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Efeitos da Lei Maria da Penha

segunda-feira 18 de setembro de 2006

Para advogados, a Lei Maria da Penha contribuiu para o reconhecimento legal


da evolução do conceito de família, incluindo aquela formada por pessoas do
mesmo sexo

No dia 7 de agosto de 2006, foi sancionada a lei n.º Lei 11.340, que pune a
violência doméstica e familiar contra a mulher e recebeu o nome de "lei Maria
da Penha" como forma de homenagear a pessoa símbolo da luta contra a
violência familiar e doméstica. Maria da Penha Fernandes foi vítima de duas
tentativas de homicídio por parte do ex-marido e ficou paraplégica. A punição
do agressor só veio 19 anos e 6 meses depois.

Além de criar mecanismos necessários à punição, a lei traz um avanço ao


considerar que a sua aplicação independe da orientação sexual das pessoas
envolvidas.

Os advogados Iglesias Fernanda de Azevedo Rabelo e Rodrigo Viana Saraiva,


em artigo publicado no site Jus Navigandi explicam que a doutrina e a
jurisprudência admitem a união homoafetiva, respeitando-se os requisitos da
união estável, como entidade familiar. No entanto, não havia uma lei federal
que permitisse uma interpretação nesse sentido.

Em seu artigo 5º, a lei Maria da Penha veio, segundo eles, suprir a lacuna da
legislação, reconhecendo uma situação que já está presente na sociedade. "A
legislação apenas acompanha essa evolução para permitir que, na ausência de
sustentação própria, o Estado intervenha para garantir a integridade física e
psíquica dos membros de qualquer forma de família".

Leia a íntegra do artigo de Iglesias Fernanda de Azevedo Rabelo e Rodrigo


Viana Saraiva

Conheça a íntegra da Lei Maria da Penha (em PDF nesta página)

Veja o que diz o art. 5º:

"Art. 5º Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar


contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou
patrimonial:

I - omissis

II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por


indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais,
por afinidade ou por vontade expressa;
III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha
convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.

Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de


orientação sexual."

1 - Introdução

A união de pessoas do mesmo sexo tem recebido certa proteção, na medida


em que se apresenta com os requisitos de uma união estável. No entanto, essa
proteção advém de uma construção jurisprudencial [01] e doutrinária, que
flexibilizaram ainda mais o conceito de família, para abranger os casais
homossexuais com ou sem filhos.

No Brasil, essa questão não havia sido enfrentada pela via legislativa, tanto
que a doutrina moderna lamentou o fato do Código Civil de 2002 não ter
disciplinado a união homoafetiva.

Nesse contexto, a Lei Maria da Penha apresenta um avanço em relação ao


Direito Civil legislado e em consonância com a atual discussão doutrinária e
jurisprudencial. Isso porque o seu art. 5º contém uma carga ideológica
inovadora, por permitir uma interpretação de reconhecimento da entidade
familiar entre pessoas do mesmo sexo.

Antes de analisarmos a inovação acima mencionada, convém trazer uma


rápida abordagem acerca da evolução das formas familiares.

2 - Evolução das formas familiares

O conceito de família representa a plurivalência semântica, que é um fenômeno


normal do vocabulário jurídico, ou seja, vários juristas, de diferentes épocas e
lugares, apresentaram diferentes definições sobre família. Com o passar do
tempo, sempre se desatualizavam. No Brasil, até a idéia de família expressa
pelo atemporal Clóvis Beviláqua (1976) não se apresenta compatível com a
realidade. Afirma o civilista que a família "É o conjunto de pessoas ligadas pelo
vínculo de consangüinidade, cuja eficácia se entende, ora mais larga, ora mais
restritamente, segundo as várias legislações. Outras vezes porém, designa-se,
por família, somente os cônjuges e a respectiva progênie". Conforme será
demonstrado a seguir, esse conceito, apegado à consangüinidade, não tem
respaldo na realidade atual.

Durante séculos, a família fora um organismo extenso e hierarquizado. Em


terra brasilis, esse modelo é bem ilustrado por Gilberto Freire (2004), em sua
obra Casa Grande & Senzala, ao apresentar a família patriarcal. A família
brasileira apresentava um caráter nitidamente extenso, submetendo-se seus
membros à autoridade soberana do pai. Em torno dele, girava toda a vida
familiar. O patriarca constituía o centro de gravidade de seus domínios e das
pessoas que os habitavam. (FREYRE, 2004)

Antes de chegarmos na família monogâmica, formas mais antigas existiram,


como a família consangüínea, a família punaluana, a família sindiásmica ou de
casal e a família patriarcal. (MORGAN, 1970:56-57).

O antigo Código Civil brasileiro (Lei 3.071, de 1º de janeiro de 1916), apesar de


sua qualidade técnica, foi elaborado ainda sob a influência do individualismo
que comungava com o modelo de família patriarcal. Dessa forma, para o
Direito, o conceito de família esteve sempre ligado a dois elementos
fundamentais: consangüinidade e casamento formal e solene.

No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, a família patriarcal foi


se esvaecendo. O processo de urbanização acelerada, os movimentos de
emancipação das mulheres e dos jovens, a industrialização e as revoluções
tecnológicas, as profundas modificações econômicas e sociais ocorridas na
realidade brasileira e as imensas transformações comportamentais havidas
puseram fim à instituição familiar nos moldes patriarcais, para surgir uma
instituição organizada com base no modelo nuclear, restrita a um número
reduzido de pessoas. A família extensa foi eliminada pela família nuclear,
especialmente nas grandes cidades do País. Além disso, difundiram-se novos
arranjos familiares, desvinculados da união legal.

Com o advento da Constituição Federal de 1988, sensível à nova realidade, a


proteção assegurada ao casamento, foi estendida à família. A CR/88 trouxe o
conceito de "entidade familiar (art. 226, §§3º e 4º); instituiu novas regras para o
instituto do divórcio (art. 226, §6º); apregoou a equiparação dos cônjuges em
direitos e deveres (art. 226, §5º); previu o planejamento familiar (art. 226, §7º) e
a assistência à família (art. 226, §8º), além de instituir a absoluta igualdade
entre os filhos. Trouxe, ainda, um rol exemplificativo de entidades familiares,
quais sejam, a instituída pelo casamento, pela união estável e a família
monoparental.

Todavia, o casamento não deixou de ser a forma clássica para se constituir


família. Logicamente, não é, atualmente, a única forma de vida familiar. Acerca
da primazia do casamento na geração de relações familiares, apregoa Caio
Mário da Silva Pereira (2004:24):

"É o casamento que gera as relações familiares originariamente. Certo é que


existe fora do casamento, produzindo conseqüências previstas e reguladas no
Direito de Família. Mas, além de ocuparem plano secundário, e ostentarem
menor importância social, não perdem de vista as relações advindas do
casamento, que copiam e imitam, embora a contrastem freqüentemente. A
preeminência do casamento emana substancialmente de que originam dele as
relações havidas do casamento, como a determinação dos estados regulares e
paragonais que, sem excluírem outros, são os que a sociedade
primordialmente considera, muito embora, a Constituição de 1988 tenha
proibido quaisquer designações discriminatórias (art. 227, §6º)".

Por outro lado, o movimento de mulheres e a disseminação dos métodos


contraceptivos concretizaram o que Juliet Mitchell (1972, 263/264) afirmou
sobre a conquista da pílula anticoncepcional: "libertará as experiências sexuais
das mulheres de muitas ansiedades e inibições que sempre as afligiram.
Romperá definitivamente com aquela complementaridade tradicionalmente
necessária entre sexualidade e procriação". Associados aos resultados da
evolução da engenharia genética permitiram o rompimento do paradigma:
casamento, sexo e procriação.

Com todos esses avanços, a realidade nos mostra uma outra noção de família.
Não significa que crise ou abolição da família, mas sim uma pluralidade de
instituições, onde são reconhecidos outros arranjos familiares (MITCHELL,
1972: 273). O elemento da consangüinidade deixou de ser fundamental para a
constituição da família, tanto que o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê
a existência da família substituta, visualizada no instituto da Adoção.

Roudinesco (2003:198) afirma que as novas formas de unidade familiar, que


são consideradas ameaçadoras para alguns, não impedem que a família seja
reivindicada como o único valor seguro ao qual ninguém quer renunciar. Afirma
ainda, que todas as pesquisas sociológicas mostram que a família é amada,
sonhada e desejada por homens, mulheres e crianças de todas as idades, de
todas as orientações sexuais e de todas as condições.

O que deve ser frisado é que a questão da família vai além de sua positivação
nos ordenamentos jurídicos. Tanto é, que ela sempre existiu e continuará
existindo, desta ou daquela forma, em qualquer tempo ou espaço. O que muda
são apenas as formas de sua constituição. Nas palavras de Roudinesco
(2003:199) "a família do futuro deve ser mais uma vez reinventada". O que é
confirmado por Pereira (2004: 30) ao afirmar que "A família está se
transformando sob os nossos olhos".

A explicação para essas transformações nos é fornecida pelo psicanalista


francês Jaques Lacan, que afirma ser a família um fenômeno cultural e não
natural. Por isso é que ela se apresenta das mais variadas formas, de acordo
com as diferentes culturas. Para ele, a família não se constitui apenas de um
homem, uma mulher e filhos, ainda que casados solenemente. A família é,
primordialmente, uma estruturação psíquica, onde cada um de seus membros
ocupa um lugar definido. Lugar do pai, da mãe, dos filhos, sem, entretanto,
estarem necessariamente ligados biologicamente ou por qualquer ato formal.
(PEREIRA, 1995)

A opinião de que a família é um fenômeno natural é sedimentada no mundo


jurídico. No entanto, novos doutrinadores, especialmente, estudiosos do Direito
de Família, como Vilela (1979) e Pereira (1975), defendem ser a mesma um
fenômeno cultural. Pereira, seguindo o entendimento de Lacan, explica que a
família "não se constitui de um macho, de uma fêmea e de filhos. Ela é uma
estruturação psíquica, onde cada membro tem um lugar definido. Para se
ocupar o lugar do pai, da mãe ou do filho, não é necessário laço biológico" e, a
decorrência desse passo para o simbólico, que só o homem deu, é que nos
diferencia dos outros animais e que nos permite constituir uma família, ou
melhor, compor uma estruturação familiar.

A estrutura familiar é algo complexo que precede o Direito e que este procura
legislar no sentido de proteger esse instituto, que é célula básica da sociedade.
A família é fonte de companheirismo e afeto, com valorização de cada membro,
para permitir o desenvolvimento da personalidade de todos. É na família que se
estrutura o sujeito e estabelecem-se as primeiras leis psíquicas. Quando estas
se ausentam, faz-se necessária a lei jurídica para sobrevivência do próprio
indivíduo e da sociedade.

A realidade demonstra que a unidade familiar não se resume apenas a casais


heterossexuais, as uniões homoafetivas já galgaram o status de unidade
familiar. A legislação apenas acompanha essa evolução para permitir que, na
ausência de sustentação própria, o Estado intervenha para garantir a
integridade física e psíquica dos membros de qualquer forma de família.

3 - Breves considerações acerca da Lei 11.340, de 07.08.2006, "Lei Maria


da Penha"

No dia 7 de agosto de 2006, foi sancionada a lei n.º Lei 11.340, que "cria
mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos
termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da
Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a
Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de
Execução Penal; e dá outras providências".

Esta lei recebeu o nome de "lei Maria da Penha" como forma de homenagear a
mulher, Maria da Penha Fernandes, símbolo da luta contra a violência familiar
e doméstica.

Em breves linhas, aquela mulher sofreu duas tentativas de homicídio por parte
do ex-marido. Primeiro, levou um tiro enquanto dormia, sendo que o agressor
alegou que houve uma tentativa de roubo. Em decorrência do tiro, ficou
paraplégica. Como se não bastasse, duas semanas depois de regressar do
hospital, ainda durante o período de recuperação, Maria da Penha sofreu um
segundo atentado contra sua vida: seu ex-marido, sabendo de sua condição,
tentou eletrocutá-la enquanto se banhava.
A punição do agressor só se deu 19 anos e 6 meses após o ocorrido. Essa
situação injusta provocou a formalização de denúncia à Comissão
Interamericana de Direitos Humanos da OEA – órgão internacional responsável
pelo arquivamento de comunicações decorrentes de violação desses acordos
internacionais, pelo Centro pela Justiça pelo Direito Internacional (CEJIL) e
pelo Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM),
juntamente com a vítima.

Diante da denúncia, a Comissão da OEA publicou o Relatório nº 54, de 2001,


que dentre outras constatações, recomendou a continuidade e o
aprofundamento do processo reformatório do sistema legislativo nacional, a fim
de mitigar a tolerância estatal à violência doméstica contra a mulher no Brasil.
(ALVES, 2006)

A sanção dessa lei representa, assim, um avanço na proteção da mulher vítima


de violência familiar e doméstica, incluindo-se, também, uma inovação legal
quanto às formas familiares já positivadas.

4 - Inovação legal no conceito de Família

Conforme já afirmado, a doutrina e a jurisprudência admitem a união


homoafetiva, respeitando-se os requisitos da união estável, como entidade
familiar. No entanto, não havia uma lei federal que permitisse uma
interpretação nesse sentido.

Até o advento da lei Maria da Penha, a resistência do legislador brasileiro em


enfrentar a questão da união homoafetiva, principalmente após o advento do
Código Civil de 2002, que nada versou sobre o tema, foi expresso por Caio
Mário da Silva Pereira (2004:3):

"Desta feita, o legislador demonstrou nítido esforço em adaptar-se às novas


conquistas. Sua coragem não foi suficiente para impulsioná-lo aos avanços dos
sistemas jurídicos mais adiantados; optou pelo esforço de buscar um
questionável equilíbrio em meio às controvérsias já enfrentadas pela Doutrina e
pela Jurisprudência no dia-a-dia dos Tribunais. Mirando ao longe as
modificações que se faziam necessárias, preferiu recuar numa atitude marcada
pela dificuldade de confrontar-se com o novo".

A existência de relações constituídas com base no afeto, mas que extrapolam a


estrutura normativa, é realçada por Viveiros de Castro e Benzaquém
(1989:133):

"A antropologia vem-se debatendo nos braços de uma dicotomia: o ‘direito’


versus o ‘afeto’, isto é, a estrutura social concebida como sistema de relações
jurais entre pessoas versus aspectos da vida social não-redutíveis a ela,
consistindo em sentimentos e emoções, em condutas individualizadas e
processos que transgrediam as fronteiras da estrutura normativa".

Nesse cenário, a lei Maria da Penha reconheceu uma situação que já está
presente na sociedade, tanto que reproduzido nos meios de difusão cultural.
No Brasil, esse assunto já foi retratado, com aceitação do público, em novelas,
que são vistas, discutidas e influenciam grande parte da população brasileira.

Vainfas (1997:130) relata, com base em documentos do Tribunal do Santo


Ofício, a existência de lesbianismo já no Brasil colonial. Dentre os relatos
apresentados pelo autor, um apresenta a violência no contexto da relação
homossexual feminina, estabelecida entre Isabel "a do veludo" e sua parceira,
Francisca Luiz:

"Francisca Luiz, sua parceira, era negra forra que também viera do Porto,
abandonada pelo marido, e abrigaria Isabel por algum tempo. Eram amigas do
Porto, quando não já amantes, e continuariam a sê-lo na Bahia. O romance
parece ter sido muito difícil. Tornou-se motivo de escândalo público, sobretudo
depois que Isabel, "a do veludo", resolveu sair com um homem. Quando ela
voltava de um de seus encontros, Francisca Luiz a interpelou na porta da casa
onde moravam e começou a gritar: "Velhaca! Quantos beijos dás a seu coxo e
abraços não me dás um!? Não sabes que quero mais um cono (vagina) do que
quantos caralhos aqui há?!". Descontrolada, Francisca passou dos insultos às
vias de fato, pegando Isabel pelos cabelos e arrastando-a porta adentro com
pancadas e bofetões, tudo à vista dos vizinhos."

Nesse sentido, a lei Maria da Penha, em seu art. 5º supriu a lacuna legislação
da seguinte forma:

"Art. 5º Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar


contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou
patrimonial:

I - omissis

II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por


indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais,
por afinidade ou por vontade expressa;

III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou


tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.

Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo


independem de orientação sexual." (grifou-se)
O reconhecimento legal da família constituída por vontade expressa, permite
uma interpretação no sentido de englobar um casal homossexual, no presente
caso, especificamente o casal composto por mulheres.

Acerca da situação até então vigente, com a exclusão legal de reconhecimento


da união homoafetiva entre mulheres, Alves (2006) preleciona que "são elas,
portanto, cônjuges "autoconsiderados", porque, perante si mesmos e perante a
sociedade, mas à margem da lei, ambas têm um vínculo íntimo sólido, com
envolvimento sexual e afetivo tal qual um casal heterossexual. Além disso,
mesmo que o Direito não as reconheça como tal, elas o fazem, mediante ato
voluntário de manifestação de vontade".

O relato de Alves demonstra a existência da manifestação de vontade expressa


na constituição da relação homoafetiva feminina. Dessa forma, os casais
homossexuais conjugam o mesmo afeto, os mesmos planos comuns, as
mesmas vontades e os mesmos interesses que o fariam um casal
heterossexual.

Constata-se, portanto, que as uniões homoafetivas são constituídas por


vontade expressa, o que as inclui na previsão legal retro citada. Inclusive,
admitir de forma contrária poderia levar ao absurdo da hipocrisia, pois uma
mulher vítima de violência familiar pela sua parceira não poderia obter a
proteção legal.

Ademais, nos termos do art. 5º, III, as uniões homoafetivas, entre mulheres,
também estão englobadas pela presente lei. Isto porque esse tipo de união
apresenta-se como uma relação íntima de afeto. Reforçado encontra-se,
portanto, a previsão legal da nova forma de entidade familiar acima expressa.

Ademais, para sanar qualquer dúvida, o parágrafo único do art. 5º assegura


que "as relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação
sexual". O legislador, de forma expressa, extirpou qualquer possibilidade de
interpretação diversa da aqui estabelecida. Uma interpretação sistemática do
inciso II com o parágrafo único do mesmo artigo 5º permite afirmar que a lei
reconheceu a união homoafetiva entre mulheres, que, por analogia, também
haverá de ser aplicado aos casais homossexuais do sexo oposto.

Essa interpretação está em consonância com a previsão constitucional de


proteção à família nos termos do art. 226 da CR/88 "A família, base da
sociedade, tem especial proteção do Estado". Hoje, a família é entendida com
um núcleo de afetividade, logo, o afeto não se restringir às uniões entre
pessoas do sexo oposto.

Corroborando esse entendimento, Paulo Luiz Lobo (2002:95) assegura que a


enumeração constitucional é meramente exemplificativa, o que não permite
excluir qualquer entidade que preencha os requisitos da afetividade,
estabilidade e ostensividade. Dessa maneira, por mais que abrangente, o rol
constitucional não é exauriente, na medida em que não elencou todos os
arranjos familiares merecedores de proteção. Assim sendo, os relacionamentos
de pessoas do mesmo sexo, que mantêm uma relação pautada pelo afeto,
merecem a devida proteção e reconhecimento previstos na CR/88.

5- Conclusão

A lei Maria da Penha, além de inovar no conceito de família, também, rompe


com a dicotomia público/privado evidenciada pelo antigo ditado "em briga de
marido e mulher, ninguém bota a colher". O espaço doméstico que estava
destinado exclusivamente à mulher era inatingível. Isso gerou um sentimento
de impunidade pela violência doméstica, como se o que acontecesse dentro da
casa não interessasse a ninguém. A autoridade do marido, no moldes da
família patriarcal, permitia o direito de dispor do corpo, da saúde e até da vida
da sua esposa. Essa autoridade do homem/marido sempre foi respeitada de
forma que a Justiça parava na porta do lar, e a polícia sequer podia prender o
agressor em flagrante.

Dessa forma, considera-se que a lei Maria da Penha representa um marco na


proteção da família e um resgate da cidadania feminina, na medida em que a
mulher ficará a salvo do agressor e, assim, poderá denunciar as agressões
sem temer que encontrará com o agressor no dia seguinte e poderá sofrer
conseqüências ainda piores.

No tocante ao reconhecimento legal de uniões homoafetivas femininas, a lei


institucionaliza uma situação inegável e com clara constatação fática, além de
significar um avanço para romper com os preconceitos existentes.

A família homoafetiva é uma realidade. O conservadorismo do legislador


brasileiro quanto à evolução no conceito de família representa a influência
daqueles pessimistas que pensam que a civilização corre o risco de ser
engolida por clones, bárbaros bissexuais ou delinqüentes da periferia,
concebidos por pais desvairados e mães errantes. Um conservadorismo que
fecha os olhos para a realidade e se omite em dar sustentação ao instituto já
previsto na norma inclusiva, que é o art. 226 da CR/88.

Aceitar novos modelos familiares não significa dizer que a família será
destruída. Conceber apenas a família nuclear composta pelo casal
heterossexual e filhos como o único modelo de família aceitável, é incompatível
com a natureza afetiva da família. A noção de família como núcleo de
afetividade e base da sociedade deve ser encarada, como de fato é, como um
fator cultural. E, dessa maneira, a legislação deve acompanhar a evolução da
sociedade e, conseqüentemente, dos arranjos familiares.

Efetivamente, a família, como fruto da cultura, é constantemente reinventada e,


hoje, se reiventa para propiciar o alcance da felicidade de seus membros.
Nota
01
EMENTA: AÇÃO DECLARATÓRIA. RECONHECIMENTO. UNIÃO ESTÁVEL.
CASAL HOMOSSEXUAL. PREENCHIMENTO DOS REQUISITOS.
CABIMENTO. A ação declaratória é o instrumento jurídico adequado para
reconhecimento da existência de união estável entre parceria homoerótica,
desde que afirmados e provados os pressupostos próprios daquela entidade
familiar. A sociedade moderna, mercê da evolução dos costumes e apanágio
das decisões judiciais, sintoniza com a intenção dos casais homoafetivos em
abandonar os nichos da segregação e repúdio, em busca da normalização de
seu estado e igualdade às parelhas matrimoniadas. EMBARGOS
INFRINGENTES ACOLHIDOS, POR MAIORIA. (SEGREDO DE JUSTIÇA)
(Embargos Infringentes Nº 70011120573, Quarto Grupo de Câmaras Cíveis,
Tribunal de Justiça do RS, Relator: José Carlos Teixeira Giorgis, Julgado em
10/06/2005). Disponível in http://www.tj.rs.gov.br/site_php/jprud2/ementa.php.
Acesso em 25 de agos. 2006.

Lei Maria da Penha e a criminalização do masculino

A chamada "Lei Maria da Penha" tem sido aclamada de modo quase unânime
pela doutrina nacional. Porém, seu texto contém armadilhas totalitárias que
serão analisadas neste artigo.

A Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006, foi promulgada com o objetivo manifesto


de “coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher” (art. 1°).
Finalidade louvável, sem dúvida, o que a tornou motivo de aclamação
praticamente unânime da doutrina nacional. Porém, em uma situação dessas,
vem logo à mente, a advertência de Nelson Rodrigues de que “a unanimidade
é burra”, pois nos incita ao simples adesismo, sem uma reflexão crítica.

A lei contém diversos problemas que merecem uma análise mais profunda da
doutrina e da jurisprudência.

Em primeiro lugar, sua duvidosa constitucionalidade. A Constituição de 1988 é


peremptória ao determinar que “homens e mulheres são iguais em direitos e
obrigações” (art. 5°, I). Obviamente, a própria Constituição prevê exceções a
favor da mulher, como a licença-maternidade gozada nem tempo superior à
licença-paternidade (art. 7°, XVIII e XIX). Exatamente por serem excepcionais
essas normas, incide o princípio de hermenêutica (“as exceções devem ser
interpretadas restritivamente”) que proíbe a utilização da analogia para criar
novas discriminações a favor da mulher ou de quem quer que seja.
Esse é o mesmo raciocínio utilizado em diversas leis que visam proteger os
“direitos das minorias”, como o Estatuto do Índio (Lei 6.001/1973); a lei dos
crimes de preconceito (Lei 7.716/1989) [1]; o Estatuto da Criança e do
Adolescente (Lei 8.069/1990); e o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003) [2]. A
pretexto de combater a discriminação, criam-se novas diferenciações, em
flagrante desrespeito ao princípio da igualdade que, ressalte-se, só pode ser
excepcionado pela própria Constituição.

Se um neófito em Direito examinar a lei, vai imaginar que acabou de ser criada
uma realidade inteiramente nova para a mulher. Chega a ser risível o art. 2° ao
dispor que “toda mulher... goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa
humana”. Aliás, se fizéssemos uma interpretação literal, chegaríamos à surreal
conclusão de que a lei equiparou a mulher ao ser humano! No art. 6°, a lei
chega a dispor que a violência doméstica e familiar contra a mulher constitui
uma forma de violação aos direitos humanos. Ora, sabe-se que a lei não tem
palavras inúteis, mas, nesses casos, utilizar os artigos citados é um verdadeiro
desafio hermenêutico!

Porém, a criminalização do homem enquanto tal encontra-se especificamente


no art. 7°, II, da lei, que define uma das modalidades da violência doméstica e
familiar contra as mulheres: a chamada “violência psicológica”. Em quatro
linhas, o inciso trata de uma miríade de condutas que causem “dano emocional
e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno
desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações”. A violência
psicológica é de ação livre, ou seja, pode ser cometida por qualquer meio que
possa atingir os resultados previstos.

A lei, porém, enumera um rol exemplificativo de condutas: “ameaça,


constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante,
perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e
limitação do direito de ir e vir”. A despeito de a ameaça e o constrangimento
estarem previstos como crimes no Código Penal, as outras condutas são
conceituadas de modo excessivamente aberto, em flagrante violação ao
princípio da taxatividade [3].

Vejamos exemplos banais dos extremos a que pode chegar essa definição:
“explorar” tem vários significados e um deles é “abusar da boa-fé ou da
situação especial de alguém”. O termo é tão vago que pode significar qualquer
coisa, como a conduta do homem que não lava a louça suja. Da mesma, forma
“ridicularizar” significa “zombar, caçoar” [4]. Em princípio, o homem que ri de
alguma atitude de sua mulher está cometendo violência doméstica.

O Estado, com suas costumeiras pretensões totalitárias, entra na vida familiar e


disciplina o que é ou não permitido. De repente, pequenos atritos diários
podem ser considerados crimes ou dar ensejo a indenizações por dano moral.
A pretexto de proteger a mulher, a lei considera-a como incapaz de cuidar de
sua higidez mental [5], podendo ser “ferida em sua auto-estima” por qualquer
palavra ou atitude dissonante do companheiro!

A aplicação literal desse dispositivo levará inevitavelmente ao “Direito Penal do


Autor”, doutrina segundo a qual o delito:

“Constitui o signo ou sintoma de uma inferioridade moral, biológica ou


psicológica... o ato é apenas uma lente que permite ver alguma coisa daquilo
onde verdadeiramente estaria o desvalor e que se encontra em uma
característica do autor. Estendendo ao extremo esta segunda opção, chega-se
à conclusão de que a essência do delito reside numa característica do autor,
que explica a pena”. [6]

Assim, ser punido por atos que inevitavelmente ocorrem no cotidiano de um


casal, significa penalizar o homem como tal e não os fatos em si. Enfim, nos
dias de hoje, ser homem pode ser um crime, exceto se pertencer a alguma
minoria legalmente protegida, como negros, índios, idosos, crianças,
adolescentes e, em um futuro próximo, homossexuais. Nesses casos, a
“condição moralmente inferior” do homem pode ser “compensada” pelo fato de
que a lei o considera também como uma vítima!
[1] Ressalte-se que o Projeto de Lei 5003-B/2001, já aprovado na Câmara dos
Deputados, considera como crime o preconceito contra homossexuais.

[2] É interessante verificar a ideologia implícita nessas leis: existem opressores


e oprimidos. Os primeiros são os homens adultos e “brancos” e os oprimidos
são todo o resto, que precisam de proteção. É nítida a semelhança com a
ideologia marxista: basta trocar “homem adulto e branco” por burguesia e todos
os outros por proletariado.
[3] De acordo com esse princípio, a lei penal deve prever com exatidão a
conduta incriminada, para que as pessoas saibam exatamente o que é
proibido.

[5] É inevitável a lembrança do Código Civil de 1916, que considerava a mulher


casada como uma pessoa relativamente incapaz, que deveria ser protegida,
inclusive com a instituição do dote.

A cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil, de acordo com o


Instituto Patrícia Galvão, de São Paulo. Dados da Organização Mundial de
Saúde (OMS), de 2005, mostram que no Brasil 29% das mulheres já foram
violentadas física ou sexualmente. Entre estas agressões estão desde
ferimentos por armas, chutes, ameaças de morte, até serem arrastadas pelo
chão, levar socos, entre outras.

No Estado de São Paulo, mapa estatístico preparado pela Comissão da Mulher


Advogada da Ordem dos Advogados do Barsil (OAB) de São Paulo revela que
foram registrados mais de 132 mil casos de violência contra a mulher, só nos
primeiros cinco meses de 2004. Em Bauru, uma média de 50 mulheres
procuram, diariamente, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) para
denunciar algum tipo de violência.

Os números não revelam, no entanto, a dimensão real do problema, uma vez


que são raros os casos de mulheres das classes média e alta que denunciam a
violência. No entanto, independentemente de viverem em condições de
pobreza ou de situações financeiras mais favoráveis, as mulheres por detrás
dos números vivem uma situação muito parecida. Um tapa, um beliscão, um
olho roxo, uma agressão verbal. Promessas, declarações de amor.
Reconciliação. Interromper este ciclo depende de diversos fatores que passam
por questões relacionadas à educação, condições socioeconômicas,
legislação.

Clara (nome fictício), 44 anos, dois filhos, há 25 anos vive na gangorra da


agressão e reconciliação. Pela primeira vez decidiu ir à Delegacia da Mulher de
Bauru. Abordada pela reportagem do JC, só concordou em dar entrevista se
sua identidade não fosse revelada. “Ele (marido) me mata”. Com a garantia de
que seu nome seria mantido em sigilo, ela começa a contar sua história.

Em tom de desabafo, Clara não espera nem pelas perguntas e, numa torrente
de palavras e emoções, apresenta uma vida marcada por humilhações. Sua
fala é de medo e desesperança. “Não agüento mais ser humilhada e
espancada”, conta. “Nem dormir mais eu durmo direito. Tenho que guardar as
facas de casa”.

Casamento com amor e respeito, Clara só conheceu nos primeiros dois anos
da união. Depois passou a ser agredida fisicamente. “Até grávida eu
apanhava”. A agressão verbal também é constante e apesar de não deixar
marcas no corpo, fere a alma de Clara. “Ele não me chama pelo nome, me
chama de bruxa, de “ô”, eu não sou cavalo”.

Questionada sobre porque não se separou do marido, ela responde com outra
pergunta: “Mas para onde eu ia?”. Os filhos pequenos, trabalhando como
doméstica, como se sustentaria? Junto aos problemas financeiros que viriam
junto com a separação, tinha o medo: “Ele sempre disse que me mataria. Até
hoje ele diz que se sofrer algum processo ele incendeia a casa comigo e os
nossos filhos dentro”.

Sem ter para onde ir, com dois filhos pequenos, trabalhando como empregada
doméstica e convicta de que casamento é para o resto da vida, Clara
“agüentou” calada as agressões do marido. Hoje com os filhos maiores, um já
adulto, e sem esperanças de que o marido possa mudar, ela resolveu dar um
basta. “Eu me separo, se ele não me matar antes”.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), 25% do total


de 29% das mulheres agredidas no Brasil, em 2005, não contaram a ninguém
sobre a violência que sofreram; 60% nunca deixaram o lar, nem por uma noite,
em função das agressões sofridas; menos de 10% procuraram serviços
especializados de saúde ou segurança, e em média, a mulher demora 10 anos
para pedir ajuda pela primeira vez.

Clara levou mais de duas décadas até ter coragem para procurar a Delegacia
de Defesa da Mulher de Bauru. Ela é apenas uma das 50 mulheres que
chegam todos os dias à delegacia. A maioria chega convicta de que não irá
mais suportar tanta agressão e humilhação, mas desiste no meio do caminho.
A delegada da DDM, Cássia Regina Cancian Machado, afirma que 60% faz o
boletim de ocorrência e não retorna.

Para que a denúncia se transforme em um processo, a mulher precisa retornar


à delegacia para que seja feito o termo circunstanciado, uma espécie de
autorização dela para que a investigação seja iniciada. Elas desistem, segundo
a delegada, na maioria dos casos porque não têm como se sustentar sozinhas.
“Na maioria dos casos que chegam à delegacia, os maridos agressores são os
provedores dos lares”, afirma.

A deplorável prática da violência contra a mulher

Direcionado à divulgação de dados grotescos da ainda prática da violência


contra a mulher nos dias de hoje.

Sem dúvida, não é de hoje que a imposição a uma subordinação da mulher em


todos os seus aspectos seja por todos conhecida, pois encontramos raízes
deletérias deste triste acontecimento desde o primeiro alicerce fundado na
construção da falsa ideologia, até então aceita, ‘da superioridade do homem’,
esta já existente há 2500 anos nos continentes antigos, onde a mulher era vista
apenas como um objeto ou um mero brinquedo de luxo.

Entretanto, mesmo diante desse reprovável quadro de ululantes absurdos,


várias culturas ainda aprovam, toleram ou mesmo justificam diversas e
diferentes atrocidades que são endereçadas contra a mulher, sendo essas
atitudes, fruto de normas de conduta distorcidas a respeito do papel e das
responsabilidades de homens e mulheres na sociedade.

Por meio de um breve estudo, extraímos dados provenientes sobre a violência


física e moral a que a mulher ainda atualmente vem sofrendo na sociedade
hodierna, pois é consenso geral de que tais agressões não escolhem raça,
idade ou classe social para se materializar, caracterizando-se como a
expressão mais vil do reduzido ’status’ feminino em todos os povos.

Segundo a Revista Veja, em matéria datada do mês de dezembro do ano de


1999, os indicativos de violência contra a mulher mudaram pouco, ou quiçá
pioraram, em relação aos dias de hoje. Os exemplos colocados a seguir e
retirados da citada reportagem, para dizer o mínimo, são deploráveis, acintosos
e por demais cruéis, quase fazendo com que acreditemos que não são
praticados por outras pessoas, outros seres humanos, e sim, por monstros ou
entidades do mal que resolveram passar por nosso planeta apenas para
espalhar barbaridades e atos insanos incomensuráveis.

Nos Estados Unidos da América, a cada 18 minutos uma mulher é agredida; na


Índia, 5 mulheres são queimadas por dia; em Marrocos, a violação à mulher é
considerada apenas como sendo um crime moral e não como um atentado à
integridade física. No Afeganistão, a mulher é obrigada a usar a burca em
todos os momentos e por toda a vida, o que chega a ser considerado pouco
perto de países como o Paquistão, onde cerca de 8 mulheres são
transgredidas por dia e 70% a 95% já foram vítimas de violência doméstica.
Mencionem-se ainda, países como a África do Sul onde as mulheres são
consideradas seres inferiores, ou ainda em Serra Leoa que, em tempo de
guerra civil, faz com que as tropas rebeldes tenham a desumanidade de
compelir as mulheres à escravatura sexual. Infelizmente não paramos por aí,
na Birmânia e em Bangladesh, as mulheres são queimadas com ácido devido
às disputas de dotes. Não nos olvidemos ainda de citar que nos continentes
asiático e africano, de forma geral, e em algumas comunidades islâmicas nos
EUA e no Canadá, é praticada a mutilação genital em infantes sem sequer
serem observados procedimentos básicos de higiene ou utilizada alguma
espécie de anestesia, consistindo, tal mutilação, na extirpação parcial ou total
dos órgãos genitais femininos.

Os dados catastróficos não param por aí. Em uma outra pesquisa feita em
1990 pela Organização das Nações Unidas e, em 2002, pela Delegacia da
Mulher do Distrito Federal, temos a destacar com repúdio os seguintes dados
coletados pela Universidade Federal da Bahia:

- A violência contra a mulher é maior na América Latina, África, América do


Norte, Austrália e Nova Zelândia;

- Nos EUA, a violência doméstica atinge de 2 a 4 milhões de mulheres: são 21


milhões de hospitalizações, a um custo de US$ 44 milhões ao país. A cada 18
minutos, uma mulher é espancada; a cada seis minutos, uma é estuprada.

- Segundo a Associação Médica dos EUA, quase um terço das 77 mil mulheres
de menos de 50 anos que atuam nas forças armadas sofreu estupro.

- Na Índia, 9 mil mulheres são assassinadas ao ano porque o dote não é


suficiente.

- Dois terços dos 885 milhões de analfabetos adultos recenseados pelo Fundo
das Nações Unidas para a Educação (Unesco) são mulheres.

- Mais de 114 milhões de mulheres no mundo sofreram algum tipo de mutilação


sexual. São seis mil por dia, cinco por minuto.

- Na França, 95% das vítimas de violência são mulheres; 51% sofrem


agressões dos próprios maridos.

- Na Bolívia, as agressões de maridos somente são punidas se a mulher ficar


incapacitada por mais de 30 dias.

- No Paraguai, a lei perdoa maridos que matam mulheres flagradas em


adultério. A lei não se aplica às mulheres nas mesmas circunstâncias.

- Em Lima (Peru), 90% das mães entre 12 e 16 anos foram estupradas.


- Em Uganda, na África, a lei reconhece ao homem o direito de bater na
mulher.

- Na China, um terço das mulheres diz apanhar dos maridos. Nas zonas rurais,
as mulheres são vendidas para casar com desconhecidos.

- No Paquistão, em casos de estupro, quatro homens religiosos devem


testemunhar para dizer se houve penetração. Se as acusações não forem
comprovadas, o depoimento da mulher pode ser considerado ''sexo ilícito'' e ela
pode ser condenada à morte.

No mundo, um em cada cinco dias de falta no trabalho feminino é


conseqüência da violência doméstica, aduzindo que as conseqüências do
estupro e da violência doméstica para a saúde das mulheres são próximas aos
efeitos das doenças cardiovasculares e mais expressivas que as encontradas
para todos os tipos de câncer. Em períodos de guerra, é sabido que a violência
contra a mulher aumenta, sendo usada até como tática de guerrilhas entre os
povos, como no caso de países como o Congo Oriental e Afeganistão.

Mais recentemente verificamos, pela mesma Revista Veja, desta feita por meio
de matéria bastante atual, datada de abril de 2005, dados aterradores de
países tidos como avançadíssimos em todos os sentidos. É citada a Suécia,
onde a violência contra a mulher – incluindo aí espancamento doméstico,
relações sexuais forçadas e constrangimento psicológico – é também uma das
maiores da Europa, tendo aumentado nos últimos quinze anos, em 40% o
número oficial de casos de violência contra as mulheres. A reportagem noticia
que em 2003, de acordo com um relatório da Anistia Internacional, 50% das
agressões que chegaram ao conhecimento da polícia se referiam a surras
aplicadas por marido, namorado e toda sorte de ex. Informa ainda que quatro
em cada dez suecas, em algum momento da vida, já foram agredidas por
homens, representando, assim, o dobro da média européia e um índice
encontrado com maior facilidade em países menos desenvolvidos, como o
Brasil. Em que pese o quadro cruel relatado, as mulheres suecas não tem
coragem para denunciar as agressões que sofrem dentro de casa, suportando
caladas tal situação para preservar a imagem de pessoa forte e independente
que construíram na sociedade. Mencione-se que, na Europa, só em Portugal
as mulheres são mais espancadas que as suecas. De acordo com estatísticas,
metade das portuguesas já foram surradas pelo menos uma vez na vida.

Bem, consoante percebemos então, o grave problema da violência contra a


mulher pode e deve ser considerado como uma questão de saúde pública,
além de uma violação explícita dos direitos humanos, o que não mais podemos
aceitar no mundo moderno em que vivemos. No caso do Brasil possuímos
dados igualmente graves, pois, segundo a Fundação Perseu Abraão e o
Instituto Patrícia Galvão em pesquisa recente, a cada 15 segundos uma mulher
é agredida em razão do uso abusivo de bebida alcoólica ou por ciúme doentio
de certos homens, fazendo com que elas apontem nestas pesquisas que o
problema que mais as afligem hoje é a violência doméstica. Aqui desobedecer
ao marido, retrucar, recusar sexo, não preparar a comida a tempo, falhar no
cuidado das crianças ou da casa, questionar o cônjuge a respeito de dinheiro
ou mulheres ou até sair de casa sem a sua permissão, são motivos
considerados como sendo ‘razoáveis’ servindo de desculpa para injustas e
ilícitas agressões contra a mulher.

Diante da apresentação desta análise, cremos que a violência contra a mulher


não respeita fronteiras de classe social, raça, religião ou idade. O número de
vítimas de maus-tratos continua a aumentar de forma assustadora e, hoje, o
problema é tão grave que virou também questão de saúde pública. De acordo
com pesquisadores da Universidade do Ceará, mulheres que sofrem violência
doméstica podem apresentar quadros de ansiedade, fobias e depressão, sendo
que os transtornos mais freqüentes são verificados entre mulheres vítimas do
próprio parceiro.

De acordo com artigo publicado na Revista de Saúde Pública, ed. fev. 2005, o
Brasil é o país que mais sofre com a violência doméstica, perdendo 10,5% do
seu PIB, frisando que em 85,5% dos casos de violência física contra mulheres,
os próprios parceiros são os agressores. Os maus-tratos seqüenciais podem
produzir efeitos permanentes na auto-estima e qualidade de vida da mulher.
Tentativas de suicídio foram relatadas por 39% das entrevistadas e 24%
passaram a fazer uso de ansiolíticos.

Em que pesem estas tristes alegações, aliado ao fato de que apenas 44 países
aprovaram legislação contra a violência doméstica, sendo que somente 27 têm
leis contra assédio sexual, no âmbito jurídico certos avanços foram
conseguidos pela mulher, tais como: foi retirado o conceito de mulher honesta
para vítimas de abuso sexual, efetivada a criminalização do tráfico de
mulheres, do turismo sexual com menores, da mutilação genital feminina,
aprovado o fim do dote obrigatório e, mais recentemente, foi incluída no Código
Penal em vigor a violência doméstica, conquistas estas obtidas por intermédio
de muito esforço e luta em prol da classe feminina.

Todavia, há muito mais ainda o que se avançar, pois a maior parte daqueles
que praticam estas violências costumam sofrer pouca ou nenhuma punição.

Para enfrentarmos esta cultura machista e patriarcal são necessárias políticas


públicas transversais que atuem modificando a discriminação e a
incompreensão de que os Direitos das Mulheres são também Direitos
Humanos. Modificar o ignorante entendimento da subordinação de gênero
requer uma ação conjugada e seriamente articulada entre os programas dos
Ministérios da Justiça, da Educação, da Saúde, do Planejamento e todas as
entidades protetivas existentes.

Diga-se, ao final, que tais políticas públicas devem visar o mesmo desiderato,
qual seja, a equidade entre homens e mulheres, constituindo, destarte, um
caminho digno e sério para alterar a violência em geral e de gênero em
particular, fiscalizando o fiel cumprimento destas políticas citadas, sem nos
esquecermos que o objetivo maior somente será cumprido com a plena e total
participação da sociedade civil como um todo, pois, citando o filósofo francês
Jean-Paul Sartre, "a violência, sob qualquer forma que se manifeste, é um
fracasso”.

A violência contra a mulher

Durante muito tempo, o estudo sobre as mulheres foi uma questão ausente na
historiografia. Voltada ao silêncio da reprodução materna na sombra da
domesticidade, elas são as águas estagnadas, enquanto o homem resplandece
e age.

Durante muito tempo, o estudo sobre as mulheres foi uma questão ausente na
historiografia. Voltada ao silêncio da reprodução materna na sombra da
domesticidade, elas são as águas estagnadas, enquanto o homem resplandece
e age. É assustador o número de ocorrências praticadas contra as mulheres,
sendo que muitas não são levadas a conhecimento da autoridade competente,
muitas vezes por constrangimento, algumas vezes em consideração aos filhos
que não gostariam de ver seus pais presos, ou por motivos íntimos e
particulares da própria vítima.

Na minha profissão de policial civil, em vinte e um anos de serviço, inúmeras


ocorrências desse gênero chegou ao meu conhecimento, e sempre procurei,
amparar a vítima com todo o respeito, procurando deixá-la a vontade para que
me relatasse espontaneamente o seu problema e na maioria das vezes a
situação já ocorre de longa data, as vezes desde a época da união, e ao
perguntar a vítima o motivo pelo qual tolera a situação a tanto tempo, percebi
que apesar de todo aquele sofrimento, a mulher continuava amando seu
companheiro, numa demonstração de fidelidade e que lhe custava muito caro.

No município de Almirante Tamandaré - Pr., até CPI, foi criada para investigar
crimes contra mulheres ocorridos naquele município, só quem acompanhou ou
passou por este tipo de problema, pode ter idéia de como é constrangedora tal
situação e que quase sempre acontece por motivos banais, a qualquer hora, na
calada da noite, na frente dos filhos e até mesmo na rua a mulher é violentada
em toda a sua honra e dignidade.

Os vestígios sobre as mulheres encontrados na história, não provém delas,


mas sim de olhar dos homens que governam a cidade, constróem a sua
memória e geram os seus arquivos. O registro primário do que elas fazem e
dizem é mediatizado pelos critérios de seleção dos que estão no poder, de Tito
Livio aos modernos historiadores, sucinta idênticos estereótipos. Da
antigüidade até nossos dias, a escassez de informações concretas e
circunstanciadas é suplantada pela abundância das imagens e dos livros e dos
discursos.

A multiplicação destes discursos, diz incansavelmente o que são as mulheres,


e, sobretudo o que devem fazer, fazer-se amar, ser útil, aguardar o marido,
honrar, cuidar, consolar, tornar a vida do homem agradável, são deveres da
mulher em todas as épocas.

Dentro da história, excluindo elucidações românticas, a mulher é tida como


objeto - excluída à margem - os campos que abordam são os da ação e do
poder masculino. Esta exclusão, não é senão a tradução redobrada das
relações das mulheres com a vida e o espaço público.
Igualmente redobrado é o discurso do direito romano no que fundamenta o
papel ocupado pelas mulheres de transmitir a legitimidade, e que a ordem
sucessória é primordial, relativamente a todas as capacidades femininas. Isso
faz supor que todo o sistema, tanto Romano como na Idade Média e Moderna
(baseado no direito absoluto do pater familis) foi construído para mostrar que
as mulheres eram parcelas anônimas e sem importância de famílias maiores.

A exclusão do sacrifício e da participação do sexo feminino no meio religioso,


tanto na idade Antiga e como na Idade Média, faziam com que a mulher sentia-
se rejeitada, porque era considerada um ser não digno de participar ativamente
das atividades religiosas, porque quase nunca era reconhecido o sexo feminino
na esfera da cidadania.

As conseqüências sociais e éticas sobre a vida das mulheres são traduzidas:


pela idade de casamento, pelo significado do amor - a conseqüência e não a
causa do casamento, a definição da cidadania e o adultério como exclusão
definitiva da mulher no meio social. A inferioridade da mulher é reforçada
quando o marido trata como uma criança grande que precisa ser cuidada e
"guardada" dos olhos dos outros homens. O destino da mulher casada é
marcado pela procriação de uma descendência legítima, de uma educação
voltada para o lar e na lenta emergência de novas atitudes do domínio do
corpo. As mulheres são também as resignadas que aceitam as outras, para a
tentativa de preservação de si mesmas.

A mulher conseguiu evoluir através dos tempos tanto no sentido de mãe,


esposa e profissional. Mas sabemos que ainda a mulher tem muito para
percorrer até atingir seus mais íntimos desejos, de vencer, para mostrar que o
sexo frágil é também o sexo de força da sabedoria e do amor.

A mulher lutou tanto e continua lutando pelo reconhecimento de seus direitos e


apesar de já haver conquistado o seu espaço em boa parte, continua sem
saber fazer uso de seus direitos conquistados, muitas ainda dependem do
homem, talvez pela sua grande capacidade de amar, perdoar, como esposa,
companheira ou mãe, com toda sua delicadeza feminina em dom herdado pela
divindade.

A violência contra a mulher no âmbito familiar vista sob a ótica da Lei


9.099/95
Analisa a posição da vítima da violência doméstica frente a Lei 9.099/95 que
apresenta uma solução formal quanto ao procedimento relegando a vítima a
um papel secundário.

As transformações sociais ocorridas com base na “evolução” do ser humano


influenciaram, como não poderia deixar de ser, também nas relações
intrafamiliares. A violência sofrida pela mulher no âmbito familiar apresenta-se
de forma cada vez mais intensa e as consequências lesivas à sociedade
hodierna são notórias. Na grande maioria dos casos a violência dentro de casa
se dá pelo poder que, ainda hoje, o homem acredita exercer sobre a mulher.

A violência alcançou nos últimos anos índices alarmantes na chamada “família


moderna”. A sociedade atingida no seu íntimo reclamou do direito uma atuação
para a solução do conflito estabelecido. Neste contexto surgiram os Juizados
Especiais Criminais instituídos pela Lei 9.099/95.

Na verdade, o legislador buscou através da instituição dos Juizados Especiais


Criminais desprestigiar a aplicação da pena de prisão, aliás, nasceram
justamente com o intuito de desafogar os presídios abarrotados, evitando-se a
aplicação da pena privativa de liberdade aos infratores que praticaram delitos
chamados de “menor potencial ofensivo”, ou seja, de menor gravidade. Buscou
o legislador a utilização de um procedimento simples e célere e a aplicação de
penas com caráter ressocializador [1].

O artigo 61 da Lei 9.099/95 trata da conceituação de crimes de menor potencial


ofensivo para efeito da competência dos Juizados Especiais Criminais, o
mesmo ocorrendo com o art. 2.º da Lei nº 10.259/2001, elementos definidores
do que seja infração de menor potencial ofensivo, vale dizer, o quantum da
cominação genérica para a pena máxima, já que a Lei Federal mais nova
previu como infração de menor potencial ofensivo os delitos cujas penas não
excedam a 02 (dois) anos.

Assim, são de competência dos Juizados Especiais Criminais os delitos


tipificados na Lei Penal cujas penas máximas não ultrapassam dois anos. No
âmbito da violência doméstica incluem-se ameaça (CP, art. 147), lesão
corporal leve (CP, art. 129, caput), vias de fato (LCP, art. 21), estes os mais
freqüentes nas ocorrências policiais.

Nas ações públicas incondicionadas nos termos do artigo 76 da Lei 9.099/95,


observados os requisitos ali mencionados será oferecida proposta de transação
penal ao autor do fato. Entretanto, a maioria dos delitos ocorridos em
decorrência da violência doméstica, as ações são de natureza pública
condicionada à representação, o que significa dizer que o destino do
procedimento instaurado será dado por opção da vítima que manifestará o seu
desejo em audiência preliminar.

Nos termos do artigo 72 da referida lei, presentes à audiência preliminar o


representante do Ministério Público, o autor do fato e a vítima, o juiz
esclarecerá sobre a finalidade da audiência apresentando quatro opções à
escolha da vítima:

a) não renunciar ao direito de representação contra o autor do fato, entretanto


reservar-se-á no direito de oferecer tal peça no prazo que a lei lhe concede, ou
seja, deixar o procedimento aguardando, em regra, por até seis meses,
contado a partir do conhecimento da autoria do crime, nos termos do artigo 38
do CPP e 103 do CP, este, o chamado “prazo decadencial”, e, caso não
manifeste a vontade de representar neste prazo será automaticamente
arquivado;

b) entabular uma composição civil com o autor do fato visando o ressarcimento


de prejuízos que este lhe tenha causado em razão do delito praticado (art. 74);

c) renunciar ao direito de representação;

d) representar contra o autor do fato.

Normalmente as partes envolvidas, ao comparecer à audiência de que trata o


art. 72 da Lei nº 9.099/95, não solucionam o conflito, eis que, as opções
destinadas à escolha da vítima não condizem com o seu anseio.

A vítima da violência doméstica reluta em recorrer ao aparato policial e só o faz


quando já não encontra outra saída, e, diante das opções que o Judiciário lhe
oferece se vê decepcionada e resolve muitas vezes, na expressão popular,
“retirar a queixa”, eis que não encontrou a prestação jurisdicional que ansiava e
necessitava renunciando ao seu direito.

Ciente das possibilidades a vítima, na grande maioria dos casos, opta por
aguardar o prazo decadencial, primeiro porque não encontrou na Lei a opção
que esperava, ou seja, o seu desejo é resgatar a normalidade da convivência
familiar, segundo, porque já que não encontrou na Justiça a solução do seu
problema tem ainda a esperança de que o autor retome um comportamento em
prol da família. Entretanto, ela não retorna ao Judiciário para representar
porque sabe que não encontrará a solução pacificadora do seu conflito. A
vítima da violência doméstica não busca uma reparação civil, mas sim uma
segurança a ser fornecida pelo Estado.

Das opções fornecidas à vítima, a que mais lhe favorece “aparentemente”, é a


possibilidade de representação contra o autor do fato. Daí surge outra questão.
Manifestando o desejo de representar criminalmente contra o autor do fato, o
Ministério Público no seu mister, observado o disposto no artigo 76, § 2º da Lei
9.099/95, lhe concede um “benefício” onde será feita a proposta de transação
penal.

O acordo entre o Ministério Público e o autor do fato já popularmente


conhecido como o “pagamento de cesta básica”, não proporciona à vítima a
sensação de reparação pelo mal sofrido. Ela volta para o convívio com o
agressor, sem solucionar o conflito e mais vulnerável ainda a novas agressões.
A vítima não tem qualquer interferência na proposta de transação, que pode
realizar-se independentemente de sua vontade.

Não é difícil concluir que a mulher já agredida e humilhada dentro de casa,


diante do resultado obtido pela sua iniciativa em buscar o Judiciário, vai se
sentir mais uma vez vitimizada diante de seu agressor que se vangloria de
suas atitudes por ter, ao final das contas, saído praticamente ileso, e disposto a
prosseguir na sua prática ilícita. Constata o autor do fato que a Lei lhe permite
a cada cinco anos a “barganha” da prática de um delito pelo pagamento de
uma “cesta básica”, e, pior ainda, nos dizeres populares, “sua ficha continua
limpa”. [2]

Há que se observar ainda aqueles casos em que a lei não permite a transação
penal ou que o autor do fato não aceita a proposta ofertada pelo Ministério
Público, onde será oferecida denúncia, designada audiência de instrução e
julgamento, e, percorridos os trâmites legais, ao final, havendo condenação, o
resultado é uma pena restritiva de direitos podendo consistir em prestação de
serviços à comunidade ou ainda convertida em prestação pecuniária. Neste
caso, o gravame para o autor do fato é a integração de seu nome no rol dos
culpados. Mas, mesmo assim, benefício algum trará à vítima que não será
ressarcida em seu íntimo pelo mal sofrido.
Conforme artigo 89 da Lei 9.099/95, o autor do fato tem ainda a seu favor a
possibilidade de suspensão condicional do processo mediante as condições
previstas no § 1º do mesmo artigo.

A solução dada é apenas formal quanto ao procedimento, impondo à vítima um


sentimento de descaso da Justiça em relação ao seu problema, que a faz sentir
relegada a um papel secundário eis que não recebeu proteção e menos ainda
solução adequada à sua situação.

O sistema, como visto, não oferece à vítima a solução do seu conflito porque
não dispõe do instrumento adequado para tanto. Observa-se uma mobilização
em torno do conflito estabelecido, resulta em elaboração de Boletins de
Ocorrências, TCO's nas Delegacias, audiências no Judiciário, intimações,
enfim, todo o sistema voltado para uma questão que acaba por encontrar ao
final apenas uma solução formal.

O resultado é que a vítima volta para o convívio familiar e sabe que vai lidar
com o conflito agora agravado pelos acontecimentos sem que o Poder Público
lhe ofereça qualquer alternativa compatível com sua expectativa de obter apoio
moral.

A violência doméstica é caracterizada pela habitualidade, quando chega às


portas do Judiciário o conflito já perdura dentro de casa durante anos e
continuam as vítimas convivendo com seus agressores.

O sistema penal, além de descumprir seu papel de ressocialização destinou a


vítima da violência doméstica a um plano secundário. Tem-se, assim, a
necessidade de buscar opções renovadas de solução dos conflitos
intrafamiliares.

A construção de um pensamento jurídico renovado que busque a pacificação


dos conflitos em detrimento das soluções apenas formais dos procedimentos
capazes de pacificar a convivência entre vítima, agressor e sociedade, uma vez
que a Justiça Criminal é ineficaz ao fazê-lo, são opções que pressupõem, antes
de tudo, a dinamização do conceito de dignidade humana e o pleno exercício
da cidadania.
[1] Lei 9.099/95. Art. 62. O processo perante o Juizado Especial orientar-se-á
pelos critérios da oralidade, informalidade, economia processual e celeridade,
objetivando, sempre que possível, a reparação dos danos sofridos pela vítima e
a aplicação de pena não privativa de liberdade.

[2] Lei 9.099/95. Art. 76. § 4º Acolhendo a proposta do Ministério Público aceita
pelo autor da infração, o Juiz aplicará a pena restritiva de direitos ou multa, que
não importará em reincidência, sendo registrada apenas para impedir
novamente o mesmo benefício no prazo de cinco anos.§ 6º A imposição da
sanção de que trata o § 4º deste artigo não constará de certidão de
antecedentes criminais, salvo para os fins previstos no mesmo dispositivo, e
não terá efeitos civis, cabendo aos interessados propor ação cabível no juízo
cível.

A Lei Maria da Penha e seus dispositivos nada democráticos

Disserta sobre a Lei 11.340/06, vulgarmente conhecida como "Lei Maria da


Penha", analisando seus artigos e relacionando-os à Constituição Brasileira.

A Lei 11.340, mais conhecida como “Lei Maria da Penha”, entrou em vigor no
dia 22 de setembro de 2006. Foi um importante passo para o enfrentamento da
violência contra a mulher, recebendo apoio quase que unânime de toda
doutrina jurisprudencial. Não obstante, torna-se mister a fala do saudoso
dramaturgo Nelson Rodrigues de que “a maioria é burra”, pois quando nos
deparamos com algo unânime, conformamos com o simples adesismo, sem
preocuparmos com a crítica.

A Lei recebeu tal nome, em homenagem a Maria da Penha, a qual no ano de


1983, após várias agressões por parte de seu marido, foi vítima de tentativa de
homicídio. Ele atirou friamente em suas costas deixando-a paraplégica.

Em 2001, a OEA responsabilizou o Estado brasileiro por negligência e omissão


em relação à violência doméstica. E mais, recomendou ao Brasil várias
medidas para casos como o de Maria da Penha e, também, em relação às
políticas públicas para enfrentar a violência doméstica no Brasil. Eis que então,
vinte e três anos depois do crime, a lei entrou em vigor, alterando o Código
Penal Brasileiro, o Código de Processo Penal e Lei de Execução Penal, que
passaram a aplicar penas mais severas a homens que praticassem crimes
domésticos contra mulheres.
Feita uma breve retomada histórica, passarei a uma análise mais crítica acerca
da Lei 11.340.

Primeiramente, seria gafe deixar de ressaltar que vivemos em um Estado


Democrático de Direito, como reza o preâmbulo de nossa Lei Maior:

“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional


Constituinte para instituir um ESTADO DEMOCRÁTICO, destinado a assegurar
o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-
estar, o desenvolvimento, a IGUALDADE e a justiça como valores supremos
de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na
harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a
solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus...”

Neste mesmo diploma, o Artigo 5º, I, que trata dos direitos fundamentais do
homem, diz que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”,
destarte, quando uma Lei é criada, cremos que a mesma deveria ser aplicada
de forma igualitária a homens e mulheres, o que, de fato, não é observado no
Artigo 1º da Lei supramencionada “Esta Lei cria mecanismos para coibir e
prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher.”

Logo no Artigo 2º, com todo respeito e a devida vênia, sabe-se que a Lei não
dispõe palavras inúteis, mas ao dizer que “Toda mulher... goza de direitos
fundamentais inerentes à pessoa humana...”, parece que a estamos
comparando a mulher ao ser humano, e que antes desta Lei, ela era apenas
um bicho. O mesmo ocorre quando se observa o Artigo 6º “A violência
doméstica e familiar contra a mulher constitui uma das formas de violação dos
direitos humanos.” Chega a ser cômico, além de representar um grande
desafio para os doutrinadores, os quais certamente terão grande dificuldade
para analisar artigos tão supérfluos.

De acordo com a Constituição, somos uma sociedade pluralista, onde cada


cidadão possui crenças e valores divergentes. Quando ocorre a convivência
(frequência de ato íntimo e mútuo), é normal que surjam pequenos atritos. A
Lei Maria da Penha discrimina um rol de atitudes praticadas pelo homem que
são consideradas crimes, entre elas algumas que já estão tipificadas em outros
Artigos do Código Penal Brasileiro, como a ameaça, o constrangimento, a
humilhação e o insulto, respectivamente nos Artigos 147 do CPB, 139, 140,
141 da LCP (Lei de Contravenções Penais), e outras como a violência
psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e
diminuição da auto-estima, a qual, explicitamente, viola o principio da
taxatividade, entendido como “explícita proibição à criação de novos recursos
pelas partes, considerando-se que tão-somente os recursos previstos no
ordenamento jurídico, e criados em consonância com o procedimento
legislativo estabelecido, podem ser utilizados com o fim de se reformar as
decisões judiciais” (Elias Marques Medeiros Neto), pois o simples fato de o
homem chegar tarde a casa depois do serviço, abalando a mulher
emocionalmente e, por conseguinte, diminuindo a sua auto-estima,
caracterizaria um crime de violência doméstica, no mesmo prisma, ridicularizar
significa caçoar, zombar alguém, então quer dizer que se, no âmbito familiar,
minha eventual esposa escorregar e eu achar engraçado correrei risco de ser
preso? O que dizer do inciso IV do Artigo 7º “a violência patrimonial, entendida
como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial
ou total de seus objetos”, como será que o nosso ilustríssimo legislador
analisou o fato de usarmos, sem o consentimento da mulher, um cartão de
crédito em conta conjunta? Pelo que parece, as mulheres podem retirar
dinheiro do banco sem o consentimento do marido, mas se o contrário
acontecer, resulta à possibilidade de 03 anos de reclusão.

Importante não deixar de ressaltar que esta Lei atribui uma pena relativamente
alta, podendo chegar a três anos de reclusão, com a possibilidade de aumento
(1/3) de pena no caso deficiente físicos, Artigo 129 § 11.

O grande problema, em minha opinião, é que ainda colhemos frutos de um


passado recente, onde o Estado entra na vida das pessoas, a esfera pública
entra na esfera privada e começa a regulamentar sobre coisas que não são da
sua competência. Prova disso é que temos um Código Penal e um Código de
Processo Penal capengas, ambos da década de 40, frutos do governo de
Getúlio Vargas (Estado Novo), e um Código de Processo Civil da década de
70, promulgado no apogeu da ditadura militar, por ninguém mais, ninguém
menos que Emílio G. Médici, criador do AI-5 (Ato Institucional nº5), que foi um
instrumento de poder que deu ao regime militar poderes absolutos e cuja
primeira conseqüência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um
ano. E diante do exposto, temos uma Constituição completamente destoante
que entrou em vigor no ano de 1988, jorrando direitos fundamentais, sociais,
políticos, entre outros, e até as famosas cláusulas pétreas Artigo 60 § 4º “Não
será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I - a forma
federativa de Estado; II - o voto direto, secreto, universal e periódico; III - a
separação dos Poderes; IV - os direitos e garantias individuais.”, sendo
ressalvado que "A Constituição não poderá ser emendada na vigência de
intervenção federal, de estado de defesa ou de estado de sítio”. Artigo 60 § 1º,
uma clara proteção à pluralidade. Deste modo, entendo que necessitamos
urgentemente de uma reforma em nossos Códigos procedimentais, bem como
uma reforma por parte da jurisprudência, que insiste manter uma análise fria da
lei, “dura Lex sed Lex” (a lei é dura, mas é a lei) sem pensar que a sociedade
muda constantemente. Digo o mesmo para os magistrados, que por serem
nossos representantes que exercem autoridade judiciária, necessitam atuar
consoante a Lei Maior, tendo-a sempre como a fonte supra para qualquer
decisão, e não como se vê, burramente colocando uma Lei infraconstitucional
acima da Lei constitucional.

Finalizando, acredito que a Lei Maria da Penha arrebenta o princípio da


taxatividade e da legalidade, entendido como o mais importante do Direito
Penal, especulado, outrossim, na Constituição em seu artigo 5.º, Inciso XXXIX.

Se continuarmos na mesma direção, daqui a alguns dias, o simples fato de ser


homem passará a ser crime, até que surja uma Lei para nos proteger, assim
como existem Leis que protegem os Índios (Estatuto do Índio), as mulheres (Lei
Maria da Penha), as crianças (Estatuto da Criança e do Adolescente), os
idosos (Estatuto do Idoso), entre outras. Oxalá tenha contribuído para uma
melhor análise da Lei 11.340.

Nova Lei sobre a violência doméstica - Como combater os retrocessos


com avanços

Trata dos conflitos contidos na Lei 11.340/06 (Lei Maria da Penha) e ensina o
leitor a lidar com as imperfeições legislativas.

A mulher espera ansiosa os poucos dias que a separa do reconhecimento de


seus direitos enquanto pessoa, de sua dignidade e do respeito aos Direitos
Humanos fundamentais.

Estamos falando da Lei 11.340/2006, ou já conhecida como Lei Maria da


Penha. Tal nomenclatura se deve ao fato do Brasil ter sido o primeiro País
condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização
dos Estados Americanos (OEA). Por advento das denúncias proferidas pela
prática de violência doméstica contra Maria da Penha Maia Fernandes que
culminaram com um tiro desferido por seu marido, enquanto ela dormia lhe
“presenteando” com uma paraplegia irreversível.

Ao agressor o que aconteceu? Depois de mais vinte anos finalmente houve a


condenação de Heridia Viveros em setembro de 2002. Beneficiado pelo regime
prisional brasileiro o infrator cumpriu, em regime fechado, menos de um terço
da pena de dez anos de prisão.

Não é novidade alguma o descaso com que as autoridades brasileiras tratavam


a questão da violência doméstica. E exemplos é que não faltam, o mais recente
foi a esposa do ator Kadu Moliterno na Revista de maior circulação nacional
com um olho roxo sob o título: ele sempre me bateu. O tema foi tratado até no
horário nobre na novela Mulheres apaixonadas. Providências: nenhuma. Afinal,
o que se pode espera de um país que consagrou o jargão “em briga de marido
e mulher não se mete a colher”?

2006 representa um marco para a mulher. A balança da justiça parece que vai
ter um equilíbrio. A relação de agressão e punição tão banalizada finalmente
será coibida. Até 22 de setembro aos praticantes de violência doméstica
restará usufruir do procedimento responsável pela banalização da violência
doméstica, qual seja, a possibilidade de transação penal prevista pelo artigo 89
da Lei 9.099/95.

Em pouco mais de dez anos os Juizados Especiais Criminais avocaram a


competência para os casos de violência doméstica, e o resultado foi o mais
danoso possível para a mulher.

A competência foi definida através do artigo 129, §9° do Código Penal


Brasileiro que prevê pena máxima não inferior a dois anos (redação da Lei dos
Juizados Especiais Federais de 2001). Nesses casos é possível a comutação
da pena de detenção pela transação penal, ou seja, o pagamento de multa.

Devido aos problemas estruturais da nação os Juizes optaram que o dinheiro


que deveria ser pago pelo infrator deveria ser convertido no pagamento de
cestas básicas a serem entregues a entidades carentes. Eis o surgimento das
mal fadadas cestas básicas como pagamento de violência doméstica.

Através dos artigos 17 e 44 da Lei 11.340/06, a competência para os crimes de


violência doméstica não poderá mais ser dos Juizados visto que a pena foi
aumentada para três anos.
E justamente ao tirar a competência dos Juizados Especiais o legislador
causou o maior desastre legislativo por uma questão simplista: prevê a criação
dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, que enquanto
não existirem serão substituídos na relação processual pelas varas criminais.

Eis o grande problema. O artigo 33 prevê a competência às varas criminais


para questões tanto criminais quanto cíveis. Além disso, determina em seu
parágrafo único o direito de preferência sobre as ações de violência doméstica
em relação às demais.

Neste caso temos um grande perigo, a se ver obrigado a atender


primeiramente os processos de violência doméstica o Juiz poderá abrir uma
grande brecha no que tange a prescrição dos demais processos.

Ademais temos de citar também o completo desconhecimento do legislador em


formular tal alternativa, porque como ficará o recurso de uma ação cível
advinda de violência domestica? Será encaminhada a esfera criminal? O
legislador foi completamente silente.

Como o leitor pode perceber é fácil encontrar imprecisões legislativas que


poderiam inviabilizar a aplicabilidade da própria legislação. Entretanto, este não
é a nossa pretensão. Louvamos a iniciativa, ainda que forçada do legislador,
em assegurar uma efetiva proteção à mulher, ou seja, vamos demonstrar onde
se encontram os avanços.

Um dos grandes avanços da nova lei é a previsão expressa de que a mulher


deve estar acompanhada de um advogado em todos os atos processuais (art.
27). Assim haverá informação e consciência dos atos praticados por ela ao
longo do processo.

Outras conquistas foram a reafirmação dos Direitos e garantias individuais da


mulher no artigo 3°, bem como a proteção à mulher agredida por outra mulher
(relações homossexuais previstas no art. 5°, parágrafo único). Apesar de ser
silente quanto à violência doméstica contra os homens.

Uma grande melhoria foi a devolução de poder à autoridade policial que agora
poderá investigar, fazer inquirições ao agressor, à vítima culminando com um
inquérito policial que deverá ser apreciado pelo Juiz em até 48 horas (em caso
de medidas de urgência).
O escopo da Lei é a formação e conscientização do agressor numa nítida
consciência que o legado de agressões somente deixara de existir com o
transcurso do próprio tempo. Sem, contudo, se fazer ausente, pois prevê a
implementação de disciplinas curriculares de Direitos Humanos e de combate à
violência doméstica (art. 8°, IX).

Além disso, prevê a formação de programas de recuperação e reeducação do


agressor (art. 45). Com isso prevê a mantenedura da unidade familiar e a
redução de novos casos.

A lei contém um grande problema, dentre outros, que é a competência. Então


para que não percamos as inovações trazidas acima, enquanto não forem
criados os Juizados próprios, que os Juizados Especiais Cíveis e Criminais
mudem sua nomenclatura para Juizados Especiais e de Violência Doméstica e
Familiar contra a Mulher.

Para tanto é preciso aproveitar toda a estrutura dos Juizados que abrangem
quase todo o território nacional. O que se faz pungente é um programa de
reciclagem e reeducação dos Magistrados para abolirem o vício da transação e
tratarem as mulheres com as garantias que lhe são devidas.

Mas, como em todas as leis feitas às pressas caberá à jurisprudência e à


doutrina produzirem material para suprir as lacunas existentes na lei.
Desprezar os progressos que a lei contém é admitir um retrocesso que a
mulher não pode admitir muito menos os operadores do direito.

Este é um novo começo e a maior conquista será da mulher. Viva Maria da


Penha!