intercalam, mui-
panheiros...
tas delas nos remetendo ao folclore ser-
tanejo. — Ei, eh, epa! A isso, lá?
Manuelzão, aos sessenta anos, vai — O João Urúgem, vigia: que veio
em busca de seu filho Adelço, que se em ouvir, na beira da escuridão... Oi, o
casara e vivia do trabalho na lavoura, João Urúgem de quatro patas, de som-
ao lado de sua família, diferentemente brio, com todas as mãos no chão...
do pai, mas de modo semelhante ao avô,
— Tenção de caluda, companhei-
para desgosto do primeiro.
ros, deixa a estória terminar.
No final da novela, Manuelzão está
— “... O Boi estava amarrado, chi-
prestes a conduzir mais uma boiada, car-
fres altos e orvalhados. Nos campos o
regando consigo apenas as lembranças
sol brilhava. Nos brancos que o Boi ves-
da festa e de suas próprias experiências.
tia, linda mais luz se fazia. Foi Bonito
(fragmento) desse berro, não agüentavam a maravi-
lha. E esses pássaros cantavam.
Foi ordem de se acender festa, com
tocada de viola e dança: té, té, té, té, té, — Vosmecê, meu Fazendeiro, há-
té, té — até o dia clareou. Fizeram noite, de me atender primeiro, dino. Meu nome
dançando. As iaiás também. O quando hei: Seunavino... Não quero dote em di-
— 312 —

nheiro. Peço que o Boi seja soltado. E se O narrador-personagem escreve


me dê este cavalo. um diário, estabelecendo um diálogo com
o leitor, refletindo sobre sua própria exis-
— Atendido, meu Vaqueiro, refiro
tência e tentando encontrar forças para
nesta palavra. O Boi, que terá por seus
enfrentar a realidade.
os pastos do fazendado. Ao Cavalo, é
já vosso. Beija a mão, meu Vaqueiro. Belmiro é um homem tímido e melan-
cólico, que observa o mundo exterior,
— Deus vos salve, Fazendeiro.
mas parece não se apropriar deste, pois
Vaqueiros, meus companheiros. Violei-
apenas relata-o, colocando-o no plano
ros... Fim final. Cantem este Boi e o Va-
das idéias. Ao mesmo tempo é sonhador
queiro, com belo palavreado...” e gosta de recordar os momentos que
— Espera aí, seo Camilo... lhe trouxeram alegrias, ainda que estes
não passem de puras ilusões.
— Manuelzão, que é que há?
Não tendo se casado, Belmiro vive
— Está clareando agora, está re-
em Belo Horizonte em companhia das
sumindo...
duas irmãs mais velhas.
— Uai, é dúvida?
Encontra muito tempo livre em seu
— Nem não. Cantar e brincar, hoje emprego, que aproveita para escrever
é festa — dançação. Chega o dia decla- suas memórias. Estas não seguem uma
rar! A festa não é pra se consumir — ordem linear, mas o fluxo das lembranças.
mas para depois se lembrar... Com boia-
Numa noite de quarta-feira de cin-
da jejuada, forte de hoje se contando
zas, Belmiro recorda seu encontro com
três dias... A boiada vai sair. Somos que a “donzela Arabela”, personagem de his-
vamos. tória infantil que não saía de sua imagi-
— A boiada vai sair! nação. Fora na noite de carnaval, quan-
do acompanhava os cordões, já bêba-
(...)
do e um tanto alucinado.
O encontro com Arabela dá novo
O amanuense Belmiro
sentido à vida do personagem. Através
Ciro dos Anjos do amigo Glicério, descobre a identida-
Ciro dos Anjos foi um escritor mo- de da jovem: Carmélia Miranda. O amigo
dernista da segunda geração. Primeiro relata-lhe também seu endereço e que
livro do autor, O Amanuense Belmiro foi perdera a mãe. A partir daí o protago-
publicado em 1937 e é considerado uma nista passa a idealizá-la e a imaginar um
de suas mais importantes obras. idílio. Mais que isso, passa a nutrir um
amor platônico pela moça, seguindo-a
A história é narrada em primeira em todos os momentos, desde o namo-
pessoa por Belmiro Borges, amanuense ro até o casamento, vivenciando uma
(incumbido de fazer cópias ou ofícios) paixão cada vez maior, que se concreti-
de uma repartição pública. za somente no plano dos sonhos.
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Carmélia casa-se com um primo e cos. Sangrou rudemente o almoxarifado


viaja, sendo acompanhada por Belmiro, da Seção do Fomento...
mas sem saber da existência do mesmo. Previdente e providente amigo! Es-
A história é ambientada em 1935, quece-me comunicar-lhe que já não pre-
pois há referências à coluna Prestes e ciso de papel, nem de penas, nem de
à perseguição aos comunistas. Entre boiões de tinta. Esqueceu-me dizer-lhe
eles estão alguns amigos do narrador, que a vida parou e nada há mais por
como Redelvim, que é preso. escrever.
Belmiro não mais vê sentido em sua Ai de mim! É necessário, porém,
própria vida nem no ato de escrever, fazer qualquer coisa, para empurrar os
pois não tem mais os amigos a seu lado. presumíveis trinta e dois anos que me
Morre sua irmã Chiquinha, Glicério deixa restam. Trinta e dois anos, sim. Em mé-
a repartição e o trabalho torna-se cada dia, os Borbas vão até aos setenta,
vez mais doloroso, até que o deixa. mesmo com o coração descompensado.
Acho-me pouco além do meio da estra-
Ciro dos Anjos faz uso da intertex- da, e parece-me, entretanto, que che-
tualidade e da metalinguagem. Além dis- guei ao fim. Negação de Belarmino, de
so, demonstra ironia e profundo pessi- Porfírio, de Firmino e de Baldomero...
mismo, já que constrói um protagonista Dois deles, chegados aos oitenta, ainda
que se vê imobilizado diante dos obstá- pediam mais dez. Viviam com plenitude
culos em seu caminho. Como diria Gui- os velhos Borbas da linha-tronco. Vi-
marães Rosa, ele “permaneceu com as viam a vida. Quando um tombava, pare-
bagagens da vida”. cia queda de gameleira ferida pelo raio.
(fragmento) Não morriam aos poucos, vendo o cor-
po consumir-se lentamente.
Tendo verificado que se esgotara
minha provisão de papel, Carolino me — Que faremos, Carolino amigo?
trouxe esta manhã uma porção de blo- (...)