Você está na página 1de 1

Funk-se quem puder: Uma expressão social e cultural da sociedade brasileira nos séculos

XX e XXI.

Hugo Quintela

Num artigo que eu fiz com objetivo de abordar numa perspectiva sócio-cultural e política o
surgimento do funk e a sua expansão na sociedade brasileira a partir, principalmente, do inicio dos
anos 1970. Entender (num sentido fenomenológico) o porquê a presença do funk na vida da
maioria dos jovens da periferia é tão marcante, que alguns procedimentos vivenciados por eles
em bailes deste gênero cultural são transportados para a sociedade, retratando a sua força
simbólica e seu significado de protesto, mesmo que não tematizado teoricamente. Procurei várias
matérias que falavam sobre FUNK, e uma delas me chamou bastante atenção pela concepção de
cultura que um jornalista teve ao falar sobre esse estilo musical. Ele disse:

"Algumas semanas atrás estava folheando o jornal antes de começar mais uma jornada de trabalho quando me deparei
com uma notícia que me deixou estupefato: ``Tati Quebra Barraco faz turnê na Europa representando a cultura (e o
feminismo) brasileiro``. De acordo com o jornal, a turnê nasceu de um convite feito diretamente à MC pelos
organizadores do Ladyfest, um festival feminista de Stuttgart. Eles queriam a artista como representante da cultura
brasileira. Mas Tati e Cabbet Araújo, produtor da turnê, tiveram que gastar um bom tempo tentando convencer o
Ministério da Cultura, que pagou as passagens da cantora, de que o funk também é cultura. Já estava escrevendo uma
coluna sobre outro assunto, quando resolvi deixar ela em segundo plano e me concentrar somente nesse tema, até
porque uma polêmica como essa eu não poderia fazer pouco caso. Afinal, esse funk de hoje é cultura ?! Eu, com toda
tranquilidade, posso afirmar que não. O que é praticado hoje em dia não pode ser conceituado como cultura. Como
versos recheados de ``neofeminismo`` como "Vou comer o seu marido" e "Eu tô podendo pagar motel pros homens",
"Sou feia mas tô na moda" e "Dako é bom" (referência de duplo sentido a uma marca de fogões) pode representar a
rica cultura brasileira no exterior?! É no mínimo descabível ! Se contarem lá em Portugal, os portugueses é que vão
fazer chacota da gente!"

Bom, realmente tinha que ser um jornalista para escrever sobre cultura dessa maneira. Escrita
"enformada" como sempre (enformada = forma). Gostaria muito entender o que essa pessoa
compreende como cultura. Para quem não sabe cultura não é aquilo que a classe dominante
considera cultura, CULTURA é: totalidade de padrões aprendidos e desenvolvidos pelo ser
humano. Cultura seria um complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, morais, leis,
costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade.
Portanto corresponde, neste sentido, às formas de organização de um povo, seus costumes e
tradições transmitidas de geração para geração que, a partir de uma vivência e tradição comum,
se apresentam como a identidade desse povo.

Talvez o funk não seja uma produção artístico-cultural que agrade a grande maioria (para falar
verdade, esse estilo não entra na minha playlist), principalmente a classe média com seu falso
moralismo. Esquecemos de considerar que uma geração que cresce ouvindo e vendo (nos
maravilhosos programas dominicais) músicas do tipo: "pega teccha, o leva teccha, e leva a teccha
para sambar". Uma população que sempre esteve à margem da produção cultural dita erudita e a
verdadeira, produziria o quê? Produziria sua realidade, assim como os ditos artistas verdadeiros
produzem a partir de sua realidade.

Para compreender melhor o mundo funk, é preciso fazer uma abordagem interpretativa dos seus
códigos simbólicos. Entender como este estilo musical foi ressignificado ganhando força no Brasil
com características próprias. Exaltação da violência, da sensualidade e da “quebra das regras”
são as características mais ressaltadas do Funk, porém ele não se resume a tais concepções
preconceituosas (que a propósito eu também já as pratiquei). Pensar o mundo funk como
propagador de "anarquia de valores" é ignorar a permanente negociação e interação entre os
grupos distintos no que diz respeito a recriação dos códigos simbólicos no âmbito do lazer e da
sociabilidade juvenil.

Você também pode gostar