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José Rogério Lopes

PROCESSOS SOCIAIS DE EXCLUSÃO E POLÍTICAS


PÚBLICAS DE ENFRENTAMENTO DA POBREZA

José Rogério Lopes*

O texto revisa contribuições teóricas de autores que abordam os processos de “exclusão social”
como um conjunto de referências configuradas historicamente na dinâmica de
internacionalização da economia. Dessa revisão, indica a necessidade de se distinguir entre as
políticas públicas de “combate à exclusão” e aquelas que se auto-atribuem um caráter de
inclusão, para justificar a complementaridade de ambas. Destacam-se categorias e elementos
de análise (como o debate atual entre redistribuição e reconhecimento, no campo das reivindi-
cações de direitos e das políticas públicas) que permitem identificar novos condicionamentos
sociais que afetam os sentidos produzidos pelos sujeitos em condições de vulnerabilidade ou
privações geradas na pobreza urbana, importantes para orientar uma revisão das diretrizes das
políticas em questão.
PALAVRAS-CHAVE: processos de exclusão, internacionalização da economia, políticas públicas,
vulnerabilidades, privações.

INTRODUÇÃO são social são importantes para análise, ou


por sua multidimensionalidade ou pela
Hoje, na medida em que a sociedade con- complexidade causal.
temporânea se afasta dos ideais e referências do De fato, a concepção de exclusão soci-
Estado de Bem-Estar Social – contexto no qual o al costuma ser relacionada a um plano de cau-
controle social era exercido na perspectiva da con- salidade complexo e multidimensional, dife-
figuração de um Estado totalizante1 (Marcuse, 1967) renciando-se da concepção de pobreza, sobre-
– emerge um conjunto de novos condicionamen- tudo porque aquela é uma condição produzi-

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tos sociais que tendem a subsumir as formas de da na emergência do neoliberalismo, caracte-
controle social em novas formas de sociabilidade rizada pela estratégia de sobredeterminação
(Zaluar, 1997). constante dos termos que fundam e reprodu-
Entre as formas emergentes de sociabilida- zem os jogos contemporâneos entre mercado,
de, aquelas que se enformam no quadro das ações trabalho, Estado, poder e desejos. Enquanto a
e relações que se costumou denominar de exclu- pobreza é um desdobramento das relações
históricas e estruturais de oposição entre os
* Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em
interesses de classes, portanto, um fenômeno
Ciências Sociais na Universidade do Vale do Rio dos econômico que se configura na questão social
Sinos – Unisinos/RS.
Av Unisinos, 950 Cristo Rei. Cep: 93022-000 - São derivada das relações capital versus trabalho,
Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil. jrlopes@unisinos.br
1
a exclusão social se caracteriza por um con-
Sobre a perspectiva do Estado totalizante, Marcuse (1967,
p. 25) afirma que se trata de “uma coordenação técnico- junto de processos que se estabelecem no cam-
econômica não terrorista que opera através da manipula-
ção das necessidades por interesses adquiridos”, e “se po alargado das relações sociais contemporâ-
afirma através dos seus poderes sobre o processo mecâni-
co e sobre a organização técnica do aparato” produtivo. neas: a precarização do trabalho (Antunes,
Ao mesmo tempo, esse Estado busca produzir uma gama 1994), a desqualificação social (Paugam, 1999),
muita extensa de informações sobre as necessidades dos
indivíduos, capacitando-se a melhor controlá-los. a desfiliação social (Castel, 1999), a desagrega-

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ção identitária (Bauman, 2005), a desumanização do nacionalizarem, permite afirmar que, hoje, “gru-
outro (Honneth, 1992) e a anulação da alteridade pos que partilham a mesma pobreza chegaram lá
(Xiberras, 1993; Sung, 2002). de diferentes maneiras e têm diferentes probabili-
Tais processos geralmente são responsabili- dades de saírem dela” (1999, p. 29).
zados pela emergência ou difusão de outros fenô- Essa idéia pressupõe, também, que a po-
menos: o desemprego estrutural, a população de breza produz lugares, como contextos nos quais
rua, a fome, a violência, a falta de acesso a bens e ocorrem formas distintas de organização dos su-
serviços, à segurança, à justiça e à cidadania, entre jeitos, como atores sociais que participam dos di-
outros. ferentes modos de produção. Na visão de Santos
As condições que configuram a pobreza con- (1997), os sujeitos caracterizam-se como atores so-
firmam a dimensão de sujeito do pobre, na razão ciais à medida que são reconhecidos como elemen-
do controle de sua participação na economia, uma tos presentes na configuração das estruturas3 que
vez que a gênese do capitalismo pôs em evidência interagem para a constituição da realidade social.
a produção da pobreza em massa, de forma mais Evidentemente, essa presença interagia, e ainda
homogênea que a aquela produzida no desenvol- interage como força, na constituição dos mecanis-
vimento do sistema, entre o final do século XIX e mos de controle social.
meados do século XX. A própria lógica de constituição dos direitos
O desenvolvimento das relações produti- que enformam o ideal de cidadania, nas sociedades
vas envolveu essa massa de pobres numa estrutu- ocidentais, seguiu esses condicionamentos (Lopes,
ra dinâmica de condições e fatores diversos, im- 2001a), de forma que sua universalização tornou-se
pondo aos sujeitos a criação e a efetivação de es- mais um problema que uma solução. Ou seja, como
tratégias de sobrevivência que começaram a se di- tais direitos foram se institucionalizando, ao passo
ferenciar, na medida em que: que as reivindicações das classes trabalhadoras
§ esses fatores afetam os indivíduos de formas foram se diversificando e se localizando, no de-
diferentes, de acordo com sua inserção na so- senvolvimento do jogo de forças entre elas e o ca-
ciedade; seu efeito dependerá da posição de pital, estabeleceu-se uma gradação no acesso a tais
cada indivíduo em termos de relações de pro- direitos que resultou em uma hierarquia dos su-
dução (Dupas, 1999, p.28);2 jeitos assistidos por eles assistidos. Essa hierar-
§ sua consciência de classe (ou sentimento de quia estaria na base mesma da distinção que
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pertencimento) definiu orientações distintas de Rosanvallon (1995) elabora entre droits-libertés e


agregação ou articulação em torno de organiza- droits-créances (direitos-libertados e direitos-crédi-
ções de defesa de seus interesses ou de reivindi- tos), que pressupõem a liberdade política e a con-
cação pela satisfação de suas necessidades. dição da redistribuição das riquezas. E aqui surge
Nesse sentido, a própria experiência decor- uma hipótese de trabalho um tanto polêmica: a de
rente dos movimentos de reivindicação das clas- que a hierarquia dos assistidos pelos direitos de
ses trabalhadoras, que se especializaram em âmbi- cidadania corresponde a uma estratificação das
to local, regional e nacional, ao invés de se inter- 3
Santos apropria-se da idéia formulada por F. Perroux, se-
2
gundo a qual uma estrutura “se define por uma ‘rede de
Essa idéia se aproxima da concepção de “situação de relações, uma série de proporções entre fluxos e estoques
classe”, em Weber (1982, p.212), expressa “mais sucin- de unidades elementares e de combinações objetivamen-
tamente como a oportunidade típica de uma oferta de te significativas dessas unidades’” (Santos, 1997, p.16),
bens, de condições de vida exteriores e experiências pes- para argumentar que “as estruturas [...] são formadas de
soais de vida, e na medida em que essa oportunidade é elementos homólogos e de elementos não homólogos.
determinada pelo volume e tipo de poder, ou falta deles, Entre as primeiras estão as estruturas demográficas, eco-
de dispor de bens ou habilidades em benefício de renda nômicas, financeiras, isto é, estruturas da mesma classe e
de uma determinada ordem econômica. A palavra ‘clas- que, de um ponto de vista analítico, podem-se considerar
se’ refere-se a qualquer grupo de pessoas que se encon- como estruturas simples. As estruturas não homólogas,
trem na mesma situação de classe”. O destino dos sujei- isto é, formadas de diferentes classes, interagem para for-
tos de uma dada classe social seria “determinado pela mar estruturas complexas. [...] A realidade social, tanto
oportunidade de usar, em proveito próprio, bens e servi- quanto o espaço, resultam da interação entre todas essas
ços no mercado” (p.214). estruturas” (p.16-17).

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condições de inserção dos trabalhadores no mer- sistêmica,4 e sim porque explicar a vida social
cado, que hoje se explicita em uma disputa pela tem implicado em para quê as coisas servem no
permanência no próprio mercado, como uma das interior do sistema, segundo as relações funcio-
novas formas de controle social. nais que os diversos elementos mantêm, nas
Se, antes, a condição de inserção no merca- sociedades complexas;
do condicionava a configuração dos lugares pró- § a sociedade é um Estado nacional, porque se

prios dos sujeitos, hoje o próprio mercado tor- encarna em uma forma particular, que é o Esta-
nou-se o lugar dos sujeitos. do-nação, em uma integração funcional sistêmica
A importância dessa formulação está assen- de uma economia nacional, de uma cultura na-
tada na necessidade de se perceber que o ideal de cional e de um sistema político nacional, quer
igualdade, que se produz e reproduz no quadro do seja ela pensada como efetivada pela burguesia,
desenvolvimento de tais relações, nas sociedades pelo Estado ou pela cultura;
ocidentais, desdobra-se da determinação reconhe- § a sociedade é industrial, o que pressupõe reco-
cida na e pela igualdade do trabalho. Ora, se tal nhecer e explicar os conflitos de classes domi-
hipótese se confirmar, há duas questões daí deriva- nantes; esse reconhecimento assume, pelo me-
das que merecem nossa atenção: uma refere-se ao nos, duas formas teóricas gerais: a primeira é a
potencial de autonomia do sujeito contemporâneo, de que a integração social não pode ocorrer sob
sobretudo daquele que trabalha, ou procura traba- a lógica de tais conflitos, pois eles opõem anta-
lho; outra se refere ao reconhecimento dos tipos e gonicamente as classes sociais; a segunda é a de
graus de solidariedade que os sujeitos são capazes que o conflito de classes reforça a integração so-
de estabelecer, nas suas relações em sociedade. cial, porque se trata de um conflito negociável
sob o manto da democracia;5
§ na sociedade, o ator é o sistema, ou seja, o ator

SOCIEDADE, POBREZA E POLÍTICAS PÚBLICAS social é definido como a vertente subjetiva do


sistema; meus sentimentos amorosos, minhas
Esse contexto, sucintamente configurado, opiniões políticas, minha maneira de vestir, são
permite que se estabeleça um paralelo entre a gê- o produto da minha socialização, isto é, a ma-
nese e o desenvolvimento da pobreza – discutidos neira como eu me integrei subjetivamente nos
anteriormente – e aquilo que denominávamos de objetivos do sistema.

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sociedade. E aqui, Weber (1982) deve ser lembrado,
Como formulação abstrata, segundo Dubet quando afirma que o sistema é produzido pelos
(1996), a sociedade pode ser apreendida nas ela- atores. Dessa complementaridade, pode-se afirmar
borações sociológicas clássicas por cinco critérios: que a ordem social se explica pela ação social soci-
moderna, sistêmica, Estado-Nação, industrial; e o alizada (Dubet, 1996, p. 23).
ator social. vertente subjetiva do sistema. Pode ser incluída nessa formulação das so-
A medida desses critérios explicita uma ori-
4
entação fundamental para essa análise. Dubet (1996, Lembrem-se da distinção que Habermas (1990) elabora
entre mundo vivido e mundo sistêmico. No primeiro,
p. 41-50) assim os justifica: marcado pela reprodução simbólica (interação), o autor
refere-se à experiência comum a todos os indivíduos
§ a sociedade é moderna e a sociologia é “atores”, na qual se reflete o óbvio e o questionamento
do feito das certezas, que são possíveis a partir da ação
evolucionista, pois estuda e explica “a história comunicativa. Já no segundo, realiza-se a razão instru-
da humanidade como um processo que vai da mental, objetivada nos subsistemas econômico e políti-
co, que desenvolvem mecanismos auto-reguladores – o
tradição do primitivo das tribos para o moder- dinheiro (capital) e o poder (burocracia) –, os quais per-
mitem a “integração sistêmica”. Essa distinção é tam-
no, para a divisão do trabalho” (a tradição da bém discutida em Freitag (1990).
5
modernidade); Perceba-se que, para cada uma dessas formas gerais, po-
dem-se constatar também modos distintos de efetivação
§ a sociedade é sistêmica, não porque toda ela seja do controle social.

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ciologias clássicas uma sexta categoria, relaciona- Mais que isso, o desenvolvimento das soci-
da à dinâmica de formação e desenvolvimento so- edades mostra que algumas dessas figuras torna-
cial, estruturada no fato de que a sociedade é ram-se difusas, chegando quase ao anonimato,
institucionalizada (uma contribuição antropológica nesse processo.6 Isso decorreu, sobretudo, de dois
sobre o processo de socialização). Ou seja, a fatores interligados: a sociedade manteve-se
institucionalização implica reconhecer que não só sistêmica e, mais que isso, ampliou a cobertura do
o ator é o sistema, mas que a modernidade, a in- mundo sistêmico sobre o mundo vivido; por ou-
dustrialização e a formação do Estado-nação se re- tro lado, a economia, antes um componente funci-
produzem através da formação de vínculos onal da integração promovida pelo Estado nacio-
institucionalizados em divisões sociais: classes, seg- nal, tornou-se o próprio modelo de integração, na
mentos, categorias de sujeitos, grupos, entre outras. medida em que se internacionalizou.
A importância desse último critério está fun- A internacionalização da economia foi uma
damentada na concepção de que a instituição tem sobredeterminação do componente-meio para um
historicidade e autoridade moral (Berger; Berger, componente-fim, rompendo com a configuração e
1977) e que é ela que promove a reflexividade da a soberania do Estado-nação (Martins, 1996; Car-
vida moderna, segundo Giddens (1991). Isso im- valho, 1997). Rompe-se também com a idéia de
plica reconhecer que os critérios de injustiça eram sociedade e, em extensão, com a idéia de sujeito
delineados institucionalmente. (como ator social), na medida em que a
Porém a maneira como esses critérios im- internacionalização da economia transformou a
bricaram-se, na produção da sociedade, implicou razão ou a racionalidade que sustentava os víncu-
um movimento constante e dinâmico da figura do los entre os atores sociais (Touraine, 2006).
sujeito, da categoria de pobreza, das condições de É na raiz dessa transformação que emerge a
trabalho e dos modelos de integração social (além, concepção de exclusão social, “... que vem a ser,
é lógico, das próprias idéias de Estado e de merca- portanto, um traço constitutivo da classificação na
do) (Dubet, 1996; Zaluar, 1997). qual se baseia o conceito estrutural de identidade
Nesse sentido, uma análise comparativa ela- social.” (Zaluar, 1997, p. 2). E aqui importa perce-
borada entre Estados Unidos, França e Brasil ber que esse traço afeta a concepção de desigualda-
(Kowarick, 2003) identificou uma variação de com- de, como afirma Carvalho (1997, p. 16): “A pobre-
binações assimétricas desses elementos, conforme za assume na contemporaneidade um significado
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foram se organizando em políticas sociais, nessas excludente. É nessa condição que a desigualdade
sociedades concretamente estabelecidas, segundo social é também ressignificada, sinalizando novos
os critérios anteriormente definidos. Essa diversi- processos de discriminação e apartação social.”.
dade indica equívoco daquele que pretende expli- Ou ainda, segundo H. Arendt (apud
car as condições atuais pela presença e o papel Maiolino; Mancebo, 2005, p. 17):
dos atores sociais fundantes dessa relação: a bur-
guesia, os trabalhadores e o Estado (sendo que a A exclusão social apareceria como a face rejeita-
da do neoliberalismo globalizado, para cujos inte-
pobreza desdobrar-se-ia como uma das condições grantes não há nenhuma política assistencialista
da segunda categoria de atores). [...] (e) no lugar da idéia de um exército industrial
de reserva [...] teríamos a idéia do estorvo, da ex-
Segundo Zaluar (1997, p. 4), clusão, a imputação de uma sub-humanidade aos
grupos, cada vez mais numerosos.
Na sociedade atual, em que as classes sociais, tais
como foram reconhecidas e analisadas no século
XIX e na primeira metade deste, não são mais as 6
Ou seja, as classes trabalhadoras foram substituídas pe-
únicas divisões relevantes, segmentarizações los sindicatos e outras organizações classistas, a burgue-
múltiplas criaram outras exclusões e novos su- sia e sua expressão capitalizada, na forma do
jeitos de direito nas lutas que se seguiram. empresariado, foram substituídas pelo mercado, e o Es-
tado foi substituído pela competição partidária na dis-
puta pelos governos.

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Nesse contexto, constatam-se as dificulda- forme o lócus ou o foco das diferentes abordagens.
des atuais das políticas sociais e da diversidade Enquanto alguns autores optaram por debater o
de programas públicos de combate à pobreza ou à estatuto teórico do conceito (Nascimento, 1994;
exclusão, que ignoram o traço constitutivo de tal Oliveira, 1997), denunciando a ilusão projetada
classificação e se debatem entre posições defensi- na oposição entre excluídos e incluídos (enten-
vas de modelos de integração nacional ou em pe- dendo que exclusão e inclusão são processos com-
quenos grupos e comunidades (Zaluar, 1997), sem plementares produzidos dialeticamente na di-
apreender ou atender às mudanças significativas nâmica econômica da sociedade capitalista), ou-
no caráter das injustiças sociais. Ou seja, elas con-
tros investigaram os “processos sociais
tinuam a reproduzir critérios de injustiça delinea-excludentes” (Martins, 1997; Zarth, 1998; Veras,
dos institucionalmente. Tais políticas se propõem 1999; Cattani, 2005) e mostraram que a
universais, mas passaram a ser focalizadas em seu complementaridade entre exclusão e inclusão é
direcionamento de privilegiarem ora os processos cada vez menos regular, no capitalismo contempo-
de exclusão (o chamado “combate à exclusão”), ora râneo, em prejuízo do segundo processo.
os de inclusão (as chamadas políticas inclusivas) Essas tendências são importantes, pois abor-
(Souza, 2004; Ivo, 2004). dam processos nos quais os sujeitos pobres proje-
Essa focalização foi acompanhada, na últi- tam idealizações e identificações com mudanças
ma década, de um processo de descentralização de suas condições. Na primeira tendência, preva-
que pressupõe um melhor reconhecimento das lece a abordagem dos processos de controle da
demandas dos sujeitos excluídos, mas que pro- participação dos pobres na economia, embora se
duz uma “reconversão do social” (Ivo, 2004) e visualize uma abertura aos processos políticos; na
impõe aos governos locais a sua gestão, conforme segunda, se reconhece uma porosidade já
indica Celina Souza (2004). Complementar a esse estabelecida entre processos econômicos e políti-
processo, “a tendência à interconexão mais direta cos e uma abertura para a potencialidade de mu-
entre o global e o local deslocam o Estado-Nação danças também nos processos culturais.
para uma zona de mediação, mais do que de deci- Essa reflexão está alinhada à segunda ten-
são autônoma” (Carvalho, 1997, p.18), o que cola- dência, na qual se destacam os trabalhos de
bora para a reprodução de tal indecisão. Atkinson (1998) e de Rogers, Gore e Figueiredo
Urge, assim, rever os pressupostos teóricos(1995), essenciais para a compreensão da emer-

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dos processos sociais de exclusão e buscar apre- gência da concepção de exclusão social. O primei-
ender os registros empíricos que se configuram em ro explicita o caráter dinâmico e a natureza
tais processos, sobretudo os que se produzem nas multidimensional da exclusão social, além da ex-
“... zonas sombreadas [...] dos processos de tensão desse processo a campos sociais mais am-
integração” (Zaluar, 1997, p. 2), para enfatizar a plos que a participação na vida do trabalho.
necessidade de efetivar políticas públicas que cu- O segundo, uma coletânea organizada pe-
bram os critérios concretamente demandados nos los autores, circunscreve a gênese da exclusão so-
planos e setores da vida social por eles afetados. cial em fenômenos concretos ocorridos na Euro-
pa, desde finais da década de 1970, como o au-
mento da pobreza urbana, a falta de perspectiva e
EXCLUSÃO SOCIAL: registros teóricos e a insegurança causadas pelo desemprego entre jo-
políticos, exógenos e endógenos vens e adultos, a falta de acesso a emprego ou ren-
da nas minorias étnicas e entre imigrantes. São
A concepção de exclusão social aparece de fenômenos relacionados à internacionalização da
maneira diversificada. Pode-se pensar seu apareci- economia e à revolução tecnológica, e os textos
mento segundo modelos distintos de análise, con- dessa coletânea, além de confirmarem a natureza

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multidimensional dos processos de exclusão, ana- sistemas explicativos elaborados para compreender
lisam parte da literatura existente e enumeram ca- esses processos, dão conta de explicitar nossa con-
tegorias de excluídos nas diversas sociedades.7 dição “privilegiada” de análise dos mesmos.
Um ponto de convergência entre essas obras Segundo Wanderley (2004), a organização
é o do contexto nacional, importante nas reflexões local das variáveis desiguais caracteriza uma con-
sobre os processos de exclusão, que coincidem em dição que deve ser pensada desde uma longa du-
torno da bibliografia francesa sobre o assunto. Essa ração da questão social, configurada no contexto
localização está assentada no descompasso latino-americano e caribenho. E, embora a noção
enfatizado entre os processos de modernização e seja ambígua,
os processos de “globalização” que afetam as soci-
edades nacionais, com seus desdobramentos ana- ... ela se transforma efetivamente em questão
social quando é percebida e assumida por um
líticos das transformações na formação e no de- setor da sociedade, que tenta, por algum meio,
senvolvimento do Estado-Nação. equacioná-la, torná-la pública, transformá-la em
demanda política, implicando em tensões e con-
Na abordagem empregada neste artigo, a flitos sociais (p. 59).
ênfase em uma bibliografia francesa tem a ver com
tal descompasso, pensado como preocupação da Nessa visão, a problematização da questão
teoria social. Daí que, em princípio, pode-se pen- social na América Latina necessita uma inserção
sar a questão da exclusão a partir da nacionalida- espaciotemporal diferente da realidade européia.
de de algumas reflexões sobre a modernidade. No Na visão de Wanderley, ela abrange elementos que
caso francês, predomina a perspectiva da autono- historicizam a problemática geral, emergindo com
mia definida no campo das ações de cidadania; no o tema indígena, seguido pela formação nacional,
caso inglês, a perspectiva do mercado como agen- pelas temáticas negra, rural, operária, e da mu-
te do desenvolvimento; no caso americano, a ins- lher, como proposições histórico estruturais.
tituição como ator social. Porém, o autor enfatiza que a globalização –
Quais são as implicações dessa configuração? compreendida como um processo desenvolvido
A primeira diz respeito à herança que recebe- pelo capitalismo desde suas origens – com mu-
mos, na sociedade brasileira, que fundiu os modelos danças que mundializam mercados, finanças, co-
de reflexão sobre tais perspectivas, gerando uma ten- municações e valores culturais, criando um siste-
são no campo teórico, marcado pela inserção perifé- ma de vasos comunicantes entre os países e conti-
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rica nesse debate (Souza, 2004a). Assim, aquilo que nentes, faz com que a questão social adquira hoje
hoje justificamos como um campo plural de refle- novas formas e conteúdos. Uma vez que a
xões seria um pano de fundo para explicar nossas globalização comporta a existência de fraturas e con-
próprias indecisões sobre os rumos que devemos tradições que, na América Latina, se evidenciam
tomar. A segunda diz respeito a essa própria indeci- mais profundamente, a mesma se manifesta como
são, na medida em que ela obnubila uma teleologia subordinada e assimétrica, como “matriz de novos
acerca da ação do sujeito na contemporaneidade, conflitos” (p. 67), configurando-se num sistema de
colocando-nos em um labirinto. ordem e desordem que não modificou a situação de
Por outro lado, a história da organização local “países de estruturas sociais heterogêneas”, como
das variáveis que movimentam as relações desiguais, na definição de Celso Furtado.
no desenvolvimento do capitalismo, assim como os Isso implica que, tanto no desenvolvimen-
to como na manifestação contemporânea das
7
Esse último aspecto está considerado no texto de Hilary tematizações históricas da questão social na Amé-
Silver, na mesma coletânea, intitulado Reconceptualizing rica Latina, elas surgem ora como problematizações
social disadvantage: three paradigms of social exclusion,
no qual o autor identifica 25 categorias de indivíduos sociais, econômicas e políticas, ora como éticas e
caracterizados como excluídos, nos estudos das décadas
de 1980 e 1990, na Europa. filosóficas, com repercussões jurídico-políticas

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distintas. E essas problematizações representam um das situações de vulnerabilidade: “... um vagalhão


parâmetro para o entendimento dos modelos de secular que tem marcado a condição popular do
políticas sociais dos Estados latino-americanos. sinal da incerteza e, mais freqüentemente da infe-
Vistas desde o processo histórico mapeado licidade” (Castel, 2004, p. 132) que afeta os ame-
pelo autor, essas políticas sociais enformaram “... açados de exclusão. Daí que a exclusão social deve
um mix que engloba os modos de (des)articulação ser vista no percurso, no e como processo, já que
e (des)integração, nacional e regional, entre nação, ela “não é um estado social dado, mas o resultado
Estado, cidadania, capital, trabalho” (Wanderley, do modelo de desenvolvimento seguido, de seqüe-
2004, p. 115), que podem ser caracterizados com las de um processo secular e que adquire novos
um ponderável grau de universalidade.8 Entretan- contornos com o processo da ‘globalização’ e dos
to, mesmo que a legislação social tenha avançado e programas neoliberais” (Wanderley, 2004, p. 137).
seja pioneira (como nos casos de Uruguai e Chile Produzida como “... questão social ampla,
do início do século XX), a situação de proteção histórica e estrutural, insolúvel na sua totalidade
social efetiva é precária na maioria dos países. nos marcos da formação econômico-social capita-
Nessa perspectiva, as políticas sociais dos lista realmente existente” (p. 131), a exclusão ca-
Estados foram comprometidas pela “...continuida- racteriza-se pelo modelo de inclusão desigual e
de da questão social de longa duração, calcada na subordinada desenvolvida naquela formação.
desigualdade e injustiça estruturais, que não foram A elaboração de Wanderley permite que se
superadas pelos processos de emancipação do sé- entendam as lógicas fundantes dos processos de
culo XIX e de modernização do século XX.” (p. 126), exclusão desde uma longa duração da questão soci-
da mesma forma que as concepções de pobreza e a al, que se metamorfoseia historicamente em corres-
noção de exclusão social também o foram. Prevale- pondência com as problematizações socialmente
ce, então, o processo de concentração de riquezas e transformadas em demandas políticas. Essa elabo-
de poder nas minorias ricas e de aumento dos po- ração permite, assim, que os sistemas explicativos
bres, com suas seqüelas dramáticas. elaborados para compreender tais metamorfoses da
A distância entre (des)articulados e questão social, no caso brasileiro, também sejam
(des)integrados de ontem e de hoje é que os primei- revistos, de forma a enfatizar sua contribuição para
ros eram úteis ao regime vigente, que necessitava de a análise dos processos contemporâneos.
seu trabalho, enquanto os últimos, afetados pela Nesse sentido, é possível verificar que as

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flexibilização e precarização do trabalho, são consi- conseqüências do modelo de desenvolvimento ca-
derados como não-úteis ao processo de produção, pitalista, em nossa sociedade, produziram cate-
não necessários. Instala-se, aí, a apartação social. gorias de pensamento configuradas diacronica-
Retomando diacronicamente a evolução do mente pelos fenômenos de marginalização (de in-
processo e suas implicações para as políticas soci- fluências notadamente modernizadoras e econô-
ais, o autor reporta-se a Donzelot, à insociabilidade micas), de espoliação (de influências marcada-
e periculosidade atribuídas ao marginalizado e à mente territoriais) e de segregação (de influências
iniciativa de provê-los de proteção social, com suas geradas em uma tríplice dimensão: de classes, de
ideologias subjacentes: a ajuda e a proteção sociais. raça-etnia e de relações de gênero) (Wanderley,
Tais atribuições estariam sendo atualizadas pelas 1997; Veras, 1999), que se inscreve de forma difusa
políticas sociais contemporâneas, desde a redefinição nos territórios.
Tais categorias de pensamento orientaram-
8
Nesse sentido, o autor reconhece, na influência do se em uma crescente convergência de análises dos
positivismo social na América Latina, algumas marcas
da legislação social brasileira: a focalização, a privatização problemas urbanos, como já analisaram Maiolino
e a descentralização. Marcas de um modelo que entra em e Mancebo (2005). Ocorre que essa convergência
conflito com concepções universalistas e explicita os
dilemas daí surgidos. envolveu o debate de perspectivas distintas, des-

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PROCESSOS SOCIAIS DE EXCLUSÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS...

de as décadas de 1960 e 70. O debate sobre a população nas grandes cidades.


marginalidade, por exemplo, orientado no marco Na década de 1980, esses sistemas
de um estruturalismo histórico, afirmava que “... a explicativos se estendem das análises que se de-
existência marginal de um determinado elemento bruçam sobre segmentos marginalizados para a
ou conjunto de elementos pode ser o resultado da abordagem das implicações da marginalidade em
natureza mesma da estrutura vigente da socieda- termos de participação sociopolítica (marginalidade
de” (Quijano, 1978, p. 31), em contraposição à como cidadania limitada), no contexto da reorga-
dualização social característica do estruturalismo nização da sociedade civil (transição democrática,
funcionalista então vigente, que compreendia a crescimento dos movimentos populares e sociais
existência marginal desses elementos no quadro e redefinição do sistema partidário, entre outros
de uma concepção de sistema social.9 aspectos).
Porém, refletindo sobre o processo de Nesse movimento analítico, os segmentos
integração das populações marginais às dinâmicas marginalizados das cidades são compreendidos de
estruturais do capitalismo, alguns autores pensa- um lugar ampliado, nos estudos acadêmicos, pas-
vam a origem e o desenvolvimento do conceito de sando a ser analisados como elementos variáveis
marginalidade a partir da falta de integração dos da organização do território (Santos, 1987), sobre-
núcleos de moradores pobres (em geral, favelados tudo, considerando-se as dificuldades desses gru-
e migrantes) “em relação aos serviços comunais pos em participar do processo de desenvolvimen-
que caracterizam a ecologia urbana das cidades” to econômico e de ascensão social.
(Quijano, 1978, p.20), depois da segunda guerra O sistema explicativo relevante nesse perí-
mundial, de onde emergiram conceitos como mas- odo aponta para estudos “...da democracia, da
sa marginal (Nun, 1969) e populações marginais, segregação urbana, a importância do território para
ou marginalizadas (Quijano, 1978). Na medida em a cidadania, a falência das ditas políticas sociais,
que essa referência se generalizou demasiadamen- os movimentos sociais, as lutas sociais” (Veras,
te nos estudos latino-americanos e brasileiros, au- 1999a, p. 31).
tores como Kowarick (1975) e Berlinck (1975) criti- Já na década de 1990, com a difusão dos
caram a abrangência e imprecisão que ela foi assu- estudos europeus sobre os processos de exclusão,
mindo, caracterizando-a estritamente em termos de a concepção de marginalidade se atualiza novamen-
inclusão ou exclusão dos trabalhadores no siste- te, passando a ser concebida ora em uma perspec-
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ma produtivo, ao mesmo tempo em que apresen- tiva multidimensional, como modos de


tavam a concepção de espoliação urbana para es- marginalização (Martins, 1997), ora como um novo
pecificar as interpretações e análises das variações registro de apartação, definido como segregação
marginais de integração das camadas pobres da (Ribeiro, 2000; Maricato, 2000), que retoma as aná-
lises de dualização social produzidas pelo aumen-
9
Segundo Maiolino e Mancebo (2005, p. 15): “Sob essa
perspectiva, toda existência marginal se configuraria numa to da desigualdade. Contudo, esses dois registros
forma, ao menos em parte, não integrada à sociedade, convergem e apontam para a produção de novas
carecendo de certos ajustes setoriais que facilitassem a
adaptação-integração. Tratava-se de desorganizações tran- formas de discriminação, precarização ou
sitórias que, em analogia aos processos metabólicos dos
organismos biológicos, poderiam ser assimiladas, sem a vulnerabilidades sociais, no quadro das transfor-
necessidade de maiores alterações sociais estruturais e
sem modificações nas tendências fundamentais da pró- mações contemporâneas, que especificam o poten-
pria sociedade [...]. Muitas análises desenvolvidas no Bra- cial heurístico dos processos de exclusão. Da mes-
sil, em torno da pobreza urbana, compartilharam dessa
perspectiva teórica, atribuindo, p. ex. , ao massivo êxodo ma forma, seja focalizando tais mudanças nos
rural para o sudeste, a responsabilidade pelos problemas
enfrentados nas grandes cidades, fossem eles de moradia, movimentos sociais, seja focalizando-as nas deli-
mendicância, delinqüência, dentre outros. Esta vertente
subsidiava, portanto, uma visão dualista da sociedade que mitações sócio-territoriais das desigualdades, es-
oporia ao setor desenvolvido da sociedade um outro, sas perspectivas apontam também para uma ne-
marginal e não funcional, mas metabolizável, mediante a
adoção de políticas específicas”. cessária análise das profundas transformações que

356
José Rogério Lopes

afetam a autonomia dos atores sociais.10 tão banidos do universo simbólico. E aqui não se
Dessa maneira, ao passo que avaliamos nos- trata de reavivar concepções como a de personali-
sa inserção periférica no desenvolvimento da dade marginal, ou de incapacidades derivadas da
concretude dessas relações e no debate teórico acer- inserção dos sujeitos em uma cultura da pobreza
ca delas, redesenhamos a história da exclusão so- que, como já indicou Kowarick (2003), somente
cial no ocidente. serviram para culpabilizar os pobres pela condi-
O desconhecimento desse processo pode ção em que se encontram.
acabar por confundir o real com o conceito, a Os problemas decorrentes dessa injustiça
concretude com a abstração. Ou seja, podemos simbólica caracterizam-se pela hostilidade, pela
confundir a escala de percepção dos problemas invisibilidade social e pelo desrespeito que a asso-
com a escala de sua resolução, como alertava San- ciação de interpretações ou estereótipos sociais re-
tos (1997). produzem na vida cotidiana ou institucional. Esse
A importância do debate brasileiro acerca tipo de comportamento implica prejuízo da auto-
dos processos de exclusão em voga, considerando estima de indivíduos e grupos, mediante processos
a história e as mudanças existentes no desenvolvi- intersubjetivos (Souza, 2000). Nesse quadro de pro-
mento da questão social (Ianni, 2004; Pastorini, duções atuais, trabalhos como os de Rosanvallon
2004; Wanderley, 2004) e das relações de desigual- (1995) explicitam, em medidas diferentes, os preju-
dade (Wanderley, 1997; Veras, 1999a; Souza, ízos causados pelos processos de exclusão social
2004a), permite afirmar que as condições que con- nos condicionamentos que estruturam a vida cole-
figuram a pobreza confirmam a dimensão de sujei- tiva e as políticas sociais contemporâneas, sobretu-
to do pobre, na razão do controle de sua participa- do por afetar o escopo de representações que se
ção na economia. Porém, nos processos de exclu- formou institucionalmente em torno da grande con-
são produzidos no mundo neoliberal, mais que tradição moderna entre autonomia e liberdade, que
controlar ou negar o acesso ao trabalho ou ao con- define o estatuto do sujeito.
sumo, controla e nega-se a própria condição de Rosanvallon (1995) busca superar a idéia
“sujeiticidade” (o que faz o ser humano ser sujei- de exclusão afirmada como incapacidade de satis-
to11) do indivíduo (Sung, 2002, p. 19). fazer as necessidades, para mostrar que ela é um
Essa transformação qualitativa dos pressu- processo, com desdobramentos que afetam profun-
postos antes identificados com os problemas de- damente o psiquismo dos indivíduos, que preci-

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correntes da desigualdade socioeconômica (a ex- sarão, de agora em diante, se ressocializar. Ao ana-
ploração, a marginalização, a pobreza), permite lisar o escopo dos processos de exclusão em uma
entrever que a injustiça primordial não é mais ex- perspectiva política, afirma que é necessário
clusivamente socioeconômica ou material, mas tam- requalificar o Estado para garantir o direito de os
bém simbólica. Assim, Xiberras (1993, p. 18) afir- sujeitos excluídos viverem em sociedade.
ma que os excluídos não são simplesmente rejei- A análise de Rosanvallon permite conside-
tados fisicamente, geograficamente ou materialmen- rar o profundo impacto dos processos de exclu-
te. Eles não são simplesmente excluídos das ri- são nos indivíduos-sujeitos, ao discutir o caráter
quezas materiais, isto é, do mercado de trocas. Os dos direitos sociais na contemporaneidade.12 Se-
excluídos são-no também das riquezas espirituais: 12
Ewald (1995), ao apresentar o estudo de Rosanvallon,
os seus valores têm falta de reconhecimento e es- afirma que o Estado-providência clássico é ineficaz no
combate à exclusão e que ele funciona “... segundo uma
10 lógica da amplificação das injustiças pelo engendramento
A importância de tais contribuições já foi discutida em de uma sociedade dual. [...] o Estado providência clássi-
outro artigo deste autor (Lopes, 2007), onde se acentua a co [...] não pode mais pretender ser um princípio do
dimensão propositiva dos atores das lutas sociais latino- contrato social, ligar a sociedade a ela mesma, na medida
americanas no enfrentamento dos processos de exclusão. em que ele associa apenas uma fração da sociedade”.
11
Jung Mo Sung utiliza o conceito de sujeiticidade em Segundo o autor, “a percepção dos riscos sociais, como
substituição ao de subjetividade, para aproximar a sua sua realidade, mudou”. Os indivíduos reconhecem que
discussão ao pensamento de Hinkelanmert (1988). o principal risco não é mais o de perderem rendimentos

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PROCESSOS SOCIAIS DE EXCLUSÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS...

gundo o autor, integrá-los pelo direito de inserção ricos do capitalismo, que reforçaram, em âmbito
coloca em questão um tipo de norma fundamenta- local, a fragmentação dos sistemas produtivos e a
da sobre o fato de que os indivíduos se encontram competitividade pelos postos de trabalho. A visibi-
em situações singulares e que, então, devem ser lidade desse fenômeno, no Brasil, mostra claramente
tratados de maneira particular, para que se consiga que ele ultrapassou a esfera do trabalho formal (como
uma verdadeira eqüidade. emprego) para a do informal, reproduzindo, nessa
Assim, está em jogo, atualmente, a relação esfera, os processos sociais excludentes.
entre fatores econômicos e fatores não-econômi-
cos na produção da vida social (Touraine, 2000).
Tal relação levou a uma revisão teórico-empírica FINALIZANDO
da concepção de vulnerabilidade, que se projeta
da esfera do sistema de proteções, configurado em Essa reprodução foi constatada por pesqui-
torno do mundo do trabalho (Castel, 1999), para sas realizadas em regiões de desenvolvimento no
um campo ampliado de interações que, segundo sudeste e no sul do país,13 objetivando reconhecer
Abramovay (2002, p. 30) traduz a situação em que as novas territorialidades urbanas produzidas na
o conjunto de características, recursos e habilida- lógica do trabalho informal exercido nos espaços
des inerentes a um dado grupo social se revela públicos, incluindo investigações sobre atividades
insuficiente, inadequado ou difícil para lidar com variadas que vão dos coletores de materiais
o sistema de oportunidades oferecido pela socie- recicláveis aos vendedores de mercadorias
dade, de forma a ascender a melhores níveis de contrabandeadas.
bem-estar ou diminuir probabilidades de deterio- As transformações sociais contemporâneas,
ração das condições de vida de determinados ato- ocorridas no mundo da produção e do trabalho,
res sociais. Essa situação pode se manifestar, em ao produzirem uma crescente precarização da ati-
um plano estrutural, por uma elevada propensão vidade remunerada e elevados índices de desem-
à mobilidade descendente desses atores e, no pla- prego, expulsaram milhares de trabalhadores para
no mais subjetivo, pelo desenvolvimento de sen- o mercado informal na década de 1990, nessas re-
timentos de incerteza e insegurança entre eles. giões, gerando o conseqüente crescimento da eco-
Nesse movimento, a razão da participação nomia informal. Isso tem provocado a proliferação
autônoma e (ou) solidária dos sujeitos, na produ- de ocupações exercidas nos espaços antes reco-
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ção da vida social, mudou substancialmente. Aci- nhecidos como de circulação – ruas, praças e lar-
ma de tudo, ela foi condicionada por um gradual gos –, modificando a lógica do trabalho como ati-
parcelamento dos ideais representativos, nas soci- vidade, que agora se confunde com o espaço am-
edades democráticas, ajustado ao reconhecimento pliado da cidade. Nesse contexto, a distinção en-
das diferenças culturais, étnicas ou de gênero e às tre espaços de produção ou trabalho e espaços de
demandas da internacionalização da economia. No circulação de pessoas e mercadorias é rompida,
seio de tais mudanças, a hegemonia mundial ad- em prejuízo dos espaços públicos, gradualmente
quiriu novos contornos, conforme foram se for- tomados por atividades ocupacionais e de geração
mando blocos continentais e intercontinentais de de renda, modificando a percepção ambiental ur-
relações econômicas, entre países centrais e perifé- bana e as identidades de vários segmentos sociais.
em casos de infortúnio, mas o desemprego e a exclusão
Assim, a ocupação de espaços públicos pelo
que segue dele; reconhecem o princípio de sua organiza- trabalho informal, antes restrito às atividades de tro-
ção não mais na defesa da condição salarial, segundo
uma lógica dos direitos e das liberdades, mas na procura cas tradicionais que ocorriam em espaços reduzi-
de uma garantia do trabalho; reconhecem que o risco da
exclusão não atinge somente “populações identificadas 13
Sobre as pesquisas realizadas na região sudeste, ver
pelos status sócio-econômicos largos, como o assalaria- Lopes (2001a). As pesquisas realizadas na região sul es-
do, mas a indivíduos em função de histórias e de percur- tão em progresso, concentradas em municípios da re-
sos sempre singulares”. gião metropolitana de Porto Alegre.

358
José Rogério Lopes

dos e localizados, foi se difundindo por diversos ações formais e informais) que agem sobre a distri-
espaços públicos que concentram circulação de pes- buição espacial do trabalho informal. Trata-se de
soas, impondo intervenções dos governos locais. uma forma de controle que opera pela produção
Com a invasão desses locais pelos trabalha- de reformas urbanas que parcelam os espaços pú-
dores informais e os produtos de consumo mo- blicos em zonas hierarquizadas de comércio infor-
dernos, os governos locais passam a ordenar os mal nos municípios.
espaços de venda, com a delimitação de áreas como E esse ordenamento implica tensões e con-
“camelódromos”, ou “boxes”, por setores de pro- flitos sociais, como afirmou Wanderley (2004, p.
dutos, e a cobrar taxas de ocupação, fiscalizando 59), uma vez que o controle do acesso dos traba-
eventualmente as atividades dos indivíduos. lhadores informais ao espaço público é visto pelos
Ocorre que tais ordenamentos, realizados próprios trabalhadores como desrespeito. Assim,
geralmente de forma arbitrária, resultaram numa as diversas manifestações desses trabalhadores,
distribuição desigual dos espaços (considerando que vimos assistindo nas regiões pesquisadas, mas
o potencial de venda de cada um, identificado pelos também outras presenciadas em capitais do país
trabalhadores informais), hierarquizando os luga- onde esse processo vem ocorrendo com regulari-
res e estratificando os trabalhadores informais se- dade, mostram que o parcelamento espacial im-
gundo classes desiguais de inserção territorial. posto aos sujeitos em situação de vulnerabilidade
Paralelamente ao estabelecimento desses não pressupõe a combinação entre o direito à dife-
mecanismos formais de ordenamento urbano do rença com a participação econômica. Essa combi-
trabalho informal, identificaram-se também alguns nação desdobra-se da necessidade de garantir que
mecanismos informais, operados por comercian- o acesso ao bem comum preserve a particularida-
tes e agentes fiscais dos governos locais, que agem de de cada um, o que implica, por outro lado, re-
sobre coletores de materiais recicláveis que atuam cuperar a capacidade de ação e de sentido dos ato-
nas áreas comerciais dos municípios. Exemplo res sociais. E essa recuperação transita na contra-
desses mecanismos é o estabelecimento de acor- mão dos canais contemporâneos de controle soci-
dos tácitos entre comerciantes e coletores para a al,15 evidenciando que as políticas públicas podem
delimitação de horários fixos de entrega de pape- gerar um descompasso entre os planos das esferas
lões e outros materiais. Esse ordenamento infor- prática e sensível da experiência social – a práxis,
mal limita o tempo de trânsito dos coletores e de para Lefebvre (1977) – elemento forte e ainda pou-

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suas carroças pelos calçadões dos centros comer- co explorado nas análises sobre os processos de
ciais das cidades aos períodos de abertura e fecha- exclusão.
mento do comércio, retirando-os da cena urbana A experiência de viver tais processos de
durante os intervalos de maior movimentação dos exclusão projeta-se nas representações dos sujei-
compradores.14 tos, de forma que as concepções de respeito e des-
Essas referências, entre outras coletadas, respeito são condicionadas pela maneira como elas
mostram que o aumento do desemprego, arrastan- os afetam. Para quem vive imerso em situações de
do milhares de sujeitos para o mercado informal, vulnerabilidade ou precarização, a imagem da ci-
produz uma forma de ocupação espontânea dos dade emerge a uma “distância próxima” – proxi-
espaços públicos da cidade pelo trabalho, geran- 15
Por exemplo, em passagem por Recife em 05/08/2008,
do a necessidade de novas políticas públicas e este autor teve oportunidade de presenciar uma mani-
festação dos ambulantes da cidade que, retirados do cen-
modelos para o ordenamento urbano (na forma de tro da cidade pelo governo local, armaram barricadas e
queimaram pneus logo após a ponte que faz a ligação da
orla para o centro da cidade, causando um congestiona-
14
Esses acordos afetaram a dinâmica das relações de solida- mento de cerca 40 km, em vários sentidos. Em depoi-
riedade que vinham se configurando entre os coletores, e mentos que os líderes da manifestação deram às TVs
destes com os comerciantes, gerando formas de competi- locais, destacava-se a reivindicação do retorno às áreas
ção encobertas por uma argumentação de pretensa urba- centrais da cidade, em uma distribuição negociada dos
nidade, no controle dos horários dos coletores. locais de inserção de seus pontos de venda.

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PROCESSOS SOCIAIS DE EXCLUSÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS...

midade geográfica e distância social – e suas rela- informal, o que leva os indivíduos a se sentirem
ções com o conjunto dos mecanismos institucionais desrespeitados. E aqui cabe lembrar a dimensão
da vida urbana têm sempre um fundo de descon- do papel da política social nas democracias, se-
fiança, descrédito ou desapego. gundo Ivo (2004, p. 57):
Na medida em que a produção da cidade
contemporânea reforça os processos de exclusão A política social é uma dimensão necessária da
democracia nas sociedades modernas e está es-
sócio-territorial (Maricato, 2000), reproduzindo as treitamente ligada aos valores da eqüidade que
estratégias de idealização da urbanidade e de fundam a legitimidade política e a concepção
que as sociedades e os governos têm do seu proje-
vinculação do sujeito pobre à urbe – ou a uma to político e de seu destino. [...] as políticas soci-
ais integram um sistema de ação complexo re-
parte dela – por meio da ocupação exercida por sultante de múltiplas causalidades e diferentes
ele, essa ocupação permite um exercício de atores e campos de ação social e pública [...] que
possibilitem a superação das desigualdades e o
visualização da cidade que condiciona as repre- exercício pleno da cidadania [...]. Atuando no
sentações, ações e reivindicações de direito à cida- âmbito redistribuitvo, elas envolvem necessari-
amente relações de poder e são, portanto,
de e à cidadania. conflitivas e qualificadoras da democracia e do
As privações vividas por boa parcela da projeto de inclusão social das sociedades.
população das cidades contemporâneas, relacio-
nadas à difusão desse modelo de idealidade e de A vulnerabilidade gerada pela precarização
do trabalho tem mostrado, em maior ou menor
vinculação dos sujeitos à urbe, extrapolam os pro-
medida, que a participação na sociabilidade urba-
cessos de exclusão material e constituem violênci-
as simbólicas. Porém, mesmo submersos nas “zo- na dos sujeitos que vivenciam os processos de
exclusão ainda é condicionada pelo tipo de traba-
nas sombreadas [...] dos processos de integração”
lho ou ocupação que exercem. Isso implica que
(Zaluar, 1997, p. 2), esses sujeitos procuram pro-
duzir outras estratégias de superação dos proces-
... não se pode compreender os dilemas da políti-
sos de exclusão no próprio cotidiano. Na repre- ca social fora da dimensão do trabalho, entendi-
sentação difusa de cidade que esses sujeitos do como a forma concreta de reprodução e inser-
ção social e como valor histórico e culturalmente
explicitam, evidencia-se a concepção de Ítalo instituído, que confere identidade social e ma-
triz de sociabilidade no marco de uma constrição
Calvino (1990), de que uma cidade pode ser aqui- coletiva (Ivo, 2004, p. 57).
lo que dela se vê ou se entende.
Assim, as apropriações que os indivíduos Ao ignorar essa dimensão concreta e
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fazem da produção da cidade, desde sua localiza- valorativa, as políticas sociais tornam-se impositivas.
ção em áreas de exclusão ou segregação difusas no Assim, nos processos de vulnerabilização, contam
território, variam de acordo com a compreensão muito mais as regras que se impõem aos excluídos,
elaborada pelos mesmos acerca dos movimentos para que participem – ou ao menos se sintam parti-
contraditórios em que estão inseridos, ou dos quais cipantes – dos jogos de sociabilidade.
estão privados. Entretanto, esses novos condicionamentos
O jogo das relações entre processos de ex- implicam, também, que o campo de ações dos su-
clusão e controle social, de um lado, e liberdade e jeitos contemporâneos é plural, o que inclui mes-
autonomia dos sujeitos, de outro, passa, na atuali- mo a sociabilidade configurada em condições de
dade, pela combinação dos fatores que definem privação social, como na pobreza ou nos proces-
novos condicionamentos sociais, em situações de sos de exclusão. Essa condição impõe uma cons-
vulnerabilidade e privações. tante necessidade de refletir e redefinir ações soci-
Tais condicionamentos configuram-se, em ais na esfera acadêmica ou governamental, aten-
maior ou menor medida, em conflito com as polí- tando aos critérios de comunidade e seus padrões
ticas públicas. A medida desse conflito apresenta- de sociabilidade, configurados nos processos de
se evidente no ordenamento urbano do trabalho exclusão territorialmente definidos nas cidades.

360
José Rogério Lopes

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José Rogério Lopes

SOCIAL PROCESSES OF EXCLUSION AND PUBLIC PROCESSUS SOCIAUX D’EXCLUSION ET


POLICIES OF FIGHTING POVERTY POLITIQUES PUBLIQUES DE LUTTE CONTRE LA
PAUVRETÉ
José Rogério Lopes
José Rogério Lopes
This paper revises several authors’ theoretical
contributions that approach the processes of “social Ce texte revoit les contributions théoriques des
exclusion” as a group of references configured auteurs qui abordent les processus “d’exclusion sociale”
historically in the dynamics of internationalization of comme un ensemble de références configurées
the economy. This review indicates the need to historiquement dans la dynamique de
distinguish among the public policies of “combat to l’internationalisation de l’économie. Cette révision
exclusion” and those that self-attribute a characteristic montre le besoin de faire la distinction entre les
of inclusion, to justify the complementarity of both. politiques publiques de “combat contre l’exclusion” et
Categories and analytic elements stand out (such as celles qui s’auto attribuent un aspect d’inclusion afin
the current debate between redistribution and de pouvoir justifier la complémentarité entre les deux.
recognition, in the field of of rights and of public poli- Des catégories et des éléments de l’analyse sont mis en
cies demands) that allow identification of new social évidence (tels que le débat actuel entre la redistribution
conditionings that affect the senses produced by the et la reconnaissance, dans le domaine des
subjects in vulnerability conditions or privations revendications des droits et des politiques publiques)
generated in urban poverty, important to guide a review qui permettent d’identifier de nouveaux
of the guidelines for the policies at hand. conditionnements sociaux, capables d’affecter les sens,
produits par les personnes se trouvant en conditions
de vulnérabilité ou de privations causées au sein de la
pauvreté urbaine. Ces catégories et ces éléments sont
importants pour orienter une révision des directives
des politiques en question.

KEYWORDS: exclusion processes, internationalization of MOTS-CLÉS: processus d’exclusion, internationalisation


the economy, public policies, vulnerabilities, de l’économie, politiques publiques, vulnérabilités,
privations. privations.

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