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Estudos Bíblicos:

Pentateuco
Material Teórico
A Segunda Lei – O Deuteronômio

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Paulo Roberto Pedrozo Rocha

Revisão Textual:
Profa. Ms. Alessandra Fabiana Cavalcanti
A Segunda Lei – O Deuteronômio

• Introdução
• A Origem do Código de Leis
• A Teologia Deuteronomista

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Possibilitar ao aluno uma ampla visão da composição e também da
necessidade do livro de Deuteronômio, tratado como uma das fontes
fundamentais do Pentateuco.
Orientações de estudo
Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem
aproveitado e haja uma maior aplicabilidade na sua
formação acadêmica e atuação profissional, siga
algumas recomendações básicas:
Conserve seu
material e local de
estudos sempre
organizados.
Aproveite as
Procure manter indicações
contato com seus de Material
colegas e tutores Complementar.
para trocar ideias!
Determine um Isso amplia a
horário fixo aprendizagem.
para estudar.

Mantenha o foco!
Evite se distrair com
as redes sociais.

Seja original!
Nunca plagie
trabalhos.

Não se esqueça
de se alimentar
Assim: e se manter
Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte hidratado.
da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e
horário fixos como o seu “momento do estudo”.

Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar, lembre-se de que uma


alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo.

No material de cada Unidade, há leituras indicadas. Entre elas: artigos científicos, livros, vídeos e
sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também
encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua
interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados.

Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão,
pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato
com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem.
UNIDADE A Segunda Lei – O Deuteronômio

Introdução
Uma confusão de termos na tradução. Esta é a hipótese que os exegetas do Antigo
Testamento levam em consideração para o termo “deuteronômio”. Segundo estes
mesmos exegetas, os tradutores da Septuaginta tomaram a expressão “cópia da
lei” presente em Deuteronômio 17: 18 como “repetição da lei” (deuteronomion),
daí surgindo a ideia de que o texto se limitava a repetir a lei expressa nas coleções
anteriores, de Gênesis a Números.
Explor

Septuaginta é o nome da versão da Bíblia Hebraica traduzida em etapas para o grego


Koiné entre os séculos III e I a.C.

Ocorre que esta hipótese de repetição da lei não se sustenta. Exceção feita às
prescrições sobre a Páscoa, aos pães ázimos, e aos primogênitos, além de algumas
repetições formulativas do Decálogo, todo o mais encontrado no Deuteronômio
surge como original.

Quando falamos em fonte D, ou Deuteronômica, nos referimos a praticamente


todo o livro que leva este nome no Pentateuco. Ao menos os capítulos 1 a 30,
alguns versículos dos capítulos 31/2 e também os fatos narrados entre os capítulos
31 a 34 em outras coleções são significativamente ampliados em D.

O que se crê na atualidade é que o Deuteronômio formava um conjunto autô-


nomo, posteriormente, acrescido ao Pentateuco. O livro tem ares de um discurso
de despedida de Moisés conjugado com a celebração de uma nova aliança entre o
povo de Israel e a divindade Yahweh.

Podemos adotar o seguinte esquema:


• Capítulos 1 a 11: preparam a legislação com considerações históricas e com
apelos à obediência.
• Capítulos 12 a 26: contêm os estatutos e as leis do Pacto de Moabe.
• Capítulos Finais: exortam ao cumprimento das leis, anunciam bênçãos e
maldições e terminam com o cântico de Moisés.

Há inclusive a possibilidade de falarmos em um discurso Deuteronomista que


pode ser tipificado por uma espécie de apelo aos sentimentos, com expressões
típicas como: “de todo o teu coração e de toda a tua alma” que podemos
encontrar em Deuteronômio 4: 2; 12: 28; 15: 5 etc.

O surgimento da coleção deuteronomística está associado à reforma religiosa


levada adiante pelo Rei Josias. Esta reforma deve ter sido iniciada com a morte do
último rei importante da Assíria, Assurbanipal, em 626 a.C. e, provavelmente, foi
terminada em 622 a.C.

Acredita-se que o que está relatado em II Reis 22, dando conta da existência de
um livro da lei de Yahweh encontrado entre escombros se trata, na verdade, do
livro de Deuteronômio.

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Como se sabe pela história, Josias foi o 16.º rei de Judá e é elogiado pelas
Escrituras Hebraicas como alguém que “fez o que era reto aos olhos de Yahweh”.
Em meio a seu curto reinado (entre 640 e 609 a.C.) ele promoveu uma reforma
religiosa, tendo restaurado as celebrações cúlticas a Yahweh.

O achado do livro da lei de Moisés, como é descrito em Reis, leva a crer que se
trate do texto de Deuteronômio. Claro que a hipótese estruturalista da Bíblia vai
discordar, lembrando que mesmo o texto de Deuteronômio apresenta histórias que
são encontradas nas tradições gregas. Contudo, o caminho a que nos dispomos a
trilhar nesta exposição é justamente o da Hipótese Documental, razão pela qual
passamos a levar em conta os aspectos histórico-literários do período.

O aspecto mais marcante da reforma empreendida por Josias foi o


restabelecimento do culto a Yahweh e a suspensão dos cultos aos deuses assírios no
templo de Jerusalém. Obviamente, para a execução desta reforma não era preciso
o Deuteronômio, contudo a reforma colocou em prática algumas recomendações
que só são encontradas no próprio livro de Deuteronômio, dando-nos a clara ideia
de que este escrito tenha influenciado a reforma em si.

São elas:
a) a destruição de todos os santuários existentes fora do recinto central do
templo de Jerusalém;
b) a purificação deste recinto de todos os cultos estrangeiros;
c) a celebração da Páscoa no templo.

Podemos encontrar a concordância textual entre estes fatos nas seguintes relações:

Centralização do Culto II Reis 23: 8 – 19 Deut. 12: 13 ss


Abolição do culto dos Astros II Reis 23: 11ss Deut. 17: 3
Afastamento das Prostitutas Sagradas II Reis 23: 7 Deut. 23: 18
Extermínio dos Necromantes II Reis 23: 24 Deut. 18: 11ss
Proibição de Imolar Crianças II Reis 23: 10 Deut. 18: 10
Celebração da Páscoa no Templo II Reis 23: 21ss Deut. 16: 1ss

O problema da autoria do texto de Deuteronômio é mais complexo. Os relatos de


II Reis dizem que o livro foi achado no templo, durante a sua reconstrução e reparo.

Era de fato costume depositar documentos importantes no templo, como


atestam as referências de I Samuel 10: 25 e II Reis 19: 14. Se tomarmos esta
informação como verdadeira, provavelmente o livro de Deuteronômio foi uma
cópia da lei mosaica, produzida no Israel setentrional (no Reino do Norte) que, por
razões aleatórias, escapou da destruição de seu reino, sendo trazido por alguém ao
templo de Jerusalém.

Este tipo de abordagem favorece a ideia de que se trate de um livro sagrado,


guardado pela divindade, com autores não menos divinos. Esta crença já existia
entre os egípcios que atribuíam a autoria de alguns de seus escritos aos deuses Tot
e Osíris.

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UNIDADE A Segunda Lei – O Deuteronômio

A temática que tem ocupado a atenção dos exegetas deste documento orbita
ao redor de duas questões principais: 1) como e quando surgiu o código jurídico
da reforma de Josias? e, 2) se o documento possivelmente encontrado na época
é idêntico à versão atual do livro, ou, se diferente, como chegamos à atual versão
do texto?

A princípio temos que considerar que o atual livro de Deuteronômio não pode
ser considerado como o mesmo da época de Josias.

Há alguns pontos que nos levam a esta consideração:


a) Em II Reis 22: 8 a 10 está dito que o livro foi lido e recitado várias vezes em
um só dia, o que parece apontar que não se tratava de uma obra volumosa;
b) A própria designação que encontramos em II Reis de “livro da lei” parece
dar a ideia de que o texto não continha tanto material narrativo como o
que achamos, atualmente, em Deuteronômio;
c) Na versão atual há muitas repetições de discursos introdutórios,
cerimônias de bênçãos e de trechos jurídicos.
d) Estes fatos nos permitem reconhecer que houve um aumento gradual
com acréscimos ao texto até os dias atuais.

Estes aspectos conjugados mostram a dificuldade em se estabelecer o exato


tamanho do Deuteronômio original, ou seja, aquele existente nos tempos da
reforma do Rei Josias. São possíveis apenas alguns traços gerais, dentre os quais
podemos assegurar que a parte jurídica compreendia a seguinte forma:
1. As determinações referentes à centralização do culto, muito próprias da
fonte D. Conforme Deuteronômio 12: 14, 22 a 29; 15: 19 a 23; 16: 1 a 17
e possivelmente 17: 8 a 13 e 26: 1 a 15.
2. As determinações sobre o Direito Civil presentes entre os capítulos 21 e 25.
3. As leis sobre as abominações, dando conta das condições em que
determinadas ações se tornariam abomináveis ante à divindade. Podemos
encontrá-las em Deuteronômio 16: 21 a 17; 18: 9 a 14; 22: 5; 23: 19; 25:
13 a 16 e em 22: 9 a 12.
4. As leis humanitárias registradas em Deuteronômio 22: 1 a 4; 23: 16 a 20;
24: 6 a 25 às quais podemos acrescentar as leis de guerra em 20; 21: 10 a
14; 23: 10 a 15.
5. As determinações transitórias, ou seja, Deuteronômio 15: 1 a 18; 16: 18 a
20; 19: 1 a 13 e 16 a 21.

A parte jurídica do Deuteronômio apresenta uma ordem seguida com clareza.


Nele as determinações sobre o culto, os deveres jurídicos e o direito civil aparecem
nesta sequência. As exigências básicas sobre o culto aparecem logo no início, razão
pela qual o Rei Josias deve ter sido impactado com a descoberta do texto.

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Outro ponto que pode ser identificado como pertencente à versão original do
Deuteronômio se refere às suas introduções, que servem para situar o leitor no
objetivo da obra. Nelas encontramos, além dos títulos (1: 1 a 5), também o relato
do culto ao bezerro de ouro (9: 7 a 11) e outras pequenas referências a feitos da
época de Moisés (1: 6 a 3: 29).

Há ainda um segundo conjunto introdutório que também começa com os títulos,


seguidos por sanções do código penal, apresentadas como a vontade de Yahweh,
tendo sido comunicadas a Moisés no monte, além das insistentes exortações à
obediência da lei. Os exegetas consideram esta segunda introdução, presente nas
passagens de Deuteronômio 4: 44 a 49; 5: 1 a 6: 3; 6: 4 a 9; 10: 12 a 11: 32,
como a introdução original de Deuteronômio dos tempos josiânicos.

Esta segunda introdução se liga ao final do texto com as promessas de bênçãos


e/ou de maldições para aqueles que obedecerem ou não aos preceitos divinos
(capítulos 27: 9 e 28: 1 a 68).

Há, por fim, acréscimos posteriores. Estão entre os acréscimos posteriores


aquelas passagens que rompem o contexto das promessas de bênçãos e maldições.
Estes acréscimos podem ser identificados em: Pacto celebrado em Moabe (capítu-
los 29 e 30) e sua introdução (28: 69), ainda a ordem de escrever a lei em pedras
grandes sobre o monte Garizim e ali construir um altar (27: 1 a 8); a instalação de
Josué e a ordem de escrever a lei e de a fazer ler todos os sete anos (31: 1 a 13);
a guarda da lei (31: 24 a 30); exortação (32: 45 a 47) e o anúncio da morte de
Moisés (32: 48 a 52).

Por conclusão, podemos chegar a uma “remontagem” do Deuteronômio origi-


nal, provavelmente o livro encontrado nos tempos do Rei Josias.

Introdução 4: 44 a 11: 32 (menos 9: 7 a 10:11)


2; 14: 22 a 29; 15: 1 a 23; 16: 1 a 22; 17: 1 e 8 a 13; 18:
Código de Leis
9 a 14; 19: 1 a 13 e 16 a 21; 20: 21 a 25 e 26: 1 a 15.
Conclusão 27: 9 a 10 e 28: 1 a 68
Explor

Para saber mais: https://goo.gl/bRd9og

A Origem do Código de Leis


Uma vez que admitimos a composição original do Deuteronômio, conforme
foi exposto acima, surge a pergunta sobre a origem deste código de leis, quais as
influências recebidas e, principalmente, quais os paralelos os textos do Deuteronômio
têm com outros textos do Pentateuco?

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UNIDADE A Segunda Lei – O Deuteronômio

O ponto fundamental da teologia deuteronômica é a centralidade do culto. Na pers-


pectiva comparativa entre os textos do Deuteronômio e outros textos do Pentateuco,
tais como o que encontramos em Êxodo, podemos traçar as seguintes relações:

Deuteronômio 15: 1 a 11 Êxodo 23: 10 s


Deuteronômio 15: 12 a 18 Êxodo 21: 2 a 11
Deuteronômio 15: 19 a 23 Êxodo 22: 28 s
Deuteronômio 16: 1 a 17 Êxodo 23: 14 a 17
Deuteronômio 16: 18 e 20 Êxodo 23: 2, 6 a 8
Deuteronômio 19: 1 a 13 Êxodo 21: 12 a 14
Deuteronômio 19: 16 a 21 Êxodo 23: 1
Deuteronômio 22: 1 a 4 Êxodo 23: 4 s
Deuteronômio 22: 28 s Êxodo 22: 15 s
Deuteronômio 23: 20 s Êxodo 22: 24
Deuteronômio 24: 7 Êxodo 21: 16
Deuteronômio 24: 10 a 13 Êxodo 22: 25 s
Deuteronômio 24: 17 s Êxodo 23: 9
Deuteronômio 24: 18 a 22 Êxodo 22: 20 a 23
Deuteronômio 26: 2 a 10 Êxodo 23: 19

Quando lemos estes textos comparativamente, observamos que o relato de


Deuteronômio é maior do que seu correspondente no Êxodo. Assim é possível
concluir que a lei deuteronômica foi modernizada, sendo este um código mais
jovem do que seu paralelo Javista ou Eloísta.

Um exemplo do que foi dito acima, podemos ver em Deuteronômio 15, liga as
determinações sobre a remissão no campo ao direito, que trata das dívidas. Esta as-
sociação corresponde à importância, crescente na época, da economia financeira.

Outra demonstração desta atualização da lei no Deuteronômio diz respeito às


relações entre homens livres e escravos. Em Êxodo 21: 2 ss está normatizada a compra
de um escravo e também a duração do serviço. Em seu análogo em Deuteronômio
15: 12 a escravidão é normatizada e aceita por razões financeiras, isto é, alguém que
venda a si mesmo como escravo, além do direito feminino de herança.

Por fim, podemos afirmar que o Código de Leis encontrado no Deuteronômio


tem a intenção de corrigir e de completar o Código da Aliança presente no livro do
Êxodo. Não se trata de uma superação, e sim de uma otimização, uma melhora no
conteúdo e nas disposições da lei mosaica.

O Código do Deuteronômio provavelmente utilizou materiais que datam de


épocas diferentes. Por exemplo, as leis da guerra, presentes nos capítulos 20 e
23, só podem ter surgido na época dos Reis, ao passo que as determinações, a
respeito dos procedimentos em um assassinato com autor desconhecido, notados
em Deuteronômio 21, são de tradição bastante antiga. Acredita-se que toda esta
informação tenha chegado ao redator do Deuteronômio por via oral.

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Há inclusive paralelos entre trechos do Deuteronômio e passagens do livro egípcio
da sabedoria de Amenemope, como por exemplo as determinações encontradas
em Deuteronômio 25: 13 a 16 sobre a fraude correspondem à Amenemope 16,
havendo ainda outra “coincidência” quando se observa o texto de Deuteronômio
19: 14, que legisla sobre a remoção dos limites, podemos encontrá-lo no capítulo
6 do mesmo livro egípcio.

Figura 1
Fonte: Wikimedia Commons

Importante! Importante!

O Livro da Sabedoria de Amenemope é uma obra literária composta no Egito Antigo,


mais provavelmente durante o Período Ramassida (cerca de 1300-1075 a.C.), que
contém trinta capítulos de conselhos para uma vida de sucesso. O livro foi escrito pelo
escriba Amenemope como um legado para seu filho. A obra reflete sobre as qualidades
interiores, atitudes e comportamentos necessários para uma vida feliz.
Explor

Sobre o livro egípcio da sabedoria de Amenemope veja: https://goo.gl/5Ksyx5

É preciso notar ainda que o chamado Deuteronômio Original também sofreu


influência da tradição eloísta, estudado anteriormente, tendo em vista a sua repulsa
aos deuses estrangeiros e aos costumes de outros povos. Isto se evidencia pelo
papel central dado ao Decálogo (Dez Mandamentos), o destaque dado à figura de
Moisés e o estilo redacional exortativo, lembrando sempre o leitor da importância
de seguir os preceitos divinos.

Do texto original ao livro atual

Se tomarmos os limites do Deuteronômio original, apontados até aqui, podemos


usá-lo como um referencial da história do texto. Este referencial nos ajuda a trazer
outras informações a seu respeito, tais como autoria, data e local da composição.

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UNIDADE A Segunda Lei – O Deuteronômio

Quando vemos o texto de Deuteronômio como um complemento do Código da


Aliança, como o demonstrado no quadro comparativo entre o Deuteronômio e o
Êxodo, temos que concluir que sua redação é evidentemente posterior à redação
do Êxodo. Por isso, o código Deuteronomista original deve ter surgido na pátria do
Código da Aliança, isto é, no Reino de Israel (norte) e trazido por alguém para Judá.

Os linguistas que estudam este período afirmam que a data de composição não
deve ultrapassar a primeira metade do século VIII. Lembre-se que, por se tratar
de época anterior a Cristo, a datação é decrescente. Assim, a primeira metade do
século VIII corresponde aos anos de 799 a 750 a.C.

Acredita-se que o texto do Deuteronômio tenha chegado a Jerusalém (capital


de Judá, Reino do Sul) juntamente com outras obras literárias provenientes de
Israel. Em Jerusalém o texto deve ter sofrido uma revisão, por parte dos escribas
do templo, sob o reinado de Ezequias e, finalmente, depositado no Templo de
Jerusalém depois do ano 701 a.C.

Chamamos esta descrição de Sitz im Leben – contexto vital – no qual surgiu


a obra, conforme a conhecemos atualmente. Esta pretensa revisão manteve os
códigos jurídicos, mantendo a centralidade do culto a Yahweh.

É neste formato que Helcias deve ter encontrado o livro que seria mais tarde
utilizado pelo Rei Josias para levar adiante a sua reforma. Diante de um código
jurídico eclesiástico, se podemos assim chamar, o Rei Josias fez um pacto com a
população para que as determinações contidas no texto fossem cumpridas. É o que
se lê em II Reis 23: 1 a 3.

Era uma aliança sui generis. Não se tratava, como em ocasiões anteriores, de
uma celebração entre o povo e a divindade. Tratava-se sim de uma aliança entre
o povo e o Estado, representado por Josias. Com isso, o texto do Deuteronômio
passou à categoria de lei do Estado. A história seguinte mostra que os sucessores
de Josias não se sentiram obrigados a seguir este compromisso, sendo que o rei
Joaquim simplesmente ignorou esta aliança.

Um acréscimo ao texto deve ter ocorrido nesta época, sob o reinado de Josias.
É desta fase que provém o estilo guerreiro que está na introdução e em algumas
disposições legais do texto. Isto se deve à influência de sacerdotes e levitas que
eram responsáveis por um movimento belicista e por uma piedade militarista.

Esta perspectiva encontra eco na renovação do exército de Jerusalém, havida


após 701 a.C. Neste período voltou-se a convocar cidadãos livres e em exercício de
seus direitos para o serviço militar. A este estado de coisas corresponde à reaparição
do espírito guerreiro.

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O Rei Ezequias foi o 13.º Rei de Judá. Reinou entre 726 e 697 a.C. No início de seu reinado
restaurou o templo de Jerusalém. Reintegrou os levitas ao sacerdócio e restaurou também a
celebração da Páscoa, proibindo o culto a deuses estrangeiros. Em 701 a.C. precisou reforçar
seu exército para resistir ao Rei Senaqueribe da Assíria. Razão pela qual há forte ênfase no
serviço militar, conforme anotado acima.

Na época do exílio, ou seja, a partir de 596 a.C., foram acrescidos textos à


introdução e à conclusão (tais como os temos atualmente). Estas inclusões objetivavam
a inserção do Deuteronômio na tradição do Pentateuco, mostrando a ruptura do
compromisso imposto por Yahweh junto ao monte de Deus, ruptura esta tipificada
no culto ao bezerro de ouro (conforme capítulo 9), e também ao estabelecer uma
nova aliança em Moabe, que toma como base o texto do Deuteronômio.

Destaca-se ainda que o texto de Deuteronômio é o único a apresentar um


Moisés próximo da morte, encarregado inclusive de narrar a sua morte. Há ainda
a aparição do “Cântico de Moisés”, que era um texto independente, utilizado de
alguma forma em outros textos do Pentateuco.

A Teologia Deuteronomista
Podemos enquadrar a teologia do Deuteronômio em três grupos centrais de ideias:
a) Unicidade do lugar do culto: remete à ideia da unicidade de Deus
e serve de defesa contra a tendência ao pluralismo que foi introduzido
no conceito de Deus, tendo em vista os muitos santuários erguidos em
diversos lugares.
b) Ciúme de Yahweh: este ciúme se dirige especificamente contra
o culto prestado por Israel a outros deuses, em especial, contra as
influências cananeias.
c) Amor de Deus: a que Israel se dedicou por graça que não pode ser
entendida, mas um amor que exige a contrapartida no amor a Deus e
ao próximo.

Curioso notar que na teologia do Deuteronômio toda a vida está envolta na


relação com a divindade. É uma espécie de relacionamento amoroso. A ruptura desta
centralidade na divindade equivale à ruptura deste caso de amor. A secularização
do Estado e as múltiplas influências culturais, que não poucas vezes implicavam no
distanciamento do culto a Yahweh, é a materialização desta ruptura.

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UNIDADE A Segunda Lei – O Deuteronômio

A teologia do Deuteronômio é, pois, uma revisão da atitude de culto, religiosa


e nacional do povo. Combate a secularização dos procedimentos. A soberania de
Yahweh é novamente objeto de aspirações e é simbolizada materialmente pelo
santuário central com celebrações em massa.

A exemplo do que proclamavam os profetas, o Deuteronômio critica a concepção


de que Israel se encontrava salvo. Contudo, ao contrário dos oráculos proféticos
que eram muito pessimistas quanto ao futuro do Estado, o Deuteronômio procura
salvá-lo, sem negar que a situação vivida era de extrema gravidade.

Desta forma, a tentativa de estabelecer uma síntese entre a teologia nacional e


a teologia profética, deixando do lado de fora o secularismo, entendido aqui como
ação da cultura, é um grande feito teológico do Deuteronômio.

Ainda é preciso assinalar que o texto do Deuteronômio apela ao conceito de


eleição. Quando o redator do texto cita este conceito, está ao mesmo tempo
exigindo que a comunhão de Israel com Yahweh será o selo desta eleição. Daí a
ênfase nos aspectos jurídicos do texto. O Deuteronômio se esmera em se tornar
um guia prático do bem viver, seguindo os padrões da adoração à divindade.

Por fim, é importante notar que o Deuteronômio também se dirige ao indivíduo


pecador. É pela decisão pessoal de todos e de cada um com Yahweh que todo o
povo pode ser salvo. Assim, o Deuteronômio marca a centralidade do judaísmo
como uma religião do livro, encontrando no testemunho escrito as bases e as
referências de sua forma de fé.

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Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

Leitura
Antiguidade Oriental os Provérbios e o Livro da Sabedoria
https://goo.gl/5Ksyx5
O Primeiro Templo de Jerusalém Segundo o Imaginário Pós-Exílico
https://goo.gl/bRd9og
O Reino de Judá na Época de Ezequias a Luz das Descobertas Epigráficas
https://goo.gl/Um3n7o
A Época de Josias na Pesquisa Recente Sobre o Antigo Israel
https://goo.gl/5Twi9d

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UNIDADE A Segunda Lei – O Deuteronômio

Referências
BRIGHT, John. História de Israel. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.

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