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Metodologia de Ensino

de Língua Inglesa
Material Teórico
A sala de aula de Língua Inglesa e a formação para a cidadania

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Ms. Silvana Nogueira da Rocha

Revisão Textual:
Prof. Esp. Bruno Reis
A sala de aula de Língua Inglesa e a
formação para a cidadania

• A sala de aula de Língua Inglesa

• A formação para a cidadania

Nesta unidade estudaremos um pouco a dinâmica das salas de


aula de Língua Inglesa, a interação entre professor e aluno, as
atividades que facilitam o desenvolvimento do aprendizado,
agregando valores para o aluno como ser ativo no processo de
construção do conhecimento, e sua formação como cidadão.

Como já foi possível colher bastante informação sobre Metodologia de Ensino de Língua
Inglesa ao longo das unidades, finalizaremos o nosso livro-texto, falando um pouco mais
sobre a sala de aula de Língua Inglesa, centralizando agora a questão do letramento crítico,
que é tão importante para a formação do cidadão.
Você terá chance de refletir um pouco mais sobre as práticas de ensino de Língua Inglesa,
tão bem detalhadas nas primeiras unidades, compará-las entre si, ressaltando seus pontos
positivos e negativos, e decidir qual a melhor delas para que o aluno tenha um bom
aproveitamento de seu aprendizado no segundo idioma.
É necessário que você leia toda a parte teórica e complemente sua leitura com as dicas
dadas, para ampliar ainda mais seus conhecimentos sobre o assunto.

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Unidade: A sala de aula de Língua Inglesa e a formação para a cidadania

Contextualização

Muito já foi estudado sobre métodos de ensino e parece que o assunto está sempre em
constante mudança.
O que era ideal há alguns anos, hoje parece não surtir um bom efeito no que se refere ao
aprendizado sólido dos alunos.
Sobre metodologias, sempre há alguém que prefere uma em relação a outra, expondo seus
pontos positivos e negativos. Parece que tem a ver com as necessidades de cada um, não é mesmo?
Parece que a maneira como se ensinava há alguns anos ficou um tanto fora de moda, pois
hoje tem-se uma preocupação muito grande em não somente alfabetizar, mas sim formar
cidadãos, prontos para os desafios de nossa sociedade.
Quando falamos em um segundo idioma, seja qual for, não podemos destrinchar língua de
cultura, pois as duas caminham juntas. A língua falada por um povo tem muito a ver com sua
cultura, tradição, religião, crenças, etc. Problemas polêmicos, debatidos na atualidade, devem ser
incorporados em nossos estudos linguísticos também, já que vivemos num mundo globalizado!
Essas questões não podem ficar de fora do processo de aprendizado de um segundo idioma.
E essa nova abordagem serve para minimizar os preconceitos que talvez possam surgir entre as
diversas culturas existentes.
Quando estudamos um segundo idioma, não estamos exaltando uma cultura em detrimento
de outra, ou seja, não estamos desprezando o nosso e valorizando o outro ou vice-versa, mas
sim, tentamos observar as semelhanças e diferenças existentes entre eles (língua e povo falante
nativo) para que tenhamos uma visão mais completa desse povo e suas tradições.
Assim, com uma proposta mais abrangente para o aprendizado de um segundo idioma, que
não esteja centralizada apenas em questões da língua, gramaticalmente falando, pode-se propor ao
aprendiz um desafio maior, para que se torne um ser ativo em sala de aula, com opiniões próprias
e fundamentadas e, acima de tudo, mais bem preparado para interagir na sociedade em que vive.

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A sala de aula de Língua Inglesa

Fonte: Thinkstock/Getty Images


Agora que você já estudou e se familiarizou com as ações didáticas do professor, os métodos e
abordagens de ensino-aprendizagem, o processo avaliativo, as estratégias de leitura e os gêneros
textuais no processo de aprendizado da Língua Inglesa, podemos refletir um pouco mais sobre a
sala de aula de Língua Inglesa, mencionando e ressaltando a importância do letramento crítico e
a formação para a cidadania.
Todos nós sabemos que a sala de aula é o ambiente onde são realizados os momentos de interação
entre aluno e professor, e entre os próprios alunos também. A sala de aula é, ou deveria ser, portanto,
um ambiente em que todos têm muito a contribuir com sua bagagem cultural e experiência de
vida, e as divergências encontradas encaradas como algo positivo, que somam e ajudam a formar
indivíduos críticos, prontos para os desafios em nossa sociedade, em qualquer área de atuação.

Diante disso, é importante repensarmos essa interação existente na sala de aula, questionando
e avaliando sempre se o que é ensinado realmente contribui ou tem relevância para a formação
desse indivíduo crítico.
Sabemos que a interação positiva na sala de aula leva a experiências incríveis, pois revela as
diferentes culturas de aprender e ensinar de professores e alunos, pois cada um tem suas crenças
e razões para estarem ali naquele ambiente.
Vamos fazer rapidamente uma retrospectiva entre a abordagem tradicional e a abordagem
crítica observando o quadro abaixo para perceber o quão dinâmica é esta última e a quantidade
de pontos positivos ela oferece no aprendizado de um segundo idioma, segundo Dourado (2007):

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Unidade: A sala de aula de Língua Inglesa e a formação para a cidadania

ABORDAGEM TRADICIONAL ABORDAGEM CRÍTICA

Significados situados, contextualizados,


Significados decodificáveis e estáveis
negociados, dinâmicos

Orientação cognitiva Orientação social e contextual

Foco na competência realizada socialmente


Foco na competência individual
na interação
Dicotomia falante nativo/não nativo (modelo de Falante nativo/não nativo em interação
falante ideal) (comunicação intercultural)
Os falantes da língua em interação em diferentes
Falante nativo - modelo de competência
contextos sociais

Variante padrão: meta Variante padrão: mito

Contextos ideologicamente moldados (tendo


Contextos comunicativos neutros
implicações reais para os participantes)
Foco no discurso num leque de contextos e
Foco em ambientes formais de aprendizagem
esferas discursivas
Aprendiz como identidade social, realizada em
Aprendiz como sujeito (objeto)
situações sociais específicas
Reflexão sobre as contingências da situação
Busca de regras, métodos, consenso e soluções
comunicativa em foco

Perspectiva externa ao contexto de produção Centralidade da perspectiva dos participantes

Foco no desenvolvimento de competência Foco nas dimensões contextuais e interacionais


comunicativa da lingua(gem)
O iniciante falso e autêntico faz parte de
O “bom aprendiz” aprende
hierarquias sociais, que rotulam e discriminam
Ênfase na ação discursiva. Problemas são vistos
Ênfase nas ‘dificuldades’ dos alunos como fenômenos sociais possíveis, decorrentes
de toda a ação social
Falha de comunicação decorrente da interação Falha de comunicação inerente a toda situação
nativo/não nativo de comunicação
Conceitos-chave: interlíngua, fossilização, Conceitos-chave: língua em uso, identidades e
foreigner talk, near-nativeness contextos sociais, relação linguagem e poder

Ainda segundo Dourado (2007), podemos perceber que muitas coisas mudaram.
Diferentemente de épocas anteriores em que predominava a racionalidade técnica, atualmente,
o professor de inglês tem sido convidado a: deslocar sua prática pedagógica de acordo com visões
tanto sócio-construtivistas de aprendizagem quanto críticas acerca da linguagem, promover e
navegar em vivências de aprendizagem formativas, significativas, sensíveis à realidade local/
global e socialmente igualitárias, abarcar dimensões de valores e ética, de uma perspectiva não
doutrinária, e oportunizar situações de aprendizagem na e da língua inglesa.

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Para tanto, dentre os saberes necessários ao professor de língua inglesa em formação inicial e
continuada, é conveniente destacar que é fundamental ter proficiência linguístico-discursiva na
língua inglesa, que é o conhecimento declarativo

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(saber sobre) e procedural (saber como) da
língua, (multi)letramento crítico (geral e na língua
inglesa), princípios da perspectiva sócio-
construtivista de aprendizagem, premissas básicas
de uma pedagogia crítica, teorias linguísticas e
sociais de língua(gem), iniciativas mundiais de
pedagogia crítica na área de inglês para falantes
de outras línguas, consciência das concepções
que sustentam seu fazer pedagógico, e capacidade
de transposição didática, levando em
consideração sua própria realidade de ensino.
Sendo assim, fica mais lógico pensar (fazendo muito mais sentido então) que cada um
de nós tem a capacidade de refletir sobre o que se espera do nosso local de estudo e de
troca de experiências e informações, tendo em vista seu histórico particular cultural, social,
político e econômico.
Talvez seja por isso que tanto ouvimos falar que uma sala de aula é um lugar difícil de lidar e
que o professor é um profissional que tem que ter muito jogo de cintura para atuar. Nada mais
óbvio, não é mesmo? Afinal de contas, existem tantas divergências e pontos de vistas diferentes!
Mas o primordial nesta questão é que toda a diferença deve ser respeitada acima de tudo.

Segundo Kleiman (2007), o entorno, o contexto em que se dá a prática social, precisa ser
transformado. Não é possível levar a sério a heterogeneidade se os alunos não têm como se reunir
em pequenos grupos para desenvolver atividades diferenciadas. A sala de aula deve contemplar
espaços bem equipados para as atividades de toda a turma, como as rodas de leitura, para a
atividade individual, ou para as atividades em pequenos grupos.

Convivendo num ambiente enriquecido pela escrita –


um ambiente letrado – mesmo o professor de formação
tradicional poderá aos poucos refletir sobre como propiciar
atividades que, de fato, contribuam para o letramento de
ar
seu aluno, sobre como fazer e registrar as observações É importante lembr
r e
avaliativas, tanto para diagnosticar como para mensurar que ensinar a le
a
aprendizagem. E o professor virá talvez, nesse percurso escrever não é um
a
reflexivo de letramento e autoformação, abandonar questão técnica. É um
atividades que só permitem se preocupar com o tema da questão política.
redação, que será seguida da atividade de ler, prestando
atenção apenas à entonação, postura correta e pontuação
durante a leitura.

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Unidade: A sala de aula de Língua Inglesa e a formação para a cidadania

Então, nota-se que os papéis sociais são muito importantes para essa relação positiva, e os
professores têm grande expectativa sobre o seu papel na sala de aula, como formadores de
opinião. Está sempre refletindo sobre como deve prosseguir a lição, como anda seu planejamento
de trabalho, que normalmente é amparado em um livro didático.
Além disso, o professor também tem uma expectativa sobre o papel dos alunos, ou seja,
preocupa-se como eles vão se comportar e de que modo será o andamento de suas atividades.
Segundo Silva (2005), se de um lado, há essa preocupação do professor em cumprir com
seu papel, os alunos, por sua vez, também possuem expectativas sobre o papel do professor.
Podemos então dizer que a interação entre as expectativas entre professor e aluno é que vai
determinar o sucesso e progresso da lição.

Em Síntese
Podemos dizer que a atuação do estudante na interação em sala de aula se caracteriza, segundo
Allwright (1984:160-161), por três maneiras de participação. A mais tradicional é denominada
compliance, isto é, o cumprimento adequado do papel do aluno de acordo com a atividade
proposta pelo professor. Este tipo de atuação é muito comum nas salas de aula cujo professor
é o controlador do tópico do discurso e cujas atividades são baseadas em pergunta-resposta-
avaliação. Isto é, “é o professor que faz as perguntas sobre as respostas que já sabe, que controla
o discurso e que, portanto, detém o poder” (MOITA LOPES, 1996:98).

O segundo modo de atuação é conhecido como navigation, em que os alunos, através da fala,
esclarecem dúvidas e confirmam a sua compreensão sobre o assunto estudado. Essa participação
do aluno possibilita observar como o estudante individualiza os conteúdos fornecidos em aula,
direcionando-o para as suas necessidades particulares. Além disso, essa forma de atuação pode
ser vista como um simples tipo de negociação de sentido que pode ajudar a compreensão e
pode contribuir para o desenvolvimento da língua-alvo. Com certeza, trata-se de uma forma de
atuação menos assimétrica que a compliance.
A terceira forma de atuação do aluno na interação, em sala de aula, denominada negotiation
é possivelmente a menos usada pelos estudantes e professores. Nessa forma, o aluno interage
com o professor por meio de padrões de interação praticamente simétricos, em busca de um
consenso, ou seja, não cabe nesse tipo de interação as decisões unilaterais do professor.
Segundo Allwright (1984) esse tipo de participação dos alunos é pouco frequente, pois
é considerada arriscada para os aprendizes e exige muito do professor, já que é um tipo de
interação altamente desafiadora para eles.
As salas de aula de língua estrangeira sempre trabalham com certa dificuldade para motivar
todos os seus alunos. Esse fato é de suma importância para a realização do processo interacional
e principalmente para a aquisição da língua-alvo, pois se o professor não consegue motivar os
alunos para aquela determinada lição que está em sua agenda, certamente está fadado ao
fracasso, já que não há uma dinâmica nas aulas e interação entre o grupo e o professor. Dessa
maneira, haverá um desinteresse real pela atividade, o que leva os alunos ao descontentamento
e a um possível veto da atividade, pois se não há uma colaboração às propostas interativas do
professor, elas simplesmente não são realizadas pelo descrédito dos estudantes.

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Acho que todos nós temos uma historinha para contar sobre o ensino de Língua Inglesa que
tivemos na escola, não é mesmo? Algumas são traumáticas, outras desanimadoras, e outras
ainda até engraçadas. Porém, o que se nota mesmo é que nunca vemos pessoas satisfeitas com
o seu primeiro contato com o segundo idioma. Daí, temos duas possibilidades: aquelas que
desistem definitivamente de aprender, pois acham que “não nasceram para a coisa” e as que
persistem, por serem apaixonadas pela língua e pela cultura, dando continuidade aos estudos,
graduando-se, especializando-se e aprofundando-se cada vez mais no assunto. Não se cansam
de pesquisar e trilhar caminhos desafiadores para ser um bom profissional dentro da sala de aula
e um cidadão crítico e participativo fora dela. Seu objetivo é sempre encontrar a maneira ideal
de prender a atenção do seu aluno e facilitar o seu aprendizado, sem deixar traumas ou feridas.

Em qual caso você se enquadra?

O letramento crítico

Ao contrário do tradicional conceito de


alfabetização, que todos nós sabemos muito
bem, em que os alunos deveriam dominar
as habilidades de leitura e escrita de forma
mecânica, sem a preocupação com a
capacidade de interpretar, compreender
e criticar, o letramento apresenta-se como
um processo em que o ensino da leitura e
da escrita acontece dentro de um contexto
social e que essa aprendizagem faça parte
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da vida dos alunos efetivamente.

As habilidades adquiridas na escola devem fazer parte das relações comunicativas dos indivíduos.
Os textos de circulação social contribuem com o letramento dos indivíduos, de forma significativa.
Segundo Soares (1998), o letramento tem um sentido ampliado da alfabetização, pois consiste
em práticas de leitura e escrita, que vão além da alfabetização funcional, em que indivíduos
são alfabetizados, mas não sabem fazer uso da leitura e da escrita. Muitos não têm habilidade
sequer para preencher um requerimento.

Você já vivenciou isso? Algo a ser pensado com bastante seriedade, não é mesmo?

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Unidade: A sala de aula de Língua Inglesa e a formação para a cidadania

A prática social é possível quando sabemos

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como agir discursivamente numa determinada
situação, ou seja, quando sabemos qual
gênero do discurso usar.
Talvez agora você tenha percebido a
importância de se utilizar os gêneros textuais
no aprendizado de um segundo idioma,
conforme vimos na Unidade V. Eles viabilizam a
comunicação na prática social. No entanto, isso
não significa que a atividade da aula deva ser
organizada em função de qual gênero ensinar.
De acordo com Kleiman (2005), o conceito
de letramento e suas implicações para a
alfabetização leva a sério a heterogeneidade
de uma turma, abrindo mão de pré-requisitos e
progressões rígidas em relação à apresentação
de conteúdos curriculares.
Na concepção social da escrita, não é a progressão do mais fácil ao mais difícil o que facilita
ou dificulta a aprendizagem, até porque não é possível dizer, com qualquer grau de segurança,
o que torna algo fácil ou difícil a um indivíduo.
Se, na prática social, o aluno se depara com textos não simplificados, numa sala de aula em
que a prática social é estruturante, o aluno deveria também se deparar com os textos que circulam
na vida social. É uma maneira de você alertá-lo sobre as coisas que existem na sociedade, e com
as quais ele terá contato em algum momento de sua existência.

Você Sabia ?
O professor, nesse processo, como mediador, serve para preparar o aluno para a realidade,
pois está antecipando, ou melhor, mostrando os obstáculos que a leitura de tais textos pode
apresentar. E a leitura, na atividade cooperativa com seus colegas, cada um com seus diferentes
saberes, pontos fracos e fortes, enriquece a aula, propondo discussões e promovendo a
exposição dos seus pontos de vista.

As letras, as sílabas e as palavras passam a ser ensinadas a partir de elementos salientes,


tanto verbais como não verbais, que se destacam nesses textos (manchetes, títulos, elementos
ilustrativos). Nessa perspectiva, as famosas “dificuldades ortográficas”, sempre tardias na
progressão tradicional, podem aparecer em qualquer etapa do processo, desde que sejam
apreendidas dentro de um contexto significativo.
Portanto, já foi possível perceber que o processo de alfabetização pode acontecer a partir de
outros suportes, como jornais e revistas, não ficando restrito apenas ao livro didático.
Assim, as habilidades de leitura e escrita acontecem dentro de situações reais de comunicação,
ou seja, situações que fazem sentido para o aluno, pois são vivenciadas em seu dia a dia.

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Segundo Soares (2003), letramento é o estado ou condição que adquire um grupo social
ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita. A mesma autora (1998)
argumenta que é possível alfabetizar letrando, por meio de práticas de leitura e escrita, com
materiais de qualidade como textos de jornais, revistas, literatura infantil, que substituam as velhas
cartilhas que ensinam sentenças como “Vovô viu a uva”, em situações que as crianças, muitas
vezes, nunca viram ou, ao menos, comeram uma uva. A autora ressalta ainda a importância do
aluno ser alfabetizado em um contexto em que leitura e escrita tenham sentido.
Além desse aspecto positivo, há de se lembrar e levar em consideração a riqueza de imagens
e diversidade de gêneros textuais que esses suportes apresentam, o que pode contribuir com a
visão crítica e cidadã dos envolvidos no processo de aprendizagem.
De acordo com Kleiman (2007), o letramento tem como objeto de reflexão, de ensino, ou
de aprendizagem os aspectos sociais da língua escrita. Assumir como objetivo o letramento no
contexto do ciclo escolar implica adotar na alfabetização uma concepção social da escrita, em
contraste com uma concepção tradicional que considera a aprendizagem de leitura e produção
textual como a aprendizagem de habilidades individuais. Essa escolha implica que a pergunta
estruturadora do planejamento das aulas seja “quais os textos significativos para o aluno e
para sua comunidade”, em vez de “qual a sequência mais adequada de apresentação dos
conteúdos” (geralmente, as letras para formarem sílabas, as sílabas para formarem palavras e
das palavras para formarem frases).
Para ela, determinar o que seja um texto significativo para a comunidade implica, por sua
vez, partir da bagagem cultural diversificada dos alunos, que, antes de entrarem na escola, já são
participantes de atividades corriqueiras de grupos sociais que, central ou perifericamente, com
diferentes modos de participação (mais ou menos autônomos, mais ou menos diversificados,
mais ou menos prestigiados), já pertencem a uma cultura letrada.
É justamente porque devemos partir dessa bagagem cultural diversificada dos alunos como
participantes de uma cultura letrada que podemos permitir que o aluno tome parte de forma
variada das situações e crie táticas diferentes para lidar com suas limitações ou potencialidades
nessas situações diversas.

Para Pensar
Uma atividade que envolve o uso da língua escrita (um evento de letramento) não se diferencia
de outras atividades da vida social: é uma atividade coletiva e cooperativa, porque envolve
vários participantes, com diferentes saberes, que são mobilizados segundo interesses, intenções
e objetivos individuais e metas comuns. Já a prática de uso da escrita dentro da escola envolve
prioritariamente a demonstração da capacidade individual de realizar todos os aspectos de todas as
atividades, seja: soletrar, ler em voz alta, responder a perguntas oralmente ou por escrito, escrever
uma redação ou um ditado.

Apesar das práticas homogeneizadoras ensinadas/aprendidas na escola, é importante


incentivarmos nossos alunos a aportarem suas compreensões diversas, provenientes exatamente
das experiências e aprendizagens extremamente variadas por que passaram, antes mesmo de
ocuparem os bancos escolares.
Diante disso, o papel do professor muda sob esta perspectiva de alfabetização e letramento como
prática social, e uma grande vantagem do enfoque socialmente contextualizado é a autonomia
que ele ganha no planejamento das unidades de ensino e na escolha de materiais didáticos.

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Unidade: A sala de aula de Língua Inglesa e a formação para a cidadania

O professor volta a ser o profissional que decide sobre um curso de ação com base em sua
observação e seu diagnóstico da situação. É ele que deverá decidir questões relativas à seleção
dos materiais, saberes e práticas que se situam entre o local, o aplicado e o funcional à vida
dos alunos e da comunidade e o socialmente relevante, que um dia poderá ser utilizado para
melhorar o futuro do próprio aluno e de seu grupo.

O professor precisa ter autonomia para decidir sobre a inclusão daquilo que pode e deve fazer
parte do cotidiano da escola, porque é legítimo e/ou imediatamente necessário, e, por outro
lado, sobre a exclusão daqueles conteúdos desnecessários e irrelevantes para a inserção do
aluno nas práticas letradas que, parece-nos, persistir por inércia e tradição.

Finalmente, é importante também que haja uma negociação daquilo que pode não interessar
momentaneamente ao aluno, mas precisa ser ensinado pela sua real relevância em nossa cultura
e sociedade. A perspectiva não se exime de focalizar o impacto social da escrita, particularmente
as mudanças e transformações sociais decorrentes das novas tecnologias e novos usos da
escrita, com seus reflexos no homem. Esse foco necessariamente amplia a concepção do que
venha a ser a escrita, antes reservada para os textos literários – de fato, os textos extraordinários
que pouquíssimos conseguem escrever – passando a incluir os textos do cotidiano, os textos
comuns do dia a dia, mesmo que sejam utilizados como recursos pedagógicos para construir a
autossegurança do aluno em relação à sua própria capacidade de ler e escrever: listas, bilhetes,
receitas, avisos, letreiros, propagandas outdoor, placas de rua, crachás, camisetas, enfim, a
escrita ambiental em sua enorme variedade passa a ser assim reconhecida e utilizada.
Essa ampliação se estende também às instituições em que os textos circulam. Embora os
textos das instituições públicas de prestígio forneçam, de direito, grande parte do acervo a ser
incluído, também os textos que circulam em outras esferas, como a da intimidade doméstica
(bilhetes, recados e cartas pessoais, contas, extratos e cheques, exames, laudos, carteiras de
vacinação, boletim escolar e diplomas) podem ser incluídos. Ou seja, o aluno pode escrever sua
história familiar fazendo legendas e notas para as fotos de um álbum de família e consultando
certidões; pode ler e recortar anúncios; fazer os registros de saúde, de educação, dos membros
da família; agendar, rotular. As funções da escrita na vida cotidiana, mesmo que limitadas e
finitas, introduzirão práticas de identidade, de contato e de comunicação, assim como gêneros
que terão uma vida muito útil em muitas outras práticas sociais.

O letramento crítico e a interculturalidade nas aulas de


Língua Inglesa
Ao se pensar sobre ensino de uma língua estrangeira na escola é imprescindível levar em
consideração que dentro deste contexto o currículo necessita voltar-se para a formação do
educando para a cidadania visando superar visões utilitaristas que buscam apenas atingir fins
comunicativos e que ao mesmo tempo “restringem as possibilidades de sua aprendizagem como
experiência de identificação social e cultural (DCE – LEM 2008, p. 53)”.

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Nesse sentido, é necessário incorporar novas práticas que
possibilitem o debate de temas que auxiliem na (re)
construção da criticidade do educando fazendo-o entrar em
contato com aspectos da vida social e cultural. Assim, os
alunos podem se imaginar de outro modo; para estar
envolvidos eticamente com a diferença; e para entender as
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implicações potenciais de seus pensamentos e ações.


O ensino sob a ótica do letramento crítico propõe a
“problematização dos textos como forma de refletir sobre
os sentidos construídos e de (re)conhecer e (re)elaborar as
construções discursivas de si e dos outros no processo de
leitura (EDMUNDO, 2010, p. 34-35)”.

A formação para a cidadania

Antes de falarmos sobre o ensino de língua inglesa e a formação para a cidadania, vamos
verificar o conceito de cidadania.
Segundo Roberto Alejandro (1998), é preciso ver cidadania não como uma categoria
jurídica ou conjunto de atitudes cívicas, mas como horizonte, como prática, como um elemento
importante da condição humana. Para ele, cidadania é um texto que se revela através da relação
entre as ações de cidadãos e as instituições políticas. É sempre histórica, datada, enraizada
em grupos sociais específicos, que têm agendas políticas diferenciadas e que podem atribuir
sentidos diferentes aos mesmos conceitos.
O conceito que as pessoas, de uma maneira geral, têm sobre cidadania é sinônimo de direitos.
Portanto, ainda nessa linha de raciocínio, estariam o direito à saúde, à educação, à informação,
ou mesmo direitos linguísticos. Quando tratamos de exclusão social e falamos de cidadania,
provavelmente temos a preocupação em vinculá-la às necessidades básicas, um patamar a ser
assegurado a todos.
Assim, falar de cidadania seria falar da garantia de respeito a esses direitos.
Há notícias sobre “cidadania” sendo veiculadas na imprensa, como: “os alunos estão tendo
lições de cidadania, pois aprendem a se candidatar, fazer campanha e serem eleitos para cargos
de diretores-mirins”; ou “ações para garantir cidadania», tendo sua proximidade no texto com
«defesa dos direitos humanos e organização das populações mais carentes». Portanto, cidadania
seria participação, estando vinculada a direitos.
A busca de sentido no Novo Dicionário Aurélio nos revela que cidadão é S.m. 1. Indivíduo
no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para
com este. 2. Habitante da cidade. 3. Pop. Indivíduo, homem, sujeito.

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Unidade: A sala de aula de Língua Inglesa e a formação para a cidadania

Esses modos de ver cidadania, que estão associados à tradição liberal, parecem tão arraigados
que nem pensamos em definições alternativas.
Partindo do princípio que a cidadania é construída discursivamente, na interação com os
outros, para determinação do bem comum, podemos entender a sala de aula de língua estrangeira
como um espaço em que essa visão pode ser encorajada ou desestimulada dependendo da
visão de linguagem que transmitimos.
O ensino de línguas estrangeiras pode assim ser encarado com uma finalidade educacional
na medida em que favorece a participação no processo discursivo.

Em Síntese
Assim, aprender sobre linguagem, seja ela estrangeira ou materna, possibilita aos indivíduos se
constituírem enquanto cidadãos - interagindo com outros e dando assim existência à cidadania,
que deverá ser construída; e os educandos, desta maneira, seriam levados a pensar a pluralidade,
analisá-la, ouvir pontos de vista alternativos. Resumidamente, seriam levados a deliberar, ou seja,
ajudar a criar um público.

Portanto, os desafios, os objetivos e as necessidades do ensino de língua inglesa atualmente


estão além do desenvolvimento de funções básicas de: solicitar informação, cumprimentar,
desculpar-se, participar de situações, prioritariamente, consensuais, com um propósito
comunicativo claro e pré-estabelecido, comunicar-se em um contexto específico ou ‘realizar’
algo pela língua, pois existe a necessidade premente de lidar com falta de consenso, embates,
visões divergentes, muitas vezes conflitantes ou excludentes. É necessário comunicar-se
interculturalmente, questionar, resistir, agir e transformar, perceber relação estreita existente
entre mecanismos discursivos, constitutivos da língua(gem) e questões de ideologia, identidade
e poder (DOURADO; ESCALANTE, 2007).

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Material Complementar

Explore
http://www.academia.edu/1789600/O_Ensino_de_Lingua_Inglesa_numa_
perspectiva_de_Letramento_Critico_Relato_de_uma_experiencia. Acesso em 15 de
janeiro de 2014.
http://vimeo.com/31296412. Acesso em 15 de janeiro de 2014.

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Unidade: A sala de aula de Língua Inglesa e a formação para a cidadania

Referências

ALEJANDRO, R. Models of citizenship. Kettering Review. Spring 1998. p. 6-12.

ALLWRIGHT, R. The importance of interaction in classroom language learning. Applied


Linguistics 5 (2), p. 156-171, 1984.

EDMUNDO, E. S. O ensino de inglês na escola pública sob a perspectiva do letramento


crítico. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-graduação em Letras: Estudos Linguísticos, 2010.
Disponível em: http://dspace.c3sl.ufpr.br/dspace/bitstream/handle/1884/24961/DISSERTACAO%20
ELIANA%20SANTIAGO.pdf?sequence=1. Acesso em: 10 de janeiro de 2014.

DOURADO, M.; ESCALANTE, M. Conhecimentos de língua estrangeira. In: REFERENCIAIS


curriculares para o ensino médio da Paraíba. João Pessoa: A União, 2007, p. 101-213.

GIMENEZ, T. O ensino de língua estrangeira e a formação do público. Universidade


Estadual de Londrina.

KLEIMAN, A. Preciso “ensinar” o letramento? Não basta ensinar a ler e escrever?


Cefiel/Unicamp & MEC, 2005.

________________. O conceito de letramento e suas implicações para a alfabetização.


Projeto temático letramento do professor. Unicamp, 2007.

MOITA LOPES, L. P. da. Oficina de linguística aplicada. Campinas, SP: Mercado de


Letras,1996.

SEVERINO, A. J. Filosofia da Educação: construindo a cidadania. São Paulo: FTD, 1994.

SILVA, A. T. da. Idealização e realização na sala de aula de língua inglesa: foco na


construção da interação. 2003, 270f. Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos)
Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista, São José do
Rio Preto, SP.

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Anotações

19
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