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Cronologia dos factos ambientais ou evolução da consciência ambiental em

Moçambique.

Samuel Daniel & Timóteo Moisés Matangue


Universidade Licungo-faculdade de ciências
samucadenny65@gmail.com e matangue97@gmail.com

Resumo
Nos últimos anos tem surgido no mundo vários problemas ambientais advindos de uma
exploração descontrolada dos recursos provenientes do meio ambiente. Este artigo tem
como objectivo Apresentar a cronologia dos factos ambientais ou evolução da consciência
ambiental em Moçambique. Um dos factores que contribui para o combate a problemas
ambientais é a própria disseminação de conhecimentos sobre o ambiente, diante disto
pretende-se saber quais são os factos históricos que indicam uma evolução implementação
de projectos que possibilitam para uma consciência ambiental. Este artigo baseia-se em
documentais e bibliografias sobre o ambiente com destaque para a lei nacional do ambiente
(Resolução no 5/95 de 3 de Agosto). Como resultados descobrimos que a história a
educação ambiental surge desde antes da independência ate aos nossos dias, e que em
Moçambique a educação ambiental tem um enquadramento legal e que foram muitas
actividades desenvolvidas para promover a consciência ambiental. Entre tanto ainda
permanecem vários problemas ambientais.

Palavras-chaves: consciência ambiental, educação ambiental ambiental, desenvolvimento


sustentável, tendências pedagógicas.

Abstract
In recent years, several environmental problems have arisen in the world arising from an
uncontrolled exploitation of resources from the environment. This article aims to present
the chronology of environmental facts or the evolution of environmental awareness in
Mozambique. One of the factors that contribute to the fight against environmental problems
is the dissemination of knowledge about the environment, in view of this, it is intended to
know what are the historical facts that indicate an evolution in the implementation of
projects that allow for an environmental awareness. This article is based on documents and
bibliographies on the environment with an emphasis on the national environmental law
(Resolução no. 5/95 of 3 Agosto). As a result we found that the history of environmental
education comes from before independence until today, and that in Mozambique
environmental education has a legal framework and that there were many activities
developed to promote environmental awareness. Meanwhile, several environmental
problems still remain.

Keywords: environmental awareness, environmental education, sustainable development,


pedagogical trends.
Introdução

Durante os últimos 50 anos o ser humano tem alterado os ecossistemas naturais mais
rapidamente do que em qualquer outro período da história da humanidade. Advindo disso
surge vários problemas como uma perca de biodiversidade à escala planetária, a um aumento
substancial da concentração atmosférica de diferentes gases de efeito estufa, a uma alteração
das taxas de conversão do nitrogénio etc. De acordo com Leff (2010, 2011) esta situação
global resulta do processo de racionalização que desvinculou a razão do sentimento, o
conhecimento da ética e a sociedade da natureza. Os ideais de produção deste tipo de
pensamento estão sobretudo baseados em indicadores financeiros, os quais acabam por
conduzir à exclusão social e à destruição do ambiente.
Segundo pensadores como Edgar Morin (1977; 2006) e Enrique Leff (2011) Esta
realidade conduz-nos a uma necessidade de um novo paradigma de produção apoiado em
bases ecológicas. Esta mudança de paradigma só será possível com a transformação da
consciência adoptando uma consciência ambiental. Segundo Paulo Freire (3014) a educação
assume um papel decisivo para a conscientizacao do indivíduo e por consequência de toda a
sociedade. Deve-se incorporarar na educação a ideia de um desenvolvimento que favoreça o
meio ambiente. Somente depois disto será possível resgatar os princípios básicos da Educação
Ambiental discutidos na conferência de Tbilisi e sintetizados por Leff (2011, p. 237)
Em Moçambique a educação ambiental está bem longe de ser um conhecimento de
cunho geral. Porém, a implementação de leis que tem como objectivo ultimo a preservação do
meio ambiente, desde os tempos coloniais. É notório também que nos últimos anos tem-se
assistido à implementação de projectos e acções que de uma forma inovadora têm contribuído
para uma consciencialização dos valores ambientais através da elaboração de lei de ambiente,
palestras a respeito da conservação do ambiente e também a implementação de educação
ambiental em algumas instituições de ensino.
Neste artigo pretendemos Apresentar a cronologia dos factos ambientais ou evolução da
consciência ambiental em Moçambique. Complementarmente, apresentaremos alguns
resultados de acções/projectos representativos da situação actual. Com isto, procurámos
sublinhar: (i) percursos históricos da consciência ambiental em Moçambique descrevendo
acções desenvolvidas por instituições com objectivos de conscientizacao ambiental.
Terminamos com algumas reflexões do estado actual da Educação Ambiental, realçando as
principais dificuldades e desafios.
Método
Para a produção do presente trabalho os autores basearam-se em consultas documentais e
bibliografias sobre o ambiente com destaque para a política nacional do ambiente vigente na
lei nacional do ambiente (Resolução no 5/95 de 3 de Agosto). Também analisamos alguns
trabalhos académicos de onde extraímos vários factos históricos de forma a elucidar o
processo de desenvolvimento de consciência ambiental. Analisamos os vários currículos
educacionais de Moçambique de modo a ver como é que se deu o processo da incorporação
da educação ambiental no âmbito escolar em Moçambique.

Conceituação do Termo “Consciência” para a Educação Ambiental

Do latim conscientia, a consciência tem alguns de seus significados representados no


Dicionário Michaelis tais como a “Capacidade que o homem tem de conhecer valores e
mandamentos morais e aplicá-los nas diferentes situações”. A compreensão, portanto sobre a
ocorrência de “conscientização” surge quando o indivíduo não apenas toma conhecimento e
guarda para si quaisquer que sejam as informações, mas fundamentalmente faz uso das
informações obtidas para a construção da moral, de seus actos, executando e praticando como
verdade em sua realidade e na sua relação com o meio ambiente. A condição moral sobre o
conceito de “consciência” também nos remete ao exame não dos actos praticados ou a
praticar, mas como um princípio de julgamento voltado à busca da honradez, rectidão,
sinceridade, dignidade contra os actos e comportamentos humanos.

Nesta perspectiva, a escola é fundamental para a formação social do homem e,


actualmente, é de primordial importância que a escola promova informações ambientais que
geram maior conhecimento às gerações futuras. Então, é fundamental que cada aluno
desenvolva as suas potencialidades e adopte posturas pessoais e comportamentos sociais
construtivos, colaborando para a construção de uma sociedade justa, num ambiente saudável
(Cassol, 2009). Assim, os conteúdos ambientais incorporados nos programas de todas as
disciplinas no 1o ciclo do ESG e contextualizados com o quotidiano da comunidade procuram
ajudar os alunos a terem uma visão integral do mundo em que vivem. Para que a inter-relação
seja atingida com êxito, a EA deve ser abordada de forma sistemática e transversal no ESG,
assegurando a interdisciplinaridade nos programas de todas as disciplinas e nas actividades
escolares, tanto nas instituições educacionais públicas como privadas. Desta forma, torna-se
de suma importância a conscientização ambiental dos alunos, dos professores e da
comunidade de forma a evitar-se novos prejuízos ao ambiente.
Como vemos, ainda hoje, o exemplo é a melhor maneira de se ensinar e um professor deve ter
consciência da responsabilidade que recebe ao se expor numa sala, diante dos seus alunos. É
importante que as crianças aprendam que a responsabilidade é de todos, que os actos de cada
um reflectem sobre o futuro de toda a humanidade. Isso é importante até mesmo para diminuir
o sentimento de impotência que às vezes atinge aos alunos.

Percursos históricos da consciência ambiental em Moçambique


Em Moçambique podem ser tomados três principais momentos de gestão ambiental, que
constituíram a base para a educação ambiental.
O primeiro momento que se passava até à proclamação da independência nacional que
consistia em medidas pontuais de gestão de florestas, fauna bravia, zona costeira. Acrescia-se
a isto, acções de alguns sectores/subsectores como a agricultura, saúde, pescas e turismo que
dispunham leis de conservação dos recursos naturais mas praticamente destituídos de formas
de coordenação intersectorial.
O segundo momento, vigorou desde os finais dos anos 1980 e princípios dos anos 1990,
procurou trazer a gestão ambiental para um desenvolvimento económico e social mas sem
ainda se abraçar os princípios de sustentabilidade ambiental. Neste período, foram criados
grupos de trabalho ambiental e divulgadas noções de gestão ambiental.
O terceiro e último momento, vigora desde os princípios dos anos 1990 aos nossos dias, e
teve um dos seus momentos mais marcantes a elaboração da lei do ambiente (que foi a base
para a criação do então Ministério para Coordenação da Acção Ambiental, em 1994). É
caracterizado pelo desenvolvimento sustentável inspiradas nas conferências do Rio em 1992 e
de Joanesburgo em 2002.
É em torno deste último período que surgem desafios sérios sobre o ambiente em geral e
educação ambiental em particular (Micoa, 2009), Hoje no País, a educação ambiental tem um
enquadramento legal, Estratégico, Social e Económico. A Política do Ambiente, afirma que
Educação Ambiental visa desenvolver uma consciência ambiental entre a população, para a
participação pública na gestão ambiental (Resolução Nº 5/95).
Ela, ainda está plasmada na Lei do Ambiente. Esta Lei, regula o uso e a gestão do
ambiente com a intenção de promover o desenvolvimento, ela contém uma série de definições
e estabelece princípios baseados no direito Constitucional a um ambiente favorável
(MACHILI:2013)
No âmbito da Educação Ambiental, a lei prevê que o Governo deve criar, em colaboração
com a comunicação social, mecanismos de defesa Ambiental a todos níveis (Lei 20/97, de 1
de Outubro). A alínea c, no 2, Artigo 117 da Constituição da República aprovada em 2004
preconiza que O estado, deve adoptar politica para preservação do meio ambiente nas
políticas e programas educacionais.
O segundo Plano de Acção para Redução da Pobreza Absoluta (PARPA II), aprovado
pelo governo para 2010/14 considerou que: A educação ambiental fornece alternativas de
geração de rendimentos, para os agregados mais pobres poderão contribuir para aliviar a
pressão da pobreza.
O Plano Quinquenal do Governo para 2010-2014, tinha como um dos objectivos na área
do ambiente, Promover a Educação Ambiental e a preservação do ambiente junto das
comunidades através de: Massificação de programas de Educação Ambiental; Promoção de
Programas de capacitação das comunidades. O então Ministério para Coordenação da Acção
Ambiental, como sector que velava pelo ambiente, para orientar a Educação Ambiente criou
instrumentos orientadores tais como:
Estratégia de Comunicação Divulgação da Educação Ambiental (ECODEA), que visava dar
uma orientação e uma tomada de novas estratégias de formas colectivas e sectoriais, face aos
problemas ambientais vigentes; e Programa de Educação, Comunicação e Divulgação
Ambiental (PECODA), que visava a promoção de uma comunicação ambiental divulgando
conhecimento de questões ambientais para conduzir à mudança de atitude. No âmbito da
implementação do PECODA em 2009 a 2012, o Ministério criou ao nível central, provincial e
distrital, uma rede de educadores em vista promover a educação ambiental a todos os níveis
associada `as campanhas: “Um líder, uma floresta” e “Um aluno uma árvore”.
Para MICOA (2009) as principais acções levadas a cabo pelo Moçambique (através da
ECODEA e PECODA) para atender a educação ambiental, dez anos depois da Conferência
Rio-92, agrupam-se em 3 componentes nomeadamente: Consciencialização pública,
Capacitação institucional e Currículo escolar.

Consciencialização pública
Para a consciencialização pública, foram realizadas actividades como: Séries televisivas de
Educação Ambiental, com destaque para programas radiofónicos de divulgação, em parceria
com a Rádio Moçambique e Rádios Comunitárias locais; Realização de Jornadas de
Consciencialização nas comunidades urbanas e rurais; e Feiras de exposição.
Capacitação institucional
A quando da integração do País nas questões ambientais, notava-se uma fraca capacidade
institucional para atender a educação, destacar duas actividades que impulsionaram o primeiro
núcleo de pessoal ambientalista, nomeadamente: Formação do pessoal a todos níveis de
Sustentabilidade (enviados para a Europa e América do sul); e A participação de técnicos
nacionais em estágios, colóquios e sem actividades foram levadas a cabo através do governo e
parceiros de cooperação.

Currículo escolar
No âmbito do currículo escolar, numa primeira fase, foi introduzida a componente ambiental
nos dois graus iniciais do ensino básico introduzidas Cadeiras sobre o ambiente nos Institutos
Técnicos, Escola do Jornalismo e posteriormente o nível superior. Hoje, ex graduação em
matéria de Ambiente em geral e de educação ambiental em particular.

Considerações finais
Durante a nossa pesquisa constatamos que foram muitas as actividades desenvolvidas em prol
da promoção de consciência ambiental, tais como a integração de programas de promoção
ambiental como ECODEA e PECODA, integração de educação ambiental no currículo
escolar. Embora através desta pesquisa tenhamos descoberto que a “educação ambiental”
tornou-se conhecidas com o tempo, parece que a “consciência ambiental” não tenha evoluído
significativamente, já que ainda se regista que a exploração da madeira é ainda um problema
vigente em Moçambique, outros problemas existentes em Moçambique são: uma alta
dependência de fontes de energia não renováveis (uso de carvão vegetal para cocção de
alimentos), queimas descontroladas, acumulo de lixos em ambientes públicos etc.
Segundo GARCIA (2009), os problemas ambientais encontrados em Moçambique estão
ligados a factores sociais, culturais e principalmente económicos. Conforme verifica, por
exemplo, na migração de população das zonas rurais para centros urbanos no pós-guerra em
busca de melhores condições de vida, como o acesso a produtos e serviços. Como
consequência do êxodo rural e a exploração descontrolada dos recursos naturais, falta de
saneamento básico e poluição do ar, o risco de adoecer aumenta principalmente entre
mulheres e crianças. Além disso, a população sofre com as catástrofes naturais, cheias e secas,
desertificação, poluição das águas que castiga ainda mais este povo.
Depois de analisar, a par e passo, os dispositivos da Lei do Ambiente Moçambicana
encontramo-nos, nesta fase, aptos a tecer algumas considerações sobre a mesma. A gravidade
dos problemas em que estamos envolvidos ajuda -nos a fundamentar a necessidade de algo
mudar, a necessidade de se adoptarem novos modelos consentâneos com a nossa
sobrevivência. A questão da nossa sobrevivência como espécie exige que as pessoas revejam
o seu papel na natureza reajustando a própria percepção de si mesmos, que tomem
consciência da interdependência que une todos os seres vivos e que ajam tendo em conta os
efeitos previsíveis das suas decisões na gestão de um património comum.
Para atingirmos o comportamento mais adequado, a melhor forma é promovermos a
EA. Apesar dos inúmeros problemas estruturais que envolvem a actividade docente do nosso
país, já sabidos e reivindicados, observa -se uma busca constante de conhecimentos pelos
professores que possam levá-los a um amadurecimento da prática de sala de aula. Portanto,
para que os alunos possam compreender a complexidade e a amplitude das questões
ambientais, é fundamental oferecer - lhes além da maior diversidades de experiências, uma
visão abrangente que englobe diversas realidades, e ao mesmo tempo, uma visão
contextualizada da realidade ambiental, o que inclui, além do ambiente físico as condições
sociais e culturais.
A abordagem da EA no contexto do tratamento do currículo hoje, deve ser um desafio
que rompe com a tradição clássica: os conteúdos são para serem «dados», já está tudo
dividido por tempos lectivos; o programa é para ser cumprido, a «contabilidade» é feita
previamente. A desigualdade é coisa do final do ano lectivo porque se acredita que no
princípio todos dispõem da mesma informação, todos possuem os mesmos manuais, todos
têm os mesmos professores, logo todos usufruem das mesmas oportunidades, venham de onde
vierem, tenham as histórias que tiverem. O produto final, parcelar, uns estudam outros não,
uns têm dotes outros não, uns têm capacidade de trabalho outros não, uns são interessados
outros não. A escola geralmente «lava as mãos».
Nessa perspectiva, o desafio sugere que nas escolas Deve haver outra maneira de
estar, de fugir à rotina e ao conformismo amargo e céptico. Trata-se de questionar, reflectir os
«modelos» aceites, de inquirir situações, compreender e aprofundar relações, de estabelecer
redes de troca e de apoio, procurar uma afirmação profissional e pessoal pela exigência, pelo
rigor, pela confiança, através de linhas de actuação prosseguidas com coerência e autonomia.
(Cavaco, 1992:102)
Bibliografia
Cassol, A. D. C. Riacho Monjolinho: Uma aventura pedagógica. 10º ENPEG. Porto Alegre,
2009.
Fernanda. Influências ambientais na qualidade de vida em Moçambique.
Garcia, Flávio Roberto Mello; BANDEIRA, Romana Rombe e LISE, Revista ACOALFAplp:
Acolhendo a Alfabetização nos Países de Língua portuguesa, São Paulo, ano 3, n. 6, 2009.
Disponível em: <http://www.acoalfaplp.net>. Publicado em: março 2009.
Leff, E. Epistemologia Ambiental. 5ª ed. São Paulo, Cortez Editora, 2010
Leff, E. Saber Ambiental, Sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. 8ª ed.
MACHILI, Tomas Benjamim. Contribuição da Geografia Escolar na Educação Ambiental:
Caso da 11ª classe na Escola Secundaria 12 de Outubro- Nampula. Dissertação de Mestrado.
Ministério para Coordenação da Acção Ambiental. Estratégia Nacional de Educação
Ambiental. MICOA. Maputo. 2002.
Morin, E. Introdução ao Pensamento Complexo. Porto Alegre. Sulina, 2006
Morin, E. O Método. 2ª ed. Publicações Europa America, Lda, 1977
Petropolis, RJ, Editora Vozes, Lda, 2011
República de Moçambique. Constituição da República. Aprovada pela Assembleia da
República em 16 de Novembro. Maputo. 2004.
Supervisores: Profªs Doutoras Racha Universidade Pedagógica. Maputo. 2013

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